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perta cada vez maior Interêsse em nossos dias. Os problemas da hora presente têm obrigado os homens a recorrer sequlosamente às fontes onde possam encontrar a sabedoria da vida, as normas para proceder no momento atual. Ora entre essas fontes se acham em lugar eminente os livros da Biblia, que contêm os princípios sõbre os quais se construiram quase 20 séculos de civilização cristã. que explica que estudiosos de correntes assaz diversas estejam voltando atenção crescente para a Escritura Sagrada e as questões a elas atinentes; haja vista o grande Interésse com que têm sido analisados por católicos, protestantes, judeus e racionalistas os manuscritos recéxn-descobertos junto ao Mar Morto (alguns julgaram poder haurir dêles nova compreensão da civilização contemporânea). Em particular, aos fiéis católicos impõe-se a necessidade de aprofundarem seus conhecimentos de Sagrada Escritura, já que esta é o manancial por excelência da vida e da piedade cristãs. Contudo não é fácil, ao primeiro contato, compreender os livros da Biblia; foram redigidos em épocas muito remotas (os mais recentes datam do fim do séc. 1 d. O., enquanto os mais antigos são do séc. XIII a. O.), em ambiente semita ou helenista e segundo modos de falar bem diversos dos que hoje estão em uso. Principalmente o Antigo Testamento apresenta dificuldades, não raro ventiladas em conferências ou em simples conversas de amigos. Católicos e não-católicos nessas ocasiões gostariam de conhecer melhor a mentalidade, a alma religiosa, que movia os judeus do Antigo Testamento; gostariam também de possuir normas objetivas, derivadas da moderna filologia, arqueologia, etc., que os ajudassem a interpretar as passagens controvertidas. Foi em vista de tais dlficuldade, que o presente livro se originou. A obra começa por propor algumas noções concernentes á redação dos livros sagrados: o conceito de inspiração biblica (esta não dispensa, mas, ao contrário, utiliza o cabedal de cultura, rica ou pobre, de um autor humano), a mentalidade e os modos de falar característicos dos judeus (o "gênio" da língua hebraica), o emprêgo de antropomorfismos, nomes e números na literatura semita. Vêm depois questões referentes ao conteúdo dos livros sagrados: antes do mais, é exposto o significado positivo, o valor perene que o Antigo Testamento (continua na 2. 11 orelha)

O estudo da Sagrada Fitura des-

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PARA ENTENDER roi ANTIGO TESTAMENTO

DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT O.S.B.

PARA ENTENDER ANTIGO TESTAMENTO
"Quando nasceu..., padeceu, ressuscitou e subiu aos céus, Cristo abriu o livro do Antigo Testamento, pois realizou por atos quanto ali por figuras era insinuado". (Berengáudio, séc. IX).

1956

L2vrarza

AG 1 R

&dgarc,

RIO DE JANEIRO

Copyright de
ARTES GRAFICAS INDÚSTRIAS REUNIDAS S. A. (AGIR)

NIHIL OBSTAT

Côn. J. A. de Castro Pinto
Rio, 9-7-1956

PODE IMPRIfl-SE Rio, iO de julho de 1956

Mons. Caruso
Vigário Geral

CUM PERMISSU SUPERIOR UM ORDINIS

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ENDEREÇO TELEGRAFICO: "AGIRSA"

....... Alguns aspectos do simbolismo dos números .. § 2....... Enumerações proverbiais e arredondadas ..... 2.......INDICE Págs ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 9 PREFACIO...............° O princípio de solução ........NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA ........................... Sentido exclusivo e sentido precisivo ........... § 3... § 1....... d) o número doze ............ Os números simbolos de qualidades .. S................. b) o sentido de alguns antropomorfismos em particular ................. § 1.... 1—O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇAO.................... m ...... 0 Os números nos textos bíblicos ........................ 15 15 19 19 21 25 25 30 32 39 40 52 52 53 54 57 60 61 61 65 65 67 61 68 69 70 70 71 71 74 ri— LIVRO INSPIRADO POR DEUS .... IV ... patrimônio da Igreja .......... Apêndice ......0 Como o israelita escrevia a História .........PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS.................... Deus semelhante ao homem no Antigo Testamento .............. 2................ 0 Os antropomorfbsmos bíblicos .....................O simbolismo peculiar de alguns números a) o número sete . CAI'. a) o significado geral dos antropomorfismos ......... O génio da língua hebraica ........ § 1...... § l....................... c) o número dez ... Que se entende por inspiração bíblica 9 2.................... 0 CAI'...... ...... 17 ..... 1....° A Sagrada Escritura e as Ciências Naturais ... * 2.......................... E .....O simbolismo do número como tal ...........................° O problema ...........11 CAI'..............O valor da linguagem shnbolista ........... A natureza personificada ....... A ..........0 A filosofia do nome .................. a Escritura............................. 0 CAP...................... b) o número três .. o tema da Sagrada Escritura ...................... Números mal transmitidos ...

..............................0 As imprecações .......................................OS DESMANDOS DA CRIANÇA .............................. O tema do pastor .......... V .................................. O tema do maná ...O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO ...............................0 Mentira e fraude ...........80 § 2........ O tema da prevaricação e da restauração correspondente ....0 Diversas etapas e uma só meta .... 151 151 152 154 157 161 .... poligamia ....................... 123 123 § 1............................ 137 e) ulteriores aspectos .................... GAP..................° Conclusão ...................... § 4... O tema do deserto .......................... 115 CAP...................................0 Pureza e impureza ritual .............. § 5....... VI— AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA ... VII - 93 94 98 98 101 103 105 105 107 110 112 A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) ........ O tema da videira ...0 O externiinlo dos inimigos ............... O tema da escolha gratuita ou da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza do homem .................................... 134 § 4? Poligamia..............6 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Págs...............O HERDEIRO EM IDADE INFANTIL ...... a fraudulência do Patriarca Jacó ... 150 CAP....19 § 1..................0 O Deus que fuimina ............. O tema da Aliança .....................0 O "mau espirito" do Senhor . § 1........................... divórcio e incesto ...................... Aod e Jael: a amabilidade a serviço do morticínio ........................... 140 Judite..............0 A lei do talião ......................0 Os tipos bíblicos ..................... § 3............................. § 1............ 125 § 2............. 138 140 § 5........... O tema da habitação de Deus .......................... § 29 Os fios condutores do Antigo Testamento ......... 7.... IX - O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO .... 114 146 § 6................... § 2 0 O recenseamento pecaminoso .. VIII— A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) ....................° A escravatura ..0 Um principio geral ....0 A artéria central da Sagrada Escritura: a figura do Messias........................................................... CAP.......86 CAP....... 134 divórcio .... 132 § 3.......

.....14-12. LISTA DOS TEXTOS BÍBLICOS MAIS PARTICULARMENTE CONSIDERADOS .........5-31) A passagem do Rio Jordão (Jos 3... CAP.22-35) A história de Sansão (Jz 13-16) .... XI § § DOENÇAS E SONHOS 1...2-36.... Núm 11..0 "Sem efusão de sangue não há remissão de pecado................0 A grande surprêsa póstuma ....................° No inexorável fôsso dos mortos § 2.... ................. DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12..... § .............. TABELA CRONOLÓGICA .............. ............0 6................................................ ...............0 § § § § 4................................. ÍNDICE DE AUTORES CITADOS ......31-14........................ .... ..... ...........° 3......0 'PRODIGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO A mulher de Lote transformada em estátua de sal (Gên 19......." (Jo 6.................... .....................36) A passagem do Mar Vermelho e do Rio Jordão A travessia do Mar Vermelho (Êx 14. .......................... XIV COMO LEREI A BÍBLIA" 1 0 Os pressupostos de frutuosa leitura 1. ................Noções introdutórias 2.......4-9.....22......................15-26) As dez pragas do Egito (Êx 7...............0 Pequena antologia bíblica MAPA ILUSTRATIVO DO ËXODO E........... ....... Sab 16......... XXII § § § - 1» 2................... 175 175 175 178 183 CAP... Pé-requisitos sobrenaturais § 2 0 Itinerário através da Biblia § 3......... ... EM PARTICULAR........31) .. .. .........1-20) ... Pré-requisitos naturais A . O maná (Êx 16..............° 5................. 189 189 196 CAP............... .) 29 "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue 171 possui a vida eterna.. ..................... XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS § 1. . ................................ 201 202 205 210 210 212 214 219 223 226 233 233 233 233 235 236 240 245 253 257 261 262 265 CAP........... ... ... X ................ ...................................54.........) ....................... 165 CAP..........................................................20-29) Balaã e o asno que falou (Núna 22.........................SANGUE E VIDA 1..Boa edição do texto sagrado B .......ÍNDICE 7 Págs. ....7-17) A queda dos muros de Jericó (Jos 6.......... .................... ........ ÍNDICE DE NOMES E TEMAS ......" 166 (Hebr 9....................... ...0 7...0 As doenças Entre as nações pagãs No povo de Israel 29 Os sonhos .....

O ponto-e-virguia separa capítulos.ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 1. Jo Jud Apc Tessalonicenses Timóteo rito Filêmon Hebreus Tiago Pedro João (epístolas) Judas Apocalipse A vírgula separa capitulos de versiculos.2. O hífen separa tanto versiculos como capítulos. .3. incluindo na citação os versículos e capítulos intermédios. O ponto separa versiculos. ABREVIATURAS segue Os livros da Sagrada Escritura são brevemente citados como se ANTIGO TESTAMENTO Gên Éx Lev Nún Dt Jos Jz Rut 5am Es Par (Crôn) Esdr Ne Tob Jdt Est JÓ Si Prov Eci Cânt Gênesis Êxodo Levitico Números Deuteronômio Josué Juizes Rute Samuel Reis Paralipômenos (ou Crônicas) Esdras Neemias Toblas Judite Ester Jó Saimos Provérbios Eclesiastes Cântico dos Cânticos Sab Edo Is Jer Lam Bar Ez Dan Os 31 Am Aix! Jon Miq Na Hab Sof Ag Zac Mal Mac Sabedoria Eclesiástico Isaias Jeremias Lamentações Baruque Ezequiel Daniel Osélas Joel Amós Abdias Jonas Miquéias Naum Habacuque Sol onias Ageu Zacarlas Malaquias Macabeus NOVO TESTAMENTO ivIt Mc Le Jo At Rom Cor Gâl El Fip Co! Mateus Marcos Lucas João Atos dos Apóstolos Romanos Coríntios Gálatas Eféslos Filipenses Colossenses Tes Tim Ti FIm Hebr Tg Pdr 1.

entre os cristãos. às vêzes revestindo a autoridade de antigo personagem. cf. = cêrca 2. Nas circunstâncias em que foi revelado. a fidelidade absoluta do Senhor às suas promessas. Apresentando as provações de sua época como coisas já previstas por Deus. contudo não eram lidos nas assembléias de culto público. Êx 3.n (em grego. o termo significa "Êle é" ou "Aquêle que é". a fim de consolar os'leitores atribulados. Hagiçigrafo ( em grego. o nome "Javé" caiu naturalmente em desuso no povo de Deus. Entre os apócrifos figuram os numerosos "Apocalipses" da literatura rabinica. isto é. Vg = edição latina dos textos bíblicos devida a São Jerônimo (t 420). hoje destituída de autoridade. secreto): nome que designa livros redigidos por judeus ou por antigos cristãos segundo o estilo das Escrituras Sagradas. descrevia acontecimentos presentes e futuros (de preferência. Is 42. quando lhe revelou o seu desígnio de tirar do Egito a nação israelita e dela fãzer o pova de Deus por excelência (cf. Dt) havia sido traduzido por setenta e dois judeus no espaço de setenta e dois dias. Êsses escritos podiam edificar os fiéis e gozar de certa autoridade. tal nome inculcava a imutabilidade de Deus. Lste traduziu diretamente do hebraico os livros do Antigo Testamento que êle julgava canõnicos ou inspirados. note-se LXX = tradução grega do Antigo Testamento efetuada aos poucos no Egito. selada pelo sangue de Cristo. Antiga tradição. donde o nome de "Vulgata" (forma) (Vg). Em oposição aos apócrifos. Além disto.13-15). enumerados no cãnc. . ca. ou seja.8. EXPLICAÇÕES Apocalipse (em grego. Êx. seja do individuo. a vinda do Messias e a instauração cIo seu reino glorioso). b. Apócrifo (em grego. hagiógraphos = escritor sagrado): nome geralmente atribuido aos autores de livros da Sagrada Escritura. Escatologia (do grego éschaton = último. discurso): nome do tratado teológico concernente às coisas últimas ou à consumação. quanto aos do Novo Testamento. apókryplwn = oculto. seja do universo. a. Núm. mas carecentes da prerrogativa da inspiração bíblica. avivava naturalmente a confiança dos leitores no auxilio da Providência. A luz da filologia hebraica. apokálypsis = revelação): gênero literário em que o autor. a segunda. designam respectivamente a primeira. retocou a tradução latina já existente no século IV. leanón = regra. junto ao número de um versículo. catálogo) das Escrituras inspiradas ou da Biblia. donde a designação de 'ocultos" ou "secretos". Depois que a antiga Aliança cedeu à nova e definitiva Aliança. e. em particular à Aliança que estava para pactuar com Israel ao pé do monte Sinai. Daí o título: tradução "dos Setenta Intérpretes" (LXX). do século III ao século 1 ai]. a terceira parte do versículo. designa Aquêle que sem restrição possui o ser ou Aquêle cuja existência é soberana e cuja atividade é sumamente eficaz. O novo texto assim apresentado aos cristãos em breve se tornou de uso comum. Javé: nome com que o Criador se deu a conhecer a Moisés. Lev. e lógos = palavra.10 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um s após um número indica a unidade imediatamente seguinte. narrava que o Pentateuco (Gên. distinguem-se os livros canónicos.

adquiriu novo poder . em seu âmago. a metade ou mais da metade da Biblia Sagrada.. os capítulos dêste livro tendem a mostrar que as Escrituras antigas não contêm apenas episódios complicados. por isto.6)! Dúvidas existem também na mente de não poucos fiéis católicos. com sua doutrina..8). mas em sua lealdade estão dispostos a se render a tudo que seja bom e belo. fim. desde que se lhes anuncie o nexo indissolúvel existente entre os Santos Evangelhos e o Antigo Testamento. em particular com os livros sagrados ditos do "Antigo Testamento" Os problemas surgem. pouco teria que dizer. pois tocam as questões de origem. como diz a tradição cristã. significado do homem e de sua existência na terra. lhes parece muito diverso desta e. arrefecem em seu entusiasmo: o fundo ao qual se sobrepõe a Revelação cristã. originaram-se estas páginas. despertar a alegria que jorra dlo conhecimento da Verdade. antes. e que. de mensagem valiosa. e não raro cruciantes. por isto. para aquêles que não possuem a fé. é não raro detido por dificuldades que lhe provêm do contato com a própria Palavra de Deus. pois. Têm por finalidade ir ao encontro daqueles que revolvem problemas de ordem religiosa ou filosófica. preferem. problemas capitais entre todos os demais.embora a reconheçam como Palavra de Deus lhes parece ter quase esgotado em séculos anteriores a sua mensagem. sem dificuldade reconhecem-na como digna e autêntica mensagem de Deus. e julgam-na muito nobre. deixam-se ficar hesitantes diante da porta da Igreja do Cristo ou vão perder-se por novos "caminhos" de procura da Verdade. Is 40. perene como a própria Palavra de Deus (cf. Mas. os quais por vézes se vêem um tanto surpresos diante de passa gens do Antigo Testamento. Em conseqüência.. mais avultados talvez. inaceitável. Jo 14. o Antigo Testamento não perdeu seu significado após a vinda do Messias. nos tempos atuais. desconcertantes.PREFÁCIO Quem sinceramente procura a Deus. a Verdade e a Vida (cf. Visando. Inspirado pelo Espírito Santo antes do Cri-sto e em vista do Cristo. Tais pessoas lêem o Evangelho. mesmo quando apresentam coisas dêste gênero. que lhes apresenta a figura do Cristo. que é justamente o Caminho. Sugeridas pelo desejo de auxiliar a uns e outros. longe do Cristo. são sempre portadoras. Esta . deixar fechada a parte inicial.

Ora a impressão de que a antiga Lei se tornou nova no setor das investigações científicas deve suscitar 1 "O Antigo Testamento é como que o cântico novo a significar por Imagens e figuras múltiplas a mesma realidade que o Novo Testamento. H. séc. para ser cada vez mais vigorosa. concorrem para ilustrar a figura do Senhor Jesus. 1952. 1. ora ftgurado. Londres. Assim fala o Antigo Testamento ao leitor que. Is 42.) Na base destas considerações. gravado sôbre a sua superfície. se aplica aos escritos sagrados de Israel. tal como o Senhor a comunicou aos homens. Pode-Àe. por assim dizer. tornou-se o "cântico novo" (cf. que glorifica o Redentor outrora aguardado. A vida cristã. XII. tornando-as. luminosidade plena ás páginas do Antigo Testamento. outrossim. Rowley: The Rediscovery of the Olá Testament. Poderia ser assemelhado a um clichê. as páginas dêste parecem aos eruditos ter sido também recém-descobertas (atesta-o bem o título da obra de H. há de saber sempre melhor nutrir-se da Palavra de Deus. indiscernível. num só côro com os escritos do Novo Testamento. que permitiram aos estudiosos como que reviver episódios do Antigo Testamento. ou submetido a unt "revelado?' que o torne claro. . ixi Apoc 1.10).. "A Antiga Aliança é tão cristã quanto a Nova. Ora o "revelador" que deu clareza.9). têm-se proposto na literatura moderna comparações assaz significativas. Paris. depois de conhecer o Cristo.12 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de expressão. 1945). vê-se bem que não pode haver compreensão do Evangelho nem renovação da catequese cristá (renovação que muitas e belas iniciativas hoje em dia procuram realizar) senão mediante a devida utilização dos escritos do Antigo Testamento. lembrar o caso de um homem que considerasse uma tela de pintura rematada e depois lançasse os olhos sôbre o esquema ou croqui cIo mesmo quadro. É o que. tal observador saberia descobrir no esbôço muito mais acenos ou riquezas do que aquêle que não conhecesse a obra terminada. enquanto o clichê não é revelado. os escritores sagrados de Israel se referiam ao Messias por meio de símbolos e sentenças misteriosas. Splcq. hoje presente entre nós. foi o Senhor Jesus com o seu Evangelho." (C. Êste representa um objeto preciso. Para melhor dar a entender o valor cristão do Antigo Testamento.. 1 Com efeito. há di)' erença apenas no modo como Deus ensina: modo ora claro. a vinda do Cristo só fêz tornar patente o significado profundo de tais acenos. L'Epitre aux Hébreux. coloridas e vivas. As excavações arqueológicas no Oriente trouxeram ao conhecimento do público importantes dados. luminoso." (Ruperto de Deutz. Éstes agora. com sua linguagem. porém. 331. parecem incutir os acontecimentos mesmos dos últimos decênios. figura que está esculpidia sõbre a face da história inteira do gênero humano..

lugar de felicidade dos primeiros pais (cf. Gên 2). 11). Mt 5. 22. ate se completar a construção (cf. porém.PREFÁCIO 13 efeito semelhante no espírito daqueles que consideram os escritos de Israel não apenas como livro de erudição humana. Hebr 11. resta indicar o roteiro que percorrem. As Escrituras israelitas aparecem então qual maqueta (de argila. Êx 3. prometida ao povo de Deus nos inícios da história sagrada. é anunciada também por Jesus aos mansos de coração (cf. é reproduzido no Apocalipse ou na cena final dos séculos (cf. No fin dos tempos. . V e VI). em proporções mais amplas e com material definitivo. faz ecoar acordes disseminados por todo o Antigo Testamento. Assim as figuras esquemáticas do Antigo Testamento recebem nas últimas páginas da Bíblia os matizes mais vivos possiveis e são. A seguir. Assim o tema da "Cidade Santa. 1H e IV).3. vão sendo reproduzidas lenta e fiel: mente.6. é pôsto em relêvo (caps. maqueta cujas linhas. o Antigo Testamento não poderá deixar de ser também mais valor rizado como ESPÍRITO e ViDA ou mensagem de Deus aos homens (cf. mas principalmente como código de Sabedoria sobrenatural: mais claramente apreciado na qualidade de LETRA ou doctmentó literário. Jerusalém nova.5) e só será plenamente concedida quando céu novo e terra nova forem instaurados na criação (cf. algumas notas características da linguagem semítica ou israelita (caps. 1). o que há de positivo. o quadro do paraíso. longe de ser abandonadas pelo Arquiteto do mundo e dos séculos.63). Não seria suficiente. 2 Cor 3.2). já plenamente desabrochadas. Jo 6. trajada como a noiva que vai ao encontro de seu noivo" (Apc 21.8-10). a mensagem perene das Escrituras judaicas. o Antigo Testamento desvendara todo o seu sentido.2-5). a terra "onde correm leite e mel" (cf.8). são focalizadas questões de redação e forma literária dos escritos sagrados: o sentido da inspiração bíblica (cap. cêra ou madeira) de edificio fizturo. * * * Uma vez proposta a finalidade destas páginas. e sàmente então. ainda uma vez apresentadas ã consideração do leitor. Apc 21.1). aborda-se o conteúdo mesmo do Antigo Testamento: Primeiramente. dizer que a situação dos cristãos peregrinos neste mundo só se entende como prolongamento de uma história pré-cristã: a própria consumação final é anunciada pela Palavra de Deus mediante alusões contínuas a tipos e episódios do Antigo Testamento. Depois de estabelecido um princípio que é chave para a solução de qualquer dificuldade bíblica (cap.

Não abandones os teus dons. por pertencerem antes à alçada de um comentário do texto sagrado.. X. ficam não poucos pontos obscuros. sempre válida.14 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Já. dos sonhos. e ouça a voz de louvor. à conceituação das doenças. Eis que a tua VOZ é a minha alegria. iii. e considere as maravilhas da tua Lei. VII. entre os israelitas.) Rio de Janeiro. e Jôste Tu que o deste. maio de 1956. pois não 101 em vão que quiseste fõssem escritos os densos segredos de tantas páginas. e beba a Ti. porém) foram deixados de parte. O conjunto se encerra com a apresentação de pequeno guia prático para a leitura da Bíblia (cap." (Confissões. Abram-se agora os capítulos acima assinalados sob o eco de famosas palavras de Santo Agostinho dirigidas ao Senhor Deus: "Sejam as minhas castas delicias as tuas Escrituras. por se basearem em pressupostos de medicina e antropologia hoje carecentes de valor: é. nem por elas engane. pois. 11.. e às noções de vida póstuma. O cap. Mais uma fonte de perplexidade é o caráter maravilhoso que tomam certos episódios narrados pela história sagrada. Louve-Te eu por tudo que encontrar nos teus livros. e não a leches áqueles que batem. no qual lizeste o céu e a terra. sem recear o "maravilhoso". os caps. desde o principio. pois amo. Outros tentas do Antigo Testamento que talvez ainda suscitem ao leitor dificuldades (de menor vulto. que se prendia à utilização do sangue.7. a tua voz está acima da abundáncia das volúpias. porém.. que. XIV). . mas coadjuvada por melhores instrumentos de trabalho do que os de outrora. nem seja eu por elas enganado. ao lado das grandes e luminosas linhas. Os caps. Dá o que amo. viir e IX procuram mostrar o que podem significar as narrativas de pecados "escandalosos" nos livros que Deus inspirou. Xlii expõe a interpretação que a tais seções dá a exegese católica contemporânea. considerada a doutrina religiosa. 0 AUTOR. . XI e XII tratam de expressões e manifestações da religiosidade do Antigo Testamento que ao leitor moderno parecem estranhas ou desprezíveis. Dá lugar ás nossas meditações sôbre os mistérios da tua Lei. até o reino perpétuo da tua Cidade Santa. nem desprezes a tua erva que tem séde.

O fato de que a Bíblia não é devidamente conhecida causa pesar semelhante ao que suscita o esquecimento de alguns cristãos em relação à S. pois. mas. se requerem certas noções introdutórias. E. servem-se.. Tal verificação não pode deixar de impressionar a quem sôbre ela reflita. mesmo dentre os mais fiéis à vida cristã. alguns núcleos de fiéis têm tentado explorar os tesouros da Sagrada Escritura. Em um e outro caso observa-se que os maiores dons de Deus não são suficientemente procurados. quando se lembra ao leitor. dir-se-ia em linguagem popular. Contudo. Todo católico professa que a Bíblia é livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores. um livro mais ou menos cerrado. e quase que exclusivamente. que. esperar-se-ia que fôsse a obra mais lida e explorada pelos cristãos. à impressão de mal-estar ou mesmo de escândalo ou à conclusão de que a Escritura é livro obscuro. são subestimados em favor de objetos e práticas menõs ricos e eficases para a santificação. Conscientes de tal anomaiia. com prazer. para entender as páginas bíblicas. difícil demais para ser alimento da vida espiritual. alheia às idéias e à terminologia que os cristãos costuitam ter na mente e nos lábios. o mesmo se sente como que atemo- . ela lhes parece arcaica. . Esta é. exigem para si a primazia na biblioteca ou na cabeceira do cristão. onde não têm o costume de procurar o nutrimento da vida espiritual. não estão familiarizados com a Sagrada Escritura. quase que por definição. não se podem furtar. para êles. o primeiro manancial de espiritualidade dos fiéis. ainda que animados pelas mais sinceras disposições. Eucaristia. desapontado ou escandalizado.CAPÍTULO 1 O PROBLEMA BIBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO § 1. para revigorar sua piedade. empreendendo a leitura sistemática da mesma. As páginas inspiradas por Deus certamente não excluem o que os santos e justos escreveram de verídico e belo. "Deus não se terá abalado por pouca coisa. 0 O PROBLEMA É fato inegável que bom número dos católicos de hoje. conseqüentemente. de obras e opúsculos religiosos posteriores à Bíblia. perante certas páginas do texto sagrado..

em que as verdades religiosas não se encontram ocultas sob uma multidão de imagens e de fatos. ou por meio de reflexão pessoal sôbre alguns textos prediletos ou pela meditação de alguns pensamentos familiares ou pela leitura de excertos. Ora é o espírito do Evangelho só que devemos procurar. Vão aqui transcritos alguns dêstes testemimhos. que em minha infância e juventude só me falaram do Antigo Testamento em têrmos negativos: encerra histórias demasiado realistas para poder ser colocado nas mãos de qualquer leitor. É esta uma forma de resistência. é o que se propõem os capítulos se1 Como se compreende. mas se acham luminosamente expressas. escreve outra pessoa. é muito difícil perceber como julgar tódas essas histórias." "Noto. a fim de se perceber mais ao vivo o doloroso realismo do problema: "A Bíblia é objeto de museu. os depoimentos são anônimos. são a expressão fiel do que muitas vêzes se pensa também no Brasil. A situação assim esboçada pede ser revolvida. mesmo se tivéssemos tempo." "Há na Biblia uma série de histórias horrendas. Alguma coisa dentro de mim se recusa a crer que minha vida possa ser ajudada. para o estudo erudito. não obstante. iluminada. de história. ou que só admite a literatura escandalosa quando esta se apresenta com aparato e fama. materiais e educativas. de nomes e datas. densos e curtos. "Les catholiques lisent-ils la Bible?" em La Vis Epiritucue Stipplément 12 (1950) • 84-98. não se compreende quase nada na Sagrada Escritura. Depois da labuta de cada dia. e não livros de erudição. esta respiração profunda em Deus. calma.. não coisa viva. Julgamos poder encontrar esta paz.16 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rizado pelas exigências que a técnica exegética moderna lhe parece impor. que meu pároco dá cursos de Sagrada Escritura. que possam aproveitar. nem todos têm tempo ou aptidão! Um inquérito recém-realizado na França nos dá a conhecer com exatidão as opiniões de fiéis que têm procurado ler a Escritura. que jamais freqüentei. Não temos tempo para fazer isto tudo: cada família se acha sobrecarregada com obrigações profissionais. desejamos repouso. XX nada encontram Tais depoimentos encontram eco espontâneo fora mesmo da França. Não quero defender a hipocrisia da nossa sociedade contemporânea. A leitura frutuosa da Bíblia exige árduo trabalho literário." 1 É livro ante-diluviano. oração. O Antigo Testamento procede de um espírito totalmente diverso do do Evangelho. que à Biblia prefere a literatura "de água de rosas". onde os homens do séc. como se sabe. A história dêsse obscuro povo hebreu parece tão longínqua que se torna meio-irreal. A solução. transformada." Eis o depoimento de um grupo de casais: "Salvo algumas passagens esparsas cá e lá. Contribuir para a renovação. faz-lhe perder o ânimo. atual. E. porque a Sagrada Escritura se lhe afigura então objeto de estudo científico antes do que livro de edificação sobrenatural.). por essas narrativas pré-históricas.. paz. escreve uma dirigente da Ação Católica. foram colhidos no artigo de Henry. etc.. ao menos para se recolocar o texto no seu contexto e no seu clima de origem (exegese.. . Devo dizer que não li Daniel-Rops. não sentiríamos atrativo por êsse estudo árido. estudo dos gêneros literários. e. em vez de o satisfazer.

Com efeito. em boa parte norteadas por protestantes liberais. a Bíblia. assim como o continuado abuso dos protestantes. As figuras de Jesus e S.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 17 guintes. para impedir fôssem seduzidos os fiéis. Paulo foram reduzidas a ficções literárias. Robertson). porém. recordaremos alguns fatos da história religiosa moderna. XIX veio corroborar a desconfiança. o texto latino da Vulgata foi declarado autêntico e aos fiéis se proibiu a leitura de traduções vernáculas da Bíblia não acompanhadas de notas explicativas conformes à doutrina católica. Naber). Fomentou uma onda de cepticismo que se propalou pela Holanda (Pierson. quiseram mesmo confirmá-los por seus trabalhos científicos. passou a ser o arsenal de argumentos dos herejes. Tais opiniões se foram disseminando através dos tempos sem grandes dificuldades. aconteceu que.. a França (Couchoud). errôneas e ímpias. por todo o século passado. de estudarmos algumas vias de solução do problema. escola de heresias. obra colocada no Índice dos livros proibidos pela Igreja! . se tornou o objeto de exploração dos homens de ciência. os estudiosos não se conseguiram emancipar de preconceitos filosóficos ou racionalistas. que abusivamente fêz da Biblia a principal fonte de seus erros religiosos. 2 Ora isto contribuiu naturalmente para que se acen2 Principalmente a Escola alemã de Tuebingen. Antes. e isto os fêz chegar a conclusões estranhas à Biblia. As suas pesquisas não raro tiveram por resultado ilustrar maravilhosamente o sentido de passagens bíblicas obscuras. por isto mesmo. aos Evangelhos e aos escritos paulinos se denegou tôda autenticidade. manual de protestantismo. Uma das raízes remotas da desconfiança dos católicos frente à Sagrada Escritura é. correntes eruditas de pensamento. a Suiça (Steck). XVI. tendo à frente Bruno Bauer (t1882). os sábios puseram-se a compará-los com a antiga literatura religiosa de Israel. as autoridades eclesiásticas viram-se obrigadas a lhes restringir de certo modo o uso da Sagrada Escritura: no Concilio de Trento (1545-1563). Em tôrno da Escritura formaram-se escolas diversas. se prestam a mal-entendidos ou escândalos. a inglaterra (Johnson. interessa-nos considerar mais atentamente as causas do distanciamento dos fiéis em relação à Escritura. A tal fim. a Escritura. o . se distinguiu por suas teses hipercriticas. sem dúvida. foram suficientes para criar entre os católicos uma atmosfera de pouca "simpatia" para com a Bíblia. esta passou a ser julgada livro perigoso. assiduamente manejada pelos protestantes. os Estados Unidos da América (Smlth). No séc. e que. a Ps. tendo deixado de ser o manual daqueles que visavam a piedade. eruditos muitas vézes sem fé. Ora. de mais a mais que na Bíblia há realmente expressões e narrativas cujo sentido não é evidente à primeira leitura. a Itália (Bossi). Descobrindo no Oriente manuscritos e monumentos pré-cristãos. Reforma Protestante. irrompeu o movimento luterano.. A história do séc. Tais normas (em si muito sábias e oportunas). porém. Muitas vêzes.

alguns círculos católicos se fecharam por completo à utilização dos recentes dados da ciência na exegese bíblica. tudo que sej a fruto de mera convenção. manifestam o desejo de viver as conseqüências práticas dos mistérios da SS.. para não se cair na infidelidade ao ler a Bíblia! A situação se complicou mais ainda em virtude de um terceiro fator. digna do verdadeiro Deus! Pois bem. reavivando em si uma mentalidade mais tipicamente cristã. porém. no séc. . a Bíblia veio a seróbjeto de desprêzo daqueles mesmos que procuravam uma religiosidade elevada. o Evangelho de S. o livro dos Atos dos Apóstolos. menos superficial ou desvircristianismo passou por produto da filosofia religiosa de Alexandria e da sabedoria popular dos romanos! Alguns autores de Tuebingen. ao menos.. O homem dos nossos tempos tem acentuada sêde de tudo que é genuíno. teria tentado conciliá-las. ao estudá-lo no séc. lendo e expondo as passagens da Sagrada Es-. O movimento bíblico é portador de um título. da Encarnação e do Corpo Místico. de modo nenhum. por exemplo. XIX. tantos se perderam nos mais variados erros do liberalismo e da impiedade. inovador. depois de 160. provocou uma reação imediata. Entendida de maneira demasiado humana. procura tomar consciência da razão de ser de tôdas as coisas.18 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tuasse mais ainda nos católicos a impressão de que a Escritura é livro reservado: reservado aos protestantes ou. admitiam que no séc. capaz de lhe assegurar pleno êxito. Assim. O cientificismo bíblico. que as pesquisas modernas desvendaram.. fantasista. Trindade. e entre os próprios católicos. seria a expressão da conciliação jã obtida. Poderá esta iniciativa contar com alguma probabilidade de sucesso? A resposta afirmativa se impõe. e rejeita o que lhe pareça destituído de fundamento objetivo. já qUe. 1 a cristandade estava dividida em facção petrina e facção paulina. Cristiano Baur (t1860). àqueles que têm muita ciência . seria necessária muita fé. autêntico. II.livro perigoso a novo título. Desta atitude resultou em não poucos dos contemporâneos a idéia de que a Bíblia é livro retrógrado em relação à ciência.. João. sustento de um espírito esclarecido. vocabulário. critura sem muito discernimento das regras de estilo. Assim a recente história da exegese parecia confirmar o preconceito de que a leitura do texto sagrado constitui um risco para a verdadeira religiosidade. Isto se dá também no setor religioso. se não a êstes. átimo repertório de histórias para crianças. é no mundo herdeiro de tais preconceitos que se procura despertar hoje um movimento católico de volta à Escritura. Perante a confusão suscitada pelos eruditos. caíram assim numa atitude simplória. Os nossos fiéis têm procurado praticar a sua religião imediatamente à luz dos grandes dogmas. mais moderados. infantil. sem consideração do respectivo panorama histórico.

amênera les catholiques à tire de pias cii pias la Bibie. cit. recorde-se de que uma atitude de fé sobrenatural é condição absoluta para penetrar o âmago da mesma.zt irrésistible qui. em última análise. teosofistas. que será também um princípio geral de solução para as dificuldades acima apontadas. Ora entre as fontes de revigoramento da vida cristã está certamente a Escritura Sagrada. numa fase da história em que diversas facções humanas se chocam. 4 Cc nwuveme. 98. por verificarem que se vai multiplicando o número de confissões religiosas (seitas protestantes. é do âmago do dogma que Pio XII deseja se nutra a espiritualidade crista. fornecendo noções que lhes tornem possível desfrutar o rico conteúdo das páginas inspiradas. Através dos seus setenta e quatro variados livros. espíritas. E isto. De modo particular se sentem os católicos contemporâneos impelidos a tomar conhecimento da genuína mensagem da Bíblia. a fim de que o sal da terra seja sal ainda mais autêntico. de 29 de junho de 1943). XVI. Liturgia (Mediator Dei. § 2. C'cst da moins cc que nous pouvons espérer lopalement. cada qual do seu modo. permite prever todo o êxito ao movimento bíblico contemporâneo. porém. por dois motivos: a) o tema da Sagrada Escritura. humanamente falando. as disposições da Providência em vista da salvação do homem. trata de um só objeto. dos quais deduz conclusões atinentes à vida de oração. dans ia mêlée actueile. (Henry.. etc. o mistério de um Deus que desce até o homem para elevar o homem 3 O Santo Padre Pio XII.) que. Os comentadores consideram a Mediator Dei como o segundo capitulo de uma única obra que começou com a encíclica sõbre o Corpo Mistico de Cristo (Mystiet Ccrporis.) . visam introduzir os fiéis na leitura do livro sagrado. procurando deduzir da mesma as idéias mais desconexas possíveis. Apresenta-nos em suas fases sucessivas. de 20 de novembro de 1947) apela freqüentemente para os dogmas da Encarnação e da Redenção. a saber. force la conscicift de chacun d présenter les piêces authentiques de ia croyancc.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 19 tuada pelas influências não-católicas que sofreu a partir do séc. mobilizando tudo que elas possuem de vital. pois. art. 3 Em outros termos: nota-se uma sêde de voltar às fontes da verdade e da vida cristãs. É. falam em nome da Sagrada Escritura. por seus escritos. desde os primórdios até o fim dos tempos. uma observação prévia. a Bíblia. Impõe-se. bem característica da nossa época. é por esta e pela tradição oral que a Igreja se orienta. Santidade sôbre a S. tem estimulado tão louvável tendência: a encíclica de S. a sêde do autêntico. Quem quer que se apreste a ler a Escritura. 0 O PRINCIPIO DE SOLIJÇAO Os capítulos que se seguem. que.

quanto mais a fé é viva e forte no leitor. se quer dar derramaildo o bem sôbre os indigentes. semelhante à de um judeu antigo. mas que tem seus prenúncios nos séculos anteriores (entre os quais. em cada urna das passagens da Bíblia. Disto se segue que a chave para se penetrar na Bíblia há de ser uma fé coerente no mistério da Encarnação do Verbo. O Deve-se mesmo observar que.2. A atitude de fé já por si desfaz muitos dos problemas que o conteúdo e a forma literária da Sagrada Escritura apresentam. mostra-se invencível na arte de procurar o indigente ingrato.tal descida não é simplesmente uma vinda. tal cristão discerne cada vez melhor o que é contingente e o que é mensagem perene.1. embora seja inconfundível. mal entendido. in lo 15. Por tratar de tal tema. mas que é. 6 A expressão é de S. E . os planos de Deus. a Bíblia tem necessàriamente passagens quase desconcertantes para o leitor que a queira julgar inicamente à luz da sabedoria humana: a sua linguagem é simples e pobre. não obstante. e a figura de Deus 4ue ela apresenta. ela tem o caráter quase paradoxal de uma condescendência 5 de Deus para com o homem. assim também não sabemos dizer porque se quis adaptar à linguagem do homem no livro sagrado nem porque quis incluir no seu plano providencial tantos instrumentos rudes e imperfeitos. embora soberano e independente. quem na fé aceita o aniquilamento do Filho de Deus até a morte de servo (cf. . está por vêzes adaptada à mentalidade oriental e aos costumes. tais 'problemas" na realidade não são maiores enigmas do que a proposição de um Deus pregado à cruz.note-se bem . Encarnação que se deu na plenitude dos tempos. Essa descida de Deus ao homem é também o mistério de um Amor que. in . as vias pelas quais Éle procura o homem transcendem 'infinitam ente o bom-senso da criatura. Flp 2. 15.Gen h. V. longe de se deixar desnortear por textos difíceis. João Crisóstomo.20 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ao consórcio de Deus. • O O significado geral do Antigo Testamento e da História Sagrada será objeto de ulterlores considerações no cap. os livros sagrados do Antigo Testamento) e que continua a se manifestar em tôda a história do cristianismo. é que lhe fala mais claramente o Mestre interior. Assim como não podemos indicar a última razão por que Deus se fêz homem na plenitude dos tempos. de uma adaptação da Majestade do Criador aos moldes pequeninos do pensamento e da vida da criatura.1). às tradições dos semitas antigos. rejeitado. tanto üiais também êle experimenta afinidade com os dizeres da Escritura. que a usa freqüentemente (ei. quanto mais a vida sobrenatural nêle está arraigada. Não há dúvida. 11. 3.8).3. de diversos rnodos. o próprio Autor das Escrituras. já não se admira diante dasmúltiplas formas da condescendência divina sugeridas pela Bíblia.

mas ao menos indica verdades de fé às quais nenhum exegeta pode derrogar sem cair no êrro. para os católicos. ela se exerce já na questão de saber em que consiste a Biblia." Destas considerações decorre que. renunciando a exercer o espírito de crítica. a proferir algum juízo. ° Sendo assim. até o fim da vida. Se os católicos mantêm o seu ponto Qe vista. isto se dá. Quem admite isto. 2 Pdr. Jud. já que pela Igreja Cristo ensina aos homens. Bar. seguindo apenas as insinuações da ciência ou ào seu bom-senso pessoal. A penetração da Sagrada Escritura. ninguém se prometerá chegar um dia a compreendê-la como compreende um livro ditado imicamente pela sabedoria humana. há de reconhecer que à Igreja compete. Sab. 7. 9 Exemplo notório é o do cânon ou catálogo das Escrituras sagradas. Pode acontecer mesmo que a autoridade da Igreja seja o único argumento decisivo para que o católico tome tal posição exegética em vez de outra. para os rejeitar. Rolo. deduzidas da histôria. seria incoerente o católico que procurasse estudar a Sagrada Escritura independentemente do magistério da Igreja. sendo função da fé na Encarnação. é pela Igreja que lhes dá a saber o sentido da Palavra escrita de Deus. de resto. os juízos de Deus. distancia radicalmente o católico. arqueológicos. Como. é na Igreja que o Verbo Encarnado prolonga a sua vida e a sua obra de iluminar e salvar os homens. Donde se vê bem que tal crença é básica para o católico que se proponha ler a sagrada Escritura. tenha consciência de que encontrará passagens diante das quais. dos demais leitores da Bíblia (protestantes. espíritas. Por conseguinte. Os católicos também desenvolvem argumentos para os admitir. Hebr. Verdade é que o magistério eclesiástico não dita normas positivas para o entendimento de todo e qualquer texto bíblico. ao contrário. 7 8 . não pode deixar de estar também 'rntimamente associada à fé na Igreja. 1 e 2 Mac. que é a Bíblia. Apc). tenham os fiéis consciência de que não poderão sempre por argumentos filológicos. literários provar a protestantes e racionalistas que a interDivina eloquia cum Iegente crescunt (in Ez 1. ao abordar a Escritura. patrimônio da Igreja. o mistério da Encarnação do Verbo sempre exigirá a adoração reverente dos fiéis. 85). porque crêem na autoridade infalível cio magistério da Igreja. Todos sabem que Lutero não reconheceu como inspirados ou canônicos certos livros que os católicos admitem como tais (assim Tob. 2 e 3 Jo. deverá simplesmente adorar. Os protestantes apresentam razoes. T. em última análise.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 21 S.). etc. em Última análise. É esta fé na Igreja que. Com efeito. Jdt. b) a Escritura. Gregório Magno (f 604) exprimia esta verdade numa frase incisiva: "Os dizeres de Deus crescem com aquêle que os lê. As razões de uma parte e de outra não bastam para dirimir a questão. dar a genuína interpretação da Escritura. racionalistas.

escreveu a segunda epístola aos tessaloaicenses. foram-na transmitindo de viva voz pela pregação. Ora. Como isto? É preciso não esquecer que os livros da Escritura tiveram origem ocasional ou esporádica. de sorte que subtrair-se a essa posição vem a ser infidelidade para com o texto mesmo que se quer elucidar. poucos meses mais tarde. Foi o que ocasionou a primeira epístola aos tessalonicenses. Em conseqüência. em que de novo só se propunlia desfazer os mal-entendidos dos fiéis. o material respectivo (papiro ou pergaminho) era raro. Paulo aos tessalonlcenses. não raro. ciente disto. porém. exigia muito tempo e grande habilidade por parte do autor. o magistério se exercia quase ünicamente pela palavra viva. Paulo teve noticia de que os tessalonicenses nutriam dúvidas a respeito cIo dia do juízo final e da sorte que então tocaria aos irmãos defuntos. os Apóstolos não se preocuparam grandemente com a redação da doutrina recebida de Cristo. de modo nenhum intencionavam expô-los de maneira sistemática ou exaustiva. '° Pergunta-se. 12 Haja vista. Paulo aborda aspectos da doutrina da segunda vinda de Cristo. ape- 1' / .22 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pretação dada pelos católicos a tal passagem bíblica é a autêntica. tais dúvidas provocavam agitação entre os fiéis e solicitavam a intervenção do Apóstolo. em que S. que esporàdicamente os fiéis desta ou daquela região propunham questões particulares (de índole dogmática ou moral) aos Apóstolos ou pediam que lhes enviassem uma súmula escrita do que haviam pregado. apenas elucidavam os aspectos que davam lugar a mal-entendidos entre os fiéis. Não se pôde. No tocante ao Novo Testamento. pode-se dizer que ela é não apenas imposta pela Igreja. porém: não será constrangedora. pouco digna da inteligência humana. a maneira como se originaram as duas epístolas de S. onde fundou o primeiro núcleo de cristãos da cidade. 11 Isto bem se entende pelo fato de que escrever era arte difícil na antiguidade. Paulo. mas exigida pela índole mesma da Escritura Sagrada. pois. o Apóstolo estêve em Tessalonica (Macedônia). porém. porque apenas intencionava completar a pregação de viva voz. " Acontecia. em térmos breves. demorar aí tanto quanto necessário para rematar a catequese dos recém-convertidos: um tumulto provocado pelos judeus obrigou-o a procurar refúgio em Atenas e corinto (cf. porém.1-15). Já que esta primeira carta não bastou para acalmar os ânimos. pressupondo de resto os ensinamentos que de viva voz haviam transmitido. Por volta de 51. At 17. seriam igualmente plausíveis. atendendo a essas necessidades contingentes é que os Apóstolos e Evangelistas redigiram suas cartas e suas biografias de Jesus (Evangelhos). 12 Daqui se segue 10 Já que os não-catúlicos não reconhecem tal magistério. Por sua vez. sabe-se que Jesus Cristo comunicou todo o seu ensinamento aos Apóstolos por via meramente oral. ao abordar pontos de doutrina em tais escritos. pouco depois de chegar a Corinto. torna-se por vêzes vão querer argumentar com êles. professar que é a voz da Igreja que os leva a optar entre duas explicações que. por exemplo. esta atitude dos católicos? Não. à luz dos critérios literários. deverão.

como modalidade nova da mesma. e cultura oriental antiga.5s). humano. como se deduz da critica literária dos livros do Antigo Testamento. pois se originou dentro da tradição oral. Apenas fragmentos cio historiograf ia ou dos cráculos dos profetas ou das máximas dos sábios de Israel nos foram consignados.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO 23 que muitos temas da autêntica pregação de Jesus ou do depósito revelado não passaram para o papiro. que. ninguém pretenderá apreender a mensagem divina da Escritura. 2. em outros têrmos. certamente inteligíveis para os seus primeiros leitores. o recurso aos resultados da ciência moderna empreendido pelos bons exegetas conlaudo. é obra de autores humanos. ela de modo nenhum dispensa certo estudo ou esfôrço que vise penetrar e entender o aspecto literário. para que se manifeste em seu tempo. a tradiçâo oral. mas ficaram na tradição meramente oral da cristandade. 13 É o que faz que. como se vê. pois. depende desta. é o espírito sobrenatural do leitor que a deve perscrutar. para a redação das páginas sagradas. De tudo isto resulta claramente que o recurso à tradição. Esta é. . não se pode deixar de salientar que. sem dúvida. os escritos do Antigo Testamento. contribuíram com seu cabedal de cultura. Por fim. E. esta pequena parte não constitui um bloco fechado e completo em si. esporádica. mas é inseparável da tradição oral. Tendo em vista as disposições habituais da Providência.5s: "Não vos lembrais de que eu vos dizia essas coisas quando ainda estava convosco? Agora sabeis o. para o seu ensinamento oral (cf. um livro divino. portador de mensagem sobrenatural. e. Errôneo. enquanto tal. é exigência decorrente da índole mesma da Sagrada Escritura. longe de ser imposição arbitrária da autoridade eclesiástica. seria desprezar. É o que explica que estas duas epistolas. 2 Tes 2. o primeiro elemento a ser consultado seja o conjunto de ensinamentos que sempre se transmitiram ao lado da Escritura no povo de Deus ou na Igreja. da Bíblia. que o detém. ora não resta dúvida de que êste outro aspecto da Escritura só pode ser entendido mediante o recurso às noções de cultura pressupostas pelos autores bíblicos. sem prêviamente tomar conhecimento exato do veículo humano a que se quis ligar a Palavra de Deus. Semelhantemente. tiveram origem ocasional. que ainda hoje vive entre os cristãos e tem seu autêntico órgão de expressão no niagistério da Igreja. porém. faltam-nos os elementos da pregação oral que deviam esclarecer o que Paulo diz a respeito da aparição do Anticristo e do Obstáculo que o detém (cf. é preciso mesmo dizer que só pequena parte das verdades de fé foi explicitamente consignada por escrito. é. Ao mesmo tempo. em nome da fé ou da piedade.") 15 Isto se compreende já pelo fato de que escrever era relativamente pouco usual entre os antigos. embora a atitude de fé seja a atitude primária para uma profícua leitura do texto sagrado. na exegese da Sagrada Escritura. apresentem hoje dificuldades exegéticas insolúveis. de resto.

tais opúsculos possibilitam o acesso ao livro sagrado mesmo às pessoas que. as noções introdutórias na Escritura encontram-se redigidas sob forma breve e simples em opúsculos das diversas línguas modernas. eis o pressuposto de uma leitura frutuosa do livro sagrado. porém. nada despreza daquilo que de verídico ensina a ciência. que.24 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO temporâneos. que nem todos os leitores da Escritura estão obrigados a fazer os mesmos estudos para desfrutar o conteúdo do texto sagtado. está pronto a exercer a fé renunciando a julgar as autênticas obras de Deus. É claro. . por suas circunstâncias de vida. não sõmente para aquêles a quem é dado o lazer do estudo. de outro lado. Deus houve por bem fazer da sua Palavra a mensagem para todos os homens. de um lado. eis o princípio geral para a solução dos problemas da Bíblia. menos se possam dedicar ao estudo. mas. Em conclusão: espírito sobrenatural muito vivo.

sua transfixão na cruz (Zac 12. O conceito. consignaram por escrito pormenores da vida do Messias. pois. visto que deviam fazer parte da . quando os profetas de Israel. se dedicará o presente capítulo. estar associada a êste outro dom divino.13-53. 0). verificou-se. § 1. 52. é geralmente movido por uma crença de importância capital: a Bíblia é a Palavra de Deus. "Livro inspirado por Deus" parece-lhes ser obra absolutamente emancipada das fases de preparação por que costuma passar todo produto literário humano. por exemplo. porém. Não poucos se admiram ao verificar que a Escritura se assemelha muito a obras profanas. porém. a documentos da literatura antiga. Isto. goza.0 ). ou seja. A iaspiração pode.4-10. que é capital em tôda iniciação bíblica. Livro inspirado pelo Altíssimo. sua paixão expiatória (Is 50. de inspiração bíblica não é claro a todos os cristãos. Ao estudo dêste problema. séculos antes de Cristo. abordando primeiramente o conceito de inspiração em si Q 1.12). comunicação sobrenatural de verdades desconhecidas ao escritor. tais como o seu nascimento em Belém de Judá (Miq 5. com as hipóteses de acréscimos ou interpolações feitas a determinada passagem etc. não ocorre necessàriamente.CAi'ínJLo II LIVRO INSPIRADO POR DEUS Quem toma em mãos a Sagrada Escritura para dela fazer o seu livro de doutrina e espiritualidade. com a crítica literária e paleográfica do texto.10).1). também não vêem como se possa conciliar o conceito de inspiração divina com o estudo das fontes humanas de um trecho bíblico. sim. de autoridade única. faz-se mister remover logo duas opiniões errôneas: a) inspiração bíblica de modo nenhum é revelação. Tais episódios foram redigidos sob a influência de dois dons sobrenaturais: o da inspiração bíblica.0 QUE SE ENTENDE POR INSPIRAÇÃO BIBLICA? Na procura da resposta autêntica à pergunta. 0 ) e da história profana Q 3. ao ensinamento de verdades até o presente ignoradas pelo hagiógrafo. depois as relações da Escritura com as conclusões das ciências naturais (§ 2.

pois certamente os autores sagrados não adquiriram essas notícias por estudo ou por via meramente humana. prêviamente adquiridas.6.1-4. e o da revelação. por assim dizer. 21. emancipado de vestígios da personalidade do autor humano. o livro estaria. proposições verídicas. Deus. ou seja. . atestam ter visto ou ouvido o que referem (cf. J0 19. Êsse ditado dispensaria tôda a ciência pessoal do hagiógraf o. 3 lis 14. consignaram os mesmos episódios (cf. 11. a seu turno. porém.35. por exemplo. os evangelistas. em 1 Crôn 27. Mt 2. 8. 2 Crôn 9. pois. pois haviam presenciado os fatos ou tinham sido informados por testemunhas abalizadas. Lc 1. êste processo não implica comunicação de novos conhecimentos. o hagiógraf o examine a veracidade das noções que êle tem na mente. 1 J0 1. At 8.. Além de iluminação da. a fim de que êste resolva escrever & de fato. consultado testemunhas (cf.26 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Escritura. Jo 19. O qué acaba de ser dito. com a clarividência de Deus.29. 1-3). Em outros têrmos: a inspiração faz que. enquanto as proposições aptas a êste fim lhe são apresentadas como tais.). 29.32s). . ter investigado documentos. longe de extinguir a atividade do hagiógrafo (ou o trabalho de um escritor).17.24. 2 Mac 2. Isto tudo quer dizer que. não por revelação divina. as escolha e formule de modo a se tornarem a expressão fiel dos pensamentos do Altíssimo. citam também as fontes compulsadas (os anais dos reis de Israel. ainda se pode explicitar do seguinte modo: a inspiração bíblica. Em têrmos positivos. ilumina a inteligência do hagiógraf o. de sorte que êste. com a lucidez do próprio Deus. serem a expressão autêntica da mensagem que o Senhor quer transmitir aos leitores.23. b) se a inspiração bíblica não é necessàriamente revelação. porém). já o fizeram apenas sob o influxo da inspiração bíblica. bem como o seu esfôrço de composição literária.31. na Bíblia redigida sob a inspiração divina. Essa iluminação faz que noções ineptas a comunicar as verdades intencionadas por Deus apareçam à mente do hagiógrafo como inadequadas.inteligência. mas de maior certeza (da certeza do próprio Deus) na posse das verdades já adquiridas. 15. pela inspiração. que é. 24-32. Quando.29.16-38). sem o mínimo êrro.29. a inspiração bíblica? Supondo no homem um cabedal de cultura. De resto. formuladas segundo os moldes usuais entre os homens da antiguidade. escreva aquilo que percebeu em sua mente ilustrada.7.37. 24.19. perceba tais e tais verdades. os autores bíblicos apelam freqüentemente para a sua experiência. a inspiração importa moção da vontade e das potências executivas do hagiógrafo. vamos encontrar noções que diríamos "humanas" (não falsas. tal como se dá entre o autor de uma carta e seu dactilógrafo. Como se vê. também não consiste em ditado meramente mecânico. ao contrário a suscita.

O efeito produzido na pedra se deve atribuir tanto ao escritor como ao seu instrumento. é condicionada pelo hagiógrafo. eleva-a a plano superior. como Isai as. Autor principal. 1 designa aqui a inspiração. Lucas. potências executivas) e percorre simultâneamente com êste as etapas necessárias para a redação de um livro. a veste. a inspiração tem sua semelhança com o mistério da Encarnação. mas humano e divino. certa graciosidade. simples pastor. todavia a forma literária. as de um temperamento muito sensível e vibrante. VIU a. mistério pelo qual o Filho de Deus apareceu na terra revestido da natureza humana. dom (de Deus) outorgado em favor da comunidade dos fiéis.). de palavra do homem. como S. Sim.15) aos demais homens. não obstante. para exprimir a verdade divina. como S. com um pedaço de giz. a veste. como S. como o de Jeremias. rico ou pobre. um sem o outro não o produziria. Em conseqüência. pelo influxo do carisma. O conceito de inspiração é bem ilustrado pela analogia do homem que. a vivacidade de um Jovem fogoso. etc. cf. grossura. Anàlogamente se relacionam Deus e o hagiógrafo na composição dos livros sagrados: as idéias ensinadas pela obra provêm primàriamente de Deus. possuindo. E nesse efeito encontram-se inevitàvelmente os vestígios de um e outro agente: ao homem se devem atribuir os pensamentos expressos. não desprezível. que serve para exprimir tais idéias. ignorando muita coisa das ciências e das artes que hoje se conhecem. um só pensamento pode mesmo tomar configurações bem diversas conforme os diver sos tipos de giz usados. afeito aos números. de valores humanos. cultura própria. E note-se que cada hagiógraf o deu os seus pressupostos pessoais. pouco preocupado com o estilo. Marcos. de modo que a obra daí resultante não apenas contém a Palavra de Deus. as impressões de um homem dos campos. . escreve sôbre o quadro-negro. 2 Com efeito. que tomou a face. o que quer dizer: fica subordinada à educação e às categorias culturais de um escritor humano. um dos ilustres cidadãos de Jerusalém no séc. Mateus. sem mutilar a esta. como Aniós. a fim de que produza efeito não simplesmente humano. 2 Do fato de que a Escritura é inspirada por Deus (nos têrmos acima expostos) segue-se a sua inerrância ou isenção de êrro dou"Carisma". ao passo que ao giz se deve reduzir a forma visível dos mesmos na pedra (côr. a terminologia e a finura de espírito de um médico de formação helenista.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 27 suscitando-a. Hebr 4. vontade. um cabedal. antes servindo-se de tudo que lhe pertence e equiparando-se integralmente (exceto no pecado.C. porém. os cálculos harmoniosos e simétricos de um cobrador de impostos.. mas é a Palavra de Deus. na Escritura depreendem-se os vestígios característicos de um homem de cultura esmerada e trato nobre. 1 Deus penetra tôdas as faculdades do escritor (inteligência. mais precisamente: de um judeu que viveu no Oriente há mais de três ou há quase dois milênios atrás.

em leitura superficial. Sem saber qual o gênero literário com que se defronta. mas vem a ser tarefa a que as nossas escolas não se podem furtar. os Salmos). Judite e Ester). como o recomendavam ainda recentemente os Sumos Pontífices. Paris. deveria ser imputado ao próprio Deus! Jamais. a saber: o autêntico significado de uma obra literária só se patenteia a quem procure reconstituir a mentalidade do respectivo autor e as circunstâncias em que escrevia. Esta cláusula.) 4 Esta verificação dá claramente a entender que o cultivo de certas disciplinas profanas. a qual prima pela precisão de suas palavras e a concisão de suas sentenças. Ezequiel). lhes possa dar. a história do antigo Oriente. se prende a uma regra geral de hermenêutica. quando interpretadas no sentido que um leitor moderno. lhes queria atribuir. a arte crítica dos textos. Embora não raro as palavras de determinado texto sejam suscetíveis de mais de uma interpretação. não há dúvida. como interpreta uma seção poética. história edificante ou ornamentada com fim catequético (Tobias.. em têrmos mais claros: as afirmações da Sagrada Escritura só gozam da absoluta veracidade da Palavra de Deus quando entendidas no sentido mesmo que o hagiógrafo. Comment tire la Bible. outras as da poesia. Santidade Pio XII em 1943: "Bem preparado com o conhecimento das línguas antigas e com os recursos . 1 Ora na Bíblia há livros de leis (o Levítico). outras as da história "edificante" ou "moralizante". o primeiro dos Macabeus). não constitui. poesia (o Cântico dos Cânticos.. Após Leão XXII (Enc. êste. E que será prõpriamente o "gênero literário"? Esta expressão •designa o conjunto das regras de estilo e o vocabulário que os homens de determinada época ou região costumavam observar quando queriam escrever sôbre certo tema.. nenhum leitor se pode julgar autorizado intérprete de tal ou tal seção bíblica. porém. a arqueologia. outras as de uma seção de crônicas. para a exegese católica.28 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO trinário. caso nela existisse." (Citação transcrita de Gourbillon. profecias (Isaías. 3 verificando isto. Jeremias. de resto. diálogos (Jó) . Providenti. em que os artifícios e as metáforas são de praxe. não. modalidade contingente. outras as da profecia. não é senão mediante a interpretação desta que aquela pode ser atingida..ssimus) • escrevia S. Platão dizia: "Mentiroso como um poeta. como a filologia. 23. ninguém ousará atribuir indiferentemente ao autor qualquer das teses conciliáveis com o conteúdo "bruto" de seus vocábulos. etc. O que quer dizer. Daqui se deduz a imperiosa necessidade de discernir o que se chama o "gênero literário" de cada livro da Sagrada Escritura. outras são as normas de redação de um texto de leis. pois. história estritamente dita (os livros dos Reis. seu porta-voz humano. de tal modo que nenhun-i leitor interpretaria uma peça jurídica. se poderia esquecer neste assunto uma cláusula de grande alcance: já que a inerrante Palavra de Deus toma na Bíblia uma veste humana. etc.

crescem pouco a pouco e não se colhe fruto senao depois de muito trabalho. Deus e as Escrituras não alteram a sua doutrina. entre doutrina divina inerrante. O labor do homem é indispensável para se entender a Bíblia. todavia. os escritores daquelas épocas remotas.. mudança da Palavra de Deus (o Magistério eclesiástico nunca declarou verdades de fé as proposições dos exe . já que esta só pode ser percebida mediante a consideração da sua face humana ou dos gêneros literários. pois. e êste labor pode. mas há ainda hoje graves questões que não pouco agitam os espíritos dos católicos. o que se dá na Igreja não é mudança de dogma. o aperfeiçoamento dos métodos exegéticos e conseqüentemente a reforma da interpretação de um texto cuja mensagem em si mesma é una e constante. basta refletir que nos estudos humanos sucede como nas coisas naturais. quando não se possuíam tão esmerados instrumentos de trabalho. para tirar a limpo o pensamento do autor. Divino ali jante Spiritu. do exame do contexto. aplique-se o exegeta católico àquele que é o principal de todos os seus deveres: indagar e expor o sentido genuíno dos Livros sagrados... 315.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 29 O fato de que a inerrante Palavra de Deus está associada aos gêneros literários dos antigos semitas ainda é fecundo para explicar um fenômeno aparentemente estranho: hoje os autores católicos já não atribuem à Escritura proposições que antigos e medievais afirmavam em nome da mesma. intérprete deve.. antes.) 5 É o que se verifica principalmente na história das origens do mundo e do homem. o que se verifica é. com o auxilio da história. arqueologia.." (Enc. 6 da crítica. Neste trabalho tenham os intérpretes bem presente que o seu maior cuidado deve ser distinguir claramente e precisar qual seja o sentido literal das palavras bíblicas. Não é caso para desanimar. contida na Escritura. pois. Tal conclusão seria precipitada. necessitar de remodelação à medida que se descobrem novos instrumentos de pesquisa. está claro que. examinar e distinguir claramente que géneros literários quiseram empregar. na proporção em que melhor se vão conhecendo os processos de redação dos povos antigos. etnologia e de outras ciências. tendo projetado luz valiosa sôbre as páginas bíblicas levam-nos a dizer que a genuína mensagem das Escrituras.. em pontos de importância secundária. coisas tôdas de que se costuma tirar partido na interpretação dos escritores profanos. Acta Apostolicae Sedis 35 [1943] 310. Assim precisamente sucedeu que a muitas questões o . Em nossos dias. Distinga-se. 5 Isto poderia fazer crer que a Igreja mudou os seus dogmas e pràticamente nega a inerrância da Palavra de Deus. Procurem-no. As recentes excavações no Oriente. por conseguinte. getas hoje revogadas). se vai manifestando deficiente a interpretação que a certos trechos se dava. e interpretação falível que os homens podem dar a êste texto. por conseguinte. não era sempre plenamente percebida pelos intérpretes antigos. sim. da comparação com passos semelhantes. valendo-se da ciência das linguas. com tõda a diligência. o sua Santidade o Papa Pio XII manifestava em nossos dias a esperança deque os tempos futuros nos forneçam ainda novos meios de estudo e. o conhecimento mais exato de passagens da Escritura que nos ficam obscuras: "Não é para admirar se não se venceram nem resolveram ainda tõdas as dificuldades.

Galileo foi reabilitado e suas Idéias aceitas por exegetas e teólogos. porém. observe-se que a finalidade em vista da qual Deus moveu os hagiógrafos a escrever." (Ibid. § 2. depois de momentâneamente condenado pelo Santo Oficio (tribunal eclesiástico que não goza da infalibilidade própria do magistério universal da Igreja).). quis ensinar aos homens £nicamente verdades que importem à salvação eterna. não são visadas em si. a qual deveria ser. biológica. reconheça-se que o êrro estava contido não na Sagrada Escritura.0 A SAGRADA ESCRITURA E AS CIÊNCIAS NATURAIS Importa agora abordar mais detidamente o problema particular que acaba de ser insinuado. comprovara-se que errônea era 4etermino4a interpretação dada à Sagrada Escritura.) . etc. a Sagrada Escritura não ensina tais conclusões de ordem meramente científica.7-15) como pe10 fato de que a Encarnação teve lugar na terra. popular. a saber: embora a Bíblia seja a inerrante Palavra de Deus. Contudo. de modo nenhum temas que diríamos profanos ou científicos. Na realidade. Estas noções profanas na Bíblia servem de mero veículo. Pode-se. dir-se-á: tôdas as vêzes que uma antiga sentença exegética seja comprovada falsa à luz das ciências modernas. já que o homem procura a salvação dentro do cenário da natureza. errôneamente Interpretada em tal sentido. por conseguinte. entra por vêzes em aparente conflito com as ciências da natureza.. 318. pelos autores bíblicos.30 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO e Em suma. a Sagrada Escritura também alude a conceitos de índole científica (física. esta. só nos nossos dias com o progresso dos estudos se encontrou felizmente solução. a qual se distingue da veracontroversas. esperar que tarnbëm as que hoje nos parecem sumamente complicadas e dificílimas. pré-científica. pois. com efeito. o centro do universo. astronômica. Desta afirmação decorrem importantes conseqüências: às proposições religiosas da Sagrada Escritura cabe veracidade absoluta. Muitos de seus contemporâneos julgavam que contradizia à inerrante palavra da Sagrada Escritura. mas em função de proposições religiosas. com uma constante aplicação virão a ser um dia plenamente dilucidadas. não resolvidas e indecisas nos tempos passados. quanto às referências de outra ordem. não a Escritura mesma.mas na interpretação que os homens davam a esta. era estritamente religiosa: o Espírito Santo. tanto por caúsa do propalado milagre de Josué (Jos 10. Haja vista o caso de Galileo Gaifiei. Por isto é que. Como será isto possível? Antes do mais. cientista que por volta de 1615 começou a ensinar a tese do movimento da terra em tôrno do sol. podem exprimir veracidade relativa. era. lhes parecia Inculcar o geocentrismo.

haveria uma abóboda cristalina. O leitor contemporâneo. Tais noções. inculcar que todos os sêres designados mediante "tais" e "tais" noções se relacionam com Deus como criaturas dependentes do Criador. servir-se de outra linguagem seria mesmo tornar a mensagem religiosa da Bíblia ininteligível aos seus destinatários durante muitos séculos. ao contrário. impregnada únicamente de Veracidade popular. 1954). aos olhos da ciência moderna. cosmológica. do morcêgo como "ave". não há choque entre o mesmo e a ciência humana quando se ref erem às criaturas materiais. Aplicação muito clara desta distinção tem-se na narrativa da criação em Oãn 1. fala-se da baleia como "peixe". Mesmo quando o hamem de ciências se refere ao "nascer" e ao "pôr" do sol. pois êle não queria descrever as fases pelas quais o mundo se originou. com o homem. Como se poderiam. que formulassem verdades religiosas mediante os conceitos de ciência que estavam em voga no seu povo. Por isto é que a linguagem do cientista é precisa. sim. Ora o Espírito de Deus. 92: ótimas são as observações de J. conceber . Procedem. mas.4a.s. sem os induzir em êrro científico. permitiu. a tangente que passa por cada ser visível e o liga com Deus. . a perf&ção do Altíssimo (no caso. todos sabem que não quer ensinar astronomia. não tomará as alusões da Escritura como insinuação de teses físicas. por assim dizer. embora imperfeitas aos olhos do homem moderno. portanto. insustentável (a luz seria anterior às estrêlas. Ora bastava ao hagiógraf o esta veracidade relativa. mas se adapta ao modo de falar dos contemporâneos.1-2.Já que o Livro de Deus nada quer ensinar neste setor. não o interessa ir além disto (a menos que passe para os domínios da Filosofia e da Teologia).n. destinadas a refletir. versando sôbre os mesmos temas. enquanto a da Bíblia. 7 dit Pentateu que (Paris. etc.. pouco importavam as fórmulas cosmológicas ou biológicas. Estas expressões não deixam de ter fundamento objetivo. sôbre a terra) todavia corresponde ao que se ensinava entre os judeus antigos. Ainda hoje na linguagem cotidiana se diz que "o sol nasce e se põe". pois. A cosmologia pressuposta pelo autor sagrado é. pois se baseiam na aparência que os fenômenos realmente apresentam. refletida 4 técnica. ao inspirar os hagiógrafos. eram suficientes para designar o mundo visível e suas relações com Deus. só a interessa. Steinman. sim..LIVRO INSPIRADO POR DEUS 31 cidade científica. pode ser assaz livre. A Bíblia. como se propunha o hagíógrafo. refere-os às suas causas próximas e dá-se por satisfeito depois de ter tomado conhecimento da estrutura de cada ente corpóreo. aliás. como se vã. não julgou necessário revelar-lhes a estrutura do universo e dos sêres vivos. biológicas. de pontos de vista diversos: o cientista considera os elementos em si mesmos. Les plus ancienfles traditions "Os dogmas (na narrativa biblica da criação) são revestidos à moda do Oriente e realçados por poesia maravilhosa. desde que indicassem as diversas criaturas que cercam o homem). tudo contempla de um plano superior. o firmamento.

30 e 115. sem dúvida. 82. ou seja.32 PAiA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO * Outro texto significativo é o de Lev 11." (Leão XIfl.30. 1. Da geração e da corrução 1. 3. À luz dêstes princípios e exemplos. 1. Representavam esta concepção recorrendo à figura de uma serpente enrolada. os quais se repetem regulamente.. de veracidade popular (a lebre está continuamente a mover os rnaxiliares e os lábios) . Fragm. da barbârie dos escultores do estilo românico ?" 8 "2 certo que nunca haverá desacôrdo real entre o teólogo e o cientista. acontecimentos já verificados no pretérito se reproduzirão em época futura.. com sentimentos de compaixão. todo o movimento que se registra entre os dois têrmos nada de novo acarreta!). c. 'por nada afirmar irrefletidamente e não fazer passar por verdade bm conhecida aquilo de que não tenham conhecimento claro'. sim! Como. Provi denttssimus. A classificação é. Eclogae physicae 1. deficiente. de resto. cuja cabeça vem a morder a própria cauda (princípio e fim coincidem no mesmo ponto. Agostinho. ep. "a incessante alternância da Discórdia e da Amizade". pouco prezavam a história. Comentãrjo da Quarta Ecloga de Vergltio. 3. onde o hagiógrafo apresenta a lebre como animal ruminante. Ëste circular contínuo e monótono da história era dito "o ritmo do yin e do yang". De Genesi ad Iitt.1. caps. como diz S. S. De die natali 18.6. ° Em conseqüência. cap. enquanto um e outro se mantiverem dentro de seus limites e se esforçarem. li. Cicero. Aristóteles. mostra-se inconsistente a supeita de desacôrdo entre a Sagrada Escritura genu'mamente entendida e os genuínos dados da ciência. mencionando-a na Lei. § 3 • 0 COMO O ISRAELITA ESCREVIA A HISTÓRIA Os antigos povos do Oriente. Era assaz generalizada a tese de que os séculos constituem ciclos fechados.) O Testemunhos ou vestlgios desta ideologia oriental encontram-se em: Empédocles. 4. porém. por muito elevado que fôsse o seu grau de cultura. o esquecimento e o repúdio do corpo e do corpóreo. Agostinho. Quaestiones naturales 1. despertasse no israelita uma atitude religiosa. a tendência de muitos indivíduos era emancipar-se dos. o foram Péguy e ClaudeI! Não falavam os antigos.ciclos do mundo presente mediante a ascese. 1. Stobeu. 9. "a dança de Siva que produz e destrói sucessivamente os mundos". fidelidade e amor a Deus. a sucessão dos tempos jamais conhecerá remate ou consumação final. V. Enc. 28s. intperf. Sonho de Cipião 7. 8. e tal veracidade era suficiente para que o Espirito Santo. Censorino. Meteor. sérvio. cf. c. . 2. não carece. as coisas de outra forma? Dizer que Deus concebeu em sua mente as nebulosas e criou a alma humana no fim de uma série de sêres em evolução não esclarece mais o mistério do que dizer que Deus plasmou o corpo do homem servindo-se de barro e plantou num oásis árvores frutíferas. Terão sido ingênuos (raïfs) os escritores javistas? Se o quisermos. "a aspiração e a expiração de Brama". Séneca. a fim de passarem a viver num mundo transcendente.

RelIer. .). de sorte que os relatos já não transmitiam a notícia de fatos ocorridos. Geschichte der Altertums 14 1. Quando é possível controlar as afirmações dos cronistas de Israel à luz de textos profanos. se distinguia singularmente na arte de escrever a história.. tenham com tanto esmêro cultivado a historiografia? E. mas eram. Meyer. a expressão da fantasia popular ou de uma religiosidade politeísta. particularmente Interessante é a de W. paleontologia. 227. ultrapassando as categorias culturais do seu ambiente. E como se explica que os rudes judeus.. não sem admiração. aquêles se comprovam fiéis à verdade. egiptologia. apenas se descobriram elementos -.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 33 Isto explica que os antigos orientais pouco se tenham preocupado com historiografia. exuberante (nos diversos acervos de ruínas excavados no Oriente até hoje. suscitadas entre os hebreus pela idolatria dos povos vizinhos. sômente Israel e a Grécia possuem autêntica historiograf ia. Pio XII chamava a atenção para tal fenômeno em sua Encíclica Divino 10 ai/Jante Spiritu: "As pesquisas comprovaram claramente que o povo israelita. com o relato contínuo e fiel das fases sucessivas da evolução humana. entre as demais nações antigas do Oriente.. mestres da historiograf ia ocidental. que ocupa lugar priviIegado entre todos os povos civilizados do Oriente.para se reconstituir a história da Assíria. a transcrição de documentos dos arquivos orientais . Na Grécia surgiu mais tarde. 315. 1954). Quando o faziam." (Ibid. inscrições. ou seja. é delineada a história do povo em traços contínuos e de modo que pressupõe a pesquisa de fontes. aberrações. Ora nesse ambiente o povo de Israel se distingue por ter cultivado a história. É o que reconhecem. sob a influência de uma ideologia monoteísta assaz forte para superar crises.) 11 Dentre as várias obras que nos últimos tempos têm proposto o confronto e a concórdia entre os dados da Bíblia e documentos de arqueologia. a historiografia se originou em época tão remota que causa surprêsa." 10 Com efeito. os críticos modernos racionalistas: "Dentre todos os povos asiático-europeus. assiriologia.. 11 A história de Israel assim descrita se desdobra uniformemente. 1921. documentos parciais . visavam apenas episódios restritos ou envolviam as narrativas dentro de concepções lendárias. Em Israel. e o ter feito com esmêro tal que só foi superado pelos gregos. etc. mitológicas. não se encontrou uma síntese histórica dos tempos antigos. condizentes com o que referem outras fontes.. do Egito.. na literatura dos hebreus. em grau maior ou menor. que coincide com os escritos bíblicos. e isto tanto pela fidelidade como pela antiguidade das narrativas. Und die Eibel hat cfocft recht 1 (Duesseldorf. e produziu logo de início obras de importância. etc.

ainda os seguintes itens: a) a historiografia israelita é tôda pragmática-religiosa. sim. entre os próprios pagãos. movidos por tal ideologia. pois. pois. a história do reino cismático do Norte (Samaria). posterior aos de 8am e Rs. 31-36. querendo predizer a futura Redenção messiãnica e a instauração visível do reino de Deus..1-l0. 11. o historiador deduz a lição contida nos fatos. . valiosos. por revelação divina. Longe de professar que a sucessão dos tempos carece de sentido. afirmar-se apenas esta nota da historiografia em Israel. omitindo uns.1-5. a escassez de pormenores que se diriam de ordem meramente profana. que passa pela Casa de Davi no reino meridional. cf. a fim de se poderem interpretar com exatidão as crônicas existentes na Sagrada Escritura. para o erudito. os escritores de Israel se tenham preocupado com a redação de suas crônicás. de fato. descreviam-nas com os traços característicos de duas "redenções" anteriores de Israel. sabiam que. 12 Entende-se. Por exemplo.Jer'31. 40. é exaltado em Crôn com títulos que ate então só eram atribuidos a Moisés ("homem de Deus". a história era geralmente considerada qual "mestra da vida". inconfundível com a das outras nações do Oriente. nos grandes acontecimentosda história comunicações. São.. os hebreus julgavam-na tôda perpassada por um plano divino.16-19. dando-lhes côngruo desenvolvimento e realce. paralelos entre si. Éstes. acrescentando outros na trama anteriormente redigida. ou seja. que nela se vai atuando e tende à consumação no fim dos séculos. pois. Deus fala e age pelos acontecimentos. portanto.. é silenciada em Crõn. porém.. magistra vitae luz da verdade. 15-17. porém. procura realçar o sentido religioso dos acontecimentos. em algumas passagens historiográficas da Sagrada Escritura. Tenham-se em vista.34 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A razão do fenômeno está na religiosidade de Israel. ora mais claras ora mais veladas. nota-se. 44. de Deus. o passado lhes aparecia qual mensagem divina a prenunciar reaJizações futuras ou a admoestar a melhor conduta de vida. 13 devendo as narrativas de feitos pretéritos servir de escola às gerações pósteras. em grande parte. a fim de melhor pôr em evidência o significado religioso dos episódios. justamente nas seções paralelas que o autor de Crôn. selecionou os dados da história.9). referida em Rs. 14 Muito interessante a êste propósito é confrontar os livros dos Reis (San e Rs) com os das Crônicas.26-45. sempre que possível. evocando os acontecimentos do êxodo do Egito e os do regresso após o cativeiro babilônico (cf. Aliás. Vis. Is 35. mas destituídos de importância para a salvação dos fiéis. ninguém estranhará. viam.. mestra da vida" (De Oratore 2. Outras observações se devem acrescentar à precedente. 13 Cicero tem a história na conta de "lux veritatis . serão indicados exemplos dessa escassez pragmática. Não seria justo. . 2 Crôn 12 Muito claramente se afirma esta concepção nos escritos dos Profetas. Em conseqüência.8s). Os 2. ou seja. quanto a Davi. 14 A pãg. Os israelitas tiveram consciência particularmente viva dêste princípio..4. pois não interessa a linhagem messiânica. que.

cf. embora nada fizessem para se distinguir do autor de tais ditos. enquanto a profecia ao futuro. 15. imutável em si. os historiadores semitas. o reino de Judá é dito "o reino de Javé" (cL 2 Crôn 13. 15 Esta designação talvez pareça paradoxal.15-17.1-16 (narrativa sóbria da morte do rei Antioco Epifanes.31-43 e 2 Mac 10. O autor de 2 Mac não hesita mesmo em interromper o fio da história para tecer reflexões teológicas em tôrno dêste ou daquele episódio (cf. as Intervenções de Deus em favor dos seus fiéis são muito mais freqüentes e vivamente inculcadas: notem-se 1 Mac 6. homens que tudo viam à luz de Deus.23. Em conseqüência do seu pragmatismo. era muito exiguo no Oriente antigo. 6. Em 2 Crõn 35. o trono de Salomão é chamado "o trono de Jave" (CL 1 Crón 29. Le ddveloppement des idées Testament (Aix-en-Provence.8). No segundo.12-17.4). 12. adaptadas ao desenvolvimento moral e inteletual do gênero humano. de Judá. ora o Altíssimo não permitiu fizessem a descrição do pretérito como se fôsse algo de fechado em si. os nossos hagiógrafos inclusive. se vai desdobrando em fases simétricas.1. praticavam assim o que se chama "citações implícitas". Algo de semelhante se verifica ao se compararem entre si as seções paralelas do primeiro e do segundo livro dos Macabeus. J. quando comparados com o magistério de viva voz. 1947). Em conseqüência. É bem possível que não tivessem a intenção de garantir a veracidade das passagensassim transcritas. pois a história se refere ao passado. ao referir uma admoestação do Faraó Necao ao rei Josias. duns . Tal proceder redacional tem repercussão nos métodos de exegese: em presença de uma noticia de história aparentemente errônea na Sagrada Escritura pode-se supor seja devida a citação implicita ou a um autor anônimo. "servo de Deus". 13. 2 Mac 3. o relato paralelo falta em 4 Rs 23.1-28 (descrição muito mais longa e calorosa.29. Note-se. 9.o que justamente é profecia. de "direitos autorais". 1 Mac 5.8). faz questão de notar que pelo monarca pagão era o Senhor quem exortava à prudência.17-20.28-30 (onde se poderia esperar). cheia de entusiasmo religioso). ao contrário. 4. se permitiam transcrever documentos alheios sem indicar as respectivas fontes. que a história bíblica foi escrita por homens inspirados (no sentido acima exposto). Guitton. O que interessava os autores bíblicos não era nem simplesmente contar o passado. entre outros. ao ensinamento por escrito ou à atividade literária se atribuía pouco valor. b) o senso de propriedade literária.21s. o cronista. 7.5. 2 Crôn 9. mas mostrar os traços de um grande desígnio divino que. nem perscrutar o porvir. a cronograf ia bíblica é por exegetas modernos chamada "história profética". fêz que redigissem as suas narrativas de modo a conterem alusões ao futuro. 1 Crôn 17. constituindo o esquema ou prenúncio de realidades maiores vindouras . perseguidor do povo de Deus) e 2 Mac 9. 5. a cujos dizeres o hagiógraf o não intencionava subscrever. 29.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 35 8. 43.14. em tal caso o érro não teria sido endossado pelo historiador sagrado e não afeta15 l'Áncien Veja-se. 7-10). porém.

Em 1 Mac 6. Podia. não se dava grande importância a pormenores tais como os do acabamento literário de uma obra. redigia então com suas palavras próprias o teor da oração. tendo.2-29 (bênção de Moisés sôbre as tribos de Israel). J. 1909). Cf.36 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ria a inerrância da Escritura. "modernizar" obras dos antigos. "Deutéronome".24) redigidas independentemente uma da outra. Esta tendência se explica pela dificuldade de abstrair. como se fôra proferida tal qual figurava no texto. muitas vêzes. divergem entre si. (2) sem ter a intenção de o aprovar ou de garantir a sua veracidade. embora justapostas.1-16. as quais. 489.os textos de Gên 49.11-17.1-2.naturalmente sujeitos a dúvidas . supõem circunstâncias e fases diversas da história de Israel. Em tais casos podia acontecer que o hagiógrafo não julgasse necessário reproduzir verbalmente o discurso. Dt 33. Em Gên 6-9 têm-se dois relatos do dilúvio justapostos com seus pormenores próprios. embora possam bem ser conciliadas pelo exegeta atento. Lagrange. que caracterizava os hebreus. sem denunciar explicitamente o seu trabalho de remodelação. por exemplo. autores posteriores se permitiam retocar. em La Sainte flib1e de Pirot-Clamer I. Enchiridion Symbolorurn. 539. de fato. ibid. para que se admita uma citação Implícita em determinada passagem da Bíblia. Clamer. 11.1-29 ocorrem três versões da morte do rei Antíoco IV Epifanes. assim como o trabalho de mãos sucessivas. Cliaine.. 17 o historiógrafo semita também não se preocupava muito com a exata cronologia e topografia dos acontecimentos. . que êle colocava nos lábios de outrem. transcreveu um documento alheio. um autor transcrever dois ou mais relatos do mesmo fato provenientes de fontes diversas sem se preocupar com a fusão harmoniosa dos mesmos numa só peça literária bem trabalhada. o decreto da Pontificia Comissão Bíblica de 13 de fevereiro de 1905 (Denziger. 1953). Genêse.24. (Paris. 16 Dado que o cumprimento destas duas condições dif'icllmente se pode averiguar. que reconstituir o ponto de vista próprio do autor de cada um dos documentos. Contudo. onde se encontram duas narrativas da criação do mundo (Gén 1. Freqüentemente indicava as localidades e contava os tempos de maneira 16 cf. um tanto desconexos entre si e destituídos de explicação que guie o leitor. Tal caso é freqüente na Torá (Lei).740. o historiador usava do discurso direto de preferência ao indireto. visto que o senso de propriedade literária não suscitava escrúpulos. 494. ampliar. "Genêse". É o caso. pois. 9. à primeira vista. onde sê encontram coleções de leis que. 2 Mac 1. é preciso conste com certeza que (1) o hagiógrafo. torna-se raro o recurso à hipótese de citação Implícita para a solução de algum problema exegético. 17 Os comentadores apontam como exemplos .1-3. ao referir ditos alheios.4a e Gên 2. em Revue bftlique. 2-27 (bênção de Jacó moribundo sôbre os seus filhos). 1898.4b-3. de Gên 1. Ao leitor ficava a tarefa de fazer a síntese de dados às vêzes aparentemente contraditórios entre si. A. para isto.

entram na categoria de mitologia ou fábula. 15. mais aptos a transmitir determinada mensagem aos destinatários do livro. Também o autêntico grau de cultura e civilização dos quadros e personagens bíblicos parecia negligenciável aos historiadores sagrados. 16. tenham-se na memória. sim. mas é preciso confessar também que os atuais dados científicos não permitem dar uma solução positiva a todos os problemas que êles suscitam. acarretando làgicamente os períodos de vinte e oitenta anos (cf. interpretá-los tão segura e rigidamente como as demais seções de historiografia da Bíblia. Podia servir-se também de cronologia esquemática. negar ou afirmar a historicidade em bloco sem lhes aplicar indevidamente as normas de um gênero literário sob o qual não podem ser classificados. nem por outro lado. transmitidos. 5.31). portanto.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 37 vaga. assim no livro dos Juízes o período de quarenta anos (duração média de uma geração) costuma designar acontecimentos rematados. sem dúvida.20. Com o decorrer dos tempos e o progressivo conhecimento do mundo oriental antigo. por exemplo. é de esperar se nos tornem claras algumas expressões de Gên 1-11 hoje ainda sujeitas a mais de uma interpretação. Bettencourt.3. É o que se dá na "pré-história bíblica" (Gên 1-11). O primeiro dever da exegese científica neste particular consiste em estudar atentamente tõdas as questões literárias.1. 32. acontecimentos ocorridos no pretérito. 28. meses ou anos não indicam. Podemos concordar em que êstes capítulos não formam uma história no sentido clássico e moderno. Referem. históricas. duração. 4. cujo significado será exposto adiante à pág. em Gên 4. É esta a mente da Pontifícia Comissão Bíblica. 179-198. . Jz 3. qualidades dos indivíduos a quem são atribuídos. As vêzes os números de dias. 8. em absoluto. culturais e religiosas relacionadas com êstes 18 A respeito. expressa em famosa carta datada de 16 de janeiro de 1948: "O problema das formas literárias dos onze primeiros capítulos do Gênesis é muito mais obscuro e intrincado (que o da origem do Pentateuco). científicas. as listas genealógicas dos setitas e dos semitas. mas. Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das categorias clássicas e não podem ser julgadas segundo os gêneros literários greco-latinos ou modernos. 67s. 18 g) em particular. veja-se E. 13. porém.11. Ciência e Fé na História dos Prinjór- dios (Rio. mediante vocabulário e estilo muito dependentes de textos profanos.30.1-32.17-24 e 5. aludem provàvelmente a certos tópicos das cosmogonias e da história das origens de outros povos. projetando no passado os dados da cultura do seu tempo. Para tornar mais significativos os episódios antigos. Não se lhes pode. não seria lícito. o hagiágrafo não raro os descreve anacrônicamente. os ml2e primeiros capítulos cio Gênesis pertencem a gênero literário próprio. de um lado. 19552).

juntamente com a descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. 19 Acta ApostoUeae Sedis 40 (1948) • 46s. Enquanto se espera." 19 Eis as principais noções que elucidam o significado da expressão "BÍBLIA. adaptada às inteligências de uma humanidade pouco desenvolvida. quando na realidade relatam as verdades fundamentais pressupostas à dispensação da salvação. em seguida. Sàmente assim se pode esperar entender mais claramente a verdadeira natureza de algumas narrativas dos primeiros capítulos do Gênesis. Nas páginas que se seguem. seria preciso investigar os sistemas literários dos antigos povos orientais. reunir sem preconceitos todo o material das ciências paleoiflológica e histórica. seria necessário. em linguagem simples e figurada. numa palavra. sua maneira de exprimir o pensamento e sua noção mesma de verdade histórica.38 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO capítulos. é preciso praticar a paciência. epigráfica e literária. O LIVRO QUE DEUS INSPIROU". que é prudência e sabedoria da vida. sua psicologia. Proclamar de antemão que tais narrativas não são históricas no sentido moderno da palavra induziria fàcilmente a se acreditar que elas não o são em nenhum sentido. . encontrarão aplicação freqüente e fecunda.

VI a. todo o povo messiânico ou israelita tomou outrossim o nome de "judeu" ou "judaico". 1 Entre . residente na Sina e na Alta Mesopotâmia. é o hebraico. também descendente de Sem: o povo hebreu". nome derivado de Israel (ou Jacô). voltaram à Palestina e reconstituiram a nação sagrada (sée. cuja língua materna. e sutil do que êste.26). Três são os idiomas comumente ditos sagrados. um dos netos de Abraão. do qual tomou nome a nação arainéla ou síria.21-25). É o que nos leva agora a investigar e analisar as particularidades de expressão e estilo com que os autores do Antigo e do Novo Testamento marcaram as páginas bíblicas. em maior número. La SETENTRIONAIS Nico ERIDIONAIS CANANE U ÁRA' " ar tOPE ANTIGO CANANEU FENICIO. O adjetivo "hebraico" se deriva do nome do Patriarca Heber ('Êbher ou 'Ibhrfj. mais rica. Gên 10. a língua usual do próprio povo de Abraão (cl.24).). dizia-se que a inspiração divina não extingue a contribuição do escritor humano na redação dos livros sagrados. tradicional. Foi de Heber que tomou nome o povo oriundo de Abraão. ef. filho de Noé (cl. porém. um dos pósteros de Sem. era o aramaico o idioma falado entre os judeus. 1 Éste mesmo povo é também dito "israelita". apelativo proveniente de Judã. o aramaico e o grego. de modo a vir a ser nos séc. ficando o hebraico reservado para o culto sagrado. HEBRAICO MOASITIc0 -PONtUO . DIOMAS SEMITaS OCIOE ' iI . já que a tribo de Judá se tornou a estirpe do Messias.. mormente quando após o exilio babilônico foram os filhos de Judá que. Chama-se igualmente "o povo judeu". Judá era um dos doze filhos de Jacã ou Israel. conta-se ainda Arara. CRENTAL DICO ASSÍRIO-BABI. O aramaico se foi tornando cada vez mais comum entre os povos do Oriente (principalmente em suas relações diplomáticas. no tempo de Cristo.C. era dotada de língua muito semelhante ao hebraico.outros descendentes de Sem.C. 1V/til a.CAPÍTULO III PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS No capítulo anterior. Ne 13. idiomas de que Deus se quis servir para falar aos homens na Bíblia: o hebraico. 4 Es 18.

Lucas).28. Mateus). da cultura religiosa do povo de Israel.0. eram hebretis ou.12-26. 7. herdeiros." Pergunta-se.er. na Sagrada Escritura. concernente aos antropomorfismos bíblicos em particular.4b-7. portanto. os escritores bíblicos. em grande parte. ambiente que transparece no texto biblico. Deve-se notar ainda que a tradução gtega do Antigo Testamento dita dos Setenta Intérpretes. o livro da Sabedoria e o 2. se não é vivificado por uma comunhão simpática e intuitiva com o gênio próprio da civilização à qual pertencia o escritor biblico. É possivel que também os livros de Tobias e Judite. 4 Charll. torna-se importante para o estudo dos livros sagrados ter em vista as notas constitutivas do que se chama "o gênio" ou "espírito" da língua hebraica. É preciso aprender a ler entre as linhas e procurar penetrar aos poucos no ambiente de vida em que se movia o autor sagrado. o presente capítulo se prolongará no cap. Serão expostas abaixo no § 1. Esdr 4.40 BABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Os idiomas hebraico e aramaico. hebraica. torna-se capaz de discernir os matizes e as finuras de expressão que os livros sagrados. Com efeito. Charlier julga que o Evangelho de S. mais precisamente. pelo menos (como no caso de S. "O conhecimento mesmo das linguas originais se torna inútil. Jer 10..18. outrossim todo o Novo Testamento (com exceção do Evangelho de S. Em grego foram concebidos. Cf. O aramaico é o idioma original de fragmentos do Antigo Testamento (Dan 2. oriunda em Alexandria (Egito) nos séc. é de grande valor filológico para se reconstituir tanto o teor original de algumas passagens como a mentalidade dos antigos judeus. 1950). IV. § 1. assim como do Evangelho de S. hoje só existe em tradução grega. veículos de mentalidade bem característica .a mentalidade semítica ou. 1 Sendo assim. lhe oferecem. 0 O GÉNIO DA LINGIJA HEBRAICA Não há dúvida. embora escrito em grego vuigar correto.0. difícil é à maioria dos fiéis que desejem ler a Sagrada Escritura. pois.. . hajam sido redigidos originàriamente em aramaico. ao qual se seguirá o § 2. De resto.0 dos Macabeus. pode ser considerado obra-prima do gênio literário semita. adquirir o conhecimento dos idiomas originais. Ésses três idiomas são. 111/11 ao. La Zecture chréticnne de Ia Bible (Maredsousa. cit. João. porém.8-6. Todavia quem se compenetra da mentalidade ou do gênio semítico. 144. o qual.11). 2 Em hebraico foram redigidos quase todos os livros do Antigo Testamento. 45. ob. em boa tradução vernácula. Mateus. que há de considerar o uso do nome e dos números nas páginas sagradas. no Antigo Testamento. dos quais atualmente só se conhecem traduções. quais as principais características de pensamento e linguagem dos autores bíblicos? 2 Eis como se localizam os dois idiomas dentro da respectiva fasnilia lingülstica: 3 O. mesmo os que escreveram em língua grega. pertencem ao grupo das línguas semiticas.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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1. O gênio semita é intuitivo muito mais do que abstrativo. O que quer dizer: o judeu, ao perceber um objeto; não se preocupava grandemente com o discernimento de notas essenciais e acidentais do mesmo; apreendia-o e descrevia-o simplesmente com suas características concretas, individuais. O concreto interessava-o mais do que o abstrato.
Eis alguns casos em que o israelita, em vez de usar conceitos e têrmos abstratos, universais, se comprazia em circunlocuções de caráter mais concreto: Em lugar de dizer "tomar posse, dominar", o judeu às vêzes preferia a expressão "lançar a sandália sôbre. .", que lembrava o gesto concreto ou o cerimonial da tomada de posse: "Sôbre Edom lançarei a minha sandália, Sôbre a terra dos filLsteus cantarei o meu triunfo " (Si 59,iO.) ei. si 107,10; Gên 13,17; Dt 25,9; Jos 10,24; Rut 4,7. A expressão "sentir-se feliz, alegre" podia ser substituida pelos dizeres "ter a alma saciada de gordura", visto ser a gordura sinal de suficiência ou plenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina: "Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, E de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor." (Si 62,6; cf. 51 35,9.) Quando alguém se julgava "em perigo de vida", dizia concretamente que "trazia a sua.alma nas mãos", já que "ter nas mãos" é a atitude que imediatamente precede a entrega: "Minha alma está sempre em minhas mãos, Mas não esqueço a tua lei." (51 118,109.) Cf. Jz 12,3; 1 Sam 19,5; Jó 13,14; Est 14,4. "Expor a própria vida" ou "estar decidido a morrer" era equivalente a "tomar a própria carne entre os dentes", ou seja, morder-se: "Tomo a minha carne entre os meus dentes, Coloco a minha vida em minha mão." (Jó 13,143 A Idéia abstrata de posse ou de largueza, liberalidade era expressa pelo têrmo concreto "mão", já que a mão é o órgão que diretamente apreende ou distribui. Assim lê-se em Lev 5,7: "Se sua mão não atingir o valor de uma ovelha,...". O que quer dizer: "Se suas posses não lhe permitirem comprar uma ovelha,. 3 Rs 10,13: "O rei Salomão deu à rainha de Sabá tudo que ela desejava.., como a mão do rei Salomão", Isto é, ".. . de acórdo com a opulõncia de um rei tal como Salomão"; Gên 43,34: "A porção de Benjamim era cinco mãos mais abundante que as porções de todos êles (seus irmãos)", frase em que "cinco mãos" significam "cinco vêzes".
5 Observamos que as traduções modernas da sagrada Escritura não raro usam os verbos próprios, em vez de ficar prêsas às expressões mais concretas do texto original. Os semitismos não seriam sempre inteligiveis ao leitor moderno.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

A figura de linguagem "mão curta" ou 'encurtada" designava parcimônia ao dar: "A máo do Senhor seria curta demais? Verás sem demora se acontecerá ou não o que te disse!", falava Javé ao anunciar as codornizes no deserto (Núm 11,23); "A mão do Senhor não é curta demais para salvar." (Is 59,1.) "Governar" tinha por sinônimo o têrmo mais concreto "julgar", e, em vez de 'Governador", podia-se dizer "Juiz", visto que, num povo primitivo, a função mais freqüente de quem governa é a de julgar os litígios entre os súditos. Haja vista o título do livro dos "Juizes" (= governadores de Israel desde os tempos de Josué até a monarquia). "Poder, fôrça" era conceito expresso pelo vocábulo "chifre", pois é neste que parece residir a fôrça de muitos animais:

"(Deus é) meu escudo é o chifre de minha salvação (= a fôrça que me salva)" (SI 17,3.) "Abaterei todos os chifres dos malvados, E os chifres dos justos serão exaltados." (S1 74,11.) A tendência a fixar a atenção sôbre os indivíduos concretos levava o hebreu a realçar o que há de dinâmico em cada ser; comprazia-se em considerar o comportamento e os efeitos dé pessoas e coisas, mais do que o seu Valor estático, essencial. Assim tudo, de certo modo, se podia tomar vivo e agente, para o semita. Os substantivos do vocabulário hebraico são os próprios verbos ou derivam-se de verbos; o verbo (ordinàriamente constituído por três consoantes) é a palavra fundamental do léxico israelita. Isto bem mostra que o aspecto principal sob o qual o judeu visava cada objeto era o aspecto dinâmico, ativo. Em particular, note-se que o têrmo dabhar, que originàriamente significava "palavra", podia igualmente designar "coisa", pois tôda coisa era pelos judeus concebida primàriamente como efeito, efeito, sim, direto ou indireto, da palavra criadora de Deus. Conseqüentemente às premissas até aqui expostas, tendia o semita a focalizar, acima de tudo, a importância vital, a mensagem prática, que pudesse estar ligada às pessoas ou coisas apreendidas. O orador e o escritor, ao dissertarem, baseavam-se muito na sua experiência pessoal e visavam despertar impressões semelhantes, muito vivas, nos seus ouvintes e leitores. Procuravam transmitir da maneira mais penetrante possível um estado de aima. Isto faz que uma página de literatura semita seja impregnada de movimento, variedade de pessoas e coisas que se sucedem com realismo; emoções, afetos diversos a perpassam. Já que a linguagem
O "Ce que, par ãxemple, nolLs considérons comme personnification littéraire correspond chez les Sémites à une perception animée du monde extérietr, car l'esprit sémitique saisit l'un4vers dans son moizvement; ii est plus sensible au dylZanflSme de la vie qu'd la cotitemplation des idées et des /orines." (E. Beaucamp, "Poésie et seus de la nature dans Ia Bible". em Bible et vie chrétienne 11 [19551 25.)

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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semita ficava particularmente ligada à experiência, diz-se que ela evocava ainda mais do que exprimia. 4. Consciente de que, para transmitir a experiência ou as intuições, as palavras são por vêzes pobres, o semita recorria freqiientemente aos gestos, às pausas, aos artifícios da entoação de voz. O falar dos antigos judeus terá sido exuberante, teatral, como o de certos povos orientais de nossos tempos. Dada a sua vivacidade, o israelita era muito dado às expressões fortes, hiperbólicas ou contrastantes.
Hipérbole muito ousada é a do rei Benadad da Síria, que, desejando chamar a atenção para o seu numeroso exército, exclamava: "Tratem-me os deuses com todo o rigor se a poeira da Sarnaria basta para encher a palma da mão de toda a gente que me segue 1" (3 Rs 20,10.) Hiperbólicas também são as expressões "a terra inteira, todos os povos", que certamente se referem a certas regiões ou nações apenas, em Gên 41.54.57; Dt 2,25; 2 Crôn 20,29; At 2,5. Visando distinguir entre "amar mais" e "amar menos", o judeu empregava os têrmos "amar" simplesmente e "odiar", a fim de que a oposição mais se evidenciasse. É o que se verifica, por exemplo, na frase de Jesus: "Se alguém vem a Mim e não odeia pai, mãe, espõsa, filhos, irmãos e irmãs, até mesmo a própria vida, não pode ser meu discipulo." (Lc 14,26s.) O "odiar" desta frase é ôtimamente explicado pelo texto paralelo de Mt 10,37, onde se lê "amar menos". No mesmo sentido, em Mal 1,3, diz o Senhor: "Amei Jacó, e odiei Esaú." (Cf. Ram 9,13.) Em Jo 12,25 afirma Jesus: "Quem ama a sua vida, perde-a; e quem odeia a sua vida no mundo presente, guarda-a para a vida eterna." Nesta sentença a oposição "amar-odiar" significa "satisfazer desregradamente" e "coibir devidamente" as tendéncias da alma, podendo a coibição ou renúncia levar até a morte do martírio. Os judeus eram particuiarmente dispostos a recorrer aos contrastes pelo fato de que a lingua hebraica carece de forma p1rópria para indicar o grau comparativo dos adjetivos. O confronto podia ser expresso pela justaposição de têrmos opostos, sendo a oposição subentendida como algo de relativo ou gradativo apenas. Esta observação ajuda a entender o texto do Antigo Testamento citado por Jesus: "Desejo (a prática de) misericórdia, não (a oferta de) sacrifício." (Mt 9,13; cf. Os 6,6; 1 5am 15,22.) A afirmação quer dizer: "Mais do que os sacrifícios rituais, agrada-me o exercício da caridade e da misericórdia.' Em Mt 22,14 declara ainda o Senhor: "Muitos são chamados, poucos escolhidos." Axioma que no seu contexto semítico provávelmente significa: "Maior número é o dos homens chamados (à fé); menor número, o dos escolhidos (para a bem-aventurança eterna)

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

5. Após quanto foi dito acima, entende-se bem que os israelitas usassem de freqüentes comparações e imagens, visando também por esta via impressionar mais profundamente os ouvintes. Já Que os hebreus tendiam a considerar o aspecto dinâmico e vital de cada ser, sabiam aproveitar-se largamente dos objetos materiais que os cercavam, para ilustrar verdades abstratas ou sobrenaturais; daí, na Sagrada Escritura, o uso abundante de símbolos. Êstes constituem, sem dúvida, um artifício muito apto a traduzir o sentido concreto e o valor que para a vida têm as proposições religiosas. As parábolas não são senão símbolos mais desenvolvidos ou explicados: constam de uma história fictícia, à qual o narrador liga determinada mensagem doutrinária. Para se depreender esta lição, não se pode esquecer que na parábola nem todos os elementos são portadores de significado superior; alguns são envolvidos na narrativa ijnicamente para sustentar os elementos-chaves (assim na parábola do filho pródigo, em Lc 15,11-32, não se queira atribuir valor doutrinário ao anel nem ao calçado dados ao perdulário que volta, nem ao vitelo abatido, vv. 22s; êstes pormenores visam ftnicamente tornar mais viva a lição da parábola, que inculca a misericórdia de Deus para com o pecador). O simbolismo tinha especial aplicação para exprimir atitudes ou qualidades de alma; em vez de usar têrmos próprios, neste árduo setor os judeus recorriam freqüentemente a expressões derivadas do mundo irracionai, as quais não deixam por vêzes de nos causar estranheza (contudo o recurso se compreende bem à luz da mentalidade dos semitas: considerando primàriamente a natureza em função do Criador e do homem, fàcilmente ligavam o conceito de determinada qualidade de Deus ou do homem com tal elemento material). Haja vista um ou outro exemplo:
a idéia de fraqueza humana (tanto moral como física) era expressa pelos têrmos 'carne, poeira e cinza: "Os egipcios são homens, não Deus 1 Os seus cavalos são carne, não espirito." (Is 31,3; ci. Gên 18,27; 36 30,19) a fortaleza, ao contráto, era associada à idéia de montanha, rochedo. Por isto Javé é a montanha, é "meu rochedo", no qual o homem se abriga encontrando amparo (cf. Si 17,3; 18,15; 613.8) é) a beleza, o encanto (mesmo espiritual) eram significados por simbolos muito materiais. Particularmente interessante, sob éste ponto de vista, é a figura do espôso no Cântico dos cânticos, cujo aspecto atraente é assim descrito "Meu bem-amado é fresco e rubicundo; Distingue-se entre dez mil. Sua cabeça é ouro puro, Seus cachos de cabelos, flexíveis como ramos de palme ira, São negros como o corvo.
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veja-se o Apêndice a êste capitulo.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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Seus olhos são como pombas à margem dos riachos, As quais se banham em leite Suas faces são como plantações de bálsamo, Como canteiros de plantas aromáticas. Seus lábios são como lírios Dos quais corre a mirra mais pura. Suas mãos são cilindros de ouro Ornados com pedras de Tarsis. Seu busto é obra-prima de marfim, Recoberta de safiros. Suas pernas são colunas de alabastro, Pousadas sõbré bases de ouro puro. Seu olhar é como o do Líbano, Elegante como o cedro. Sua palavra é doçura. Tõda a sua personalidade é puro encanto. Tal é meu bem-amado, tal meu amigo, Õ filhas de Jerusalém 1" (Cãnt 5,10-16.) Neste quadro são postas em realce três qualidades do espõso: fortaleza e virilidade, designadas pela comparação de seus membros com peças de ouro, mármore, marfim (vv. 11.14.15) ou com os imponentes cedros do Libano (v. 16); raça e beleza masculinas, significadas pela menção de cõres, elementos aromáticos ou doces (flõres, árvores) nos vv. 10.11.13.15.16; pureza e fidelidade, traduzidas pelas imagens da pomba, da água, do leite (v. 12). A mente do autor não se deixava perturbar pela combinação de símbolos tão heterogêneos; de cada um déstcs focalizava apenas o aspecto que se enquadrava dentro do conjunto e podia evocar a idéia de encanto masculino. Para desfazer a impressão de rigidez, talvez suscitada pelos símbolos de pedras e metais preciosos, o hagiágrafo em outros lugares recorria a imagens de ordem diversa, que completavam as anteriores: "Corre meu bem-amado, E toma-te semelhante à gazela Ou ao pequenino da corça Sôbre as montanhas de bálsamo 1" (8,14; cf. 2,17.) Por sua vez, a figura da espôsa no Cântico dos Cânticos é descrita com Imagens paralelas às do espõso: a beleza feminina aparece sob os sinais de flõres, palmas, objetos perfumados ou doces (cf. 2,1s; 4,10s.14); por seu encanto e pureza, a jovem é comparada à pomba (6,8s; 1,15; 4,1; 2,14); a sua fecundidade é assemelhada à de animais domésticos e cereais (4,2; 6,5s; 7,3s) ; 8 d) a índole agradável, aceitável, de uma oferta feita a Deus era simbolizada pelo imaginário perfume da oferenda. Para dizer que Javé a aceitava, o semita afirmava que o Senhor sentia tal aroma com prazer. Foi o que, conforme Gên 8,24, se deu quando Noé ofereceu o sacrificio após
8 Ao interpretar desta forma os simbolos do Cântico dos Cânticos, seguimos a autorijade de T. Boman na sua famosa obra Das hebraeische Denken im Verglelch mit dem griechischen ( Goettingen, 1954), 62-69.

considerando a ação de tudo iso na sensibilidade e na mente do homem. até completar a enunciação do pensamento ou a enumeração dos pormenores. da espiral. Le dynamisme de la peizsée d'israel te discerne -dans la nature que ce qui bouge. contemplava-o do outro lado. O que êstes quadros têm de belo.. e com razão... onde já ressoava antecipadamente todo o grande tema que. mas apresentam-se cada vez mais densas. O judeu contemplava o seu objeto de um lado. . 8. Assim também as frases paralelas dos semitas não são meras repetições. volta periôdicamente aos lados direito e esquerdo do eixo. não era a dos arquitetos. cit. nenhuma dessas voltas. de uma noite de luar ou de estrêlas múltiplas. tendia a desenvolver o pensamento conforme um esquema que se poderia assim reproduzir: numa proposição inicial. Em suma. Confirma-se assim a observação já feita: não se preocupavam tanto com o valor estático quanto com o aspecto diná. o observador que faça o trajeto da espiral. feito isto.46 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO o dilúvio. A figura de uma espiral que se vai estreitando na direção de cima para baixo. Em Apc 5. 6. voltando aos mesmos lados. percorrendo círculos. nâo se detinham em anausar as linhas e o contôrno de cada objeto: em vão se procuraria na Bíblia a descrição de uma paisagem de sol nascente ou poente. o orador afirmava compendiosamente o que tinha em vista dizer (propunha como que um prelúdio musical. que a arte conforme a qual os escritores judeus compunham as suas frases. principalmente quando O "Les écrivain.ouvement. a seguir.8 (c!.19). 30. repetia a mesma idéia acrescentando-lhe de cada vez uma circunstância nova.s sacrés te se rnontrent guêre enelins à analyser Les lignes et à dessiner Les contours. mas a dos músicos. art. esperava que a mesma coisa se desse (c!.. Outra particularidade do estilo semita conexa com as anteriores é a exposição das idéias em frases paralelas coordenadas. o fazem voltar com variações sempre novas. ou seja. dando a perceber ao leitor novos matizes da idéia dominante. Davi. seria desenvolvido). O israelita não era muito propenso a subordinar entre si as proposições do Seu discurso. suas aves a cantar. estando para oferecer. 1 5am 26. que constroem gradativamente de baixo para cima. no decurso da melodia. suas fontes. as orações dos santos sobem a Deus como agradável incenso.3s). é simplesmente a repetição da anterior. porém. nossos hagiógrafos. apreende com clareza cada vez maior o ponto final. esta. ei norz par une mise en correspondance de nos dii férenis états d'àme avec lordonnance du monde matérieL" Eeaucamp. a evocação de uma floresta com sua vegetação. em frases coordenadas à primeira. que logo de início propõem o seu tema ou leitmotiv e. para ir aos poucos abrangendo tôda a realidade. Tem-se dito. os semitas. mico de cada ser. Ao contrário. Aussi La communion entre l'homme et Les réalités extërteures s'établit-eLle par relation de mouvement à m. o semita o exprimia afirmando diretamente as impressões que tais cenas causam no observador. ilustra igualmente bem o proceder estilístico dos semitas: a linha..

eis algumas passagens caracteristicas: a) no cap. vocábulo derivado de lego. é bem calculada de modo a impressionar o ouvinte. quando a frase posterior acrescenta algo de novo (mas acidental) à anterior: circunstâncias de tempo.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 47 era realidade religiosa. que o ôlho da alma sabe polir e combmar num plano superior. dividir". Êste proceder lembra um pouco os métodos da Escola de pintura impressionista de fins do séc.. Fala-se também do paralelismo sinônimo dos hebreus. de resto. para o judeu. lugar. traços. Não quer isto dizer que. ao contrário. João. Notemos o lento desabrochar do pensamento de Cristo neste sermão: Os judeus aglomeravam-se em tôrno do Mestre em Cafarnaum por causa do pão terrestre ou natural que êle acabara de multiplicar. porém. O paralelismo semita de que falávamos acima pode ter caráter sintético ou antitético. que tanto cultivaram o raciocinio e os silogismos (cf. em pinceladas sucessivas. ora outro aspecto do pensamento. Caráter sintético. éle o tem. a segunda proposição tem por finalidade agir mais vivamente sôbre o espírito do leitor. 150s. Também neste caso a repetição não se torna supérflua. enriquecendo incessantemente ora êste aspecto. O semita. O escritor semita esboça primeiramente uma rápida silhueta do conjunto." Charlier. XIX. lhe parecia grande demais para poder ser abraçada de uma só vez. Aristôteles. etc. o "colecionar" e 'pôr em ordem" as diversas facêtas da realidade ? O silogismo (de syn e lego) não é. cujo significado original é "separar. VI do seu Evangelho. mas volta sucessivamente à carga. bina vem a ser "compreensão. acrescentando de cada vez um retoque ou nova precisão. Eucaristia que o Senhor fêz a seguir (22-72).. senão o ato de recolher. apos narrar o milagre da multiplicação dos pães (1-15). etimolàgicamente falando. embora nem todos os estudiosos o reconheçam. a verdade é então realçada pela justaposição dos contrastes. diz-lhes então o Salvador: 10 "O semita diz tudo em cada frase. a "razão" era dita logos. inteligência". 10 A tendência dos hebreus a coordenar as idéias antes do que a subordiná-las se traduz também num pormenor filológico: para o israelita. recolher. o Apóstolo S. A titulo de exemplos de paralelismo. a seguir. refere a longa promessa da S. . Porfírio e outros). entre os gregos. comprazia-se em despertar a impressão de "choques" de idéias. o conceito "compreender" era expresso pelo vocábulo bin. Esta denominação não insinuaria que os gregos atribuiam k razão. acumula sôbre éste esbôço multidão de traços aparentemente autónomos e não raro contraditõrios. Êste se verificaria quando as frases só diferem entre si pelo emprêgo de têrmos equivalentes. apresentado compendiosamente na fórmula introdutória . O caráter antitético se verifica quando a frase paralela repete em têrmos negativos o que a precedente disse em têrmos positivos. La lecture chrétienne de la Bible. como tarefa primária. o processo de compreender consistia princpalmente em perceber os diversos aspectos da verdade e formulá-los em justaposição? Ao contrário. causa.

Por isto. que a êles estaria unida: "É o Espirito que vivifica. •tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Sab 16. à semelhança do que se dá com a águia que." (V.. objeto mais digno das aspirações dos ouvintes. não porque vistes sinais. que os judeus procuravam. depois de ter fitado a sua futura prõsa. visado desde o inicio do discurso.) E dêste fato que Jesus parte no seu discurso. para a vida do mundo. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. é identificado com a carne e o sangue do próprio Cristo: "Eu sou o pão da vida. para finalmente atingir o objeto invisível. dita "Espirito"). em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. mas já "pão da vida". porém. repetindo e desenvolvendo a idéia. não. é a minha carne.. Êste objeto.. 64. que não preservara da morte os israelitas no deserto. em verdade vos digo: vós me procurais. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu.) Uma derradeira precisão ainda se impunha: tratar-se-ia da carne e do sangue do Filho do homem. 32s.) Todo êste discurso se deixa dispor em círculos concêntricos: Jesus falou. um pão do céu...54s." (Vv. principal. o maná dado por Cristo poderia ser dito simplesmente o pão da vida (eterna): "Em verdade.. Jesus anuncia um pão do céu.) Não é tudo. Sou o pão vivo. superior ao da terra. em ulterior instância." (Vv.. os judeus já o conheciam: era o maná. foi sendo considerado sob vários aspectos. a carne para nada serve. 26. e o pão que hei de dar. mas enquanto vivificados pela Divindade ( no caso. tomados em sua realidade natural e material apenas.31s e Éx 16. mas porque comestes pão e estais saciados. à diferença do maná de Moisés. Todavia. dado por intermédio de Moisés outrora no deserto (cf.48 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO. contido no Pão da Vida. 6. dito não apenas "pão do céu" (como no Antigo Testamento). Jesus.20). não tereis a vida em vós. acrescenta tratar-se de novo pão do céu. cada vez mais próximos da realidade final. Começa por insinuar que a multiplicação dos pães devia ser entendida como sinal de realidades transcendentes.13s. passando dos conceitos mais vastos e dos elementos visíveis a conceitos mais precisos. voa sôbre ela aproximando-se em circulos concêntricos. Si 77. Jesus mais uma vez aprofunda o seu pensamento: o novo maná." (V. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá a vida' ao mundo. "Em verdade.52. Se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue. E quais seriam estas realidades? Primeiramente em oposição ao pão da terra.. 48.24s.51... para finalmente "dar o bote" com tõda a precisão: . que do céu desci..

.também nós uma vida nova. Sabemos que nosso velho homem foi crucificado com Cristo. a fim de que o corpo contaminado pelo pecado fõsse destruído e já não sejamos escravos do pecado. como ainda viveríamos no pecado? Então não sabeis que nós todos. embora menos claro do que o anterior. assim como nas línguas modernas (se bem que em proporções mais restritas). por exemplo. cremos que viveremos também com Êle. 8. configurada à de Cristo. o autor enunciava os têrmos opostos ou extremos que circunscreviam o seu conceito ou entre os quais girava o seu pensamento. Ora. por morte semelhante à de Cristo. Cris b) outro exemplo. c) o paralelismo antitético dos semitas podia tomar a seguinte modalidade: para exprimir a 'totalidade". fomos com Êle sepultados pelo batismo em sua morte. afirmam sempre a mesma verdade. Se. cada qual com seus matizes. como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai. que fomos batizados em Jesus Cristo. antes.2-8. fomos batizados (imersos) em sua morte? Por conseguinte. por efeito do batismo. se acha num estado de morte (ao velho homem) e vida nova. ocorre o mesmo artificio de estilo. Exprime-se no ritmo de "vai-e-vem" contemplativo a que acenamos: "Nós que morremos ao pecado. se diz: "Farei por ti o possível e o impossivel" no sentido de "tudo farei por ti". não sõmente entre os semitas. Sejam mencionados alguns textos extrabiblicos da antiguidade: .. encontra-se na epístola de S.ca do 1- - s' €ese. O Apóstolo ensina que todo cristão. vivamos. se morremos com Cristo. Ainda hoje. 11 Assim: 11 Aliás. seremos enxertados também por ressurreição semelhante à dÊle. a fim de que.' Êste trecho não apresenta pràpriamente proposições concatenadas de modo a formar um raciocínio. mas entre os povos antigos em geral. Paulo aos Romanos 6. verifica-se nêle a coordenação de frases que.PAItTJCULAEIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 49 — . fomos enxertados em Cristo.

dizia de um homem glutão: "Manducavit quod fim et quod non pai. . 360. E. Is 10. Suys. "alma e carne" designava "o homem inteiro" (cf.2.7 diz o rei Salomão ao Senhor: "Sou pequenino e jovem. 1. J05 6. Antigono 1245." (Dt 31.24. Veja-se ainda Euripides.6) "(O Senhor) encheu-os (os primeiros pais) de ciência e inteligência. grande dos grandes. "céu e terra" supria o têrmo "o Universo".8). um camponês se dirigia ao seu juiz nestes têrmos: "Grande intendente. 3éme série (1945).".1. 29. servia para exprimir toda a atividade de um individuo." 12 Éste modo de falar ocorre também nos lábios de Jesus em Mc 3. crianças e anciãos" significava "todos os habitantes. até mesmo as tarefas de administração régia: "Disse-lhes (Moisés) : Tenho hoje cento e vinte anos. "homens e gado" era o binômio equivalente a "todos os sêres vivos" (cf. e não posso mais sair nem entrar. Edipo Rei 300. Gên 1. já que tudo que existe de concreto é bom ou mau (cf. Plauto. que governas as coisas que nao existem e as que existem (= tádas as coisas) . Ãnttgono 1109. Ser 36. Um documento egípcio fala do grande deus de Tebas. sim.Comeu o que havia e o que não havia. de que carecia o hebraico (cf. 2 Sam 14.21. 800. Si 123.50 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a idéia de "tudo. tendo ambos os verbos o mesmo sujeito. meu mestre. Aponta-se na literatura grega um emprêgo semelhante da mesma expressão: confonne Sófocles. tôda a população" (cf. Bacchantes. 14. Entenda-se: "desapareceu sem dizer palavra". . Electro.22). Lc 6.17." Cf. 12 Verifique-se também: Gên 24. Lambert. que propõe. 305. Já 14.9. "Lier-Délier. a rainha se retirou "antes de proferir algo de bom ou de mau". 31. Sófocles. deu-lhes a conhecer o bem e o mal (ciência muito ampla) .) Como conceber que Jesus tenha perguntado se é licito cometer o mal ou matar em dia de sábado? A tradução. não será licito fazer absolutamente nada? Não será permitido nem mesmo praticar o bem salvando uma vida ?". o qual criou "o que existe e o que não existe" (rrtôdas as coisas). quais.) em 3 Es 3.50. 50. onde se lê verbalmente: "t permitido em dia de sábado fazer o bem ou fazer o mal. Ou em têrmos ainda mais claros: "Em dia de sábado. Edo 11." Trinummus. "sair e entrar".18. não sei sair nem entrar. em Vivre et Penser. o poeta satirico latino. Estas referências se devem a O. Etude sur te coizte dii FelZah plaidoyeur (Rome. Amom. as que é licito praticar?" (haja vista o rigor dos f ar!seus em relação à observância do repouso do sábado). salvar uma vida ou extingui-la?" (Cf. "homens e mulheres.4. 91-103. Ser 51.22. é infiel ao pensamento de Cristo. L'ezrpression de la totalíté par l'opposition de deur contraireC'.3). dentre a totalidade das obras possiveis. 1933). demasiado servil.22). a seguinte questão: "Em sábado. tôdas as coisas" podia ser circunscrita pela expressão "o bem e o mar'. Wmn relato egípcio do Médio Império.

empregava-se para designar "todos os individuos" (sair e entrar. "Então prostraram-se sôbre o ventre. 'a A semântica da expressão "sair e entrar" é assaz curiosa e digna de nota: imagine-se uma cidade bem defendida por muralhas. Assim diz o Senhor a Pedro." Não seria condizente com a filologia querer especificar os poderes expressos por "ligar e desligar".10).5). Com significado idêntico.8.28. 15 também a expressão "ligar e desligar" indicava tôda a operosidade de um homem. será ligado nos céus.28.21. e significa: 'Tudo que na terra fizeres para introduzir os homens no reino dos céus. Erman. ocorre algumas poucas vêzes na Sagrada Escritura o binómio "ir e vir". "E retirarei de lá aquêle que vai e aquéle que vem (= todos).6. e isto lhes foi mais agradável do que tudo que se encontrava na terra do Egito. a expressão bipartida que se segue exprime a totalidade dêsse poder.27.) Assim se interpretará a frase final: os filhos do vizir dispuseram tóda a sua conduta em conformidade com as instruções deixadas por seu pai. 4 Rs 11." (2 Crôn 15.17. sendo diversos os sujeitos dos dois verbos. leram o livro como estava redigido. "Para quem sai e para quem entra (= para ninguém). Is 31.".19.10 diz o mesmo: "Dai-me sabedoria e inteligência a fim de que eu possa sair diante déste povo e entrar. levantaram_se e sentaram-se de acórdo com essa doutrina. 9. 3 Rs 15. será desligado nos céus. usando de uma construção tipicamente semitica: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus." (citação de A." (Zac 8. At 1. J0 109.7V) 14 "estar assentado e estar em pé". tanto menor era a área que ocupava. não sômente a que se exercia em tôrno de vínculos. 19. como as que os antigos costumavam edificar.11. 1 8am 18. e tudo que desligares na terra. Die Literatur der Aegypter.16. "as chaves" designam o poder. 15 Também se encontram paralelos desta expressão fora de Israel: O vizir do faraó Huni entregou a seus filhos. Ez 43. "caminhar e repousar-se" são outras fórmulas que designam tôda a atividade de um indivíduo: "Sabes quando estou assentado e quando estou em pé. qual tesouro. será ratificado por Deus. 13 parece ser atividade que caracteriza qualquer homem) "Naquele tempo não haverá paz nem para quem sair nem para quem entrar. não há paz. 2 8am 3. cf.25.) Nesta passagem. quanto mais fortificado era o reduto.8. 13. 14 Muito interessante é que a versão grega dos LXX traduziu o objeto da frase acima por "homens e gado". para o hebreu." (Mt 16. "sair e entrar". diz o salmista ao Senhor querendo inculcar que Deus tudo sabe a respeito do homem (Si 138.2s) . um escrito em que consignara os resultados de suas longas experiências. . mas haverá terror em tõda parte para todos os habitantes da terra. 100. ao qual se associava naturalmente um "entrar" após terminados os afazeres. Si 120." (Ez 35. tudo que ligares na terra. assim é que o "sair" e o "entrar" (note-se bem a ordem dos têrmos!) compreendiam e definiam a atividade dos cidadãos. 29. Disto se seguia que qualquer atividade de certa importância implicava geralmente um "sair da cidade". Tu me observas quando caminho e quando repouso".DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 51 em 2 Crõn 1.

compreende-se que os hagiágrafos não tenham hesitado em atribuir figura humana. aos elementos irracionais. o sol é como um herói que exulta ao percorrer a sua via (ci. Núm 21. 0 OS ANTROPOMORFISMOS BIBLICOS 1. A NATUREZA PERSONIFICADA Já que o oriental se comprazia em conceber o mundo inteiro como animado. Gên 4.) O que quer dizer: "será detentor de supremo poder. Sófooles. morph4 = forma. se as coisas chegaram a êste ponto. por ocasião da vitória de Israel (cf. por exemplo." (Is 22. SI 18. quando êle fechar.52 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO No Antigo Testamento.10). antropomorfismo do qual eis aqui alguns casos típicos: o poço de Beer é convidado a subir (1) e soltar clamores de alegria. É o que se fará no parágrafo abaixo e no capítulo seguinte dêste estudo.32) e receber o sangue de Abel (cf. por ocasião da libertação de Israel detido no exílio babilónico (cf. . Praticavam assim o antropomorfismo 11 ao falar da natureza. e as árvores do campo batam as mãos em aplausos. por elas se traduz uma con16 A expressão também era usual fora da literatura bíblica. exultem os céus e as profundezas da terra. Gên 4. quer ligue. por nenhum expediente. § 2.6). Is 44. coloca nos lábios de Ismena a seguinte exclamação: "Ó infeliz. 40). quando êle abrir. que se ergue da terra aos céus (cf. fazendo eco ao dinamismo do homem. 55. E. Entenda-se: eu. Eu.12). 17 Palavra derivada do grego: (znthropos = homem. Núm 16. que poderia ainda conseguir?" (Antigoizo. Com efeito. Jo 38. Para seavaliar ainda melhor o que acima foi dito. extensivo a todo e qualquer setor". qudr desligue. a terra abriu a bôca para tragar Datã e Abiron (cf. por sua vez. partes ou membros do corpo humano. é mister nos detenhamos agora sôbre um ou outro particular do estilo literário semítico. quando Deus criou a terra (cf.11). Pergunta-se: que sentido terá um modo de falar tão alheio ao nosso? Tais expressões constituem para os hagiágrafos mais do que ornamentos literários. rejubilem-se as colinas e suas florestas. lê-se em sentido análogo uni oráculo do Senhor referente ao Messias: "Colocarei sóbre as suas espáduas a chave da Casa de Davi. êste sangue.17s) os montes prorrompam em júbilo. as estrêlas da manhã cantavam em côro.22. ninguém abrirá.7). 16 Eis as principais natas do "gênio" lingilístico dos semitas. profere um brado. poderia mudar a situação. ninguém fechará.23.

ouvidos (cf. Gên 3. aliás. Is 51. Expressão muito viva de solidariedade são as palavras de Já. 81 17. ora de louvor e congratulação jubilosa (para quem é reto).19. em outros têrmos: a natureza reflete a voz de Deus.31. 519.. Lx 33. pálpebras (cf.14).27).22s. Am 9. bôca (cf.9. Is 30.5.2).1. Is 30.2. 819. Sl 17.10. Já 40. Lx 33.8.12.36).4).9.2.14.4).8.7.5. em conseqüência.4.17. voz (cf. é transmissora de mensagem divina. por ela se manifesta o Criador e o Senhor Providente. E o bestiame da terra estará em paz contigo. e aguardam a glorificação dos filhos de Deus (cf.5).25. . em particular. SI 8. Am 9.18..19. Si 10. 2 Sam 15. Dt 5. mâo direita (cf. Is 65. DEUS SEMELHANTE AO HOMEM NO ANTIGO TESTAMENTO Quem lê o Antigo Testamento não pode deixar de observar quão freqüente e fàcilmente ao Senhor Deus são atribuídas feições humanas.16. Si 17. 81 17. 16. diz que até o fim dos tempos os irracionais "gemem". nariz e narinas. Gên 3). 2. dedos (cf.10). sujeitos aos abusos que dêles faz o homem..21).9. Jer 27.6.15. que referem ter a natureza entrado em desordem por efeito do pecado do homem (cf.4.20).23. 1 5am 8.14.4.16). Gên 4. Sl 10. Dt 11. braços (cf. Ram 8. Não temerás os aiflmais da terra. Dt 8.27). Já 11.3.11.. 85. 1 8am 15. Lx 5." (5. 26.) Mas não sômente aos elementos irracionais se aplicam os antropomorfismos na Sagrada Escritura. lábios (cf. ora de repreensão (para o indivíduo ou os povos pecadores). Assim o Criador é dito ter face (cf. Terás uma aliança com as pedras do campo.24. SI 17. Dt 9. os hagiógrafos nos apresentam mesmo o Senhor Altíssimo sob traços humanos. Paulo.12.15. S. 1 Sam 15. é insinuada já pelas primeiras páginas da Escritura. língua (cf. mãos (e!. 19-22). Lx 15.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 53 cepção religiosa intimamente arraigada na alma do israelita e nos escritos bíblicos em geral: a natureza tôda é solidária com o homem. Esta verdade. Is 1. que assim interpela o justo: "Tu te rirás da devastação e da fome.37. Lx 15. cujo sôpro desencadeia os ventos sôbre a terra (cf. Jos 9. Lx 31. olhos (cf.). seu rei.

é guerreiro valente (ei.23). desperta-se (ei. paixão. ri (cf. Os 11.8. com 18 Anthropos = homem.3. para dar a entender os predicados da Divindade. assovia (ei. dependendo constantemente de imagens sensíveis. 90. até mesmo ao falarem de Deus.54 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pés (ei. Dt 28. 32. Jer 9. sim. Gên 6. a aversão (ei. asas e penas sob as quais protege os justos (ei. Sl 105.23). 81 77. Diante de tais expressões. Gên 3. dorme (cf.35. o ódio ou a abominação (cf. a inveja (cf.63. Reconheciam. Is 7. e pés que levantam nuvens de poeira (cf. Is 6. Por isto.10). Dt 12. compras-se com suave perfume (cf. Sl 46. qualquer pensador. 8117.3.5).13). 1 Sam 26. Si 103.2.41. Si 43.34.16). metafísico. Is 9. cujas orlas enchem o templo (cf. cavalga sôbre um Querubim. um belo manto. que o Criador não é como o homem (o que claramente transparece nos textos bíblicos abaixo citados). . 2 8am 24. Sof 3. Éx 33.40). Lev 20.31.11).23). Lev 1. a imortalidade de Deus. paira sôbre as asas do vento (cf. Na 1.2. o Senhor clama (cf. a cólera (cf.17). ruge (ei. voa. pouco afeitos à abstração. a alegria (ei.7. Os israelitas. 1 Sam 15. 34. Além disto.1). 1x 15.19). é incapaz de conceber a Deus como Êle existe em Si mesmo.35.12.19).4).1). Jer 26. o arrependimento (ei. Si 17.18).7). Éx 15. Si 2. referindo-se ao Todo-Poderoso usavam copiosamente dos vocábulos que designam as coisas corpóreas.14). fecha a porta da arca de Noé (cf. costas (ei. Dt 32.2).65). mas diflcilmente percebiam o que o fato de "Deus ser Deus. muito surpreendente num livro que se diz ter por autor principal o próprio Deus? a) o significado geral dos antropomorfismos. o espírito humano na vida presente.24. Si 17. Não há dúvida de que os antropomorfismos da Escritura têm suas raízes na mentalidade primitiva dos semitas. Está assentado em um trono régio (cf. Êx 20. e não homem" (ei. Também os afetos humanos marcam a figura do Senhor Deus (antropopatismos): 18 o desgôsto (cf. páthos = afeto.1. Is 1. dificilmente se desvendilhavam de concepções de ordem sensível. é induzido a compará-los com os atributos da criatura.4). mentalidade que pede ser corrigida pelo raciocínio filosófico. a vingança (cf. 1 Crôn 28.9) implica para a inteligência. passeia no jardim do Eden (cf.5. 34. na Sagrada Escritura.24). Sl 23. Si 131.8). a complacência (ei.31).8). 56. impõe-se de novo a questão: que sentido poderá ter tal modo de falar.8). De resto. Gên 7.6. Êx 32. Am 1.

s 19.3. Paradiso. Canto IV 40-453 A expressão "Deus vivo" ocorre. que o Transcendente. sim.21.1-10. têm pés e não andam" (51 113. deuses "que têm bõca e não falam.Dio.39. um dos aspectos que mais espontâneamente detinham a atenção do israelita. 4 R. a Moisés. 2 5am 2. à diferença dos deuses dos filósofos pagãos. se conserva frio. e o orienta continuamente. Jer 10. pois uma das fórmulas de juramento mais usuais rezava: "Assim como o Senhor (Deus) é vivo . 20 Com efeito. enquanto o homem precisa de Deus. Os falsos deuses eram ditos "deuses mortos" (ef. como se precisasse das criaturas. mas através de revela ções se1íveis (outorgadas aos Patriarcas. acompanhados geralmente de impressionante aparato. porém. Sab 15.23. Por questo la Scrittura condiscende A vostra factitate. o recurso aos antropomorfismos era muito apto. sim.6. Assim os antropomorfismos bíblicos inculcam que o Deus verdadeiro não é mera fórmula abstrata. e piedi e mano Attribuisce a . o Deus de Israel dava-se a conhecer como o Senhor que permanece próximo do homem.Jz 8.19. ou. alheio. 20 . mas o Senhor condescendente. a Divindade não necessita do homem. porém. Êstes autores ensinavam que Deus. 14. por exemplo. mas de modo nenhum corresponde às aspirações da criatura. . Ao considerar a Deus. .16).4.24s. não bastaria para explicar o significado dos antropomorfismos na Sagrada Escritura.. ainda mais concretamente. 1944). apreendendo a Divindade através do raciocínio.. Rei. a atração do homem. pois. Nygren. Bar 6. amigo.70. com as. têm mãos e não apalpam. aos olhos do israelita. afirmam-nos de maneira marcante 10 Já o poeta dizia: "Cosi portar convieztsi ai vostro ingegn.) Era mesmo o título "Deus vivo" que.4s. Jó 27.. 12. Dan 14. 19. (Cf. Abraão e seus descendentes chegaram ao conhecimento do verdadeiro Deus não em conseqüência de raciocínios especulativos. acompanha a nossa "aventura" na terra.27. era o seguinte: o Deus de Israel é um Ser vivo e pessoal. 26. Êstes. 19 Esta observação. 20." (Dante.5-7).. a sua imensidade. etc. têm ouvidos e não ouvem. Dt 5.3. mais adequadamente a transcendência de Deus. servia para exprimir que o Deus de Israel é o Soberano que se interessa profunda e surpreendentemente por tudo que concerne o homem. 1 Sam 14.17. Erôs et Agapê (Paris. cd altro intende.. da metafísica. A descrição do Altíssimo como Guerreiro. para traduzir tais impressões. A.'intelletto degno. de:perta. têm olhos e não vêem. Pai . diferenciava dos idolos dos pagãos o Deus verdadeiro.45. Cf.11.. 4. aos justos posteriores). Mt 16. concebiam. sendo perfeitissimo. ama realmente os indivíduos.o Perocché solo da sensato apprendc CiÕ cite Ia poscia d.2.. É certamente muito antiga.5. dêstes exigindo fidelidade inviolável. 21 Não assim é o Deus verdadeiro. justamente por ser superior ao homem. limitações do nosso ser.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 55 as contínuas vicissitudes do homem.9. Por êstes fenômenos.. Ora. com seus traços semelhantes aos dos homens. em 51 41. à sorte dos mortais. 21 É êste aspecto rigido que caracteriza a Divindade nos sistemas filosóficos de Platão e Aristóteles. julgavam.

4s). Sendo as imagens o grande esteio da idolatria. 22 'Como te abandonaria eu. Com efeito. os israelitas eram assim premunidos contra o perigo de equiparar o conceito que tinham de Deus ao que os povos pagãos nutriam. preservados de cair nas idéias grosseiras dos mitólogos ou dos idólatras pagãos. rebaixar-se'.Ss. ou seja. e não homem . Jó 10.29. seria "diminuir-se. As mesmas Idéias repercutem no texto de Es 28. Êstes textos atestam que o conceito de um Deus transcendente não era. e não Deus.56 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO os autores semitas inspirados.28).4). a Lei mosaica proibia estritamente a confecção de qualquer imagem (de homem ou animal) que representasse Javé (cf. Éx 20. como te entregaria. alheio à mentalidade veterotestamentária. Por isto perdoa mesmo quando os homens julgam que "perdoar" seria derrogar a aiguzna de suas qualidades. Não destruirei de novo Efraim. os filhos de Israel eram. não cochila nem dorme (cf. baseava o caráter inesgotável dessa misericórdia (= "compaixão") no fato mesmo de Deus ser Deus e não homem.2: "Tu és homem. embora se distanciassem de noções abstratas para aderir a concepções iniperfeitas.) O homem tem perfeições em grau finito. Não se poderia deixar de observar ainda que. não se cansa (cf. em espírito e verdade O devem adorar"." . os antropomorfismos os realçavam muito bem. Pois sou Deus. Israel? Meu coração se revira dentro de mim E tôdas as minhas comiserações se comovem. em Jo 4. o seu interêsse pelo povo: assim o profeta Oséias. Sl 120. Deus as tem em grau Infinito.4). Embora tornes o teu coração semelhante ao de Deus. das suas intervenções na história. os livros sagrados não deixavam de incutir a espiritualidade e transcendência de Deus.19).24: "Deus é espírito. e os que O adoram. em absoluto. Não darei curso ao ardor da minha cólera. 22 em outras páginas bíblicas lê-se que o Criador não tem olhos como os homens (cf. Is 40." (Os I1. falando da misericórdia do Altíssimo para com Israel. Pode-se dizer que aquilo que a fé em Deus no Antigo Testamento visava primàriamente era a sua personalidade toda-poderosa e o caráter pessoal imediato. Núm 23. A pura espiritualidade de Deus só foi explicitamente afirmada no Novo Testamento. 1 5am 15. êstes aspectos. pouco filosóficas. Além disto. não se arrepende nem mente (cf. pela própria Revelação divina. Em meio de ti está o Santo. á Efraim. mesmo nos trechos em que mais realçavam a proximidade do Senhor.

É o que dá claramente a entender Jeremias. portanto. e mais ainda a Encarnação. exalação nasal mais intensa. Já ao se referir a indivíduos humanos. A tendência a atribuir ao Altíssimo aspecto e afetos humanos é. Alguns exemplos elucidarão o proceder: o Senhor Deus tem narie e narinas. lê-se "o poder do Senhor" (grego). ela foi por Deus utilizada para inculcar uma verdade que os filósofos da antiguidade jamais conceberam adequadamente. o Deus do coração humano.24. Os antropomorfismos da Sagrada Escritura. tendiam a exaltar a transcendência de Deus e. traduziram a Sagrada Escritura do hebraico para o grego. que significa "nariz". mormente na naturza exuberante dos orientais. Éx 15. Conseqüentemente. por isto.). pode também significar "ira. em última análise nêles reconhecerá como que prenúncios da Encarnação. quando o Filho de Deus tomou carne humana: o Senhor do Universo é também o Deus dos pequeninos. O têrmo hebraico 'af. são a resposta providencial ao anelo de todo mortal de saber que Deus está atento à sorte do homem. com a idéia de braço se associa naturalmente a de fôrça. sem dúvida.. verdade que havia de ressoar por excelência na plenitude dos tempos.9. a atenuar ou eliminar os antropomorfísmos bíblicos. 10). Mais uma ligeira observação: quem reflita sôbre os antropomorfismos bíblicos à luz do grande plano salvífico de Deus. E não sem fundamento objetivo: o furor costuma-se exprimir por respiração mais veemente. pois.18. é um braço!"). cólera". citadas dentre outras muitas: Êx 249-11 (texto hebraico) refere que Moisés e muitos dos anciáos de Israel subiram ao monte Sinal e "viram a Deus". Ora no trecho correspondente puseram os tradutores gregos: "Viram o lugar em que se achava o Deus de Israel. Fàcilmente. se entende que a menção do nariz fumegante de Javé na Sagrada Escritura deva ser interpretada como expressão da justiça de Deus que pune os homens maus (cf. em vez de "mão de Javé" (hebr." (V. visando com isto designar os respectivos predicados do Altíssimo. os hagiógrafos com muita espontaneidade atribuíam essas mesmas partes do corpo ao Senhor. no povo de Israel. contudo. poder (ainda hoje a linguagem popular diz: "N. em Jos 4. o que aparece nitidamente nas duas passagens abaixo. a partir do séc. sim. tratando de Deus. III aO. o israelita era propenso a exprimir certas qualldades da alma mencionando determinados membros ou sentidos do corpo que mais estreitamente pareciam relacionados com elas.16). muito natural à nossa mente.. b) o sentido de alguns antropo-morfismos em particular.. dando-nos a famosa edição dita dos Setenta intérpretes.PARnCULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 57 Os judeus que em Alexandria. SI 17. em particular à do indivíduo primitivo. é. referindo-se ao homem: .

por exemplo..." (Si 94. Na Sagrada Escritura." ou ainda "esquivar-se à influência de. da ciência. Exaltou os humildes. Em conseqüência. verei a sua /ace (de Esaú). De resto verifica-se entre as crianças a tendência espontânea a recobrirem o rosto com as mãos. por exemplo. a sua personalidade.. ... Por conseguinte. conseqüentemente os olhos simbolizam o conhecimento que os homens ou Deus possuem: "Os olhos se lhes abriram (a Adão e Eva) (Gên 3..) À luz dêste texto. torna-se claro o antropomorfismo correspondente. principalmente a destra. constituindo para o homem uma das principais fontes de informações. as mãos..) os olhos. coisa que se verifica ainda nas nossas expressões "aos olhos da sociedade. de Deus: "Vossa direita.." (17. nas páginas sagradas." (S1 115. Enquanto o seu coração se afasta do Senhor. Senhor..." (Êx 15." e') as mãos simbolizam freqüentemente a faculdade de dispor ou simplesmente o poder (como ainda hoje na expressão: "estar nas mãos dos mais velhos. significa freqüentemente na Bíblia a personalidade.) A luz dêstes dizeres hão de se entender os antropomorfismos: . usado. esmagou o inimigo. a seguir.) a face ou o rosto..4. .7.. Assim. "ver a face" é não raro sinônimo de "comparecer perante (tal pessoa) ". Vossa direita.58 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Maldito todo aquêle que se apóla sôbre o homem E faz da carne o seu braço. em Lc 1. de Javé significam a fôrça.21. Dispersou os que se ensoberbeciam Derrubou do trono os potentados. Senhor. das autoridades").5. fala Jacó: "Aplacá-lo-ei por meio dos presentes que envio préviamente.515: "(O Senhor) fêz coisas poderosas com o seu braço. sendo a sede dos órgãos que exprimem o intimo do indivíduo. da história. "fugir da face de . . A Êle pertencem os cumes das montanhas. o poder. conceituacão. se assinalou pela sua fôrça. a fim de ocultarem a consciência ou o seu íntimo.) "Preciosa aos olhos do Senhor É a morte dos seus fiéis.6. são fàcilmente associados à idéia de conhecimento. . talvez me dispense bom acolhimento.) "O Senhor tem em suas máos as profundezas da terra.é "fugir de tal pessoa ou objeto .15.." (Gên 32.

podia escrever sem ulterior explicação "Junto ao Pai das luzes não se verifica vicissitude nem sombra de mudança.2. procede de forma imprevista às criaturas.) "Procuro a tua face. em conseqüência da conduta dos homens. aprova e confirma o bem. o Senhor falava "face a face" com Moisês.11. acentua a incompatibilidade do mal com o que é de Deus. bondade)?" (Si 12. Quanto aos afetos (alegria.17. Não rejeites encolerizado o teu servo.) Conforme Êx 33. Senhor. Senhor.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 59 "Até quando.8s. portadores de tese muito veridica e importante para a alma religiosa: o Deus sumamente transcendente é também intimamente próximo ao homem e solícito do bem da sua criatura! . mais nenhum valor possuem. o ato corporal de "voltar a face para. Aliás. se "se vinga". a "inveja" de Javé significa o desejo que o Senhor.. embora se dirigisse a israelitas educados na ideologia veterotestamentária e recém-convertidos ao cristianismo. na Sagrada Escritura. não podem ser tratados como expressões que. Quando Javé "se arrepende". Se.. ira. à semelhança do que se dá quando um homem se arrepende do que fêz. sumamente bom.) Estas considerações são suficientes para se concluir que os antropomorfismos e antropopatismos bíblicos não constituem simplesmente o produto de mente filosàficamente pobre ou simplória. ou seja. o antropomorfismo é logo explicado pelo apôsto "como um amigo fala ao amigo". são. Deus é dito "irritar-se"." pode simbolizar um ato que se processa essencialmente no plano do espírito. se "se entristece". me esquecerás? Até quando rue ocultarás a tua face (= sorriso. se "se alegra". arrependimento) que os hagiógrafos atribuem ao Senhor." (1.. com o progredir dos tempos. não faz senão repreender o pecador que comete a iniqüidade. do seu modo. Ao contrário. entenda-se que. doação de amizade. o primeiro bispo de Jerusalém. . Tu és o meu amparo. Nesta seção. não faz senão punir em justiça os que o merecem." (SI 26. Não me ocultes o teu rosto. errôneo seria equipará-los aos sentimentos baixos e apaixonados dos homens ou dos deuses do paganismo. guarda fiel das tradições judaicas. Tiago. que. o modo como os judeus entendiam êsses antropopatismos parece-nos atestado por S. isto insinua bem que. na mente dos hagiógraf os. tem de ser amado por seu povo renitente e infiel.

Isto quer dizer também: mesmo o individuo mais "realista" vive de imagens. nunca. devidamente utilizada. A justo título se diz que o homem que não tem "imaginação" ou dela não quer usar. diz-se que hoje em dia o mundo ocidental (a cultura européia e americana) está de novo descobrindo o valor dos simbolos. Mesmo no homem moderno. . o simbolismo tenha função importante. da psicologia. Éste adquire. porém. das figuras sensíveis donde parte o seu conhecimento. e até da psicanálise. simbolos. sim. que são o suporte e veículo de sua ciência. é apetias camuflar ou mutilar os simbolos. e êste simbolismo subconsciente é às vêzes mais forte do que a vida consciente do indivíduo. mostra o que é refratário ao conceito. Podem-se encontrar conclusões de estudos modernos sõbre o assunto na obra de Mircea Eliade. ou ainda aquilo que a intuição apreende. os finos matizes dos objetos. embora reflita sôbre estas.60 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO APÊNDICE O VALOR DA LINGUAGEM SIMBOLISTA Após a acerba campanha ou desconfiança que o racionalismo do séc. que a razão e os conceitos humanos não podem definir de maneira cabal e exaustiva. metafísicos. nem ao raciocinar nem ao exprimir as suãs conclusões. esteriliza a sua atividade e produtividade. jamais se pode desvencilhar. tôdas as suas noções a partir dos sentidos ou de imagens materiais. O simbolismo tem por fim exprimir as mais secretas modalidades. ao raciocínio. 1951). tem sido comprovada a sobrevivência subconsciente de grande número de imagens. por mais "racionalista" que pretenda ser. e. Ora bem se compreende que. A imaginação. por definição. faça uso dêste (e uso assaz freqüente) para transmitir verdades sobrenaturais. afirmam cada vez mais categàricamente que o recurso a imagens e figuras é espontâneo ao indivíduo que pensa e fala. as proposições religiosas. Com efeito. Assim se explica que a Escritura Sagrada. aproveitando a inclinação inata do homem (mesmo do varão culto) ao simbolismo. os recentes estudiosos da história. se separa da realidade profunda da vida e do seu próprio psiquismo. principalmente ao se tratar de exprimir verdades religiosas. versam em tôrno de objetos transcendentes. Images et Symboles (Pãris. constitui uma exigência da natureza psico-física do homem. O que o homem pode fazer. XIX ocasionou contra o simbolismo. os consegue eliminar de sua mente. abstraindo conceitos universais. mas as fórmulas já não sabem traduzir adequadamente.

guerreiros. Ao contrário. autoridades. para os antigos. ' Não ter nome" wm a ser o mesmo que não ter existência". herdeiros 1 "Nomen est omen de . os indivíduos poderosos.CAPÍTULO IV NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA O uso do nome e dos números no texto da Bíblia não constisenão uma expressão a mais. o segrêdo do seu sucesso. que o Espírito Santo houve por bem respeitar. dotada das energias próprias do respectivo sujeito. É de notar. do gênio semita. é um agouro". tinham-no como a caracterização do indivíduo. Em virtude destas concepções. E quais seriam essas idéias? O nome. chama a atenção. seja de Dèus. seja das criaturas. para significar que o céu e a terra não existiam. na linguagem oriental antiga. a expressão da íntima essência ou de um atributo. o autor diz que não eram nomeados. diziam proverbialmente os . o nome. por exemplo. Tais idéias eram compartilhadas pelo povo de Israel. dos quais os mais dignos de nota são os seguintes: romanos. das nações antigas e de tribos atuais não civilizadas não revelavam nem revelam o seu nome. vai-lhe dedicado o presente capítulo. Em conseqüência. podia designar simplesmente o ser ou a vida do individuo nomeado.O nome idêias orientais. ocasionando na Sagrada Escritura modos de falar a nós estranhos. que as páginas anteriores apresentavam. só se pode explicar à luz de idéias dos orientais. tui § 1. de uma função do portador. Dada a importância de que se reveste o tema para a interpretação do Livro sagrado. 0 A FILOSOFIA DO NOME A maneira como os autores bíblicos se referem ao nome. e bem característica. que na principal narrativa babilõnica da origem do mundo. 1 Alguns povos chegavam mesmo a conceber o nome como parte integrante do indivíduo e como coisa misteriosa. a fim de não comunicar a sua fôrça íntima. heróis. não era uma designação arbitràriamente anexa ao seu portador.

Pedro" (Jo 1. Si 40.45). O nome é identificado com a própria pessoa ou a existência do respectivo portador: Conforme Edo 6. segundo os profetas. . João Batista seria dito "Profeta do Altíssimo". após haver salvo da fome o Egito. para Cephas = "Pedra..10.9.". . em egípcio (Gên 41.. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O nome revela o íntimo do portador.5). "mudar o nome" de alguém significa "assinalar-lhe nova função.5) Jesus Cristo. Assim o futuro Messias será chamado (= será realmente) "Conselheiro admirável. Moisés contou nomes ou individuos de cada tribo de Israel. função que de fato desempenhou (Le 1. cf. Jerusalém. os pacificos serão chamados (= serão) "filhos de Deus" (Mt 5. Pai eterno.3). pois êste é o que o seu nome indica. fica sendo Tsaphnath-Panoach = " Provedor da vida"..3. a criança que nasce morta tem o seu nome recoberto pelas trevas (Edo 6. Is 567). Em particular nos oráculos proféticos. S.) - Conseqüentemente. Por ocasião do recenseamento preceituado pelo Senhor.76). o Senhor Jesus muda o nome de Simão. nada vem à existência sem que prêviamente haja sido pronunciado o respectivo nome. Em Ei 5. "Cidade da verdadë. seu nome é "o Tolo.4). deveria ser chamado (= seria) "Filho do Altíssimo. Montanha santa" (Zac 8.62 . e nêle há Tolice. Paulo pede que a fornicação e outros vícios não sejam nomeados entre os cristãos. cf.18) José.42). é a mesma coisa que "ser. Filho de Deus" (Lc 1.32. Nabal. futuro fundamento da Igreja.3. . o Deus de Israel é chamado (e é.35).19) a Casa de Deus tem por nome (por conseguinte. Deus forte. o que só pode significar: . como refere o texto de Núm 1.Tacó = "Suplantador" torna-se israel = "Homem forte contra Deus" (Gên 35.26). Ao contrário. mas 'Minha complacência pousa sôbre ela" (Is 62. seria chamada (porque deveras se tornaria) "Cidade fiel" (Is 1. "Desejada. É o que se verifica na história de Davi. Príncipe da paz" (Is 9.5).. Mt 5. não tenham existência..6).2-42. novo destino na vida". S. nome que Jacó substitui por Benjamim = " filho da direita" (Gên 35.10) Raquel chama seu segundo filho Benoni = "filho de minha dor". conforme o anjo. .4. "ser chamado." (1 5am 2525. É o que Deus às vêzes faz ao confiar aos homens um encargo de relêvo: Abram = "Pai elevado" torna-se Abraham = "Pai de multidão" (Gén 17. a quem Abigail se dirige nestes têrmos "Não tenha o meu Senhor cuidados para com. cf. não mais "Abandonada". sem dúvida) "Deus de tôda a terra" (Is 54.12). não sejam praticados.. Cidade náo abandonada" (Is 62. é) "Casa de oração" (Mt 21.

11. Êx 23. quando o sacerdote abençoava a multidão." (Êx 33. Visto que o nome era tido como portador da energia.6). Com efeito.311 (note-se o paralelismo entre os dois verbos !).9). pois encontraste graça aos meus olhos. E sobe até a nuca. 4 Rs 23. ef.34. Is 44. declaram-se com isto servos de Javé pertencentes unicamente ao Senhor (cf. pôr sob a proteção" ou também "tornar a pessoa ou o objeto posse. "colocar o nome" de uma pessoa sôbre outra ou sôbre alguma coisa equivalia a "envolver tal pessoa ou coisa dentro do raio de ação do nomeado. 16. . Seu sôpro se assemelha à torrente que transborda.2. 24. Is 4. pesada nuvem se levanta.20s).28) o monarca vencedor não raro mudava o nome dos homens subjugados. num tempo de calamidade. a fim de significar que doravante estariam sujeitos ao poder do novo soberano (cf. a entrega do nome seria a consignação do poder próprio (cf. do respectivo sujeito. e te conheço por teu nome.12) o Bom Pastor chama as ovelhas pelo nome e as ama a ponto de dar a vida por elas. 2 5am 12. os magos julgavam poder dispor da fôrça de Deus. porém.30.17.5. com especial carinho e interêsse. sete mulheres procuram um homem e lhe pedem seja o nome déste preferido sôbre elas. "Conhecer alguém pelo nome" é conhecer de maneira muito íntima.275). a mesma ficaria sendo posse déste chefe israelita (ef. Gên 32.11) por ocasião da travessia do deserto (êxodo do Egito). dizia Deus a lvloisés Ainda farei o que pedes. "colocava o nome de Javé sõbre o povo. se à cidade de Rabá se desse o nome do General Joab. atribuem-se-lhe órgãos e atividade: "Eis que o nome de Javá vem de longe. conforme a mentalidade vigente.27). "no qual estaria o nome de Jave' (cf.5.17). e o Senhor o abençoava realmente" (Num 6. da eficácia. do nome de Deus.e. Seus lábios respiram o furor E sua lingua é como fogo devorador.16. Apc 13. Jz 13. 14.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 63 O nome sendo empregado como sinônimo da pessoa. os homens por vézes desejam saber o nome de personagem misterioso que lhes aparece. a fim de que possam usufruir da tutela désse varão (cf. Deus prometeu enviar ao seu povo um anjo tutelar. pois. propriedade do nomeado". abusos que se verificavam nos cultos pagãos (proferindo o nome da Divindade. se nega a revelá-lo. ést." (Is 30. 33. o templo de Jerusalém é dito "o lugar que Deus escolheu para ai fazer habitar o seu nome" (Dt 12. declara Jesus em Jo 10. Dadas estas concepções em Israel.1) aquêles que escrevem o nome de Javé sôbre a própria mão. Assim é que. Sua cólera arde.21. supersticiosos. a Lei de Moisés proibia terminantemente os usos mágicos.6.

do nome de Deus era rigorosamente vedado pela Torá (cf.64 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO coagindo o mesmo a socorrer os homens!). herdado dos caldeus. antenatos de Abraão. 'A ti. Qualquer pronunciar vão. irreverente.. lei em virtude da qual se admitia a comunicação de 2 Haja vista o vaticinio proferido sóbre Judá: 8. 18. tolerando. sem o indicar expl'icitamente. 2 Os exegetas modernos explicam êste modo de falar pela tendência dos oriStais a pensar segundo categorias coletivas (pelo thinking iii totalities. lis). 8 veja-se a respeito B.2s. J. o ganzheitiiches DenIcen. 2.8. em Tire Cathouc BibUcaZ Quarterly. Os filhos de teu pai (= as onze tribos de Israel) se prostrarão diante de ti (= tua descendência).10) ora ao mdlviduo apenas (vi'. os nomes dos filhos de Jacó significam ora uma pessoa. "Esaú" e "Jacó" representam dois povos em Mal 1. E ao melhor dos troncos o filhote do seu jumento.. conforme os alemães): os semitas costumavam julgar um individuo em função do todo a que pertencia. a qual também teve sua influência na redação de algumas passagens escriturísticas. Lava a sua veste no vinho e o seu manto no sangue da uva. ora uma tribo.11.9-13). vigente entre os povos antigos. Destarte é que "Israel. Será preciso. Tua mão pesará sôbre a nuca dos teus inimigos. nos oráculos de Gên 49.8. 22. 8. Lev 20. Até que venha Aquêle a quem pertence (o cetro) E a quem os povos obedecerão Êle (Judá) amarra à videira o seu jerico. Contudo o Senhor. Éx 20. hão de louvar os teus irmãos. O cetro não será removido de Judá (= coletividade). conforme os inglêses. porém. Jacó" designam a nação eleita inteira em Is 41. sujeito a ser removido mais tarde. o autor sagrado transfere a sua atenção daquela a esta e vice-versa. Judá. .17. XVII (1955). Tem os olhos rubicundos de vinho E os dentes brancos de leite? (Gên 49.27. o pressuposto era deficiente. as qualidades de um Patriarca prolongando-se na posteridade dêsse varão. a prosperidade que no futuro deve tocar a Judá e a seus descendentes é descrita em têrmos referentes ora à tribo inteira (vv. Nem o bastão de comando dentreos seus pés.315-323. Le Frois. zelava rigorosamente para que tal concepção não afetasse a verdadeira fé e o legítimo culto de Deus. Dt 5. Destarte Javé tolerava no seu povo um pressuposto da cultura oriental. Ei-la: O nome de um indivíduo podia designar tôda a linhagem do mesmo. o semita não via dificuldade em aplicar o nome do pai à coletividade dêle descendente. 3 Na raiz dêste fenômeno parece estar a chamada "lei da participação". referir ainda outra modalidade da "Filosof ia do nome" vigente entre os orientais.7. "Semitic Totality Thinklng".10-123 Como se vê.

em algumas passagens. já foi no início da era cristã compendiosamente realizada em Maria Santíssima. para resolver tais problemas. Eis. mas como se "o povo inteiro nêle estivesse. A "lei da participação" (na medida em que ela é verídica) explica bem que a mulher revestida do sol. chamam a atenção por referir quantias extraordinàriamente elevadas ou também insignificantes. 143). Em outros casos. ao menos em muitos casos. Acontece que. "The Hebrew Conception te Frois. João. 1.. fôsse o povo" 5 (ci. 318. o significado que toca ao nome nas páginas da Sagrada Escritura. of Corporate Personality". é indispensável tenha o leitor em mente alguns princípios gerais. 137. 4 de sorte que a pessoa que nomeava um indivíduo se podia estar referindo a tôda uma coletividade e vice-versa. ao aludir a esta em Ape 12. 53-56. terá intencionado referir-se à Igreja. Fenômeno semelhante se verifica em alguns salmos: tôda a coletividade de Israel ai aparece como que concentrada na pessoa do seu rei. 107. tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrêlas sõbre a cabeça. abaixo discriminados. Também éste aspecto da mentalidade oriental foi utilizado pelo Espírito Santo para exprimir a mensagem perene da Palavra de Deus! § 2. na Escritura Sagrada. não como simples lugar-tenente. ao redigir Apc 12.. mas como enunciações de qualidaem 4 5 Bethelt aur Zeitschritt /uer alttestamenthche Wissenschaft. SI 59. tomam assim caráter aparentemente fantástico.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 65 qualidades da parte ao todo e do todo à parte. que dá o Cristo ao mundo e ao mesmo tempo luta contra o Dragão até o fim dos tempos. são as variantes dos textos (bíblicos ou profanos) paralelos entre si ou a oscilação dos manuscritos antigos que provocam dificuldades de interpretação: entre duas ou três cifras indicadas pelas fontes. W. esta é. porém. suscitam.° OS NÚMEROS NOS TEXTOS BÍBLICOS As cifras. . Cf. Ëste representa o povo. por conseguinte. a terá apresentado realçando os traços que lhe são comuns com Maria Santíssima. e não se sabe sempre que critério seguir. Por isto. de que fala Apc 12. que a função da Igreja. S. art.. Ora. possa simbolizar tanto a Igreja (coletividade) como a Santíssima Virgem Maria (pessoa individual). por sua vez. João. e êle. a pessoa individual que por excelência representa a coletividade da Igreja. Em conclusão: será necessário recorrer à ideologia particular dos semitas para interpretar. Robinson. participando dos predicados desta. 66 (1936). lutadora e vitoriosa. por sua vez. Mãe e Virgem. OS NÚMEROS SÍMBOLOS DE QUALIDADES Os números figuram muitas vêzes na Sagrada Escritura não como indicações de quantidade. é preciso optar. que pouco fidedignas parecem. S. questões múltiplas e árduas. cit.

o proprietário. tão antiga mesmo quanto o uso de contar. E . Em tais fenômenos. Fenômenos significativos neste setor são os seguintes: mesmo entre povos primitivos cuja faculdade de contar é muito limitada. os homens rudes não jogam com unidades abstratas. bem se vê que a observaçao da . o percebe e sabe dizer quais as notas que faltam no conjunto..note-se bem . configuração que define o rebanho. tornam-se. É o que faz que espontâneamente se liguem com os números as idéias de "Transcendente. as criaturas inf eriores. A tendência a associar cifras a certos predicados ou também a certos sêres (a Divindade. inseparável de determinados predicados individuais. despojadas das notas concretas com que se realizam na natureza. é capaz de verificar a ausência de um só que seja. Divino" ou "Mais Forte. o pastor primitivo guarda na memória as notas características de cada animal. Além disto. mas tôda unidade lhes fica na mente. as combinações dos números entre si parecem ultrapassar a capacidade do espírito humano.. são a expressão de um juízo que o autor formula a respeito de tal ou tal sujeito. quantos e quais individuos desapareceram. para o homem primitivo. esta não falta nas tribos de civilização pobre). diferenciação. para que proceda pràticamente como se soubesse contar.66 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO des. Sim. a série dos números apresenta algo de misterioso para o homem: ela parece poder prolongar-se sem que êste a consiga acompanhar. Nesses casos. Da mesma forma. porém. periodicidade. Mais Pujante". Bata então que o homem rude tenha boa memória (e. o caçador primitivo. Ela se baseia no fato de que os números estão essencialmente ligados com a idéia de regularidade. Em conseqüência. pouco dotados de capacidade de abstração. em virtude da sua memória. altamente significativas para quem conheça a mentalidade do autor e a afinidade que os antigos estabeleciam entre certos números e determinadas qualidades. também. com efeito. os pastôres sabem exatamente verificar a falta de um ou mais animais nos seus rebanhos. em geral. o proprietário de quatrocentas ou quinhentas ovelhas. está claro que as cifras se mostram inverossímeis para quem as queira entender como expoentes matemáticos. estas notas tôdas reunidas dão uma configuração de conjunto ao rebanho.) é muito antiga. os espíritos. ou seja. o homem. quebra. quando o aspecto do grupo é mutilado. ao ver o gado voltar do pasto para o aprisco. harmonia e. percebe de longe se algunia falta e sabe dizer qual ou quais as que se tenham perdido. cada unidade está 'mtimamente associada a notas individuais de um sujeito.isto se dá sem que tais homens saibam contar além de uma ou poucas dezenas! Os estudiosos explicam êstes fenômenos pelo fato de que. ao convocar os seus numerosos cães para a caça.

ALGUNS ASPECTOS DO SIMBOLISMO DOS NÚMEROS O "simbolismo dos números" acima explicado era patrimônio da sabedoria não só dos famosos pitagóricos e platônicos (gregos). seixos"). ossinhos.20: Deus tudo dispôs "conforme medida. o valor qualitativo" do mesmo. mas também dos povos orientais e. dos israelitas. 144s.coisa que freqüentemente falta na linhagem dos impios. O número por si costuma significar ordem. às unidades e aos seus múltiplos (dai o verbo "calcular". e de cifras de índole meramente quantitativa. Exemplo típico disto verifica-se nas genealogias dos cainitas (prevaricadores) e setitas (fiéis a Deus) em Gén 4. em conseqüência. Boman. porém. o Senhor. que originâriamente significa "manejar cálculos. Por conseguinte. É o que explica a afirmação de Sab 11. Eis as principais expressões desta mentalidade na Sagrada Escritura. 8 Cf. Algo de semelhante se dá na linhagem dos semitas. nós feitos em Cordame. Esta "Filosofia do número". número e pêso". com isto. ). É também o que ilustra a admoestação de Jesus: "Mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 67 qualidade precede a da quantidade ou cifra. o nome de cada um dos descendentes de Sete é acompanhado de cifras.1-32: enquanto naquela não se encontra a menção de um sô número. a duração total de sua vida . Individual. o valor quantitativo".. de maneira geral. a história dos justos é geralmente apresentada dentro de um quadro numérico. harmonia. ensina que a Providência Divina dispõe ordenadamente até as mínimas circunstâncias da vida humana. porque associa com cada unidade e com o conjunto das unidades predicados característicos. destituídas de significado filosófico ou moral (sem atribuição de qualidades). . O Diz-se que o homem primitivo considera primeiramente no número não a 'grandeza. com a indicãção de datas ou cifras equivalentes a datas . forma-se. T. os quais dão figura concreta. diga-se explicítamente. Das hebraeische Denken ira Vergleieh init dera grieehischeit. mas a "figura. 6 o homem "conta" ou faz como se contasse. êle venha a conceber cada cifra jntimamente relacionada com alguma qualidade. matemática. a memória então já não é capaz de reter tudo que caracteriza os múltiplos indivíduos com que o homem lida. que lhe servem de moldura (o número de anos em que começou a gerar.0 simbolismo do número como tal.. A . Não temais". Normalmente em cada tribo a civilização e a vida cotidiana se vão tornando mais e mais complexas. 1 Entende-se então que. no decorrer dos tempos. 7 É notário que o homem rude só sabe contar servindo-se dos dedos das mãos ou dos artelhos ou ainda de seixos (cálculos). a noção de unidade abstrata.17-24 e 5. parece fadada a cair em desuso. ou seja. 8 2.

26. Excelsos".35.27. correspondente ao ideal que Deus lhes traçara. 'Elyonini. 30. Dt 4. é sinal de que a corrução. o Deus de Israel. o número dois. SI 33. Is 46. 7. Qedoshim. O declínio da longevidade à medida que se passam os tempos. perfeito.1. Bettencourt. VI a. o conceito abstrato era expresso pelo plural do têrmo concreto). Aplicando a Deus os têrmos concretos "Fortes.68 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO portadores da promessa messiânica. Prov 9. 16. a sublimidade do único Deus.19. na genealogia dos Patriarcas bibilcos: a extraordinária longevidade (centenas de anos) que lhes vem atribuida. 6. prêmio que Deus outorga à virtude. a santidade. Excelso (Dan 7. 19552).6). Era outros têrmos: longa vida é. 1905. a Santidade. É o que se verifica.18). plural de Qadosh. E. que se origina pela interven9 Bar 3. os israelitas queriam dizer que o Senhor é a Fortaleza. 14. Estas formas de plural não indicam multiplicidade de sujeitos ou deuses. 9. Frov 8. Julgava-se em certos círculos (mormente no pitagorismo. a partir do séc. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios (Rio. a Sublimidade mesma (em hebraico. "os seus deuses". extensão. vão exercendo cada vez mais os seus efeitos no gênerohumano. referindo-se a uma Divindade. Os 12. 11. por exemplo. 10 Ocorrem no texto hebraico da Sagrada Escritura substantivos em forma plural que inegàvelmente designam o único Deus.8s. o deus supremo. os deuses dos deuses. Os vassalos cananeus do Egito dirigiam-se ao Faraó mediante a fórmula ilania. plural de 'El.35s. Dentre os números.C. não fazia outra coisa senão proferir sôbre o mesmo uma fórmula de maldição (cf. Deus ou Forte (?) (Gên 5. pertencer longa vida. Já que os números freqüentemente indicam qualidades.10. desejando que o dia de seu nascimento não fôsse contado entre os dias do ano. Jó. 30. Cf. a felicidade diminuem no mundo. isto é. entende-se que as expressões de plural na Sagrada Escritura não designam sempre multidão. 10 Cf. • mal se alastra mais e mais. gozavam de preferência os ímpares. 9 donde se segue que extraordinária longevidade tem por pressuposto extraordinárias virtudes. • pecado. Santos.11.9.18.19. mas são maneiras de realçar a qualidade expressa pelo respectivo nome: a fortaleza. empregavam formas de plural.O simbolismo peculiar de alguns números..) que o número um é por excelência o Princípio não produzido.9). B . Aliás sabe-se que também os povos pagãos. sem dúvida. e o bem-estar.14. que lhe confira experiência e autoridade. em Gên 11. à figura de um Patriarca parece.10-32. O deus lunar Sin era chamado ilani seita ilani.3).22. Assim: 'Elohim. Jó 3. conforme os autores israelitas. Tal uso dos números significa que a vida dêstes justos era harmoniosa.11. 81. exprime enfàticamente a alta venerabilidade que competia a êsses homens. . mas intensidade de um predicado.20. Dt 4.12-14.6. plural de 'Elyon. desde Adão até Abraão. Santo (Jos 24.

isto é. é obrigado a restituir quatro outras (de acôrdo com a lei formulada em tx 20. parecia essencialmente imperfeito. Um fenômeno literário Interessante ainda solicita atenção: no texto hebraico de 2 8am 12. isto é. 11 5 (1907). que ocorria freqüentemente nas suas histórias religiosas e nas cerimónias de culto.30). Esta tradução. atribuíam-lhe o significado de totalidade.1-2. opondo-se a isto. O número sete é dos mais dotados de valor simbólico na mentalidade antiga e na Escritura Sagrada. a distribuição do tempo em semanas (cf. Gên 1. definidos. Hehn. Visto que o número sete determina períodos mais ou menos completos. a saber: que se há de fazer a compensação cabal. J. se se penetra na mentalidade dos tradutores: no caso. dizer palavra firme. o orante confessava ter cometido sete vêzes sete pecados. plenitude. bb) sempre que se queira exprimir a totalidade. assim o discípulo de Cristo há de perdoar setenta vêzes sete vêzes. os hebreus derivavam o verbo sliaba. Lc 17. Em outra oração. quiseram por meio dêste número indicar melhor o que o texto original subentende. porém. exata do furto cometido (de resto. Ci. por exemplo. plenitude que é própria da Divindade. . faltas numerosissimas ou de incomensurável gravidade. Em geral. prestar juramento. A figura da mão dotada de sete dedos era na Caldéia simbolo da plenitude da fórça e do poder.6 lê-se que o homem que haja roubado uma ovelha. sete. sempre que haja ocasião para Isto (ci. matemático. perfeitos. à primeira vista. plenitude e perfeição. a estima geral dedicada ao número sete parecia sancionada pela própria Bíblia. os números ímpares. De resto. Em Israel.8). 1' É com êste sentido que êle ocorre.16 se refere a sete (= tôdas as) quedas do justo. eram tidos por fortes. Veja-se ainda Gên 4. Os caldeus fizeram do setenário um número sagrado. por admitirem divisão em duas partes inteiras.24 (a vingança de Caim e a de Lameque). os números pares eram considerados inf eflores. ao contrário. Lc 19. em lugar de "quatro". longe de atribuir a "sete" significado quantitativo.37.15. tão grande quanto seja. Mt 18. que reconhecia e promulgava. em Prov 6.21s.4a).30 está dito que o ladrão deve restituir sete vêzes o que roubou 1). que os judeus de Alexandria. quebradiços. Eis. da mesma raiz que sheba. puseram 'sete ovelhas".NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 69 ção do vazio ou do intervalo na unidade. indefinidamente. Gên 21. a) o 'número sete. aa) nas fórmulas de contratos e juramentos: Abraão deu a Abinieleque sete ovelhas como penhor de que cumpriria sua palavra (cf. "Siebenzahl und sabbat bei den Babyloniern und im Alten Testament". é estranha. contudo ela se explica muito bem. moles ou femininos.12 O autor de Prov 24. O significado importante do setenário entre os orientais compreende-se pelo fato de que êstes povos dividiam o tempo conforme as fases da lua. emLeipziger semitische Studien. pedia sete vézes perdão. 11 Já na Babilônia sete (= lcissatu) era sinônimo de totalidade. ao traduzir o trecho para o grego. ci. já em suas primeiras páginas.4). 12 Em uni cântico penitenciai babilônico. da vida humana. 34s. viris.

e) o número dez. o sentido do número três há de ser analisado à luz do gênero literário adotado pelo hagiógraf o. ao mencionar dez Patriarcas em cada uma. sétimo ano ou ano sabático. o núm?ro dez foi tido como símbolo de um "todo completo. nas parábolas de Cristo (I. os três amigos de Jó (2. embora mais parcimoniosamente do que o número sete.1).14). recorria aos dedos de suas mãos. é figura que sôbre qualquer de suas bases está sempre em pé.70 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO cc) quando se quer indicar um dia ou ano de repouso. C+ên 2. que excluem do reino de Deus (1 Cor 6. . de modo nenhum entendia dizer quantas gerações mediaram respectivamente entre Adão e Noé.2. ao contar. não sàmente por ser o primeiro composto ímpar. . mas também porque o triângulo equilátero constitui um dos simbolos mais expressivos de firmeza e perfeição. Noé e Abraão. 15.23). os.1-32) e dos semitas (Gén 11. Sejam aqui mencionados apenas os três filhos de Noé (Gên 6. os três dias passados por Jonas no ventre do monstro marinho (2.2).10). não exaustivo) de dez adversários que não conseguem arrebatar ao cristão o amor de Cristo (Rom 8. três justos de Ezequiel (14. O ternário ocorre com freqüência na Escritura.) tenha realmente havido. os três anjos que apareceram a Abraão (Gên 18. Éx 20.10-32): o hagiógrafo. fechado em si". ano que mais se assemelhe à perfeição da vida celeste.1-17.1) b) o número três. Sejam mencionados ainda: os dez servos (= um grupo completo). desta praxe se origffiou o sistema decimal. ficando a cifra exata desconhecida tanto ao escritor como ao leitor. Mt 25. mitas. O número três gozava também de grande estima entre os se- Em cada um déstes trechos.8. tal dia ou tal ano é determinado pelo número sete (sétimo dia ou sábado. Em tais circunstâncias. O que interessava o autor sagrado era dizer que entre Adão e Noé.11). É certamente êste o significado que lhe compete nas genealogias dos setitas (Gên 5.13. a menção de dez vícios (não exaustiva). a série dos tempos foi preenchida sem algum acontecimento digno de nota para a historiografia religiosa. Lev 25. O número dez tornou-se importante entre os antigos pelo fato de que o homem primitivo. o catálogo (taxativo. as dez virgens (= todos os cristãos). não se deixando de modo nenhum derrubar. as dez dracmas (= número redondo).10.9s)..c 19. os três companheiros de Daniel (3. de renovação. Noé e Abraão. mas apenas queria referir-se a todos quantos (. Ci. ano jubilar ou qüinquagésimo 17 x 7 + 11).38s).

14 3. todos impregnados de moralismo. portadoras da fé e da esperança messiânicas. Tais mdicacões significam o caráter de plenitude. Baseado sôbre os doze Apóstolos quais pedras fundamentais. em L'Ami du Clergë.. divisão que já babilônios e egípcios observavam. que toca à nova Jerusalém ou à Igreja de Cristo. 13 "Na antiguidade. escolhidos pelo Senhor para constituírem o elo entre as doze tribos (a totalidade) do antigo Israel e a plenitude do novo Israel. guardadas por doze anjos. 12. ordinàriamente rituais. ornada cada qual por uma pérola e o nome de uma das tribos de Israel. tem doze mil estádios de lado. A interpretação de cada um dêstes requer estudo exato do respectivo contexto. totalidade ou plenitude. ou também os atos de obediência à Lei (Ez 18.20s). salmo em que é realçado o número dez: A tradição israelita conhecia outros formulários que catalogavam em listas de doze os atos e as pessoas que mereciam maldição (Dt 27. sendo quadrada.. ENUMERAÇÕES PROVERBIAIS E ARREDONDADAS Dizia-se acima que os números na Sagrada Escritura por vêzes não são a expressão de quantidades. Um dêstes. O número doze adquiriu aprêço em virtude da divisão do ano em doze meses. consumação. 852.. simbolizasse.14. em conseqüência. 13 d) o 'número doze. constitui o salmo 14. 51 (1947). não comporta mais particulares a respeito dos números bíblicos. que deviam observar os que lã Quisessem entrar para participar das bênçãos do culto. Com efeito. cuja estrutura é impregnada do mesmo número: tem doze portas. 14 O presente estudo.16s. . o reino messiânico é descrito no Apocalipse como Cidade Santa. Apc 21.14-27). agora recrutado dentre tôdas as nações. a cidade. abrangendo um período definido em si. Gelin. sôbre cada qual das pedras da base acha-se o nome de um dos Apóstolos. visando apenas uma iniciação geral na Sagrada Escritura. todo santuário apresentava regras próprias. em que os bens outrora outorgados às tribos de Israel se acham multiplicados e oferecidos a todos os homens. mas designam qualidades. lste constava de doze tribos. Era natural que a cifra.5-9) A. esta constitui o reino teocrático por excelência. as dez prescrições dirigidas a quem queira subir à montanha do Senhor (Si 14). por sua vez. Em Israel essas regras eram enunciadas nos formulários da "liturgia de entrada". o reino messiânico mesmo é freqüentemente assinalado pelo número doze.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 71 a série de dez milagres narrados sucessivamente para comprovar a autoridade de Jesus após o importantissimo sermão sôbre a montanha (Mt 8s).. a muralha perimetral mede cento e quarenta e quatro côvados (cf. o número doze é básico para a história do povo de Deus. Na Sagrada Escritura. éle se propaga mediante a pregação dos Apóstolos. a nova Jerusalém.

" (1 5am 21. os seus dez mil.123 O sentido do adágio é claro: "por muito aguerrido que tenha sido Saul. indica que o réu é grandemente culpado. também enumerações arredondadas. 16 Afirmações em que números são mencionados conforme o esquema n. proverbial.. É aos gregos. por outro lado. Outro artifício de números.8: o profeta anuncia a seis povos pagãos e às duas frações do povo eleito (Judá e Samaria) o castigo divino. ora. mesmo ao significar quantidades.) E por causa de quatro crimes. três. provoca irrevogàvelmente a punição divina.3.6. acrescentada logo a seguir.. a arte das medidas. por vêzes. O artifício servia parte para ajudar a memória dos discípulos (que deviam aprender de cor as máximas sapienciais). usa a fórmula introdutória estereotípica: "Assim fala . ao se dirigir a cada um dos réus. 2. cantavam os coros popuiares: "Saul matou os seus mil. os orientais admitiam fàcilmente certa latitude ao enunciar uma quantidade.. é meramente retórica. Não revogarei o meu decreto (de punição) (Am 1. são. após a dita fórmula introdutória. Exemplo evidente de uso enfático. n + 1 ocorrem freqüentemente na Sagrada Escritura. 15 A instância quatro. Considerando êste particular. cuja civilização surgiu posteriormente à dos semitas. Gaza.o Senhor: Por causa de três crimes de.11. significa que a iniqüidade ultrapassa mesmo tôda medida e. mas Incrimina o êrro ou os erros (quantos sejam !) do respectivo povo. aliás muito expressivo. Com efeito.4. mas tem seu significado próprio. Davi. É bem de notar que. o haglógrafo não enumera nem três nem quatro faltas. os exegetas reconhecem haver na Sagrada Escritura enumerações intencionalmente enfáticas. por exemplo. (Damasco. no contexto. à exatidão em geral. é a disposição dos elementos enunciados em duas séries: ii e n + 1.9. Tiro. proverbial. Davi ainda o é mais". que não correspondem matemàticamente à realidade.1..13. por isto. 15 16 .) A menção gradativa de três e quatro crimes não é de ordem matemática nem. parte para dar ênfase Haja vista o que se disse sôbre o simbolismo do número três à pág. etc. encontra-se na história de Davi: para louvar a bravura déste guerreiro.6.3-2. porém. dos gregos receberam os demais europeus a geometria. adaptados a artifícios de linguagem. possui valor de superlativo. Raja vista. que o mundo ocidental deve a tendência à precisão matemática. 70. o texto de Am 1. em particular nos livros didáticos ou sapienciais.72 PABA ENTENDER O MITIGO TESTAMENTO É mister agora observar que.

os príncipes. o orador preferia enunciá-lo parceladamente.12. morrerá. A. Os olhos altivos. Belo 26.19." (Prov 6. quatro-cinco (associada a dois-três). E aquêle que dissemina a discórdia entre irmãos. em Belo 25. Am 4. o emprêgo dos números em provérbios supõe por vêzes o valor simbólico dos mesmos de que tratavam as páginas anteriores.19. A terra que não se satura de água. 21 (1940). em Já 5. O coração que medita planos pecantinosos. Os filólcgos têm comprovado que os números enunciados em tais fórmulas não possuem valor matemático. três vêzes. pois.. a qual excede a unidade. em Bel 11. A fim de o salvar da morte E iluminá-lo com a." (Já 33.5. E sete que êle abomina.gura figura figura figura figura figura figura um-dois ocorre em Já 40. dá! Três coisas são insaciáveis. Quatro mesmo nunca dizem: Basta! A região dos mortos. eis que ela perecerá pela espada. as frações enumeradas dão unia soma de 459/420. será vitimada. em Biblica. Deus faz isso tudo. Eis alguns exemplos • • • • • • • • • figura figura f. o seio estéril. os homens idôneos. a língua enganadora. 50.e beati de Vergílio. sete-oito.5.) "Seis coisas há que o Senhor odeia. 18 A fim de tornar mais significativas as referências acima. Não há dúvida.25s. 17 não raro o orador visava com isto acentuar o último membro da série. que hão de ser entendidos á luz do simbolismo oriental dos números. luz dos vivos. prendendo mais a atenção do ouvinte. entre outros. Miq 5.7. Trata-se. mas são simbolos. três-quatro. SI 61.18s. Prov 6.8. "Der Zahlenspruch im Hebraeischen und Ugaritischen". Eis. um exemplo proveniente de documentos fenicios (ugariticos).) .2. Prov 30. 198. Os pés apressados a correr ao mal.) "A sanguessuga tem duas filhas: Dá. em 4 Rs 13.16-19.21-23.6. o qual claramente inculca não se dever atribuir ás cifras sentido quantitativo: "Uma têrça parte. Note-se também o bis terque de Cícero. número da totalidade !) Cf. de números irreais concebidos para indicar que tõdas as categorias de responsáveis de determïnado povo serão atingidas por flagelos diversos (a última fração é a do sétimo. o ter quaterqv. dois-três-quatro. uma quarta parte. 29-31.29. seis-sete. E o fogo que jamais exclama: Basta (Prov 30. em favor do homem. As mãos que derramam sangue inocente. uma sexta parte.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 73 ao discurso: em vez de dizer simplesmente e de uma só vez o valor totai. morrerá.15s. uma sêtima parte. transcrevemos um ou outro dos textos citados: "Eis. dois-três.16. Bea. uma quinta parte será vitimada pela peste. fazendo recair mormente sôbre êste a fôrça da sua afirmação. em Am Is. A falsa testemunha que profere mentiras. os jovens heróis do mar. Duas vêzes. 18 17 Êste artifício de ênfase parece tão espontáneo à psicologia humana que êle ocorre também na literatura extrabiblica. cinco-seis. eia Prov 30.15s.4. em Já 33. Edo 2619.295. em Is 17. nove-dez." Como se vê.

Faremos levantar contra êle sete pastôres E oito príncipes do povo.) 19 É o que se dá em Edo 25. segundo bons comentadores católicos. E um marido que se entende bem com a espõsa. porém. trés tipos de pessoas que minha alma detesta E cuja vida me é insuportável: Um mendigo soberbo.23 e 2 Crôn 4.24). Há problemas de números na Sagrada Escritura ocasionados por erros de cópia ou por deficiente conservação do texto sagrado. As cifras eram assinaladas pelos caracteres do alfabeto. que na matemática é de 3.74 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Acontece também que a enunciação seja feita diretamente.2. Edo 25. Há. o amor ao próximo. Prov 30. expresso redondamente pela cifra três. a proporção entre a circunferência e o diâmetro seria simplesmente igual a três. foi." (Miq 5. nada há que obrigue a se atribuir sentido literal a estas cifras. considerem-se. era circular e tinha um perímetro de trinta côvados por dez de diâmetro. 19 Ainda se deve observar que certos números na Sagrada Escritura não parecem ser nem indicações matemáticas. o valor Ir. um ricaço mentiroso. grande piscina colocada por Salomão sôbre doze estátuas de bois à entrada do Templo do Senhor. Não era difícil que um copista hebraico incorresse em erros na transmissão dos números." .1-4. refere que o mar de bronze. Outros exemplos seriam: o total de três mil provérbios que Salomão proferiu em sua vida. NÚMEROS MAL TRANSMITÍDOS Mais uma observaçãõ se imp6e na exegese das cifras bíblicas. sem gradação enfática (cf. por exemplo.4. de acôrdo com 3 Rs 4. mas simplesmente cifras aproximativas ou arredondadas. nem expressões proverbiais.1-4: "Meu espirito compraz-se em três coisas Aprovadas por Deus e pelos homens: A união entre os irmãos. Está claro que em tais casos a autêntica interpretação se obtém pela aplicação das normas da arte crítica do texto. Ao menos.12. Exemplo marcante é o seguinte: o autor sagrado em 3 Rs 7. portanto. os setenta milhares de vítimas da peste desencadeada sôbre o reino de Davi. No caso.1416. E um ancião tolo e Insensato. 4. conforme 2 Sam 24.15. ora êstes por vêzes se assemelhavam tanto entre si que se podiam fàcilmente confundir uns com os outros. que em certo grau levam a reconstituir o teor original da página estudada. os sinais: "Quando o assírio invadir nossa terra E seu pé calcar nosso palácio.

O contexto a exige.8.6 (Vg 4. Diante destas variantes. assim como a seção paralela de 4 Rs 24. refere outra tradição judaica. Segundo o texto hebraico de 3 Rs 5. O texto hebraico atual. mas de modo descabido.2.9 (texto hebraico) lê-se que Jeconías tinha oito anos quando começou a reinar. embora não atestada pela forma atual do texto hebraico. Eis mais urna divergência que muito provãvelmente se há de explicar por deficiente transmissão do texto original. e repousou no sétimo dia. embora só esteja conservada em traduções.26) e 2 Crõn 9. as traduções grega dos LXX (séc. um leitor desejoso de resolver a presumida dificuldade acrescentava um dado que. em vez de esclarecer. Salomão possuia quarenta mil mangedouras para os seus cavalos.21. acontecia por vêzes que. no caso. variante que mais fidedigna parece. reinou. 1/lI dc. e repousou no sétimo Dentre estas duas variantes.. lhe atribuem dezoito anos noinicio do seu reinado. As traduções dos LXX e da Vg suprem a deficiéncia. Com efeito. é necessário outrossim se levem em consideração as glossas ou interpolações praticadas por mãos posteriores à do autor. Ora a tradução grega dos LXX em 2 Crón 9. ao passo que as traduções grega é síria." São Paulo. assim como a tradução latina da Vulgata (séc. v d.C. quando começou a reinar. só fazia suscitar . diante de um texto aparentemente obscuro." A causa do defeito não poderia ser indicada com precisão. O texto hebraico hoje conservado de 1 8am 13. anos em Israel. em At 13... A confusão entre "seis (sexto)" e 'sete (sétimo)" se explica fàdllmente. Em 2 Crõn 36. anos..) dão a ler: terminou no sexto dia. Os tradutores gregos. dificil se torna reconstituir a realidade histórica.25 fala apenas de quatro mil mangedouras. a qual assinala a duração de quarenta anos ao reinado de Saul.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 75 e (daleth) e (vau) j =100 (qof) e 7=200 (resh) J = 7 (zain) (resh) e =10 (iod) 7 = 200 Eis alguns textos em que as mãos dos copistas introduziram variantes errôneas Gên 2.C.25.. nos terão transmitido o teor de um arquétipo hebraico mais bem conservado do que os nossos. Assim é que dão a ler: "Saul tinha um ano quando começou a reinar: reinou dois anos em Israel.1 se apresenta lacunoso: "Saul tinha a idade de. e exige imperiosamente.) e síria (séc. III a. interpretando fontes ou seguindo critérios atualmente desconhecidos. não se hesita em julgar que a segunda é a original. considerada a afinidade gráfica de j(vau = 6) e J(zain = 7). Ao se estudarem os problemas de números na Bíblia Sagrada. apresentam a forma: "Deus terminou no sétimo dia a obra que fizera.." Ao contrário.).

Sendo assim. Aplicando-se tal hipótese aos textos de 1 Crõn 21 e 2 8am 24... Esta última dif. O fato de que Deus haja permitido a introdução de erros de cópia no texto sagrado. significando "milheiro". Eliminada esta cifra. em linguagem militar. ainda se deve reconhecer que qualquer das cifras .9. Assim nos livros do Novo Testamento.8. Mlq 5. neste Último texto. pois.. como centuria em latim significava o batalhâo (ordinàriamente de cem soldados).19. observa-se que a primeira cifra (1100 000 homens armados) se refere a todo o povo de Israel (incluindo a tribo de Judá. Ora pode-se bem admitir que os nomes 'eleph (= milheiro) e centuria hajam sido conservados na linguagem cotidiana. Assim se originavam complicações para o futuro intérprete da Escritura Sagrada.15. o leitor se vê diante de duas tradições existentes no povo de Deus a respeito do número de soldados do rei Davi: a tradição de 1 Crôn 21 e a de 2 5am 24. milheiro. mas permitiu que cada qual referisse simplesmente o que aprendera por via humana. 23. assim como a deficiente conservação ou a perda do original de alguns livros. estas observações. . a quanto parece). note-se que algumas recensões gregas de 1 Crôn omitem a cifra de 470 000 guerreiros em Judá. consignadas num total de 4 270 20 "IFraeI"." 20 A solução do problema é complexa. supôe um total de quatro ou cinco milhões de cidadãos em Israel nos tempos de Davi . Feitas. o Espírito de Deus não se dignou revelar aos hagiógrafos o número exato de guerreiros. Com efeito. que têm sido os mais copiados e estudados no decorrer da era cristã. apontam-se cêrca de 200 000 variantes. 'Eleph.. conclui-se que sob o rei Davi havia 1 100 ou 1 300 batalhões em Israel. como é o caso em Jz 6. como o reino do Sul. "Judá". e 500 000 em Judá.é excessiva. Já que éstes dados são Indiferentes à mensagem religiosa da Biblia. Haja vista apenas o seguinte exemplo: Em 1 Grôn 21. tais indicações bastavam para transmitir as verdades de índole religiosa que a história de Davi era destinada a comunicar aos leitores. bons exegetas admitem que o número de 470 000 em 1 Crôn 21.5 lê-se que sob o rei Davi "todo (o povo de) Israel contava 1100000 guerreiros. Ora o autor de 2 8am 24.76 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO um problema exegético. Destarte se chega a plausível solução do problema. e Judá 470 000 guerreiros". determinada subdivisão administrativa.culdade se esvanece se se considera que o têrmo hebraico 'eleph. não chega a afetar a mensagem religiosa da Bíblia. outras vêzes o interpolador visava tornar mais semelhantes entre si dois textos que lhe pareciãm afines um com o outro.23. relativamente poucas são as variantes de alcance dogmático ou teológico registradas nos códigos sagrados. mesmo quando o efetivo dos batalhões já não era respectivamente de mil ou cem homens. menciona "800 000 guerreiros em Israel. Além disto. em texto paralelo. sem que cada qual tivesse necessàriamente o montante de mil homens. designaria um batalhão (ordinàriamente de mil homens).1 300 000 (2 8am 24) ou 1100000 homens de guerra (1 Crôn 21) . é entendido como o reino cismático do Norte. podia designar a fração de uma tribo. Em primeiro lugar. porém.o que é inverossímil.5 seja o produto de Interpolação. 1 5am 10.

1 Cor 15. emprêgo de sinônimos.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 77 códigos. Marcos (11. artigos. 1 Tim 3. velou. ocidentais modernos. destas variantes.13. mais ou menos paralelos. absoluto. 1 Tes 2. Rom 12. Eis como tal modo de falar repercute em passagens da Sagrada Escritura: S. aos números. Que quer isto dizer? Entre nós. Mc 1. para que a defectibilidade das criaturas não deturpasse a mensagem do Criador. contudo. que outro número. SENTIDO EXCLUSIVO E SENTIDO PRECISIVO Entre os princípios que norteiam a exegese dos números bíblicos.16. Cêrca de quinze apenas dizem respeito a assuntos dogmáticos (cf. sem querer impedir as vicissitudes por que naturalmente passam os manuscritos antigos.. sóbre o qual o Senhor fêz sua entrada solene em Jerusalém. embora usasse dêste nosso modo de falar. não exaustivo. para resolver as dúvidas teológicas provenientes de tais oscilações. Usavam assim o número em sentido precisivo. não exclusivo. fazia também enumerações que apenas prescindiam de quantidade maior. se acrescenta tàcitamente o advérbio "sàmente. S. apenas".2-7. dá-se-lhes assim sentido exclusivo. assim falando. porque nem tudo vinha ao caso ou era de interêsse na narrativa A cifra enunciada correspondia à realidade considerada sob certo aspecto. não se poderia deixar de mencionar mais o seguinte: os semitas às vêzes atribuíam às suas enumerações sentido precisivo. portanto. João (12. não exclusivo. sôbre cuja fidelidade literária não pairam questões. fôsse também fiel à realidade (considerada então sob aspecto diverso).1. Como se há de entender a divergência? . não atingindo o sentido do que o autor sagrado queria dizer. porém. sem a excluir. Lucas (19. a menos que o contrário se imponha pelo contexto.2-4). Mt 1. mais vultuoso.. a Sagrada Escritura mesma fornece outros textos. porém. posição de palavras na frase. O semita.16. não excluia. as enumerações costumam ser exatas. ou sentido taxativo. porém.30-33) e S. Não obstante.7.. não obstante.14s) referem que os discípulos levaram a Jesus um jumentinho.18. Destarte a Providência Divina. O orador deixava simplesmente de mencionar tôda a quantidade.). Lc 2. uso ou omissão de preposições. não julgavam dever advertir o leitor a respeito do artifício.). Em Mt 21. Jo 1. Lc 22. a grande maioria versa sôbre ortografia.19s.14. 5..51. há menção de um jumento e do jumentinho seu filhote. excluindo cifra mais elevada do que a referida. Um pouco menos de 200 variantes tocam o significado do texto em pormenores secundários (cf.

s santas mulheres (cf.. Mateus (20. dependerá sempre do exame do gênero literário usado pelo hagiógrafo. De modo semelhante ammciaram os anjos às mulheres santas: "Preceder-vos-á na Oahléia. Mc 14. Lc 24. lá O vereis. naturalmente. matemática. disse Jesus aos Apóstolos.1 anuncia: "Javé falou a meu Senhor (o Messias): Senta-te à minha direita. O recurso a tais instrumentos exegéticos há de variar. Exemplos déste Último têm-se em: Mt 26. na narrativa dos evangelistas realmente só Interessava mencionar o animal que Jesus montou. fala de dois cegos.32: "Depois que tiver ressuscitado.28) refere dois homens endeinonlados. S. de caso a caso. Famoso é outrossim o uso bíblico da conjunção "até que" em Mt 1. Jo 20." (Mc 16.2) e S. Em outros térmos. Mateus (8. S.9. . ficará o leitor consciente de que nem todo número na Bíblia quer e deve ser entendido como a expressão quantitativa. Jo 20. não sentido exclusivo. Portanto. o Messias haverá de perder o seu primado ou a sua realeza.28. vereis a Jesus". não exclui o 'depois que".27) mencionam um homem possesso. após haver Maria dado à luz. estas são outras tantas divergências em que o principio acima exposto encontra aplicação. 19. Até que eu faça de teus inimigos o supedâneo de teus pés. conforme a tradição exegética vigente desde os tempos mais antigos. o Senhor curou um cego. significavam: "Na Galiléia certamente vereis a Jesus (e aquelas manifestações serão as principais) ". no texto paralelo. "até que".." O oráculo não significa que. o 51109. mas também aos Apóstolos (cf. cf. José tenha tido com ela comércio conjugal. não exclusivo. S.25 está dito que José não se uniu a Maria "até que desse à luz o seu filho. mas apenas precisivo. pela primeira vez. Também nas suas indicações cronológicas os semitas faziam uso dos têrmos ora no sentido exclusivo ora no precisivo. Ora. isto não quer dizer que. Marcos (5.30). Marcos (10. se se atribui ao enunciado de Mc. Disto se conclui que as profecias de aparições na Gallléia tinham sentido precisivo. ao passo que S. ensina a sã exegese. De antemão. não "Na Galiléia. porém.7. Le e Jo o sentido precisivo dos orientais. cf. Mt 28. tal interpretação contradiria a tôda a teologia bíblica.lls). que Jesus libertou do demônio.46-52) descreve como. ao sair de Jericó. porém. Lucas (8.78 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A primeira proposição não se opõe à segunda.". da realidade. Mt 28. É o que nos leva a dizer que também neste versiculo não se deve atribuir ao têrnio "até que" sentido exclusivo.) Contudo os evangelistas mesmos referem que no dia da ressurreição Jesus se mostrou em Jerusalém não sômente à. preceder-vos-ei na Gaiiléla". Ora.17. *** As considerações dêste parágrafo visam tão-sàmente indicar as principais vias que conduzem à genuína interpretação dos números ocorrentes na Sagrada Escritura. apenas "pTescinde" ou faz abstração do que aconteceu depois. Êste exame manifestará as principais leis de estilo que o autor sagrado tenha seguido ao empregar os números.26). após debelados os inimigos do reino messiânico. no caso.36.

é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica. Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. De resto em 1947 SS. que a Grande Igreja fêz bem de evitar. Citação encontrada na obra de R. 191. Mediator Dei.). II. o Papa Pio XII notava com Sumo pesar haver entre os católicos "quem queira cancelar dos autênticos livros de oração pública os textos sagrados do Antigo Testamento. á qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. Surgiu mesmo no início da era cristã. de aparência por vêzes sólida. entram em conflito com as normas do Evangelho. escrevia: "No séc. d'Harcourt. 1 2 . Adolf von Harnack (t 1930). não se vê. pretextando que tais Seções são pouco convenientes e oportunas em nossos tempos" (Fnc. julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompativel com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento.CAPÍTULO V O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO Não e raro ouvir-se a pergunta: "Qual o valor que. a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é PalaMarcion (Leipzig2. conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo. Catholiques d'AUemagne (Paris. provocando "escândalos" de ordem moral ou científica. por exemplo. ]933). o proveito que possa acarretar tal leitura. 2 Não obstante as objeções. fascismo. Assim Marcion. XIX. rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha. no séc. Rosenberg afirmava que a antiga Biblia não é mais do que uma "coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros". para o homem moderno. 217. hereje do séc. mais largamente. Acta Apostolicae Sedis 39 [1947] 545). rejeitava categôricamente os livros sagrados dos israelitas. 40. suas histórias e afirmações. etc. guardá-lo era uma necessidade fatal. da honestidade ou da ciência moderna. XVI. possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara. após o séc. Mas. por conseguinte. 1924). como se fôsse uru documento can6nico. II e fundador de seita. consumara a Revelação do Antigo Testamento. o Messias. para o cristão ou." 1 A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo. A questão não é nova. quando os homens perceberam que Jesus. Na Alemanha. à primeira vista.

conforme as páginas iniciais da Bíblia. ora preparada e anunciada (Antigo Testamento). sejam leis. em hebraico). V e VI). sim. tradições populares. eta$s que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens.diríamos mesmo: de tôda a Sagrada Escritura não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. É isto o que. as variadas páginas do Antigo Testamento . interessa-nos. cânticos religiosos. a encíclica de Pio XI "Mit breunender Sorge". Jesus (o) Cristo é expressão que se poderia assim desdobrar: o homem que tem por nome civil Jesus (salvador. possui a função de Messias (cristo.80 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vra de Deus imperecível.O têrmo hebraico Messias tem seu correspondente exato no grego Christós. êste. Ungido. Chrzstós é. era simplesmente dito o MESSIAS. Isto faz que tôda a história. também para os nossos tempos. travada com o primeiro homem logo depois da criação. . 4 Sãbre o conceito biblico de 'Aliança". Já que as profecias em Israel o apresentavam como o mais glorioso descendente do rei Davi. . mas Deus. sejam profecias. nos leva a dizer que tôda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora. profecias. não a soube observar. por exemplo.° DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META Quem abra o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história. portanto como o Ungido por excelência (à semelhança de Davi e dos demais reis de Israel. violou-a. é. o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida. designa na linguagem bíblica o Restaurador prometido por Deus. consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura. ora efetuada (Novo Testamento). veja-se pãg. Rei teocrático). 4 A aliança é. prometeu. após a ruptura. que. significando Ungido. direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. em última análise. por vicissitudes de tradutores. Com efeito. máximas de sabedoria. significativa. é comumente dita "Testamento". todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história. o nome Cristo se foi tornando estritamente nome pessoal do Senhor Jesus. sejam crônicas. 102s. portanto. do pontõ de vista de Deus. a seguir. primãriamente a designação de uma função. § 1. para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual. examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. porém. 1 Sendo assim. Por conseguinte também. pois. datada de 21 de março de 1937. etc. que eram sempre ungidos). 3 Tenha-se em vista. restaurar o pacto mediante novo homem dito "o Messias". que não se deixa vencer em bondade. Aos poucos. antes do mais. tome. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. Em conseqüência. de então por diante. 5 Messias é têrmo hebraico que.

considerada à luz de Deus. ou. não pactuam com a serpente. . a descendência da mulher e a da serpente (cf. em outros têrmos. tanto no individuo como na sociedade. abaixo. pela criatura. 1. O É o autor de Edo 17. guerras. Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história. São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos.10 quem fala de aliança conclulda no paraíso entre Deus e os primeiros pais. muito dramático. Percorreremos. ao mesmo tempo. 'o Anticristo" e "Cristo" (cf. ora menos evidentes. de outro lado. ou ainda. 2 Tes 2.15). manifestações ora mais claras. pois. Inegàvelmente a história que êle nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. carece de caráter religioso. João. não constitui senão a periferia do Antigo Testamento. Agostinho. Tal aspecto. éstes dois antagonistas podem ser chamados 'o mistério da iniqüidade" e "o mistério de Cristo" (f. procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios. por graça de Deus. sob a face externa. introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão. do reino de Cristo. pois. deve. a história. que a história universal tem aos olhos de Deus. por mais explicável que pafeça á luz de fatóres naturais ou mecânicos. fomes. pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. Gên 3. o ôlho da fé pode e deve discernir. O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gên 1-3) caracterizada por três acontecimentos: a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem.Jo 2. isto é. mas. doutro lado. isto é. tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado. é o jôgo dêstes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos individuos. Eis o aspecto muito simples. porém.7 e Col 2.2). pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fêz tanta coisa fôsse escrita sob o carisma da inspiração. conforme S. porém. os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor. ainda assaz genérica. 1 . as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico. a serpente e sua linhagem. 6 violada.22). procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus. a mulher esua posteridade. o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários. manifestações do reino do pecado ou de Satanás. doenças foram. 7 Em linguagem paulina. são. quando se consumará a vitória do Bem sôbre o mal. Isto implica que. após a queda original.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 81 Esta afirmação. Eva penitente e todos aquêles que. sim. Deus a promete restaurar. no vocabulário de S. todos aquêles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores). "a Cidade do Diabo" e "a Cidade de Deus". estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente.

82 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus. sem dúvida. por volta de 1800 a. Os dois pequenos Estados irmãos. A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA. humanamente mais "garantido". politicamente insigni8 O Senhor fõra até então o Rei de Israel. sim. Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos.A PROMESSA".C.C. Em vista disto. Daí chamar-se êste segundo marco da história ". terra idólatra. dito de Judá. após o primeiro pecado. provisória e nacional. sem intermediário régio. A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada. dito da Samaria. .7. acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte. a monarquia). travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano. que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930). e reino do Sul. Éste desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fôra governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes).C. como lembra o próprio Deus falando a samuel em 1 5am 8. ou seja. O surto do povo de Deus foi confirmado por cêrca de 1240 a. a MONARQUIA.. dêsse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. mais fundado sôbre bases que o bom senso pode apreciar (tal é. Por volta de 1020 a. aliança. 8 queria um govêrno menos dependente da Providência insondável do Criador. Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã. porém. a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gên 12. a corrução se alastrava entre os homens. A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para tôdas as nações. Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldéia. Já que. Samaria e Judá. uma constituição teocrática. A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.: tendo Israel caído cativo do Egito. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. por meio de Moisés. Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração. Instaurou-se então o REINO de Israel. dando-me. para Canaã (Palestina atual).. A própria monarquia.1-3).

passando a conceber o Criador de modo muito mais puro. que ainda era etapa em demanda da Redenção plena. conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus. com a de um Libertador político. deveria esperar o REINO. sírios e romanos sucessivamente). A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política. nêle não pode entrar" (cf. os habitantes de Judá sofreram o EXILIO.. Em 538 Ciro. porém. rei da Pérsia.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO . infelizmente. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita. os israelitas fàcilmente confundiam a figura do Messias.83 ficantes. era o chamado RESTO DE ISRAEL. os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica 9 da Divindade e da religião. 59. vibrando de autêntica piedade. Deportados para a Babilônia em 587. com tudo que êste reino implica de transcendente. Judá passou a viver como COIVIIJNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro. ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios. Também êste foi altamente pedagógico para o povo de Deus. a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente. Privado de todo o aparato exterior (templo. que sua missão religiosa não estava necessàriamente ligada com sua missão nacional. sacrifícios. comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de 9 CL pág. que lhes sufocava o fervor teocrático Após o exílio. pois lá haviam adquirido certo bem-estar ffiaterial. moveram a resistência contra os sírios. . sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Sarnaria em 722 se tornou prêsa dos assírios.. O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus. prosperidade humana. a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa.15). egípcios. os quais. Javé assim lhes mandou uma "redenção". quase malogrados. Israel. que queriam paganizar o povo de Deus. oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas. humanamente falando. Restaurador da ordem religiosa. a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio. ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém. Note-se bem: êsse resto se constituía de judeus pobres. de desconcertante para o "f 116sofo". messiânica. Muito digna de nota é a epopéia dos irmãos Macabeus (165-134). um reino tal que "quem não o recebe como uma criancinha. DE DEUS. gregos. mas fervorosos adeptos de sua fé. Mc 10.

com efeito.5).3). 2 Cor 3. induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sôbre a morte e as demais conseqüências do pecado). a PROMESSA. Mt5. poder-se-iam assim reproduzir os grandes marcos da história sagrada: 10 Deve-se mesmo dizer que Cristo recapitulou e consumou os grandes marcos da história anterior.34 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pensar. "não ser" filho de Deus. ao mesmo tempo. a sorte póstuma do homem. se mudou em promessa de bens transcendentes e impereciveis (cf. ou seja. "não ter" a vida eterna. Uma vez completo o número dos qüe entrarão na bem-aventurança. mas cinicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. 10 Da vinda de Cristo em diante. Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus. mas a tôdas as nações da terra. que visava aparentemente a posse de Canaã e uma mansão terrestre. 7. prolonga-se já por vinte séculos. a noção de que os bens messiânkos não se destinam a um povo apenas. foi admitindo outrossim certo universalismo religioso. que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada. o REINO davidico se transformou em REINO DE DEUS ou dos céus (ef. . a ALIANÇA mosalca se mudou em NOVA ALIANÇA (oL 1 Cor 11. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso).25. segundo Adão. dos espíritos. "ter" e. em que o cristão experimenta o que é "ser" e. Pelo Redentor. em Pentecostes. são tempos de máxima tensão. Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história. não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento. Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus. ao mesmo tempo. Finalmente na plenitude dos tempos veiõ o Messias.14) . ou seja. Mt 5. Esquemàticamente.

l c o-- ía. cd cd a.a - rA ti0 Çt o ed -01 cq Z O ri) 01 o cd t -o 'a 1 o 01 O) CV) O -1 c' 1 LI .i cl .O SIGNITICADO DO AIÇTIGO TESTAMENTO 85 — -4 O' O.- o Ei ri o O O 04 co . O o cd cd o. cd cdd -a. O O o ½ -1 z co •lI eM ½ 02 •c 02 o -4 O z o Ei02 . rx pq O o O 'cl cl O ri) pq cl z o . 'a ½ o 'a -4 O cd CO E O QI lcd cl O cd cd 02 o' a.

Nesses particularès do Antigo Testamento. ao Messias.. a Monarquia. por êsses personagens ou fatos misteriosos disseminados. As experiêncas. nas Escrituras. os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história.0 OS TIPOS BÍBLICOS Terminado êste breve percurso da história sagrada. o Espírito de Deus quis. Ss. com o decorrer dos séculos. dêsse catecumenato. mas também por meio dos denominados "tipos bíblicos". mas religioso. Isto quer dizer: há no Antigo Testamento coisas e episódios que. a história do dilúvio e da arca de Noé . consideradas em si. e seriam plenamente inteligíveis após a vinda do Messias. Gelin. manifestariam cada vez mais o seu significado. O Antigo Testamento é a história dêsse continuo "ultrapassar-se a si mesmo". Tal característica bem pode ser chamada a chave para se interpretar a literatura inspirada de Israel Com efeito. ou num plano meramente natural..86 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Quanto ao Antigo Testamento em particular. portanto. Ésse povo nos aparece movido por um impeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente. o Exílio. se projetavam os traços e a luz do que havia de vir posteriormente. ). talvez pouco dignos de Deus. as tentativas. não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula: "Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda. quis ou permitiu tais coisas "estranhas" não porque. mas porque o Senhor queria disseminar por tôda a história sagrada acenos à plenitude dos tempos. mas. o sacrifício de Abraão. O Antigo Testamento é a história dêsse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha. o Ser Transcendente (assim todo o ritual do cordeiro e do sangue que o Senhor mandou aos israelitas observassem por ocasião da saída do Egito. . a Comunidade. considerados em si mesmos ou à luz da "sabedoria humana". a Aliança. dessa espiritualização crescente. se poderiam dizer infantis. 1949). não sàmente por palavras. faz-se mister ainda realçar uma característica do processo pelo qual a Sabedoria Divina quis instruir os homens no Antigo Testamento. formulou-a pouco a pouco. os reveses. povo que não tinha gênio metafísico. fôssem capazes de edificar os leitores (!). Tais acenos ou tipos. a reconsiderar em nível mais espiritual o que êle viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. viveu e aparentemente descobriu a via da salvação. Nin11 A. a Promessa. o leitor deveria ser recordado de que não é a sua indústria ou "sabedoria" humana que o salva. Les idées maftresses de l'Ãncien Testament (Paris. porém." 1 1 § 2. a intervenção gratuita e soberana de Deus na história. prenunciar a história do Messias e do reino messiânico. Deus. a fraude de Jacó nas relações com seu irmão Esaú. sim.

" (Jo 5.25-27. E como se nos manifesta tal intenção divina? De maneira geral dizia Cristo que tôda a sua vida e obra fôra predita "por Moisés.31. como se fôsse intencionado por Deus qual imagem de algo de posterior e mais sublime? 12 Não há dúvida. segundo os judeus. Jo 1.21). separando-as da história subseqüente.44-463 "Moisés.) "Moisés e os profetas" é expressão sumária para designar tôda a Escritura Sagrada (cf.39: "Sondais as Escrituras. etc." Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras. apresentam a antiga história de Israel e prescrições rituais. 1"Se acrejitásseis em Moisés. ora sao elas que dão testemunho de Mim. 24. dentre os Jivros do Antigo Testamento. Lo 16. acreditaríeis em Mim também. Êste era dividido em três partes. dessa 12 Não será isto uma evasiva semelhante à dos estóicos e filósofos pagãos posteriores que. e disse-lhes: "Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia. justamente os da Lei mosaica são os que menos vaticínios explícitos contêm a respeito do Messias. 4 "Disse-lhes: 'Õ homens sem entendimento e tardos de coração para crer em tudo que disseram as profetas Não era preciso que o Cristo sofresse para entrar em sua glória?' E. tipos todos orientados para seus correspondentes antítipos. Profetas e salmos" são têrmos que. donde se segue que. necessãriamente.29." (Lo 24. pois foi a meu respeito que êle escreveu." . por muito rude e primitiva que pareça. na impossibilidade de avaliar o Antigo Testamento. Pergunta-se. 13 Aos discípulos de Emaús Jesus expôs "Moisés. Rom 3.15. 14 Mais ainda: afirmava o Senhor que a Lei mosaica mesma. interpretavam arbitràriamente a mitologia num sentido alegórico. nos profetas e nos salmos. a partir dos quais hão de ser entendidos. li ora. julgando indignos os mitos narrados por Homero e pelos primeiros "teólogos" gregos. cada uma das quais recebia o nome do seu livro ou autor principal. 28. começando por Moisés e (continuando) por todos os profetas. em tõdas as Escrituras.45. civis. fala de Jesus.14. mostrando-lhes como sua paixão e glorificação se acham prenunciadas nestes livros. Quem se fecha a essa perspectiva. explicou-lhes. e não quereis vir a Mim para ter a vida. todos os profetas e tôdas as Escrituras". At 13. pois.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 87 guém. pode pretender interpretar tais figuras. pelos profetas e os salmos".23.46. pois julgais por elas possuir a vida eterna. tal atitude exegética seria subterfúgio sutil se o próprio Autor Divino das Escrituras não nos tivesse revelado o seu intento de prefigurar o Novo Testamento nas páginas anteriores a éste." (Lo 24. vê-se.) Cf. Jo 5. designavam todo o catálogo das Escrituras.. o que a Éle dizia respeito. como se as diversas peripêcias do Olimpo significassem verdades filosóficas? 13 são palavras de Jesus ressuscitado aos apóstolos: "Eis o que vos disse quando ainda estava convosco: era preciso se cumprisse tudo que a meu respeito está escrito na lei de Moisés. porém: não será arbitrário querer explicar o que o Antigo Testamento tem de estranho. elas são essencialmente sinais.

Rebeca e seus dois filhos.15). o rei pacifico (2 5am 7. o Autor Divino da Bíblia nos deu expilditamente a conhecer que é tipo das reaiidades messiânicas. 1 Pdr 3. asseverando que os diversos acontecimentos do êxodo de Israel (passagem do Egito para Canaã) se deram a titulo de "figura (tipos. se pode dizer que têm sentido típico: o primeiro Adão (Gên 1.ls).49-51. no Antigo e no Novo Testamento (cf. 21-26) = tipo do povo messiânico (cf." (1 Cor 10. Ape 2.11.13s) = tipo do alimento do povo messiânico (cf. as águas do dilúvio (Gên 7) = tipo do batismo (cf.10-13) Salomão.22-31). 21.1-19) = tipo do sacrificio de Cristo (cf.26) = tipo do futuro (cf. Principe da paz (cf. Gál 4. Rom 5. recorrendo às Escrituras do Antigo Testamento. segundo o grego typoi) do que nos concerne" (1 Cor 10. discorreu com êles na base das Escrituras.21-31) = tipo do batismo (cf.17) a serpente de bronze (Núm 21. Espâsa e Mãe (cf. Paulo faz eco às asserções de Jesus. Mt 2. Múni 9.46. Si 109). 16 A respeito de um ou outro personagem ou acontecimento particular. o cordeiro pascoal (Êx 12. Paulo foi ter com os judeus e. Ef 5. o maná no deserto (Êx 16. Col 2. valor de sinais do Messias.20) = tipo da Igreja.25) = tipo das duas dispensações da graça. e foram escritas para nossa erudição. também Paulo manifestava aos seus ouvintes o caráter messiânico da paixão e da ressurreição de Cristo. espõsa e mãe (Gên 2.88 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO história e dessas leis. durante três sábados. Jo 3.21-24.14) 16 Em Tessalonica. Jo 19.2s). Esaú e Jacó (Gên 25.17-19). o sacrificio de Isaque (Gên 22. Hebr 7. 3.5) o filho de Deus no Antigo Testamento (Os 11. Hebr 11. a nós que chega- "Tôdas essas coisas lhes aconteciam em figura (typi- mos aos fins dos tempos. alguns episódios (ao menos os mais característicos) e alguns preceitos devem ter valor típico.31s) Abraão e seus dois filhos (Gên 16.20). Melquisedeque. com certeza garantida pelo próprio Deus no Novo Testamento. Eis a lista completa dos trechos do Antigo Testamento dos quais. "conforme o seu costume.33-37) as graças e punições do êxodo = tipo das graças e punições do Cristianismo (ci.12) = tipo da Vitima perfeita (ci. a primeira mulher. Jo 6. rei e sacerdote que oferece pão e vinho (Gên 14.15. • circuncisão (Gên 17. explicando e afirmando que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos" (At 17.14).17-20) = tipo de Cristo Rei e Sacerdote (cf.8s) = tipo do Salvador crucificado (cf.14) = tipo do Messias. .11s) • passagem do Mar Vermelho (Éx 14. Hebr 1.1-3. 1 Cor 10.9-14) = tipo do batismo (ci. 1 Cor 10. S.1) = tipo do Filho de Deus Encarnado (ci.6): koos). Rom 9.) Como Jesus.1-11).

1-50. atribuindo-lhes.26) = tipo de Cristo entregue por 30 moedas e Salvador do mundo. além do seu significado imediato. regendo a história. com absoluta segurança. Col 2. Deus o pode perfeitamente fazer já que todos os tempos lhe são igualmente presentes. que afirmamos existir na sagrada Escritwa. ora mais pálido. porém. A êstes se podem acrescentar outros traços cujo sentido típico é garantido pelo unânime testemunho da tradição cristã: Abel. Contudo os textos que. nos primórdios e no decurso da história sagrada. não está dito que tôdas as seções do Antigo Testamento se referem diretamente ao Messias e ao seu reino. único senhor capaz de dispor acontecimentos pretéritos da história em vista de outros futuros. não podem ser reconhecidos.1-34) = tipo da Redenção (ci. o mistério do Cristo (cf. descrições geográficas (cf.4-19) = tipo de Maria Santíssima dotada do privilégio da Imaculada Conceição. Com isto. 1 Crôn 1-9). pois. Fonte e consistência da alegoria estão. Josué. Mt 12.39s). dispõe haja homens e fatos no pretérito relacionados com análogos futuros. Ester. pois. outro mais abstrato.1-11) = tipo da morte e da ressurreiçë.7-9) o perigo mortal de Jonas e a subsequente libertação (Jon 2. um objeto ou um acontecimento que realmente existiu na história e que Deus houve por bem ordenar. se distingue da alegoria pela característica seguinte: o tipo implica um personagem. basta lembrar que na Escritura há tabelas genealógicas (cf. não deixam. como aceno ou figura longinqua. espiritualizado. Judite. fonte e consistência do tipo se acham na mente de Deus que. seria artificial e pernicioso querer descobrir em cada passagem da Bíblia um significado simbólico. Ao contrário. alusivo a Cristo. é um fenômeno prôpriamente literário: consiste em que o escritor use de determinados vocábulos. o tipo.3-15) = tipo de Cristo sacrificado pelos seus. só tenham sentido literal muito simples. diremos: são os testemunhos da Escritura mesma que nos levam a ver no Antigo Testamento uma longa preparação para o Cristo. . Hebr 9. existam outros tipos no Antigo Testamento. a vitória de Davi sóbre Golias (1 Sam 17) = tipo da vitória de Cristo sôbre o demônio. José.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 89 o rito do dia da Expiação (Lev 16. o justo imolado por seu irmão Caim (Gên 4. 17 Em resumo. É. porém. chefe do povo de Deus (Jos) = tipo de Jesus Redentor. o Patriarca vendido por seus Irmãos e salvador dos mesmos (Gén 37.'ide Cristo (ci. além dos citados. Não há dúvida de que nem os autores inspirados nem a tradição cristã tinham em mente enumerar todos os tipos da Escritura sagrada. ora mais vívído.2) se projeta esquemàticamente. que gozava do privilégio de livre acesso ao rei (Est 15. objeto ou acontecimento da era messiânica. J05 13-21). na mente do escritor que dela se serve. a mulher forte por suas virtudes (Jdt) = tipo de Maria Santissima. pois. diversas narrativas que carecem de interêsse religioso imediato. como êstes. 17 Em linguagem técnica. a alegoria. de crer que. ao contrário. senão por revelação do próprio Deus. a outro personagem. no fim dos tempos estará consumado.

conforme o Evangelista. cf. o Salvador não só do povo de Davi.90 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO por isto. 22.5: Cristo é Davi por excelência). de exprimir.a pessoa e a obra do Messias (Mt 1. ao apresentar a pessoa do Messias no Evangelho. Cristo é. pois constituem o arcabouço que sustenta os grandes marcos da história sagrada." (Contra Faustum Mau. o tema messiânico. Ora. eis a mensagem que S. S. se não o significa. Mt 1. mas também de tôdas as nações da terra. com seus quatro capítulos.de uma estrangeira moabita. ou. pág. essas noções foram consignadas no Livro Sagrado tais como as conhecia ou podia conhecer o autor humano da Bíblia. as indicações cronológicas e geográficas dão forma à história dos reis de Israel e dos personagens do Antigo Testamento. encontra-se no livro sagrado a fim de que pudessem ser inseridos os trechos que significam algo de superior.5).) .94. Em esquema: História de Rute . bastava que tais noções fóssem dotadas da veracidade comumente dita "popular. Redenção messiânica (1240) (538) * * * 18 Já que a sagrada Escritura alude a muitas noções de índole profana. êxodo da Babilônia -.17) e. a estrangeira (um dos quatro nomes fentninos expressamente citados na árvore genealógica de Jesus. por sua vez. que. Da mesma forma. 30s. Por sua vez. narra a história . não tudo que se toca emite suave som. aquilo que dentre os feitos dos homens é descrito em espírito profético. pré-científica". o Espírito Santo não julgou necessário comunicar alguma revelação a tal escritor a respeito de particulares que só desempenham papel secundário no Livro Sagrado. Os' 3. Por que terá o Espírito Santo outorgado o carisma da inspiração para se escrever história tão humana? A finalidade imediata se depreende de Ru 4. pois..9. Agostinho: "Nas citaras e em semelhantes instrumentos musicais.17: trata-se de introduzir na história sagrada a genealogia do rei Davi. dela nasce Obed. fornecem a trama necessária para que pessoas e fatos se articulem orgânicamente em vista da grande finalidade que é o Messias. Ez 32. Mateus pode comunicar. Mt 1. pai de Isai e avô de Davi. nas narrativas proféticas. apõs vacilações de amor.23s. ou por Si já significa algo de futuro. tendo por base a história aparentemente profana de Rute. Mateus 'recapitula" essas duas histórias anteriores: Cristo. não obstante. Semelhantemente: Êxodo do Egito -. Cf. a figura de Davi é longamente descrita nas Escrituras. é descendente de Rute. como filho de Davi. é esposada pelo israelita Booz e assim entra no povo de Deus. junto com os demais. é três vêzes (ou por excelência) o que foi o rei Davi (cf.. êstes. 19 Eis uma comparação oportunamente sugerida por S. 19 Eis um exemplo muito expressivo entre outros: o livrinho de Rute. os demais elementos são colocados no conjunto da citara.história de Davi . 18 Mais concretamente ainda: as genealogias.aparentemente insignificante do ponto de vista religioso . chamada Rute. Jer 30.1-17. dão forma e colorido à figura do Messias. porque constitui um dos tipos mais famosos do Messias (= Filho de Davi). cf. contràriamente ao estilo das genealogias orientais. que só indiretamente têm relação com o tema primário da Biblia . a fim de que haja aonde as cordas sonoras se prendam. mas produzem-no apenas as cordas..o Messias -.

os textos do Antigo Testamento têm. Ë principalmente através da S. os que se referem à imolação do cordeiro pascoal. crer na autêntica mensagem de Jesus Cristo. ritos legais. mas vocabulário de linguas ocidentais.) que convinham à celebração da Páscoa judaica. Haja vista principalmente a solenidade de Páscoa: a libertação dos israelitas cativos no Egito (Páscoa judaica) realizou-se para possibilitar a libertação. é dado aos cristãos ver os antítipos. ao celebrar os mistérios do Crista e da Redenção na Liturgia. de que fala o Antigo Testamento.12).313 Impossível. . não lhe darão fé. Cristo mesmo. mesmo se alguém ressuscite dentre os mortos. do Príncipe das trevas (cf. Ef 6. que são escritos com caracteres hebraicos. os ensinamentos de Cdsto não poderiam ser devidamente assimilados. a Igreja tem consciência de continuar em sua vida a história do povo de Deus iniciada no Antigo Testamento. ao comemorar os mistérios da Redenção simplesmente dita (morte e ressurreição de Cristo). efetuando esta Redenção mais valiosa. 8. impossível ser cristão. Comparação proposta por Hamman. Não. 20 Esta conclusão será ulteriormente esclarecida e confirmada pelo que se há de dizer no capítulo seguinte. a Santa Igreja faz passar ante os olhos dos fiéis os textos respectivos do Antigo Testamento (em particular. à travessia do mar vermelho. após a vinda do Messias. É por isto que. enquadrou-a dentro das circunstâncias (data. sentido muito mais manifesto do que antes de Cristo. Não é por mero espírito de tradição ou conservativismo arqueológico que ainda hoje os cristãos se servem dêstes textos. Evangelho. ora com dizeres explícitos. em vista da Igreja). as grandes fases da história sagrada pré-cristã eram etapas que Deus dispunha em vista do Cristo e do reino de Deus (por conseguinte. tirar a êste o valor de consumação de sábia pedagogia divina. aos olhos da fé. a Santa Igreja compõe em tôrno dos ritos uma moldura de textos do Antigo e do Novo Testamento que elucidam. do gênero humano cativo sob o jugo do "Faraó" dêste mundo. não deixam de pôr em relêvo o significado do Antigo Testamento. as realidades mais plenas outrora esboçadas. exclui-lo do uso dos cristãos equivaleria a volatilizar o Evangelho. portanto. sem que se estime e valorize o Antigo Testamento. Está claro que ninguém pode entender as noticias modernas e sensacionais dêsses periódicos se não conhece o alfabeto judaico antigo que as veicula. Assim também ninguém entende plenamente o S. por resumidas que sejam. com isto o Senhor sobrepôs à Páscoa "típica" a Páscoa em sentido pleno. É o próprio Jesus quem o insinua delicadamente numa de suas parábolas: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas. hoje em dia. aos episódios do êxodo no de20 Os Santos Evangelhos se poderiam comparar a jornais dos judeus modernos. ao lado dos tipos. em La Vis Spifltudlle. 85 (1951). aquilo que se celebra no culto cristão. pois. Nos tempos presentes. ou seja. caso desconheça o seu fundo de Antigo Testamento. pois. ora com imagens e figuras. Em conseqüência. etc. Liturgia ou pelos seus ritos e preces oficiais que a Igreja mostra como entende e quanto estima o Antigo Testamento.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 91 Estas considerações. 'Pourquoi faut-il lire l'Ancien Testament". principalmente do alemão antigo (que constitui a substãnoia do idioma chamado "yiddish"). mais importante. por qualquer pretexto que seja. das imagens. Querer." (Lc 16.

6. Êstes trechos fazem o papel de aceitos antigos às realidades presentes (o que se torna evidente se se confrontam os textos da Liturgia da Semana Santa com a tabela de tipos aciha proposta). "Tôda criatura é semelhante à erva E tôda a sua graça é como a flor dos campos. A erva seca e a flor murcha. Mas a palavra de Deus permanece para sempre !" (Is 40.92 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO serto).8.) .

para obter esta convergência. O que primàriamente merece a atenção do leitor é o movimento de conjunto." Citado por Gelin. em L'Ami du Clergé. da Mesopotâmia. e (isto é particularmente belo) encaminham-se. mostrando-se continuamente incapaz de viver coerentemente com tão elevada ideologia. e a Sagrada Escritura em geral. nem de história. . tais pormenores só foram consignados na Bíblia a título de suportes de verdades superiores. pôde ser durante quase 2 000 anos o depositário e defensor da fé num Deus transcendente e em verdades sublimes que nem os grandes filósofos pré-cristãos souberam conceber (a criação do miando a partir do nada. mas parece que o Criador conta com tôda essa deficiência e a utiliza para a fazer servir a um fim providencial ou à plena manifestação do Bem. não obstante.. a miséria humana aí se atua sem pudor. 57 (1947) • 8535. nem de geografia..CAPÍTULO VI AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA No capítulo precedente verificamos que a idéia do Messias domina todo o Antigo Testamento.o Messias. um movimento ascensional contínuo: um povozinho do Oriente. sem que. a trama da história que lentamente se desenvolve ante os seus olhos. suportes de uma única grande idéia. nem de ciências naturais . c'est sa direction. Israel. da Grécia e de Roma). Convém-nos agora aprofundar uma das conseqüências mais importantes que desta afirmação decorrem. Deus violente o homem e a natureza. sim. .). ao contrário.. apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram. guardou e 1 Já Claudel dizia: "Le sens d'un livre. em todo o decurso do Antigo Testamento o Senhor respeita a criatura e suas fraquezas. A história sagrada é. da Pérsia. por si sempre tendente ao grosseiro e material. a justa sanção etc. a providência paterna do Criador. destituído de gênio (ao lado das grandes civilizações do Egito. O dedo de Deus nas Escrituras só se torna perceptível a quem considere a direção geral das mesmas 1 ou a quem observe como as fases da história bíblica se encaminham aos poucos para um têrmo único . Aquilo a que o cristão deve primàriamente voltar a atenção. não são os pormenores.. ao ler o Antigo Testamento.

. Como se apresentam. Caso se prenda a minúcias do texto bíblico..94 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO afinal. arrisca-se . antes do mais. do Livro de Deus.° A ARTÉRIA CENTRAL DA SAGRADA ESCRITURA: A FIGURA DO MESSIAS A figura do Messias foi sendo delineada progressivamente no Antigo Testamento. transmitiu ao mundo o seu patrimônio de sabedoria. Rei Vitorioso. mais fàcilmente podia apreender. Ao lado da artéria central. Sendo assim. importa-nos chamar a atenção do leitor para o fato de que há na Bíblia o que se poderia dizer "linhas mestras" ou "fios condutores". . sob os quais a ação divina se quis ocultar. 2 Dizemos: "caso se prenda. cara a Deus e amiga dos homens. afeito às guerras e pouco dado à Filosofia. as notas essenciais. após 18 séculos. o leitor se arrisca 2 a não perceber a Mão de Deus. correm fios condutores (que abaixo chamaremos "temas"). que atuou e atua em cada episódio da história. todos os bens divinos se concentram nessa Sabedoria. Dessas linhas mestras. aspecto quê o povo rude. pois. de acôrdo com a capacidade dos homens simpies a que a mensagem bíblica se dirigia: Os livros mais antigos de Israel põem em realce principalmente a face humana do Messias: descrevem-no como Grande Herói. É esta grande visão que deve dominar a interpretação dos acontecimentos particulares do Antigo Testamento. É isto o que.. passará possivelmente de olhos fechados ao lado de grandes verdades e tropeçará em minúcias insignificantes. Tal é o aspecto predominante nos livros históricos do Antigo Testamento. muito ao contrário ) os pormenores são consignados na Bíblia para sustentar a mensagem divina.. e mesmo o emdito. os quais desenvolvem um ou outro aspecto particular da pessoa ou da obra do Messias. perene. nada mais vejam nas Escrituras do que as minúcias que impressionam a fantasia ou chamam a atenção do homem de ciências.• não como se necessáriamente a consideração das minúcias do texto sagrado impedisse a visão do sobrenatural. na Escritura Sagrada a revelação do Messias e as suas linhas laterais ? § 1. arrisca-se a perder-se num emaranhado de causas segundas. porém. É fácil. que constituem a estrutura. uma é como que a artéria central: a REVELAÇÃO DO MESSIAS. patenteando finalmente o seu pleno significado na história de Jesus Cristo e do seu reino. agentes humanos ou mecânicos. caracteriza a história sagrada como mensagem divina. que o'simples leitor. Livros posteriores ao exílio babilônico (ditos sapienciais) descrevem o aspecto transcendente do Messias: falam da Sabedoria de Deus como se fôsse Pessoa que de tôda a eternidade existe com o Criador e exerce o papel de Medianeira entre o Autor do mundo e o gênero humano.

tal como é apregoado pela Bíblia.Antigo Testamento: 3 Claro está que os diversos aspectos do Messias se apelam recIprocamente: mesmo o titulo de Herói ou Rei vitorioso. por sua vez. mas não cumpre sua missão de beneficiar os homens senão mediante o sofrimento e a morte.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 95 3. . Rei Vitorioso. sim. que se encontra principalmente nos livros proféticos. implica a sua Divindade. Sabedoria eterna. A sua Divindade. Em esquema assim se dispõem os principais traços do Cristo no . não nos quis salvar senão unida à humanidade. por muita soberana que seja. Eis o aspecto do Messias Deus e Homem. Outros livros do Antigo Testamento posteriores ao exilio desvendam o aspecto mais misterioso do Messias: é.

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Gên 16. Abraão. sim. culmina na obra.1-50. o qual. êste "garantiria" a realização do plano de Deus . de tôda a sua nação e do Egito (cf.2. a mais fragorosa derrota possível: Abrado. Gên 27. resolveu assegurar. § 2. verificando-se desde os primórdios do Antigo Testamento. não lhe dava a prole que Javé prometera abençoar.23). Tg 2. foi por Deus preterido em favor de Isaque. Esaú. Todavia o filho gerado pela prudência de Abraão.. 18. para ir em demanda de região não indicada.26). foi chamado por Deus a emigrar da sua terra. . se tornou o salvador dos irmãos. 21.1-3). uma descendência para si. Deús. o qual não tinha título para herdar a Promessa (ef. Vejamos agora fios condutores que paralelamente a tal artéria desdobram aspectos particulares da obra messiânica. 0 os nos CONDUTORES DO ANTIGO TESTAMENTO 1. destituídos de sabedoria ou algum outro titulo. A promessa feita a Abraão foi repetida a Isaque. Gên 12. O TEMA DA ESCOLHA GRATUITA OU DA FÔRÇA DE DEUS QUE SE MANIFESTA NA FRAQUEZA DO HOMEM Que significam êsses títulos? Querem dizer que. a Caldéia. da qual lhe nasceu Ismael. houve por bem escolher elementos aparentemente ineptos. foi condenado à morte José. sem deixar que a prudência humana se pusesse a calcular as probabilidades de êxito.. Gên 37. mais tarde e inesperadamente. Jdt 5. por excelência. Dos dois filhos de Isaque. por sua natureza incapazes de levar a têrmo a missão recebida. mas derrotando os cálculos humanos! (Cf. de acôrdo com a sua "sabedoria". onde o Senhor lhe prometia posteridade abençoada (cf.1-45). Dos doze filhos de Jacó. em aparência. Por ter dado fé a tão estranho vaticínio.98 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO Tal é a artéria central do Antigo Testamento. sem dúvida Amigo gratuitamente escolhido e amado.1-16. vendo que sua espôsa Sara.1-15. descendente de linhagem idólatra (cf. a qual foi. salvífica de Cristo. infecunda como era. para a realização de seu plano. Abraão foi dito "Amigo de Deus" (cf. Jos 24. Ê esta certamente uma das notas mais características da ação divina entre os homens.8). que por si seria herdeiro dos bens paternos. em virtude desta condenaçào mesma. O Senhor dignou-se realizar a sua obra. herdeiro que. através de tôda a história sagrada.1-3). o mais velho. foi pôsto de parte em benefício do irmão Jacá. o Senhor suscitou ao casal estéril. uniu-se à escrava Agar.

veja-se em particular as págs. do qual jamais pensara seu pai pudesse ser objeto de complacêucia divina (cf. as quais empreenderam a restauração da teocracia (cf. continuou a ser a portadora da bênção messiânica (cf. Davi. das quais não a maior. quando todos os recursos humanos pareciam esgotados (cf. aos quais deu o triunfo por meio de artifício.13-35). isto é. sob Moisés e Josué. Jdt e Est). Após o exílio de todo o povo de Israel na Babilônia (587-538). IV e V a. após a morte de seu filho e sucessor Salomão. Deus quis escolher o filho mais jovem de Isaí. ou seja. provàvelmente nos séc. Lc 6. constituída por famílias pobres. povo destituído de todo brilho político ou cultural. Jz 7. Judá. II. veio a cindir-se em duas partes. 1 5am 16.33) de doze homens rudes (em maioria.1-13. travou para conquistar Canaã. se tornaram salvadoras do seu povo.32). Isto fêz que os conceitos de "povo de Deus" e "pobres" (anawim) se tornassem quase sinônimos na literatura judaica posterior (cf. a reação contra os sírios corrutores foi vitoriosamente levada a cabo por um punhado de homens corajosos. Para o fazer rei bem-amado de Israel. humanamente fadados a fracassar (cf. parte pequena da nação. 214-219. 4 Sóbre a tomada de Jericó.1-13). O reino de Davi. . pela aliança travada no Sinai passaram a constituir o povo de Deus. de numeroso exército.1-22). Cristo escolheu um "pequeno rebanho" (cf. Esdr-Ne). Lc 12. Tôda essa história antiga conflui para o Messias. infantil (cf. voltou para a Terra Santa o chamado "Resto de Israel". tipo do Messias. Gedeão só conservasse trezentos homens. 3 Es 12. humanamente falando. morte desconcertante para os homens (cf. mas a menor. a vitória de Gedeáo sôbre os madianitas atesta eloqüentemente o mesmo: o Senhor mandou que. que constava apenas de duas dentre as doze tribos. Lc 24.AS LINRAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 99 Ao sair do Egito. os descendentes de Abraão e dos Patriarcas. ' Na subseqüente época dos Juizes. são evidente testemunho da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza humana. A travessia do deserto sinaítico e as guerras que Israel. Depois de Jesus. 1-2 Mac).C. a qual no plano de Deus estava destinada a ser o triunfo definitivo do Bem sôbre o mal. Em meados do séc. povo de escravos libertos. continua a se verificar o mesmo proceder divino na atuação do plano salvífico.20. cujo currículo de vida terminou com a ignominiosa condenação à morte de escravo. os irmãos Macabeus. Mt 5.3).. Judite e Ester. Duas mulheres. pastorzinho de ovelhas. mas heróicas. Sarnaria. ao lado de nações cultas e poderosas.

1-25).46-55) a intervenção soberana de Deus. sob o aspecto particular das NATIVIDADES EXTRAORDINÁRIAS. Cf. Tão estupenda natividade vinha bem éredenciada pelos episódios semelhantes que a haviam precedido! Pergunta-se agora: será possível descobrir por que terá Deus tão freqüentemente procedido dessa maneira que desconcerta o homem? A resposta não é difícil. Lc 1.1-2. No fim da história antiga.18-31. Isaque. que a princípio não quis crer na possibilidade do portento! (Cf.1-8). Is 29." (2 Cor 12. em Is 1. A figura de Paulo. ainda se poderiam notar cinco outros que.9.100 PAfl ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pescadõres). prenúncio da restauração messiânica (cf. de resto. um dos mais remotos antepassados do Messias. eivado de sabedoria meramente humana. nasce João Batista.10).5-25). Ana. que acabam de ser assinalados. um dos "redentores" (Juizes) antigos do povo de Deus. foi igualmente fruto de ventre estéril. Mãe e Virgem. preconizado pelo arcanjo Gabriel a seu pai Zacarias. 2.24 (LXX). fazem ressoar o mesmo tema. para a execução de seus desígnios. contraste que o Senhor lhe assegurou ser garantia de pleno sucesso na obra de Deus: "É na fraqueza (do homem) que meu poder se mostrã soberano. prefigurando assim a natividade do Cristo. não querem tanto chamar a atenção para os por menores referidos como para a seguinte verdade eterna: todo dom de Deus é gratuito. Observe-se. assim como os utiliza. representa o contraste en tre a debilidade do homem e a fôrça realizadora do Altíssimo. A todos êsses casos se sobrepõe a natividade do Messias. . Lc 1. nasceu de mãe estéril.1-7).) Ao lado dêstes episódios. formulava claramente a "quase-lei" da escolha dos humildes. com efeito. reconheceu num cântico (que é arquétipo do de Maria. quis anunciar a próxima conceição (cf. texto em que 8. Paulo vê expressa essa norma já por. o Salvador foi virginal mente concebido e gerado (cf. anunciado a Maria pelo mesmo arcanjo. cómo alguns dos homens de Deus foram dados ao mundo em circunstâncias que excediam tôdas as expectativas humanas. Gên 21. Jz 13. aos quais confiou a propagação do Evangelho num mundo hostil. Os feitos portentosos. 1 Cor 1. fiéis de Corinto. por meio de um anjo. 1 8am 1. aos quais Deus.26-38. nasceu de Manué e sua mulher infecunda. Samuel. Sansão. 5 O Apóstolo. Deus também pode dispensar os instrumentos criados. ao considerar os primeiros. em particular. ao receber tal prole.14 (LXX) e Jer 9. à qual Deus quis dar prole maravilhosamente abençoada (Cf. outro dos grandes chefes de Israel.

É de particular interêsse notar que.lz 2. A aliança messiânica manifestará tôda a sua excelência na vida celeste. Gên2. O TEMA DA ALIANÇA A vocação gratuita que Deus dirige aos homens . de "Lei ou mandamento do Senhor" (Núm 15. Edo 17. "aliança" é. Dt 4.12s). ° Eis como se desenvolve a noção de Aliança sagrada Logo na primeira página da história.15s). . C.se faz em vista do que o texto sagrado chama "a ALIANÇA". embora não reste dúvida de que não há paridade entre os dois contraentes. 2.15).20). L'Epitre aux Ilébreuz JI (Paris 1953). o Criador entra em aliança com o homem recém-criado: pede-lhe fidelidade a um preceito e propõe-lhe. Spicq. A aliança paradisíaca foi renovada na plenitude dos tempos pelo Messias. o profeta 6 A formulação jurídica do contrato é muito clara em Dt 26.3-9). .Yos 26. .16. segundo Adão.20). que se destinava a todo o gênero humano.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 101 Não queira. 1 Cor 11. vida imortal bem-aventurada (cf.10). que o homem se prepara para receber o Divino. entre as múltiplas religiões do orbe. 285. para Israel. às criaturas chamadas o Soberano Senhor prometeu dar o consórcio dos seus bens.31.19) ainda fala de aliança. foi violada pelos primeiros pais (Gên 3). caso se mostrassem fiéis à Lei divina (ou quisessem reproduzir em sua vida os traços da Santidade incriada). na consumação da história. 3 Rs 17. o dom de Deus excede o entendimento da criatura. 5. Com efeito. A Escritura. pouco depois da queda.1-7. aliás.25.15-17. Com efeito. é a isto que os livros bíblicos chamam "Aliança de Deus com os homens". porém. pela morte a si mesmo. sômente a religião revelada a Israel e aos crIstãos concebe as relações da Divindade com o homem como Aliança. Esta aliança. sinônimo de "decálogo" (Dt 4. Cl. É antes pela renúncia.17-19. fá-lo por favor divino. pois. que corresponde antitèticamente ao primeiro homem e assim divide a história em duas grandes fases. não deixa de inculcar a soberania do Deus que entra em aliança com a Criatura: Deus é dito prescrever a aliança (Hebr 9. João no Apocalipse (11.2-18.13. Rom 5. Se esta é chamada a colaborar na obra da Redenção. pois o Criador é soberano ao estabelecer as cláusulas do pacto. por vêzes. o homem julgar a ação da Providência confor me as categorias do seu bom senso. em troca. Por isto é que S. A nova e definitiva aliança outorgou a todo o gênero humano bens ainda maiores do que os dons perdidos no paraíso (cf. "guardar a aliança" coincide com "ouvir a voz de Deus" (Éx 19. sempre limitado. 29.14. prometeu restaurá-la (Gên 3. o Senhor.objeto do tema anterior .19s.

10. Núm 25. Mal 2. o Senhor Deus se dignou entrar em mÚltiplos pactos parciais e provisórios.1-8). tão persistentemente empregado pela Escritura para designar as relações do Criador com o homem? O vocábulo significa que Deus quer bem ao homem. Éx 19.18. 9. significava bem a firmeza do pacto. comparável à solidez que convém a um pacto solene. também 2 Crõn 13. Gên 15. com Abraão. o símbolo do pacto que Deus outrora quis travar com Israel em vista da obra do Messias. ou seja. o que mais corresponde a tal disposição divina é o da aliança matrimoniaL 7 O texto sagrado. sendo simbolo da ineorrutibiIldade (conserva a.20-26. 37.4s). com Josué.12s). o Patriarca do povo escolhido (e!. trava-se a famosa aliança do Sinai. Deus outorga àquele e à sua posteridade o exercício do sacerdócio em Israel (e!. que. Is 54.24).7s. 4. Assim há um pacto: com Noé.8. descendente de Aarão e zeloso propugnador da Lei de Deus. . descendentes imediatos de Abraão (cf. 60-63. Jos 24. 24.25). considerado. dentre os diversos tipos de contrato humano. fala de 'uma aliança de sal. com Levi. com Davi. sucessor de Moisés na direção do povo e renovador da aliança sinaítica (e!.19). novo Adão. é insinuada em Os 2. 2 Crôn 21. 34. com Fineés. com Isaque e Jacó. Núm 18. antepassado de Aarão. por essa ocasião. Êx 2.21-28.14-25. O sal.102 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vê no céu a arca da aliança do Sinai.7.7-21). Edo 45. Entre a violação e a restauração da Aliança com todos os homens. claramente anunciada em Jer 31.31-34. já constituída em povo numeroso. com a linhagem de Abraão.5 e Ne 6.3.25. o rei de cuja casa descenderia o Messias (e!. com Aarão. 56. a cuja tribo Deus confiou o serviço do santuário (cf. Ez 16. a quem foi confirmado o poder sacerdotal (cf. 55.5. após o dilúvio.25). definitiva.4. novo pai do gênero humano (e!. Jer 33.18). 17.3-9.8-17.4. tendo Moisés como mediador (e!. Precisamente. 61. Edo 44. 51 88. e o quer de maneira firme. visavam assegurar a reparação da aliança universal.carne). Gên 6. a Aliança messiânica. 2 Sam 23. perpétua" (ef. irmão de Moisés. que quer dizer o têrmo Aliança.18).

concepção que os profetas rebatiam freqüentemente. a transcendência de Deus ao entrar em relação com os homens. At 3. quando nos séc. Aliança que êles violaram. que significa determinado tipo de disposição. em última análise. Éste apresenta o aspecto de uma prevaricação.3. Ef 2. Assim o têrmo "testamento" passou.C. lhes parecia ressalvar melhor a soberania. os cristãos haviam. verificado que todos os dons de Deus foram. é a palavra originàriamente usada pela Escritura! 3. 1 Por isto.4. fala-se hoje de "Novo Testamento" e "Antigo Testamento".1 õsse o seu Espõso?' 9 Aliás. Conseqüentemente. são como que a herança recebida de Cristo Vítima. porém.6s). Em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá Uma aliança nova.25. 34s. 55. 50.C. êstes se deixaram guiar de novo por idéias teológicas: substituiram o térmo diatheke por testamentum. como se pode falar de "Nova Aliança" e "Antiga Aliança". 3 Es 8. Dan 9. 9. 111/1 a. Não como a aliança que travei com os seus pais. sim. que a estupenda condescendência divina expressa pelo têrmo hebraico berith foi causando "escrúpulos" aos israelitas.31s o Senhor menciona explicitamente o contrato nupcial para ilustrar o amor que te dedica à criatura. a disposição que se torna válida pela morte de quem dispõe. Acontece.32. em Jer 31. 9.17.4. No dia em que os tomei pela mão Para os fazer sair da terra do Egito. a ser usado na acepção do antigo vocábulo berith.15. para Deus. quando o texto grego foi traduzido para o latim pelos cristãos. apesar de tudo que êle tem de surpreendente ou mesmo espantoso.29. Ne 1. O TEMA DA PREVARICAÇÃO E DA RESTAURAÇÃO CORRESPONDENTE A história sagrada abre-se com o episódio do paraíso.10. Donde se segue que.29). As mesmas idéias se refletem no fato de que "aliança" e "promessas" estão 'mtimamente associadas entre si em Gál 3. a Escritura foi traduzida do hebraico para o grego por judeus de Alexandria (Egito). disposição (unilateral). êstes empregaram o vocábulo grego diatheke em lugar de berith. fx 34. Dt 7. dicztheke.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Com efeito. os judeus decadentes nos séc. ou seja.oráculo de Javé. julgavam que Deus precisava de seu povo e que a sorte de Javé estava intimamente ligada à de Israel . "ser fiel à sua aliança" significa "conservar o amor outrora manifestado aos homens" (cf. Is 54. Hebr 86.5. sendo que o têrmo "aliança". berith (aliança) e hescã (graça) são noções que se evocam mfttuainente na Escritura Sagrada (ei. 5 . Embora Eu . 81 88. outorgados em vista da morte de Cristo.23. Rom 9. Por fim. à qual Deus promete "Eis que dias vêm . Hebr 10.12.9. vil/VI a. na linguagem cristã. 10545.

A corrução grassa e motiva o tremendo dilúvio (Gên 6. o primeiro rei.15) Sete. 15.25s).36-25.104 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO dar remédio em tempo oportuno. que permanece fiel (2 5am 7.8-16). .") Pode-se assim dizer que uma das idéias centrais da história sagrada é.38). O pacto de Deus com Noé após a punição (Gên 9.14).0 influxo do mistério da iniqüidade e o do mistério de Cristo se fazem sentir alternativamente no decurso dos ' séculos.1-15. mas Deus escolhe em outra tribo o pastorzinho. É o que se percebe pelo seguinte esquema: PREVARiCAÇÃO O pecado dos primeiros pais (Gên 3.20: "Onde o pecado abundou. caracterizam tôda a história subseqüente. A pouca fé de Israel no deserto faz que tôda uma geração aí pereça (Núm 14.17-28). At 28. entregue ao total extermínio (3-4 Es. assim como marcam a primeira página da Bíblia. Saul.1-35). sem que o mal moral. que prossegue a obra de Deus sôbre bases mais puras (Esdr-Ne). cf. Sob os reis subseqüentes.7-23). A corrução chega ao extremo e provoca o exílio babilõnico (4 Rs 23. o povo de Deus freqüentemente se alia a nações idólatras e se corrompe em falsos cultos (3-4 Es). se mostra indigno 0 San 13. Após o ingresso em Canaã. o farisaismo. Deus suscita oportunamente 'redentores" (os ditos Juizes) do seu povo (Jz). O orgulho religioso.1-8. as repetidas apostasias religiosas de Israel merecem ao povo ser entregue às mãos dos inimigos cananeus (Jz). são conservados em vida (o resto de Israel !) e continuam a obra de Deus (Núm 14.20-35). 10 "a contínua repa10 secreta do sábado 'in albis". a graça superabundou.26). porém. Salva-se do exílio o "resto de Israel". O SEGUNDO ADÃO (Rom 5.8-17). 5. A monarquia não perece. No inicio da monarquia. dada a sua fé. Josué e Galeb. nunca. e paciência bondosa do Criador que restaura a criatura -. O PRIMEIRO ADÃO RESTAURAÇÃO O proto-evangelho (Gên 3. êstes dois têrmos miséria do homem que desfaz a obra de Deus. O inorticinio de Abel. obcecam o povo e o levam a rejeitar o Messias. Pois bem. O dom messiânico é transferido dos judeus para os gentios (cf.3-15). como se exprime o Missal Romano. consiga absorver o bem. O povo é punido por Deus. . em lugar do justo imolado (Gên 4. por muito intenso que seja. 17.6). o justo (Gên 4. principalmente 4 Rs.14.

perseguido por Saul. Nos primórdios da história sagrada.) Ora chama a atenção o papel que a Escritura atribui ao deserto no decorrer da história: êle é o teatro predileto das manifestações divinas. zelosamente procurado pelos homens de Deus antes de realizarem feitos gloriosos. 3. sendo Israel nômade no deserto. 3 Rs 19. que assinala grandes favores para o povo de Deus e precede a conquista de Canaã.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 105 ração da salvação humana". Ora a Escntura faz ver como aos poucos se nobilita o lugar da mansão de Deus na terra.14. só deixará de se verificar quando Deus outorgar ao gênero humana a sua consumação final. 3. antes de iniciar a vida pública passa quarenta dias na solidão em jejum e oração (cf. O exílio na Babilônia. porém. 1. 4. João Batista retira-se para o deserto a fim de preparar. 1 5am 23. refugia-se no deserto. . por sua pregação e seu batismo. no recolhimento e na solidão. à semelhança dos homens. Éx 25. tendo em vista o reerguimento da nação teocrática: "Eis que a atrairei e a levarei para o deserto.7-11. A Igreja. é escola de purificação para Israel. Esta idéia se estende ainda por tôda a história do cristianismo.1-11).16. Davi. simbolizada pela mulher do Apocalipse. 4. embora com modalidades diversas das do Antigo Testamento. S. Jesus. Elias jejua quarenta dias no êrmo de Horeb.1-18). 24." (Os 2. O TEMA DA HABITAÇÃO DE DEUS Deus se digna morar com os homens. 2.23). aguardando o triunfo final do reino de Deus (cf. é o fato de que a presença do Senhor é assinalada por um fulgor (em hebraico. Lc 1.8-16. O êxodo de Israel.80.2). 5. Muito digno de nota. salvação que a miséria do homem põe constantemente em perigo. a morada de Javé se reduz a uma tenda movediça feita de peles de animais.6). vive no deserto durante todo o decurso da história. 33. fêz-se através do deserto. O TEMA DO DESERTO O Senhor fala aos homens em meio ao silêncio das criaturas. É o que o próprio Espírito Santo inculca quando diz pelo profeta. Assim 1. S. Shekina) que paira sôbre a tenda (cf. e lhe falarei ao coração. antes de subir ao trono (cf. Apc 12. as vias do Senhor (cf. Mt 4. comparável à mansão no deserto. antes de receber a missão de ungir os reis (cf.

" (1. Por isto. Na solene dedicação da nova morada.106 PABA ENTENDER O AIÇTIGO TESTAMENTO 39. donde se deriva o verbo slcenoo (erguer a tenda) em Jo 1. na tradição judaica posterior.n. geral e faz perder . querem dizer que a carne de Jesus Cristo se tornou a nova tenda ou morada de Deus. de tal modo que nem os sucerdotes lá puderam permanecer (cf." Não se poderia passar sob silêncio um particular filológico: O têrmo grego skené ( tenda).14. glória como que do Unigênito do Pai. Uma tez estabelecidos na terra prometida. 3 Rs 6.14. João Evangelista o refere nos seguintes têrmos: "O Verbo se fêz carne.lOs).16-23). que toma significado especial se se tem em de vista 11 A traduflo da Vulgata habitavit ( habitou) é muito wn particular especialmente visado pelo Evangelista. Não nos interessa aqui estudár a etimologia destas duas palavras. glória como que do Unigênito do Pai.32-40.1-38. Basta apenas verificar a analogia. construiu o famoso templo de Jerusaim. com visivel alegria (cf. nuvem fulgurante encheu a casa do Senhor. S. e vimos a sua glória. o que se realizava imperfeitamente no tabernáculo do deserto (e no templo de Salomão) já se verificou muito mais dignamente na natureza humana de Cristo. "E vimos a sua glória. pois. templo capaz de reconhecer o seu Senhor e amá-lO.38. na qual viveu entre os homens. Núm 9. empregando o material mais rico e os artífices mais hábeis das regiões vizinhas (cf. 1 Jo 1. 3 Rs 8. 7.k . da sua transfiguração e da sua ressurreição. e ergueu a sua tenda (eskenosen) 11 entre nós. está claro que o templo de Salomão ainda estava longe de corresponder à Majestade Divina.) As duas primeiras frases são paralelas uma à outra." Esta observação alude ao esplendor (Shekina) que acompanhava a morada de Deus no Antigo Testamento. "Vimos a glória dé Deus através dos milagres de Jesus. o Apóstolo. Embora fôsse mais digno do que a tenda movediça. faz notar que aos discípulos de Cristo foi dado contemplar aquilo que afugentava os próprios sacerdotes da antiga Lei. chegando a aterrar os homens. os israelitas quiseram preparar mansão mais condigna para a Majestade Divina: o rei Salomão. nova dilatação do tema se verificou: Deus Filho quis unir-Se a uma natureza humana.13-51). sé podia usar o termo shekina como sinônimo de "morada de Deus" ou como equivalente ao nome mesmo de Javé. reproduz equivalentemente as consoan tes do vocábulo hebraico shekina: s(h) . esta era um templo vivo do Deus vivo.1-4). Ésse esplendor se tornou tão característico da mansão de Deus que.

por isto também a dignidade do templo vivo que agora compete aos discípulos de Cristo. depositário translúcido da glória do Criador. e servem-Lhe dia e noite no seu templo. nem os abaterá mais o calor do sol . .. possuindo a graça santificante. só estará plenamente desabrochada na bem-aventurança futura. participam da vida de Cristo e da Trindade 58.29). Ef 2. é semente da glória celeste. É o que o Apocalipse insinua ao descrever a felicidade celestial dos justos: 'Estão diante do trono de Deus.. O maná é mencionado pela primeira vez na história do êxodo (cf. de maneira a poderem ser realmente ditos mansão viva de Deus (cf. nem sêde..19. 1 Cor 6. Os fiéis. é dita o templo santo do Senhor (cf.. o povo devia recolhê-los antes do nascer do dia.. Mais uma palavra que atravessa tôda a Escritura Sagrada. o Senhor lhes suscitou uns grãozinhos (maná) com gôsto de óleo ou mel. Isto se deu na plenitude dos tempos e em grau perfeitíssimo no Cristo Jesus. Após a Encarnação. S. a noção da tenda.16).. E Aquêle que está assentado no trono erigirá sôbre éles a sua tenda (skenosei ep'autous). 1. Ainda vem a propósito uma palavra de Jesus: para justificar a expulsão dos vendilhões instalados no templo de Jerusalém. É em função desta meta que os séculos se vão sucedendo! 6.19-22). 219-223. porém. qual portadora de mensagem cada vez mais clara. 2 Cor 6.(7. Não terão mais fome. As subseqüentes realizações do tema tendem para êste têrmo: fazer de cada indivíduo humano (em alma e corpo) um portador de Deus. Pelo mesmo motivo. a Igreja de Cristo. A graça que o cristão peregrino possui. 4. Éx 16.. dar-se-á em proporções reduzidas em cada um dos irmãos de Jesus no dia da ressurreição final.) Como se vê.. só estará completo na eternidade. a idéia de templo de Deus se realiza semelhantemente em cada cristão. que já ocorria na primeira fase da habitação de Deus entre os homens (ex).13-31): a fim de sustentar os israelitas no deserto.. O tema da habitação de Deus.19-21). Bom 8. pois cada qual foi destinado a se tornar conforme à imagem do Filho de Deus (cf. constituída pelos fiéis unidos entre si e com Jesus. pois se derretiam ao calor do sol. só se podia aprovisionar a quantidade 12 As idéias aqui expostas encontram seu complemento às págs. O TEMA DO MANÁ 12 Maná. perpassa a história sagrada até o fim (Apc). Jo 2.lSs.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 107 mente que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento têm tôdas o mesmo Autor Divino. o Senhor apelou para o seu poder de ressuscitar "o templo do seu corpo" (cf.

12). repetiria o prodígio do maná. esquecendo que . por seu lado. J05 5. a fim de permitir aos israelitas o repouso sagrado do sábado (cf.108 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO necessária para a respectiva jornada. Mt 4. não comem (cf.4-6). Tob 12. já que os anjos eram considerados os transmissores das grandes dádivas de Deus aos homens (cf. pois o maná se deteriorava em 24 h.19-30). pois os judeus tinham consciência de que os anjos. um pão já preparado. Durante os quarenta anos de travessia do deserto. o alho.o maná ao povo causara fastio por sua insipidez (cf.. sem fadiga.19). era considerado um prenúncio do reino messiânico. mediam as suas provisões e verificavam possuir exatamente a porção permitida para um dia. o hagiógraf o canta no livro da Sabedoria: "Saciaste o teu povo com o alimento dos anjos. alimentando o seu povo com o pão do céu. Gál 3. SI 77. mas devia ser um sinal religioso.4). todavia. Dt 8.5). Ëx 16. mas significava "pão que os anjos dão ou ministram em nome de Javé". .19). Com o tempo.38. 2. porém. isto é. Ora foi justamente qual sinal ou tipo que a tradição judaica interpretou o maná.4-6). o pão dos anjos.3.24) não quer dizer "pão que os anjos comem". etc. de 3. o peixe. Núm 11. os israelitas. ao menos principal de Israel (cf. ao chegar às respectivas tendas. constituiu o maná o alimento. Êx 16. At 7. aceno a realidade de ordem superior (cf. que em breve se estragavam. recolhiam uns maior.16-18). conservavam-se íntegros nas 48 h finais da semana.ca.8 litros (cf. chamando-o "miserável alimento" (Núm 21.) Os Rabinos. Assim. o povo concebeu náusea do maná. passou a ser descrito pelos autores posteriores em têrmos idílicos. de que se nutria no Egito (cf. outros menor quantidade de maná.20s. os pepinos. Núm 11. Dado em vista da instalação de Israel na terra prometida. por ti enviada. e lamentou amargamente não ter mais a carne. vindo à terra. os melões." (Sab 16. desobedecendo a Javé. demonstrava a suavidade de que usas para com vossos filhos. se não exclusivo. sendo incorpóreos. Ésse pão se acomodava ao desejo de quem o comia E se transformava no que cada qual quisesse. Éstes e outros pormenores misteriosos da história do maná dão suficientemente a entender que tal alimento não era suscitado por Deus simplesmente para nutrir a vida corporal dos israelitas. E lhe deste do céu. ' 13 'Pão dos anjos" (cf. nutriam a convicção de que o Messias. Essa substância. um gomor . O qual proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paladares. Interessa-nos chamar a atenção para o caráter religioso que ésse alimento tinha: os grãozinhos.

To 6.32s. que aos poucos penetra alma e corpo do cristão. no Antigo Testamento ou no início da Quem vencer o certame da vida presente receberá de novo. mas através de véus. Eu sou o pão vivo que desce do céu. quem déle comer.. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá vida ao mundo.) .. não. mas universal. que ninguém conhecerá a não ser quem o receber. Em verdade. maná. que o pão do deserto no Antigo Testamento de certo modo iniciava. no Novo Testamento.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Assim a idéia do maná Crescia em seu significado: nastradiçôes judaicas não designava simplesmente o alimento pobrõ do israelita nômade. João. Maná. e não preservava da morte. o maná celeste designa a visão face a face do Deus Trino e a bem-aventurança que dai resulta. desconhecido ao homem. VI: "A quem vencer. o maná é dito oculto. ainda não encerra o tema do maná. cap. união com Deus que a Eucaristia. Seria o pão messiânico.9). maná na plenitude dos tempos. história sagrada. no Apocalipse o autor sagrado coloca nos lábios do Senhor a seguinte promessa. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. tal alimento. a Eucaristia. 14 A Eucaristia. o coração do homem jamais percebeu" (1 Çor 2. já concede no íntimo da alma. terá a vida eterna.. o ouvido jamais ouviu. darei o maná oculto e um seixo branco. mas evocava. porém. portanto. em última análise. jamais morrerá.. Por isto. sem dúvida. •e Eu o ressuscitarei no último diaY' (. êle significa "o que o ôlho jamais viu. que vem a ser como que o complemento das palavras de Jesus proferidas no Evangelho de S. porém.17. de fato. porém. só patenteada a quem a experimenta! 14 "Em verdade. não seria senão a carne e o sangue de Jesus. Ora o maná que Jesus prometia. Ela é um fermento de vida nova. o nutrimento do povo de Deus estabelecido na plena posse dos bens messiânicos. ptometer pão do céu.. maná ainda no Apocalipse. Significa a plena união com Deus. introduziria no reino de Deus não nacional. no Evangelho.51. sim. e se dignou. 49. O Messias veio. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. encaminhando o israelita para a terra prometida (Canaã). O maná que Israel comera no deserto tinha por função levar o povo à exígua terra de Canaã. vcsso$ pais comeram o maná no deserto e morreram. na vida celeste! Desta vez.. tal qual o esperavam os judeus imbuidos de expectativas demasiado humanas. e sôbre o seixo um nome novo escrito. ou seja. e faria triunfar da própria morte... que haveriam de superar a morte pela sua resurreição gloriosa." (2.) maná. devendo atingir o seu pleno desabrochar na eternidade. a menção permanece muito lacônica.

. um só destino pode ter a videira brava: o fogo. A única justificativa da existência de Israel era (e ainda hoje continua a ser) a sua missão religiosa.. ciências e outros bens de cultura em Israel eram estritamente dependentes do que produziam os povos vizinhos. 4: "Que devia ter eu feito por minha videira. Is 5.C. VI a. o profeta Isaías fazia reviver a mesma imagem. era íjnicamente a sua religião. Ao passo que o oráculo de Isaías apenas anunciava o castigo. Ezequiel o supunha já em curso e incitava o povo a refletir sôbre o mesmo. seu filho. A imagem quadrava bem com a realidade! Aquilo que dava significado à nação de Israel na antiguidade. VIII a. Por conseguinte. que não tenha feito?") No início do séc. A que serve uma videira selvagem?. Já em época muito remota. o profeta Ezequiel retomava a imagem (15. o Patriarca Jacó comparava a abençoada tribo de José. Ezequiel aludia às depredações que os inimigos haviam infligido ao povo de Deus a partir de 722 (queda de Samaria) e que continuariam a infligir até arrasar Jerusalém e levar para o exílio (587-538) a maioria da população de Judá. que a devastariam (cf. a uma videira..1-8). nem um cabide se faz com pau de uva. Observemos o percurso grandioso dessa figura nos textos bíblicos. per•dia todo o seu valor na história. Desde que não dê frutos bons. .110 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO 7. que se via decepcionado.22). baseada em monoteísmo muito puro. repreendia o povo de Israel por suas múltiplas infidelidades à Lei. (Particularmente importante é o v.1-7). Com isto. perguntava o profeta. cujos ramos viçosos e férteis recobrem tôda a muralha do pomar (cf. Em conseqüência. esta não podia deixar de ser planta de grande estima. Dado. No fim do séc. Para uma nação que vivia principalmente do trigo. só pode ser avaliada pela qualidade do seu lenho. porém. Ora o lenho da vide é absolutamente imprestável a qualquer trabalho de marcenaria. Gên 49. porém. mas em circunstâncias diversas: em nome de Deus. a destruição. pois a videira de Deus só produzia uvas amargas. que o povo de Deus esquecesse a sua fé e adotasse cultos alheios. dela esperando frutos condignos no tempo oportuno. Javé era apresentado como vinhateiro que dispensara todos os cuidados à sua vide. eis. da oliveira e da vide. o Senhor prometia entregar a árvore inútil a viandantes e animais. O TEMA DA VIDEIRA A vfrieira constitui uma imagem habitual com que as Escrituras do Antigo Testamento designam o povo de Deus. contrastante com a idolatria de outras nações.C. pois belas artes.

talhada.) Nas situações mais perplexas. Jesus. Referia-se de novo à videira. não venha mais a renegar a sua qualidade e o seu des- . doravante. coloca-se o salmo 79. Lançou raízes e encheu o país. e seremos salvos. Com efeito. tudo pereceu. trouxe a resposta divina à prece do povo oprimido. com muita confiança.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 111 As objurgações de Ezequiel têm. a fim de que a videira antiga. caso permaneçais em Mim e Eu em vós. Faze brilhar a tua face. Expeliste as nações para plantá-la. Deus mesmo se fêz videira. enxertada no novo tronco." Referindo estas palavras de Cristo. restaura-nos. a natureza humana. 1 Jo 3. em J0 15. A videira de Israel pedia assim a sua Redenção.9s. e sou a verdadeira videira. valor universal: caso o homem. a Escritura punha remate a lento processo pedagógico que nos ilustra o dogma da Encarnação: depois de ter feito tudo que podia fazer para salvar a videira. Em quarto lugar na evolução do tema. 20. dareis fruto múltiplo e bom. Os ramos dessa videira sois vós. em qualquer tempo. sem que esta se reerguessé da sua miséria. que apresenta a prece da videira entregue aos incursos inimigos. como por meio dos profetas fizera. a videira nova. não já para interpelá-la na qualidade de Senhor. impiora restauração. sou Eu. 17. Senhor Deus dos exércitos. Está queimada pelo fogo. os seus valores naturais mesmos perdem todo significado.20). nunca é frustrado um sincero apêlo do homem atribulado à Misericórdia Divina. é a voz do pecador que se sente justamente punido pelo Deus Santo: deplora a situação presente e. Redenção que Deus benignamente havia de mandar: "Arrancaste do Egito uma videira. que. autêntica (o novo homem).1-8." (Si 79. sempre corresponderá ao ideal que o Pai lhe assinalou. Sereis enxertados em Mim. e participareis da minha vida divina. mas para se identificar com ela: "A videira. Limpaste o terreno diante dela. homens de qualquer nação. eis brevemente o que significa tal texto bíblico. portanto. aquela que não pode dar uvas amargas. renegue o seu destino religioso. sabendo que Deus é maior do que o coração humano (cf. Ante a tua face ameaçadora. aliás.

1 Sam 16. Com efeito. 15 Foi esta a solução que a bondosa Sabedoria de Deus quis propor ao problema da fraqueza humana! 8... pois. Gên 26. a fim de que o povo do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor O tema volta a ressoar. Pois êle será grande até as extremidades da terra. tal foi o rei próspero Davi (cf.18). cuja economia muito dependia da indústria pastoril. sim. constitua sôbre a multidão um homem que. como as palavras do homem. Gên 13. 1939). 31. para o qual tôda a história antiga convergia.) 15 Ótima reflexão sôbre o tema da videira ocorre na obra de G. Cedo introduziu-se nos livros sagrados o pastor como símbolo de realidade religiosa. a pedido de Moisés.112 FAlIA ENTENDEU O ANTIGO TESTAMENTO tino. Gén 4. os Patriarcas Isaque e Jacó (cf.. ob. tais foram Abraão e seu sobrinho Lote (cf.16s: "Que o Senhor. Quanto mais alguém penetra no seu Interior. Núm 27. por exemplo. E não há Que recear se esgote o tesouro. A vida decorrerá tranqüila.14. os justos portadores da bênção de Deus..2-7). tanto mais ricas são as pedras preciosas que lhe aparecem. . Deus instituiu um Pastor para Israel. Em primeiro lugar. são pastôres tal foi Abel (cf. cit. Êx 3. ficar alheia à vida e aos escritos da nação israelita. Não podia.. êsse Pastor traria o nome profético de Josué (etimolôgicamente igual a Jesus). mas o Messias. Miquéias. É].20. apascentará suas ovelhas.11).. Os vocábulos da Escritura não são pobres nem vazios. Destarte tem-se a im5ressão de tocar com as próprias mãos. êles participam daquele privilégio de Deus. que com uma só palavra tudo diz. desde remotas épocas. que devemos as considerações acima sôbre o tema da videira. nos escritos dos Profetas. O TEMA DO PASTOR A figura do pastor gozava de particular estima e autoridade entre os povos do Oriente." (5.. lugar-tenente de Javé. tal foi o Legislador Moisés (cf. a dirija. Cf. Protegido pela fôrça do Senhor. depois de predizer que o Salvador nasceria em Belém de Judá (5.1). Wege itt dic Jieilige Sehrift (Eegensburg. acrescentava "Será firme." É a Closw. herdeiros das promessas e figuras do Messias. mediante a figura do Pastor que êstes designam não um guia provisório de Israel.2). o mistério de palavras humanas divinamente inspiradas.1). Os textos biblicos são como as veias de uma mina. e com mais significado ainda. Closen. 114: "A metáfora da videira e dos seus ramos constitui ótimo esp&ime da profundidade e da riqueza da Palavra de Deus que nos é oferecida pela Sagrada Escritura..3. nas quais sempre se pode cavar mais fundo. é interessante notar que. Não.

. encontrando-a.32). pois que meus pastôres não se ocupam delas. da maneira mais coerente possível. investido em seus poderes pela entrega do título ou do báculo de pastor.36. se declarou o Bom Pastor (note-se a ênfase do adjetivo). ou seja.3-7 Jesus se apresentava de novo como o Bom Pastor. 1-6 e Is 40. o exemplar do Pastor. realizou em si. ouvi a palavra do Senhor.31-46). e ainda hoje seja. Mt 26. prometendo que o próprio Deus se faria o Pastor de Israel "Pois que minhas ovelhas foram entregues à depredação e se tornaram prêsa de todos os animais selvagens. Ora o Evangelista S. apascentam-se a si mesmos e não apascentam as minhas ovelhas. atribuindo a cada qual o respectivo destino (cf. dando remate às etapas do tema.1-18). que carinhosamente se põe ao encalce da ovelha desgarrada." (34. porque estavam lànguidos e abatidos como ovelhas que não têm pastor. quantia equivalente ao preço de um escravo (cf.12s) refere o salário do Pastor. Outro traço digno de nota: o Profeta Zacarias (11..15-17. as quais fazem eco ao texto de Núm acima citado: "Contemplando essa multidão de homens." Conseqüentemente. vindo ao mundo. Jo 10. visando principalmente seus interêsses pessoais (cf. qual imediato Vigário do Senhor no mundo. Congregá-las-ei dos diversos países. assim passarei em revista minhas ovelhas. Por fim.) . Nesta linha de idéias.. Mt 25.15).. entende-se que o representante de Cristo na terra tenha sido. na plenitude dos tempos o Messias. Éx 21. ouviu o mandamento de Jesus: "Apascenta meus cordeiros. Eis-me..9s) observa que se cumpriu tal oráculo quando o Senhor Jesus foi vendido aos fariseus a trôco de trinta dinheiros (cf. assim S. Pedro. o juízo final é proposto por Jesus como a cena em que o Pastor há de separar ovelhas e bodes. Como um pastor passa em revista as ovelhas no dia em que se encontra entre as ovelhas dispersas. Vêm a propósito as palavras de Jesus em Mt 9. carrega-a sôbre os ombros e se rejubila considerando tnicamente a salvação da mesma. eu mesmo tomarei conta das minhas ovelhas. quê não hesita em dar a morte por suas ovelhas.lOs. por falta de pastor. Javé censura quais pastôres hifiéis os que governavam o povo eleito. 10. eu as apascentarei em ricos pastas e elas repousarão em bom aprisco. Jesus moveu-se de compaixão com êles." (Jo 21.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 113 Em Ezequiel 34. Em Lc 15.) Esta profecia tem seus paralelos eloqüentes em Jer 23. ... o preço pelo qual haveria de ser avaliada a sua obra ou missão: trinta moedas de prata. Mateus (27. 12-14. apascenta minhas ovelhas.. enquanto os falsos guias fogem.

20) e no Apocalipse de S. cântico de confiança. que o cristão não dê aos elementos humanos que a Bíblia apresenta.17). e o salmo 79. Contudo. do vinho. qual santa grei. João (7. Consciente disto. Não há dúvida. que perpassam tôda a Escritura paralelamente à idéia central do Messias e elucidam um ou outro aspecto dêste.1-4. Hebr 13. mais do qõe o valor que o Espírito Santo mesmo lhes quis atribuir: valor de meros veículos ou sustentáculos do Divino. sim. e com deleite sorverá a Verdade na sua fonte divina! . A Escritura Sagrada nos quis ensinai duas belas preces ao Bom Pastor. pedido de misericórdia em hora angustiosa. esta série de textos forma um conjunto dos mais significativos da Santa Bíblia. 5. o que acima foi exposto já abre o ôlho do leitor para o autêntico objeto das Escrituras Sagradas. Nos salmos 94 e 99 o povo de Deus. prorrompe em aclamações adoração ao Pastor Divino. as quais sempre foram caras tradição cristã: o salmo 22. Tais seriam o tema dos sacramentos (da água. procure ler os livros mais antigos da Bíblia à luz das Escrituras posteriores e da Revelação cristã. 1 Pdr 2. * * * Ainda outros fios condutores se poderiam indicar. é preciso. dentro do grande plano que Deus concebeu a respeito dêste mundo. do óleo. assim julgará cada texto dentro da sua perspectiva própria.114 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A figura de Cristo Bom Pastor ocorre também nas epístolas dos Apóstolos (cf.25. o tema do "dia do Senhor" ou das visitas de Deus (visíveis e invisíveis). etc. o tema do paraíso ou da terra prometida. do trigo).

Deus mesmo promete que a Ismael dará uma posteridade inumerável. no estudo do problema é preciso se atenda ao seguinte Nem tudo que o Antigo Testamento narra é proposto ou insinuado como norma de conduta para o leitor. Antes do mais. se quisermos. se une tranqüulamente à escrava Agar. A respeito dêste episódio. que projetarão luz sôbre aspectos particulares da moralidade veterotestamentária (cap. Ésses males morais desnorteiam particularmente o leitor moderno pela circunstância de que nem a consciência parecia repreender os israelitas que assim procediam.mentira. os "escândalos" da moralidade do Antigo Testamento. como esperaríamos nós.CApíTuLo VII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) O HERDEIRO EM IDADE INFANTE Os dois capítulos anteriores procuravam mostrar a história do Antigo Testamento como paulatina ascensão do homem rude a um grau de religiosidade mais pura e perfeita. 98. Sara quem estimula Abraão a tal feito (ef.10. crueldade para com os adversários. satisfaz ao Patriarca. VIII). O filho assim gerado. Gên 16. * * * Três afirmações cada vez mais precisas nos possibilitarão proferir um juízo sôbre as narrativas "pouco edificantes" da história sagrada. 17. condena: os homens da Antiga Lei. a fim de ter prole. aliás. porém. São êsses fenômenos estranhos ou.. Nessa ascensão. fraude. nem o próprio Deus os censurava ou coibia. que.. Em outras palavras: 1 Haja vista apenas o caso de Abraão. de princípio a fim. à primeira vista. Ismael. dada a esterilidade de sua espõsa Sara. eram dotados de mentalidade primitiva e. praticavam o que hoje diríamos "escândalos morais" . Gên 16. poligamia. se acham.25). mesmo os mais chegados a Deus. disseminados episódios que a consciência cristã. sinal de bênção (ef. de acôrdo com ela.20). 1. concubinato. . É. que ora se impõem à nossa consideração. Proporemos abaixo alguns princípios de caráter geral (cap. VII). veja-se a pág.

e de pecados reconhecidos como tais? que o homem peque. que déle conseguem separar o filho bem-amado José (ci. porque tem que passar longos anos no exilio. o autor sagrado dá mais de uma vez a entender que se trata de um feito condenável: Rebeca e Jacó reconhecem que. deva por si causar surprêsa. atrairá maldição. 1 mas se tornaram santos por graça de Deus.35). censura Jacó (ci.11-14). o próprio Jacó é. e não bênção (ci. ela tinha que ser envolvida dentro do "temário" da Biblia e tomar-se um dos assuntos do colóquio de Deus com o homem através das páginas sagradas.10-13). pois deve mandar partir o filho predileto para a Mesopotãmla (ci. por sua vez. 8 O incesto de Amnon com sua irmã Tamar é nitidamente relatado como ato pecaminoso (ci. sem os julgar. reconheça a culpa. Gên 27. não sàmente não espanta. 1 5am 19. Baque.24s). reconheceu a culpa (ci. 1 Sam 3. Também Saul se penitenciou quando objurgado por Samuel (ef. vem o caso de Davi. após duplo crime repreendido pelo profeta Natã. 29. enganado por seu tio Labã (ci. após os quais teme a vingança de seu irmão Esaú (ci. se o artificio fôr descoberto prematuramente. que usurpou a bênção reservada a seu Irmão Esaú. Poderia até haver certo grau de farisaísmo ou hipocrisia naqueles que se admirassem por encontrar falhas no próximo. 27.116 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO nem todos os heróis de um livro inspirado por Deus são inspirados em cada um dos seus atos. não escapa à perspectiva dos autores sagrados.25) e por seus filhos. Algo de semelhante fêz o sacerdote Heli (cf. certamente isto não é edificante.25-30). através de muitas lutas e. já que ela constitui o fundo real da vida humana. mesmo aos justos. o fato de que a criatura peque e depois. 2 5am 13. 27.12s). 2 ora é o modo de narrar mesmo do hagiógrafo que dá a entender tratar-se de um ato mau à luz da própria moralidade do Antigo Testamento.1-22). há narrativas de pecados. dadas as circunstâncias habituais em que se desenvolve uma vida humana.18). . Ao narrar o proceder fraudulento de Jacô. Verifica-se que os opúsculos históricos da Bíblia por vêzes referem os feitos iníquos. mas é autêntico motivo 2 Como exemplo. ao perceber a fraude. penitente.28-30. 37. O mesmo se diga da inveja de Saul contra Davi (ci. não raro. 32. Ora que significa o fato de que. 2 5am 12. porém. Ora esta tragédia comum a todo homem. acrescentam às narrativas uma nota condenatória dõ mal: ora são os próprios personagens bíblicos que se penitenciam por ter agido erradamente. 29. 1 5am 15. além disto. Jacó também é castigado. na Sagrada Escritura. que.42-45). Todavia não é algo que. ora é o Senhor que censura os feitos pecaminosos.25-36). Por vêzes. 4 Excetua-se apenas a Bem-aventurada virgem Maria. quedas. nem mesmo os Santos nasceram tais. Rebeca é punidá.

visam por excelência a santificação dos leitores 1 Será possível crer no valor de tais Escrituras? Em resposta. no livro sagrado. é obra da virtude (sobreaatural) . Ambrósio (t 397) notava a respeito da penitência de Davi (2 San 12. é obra da natureza. tenha proposto a figura de homens penitentes. porém. não nos surpreende que Deus. 1 Cor 2. embora todos. jejuou. infiel. sejam pecadores. mas submeteut. 2. descreve a história sob êsse ponto de vista.se ã penitência. entre o Prevaricador e o Restaurador. Hebr 5.. sem silenciar o pecado que prèviamente cometeram. histórias que diretamente induzam à virtude. estas constituem o fundo ao qual se sobrepôs a misericórdia do Salvador. pergunta-se: embora no homem o pecado não seja para admirar. que a tenha apagado (pela penitência). por que é que a Bíblia o descreve? Encontra-se repetidamente a narrativa de feitos iníquos nas páginas que. pediu indulgência. e sua antítese. 5 pois a penitência é coisa que nem todos praticain. A história bíblica foi redigida não apenas para evocar casos morais êdificantes. a reduziria a um livro de pedagogia infantil ou. o Espírito Sano). Ora quem. E como se hão de desvendar essas verdades dogmáticas transmitidas pelas histórias "não edificantes" da Sagrada Escritura? Tenha-se em mente que a história sagrada é a história do gênero humano colocado entre a queda original e o respectivo reerguimento. a um alimento para crianças (leite).11-14): "Davi pecou . . chorou..1-3. Em outros têrmos: os "escândalos" narrados no An5. Estas observações. pois sabemos que as histórias de penitência edificante nao sao as mais freqüentes nem as mais características do Antigo Testamento. ou seja.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 117 de edificação.. Que tenha caldo em falta. como se diz. o segundo Adão. em certo grau. o fato de que "onde o pecado abundara.12-14." Apologia David ad Theodosium Augustum. sômente se se mostra com clareza a depressão moral a que chegou o gênero humano após o primeiro pecado. é que se realça a correlativa generosidade do Criador. histórias edificantes. não bastam para resolver todo o problema. Aquilo que os simples cidadãos se envergonham de fazer. como os autores bíblicos (ou. conforme o Apóstolo (1 Cor 3. quem assim pensasse. Confessou a culpa. Além disto. 2. há na Bíblia também alimento sólido. dir-se-á: a dificuldade é formulada a partir de um pressuposto assaz deficiente. prostrado por terra deplorou a desgraça. o rei não hesitou em realizã-lo abertamente. além de nutrimento infantil. Rom 5. em última análise.. o ideal de uma vida virtuosa inclui a penitência. superabundante foi a graça" (ef.14). pois.6. Contudo. Ef 4. profundas verdades dogmáticas.coisa que costumam fazer os reis. que manifestam a sublime Sabedoria divina ao homem capazde a apreender (cf. não pode deixar de narrar as manifestações de miséria espiritual do homem decaído. entre o primeiro Adão. gemeu .6-16). ou seja.20).coisa que não costumam fazer os reis. orou. Se.

. Gên 16. que se dignou dar remédio a tanta vileza da criatura. A bondade e o amor das criaturas. 3. Tem concubinas até o fim da vida. pois. Paulo fala da philanthropia de Deus. em última anáiise. apesar de tudo. sim. que houve por bem acudir a tais homens. não venha a matar o marido Abraão (cf. de moda contingente? Para dissipar esta dificuldade. Estas considerações.8) Davi foi um guerreiro não raro cruel. diz o Génesis que "morreu em feliz velhice" (Gên 25. à luz de Deus mesmo. manifestais a vossa onipoténcia. Note-se a oração do Missal Romano no 10.1-3). O É essa relatividade da moral que professa a moderna "Ética da situação" ou o "Existencialismo ético". antigamente podia ser até virtude? Não se poderia inferir da Bíblia que o bem e o mal moral são questão de oportunidade. sem que a consciência os pareça incriminar. passe além da aparência superficial. Ora são êsses varões (Abraã Davi . em Tit 3. Não obstante. teve igualmente seu harém. 6 Ao se defrontar.118 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO tigo Testamento não nos incutem a miséria dos filhos de Adão apenas para se descrever a história.4.8-16. é preciso de novo consideremos o problema dentro de quadro muito vasto. quando não encontram correspondência. 8 Assim Abraão. nos atos de compadecer-se da contínua fraqueza humana e perdoar. é. para verificarmos (talvez com curiosidade mórbida) o que se deu. deixam aberta ainda uma questão: por vêzes no Antigo Testamento os homens cometem atos ao nosso critério pecaminosos." É. O mesmo Patriarca se une à sua serva Agar. não simplesmente do ponto de vista dos homens do século XX.. não se deixe o leitor prender ao aspecto repugnante que êles podem ter em comum com as narrativas de panfletos modernos.. ao eriuigrar para o Egito.. Deus desde cedo o abençoou. para que se ponha em relêvo a figura grandiosa do segundo Adão. ) que a Bíblia apresenta como justos ou heróis do Antigo Testamento.0 domingo depois de Pen- Deus. 2 Sam 7.. 8 nem Deus é dito repreender tais ações. e olhe "para dentro dêsses acontecimentos" com o olhar de Deus. que Deus por excelência revela a sua Onipotência. a sua ilimitada Perfeição... perdoando um sem-número de vêzes ao pecador sinceramente arrependido que Deus manifesta sua inesgotável ou infinita Bondade. de fato. antes de tudo. por muito significativas que possam ser. cf. . Gên 12. cobiçando a bela Sara. com os episódios de "barbárie" das Escrituras antigas. mas. tendem a arrefecer e se extinguir. a condescendência e a imensa caridade do Salvador. então também êles lhe falarão de algo de muito sublime. E. pois. prometeu tornar inabalável o seu trono até que de sua linhagem nascesse o Messias. antes de tudo. numa espécie de adultério (ef. diz tranqüilamente que sua espõsa Sara é sua irmã. 6 7 tecostes S. por mais intensos que sejam. lhe evocarão o Deus invencível em bondade. Que santidade é essa? Não estaria assim insinuado que o que hoje se tacha de pecado. conforme os teólogos. a fim de que o Faraó. compadecendo-Vos e perdoando.10-20).

. o mal será primàriamente desobedecer a. sim.. no que diz respeito à consciência humana.A MORALIDADE DO ANflGO TESTAMENTO (1) 119 Qual será. mais condizia com a maneira como o Senhor criou e rege o mundo. O pequenino conhece. a reflexão. atingem a estatura definitiva. à obra de. Não há dúvida. através de um desabrochar mais ou menos lento. poucos deveres. conforme o plano divino. lo O Criador se poderia comparar a um agricultor que costuma lançar sementes na terra. Só aos poucos é que o adolescente vai percebendo as conseqüências concretas do princípio "Faze o bem. pois. lhe indicam como tal. minuciosa. um preceito fundamental: "Faze o bem. e não plantar árvores adultas. Deus quis que se desse com o gênero humano inteiro algo de semelhante ao que se verifica com tôda criança: nos. R. Haja vista a criança: a sua consciência é assaz rudimentar. indica. 1947).. Todavia em que consiste exatamente o bem a praticar e o mal a evitar. quanto ao fundo. êle não o sabe dizer com muita clareza. para êle. porém. Conseqüentemente também os membros do povo de Deus. os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida.. preferiu. evita o mal". poucas são as conclusões práticas que êle deduz daquele mandamento básico.' a compreender melhor as exigências do princípio "Faze o bem. de geração em geração. E dois seriam. energias e qualidades. de resto. verifica que o Criador costuma dar existência a cada ser mediante um processo de desenvolvimento paulatino: na natureza os corpos vivos se originam em estado embrionário e. obedecer a tudo que vissem ser da Vontadedé Deus. primórdios da história. apesar da sua sublime vocação. Histoire d'Abraham (Paris. possuíam. Percebiam bem que é preciso absolutamente "fazer o bem e evitar o mal". mas a maioria das aplicações concretas dêste princípio escapavam à sua percepção. e poucas restrições impõe. assim o bem. uma consciência moral ainda embrionária. que o Criador se dignou tornar portadores da verdadeira fé. carregadas de frutos. a qual levaria os homens. Deus lhes poderia ter revelado imediatamente tudo que a lei natural hoje nos incute. a qual através dos séculos se foi tornando mais apurada. sem dúvida. os fatôres que haviam de fomentar ésse desabrochar: de um lado. evita o mal". Maritain. suposta a elevação do homem a um fim sobrenatural. êsse autêntico modo de ver? Quem observa as obras de Deus. um lento desabrochar que. vem a ser primàriamente o que os mais velhos. nêles contidas só aos poucos se desdobram. De outro lado. também a Revelação divina os ajudaria a perceber a via para atingirem a perfeição (a Revelação era absolutamente necessária. 10 Ora o que se dá na ordem física. evita o mal". Pois bem. êstes. se verifica igualmente na ordem moral. AS idéias desenvolvidas neste itern 3 se devem.

Assim fazia que o povo se fôsse elevando espiritualmente. Ora na Biblia o Espirito santo é tal mestre. ou seja. sem intervir por meio de milagres. II A seguinte comparação.. Não quis romper os laços do povo com o seu passado. a história bíblica. 17 (1955). se desembaraçassem lentamente de tradições pouco exatas. observando que o Pedagogo Divino não quis apagar O cabedal de idéias religiosas que Israel possuia por ocasião da Aliança no Sinal. embora fôssem pouco exatas. coma Eu vos amei.. é muito importante frizar que uma consciência moral ora mais. às práticas antigas não politeístas. como a tinham os homens do Antigo Testamento.. Weisengoff. de inteligência obscurecida e vontade Inclinada ao mal. esforça-se por descobrir as idéias estranhas e tôlas que êste possui.12. pois não estava à altura do culto do verdadeiro Deus. tal preghdor. dêstes dois "catalizadores". enfim pela mentalidade que podiam ter os homens após o pecado de Adão. ora menos embrionária. Deus. vem oportunamente ilustrar a doutrina: "Quando um professor quer influenciar a mente do seu discípulo. o Mestre divino apenas quis insuflar novo espírito. pois. oriunda de ambiente pagão. que o povo vivesse. Era com gente de tal nível cultural e moral que o Senhor havia de tratar continuamente." (30 15. serve-se delas para insinuar aspectos da verdade.. proposta por um autor moderno. à semelhança dos demais povos orientais. P. o Patriarca de Ur da Caldéia para a terra de Canaã.120 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fim que ultrapassa as exigências da natureza)." O autor prossegue. eliminou em térmos severos o que era estritamente politeísta. Deus permitiu que a Teologia e a Moral do Antigo Testamento se desenvolvessem aos poucos. chamou.a caridade. Não há dúvida.) 11 Dito isto. 343. permitiu. não é incompatível com santidade. em grande parte por causa das conseqüências do pecado original que obscureciam a inteligência e debilitavan a vontade do homem. comunicando nobres idéias e aspirações aos israelitas mediante as instituições herdadas dos antenatos caldeus. J. em parte.. C. "Inerrancy of the Old Testament in rellgious Matters". mas o Legislador não quis cortar bruscamente tôdas essas tradições (isto seria antipedagógico). que significa a plenitude ou a consumação do processo. a consciência do povo de Deus foi percorrendo o longo caminho pie vai da moralidade simples dos Patriarcas do Antigo Testamento à lei de Cristo no Evangelho . crescessem por ação da Providência Divina e de revelações especiais. pois. onde se estabeleceu a nação abraamítica ou israelita. em Tire Catholic Biblical Qztarterly. quanto às outras observâncias. elevá-lo. tomando o israelita como era. Começou (o seu ensinamento) utilizando os conceitos que Israel possuia. aperfeiçoou-os gradativamente a fim de levar o povo a poder receber a Revelação cristã. É claro que essa gente. o percurso foi lento e árduo. Sob a influência. até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho: "Êste é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros. êsse patrimônio primitivo de tradições e crenças. Tendo-as percebido. vocação de Abraão. houve por bem escolher Abraão e sua posteridade para constituírem o povo messiânico.. o Criador havia de poil-lo. recebera como herança de seus antepassados muitas tradições e costumes inspirados por mentalidade rude e supersticiosa. desejando preservar a verdadeira fé e a esperança messiânica no mundo idólatra. pois. Mais precisamente: a história do povo de Deus. dotados de consciência primitiva. preferiu ir contemporizando. Deus serviu-se das concepções de Israel como de um ponto de partida. começa com a. e elevada santidade. .

13 Note-se o caso de Abraão. disto se arrependeram sinceramente.). 12 Tais homens davam a Deus tudo. é mais exigente. nada que lhe pareÇa contradizer à Vontade de Deus.1-18). não deixavam de nutrir prontidão absoluta para cumprir o que Deus lhes pedisse. Ora os grandes vultos da história sagrada.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 121 E como não é incompatível? Em qualquer época da história. 116s. . o caso de Davi. porém. entre outros. que sabiam dever dar-Lhe. como dá a entender o texto bíblico. A luz destas idéias. Tais varões. atingiu o pleno desenvolvimento. podiam seguir seus costumes primitivos. à qual Deus o chamava (cf. era pouco em comparação com o padrão moral que hoje nos é proposto. que não hesitou em deixar sua terra e sua parentela para ir a região desconhecida. por conseguinte. se esforçavam por não transgredir as poucas normas que o Seu senso moral lhes incutia e. mas pelo ânimo interior com que se entregavam ao pouco ou muito que percebiam ser da Vontade de Deus (e êste ânimo interior ainda hoje é digno de ser imitado por qualquer cristão: assim a fé de Abraão. Gén 22. Há. morreram em santa paz com o senhor. imperfeita: uma.1-4). seria ilicito. não atrai a consciência cristã). numa palavra. ela hoje proviria de decrepitude ou degenerescência culpável. por vêzes. 12 Tal é. o primitivo ascendente (certos atos práticados no Antigo Testamento) e o primitivo decadente (os mesmos atos. vemos que é preciso distinguir dois tipos de moralidade primitiva. Tal é também o de Moisés e Aarão: embora por seu zêlo religioso. o zêlo de Elias pela causa de Javé. repetir o que era praticado pelos justos do Antigo Testamento. desde que o indivíduo em nada contradiga à sua consciência. muito tenham agradado a Deus. mas não sempre foi percebido como tal pelos homens. quando por debilidade da natureza as violaram. etc. foram certa vez incrédulos (cf. Na medida em que a consciência não os repreendesse. esfôrço notável para êles. quando o Senhor lhe pediu oferecesse seu filho em sacrifício (e!. Gên 12. Ao passo que outrora a imperfeição da moralidade provinha do estado infantil da consciência humana. são modelos de santidade. Núm 215-12) não obstante. já que a consciência iluminada por Cristo tem muito mais clara intuição do bem e do mal. Não há dúvida. o que hoje é pecado contra a lei natural sempre foi hediondo aos olhos de Deus (o mal não depende de mera convenção humana). Também não vacilou. Outra é a moralidade imperfeita do homem que teve conhecimento do Evangelho: para êste individuo. a inocência consiste em que o homem nada faça contra a sua consciência. já que a sua consciência moral só aos poucos. o fervor da oração de Davi. mencionado à pág. através de séculos. a do homem nos primórdios da história. não há dúvida. 13 Ora era esta incondicional adesão ao Senhor que os tornava justos. é compatível com elevada santidade. caso sejam reproduzidos por quem de algum modo conheceu a Cristo). acarretava. não pelo aspecto exterior de sua vida (êste. êste "tudo". fazendo-o.

quis dar-lhe o espírito de amor. em lugar da lei e do espírito de temor. exigências muito mais íntimas e delicadas que as do patrão em relação ao servo. pois "servir a Deus.122 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em conclusão: Deus houve por bem fazer do homem seu filho. é reinar" O significado destas considerações se patenteará ainda meilior no capítulo seguinte. . 14 CL Missal Romano. a consciência lhe pede mais do que pedia outrora. que precederam a vinda de Cristo. em vez de o deixar na qualidade de servq. em relação ao filho. a fim de que se mantenha à altura do seu destino sobrenatural. o que quer dizer: o homem se aperfeiçoou. Feliz todo aquêle que se sujeita a tais imperativos. servir à lei de Cristo. por conseguinte. foi dignificado. Noblesse exige. que analisará alguns pontos particulares da moralidade do Antigo Testamento. chamando-o ao consórcio íntimo da vida e da felicidade divinas. Ora está claro que um pai tem. 'Posteomunhão da Missa Pela Paz".

1 2 Talio. o código legislativo de Moisés mandava que o dano causado ao próximo fôsse reparado pela imposição de semeiliante prejuízo ao delinquente. pé por pé. t 21." 2 Tal norma inegàvelmente visava instaurar justiça.21. sem dúvida. tallonis. Há. em exigir do culpado o mesmo objeto materialmente entendido.12-14. contusão por contusão. queimadura por queimadura. § 1. tal. é substantivo latino derivado do adjetivo tahs. Dt 19. Todavia esta forma de reparação. maneiras diversas de executar êste princípio: o modo mais simples consiste.11-21. porém. mitigar o rigor da pena a ser imposta. o efeito que todo processo judiciário tem em vista: restabelecer o mais exatamente possível a ordem violada. incutindo um desagravo equivalente ao agravo. aliás. Trechos semelhantes ocorrem em Lev 24. É esta a famosa lei do talião. não raro pode ferir a eqüidade. por conseguinte. não dando suficiente aten• Lx 21. É êste. dente por dente. ôlho por ôlho. 1 •que assim se formulava "Darás vida por vida.CA1'i'ruLo VIII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) OS DESMANDOS DA CRIANÇA Não se chegaria a satisfatório entendimento do Antigo Testamento se não se considerassem de per si os principais temas de "escândalo" moral que êle apresenta. mão por mão. embora pareça por excelência garantir a justiça.° A LEI DO TALIÃO Como se sabe. A lei do talião muito aproxima o homem do autômato.23-25. da máquina. ferimento por ferimento. É o que se fará no presente capítulo. e justiça perfeita. a lei do taliâo não leva em conta as cir•cuhstâncias particulares de cada delito. . com efeito. circunstâncias capazes de atenuar a culpabilidade do delinqUente e.

mas incluam também uma pena de índole moral. era freio mais eficaz do que motivos de ordem moral. Já antes de receberem a lei teocrática. eram aptos a reprimir pretensões exageradas da pessoa que tendesse a explorar a sua situação de vítima. Além disto. Assim o código babilônico dito do rei Hamurapi (depois de 1700 a.) "Membro quebrado por membro quebrado.) "Boi por boi. da cultura. lii cum eo pactt. os antigos pagãos foram percebendo o grau imperfeito da retribuição pelo talião. Com o progresso. se a casa cai sôbre o filho do proprietário. como reza a Lei Romana das XII Tábuas: talio esto. de 559)." (Cf. Se assim é. ao promulgar a Magna Carta de Israel.1 Normas análogas encontram-se na legislação de Atenas promulgada por Solon (f ca.Sofra o talião aquêle que tiver fraturado um membro (alheio). 230. em meio a nações para quem tal praxe era de todo normal. 197. admitiam que o criminoso págasse indenização monetária. não se explicaria uso tão generalizado). que deve ser julgado primàriamente conforme a sua consciência. para indivíduos rudes.) "Morte ao filho do arquiteto. dispensando de muitas ponderações. que são coisa f amiliar ao homem culto. art. prescrevia: "Olho vazado por ôlho vazado." (Cf. E por que eram tão comuns êsses princípios ? A sua difusão se explica por corresponderem bem ao grau de civilização primitiva do homem antigo. bem anterior à Lei mosaica (1240 a. Por êstes títulos se vê que o talião era oportuno entre os povos primitivos (se não o fôsse realmente." (Art. o Senhor se dignou respeitar a por exemplo. pergunta-se: como pôde a lei do talião entrar no código legislativo do povo de Deus? Antes do mais. 200. os filhos de Israel praticavam o talião. pena que afete o homem diretamente na sua qualidade de ser inteligente.)." (Art. 196.).C. impunham fàcilmente temor. 229. Simplificavam a aplicação da justiça. assim como no Direito Romano.) "Dente espedaçado por dente espedaçado." (Axt. Ademais. Pois bem." (Art. a natureza espiritual e material do homem exige que as sanções infligidas a êste não sejam de ordem meramente material. carneiro por carneiro. Além do mais. Ora a todo êste processo de evolução o próprio Deus se quis acomodar na educação do seu povo. . "Si membrum rupit.C. Conseqüentemente. porém. o que. art. a menos que haja (outro) entendimento. 2633 "Morte ao arquiteto de uma casa que desmorone sôbre o proprietário. caso nisto consentisse a vítima. . considere-se que tal maneira de punir era de uso mais ou menos geral entre os povos do antigo Oriente. mostrando de antemão a pena do delinqüente.124 PARA ENTENDER O AN'rrno TESTAMENTO ção à dignidade espiritual do réu." 3 Eis.

assim como a vitória significaria triunfo da Divindade. uma derrota militar seria escárnio para os deuses da nação vencida. a cada um será aplicada a medida que êle tiver aplicado ao pró-. Mt 7. mesmo de mulheres e crianças.. o talião podia ser substituído pela indenização pecuniária.) . Mt 5. hão de ser avaliadas segundo o grau de responsabilidade moral do delinqUente.5.. 5 As palavras de Jesus acima citadas de modo nenhum implicam que a justiça cristã não seja lícito aplicar penas aos réus comprovados. Dado. 4 Por fim. 5 Não teriam sido." (Cf. de modo geral.) "Quem não julga. a honra dos seus deuses estava em jôgo. Ci. aos deuses do vencedor julgavam que deviam ser religiosamente imo4 É o que atesta.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 125 tradição da sua gente. É muito importante notar que o herém se baseava não sàmente num grau de cultura pouco evoluída. Com a prática do talião estão estreitarnente ligados dois outros usos: o herém (extermínio dos inimigos) e as imprecações. . inteligíveis aos homens do Antigo Testamento. tendem a refrear as paixões do indivíduo e torná-lo cada vez mais semelhante ao Exemplar Divino. por exemplo. Estas. 1. sim.. não.1. derrotados na guerra. sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo. Mt 5.8. felizes se poderiam considerar aquêles que. porém." (Ci.1s. aboliu de todo a prática. será julgado.35). na guerra. 21-25). cada qual será julgado conforme tiver êle mesmo julgado. Por conseguinte. 1 da nossa era "Aquéle que mutilar o próximo padecerá pena idêntica. No Oriente. Mc 4. e autoriza-a a proceder assim. não Unicamente segundo o dano material que o réu haja produzido. obterá misericórdia." (Ant. Babha Quamma 17111. aconselhando mesmo aos discípulos perdoassem gratuitamente a quem os ofendesse (cf. : Eis normas que. ao povo vencedor reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos.37s.3842.. § 2. o historiador judeu flãvio José no séc. o Messias. mas também numa ideologia religiosa para nós estranha: cada povo julgava que. ximo. Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo "Quem pratica a misericórdia. o tratado rabinico Mishna. entre os judeus próximos à era cristã. rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento. fôssem apenas despojados de seus bens e reduzidos à escravidão! Tal praxe era chamada o herém ( anátema). caso tema cometer alguma crueldade. haveria de reformá-la.0 O EXTERMINJO DOS INIMIGOS Muito menos polido que hoje era outrora o direito de guerra. Le 6. porém. a lei lhe reconhece o pleno direito de avaliar a perda sofrida. Com efeito. que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária.24. IV. porém. os historiadores extrabíblicos referem que.7. visando o homem como imagem de Deus. mas aos poucos.

G. aliás. o harém dos orientais. referente á batalha que Me travou vitoriosamente contra Joram. Deve-se mesmo dizer que.57. interditado" ou. era destruida em afirmação da santidade e da justiça de Deus. familiar aos antigos. 8 foi também respeitada •por Deus nas suas relações com Israel. não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus dentre O Herem. nenhuma arma que não tivesse sido quebrada. segundo o testemunho de Tácito: "Vic'torts ctiversam acieni Marti cxc Mercurio sacravere. por um ato de extermínio total. Entre numerosissimos objetos de bronze excavados nas turfeiras da finamarca não se encontrou um só intato. 57 (1950). Is 37. as famílias. podendo servir ulteriormente. 6 o uso. Lev 27. reservado para Deus.. matei tudo: sete mil hômens e crianças e mulheres e donzelas e servas. os cavalos precipitados em desfiladeiros. do povo vencido. na linguagem religiosa. Descobriu-se mesmo uma inscrição de Mesa." 7 Ora tal praxe. significa algo de "separado.. a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida. Esta imolação não era um sacrifício prôpriamente dito. em sua acepção original semítica.. rei de Israel (852-846 a. Havia igualmente um lierém de maldição ou anátema: certa pessoa o coisa. tomei-o. era tão comum que não sõmente os semitas. matando os animais. 7 Annales. os homens. mas até os germanos o praticavam. Miq 4. pois eu os devotara ao anátema em honra de Astar-Camos. determinado objeto era entao oferecido ao serviço de Deus por uma consagração irrevogãvel (cf. cuneta victa occisioni dantur. 2 Crõn 32. .' Fui-me de noite e combati contra éle desde o despontar da aurora até o meio-dia.126 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO lados.4-27: ". subtraído ao uso profano. voto êste em virtude do qual são entregues ao extermínio cavalos. Abel "L'anathême de Jéricho et la maison de Eahab". possuía a verdadeira fé. para um dia transmiti-la ao mundo.Os vencedores devotaram a Marte e Mercúrio o acampamento inimigo. Orósio. 13.28s. apartamento secreto das mulheres. . depois de insigne vitória sóbre o cônsul romano Manilio. esquartejando os prisioneiros. e êle só. Os gauleses queimavam a présa ou atiravam-na nos lagos. A mesma raiz semita deu a palavra liarim. os haveres. o herém se tornava particularmente necessário e imperioso: ôste povo. pois não consistia no oferecimento de algo de agradável a Deus. em suma aniquilando os despojos consideráveis de que se haviam apropriado em Módena." Noticias colhidas no artigo de F.13). batalha mencionada em 4 Es 3. Todavia. o ouro e a prata lançados ao rio..-M. era de sumo interêsse na história sagrada que Israel não corrompesse a sua religião. quo voto equi. Podia haver um herém de santidade. o equipamento dos homens destruido em mil pedaços (cf.11). e apreendi os objetos de Javé e os levei à presença de Camos. a fim de manter incontaminada a crença de Israel.C.16). inutilizaram tóda a prêsa capturada: as vestes dos inimigos foram rasgadas e atiradas ao vento. por conseguinte.). Eis mais alguns exemplos de prática do herém fora de Israel: Os cimbrios e os teutônios. rei de Moab. viri.14. em Revue biblique.E Gamos me disse: 'Vai. para os hebreus. abominável aos olhos de Deus. as cidades. homens e tudo que pertence aos vencidos. toma Nebo combatendo contra Israel.11.. Os ligúrios fizeram algo de semelhante em 176 a. 4 Es 14. 323s. II istoriarum liber 5. 8 A própria sagrada Escritura dá testemunho de quanto ésse uso era frequente entre os pagãos (ef. quebrando contra as muralhas vasos de diversos tipos.

que não podia ficar exposto a risco nenhum). em última análise. não recuando diante da violência mesmo sangrenta. ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra." (M 20. 9 Assim os madianitas induziram Israel à luxúria e à idolatria durante a travessia do deserto (cf. Núm 25. fazia que a sorte dêsse povo viesse a ser nada menos que a do reino de Deus em meio ao reino do êrro e do pecado. 34-38 e o quadro da história dos Juizes em . O fato de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo inteiramente idólatra. a e*periência mais de uma vez comprovou que. Dentro da ideologia do Antigo Testamento. é o mentor da vida dos pagãos . portanto.Satanás. 7.2-4.1s. Procuremos explicitar melhor o que a concepção acima exposta acarretava para os homens do Antigo Testamento. permitia. a fim de se precaverem danos religiosos (repita-se: a fidelidade dos filhos. Deus. os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do reino de Deus. no paganismo cananeu o mais grave perigo ao qual estava exposta esta salvação. inversamente. não sem razão.23s. Clamer. eis como o legislador sagrado incutia o herém a Israel: "Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus te há de dar como herança. não deixava de sofrer a Influência do ambiente. na história.16) 'os cananeus não exterminados contaminaram freqüentemente o povo de Deus por ocasião da ocupação da Terra Santa (cf. podia-se com tôda a razão dizer que o reino das trevas triunfava sôbre o reino da luz cada vez que Israel sucumbia na guerra. de Abraáo ao verdadeiro Deus era.) 2. 1946). Entregarás êsses povos ao anátema: os heteus. Em outros têrmos: já que o Senhor decretara realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel. um valor insubstituível. 10 Muito á propósito vêm as observações de A. 31. 10 Apoiando-se nestas idéias. tendo confiado a Moisés a chefia do seu povo. 563: "Moisés. a fim de que não vos ensSem a imitar tódas as abominações que êles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus. os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas. os heveus e os jebuseus.. os triunfos dos pagãos seriam triunfos daquele que.16-18. nelas não deixarás a vida a indivíduo nenhum que respire.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 127 os demais povos. U (Paris. nessas ocasioes o Príncipe dêste mundo parecia pôr em perigo a causa messiânica. La Saiste Bible. não hesitava em recorrer às leis de guerra vigentes outrora e assim exterminar os cananeus e os outros habitantes da terra." . de sorte que em vários pontos êle seguia o modo de ver do seu tempo. " Em conseqüência. cf. embora tivesse de Deus e da religião conceitos muito superiores aos de seus contemporâneos. Si 105. povo de Javé. como o Senhor teu Deus te mandou.. era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém e o sancionasse. fomenta a idolatria. os ferezeus. a fim de conjurar o dito perigo. tal procedimento. os amorreus.Jz 2.10-19). quando a sua obra de chefe do povo estivesse em jõgo ou desde que se tratasse de assegurar a salvação de Israel. os cananeus. Já que êle via.

portanto. estritamente religiosa .15. 1 5am 21. teu acampamento. proveniente da prêsa dos inimigos de Javé. exclamava Moisés: "Levantai-vos. conforme 1 5am 15.35. dizendo: "Eis um presente para vós.14. de se aproveitar dos bens alheios). a mentalidade. 11 Assim.) Conforme 1 5am 30. O guerreiro era um homem santificado. 120.128. consagrado ao serviço de Deus "O Senhor teu Deus caminha em meio do teu acampamento. o povo eleito passou a ser perseguido.26.21-33 e 2. porém. primeiro ministro do rei da Pérsia. Jos 10. se originou do fato de que Mardoqueu. segundo um modo de falar típico dos israelitas. 2 5am 11. que as animava em Israel.meramente politica em aparência. no fundo. do que a nossa. puniria os próprios judeus.11-23). e de fato se libertou. pág. era de todo própriã (monoteísta). Jos 10. e que os'vossos inimigos sejam dispersos! Fujam diante da vossa face aquêles que vos odeiam !" (Núm 10. Éx 17. 11 que as suas guerras ieram "as guerras de Javé" (cf. deve ser santo. quDeus mesmo inculca o herém (e!. Jz 1. Senhor.16-30. o que LIe faz por causas segundas ou instrumentos e o que Êle apenas permite. As observâncias podem ter sido comuns a muitas nações.6. homenagem que tinha significado religioso.16) ou que "Javé combatia em favor de Israel" (cf. assim como uma linguàgem muito menos matizada ou filosófica. 13 Foi o que o senhor fêz rejeitando o rei Saul. cf. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a salvação do gênero humano. .que a chama javista de Israel se procurou libertar. Núm 31-19-24. 13 O conceito de que as guerras de Israel eram ato religioso explica outrossim as prescrições de pureza impostas aos guerreiros hebreus: era excluído do acampamento militar todo homem que tivesse tido relações conjugais ou contraído imundície legal por ãcidente ou por toque de cadáveres. "de volta a Siccleg. porém. cf.42).) Verdade é que outros povos antigos guardavam semelhantes normas de pureza na guerra. Ora foi dessa opressão . caso êste não fôsse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham. os hagiógrafos attibuem diretamente a Javê os têrmos com que os chefes Israelitas promulgavam a lei do herém segundo o costume vigente entre os antigos povos. em conseqüência disto. para te proteger e entregar diante de ti os teus inimigos." 12 Os israelitas tinham uma concepção do universo e da história estritamente religiosa. ao caminhar com a arca do Senhor e o povo pelo deserto. Eis igualmente por que se afirmava. entregando freqüentemente os israelitas à opressão dos inimigos no tempo dos Juizes (cf.11. Por isto não costumavam distinguir entre o que Deus faz diretamente. A consciência de que os feitos belicosos de Israel eram obra religiosa aparece claramente no livro de Ester: o conflito entre judeus e persas que êste opúsculo descreve. seus amigos. Eis por quesos hebreus diziam que os inimigos de Israel eram os inimigos de Javé e vice-versa.40) 12 e. se recusou a prestar homenagem (fazer genuflexão) a Amã. Em conseqüência." (Dt 23. Davi enviou parte da prêsa (dos amalecitas) aos anclãos de Judá. israelita. a fim de que Êle não encontre em ti algo de indigno e se afaste de ti.

A MORALIDADE DO ANTIGO TEStJCMENTO

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3. Ulterior obsertaão Cimpõe: embora a legislação de Is rael reconhecesse o herém, ela o abrandava assaz, em confronto do que faziam os outros povos. 14 Msim, tolerando o herém, mas um herém mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento. 15 Eis alguns testemunhos: o Deuteronômio muito insiste na humarlização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que, fia campanha dê conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não-cananéia, o povo eleito procure reduzir as seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversária obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças; 1 a mulher não-cananéia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como espôsa de um israelita, que a trataria com todo o carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (cf. Dt 21,10-14). Dois episódios da história sagrada, um do período dos Juizes (cf. Jz 21,13) e o outro do reinado de Davi (cf. 2 Sam 20,14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra
14 Os monumentos e os textos assirios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedãneos para os pés dos monarcas, etc. (ci. também Heródoto, IV, 150). Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram o ventre de mulheres israelitas grávidas (ci. Am 1,13; Os 14,1). O mesmo profeta descreve e condena as atrocidades praticadas em guerra pelos sinos, os filisteus, os tinos, os edomitas, os amonitas, os moabitas (Am 1,3-2,3). Eliseu prediz que os sinos hão de esmagar as cniancinhas e violar o ventre das mulheres grávidas de Israel (cf. 4 Rs 8,12). sabe-se outrcssim, por 4 Rs 25,7, que os babilônios estrangularam os filhos de Sedecias, rei de .Judá, ao passo que a éste Nabucodonosor mandou crivar os olhos, prender com duas correntes e deportar para a Babilônia (ci. Na 3,10). Semelhantes costumes bélicos vigentes entre os persas são atestados por Is 13,16-18. Os motivos que levavam os pagãos a praticar o herém provinham de urna religiosidade muito menos elevada que a israelita. Não raro pressupunham que os deuses se compraziam no exterminio dos homens como tal: Mesa, por exemplo, rei pagão de Moab, numa famosa inscniçáo (cf. nota 7 dêste capitulo), afirma que, após a conquista da cidade de Cariataim, fêz perecer tôda a população que ai se encontrava, a fim de oferecer um espetáculo agradável a Camós, deus de Moab (linhas lis). 15 Aliás, o simples fato de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis teocráticas, devia concorrer para coibir a eventual tendência dos chefes de Israel aos abusos, à violência irrefreada. 16 Ci. Dt 20,10-18. O modo de tratar as cidades cananéias seria outro, pois, estando localizadas na terra mesma que Israel devia habitar, a coexistência de cananeus pagãos com os israelitas fiéis oferecia grave perigo de contaminação pagã. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do herém ao vencer os cananeus, como inculca Dt 7,2-5; 20,15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel õ preceito do herém era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que êle fôra sancionado paS o povo hebreu.

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PARA ENTÊNDER O AlTIG0 TESTAMENTO

morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entraram èm acôrdo com inimigos não-cananeus. Houve também varões dopovo de Deus que espontâneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exempio: conforme 2 5am 8,2, Davi, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar apenas a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte ... ! É o que explica que, em 3 Rs 20,31, os sírios reconheçam a demência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Benhadad, vencido por Acab:
"Ouvimos que os reis da casa de Israel são reis dementes. Permite que nos revistamos de sacos sôbre os rins e cordas sôbre as cabeças, 17 e que vamos ter com o rei de Israel; talvez te poupe a vida."

4. Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do herém, por vêzes se deixavam levar não pelo zêlo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jeú: êste General foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a casa de Acab, rei iníquo seu antecessor (cf. 4 Rs 9,2-10); Jeú o fêz realmente, mas, embora intencionasse zelar pelos interêsses de Javé, cedeu a crueldade horrorosa (cf. 4 Rs 10,1-17) ... Ora o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oséias (cf. Os 1,4s). Êste episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.
Também Davi parece ter-se deixado arrastar a excessos no episódio relatado em 1 5am 27,8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca de Israel se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benévolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenara ao anátema (ci. 1 5am 15,3) ; os gessurianos e os gezrianos, que eram provàvelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquis e, temendo contrõle ou represálias da parte dêste, dizia-lhe ter feito expedições nas regiões do Negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e a seus aliados. Tais depredações procediam realmente de zélo religioso ? E a mentira subseqüente que as encobria, poderia ser justificada? De resto, a Sagrada Escritura fornece indicio de que os freqüentes derramamentos de sangue por Davi cometidos não sempte corresponderam ao plano divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o templo de Javé em Jerusalém, recebu do Senhor formal recusa, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o templo, santuário da paz, fôsse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (cf. 1 Crõn 22,8-10; 28,3).
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Indumentária de penitência

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• 5. Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia fôsse o herêm praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Dt 13,13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fratricida contra a tribo de Benjamim (Jz 20,1-48; 21,1-14). A medida, porém, que se ia elevando o nível cultural e.moral de Israel, abrandava-se a praxe do herém entre conacionais; assim na época de Esdras (séc. V/IV), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e a sua exclusão das assembléias do povo (Esdr 10,8). 6. Ainda outro elemento deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas •do Antigo Testamento: é a nzentalida4e do clã ou coletivista. Entre os antigos de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não sàmente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isto se explica, em grande parte, pelo gênerode vida nômade que levavam os primitivos. Com efeito, os nómades vivem da grei, dos rebanhos que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter gregário ou coletivista à vida do clã, fazendo que o indivíduo como ta desapareça na engrenagem do todo. Ademais na vida nômade é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vêzes na antiguidade que os fatôres da história não são "êste" e "aquêle indivíduo", mas "êste" e "aquêle clã". IS Ora êste modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeito, todo o grupo respectivo se julgava atingido; por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a coletividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os freqüentes choques de tribo contra tribo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também êsse o motivo por que muitas vêzes os filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por
18 Manifestações de tal mentalidade encontram-se não sõmente entre os semitas, mas também entre os gregos antigos: assim a totalidade dos troianos teve que pagar pelo malefício de Paris; creso expiou o morticínio cometido por Gigés, seu antepassado em quinto grau; Eurlpides declarou que "os deuses fazem redundar contra os descendentes os passos falsos dados pelos antenatos". A mesma lei da solidariedade, a mentalidade do clã, é vigente ainda hoj e em tribos orientais nómades. Cf. E. sellin, "Das sub jekt der altisraelitischen Religion", em Neue kirchlic/te Zeztschrift, 4 (1893), 444; J. De Fraine, "Individu et société dans la religion de l'Anclen Testament", em Biblíca, 33 (1952), 451s.

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PARA ENtÊÏ,tDERt Õ ANTIGO TESTAMENTO

um legislador condenados à maldil&' 'Nhistória'üagfada apíesenta disto um exemplo assaz significativo em 1 5am 15,1-3: Samuel manda a Saul e±tern'iiie os amalecitas - homens, mulheres, crianças - e todo o seu gado, porque em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia já mais de dois séculos, se tinham oposto à'passagem do povo de Deus (cf. Éx 17,8-13; Núm 14,45; Jz 3,13; 6,3); Moisés, em conseqüência, os tinha condenado a completo extermínio (cf. Dt 25,17-19; Núm 24,20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos! 20 Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também êsse modo de ver imperfeito. Acontecia no séc. VI que os judeus, punidos por guerras e deportações, se queixavam de que seus pais haviam comido uvas amargas e os dentes dos filhos sofriam em conseqüência (e!. Ez 18,2; Jer 31,29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipôcritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou expl'icitamente negar a veracidade do pressuposto: "Eis que têdas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha; a alma que pecar, essa morrerá."
(Ez 18,4; cf. Jer 31,30.)

Assim mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional...
§
3,0

AS IMPRECAÇÜES

Ocorrem no Antigo Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja o mal àqueles que o angustiam. São frases que, à primeira leitura, parecem aptas a ofender a consciência do cristão e pedem um esclarecimento exegético. Dentre essas fórmulas, não se negará que algumas sejam expressão da paixão desregrada; acham-se simplesmente citadas ou consignadas, como ditos alheios, pelo hagiógrafo, não, porém,
10 "Derramar o sangue de um membro da família é derramar o sangue do grupo, é atingir o corpo orgânico. Isto vale até em caso de suicídio e de abôrto; mas vale principalmente em caso de morticjnio... Tudo é comum: a injúria, o prejuizo, o dever e até o sangue; ainda em nosos tempos, em caso de homieldio, os árabes dizem: Nosso sangue foi derramado." J. De Fraine, art. cit., 456. "Cada grupo entre os semitas constitui um só vivente, como uma única massa animada, formada de carne e osso, da qual parte nenhuma pode ser tnincada sem que todos os membros sofram com isto." R. Smith, Retigion of Mie Semitios, 274, citado por A. Leds, La croyance à la vie fature et te culto des morta dans l'antiqulté israélite, II (Paris, 1906), 274. 20 De resto, o decálogo mesmo foi formulado em têrmos adaptados a essa mentalidade coletivista. Eis como se encerra o primeiro mandamento: 'Sou o Senhor vosso Deus,,., castigo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até a milésima geração áqueles que me amam e observam meus mandamentos." (Êx 20,5s.)

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aprovadas nem propostas peio Espírito Santo qual modêlo de sentimentos do homem de Deus. O contexto indica quais sejam tais imprecações pecaminosas (cf., por exemplo, 1 8am 22,16; Si 39,16; 40,6-10). Muitas, porém, das imprecacões do Antigo Testamento, mormente do saltério, não são de modo nenhum condenáveis; têm significado bom, até hoje válido. Para entendê-las, será preciso considerar que procedem de um ânimo intimamente unido a Deus,.., por mais estranho que ]sto pareça. Em verdade, os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, não o costumavam fazer a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas advogavam os interêsses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou impilcitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser os adversários do próprio Deus. 21 Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos têrmos com que os antigos orientais, dotados de ânimo férvido, costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a tôda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína. Isto mais ainda se compreende se se leva em conta que os hagiógrafos não costumavam fazer distinção explícita entre a pessoa que praticava o mal, e o mal por ela cometido; já que, na realidade cotidiana, a injúria se nos depara geralmente associada a determinado indivíduo que lhe dá origem, o autor sagrado, desejando a extinção das injúrias. (o que em si é coisa ótima), envolvia na sua fórmula imprecatória a pessoa mesma injuriante (o que não quer dizer que desejasse mal a esta como tal). É dessa situação psicológica que resulta o modo de falar surpreendente das imprecações bíblicas. Quanto aos têrmos com que se acham formuladas, convém frisar que pertencem ao vocabulário oriental, tendente às hipérboles e à ênfase. São muitas vêzes tirados diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de outrora. É o que dá tanta
o que claramente transparece dos seguintes textos: "A sombra das tuas asas agasalha-me contra os pecadores que me fazem violência, Contra os inimigos que, sedentos, me rodeiam." (SI 16,8s.) Sejam confundidos e corem de vergonha os que procuram arrebatar-me a vida! Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te procuram !" (51 39,15.17.) "Ouvir-me-á e os humilhará Deus, que tem um trono eterno, Pois não há nêles conversão, e não temem a Deus." (51 54,19s.) 'Não entrarão em si, porventura, os que cometem iniqüidade, Os que devoram o meu povo assim como engolem pão, Os que não invocam a Deus?" (SI 53,5.)
21 É

apresentado como figura da união de Deus .. o matrimônio . DIVÓRCIO E INCESTO a) poligamia. Deus será testemunha entre mim e ti. transportar-se-á. Não há dúvida. a mim e a ti. em suma. derrogar ao amor dos homens.) .134 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vivacidade . chamado "aliança de Deus" (Prov 2.° POLIGAMIA.e. a quem dera as duas filhas por espõsas: "Que o Senhor nos observe.. ) que. se esforçam por disseminar o êrro e o pecado no mundo! E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios. tôdas as potências.14). tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo. será preciso descontar o que tais fórmulas possam ter de hiperbólico e convencional.39. protestantismo.. não contra os maus. subtraindo-o ao plano de simples função da natureza para lhe dar valor religioso (cf. Mal 2. aliança "da qual o Senhor é testemunha" (cf.. Por ido. Para o cristão. O matrimônio.dir-se-ia mesmo: crueldad& 19 . são as tendências desregradas da própria natureza humana. êle pode.49s. orar pelos que o perseguem" (cf. entendê-las-á como fórmulas dirigidas contra os males e o Mal. mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo. nos salmos imprecatórios) a expressão do desejo de que justiça seja feita. quando nos tivermos separado Se maltratares minhas filhas e tomares outras mulheres ao lado de minhas f 1lhas . o contrãto entre marido e espôsa é. 2. devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás. o Criador mesmo o instituiu e abençoou.que faz 22 Muito significativas são também as palavras que Labã proferiu quando se despediu de seu genro . em parte são tudo que há de mal disseminado em tôrno de nós.28. reze os salmos imprecatórios." (Gên 32. Gên 1.44). é união monogâmica.17). ocultamente movidas por Satanás. § 4. note-se bem. 22 Visto ser "aliança de Deus". quando pela primeira vez aparece na história sagrada. deve desejar a extirpação completa dêste potentado e dos seus baluar tes. baluartes que. principalmente nos escritos dos Profetas. Mt 5. o discípulo de Jesus tem por lei "amar os inimigos. À luz destas considerações. espiritismo . nos livros posteriores da Sagrada Escritura. o matrimônio monogâmico .23s). os abusos coibidos. Que o cristão. às frases impreôató rias.. em parte. do íntimo do coração. o leitor da Bíblia verá nas imprecações (em particular. seitas (comunismo maçonaria. para um plano todo impessoal.. pois. e deve.. Sem.é. pois. porém. Para se perceber a verdadeira mente do autor sagrado.Jaeó.

caracterizada pela corrução (o que já por si toma suspeita a novidade dos matrimônios de Lameque). mas distintamente às duas partes em que o reino de Salomão se havia cindido. Jer 2. teve duas espôsas (1 Sam 1. Gên 12) em diante. A exceção se explica pelo fato de que o hagiógrafo queria aludir não ao povo de Deus como tal. Lev 18. 24 A praxe da poligamia foi finalmente reconhecida pela Lei mosaica em 1240 (cf. 2 Sam 3. O primeiro caso de bigamia que a Sagrada Escritura registra.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 135 as vêzes de Espôso . 62. Mulheres de Lameque.27). Caim será vingado sete vêzes. porém.13.23s.25. 249. o justo salvo das águas (Gên 6-9). E um jovem em compensação de uma contusão.) Quando. Gên 6.15. n.3. O rei Davi tinha um harém numeroso (1 Sam 18. para que a metáfora correspondesse à realidade (cf.1-49 e Jer 36-13. De Abraão (ca. A legislação 23 Observa-se que.27.2. são monogâmicos.5). POVO .1).18). Ora.14). fiéis a Deus (Gên 5.1s). cf. têm freqüentemente (dir-se-ia: normalmente) mais de uma espôsa. a bigamia é introduzida na Escritura.19) Éste é o sexto membro da linhagem de Caim. 5. o autor sagrado lhe atribui uma nota pejorativa. 3. 3. porém.2).1-32). ticaná. Ao matrimônio bigamo assim descrito não se pode atribuir valor de nodêlo. Famoso foi o harém de Salomão (3 Rs 11.17.1-13). e concubinas (Gên 25. Precisamente o que caracteriza a corrução antes do dilúvio é o irrefreado comércio matrimonial." (Gên 4. Lameque.39-43. ouvi minha voz. A linhagem dos setitas. escutai minha palavra: Matei um homem em troca de um ferimento recebido.° 19). 21. o pai de Samuel.. cada uma das quais o instigou a unir-se com uma escrava (Gên 29. pois.1-4. mesmo piedosos. 2. a escrava (Gên 16. se refere ao contrato de um jovem com uma donzela (Sara). pois frisa a índole sanguinária e vingativa que o Patriarca manifesta em versos às duas espôsas: "Adá e Selá. Esaú teve três mulheres (Gên 36.22). ao lado dela. em Es 23. verifica-se na família de Lameque (cf. setenta e sete vêzes. Lev 18.1.Abraão tinha Sara por espôsa principal (Gên 12. talvez a poligamia (cf. o hagiógrafo indiretamente condena o bígamo. Vejam-se Os 1. Dt 17. 11. o livro de Tobias.C. pág.21s. assim como Noé.6). a figura da espõsa única tinha então que ceder à das duas irmãs esposadas ao mesmo varão.2.que se comporta como espósa.29. . Gên 4. 23 O livro que por excelência apregoa a santidade da vida conjugal.com sçu. havia Agar. Assim: . a imagem que deve indicar a realidade espiritual é a de um matrimônio bigamo: o espôso tem duas espôsas Irmãs. Jacá esposou Lia e Raquel. de mais a mais que a Lei mosaica explicitamente condenava a união de um varão com duas irmãs (ci.2-5. de 1800 a. os homens. referindo o episódio. 25.5. 54. 30.18). 24 Homens retos e homens indignos de Israel foram polígamos. Éste dispositivo da Torá se explica por um ato de tolerância divina.5s. Is 50.

O Código de Hamurapi proibia ao marido tomar uma concubina. inclinadas a seguir tal praxe. . nos quais os cônjuges eram obrigados a se abster do comércio matrimonial. que a espósa apresentava ao marido (art.8. fêz que Jacó se unisse a Balá. era tido como indício de sua riqueza. que o sujeito contrai por uma vontade inclinada ao mal. Dizia Raquel: "Que Balá dê à luz sóbre os meus joelhos. caso a escrava fõsse fecunda: "Se um homem esposar uma mulher e se esta der ao marido uma escrava que procrie filhos. quando Balá gerou Dã. mas também na antiga Caldéia. ou estrangeiras. todavia Moisés. por exemplo. no caso de ser infecunda a espôsa. 27 É verdade que também outres povos conheciam tais restrições ou estados de "impureza". uma escrava. linhagem do Messias). 144-146). o varão hebreu procurasse unir-se a outra. Por Isto. 26 Assim Raquel. já pelo seu âmbito de vida. O Faraó possuía numerosas mulheres. no decorrer dos tempos a poligamia se tomara comum no antigo Oriente. Essas mulheres em maioria ficavam sendo concubinas. sua escrava (Gén 30. doenças).) Com efeito. e que não seria concubina. Distingue-se bem da "impureza moral". a existência legal de unia concubina ou de uma escrava. 25 Os hebreus. a uma mulher livre ou à escrava da sua consorte (a prole da escrava era considerada pertencente à patroa).). e por ela terei tambêni eu uma família !" (Gên 30. por vêzes. sim. agregava o pai de família à.3. a mulher rica recebla de sua família. que prole numerosa era sinal de bênção divina (pois.9 e Os 9.14.) 27 A impureza legal estava baseada em fenômenos fisiológicos (às vêzes. apresentando a serva Zelfa a Jacó (Gén 30.95). filhas de régulos submetidos ao Egito (as quais. Entende-se então que. de seu prestígio. estéril. estados ou fases de "impureza legal" (os períodos de menstruação. a algumas era dada a dignidade de "espósas régias". ao passo que esterilidade equivalia a maldição (cf. 26 A largueza tolerante de que assim dava provas a Lei mosaica erã de certo modo compensada por restrições que a mesma formulava a respeito do uso do matrimônio. exclamou Raquel: "Deus me fêz justiça. caso esse homem. Is 63." (CL Mt 19.) E. sem implicar necessàriamente culpa no indivíduo por ela afetado. A patroa podia ceder o seu lugar à escrava nas relações com o marido. filhas de altos funcionários. Lc 1.6. não se lhe dará autorização para isto e êle não tomará concubina.) Não sômente em Israel. enumerava.25). a principio. que ficaria à sua disposição para o resto da vida. da mesma forma procedeu Lia. porém. os reis da Babilónia tinham nos respectivos haréns mulheres de condições variadas. ouviu a minha voz e me deu um filho. tornando-se então a prole da escrava propriedade da patroa. ao 25 Sabe-se que o número de mulheres que um proprietário oriental possuia. globo as pa1avrasde Jesus: "Foi pI r cauid & dureza do vosso coração que Molsés permitiu. doenças etc. Ademais julgavam encontrar em sua ideologia religiosa um estímulo possante para não se afastar do uso geral: os descendentes de Abraão estimavam. queira tomar uma concubina. O mesmo se dava no Egito.136 PARA ENTENDER' O ANTIGO TESTAMENTO matrimonial de Israel podem-se apiieaPrm. sim. ao lado da espõsa principal.3s). próxima ou remotamente. culpada. uma só era feita "grande espósa" ou rainha. 144. iam ter à cõrte na qualidade de reféns). O código legislativo do rei Hamurapi prevê. por conseguinte. não era assim. eram." (art." (Gên 30. como dote de casamento.

porque sou santo. não implicavam necessàriamente superstição degradante. cedendo o lugar à monogamia inicial (cf. Exigia. Anàlogamente se exprime H. pelo Evangelho. qualquer que tenha sido a origem dos costumes tradicionais promulgados pelo código mosaico. 102. Lesêtre. Sendo expressão da vontade de Deus. quando foram inseridos na legislação de Israel.. Aliás. mas. a poligamia seria removida dos usos do povo de Deus. "Mariage".. porque 'sou santo e não vos tomareis impuros" (Lev 11. é importante notar que os textos bíblicos referentes ao divórcio não o instituem em Israel (como não instituem a poligamia). 1928). supondo-o já em vigor. determinam as formalidades necessárias para o tornar legal e diminuir a sua freqüência. apto a corrigir a dureza de coração da sua gente: deveriam ser observados em virtude de uma aspiração à pureza moral. 763: "A lei mosaica se adaptava aos costumes da época autorizando o divorcio e deixando em vigor a poligamia.4-6)..Sai'nte flible. Eis outro elemento da antiga Lei que causa surprêsa ao cristão: a praxe do divórcio.44).A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO r ) sanciOnfrlas (II) 137 oficialmente para Israel. queria levantar a mente do povo a um ideal que os pagãos estavam longe de conceber. nos periodos mais perigosos da menstruação ou do parto. Referindo-se a êste texto bíblico.. o Legislador hebreu lhes atribuía um significado mais nobre. a mulher era colocada sob a tutela de um interdito religioso. o instinto racional mesmo sabia utilizá-lo para se defender contra os ímpetos do instinto animal." . eis o que o Senhor recomendava após discriminar as impurezas legais.para que o marido a pudesse repudiar 28 La . sim. a Lei mosaica motivo sério . diz o Senhor. êsses usos tradicionais visavam assegurar a santidade do povo de Deus: 'Vós vos santificareis e sereis santos. não será preciso dizer que. b) divórcio. II (Paris. já ninguém mais sabia o seu significado originário. 1946). ou à santidade: "Vós vos santificareis e sereis sant8s. reconhecendo usos comuns dos antigos povos.houvesse "algo de repugnante" na mulher . IV (Paris.44) " 28 Na plenitude dos tempos. que conservavam a idéia e a prática do matrimônio em certo nível moral e contrastavam com a licenciosidade tolerada por outros povos. comenta Clamer: "Tais prescrições (restritivas do matrimônio) . Estas concessões eram contrabalançadas pelos Impedimentos matrimoniais de parentesco e pelas regras severas de pureza legal. interior. o freio religioso sendo quase o único que impusesse resjieito.' (Lev 11. e não vos tomareis impuros. Antes do mais. em Dictionnaire de Ia nuble. Mt 19.

1). . Na plenitude dos tempos. os filhos de Adão e Eva. Também esta cláusula restritiva não figurava no Código de Hamurapi. Logo. a mulher jamais a podia tomar. sim. irrepreensivel. o seu primeiro marido nunca mais a poderia retomar por espôsa (cf. admoestando o marido a que não se separasse sem reflexão prévia. Jer 3. Também êste dispositivo visava restringir os divórcios. e) ulteriores aspectos. a Lei israelita bem dava a entender quão pouco desejável é o divórcio numa sociedade que tenda à perfeição.(Art. entre os árabes. chamada a ser o povo de Deus. Tal exigência não ocorria. Dt 24. o fundo negro sôbre o qual mais havia de sobressair a graça da Redenção. irmão com irmã." (Art. ainda parece oportuno observar: Os indivíduos humanos da primeira geração..1).1-4.) Mais ainda: a legislação israelita permitia. as restrições cederiam à proibição formal (cf. Isto foi por Deus permitido em vista das extraordinárias circunstâncias em que então se achava o gênero humano. eis um entre outros artigos babilônicos: "Se uma espOsa é boa dona de casa. a fraqueza humana nêles se manifestou.) Além disto. como dissemos. a Lei mosaica só ao marido reconhecia a iniciativa do divórcio. ou uma espOsa que lhe tiver procriado filhos.. 137. constituindo. que a mulher repudiada contraísse novas núpcias. no Código de Hamurapi. Dt 24. na história sagrada.3-9). e se o marido sai e muito a negligencia. por exemplo. concubinato e divórcio reconhecidos pela Lei. que se constituíram famílias diversas. pode tomar o seu cheriqton e ir-se para a casa de seu pai. entrou em absoluto vigor o ditame de consciência que proibe o matrimônio entre irmãos. caso haja entrementes vivido com outro homem (condição justamente contrária à legislação mosaica) 1 Por essas diversas restrições. se casasse de novo. Ao lado dos casos de poligamia. Fora de Israel. porém. Por fim. não havia outro meio natural de prover à propagação da espécie. porém. 142. Ole restituirá a essa mulher o seu cheriqton (espécie de dote) . sem dúvida. o qual simplesmente rezava: "Se um homem estiver disposto a repudiar uma concubina que lhe tiver procriado filhos. ou seja. o Corã permite que a mulher repudiada seja de novo recebida pelo marido.138 PARA ENTENDER O ARTIGO TESTAMENTO (cf. caso. se casaram entre si.. por exemplo. onde se lêem diversos motivos para que a mulher repudie o espôso. Mt 19. essa mulher não tem culpa.. episódios que em hipótese alguma poderiam ser justificados. houve.

também "Filho do meu pai".34. êstes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita como os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam. 31 A narrativa. as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado. portanto. concebido de seu pai Lote.. que Deus puniu severamente. 32.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 139 Tais episódios são entre outros: o pecado de Onã (donde o nome do vício "onanismo"). 297. Lev 18.1-11). conforme Gên 19.6-8). Eis como o Pe. quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon. como refere Gên 38. o hagiógrafo pode ter consignado no Em 2 Pdr 2.' Abstração feita da finalidade do pontilhado.26.. para exprimir a animosidade. mas o que se chama uma narrativa etnológica".23. 3 R. Lagrange resume as razões que o levam a adotar esta explicação: "O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio. Jerõnimo dizia dos rabinos do seu tempo. poderia ser também julgado culpa grave. Pois bem.1-25. Ez 25. são inclinados a crer que o trecho refere não uma história real.30-38. S. 29 Os exegetas recentes.20. 30 Dêstes varões éram ditas proceder as duas nações Inimigas ferrenhas de Israel. 31 Os hebreus abominavam o ato incestuoso que atribuiam às filhas de Lote (ci. J. Dt 17. como punição.3-7.s 11. ludibriada. gente com a qual não se podia ter amizade. e gerado os varões a quem teriam impósto os nomes adequados "Êle é do meu pai (Moab).17) o feito das duas filhas de Lote. exprimiria uma "história" imaginada para depreciar amonitas e moabitas. significar "file é do meu pai". o atentado incestuoso dos sodomitas. conforme a etimologia.. Chame. Dt 27. que foi devidamente castigado. os trocadilhos tão artificiosos e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender. Dt 23. 32 La method.e historiqve.1-13. para indicar que não merece fé.6-10. cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que. 29 30 ." 32 A Interpretação assim concebida não é Incompativel com a inspiração do texto sagrado. A Ironia é tão acerba. 207. segundo um têrmo paralelo árâbe. 1953). impuras. a Lei admoestava particularmente o rei contra os abusos' da poligamia (ci. Note-se como por três vêzes é inculcado que as filhas de Lote conceberam de seu pai (vv. Esta insistência se explica bem pela intenção de dar uma interpretação pejorativa aos dois nomes. Jer 48. ter-se-ia formado em Israel uma narrativa fictícia: "Moab" (mé-ab) podia. Com Lagrange concordam Clamer. sim. o cisma do reino dêste monarca (cf.7$ Lote é dito "o justo". o sentido exegético é muito exato: uma sátira não é história. De resto. 29-33). 253. La Sazute Bible. a conduta licenciosa de Salomão. sem contra êles protestar: 'Assinalam o trecho com pontinhos. as duas jovens teriam tido cópula carnal com seu pail Apenas seria de notar que a narrativa faz de Lote uma vitima inconsciente. a quem náo se pode imputar culpa no caso. Ora. relatado em Gên 19. 1 (Paris.36). tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo. haviam Incorrido no ódio e no desprêzo dêstes (cf. Com efeito. 1949). "Amon" (ben-ammi) seria "Filho do meu povo" ou. porém. "Filho do meu pai" (Amon). sem causar maior surprêsa do que os episódios anteriores. que acarretou. Le livre de la Getzése (Paris.

Jacó. e fôra por Deus advertida de que tal luta se prolongaria no decurso de sua vida. dando-lhe a entender que era o filho mais velho Esaú. instigado por sua mãe Rebeca . Coflat.36). Rebeca sentira que colidiam entre si no ventre materno. Jacó . cassiano. 25. por isto. comprou para si os direitos de primogênito (cf. inserindo o episódio de Gên 19.22s).° MENTIRA E FRAUDE A moral cristã ensina que jamais é lícito dar a entender o contrário do que se julga ser verdade. Já ao nascer. cujo3significãdo'era conhecido entré" os judeus. porém. nem foi eidente. e ainda hoje repudiam. em breve repudiaram. Não qüeria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia. Gên 27. 34 "Segurar o calcanhar" é bem o sinal de "suplantar".a todos os cristãos desde o início da nossa era. o caracteriza na história sagrada. saiu do seio materno segurando o calcanhar de seu irmão gêmeo Esaú.30-38. filho de Isaque. Antes da morte de Isaque. por depender de grande pureza de consciência. é autêntico oráculo: . analisar-se-ão abaixo alguns episódios clássicos. Esta designação. Todavia esta norma. não era de todo clara aos homens anteriores a Cristo (nem aos pagãos nem aos israelitas). mesmo tal espécie de mentira. de fato. ItjL 5.140 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO livro do Gênesis tradições populares. Os teõlogos católicos. segundo a etimologia popular hebraica (cf. desde que fôsse proferida com a finalidade de promover o bem (cf. assim conseguiu enganar o pai e usurpar para si a bênção de primogênito. v alguns autores cristãos julgavam licita a mentira formal. . teria todos os direitos de filho mais velho (cf. 34 De resto.29-34). com a intenção de enganar o próximo. a) a fraudulência do Patriarca Jacó. que o precedia e que. a animosidade existente êntre o séu povo e os adversários do seu povo.24-26).de resto. pois.0 Suplantador. Mais tarde. Gên 25. 33 Não é. o autor não fazia senão exprimir. quando ainda gestava os dois gêmeos. Já que uma ou outra dessas histórias se torna. nos térmos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel. Jacó aproveitou-se da fadiga de seu irmão que voltava da caça.17). e. tem um nome que. 25.se apresentou ao pai débil e cego. por vêzes. 17. que o constituía 33 Sabe-se que ainda no séc. em troca de um prato de lentilhas oportunamente oferecido a Esaú. de admirar que na Sagrada Escritura se achem relatados casos de mentira até de homens e mulheres piedosos. sendo que o mais velho acabaria por servir ao mais jovem (cf. motivo de debates.

1. ed. No v. todavia só conseguiu obter o assentimento definitivo de Labã após haver sido explorado por êste. Nos tempos de S. a saber: os cordeiros negros e as cabras malhadas que.1-45). julgavam. tõda a riqueza que Deus tirou de nosso pai. in Heptat.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 141 herdeiro não sàmente dos haveres paternos. nat. . 1.. Migne lat. Como quer que seja. como ainda hoje freqüentemente pensa o nosso povo. segundo S. liber XII. Note-se a ênfase com que o astuto varão. 327s. 10. dizia-se que os espanhóis por meio de tais artifícios sabiam variegar a côrde seus cavalos. a visão désses ramos devia influenciar a formação do embrião.Jerõnimo (séc. luz filhotes malhados. pertence a nós e a nossos filhos. o Patriarca colocava diante de seus olhos varas de salgueiro. optou por Raquel. Deus tirou a vosso pai o gado e o deu a mim (30. é o tipo normal e mais freqüente do gado). 30.7-9). 33 O processo utilizado por Jacó para obter cabras malhadas foi o seguinte: Quando os animais estavam para entrar em cópula. vejam-se os testemunhos de Opiano. O expediente usado por Jacó pode ter sido mera ocasião para que Deus o beneficiasse. possuidora de mais exatos conhecimentos. e não aquêle. em última análise. talvez negue a possibilidade da influência natural de tais fatóres sõbre o processo gener ativo. produzindo prole malhada (d.. Vosso pai burlou-se de mim. Hipõcrates. e dez vézes mudou o meu salário. nas quais fizera incisões a fim de as tornar raiadas ou listradas de branco. Isidoro de Sevilha. Assim Jacó se tornou rico à custa alheia (cf. mas Deus não permitiu que me fizesse mal. Inculca ter sido especialmente auxiliado por Deus: "vejo no rosto de vosso pai (Labã) que Me não me é favorável como antes.. VII. amendoeira. 985. Tendo-se fixado em casa de seu tio Labã. "Liber hebraicarum quaestionum" in Genesin.. nasceriam dos carneiros brancos e das cabras negras ou escuras de Labã (êste." Estes versiculos Indicam a causa profunda de um fenômeno que vulgarmente se atribula ao artificio utilizado por Jacó. depois de obter o sucesso. V).. para que os carneiros brancos e as cabras não malhadas gerassem prole respectivamente negra e malhada. Plínio. a qual lhe pertenceria. . O artifício estava muito em voga entre os antigos. sempre que êle dizia: 'A prole raiada será tua paga'. 27. filha dêste.37-39). S. 58-60. Cf. Após estas vitórias fraudulentaá. Etymolcgiarinn.25-43). A ciência genética moderna. Gen 30. os animais geravam filhotes ralados. mas também das promessas divinas referentes ao povo do Messias (cf. Hist. 23. Agostinho. mas o Deus de meu pai estéve comigo. Jacó se foi para a Mesopotâmia a fim de escolher espôsa na família de seus ancestrais. o texto sagrado dá a entender que o artifício de Jacã se tornou eficiente por especial intervenção de Deus. resolveu levar consigo parte do gado de seu tio. porém. a causa do êxito do processo que por si mesmo talvez fõsse vão.1-30). Jerônimo. 16 respondem Raquel e Lia: "Sim. Tôdas as vézes que éle dizia: 'A prole malhada será tua paga'. De venatione. prestando-lhe quatorze anos de serviço agrícola e pastoril (cf. plátano. para o futuro. 1.5. Quaest. Jacó se quis indenizar dos trabalhos que lhe foram extorquidos: aceitando uma oferta de Labã. 93. 29. todos os animais davam à. parte aparentemente modesta. que certos objetos avistados durante a concepção ou a gestação acarretavam notas próprias na prole. de regressar à sua terra com a família já constituída. esta terá sido. Antes. Todavia a modéstia de Jacó era ilusória: o "Suplantador" soube usar de um artifício habitual entre os criadores de gado primitivos.

mutilando a Jacó. Clamer. A narrativa é certamente obscura. vinamente" forte contra os homens ( "Israel"). 29). 1953). o abatimento a que êste pensamento o reduziu.23-32 narra que. não morreu nessa crise. daí por diante. - . se lhe poderia atribuir. via-se de regresso à casa. embora o pudesse "derrotar". 394-7. o perigo de morte que então enfrentava.o que contribui para tornar mais enigmático o cenário de Gên 32. equivalia para éle a uma agonia ou luta. identifica o lutador anônimo com um anjo.. pediu ao Patriarca que o deixasse partir. a seguir. dizia. A. Que significa isso tudo? Os estudiosos contemporâneos dão ao trecho um sentido muito mais nobre e espiritual do que o que. 346-8. o desconhecido confessou-se impotente. mas não deixou de se mostrar superior.Jacó. La Sainte Bible. 12. "pois. o tomaria "di-. o Senhor lhe deu a saber que o pouparia. até mesmo com Deus . na caminhada de volta à Palestina. O profeta Oséias. 30 Ei-lo O hagiógrafo ou a tradição israelita teriam recorrido a imagem antropomórfica muito viva para designar uma luta que se passou não fora de Jacó. Chame. também dos homens hás de triunfar" (v. mas também mudou-lhe o nome de Jacó para "Israel" (= Forte contra Deus). quem terá vencido? Notemos que o estranho personagem fêz as vêzes de mais fraco. O Patriarca. em resposta. o estranho adversário não sâmente lhe deu a bênção. não o amaldiçoaria. tornando-o coxo. Como se há de entender essa história? Uma fase posterior da existência de Jacó nos leva à reta interpretação: O hagiógrafo em Gên 32. ao contrário. 1949). porém.. pedindo ser libertado. fôste forte contra Deus. mas ainda quis tocar o nervo da anca de . dizem. O resultado da luta também é ambíguo. depois de várias fraudes. sabendo que seu irmão Esaú lhe ia ao encontro com quatrocentos homens. o por36 01. ao contrário. o Patriarca certa noite lutou contra um personagem misterioso que lhe aparecera.. O "Suplantador" rogou-lhe então a bênção como condição para que o libertasse. Em vez de a repreender. Le livre ÃXe la Genêse (Paris. julgou ter chegado a hora de sofrer o castigo de Deus. o fêz cair em si. dir-se-ia que o Senhor confirmou a violação de direitos que Jacó cometeu em sua vida.. conseguiu sair da depressão. ou seja. finalmente.4s. à primeira vista. dando-lhe a bênção desejada (coisa que só em nome de Deus pode ser dada) e impondo-lhe novo nome (que era um oráculo profético). O "Suplantador". tomando consciência dos atos injustos que cometera. 1 (Paris. mas estritamente na consciência dêste.142 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ora foi êsse homem tão fraudulento que Deus abençoou. mas. J. Com efeito.

31 Esta afirmaçao. Pode-se dizer também que Deus se quer deixar vencer por nossa oração. 1. A fim de que êle reconhecesse que a piedade é mais poderosa do que tudo. esta se atua também sôbre os que nada de meritório têm. com o anjo não será a imagem de tóda a nossa vida espiritual? Lutamos contra Deus.icciotti. R.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 143 tador das inabaláveis promessas e bênçãos messiânicas. oportuno comentário de O. êle havia de se tornar o triunfador abençoado. 1950). o mais jovem. Le combat spiritwet est aussi brutal que la luite d'hommes. portanto. réduit. 37 O valor destas explicações não impede ainda se pergunte: mas por que terá Deus escolhido tal varão para colocá-lo à frente do povo messiânico. para o futuro.12 "A Sabedoria outorgou-lhe (a Jacó) o prêmio em árduo combate." 38 A propósito se pode citar a observação de E. ora é no momento em que somos vencidos por Deus e Lhe pedimos nos abençoe. não é a criatura que.ee a duré quatre ans. alheio às maquinações ilícitas e confiante em Deus só. na linhagem dos grandes precursores de Cristo? Não será isto uma insinuação de que a fraude ainda hoje poderia ser abençoada? O Senhor quis escolher o "Suplantador" para ensinar aos homens que os dons divinos são absolutamente gratuitos. verifica-se impressionante mudança." ar Eis o . resistimo-Lhe. de sorte que foi pelos miseráveis que Deus quis libertar da miséria a criatura. HLstoire d'israel. o que delicadamente insinua Sab 10. não seria o "Suplantador" que vence por meios fraudulentos.. ou seja. J'ose diTe que je fie une belie défense et que la luite fut Ioyale et compléte. para finalmente envolver mesmo a miséria de tal homem dentro da obra da Redenção." A luta misteriosa de Jacó significa. suscita a munificência divina. 41: "A luta de Jacd. portanto. J'acó. a bondade de Deus triunfou em Jacó. herdeiros da promessa messiânica. Mas nem por isto violentou a personalidade humana de Jacó. dentre os dois filhos de Isaque. Auz sources bibliques (Paris. mas aquêle que sabe contar com o auxílio de Deus mais do que com a própria habilidade.. uma dobra na vida do Patriarca: de conquistador trapaceiro e turbulento. Je fus définitivement forcé.. que narra a sua conversão: "Cette résistan. o mais destituído de qualidades. Jacó era o realizador inquieto e complicado. deixou que se aí ir masse com liberdade. como triunfou em outros varões indignos. Israel será o triunfador enérgico e benévolo.. O defeito deixado na coxa de Israel lembrar-lhe-ia a "impotência" do seu poder humano e a "prepotência" de Deus que liberalmente outorga a vitória ao indivíduo que Êle escolhe. queria escolher. O Senhor. Joly. que na verdade nos tornamos vencedores. por seus títulos naturais. propenso a suplantar fraudulentamente." O mesmo autor cita o seguinte trecho de Paul Claudel. pois a graça pode fazer dos iníquos os justos que sirvam a uma obra perfeita. 158s: "Se se observam atentamente os traços com os quais a Biblia nos apresenta o homem conhecido antes e depois da luta com Deus.

pois. entre a luz e as trevas. Judite parece ter enganado. Para o homem. entendeu que lhe se- . sim. Nessa luta. tomam o significado de luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás. Em poucas palavras. a alta noite. de modo nenhum implica que ao homem seja lícito agir contra a consciência ou fraudulentamente. fica sendo única norma inabalável: cumprir em todo tempo a Vontade de Deus tal como a consciência a manifesta. por isto ninguém presumirá abusar da Misericórdia. em vez de a punir. voltou para Betúlia. durante a qual se embriagou.o que era verdade.. a seguir. procurou seduzir por sua beleza feminina e suas expressões de duplo sentido (note-se: dando a entender a Holofernes que denunciaria os segredos da derrota de Israel. Que significa isto? Para aproximar-nos da reta interpretação. em que todo o fervor religioso se acha empenhado e. alegando que Deus salva os pecadores. de fato. Judite aproveitou a ocasião para decepá-lo. as quais. o que não é para desprezar. pois o pânico se apoderara dos assírios estupefatos.. cf. mas não "tem obrigação" de o fazer. Judite revestiu-se dos ornamentos mais valiosos e. onde estimulou a sua gente ao ataque. Bom 9. salvou a sua cidade. Fêz o papel de fugitiva. excitado pela paixão ofereceu-lhe uma ceia. Holofernes acolheu-a com carinho e.155). E o Senhor. salva segundo um plano muito belo e harmonioso. apresentou-se ao General como a deser tora que lhe havia de denunciar os segredos aptos para captar Israel. lançando-se voluntàriamente num abismo de que não se pode retirar por suas próprias fôrças. Aod e Jael: a amabilidade a serviço do niorticínio.. pela astúcia. O Senhor salva. não mentiu. deixada a sós na tenda com o General adormecido. fervor de orientais exuberantes e rudes.144 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO porém. abençoou-a. são combates. disse ao General que sômente a apostasia religiosa seria capaz de prostrar aquêle povo . A seguir. recordemo-nos de que estamos diante de um episódio das guerras de Israel.. matou. eis que Judite foi ambígua em suas atitudes e palavras. Holofernes. O livro de Judite nos apresenta a história de uma viúva israelita que. a nós desconhecido (cf. porém. Betúlia. assediada pelo General assírio Holofernes. dada a sua beleza. após alguns dias. b) Judite. pois. tportanto. dando-lhe pleno êxito. na Sagrada Escritura. Quando os seus concidadãos já perdiam a confiança no auxílio divino.1-12. alegando às sentinelas que ia rezar fora do acampamento. 11. conseguiu entrar no acampamento inimigo.. êste foi vitorioso para Israel.

5-9. Difícil será proferir um juízo sôbre a moralidade dêsses atos. não para os . pois. por bem confirmar em Judite e propor a todos os homens (também aos cristãos). piedoso's (Judite). era impelida pelo zêlo religioso que a vida continente e piedosa nela havia acendido.. que Judite procedeu depois de ter orado e várias vêzes pedido ao Senhor que abençoasse o seu empreendimento (cf. deitar-se e recobriu-o cuidadosamente. alegou ter um oráculo de Deus a transmitir ao monarca.C. A diferença do que se dá no livro de Judite. o texto sagrado de modo nenhum insinua tenham sido inspirados por Deus ou feitos após oração ao Senhor. tirou de sob o manto uma espada que trazia oculta e. a seguir. recebeu em sua tenda o chefe cananeu Sisará. ao contrário. não teve. ora os estratagemas•jamais foram condenados entre beligerantes. eis a tese perene que o livro de Judite nos comunica através de seus dizeres circunstanciados pela mentalidade de uma época! O feito de Judite tinha dois precedentes seMelhantes nos primórdios de Israel (época dos Juízes. Não é isto o que o autor sagrado quer julgar quando relata os dois episódios. que lhe perfurou por completo o crânio e o deixou morto. êle os narra com tôda a objetividade. e serve-se dos humildes.6s). mostrou-se disposta a ocultá-lo.. A sua consciência é assim isenta de culpa subjetiva. rei de Moab.):' O Juiz ou chefe israelita Aod. com um martelo enfiou-lhe nas têmporas um piquete. O que o Senhor assim sancionou. Pode ter havido culpa em Aod e Jael. fixo ao solo (Jz 4. outrossim.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 145 riam revelados segredos estratégicos). estrangeira aliada a Israel. é a fé dessa mulher. Jael.17-22). como Holofernes. tendo ido certa vez pagar o tributo a Eglon. enfiando-lha na carne.9. que continuou a crer no auxílio divino quando os concidadãos já perdiam todo o entusiasmo teocrático..15-22). Deus quis dar pleno êxito à tarefa de Judite. para prostrar os soberbos e ímpios (Holofernes e seu exército). Fê-lo. que oprimia o povo de Deus. Deus recompensa a fidelidade. a fim de que não fôsse capturado pelos vencedores. 13. era condicionado pelos costumes bélicos da época. 1160-1020 a. poderia ter desconfiado de um ardil de guerra. pois. Observe-se.144. que fugia derrotado em guerra pelos israelitas.. matou-o desapiedadamente (Jz 3. não foi tanto o modo de agir da heroína. 12. não enganam senão os imperitos ou os obcecados. mulher cinéia. o expediente a que esta recorreu. consciência de ofender a Deus. O que o Senhor houve. Deixado então a sós com Eglon. se êste não estivera detido pela concupiscência. Procedimento e declarações como os de Judite em tempo de guerra são por si mesmos suspeitos. tendo Sisará adormecido.

Quem lê essas minuciosas prescrições do mosaísmo. § 6. Lev 15.25-30).1-47) .. a originalidade da religião judaica? Como é então revelada por Deus? Abstração feita da origem dos preceitos de pureza legal. 19 mais uma vez. 1903). oferta de sacrifício. ritual. a águia.57). O impuro não era reabilitado senão após um ou mais dias. da mesma forma como se serviu de Eglon como de uni flagelo.. A higiene e a limpeza foram uma das principais preocupações dos antigos legisladores. Lev 15.." Lagrange. hemorragia crônica (cf. no plano do Criador. gonorréia (cf. moral? Havia no mosaísmo um autêntico conceito de santidade? O térmo hebraico qodesh ( santidade) implica a idéia de separação." Histoire du peu pie d'israel. 39 "Deus. independente da vontade e da pureza interior. quem fôsse acometido por lepra (cf. o cisne. dai concluírem alguns autores que a santidade originàriamente para os judeus significava pureza de ordem física. concebe sem demora duas questões importantes As leis de pureza e impureza ritual têm seus paralelos em cultos pagãos da antiguidade e dos nossos tempos.1-17).° PUREZA E IMPUREZA RITUAL A Lei mosaica enumerava longa série de atos e ocasiões que tornavam o homem "impuro". devendo finalmente sujeitar-se a um ritual de purificação (banho. Lev 15. Assim. Le livre eles Juges (Paris. assim. porém. por exemplo. fazê-la cooperar para a realização de um plano sábio. sem que contraísse necessàriamente alguma culpa em consciência. extrínseco. a avestruz.25s). Lev 12.1-8). pois. mas para mostrar como Deus. escrevia Renan: "As idéias de pureza e Impureza eram a princípio equivalentes às de limpeza e sujeira. a mulher após o parto (cf. iv (Paris).1-14. pode ser aproveitada para comunicar benefícios divinos. não obstante.quem tocasse objetos julgados impuros (cf: Lev 11. permitindo que a natureza humana atue os seus instintos. Eis o que os episódios de Aod e Jael devem significar para o leitor moderno. sabe.18). a Escritura dá a ver que a própria Imperfeição do homèín. impuros eram também os cônjuges após o ato conjugal (cf. ou simplesmente limpeza. o porco.. SI. pôde servir-se de Aod como de um salvador. do ponto de vista meramente legal. (cf.146 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO propor como norma. impuro.a lebre. Onde está. 20.44s. 55s. que ainda não derramara a graça reservada para os tempos do Messias. por exemplo. independentemente do valor moral dos seus atos. não será que a pureza ou a santidade inculcada pelo Antigo Testamento era algo de meramente exterior. Lev 13. era considerado imundo quem comesse ou simplesmente tocasse certos animais .. . Lev 11.

oriundo do ambiente pagão da Mesopotâmia. promulgou a Magna Carta de Israel. ritual. não se poderia assinalar para cada qual dessas determinações uma causa respectiva. Eis a resposta global que se há de dar a essas duas questões: É inegável que muitas das prescrições mosaicas concernentes à pureza exterior são análogas às de povos pagãos antigos e modernos. 40 era. desde os tempos de Abraão (ca.C. desde as suas origens. elas muitas vêzes só se explicam por motivos religiosos ou "místicos". quando em 1240 Moisés. a pedagogia divina sempre teve por tática tomar o homem como êle é. como no fim do século passado asseveraram os historiadores. como as que habitavam os antigos semitas. Seqüestrando-o da terra idólatra e constituindo-o como nação independente. nem tão uniforme. incluiu nela as prescrições rituais já vigentes em sua nação. Pensavam igualmente que certos animais são sagrados. Ora o povo de Israel. relacionados com a Divindade ou com demônios. de ordem ftnicamente natural ou fisiológica. ou são a sede de potências sobrenaturais" (são tabus. outrossim. e pacientemente elevá-lo a maior perfeição. pois. o respeito à Divindade que de maneira geral ditava tais observâncias de caráter aparentemente profano. Observa-se.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 147 Certas leis que visavam garantir a saúde pública teriam sido sancionadas em nome da religião pela autoridade competente. em tôdas as tribos primitivas que tais normas não têm significado meramente higiênicõ. admitiam também a influência dos demônios no mistério da comunicação da vida ou da geração da prole (nem gregos e romanos eram alheios a essas crenças). ou seja.). a tais observâncias. Deus não quis simplesmente extirpar as observâncias tradicionais da gente de Abraão. removendo tudo que poderia ter sabor de superstição ou de algum modo lembrar a idolatria. observando uma pureza exterior. Com efeito. nem tão primitiva. era rigorosamente necessário que o povo rude ou infantil não negligenciasse certas cautelas de higiene!). porém. procurou fazer dêsses usos o estímulo para que os israelitas. significado superior. Falavam. Hoje em dia. do animal totem (térmo derivado da língua dos índios algonquins do México setentrional). porque os homens julgavam haver nexo especial entre tal objeto ou tal animal. mas geralmente possuem valor religioso. a tini de se assegurar mais eficazmente a sua fiel observância (em regiões de clima quente. os seus antepassados caldeus os observavam. e determinada divindade. ancestral com o qual tal família ou tribo se julgava aparentada e ao qual conseclüentemente dedicavam profunda veneração. utilidade medicinal apenas. conheceu usos de pureza e impureza legal. em nome de Deus. . nem tão religiosa. não. agraciada pela revelação da verdadeira fé. de 1800 a. reconhecem os estudiosos que a crença nos tabus e nos totens não era nem tão generalizada. tal doença ou tal função fisiológica. se tornassem outrossim ciosos da fidelidade 40 Os antigos julgavam ser cada doença causada no homem por um mau espírito. conforme o termo técnico oriundo da Polinésia). Apenas tratou de incutir espírito novo. isto é. Por conseguinte.

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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

a Deus, ou seja, de pureza moral, interior (muito mais importante !): "Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo, e não vos tomareis impuros." (Lev 11,44.) Como se vê, a fim de alçar o homem ao ideal de imitar a Deus, o Legislador, no Antigo Testamento, quis partir das observâncias imperfeitas a que o semita estava habituado; inseriu-as, porém, dentro da seguinte perspectiva
DEUS SANTO; POR ISTO, O SEU POVO DEVE SER SANTO.

1
f

(nexo necessário, até hoje válido) (nexo contingente, ab-rogado desde que o gênero Ti =0cci2 cial moral mais perfeita) 41

E, PARA QUE SEJA SANTO, OBSERVE EM ESPÍRITO MONOTKÍSTA AS NORMAS DE PUREZA TRADICIONAIS.

É preciso acrescentar que, além do significado acima exposto, as proibições relativas a animais e objetos impuros visavam criar uma barreira entre o povo de Deus e estrangeiros (cananeus, mesopotâmios, gregos e romanos) com que Israel se havia de encontrar no decorrer da história; justamente a necessidade de não contrair impureza ritual, exterior, fêz que Israel não se tenha mesclado com as nações pagãs, nem quando estava disseminado no exílio (587-538 a.C.), nem quando a terra santa foi ocupada pelos helenistas no tempo dos Macabeus (165-134 a.C.). Assim as prescrições rituais, impondo distância do paganismo, preservavam a verdadeira fé, ajudavam o judaísmo a realizar sua missão religiosa. Note-se ainda o seguinte: é sentença aceita por muitos exegetas que em Israel a condenação de alguns animais como impuros (o camelo, o porco, a lebre, o cavalo, o asno, o cão) se deve em parte a uma reação contra o culto dos mesmos nos povos vizinhos de Israel. Os semitas associavam tradicionalmente os "gênios" do deserto, potências superiores (seirini, sedini, Azazel, siyyim), com certas espécies de animais. O fato de que o israelita, por tradição de seus antenatos semitas, admitia certos atos e estados de impureza legal, extrínseca, destituída de culpa moral intrínseca, influiu no conceito de pecado que o povo de Deus nutriu até os tempos de Cristo. Vvendo sempre de sobreaviso contra as possíveis contaminações por doenças ou contato de animais ou objetos impuros, os hebreus, de41 Na Reve]ação cristã, a terceira proposição do esquema seria assim formulada: E, PARA QUE SEJA SANTO, PRATIQUE O AMOR, POIS DEUS 2 AMOR (ci. 1 Jo 4,7-11).

A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II)

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pois de ter recebido a Lei mosaica com seus preceitos morais, eram propensos a analisar, nas transgressões da Lei, mais o ato exterior do que a intenção do transgressor; não davam grande atenção ao que pràpriamente caracteriza o pecado: a desobediência de uma personaiidade contra um Deus pessoal (cf. pág. 160s). Como quer que seja, os interditos meramente rituais, legais, iam do seu modo contribuindo para inculcar ao povo de Israel o conceito de transcendência divina ou a idéia de que Deus por si é alheio a muita coisa familiar ao homem pecador. Com o tempo, porém, ao se apurar a mentalidade filosófica de Israel, os hebreus foram concebendo mais exatamente o caráter pessoal e sumamente moral da religião; perceberam então melhor o significado meramente pedagógico, secundário, de tais proibições. 42 A titulo de complemento, seguem-se breves observações sõbre as principais teorias que se propõein elucidar a origem das leis de pureza legal: O motivo de higiene, embora possa estar na origem de muitas dessas normas, não é suficiente por si sõ para explicar têda,s as proibições rituais. Com efeito, embora possa justificar a proibição da carne de porco, não justifica a do cavalo, a do asno, a da lebre ... ; os árabes antigos e modernos sempre comeram carne de camelo, de avestruz que a Lei mosaica proibe; os beduinos do deserto da Sina comiam camundongos, também vedados aos hebreus. ¶ Também não basta apelar para a repugnância que a carne dos animais proibidos suscita ao paladar. A águia, o abutre, vedados por Moisés, talvez causem repulsa, por se alimentarem de cadáveres; mas o paladar ou os gostos são algo de bem relativo; o profeta Isaias (66,17) via-se obrigado a anunciar graves castigos àqueles que se deleitavam em comer carne de porco, casnundongos e manjares abomináveis 1 Quanto aos motivos de tabu e toteniismo, são opostos à medula da Lei mosaica, a qual apregoa estrito monoteísmo, um só Deus, e um Deus que não tolera ser representado por imagem alguma, seja de homem, seja de animal. Destas considerações se percebe que só por um concurso de fatõres diversos se explicam cabalmente os preceitos de pureza legal vigentes entre os povos primitivos. Talvez com o decorrer dos tempos os homens tenham perdido a consciência clara do motivo por que observavam a maioria dêsses usos.
42 "Os interditos (de pureza ritual) não careciam de valor religioso, pois arraigavam nos corações a consciência da transcendência de Deus. Percebemos a elevada noção que tinham Davi e seus contemporâneos, da domínio absoluto de .Javé. Tais leis, porém, cuja razão de ser já fôra esquecida, fàcilmente davam ocasião a que os israelitas considerassem a Deus como senhor caprichoso e dura. Os interditos, cujo significado era desconhecido, tornavam-se usos sociais, meramente leigos, destituídos de eficácia religiosa... Por isto foram sendo, aos poucos, transformados e eliminados mediante o aperfeiçoamento das noções religiosas do povo." A. George, "Fautes contre Yahweh duns les livres de Samuel", em

Revue biblique, 53 [1946], 169.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

§ 7.° A ESCRAVATURA Após tudo que foi dito sôbre a mentalidade dos antigos orientais e de Israel, já não causa surprêsa verificar que estêve em vigor neste povo a escravatura. A Lei de Moisés, embora não tenha abolido praxe tão comum e duradoura entre as nações, assegurou, ao menos aos escravos israelitas, 43 tratamento assaz brando, tratamento que, em confronto com o de outras legislações, podia ser equiparado ao de um doméstico ou mercenário (cf. Lev 25,39s). Era geralmente a pobreza, a falta de recursos para pagar as dívidas, que motivava a escravidão em Israel: o devedõr indenizava o credor dando-lhe o seu trabalho e quase a sua personalidade. Todavia, após seis anos de serviço não remunerado e castigos infligidos segundo o arbítrio do patrão, o escravo israelita possuía o direito de ser restituído à liberdade (cf. Éx 21,2s). Emancipando-o, o senhor tinha obrigação de lhe fornecer um pouco de gado e produtos agrícolas, a fim de que pudesse viver até encontrar um ganha-pão próprio (cf. Dt 15,12-15). Caso no período dos seis anos de servidão se registrasse um ano de jubileu (todo ano qüinquagésimo, ano de renovação, de perdão geral, restauração de tudo à ordem inicial), o escravo recuperaria então a liberdade. A Lei previa o caso de que um escravo, sentindo-se bem em casa do patrão, não quisesse fazer uso do direito de voltar ao estado livre (cf. Êx 21,5s; Dt 15,16s), o que é indício de que realmente vigorava notável senso humanitário entre os patrões israelitas. Os escravos usufruíam do repouso do sábado (cf. Êx 20,10) e participavam das festas prescritas pela Lei (cf. Éx 12,44; Dt 12,12.18; 16,11.14). Como se depreende, a Revelação divina contribuía poderosamente para mitigar a sorte dos servos israelitas. Quanto ao fundamento sôbre o qual a Lei mosaica estabelecia essas normas, era não simples filantropia, mas explicitamente a crença religiosa de Israel: a Torá lembrava, sim, a todos os filhos de Abraão que haviam sido escravos no Egito, tendo-os Javé resgatado para que todos fôssem libertos de Deus (cf. Lev 25,42s; Dt 15,15); o exemplo da Benevolência divina era assim incutido como norma que, caso fôsse coerentemente interpretada, induziria a abolição da escravatura em Israel (de resto, o exemplar da Benignidade de Deus para com seu povo mais de uma vez era evocado pela Lei para abrandar os costumes dos hebreus) (cf. Lev 23,31-33; 24,43; 25,38.55; 26,12).
43 Aos estrangeiros feitos servos de israelitas não se reconheciam as regalias enunciadas neste parágrafo (cf. Lev 2544-46).

CAPÍTULO

IX

O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO A história bíblica, assim como a da civilização profana, não deixam de fornecer indícios de que o homem antigo tinha mentalidade rude - dura cerviz, como dizem, a respeito de seu povo, os autores israelitas (cf. Éx 32,9; 33,3; Dt 9,6; 10,16). Todavia uma dificuldade se põe a quem lê a Sagrada Escritura: esta, em um ou outro caso, parece ensinar que o próprio Deus é o Autor da dureza de coração do homem; dir-se-ia que o Altíssimo se compraz em provocar a criatura ao pecado e punir os delinqüentes com rigor desproporcional. É o que faz que no Antigo Testamento predomine a figura de um Deus aparentemente "vingativo, mais ou menos arbitrário na aplicação da justiça". Ao estudo dêste tema dedicar-se-á o presente capítulo. Longe de pretender reconstituir a "teologia" do Antigo Testamento, restringir-se-á ao aspecto "Deus e o pecado na Antiga Aliança". § 1. ° UM PRINCÍPIO GERAL Para se abordar devidamente o assunto, tenha-se em vista. um traço já mencionado da mentalidade oriental: o semita tendia a exaltar a ação de Deus em tudo que aconteça na história, sem distinguir se tal efeito é, direta ou indiretamente, causado ou apenas permitido pelo Altíssimo. 1 Esta tendência, de resto, se enquadra dentro de uma atitude ainda mais geral do pensamento hebraico: o judeu era propenso a atribuir ao dinamismo, ao movimento, o primado sôbre os demais valores que constituem um ser perfeito. Era, pois, a fim de mais colocar em realce a suma Perfeição Divina que êle imputava ao Todo-Poderoso intervenção direta, soberana, em tudo que se faz no mundo; Javé, por conseguinte, na Sagrada Escritura, é apresentado em ato de trovejar (S1 28), ocultar Jeremias e Baruque contra investidas dos ímpios, 2 ditar ou escrever o conteúdo. das tábuas da Lei; 3 os israelitas chegavam a admitir que nem o
Cf. pág. 128, n. 12. Ci. Jer 36,26: "O rei mandou... prendessem Baruque, o secretário, e Jeremias, o profeta; mas Javé os ocultou." Pouco antes, referia o texto sagrado: "Os chefes (do povo) disseram a BaTuque: vai, esconde-te, a ti e a Jerernias; e ninguém saiba onde estais.' (36,19.) 3 Ci. Éx 32,16; vejam-se também Am 4,7.9s; 5,27; 8,10; Êx 21,13.
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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

mal fica fora da alçada da atividade divina. 1 Tal modo de falar, apresentando Deus sempre muito envolvido nas façanhas dos homens, acarretava o risco de se encobrir indevidamente outro aspecto da Divindade: a sua absoluta transcendência. Ao contrário, a mentalidade grega, que neste ponto mais influenciou o pensamento cristão, inclinava-se a exaltar principalmente a perfeição ontológica, o perfeitíssimo Ser de Deus como tal; para ela, a Divindade era objeto de contemplação mais ainda
do que sujeito de atividade.

Esta advertência já nos abre a via ao entendimento das passagens bíblicas que falam da intervenção de Deus no mal cometido pelos homens. Passamos a examinar os principais dêsses textos. § 2. 0 O RECENSEAMENTO PECAMINOSO Não há talvez trecho que mais revele a mentalidade dos autores sagrados na questão proposta, do que a narrativa de um recenseamento do povo de Israel instituído pelo rei Davi. Referem-no dois textos bíblicos: 2 5am 24,1-4 e 1 Crôn 21,14. Comparemo-los entre si 2 5am 24,1. "A ira do Senhor 1 Crôn 21,1. "Satâ se levanse inflamou de novo contra Israel, e incitou Davi contra êles, dizen-

do: 'Vai, faze o recenseamento de Israel e de Judá. 2. O rei então disse a Joab, chefe do exército, que estava com êle : 'Percorre, pois, tâdas as tribos de Israel, desde Dá até Dersabé; faze o alistamento do povo a fim de que eu fique sabendo o total da população.' 3. Joab respondeu ao rei: 'Que o Senhor teu Deus torne o povo cem vêzes mais numeroso do que é agora, e que os olhos do rei meu senhor o vejam Mas por que se compraz o Senhor meu rei em faz3r isso?' 4. A palavra do rei, porém, prevaleceu contra Joab e contra os chefes do exército; e Joab e os chefes do exército partiram a fim de fazer o recenseamento do povo de Israel."
4,

2. Disse então Davi a Joab e aos chefes do povo: 'Ide, contai, a população de Israel desde Dersabé até Dá, e trazei-me o resultado, a fim de que eu conheça o seu número.' 3. Joab respondeu: 'Que o Senhor torne o povo cem vézes mais numeroso 1 Ó rei meu senhor, não são todos escravos do meu senhor? Por que é, pois, que o meu senhor pede isso? Por que fazer vir o petado sôbre Israel 2' 4. Mas a palavra do rei prevaleceu contra Joab. Éste se foi e percorreu todo Israel, voltando por fim a Jerusalém."

tou contra Israel e excitou Davi a fazer o recenseamento de Israel.

CL Am 3,6: "Ressoa a trombeta em alguma cidade, sem que o povo se espante? Assim acontece desgraça em alguma cidade. Sem que Javé seja o seu autor ?" Como se compreende, o mal é apenas permitido por Deus, que, tendo feito as criaturas livres, não lhes impede a opção entre o bem e o mal; antes, permite cometam o mal, que o próprio senhor sabe fazer cooperar para a vitória decisiva do Bem no fim dos tempos. 5 Cf. T. Boman, Das hebraeische .Denke2t im Vergleich viU devi griechischen ( Goettingen, 1934).

Bettencourt. um recenseamento significava ato de arrogância do homem frente a Deus. prescrevia a Lei mosaica que. torna culpado o povo). a respeito. consciência de que 2 8am 24 empregava um modo de falar ambíguo.) referiu no livro das Crônicas a mesma história. VI ao. de uma falta do rei Davi. é que êste conceito aparece na angelologia judaica. procedia como qualquer outro soberano. com os israelitas. (Rio. Perguntar-se-á de passagem: e que mal podia haver nessa medida de caráter administrativo? Para os orientais. Ex 30. teria. isto é. conforme o caso paralelo considerado em Lev 4. entrar em setor que é propriedade exclusiva de Deus. um recenseamento do povo tomava f àcilmente o aspecto de verificação do dom de Deus.12). Só tardiarnnte. por excelência. mandando recenseá-lo.3). a Satã a instigação ao mal que a Deus fôra imputada. procurou dissuadir o rei (2 Sam 24. nos casos de recenseamento legitimo. todo individuo alistado pagasse um tributo a Javé (cf. Não obstante as palavras de Joab.. castigado pelo flagelo de uma peste que durante três dias assolou a nação.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 153 Particular importante: 2 8am data provàvelmente do séc. é nome próprio e designa um anjo tentador. o Senhor houve por bem servir-se. Problêmes d'Ancien Testament (Paris. 6 E êste modo de pensar que explica. O autor de 2 8am 24 dava a entender. pois. usado sem artigo em 1 Crôn 21. o povo de Deus. ditada por falta de confiança.. ao passo que 1 Crôn terá sido redigido nos sêc. CL A.5). . 8 O pecado de Davi tornava o povo inteiro culpado. tendo recebido a dita ordem. general de Davi. 7 Já que um recenseamento significava 'contar vidas". o monarca. 267s. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios. pouco antes da seção acima. para isto.C.3 (o sacerdote que incorre em falta. Davi insistiu na execução da ordem. 34. ainda hoje não se possa proceder ao recenseamento exato de certas tribos de beduinos na Palestina.1. Veja-se. mas a deve tõda e exclusivamente a Deus. Gelin. 1955). E. 6 o texto bíblico mesmo insinua esta concepção: refere que Joab. devendo puni-lo.C. e com particular razão o fêz: Israel era. IX a.). Gên 15. foi. Isto lhe lembraria que éle não é senhor da sua vida. 1 Mais ainda: tendo Deus prometido a Abraão posteridade inumerável (cf. Tinha. depois do exilio (séc. e resolveu dar mais precisão teológica à fórmula do cronista anterior: atribuiu. Diz então o hagiógrafo que Deus mesmo instigou Davi ao pecado. sim. Eis como o episódio era narrado no séc. que o povo de Israel incorrera em grave culpa perante Deus.Satã (= Adversário). IV/HI aO. 2. 1952). porém. excitado o monarca a promover um recenseamento das tribos de Israel. em conseqüência. 1V/Til a. pois implicava a intromissão da criatura num domínio reservado ao Criador só — o da multiplicação dos sêres vivos. ed.. como se se considerasse senhor absoluto dos seus súditos e contasse ünicamente com os recursos de administração humanos. Um redator bem posterior (séc. 9 . IX a.C.

154 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Mencionava assim o verdadeiro inspirador do pecado de Davi. ao ser tentado. Tiago. diga: 'É Deus quem me tenta.14. depois de se ter tornado indigno de sua missão. ora a sabedoria. por duas vêzes. . etc. 10 Já que Saul se afastara do Senhor. o vocábulo "espírito" deve ser interpretado à luz de outros trechos do Antigo Testamento. dêle se apossou" (1 8am 16.) Eis como a Sagrada Escritura mesma explica uma de suas passagens obscuras.3).10s). 1 Sam 18. do "espírito de prostituição" ou apostasia religiosa (Os 4. Ilustrados por tais textos. foi rejeitado por Deus. na sua epístola. tentou matar Davi. e um mau espírito. os dizeres de 1 Sam significam. ora outro atributo (não se trata ai de algum anjo ou demônio). o Senhor se afastou dêle. Ora a Escritura explica isso tudo. no início da era cristã (ca. esta atitude mesma é mencionada cõmo proveniente do Senhor.30). ora a luxúria. em tôdas essas passagens.10).4). que Saul perdeu suas habituais disposições de piedade e deferência para com Javé ("o espírito do Senhor dêle se retirou"). do "espírito de torpor" (Is 29. também o apóstolo S. que o levavam até ao desvairo.9). designa claramente. traspassando-o com uma lança contra o muro (cf. abrindo-nos o caminho para a exegese de outras semelhantes." (1. vindo do Senhor. Ao contrário. enfurecido. de 50 dc. Aliás. Núin 5.14. dir-se-ia interpretando fielmente a mente do hagiÕgrafo expressa em 1 8am 15. prestes a englobá-la dentro do sábio plano da Providência.2). do "espírito de sabedoria" (Éx 28. uma atitude de ânimo. que falam do "espírito de inveja que se apodera de um marido" (cf. 5.12. do "espírito de impureza" (Zac 13. Em conseqüência. disposições interiores de um indivíduo. em que predomina ora a inveja. deixava-nos concluir que o Altíssimo não fizera senão permitir a falta. conforme o contexto. Deus não pode ser tentado para o mal nem tenta alguém.' Com efeito. ora a infidelidade. Como se há de entender uma tal "possessão"? Nas expressões acima. 19.). pois. § 3° O "MAU ESPIRITO" DO SENHOR 1. reagia contra a falsa noção que o texto de 2 5am 24 podia sugerir: "Ninguém.13. o "mau espírito do Senhor" é mencionado outrossim em 1 Sam 18. O rei Saul. cada um é tentado por sua própria concupiscência. dizendo que "o espfrito do Senhor se retirou de Saul. uma atitude hostil ao Senhor ("um espírito mau").23.10. 10 deixou-se conseqüentemente mover por disposições más. "Espírito". via-se freqüentemente acometido de acessos de neurastenia.

Semelhante é a exegese do trecho de Jz 9. visando a obstinação dos pecadores. seja do Faraó. Torna pesado o coração dêsse povo E duros os seus ouvidos. fisiológicas e psicológicas.27." (Is 6.30. resistindo aos sinais divinos.11.8.10. do seu êrro. afirmando em Lx 8. espírito que provocou rebelião dos siquemitas contra seu chefe. o próprio hagiógrafo interpreta a sua expressão literária. 13 Os magos do Egito com razão perceberam nos prodigios realizados e dedo da Divindade e o intimaram expllcitamente a Faraó (cf. sim. Lx 9. 14. 10.11.15. 9. Faraó reconhecia estar faltando contra Deus (cf.20..235: "Deus enviou um espírito mau entre Abimeleque e os habitantes de Siquém". Para os judeus.9s). que em tudo viam a atividade de Deus. em si benévola. cedo ou tarde. Quanto à missão de pregar confiada ao profeta Isaías. e dize a ésse povo: Ouvi.35). e não entendais. De tal modo que não se converta e não seja curado. O Senhor mandou ao profeta Balas: "vai. Na história do Faraó em particular. Jos 11.14.16). à vista das mesmas obstinam-se ainda mais con.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 155 porque foi Deus quem permitiu. Êz 4.19-23. 2 6am 12. 12 Tais passagens significam apenas que Deus é o Autor de feitos destinados a promover o bem dos pecadores. Éx 8. Isto não quer dizer senão que o Senhor deixou se originassem discórdias graves entre homens que se haviam prêviamente associado para cometer hediondo morticínio (ou seja. Vêde. o egoísmo não refreado dos contraentes tende a rompê-la! É o que se dá sem especial intervenção de Deus..21. se se consideram passagens como Is 1. 16. 22. fechando-se nos seus propósitos perversos.3. o assassinato de setenta consanguíneos de Abimeleque). Análogos aos textos antecedentes são aquêles onde o hagiógraf o diz que Deus endurece o coração dos homens. A aliança fundada sôbre planos pecaminosos não pode ser duradoura. e não compreendais.9. 3 Rs 12. em vez de se render ao significado providencial de tais obras e se salvarem. 1 6am 2. 7. que Saul fôsse infiel e ressentisse as conseqüênõias. Cf. toma-se ocasião para que a criatura tome grave atitude pecaminosa. 11 12 . isto equivalia a uma ação direta do Senhor sôbre o coração humano. 11. foi o que se deu no caso acima.1.25.) Eis ainda alguns paralelos: Dt 2.scientemente no mal.27.15).12. " seja do povo eleito.17. torna-Se evidente que não visava obcecar o povo no pecado (como poderia sugerir Is 6. 17. 11 ou que "continuou a pecar e tornou pesado o seu coração" (9.4. destarte a ação divina. assim procedendo.16-20.11. todavia os homens.28 que o monarca mesmo "endureceu o seu coração". 10.

podia Miquéias repetir ainda com mais vivacidade a sua advertência: as palavras dos profetas encorajando Acab à guerra não eram senão o efeito de uma ação sedutora muito consciente e maliciosa. rei por meio de novo expediente. um antropomorfismo impressionante: disse-lhe. Na linha dos episódios que vimos analisando. que faziam carreira na côrte real. o autor do Eclesiástico dava com tôda a clareza a norma básica para a exegese dos textos acima. porém. não hesitasse o rei em abrir os olhos para o perigo que o ameaçava na expedição planejada! Neste trecho bíblico. realizara o emissário a sua missão. o qual desejava fazer uma expedição bélica contra o rei da Síria. já próximo da era cristã. tentou persuadir o. resolveu consultar os profetas que o assistiam.. Jesus. onde prediz que a ação de Deus purificará Israel. na plenitude dos tempos. ter visto os céus abertos e o Senhor sentado num trono. Eis. eram a trama de homens mal intencionados. Por fim. Ora havia naquela época não poucos falsos portadores da Palavra de Deus.20. ainda se poderia citar o de 3 Rs 22. predisseram ao rei pleno sucesso na campanha. e Is 1. em meio aos anjos seus conselheiros. A ninguém concede a licença de pecar.. que em dado momento um autêntico profeta. Miquéias. pois. surge na assembléia dos sedutores e destemidamente anuncia o absoluto malôgro da batalha. portanto. a visão da côrte celeste e do anjo sedutor que Deus envia à terra. O hagiógrafo conduz o leitor à côrte do rei Acab de Israel (874-853 a. deliberavam sôbre a maneira mais eficaz de iludir Acab.) 4. embora soubesse que seus ensinamentos e milagres acarretariam a queda momentânea de Israel.). seriam ocasião para que muitos. fechassem ainda mais conscientemente os olhos à verdade.. induzindo-o à infeliz incursão contra o rei da Síria.25-27. segundo a mente mesma de Miquéias." (15. de partir para a guerra. que era mero artifício oratório. ou seja. Contudo. As admoestações de Isaías. Interrogados. o Senhor sabe sempre envolver os desmandos dêste dentro de um plano sumamente harmonioso. sem tolher a liberdade do homem. não quis deixar de apregoar a "Boa Nova".156 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que o profeta exorta os judeus à conversão.6-23: é em têrmos particularmente vivos e insistentes que apresenta o "mau espírito do Senhor". não corresponde. obstinados no mal. vendo que Acab não lhe dava crédito. a um fato que se tenha realizado no . Paralelamente. A proposta tendo sido aceita pelo Senhor. antes. Na base desta narrativa.C. afirmando categàricamente "Deus a ninguém manda seja ímpio.. porém. apresentou-se então a Javé um dos assistentes celestes. o qual se ofereceu para tornar mentirosos e enganadores todos os profetas da côrte de Acab. porém.

já no séc. pois destarte o Senhor lhe faria expiar o morticínio anteriormente cometido contra Nabot (cf. sem que para isto pareça haver culpa proporcional. Os exegetas lhe têm dado explicações diversas: a) os betsamitas lançaram para a arca do Senhor olhares curiosos.). Assim. foi então que. VI a. concede licença para desencadear males na terra. O primeiro dos ditos trechos faz-nos retroceder aos tempos de Samuel (ca. 3 Rs 21.1-29). ainda nos é forçoso dizer que o acesso dêsse anjo maligno junto a Deus e a aceitação dos seus serviços por parte do Senhor são meros artifícios usados pelo profeta para avivar a sua exortação. 153. o móvel sagrado pousou em Betsamés. Numa das etapas do itinerário. em conseqüência. Refere-se à volta da arca do Senhor para o seu santuário em Israel. n.C. § 40 Ø DEUS QUE FULMINA Há duas passagens da história sagrada em que Deus é mostrado a punir os homens com a morte. rezava uma cláusula referente aos caatitas ou ministros subalternos do culto: IA Cf. IX a. conforme o texto hebraico atual e a tradução latina da Vulgata.C.C. A realidade correspondente a tais artifícios não é senão a seguinte: Javé resolvera permitir (sem deliberar com os anjos) que Acab fôsse seduzido pelos mentirosos oragos da côrte e. aldeia israelita. a noção de um anjo mau sedutor a quem Javé. 14 Dado que. de 1050 a.19. raptada pelos filisteus. Daí perguntar-se: será tão cruel procedimento compatível com o conceito de Justiça Divina? 1. conforme um plano sábio. indiscretos ou irreverentes.) O texto. Os judeus. tinham. prostrou setenta homens dentre o povo e cinqüenta mil da multidão. por exemplo. sofresse grave derrota. como se depreende de várias prescrições da Lei mosaica.).O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 157 mundo superno. principalmente após o exílio (séc. sem dúvida. pãg. 9. oferece ao leitor dificuldades de interpretação literárias e teológicas. se deu o seguinte episódio: 'O Senhor prostrou os habitantes de Betsamés.' (1 5am 6. por terem olhado para a arca. depois que. Ora a falta de respeito para com o Divino foi sempre considerada grave culpa no Antigo Testamento. estivera ém terra pagã. ela não passa de mero recurso de linguagem destinado a calar no ânimo do rei Acab mais fundo que uma simples admoestação. sim. Miquéias e seus interlocutores tenham tido conhecimento de tal espírito tentador.. .

6. dado o perigo que ameaçava o povo. aproximar da arca do Senhor antes que os sacerdotes a tivessem recoberto (cf. invisível. simultâneamente com o olhar. O texto hebraico dos livros de Samuel chegou até nós em estado de conservação deficiente. há quem julgue que os betsamitas foram punidos por anteriores pecados do povo ainda não expiados. por isto.) Os levitas mesmos. em particular.158 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "A fim de que (os caatitas) vivam e não morram quando se aproximarem dos objetos sagrados. o problema parece estar mal formulado. a cifra de cinqüenta mil ultrapassaria o número de habitantes de tôda a região de Betsamés. não é mencionada por alguns manuscritos hebraicos nem por Flávio José (Ant. morram.1. comportam a presença de uma fôrça misteriosa e temível. para ver os objetos sagrados e. os críticos bíblicõs dão preferência à forma do texto de 1 5am 6. pois refere duas cotas de vítimas (setenta e cinqüenta mil). Entre os judeus.. homens exclusivamente dedicados ao santuário. Considerando isto. aliás. de adotar usos e crenças do paganismo." (Núm 4. em conseqüência. Aarão e seus filhos assinalarão a cada qual o seu ofício. alguns israelitas hajam indevidamente tocado a arca (Ant. 6..21).. mesmo pagãos. Moisés cerrou o acesso à montanha. quando a glória do Senhor se tornou manifesta sôbre o monte Sinai.15) não atesta o seu respeito religioso ? considerando tais dificuldades. Núm 4. a nenhum profano era lícito.1. Nenhuma dessas interpretações satisfaz plenamente. além disto.. julgavam que o sagrado é intangível. historiador judaico do séc. principalmente os que servem ao culto divino. terá sido interpolada. corno julgam bons exegetas modernos.195.515). para que não entrem. inacessível ao homem não iniciado.. o versículo 1 Sam 6. que se oferecia aos ornares de todos? O fato de haverem prèviamente oferecido sacrifícios ao Senhor (cf. todos os objetos religiosos.4). a fim de que o povo não se aproximasse indevidamente do lugar da aparição (cf.C. Éx 19. 6.23). ainda que fôsse por mero olhar (cf. supõe que. entrar em contato com o Santo.4). 1 d. sem perigo de morte. Sabe-se.. Contudo pergunta-se se realmente podia haver culpa grave nos betsamitas por terem considerado a arca.19 apresentada pela tradução grega dos LXX: . não se podiam. sem arriscar a vida. que os antigos. das quais a segunda é evidentemente errônea. O conhecimento dêstes particulares certamente contribui para esclarecer certos textos da Sagrada Escritura.19 parece ter sido maltratado pela tradição literária. Éx 19. ' Na verdade. a irreverência para com as leis do culto eram punidas com especial rigor. De modo geral. Flávio José. por um só instante que seja.

o Senhor. O hagiógrafo continua a descrever o itinerário da arca do Senhor em Israel. haviam feito da arca "um autêntico condensador elétrico. 41) A. contrastando com o entusiasmo sagrado do povo. explicam que os sacerdotes de Israel. chama a atenção é o de 2 5am 6. 171-173. pasta sôbre um carro de bois. itinerário interrompido pela permanência da mesma em Cariatiarim ou Eaalá. e isto. E . da qual uma centelha fere o homem profano como um raio. a sentença de que o exegeta moderno Procksch se faz porta-voz "A arca aparece coEo que cárregada de eletricidade sagrada.6s (paralelo a 1 Crôn 13. onde Davi erigira a capital do seu reino. porém. a fim de explorar a religiosidade do povo! ' Esta sentença. os israelitas temiam. 92).1). "Les livres des Rois" em La Sainte Ribis." 15 Os filhos de Jeconias. os castigos infligidos pelo Senhor. rejeitar-se-á." '° Outros autores (Fritz Kahn. 16 Artigo publicado em Kittel. nos são desconhecidos. de Vaux. lago.. 2. pouco após o episódio de Betsamés acima referido (cf. dado o seu Ê esta a variante que preferem. que. R. de mais a mais que o episódio se dava numa fase da história assaz remota.. não da crueldade. foram os únicos que não se alegraram ao ver a arca do Senhor. 373.7-10). pois diz o texto sagrado (6. quando Israel ainda era muito rude. Theologlsches Woerterbuch zum Neuen Testameat 1 (Stuttgart. Les livres de (Paris.a advertência produziu seus efeitos. como descabida. que se carregava mediante eletricidade atmosférica".0 "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANflGO TESTAMENTO 159 "Os filhos de Jeconias. Em geral. 1953. mas não criticavam.20) que os betsamitas reconheceram no ocorrido um sinal. Trecho que. por exemplo. 15 Samuel . dentre todos os moradores de Betsamés. Médeblelie. de resto. mas da santidade de Deus! . 17 Veja-se curiosa exposição da tese em Anhembi. O Senhor então prostrou setenta homens dentre êles. por análogos motivos. Como interpretá-la? Antes do mais.. que durante o trajeto certo varão chamado Oza percebeu que a arca. o santuário foi transferido para Jerusalém. cedendo à imaginação. conhecedores dos segredos da eletricidade. o fulminou com a morte. Tal punição talvez desnorteie a boa mente do leitor.. porém. 1949). XVIII (1955). de Pirot-Clamer. corria o risco de cair por terra. tocou-a então com as mãos a fim de ampará-la. Denis Papin). 1 5am 7. teriam tomado uma atitude de indiferença. enfurecido.note-se bem . Tendo estado setenta anos em Cariatiarim. III (Paris. O escândalo assim suscitado teria provocado a punição de setenta membros de tal família! A necessidade de preservar a verdadeira fé e excitar a consciência de um povo de dura cerviz podiam exigir tão severa intervenção de Deus. Aconteceu.

1940). que não sempre distingue entre transgressão objetiva e culpa subjetiva. nos ínicios da história sagrada.21s. 17111 a. Éx 25. Com efeito... muito apurada. Tão rigorosa era mesmo esta última proibição que os próprios levitas. os antigos israelitas não distinguiam muito exatamente entre pecado formal. Mas por que terá o Senhor procedido de maneira tão prepotente ? A ação de Oza.15). inconsciente. era boa a sua intenção. Núm 4. Theologie des Alten Testamente (Boim. ). Como quer que seja. cf. consciente. ao se ler a narrativa. a fim de não se dar ocasião a que alguém o ousasse tocar diretamente (cf.42. séc. só podiam carregar a arca do Senhor servindo-se de barras. é irrisória. (Gên 31. dir-se-ia que houve uma intervenção de Deus entre o toque e a fulminação. já falam claramente da mansidão e da ternura divinas (ef. 43. considerada em si. SI 75. porêm. o Terror de isaque . o Deus de Abraão.15). ' consideravam não raro apenas a ação externa. ademais é preciso não esquecer que no Antigo Testamento nos defrontamos com um povo que muitas vêzes só se rende às impressões fortes.) Livros posteriores da sagrada Escritura. 10 Cf. pág. representava uma falta contra as prescrições de culto israelita. 31. o patriarca Jacó. e barras que jamais deveriam ser separadas do móvel.). 158). voluntário. também "êrro.. bacias..12.53. não era permitido aos hebreus violar os objetos sagrados com olhares indiscretos (como acima ficou dito). muito menos lhes era lícito tocá-los. sem levar em conta a intenção de quem agia. ao contrário.. Entre outras coisas.. porém. 18 Consoante essa mentalidade rude. 18 Uma dúvida ainda fica: terá tido Oza ao menos a consciência de que praticava algo de condenável? Não parece que. e pecado material. negligência"). embora fôssem encarregados de transportar os objetos do culto (turíbulos. nem a teologia. há de ser estimado à luz da concepção particularmente rigorista com que em Israel era tachada a violação das coisas santas (cf. 20 Algo de semelhante se dá às vêzes ainda hoje com o homem simples. etc . carece de fundamento tanto no texto sagrado como na própria história da civilização humana (que assinala a utilização das fôrças elétricas a época relativamente recente). note-se que a causa da morte de Oza não parece proceder da arca mesma. involuntário. O original hebraico diz que Oza foi punido por sua "falta" ('al-hassal. 20 Aliás. pinças.. P. A pena de morte infligida a Oza por haver transgredido a proibição poderá parecer excessivamente severa. já que desejava preservar de incidente a arca do Senhor? O texto bíblico não é muito claro neste particular.160 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO caráter gratuito. designava o Altíssimo pelos três seguintes títulos: "O Deus de meu pai. deviam fazê-lo sem os atingir com as mãos (cf.C. O episódio. - . Os 2. Hehlisch.

'Pautes contre Yahweh dans (es livres de Samuel". não obstante. a distinção entre pecado cometido por mdústria maliciosa e pecado cometido como que involuntárlamente. seu pai. Bonsirven. podemos definir o pecado como sendo a transgressão da vontade divina. antes. 182. não causa estranheza que Oza. fizera em nome de todo o exército. Ainda não se percebe claramente que.6 trata de faltas cometidas por ignorância.20) do Evangelho. é preciso haver responsabilidade pessoal do pecador. para haver falta. em última análise.Javé são conformes à sua sabedoria tanto quanto ao seu Poder. 53 [1946].O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 161 dos rabinos contemporâneos de Cristo fazia distinção entre pecado formal e pecado meramente material." J.24-45. George. 22 verifica-se. a ofensa contia Javé tema a forma de um ato proibido em sua materialidade mesma. é a violação de um mandamento. porém. pelo simples fato de ter cometido um ato em si mau. em Revue biblique. A viúva de Sarepta.. Trazem. se possa ter tornado merecedor de castigo. . voto. II (Paris. A prova de que essa desordem era injúria feita a Deus é que devia ser reparada por um sacrifício. inconsciente. em Éx 21. em um ou outro caso.18). pudéssemos finalmente compreender a "justiça melhor" (cf. tendo perdido o filho. Eis o testemunho de outro abalizado autor "Para as gerações antigas. porém. prescreve. é esta uma conselüéncia direta do caráter jurídico da moral judaica. negligenciando a intenção do agente. 22 Considerados êstes particulares. sacrifícios expiatórios para tais ações. porém. 3 Rs 17. encontram-se outros que os completam. 1935).° CONCLUSÃO Os episódios acima analisados não foram consignados nas Escrituras para fazer tropeçar o leitor cristão. expressa pela lei.1-5. É o que ocorre ao se tratar de homicídio." A. quer não. Não faltam. 21 Assim é que no Antigo Testamento a longa seção de Lev 4. embora animado por boa intenção. julgam necessário renunciar ao entendimento pleno do episódio de 2 5am 6. um ensinamento religioso: veja-se nêles mais um aspecto dos preparativos pelos quais o Senhor quis fazer passar o gênero humano a fim de que nós. quer seja conhecido. assim como da mentalidade judaica. 82. quer seja a transgressão consciente e deliberada. que intercedeu pelo réu inconsciente. Mt 5. Importante: o autor julga que a concepção rabínica é a expressão fiel do que se acha nos livros do Antigo Testamento. tal finalidade seria indigna de Deus. § 5. pois dão 21 "Levando em conta as idéias professadas no Antigo Testamento e em tõda a literatura judaica.6s.12-14. que dava valor preponderante às ações exteriores. julgava que isto lhe podia ter acontecido em punição de faltas que ela mesma ignorava (cf. Jônatas se viu ameaçado de sofrer a morte por ter violado um voto que Saul. há falta porque há desordem. quer não. Também nao se percebe devidamente que as exigências de . já que o texto sagrado não fornece indicações suficientes para tal. cristãos. La Judaïsme pciiestinien au temlos de Jésus-Christ. de que Jônatas não tinha conhecimento. Conforme 1 5am 14. exegetas que.. salvou-o o bom senso do povo. Ao lado dos trechos que manifestam rude mentalidade religiosa em Israel.

10.) "Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 28. outras afirmações em 11. O Senhor aderiu a vós e vos escolheu.) Voltando-nos agora para os livros de Samuel em particular. pois é o grande Miado e Tutor de Israel. mostrava também ser o Deus de Bondade e Amor. o primeiro preceito da Lei mosaica era o do amor.13. Com efeito. principalmente na guerra: 1 Sam 4. Mc 12. embora pouco esclarecido." (Dt 6.37. devota e confiante.13. Mas porque o Senhor vos ama e quis cumprir o juramento que fêz a vossos pais. de Saul (cf.37. mas por mero amor: ilO Senhor vosso Deus Vos escolheu.) "Sabei que não é por causa da vossa justiça que o Senhor vosso Deus vos dá êsse belo pais (Canaã) como propr!edade. 17.20).24-35.11." (Lev 19. a Escritura do Antigo Testamento. Talvez nenhum livro histórico da Sagrada Escritura ponha tanto em realce a piedade pessoal. não porque ultrapasseis em número todos os povos." (Dt 9.6.28-31. 15. amor a Deus: "Amarás o Senhor teu Deus. por meio de Moisés.6). não em virtude de algum direito ou merecimento do povo. pede um filho (1 8am 1." (Dt 7.. o Senhor. é também Aquêle em cuja benevolência o povo deposita profunda confiança. tôdas as admoestações dos Profetas e. sois um povo de dura cerviz. ci. 2 8am 5. como os livros de Samuel. 19.9-12.5. 8. o voto de Saul em 1 Sam 14. ao mesmo tempo que se revelava como "Deus de Justiça". seu desejo de of erecer sacrifícios em 1 5am 13. na celebração freqüente dos sacrifícios populares (1 Sam 2. de tôda a tua alma e com tôdas as tuas fôrças.8-10. que promove .15.162 PARA ENTENDER 0 MiTIGO TESTAMENTO a ver que o Senhor Deus. de todo o teu coração.6s. que. A êstes dois mandamentos se podiam reduzir tôda a Lei.27). Lc 10. sois o mínimo de todos os povos.5. como reconhecia o Doutor da Lei perante Jesus (cf.20:26). lembrava que se revelara aos Patriarcas e exercera a sua Providência para com Israel. principalmente no amor de Davi. É o quõ se verifica na história deAna. 19. no zêlo religioso sincero. em geral. observamos os seguintes traços complementares: O Senhor que pune..) O segundo lhe era semelhante: cf. dentre todas os povos que estão sôbre a face da terra.34-40. as íntimas relações dos fiéis com o Senhor.9. 4.6-14.18s).5. Da sua parte. donde procede a maioria dos textos considerados neste capítulo. Mt 22.18. no entusiasmo das "escolas de profetas" (1 8am 10.

13. não temor apenas (2 5am 12. 12. o seu arrependimento.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 163 o culto Sagrado (1 Sam 26. 24. testemunha amor. 2 5am 7.31). Davi sabe que a sua vida é cara a Deus (1 5am 26.18s.19s.16-23. o autor sagrado inculcava que Deus vê além das aparências: "O homem considera a face.25.514-16. após o pecado.24.21). percebe o coração." (1 5am 16. porém.) 2 23 Observações devidas a George. 2 Sam 6. 182s. art. 15. Deus. Por fim. embora muito valor se desse ao aspecto exterior da santidade ou da virtude.10). ..22.7. cit.

Dhorme. que entre os assírios o poema da criação afirmava ter o deus Marduque plasmado os homens com o seu próprio sangue. se exprimem de forma semelhante à da literatura extrabíblica. Lagrange.-J. observando o papel importante que o sangue desempenha no funcionamento de um organismo. Na religião de Israel. de outro lado. não há dávida) haveria de entrar nas concepções religiosas dos antigos homens. Estas. será preciso mostrar a mentalidade própria que anima os hagiógrafos quando. hão de ser devidamente focalizadas. Etudes sur Les . intimamente associado à religiosidade e ao culto sagrado em geral. Eis o que nos leva a empreender o estudo proposto neste capítulo. principalmente nos atos da liturgia. 5. assim lhes comunicara a vida. Os sábios antigos. atribuem-lhe importância tal. 1907). de um lado. principalmente os semitas. Clwix de tentes religietx assijro-babyloniens ( Paris. no intuito de transmitir a sua mensagem. 1 1 Poema assino da criação vI. é mencionado cêrca de trezentas e oitenta vêzes nas páginas do Antigo Testamento. Pode-se notar. Cf. O sangue era. Outrossim M. bem como em oitenta e oito passagens do Novo Testamento. Esta tese (deficiente. estabeleceram o princípio solene: "O sangue é • sede e o veículo da alma ou da vida" ou "O sangue coincide com • vida mesma". P. e ainda é.CAPÍTULO X SANGUE E VIDA Os três capítulos que se seguem considerarão alguns temas por ocasião dos quais os escritos do Antigo Testamento aludem a concepções assaz propagadas entre os povos do Oriente. assim como no cristianismo. que se poderia perguntar se isto não implica derrogação ao conceito de um Deus espiritual e transcendente. êle desempenha notável função. O primeiro de tais ternas é o do sangue. O valor religioso do sangue está baseado num pressuposto da fisiologia oriental. Os textos israelitas que se referem ao sangue. a fim de que o leitor possa plenamente penetrar o sentido do texto bíblico. por exemplo. 65.

) Ou ainda: "A alma (= vida) da carne está no sangue. conforme o Apóstolo. cedendo ao pecado. 2 De resto. Não podendo. que exprimia junto a Deus os sentimentos de justiça do defunto. ainda pode aspirar a uma reconciliação com Deus. em virtude de gratuita condescendência divina. necessário para a santificação do homem decaído.. atribuíam-lhe uma voz própria. Apc 6.2. quo est sedes animae. se após a queda o culpado. Estas idéias tiveram duas conseqüências práticas de grande importância na história sagrada § 1..14. Dhorme. ainda que o fizesse em ódio ao pecado (a vida é propriedade exclusiva do Criador).0 "SEM EFUSÃO DE SANGUE NÃO HÁ REMISSÃO DE PECADO" (Hebr 9. 17. Todavia Deus não permite que o homem tire a vida a si mesmo. sérvio escreve: ". 231. 5. . 1. o prirneiro passo que há de dar." (Dt 12. 79. em conseqüência disto.. 201-219. à imitação do sangue." Agi.Lança fora a alma côr de púrpura. 349.sangutnis imttationem. 1 Por conseguinte. por isto." (Oén 2. 3 "No dia em que comeres do fruto proibido. o homem perdeu o direito à vida. 1905). Vergilio mesmo refere: 'Purpuream vomit UM animam . o mesmo se narra dos mártires do Antigo e do Novo Testamento em 2 Mac 8. Assim em Gên 4. norteia a dispensação dos dons de Deus após a culpa cometida no 'paraísa O derramamento de sangue foi. Hebr 12. ii..22) É êste o princípio solene que.11.3. L'évolutíon religicuse .. ad . mas corolário lógico da culpa.24. é o de colocar-se na atitude de réu e reconhecer a justa sentença que sôbre êle pesa. Tão estranha lei se entende pelo fato de que.23. sede da alma. pela desobediência o homem se afasta de Deus. • alma de tôda carne é o sangue. derramar o próprio sangue para reconcir d'israel. 9. sim." Aen. iniquamente sacrificado.rlamente impôs ao pecador.. portanto. 252s. que é a vida mesma.. 243. consoante a sua praxe de educar e elevar os homens mediante uma condescendência prévia. E.) A morte não é sanção que Deus arbitrà. Deus no Antigo Testamento houve por bem adaptar as suas determinações a tal concepção.10 o sangue de Abel. Mesmo entre os romanos encontram-se vestigios de tal fisiologia. religions sêmiUques (Paris. . certamente hás de morrer. incorre inevitáveimente na morte." (Lev 17. ainda nas línguas modernas empregam-se equivalentemente as expressões "dar a vida" e "dar o sangue" pela pátria. e será até o fim dos tempos. Afirmava a Lei mosaica: "O sangue é a alma (= vida). no qual está a.166 PAfl ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO O conceito fisiológico era igualmente familiar aos israelitas.) 2 De tal modo era o sangue identificado com a vida que após • morte do indivíduo os judeus julgavam que o sangue conserva autonomia e personalidade. é dito clamar a Deus.

10 quem fala pràpriamente dessa aliança com os primeiros pais. porém. 6. Metzinger. Ainda em 1930 foram descobertas no santuário de Saturno em N'gaous (Africa romana) quatro monumentos votivos. os judeus conheciam muitos e variados sacrifícios no seu ritual. 592-599. A idéia de expiação. após o dilúvio. "Die substitutionstheorie und das alttestamentliche Opfer"." 'Alma por alma. Lev 1-7). que não fôssem acompanhadas de uma oblação interior ou de autêntico espírito de penitência. Handbuch der alto-. fôra chamado a uma aliança com o Criador. desde. desde remota antiguidade os israelitas (seguindo. todavia a idéia fundamental que a inspirava. tornavam-se um sinal de hipocrisia. dos quais refere varrão: Populus pro se in ignam animalia mittit . Jeremias.." (li. O uso tornou-se comum mesmo entre os romanos. (0 sacerdote) oferece o cordeiro em lugar da vida (do devoto) a cabeça do cordeiro. A. 'tal oblação exprimia o arrependimento do homem pecador e seu anelo de se unir de novo a Deus.7). rientaUschen Geisteskultur ( Leipzig. 5 É o autor de Edo 17. Também mediante a oblação de sangue exprimiam adoração.. Carcopino. A. 1. a praxe era. éle a entrega em lugar da cá beça do homem. estava intimamente ligada no Antigo Testamento a noção de aliança com o Senhor. em lugar do peito do homem. Cf. distinguiam tipos diversos de impureza. em lugar da nuca do homem. de resto.SANGUE E VIDA 167 liar-se com o Senhor. com Noé salvo 4 Entre os pagãos. sanguina pra sanguine." Cf.O povo atira animais ao fogo em seu favor. reaver a graça equivalia a entrar num pacto sagrado com Deus. pois. 156-162. 159-187. da personalidade. O autor faz notar que no Oriente de nossos tempos ainda está em vigor tal antiquíssimo costume.20. Ursemitisehe Reliqion fia Voliesleben dez tteutigen Orients (Leipzig. a cada um dos quais correspondia uma oferen da própria. como se compreende. Lev 17.. 4 imolavam-nos e ofereciam o seu sangue a Deus em substituição do sangue. da vida. obra em que se encontram citados vários outros textos). a nuca do cordeiro. Baseados nesse conceito de expiação. eis ao menos um texto do ritual assirio-babilónico: "0 cordeiro faz as vêzes do homem. . tais vítimas preenchiam de certo modo a finalidade de satisfazer à Justiça divina (cf. Ez 44. vita pra vita" . em Revue d'histoire dez Reltgions. gratidão e suas preces (cf." De lingua latina. é a que se acha acima exposta. Veja-se também S. do oferente. 353-377. Na medida em que eram realmente a afirmação de uma alma contrita. 106 (1932). Algo de semelhante é atestado por Ovídio. J. reconciliação com Deus. Is 1. 1913). sangue por sangue. 247-272. o peito do cordeiro."Pagaram a dívida sagrada." "Anima pra anima. 290. expressão de concepções politeístas e supersticiosas. Em testemunho do costume entre os semitas. como os profetas de Israel muitas vêzes afirmaram (cf. que trazem fórmulas como: "Sa- crum redgiderant.11. Por disposicão divina. vida por vida. 1903).11). inflamada de zêlo religioso. em Bíblica. 21 (1940).. um costume quase espontâneo entre os povos dé outrora) recorriam a animais irracionais. 1 Assim. agnum pro vi (caria). Curtiss. algo de abominável a Deus. "Survivancez par substitution des enfants dans l'Afrique romaine". Pasti. o cordeiro era substituição. à semelhança do que se dera com Adão no paraíso: dotadó da amizade divina.

dessa vez. 19. é a que posteriormente Javé quis concluir com todo o povo de Abraão. na história sagrada. 18-20). Éx 3. e uma coluna de fumaça e fogo (habitual símbolo do Senhor. adaptando-se à mentalidade do homem primitivo. No Oriente antigo. passou entre as carnes (cf.168 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO das águas Deus travou uma aliança. Gên 15. 13. é um compromisso mútuo. não se verificou o rito da passagem dos contraentes entre as carnes imoladas. prometendo-lhe prosperidade. Ora essas e outras convenções sagradas foram concluídas mediante efusão de sangue. ao pé do monte Sinai. querendo. tendo sido fiel a Deus nas provações a que até então tAra submetido. um e outro dos pactuantes passavam por entre as carnes imoladas. Êste rito teve aplicação. Com efeito. Neste pacto o sangue desempenhou papel ainda mais significativo. chamado do torrão natal idólatra para a terra sagrada. o fim do cativeiro (cf.9. caso a observasse. Deus entrou igualmente em aiiança. por ocasião da décima praga desencadeada sôbre o Egito. Deus dava a entender que não deixaria de cumprir as suas promessas de bênção.3-8. Por que isto ? De modo geral. chefiado por Moisés. os contraentes imolavam vítimas.que representava o Senhor Deus . dêste modo. a seguir.19s). 6 Outra aliança divina que de mais perto interessa considerar. que estavam dispostos a derramar o sangue e sofrer a morte.7-19). Tal gesto significava a comunhão íntima que para o futuro existiria entre Deus e o seu povo. merecera para êstes a preservação da morte e. o compromisso mútuo foi selado mediante a imolação de animais. com isto. por exemplo. significar que assumiriam a sorte das vítimas. já que Israel aceitava as disposições divinas. quando Deus se dignou travar aliança com Abraão. o mesmo. comunhao que O Abraão não passou em meio às vitimas. file o fêz com Abraão. qualquer aliança travada entre homens implica a aceitação de deveres de parte a parte. Moisés derramou metade do sangue das vítimas sôbre o altar . . Éx 24. Tendo libertado o seu povo. Deus houve por bem dar-lhe uma constituição própria (a Lei mosaica). caso se tornassem infiéis ou perjuros. pois já cumprira a sua pafle. com Moisés e o povo israelita tirados do cativeiro egípcio. fõra o sangue de vítimas que. Hebr 9.29-36). Êx 12. para exprimir que se obrigavam irrestritamente até a morte a observar o pacto. prometendo-lhe posteridade numerosa e abençoada em troca da fidelidade que o Patriarca até então mostrara ao Altíssimo: Abraão distribuiu em duas filas animais prêviamente imolados e divididos. isto é.21.e metade sôbre o povo (cf. ef. porém. marcando as portas dos israelitas. dividiam-nas ao meio e colocavam as respectivas metades em duas filas paralelas. indiretamente.2.

30. pois. textos em que o Senhor repudia os sacnficios hipôcritas de Israel). a representação de uma pessoa humana por um animal irracional imolado era um artifício reconhecido. inconscientes do que é o pecado. a Moisés Jayé mandou que imolasse um carneiro. obter plena pureza para a consciência humana? Foi por isto que. porém. embora condizentes com a antiga mentalidade oriental. apiedando-se da sorte do homem. eram. devia o Legislador aspergir com sangue Aarão. o polegar direito e o artelho direito maior de Aarão e seus filhos. tenha determinado dar tal relêvo ao sangue de irracionais.165). imperfeito. e com o sangue ungisse a orelha direita. no judaismo decadente. de então por diante. eram insuficientes para realizar o plano divino. no sangue que se fundavam as novas relações do Criador com as criaturas." (Êx 29. à prática das boas obras e ao caminho reto da justiça. havia desproporção entre os dois térmos.SANGUE E VIDA 169 teria conseqüências de vida e de morte (cf. O poder que o sangue tinha de unir ao Senhor se atuou ainda na instituição do sacerdócio do Antigo Testamento. Tais episódios dão a entender com suficiente clareza a importância e a eficácia que o próprio Debs se dignou atribuir ao sangue desde o início da história sagrada. não se explicaria bem que Deus. Era. quem quisesse interpretar essas passagens independentemente do seu grande contexto histórico. assim como os seus filhos e os trajes de seus filhos. sim. que se lançara no delito. sem o necessário espirito de reparação (ef. Puro Espírito. ou seja. . a fidelidade dos sacerdotes respectivamente à palavra de Deus. 1 "Não os quiseste" como se fõssem algo de definitivo. que me deste um corpo. indicando. fazendo que dêste dependesse a legalidade religiosa dos homens. Eis. era o sangue que mais uma vez associava Deus com os homens e os homens com Deus. mas dêle não se podia remir. poderia talvez julgá-las um tanto infantis. pois. Prossigamos. com isto. sem dúvida. quis um dia dizer ao Pai: "Sacrificio e oblação.7. abstração feita do que se seguiria nos séculos posteriores. seus filhos e a indumentária de todos: "Assim serão consagrados Aarão e seus trajes. Lev 8. o curso da história sagrada.11. Como poderia o sangue de sêres inferiores ao homem. não os quiseste. Es 44. Não se pode negar que as vítimas e os ritos do Antigo Testamento eram precários.21. até a morte (significada pelo sangue derramado) Aarão e seus filhos pertenceriam ao serviço do Senhor. feito isto.23s. mas.) A efusão do sangue sôbre o corpo e as vestes simbolizava que tôda a pessoa do sacerdote estava como que envolvida pela graça divina. Is 1. na plenitude dos tempos. o Filho de Deus. sé podiam ter valor provisôrio. cf. pela Lei mosaica. oferecidos de maneira demasiado formalista. Além disto. Hebr 9. Todavia.

sàmente enquanto estavam relacionadas (como figuras e prenúncios) com a Cruz é que tinham valor as vítimas imoladas desde os primeiros séculos. mas também à Majestade do Criador. que até a vinda de Cristo era mero sinal. a tua vontade.) 9 .se compreende. para fazer.. Tornou-se desta forma a antItese exata do primeiro homem. destino final que é a vida imperecível do céu. aquêle que incorreu na morte por amor ao Pai..7-9. o sangue de Cristo tinha junto ao Altíssimo um poder de intercessão incomparàvelmente mais eloqüente do que o das vítimas do Antigo Testamento. Cristo substituiu-se assim às hóstias irracionais dos antigos ritos. com plena consciência. e morte de cruz).. Deus e suas criaturas. Com a autoridade de Senhor da vida. sofreu a sortê dos réus. Simbõlizando a vida infinitamente preciosa do Homem-Deus. o sangue. 'Por Chato Deus quis reconciliar consigo todas as coisas. o Filho de Deus tomou uma natureza humana e ofereceu em nome de todos a sua carne e o seu preciosíssimo sangue. sangue humano inocente por sangue humano iníquo eram finalmente oferecidos a Deus. Então disse: 'Eis que venho. pois a infidelidade de Adão criara uma divisão entre criaturas fiéis e criaturas infiéis ao Criador. cf.5-7. ó Deus. eis o que o sangue de Cristo nos mereceu. para reparar a obra do primeiro Adão. era o sangue sacerdotal por excelência. com tôda a generosidade que o amor inspira.. (até a morte. fêz-se o segundo Adão. portanto. S. o centro da história.170 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Holocaustos e sacrifícios pelos pecados. mesmo superabundante. 'elevação do homem ao estado de filho de Deus.8. a fim de libertar a êstes. Como . obteve. pelo sacrifício do Re51 39.'" Desejoso de expiar o põcado e reconciliar com o Pai o gêúero humano. no sangue de Cristo. as que estão aa terra e as que estão nos céus. instaurando a• paz pelo sangue da sua cruz. Paulo acrescentaria: nesse sangue também os anjos bons se aproximam do homem." (Col 120. 9 Ésse sangue ocupa o centro do mundo. pois. cujos preceitos se resumem em amar a Deus e àqueles a quem Deus ama. É neste sangue que Deus e o homem se encontram num consórcio muito mais íntimo do que o do paraíso perdido. pois correspondia não apenas à dignidade do homem. FIp 2. e constituiu-se a vítima que. os pecados do mundo cometidos desde os primórdios até o fim dos tempos.. era apto a expiar de maneira cabal. que incorreu na morte em revolta ao Pai. Hebr 10. pagava o devido tributo à Justiça divina. tornou-se. sem restrição os benefícios que as múltiplas imolações da Lei mosaica só conseguiam em pálidos têrmos: remissão dos pcados. não os aprovaste. nova aliança. tocam-se o céu e a terra. vida humana santa por vida humana prevaricadora.

antes. êle jamais a produz artificialmente. . os filhos de Israel. da observância da mes"Não 9. só depois dêste rito lhes era lícito comer a carne (cf.° "QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE POSSUI A VIDA ETERNA" (Jo 6. por efeito das circunstâncias. também não a conserva como desejaria. Só Deus é senhor da vida e da morte.12-14. o consumo do sangue era considerado uma espécie de sacrilégio. e o sangue do Filho de Deus feito homem! E não era uma ordem de somenos importância. entre os israelitas. o sangue se identifica com a vida do animal. Apresentando aos discípulos um cálice.. o qual será derramado por muitos para a remissão dos pecados. aos seus fiéis que bebessem sangue. o homem bem percebe que a vida lhe é transcendente. Lev 17. 7. Por sete vêzes (número da plenitude) inculca a Lei mosaica tal ordem comereis carne com a sua alma (= sangue)" (Gên "Voltarei minha face contra aquêle que tiver consumido sangue. a fim de o oferecer sôbre o altar do Senhor.27.13). Dt 12. § 2. sinal eficaz. algo de sagrado. a Lei prescrevia que fizessem escorrer o seu sangue e recobrissem de terra o líquido precioso (cf. não fôsse possível levar a prêsa ao altar do Senhor. Cf.17. e o separarei do meu povo. pois isto é o meu sangue. que parecia contradizer aos desígnios antigos. Hebr 9. ao abaterem um animal comestível eram obrigados a levá-lo aos sacerdotes. Daí se seguia a estrita proibição de jamais beberem sangue.235. Sôbre êste fundo de proibições tão solenes é que ressoou na plenitude dos tempos um preceito emanado do mesmo Deus. Ora é proposição fundamental de tôda religião que a vida é propriedade exclusiva da Divindade.. sangue da aliança nova.4-6). para qual estava reservada a gravíssima pena da excomunhão.SANGUE E VIDA 171 dentor. que lhe extraiam o sangue. 19. o sangue fôsse igualmente tido como propriedade de Deus. Por conseguinte. 17.16.8-10). o Sénhor Jesus se dignou dizer-lhes: "Bebei todos. Lev 3." Pela primeira vez na história." 10 Como se vê. Se. Estas premissas fizeram que. após uma caçada.4) 10 Lev 17. a que Jesus dava na última ceia. da vida eterna (cf. Lev 17. Deus permitia.10. sinal portador e realizador da vida.54) Voltemos ao pressuposto fisiológico: no sangue está a vida. preceituava.26.

não viver vida meramente natural. conforme o plano divino. Aquêle que. não tereis a vida em vós.vemo-lo insinuado nas proibições do Antigo Testamento: o sangue de animais.. 57. surge espontâneamente a questão: por que terá Deus assim "jogado" com suas proibições e seus preceitos ? Na legislação concernente ao sangue. em outros têrmos: desde tôda a eternidade foi o homem chamado a se tornar filho e herdeiro de Déus. do seu modo. com efeito. O aspecto positivo da vocação do homem . a posse da vida eterna: "Se não beberdes o sangue do Filho do homem. nem queira viver para outro fim senão êste . bebe o meu sangue.) Note-se o contraste: no Antigo Testamento. Com efeito. como dissemos. no Novo Testamento. mediante o seu "jôgo" de proibições e preceitos.172 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ma dependeria. permanece em mim. a fim de o elevar aos poucos à compreensão de verdade mais sublime. por ser o do Homem-Deus.. de maneira marcante. possui a vida eterna. o consumo de sangue implicava excomunhão. a uma posse de Deus tal que ultrapassa as exigências da natureza. Expliquemo-nos: o gênero humano nunca estêve destinado a um fim meramente natural.eis o que a legislação bíblica concernente ao sangue hoje • . glorioso ." (Jo 6. pode comunicar a vitória sôbre a morte que. só pode comunicar vida precária e bem-estar exíguo. não faz senão diferir a morte certa que toca aos filhos de Adão. Ora o aspecto negativo desta vocação . Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. Não se dê por satisfeito com meta inferior à visão de Deus face a face.viver a vida de filho de Deus. não se contentar simplesmente com os bens que a criatura proporciona . a vocação do homem a viver vida não meramente natural. deve tocar a todos os homens. o Senhor quis adaptar-se a uma tese da fisiologia antiga.. condescendendo com o homem de mentalidade primitiva. Para quem reflita sôbre os textos citados. é o consumo de sangue condição indispensável para que haja comunhão do homem com Deus e também com o próximo.54s. já o primeiro homem foi elevado à ordem da graça e destinado a um fim último sobrenatural. a Sabedoria divina queria inculcar.. desde que considerado como veículo da vida. Por conseguinte. uma vez pressuposto que o sangue seja o veículo da vida. para os homens. e eu nêle. isto é. êste sangue. mas a participar da vida do próprio Deus. que nada menos do que a participação da vida divina está reservada ao homem. a proibição rígida do Antigo Testamento e o preceito não menos categórico de Jesus significam.vemo-lo expresso na entrega do sangue do Filho de Deus como alimènto aos discípulos. isto é. vida imortal num corpo ressuscitado. à consecução da bem-aventurança que a natureza por si exigiria. e só êste.

a grandeza das realidades que hoje. são ainda portadores de uma mensagem: ilustram. que conseguimos a vida verdadeira. . talvez estranhos nos nossos dias. Sem o saber. não obstante. por Cristo. os homens dos séculos pré-cristãos nos ajudaram a compreender que. cada qual do seu modo. é.SANGUE E VIDA 173 nos transmite. embora não tenham mais vigor de lei. o do Filho de Deus feito homem. embora o sangue não seja a sede da alma e da vida. a que não sucumbe à morte. e por um só tipo de sangue. possuímos. pelo sangue. Os preceitos rituais do Antigo Testamento.

estimulando-o a perscrutar-lhes as origens e os remédios. Interessa-nos verificar como isto se fêz entre os povos pagãos e como a Sagrada Escritura. mas principalmente a preces. aprecia as doenças. que purificariam o homem e afugentariam os espíritos. o parto) e os cadáveres eram tidos como impuros. pouco condizentes com a Sabedoria de Deus e a ideologia de um homem culto. ENTRE AS NAÇÕES PAGÃS Fora de Israel. da doença. era comum atribuir as moléstias do corpo à ação de maus espíritos. chegar a Deus. até certas funções fisiolágicas (como a menstruação. Visto que os antigos costumavam considerar tôdas as coisas à luz da religião. § 1. como bem se entende. Mesmo ao aplicar meios terapêuticos autênticos. ou seja. a conceição de prole. os antigos os justificavam por motivos religiosos. assim julgavam . exorcismos e outros ritos religiosos.° AS DOENÇAS As doenças. ainda hoje usuais. Desta forma sonhos e doenças na Bíblia vêm a ser por vêzes uma pedra de tropêço para quem deseja. 1. Eis a razão por que o capítulo presente se propõe considerar o problema e procurar o autêntico significado que os mencionados fenômenos devem ter no livro inspirado pelo Senhor Deus.CAPÍTULO XI DOENÇAS E SONHOS Doenças e sonhos são objetos em tôrno dos quais a imaginação popular de todos os tempos muito se exerceu. julgavam mesmo necessário vê-las através dêste prisma. pela Sagrada Escritura. causados pela influência de sêres invisíveis nefastos. por sua vez. Dos efeitos dêsses agentes malignos e. devia o enfêrmo libertar-se recorrendo não tanto a processos e remédios cientificamente estudados. em particular. levando fàcilmente o indivíduo à superstição. sempre solicitaram a atenção do homem. Ora os autores dos livros sagrados freqüentemente se referem a doenças ou apresentam interpretações de sonhos em têrmos que parecem simplórios. sacrifícios. também às enfermidades físicas sabiam dar interpretação religiosa.

pondo em perigo o bem fundamental. porém. entre os romanas) era o nome que se dava à epilepsia. Os antigos.). causa da moléstia. Prescreviam outrossim banhos de purificação para a mulher. não se podia dar significado mais autoritativo do que o significado religioso. robustecimento e extinção) como sujeito a sêres superiores ao homem. E. 'Fautes contre Yahweh dans les Livres de Sanluel". Em particular. não a produziu nem a conserva indefinidamente. por fim. 146s dêste livro. em Revue bibli4ue. Ao ver um louco. às leis de saúde. contorcendo-se desfigurado. expelir o demônio 1 do corpo do paciente.. parece claramente sujeito à moção de um ser superior. um ser superior ao homem dotado de influência sObre a vida humana. conservação. fisiológicos. em seus oráculos freqüentemente receitava banhos. Conforme crenças orientais. A luz dêstes pressupostos explicam-se estranhos pormenores de terapêutica e religiosidade antigas: "doença divina" (divinus morbus. O fundamento principal desta tese é assaz evidente: todo indivíduo tem consciência de não ser senhor de sua vida. Podia ter intenções benévolas ou malignas. os antigos entendiam geralmente sêres corpôreos sutis. donde êle partiria definitivamente. em português) significava originàriamente. as doenças. provocando escapamento de sangue. 2 Asclépio ou Esculápio o Deus Médico. sangue que consigo levaria o espírito funesto. Dhorme. invisiveis.176 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO que massagens. emprêgo de vapores teriam por efeito calcar ou molestar e. os demónios foram sendo mais e mais considerados nefastos ao homem. que é a existência. La Religion des Hébreuz nomaas. 167s. muitos implicavam simplesmente fenômenos naturais. com o mesmo fim. terão contribuído para que se admitisse a liifluência de maus espíritos na origem de fenômenos fisiológicos: o caráter mais ou menos repugnante de certos dentre êstes (lepra. 53 (1946). Ao falar de "espiritos". Aos poucos. 302s. debilitação. o que se verifica já sem hesitação nos escritos cristãos. 1 A palavra grega daimon (donde 'demônio'. Sôbre o mesmo assunto vejam-se também a pág. Ainda dois outros fatôres. praticavam cortes na carne do enfêrmo. etc. a culpa. eram tidas na conta de castigo infligido pela Divindade ou pelos espíritos que os homens houvessem irritado. 2 É importante notar que nem todos os casos de presumida influência dos espíritos maus eram casos de culpa moral. A. . ou então deslocar o mau espírito do órgão afetado para os pés do doente. moléstia em que o homem. chagas. George. mais poderosos que o homem. ao menos entre os povos primitivos anteriores a Israel. assim corho para as pessoas que provocassem a morte de outrem. poderia ter sido cometida numa existência antenor à presente.. tocassem cadáveres. entre os paflos. porém. tendiam a conceber tudo que se refere à vida humana (sua geração. 3 Cf. que são graves. e a preocupação de conservar na sociedade rude a necessária higiene.

Haja vista. muitos cânticos penitenciais dos antigos povos pediam não sèmente o perdão de pecados (a cura da alma). em conseqüência. Divindade nos seguintes termos: "Segura a sua mão (do enfêrmo). o cnthousiasmõs. tratar em tódas as acepções do têmo. Cf. entre outros. seus discipulos o derivavam de epilcourein. pelo mal dos pesadelos noturnos que lhe infligia o demônio Efialtes. curar. os médicos eram também filósofos. sobressai o tipo de Hércules. sim. e nos respectivos lugares da cidade em que cada uma se deitou. portadores da sabedoria moral necessária para curar as chagas ou os vícios do espírito. tendo irrompido uma epidemia mórbida em Atenas. 6 Narra Diógenes Laércio (1.C. XVIII ao.ibras. achaque"." (Tooi proseelconti th. pois julgavam que tal homem (rnedjnoun) estava possuído por um djin ou gênio.110) que. o contato com o sangue de Nessos. maltratá-lo seria o mesmo que atentar contra os direitos do Todo-Poderoso. conforme um ritual babilónico. Nósos em Kittel.." Seguia-se a descrição da cura da doença respectiva. devia o sacerdote ao qual se apresentasse um doente.. Explica-se também que códigos legislativos religiosos da antiguidade ameaçassem doenças àqueles que ousassem violar os seus preceitos. isto é. por exemplo. peste maligna.). 7 Algumas das palavras babilónicas que significam "pecado". mas também a cessação de doenças (a cura do corpo). lhe fêz contrair uma espécie de lepra acompanhada de cã. Fase cessar a sua febre (?) e aflição.eoot). .. medicina e filosofia não raro eram simultâneamente cultivadas. ainda o seguinte aspecto da ideologia pagã concernente às doenças. que se termina condenando os eventuais transgressores a "uma doença grave." Em outro texto. uma mordida mortal. e. Na mitologia grega tomou-se muito estimada a figura do "herói doente e sofredor". oepke. 8 E o que explica o trocadilho feito em tôrno do nome do filósofo Epicuro. 4 tendo Deus colocado a mão sôbre êle... 1942). êste produzia a enthousia. por coceira que o deprimia e tornava melancólico. têm igualmente o sentido de "peste. Theologísclzcs Woertcrbuch rum Neuen Tertame?rt. rezava o fiel devoto: "Meus pecados. o código babilõnico de Hamurapi (séc. dirigir-se à. a fim de que glorifique o teu poder. IV (Stuttgart. deu à população o conselho de a debelar oferecendo sacrifícios ao deus que provàvelmente não os recebera nas funções do culto. e vice-versa. o super-homem provado pela dor: era afetado. Depois de Alexandre Magno. Sàmente 4 Também entre os gregos o 'entusiasmado" era o homem possuído por um theõs (deus). soltaram então. chaga perigosa incurável. desencadeara a peste. imolaram-nas em sacrifício. Entende-se outrossim que a técnica de curar moléstias tenha recorrido a exorcismos. portador do veneno da hidra. a partir da colina do Areópago. que não possa ser amainada por curativo. 8 Não se poderia silenciar. Ele (o deus invocado) permitiu que o vento os levasse. mesmo num estudo de Sagrada Escritura. Permite que teu servo viva. etc. Nesses mesmos lugares foram erectos altares com a dedicácia: "Ao deus a quem compete.. que sobreviera àquela cidade entre 596 e 593 a. perdoa seu pecado. que o médico não saiba diagnosticar. ritos de expiação.DOENÇAS E SONHOS 177 costumavam os orientais arredar-se com temor sagrado. ovelhas pretas e ovelhas brancas. 1085... um cretense chamado Epimênides.

• buir as doenças à ira de deuses ou demônios. Interessante. Como os demais povos antigos. os gregos costumavam atri. Na ideologia de Israel e na dos demais povos há um fundo doutrinário comum: a crença de que as doenças provêm de uma ofensa do homem à Divindade. Notem-se os seguintes exemplos: - . Em Israel. a plenitude. entre os pagãos era explicada de acôrdo com as idéias politeístas de cada povo: admitindo muitos deuses e. porém. Assim é que os pagãos reabilitavam ou resgatavam o conceito de doenças e flagelos decorrentes das vicissitudes desta vida. os textos bíblicos concernentes às doenças apresentam suas analogias com os documentos profanos antigos. porém. NO POVO DE ISRAEL Passemos agora à consideração dos livros sagrados de Israel. ao mesmo tempo. como se êstes dois têrmos fôssem estritamente correlativos entre si. do desenvolvimento do individuo. A mentalidade. acrescentando à culpa do primeiro homem as suas faltas pessoais. os mitos punham em realce que é pela dor que o homem se comprova e atinge a sua maturidade. que reflete o desequilíbrio introduzido por Adão nas suas relações com Deus. em conseqüência. deixando-se aplacar logo que sé lhes oferecessem "dádivas". e fatôres necessários. tornam-se mais e mais sujeitos ao padecimento e à moléstia. são castigo. eram considerados fatôres. que os perpassa é bem diversa da que inspirou os trechos pagãos. à semelhança de homens apaixonados. intensificam a desordem. freqüentemente no Antigo Testamento ocorre o binômio "pecado-doença". a concepção era radicalmente monoteísta: o primeiro pai. porém. a saber: o senso trágico e. é que explicavam também desta forma as moléstias dos heróis mitológicos. admitiam também muitos espíritos causadores cada: qual de determinada doença. ao contrário. julgavam outrossim possível que êstes punidores do homem pudessem proceder por mero desejo de vingança ou inveja. experimentam no próprio corpo um desequilibrio (doenças). Oriundos no mundo greco-oriental em que as idéias acima tinham curso. a ação dos demônios. semideuses. otimista do povo grego. Assim o drama do pecado marcou profundamente a ideologia dos judeus atinente à doença. revoltou-se contra o Criador Bondoso no paraíso. 2. representante do gênero humano. todos os seus descendentes sofrem a revolta da nattireza. Esta tese. o furor e a inveja dos deuses desencadeando-se sôbre o homem. nisto manifestavam um traço profundo da sua psicologia e religiosidade. os filhos de Adão.178 PARA ENflNDIR O ANTIGO TESTAMENTO a morte e a apoteose puseram têrmo aos padecimentos de Hércules.

.. parecem visar uma tendência do judaísmo a vilipendiar a medicina. Haja vista a recomendação do sábio mestre.. que muito o fazia sofrer..58-61).DOENÇAS E SONHOS • 179 aos transgressores da Lei de Deus. Além disto. Aza "mesmo durante a doença não procurou o Senhor.12: o autor narra que o rei Aza de Judá. .) Êstes dizeres. mas de modo nenhum aprova). Que êle não te abandone. que datam aproximadmente do ano 200 a. Meu filho. os amigos de que se queixa o salmista no 51 40. até que sejas exterminado. foi acometido de uma doença dos pés (gôta ?). porém.12-14. Éle é admirado em presença dos grandes. Pois também êles (os médicos) oram ao Senhor. Moisés prediz justos castigos. entre os quais a irrupção de doenças: "Se não fôres solícito em observar tódas as palavras desta lei.C. Por êles o homem produz a cura e extingue a dor. 0 livro apócrifo de Henoque.15-23). dá acesso ao médico.6-10. particularmente digno de nota é o episódio de 2 Crôn 16." (Vv..7. escrito pouco antes do Edo. o Senhor desencadeará sôbre ti tôda espécie de doenças e pragas que não são mencionadas neste livro da Lei. levanta as tuas mãos E purifica de todo pecado o teu coração .9s. precisamente por ser tidos como pecadores denunciadps pela própria justiça divina. Ora.. em Edo 38: -'Honra o médico por causa das tuas indigências. tendo-se mostrado infiel ao Senhor. o Senhor inflígirã a ti e à tua posteridade pragas ex traordinárias. Pois foi o Altíssimo que o criou A ciência do médico lhe faz levantar a cabeça. procurar recuperar a saúde por simples recurso à medicina parecia ser endurecimento ou obstinação do pecador ferido! o texto de 2 Crôn 16. assim procederam as espôsas de Jó e Tobias em relação aos respectivos maridos (cf. de modo nenhum implica menosprêzo em Israel para com os médicos ou profissionais da ciência. não desprezes meu conselho. O Senhor fêz a terra produzir os medicamentos.12. pragas graves e persistentes. doenças perniciosas e tenazes. A seguir. diante das quais tremias.. para cúmulo de sua infidelidade e infelicidade. se caires doente. .3s. Mas ora ao Senhor.9s. Tob 2. e elas se prenderão a ti. Fará voltar sôbre ti tôdas as moléstias do Egito. e tle te curará. foi o Senhor que o criou. 1.. Afasta o pecado. Jó 2. E o homem sensato não os desdenha." (Dt 28. mas os médicos"! De tal forma os conceitos de "pecado" e "doença" eram associados entre si que não se via lugar para uma cura meramente científica das moléstias. pois a sua arte te é necessária. os israelitas às vêzes infligiam aos seus enfermos tratamento de desprêzo e escárnio (tratamento que a Bíblia refere. Suas mãos terão sucesso.

14.19.12. os outros o "exército dos céus" (cf. Jó 1. 2." Citação de um estudo . os astros. 45. P. Is 37. Is 4426. dizia a indispensável fórmula. Jos 5. 126. 10 O Justamente o conceito de anjo. poderá esperar alívio da intervenção do médico.7). proferia outra quando o doente bebia a poção. o enfêrmo deve primeiramente confiar-se a Deus e purificar a alma. portanto). de sorte a violar o monoteísmo de Israel. recitava outras tantas fórmulas sõbre os diversos ingredientes de que se servia para a fabricação do medicamento.6). que são os anjos. em particular pelo fato de que anjos e astros. tenha-se confiança nêle.. na Sagrada Escritura. como se julga). 1954). io ciência e magia eram tão ligadas entre si que na prática o médico não raro era mago. parece ter-se desenvolvido. dispondo das mesmas. Th4oiogie de l'Ancieir l'estament.jamais o "anjo do extermínio ou da enfermidade" nos textos bíblicos é apresentado como outro Deus ou como semideus.19. constituem uns o "exército de Javé" tcf. na história de Jó (cf. em reação contra o politeismo dos babilônios e de outros povos.8). 12-14). que adoravam o exército dos céus". Jó 38.16s). no extermínio do exército dos assírios (cf. que povoam ou ornamentam o céu juntamente com outras criaturas. ao punir alguém com moléstia ou morte. espirito superior ao homem. Entrava em casa do paciente pronunciando uma fónnula mágica. no flagelo da peste que castigou o reino de Davi (cf. Dizia uma imprecação quando tomava em mãos o vaso que servia para medir as substâncias necessárias à coafecção de um remédio. Contràriamente. 69. Contudo .1-5). Dt 4. embora relativa. Jer 33.e ainda hoje se dizem— possuidores de fórmulas ou receitas extorquidas da Divindade por indústria do homem ou reveladas por um espírito superior às vêzes invejoso de outro. entre os israelitas. se pode servir do ministério de espíritos ou anjos.e isto merece tôda a atenção . na de Sara (cf. são intimamente associados entre si (cf.12. Si 32. mas inferior a Deus (criatura. Ne 9. ° Javé manda ou permite.3s. O médico egipcio "associava fórmulas mágicas a toda a sua atividade.2). van Imschoot. 1. 3 Rs 22. e o anjo executa o desígnio do Senhor Deus. reduzidos à categoria de criaturas de Deus.3). movendo-se todos em plena sujeição às ordens do Único senhor.. a seguir. Tob 3. Admitindo nos têrmos acima o pecado como raiz das doenças. (Paris.23). o autor sagrado inculca que o médicõ tem vocação divina e é indispensável.6. o qual há de recorrer tanto à ciência quanto à oração (cf. na teologia de Israel.8-12). 2 Sam 24. Tais homens se diziam . Esta conclusão é insinuada. cada vez que aplicava ou retirava uma bandagem. 139-141. 17. Tais séres celestes terão sido.180 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO incriminava os anjos maus por haver comunicado aos homens a ciência dos diagnósticos e dos remédios (8.36.7). o curandeiro consegue "forçar" a Divindade a produzir o que o "sábio" quer. Cf. SI 148. o mal desencadeado pelo anjo terá sido uma epidemia mórbida.22. considerando a êstes como deuses (cf. postos era paralelo (cf. os israelitas reconheciam que o Senhor Deus. Esta mesma verdade é indiretamente confirmada pelo fato de que a legislação de Israel não tolerava a existência de curandeiros ou magos. Si 148. Foi o que realmente se deu na mortandade dos primogênitos do Egito (cf. Éx 12.

Eucaristia (cf.. mas isso aconteceu a fim de que as obras de Deus nêle se manifestem. transcrita de Spicc." Na comunidade de Corinto doenças e mortes prematuras entre os fiéis eram por 5: Paulo atribuidas à recepção sacrilega da S. 1 Cor 11.1-33 li de F. que Satanás paralisava havia dezoito anos.30). crença que tôda a literatura israelita professava solenemente (cf. A Providência Divina pode permitir que penosas doenças acometam os justos não precisamente para castigá-los. em La Sainte Bible. era curva. a tese de que a moléstia é conseqüência do pecado. como conhece as 'simpatias' das pedras. e repetidamente. o Senhor. mas em vista de outros fins. não se creia que tôda enfermidade provém de culpa pessoal e grave cõmetida pelo paciente ou seus familiares. são incompatíveis com a crença num só Deus. podendo ser provocada por um mau espírito ou por Satanás "Jesus ensinava numa sinagoga em dia de sábado. tendo curado um paralítico. não peques mais. viu Jesus um homem cego de nascença. Embora esta seja decorrente daquela." (Jo 11. Éx 20. a fim de que não te aconteça algo de pior. recomenda-lhe: "Eis-te são. o rei Nechepso já tomou conhecimento das 'simpatias' dessas plantas. como professa a Revelação desde o livro do Gênesis.DOENÇAS E SONHOS 181 Está claro que tais concepções só se podem originar no politeísmo ou num ambiente em que a noção de Deus é deficiente. para que nascesse cego ?' Jesus respondeu: 'Nem êle pecou. por um espírito que a tornava enfêrma. de Pirot-Clamer.22s.. Em . e envolvendo-a numa visão otimista do universo. 759. êle ou seus pais. . e disse: "Essa absoluto erguer a cabeça filha de Abraão. havia dezoito anos. trouxe nova luz sôbre a maneira como se ligam entre si pecado e doença..14.) Episódios semelhantes ocorrem em Mt 12. não convinha libertá-la dêsse vinculo em dia de sábado?" (Lc 13. Interessantes também são as observações de Cumont 'Asclépios (Imflotep) revela no seu santuário ao médico Tessalos o momento e o lugar propícios á colheita das plantas sujeitas aos planêtas e aos sinais do Zodiaco. quem pecou... 1946). 172.Jo 5. Encontra-se ainda.17. VI (Paris. . . Os escritos do Novo Testamento se sobrepõem à ideologia israelita no tocante às doenças. nem seus pais.1-5. As noções dos hebreus se aperfeiçoaram com a revelação cristã. 11 Notem-se também as palavras de Jesus a respeito da enfermidade de Lázaro "Essa doença não é mortal. Perguntaram-lhe então os discípulos: 'Senhor.) Veja-se ainda Lc 13.4. e não podia em " O Senhor curou-a.16. Lexa.14." L'Egijpte dez astrologues. porém.'" (Jo 9. por exemplo. Lc 11. "L'Ecclésiastique". Muito claro é o episódio seguinte "Ao passar. completando-a. Senhor de todos os espíritos e homens. a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado. Encontrava-se lã uma mulher possuida.. estas são simples e de maravilhosa eficácia medicinal. Mc 9.mas verifica-se para a glória de Deus. porém. O Senhor Jesus.6-10). Dt 5.10s.2-6..

Paulo diz ter rogado três vêzes ao Senhor que o eximisse de tal padecimento. a miséria da carne se tornara fortaleza e título de glória para o Apóstolo. Pois. por conseguinte. etc. Paulo (2 Cor 12). é pedagogo para o discípulo de Cristo. E porque assim o teria punido a Providência? A fim de que. obra da Justiça de Deus. Obra da Justiça e obra do Amor misericordioso de Deus. mas também ocasião de amadurecimento e perfeição para o homem. que decretou salvar e glorificar o homem pela miséria mesma de sua natureza. Em vista disto. Não obstante. abraçou a angústia e a morte como justa sançao devida ao pecado de Adão." (12. quando sou fraco. não se ensoberbecesse pelos donsextraordinários que recebera de Deus (visões. que êle também chama "um anjo de Satanás que me esbofeteia" (12. "pois é na miséria (do homem) que o poder (de Deus) exerce tôda a sua pujança" (12. mas é outrossim ocasião de exaltação. justamente então é que sou forte.182 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO E quais as obras de Deus que. se manifestam no justo acometido pela doença? O Senhor poderia dar a autêntica resposta apontando para o otimismo dos gregos que forjaram o mito de Hércules ou do herói aflito.9s. porém. gloriar-me dos meus achaques. os intérpretes julgam tratar-se de doença. Experimento prazer nas fraquezas nas misérias extremas que sofro por Cristo." É. verdadeiro homem. achaque físico). O Apóstolo refere que o Senhor "colocou em sua carne um aguilhão". a fim de que a fôrça de Cristo habite em mim. modo que implica progresso notável em relação à mentalidade do Antigo Testamento? "Experimento prazer nas misérias extremas que sofro por Cristo. a sabédoria helênica. apenas Cristo lhe prometera a sua graça para tudo suportar. ensina que a moléstia não é tnicamente castigo (como se julgava nos primeiros tempos do povo de Israel).). Foi o padecimento de Jesus que revolveu as antigas concepções de sofrimento e miséria física.) A punição. Como os gregos julgavam que a doença não é apenas sanção. assim a fé cristã. conforme Jesus. como se vê. em outros têrmos: é também obra do Amor. a união com Cristo que dá novo sentido ao sofrimehto de Paulo é do cristão. Cristo.9). o Apóstolo concluía em tom de triunfo: "Prefiro. eis o que se manifesta nas doenças do cristão. num plano ainda mais elevado ou sobrenatural.7. não fôra. o que era deprimente. continuamente recordado da debilidade ou miséria de sua natureza. de redenção para o homem. no caso. mas o autêntico homem . se convertera em ocasião de complacência! E qual o fator dêsse novo modo de pensar. Mas donde se depreende tal conclusão? Muito significativa a êste propósito é uma página dé S. atendido. êxtases.

vive muito de imagens. uma à sua direita. Ora o fato de que em Cristo a natureza padecente estava unida à Divindade. a doença e a morte na trajetória do homem! § 2. A propósito do faraó Chechonque 1 narra-se o seguinte: um reizete eglpeio viu durante a noite duas serpentes. aos sonhos da terceira parte da noite 12 No Egito. os sonhos eram geralmente tidos como estados de alma nos quais o homem entrava em contato com o mundo dos deuses ou dos gênios (espíritos superiores). Mestre. o. que perpassa os trechos escriturísticos é muito mais elevada que a da literatura extrabíblica. divinizando-o. tragado pela Vida. para libertar o réu. mas também vencido. simbolos. mas do Rei que se fêz réu. a mentalidade. dotado de fantasia particularmente fecunda. verificou haver sonhado. pensava-se que principalmente os reis eram agraciados por tais comunicações do Alto. dando-lhe o significado não sômente de pena justa (como o tinha no Antigo Testamento). nos quais êle vê significadas realidades superiores. Em algumas páginas do Antigo Testamento. transformando a morte em passagem para a imortalidade. a sorte de todo e qualquer discípulo de Cristo que sofra unido ao.DOENÇAS E SONHOS 183 Jesus era. pois o homem do Levante. Era por estar plenamente consciente desta verdade que Paulo ousava proferir a paradoxal interpretação de seus achaques em 2 Cor 12. orientais e concepções antigas depuradas de politeísmo. responderam-lhe que um próspero futuro lhe estava reservado: já senhor do Alto Egito. não mais percebendo os animais. a outra à esquerda. não pode deixar de tocar aos sonhos papel importante. ao mesmo tempo. por exemplo. Tendo Interrogado os Intérpretes a respeito desta visão. 12 Em particular. Através de expressões. porém. recebendo dêstes admoestações atinentes ao passado ou ao presente. mas também o de remodelação do homem. transformou o sofrimento. foi a pena não simplesmente do réu. o padecimento do Filho de Deus na carne humana foi um sofrimento não apenas suportado. contava-se que o deus Ptah indicara ao faraó Merenptah o que devia fazer numa ocasião em que povos do mar invadiam o deita do Nilo. o Senhor preparava. muito digno de Deus. Acordou e. verdadeiro Deus. para a plenitude dos tempos. Eis o têrmo no qual se remata a doutrina bíblica concernente às enfermidades do corpo. Entre os povos antigos. que têm o sofrimento. havia de conquistar o Egito . Sabia que a sorte de Cristo se tornaria a sorte de Paulo. revelações a respeito de acontecimentos ocultos ou futuros.° OS SONHOS Num cenário de vida oriental. livro sagrado apresenta passagens que certos exegetas quiseram comparar às dos documentos pagãos. a revelação do sentido profundo.

La vis quotidienne eu Egypte. a interpretação do sonho se fazia simplesmente por analogia: um sonho feliz era bom agouro.5-22. tais como estavam em uso no Egito. a atenção o fato de que na Sagrada Escritura o povo de Israel professa fé nos sonhos e o próprio Deus parece corroborar esta atitude. desempenham função notável. Receber uma harpa implicava desgraça.. que usavam de técnica complexa. havia intérpretes oficiais das mesmas. filho de Nout. os homens de tal ou tal religião procuravam dormir nos santuários respectivos.4. e não raro levava a graves erros na vida prática (à semelhança do que ainda nos tempos atuais se verifica). O homem que tivesse tido um sonho inquietador não devia desesperar. Recomendava-se-lhe que invocasse a deusa Isis. pois o nome tomé. II dc. tomavam ingredientes provocadores de sonhos. e com o conjunto resultante se esfregava o rosto de quem havia sonhado. 46-49. 40. 46-8. os que marcam a vida do profeta. no Novo inteiro e fazer aparecer sôbre a sua cabeça um abutre. engrandêcimento. Dan 2.gos de palavras eram muito explorados: Comer carne de asno. ã mistura acrescentava-se incenso. sim. pois os conceitos de "asno" e 'grande" eram homônimos. anunciava prazeres. Assim os trocadilhos ou jo. a qual saberia como defender o devoto dos males que Sete. No séc. O documento data da 19? dinastia (os. a fim de que a interpretação dos sonhos não ficasse ao alcance de qualquer individuo.C. expl'icitamente provocados ou elucidados pelo Senhor. Sonhar com homens de autoridade e poder também implicava bem-estar para o futuro.1-36). Há. refere. Para quem não pudesse consultar os adivinhos. mau. tenham-se em vista. significava elevação. de 1300 a. 4. Montet. La vie quoticlienne eu Egypte au temps de Ramsds (Paris).) . e uma cobra. ao passo que mau sonho presagiava desgraça. Eis o que se depreende do mesmo Em muitos casos. Artemidoro de Éfeso. Êste proceder afugentaria todos os maus agouras transmitidos pelos sonhos.5-11. Cf. 14 É claro que a crença no valor profético dos sonhos estava freqüentemente ligada a superstição. baseado em suas experiências. fazia pensar em bin. Já que as imagens vistas em sonho eram não raro ambíguas. Odisséia. preconceitos humanos. Também se usava a seguinte receita: umedecer em cerveja alguns páes com ervas verdes. idéias contemporâneas à 12. porém. pois havia meios para deter os infortúnios previstos. 14 O papiro Chester Beatty III apresenta alguns dos critérios de interpretação. porém.7). . Chama. harpa. em sonho. nos templos de Esculápio (o Deus Médico). Sonhos obscenos valiam como péssimos prenúncios. porém.. Havia. episódios bíblicos em que os sonhos. depois no Egito (cf. critérios mais complicados. dinastia (2000-1800). a.837. residente na casa paterna. simbolo das terras meridionais. 13 Cf. Pão branco em sonho era bom sinal. Montet. estava para desencadear. escreveu cinco livros intitulados Øncirokritikã. Gên 37. P. por exemplo. existiam catálogos de elucidação.. emblema da região setentrional do pais. Homero. Daniel (cf. era freqüentemente por sonhos que os doentes recebiam a indicação do processo de sua cura. código importante para os decifradores de .sonhos.184 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO atribuía-se grande significado. aparentemente científica. 41. os que caracterizam a história do Patriarca José.

8). Dàn 4.10s).' Respondeu-lhes José: 'Então não é a Deus que toca interpretar ? Narrai-me.11s.26. José. Gên 41. 31. sem dúvida.5. (cf. .6. após breve reflexão. Dt 13. visando com isto remover todo vestígio de politeísmo ou superstição que os povos pagãos professavam juntamente com aquela. os necromantes. Dan 2. Vil/VI) pululavam os falsos profetas.275: "Daniel respondeu em presença do rei e disse: 'O mistério que o rei deseja compreender.1: "Derramarei meu Espírito sõbre todo ser vivo: vossos filhos e filhas profetizarão.6 lê-se mesmo qe as visões e os sonhos eram meios pelos quais Deus se costumava revelar aos profetas "Se há entre vós um profeta. por suas disposições psicológicas. 1 Sam 28. como o Patriarca José e o profeta Daniel.38s. 5. 28." 17 Cf. é em sonho que lhe talo..DOENÇAS E SONHOS 185 Testamento. nem os encantadores.2.14.'" Dan 2. vossos jovens. em particular.15) e os egípcios (cf.13s. Mt 1. pode provocar tais fenômenos psicofisiológicos.3. visões. o vosso sonho.16.8: "Disseram o copeiro e o padeiro do Faraó: 'Tivemos um sonho e aqui não se acha quem no-lo explique. possui o "espírito de Deus". por favor. os adivinhos. Gên 40. era propenso a deixar-se guiar por imaginações noturnas. verifica-se que também êstes têm significado condizente com a Sabedoria de Deus. A explicação dos sonhos se deve a dom esporádico de Deus. é em visão que a êle me revelo.15." 16 Contudo muito se devem notar as restrições que os autores bíblicos impõem à crença nos sonhos. Contudo.11. Lev 19.3s. Nos tempos da decadência religiosa (séc. . como os havia entre os babilônios (cf. nem os magos. porém. e torná-los instrumentos de seus planos. no céu um Deus que desvenda os mistérios e quer comunicar ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer na sucessão dos tempos. mesmo pagãos. o verdadeiro Deus dignou-se utilizá-las para se comunicar com os homens. com o povo de IsraeL O Senhor.5s.2-4. 15 À primeira vista. considerando-as manifestações da Divindade. e o dos magos (cf.20-24. Já 33. JI 3. 2. intérpretes profissionais ou técnicos dos sonhos.'" Vejam-se também Gên 41. 5. ora Javé não cessava de acautelar os seus fiéis contra tais ilusões: 15 Outras referências a sonhos ocorrem em Gên 20. que diziam haver recebido em sonho autênticas comunicações do Senhor. Jz 7. Já que o oriental. porém. os de S. 1 Es 3. 16 CX.24. Há. em Núm 12.12s.12s. 19. 17 Os intérpretes populares de sonhos são condenados pela Lei mosaica junto com os magos. Ora Éle o fêz realmente em casos descritos pelos livros sagrados. poderão parecer desconcertantes tão favoráveis alusões aos sonhos na história sagrada. Não há. 18. nem os sábios. vossos anciães terão sonhos.15.22). nem os astrálogos o poderão elucidar. 4. conforme a Bíblia. compete a quem.

Os quais caíram porque nêles colocavam a esperança.. nos primórdios da história de Israel (séc. ora diurna. os genuínos profetas. sem dúvida. recrudesceu entre os israelitas a crença nos sonhos. ou seja. distinguir dos sonhos as visões Ocorrentes durante a noite. Gên 15. Êsses profetas julgam que poderão fazer esquecer o meu nome ao meu povo mediante os sonhos que contam uns aos outros 7' (Jer 23.25.) Como se vê. professada nas passagens acima dá suficientemente a entender que tais fenômenós noturnos éstavam longe de constituir a fonte principal das revelações divinas no Antigo Testamento. os sonhos constituíam estimado artifício de estilo.. 1 5am 3). que em meu nome profõrem falsos oráculos. tive um sonho 1' . por exemplo. a fim de se manifestar aos homens. êste texto. VIII. . . Pois os sonhos enganaram a muitos. mais freqüentes eram os autênticos sonhos proféticos do que na época da monarquia (séc. nos tempos dos Patriarcas. Quem confronta os livros sagrados entre si chega à conclusão de que. propondo aos jovens discípulos conselhos para a vida. . A menos que o Altíssimo te envie uma visão. nas proximidades da era cristã. afirmando: 'Tive um sonho." (Edo 34. XI/VI). a partir do séc. IS como atestam alguns dos seus orácuJos. os agouros e os sonhos são coisas vás. Zac 1. na de Samuel (ef.12). ora noturna. que pode sair de puro? Da mentira. ao mesmo tempo que inculca prudência em relação aos sonhos. apto a dar auto18 É preciso.1-7 [Vg 31. No judaísmo posterior. A reserva. Na literatura dos rabinos. Éstes eram invocados para servir de fundamento a concepções e profecias fantásticas. órgâo das falsas predições messiânicas que fervilhavam em Israel sob o domínio romano.27. XVIII/XIII). Não apliques o coração a essas coisas. É quem se prende aos sonhos. na do profeta Zacarias (cf. não deixa de reconhecer que o Senhor os pode suscitar. Estas se deram. Semelhantes às Imaginações do coração de uma mulher que está pára dar à luz. Semelhante àquele que procura apreender uma sombra ou perseguir o vento. E os sonhos dão asas aos tolos. porém. na história de Abraão (cf.141. isto é.186 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Ouço o que dizem êsses profetas. Do que é Impuro. admoestavam-nos contra as imaginações noturnas "O insensato se entrega a esperanças vás e enganosas.) Também os sábios de Israel. recebiam as comunicações de Deus geralmente em estado de vigília.8). que pode sair de verídico? A adivinhação.

Cf. IV (Edinburgh. 20 Estas. lO 20 . contemporâneos aos Essênios. Baruque.James Hastings. em cada ocasião na cidade de Jerusalém exerciam a sua profissão simultâneamente vinte e quatro adivinhos de visões noturnas. residentes no deserto. M. Basta recordar os Apocalipses apócrifos de Henoclue. eram manifestações que se desviavam da linha da Escritura Sagrada. eram na mesma época assíduos cultores da arte de explicar os sonhos. 'Divination" ("Jewish") em Encyciotoaedia 01 Reflgion and Ethicg edited by . 1 Os ascetas judaicos chamados Essênios. porém. Gaster.DOENÇAS E SONHOS 187 ridade aos oráculos mais surpreendentes. Isaias. i935) • 812.

10. Gên 15.13. pudesse levar vida autêntica. o corpo se dissolve na poeira da terra (cf. rude e simples. ruah). pois. A fim de facilitar a leitura do Antigo Testamento. à primeira vista.29). percorrendo em dois parágrafos as duas fases que caracterizam a evolução do pensamento judaico. 37. e qual o significado de tais idéias no conjunto das Escrituras? Ao se estudar esta questão. divergem do que ensina o Evangelho. O conhecimento do que ela importa depende. Si 103.° NO INEXORÁVEL FOSSO DOS MORTOS Tornou-se de importância decisiva para a teologia judaica um pressuposto de psicologia. O hebreu admitia no homem dois elementos constitutivos: a alma ou espírito (nesharnah. as páginas que se seguem proporão as concepções de Israel sôbre o além-túmulo. Professam concepções que. sem hesitação. 25. princípio vital. deixando a matéria. ao contrário. respeitando assim a lenta capacidade de compreensão dos seus fiéis. ncpheslz. o israelita díficilmente concebia que uma alma humana. separada do corpo.CApÍTULo XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS Os escritores do Antigo Testamento não raro se referem à condição dos defuntos em têrmos um tanto surpreendentes para o leitor cristão. Núm 27.15. muito especialmente da revelação divina. julgava que o espírito. Já 34. Ora ao povo de Israel. e o corpo. 31. pouco inclinado à abstração. Ora.8. matéria concreta que a alma vivifica (cf. Si 103. muito. a carne (basar). § 1. Ao passo que o espírito humano é imortal (cf.14s. o Senhor só aos poucos foi manifestando as noções concernentes ao assunto. dependente das noções concretas.29). Daí surge o problema: que pensavam os judeus a respeito dos chamados "novíssimos" (últimos acontecimentos e estados). levar-se-á em conta que a vida póstuma escapa em absoluto à experiência do homem colocado neste mundo. Já 34. cai num estado de depressão . que se manifesta principalmente pelo hálito ou pela respiração.35.2).

designam o shool. dos impotentes. jamais na alma só.15. jovens e anciãos. Os 13. se encontram tôdas e permanecem indif erentemente sujeitas à mesma sorte. 7 01.6. Enquanto o corpo é destinado a se dissolver na poeira da terra.13. 40s.14.16. Por extensão.18. Si 29. Si 48. Foi no sheol. onde as almas de justos e pecadores.190 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO ou quase inconsciência. usam o tõrmo infernus. Si 68. 87. 88.14.9s.18. a personalidade só subsistiria em alma e corpo. 5 01. Já 30. Is 38. isto é." 01. subterrâneo'.21. estão agregadas à categoria dos rephaim.5. 27.14. ser vazio (donde she'ol = caverna).23. desde os inicios da história sagrada. 140. talvez derivado da raiz sha'al. 10 Em conseqüência. Si 17. 114. 106.16. 4 ou ainda com um caçador que sabe h&bilmente coiocar os seus laços e armadilhas. da qual só aos poucos o povo de Deus foi tomando conhecimento e que os católicos chamam "inferno". 8 01. 113. veio a ser o apelativo da própria mansão dos defuntos. ocorrentes em traduções (latina e vernácula) do Antigo Testamento. Tal região era chamada sheol.23: "sei que me levarás à morte.16.17.17). como canta o simbolo de fé.3. que os israelitas ju'gavam ser a região única de todos os mortos. 1 atribuem-lhe bôca ou goela 6 e mãos. Is 5. que Cristo desceu após a morte.7. Já 7. Jerônimo na Vulgata. o Cf. Ainda num ulterior desdobramento de sentido. A mesma região era também designada por bor. Sab 16. fossa ou poço. Hab 2. donde ninguém jamais sai.39. 38. Já 17.20. mansão cuja existência era prol essada pelos gregos como pelos hebreus. A. obscura. inferno. reis e mendigos. 2 Sam 12. 0 ao passo que os latinos. 2 Textos poéticos comparam-na com um cárcere de portas aferrolhadas. Si 9. A mansão onde se reúnem todos os vivos. Dictionnaire grec-français (Parisli). patrões e escravos. O Nades é nome originàriamente usado na mitologia grega para designar o Deus da região dos mortos (também chamado Flutão). 10. ou com um monstro insaciável que devora todos os viventes. o espírito vai ter a uma região subterrânea. Estas premissas acarretaram. 14.5.10. 1 . o católico deverá ter em mente o significado Cf. que não é prêmio nem castigo. 7 que jamais largam a sua prêsa. Is 14. 20.17. ' colocadas na "terra do esquecimento" (Si 87. 14. Si 77. deve-se notar que os vocábulos infernus.16. BaiiIIy. vocábulo de etimoiogia obscura. Nades podia significar a própria morte.13) ou "do silêncio" (SI 93. Cf. mclusive S. de modo nenhum indicam a mansão ou a sorte própria dos pecadores defuntos. .49. 10 Adjetivo que designa o lugar "baixo" ou "abaixo de. 3 Cf.12. Jon 2. Prov 1. a. 38. não sofrem pena nem gozam de felicidade. Ao se deparar com o têrmo "inferno" em uma tradução latina ou vernácula da Escritura. a tese de que a morte põe têrmo à vida intelectiva e afetiva do homem. destituídos de fôrça.4.7.-. Inferno no sentido do Antigo Testamento. S A tradução do Antigo Testamento dita "dos Setenta" verte sheol por Hades. de consistência.12.14.

não após a morte (que extingue a lucidez do espírito)..o que não podia deixar de constituir para êles paradoxo inexplicável.13. com relação aos esforços para a consecução de um ideal terrestre: 2. . mas um anônimo do séc.15. deixando o homem desiludido. III a.e mostra-se céptico a respeito de tudo. 13 não se dá por desgarrado na estrada da vida.com relação à aquisição da ciência: 2. ocasionam um pouco daquela felicidade que o Altissimo destina à sua criatura (cf. volúpia dos sentidos. estudo da verdade. pois. Si 33. 30.13-15.16.riquezas. Cf. afirmavam. Conseqüentemente.18-23.20.14.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 191 complexo da palavra. 8. longa vida). o qual por vêzes causa surprêsa ao leitor cristão. que o homem virtuoso deve ser feliz. 9. 113. Di 8. 28. 3. Prov. .13. Tais idéias levavam os judeus a julgar que a sanção da Justiça Divina devida a justos e pecadores pôr suas obras é executada neste mundo.) "Também isto é decepção e tempo perdido. o esfôrço feito para conseguir alegria mediante o uso destas é geralmente mal compensado. Para interpretá-lo devidamente.13. Dai a atitude acabrunhada. que cedo ou tarde experimenta tédio ao servir-se das criaturas. 5.. 12 Contudo quem observa atentamente verifica que o hagiógraf o está longe de ser um agnóstico ou um gozador mâterialista. aparentemente epicurista do autor. por exemplo.18.17. família numerosa. Com efeito. é mister não se perder de vista a mentalidade do autor (que não é o rei Salomão no séc. .C. Edo 51.7). 'Tudo é decepção e procura de vento. doença ou quaiquer aflição na vida presente eram explicadas como castigo divino correspondente a pecado cometido pelo indivíduo aflito ou por seus antepassados. X a.9). 3. afirma serem dons de Deus.): o hagiógrafo considera sucessivamente os diversos valores aos quais os homens costumam pedir felicidade na terra . ao beber. mas sujeita a reforma desde que êste povo ganhasse a experiência dos séculos.. nas traduções portuguêsas Si 9." (1. o filho de pai honesto jamais teria que mendigar o seu pão. indigência. mais e mais os israelitas verificavam que existem justos aflitos. caindo em estado de insatisfação ou perplexidade. É justamente à luz dêste estado de coisas que se há de entender o livro do Eclesiastes.18. como há pecadores materialmente prósperos . válida talvez para a mentalidade de um povo infantil. 2. 11 A conclusão era muito simples. a partir dos séculos Vil/VI os pensadores judeus eram não raro tentados a duvidar da tese antiga.) Pessimismo .C.15s. Já 14. ao trabalho como fontes de alegria para o homem. 13 Quando o escritor se refere ao comer. gado.1-30." (2.24s. e f ehz por possuir suficiência ou abundância de bens terrestres (campos. 17.17.713-18. 11 12 .26.25. qualquer dos bens dêste mundo lhe parece exíguo demais para o homem.6-18. 54. a fim de evitar interpretações errôneas (cf. Ao contrário. conforme SI 36.

acha-se bem na linha dos textos do Antigo Testamento que preparam o Evangelho. êstes. a sêde do Infinito encontra saciedade na vida póstuma. esta. estas se mostram portadoras de uma tese positiva e rica.. o autor só podia dar às suas exclamações um caráter negativo ou céptico. conhecia apenas o que lhe ofereciam os sêres criados. Pois nisto consiste o ideal de todo homem. Vivendo à luz da revelação não consumada do Antigo Testamento. 2. feito por Deus e para Deus. Lc 16. É o que transparece das palavras com que encerra a série de suas divagações pessimistas "Conclusão: bem ponderadas tôdas as coisas. ensina a tratar com desapêgo os bens terrestres.10s). o Bem Infinito. porém. e inquieto está repousa em Ti. traz dentro de si. o pessimismo do autor nada mais é do que a expressão de nostalgia profunda ou da sêde do Infinito que êle. 18.18. o único ideal ao qual o homem se deva incondicionalmente aplicar. 1.) A profissão de absoluta fidelidade a Deus que sela o livro do Eclesiastes projeta luz sôbre as apreciações negativas que o hagiógrafo tece a respeito dos bens criados. outorgada nesta vida pela graça. Não há vantagem do homem sôbre o animal. na visão de Deus face a face." (12. longe de desnortear o cristão. Como um morre. e. Teme a Deus e observa os seus mandamentos. 14 "Fizeste-nos para Ti. de outro lado crê plenamente en Deus e no valor da observância da lei divina. ignorando que. fica-lhe sendo norma inabalável. êle não acredita na felicidade que lhe oferecem as criaturas (cf. Éste. julgar insuficientes. Mt 16. Uma vez percebida a grande tese do Eclesiastes.24s. Ambos possuem o mesmo sôpro.14. dè um lado. assim morre o outro.1. e na eternidade pela contemplação direta. 15 Cristo. revelou que tal desprendimento tem sua contraface na posse de Deus. êle os podia. Confissões. Sim.192 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Se.13.19-31. e esta só.2. 15 Cf.26. o nosso coração enquanto não . o espírito humano só repousa no Criador. de fato. com efeito. e todo homem igualmente. 1. devia mesmo. Pois tudo é decepção. Agostinho. O Eclesiastes assim. 14 ora é justamente por ter consciência de que é capaz de apreender o Infinito que o hagiógrafo não se dá por satisfeito com algum valor limitado e toma o partido do "não-conformismo" frente aos bens terrestres.." S. já nos é possível penetrar o significado particular de estranhas afirmações do autor: "A sorte dos filhos do homem e a sorte dos animais são jdênticas. Em última análise.

para onde vais. há esperança. evidentemente. Ora'. Tudo vem da poeira. ao passo que os mortos nada sabem. designava primàriamente um sôpro sensível. a quem chamam a atenção apenas os sinais exteriores. 11. pela observação dos sentidos apenas.) 17 Ci'. felicidade que por certo o diferencia dos irracionais. Em outras passagens do livro.13. o autor reconhece a sobrevivência da alma humana. é de igual índole no homem e nos outros animais. esta ensina que tanto o homem como o irracional terminam os seus dias pela norte. com efeito. na base de raciocínios abstratos. mas toma Simplesmente a atitude do observador popular. significava também o principio vital. enquanto permanece agregado à sociedade dos vivos.45 "Para o homem. Semelhantes idéias repercutem ainda no texto de Eci 9. não há dúvida. sabem qué hão de morrer." (9. a sã filosofia ensina que o principio vital (alma) do homem é imortal. 8. O mesmo tênno. êste. pois professa que vai para o shcol 16 e menciona o juízo de Deus sôbre o indivíduo apos a morte. mais vale um cão vivo do que um leão morto. deve procurar a felicidade.) Tenha-se ante os olhos que o escritor nestes versículos não visa propor alguma tese de filosofia. A afirmação de que o sôpro (ruah) é da mesma natureza no homem e nos irracionais deve ser entendida à luz da terntinologia judaica antiga. já que o sôpro das narinas ou a respiração é distintivo da vida. não recebem mais salário. é na presente vida que. e terminam-nos de tal forma que nenhum sinal sensível indique necessàriamente haver destino diverso para um e para outro. servindo fielmente a Deus e utilizando moderadamente as ocasiões que Êste lhe concede. ao passo que o dos irracionais perece. Quem pode dizer se o sôpro dos filhos dos homens se dirige para o alto E o sôpro dos animais desce às regiões subterrâneas 7" (3. na qualidade de observador popular. ninguém saberia dizer se de algum modo sobrevivem.12. . sensíveis. ciênoia Ou sabedoria no Sheol. Os vivos. 12. que refere o que a experiência imediata lhe incute. mas.10.9.19-21. i E por que se terá o escritor tão rudemente expresso nos versículos acima? O motivo é que apenas visava inculcar a seguinte norma prática: já que o homem (do Antigo Testamento) nada sabe da bem-aventurança póstuma. Não há dúvida. pois já não há recordação dêles.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 193 Tudo vai para o mesmo lugar. por redundância." 16 "Não há possibilidade de agir ou de adquirir compreensão. que o hagiág'rafo falava. sim. E tudo volta para a poeira. todavia não era como filósofo. o sôpro das narinas. da vida. para o autor. ou teologia. Ruah.

'' apenas fêz remover dc tal concepção qualquer vestígio de paganismo. aliás. que os hebreus igualmente professavam. 19 Como. não deixará de proporcionar aos fiéis a recompensa do bem por êles praticado (cf. A. "L'eschztologie individuelle dans les Psaumes". por isto.. Em seu bom senso. que. encerra as suas disputações entregando-se confiante ao Senhor.. Cf. cf. ainda ignora muitos dos desígnios divinos. . Davi. 56 [19491. Dhorrne. siêcle. em outros casos. 1941). A fim de viverem como justos e conseguirem a vida eterna (que. Israel. Deus permitiu que o autor sagrado. reservando-se para 18 "Os exegetas já de há muito reconhecem que os antigos hebreus professavam a respeito do além-túmulo crenças semelhantes às dos outros povos semitas. A éste respeito. o Senhor Deus. porém. sem dúvida. seria fácil demonstrá-lo mediante recurso aos textos cuneiformes. sempre lhes estêve destinada). ficassem por muitos séculos dependentes de concepções obscuras no tocante à existência póstuma. inoculada no mais profundo do seu ser. mostra-se céptico diante de todos os atrativos dêste mundo. em ReDize d'histoire des Religions. que muito diferiam das dos egípcios. Estas explicações talvez tenham suscitado nova questão na mente do leitor.194 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Estas palavras são sugeridas pela opinião de que a morte introduz em estado de consciência quase extinta. pág. 113-142. com esta fé se santificaram Abraão. embora conheça o verdadeiro Deus. bastava cressem na Justiça Divina e nas suas sanções. Por que não terá de início elucidado tão interessante ponto de doutrina? Não era necessário à salvação dos israelitas que o Senhor lhes revelasse com tôda a clareza o que se dá após a morte. por vias ocultas. 123 (1941). conserva o otimismo. os semitas haviam adotado as idéias dos babilônios. nos inícios da história sagrada. Tournay. Lods. Quanto à noção do sheal. 134. ela constituía como que um patrimônio dos antigos orientais. Le développement des ldées dans I'Âncien Testament (Aix-en-Provence. E. 12. des origines au milien diz Vilie.13s). 134. qualquer que seja a sua condição (o cão simboliza o gênero de vida mais duro possível). ao passo que para os mortos. 481. 231. "L'idée de l'au-delà dans la religlon hébrarque". 321. Tal indivíduo experimenta naturalmente a sêde do Infinito. fica sempre esperança de conquistar certa felicidade neste mundo. Isaque. 249s.. Les religions dcc BabyIoniens ei des Assijriens (1945). patrimônio que Abraão. oriundo da Caldéia. O Eclesiastes assim representa tipicamente a mentalidade do homem que." E. por exemplo. "A concepção que do além-túmulo tinham os judeus era a de todos os semitas do seu tempo. para os vivos. assim como grande número de seus semelhantes. 11 Não sendo por si mesma contraditória às verdades por Deus reveladas aos Patriarcas. já não resta possibilidade de conquistar algum bem. mas seguras. id. Guitton. mesmo para os mais nobres (simbolizados pelo leão). herdou de seus ancestrais. em Revue biblique. 121." J. José.

19. promiscuamente se deviam epcontrar bons e maus. foi ter com a pitonisa 20 de Endor. Entre outras falsas noções que o paganismo associava à sorte dos defuntos. para se entregar às suas práticas. em nome da Divindade. pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel. atribu1ado numa campanha bélica. O nome a designar o profeta ou adivinho inspirado por Apoio. viu. o rei Saul. faltam tais Python. em última análise." (1 Crôn 10. conforme as idéias antigas. porém. porque interrogara e consultara os que evocam os mortos. voltarei minha face contra êsse homem e o afastarei do meu povo.6. "Pitonisa" vem a ser a mulher que.e é . Tal proposição. os gestos. estava a crença de que podiam ser evocados e. por sua vez.27. é a serpente que Apoio matou. a escrita). havereis de replicar: 'Então um povo não deve consultar o seu Deus? Consultará os mortos em favor dos vivos ?'" (Is 8.. por assim dizer. seu conselheiro de outrora (cf. porém.) O cronista sagrado. por exemplo. porém. por meio de certas fÓrmulas. Não obstante. refere: "Se vos disserem: 'Consultai os que evocam os mortos e "Saul." (Lev 20.) No séc. foi. Entre vivos e defuntos. em revelação posterior. seu sangue recairá sôbre êles. por oráculos. 1 Sam 28. dividida. também o profeta Isaias incriminava o abuso: os adivinhos. que murmuram e respondem em voz baixa'. 20 passou .13. os israelitas foram freqüentemente tentados a adotá-la.. A Lei de Moisés.. não leva em devida consideração os desígnios e direitos de Deus. quem institui as relações entre as criaturas e o modo como se desenvolvem. poderá entrar em comunicação com êles. pretenda desvendar o futuro.. ora entre vivos existem meios de intercâmbio naturais.7-14). É o Criador. assim pensando. que. a única mansão em que. Com efeito. lapidá-los-ão.tão veementemente repudiada pela Lei divina consiste na falsa noção de Deus que ela pressupõe. se tomara culpado diante do Senhor. na mitologia grega.) A razão por que a necromancia era .A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 195 as proximidades da era cristã comunicar mais claras noções de escatologia. responder aos vivos.) "Todo homem ou tôda mulher que evocar os espíritos ou se der à adivinhação será punido de morte. repetidaniente condenava a praxe: "Se alguém se dirigir aos que evocam os espiritos e aos adivinhos. por instituição divina. nos é lícito e necessário usar (tais são a linguagem oral. o deus dos oráculos. era oposta à idéia de que as almas dos mortos vivem destituídas de conhecimento e afeto. sim. Quem evoca os mortos julga que." (Lev 20. em compartimentos: diversas são as sortes pÓstumas do justo e do pecador (veja-se abaixo).

já que os defuntos. se achavam menos habilitados a acolher o dogma cristão: os sábios gregos. sendo intrusão do homem em fôro no qual êle não possui jurisdição. não deixavam de apresentar sólido ponto de apoio à revelação de conceitos escatológicos mais claros. porém. se toma um abuso e implica derrogação ao conceito de sõberania divina. por exemplo. 0 . subsistindo em espírito apenas. § 2. No caso de Saul. ). o desejo de admoestar o rei à penitência. porém. talvez já um ou outro escritor tenha aludido em têrmos breves e timidos à ressurreição da carne e à subseqüente visão de Deus.A GRANDE SURPRÉSA PÓSTUMA As noções de antropologia e teõlogla que levavam os judeus a admitir o slieol. por muito imperfeitas que fôssem... não se segue que Deus se dirija aos homens por via tão estranha tôdas as vêzes que êstes o desejem. para satisfazer à curiosidade ou ao capricho das criaturas. como se depreende das palavras de Samuel. aos poucos se foram dareando os horizontes. ao menos no fim de sua vida. depende estritamente da soberana Vontade de Deus. Em épocas mais ou menos remotas da história sagrada. ensinavam que.196 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO meios. estavam psicolôgicamente preparados pata receber a mensagem da ressurreição da carne e da subseqüente bem-aventurança. por alguns séculos os manteve avessos à perspectiva de uma ressurreição da carne (esta lhes parecia ser novo encarceramento da alma. os israelitas. Disto. separada do corpo. entregar à contemplação da Verdade. a alma se poderia.. estão subtraídos ao conhecimento ou à apreensão dos vivos. esta proposição. julgando que o homem consta necessàriaméúte de alma e corpo e só pode ser feliz quando os dois compõnentes se acham reunidos. O motivo por que então o Senhor atendeu a Saul foi. pQrém. permitiu-o gratuitainente. a qual começa pelos sentidos (visão. não manifestada pelas leis da natureza. Isto não quer dizer que impossível seja a comunicação entre vivos e mortos. a exortação dirigida a Saul em circunstâncias tão extraordinárias seria particularmente eficaz. o espírito não é objeto natural do conhecimento dos sentidos. Eis como a necromancia. Com efeito. se dê. tomando como mera ocasião a visita do rei à pitonisa. e não prêmio). justamente por êsTmotivo. vontade de Deus que os homens não podem perscrutar nem captar a seu bel-prazer. Deus se dignou permitir que o espírito de Samuel evocado respondesse. Em Israel sob a pedagogia divina.. caso. Assim nos salmos (cuja data de origem dificilmente se poderia indicar com precisão) lêem-se expressões como . cuja filosofia era mais esmerada. audição. Note-se que outros povos. com mais liberdade.

Com efeito. Ensinar-me-ás o caminho da vida. em Inocência contemplarei a tua face.C. que mencionam apenas a libertação de perigo mortal e a alegria daí proveniente no decorrer desta vida mesma. Tournay." (51 15. As delícias de estar para sempre à tua direita. 51 72. souberam dar solução em séculos precedentes inatdita." (Si 16. 9045s. Em apoio desta interpretação.1-41). no livro de Daniel.15.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 197 "Não entregarás minha alma ao sheol. Ao despertar. Como quer que seja no séc. saciar-me-ei pela visão da tua Imagem.) Of. II a. de pressentimentos de ressurreição ainda vagos. 481-506. Outros estudiosos. embora esta não pareça ser alheia à ideologia e às expressões mesmas de mais de um dêsses cânticos. preparados pela reflexão de gerações anteriores. afirmam tratar-se de fórmulas poéticas. 2 Mac 7. seriam a expressão de aspirações individuais.10s.) "Deus me resgatará. citam passagens tanto da Sagrada Escritura como da literatura extrabíblica nas quais ocorrem frases semelhantes com sentido evidentemente metafórico. A luta dos justos em prol da fé parece ter vivamente desper tado entre os judeus a questão: ao sacrifício do sangue e da vida por amor à verdadeira fé não se seguirá resposta do Altíssimo? Terão os heróis. Nem permitirás que o teu fiel veja a fossa. II. a primeira campanha anti-religiosa da história judaica. bibUque. não implicando a crença na ressurreição e na bem-aventurança póstuma. que em parte é um apocalipse (ou revelação do que se dará nos tempos finais) provàvelmente 21 Cf. indefinidamente a mesma sorte que os apóstatas ? A éste quesito os contemporâneos dos Macabeus. 21 Em conclusão: não se poderá insistir sôbre o testemunho dos salmos a respeito da bem-aventurança eterna.16. porém. suscitou mártires israelitas. relegados para o sheol.24-26. "L'eschatologie individueile dans les Psaumes".) "Quanto a mim. 56 (1949) ." (51 48. Pois me arrebatará das mãos do shcol. Alguns julgam que manifestam a esperança de vida póstuma bem-aventurada. Dar-me-ás a conhecer a alegria inebriante da tua presença. entre os quais se tornaram famosos os sete irmãos Macabeus (cf. hiperbólicas. esperança que teria ficado sem ressonância no povo de Israel até o séc. a perseguição desenca deada pelo rei sírio Antíoco IV Epifanes (175-164). Os exegetas não concordam entre si sôbre o sentido exato dêstes dizeres. em Revue .

3. 1 a. Dan 12. que haveria de assinalar a justos e pecadores a devida sanção (cf. Alusão direta aos mártires da perseguição suscitada por Antioco Epi- ." (7. ao ímpio juiz um dos justos supliciados: "Tu nos tiras a vida presente. desprezados pelos maus. o gôzo materialista dos prazeres dêste mundo acarreta fim funesto (3.8. Éstes testemunhos encontram seu complemento no livro da Sabedoria. os fiéis. mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna.) Seu irmão prosseguia: "Felizes os que morrem pela mão dos homens. Onde biblique (Maredsous. 55s.42-45 Judas Macabeu. em conseqüência. Passelecq. a nós que morremos para ser fiéis às suas leis. Le déve- loppement dez idées dans VAncien Testamezt. conhecerão a exaltação e o triunfo definitivos (cf. CL P. a tua ressurreição não será para a vida (bem-aventurada) 1" (7. tornar-se-ão o critério conforme o qual será piblicamente avaliada a conduta dêstes (3. O seu autor. por exemplo. sem que tenha incor rido na maldição divina.C.9. 23 fanes. recebendo cada qual a respectiva sanção. abuso do poder levam à ruína póstuma. 1951). Guitton. 4. 5.2s). Em 2 Mac 12. No segundo livro dos Macabeus transparece a mesma crença. talvez a fim de não ferir a ideologia do ambiente helenista em que se achava. derrota dos bons (3. afirma a ressurreição e a bem-aventurança póstuma destinada aos fiéis. os pecadores sofrerão grande decepção ao verificar a inversão da escala de valores por êles instituída: arrogância.14. devendo OS justos 23 "brilhar como o esplendor do firmamento e como as estrêlas dotadas dé fulgor perpétuo" (cf. após a morte.20-5.6): ci justo pode ser aflito.1-13).7). 4.9. 7. justos e pecadores são por Deus julgados. ao contrário. com a esperança que de Deus receberam. Dizia. referindo-se à escatologia.198 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO oriundo na época dos Macabeus. 172s. por sua vez. de ser ressuscitados por Êle 1 Quanto a ti.35s). 22 encontra-se a profissão de fé na ressurreição da carne.10-12). Os próprios justos. contudo pôs fortemente em realce a doutrina de que. silenciou o dogma da ressurreição. perseguidos e humilhados neste mundo pelos ímpios prepotentes. escrito em grego na cidade de Alexandria (Egito) durante o séc. paralelamente. os mártires apelavam para o futuro juízo de Deus. Enfim a todos serádado perceber os sábios desígnios que a Providência Divina tem em mira quando na terra permite aparente vitória dos ímpios.16. o pecador pode gozar de 22 As seções historiográficas do livro podem reproduzir documentos anteriores a ésse período.) Diante dos carrascos.

neutro. Desde que tais noções tomaram vulto na mente do povo de Deus. . 24 O vocábulo infernus ( em vernáculo. a dos que. tendo renegado a Deus porsuas obras. a plenitude dos tempos. porque não há slzeol (vocábulo do Antigo Testamento hebraico outrora ambiguamente traduzido por 'inferno') . Ela fôra. a . em têrmos claros anunciou o juízo final. suficiente para sustentar a piedade de um povo rude durante vários séculos .A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 199 prosperidade material e. lugar de encontro de bons e maus reduzidos à quase-inconsciência . lugar que. por conseguinte.10-15).25s. a 24 O purgatório há de ser considerado como adro do céu. ao aproximar-se. que se torna a triste sanção devida aos pecadores. um positivo e o outro negativo: o céu.termo. Eis um exemplo de como não se deve proceder neste terreno." Note-se bem que o conceito de sheol só foi removido pela revelação divina a fim de dar lugar ao de um estado de punição definitiva para os réprobos e ao de recompensa eterna para os justos. Mt 25.14 (trad. Com efeito. devendo o gênero humano conseqüentemente distribuir-se por duas grandes categorias: a daqueles que.foi pela revelação cristã repartido em dois outros têrmos ou estados. portanto. Deixará de existir após o juízo final. pois.39-46. Em Apc 20. o inferno. em união com a Cruz do Redentor (cf. 2 Mac 12. implicitamente revelado em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento (cf. inferno) foi sendo reservado pelos cristãos latinos para significar o estado definitivo dos réprobos." Será o "inferno" aqui mencionado o lugar dos réprobos. o valor do sofrimento abraçado por amor de Deus. a antiga ideologia do sheol perdeu o seu sentido. Mt 5. 1 Cor 3. deverão eternamente sentir as conseqüências desta apostasia (cf. devia ceder a noções mais precisas. Matos Soares). sem dúvida. estaria destinado a desaparecer no fim dos séculos? Errôneo seria basear a interpretação do texto na assonância existente entre o nome que indica a sorte dos réprobos (inferno) e o vocábulo "inferno" ocorrente em Apc 20. O sheol de outrora . seria dizer: "Não há estado de condenação eterna para os pecadores (= inferno. na teologia católica em sentido diverso do que tem geralmente nas traduções latinas e portuguêsas do Antigo Testamento. em que o bem e a iniqüidade serão devidamente focalizados. que representa a sorte feliz dos justos..14 lê-se na tradução portuguêsa de Matos Soares: "O inferno e a morte foram lançados no tanque de fogo. não obstante. pôr assim dizer. Estas concepções de fins do Antigo Testamento ainda haviam de ser explicitadas pela revelação cristã: o Messias incutiu aos homens o significado positivo. na terminologia técnica católica). porém.24-27). estarão habilitados a viver para todo o sempre na presença do Senhor. Mt 16. ser réu perante a Justiça eterna.31-46). Ilógico.. tendo procurado ser bons como Deus é bom. ocorre.

. pois. pois. ela lhe dá a experiência da bem-aventurança final. e predizia que serão aniquilados no fim dos tempos. Os 13. Ora o Hajas é." Personificava assim a morte e a região dos mortos como adversários do gênero humano. vê-se. O justo traz o céu em seu íntimo. em Ape 20. pelo vocábulo "morte" justaposto: "ÇA morte e o inferno serão lançados. o autor sagrado. João). a mansão dos mortos correspondente ao sheol dos hebreus. continuando uni uso literário da tradição biblica.14 intencionava aludir a um conceito do Antigo Testamento. na posse direta dos bens prometidos. como o pecador carrega o inferno dentro de si. por sua vez. Todavia já agora. explicado. para incutir que o pecado e todas as suas conseqüências (entre as quais a morte e a "morada dos mortos") deixarão de existir no mundo remido e consumado por Cristo. a concebia e personificava. embora na realidade não exista região coletiva dos mortos (o sheol dos judeus). A doutrina escatológica revelada por Jesus deverá. Is 25. conforme a linguagem dos gregos antigos. peregrino nesta terra. João em Apc 20.14. o cristão não deixa de possuir um penhor e antegôzo da vida eterna: a graça em sua alma é a semente da glória celeste. consumar-se na visão face a face.55s.26. de resto. Não há.200 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO palavra "inferno" nesta passagem é a tradução do grego Hwtes (térmo do original de S. a .14 senão uma afirmação paralela à de 1 Cor 15. que S.. desabrochando.8. eis como atualmente se formula um dos aspectos mais importantes da doutrina dos novíssimos.

"a êsmo".. isto é..CAPÍTULO XIII "PRODIGIOS" E PRODIGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO Além da famosa "pré-história" bíblica (Gên 1-11: origem do mundo. principalmente nos livros do Antigo Testamento. - . como se diria. a Sagrada Escritura. se diriam demasiado infantis ou portentosos para poder ser conjugados com a noção de Sabedoria Divina e com o bom senso humano. apresenta episódios que. sensível do homem. Surge assim a questão do sentido autêntico que têm essas passagens: a tradição exegética as terá entendido devidamente?. é errônea a posição de quem queira simplesmente negar fé a certos episódios da Bíblia por narrarem feitos portentosos. Para o católico. o Senhor não "brinca" com o seu poder sôbre a natureza. O Senhor não costuma exigir fé sem apresentar "credenciais". dir-se-á que. de proporção com os acontecimentos anteriores e subseqüentes. ou não será que o leitor moderno é num ou noutro ponto propenso a racionalismo exagerado? Antes de se passar a respostas particulares. etc. Não é. pecado.). sem dúvida. porém. dilúvio. Ao passo que os antigos judeus e os cristãos até época recente os interpretavam literalmente. ilícito perguntar se alguns dos propalados milagres do Antigo Testamento são realmente tais. porém. da Onipotência Divina. ao mesmo tempo. Parecem manifestações retumbantes. à primeira vista. É não menos certo que Deus não dêrroga às leis por Éle mesmo incutidas ao mundo. sim. não implica que o Criador tenha realizado portentos. o homem contemporâneo não o saberia fazer sem por vêzes sofrer constrangimento.. porém. Esta proposição. sem que haja proporção entre o milagre e o fim a ser atingido.. destituídas. sinais que satisfaçam à natureza intelectual e. do homem. torna-se oportuna uma observação de ordem geral. A fim de atrair a dureza de coração da criatura inclinada ao mal desde o primeiro pecado. seria incoerente e ilícito negar o sobrenatural e portentoso na história das relações de Deus com o homem. Ponderado isto. era como que normal ou necessário suscitasse Deus milagres ou manifestações mais evidentes da sua presença e ação no mundo.

0 A MIJLIIER DE LOTE TRANSFORMADA EM ESTÁTUA DE SAL (Gên 19. sem dúvida. que. durante a fuga. se retirasse da mesma. permitindo mais exata compreensão dos seus dizeres.. dêstes princípios ainda teóricos. a fim de não ser punido com os pecadores. em virtude desta carência. conseqüentemente. entendendo-os como se narrassem milagres. lançou para trás um olhar curioso e inoportuno. Sendo assim. pensam sôbre o seu aspecto portentoso. 1955). Ao lado. Muitos dêstes dados vieram projetar valiosa luz sôbre as páginas da Sagrada Escritura. olhar que 1 A chamada "pré-história bíblica" já foi objeto do nosso estudo intitulado Ciénda e Fé na História dos Primórdios (Rio de Janeir02. foi primàriamente em vista de uma mensagem de vida eterna que o Espírito de Deus quis fôssem consignados na Bíblia). porém. Os exegetas antigos e medievais. porém. assaz diferente da história normal das relações de Deus com os homens. § 1. ao lado disto. o justo Lote. . desejosa de verificar se se cumpria a promessa divina. Eis. à luz dos mais recentes estudos.15-26) que. tendo o Senhor resolvido destruir pelo fogo a cidade de Sodoma prevaricadora. a maneira de pensar e falar dos povos pré-cristãos.. com sua espôsa e suas filhas.15-26) Diz o texto sagrado (Gên 19. procurar-se-á pôr em realce o que mais deve deter a atenção do leitor. a saber: o significado religioso que tais trechos possuem no conjunto da Revelação (pois. a mulher de Lote. eram induzidos a propor uma história sagrada cheia de fenômenos extraordinários. não percebiam certos matizes de expressão e. mandou que um sobrinho de Abraão nela residente. o presente capítulo considerará textos sôbre cujo sentido pairam dúvidas ou concepções errôneas.202 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Esta observação já bastaria para levar o estudioso a reexaminar a exegese de um ou outro dos textos sagrados e verificar se autêntica é a interpretação que se lhes dava na antiguidade. impõem-se à consideraçãb fatos recentes: têm-se descoberto no Oriente documentos que manifestam bem o âmbito de vida. faziam-no por carecer dos instrumentos filológicos e paleológicos que hoje possuimos para recolocar as páginas bíblicas dentro da respectiva moldura semítica. Ora as novas interpretações em não poucos casos diminuem ou removem o caráter portentoso que tradicionalmente se atribuía a alguns episódios. ' Propor-se-á o que os exegetas católicos.

No folclore árabe relata-se que Ahmud era oficial muito conceituado junto ao seu xeque Kerak. pano a fim de enxugar o recém-nascido. porém. é preciso ter visitado as regiões do Mar Morto (ao sul ou sudoeste do qual ficava Sodoma) e convivido um pouco com os beduínos habitantes da região. tendo-se tornado semelhantes a rochedos: "Perdoa-nos. refere o autor bíblico (v. a criança. atravessava a região com o marido. porém. Eis algumas destas. o oficial encontrou os dois malvados imóveis como pedra. Alã as transformou era pedra e amaldiçoou a regiao. ao atravessar uma planície cercada por montanhas de estranha silhueta. Alá. Ao voltar. ao dançar. a fim de não pereceres. contra os quais o jumentinho de Ahmud tomou a palavra a fim de o defender. Essas rochas são jovens que. pecamos"." (Gên 19. prosseguiu a estrada. Certo dia. Como se há de entender a narrativa? De modo nenhum a transformação de uma mulher em estátua de sal implica absurdo ou fenômeno que a Onipotência Divina não possa efetuar. Depois do incidente. usou para isto o pão que levava como provisão de viagem. Ahmud. se te queres conEervar em vida. para compreender o episódio.) 3 Cf. "tornou-se uma estátua de sal". advertem os exegetas que. La méthode historique (Paris. acometida pelas dores do parto. em viagem foi caluniado por dois homens. Não olhes para trás nem pares tm lugar algum na planície. 202. Contudo não parece ser isto o que o texto sagrado quer dizer se tenha realizado. Não tendo. se encontra uma rocha de configuração mais ou menos fantástica. 2 "Fege. foge para a montanha."PEODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 203 contradizia diretamente a instruções dadas pelo Senhor. a propósito da qual o guia ifie contou a história seguinte: jovem senhora. lhe disse o guia: "Vê esta planicie? Outrora era coberta de arrozais. o marido com a espingarda e os camelos. e irritou-se de tal modo que transformou em rochedo a mulher. 26). porém. ao sul de Hebron. A "transformação de indivíduos humanos em estátuas de rocha por efeito de castigo divino" é tema não raro nas tradições árabes palestinenses.Jaussen narra que certo dia. tais como têm sido relatadas por recentes exploradores do Oriente: .17. se mostraram incõnvenientes. disseram-lhe êles com voz surda análoga ao tinir da pedra. . na zona de Maã. estavam fixos ao solo. deu à luz. montada sôbre um camelo. Com insistência particular. Lagrange. 1903). 2 Em conseqüência. o percebeu. não longe de Durah." O mesmo refere que no território de Durah.

e severamente castigado. 301-312. 1949).). Os dois árabes. Chame. Cadmos e Harmonia incluem semelhante tópico. ainda se vê em nossos tempos extensa colina de sai-gema semelhante a uma baleia. as histórias de Niobe. o autor do livrõ bíblico da Sabedoria (10. Ora aí as erosões e outros fenômenos geológicos ptoduzein constantemente a formação de blocos rochosos. tais blocos podem conservar por tempo notável a sua aparência. pela Divindade.7) aludia a uma "coluna de sal.204 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de boa índole como era. 7 Lote e sua mulher terão vivido no séc. da qual se abastecem as famílias de Jerusalém. Não é. 1 d. então. Entre os gregos. pois. dígio que com êles se dera. Assim pensa P. 250. é possível que uma crosta de sal haja em breve recoberto o seu cadáver. de configuração estranha. falar de petrificação de um indivíduo era o mesmo que afirmar haver sido castigado. Assim. A expressão tinha sentido meramente metafórico e parece ter entrado como tal na Escritura Sagrada. falasse de "petrificação" da criatura renitente. como costuma recobrir árvores e demais objetos postos à margem do Mar Morto. Tendo sido assim punida. Coutumes des Arabes au pays de Moab. é. Le livre de la Genese (Paris. porém. alude também a dois príncipes metamorfoseados em rocha negra. 251s. Hemnlsch. . pois. para admirar que.C. perdoou-lhes. xviii . O conto das "Duas Irmãs Ciumentas". na série das Mil e Uma Noites. Metamorfoses. aos quais a fantasia popular fàcilmente atribui o aspecto de mulher. no decorrer dos tempos. a fulminação da espôsa de Lote já era fato suficiente para que o autor sagrado. Estas averiguações levam a concluir que. Ovidio (t 17118 dc."petrif icada" conforme o modo de falar antigo. o historiador judeu Flávio José dizia ter visto um bloco salino que era comu4 As narrativas são transcritas do comentário de J. 297s. hoje correspondente à antiga cidade de Sodoma. a imaginação do povo tenha associado entre si o episódio da mulher de Lote. 6. pouco antes da era cristã. mina inesgotável. Ci. entre os antigos semitas. 1930). restituidos à natureza humana.. Na realidade. Na região de Djebel Sudum ou Usdum. e uma ou outra dessas pedras às quais a erosão dava aspecto feminino. a. monumento de uma alma incrédula" existente na região de Sodoma. narraram a todos os vizinhos o pro.C. 1 no séc. recorrendo a imagem comum na literatura de seu tempo. 6 Independentemente. Das Buch Genesis (Bonn. dever-se-á dizer que a mulher de Lote foi fulminada pela morte em castigo da sua incredulidade e desobediência ao Senhor. o qual refere a Jaussen. dêste outro fenômeno. é isto o que o texto sagrado quer incutir em primeira linha.

constituído chefe do povo. que êles dizem ser "a itulher" ou também "a filha de Lote" (bint Lout) Em conclusão: uma exegese atenta do episódio da mulher de Lote leva a distinguir entre o "fato" e a "maneira literária ou popular" de exprimir o fato. 1. ou seja. não se apontava estátua da espôsa de Lote. indicam os beduínos um bloco de aproximadamente 15 m de altura. sim. Não foi para isto que o Espírito de Deus nos quis transmitir o episódio. "quem estiver nos campos não volte atrás. a fim de intimar o monarca. quando a peregrina Sílvia Etéria.14-12. visitou a Terra Santa. a morte sobrenatural.0 AS DEZ PRAGAS DO EGITO (tx 7. que em fins do séc. o Senhor decretou libertá-los. Jesus mesmo se fêz para nós o intérprete da história. Em nossos tempos. e quem a perder. soberano do país. sabe-se.36) Por volta de 1250 a. em nome . deduzindo o seu significado perene No dia solene do juizo sôbre Jerusalém. estava o povo de Israel cativo no Egito e sujeito a duros trabalhos forçados. Em vista disto.31-33.) Com estas palavras.C. em vista de uma admoestação salutar dirigida a cada fiel. recobrem um fato certamente histórico. procedem fútil ou levianamente. porém. perdê-la-á. mas. isto é. à presença de Faraó. Quem procurar conservar a vida. Atendendo ao clamor dos infelizes escravizados. Não toca aos homens ponderar os motivos por que o Senhor procedeu tão severamente no caso." (Lc 17.11. em pormenores: a espõsa de Lote foi fulminada pela morte sôbre a estrada. nutrindo ainda a nostalgia do que abandonaram e permanecendo apegados a prazeres e bens que não lhes são de utilidade para a vida eterna. Cristo incutia aos discípulos total desprendimento para poderem salvar a sua alma. Na admoestação do Senhor. § 2. na Sagrada Escritura. a morte. Para êstes pode-se recear castigo análogo ao que fulminou a desgraçada mulher. a mulher de Lote vem a ser o tipo de todos aquêles que. muito sóbrio. IV. conservá-la-á. Lembrai-vos da mulher de Lote. enviou Moisés. "Petrificação" e identificação de rochas com os vestígios da criatura incrédula são expressões de mentalidade e linguagem dos povos do Oriente e da tradição israelita."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 205 mente identificado com a mulher de Lote (Ant. olham para trás. porém. Estas expressões. das Gálias.4). ao empreenderem uma tarefa importante ou a máxima tarefa da salvação eterna. quando fugia de Sodoma. movidos por fé tíbia.

como se tem dito freqüentemente. se há de reconstituir a história. a região de Gessen. e 5.1) começaram a se desencadear os flagelos.1-7. Conversão das águas do rio Milo em sangue envenenado: Êx Invasão de rãs nos rios e nas casas do Egito: 7. por isto. a libertar os israelitas. Uma vez determinada a cronologia. ou seja. referem circunstâncias da vida do Egito nos meses de maio e junho. por ordem de Moisés.11-25. servir-se . Em primeiro lugar.29s. no decorrer dos séculos parece ter acentuado a índole extraordinária dos acontecimentos. das quais sàmente a décima conseguiu dobrar a dureza de coração do rei. Onda de mosquitos: 8. A imaginaÇão humana. dentro do período assinalado. não derroga às leis da natureza. desencadeando dez pragas sôbre o Egito. falando de pastoreio de ovelhas na estepe. Trevas sôbre o país: 10. Ora. no momento predito por êste. Com efeito.1-20. 8. tiveram origem.18. pois.206 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de Deus. Faraó.16-28. desenvolveram-se com veemência fora do comum. Foram. sendo que o primeiro. de outro lado. porém. sim. Tumores e pústulas nos homens e no bestiame: 9. julga-se que as pragas do Egito não foram senão flagelos que. certo é que a morte dos primogênitos coincidiu com a primeira Páscoa.26-8. atribuindo-as à intervenção explícita do Senhor. porém. note-se que as dez pragas se devem ter sucedido entre os meses de junho e abril subseqüente. Ora pouco depois (6. Eis a lista dos flagelos assim ocasionados: 7. O autor sagrado incute o caráter portentoso de tais pragas. em mais de um caso.68.12-15. se produzem naquele país por ação de fatôres naturais. antes.11. após uma análise conscienciosa do texto bíblico. os quais podem muito bem corresponder ao que descreve o texto sagrado. 9. com o início da primavera (mês de abril). Sanha de mõscas venenosas ou de vespas: 8. além dos têrmos intencionados pelo próprio Deus. Deus. porém.13-35.12. Peste sõbre o gado: 9. onde estavam domiciliados os israelitas (cf. mas em vista do modo como se verificaram. poupando. não se quis render ao pedido.8-12.1.21-27. E qual o fundamento desta tese? Ê a observação de certos fenômenos. procura. dado o concurso de circunstâncias particulares. condiz bem com a situação do país em junho. Geada: 9. e cessaram a mandado do mesmo. Invasão de gafanhotos: 10. naturais no Egito. sem graves razões. os versículos Éx 3. Eis como. milagres não em si ou por seu desenrolar intrínseco. como se verá abaixo. A morte dos primogênitos dos egípcios: 12.26). aludindo à confecção de palha. o Senhor houve por bem demonstrar-me o seu poder.

professor da Universidade de Nimwegen (Holanda). aponta fatos hstóricos que podem servir para ilustrar o texto bíblico: em setembro de 1913. Das Buck Exodus (Bonn 1934). 9 "AS famosas pragas do Egito. 154. 1947). tudo isto era familiar aos egípcios. está averiguado que também cers 'flagelados" rubros (englena sanguínea). Vigouroux. Normalmente. os quais tornaram venenoso o manancial."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 207 do curso habitual dos elementos para realizar os seus maravilhosos desígnios. 451s. como D.e realmente não terão sido fenômenos até então inauditos. e em circunstâncias diversas. confessaram sua Incapacidade (cf. Histoire d'israel. l{einisch. 10 Çf. 10 estes fatos dão a ver que. Éx 7. observa-se que os magos do Egito puderam reproduzir. verificou-se numa baia perto de mel (Alemanha) a irrupção de numerosissimas pulgas de água (daphniae. É o que sugere que a enchente da primeira praga haja sido acompanhada por outro fenômeno. La Bible et les découvertes modernes. As águas costumam tomar então aspecto vermelho por causa de detritos de barro que descem dos lagos da Abissínia. A título de confirmação. o que bem se explica pelo fato de trazerem as pulgas de água algumas gatinhas de óleo vermelho no seu organismo. 8. 8.. 1912). Da sexta praga em diante foram êles mesmos atingidos. caso se tomem numerosos. o chamado "Lago Vermelho" perto de Lucerna (Suíça) deve o seu matLz caracteristico a uma espécie de alga (oscillatoria rubescens). 312. de que se tenham verificado no momento preciso em que Moisés as evocava. 1 disto se depreende que se tratava de fenômenos decorrentes das energias da natureza devidamente exploradas. 97. O fato. crustáceos cladoceros). 216.14s). "Plaie".-Rops. eis o sinal de que eram enviadas por Deus. O primeiro flagelo se deve à enchente do rio Nilo. ocasionando o perecimento dos peixes da baía por sufocação. . P. um ou outro dos flagelos provocados por Moisés. 81. Heinisch." O. H. estas. (Paris2. ° Posta a conclusão acima. estas. II.22. 1. 1953). em Dictionnaire de la Bible. portanto. Buysschaert. consumiram todo o oxigênio da água. O. como talvez a invasão de pequenos animais dentro do rio. Lesêtre. porém. Por ocasião da terceira praga. o qual se pode parecer com a transformação da caudal em rio de sangue.. Ricciotti. V. Histoírc Sainte (Paris. as águas de um rio ou lago podem tomar coloração vermelha.. 1 (Paris. A massa dos crustáceos invasores dava a impressão de que um corante avermelhado havia sido derramado nas águas. Israel et te judalsme dans l'Áncien Orient (Bruges. Assim o primeiro e o segundo (cf. anualmente verificada em fins do mês de junho. resta considerar como se desenvolveram as dez calamidades. é êste o fenômeno dito "do Nio vermelho". por via natural. dão colorido sanguíneo à água. 1945). 3). A mesma sentença é sustentada por outros autores católicos. ao menos em setor restrito. não lhe pareciam . parecendo transformadas em sangue. Também a renitência do Faraó insinua que o monarca não se impressionou pelas nove primeiras pragas.. porém. juntamente com os coanoflagelados que aderiam à couraça das mesmas. as águas da cheia não são nocivas nem aos homens nem ao gado.

que constituem a nona praga.2. e não permitirei que Israel se vã. terão sido acarretadas pelo famoso vento quente dito lchamsin ou simun." (Éx 5. suficientemente espêssas para provocar escurecimento da atmosfera. Conforme Heródoto (3. replicando "Quem é Javé para que eu obedeça à sua voz. deixando sair Israel? Não conheço Javé. recusou-se. por meio de Moisés intimara o soberano do Egito a deixar partir o povo hebreu. Éste sopra a partir do deserto. mosquitos e vespas (segunda. quando ela se verifica no Egito. onde tal calamidade parece ter ocorrido com certa freqüên•cia (cf. tratando com os homens segundo a sua condição de criaturas livres. que. . se verificam inundações. penetram nas habitações dos homens e os molestam. terceira e quarta pragas) são conseqüências das enchentes do Nilo. Entendidas as pragas do Egito no respectivo ambiente e clima. porém. Normalmente rãs e mosquitos põem ovos na água ou sôbre as águas. parte do exército de Cambises foi sepultada nas areias dêsse vendaval. No tocante à décima calamidade (morte dos primogênitos). em conseqüência. Inundações e invasões de animaizinhos provocam não raro doenças e epidemias. Deus. onde os mesmoSse desenvolvem. três. como as que se deram na quinta e na sexta praga. Quando. faz-se mister realçar a mensagem religiosa em vista da qual o Senhor permitiu o seu desencadeamento. pois. por vêzes ainda em maio. As águas terão ocasionado também o ambiente favorável à reprodução extraordinária de môscas venenosas. multiplica-se um dos fatores principais para o aparecimento de tais animais. Sua ação se faz sentir em março ou abril. e no decurso de dois.Quanto às trevas. A geada (sétima praga) é fenômeno que se terá produzido no mês de fevereiro.9). Poderá haver algum intento sábio na provocação de tanto furor da natureza? Sim. até seis dias contínuos. Foi decisiva para que Faraó se rendesse. durante os quais ainda hoje as estações ferroviárias funcionam à luz acesa em pleno dia. Ji 1.26). nenhum fenômeno ordinário se lhe pode comparar.) . mormente em países orientais. Faraó. carregando consigo enormes quantidades de areia. As invasões de rãs. Am 4.4.208 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A esta seguiram-se outras calamidades conforme um encadeamento assaz compreensível. Uma invasão de gafanhotos (oitava praga) também não seria para estranhar em fev&reiro ou março.

Aarão lançou uma vara ao chão. a sensibilidade de homens empedernidos. recupera a natural mobilidade. com evidência crescente. como hábeis prestidigitadores. só se pode entender por um concurso de agentes naturais devidamente explorados pelos "sábios" da côrte. obteve de seus magos a realização de portento semelhante (CL Éx 7. O fato de que a serpente de Aarão devorou as dos magos era portento suscitado por Deus para significar que a sabedoria dos homens não prevaleceria contra os designios divinos.. Aos egípcios e orientais era familiar. ao contrário. tipo do homem soberbo. tomaria consciência de que o Criador é fiel na execução das suas promessas.10-13). Ao passo que a transformação realizada pelo homem de Deus a mandado do Senhor se reduz simplesmente à ação da Onipotência Divina. 74. O mesmo prodigio é atribuido aos magos de Faraó . As pragas .11 PE0DÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 209 O monarca se obstinou mesmo diante de um prodígio que. aliás. tinham por fim demonstrar. não há obstáculo que Lhe impeça o cumprimento de 11 cf. proporções muito vastas. mas. é o Soberano capaz de encer a dureza de cora r ção das mais altivas criaturas.. O ensinamento aproveitaria também a Israel (ou aos fiéis de todos 9s tempos). a sua imitação por parte dos magos. nada pode frustrar o seu desígnio de fazer que o mal do homem sirva ao Bem de Deus e que êste na fim da história do mundo obtenha a vitória sôbre aq. 11 Se tal não foi o artifício aplicado pelos magos de Faraó. Éste povo.mas a serpente de Aarão devorou as dos magos. porém. o trato com serpentes. a fim de impressionar a fantasia. Moisés e seu irmão Aarão efetuaram em nome de Deus. éste então toma a forma de bastão retilíneo.que. a qual se transformou em serpente. que se faça cessar a pressão e com violência se atire o "bastão" ao solo. a seguir. todo homem pôsto diante dc mistério de Deus). A lição se dirigia primeiramente a Faraó. sim. mediante encantamentos. as quais. Ainda em nossos tempos diz-se que reproduzem a conversão referida pelo texto do Êxodo: há um tipo de serpente em cuja cabeça determinado centro nervoso pode ser delicadamente comprimido de sorte a provocar ããibra ou entesamento de todo o animal. obtendo finalmente do homem relutante o reconhecimento e a homenagem devidos.. terão feito desaparecer aquêles e lançado estas ao chão. Logo. a soberania absoluta do Deus de Israel.uêle. por gestos rápidos. para corroborar a intimação. Heinisch. esteio de obstinação contra Deus. o qual havia de compreender que Javé não era o Deus desprezível de um povo escravizado (na antiguidade se avaliavam os atributos da Divindade pelos predicados do povo que a cultuava). Nada escapa ao plano do Criador. Deviam tomar caráter exuberante. o Senhor desencadeou. -Ezodus. eram utilizadas para muitos fins. de dura cerviz ou fé vacilante (como. . pode-se admitir que tenham levado à presença do monarca bastões e serpentes ocultas. sob permissão divina.

por nova ordem do Senhor. a mandado de Javé. porém. não fôra uma intervenção extraordinária de Deus. gado e demais haveres. Faraó. A seguir. após a décima praga. 6. e as tropas inimigas. os israelitas por êle enveredaram.. se colocasse entre êste e o exército egípcio. que lhes teriam acarretado a morte. Moisés. se o texto bíblico insinua de fato tão extraordinária intervenção da Onipotência Divina.° A PASSAGEM DO MAR VERMELHO E 00 RIO JOROAO 1. entrando no corredor aberto. viram-se em graves apuros. Era a oportuna válvula de salvação . fazendo perecer os perseguidores. palavra que fizera apostatar não poucos dos ouvintes de Jesus (cf. deixassem os israelltas o Egito. causando opacidade entre os dois acampamentos. a quem iriamos nós? Téns as palavras da vida eterna 1". pois. Como se há de entender esta narrativa? Do texto sagrado se poderia inferir que o Senhor. § 3. resolveu ir-lhes ao encalço. A confiança no Senhor seria incutida 'como atitude que na alma humana deve prevalecer contra a pusilanimidade e a revolta. do outro. que então se fecharam sôbre a tropa de egípcios. realizou um prodígio totalmente insólito ou alheio à natureza dos elementos. sem demora. um vento impetuoso de leste pôs-se a soprar durante uma noite inteira. se retiraram em caravana na direção do Oriente. de modo a formar no meio das águas um corredor. não sàmente permitiu. Chegando. Alcançou-os perto do Mar. passando o mar a pé totalmente enxuto! Quando os soldados de Faraó perceberam que os fugitivos se haviam lançado na direção do mar. arrependido da concessão. mais uma vez estendeu a mão sôbre as águas. levando mulheres. crianças. de um lado. de sorte que a multidão israelita se viu comprimida entre as águas. ao despontar do dia. Éstes. porém. confessava Pedro após ouvir a "palavra dura" de Cristo (Jo 6.68 e 60). estendeu a mão sôbre o mar.66). A TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 14.5-31) O texto sagrado refere que. Eis. que.210 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO sua palavra. mas ordenou.. Moisés. porém. aterrorizado. Pergunta-se. dividindo o Mar Vermelho. seguiram-Lhes as pegadas. . Com efeito. às margens do mar Vermelho. . Faraó. Como escaparia ao perigo iminente? O Senhor fêz que a coluna de nuvem que antecedia Israel. "Senhor. após as primeiras etapas dos emigrantes.

donde na Idade Média partiam as naves para a Índia. era simultâneamente templo religioso e fortim militar. passando pelo Egito. e com razão. suficiente para criar entre o Egito e o deserto de leste um obstâculo importante. 12 Tais descobertas levam a admitir que. etc. mais precisamente: na época do êxodo. era bem capaz de nelas abrir um corredor. mas também os vestígios de arqueologia recém-descobertos. Sim. oficial de marinha frantês encarregado durante muitos anos do serviço do canal de Suez. havia entre o leito atual dos Lagos Amargos e o fundo do golfo de sues uma comunicação precária sem dúvida. descobriu vestígios de uma estrada que. desembocava num vau ainda hoje existente na parte meridional dos Lagos Amargos.o que basta para que a travessia dos israelitas conserve todo o seu caráter milagroso -. o mesmo explorador encontrou as ruínas de um edifício que.). Nesta sua extremidade setentrional o mar. intermitente talvez conforme a altura média das águas do mar . e se prolongava do outro lado das águas.. Eis como se explicam tais autores: Nos tempos pré-históricos comunicavam entre si os Mares Mediterrâneo e Vermelho. vau ainda utilizado em nossos tempos (é a passagem 12 13 . passagem cuja utilização dependia das circunstâncias de ventos. visto o vento impetuoso que. Eis verbalmente o parecer de Bourdon: "Julgamos que em tempos históricos. Na época de Moisés (ca. esta construção. ) em que se verificou. supõe que não tinham a travessia na conta de coisa impossível. marés. de leste soprando sóbre as águas. Ora o texto bíblico insinua que o êxodo dos israelitas se fêz por um vau. duração . ou seja. 13 O que os egípcios ignoravam .incorveja-se o mapa respectivo no fim do livro. devia servir para proteger ã fronteira. nos tempos de Moisés. Bour don. que tendia a recuar. o pôrto de Colzum.. em território egípcio. canais e pãz3tanos senão pelo vau de Sues (entre Teu colzum e a cidade de Suez contemporânea). situada nas proximidades da estrada e do vau referidos. os quais só aos poueos foram sendo separados pelo istmo de Suez. levam a concluir que a divisão do Mar Vermelho se deve a uma concatenação de causas naturais. havia uma passagem através das águas que então constituíam o Mar Vermelho. não devia ser muito profundo. Não existia passagem através dessa rêde de lagos. julga-se que o Mar Vermelho se prolongava ainda até os Lagos Amargos e talvez o Lago de Tiznsah (situados hoje no referido istmo). ao pé do Djebel (monte) Abu Hasa. e reabastecer as caravanas que do Egito se dirigiam às minas do Monte Sinai. conforme as inscrições. só tendo de extraordinário as circunstâncias (hora. o fato de que os egípcios se precipitaram águas a dentro.C. deviam julgar que a passagem se tomara praticável naquela ocasião. lagunas."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 211 A isto respondem competentes estudiosos que não sàmente o livro sagrado. é hoje um acervo de ruínas situadas a dez quilómetros do litoral. 1240 a. impedindo entrassem na terra do Faraó invasores indesejáveis. Há decênios atrás.

A seguinte observação parece do seu modo insinuar que a travessia se fêz pela parte setentrional do mar.10. . 13. 15. parte que atualmente já não existe: o texto biblico fala de passagem do "Mar dos Juncos". se se têm em vista os térmos muito sóbrios com que os historiadores greco-romanos se referem ao assunto. Und die Bibel hat doch recht.4). o chefe romano Ciplão dito "o Africano" conseguiu entrar em Cartago por um lado da cidade contiguo a uma laguna. Um ou outro exegeta 15 tenta de certo mddo ilustrar a passagem.22. os cartagineses não se preocuparam com a defesa dessa zona.9. lix 14. Heinisch. ou pelos vaus do pequeno Lago Amargo na vizinhança da atual extremidade meridional dêste último. Ora às margens do Mar Vermelho não se encontra o arbusto do junco. como narra o haprincipal).Red Sea". "The passage of the . autor que apela para H. O texto de Éx 14.26. Histoire d'Israel.). Polibio 10. 1.28. (Düsseldorf. 120. 51105. em trechos como Jos 2.C. A PASSAGEM DO RIO JORDÃO (Jos 3. SoaIlard. o vento qadim. recordando o seguinte episódio da história profana: Nas famosas guerras púnicas entre Roma e Cartago (264-146 a. em Expository Times. não o di2 (cf. porém. é possível que tenha tomado parte na expedição. Tito Livio.7 refere ter-se feito uma seleção de armas e guerreiros para constituírem a tropa perseguidora.4s). 1955). Ora aconteceu que um vento Inesperado removeu as águas e permitiu que quinhentos soldados romanos tivessem acesso a Cartago (cf. 120. Isto se fêz. 135. 14 a. Das Buch Exodus. 55-61.23. Quanto ao monarca. 14 Não se creia. H. w. o texto bíblico. Historiar.212 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rendo por isto num êrro fatal . aliás. que morrera deixando Israel à entrada da terra de Canaã. talvez pouco mais de mil carros armados hajam sido tragados pelas águas. 42 (1930-31). Ora. já que as águas pareciam constituir obstáculo natural aos invasores.7-17) A Moisés sucedeu Josué no govêrno do povo de Deus. 1. não do "Mar Vermelho". disto se poderá deduzir que se desenvolvia outrora junto às águas que prolongavam o hodierno Mar Vermelho e deviam constituir prôpriamente o Mar dos Juncos. O episódio é significativo. 7. que o sirocco da Arábia. que no desastre hajam perecido todo o exército do Egito e o Faraó. Keller. contudo não se lhe pode atribuir grande pêso na exegese do Êxodo.era o modo maravilhoso como se tornara transitável o vau: o vento fôra suscitado por Deus no momento favorável a Is±ael.46. 2206. começa de imprevisto e cessa também repenti' namente). 16 Cf. para penetrar na Palestina. ó deixaria de soprar logo que o povo eleito o pudesse dispensar (sabe-se.26." Texto citado por O. era mister atravessar o Jordão. 2. O novo chefe devia consumar a obra do antecessor. Ricciotti.

obstruindo o fluxo das águas pelo espaço de 21 h. e os filhos de Israel o transpuseram fàcilmente. Corria então a época da messe (março-abril). o Senhor. contràriamente às leis da natureza. 4.7. Não se via como a multidão de Israel poderia atravessar. 16 E como se deu a intervenção divina? A caravana israelita estacionou à margem esquerda do Jordão. Então o Senhor mandou que dois sacerdotes. porém. detendo-se perto da cidade de Adom (hoje El-Damieh. à luz de tochas. situada no além-rio. depois de implantadas. retiraram-se e o rio continuou o curso normal. no início da missão de Josué. Com efeito.14. Que interpretação se há de dar ao texto bíblico? Nada se pode objetar a quem julgue que as águas do Jordão. 16 . o ímpeto das águas. Não é necessário. logo que isto se deu. a caudal interrompeu o seu curso. a pé enxuto. por ação de um terremoto. sabe-se que em 1267 o sultão do Egito Melik-Daher-Bibars II desejava mandar construir uma ponte sôbre . desabaram sôbre o leito do rio. terminada esta. como estive com Moisés. então. a corrente chegou a derrubar e arrastar algumas destas. admitir tão estupenda intervenção do Criador. e que fàcilmente desmoronam. por exemplo: O Senhor disse a Josué: 'Hoje começarei a exaltar-te aos olhos de todo Israel. entrassem no rio. Jos 3. dificultava grandemente o lançamento das pilastras de base.26 e 1 Crôn 12. apressaram-se em consolidar os Cf. quis reproduzir o portento realizado no princípio da obra de Moisés. na região de Adom (El-Damíeh) as águas do Jordão correm entre bancos de argila.7. a fim de mostrar a Israel que Deus dirigia o novo guia como sempre orientara o anterior. A semelhança dos dois fenômenos é de certo modo explicada pelo texto sagrado: conforme Jos 3.23. diante da cidade de Jericó. os sacerdotes detentores da arca permaneceram imóveis por todo o tempo da travessia. cuja altura atinge 13 m. ainda em 1927. mas é pouco profunda."PRODÍGIOS" E PEODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 213 giógrafo. porém. verificaram que o Jordão deixara de correr. constituíram repentinamente um muro imóvel em Adom. carregando a arca da Aliança. época em que o sol da primavera faz derreter as neves do monte Hermon. assim o leito da corrente apareceu sêco. no episódio.0 Jordão na região de El-Damieh. a 25 km ao norte de Jericó).15). Edo 24. ocasionando a cheia brusca e impetuosa do rio (cf.'" Seguem-se as instruções para a travessia do Jordão. para que saibam que estarei contigo. nessas circunstâncias a própria natureza veio em auxílio aos operários: à meia-noite de 7 para 8 de dezembro. Além disto. paralelamente ao que se deu na travessia do Mar Vermelho. a torrente tem aí a largura de 80 m aiíroximadamente.

os filhos de Israel defrontaram-se com a cidade de Jericó. sómente pelas dez horas da manhã. após haver vencido o obstáculo.-M. em grandes linhas. esperando que a penúria ou alguma inclemência da natureza obrigasse os invasores a retroceder. 1 (Paris 2 . constituindo uma barreira artificial. Géographie 4e Ia Palestine. § 40 A QUEDA DOS MUROS DE JERICÓ (los 6.1-20) parece ter sofrido glossas no decorrerdos tempos. junto com os sacerdotes. 1933). após os quais ressoaram as trombetas. 481. a fim de se certificar da futura estabilidade da obra. pôde a torrente retomar o seu curso normal. os desfiles se fizeram ao som das trombetas dos sacerdotes. Contudo. . que levavam a arca de Javé. os habitantes da cidade. porém. Jos 4. a mandado do Senhor. Eis. ademais as recensões hebraica e grega apresentam pequenas divergências entre si. as muralhas de Jericó desmoronaram e os assaltantes puderam penetrar na cidade. os guerreiros hebreus. No sétimo dia. os quais averiguaram que enorme bloco de terra da margem ocidental se havia precipitado no rio. Não há dúvida.13) responderam imediatamente com brado poderosíssimo. para poder ser bem defendida). Foi então que. prestando-se atualmente a diversos ensaios de reconstituição e interpretação. Abel. " Ora. as águas. em conseqüência. por seis dias consecutivos deram processionalmente a volta da cidade (a qual não devia ter perímetro muito longo. habitada por cananeus hostis. o que se verificou: Havendo os filhos de Israel acampado diante de Jericó. confiantes no poder de suas muralhas. f echaram-se no interior destas. quiseram investigar a causa do fenômeno: enviaram rio acima exploradores a cavalo. trata-se aqui de um feito maravilhoso.1-20) Logo após a travessia do Jordão. a estas os quarenta mil filhos de Israel (cf. efetuaram sete circuitos. O texto bíblico referente ao episódio (Jos 6. É o que a Sagrada Escritura explicitamente recorda num dos livros posteriores do Antigo Testamento: 17 Noticia devida a F. se espalhavam pelo vale ao norte do dique. obtendo por fim estrondosa vitória. é plausível afirmar que Deus se tenha servido de semelhantes meios para possibilitar aos israelitas a passagem do rio. que só se verificou por intervenção extraordinária de Deus. se os fatôres naturais na zona do Jordão podem produzir tais fenômenos. Tiveram que se dispor ao assalto do reduto inimigo.214 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fundamentos da ponte. em conseqüência.

é obrigado a afirmar que as "passeatas" dos israelitas se realizavam em absoluto silêncio. os quais referem que tropas assaltantes. e o desmoronamento subseqüente? Pressupondo que eram um estratagema bélico. E. sem catapulta e sem máquinas de guerra. Eis. . apelando para critérios filológicos. a seguir. Precisava o Todo-Poderoso de que os israelitas fizessem o circuito da cidade para que lHe desmantelasse as fortificações 2 Que relação há entre as procissões. porém. por exemplo. É de notar. 3."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 215 "O soberano Senhor do mundo. com o fim de ludibriar o inimigo. Domício transformou essa espécie de passeata em ataque repentino. mas também às que enganam e desnorteiam o adversário). que Josué recorreu a tática semelhante com a intenção de fazer crer aos habitantes de Jericó que os seus planos eram pacíficos e não visavam uru ataque à cidade (em tempo de guerra justa. A cidade foi tomada. Abel O. Como se procede para enganar os que são sitiados. ao acampamento. Muito freqüentemente mandava que tôdas as suas tropas desfilassem ao redor da mesma. e os moradores se renderam. Alguns apelam para o testemunho de cronistas da antiguidade. para construir a sua hipótese. visto então que negligenciavam o serviço de vigiláncia. de sorte a não provocar suspeita ou alarma na cidade de Jericó." (2 Mac 12. distingue dois documentos fontes do 18 Stratagemata.." Merece atenção o fato de que o autor refere êste estratagema sob o título "Dc faflendis ijis qui obsidebuntur. derrubou os muros de Jericó nos tempos de Josué. reconduzindo-as. P. 1. com seus toques de trombeta. Assim 1. professor da Escola Bíblica de Jerusalém." IS Baseando-se neste testemunho. que o ilustre exegeta. 2.15. nem toque de trombeta nem clamor de guerra emanava de Israel.) Contudo não pode deixar de chamar a atenção o artifício prescrito pelo Senhor. Abel. localidade defendida tanto por sua posição geográfica como por obras de fortificação. fizeram repetidos circuitos da cidade ou do acampamento sitiados. em um ou outro caso. torna-se lícito o recurso não sõrnente a manobras cruentas. julga o Pe. autor da obra Stratagemata (catálogo de estratagemas) sob o Imperador Domiciano (81-96) "fornido Calvino cercava na Ligúria a cidade de Luna. a fim de inferir êste traço da narrativa bíblica. os exegetü têm procurado estabelecer um nexo entre ésses desfiles e a vitória final. Esta tática incutiu aos habitantes a convicção de que os romanos não queriam senão exercitar-se. o que narra Sexto Júlio Frontino.

Josué soltou o brado de avanço. 125-128. dos dias de cêrco).8-11). Jos 2.216 PARA ENTENDER O ANTIGO. Assim os desfiles em tôrno de Jericó teriam desempenhado o papel de causar pessimismo psicológico e religioso aos assediados: quando no fim dos sete dias de estratagema. a guerra era ação religiosa. o número setenário (dos desfiles. como se mostrara mais poderoso que os dos egípcios e de outras nações. A ostentação da arca (quase "estandarte" da teocra. os desfiles dos israelitas podiam-lhes parecer equivalentes a uma tomada de posse do terreno em nome do Deus Forte de Israel. Êstes admitiam.mdo. 20 ora no caso parecia que o Deus de Israel se anunciava mais forte que os deuses de Jericó. protetor poderoso desta gente. teriam tido por fim aterrorizá-los! . haviam ouvido falar dos prodígios realizados por Javé em prol dos hebreus na saída do Egito. o toque das trombetas. Abel4 "Les stratagèmes dans le livre de Josué". Há queüi. julgavam que os respectivos deuses pugnavam entre si. em Revue bibflque ) 56 (1949). Esta sentença não pode ser comprovada de maneira decisiva. ° CI. Em vez de tranqüilizar os habitantes de Jericó. 325s. explorando êste estado de alma. os exegetas por vêzes sugerem um ou outro particular que a narrativa lhes parece oferecer 19 F. Contudo baseia-se num postulado que não pode ser estabelecido com segivança. como também nada de sério se lhe poderia objetar. isto tudo os fazia temer (cf. É o que a toma discutível. na travessia do Mar Vermelho e no deserto. pãgs. devia insinuar a êsses homens a ruína total que o pujante Senhor lhes destinava. ainda fica margem para a pergunta: como se deu o assalto à cidade após a preparação psicológica dos sete dias? Sem poder reconstituir o quadro com precisão. o brado final deviam ser ritos aptos a impressionar os "supersticiosos" moradores de Jericó. É preciso não esquecer que. documentos dos quais o primÉlto. o "fundamental". lhe parece narrar unicamente desfiles silenciosos! 19 A sentença do Pe[ Abel não deixa de ter autoridade. explique de outra maneira o valor bélico dos circuitos praticados pelos filhos de Israel. Sôbre êste fi.cia israelita) acompanhada pelos sacerdotes e os guerreiros. sendo símbolo de totalidade. apelando igualmente para a mentalidade e a praxe dos antigos. a existência de um Deus próprio dos israelitas.-M. dada a escassez de dados. 2. TESTAMENTO texto atual de Jos 6. junto com os povos que se defrontavam. condenando-os ao anátema. sim. para os antigos. . Caso se admita uma das duas hipóteses acima propostas. já não terá encontrado grande resistência por parte dos defensores da cidade.

Tournay. os homens que montavam a guarda às portas de Jericó.. 24 Sentença brevemente referida por D.. não possuem senão o valor de suposições mais ou menos fundadas no texto e na arqueologia.15). Uma consideração mais atenta dos trechos sagrados insinua que o seu significado primordial é de outra ordem: é significado religioso.) 23 É esta a sentença de A.-Rops. Para apoiar a tese. no diálogo travado entre Rahab e os exploradores (cf. homens de Davi nos serviram de muralha (homait) tanto de noite como de dia. em Vivre et pense?. com valor homah. Entrando em Jericó. prometido dar ingresso aos invasores pela sua casa."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 217 os espiões que. estiveram em Jericó (cf. pois. enquanto operários israelitas cavavam galerias debaixo das muralhas de Jericó. os invasores lhe teriam ateado fõgo. uma vez terminados os trabalhos. cuja casa estava situada na periferia da cidade (cf. terá. posta no perímetro das muralhas. Aproveitando-se da situação confusa e das ruínas causadas pelo incêndio. . coppens e E. 22 Significaria então a guarnição militar. embora muito eruditas. 1935). poupando apenas a casa de Rahab. "A propos des muralUes de Jéricho". o brado mais forte teria sido sinal para que pusessem fogo à armação de madeira que sustentava os muros e se retirassem. 21 pode-se interpretar em sentido figurado o têrmo hebraico geralmente traduzido por "muralha". J. 1943).. J. série (1945) • 304-6. 24 3. concluíram um pacto com a meretriz Rahab. não militar. antes do cêrco da cidade.16. Estas diversas conjeturas formuladas para explicar os desf iles dos israelitas como estratagema bélico. • ' Os a. 2. Le chanoine Albin Vait Hoonaeker (Paris. 23 o toque diário de trombetas teria sido um artifício para prender a atenção dos habitantes de Jericó. 29s. Tournay por sua vez preconizam. Histoirc Sai nte (Paris. É. sim. os filhos de Israel teriam conseguido penetrar na cidade. eis os têrmos com que. e não as muralhas. os estudiosos fazem notar a precisão de topografia e de sinais. Jos 2). Com efeito. 2. permitindo o ingresso na cidade sem desferir algum golpe. metafórico que êle ocorre." (1 5am 25. crendo que realmente Javé havia de entregar Jericó aos hebreus. isto é. teriam caído. a recomendação de silêncio. o Apóstolo de Cristo se refere ao episódiõ: 322s.15-20). . o pânico teria então irrompido em Jericó. desfalecido de terror após o estratagema de Josué. Não se pode insistir sõbre o papel estratégico de tais procissões. 21 22 a. por exemplo. que J. decidira salvar-se com os seus familiares. em 1 5am 25. ibid.16. van Hoonacker. Esta mulher. logo que se propusessem empreender o assalto. Coppens.. Se. . Éstes. teriam capitulado. 163. atraiçoando os concidadãos. no fim da Escritura.

Depois de ter experimentado essa fé. 277. 25 Firme êste princípio básico para a interpretação do episódio. L. A. Histoire d'israel 1. etc. que dispensa máquinas de guerra desde que le queira realizar algum desígnio.° 1. págs. como as guerras de Israel em geral (cf." (Hebr 11. Se tivésseis fé como um grão de mostarda!" C.eficaces eran en si miemos los medias empleados. ei sagrado número siete. 361. porém.30). M. Texto de Schusber-Holzanuner. II (Paris. .218 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Foi pela lê que Os muros de' Jericú desmoronaram.. antes do mais. seja aqui transcrito ainda o testemunho de recentes e abalizados exegetas católicos "Las ejete vueitas alrededor de Jericó con ei Arca de ia Alianza tiene mede manobra militar que de religiosa. não nos seria lícito fechar os olhos a ulteriores considerações: é bem possível que. n. graças às armas (Ia fé (cf. eia alcança o que intenta. foi aquela que de Deus obteve esta. o Senhor se tenha servido de causas segundas. o Senhor recompensou-a com retumbante vitória. 26 à semelhança do que se verificou posteriormente numa bataiha 25 "A fé pouco se preocupa com os meios. e a conquista da cidade medearam os desfiles de sete dias. 1946). sino a DiOS. Ef 6. Historia bíblica.. ei objeto era hacer ver a Israel que ei resultado Javorabie se debite no sólo a las armas. L'Epitre auz Ei ébreux.30. como se Javé visasse ensinar aos seus fiéis um estratagema bélico. Os seus frutos são evidentes: a primeira grande praça-forte cananéia caiu em mãos do povo de Deus. sín la anal no se hubiera realizado ei prodigio: 'Por la fe se derrumbaron los muros nos de Jericól" (Hebr 11. encaminada a dirigir los altos destinos dei pueblo. Dennefeld. Das Buck Josue (Bonn. Porque no se derrumbaron las murailas por ei griterlc dei pueblo ti por ei resonar de las trompetas ti por ias siete vueltas. por consiguiente. 1935). mas estos sefzaiaban ya de ant em ano ei instante dei dernsmbamiento y excinian. Isto quer dizer que. porque Deus intervém comprovando-a. mientras por otra pane ei proceder de los israelitas fué un hermosisimo testimonio de su confianza en Dios. RI carácter religioso de ia cosa. Histoire d'israel et de l'Aiwien Orient (Paris. professavam crer no Auxílio de Deus.13s). 25 Cf. Spicq. depois de se lhes haver dado a volta durante sete dias. 22s. Verdade é que entre a atitude de fé dos hebreus que assediaram Jericó. cuya eficacia tanto mãe resalta cuanto más in. sino por la omnipotencia divina. a manobra adequada . Schulz. foram inculcadas primàriamente para que os filhos de Israel tivessem ocasião de exercer a sua fé. 177. para entregar Jericó aos israelitas em prêmio de sua fé. em recompensa da fé. 125-128). 1953). O. Tais cerimônias foram prescritas pelo Senhor. Ademais não se pode esquecer que a conquista de «Jericá tinha significado religioso. .) Esta breve frase estabelece um nexo entre a fé dos israelitas e a conquista de Jericá. são superados os obstáculos mais pujantes que se opõem à posse da Terra prometida. Bons autores pensam que permitiu um terremoto em momento oportuno. 1924). praticando aquêles artifícios (cujo valor militar é incerto e não importa muito no caso). hicieron realtar ei suceso como obra de Dias. 349. não. os hebreus. toda expliccicián natural dei hecho. 1 (Barcelona2. Ricciotti.

Sab 16. 29 Nem se exclui a ação devastadora da sêde na cidade cercada. 1 5am 14. O térmo hebraico terou'a (clamor) • ocorrente no versículo acima citado. (ora Josué tomou Jericó por volta de 1200 a."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 219 contra os fiisteus.C.15: 'O espanto apoderou-se do acampamento dos filisa terra tremeu. é de crer que o texto do livro de Josué não nos refere a história completa da tomada de Jericó. Cf. entre os gregos. 28 O clamor proferido pelo povo israelita imediatamente antes de assaltarem a cidade parece não ser senão a terou'a ou o brado de ataque que marcava o início das batalhas de outrora. Em conclusão: as manobras dos hebreus em tôrno de Jericó têm primàriamente o significado de um testemunho da fé que Deus exigia de seu povo. Eis o que as páginas sagradas a seu respeito referem. Os exércitos antigos costumavam desmcadear as suas batalhas mediante veemente clamor (alalá. a.6). portentosa. o seu lado orietal foi mesmo totalmente arrazado. Núm 11. a êstes alude Jos 24. Jdt 7. 27 teus . . embora o assinalem geralmente ao intervalo que corre entre 1400 e 1200 a.5." 28 Lembra o chefe israelita à sua gente: 'Os homens de Jencó combateram contra vós. Os arqueólogos discutem sôbre a época precisa em que se deu o desastre.11. a sua finalidade imediata era provocar um bem de ordem espiritual numa gente rude como Israel. mas se restringe ao episódio que realçava a influência do fator "fé" na campanha bélica. 1946)..C. como às• vêzes acontecia (cf. 29. exprime um grito de índole fortemente gutural. havia um terror de Deus. Éste vem a ser mais um ma bíblico por vêzes submetido a hesitações e interpretações.12). pois a única fonte de abastecimento pode ter estado fora dos muros do reduto. as excavações levadas a efeito desde 1908 no local da antiga cidade fizeram ver que a muralha de Jericó construída após 1600 a. excitar uma sincera atitude religiosa perante o verdadeiro Deus. 27 Não terá dispensado de pequenos combates o exército de Josué." 2u Jos 6.C.2-36. Em suma. barritus.° o MANÁ (tx 16. ou seja. . Humbert. cessou o regime extraordinário de alimentação qt e o Senhor Deus lhes proporcionara no deserto.20-29) Ao entrarem os israelitas na terra de Canaã. é onomatopaico. deixaram de se] sustentados pelo maná (cf.). La "Terou'a".. Jos 5. cujos pormenores não podemos descrever com exatidão. Analyse d'tia rite biblique (Neuchãtel. como insinuam as letras r e ' do vocábulo. § 5. visto que o texto sagrado não fornece os elementos para isto. entre os germanos).4-9. sofreu destruição. Veja-se a propósito P. Quanto à arqueologia. A resposta do Senhor ao seu povo consistiu certamente numa iatervenção poderosa.

Por sua tí'ansparência e consistência. Tendo-se êles queixado a Moisés. sem o concurso de agentes criados. que em 1823 a divulgou na obra Symbolae phygicae.64 1). único no seu gênero. mas principal. de sorte que era preciso aprovisioná-los antes do nascer do dia. é produtor do maná. perfurando os ramos dêsse vegetal. O seu gôsto parecia-se com o de uma torta feita com óleo ou mel (cf. julgava-se que um inseto.13-15. encontraram por terra algo como grãos com aparência de geléia branca. um alimento. os hebreus. Êx 16. de modo a se confeccionarem pães. O autor causou sensação e surprêsa entre os seua contemporâneos. Quanto à maneira de recolhê4o. ou seja. de Israel (a caravana nômade ter-se-á nutrido. também não se conservavam por mais de 24 h." Em conseqüência. assemelhava-se ao bcieuium. Averiguaram-se fatôres naturais que o Senhor Deus. exceto às sextas-feiras. Como se há de entender esta providencial dispensação de alimento? Na tradição exegética. Ehrenberg. Durante os quarenta anos da travessia do deserto. terá utilizado afim de suscitar o fenômeno narrado pela Bíblia.220 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO Seis semanas após a saída do Egito. que. Na península do Sinai é. de modo que os israelitas arrecadavam apenas a porção necessária ao dia respectivo. teria caído do céu.7).8 e lix 16. deviam-se observar cuidados especiais: os grãos se der retiam ao calor do áol. Até os últimos tempos. saindo do respectivo acampamento. comum um arbusto chamado tamaris mannifera. Núm 11. em escala pequena. já conforme os antigos monges do lugar. O texto sagrado fornece mais algumas informações sôbre o alimento maravilhoso: tinha a grossura do grão de coriandro. surpresos. Dt 2. Podia ser triturado e cozido ao fogo. como se dirá abaixo. constituiu o maná o alimento não exclusivo. muito abundante no Egito. porém. lhes fazia suar uma gelatina melosa. na península do Sinai e no vale do Jordão. estêve e ainda está de pé a tese de que o maná foi especialmente criado por Deus para o seu povo. nos tempos atuais. resina aromática de côr levemente amarelada (cf. oflmigrantes começarálfi a experimentar a escassez de víveres. sim. 30 Todavia em 1927 a 80 Esta tese se deve ao botânico alemão O. um gomor por pessoa (3. . perguntavam uns aos outros: "Man liii? Que é isso ?" Ao que Moisés respondeu: "É o pão que o Senhor vos envia para vos nutrir. também dos seus rebanhos e de víveres permutados com os povos que encontrava. que. o Senhor lhes 'suscitou um alimento especial: na manhã seguinte. esta hipótese vai sendo mais e mais preterida.31). deram a tal substância o nome de man. cf. maná (cf. Eis. Núm 11.31).6). semelhante a gotas de geada. grão que mede 5 mm de diâmetro. conforme o seu habitual proceder.

exceto aos sábados. o maravilhoso na produção do maná foi o modo como Deus provocou o seu aparecimento: dispensou." (Relato devido a Breitenbach. a goma produzida se solidifica. Ant. 32 Em conseqüência. sob forma de gotas brilhantes. Fr. sim. Si davam a saber de maneira definitiva que a dita resina não se deve diretamente à tamaris maniviferar mas à ação de dois insetos sôbre o arbusto: a trabutina nwnniparo e o najacoccus serpentinus minor. Ricciottl. ri (Paris. 92-100. pousa sóbre a erva. KelIer. Ambrósia (t 397). antes que as formigas. 32 Os árabes ainda atualmente exploram e exportam tal produto. Heinisch. 304. 124s. 238s. Kaiser. 63-75. encontra-se atualmente ainda pão do céu. 33 Cf. A. Éstes animatzinhos sugam a seiva do vegetal e a expelem sob forma de gotas resinosas. "Les Nombres". por éles denominado Mann es-sarna. Ubach. prende-se e adere aos dentes. guardam e vendem para os peregrinos e estrangeiros que lá vão ter. Recolhem-no de manhã muito cedo. 1. Düsseldorf. em La Satnte fibra. até êste momento permanecem inativas. Theodor. os troncos das árvores. Como se depreende. G. posta ao ar livre. "Ergebnisse der sinaiexpedition 1927 der hebraeischen Tjniversitaet Jerusalem".1 não hesitam em identificar êste com aquêle. Bodenheimer e O. à semelhança de mel cristalizado.6. . maná do céu. 1955. são correspondentes aos do maná bíblico. 3. L'Exode ei Levitic (La Biblia. diàriamente ou quase diáriamente. logo que Moisés o anunciou e fora das épocas habituais (isto é. fora também das regiões 31 a. 1946). 14 Para êsses autores. dando um bloco da grandeza de uma avelã. notem-se Flávio José.) Estas notfcias se podem completar pelo que a respeito do maná referia um peregrino do Sinai no ano de 1483 "Em todos os vales das cercanias do Monte Sinai.) Os textos acima foram transcritos da obra de W. muito alimentícia. Ésse pão do céu cai de madrugada. é aromática. excitadas pela luz e o calor do dia. de tamanho variável entre o de uma cabeça de alfinête e o de um grão de ervilha. S. em Zettsohrift das d. e possui sabor doce."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 221 universfdade de Jerusalém enviou uma expedição à região do Sinal para apurar exatamente o processo. as pedras. ainda hoje recolhido pelos beduínos. ilustrado pels monjos de Mont Serrat). diversas gotas se podem conglomerar. P." (Trecho do relatório da expedição de 1927.1. 64. de mais a mais que já na antiguidade se insinuava tal sentença. os resultados das explorações. "Neue Forschungen auf der Sinailialbinsel". o levem: "As formigas começam a sua atividade de aprovisionar depois que o solo tenha atingido a temperatura aproximada de 21° Celsius . de Pirot-Clamer. decano da catedral de Mogúncla. 34 Além da tradição dos monges do Sinai.30 h. 53 (1930).1. publicados em 1929. aspecto e gôsto do produtõ da tamaris mannif era. A. ep. a mencionada geléia em quantidades extraordinárias (de sorte a sustentar milhares de homens). à semelhança de orvalho ou geada e. que os monges e os árabes recolhem. exegetas modernos 3. durante os quarenta anos de travessia). Clamer. S. tomando côr branca ou amarelada. compramo-lo em boa quantidade. quando o consomem.o que se dá por volta de 8. Das Buch Erodus.eutschen Palaestina-Vereins. 134-7. É doce como o mel. Unct dia Bibel hat doch recht. lllstoire d'israel.

tJnd die Bibei hat doou. os quais protestaram contra o alimento miserável que repetidamente lhes era dado: "Quem nos dará carne para comer? Recordamo-nos dos peixes que comiasnos gratuitamente no Egito.C.4-6.o que devia incutir confiança no Senhor. conforme a qual o maná "proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paiadares. azeitonas e figos nos pomares. Os seus armazéns de reserva estão cheios de cevada e cereais. mais saboroso do que o mel. e ninguém exclama: 'Queira Deus!' A gente miúda vive como a gente graúda. Eia. recht. Êste teve origem no séc. ideal. na realidade." (Núni 11. melões. Há cebola e alho para os alimentos. . Agora nossa alma está ressequida. que para cada dia distribui o necessário (cf. o hagiógraf o não hesitou em apresentá-lo como alimento delicioso. O autor de Sab mostra-se fiel expressão desta tendência: já que o maná fôra tão evidente sinal da futura instauração do reino messiânico. É o jovem discípulo Pai-Bes que assim escreve ao seu mestre Amen-em-Opet: "vim ter a Casa-de-Rarnsés-o-Favorito-de-Amon (= cidade de Ramsés). Aqui há todos os dias viveres frescos e carne. eram. 1 a. transformando-se no que cada qual quisesse". As naves vêm e vão-se. O mesmo deus Ra fundou-a segundo o plano de Tebas. maçãs. celebremos aqui as festas do céu e o inicio das estações do ano 1" Texto publicado por Keiler. assim como dos pepinos. vinho doce. O canal do deIta Shi-Hor fornece sal e salitre. preponderantemente na península do Sinai e em quantidade que nos melhores anos é de 300 k aproximadamente. Demorar-se lá acarreta vida ideal.zara para instalar Israel em Canaá (séc.20s. como também há romãs. Todos se alegram por poder viver nesta terra. Nada mais resta! Nossos olhos só vêem maná. os feitos grandiosos que o Senhor reali.C. XIII a. à luz do reino messiânico que êles preparavam. Também se devem a extraordinária intervenção divina os seguintes pormenores: o maná às sextas-feiras caía em porção dupla.19-30). notamos que a fartura de viveres do Egito (região -de Ramsés) é atestada por um papiro da época em que os israelitas eram súditos •de Faraó. Éx 16. no decorrer dos séculos.222 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que hoje costuma crescer a tamarts mannif era (isto é. as suas lagunas estão povoadas de aves. em Alexandria. 'por todo o percurso dos israelitas a partir das fronteiras do Egito até a entrada na Palestina). Quanto à afirmação de Sab 16. Os seus lagos estão cheios de peixes. pois.) 35 35 A título de ilustração. e as suas frutas nos campos cultivados têm o sabor de mel. Os seus campos oferecem multidão de coisas boas. ao passo que aos sábados não era dada (particular que inculcava ao povo a observância do dia do Senhor). sabe-se que normalmente o maná só se produz nos meses de maio a agôsto. das cebolas e do alho. durante a semana o maná conservada por mais de 24 h se deteriorava . sabe-se que os grãozinhos pareceram insípidos aos hebreus. atingem a altura do céu. e vejo que é maravilhosa. Ora. cidade opulenta como nenhuma outra. 114.) foram sendo mais e'mais considerados em perspectiva otimista. as suas planícies estão recobertas de capim verde. pois. só pode ser entendida se se reconstituem as circunstâncias em que foi escrito o livro da Sabedoria. evocados em têrmos idílicos. Diàriamente recebe a cidade carne fresca e alimento.

os quais lhe rogaram fôsse ter ao país de Moab e de lá amaldiçoasse os israelitas acampados na vizinhança. legados portadores de ricos presentes e promessas. à condição."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 223 A afirmação. de espada na mão. do fato de que. . durante quarenta anos. de não proferir sôbre Israel senão os oráculos que lhe fôssem inspirados do alto. Então o anjo se tornou visível também ao. continuar. resolveu recorrer ao poder religioso: lembrou-se de um mago residente em Petor. Mandou. Reputando-se incapaz de conjurar o perigo pelas armas apenas." J. não é notícia de historiografia estritamente dita. apesar das insistências contrárias de Balaque. Chegando a Moab. conforme o desejo dos que o comiam. 511. por isto não quis partir sem consultar o Senhor. todos os israelitas encontraram no maná o seu sustento. experimentou estranha aventura: um anjo de Javé. Ao viajar para Moab sôbre um jumentinlio. de Pirot-Clamer. porém. Balaã era temente à Divindade.28). "o Senhor abriu a bôca do jumento" (22. o qual explicou que algo de extraordinário se dera. só proferiu os oráculos de bom presságio para Israel que o Senhor Deus lhe inspirava. em La Sainte Bible. fazendo que se desviasse da estrada e entrasse nos campos. de novo apareceu o anjo num caminho estreito. É esta a expressão poética talvez hiperbólica. VI (Paris. não podendo prosseguir. de modo que o jumento só pôde passar atritando o pé de Balaã contra as pedras do muro. exaltadamente otimista do livro da Sabedoria deriva-se das leis do estilo épico em que o hagiógrafo escreveu. mago e repreendeu-o por ter encetado tal viagem. permitia-lhe.22-35) Ainda na travessia de Israel pelo deserto deu-se um episódio que chama a atenção tanto do estudioso como do curioso: é um aspecto do encontro da caravana nômade com o mago Baiaã. A história assim descrita pelo livro sagrado pede algumas explicações para ser devidamente entendida. Weber. se deitou por terra. o qual lograra fama em todo o Oriente. Baiaque. era Balaã. porém. junto ao Euírates. renovando a condição anteriormente expressa. o qual viu ameaçada a subsistência da sua gente. em terceira aparição. 6 "O maná tomava os sabores tais diversos. o anjo se postou em lugar tão estreito que o asno. 1946). Como Balaã espancasse veementemente o animal. Aconteceu que o nimor das vitórias dos hebreus sôbre povos que haviam tentado criar-lhes obstáculos aterrorizou o rei de Moab. 36 § 6. obteve licença para seguir via' gem. pois. 'Le livre de la Sagesse". Após insistência. assustou o animal. pois.° BALAA E O ASNO QUE FALOU (Núm 22. Balaã.

Onias. J05 24. e não queria incorrer no seu furor. fê-lo assim instrumento de autênticas revelações nos oráculos que proferiu (cf.6. o escritor Flávio José narra o seguinte episódio: Durante a guerra civil entre João Ifircano e Aristóbulo (67-63 a. invocara a Divindade (o mago ter-se-á dirigido simplesmente ao Poder Divino competente para o esclarecer no caso). recebia paga correspondente (cf. 18-24. Miq 6. isto é. que considera Ealaã como defensor do povo de Israel contra Balaque. porém. os judeus lapidaram Onias (Ant. Exercia a profissão de mago ou adivinho. o qual diflcilmente se entenderia na bôca de um adivinho pagão. 40 ficou sendo o tipo do homem avarento. deixando-se guiar pelas suas inspirações.14.1). 15-24). Segundo a mentalidade comum dos pagãos.C. Em Israel êsses homens de Deus eram os justos.9. temeroso.50-52).18 Balaã chama Javé "meu Deus". os quais.7). que acima de Deus estima os seus interêsses próprios. chamado Onias. Jdt 5. 24. não recorriam a artifícios mágicos (invenção humana). 38 Em NCun 22.C. Na história do povo de Deus.9s.48. não quer dizer que habitualmente Lhe prestava culto nem mesmo que era monoteísta. lu reconhecia a existência e o poder respeitável do Deus de Israel. como se entende. porém. Apo 2. 37 A praxe de oferecer ricas dádivas aos adivinhos é atestada também por Dan 2. o caso de Caifás em J0 11.7. os quais lançavam mão de expedientes excogitados pelos homens ou pelo demônio. o que não supõe necessàriamente santidade na respectiva criatura (cf. não israelita. 14. Filo. mas não raro recebiam gratuitas comunicações do verdadeiro Deus. Êx 15. Pediram-lhe que amaldiçoasse Aristóbulo e seu partido. 5. Núm 22. 2. Comunicou-lhe alguns de seus desígnios a respeito de Israel. conforme o texto hebraico atual e a vulgata latina. A versão grega dos LXX. Núm 23.15s. ao lado de Javé. antes de falar.4s. sinais mediante os quais julgava perceber os desígnios da Divindade.7-10. tendo tido conhecimento de quanto o Senhor fizera por seu povo desde a saída do Egito. que Balaã é pagão. Atribula-se na antiguidade eficácia infalivel às palavras de bênção ou maldição proferidas por um 'homem de Deus". 40 Cf. O Senhor Deus se dignou responder a Balaã. 24. materiais. 11 O fato de que êle reverenciou o Deus de Israel. omite e pronome possessivo. vivia perscrutando os sinais que & natureza ou artifícios secretos lhe ofereciam (cf. Jud 11. J05 2. note-se.6. Entre os pagãos. 1 d. em grande parte por intermédio dos mercadores que comerciavam assiduamente entre o Egito e a Asia anterior (cf. não deixava de admitir as divindades dos outros povos. vivia um homem justo e amigo de Deus. expedientes sujeitos à falibilidade como os seus autores. que.. porém. porém.14.3. passou para a tradição judaica e cristã com nota depreciativa. Dada a eficácia que atribuiam a esta maldição. embora tenha deixado vaticínios de ótimo agouro para Israel. 38 apenas. Dt 23. 39 As noticMs se haviam propagado ràpidamente nas terras orientais. judeu alexandrino do séc. Excetua-se.). 1). De vita Mcnjsis 1.3-9. que a figura de Balaâ. eram os magos e adivinhos.224 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em primeiro lugar. rogou a Deus que não atendesse às orações nem de uma nem de outra facção. . o qual pela oração obtivera chuva numa época de sêca. Eis.5-25). em troca de seus oráculos. Núm 23. 2 Pdr 2.

em outros têrmos: ouvindo o asno. mas. há quem julgue que o asno produziu realmente sons de linguagem humana.20 e 22) ? O proceder se explica bem se se admite que Balaã não viajava com a disposição de ânimo (docilidade às futuras comunicações divinas) que o Senhor lhe incutira ao permitir a partida. persuadindo os madianitas a seduzir o povo para a apostasia religiosa (cf. porém. não tendo recebido licença para isto. Assim entra em cena no texto bíblico o asno que fala. A repreensão se efetuou com o concurso de fenômenos sensíveis. as graças do Senhor foram em Balaã suf ocadas pela cobiça de vantagens temporais e pela amargura de não as ter alcançado. esperando que Deus mudasse os seus desígnios (22. Conforme outros exegetas.12). aos quais o oriental.. impedido a viagem que file mesmo pouco antes autorizara (cf. Já que o fenômeno foi ocasionado pelas aparições de um anjo que dificultava a caminhada. não ousou desobedecer para não se expor ao castigo conseqüente."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 225 Por que isto? Será essa a genuína face de Balaã? O texto sagrado o explica. que houve por bem chamar Balaã à ordem. como em vários outros casos.38). Não é esta. Em suma. enquanto cavalgava.. Não faltaram os que lhe denegaram historicidade.18s). mito popular. pergunta-se antes do mais: por que terá Deus. às instâncias do rei quis dar resposta favorável. a qual o censurava amargamente por estar viajando com propósitos contrários ao Senhor ou por se haver deixado obcecar pela perspectiva do ouro. voz de Deus no seu íntimo. por um emissário. muito impressionável. procurou desforra: tentou mais tarde levar Israel à ruína. irritado. 22. Embora já antes de partir para Moab soubesse que Deus abençoara Israel (cf. a única explicação possível do texto sagrado. terá tomado a resolução de amaldiçoar em qualquer caso. 31.16). visão de alucinado etc. Balaã tudo fêz para não perder os ricos prêmios que lhe prometia Balaque caso amaldiçoasse. 22. são ditadas pelo desejo de não admitir o sobrenatural no curso dos acontecimentos. mas Balaã interpretou-os como admoestação que Deus lhe dirigia. Tais sentenças. chégando à terra de Moab. 1 nesta perspectiva que se deve considerar o episódio do jumento que falou ao mago.. o adivinho. considerando a narrativa inteira como lenda. Entre os que defendem a realidade histórica do episódio. o animal espancado emitiu os sons queixosos que lhe são habituais. Assim o episódio . refletindo consigo. Balaã ouviu simultâneamente a voz da consciência.. Ora uma viagem com tal propósito não podia deixar de desagradar ao Senhor. não excluiu a possibilidade de amaldiçoar (22. a fim de não perder o salârio devido às suas fadigas. sonho de Balaã.. se rende com mais facilidade.

do outro lado. ou seja. amou o salário da iniqüidade. disto se prevaleciam os cananeus vizinhos. se travou entre o temor de Deus. Esta última interpretação é muito digna da Sabedoria e da Providência divinas. Nas ocasiões de maior tribulação. para atacar e oprimir o povo. Propugna-a outrossim A. visando maior ênfase. e o início da monarquia (1020)." 42 O que acaba de ser exposto parece pôr em suficiente evidência o sentido religioso e autêntico do episódio de Balaã. em conseqüência. A visão e os dizeres do anjo. e a paixão da avareza.. Já S. coloca diretamente na bôca do jumento. episódio que é mais do que a história de um animal que falal. a fim de que debelasse os inimigos. em La Sainte Bible. um dos chefes que Deus suscitou ao seu povo no período que corre entre a morte de Josué. n. povo . De MoIse à David. sàmente na. terão corroborado a voz da consciência e feito que o adivinho se rendesse finalmente à admoestação do Senhor..° A HISTÓRIA DE SANSÃO (Jz 13-16) Muito explorada tem sido a figura de Sansão pela fantasia tanto dos homens simples como dos artistas. tutor do de Deus segundo Dan 12. II. De vita Moysis. no ânimo do adivinho em viagem. Não se lhe pode opor o texto de 2 Pdr 2. conquistador da terra de Canaã (1200). "Les Nombres". Miguel. § 7.. não a realidade material dos fatos. visa o ensinamento moral. foi autorizado a prosseguir viagem. 42 L'Ancien Testament. 386s. Eis o que a Sagrada Escritura lhes apresenta: Sansão foi um dos grandes Juízes. de um lado.226 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO não viria a ser senão o relato vivo e dramático da luta que. 41 sobrevindo a êsse estado de alma de Balaã..15s: "Balaã." É o Cardeal Meignan quem observa: "O Apóstolo fala conforme a opinião comum dos judeus. filho de Bosor. chefes esporá41 Alguns dos antigos julgavam tratar-se do arcanjo S. Êsses homens. Gregório de Nissa (t 394) se fazia arauto da explicação mais larga acima proposta.° 1. ed. 421. Não havia govêrno organizado em Israel nessa época. consciência do mago é que os berros desarticulados do animaL tomaram o vulto e o significado das palavras que o autor sagrado.1. 44. Migne gr. Clamer. mas foi repreendido por sua desobediência: um animal mudo fêz ouvir voz humana para reprimir a demência do profeta. acontecia que o Senhor infundia a um israelita coragem e poder extraordinários. 216. 1896.

Já que o menino devia ser desde o início de sua existência consagrado ao Senhor. 43 "JuIzes". Chegado à idade viril. . que êle matou com as próprias mãos.31). Era êste o primeiro dano que êle infligia aos inimigos. foi certa vez acometido por um leão. o jovem. At 21. não extinguia as tendências desregradas da natureza em Sansão. Núm 6. que não lhe dessem a interpretação. eram os chamados Juizes. saiu o que se come. foi a Ascalão. Contudo. lhe arrancasse o segrêdo do enigma. à semelhança do que se costumava fazer no Oriente "Daquele que come. propâs aos trinta convivas do festim um enigma.2-8. os filisteus perplexos foram pedir à mulher de Sansão. que eram homens ou mulheres consagrados a Deus por tríplice voto: abster-se de bebidas inebriantes e dos produtos da videira em geral.1-16.) Caso lhe pudessem explicar o sentido dêstes versas ao cabo dos sete dias de festa. abençoado pelo Senhor. viu no cadáver do animal um enxame de abelhas e mel. porém. A caminho desta localidade. contra a vontade de seus pais.7). após três dias de reflexão. Havia na tribo de Dã um casal estéril.23-26)." (Jz 14. " Tornar-se-ia o defensor de sua gente contra os filisteus hostis. o israelita não se embaraçou para desquitar-se da dívida: irritado. porque a função principal de quem governa um povo simples vem a ser o julgamento das causas. 41 entre os quais sobressai Sansão (cf.. Seria consagrado ao Senhor desde o seio materno (nazireu). pagaria cada qual o mesmo preço. dos lítigios cotidianos (cf. Núm 6."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 227 dicos de Israel. 44 No povo hebraico existia a categoria dos narireus (em hebraico.. Jz 13. e sua mãe. Ora. não se contaminar pelo contato de cadáveres (cf. observar a abstinência de bebidas em lugar do filho. separado).14. A vida dêste herói. após estas peripécias. os trinta filisteus receberiam cada qual uma peça de roupa fina e uma túnica preciosa. dizia-se que o nazireu trazia na Õabeça a consagração ao seu Deus (cf. Cresceu. tocava á sua mãe. servindo-se dos seus despojos para pagar o que devia. celebrava as núpcias em Tamna. pág. enquanto o gestasse. Ora o menino nasceu e foi chamado Sansão. dado. Quando. que lhe dava energia de alma e vigor de corpo fora do comum. deixar crescer os cabelos e a barba. E do forte saiu o doce. refazendo a estrada. porém. coisa que ela obteve. enquanto o gestava. se deveria abster de bebidas fermentadas e alimentos impuros. onde matou trinta filisteus. nazir. predizendo o nascimento de um filho. Dias mais tarde. O favor de Deus. não há dúvida. quis esposar uma donzela fiistéia da cidade de Tamna. ao qual um anjo apareceu por duas vêzes. pelo que deixaria crescer os cabelos. Em vista da sua cabeleira. é muito marcada pelo maravilhosb. 42).

que êle amarrou duas a duas pela cauda. extinguindo-se desta forma. Com isto. Sansão pereceu. Os fiisteus então muito insistiram para que ela se informasse a respeito do segrêdo da fôrça de Sansão. Um belo dia. enquanto a escarneciam. como faziam as mulheres e os escravos. a altas horas Sansão saiu de casa. a vítima agarrou-se às duas colunas que sustentavam o teto da casa. mas.. porém. Já sem fôrças. porém. Contudo. Ora. Entrementes a cabeleira de Sansão crescia de novo e o vigor lhe voltava. Soube. Em outra ocasião. voltou a Tamna para rever a espôsa. O herói. Os filisteus então f echaram as portas da cidade durante a noite e. Os irmãos do herói prostrado lhe recolheram os despojos e os sepultaram no túmulo paterno. apoderou-se das portas da cidade e. apanhou o primeiro objeto que encontrou . os filisteus resolveram festejar o seu deus Dagon pela vitória obtida sôbre o tenaz adversário. Sansão rompeu seus liames. que.e com esta arma improvisada espancou mil adversários. revelou-lhe que tudo dependia da sua cabeleira. fazendo que os demais fugissem de mêdo. o veemente incêndio provocado destruiu não só o grão. O herói consentiu em que seus conacionais o ligassem com duas cordas nQvas e levassem ao acampamento dos filisteus. ataram-no com duas correntes e obrigaram-no a volver a mó de um moinho. devia perecer vítima da sua concupiscência. colocando-as sôbre os ombros. que lhe crivaram os olhos. aonde mandaram levar Sansão. ao comparecer diante dêstes. pelo que. Êste. fazendo desmoronar a construção. a cada par de caudas prendeu uma tocha acesa. mas também as videiras e oliveiras.uma mandíbula de asno lançada ao chão . causou a morte de maior número de filisteus do que durante tôda a sua vida. e sacudiu-as.228 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Tempos depois. resolveu punir de novo os filisteus: capturou trezentas rapôsas. que fôra dada em matrimônio a outro homem. Eis. finalmente.. aprestavam-se a matá-lo de madrugada. Levaram-no a Gaza. mandaram cortar os cabelos do lutador adormecido. apaixonou-se ilicitamente por uma mulher chamada Dalila. . e deixou os animais assim atados debandar pelos campos de trigo dos filisteus. refugiado então na caverna de Etam (país de Judá). o homem valente foi à cidade filistéia de Gaza e deteve-se em casa de uma meretriz. os adversários queimaram viva a mulher de Sansão e exigiram dos homens de Judá que lhes entregassem tão perigoso inimigo. vigilantes. porém. Indignado. reuniram-se em seu templo. o israelita foi entregue aos inimigos. que estavam maduros para a messe. certa vez. De volta à pátria. provàvelmente israelita. levou-as para uma montanha. Em represália.

O autor sagrado haveria feito dêsse tipo pagão um nazireu israelita Já a variedade das tentativas de interpretação dá a entender que são. não é necessàriamente indício da sobrevivência de algum mito solar em Israel. porém. A história de Sansão seria um canto tradicional dos filisteus levemente retocado pelo hagiógraf o. Não se queira ver. tinha por figura central um herói cuja fôrça residia na cabeleira. Aparentemente fabulosa é a notícia de que a fôrça de Sansão residia em sua cabeleira."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 229 A narrativa bíblica assim concebida tem inspirado interpretações diversas. na cabeleira de Sansão mais do que um sinal . embora se derive de shemesk. das quais. pois. que caiu em infidelidade (dando ocasião a que o despojassem da cabeleira). sol. sol. era movido pelo Onipotente e se mostrava mais poderoso que tudo. as rapôsas e o asno teriam entrado na história de Sansão. era o fato de que Sansão estava consagrado a Deus e se deixava mover pelo Senhor. o texto sagrado mais de uma vez faz notar que o poder de Sansão . Em última análise. afirmam. Éste é um herói solar. em grau maior ou menor. Enquanto Sansão foi fiel ao Senhor e às obrigações do nazireato (entre outras. Elshps. à de não cortar os cabelos). porque. tornou-se tão fraco como qualquer homem. O nome de Sansão.sinal de uma adesão de alma a Deus. arbitrárias. instituição mosaica. pois. era assaz espalhado em Canaã sob as formas Shpsgyn (yn indicava a pertinência à Divindade). simbolizam o sol 1 Outros preferiram traçar um paralelo entre Sansão e Gilgamesh. os seus cabelos seriam a designação figurada dos raios do sol. explica-se perfeitamente dentro do quadro religioso de Israel: deixar crescer o cabelo era um dos elementos do nazireato. Miás. porém. desde. Ora. Êste traço. herói da Babilônia antiga. os episódios de Sansão contêm mais de uma alusão ao sol: o nome do lutador provém do hebraico shemesk. a título de ilustração. Os pais do herói. em virtude das suas côres. sejam aqui registradas algumas das mais curiosas explicações mitológicas: houve quem quisesse identificar a história de Sansão com o mito do Hércules grego. a sua fórça extraordinária lhe provinha diretamente de Deus. Ili-Shamshu. explicação folclórica: alguns autores recorrem às narrativas populares. portanto. ou entre Sansão e Re. as relações de Sansão com mulheres indicariam que o deus Sol é o deus da fecundidade e da geração. o leão. significava a entrega ou consagração absoluta da criatura a Deus (a entrega era tal que não se queria cortar coisa nenhuma da pessoa consagrada). terão adotado um nome usual no seu ambiente. que o tornava vitorioso. deus egípcio.

230 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO descia diretamente do Altíssimo (cf. infligidas por um só israelita. observe-se que Sansão paga sua dívida aos trinta filisteus. . a fidelidade que o Senhor pedia ao herói.14). dotado de coragem a tôda prova. Sansão foi moralmente fraco e cometeu pecados. conforme um grande plano. cuja civilização era mais avançada que a de Israel (cf. cidade bem vigiada. vê-se que não há razão para negar a historicidade dos episódios de Sansão. porém. ser utilizado por Deus como instrumento para a realização de grandes obras. que a fantasia popular explorou com deleite os feitos portentosos da história. nas subseqüentes gerações de Israel. Todavia o nazireato de Sansão. não obstante. como observa expilcitamente o hagiágrafo. 5045 Mesmo o desígnio de se casar com uma filistéia. Sansão foi descrito como o herói popular por excelência. 46 Julgam alguns exegetas que. reconhecendo que. É o que faz que o Apóstolo.619.15). docilidade a Deus) como segrêdo das vitórias dêste Jui2. nos tempos de Sansão. era simbolizada apenas pela conservação da cabeleira. 15. ou seja. Parece inegável. arranca e carrega sôbre os ombros. ora mais ora menos acentuado. ao refletir sôbre a história de Sansão em Hebr 11. não pode deixar de decorrer num tom geral de sarcasmo. 14. divertindo-se à custa de Sansão. 15. 1 Sam 13. 46 Após estas considerações. Notem-se os traços de "humor" e sátira contidos na narrativa tal como a redigiu o povo e a consignou o hagiógrafo: o "humor" é muito vivo na cena dos campos que Sansão incendeia ateando tochas às caudas de rapôsas ligadas aos pares no episódio de Gaza. pediu o auxílio de Deus.18s. e de suas correspondentes derrotas. esta já não era sinal. indique a fé (no caso.16. alguns versos disseminados pela narrativa são expressões desta sátira (cf. mas também de paixões desregradas e espírito mordaz. Não há dúvida. em oração humilde e confiante. embora já tivesse recuperado a cabeleira. por sua infidelidade perdera o direito à tutela divina. despojando os próprios filisteus! A ironia vem a ser também apologia religiosa no episódio final: justamente quando os pagãos celebravam a festa de sua Divindade. cujas portas êle. era. 13.25. Sansão. Jz 14. rejeitado pelos pais de Sansão. intencionava. Xi). séc. XIII e á de Sansão.32. em particular.4). Como quer que seja. pó-lo em contato com os adversários de Israel (ef.19-22). 14. 16. a descrição das invectivas dos filisteus. a lei do nazireato ainda não impunha tOdas as obrigações consignadas em Núm 6 (êste capitulo poderia referir determinações posteriores á época de Moisés.8-10. muitos episódios da história sagrada demonstram que um homem pode ter graves falhas morais e. £ste. saindo à noite. exercendo especial providência em tôrno do jovem.19). 45 Para realizar o prodígio final. parece não ter jamais observado a primeira e a terceira das prescrições impostas aos nazireus em Núm 6: evitar o toque de cadáveres e o consumo de vinho (cf. inspirado ao herói pelo Senhor. séc. Jz 14.

nesta frase paulina que se compendia a mensagem perene da história de Sansão."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 231 freram a maior de suas perdas. conforme a mentalidade do Antigo Testamento. É . o desabamento do templo de Dagon ocasionado por um homem prisioneiro e cego que Javé movia. a mais clara demonstração da inanidade do ídolo. .9).poder-se-ia dizer . a manifestação de que "a fôrça de Deus se expande em plenitude na fraqueza do homem que se Lhe confia" (cf. 2 Cor 12. torna-se.

o ideal seria ler a Escritura no seu teor original . a língua portuguêsa até hoje não conta uma tradução satisfatória da Bíblia. aramaico ou grego. Eis.0). promovendo a leitura assídua e frutuosa da Palavra de Deus.humano e divino . acrescentando normas práticas para o uso da Escritura (§ 2. Levando. histórica e científica apresentadas nos capítulos anteriores convergem tôdas para um fim: aproximar do texto sagrado o fiel cristão. que êste último capítulo examinará tais pré-requisitos Q 1. o leitor deverá dar atenção aos predicados do texto que utilizará. 0) e elementos de uma antologia bíblica (§ 3 . é reservado a poucos. não se lê como outro livro. § 1. os pressupostos de contato fecundo com a mesma são de Consoante os dois aspectos . pois. 0) . Como acontece com qualquer obra literária. cujo uso supre adequadamente o dos textos originais da Sagrada Escritura. Êste privilégio. A Sagrada Escritura. PRÈ-REQUISITOS NATURAIS A . pois. O texto lusitano dito de João Ferreira d'Almeida se deve a um pastor calvinista que nasceu em Lisboa (1628) e viveu muito . 1.CAFÍTULO XIV COMO LEREI A BÍBLIA? As indicações de ordem filológica.0 OS PRESSUPOSTOS DE FRUTUOSA LEITURA Sagrada. e nos nossos dias em números assaz notável.hebraico. E quais seriam as mais recomendáveis? Infelizmente. O fato de que é obra divino-humana requer do leitor disposições próprias. Está claro que. em conta a indigência humana. o Senhor Deus não quis privar os fiéis do conhecimento exato de sua Palavra únicamente por motivo de preparo intelectual. sem as quais mais ou menos vão ficaria o contato com as páginas sagradas. seja profano. antes do mais. seja religioso. Existem.da Bíblia ordem natural e sobrenatural.Boa edição do texto sagrado. porém. porém. traduções vernáculas.

Bonsirven e Tricot (Desclée. Paulo. o tradutor serviu-se de traduções já existentes castelhano. 1947) e Pickel-Beltrão (5. Pirot-Clamer (2. é muito de aconselhar às pessoas que o possam. Ê. usa de linguagem solene.A. . que tem sido bem apresentado em português. Já apareceram os 1 Tradução dos originais confeccionada por S. Vofl (Universidade Católica de S. fala urna linguagem pouco usual ao leitor moderno e carregada de estrangeirismos. Na falta de boa tradução portuguêsa. redigida em estilo francês muito agradável e acompanhada de valiosas notas e introduções. recorram às versões do original existentes em outros idiomas modernos. apenas o livro dos Salmos se encontra em forma vernácula de todo louvável: a edição de E. O texto do Novo Testamento foi publicado em 1681 e o do Antigo em 1748 (edição póstuma). familiar. rue de la Planche. principalmente expressões holandesas. Embora tivesse a intenção de seguir os originais bíblicos. traduzida por Crampon. 1 herdando as falhas de versão que já esta apresenta. Fora o Novo Testamento. pois. 1956. o antigo tradutor não dispunha dos recursos e conhecimentos com os quais contam os filólogos modernos. Embora muitos encómios mereça.S. rigorosamente exata do ponto de vista exegético. dando assim ao público uma obra de terceira ou quarta mão. Franca (AGIR.234 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tempo na Holanda. V. a partir de 1952. o novo texto tem saído aos fascículos. É êste o texto geralmente editado pelas Sociedades Bíblicas Protestantes. devendo estar completo dentro de alguns anos. acompanhado de valiosas páginas introdutórias. hierática e é dotada de ótima introdução. As demais traduções portuguêsas da Bíblia inteira (Pereira de Figueiredo. enquanto as de L. tradução de Catholic Biblical Association of America (Paterson. Paulo. com interêsse que o público acompanha a publicação de nova tradução vernácula dos originais bíblicos devida à Liga de Estudos Bíblicos (5. La Sainte Bible de Maredsous (Namur. holandesa e outras. elaborada sob a direção da Escola Bíblica de Jerusalém.). não receando por isto afastar-se de certas formas usuais nas traduções anteriores. "Les Éditions du Cerf. Paulo) em colaboração com a Editôra AGIR. 1947) reproduzem com tôda a fidelidade possível o texto latino judiciosamente confeccionado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1945). Matos Soares) se baseiam na Vulgata latina. Paris) apresentam um texto digno de todo o aprêço. Eis o que se poderia indicar a propósito: em Irancês A Biblia dita "de Jerusalém". 1952). U. 1951) procede diretamente do original hebraico. em inglês: 2'/ie Holy Bible. New Jersey. Rio de Janeiro. La Sainte Rible. Tournai. Jerônimo no séc." Paris. Bélgica) serve-se de linguagem muito viva.

em italiano: A. Katholische Familienbibel. nas denominações cristãs que a partir do séc. Está claro que o texto utilizado pelos fiéis católicos será sempre acompanhado de notas explicativas e aprovação eclesiástica. É o que se verifica fora da Igreja Católica. que só pode ser uma. II e IV. Vaccari. Altes una Neues Testament (Zürich. Das Neue Testament (Paderborn. a J. ainda em curso de publicação). 3 vois. A Biblia em três volumes. págs. Sagrada Biblia. (larofalo-Rinaldi. Straubinger. 1948). pois a Bíblia é patrimônio da Santa Igreja. Klosterneuburg bel Wien 1951/2. 1949). ainda em elaboração). estão anunciados para 1957. 1947/1949). dela tira o que bem lhe agrada (crenças contrárias umas às outras). em espanhol: Nácar Fuster-Colunga. é tesouro inseparável da tradição oral. Calvino. colocado a sós diante da Bíblia. 21-23). Quem empreendesse a leitura de uma obra clássica sem tomar conhecimento prévio da personalidade do autor e das circunstân- . Zwingli) vieram à luz e hoje pululam: cada inovador de religião. portadora de problemas que os originais não suscitam. Roscb. A tradução do Antigo Testamento é devida a flus Parsch. de "Klosterneuburger Bibelapostolat". bem como o Novo Testamento.Noções introdutórias. 1953). Das Alte Testament (Paderborn/Wien. em alemão: Riessler-Storr. La Sacra Bibbia. dentro da qual ela se originou e até hoje se conservou (cf. Schafer. os vols. traduccion directa de los textos primitivos (Buenos Aires. o recurso a tradução fiel é de grande importância. B . a do Novo. Die Heilige Schrift des Alten una Neuen Testamentes (Mainz. não a Verdade. sob os auspicios do Pontifício Instituto Bibilco de Roma (tradução começada em 1923. Quem não aceita o testemunho da tradição na interpretação dos livros sagrados. 1952). El Nuevo Testamento según ei texto original griego (Buenos Aires.COMO LEREI A BÍBLIA? 235 vois. Bover-Cantera. 1951). Observa-se que boa parte das dificuldades experimentadas pelo leitor moderno ao abordar a Bíblia provém do fato de lhe ser esta transmitida em forma vernácula imperfeita. Em suma. já não encontra nestes a Palavra de Deus. XVI (Lutero. 1 (de Gên a Rut) e III (livros sapienciais). 1947). Sagrada Biblia (Madrid. La Sacra Bibbia ( a partir de 1949. El Antiguo Testamento. 1947). dois volumes na coleção "Biblioteca de Autores Cristianos" (Madrid. Heiwe.

então. Os ditos volumes contêm "Introdução Geral e Especial aos livros do Antigo e do Novo Testamento". Quem possui em seu espírito (ou. Tellier. empreendido à luz de poucos• conhecimentos essenciais e com as disposições de espírito abaixo enunciadas. pois. para maior segurança e ef icácia. 2. 1950). é de crer que isto se possa fazer sem grande esfôrço. vejam-se os vois. An2 sources bibliques (Paris2. 1951) Robert-Tricot. incumbência a que nem todos se podem entregar. arriscar-se-ia a não a entender ou interpretá-la falsamente. retendo na memória os poucos marcos ou as etapas que sucessivamente lhes vão imprimindo o seu aspecto característico (vejam-se as tabelas às págs. dispõe dos pontos cardeais para se orientar diante de alusões a personagens. 1954). E. quando se trata de ler uma biblioteca oriunda entre o séc. Passelecq. e o séc. 257-260). é suficiente para a frutuosa compreensão da Palavra de Deus. consiga chegar ao cerne do Livro sagrado. quanto mais se cul2 Em português. indispensável um mínimo de "iniciação bíblica". publicada pela Editâra das Américas (São Paulo.Joly. também em fôlha de papel colocada junto ao texto bíblico) a recordação dêsses grandes marcos (alguns nomes e datas). xiv. Torna-se. Chrcnologic et géographie (Paris. Initiation bibliqve (Paris3. passando pelos Patriarcas. os Reis. com estudos biblicos adicionais (colaboração de professôres de Exegese do Brasil). ed. Valioso é também um Atlas bíblico. Em francês. tal como o proporcionam opúsculos modernos. e XVI da Biblia Sagrada (versão de Pereira de Figueiredo). 85. Entre as tarefas de iniciação bíblica. XIII a. L'Átlas hisforique: de l'Áncien Testameijt. A experiência ensina que o contato assíduo com a Sagrada Escritura mesma. 1 da nossa era.236 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO elas em que escreveu. por meio do veículo. visa apenas as noções necessárias para que o leitor possa levar devidamente em conta o aspecto humano que a Palavra de Deus quis tomar e assim. . os veios que unem o primeiro ao segundo Adão (Cristo). caso esta fôsse livro meramente humano. datas e localidades de menor importância ocorrentes na leitura. PRÉ-REQUISITOS SOBRENATURAIS As normas acima seriam suficientes para se fazer uma leitura proveitosa da Bíblia. pois o leitor perceberá melhor o que implicam. 2 Esta exigência não implica estudos longos e sutis. recomenda-se P. Spes. Guide Biblique (Maredsous. xv . como o de P. livros ditados por mentalidade e leis de estilo bem diversas das do homem contemporâneo. os Profetas de Israel. isto é.C. 1948). dever-se-ia mesmo acrescentar que. Procure formar em sua mente o quadro geral dêsses séculos. Compreende-se que o mesmo se dê. certas denominações ou frases breves lhe falarão imediatamente com nova linguagem. muito se recomenda ao leitor queira fixar na mente as grandes linhas da história sagrada. 1951).

frutos que a Escritura tende primàriamente a outorgar. Que acontecerá. ainda que não haja homem capaz de te explicar o que procuras. É S.. 3. Se nem mesmo pela assiduidade da leitura chegares a compreender o que está escrito. lucras grande santificação pela leitura mesma." 3 O zêlo. são colhidos em medida correspondente. Ainda breve observação decorre destas premissas: a leitura das páginas sagradas pode ser grandemente útil e valiosa mesmo quando o leitor não entenda todo o sentido do texto bíblico. Ora todo sacramental é sinal sensível que comunica a graça não pelo seu mero uso ou aplicação. procura alguém mais sábio. às disposições religiosas do leitor. é impossivel. é iniciado nas coisas de Deus. na falta de instrumentos humanos.30s) É impossivel. a Bíblia C o Livro de Deus. dizem. porém. João Crisóstomo (t 407) quem o ensina: "Quem se entrega a uma leitura atenta (dos santos Evangelhos) é como que introduzido num templo sagrado. torna-se melhor. Por conseguinte. Isto implica que não será em primeiro lugar a perspicácia da inteligência humana que conseguirá desvendar o sentido das passagens obscuras da Bíblia. purificado. são os que o leitor mais há de procurar desenvolver em si. Bem se entende esta proposição se se tem em vista que a Sagrada Escritura constitui um sacramental. vai ter com um mestre. são os pré-requisitos sobrenaturais os que mais concorrem para o autêntico desfrutamento dos livros sagrados. além de apresentar disposições naturais. . serm. mas na estrita proporçâo da fé e da caridade com que os fiéis o usam. a solicitude apontados pelo Santo Doutor como condições para que Deus. e. o grau de fé e amor sobrenaturais do cristão que a ela se aplica. tanto mais fruto se retiraria das Escrituras. em sua realidade mais íntima. Ële mesmo certamente o revelará a ti. sim. pois Deus lhe fala por aquéles escritos. Acontece.. manifesta teu grande desejo. Donde se segue que ela só revela seu conteúdo profundo a quem. se não entendemos o que os livros (sagrados) contém? Mesmo que não compreendas o que néles está depositado. At 8.. que alguém fique sem fruto se se dá zelosamente à leitura atenta e freqüente das Escrituras. que. não são senão manifestações da fé e da caridade pressupostas no leitor da Escritura Sagrada. 3 De Lazaro. os frutos de união com Deus. a aborda com espírito religioso. antes do mais. Lembra-te do eunuco da rainha da Etiópia (ci. fale no íntimo da alma.C0M0 LEREI A BÍBLIA? 237 tivassem as disposições enunciadas.. mas.. Quando Deus te vir movido por tão ardente anelo.2s. não desprezará tua vigilância e solicitude. digo. Em última análise.

míseros homens. na ordem sobrenatural é a caridade ou o amor de Deus que abre o ôlho da mente. assim como a de se defrontar com as mistérios da Sabedoria de Deus. . " A fé não receia considerar de frente os problemas aparentemente mais intrincados de exegese. Mt 5." 3. antes permaneça por muito tempo velada. Tal fé opõe-se ao orgulho inteletual ou à pretensão de querer proferir sôbre os textos bíblicos (seu sentido. 5 pois cria conaturalidade com o SenhQr e com os atributos. A primeira cena da Biblia após a criação é a história de um pecado. isto te deve dar confiança.-O. Impossivel nos teria sido viver na intimidade de Jesus.2s. por isto. aguça a visão da fé. ou muito mais. não pusilânime (sem. aos fiéis. no caso. Gourbilion. embora não sempre aflore à primeira pesquisa. pouco importa o pecado passado. A fé aceita de antemão a possibilidade de não compreender imediatamente o significado das páginas sagradas. ou melhor. A fé autêntica se mostra forte e confiante. A Biblia é a história da misericórdia. creia no Espírito Santo.238 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Impõe-se agora breve análise daquilo que implicam estas duas disposições A fé.Jo 3. importa creia o leitor no Cristo. mistérios que desnorteiam. pois sabe que tais questões têm solução. sem encontrarmos a Madalena junto à virgem. veja-se também 1 . 5 Cf. etc.tema de que fala a Escritura. que lhe entrega êsse Livro qual depositária e autêntica intérprete do mesmo. Já na ordem natural é o amor que leva o homem a procurar o objeto amado a fim de o contemplar de perto e desfrutar. é a promessa do reino aos pequenlnos. b) inseparável da fé viva é a caridade. 19-24 dêste estudo. ora por narrar a condescendência do Mesmo com a pequenez do homem. Mais brevemente: creia nas duas proposições explanadas às págs. cair na temeridade). a história do pecado ã qual se segue a promessa de perdão. De resto. as obras do Senhor . que é a miséria comum de todos os homens. que é o conteúdo do Livro Sagrado. o amor a Deus move naturalmente o cristão a purificar a sua mente e O seu afeto de qualquer imagem ou inclinação alheia à santidade do Altíssimo. em Commeitt tire la Bible ( Paris) 43. desde que para o futuro nos saibamos 'guardar puros das nódoas dêste mundo' e viver no Amor e na Misericórdia. história das religiões. aos corajosos. "Un itinéraire". 4 "Não receies (6 cristão) cotejar por vézes ria Bíblia grandes pecadores. sua genuinidade. Para conseguir o intento. seu valor pedagógico) algum juízo ditado inicamente pela razão humana. assim. A pureza de coração (como diz Jesus no Evangelho) faz ver a Deus.. crítica da texto. e possibilita ao cristão penetrar mais e mais o sentido das verdades encerradas nos textos bíblicos ou nas fórmulas dogmáticas. que guia e santifica a Igreja. creia na Santa Igreja.8. ora por propor a transcendência do Altíssimo. por pouco que conheças tua própria ffiiséria.

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O mesmo amor incita à perseverán.ça na leitura da Bíblia. A assiduidade regular e fiel é condição importante para que haja aproveitamento da Palavra de Deus. Não fique o leitor detido em textos que momentâneamente êle não entenda, mas passe adiante, sem perder ânimo. Em ulterior leitura, voltando aos mesmos trechos, terá possivelmente adquirido maior afinidade com o Espírito e a Palavra de Deus; estará então habilitado a perceber o sentido do que antes lhe era impérvio. Por fim, ainda sob o ditame do amor, a leitura da Biblia há de se processar numa atmosfera de oração; o uso dos sacramentais constitui, sim, uma das atuações do espírito de oração do cristão. É, pois, de recomendar que, ao abrir o livro inspirado, o leitor eleve a mente a Deus, pedindo-lhe as devidas disposições para entrar em comunhão com a sua Palavra; faça o mesmo, solicite luz do espírito, ao se defrontar com algum texto particularmente difícil ou rico de sentido; o Mestre interior nessas ocasiões há de ser interrogado com a diligência que a caridade desperta. Independentemente, porém, das dificuldades que o texto sagrado ofereça, a leitura da Palavra de Deus deve habitualmente desabrochar numa prece; ela é nutrimento não só para a inteligência, mas também para a vontade; esta, portanto, sob qualquer de suas expressões (ato de adoração, complacência, gratidão, anelo, contrição), há de se afirmar, depois de estimulada pelo contato do texto sagrado. Por conseguinte, se a graça o inspirar, o discípulo de Crísto intercalará em sua leitura oportunas elevações a Deus; caso não, rezará ao menos ao concluir. S. Agostinho, numa passagem das Confissões, deixava entrever algo de seu ânimo interior ao ler a Sagrada Escritura:
"No principio fizeste o céu e a terra. Moisés escreveu isto (cf. Gên 1,1), escreveu e se foi; passou dêste mundo a Ti. Já não se encontra diante de mim; se aqui estivesse, a êle recorreria, interrogá-lo-ia, e pedir-lhe-ia em teu nome que me explicasse essas palavras; aplicaria os ouvidos de meu corpo aos sons que prorrompessem de seus lábios,.. Já, porém, que não o posso interrogar, é a Ti que me dirijo, ó Deus meu, Verdade da qual êle estava penetrado para poder afirmar proposiç6es verdadeiras. Rogo-te, perdoa os meus pecados, e Tu, que àquele teu servo deste proferir tais palavras, dá a mim também a graça de as compreender." (11,3.) É de notar ainda que os Sumos Pontífices, a fim de mais e mais aproximar da Biblia Os fiéis, enriqueceram com indulgências a leitura devota da Sagrada Escritura: quem leia diàriamente, por quinze minutos ao menos, o Santo Evangelho, ganha de cada vez 300 dias de Indulgência. Quem assim o leia durante um mês inteiro, lucra Indulgência plenária.

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§ 2." ITINERARIO ATRAVÉS DA BÍBLIA Uma norma válida para a leitura profícua de qualquer obra se aplica com particular insistência ao uso da Bíblia Sagrada: quem deseje realmente adquirir conhecimento do Livro de Deus não se pode contentar com leituras feitas a êsmo ou segundo inspiração momentânea, embora com assiduidade e periodicidade. Pouco aconselhável, portanto, seria querer "pescar" simplesmente trechos belos, edificantes, sem visar a sistematização da leitura, pois, como diz o Apóstolo, "Deus não é Deus de desordem" (1 Cor 14,33). É preciso que o cristão apreenda a trama, o fio central da Escritura, e tenda ao conhecimento de todos os livros sagrados; saiba oportunamente nutrir-se de cada um, embora possa conservar suas preferências por êste ou aquêle em particular, cuja doutrina mais o sustente. Qual seria, portanto, a ordem ideal a se observar na leitura da Bíblia? As indicações aqui sugeridas não poderão ser muito minuciosas, visto que há um Mestre interior em cada crist&o, 6 o qual guia cada alma por vereda própria, adaptada à sua personalidade, ao seu tipo de espiritualidade. Eis, porém, algumas diretivas certamente úteis a todos os fiéis: A primeira leitura há de ser leitura cursiva, visando proporcionar uma visão de conjunto e dispensando-se de demoradas pesquisas. Não se prenda o cristão a muitos pormenores (certos números, questões de crítica do texto, arqueologia, ciências naturais ... ), pormenores que talvez chamem a atenção de quem está imbuído da mentalidade do séc. XX, mas não tinham grande importância para o autor antigo e não constituíam o objeto primário de suas afirmações. Detendo-se muito em tais minúcias, o principiante arriscar-se-ia a não ver as grandes linhas da Escritura, linhas religiosas, teológicas, para as quais em primeiro lugar se deve voltar o seu interêsse. Mais tarde poderá, sem detrimento da autêntica perspectiva, abordar êsses problemas. Pode haver leitores que lucrem seguindo a série dos livros como se acham nas edições da Bíblia, a partir do Gênesis até o Apocalipse. Contudo, abstração feita de casos particulares, é de aconselhar que se comece pelas seções da Escritura que a nós, cristãos, mais familiares são: os livros do Novo Testamento. Quem quisesse simplesmente ler a Bíblia página por página na ordem em que estas se apresentam, expor-se-ia a conceber, em breve, fastio por não perceber o significado autêntico de muitas passagens. Aliás, seja lícito advertir: em qualquer sistema, os
6 Ê o que principalmente S. Agostinho lembra em suas obras (ef. in lo tr. 1,8; De vita beata, 4,35; De magistro, 12,38.40; Soliloq., 1,1,1).

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livros do Antigo Testamento deverão ser udos à luz da Revelação cristã, que êles prenunciam e sem a qual não se explicam. No Novo Testamento, dar-se-á a primazia aos Evangelhos sinópticos (Mt, Mc e Lc), os quais poderão ser lidos ou separada ou conjuntamente (isto é, considerando-se ao mesmo tempo os textos paralelos). Par-se-á seguir o livro dos Atos dos Apóstolos, que continua a narrativa dos Evangelhos. Constituída esta base histórica, abordar-se-á o Evangelho de S. João, que já apresenta a história "meditada", contemplada de um ponto de vista superior ou da eternidade. Logo depois, estarão a propósito as três epístolas do mesmo Apóstolo, que são reflexões e exortações no estilo do quarto Evangelho. Acrescentar-se-ão as cartas de S. Paulo em sua ordem cronológica, a saber: 1/2 Tes, Gál, 1/2 Cor, Rom, epístolas do cativeiro (Ef, Col, FIm, Flp), epístolas pastorais (1 Tim, Tit, 2 Tim); no fim, leia-se a epístola aos Hebreus, que, embora seja de inspiração paulína, não parece redigida por S. Paulo. £stes escritos falam todos da continuada presença de Cristo entre os homens, não Mais em sua natureza mortal, mas em seu Corpo Místico; tratam da aplicação dos frutos da Redenção à Sociedade e a cada individuo em particular. As epístolas ditas "católicas" 8 desenvolvem o mesmo temário. Quanto ao Apocalipse de S. João, que esboça o têrmo final da história, poderá ser lido depois das cartas dos Apóstolos. Não há, porém, inconveniente em se diferir a leitura dêste livro até que se tenha tomado conhecimento dos demais escritos bíblicos; com efeito, o Apocalipse constitui como que uma recapitulação de tôda a Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento: faz reviver os temas do paraíso terrestre (cf. Apc 22,1-4 e Gên 2,8-15), de Jerusalém, Cidade de Deus (cf. Apc 21,2-22,5 e Is 60,1-22), da Espósa do Senhor (cf. Apc 19,7; 21,2 e Is 62,4s; Os 2,21s, os profetas em geral), do tabernáculo do Altíssimo (cf. Apc 21,3s e Lx 25,1-27) e outros; donde se vê quanto é oportuno conheça o leitor o fundo de idéias a que alude. A leitura 'do Antigo Testamento, conforme alguns autores, pode ser intercalada na do Novo, tomando-se alternadamente livros ou seções desta e daquela parte da Bíblia. Tal praxe visa
7 Fala-se de "Evangelhos sinópticos", porque os très mencionados livros, justapostos entre si, fornecem numerosas passagens paralelas, seguindo uma trama comum para descrever a vida de Jesus. Há edições que os alinham em três colunas verticais, proporcionando a visão de conjunto dos paralelos ou a "sinopse". Entre outras, note-se a de Lavergne-Lagrange (texto francês). "Católicas" (= gerais, universais), porque são cartas encíclicas, dirigidas a vários destinatários, não a uma única comunidade.

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criar desde o início o hábito de se considerarem Antigo e Novo Testamento como indispensáveis ao cristão e complementares um ao outro. O método poderá tornar-se fecundo...; será preciso, porém, que o leitor se acautele contra o perigo de dispersar desregradamente a atenção ou contra o risco de perder de vista o seu roteiro, a linha una das Escrituras.
Não hâ 1düvida, por exemplo, de que a cena da anunciação do anjo a Maria, no Novo Testamento (Lc 1,26-38), toma relêvo muito vivo para o leitor que haja prêviamente considerado os textos das promessas feitas a DavI (ef. 2 5am 7; SI 88,20-38; Jer 23,5; Ez 34,24; Os 3,5) e as narrativas de anunciações divinas ou angélicas do Antigo Testamento (cf. Gên 18,9-15; 21,14-20; Jz 13,2-25; Is 7,13-16). A alegoria do Bom Pastor (Jo 10,1-18), nos lábios de Cristo, torna-se bem significativa para quem leia concomitantemente as passagens de Miquéias (7,14-20), Isaias (40,11), Ezequiel (34,1-31) e Jeremias (23,1-4) concernentes ao mesmo tema. As palavras de Jesus sõbre a cruz (cf. Mt 27; Mc 15; Lc 23; J'o 19), assim como os pormenores da Paixão, são ilustrados pelos salmos, que nos revelam principalmente a atitude interior de Jesus naquele quadro de sofrimento (cf. 8115; 21; 30; 68).

A respeito do livro dos Salmos, porém, impõe-se uma observação. Éstes cânticos constituem como que o âmago da Escritura ou, se quisermos, o seu remate; com efeito, dizem brevemente o que os demais livros bíblicos comunicam; dizem-no, porém, sob a forma de oração, elevação da alma, que louva a Deus após haver considerado tudo que Lie fêz na história sagrada, e pede-Lhe ainda realize o que prometeu realizar no futuro. É pelos salmos que o cristão aprende a rezar como Cristo rezou, pois Jesus recitava os salmos com o seu povo (cf. Mt 27,46; Lc 23,46; Mt 26,30; Jo 13,18; 15,25; Hebr 10,5-9); é por êles que o cristão se acostuma a orar como a Santa Igreja ora. Por conseguinte, desde o primeiro contato com a Escritura, o saltério não sàmente pode, mas deve ser utilizado na vida de oração do lèitor. 5. No Antigo Testamento, como no Novo, têm prioridade os livros históricos, dispostos na ordem seguinte: Gênesis, 2xodo, Números, Josué, JuIzes, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Macabeus. Ler-se-ão, a seguir, quatro opúsculos que ainda referem história, não, porém, a história geral do povo de Deus, como os recém-citados, mas episódios particulares, edificantes, redigidos em vista da catequese ou do ensinamento dogmático: Rute, Tobias, Judite e Ester. Depois de haver percorrido êstes livros por extenso, o leitor muito ganhará em voltar a sua atenção para resumos da história sagrada que a Escritura mesma apresenta, não raro em estilo meditativo ou de oração. Tais compêndios são, entre outros: SI

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67.77.103-105.1345; Ez 20,1-44; Sab 10,1-12-27; 16,1-19,22; Edo 44,1-50,24; Jdt 5,5-25; At 7,1-53; Hebr 11,1-40. Tornar-se-á então oportuna a leitura dos Profetas, pois êstes, de um lado, ajudam a reconstituir os quadros descritos pelos livros históricos e, por outro lado, só podem ser entendidos se recolocados dentro das circunstâncias históricas em que apareceram. Adote-se a ordem cronológica, que, com probabilidade, é a seguinte: Naum (ca. 620-612) Amós (ca. 760-750) Habacuque (ca. 605-600) Oséias (ca. 750-725) Ezequiel (ca. 593-570) Isaías (ca. 740-603) Daniel (605-536) Miquéias (ca. 735-690) Ageu (ca. 520-518) Sofonias (ca. 630) Zacarias (ca. 520-518) Jeremias (ca. 626-586) Malaquias (ca. 450-430) Baruque (ca. 626-586) Abdias, Joel e Jonas (data incerta) Incontestàvelmente, a leitura dos Profetas não é fácil, e Isto por
vários motivos os Profetas aludem a muitos pormenores da história antiga, localidades geogrãficas e personagens que não nos é possível Identificar com segurança; o estilo dos Profetas; quando predizem o porvir, é geralmente obscuro; reuniam numa só descrição traços de acontecimentos análogos entre si, mas distanciados uns dos outros pelo Intervalo de muitos séculos; assim a restauração do povo de Israel exilado na Babilônia é predita com tópicos que caracterizam a grande libertação, ou seja, a Redenção do pecado e a Instauração do reino glorioso do Messias (haja vista Is 40,1-10; 41,14-20; 44,24-45,25 ... ) ; e) os Profetas se serviam de numerosas imagens, hipérboles e outros artifícios da arte poética; d) os vaticinios, como se encontram hoje nos respectivos livros, não estão sempre dispostos em ordem cronológica.

Em seguida, o leitor passará aos livros sapienciais: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico. 10 Visto serem escritos que ensinam máximas de vida prática ou revolvem questões filosófico-teológicas, não tem importância decisiva a respectiva ordem cronológica; observe-se, porém, que Já e EcI têm afinidade entre si por tratarem do tema do sofrimento e da felicidade neste mundo; Prov e Edo são coleções de normas de prudência, mais esmeradas e desenvolvidas em Edo do que em Prov. O fecho se fará com os livros do Levítico e do Deuteronômio, cujo conteúdo requer um espírito já familiarizado com o Antigo Testamento ou um leitor que já tenha aprendido a "ler" a Lei
O

10

A respeito de Daniel, haja vista a observação das págs. leis. 0 Saltério já se supõe familiar aos leitores de tais livros.

obra antecipada no Antigo Testainento. por ocasião da primeira leitura. se comportam na Bíblia como arcabouço ou vigas de ligação que dão consistência ao conjunto. 1 Crôn 1-9. geográfica. como dito.1-12). êste é instrumento de trabalho e nutrição espiritual. Ez 4048 (excetuado o bloco 47. desde que isto lhe seja lícito. à história completa do Messias. ao tomar contato com o texto sagrado. a fim de que os grandes vultos portadores de mensagem messiânica pudessem ter pleno significado para nós. os trechos bíblicos que o comentam. o leitor terá. caso o possa. Mais três sugestões práticas parecem vir a propósito: é de vantagem que. junto com determinado texto. Contudo. desdobrada no Novo. por exemplo: Éx 21-31. em que aquêles aparecéram na história. ou seja. não versam sôbre o tema principal da Escritura. 35-40. como se sabe. poderá ser reservado para o último lugar. Tais seções seriam. Mais audaciosamente aconselham . para o futuro.alguns mestres: não receie o leitor. existe para servir ao homem. manuseio e entendimento da Escritura tornar-se-ão mais rápidos e eficientes. civil. a fim de se consolidar o conhecimento do texto sagrado após uma ou mais leituras diretas da Bíblia. o leitor vá anotando em fôlha à parte ou em caderninho os trechos que mais lhe "sabem" ou mais o "impressionam". As seções acima enunciadas.244 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO mosâica. pois a Bíblia foi tôda redigida em função do Messias e de sua obra. Estas seções de escol variam segundo a índole de cada um dos fiéis. visando melhor aproveitamento da Palavra de Deus. muito recomendável é o seguinte expediente: tome o leitor. O Apocalipse. leis rituais.. era necessário que os hagiógrafos tecessem a moldura etnográfica.e com razão . assinalar os seus "trechos vitais" com marcas a lápis feitas no livro sagrado. etc. servindo-se de fontes bíblicas e extrabíblicas. pro- . cada qual as consignará para seu uso particular. temas que tornariam um tanto enfadonho o contato inicial com «Antigo Testamento. medidas. assim compreendemo-los melhor. portanto. uma obra bem redigida que. Assim o volume da Escritura poderá eventualmente fornecer sem delongas o alimento que o cristão dêle aguarda. apreendemos também mais claramente o Messias como Irmão nosso. descrição do mobiliário sagrado. genealogias. Anote outrossim nas margens de cada página as seções paralelas ou complementares de tal ou tal passagem. Note-se ainda que. Estas passagens. se podem percorrer ràpidamente ou saltar trechos concernentes a recenseamentos. Dt 12-26.

Bonsirven. evitando errôneas associações de textos. Eis o que tentarão as páginas seguintes. É.COMO LEREI A BtELIA? 245 cure reconstituir a história de Israel.4lten Testamentes (Bonn.° PEQUENA ANTOLOGIA BÍBLICA Para despertar quanto possível o interêsse pelo texto sagrado. 2 vois. etc.-Cl. Lendo-a. Schuster-Holzammer. agrupando seções 11 Merecem menção: G. Ttidologie de t'Ancjen Testament. 1951). 12 Éste trabalho acarreta a freqüente interrupção da leitura. 3 vols. ' uma obra dessas não deixa de ser um compêndio agradável de exegese dos livros históricos e de boa parte dos escritos proféticos. indispensável para a melhor compreensão do tema. 13 Notem-se P. . 2 vols. O Povo Biblico (Põrto. (Paris. se encarregarão de manifestar ao leitor outros expedientes valiosos para que mais e mais possa desfrutar o conteúdo sempre fecundo das páginas sagradas. (Paris2. J. Theologie des . o que é de notável vantagem. (Paris. Fillion. Discours sur l'histoire universeile. mbora esta lhe recorde em linhas gerais o conteúdo da passagem citada. o leitor tomará o cuidado de compulsar os textos bíblicos a que aluda o historiador. (Barcelona2. por esta. 1954) . P. L. Histoire d'israel. saberá com certa desenvoltura reconstituir o contexto de determinada passagem. 1940) Kuss-Muller. não queira o leitor confiar na memória. Doctrine da Nouveau Testament (Paris. muito pode valer a indicação das mais belas passagens da Escritura. 12 assim permanecerá em contínuo contato com o livro inspirado. 1927 e 1928). Valiosa é também a obra clássica de Bossuet (t 1704). Historia biblica. § 3. 13 Em geral. 1947 e 1948) . Histoire d'israel. Ricciotti. 1946 e 1947) D. c) será igualmente profícuo gravar aos poucos no espírito os números (de capítulo e versículos) que caracterizam as seções de maior importância.-Rops. De resto. 1945). História do Povo de Israel (Petrópolis. Heinisch. Th4ologie da Nouveau Testament (Paris. a experiéncia mesma e. van Imschoot. Ao se defrontar com tais indicações. tome 1 (Dieu). 1946) . abordando-o por via diversa da habitual. Quem assim procede. Autor e Mestre das Escrituras. e não raro ficará agradãvelmente surprêso por encontrar neste matizes. o Espírito de Deus. 1938). ceppi. principalmente de teologia ou história bíblica. vá diretamente ao texto. concorre grandemente para aprofundar o conhecimento da Sagrada Escritura a leitura imediata de versículos que se encontrem mencionados em alguma monografia. O mesmo poderá ser feito tomando-se por base um manual de teologia bíblica do Antigo ou do Novo Testamento. anacronismos. pode com facilidade voltar a tais trechos. A. minúcias ou também grandes idéias que até então não havia percebido. porém.

.29. .942. Rom 1.14-25.e os idolos: Jer 10.23s.6-11.26-30. Ez 34.6-9.5s.246 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO bíblicas de acôrdo com o tema ou com a forma literária respectiva. 51 103. 4. Limitamo-nos ao Antigo Testamento..2231. expressão da Majestade Divina: Si 28. DEUS E OS HOMENS O Deus que governa a criatura humana: Já 12. Si 89.13-18. A confecção das tabelas muito deve à. Onisciente e Onipresente: 51 138. La Bibbia dei eUetatj (Roma.26-28. Si 101.4.25-28.26. o esmêro literário das seções mencionadas nestas listas.1-18).4-12. 1941).1-2. o asno selvagem: Já 39.14). o crocodilo: Já 40. Is 44.1s. Si 18.2-7.25-28. mesmo dentre aquêles julgamos supérfluo citar algumas passagens muito conhecidas dos primeiras livros biblicos. a avestruz: Já 39.1-9 (cf. tradução que observe a forma poética onde ela figura nos originais. Mistérios e maravilhas entre os animais: o cavalo: Já 39. Jer 23. 28-31. Já 38-41. Si 8. 1 San 3. 21-25. Ricciotti. é imprescindível lê-las em tradução fiel. Já 38. já que os escritos do Novo Testamento são mais familiares aos fiéis. Jo 10.20-26.1-38.15-24. At 14. obra de O. O Senhor fala no silêncio da noite: Já 4. Jer 23. O DEUS TRANSCENDENTE A Majestade Divina no trono de sua glória: Is 6. Sab 12. ° hipopótamo: Já 40. Is 66.20.1-16.25-41. a águia: Já 39. O universo proclama a Deus: Sab 13. Dt 8. Prov 8 .5-8.6-8.1-31 (cf. O Senhor rege a natureza: Já 9.1-15. 5. Iii. Quem poderia pedir contas a Deus? Is 45. 14 1. O Eterno diante do qual tudo passa: Is 40. 14 Para se perceber a riqueza do significado.3-9. Imagem e semelhança do seu Autor: Gên 1.2-6.12-17.19-25.3.1-5.12-21. O Senhor é meu Bom Pastor: Si 22. O Deus Único: Is 44. O trovão. O Deus que traz o mundo na palma da mão: Is 40.. IL DEUSEOMUNDO A eficácia da Palavra de Deus: Is 55. O homem comparado a Deus: Já 25. Os poemas da criação do mundo: Gên 1.. 4.

18-24. Teofania e aliança no Sinai: Êx 19.13-53. O Rei dos reis: Si 2 (cf. Apc 19.8-17. A Nova Aliança: Jer 31. : Dt 8. Doloroso anúncio de vitória: 2 Sam 18. Queda de Jerusalém: Ser 39.gratuitamente dispensada: Dt 7. "O Senhor é misericordioso e compadecente": Si 102. • profeta Eiiseu ressuscita uma criança: 4 Es 4. • Juiz universal e o Ancião: Dan 7.1-24.30-5.22.10-14.21.. 24..9).12.13. Símbolos de felicidade messiânica: Jer 31.8-20.. Si 50. O MESSIAS E SEU REiNO Origem eterna e temporal do Messias: Miq 5. "Nasceu-nos um Pequenino.21.. E o mal se alastrou. .3-9.1-38. . • tragédia de Jeremias: Jer 37. O Rei fautor de justiça e bonança: Si 71. • consagração do templo erguido por Salomão: 8.1-10. Senhor..6.1-16. Si 128. 1": Jer 18.9. "Fala. A HISTÓRiA DA INIQÜIDADE E DA GRAÇA O primeiro pecado e a primeira misericórdia: Gên 3. A malograda Cidade do Diabo: Gên 11. O varão das dores: Is 52. pois teu servo está atento ": 1 8am 3.23-9.24-41 (cf. (dilúvio): Gên 6. 24. mostra-me a tua glória !": Êx 33. 7-10. IV. A fôrça de Deus se manifesta na fraqueza do homem (Davi e Golias): 1 8am 1-58 (cf. meu Deus. • fome durante o cêrco de Samaria: 4 Es 6.6-17.COMO LEREI A BÍBLIA? 247 Amparo na caminhada cotidiana: Si 90.1-10.. sábio: Im10.11-16)..18-25. V. Insurreição contra uma rainha tirânica: 4 Es 11. • Renovador da natureza: Is 11.24-30. Providência paterna. . • rainha de Sabá em visita ao monarca. A restauração da Cidade de Deus: Bar 4.1-32.1-9.1-8.15-24. Visão profética de prosperidade (Balaã): Núm 23. 4 Es 24. "Senhor.15. Jo 4.1-18.18-23.9-14.1-2 1.5-10). • origem dos samaritanos: 4 Es 17.26-12.1-4.19-19. "Meu Deus. . 8.1-15.7-11. 2 Cor 12.1-9.16-20.1-8. "Meu povo me esqueceu.": Is 8..5. por que me abandonaste ?": Si 21. "Pequei contra o Senhor 1" (Davi e Natã): 2 San 11. • triste sorte dos primeiros escritos de um Profeta: Ser 36.31-37.

7-11.Jos 10.33-4.26-30. assim como as seções de Ru 4. enquanto os velhos pais aguardaft em casa. triunfo e glória: Jdt 15. é libertada do Maligno em piedoso matrimônio: Tob 7. Mt 22.6s.248 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um povo instrumento dos castigos divinos: Is 5. que finalmente volta com a espôsa: Tob 11. . 107. O flagelo da sêca na terra de Judá: Jer 14. Um banquete digno do rei da Pérsia: Est 1. SI 59.8. "Sê delicado até com as aves ": Dt 22.2-4.C. o filho. Que o irmão suscite prole ao irmão falecido (levirato): Dt 25.): Gên 24.. 41).26.6-18.1-7. .24. Invasão de gafanhotos.17. 2.24. Fórmula de bênção patriarcal: Gên 27.11-14. Da história de ToMas: uma donzela humilhada pelo demônio: Tob 3. o ato de tirar o calçado (ou a sandália) e o entregar a outrem significava simbólicamente a entrega de um direito ou de uma propriedade. Hostiidades dos senhores egípcios contra os hebreus escravizados: lix 1.: Tob 10.9-16. As dádivas do povo fiel para a construção do tabernáculo do Senhor: lix 35.20-29.7.26-29.1-13. A perseguição de Antíoco Epifanes: 1 Mac 1. E um casamento.. Judas Macabeu entra em aliança com os romanos: 1 Mac 8. Gên 13. O heroísmo que ela suscitou: 2 Mac 6.42. Por conseguinte.57-67. Imponente exército oriental: Jdt 2.24).1-11.1-8. O festim do rei Baltasar: Dan 5. ' 15 Os israelitas costumavam tomar posse de um fundo imóvel colocando sóbre êle o pé ou o calçado (cf.10-67.2-12. O julgamento das nações: Sof 1.14-18. Os terríveis caldeus: Hab 1. A lei do cordeiro pascoal: lix 12. 5.38-45.1-30. : Gên 24.1-17.24).17.7-23.9 (ef.1-8. Como se homenageava o favorito do Faraó: Gên 41.9.17. É o que pressupõe o texto acima citado do Dt. VI. XVIII a.. pág.1-9.1-32.5-10 (cf..5-11. A grande heroína: o feito de Judite: Jdt 10. O heroísmo dos reconstrutores da Cidade Santa: Ne 3. semelhante à de um exército: 31 1. LEIS E COSTUMES DO ORIENTE Um juramento na época dos Patriarcas (séc.5-21.

. Jo 2. inclinados à aliança ora com um. 10 é dita videira. VII.1-18. derrotados por seus adversários e culpados da ruma da nação. a nave opulenta que naufraga: Ez 27.: Jer 32.34).depois para o jugo egípcio. X estava dividida em dois remos. Êste é simbolizado pelo espinheiro selvagem. o cedro e a videira: Ez 17.COMO LEREI A BÍBLIA? 249 Costumes dos ceifadores: Rut 2. Abimeleque.1-14. IS A leoa.1-36. Sab 14. ofícios e sabedoria: Edo 38. os leõezinhos são os reis de Judã. 19 O majestoso cedro do Líbano: Ez 31. Ezequiel descreve os adultérios (apostasia do verdadeiro Deus.31-45. 30 Esta peça foi redigida para ilustrar satiricamente o significado da eleição de um rei indigno. A virgem de Israel infiel: . 23 Tiro. 20 o profeta descreve a queda da Assíria.21.1-10.32. O retrato da sábia dona de casa: Prov 31. 28 A estátua inteira representa o poderio dêste mundo enquanto é hostil a Deus. 19 A nação escolhida era representada como a Espõsa de Javé na literatura profética. Oola e Ooliba: Ez 23. significa a nação judaica. o qual não dã fruto nem sombra. fertiliza a terra: Ez 47. A criancinha abandonada. 10 As duas águias.2-18.C. de Judá. Nabucodonosor. idolatria) praticados pelas duas partes da nação e o triste fim de ambas. o dos medos. mas se presta ao fogo apenas. conforme os melhores intérpretes.Judá. Ritos fúnebres: Edo 38.10-31. partindo do novo templo. mas destinado a reerguer-se após o exílio babilõnico. 19. Entre éstes dois monarcas vacilava a política dos reis de .12-20. que jorra do lado aberto do corpo de Crísto. as suas quatro partes são sucessivos representantes déste poderio na história antiga. 3.8-15. que vém a ser as duas irmãs. que a partir do v. 18 As duas irmãs. o dos gregos (Alexandre Magno) e o dos romanos. 20 Ossos secos que retomam vida: Ez 37.1-43. O artesão fabricante de ídolos: Is 44.1-14.12-20. novo templo da Divindade (cf. os candidatos idôneos são representados pelas árvores frutíferas.11.24-39.7-19. SÍMBOLOS E ALEGORIAS As reflexões das árvores sarcásticas: Jz 9. Artes. 21 7: A água que. Oola e Ooliba. recolhida. 22 A estátua dos quatro impérios: Dan 2. Desde o séc.1-12. Os ornamentos da israelita facêta: Is 3.16-23.1-49. ora com outro.1-5. Sarnaria eJudá (Jerusalém). que a principio foi vassalo de Nabucodonosor. visando admoestar o Faraó. VI a. A videira simboliza Sedecias.1-7. 15. e o Faraó do Egito. 21 Os ossos secos vivificados designam o povo de Israel destroçado pelos inimigos.16-24. mas ingrata: Ez 16.944.Jer 2. A videira bem-amada: Is 5. Compra de um campo no séc. 17 As duas águias significam respectivamente o rei da Babilonia. designam o império dos babilonios. A leoa e os leõezinhos: Ez 19. 22 Imagem da graça. passando-se.

Éx 21. 19.13-16. agora injustamente escarnecido: Já 30.12-32.1-21.1-11 (cf. "Não julgues poder dissimular o teu pecado ": Edo 23. seu amigo muito caro.6-11.250 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O cinturão simbólico: Jer 13. O médico e seus préstimos: Edo 38. Jo 21. Onde reside a Sabedoria: Já 28.13.23-29.185).5-17. confia em Deus: Já 19. colóquio com Deus após o auge da crise: Já 10. e o filho dêste. A Sabedoria comunicada aos homens: Sab 7.1-16.18-21.53. Tôdas as coisas têm seu tempo oportuno: Ecl 3.22-36.2-11.1-15.7-13. At 21.17-27.9-12. 24.: Is 59.7. VIII. O problema da dor: um momento de angústia: Já 3. . "Escolhe criteriosamente os teus amigos": Edo 6.12.14-20. feliz.10-13. : J& 29..1-28.1-22. ELEGIA E LIRISMO Lamentação fúnebre: 2 5am 1. Conselhos para o conviva de um festim: Edo 31. : Já 31. IX. "Sê alegre!'t: Edo 30. 24 Pranto pela ruína de Jerusalém: Lam 4.7-14. Falsa sabedoria. Tudo passa.1-22. Como tratar o tolo: Edo 22.1-25.1-40..1-22. O drama humano: Era justo. A SABEDORIA E SUAS NORMAS A origem da Sabedoria: Prov 8. Os atos do fraudulento são como . Jõnatas.. Até os animais reconhecem os tempos 1: Jer 8.21-25.1-15. A Sabedoria pousa e frutifica em Israel: Edo 24. A estima da boa saúde: Edo 30..1-25. e nada sacia: Ecl 1. 26. seu Inimigo.18-27..16-28. A sabedoria de Salomão: 3 Es 3.1-22. a dos ímpios gozadores: Sab 2. Desgraça a quem se isola: Ecl 4. • 24 cântico entoado por Davi depois que na guerra caíram Saul. Impossível mudar a côr da pele: Jer 13.30-34.1-8.3-26. "Sê prudente ao procurar a amizade dos grandes ": Edo 13. "Honra pai e niâe": Edo 3.23. Valores menores e valores maiores: Edo 40. A ridícula preguiça: Prov 6. Não obstante..

. "Senhor. "Minha alma tem sêde de Ti": S162.26-45. Glória ao Deus transcendente: 1 Crôn 29. A alegria da natureza renovada: Si 95-97..52-90. Dois justos oram em favor do povo infiel: Est 13. X. 9.18-9. adoremos o Senhor 1": Sl 94.1-22.1-19. 51 112 (ef. 66.12.1-10.17-52. . Dan 3.17-33.. Um desafôgo pessoal diante do Senhor: Jer 20.. Senhor!": Ne 1. 51 123. A terra deu seus frutos !: S1 64. Bar 2. o Senhor não me abandonará": Si 26. que ama os pequeninos: 1 5am 2.14-19.16-27. Esdr 9. "Se o Senhor não tivesse estado conosco.COMO LEREI A BÍBLIA? £ 251 Sátira sôbre Babilônia que caiu como estrêla do céu: Is 14.23. 14. : Si 41/42.2-7.46-55). "A Ti levanto os meus olhos !": Si 122. Agradecemos os benefícios presentes. Os céus cantam a glória de Deus: Si 18.": CONTRIÇÃO "Pecamos.8s. "Minha alma. O cleieitede estar na Casa do Senhor: Si 25. Senhor!": Sl 50. Si 91. A cidade sem sorriso: Jer 16.1-8. SÚPLICA A oração que sustenta o mundo: Gên 18. 3. ": AÇÃO DE GRAÇAS O povo agradece a vitória outorgada ao rei: SI 20. O clamor dos habitantes de Jerusalém arrasada: Lam 5. 83. exalta o enhor!": Si 144-147. Si 148.7-18. "Piedade. Como o cervo deseja as fontes das águas.1-10. Consôlo a Jerusalém libertada: Is 51.3-2 1. 9. Lc 1. O louvor da criação inteira ao Criador: Dan 3. 13.9-17.5-11. as tuas obras me deleitam! Louvor ao Deus soberano.11-18. PRECES ADORA ÇÃO "Vinde.10-19. 1 Crôn 17. Gemidos depois do castigo: Jer 8. Is 35.1-15. penhores da plenitude futura: Tob. "Ainda que pai e mãe me abandonem.1-23.5-37.

1-22. não extinga o leitor a louvável "curiosidade" que nêle possa nascer.252 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Nostalgia de Jerusalém: Si 136. !": Os textos acima indicados destinam-se a ser. Em um e outro caso. Ora o velho pai aflito: Tob 3.1-6. Não receie perder tempo.22-64. curiosidade de inspecionar o contexto ou de divagar pelo que fica em tôrno das passagens referidas. comunhão de preces: 2 Mac 15. pontos de partida para a leitura do Livro sagrado. seja o mais belo de sua doutrina.1-18. 2 Crôn 1.2-19. Ora o ancião perseguido: Si 70. Jerusalém significa a pátria celeste (cf... porém. .7-9.6. seja o mais belo de sua for ma literária. Apc 21.13-16.26-23.7-12. 2 Crôn 6.14-42. Estas então lhe irão falando linguagem cada vez mais significativa! 25 Para o cristão. 25 "Envia-me a tua sabedoria Sab 9. Gál 4. "Nem riquezas nem miséria. Talvez se torne útil a tabela também àqueles que desejem renovar a leitura da Bíblia com a qual já estejam familiarizados. do seu modo.. Poderão ser utilizados por quem pouco ou nada conheça do Antigo Testamento e queira logo tomar contato com o que êste oferece de mais belo. Senhor 1": Prov 30. "Não permitas peque pela lingua ou pelo olhar ! ": Edo 22. O rei pede as bênçãos do Céu em favor do povo: 3 Rs 8. Comunhão dos santos. A prece da viúva heróica: Jdt 9.26. e vá folheando as páginas sagradas.5).

MAPA ILUSTRATIVO DO ÉXODO TRAVESSIA DO MAR VERMELHO .

O Senhor.. Éx 13. e acamparam junto ao fortim ou Migdol. mas debalde. que naquela época era um prolongamento do Mar Vermelho. pôsto diante de Beelsephon e do Djebel Abu-Hasa. dirigiram-se para Etham.31) Eis como o Comandante Bourdon (CL pág. passando ao pé do Djebel (Monte) Geneffeh. Seguiram-nos através das águas os egípcios. EM PARTICULAR. R.P. Desceram então ao longo da margem ocidental do Grande Lago Amargo. deu-lhes ordem para que retrocedessem (cf. 14. a nuvem que acompanhava o povo de Deus. se colocou entre os dois acampamentos e os filhos de Israel entraram pelo Pequeno Lago Amargd. Em conseqüência. com a intenção de seguir a estrada direta para a Palestina (Canaã).31-14. 211) reconstitui a série dos acontecimentos concernentes à passagem do Mar Vermelho (explicitamente assinalada no quadro): Os israelitas. DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12.. O exército egípcio se aproximou.17. visando cortar aos israelitas o caminho para o Sul. Cf. Tellier. cidade situada sôbre um dos braços orientais do Nilo. 24. 1937). deixando Ramsés.MAPA [LUSTRATIVO DO ÊXODO E. porém.2). Atlas historique de l'Ancien Testament (Paris. .

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1-2 Crônicas O 00 - 3-4 ReJs. 1-2 Crônicas o-t o t o z o o. .258 PA1A ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO c'I I Ia _.0 to itr . a to 00 & O 8 ()rt O til VI 1-IOJ o 3-4 Reis.I-4 loca o 0 - E obo too -•0.SE o t 'a( 01-4 OOt < 00 Q Ø 3) 1-4 '-4 1 00 'o '1 'o o E O a.0 o O t' •- a 4 1 csOco —ti aor- VIVIa) . o . o E (o 41 1 . O O- . . O +.

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10g4 ei co O o &t CCCC (a-o o a) CCO O a- O H I-lcz Qr1 r O (Do -F o O- 8 ri . o [-4 IZ E .0 o O) ZA eCo o ei O 0.0 O co -Ia 2 tCC O O CC a O 9 O o o z co (a rr o Lcd O CI.- 00 Fn à 0 (a O 1 O 2 oCC O o o 1 E Oo O O co á .9 0 9 °' o CC ar d otO .260 t PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tI) s CO 00 l o -: O ri) 0 - 1 ê CC s - E 15 o (a CC O 1 8 .

22-72 (o sermão eucarístico) 47s 15.29-29 (o maná idiilco) 108.17-22 (a simulação de Jael) 145 9. 19.15-22 (a simulação de Aod) 145 4.1-8 (a videira inútil) 110 AMÓS 1.7-10 (futminação de Oza) 159 -161 21.7-17 (a travessia do Jordão) 212-214 6.1-7 (a videira bem-amada) 110 EZEQUIEL 15.6 (restituição do quádruplo) 69s 24.1-14 (estima do médico) 179 ISAIAS 5.20 30.5-31 (a travessia do Mar Vermelho) 210-212 16.19 (fulminação dos betsamitas) 157-159 16.12-14 (a lei do talião) 123-125 LEVÍTICO 11.15-26 (a mulher de Lote petrificada) 202-205 19.1-61 (estima dos sonhos) 186 38. 219-223 ECLESIÁSTICO 34.LISTA DOS TEXTOS BIBLICOS MAIS PABTICULARMENTE CONSIDERADOS GÊNESIS 19.226 DEUTERONÔMIO 20.9 (o mau espirito do Senhor em Saul) 154s 28.23-32 (a luta de Jacó com o anjo) 142-144 ÊXODO 7.30-38 (as duas filhas de Lote e seu pai) 139s 25.1-20 (a queda dos muros de Jericô) 214-219 JUIZES 3.10.Jacó) 141 32.2-36 (o maná) 107. 148 NÚMEROS 22.3-2.8 (enumeração de crimes) 72s MATEUS 1.12 (Asa doente e impio) 179 JUDITE (significado moral) 144s ESTER (o ânimo bélico de Israel) 128 SALMOS 51 79 (a videira devastada) 111 ECLESIASTES (pessimismo e otimismo) 191-195 SABEDORIA 16.6 (fulminação de Oza) 159-161 12.1-7 [Vg 31.22-35 (Balaã e o asno que falou) 223.14 (região dos mortos e inferno) 1995 .1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 21.7-14 (Saul evoca o espirito de Samuel) 195s 2 Sam 6.1-17 (a Igreja e Maria) 65 20.37-39 (as cabras malhadas de .25 (até que») 78 JOAO 6.6-23 (o anjo sedutor no céu) 156s CRÔMCAS 1 Crôn 13. 219-223 21.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 RUTE (uma história de amor) 90 REIS 3 lis 22.36 (as dez pragas do Egito) 205 -210 14. 18.16-18 (a lei do anátema dc guerra) 127s JOSUÉ 3.5 (o número de guerreiros de Davi) 76 2 Cita 16.23s (o mau espírito do Senhor cm S!quém) 155 13-16 (a história de Sansão) 226-231 5AM UEL 1 Sam 6.20-34} (Esaú e Jacô) 140-144 27.14.44 (cSéde santos») 137.14-12.1-33.1-8 (a verdadeira videira) 111 ÁPOCALIPSE 12.

155s. 10. 88. 86. a. a.. 157. 46-49. tipo do batismo: 88. 230. 206. Condescendência de Deus: 20. Comparativo dos adjetivos: 43. 147. Anjos bons: 63. 135. 88. 135s. Dura cerviz: 154. 236. 40. 204: 227. Davi: 34.INDICE DE NOMES E TEMAS' Aarão: 102. 44. 120s.. 159. 112. 101. Antitipo: 87-92. 154. 160 n. 194. Abimeleque (de Siquém): 155: 249 n. 132 n. 221 n. 2.: 86. sagrados: 147 xi. 242. 149 n. 149. 250. 115 n. 51 xi. 101-103. 175s. Coletividade e individuo: 64s. 8. 102. 5. 246. 9. 17. 112. Epicuro: 177 n. 154. Aliança de Deus com os homens: 80-86. 205-210. 32. 179s. 55. 162. «Arrependimento» de Deus: 59. 112. 180. Abraão: 39. em Juta com Jacó: 142. 167. 216. conselheiros de Deus: 156. Amon (origem): 139. Estratagema bélico: 145. Antropopatismos: 54. «Alegria» de Deus: 59. 135s.rrnota . tipo do Messias: 89s. 99. Circulos concêntricos no discurso: 48. Dilúvio: 35. 68-70. tipo de Cristo: 89. 217 n. 88. 184. Antioco Epifanes: 35s. 118. 76. do extermínio: 180. a. 98. 8. primeiro e segundo: 88. 36. 121. Abel. 201. 15. Animais impuros: 146-149.: 102. 42. Esaú e Jacó: 86. Aramaico. 1315. 167s. 135 s. Cadáver: 149. D. Cronologia esquemática: 37. 181-183. Amor no Antigo Testamento: 161-163. 149. 75. 46. 142. 194. 247. «Direitos autorais» entre os Antigos: 35. 224 n. «Braço» de Deus: 57. no sangue: 165. 203. 169. 49 n. Dureza de coração: 136s. 37. 176-178. 215-219. Esculápio (Asclépio): 176 n. 62. 55. 64. 209. Alegoria. Clã: 131. 8. simulação de: 145s. 1. 136 xi. 25. 18. 242. Messias. Concubinato: 118 n. Cabeleira de Sansão: 226-231. Dinamismo de expressão: 42. 18. 223-226. Cahitas (sem nãmeros): 67. 16. idioma: 39. 202. 153. Árabes: 41. 153 n. 20. aliança de Deus com D. 247. 166. 40. 104. 154. 116 n. 156s. Christós. Circuacisão. Ungidá: 80 n. Essénios: 187. Demônio: 147 n. 1 «Catalisadores» da consciéncia: 120. 116s. fl. 158. 151. 162s. 121. 11. 102. Cordeiro pascoal: 86. Citação implicita: 35s. Deus vivo: 55. Aod. 152-157. Consciência embrionária: 119s. 247. Egipcios: 33. 82. 22. 11. diversa do tipo: 89 xi. 206. 180 n. 130. 118 n. 46. 170. 120 n. Epicurismo: 191. maus: 81. 209. Corá: 138. 140-144. 91. 3. sacriflcio de A. 72. 98. 176. Elias: 105. Contemplativo (estilo): 42. Antropomorfismos: 52-59. 71. 248. Cántico dos Cânticos (suas metáforas): 44s. 180. 62. ijconsciente após a morte: 189s. 186 fl. 238. Espiral (estilo em) : 46. aliança com Deus: 168. Alma. 197s. a. 117s. Adão. 80 n. 248. 159. Anátema: 125-132. 170. Apoio: 195 n. Banho ritual: 146. 132. 19. 88. 5. Criação do mundo: 31. 82. 179.

116 n. Mito: 33. entre irmãos: 138.. 88. 82. 9. da iniqüidade: 81 n. 212-219. Hades: 190. 56. e leitura da Biblia: 19-21. iv + 1 (esquema proverbial): 72-74. 104 s. 136. 87. 2. 104. e Judite: 89. 197. símbolo da Aliança: 102s. 237s. etimologia do nome: 80 a. 225. 87 n. M. 195 n. 91. 248. 148. 157. 249 n. 155 n. 183-187. 63. 7.: 88s. 24. 12: 127. Mudança de dogma: 29. Escritura: 112 n. 4. 153 n. 158. Moisés: 10. 121 n. 223-226. 110. m. 23. 36 n. 87 n. 189-200. Jubileu: 70. e a Anunciação: 242. 220s. 229. 152. 78. 1-lerem: 125-132. 91. 157. Igreja e interpretação da Biblia: 21-23. 205-210. Inerrância bíblica: 27-30. 1. 9. dos números: 66. 221s. 1. inscrição de: 126 n. Morte: 166-170. 148. e os sonhos: 184. 129 n. Lutero: 21 n. Israel (etimologia) : 62. Gedeão: 99. 98. 55. 12. 9. Longevidade dos Patriarcas: 68. 13. Individuo e coletividade: 64s. por assonância: 199 n. e a Igreja: 65. Fé de Israel e queda de Jericó: 218s. 223 n. Evocação dos espíritos: 195s. 200. Galileo Galilei: 30. natividadç de 1. Lei natural: 119: 121. José. 171-173. de nome: 63. 59: 62s. 150. centro da Biblia: 93. 104. 15: 238. m. Matrimônio em Israel: 134-140. Folclore: 203: 229. 182. Mar Vermelho e batismo: 88. Macabeus: 83. 229. 238. m. aliança de Deus com: 102. 134s. 6. "Ira" de Deus: 59. 147s. 17. Juizes: 37. Imaculada: 89. 197s. 20. Liturgia e Antigo Testamento: 79 n. 36. J. 243. 146-149. 99. 185. desenvolvimento do conceito: 94-98. 98.ÍNDICE DE NOMES E TEMAS Eucaristia: 15. 211s. 212. Jonas: 70. 89. "Inveja" de Deus: 59. 241.: 100. e Ester: 89. 229. sacrificio de 1. Exílio babilônico: 34 n. 91. Metáfora: 28. 72. 190 a. 15. 89. 208-210. 47s. da S. 29. 79: 235. 13: 1805. Hércules: 177 s. f. Hamurapi. 5. 37. 135 n. 196. 1. 91s. Messias. 149. Isaque. 25s: 138. M. 194. 48. 109. Existencialismo ético: 118s. Mesa. 131 n. 235s. 126 n. m. Impureza legal e impureza moral: 136. 12. Josué. M. figuras do M. 87 n. Inferno. 112 n. de Sansão: 230. f. 239. 219 n. código de: 124. 178. Jacó e Esaú: 86. 12. 116 n. M. 190 n. político: 83. 178. Género literário: 16. 1824. Mardoqueu: 128. 167. 145. 247. Mago: 63s. 52: 83. de sonhos: 175. M. 14. i. 182. 99. 9. 207: 209. 133s. 112. 176. 67. Maria SSma. 93. 136 n. Moab (origem): 139. 117. Gênio (semideus) : 148. 245. à substância: 206s. 102. Lei mosaica: 82-85. 181. Gregos: 33. 136 n. Faraó (empedernido): 155. 112. 23. 121 n. 217. 25. 142. segundo Adão: 84. 47. 182. «Ligar e desligar»: 51s. Filosofia e medicina entre os Antigos: 177. 24. tipo de Cristo: 89. 235-238. . 57. 147. 140-144. 20. 37. falível: 29. Mão ( medida): 41. Jael (simulação de): 145s. Harém: 118 n. pastor: 112. 226-231. 18. tipo de Cristo: 89. 142. lSls. 85s.: 88. Glossas: 75. 214. 37. Hipérbole: 43. 12. 29. Interpretação autêntica: 21-23. 12. 82. Filósofos pagãos: 56. 7. 3. 5. Narrativa etnológica: 139. Milagre quanto ao modo e q. 34. 135 n. 132. m. 70. 204. 50 n. 44. 129. 67s. 195 n. Iniciação biblica: 23s. 177 n. Mal e Deus: 152. 39 a 1. M. Mistério de Cristo: 81 n. 197. 104. 7. 177s. 57. 177. 204. 183. Juramento e número sete: 69. in/erilus: 190-200. 8. 28s. 110.

Simbolos: 44-46. 60. Protestantes: 17s. material e p. 241. 103. Salomão. 168: 183. 135. 181s. «Vingança» de Deus: 59. 183. história: 35. tipo de Cristo: 88. Plutão: 190 n. 81. 183. 216. 87. Proto-evangelho: 104. 134. 199. 167 n. s. 200. 75. 38: 234. 125. 147. 234. 132. 60. 69. 4: 175. 104. 5. 51 n. 14. 149. 191. 195 n. 182. 223 n. Totem: 147 n. 191. Profetas falsos: 156s. 17. 161-163. do paralso: 81. Sodoina: 202-205. 169. SheoZ: 190-200. 157-159. 243. Testamento. Vulgata: 10: 17. 196-200. Temor e amor no Antigo Testamento: 122. 158s. Racionalismo: 21. 134. Sol (milagre do): 30s. formal: 1485: 160s. 184s. 246 n. 91. 1955. 40. Sabedoria personificada :t 94. categoria do pensamento: 64s. Totalidade. 196s. Pré-história bíblica: 37. três: 70. 182. 199. 24. Promessa (a Abraão): 84-86. 247: p. 89. 146-149. doze: 71. 249s. «Setenta Intérpretes» (LXX): 10. 114. «Tristeza» de Deus: 59. decadente: 121. 104. 89. 242: s. Veracidade científica e v. S. 197. de Apolo: 195. Paraíso: 13. 103s. 45. Recapitulação (por Cristo): 84 n. 104. 38. Noé: 39. 40. 31 xi. imprecatôrios: 132-134. e o Eclesiastes: 191. 194.264 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ressurreição da carne: 182s. 21. s. 196. 201s. Nazireu: 226-231. Parábolas: 44. 18. disposição (iiatheke) àliança (berith): 103. Paralelismo de frases: 46-52. Poesia: 28. 144. 166: 178. Plenitude dos tempos: 20. Paradoxo: 29. 149. Necromancia: 185. Primitivo ascendente e pr. «Resto» dc Israel: 83. Pedagogia divina: 120. Santidade no Antigo Testamento: 120-122. s. Suplantador: 140-144. sete: 69. lo: 90: 241. 99. Conservação do: 76s: principais traduções modernas: 233-235. 101. 33. significado dos: 65-78. 224 n. 20. 102. 152s. 9. 7. 201. 79. 35. lei da: 64s. Pecado de Adão: 53. 185s. 151. 90 n. 70. 216: dez: 70. textos: 152-154. «Sair e entrar»: 50s. 86. 36. Pobres de Israel: 83. Shekina: 105-107. 149. Números. 190. 137s. e doença: 178-183: p. Texto biblico. Superstição: 120. 135. Participação. 101. Satanás: 31. Tabu: 147 n. 137. 147. 75. . pré-cientifica: 30s. 157. 170: 178: 241. Provérbios numéricos: 71-74. 167. Serpente de Aarão: 209. 156. Odiar (= amar menos): 43. Profética. 157-159. Pitonisa de Endor: 195s. 171. 14. 214. 100 n. 127. Paralelos. em sonho: 183. Rahab: 217. 57. de bronze: 88: s. 40. 73 n. cinqüenta: 70. Purgatório: 199 n. 190: 224 n. Sôfrimento: 182s. 244. Salmos: 28.

Buysschaert. 236 a. 7. J. E. J. L. 9: 245 a.: 17 n. 11.: 40 n. 152 n. 17: 139 n. 184 a. J. 141 n. 38. 1. 13.: 218 a.tripides: 49 a. Bossuet: 245 n.-M. Bodenheim. 221 n. 9. v. 9. 36. L.: 217 a.: 245 a.-Cl. 15. 19. 176 a. 8. 42: 161 a. 8. 30. Cicero: 32 n. 198 a. 86. 15. 194 a.: 143 n. l3onsirven. 19.: 165 a. P. Aristóteles: 32 n. Gelin. 18. • • • Gaster. São: 226 a. 226 n. Closen. Dennefeid. 142 a. 21: 245 n. 67 n. 31. 55 n.: 126 n. 8. Daniel-Rops: 16. Charlier. 47. Erman. 9. Santo: 14. 37. A. Gourbilina.: 35 a. 234 a. 9. C. 18. 1: 153 n.: 221 n. E. 3. R. 192 11. 34 n. Bailly.-G.: 165 n. Eauer. 10. Hehn.: 161 n. 4. 238 a. 17 a. Bourdon: 211. 207 10. 11. 13. Beaucamp. 20. P. Heinisch. 12. 19. 23. Clamer. 240 n. S. 224 n.: 233s. Froatino. Dhorm. Cassiano. 1. São: 20 a. 204 n. 34. 14. A.: 159 a. 32. A. 6. 204 n. 139 n. Santo: 117 n. Hoonaciçer. 2. Ambrósio. 4. Hipócrates: 141 a. Guitton. 38. Ceppi.: 79 n. Imschoot. Curtias. Einpédocles: 32 a. Cumont: 180 n. 2. 20.: 79. 6. Abade João: 140 a. Couchoud: 17 n. 11. 11. 217 a. vaa. 221 ii.: 45 n. 11.: 190 n.: 245 n. 253. J. 131 n. 47 a. Haxnman: 91 a. F. 35. 35. 23: 176 a. 42. A. Bossi: 17 a. 14. 6. 2. van: 180 n. 4.: 149 a.: 220 II. 24 245 a.: 36 a. 6. T. 245 a. Isidoro de Sevilha. 23. Ehrenberg. 10. 35.: 207 n. Johnson: 17 a.: 217 n. Carcopino. 90 n. 10.: 167 n. Filo de Aleaandria: 224 a. 7. 5. 3. 13.: 167 a. R. 36. 17. 221 n. Heródoto: 129 a. . 33.: 112 n. 71. Homero: 87 a. 1. 4. O. Agostinho. Ferreira dAinxeida. A. Harnack. São: 21. Jaussen: 204 a. Claudel. 187 a. Diógenes Laércio: 177 a. 2. 32.: 167 a.: 131 a. 239. 13. 214 n. Fiilion. M. 9. J. 10.: 42 n. 32 n.: 160 a. Ohorme. 25. 143 a. 4. 212 a. 127 n.: 71 n. 4. Joly.: 28 n. 12. 2. João Crisóstomo. J. A. George. 204: 221 n. 21: 163 a. 13. Santo: 141 a. 14: 208. Er. 18.ÍNDICE DE AUTORES CITADOS Abel.: 36 n.: 69 a. 3s. 5: 237. 141 n.: 31 n. A. J. 190. 2. Sexto Júlio: 215. 1. 1. Coppens. M. 5. 215s. Ch. 93 n. Eliade Mircea: 60. 22. 4. 16. De Vaux. 17.: 51 a. E. Fr. 9. 4. Dante: 55 a. 42. 132 a. Artemidoro de Éfeso: 184 n. 19 a. 194 a? 18. A. Fidvio José: 125 a. De Fraine. 3. O. Gregório de Nissa. Ei. Denziger: 36 a. 15. A. 142 n. 2. Henry: 16. 93 n. 46 a. P. Boman. Baur. Jeremias. 15. 34. 158. Chame. 137. Gregório Magno. São: 139. P. G. 33. 207 n.6. J. 9. 5. 35. Jerônimo. J. 33. 40. Censorino: 32 n. 15. 13. 9. D'Rarcourt.

Weisengof. 18. 32 ri.: 236 ri. 11.obertson: 17 ri. Theodor. 17. 3. 2. 32. Seilin.: 143 ri. 9. 33. 245 ri. 13. 4. 6. Sérieca: 32 ri. 35. Solon de Atenas: 124. 4. H. 221 ri.: 218 n. Sérvio: 32 ri.: 223 ri.: 12. 184 ri. Meignan. 10. 23. 2. Tácito: 126. 9. . Varrão: 167 ri. 180 ri. Lesétre. Moritet. 26. 11. 14.i R. E. 13. tjbach: 221 n. 2. 18. LodsrA. 8. Suys.: 31 ri. Nygren.: 33 ri. A. 1. P. . 4. Maritain. 101 ri. Le Prois. Rowley. Vigouroux: 207 ri. 221 n. 39. Kaiser. Scullard. 139. 207 ri. 217 ri. Tournay. 218 n. 11. E. 50 ri. R: 119. Marcion: 79. B. 2.: 36 n. Tellier. 28 n.: 226.1. . 4. Ricciotti. 3. 33 n.266 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Rerian: 146. 11. 165 ri. 1. Leão XIII: 28 ri. 29 ri.: 159 ri. Smith: 17 ri.:137 ri. 19. 6. Stobeu: 32 n. 21. Spicq.: 221 n. A. Tito Lívio: 212. 7. Polibio: 212.: 49 n.: 221 ri.5. 65n. Robinson. 2.: 212 ri. 33. 5. M. 246 ri. 25. 11.: 65 ri. 235 ri. C. 3. tqbclah: 159. J. 197 n.: 132 ri. 14. 146 n.: 33 n. 31. 12. 16.: 55 ri. A. b3iano: 141 ri. Steck: 17 n. 2. 222 n. Sebulz. 204 ri. 22. 18. 35. Cl. 1'. Pi*fiëio 47. 9.: 167 ri. Rosenberg: 79.: 64 n. H. Médeblelie. B. 11. 7. 36.: 131 ri. 212 n. Plauto: 49 ri. A. 28. A. 1. 25. 2. r6 I: 19 ri. 4. H. Reiler. 1. 11. Kuss-Muller: 245 n.1.: 198 ri.: 120 ri. 37. E. Oepke: 177 ri. bVldio: 167 ri. 12. W. 11.: 194 ri. 1'. 9.: 49 ri. 55 ri. 2. 31. O. Cl. 9. 245 ri. 1. Péguy: 31 ri. 218 ri. E. Meyer. 35. 14. 21. Passelecq. 1! Naber: 17 ri. Weber. 2. 3. Pffiio: 141 ri. 7. 7. 253. W. Ruperto de Deutz: 12 ri. P. Sehuster-Holzammer: 218 ri. 9. 15. Lambert. 165 ri. 79 ri. Steinmann. 15. 10. Robert-Tricot: 236 ri. J. J.-J. Sófocles: 49 ri. 52 ri. piersdn: 17 ri. 10. Oróslo: 126 ri. Platão: 28 n.: 183 ri. Lagrange. E. Vergilio: 165 ri. 4 Metzinger. 207 ri. 26. 194 ri. 4. 203 ri. 211 ri.: 12. Card. 21.

caso o leitor tome consciência de que • história do povo israelita anterior • Cristo equivale a um processo de lenta pedagogia divina. as noções concernentes à vida póstuma e à justa sançáo divina. etc. queiram desfrutar a riqueza de livros que inspiraram amor e heroismo a geraçoes e gerçõe. certos milagres da história de Israel cujas proporções parecem derrogar à Sabedoria divina (a queda dos muros de Jericó. que permitia o exerciclo do talião. santo. o Senhor Deus. Aos poucos.).. no Antigo Testamento. seria impossivel entender os Santos Evangelhos e os escritos dos Apóstolos. caso se quisesse fazer abstração dos livros do Antigo Testamento.s de judeus e cristãos." A obra se destina a tódas as pessoas que. Remunerador dos bons e Punidor dos maus. a fim de os fazer colaborar num plano muito elevado. Mt 5.Jordão. o Mestre Divino foi burilando as categorias de pensamento de Israel. Jesus não veio extinguir a Lei. movidas por interêsse sincero. os livros sagrados pré-cristãos. isto é. a passagem do Mar Vermelho e do . não quis remodelar repentinamente os hábitos e conceitos dessa gente. Amal até mesmo os vossos inimigos.. apenas houve por bem eliminar tudo que nesse patrimônio de cultura era contrário à Idéia de um Deus único.a orelha) possui para todo cristão. o asno de Balaão que "falou".(continuação cIa i. Czéncia e Fé na Hsõria dos Pri- ..17. mas consumá-la e levá-la à sua plenitude (cf. no decorrer de 18 séculos.. as imprecações. o exterminio dos inimigos. o papel de relêvo atribuido a doenças e sonhos. Tudo se encerra com um guia prático para a leitura da Biblia. são consideradas dificuldades especiais que as páginas do Antigo Testamento apresentam ao leitor cristão: rnoralldade muito rude. pois. Muitas das hesitações suscitadas pelo Antigo Testamento se dissipam. se encontram os prenúncios e os primeiros moldes" (a expressão é de Santo Agostinho!) dos grandes dona que os cristãos possuem. preparando o gênero humano a ouvir um dia a mensagem desconcertante: "Bem-aventurados os que choram. Do mesmo autor: mordios A Vida que Começa com a Morte. A séguir. o maná no deserto. as intervençôes muito fortes de Deus irado.. tendo-se revelado a homens rudes ou moralmente infantis. as 10 pragas do Egito. a poligamia. a cabeleira de Sansão. os que têm fome e sêde.

ii:. M EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO . EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS Tradução do Emii Malimaiin 5 0 J * orçi_ Lu . F. Manuel . 919 Cixa Pta1 133 1•i. Reembóbo Pcata . O APOCALIPSE — Tradução de Frei João Jos.A SANTA BÍBLIA A SANTA BtBLIA — Tradução feita a partir dos orglnais e oriertada pela Liga de Estudos Bíblicos.t Gi-aJs Atendem pe'o Sviç. B . aLX J TJ - 25 Muni 6*i4t) R. EVANGELHO SEGUNDO SÃO LU(S Tradução de Mona. a sair no período 4 anos. Ar.ft . da AGIR QU fl 14 .onte I3i MI. LIVROS EDITADOS EM E95i TOmAS. fr..Tradução do P. Pedreira de Casro O.imenv. C P. z-3038 ilurl2.Pena. JUDITE E ESTER — Traducao de D Etêvo BetLeneourt O S. (utías (J1N i 1i edi c ões.k.

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