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perta cada vez maior Interêsse em nossos dias. Os problemas da hora presente têm obrigado os homens a recorrer sequlosamente às fontes onde possam encontrar a sabedoria da vida, as normas para proceder no momento atual. Ora entre essas fontes se acham em lugar eminente os livros da Biblia, que contêm os princípios sõbre os quais se construiram quase 20 séculos de civilização cristã. que explica que estudiosos de correntes assaz diversas estejam voltando atenção crescente para a Escritura Sagrada e as questões a elas atinentes; haja vista o grande Interésse com que têm sido analisados por católicos, protestantes, judeus e racionalistas os manuscritos recéxn-descobertos junto ao Mar Morto (alguns julgaram poder haurir dêles nova compreensão da civilização contemporânea). Em particular, aos fiéis católicos impõe-se a necessidade de aprofundarem seus conhecimentos de Sagrada Escritura, já que esta é o manancial por excelência da vida e da piedade cristãs. Contudo não é fácil, ao primeiro contato, compreender os livros da Biblia; foram redigidos em épocas muito remotas (os mais recentes datam do fim do séc. 1 d. O., enquanto os mais antigos são do séc. XIII a. O.), em ambiente semita ou helenista e segundo modos de falar bem diversos dos que hoje estão em uso. Principalmente o Antigo Testamento apresenta dificuldades, não raro ventiladas em conferências ou em simples conversas de amigos. Católicos e não-católicos nessas ocasiões gostariam de conhecer melhor a mentalidade, a alma religiosa, que movia os judeus do Antigo Testamento; gostariam também de possuir normas objetivas, derivadas da moderna filologia, arqueologia, etc., que os ajudassem a interpretar as passagens controvertidas. Foi em vista de tais dlficuldade, que o presente livro se originou. A obra começa por propor algumas noções concernentes á redação dos livros sagrados: o conceito de inspiração biblica (esta não dispensa, mas, ao contrário, utiliza o cabedal de cultura, rica ou pobre, de um autor humano), a mentalidade e os modos de falar característicos dos judeus (o "gênio" da língua hebraica), o emprêgo de antropomorfismos, nomes e números na literatura semita. Vêm depois questões referentes ao conteúdo dos livros sagrados: antes do mais, é exposto o significado positivo, o valor perene que o Antigo Testamento (continua na 2. 11 orelha)

O estudo da Sagrada Fitura des-

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PARA ENTENDER roi ANTIGO TESTAMENTO

DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT O.S.B.

PARA ENTENDER ANTIGO TESTAMENTO
"Quando nasceu..., padeceu, ressuscitou e subiu aos céus, Cristo abriu o livro do Antigo Testamento, pois realizou por atos quanto ali por figuras era insinuado". (Berengáudio, séc. IX).

1956

L2vrarza

AG 1 R

&dgarc,

RIO DE JANEIRO

Copyright de
ARTES GRAFICAS INDÚSTRIAS REUNIDAS S. A. (AGIR)

NIHIL OBSTAT

Côn. J. A. de Castro Pinto
Rio, 9-7-1956

PODE IMPRIfl-SE Rio, iO de julho de 1956

Mons. Caruso
Vigário Geral

CUM PERMISSU SUPERIOR UM ORDINIS

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Rua Bráulio Gomes, 125 (ao lado da Bibi. Mun.) Caixa Postal 6040 'rei.: 34-8300 São Paulo, S. P.

AG 1 R
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ENDEREÇO TELEGRAFICO: "AGIRSA"

.......... * 2.....° O princípio de solução ................. § 1..... m . Enumerações proverbiais e arredondadas ....... Sentido exclusivo e sentido precisivo ............................ O génio da língua hebraica ..... 0 Os números nos textos bíblicos ....O simbolismo do número como tal . A ... CAI'............................. § 1...... 17 . d) o número doze ............. § 2..... Números mal transmitidos ....... 0 CAI'...0 A filosofia do nome .............. § l........° O problema .......................... 2...... 15 15 19 19 21 25 25 30 32 39 40 52 52 53 54 57 60 61 61 65 65 67 61 68 69 70 70 71 71 74 ri— LIVRO INSPIRADO POR DEUS .... Apêndice .........................O valor da linguagem shnbolista ..........11 CAI'........ 0 CAP..... § 1.................. a) o significado geral dos antropomorfismos .... patrimônio da Igreja ... Que se entende por inspiração bíblica 9 2... IV .... Alguns aspectos do simbolismo dos números ........ Os números simbolos de qualidades ...... A natureza personificada .... a Escritura..................................0 Como o israelita escrevia a História .INDICE Págs ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 9 PREFACIO............ b) o número três ...............O simbolismo peculiar de alguns números a) o número sete ...........PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS.......................... .. c) o número dez ......................................° A Sagrada Escritura e as Ciências Naturais ... 2............. 1—O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇAO.....NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA ...... Deus semelhante ao homem no Antigo Testamento .. S........................... b) o sentido de alguns antropomorfismos em particular ........................................... § 3............... o tema da Sagrada Escritura ........ 1.............. E ...... 0 Os antropomorfbsmos bíblicos ...................

...................0 Os tipos bíblicos ..................° A escravatura .....6 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Págs........... 150 CAP......................... VII - 93 94 98 98 101 103 105 105 107 110 112 A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) ..... § 1..................................0 A lei do talião ................ 140 Judite..... § 1.................. 123 123 § 1.... 134 § 4? Poligamia........... 7..........................0 O externiinlo dos inimigos ... O tema da prevaricação e da restauração correspondente ........0 Um principio geral ......O HERDEIRO EM IDADE INFANTIL ........0 O "mau espirito" do Senhor ....° Conclusão ...... § 5............. § 3...............86 CAP................O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO ...........................................0 A artéria central da Sagrada Escritura: a figura do Messias.......................................... § 2 0 O recenseamento pecaminoso . O tema do maná ........... O tema do pastor ............................. a fraudulência do Patriarca Jacó ................ Aod e Jael: a amabilidade a serviço do morticínio ....0 Mentira e fraude ...........0 O Deus que fuimina .0 As imprecações .......... V ..................... 114 146 § 6......... 115 CAP............................................... IX - O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO ..... GAP...............................................OS DESMANDOS DA CRIANÇA ........ 134 divórcio ....... § 4....................................0 Diversas etapas e uma só meta .................... 151 151 152 154 157 161 ................ VI— AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA .......... O tema da habitação de Deus ....... divórcio e incesto ............................ VIII— A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) ................... 137 e) ulteriores aspectos ......................... CAP... O tema da videira ...0 Pureza e impureza ritual ..80 § 2.................. O tema da Aliança ............ 125 § 2........................... O tema do deserto ............................. § 29 Os fios condutores do Antigo Testamento ....................... 138 140 § 5............ O tema da escolha gratuita ou da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza do homem ................. 132 § 3.............................19 § 1...... poligamia ......

........................5-31) A passagem do Rio Jordão (Jos 3............................ 165 CAP......... .7-17) A queda dos muros de Jericó (Jos 6..0 6..... TABELA CRONOLÓGICA ..° 5..........° No inexorável fôsso dos mortos § 2....... .......... 175 175 175 178 183 CAP.............1-20) ............... ......................Noções introdutórias 2............... ................... Pré-requisitos naturais A ........... ÍNDICE DE NOMES E TEMAS ................................0 7.SANGUE E VIDA 1.................20-29) Balaã e o asno que falou (Núna 22........ XIV COMO LEREI A BÍBLIA" 1 0 Os pressupostos de frutuosa leitura 1.. Núm 11... .......... ......................." 166 (Hebr 9....31) ........ XXII § § § - 1» 2.........................22-35) A história de Sansão (Jz 13-16) .....................................................Boa edição do texto sagrado B ............... ..22..............15-26) As dez pragas do Egito (Êx 7..31-14...... ......0 "Sem efusão de sangue não há remissão de pecado....................) ..... .......... ........................ ...0 As doenças Entre as nações pagãs No povo de Israel 29 Os sonhos .......................................... ........... LISTA DOS TEXTOS BÍBLICOS MAIS PARTICULARMENTE CONSIDERADOS ...0 Pequena antologia bíblica MAPA ILUSTRATIVO DO ËXODO E.....................36) A passagem do Mar Vermelho e do Rio Jordão A travessia do Mar Vermelho (Êx 14......) 29 "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue 171 possui a vida eterna.............0 § § § § 4...... Pé-requisitos sobrenaturais § 2 0 Itinerário através da Biblia § 3......54..14-12... XI § § DOENÇAS E SONHOS 1.. .................. ..................0 A grande surprêsa póstuma ..................... . . ..................4-9...........° 3...0 'PRODIGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO A mulher de Lote transformada em estátua de sal (Gên 19.............................. 189 189 196 CAP.....2-36..... ............ ....... . Sab 16......" (Jo 6............. DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12......... 201 202 205 210 210 212 214 219 223 226 233 233 233 233 235 236 240 245 253 257 261 262 265 CAP.........................ÍNDICE 7 Págs.. O maná (Êx 16.. X .......... ......... XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS § 1.. EM PARTICULAR.......... ............... .......... ÍNDICE DE AUTORES CITADOS ......... CAP..... . § ............

ABREVIATURAS segue Os livros da Sagrada Escritura são brevemente citados como se ANTIGO TESTAMENTO Gên Éx Lev Nún Dt Jos Jz Rut 5am Es Par (Crôn) Esdr Ne Tob Jdt Est JÓ Si Prov Eci Cânt Gênesis Êxodo Levitico Números Deuteronômio Josué Juizes Rute Samuel Reis Paralipômenos (ou Crônicas) Esdras Neemias Toblas Judite Ester Jó Saimos Provérbios Eclesiastes Cântico dos Cânticos Sab Edo Is Jer Lam Bar Ez Dan Os 31 Am Aix! Jon Miq Na Hab Sof Ag Zac Mal Mac Sabedoria Eclesiástico Isaias Jeremias Lamentações Baruque Ezequiel Daniel Osélas Joel Amós Abdias Jonas Miquéias Naum Habacuque Sol onias Ageu Zacarlas Malaquias Macabeus NOVO TESTAMENTO ivIt Mc Le Jo At Rom Cor Gâl El Fip Co! Mateus Marcos Lucas João Atos dos Apóstolos Romanos Coríntios Gálatas Eféslos Filipenses Colossenses Tes Tim Ti FIm Hebr Tg Pdr 1. O ponto separa versiculos.ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 1.3. . incluindo na citação os versículos e capítulos intermédios. O ponto-e-virguia separa capítulos. O hífen separa tanto versiculos como capítulos.2. Jo Jud Apc Tessalonicenses Timóteo rito Filêmon Hebreus Tiago Pedro João (epístolas) Judas Apocalipse A vírgula separa capitulos de versiculos.

enumerados no cãnc. a terceira parte do versículo. seja do individuo. entre os cristãos. Lev. a vinda do Messias e a instauração cIo seu reino glorioso). Lste traduziu diretamente do hebraico os livros do Antigo Testamento que êle julgava canõnicos ou inspirados.13-15). Is 42. designa Aquêle que sem restrição possui o ser ou Aquêle cuja existência é soberana e cuja atividade é sumamente eficaz. a fim de consolar os'leitores atribulados. b. hagiógraphos = escritor sagrado): nome geralmente atribuido aos autores de livros da Sagrada Escritura. leanón = regra. a fidelidade absoluta do Senhor às suas promessas. donde a designação de 'ocultos" ou "secretos". Núm. quando lhe revelou o seu desígnio de tirar do Egito a nação israelita e dela fãzer o pova de Deus por excelência (cf. = cêrca 2. O novo texto assim apresentado aos cristãos em breve se tornou de uso comum. apokálypsis = revelação): gênero literário em que o autor. designam respectivamente a primeira. Nas circunstâncias em que foi revelado. discurso): nome do tratado teológico concernente às coisas últimas ou à consumação. retocou a tradução latina já existente no século IV. isto é. a segunda. distinguem-se os livros canónicos. cf. Além disto. narrava que o Pentateuco (Gên.n (em grego. EXPLICAÇÕES Apocalipse (em grego. Em oposição aos apócrifos. do século III ao século 1 ai]. apókryplwn = oculto.10 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um s após um número indica a unidade imediatamente seguinte. mas carecentes da prerrogativa da inspiração bíblica. . Hagiçigrafo ( em grego. hoje destituída de autoridade. Apócrifo (em grego. Depois que a antiga Aliança cedeu à nova e definitiva Aliança. note-se LXX = tradução grega do Antigo Testamento efetuada aos poucos no Egito. e lógos = palavra. o termo significa "Êle é" ou "Aquêle que é". donde o nome de "Vulgata" (forma) (Vg). seja do universo. Êx. Dt) havia sido traduzido por setenta e dois judeus no espaço de setenta e dois dias. junto ao número de um versículo. Vg = edição latina dos textos bíblicos devida a São Jerônimo (t 420). Êsses escritos podiam edificar os fiéis e gozar de certa autoridade. Escatologia (do grego éschaton = último. ca. Entre os apócrifos figuram os numerosos "Apocalipses" da literatura rabinica. Apresentando as provações de sua época como coisas já previstas por Deus. o nome "Javé" caiu naturalmente em desuso no povo de Deus. quanto aos do Novo Testamento. em particular à Aliança que estava para pactuar com Israel ao pé do monte Sinai. selada pelo sangue de Cristo. tal nome inculcava a imutabilidade de Deus. avivava naturalmente a confiança dos leitores no auxilio da Providência. secreto): nome que designa livros redigidos por judeus ou por antigos cristãos segundo o estilo das Escrituras Sagradas. Antiga tradição. Êx 3. Javé: nome com que o Criador se deu a conhecer a Moisés. descrevia acontecimentos presentes e futuros (de preferência. ou seja. e. contudo não eram lidos nas assembléias de culto público. às vêzes revestindo a autoridade de antigo personagem. A luz da filologia hebraica.8. catálogo) das Escrituras inspiradas ou da Biblia. a. Daí o título: tradução "dos Setenta Intérpretes" (LXX).

nos tempos atuais. despertar a alegria que jorra dlo conhecimento da Verdade. e julgam-na muito nobre. é não raro detido por dificuldades que lhe provêm do contato com a própria Palavra de Deus. inaceitável. perene como a própria Palavra de Deus (cf. Em conseqüência. como diz a tradição cristã. mas em sua lealdade estão dispostos a se render a tudo que seja bom e belo. problemas capitais entre todos os demais. Tais pessoas lêem o Evangelho. antes. a metade ou mais da metade da Biblia Sagrada. lhes parece muito diverso desta e. desconcertantes. a Verdade e a Vida (cf. que é justamente o Caminho. em particular com os livros sagrados ditos do "Antigo Testamento" Os problemas surgem. por isto. que lhes apresenta a figura do Cristo. os capítulos dêste livro tendem a mostrar que as Escrituras antigas não contêm apenas episódios complicados. Mas. de mensagem valiosa. com sua doutrina. sem dificuldade reconhecem-na como digna e autêntica mensagem de Deus. os quais por vézes se vêem um tanto surpresos diante de passa gens do Antigo Testamento. e não raro cruciantes. Sugeridas pelo desejo de auxiliar a uns e outros. deixam-se ficar hesitantes diante da porta da Igreja do Cristo ou vão perder-se por novos "caminhos" de procura da Verdade. Esta .PREFÁCIO Quem sinceramente procura a Deus. arrefecem em seu entusiasmo: o fundo ao qual se sobrepõe a Revelação cristã. Jo 14. são sempre portadoras. em seu âmago. pois.embora a reconheçam como Palavra de Deus lhes parece ter quase esgotado em séculos anteriores a sua mensagem. longe do Cristo. mesmo quando apresentam coisas dêste gênero. Is 40.6)! Dúvidas existem também na mente de não poucos fiéis católicos. mais avultados talvez. pois tocam as questões de origem.. significado do homem e de sua existência na terra. deixar fechada a parte inicial. desde que se lhes anuncie o nexo indissolúvel existente entre os Santos Evangelhos e o Antigo Testamento. pouco teria que dizer. originaram-se estas páginas.. por isto.8). Têm por finalidade ir ao encontro daqueles que revolvem problemas de ordem religiosa ou filosófica. o Antigo Testamento não perdeu seu significado após a vinda do Messias. preferem. para aquêles que não possuem a fé. adquiriu novo poder . e que. Visando. fim.. Inspirado pelo Espírito Santo antes do Cri-sto e em vista do Cristo.

"A Antiga Aliança é tão cristã quanto a Nova. Pode-Àe. Rowley: The Rediscovery of the Olá Testament. as páginas dêste parecem aos eruditos ter sido também recém-descobertas (atesta-o bem o título da obra de H. que permitiram aos estudiosos como que reviver episódios do Antigo Testamento. A vida cristã. têm-se proposto na literatura moderna comparações assaz significativas. tornando-as.9). Splcq. Londres. com sua linguagem. 331. há de saber sempre melhor nutrir-se da Palavra de Deus. XII. se aplica aos escritos sagrados de Israel. L'Epitre aux Hébreux. 1. coloridas e vivas. Paris. ora ftgurado. outrossim. lembrar o caso de um homem que considerasse uma tela de pintura rematada e depois lançasse os olhos sôbre o esquema ou croqui cIo mesmo quadro. As excavações arqueológicas no Oriente trouxeram ao conhecimento do público importantes dados." (C. .. Para melhor dar a entender o valor cristão do Antigo Testamento. tornou-se o "cântico novo" (cf. Ora o "revelador" que deu clareza. por assim dizer. Êste representa um objeto preciso. foi o Senhor Jesus com o seu Evangelho. concorrem para ilustrar a figura do Senhor Jesus." (Ruperto de Deutz. depois de conhecer o Cristo. parecem incutir os acontecimentos mesmos dos últimos decênios. figura que está esculpidia sõbre a face da história inteira do gênero humano. 1952. Assim fala o Antigo Testamento ao leitor que. ixi Apoc 1. que glorifica o Redentor outrora aguardado. indiscernível. hoje presente entre nós. tal como o Senhor a comunicou aos homens. Ora a impressão de que a antiga Lei se tornou nova no setor das investigações científicas deve suscitar 1 "O Antigo Testamento é como que o cântico novo a significar por Imagens e figuras múltiplas a mesma realidade que o Novo Testamento. há di)' erença apenas no modo como Deus ensina: modo ora claro. Is 42. gravado sôbre a sua superfície. vê-se bem que não pode haver compreensão do Evangelho nem renovação da catequese cristá (renovação que muitas e belas iniciativas hoje em dia procuram realizar) senão mediante a devida utilização dos escritos do Antigo Testamento. É o que. a vinda do Cristo só fêz tornar patente o significado profundo de tais acenos.) Na base destas considerações. tal observador saberia descobrir no esbôço muito mais acenos ou riquezas do que aquêle que não conhecesse a obra terminada.. num só côro com os escritos do Novo Testamento. 1945). enquanto o clichê não é revelado. Poderia ser assemelhado a um clichê. luminosidade plena ás páginas do Antigo Testamento.. luminoso. porém. 1 Com efeito. os escritores sagrados de Israel se referiam ao Messias por meio de símbolos e sentenças misteriosas. Éstes agora.10). ou submetido a unt "revelado?' que o torne claro. séc. H. para ser cada vez mais vigorosa.12 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de expressão.

faz ecoar acordes disseminados por todo o Antigo Testamento. resta indicar o roteiro que percorrem. o quadro do paraíso.8-10). 11). Êx 3. Depois de estabelecido um princípio que é chave para a solução de qualquer dificuldade bíblica (cap. já plenamente desabrochadas. cêra ou madeira) de edificio fizturo. Jerusalém nova. o Antigo Testamento não poderá deixar de ser também mais valor rizado como ESPÍRITO e ViDA ou mensagem de Deus aos homens (cf. 2 Cor 3. são focalizadas questões de redação e forma literária dos escritos sagrados: o sentido da inspiração bíblica (cap.5) e só será plenamente concedida quando céu novo e terra nova forem instaurados na criação (cf.PREFÁCIO 13 efeito semelhante no espírito daqueles que consideram os escritos de Israel não apenas como livro de erudição humana. aborda-se o conteúdo mesmo do Antigo Testamento: Primeiramente. e sàmente então.1). é pôsto em relêvo (caps. 22.3. * * * Uma vez proposta a finalidade destas páginas.63). Assim as figuras esquemáticas do Antigo Testamento recebem nas últimas páginas da Bíblia os matizes mais vivos possiveis e são. Não seria suficiente. a mensagem perene das Escrituras judaicas. ainda uma vez apresentadas ã consideração do leitor. A seguir. Assim o tema da "Cidade Santa. V e VI). Mt 5. lugar de felicidade dos primeiros pais (cf. Hebr 11. o Antigo Testamento desvendara todo o seu sentido. o que há de positivo.2-5). As Escrituras israelitas aparecem então qual maqueta (de argila. maqueta cujas linhas. é reproduzido no Apocalipse ou na cena final dos séculos (cf. prometida ao povo de Deus nos inícios da história sagrada. a terra "onde correm leite e mel" (cf.2). . mas principalmente como código de Sabedoria sobrenatural: mais claramente apreciado na qualidade de LETRA ou doctmentó literário. longe de ser abandonadas pelo Arquiteto do mundo e dos séculos. porém.6. dizer que a situação dos cristãos peregrinos neste mundo só se entende como prolongamento de uma história pré-cristã: a própria consumação final é anunciada pela Palavra de Deus mediante alusões contínuas a tipos e episódios do Antigo Testamento.8). No fin dos tempos. trajada como a noiva que vai ao encontro de seu noivo" (Apc 21. algumas notas características da linguagem semítica ou israelita (caps. em proporções mais amplas e com material definitivo. ate se completar a construção (cf. vão sendo reproduzidas lenta e fiel: mente. 1H e IV). Jo 6. 1). Gên 2). Apc 21. é anunciada também por Jesus aos mansos de coração (cf.

por se basearem em pressupostos de medicina e antropologia hoje carecentes de valor: é. XI e XII tratam de expressões e manifestações da religiosidade do Antigo Testamento que ao leitor moderno parecem estranhas ou desprezíveis.. e Jôste Tu que o deste. 0 AUTOR. Dá o que amo. mas coadjuvada por melhores instrumentos de trabalho do que os de outrora. viir e IX procuram mostrar o que podem significar as narrativas de pecados "escandalosos" nos livros que Deus inspirou. nem por elas engane. VII. dos sonhos.. Xlii expõe a interpretação que a tais seções dá a exegese católica contemporânea. Abram-se agora os capítulos acima assinalados sob o eco de famosas palavras de Santo Agostinho dirigidas ao Senhor Deus: "Sejam as minhas castas delicias as tuas Escrituras. nem desprezes a tua erva que tem séde. Eis que a tua VOZ é a minha alegria. e às noções de vida póstuma." (Confissões. e considere as maravilhas da tua Lei.) Rio de Janeiro. até o reino perpétuo da tua Cidade Santa.14 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Já. por pertencerem antes à alçada de um comentário do texto sagrado. maio de 1956. iii.7. X. Os caps. considerada a doutrina religiosa. porém. e não a leches áqueles que batem. à conceituação das doenças. ao lado das grandes e luminosas linhas. ficam não poucos pontos obscuros. desde o principio. sempre válida. que. 11. que se prendia à utilização do sangue. pois amo. no qual lizeste o céu e a terra. entre os israelitas. Outros tentas do Antigo Testamento que talvez ainda suscitem ao leitor dificuldades (de menor vulto. e beba a Ti. pois não 101 em vão que quiseste fõssem escritos os densos segredos de tantas páginas. . Não abandones os teus dons.. e ouça a voz de louvor. porém) foram deixados de parte. . a tua voz está acima da abundáncia das volúpias. nem seja eu por elas enganado. sem recear o "maravilhoso". os caps. Mais uma fonte de perplexidade é o caráter maravilhoso que tomam certos episódios narrados pela história sagrada. O conjunto se encerra com a apresentação de pequeno guia prático para a leitura da Bíblia (cap. Dá lugar ás nossas meditações sôbre os mistérios da tua Lei. O cap. pois. XIV). Louve-Te eu por tudo que encontrar nos teus livros.

desapontado ou escandalizado. E. para entender as páginas bíblicas. Conscientes de tal anomaiia. quando se lembra ao leitor. onde não têm o costume de procurar o nutrimento da vida espiritual. o primeiro manancial de espiritualidade dos fiéis. . alguns núcleos de fiéis têm tentado explorar os tesouros da Sagrada Escritura. conseqüentemente. à impressão de mal-estar ou mesmo de escândalo ou à conclusão de que a Escritura é livro obscuro. não estão familiarizados com a Sagrada Escritura. são subestimados em favor de objetos e práticas menõs ricos e eficases para a santificação. mas. dir-se-ia em linguagem popular. O fato de que a Bíblia não é devidamente conhecida causa pesar semelhante ao que suscita o esquecimento de alguns cristãos em relação à S. difícil demais para ser alimento da vida espiritual. um livro mais ou menos cerrado. ainda que animados pelas mais sinceras disposições. perante certas páginas do texto sagrado. se requerem certas noções introdutórias.CAPÍTULO 1 O PROBLEMA BIBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO § 1. para êles. Eucaristia. Todo católico professa que a Bíblia é livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores. para revigorar sua piedade.. 0 O PROBLEMA É fato inegável que bom número dos católicos de hoje. ela lhes parece arcaica. Contudo. quase que por definição. e quase que exclusivamente.. com prazer. mesmo dentre os mais fiéis à vida cristã. o mesmo se sente como que atemo- . "Deus não se terá abalado por pouca coisa. servem-se. Esta é. alheia às idéias e à terminologia que os cristãos costuitam ter na mente e nos lábios. Tal verificação não pode deixar de impressionar a quem sôbre ela reflita. As páginas inspiradas por Deus certamente não excluem o que os santos e justos escreveram de verídico e belo. que. Em um e outro caso observa-se que os maiores dons de Deus não são suficientemente procurados. de obras e opúsculos religiosos posteriores à Bíblia. não se podem furtar. pois. esperar-se-ia que fôsse a obra mais lida e explorada pelos cristãos. empreendendo a leitura sistemática da mesma. exigem para si a primazia na biblioteca ou na cabeceira do cristão.

que jamais freqüentei.. Julgamos poder encontrar esta paz. Não temos tempo para fazer isto tudo: cada família se acha sobrecarregada com obrigações profissionais. ao menos para se recolocar o texto no seu contexto e no seu clima de origem (exegese. são a expressão fiel do que muitas vêzes se pensa também no Brasil." 1 É livro ante-diluviano. materiais e educativas. ou que só admite a literatura escandalosa quando esta se apresenta com aparato e fama. por essas narrativas pré-históricas. O Antigo Testamento procede de um espírito totalmente diverso do do Evangelho. Contribuir para a renovação. em vez de o satisfazer. como se sabe. onde os homens do séc. para o estudo erudito. É esta uma forma de resistência. Alguma coisa dentro de mim se recusa a crer que minha vida possa ser ajudada. estudo dos gêneros literários. desejamos repouso." Eis o depoimento de um grupo de casais: "Salvo algumas passagens esparsas cá e lá. que em minha infância e juventude só me falaram do Antigo Testamento em têrmos negativos: encerra histórias demasiado realistas para poder ser colocado nas mãos de qualquer leitor. foram colhidos no artigo de Henry. E. Não quero defender a hipocrisia da nossa sociedade contemporânea. etc. Devo dizer que não li Daniel-Rops." "Noto. que à Biblia prefere a literatura "de água de rosas". A situação assim esboçada pede ser revolvida. densos e curtos. "Les catholiques lisent-ils la Bible?" em La Vis Epiritucue Stipplément 12 (1950) • 84-98. XX nada encontram Tais depoimentos encontram eco espontâneo fora mesmo da França. esta respiração profunda em Deus. iluminada.. não se compreende quase nada na Sagrada Escritura. oração. transformada. calma.). é muito difícil perceber como julgar tódas essas histórias. escreve outra pessoa. e não livros de erudição. é o que se propõem os capítulos se1 Como se compreende. A história dêsse obscuro povo hebreu parece tão longínqua que se torna meio-irreal. faz-lhe perder o ânimo. não coisa viva. Depois da labuta de cada dia. escreve uma dirigente da Ação Católica. em que as verdades religiosas não se encontram ocultas sob uma multidão de imagens e de fatos. Vão aqui transcritos alguns dêstes testemimhos. paz. nem todos têm tempo ou aptidão! Um inquérito recém-realizado na França nos dá a conhecer com exatidão as opiniões de fiéis que têm procurado ler a Escritura." "Há na Biblia uma série de histórias horrendas. atual.. que possam aproveitar. . não sentiríamos atrativo por êsse estudo árido. ou por meio de reflexão pessoal sôbre alguns textos prediletos ou pela meditação de alguns pensamentos familiares ou pela leitura de excertos. A solução. A leitura frutuosa da Bíblia exige árduo trabalho literário. mesmo se tivéssemos tempo. a fim de se perceber mais ao vivo o doloroso realismo do problema: "A Bíblia é objeto de museu. de nomes e datas. porque a Sagrada Escritura se lhe afigura então objeto de estudo científico antes do que livro de edificação sobrenatural. não obstante. e. Ora é o espírito do Evangelho só que devemos procurar. os depoimentos são anônimos.. de história. que meu pároco dá cursos de Sagrada Escritura. mas se acham luminosamente expressas.16 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rizado pelas exigências que a técnica exegética moderna lhe parece impor.

tendo à frente Bruno Bauer (t1882). Uma das raízes remotas da desconfiança dos católicos frente à Sagrada Escritura é. o texto latino da Vulgata foi declarado autêntico e aos fiéis se proibiu a leitura de traduções vernáculas da Bíblia não acompanhadas de notas explicativas conformes à doutrina católica. por todo o século passado. assiduamente manejada pelos protestantes.. No séc. aos Evangelhos e aos escritos paulinos se denegou tôda autenticidade. a Suiça (Steck). a Bíblia. tendo deixado de ser o manual daqueles que visavam a piedade. Antes. correntes eruditas de pensamento. Robertson). que abusivamente fêz da Biblia a principal fonte de seus erros religiosos. interessa-nos considerar mais atentamente as causas do distanciamento dos fiéis em relação à Escritura. recordaremos alguns fatos da história religiosa moderna. o . obra colocada no Índice dos livros proibidos pela Igreja! . e que. Tais opiniões se foram disseminando através dos tempos sem grandes dificuldades. se prestam a mal-entendidos ou escândalos. Muitas vêzes. As figuras de Jesus e S. sem dúvida.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 17 guintes. e isto os fêz chegar a conclusões estranhas à Biblia. as autoridades eclesiásticas viram-se obrigadas a lhes restringir de certo modo o uso da Sagrada Escritura: no Concilio de Trento (1545-1563). As suas pesquisas não raro tiveram por resultado ilustrar maravilhosamente o sentido de passagens bíblicas obscuras. errôneas e ímpias. porém. Em tôrno da Escritura formaram-se escolas diversas. Paulo foram reduzidas a ficções literárias. a inglaterra (Johnson. de mais a mais que na Bíblia há realmente expressões e narrativas cujo sentido não é evidente à primeira leitura. esta passou a ser julgada livro perigoso. XVI. aconteceu que. os Estados Unidos da América (Smlth). irrompeu o movimento luterano. porém. manual de protestantismo. a Itália (Bossi). escola de heresias. A tal fim. 2 Ora isto contribuiu naturalmente para que se acen2 Principalmente a Escola alemã de Tuebingen. Ora. a Escritura. por isto mesmo. XIX veio corroborar a desconfiança. assim como o continuado abuso dos protestantes.. de estudarmos algumas vias de solução do problema. eruditos muitas vézes sem fé. se distinguiu por suas teses hipercriticas. a França (Couchoud). Fomentou uma onda de cepticismo que se propalou pela Holanda (Pierson. Com efeito. Naber). para impedir fôssem seduzidos os fiéis. A história do séc. quiseram mesmo confirmá-los por seus trabalhos científicos. foram suficientes para criar entre os católicos uma atmosfera de pouca "simpatia" para com a Bíblia. os sábios puseram-se a compará-los com a antiga literatura religiosa de Israel. Reforma Protestante. em boa parte norteadas por protestantes liberais. se tornou o objeto de exploração dos homens de ciência. Descobrindo no Oriente manuscritos e monumentos pré-cristãos. a Ps. Tais normas (em si muito sábias e oportunas). passou a ser o arsenal de argumentos dos herejes. os estudiosos não se conseguiram emancipar de preconceitos filosóficos ou racionalistas.

Perante a confusão suscitada pelos eruditos. sem consideração do respectivo panorama histórico. átimo repertório de histórias para crianças. o Evangelho de S. . alguns círculos católicos se fecharam por completo à utilização dos recentes dados da ciência na exegese bíblica. que as pesquisas modernas desvendaram. inovador. por exemplo.livro perigoso a novo título. digna do verdadeiro Deus! Pois bem. reavivando em si uma mentalidade mais tipicamente cristã. Isto se dá também no setor religioso. porém. a Bíblia veio a seróbjeto de desprêzo daqueles mesmos que procuravam uma religiosidade elevada. provocou uma reação imediata. o livro dos Atos dos Apóstolos.. caíram assim numa atitude simplória. Desta atitude resultou em não poucos dos contemporâneos a idéia de que a Bíblia é livro retrógrado em relação à ciência. manifestam o desejo de viver as conseqüências práticas dos mistérios da SS. tudo que sej a fruto de mera convenção. Poderá esta iniciativa contar com alguma probabilidade de sucesso? A resposta afirmativa se impõe. O cientificismo bíblico. da Encarnação e do Corpo Místico. Trindade.. Assim. critura sem muito discernimento das regras de estilo. Os nossos fiéis têm procurado praticar a sua religião imediatamente à luz dos grandes dogmas. admitiam que no séc. 1 a cristandade estava dividida em facção petrina e facção paulina. de modo nenhum. Entendida de maneira demasiado humana. seria a expressão da conciliação jã obtida. O movimento bíblico é portador de um título. vocabulário. mais moderados. tantos se perderam nos mais variados erros do liberalismo e da impiedade. depois de 160. é no mundo herdeiro de tais preconceitos que se procura despertar hoje um movimento católico de volta à Escritura. capaz de lhe assegurar pleno êxito. e rejeita o que lhe pareça destituído de fundamento objetivo. infantil. fantasista. Cristiano Baur (t1860). teria tentado conciliá-las. já qUe. XIX. para não se cair na infidelidade ao ler a Bíblia! A situação se complicou mais ainda em virtude de um terceiro fator.. autêntico. e entre os próprios católicos. ao estudá-lo no séc. no séc. procura tomar consciência da razão de ser de tôdas as coisas. àqueles que têm muita ciência . sustento de um espírito esclarecido. seria necessária muita fé.18 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tuasse mais ainda nos católicos a impressão de que a Escritura é livro reservado: reservado aos protestantes ou. O homem dos nossos tempos tem acentuada sêde de tudo que é genuíno. ao menos. se não a êstes. lendo e expondo as passagens da Sagrada Es-.. Assim a recente história da exegese parecia confirmar o preconceito de que a leitura do texto sagrado constitui um risco para a verdadeira religiosidade. João. menos superficial ou desvircristianismo passou por produto da filosofia religiosa de Alexandria e da sabedoria popular dos romanos! Alguns autores de Tuebingen. II.

De modo particular se sentem os católicos contemporâneos impelidos a tomar conhecimento da genuína mensagem da Bíblia. por verificarem que se vai multiplicando o número de confissões religiosas (seitas protestantes. Liturgia (Mediator Dei. numa fase da história em que diversas facções humanas se chocam. Através dos seus setenta e quatro variados livros.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 19 tuada pelas influências não-católicas que sofreu a partir do séc. fornecendo noções que lhes tornem possível desfrutar o rico conteúdo das páginas inspiradas. (Henry. visam introduzir os fiéis na leitura do livro sagrado. 3 Em outros termos: nota-se uma sêde de voltar às fontes da verdade e da vida cristãs. as disposições da Providência em vista da salvação do homem. 4 Cc nwuveme. é do âmago do dogma que Pio XII deseja se nutra a espiritualidade crista. pois. force la conscicift de chacun d présenter les piêces authentiques de ia croyancc. cit. de 20 de novembro de 1947) apela freqüentemente para os dogmas da Encarnação e da Redenção. § 2. a Bíblia. teosofistas. Os comentadores consideram a Mediator Dei como o segundo capitulo de uma única obra que começou com a encíclica sõbre o Corpo Mistico de Cristo (Mystiet Ccrporis. Santidade sôbre a S. o mistério de um Deus que desce até o homem para elevar o homem 3 O Santo Padre Pio XII. por seus escritos. etc.) que. de 29 de junho de 1943). em última análise. trata de um só objeto. E isto. a fim de que o sal da terra seja sal ainda mais autêntico. art. Apresenta-nos em suas fases sucessivas. Impõe-se. que.zt irrésistible qui. humanamente falando. a saber. dos quais deduz conclusões atinentes à vida de oração. mobilizando tudo que elas possuem de vital. dans ia mêlée actueile. procurando deduzir da mesma as idéias mais desconexas possíveis. por dois motivos: a) o tema da Sagrada Escritura. Quem quer que se apreste a ler a Escritura. permite prever todo o êxito ao movimento bíblico contemporâneo. bem característica da nossa época. recorde-se de que uma atitude de fé sobrenatural é condição absoluta para penetrar o âmago da mesma. falam em nome da Sagrada Escritura. 98. 0 O PRINCIPIO DE SOLIJÇAO Os capítulos que se seguem.) . espíritas. cada qual do seu modo. uma observação prévia. XVI. a sêde do autêntico. É. é por esta e pela tradição oral que a Igreja se orienta. porém. C'cst da moins cc que nous pouvons espérer lopalement.. tem estimulado tão louvável tendência: a encíclica de S. desde os primórdios até o fim dos tempos. Ora entre as fontes de revigoramento da vida cristã está certamente a Escritura Sagrada. amênera les catholiques à tire de pias cii pias la Bibie. que será também um princípio geral de solução para as dificuldades acima apontadas.

1. embora soberano e independente. as vias pelas quais Éle procura o homem transcendem 'infinitam ente o bom-senso da criatura. o próprio Autor das Escrituras.3. tanto üiais também êle experimenta afinidade com os dizeres da Escritura.note-se bem . semelhante à de um judeu antigo. quanto mais a fé é viva e forte no leitor. que a usa freqüentemente (ei. está por vêzes adaptada à mentalidade oriental e aos costumes. tais 'problemas" na realidade não são maiores enigmas do que a proposição de um Deus pregado à cruz. Flp 2. quanto mais a vida sobrenatural nêle está arraigada.2. 11. Encarnação que se deu na plenitude dos tempos. in lo 15. Essa descida de Deus ao homem é também o mistério de um Amor que. embora seja inconfundível. Disto se segue que a chave para se penetrar na Bíblia há de ser uma fé coerente no mistério da Encarnação do Verbo. a Bíblia tem necessàriamente passagens quase desconcertantes para o leitor que a queira julgar inicamente à luz da sabedoria humana: a sua linguagem é simples e pobre. V. se quer dar derramaildo o bem sôbre os indigentes. 3. Não há dúvida. mas que é. quem na fé aceita o aniquilamento do Filho de Deus até a morte de servo (cf. é que lhe fala mais claramente o Mestre interior. mas que tem seus prenúncios nos séculos anteriores (entre os quais. de diversos rnodos. não obstante.1). O Deve-se mesmo observar que. de uma adaptação da Majestade do Criador aos moldes pequeninos do pensamento e da vida da criatura. Por tratar de tal tema. mostra-se invencível na arte de procurar o indigente ingrato. longe de se deixar desnortear por textos difíceis. E . rejeitado.Gen h. já não se admira diante dasmúltiplas formas da condescendência divina sugeridas pela Bíblia. os livros sagrados do Antigo Testamento) e que continua a se manifestar em tôda a história do cristianismo.8).tal descida não é simplesmente uma vinda. às tradições dos semitas antigos. João Crisóstomo. . assim também não sabemos dizer porque se quis adaptar à linguagem do homem no livro sagrado nem porque quis incluir no seu plano providencial tantos instrumentos rudes e imperfeitos. em cada urna das passagens da Bíblia. • O O significado geral do Antigo Testamento e da História Sagrada será objeto de ulterlores considerações no cap. mal entendido. Assim como não podemos indicar a última razão por que Deus se fêz homem na plenitude dos tempos. e a figura de Deus 4ue ela apresenta.20 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ao consórcio de Deus. A atitude de fé já por si desfaz muitos dos problemas que o conteúdo e a forma literária da Sagrada Escritura apresentam. tal cristão discerne cada vez melhor o que é contingente e o que é mensagem perene. in . ela tem o caráter quase paradoxal de uma condescendência 5 de Deus para com o homem. os planos de Deus. 15. 6 A expressão é de S.

espíritas. sendo função da fé na Encarnação. A penetração da Sagrada Escritura. é na Igreja que o Verbo Encarnado prolonga a sua vida e a sua obra de iluminar e salvar os homens. deverá simplesmente adorar. seguindo apenas as insinuações da ciência ou ào seu bom-senso pessoal. o mistério da Encarnação do Verbo sempre exigirá a adoração reverente dos fiéis. Sab. É esta fé na Igreja que. Quem admite isto. racionalistas." Destas considerações decorre que. tenham os fiéis consciência de que não poderão sempre por argumentos filológicos. porque crêem na autoridade infalível cio magistério da Igreja. mas ao menos indica verdades de fé às quais nenhum exegeta pode derrogar sem cair no êrro. em última análise. Todos sabem que Lutero não reconheceu como inspirados ou canônicos certos livros que os católicos admitem como tais (assim Tob. etc. renunciando a exercer o espírito de crítica. Gregório Magno (f 604) exprimia esta verdade numa frase incisiva: "Os dizeres de Deus crescem com aquêle que os lê. Jud. Por conseguinte. 7 8 . até o fim da vida. literários provar a protestantes e racionalistas que a interDivina eloquia cum Iegente crescunt (in Ez 1. Apc). 9 Exemplo notório é o do cânon ou catálogo das Escrituras sagradas. ao abordar a Escritura. ao contrário. 1 e 2 Mac. Os católicos também desenvolvem argumentos para os admitir. tenha consciência de que encontrará passagens diante das quais. de resto. Bar. Rolo. ninguém se prometerá chegar um dia a compreendê-la como compreende um livro ditado imicamente pela sabedoria humana. Verdade é que o magistério eclesiástico não dita normas positivas para o entendimento de todo e qualquer texto bíblico. Hebr. 85). 2 Pdr. ° Sendo assim. isto se dá. ela se exerce já na questão de saber em que consiste a Biblia. dar a genuína interpretação da Escritura. os juízos de Deus. As razões de uma parte e de outra não bastam para dirimir a questão. há de reconhecer que à Igreja compete. para os rejeitar. seria incoerente o católico que procurasse estudar a Sagrada Escritura independentemente do magistério da Igreja. Os protestantes apresentam razoes. Com efeito. para os católicos. T. patrimônio da Igreja. que é a Bíblia. Donde se vê bem que tal crença é básica para o católico que se proponha ler a sagrada Escritura. 7. b) a Escritura. em Última análise. distancia radicalmente o católico. não pode deixar de estar também 'rntimamente associada à fé na Igreja. arqueológicos. já que pela Igreja Cristo ensina aos homens.). a proferir algum juízo. é pela Igreja que lhes dá a saber o sentido da Palavra escrita de Deus. Como. Se os católicos mantêm o seu ponto Qe vista. Pode acontecer mesmo que a autoridade da Igreja seja o único argumento decisivo para que o católico tome tal posição exegética em vez de outra. Jdt.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 21 S. 2 e 3 Jo. deduzidas da histôria. dos demais leitores da Bíblia (protestantes.

" Acontecia. o magistério se exercia quase ünicamente pela palavra viva. escreveu a segunda epístola aos tessaloaicenses. mas exigida pela índole mesma da Escritura Sagrada. pressupondo de resto os ensinamentos que de viva voz haviam transmitido. At 17. a maneira como se originaram as duas epístolas de S. professar que é a voz da Igreja que os leva a optar entre duas explicações que. porém. Por sua vez.1-15). pouco digna da inteligência humana. pode-se dizer que ela é não apenas imposta pela Igreja. porém. de sorte que subtrair-se a essa posição vem a ser infidelidade para com o texto mesmo que se quer elucidar. esta atitude dos católicos? Não. Em conseqüência. Foi o que ocasionou a primeira epístola aos tessalonicenses. sabe-se que Jesus Cristo comunicou todo o seu ensinamento aos Apóstolos por via meramente oral. exigia muito tempo e grande habilidade por parte do autor. em térmos breves. não raro. porque apenas intencionava completar a pregação de viva voz. Paulo.22 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pretação dada pelos católicos a tal passagem bíblica é a autêntica. porém: não será constrangedora. Paulo teve noticia de que os tessalonicenses nutriam dúvidas a respeito cIo dia do juízo final e da sorte que então tocaria aos irmãos defuntos. 12 Haja vista. demorar aí tanto quanto necessário para rematar a catequese dos recém-convertidos: um tumulto provocado pelos judeus obrigou-o a procurar refúgio em Atenas e corinto (cf. Paulo aos tessalonlcenses. Ora. o material respectivo (papiro ou pergaminho) era raro. por exemplo. de modo nenhum intencionavam expô-los de maneira sistemática ou exaustiva. tais dúvidas provocavam agitação entre os fiéis e solicitavam a intervenção do Apóstolo. em que de novo só se propunlia desfazer os mal-entendidos dos fiéis. à luz dos critérios literários. o Apóstolo estêve em Tessalonica (Macedônia). atendendo a essas necessidades contingentes é que os Apóstolos e Evangelistas redigiram suas cartas e suas biografias de Jesus (Evangelhos). '° Pergunta-se. Por volta de 51. pouco depois de chegar a Corinto. pois. apenas elucidavam os aspectos que davam lugar a mal-entendidos entre os fiéis. os Apóstolos não se preocuparam grandemente com a redação da doutrina recebida de Cristo. que esporàdicamente os fiéis desta ou daquela região propunham questões particulares (de índole dogmática ou moral) aos Apóstolos ou pediam que lhes enviassem uma súmula escrita do que haviam pregado. onde fundou o primeiro núcleo de cristãos da cidade. foram-na transmitindo de viva voz pela pregação. ciente disto. Paulo aborda aspectos da doutrina da segunda vinda de Cristo. porém. 12 Daqui se segue 10 Já que os não-catúlicos não reconhecem tal magistério. ao abordar pontos de doutrina em tais escritos. Como isto? É preciso não esquecer que os livros da Escritura tiveram origem ocasional ou esporádica. torna-se por vêzes vão querer argumentar com êles. No tocante ao Novo Testamento. ape- 1' / . poucos meses mais tarde. Não se pôde. Já que esta primeira carta não bastou para acalmar os ânimos. em que S. seriam igualmente plausíveis. 11 Isto bem se entende pelo fato de que escrever era arte difícil na antiguidade. deverão.

sem prêviamente tomar conhecimento exato do veículo humano a que se quis ligar a Palavra de Deus. enquanto tal. Errôneo. portador de mensagem sobrenatural. 2 Tes 2. e. o primeiro elemento a ser consultado seja o conjunto de ensinamentos que sempre se transmitiram ao lado da Escritura no povo de Deus ou na Igreja. da Bíblia. como se deduz da critica literária dos livros do Antigo Testamento. porém. é obra de autores humanos. Semelhantemente. esta pequena parte não constitui um bloco fechado e completo em si. sem dúvida. é exigência decorrente da índole mesma da Sagrada Escritura. os escritos do Antigo Testamento. mas é inseparável da tradição oral. como modalidade nova da mesma. não se pode deixar de salientar que. depende desta. contribuíram com seu cabedal de cultura. Ao mesmo tempo. em outros têrmos. a tradiçâo oral.5s: "Não vos lembrais de que eu vos dizia essas coisas quando ainda estava convosco? Agora sabeis o. na exegese da Sagrada Escritura.") 15 Isto se compreende já pelo fato de que escrever era relativamente pouco usual entre os antigos. Tendo em vista as disposições habituais da Providência. mas ficaram na tradição meramente oral da cristandade. 2. tiveram origem ocasional. que o detém. para o seu ensinamento oral (cf. ninguém pretenderá apreender a mensagem divina da Escritura. de resto. em nome da fé ou da piedade. De tudo isto resulta claramente que o recurso à tradição. É o que explica que estas duas epistolas. humano. certamente inteligíveis para os seus primeiros leitores. Por fim. faltam-nos os elementos da pregação oral que deviam esclarecer o que Paulo diz a respeito da aparição do Anticristo e do Obstáculo que o detém (cf. 13 É o que faz que. e cultura oriental antiga. Apenas fragmentos cio historiograf ia ou dos cráculos dos profetas ou das máximas dos sábios de Israel nos foram consignados. seria desprezar. o recurso aos resultados da ciência moderna empreendido pelos bons exegetas conlaudo. é o espírito sobrenatural do leitor que a deve perscrutar. ela de modo nenhum dispensa certo estudo ou esfôrço que vise penetrar e entender o aspecto literário.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO 23 que muitos temas da autêntica pregação de Jesus ou do depósito revelado não passaram para o papiro. é. E. embora a atitude de fé seja a atitude primária para uma profícua leitura do texto sagrado. como se vê. para a redação das páginas sagradas. que. que ainda hoje vive entre os cristãos e tem seu autêntico órgão de expressão no niagistério da Igreja. Esta é. apresentem hoje dificuldades exegéticas insolúveis. longe de ser imposição arbitrária da autoridade eclesiástica. é preciso mesmo dizer que só pequena parte das verdades de fé foi explicitamente consignada por escrito. um livro divino.5s). ora não resta dúvida de que êste outro aspecto da Escritura só pode ser entendido mediante o recurso às noções de cultura pressupostas pelos autores bíblicos. pois. esporádica. pois se originou dentro da tradição oral. para que se manifeste em seu tempo. .

por suas circunstâncias de vida. as noções introdutórias na Escritura encontram-se redigidas sob forma breve e simples em opúsculos das diversas línguas modernas. Em conclusão: espírito sobrenatural muito vivo.24 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO temporâneos. É claro. tais opúsculos possibilitam o acesso ao livro sagrado mesmo às pessoas que. . porém. de outro lado. Deus houve por bem fazer da sua Palavra a mensagem para todos os homens. nada despreza daquilo que de verídico ensina a ciência. não sõmente para aquêles a quem é dado o lazer do estudo. que. de um lado. está pronto a exercer a fé renunciando a julgar as autênticas obras de Deus. eis o pressuposto de uma leitura frutuosa do livro sagrado. que nem todos os leitores da Escritura estão obrigados a fazer os mesmos estudos para desfrutar o conteúdo do texto sagtado. mas. eis o princípio geral para a solução dos problemas da Bíblia. menos se possam dedicar ao estudo.

"Livro inspirado por Deus" parece-lhes ser obra absolutamente emancipada das fases de preparação por que costuma passar todo produto literário humano. porém. O conceito. de inspiração bíblica não é claro a todos os cristãos. consignaram por escrito pormenores da vida do Messias. Isto. Tais episódios foram redigidos sob a influência de dois dons sobrenaturais: o da inspiração bíblica. tais como o seu nascimento em Belém de Judá (Miq 5. Não poucos se admiram ao verificar que a Escritura se assemelha muito a obras profanas. com as hipóteses de acréscimos ou interpolações feitas a determinada passagem etc.10).13-53. porém. ou seja. 0). Livro inspirado pelo Altíssimo. ao ensinamento de verdades até o presente ignoradas pelo hagiógrafo. com a crítica literária e paleográfica do texto. sua transfixão na cruz (Zac 12.4-10. faz-se mister remover logo duas opiniões errôneas: a) inspiração bíblica de modo nenhum é revelação. de autoridade única. A iaspiração pode. séculos antes de Cristo. é geralmente movido por uma crença de importância capital: a Bíblia é a Palavra de Deus.CAi'ínJLo II LIVRO INSPIRADO POR DEUS Quem toma em mãos a Sagrada Escritura para dela fazer o seu livro de doutrina e espiritualidade. se dedicará o presente capítulo. visto que deviam fazer parte da .0 ). goza. pois.0 QUE SE ENTENDE POR INSPIRAÇÃO BIBLICA? Na procura da resposta autêntica à pergunta. por exemplo. § 1. abordando primeiramente o conceito de inspiração em si Q 1. que é capital em tôda iniciação bíblica. também não vêem como se possa conciliar o conceito de inspiração divina com o estudo das fontes humanas de um trecho bíblico. a documentos da literatura antiga. depois as relações da Escritura com as conclusões das ciências naturais (§ 2. quando os profetas de Israel. sim. 0 ) e da história profana Q 3. comunicação sobrenatural de verdades desconhecidas ao escritor. sua paixão expiatória (Is 50. estar associada a êste outro dom divino. não ocorre necessàriamente. Ao estudo dêste problema.1). verificou-se.12). 52.

2 Crôn 9. 21. e o da revelação. ou seja. consultado testemunhas (cf. Quando. êste processo não implica comunicação de novos conhecimentos.26 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Escritura. Deus. por exemplo. vamos encontrar noções que diríamos "humanas" (não falsas. 2 Mac 2. tal como se dá entre o autor de uma carta e seu dactilógrafo. enquanto as proposições aptas a êste fim lhe são apresentadas como tais. .29. que é.35. 29. pois. Em têrmos positivos. 11. Essa iluminação faz que noções ineptas a comunicar as verdades intencionadas por Deus apareçam à mente do hagiógrafo como inadequadas.29. emancipado de vestígios da personalidade do autor humano.17. Em outros têrmos: a inspiração faz que. mas de maior certeza (da certeza do próprio Deus) na posse das verdades já adquiridas. bem como o seu esfôrço de composição literária. as escolha e formule de modo a se tornarem a expressão fiel dos pensamentos do Altíssimo. 24-32. a seu turno. At 8.24. Lc 1. o livro estaria. já o fizeram apenas sob o influxo da inspiração bíblica. Mt 2. 15. a fim de que êste resolva escrever & de fato. 3 lis 14. perceba tais e tais verdades. J0 19.23.19. de sorte que êste.31. pois haviam presenciado os fatos ou tinham sido informados por testemunhas abalizadas. ao contrário a suscita. ainda se pode explicitar do seguinte modo: a inspiração bíblica. com a clarividência de Deus.37. 1 J0 1. b) se a inspiração bíblica não é necessàriamente revelação. a inspiração bíblica? Supondo no homem um cabedal de cultura. proposições verídicas. O qué acaba de ser dito. a inspiração importa moção da vontade e das potências executivas do hagiógrafo. escreva aquilo que percebeu em sua mente ilustrada. porém.1-4. pela inspiração.6. Jo 19. Isto tudo quer dizer que. com a lucidez do próprio Deus. o hagiógraf o examine a veracidade das noções que êle tem na mente. sem o mínimo êrro. ilumina a inteligência do hagiógraf o.29. por assim dizer. 24.inteligência. porém). citam também as fontes compulsadas (os anais dos reis de Israel. 1-3).32s). Além de iluminação da. atestam ter visto ou ouvido o que referem (cf. Êsse ditado dispensaria tôda a ciência pessoal do hagiógraf o.16-38). em 1 Crôn 27. . prêviamente adquiridas. pois certamente os autores sagrados não adquiriram essas notícias por estudo ou por via meramente humana.). De resto. os evangelistas. na Bíblia redigida sob a inspiração divina. os autores bíblicos apelam freqüentemente para a sua experiência. consignaram os mesmos episódios (cf. longe de extinguir a atividade do hagiógrafo (ou o trabalho de um escritor). ter investigado documentos. formuladas segundo os moldes usuais entre os homens da antiguidade. não por revelação divina.7. serem a expressão autêntica da mensagem que o Senhor quer transmitir aos leitores. também não consiste em ditado meramente mecânico.. Como se vê. 8.

ignorando muita coisa das ciências e das artes que hoje se conhecem. Hebr 4. é condicionada pelo hagiógrafo. porém.15) aos demais homens. cf. E note-se que cada hagiógraf o deu os seus pressupostos pessoais. a fim de que produza efeito não simplesmente humano. não desprezível. O efeito produzido na pedra se deve atribuir tanto ao escritor como ao seu instrumento. como o de Jeremias. para exprimir a verdade divina. todavia a forma literária. que tomou a face. a inspiração tem sua semelhança com o mistério da Encarnação. . mais precisamente: de um judeu que viveu no Oriente há mais de três ou há quase dois milênios atrás. Mateus. sem mutilar a esta. não obstante. simples pastor. escreve sôbre o quadro-negro. a veste. os cálculos harmoniosos e simétricos de um cobrador de impostos. de modo que a obra daí resultante não apenas contém a Palavra de Deus. a terminologia e a finura de espírito de um médico de formação helenista. 2 Do fato de que a Escritura é inspirada por Deus (nos têrmos acima expostos) segue-se a sua inerrância ou isenção de êrro dou"Carisma". Autor principal. como S. certa graciosidade. 1 Deus penetra tôdas as faculdades do escritor (inteligência. VIU a. 2 Com efeito. E nesse efeito encontram-se inevitàvelmente os vestígios de um e outro agente: ao homem se devem atribuir os pensamentos expressos. Sim. afeito aos números. antes servindo-se de tudo que lhe pertence e equiparando-se integralmente (exceto no pecado. um cabedal. cultura própria. as impressões de um homem dos campos. vontade. a veste. como Isai as. mistério pelo qual o Filho de Deus apareceu na terra revestido da natureza humana. possuindo. Anàlogamente se relacionam Deus e o hagiógrafo na composição dos livros sagrados: as idéias ensinadas pela obra provêm primàriamente de Deus. o que quer dizer: fica subordinada à educação e às categorias culturais de um escritor humano. de valores humanos. etc. mas é a Palavra de Deus. Lucas. de palavra do homem. pelo influxo do carisma.). um sem o outro não o produziria. um só pensamento pode mesmo tomar configurações bem diversas conforme os diver sos tipos de giz usados. como S.C. 1 designa aqui a inspiração. potências executivas) e percorre simultâneamente com êste as etapas necessárias para a redação de um livro. eleva-a a plano superior. rico ou pobre. mas humano e divino. com um pedaço de giz. grossura. a vivacidade de um Jovem fogoso. as de um temperamento muito sensível e vibrante. um dos ilustres cidadãos de Jerusalém no séc.. na Escritura depreendem-se os vestígios característicos de um homem de cultura esmerada e trato nobre. ao passo que ao giz se deve reduzir a forma visível dos mesmos na pedra (côr. como S. Em conseqüência. que serve para exprimir tais idéias.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 27 suscitando-a. pouco preocupado com o estilo. dom (de Deus) outorgado em favor da comunidade dos fiéis. Marcos. como Aniós. O conceito de inspiração é bem ilustrado pela analogia do homem que.

a saber: o autêntico significado de uma obra literária só se patenteia a quem procure reconstituir a mentalidade do respectivo autor e as circunstâncias em que escrevia. a qual prima pela precisão de suas palavras e a concisão de suas sentenças. lhes possa dar. os Salmos). Jeremias.. Daqui se deduz a imperiosa necessidade de discernir o que se chama o "gênero literário" de cada livro da Sagrada Escritura. se poderia esquecer neste assunto uma cláusula de grande alcance: já que a inerrante Palavra de Deus toma na Bíblia uma veste humana. Sem saber qual o gênero literário com que se defronta. caso nela existisse.. história estritamente dita (os livros dos Reis. como interpreta uma seção poética. 1 Ora na Bíblia há livros de leis (o Levítico). outras as da poesia. lhes queria atribuir. porém. se prende a uma regra geral de hermenêutica. não constitui. deveria ser imputado ao próprio Deus! Jamais. profecias (Isaías.) 4 Esta verificação dá claramente a entender que o cultivo de certas disciplinas profanas. diálogos (Jó) . 3 verificando isto. nenhum leitor se pode julgar autorizado intérprete de tal ou tal seção bíblica. quando interpretadas no sentido que um leitor moderno.ssimus) • escrevia S. O que quer dizer. Embora não raro as palavras de determinado texto sejam suscetíveis de mais de uma interpretação. Providenti. o primeiro dos Macabeus). Platão dizia: "Mentiroso como um poeta. mas vem a ser tarefa a que as nossas escolas não se podem furtar. não há dúvida. Ezequiel). seu porta-voz humano.28 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO trinário. a história do antigo Oriente." (Citação transcrita de Gourbillon. em leitura superficial. Esta cláusula. de resto. Judite e Ester). E que será prõpriamente o "gênero literário"? Esta expressão •designa o conjunto das regras de estilo e o vocabulário que os homens de determinada época ou região costumavam observar quando queriam escrever sôbre certo tema. Santidade Pio XII em 1943: "Bem preparado com o conhecimento das línguas antigas e com os recursos . modalidade contingente. ninguém ousará atribuir indiferentemente ao autor qualquer das teses conciliáveis com o conteúdo "bruto" de seus vocábulos. história edificante ou ornamentada com fim catequético (Tobias. outras as da história "edificante" ou "moralizante". a arqueologia. poesia (o Cântico dos Cânticos. Após Leão XXII (Enc. etc.. outras as da profecia. não é senão mediante a interpretação desta que aquela pode ser atingida. Paris. outras são as normas de redação de um texto de leis. em que os artifícios e as metáforas são de praxe. como o recomendavam ainda recentemente os Sumos Pontífices. em têrmos mais claros: as afirmações da Sagrada Escritura só gozam da absoluta veracidade da Palavra de Deus quando entendidas no sentido mesmo que o hagiógrafo. outras as de uma seção de crônicas. etc. para a exegese católica. como a filologia. a arte crítica dos textos. de tal modo que nenhun-i leitor interpretaria uma peça jurídica. Comment tire la Bible. não.. 23. êste. pois.

por conseguinte. do exame do contexto. Distinga-se. coisas tôdas de que se costuma tirar partido na interpretação dos escritores profanos. os escritores daquelas épocas remotas. entre doutrina divina inerrante. em pontos de importância secundária. se vai manifestando deficiente a interpretação que a certos trechos se dava. já que esta só pode ser percebida mediante a consideração da sua face humana ou dos gêneros literários. o sua Santidade o Papa Pio XII manifestava em nossos dias a esperança deque os tempos futuros nos forneçam ainda novos meios de estudo e.. 6 da crítica... basta refletir que nos estudos humanos sucede como nas coisas naturais. mudança da Palavra de Deus (o Magistério eclesiástico nunca declarou verdades de fé as proposições dos exe . crescem pouco a pouco e não se colhe fruto senao depois de muito trabalho. contida na Escritura. o conhecimento mais exato de passagens da Escritura que nos ficam obscuras: "Não é para admirar se não se venceram nem resolveram ainda tõdas as dificuldades. quando não se possuíam tão esmerados instrumentos de trabalho. pois. pois. o que se verifica é. por conseguinte. tendo projetado luz valiosa sôbre as páginas bíblicas levam-nos a dizer que a genuína mensagem das Escrituras. arqueologia. Assim precisamente sucedeu que a muitas questões o . Acta Apostolicae Sedis 35 [1943] 310.. na proporção em que melhor se vão conhecendo os processos de redação dos povos antigos. Neste trabalho tenham os intérpretes bem presente que o seu maior cuidado deve ser distinguir claramente e precisar qual seja o sentido literal das palavras bíblicas. getas hoje revogadas). não era sempre plenamente percebida pelos intérpretes antigos.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 29 O fato de que a inerrante Palavra de Deus está associada aos gêneros literários dos antigos semitas ainda é fecundo para explicar um fenômeno aparentemente estranho: hoje os autores católicos já não atribuem à Escritura proposições que antigos e medievais afirmavam em nome da mesma. e interpretação falível que os homens podem dar a êste texto. sim. com o auxilio da história. o aperfeiçoamento dos métodos exegéticos e conseqüentemente a reforma da interpretação de um texto cuja mensagem em si mesma é una e constante. com tõda a diligência. antes. 5 Isto poderia fazer crer que a Igreja mudou os seus dogmas e pràticamente nega a inerrância da Palavra de Deus. Não é caso para desanimar. Em nossos dias.) 5 É o que se verifica principalmente na história das origens do mundo e do homem. e êste labor pode.. examinar e distinguir claramente que géneros literários quiseram empregar. Procurem-no.. O labor do homem é indispensável para se entender a Bíblia. intérprete deve. para tirar a limpo o pensamento do autor. aplique-se o exegeta católico àquele que é o principal de todos os seus deveres: indagar e expor o sentido genuíno dos Livros sagrados. o que se dá na Igreja não é mudança de dogma. mas há ainda hoje graves questões que não pouco agitam os espíritos dos católicos. As recentes excavações no Oriente. etnologia e de outras ciências. valendo-se da ciência das linguas. está claro que. todavia. 315. Divino ali jante Spiritu." (Enc. Tal conclusão seria precipitada. necessitar de remodelação à medida que se descobrem novos instrumentos de pesquisa. da comparação com passos semelhantes. Deus e as Escrituras não alteram a sua doutrina.

observe-se que a finalidade em vista da qual Deus moveu os hagiógrafos a escrever. mas em função de proposições religiosas. Contudo. não a Escritura mesma. depois de momentâneamente condenado pelo Santo Oficio (tribunal eclesiástico que não goza da infalibilidade própria do magistério universal da Igreja). popular. já que o homem procura a salvação dentro do cenário da natureza. biológica. comprovara-se que errônea era 4etermino4a interpretação dada à Sagrada Escritura. quanto às referências de outra ordem. pois. lhes parecia Inculcar o geocentrismo.) ." (Ibid. Na realidade. cientista que por volta de 1615 começou a ensinar a tese do movimento da terra em tôrno do sol. Galileo foi reabilitado e suas Idéias aceitas por exegetas e teólogos. a saber: embora a Bíblia seja a inerrante Palavra de Deus.0 A SAGRADA ESCRITURA E AS CIÊNCIAS NATURAIS Importa agora abordar mais detidamente o problema particular que acaba de ser insinuado. a qual deveria ser. Estas noções profanas na Bíblia servem de mero veículo. só nos nossos dias com o progresso dos estudos se encontrou felizmente solução. pelos autores bíblicos. astronômica. com uma constante aplicação virão a ser um dia plenamente dilucidadas. reconheça-se que o êrro estava contido não na Sagrada Escritura. 318. § 2. errôneamente Interpretada em tal sentido. Por isto é que. por conseguinte.7-15) como pe10 fato de que a Encarnação teve lugar na terra. entra por vêzes em aparente conflito com as ciências da natureza. Pode-se. com efeito. quis ensinar aos homens £nicamente verdades que importem à salvação eterna. o centro do universo. a qual se distingue da veracontroversas. a Sagrada Escritura não ensina tais conclusões de ordem meramente científica. Como será isto possível? Antes do mais. tanto por caúsa do propalado milagre de Josué (Jos 10. porém. não resolvidas e indecisas nos tempos passados.). esta. Desta afirmação decorrem importantes conseqüências: às proposições religiosas da Sagrada Escritura cabe veracidade absoluta. de modo nenhum temas que diríamos profanos ou científicos.mas na interpretação que os homens davam a esta.. Haja vista o caso de Galileo Gaifiei. a Sagrada Escritura também alude a conceitos de índole científica (física. esperar que tarnbëm as que hoje nos parecem sumamente complicadas e dificílimas. não são visadas em si. dir-se-á: tôdas as vêzes que uma antiga sentença exegética seja comprovada falsa à luz das ciências modernas. pré-científica. Muitos de seus contemporâneos julgavam que contradizia à inerrante palavra da Sagrada Escritura. era. etc. era estritamente religiosa: o Espírito Santo.30 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO e Em suma. podem exprimir veracidade relativa.

Les plus ancienfles traditions "Os dogmas (na narrativa biblica da criação) são revestidos à moda do Oriente e realçados por poesia maravilhosa. não julgou necessário revelar-lhes a estrutura do universo e dos sêres vivos. conceber . Ora bastava ao hagiógraf o esta veracidade relativa. não o interessa ir além disto (a menos que passe para os domínios da Filosofia e da Teologia). Steinman. mas se adapta ao modo de falar dos contemporâneos. tudo contempla de um plano superior. sim. aos olhos da ciência moderna. do morcêgo como "ave". Ainda hoje na linguagem cotidiana se diz que "o sol nasce e se põe".. A Bíblia. não há choque entre o mesmo e a ciência humana quando se ref erem às criaturas materiais.s. O leitor contemporâneo. permitiu. haveria uma abóboda cristalina. inculcar que todos os sêres designados mediante "tais" e "tais" noções se relacionam com Deus como criaturas dependentes do Criador. aliás. Como se poderiam. Tais noções. fala-se da baleia como "peixe". ao inspirar os hagiógrafos. com o homem. A cosmologia pressuposta pelo autor sagrado é. sôbre a terra) todavia corresponde ao que se ensinava entre os judeus antigos. sem os induzir em êrro científico. Estas expressões não deixam de ter fundamento objetivo. o firmamento. Mesmo quando o hamem de ciências se refere ao "nascer" e ao "pôr" do sol. a tangente que passa por cada ser visível e o liga com Deus. insustentável (a luz seria anterior às estrêlas. embora imperfeitas aos olhos do homem moderno. pode ser assaz livre. a perf&ção do Altíssimo (no caso. Procedem. Aplicação muito clara desta distinção tem-se na narrativa da criação em Oãn 1. como se vã. por assim dizer. só a interessa. mas. como se propunha o hagíógrafo. pouco importavam as fórmulas cosmológicas ou biológicas. sim. não tomará as alusões da Escritura como insinuação de teses físicas. versando sôbre os mesmos temas.4a.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 31 cidade científica. 7 dit Pentateu que (Paris.1-2. refere-os às suas causas próximas e dá-se por satisfeito depois de ter tomado conhecimento da estrutura de cada ente corpóreo. ao contrário. impregnada únicamente de Veracidade popular. 92: ótimas são as observações de J. pois êle não queria descrever as fases pelas quais o mundo se originou. enquanto a da Bíblia. desde que indicassem as diversas criaturas que cercam o homem). biológicas. portanto. Ora o Espírito de Deus. servir-se de outra linguagem seria mesmo tornar a mensagem religiosa da Bíblia ininteligível aos seus destinatários durante muitos séculos. todos sabem que não quer ensinar astronomia. refletida 4 técnica.n. de pontos de vista diversos: o cientista considera os elementos em si mesmos. destinadas a refletir. . cosmológica. Por isto é que a linguagem do cientista é precisa. pois.. que formulassem verdades religiosas mediante os conceitos de ciência que estavam em voga no seu povo. pois se baseiam na aparência que os fenômenos realmente apresentam.Já que o Livro de Deus nada quer ensinar neste setor. etc. 1954). eram suficientes para designar o mundo visível e suas relações com Deus.

82. Agostinho. Censorino. cuja cabeça vem a morder a própria cauda (princípio e fim coincidem no mesmo ponto. ° Em conseqüência. sim! Como. os quais se repetem regulamente. 8. e tal veracidade era suficiente para que o Espirito Santo. da barbârie dos escultores do estilo românico ?" 8 "2 certo que nunca haverá desacôrdo real entre o teólogo e o cientista. . A classificação é. não carece. Quaestiones naturales 1. "a dança de Siva que produz e destrói sucessivamente os mundos". intperf. Terão sido ingênuos (raïfs) os escritores javistas? Se o quisermos. cap. de resto. 'por nada afirmar irrefletidamente e não fazer passar por verdade bm conhecida aquilo de que não tenham conhecimento claro'. 2. caps. pouco prezavam a história. a sucessão dos tempos jamais conhecerá remate ou consumação final. 4. por muito elevado que fôsse o seu grau de cultura.ciclos do mundo presente mediante a ascese. De Genesi ad Iitt. V. a tendência de muitos indivíduos era emancipar-se dos. acontecimentos já verificados no pretérito se reproduzirão em época futura. Aristóteles. "a aspiração e a expiração de Brama". "a incessante alternância da Discórdia e da Amizade". Da geração e da corrução 1. sem dúvida. Enc. ou seja. c. Provi denttssimus. o foram Péguy e ClaudeI! Não falavam os antigos. S.30. Sonho de Cipião 7. De die natali 18. À luz dêstes princípios e exemplos.. Meteor. enquanto um e outro se mantiverem dentro de seus limites e se esforçarem. deficiente. 1. Agostinho. sérvio.1.) O Testemunhos ou vestlgios desta ideologia oriental encontram-se em: Empédocles. todo o movimento que se registra entre os dois têrmos nada de novo acarreta!).6. cf. Cicero. com sentimentos de compaixão. Stobeu. Fragm. onde o hagiógrafo apresenta a lebre como animal ruminante. § 3 • 0 COMO O ISRAELITA ESCREVIA A HISTÓRIA Os antigos povos do Oriente. as coisas de outra forma? Dizer que Deus concebeu em sua mente as nebulosas e criou a alma humana no fim de uma série de sêres em evolução não esclarece mais o mistério do que dizer que Deus plasmou o corpo do homem servindo-se de barro e plantou num oásis árvores frutíferas. Séneca. ep.. porém. 1. Era assaz generalizada a tese de que os séculos constituem ciclos fechados." (Leão XIfl. a fim de passarem a viver num mundo transcendente. Comentãrjo da Quarta Ecloga de Vergltio. 1. despertasse no israelita uma atitude religiosa. 3. 30 e 115.32 PAiA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO * Outro texto significativo é o de Lev 11. como diz S. 28s. 9. Ëste circular contínuo e monótono da história era dito "o ritmo do yin e do yang". o esquecimento e o repúdio do corpo e do corpóreo. mencionando-a na Lei. de veracidade popular (a lebre está continuamente a mover os rnaxiliares e os lábios) . c. 3. li. mostra-se inconsistente a supeita de desacôrdo entre a Sagrada Escritura genu'mamente entendida e os genuínos dados da ciência. Eclogae physicae 1. fidelidade e amor a Deus. Representavam esta concepção recorrendo à figura de uma serpente enrolada.

do Egito. RelIer. condizentes com o que referem outras fontes..) 11 Dentre as várias obras que nos últimos tempos têm proposto o confronto e a concórdia entre os dados da Bíblia e documentos de arqueologia. apenas se descobriram elementos -. aberrações.para se reconstituir a história da Assíria. entre as demais nações antigas do Oriente. se distinguia singularmente na arte de escrever a história. mestres da historiograf ia ocidental. Ora nesse ambiente o povo de Israel se distingue por ter cultivado a história. Quando o faziam. Geschichte der Altertums 14 1. de sorte que os relatos já não transmitiam a notícia de fatos ocorridos. ultrapassando as categorias culturais do seu ambiente. particularmente Interessante é a de W. paleontologia. Quando é possível controlar as afirmações dos cronistas de Israel à luz de textos profanos. exuberante (nos diversos acervos de ruínas excavados no Oriente até hoje. 1921. 227. etc.. não sem admiração. tenham com tanto esmêro cultivado a historiografia? E. suscitadas entre os hebreus pela idolatria dos povos vizinhos. com o relato contínuo e fiel das fases sucessivas da evolução humana. que coincide com os escritos bíblicos. E como se explica que os rudes judeus. os críticos modernos racionalistas: "Dentre todos os povos asiático-europeus. É o que reconhecem. e o ter feito com esmêro tal que só foi superado pelos gregos. sob a influência de uma ideologia monoteísta assaz forte para superar crises.. 315. etc. a transcrição de documentos dos arquivos orientais . Em Israel. Und die Eibel hat cfocft recht 1 (Duesseldorf. assiriologia. a historiografia se originou em época tão remota que causa surprêsa. Na Grécia surgiu mais tarde." (Ibid.). sômente Israel e a Grécia possuem autêntica historiograf ia. . ou seja.. e produziu logo de início obras de importância.. na literatura dos hebreus. Meyer. Pio XII chamava a atenção para tal fenômeno em sua Encíclica Divino 10 ai/Jante Spiritu: "As pesquisas comprovaram claramente que o povo israelita. visavam apenas episódios restritos ou envolviam as narrativas dentro de concepções lendárias.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 33 Isto explica que os antigos orientais pouco se tenham preocupado com historiografia. aquêles se comprovam fiéis à verdade. que ocupa lugar priviIegado entre todos os povos civilizados do Oriente. 1954). em grau maior ou menor. documentos parciais ." 10 Com efeito. inscrições. não se encontrou uma síntese histórica dos tempos antigos. e isto tanto pela fidelidade como pela antiguidade das narrativas. egiptologia. 11 A história de Israel assim descrita se desdobra uniformemente. é delineada a história do povo em traços contínuos e de modo que pressupõe a pesquisa de fontes. mas eram. a expressão da fantasia popular ou de uma religiosidade politeísta. mitológicas..

que nela se vai atuando e tende à consumação no fim dos séculos. a história era geralmente considerada qual "mestra da vida". porém. Longe de professar que a sucessão dos tempos carece de sentido. 40. inconfundível com a das outras nações do Oriente..26-45. ora mais claras ora mais veladas. nota-se. descreviam-nas com os traços característicos de duas "redenções" anteriores de Israel. paralelos entre si. ninguém estranhará. mestra da vida" (De Oratore 2. 14 Muito interessante a êste propósito é confrontar os livros dos Reis (San e Rs) com os das Crônicas.34 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A razão do fenômeno está na religiosidade de Israel. por revelação divina. ou seja.8s). 14 A pãg. Deus fala e age pelos acontecimentos. Is 35. posterior aos de 8am e Rs. omitindo uns. São. de Deus. pois não interessa a linhagem messiânica. dando-lhes côngruo desenvolvimento e realce.. Aliás. Outras observações se devem acrescentar à precedente. quanto a Davi. . porém.. os hebreus julgavam-na tôda perpassada por um plano divino. Em conseqüência. querendo predizer a futura Redenção messiãnica e a instauração visível do reino de Deus.. os escritores de Israel se tenham preocupado com a redação de suas crônicás. ainda os seguintes itens: a) a historiografia israelita é tôda pragmática-religiosa. Por exemplo. 11. evocando os acontecimentos do êxodo do Egito e os do regresso após o cativeiro babilônico (cf.Jer'31. magistra vitae luz da verdade. pois. sim. Os israelitas tiveram consciência particularmente viva dêste princípio. para o erudito. cf. nos grandes acontecimentosda história comunicações. a história do reino cismático do Norte (Samaria). 15-17. Os 2. a fim de melhor pôr em evidência o significado religioso dos episódios. 12 Entende-se. afirmar-se apenas esta nota da historiografia em Israel. selecionou os dados da história. que passa pela Casa de Davi no reino meridional. Tenham-se em vista. movidos por tal ideologia.. viam. 13 Cicero tem a história na conta de "lux veritatis .4. de fato.1-l0. é exaltado em Crôn com títulos que ate então só eram atribuidos a Moisés ("homem de Deus". valiosos.9). em algumas passagens historiográficas da Sagrada Escritura. .16-19. pois. em grande parte. o historiador deduz a lição contida nos fatos. 44. Não seria justo. justamente nas seções paralelas que o autor de Crôn. sempre que possível. que. serão indicados exemplos dessa escassez pragmática. sabiam que. acrescentando outros na trama anteriormente redigida. a escassez de pormenores que se diriam de ordem meramente profana. ou seja.. é silenciada em Crõn. referida em Rs. portanto.1-5. Éstes. Vis. a fim de se poderem interpretar com exatidão as crônicas existentes na Sagrada Escritura. pois. procura realçar o sentido religioso dos acontecimentos. entre os próprios pagãos. 31-36. 13 devendo as narrativas de feitos pretéritos servir de escola às gerações pósteras. o passado lhes aparecia qual mensagem divina a prenunciar reaJizações futuras ou a admoestar a melhor conduta de vida. 2 Crôn 12 Muito claramente se afirma esta concepção nos escritos dos Profetas. mas destituídos de importância para a salvação dos fiéis.

a cujos dizeres o hagiógraf o não intencionava subscrever.4). ao referir uma admoestação do Faraó Necao ao rei Josias. 1 Mac 5. O que interessava os autores bíblicos não era nem simplesmente contar o passado. Tal proceder redacional tem repercussão nos métodos de exegese: em presença de uma noticia de história aparentemente errônea na Sagrada Escritura pode-se supor seja devida a citação implicita ou a um autor anônimo. porém. Algo de semelhante se verifica ao se compararem entre si as seções paralelas do primeiro e do segundo livro dos Macabeus. o trono de Salomão é chamado "o trono de Jave" (CL 1 Crón 29. 6. o cronista. O autor de 2 Mac não hesita mesmo em interromper o fio da história para tecer reflexões teológicas em tôrno dêste ou daquele episódio (cf. imutável em si. 15 Esta designação talvez pareça paradoxal. homens que tudo viam à luz de Deus. 2 Mac 3. adaptadas ao desenvolvimento moral e inteletual do gênero humano. ora o Altíssimo não permitiu fizessem a descrição do pretérito como se fôsse algo de fechado em si.1.5. 7-10). Em 2 Crõn 35. as Intervenções de Deus em favor dos seus fiéis são muito mais freqüentes e vivamente inculcadas: notem-se 1 Mac 6. 9. os historiadores semitas.8). quando comparados com o magistério de viva voz.17-20. duns . perseguidor do povo de Deus) e 2 Mac 9.15-17.12-17. fêz que redigissem as suas narrativas de modo a conterem alusões ao futuro. Em conseqüência. J. 7. É bem possível que não tivessem a intenção de garantir a veracidade das passagensassim transcritas. nem perscrutar o porvir. ao contrário. faz questão de notar que pelo monarca pagão era o Senhor quem exortava à prudência.1-28 (descrição muito mais longa e calorosa. praticavam assim o que se chama "citações implícitas". 12. 4. que a história bíblica foi escrita por homens inspirados (no sentido acima exposto). 5. 13.28-30 (onde se poderia esperar).23. em tal caso o érro não teria sido endossado pelo historiador sagrado e não afeta15 l'Áncien Veja-se. entre outros. era muito exiguo no Oriente antigo. mas mostrar os traços de um grande desígnio divino que. 1 Crôn 17. enquanto a profecia ao futuro.21s.8). b) o senso de propriedade literária. ao ensinamento por escrito ou à atividade literária se atribuía pouco valor. 29. Note-se. o relato paralelo falta em 4 Rs 23. pois a história se refere ao passado.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 35 8. cheia de entusiasmo religioso). o reino de Judá é dito "o reino de Javé" (cL 2 Crôn 13. se vai desdobrando em fases simétricas. 43. "servo de Deus".1-16 (narrativa sóbria da morte do rei Antioco Epifanes.29. constituindo o esquema ou prenúncio de realidades maiores vindouras . os nossos hagiógrafos inclusive. 1947). de Judá.31-43 e 2 Mac 10. Guitton.14. a cronograf ia bíblica é por exegetas modernos chamada "história profética". Le ddveloppement des idées Testament (Aix-en-Provence. cf. se permitiam transcrever documentos alheios sem indicar as respectivas fontes. de "direitos autorais". embora nada fizessem para se distinguir do autor de tais ditos. No segundo. Em conseqüência do seu pragmatismo. 15.o que justamente é profecia. 2 Crôn 9.

Freqüentemente indicava as localidades e contava os tempos de maneira 16 cf. 11. Genêse. muitas vêzes. Ao leitor ficava a tarefa de fazer a síntese de dados às vêzes aparentemente contraditórios entre si. ibid. Tal caso é freqüente na Torá (Lei). torna-se raro o recurso à hipótese de citação Implícita para a solução de algum problema exegético. não se dava grande importância a pormenores tais como os do acabamento literário de uma obra.2-29 (bênção de Moisés sôbre as tribos de Israel). 9. 494.1-16.4b-3.36 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ria a inerrância da Escritura.. 16 Dado que o cumprimento destas duas condições dif'icllmente se pode averiguar. para isto. A. Cf.11-17. 1953). supõem circunstâncias e fases diversas da história de Israel. autores posteriores se permitiam retocar. J. Dt 33. para que se admita uma citação Implícita em determinada passagem da Bíblia. "Deutéronome". (2) sem ter a intenção de o aprovar ou de garantir a sua veracidade. que êle colocava nos lábios de outrem. à primeira vista. Cliaine. Em tais casos podia acontecer que o hagiógrafo não julgasse necessário reproduzir verbalmente o discurso. é preciso conste com certeza que (1) o hagiógrafo. 17 Os comentadores apontam como exemplos .1-2. divergem entre si. embora justapostas. Contudo. que reconstituir o ponto de vista próprio do autor de cada um dos documentos. onde sê encontram coleções de leis que. 2-27 (bênção de Jacó moribundo sôbre os seus filhos). que caracterizava os hebreus. tendo. 539. 2 Mac 1. ampliar. um autor transcrever dois ou mais relatos do mesmo fato provenientes de fontes diversas sem se preocupar com a fusão harmoniosa dos mesmos numa só peça literária bem trabalhada.740. sem denunciar explicitamente o seu trabalho de remodelação. como se fôra proferida tal qual figurava no texto. o decreto da Pontificia Comissão Bíblica de 13 de fevereiro de 1905 (Denziger. o historiador usava do discurso direto de preferência ao indireto. em Revue bftlique. em La Sainte flib1e de Pirot-Clamer I. 1909). onde se encontram duas narrativas da criação do mundo (Gén 1. 489. por exemplo.naturalmente sujeitos a dúvidas . assim como o trabalho de mãos sucessivas.1-3. "modernizar" obras dos antigos. de Gên 1. "Genêse". as quais. transcreveu um documento alheio. Em Gên 6-9 têm-se dois relatos do dilúvio justapostos com seus pormenores próprios. pois. Em 1 Mac 6.4a e Gên 2. embora possam bem ser conciliadas pelo exegeta atento. 17 o historiógrafo semita também não se preocupava muito com a exata cronologia e topografia dos acontecimentos. visto que o senso de propriedade literária não suscitava escrúpulos. 1898. de fato. Esta tendência se explica pela dificuldade de abstrair. É o caso. redigia então com suas palavras próprias o teor da oração. .24.os textos de Gên 49. Clamer. (Paris. ao referir ditos alheios. Enchiridion Symbolorurn. Podia.1-29 ocorrem três versões da morte do rei Antíoco IV Epifanes. Lagrange. um tanto desconexos entre si e destituídos de explicação que guie o leitor.24) redigidas independentemente uma da outra.

qualidades dos indivíduos a quem são atribuídos. portanto.20. nem por outro lado. acarretando làgicamente os períodos de vinte e oitenta anos (cf. sim. as listas genealógicas dos setitas e dos semitas. sem dúvida. expressa em famosa carta datada de 16 de janeiro de 1948: "O problema das formas literárias dos onze primeiros capítulos do Gênesis é muito mais obscuro e intrincado (que o da origem do Pentateuco). negar ou afirmar a historicidade em bloco sem lhes aplicar indevidamente as normas de um gênero literário sob o qual não podem ser classificados. projetando no passado os dados da cultura do seu tempo. 13. 32. Ciência e Fé na História dos Prinjór- dios (Rio. Com o decorrer dos tempos e o progressivo conhecimento do mundo oriental antigo. Referem. 179-198. mais aptos a transmitir determinada mensagem aos destinatários do livro. 67s. . científicas.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 37 vaga. Não se lhes pode. porém. de um lado. 5.31). acontecimentos ocorridos no pretérito. é de esperar se nos tornem claras algumas expressões de Gên 1-11 hoje ainda sujeitas a mais de uma interpretação.1. Podemos concordar em que êstes capítulos não formam uma história no sentido clássico e moderno. O primeiro dever da exegese científica neste particular consiste em estudar atentamente tõdas as questões literárias. Bettencourt. assim no livro dos Juízes o período de quarenta anos (duração média de uma geração) costuma designar acontecimentos rematados. cujo significado será exposto adiante à pág. por exemplo.17-24 e 5. É esta a mente da Pontifícia Comissão Bíblica.3. em Gên 4. tenham-se na memória. Para tornar mais significativos os episódios antigos. 18 g) em particular. o hagiágrafo não raro os descreve anacrônicamente. veja-se E. aludem provàvelmente a certos tópicos das cosmogonias e da história das origens de outros povos. históricas. mas. 19552). os ml2e primeiros capítulos cio Gênesis pertencem a gênero literário próprio.1-32. 4. interpretá-los tão segura e rigidamente como as demais seções de historiografia da Bíblia. Também o autêntico grau de cultura e civilização dos quadros e personagens bíblicos parecia negligenciável aos historiadores sagrados. Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das categorias clássicas e não podem ser julgadas segundo os gêneros literários greco-latinos ou modernos. mas é preciso confessar também que os atuais dados científicos não permitem dar uma solução positiva a todos os problemas que êles suscitam.30. As vêzes os números de dias. É o que se dá na "pré-história bíblica" (Gên 1-11). 28. transmitidos. em absoluto. Podia servir-se também de cronologia esquemática. entram na categoria de mitologia ou fábula. 15.11. 8. culturais e religiosas relacionadas com êstes 18 A respeito. mediante vocabulário e estilo muito dependentes de textos profanos. não seria lícito. meses ou anos não indicam. Jz 3. 16. duração.

seria necessário. é preciso praticar a paciência." 19 Eis as principais noções que elucidam o significado da expressão "BÍBLIA. que é prudência e sabedoria da vida. sua psicologia. . Nas páginas que se seguem. 19 Acta ApostoUeae Sedis 40 (1948) • 46s. reunir sem preconceitos todo o material das ciências paleoiflológica e histórica. adaptada às inteligências de uma humanidade pouco desenvolvida. em linguagem simples e figurada. numa palavra. O LIVRO QUE DEUS INSPIROU". encontrarão aplicação freqüente e fecunda. quando na realidade relatam as verdades fundamentais pressupostas à dispensação da salvação. Proclamar de antemão que tais narrativas não são históricas no sentido moderno da palavra induziria fàcilmente a se acreditar que elas não o são em nenhum sentido. Sàmente assim se pode esperar entender mais claramente a verdadeira natureza de algumas narrativas dos primeiros capítulos do Gênesis. Enquanto se espera. sua maneira de exprimir o pensamento e sua noção mesma de verdade histórica. em seguida.38 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO capítulos. juntamente com a descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. epigráfica e literária. seria preciso investigar os sistemas literários dos antigos povos orientais.

C. no tempo de Cristo. voltaram à Palestina e reconstituiram a nação sagrada (sée.outros descendentes de Sem. do qual tomou nome a nação arainéla ou síria. um dos pósteros de Sem.. ef. filho de Noé (cl. 4 Es 18. Ne 13. a língua usual do próprio povo de Abraão (cl.24). idiomas de que Deus se quis servir para falar aos homens na Bíblia: o hebraico. É o que nos leva agora a investigar e analisar as particularidades de expressão e estilo com que os autores do Antigo e do Novo Testamento marcaram as páginas bíblicas. já que a tribo de Judá se tornou a estirpe do Messias. era dotada de língua muito semelhante ao hebraico. tradicional. O adjetivo "hebraico" se deriva do nome do Patriarca Heber ('Êbher ou 'Ibhrfj. também descendente de Sem: o povo hebreu". todo o povo messiânico ou israelita tomou outrossim o nome de "judeu" ou "judaico". 1 Éste mesmo povo é também dito "israelita". DIOMAS SEMITaS OCIOE ' iI . conta-se ainda Arara.CAPÍTULO III PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS No capítulo anterior. CRENTAL DICO ASSÍRIO-BABI. VI a. Chama-se igualmente "o povo judeu". o aramaico e o grego. residente na Sina e na Alta Mesopotâmia. HEBRAICO MOASITIc0 -PONtUO .26). 1V/til a. 1 Entre . porém. mormente quando após o exilio babilônico foram os filhos de Judá que. era o aramaico o idioma falado entre os judeus. Foi de Heber que tomou nome o povo oriundo de Abraão. Gên 10. ficando o hebraico reservado para o culto sagrado. nome derivado de Israel (ou Jacô). Judá era um dos doze filhos de Jacã ou Israel.21-25). um dos netos de Abraão. La SETENTRIONAIS Nico ERIDIONAIS CANANE U ÁRA' " ar tOPE ANTIGO CANANEU FENICIO. é o hebraico. dizia-se que a inspiração divina não extingue a contribuição do escritor humano na redação dos livros sagrados. mais rica.C. e sutil do que êste. Três são os idiomas comumente ditos sagrados. cuja língua materna.). de modo a vir a ser nos séc. O aramaico se foi tornando cada vez mais comum entre os povos do Oriente (principalmente em suas relações diplomáticas. apelativo proveniente de Judã. em maior número.

é de grande valor filológico para se reconstituir tanto o teor original de algumas passagens como a mentalidade dos antigos judeus. Esdr 4. da cultura religiosa do povo de Israel. torna-se capaz de discernir os matizes e as finuras de expressão que os livros sagrados. em boa tradução vernácula. portanto. mesmo os que escreveram em língua grega. Cf. De resto. Mateus). Jer 10. Ésses três idiomas são.40 BABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Os idiomas hebraico e aramaico. "O conhecimento mesmo das linguas originais se torna inútil. embora escrito em grego vuigar correto..12-26. no Antigo Testamento. ao qual se seguirá o § 2. porém. Em grego foram concebidos. É preciso aprender a ler entre as linhas e procurar penetrar aos poucos no ambiente de vida em que se movia o autor sagrado. o presente capítulo se prolongará no cap. ambiente que transparece no texto biblico. 1 Sendo assim. É possivel que também os livros de Tobias e Judite. Lucas). João. mais precisamente. La Zecture chréticnne de Ia Bible (Maredsousa. concernente aos antropomorfismos bíblicos em particular." Pergunta-se.er. outrossim todo o Novo Testamento (com exceção do Evangelho de S.4b-7.28. herdeiros. 0 O GÉNIO DA LINGIJA HEBRAICA Não há dúvida. Serão expostas abaixo no § 1. Deve-se notar ainda que a tradução gtega do Antigo Testamento dita dos Setenta Intérpretes. cit. § 1. 45. quais as principais características de pensamento e linguagem dos autores bíblicos? 2 Eis como se localizam os dois idiomas dentro da respectiva fasnilia lingülstica: 3 O.0 dos Macabeus. dos quais atualmente só se conhecem traduções. 2 Em hebraico foram redigidos quase todos os livros do Antigo Testamento. se não é vivificado por uma comunhão simpática e intuitiva com o gênio próprio da civilização à qual pertencia o escritor biblico. adquirir o conhecimento dos idiomas originais. em grande parte.18. assim como do Evangelho de S. 4 Charll. O aramaico é o idioma original de fragmentos do Antigo Testamento (Dan 2. hoje só existe em tradução grega. o livro da Sabedoria e o 2. oriunda em Alexandria (Egito) nos séc. Mateus. . torna-se importante para o estudo dos livros sagrados ter em vista as notas constitutivas do que se chama "o gênio" ou "espírito" da língua hebraica. eram hebretis ou. ob. hebraica.0. o qual.8-6.11).0. pois. difícil é à maioria dos fiéis que desejem ler a Sagrada Escritura. que há de considerar o uso do nome e dos números nas páginas sagradas. na Sagrada Escritura. pode ser considerado obra-prima do gênio literário semita.a mentalidade semítica ou. os escritores bíblicos. 1950). veículos de mentalidade bem característica . IV. hajam sido redigidos originàriamente em aramaico. pelo menos (como no caso de S. 7. Todavia quem se compenetra da mentalidade ou do gênio semítico. 111/11 ao. 144. Charlier julga que o Evangelho de S.. Com efeito. lhe oferecem. pertencem ao grupo das línguas semiticas.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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1. O gênio semita é intuitivo muito mais do que abstrativo. O que quer dizer: o judeu, ao perceber um objeto; não se preocupava grandemente com o discernimento de notas essenciais e acidentais do mesmo; apreendia-o e descrevia-o simplesmente com suas características concretas, individuais. O concreto interessava-o mais do que o abstrato.
Eis alguns casos em que o israelita, em vez de usar conceitos e têrmos abstratos, universais, se comprazia em circunlocuções de caráter mais concreto: Em lugar de dizer "tomar posse, dominar", o judeu às vêzes preferia a expressão "lançar a sandália sôbre. .", que lembrava o gesto concreto ou o cerimonial da tomada de posse: "Sôbre Edom lançarei a minha sandália, Sôbre a terra dos filLsteus cantarei o meu triunfo " (Si 59,iO.) ei. si 107,10; Gên 13,17; Dt 25,9; Jos 10,24; Rut 4,7. A expressão "sentir-se feliz, alegre" podia ser substituida pelos dizeres "ter a alma saciada de gordura", visto ser a gordura sinal de suficiência ou plenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina: "Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, E de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor." (Si 62,6; cf. 51 35,9.) Quando alguém se julgava "em perigo de vida", dizia concretamente que "trazia a sua.alma nas mãos", já que "ter nas mãos" é a atitude que imediatamente precede a entrega: "Minha alma está sempre em minhas mãos, Mas não esqueço a tua lei." (51 118,109.) Cf. Jz 12,3; 1 Sam 19,5; Jó 13,14; Est 14,4. "Expor a própria vida" ou "estar decidido a morrer" era equivalente a "tomar a própria carne entre os dentes", ou seja, morder-se: "Tomo a minha carne entre os meus dentes, Coloco a minha vida em minha mão." (Jó 13,143 A Idéia abstrata de posse ou de largueza, liberalidade era expressa pelo têrmo concreto "mão", já que a mão é o órgão que diretamente apreende ou distribui. Assim lê-se em Lev 5,7: "Se sua mão não atingir o valor de uma ovelha,...". O que quer dizer: "Se suas posses não lhe permitirem comprar uma ovelha,. 3 Rs 10,13: "O rei Salomão deu à rainha de Sabá tudo que ela desejava.., como a mão do rei Salomão", Isto é, ".. . de acórdo com a opulõncia de um rei tal como Salomão"; Gên 43,34: "A porção de Benjamim era cinco mãos mais abundante que as porções de todos êles (seus irmãos)", frase em que "cinco mãos" significam "cinco vêzes".
5 Observamos que as traduções modernas da sagrada Escritura não raro usam os verbos próprios, em vez de ficar prêsas às expressões mais concretas do texto original. Os semitismos não seriam sempre inteligiveis ao leitor moderno.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

A figura de linguagem "mão curta" ou 'encurtada" designava parcimônia ao dar: "A máo do Senhor seria curta demais? Verás sem demora se acontecerá ou não o que te disse!", falava Javé ao anunciar as codornizes no deserto (Núm 11,23); "A mão do Senhor não é curta demais para salvar." (Is 59,1.) "Governar" tinha por sinônimo o têrmo mais concreto "julgar", e, em vez de 'Governador", podia-se dizer "Juiz", visto que, num povo primitivo, a função mais freqüente de quem governa é a de julgar os litígios entre os súditos. Haja vista o título do livro dos "Juizes" (= governadores de Israel desde os tempos de Josué até a monarquia). "Poder, fôrça" era conceito expresso pelo vocábulo "chifre", pois é neste que parece residir a fôrça de muitos animais:

"(Deus é) meu escudo é o chifre de minha salvação (= a fôrça que me salva)" (SI 17,3.) "Abaterei todos os chifres dos malvados, E os chifres dos justos serão exaltados." (S1 74,11.) A tendência a fixar a atenção sôbre os indivíduos concretos levava o hebreu a realçar o que há de dinâmico em cada ser; comprazia-se em considerar o comportamento e os efeitos dé pessoas e coisas, mais do que o seu Valor estático, essencial. Assim tudo, de certo modo, se podia tomar vivo e agente, para o semita. Os substantivos do vocabulário hebraico são os próprios verbos ou derivam-se de verbos; o verbo (ordinàriamente constituído por três consoantes) é a palavra fundamental do léxico israelita. Isto bem mostra que o aspecto principal sob o qual o judeu visava cada objeto era o aspecto dinâmico, ativo. Em particular, note-se que o têrmo dabhar, que originàriamente significava "palavra", podia igualmente designar "coisa", pois tôda coisa era pelos judeus concebida primàriamente como efeito, efeito, sim, direto ou indireto, da palavra criadora de Deus. Conseqüentemente às premissas até aqui expostas, tendia o semita a focalizar, acima de tudo, a importância vital, a mensagem prática, que pudesse estar ligada às pessoas ou coisas apreendidas. O orador e o escritor, ao dissertarem, baseavam-se muito na sua experiência pessoal e visavam despertar impressões semelhantes, muito vivas, nos seus ouvintes e leitores. Procuravam transmitir da maneira mais penetrante possível um estado de aima. Isto faz que uma página de literatura semita seja impregnada de movimento, variedade de pessoas e coisas que se sucedem com realismo; emoções, afetos diversos a perpassam. Já que a linguagem
O "Ce que, par ãxemple, nolLs considérons comme personnification littéraire correspond chez les Sémites à une perception animée du monde extérietr, car l'esprit sémitique saisit l'un4vers dans son moizvement; ii est plus sensible au dylZanflSme de la vie qu'd la cotitemplation des idées et des /orines." (E. Beaucamp, "Poésie et seus de la nature dans Ia Bible". em Bible et vie chrétienne 11 [19551 25.)

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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semita ficava particularmente ligada à experiência, diz-se que ela evocava ainda mais do que exprimia. 4. Consciente de que, para transmitir a experiência ou as intuições, as palavras são por vêzes pobres, o semita recorria freqiientemente aos gestos, às pausas, aos artifícios da entoação de voz. O falar dos antigos judeus terá sido exuberante, teatral, como o de certos povos orientais de nossos tempos. Dada a sua vivacidade, o israelita era muito dado às expressões fortes, hiperbólicas ou contrastantes.
Hipérbole muito ousada é a do rei Benadad da Síria, que, desejando chamar a atenção para o seu numeroso exército, exclamava: "Tratem-me os deuses com todo o rigor se a poeira da Sarnaria basta para encher a palma da mão de toda a gente que me segue 1" (3 Rs 20,10.) Hiperbólicas também são as expressões "a terra inteira, todos os povos", que certamente se referem a certas regiões ou nações apenas, em Gên 41.54.57; Dt 2,25; 2 Crôn 20,29; At 2,5. Visando distinguir entre "amar mais" e "amar menos", o judeu empregava os têrmos "amar" simplesmente e "odiar", a fim de que a oposição mais se evidenciasse. É o que se verifica, por exemplo, na frase de Jesus: "Se alguém vem a Mim e não odeia pai, mãe, espõsa, filhos, irmãos e irmãs, até mesmo a própria vida, não pode ser meu discipulo." (Lc 14,26s.) O "odiar" desta frase é ôtimamente explicado pelo texto paralelo de Mt 10,37, onde se lê "amar menos". No mesmo sentido, em Mal 1,3, diz o Senhor: "Amei Jacó, e odiei Esaú." (Cf. Ram 9,13.) Em Jo 12,25 afirma Jesus: "Quem ama a sua vida, perde-a; e quem odeia a sua vida no mundo presente, guarda-a para a vida eterna." Nesta sentença a oposição "amar-odiar" significa "satisfazer desregradamente" e "coibir devidamente" as tendéncias da alma, podendo a coibição ou renúncia levar até a morte do martírio. Os judeus eram particuiarmente dispostos a recorrer aos contrastes pelo fato de que a lingua hebraica carece de forma p1rópria para indicar o grau comparativo dos adjetivos. O confronto podia ser expresso pela justaposição de têrmos opostos, sendo a oposição subentendida como algo de relativo ou gradativo apenas. Esta observação ajuda a entender o texto do Antigo Testamento citado por Jesus: "Desejo (a prática de) misericórdia, não (a oferta de) sacrifício." (Mt 9,13; cf. Os 6,6; 1 5am 15,22.) A afirmação quer dizer: "Mais do que os sacrifícios rituais, agrada-me o exercício da caridade e da misericórdia.' Em Mt 22,14 declara ainda o Senhor: "Muitos são chamados, poucos escolhidos." Axioma que no seu contexto semítico provávelmente significa: "Maior número é o dos homens chamados (à fé); menor número, o dos escolhidos (para a bem-aventurança eterna)

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

5. Após quanto foi dito acima, entende-se bem que os israelitas usassem de freqüentes comparações e imagens, visando também por esta via impressionar mais profundamente os ouvintes. Já Que os hebreus tendiam a considerar o aspecto dinâmico e vital de cada ser, sabiam aproveitar-se largamente dos objetos materiais que os cercavam, para ilustrar verdades abstratas ou sobrenaturais; daí, na Sagrada Escritura, o uso abundante de símbolos. Êstes constituem, sem dúvida, um artifício muito apto a traduzir o sentido concreto e o valor que para a vida têm as proposições religiosas. As parábolas não são senão símbolos mais desenvolvidos ou explicados: constam de uma história fictícia, à qual o narrador liga determinada mensagem doutrinária. Para se depreender esta lição, não se pode esquecer que na parábola nem todos os elementos são portadores de significado superior; alguns são envolvidos na narrativa ijnicamente para sustentar os elementos-chaves (assim na parábola do filho pródigo, em Lc 15,11-32, não se queira atribuir valor doutrinário ao anel nem ao calçado dados ao perdulário que volta, nem ao vitelo abatido, vv. 22s; êstes pormenores visam ftnicamente tornar mais viva a lição da parábola, que inculca a misericórdia de Deus para com o pecador). O simbolismo tinha especial aplicação para exprimir atitudes ou qualidades de alma; em vez de usar têrmos próprios, neste árduo setor os judeus recorriam freqüentemente a expressões derivadas do mundo irracionai, as quais não deixam por vêzes de nos causar estranheza (contudo o recurso se compreende bem à luz da mentalidade dos semitas: considerando primàriamente a natureza em função do Criador e do homem, fàcilmente ligavam o conceito de determinada qualidade de Deus ou do homem com tal elemento material). Haja vista um ou outro exemplo:
a idéia de fraqueza humana (tanto moral como física) era expressa pelos têrmos 'carne, poeira e cinza: "Os egipcios são homens, não Deus 1 Os seus cavalos são carne, não espirito." (Is 31,3; ci. Gên 18,27; 36 30,19) a fortaleza, ao contráto, era associada à idéia de montanha, rochedo. Por isto Javé é a montanha, é "meu rochedo", no qual o homem se abriga encontrando amparo (cf. Si 17,3; 18,15; 613.8) é) a beleza, o encanto (mesmo espiritual) eram significados por simbolos muito materiais. Particularmente interessante, sob éste ponto de vista, é a figura do espôso no Cântico dos cânticos, cujo aspecto atraente é assim descrito "Meu bem-amado é fresco e rubicundo; Distingue-se entre dez mil. Sua cabeça é ouro puro, Seus cachos de cabelos, flexíveis como ramos de palme ira, São negros como o corvo.
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veja-se o Apêndice a êste capitulo.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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Seus olhos são como pombas à margem dos riachos, As quais se banham em leite Suas faces são como plantações de bálsamo, Como canteiros de plantas aromáticas. Seus lábios são como lírios Dos quais corre a mirra mais pura. Suas mãos são cilindros de ouro Ornados com pedras de Tarsis. Seu busto é obra-prima de marfim, Recoberta de safiros. Suas pernas são colunas de alabastro, Pousadas sõbré bases de ouro puro. Seu olhar é como o do Líbano, Elegante como o cedro. Sua palavra é doçura. Tõda a sua personalidade é puro encanto. Tal é meu bem-amado, tal meu amigo, Õ filhas de Jerusalém 1" (Cãnt 5,10-16.) Neste quadro são postas em realce três qualidades do espõso: fortaleza e virilidade, designadas pela comparação de seus membros com peças de ouro, mármore, marfim (vv. 11.14.15) ou com os imponentes cedros do Libano (v. 16); raça e beleza masculinas, significadas pela menção de cõres, elementos aromáticos ou doces (flõres, árvores) nos vv. 10.11.13.15.16; pureza e fidelidade, traduzidas pelas imagens da pomba, da água, do leite (v. 12). A mente do autor não se deixava perturbar pela combinação de símbolos tão heterogêneos; de cada um déstcs focalizava apenas o aspecto que se enquadrava dentro do conjunto e podia evocar a idéia de encanto masculino. Para desfazer a impressão de rigidez, talvez suscitada pelos símbolos de pedras e metais preciosos, o hagiágrafo em outros lugares recorria a imagens de ordem diversa, que completavam as anteriores: "Corre meu bem-amado, E toma-te semelhante à gazela Ou ao pequenino da corça Sôbre as montanhas de bálsamo 1" (8,14; cf. 2,17.) Por sua vez, a figura da espôsa no Cântico dos Cânticos é descrita com Imagens paralelas às do espõso: a beleza feminina aparece sob os sinais de flõres, palmas, objetos perfumados ou doces (cf. 2,1s; 4,10s.14); por seu encanto e pureza, a jovem é comparada à pomba (6,8s; 1,15; 4,1; 2,14); a sua fecundidade é assemelhada à de animais domésticos e cereais (4,2; 6,5s; 7,3s) ; 8 d) a índole agradável, aceitável, de uma oferta feita a Deus era simbolizada pelo imaginário perfume da oferenda. Para dizer que Javé a aceitava, o semita afirmava que o Senhor sentia tal aroma com prazer. Foi o que, conforme Gên 8,24, se deu quando Noé ofereceu o sacrificio após
8 Ao interpretar desta forma os simbolos do Cântico dos Cânticos, seguimos a autorijade de T. Boman na sua famosa obra Das hebraeische Denken im Verglelch mit dem griechischen ( Goettingen, 1954), 62-69.

nossos hagiógrafos. Confirma-se assim a observação já feita: não se preocupavam tanto com o valor estático quanto com o aspecto diná.3s). dando a perceber ao leitor novos matizes da idéia dominante. a seguir. os semitas. não era a dos arquitetos. que constroem gradativamente de baixo para cima. contemplava-o do outro lado. art. principalmente quando O "Les écrivain. Assim também as frases paralelas dos semitas não são meras repetições. e com razão. 1 5am 26. mas a dos músicos. ilustra igualmente bem o proceder estilístico dos semitas: a linha. que logo de início propõem o seu tema ou leitmotiv e.19).8 (c!. Ao contrário. repetia a mesma idéia acrescentando-lhe de cada vez uma circunstância nova. nâo se detinham em anausar as linhas e o contôrno de cada objeto: em vão se procuraria na Bíblia a descrição de uma paisagem de sol nascente ou poente. cit. Davi. porém. Aussi La communion entre l'homme et Les réalités extërteures s'établit-eLle par relation de mouvement à m. Em suma. no decurso da melodia. que a arte conforme a qual os escritores judeus compunham as suas frases. esta. o observador que faça o trajeto da espiral. até completar a enunciação do pensamento ou a enumeração dos pormenores. de uma noite de luar ou de estrêlas múltiplas. apreende com clareza cada vez maior o ponto final.. da espiral. o fazem voltar com variações sempre novas. feito isto. Tem-se dito. o orador afirmava compendiosamente o que tinha em vista dizer (propunha como que um prelúdio musical. considerando a ação de tudo iso na sensibilidade e na mente do homem. a evocação de uma floresta com sua vegetação. 30. suas aves a cantar. para ir aos poucos abrangendo tôda a realidade. seria desenvolvido). onde já ressoava antecipadamente todo o grande tema que. O israelita não era muito propenso a subordinar entre si as proposições do Seu discurso.ouvement. O que êstes quadros têm de belo. mico de cada ser. Le dynamisme de la peizsée d'israel te discerne -dans la nature que ce qui bouge. 8. mas apresentam-se cada vez mais densas. as orações dos santos sobem a Deus como agradável incenso. Em Apc 5. nenhuma dessas voltas. estando para oferecer. o semita o exprimia afirmando diretamente as impressões que tais cenas causam no observador. ei norz par une mise en correspondance de nos dii férenis états d'àme avec lordonnance du monde matérieL" Eeaucamp. é simplesmente a repetição da anterior... em frases coordenadas à primeira. percorrendo círculos.. Outra particularidade do estilo semita conexa com as anteriores é a exposição das idéias em frases paralelas coordenadas. esperava que a mesma coisa se desse (c!. tendia a desenvolver o pensamento conforme um esquema que se poderia assim reproduzir: numa proposição inicial.46 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO o dilúvio.s sacrés te se rnontrent guêre enelins à analyser Les lignes et à dessiner Les contours. O judeu contemplava o seu objeto de um lado. suas fontes. volta periôdicamente aos lados direito e esquerdo do eixo. 6. ou seja. A figura de uma espiral que se vai estreitando na direção de cima para baixo. .. voltando aos mesmos lados.

senão o ato de recolher. quando a frase posterior acrescenta algo de novo (mas acidental) à anterior: circunstâncias de tempo. embora nem todos os estudiosos o reconheçam. etc. a verdade é então realçada pela justaposição dos contrastes. João. apos narrar o milagre da multiplicação dos pães (1-15). bina vem a ser "compreensão. Eucaristia que o Senhor fêz a seguir (22-72). o Apóstolo S. ao contrário. diz-lhes então o Salvador: 10 "O semita diz tudo em cada frase. etimolàgicamente falando. La lecture chrétienne de la Bible. Também neste caso a repetição não se torna supérflua. porém. traços.. o processo de compreender consistia princpalmente em perceber os diversos aspectos da verdade e formulá-los em justaposição? Ao contrário. para o judeu. Caráter sintético. O caráter antitético se verifica quando a frase paralela repete em têrmos negativos o que a precedente disse em têrmos positivos. vocábulo derivado de lego. Notemos o lento desabrochar do pensamento de Cristo neste sermão: Os judeus aglomeravam-se em tôrno do Mestre em Cafarnaum por causa do pão terrestre ou natural que êle acabara de multiplicar. ora outro aspecto do pensamento. éle o tem. acumula sôbre éste esbôço multidão de traços aparentemente autónomos e não raro contraditõrios. XIX. cujo significado original é "separar. O semita. acrescentando de cada vez um retoque ou nova precisão. refere a longa promessa da S. é bem calculada de modo a impressionar o ouvinte. a segunda proposição tem por finalidade agir mais vivamente sôbre o espírito do leitor. enriquecendo incessantemente ora êste aspecto. Aristôteles. comprazia-se em despertar a impressão de "choques" de idéias. Fala-se também do paralelismo sinônimo dos hebreus. A titulo de exemplos de paralelismo." Charlier. lhe parecia grande demais para poder ser abraçada de uma só vez. Porfírio e outros). . VI do seu Evangelho. recolher. 10 A tendência dos hebreus a coordenar as idéias antes do que a subordiná-las se traduz também num pormenor filológico: para o israelita. o "colecionar" e 'pôr em ordem" as diversas facêtas da realidade ? O silogismo (de syn e lego) não é. O escritor semita esboça primeiramente uma rápida silhueta do conjunto. O paralelismo semita de que falávamos acima pode ter caráter sintético ou antitético. Não quer isto dizer que. dividir". inteligência". lugar. a "razão" era dita logos. de resto. causa.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 47 era realidade religiosa. eis algumas passagens caracteristicas: a) no cap. a seguir. Êste se verificaria quando as frases só diferem entre si pelo emprêgo de têrmos equivalentes. Êste proceder lembra um pouco os métodos da Escola de pintura impressionista de fins do séc. em pinceladas sucessivas. o conceito "compreender" era expresso pelo vocábulo bin. apresentado compendiosamente na fórmula introdutória . que tanto cultivaram o raciocinio e os silogismos (cf. 150s. Esta denominação não insinuaria que os gregos atribuiam k razão.. entre os gregos. como tarefa primária. que o ôlho da alma sabe polir e combmar num plano superior. mas volta sucessivamente à carga.

Sou o pão vivo. que do céu desci.51. visado desde o inicio do discurso. depois de ter fitado a sua futura prõsa.) E dêste fato que Jesus parte no seu discurso. e o pão que hei de dar.. a carne para nada serve. acrescenta tratar-se de novo pão do céu. o maná dado por Cristo poderia ser dito simplesmente o pão da vida (eterna): "Em verdade.31s e Éx 16." (Vv. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. •tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. objeto mais digno das aspirações dos ouvintes. Jesus anuncia um pão do céu.54s.. Êste objeto. Se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue. Jesus mais uma vez aprofunda o seu pensamento: o novo maná. em ulterior instância. voa sôbre ela aproximando-se em circulos concêntricos.24s. foi sendo considerado sob vários aspectos.. 26. mas enquanto vivificados pela Divindade ( no caso. contido no Pão da Vida. é a minha carne.13s." (V. à semelhança do que se dá com a águia que. à diferença do maná de Moisés. que os judeus procuravam. para finalmente atingir o objeto invisível. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. 48. mas porque comestes pão e estais saciados. Todavia.. não. 64. é identificado com a carne e o sangue do próprio Cristo: "Eu sou o pão da vida. para a vida do mundo. repetindo e desenvolvendo a idéia.. os judeus já o conheciam: era o maná.. Jesus.." (Vv. dita "Espirito").) Todo êste discurso se deixa dispor em círculos concêntricos: Jesus falou.. passando dos conceitos mais vastos e dos elementos visíveis a conceitos mais precisos. não tereis a vida em vós. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. em verdade vos digo: vós me procurais. Si 77.52. um pão do céu. mas já "pão da vida". dado por intermédio de Moisés outrora no deserto (cf. 6. Começa por insinuar que a multiplicação dos pães devia ser entendida como sinal de realidades transcendentes. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá a vida' ao mundo.. porém. cada vez mais próximos da realidade final. tomados em sua realidade natural e material apenas. superior ao da terra.48 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO.. que a êles estaria unida: "É o Espirito que vivifica. dito não apenas "pão do céu" (como no Antigo Testamento).. Por isto.) Não é tudo. para finalmente "dar o bote" com tõda a precisão: .) Uma derradeira precisão ainda se impunha: tratar-se-ia da carne e do sangue do Filho do homem. Sab 16. que não preservara da morte os israelitas no deserto. 32s. não porque vistes sinais. principal. E quais seriam estas realidades? Primeiramente em oposição ao pão da terra. "Em verdade." (V.20).

Paulo aos Romanos 6. cada qual com seus matizes. como ainda viveríamos no pecado? Então não sabeis que nós todos. Cris b) outro exemplo. por efeito do batismo. Exprime-se no ritmo de "vai-e-vem" contemplativo a que acenamos: "Nós que morremos ao pecado. cremos que viveremos também com Êle. se acha num estado de morte (ao velho homem) e vida nova. ocorre o mesmo artificio de estilo. antes. encontra-se na epístola de S. por morte semelhante à de Cristo. como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai. fomos batizados (imersos) em sua morte? Por conseguinte. vivamos. Se. mas entre os povos antigos em geral.2-8. afirmam sempre a mesma verdade. c) o paralelismo antitético dos semitas podia tomar a seguinte modalidade: para exprimir a 'totalidade". O Apóstolo ensina que todo cristão. não sõmente entre os semitas. fomos enxertados em Cristo.. por exemplo. se morremos com Cristo. assim como nas línguas modernas (se bem que em proporções mais restritas). se diz: "Farei por ti o possível e o impossivel" no sentido de "tudo farei por ti". configurada à de Cristo.. Sejam mencionados alguns textos extrabiblicos da antiguidade: .PAItTJCULAEIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 49 — . Ora. a fim de que o corpo contaminado pelo pecado fõsse destruído e já não sejamos escravos do pecado.' Êste trecho não apresenta pràpriamente proposições concatenadas de modo a formar um raciocínio. o autor enunciava os têrmos opostos ou extremos que circunscreviam o seu conceito ou entre os quais girava o seu pensamento. 8.ca do 1- - s' €ese. Ainda hoje. a fim de que. seremos enxertados também por ressurreição semelhante à dÊle. que fomos batizados em Jesus Cristo. embora menos claro do que o anterior. verifica-se nêle a coordenação de frases que. Sabemos que nosso velho homem foi crucificado com Cristo. 11 Assim: 11 Aliás. fomos com Êle sepultados pelo batismo em sua morte.também nós uma vida nova.

Electro. Gên 1. E. "sair e entrar".7 diz o rei Salomão ao Senhor: "Sou pequenino e jovem. Amom. tôda a população" (cf. quais. que propõe. Ser 51. Bacchantes. o poeta satirico latino. . 3éme série (1945). Aponta-se na literatura grega um emprêgo semelhante da mesma expressão: confonne Sófocles. dizia de um homem glutão: "Manducavit quod fim et quod non pai. 2 Sam 14.6) "(O Senhor) encheu-os (os primeiros pais) de ciência e inteligência. Sófocles. crianças e anciãos" significava "todos os habitantes. servia para exprimir toda a atividade de um individuo. Veja-se ainda Euripides.) Como conceber que Jesus tenha perguntado se é licito cometer o mal ou matar em dia de sábado? A tradução. Lc 6. e não posso mais sair nem entrar. a rainha se retirou "antes de proferir algo de bom ou de mau". de que carecia o hebraico (cf. "homens e gado" era o binômio equivalente a "todos os sêres vivos" (cf. Edipo Rei 300. 14. 800.8). as que é licito praticar?" (haja vista o rigor dos f ar!seus em relação à observância do repouso do sábado). que governas as coisas que nao existem e as que existem (= tádas as coisas) . Ãnttgono 1109. 50. Wmn relato egípcio do Médio Império. Ser 36. já que tudo que existe de concreto é bom ou mau (cf.17. Antigono 1245. 91-103. L'ezrpression de la totalíté par l'opposition de deur contraireC'." Cf.22.9. Is 10. 29. dentre a totalidade das obras possiveis. Plauto.".21.3)." Trinummus. tôdas as coisas" podia ser circunscrita pela expressão "o bem e o mar'. Suys. 360. Si 123. 31.Comeu o que havia e o que não havia. a seguinte questão: "Em sábado.22). Edo 11. Ou em têrmos ainda mais claros: "Em dia de sábado.50.) em 3 Es 3. 305. onde se lê verbalmente: "t permitido em dia de sábado fazer o bem ou fazer o mal.1. Etude sur te coizte dii FelZah plaidoyeur (Rome." (Dt 31. 1933). "alma e carne" designava "o homem inteiro" (cf. em Vivre et Penser. grande dos grandes. Estas referências se devem a O. Já 14. Entenda-se: "desapareceu sem dizer palavra". meu mestre. "céu e terra" supria o têrmo "o Universo". não será licito fazer absolutamente nada? Não será permitido nem mesmo praticar o bem salvando uma vida ?". 1.18. um camponês se dirigia ao seu juiz nestes têrmos: "Grande intendente. Lambert. sim. demasiado servil. é infiel ao pensamento de Cristo. "Lier-Délier. 12 Verifique-se também: Gên 24. deu-lhes a conhecer o bem e o mal (ciência muito ampla) . não sei sair nem entrar.22).50 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a idéia de "tudo.4. J05 6." 12 Éste modo de falar ocorre também nos lábios de Jesus em Mc 3. "homens e mulheres. tendo ambos os verbos o mesmo sujeito.2. até mesmo as tarefas de administração régia: "Disse-lhes (Moisés) : Tenho hoje cento e vinte anos. Um documento egípcio fala do grande deus de Tebas.24. salvar uma vida ou extingui-la?" (Cf. . o qual criou "o que existe e o que não existe" (rrtôdas as coisas).

" (Ez 35.21. empregava-se para designar "todos os individuos" (sair e entrar." (Zac 8. 15 também a expressão "ligar e desligar" indicava tôda a operosidade de um homem. 3 Rs 15. para o hebreu. 4 Rs 11. "Para quem sai e para quem entra (= para ninguém)." (2 Crôn 15.10 diz o mesmo: "Dai-me sabedoria e inteligência a fim de que eu possa sair diante déste povo e entrar." (Mt 16.6. Disto se seguia que qualquer atividade de certa importância implicava geralmente um "sair da cidade". Com significado idêntico. J0 109. .28. Is 31.17. e tudo que desligares na terra. "caminhar e repousar-se" são outras fórmulas que designam tôda a atividade de um indivíduo: "Sabes quando estou assentado e quando estou em pé. e significa: 'Tudo que na terra fizeres para introduzir os homens no reino dos céus. diz o salmista ao Senhor querendo inculcar que Deus tudo sabe a respeito do homem (Si 138.) Assim se interpretará a frase final: os filhos do vizir dispuseram tóda a sua conduta em conformidade com as instruções deixadas por seu pai.7V) 14 "estar assentado e estar em pé". 'a A semântica da expressão "sair e entrar" é assaz curiosa e digna de nota: imagine-se uma cidade bem defendida por muralhas.".16. Die Literatur der Aegypter. "E retirarei de lá aquêle que vai e aquéle que vem (= todos). "Então prostraram-se sôbre o ventre. leram o livro como estava redigido.10). 15 Também se encontram paralelos desta expressão fora de Israel: O vizir do faraó Huni entregou a seus filhos. 13. como as que os antigos costumavam edificar. 19. assim é que o "sair" e o "entrar" (note-se bem a ordem dos têrmos!) compreendiam e definiam a atividade dos cidadãos. será ligado nos céus. 2 8am 3. 9.DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 51 em 2 Crõn 1. 14 Muito interessante é que a versão grega dos LXX traduziu o objeto da frase acima por "homens e gado". cf.8.28. será desligado nos céus.2s) . tanto menor era a área que ocupava. "as chaves" designam o poder. 100. a expressão bipartida que se segue exprime a totalidade dêsse poder.8. não sômente a que se exercia em tôrno de vínculos. ocorre algumas poucas vêzes na Sagrada Escritura o binómio "ir e vir". 13 parece ser atividade que caracteriza qualquer homem) "Naquele tempo não haverá paz nem para quem sair nem para quem entrar. Assim diz o Senhor a Pedro. será ratificado por Deus. e isto lhes foi mais agradável do que tudo que se encontrava na terra do Egito.25. 1 8am 18. At 1. levantaram_se e sentaram-se de acórdo com essa doutrina. usando de uma construção tipicamente semitica: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus. tudo que ligares na terra. "sair e entrar". Erman." Não seria condizente com a filologia querer especificar os poderes expressos por "ligar e desligar". um escrito em que consignara os resultados de suas longas experiências. qual tesouro. Tu me observas quando caminho e quando repouso".19. mas haverá terror em tõda parte para todos os habitantes da terra." (citação de A. Ez 43.11.27.) Nesta passagem.5). ao qual se associava naturalmente um "entrar" após terminados os afazeres. não há paz. 29. sendo diversos os sujeitos dos dois verbos. Si 120. quanto mais fortificado era o reduto.

Entenda-se: eu. quando êle abrir. partes ou membros do corpo humano. qudr desligue. por sua vez. o sol é como um herói que exulta ao percorrer a sua via (ci. antropomorfismo do qual eis aqui alguns casos típicos: o poço de Beer é convidado a subir (1) e soltar clamores de alegria. compreende-se que os hagiágrafos não tenham hesitado em atribuir figura humana. e as árvores do campo batam as mãos em aplausos. poderia mudar a situação. rejubilem-se as colinas e suas florestas. extensivo a todo e qualquer setor". coloca nos lábios de Ismena a seguinte exclamação: "Ó infeliz. fazendo eco ao dinamismo do homem. a terra abriu a bôca para tragar Datã e Abiron (cf. Jo 38.12). 16 Eis as principais natas do "gênio" lingilístico dos semitas. É o que se fará no parágrafo abaixo e no capítulo seguinte dêste estudo. por nenhum expediente. SI 18. Núm 21. Pergunta-se: que sentido terá um modo de falar tão alheio ao nosso? Tais expressões constituem para os hagiágrafos mais do que ornamentos literários. profere um brado. morph4 = forma." (Is 22. 0 OS ANTROPOMORFISMOS BIBLICOS 1. Gên 4.) O que quer dizer: "será detentor de supremo poder.17s) os montes prorrompam em júbilo. exultem os céus e as profundezas da terra. Is 44.7). que poderia ainda conseguir?" (Antigoizo. lê-se em sentido análogo uni oráculo do Senhor referente ao Messias: "Colocarei sóbre as suas espáduas a chave da Casa de Davi. quer ligue. é mister nos detenhamos agora sôbre um ou outro particular do estilo literário semítico. por ocasião da vitória de Israel (cf. quando Deus criou a terra (cf. Praticavam assim o antropomorfismo 11 ao falar da natureza.23. as estrêlas da manhã cantavam em côro. quando êle fechar. 40). 17 Palavra derivada do grego: (znthropos = homem. Gên 4. § 2.52 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO No Antigo Testamento.11). se as coisas chegaram a êste ponto. aos elementos irracionais.6). Núm 16. êste sangue. 55. ninguém abrirá. A NATUREZA PERSONIFICADA Já que o oriental se comprazia em conceber o mundo inteiro como animado. por elas se traduz uma con16 A expressão também era usual fora da literatura bíblica. Sófooles. que se ergue da terra aos céus (cf. ninguém fechará.10).22. por exemplo. . Eu. Para seavaliar ainda melhor o que acima foi dito.32) e receber o sangue de Abel (cf. Com efeito. por ocasião da libertação de Israel detido no exílio babilónico (cf. E.

mâo direita (cf.3. 1 8am 15.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 53 cepção religiosa intimamente arraigada na alma do israelita e nos escritos bíblicos em geral: a natureza tôda é solidária com o homem. 2 Sam 15. Is 30. ora de louvor e congratulação jubilosa (para quem é reto).31. Expressão muito viva de solidariedade são as palavras de Já. cujo sôpro desencadeia os ventos sôbre a terra (cf. Dt 8. SI 8. 16. Jer 27. Terás uma aliança com as pedras do campo.15. S. em outros têrmos: a natureza reflete a voz de Deus.12.5). 819. Is 51.8. Esta verdade. bôca (cf. Si 17.18. que referem ter a natureza entrado em desordem por efeito do pecado do homem (cf. Sl 17.).19. em particular. diz que até o fim dos tempos os irracionais "gemem". Assim o Criador é dito ter face (cf.2). Já 11.4. nariz e narinas. .22s." (5. ouvidos (cf. sujeitos aos abusos que dêles faz o homem. 1 5am 8.. Dt 5.14). lábios (cf. Gên 3. língua (cf. Is 65. Ram 8.5.21).6. Lx 33.9. mãos (e!. Lx 5. voz (cf.15. braços (cf. pálpebras (cf.. Lx 15. 2. 26. Is 30.. é insinuada já pelas primeiras páginas da Escritura. aliás.4. Já 40. é transmissora de mensagem divina.14.9.20).37.4). Gên 3). Jos 9.5. Si 10. os hagiógrafos nos apresentam mesmo o Senhor Altíssimo sob traços humanos. 19-22).4.36). em conseqüência.2.25. Am 9. Lx 15.16).10.17. 81 17. Lx 31. 85. DEUS SEMELHANTE AO HOMEM NO ANTIGO TESTAMENTO Quem lê o Antigo Testamento não pode deixar de observar quão freqüente e fàcilmente ao Senhor Deus são atribuídas feições humanas. 519.1. por ela se manifesta o Criador e o Senhor Providente.12.11.27). 81 17.27). Lx 33.9.4).2.23.10). dedos (cf. Sl 10. 1 Sam 15. Paulo.8.19. seu rei. Gên 4. e aguardam a glorificação dos filhos de Deus (cf. olhos (cf.24. E o bestiame da terra estará em paz contigo. Is 1. SI 17. Dt 9. que assim interpela o justo: "Tu te rirás da devastação e da fome.14. ora de repreensão (para o indivíduo ou os povos pecadores).7. Não temerás os aiflmais da terra..) Mas não sômente aos elementos irracionais se aplicam os antropomorfismos na Sagrada Escritura.16. Am 9. Dt 11.

Dt 12. a alegria (ei.1. referindo-se ao Todo-Poderoso usavam copiosamente dos vocábulos que designam as coisas corpóreas.34. é incapaz de conceber a Deus como Êle existe em Si mesmo.6.35. na Sagrada Escritura.8). assovia (ei. e pés que levantam nuvens de poeira (cf. 81 77.5. Êx 32.35. páthos = afeto. Está assentado em um trono régio (cf.3. para dar a entender os predicados da Divindade. Jer 26. cujas orlas enchem o templo (cf. passeia no jardim do Eden (cf. 1 Sam 15. Por isto. 8117. pouco afeitos à abstração.1). um belo manto. que o Criador não é como o homem (o que claramente transparece nos textos bíblicos abaixo citados). e não homem" (ei. .11). Lev 20.31. a cólera (cf.16). Si 17. Sl 105.63. paira sôbre as asas do vento (cf.4).9) implica para a inteligência. mentalidade que pede ser corrigida pelo raciocínio filosófico. a complacência (ei. dificilmente se desvendilhavam de concepções de ordem sensível. o ódio ou a abominação (cf. Dt 28. até mesmo ao falarem de Deus. a inveja (cf. Si 2. Éx 15. é induzido a compará-los com os atributos da criatura. Éx 33. 1 Crôn 28. Reconheciam. De resto.8.19). desperta-se (ei. ri (cf. Is 6. Is 7. mas diflcilmente percebiam o que o fato de "Deus ser Deus.1).2. o Senhor clama (cf. paixão. 90. fecha a porta da arca de Noé (cf.18). muito surpreendente num livro que se diz ter por autor principal o próprio Deus? a) o significado geral dos antropomorfismos. sim. compras-se com suave perfume (cf. Além disto.19).23). Is 9. Si 103. Na 1.13).23).7. o espírito humano na vida presente. metafísico. a imortalidade de Deus. Am 1. Gên 3.65).14). 32. Êx 20. Dt 32.3. Si 43.40). 34. o arrependimento (ei. Is 1. Si 131. dorme (cf.24). Si 17.8).2. Gên 7. Jer 9. 56. ruge (ei.8). asas e penas sob as quais protege os justos (ei. Os 11. é guerreiro valente (ei.4).10). cavalga sôbre um Querubim. Também os afetos humanos marcam a figura do Senhor Deus (antropopatismos): 18 o desgôsto (cf.2). voa. 1 Sam 26. Diante de tais expressões.24.54 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pés (ei. Lev 1. qualquer pensador. Sl 46.12. 1x 15. 34. Não há dúvida de que os antropomorfismos da Escritura têm suas raízes na mentalidade primitiva dos semitas. Os israelitas.31). Sof 3.23). impõe-se de novo a questão: que sentido poderá ter tal modo de falar. Gên 6. costas (ei.17).7). com 18 Anthropos = homem. a vingança (cf. dependendo constantemente de imagens sensíveis. a aversão (ei. Sl 23.5). 2 8am 24.41.

aos olhos do israelita. mas de modo nenhum corresponde às aspirações da criatura. Pai . mas através de revela ções se1íveis (outorgadas aos Patriarcas.21. A descrição do Altíssimo como Guerreiro. Abraão e seus descendentes chegaram ao conhecimento do verdadeiro Deus não em conseqüência de raciocínios especulativos.11. limitações do nosso ser.1-10. Êstes autores ensinavam que Deus.. o recurso aos antropomorfismos era muito apto. de:perta.. e o orienta continuamente.9. dêstes exigindo fidelidade inviolável. Bar 6. que o Transcendente.19. mas o Senhor condescendente. Cf. acompanhados geralmente de impressionante aparato. 20. a atração do homem. um dos aspectos que mais espontâneamente detinham a atenção do israelita. sim.5. têm olhos e não vêem. diferenciava dos idolos dos pagãos o Deus verdadeiro.23. Ora. etc.3. e piedi e mano Attribuisce a . à sorte dos mortais." (Dante. acompanha a nossa "aventura" na terra. Mt 16. Rei. alheio. sendo perfeitissimo. 19.45. porém. 2 5am 2. a Divindade não necessita do homem. em 51 41.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 55 as contínuas vicissitudes do homem. Erôs et Agapê (Paris. Dt 5. pois. (Cf. julgavam.o Perocché solo da sensato apprendc CiÕ cite Ia poscia d. ama realmente os indivíduos. Nygren. ou. A. pois uma das fórmulas de juramento mais usuais rezava: "Assim como o Senhor (Deus) é vivo .2. Ao considerar a Deus.s 19. . cd altro intende.Jz 8. deuses "que têm bõca e não falam.39. 20 Com efeito. com seus traços semelhantes aos dos homens. enquanto o homem precisa de Deus. a Moisés.24s. era o seguinte: o Deus de Israel é um Ser vivo e pessoal. 4... 12. 4 R. sim.70.4.. amigo. ainda mais concretamente. não bastaria para explicar o significado dos antropomorfismos na Sagrada Escritura.5-7).3. É certamente muito antiga..'intelletto degno. mais adequadamente a transcendência de Deus. à diferença dos deuses dos filósofos pagãos. 19 Esta observação. têm mãos e não apalpam. 21 É êste aspecto rigido que caracteriza a Divindade nos sistemas filosóficos de Platão e Aristóteles. Assim os antropomorfismos bíblicos inculcam que o Deus verdadeiro não é mera fórmula abstrata. .16). afirmam-nos de maneira marcante 10 Já o poeta dizia: "Cosi portar convieztsi ai vostro ingegn. apreendendo a Divindade através do raciocínio. para traduzir tais impressões. da metafísica. aos justos posteriores). 14. Paradiso.17. têm pés e não andam" (51 113.. concebiam.27. servia para exprimir que o Deus de Israel é o Soberano que se interessa profunda e surpreendentemente por tudo que concerne o homem. Os falsos deuses eram ditos "deuses mortos" (ef..) Era mesmo o título "Deus vivo" que. o Deus de Israel dava-se a conhecer como o Senhor que permanece próximo do homem. por exemplo.4s. Êstes. com as. Por questo la Scrittura condiscende A vostra factitate. 1 Sam 14. 1944). justamente por ser superior ao homem. 26. Dan 14. Sab 15. a sua imensidade. 21 Não assim é o Deus verdadeiro. Canto IV 40-453 A expressão "Deus vivo" ocorre. como se precisasse das criaturas.6. têm ouvidos e não ouvem. Jó 27. Jer 10. 20 .Dio. Por êstes fenômenos. se conserva frio. porém.

) O homem tem perfeições em grau finito. não se arrepende nem mente (cf. como te entregaria. Éx 20. As mesmas Idéias repercutem no texto de Es 28. baseava o caráter inesgotável dessa misericórdia (= "compaixão") no fato mesmo de Deus ser Deus e não homem. não se cansa (cf. os livros sagrados não deixavam de incutir a espiritualidade e transcendência de Deus. os antropomorfismos os realçavam muito bem. e os que O adoram. das suas intervenções na história. Não darei curso ao ardor da minha cólera. Êstes textos atestam que o conceito de um Deus transcendente não era. Pois sou Deus. pouco filosóficas. não cochila nem dorme (cf.4). Sendo as imagens o grande esteio da idolatria.4). Em meio de ti está o Santo. Por isto perdoa mesmo quando os homens julgam que "perdoar" seria derrogar a aiguzna de suas qualidades.2: "Tu és homem. a Lei mosaica proibia estritamente a confecção de qualquer imagem (de homem ou animal) que representasse Javé (cf. em Jo 4. Não destruirei de novo Efraim.Ss.4s). embora se distanciassem de noções abstratas para aderir a concepções iniperfeitas. Pode-se dizer que aquilo que a fé em Deus no Antigo Testamento visava primàriamente era a sua personalidade toda-poderosa e o caráter pessoal imediato. Além disto. Deus as tem em grau Infinito. e não Deus.56 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO os autores semitas inspirados. ou seja. e não homem . rebaixar-se'. em espírito e verdade O devem adorar". pela própria Revelação divina. Com efeito. 1 5am 15. êstes aspectos." . á Efraim. mesmo nos trechos em que mais realçavam a proximidade do Senhor.28). Sl 120. seria "diminuir-se." (Os I1. o seu interêsse pelo povo: assim o profeta Oséias. A pura espiritualidade de Deus só foi explicitamente afirmada no Novo Testamento. Israel? Meu coração se revira dentro de mim E tôdas as minhas comiserações se comovem.29. em absoluto. 22 'Como te abandonaria eu. preservados de cair nas idéias grosseiras dos mitólogos ou dos idólatras pagãos. os israelitas eram assim premunidos contra o perigo de equiparar o conceito que tinham de Deus ao que os povos pagãos nutriam. Núm 23. os filhos de Israel eram. alheio à mentalidade veterotestamentária. 22 em outras páginas bíblicas lê-se que o Criador não tem olhos como os homens (cf. Jó 10.19).24: "Deus é espírito. Is 40. falando da misericórdia do Altíssimo para com Israel. Não se poderia deixar de observar ainda que. Embora tornes o teu coração semelhante ao de Deus.

O têrmo hebraico 'af. pode também significar "ira. sim. exalação nasal mais intensa. em última análise nêles reconhecerá como que prenúncios da Encarnação. Conseqüentemente. o que aparece nitidamente nas duas passagens abaixo. em particular à do indivíduo primitivo. visando com isto designar os respectivos predicados do Altíssimo. por isto. o Deus do coração humano. III aO. Ora no trecho correspondente puseram os tradutores gregos: "Viram o lugar em que se achava o Deus de Israel. SI 17.18. quando o Filho de Deus tomou carne humana: o Senhor do Universo é também o Deus dos pequeninos. 10). em vez de "mão de Javé" (hebr.9. mormente na naturza exuberante dos orientais. Mais uma ligeira observação: quem reflita sôbre os antropomorfismos bíblicos à luz do grande plano salvífico de Deus.24. que significa "nariz". E não sem fundamento objetivo: o furor costuma-se exprimir por respiração mais veemente. contudo. A tendência a atribuir ao Altíssimo aspecto e afetos humanos é. pois. tratando de Deus. poder (ainda hoje a linguagem popular diz: "N. traduziram a Sagrada Escritura do hebraico para o grego. Fàcilmente. verdade que havia de ressoar por excelência na plenitude dos tempos. portanto. referindo-se ao homem: . é um braço!").16). Os antropomorfismos da Sagrada Escritura. ela foi por Deus utilizada para inculcar uma verdade que os filósofos da antiguidade jamais conceberam adequadamente. em Jos 4.. lê-se "o poder do Senhor" (grego). é. Éx 15.PARnCULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 57 Os judeus que em Alexandria. com a idéia de braço se associa naturalmente a de fôrça. muito natural à nossa mente. É o que dá claramente a entender Jeremias. a atenuar ou eliminar os antropomorfísmos bíblicos. a partir do séc. cólera". são a resposta providencial ao anelo de todo mortal de saber que Deus está atento à sorte do homem. b) o sentido de alguns antropo-morfismos em particular. e mais ainda a Encarnação. o israelita era propenso a exprimir certas qualldades da alma mencionando determinados membros ou sentidos do corpo que mais estreitamente pareciam relacionados com elas. dando-nos a famosa edição dita dos Setenta intérpretes. os hagiógrafos com muita espontaneidade atribuíam essas mesmas partes do corpo ao Senhor. se entende que a menção do nariz fumegante de Javé na Sagrada Escritura deva ser interpretada como expressão da justiça de Deus que pune os homens maus (cf. tendiam a exaltar a transcendência de Deus e.. citadas dentre outras muitas: Êx 249-11 (texto hebraico) refere que Moisés e muitos dos anciáos de Israel subiram ao monte Sinal e "viram a Deus".. no povo de Israel. Já ao se referir a indivíduos humanos.). Alguns exemplos elucidarão o proceder: o Senhor Deus tem narie e narinas." (V. sem dúvida.

" ou ainda "esquivar-se à influência de. coisa que se verifica ainda nas nossas expressões "aos olhos da sociedade.é "fugir de tal pessoa ou objeto . Senhor. conceituacão.) A luz dêstes dizeres hão de se entender os antropomorfismos: .." (Êx 15. constituindo para o homem uma das principais fontes de informações. a sua personalidade. Exaltou os humildes. fala Jacó: "Aplacá-lo-ei por meio dos presentes que envio préviamente. Por conseguinte.. esmagou o inimigo. Na Sagrada Escritura. Enquanto o seu coração se afasta do Senhor.. .. "fugir da face de .5. Assim. da história. Em conseqüência. por exemplo.) À luz dêste texto. de Javé significam a fôrça. em Lc 1.) "Preciosa aos olhos do Senhor É a morte dos seus fiéis. a fim de ocultarem a consciência ou o seu íntimo. .) a face ou o rosto. se assinalou pela sua fôrça.15.21.4. são fàcilmente associados à idéia de conhecimento.) "O Senhor tem em suas máos as profundezas da terra.58 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Maldito todo aquêle que se apóla sôbre o homem E faz da carne o seu braço. .) os olhos. sendo a sede dos órgãos que exprimem o intimo do indivíduo.515: "(O Senhor) fêz coisas poderosas com o seu braço. principalmente a destra. as mãos.. talvez me dispense bom acolhimento." (Gên 32. de Deus: "Vossa direita. Senhor. conseqüentemente os olhos simbolizam o conhecimento que os homens ou Deus possuem: "Os olhos se lhes abriram (a Adão e Eva) (Gên 3.. a seguir. nas páginas sagradas.. por exemplo. . "ver a face" é não raro sinônimo de "comparecer perante (tal pessoa) ".6.7." e') as mãos simbolizam freqüentemente a faculdade de dispor ou simplesmente o poder (como ainda hoje na expressão: "estar nas mãos dos mais velhos.. verei a sua /ace (de Esaú). Vossa direita. das autoridades"). da ciência." (17.. torna-se claro o antropomorfismo correspondente.." (Si 94. A Êle pertencem os cumes das montanhas." (S1 115.. o poder.. usado.. Dispersou os que se ensoberbeciam Derrubou do trono os potentados. De resto verifica-se entre as crianças a tendência espontânea a recobrirem o rosto com as mãos. significa freqüentemente na Bíblia a personalidade.

Nesta seção. não faz senão repreender o pecador que comete a iniqüidade. guarda fiel das tradições judaicas.. podia escrever sem ulterior explicação "Junto ao Pai das luzes não se verifica vicissitude nem sombra de mudança. Tu és o meu amparo. em conseqüência da conduta dos homens.. arrependimento) que os hagiógrafos atribuem ao Senhor. não faz senão punir em justiça os que o merecem. Quanto aos afetos (alegria.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 59 "Até quando.) "Procuro a tua face. Aliás. Ao contrário. mais nenhum valor possuem. se "se entristece".. a "inveja" de Javé significa o desejo que o Senhor. aprova e confirma o bem. . Quando Javé "se arrepende". o Senhor falava "face a face" com Moisês. Não me ocultes o teu rosto. Senhor. Deus é dito "irritar-se". portadores de tese muito veridica e importante para a alma religiosa: o Deus sumamente transcendente é também intimamente próximo ao homem e solícito do bem da sua criatura! . tem de ser amado por seu povo renitente e infiel. embora se dirigisse a israelitas educados na ideologia veterotestamentária e recém-convertidos ao cristianismo.2. são. que. à semelhança do que se dá quando um homem se arrepende do que fêz. me esquecerás? Até quando rue ocultarás a tua face (= sorriso." (SI 26. Tiago. ira. sumamente bom.) Estas considerações são suficientes para se concluir que os antropomorfismos e antropopatismos bíblicos não constituem simplesmente o produto de mente filosàficamente pobre ou simplória. errôneo seria equipará-los aos sentimentos baixos e apaixonados dos homens ou dos deuses do paganismo. o antropomorfismo é logo explicado pelo apôsto "como um amigo fala ao amigo". doação de amizade.) Conforme Êx 33. se "se alegra"." pode simbolizar um ato que se processa essencialmente no plano do espírito. o primeiro bispo de Jerusalém. Se. Senhor.8s. acentua a incompatibilidade do mal com o que é de Deus." (1. o modo como os judeus entendiam êsses antropopatismos parece-nos atestado por S. do seu modo. não podem ser tratados como expressões que. na mente dos hagiógraf os. se "se vinga". com o progredir dos tempos.11.17. o ato corporal de "voltar a face para. ou seja. Não rejeites encolerizado o teu servo. isto insinua bem que. procede de forma imprevista às criaturas. entenda-se que. na Sagrada Escritura. bondade)?" (Si 12.

simbolos. é apetias camuflar ou mutilar os simbolos. o simbolismo tenha função importante. por definição. XIX ocasionou contra o simbolismo. O que o homem pode fazer. Éste adquire.60 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO APÊNDICE O VALOR DA LINGUAGEM SIMBOLISTA Após a acerba campanha ou desconfiança que o racionalismo do séc. Isto quer dizer também: mesmo o individuo mais "realista" vive de imagens. . e. abstraindo conceitos universais. Com efeito. ao raciocínio. Assim se explica que a Escritura Sagrada. diz-se que hoje em dia o mundo ocidental (a cultura européia e americana) está de novo descobrindo o valor dos simbolos. mostra o que é refratário ao conceito. devidamente utilizada. Ora bem se compreende que. aproveitando a inclinação inata do homem (mesmo do varão culto) ao simbolismo. A imaginação. Mesmo no homem moderno. e até da psicanálise. nunca. que são o suporte e veículo de sua ciência. A justo título se diz que o homem que não tem "imaginação" ou dela não quer usar. da psicologia. esteriliza a sua atividade e produtividade. versam em tôrno de objetos transcendentes. as proposições religiosas. mas as fórmulas já não sabem traduzir adequadamente. sim. constitui uma exigência da natureza psico-física do homem. os recentes estudiosos da história. e êste simbolismo subconsciente é às vêzes mais forte do que a vida consciente do indivíduo. os consegue eliminar de sua mente. principalmente ao se tratar de exprimir verdades religiosas. Images et Symboles (Pãris. nem ao raciocinar nem ao exprimir as suãs conclusões. faça uso dêste (e uso assaz freqüente) para transmitir verdades sobrenaturais. jamais se pode desvencilhar. metafísicos. por mais "racionalista" que pretenda ser. das figuras sensíveis donde parte o seu conhecimento. ou ainda aquilo que a intuição apreende. embora reflita sôbre estas. tem sido comprovada a sobrevivência subconsciente de grande número de imagens. 1951). tôdas as suas noções a partir dos sentidos ou de imagens materiais. Podem-se encontrar conclusões de estudos modernos sõbre o assunto na obra de Mircea Eliade. porém. que a razão e os conceitos humanos não podem definir de maneira cabal e exaustiva. se separa da realidade profunda da vida e do seu próprio psiquismo. os finos matizes dos objetos. O simbolismo tem por fim exprimir as mais secretas modalidades. afirmam cada vez mais categàricamente que o recurso a imagens e figuras é espontâneo ao indivíduo que pensa e fala.

é um agouro". para significar que o céu e a terra não existiam. das nações antigas e de tribos atuais não civilizadas não revelavam nem revelam o seu nome. vai-lhe dedicado o presente capítulo. 1 Alguns povos chegavam mesmo a conceber o nome como parte integrante do indivíduo e como coisa misteriosa. de uma função do portador. É de notar. herdeiros 1 "Nomen est omen de . do gênio semita. a expressão da íntima essência ou de um atributo. E quais seriam essas idéias? O nome. chama a atenção. seja de Dèus. o segrêdo do seu sucesso. e bem característica. não era uma designação arbitràriamente anexa ao seu portador. na linguagem oriental antiga.O nome idêias orientais. diziam proverbialmente os . heróis. o autor diz que não eram nomeados. que na principal narrativa babilõnica da origem do mundo. que as páginas anteriores apresentavam. o nome. ' Não ter nome" wm a ser o mesmo que não ter existência". que o Espírito Santo houve por bem respeitar. seja das criaturas. só se pode explicar à luz de idéias dos orientais. tui § 1. tinham-no como a caracterização do indivíduo. Ao contrário. ocasionando na Sagrada Escritura modos de falar a nós estranhos. podia designar simplesmente o ser ou a vida do individuo nomeado. dos quais os mais dignos de nota são os seguintes: romanos.CAPÍTULO IV NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA O uso do nome e dos números no texto da Bíblia não constisenão uma expressão a mais. a fim de não comunicar a sua fôrça íntima. Tais idéias eram compartilhadas pelo povo de Israel. dotada das energias próprias do respectivo sujeito. Dada a importância de que se reveste o tema para a interpretação do Livro sagrado. Em conseqüência. para os antigos. guerreiros. os indivíduos poderosos. 0 A FILOSOFIA DO NOME A maneira como os autores bíblicos se referem ao nome. Em virtude destas concepções. autoridades. por exemplo.

S.35).. Deus forte.". Is 567). é) "Casa de oração" (Mt 21. Assim o futuro Messias será chamado (= será realmente) "Conselheiro admirável. é a mesma coisa que "ser. como refere o texto de Núm 1. Paulo pede que a fornicação e outros vícios não sejam nomeados entre os cristãos. S. Por ocasião do recenseamento preceituado pelo Senhor. função que de fato desempenhou (Le 1.5).9. o que só pode significar: . fica sendo Tsaphnath-Panoach = " Provedor da vida"..) - Conseqüentemente. João Batista seria dito "Profeta do Altíssimo".12).Tacó = "Suplantador" torna-se israel = "Homem forte contra Deus" (Gên 35. Mt 5.. Pedro" (Jo 1. Filho de Deus" (Lc 1. sem dúvida) "Deus de tôda a terra" (Is 54. o Deus de Israel é chamado (e é. É o que Deus às vêzes faz ao confiar aos homens um encargo de relêvo: Abram = "Pai elevado" torna-se Abraham = "Pai de multidão" (Gén 17. cf. nada vem à existência sem que prêviamente haja sido pronunciado o respectivo nome. "Desejada. não sejam praticados. "mudar o nome" de alguém significa "assinalar-lhe nova função. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O nome revela o íntimo do portador. . deveria ser chamado (= seria) "Filho do Altíssimo. após haver salvo da fome o Egito.18) José. Em Ei 5.10.45).5) Jesus Cristo.3.42). Cidade náo abandonada" (Is 62. . a quem Abigail se dirige nestes têrmos "Não tenha o meu Senhor cuidados para com. Em particular nos oráculos proféticos. "Cidade da verdadë. novo destino na vida".3.32. futuro fundamento da Igreja.6)..26). pois êste é o que o seu nome indica. "ser chamado. mas 'Minha complacência pousa sôbre ela" (Is 62.3). nome que Jacó substitui por Benjamim = " filho da direita" (Gên 35. segundo os profetas. cf. .5). Nabal. e nêle há Tolice. o Senhor Jesus muda o nome de Simão.19) a Casa de Deus tem por nome (por conseguinte.4. . não mais "Abandonada". Moisés contou nomes ou individuos de cada tribo de Israel. Ao contrário. para Cephas = "Pedra. É o que se verifica na história de Davi. Si 40. seria chamada (porque deveras se tornaria) "Cidade fiel" (Is 1.. seu nome é "o Tolo. a criança que nasce morta tem o seu nome recoberto pelas trevas (Edo 6." (1 5am 2525.4). Montanha santa" (Zac 8. os pacificos serão chamados (= serão) "filhos de Deus" (Mt 5.2-42.62 .10) Raquel chama seu segundo filho Benoni = "filho de minha dor".76). Jerusalém.. Príncipe da paz" (Is 9. em egípcio (Gên 41. O nome é identificado com a própria pessoa ou a existência do respectivo portador: Conforme Edo 6. não tenham existência. cf. Pai eterno. conforme o anjo.

Jz 13. pesada nuvem se levanta.30. Apc 13. declaram-se com isto servos de Javé pertencentes unicamente ao Senhor (cf.6).21. a mesma ficaria sendo posse déste chefe israelita (ef. da eficácia. Visto que o nome era tido como portador da energia. Assim é que. porém. atribuem-se-lhe órgãos e atividade: "Eis que o nome de Javá vem de longe. 2 5am 12." (Is 30. Dadas estas concepções em Israel. Seus lábios respiram o furor E sua lingua é como fogo devorador. propriedade do nomeado". quando o sacerdote abençoava a multidão. sete mulheres procuram um homem e lhe pedem seja o nome déste preferido sôbre elas. do nome de Deus. 14.e.12) o Bom Pastor chama as ovelhas pelo nome e as ama a ponto de dar a vida por elas. se à cidade de Rabá se desse o nome do General Joab.11) por ocasião da travessia do deserto (êxodo do Egito). Gên 32. dizia Deus a lvloisés Ainda farei o que pedes.6. "Conhecer alguém pelo nome" é conhecer de maneira muito íntima.34.28) o monarca vencedor não raro mudava o nome dos homens subjugados.5.27). Is 44. do respectivo sujeito. pois.17).2.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 63 O nome sendo empregado como sinônimo da pessoa. Sua cólera arde. "colocava o nome de Javé sõbre o povo. "no qual estaria o nome de Jave' (cf. 24. com especial carinho e interêsse. "colocar o nome" de uma pessoa sôbre outra ou sôbre alguma coisa equivalia a "envolver tal pessoa ou coisa dentro do raio de ação do nomeado. E sobe até a nuca.5.17. a fim de que possam usufruir da tutela désse varão (cf." (Êx 33. 33. os homens por vézes desejam saber o nome de personagem misterioso que lhes aparece.9). a fim de significar que doravante estariam sujeitos ao poder do novo soberano (cf. 4 Rs 23. . ést.1) aquêles que escrevem o nome de Javé sôbre a própria mão.311 (note-se o paralelismo entre os dois verbos !). e o Senhor o abençoava realmente" (Num 6. supersticiosos. Seu sôpro se assemelha à torrente que transborda. pôr sob a proteção" ou também "tornar a pessoa ou o objeto posse.16. num tempo de calamidade. e te conheço por teu nome. declara Jesus em Jo 10. Com efeito. ef. a entrega do nome seria a consignação do poder próprio (cf.275). a Lei de Moisés proibia terminantemente os usos mágicos. abusos que se verificavam nos cultos pagãos (proferindo o nome da Divindade. Deus prometeu enviar ao seu povo um anjo tutelar.20s). pois encontraste graça aos meus olhos. se nega a revelá-lo. o templo de Jerusalém é dito "o lugar que Deus escolheu para ai fazer habitar o seu nome" (Dt 12.11. 16. os magos julgavam poder dispor da fôrça de Deus. Is 4. conforme a mentalidade vigente. Êx 23.

XVII (1955). 18. 'A ti. referir ainda outra modalidade da "Filosof ia do nome" vigente entre os orientais. irreverente. Qualquer pronunciar vão. 8 veja-se a respeito B. conforme os inglêses. Até que venha Aquêle a quem pertence (o cetro) E a quem os povos obedecerão Êle (Judá) amarra à videira o seu jerico.. vigente entre os povos antigos. Judá. o pressuposto era deficiente. Será preciso.315-323.11. Tem os olhos rubicundos de vinho E os dentes brancos de leite? (Gên 49. o ganzheitiiches DenIcen. do nome de Deus era rigorosamente vedado pela Torá (cf.8. porém. zelava rigorosamente para que tal concepção não afetasse a verdadeira fé e o legítimo culto de Deus. herdado dos caldeus.8. conforme os alemães): os semitas costumavam julgar um individuo em função do todo a que pertencia. sujeito a ser removido mais tarde.2s. Nem o bastão de comando dentreos seus pés. o semita não via dificuldade em aplicar o nome do pai à coletividade dêle descendente. 8. Os filhos de teu pai (= as onze tribos de Israel) se prostrarão diante de ti (= tua descendência). lei em virtude da qual se admitia a comunicação de 2 Haja vista o vaticinio proferido sóbre Judá: 8. 3 Na raiz dêste fenômeno parece estar a chamada "lei da participação".64 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO coagindo o mesmo a socorrer os homens!). J. ora uma tribo. 22. lis). Le Frois. Lev 20. em Tire Cathouc BibUcaZ Quarterly. O cetro não será removido de Judá (= coletividade). E ao melhor dos troncos o filhote do seu jumento. o autor sagrado transfere a sua atenção daquela a esta e vice-versa.10) ora ao mdlviduo apenas (vi'. hão de louvar os teus irmãos. a prosperidade que no futuro deve tocar a Judá e a seus descendentes é descrita em têrmos referentes ora à tribo inteira (vv. . Dt 5.27. Destarte é que "Israel. nos oráculos de Gên 49.. Contudo o Senhor. Éx 20. as qualidades de um Patriarca prolongando-se na posteridade dêsse varão. a qual também teve sua influência na redação de algumas passagens escriturísticas. os nomes dos filhos de Jacó significam ora uma pessoa. tolerando. antenatos de Abraão.9-13). "Esaú" e "Jacó" representam dois povos em Mal 1. Tua mão pesará sôbre a nuca dos teus inimigos. Destarte Javé tolerava no seu povo um pressuposto da cultura oriental. Jacó" designam a nação eleita inteira em Is 41. Lava a sua veste no vinho e o seu manto no sangue da uva. 2. Ei-la: O nome de um indivíduo podia designar tôda a linhagem do mesmo.10-123 Como se vê. "Semitic Totality Thinklng".17. 2 Os exegetas modernos explicam êste modo de falar pela tendência dos oriStais a pensar segundo categorias coletivas (pelo thinking iii totalities.7. sem o indicar expl'icitamente.

. que a função da Igreja. é preciso optar. 53-56. já foi no início da era cristã compendiosamente realizada em Maria Santíssima.. Por isto. W. 1. 137.. na Escritura Sagrada. a pessoa individual que por excelência representa a coletividade da Igreja. Mãe e Virgem.° OS NÚMEROS NOS TEXTOS BÍBLICOS As cifras. tomam assim caráter aparentemente fantástico. esta é. e não se sabe sempre que critério seguir. ao menos em muitos casos.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 65 qualidades da parte ao todo e do todo à parte. por conseguinte. A "lei da participação" (na medida em que ela é verídica) explica bem que a mulher revestida do sol. ao aludir a esta em Ape 12. of Corporate Personality". são as variantes dos textos (bíblicos ou profanos) paralelos entre si ou a oscilação dos manuscritos antigos que provocam dificuldades de interpretação: entre duas ou três cifras indicadas pelas fontes. OS NÚMEROS SÍMBOLOS DE QUALIDADES Os números figuram muitas vêzes na Sagrada Escritura não como indicações de quantidade. . em algumas passagens. para resolver tais problemas. S. Ora. art. ao redigir Apc 12. porém. por sua vez. lutadora e vitoriosa. de que fala Apc 12. 107. 4 de sorte que a pessoa que nomeava um indivíduo se podia estar referindo a tôda uma coletividade e vice-versa. suscitam. S. e êle. a terá apresentado realçando os traços que lhe são comuns com Maria Santíssima. Eis. "The Hebrew Conception te Frois. 66 (1936). o significado que toca ao nome nas páginas da Sagrada Escritura. Ëste representa o povo. não como simples lugar-tenente. Em conclusão: será necessário recorrer à ideologia particular dos semitas para interpretar. mas como se "o povo inteiro nêle estivesse. que pouco fidedignas parecem. 143). Fenômeno semelhante se verifica em alguns salmos: tôda a coletividade de Israel ai aparece como que concentrada na pessoa do seu rei. Cf. é indispensável tenha o leitor em mente alguns princípios gerais. cit. terá intencionado referir-se à Igreja. chamam a atenção por referir quantias extraordinàriamente elevadas ou também insignificantes. abaixo discriminados. SI 59. Robinson. por sua vez. fôsse o povo" 5 (ci. participando dos predicados desta. possa simbolizar tanto a Igreja (coletividade) como a Santíssima Virgem Maria (pessoa individual). João. João. 318. mas como enunciações de qualidaem 4 5 Bethelt aur Zeitschritt /uer alttestamenthche Wissenschaft. que dá o Cristo ao mundo e ao mesmo tempo luta contra o Dragão até o fim dos tempos. tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrêlas sõbre a cabeça. Também éste aspecto da mentalidade oriental foi utilizado pelo Espírito Santo para exprimir a mensagem perene da Palavra de Deus! § 2. Acontece que. Em outros casos. questões múltiplas e árduas.

o homem. as combinações dos números entre si parecem ultrapassar a capacidade do espírito humano. Em conseqüência. inseparável de determinados predicados individuais. Divino" ou "Mais Forte. os homens rudes não jogam com unidades abstratas. para o homem primitivo. a série dos números apresenta algo de misterioso para o homem: ela parece poder prolongar-se sem que êste a consiga acompanhar. estas notas tôdas reunidas dão uma configuração de conjunto ao rebanho. Ela se baseia no fato de que os números estão essencialmente ligados com a idéia de regularidade. harmonia e. ao convocar os seus numerosos cães para a caça..) é muito antiga. Mais Pujante". altamente significativas para quem conheça a mentalidade do autor e a afinidade que os antigos estabeleciam entre certos números e determinadas qualidades. porém. são a expressão de um juízo que o autor formula a respeito de tal ou tal sujeito. o caçador primitivo. Fenômenos significativos neste setor são os seguintes: mesmo entre povos primitivos cuja faculdade de contar é muito limitada. é capaz de verificar a ausência de um só que seja. Da mesma forma. Em tais fenômenos. as criaturas inf eriores. pouco dotados de capacidade de abstração. esta não falta nas tribos de civilização pobre). tão antiga mesmo quanto o uso de contar. Além disto. o percebe e sabe dizer quais as notas que faltam no conjunto. também. com efeito. E . quando o aspecto do grupo é mutilado.isto se dá sem que tais homens saibam contar além de uma ou poucas dezenas! Os estudiosos explicam êstes fenômenos pelo fato de que. quantos e quais individuos desapareceram. diferenciação. os pastôres sabem exatamente verificar a falta de um ou mais animais nos seus rebanhos. ao ver o gado voltar do pasto para o aprisco. o proprietário. É o que faz que espontâneamente se liguem com os números as idéias de "Transcendente. mas tôda unidade lhes fica na mente. configuração que define o rebanho.note-se bem . periodicidade. está claro que as cifras se mostram inverossímeis para quem as queira entender como expoentes matemáticos.. despojadas das notas concretas com que se realizam na natureza. Bata então que o homem rude tenha boa memória (e. em geral. A tendência a associar cifras a certos predicados ou também a certos sêres (a Divindade. bem se vê que a observaçao da . quebra. tornam-se. ou seja. o proprietário de quatrocentas ou quinhentas ovelhas. os espíritos. Sim.66 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO des. o pastor primitivo guarda na memória as notas características de cada animal. para que proceda pràticamente como se soubesse contar. cada unidade está 'mtimamente associada a notas individuais de um sujeito. percebe de longe se algunia falta e sabe dizer qual ou quais as que se tenham perdido. em virtude da sua memória. Nesses casos.

1 Entende-se então que. mas também dos povos orientais e. ossinhos. É também o que ilustra a admoestação de Jesus: "Mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. que originâriamente significa "manejar cálculos. diga-se explicítamente. em conseqüência.coisa que freqüentemente falta na linhagem dos impios. forma-se. no decorrer dos tempos. 8 Cf. mas a "figura. 6 o homem "conta" ou faz como se contasse. de maneira geral. Normalmente em cada tribo a civilização e a vida cotidiana se vão tornando mais e mais complexas. A . a memória então já não é capaz de reter tudo que caracteriza os múltiplos indivíduos com que o homem lida. Boman. com isto.17-24 e 5. Por conseguinte.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 67 qualidade precede a da quantidade ou cifra. a história dos justos é geralmente apresentada dentro de um quadro numérico. Não temais". com a indicãção de datas ou cifras equivalentes a datas . o Senhor. parece fadada a cair em desuso. O Diz-se que o homem primitivo considera primeiramente no número não a 'grandeza. às unidades e aos seus múltiplos (dai o verbo "calcular". 8 2. Eis as principais expressões desta mentalidade na Sagrada Escritura. É o que explica a afirmação de Sab 11. êle venha a conceber cada cifra jntimamente relacionada com alguma qualidade. ALGUNS ASPECTOS DO SIMBOLISMO DOS NÚMEROS O "simbolismo dos números" acima explicado era patrimônio da sabedoria não só dos famosos pitagóricos e platônicos (gregos).. . o valor qualitativo" do mesmo. harmonia. Das hebraeische Denken ira Vergleieh init dera grieehischeit. O número por si costuma significar ordem. ensina que a Providência Divina dispõe ordenadamente até as mínimas circunstâncias da vida humana. Algo de semelhante se dá na linhagem dos semitas. número e pêso". a noção de unidade abstrata. Individual. porque associa com cada unidade e com o conjunto das unidades predicados característicos. ou seja. e de cifras de índole meramente quantitativa. Esta "Filosofia do número". a duração total de sua vida . T. porém. os quais dão figura concreta. o nome de cada um dos descendentes de Sete é acompanhado de cifras.0 simbolismo do número como tal. 144s. dos israelitas. nós feitos em Cordame.. Exemplo típico disto verifica-se nas genealogias dos cainitas (prevaricadores) e setitas (fiéis a Deus) em Gén 4. o valor quantitativo".1-32: enquanto naquela não se encontra a menção de um sô número. seixos"). destituídas de significado filosófico ou moral (sem atribuição de qualidades). matemática. que lhe servem de moldura (o número de anos em que começou a gerar. 7 É notário que o homem rude só sabe contar servindo-se dos dedos das mãos ou dos artelhos ou ainda de seixos (cálculos).20: Deus tudo dispôs "conforme medida. ).

entende-se que as expressões de plural na Sagrada Escritura não designam sempre multidão. 81. 9 donde se segue que extraordinária longevidade tem por pressuposto extraordinárias virtudes. Os vassalos cananeus do Egito dirigiam-se ao Faraó mediante a fórmula ilania. a santidade.26. 6. 19552). Aplicando a Deus os têrmos concretos "Fortes. 10 Ocorrem no texto hebraico da Sagrada Escritura substantivos em forma plural que inegàvelmente designam o único Deus. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios (Rio. Excelsos". . plural de Qadosh. os deuses dos deuses. Santo (Jos 24.18. 7.9). que se origina pela interven9 Bar 3.14. vão exercendo cada vez mais os seus efeitos no gênerohumano.C.12-14. 30.3). 11. • pecado.35. e o bem-estar.20. que lhe confira experiência e autoridade.10. Cf. na genealogia dos Patriarcas bibilcos: a extraordinária longevidade (centenas de anos) que lhes vem atribuida. a partir do séc. "os seus deuses".18). plural de 'Elyon. desde Adão até Abraão.19. a Santidade. VI a. Jó 3. o número dois. correspondente ao ideal que Deus lhes traçara. exprime enfàticamente a alta venerabilidade que competia a êsses homens. 16.. os israelitas queriam dizer que o Senhor é a Fortaleza.6).11. 9. E. prêmio que Deus outorga à virtude. Qedoshim. Dentre os números. o deus supremo. plural de 'El. Era outros têrmos: longa vida é. isto é.10-32.8s. 30.9.19. 10 Cf. mas são maneiras de realçar a qualidade expressa pelo respectivo nome: a fortaleza. a sublimidade do único Deus.22. extensão. Is 46. referindo-se a uma Divindade. 'Elyonini. por exemplo. B .11.6. sem dúvida. pertencer longa vida.1. não fazia outra coisa senão proferir sôbre o mesmo uma fórmula de maldição (cf. desejando que o dia de seu nascimento não fôsse contado entre os dias do ano.68 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO portadores da promessa messiânica. 1905. Prov 9. o conceito abstrato era expresso pelo plural do têrmo concreto). Excelso (Dan 7. Deus ou Forte (?) (Gên 5. Estas formas de plural não indicam multiplicidade de sujeitos ou deuses. Jó. Julgava-se em certos círculos (mormente no pitagorismo. Dt 4. Já que os números freqüentemente indicam qualidades.27. Assim: 'Elohim. mas intensidade de um predicado. Tal uso dos números significa que a vida dêstes justos era harmoniosa. Os 12. a Sublimidade mesma (em hebraico. SI 33. É o que se verifica. empregavam formas de plural. O deus lunar Sin era chamado ilani seita ilani.O simbolismo peculiar de alguns números. • mal se alastra mais e mais.) que o número um é por excelência o Princípio não produzido. é sinal de que a corrução. à figura de um Patriarca parece. Santos. Bettencourt. a felicidade diminuem no mundo. 14. Aliás sabe-se que também os povos pagãos. conforme os autores israelitas. Dt 4. gozavam de preferência os ímpares. O declínio da longevidade à medida que se passam os tempos.35s. em Gên 11. perfeito. o Deus de Israel. Frov 8.

viris. Gên 1.21s. Ci. Esta tradução. bb) sempre que se queira exprimir a totalidade. se se penetra na mentalidade dos tradutores: no caso. longe de atribuir a "sete" significado quantitativo. Visto que o número sete determina períodos mais ou menos completos. Veja-se ainda Gên 4. Mt 18. "Siebenzahl und sabbat bei den Babyloniern und im Alten Testament". a saber: que se há de fazer a compensação cabal. O significado importante do setenário entre os orientais compreende-se pelo fato de que êstes povos dividiam o tempo conforme as fases da lua. já em suas primeiras páginas. à primeira vista. 12 Em uni cântico penitenciai babilônico. assim o discípulo de Cristo há de perdoar setenta vêzes sete vêzes. 11 5 (1907). em lugar de "quatro".NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 69 ção do vazio ou do intervalo na unidade. quebradiços. por admitirem divisão em duas partes inteiras. moles ou femininos. a) o 'número sete. A figura da mão dotada de sete dedos era na Caldéia simbolo da plenitude da fórça e do poder. Eis.24 (a vingança de Caim e a de Lameque).15. o orante confessava ter cometido sete vêzes sete pecados. os hebreus derivavam o verbo sliaba. da vida humana. plenitude que é própria da Divindade. os números pares eram considerados inf eflores. J. 11 Já na Babilônia sete (= lcissatu) era sinônimo de totalidade. que ocorria freqüentemente nas suas histórias religiosas e nas cerimónias de culto. De resto. isto é. Em Israel. . matemático.1-2. contudo ela se explica muito bem. Hehn. porém. quiseram por meio dêste número indicar melhor o que o texto original subentende. O número sete é dos mais dotados de valor simbólico na mentalidade antiga e na Escritura Sagrada. que os judeus de Alexandria. a distribuição do tempo em semanas (cf. Em geral. opondo-se a isto. ao traduzir o trecho para o grego. que reconhecia e promulgava. a estima geral dedicada ao número sete parecia sancionada pela própria Bíblia. da mesma raiz que sheba. atribuíam-lhe o significado de totalidade. em Prov 6. ci. dizer palavra firme. emLeipziger semitische Studien.30).6 lê-se que o homem que haja roubado uma ovelha. Em outra oração. tão grande quanto seja. exata do furto cometido (de resto. puseram 'sete ovelhas".16 se refere a sete (= tôdas as) quedas do justo. ao contrário. Lc 17. prestar juramento. pedia sete vézes perdão. perfeitos. 34s. os números ímpares. isto é. eram tidos por fortes.37. sempre que haja ocasião para Isto (ci. definidos. Lc 19. Um fenômeno literário Interessante ainda solicita atenção: no texto hebraico de 2 8am 12.8).4a). plenitude. 1' É com êste sentido que êle ocorre. Os caldeus fizeram do setenário um número sagrado. plenitude e perfeição.12 O autor de Prov 24. é estranha. por exemplo. Gên 21. aa) nas fórmulas de contratos e juramentos: Abraão deu a Abinieleque sete ovelhas como penhor de que cumpriria sua palavra (cf. é obrigado a restituir quatro outras (de acôrdo com a lei formulada em tx 20. indefinidamente. faltas numerosissimas ou de incomensurável gravidade.30 está dito que o ladrão deve restituir sete vêzes o que roubou 1).4). parecia essencialmente imperfeito. sete.

os três dias passados por Jonas no ventre do monstro marinho (2. mitas. o núm?ro dez foi tido como símbolo de um "todo completo.1-32) e dos semitas (Gén 11.. Noé e Abraão. os três amigos de Jó (2. Sejam aqui mencionados apenas os três filhos de Noé (Gên 6. É certamente êste o significado que lhe compete nas genealogias dos setitas (Gên 5. recorria aos dedos de suas mãos. e) o número dez.14). O número dez tornou-se importante entre os antigos pelo fato de que o homem primitivo. ano jubilar ou qüinquagésimo 17 x 7 + 11). embora mais parcimoniosamente do que o número sete. Éx 20.10. desta praxe se origffiou o sistema decimal. O número três gozava também de grande estima entre os se- Em cada um déstes trechos. os. não se deixando de modo nenhum derrubar. as dez virgens (= todos os cristãos). de renovação. ano que mais se assemelhe à perfeição da vida celeste.10-32): o hagiógrafo.9s).23). Noé e Abraão. tal dia ou tal ano é determinado pelo número sete (sétimo dia ou sábado. é figura que sôbre qualquer de suas bases está sempre em pé. três justos de Ezequiel (14.10). as dez dracmas (= número redondo).2). . sétimo ano ou ano sabático.2. a menção de dez vícios (não exaustiva). Em tais circunstâncias. O ternário ocorre com freqüência na Escritura. o catálogo (taxativo.11). ficando a cifra exata desconhecida tanto ao escritor como ao leitor.c 19. C+ên 2.70 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO cc) quando se quer indicar um dia ou ano de repouso. Lev 25. . mas também porque o triângulo equilátero constitui um dos simbolos mais expressivos de firmeza e perfeição. a série dos tempos foi preenchida sem algum acontecimento digno de nota para a historiografia religiosa.) tenha realmente havido. os três anjos que apareceram a Abraão (Gên 18. O que interessava o autor sagrado era dizer que entre Adão e Noé. nas parábolas de Cristo (I. mas apenas queria referir-se a todos quantos (.8. de modo nenhum entendia dizer quantas gerações mediaram respectivamente entre Adão e Noé. Ci. 15.1) b) o número três. fechado em si".13. Sejam mencionados ainda: os dez servos (= um grupo completo).1). Mt 25. ao mencionar dez Patriarcas em cada uma.38s). não exaustivo) de dez adversários que não conseguem arrebatar ao cristão o amor de Cristo (Rom 8. os três companheiros de Daniel (3.1-17. que excluem do reino de Deus (1 Cor 6. não sàmente por ser o primeiro composto ímpar. ao contar. o sentido do número três há de ser analisado à luz do gênero literário adotado pelo hagiógraf o.

em L'Ami du Clergë.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 71 a série de dez milagres narrados sucessivamente para comprovar a autoridade de Jesus após o importantissimo sermão sôbre a montanha (Mt 8s). todo santuário apresentava regras próprias. que toca à nova Jerusalém ou à Igreja de Cristo. 13 "Na antiguidade.. Tais mdicacões significam o caráter de plenitude. sôbre cada qual das pedras da base acha-se o nome de um dos Apóstolos. portadoras da fé e da esperança messiânicas. todos impregnados de moralismo. 852. mas designam qualidades. ordinàriamente rituais. salmo em que é realçado o número dez: A tradição israelita conhecia outros formulários que catalogavam em listas de doze os atos e as pessoas que mereciam maldição (Dt 27. ou também os atos de obediência à Lei (Ez 18. éle se propaga mediante a pregação dos Apóstolos. totalidade ou plenitude. a cidade. Na Sagrada Escritura. ornada cada qual por uma pérola e o nome de uma das tribos de Israel. 14 O presente estudo. por sua vez. Com efeito. Era natural que a cifra. constitui o salmo 14. guardadas por doze anjos. 13 d) o 'número doze. que deviam observar os que lã Quisessem entrar para participar das bênçãos do culto.14-27). 12. Baseado sôbre os doze Apóstolos quais pedras fundamentais. sendo quadrada. as dez prescrições dirigidas a quem queira subir à montanha do Senhor (Si 14). . A interpretação de cada um dêstes requer estudo exato do respectivo contexto. agora recrutado dentre tôdas as nações. escolhidos pelo Senhor para constituírem o elo entre as doze tribos (a totalidade) do antigo Israel e a plenitude do novo Israel.16s. O número doze adquiriu aprêço em virtude da divisão do ano em doze meses. o número doze é básico para a história do povo de Deus. em conseqüência. simbolizasse. divisão que já babilônios e egípcios observavam. 14 3. visando apenas uma iniciação geral na Sagrada Escritura. o reino messiânico mesmo é freqüentemente assinalado pelo número doze... Em Israel essas regras eram enunciadas nos formulários da "liturgia de entrada".. 51 (1947). Um dêstes.5-9) A. esta constitui o reino teocrático por excelência. lste constava de doze tribos.14. não comporta mais particulares a respeito dos números bíblicos. ENUMERAÇÕES PROVERBIAIS E ARREDONDADAS Dizia-se acima que os números na Sagrada Escritura por vêzes não são a expressão de quantidades. Apc 21. cuja estrutura é impregnada do mesmo número: tem doze portas. a nova Jerusalém. tem doze mil estádios de lado. a muralha perimetral mede cento e quarenta e quatro côvados (cf. Gelin. consumação. o reino messiânico é descrito no Apocalipse como Cidade Santa.20s). em que os bens outrora outorgados às tribos de Israel se acham multiplicados e oferecidos a todos os homens. abrangendo um período definido em si.

Considerando êste particular.3.11. significa que a iniqüidade ultrapassa mesmo tôda medida e.13.3-2. também enumerações arredondadas.o Senhor: Por causa de três crimes de. cantavam os coros popuiares: "Saul matou os seus mil. porém. à exatidão em geral. em particular nos livros didáticos ou sapienciais. os seus dez mil. mas Incrimina o êrro ou os erros (quantos sejam !) do respectivo povo. 2. Outro artifício de números..9. Gaza. Davi ainda o é mais". proverbial.. provoca irrevogàvelmente a punição divina. É bem de notar que. acrescentada logo a seguir. ao se dirigir a cada um dos réus. é a disposição dos elementos enunciados em duas séries: ii e n + 1. o haglógrafo não enumera nem três nem quatro faltas. Não revogarei o meu decreto (de punição) (Am 1. é meramente retórica. Davi.6. que o mundo ocidental deve a tendência à precisão matemática.1. no contexto. adaptados a artifícios de linguagem.6. que não correspondem matemàticamente à realidade. os orientais admitiam fàcilmente certa latitude ao enunciar uma quantidade. etc. são.) A menção gradativa de três e quatro crimes não é de ordem matemática nem. 70. possui valor de superlativo. após a dita fórmula introdutória. aliás muito expressivo. O artifício servia parte para ajudar a memória dos discípulos (que deviam aprender de cor as máximas sapienciais).. os exegetas reconhecem haver na Sagrada Escritura enumerações intencionalmente enfáticas. parte para dar ênfase Haja vista o que se disse sôbre o simbolismo do número três à pág.4. É aos gregos. Com efeito. proverbial. 15 A instância quatro. encontra-se na história de Davi: para louvar a bravura déste guerreiro. n + 1 ocorrem freqüentemente na Sagrada Escritura. Exemplo evidente de uso enfático. dos gregos receberam os demais europeus a geometria.8: o profeta anuncia a seis povos pagãos e às duas frações do povo eleito (Judá e Samaria) o castigo divino. por outro lado. 16 Afirmações em que números são mencionados conforme o esquema n. Raja vista. mesmo ao significar quantidades. o texto de Am 1. (Damasco.123 O sentido do adágio é claro: "por muito aguerrido que tenha sido Saul.) E por causa de quatro crimes. usa a fórmula introdutória estereotípica: "Assim fala . cuja civilização surgiu posteriormente à dos semitas.. Tiro. ora. por vêzes.72 PABA ENTENDER O MITIGO TESTAMENTO É mister agora observar que. por isto. 15 16 . por exemplo. indica que o réu é grandemente culpado. a arte das medidas. três." (1 5am 21. mas tem seu significado próprio.

295.15s. os jovens heróis do mar. os príncipes. em Bel 11. dois-três-quatro. Os pés apressados a correr ao mal. 17 não raro o orador visava com isto acentuar o último membro da série. Belo 26.29.) "Seis coisas há que o Senhor odeia. a língua enganadora.16. o seio estéril.19.6. uma sêtima parte. E o fogo que jamais exclama: Basta (Prov 30. 21 (1940). entre outros. quatro-cinco (associada a dois-três).5. Eis alguns exemplos • • • • • • • • • figura figura f. sete-oito. seis-sete." (Prov 6. cinco-seis. um exemplo proveniente de documentos fenicios (ugariticos). Am 4. 29-31.16-19." (Já 33.19.2. E aquêle que dissemina a discórdia entre irmãos. morrerá.) "A sanguessuga tem duas filhas: Dá. Duas vêzes. Os olhos altivos. o ter quaterqv. Quatro mesmo nunca dizem: Basta! A região dos mortos. A. número da totalidade !) Cf.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 73 ao discurso: em vez de dizer simplesmente e de uma só vez o valor totai. três vêzes. 18 A fim de tornar mais significativas as referências acima. Não há dúvida. luz dos vivos. Os filólcgos têm comprovado que os números enunciados em tais fórmulas não possuem valor matemático.8. em favor do homem. em Biblica. E sete que êle abomina. em Is 17. Bea. A fim de o salvar da morte E iluminá-lo com a. SI 61. o qual claramente inculca não se dever atribuir ás cifras sentido quantitativo: "Uma têrça parte. "Der Zahlenspruch im Hebraeischen und Ugaritischen". 198. O coração que medita planos pecantinosos. Miq 5.4. em 4 Rs 13. fazendo recair mormente sôbre êste a fôrça da sua afirmação.) .15s.. a qual excede a unidade. em Já 33. mas são simbolos.gura figura figura figura figura figura figura um-dois ocorre em Já 40. de números irreais concebidos para indicar que tõdas as categorias de responsáveis de determïnado povo serão atingidas por flagelos diversos (a última fração é a do sétimo.21-23.25s. uma quarta parte. Trata-se. A falsa testemunha que profere mentiras. Prov 6. A terra que não se satura de água. Note-se também o bis terque de Cícero.5. três-quatro. As mãos que derramam sangue inocente. eia Prov 30. Deus faz isso tudo. será vitimada." Como se vê. nove-dez. as frações enumeradas dão unia soma de 459/420. pois. Prov 30. transcrevemos um ou outro dos textos citados: "Eis.7. dois-três. Eis. os homens idôneos. o orador preferia enunciá-lo parceladamente. 50.e beati de Vergílio. em Am Is. o emprêgo dos números em provérbios supõe por vêzes o valor simbólico dos mesmos de que tratavam as páginas anteriores.18s. que hão de ser entendidos á luz do simbolismo oriental dos números. em Já 5. eis que ela perecerá pela espada. 18 17 Êste artifício de ênfase parece tão espontáneo à psicologia humana que êle ocorre também na literatura extrabiblica. uma sexta parte. uma quinta parte será vitimada pela peste. Edo 2619. em Belo 25.12. morrerá. dá! Três coisas são insaciáveis. prendendo mais a atenção do ouvinte.

que na matemática é de 3. Exemplo marcante é o seguinte: o autor sagrado em 3 Rs 7. conforme 2 Sam 24. a proporção entre a circunferência e o diâmetro seria simplesmente igual a três. Outros exemplos seriam: o total de três mil provérbios que Salomão proferiu em sua vida.24). o valor Ir.1-4: "Meu espirito compraz-se em três coisas Aprovadas por Deus e pelos homens: A união entre os irmãos. Ao menos. 19 Ainda se deve observar que certos números na Sagrada Escritura não parecem ser nem indicações matemáticas. mas simplesmente cifras aproximativas ou arredondadas. era circular e tinha um perímetro de trinta côvados por dez de diâmetro. 4. portanto. Faremos levantar contra êle sete pastôres E oito príncipes do povo. NÚMEROS MAL TRANSMITÍDOS Mais uma observaçãõ se imp6e na exegese das cifras bíblicas. No caso.23 e 2 Crôn 4. foi. As cifras eram assinaladas pelos caracteres do alfabeto. sem gradação enfática (cf. porém. considerem-se.2." . grande piscina colocada por Salomão sôbre doze estátuas de bois à entrada do Templo do Senhor. os sinais: "Quando o assírio invadir nossa terra E seu pé calcar nosso palácio. E um ancião tolo e Insensato. os setenta milhares de vítimas da peste desencadeada sôbre o reino de Davi. por exemplo. ora êstes por vêzes se assemelhavam tanto entre si que se podiam fàcilmente confundir uns com os outros.1-4. que em certo grau levam a reconstituir o teor original da página estudada.15. Edo 25. nem expressões proverbiais.) 19 É o que se dá em Edo 25. trés tipos de pessoas que minha alma detesta E cuja vida me é insuportável: Um mendigo soberbo. Não era difícil que um copista hebraico incorresse em erros na transmissão dos números.12. o amor ao próximo. um ricaço mentiroso. segundo bons comentadores católicos." (Miq 5. Prov 30. nada há que obrigue a se atribuir sentido literal a estas cifras.4.74 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Acontece também que a enunciação seja feita diretamente. Está claro que em tais casos a autêntica interpretação se obtém pela aplicação das normas da arte crítica do texto. Há problemas de números na Sagrada Escritura ocasionados por erros de cópia ou por deficiente conservação do texto sagrado. refere que o mar de bronze. expresso redondamente pela cifra três. E um marido que se entende bem com a espõsa. de acôrdo com 3 Rs 4. Há.1416.

). Segundo o texto hebraico de 3 Rs 5. 1/lI dc. Em 2 Crõn 36. assim como a seção paralela de 4 Rs 24. em vez de esclarecer.." A causa do defeito não poderia ser indicada com precisão. nos terão transmitido o teor de um arquétipo hebraico mais bem conservado do que os nossos.. não se hesita em julgar que a segunda é a original. Com efeito. O texto hebraico atual. III a. reinou. é necessário outrossim se levem em consideração as glossas ou interpolações praticadas por mãos posteriores à do autor. lhe atribuem dezoito anos noinicio do seu reinado.26) e 2 Crõn 9.1 se apresenta lacunoso: "Saul tinha a idade de. acontecia por vêzes que. O contexto a exige.2. Os tradutores gregos.C. e repousou no sétimo Dentre estas duas variantes... mas de modo descabido. ao passo que as traduções grega é síria. as traduções grega dos LXX (séc. Salomão possuia quarenta mil mangedouras para os seus cavalos." Ao contrário. diante de um texto aparentemente obscuro. no caso..6 (Vg 4.) dão a ler: terminou no sexto dia. Assim é que dão a ler: "Saul tinha um ano quando começou a reinar: reinou dois anos em Israel. em At 13. e repousou no sétimo dia. Ao se estudarem os problemas de números na Bíblia Sagrada. assim como a tradução latina da Vulgata (séc.8. quando começou a reinar.9 (texto hebraico) lê-se que Jeconías tinha oito anos quando começou a reinar. As traduções dos LXX e da Vg suprem a deficiéncia. e exige imperiosamente. considerada a afinidade gráfica de j(vau = 6) e J(zain = 7). anos em Israel. variante que mais fidedigna parece.) e síria (séc.25 fala apenas de quatro mil mangedouras. a qual assinala a duração de quarenta anos ao reinado de Saul. anos. só fazia suscitar .. apresentam a forma: "Deus terminou no sétimo dia a obra que fizera.25. embora não atestada pela forma atual do texto hebraico.21.C. O texto hebraico hoje conservado de 1 8am 13." São Paulo. v d. dificil se torna reconstituir a realidade histórica. refere outra tradição judaica. interpretando fontes ou seguindo critérios atualmente desconhecidos. A confusão entre "seis (sexto)" e 'sete (sétimo)" se explica fàdllmente. Diante destas variantes. um leitor desejoso de resolver a presumida dificuldade acrescentava um dado que. embora só esteja conservada em traduções. Ora a tradução grega dos LXX em 2 Crón 9.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 75 e (daleth) e (vau) j =100 (qof) e 7=200 (resh) J = 7 (zain) (resh) e =10 (iod) 7 = 200 Eis alguns textos em que as mãos dos copistas introduziram variantes errôneas Gên 2. Eis mais urna divergência que muito provãvelmente se há de explicar por deficiente transmissão do texto original.

" 20 A solução do problema é complexa. outras vêzes o interpolador visava tornar mais semelhantes entre si dois textos que lhe pareciãm afines um com o outro. menciona "800 000 guerreiros em Israel. Eliminada esta cifra. ainda se deve reconhecer que qualquer das cifras .. Ora o autor de 2 8am 24. Em primeiro lugar.o que é inverossímil. Aplicando-se tal hipótese aos textos de 1 Crõn 21 e 2 8am 24. bons exegetas admitem que o número de 470 000 em 1 Crôn 21. Haja vista apenas o seguinte exemplo: Em 1 Grôn 21.9. significando "milheiro". supôe um total de quatro ou cinco milhões de cidadãos em Israel nos tempos de Davi . 'Eleph. designaria um batalhão (ordinàriamente de mil homens). estas observações. e 500 000 em Judá. Destarte se chega a plausível solução do problema. Além disto. "Judá". mas permitiu que cada qual referisse simplesmente o que aprendera por via humana. como centuria em latim significava o batalhâo (ordinàriamente de cem soldados).8. Sendo assim.culdade se esvanece se se considera que o têrmo hebraico 'eleph. Já que éstes dados são Indiferentes à mensagem religiosa da Biblia. porém. neste Último texto. não chega a afetar a mensagem religiosa da Bíblia. Mlq 5. Ora pode-se bem admitir que os nomes 'eleph (= milheiro) e centuria hajam sido conservados na linguagem cotidiana. o Espírito de Deus não se dignou revelar aos hagiógrafos o número exato de guerreiros. pois. em texto paralelo. podia designar a fração de uma tribo. é entendido como o reino cismático do Norte. Assim nos livros do Novo Testamento. assim como a deficiente conservação ou a perda do original de alguns livros.é excessiva.23.15.. como o reino do Sul. que têm sido os mais copiados e estudados no decorrer da era cristã. em linguagem militar.1 300 000 (2 8am 24) ou 1100000 homens de guerra (1 Crôn 21) .5 lê-se que sob o rei Davi "todo (o povo de) Israel contava 1100000 guerreiros.. tais indicações bastavam para transmitir as verdades de índole religiosa que a história de Davi era destinada a comunicar aos leitores.. observa-se que a primeira cifra (1100 000 homens armados) se refere a todo o povo de Israel (incluindo a tribo de Judá. Feitas. Assim se originavam complicações para o futuro intérprete da Escritura Sagrada.5 seja o produto de Interpolação. mesmo quando o efetivo dos batalhões já não era respectivamente de mil ou cem homens. O fato de que Deus haja permitido a introdução de erros de cópia no texto sagrado. . Com efeito. apontam-se cêrca de 200 000 variantes.76 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO um problema exegético. e Judá 470 000 guerreiros". 1 5am 10. determinada subdivisão administrativa. relativamente poucas são as variantes de alcance dogmático ou teológico registradas nos códigos sagrados. 23. note-se que algumas recensões gregas de 1 Crôn omitem a cifra de 470 000 guerreiros em Judá. a quanto parece). consignadas num total de 4 270 20 "IFraeI". o leitor se vê diante de duas tradições existentes no povo de Deus a respeito do número de soldados do rei Davi: a tradição de 1 Crôn 21 e a de 2 5am 24.19. sem que cada qual tivesse necessàriamente o montante de mil homens. Esta última dif. como é o caso em Jz 6. conclui-se que sob o rei Davi havia 1 100 ou 1 300 batalhões em Israel. milheiro.

mais ou menos paralelos. SENTIDO EXCLUSIVO E SENTIDO PRECISIVO Entre os princípios que norteiam a exegese dos números bíblicos. 1 Cor 15.51.16. Lc 2.. porém. Marcos (11. que outro número.. Rom 12. destas variantes. Como se há de entender a divergência? .16. Eis como tal modo de falar repercute em passagens da Sagrada Escritura: S. não exaustivo. S. Lucas (19. há menção de um jumento e do jumentinho seu filhote. fôsse também fiel à realidade (considerada então sob aspecto diverso). aos números. Um pouco menos de 200 variantes tocam o significado do texto em pormenores secundários (cf. Mt 1. para que a defectibilidade das criaturas não deturpasse a mensagem do Criador. não obstante. ou sentido taxativo. as enumerações costumam ser exatas. Que quer isto dizer? Entre nós. Jo 1. se acrescenta tàcitamente o advérbio "sàmente. fazia também enumerações que apenas prescindiam de quantidade maior. Destarte a Providência Divina. artigos.).13. para resolver as dúvidas teológicas provenientes de tais oscilações. dá-se-lhes assim sentido exclusivo. a Sagrada Escritura mesma fornece outros textos.19s.18.1. velou. O semita. sem querer impedir as vicissitudes por que naturalmente passam os manuscritos antigos. não julgavam dever advertir o leitor a respeito do artifício. absoluto. 1 Tes 2. a grande maioria versa sôbre ortografia.).NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 77 códigos. Não obstante. assim falando. sôbre cuja fidelidade literária não pairam questões. mais vultuoso. Mc 1. ocidentais modernos. porém. não exclusivo. não exclusivo. sóbre o qual o Senhor fêz sua entrada solene em Jerusalém. 1 Tim 3. não se poderia deixar de mencionar mais o seguinte: os semitas às vêzes atribuíam às suas enumerações sentido precisivo. João (12. porém.2-7.. porque nem tudo vinha ao caso ou era de interêsse na narrativa A cifra enunciada correspondia à realidade considerada sob certo aspecto. a menos que o contrário se imponha pelo contexto. uso ou omissão de preposições. portanto.30-33) e S. não excluia. posição de palavras na frase. embora usasse dêste nosso modo de falar. O orador deixava simplesmente de mencionar tôda a quantidade. emprêgo de sinônimos.7. Cêrca de quinze apenas dizem respeito a assuntos dogmáticos (cf.14s) referem que os discípulos levaram a Jesus um jumentinho. sem a excluir.14. não atingindo o sentido do que o autor sagrado queria dizer. excluindo cifra mais elevada do que a referida. Usavam assim o número em sentido precisivo. apenas". 5.. Lc 22. contudo.2-4). Em Mt 21.

Disto se conclui que as profecias de aparições na Gallléia tinham sentido precisivo. matemática. . cf. Marcos (5. o Senhor curou um cego. Exemplos déste Último têm-se em: Mt 26.32: "Depois que tiver ressuscitado. Portanto. ao passo que S. naturalmente.. o 51109.7. mas apenas precisivo.36. Êste exame manifestará as principais leis de estilo que o autor sagrado tenha seguido ao empregar os números.1 anuncia: "Javé falou a meu Senhor (o Messias): Senta-te à minha direita. conforme a tradição exegética vigente desde os tempos mais antigos. dependerá sempre do exame do gênero literário usado pelo hagiógrafo.26). não exclui o 'depois que". se se atribui ao enunciado de Mc. não sentido exclusivo. S. isto não quer dizer que. lá O vereis. na narrativa dos evangelistas realmente só Interessava mencionar o animal que Jesus montou. Mateus (20. disse Jesus aos Apóstolos.27) mencionam um homem possesso. ao sair de Jericó. Mc 14. 19. Mt 28.46-52) descreve como. no texto paralelo. tal interpretação contradiria a tôda a teologia bíblica. José tenha tido com ela comércio conjugal. vereis a Jesus". Jo 20. Famoso é outrossim o uso bíblico da conjunção "até que" em Mt 1. Lc 24. Ora. pela primeira vez. o Messias haverá de perder o seu primado ou a sua realeza. que Jesus libertou do demônio.78 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A primeira proposição não se opõe à segunda.30). Le e Jo o sentido precisivo dos orientais.28. cf. É o que nos leva a dizer que também neste versiculo não se deve atribuir ao têrnio "até que" sentido exclusivo." O oráculo não significa que. "até que". Marcos (10.17. De antemão. Mateus (8. O recurso a tais instrumentos exegéticos há de variar. S. Mt 28. Também nas suas indicações cronológicas os semitas faziam uso dos têrmos ora no sentido exclusivo ora no precisivo.2) e S. no caso. porém.. de caso a caso.". da realidade.s santas mulheres (cf. Ora. *** As considerações dêste parágrafo visam tão-sàmente indicar as principais vias que conduzem à genuína interpretação dos números ocorrentes na Sagrada Escritura. após haver Maria dado à luz. fala de dois cegos.9. ficará o leitor consciente de que nem todo número na Bíblia quer e deve ser entendido como a expressão quantitativa.28) refere dois homens endeinonlados. apenas "pTescinde" ou faz abstração do que aconteceu depois. não exclusivo. Lucas (8. mas também aos Apóstolos (cf. após debelados os inimigos do reino messiânico. De modo semelhante ammciaram os anjos às mulheres santas: "Preceder-vos-á na Oahléia.) Contudo os evangelistas mesmos referem que no dia da ressurreição Jesus se mostrou em Jerusalém não sômente à." (Mc 16. preceder-vos-ei na Gaiiléla". ensina a sã exegese.25 está dito que José não se uniu a Maria "até que desse à luz o seu filho. significavam: "Na Galiléia certamente vereis a Jesus (e aquelas manifestações serão as principais) ". porém. não "Na Galiléia.lls). Até que eu faça de teus inimigos o supedâneo de teus pés. S. Jo 20. Em outros térmos. estas são outras tantas divergências em que o principio acima exposto encontra aplicação.

Assim Marcion. para o homem moderno. como se fôsse uru documento can6nico. quando os homens perceberam que Jesus. o Messias. o proveito que possa acarretar tal leitura. 217. conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo. fascismo. no séc. entram em conflito com as normas do Evangelho. Catholiques d'AUemagne (Paris. d'Harcourt." 1 A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo. guardá-lo era uma necessidade fatal. II. por conseguinte. rejeitava categôricamente os livros sagrados dos israelitas. ]933). é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica. consumara a Revelação do Antigo Testamento. de aparência por vêzes sólida. rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha. para o cristão ou. etc. após o séc. Rosenberg afirmava que a antiga Biblia não é mais do que uma "coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros". Na Alemanha. Acta Apostolicae Sedis 39 [1947] 545). 191. Surgiu mesmo no início da era cristã. 1924). 40. Mediator Dei. XVI. que a Grande Igreja fêz bem de evitar. da honestidade ou da ciência moderna. pretextando que tais Seções são pouco convenientes e oportunas em nossos tempos" (Fnc.CAPÍTULO V O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO Não e raro ouvir-se a pergunta: "Qual o valor que. julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompativel com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento. por exemplo. possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara. Adolf von Harnack (t 1930). Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. á qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. hereje do séc.). provocando "escândalos" de ordem moral ou científica. A questão não é nova. Mas. suas histórias e afirmações. a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é PalaMarcion (Leipzig2. De resto em 1947 SS. escrevia: "No séc. Citação encontrada na obra de R. mais largamente. não se vê. à primeira vista. II e fundador de seita. 2 Não obstante as objeções. XIX. 1 2 . o Papa Pio XII notava com Sumo pesar haver entre os católicos "quem queira cancelar dos autênticos livros de oração pública os textos sagrados do Antigo Testamento.

máximas de sabedoria. o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida. a seguir. Chrzstós é. sim. porém. tradições populares. conforme as páginas iniciais da Bíblia. êste. datada de 21 de março de 1937. a encíclica de Pio XI "Mit breunender Sorge". Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. o nome Cristo se foi tornando estritamente nome pessoal do Senhor Jesus. primãriamente a designação de uma função. profecias. Ungido. Em conseqüência.diríamos mesmo: de tôda a Sagrada Escritura não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. significando Ungido. Já que as profecias em Israel o apresentavam como o mais glorioso descendente do rei Davi. cânticos religiosos. era simplesmente dito o MESSIAS. pois. Aos poucos. 1 Sendo assim. eta$s que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. tome. prometeu. por exemplo. examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. § 1.° DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META Quem abra o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história. sejam crônicas. também para os nossos tempos. veja-se pãg. É isto o que. do pontõ de vista de Deus. mas Deus. interessa-nos. travada com o primeiro homem logo depois da criação. por vicissitudes de tradutores. antes do mais. Rei teocrático). é comumente dita "Testamento". Com efeito. para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual. em última análise. restaurar o pacto mediante novo homem dito "o Messias". possui a função de Messias (cristo. etc. sejam profecias. nos leva a dizer que tôda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora. de então por diante. portanto como o Ungido por excelência (à semelhança de Davi e dos demais reis de Israel. sejam leis. que. que não se deixa vencer em bondade. consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura. significativa. 3 Tenha-se em vista. . é. todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história. ora preparada e anunciada (Antigo Testamento). que eram sempre ungidos). após a ruptura. Isto faz que tôda a história. ora efetuada (Novo Testamento). designa na linguagem bíblica o Restaurador prometido por Deus. 4 Sãbre o conceito biblico de 'Aliança". não a soube observar. Jesus (o) Cristo é expressão que se poderia assim desdobrar: o homem que tem por nome civil Jesus (salvador. Por conseguinte também. as variadas páginas do Antigo Testamento .O têrmo hebraico Messias tem seu correspondente exato no grego Christós. 4 A aliança é.80 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vra de Deus imperecível. 5 Messias é têrmo hebraico que. em hebraico). V e VI). . violou-a. 102s. portanto.

O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 81 Esta afirmação. tanto no individuo como na sociedade. o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários. ora menos evidentes. sob a face externa. no vocabulário de S. pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. éstes dois antagonistas podem ser chamados 'o mistério da iniqüidade" e "o mistério de Cristo" (f. Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história. introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão. a serpente e sua linhagem. doenças foram. doutro lado. porém. pois. 1 . abaixo. 'o Anticristo" e "Cristo" (cf. carece de caráter religioso. procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus. O É o autor de Edo 17. sim. Eis o aspecto muito simples. ou ainda. O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gên 1-3) caracterizada por três acontecimentos: a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem. após a queda original. manifestações ora mais claras. "a Cidade do Diabo" e "a Cidade de Deus". Tal aspecto. ou. Isto implica que. são.7 e Col 2.10 quem fala de aliança conclulda no paraíso entre Deus e os primeiros pais. pois. ao mesmo tempo. 6 violada. quando se consumará a vitória do Bem sôbre o mal. isto é. o ôlho da fé pode e deve discernir. deve. as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico. .22). Gên 3. manifestações do reino do pecado ou de Satanás. a descendência da mulher e a da serpente (cf. os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor. do reino de Cristo. estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente. todos aquêles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores). São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos. a história. não constitui senão a periferia do Antigo Testamento.2). não pactuam com a serpente. por graça de Deus. fomes. 2 Tes 2. pela criatura. Agostinho. conforme S. guerras. João. muito dramático.15). pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fêz tanta coisa fôsse escrita sob o carisma da inspiração. procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios. mas. porém. a mulher esua posteridade. Percorreremos.Jo 2. Deus a promete restaurar. tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado. 7 Em linguagem paulina. ainda assaz genérica. por mais explicável que pafeça á luz de fatóres naturais ou mecânicos. Inegàvelmente a história que êle nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. em outros têrmos. de outro lado. é o jôgo dêstes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos individuos. que a história universal tem aos olhos de Deus. 1. Eva penitente e todos aquêles que. isto é. considerada à luz de Deus.

por meio de Moisés. A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.. dêsse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. humanamente mais "garantido". sem intermediário régio. politicamente insigni8 O Senhor fõra até então o Rei de Israel. Samaria e Judá.82 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus. a corrução se alastrava entre os homens.C.C. A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada. para Canaã (Palestina atual).A PROMESSA". Já que. como lembra o próprio Deus falando a samuel em 1 5am 8. após o primeiro pecado. Em vista disto. que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930). dito de Judá. a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gên 12. A própria monarquia..7. mais fundado sôbre bases que o bom senso pode apreciar (tal é. por volta de 1800 a. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA. Éste desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fôra governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes). Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos. acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte.1-3). dito da Samaria. dando-me. Instaurou-se então o REINO de Israel. Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldéia.: tendo Israel caído cativo do Egito. a MONARQUIA. porém. . Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã. ou seja. e reino do Sul. A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para tôdas as nações.C. Os dois pequenos Estados irmãos. a monarquia). Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração. 8 queria um govêrno menos dependente da Providência insondável do Criador. aliança. Por volta de 1020 a. travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano. sim. Daí chamar-se êste segundo marco da história ". O surto do povo de Deus foi confirmado por cêrca de 1240 a. provisória e nacional. uma constituição teocrática. terra idólatra. sem dúvida.

Israel. pois lá haviam adquirido certo bem-estar ffiaterial.. sírios e romanos sucessivamente). A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política.15). os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica 9 da Divindade e da religião. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita. era o chamado RESTO DE ISRAEL. deveria esperar o REINO. ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém. vibrando de autêntica piedade. ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios. mas fervorosos adeptos de sua fé. DE DEUS. oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas. gregos. Também êste foi altamente pedagógico para o povo de Deus. Mc 10. com a de um Libertador político. Muito digna de nota é a epopéia dos irmãos Macabeus (165-134). O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus. Em 538 Ciro.83 ficantes. messiânica. a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente. humanamente falando. sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Sarnaria em 722 se tornou prêsa dos assírios. Restaurador da ordem religiosa. a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa. que lhes sufocava o fervor teocrático Após o exílio. Privado de todo o aparato exterior (templo. que sua missão religiosa não estava necessàriamente ligada com sua missão nacional. os israelitas fàcilmente confundiam a figura do Messias. nêle não pode entrar" (cf. de desconcertante para o "f 116sofo".O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO . que ainda era etapa em demanda da Redenção plena. Judá passou a viver como COIVIIJNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro. os habitantes de Judá sofreram o EXILIO. porém. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias. . sacrifícios. comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. Javé assim lhes mandou uma "redenção". contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de 9 CL pág. Deportados para a Babilônia em 587. um reino tal que "quem não o recebe como uma criancinha. os quais.. prosperidade humana. moveram a resistência contra os sírios. passando a conceber o Criador de modo muito mais puro. 59. conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus. infelizmente. que queriam paganizar o povo de Deus. egípcios. com tudo que êste reino implica de transcendente. a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio. quase malogrados. Note-se bem: êsse resto se constituía de judeus pobres. rei da Pérsia.

Mt5. são tempos de máxima tensão. "ter" e. Esquemàticamente. "não ter" a vida eterna.34 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pensar. segundo Adão. não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento. a noção de que os bens messiânkos não se destinam a um povo apenas. o REINO davidico se transformou em REINO DE DEUS ou dos céus (ef. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus. ou seja. ao mesmo tempo. a sorte póstuma do homem. se mudou em promessa de bens transcendentes e impereciveis (cf. 7. prolonga-se já por vinte séculos. mas cinicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. em Pentecostes. que visava aparentemente a posse de Canaã e uma mansão terrestre. "não ser" filho de Deus. .5).14) . induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sôbre a morte e as demais conseqüências do pecado). poder-se-iam assim reproduzir os grandes marcos da história sagrada: 10 Deve-se mesmo dizer que Cristo recapitulou e consumou os grandes marcos da história anterior. que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada. a ALIANÇA mosalca se mudou em NOVA ALIANÇA (oL 1 Cor 11. a PROMESSA. Pelo Redentor. ao mesmo tempo.25. 2 Cor 3. Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Mt 5. Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história. Finalmente na plenitude dos tempos veiõ o Messias. com efeito. em que o cristão experimenta o que é "ser" e. ou seja. dos espíritos. 10 Da vinda de Cristo em diante. a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus.3). mas a tôdas as nações da terra. foi admitindo outrossim certo universalismo religioso. Uma vez completo o número dos qüe entrarão na bem-aventurança.

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a Aliança. povo que não tinha gênio metafísico. mas também por meio dos denominados "tipos bíblicos". dêsse catecumenato. Isto quer dizer: há no Antigo Testamento coisas e episódios que. por êsses personagens ou fatos misteriosos disseminados. 1949). a Promessa. não sàmente por palavras. não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula: "Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda.. mas porque o Senhor queria disseminar por tôda a história sagrada acenos à plenitude dos tempos. talvez pouco dignos de Deus. o Exílio. faz-se mister ainda realçar uma característica do processo pelo qual a Sabedoria Divina quis instruir os homens no Antigo Testamento. mas. porém. ou num plano meramente natural. o Espírito de Deus quis. sim. ." 1 1 § 2. manifestariam cada vez mais o seu significado. ).86 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Quanto ao Antigo Testamento em particular. e seriam plenamente inteligíveis após a vinda do Messias. se projetavam os traços e a luz do que havia de vir posteriormente. consideradas em si. Les idées maftresses de l'Ãncien Testament (Paris. Ss. Tais acenos ou tipos. as tentativas. a Comunidade. a fraude de Jacó nas relações com seu irmão Esaú. quis ou permitiu tais coisas "estranhas" não porque. prenunciar a história do Messias e do reino messiânico. Gelin. Nesses particularès do Antigo Testamento. o sacrifício de Abraão. considerados em si mesmos ou à luz da "sabedoria humana". O Antigo Testamento é a história dêsse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha. fôssem capazes de edificar os leitores (!). a Monarquia. dessa espiritualização crescente.. Nin11 A. a intervenção gratuita e soberana de Deus na história. mas religioso. com o decorrer dos séculos. portanto. ao Messias. se poderiam dizer infantis. a história do dilúvio e da arca de Noé .0 OS TIPOS BÍBLICOS Terminado êste breve percurso da história sagrada. os reveses. o leitor deveria ser recordado de que não é a sua indústria ou "sabedoria" humana que o salva. Tal característica bem pode ser chamada a chave para se interpretar a literatura inspirada de Israel Com efeito. Deus. o Ser Transcendente (assim todo o ritual do cordeiro e do sangue que o Senhor mandou aos israelitas observassem por ocasião da saída do Egito. viveu e aparentemente descobriu a via da salvação. As experiêncas. O Antigo Testamento é a história dêsse continuo "ultrapassar-se a si mesmo". nas Escrituras. formulou-a pouco a pouco. Ésse povo nos aparece movido por um impeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente. a reconsiderar em nível mais espiritual o que êle viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história.

interpretavam arbitràriamente a mitologia num sentido alegórico. nos profetas e nos salmos. fala de Jesus." . julgando indignos os mitos narrados por Homero e pelos primeiros "teólogos" gregos." (Lo 24. civis. pelos profetas e os salmos". cada uma das quais recebia o nome do seu livro ou autor principal. Êste era dividido em três partes. At 13. o que a Éle dizia respeito. 4 "Disse-lhes: 'Õ homens sem entendimento e tardos de coração para crer em tudo que disseram as profetas Não era preciso que o Cristo sofresse para entrar em sua glória?' E. necessãriamente.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 87 guém.15. como se as diversas peripêcias do Olimpo significassem verdades filosóficas? 13 são palavras de Jesus ressuscitado aos apóstolos: "Eis o que vos disse quando ainda estava convosco: era preciso se cumprisse tudo que a meu respeito está escrito na lei de Moisés. Profetas e salmos" são têrmos que.45.21).44-463 "Moisés. e não quereis vir a Mim para ter a vida.29. na impossibilidade de avaliar o Antigo Testamento. elas são essencialmente sinais. explicou-lhes.. tal atitude exegética seria subterfúgio sutil se o próprio Autor Divino das Escrituras não nos tivesse revelado o seu intento de prefigurar o Novo Testamento nas páginas anteriores a éste. por muito rude e primitiva que pareça. justamente os da Lei mosaica são os que menos vaticínios explícitos contêm a respeito do Messias. li ora. apresentam a antiga história de Israel e prescrições rituais. Lo 16.31. e disse-lhes: "Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia. Rom 3. separando-as da história subseqüente. 1"Se acrejitásseis em Moisés. a partir dos quais hão de ser entendidos. pois foi a meu respeito que êle escreveu. tipos todos orientados para seus correspondentes antítipos. Jo 5. começando por Moisés e (continuando) por todos os profetas. etc. acreditaríeis em Mim também. pode pretender interpretar tais figuras. como se fôsse intencionado por Deus qual imagem de algo de posterior e mais sublime? 12 Não há dúvida. porém: não será arbitrário querer explicar o que o Antigo Testamento tem de estranho. dentre os Jivros do Antigo Testamento.39: "Sondais as Escrituras. donde se segue que. 24. Pergunta-se. em tõdas as Escrituras. Jo 1. Quem se fecha a essa perspectiva." (Jo 5.) "Moisés e os profetas" é expressão sumária para designar tôda a Escritura Sagrada (cf. mostrando-lhes como sua paixão e glorificação se acham prenunciadas nestes livros." Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras.46." (Lo 24. 13 Aos discípulos de Emaús Jesus expôs "Moisés.) Cf.23. ora sao elas que dão testemunho de Mim. dessa 12 Não será isto uma evasiva semelhante à dos estóicos e filósofos pagãos posteriores que.25-27. vê-se. 14 Mais ainda: afirmava o Senhor que a Lei mosaica mesma. designavam todo o catálogo das Escrituras. pois. segundo os judeus. pois julgais por elas possuir a vida eterna. 28. E como se nos manifesta tal intenção divina? De maneira geral dizia Cristo que tôda a sua vida e obra fôra predita "por Moisés. todos os profetas e tôdas as Escrituras".14.

1-3." (1 Cor 10. o sacrificio de Isaque (Gên 22.2s). Múni 9. alguns episódios (ao menos os mais característicos) e alguns preceitos devem ter valor típico.15). Mt 2. Rom 9. 21. rei e sacerdote que oferece pão e vinho (Gên 14. Espâsa e Mãe (cf. Rom 5.21-31) = tipo do batismo (cf. a primeira mulher.20) = tipo da Igreja.11. Ape 2. Col 2.21-24. "conforme o seu costume.25) = tipo das duas dispensações da graça.5) o filho de Deus no Antigo Testamento (Os 11. durante três sábados.26) = tipo do futuro (cf. a nós que chega- "Tôdas essas coisas lhes aconteciam em figura (typi- mos aos fins dos tempos.14). recorrendo às Escrituras do Antigo Testamento. explicando e afirmando que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos" (At 17.11s) • passagem do Mar Vermelho (Éx 14. e foram escritas para nossa erudição. 1 Cor 10.8s) = tipo do Salvador crucificado (cf.17-19). também Paulo manifestava aos seus ouvintes o caráter messiânico da paixão e da ressurreição de Cristo. Ef 5. com certeza garantida pelo próprio Deus no Novo Testamento. Principe da paz (cf. Esaú e Jacó (Gên 25.14) 16 Em Tessalonica. 3.14) = tipo do Messias.13s) = tipo do alimento do povo messiânico (cf. as águas do dilúvio (Gên 7) = tipo do batismo (cf.22-31). Gál 4.1-19) = tipo do sacrificio de Cristo (cf. . no Antigo e no Novo Testamento (cf. 1 Cor 10. Paulo foi ter com os judeus e.20). Eis a lista completa dos trechos do Antigo Testamento dos quais.9-14) = tipo do batismo (ci.1-11).31s) Abraão e seus dois filhos (Gên 16.) Como Jesus.ls). Rebeca e seus dois filhos. o Autor Divino da Bíblia nos deu expilditamente a conhecer que é tipo das reaiidades messiânicas. Jo 3. valor de sinais do Messias. Jo 19. Hebr 11. discorreu com êles na base das Escrituras. espõsa e mãe (Gên 2. Hebr 1.49-51.6): koos). Si 109). Melquisedeque.10-13) Salomão. • circuncisão (Gên 17. segundo o grego typoi) do que nos concerne" (1 Cor 10.12) = tipo da Vitima perfeita (ci. se pode dizer que têm sentido típico: o primeiro Adão (Gên 1. asseverando que os diversos acontecimentos do êxodo de Israel (passagem do Egito para Canaã) se deram a titulo de "figura (tipos. 16 A respeito de um ou outro personagem ou acontecimento particular. Paulo faz eco às asserções de Jesus.46. 21-26) = tipo do povo messiânico (cf.1) = tipo do Filho de Deus Encarnado (ci. o cordeiro pascoal (Êx 12.88 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO história e dessas leis. 1 Pdr 3.15.17-20) = tipo de Cristo Rei e Sacerdote (cf. o maná no deserto (Êx 16. Jo 6.17) a serpente de bronze (Núm 21.33-37) as graças e punições do êxodo = tipo das graças e punições do Cristianismo (ci. Hebr 7. o rei pacifico (2 5am 7. S.

diversas narrativas que carecem de interêsse religioso imediato. basta lembrar que na Escritura há tabelas genealógicas (cf. Não há dúvida de que nem os autores inspirados nem a tradição cristã tinham em mente enumerar todos os tipos da Escritura sagrada. A êstes se podem acrescentar outros traços cujo sentido típico é garantido pelo unânime testemunho da tradição cristã: Abel. objeto ou acontecimento da era messiânica. ora mais pálido. é um fenômeno prôpriamente literário: consiste em que o escritor use de determinados vocábulos.39s). 17 Em resumo. além dos citados.3-15) = tipo de Cristo sacrificado pelos seus. na mente do escritor que dela se serve. não deixam. espiritualizado. não está dito que tôdas as seções do Antigo Testamento se referem diretamente ao Messias e ao seu reino.1-11) = tipo da morte e da ressurreiçë. ora mais vívído.1-50. como êstes. Mt 12. com absoluta segurança. porém. como aceno ou figura longinqua. só tenham sentido literal muito simples. Col 2. J05 13-21). descrições geográficas (cf. além do seu significado imediato.'ide Cristo (ci. único senhor capaz de dispor acontecimentos pretéritos da história em vista de outros futuros. 1 Crôn 1-9). alusivo a Cristo. de crer que. Judite. Hebr 9. pois. que gozava do privilégio de livre acesso ao rei (Est 15. fonte e consistência do tipo se acham na mente de Deus que.26) = tipo de Cristo entregue por 30 moedas e Salvador do mundo. a vitória de Davi sóbre Golias (1 Sam 17) = tipo da vitória de Cristo sôbre o demônio. Com isto. . senão por revelação do próprio Deus. no fim dos tempos estará consumado. a outro personagem.2) se projeta esquemàticamente. pois. o Patriarca vendido por seus Irmãos e salvador dos mesmos (Gén 37. atribuindo-lhes. Ester. É. existam outros tipos no Antigo Testamento. 17 Em linguagem técnica. José. o justo imolado por seu irmão Caim (Gên 4. seria artificial e pernicioso querer descobrir em cada passagem da Bíblia um significado simbólico. Ao contrário.1-34) = tipo da Redenção (ci. outro mais abstrato. dispõe haja homens e fatos no pretérito relacionados com análogos futuros.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 89 o rito do dia da Expiação (Lev 16. Fonte e consistência da alegoria estão. o mistério do Cristo (cf. diremos: são os testemunhos da Escritura mesma que nos levam a ver no Antigo Testamento uma longa preparação para o Cristo. se distingue da alegoria pela característica seguinte: o tipo implica um personagem. nos primórdios e no decurso da história sagrada. um objeto ou um acontecimento que realmente existiu na história e que Deus houve por bem ordenar. porém. Contudo os textos que. a alegoria. o tipo. Josué.7-9) o perigo mortal de Jonas e a subsequente libertação (Jon 2. a mulher forte por suas virtudes (Jdt) = tipo de Maria Santissima. regendo a história.4-19) = tipo de Maria Santíssima dotada do privilégio da Imaculada Conceição. não podem ser reconhecidos. pois. chefe do povo de Deus (Jos) = tipo de Jesus Redentor. ao contrário. Deus o pode perfeitamente fazer já que todos os tempos lhe são igualmente presentes. que afirmamos existir na sagrada Escritwa.

fornecem a trama necessária para que pessoas e fatos se articulem orgânicamente em vista da grande finalidade que é o Messias. pois constituem o arcabouço que sustenta os grandes marcos da história sagrada. é esposada pelo israelita Booz e assim entra no povo de Deus. ou. nas narrativas proféticas.17) e. o tema messiânico. a fim de que haja aonde as cordas sonoras se prendam. Jer 30.. o Salvador não só do povo de Davi. com seus quatro capítulos. Agostinho: "Nas citaras e em semelhantes instrumentos musicais. pois. Mateus pode comunicar. Mt 1.) . como filho de Davi. narra a história . que.23s. êxodo da Babilônia -. S. de exprimir.9. Semelhantemente: Êxodo do Egito -.. 22. ou por Si já significa algo de futuro.. cf. junto com os demais. tendo por base a história aparentemente profana de Rute. pré-científica". cf.aparentemente insignificante do ponto de vista religioso . Por sua vez. se não o significa. pág. Ora. 19 Eis um exemplo muito expressivo entre outros: o livrinho de Rute. 30s. Mateus 'recapitula" essas duas histórias anteriores: Cristo. as indicações cronológicas e geográficas dão forma à história dos reis de Israel e dos personagens do Antigo Testamento. por sua vez. conforme o Evangelista. chamada Rute.5). é descendente de Rute. os demais elementos são colocados no conjunto da citara.de uma estrangeira moabita. dela nasce Obed. aquilo que dentre os feitos dos homens é descrito em espírito profético. porque constitui um dos tipos mais famosos do Messias (= Filho de Davi). Ez 32. Redenção messiânica (1240) (538) * * * 18 Já que a sagrada Escritura alude a muitas noções de índole profana.17: trata-se de introduzir na história sagrada a genealogia do rei Davi. Os' 3. Cf. êstes. a estrangeira (um dos quatro nomes fentninos expressamente citados na árvore genealógica de Jesus. 18 Mais concretamente ainda: as genealogias. 19 Eis uma comparação oportunamente sugerida por S. a figura de Davi é longamente descrita nas Escrituras. contràriamente ao estilo das genealogias orientais.a pessoa e a obra do Messias (Mt 1. é três vêzes (ou por excelência) o que foi o rei Davi (cf. dão forma e colorido à figura do Messias.história de Davi . pai de Isai e avô de Davi. eis a mensagem que S.o Messias -. Em esquema: História de Rute . não obstante. Mt 1. Por que terá o Espírito Santo outorgado o carisma da inspiração para se escrever história tão humana? A finalidade imediata se depreende de Ru 4. Cristo é.1-17. mas produzem-no apenas as cordas.90 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO por isto.94. encontra-se no livro sagrado a fim de que pudessem ser inseridos os trechos que significam algo de superior. apõs vacilações de amor. Da mesma forma. bastava que tais noções fóssem dotadas da veracidade comumente dita "popular. mas também de tôdas as nações da terra. o Espírito Santo não julgou necessário comunicar alguma revelação a tal escritor a respeito de particulares que só desempenham papel secundário no Livro Sagrado." (Contra Faustum Mau. que só indiretamente têm relação com o tema primário da Biblia . ao apresentar a pessoa do Messias no Evangelho. não tudo que se toca emite suave som. essas noções foram consignadas no Livro Sagrado tais como as conhecia ou podia conhecer o autor humano da Bíblia.5: Cristo é Davi por excelência).

após a vinda do Messias. enquadrou-a dentro das circunstâncias (data. Está claro que ninguém pode entender as noticias modernas e sensacionais dêsses periódicos se não conhece o alfabeto judaico antigo que as veicula. sentido muito mais manifesto do que antes de Cristo. É o próprio Jesus quem o insinua delicadamente numa de suas parábolas: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas. os que se referem à imolação do cordeiro pascoal. a Santa Igreja compõe em tôrno dos ritos uma moldura de textos do Antigo e do Novo Testamento que elucidam. não deixam de pôr em relêvo o significado do Antigo Testamento. ora com dizeres explícitos. efetuando esta Redenção mais valiosa. é dado aos cristãos ver os antítipos. em La Vis Spifltudlle. as grandes fases da história sagrada pré-cristã eram etapas que Deus dispunha em vista do Cristo e do reino de Deus (por conseguinte.12). por qualquer pretexto que seja.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 91 Estas considerações. ora com imagens e figuras. pois. tirar a êste o valor de consumação de sábia pedagogia divina. mas vocabulário de linguas ocidentais.313 Impossível. 'Pourquoi faut-il lire l'Ancien Testament". etc. exclui-lo do uso dos cristãos equivaleria a volatilizar o Evangelho.) que convinham à celebração da Páscoa judaica. Não. do Príncipe das trevas (cf. a Santa Igreja faz passar ante os olhos dos fiéis os textos respectivos do Antigo Testamento (em particular. em vista da Igreja). Não é por mero espírito de tradição ou conservativismo arqueológico que ainda hoje os cristãos se servem dêstes textos. do gênero humano cativo sob o jugo do "Faraó" dêste mundo. que são escritos com caracteres hebraicos. Comparação proposta por Hamman. Haja vista principalmente a solenidade de Páscoa: a libertação dos israelitas cativos no Egito (Páscoa judaica) realizou-se para possibilitar a libertação. mais importante. os ensinamentos de Cdsto não poderiam ser devidamente assimilados. não lhe darão fé. caso desconheça o seu fundo de Antigo Testamento. Nos tempos presentes. à travessia do mar vermelho. Ë principalmente através da S. ao lado dos tipos. a Igreja tem consciência de continuar em sua vida a história do povo de Deus iniciada no Antigo Testamento. impossível ser cristão. principalmente do alemão antigo (que constitui a substãnoia do idioma chamado "yiddish"). Querer. aquilo que se celebra no culto cristão. Assim também ninguém entende plenamente o S. portanto. 85 (1951). 8. crer na autêntica mensagem de Jesus Cristo. Cristo mesmo. ao celebrar os mistérios do Crista e da Redenção na Liturgia. Ef 6. Em conseqüência. das imagens. aos olhos da fé. 20 Esta conclusão será ulteriormente esclarecida e confirmada pelo que se há de dizer no capítulo seguinte. ritos legais. ou seja. sem que se estime e valorize o Antigo Testamento. com isto o Senhor sobrepôs à Páscoa "típica" a Páscoa em sentido pleno. mesmo se alguém ressuscite dentre os mortos. de que fala o Antigo Testamento. por resumidas que sejam. É por isto que. Liturgia ou pelos seus ritos e preces oficiais que a Igreja mostra como entende e quanto estima o Antigo Testamento. . pois. Evangelho. ao comemorar os mistérios da Redenção simplesmente dita (morte e ressurreição de Cristo). aos episódios do êxodo no de20 Os Santos Evangelhos se poderiam comparar a jornais dos judeus modernos." (Lc 16. os textos do Antigo Testamento têm. hoje em dia. as realidades mais plenas outrora esboçadas.

8. 6. "Tôda criatura é semelhante à erva E tôda a sua graça é como a flor dos campos.) . Mas a palavra de Deus permanece para sempre !" (Is 40. Êstes trechos fazem o papel de aceitos antigos às realidades presentes (o que se torna evidente se se confrontam os textos da Liturgia da Semana Santa com a tabela de tipos aciha proposta).92 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO serto). A erva seca e a flor murcha.

da Grécia e de Roma).. tais pormenores só foram consignados na Bíblia a título de suportes de verdades superiores. da Pérsia. nem de geografia. Convém-nos agora aprofundar uma das conseqüências mais importantes que desta afirmação decorrem. . .. mas parece que o Criador conta com tôda essa deficiência e a utiliza para a fazer servir a um fim providencial ou à plena manifestação do Bem. nem de ciências naturais . em todo o decurso do Antigo Testamento o Senhor respeita a criatura e suas fraquezas.. um movimento ascensional contínuo: um povozinho do Oriente.. suportes de uma única grande idéia. c'est sa direction.CAPÍTULO VI AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA No capítulo precedente verificamos que a idéia do Messias domina todo o Antigo Testamento. Aquilo a que o cristão deve primàriamente voltar a atenção. e a Sagrada Escritura em geral. Israel. apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram. ao ler o Antigo Testamento. a miséria humana aí se atua sem pudor. a providência paterna do Criador. sim. não são os pormenores. Deus violente o homem e a natureza.o Messias. não obstante. sem que. da Mesopotâmia." Citado por Gelin. O que primàriamente merece a atenção do leitor é o movimento de conjunto. A história sagrada é.). 57 (1947) • 8535. mostrando-se continuamente incapaz de viver coerentemente com tão elevada ideologia. a trama da história que lentamente se desenvolve ante os seus olhos. e (isto é particularmente belo) encaminham-se. nem de história. para obter esta convergência. a justa sanção etc. pôde ser durante quase 2 000 anos o depositário e defensor da fé num Deus transcendente e em verdades sublimes que nem os grandes filósofos pré-cristãos souberam conceber (a criação do miando a partir do nada. O dedo de Deus nas Escrituras só se torna perceptível a quem considere a direção geral das mesmas 1 ou a quem observe como as fases da história bíblica se encaminham aos poucos para um têrmo único . em L'Ami du Clergé. destituído de gênio (ao lado das grandes civilizações do Egito. por si sempre tendente ao grosseiro e material. ao contrário. guardou e 1 Já Claudel dizia: "Le sens d'un livre.

É isto o que. do Livro de Deus. passará possivelmente de olhos fechados ao lado de grandes verdades e tropeçará em minúcias insignificantes. Rei Vitorioso. sob os quais a ação divina se quis ocultar. que o'simples leitor. antes do mais. o leitor se arrisca 2 a não perceber a Mão de Deus. após 18 séculos. uma é como que a artéria central: a REVELAÇÃO DO MESSIAS. arrisca-se . que constituem a estrutura. Caso se prenda a minúcias do texto bíblico.° A ARTÉRIA CENTRAL DA SAGRADA ESCRITURA: A FIGURA DO MESSIAS A figura do Messias foi sendo delineada progressivamente no Antigo Testamento. correm fios condutores (que abaixo chamaremos "temas"). que atuou e atua em cada episódio da história. porém. É fácil. pois. agentes humanos ou mecânicos. importa-nos chamar a atenção do leitor para o fato de que há na Bíblia o que se poderia dizer "linhas mestras" ou "fios condutores".. nada mais vejam nas Escrituras do que as minúcias que impressionam a fantasia ou chamam a atenção do homem de ciências. Sendo assim... perene. Tal é o aspecto predominante nos livros históricos do Antigo Testamento. afeito às guerras e pouco dado à Filosofia. 2 Dizemos: "caso se prenda. as notas essenciais.94 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO afinal. muito ao contrário ) os pormenores são consignados na Bíblia para sustentar a mensagem divina. e mesmo o emdito.. todos os bens divinos se concentram nessa Sabedoria. transmitiu ao mundo o seu patrimônio de sabedoria. caracteriza a história sagrada como mensagem divina. Dessas linhas mestras. É esta grande visão que deve dominar a interpretação dos acontecimentos particulares do Antigo Testamento. Livros posteriores ao exílio babilônico (ditos sapienciais) descrevem o aspecto transcendente do Messias: falam da Sabedoria de Deus como se fôsse Pessoa que de tôda a eternidade existe com o Criador e exerce o papel de Medianeira entre o Autor do mundo e o gênero humano. arrisca-se a perder-se num emaranhado de causas segundas. mais fàcilmente podia apreender. . cara a Deus e amiga dos homens. patenteando finalmente o seu pleno significado na história de Jesus Cristo e do seu reino. na Escritura Sagrada a revelação do Messias e as suas linhas laterais ? § 1. os quais desenvolvem um ou outro aspecto particular da pessoa ou da obra do Messias. Ao lado da artéria central.• não como se necessáriamente a consideração das minúcias do texto sagrado impedisse a visão do sobrenatural. aspecto quê o povo rude. Como se apresentam. de acôrdo com a capacidade dos homens simpies a que a mensagem bíblica se dirigia: Os livros mais antigos de Israel põem em realce principalmente a face humana do Messias: descrevem-no como Grande Herói.

. implica a sua Divindade. Eis o aspecto do Messias Deus e Homem. não nos quis salvar senão unida à humanidade. que se encontra principalmente nos livros proféticos. por sua vez. Em esquema assim se dispõem os principais traços do Cristo no . tal como é apregoado pela Bíblia. mas não cumpre sua missão de beneficiar os homens senão mediante o sofrimento e a morte. A sua Divindade. Outros livros do Antigo Testamento posteriores ao exilio desvendam o aspecto mais misterioso do Messias: é. Rei Vitorioso.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 95 3. sim. Sabedoria eterna.Antigo Testamento: 3 Claro está que os diversos aspectos do Messias se apelam recIprocamente: mesmo o titulo de Herói ou Rei vitorioso. por muita soberana que seja.

çztifl-.. 0 d O O O CO O O O t o ti OO c cc . 04. cc -o-- cc t o o.! o . 020 o dcc o co toId'4d4 ' -o - o.PARA ENTE±{DER O ANTIGO TESTAMENTO — o. C' o o O c acc t cco. 2cc c O Z cc - o o 4-.) 4-) O 'oii t-O• rCI cc - o. O 0<1 O.•- — o 0 4-' rA 'cc cc cc o o ti £o o CO o no 1-o O. cc o -o t 01 4' 0'•° '4-4 j CO C 1 o. ccc cc (ti cc cc 4 o.

4. dq . cc ' tio vt 0-t D1• O oot rcc. V1N 0 cli u. ti - O O O O O ti4 li cc O O ti ti Co e- O cc 0 flC.'7'nQccÇ. 0 a) c ccti Ott t 0 10.icc 0a o - r OO' c < ti c0.O.t O t 97 - t-cc - cc dO 4LL cc cc co - Ee-to -.l !l1 dt fl ' ccaOtt .N °E 4. °t 4CJ C') . o —lo Citi til O o>0 •LO — cc Liti R CO 9 E O cc LO 1• 00 — O o!.a.0 U2ot 1 u cl'g o 2 CO cc cc Ci (5 cc d aD 1 o 00 od. o o ti o 'O • co o ti e'o -ii 'O .° O a) ooI lI.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 0 sn o ti O ti O . O_ cl. .9p1 0cc ttocc • tiq q40 o o . Li rr cc t cc cc PI cc. cojc2 cc - r cc • jcc 4 OQiti ti t cc 1 ti o ia ° ti cco. 11 Z o Z o 0 cc ctO Q < O O cc cc 6 Lfl R co .4 R ti cc o LO cc lO t o ti O 00 oi lo C .. ' ci-i.

Vejamos agora fios condutores que paralelamente a tal artéria desdobram aspectos particulares da obra messiânica. por excelência. o qual. Gên 37. infecunda como era. uma descendência para si. foi chamado por Deus a emigrar da sua terra. onde o Senhor lhe prometia posteridade abençoada (cf. Por ter dado fé a tão estranho vaticínio. para a realização de seu plano.26). a mais fragorosa derrota possível: Abrado. culmina na obra. destituídos de sabedoria ou algum outro titulo. mais tarde e inesperadamente.1-15. Gên 27. para ir em demanda de região não indicada. 18. herdeiro que. Ê esta certamente uma das notas mais características da ação divina entre os homens. houve por bem escolher elementos aparentemente ineptos.1-45). Esaú. § 2. Abraão foi dito "Amigo de Deus" (cf. foi pôsto de parte em benefício do irmão Jacá. a qual foi. o mais velho.1-3). O TEMA DA ESCOLHA GRATUITA OU DA FÔRÇA DE DEUS QUE SE MANIFESTA NA FRAQUEZA DO HOMEM Que significam êsses títulos? Querem dizer que. sim. Dos doze filhos de Jacó. êste "garantiria" a realização do plano de Deus . em virtude desta condenaçào mesma. foi por Deus preterido em favor de Isaque. uniu-se à escrava Agar. da qual lhe nasceu Ismael. resolveu assegurar.2. Gên 16. Jos 24. A promessa feita a Abraão foi repetida a Isaque. . de tôda a sua nação e do Egito (cf. de acôrdo com a sua "sabedoria". o qual não tinha título para herdar a Promessa (ef.1-3). a Caldéia. vendo que sua espôsa Sara.1-50. Gên 12. 0 os nos CONDUTORES DO ANTIGO TESTAMENTO 1. 21..23). sem deixar que a prudência humana se pusesse a calcular as probabilidades de êxito. Jdt 5. descendente de linhagem idólatra (cf. sem dúvida Amigo gratuitamente escolhido e amado.1-16. Tg 2.8). que por si seria herdeiro dos bens paternos. em aparência. não lhe dava a prole que Javé prometera abençoar. através de tôda a história sagrada. o Senhor suscitou ao casal estéril. Todavia o filho gerado pela prudência de Abraão. mas derrotando os cálculos humanos! (Cf. Dos dois filhos de Isaque. verificando-se desde os primórdios do Antigo Testamento. se tornou o salvador dos irmãos. Abraão. por sua natureza incapazes de levar a têrmo a missão recebida. salvífica de Cristo. foi condenado à morte José. O Senhor dignou-se realizar a sua obra. Deús.98 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO Tal é a artéria central do Antigo Testamento..

IV e V a. após a morte de seu filho e sucessor Salomão. voltou para a Terra Santa o chamado "Resto de Israel".13-35). isto é.3). morte desconcertante para os homens (cf. Para o fazer rei bem-amado de Israel. se tornaram salvadoras do seu povo. continuou a ser a portadora da bênção messiânica (cf. 1 5am 16. Deus quis escolher o filho mais jovem de Isaí. que constava apenas de duas dentre as doze tribos. travou para conquistar Canaã. 1-2 Mac). 3 Es 12.AS LINRAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 99 Ao sair do Egito. Lc 12. Depois de Jesus. a qual no plano de Deus estava destinada a ser o triunfo definitivo do Bem sôbre o mal. ou seja. são evidente testemunho da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza humana. veja-se em particular as págs. a vitória de Gedeáo sôbre os madianitas atesta eloqüentemente o mesmo: o Senhor mandou que. mas heróicas. mas a menor.1-13. as quais empreenderam a restauração da teocracia (cf. os irmãos Macabeus. Mt 5. tipo do Messias. Judite e Ester. ' Na subseqüente época dos Juizes. Isto fêz que os conceitos de "povo de Deus" e "pobres" (anawim) se tornassem quase sinônimos na literatura judaica posterior (cf. Lc 6. povo de escravos libertos. A travessia do deserto sinaítico e as guerras que Israel.1-22). Davi. povo destituído de todo brilho político ou cultural. Gedeão só conservasse trezentos homens. Cristo escolheu um "pequeno rebanho" (cf. parte pequena da nação. constituída por famílias pobres. Após o exílio de todo o povo de Israel na Babilônia (587-538). pela aliança travada no Sinai passaram a constituir o povo de Deus. cujo currículo de vida terminou com a ignominiosa condenação à morte de escravo. de numeroso exército.20. II. 4 Sóbre a tomada de Jericó. ao lado de nações cultas e poderosas. os descendentes de Abraão e dos Patriarcas. pastorzinho de ovelhas. O reino de Davi. Em meados do séc. Tôda essa história antiga conflui para o Messias. quando todos os recursos humanos pareciam esgotados (cf. infantil (cf. 214-219.C. a reação contra os sírios corrutores foi vitoriosamente levada a cabo por um punhado de homens corajosos. Lc 24. Jdt e Est). Judá.. continua a se verificar o mesmo proceder divino na atuação do plano salvífico. aos quais deu o triunfo por meio de artifício. veio a cindir-se em duas partes. Jz 7.32). .1-13). do qual jamais pensara seu pai pudesse ser objeto de complacêucia divina (cf. das quais não a maior. humanamente falando. sob Moisés e Josué. Duas mulheres. Esdr-Ne). Sarnaria. humanamente fadados a fracassar (cf.33) de doze homens rudes (em maioria. provàvelmente nos séc.

contraste que o Senhor lhe assegurou ser garantia de pleno sucesso na obra de Deus: "É na fraqueza (do homem) que meu poder se mostrã soberano. outro dos grandes chefes de Israel. fazem ressoar o mesmo tema. Sansão. prenúncio da restauração messiânica (cf. 2. em Is 1. Gên 21.24 (LXX). eivado de sabedoria meramente humana. foi igualmente fruto de ventre estéril. texto em que 8. Paulo vê expressa essa norma já por.1-8). . 5 O Apóstolo.100 PAfl ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pescadõres).18-31. de resto. por meio de um anjo. Cf. Os feitos portentosos. prefigurando assim a natividade do Cristo. preconizado pelo arcanjo Gabriel a seu pai Zacarias. Lc 1. um dos mais remotos antepassados do Messias. reconheceu num cântico (que é arquétipo do de Maria.14 (LXX) e Jer 9. que acabam de ser assinalados.1-25). Is 29.9. nasceu de Manué e sua mulher infecunda. à qual Deus quis dar prole maravilhosamente abençoada (Cf. representa o contraste en tre a debilidade do homem e a fôrça realizadora do Altíssimo. anunciado a Maria pelo mesmo arcanjo. ao considerar os primeiros. o Salvador foi virginal mente concebido e gerado (cf. Tão estupenda natividade vinha bem éredenciada pelos episódios semelhantes que a haviam precedido! Pergunta-se agora: será possível descobrir por que terá Deus tão freqüentemente procedido dessa maneira que desconcerta o homem? A resposta não é difícil. Mãe e Virgem." (2 Cor 12. Ana. Jz 13. não querem tanto chamar a atenção para os por menores referidos como para a seguinte verdade eterna: todo dom de Deus é gratuito. que a princípio não quis crer na possibilidade do portento! (Cf. Deus também pode dispensar os instrumentos criados.46-55) a intervenção soberana de Deus. No fim da história antiga. aos quais confiou a propagação do Evangelho num mundo hostil.10). fiéis de Corinto. ao receber tal prole.) Ao lado dêstes episódios. 1 8am 1. A figura de Paulo.1-7). em particular. nasce João Batista. nasceu de mãe estéril. Isaque. para a execução de seus desígnios. Samuel.5-25). com efeito.26-38. A todos êsses casos se sobrepõe a natividade do Messias. Lc 1. um dos "redentores" (Juizes) antigos do povo de Deus. sob o aspecto particular das NATIVIDADES EXTRAORDINÁRIAS. aos quais Deus. ainda se poderiam notar cinco outros que. 1 Cor 1. cómo alguns dos homens de Deus foram dados ao mundo em circunstâncias que excediam tôdas as expectativas humanas.1-2. assim como os utiliza. formulava claramente a "quase-lei" da escolha dos humildes. Observe-se. quis anunciar a próxima conceição (cf.

sempre limitado. que corresponde antitèticamente ao primeiro homem e assim divide a história em duas grandes fases. 29. pela morte a si mesmo. Esta aliança. é a isto que os livros bíblicos chamam "Aliança de Deus com os homens". prometeu restaurá-la (Gên 3. A aliança messiânica manifestará tôda a sua excelência na vida celeste. às criaturas chamadas o Soberano Senhor prometeu dar o consórcio dos seus bens.20).lz 2. L'Epitre aux Ilébreuz JI (Paris 1953). Se esta é chamada a colaborar na obra da Redenção.12s).10). sinônimo de "decálogo" (Dt 4. 285. Spicq. João no Apocalipse (11. A nova e definitiva aliança outorgou a todo o gênero humano bens ainda maiores do que os dons perdidos no paraíso (cf. pouco depois da queda. C.14.15-17. o dom de Deus excede o entendimento da criatura.19) ainda fala de aliança. Edo 17. 2.Yos 26. . por vêzes. o Senhor. aliás. O TEMA DA ALIANÇA A vocação gratuita que Deus dirige aos homens . A Escritura. o Criador entra em aliança com o homem recém-criado: pede-lhe fidelidade a um preceito e propõe-lhe. Dt 4. Gên2.2-18. caso se mostrassem fiéis à Lei divina (ou quisessem reproduzir em sua vida os traços da Santidade incriada). É de particular interêsse notar que. pois. embora não reste dúvida de que não há paridade entre os dois contraentes. pois o Criador é soberano ao estabelecer as cláusulas do pacto. . o homem julgar a ação da Providência confor me as categorias do seu bom senso.19s.1-7. "aliança" é. ° Eis como se desenvolve a noção de Aliança sagrada Logo na primeira página da história. "guardar a aliança" coincide com "ouvir a voz de Deus" (Éx 19.15s). Por isto é que S.31. Com efeito. vida imortal bem-aventurada (cf.se faz em vista do que o texto sagrado chama "a ALIANÇA". Cl.25. Com efeito. fá-lo por favor divino. 5. porém.16. . na consumação da história.17-19. sômente a religião revelada a Israel e aos crIstãos concebe as relações da Divindade com o homem como Aliança. em troca. 3 Rs 17.15). 1 Cor 11. o profeta 6 A formulação jurídica do contrato é muito clara em Dt 26. de "Lei ou mandamento do Senhor" (Núm 15.13.3-9).objeto do tema anterior . segundo Adão. não deixa de inculcar a soberania do Deus que entra em aliança com a Criatura: Deus é dito prescrever a aliança (Hebr 9. para Israel. Rom 5.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 101 Não queira. foi violada pelos primeiros pais (Gên 3). que o homem se prepara para receber o Divino. entre as múltiplas religiões do orbe.20). que se destinava a todo o gênero humano. A aliança paradisíaca foi renovada na plenitude dos tempos pelo Messias. É antes pela renúncia.

a quem foi confirmado o poder sacerdotal (cf. sucessor de Moisés na direção do povo e renovador da aliança sinaítica (e!. com Isaque e Jacó. o Senhor Deus se dignou entrar em mÚltiplos pactos parciais e provisórios.12s). o que mais corresponde a tal disposição divina é o da aliança matrimoniaL 7 O texto sagrado. Edo 45.7-21). 9. já constituída em povo numeroso.7. dentre os diversos tipos de contrato humano. com Davi.14-25.25). a Aliança messiânica. com a linhagem de Abraão.4. 17. tendo Moisés como mediador (e!.1-8). fala de 'uma aliança de sal.8. Gên 15.19).5.carne). o símbolo do pacto que Deus outrora quis travar com Israel em vista da obra do Messias. Êx 2. O sal. com Levi. o rei de cuja casa descenderia o Messias (e!.4.10. com Aarão. descendente de Aarão e zeloso propugnador da Lei de Deus. 24. Edo 44. . visavam assegurar a reparação da aliança universal. considerado. sendo simbolo da ineorrutibiIldade (conserva a. Mal 2.7s. por essa ocasião. definitiva. 34. após o dilúvio. 37. descendentes imediatos de Abraão (cf. Gên 6. claramente anunciada em Jer 31.3. Núm 25. Entre a violação e a restauração da Aliança com todos os homens.25.18). também 2 Crõn 13.31-34.25). que.5 e Ne 6. 61. perpétua" (ef. significava bem a firmeza do pacto.3-9. que quer dizer o têrmo Aliança.21-28.8-17. 2 Crôn 21. Precisamente. Is 54. Ez 16.18).24). antepassado de Aarão. 60-63. 56. com Fineés. novo pai do gênero humano (e!. trava-se a famosa aliança do Sinai. 4. com Josué. comparável à solidez que convém a um pacto solene. 55. tão persistentemente empregado pela Escritura para designar as relações do Criador com o homem? O vocábulo significa que Deus quer bem ao homem.102 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vê no céu a arca da aliança do Sinai. Jos 24. 2 Sam 23. novo Adão.20-26.18. 51 88. com Abraão. Deus outorga àquele e à sua posteridade o exercício do sacerdócio em Israel (e!. Éx 19. e o quer de maneira firme. Núm 18. o Patriarca do povo escolhido (e!. ou seja.4s). Jer 33. a cuja tribo Deus confiou o serviço do santuário (cf. Assim há um pacto: com Noé. irmão de Moisés. é insinuada em Os 2.

Dan 9. vil/VI a. a transcendência de Deus ao entrar em relação com os homens. Is 54. fala-se hoje de "Novo Testamento" e "Antigo Testamento". lhes parecia ressalvar melhor a soberania. para Deus. na linguagem cristã.9. 9. Por fim. No dia em que os tomei pela mão Para os fazer sair da terra do Egito. As mesmas idéias se refletem no fato de que "aliança" e "promessas" estão 'mtimamente associadas entre si em Gál 3.17. At 3.6s). berith (aliança) e hescã (graça) são noções que se evocam mfttuainente na Escritura Sagrada (ei. é a palavra originàriamente usada pela Escritura! 3.4.31s o Senhor menciona explicitamente o contrato nupcial para ilustrar o amor que te dedica à criatura.C. outorgados em vista da morte de Cristo. Éste apresenta o aspecto de uma prevaricação. como se pode falar de "Nova Aliança" e "Antiga Aliança". a Escritura foi traduzida do hebraico para o grego por judeus de Alexandria (Egito).15. 50.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Com efeito. 5 .29). 9. 111/1 a. Aliança que êles violaram.23. são como que a herança recebida de Cristo Vítima.10. julgavam que Deus precisava de seu povo e que a sorte de Javé estava intimamente ligada à de Israel . O TEMA DA PREVARICAÇÃO E DA RESTAURAÇÃO CORRESPONDENTE A história sagrada abre-se com o episódio do paraíso. Hebr 86. 10545. Conseqüentemente.1 õsse o seu Espõso?' 9 Aliás. êstes se deixaram guiar de novo por idéias teológicas: substituiram o térmo diatheke por testamentum. apesar de tudo que êle tem de surpreendente ou mesmo espantoso. quando o texto grego foi traduzido para o latim pelos cristãos. ou seja. 34s. Hebr 10.25. a disposição que se torna válida pela morte de quem dispõe.32. os judeus decadentes nos séc. a ser usado na acepção do antigo vocábulo berith.concepção que os profetas rebatiam freqüentemente. êstes empregaram o vocábulo grego diatheke em lugar de berith. disposição (unilateral). os cristãos haviam.C. Rom 9. dicztheke. Acontece. sendo que o têrmo "aliança". Ef 2. Donde se segue que. verificado que todos os dons de Deus foram. 1 Por isto. em última análise. Dt 7. em Jer 31.29.4. que significa determinado tipo de disposição.5. fx 34. 81 88. porém. Em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá Uma aliança nova. quando nos séc. à qual Deus promete "Eis que dias vêm . Embora Eu . Ne 1.12. "ser fiel à sua aliança" significa "conservar o amor outrora manifestado aos homens" (cf.3. 3 Es 8. Assim o têrmo "testamento" passou. Não como a aliança que travei com os seus pais. sim. 55. que a estupenda condescendência divina expressa pelo têrmo hebraico berith foi causando "escrúpulos" aos israelitas.oráculo de Javé.

cf. em lugar do justo imolado (Gên 4. o povo de Deus freqüentemente se alia a nações idólatras e se corrompe em falsos cultos (3-4 Es). nunca. são conservados em vida (o resto de Israel !) e continuam a obra de Deus (Núm 14.15) Sete. que prossegue a obra de Deus sôbre bases mais puras (Esdr-Ne). A monarquia não perece.1-8. 15.20: "Onde o pecado abundou. entregue ao total extermínio (3-4 Es.26). o farisaismo. e paciência bondosa do Criador que restaura a criatura -. Josué e Galeb. principalmente 4 Rs.14).104 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO dar remédio em tempo oportuno. obcecam o povo e o levam a rejeitar o Messias. O inorticinio de Abel. 17.3-15). o justo (Gên 4. porém. as repetidas apostasias religiosas de Israel merecem ao povo ser entregue às mãos dos inimigos cananeus (Jz). É o que se percebe pelo seguinte esquema: PREVARiCAÇÃO O pecado dos primeiros pais (Gên 3. A pouca fé de Israel no deserto faz que tôda uma geração aí pereça (Núm 14. sem que o mal moral. . . por muito intenso que seja. dada a sua fé.8-16).38). A corrução grassa e motiva o tremendo dilúvio (Gên 6. Saul. consiga absorver o bem. a graça superabundou.25s).6). se mostra indigno 0 San 13. 10 "a contínua repa10 secreta do sábado 'in albis". Pois bem. O SEGUNDO ADÃO (Rom 5. que permanece fiel (2 5am 7.14. At 28.17-28).") Pode-se assim dizer que uma das idéias centrais da história sagrada é. Deus suscita oportunamente 'redentores" (os ditos Juizes) do seu povo (Jz).0 influxo do mistério da iniqüidade e o do mistério de Cristo se fazem sentir alternativamente no decurso dos ' séculos. o primeiro rei. assim como marcam a primeira página da Bíblia. A corrução chega ao extremo e provoca o exílio babilõnico (4 Rs 23.20-35). êstes dois têrmos miséria do homem que desfaz a obra de Deus.7-23). O povo é punido por Deus.1-35). O pacto de Deus com Noé após a punição (Gên 9. mas Deus escolhe em outra tribo o pastorzinho. 5. Salva-se do exílio o "resto de Israel".1-15. Sob os reis subseqüentes. Após o ingresso em Canaã. como se exprime o Missal Romano. O PRIMEIRO ADÃO RESTAURAÇÃO O proto-evangelho (Gên 3.8-17). O dom messiânico é transferido dos judeus para os gentios (cf. No inicio da monarquia. caracterizam tôda a história subseqüente. O orgulho religioso.36-25.

AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 105 ração da salvação humana".23). porém. A Igreja. é escola de purificação para Israel. Esta idéia se estende ainda por tôda a história do cristianismo. S. O TEMA DO DESERTO O Senhor fala aos homens em meio ao silêncio das criaturas. O TEMA DA HABITAÇÃO DE DEUS Deus se digna morar com os homens.2). 4. João Batista retira-se para o deserto a fim de preparar. 2.16. 4. 3 Rs 19. comparável à mansão no deserto. Ora a Escntura faz ver como aos poucos se nobilita o lugar da mansão de Deus na terra. Shekina) que paira sôbre a tenda (cf. 33.1-18). É o que o próprio Espírito Santo inculca quando diz pelo profeta. Assim 1. Mt 4. perseguido por Saul. Apc 12. sendo Israel nômade no deserto. O exílio na Babilônia. S.7-11. a morada de Javé se reduz a uma tenda movediça feita de peles de animais.6).14. que assinala grandes favores para o povo de Deus e precede a conquista de Canaã. as vias do Senhor (cf. Elias jejua quarenta dias no êrmo de Horeb. antes de iniciar a vida pública passa quarenta dias na solidão em jejum e oração (cf. tendo em vista o reerguimento da nação teocrática: "Eis que a atrairei e a levarei para o deserto. Éx 25.1-11). 5. antes de subir ao trono (cf. Lc 1. simbolizada pela mulher do Apocalipse. 1 5am 23. 24. embora com modalidades diversas das do Antigo Testamento. no recolhimento e na solidão. . zelosamente procurado pelos homens de Deus antes de realizarem feitos gloriosos. vive no deserto durante todo o decurso da história. à semelhança dos homens. fêz-se através do deserto. 3. por sua pregação e seu batismo. é o fato de que a presença do Senhor é assinalada por um fulgor (em hebraico.80.) Ora chama a atenção o papel que a Escritura atribui ao deserto no decorrer da história: êle é o teatro predileto das manifestações divinas. refugia-se no deserto. 3." (Os 2. Davi. Nos primórdios da história sagrada.8-16. 1. antes de receber a missão de ungir os reis (cf. O êxodo de Israel. aguardando o triunfo final do reino de Deus (cf. Jesus. Muito digno de nota. salvação que a miséria do homem põe constantemente em perigo. e lhe falarei ao coração. só deixará de se verificar quando Deus outorgar ao gênero humana a sua consumação final.

nuvem fulgurante encheu a casa do Senhor. e vimos a sua glória. chegando a aterrar os homens. da sua transfiguração e da sua ressurreição.32-40. glória como que do Unigênito do Pai. querem dizer que a carne de Jesus Cristo se tornou a nova tenda ou morada de Deus. empregando o material mais rico e os artífices mais hábeis das regiões vizinhas (cf." (1.k .n.1-4). de tal modo que nem os sucerdotes lá puderam permanecer (cf.lOs). 7. está claro que o templo de Salomão ainda estava longe de corresponder à Majestade Divina. com visivel alegria (cf. 1 Jo 1. esta era um templo vivo do Deus vivo. o que se realizava imperfeitamente no tabernáculo do deserto (e no templo de Salomão) já se verificou muito mais dignamente na natureza humana de Cristo. os israelitas quiseram preparar mansão mais condigna para a Majestade Divina: o rei Salomão. que toma significado especial se se tem em de vista 11 A traduflo da Vulgata habitavit ( habitou) é muito wn particular especialmente visado pelo Evangelista. faz notar que aos discípulos de Cristo foi dado contemplar aquilo que afugentava os próprios sacerdotes da antiga Lei. "Vimos a glória dé Deus através dos milagres de Jesus. "E vimos a sua glória.14. na qual viveu entre os homens. construiu o famoso templo de Jerusaim.38. Embora fôsse mais digno do que a tenda movediça. o Apóstolo.) As duas primeiras frases são paralelas uma à outra. Uma tez estabelecidos na terra prometida. S. Na solene dedicação da nova morada. donde se deriva o verbo slcenoo (erguer a tenda) em Jo 1. reproduz equivalentemente as consoan tes do vocábulo hebraico shekina: s(h) ." Não se poderia passar sob silêncio um particular filológico: O têrmo grego skené ( tenda). glória como que do Unigênito do Pai. João Evangelista o refere nos seguintes têrmos: "O Verbo se fêz carne. 3 Rs 8. Não nos interessa aqui estudár a etimologia destas duas palavras. geral e faz perder . Ésse esplendor se tornou tão característico da mansão de Deus que. pois. nova dilatação do tema se verificou: Deus Filho quis unir-Se a uma natureza humana.16-23).14. Por isto. e ergueu a sua tenda (eskenosen) 11 entre nós." Esta observação alude ao esplendor (Shekina) que acompanhava a morada de Deus no Antigo Testamento. 3 Rs 6. sé podia usar o termo shekina como sinônimo de "morada de Deus" ou como equivalente ao nome mesmo de Javé. Núm 9.106 PABA ENTENDER O AIÇTIGO TESTAMENTO 39. templo capaz de reconhecer o seu Senhor e amá-lO.13-51). Basta apenas verificar a analogia.1-38. na tradição judaica posterior.

.29).. o povo devia recolhê-los antes do nascer do dia. Isto se deu na plenitude dos tempos e em grau perfeitíssimo no Cristo Jesus. As subseqüentes realizações do tema tendem para êste têrmo: fazer de cada indivíduo humano (em alma e corpo) um portador de Deus. O TEMA DO MANÁ 12 Maná. Bom 8. por isto também a dignidade do templo vivo que agora compete aos discípulos de Cristo. Não terão mais fome. qual portadora de mensagem cada vez mais clara. porém. É o que o Apocalipse insinua ao descrever a felicidade celestial dos justos: 'Estão diante do trono de Deus. Éx 16. A graça que o cristão peregrino possui. 219-223. pois cada qual foi destinado a se tornar conforme à imagem do Filho de Deus (cf. o Senhor apelou para o seu poder de ressuscitar "o templo do seu corpo" (cf.19-22). . S. nem sêde.16). 1 Cor 6. que já ocorria na primeira fase da habitação de Deus entre os homens (ex). pois se derretiam ao calor do sol. Jo 2. é dita o templo santo do Senhor (cf.. só se podia aprovisionar a quantidade 12 As idéias aqui expostas encontram seu complemento às págs. O maná é mencionado pela primeira vez na história do êxodo (cf.. possuindo a graça santificante. O tema da habitação de Deus..(7. Após a Encarnação. o Senhor lhes suscitou uns grãozinhos (maná) com gôsto de óleo ou mel. Os fiéis.19-21).19. E Aquêle que está assentado no trono erigirá sôbre éles a sua tenda (skenosei ep'autous).lSs.. a Igreja de Cristo. É em função desta meta que os séculos se vão sucedendo! 6. Ef 2. depositário translúcido da glória do Criador. 2 Cor 6. só estará completo na eternidade. Mais uma palavra que atravessa tôda a Escritura Sagrada. dar-se-á em proporções reduzidas em cada um dos irmãos de Jesus no dia da ressurreição final. só estará plenamente desabrochada na bem-aventurança futura. e servem-Lhe dia e noite no seu templo.. 4. a noção da tenda. é semente da glória celeste. 1.) Como se vê. Ainda vem a propósito uma palavra de Jesus: para justificar a expulsão dos vendilhões instalados no templo de Jerusalém. Pelo mesmo motivo..AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 107 mente que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento têm tôdas o mesmo Autor Divino.13-31): a fim de sustentar os israelitas no deserto. nem os abaterá mais o calor do sol . participam da vida de Cristo e da Trindade 58.. de maneira a poderem ser realmente ditos mansão viva de Deus (cf. perpassa a história sagrada até o fim (Apc). a idéia de templo de Deus se realiza semelhantemente em cada cristão. constituída pelos fiéis unidos entre si e com Jesus.

sem fadiga. O qual proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paladares. Mt 4. vindo à terra. o pão dos anjos. pois os judeus tinham consciência de que os anjos. não comem (cf. desobedecendo a Javé. a fim de permitir aos israelitas o repouso sagrado do sábado (cf. Interessa-nos chamar a atenção para o caráter religioso que ésse alimento tinha: os grãozinhos. Êx 16. Assim. o povo concebeu náusea do maná. sendo incorpóreos.20s. o hagiógraf o canta no livro da Sabedoria: "Saciaste o teu povo com o alimento dos anjos. que em breve se estragavam. já que os anjos eram considerados os transmissores das grandes dádivas de Deus aos homens (cf.) Os Rabinos. outros menor quantidade de maná. passou a ser descrito pelos autores posteriores em têrmos idílicos.3.8 litros (cf. os israelitas. porém. os pepinos.4). Com o tempo. E lhe deste do céu. etc. J05 5. de que se nutria no Egito (cf. Ëx 16. Tob 12. era considerado um prenúncio do reino messiânico.38. e lamentou amargamente não ter mais a carne. isto é. aceno a realidade de ordem superior (cf." (Sab 16.24) não quer dizer "pão que os anjos comem". por ti enviada. um gomor . se não exclusivo. repetiria o prodígio do maná. SI 77. Ora foi justamente qual sinal ou tipo que a tradição judaica interpretou o maná. alimentando o seu povo com o pão do céu. mediam as suas provisões e verificavam possuir exatamente a porção permitida para um dia. um pão já preparado.4-6).o maná ao povo causara fastio por sua insipidez (cf. ao menos principal de Israel (cf.19). Essa substância. mas significava "pão que os anjos dão ou ministram em nome de Javé". Durante os quarenta anos de travessia do deserto. At 7. todavia.108 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO necessária para a respectiva jornada. mas devia ser um sinal religioso. esquecendo que .5). por seu lado. Gál 3. ' 13 'Pão dos anjos" (cf. Ésse pão se acomodava ao desejo de quem o comia E se transformava no que cada qual quisesse.ca.19-30). constituiu o maná o alimento.4-6). o peixe. chamando-o "miserável alimento" (Núm 21. Núm 11.. pois o maná se deteriorava em 24 h. Dt 8. de 3. Dado em vista da instalação de Israel na terra prometida. Núm 11.19). nutriam a convicção de que o Messias. ao chegar às respectivas tendas.16-18). demonstrava a suavidade de que usas para com vossos filhos. Éstes e outros pormenores misteriosos da história do maná dão suficientemente a entender que tal alimento não era suscitado por Deus simplesmente para nutrir a vida corporal dos israelitas. .12). recolhiam uns maior. conservavam-se íntegros nas 48 h finais da semana. os melões. o alho. 2.

na vida celeste! Desta vez. tal alimento. de fato. VI: "A quem vencer.. a Eucaristia. em última análise.. Eu sou o pão vivo que desce do céu. •e Eu o ressuscitarei no último diaY' (. portanto. união com Deus que a Eucaristia. vcsso$ pais comeram o maná no deserto e morreram. ptometer pão do céu. tal qual o esperavam os judeus imbuidos de expectativas demasiado humanas. ainda não encerra o tema do maná. no Antigo Testamento ou no início da Quem vencer o certame da vida presente receberá de novo. e sôbre o seixo um nome novo escrito. que o pão do deserto no Antigo Testamento de certo modo iniciava. 49. Significa a plena união com Deus... no Novo Testamento.. e se dignou. maná na plenitude dos tempos. encaminhando o israelita para a terra prometida (Canaã). porém.. o maná é dito oculto. que aos poucos penetra alma e corpo do cristão. história sagrada. no Evangelho. Ela é um fermento de vida nova. no Apocalipse o autor sagrado coloca nos lábios do Senhor a seguinte promessa. O maná que Israel comera no deserto tinha por função levar o povo à exígua terra de Canaã. darei o maná oculto e um seixo branco. cap. terá a vida eterna. o coração do homem jamais percebeu" (1 Çor 2. sem dúvida. jamais morrerá. João.. e não preservava da morte. maná ainda no Apocalipse. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá vida ao mundo. devendo atingir o seu pleno desabrochar na eternidade. desconhecido ao homem. o nutrimento do povo de Deus estabelecido na plena posse dos bens messiânicos. 14 A Eucaristia. quem déle comer. introduziria no reino de Deus não nacional. e faria triunfar da própria morte. O Messias veio. mas evocava.) maná. só patenteada a quem a experimenta! 14 "Em verdade. Ora o maná que Jesus prometia.) . Em verdade.9). êle significa "o que o ôlho jamais viu. Por isto. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue. maná. não. mas através de véus. que vem a ser como que o complemento das palavras de Jesus proferidas no Evangelho de S.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Assim a idéia do maná Crescia em seu significado: nastradiçôes judaicas não designava simplesmente o alimento pobrõ do israelita nômade. porém.To 6. Seria o pão messiânico. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. que ninguém conhecerá a não ser quem o receber." (2. que haveriam de superar a morte pela sua resurreição gloriosa. porém. a menção permanece muito lacônica. não seria senão a carne e o sangue de Jesus. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Maná. ou seja.32s.17. mas universal. sim. o maná celeste designa a visão face a face do Deus Trino e a bem-aventurança que dai resulta. o ouvido jamais ouviu. já concede no íntimo da alma.51..

No fim do séc. da oliveira e da vide. só pode ser avaliada pela qualidade do seu lenho. a destruição. contrastante com a idolatria de outras nações. cujos ramos viçosos e férteis recobrem tôda a muralha do pomar (cf. Por conseguinte. Em conseqüência. Observemos o percurso grandioso dessa figura nos textos bíblicos. Javé era apresentado como vinhateiro que dispensara todos os cuidados à sua vide. A que serve uma videira selvagem?. a uma videira. dela esperando frutos condignos no tempo oportuno. nem um cabide se faz com pau de uva. eis. o Senhor prometia entregar a árvore inútil a viandantes e animais. A única justificativa da existência de Israel era (e ainda hoje continua a ser) a sua missão religiosa. que se via decepcionado.1-8). porém. que a devastariam (cf. um só destino pode ter a videira brava: o fogo. O TEMA DA VIDEIRA A vfrieira constitui uma imagem habitual com que as Escrituras do Antigo Testamento designam o povo de Deus. que não tenha feito?") No início do séc. VIII a. Ora o lenho da vide é absolutamente imprestável a qualquer trabalho de marcenaria. mas em circunstâncias diversas: em nome de Deus. Desde que não dê frutos bons. Ezequiel o supunha já em curso e incitava o povo a refletir sôbre o mesmo. Dado. (Particularmente importante é o v. pois belas artes. ciências e outros bens de cultura em Israel eram estritamente dependentes do que produziam os povos vizinhos. Is 5.. Com isto.. o Patriarca Jacó comparava a abençoada tribo de José. o profeta Ezequiel retomava a imagem (15. Ezequiel aludia às depredações que os inimigos haviam infligido ao povo de Deus a partir de 722 (queda de Samaria) e que continuariam a infligir até arrasar Jerusalém e levar para o exílio (587-538) a maioria da população de Judá. VI a..C. 4: "Que devia ter eu feito por minha videira. seu filho. repreendia o povo de Israel por suas múltiplas infidelidades à Lei. Ao passo que o oráculo de Isaías apenas anunciava o castigo. Já em época muito remota. Gên 49. perguntava o profeta. Para uma nação que vivia principalmente do trigo.1-7).110 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO 7.22). porém. baseada em monoteísmo muito puro. A imagem quadrava bem com a realidade! Aquilo que dava significado à nação de Israel na antiguidade.C. esta não podia deixar de ser planta de grande estima. o profeta Isaías fazia reviver a mesma imagem. pois a videira de Deus só produzia uvas amargas. que o povo de Deus esquecesse a sua fé e adotasse cultos alheios. . era íjnicamente a sua religião. per•dia todo o seu valor na história.

portanto. sou Eu. tudo pereceu. é a voz do pecador que se sente justamente punido pelo Deus Santo: deplora a situação presente e. os seus valores naturais mesmos perdem todo significado. Limpaste o terreno diante dela. trouxe a resposta divina à prece do povo oprimido. não já para interpelá-la na qualidade de Senhor. Senhor Deus dos exércitos. impiora restauração. 20. coloca-se o salmo 79. em qualquer tempo. sabendo que Deus é maior do que o coração humano (cf.1-8.9s. Faze brilhar a tua face. doravante. em J0 15.) Nas situações mais perplexas. autêntica (o novo homem). Os ramos dessa videira sois vós. Sereis enxertados em Mim.20). homens de qualquer nação. não venha mais a renegar a sua qualidade e o seu des- . mas para se identificar com ela: "A videira. Lançou raízes e encheu o país." (Si 79. como por meio dos profetas fizera. Em quarto lugar na evolução do tema. e seremos salvos. renegue o seu destino religioso. talhada. que. com muita confiança. Jesus. a Escritura punha remate a lento processo pedagógico que nos ilustra o dogma da Encarnação: depois de ter feito tudo que podia fazer para salvar a videira. 17. aquela que não pode dar uvas amargas. sempre corresponderá ao ideal que o Pai lhe assinalou. a fim de que a videira antiga. caso permaneçais em Mim e Eu em vós. Redenção que Deus benignamente havia de mandar: "Arrancaste do Egito uma videira. a videira nova. Expeliste as nações para plantá-la. Está queimada pelo fogo. Ante a tua face ameaçadora. Com efeito. valor universal: caso o homem." Referindo estas palavras de Cristo. restaura-nos. aliás. e participareis da minha vida divina. sem que esta se reerguessé da sua miséria. enxertada no novo tronco. Deus mesmo se fêz videira. A videira de Israel pedia assim a sua Redenção. e sou a verdadeira videira. Referia-se de novo à videira. a natureza humana. 1 Jo 3.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 111 As objurgações de Ezequiel têm. que apresenta a prece da videira entregue aos incursos inimigos. dareis fruto múltiplo e bom. eis brevemente o que significa tal texto bíblico. nunca é frustrado um sincero apêlo do homem atribulado à Misericórdia Divina.

. para o qual tôda a história antiga convergia.. . o mistério de palavras humanas divinamente inspiradas. ob. A vida decorrerá tranqüila. Gén 4. Quanto mais alguém penetra no seu Interior. mediante a figura do Pastor que êstes designam não um guia provisório de Israel.. Miquéias. Destarte tem-se a im5ressão de tocar com as próprias mãos. sim.) 15 Ótima reflexão sôbre o tema da videira ocorre na obra de G.11). Gên 26. mas o Messias.1). Gên 13. 1939). O TEMA DO PASTOR A figura do pastor gozava de particular estima e autoridade entre os povos do Oriente.. por exemplo. Pois êle será grande até as extremidades da terra.2). cit.1).3. tal foi o Legislador Moisés (cf.20. nas quais sempre se pode cavar mais fundo. é interessante notar que. 1 Sam 16. ficar alheia à vida e aos escritos da nação israelita." (5. Deus instituiu um Pastor para Israel. Os vocábulos da Escritura não são pobres nem vazios. 114: "A metáfora da videira e dos seus ramos constitui ótimo esp&ime da profundidade e da riqueza da Palavra de Deus que nos é oferecida pela Sagrada Escritura.2-7).18). Closen. nos escritos dos Profetas. Não podia. como as palavras do homem. são pastôres tal foi Abel (cf. tal foi o rei próspero Davi (cf. êles participam daquele privilégio de Deus. a pedido de Moisés.16s: "Que o Senhor. que com uma só palavra tudo diz. desde remotas épocas. 31. E não há Que recear se esgote o tesouro.112 FAlIA ENTENDEU O ANTIGO TESTAMENTO tino. Núm 27. tais foram Abraão e seu sobrinho Lote (cf.14. cuja economia muito dependia da indústria pastoril. Cf. herdeiros das promessas e figuras do Messias. Cedo introduziu-se nos livros sagrados o pastor como símbolo de realidade religiosa. Com efeito. apascentará suas ovelhas. Não. Wege itt dic Jieilige Sehrift (Eegensburg. os Patriarcas Isaque e Jacó (cf. lugar-tenente de Javé. Os textos biblicos são como as veias de uma mina. Êx 3. a fim de que o povo do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor O tema volta a ressoar. Protegido pela fôrça do Senhor.. a dirija. tanto mais ricas são as pedras preciosas que lhe aparecem. e com mais significado ainda." É a Closw. êsse Pastor traria o nome profético de Josué (etimolôgicamente igual a Jesus). 15 Foi esta a solução que a bondosa Sabedoria de Deus quis propor ao problema da fraqueza humana! 8. constitua sôbre a multidão um homem que. pois. depois de predizer que o Salvador nasceria em Belém de Judá (5. que devemos as considerações acima sôbre o tema da videira.. Em primeiro lugar. É]. os justos portadores da bênção de Deus.. acrescentava "Será firme..

carrega-a sôbre os ombros e se rejubila considerando tnicamente a salvação da mesma. enquanto os falsos guias fogem. Jo 10. prometendo que o próprio Deus se faria o Pastor de Israel "Pois que minhas ovelhas foram entregues à depredação e se tornaram prêsa de todos os animais selvagens. visando principalmente seus interêsses pessoais (cf. entende-se que o representante de Cristo na terra tenha sido.) . na plenitude dos tempos o Messias.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 113 Em Ezequiel 34. Em Lc 15. se declarou o Bom Pastor (note-se a ênfase do adjetivo). Mt 25.36. Por fim. quê não hesita em dar a morte por suas ovelhas..32). vindo ao mundo. Pedro.. por falta de pastor.3-7 Jesus se apresentava de novo como o Bom Pastor. o exemplar do Pastor.. 12-14. 10. apascentam-se a si mesmos e não apascentam as minhas ovelhas. quantia equivalente ao preço de um escravo (cf. atribuindo a cada qual o respectivo destino (cf. Éx 21. encontrando-a.15-17..1-18). que carinhosamente se põe ao encalce da ovelha desgarrada. Jesus moveu-se de compaixão com êles. Como um pastor passa em revista as ovelhas no dia em que se encontra entre as ovelhas dispersas. pois que meus pastôres não se ocupam delas.. Ora o Evangelista S. apascenta minhas ovelhas. o preço pelo qual haveria de ser avaliada a sua obra ou missão: trinta moedas de prata. Congregá-las-ei dos diversos países. Vêm a propósito as palavras de Jesus em Mt 9. assim passarei em revista minhas ovelhas.12s) refere o salário do Pastor. porque estavam lànguidos e abatidos como ovelhas que não têm pastor." (34. 1-6 e Is 40. eu as apascentarei em ricos pastas e elas repousarão em bom aprisco.." (Jo 21. realizou em si. Eis-me." Conseqüentemente. qual imediato Vigário do Senhor no mundo. ouvi a palavra do Senhor. ouviu o mandamento de Jesus: "Apascenta meus cordeiros. o juízo final é proposto por Jesus como a cena em que o Pastor há de separar ovelhas e bodes. Nesta linha de idéias.31-46)... Mateus (27. Outro traço digno de nota: o Profeta Zacarias (11.15). da maneira mais coerente possível. investido em seus poderes pela entrega do título ou do báculo de pastor. as quais fazem eco ao texto de Núm acima citado: "Contemplando essa multidão de homens. Javé censura quais pastôres hifiéis os que governavam o povo eleito. assim S. dando remate às etapas do tema. ou seja.lOs. e ainda hoje seja. eu mesmo tomarei conta das minhas ovelhas.) Esta profecia tem seus paralelos eloqüentes em Jer 23. .9s) observa que se cumpriu tal oráculo quando o Senhor Jesus foi vendido aos fariseus a trôco de trinta dinheiros (cf. Mt 26.

* * * Ainda outros fios condutores se poderiam indicar. que o cristão não dê aos elementos humanos que a Bíblia apresenta. as quais sempre foram caras tradição cristã: o salmo 22. e o salmo 79. prorrompe em aclamações adoração ao Pastor Divino. Contudo. o que acima foi exposto já abre o ôlho do leitor para o autêntico objeto das Escrituras Sagradas. do óleo. etc. o tema do paraíso ou da terra prometida. qual santa grei. Hebr 13. dentro do grande plano que Deus concebeu a respeito dêste mundo. João (7. esta série de textos forma um conjunto dos mais significativos da Santa Bíblia. pedido de misericórdia em hora angustiosa. do vinho.20) e no Apocalipse de S. é preciso.25. mais do qõe o valor que o Espírito Santo mesmo lhes quis atribuir: valor de meros veículos ou sustentáculos do Divino. e com deleite sorverá a Verdade na sua fonte divina! .1-4. o tema do "dia do Senhor" ou das visitas de Deus (visíveis e invisíveis).114 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A figura de Cristo Bom Pastor ocorre também nas epístolas dos Apóstolos (cf. cântico de confiança. assim julgará cada texto dentro da sua perspectiva própria. Consciente disto. Tais seriam o tema dos sacramentos (da água. 1 Pdr 2. Não há dúvida. procure ler os livros mais antigos da Bíblia à luz das Escrituras posteriores e da Revelação cristã. Nos salmos 94 e 99 o povo de Deus. A Escritura Sagrada nos quis ensinai duas belas preces ao Bom Pastor. do trigo). que perpassam tôda a Escritura paralelamente à idéia central do Messias e elucidam um ou outro aspecto dêste.17). 5. sim.

20). como esperaríamos nós. VIII). aliás. . nem o próprio Deus os censurava ou coibia. dada a esterilidade de sua espõsa Sara.CApíTuLo VII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) O HERDEIRO EM IDADE INFANTE Os dois capítulos anteriores procuravam mostrar a história do Antigo Testamento como paulatina ascensão do homem rude a um grau de religiosidade mais pura e perfeita.. A respeito dêste episódio. os "escândalos" da moralidade do Antigo Testamento. 1. se acham. Gên 16. Sara quem estimula Abraão a tal feito (ef. fraude. de acôrdo com ela. 98. se quisermos. disseminados episódios que a consciência cristã. São êsses fenômenos estranhos ou. VII). que. se une tranqüulamente à escrava Agar. porém.10. eram dotados de mentalidade primitiva e. condena: os homens da Antiga Lei. sinal de bênção (ef. que ora se impõem à nossa consideração. veja-se a pág. Ésses males morais desnorteiam particularmente o leitor moderno pela circunstância de que nem a consciência parecia repreender os israelitas que assim procediam. satisfaz ao Patriarca. de princípio a fim. Ismael. Antes do mais. a fim de ter prole. concubinato. crueldade para com os adversários. É. Deus mesmo promete que a Ismael dará uma posteridade inumerável. Proporemos abaixo alguns princípios de caráter geral (cap. Em outras palavras: 1 Haja vista apenas o caso de Abraão. mesmo os mais chegados a Deus. * * * Três afirmações cada vez mais precisas nos possibilitarão proferir um juízo sôbre as narrativas "pouco edificantes" da história sagrada.25).mentira. 17. O filho assim gerado. Gên 16. no estudo do problema é preciso se atenda ao seguinte Nem tudo que o Antigo Testamento narra é proposto ou insinuado como norma de conduta para o leitor. poligamia.. Nessa ascensão. praticavam o que hoje diríamos "escândalos morais" . à primeira vista. que projetarão luz sôbre aspectos particulares da moralidade veterotestamentária (cap.

mas é autêntico motivo 2 Como exemplo. 1 Sam 3. na Sagrada Escritura.11-14).116 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO nem todos os heróis de um livro inspirado por Deus são inspirados em cada um dos seus atos. Ora que significa o fato de que.25-30). através de muitas lutas e. Por vêzes. ao perceber a fraude. Também Saul se penitenciou quando objurgado por Samuel (ef.28-30. que. já que ela constitui o fundo real da vida humana.10-13). reconheça a culpa. penitente. ela tinha que ser envolvida dentro do "temário" da Biblia e tomar-se um dos assuntos do colóquio de Deus com o homem através das páginas sagradas. sem os julgar.42-45). certamente isto não é edificante. o autor sagrado dá mais de uma vez a entender que se trata de um feito condenável: Rebeca e Jacó reconhecem que.24s). 8 O incesto de Amnon com sua irmã Tamar é nitidamente relatado como ato pecaminoso (ci. porém.1-22). não sàmente não espanta. reconheceu a culpa (ci. há narrativas de pecados. após duplo crime repreendido pelo profeta Natã. . por sua vez. 2 5am 12. Gên 27. pois deve mandar partir o filho predileto para a Mesopotãmla (ci. 29. 37. vem o caso de Davi. Jacó também é castigado. o fato de que a criatura peque e depois. Ao narrar o proceder fraudulento de Jacô. que usurpou a bênção reservada a seu Irmão Esaú. 4 Excetua-se apenas a Bem-aventurada virgem Maria. porque tem que passar longos anos no exilio. 1 mas se tornaram santos por graça de Deus. 1 5am 19. ora é o Senhor que censura os feitos pecaminosos.18). mesmo aos justos. o próprio Jacó é. Verifica-se que os opúsculos históricos da Bíblia por vêzes referem os feitos iníquos. e não bênção (ci. se o artificio fôr descoberto prematuramente. 27. dadas as circunstâncias habituais em que se desenvolve uma vida humana. enganado por seu tio Labã (ci. Ora esta tragédia comum a todo homem. 32. 27. não escapa à perspectiva dos autores sagrados.12s). não raro. Algo de semelhante fêz o sacerdote Heli (cf. deva por si causar surprêsa. O mesmo se diga da inveja de Saul contra Davi (ci. quedas. censura Jacó (ci. 2 5am 13.25-36). Rebeca é punidá. que déle conseguem separar o filho bem-amado José (ci. 1 5am 15. Baque. 2 ora é o modo de narrar mesmo do hagiógrafo que dá a entender tratar-se de um ato mau à luz da própria moralidade do Antigo Testamento.25) e por seus filhos. Todavia não é algo que. atrairá maldição. acrescentam às narrativas uma nota condenatória dõ mal: ora são os próprios personagens bíblicos que se penitenciam por ter agido erradamente.35). além disto. nem mesmo os Santos nasceram tais. e de pecados reconhecidos como tais? que o homem peque. Poderia até haver certo grau de farisaísmo ou hipocrisia naqueles que se admirassem por encontrar falhas no próximo. após os quais teme a vingança de seu irmão Esaú (ci. 29.

é obra da natureza. Contudo. ou seja. o segundo Adão. conforme o Apóstolo (1 Cor 3.1-3. 2. o Espírito Sano). histórias que diretamente induzam à virtude. que manifestam a sublime Sabedoria divina ao homem capazde a apreender (cf. sejam pecadores. descreve a história sob êsse ponto de vista. Rom 5. sômente se se mostra com clareza a depressão moral a que chegou o gênero humano após o primeiro pecado. não bastam para resolver todo o problema.20).. gemeu . mas submeteut. pergunta-se: embora no homem o pecado não seja para admirar.coisa que não costumam fazer os reis. Ambrósio (t 397) notava a respeito da penitência de Davi (2 San 12. pois. Além disto. chorou. no livro sagrado. entre o primeiro Adão. ou seja. em certo grau.14). quem assim pensasse. visam por excelência a santificação dos leitores 1 Será possível crer no valor de tais Escrituras? Em resposta.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 117 de edificação. e sua antítese. profundas verdades dogmáticas.. infiel. por que é que a Bíblia o descreve? Encontra-se repetidamente a narrativa de feitos iníquos nas páginas que. sem silenciar o pecado que prèviamente cometeram. prostrado por terra deplorou a desgraça. o rei não hesitou em realizã-lo abertamente.11-14): "Davi pecou . histórias edificantes. em última análise. 5 pois a penitência é coisa que nem todos praticain. é obra da virtude (sobreaatural) . porém. além de nutrimento infantil. dir-se-á: a dificuldade é formulada a partir de um pressuposto assaz deficiente. . há na Bíblia também alimento sólido. a reduziria a um livro de pedagogia infantil ou. E como se hão de desvendar essas verdades dogmáticas transmitidas pelas histórias "não edificantes" da Sagrada Escritura? Tenha-se em mente que a história sagrada é a história do gênero humano colocado entre a queda original e o respectivo reerguimento. é que se realça a correlativa generosidade do Criador.. Em outros têrmos: os "escândalos" narrados no An5. não pode deixar de narrar as manifestações de miséria espiritual do homem decaído. embora todos. Estas observações. entre o Prevaricador e o Restaurador. A história bíblica foi redigida não apenas para evocar casos morais êdificantes. superabundante foi a graça" (ef. Confessou a culpa." Apologia David ad Theodosium Augustum. Que tenha caldo em falta. pois sabemos que as histórias de penitência edificante nao sao as mais freqüentes nem as mais características do Antigo Testamento. como se diz.12-14. orou. 2. Se. que a tenha apagado (pela penitência). tenha proposto a figura de homens penitentes. Hebr 5. não nos surpreende que Deus.6-16). 1 Cor 2. Ef 4. estas constituem o fundo ao qual se sobrepôs a misericórdia do Salvador. o ideal de uma vida virtuosa inclui a penitência.se ã penitência. jejuou. a um alimento para crianças (leite).coisa que costumam fazer os reis.6. o fato de que "onde o pecado abundara.. Aquilo que os simples cidadãos se envergonham de fazer. pediu indulgência. Ora quem. como os autores bíblicos (ou.

Ora são êsses varões (Abraã Davi . a condescendência e a imensa caridade do Salvador. é. sim. 8 nem Deus é dito repreender tais ações.8-16. para que se ponha em relêvo a figura grandiosa do segundo Adão. pois.. para verificarmos (talvez com curiosidade mórbida) o que se deu. nos atos de compadecer-se da contínua fraqueza humana e perdoar. diz o Génesis que "morreu em feliz velhice" (Gên 25. em última anáiise. de moda contingente? Para dissipar esta dificuldade. ao eriuigrar para o Egito.0 domingo depois de Pen- Deus. 2 Sam 7.4. compadecendo-Vos e perdoando. 8 Assim Abraão..118 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO tigo Testamento não nos incutem a miséria dos filhos de Adão apenas para se descrever a história. teve igualmente seu harém. . conforme os teólogos. Paulo fala da philanthropia de Deus.10-20). Que santidade é essa? Não estaria assim insinuado que o que hoje se tacha de pecado. A bondade e o amor das criaturas. Gên 16. não se deixe o leitor prender ao aspecto repugnante que êles podem ter em comum com as narrativas de panfletos modernos. deixam aberta ainda uma questão: por vêzes no Antigo Testamento os homens cometem atos ao nosso critério pecaminosos. lhe evocarão o Deus invencível em bondade. que Deus por excelência revela a sua Onipotência. 3.8) Davi foi um guerreiro não raro cruel. à luz de Deus mesmo. Estas considerações. que houve por bem acudir a tais homens. a sua ilimitada Perfeição. Deus desde cedo o abençoou. sem que a consciência os pareça incriminar. quando não encontram correspondência. pois. com os episódios de "barbárie" das Escrituras antigas. então também êles lhe falarão de algo de muito sublime. cf. não venha a matar o marido Abraão (cf.. antes de tudo. Note-se a oração do Missal Romano no 10. e olhe "para dentro dêsses acontecimentos" com o olhar de Deus.. cobiçando a bela Sara. tendem a arrefecer e se extinguir.. Gên 12. O mesmo Patriarca se une à sua serva Agar. não simplesmente do ponto de vista dos homens do século XX. antes de tudo. de fato. mas. que se dignou dar remédio a tanta vileza da criatura. 6 7 tecostes S. por mais intensos que sejam.. numa espécie de adultério (ef. Não obstante. manifestais a vossa onipoténcia.1-3). por muito significativas que possam ser. passe além da aparência superficial. 6 Ao se defrontar. apesar de tudo. diz tranqüilamente que sua espõsa Sara é sua irmã. Tem concubinas até o fim da vida. perdoando um sem-número de vêzes ao pecador sinceramente arrependido que Deus manifesta sua inesgotável ou infinita Bondade. antigamente podia ser até virtude? Não se poderia inferir da Bíblia que o bem e o mal moral são questão de oportunidade." É. em Tit 3. a fim de que o Faraó. é preciso de novo consideremos o problema dentro de quadro muito vasto. ) que a Bíblia apresenta como justos ou heróis do Antigo Testamento. O É essa relatividade da moral que professa a moderna "Ética da situação" ou o "Existencialismo ético".. prometeu tornar inabalável o seu trono até que de sua linhagem nascesse o Messias. E.

Haja vista a criança: a sua consciência é assaz rudimentar. um lento desabrochar que. lhe indicam como tal. Deus lhes poderia ter revelado imediatamente tudo que a lei natural hoje nos incute. vem a ser primàriamente o que os mais velhos. à obra de. Maritain. Histoire d'Abraham (Paris. obedecer a tudo que vissem ser da Vontadedé Deus. energias e qualidades. sem dúvida. também a Revelação divina os ajudaria a perceber a via para atingirem a perfeição (a Revelação era absolutamente necessária. de resto. poucos deveres. . os fatôres que haviam de fomentar ésse desabrochar: de um lado... verifica que o Criador costuma dar existência a cada ser mediante um processo de desenvolvimento paulatino: na natureza os corpos vivos se originam em estado embrionário e. mais condizia com a maneira como o Senhor criou e rege o mundo. e não plantar árvores adultas. a qual através dos séculos se foi tornando mais apurada. através de um desabrochar mais ou menos lento. apesar da sua sublime vocação. Só aos poucos é que o adolescente vai percebendo as conseqüências concretas do princípio "Faze o bem. preferiu. assim o bem. Pois bem. êsse autêntico modo de ver? Quem observa as obras de Deus. lo O Criador se poderia comparar a um agricultor que costuma lançar sementes na terra. mas a maioria das aplicações concretas dêste princípio escapavam à sua percepção. a qual levaria os homens. De outro lado. se verifica igualmente na ordem moral. uma consciência moral ainda embrionária. a reflexão. nêles contidas só aos poucos se desdobram. um preceito fundamental: "Faze o bem. Deus quis que se desse com o gênero humano inteiro algo de semelhante ao que se verifica com tôda criança: nos. minuciosa. conforme o plano divino. Conseqüentemente também os membros do povo de Deus. os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida. poucas são as conclusões práticas que êle deduz daquele mandamento básico. indica. para êle.' a compreender melhor as exigências do princípio "Faze o bem. pois. o mal será primàriamente desobedecer a. E dois seriam. R. 10 Ora o que se dá na ordem física. evita o mal". no que diz respeito à consciência humana. carregadas de frutos.. êstes.A MORALIDADE DO ANflGO TESTAMENTO (1) 119 Qual será. sim. possuíam. suposta a elevação do homem a um fim sobrenatural. 1947). O pequenino conhece. Percebiam bem que é preciso absolutamente "fazer o bem e evitar o mal". êle não o sabe dizer com muita clareza. evita o mal". atingem a estatura definitiva. evita o mal". Não há dúvida. primórdios da história. AS idéias desenvolvidas neste itern 3 se devem. e poucas restrições impõe. Todavia em que consiste exatamente o bem a praticar e o mal a evitar. porém. de geração em geração. que o Criador se dignou tornar portadores da verdadeira fé. quanto ao fundo.

ora menos embrionária. quanto às outras observâncias. em parte. houve por bem escolher Abraão e sua posteridade para constituírem o povo messiânico. P. esforça-se por descobrir as idéias estranhas e tôlas que êste possui. II A seguinte comparação. dotados de consciência primitiva. de inteligência obscurecida e vontade Inclinada ao mal.. em Tire Catholic Biblical Qztarterly. desejando preservar a verdadeira fé e a esperança messiânica no mundo idólatra. eliminou em térmos severos o que era estritamente politeísta. êsse patrimônio primitivo de tradições e crenças. Assim fazia que o povo se fôsse elevando espiritualmente. enfim pela mentalidade que podiam ter os homens após o pecado de Adão. pois. ou seja. oriunda de ambiente pagão. se desembaraçassem lentamente de tradições pouco exatas. crescessem por ação da Providência Divina e de revelações especiais. J. onde se estabeleceu a nação abraamítica ou israelita. tal preghdor. começa com a. Era com gente de tal nível cultural e moral que o Senhor havia de tratar continuamente. Tendo-as percebido. Ora na Biblia o Espirito santo é tal mestre. É claro que essa gente. Começou (o seu ensinamento) utilizando os conceitos que Israel possuia. o percurso foi lento e árduo. Não há dúvida. chamou. pois.. Deus permitiu que a Teologia e a Moral do Antigo Testamento se desenvolvessem aos poucos." O autor prossegue. Deus. é muito importante frizar que uma consciência moral ora mais. serve-se delas para insinuar aspectos da verdade. mas o Legislador não quis cortar bruscamente tôdas essas tradições (isto seria antipedagógico).. até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho: "Êste é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros.. tomando o israelita como era.120 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fim que ultrapassa as exigências da natureza). proposta por um autor moderno. C. . o Criador havia de poil-lo. e elevada santidade. comunicando nobres idéias e aspirações aos israelitas mediante as instituições herdadas dos antenatos caldeus. o Patriarca de Ur da Caldéia para a terra de Canaã. 17 (1955).12." (30 15. Mais precisamente: a história do povo de Deus. o Mestre divino apenas quis insuflar novo espírito. como a tinham os homens do Antigo Testamento. a história bíblica. "Inerrancy of the Old Testament in rellgious Matters". observando que o Pedagogo Divino não quis apagar O cabedal de idéias religiosas que Israel possuia por ocasião da Aliança no Sinal. que significa a plenitude ou a consumação do processo. Sob a influência. preferiu ir contemporizando. às práticas antigas não politeístas. permitiu. a consciência do povo de Deus foi percorrendo o longo caminho pie vai da moralidade simples dos Patriarcas do Antigo Testamento à lei de Cristo no Evangelho . aperfeiçoou-os gradativamente a fim de levar o povo a poder receber a Revelação cristã. à semelhança dos demais povos orientais. Não quis romper os laços do povo com o seu passado. pois. pois não estava à altura do culto do verdadeiro Deus. dêstes dois "catalizadores".. coma Eu vos amei. embora fôssem pouco exatas. em grande parte por causa das conseqüências do pecado original que obscureciam a inteligência e debilitavan a vontade do homem. sem intervir por meio de milagres. vem oportunamente ilustrar a doutrina: "Quando um professor quer influenciar a mente do seu discípulo.) 11 Dito isto. Weisengoff. que o povo vivesse. 343. elevá-lo. não é incompatível com santidade. Deus serviu-se das concepções de Israel como de um ponto de partida. vocação de Abraão. recebera como herança de seus antepassados muitas tradições e costumes inspirados por mentalidade rude e supersticiosa..a caridade.

. por vêzes. podiam seguir seus costumes primitivos. Outra é a moralidade imperfeita do homem que teve conhecimento do Evangelho: para êste individuo. porém. que não hesitou em deixar sua terra e sua parentela para ir a região desconhecida. não deixavam de nutrir prontidão absoluta para cumprir o que Deus lhes pedisse. através de séculos.). caso sejam reproduzidos por quem de algum modo conheceu a Cristo). nada que lhe pareÇa contradizer à Vontade de Deus. Não há dúvida. Gên 12. atingiu o pleno desenvolvimento. já que a consciência iluminada por Cristo tem muito mais clara intuição do bem e do mal. 13 Ora era esta incondicional adesão ao Senhor que os tornava justos. Núm 215-12) não obstante. Tais varões. não há dúvida. o primitivo ascendente (certos atos práticados no Antigo Testamento) e o primitivo decadente (os mesmos atos. mas pelo ânimo interior com que se entregavam ao pouco ou muito que percebiam ser da Vontade de Deus (e êste ânimo interior ainda hoje é digno de ser imitado por qualquer cristão: assim a fé de Abraão. se esforçavam por não transgredir as poucas normas que o Seu senso moral lhes incutia e. não pelo aspecto exterior de sua vida (êste. 116s. fazendo-o. o fervor da oração de Davi. por conseguinte. seria ilicito.1-18). 12 Tal é.1-4). o que hoje é pecado contra a lei natural sempre foi hediondo aos olhos de Deus (o mal não depende de mera convenção humana). 12 Tais homens davam a Deus tudo. já que a sua consciência moral só aos poucos. Gén 22. êste "tudo". Ao passo que outrora a imperfeição da moralidade provinha do estado infantil da consciência humana. à qual Deus o chamava (cf. esfôrço notável para êles. quando o Senhor lhe pediu oferecesse seu filho em sacrifício (e!. muito tenham agradado a Deus. desde que o indivíduo em nada contradiga à sua consciência. era pouco em comparação com o padrão moral que hoje nos é proposto. disto se arrependeram sinceramente. são modelos de santidade. a do homem nos primórdios da história. Na medida em que a consciência não os repreendesse. vemos que é preciso distinguir dois tipos de moralidade primitiva. é compatível com elevada santidade. morreram em santa paz com o senhor. etc. acarretava. Tal é também o de Moisés e Aarão: embora por seu zêlo religioso. a inocência consiste em que o homem nada faça contra a sua consciência. quando por debilidade da natureza as violaram. como dá a entender o texto bíblico. Ora os grandes vultos da história sagrada. que sabiam dever dar-Lhe. foram certa vez incrédulos (cf. Há. mas não sempre foi percebido como tal pelos homens.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 121 E como não é incompatível? Em qualquer época da história. mencionado à pág. o caso de Davi. não atrai a consciência cristã). imperfeita: uma. Também não vacilou. A luz destas idéias. 13 Note-se o caso de Abraão. numa palavra. repetir o que era praticado pelos justos do Antigo Testamento. entre outros. o zêlo de Elias pela causa de Javé. é mais exigente. ela hoje proviria de decrepitude ou degenerescência culpável.

em vez de o deixar na qualidade de servq. em lugar da lei e do espírito de temor. 14 CL Missal Romano. a consciência lhe pede mais do que pedia outrora. Ora está claro que um pai tem. quis dar-lhe o espírito de amor. em relação ao filho. por conseguinte. Noblesse exige. chamando-o ao consórcio íntimo da vida e da felicidade divinas. que analisará alguns pontos particulares da moralidade do Antigo Testamento. que precederam a vinda de Cristo. foi dignificado. Feliz todo aquêle que se sujeita a tais imperativos. . 'Posteomunhão da Missa Pela Paz". exigências muito mais íntimas e delicadas que as do patrão em relação ao servo.122 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em conclusão: Deus houve por bem fazer do homem seu filho. pois "servir a Deus. servir à lei de Cristo. é reinar" O significado destas considerações se patenteará ainda meilior no capítulo seguinte. a fim de que se mantenha à altura do seu destino sobrenatural. o que quer dizer: o homem se aperfeiçoou.

dente por dente.CA1'i'ruLo VIII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) OS DESMANDOS DA CRIANÇA Não se chegaria a satisfatório entendimento do Antigo Testamento se não se considerassem de per si os principais temas de "escândalo" moral que êle apresenta. Trechos semelhantes ocorrem em Lev 24. mão por mão. o efeito que todo processo judiciário tem em vista: restabelecer o mais exatamente possível a ordem violada. embora pareça por excelência garantir a justiça. tallonis. circunstâncias capazes de atenuar a culpabilidade do delinqUente e.11-21. a lei do taliâo não leva em conta as cir•cuhstâncias particulares de cada delito. . da máquina. § 1. pé por pé. Dt 19." 2 Tal norma inegàvelmente visava instaurar justiça. por conseguinte. ôlho por ôlho. 1 2 Talio. É o que se fará no presente capítulo. o código legislativo de Moisés mandava que o dano causado ao próximo fôsse reparado pela imposição de semeiliante prejuízo ao delinquente. não raro pode ferir a eqüidade. queimadura por queimadura. porém. Todavia esta forma de reparação. com efeito.21. tal.23-25. é substantivo latino derivado do adjetivo tahs. mitigar o rigor da pena a ser imposta. Há. maneiras diversas de executar êste princípio: o modo mais simples consiste. É esta a famosa lei do talião.12-14.° A LEI DO TALIÃO Como se sabe. t 21. ferimento por ferimento. incutindo um desagravo equivalente ao agravo. A lei do talião muito aproxima o homem do autômato. sem dúvida. não dando suficiente aten• Lx 21. É êste. e justiça perfeita. em exigir do culpado o mesmo objeto materialmente entendido. contusão por contusão. aliás. 1 •que assim se formulava "Darás vida por vida.

pena que afete o homem diretamente na sua qualidade de ser inteligente. que deve ser julgado primàriamente conforme a sua consciência. não se explicaria uso tão generalizado)." (Cf.). o que. carneiro por carneiro. porém. os filhos de Israel praticavam o talião.). dispensando de muitas ponderações. Simplificavam a aplicação da justiça. se a casa cai sôbre o filho do proprietário. Conseqüentemente. Já antes de receberem a lei teocrática. 2633 "Morte ao arquiteto de uma casa que desmorone sôbre o proprietário. como reza a Lei Romana das XII Tábuas: talio esto. impunham fàcilmente temor. Por êstes títulos se vê que o talião era oportuno entre os povos primitivos (se não o fôsse realmente. eram aptos a reprimir pretensões exageradas da pessoa que tendesse a explorar a sua situação de vítima. o Senhor se dignou respeitar a por exemplo. em meio a nações para quem tal praxe era de todo normal. os antigos pagãos foram percebendo o grau imperfeito da retribuição pelo talião. mostrando de antemão a pena do delinqüente. 196.C. era freio mais eficaz do que motivos de ordem moral. Além disto." (Art. Pois bem. da cultura." (Art." 3 Eis. lii cum eo pactt. para indivíduos rudes. 229. . E por que eram tão comuns êsses princípios ? A sua difusão se explica por corresponderem bem ao grau de civilização primitiva do homem antigo. . ao promulgar a Magna Carta de Israel.1 Normas análogas encontram-se na legislação de Atenas promulgada por Solon (f ca. mas incluam também uma pena de índole moral.Sofra o talião aquêle que tiver fraturado um membro (alheio). pergunta-se: como pôde a lei do talião entrar no código legislativo do povo de Deus? Antes do mais. que são coisa f amiliar ao homem culto. admitiam que o criminoso págasse indenização monetária. Se assim é. 200. Ora a todo êste processo de evolução o próprio Deus se quis acomodar na educação do seu povo." (Cf. 197. 230. Ademais. a natureza espiritual e material do homem exige que as sanções infligidas a êste não sejam de ordem meramente material." (Art. assim como no Direito Romano. Assim o código babilônico dito do rei Hamurapi (depois de 1700 a. Além do mais. caso nisto consentisse a vítima. bem anterior à Lei mosaica (1240 a. art. prescrevia: "Olho vazado por ôlho vazado.) "Morte ao filho do arquiteto." (Axt.) "Boi por boi.C.124 PARA ENTENDER O AN'rrno TESTAMENTO ção à dignidade espiritual do réu.) "Dente espedaçado por dente espedaçado. "Si membrum rupit. a menos que haja (outro) entendimento. de 559). art.) "Membro quebrado por membro quebrado. Com o progresso. considere-se que tal maneira de punir era de uso mais ou menos geral entre os povos do antigo Oriente.

mas também numa ideologia religiosa para nós estranha: cada povo julgava que. Ci. inteligíveis aos homens do Antigo Testamento.3842.) "Quem não julga. felizes se poderiam considerar aquêles que. e autoriza-a a proceder assim. sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo. Mt 7. Dado. 1. rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento." (Cf. visando o homem como imagem de Deus. Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo "Quem pratica a misericórdia. tendem a refrear as paixões do indivíduo e torná-lo cada vez mais semelhante ao Exemplar Divino. não. Babha Quamma 17111. porém." (Ci. a cada um será aplicada a medida que êle tiver aplicado ao pró-. o Messias.7. uma derrota militar seria escárnio para os deuses da nação vencida. 1 da nossa era "Aquéle que mutilar o próximo padecerá pena idêntica. . Le 6. Mt 5. É muito importante notar que o herém se baseava não sàmente num grau de cultura pouco evoluída. aconselhando mesmo aos discípulos perdoassem gratuitamente a quem os ofendesse (cf. o talião podia ser substituído pela indenização pecuniária. cada qual será julgado conforme tiver êle mesmo julgado. mesmo de mulheres e crianças. : Eis normas que. porém.. 5 As palavras de Jesus acima citadas de modo nenhum implicam que a justiça cristã não seja lícito aplicar penas aos réus comprovados. caso tema cometer alguma crueldade. porém. o historiador judeu flãvio José no séc. Com efeito. § 2. IV. mas aos poucos. 21-25). a lei lhe reconhece o pleno direito de avaliar a perda sofrida. aboliu de todo a prática. os historiadores extrabíblicos referem que. 5 Não teriam sido. Estas.." (Ant.1. hão de ser avaliadas segundo o grau de responsabilidade moral do delinqUente. entre os judeus próximos à era cristã. derrotados na guerra. de modo geral. Por conseguinte. será julgado. No Oriente. haveria de reformá-la. não Unicamente segundo o dano material que o réu haja produzido. ximo. o tratado rabinico Mishna..8.24. Com a prática do talião estão estreitarnente ligados dois outros usos: o herém (extermínio dos inimigos) e as imprecações. ao povo vencedor reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos. na guerra.35).5. a honra dos seus deuses estava em jôgo.1s. por exemplo. sim. Mt 5. aos deuses do vencedor julgavam que deviam ser religiosamente imo4 É o que atesta. Mc 4. que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária.) . 4 Por fim. obterá misericórdia.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 125 tradição da sua gente. assim como a vitória significaria triunfo da Divindade.. fôssem apenas despojados de seus bens e reduzidos à escravidão! Tal praxe era chamada o herém ( anátema).0 O EXTERMINJO DOS INIMIGOS Muito menos polido que hoje era outrora o direito de guerra.37s.

Miq 4. nenhuma arma que não tivesse sido quebrada.13). possuía a verdadeira fé. cuneta victa occisioni dantur. os haveres. tomei-o.. a fim de manter incontaminada a crença de Israel. apartamento secreto das mulheres.16). as cidades. . o herém se tornava particularmente necessário e imperioso: ôste povo. 57 (1950).11).C. interditado" ou. as famílias. 2 Crõn 32. rei de Moab. . toma Nebo combatendo contra Israel. Os ligúrios fizeram algo de semelhante em 176 a. na linguagem religiosa.11. subtraído ao uso profano. significa algo de "separado. o equipamento dos homens destruido em mil pedaços (cf.E Gamos me disse: 'Vai. 323s. em sua acepção original semítica. não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus dentre O Herem. determinado objeto era entao oferecido ao serviço de Deus por uma consagração irrevogãvel (cf. do povo vencido. inutilizaram tóda a prêsa capturada: as vestes dos inimigos foram rasgadas e atiradas ao vento. 8 foi também respeitada •por Deus nas suas relações com Israel. pois não consistia no oferecimento de algo de agradável a Deus. Os gauleses queimavam a présa ou atiravam-na nos lagos. era destruida em afirmação da santidade e da justiça de Deus. mas até os germanos o praticavam.Os vencedores devotaram a Marte e Mercúrio o acampamento inimigo. a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida. o harém dos orientais. 8 A própria sagrada Escritura dá testemunho de quanto ésse uso era frequente entre os pagãos (ef. 7 Annales. por conseguinte. viri. pois eu os devotara ao anátema em honra de Astar-Camos.4-27: ". depois de insigne vitória sóbre o cônsul romano Manilio. quo voto equi. podendo servir ulteriormente..G. Esta imolação não era um sacrifício prôpriamente dito.14." 7 Ora tal praxe. os homens. aliás.). matando os animais. o ouro e a prata lançados ao rio. homens e tudo que pertence aos vencidos." Noticias colhidas no artigo de F. era de sumo interêsse na história sagrada que Israel não corrompesse a sua religião. Entre numerosissimos objetos de bronze excavados nas turfeiras da finamarca não se encontrou um só intato. Abel "L'anathême de Jéricho et la maison de Eahab". para os hebreus.-M. Eis mais alguns exemplos de prática do herém fora de Israel: Os cimbrios e os teutônios. familiar aos antigos. Havia igualmente um lierém de maldição ou anátema: certa pessoa o coisa. os cavalos precipitados em desfiladeiros. Deve-se mesmo dizer que.57. era tão comum que não sõmente os semitas. Descobriu-se mesmo uma inscrição de Mesa. A mesma raiz semita deu a palavra liarim. 13. em suma aniquilando os despojos consideráveis de que se haviam apropriado em Módena. por um ato de extermínio total. e êle só. referente á batalha que Me travou vitoriosamente contra Joram.. 6 o uso. II istoriarum liber 5. Lev 27. segundo o testemunho de Tácito: "Vic'torts ctiversam acieni Marti cxc Mercurio sacravere. em Revue biblique.. voto êste em virtude do qual são entregues ao extermínio cavalos. matei tudo: sete mil hômens e crianças e mulheres e donzelas e servas. rei de Israel (852-846 a.126 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO lados.28s. Todavia.. 4 Es 14.' Fui-me de noite e combati contra éle desde o despontar da aurora até o meio-dia. Podia haver um herém de santidade. abominável aos olhos de Deus. quebrando contra as muralhas vasos de diversos tipos. batalha mencionada em 4 Es 3. esquartejando os prisioneiros. Orósio. reservado para Deus. Is 37. para um dia transmiti-la ao mundo. e apreendi os objetos de Javé e os levei à presença de Camos.

A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 127 os demais povos. a e*periência mais de uma vez comprovou que. Si 105. eis como o legislador sagrado incutia o herém a Israel: "Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus te há de dar como herança. a fim de que não vos ensSem a imitar tódas as abominações que êles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus.) 2. a fim de conjurar o dito perigo. permitia. não deixava de sofrer a Influência do ambiente. tendo confiado a Moisés a chefia do seu povo. um valor insubstituível. os amorreus.16-18. Clamer. Deus. os cananeus. os ferezeus." . não hesitava em recorrer às leis de guerra vigentes outrora e assim exterminar os cananeus e os outros habitantes da terra. Já que êle via. povo de Javé.23s. La Saiste Bible. no paganismo cananeu o mais grave perigo ao qual estava exposta esta salvação. 9 Assim os madianitas induziram Israel à luxúria e à idolatria durante a travessia do deserto (cf. 10 Muito á propósito vêm as observações de A. ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra. os heveus e os jebuseus. Dentro da ideologia do Antigo Testamento. tal procedimento. Entregarás êsses povos ao anátema: os heteus. 34-38 e o quadro da história dos Juizes em .Jz 2." (M 20. Procuremos explicitar melhor o que a concepção acima exposta acarretava para os homens do Antigo Testamento. fazia que a sorte dêsse povo viesse a ser nada menos que a do reino de Deus em meio ao reino do êrro e do pecado.2-4. quando a sua obra de chefe do povo estivesse em jõgo ou desde que se tratasse de assegurar a salvação de Israel. 7. " Em conseqüência. os triunfos dos pagãos seriam triunfos daquele que. não sem razão. portanto. como o Senhor teu Deus te mandou. inversamente.Satanás... não recuando diante da violência mesmo sangrenta.1s.10-19). U (Paris. Núm 25.16) 'os cananeus não exterminados contaminaram freqüentemente o povo de Deus por ocasião da ocupação da Terra Santa (cf. podia-se com tôda a razão dizer que o reino das trevas triunfava sôbre o reino da luz cada vez que Israel sucumbia na guerra. 10 Apoiando-se nestas idéias. cf. Em outros têrmos: já que o Senhor decretara realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel. na história. fomenta a idolatria. de sorte que em vários pontos êle seguia o modo de ver do seu tempo. que não podia ficar exposto a risco nenhum). 31. em última análise. a fim de se precaverem danos religiosos (repita-se: a fidelidade dos filhos. embora tivesse de Deus e da religião conceitos muito superiores aos de seus contemporâneos. 563: "Moisés. de Abraáo ao verdadeiro Deus era. 1946). nessas ocasioes o Príncipe dêste mundo parecia pôr em perigo a causa messiânica. os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do reino de Deus. é o mentor da vida dos pagãos . O fato de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo inteiramente idólatra. era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém e o sancionasse. os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas. nelas não deixarás a vida a indivíduo nenhum que respire.

Jz 1. primeiro ministro do rei da Pérsia. que as animava em Israel. segundo um modo de falar típico dos israelitas.meramente politica em aparência. . consagrado ao serviço de Deus "O Senhor teu Deus caminha em meio do teu acampamento. pág. Ora foi dessa opressão .6. Eis por quesos hebreus diziam que os inimigos de Israel eram os inimigos de Javé e vice-versa. Davi enviou parte da prêsa (dos amalecitas) aos anclãos de Judá. 120.14. "de volta a Siccleg. de se aproveitar dos bens alheios). para te proteger e entregar diante de ti os teus inimigos. estritamente religiosa . 13 O conceito de que as guerras de Israel eram ato religioso explica outrossim as prescrições de pureza impostas aos guerreiros hebreus: era excluído do acampamento militar todo homem que tivesse tido relações conjugais ou contraído imundície legal por ãcidente ou por toque de cadáveres. ao caminhar com a arca do Senhor e o povo pelo deserto. se recusou a prestar homenagem (fazer genuflexão) a Amã. portanto. As observâncias podem ter sido comuns a muitas nações. homenagem que tinha significado religioso. 11 Assim. o que LIe faz por causas segundas ou instrumentos e o que Êle apenas permite.35. quDeus mesmo inculca o herém (e!.42). puniria os próprios judeus. Por isto não costumavam distinguir entre o que Deus faz diretamente.15. o povo eleito passou a ser perseguido. 11 que as suas guerras ieram "as guerras de Javé" (cf.16) ou que "Javé combatia em favor de Israel" (cf. era de todo própriã (monoteísta).16-30. exclamava Moisés: "Levantai-vos. deve ser santo. A consciência de que os feitos belicosos de Israel eram obra religiosa aparece claramente no livro de Ester: o conflito entre judeus e persas que êste opúsculo descreve. Jos 10.26.128. porém. dizendo: "Eis um presente para vós. a fim de que Êle não encontre em ti algo de indigno e se afaste de ti. Eis igualmente por que se afirmava.11.que a chama javista de Israel se procurou libertar. Senhor. proveniente da prêsa dos inimigos de Javé. e que os'vossos inimigos sejam dispersos! Fujam diante da vossa face aquêles que vos odeiam !" (Núm 10. 13 Foi o que o senhor fêz rejeitando o rei Saul. os hagiógrafos attibuem diretamente a Javê os têrmos com que os chefes Israelitas promulgavam a lei do herém segundo o costume vigente entre os antigos povos. no fundo. Jos 10. israelita. seus amigos. teu acampamento. 2 5am 11. cf. Núm 31-19-24. conforme 1 5am 15. a mentalidade.) Verdade é que outros povos antigos guardavam semelhantes normas de pureza na guerra." 12 Os israelitas tinham uma concepção do universo e da história estritamente religiosa. porém. assim como uma linguàgem muito menos matizada ou filosófica. entregando freqüentemente os israelitas à opressão dos inimigos no tempo dos Juizes (cf. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a salvação do gênero humano. 1 5am 21.21-33 e 2. Éx 17. se originou do fato de que Mardoqueu. cf. do que a nossa. Em conseqüência.) Conforme 1 5am 30. O guerreiro era um homem santificado.11-23)." (Dt 23. caso êste não fôsse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham. em conseqüência disto.40) 12 e. e de fato se libertou.

A MORALIDADE DO ANTIGO TEStJCMENTO

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3. Ulterior obsertaão Cimpõe: embora a legislação de Is rael reconhecesse o herém, ela o abrandava assaz, em confronto do que faziam os outros povos. 14 Msim, tolerando o herém, mas um herém mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento. 15 Eis alguns testemunhos: o Deuteronômio muito insiste na humarlização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que, fia campanha dê conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não-cananéia, o povo eleito procure reduzir as seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversária obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças; 1 a mulher não-cananéia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como espôsa de um israelita, que a trataria com todo o carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (cf. Dt 21,10-14). Dois episódios da história sagrada, um do período dos Juizes (cf. Jz 21,13) e o outro do reinado de Davi (cf. 2 Sam 20,14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra
14 Os monumentos e os textos assirios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedãneos para os pés dos monarcas, etc. (ci. também Heródoto, IV, 150). Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram o ventre de mulheres israelitas grávidas (ci. Am 1,13; Os 14,1). O mesmo profeta descreve e condena as atrocidades praticadas em guerra pelos sinos, os filisteus, os tinos, os edomitas, os amonitas, os moabitas (Am 1,3-2,3). Eliseu prediz que os sinos hão de esmagar as cniancinhas e violar o ventre das mulheres grávidas de Israel (cf. 4 Rs 8,12). sabe-se outrcssim, por 4 Rs 25,7, que os babilônios estrangularam os filhos de Sedecias, rei de .Judá, ao passo que a éste Nabucodonosor mandou crivar os olhos, prender com duas correntes e deportar para a Babilônia (ci. Na 3,10). Semelhantes costumes bélicos vigentes entre os persas são atestados por Is 13,16-18. Os motivos que levavam os pagãos a praticar o herém provinham de urna religiosidade muito menos elevada que a israelita. Não raro pressupunham que os deuses se compraziam no exterminio dos homens como tal: Mesa, por exemplo, rei pagão de Moab, numa famosa inscniçáo (cf. nota 7 dêste capitulo), afirma que, após a conquista da cidade de Cariataim, fêz perecer tôda a população que ai se encontrava, a fim de oferecer um espetáculo agradável a Camós, deus de Moab (linhas lis). 15 Aliás, o simples fato de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis teocráticas, devia concorrer para coibir a eventual tendência dos chefes de Israel aos abusos, à violência irrefreada. 16 Ci. Dt 20,10-18. O modo de tratar as cidades cananéias seria outro, pois, estando localizadas na terra mesma que Israel devia habitar, a coexistência de cananeus pagãos com os israelitas fiéis oferecia grave perigo de contaminação pagã. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do herém ao vencer os cananeus, como inculca Dt 7,2-5; 20,15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel õ preceito do herém era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que êle fôra sancionado paS o povo hebreu.

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PARA ENTÊNDER O AlTIG0 TESTAMENTO

morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entraram èm acôrdo com inimigos não-cananeus. Houve também varões dopovo de Deus que espontâneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exempio: conforme 2 5am 8,2, Davi, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar apenas a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte ... ! É o que explica que, em 3 Rs 20,31, os sírios reconheçam a demência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Benhadad, vencido por Acab:
"Ouvimos que os reis da casa de Israel são reis dementes. Permite que nos revistamos de sacos sôbre os rins e cordas sôbre as cabeças, 17 e que vamos ter com o rei de Israel; talvez te poupe a vida."

4. Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do herém, por vêzes se deixavam levar não pelo zêlo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jeú: êste General foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a casa de Acab, rei iníquo seu antecessor (cf. 4 Rs 9,2-10); Jeú o fêz realmente, mas, embora intencionasse zelar pelos interêsses de Javé, cedeu a crueldade horrorosa (cf. 4 Rs 10,1-17) ... Ora o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oséias (cf. Os 1,4s). Êste episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.
Também Davi parece ter-se deixado arrastar a excessos no episódio relatado em 1 5am 27,8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca de Israel se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benévolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenara ao anátema (ci. 1 5am 15,3) ; os gessurianos e os gezrianos, que eram provàvelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquis e, temendo contrõle ou represálias da parte dêste, dizia-lhe ter feito expedições nas regiões do Negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e a seus aliados. Tais depredações procediam realmente de zélo religioso ? E a mentira subseqüente que as encobria, poderia ser justificada? De resto, a Sagrada Escritura fornece indicio de que os freqüentes derramamentos de sangue por Davi cometidos não sempte corresponderam ao plano divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o templo de Javé em Jerusalém, recebu do Senhor formal recusa, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o templo, santuário da paz, fôsse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (cf. 1 Crõn 22,8-10; 28,3).
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Indumentária de penitência

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• 5. Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia fôsse o herêm praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Dt 13,13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fratricida contra a tribo de Benjamim (Jz 20,1-48; 21,1-14). A medida, porém, que se ia elevando o nível cultural e.moral de Israel, abrandava-se a praxe do herém entre conacionais; assim na época de Esdras (séc. V/IV), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e a sua exclusão das assembléias do povo (Esdr 10,8). 6. Ainda outro elemento deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas •do Antigo Testamento: é a nzentalida4e do clã ou coletivista. Entre os antigos de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não sàmente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isto se explica, em grande parte, pelo gênerode vida nômade que levavam os primitivos. Com efeito, os nómades vivem da grei, dos rebanhos que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter gregário ou coletivista à vida do clã, fazendo que o indivíduo como ta desapareça na engrenagem do todo. Ademais na vida nômade é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vêzes na antiguidade que os fatôres da história não são "êste" e "aquêle indivíduo", mas "êste" e "aquêle clã". IS Ora êste modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeito, todo o grupo respectivo se julgava atingido; por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a coletividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os freqüentes choques de tribo contra tribo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também êsse o motivo por que muitas vêzes os filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por
18 Manifestações de tal mentalidade encontram-se não sõmente entre os semitas, mas também entre os gregos antigos: assim a totalidade dos troianos teve que pagar pelo malefício de Paris; creso expiou o morticínio cometido por Gigés, seu antepassado em quinto grau; Eurlpides declarou que "os deuses fazem redundar contra os descendentes os passos falsos dados pelos antenatos". A mesma lei da solidariedade, a mentalidade do clã, é vigente ainda hoj e em tribos orientais nómades. Cf. E. sellin, "Das sub jekt der altisraelitischen Religion", em Neue kirchlic/te Zeztschrift, 4 (1893), 444; J. De Fraine, "Individu et société dans la religion de l'Anclen Testament", em Biblíca, 33 (1952), 451s.

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PARA ENtÊÏ,tDERt Õ ANTIGO TESTAMENTO

um legislador condenados à maldil&' 'Nhistória'üagfada apíesenta disto um exemplo assaz significativo em 1 5am 15,1-3: Samuel manda a Saul e±tern'iiie os amalecitas - homens, mulheres, crianças - e todo o seu gado, porque em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia já mais de dois séculos, se tinham oposto à'passagem do povo de Deus (cf. Éx 17,8-13; Núm 14,45; Jz 3,13; 6,3); Moisés, em conseqüência, os tinha condenado a completo extermínio (cf. Dt 25,17-19; Núm 24,20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos! 20 Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também êsse modo de ver imperfeito. Acontecia no séc. VI que os judeus, punidos por guerras e deportações, se queixavam de que seus pais haviam comido uvas amargas e os dentes dos filhos sofriam em conseqüência (e!. Ez 18,2; Jer 31,29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipôcritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou expl'icitamente negar a veracidade do pressuposto: "Eis que têdas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha; a alma que pecar, essa morrerá."
(Ez 18,4; cf. Jer 31,30.)

Assim mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional...
§
3,0

AS IMPRECAÇÜES

Ocorrem no Antigo Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja o mal àqueles que o angustiam. São frases que, à primeira leitura, parecem aptas a ofender a consciência do cristão e pedem um esclarecimento exegético. Dentre essas fórmulas, não se negará que algumas sejam expressão da paixão desregrada; acham-se simplesmente citadas ou consignadas, como ditos alheios, pelo hagiógrafo, não, porém,
10 "Derramar o sangue de um membro da família é derramar o sangue do grupo, é atingir o corpo orgânico. Isto vale até em caso de suicídio e de abôrto; mas vale principalmente em caso de morticjnio... Tudo é comum: a injúria, o prejuizo, o dever e até o sangue; ainda em nosos tempos, em caso de homieldio, os árabes dizem: Nosso sangue foi derramado." J. De Fraine, art. cit., 456. "Cada grupo entre os semitas constitui um só vivente, como uma única massa animada, formada de carne e osso, da qual parte nenhuma pode ser tnincada sem que todos os membros sofram com isto." R. Smith, Retigion of Mie Semitios, 274, citado por A. Leds, La croyance à la vie fature et te culto des morta dans l'antiqulté israélite, II (Paris, 1906), 274. 20 De resto, o decálogo mesmo foi formulado em têrmos adaptados a essa mentalidade coletivista. Eis como se encerra o primeiro mandamento: 'Sou o Senhor vosso Deus,,., castigo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até a milésima geração áqueles que me amam e observam meus mandamentos." (Êx 20,5s.)

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aprovadas nem propostas peio Espírito Santo qual modêlo de sentimentos do homem de Deus. O contexto indica quais sejam tais imprecações pecaminosas (cf., por exemplo, 1 8am 22,16; Si 39,16; 40,6-10). Muitas, porém, das imprecacões do Antigo Testamento, mormente do saltério, não são de modo nenhum condenáveis; têm significado bom, até hoje válido. Para entendê-las, será preciso considerar que procedem de um ânimo intimamente unido a Deus,.., por mais estranho que ]sto pareça. Em verdade, os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, não o costumavam fazer a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas advogavam os interêsses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou impilcitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser os adversários do próprio Deus. 21 Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos têrmos com que os antigos orientais, dotados de ânimo férvido, costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a tôda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína. Isto mais ainda se compreende se se leva em conta que os hagiógrafos não costumavam fazer distinção explícita entre a pessoa que praticava o mal, e o mal por ela cometido; já que, na realidade cotidiana, a injúria se nos depara geralmente associada a determinado indivíduo que lhe dá origem, o autor sagrado, desejando a extinção das injúrias. (o que em si é coisa ótima), envolvia na sua fórmula imprecatória a pessoa mesma injuriante (o que não quer dizer que desejasse mal a esta como tal). É dessa situação psicológica que resulta o modo de falar surpreendente das imprecações bíblicas. Quanto aos têrmos com que se acham formuladas, convém frisar que pertencem ao vocabulário oriental, tendente às hipérboles e à ênfase. São muitas vêzes tirados diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de outrora. É o que dá tanta
o que claramente transparece dos seguintes textos: "A sombra das tuas asas agasalha-me contra os pecadores que me fazem violência, Contra os inimigos que, sedentos, me rodeiam." (SI 16,8s.) Sejam confundidos e corem de vergonha os que procuram arrebatar-me a vida! Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te procuram !" (51 39,15.17.) "Ouvir-me-á e os humilhará Deus, que tem um trono eterno, Pois não há nêles conversão, e não temem a Deus." (51 54,19s.) 'Não entrarão em si, porventura, os que cometem iniqüidade, Os que devoram o meu povo assim como engolem pão, Os que não invocam a Deus?" (SI 53,5.)
21 É

porém. nos salmos imprecatórios) a expressão do desejo de que justiça seja feita. Para se perceber a verdadeira mente do autor sagrado.. reze os salmos imprecatórios. Para o cristão. O matrimônio. espiritismo ." (Gên 32. em parte são tudo que há de mal disseminado em tôrno de nós. Sem.39. o matrimônio . tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo.23s). êle pode.49s. devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás. Mt 5. o Criador mesmo o instituiu e abençoou.44). Mal 2. em suma. chamado "aliança de Deus" (Prov 2.dir-se-ia mesmo: crueldad& 19 ... o contrãto entre marido e espôsa é.17). baluartes que. o leitor da Bíblia verá nas imprecações (em particular. é união monogâmica.28. ) que. Que o cristão.) . 22 Visto ser "aliança de Deus". entendê-las-á como fórmulas dirigidas contra os males e o Mal. 2.. ocultamente movidas por Satanás. será preciso descontar o que tais fórmulas possam ter de hiperbólico e convencional. a quem dera as duas filhas por espõsas: "Que o Senhor nos observe. tôdas as potências. deve desejar a extirpação completa dêste potentado e dos seus baluar tes. derrogar ao amor dos homens. não contra os maus. note-se bem. Por ido. DIVÓRCIO E INCESTO a) poligamia. e deve. nos livros posteriores da Sagrada Escritura. com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo. a mim e a ti. subtraindo-o ao plano de simples função da natureza para lhe dar valor religioso (cf. principalmente nos escritos dos Profetas. apresentado como figura da união de Deus . Não há dúvida. são as tendências desregradas da própria natureza humana. os abusos coibidos. protestantismo. Deus será testemunha entre mim e ti.° POLIGAMIA. Gên 1. se esforçam por disseminar o êrro e o pecado no mundo! E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios.. às frases impreôató rias. transportar-se-á. pois. pois. seitas (comunismo maçonaria. orar pelos que o perseguem" (cf. do íntimo do coração.Jaeó. aliança "da qual o Senhor é testemunha" (cf.. quando nos tivermos separado Se maltratares minhas filhas e tomares outras mulheres ao lado de minhas f 1lhas . À luz destas considerações. o matrimônio monogâmico .é. mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. § 4..14). para um plano todo impessoal. quando pela primeira vez aparece na história sagrada.e.134 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vivacidade . em parte.que faz 22 Muito significativas são também as palavras que Labã proferiu quando se despediu de seu genro . o discípulo de Jesus tem por lei "amar os inimigos.

Precisamente o que caracteriza a corrução antes do dilúvio é o irrefreado comércio matrimonial.Abraão tinha Sara por espôsa principal (Gên 12. em Es 23. n. têm freqüentemente (dir-se-ia: normalmente) mais de uma espôsa. Éste dispositivo da Torá se explica por um ato de tolerância divina.1-32). a figura da espõsa única tinha então que ceder à das duas irmãs esposadas ao mesmo varão.) Quando. Mulheres de Lameque. POVO . 23 O livro que por excelência apregoa a santidade da vida conjugal. pois. cada uma das quais o instigou a unir-se com uma escrava (Gên 29.2-5.1). ao lado dela.13. talvez a poligamia (cf.39-43. teve duas espôsas (1 Sam 1. Jacá esposou Lia e Raquel. Gên 12) em diante.1s). . a bigamia é introduzida na Escritura.° 19). o hagiógrafo indiretamente condena o bígamo. O rei Davi tinha um harém numeroso (1 Sam 18..21s. Is 50. caracterizada pela corrução (o que já por si toma suspeita a novidade dos matrimônios de Lameque).2.5s. Ao matrimônio bigamo assim descrito não se pode atribuir valor de nodêlo. 2 Sam 3. os homens. E um jovem em compensação de uma contusão. 54. A linhagem dos setitas. a escrava (Gên 16.1-49 e Jer 36-13.29. mas distintamente às duas partes em que o reino de Salomão se havia cindido. setenta e sete vêzes. A exceção se explica pelo fato de que o hagiógrafo queria aludir não ao povo de Deus como tal. Dt 17.15. 2. A legislação 23 Observa-se que. 3. o pai de Samuel. Vejam-se Os 1. fiéis a Deus (Gên 5.23s. De Abraão (ca. O primeiro caso de bigamia que a Sagrada Escritura registra. pois frisa a índole sanguinária e vingativa que o Patriarca manifesta em versos às duas espôsas: "Adá e Selá.18).27. Jer 2. o justo salvo das águas (Gên 6-9).3. para que a metáfora correspondesse à realidade (cf.6). 5. havia Agar.com sçu. pág. Lameque. 3.5. escutai minha palavra: Matei um homem em troca de um ferimento recebido." (Gên 4. porém. mesmo piedosos. o autor sagrado lhe atribui uma nota pejorativa. ouvi minha voz. 62. a imagem que deve indicar a realidade espiritual é a de um matrimônio bigamo: o espôso tem duas espôsas Irmãs.C. ticaná. Ora. Assim: . 24 Homens retos e homens indignos de Israel foram polígamos. 25. Esaú teve três mulheres (Gên 36.5). 21. 249. 24 A praxe da poligamia foi finalmente reconhecida pela Lei mosaica em 1240 (cf. de mais a mais que a Lei mosaica explicitamente condenava a união de um varão com duas irmãs (ci.1-4. Lev 18. Famoso foi o harém de Salomão (3 Rs 11.25. de 1800 a.18). o livro de Tobias.14). Gên 6. verifica-se na família de Lameque (cf. Caim será vingado sete vêzes.27).A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 135 as vêzes de Espôso . Lev 18.1-13). assim como Noé.2.1. 11.19) Éste é o sexto membro da linhagem de Caim. 30. Gên 4. e concubinas (Gên 25. porém.que se comporta como espósa.17. cf. são monogâmicos.2). referindo o episódio. se refere ao contrato de um jovem com uma donzela (Sara).22).

agregava o pai de família à.25).9 e Os 9. a mulher rica recebla de sua família. quando Balá gerou Dã. todavia Moisés.3. de seu prestígio. já pelo seu âmbito de vida.3s).) Com efeito. a uma mulher livre ou à escrava da sua consorte (a prole da escrava era considerada pertencente à patroa). a existência legal de unia concubina ou de uma escrava. O Código de Hamurapi proibia ao marido tomar uma concubina. o varão hebreu procurasse unir-se a outra.136 PARA ENTENDER' O ANTIGO TESTAMENTO matrimonial de Israel podem-se apiieaPrm. 26 A largueza tolerante de que assim dava provas a Lei mosaica erã de certo modo compensada por restrições que a mesma formulava a respeito do uso do matrimônio. Dizia Raquel: "Que Balá dê à luz sóbre os meus joelhos. era tido como indício de sua riqueza. tornando-se então a prole da escrava propriedade da patroa. filhas de altos funcionários. O Faraó possuía numerosas mulheres. uma só era feita "grande espósa" ou rainha. uma escrava. sem implicar necessàriamente culpa no indivíduo por ela afetado. iam ter à cõrte na qualidade de reféns). que ficaria à sua disposição para o resto da vida. exclamou Raquel: "Deus me fêz justiça. e que não seria concubina. sim. ouviu a minha voz e me deu um filho." (Gên 30.6. A patroa podia ceder o seu lugar à escrava nas relações com o marido." (CL Mt 19. eram. da mesma forma procedeu Lia. por exemplo. . globo as pa1avrasde Jesus: "Foi pI r cauid & dureza do vosso coração que Molsés permitiu. e por ela terei tambêni eu uma família !" (Gên 30. Por Isto. como dote de casamento. nos quais os cônjuges eram obrigados a se abster do comércio matrimonial. caso a escrava fõsse fecunda: "Se um homem esposar uma mulher e se esta der ao marido uma escrava que procrie filhos. mas também na antiga Caldéia. sua escrava (Gén 30. estados ou fases de "impureza legal" (os períodos de menstruação. no caso de ser infecunda a espôsa.) Não sômente em Israel. que a espósa apresentava ao marido (art." (art. fêz que Jacó se unisse a Balá. O mesmo se dava no Egito. a principio. no decorrer dos tempos a poligamia se tomara comum no antigo Oriente. Ademais julgavam encontrar em sua ideologia religiosa um estímulo possante para não se afastar do uso geral: os descendentes de Abraão estimavam. Essas mulheres em maioria ficavam sendo concubinas. que o sujeito contrai por uma vontade inclinada ao mal. apresentando a serva Zelfa a Jacó (Gén 30. caso esse homem. ao passo que esterilidade equivalia a maldição (cf. não se lhe dará autorização para isto e êle não tomará concubina. porém. O código legislativo do rei Hamurapi prevê. Entende-se então que. ao 25 Sabe-se que o número de mulheres que um proprietário oriental possuia. 144. 27 É verdade que também outres povos conheciam tais restrições ou estados de "impureza".) 27 A impureza legal estava baseada em fenômenos fisiológicos (às vêzes. ou estrangeiras. culpada. que prole numerosa era sinal de bênção divina (pois. queira tomar uma concubina. próxima ou remotamente.95). enumerava.8. Is 63. 26 Assim Raquel. sim. Distingue-se bem da "impureza moral".14. inclinadas a seguir tal praxe. Lc 1. doenças etc. estéril. não era assim. por vêzes.). doenças). 144-146). ao lado da espõsa principal. por conseguinte. filhas de régulos submetidos ao Egito (as quais. a algumas era dada a dignidade de "espósas régias". os reis da Babilónia tinham nos respectivos haréns mulheres de condições variadas. linhagem do Messias). 25 Os hebreus.) E.

' (Lev 11. Referindo-se a êste texto bíblico. eis o que o Senhor recomendava após discriminar as impurezas legais. comenta Clamer: "Tais prescrições (restritivas do matrimônio) . pelo Evangelho. b) divórcio. 1928).A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO r ) sanciOnfrlas (II) 137 oficialmente para Israel. "Mariage". Antes do mais. Sendo expressão da vontade de Deus. qualquer que tenha sido a origem dos costumes tradicionais promulgados pelo código mosaico.. não implicavam necessàriamente superstição degradante.44). porque sou santo. Estas concessões eram contrabalançadas pelos Impedimentos matrimoniais de parentesco e pelas regras severas de pureza legal. o freio religioso sendo quase o único que impusesse resjieito. determinam as formalidades necessárias para o tornar legal e diminuir a sua freqüência. queria levantar a mente do povo a um ideal que os pagãos estavam longe de conceber. já ninguém mais sabia o seu significado originário.houvesse "algo de repugnante" na mulher . o Legislador hebreu lhes atribuía um significado mais nobre. a mulher era colocada sob a tutela de um interdito religioso. Mt 19. é importante notar que os textos bíblicos referentes ao divórcio não o instituem em Israel (como não instituem a poligamia). porque 'sou santo e não vos tomareis impuros" (Lev 11.4-6). Anàlogamente se exprime H. a Lei mosaica motivo sério . II (Paris. quando foram inseridos na legislação de Israel. apto a corrigir a dureza de coração da sua gente: deveriam ser observados em virtude de uma aspiração à pureza moral. a poligamia seria removida dos usos do povo de Deus. Exigia. IV (Paris. Eis outro elemento da antiga Lei que causa surprêsa ao cristão: a praxe do divórcio." . que conservavam a idéia e a prática do matrimônio em certo nível moral e contrastavam com a licenciosidade tolerada por outros povos. e não vos tomareis impuros. nos periodos mais perigosos da menstruação ou do parto. interior. cedendo o lugar à monogamia inicial (cf. não será preciso dizer que. em Dictionnaire de Ia nuble. 763: "A lei mosaica se adaptava aos costumes da época autorizando o divorcio e deixando em vigor a poligamia. Lesêtre.para que o marido a pudesse repudiar 28 La . Aliás.44) " 28 Na plenitude dos tempos. 102.. o instinto racional mesmo sabia utilizá-lo para se defender contra os ímpetos do instinto animal.. êsses usos tradicionais visavam assegurar a santidade do povo de Deus: 'Vós vos santificareis e sereis santos.. reconhecendo usos comuns dos antigos povos. 1946). mas. diz o Senhor.Sai'nte flible. supondo-o já em vigor. sim. ou à santidade: "Vós vos santificareis e sereis sant8s.

se casasse de novo. sem dúvida. Fora de Israel. irrepreensivel.. a Lei israelita bem dava a entender quão pouco desejável é o divórcio numa sociedade que tenda à perfeição. os filhos de Adão e Eva. por exemplo. Na plenitude dos tempos. Isto foi por Deus permitido em vista das extraordinárias circunstâncias em que então se achava o gênero humano. constituindo.1).. ou uma espOsa que lhe tiver procriado filhos.1). Tal exigência não ocorria. porém. Dt 24. admoestando o marido a que não se separasse sem reflexão prévia. 137. pode tomar o seu cheriqton e ir-se para a casa de seu pai. houve.. o Corã permite que a mulher repudiada seja de novo recebida pelo marido. no Código de Hamurapi. Jer 3. chamada a ser o povo de Deus.1-4. Também esta cláusula restritiva não figurava no Código de Hamurapi. entre os árabes. ou seja. que se constituíram famílias diversas. entrou em absoluto vigor o ditame de consciência que proibe o matrimônio entre irmãos. concubinato e divórcio reconhecidos pela Lei. as restrições cederiam à proibição formal (cf. eis um entre outros artigos babilônicos: "Se uma espOsa é boa dona de casa. e se o marido sai e muito a negligencia. o qual simplesmente rezava: "Se um homem estiver disposto a repudiar uma concubina que lhe tiver procriado filhos. ainda parece oportuno observar: Os indivíduos humanos da primeira geração. Por fim.) Mais ainda: a legislação israelita permitia. Dt 24. a mulher jamais a podia tomar. Ole restituirá a essa mulher o seu cheriqton (espécie de dote) .(Art. irmão com irmã." (Art. Mt 19. episódios que em hipótese alguma poderiam ser justificados. essa mulher não tem culpa. como dissemos. e) ulteriores aspectos. se casaram entre si. sim. por exemplo. o fundo negro sôbre o qual mais havia de sobressair a graça da Redenção. porém.) Além disto. a fraqueza humana nêles se manifestou. na história sagrada.. caso. o seu primeiro marido nunca mais a poderia retomar por espôsa (cf. a Lei mosaica só ao marido reconhecia a iniciativa do divórcio. onde se lêem diversos motivos para que a mulher repudie o espôso. Também êste dispositivo visava restringir os divórcios. Logo.138 PARA ENTENDER O ARTIGO TESTAMENTO (cf. Ao lado dos casos de poligamia. .3-9). não havia outro meio natural de prover à propagação da espécie. 142. que a mulher repudiada contraísse novas núpcias. caso haja entrementes vivido com outro homem (condição justamente contrária à legislação mosaica) 1 Por essas diversas restrições.

"Filho do meu pai" (Amon). cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que. o hagiógrafo pode ter consignado no Em 2 Pdr 2. Ora. ludibriada. mas o que se chama uma narrativa etnológica". o sentido exegético é muito exato: uma sátira não é história. 31 Os hebreus abominavam o ato incestuoso que atribuiam às filhas de Lote (ci.6-10. 207.6-8). Com efeito.17) o feito das duas filhas de Lote.30-38. e gerado os varões a quem teriam impósto os nomes adequados "Êle é do meu pai (Moab).3-7. a quem náo se pode imputar culpa no caso. a Lei admoestava particularmente o rei contra os abusos' da poligamia (ci. Eis como o Pe. concebido de seu pai Lote. 297.. Ez 25. Le livre de la Getzése (Paris. Lev 18. 1 (Paris. La Sazute Bible.' Abstração feita da finalidade do pontilhado. para indicar que não merece fé. 30 Dêstes varões éram ditas proceder as duas nações Inimigas ferrenhas de Israel. conforme a etimologia.1-25. Dt 27. poderia ser também julgado culpa grave. tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo. sim.s 11. 31 A narrativa. que acarretou. Jer 48." 32 A Interpretação assim concebida não é Incompativel com a inspiração do texto sagrado. as duas jovens teriam tido cópula carnal com seu pail Apenas seria de notar que a narrativa faz de Lote uma vitima inconsciente. 253. para exprimir a animosidade. sem causar maior surprêsa do que os episódios anteriores.20. Lagrange resume as razões que o levam a adotar esta explicação: "O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio. Note-se como por três vêzes é inculcado que as filhas de Lote conceberam de seu pai (vv. Dt 23. gente com a qual não se podia ter amizade. De resto. que foi devidamente castigado. J.1-11). os trocadilhos tão artificiosos e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender. Pois bem. S. Dt 17. 1949). 32. porém. que Deus puniu severamente. 3 R.e historiqve. relatado em Gên 19.36). portanto.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 139 Tais episódios são entre outros: o pecado de Onã (donde o nome do vício "onanismo"). conforme Gên 19. como refere Gên 38. Esta insistência se explica bem pela intenção de dar uma interpretação pejorativa aos dois nomes. significar "file é do meu pai".7$ Lote é dito "o justo". 1953). haviam Incorrido no ódio e no desprêzo dêstes (cf. o atentado incestuoso dos sodomitas. sem contra êles protestar: 'Assinalam o trecho com pontinhos. 29 Os exegetas recentes. segundo um têrmo paralelo árâbe. as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado. são inclinados a crer que o trecho refere não uma história real. quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon..23. ter-se-ia formado em Israel uma narrativa fictícia: "Moab" (mé-ab) podia. A Ironia é tão acerba.26. "Amon" (ben-ammi) seria "Filho do meu povo" ou. Jerõnimo dizia dos rabinos do seu tempo. êstes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita como os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam. 29 30 . Chame. impuras.1-13. exprimiria uma "história" imaginada para depreciar amonitas e moabitas.34. Com Lagrange concordam Clamer. como punição. também "Filho do meu pai". 29-33). 32 La method.. o cisma do reino dêste monarca (cf. a conduta licenciosa de Salomão.

dando-lhe a entender que era o filho mais velho Esaú. desde que fôsse proferida com a finalidade de promover o bem (cf. Jacó . 25. e ainda hoje repudiam. com a intenção de enganar o próximo.17). quando ainda gestava os dois gêmeos. 17. assim conseguiu enganar o pai e usurpar para si a bênção de primogênito. por isto. Mais tarde. em troca de um prato de lentilhas oportunamente oferecido a Esaú. e. inserindo o episódio de Gên 19. o caracteriza na história sagrada. Gên 27. Rebeca sentira que colidiam entre si no ventre materno. sendo que o mais velho acabaria por servir ao mais jovem (cf. de admirar que na Sagrada Escritura se achem relatados casos de mentira até de homens e mulheres piedosos. instigado por sua mãe Rebeca .29-34). 33 Não é.24-26). cassiano.de resto. Antes da morte de Isaque. Jacó aproveitou-se da fadiga de seu irmão que voltava da caça. a animosidade existente êntre o séu povo e os adversários do seu povo.36). filho de Isaque. e fôra por Deus advertida de que tal luta se prolongaria no decurso de sua vida. 34 De resto.° MENTIRA E FRAUDE A moral cristã ensina que jamais é lícito dar a entender o contrário do que se julga ser verdade. pois. o autor não fazia senão exprimir. Gên 25.0 Suplantador. Esta designação. Todavia esta norma. 25. . Não qüeria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia. nem foi eidente. é autêntico oráculo: . 34 "Segurar o calcanhar" é bem o sinal de "suplantar".22s). que o precedia e que. mesmo tal espécie de mentira. por vêzes. analisar-se-ão abaixo alguns episódios clássicos. porém. motivo de debates. segundo a etimologia popular hebraica (cf. a) a fraudulência do Patriarca Jacó. nos térmos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel. v alguns autores cristãos julgavam licita a mentira formal. ItjL 5. Já ao nascer. de fato.se apresentou ao pai débil e cego. teria todos os direitos de filho mais velho (cf.30-38. Jacó. em breve repudiaram.140 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO livro do Gênesis tradições populares. não era de todo clara aos homens anteriores a Cristo (nem aos pagãos nem aos israelitas). Os teõlogos católicos. por depender de grande pureza de consciência. tem um nome que.a todos os cristãos desde o início da nossa era. Já que uma ou outra dessas histórias se torna. que o constituía 33 Sabe-se que ainda no séc. saiu do seio materno segurando o calcanhar de seu irmão gêmeo Esaú. comprou para si os direitos de primogênito (cf. cujo3significãdo'era conhecido entré" os judeus. Coflat.

No v. VII. Como quer que seja. tõda a riqueza que Deus tirou de nosso pai. sempre que êle dizia: 'A prole raiada será tua paga'. mas Deus não permitiu que me fizesse mal. que certos objetos avistados durante a concepção ou a gestação acarretavam notas próprias na prole. Note-se a ênfase com que o astuto varão. Quaest. Etymolcgiarinn.. O expediente usado por Jacó pode ter sido mera ocasião para que Deus o beneficiasse. depois de obter o sucesso. resolveu levar consigo parte do gado de seu tio. 1. Hipõcrates. Todavia a modéstia de Jacó era ilusória: o "Suplantador" soube usar de um artifício habitual entre os criadores de gado primitivos. . 985. Agostinho.7-9).. julgavam. plátano. a visão désses ramos devia influenciar a formação do embrião. talvez negue a possibilidade da influência natural de tais fatóres sõbre o processo gener ativo. "Liber hebraicarum quaestionum" in Genesin. produzindo prole malhada (d.. parte aparentemente modesta. Cf. para o futuro. e não aquêle. em última análise. Tôdas as vézes que éle dizia: 'A prole malhada será tua paga'. V). 27." Estes versiculos Indicam a causa profunda de um fenômeno que vulgarmente se atribula ao artificio utilizado por Jacó. e dez vézes mudou o meu salário. 23. prestando-lhe quatorze anos de serviço agrícola e pastoril (cf. 30. 16 respondem Raquel e Lia: "Sim. Assim Jacó se tornou rico à custa alheia (cf. Migne lat.25-43). O artifício estava muito em voga entre os antigos. a causa do êxito do processo que por si mesmo talvez fõsse vão.37-39). nas quais fizera incisões a fim de as tornar raiadas ou listradas de branco. Plínio. dizia-se que os espanhóis por meio de tais artifícios sabiam variegar a côrde seus cavalos. in Heptat. 33 O processo utilizado por Jacó para obter cabras malhadas foi o seguinte: Quando os animais estavam para entrar em cópula. . o Patriarca colocava diante de seus olhos varas de salgueiro. 327s. filha dêste. Jacó se foi para a Mesopotâmia a fim de escolher espôsa na família de seus ancestrais. o texto sagrado dá a entender que o artifício de Jacã se tornou eficiente por especial intervenção de Deus. a qual lhe pertenceria. Inculca ter sido especialmente auxiliado por Deus: "vejo no rosto de vosso pai (Labã) que Me não me é favorável como antes. porém. mas o Deus de meu pai estéve comigo.Jerõnimo (séc.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 141 herdeiro não sàmente dos haveres paternos. liber XII. 93. de regressar à sua terra com a família já constituída. a saber: os cordeiros negros e as cabras malhadas que. Hist. os animais geravam filhotes ralados. Antes. Jerônimo. pertence a nós e a nossos filhos. Após estas vitórias fraudulentaá. Gen 30. amendoeira. 58-60. 1..1-45). todavia só conseguiu obter o assentimento definitivo de Labã após haver sido explorado por êste. 1. Jacó se quis indenizar dos trabalhos que lhe foram extorquidos: aceitando uma oferta de Labã. ed. 29. é o tipo normal e mais freqüente do gado). para que os carneiros brancos e as cabras não malhadas gerassem prole respectivamente negra e malhada. todos os animais davam à. nat. mas também das promessas divinas referentes ao povo do Messias (cf.. optou por Raquel. Tendo-se fixado em casa de seu tio Labã. De venatione. Vosso pai burlou-se de mim.1-30). como ainda hoje freqüentemente pensa o nosso povo. segundo S. esta terá sido. vejam-se os testemunhos de Opiano. nasceriam dos carneiros brancos e das cabras negras ou escuras de Labã (êste. 10. Isidoro de Sevilha. possuidora de mais exatos conhecimentos. luz filhotes malhados. A ciência genética moderna. Nos tempos de S.5. Deus tirou a vosso pai o gado e o deu a mim (30. S.

Jacó. se lhe poderia atribuir. Clamer. La Sainte Bible. até mesmo com Deus . embora o pudesse "derrotar". 1 (Paris. na caminhada de volta à Palestina. vinamente" forte contra os homens ( "Israel"). pedindo ser libertado. ou seja. fôste forte contra Deus. daí por diante. identifica o lutador anônimo com um anjo. Como se há de entender essa história? Uma fase posterior da existência de Jacó nos leva à reta interpretação: O hagiógrafo em Gên 32. O "Suplantador" rogou-lhe então a bênção como condição para que o libertasse.. o fêz cair em si. Em vez de a repreender. a seguir. - . em resposta. depois de várias fraudes. O "Suplantador". 394-7. finalmente. Le livre ÃXe la Genêse (Paris. quem terá vencido? Notemos que o estranho personagem fêz as vêzes de mais fraco. mas. dizia. mas ainda quis tocar o nervo da anca de . ao contrário. pediu ao Patriarca que o deixasse partir. A. tomando consciência dos atos injustos que cometera. 1953). sabendo que seu irmão Esaú lhe ia ao encontro com quatrocentos homens. o estranho adversário não sâmente lhe deu a bênção. ao contrário.142 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ora foi êsse homem tão fraudulento que Deus abençoou. mas não deixou de se mostrar superior. dando-lhe a bênção desejada (coisa que só em nome de Deus pode ser dada) e impondo-lhe novo nome (que era um oráculo profético). à primeira vista. 30 Ei-lo O hagiógrafo ou a tradição israelita teriam recorrido a imagem antropomórfica muito viva para designar uma luta que se passou não fora de Jacó. O profeta Oséias. O Patriarca. dir-se-ia que o Senhor confirmou a violação de direitos que Jacó cometeu em sua vida. Chame. mas também mudou-lhe o nome de Jacó para "Israel" (= Forte contra Deus). mutilando a Jacó. 29). julgou ter chegado a hora de sofrer o castigo de Deus. o perigo de morte que então enfrentava. o tomaria "di-. Que significa isso tudo? Os estudiosos contemporâneos dão ao trecho um sentido muito mais nobre e espiritual do que o que. porém. 12. não o amaldiçoaria. 1949). Com efeito. A narrativa é certamente obscura.4s. "pois. o abatimento a que êste pensamento o reduziu. via-se de regresso à casa. o Senhor lhe deu a saber que o pouparia. dizem. mas estritamente na consciência dêste. conseguiu sair da depressão. também dos homens hás de triunfar" (v. tornando-o coxo.. o Patriarca certa noite lutou contra um personagem misterioso que lhe aparecera. o desconhecido confessou-se impotente.23-32 narra que. não morreu nessa crise. O resultado da luta também é ambíguo.o que contribui para tornar mais enigmático o cenário de Gên 32.. 346-8. J. o por36 01. equivalia para éle a uma agonia ou luta..

ora é no momento em que somos vencidos por Deus e Lhe pedimos nos abençoe. mas aquêle que sabe contar com o auxílio de Deus mais do que com a própria habilidade. Pode-se dizer também que Deus se quer deixar vencer por nossa oração. com o anjo não será a imagem de tóda a nossa vida espiritual? Lutamos contra Deus.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 143 tador das inabaláveis promessas e bênçãos messiânicas. resistimo-Lhe. o mais destituído de qualidades. O Senhor. portanto. herdeiros da promessa messiânica.. verifica-se impressionante mudança. Je fus définitivement forcé. que na verdade nos tornamos vencedores. queria escolher. para finalmente envolver mesmo a miséria de tal homem dentro da obra da Redenção. para o futuro. portanto.icciotti. A fim de que êle reconhecesse que a piedade é mais poderosa do que tudo.. suscita a munificência divina. não seria o "Suplantador" que vence por meios fraudulentos.12 "A Sabedoria outorgou-lhe (a Jacó) o prêmio em árduo combate. 31 Esta afirmaçao." ar Eis o . O defeito deixado na coxa de Israel lembrar-lhe-ia a "impotência" do seu poder humano e a "prepotência" de Deus que liberalmente outorga a vitória ao indivíduo que Êle escolhe.. por seus títulos naturais. 1950). J'acó. Joly. dentre os dois filhos de Isaque. R. pois a graça pode fazer dos iníquos os justos que sirvam a uma obra perfeita. ou seja. de sorte que foi pelos miseráveis que Deus quis libertar da miséria a criatura. J'ose diTe que je fie une belie défense et que la luite fut Ioyale et compléte." A luta misteriosa de Jacó significa. o que delicadamente insinua Sab 10." O mesmo autor cita o seguinte trecho de Paul Claudel. Israel será o triunfador enérgico e benévolo. Auz sources bibliques (Paris. propenso a suplantar fraudulentamente. não é a criatura que. réduit. na linhagem dos grandes precursores de Cristo? Não será isto uma insinuação de que a fraude ainda hoje poderia ser abençoada? O Senhor quis escolher o "Suplantador" para ensinar aos homens que os dons divinos são absolutamente gratuitos. 158s: "Se se observam atentamente os traços com os quais a Biblia nos apresenta o homem conhecido antes e depois da luta com Deus. Jacó era o realizador inquieto e complicado. que narra a sua conversão: "Cette résistan. Mas nem por isto violentou a personalidade humana de Jacó. deixou que se aí ir masse com liberdade. Le combat spiritwet est aussi brutal que la luite d'hommes. oportuno comentário de O. uma dobra na vida do Patriarca: de conquistador trapaceiro e turbulento. esta se atua também sôbre os que nada de meritório têm. 1.. o mais jovem.ee a duré quatre ans. 37 O valor destas explicações não impede ainda se pergunte: mas por que terá Deus escolhido tal varão para colocá-lo à frente do povo messiânico. a bondade de Deus triunfou em Jacó. HLstoire d'israel. 41: "A luta de Jacd. alheio às maquinações ilícitas e confiante em Deus só. como triunfou em outros varões indignos. êle havia de se tornar o triunfador abençoado." 38 A propósito se pode citar a observação de E.

. em que todo o fervor religioso se acha empenhado e. mas não "tem obrigação" de o fazer. as quais. pois o pânico se apoderara dos assírios estupefatos. tportanto. de fato. conseguiu entrar no acampamento inimigo. Betúlia.o que era verdade. Nessa luta. abençoou-a. Judite revestiu-se dos ornamentos mais valiosos e. sim. de modo nenhum implica que ao homem seja lícito agir contra a consciência ou fraudulentamente. Aod e Jael: a amabilidade a serviço do niorticínio. salvou a sua cidade. porém. a alta noite. o que não é para desprezar. cf. 11.. Judite aproveitou a ocasião para decepá-lo. Em poucas palavras. êste foi vitorioso para Israel. Que significa isto? Para aproximar-nos da reta interpretação. O livro de Judite nos apresenta a história de uma viúva israelita que. fica sendo única norma inabalável: cumprir em todo tempo a Vontade de Deus tal como a consciência a manifesta. pela astúcia. após alguns dias. são combates. dando-lhe pleno êxito. durante a qual se embriagou. Bom 9. O Senhor salva. Holofernes acolheu-a com carinho e. deixada a sós na tenda com o General adormecido. alegando às sentinelas que ia rezar fora do acampamento. Quando os seus concidadãos já perdiam a confiança no auxílio divino. excitado pela paixão ofereceu-lhe uma ceia. E o Senhor.. por isto ninguém presumirá abusar da Misericórdia.. a seguir. A seguir. entendeu que lhe se- . não mentiu. pois. Fêz o papel de fugitiva. apresentou-se ao General como a deser tora que lhe havia de denunciar os segredos aptos para captar Israel.. fervor de orientais exuberantes e rudes. Holofernes.144 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO porém. salva segundo um plano muito belo e harmonioso. dada a sua beleza. alegando que Deus salva os pecadores. b) Judite. voltou para Betúlia. procurou seduzir por sua beleza feminina e suas expressões de duplo sentido (note-se: dando a entender a Holofernes que denunciaria os segredos da derrota de Israel.1-12. eis que Judite foi ambígua em suas atitudes e palavras. onde estimulou a sua gente ao ataque. tomam o significado de luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás. em vez de a punir. matou. recordemo-nos de que estamos diante de um episódio das guerras de Israel. disse ao General que sômente a apostasia religiosa seria capaz de prostrar aquêle povo . Para o homem. a nós desconhecido (cf. pois. entre a luz e as trevas.155). assediada pelo General assírio Holofernes. lançando-se voluntàriamente num abismo de que não se pode retirar por suas próprias fôrças. Judite parece ter enganado. na Sagrada Escritura.

5-9. era impelida pelo zêlo religioso que a vida continente e piedosa nela havia acendido. não teve. que lhe perfurou por completo o crânio e o deixou morto. O que o Senhor assim sancionou.C. e serve-se dos humildes. mulher cinéia. a seguir. outrossim. poderia ter desconfiado de um ardil de guerra. que Judite procedeu depois de ter orado e várias vêzes pedido ao Senhor que abençoasse o seu empreendimento (cf. Não é isto o que o autor sagrado quer julgar quando relata os dois episódios. tendo ido certa vez pagar o tributo a Eglon. consciência de ofender a Deus. que continuou a crer no auxílio divino quando os concidadãos já perdiam todo o entusiasmo teocrático.. não enganam senão os imperitos ou os obcecados. Procedimento e declarações como os de Judite em tempo de guerra são por si mesmos suspeitos. tirou de sob o manto uma espada que trazia oculta e. deitar-se e recobriu-o cuidadosamente. não para os .. Fê-lo. o texto sagrado de modo nenhum insinua tenham sido inspirados por Deus ou feitos após oração ao Senhor.144. 13. estrangeira aliada a Israel. para prostrar os soberbos e ímpios (Holofernes e seu exército). êle os narra com tôda a objetividade. 12. tendo Sisará adormecido.6s). A sua consciência é assim isenta de culpa subjetiva. rei de Moab. com um martelo enfiou-lhe nas têmporas um piquete. ora os estratagemas•jamais foram condenados entre beligerantes. pois.9. enfiando-lha na carne. Deus recompensa a fidelidade. que oprimia o povo de Deus. se êste não estivera detido pela concupiscência.. eis a tese perene que o livro de Judite nos comunica através de seus dizeres circunstanciados pela mentalidade de uma época! O feito de Judite tinha dois precedentes seMelhantes nos primórdios de Israel (época dos Juízes.. mostrou-se disposta a ocultá-lo. ao contrário. A diferença do que se dá no livro de Judite. Deus quis dar pleno êxito à tarefa de Judite. piedoso's (Judite). fixo ao solo (Jz 4. 1160-1020 a. não foi tanto o modo de agir da heroína. o expediente a que esta recorreu.17-22).15-22). como Holofernes. matou-o desapiedadamente (Jz 3. Difícil será proferir um juízo sôbre a moralidade dêsses atos. pois. Pode ter havido culpa em Aod e Jael. por bem confirmar em Judite e propor a todos os homens (também aos cristãos).):' O Juiz ou chefe israelita Aod. Jael. recebeu em sua tenda o chefe cananeu Sisará. Deixado então a sós com Eglon. a fim de que não fôsse capturado pelos vencedores. é a fé dessa mulher. alegou ter um oráculo de Deus a transmitir ao monarca. era condicionado pelos costumes bélicos da época. que fugia derrotado em guerra pelos israelitas.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 145 riam revelados segredos estratégicos). O que o Senhor houve. Observe-se.

era considerado imundo quem comesse ou simplesmente tocasse certos animais . porém. o cisne. sem que contraísse necessàriamente alguma culpa em consciência. Le livre eles Juges (Paris. impuro." Lagrange. assim.quem tocasse objetos julgados impuros (cf: Lev 11. Onde está. A higiene e a limpeza foram uma das principais preocupações dos antigos legisladores.1-8). escrevia Renan: "As idéias de pureza e Impureza eram a princípio equivalentes às de limpeza e sujeira... Lev 11. 19 mais uma vez. 39 "Deus. que ainda não derramara a graça reservada para os tempos do Messias.° PUREZA E IMPUREZA RITUAL A Lei mosaica enumerava longa série de atos e ocasiões que tornavam o homem "impuro". permitindo que a natureza humana atue os seus instintos. Lev 15. por exemplo. devendo finalmente sujeitar-se a um ritual de purificação (banho. a avestruz." Histoire du peu pie d'israel.44s. impuros eram também os cônjuges após o ato conjugal (cf. a mulher após o parto (cf. sabe. Lev 15. extrínseco.a lebre.146 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO propor como norma. O impuro não era reabilitado senão após um ou mais dias. 1903). da mesma forma como se serviu de Eglon como de uni flagelo. SI. Quem lê essas minuciosas prescrições do mosaísmo. Lev 12. (cf. 55s. dai concluírem alguns autores que a santidade originàriamente para os judeus significava pureza de ordem física. a Escritura dá a ver que a própria Imperfeição do homèín.1-47) .. iv (Paris). gonorréia (cf.1-14. não obstante. do ponto de vista meramente legal. Assim. oferta de sacrifício.1-17). pode ser aproveitada para comunicar benefícios divinos. pois. a originalidade da religião judaica? Como é então revelada por Deus? Abstração feita da origem dos preceitos de pureza legal. moral? Havia no mosaísmo um autêntico conceito de santidade? O térmo hebraico qodesh ( santidade) implica a idéia de separação. ritual. 20. Eis o que os episódios de Aod e Jael devem significar para o leitor moderno. no plano do Criador..25-30). § 6.18). quem fôsse acometido por lepra (cf.25s).. não será que a pureza ou a santidade inculcada pelo Antigo Testamento era algo de meramente exterior. mas para mostrar como Deus. independentemente do valor moral dos seus atos. a águia.57). . hemorragia crônica (cf. ou simplesmente limpeza. fazê-la cooperar para a realização de um plano sábio. independente da vontade e da pureza interior. Lev 15. o porco. Lev 13. por exemplo. pôde servir-se de Aod como de um salvador. concebe sem demora duas questões importantes As leis de pureza e impureza ritual têm seus paralelos em cultos pagãos da antiguidade e dos nossos tempos.

de ordem ftnicamente natural ou fisiológica. os seus antepassados caldeus os observavam. a tais observâncias. procurou fazer dêsses usos o estímulo para que os israelitas.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 147 Certas leis que visavam garantir a saúde pública teriam sido sancionadas em nome da religião pela autoridade competente. nem tão primitiva. outrossim. desde os tempos de Abraão (ca. . agraciada pela revelação da verdadeira fé. em tôdas as tribos primitivas que tais normas não têm significado meramente higiênicõ. elas muitas vêzes só se explicam por motivos religiosos ou "místicos". ancestral com o qual tal família ou tribo se julgava aparentada e ao qual conseclüentemente dedicavam profunda veneração. porque os homens julgavam haver nexo especial entre tal objeto ou tal animal. nem tão religiosa. o respeito à Divindade que de maneira geral ditava tais observâncias de caráter aparentemente profano. Com efeito. relacionados com a Divindade ou com demônios. mas geralmente possuem valor religioso. Hoje em dia.). a pedagogia divina sempre teve por tática tomar o homem como êle é. se tornassem outrossim ciosos da fidelidade 40 Os antigos julgavam ser cada doença causada no homem por um mau espírito. Observa-se. utilidade medicinal apenas. Eis a resposta global que se há de dar a essas duas questões: É inegável que muitas das prescrições mosaicas concernentes à pureza exterior são análogas às de povos pagãos antigos e modernos. Falavam. 40 era. e determinada divindade. Seqüestrando-o da terra idólatra e constituindo-o como nação independente. significado superior. promulgou a Magna Carta de Israel. ritual. quando em 1240 Moisés. era rigorosamente necessário que o povo rude ou infantil não negligenciasse certas cautelas de higiene!). ou seja. Ora o povo de Israel. admitiam também a influência dos demônios no mistério da comunicação da vida ou da geração da prole (nem gregos e romanos eram alheios a essas crenças). conforme o termo técnico oriundo da Polinésia). reconhecem os estudiosos que a crença nos tabus e nos totens não era nem tão generalizada. porém. e pacientemente elevá-lo a maior perfeição. tal doença ou tal função fisiológica. incluiu nela as prescrições rituais já vigentes em sua nação. observando uma pureza exterior. não. em nome de Deus. Pensavam igualmente que certos animais são sagrados. Por conseguinte. como no fim do século passado asseveraram os historiadores. removendo tudo que poderia ter sabor de superstição ou de algum modo lembrar a idolatria.C. conheceu usos de pureza e impureza legal. pois. de 1800 a. a tini de se assegurar mais eficazmente a sua fiel observância (em regiões de clima quente. não se poderia assinalar para cada qual dessas determinações uma causa respectiva. ou são a sede de potências sobrenaturais" (são tabus. como as que habitavam os antigos semitas. oriundo do ambiente pagão da Mesopotâmia. nem tão uniforme. do animal totem (térmo derivado da língua dos índios algonquins do México setentrional). isto é. desde as suas origens. Deus não quis simplesmente extirpar as observâncias tradicionais da gente de Abraão. Apenas tratou de incutir espírito novo.

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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

a Deus, ou seja, de pureza moral, interior (muito mais importante !): "Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo, e não vos tomareis impuros." (Lev 11,44.) Como se vê, a fim de alçar o homem ao ideal de imitar a Deus, o Legislador, no Antigo Testamento, quis partir das observâncias imperfeitas a que o semita estava habituado; inseriu-as, porém, dentro da seguinte perspectiva
DEUS SANTO; POR ISTO, O SEU POVO DEVE SER SANTO.

1
f

(nexo necessário, até hoje válido) (nexo contingente, ab-rogado desde que o gênero Ti =0cci2 cial moral mais perfeita) 41

E, PARA QUE SEJA SANTO, OBSERVE EM ESPÍRITO MONOTKÍSTA AS NORMAS DE PUREZA TRADICIONAIS.

É preciso acrescentar que, além do significado acima exposto, as proibições relativas a animais e objetos impuros visavam criar uma barreira entre o povo de Deus e estrangeiros (cananeus, mesopotâmios, gregos e romanos) com que Israel se havia de encontrar no decorrer da história; justamente a necessidade de não contrair impureza ritual, exterior, fêz que Israel não se tenha mesclado com as nações pagãs, nem quando estava disseminado no exílio (587-538 a.C.), nem quando a terra santa foi ocupada pelos helenistas no tempo dos Macabeus (165-134 a.C.). Assim as prescrições rituais, impondo distância do paganismo, preservavam a verdadeira fé, ajudavam o judaísmo a realizar sua missão religiosa. Note-se ainda o seguinte: é sentença aceita por muitos exegetas que em Israel a condenação de alguns animais como impuros (o camelo, o porco, a lebre, o cavalo, o asno, o cão) se deve em parte a uma reação contra o culto dos mesmos nos povos vizinhos de Israel. Os semitas associavam tradicionalmente os "gênios" do deserto, potências superiores (seirini, sedini, Azazel, siyyim), com certas espécies de animais. O fato de que o israelita, por tradição de seus antenatos semitas, admitia certos atos e estados de impureza legal, extrínseca, destituída de culpa moral intrínseca, influiu no conceito de pecado que o povo de Deus nutriu até os tempos de Cristo. Vvendo sempre de sobreaviso contra as possíveis contaminações por doenças ou contato de animais ou objetos impuros, os hebreus, de41 Na Reve]ação cristã, a terceira proposição do esquema seria assim formulada: E, PARA QUE SEJA SANTO, PRATIQUE O AMOR, POIS DEUS 2 AMOR (ci. 1 Jo 4,7-11).

A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II)

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pois de ter recebido a Lei mosaica com seus preceitos morais, eram propensos a analisar, nas transgressões da Lei, mais o ato exterior do que a intenção do transgressor; não davam grande atenção ao que pràpriamente caracteriza o pecado: a desobediência de uma personaiidade contra um Deus pessoal (cf. pág. 160s). Como quer que seja, os interditos meramente rituais, legais, iam do seu modo contribuindo para inculcar ao povo de Israel o conceito de transcendência divina ou a idéia de que Deus por si é alheio a muita coisa familiar ao homem pecador. Com o tempo, porém, ao se apurar a mentalidade filosófica de Israel, os hebreus foram concebendo mais exatamente o caráter pessoal e sumamente moral da religião; perceberam então melhor o significado meramente pedagógico, secundário, de tais proibições. 42 A titulo de complemento, seguem-se breves observações sõbre as principais teorias que se propõein elucidar a origem das leis de pureza legal: O motivo de higiene, embora possa estar na origem de muitas dessas normas, não é suficiente por si sõ para explicar têda,s as proibições rituais. Com efeito, embora possa justificar a proibição da carne de porco, não justifica a do cavalo, a do asno, a da lebre ... ; os árabes antigos e modernos sempre comeram carne de camelo, de avestruz que a Lei mosaica proibe; os beduinos do deserto da Sina comiam camundongos, também vedados aos hebreus. ¶ Também não basta apelar para a repugnância que a carne dos animais proibidos suscita ao paladar. A águia, o abutre, vedados por Moisés, talvez causem repulsa, por se alimentarem de cadáveres; mas o paladar ou os gostos são algo de bem relativo; o profeta Isaias (66,17) via-se obrigado a anunciar graves castigos àqueles que se deleitavam em comer carne de porco, casnundongos e manjares abomináveis 1 Quanto aos motivos de tabu e toteniismo, são opostos à medula da Lei mosaica, a qual apregoa estrito monoteísmo, um só Deus, e um Deus que não tolera ser representado por imagem alguma, seja de homem, seja de animal. Destas considerações se percebe que só por um concurso de fatõres diversos se explicam cabalmente os preceitos de pureza legal vigentes entre os povos primitivos. Talvez com o decorrer dos tempos os homens tenham perdido a consciência clara do motivo por que observavam a maioria dêsses usos.
42 "Os interditos (de pureza ritual) não careciam de valor religioso, pois arraigavam nos corações a consciência da transcendência de Deus. Percebemos a elevada noção que tinham Davi e seus contemporâneos, da domínio absoluto de .Javé. Tais leis, porém, cuja razão de ser já fôra esquecida, fàcilmente davam ocasião a que os israelitas considerassem a Deus como senhor caprichoso e dura. Os interditos, cujo significado era desconhecido, tornavam-se usos sociais, meramente leigos, destituídos de eficácia religiosa... Por isto foram sendo, aos poucos, transformados e eliminados mediante o aperfeiçoamento das noções religiosas do povo." A. George, "Fautes contre Yahweh duns les livres de Samuel", em

Revue biblique, 53 [1946], 169.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

§ 7.° A ESCRAVATURA Após tudo que foi dito sôbre a mentalidade dos antigos orientais e de Israel, já não causa surprêsa verificar que estêve em vigor neste povo a escravatura. A Lei de Moisés, embora não tenha abolido praxe tão comum e duradoura entre as nações, assegurou, ao menos aos escravos israelitas, 43 tratamento assaz brando, tratamento que, em confronto com o de outras legislações, podia ser equiparado ao de um doméstico ou mercenário (cf. Lev 25,39s). Era geralmente a pobreza, a falta de recursos para pagar as dívidas, que motivava a escravidão em Israel: o devedõr indenizava o credor dando-lhe o seu trabalho e quase a sua personalidade. Todavia, após seis anos de serviço não remunerado e castigos infligidos segundo o arbítrio do patrão, o escravo israelita possuía o direito de ser restituído à liberdade (cf. Éx 21,2s). Emancipando-o, o senhor tinha obrigação de lhe fornecer um pouco de gado e produtos agrícolas, a fim de que pudesse viver até encontrar um ganha-pão próprio (cf. Dt 15,12-15). Caso no período dos seis anos de servidão se registrasse um ano de jubileu (todo ano qüinquagésimo, ano de renovação, de perdão geral, restauração de tudo à ordem inicial), o escravo recuperaria então a liberdade. A Lei previa o caso de que um escravo, sentindo-se bem em casa do patrão, não quisesse fazer uso do direito de voltar ao estado livre (cf. Êx 21,5s; Dt 15,16s), o que é indício de que realmente vigorava notável senso humanitário entre os patrões israelitas. Os escravos usufruíam do repouso do sábado (cf. Êx 20,10) e participavam das festas prescritas pela Lei (cf. Éx 12,44; Dt 12,12.18; 16,11.14). Como se depreende, a Revelação divina contribuía poderosamente para mitigar a sorte dos servos israelitas. Quanto ao fundamento sôbre o qual a Lei mosaica estabelecia essas normas, era não simples filantropia, mas explicitamente a crença religiosa de Israel: a Torá lembrava, sim, a todos os filhos de Abraão que haviam sido escravos no Egito, tendo-os Javé resgatado para que todos fôssem libertos de Deus (cf. Lev 25,42s; Dt 15,15); o exemplo da Benevolência divina era assim incutido como norma que, caso fôsse coerentemente interpretada, induziria a abolição da escravatura em Israel (de resto, o exemplar da Benignidade de Deus para com seu povo mais de uma vez era evocado pela Lei para abrandar os costumes dos hebreus) (cf. Lev 23,31-33; 24,43; 25,38.55; 26,12).
43 Aos estrangeiros feitos servos de israelitas não se reconheciam as regalias enunciadas neste parágrafo (cf. Lev 2544-46).

CAPÍTULO

IX

O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO A história bíblica, assim como a da civilização profana, não deixam de fornecer indícios de que o homem antigo tinha mentalidade rude - dura cerviz, como dizem, a respeito de seu povo, os autores israelitas (cf. Éx 32,9; 33,3; Dt 9,6; 10,16). Todavia uma dificuldade se põe a quem lê a Sagrada Escritura: esta, em um ou outro caso, parece ensinar que o próprio Deus é o Autor da dureza de coração do homem; dir-se-ia que o Altíssimo se compraz em provocar a criatura ao pecado e punir os delinqüentes com rigor desproporcional. É o que faz que no Antigo Testamento predomine a figura de um Deus aparentemente "vingativo, mais ou menos arbitrário na aplicação da justiça". Ao estudo dêste tema dedicar-se-á o presente capítulo. Longe de pretender reconstituir a "teologia" do Antigo Testamento, restringir-se-á ao aspecto "Deus e o pecado na Antiga Aliança". § 1. ° UM PRINCÍPIO GERAL Para se abordar devidamente o assunto, tenha-se em vista. um traço já mencionado da mentalidade oriental: o semita tendia a exaltar a ação de Deus em tudo que aconteça na história, sem distinguir se tal efeito é, direta ou indiretamente, causado ou apenas permitido pelo Altíssimo. 1 Esta tendência, de resto, se enquadra dentro de uma atitude ainda mais geral do pensamento hebraico: o judeu era propenso a atribuir ao dinamismo, ao movimento, o primado sôbre os demais valores que constituem um ser perfeito. Era, pois, a fim de mais colocar em realce a suma Perfeição Divina que êle imputava ao Todo-Poderoso intervenção direta, soberana, em tudo que se faz no mundo; Javé, por conseguinte, na Sagrada Escritura, é apresentado em ato de trovejar (S1 28), ocultar Jeremias e Baruque contra investidas dos ímpios, 2 ditar ou escrever o conteúdo. das tábuas da Lei; 3 os israelitas chegavam a admitir que nem o
Cf. pág. 128, n. 12. Ci. Jer 36,26: "O rei mandou... prendessem Baruque, o secretário, e Jeremias, o profeta; mas Javé os ocultou." Pouco antes, referia o texto sagrado: "Os chefes (do povo) disseram a BaTuque: vai, esconde-te, a ti e a Jerernias; e ninguém saiba onde estais.' (36,19.) 3 Ci. Éx 32,16; vejam-se também Am 4,7.9s; 5,27; 8,10; Êx 21,13.
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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

mal fica fora da alçada da atividade divina. 1 Tal modo de falar, apresentando Deus sempre muito envolvido nas façanhas dos homens, acarretava o risco de se encobrir indevidamente outro aspecto da Divindade: a sua absoluta transcendência. Ao contrário, a mentalidade grega, que neste ponto mais influenciou o pensamento cristão, inclinava-se a exaltar principalmente a perfeição ontológica, o perfeitíssimo Ser de Deus como tal; para ela, a Divindade era objeto de contemplação mais ainda
do que sujeito de atividade.

Esta advertência já nos abre a via ao entendimento das passagens bíblicas que falam da intervenção de Deus no mal cometido pelos homens. Passamos a examinar os principais dêsses textos. § 2. 0 O RECENSEAMENTO PECAMINOSO Não há talvez trecho que mais revele a mentalidade dos autores sagrados na questão proposta, do que a narrativa de um recenseamento do povo de Israel instituído pelo rei Davi. Referem-no dois textos bíblicos: 2 5am 24,1-4 e 1 Crôn 21,14. Comparemo-los entre si 2 5am 24,1. "A ira do Senhor 1 Crôn 21,1. "Satâ se levanse inflamou de novo contra Israel, e incitou Davi contra êles, dizen-

do: 'Vai, faze o recenseamento de Israel e de Judá. 2. O rei então disse a Joab, chefe do exército, que estava com êle : 'Percorre, pois, tâdas as tribos de Israel, desde Dá até Dersabé; faze o alistamento do povo a fim de que eu fique sabendo o total da população.' 3. Joab respondeu ao rei: 'Que o Senhor teu Deus torne o povo cem vêzes mais numeroso do que é agora, e que os olhos do rei meu senhor o vejam Mas por que se compraz o Senhor meu rei em faz3r isso?' 4. A palavra do rei, porém, prevaleceu contra Joab e contra os chefes do exército; e Joab e os chefes do exército partiram a fim de fazer o recenseamento do povo de Israel."
4,

2. Disse então Davi a Joab e aos chefes do povo: 'Ide, contai, a população de Israel desde Dersabé até Dá, e trazei-me o resultado, a fim de que eu conheça o seu número.' 3. Joab respondeu: 'Que o Senhor torne o povo cem vézes mais numeroso 1 Ó rei meu senhor, não são todos escravos do meu senhor? Por que é, pois, que o meu senhor pede isso? Por que fazer vir o petado sôbre Israel 2' 4. Mas a palavra do rei prevaleceu contra Joab. Éste se foi e percorreu todo Israel, voltando por fim a Jerusalém."

tou contra Israel e excitou Davi a fazer o recenseamento de Israel.

CL Am 3,6: "Ressoa a trombeta em alguma cidade, sem que o povo se espante? Assim acontece desgraça em alguma cidade. Sem que Javé seja o seu autor ?" Como se compreende, o mal é apenas permitido por Deus, que, tendo feito as criaturas livres, não lhes impede a opção entre o bem e o mal; antes, permite cometam o mal, que o próprio senhor sabe fazer cooperar para a vitória decisiva do Bem no fim dos tempos. 5 Cf. T. Boman, Das hebraeische .Denke2t im Vergleich viU devi griechischen ( Goettingen, 1934).

conforme o caso paralelo considerado em Lev 4. por excelência. nos casos de recenseamento legitimo. e resolveu dar mais precisão teológica à fórmula do cronista anterior: atribuiu. ainda hoje não se possa proceder ao recenseamento exato de certas tribos de beduinos na Palestina. entrar em setor que é propriedade exclusiva de Deus. Gên 15. é nome próprio e designa um anjo tentador. procedia como qualquer outro soberano. Diz então o hagiógrafo que Deus mesmo instigou Davi ao pecado. Gelin. 1 Mais ainda: tendo Deus prometido a Abraão posteridade inumerável (cf. Um redator bem posterior (séc. 1955). ditada por falta de confiança.12). Problêmes d'Ancien Testament (Paris. pois. é que êste conceito aparece na angelologia judaica. em conseqüência. 1V/Til a. mandando recenseá-lo.Satã (= Adversário). que o povo de Israel incorrera em grave culpa perante Deus.. pouco antes da seção acima. general de Davi. IX a. Davi insistiu na execução da ordem. sim. prescrevia a Lei mosaica que. o Senhor houve por bem servir-se. teria. excitado o monarca a promover um recenseamento das tribos de Israel. um recenseamento do povo tomava f àcilmente o aspecto de verificação do dom de Deus. um recenseamento significava ato de arrogância do homem frente a Deus.1. 1952). CL A. procurou dissuadir o rei (2 Sam 24. usado sem artigo em 1 Crôn 21. tendo recebido a dita ordem. IX a. 7 Já que um recenseamento significava 'contar vidas". o povo de Deus. de uma falta do rei Davi. VI ao. Tinha.C. a respeito. IV/HI aO. depois do exilio (séc. torna culpado o povo).3 (o sacerdote que incorre em falta. consciência de que 2 8am 24 empregava um modo de falar ambíguo. O autor de 2 8am 24 dava a entender. mas a deve tõda e exclusivamente a Deus. Eis como o episódio era narrado no séc. com os israelitas. pois implicava a intromissão da criatura num domínio reservado ao Criador só — o da multiplicação dos sêres vivos. 2. . 267s. Bettencourt. para isto. 9 . Só tardiarnnte. a Satã a instigação ao mal que a Deus fôra imputada. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios. Perguntar-se-á de passagem: e que mal podia haver nessa medida de caráter administrativo? Para os orientais.). o monarca. 6 o texto bíblico mesmo insinua esta concepção: refere que Joab. castigado pelo flagelo de uma peste que durante três dias assolou a nação. porém. devendo puni-lo. como se se considerasse senhor absoluto dos seus súditos e contasse ünicamente com os recursos de administração humanos. Isto lhe lembraria que éle não é senhor da sua vida.) referiu no livro das Crônicas a mesma história. (Rio.C. foi. Veja-se. ed. ao passo que 1 Crôn terá sido redigido nos sêc..3). e com particular razão o fêz: Israel era. 6 E êste modo de pensar que explica. todo individuo alistado pagasse um tributo a Javé (cf. Ex 30. 34.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 153 Particular importante: 2 8am data provàvelmente do séc. 8 O pecado de Davi tornava o povo inteiro culpado.. Não obstante as palavras de Joab. isto é.C. E.5).

dêle se apossou" (1 8am 16. Como se há de entender uma tal "possessão"? Nas expressões acima. Ora a Escritura explica isso tudo. em tôdas essas passagens.3). o "mau espírito do Senhor" é mencionado outrossim em 1 Sam 18. ora outro atributo (não se trata ai de algum anjo ou demônio). cada um é tentado por sua própria concupiscência. uma atitude hostil ao Senhor ("um espírito mau"). Ao contrário. foi rejeitado por Deus. esta atitude mesma é mencionada cõmo proveniente do Senhor. § 3° O "MAU ESPIRITO" DO SENHOR 1.10s). que Saul perdeu suas habituais disposições de piedade e deferência para com Javé ("o espírito do Senhor dêle se retirou"). do "espírito de torpor" (Is 29. dizendo que "o espfrito do Senhor se retirou de Saul.14. ora a sabedoria. via-se freqüentemente acometido de acessos de neurastenia.). por duas vêzes.' Com efeito. tentou matar Davi. Em conseqüência. na sua epístola. O rei Saul. 1 Sam 18. 10 Já que Saul se afastara do Senhor. Deus não pode ser tentado para o mal nem tenta alguém.23. do "espírito de impureza" (Zac 13. abrindo-nos o caminho para a exegese de outras semelhantes. ora a luxúria.10.9). de 50 dc. ora a infidelidade. 19. Núin 5.154 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Mencionava assim o verdadeiro inspirador do pecado de Davi. em que predomina ora a inveja.4). conforme o contexto. no início da era cristã (ca. deixava-nos concluir que o Altíssimo não fizera senão permitir a falta. o vocábulo "espírito" deve ser interpretado à luz de outros trechos do Antigo Testamento.12.30). do "espírito de sabedoria" (Éx 28.2). prestes a englobá-la dentro do sábio plano da Providência.) Eis como a Sagrada Escritura mesma explica uma de suas passagens obscuras. 5. . uma atitude de ânimo. etc. o Senhor se afastou dêle. traspassando-o com uma lança contra o muro (cf. também o apóstolo S.14. ao ser tentado.10). vindo do Senhor. diga: 'É Deus quem me tenta. enfurecido. disposições interiores de um indivíduo.13. Tiago. designa claramente. reagia contra a falsa noção que o texto de 2 5am 24 podia sugerir: "Ninguém." (1. 10 deixou-se conseqüentemente mover por disposições más. que o levavam até ao desvairo. do "espírito de prostituição" ou apostasia religiosa (Os 4. depois de se ter tornado indigno de sua missão. Aliás. e um mau espírito. dir-se-ia interpretando fielmente a mente do hagiÕgrafo expressa em 1 8am 15. que falam do "espírito de inveja que se apodera de um marido" (cf. "Espírito". pois. os dizeres de 1 Sam significam. Ilustrados por tais textos.

o egoísmo não refreado dos contraentes tende a rompê-la! É o que se dá sem especial intervenção de Deus.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 155 porque foi Deus quem permitiu. fechando-se nos seus propósitos perversos. que Saul fôsse infiel e ressentisse as conseqüênõias. visando a obstinação dos pecadores.17. " seja do povo eleito.9.27.11.11.20. 10. 7.11. Lx 9. Para os judeus. do seu êrro. 16.9s). sim. Êz 4. Na história do Faraó em particular.16-20.27. Cf. cedo ou tarde. 3 Rs 12. 1 6am 2. que em tudo viam a atividade de Deus. resistindo aos sinais divinos. O Senhor mandou ao profeta Balas: "vai. em si benévola.14. Faraó reconhecia estar faltando contra Deus (cf. seja do Faraó. afirmando em Lx 8. Quanto à missão de pregar confiada ao profeta Isaías. e não compreendais.16). 2 6am 12. 14.35). se se consideram passagens como Is 1. espírito que provocou rebelião dos siquemitas contra seu chefe. o próprio hagiógrafo interpreta a sua expressão literária. 11 ou que "continuou a pecar e tornou pesado o seu coração" (9. 13 Os magos do Egito com razão perceberam nos prodigios realizados e dedo da Divindade e o intimaram expllcitamente a Faraó (cf. 9. à vista das mesmas obstinam-se ainda mais con.28 que o monarca mesmo "endureceu o seu coração". De tal modo que não se converta e não seja curado. toma-se ocasião para que a criatura tome grave atitude pecaminosa..) Eis ainda alguns paralelos: Dt 2. 12 Tais passagens significam apenas que Deus é o Autor de feitos destinados a promover o bem dos pecadores.235: "Deus enviou um espírito mau entre Abimeleque e os habitantes de Siquém". Semelhante é a exegese do trecho de Jz 9. em vez de se render ao significado providencial de tais obras e se salvarem.21. isto equivalia a uma ação direta do Senhor sôbre o coração humano. Isto não quer dizer senão que o Senhor deixou se originassem discórdias graves entre homens que se haviam prêviamente associado para cometer hediondo morticínio (ou seja. e não entendais.scientemente no mal.3. Análogos aos textos antecedentes são aquêles onde o hagiógraf o diz que Deus endurece o coração dos homens. foi o que se deu no caso acima. assim procedendo. 11. 17.30.8. fisiológicas e psicológicas. Vêde.15.4. todavia os homens..25.10. Torna pesado o coração dêsse povo E duros os seus ouvidos. A aliança fundada sôbre planos pecaminosos não pode ser duradoura.19-23. destarte a ação divina. 11 12 .12. Jos 11. o assassinato de setenta consanguíneos de Abimeleque). torna-Se evidente que não visava obcecar o povo no pecado (como poderia sugerir Is 6. e dize a ésse povo: Ouvi.15). 22. 10.1." (Is 6. Éx 8.

deliberavam sôbre a maneira mais eficaz de iludir Acab.156 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que o profeta exorta os judeus à conversão. tentou persuadir o. seriam ocasião para que muitos. que faziam carreira na côrte real. o qual desejava fazer uma expedição bélica contra o rei da Síria. o qual se ofereceu para tornar mentirosos e enganadores todos os profetas da côrte de Acab. ou seja. Miquéias. Na base desta narrativa. sem tolher a liberdade do homem. já próximo da era cristã. resolveu consultar os profetas que o assistiam.C. na plenitude dos tempos. A ninguém concede a licença de pecar. a um fato que se tenha realizado no . a visão da côrte celeste e do anjo sedutor que Deus envia à terra. Contudo. Jesus. Interrogados.. rei por meio de novo expediente. Ora havia naquela época não poucos falsos portadores da Palavra de Deus. e Is 1. A proposta tendo sido aceita pelo Senhor. afirmando categàricamente "Deus a ninguém manda seja ímpio.). apresentou-se então a Javé um dos assistentes celestes.) 4. um antropomorfismo impressionante: disse-lhe. o Senhor sabe sempre envolver os desmandos dêste dentro de um plano sumamente harmonioso. onde prediz que a ação de Deus purificará Israel. Por fim. Eis. eram a trama de homens mal intencionados. O hagiógrafo conduz o leitor à côrte do rei Acab de Israel (874-853 a. induzindo-o à infeliz incursão contra o rei da Síria. não corresponde. em meio aos anjos seus conselheiros. que em dado momento um autêntico profeta. porém. embora soubesse que seus ensinamentos e milagres acarretariam a queda momentânea de Israel. portanto. não hesitasse o rei em abrir os olhos para o perigo que o ameaçava na expedição planejada! Neste trecho bíblico. realizara o emissário a sua missão. ter visto os céus abertos e o Senhor sentado num trono. Na linha dos episódios que vimos analisando.. pois. porém. predisseram ao rei pleno sucesso na campanha." (15. Paralelamente. porém. podia Miquéias repetir ainda com mais vivacidade a sua advertência: as palavras dos profetas encorajando Acab à guerra não eram senão o efeito de uma ação sedutora muito consciente e maliciosa. que era mero artifício oratório. não quis deixar de apregoar a "Boa Nova".6-23: é em têrmos particularmente vivos e insistentes que apresenta o "mau espírito do Senhor". fechassem ainda mais conscientemente os olhos à verdade. As admoestações de Isaías. antes. o autor do Eclesiástico dava com tôda a clareza a norma básica para a exegese dos textos acima. ainda se poderia citar o de 3 Rs 22.25-27. de partir para a guerra..20. segundo a mente mesma de Miquéias. surge na assembléia dos sedutores e destemidamente anuncia o absoluto malôgro da batalha. obstinados no mal. vendo que Acab não lhe dava crédito..

C. ela não passa de mero recurso de linguagem destinado a calar no ânimo do rei Acab mais fundo que uma simples admoestação. Miquéias e seus interlocutores tenham tido conhecimento de tal espírito tentador. se deu o seguinte episódio: 'O Senhor prostrou os habitantes de Betsamés. aldeia israelita. por terem olhado para a arca. Numa das etapas do itinerário. . sim. A realidade correspondente a tais artifícios não é senão a seguinte: Javé resolvera permitir (sem deliberar com os anjos) que Acab fôsse seduzido pelos mentirosos oragos da côrte e. VI a. prostrou setenta homens dentre o povo e cinqüenta mil da multidão. O primeiro dos ditos trechos faz-nos retroceder aos tempos de Samuel (ca. tinham. foi então que. indiscretos ou irreverentes. rezava uma cláusula referente aos caatitas ou ministros subalternos do culto: IA Cf.' (1 5am 6. como se depreende de várias prescrições da Lei mosaica. Os exegetas lhe têm dado explicações diversas: a) os betsamitas lançaram para a arca do Senhor olhares curiosos. principalmente após o exílio (séc. Assim. 153. sofresse grave derrota. conforme um plano sábio. Ora a falta de respeito para com o Divino foi sempre considerada grave culpa no Antigo Testamento. a noção de um anjo mau sedutor a quem Javé.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 157 mundo superno. sem que para isto pareça haver culpa proporcional.1-29).).. ainda nos é forçoso dizer que o acesso dêsse anjo maligno junto a Deus e a aceitação dos seus serviços por parte do Senhor são meros artifícios usados pelo profeta para avivar a sua exortação. pois destarte o Senhor lhe faria expiar o morticínio anteriormente cometido contra Nabot (cf. de 1050 a. já no séc.). pãg. 3 Rs 21.19. estivera ém terra pagã. § 40 Ø DEUS QUE FULMINA Há duas passagens da história sagrada em que Deus é mostrado a punir os homens com a morte. Daí perguntar-se: será tão cruel procedimento compatível com o conceito de Justiça Divina? 1. n. IX a. depois que.) O texto. o móvel sagrado pousou em Betsamés. Refere-se à volta da arca do Senhor para o seu santuário em Israel. oferece ao leitor dificuldades de interpretação literárias e teológicas.C. raptada pelos filisteus. 9.C. Os judeus. concede licença para desencadear males na terra. 14 Dado que. conforme o texto hebraico atual e a tradução latina da Vulgata. sem dúvida. por exemplo. em conseqüência.

a irreverência para com as leis do culto eram punidas com especial rigor. corno julgam bons exegetas modernos. Sabe-se. comportam a presença de uma fôrça misteriosa e temível. julgavam que o sagrado é intangível.1. Considerando isto. dado o perigo que ameaçava o povo. morram.. mesmo pagãos. Flávio José. em particular. para ver os objetos sagrados e. aproximar da arca do Senhor antes que os sacerdotes a tivessem recoberto (cf. para que não entrem. além disto. 6.. sem arriscar a vida. alguns israelitas hajam indevidamente tocado a arca (Ant.195.15) não atesta o seu respeito religioso ? considerando tais dificuldades. supõe que. historiador judaico do séc. invisível.4). os críticos bíblicõs dão preferência à forma do texto de 1 5am 6.. a nenhum profano era lícito. das quais a segunda é evidentemente errônea. em conseqüência. homens exclusivamente dedicados ao santuário. quando a glória do Senhor se tornou manifesta sôbre o monte Sinai. principalmente os que servem ao culto divino. que se oferecia aos ornares de todos? O fato de haverem prèviamente oferecido sacrifícios ao Senhor (cf. Éx 19. o problema parece estar mal formulado. simultâneamente com o olhar. Núm 4.19 apresentada pela tradução grega dos LXX: . todos os objetos religiosos. O texto hebraico dos livros de Samuel chegou até nós em estado de conservação deficiente. Éx 19. não se podiam.21). pois refere duas cotas de vítimas (setenta e cinqüenta mil). Contudo pergunta-se se realmente podia haver culpa grave nos betsamitas por terem considerado a arca. Nenhuma dessas interpretações satisfaz plenamente.. que os antigos.158 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "A fim de que (os caatitas) vivam e não morram quando se aproximarem dos objetos sagrados. Entre os judeus. ainda que fôsse por mero olhar (cf. terá sido interpolada.515). por um só instante que seja.23). entrar em contato com o Santo. 6... O conhecimento dêstes particulares certamente contribui para esclarecer certos textos da Sagrada Escritura. a fim de que o povo não se aproximasse indevidamente do lugar da aparição (cf.19 parece ter sido maltratado pela tradição literária.C.4). há quem julgue que os betsamitas foram punidos por anteriores pecados do povo ainda não expiados. não é mencionada por alguns manuscritos hebraicos nem por Flávio José (Ant.1. 6. aliás. Aarão e seus filhos assinalarão a cada qual o seu ofício. De modo geral. a cifra de cinqüenta mil ultrapassaria o número de habitantes de tôda a região de Betsamés. sem perigo de morte. o versículo 1 Sam 6. 1 d. ' Na verdade. Moisés cerrou o acesso à montanha.) Os levitas mesmos. inacessível ao homem não iniciado. por isto. de adotar usos e crenças do paganismo." (Núm 4.

os israelitas temiam. "Les livres des Rois" em La Sainte Ribis. onde Davi erigira a capital do seu reino. lago. e isto. por exemplo. XVIII (1955). mas não criticavam. contrastando com o entusiasmo sagrado do povo. quando Israel ainda era muito rude.note-se bem . Aconteceu. O Senhor então prostrou setenta homens dentre êles. explicam que os sacerdotes de Israel. 1949). Theologlsches Woerterbuch zum Neuen Testameat 1 (Stuttgart. itinerário interrompido pela permanência da mesma em Cariatiarim ou Eaalá. da qual uma centelha fere o homem profano como um raio.6s (paralelo a 1 Crôn 13. 15 Samuel . 17 Veja-se curiosa exposição da tese em Anhembi. 16 Artigo publicado em Kittel. Denis Papin). haviam feito da arca "um autêntico condensador elétrico. porém.. Les livres de (Paris. de resto. 171-173. Médeblelie. enfurecido. mas da santidade de Deus! ." 15 Os filhos de Jeconias. não da crueldade. teriam tomado uma atitude de indiferença.a advertência produziu seus efeitos.. 373. 2. tocou-a então com as mãos a fim de ampará-la. pois diz o texto sagrado (6. Trecho que. dentre todos os moradores de Betsamés. corria o risco de cair por terra. dado o seu Ê esta a variante que preferem. de Pirot-Clamer. que. a sentença de que o exegeta moderno Procksch se faz porta-voz "A arca aparece coEo que cárregada de eletricidade sagrada. R. Tendo estado setenta anos em Cariatiarim. que se carregava mediante eletricidade atmosférica". o Senhor. E .7-10). O hagiógrafo continua a descrever o itinerário da arca do Senhor em Israel.. rejeitar-se-á. 92). Tal punição talvez desnorteie a boa mente do leitor. Como interpretá-la? Antes do mais. de mais a mais que o episódio se dava numa fase da história assaz remota. conhecedores dos segredos da eletricidade. O escândalo assim suscitado teria provocado a punição de setenta membros de tal família! A necessidade de preservar a verdadeira fé e excitar a consciência de um povo de dura cerviz podiam exigir tão severa intervenção de Deus. 41) A. que durante o trajeto certo varão chamado Oza percebeu que a arca.1). como descabida.0 "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANflGO TESTAMENTO 159 "Os filhos de Jeconias. a fim de explorar a religiosidade do povo! ' Esta sentença. de Vaux. porém. 1953. cedendo à imaginação. nos são desconhecidos.20) que os betsamitas reconheceram no ocorrido um sinal. pouco após o episódio de Betsamés acima referido (cf. o santuário foi transferido para Jerusalém. pasta sôbre um carro de bois. chama a atenção é o de 2 5am 6. o fulminou com a morte. foram os únicos que não se alegraram ao ver a arca do Senhor.. 1 5am 7. III (Paris." '° Outros autores (Fritz Kahn. os castigos infligidos pelo Senhor. por análogos motivos. Em geral.

já falam claramente da mansidão e da ternura divinas (ef. 20 Algo de semelhante se dá às vêzes ainda hoje com o homem simples. 31.12. cf.C. porém. - . P. considerada em si. os antigos israelitas não distinguiam muito exatamente entre pecado formal. inconsciente. etc . 17111 a. Como quer que seja. a fim de não se dar ocasião a que alguém o ousasse tocar diretamente (cf. já que desejava preservar de incidente a arca do Senhor? O texto bíblico não é muito claro neste particular. Éx 25. muito apurada. SI 75. ' consideravam não raro apenas a ação externa.160 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO caráter gratuito. não era permitido aos hebreus violar os objetos sagrados com olhares indiscretos (como acima ficou dito). o patriarca Jacó.. Entre outras coisas. só podiam carregar a arca do Senhor servindo-se de barras. dir-se-ia que houve uma intervenção de Deus entre o toque e a fulminação. ao se ler a narrativa. e pecado material. ademais é preciso não esquecer que no Antigo Testamento nos defrontamos com um povo que muitas vêzes só se rende às impressões fortes.42. 20 Aliás.21s. Núm 4. Os 2. que não sempre distingue entre transgressão objetiva e culpa subjetiva. representava uma falta contra as prescrições de culto israelita. Theologie des Alten Testamente (Boim. há de ser estimado à luz da concepção particularmente rigorista com que em Israel era tachada a violação das coisas santas (cf. Com efeito.15).. involuntário. o Deus de Abraão. 18 Consoante essa mentalidade rude. o Terror de isaque . A pena de morte infligida a Oza por haver transgredido a proibição poderá parecer excessivamente severa. 1940). também "êrro. deviam fazê-lo sem os atingir com as mãos (cf. O episódio.. voluntário. e barras que jamais deveriam ser separadas do móvel. 18 Uma dúvida ainda fica: terá tido Oza ao menos a consciência de que praticava algo de condenável? Não parece que. Mas por que terá o Senhor procedido de maneira tão prepotente ? A ação de Oza.15). ao contrário. muito menos lhes era lícito tocá-los. 10 Cf. pinças. séc. nos ínicios da história sagrada.). designava o Altíssimo pelos três seguintes títulos: "O Deus de meu pai. note-se que a causa da morte de Oza não parece proceder da arca mesma. Hehlisch. porêm. (Gên 31. embora fôssem encarregados de transportar os objetos do culto (turíbulos. nem a teologia. pág..) Livros posteriores da sagrada Escritura. Tão rigorosa era mesmo esta última proibição que os próprios levitas. negligência"). 158). é irrisória... O original hebraico diz que Oza foi punido por sua "falta" ('al-hassal. 43. carece de fundamento tanto no texto sagrado como na própria história da civilização humana (que assinala a utilização das fôrças elétricas a época relativamente recente). era boa a sua intenção. consciente. sem levar em conta a intenção de quem agia.. ).53. bacias.

um ensinamento religioso: veja-se nêles mais um aspecto dos preparativos pelos quais o Senhor quis fazer passar o gênero humano a fim de que nós. julgam necessário renunciar ao entendimento pleno do episódio de 2 5am 6. § 5. se possa ter tornado merecedor de castigo. não obstante. a distinção entre pecado cometido por mdústria maliciosa e pecado cometido como que involuntárlamente." A. negligenciando a intenção do agente. II (Paris. em última análise.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 161 dos rabinos contemporâneos de Cristo fazia distinção entre pecado formal e pecado meramente material.6s. inconsciente. porém. . É o que ocorre ao se tratar de homicídio. antes. que dava valor preponderante às ações exteriores. fizera em nome de todo o exército.20) do Evangelho. não causa estranheza que Oza.24-45. é a violação de um mandamento. expressa pela lei. 182. em um ou outro caso. Bonsirven. George. quer não. quer seja conhecido. 21 Assim é que no Antigo Testamento a longa seção de Lev 4. Trazem. julgava que isto lhe podia ter acontecido em punição de faltas que ela mesma ignorava (cf. tal finalidade seria indigna de Deus. porém. Ao lado dos trechos que manifestam rude mentalidade religiosa em Israel.1-5. 'Pautes contre Yahweh dans (es livres de Samuel". Importante: o autor julga que a concepção rabínica é a expressão fiel do que se acha nos livros do Antigo Testamento. Eis o testemunho de outro abalizado autor "Para as gerações antigas. pudéssemos finalmente compreender a "justiça melhor" (cf. Conforme 1 5am 14.Javé são conformes à sua sabedoria tanto quanto ao seu Poder. embora animado por boa intenção. encontram-se outros que os completam. 1935). 53 [1946]. já que o texto sagrado não fornece indicações suficientes para tal. exegetas que. assim como da mentalidade judaica. em Revue biblique. 82. quer não. La Judaïsme pciiestinien au temlos de Jésus-Christ. A prova de que essa desordem era injúria feita a Deus é que devia ser reparada por um sacrifício. Não faltam. podemos definir o pecado como sendo a transgressão da vontade divina.18). há falta porque há desordem. 22 verifica-se. cristãos. Também nao se percebe devidamente que as exigências de . porém. para haver falta. Ainda não se percebe claramente que. que intercedeu pelo réu inconsciente.6 trata de faltas cometidas por ignorância. salvou-o o bom senso do povo." J. seu pai. de que Jônatas não tinha conhecimento. a ofensa contia Javé tema a forma de um ato proibido em sua materialidade mesma. prescreve.. pelo simples fato de ter cometido um ato em si mau. sacrifícios expiatórios para tais ações. em Éx 21. é preciso haver responsabilidade pessoal do pecador. quer seja a transgressão consciente e deliberada. pois dão 21 "Levando em conta as idéias professadas no Antigo Testamento e em tõda a literatura judaica. voto.. Mt 5. Jônatas se viu ameaçado de sofrer a morte por ter violado um voto que Saul. é esta uma conselüéncia direta do caráter jurídico da moral judaica.° CONCLUSÃO Os episódios acima analisados não foram consignados nas Escrituras para fazer tropeçar o leitor cristão. 3 Rs 17. 22 Considerados êstes particulares. A viúva de Sarepta.12-14. tendo perdido o filho.

devota e confiante. 15.20:26).10. Com efeito. sois o mínimo de todos os povos.5. lembrava que se revelara aos Patriarcas e exercera a sua Providência para com Israel.37.6. principalmente na guerra: 1 Sam 4. O Senhor aderiu a vós e vos escolheu. Talvez nenhum livro histórico da Sagrada Escritura ponha tanto em realce a piedade pessoal.18. ci. no zêlo religioso sincero. A êstes dois mandamentos se podiam reduzir tôda a Lei. embora pouco esclarecido. pois é o grande Miado e Tutor de Israel. principalmente no amor de Davi. as íntimas relações dos fiéis com o Senhor.28-31. 4..) "Sabei que não é por causa da vossa justiça que o Senhor vosso Deus vos dá êsse belo pais (Canaã) como propr!edade.) Voltando-nos agora para os livros de Samuel em particular. o primeiro preceito da Lei mosaica era o do amor. o voto de Saul em 1 Sam 14. como os livros de Samuel." (Dt 9. sois um povo de dura cerviz. é também Aquêle em cuja benevolência o povo deposita profunda confiança. É o quõ se verifica na história deAna.11. pede um filho (1 8am 1. 17. seu desejo de of erecer sacrifícios em 1 5am 13.34-40. Mas porque o Senhor vos ama e quis cumprir o juramento que fêz a vossos pais. na celebração freqüente dos sacrifícios populares (1 Sam 2.37. amor a Deus: "Amarás o Senhor teu Deus. de tôda a tua alma e com tôdas as tuas fôrças. Da sua parte. dentre todas os povos que estão sôbre a face da terra. por meio de Moisés. mostrava também ser o Deus de Bondade e Amor. como reconhecia o Doutor da Lei perante Jesus (cf.162 PARA ENTENDER 0 MiTIGO TESTAMENTO a ver que o Senhor Deus. o Senhor.9..27). não porque ultrapasseis em número todos os povos. outras afirmações em 11. 2 8am 5.13. que promove .) O segundo lhe era semelhante: cf. de Saul (cf.) "Amarás o teu próximo como a ti mesmo.6s." (Dt 7.9-12.24-35.18s). em geral. donde procede a maioria dos textos considerados neste capítulo. mas por mero amor: ilO Senhor vosso Deus Vos escolheu. 8. ao mesmo tempo que se revelava como "Deus de Justiça".15.6). a Escritura do Antigo Testamento. no entusiasmo das "escolas de profetas" (1 8am 10. Lc 10.20).5. Mt 22.13. Mc 12." (Lev 19.8-10." (Dt 6.6-14. observamos os seguintes traços complementares: O Senhor que pune. que. 28. não em virtude de algum direito ou merecimento do povo. 19. tôdas as admoestações dos Profetas e.5. de todo o teu coração. 19.

19s. .514-16.) 2 23 Observações devidas a George. embora muito valor se desse ao aspecto exterior da santidade ou da virtude.25.10). 2 Sam 6. o autor sagrado inculcava que Deus vê além das aparências: "O homem considera a face.31).O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 163 o culto Sagrado (1 Sam 26. porém. após o pecado.21). cit.7. 15.24. 12.13. 24.16-23. Davi sabe que a sua vida é cara a Deus (1 5am 26. 182s. Por fim..18s. o seu arrependimento." (1 5am 16.22. não temor apenas (2 5am 12. Deus. testemunha amor. art. 2 5am 7. percebe o coração.

P. intimamente associado à religiosidade e ao culto sagrado em geral. que se poderia perguntar se isto não implica derrogação ao conceito de um Deus espiritual e transcendente.CAPÍTULO X SANGUE E VIDA Os três capítulos que se seguem considerarão alguns temas por ocasião dos quais os escritos do Antigo Testamento aludem a concepções assaz propagadas entre os povos do Oriente. hão de ser devidamente focalizadas. O valor religioso do sangue está baseado num pressuposto da fisiologia oriental. Na religião de Israel. Outrossim M. no intuito de transmitir a sua mensagem. assim como no cristianismo. Pode-se notar. O sangue era. Etudes sur Les . Os textos israelitas que se referem ao sangue. Cf. principalmente nos atos da liturgia. Estas. Esta tese (deficiente. O primeiro de tais ternas é o do sangue. não há dávida) haveria de entrar nas concepções religiosas dos antigos homens. 65. 1 1 Poema assino da criação vI. de outro lado. Os sábios antigos.-J. é mencionado cêrca de trezentas e oitenta vêzes nas páginas do Antigo Testamento. por exemplo. se exprimem de forma semelhante à da literatura extrabíblica. Eis o que nos leva a empreender o estudo proposto neste capítulo. atribuem-lhe importância tal. 1907). observando o papel importante que o sangue desempenha no funcionamento de um organismo. assim lhes comunicara a vida. será preciso mostrar a mentalidade própria que anima os hagiógrafos quando. que entre os assírios o poema da criação afirmava ter o deus Marduque plasmado os homens com o seu próprio sangue. estabeleceram o princípio solene: "O sangue é • sede e o veículo da alma ou da vida" ou "O sangue coincide com • vida mesma". 5. Dhorme. principalmente os semitas. e ainda é. êle desempenha notável função. a fim de que o leitor possa plenamente penetrar o sentido do texto bíblico. bem como em oitenta e oito passagens do Novo Testamento. Lagrange. Clwix de tentes religietx assijro-babyloniens ( Paris. de um lado.

L'évolutíon religicuse . Afirmava a Lei mosaica: "O sangue é a alma (= vida). Hebr 12. iniquamente sacrificado. em conseqüência disto. E. 5. no qual está a. Vergilio mesmo refere: 'Purpuream vomit UM animam . é dito clamar a Deus.) A morte não é sanção que Deus arbitrà. atribuíam-lhe uma voz própria." (Lev 17. 79.sangutnis imttationem. Todavia Deus não permite que o homem tire a vida a si mesmo. o mesmo se narra dos mártires do Antigo e do Novo Testamento em 2 Mac 8. necessário para a santificação do homem decaído.166 PAfl ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO O conceito fisiológico era igualmente familiar aos israelitas. ad . à imitação do sangue." Agi. norteia a dispensação dos dons de Deus após a culpa cometida no 'paraísa O derramamento de sangue foi. derramar o próprio sangue para reconcir d'israel.22) É êste o princípio solene que." (Dt 12.2. Tão estranha lei se entende pelo fato de que. quo est sedes animae. ainda pode aspirar a uma reconciliação com Deus. Dhorme.3.0 "SEM EFUSÃO DE SANGUE NÃO HÁ REMISSÃO DE PECADO" (Hebr 9." (Oén 2. 3 "No dia em que comeres do fruto proibido.) Ou ainda: "A alma (= vida) da carne está no sangue. por isto. sede da alma. se após a queda o culpado.Lança fora a alma côr de púrpura. em virtude de gratuita condescendência divina..23.11. ainda nas línguas modernas empregam-se equivalentemente as expressões "dar a vida" e "dar o sangue" pela pátria.rlamente impôs ao pecador. • alma de tôda carne é o sangue.. mas corolário lógico da culpa. 1905). ainda que o fizesse em ódio ao pecado (a vida é propriedade exclusiva do Criador). 17. Não podendo. portanto. o homem perdeu o direito à vida. e será até o fim dos tempos. ." Aen. conforme o Apóstolo. que é a vida mesma. consoante a sua praxe de educar e elevar os homens mediante uma condescendência prévia. Assim em Gên 4..24. cedendo ao pecado.) 2 De tal modo era o sangue identificado com a vida que após • morte do indivíduo os judeus julgavam que o sangue conserva autonomia e personalidade. 1 Por conseguinte.14. é o de colocar-se na atitude de réu e reconhecer a justa sentença que sôbre êle pesa. . 2 De resto.10 o sangue de Abel. pela desobediência o homem se afasta de Deus. sérvio escreve: ". religions sêmiUques (Paris. que exprimia junto a Deus os sentimentos de justiça do defunto.. Estas idéias tiveram duas conseqüências práticas de grande importância na história sagrada § 1. 349. Mesmo entre os romanos encontram-se vestigios de tal fisiologia. 201-219. o prirneiro passo que há de dar. Deus no Antigo Testamento houve por bem adaptar as suas determinações a tal concepção. 231. Apc 6.. ii.. sim.. 243. incorre inevitáveimente na morte. 9. 1. certamente hás de morrer. 252s.

Cf. Ainda em 1930 foram descobertas no santuário de Saturno em N'gaous (Africa romana) quatro monumentos votivos. sangue por sangue. Curtiss.20. pois. 5 É o autor de Edo 17. 247-272. "Survivancez par substitution des enfants dans l'Afrique romaine".11). reconciliação com Deus. 21 (1940). inflamada de zêlo religioso. A. desde remota antiguidade os israelitas (seguindo. da vida. reaver a graça equivalia a entrar num pacto sagrado com Deus. estava intimamente ligada no Antigo Testamento a noção de aliança com o Senhor." De lingua latina. 'tal oblação exprimia o arrependimento do homem pecador e seu anelo de se unir de novo a Deus. como os profetas de Israel muitas vêzes afirmaram (cf. de resto." 'Alma por alma. tais vítimas preenchiam de certo modo a finalidade de satisfazer à Justiça divina (cf...10 quem fala pràpriamente dessa aliança com os primeiros pais. fôra chamado a uma aliança com o Criador. a nuca do cordeiro. sanguina pra sanguine. um costume quase espontâneo entre os povos dé outrora) recorriam a animais irracionais.. Na medida em que eram realmente a afirmação de uma alma contrita. Algo de semelhante é atestado por Ovídio. vita pra vita" . que não fôssem acompanhadas de uma oblação interior ou de autêntico espírito de penitência. vida por vida. expressão de concepções politeístas e supersticiosas. Is 1. porém. A idéia de expiação.7). os judeus conheciam muitos e variados sacrifícios no seu ritual. 159-187. Pasti. como se compreende. com Noé salvo 4 Entre os pagãos. Handbuch der alto-.SANGUE E VIDA 167 liar-se com o Senhor. 1 Assim. 1913)." Cf. éle a entrega em lugar da cá beça do homem. O autor faz notar que no Oriente de nossos tempos ainda está em vigor tal antiquíssimo costume. Baseados nesse conceito de expiação. 1. em lugar da nuca do homem. J. rientaUschen Geisteskultur ( Leipzig. algo de abominável a Deus. Em testemunho do costume entre os semitas. é a que se acha acima exposta. o peito do cordeiro.11. 106 (1932). o cordeiro era substituição. agnum pro vi (caria). em Revue d'histoire dez Reltgions. 1903). em lugar do peito do homem. 592-599. do oferente. 156-162. obra em que se encontram citados vários outros textos)."Pagaram a dívida sagrada. em Bíblica. eis ao menos um texto do ritual assirio-babilónico: "0 cordeiro faz as vêzes do homem. à semelhança do que se dera com Adão no paraíso: dotadó da amizade divina.O povo atira animais ao fogo em seu favor. "Die substitutionstheorie und das alttestamentliche Opfer". após o dilúvio. Ez 44. desde. a praxe era. todavia a idéia fundamental que a inspirava. 6. (0 sacerdote) oferece o cordeiro em lugar da vida (do devoto) a cabeça do cordeiro. Veja-se também S. 4 imolavam-nos e ofereciam o seu sangue a Deus em substituição do sangue. Lev 17." (li. A. Por disposicão divina. Metzinger. a cada um dos quais correspondia uma oferen da própria. distinguiam tipos diversos de impureza. Jeremias. Lev 1-7). O uso tornou-se comum mesmo entre os romanos. da personalidade. Carcopino. Também mediante a oblação de sangue exprimiam adoração. 290. que trazem fórmulas como: "Sa- crum redgiderant. . Ursemitisehe Reliqion fia Voliesleben dez tteutigen Orients (Leipzig. tornavam-se um sinal de hipocrisia. gratidão e suas preces (cf.. 353-377." "Anima pra anima. dos quais refere varrão: Populus pro se in ignam animalia mittit .

o compromisso mútuo foi selado mediante a imolação de animais.19s).e metade sôbre o povo (cf. Êste rito teve aplicação. dessa vez. querendo. Ora essas e outras convenções sagradas foram concluídas mediante efusão de sangue. . Deus entrou igualmente em aiiança. marcando as portas dos israelitas.168 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO das águas Deus travou uma aliança. isto é. na história sagrada. quando Deus se dignou travar aliança com Abraão. um e outro dos pactuantes passavam por entre as carnes imoladas. caso se tornassem infiéis ou perjuros. a seguir. para exprimir que se obrigavam irrestritamente até a morte a observar o pacto. ao pé do monte Sinai.que representava o Senhor Deus . Hebr 9. Gên 15. Com efeito. é a que posteriormente Javé quis concluir com todo o povo de Abraão. Neste pacto o sangue desempenhou papel ainda mais significativo. Moisés derramou metade do sangue das vítimas sôbre o altar .3-8.21. Tendo libertado o seu povo. Éx 24. tendo sido fiel a Deus nas provações a que até então tAra submetido. significar que assumiriam a sorte das vítimas. caso a observasse. comunhao que O Abraão não passou em meio às vitimas. já que Israel aceitava as disposições divinas. qualquer aliança travada entre homens implica a aceitação de deveres de parte a parte. com isto. adaptando-se à mentalidade do homem primitivo. 13. 18-20). pois já cumprira a sua pafle. por exemplo. o fim do cativeiro (cf. Êx 12. chamado do torrão natal idólatra para a terra sagrada. ef. fõra o sangue de vítimas que. Éx 3. Por que isto ? De modo geral. 6 Outra aliança divina que de mais perto interessa considerar. prometendo-lhe posteridade numerosa e abençoada em troca da fidelidade que o Patriarca até então mostrara ao Altíssimo: Abraão distribuiu em duas filas animais prêviamente imolados e divididos. prometendo-lhe prosperidade. Deus houve por bem dar-lhe uma constituição própria (a Lei mosaica). que estavam dispostos a derramar o sangue e sofrer a morte. dividiam-nas ao meio e colocavam as respectivas metades em duas filas paralelas.2.29-36). o mesmo. chefiado por Moisés. 19. os contraentes imolavam vítimas. porém. é um compromisso mútuo. dêste modo. file o fêz com Abraão. por ocasião da décima praga desencadeada sôbre o Egito. No Oriente antigo. indiretamente. Deus dava a entender que não deixaria de cumprir as suas promessas de bênção.9. com Moisés e o povo israelita tirados do cativeiro egípcio.7-19). merecera para êstes a preservação da morte e. e uma coluna de fumaça e fogo (habitual símbolo do Senhor. passou entre as carnes (cf. não se verificou o rito da passagem dos contraentes entre as carnes imoladas. Tal gesto significava a comunhão íntima que para o futuro existiria entre Deus e o seu povo.

pois. o curso da história sagrada. Não se pode negar que as vítimas e os ritos do Antigo Testamento eram precários. Is 1. eram. pois. poderia talvez julgá-las um tanto infantis. 30. assim como os seus filhos e os trajes de seus filhos. sé podiam ter valor provisôrio. a fidelidade dos sacerdotes respectivamente à palavra de Deus.7. feito isto. mas dêle não se podia remir.SANGUE E VIDA 169 teria conseqüências de vida e de morte (cf. indicando. imperfeito. apiedando-se da sorte do homem. mas. embora condizentes com a antiga mentalidade oriental. Prossigamos. Todavia.165). no judaismo decadente. era o sangue que mais uma vez associava Deus com os homens e os homens com Deus. que me deste um corpo. 1 "Não os quiseste" como se fõssem algo de definitivo. havia desproporção entre os dois térmos. Como poderia o sangue de sêres inferiores ao homem. seus filhos e a indumentária de todos: "Assim serão consagrados Aarão e seus trajes. Tais episódios dão a entender com suficiente clareza a importância e a eficácia que o próprio Debs se dignou atribuir ao sangue desde o início da história sagrada. sem dúvida. não se explicaria bem que Deus.) A efusão do sangue sôbre o corpo e as vestes simbolizava que tôda a pessoa do sacerdote estava como que envolvida pela graça divina. quis um dia dizer ao Pai: "Sacrificio e oblação. . Além disto. à prática das boas obras e ao caminho reto da justiça. porém. Hebr 9. tenha determinado dar tal relêvo ao sangue de irracionais. sim. fazendo que dêste dependesse a legalidade religiosa dos homens. sem o necessário espirito de reparação (ef. obter plena pureza para a consciência humana? Foi por isto que. devia o Legislador aspergir com sangue Aarão. o Filho de Deus. o polegar direito e o artelho direito maior de Aarão e seus filhos. de então por diante. Puro Espírito. não os quiseste. Eis. até a morte (significada pelo sangue derramado) Aarão e seus filhos pertenceriam ao serviço do Senhor. na plenitude dos tempos. Lev 8. eram insuficientes para realizar o plano divino. cf. que se lançara no delito. com isto. abstração feita do que se seguiria nos séculos posteriores. O poder que o sangue tinha de unir ao Senhor se atuou ainda na instituição do sacerdócio do Antigo Testamento. textos em que o Senhor repudia os sacnficios hipôcritas de Israel). no sangue que se fundavam as novas relações do Criador com as criaturas. a Moisés Jayé mandou que imolasse um carneiro." (Êx 29. ou seja.11. oferecidos de maneira demasiado formalista.23s. Era. a representação de uma pessoa humana por um animal irracional imolado era um artifício reconhecido. e com o sangue ungisse a orelha direita. quem quisesse interpretar essas passagens independentemente do seu grande contexto histórico. Es 44. pela Lei mosaica.21. inconscientes do que é o pecado.

. Paulo acrescentaria: nesse sangue também os anjos bons se aproximam do homem. 'elevação do homem ao estado de filho de Deus. e morte de cruz). (até a morte. Com a autoridade de Senhor da vida. FIp 2. pagava o devido tributo à Justiça divina. pois correspondia não apenas à dignidade do homem.5-7. o centro da história. S. destino final que é a vida imperecível do céu. Cristo substituiu-se assim às hóstias irracionais dos antigos ritos. a tua vontade. Como . portanto. Então disse: 'Eis que venho. o sangue de Cristo tinha junto ao Altíssimo um poder de intercessão incomparàvelmente mais eloqüente do que o das vítimas do Antigo Testamento. era o sangue sacerdotal por excelência. tornou-se. instaurando a• paz pelo sangue da sua cruz. o sangue.se compreende.. pelo sacrifício do Re51 39. sangue humano inocente por sangue humano iníquo eram finalmente oferecidos a Deus. mas também à Majestade do Criador. era apto a expiar de maneira cabal. que até a vinda de Cristo era mero sinal." (Col 120. a fim de libertar a êstes. fêz-se o segundo Adão. com plena consciência. nova aliança. aquêle que incorreu na morte por amor ao Pai.'" Desejoso de expiar o põcado e reconciliar com o Pai o gêúero humano. pois a infidelidade de Adão criara uma divisão entre criaturas fiéis e criaturas infiéis ao Criador. obteve. sàmente enquanto estavam relacionadas (como figuras e prenúncios) com a Cruz é que tinham valor as vítimas imoladas desde os primeiros séculos. sofreu a sortê dos réus. vida humana santa por vida humana prevaricadora. não os aprovaste. as que estão aa terra e as que estão nos céus. Hebr 10. para fazer. Tornou-se desta forma a antItese exata do primeiro homem. Simbõlizando a vida infinitamente preciosa do Homem-Deus. ó Deus. pois. 'Por Chato Deus quis reconciliar consigo todas as coisas. 9 Ésse sangue ocupa o centro do mundo. com tôda a generosidade que o amor inspira. tocam-se o céu e a terra.. os pecados do mundo cometidos desde os primórdios até o fim dos tempos. É neste sangue que Deus e o homem se encontram num consórcio muito mais íntimo do que o do paraíso perdido..170 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Holocaustos e sacrifícios pelos pecados.7-9. e constituiu-se a vítima que. no sangue de Cristo. sem restrição os benefícios que as múltiplas imolações da Lei mosaica só conseguiam em pálidos têrmos: remissão dos pcados.8. cf. mesmo superabundante. cujos preceitos se resumem em amar a Deus e àqueles a quem Deus ama.) 9 .. que incorreu na morte em revolta ao Pai. Deus e suas criaturas. eis o que o sangue de Cristo nos mereceu. para reparar a obra do primeiro Adão. o Filho de Deus tomou uma natureza humana e ofereceu em nome de todos a sua carne e o seu preciosíssimo sangue.

235. o consumo do sangue era considerado uma espécie de sacrilégio. pois isto é o meu sangue. e o sangue do Filho de Deus feito homem! E não era uma ordem de somenos importância.° "QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE POSSUI A VIDA ETERNA" (Jo 6. também não a conserva como desejaria.26. Só Deus é senhor da vida e da morte..8-10). da vida eterna (cf. 7. os filhos de Israel. êle jamais a produz artificialmente. que parecia contradizer aos desígnios antigos. após uma caçada. que lhe extraiam o sangue. algo de sagrado. Por conseguinte. sinal eficaz. para qual estava reservada a gravíssima pena da excomunhão.16. Estas premissas fizeram que. por efeito das circunstâncias. a que Jesus dava na última ceia. não fôsse possível levar a prêsa ao altar do Senhor. ao abaterem um animal comestível eram obrigados a levá-lo aos sacerdotes. Lev 3. da observância da mes"Não 9. .4-6). e o separarei do meu povo. Lev 17. Ora é proposição fundamental de tôda religião que a vida é propriedade exclusiva da Divindade. § 2.4) 10 Lev 17. Lev 17. antes. a fim de o oferecer sôbre o altar do Senhor. Apresentando aos discípulos um cálice. o homem bem percebe que a vida lhe é transcendente. Se." Pela primeira vez na história. entre os israelitas. Por sete vêzes (número da plenitude) inculca a Lei mosaica tal ordem comereis carne com a sua alma (= sangue)" (Gên "Voltarei minha face contra aquêle que tiver consumido sangue. Cf. Daí se seguia a estrita proibição de jamais beberem sangue.12-14. o qual será derramado por muitos para a remissão dos pecados. preceituava. o sangue se identifica com a vida do animal. sinal portador e realizador da vida. o sangue fôsse igualmente tido como propriedade de Deus. Sôbre êste fundo de proibições tão solenes é que ressoou na plenitude dos tempos um preceito emanado do mesmo Deus.. 17." 10 Como se vê.17. Deus permitia.54) Voltemos ao pressuposto fisiológico: no sangue está a vida. Dt 12. Hebr 9. sangue da aliança nova.13). a Lei prescrevia que fizessem escorrer o seu sangue e recobrissem de terra o líquido precioso (cf. o Sénhor Jesus se dignou dizer-lhes: "Bebei todos. aos seus fiéis que bebessem sangue. só depois dêste rito lhes era lícito comer a carne (cf.27. 19.10.SANGUE E VIDA 171 dentor.

a uma posse de Deus tal que ultrapassa as exigências da natureza. e só êste. êste sangue. Para quem reflita sôbre os textos citados. no Novo Testamento. desde que considerado como veículo da vida. permanece em mim. uma vez pressuposto que o sangue seja o veículo da vida. surge espontâneamente a questão: por que terá Deus assim "jogado" com suas proibições e seus preceitos ? Na legislação concernente ao sangue. é o consumo de sangue condição indispensável para que haja comunhão do homem com Deus e também com o próximo. a fim de o elevar aos poucos à compreensão de verdade mais sublime. Por conseguinte... Aquêle que. isto é. vida imortal num corpo ressuscitado. o Senhor quis adaptar-se a uma tese da fisiologia antiga. deve tocar a todos os homens. de maneira marcante. e eu nêle. para os homens. Expliquemo-nos: o gênero humano nunca estêve destinado a um fim meramente natural.vemo-lo insinuado nas proibições do Antigo Testamento: o sangue de animais.eis o que a legislação bíblica concernente ao sangue hoje • . só pode comunicar vida precária e bem-estar exíguo. com efeito. como dissemos. 57. não faz senão diferir a morte certa que toca aos filhos de Adão.54s. mediante o seu "jôgo" de proibições e preceitos. isto é.viver a vida de filho de Deus. não se contentar simplesmente com os bens que a criatura proporciona . bebe o meu sangue. condescendendo com o homem de mentalidade primitiva. nem queira viver para outro fim senão êste . a posse da vida eterna: "Se não beberdes o sangue do Filho do homem.172 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ma dependeria. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. do seu modo. não tereis a vida em vós. o consumo de sangue implicava excomunhão. a proibição rígida do Antigo Testamento e o preceito não menos categórico de Jesus significam..vemo-lo expresso na entrega do sangue do Filho de Deus como alimènto aos discípulos. Ora o aspecto negativo desta vocação . por ser o do Homem-Deus. em outros têrmos: desde tôda a eternidade foi o homem chamado a se tornar filho e herdeiro de Déus. pode comunicar a vitória sôbre a morte que. Não se dê por satisfeito com meta inferior à visão de Deus face a face. já o primeiro homem foi elevado à ordem da graça e destinado a um fim último sobrenatural. a Sabedoria divina queria inculcar.) Note-se o contraste: no Antigo Testamento. possui a vida eterna. conforme o plano divino." (Jo 6. glorioso .. a vocação do homem a viver vida não meramente natural. que nada menos do que a participação da vida divina está reservada ao homem. O aspecto positivo da vocação do homem . mas a participar da vida do próprio Deus.não viver vida meramente natural. à consecução da bem-aventurança que a natureza por si exigiria. Com efeito.

pelo sangue. os homens dos séculos pré-cristãos nos ajudaram a compreender que. e por um só tipo de sangue. embora não tenham mais vigor de lei. que conseguimos a vida verdadeira. . cada qual do seu modo. são ainda portadores de uma mensagem: ilustram. talvez estranhos nos nossos dias. é. embora o sangue não seja a sede da alma e da vida. possuímos. não obstante. o do Filho de Deus feito homem. Sem o saber. Os preceitos rituais do Antigo Testamento. por Cristo. a grandeza das realidades que hoje.SANGUE E VIDA 173 nos transmite. a que não sucumbe à morte.

estimulando-o a perscrutar-lhes as origens e os remédios. Interessa-nos verificar como isto se fêz entre os povos pagãos e como a Sagrada Escritura. pouco condizentes com a Sabedoria de Deus e a ideologia de um homem culto. Ora os autores dos livros sagrados freqüentemente se referem a doenças ou apresentam interpretações de sonhos em têrmos que parecem simplórios. ou seja. exorcismos e outros ritos religiosos. Visto que os antigos costumavam considerar tôdas as coisas à luz da religião. a conceição de prole. ainda hoje usuais. causados pela influência de sêres invisíveis nefastos. Eis a razão por que o capítulo presente se propõe considerar o problema e procurar o autêntico significado que os mencionados fenômenos devem ter no livro inspirado pelo Senhor Deus. como bem se entende. por sua vez. que purificariam o homem e afugentariam os espíritos. até certas funções fisiolágicas (como a menstruação. os antigos os justificavam por motivos religiosos. pela Sagrada Escritura. Mesmo ao aplicar meios terapêuticos autênticos. em particular. 1. Dos efeitos dêsses agentes malignos e. Desta forma sonhos e doenças na Bíblia vêm a ser por vêzes uma pedra de tropêço para quem deseja.° AS DOENÇAS As doenças. levando fàcilmente o indivíduo à superstição. também às enfermidades físicas sabiam dar interpretação religiosa. ENTRE AS NAÇÕES PAGÃS Fora de Israel. assim julgavam . devia o enfêrmo libertar-se recorrendo não tanto a processos e remédios cientificamente estudados. aprecia as doenças. § 1. era comum atribuir as moléstias do corpo à ação de maus espíritos. mas principalmente a preces. sacrifícios. chegar a Deus.CAPÍTULO XI DOENÇAS E SONHOS Doenças e sonhos são objetos em tôrno dos quais a imaginação popular de todos os tempos muito se exerceu. julgavam mesmo necessário vê-las através dêste prisma. o parto) e os cadáveres eram tidos como impuros. sempre solicitaram a atenção do homem. da doença.

). a culpa. Conforme crenças orientais. e a preocupação de conservar na sociedade rude a necessária higiene. A luz dêstes pressupostos explicam-se estranhos pormenores de terapêutica e religiosidade antigas: "doença divina" (divinus morbus. fisiológicos. etc.. O fundamento principal desta tese é assaz evidente: todo indivíduo tem consciência de não ser senhor de sua vida.176 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO que massagens. contorcendo-se desfigurado. as doenças. provocando escapamento de sangue. que são graves. Podia ter intenções benévolas ou malignas. às leis de saúde. muitos implicavam simplesmente fenômenos naturais. terão contribuído para que se admitisse a liifluência de maus espíritos na origem de fenômenos fisiológicos: o caráter mais ou menos repugnante de certos dentre êstes (lepra. com o mesmo fim. que é a existência. invisiveis. entre os paflos. La Religion des Hébreuz nomaas. 3 Cf. entre os romanas) era o nome que se dava à epilepsia. ou então deslocar o mau espírito do órgão afetado para os pés do doente. não a produziu nem a conserva indefinidamente. assim corho para as pessoas que provocassem a morte de outrem. o que se verifica já sem hesitação nos escritos cristãos. tendiam a conceber tudo que se refere à vida humana (sua geração. A. Em particular. em seus oráculos freqüentemente receitava banhos. Ainda dois outros fatôres. praticavam cortes na carne do enfêrmo. eram tidas na conta de castigo infligido pela Divindade ou pelos espíritos que os homens houvessem irritado. 167s. Dhorme. moléstia em que o homem.. 53 (1946). sangue que consigo levaria o espírito funesto. Ao falar de "espiritos". 146s dêste livro. robustecimento e extinção) como sujeito a sêres superiores ao homem. George. Prescreviam outrossim banhos de purificação para a mulher. não se podia dar significado mais autoritativo do que o significado religioso. Sôbre o mesmo assunto vejam-se também a pág. os demónios foram sendo mais e mais considerados nefastos ao homem. . 2 Asclépio ou Esculápio o Deus Médico. E. mais poderosos que o homem. um ser superior ao homem dotado de influência sObre a vida humana. conservação. donde êle partiria definitivamente. causa da moléstia. em Revue bibli4ue. parece claramente sujeito à moção de um ser superior. ao menos entre os povos primitivos anteriores a Israel. expelir o demônio 1 do corpo do paciente. chagas. 'Fautes contre Yahweh dans les Livres de Sanluel". emprêgo de vapores teriam por efeito calcar ou molestar e. em português) significava originàriamente. 2 É importante notar que nem todos os casos de presumida influência dos espíritos maus eram casos de culpa moral. Ao ver um louco. porém. porém. poderia ter sido cometida numa existência antenor à presente. tocassem cadáveres. por fim. Os antigos. Aos poucos. debilitação. os antigos entendiam geralmente sêres corpôreos sutis. pondo em perigo o bem fundamental. 302s. 1 A palavra grega daimon (donde 'demônio'.

rezava o fiel devoto: "Meus pecados. Ele (o deus invocado) permitiu que o vento os levasse. devia o sacerdote ao qual se apresentasse um doente.DOENÇAS E SONHOS 177 costumavam os orientais arredar-se com temor sagrado.. maltratá-lo seria o mesmo que atentar contra os direitos do Todo-Poderoso. etc. que o médico não saiba diagnosticar. uma mordida mortal. têm igualmente o sentido de "peste... que se termina condenando os eventuais transgressores a "uma doença grave. muitos cânticos penitenciais dos antigos povos pediam não sèmente o perdão de pecados (a cura da alma). Depois de Alexandre Magno.. imolaram-nas em sacrifício. Na mitologia grega tomou-se muito estimada a figura do "herói doente e sofredor". que sobreviera àquela cidade entre 596 e 593 a.. deu à população o conselho de a debelar oferecendo sacrifícios ao deus que provàvelmente não os recebera nas funções do culto. 1085.. desencadeara a peste. tratar em tódas as acepções do têmo. o código babilõnico de Hamurapi (séc.. XVIII ao. Explica-se também que códigos legislativos religiosos da antiguidade ameaçassem doenças àqueles que ousassem violar os seus preceitos. medicina e filosofia não raro eram simultâneamente cultivadas. mas também a cessação de doenças (a cura do corpo). e vice-versa. Nósos em Kittel. tendo irrompido uma epidemia mórbida em Atenas. perdoa seu pecado.C. entre outros. portador do veneno da hidra. Sàmente 4 Também entre os gregos o 'entusiasmado" era o homem possuído por um theõs (deus)." Em outro texto. a partir da colina do Areópago. Cf. oepke. dirigir-se à. e.eoot). um cretense chamado Epimênides. por exemplo. chaga perigosa incurável. sobressai o tipo de Hércules. e nos respectivos lugares da cidade em que cada uma se deitou. ainda o seguinte aspecto da ideologia pagã concernente às doenças. portadores da sabedoria moral necessária para curar as chagas ou os vícios do espírito. êste produzia a enthousia. peste maligna. em conseqüência. seus discipulos o derivavam de epilcourein. o super-homem provado pela dor: era afetado.ibras. 4 tendo Deus colocado a mão sôbre êle. Theologísclzcs Woertcrbuch rum Neuen Tertame?rt. 8 E o que explica o trocadilho feito em tôrno do nome do filósofo Epicuro. 8 Não se poderia silenciar. achaque"." (Tooi proseelconti th. pois julgavam que tal homem (rnedjnoun) estava possuído por um djin ou gênio. Nesses mesmos lugares foram erectos altares com a dedicácia: "Ao deus a quem compete. Divindade nos seguintes termos: "Segura a sua mão (do enfêrmo).110) que.). que não possa ser amainada por curativo. 1942). ovelhas pretas e ovelhas brancas. conforme um ritual babilónico. mesmo num estudo de Sagrada Escritura.." Seguia-se a descrição da cura da doença respectiva. 7 Algumas das palavras babilónicas que significam "pecado". isto é. o contato com o sangue de Nessos. . Permite que teu servo viva. por coceira que o deprimia e tornava melancólico. o cnthousiasmõs. 6 Narra Diógenes Laércio (1. Haja vista. pelo mal dos pesadelos noturnos que lhe infligia o demônio Efialtes. os médicos eram também filósofos. lhe fêz contrair uma espécie de lepra acompanhada de cã. a fim de que glorifique o teu poder. sim. Entende-se outrossim que a técnica de curar moléstias tenha recorrido a exorcismos. soltaram então. curar. IV (Stuttgart. Fase cessar a sua febre (?) e aflição. ritos de expiação.

Assim é que os pagãos reabilitavam ou resgatavam o conceito de doenças e flagelos decorrentes das vicissitudes desta vida. Assim o drama do pecado marcou profundamente a ideologia dos judeus atinente à doença. intensificam a desordem. a saber: o senso trágico e. ao contrário. o furor e a inveja dos deuses desencadeando-se sôbre o homem. acrescentando à culpa do primeiro homem as suas faltas pessoais. semideuses. Notem-se os seguintes exemplos: - . Interessante. a concepção era radicalmente monoteísta: o primeiro pai. nisto manifestavam um traço profundo da sua psicologia e religiosidade. tornam-se mais e mais sujeitos ao padecimento e à moléstia. como se êstes dois têrmos fôssem estritamente correlativos entre si. a ação dos demônios. em conseqüência. entre os pagãos era explicada de acôrdo com as idéias politeístas de cada povo: admitindo muitos deuses e. Na ideologia de Israel e na dos demais povos há um fundo doutrinário comum: a crença de que as doenças provêm de uma ofensa do homem à Divindade. 2. porém. os filhos de Adão. são castigo. porém. admitiam também muitos espíritos causadores cada: qual de determinada doença. deixando-se aplacar logo que sé lhes oferecessem "dádivas". Como os demais povos antigos. porém. A mentalidade.• buir as doenças à ira de deuses ou demônios. a plenitude. que os perpassa é bem diversa da que inspirou os trechos pagãos. julgavam outrossim possível que êstes punidores do homem pudessem proceder por mero desejo de vingança ou inveja. representante do gênero humano. ao mesmo tempo. eram considerados fatôres. otimista do povo grego. revoltou-se contra o Criador Bondoso no paraíso. é que explicavam também desta forma as moléstias dos heróis mitológicos. NO POVO DE ISRAEL Passemos agora à consideração dos livros sagrados de Israel. que reflete o desequilíbrio introduzido por Adão nas suas relações com Deus. experimentam no próprio corpo um desequilibrio (doenças). os mitos punham em realce que é pela dor que o homem se comprova e atinge a sua maturidade. Oriundos no mundo greco-oriental em que as idéias acima tinham curso. à semelhança de homens apaixonados. os textos bíblicos concernentes às doenças apresentam suas analogias com os documentos profanos antigos. do desenvolvimento do individuo. todos os seus descendentes sofrem a revolta da nattireza. Em Israel. os gregos costumavam atri. e fatôres necessários. freqüentemente no Antigo Testamento ocorre o binômio "pecado-doença". Esta tese.178 PARA ENflNDIR O ANTIGO TESTAMENTO a morte e a apoteose puseram têrmo aos padecimentos de Hércules.

Fará voltar sôbre ti tôdas as moléstias do Egito. Afasta o pecado. diante das quais tremias. se caires doente.DOENÇAS E SONHOS • 179 aos transgressores da Lei de Deus. Haja vista a recomendação do sábio mestre. assim procederam as espôsas de Jó e Tobias em relação aos respectivos maridos (cf. entre os quais a irrupção de doenças: "Se não fôres solícito em observar tódas as palavras desta lei. dá acesso ao médico.. .58-61). Éle é admirado em presença dos grandes. parecem visar uma tendência do judaísmo a vilipendiar a medicina.3s. . doenças perniciosas e tenazes. precisamente por ser tidos como pecadores denunciadps pela própria justiça divina. foi acometido de uma doença dos pés (gôta ?). e tle te curará. mas de modo nenhum aprova).15-23). pois a sua arte te é necessária.) Êstes dizeres." (Dt 28.C. pragas graves e persistentes. Ora.12-14. Por êles o homem produz a cura e extingue a dor. o Senhor inflígirã a ti e à tua posteridade pragas ex traordinárias. Além disto. 1. de modo nenhum implica menosprêzo em Israel para com os médicos ou profissionais da ciência.9s. Pois também êles (os médicos) oram ao Senhor. Suas mãos terão sucesso..12. Mas ora ao Senhor. que muito o fazia sofrer. levanta as tuas mãos E purifica de todo pecado o teu coração . e elas se prenderão a ti. para cúmulo de sua infidelidade e infelicidade. que datam aproximadmente do ano 200 a... porém. Meu filho. Moisés prediz justos castigos. 0 livro apócrifo de Henoque. mas os médicos"! De tal forma os conceitos de "pecado" e "doença" eram associados entre si que não se via lugar para uma cura meramente científica das moléstias. o Senhor desencadeará sôbre ti tôda espécie de doenças e pragas que não são mencionadas neste livro da Lei. Jó 2.9s. foi o Senhor que o criou. em Edo 38: -'Honra o médico por causa das tuas indigências. não desprezes meu conselho. A seguir..6-10.12: o autor narra que o rei Aza de Judá. O Senhor fêz a terra produzir os medicamentos. tendo-se mostrado infiel ao Senhor. procurar recuperar a saúde por simples recurso à medicina parecia ser endurecimento ou obstinação do pecador ferido! o texto de 2 Crôn 16. Que êle não te abandone.7. E o homem sensato não os desdenha. escrito pouco antes do Edo. Pois foi o Altíssimo que o criou A ciência do médico lhe faz levantar a cabeça. os amigos de que se queixa o salmista no 51 40. particularmente digno de nota é o episódio de 2 Crôn 16... até que sejas exterminado.. Tob 2. Aza "mesmo durante a doença não procurou o Senhor. os israelitas às vêzes infligiam aos seus enfermos tratamento de desprêzo e escárnio (tratamento que a Bíblia refere." (Vv.

movendo-se todos em plena sujeição às ordens do Único senhor.. Tob 3. em reação contra o politeismo dos babilônios e de outros povos.14. 10 O Justamente o conceito de anjo. dispondo das mesmas. portanto). poderá esperar alívio da intervenção do médico. Esta conclusão é insinuada. Tais séres celestes terão sido. os astros. 1954). Contràriamente. os israelitas reconheciam que o Senhor Deus.12. entre os israelitas.16s). 2 Sam 24. Jos 5.180 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO incriminava os anjos maus por haver comunicado aos homens a ciência dos diagnósticos e dos remédios (8. postos era paralelo (cf.19. 139-141. 2. na teologia de Israel. Is 4426.8-12).jamais o "anjo do extermínio ou da enfermidade" nos textos bíblicos é apresentado como outro Deus ou como semideus.3). 45. cada vez que aplicava ou retirava uma bandagem. como se julga).7). espirito superior ao homem. Contudo . que são os anjos.19. que adoravam o exército dos céus".22. Admitindo nos têrmos acima o pecado como raiz das doenças. o autor sagrado inculca que o médicõ tem vocação divina e é indispensável. 69. (Paris.. Si 148. na história de Jó (cf. dizia a indispensável fórmula. 1. ° Javé manda ou permite. O médico egipcio "associava fórmulas mágicas a toda a sua atividade. os outros o "exército dos céus" (cf. Dizia uma imprecação quando tomava em mãos o vaso que servia para medir as substâncias necessárias à coafecção de um remédio. 17.3s.6. na Sagrada Escritura. Tais homens se diziam . o mal desencadeado pelo anjo terá sido uma epidemia mórbida.8). reduzidos à categoria de criaturas de Deus.e ainda hoje se dizem— possuidores de fórmulas ou receitas extorquidas da Divindade por indústria do homem ou reveladas por um espírito superior às vêzes invejoso de outro. constituem uns o "exército de Javé" tcf.23). se pode servir do ministério de espíritos ou anjos.1-5). Jó 38. e o anjo executa o desígnio do Senhor Deus. Jó 1.36.2). Is 37. P.e isto merece tôda a atenção . SI 148. 126. em particular pelo fato de que anjos e astros. parece ter-se desenvolvido. tenha-se confiança nêle. Esta mesma verdade é indiretamente confirmada pelo fato de que a legislação de Israel não tolerava a existência de curandeiros ou magos. Éx 12. 3 Rs 22.12. recitava outras tantas fórmulas sõbre os diversos ingredientes de que se servia para a fabricação do medicamento. o curandeiro consegue "forçar" a Divindade a produzir o que o "sábio" quer. embora relativa. de sorte a violar o monoteísmo de Israel. Si 32. Cf. io ciência e magia eram tão ligadas entre si que na prática o médico não raro era mago. Jer 33." Citação de um estudo .7). Foi o que realmente se deu na mortandade dos primogênitos do Egito (cf. o qual há de recorrer tanto à ciência quanto à oração (cf. a seguir. Dt 4. na de Sara (cf. Ne 9. no flagelo da peste que castigou o reino de Davi (cf. o enfêrmo deve primeiramente confiar-se a Deus e purificar a alma. no extermínio do exército dos assírios (cf. que povoam ou ornamentam o céu juntamente com outras criaturas. mas inferior a Deus (criatura.6). Th4oiogie de l'Ancieir l'estament. proferia outra quando o doente bebia a poção. são intimamente associados entre si (cf. considerando a êstes como deuses (cf. van Imschoot. ao punir alguém com moléstia ou morte. Entrava em casa do paciente pronunciando uma fónnula mágica. 12-14).

14. Perguntaram-lhe então os discípulos: 'Senhor. Lexa.) Episódios semelhantes ocorrem em Mt 12. que Satanás paralisava havia dezoito anos. estas são simples e de maravilhosa eficácia medicinal. como conhece as 'simpatias' das pedras. não peques mais. Os escritos do Novo Testamento se sobrepõem à ideologia israelita no tocante às doenças.16. "L'Ecclésiastique". Encontra-se ainda. Muito claro é o episódio seguinte "Ao passar. Eucaristia (cf. transcrita de Spicc. 11 Notem-se também as palavras de Jesus a respeito da enfermidade de Lázaro "Essa doença não é mortal.2-6.. mas em vista de outros fins.14. não convinha libertá-la dêsse vinculo em dia de sábado?" (Lc 13. completando-a. nem seus pais. porém. como professa a Revelação desde o livro do Gênesis. O Senhor Jesus. êle ou seus pais. a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado.mas verifica-se para a glória de Deus.17. crença que tôda a literatura israelita professava solenemente (cf. Interessantes também são as observações de Cumont 'Asclépios (Imflotep) revela no seu santuário ao médico Tessalos o momento e o lugar propícios á colheita das plantas sujeitas aos planêtas e aos sinais do Zodiaco. porém. a tese de que a moléstia é conseqüência do pecado. por um espírito que a tornava enfêrma. era curva. 1946). Dt 5.) Veja-se ainda Lc 13. por exemplo. As noções dos hebreus se aperfeiçoaram com a revelação cristã. e envolvendo-a numa visão otimista do universo.4.DOENÇAS E SONHOS 181 Está claro que tais concepções só se podem originar no politeísmo ou num ambiente em que a noção de Deus é deficiente. recomenda-lhe: "Eis-te são. o Senhor... Embora esta seja decorrente daquela. . e disse: "Essa absoluto erguer a cabeça filha de Abraão. o rei Nechepso já tomou conhecimento das 'simpatias' dessas plantas.'" (Jo 9.. tendo curado um paralítico. . havia dezoito anos. 172. para que nascesse cego ?' Jesus respondeu: 'Nem êle pecou. de Pirot-Clamer. 759. Mc 9. a fim de que não te aconteça algo de pior.1-5. quem pecou. A Providência Divina pode permitir que penosas doenças acometam os justos não precisamente para castigá-los..10s. VI (Paris. viu Jesus um homem cego de nascença. Éx 20. podendo ser provocada por um mau espírito ou por Satanás "Jesus ensinava numa sinagoga em dia de sábado.6-10).1-33 li de F. trouxe nova luz sôbre a maneira como se ligam entre si pecado e doença.. não se creia que tôda enfermidade provém de culpa pessoal e grave cõmetida pelo paciente ou seus familiares. são incompatíveis com a crença num só Deus.Jo 5. em La Sainte Bible. 1 Cor 11." (Jo 11. e não podia em " O Senhor curou-a. mas isso aconteceu a fim de que as obras de Deus nêle se manifestem." Na comunidade de Corinto doenças e mortes prematuras entre os fiéis eram por 5: Paulo atribuidas à recepção sacrilega da S." L'Egijpte dez astrologues. Encontrava-se lã uma mulher possuida. Em . Senhor de todos os espíritos e homens. Lc 11. .22s.. e repetidamente.30).

não se ensoberbecesse pelos donsextraordinários que recebera de Deus (visões. os intérpretes julgam tratar-se de doença. assim a fé cristã. que êle também chama "um anjo de Satanás que me esbofeteia" (12.182 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO E quais as obras de Deus que.9s. se convertera em ocasião de complacência! E qual o fator dêsse novo modo de pensar. o que era deprimente. como se vê. Mas donde se depreende tal conclusão? Muito significativa a êste propósito é uma página dé S. obra da Justiça de Deus. E porque assim o teria punido a Providência? A fim de que. a fim de que a fôrça de Cristo habite em mim. não fôra. verdadeiro homem. Como os gregos julgavam que a doença não é apenas sanção. Paulo diz ter rogado três vêzes ao Senhor que o eximisse de tal padecimento." (12. modo que implica progresso notável em relação à mentalidade do Antigo Testamento? "Experimento prazer nas misérias extremas que sofro por Cristo. Em vista disto. ensina que a moléstia não é tnicamente castigo (como se julgava nos primeiros tempos do povo de Israel). abraçou a angústia e a morte como justa sançao devida ao pecado de Adão.) A punição. o Apóstolo concluía em tom de triunfo: "Prefiro. mas é outrossim ocasião de exaltação. Foi o padecimento de Jesus que revolveu as antigas concepções de sofrimento e miséria física.). por conseguinte. continuamente recordado da debilidade ou miséria de sua natureza. mas o autêntico homem . "pois é na miséria (do homem) que o poder (de Deus) exerce tôda a sua pujança" (12. Cristo. a união com Cristo que dá novo sentido ao sofrimehto de Paulo é do cristão. O Apóstolo refere que o Senhor "colocou em sua carne um aguilhão". porém. gloriar-me dos meus achaques. justamente então é que sou forte. êxtases. que decretou salvar e glorificar o homem pela miséria mesma de sua natureza. eis o que se manifesta nas doenças do cristão. a miséria da carne se tornara fortaleza e título de glória para o Apóstolo. se manifestam no justo acometido pela doença? O Senhor poderia dar a autêntica resposta apontando para o otimismo dos gregos que forjaram o mito de Hércules ou do herói aflito. atendido. no caso. achaque físico). Não obstante." É. etc. num plano ainda mais elevado ou sobrenatural. a sabédoria helênica. conforme Jesus. Obra da Justiça e obra do Amor misericordioso de Deus. mas também ocasião de amadurecimento e perfeição para o homem. Paulo (2 Cor 12). de redenção para o homem. Pois. Experimento prazer nas fraquezas nas misérias extremas que sofro por Cristo. em outros têrmos: é também obra do Amor.9). quando sou fraco. é pedagogo para o discípulo de Cristo. apenas Cristo lhe prometera a sua graça para tudo suportar.7.

aos sonhos da terceira parte da noite 12 No Egito. mas do Rei que se fêz réu. Através de expressões. verificou haver sonhado. contava-se que o deus Ptah indicara ao faraó Merenptah o que devia fazer numa ocasião em que povos do mar invadiam o deita do Nilo. foi a pena não simplesmente do réu. que perpassa os trechos escriturísticos é muito mais elevada que a da literatura extrabíblica. Em algumas páginas do Antigo Testamento. por exemplo. o Senhor preparava. dotado de fantasia particularmente fecunda. transformou o sofrimento. simbolos.° OS SONHOS Num cenário de vida oriental. vive muito de imagens. Ora o fato de que em Cristo a natureza padecente estava unida à Divindade. os sonhos eram geralmente tidos como estados de alma nos quais o homem entrava em contato com o mundo dos deuses ou dos gênios (espíritos superiores). Eis o têrmo no qual se remata a doutrina bíblica concernente às enfermidades do corpo. livro sagrado apresenta passagens que certos exegetas quiseram comparar às dos documentos pagãos. recebendo dêstes admoestações atinentes ao passado ou ao presente. não pode deixar de tocar aos sonhos papel importante. o. muito digno de Deus. Era por estar plenamente consciente desta verdade que Paulo ousava proferir a paradoxal interpretação de seus achaques em 2 Cor 12. nos quais êle vê significadas realidades superiores. Acordou e. ao mesmo tempo. que têm o sofrimento. Mestre. o padecimento do Filho de Deus na carne humana foi um sofrimento não apenas suportado. Sabia que a sorte de Cristo se tornaria a sorte de Paulo. verdadeiro Deus. para libertar o réu. porém. revelações a respeito de acontecimentos ocultos ou futuros. responderam-lhe que um próspero futuro lhe estava reservado: já senhor do Alto Egito. mas também vencido. pensava-se que principalmente os reis eram agraciados por tais comunicações do Alto. a doença e a morte na trajetória do homem! § 2. divinizando-o. não mais percebendo os animais. a sorte de todo e qualquer discípulo de Cristo que sofra unido ao. para a plenitude dos tempos. a outra à esquerda. 12 Em particular.DOENÇAS E SONHOS 183 Jesus era. a revelação do sentido profundo. transformando a morte em passagem para a imortalidade. Tendo Interrogado os Intérpretes a respeito desta visão. pois o homem do Levante. uma à sua direita. mas também o de remodelação do homem. tragado pela Vida. a mentalidade. orientais e concepções antigas depuradas de politeísmo. A propósito do faraó Chechonque 1 narra-se o seguinte: um reizete eglpeio viu durante a noite duas serpentes. Entre os povos antigos. dando-lhe o significado não sômente de pena justa (como o tinha no Antigo Testamento). havia de conquistar o Egito .

a qual saberia como defender o devoto dos males que Sete. refere. código importante para os decifradores de . La vis quotidienne eu Egypte. 4. episódios bíblicos em que os sonhos.. porém.5-11. pois os conceitos de "asno" e 'grande" eram homônimos. residente na casa paterna. O documento data da 19? dinastia (os. os que marcam a vida do profeta. critérios mais complicados. porém. fazia pensar em bin. 41. em sonho. Homero. 46-8. 14 O papiro Chester Beatty III apresenta alguns dos critérios de interpretação. 40. dinastia (2000-1800). harpa. engrandêcimento. Sonhos obscenos valiam como péssimos prenúncios. Eis o que se depreende do mesmo Em muitos casos. Pão branco em sonho era bom sinal.C. Há.184 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO atribuía-se grande significado. Gên 37.) . no Novo inteiro e fazer aparecer sôbre a sua cabeça um abutre. era freqüentemente por sonhos que os doentes recebiam a indicação do processo de sua cura. porém. expl'icitamente provocados ou elucidados pelo Senhor. havia intérpretes oficiais das mesmas. e com o conjunto resultante se esfregava o rosto de quem havia sonhado.4.5-22. Sonhar com homens de autoridade e poder também implicava bem-estar para o futuro. Chama. nos templos de Esculápio (o Deus Médico).. Assim os trocadilhos ou jo. mau. ã mistura acrescentava-se incenso.. por exemplo. a interpretação do sonho se fazia simplesmente por analogia: um sonho feliz era bom agouro. II dc. e uma cobra. 14 É claro que a crença no valor profético dos sonhos estava freqüentemente ligada a superstição.gos de palavras eram muito explorados: Comer carne de asno.sonhos. depois no Egito (cf. tais como estavam em uso no Egito. os homens de tal ou tal religião procuravam dormir nos santuários respectivos. desempenham função notável. O homem que tivesse tido um sonho inquietador não devia desesperar. a fim de que a interpretação dos sonhos não ficasse ao alcance de qualquer individuo. Receber uma harpa implicava desgraça. . La vie quoticlienne eu Egypte au temps de Ramsds (Paris). que usavam de técnica complexa. anunciava prazeres.837. idéias contemporâneas à 12. simbolo das terras meridionais. ao passo que mau sonho presagiava desgraça. No séc. filho de Nout. tenham-se em vista. preconceitos humanos. Já que as imagens vistas em sonho eram não raro ambíguas. P. Odisséia. Para quem não pudesse consultar os adivinhos. sim. Dan 2. Havia.7). Êste proceder afugentaria todos os maus agouras transmitidos pelos sonhos. significava elevação. Cf. a atenção o fato de que na Sagrada Escritura o povo de Israel professa fé nos sonhos e o próprio Deus parece corroborar esta atitude. de 1300 a. 46-49. emblema da região setentrional do pais. pois o nome tomé. 13 Cf. Montet. os que caracterizam a história do Patriarca José. aparentemente científica. Artemidoro de Éfeso.1-36). baseado em suas experiências. Montet. a. Recomendava-se-lhe que invocasse a deusa Isis. tomavam ingredientes provocadores de sonhos. Também se usava a seguinte receita: umedecer em cerveja alguns páes com ervas verdes. escreveu cinco livros intitulados Øncirokritikã. pois havia meios para deter os infortúnios previstos. Daniel (cf. estava para desencadear. e não raro levava a graves erros na vida prática (à semelhança do que ainda nos tempos atuais se verifica). existiam catálogos de elucidação.

mesmo pagãos. 4.1: "Derramarei meu Espírito sõbre todo ser vivo: vossos filhos e filhas profetizarão.15. em Núm 12. . 17 Os intérpretes populares de sonhos são condenados pela Lei mosaica junto com os magos.3.'" Dan 2. JI 3. 31. A explicação dos sonhos se deve a dom esporádico de Deus.16. 1 Es 3.38s.26. Contudo. 5.11. os adivinhos.' Respondeu-lhes José: 'Então não é a Deus que toca interpretar ? Narrai-me. Já que o oriental. após breve reflexão. que diziam haver recebido em sonho autênticas comunicações do Senhor. por suas disposições psicológicas.20-24. Lev 19. com o povo de IsraeL O Senhor. intérpretes profissionais ou técnicos dos sonhos. Jz 7. Nos tempos da decadência religiosa (séc. é em sonho que lhe talo. e torná-los instrumentos de seus planos. Vil/VI) pululavam os falsos profetas.2-4.3s.8: "Disseram o copeiro e o padeiro do Faraó: 'Tivemos um sonho e aqui não se acha quem no-lo explique.DOENÇAS E SONHOS 185 Testamento. 15 À primeira vista.14.12s.275: "Daniel respondeu em presença do rei e disse: 'O mistério que o rei deseja compreender. sem dúvida.24. em particular. como os havia entre os babilônios (cf. no céu um Deus que desvenda os mistérios e quer comunicar ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer na sucessão dos tempos. nem os astrálogos o poderão elucidar. considerando-as manifestações da Divindade. por favor. vossos jovens." 17 Cf. 28.8). Dt 13.5. 19. poderão parecer desconcertantes tão favoráveis alusões aos sonhos na história sagrada. como o Patriarca José e o profeta Daniel. e o dos magos (cf. Há. Ora Éle o fêz realmente em casos descritos pelos livros sagrados. 18.. o verdadeiro Deus dignou-se utilizá-las para se comunicar com os homens. porém.6 lê-se mesmo qe as visões e os sonhos eram meios pelos quais Deus se costumava revelar aos profetas "Se há entre vós um profeta.2.15) e os egípcios (cf. Mt 1. Dan 2.6. ora Javé não cessava de acautelar os seus fiéis contra tais ilusões: 15 Outras referências a sonhos ocorrem em Gên 20. compete a quem. visando com isto remover todo vestígio de politeísmo ou superstição que os povos pagãos professavam juntamente com aquela. (cf.10s). Gên 41. conforme a Bíblia. . Não há. era propenso a deixar-se guiar por imaginações noturnas. verifica-se que também êstes têm significado condizente com a Sabedoria de Deus. 1 Sam 28. Dàn 4. 5. nem os magos. José.22).5s.12s. nem os encantadores. possui o "espírito de Deus". nem os sábios. Gên 40.11s. os necromantes. vossos anciães terão sonhos. 16 CX.15. o vosso sonho.13s. os de S. 2. visões." 16 Contudo muito se devem notar as restrições que os autores bíblicos impõem à crença nos sonhos. é em visão que a êle me revelo. Já 33. porém. pode provocar tais fenômenos psicofisiológicos.'" Vejam-se também Gên 41.

êste texto. apto a dar auto18 É preciso. na de Samuel (ef. A menos que o Altíssimo te envie uma visão. . Zac 1. Estas se deram. que em meu nome profõrem falsos oráculos. os sonhos constituíam estimado artifício de estilo.) Também os sábios de Israel. os genuínos profetas. que pode sair de puro? Da mentira. A reserva. nos tempos dos Patriarcas. nas proximidades da era cristã. mais freqüentes eram os autênticos sonhos proféticos do que na época da monarquia (séc. que pode sair de verídico? A adivinhação. IS como atestam alguns dos seus orácuJos. órgâo das falsas predições messiânicas que fervilhavam em Israel sob o domínio romano.12). Quem confronta os livros sagrados entre si chega à conclusão de que.27. distinguir dos sonhos as visões Ocorrentes durante a noite. XVIII/XIII).141. admoestavam-nos contra as imaginações noturnas "O insensato se entrega a esperanças vás e enganosas. não deixa de reconhecer que o Senhor os pode suscitar. tive um sonho 1' .) Como se vê. Éstes eram invocados para servir de fundamento a concepções e profecias fantásticas. na do profeta Zacarias (cf. Os quais caíram porque nêles colocavam a esperança. Semelhantes às Imaginações do coração de uma mulher que está pára dar à luz." (Edo 34. . por exemplo.1-7 [Vg 31. ou seja. nos primórdios da história de Israel (séc. 1 5am 3). XI/VI).8). VIII. Êsses profetas julgam que poderão fazer esquecer o meu nome ao meu povo mediante os sonhos que contam uns aos outros 7' (Jer 23. Na literatura dos rabinos. No judaísmo posterior. Gên 15. Pois os sonhos enganaram a muitos. . isto é. recebiam as comunicações de Deus geralmente em estado de vigília. recrudesceu entre os israelitas a crença nos sonhos. ao mesmo tempo que inculca prudência em relação aos sonhos. a partir do séc. Semelhante àquele que procura apreender uma sombra ou perseguir o vento. professada nas passagens acima dá suficientemente a entender que tais fenômenós noturnos éstavam longe de constituir a fonte principal das revelações divinas no Antigo Testamento.186 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Ouço o que dizem êsses profetas. a fim de se manifestar aos homens.. ora noturna. E os sonhos dão asas aos tolos. sem dúvida. Do que é Impuro. propondo aos jovens discípulos conselhos para a vida.25. É quem se prende aos sonhos. ora diurna. Não apliques o coração a essas coisas. na história de Abraão (cf. afirmando: 'Tive um sonho. os agouros e os sonhos são coisas vás. porém..

eram manifestações que se desviavam da linha da Escritura Sagrada. Basta recordar os Apocalipses apócrifos de Henoclue. 20 Estas. i935) • 812. Cf. eram na mesma época assíduos cultores da arte de explicar os sonhos. Isaias.DOENÇAS E SONHOS 187 ridade aos oráculos mais surpreendentes. Gaster.James Hastings. M. porém. 'Divination" ("Jewish") em Encyciotoaedia 01 Reflgion and Ethicg edited by . contemporâneos aos Essênios. Baruque. lO 20 . 1 Os ascetas judaicos chamados Essênios. em cada ocasião na cidade de Jerusalém exerciam a sua profissão simultâneamente vinte e quatro adivinhos de visões noturnas. IV (Edinburgh. residentes no deserto.

2). 25. e qual o significado de tais idéias no conjunto das Escrituras? Ao se estudar esta questão. que se manifesta principalmente pelo hálito ou pela respiração. A fim de facilitar a leitura do Antigo Testamento. o corpo se dissolve na poeira da terra (cf. muito especialmente da revelação divina. Ora. pouco inclinado à abstração. Daí surge o problema: que pensavam os judeus a respeito dos chamados "novíssimos" (últimos acontecimentos e estados). Professam concepções que. percorrendo em dois parágrafos as duas fases que caracterizam a evolução do pensamento judaico. Ao passo que o espírito humano é imortal (cf. ao contrário. sem hesitação. o Senhor só aos poucos foi manifestando as noções concernentes ao assunto. ncpheslz. § 1. o israelita díficilmente concebia que uma alma humana. cai num estado de depressão . divergem do que ensina o Evangelho. deixando a matéria. pois.35. Gên 15. pudesse levar vida autêntica.29).29).15. Si 103. ruah). muito. levar-se-á em conta que a vida póstuma escapa em absoluto à experiência do homem colocado neste mundo.10. Já 34.° NO INEXORÁVEL FOSSO DOS MORTOS Tornou-se de importância decisiva para a teologia judaica um pressuposto de psicologia. Si 103.13. matéria concreta que a alma vivifica (cf.14s. Já 34. à primeira vista. O conhecimento do que ela importa depende. as páginas que se seguem proporão as concepções de Israel sôbre o além-túmulo. 31. julgava que o espírito. rude e simples. e o corpo.8.CApÍTULo XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS Os escritores do Antigo Testamento não raro se referem à condição dos defuntos em têrmos um tanto surpreendentes para o leitor cristão. dependente das noções concretas. 37. Ora ao povo de Israel. a carne (basar). separada do corpo. Núm 27. respeitando assim a lenta capacidade de compreensão dos seus fiéis. princípio vital. O hebreu admitia no homem dois elementos constitutivos: a alma ou espírito (nesharnah.

talvez derivado da raiz sha'al. Jerônimo na Vulgata. que não é prêmio nem castigo. jovens e anciãos. 106. deve-se notar que os vocábulos infernus. 38.20. Já 17. o Cf.18.190 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO ou quase inconsciência. Si 68.21. Inferno no sentido do Antigo Testamento. . Hab 2. Si 9. usam o tõrmo infernus. a tese de que a morte põe têrmo à vida intelectiva e afetiva do homem. veio a ser o apelativo da própria mansão dos defuntos. destituídos de fôrça. isto é. ser vazio (donde she'ol = caverna). 4 ou ainda com um caçador que sabe h&bilmente coiocar os seus laços e armadilhas. desde os inicios da história sagrada.49. 1 atribuem-lhe bôca ou goela 6 e mãos.7. Is 14. reis e mendigos. A mansão onde se reúnem todos os vivos. BaiiIIy. 10.17. estão agregadas à categoria dos rephaim. Is 5.39. O Nades é nome originàriamente usado na mitologia grega para designar o Deus da região dos mortos (também chamado Flutão). 14.12. Ao se deparar com o têrmo "inferno" em uma tradução latina ou vernácula da Escritura. Si 48. 0 ao passo que os latinos. Sab 16. subterrâneo'. Estas premissas acarretaram.17.6. o católico deverá ter em mente o significado Cf. Si 77. a. Si 29.-. donde ninguém jamais sai. 113.14.4. designam o shool. Foi no sheol.16.7.23.3.14. inferno.5. ocorrentes em traduções (latina e vernácula) do Antigo Testamento. 27. 8 01.5. mclusive S.14. Dictionnaire grec-français (Parisli). Enquanto o corpo é destinado a se dissolver na poeira da terra. Já 30.13) ou "do silêncio" (SI 93. Nades podia significar a própria morte.10. Tal região era chamada sheol.23: "sei que me levarás à morte. 7 que jamais largam a sua prêsa. S A tradução do Antigo Testamento dita "dos Setenta" verte sheol por Hades. Jon 2. 140.16. como canta o simbolo de fé.15. 7 01.14. 87. Prov 1.12. que Cristo desceu após a morte. ' colocadas na "terra do esquecimento" (Si 87. A.18.13. 2 Textos poéticos comparam-na com um cárcere de portas aferrolhadas.16. fossa ou poço. A mesma região era também designada por bor. patrões e escravos. 10 Em conseqüência. a personalidade só subsistiria em alma e corpo. 10 Adjetivo que designa o lugar "baixo" ou "abaixo de. ou com um monstro insaciável que devora todos os viventes. de consistência. que os israelitas ju'gavam ser a região única de todos os mortos. 14.9s. o espírito vai ter a uma região subterrânea. jamais na alma só. 40s. 5 01. 38. Si 17.16. Ainda num ulterior desdobramento de sentido. de modo nenhum indicam a mansão ou a sorte própria dos pecadores defuntos. obscura. vocábulo de etimoiogia obscura. Já 7. Os 13. 1 . onde as almas de justos e pecadores. se encontram tôdas e permanecem indif erentemente sujeitas à mesma sorte. 114. mansão cuja existência era prol essada pelos gregos como pelos hebreus. da qual só aos poucos o povo de Deus foi tomando conhecimento e que os católicos chamam "inferno". 88. 2 Sam 12. não sofrem pena nem gozam de felicidade." 01. 20. Por extensão. Cf. Is 38. dos impotentes.17). 3 Cf.

. indigência. 28. Si 33.13.14. Ao contrário. a partir dos séculos Vil/VI os pensadores judeus eram não raro tentados a duvidar da tese antiga. 5.13-15. volúpia dos sentidos.16.15. o esfôrço feito para conseguir alegria mediante o uso destas é geralmente mal compensado. o filho de pai honesto jamais teria que mendigar o seu pão. ..o que não podia deixar de constituir para êles paradoxo inexplicável. o qual por vêzes causa surprêsa ao leitor cristão.7). ocasionam um pouco daquela felicidade que o Altissimo destina à sua criatura (cf. a fim de evitar interpretações errôneas (cf. É justamente à luz dêste estado de coisas que se há de entender o livro do Eclesiastes.26. Edo 51. doença ou quaiquer aflição na vida presente eram explicadas como castigo divino correspondente a pecado cometido pelo indivíduo aflito ou por seus antepassados.e mostra-se céptico a respeito de tudo. 13 Quando o escritor se refere ao comer. ao beber.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 191 complexo da palavra. mas sujeita a reforma desde que êste povo ganhasse a experiência dos séculos. 2." (1. é mister não se perder de vista a mentalidade do autor (que não é o rei Salomão no séc. . afirmavam.): o hagiógrafo considera sucessivamente os diversos valores aos quais os homens costumam pedir felicidade na terra . 113. gado. que o homem virtuoso deve ser feliz. X a. caindo em estado de insatisfação ou perplexidade. 54. Cf. Prov. 11 A conclusão era muito simples. não após a morte (que extingue a lucidez do espírito). pois. como há pecadores materialmente prósperos . ao trabalho como fontes de alegria para o homem.6-18. 8. longa vida). afirma serem dons de Deus. 13 não se dá por desgarrado na estrada da vida. por exemplo.15s. 3." (2. Já 14.. .20. 9. 17. Di 8. III a. Conseqüentemente. 30. 12 Contudo quem observa atentamente verifica que o hagiógraf o está longe de ser um agnóstico ou um gozador mâterialista. aparentemente epicurista do autor.18.C. conforme SI 36. Com efeito. com relação aos esforços para a consecução de um ideal terrestre: 2. mais e mais os israelitas verificavam que existem justos aflitos. 11 12 .18-23.com relação à aquisição da ciência: 2. nas traduções portuguêsas Si 9. válida talvez para a mentalidade de um povo infantil.9).713-18.riquezas. Tais idéias levavam os judeus a julgar que a sanção da Justiça Divina devida a justos e pecadores pôr suas obras é executada neste mundo. Dai a atitude acabrunhada.) "Também isto é decepção e tempo perdido.1-30.13.18. qualquer dos bens dêste mundo lhe parece exíguo demais para o homem. e f ehz por possuir suficiência ou abundância de bens terrestres (campos.C. 'Tudo é decepção e procura de vento.17. família numerosa.24s. mas um anônimo do séc.13. 3. Para interpretá-lo devidamente. estudo da verdade.17. que cedo ou tarde experimenta tédio ao servir-se das criaturas. deixando o homem desiludido.25.) Pessimismo .

e todo homem igualmente. Pois nisto consiste o ideal de todo homem. o espírito humano só repousa no Criador..26." S. o autor só podia dar às suas exclamações um caráter negativo ou céptico. Lc 16. e esta só. e inquieto está repousa em Ti.1. Como um morre. ignorando que. 14 "Fizeste-nos para Ti.13.) A profissão de absoluta fidelidade a Deus que sela o livro do Eclesiastes projeta luz sôbre as apreciações negativas que o hagiógrafo tece a respeito dos bens criados. e. já nos é possível penetrar o significado particular de estranhas afirmações do autor: "A sorte dos filhos do homem e a sorte dos animais são jdênticas. Ambos possuem o mesmo sôpro. com efeito. O Eclesiastes assim. de fato. Agostinho.192 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Se. Sim.2. 15 Cristo. êle os podia. Em última análise. Éste. assim morre o outro.10s). e na eternidade pela contemplação direta." (12. Confissões. traz dentro de si. êle não acredita na felicidade que lhe oferecem as criaturas (cf. julgar insuficientes. esta. de outro lado crê plenamente en Deus e no valor da observância da lei divina. 14 ora é justamente por ter consciência de que é capaz de apreender o Infinito que o hagiógrafo não se dá por satisfeito com algum valor limitado e toma o partido do "não-conformismo" frente aos bens terrestres. o único ideal ao qual o homem se deva incondicionalmente aplicar. É o que transparece das palavras com que encerra a série de suas divagações pessimistas "Conclusão: bem ponderadas tôdas as coisas. Pois tudo é decepção.24s. revelou que tal desprendimento tem sua contraface na posse de Deus.14. o nosso coração enquanto não . o Bem Infinito. acha-se bem na linha dos textos do Antigo Testamento que preparam o Evangelho. Não há vantagem do homem sôbre o animal. 1.18. estas se mostram portadoras de uma tese positiva e rica. na visão de Deus face a face. dè um lado. Vivendo à luz da revelação não consumada do Antigo Testamento. o pessimismo do autor nada mais é do que a expressão de nostalgia profunda ou da sêde do Infinito que êle. 1.19-31. Uma vez percebida a grande tese do Eclesiastes. Teme a Deus e observa os seus mandamentos. a sêde do Infinito encontra saciedade na vida póstuma.. 18. Mt 16. êstes. fica-lhe sendo norma inabalável. porém. devia mesmo. 2. 15 Cf. outorgada nesta vida pela graça. longe de desnortear o cristão. ensina a tratar com desapêgo os bens terrestres. feito por Deus e para Deus. conhecia apenas o que lhe ofereciam os sêres criados.

felicidade que por certo o diferencia dos irracionais. o sôpro das narinas. não há dúvida. a quem chamam a atenção apenas os sinais exteriores. o autor reconhece a sobrevivência da alma humana. ao passo que o dos irracionais perece. mas toma Simplesmente a atitude do observador popular. 12. ninguém saberia dizer se de algum modo sobrevivem. não recebem mais salário. há esperança. sim. 8. 11. i E por que se terá o escritor tão rudemente expresso nos versículos acima? O motivo é que apenas visava inculcar a seguinte norma prática: já que o homem (do Antigo Testamento) nada sabe da bem-aventurança póstuma. Tudo vem da poeira.19-21. já que o sôpro das narinas ou a respiração é distintivo da vida. pela observação dos sentidos apenas. ou teologia. sensíveis. Os vivos. e terminam-nos de tal forma que nenhum sinal sensível indique necessàriamente haver destino diverso para um e para outro. Em outras passagens do livro. ao passo que os mortos nada sabem. êste. esta ensina que tanto o homem como o irracional terminam os seus dias pela norte." (9. deve procurar a felicidade. E tudo volta para a poeira. a sã filosofia ensina que o principio vital (alma) do homem é imortal. significava também o principio vital. ciênoia Ou sabedoria no Sheol. O mesmo tênno. Não há dúvida.) Tenha-se ante os olhos que o escritor nestes versículos não visa propor alguma tese de filosofia. é de igual índole no homem e nos outros animais.13. sabem qué hão de morrer. . para o autor. da vida. Semelhantes idéias repercutem ainda no texto de Eci 9. que refere o que a experiência imediata lhe incute.12. designava primàriamente um sôpro sensível. para onde vais. A afirmação de que o sôpro (ruah) é da mesma natureza no homem e nos irracionais deve ser entendida à luz da terntinologia judaica antiga.10." 16 "Não há possibilidade de agir ou de adquirir compreensão. pois já não há recordação dêles. com efeito. Ruah.) 17 Ci'. evidentemente. mais vale um cão vivo do que um leão morto. que o hagiág'rafo falava. por redundância. Ora'. é na presente vida que. enquanto permanece agregado à sociedade dos vivos. Quem pode dizer se o sôpro dos filhos dos homens se dirige para o alto E o sôpro dos animais desce às regiões subterrâneas 7" (3. na base de raciocínios abstratos. mas. pois professa que vai para o shcol 16 e menciona o juízo de Deus sôbre o indivíduo apos a morte.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 193 Tudo vai para o mesmo lugar. todavia não era como filósofo. na qualidade de observador popular.9.45 "Para o homem. servindo fielmente a Deus e utilizando moderadamente as ocasiões que Êste lhe concede.

assim como grande número de seus semelhantes. Israel. que os hebreus igualmente professavam. 1941). Cf.. reservando-se para 18 "Os exegetas já de há muito reconhecem que os antigos hebreus professavam a respeito do além-túmulo crenças semelhantes às dos outros povos semitas..194 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Estas palavras são sugeridas pela opinião de que a morte introduz em estado de consciência quase extinta." J. porém. qualquer que seja a sua condição (o cão simboliza o gênero de vida mais duro possível). Por que não terá de início elucidado tão interessante ponto de doutrina? Não era necessário à salvação dos israelitas que o Senhor lhes revelasse com tôda a clareza o que se dá após a morte. ainda ignora muitos dos desígnios divinos. 321. em outros casos. 56 [19491. . '' apenas fêz remover dc tal concepção qualquer vestígio de paganismo. 134. Tournay. O Eclesiastes assim representa tipicamente a mentalidade do homem que. 481. ao passo que para os mortos. Davi. patrimônio que Abraão. por exemplo. herdou de seus ancestrais. A. que. fica sempre esperança de conquistar certa felicidade neste mundo. oriundo da Caldéia. cf. Les religions dcc BabyIoniens ei des Assijriens (1945). 113-142. em Revue biblique. Deus permitiu que o autor sagrado. em ReDize d'histoire des Religions. ficassem por muitos séculos dependentes de concepções obscuras no tocante à existência póstuma. ela constituía como que um patrimônio dos antigos orientais.13s). embora conheça o verdadeiro Deus.. Tal indivíduo experimenta naturalmente a sêde do Infinito. o Senhor Deus. 12. os semitas haviam adotado as idéias dos babilônios. A fim de viverem como justos e conseguirem a vida eterna (que. José. com esta fé se santificaram Abraão. des origines au milien diz Vilie. para os vivos. Em seu bom senso. 19 Como. não deixará de proporcionar aos fiéis a recompensa do bem por êles praticado (cf. aliás. mostra-se céptico diante de todos os atrativos dêste mundo. 11 Não sendo por si mesma contraditória às verdades por Deus reveladas aos Patriarcas. já não resta possibilidade de conquistar algum bem. "L'eschztologie individuelle dans les Psaumes". Isaque. sempre lhes estêve destinada). Dhorrne. Guitton. Lods." E. Le développement des ldées dans I'Âncien Testament (Aix-en-Provence. id. "A concepção que do além-túmulo tinham os judeus era a de todos os semitas do seu tempo. 134. encerra as suas disputações entregando-se confiante ao Senhor. siêcle. por isto. "L'idée de l'au-delà dans la religlon hébrarque". Estas explicações talvez tenham suscitado nova questão na mente do leitor. bastava cressem na Justiça Divina e nas suas sanções. A éste respeito. pág. 231. que muito diferiam das dos egípcios. conserva o otimismo. nos inícios da história sagrada. 249s. inoculada no mais profundo do seu ser. sem dúvida. por vias ocultas. 121. mas seguras. E. Quanto à noção do sheal. seria fácil demonstrá-lo mediante recurso aos textos cuneiformes. 123 (1941). mesmo para os mais nobres (simbolizados pelo leão).

Não obstante. por sua vez. o rei Saul.tão veementemente repudiada pela Lei divina consiste na falsa noção de Deus que ela pressupõe. a única mansão em que. assim pensando. porém. seu sangue recairá sôbre êles.) O cronista sagrado. por meio de certas fÓrmulas.e é . A Lei de Moisés. também o profeta Isaias incriminava o abuso: os adivinhos. para se entregar às suas práticas. os gestos. havereis de replicar: 'Então um povo não deve consultar o seu Deus? Consultará os mortos em favor dos vivos ?'" (Is 8. por assim dizer." (Lev 20. "Pitonisa" vem a ser a mulher que. porém. promiscuamente se deviam epcontrar bons e maus.) A razão por que a necromancia era . voltarei minha face contra êsse homem e o afastarei do meu povo. Entre outras falsas noções que o paganismo associava à sorte dos defuntos. em revelação posterior.19. seu conselheiro de outrora (cf. faltam tais Python. o deus dos oráculos. por exemplo. quem institui as relações entre as criaturas e o modo como se desenvolvem. em última análise. repetidaniente condenava a praxe: "Se alguém se dirigir aos que evocam os espiritos e aos adivinhos. 1 Sam 28. a escrita).A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 195 as proximidades da era cristã comunicar mais claras noções de escatologia. ora entre vivos existem meios de intercâmbio naturais. pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel. dividida. viu. O nome a designar o profeta ou adivinho inspirado por Apoio.6. nos é lícito e necessário usar (tais são a linguagem oral. não leva em devida consideração os desígnios e direitos de Deus. na mitologia grega. Tal proposição. que murmuram e respondem em voz baixa'. Quem evoca os mortos julga que... porque interrogara e consultara os que evocam os mortos." (Lev 20. os israelitas foram freqüentemente tentados a adotá-la. atribu1ado numa campanha bélica. era oposta à idéia de que as almas dos mortos vivem destituídas de conhecimento e afeto." (1 Crôn 10.) "Todo homem ou tôda mulher que evocar os espíritos ou se der à adivinhação será punido de morte. pretenda desvendar o futuro. Entre vivos e defuntos. sim.13. poderá entrar em comunicação com êles. lapidá-los-ão. se tomara culpado diante do Senhor.. 20 passou .7-14). é a serpente que Apoio matou. estava a crença de que podiam ser evocados e. em nome da Divindade. por oráculos.27. porém. conforme as idéias antigas. em compartimentos: diversas são as sortes pÓstumas do justo e do pecador (veja-se abaixo).) No séc. que. foi ter com a pitonisa 20 de Endor. refere: "Se vos disserem: 'Consultai os que evocam os mortos e "Saul. responder aos vivos. Com efeito. foi. por instituição divina. É o Criador..

. por alguns séculos os manteve avessos à perspectiva de uma ressurreição da carne (esta lhes parecia ser novo encarceramento da alma. não manifestada pelas leis da natureza. Assim nos salmos (cuja data de origem dificilmente se poderia indicar com precisão) lêem-se expressões como . como se depreende das palavras de Samuel. pQrém. Em Israel sob a pedagogia divina. já que os defuntos. ao menos no fim de sua vida. estão subtraídos ao conhecimento ou à apreensão dos vivos. estavam psicolôgicamente preparados pata receber a mensagem da ressurreição da carne e da subseqüente bem-aventurança. e não prêmio). Deus se dignou permitir que o espírito de Samuel evocado respondesse. para satisfazer à curiosidade ou ao capricho das criaturas. audição. entregar à contemplação da Verdade. por exemplo. porém. não se segue que Deus se dirija aos homens por via tão estranha tôdas as vêzes que êstes o desejem. a exortação dirigida a Saul em circunstâncias tão extraordinárias seria particularmente eficaz. a qual começa pelos sentidos (visão. sendo intrusão do homem em fôro no qual êle não possui jurisdição. No caso de Saul. por muito imperfeitas que fôssem. Em épocas mais ou menos remotas da história sagrada. os israelitas. Eis como a necromancia. ensinavam que. depende estritamente da soberana Vontade de Deus. caso. Com efeito. separada do corpo.. a alma se poderia. subsistindo em espírito apenas. § 2. Disto. vontade de Deus que os homens não podem perscrutar nem captar a seu bel-prazer. aos poucos se foram dareando os horizontes. cuja filosofia era mais esmerada. 0 . porém. se dê. Note-se que outros povos. tomando como mera ocasião a visita do rei à pitonisa. permitiu-o gratuitainente. o espírito não é objeto natural do conhecimento dos sentidos. talvez já um ou outro escritor tenha aludido em têrmos breves e timidos à ressurreição da carne e à subseqüente visão de Deus. ).. não deixavam de apresentar sólido ponto de apoio à revelação de conceitos escatológicos mais claros.A GRANDE SURPRÉSA PÓSTUMA As noções de antropologia e teõlogla que levavam os judeus a admitir o slieol. com mais liberdade. se toma um abuso e implica derrogação ao conceito de sõberania divina. julgando que o homem consta necessàriaméúte de alma e corpo e só pode ser feliz quando os dois compõnentes se acham reunidos. esta proposição. Isto não quer dizer que impossível seja a comunicação entre vivos e mortos. justamente por êsTmotivo.196 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO meios. se achavam menos habilitados a acolher o dogma cristão: os sábios gregos.. O motivo por que então o Senhor atendeu a Saul foi. o desejo de admoestar o rei à penitência.

no livro de Daniel.24-26. em Inocência contemplarei a tua face. embora esta não pareça ser alheia à ideologia e às expressões mesmas de mais de um dêsses cânticos. de pressentimentos de ressurreição ainda vagos. citam passagens tanto da Sagrada Escritura como da literatura extrabíblica nas quais ocorrem frases semelhantes com sentido evidentemente metafórico. 56 (1949) . 9045s. Pois me arrebatará das mãos do shcol. Em apoio desta interpretação. que em parte é um apocalipse (ou revelação do que se dará nos tempos finais) provàvelmente 21 Cf. "L'eschatologie individueile dans les Psaumes". entre os quais se tornaram famosos os sete irmãos Macabeus (cf. Como quer que seja no séc. 51 72." (Si 16.15. II." (51 15. II a. souberam dar solução em séculos precedentes inatdita. não implicando a crença na ressurreição e na bem-aventurança póstuma. A luta dos justos em prol da fé parece ter vivamente desper tado entre os judeus a questão: ao sacrifício do sangue e da vida por amor à verdadeira fé não se seguirá resposta do Altíssimo? Terão os heróis.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 197 "Não entregarás minha alma ao sheol. relegados para o sheol. As delícias de estar para sempre à tua direita.) "Deus me resgatará. Nem permitirás que o teu fiel veja a fossa. Ao despertar. 481-506. Outros estudiosos. 21 Em conclusão: não se poderá insistir sôbre o testemunho dos salmos a respeito da bem-aventurança eterna.) "Quanto a mim. Alguns julgam que manifestam a esperança de vida póstuma bem-aventurada. indefinidamente a mesma sorte que os apóstatas ? A éste quesito os contemporâneos dos Macabeus. porém. Os exegetas não concordam entre si sôbre o sentido exato dêstes dizeres. Ensinar-me-ás o caminho da vida. bibUque. preparados pela reflexão de gerações anteriores." (51 48. saciar-me-ei pela visão da tua Imagem. esperança que teria ficado sem ressonância no povo de Israel até o séc. Com efeito. afirmam tratar-se de fórmulas poéticas. que mencionam apenas a libertação de perigo mortal e a alegria daí proveniente no decorrer desta vida mesma. a primeira campanha anti-religiosa da história judaica.C. a perseguição desenca deada pelo rei sírio Antíoco IV Epifanes (175-164). suscitou mártires israelitas. 2 Mac 7. seriam a expressão de aspirações individuais.1-41). hiperbólicas.16.) Of. Dar-me-ás a conhecer a alegria inebriante da tua presença. Tournay. em Revue .10s.

após a morte. contudo pôs fortemente em realce a doutrina de que. sem que tenha incor rido na maldição divina.198 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO oriundo na época dos Macabeus.7).1-13). afirma a ressurreição e a bem-aventurança póstuma destinada aos fiéis. Passelecq.9. 7. referindo-se à escatologia. que haveria de assinalar a justos e pecadores a devida sanção (cf. derrota dos bons (3. 22 encontra-se a profissão de fé na ressurreição da carne. de ser ressuscitados por Êle 1 Quanto a ti. 4. Em 2 Mac 12. a nós que morremos para ser fiéis às suas leis. silenciou o dogma da ressurreição. 23 fanes. os fiéis.8. desprezados pelos maus. 4. ao ímpio juiz um dos justos supliciados: "Tu nos tiras a vida presente. a tua ressurreição não será para a vida (bem-aventurada) 1" (7. em conseqüência. Éstes testemunhos encontram seu complemento no livro da Sabedoria. CL P. o pecador pode gozar de 22 As seções historiográficas do livro podem reproduzir documentos anteriores a ésse período. ao contrário. os mártires apelavam para o futuro juízo de Deus. talvez a fim de não ferir a ideologia do ambiente helenista em que se achava.C. Alusão direta aos mártires da perseguição suscitada por Antioco Epi- . os pecadores sofrerão grande decepção ao verificar a inversão da escala de valores por êles instituída: arrogância. escrito em grego na cidade de Alexandria (Egito) durante o séc. por sua vez. Dan 12. devendo OS justos 23 "brilhar como o esplendor do firmamento e como as estrêlas dotadas dé fulgor perpétuo" (cf. 55s. Enfim a todos serádado perceber os sábios desígnios que a Providência Divina tem em mira quando na terra permite aparente vitória dos ímpios. O seu autor. perseguidos e humilhados neste mundo pelos ímpios prepotentes." (7. recebendo cada qual a respectiva sanção. com a esperança que de Deus receberam. Os próprios justos.) Diante dos carrascos. por exemplo.42-45 Judas Macabeu.6): ci justo pode ser aflito.9.16. tornar-se-ão o critério conforme o qual será piblicamente avaliada a conduta dêstes (3. Le déve- loppement dez idées dans VAncien Testamezt. o gôzo materialista dos prazeres dêste mundo acarreta fim funesto (3. justos e pecadores são por Deus julgados. No segundo livro dos Macabeus transparece a mesma crença.10-12). 1 a. 3. conhecerão a exaltação e o triunfo definitivos (cf. Dizia. paralelamente. 1951). 5.20-5. Guitton. 172s. mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna. Onde biblique (Maredsous.35s).) Seu irmão prosseguia: "Felizes os que morrem pela mão dos homens. abuso do poder levam à ruína póstuma.14.2s).

devia ceder a noções mais precisas. implicitamente revelado em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento (cf. portanto. a . deverão eternamente sentir as conseqüências desta apostasia (cf. Estas concepções de fins do Antigo Testamento ainda haviam de ser explicitadas pela revelação cristã: o Messias incutiu aos homens o significado positivo. Mt 5. estaria destinado a desaparecer no fim dos séculos? Errôneo seria basear a interpretação do texto na assonância existente entre o nome que indica a sorte dos réprobos (inferno) e o vocábulo "inferno" ocorrente em Apc 20.foi pela revelação cristã repartido em dois outros têrmos ou estados. Mt 16. em têrmos claros anunciou o juízo final. porque não há slzeol (vocábulo do Antigo Testamento hebraico outrora ambiguamente traduzido por 'inferno') . sem dúvida. por conseguinte.24-27). ser réu perante a Justiça eterna. em união com a Cruz do Redentor (cf. seria dizer: "Não há estado de condenação eterna para os pecadores (= inferno. não obstante. Em Apc 20.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 199 prosperidade material e. a 24 O purgatório há de ser considerado como adro do céu.termo. lugar que. porém.25s. Com efeito. tendo procurado ser bons como Deus é bom. Mt 25.14 (trad. o inferno. inferno) foi sendo reservado pelos cristãos latinos para significar o estado definitivo dos réprobos. Eis um exemplo de como não se deve proceder neste terreno. neutro. lugar de encontro de bons e maus reduzidos à quase-inconsciência . suficiente para sustentar a piedade de um povo rude durante vários séculos . o valor do sofrimento abraçado por amor de Deus. tendo renegado a Deus porsuas obras.. Deixará de existir após o juízo final.39-46. O sheol de outrora .14 lê-se na tradução portuguêsa de Matos Soares: "O inferno e a morte foram lançados no tanque de fogo. pôr assim dizer.31-46). em que o bem e a iniqüidade serão devidamente focalizados." Será o "inferno" aqui mencionado o lugar dos réprobos. a plenitude dos tempos. Ilógico. a antiga ideologia do sheol perdeu o seu sentido. estarão habilitados a viver para todo o sempre na presença do Senhor. na teologia católica em sentido diverso do que tem geralmente nas traduções latinas e portuguêsas do Antigo Testamento. Desde que tais noções tomaram vulto na mente do povo de Deus. Matos Soares). 24 O vocábulo infernus ( em vernáculo. Ela fôra. 2 Mac 12." Note-se bem que o conceito de sheol só foi removido pela revelação divina a fim de dar lugar ao de um estado de punição definitiva para os réprobos e ao de recompensa eterna para os justos.10-15). na terminologia técnica católica). devendo o gênero humano conseqüentemente distribuir-se por duas grandes categorias: a daqueles que. .. pois. que representa a sorte feliz dos justos. a dos que. 1 Cor 3. ocorre. um positivo e o outro negativo: o céu. que se torna a triste sanção devida aos pecadores. ao aproximar-se.

continuando uni uso literário da tradição biblica. de resto.26. ela lhe dá a experiência da bem-aventurança final.8. desabrochando. vê-se. João). Is 25.. João em Apc 20. para incutir que o pecado e todas as suas conseqüências (entre as quais a morte e a "morada dos mortos") deixarão de existir no mundo remido e consumado por Cristo. Não há. A doutrina escatológica revelada por Jesus deverá. que S. na posse direta dos bens prometidos.14 senão uma afirmação paralela à de 1 Cor 15. como o pecador carrega o inferno dentro de si..14 intencionava aludir a um conceito do Antigo Testamento. explicado. o cristão não deixa de possuir um penhor e antegôzo da vida eterna: a graça em sua alma é a semente da glória celeste. pois. Ora o Hajas é. pois. e predizia que serão aniquilados no fim dos tempos. a mansão dos mortos correspondente ao sheol dos hebreus. o autor sagrado. Os 13.55s. O justo traz o céu em seu íntimo. em Ape 20. a . pelo vocábulo "morte" justaposto: "ÇA morte e o inferno serão lançados." Personificava assim a morte e a região dos mortos como adversários do gênero humano. conforme a linguagem dos gregos antigos. Todavia já agora.200 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO palavra "inferno" nesta passagem é a tradução do grego Hwtes (térmo do original de S. eis como atualmente se formula um dos aspectos mais importantes da doutrina dos novíssimos. embora na realidade não exista região coletiva dos mortos (o sheol dos judeus). por sua vez. peregrino nesta terra. a concebia e personificava. consumar-se na visão face a face.14.

.. como se diria. porém. Para o católico. Parecem manifestações retumbantes. Ao passo que os antigos judeus e os cristãos até época recente os interpretavam literalmente.. "a êsmo". a Sagrada Escritura. A fim de atrair a dureza de coração da criatura inclinada ao mal desde o primeiro pecado. destituídas. ao mesmo tempo. Não é. - . O Senhor não costuma exigir fé sem apresentar "credenciais". ilícito perguntar se alguns dos propalados milagres do Antigo Testamento são realmente tais. é errônea a posição de quem queira simplesmente negar fé a certos episódios da Bíblia por narrarem feitos portentosos. apresenta episódios que. Esta proposição. sensível do homem. era como que normal ou necessário suscitasse Deus milagres ou manifestações mais evidentes da sua presença e ação no mundo. dilúvio. à primeira vista. sem dúvida. se diriam demasiado infantis ou portentosos para poder ser conjugados com a noção de Sabedoria Divina e com o bom senso humano. ou não será que o leitor moderno é num ou noutro ponto propenso a racionalismo exagerado? Antes de se passar a respostas particulares. sinais que satisfaçam à natureza intelectual e. sem que haja proporção entre o milagre e o fim a ser atingido. principalmente nos livros do Antigo Testamento. torna-se oportuna uma observação de ordem geral. Surge assim a questão do sentido autêntico que têm essas passagens: a tradição exegética as terá entendido devidamente?.). o homem contemporâneo não o saberia fazer sem por vêzes sofrer constrangimento. não implica que o Criador tenha realizado portentos. sim.. etc. É não menos certo que Deus não dêrroga às leis por Éle mesmo incutidas ao mundo. isto é. seria incoerente e ilícito negar o sobrenatural e portentoso na história das relações de Deus com o homem. da Onipotência Divina. do homem. Ponderado isto. o Senhor não "brinca" com o seu poder sôbre a natureza. dir-se-á que. porém. de proporção com os acontecimentos anteriores e subseqüentes. pecado. porém.CAPÍTULO XIII "PRODIGIOS" E PRODIGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO Além da famosa "pré-história" bíblica (Gên 1-11: origem do mundo.

porém. eram induzidos a propor uma história sagrada cheia de fenômenos extraordinários. olhar que 1 A chamada "pré-história bíblica" já foi objeto do nosso estudo intitulado Ciénda e Fé na História dos Primórdios (Rio de Janeir02. o presente capítulo considerará textos sôbre cujo sentido pairam dúvidas ou concepções errôneas. dêstes princípios ainda teóricos. . mandou que um sobrinho de Abraão nela residente. Os exegetas antigos e medievais. faziam-no por carecer dos instrumentos filológicos e paleológicos que hoje possuimos para recolocar as páginas bíblicas dentro da respectiva moldura semítica. foi primàriamente em vista de uma mensagem de vida eterna que o Espírito de Deus quis fôssem consignados na Bíblia).. Sendo assim. durante a fuga. 1955). ao lado disto. Ora as novas interpretações em não poucos casos diminuem ou removem o caráter portentoso que tradicionalmente se atribuía a alguns episódios. Ao lado.15-26) Diz o texto sagrado (Gên 19. assaz diferente da história normal das relações de Deus com os homens.. a saber: o significado religioso que tais trechos possuem no conjunto da Revelação (pois. § 1. entendendo-os como se narrassem milagres. porém. a fim de não ser punido com os pecadores. Muitos dêstes dados vieram projetar valiosa luz sôbre as páginas da Sagrada Escritura.202 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Esta observação já bastaria para levar o estudioso a reexaminar a exegese de um ou outro dos textos sagrados e verificar se autêntica é a interpretação que se lhes dava na antiguidade. sem dúvida. permitindo mais exata compreensão dos seus dizeres. à luz dos mais recentes estudos. o justo Lote. não percebiam certos matizes de expressão e. com sua espôsa e suas filhas. desejosa de verificar se se cumpria a promessa divina. procurar-se-á pôr em realce o que mais deve deter a atenção do leitor. conseqüentemente. a maneira de pensar e falar dos povos pré-cristãos.0 A MIJLIIER DE LOTE TRANSFORMADA EM ESTÁTUA DE SAL (Gên 19. a mulher de Lote. em virtude desta carência. impõem-se à consideraçãb fatos recentes: têm-se descoberto no Oriente documentos que manifestam bem o âmbito de vida. pensam sôbre o seu aspecto portentoso. ' Propor-se-á o que os exegetas católicos. se retirasse da mesma. lançou para trás um olhar curioso e inoportuno. tendo o Senhor resolvido destruir pelo fogo a cidade de Sodoma prevaricadora. que.15-26) que. Eis.

2 "Fege. foge para a montanha. a propósito da qual o guia ifie contou a história seguinte: jovem senhora. 1903)."PEODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 203 contradizia diretamente a instruções dadas pelo Senhor. pecamos". refere o autor bíblico (v. montada sôbre um camelo. Não olhes para trás nem pares tm lugar algum na planície. Eis algumas destas. lhe disse o guia: "Vê esta planicie? Outrora era coberta de arrozais." (Gên 19. a fim de não pereceres. o percebeu. Com insistência particular. 202. tais como têm sido relatadas por recentes exploradores do Oriente: . para compreender o episódio. se encontra uma rocha de configuração mais ou menos fantástica. Ao voltar. é preciso ter visitado as regiões do Mar Morto (ao sul ou sudoeste do qual ficava Sodoma) e convivido um pouco com os beduínos habitantes da região. 2 Em conseqüência. o oficial encontrou os dois malvados imóveis como pedra. Alá. tendo-se tornado semelhantes a rochedos: "Perdoa-nos. No folclore árabe relata-se que Ahmud era oficial muito conceituado junto ao seu xeque Kerak. porém. Não tendo. Contudo não parece ser isto o que o texto sagrado quer dizer se tenha realizado. porém. e irritou-se de tal modo que transformou em rochedo a mulher. deu à luz. Essas rochas são jovens que. . advertem os exegetas que. Lagrange. "tornou-se uma estátua de sal". A "transformação de indivíduos humanos em estátuas de rocha por efeito de castigo divino" é tema não raro nas tradições árabes palestinenses. acometida pelas dores do parto.) 3 Cf. contra os quais o jumentinho de Ahmud tomou a palavra a fim de o defender. disseram-lhe êles com voz surda análoga ao tinir da pedra. não longe de Durah. ao sul de Hebron." O mesmo refere que no território de Durah. se te queres conEervar em vida. Alã as transformou era pedra e amaldiçoou a regiao. Como se há de entender a narrativa? De modo nenhum a transformação de uma mulher em estátua de sal implica absurdo ou fenômeno que a Onipotência Divina não possa efetuar. La méthode historique (Paris. atravessava a região com o marido. estavam fixos ao solo. usou para isto o pão que levava como provisão de viagem.17. o marido com a espingarda e os camelos. ao dançar.Jaussen narra que certo dia. na zona de Maã. ao atravessar uma planície cercada por montanhas de estranha silhueta. pano a fim de enxugar o recém-nascido. a criança. Ahmud. Certo dia. Depois do incidente. em viagem foi caluniado por dois homens. 26). prosseguiu a estrada. se mostraram incõnvenientes. porém.

Metamorfoses. pois. na série das Mil e Uma Noites. o autor do livrõ bíblico da Sabedoria (10. o qual refere a Jaussen.). aos quais a fantasia popular fàcilmente atribui o aspecto de mulher. 251s. é isto o que o texto sagrado quer incutir em primeira linha. o historiador judeu Flávio José dizia ter visto um bloco salino que era comu4 As narrativas são transcritas do comentário de J. narraram a todos os vizinhos o pro.. Os dois árabes. dígio que com êles se dera. tais blocos podem conservar por tempo notável a sua aparência. pela Divindade.C. perdoou-lhes. Estas averiguações levam a concluir que. recorrendo a imagem comum na literatura de seu tempo. ainda se vê em nossos tempos extensa colina de sai-gema semelhante a uma baleia. falasse de "petrificação" da criatura renitente. a. no decorrer dos tempos. alude também a dois príncipes metamorfoseados em rocha negra. então. é possível que uma crosta de sal haja em breve recoberto o seu cadáver. 6. Assim pensa P. Ora aí as erosões e outros fenômenos geológicos ptoduzein constantemente a formação de blocos rochosos. Entre os gregos. 301-312. Le livre de la Genese (Paris. 1949). mina inesgotável. 6 Independentemente. da qual se abastecem as famílias de Jerusalém. porém. Na região de Djebel Sudum ou Usdum. 1 no séc. hoje correspondente à antiga cidade de Sodoma. as histórias de Niobe. de configuração estranha. Assim. Na realidade. 1 d. O conto das "Duas Irmãs Ciumentas". entre os antigos semitas. Não é. dever-se-á dizer que a mulher de Lote foi fulminada pela morte em castigo da sua incredulidade e desobediência ao Senhor. falar de petrificação de um indivíduo era o mesmo que afirmar haver sido castigado.7) aludia a uma "coluna de sal. é."petrif icada" conforme o modo de falar antigo. Hemnlsch. e severamente castigado. 250. Cadmos e Harmonia incluem semelhante tópico. dêste outro fenômeno.C. 7 Lote e sua mulher terão vivido no séc. a fulminação da espôsa de Lote já era fato suficiente para que o autor sagrado. para admirar que. Ovidio (t 17118 dc. xviii . restituidos à natureza humana. Ci. e uma ou outra dessas pedras às quais a erosão dava aspecto feminino. 297s. a imaginação do povo tenha associado entre si o episódio da mulher de Lote. Coutumes des Arabes au pays de Moab. . 1930). pois. Das Buch Genesis (Bonn. A expressão tinha sentido meramente metafórico e parece ter entrado como tal na Escritura Sagrada. como costuma recobrir árvores e demais objetos postos à margem do Mar Morto. Chame. Tendo sido assim punida. monumento de uma alma incrédula" existente na região de Sodoma. pouco antes da era cristã.204 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de boa índole como era.

movidos por fé tíbia. Não foi para isto que o Espírito de Deus nos quis transmitir o episódio. das Gálias.31-33. Estas expressões. recobrem um fato certamente histórico. constituído chefe do povo. procedem fútil ou levianamente. Cristo incutia aos discípulos total desprendimento para poderem salvar a sua alma.0 AS DEZ PRAGAS DO EGITO (tx 7. a mulher de Lote vem a ser o tipo de todos aquêles que. a morte sobrenatural. Para êstes pode-se recear castigo análogo ao que fulminou a desgraçada mulher. enviou Moisés. muito sóbrio. não se apontava estátua da espôsa de Lote. "Petrificação" e identificação de rochas com os vestígios da criatura incrédula são expressões de mentalidade e linguagem dos povos do Oriente e da tradição israelita.) Com estas palavras. ou seja. Na admoestação do Senhor. § 2. Quem procurar conservar a vida. visitou a Terra Santa.C. olham para trás. Não toca aos homens ponderar os motivos por que o Senhor procedeu tão severamente no caso. quando fugia de Sodoma. à presença de Faraó. 1.11. porém. deduzindo o seu significado perene No dia solene do juizo sôbre Jerusalém. isto é. estava o povo de Israel cativo no Egito e sujeito a duros trabalhos forçados. mas. sabe-se. conservá-la-á." (Lc 17. Em vista disto. em nome . soberano do país. a fim de intimar o monarca. sim. Jesus mesmo se fêz para nós o intérprete da história. porém. o Senhor decretou libertá-los. nutrindo ainda a nostalgia do que abandonaram e permanecendo apegados a prazeres e bens que não lhes são de utilidade para a vida eterna. indicam os beduínos um bloco de aproximadamente 15 m de altura. ao empreenderem uma tarefa importante ou a máxima tarefa da salvação eterna. perdê-la-á. que em fins do séc. em pormenores: a espõsa de Lote foi fulminada pela morte sôbre a estrada. a morte. que êles dizem ser "a itulher" ou também "a filha de Lote" (bint Lout) Em conclusão: uma exegese atenta do episódio da mulher de Lote leva a distinguir entre o "fato" e a "maneira literária ou popular" de exprimir o fato. Atendendo ao clamor dos infelizes escravizados. Em nossos tempos.14-12. "quem estiver nos campos não volte atrás.36) Por volta de 1250 a. Lembrai-vos da mulher de Lote. IV."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 205 mente identificado com a mulher de Lote (Ant. e quem a perder. na Sagrada Escritura. em vista de uma admoestação salutar dirigida a cada fiel.4). quando a peregrina Sílvia Etéria.

tiveram origem. Invasão de gafanhotos: 10. com o início da primavera (mês de abril). referem circunstâncias da vida do Egito nos meses de maio e junho. porém. das quais sàmente a décima conseguiu dobrar a dureza de coração do rei. note-se que as dez pragas se devem ter sucedido entre os meses de junho e abril subseqüente.12-15. a libertar os israelitas. se produzem naquele país por ação de fatôres naturais.29s. como se tem dito freqüentemente. desenvolveram-se com veemência fora do comum. julga-se que as pragas do Egito não foram senão flagelos que. falando de pastoreio de ovelhas na estepe. O autor sagrado incute o caráter portentoso de tais pragas. no momento predito por êste. Onda de mosquitos: 8.68. Ora. o Senhor houve por bem demonstrar-me o seu poder.12. porém. antes.26). onde estavam domiciliados os israelitas (cf. Sanha de mõscas venenosas ou de vespas: 8. os quais podem muito bem corresponder ao que descreve o texto sagrado. A imaginaÇão humana. procura. Trevas sôbre o país: 10. certo é que a morte dos primogênitos coincidiu com a primeira Páscoa. aludindo à confecção de palha. E qual o fundamento desta tese? Ê a observação de certos fenômenos.1-20. Em primeiro lugar.11-25. Geada: 9. mas em vista do modo como se verificaram. e 5. Tumores e pústulas nos homens e no bestiame: 9.18. Com efeito. Conversão das águas do rio Milo em sangue envenenado: Êx Invasão de rãs nos rios e nas casas do Egito: 7. milagres não em si ou por seu desenrolar intrínseco.16-28. Eis como. após uma análise conscienciosa do texto bíblico. A morte dos primogênitos dos egípcios: 12.1) começaram a se desencadear os flagelos. os versículos Éx 3. não se quis render ao pedido. condiz bem com a situação do país em junho.206 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de Deus. Foram. Faraó. naturais no Egito. a região de Gessen. Eis a lista dos flagelos assim ocasionados: 7. por ordem de Moisés. atribuindo-as à intervenção explícita do Senhor.1. se há de reconstituir a história. Uma vez determinada a cronologia.21-27.8-12. além dos têrmos intencionados pelo próprio Deus. poupando.13-35. pois. ou seja.11. sendo que o primeiro. no decorrer dos séculos parece ter acentuado a índole extraordinária dos acontecimentos. desencadeando dez pragas sôbre o Egito. e cessaram a mandado do mesmo. servir-se . 8. 9. sim. Deus.1-7.26-8. por isto. dentro do período assinalado. como se verá abaixo. em mais de um caso. de outro lado. Peste sõbre o gado: 9. dado o concurso de circunstâncias particulares. porém. Ora pouco depois (6. não derroga às leis da natureza. sem graves razões.

451s. H. 81. consumiram todo o oxigênio da água. como talvez a invasão de pequenos animais dentro do rio. o qual se pode parecer com a transformação da caudal em rio de sangue. A título de confirmação. 8. La Bible et les découvertes modernes. observa-se que os magos do Egito puderam reproduzir. 312. crustáceos cladoceros). caso se tomem numerosos. V.-Rops. 1.. 1 disto se depreende que se tratava de fenômenos decorrentes das energias da natureza devidamente exploradas. 216. resta considerar como se desenvolveram as dez calamidades. . Histoire d'israel. Assim o primeiro e o segundo (cf. Histoírc Sainte (Paris. 1912). Da sexta praga em diante foram êles mesmos atingidos. como D. É o que sugere que a enchente da primeira praga haja sido acompanhada por outro fenômeno. Ricciotti. Por ocasião da terceira praga. l{einisch. por via natural. 1953).e realmente não terão sido fenômenos até então inauditos. juntamente com os coanoflagelados que aderiam à couraça das mesmas. aponta fatos hstóricos que podem servir para ilustrar o texto bíblico: em setembro de 1913. estas. 8. os quais tornaram venenoso o manancial. não lhe pareciam . A mesma sentença é sustentada por outros autores católicos. o que bem se explica pelo fato de trazerem as pulgas de água algumas gatinhas de óleo vermelho no seu organismo. 3). Normalmente. P." O. ocasionando o perecimento dos peixes da baía por sufocação. as águas de um rio ou lago podem tomar coloração vermelha. anualmente verificada em fins do mês de junho. dão colorido sanguíneo à água. "Plaie". II. 1 (Paris. O."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 207 do curso habitual dos elementos para realizar os seus maravilhosos desígnios. em Dictionnaire de la Bible. estas. eis o sinal de que eram enviadas por Deus. porém.14s). porém. O fato. professor da Universidade de Nimwegen (Holanda). o chamado "Lago Vermelho" perto de Lucerna (Suíça) deve o seu matLz caracteristico a uma espécie de alga (oscillatoria rubescens). Vigouroux. 1947). 1945). Éx 7. verificou-se numa baia perto de mel (Alemanha) a irrupção de numerosissimas pulgas de água (daphniae..22. está averiguado que também cers 'flagelados" rubros (englena sanguínea). Buysschaert. 154. confessaram sua Incapacidade (cf. 9 "AS famosas pragas do Egito. 10 Çf. (Paris2. Israel et te judalsme dans l'Áncien Orient (Bruges.. Também a renitência do Faraó insinua que o monarca não se impressionou pelas nove primeiras pragas. e em circunstâncias diversas. parecendo transformadas em sangue. Lesêtre. A massa dos crustáceos invasores dava a impressão de que um corante avermelhado havia sido derramado nas águas. 97. Heinisch. As águas costumam tomar então aspecto vermelho por causa de detritos de barro que descem dos lagos da Abissínia. Das Buck Exodus (Bonn 1934). portanto. ° Posta a conclusão acima. O primeiro flagelo se deve à enchente do rio Nilo. tudo isto era familiar aos egípcios. de que se tenham verificado no momento preciso em que Moisés as evocava. as águas da cheia não são nocivas nem aos homens nem ao gado. um ou outro dos flagelos provocados por Moisés. 10 estes fatos dão a ver que.. ao menos em setor restrito. é êste o fenômeno dito "do Nio vermelho".

As águas terão ocasionado também o ambiente favorável à reprodução extraordinária de môscas venenosas. terceira e quarta pragas) são conseqüências das enchentes do Nilo. recusou-se. deixando sair Israel? Não conheço Javé. Am 4. mosquitos e vespas (segunda. Inundações e invasões de animaizinhos provocam não raro doenças e epidemias." (Éx 5. se verificam inundações. terão sido acarretadas pelo famoso vento quente dito lchamsin ou simun. Faraó. mormente em países orientais. faz-se mister realçar a mensagem religiosa em vista da qual o Senhor permitiu o seu desencadeamento.2.Quanto às trevas. em conseqüência. suficientemente espêssas para provocar escurecimento da atmosfera.208 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A esta seguiram-se outras calamidades conforme um encadeamento assaz compreensível. tratando com os homens segundo a sua condição de criaturas livres.9). . e no decurso de dois. que. Conforme Heródoto (3. Deus. Quando. Sua ação se faz sentir em março ou abril.26).4. Ji 1. durante os quais ainda hoje as estações ferroviárias funcionam à luz acesa em pleno dia. quando ela se verifica no Egito. parte do exército de Cambises foi sepultada nas areias dêsse vendaval. nenhum fenômeno ordinário se lhe pode comparar. e não permitirei que Israel se vã. até seis dias contínuos. multiplica-se um dos fatores principais para o aparecimento de tais animais. por meio de Moisés intimara o soberano do Egito a deixar partir o povo hebreu. Poderá haver algum intento sábio na provocação de tanto furor da natureza? Sim. As invasões de rãs. que constituem a nona praga. A geada (sétima praga) é fenômeno que se terá produzido no mês de fevereiro. Éste sopra a partir do deserto. Foi decisiva para que Faraó se rendesse. como as que se deram na quinta e na sexta praga. porém. onde tal calamidade parece ter ocorrido com certa freqüên•cia (cf. replicando "Quem é Javé para que eu obedeça à sua voz. No tocante à décima calamidade (morte dos primogênitos). Entendidas as pragas do Egito no respectivo ambiente e clima. penetram nas habitações dos homens e os molestam. carregando consigo enormes quantidades de areia. onde os mesmoSse desenvolvem. três.) . por vêzes ainda em maio. Normalmente rãs e mosquitos põem ovos na água ou sôbre as águas. pois. Uma invasão de gafanhotos (oitava praga) também não seria para estranhar em fev&reiro ou março.

74. porém. -Ezodus. As pragas . O fato de que a serpente de Aarão devorou as dos magos era portento suscitado por Deus para significar que a sabedoria dos homens não prevaleceria contra os designios divinos. Nada escapa ao plano do Criador. a qual se transformou em serpente. obtendo finalmente do homem relutante o reconhecimento e a homenagem devidos. 11 Se tal não foi o artifício aplicado pelos magos de Faraó. terão feito desaparecer aquêles e lançado estas ao chão. tipo do homem soberbo.mas a serpente de Aarão devorou as dos magos. com evidência crescente. mediante encantamentos. Moisés e seu irmão Aarão efetuaram em nome de Deus. sob permissão divina. Éste povo. Ainda em nossos tempos diz-se que reproduzem a conversão referida pelo texto do Êxodo: há um tipo de serpente em cuja cabeça determinado centro nervoso pode ser delicadamente comprimido de sorte a provocar ããibra ou entesamento de todo o animal. as quais. Deviam tomar caráter exuberante.10-13). Aarão lançou uma vara ao chão. aliás. o trato com serpentes.que. eram utilizadas para muitos fins. só se pode entender por um concurso de agentes naturais devidamente explorados pelos "sábios" da côrte. A lição se dirigia primeiramente a Faraó. a sua imitação por parte dos magos. pode-se admitir que tenham levado à presença do monarca bastões e serpentes ocultas. recupera a natural mobilidade.. mas.uêle. tinham por fim demonstrar. .11 PE0DÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 209 O monarca se obstinou mesmo diante de um prodígio que. a soberania absoluta do Deus de Israel. para corroborar a intimação. O mesmo prodigio é atribuido aos magos de Faraó . tomaria consciência de que o Criador é fiel na execução das suas promessas. obteve de seus magos a realização de portento semelhante (CL Éx 7. Logo. de dura cerviz ou fé vacilante (como. o qual havia de compreender que Javé não era o Deus desprezível de um povo escravizado (na antiguidade se avaliavam os atributos da Divindade pelos predicados do povo que a cultuava). Heinisch.. a fim de impressionar a fantasia. não há obstáculo que Lhe impeça o cumprimento de 11 cf. éste então toma a forma de bastão retilíneo. todo homem pôsto diante dc mistério de Deus). O ensinamento aproveitaria também a Israel (ou aos fiéis de todos 9s tempos). proporções muito vastas. Aos egípcios e orientais era familiar. a sensibilidade de homens empedernidos. Ao passo que a transformação realizada pelo homem de Deus a mandado do Senhor se reduz simplesmente à ação da Onipotência Divina. que se faça cessar a pressão e com violência se atire o "bastão" ao solo. sim. a seguir. é o Soberano capaz de encer a dureza de cora r ção das mais altivas criaturas. nada pode frustrar o seu desígnio de fazer que o mal do homem sirva ao Bem de Deus e que êste na fim da história do mundo obtenha a vitória sôbre aq. ao contrário. como hábeis prestidigitadores. por gestos rápidos. o Senhor desencadeou. esteio de obstinação contra Deus..

que. se colocasse entre êste e o exército egípcio. Éstes. causando opacidade entre os dois acampamentos. Era a oportuna válvula de salvação . a quem iriamos nós? Téns as palavras da vida eterna 1". confessava Pedro após ouvir a "palavra dura" de Cristo (Jo 6. passando o mar a pé totalmente enxuto! Quando os soldados de Faraó perceberam que os fugitivos se haviam lançado na direção do mar. não sàmente permitiu. . mais uma vez estendeu a mão sôbre as águas. porém. a mandado de Javé. Faraó. às margens do mar Vermelho. seguiram-Lhes as pegadas. que lhes teriam acarretado a morte.66). mas ordenou. arrependido da concessão. Moisés. viram-se em graves apuros. crianças.5-31) O texto sagrado refere que. de modo a formar no meio das águas um corredor.. porém. por nova ordem do Senhor. realizou um prodígio totalmente insólito ou alheio à natureza dos elementos. resolveu ir-lhes ao encalço. Faraó. aterrorizado. e as tropas inimigas. que então se fecharam sôbre a tropa de egípcios. se o texto bíblico insinua de fato tão extraordinária intervenção da Onipotência Divina. fazendo perecer os perseguidores. .. após as primeiras etapas dos emigrantes. 6.210 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO sua palavra. Com efeito. Como escaparia ao perigo iminente? O Senhor fêz que a coluna de nuvem que antecedia Israel. § 3. Moisés. de um lado. Eis. ao despontar do dia. pois. de sorte que a multidão israelita se viu comprimida entre as águas. A confiança no Senhor seria incutida 'como atitude que na alma humana deve prevalecer contra a pusilanimidade e a revolta. estendeu a mão sôbre o mar.68 e 60). porém. se retiraram em caravana na direção do Oriente. A seguir. não fôra uma intervenção extraordinária de Deus. palavra que fizera apostatar não poucos dos ouvintes de Jesus (cf. gado e demais haveres. um vento impetuoso de leste pôs-se a soprar durante uma noite inteira.° A PASSAGEM DO MAR VERMELHO E 00 RIO JOROAO 1. entrando no corredor aberto. sem demora. após a décima praga. "Senhor. Alcançou-os perto do Mar. deixassem os israelltas o Egito. Como se há de entender esta narrativa? Do texto sagrado se poderia inferir que o Senhor. do outro. os israelitas por êle enveredaram. A TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 14. Chegando. levando mulheres. Pergunta-se. dividindo o Mar Vermelho.

em território egípcio. o mesmo explorador encontrou as ruínas de um edifício que. ) em que se verificou. e se prolongava do outro lado das águas. oficial de marinha frantês encarregado durante muitos anos do serviço do canal de Suez. Bour don. visto o vento impetuoso que. situada nas proximidades da estrada e do vau referidos. conforme as inscrições. de leste soprando sóbre as águas. era simultâneamente templo religioso e fortim militar. que tendia a recuar. supõe que não tinham a travessia na conta de coisa impossível. lagunas. passando pelo Egito. 13 O que os egípcios ignoravam . donde na Idade Média partiam as naves para a Índia.. levam a concluir que a divisão do Mar Vermelho se deve a uma concatenação de causas naturais. canais e pãz3tanos senão pelo vau de Sues (entre Teu colzum e a cidade de Suez contemporânea). o fato de que os egípcios se precipitaram águas a dentro. Eis como se explicam tais autores: Nos tempos pré-históricos comunicavam entre si os Mares Mediterrâneo e Vermelho. suficiente para criar entre o Egito e o deserto de leste um obstâculo importante.. devia servir para proteger ã fronteira. Eis verbalmente o parecer de Bourdon: "Julgamos que em tempos históricos."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 211 A isto respondem competentes estudiosos que não sàmente o livro sagrado. impedindo entrassem na terra do Faraó invasores indesejáveis. Na época de Moisés (ca. marés. havia uma passagem através das águas que então constituíam o Mar Vermelho. 12 Tais descobertas levam a admitir que. duração . etc. passagem cuja utilização dependia das circunstâncias de ventos. e com razão.C. é hoje um acervo de ruínas situadas a dez quilómetros do litoral. descobriu vestígios de uma estrada que. desembocava num vau ainda hoje existente na parte meridional dos Lagos Amargos. ao pé do Djebel (monte) Abu Hasa. ou seja. 1240 a. Há decênios atrás.o que basta para que a travessia dos israelitas conserve todo o seu caráter milagroso -. Ora o texto bíblico insinua que o êxodo dos israelitas se fêz por um vau.incorveja-se o mapa respectivo no fim do livro. era bem capaz de nelas abrir um corredor. não devia ser muito profundo. julga-se que o Mar Vermelho se prolongava ainda até os Lagos Amargos e talvez o Lago de Tiznsah (situados hoje no referido istmo). intermitente talvez conforme a altura média das águas do mar . esta construção. e reabastecer as caravanas que do Egito se dirigiam às minas do Monte Sinai. Sim. só tendo de extraordinário as circunstâncias (hora. mais precisamente: na época do êxodo. deviam julgar que a passagem se tomara praticável naquela ocasião. havia entre o leito atual dos Lagos Amargos e o fundo do golfo de sues uma comunicação precária sem dúvida. Não existia passagem através dessa rêde de lagos. Nesta sua extremidade setentrional o mar. vau ainda utilizado em nossos tempos (é a passagem 12 13 . os quais só aos poueos foram sendo separados pelo istmo de Suez.). o pôrto de Colzum. mas também os vestígios de arqueologia recém-descobertos. nos tempos de Moisés.

). Isto se fêz. 120. O novo chefe devia consumar a obra do antecessor.26. começa de imprevisto e cessa também repenti' namente). Historiar. em Expository Times. o texto bíblico. Ora. que morrera deixando Israel à entrada da terra de Canaã. não o di2 (cf. 1.22. já que as águas pareciam constituir obstáculo natural aos invasores. 120. para penetrar na Palestina. como narra o haprincipal). o chefe romano Ciplão dito "o Africano" conseguiu entrar em Cartago por um lado da cidade contiguo a uma laguna. 51105. SoaIlard. 1.10. Ricciotti. O episódio é significativo. "The passage of the . 42 (1930-31). porém. 16 Cf.26. Das Buch Exodus. 15. 2206. 7. 13. . H. Quanto ao monarca. Und die Bibel hat doch recht.7 refere ter-se feito uma seleção de armas e guerreiros para constituírem a tropa perseguidora. talvez pouco mais de mil carros armados hajam sido tragados pelas águas. disto se poderá deduzir que se desenvolvia outrora junto às águas que prolongavam o hodierno Mar Vermelho e deviam constituir prôpriamente o Mar dos Juncos. em trechos como Jos 2. Um ou outro exegeta 15 tenta de certo mddo ilustrar a passagem.4). A PASSAGEM DO RIO JORDÃO (Jos 3." Texto citado por O. não do "Mar Vermelho". era mister atravessar o Jordão.212 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rendo por isto num êrro fatal .28. que o sirocco da Arábia. 14 Não se creia. o vento qadim. ou pelos vaus do pequeno Lago Amargo na vizinhança da atual extremidade meridional dêste último. recordando o seguinte episódio da história profana: Nas famosas guerras púnicas entre Roma e Cartago (264-146 a. A seguinte observação parece do seu modo insinuar que a travessia se fêz pela parte setentrional do mar. O texto de Éx 14. parte que atualmente já não existe: o texto biblico fala de passagem do "Mar dos Juncos". 1955). que no desastre hajam perecido todo o exército do Egito e o Faraó.46. os cartagineses não se preocuparam com a defesa dessa zona. autor que apela para H. ó deixaria de soprar logo que o povo eleito o pudesse dispensar (sabe-se.era o modo maravilhoso como se tornara transitável o vau: o vento fôra suscitado por Deus no momento favorável a Is±ael. lix 14.23. aliás. Keller.7-17) A Moisés sucedeu Josué no govêrno do povo de Deus. w. Ora aconteceu que um vento Inesperado removeu as águas e permitiu que quinhentos soldados romanos tivessem acesso a Cartago (cf. 55-61. Ora às margens do Mar Vermelho não se encontra o arbusto do junco. se se têm em vista os térmos muito sóbrios com que os historiadores greco-romanos se referem ao assunto. Polibio 10. Histoire d'Israel. 14 a. (Düsseldorf. Heinisch.9.Red Sea".C. Tito Livio. 135. 2.4s). contudo não se lhe pode atribuir grande pêso na exegese do Êxodo. é possível que tenha tomado parte na expedição.

Não se via como a multidão de Israel poderia atravessar. a torrente tem aí a largura de 80 m aiíroximadamente. e os filhos de Israel o transpuseram fàcilmente. por ação de um terremoto.26 e 1 Crôn 12. ainda em 1927.15). assim o leito da corrente apareceu sêco. ocasionando a cheia brusca e impetuosa do rio (cf. então. quis reproduzir o portento realizado no princípio da obra de Moisés. paralelamente ao que se deu na travessia do Mar Vermelho. 16 E como se deu a intervenção divina? A caravana israelita estacionou à margem esquerda do Jordão. a 25 km ao norte de Jericó). constituíram repentinamente um muro imóvel em Adom. o Senhor. Não é necessário. a corrente chegou a derrubar e arrastar algumas destas. no início da missão de Josué. sabe-se que em 1267 o sultão do Egito Melik-Daher-Bibars II desejava mandar construir uma ponte sôbre .0 Jordão na região de El-Damieh. diante da cidade de Jericó.7. os sacerdotes detentores da arca permaneceram imóveis por todo o tempo da travessia.23."PRODÍGIOS" E PEODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 213 giógrafo. detendo-se perto da cidade de Adom (hoje El-Damieh. entrassem no rio. Então o Senhor mandou que dois sacerdotes. apressaram-se em consolidar os Cf. A semelhança dos dois fenômenos é de certo modo explicada pelo texto sagrado: conforme Jos 3.7. logo que isto se deu. 4. desabaram sôbre o leito do rio. situada no além-rio. mas é pouco profunda. cuja altura atinge 13 m. o ímpeto das águas. época em que o sol da primavera faz derreter as neves do monte Hermon. Corria então a época da messe (março-abril). por exemplo: O Senhor disse a Josué: 'Hoje começarei a exaltar-te aos olhos de todo Israel. 16 . contràriamente às leis da natureza.'" Seguem-se as instruções para a travessia do Jordão. carregando a arca da Aliança. a fim de mostrar a Israel que Deus dirigia o novo guia como sempre orientara o anterior. a caudal interrompeu o seu curso. porém. e que fàcilmente desmoronam. verificaram que o Jordão deixara de correr. depois de implantadas. como estive com Moisés. a pé enxuto. retiraram-se e o rio continuou o curso normal. Além disto. na região de Adom (El-Damíeh) as águas do Jordão correm entre bancos de argila. admitir tão estupenda intervenção do Criador. terminada esta. à luz de tochas. porém. no episódio. dificultava grandemente o lançamento das pilastras de base. para que saibam que estarei contigo. Que interpretação se há de dar ao texto bíblico? Nada se pode objetar a quem julgue que as águas do Jordão. Com efeito.14. Edo 24. obstruindo o fluxo das águas pelo espaço de 21 h. nessas circunstâncias a própria natureza veio em auxílio aos operários: à meia-noite de 7 para 8 de dezembro. Jos 3.

Não há dúvida. confiantes no poder de suas muralhas. Foi então que. por seis dias consecutivos deram processionalmente a volta da cidade (a qual não devia ter perímetro muito longo. O texto bíblico referente ao episódio (Jos 6. a estas os quarenta mil filhos de Israel (cf. o que se verificou: Havendo os filhos de Israel acampado diante de Jericó. as águas.1-20) parece ter sofrido glossas no decorrerdos tempos. sómente pelas dez horas da manhã.1-20) Logo após a travessia do Jordão. porém. prestando-se atualmente a diversos ensaios de reconstituição e interpretação. obtendo por fim estrondosa vitória. em conseqüência. " Ora. que levavam a arca de Javé. 1933). quiseram investigar a causa do fenômeno: enviaram rio acima exploradores a cavalo. a fim de se certificar da futura estabilidade da obra. as muralhas de Jericó desmoronaram e os assaltantes puderam penetrar na cidade. É o que a Sagrada Escritura explicitamente recorda num dos livros posteriores do Antigo Testamento: 17 Noticia devida a F. os desfiles se fizeram ao som das trombetas dos sacerdotes. após haver vencido o obstáculo. § 40 A QUEDA DOS MUROS DE JERICÓ (los 6.13) responderam imediatamente com brado poderosíssimo. se os fatôres naturais na zona do Jordão podem produzir tais fenômenos. Abel. f echaram-se no interior destas. 1 (Paris 2 . 481. Tiveram que se dispor ao assalto do reduto inimigo. efetuaram sete circuitos. esperando que a penúria ou alguma inclemência da natureza obrigasse os invasores a retroceder.214 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fundamentos da ponte. Géographie 4e Ia Palestine. após os quais ressoaram as trombetas. junto com os sacerdotes. se espalhavam pelo vale ao norte do dique. é plausível afirmar que Deus se tenha servido de semelhantes meios para possibilitar aos israelitas a passagem do rio. os guerreiros hebreus. .-M. que só se verificou por intervenção extraordinária de Deus. pôde a torrente retomar o seu curso normal. Jos 4. em grandes linhas. habitada por cananeus hostis. No sétimo dia. ademais as recensões hebraica e grega apresentam pequenas divergências entre si. Eis. a mandado do Senhor. os filhos de Israel defrontaram-se com a cidade de Jericó. os quais averiguaram que enorme bloco de terra da margem ocidental se havia precipitado no rio. constituindo uma barreira artificial. os habitantes da cidade. para poder ser bem defendida). em conseqüência. Contudo. trata-se aqui de um feito maravilhoso.

e o desmoronamento subseqüente? Pressupondo que eram um estratagema bélico." (2 Mac 12. Alguns apelam para o testemunho de cronistas da antiguidade. é obrigado a afirmar que as "passeatas" dos israelitas se realizavam em absoluto silêncio. Como se procede para enganar os que são sitiados. nem toque de trombeta nem clamor de guerra emanava de Israel. julga o Pe. com seus toques de trombeta. reconduzindo-as. Domício transformou essa espécie de passeata em ataque repentino. E. 2." Merece atenção o fato de que o autor refere êste estratagema sob o título "Dc faflendis ijis qui obsidebuntur. visto então que negligenciavam o serviço de vigiláncia. e os moradores se renderam. distingue dois documentos fontes do 18 Stratagemata. Muito freqüentemente mandava que tôdas as suas tropas desfilassem ao redor da mesma. porém. fizeram repetidos circuitos da cidade ou do acampamento sitiados. apelando para critérios filológicos. Abel. sem catapulta e sem máquinas de guerra. Abel O.) Contudo não pode deixar de chamar a atenção o artifício prescrito pelo Senhor. professor da Escola Bíblica de Jerusalém. os exegetü têm procurado estabelecer um nexo entre ésses desfiles e a vitória final. ao acampamento. mas também às que enganam e desnorteiam o adversário). Precisava o Todo-Poderoso de que os israelitas fizessem o circuito da cidade para que lHe desmantelasse as fortificações 2 Que relação há entre as procissões. 3. 1."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 215 "O soberano Senhor do mundo. os quais referem que tropas assaltantes. com o fim de ludibriar o inimigo." IS Baseando-se neste testemunho. derrubou os muros de Jericó nos tempos de Josué. para construir a sua hipótese. em um ou outro caso. P.15. Eis. autor da obra Stratagemata (catálogo de estratagemas) sob o Imperador Domiciano (81-96) "fornido Calvino cercava na Ligúria a cidade de Luna. de sorte a não provocar suspeita ou alarma na cidade de Jericó. por exemplo. Assim 1. que o ilustre exegeta. a seguir. É de notar. A cidade foi tomada. que Josué recorreu a tática semelhante com a intenção de fazer crer aos habitantes de Jericó que os seus planos eram pacíficos e não visavam uru ataque à cidade (em tempo de guerra justa. torna-se lícito o recurso não sõrnente a manobras cruentas. o que narra Sexto Júlio Frontino. Esta tática incutiu aos habitantes a convicção de que os romanos não queriam senão exercitar-se. a fim de inferir êste traço da narrativa bíblica. localidade defendida tanto por sua posição geográfica como por obras de fortificação. ..

-M. como também nada de sério se lhe poderia objetar. Abel4 "Les stratagèmes dans le livre de Josué". documentos dos quais o primÉlto. o "fundamental". isto tudo os fazia temer (cf. em Revue bibflque ) 56 (1949). É o que a toma discutível. lhe parece narrar unicamente desfiles silenciosos! 19 A sentença do Pe[ Abel não deixa de ter autoridade. como se mostrara mais poderoso que os dos egípcios e de outras nações. Josué soltou o brado de avanço. Êstes admitiam. o número setenário (dos desfiles.8-11). dada a escassez de dados. ° CI. teriam tido por fim aterrorizá-los! . a existência de um Deus próprio dos israelitas. Esta sentença não pode ser comprovada de maneira decisiva. Há queüi. protetor poderoso desta gente.mdo. A ostentação da arca (quase "estandarte" da teocra. Sôbre êste fi. sendo símbolo de totalidade. sim. os desfiles dos israelitas podiam-lhes parecer equivalentes a uma tomada de posse do terreno em nome do Deus Forte de Israel. julgavam que os respectivos deuses pugnavam entre si. junto com os povos que se defrontavam. 325s. . para os antigos. Jos 2.216 PARA ENTENDER O ANTIGO. a guerra era ação religiosa. haviam ouvido falar dos prodígios realizados por Javé em prol dos hebreus na saída do Egito. ainda fica margem para a pergunta: como se deu o assalto à cidade após a preparação psicológica dos sete dias? Sem poder reconstituir o quadro com precisão.cia israelita) acompanhada pelos sacerdotes e os guerreiros. já não terá encontrado grande resistência por parte dos defensores da cidade. 20 ora no caso parecia que o Deus de Israel se anunciava mais forte que os deuses de Jericó. os exegetas por vêzes sugerem um ou outro particular que a narrativa lhes parece oferecer 19 F. Assim os desfiles em tôrno de Jericó teriam desempenhado o papel de causar pessimismo psicológico e religioso aos assediados: quando no fim dos sete dias de estratagema. na travessia do Mar Vermelho e no deserto. o toque das trombetas. explorando êste estado de alma. explique de outra maneira o valor bélico dos circuitos praticados pelos filhos de Israel. 125-128. apelando igualmente para a mentalidade e a praxe dos antigos. 2. pãgs. Caso se admita uma das duas hipóteses acima propostas. Em vez de tranqüilizar os habitantes de Jericó. Contudo baseia-se num postulado que não pode ser estabelecido com segivança. dos dias de cêrco). devia insinuar a êsses homens a ruína total que o pujante Senhor lhes destinava. condenando-os ao anátema. TESTAMENTO texto atual de Jos 6. o brado final deviam ser ritos aptos a impressionar os "supersticiosos" moradores de Jericó. É preciso não esquecer que.

29s. sim. Uma consideração mais atenta dos trechos sagrados insinua que o seu significado primordial é de outra ordem: é significado religioso. os estudiosos fazem notar a precisão de topografia e de sinais. Esta mulher."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 217 os espiões que. por exemplo. em Vivre et pense?. atraiçoando os concidadãos. no diálogo travado entre Rahab e os exploradores (cf. 1943). decidira salvar-se com os seus familiares.15). J. não possuem senão o valor de suposições mais ou menos fundadas no texto e na arqueologia. isto é. Jos 2).. 1935). enquanto operários israelitas cavavam galerias debaixo das muralhas de Jericó..-Rops. J.16. os filhos de Israel teriam conseguido penetrar na cidade. concluíram um pacto com a meretriz Rahab. Le chanoine Albin Vait Hoonaeker (Paris. eis os têrmos com que. teriam capitulado. os invasores lhe teriam ateado fõgo. terá." (1 5am 25. Não se pode insistir sõbre o papel estratégico de tais procissões. Tournay por sua vez preconizam. . o pânico teria então irrompido em Jericó. 24 3. "A propos des muralUes de Jéricho". desfalecido de terror após o estratagema de Josué. Tournay. e não as muralhas. poupando apenas a casa de Rahab.15-20). homens de Davi nos serviram de muralha (homait) tanto de noite como de dia. Coppens. estiveram em Jericó (cf. cuja casa estava situada na periferia da cidade (cf. Se. o Apóstolo de Cristo se refere ao episódiõ: 322s. logo que se propusessem empreender o assalto. 21 pode-se interpretar em sentido figurado o têrmo hebraico geralmente traduzido por "muralha". 21 22 a. embora muito eruditas. uma vez terminados os trabalhos. a recomendação de silêncio. Para apoiar a tese. Aproveitando-se da situação confusa e das ruínas causadas pelo incêndio. 2. permitindo o ingresso na cidade sem desferir algum golpe. 163. o brado mais forte teria sido sinal para que pusessem fogo à armação de madeira que sustentava os muros e se retirassem.. Éstes. metafórico que êle ocorre. ibid.) 23 É esta a sentença de A. Com efeito. Estas diversas conjeturas formuladas para explicar os desf iles dos israelitas como estratagema bélico. teriam caído. prometido dar ingresso aos invasores pela sua casa. 24 Sentença brevemente referida por D. não militar. antes do cêrco da cidade. van Hoonacker. 23 o toque diário de trombetas teria sido um artifício para prender a atenção dos habitantes de Jericó. no fim da Escritura. pois. com valor homah. os homens que montavam a guarda às portas de Jericó. .16. série (1945) • 304-6. posta no perímetro das muralhas. • ' Os a. Histoirc Sai nte (Paris. coppens e E. 2. que J. 22 Significaria então a guarnição militar. em 1 5am 25. Entrando em Jericó. É. crendo que realmente Javé havia de entregar Jericó aos hebreus.. .

26 à semelhança do que se verificou posteriormente numa bataiha 25 "A fé pouco se preocupa com os meios.30. em recompensa da fé. depois de se lhes haver dado a volta durante sete dias. ei objeto era hacer ver a Israel que ei resultado Javorabie se debite no sólo a las armas. que dispensa máquinas de guerra desde que le queira realizar algum desígnio. L'Epitre auz Ei ébreux. RI carácter religioso de ia cosa. Isto quer dizer que.) Esta breve frase estabelece um nexo entre a fé dos israelitas e a conquista de Jericá. Schulz. 349. Depois de ter experimentado essa fé. mientras por otra pane ei proceder de los israelitas fué un hermosisimo testimonio de su confianza en Dios. Ef 6. Ademais não se pode esquecer que a conquista de «Jericá tinha significado religioso. são superados os obstáculos mais pujantes que se opõem à posse da Terra prometida. . encaminada a dirigir los altos destinos dei pueblo. Tais cerimônias foram prescritas pelo Senhor.eficaces eran en si miemos los medias empleados. 1946). mas estos sefzaiaban ya de ant em ano ei instante dei dernsmbamiento y excinian.218 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Foi pela lê que Os muros de' Jericú desmoronaram. 25 Cf. Histoire d'israel 1.30). antes do mais. como as guerras de Israel em geral (cf. etc. por consiguiente. Se tivésseis fé como um grão de mostarda!" C. Histoire d'israel et de l'Aiwien Orient (Paris. toda expliccicián natural dei hecho. porque Deus intervém comprovando-a. Das Buck Josue (Bonn. graças às armas (Ia fé (cf. 1 (Barcelona2. sino a DiOS. 177. 1935). 25 Firme êste princípio básico para a interpretação do episódio. págs. M. 277. Texto de Schusber-Holzanuner. Spicq. ei sagrado número siete. 1924).. Bons autores pensam que permitiu um terremoto em momento oportuno. O. Dennefeld. e a conquista da cidade medearam os desfiles de sete dias. foi aquela que de Deus obteve esta. seja aqui transcrito ainda o testemunho de recentes e abalizados exegetas católicos "Las ejete vueitas alrededor de Jericó con ei Arca de ia Alianza tiene mede manobra militar que de religiosa. a manobra adequada . II (Paris. os hebreus. praticando aquêles artifícios (cujo valor militar é incerto e não importa muito no caso). não nos seria lícito fechar os olhos a ulteriores considerações: é bem possível que. A. como se Javé visasse ensinar aos seus fiéis um estratagema bélico. 22s. hicieron realtar ei suceso como obra de Dias. sín la anal no se hubiera realizado ei prodigio: 'Por la fe se derrumbaron los muros nos de Jericól" (Hebr 11. Porque no se derrumbaron las murailas por ei griterlc dei pueblo ti por ei resonar de las trompetas ti por ias siete vueltas. não. Historia bíblica.° 1. L. 361.13s). foram inculcadas primàriamente para que os filhos de Israel tivessem ocasião de exercer a sua fé. Ricciotti. Verdade é que entre a atitude de fé dos hebreus que assediaram Jericó. porém. 1953). professavam crer no Auxílio de Deus. sino por la omnipotencia divina. cuya eficacia tanto mãe resalta cuanto más in. eia alcança o que intenta. o Senhor se tenha servido de causas segundas. o Senhor recompensou-a com retumbante vitória. Os seus frutos são evidentes: a primeira grande praça-forte cananéia caiu em mãos do povo de Deus.. para entregar Jericó aos israelitas em prêmio de sua fé. n. 125-128)." (Hebr 11. .

12). Cf. mas se restringe ao episódio que realçava a influência do fator "fé" na campanha bélica. O térmo hebraico terou'a (clamor) • ocorrente no versículo acima citado. 27 Não terá dispensado de pequenos combates o exército de Josué.). . deixaram de se] sustentados pelo maná (cf. A resposta do Senhor ao seu povo consistiu certamente numa iatervenção poderosa. Núm 11. Os exércitos antigos costumavam desmcadear as suas batalhas mediante veemente clamor (alalá.2-36. 27 teus . 28 O clamor proferido pelo povo israelita imediatamente antes de assaltarem a cidade parece não ser senão a terou'a ou o brado de ataque que marcava o início das batalhas de outrora. Sab 16.5. Em suma.20-29) Ao entrarem os israelitas na terra de Canaã. a.. (ora Josué tomou Jericó por volta de 1200 a. a êstes alude Jos 24. Jos 5. Quanto à arqueologia.C.C." 28 Lembra o chefe israelita à sua gente: 'Os homens de Jencó combateram contra vós. é de crer que o texto do livro de Josué não nos refere a história completa da tomada de Jericó.6). o seu lado orietal foi mesmo totalmente arrazado. entre os germanos). . havia um terror de Deus. portentosa. Os arqueólogos discutem sôbre a época precisa em que se deu o desastre. a sua finalidade imediata era provocar um bem de ordem espiritual numa gente rude como Israel. 29 Nem se exclui a ação devastadora da sêde na cidade cercada. Éste vem a ser mais um ma bíblico por vêzes submetido a hesitações e interpretações. Em conclusão: as manobras dos hebreus em tôrno de Jericó têm primàriamente o significado de um testemunho da fé que Deus exigia de seu povo. pois a única fonte de abastecimento pode ter estado fora dos muros do reduto. como às• vêzes acontecia (cf. 1 5am 14. Jdt 7. entre os gregos. cujos pormenores não podemos descrever com exatidão. embora o assinalem geralmente ao intervalo que corre entre 1400 e 1200 a.11."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 219 contra os fiisteus." 2u Jos 6.15: 'O espanto apoderou-se do acampamento dos filisa terra tremeu. visto que o texto sagrado não fornece os elementos para isto. exprime um grito de índole fortemente gutural. Veja-se a propósito P.4-9. as excavações levadas a efeito desde 1908 no local da antiga cidade fizeram ver que a muralha de Jericó construída após 1600 a. 1946). sofreu destruição. cessou o regime extraordinário de alimentação qt e o Senhor Deus lhes proporcionara no deserto. ou seja. Analyse d'tia rite biblique (Neuchãtel. excitar uma sincera atitude religiosa perante o verdadeiro Deus.. § 5. como insinuam as letras r e ' do vocábulo. Humbert. 29. barritus.C. é onomatopaico. Eis o que as páginas sagradas a seu respeito referem.° o MANÁ (tx 16. La "Terou'a".

porém. Até os últimos tempos. surpresos. constituiu o maná o alimento não exclusivo.64 1). saindo do respectivo acampamento. de modo que os israelitas arrecadavam apenas a porção necessária ao dia respectivo. deram a tal substância o nome de man. exceto às sextas-feiras. também não se conservavam por mais de 24 h. Quanto à maneira de recolhê4o. que.220 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO Seis semanas após a saída do Egito. estêve e ainda está de pé a tese de que o maná foi especialmente criado por Deus para o seu povo. O texto sagrado fornece mais algumas informações sôbre o alimento maravilhoso: tinha a grossura do grão de coriandro. esta hipótese vai sendo mais e mais preterida. . também dos seus rebanhos e de víveres permutados com os povos que encontrava. de Israel (a caravana nômade ter-se-á nutrido.13-15. julgava-se que um inseto. terá utilizado afim de suscitar o fenômeno narrado pela Bíblia. que em 1823 a divulgou na obra Symbolae phygicae. Durante os quarenta anos da travessia do deserto. é produtor do maná. deviam-se observar cuidados especiais: os grãos se der retiam ao calor do áol. Como se há de entender esta providencial dispensação de alimento? Na tradição exegética.31). Eis.31). Averiguaram-se fatôres naturais que o Senhor Deus.6). sem o concurso de agentes criados. maná (cf. conforme o seu habitual proceder. Ehrenberg. um alimento. perfurando os ramos dêsse vegetal. muito abundante no Egito. único no seu gênero. encontraram por terra algo como grãos com aparência de geléia branca. de modo a se confeccionarem pães. teria caído do céu. os hebreus. em escala pequena. perguntavam uns aos outros: "Man liii? Que é isso ?" Ao que Moisés respondeu: "É o pão que o Senhor vos envia para vos nutrir. Êx 16. mas principal. o Senhor lhes 'suscitou um alimento especial: na manhã seguinte. de sorte que era preciso aprovisioná-los antes do nascer do dia. semelhante a gotas de geada. Na península do Sinai é. O autor causou sensação e surprêsa entre os seua contemporâneos. como se dirá abaixo. 30 Todavia em 1927 a 80 Esta tese se deve ao botânico alemão O. Núm 11. ou seja. cf. que. já conforme os antigos monges do lugar. grão que mede 5 mm de diâmetro. nos tempos atuais. oflmigrantes começarálfi a experimentar a escassez de víveres. Por sua tí'ansparência e consistência. comum um arbusto chamado tamaris mannifera. lhes fazia suar uma gelatina melosa. assemelhava-se ao bcieuium." Em conseqüência.7). Dt 2. na península do Sinai e no vale do Jordão. um gomor por pessoa (3. Tendo-se êles queixado a Moisés. sim. Núm 11.8 e lix 16. O seu gôsto parecia-se com o de uma torta feita com óleo ou mel (cf. resina aromática de côr levemente amarelada (cf. Podia ser triturado e cozido ao fogo.

A. 14 Para êsses autores." (Trecho do relatório da expedição de 1927.30 h. excitadas pela luz e o calor do dia. Ambrósia (t 397)."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 221 universfdade de Jerusalém enviou uma expedição à região do Sinal para apurar exatamente o processo. Theodor. 33 Cf. ainda hoje recolhido pelos beduínos. antes que as formigas. posta ao ar livre. sob forma de gotas brilhantes. as pedras. à semelhança de mel cristalizado. 1955. 53 (1930). logo que Moisés o anunciou e fora das épocas habituais (isto é. notem-se Flávio José.) Os textos acima foram transcritos da obra de W. Bodenheimer e O. 32 Em conseqüência. publicados em 1929. Das Buch Erodus. 304. tomando côr branca ou amarelada. Si davam a saber de maneira definitiva que a dita resina não se deve diretamente à tamaris maniviferar mas à ação de dois insetos sôbre o arbusto: a trabutina nwnniparo e o najacoccus serpentinus minor.1.o que se dá por volta de 8.1. quando o consomem. e possui sabor doce. 124s. dando um bloco da grandeza de uma avelã. são correspondentes aos do maná bíblico." (Relato devido a Breitenbach. É doce como o mel. Ésse pão do céu cai de madrugada. 3. Recolhem-no de manhã muito cedo. os troncos das árvores. "Ergebnisse der sinaiexpedition 1927 der hebraeischen Tjniversitaet Jerusalem". 64. 63-75. Clamer. 34 Além da tradição dos monges do Sinai. o maravilhoso na produção do maná foi o modo como Deus provocou o seu aparecimento: dispensou. 134-7.1 não hesitam em identificar êste com aquêle. em La Satnte fibra. que os monges e os árabes recolhem. pousa sóbre a erva. de tamanho variável entre o de uma cabeça de alfinête e o de um grão de ervilha. L'Exode ei Levitic (La Biblia. prende-se e adere aos dentes. a goma produzida se solidifica. 92-100. o levem: "As formigas começam a sua atividade de aprovisionar depois que o solo tenha atingido a temperatura aproximada de 21° Celsius . A. de Pirot-Clamer. em Zettsohrift das d. é aromática. "Neue Forschungen auf der Sinailialbinsel". 32 Os árabes ainda atualmente exploram e exportam tal produto. S. Heinisch. compramo-lo em boa quantidade. fora também das regiões 31 a.) Estas notfcias se podem completar pelo que a respeito do maná referia um peregrino do Sinai no ano de 1483 "Em todos os vales das cercanias do Monte Sinai. de mais a mais que já na antiguidade se insinuava tal sentença. exegetas modernos 3. sim. diàriamente ou quase diáriamente. Ant. diversas gotas se podem conglomerar. 238s. . ri (Paris. Unct dia Bibel hat doch recht. 1.6. à semelhança de orvalho ou geada e. Ricciottl. guardam e vendem para os peregrinos e estrangeiros que lá vão ter. Fr. durante os quarenta anos de travessia). lllstoire d'israel.eutschen Palaestina-Vereins. muito alimentícia. por éles denominado Mann es-sarna. Ubach. encontra-se atualmente ainda pão do céu. Como se depreende. P. a mencionada geléia em quantidades extraordinárias (de sorte a sustentar milhares de homens). decano da catedral de Mogúncla. Düsseldorf. até êste momento permanecem inativas. 1946). aspecto e gôsto do produtõ da tamaris mannif era. "Les Nombres". maná do céu. exceto aos sábados. Kaiser. Éstes animatzinhos sugam a seiva do vegetal e a expelem sob forma de gotas resinosas. S. os resultados das explorações. G. ilustrado pels monjos de Mont Serrat). KelIer. ep.

Os seus armazéns de reserva estão cheios de cevada e cereais. Diàriamente recebe a cidade carne fresca e alimento. mais saboroso do que o mel. assim como dos pepinos. ao passo que aos sábados não era dada (particular que inculcava ao povo a observância do dia do Senhor). celebremos aqui as festas do céu e o inicio das estações do ano 1" Texto publicado por Keiler. 1 a. Demorar-se lá acarreta vida ideal. preponderantemente na península do Sinai e em quantidade que nos melhores anos é de 300 k aproximadamente. 114.4-6. Também se devem a extraordinária intervenção divina os seguintes pormenores: o maná às sextas-feiras caía em porção dupla. ideal.o que devia incutir confiança no Senhor.222 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que hoje costuma crescer a tamarts mannif era (isto é. Ora. O mesmo deus Ra fundou-a segundo o plano de Tebas. só pode ser entendida se se reconstituem as circunstâncias em que foi escrito o livro da Sabedoria. vinho doce. Quanto à afirmação de Sab 16. O canal do deIta Shi-Hor fornece sal e salitre. azeitonas e figos nos pomares. que para cada dia distribui o necessário (cf.C. transformando-se no que cada qual quisesse". maçãs.C. as suas planícies estão recobertas de capim verde. atingem a altura do céu. O autor de Sab mostra-se fiel expressão desta tendência: já que o maná fôra tão evidente sinal da futura instauração do reino messiânico.19-30). Eia.zara para instalar Israel em Canaá (séc. 'por todo o percurso dos israelitas a partir das fronteiras do Egito até a entrada na Palestina). e as suas frutas nos campos cultivados têm o sabor de mel. Aqui há todos os dias viveres frescos e carne. Há cebola e alho para os alimentos. Os seus campos oferecem multidão de coisas boas. sabe-se que normalmente o maná só se produz nos meses de maio a agôsto. pois. tJnd die Bibei hat doou. e ninguém exclama: 'Queira Deus!' A gente miúda vive como a gente graúda. os feitos grandiosos que o Senhor reali.) foram sendo mais e'mais considerados em perspectiva otimista. em Alexandria. durante a semana o maná conservada por mais de 24 h se deteriorava . eram. conforme a qual o maná "proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paiadares. recht. cidade opulenta como nenhuma outra. as suas lagunas estão povoadas de aves. como também há romãs. evocados em têrmos idílicos. XIII a. e vejo que é maravilhosa. Êste teve origem no séc. Agora nossa alma está ressequida. Todos se alegram por poder viver nesta terra. . melões. à luz do reino messiânico que êles preparavam. pois. o hagiógraf o não hesitou em apresentá-lo como alimento delicioso. Os seus lagos estão cheios de peixes. Nada mais resta! Nossos olhos só vêem maná." (Núni 11. As naves vêm e vão-se. na realidade. os quais protestaram contra o alimento miserável que repetidamente lhes era dado: "Quem nos dará carne para comer? Recordamo-nos dos peixes que comiasnos gratuitamente no Egito.20s. das cebolas e do alho. no decorrer dos séculos. notamos que a fartura de viveres do Egito (região -de Ramsés) é atestada por um papiro da época em que os israelitas eram súditos •de Faraó. Éx 16. sabe-se que os grãozinhos pareceram insípidos aos hebreus.) 35 35 A título de ilustração. É o jovem discípulo Pai-Bes que assim escreve ao seu mestre Amen-em-Opet: "vim ter a Casa-de-Rarnsés-o-Favorito-de-Amon (= cidade de Ramsés).

durante quarenta anos. de novo apareceu o anjo num caminho estreito. resolveu recorrer ao poder religioso: lembrou-se de um mago residente em Petor. só proferiu os oráculos de bom presságio para Israel que o Senhor Deus lhe inspirava. conforme o desejo dos que o comiam. porém." J. do fato de que. mago e repreendeu-o por ter encetado tal viagem. Ao viajar para Moab sôbre um jumentinlio. Como Balaã espancasse veementemente o animal.28). legados portadores de ricos presentes e promessas. de modo que o jumento só pôde passar atritando o pé de Balaã contra as pedras do muro. o anjo se postou em lugar tão estreito que o asno. o qual explicou que algo de extraordinário se dera. "o Senhor abriu a bôca do jumento" (22. de Pirot-Clamer. 6 "O maná tomava os sabores tais diversos. 511. pois. em terceira aparição. 36 § 6. Então o anjo se tornou visível também ao. Mandou. Aconteceu que o nimor das vitórias dos hebreus sôbre povos que haviam tentado criar-lhes obstáculos aterrorizou o rei de Moab. assustou o animal. exaltadamente otimista do livro da Sabedoria deriva-se das leis do estilo épico em que o hagiógrafo escreveu. apesar das insistências contrárias de Balaque.22-35) Ainda na travessia de Israel pelo deserto deu-se um episódio que chama a atenção tanto do estudioso como do curioso: é um aspecto do encontro da caravana nômade com o mago Baiaã. em La Sainte Bible. Chegando a Moab. não é notícia de historiografia estritamente dita. porém. Balaã. todos os israelitas encontraram no maná o seu sustento. renovando a condição anteriormente expressa. fazendo que se desviasse da estrada e entrasse nos campos. obteve licença para seguir via' gem. Reputando-se incapaz de conjurar o perigo pelas armas apenas. permitia-lhe. VI (Paris. por isto não quis partir sem consultar o Senhor. de espada na mão. 'Le livre de la Sagesse". de não proferir sôbre Israel senão os oráculos que lhe fôssem inspirados do alto. Weber.° BALAA E O ASNO QUE FALOU (Núm 22. 1946). os quais lhe rogaram fôsse ter ao país de Moab e de lá amaldiçoasse os israelitas acampados na vizinhança. continuar. junto ao Euírates. A história assim descrita pelo livro sagrado pede algumas explicações para ser devidamente entendida. É esta a expressão poética talvez hiperbólica. era Balaã."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 223 A afirmação. o qual viu ameaçada a subsistência da sua gente. se deitou por terra. à condição. Após insistência. Balaã era temente à Divindade. Baiaque. pois. o qual lograra fama em todo o Oriente. não podendo prosseguir. . experimentou estranha aventura: um anjo de Javé.

Eis. Exercia a profissão de mago ou adivinho. em grande parte por intermédio dos mercadores que comerciavam assiduamente entre o Egito e a Asia anterior (cf. lu reconhecia a existência e o poder respeitável do Deus de Israel. 11 O fato de que êle reverenciou o Deus de Israel. os judeus lapidaram Onias (Ant. que Balaã é pagão. não deixava de admitir as divindades dos outros povos.224 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em primeiro lugar. que. vivia perscrutando os sinais que & natureza ou artifícios secretos lhe ofereciam (cf. os quais lançavam mão de expedientes excogitados pelos homens ou pelo demônio.18 Balaã chama Javé "meu Deus". Filo. não quer dizer que habitualmente Lhe prestava culto nem mesmo que era monoteísta.7-10. invocara a Divindade (o mago ter-se-á dirigido simplesmente ao Poder Divino competente para o esclarecer no caso).15s. Na história do povo de Deus. sinais mediante os quais julgava perceber os desígnios da Divindade. 1 d. temeroso. 37 A praxe de oferecer ricas dádivas aos adivinhos é atestada também por Dan 2. judeu alexandrino do séc.50-52). De vita Mcnjsis 1.). 24. 38 Em NCun 22. ao lado de Javé. que a figura de Balaâ. não israelita.5-25). Excetua-se. que acima de Deus estima os seus interêsses próprios. que considera Ealaã como defensor do povo de Israel contra Balaque. Êx 15. Jud 11. porém. Comunicou-lhe alguns de seus desígnios a respeito de Israel.C. Miq 6. 14.3-9. mas não raro recebiam gratuitas comunicações do verdadeiro Deus.9. porém. o qual diflcilmente se entenderia na bôca de um adivinho pagão.C. eram os magos e adivinhos. 24. o qual pela oração obtivera chuva numa época de sêca. . A versão grega dos LXX. omite e pronome possessivo. embora tenha deixado vaticínios de ótimo agouro para Israel. porém. 39 As noticMs se haviam propagado ràpidamente nas terras orientais. 40 ficou sendo o tipo do homem avarento.14.48. Entre os pagãos. como se entende. Núm 22. materiais. J05 2.6. J05 24. O Senhor Deus se dignou responder a Balaã. note-se. Segundo a mentalidade comum dos pagãos. conforme o texto hebraico atual e a vulgata latina.4s. o que não supõe necessàriamente santidade na respectiva criatura (cf. fê-lo assim instrumento de autênticas revelações nos oráculos que proferiu (cf. não recorriam a artifícios mágicos (invenção humana). 18-24. Apo 2.7. Onias. isto é. em troca de seus oráculos.1). Dada a eficácia que atribuiam a esta maldição. vivia um homem justo e amigo de Deus. 5. 2 Pdr 2. os quais.3. 40 Cf.7). deixando-se guiar pelas suas inspirações. passou para a tradição judaica e cristã com nota depreciativa. Pediram-lhe que amaldiçoasse Aristóbulo e seu partido. Jdt 5. 15-24). expedientes sujeitos à falibilidade como os seus autores. tendo tido conhecimento de quanto o Senhor fizera por seu povo desde a saída do Egito. chamado Onias. Núm 23. Em Israel êsses homens de Deus eram os justos. e não queria incorrer no seu furor. Núm 23.9s. antes de falar.. 1). rogou a Deus que não atendesse às orações nem de uma nem de outra facção. recebia paga correspondente (cf. 2. 38 apenas.6. Atribula-se na antiguidade eficácia infalivel às palavras de bênção ou maldição proferidas por um 'homem de Deus". o caso de Caifás em J0 11. Dt 23. o escritor Flávio José narra o seguinte episódio: Durante a guerra civil entre João Ifircano e Aristóbulo (67-63 a. porém.14.

Assim o episódio . por um emissário. considerando a narrativa inteira como lenda. impedido a viagem que file mesmo pouco antes autorizara (cf. sonho de Balaã. as graças do Senhor foram em Balaã suf ocadas pela cobiça de vantagens temporais e pela amargura de não as ter alcançado. Conforme outros exegetas. irritado. são ditadas pelo desejo de não admitir o sobrenatural no curso dos acontecimentos. Balaã tudo fêz para não perder os ricos prêmios que lhe prometia Balaque caso amaldiçoasse.38). Embora já antes de partir para Moab soubesse que Deus abençoara Israel (cf. refletindo consigo. Ora uma viagem com tal propósito não podia deixar de desagradar ao Senhor. como em vários outros casos. Balaã ouviu simultâneamente a voz da consciência. 22. a qual o censurava amargamente por estar viajando com propósitos contrários ao Senhor ou por se haver deixado obcecar pela perspectiva do ouro. a fim de não perder o salârio devido às suas fadigas. aos quais o oriental. a única explicação possível do texto sagrado. Não é esta.20 e 22) ? O proceder se explica bem se se admite que Balaã não viajava com a disposição de ânimo (docilidade às futuras comunicações divinas) que o Senhor lhe incutira ao permitir a partida.16). não excluiu a possibilidade de amaldiçoar (22. muito impressionável. mas Balaã interpretou-os como admoestação que Deus lhe dirigia.18s).. Em suma. não tendo recebido licença para isto. Não faltaram os que lhe denegaram historicidade. às instâncias do rei quis dar resposta favorável. mito popular.. Entre os que defendem a realidade histórica do episódio. esperando que Deus mudasse os seus desígnios (22. se rende com mais facilidade. A repreensão se efetuou com o concurso de fenômenos sensíveis. 22. o animal espancado emitiu os sons queixosos que lhe são habituais.. voz de Deus no seu íntimo."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 225 Por que isto? Será essa a genuína face de Balaã? O texto sagrado o explica.. visão de alucinado etc. Já que o fenômeno foi ocasionado pelas aparições de um anjo que dificultava a caminhada. 1 nesta perspectiva que se deve considerar o episódio do jumento que falou ao mago. em outros têrmos: ouvindo o asno. pergunta-se antes do mais: por que terá Deus. enquanto cavalgava. há quem julgue que o asno produziu realmente sons de linguagem humana. Tais sentenças. chégando à terra de Moab. terá tomado a resolução de amaldiçoar em qualquer caso.12). que houve por bem chamar Balaã à ordem. persuadindo os madianitas a seduzir o povo para a apostasia religiosa (cf. procurou desforra: tentou mais tarde levar Israel à ruína. porém. mas. o adivinho. Assim entra em cena no texto bíblico o asno que fala. 31.. não ousou desobedecer para não se expor ao castigo conseqüente.

. episódio que é mais do que a história de um animal que falal. no ânimo do adivinho em viagem. ed. De vita Moysis.1. visando maior ênfase. do outro lado. n. um dos chefes que Deus suscitou ao seu povo no período que corre entre a morte de Josué. filho de Bosor. Não se lhe pode opor o texto de 2 Pdr 2. e a paixão da avareza. 42 L'Ancien Testament. se travou entre o temor de Deus. A visão e os dizeres do anjo. mas foi repreendido por sua desobediência: um animal mudo fêz ouvir voz humana para reprimir a demência do profeta. Não havia govêrno organizado em Israel nessa época. foi autorizado a prosseguir viagem. Gregório de Nissa (t 394) se fazia arauto da explicação mais larga acima proposta.226 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO não viria a ser senão o relato vivo e dramático da luta que. consciência do mago é que os berros desarticulados do animaL tomaram o vulto e o significado das palavras que o autor sagrado. em conseqüência. povo . "Les Nombres". disto se prevaleciam os cananeus vizinhos. chefes esporá41 Alguns dos antigos julgavam tratar-se do arcanjo S. terão corroborado a voz da consciência e feito que o adivinho se rendesse finalmente à admoestação do Senhor. Êsses homens. a fim de que debelasse os inimigos. coloca diretamente na bôca do jumento. amou o salário da iniqüidade. § 7.. Miguel. II. 41 sobrevindo a êsse estado de alma de Balaã. Migne gr. não a realidade material dos fatos. De MoIse à David.15s: "Balaã. ou seja. 1896." 42 O que acaba de ser exposto parece pôr em suficiente evidência o sentido religioso e autêntico do episódio de Balaã. Esta última interpretação é muito digna da Sabedoria e da Providência divinas. de um lado. 386s. visa o ensinamento moral. 216. em La Sainte Bible. Já S.. Clamer. conquistador da terra de Canaã (1200). acontecia que o Senhor infundia a um israelita coragem e poder extraordinários. 44..° 1. Eis o que a Sagrada Escritura lhes apresenta: Sansão foi um dos grandes Juízes. tutor do de Deus segundo Dan 12." É o Cardeal Meignan quem observa: "O Apóstolo fala conforme a opinião comum dos judeus. sàmente na. e o início da monarquia (1020). 421. Nas ocasiões de maior tribulação.° A HISTÓRIA DE SANSÃO (Jz 13-16) Muito explorada tem sido a figura de Sansão pela fantasia tanto dos homens simples como dos artistas. para atacar e oprimir o povo. Propugna-a outrossim A.

refazendo a estrada. servindo-se dos seus despojos para pagar o que devia. predizendo o nascimento de um filho. deixar crescer os cabelos e a barba. que lhe dava energia de alma e vigor de corpo fora do comum. os filisteus perplexos foram pedir à mulher de Sansão. Cresceu. propâs aos trinta convivas do festim um enigma. nazir. Contudo. contra a vontade de seus pais. não há dúvida. Jz 13. abençoado pelo Senhor.31). Seria consagrado ao Senhor desde o seio materno (nazireu). Já que o menino devia ser desde o início de sua existência consagrado ao Senhor. porém. celebrava as núpcias em Tamna. Havia na tribo de Dã um casal estéril. dos lítigios cotidianos (cf. Em vista da sua cabeleira." (Jz 14. 42). coisa que ela obteve. Era êste o primeiro dano que êle infligia aos inimigos.23-26). à semelhança do que se costumava fazer no Oriente "Daquele que come. pág. após três dias de reflexão. e sua mãe. tocava á sua mãe. separado)..1-16. o israelita não se embaraçou para desquitar-se da dívida: irritado. onde matou trinta filisteus. dizia-se que o nazireu trazia na Õabeça a consagração ao seu Deus (cf. 44 No povo hebraico existia a categoria dos narireus (em hebraico. 43 "JuIzes". que eram homens ou mulheres consagrados a Deus por tríplice voto: abster-se de bebidas inebriantes e dos produtos da videira em geral. pagaria cada qual o mesmo preço.14. E do forte saiu o doce. observar a abstinência de bebidas em lugar do filho. foi a Ascalão. não se contaminar pelo contato de cadáveres (cf.7). enquanto o gestava. quis esposar uma donzela fiistéia da cidade de Tamna. lhe arrancasse o segrêdo do enigma. porque a função principal de quem governa um povo simples vem a ser o julgamento das causas. Ora o menino nasceu e foi chamado Sansão. Núm 6.. A caminho desta localidade. é muito marcada pelo maravilhosb. dado. At 21. A vida dêste herói. eram os chamados Juizes. os trinta filisteus receberiam cada qual uma peça de roupa fina e uma túnica preciosa. que êle matou com as próprias mãos. o jovem. " Tornar-se-ia o defensor de sua gente contra os filisteus hostis. após estas peripécias. que não lhe dessem a interpretação. foi certa vez acometido por um leão. saiu o que se come. Quando. Chegado à idade viril. viu no cadáver do animal um enxame de abelhas e mel. Núm 6. . enquanto o gestasse. se deveria abster de bebidas fermentadas e alimentos impuros. Ora. pelo que deixaria crescer os cabelos. O favor de Deus.2-8. Dias mais tarde. 41 entre os quais sobressai Sansão (cf."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 227 dicos de Israel.) Caso lhe pudessem explicar o sentido dêstes versas ao cabo dos sete dias de festa. não extinguia as tendências desregradas da natureza em Sansão. porém. ao qual um anjo apareceu por duas vêzes.

pelo que. Sansão rompeu seus liames. e sacudiu-as. certa vez. Soube. O herói. reuniram-se em seu templo. fazendo desmoronar a construção. a vítima agarrou-se às duas colunas que sustentavam o teto da casa. extinguindo-se desta forma. porém. . aonde mandaram levar Sansão. resolveu punir de novo os filisteus: capturou trezentas rapôsas.uma mandíbula de asno lançada ao chão . enquanto a escarneciam. apaixonou-se ilicitamente por uma mulher chamada Dalila. Um belo dia. refugiado então na caverna de Etam (país de Judá). revelou-lhe que tudo dependia da sua cabeleira. mandaram cortar os cabelos do lutador adormecido. Em represália. o homem valente foi à cidade filistéia de Gaza e deteve-se em casa de uma meretriz. porém. aprestavam-se a matá-lo de madrugada.. De volta à pátria. colocando-as sôbre os ombros. levou-as para uma montanha. Eis. Já sem fôrças. mas também as videiras e oliveiras. a altas horas Sansão saiu de casa. vigilantes. Levaram-no a Gaza. o israelita foi entregue aos inimigos. e deixou os animais assim atados debandar pelos campos de trigo dos filisteus. porém. como faziam as mulheres e os escravos. Ora. que estavam maduros para a messe. Os irmãos do herói prostrado lhe recolheram os despojos e os sepultaram no túmulo paterno. apoderou-se das portas da cidade e. Com isto. Os filisteus então f echaram as portas da cidade durante a noite e. fazendo que os demais fugissem de mêdo. Os fiisteus então muito insistiram para que ela se informasse a respeito do segrêdo da fôrça de Sansão. voltou a Tamna para rever a espôsa. que lhe crivaram os olhos. Em outra ocasião.228 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Tempos depois. os filisteus resolveram festejar o seu deus Dagon pela vitória obtida sôbre o tenaz adversário. apanhou o primeiro objeto que encontrou .e com esta arma improvisada espancou mil adversários. O herói consentiu em que seus conacionais o ligassem com duas cordas nQvas e levassem ao acampamento dos filisteus. Sansão pereceu. ao comparecer diante dêstes. que êle amarrou duas a duas pela cauda. que. o veemente incêndio provocado destruiu não só o grão. Entrementes a cabeleira de Sansão crescia de novo e o vigor lhe voltava. a cada par de caudas prendeu uma tocha acesa. provàvelmente israelita. mas. ataram-no com duas correntes e obrigaram-no a volver a mó de um moinho. Êste. que fôra dada em matrimônio a outro homem. finalmente. os adversários queimaram viva a mulher de Sansão e exigiram dos homens de Judá que lhes entregassem tão perigoso inimigo. Contudo. devia perecer vítima da sua concupiscência. causou a morte de maior número de filisteus do que durante tôda a sua vida. Indignado..

porque. Miás."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 229 A narrativa bíblica assim concebida tem inspirado interpretações diversas. das quais. Os pais do herói.sinal de uma adesão de alma a Deus. que o tornava vitorioso. simbolizam o sol 1 Outros preferiram traçar um paralelo entre Sansão e Gilgamesh. a título de ilustração. deus egípcio. instituição mosaica. Éste é um herói solar. significava a entrega ou consagração absoluta da criatura a Deus (a entrega era tal que não se queria cortar coisa nenhuma da pessoa consagrada). em virtude das suas côres. herói da Babilônia antiga. os seus cabelos seriam a designação figurada dos raios do sol. porém. embora se derive de shemesk. porém. pois. Aparentemente fabulosa é a notícia de que a fôrça de Sansão residia em sua cabeleira. as rapôsas e o asno teriam entrado na história de Sansão. o leão. a sua fórça extraordinária lhe provinha diretamente de Deus. pois. sejam aqui registradas algumas das mais curiosas explicações mitológicas: houve quem quisesse identificar a história de Sansão com o mito do Hércules grego. Enquanto Sansão foi fiel ao Senhor e às obrigações do nazireato (entre outras. as relações de Sansão com mulheres indicariam que o deus Sol é o deus da fecundidade e da geração. os episódios de Sansão contêm mais de uma alusão ao sol: o nome do lutador provém do hebraico shemesk. O nome de Sansão. era o fato de que Sansão estava consagrado a Deus e se deixava mover pelo Senhor. A história de Sansão seria um canto tradicional dos filisteus levemente retocado pelo hagiógraf o. portanto. à de não cortar os cabelos). Ora. Êste traço. desde. em grau maior ou menor. era assaz espalhado em Canaã sob as formas Shpsgyn (yn indicava a pertinência à Divindade). afirmam. na cabeleira de Sansão mais do que um sinal . sol. O autor sagrado haveria feito dêsse tipo pagão um nazireu israelita Já a variedade das tentativas de interpretação dá a entender que são. explica-se perfeitamente dentro do quadro religioso de Israel: deixar crescer o cabelo era um dos elementos do nazireato. tinha por figura central um herói cuja fôrça residia na cabeleira. tornou-se tão fraco como qualquer homem. Elshps. arbitrárias. explicação folclórica: alguns autores recorrem às narrativas populares. terão adotado um nome usual no seu ambiente. Em última análise. ou entre Sansão e Re. que caiu em infidelidade (dando ocasião a que o despojassem da cabeleira). era movido pelo Onipotente e se mostrava mais poderoso que tudo. sol. o texto sagrado mais de uma vez faz notar que o poder de Sansão . Não se queira ver. Ili-Shamshu. não é necessàriamente indício da sobrevivência de algum mito solar em Israel.

vê-se que não há razão para negar a historicidade dos episódios de Sansão. Como quer que seja. muitos episódios da história sagrada demonstram que um homem pode ter graves falhas morais e. docilidade a Deus) como segrêdo das vitórias dêste Jui2. cuja civilização era mais avançada que a de Israel (cf. saindo à noite. 15.32. e de suas correspondentes derrotas. É o que faz que o Apóstolo.15). Jz 14. ou seja. observe-se que Sansão paga sua dívida aos trinta filisteus. inspirado ao herói pelo Senhor. cidade bem vigiada. era.230 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO descia diretamente do Altíssimo (cf. ser utilizado por Deus como instrumento para a realização de grandes obras. 16. 5045 Mesmo o desígnio de se casar com uma filistéia. em oração humilde e confiante. pó-lo em contato com os adversários de Israel (ef. 15. 13. divertindo-se à custa de Sansão. Sansão. ao refletir sôbre a história de Sansão em Hebr 11. 14. arranca e carrega sôbre os ombros. Sansão foi descrito como o herói popular por excelência. a fidelidade que o Senhor pedia ao herói. conforme um grande plano.19-22). XIII e á de Sansão. cujas portas êle.19). Notem-se os traços de "humor" e sátira contidos na narrativa tal como a redigiu o povo e a consignou o hagiógrafo: o "humor" é muito vivo na cena dos campos que Sansão incendeia ateando tochas às caudas de rapôsas ligadas aos pares no episódio de Gaza. 46 Após estas considerações. porém. indique a fé (no caso. era simbolizada apenas pela conservação da cabeleira.16. Parece inegável. £ste. despojando os próprios filisteus! A ironia vem a ser também apologia religiosa no episódio final: justamente quando os pagãos celebravam a festa de sua Divindade. não obstante. a descrição das invectivas dos filisteus. Xi). exercendo especial providência em tôrno do jovem. Jz 14. Sansão foi moralmente fraco e cometeu pecados. Não há dúvida.4). esta já não era sinal. . reconhecendo que. infligidas por um só israelita. ora mais ora menos acentuado.25. dotado de coragem a tôda prova. que a fantasia popular explorou com deleite os feitos portentosos da história. séc. embora já tivesse recuperado a cabeleira. rejeitado pelos pais de Sansão. nas subseqüentes gerações de Israel. pediu o auxílio de Deus. como observa expilcitamente o hagiágrafo. intencionava. 14.8-10. alguns versos disseminados pela narrativa são expressões desta sátira (cf. mas também de paixões desregradas e espírito mordaz. nos tempos de Sansão. não pode deixar de decorrer num tom geral de sarcasmo. por sua infidelidade perdera o direito à tutela divina. séc. Todavia o nazireato de Sansão. 46 Julgam alguns exegetas que.619. 45 Para realizar o prodígio final. 1 Sam 13.14). em particular. a lei do nazireato ainda não impunha tOdas as obrigações consignadas em Núm 6 (êste capitulo poderia referir determinações posteriores á época de Moisés. parece não ter jamais observado a primeira e a terceira das prescrições impostas aos nazireus em Núm 6: evitar o toque de cadáveres e o consumo de vinho (cf.18s.

o desabamento do templo de Dagon ocasionado por um homem prisioneiro e cego que Javé movia. torna-se. a manifestação de que "a fôrça de Deus se expande em plenitude na fraqueza do homem que se Lhe confia" (cf. conforme a mentalidade do Antigo Testamento. É .poder-se-ia dizer . 2 Cor 12. a mais clara demonstração da inanidade do ídolo.nesta frase paulina que se compendia a mensagem perene da história de Sansão."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 231 freram a maior de suas perdas. .9).

Como acontece com qualquer obra literária. Levando. o Senhor Deus não quis privar os fiéis do conhecimento exato de sua Palavra únicamente por motivo de preparo intelectual. 1. e nos nossos dias em números assaz notável. a língua portuguêsa até hoje não conta uma tradução satisfatória da Bíblia. histórica e científica apresentadas nos capítulos anteriores convergem tôdas para um fim: aproximar do texto sagrado o fiel cristão. § 1. pois. porém.0 OS PRESSUPOSTOS DE FRUTUOSA LEITURA Sagrada. não se lê como outro livro. em conta a indigência humana. PRÈ-REQUISITOS NATURAIS A . traduções vernáculas. seja profano. é reservado a poucos. sem as quais mais ou menos vão ficaria o contato com as páginas sagradas.humano e divino .da Bíblia ordem natural e sobrenatural. seja religioso. o ideal seria ler a Escritura no seu teor original . E quais seriam as mais recomendáveis? Infelizmente. Está claro que. que êste último capítulo examinará tais pré-requisitos Q 1.CAFÍTULO XIV COMO LEREI A BÍBLIA? As indicações de ordem filológica. acrescentando normas práticas para o uso da Escritura (§ 2. promovendo a leitura assídua e frutuosa da Palavra de Deus. porém. Eis. antes do mais. o leitor deverá dar atenção aos predicados do texto que utilizará.0). cujo uso supre adequadamente o dos textos originais da Sagrada Escritura. aramaico ou grego. O texto lusitano dito de João Ferreira d'Almeida se deve a um pastor calvinista que nasceu em Lisboa (1628) e viveu muito . Existem. pois. os pressupostos de contato fecundo com a mesma são de Consoante os dois aspectos . O fato de que é obra divino-humana requer do leitor disposições próprias. A Sagrada Escritura. 0) . Êste privilégio. 0) e elementos de uma antologia bíblica (§ 3 .Boa edição do texto sagrado.hebraico.

Bonsirven e Tricot (Desclée. com interêsse que o público acompanha a publicação de nova tradução vernácula dos originais bíblicos devida à Liga de Estudos Bíblicos (5. não receando por isto afastar-se de certas formas usuais nas traduções anteriores. Paulo. As demais traduções portuguêsas da Bíblia inteira (Pereira de Figueiredo. em inglês: 2'/ie Holy Bible. 1 herdando as falhas de versão que já esta apresenta. 1947) e Pickel-Beltrão (5. rue de la Planche. Fora o Novo Testamento. o tradutor serviu-se de traduções já existentes castelhano.A. Paris) apresentam um texto digno de todo o aprêço. tradução de Catholic Biblical Association of America (Paterson. 1956. 1947) reproduzem com tôda a fidelidade possível o texto latino judiciosamente confeccionado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1945).234 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tempo na Holanda. holandesa e outras. Paulo) em colaboração com a Editôra AGIR. devendo estar completo dentro de alguns anos. principalmente expressões holandesas. Rio de Janeiro. dando assim ao público uma obra de terceira ou quarta mão. O texto do Novo Testamento foi publicado em 1681 e o do Antigo em 1748 (edição póstuma). redigida em estilo francês muito agradável e acompanhada de valiosas notas e introduções. La Sainte Bible de Maredsous (Namur. "Les Éditions du Cerf. é muito de aconselhar às pessoas que o possam. La Sainte Rible. a partir de 1952. É êste o texto geralmente editado pelas Sociedades Bíblicas Protestantes. Eis o que se poderia indicar a propósito: em Irancês A Biblia dita "de Jerusalém". fala urna linguagem pouco usual ao leitor moderno e carregada de estrangeirismos. Paulo. enquanto as de L. pois." Paris. Pirot-Clamer (2. o novo texto tem saído aos fascículos. elaborada sob a direção da Escola Bíblica de Jerusalém. Ê. o antigo tradutor não dispunha dos recursos e conhecimentos com os quais contam os filólogos modernos. traduzida por Crampon. Jerônimo no séc. 1951) procede diretamente do original hebraico. acompanhado de valiosas páginas introdutórias. V.). que tem sido bem apresentado em português. Tournai. Matos Soares) se baseiam na Vulgata latina.S. U. familiar. usa de linguagem solene. Bélgica) serve-se de linguagem muito viva. New Jersey. Vofl (Universidade Católica de S. apenas o livro dos Salmos se encontra em forma vernácula de todo louvável: a edição de E. Franca (AGIR. Na falta de boa tradução portuguêsa. Embora tivesse a intenção de seguir os originais bíblicos. . Embora muitos encómios mereça. rigorosamente exata do ponto de vista exegético. Já apareceram os 1 Tradução dos originais confeccionada por S. hierática e é dotada de ótima introdução. recorram às versões do original existentes em outros idiomas modernos. 1952).

É o que se verifica fora da Igreja Católica. ainda em elaboração). que só pode ser uma. Straubinger. portadora de problemas que os originais não suscitam. pois a Bíblia é patrimônio da Santa Igreja. Calvino. a do Novo. Zwingli) vieram à luz e hoje pululam: cada inovador de religião. El Nuevo Testamento según ei texto original griego (Buenos Aires. Quem não aceita o testemunho da tradição na interpretação dos livros sagrados.COMO LEREI A BÍBLIA? 235 vois. El Antiguo Testamento. 1951). Observa-se que boa parte das dificuldades experimentadas pelo leitor moderno ao abordar a Bíblia provém do fato de lhe ser esta transmitida em forma vernácula imperfeita. traduccion directa de los textos primitivos (Buenos Aires. Altes una Neues Testament (Zürich. 1948). Em suma. é tesouro inseparável da tradição oral. Sagrada Biblia (Madrid. de "Klosterneuburger Bibelapostolat". II e IV. Das Neue Testament (Paderborn. bem como o Novo Testamento. págs. La Sacra Bibbia ( a partir de 1949. em italiano: A. dois volumes na coleção "Biblioteca de Autores Cristianos" (Madrid. Katholische Familienbibel. 1953). Quem empreendesse a leitura de uma obra clássica sem tomar conhecimento prévio da personalidade do autor e das circunstân- . Das Alte Testament (Paderborn/Wien. dela tira o que bem lhe agrada (crenças contrárias umas às outras). Bover-Cantera. estão anunciados para 1957. dentro da qual ela se originou e até hoje se conservou (cf. B . 1952). Sagrada Biblia. não a Verdade. La Sacra Bibbia. sob os auspicios do Pontifício Instituto Bibilco de Roma (tradução começada em 1923. a J.Noções introdutórias. 21-23). Die Heilige Schrift des Alten una Neuen Testamentes (Mainz. nas denominações cristãs que a partir do séc. A Biblia em três volumes. Klosterneuburg bel Wien 1951/2. 1947). colocado a sós diante da Bíblia. Roscb. 3 vois. os vols. em espanhol: Nácar Fuster-Colunga. já não encontra nestes a Palavra de Deus. em alemão: Riessler-Storr. A tradução do Antigo Testamento é devida a flus Parsch. 1 (de Gên a Rut) e III (livros sapienciais). XVI (Lutero. Vaccari. o recurso a tradução fiel é de grande importância. 1947). (larofalo-Rinaldi. Schafer. Heiwe. Está claro que o texto utilizado pelos fiéis católicos será sempre acompanhado de notas explicativas e aprovação eclesiástica. 1947/1949). ainda em curso de publicação). 1949).

2 Esta exigência não implica estudos longos e sutis. PRÉ-REQUISITOS SOBRENATURAIS As normas acima seriam suficientes para se fazer uma leitura proveitosa da Bíblia. incumbência a que nem todos se podem entregar. então. Tellier. Quem possui em seu espírito (ou. Em francês. xv . os veios que unem o primeiro ao segundo Adão (Cristo). Passelecq. XIII a. E. consiga chegar ao cerne do Livro sagrado. dever-se-ia mesmo acrescentar que. para maior segurança e ef icácia. arriscar-se-ia a não a entender ou interpretá-la falsamente. e o séc. como o de P. Initiation bibliqve (Paris3.236 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO elas em que escreveu. é de crer que isto se possa fazer sem grande esfôrço. 1948). livros ditados por mentalidade e leis de estilo bem diversas das do homem contemporâneo. quanto mais se cul2 Em português. An2 sources bibliques (Paris2. caso esta fôsse livro meramente humano. isto é. Spes. passando pelos Patriarcas. pois. L'Átlas hisforique: de l'Áncien Testameijt. datas e localidades de menor importância ocorrentes na leitura. recomenda-se P. A experiência ensina que o contato assíduo com a Sagrada Escritura mesma. os Profetas de Israel. 1951). 85.Joly. Torna-se. 1951) Robert-Tricot. Chrcnologic et géographie (Paris. dispõe dos pontos cardeais para se orientar diante de alusões a personagens. . indispensável um mínimo de "iniciação bíblica". Guide Biblique (Maredsous. ed. pois o leitor perceberá melhor o que implicam. quando se trata de ler uma biblioteca oriunda entre o séc. 1 da nossa era. retendo na memória os poucos marcos ou as etapas que sucessivamente lhes vão imprimindo o seu aspecto característico (vejam-se as tabelas às págs. certas denominações ou frases breves lhe falarão imediatamente com nova linguagem. os Reis. 1950). 1954). visa apenas as noções necessárias para que o leitor possa levar devidamente em conta o aspecto humano que a Palavra de Deus quis tomar e assim. xiv. vejam-se os vois. tal como o proporcionam opúsculos modernos. Procure formar em sua mente o quadro geral dêsses séculos. muito se recomenda ao leitor queira fixar na mente as grandes linhas da história sagrada. com estudos biblicos adicionais (colaboração de professôres de Exegese do Brasil). por meio do veículo. é suficiente para a frutuosa compreensão da Palavra de Deus.C. Entre as tarefas de iniciação bíblica. publicada pela Editâra das Américas (São Paulo. Valioso é também um Atlas bíblico. empreendido à luz de poucos• conhecimentos essenciais e com as disposições de espírito abaixo enunciadas. Os ditos volumes contêm "Introdução Geral e Especial aos livros do Antigo e do Novo Testamento". 257-260). e XVI da Biblia Sagrada (versão de Pereira de Figueiredo). Compreende-se que o mesmo se dê. também em fôlha de papel colocada junto ao texto bíblico) a recordação dêsses grandes marcos (alguns nomes e datas). 2.

mas na estrita proporçâo da fé e da caridade com que os fiéis o usam. que..C0M0 LEREI A BÍBLIA? 237 tivassem as disposições enunciadas. vai ter com um mestre. Acontece. é iniciado nas coisas de Deus. fale no íntimo da alma. a Bíblia C o Livro de Deus. Ële mesmo certamente o revelará a ti. Isto implica que não será em primeiro lugar a perspicácia da inteligência humana que conseguirá desvendar o sentido das passagens obscuras da Bíblia. a aborda com espírito religioso. o grau de fé e amor sobrenaturais do cristão que a ela se aplica. Bem se entende esta proposição se se tem em vista que a Sagrada Escritura constitui um sacramental.. lucras grande santificação pela leitura mesma. dizem. antes do mais. se não entendemos o que os livros (sagrados) contém? Mesmo que não compreendas o que néles está depositado. . Que acontecerá. 3. manifesta teu grande desejo. não são senão manifestações da fé e da caridade pressupostas no leitor da Escritura Sagrada. ainda que não haja homem capaz de te explicar o que procuras. que alguém fique sem fruto se se dá zelosamente à leitura atenta e freqüente das Escrituras. 3 De Lazaro. Ora todo sacramental é sinal sensível que comunica a graça não pelo seu mero uso ou aplicação. são colhidos em medida correspondente. É S. procura alguém mais sábio. Lembra-te do eunuco da rainha da Etiópia (ci. às disposições religiosas do leitor... são os pré-requisitos sobrenaturais os que mais concorrem para o autêntico desfrutamento dos livros sagrados. Em última análise. em sua realidade mais íntima.2s. Se nem mesmo pela assiduidade da leitura chegares a compreender o que está escrito. Por conseguinte. Ainda breve observação decorre destas premissas: a leitura das páginas sagradas pode ser grandemente útil e valiosa mesmo quando o leitor não entenda todo o sentido do texto bíblico. além de apresentar disposições naturais. serm. João Crisóstomo (t 407) quem o ensina: "Quem se entrega a uma leitura atenta (dos santos Evangelhos) é como que introduzido num templo sagrado. pois Deus lhe fala por aquéles escritos.. At 8. são os que o leitor mais há de procurar desenvolver em si. sim. os frutos de união com Deus. porém. e. purificado. tanto mais fruto se retiraria das Escrituras. mas. na falta de instrumentos humanos. frutos que a Escritura tende primàriamente a outorgar. Donde se segue que ela só revela seu conteúdo profundo a quem. digo. a solicitude apontados pelo Santo Doutor como condições para que Deus.30s) É impossivel. torna-se melhor." 3 O zêlo. Quando Deus te vir movido por tão ardente anelo. não desprezará tua vigilância e solicitude. é impossivel.

A pureza de coração (como diz Jesus no Evangelho) faz ver a Deus. Já na ordem natural é o amor que leva o homem a procurar o objeto amado a fim de o contemplar de perto e desfrutar. e possibilita ao cristão penetrar mais e mais o sentido das verdades encerradas nos textos bíblicos ou nas fórmulas dogmáticas. A fé aceita de antemão a possibilidade de não compreender imediatamente o significado das páginas sagradas. aos fiéis. ora por propor a transcendência do Altíssimo. Mt 5. ou muito mais. Gourbilion.238 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Impõe-se agora breve análise daquilo que implicam estas duas disposições A fé. etc. a história do pecado ã qual se segue a promessa de perdão. cair na temeridade). por pouco que conheças tua própria ffiiséria. não pusilânime (sem. pois sabe que tais questões têm solução. que guia e santifica a Igreja. isto te deve dar confiança. 5 pois cria conaturalidade com o SenhQr e com os atributos. desde que para o futuro nos saibamos 'guardar puros das nódoas dêste mundo' e viver no Amor e na Misericórdia. "Un itinéraire". 4 "Não receies (6 cristão) cotejar por vézes ria Bíblia grandes pecadores. Para conseguir o intento. creia na Santa Igreja. A fé autêntica se mostra forte e confiante. que lhe entrega êsse Livro qual depositária e autêntica intérprete do mesmo. De resto. crítica da texto. o amor a Deus move naturalmente o cristão a purificar a sua mente e O seu afeto de qualquer imagem ou inclinação alheia à santidade do Altíssimo. ora por narrar a condescendência do Mesmo com a pequenez do homem. que é o conteúdo do Livro Sagrado. A primeira cena da Biblia após a criação é a história de um pecado.2s. na ordem sobrenatural é a caridade ou o amor de Deus que abre o ôlho da mente. Tal fé opõe-se ao orgulho inteletual ou à pretensão de querer proferir sôbre os textos bíblicos (seu sentido. 5 Cf.8. pouco importa o pecado passado. . mistérios que desnorteiam. míseros homens. importa creia o leitor no Cristo. 19-24 dêste estudo. assim como a de se defrontar com as mistérios da Sabedoria de Deus. em Commeitt tire la Bible ( Paris) 43. Mais brevemente: creia nas duas proposições explanadas às págs.. que é a miséria comum de todos os homens." 3. b) inseparável da fé viva é a caridade. no caso. seu valor pedagógico) algum juízo ditado inicamente pela razão humana.Jo 3. Impossivel nos teria sido viver na intimidade de Jesus. ou melhor.-O. história das religiões. por isto. " A fé não receia considerar de frente os problemas aparentemente mais intrincados de exegese. A Biblia é a história da misericórdia. sua genuinidade. assim. é a promessa do reino aos pequenlnos.tema de que fala a Escritura. veja-se também 1 . aguça a visão da fé. antes permaneça por muito tempo velada. embora não sempre aflore à primeira pesquisa. creia no Espírito Santo. as obras do Senhor . sem encontrarmos a Madalena junto à virgem. aos corajosos.

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O mesmo amor incita à perseverán.ça na leitura da Bíblia. A assiduidade regular e fiel é condição importante para que haja aproveitamento da Palavra de Deus. Não fique o leitor detido em textos que momentâneamente êle não entenda, mas passe adiante, sem perder ânimo. Em ulterior leitura, voltando aos mesmos trechos, terá possivelmente adquirido maior afinidade com o Espírito e a Palavra de Deus; estará então habilitado a perceber o sentido do que antes lhe era impérvio. Por fim, ainda sob o ditame do amor, a leitura da Biblia há de se processar numa atmosfera de oração; o uso dos sacramentais constitui, sim, uma das atuações do espírito de oração do cristão. É, pois, de recomendar que, ao abrir o livro inspirado, o leitor eleve a mente a Deus, pedindo-lhe as devidas disposições para entrar em comunhão com a sua Palavra; faça o mesmo, solicite luz do espírito, ao se defrontar com algum texto particularmente difícil ou rico de sentido; o Mestre interior nessas ocasiões há de ser interrogado com a diligência que a caridade desperta. Independentemente, porém, das dificuldades que o texto sagrado ofereça, a leitura da Palavra de Deus deve habitualmente desabrochar numa prece; ela é nutrimento não só para a inteligência, mas também para a vontade; esta, portanto, sob qualquer de suas expressões (ato de adoração, complacência, gratidão, anelo, contrição), há de se afirmar, depois de estimulada pelo contato do texto sagrado. Por conseguinte, se a graça o inspirar, o discípulo de Crísto intercalará em sua leitura oportunas elevações a Deus; caso não, rezará ao menos ao concluir. S. Agostinho, numa passagem das Confissões, deixava entrever algo de seu ânimo interior ao ler a Sagrada Escritura:
"No principio fizeste o céu e a terra. Moisés escreveu isto (cf. Gên 1,1), escreveu e se foi; passou dêste mundo a Ti. Já não se encontra diante de mim; se aqui estivesse, a êle recorreria, interrogá-lo-ia, e pedir-lhe-ia em teu nome que me explicasse essas palavras; aplicaria os ouvidos de meu corpo aos sons que prorrompessem de seus lábios,.. Já, porém, que não o posso interrogar, é a Ti que me dirijo, ó Deus meu, Verdade da qual êle estava penetrado para poder afirmar proposiç6es verdadeiras. Rogo-te, perdoa os meus pecados, e Tu, que àquele teu servo deste proferir tais palavras, dá a mim também a graça de as compreender." (11,3.) É de notar ainda que os Sumos Pontífices, a fim de mais e mais aproximar da Biblia Os fiéis, enriqueceram com indulgências a leitura devota da Sagrada Escritura: quem leia diàriamente, por quinze minutos ao menos, o Santo Evangelho, ganha de cada vez 300 dias de Indulgência. Quem assim o leia durante um mês inteiro, lucra Indulgência plenária.

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§ 2." ITINERARIO ATRAVÉS DA BÍBLIA Uma norma válida para a leitura profícua de qualquer obra se aplica com particular insistência ao uso da Bíblia Sagrada: quem deseje realmente adquirir conhecimento do Livro de Deus não se pode contentar com leituras feitas a êsmo ou segundo inspiração momentânea, embora com assiduidade e periodicidade. Pouco aconselhável, portanto, seria querer "pescar" simplesmente trechos belos, edificantes, sem visar a sistematização da leitura, pois, como diz o Apóstolo, "Deus não é Deus de desordem" (1 Cor 14,33). É preciso que o cristão apreenda a trama, o fio central da Escritura, e tenda ao conhecimento de todos os livros sagrados; saiba oportunamente nutrir-se de cada um, embora possa conservar suas preferências por êste ou aquêle em particular, cuja doutrina mais o sustente. Qual seria, portanto, a ordem ideal a se observar na leitura da Bíblia? As indicações aqui sugeridas não poderão ser muito minuciosas, visto que há um Mestre interior em cada crist&o, 6 o qual guia cada alma por vereda própria, adaptada à sua personalidade, ao seu tipo de espiritualidade. Eis, porém, algumas diretivas certamente úteis a todos os fiéis: A primeira leitura há de ser leitura cursiva, visando proporcionar uma visão de conjunto e dispensando-se de demoradas pesquisas. Não se prenda o cristão a muitos pormenores (certos números, questões de crítica do texto, arqueologia, ciências naturais ... ), pormenores que talvez chamem a atenção de quem está imbuído da mentalidade do séc. XX, mas não tinham grande importância para o autor antigo e não constituíam o objeto primário de suas afirmações. Detendo-se muito em tais minúcias, o principiante arriscar-se-ia a não ver as grandes linhas da Escritura, linhas religiosas, teológicas, para as quais em primeiro lugar se deve voltar o seu interêsse. Mais tarde poderá, sem detrimento da autêntica perspectiva, abordar êsses problemas. Pode haver leitores que lucrem seguindo a série dos livros como se acham nas edições da Bíblia, a partir do Gênesis até o Apocalipse. Contudo, abstração feita de casos particulares, é de aconselhar que se comece pelas seções da Escritura que a nós, cristãos, mais familiares são: os livros do Novo Testamento. Quem quisesse simplesmente ler a Bíblia página por página na ordem em que estas se apresentam, expor-se-ia a conceber, em breve, fastio por não perceber o significado autêntico de muitas passagens. Aliás, seja lícito advertir: em qualquer sistema, os
6 Ê o que principalmente S. Agostinho lembra em suas obras (ef. in lo tr. 1,8; De vita beata, 4,35; De magistro, 12,38.40; Soliloq., 1,1,1).

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livros do Antigo Testamento deverão ser udos à luz da Revelação cristã, que êles prenunciam e sem a qual não se explicam. No Novo Testamento, dar-se-á a primazia aos Evangelhos sinópticos (Mt, Mc e Lc), os quais poderão ser lidos ou separada ou conjuntamente (isto é, considerando-se ao mesmo tempo os textos paralelos). Par-se-á seguir o livro dos Atos dos Apóstolos, que continua a narrativa dos Evangelhos. Constituída esta base histórica, abordar-se-á o Evangelho de S. João, que já apresenta a história "meditada", contemplada de um ponto de vista superior ou da eternidade. Logo depois, estarão a propósito as três epístolas do mesmo Apóstolo, que são reflexões e exortações no estilo do quarto Evangelho. Acrescentar-se-ão as cartas de S. Paulo em sua ordem cronológica, a saber: 1/2 Tes, Gál, 1/2 Cor, Rom, epístolas do cativeiro (Ef, Col, FIm, Flp), epístolas pastorais (1 Tim, Tit, 2 Tim); no fim, leia-se a epístola aos Hebreus, que, embora seja de inspiração paulína, não parece redigida por S. Paulo. £stes escritos falam todos da continuada presença de Cristo entre os homens, não Mais em sua natureza mortal, mas em seu Corpo Místico; tratam da aplicação dos frutos da Redenção à Sociedade e a cada individuo em particular. As epístolas ditas "católicas" 8 desenvolvem o mesmo temário. Quanto ao Apocalipse de S. João, que esboça o têrmo final da história, poderá ser lido depois das cartas dos Apóstolos. Não há, porém, inconveniente em se diferir a leitura dêste livro até que se tenha tomado conhecimento dos demais escritos bíblicos; com efeito, o Apocalipse constitui como que uma recapitulação de tôda a Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento: faz reviver os temas do paraíso terrestre (cf. Apc 22,1-4 e Gên 2,8-15), de Jerusalém, Cidade de Deus (cf. Apc 21,2-22,5 e Is 60,1-22), da Espósa do Senhor (cf. Apc 19,7; 21,2 e Is 62,4s; Os 2,21s, os profetas em geral), do tabernáculo do Altíssimo (cf. Apc 21,3s e Lx 25,1-27) e outros; donde se vê quanto é oportuno conheça o leitor o fundo de idéias a que alude. A leitura 'do Antigo Testamento, conforme alguns autores, pode ser intercalada na do Novo, tomando-se alternadamente livros ou seções desta e daquela parte da Bíblia. Tal praxe visa
7 Fala-se de "Evangelhos sinópticos", porque os très mencionados livros, justapostos entre si, fornecem numerosas passagens paralelas, seguindo uma trama comum para descrever a vida de Jesus. Há edições que os alinham em três colunas verticais, proporcionando a visão de conjunto dos paralelos ou a "sinopse". Entre outras, note-se a de Lavergne-Lagrange (texto francês). "Católicas" (= gerais, universais), porque são cartas encíclicas, dirigidas a vários destinatários, não a uma única comunidade.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

criar desde o início o hábito de se considerarem Antigo e Novo Testamento como indispensáveis ao cristão e complementares um ao outro. O método poderá tornar-se fecundo...; será preciso, porém, que o leitor se acautele contra o perigo de dispersar desregradamente a atenção ou contra o risco de perder de vista o seu roteiro, a linha una das Escrituras.
Não hâ 1düvida, por exemplo, de que a cena da anunciação do anjo a Maria, no Novo Testamento (Lc 1,26-38), toma relêvo muito vivo para o leitor que haja prêviamente considerado os textos das promessas feitas a DavI (ef. 2 5am 7; SI 88,20-38; Jer 23,5; Ez 34,24; Os 3,5) e as narrativas de anunciações divinas ou angélicas do Antigo Testamento (cf. Gên 18,9-15; 21,14-20; Jz 13,2-25; Is 7,13-16). A alegoria do Bom Pastor (Jo 10,1-18), nos lábios de Cristo, torna-se bem significativa para quem leia concomitantemente as passagens de Miquéias (7,14-20), Isaias (40,11), Ezequiel (34,1-31) e Jeremias (23,1-4) concernentes ao mesmo tema. As palavras de Jesus sõbre a cruz (cf. Mt 27; Mc 15; Lc 23; J'o 19), assim como os pormenores da Paixão, são ilustrados pelos salmos, que nos revelam principalmente a atitude interior de Jesus naquele quadro de sofrimento (cf. 8115; 21; 30; 68).

A respeito do livro dos Salmos, porém, impõe-se uma observação. Éstes cânticos constituem como que o âmago da Escritura ou, se quisermos, o seu remate; com efeito, dizem brevemente o que os demais livros bíblicos comunicam; dizem-no, porém, sob a forma de oração, elevação da alma, que louva a Deus após haver considerado tudo que Lie fêz na história sagrada, e pede-Lhe ainda realize o que prometeu realizar no futuro. É pelos salmos que o cristão aprende a rezar como Cristo rezou, pois Jesus recitava os salmos com o seu povo (cf. Mt 27,46; Lc 23,46; Mt 26,30; Jo 13,18; 15,25; Hebr 10,5-9); é por êles que o cristão se acostuma a orar como a Santa Igreja ora. Por conseguinte, desde o primeiro contato com a Escritura, o saltério não sàmente pode, mas deve ser utilizado na vida de oração do lèitor. 5. No Antigo Testamento, como no Novo, têm prioridade os livros históricos, dispostos na ordem seguinte: Gênesis, 2xodo, Números, Josué, JuIzes, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Macabeus. Ler-se-ão, a seguir, quatro opúsculos que ainda referem história, não, porém, a história geral do povo de Deus, como os recém-citados, mas episódios particulares, edificantes, redigidos em vista da catequese ou do ensinamento dogmático: Rute, Tobias, Judite e Ester. Depois de haver percorrido êstes livros por extenso, o leitor muito ganhará em voltar a sua atenção para resumos da história sagrada que a Escritura mesma apresenta, não raro em estilo meditativo ou de oração. Tais compêndios são, entre outros: SI

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67.77.103-105.1345; Ez 20,1-44; Sab 10,1-12-27; 16,1-19,22; Edo 44,1-50,24; Jdt 5,5-25; At 7,1-53; Hebr 11,1-40. Tornar-se-á então oportuna a leitura dos Profetas, pois êstes, de um lado, ajudam a reconstituir os quadros descritos pelos livros históricos e, por outro lado, só podem ser entendidos se recolocados dentro das circunstâncias históricas em que apareceram. Adote-se a ordem cronológica, que, com probabilidade, é a seguinte: Naum (ca. 620-612) Amós (ca. 760-750) Habacuque (ca. 605-600) Oséias (ca. 750-725) Ezequiel (ca. 593-570) Isaías (ca. 740-603) Daniel (605-536) Miquéias (ca. 735-690) Ageu (ca. 520-518) Sofonias (ca. 630) Zacarias (ca. 520-518) Jeremias (ca. 626-586) Malaquias (ca. 450-430) Baruque (ca. 626-586) Abdias, Joel e Jonas (data incerta) Incontestàvelmente, a leitura dos Profetas não é fácil, e Isto por
vários motivos os Profetas aludem a muitos pormenores da história antiga, localidades geogrãficas e personagens que não nos é possível Identificar com segurança; o estilo dos Profetas; quando predizem o porvir, é geralmente obscuro; reuniam numa só descrição traços de acontecimentos análogos entre si, mas distanciados uns dos outros pelo Intervalo de muitos séculos; assim a restauração do povo de Israel exilado na Babilônia é predita com tópicos que caracterizam a grande libertação, ou seja, a Redenção do pecado e a Instauração do reino glorioso do Messias (haja vista Is 40,1-10; 41,14-20; 44,24-45,25 ... ) ; e) os Profetas se serviam de numerosas imagens, hipérboles e outros artifícios da arte poética; d) os vaticinios, como se encontram hoje nos respectivos livros, não estão sempre dispostos em ordem cronológica.

Em seguida, o leitor passará aos livros sapienciais: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico. 10 Visto serem escritos que ensinam máximas de vida prática ou revolvem questões filosófico-teológicas, não tem importância decisiva a respectiva ordem cronológica; observe-se, porém, que Já e EcI têm afinidade entre si por tratarem do tema do sofrimento e da felicidade neste mundo; Prov e Edo são coleções de normas de prudência, mais esmeradas e desenvolvidas em Edo do que em Prov. O fecho se fará com os livros do Levítico e do Deuteronômio, cujo conteúdo requer um espírito já familiarizado com o Antigo Testamento ou um leitor que já tenha aprendido a "ler" a Lei
O

10

A respeito de Daniel, haja vista a observação das págs. leis. 0 Saltério já se supõe familiar aos leitores de tais livros.

Assim o volume da Escritura poderá eventualmente fornecer sem delongas o alimento que o cristão dêle aguarda. poderá ser reservado para o último lugar. ou seja. Estas seções de escol variam segundo a índole de cada um dos fiéis. assinalar os seus "trechos vitais" com marcas a lápis feitas no livro sagrado. o leitor terá. era necessário que os hagiógrafos tecessem a moldura etnográfica. servindo-se de fontes bíblicas e extrabíblicas. Mais audaciosamente aconselham .alguns mestres: não receie o leitor. pro- . Mais três sugestões práticas parecem vir a propósito: é de vantagem que. Tais seções seriam. se podem percorrer ràpidamente ou saltar trechos concernentes a recenseamentos. cada qual as consignará para seu uso particular. assim compreendemo-los melhor. Ez 4048 (excetuado o bloco 47. civil. genealogias. Note-se ainda que. como dito. O Apocalipse. por exemplo: Éx 21-31.1-12). uma obra bem redigida que. temas que tornariam um tanto enfadonho o contato inicial com «Antigo Testamento. não versam sôbre o tema principal da Escritura. para o futuro. visando melhor aproveitamento da Palavra de Deus. a fim de que os grandes vultos portadores de mensagem messiânica pudessem ter pleno significado para nós. obra antecipada no Antigo Testainento. 35-40. geográfica. ao tomar contato com o texto sagrado. Anote outrossim nas margens de cada página as seções paralelas ou complementares de tal ou tal passagem. existe para servir ao homem. por ocasião da primeira leitura. caso o possa. à história completa do Messias. apreendemos também mais claramente o Messias como Irmão nosso. pois a Bíblia foi tôda redigida em função do Messias e de sua obra. As seções acima enunciadas. 1 Crôn 1-9. desdobrada no Novo. descrição do mobiliário sagrado. Estas passagens. junto com determinado texto. Contudo. como se sabe. desde que isto lhe seja lícito. Dt 12-26..244 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO mosâica. etc. se comportam na Bíblia como arcabouço ou vigas de ligação que dão consistência ao conjunto. manuseio e entendimento da Escritura tornar-se-ão mais rápidos e eficientes. leis rituais. a fim de se consolidar o conhecimento do texto sagrado após uma ou mais leituras diretas da Bíblia.e com razão . em que aquêles aparecéram na história. muito recomendável é o seguinte expediente: tome o leitor. os trechos bíblicos que o comentam. medidas. o leitor vá anotando em fôlha à parte ou em caderninho os trechos que mais lhe "sabem" ou mais o "impressionam". portanto. êste é instrumento de trabalho e nutrição espiritual.

agrupando seções 11 Merecem menção: G. 1951). L. van Imschoot. ceppi. (Paris2. De resto. O Povo Biblico (Põrto.-Rops. 1947 e 1948) . 1946) . indispensável para a melhor compreensão do tema. Discours sur l'histoire universeile. principalmente de teologia ou história bíblica. 2 vols. 1945). se encarregarão de manifestar ao leitor outros expedientes valiosos para que mais e mais possa desfrutar o conteúdo sempre fecundo das páginas sagradas. Fillion. Heinisch. § 3. a experiéncia mesma e. o leitor tomará o cuidado de compulsar os textos bíblicos a que aluda o historiador. abordando-o por via diversa da habitual. ' uma obra dessas não deixa de ser um compêndio agradável de exegese dos livros históricos e de boa parte dos escritos proféticos. Bonsirven. por esta. e não raro ficará agradãvelmente surprêso por encontrar neste matizes. porém. tome 1 (Dieu). 2 vois. anacronismos. Ttidologie de t'Ancjen Testament. (Paris. concorre grandemente para aprofundar o conhecimento da Sagrada Escritura a leitura imediata de versículos que se encontrem mencionados em alguma monografia. 1954) . 1940) Kuss-Muller. etc. História do Povo de Israel (Petrópolis. Autor e Mestre das Escrituras. Valiosa é também a obra clássica de Bossuet (t 1704). Historia biblica. 3 vols. o que é de notável vantagem. 13 Notem-se P. vá diretamente ao texto. A.4lten Testamentes (Bonn. O mesmo poderá ser feito tomando-se por base um manual de teologia bíblica do Antigo ou do Novo Testamento. o Espírito de Deus. muito pode valer a indicação das mais belas passagens da Escritura. pode com facilidade voltar a tais trechos. (Barcelona2. Theologie des . 12 assim permanecerá em contínuo contato com o livro inspirado. Quem assim procede. 1946 e 1947) D.° PEQUENA ANTOLOGIA BÍBLICA Para despertar quanto possível o interêsse pelo texto sagrado. 12 Éste trabalho acarreta a freqüente interrupção da leitura. não queira o leitor confiar na memória.COMO LEREI A BtELIA? 245 cure reconstituir a história de Israel. Doctrine da Nouveau Testament (Paris. É. Lendo-a. 13 Em geral. P. Histoire d'israel. (Paris.-Cl. Eis o que tentarão as páginas seguintes. minúcias ou também grandes idéias que até então não havia percebido. Histoire d'israel. c) será igualmente profícuo gravar aos poucos no espírito os números (de capítulo e versículos) que caracterizam as seções de maior importância. Th4ologie da Nouveau Testament (Paris. Ao se defrontar com tais indicações. Schuster-Holzammer. 1927 e 1928). evitando errôneas associações de textos. saberá com certa desenvoltura reconstituir o contexto de determinada passagem. 1938). Ricciotti. J. . mbora esta lhe recorde em linhas gerais o conteúdo da passagem citada.

é imprescindível lê-las em tradução fiel.20-26. O Deus Único: Is 44.26-28.5s. Quem poderia pedir contas a Deus? Is 45. o asno selvagem: Já 39. O trovão. Os poemas da criação do mundo: Gên 1.1-18). tradução que observe a forma poética onde ela figura nos originais. Dt 8.246 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO bíblicas de acôrdo com o tema ou com a forma literária respectiva.1-31 (cf..5-8.1s. Imagem e semelhança do seu Autor: Gên 1. o esmêro literário das seções mencionadas nestas listas.19-25. Já 38. 4.1-2. . Jo 10.e os idolos: Jer 10. Mistérios e maravilhas entre os animais: o cavalo: Já 39.3-9. expressão da Majestade Divina: Si 28.20.1-9 (cf.6-9.29. At 14.1-5. Si 18.. DEUS E OS HOMENS O Deus que governa a criatura humana: Já 12.25-41.1-16. O Senhor fala no silêncio da noite: Já 4. 51 103. O universo proclama a Deus: Sab 13. Limitamo-nos ao Antigo Testamento. já que os escritos do Novo Testamento são mais familiares aos fiéis.2-6. Si 8. Ricciotti. Jer 23..1-38.14).13-18. Sab 12.6-11.23s.4. o crocodilo: Já 40.26-30. Rom 1. Si 101. Já 38-41.12-21.3. ° hipopótamo: Já 40. 14 Para se perceber a riqueza do significado. mesmo dentre aquêles julgamos supérfluo citar algumas passagens muito conhecidas dos primeiras livros biblicos. 1941).6-8.15-24.4-12.12-17. O Senhor é meu Bom Pastor: Si 22. Onisciente e Onipresente: 51 138. Is 44. a avestruz: Já 39. Ez 34. O homem comparado a Deus: Já 25.2-7. O DEUS TRANSCENDENTE A Majestade Divina no trono de sua glória: Is 6. Is 66. A confecção das tabelas muito deve à.25-28. obra de O. 14 1. O Deus que traz o mundo na palma da mão: Is 40.14-25. Iii. 5.942. Jer 23. 1 San 3. Prov 8 . 21-25. O Senhor rege a natureza: Já 9. 4.1-15.26.25-28. La Bibbia dei eUetatj (Roma. IL DEUSEOMUNDO A eficácia da Palavra de Deus: Is 55. O Eterno diante do qual tudo passa: Is 40. a águia: Já 39..2231. 28-31. Si 89.

.11-16). Jo 4.1-2 1. A Nova Aliança: Jer 31. Apc 19.1-9. • profeta Eiiseu ressuscita uma criança: 4 Es 4.30-5. Senhor.. O Rei dos reis: Si 2 (cf. Si 50.1-4.8-17. "Nasceu-nos um Pequenino. A malograda Cidade do Diabo: Gên 11. . Queda de Jerusalém: Ser 39. • triste sorte dos primeiros escritos de um Profeta: Ser 36. meu Deus. .COMO LEREI A BÍBLIA? 247 Amparo na caminhada cotidiana: Si 90.16-20. 2 Cor 12.18-23..6-17. "Pequei contra o Senhor 1" (Davi e Natã): 2 San 11. • consagração do templo erguido por Salomão: 8.26-12. Símbolos de felicidade messiânica: Jer 31.1-9.15. O varão das dores: Is 52.13. • Renovador da natureza: Is 11.12.1-32.21. Si 128.9-14. O MESSIAS E SEU REiNO Origem eterna e temporal do Messias: Miq 5.1-18.22.gratuitamente dispensada: Dt 7. 4 Es 24.1-8. .1-38.15-24. • tragédia de Jeremias: Jer 37.6.": Is 8.18-24.21.10-14.5. 7-10. "Meu Deus. A fôrça de Deus se manifesta na fraqueza do homem (Davi e Golias): 1 8am 1-58 (cf. A HISTÓRiA DA INIQÜIDADE E DA GRAÇA O primeiro pecado e a primeira misericórdia: Gên 3. IV..24-30.. "Meu povo me esqueceu. E o mal se alastrou. Visão profética de prosperidade (Balaã): Núm 23. • origem dos samaritanos: 4 Es 17. Teofania e aliança no Sinai: Êx 19..23-9. "Fala. 8..1-10. 1": Jer 18. • fome durante o cêrco de Samaria: 4 Es 6. A restauração da Cidade de Deus: Bar 4. V. sábio: Im10. mostra-me a tua glória !": Êx 33. : Dt 8. 24.31-37. por que me abandonaste ?": Si 21. (dilúvio): Gên 6. "Senhor. • Juiz universal e o Ancião: Dan 7..1-24.24-41 (cf. Providência paterna. 24. Insurreição contra uma rainha tirânica: 4 Es 11.13-53.1-16. "O Senhor é misericordioso e compadecente": Si 102. O Rei fautor de justiça e bonança: Si 71. • rainha de Sabá em visita ao monarca. Doloroso anúncio de vitória: 2 Sam 18.19-19.3-9. .18-25.1-8.5-10).8-20.7-11. pois teu servo está atento ": 1 8am 3.1-15.9).1-10.9.

24. . VI. Da história de ToMas: uma donzela humilhada pelo demônio: Tob 3.: Tob 10.2-4.26-29. Fórmula de bênção patriarcal: Gên 27.1-13.C.57-67.. É o que pressupõe o texto acima citado do Dt. semelhante à de um exército: 31 1.42.5-11.20-29. O heroísmo dos reconstrutores da Cidade Santa: Ne 3.1-7.33-4. XVIII a. 41).6-18.9. As dádivas do povo fiel para a construção do tabernáculo do Senhor: lix 35.7-23. A lei do cordeiro pascoal: lix 12. 5. Invasão de gafanhotos. que finalmente volta com a espôsa: Tob 11. LEIS E COSTUMES DO ORIENTE Um juramento na época dos Patriarcas (séc.248 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um povo instrumento dos castigos divinos: Is 5. Imponente exército oriental: Jdt 2. A grande heroína: o feito de Judite: Jdt 10.7-11. o ato de tirar o calçado (ou a sandália) e o entregar a outrem significava simbólicamente a entrega de um direito ou de uma propriedade.9 (ef. Judas Macabeu entra em aliança com os romanos: 1 Mac 8.9-16. Que o irmão suscite prole ao irmão falecido (levirato): Dt 25. Um banquete digno do rei da Pérsia: Est 1. Por conseguinte. E um casamento. é libertada do Maligno em piedoso matrimônio: Tob 7. ' 15 Os israelitas costumavam tomar posse de um fundo imóvel colocando sóbre êle o pé ou o calçado (cf. o filho. : Gên 24.10-67.1-32. triunfo e glória: Jdt 15. O flagelo da sêca na terra de Judá: Jer 14. Os terríveis caldeus: Hab 1. assim como as seções de Ru 4.17.Jos 10. A perseguição de Antíoco Epifanes: 1 Mac 1.1-8. 107. "Sê delicado até com as aves ": Dt 22.8.26.14-18.7. enquanto os velhos pais aguardaft em casa. pág. SI 59.38-45. Mt 22. O festim do rei Baltasar: Dan 5.5-21. Hostiidades dos senhores egípcios contra os hebreus escravizados: lix 1.26-30.2-12.11-14.6s.1-8.5-10 (cf. 2.17. Como se homenageava o favorito do Faraó: Gên 41.1-9.1-30.. O julgamento das nações: Sof 1..24).1-11. Gên 13. O heroísmo que ela suscitou: 2 Mac 6.): Gên 24.24. .1-17.24)..17.

Ritos fúnebres: Edo 38. Jo 2.12-20.10-31. 20 o profeta descreve a queda da Assíria. Entre éstes dois monarcas vacilava a política dos reis de . 30 Esta peça foi redigida para ilustrar satiricamente o significado da eleição de um rei indigno. VII. que jorra do lado aberto do corpo de Crísto. 19 O majestoso cedro do Líbano: Ez 31. 23 Tiro. os candidatos idôneos são representados pelas árvores frutíferas. e o Faraó do Egito. 20 Ossos secos que retomam vida: Ez 37. Nabucodonosor.1-14. O retrato da sábia dona de casa: Prov 31.24-39. Artes. o cedro e a videira: Ez 17.1-12. designam o império dos babilonios.11. 21 7: A água que. A leoa e os leõezinhos: Ez 19. 19 A nação escolhida era representada como a Espõsa de Javé na literatura profética. o dos medos.1-49. idolatria) praticados pelas duas partes da nação e o triste fim de ambas.8-15.1-10.12-20. Ezequiel descreve os adultérios (apostasia do verdadeiro Deus. partindo do novo templo. passando-se. Êste é simbolizado pelo espinheiro selvagem. Oola e Ooliba: Ez 23. 28 A estátua inteira representa o poderio dêste mundo enquanto é hostil a Deus.16-24. 15. ofícios e sabedoria: Edo 38. visando admoestar o Faraó. Compra de um campo no séc. A virgem de Israel infiel: . fertiliza a terra: Ez 47.Judá. novo templo da Divindade (cf.: Jer 32.1-7.944. Sab 14. mas se presta ao fogo apenas. conforme os melhores intérpretes. A videira simboliza Sedecias. que a partir do v.31-45.1-43. os leõezinhos são os reis de Judã.2-18. 10 é dita videira. X estava dividida em dois remos. que a principio foi vassalo de Nabucodonosor. 3.depois para o jugo egípcio. Os ornamentos da israelita facêta: Is 3. A criancinha abandonada. . 17 As duas águias significam respectivamente o rei da Babilonia.34).1-5. 22 Imagem da graça. 10 As duas águias. Desde o séc. de Judá.16-23. Oola e Ooliba. Abimeleque. inclinados à aliança ora com um.21. 19. 22 A estátua dos quatro impérios: Dan 2. A videira bem-amada: Is 5.1-14. mas ingrata: Ez 16. significa a nação judaica.Jer 2.COMO LEREI A BÍBLIA? 249 Costumes dos ceifadores: Rut 2. Sarnaria eJudá (Jerusalém). ora com outro.1-18.32. SÍMBOLOS E ALEGORIAS As reflexões das árvores sarcásticas: Jz 9.C. 18 As duas irmãs. recolhida. a nave opulenta que naufraga: Ez 27. derrotados por seus adversários e culpados da ruma da nação.7-19. o qual não dã fruto nem sombra. que vém a ser as duas irmãs. mas destinado a reerguer-se após o exílio babilõnico.1-36. IS A leoa. o dos gregos (Alexandre Magno) e o dos romanos. 21 Os ossos secos vivificados designam o povo de Israel destroçado pelos inimigos. as suas quatro partes são sucessivos representantes déste poderio na história antiga. VI a. O artesão fabricante de ídolos: Is 44.

O médico e seus préstimos: Edo 38. agora injustamente escarnecido: Já 30. Impossível mudar a côr da pele: Jer 13.17-27. A SABEDORIA E SUAS NORMAS A origem da Sabedoria: Prov 8.3-26. : Já 31. .30-34.2-11.. 24. Conselhos para o conviva de um festim: Edo 31.21-25.1-22. A Sabedoria pousa e frutifica em Israel: Edo 24. O problema da dor: um momento de angústia: Já 3.10-13.1-40.16-28.1-21. seu Inimigo. feliz. At 21.12.23-29.1-22.13..6-11. seu amigo muito caro. Tôdas as coisas têm seu tempo oportuno: Ecl 3. O drama humano: Era justo. a dos ímpios gozadores: Sab 2. Jo 21.. A estima da boa saúde: Edo 30.185).1-25.5-17. Valores menores e valores maiores: Edo 40. A sabedoria de Salomão: 3 Es 3. : J& 29. ELEGIA E LIRISMO Lamentação fúnebre: 2 5am 1.1-8. A Sabedoria comunicada aos homens: Sab 7..1-28. Como tratar o tolo: Edo 22.18-21. 26.7. VIII. Até os animais reconhecem os tempos 1: Jer 8. Jõnatas.9-12.1-25. "Honra pai e niâe": Edo 3.. IX.1-15.14-20.12-32. Não obstante. Os atos do fraudulento são como .1-11 (cf. e o filho dêste. "Sê alegre!'t: Edo 30. 24 Pranto pela ruína de Jerusalém: Lam 4. colóquio com Deus após o auge da crise: Já 10.1-15.7-14.13-16.53. e nada sacia: Ecl 1.23. Desgraça a quem se isola: Ecl 4.1-16.. Tudo passa. confia em Deus: Já 19.250 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O cinturão simbólico: Jer 13. Onde reside a Sabedoria: Já 28.1-22. Éx 21.7-13. "Escolhe criteriosamente os teus amigos": Edo 6. 19.: Is 59. "Sê prudente ao procurar a amizade dos grandes ": Edo 13.22-36.1-22. A ridícula preguiça: Prov 6.18-27. • 24 cântico entoado por Davi depois que na guerra caíram Saul. "Não julgues poder dissimular o teu pecado ": Edo 23. Falsa sabedoria.

Dan 3. 9.2-7. 9.": CONTRIÇÃO "Pecamos. O cleieitede estar na Casa do Senhor: Si 25. "Piedade.7-18. Senhor!": Sl 50. "Senhor. Is 35. Um desafôgo pessoal diante do Senhor: Jer 20. 83.18-9.5-11.11-18. "Minha alma. Agradecemos os benefícios presentes. 1 Crôn 17. Os céus cantam a glória de Deus: Si 18.1-23.17-52.8s.12. "Ainda que pai e mãe me abandonem. 66. .1-22. Lc 1.1-10.1-10. O louvor da criação inteira ao Criador: Dan 3. Si 148.1-8. "A Ti levanto os meus olhos !": Si 122.23..26-45.1-15. : Si 41/42. que ama os pequeninos: 1 5am 2.COMO LEREI A BÍBLIA? £ 251 Sátira sôbre Babilônia que caiu como estrêla do céu: Is 14... penhores da plenitude futura: Tob. Glória ao Deus transcendente: 1 Crôn 29.3-2 1. Bar 2. Si 91. 51 123. 3.10-19.17-33. exalta o enhor!": Si 144-147. Gemidos depois do castigo: Jer 8.5-37. Senhor!": Ne 1. A terra deu seus frutos !: S1 64. .52-90. ": AÇÃO DE GRAÇAS O povo agradece a vitória outorgada ao rei: SI 20. as tuas obras me deleitam! Louvor ao Deus soberano. A cidade sem sorriso: Jer 16. PRECES ADORA ÇÃO "Vinde. "Minha alma tem sêde de Ti": S162. Dois justos oram em favor do povo infiel: Est 13. 13.1-19. O clamor dos habitantes de Jerusalém arrasada: Lam 5. o Senhor não me abandonará": Si 26. adoremos o Senhor 1": Sl 94. A alegria da natureza renovada: Si 95-97. Consôlo a Jerusalém libertada: Is 51. SÚPLICA A oração que sustenta o mundo: Gên 18. X. "Se o Senhor não tivesse estado conosco.16-27.46-55). 51 112 (ef. Esdr 9. 14.14-19. Como o cervo deseja as fontes das águas.9-17.

Ora o velho pai aflito: Tob 3.. porém.26.14-42.1-18. curiosidade de inspecionar o contexto ou de divagar pelo que fica em tôrno das passagens referidas.26-23. 2 Crôn 6. Poderão ser utilizados por quem pouco ou nada conheça do Antigo Testamento e queira logo tomar contato com o que êste oferece de mais belo. Não receie perder tempo. não extinga o leitor a louvável "curiosidade" que nêle possa nascer. e vá folheando as páginas sagradas.2-19. Ora o ancião perseguido: Si 70. Comunhão dos santos. A prece da viúva heróica: Jdt 9. comunhão de preces: 2 Mac 15. Talvez se torne útil a tabela também àqueles que desejem renovar a leitura da Bíblia com a qual já estejam familiarizados. seja o mais belo de sua for ma literária. Senhor 1": Prov 30. do seu modo. "Não permitas peque pela lingua ou pelo olhar ! ": Edo 22. 25 "Envia-me a tua sabedoria Sab 9.252 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Nostalgia de Jerusalém: Si 136. O rei pede as bênçãos do Céu em favor do povo: 3 Rs 8. 2 Crôn 1. Em um e outro caso. seja o mais belo de sua doutrina. !": Os textos acima indicados destinam-se a ser. Apc 21.7-12.7-9.22-64.1-22.13-16. pontos de partida para a leitura do Livro sagrado.6. Jerusalém significa a pátria celeste (cf. Estas então lhe irão falando linguagem cada vez mais significativa! 25 Para o cristão.5).. Gál 4. .. "Nem riquezas nem miséria.1-6.

MAPA ILUSTRATIVO DO ÉXODO TRAVESSIA DO MAR VERMELHO .

31) Eis como o Comandante Bourdon (CL pág. passando ao pé do Djebel (Monte) Geneffeh.2). 211) reconstitui a série dos acontecimentos concernentes à passagem do Mar Vermelho (explicitamente assinalada no quadro): Os israelitas.31-14. 14.P. 1937). . que naquela época era um prolongamento do Mar Vermelho. a nuvem que acompanhava o povo de Deus. visando cortar aos israelitas o caminho para o Sul.MAPA [LUSTRATIVO DO ÊXODO E. porém. R.. Em conseqüência. O exército egípcio se aproximou. Seguiram-nos através das águas os egípcios. Desceram então ao longo da margem ocidental do Grande Lago Amargo. dirigiram-se para Etham. Éx 13. e acamparam junto ao fortim ou Migdol. 24. DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12. EM PARTICULAR. cidade situada sôbre um dos braços orientais do Nilo. mas debalde.17. Cf. deu-lhes ordem para que retrocedessem (cf. Atlas historique de l'Ancien Testament (Paris. deixando Ramsés. com a intenção de seguir a estrada direta para a Palestina (Canaã). se colocou entre os dois acampamentos e os filhos de Israel entraram pelo Pequeno Lago Amargd. pôsto diante de Beelsephon e do Djebel Abu-Hasa.. O Senhor. Tellier.

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258 PA1A ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO c'I I Ia _. O O- . 1-2 Crônicas O 00 - 3-4 ReJs.SE o t 'a( 01-4 OOt < 00 Q Ø 3) 1-4 '-4 1 00 'o '1 'o o E O a. O +. .0 to itr . o . . a to 00 & O 8 ()rt O til VI 1-IOJ o 3-4 Reis.I-4 loca o 0 - E obo too -•0. o E (o 41 1 . 1-2 Crônicas o-t o t o z o o.0 o O t' •- a 4 1 csOco —ti aor- VIVIa) .

tO> Cec-. o oa t0 £0 oto do O CC) oC o Zct •• 00 a)C) b > 1 O fl 0. O cc 1 c 'a o o 2 N 10 a• s. O 75 o . O •-.TABELA CRONOLÓGICA 259 •r. D O O) •-' Ct C) c_i O •i lis» ••ON0O) - ai • 'O o o Oij C1O) • dO moO d do E E O Z CtCObOd z1 2 O ia o_ o •• do tc l•. O OOZ O I 00 CO CC) C IC) CC) O 'O O '0 . • O) 2 O o O °d 8 - Esciras: Neernias i 1sC O O d N i CO COCO o o' 0Oo C) 1 0 CO Am . O z -• a) 000 t CO E° •t '°a tOC o 0m a) O 'O <Wç tO'dOi t0 10 O o-zv o.1 0.' o.O cc' ci) O 00 0004 0)00 c O) CC) 000 00) Cq'• CC) - CC) Coo a) 00 ° .O OL'•. 1)1 o °' -. uj C.0 • ' 010 cj .

o [-4 IZ E . 10g4 ei co O o &t CCCC (a-o o a) CCO O a- O H I-lcz Qr1 r O (Do -F o O- 8 ri .9 0 9 °' o CC ar d otO .0 O co -Ia 2 tCC O O CC a O 9 O o o z co (a rr o Lcd O CI.260 t PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tI) s CO 00 l o -: O ri) 0 - 1 ê CC s - E 15 o (a CC O 1 8 .0 o O) ZA eCo o ei O 0.- 00 Fn à 0 (a O 1 O 2 oCC O o o 1 E Oo O O co á .

3-2.8 (enumeração de crimes) 72s MATEUS 1.6-23 (o anjo sedutor no céu) 156s CRÔMCAS 1 Crôn 13.22-72 (o sermão eucarístico) 47s 15.23s (o mau espírito do Senhor cm S!quém) 155 13-16 (a história de Sansão) 226-231 5AM UEL 1 Sam 6.37-39 (as cabras malhadas de . 19. 18.44 (cSéde santos») 137.1-61 (estima dos sonhos) 186 38.1-33. 219-223 21.1-7 (a videira bem-amada) 110 EZEQUIEL 15.16-18 (a lei do anátema dc guerra) 127s JOSUÉ 3.29-29 (o maná idiilco) 108.2-36 (o maná) 107.15-22 (a simulação de Aod) 145 4.7-14 (Saul evoca o espirito de Samuel) 195s 2 Sam 6. 148 NÚMEROS 22.5-31 (a travessia do Mar Vermelho) 210-212 16.14 (região dos mortos e inferno) 1995 .25 (até que») 78 JOAO 6.7-10 (futminação de Oza) 159 -161 21.1-20 (a queda dos muros de Jericô) 214-219 JUIZES 3.22-35 (Balaã e o asno que falou) 223.23-32 (a luta de Jacó com o anjo) 142-144 ÊXODO 7.14.15-26 (a mulher de Lote petrificada) 202-205 19.Jacó) 141 32.19 (fulminação dos betsamitas) 157-159 16.30-38 (as duas filhas de Lote e seu pai) 139s 25.17-22 (a simulação de Jael) 145 9.1-7 [Vg 31.14-12.1-8 (a verdadeira videira) 111 ÁPOCALIPSE 12.12-14 (a lei do talião) 123-125 LEVÍTICO 11.9 (o mau espirito do Senhor em Saul) 154s 28.20 30.1-8 (a videira inútil) 110 AMÓS 1.6 (fulminação de Oza) 159-161 12.5 (o número de guerreiros de Davi) 76 2 Cita 16.226 DEUTERONÔMIO 20.10.20-34} (Esaú e Jacô) 140-144 27.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 RUTE (uma história de amor) 90 REIS 3 lis 22.36 (as dez pragas do Egito) 205 -210 14.LISTA DOS TEXTOS BIBLICOS MAIS PABTICULARMENTE CONSIDERADOS GÊNESIS 19.12 (Asa doente e impio) 179 JUDITE (significado moral) 144s ESTER (o ânimo bélico de Israel) 128 SALMOS 51 79 (a videira devastada) 111 ECLESIASTES (pessimismo e otimismo) 191-195 SABEDORIA 16. 219-223 ECLESIÁSTICO 34.1-14 (estima do médico) 179 ISAIAS 5.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 21.6 (restituição do quádruplo) 69s 24.7-17 (a travessia do Jordão) 212-214 6.1-17 (a Igreja e Maria) 65 20.

: 86. 17. 221 n. 9. 204: 227. 44. 2. 147. 215-219. 169. 101-103. Aod. 98. Anjos bons: 63. 55. aliança de Deus com D. 194. 62. 149. Árabes: 41.rrnota . Aliança de Deus com os homens: 80-86. Cadáver: 149. Cahitas (sem nãmeros): 67. 176. 51 xi. 99. 11. 140-144. primeiro e segundo: 88. 132. 180 n. 1. Epicurismo: 191. a. 49 n. Adão. Contemplativo (estilo): 42. 154. Alegoria. 40. 8. 247. 149. 236. 170. 101. 115 n. Citação implicita: 35s. 152-157. Comparativo dos adjetivos: 43. do extermínio: 180. Animais impuros: 146-149. Deus vivo: 55. Antitipo: 87-92. Circuacisão. 176-178. 224 n. 104. 18. Abimeleque (de Siquém): 155: 249 n. Abraão: 39. 206. 246. 203. diversa do tipo: 89 xi. 248. 167. 32. Demônio: 147 n. sagrados: 147 xi. Alma. 160 n. 153. Dura cerviz: 154. 201. «Alegria» de Deus: 59. ijconsciente após a morte: 189s. 121. Estratagema bélico: 145. conselheiros de Deus: 156. 8. a. 205-210. maus: 81. Antropomorfismos: 52-59. Dilúvio: 35. 135s. 179. 180. 102.. simulação de: 145s. Anátema: 125-132. Circulos concêntricos no discurso: 48. 159. 135s. 247. 1 «Catalisadores» da consciéncia: 120. Aramaico. 135. 16.. Dureza de coração: 136s. 112. Cordeiro pascoal: 86. Essénios: 187. 136 xi. 112. 166. 1315. Esculápio (Asclépio): 176 n. 121. 88. 184. 170. 102. 186 fl. Epicuro: 177 n. 157. Clã: 131. 36. 242. 76. Cronologia esquemática: 37. 64. 68-70. 118 n. 154. Esaú e Jacó: 86. 5. 209. 116s. 88. 159. 223-226. 181-183. 75. Criação do mundo: 31. 194. 120 n. 11. idioma: 39. D. 3. 10. a. 72. Egipcios: 33. fl. 175s. 162. Cabeleira de Sansão: 226-231.: 102. 135 s. 250. Abel. Espiral (estilo em) : 46. 247. 132 n. 46. 151. 88. aliança com Deus: 168. 116 n. Corá: 138. 230. Dinamismo de expressão: 42. Concubinato: 118 n. 80 n. 82. Amon (origem): 139. 71. 55. 202. Banho ritual: 146. no sangue: 165. 42. Coletividade e individuo: 64s. 238. Messias. 15. 162s. 167s. sacriflcio de A. 130. «Arrependimento» de Deus: 59. 19. em Juta com Jacó: 142. «Direitos autorais» entre os Antigos: 35. Amor no Antigo Testamento: 161-163. Consciência embrionária: 119s. 37. Elias: 105. 98. Christós. 82. 142. 217 n. tipo de Cristo: 89. Apoio: 195 n. 209. 20. 248. 206. 46. 216. 117s. 242. 156s. Cántico dos Cânticos (suas metáforas): 44s. 120s. Antropopatismos: 54. 62. 86. 22. 155s. 179s. 46-49. 197s. 8. tipo do Messias: 89s. a. 180. Davi: 34. 5. 25. Condescendência de Deus: 20. 40. 153 n. «Braço» de Deus: 57. 118. 18. 154. Ungidá: 80 n.INDICE DE NOMES E TEMAS' Aarão: 102. tipo do batismo: 88. 112. 149 n. 88. Antioco Epifanes: 35s. 158. 91.

Faraó (empedernido): 155. 249 n. 1. 104 s. 153 n. 12. 221s. Jubileu: 70. 241. 238. tipo de Cristo: 89. 6. 135 n. 25s: 138. Interpretação autêntica: 21-23.. código de: 124. de sonhos: 175. 190 a. natividadç de 1. 56. 79: 235. m. 140-144. Jacó e Esaú: 86. 219 n. 55. 36. e leitura da Biblia: 19-21. 196. 89. Escritura: 112 n. Metáfora: 28. 171-173. 148. 98. 121 n. Messias. 89. Lutero: 21 n. 7. Iniciação biblica: 23s.ÍNDICE DE NOMES E TEMAS Eucaristia: 15. 189-200. m. Longevidade dos Patriarcas: 68. Hamurapi. 104. 135 n. 235-238. 82. 183. 229. 109. 59: 62s. 223-226. Narrativa etnológica: 139. 91. 39 a 1. 2. «Ligar e desligar»: 51s. sacrificio de 1. 5. Macabeus: 83. 37. 37. 155 n. "Ira" de Deus: 59. 1824. à substância: 206s. por assonância: 199 n. Juizes: 37.: 100. símbolo da Aliança: 102s. José. Israel (etimologia) : 62. 91. 102. 197. Igreja e interpretação da Biblia: 21-23. 204. 12.: 88s. centro da Biblia: 93. Folclore: 203: 229. e a Anunciação: 242. 99. Mudança de dogma: 29. Gedeão: 99. 214. 116 n. aliança de Deus com: 102. 207: 209. 70. 48. M. M. 8. Mal e Deus: 152. 104. J. 13. 12: 127. 116 n. M. Hades: 190. 220s. 78. Mistério de Cristo: 81 n. 134s. Gregos: 33. 63. f. 12. 23. 72. figuras do M. 142. Evocação dos espíritos: 195s. 245. de nome: 63. 204. . 87 n. 208-210. 52: 83. 87 n. Morte: 166-170. 1. 91. 29. Mardoqueu: 128. 17. Harém: 118 n. 91s. Inferno. pastor: 112. 9. 7. 9. Mão ( medida): 41. 98. 150. Lei mosaica: 82-85. 121 n. político: 83. M. 145. 112. 152. Jael (simulação de): 145s. Existencialismo ético: 118s. Inerrância bíblica: 27-30. 182. 12. 235s. m. 1. 104. 190 n. 99. 158. da S. m. 148. segundo Adão: 84. 229. Filosofia e medicina entre os Antigos: 177. 36 n. M. e Judite: 89. 25. 176. 57. 149. 142. 93. Género literário: 16. 136 n. "Inveja" de Deus: 59. 85s. Mago: 63s. 3. lSls. Moisés: 10. M. 13: 1805. 15. inscrição de: 126 n. 20. 194. 88. Jonas: 70. 177. 239. Milagre quanto ao modo e q. e os sonhos: 184. 117. 20. Mito: 33. i. 147s. Mesa. Josué. 18. Liturgia e Antigo Testamento: 79 n. 226-231. desenvolvimento do conceito: 94-98. 112 n. 212-219. Impureza legal e impureza moral: 136. 24. Lei natural: 119: 121. 211s. Hipérbole: 43. 136 n. 182. 37. Mar Vermelho e batismo: 88. 195 n. m. dos números: 66. 131 n. tipo de Cristo: 89. Hércules: 177 s. 126 n. e a Igreja: 65. 146-149. 5. 129. 9. 243. 15: 238. 133s. 12. 195 n. 229. 23. 82. 47. 217. Glossas: 75. falível: 29. 44. 87. 67. 1-lerem: 125-132. 112. 197. entre irmãos: 138. Isaque. 197s. 136. Moab (origem): 139. Maria SSma. 181. etimologia do nome: 80 a. 28s. 183-187. in/erilus: 190-200. Exílio babilônico: 34 n. 167. 212. 247. 29. 87 n. Individuo e coletividade: 64s. 177 n. 223 n. 47s. 182. 225. 24. 14. Galileo Galilei: 30. 67s. 7. iv + 1 (esquema proverbial): 72-74. e Ester: 89. Fé de Israel e queda de Jericó: 218s. 132. 248. 205-210. 50 n. 57. Juramento e número sete: 69. de Sansão: 230. 4. 177s. 110. 200. Imaculada: 89. 157. 9. 185. 147. Matrimônio em Israel: 134-140. 129 n.: 88. 110. f. Gênio (semideus) : 148. da iniqüidade: 81 n. 237s. 178. 157. 34. Filósofos pagãos: 56. 178.

182. em sonho: 183. 17. 127. Purgatório: 199 n. 125. Pitonisa de Endor: 195s. «Sair e entrar»: 50s. Profetas falsos: 156s. doze: 71. 201s. 60. Totalidade. Serpente de Aarão: 209. 103s. 35. 101. 152s. Superstição: 120. 191. três: 70. 185s. 33. lei da: 64s. 104. 196s. 75. 146-149. 161-163. imprecatôrios: 132-134. 182. Salmos: 28. 38. Necromancia: 185. 86. 38: 234. 134. Racionalismo: 21. 57. 89. 157-159. Sol (milagre do): 30s. 156. 168: 183. 4: 175. de Apolo: 195. 149. Sodoina: 202-205. 242: s. Simbolos: 44-46. 114. 196. de bronze: 88: s. 158s. Poesia: 28. 36. «Tristeza» de Deus: 59. e o Eclesiastes: 191. 103. Proto-evangelho: 104. Noé: 39. Odiar (= amar menos): 43. 191. Conservação do: 76s: principais traduções modernas: 233-235. Paralelismo de frases: 46-52. Totem: 147 n. 167 n. 7. Suplantador: 140-144. lo: 90: 241. Salomão. 137s. Profética. Plenitude dos tempos: 20. 223 n. formal: 1485: 160s. categoria do pensamento: 64s. Sôfrimento: 182s. cinqüenta: 70. 101. 234. tipo de Cristo: 88. material e p. 91. 134. Parábolas: 44. do paralso: 81. 60. «Vingança» de Deus: 59. Paralelos. história: 35. Participação. 79. 137. 181s. 216. 14. significado dos: 65-78. 194. 157. 184s. 147. 151. 171. 102. Nazireu: 226-231. 190: 224 n. 90 n. Primitivo ascendente e pr. 246 n. 18. 200. Temor e amor no Antigo Testamento: 122. 247: p. 216: dez: 70. 132. 243. 149. 241. SheoZ: 190-200. Testamento. 14. Rahab: 217. 167. Paradoxo: 29. 214. s. 20. 87. «Setenta Intérpretes» (LXX): 10. 75. 81. Pré-história bíblica: 37. Veracidade científica e v. 249s. 40. 21. Sabedoria personificada :t 94. 199. 195 n. 40. 104. Pedagogia divina: 120. 104. 190. sete: 69. 24. 89. Números. 1955. Pecado de Adão: 53. Promessa (a Abraão): 84-86. textos: 152-154. 99. 199. s. Santidade no Antigo Testamento: 120-122. Pobres de Israel: 83. 69. 70. 201. S. 224 n. Paraíso: 13. Shekina: 105-107. Tabu: 147 n. 144. 244. decadente: 121. 9. e doença: 178-183: p. Satanás: 31. Protestantes: 17s. 73 n. 100 n. 51 n. pré-cientifica: 30s. Provérbios numéricos: 71-74. 196-200. 183. 147. 169. Texto biblico. 45. 170: 178: 241. 40. Vulgata: 10: 17. 197. . Recapitulação (por Cristo): 84 n. 5. 157-159. 135.264 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ressurreição da carne: 182s. 149. Plutão: 190 n. s. 166: 178. 31 xi. 183. disposição (iiatheke) àliança (berith): 103. 135. «Resto» dc Israel: 83.

Cumont: 180 n. Santo: 141 a. 212 a. 3. George. 224 n. 4. M. 6. Aristóteles: 32 n. .: 165 a. 42.: 126 n. 187 a. J.: 42 n. 35. Henry: 16. 9.: 79 n. 10. 19. Gourbilina. Heródoto: 129 a. J.: 149 a.: 31 n. 143 a. Clamer. Eauer. 7. 86. Hehn.ÍNDICE DE AUTORES CITADOS Abel. 142 a. 42: 161 a. Jerônimo. 239. Erman. 20. Er. 2. São: 20 a. Coppens. 4. 93 n. Fr. Harnack. 4. São: 21. Closen.: 45 n. Hoonaciçer. A. 47 a. Homero: 87 a. 13. 38. Ohorme. 15. 47. J. 32 n. S. 21: 163 a.: 71 n. 35. Bailly.: 79. 13. 67 n. J. Gelin. A. 7. 19. 33. 19 a. Eliade Mircea: 60. 31. • • • Gaster. Imschoot. Beaucamp.: 245 a.: 36 n. 221 n. 9.: 40 n. 9. 21: 245 n. 240 n. L. 17 a. 221 ii. 4.-G. Ei. 15. 18. 1.: 51 a. J. P. 236 a. 217 a. P. 4. 6. l3onsirven. Boman. Couchoud: 17 n.: 35 a. G. 3.: 159 a. 16. 35. 238 a.: 220 II. Joly. T.: 28 n. Denziger: 36 a. 10. Johnson: 17 a. 158. A. Bodenheim. Heinisch. 137. 245 a. 1. 9: 245 a. A. São: 226 a.: 190 n.: 112 n. E. Jeremias. D'Rarcourt. 2. Froatino. São: 139. 33. R. 24 245 a. 2. 1. 15. 141 n. L. 8. 15. 40.: 221 n. Bossi: 17 a. 221 n. Filo de Aleaandria: 224 a. 23. 55 n. R. 34. 9. 9. 1. 184 a. 194 a? 18. 11. 93 n. Curtias. Ceppi. 17. 36. 215s. 207 n. 9. 152 n. 1. P. De Fraine. Ferreira dAinxeida.: 17 n. 37. 5. 204 n. 226 n. Sexto Júlio: 215. 253. J. 214 n. Agostinho. 13. Cicero: 32 n. 18. Cassiano. 142 n. João Crisóstomo. 25.: 161 n.: 36 a. 4. 8. A.: 69 a. 14. 18. Charlier. 11. O. A.: 233s. Fiilion. 127 n. Bourdon: 211.: 217 n. 3. Dennefeid. Dante: 55 a.: 167 a. 6. 176 a. A. Ambrósio. E. 32. E. A. Santo: 117 n. 4. 204: 221 n. 1: 153 n. 23: 176 a. Jaussen: 204 a. 11. C. J.: 218 a. 36. 71. Artemidoro de Éfeso: 184 n. 46 a. 207 10. 198 a. 11. 190. 33. 11. 32. Censorino: 32 n. 131 n. De Vaux. van: 180 n. 139 n. 2. Hipócrates: 141 a. 19. J. 30.: 245 n.: 167 n. 42. P. 5.: 207 n. 9. M. 5. 10. Haxnman: 91 a. 2. 13. 14. Gregório Magno. 23.6. Claudel. 13. 34. Abade João: 140 a. F. 90 n. 2.: 131 a. 38. Daniel-Rops: 16. Einpédocles: 32 a. 10. Baur. Dhorm. Chame. Ch. Isidoro de Sevilha. J. 3s. 17: 139 n. 15. 8. 192 11. 17. 14: 208. Santo: 14. 6.: 217 a. 141 n. 12. Fidvio José: 125 a. 9. Guitton.: 160 a. 204 n. 4.-Cl. 234 a. 35. Diógenes Laércio: 177 a.: 165 n. 12. v.: 167 a. Gregório de Nissa. vaa.tripides: 49 a. 13. Buysschaert. 34 n.-M. 22. A. Carcopino. O.: 143 n. 132 a. Ehrenberg. 20. 2. Bossuet: 245 n. 194 a. 5: 237.

Tito Lívio: 212. 180 ri. 2. Smith: 17 ri. 246 ri.:137 ri. 50 ri. 1. Ricciotti.: 218 n. Sebulz. 197 n. 55 ri. 22. 2. Theodor. 11. Suys. 221 n.: 236 ri. 1'.: 183 ri. 11. Sehuster-Holzammer: 218 ri. 16. Polibio: 212. 101 ri.: 65 ri.: 221 n. Maritain. 35. 2. 26.: 12. 9. 2.: 131 ri. 253. 28. Rowley. 4. 18. Scullard. E. 31. 1. R: 119. Nygren. 23. 245 ri. 31. 204 ri. Robert-Tricot: 236 ri. Tournay. Weber. 207 ri. 65n. Kuss-Muller: 245 n. J. Vergilio: 165 ri. piersdn: 17 ri. 32 ri.: 198 ri. 14. Card. Cl.: 31 ri. 194 ri. 37. 203 ri. Ruperto de Deutz: 12 ri. 14.i R. Rosenberg: 79. 4. Le Prois. b3iano: 141 ri. Pi*fiëio 47. 7. Sérieca: 32 ri.: 167 ri. 4 Metzinger.: 49 n.: 64 n. 6. 9. 165 ri. Meyer. 5. 4. Steck: 17 n. E. LodsrA.: 49 ri. 21. 9. A. 245 ri. 8. 2. 9. 4. Marcion: 79. 207 ri. 15. 139.5.: 223 ri.: 143 ri.: 12. 10. Plauto: 49 ri. Vigouroux: 207 ri. Passelecq. E. . C. H. Tellier. Seilin.1. 21. 165 ri. 222 n. 6. 4. Sérvio: 32 ri. A. 2.: 36 n. 146 n. J. 26. 7. 52 ri.: 221 ri. 3. 19. Spicq. 35. W. B. bVldio: 167 ri. 17. H. E. 218 n. H. Steinmann. 7. Leão XIII: 28 ri.-J. 211 ri. Tácito: 126. Robinson.: 159 ri. A. Cl. 33. O. Weisengof. A. 18. 18.: 226. Oróslo: 126 ri. 12. Solon de Atenas: 124. 35. 10. Lesétre. 11. 12. 11. 1. E. 25. 3. P. 1! Naber: 17 ri. 2. Pffiio: 141 ri. Lagrange. Kaiser. Péguy: 31 ri. 33. 1'. Sófocles: 49 ri. Varrão: 167 ri. 29 ri.: 212 ri. 11. Reiler. Oepke: 177 ri.266 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Rerian: 146. P. 28 n. 235 ri. 11. 217 ri. 25. Lambert. A. Meignan. 212 n. tjbach: 221 n. Moritet. Stobeu: 32 n. 21. . B. Médeblelie. . 2. r6 I: 19 ri. M. 9. 11. 79 ri. 9. 11. J. 184 ri. 218 ri.: 120 ri. 2. 1.: 194 ri. Platão: 28 n. 15. 32. 3.: 33 ri.: 55 ri. 10.: 33 n. 13. 36. 3. 33 n. 39.: 132 ri. tqbclah: 159.obertson: 17 ri. 7. 14. 13. 4. W. 221 ri.1. 1.

as imprecações. no Antigo Testamento. Muitas das hesitações suscitadas pelo Antigo Testamento se dissipam. Tudo se encerra com um guia prático para a leitura da Biblia. Mt 5. o asno de Balaão que "falou". caso se quisesse fazer abstração dos livros do Antigo Testamento. Jesus não veio extinguir a Lei. não quis remodelar repentinamente os hábitos e conceitos dessa gente. as noções concernentes à vida póstuma e à justa sançáo divina. movidas por interêsse sincero. o Senhor Deus. certos milagres da história de Israel cujas proporções parecem derrogar à Sabedoria divina (a queda dos muros de Jericó. são consideradas dificuldades especiais que as páginas do Antigo Testamento apresentam ao leitor cristão: rnoralldade muito rude. que permitia o exerciclo do talião.. isto é. no decorrer de 18 séculos..Jordão. caso o leitor tome consciência de que • história do povo israelita anterior • Cristo equivale a um processo de lenta pedagogia divina. etc. a fim de os fazer colaborar num plano muito elevado. os livros sagrados pré-cristãos. o maná no deserto. Aos poucos..). o papel de relêvo atribuido a doenças e sonhos.17. A séguir. apenas houve por bem eliminar tudo que nesse patrimônio de cultura era contrário à Idéia de um Deus único. Amal até mesmo os vossos inimigos. preparando o gênero humano a ouvir um dia a mensagem desconcertante: "Bem-aventurados os que choram.(continuação cIa i. tendo-se revelado a homens rudes ou moralmente infantis.a orelha) possui para todo cristão. santo. seria impossivel entender os Santos Evangelhos e os escritos dos Apóstolos. as intervençôes muito fortes de Deus irado.." A obra se destina a tódas as pessoas que. queiram desfrutar a riqueza de livros que inspiraram amor e heroismo a geraçoes e gerçõe.s de judeus e cristãos. Czéncia e Fé na Hsõria dos Pri- . a passagem do Mar Vermelho e do . se encontram os prenúncios e os primeiros moldes" (a expressão é de Santo Agostinho!) dos grandes dona que os cristãos possuem. o Mestre Divino foi burilando as categorias de pensamento de Israel. a cabeleira de Sansão. Remunerador dos bons e Punidor dos maus. pois. Do mesmo autor: mordios A Vida que Começa com a Morte. os que têm fome e sêde. a poligamia. mas consumá-la e levá-la à sua plenitude (cf. o exterminio dos inimigos. as 10 pragas do Egito..

da AGIR QU fl 14 . Reembóbo Pcata . z-3038 ilurl2. EVANGELHO SEGUNDO SÃO LU(S Tradução de Mona. Manuel .. C P.ft . F.Tradução do P.imenv. B . Ar.t Gi-aJs Atendem pe'o Sviç. EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS Tradução do Emii Malimaiin 5 0 J * orçi_ Lu . aLX J TJ - 25 Muni 6*i4t) R.A SANTA BÍBLIA A SANTA BtBLIA — Tradução feita a partir dos orglnais e oriertada pela Liga de Estudos Bíblicos.onte I3i MI.k.Pena. Pedreira de Casro O. JUDITE E ESTER — Traducao de D Etêvo BetLeneourt O S. 919 Cixa Pta1 133 1•i. ii:. a sair no período 4 anos. fr. LIVROS EDITADOS EM E95i TOmAS. (utías (J1N i 1i edi c ões. M EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO . O APOCALIPSE — Tradução de Frei João Jos.

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