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perta cada vez maior Interêsse em nossos dias. Os problemas da hora presente têm obrigado os homens a recorrer sequlosamente às fontes onde possam encontrar a sabedoria da vida, as normas para proceder no momento atual. Ora entre essas fontes se acham em lugar eminente os livros da Biblia, que contêm os princípios sõbre os quais se construiram quase 20 séculos de civilização cristã. que explica que estudiosos de correntes assaz diversas estejam voltando atenção crescente para a Escritura Sagrada e as questões a elas atinentes; haja vista o grande Interésse com que têm sido analisados por católicos, protestantes, judeus e racionalistas os manuscritos recéxn-descobertos junto ao Mar Morto (alguns julgaram poder haurir dêles nova compreensão da civilização contemporânea). Em particular, aos fiéis católicos impõe-se a necessidade de aprofundarem seus conhecimentos de Sagrada Escritura, já que esta é o manancial por excelência da vida e da piedade cristãs. Contudo não é fácil, ao primeiro contato, compreender os livros da Biblia; foram redigidos em épocas muito remotas (os mais recentes datam do fim do séc. 1 d. O., enquanto os mais antigos são do séc. XIII a. O.), em ambiente semita ou helenista e segundo modos de falar bem diversos dos que hoje estão em uso. Principalmente o Antigo Testamento apresenta dificuldades, não raro ventiladas em conferências ou em simples conversas de amigos. Católicos e não-católicos nessas ocasiões gostariam de conhecer melhor a mentalidade, a alma religiosa, que movia os judeus do Antigo Testamento; gostariam também de possuir normas objetivas, derivadas da moderna filologia, arqueologia, etc., que os ajudassem a interpretar as passagens controvertidas. Foi em vista de tais dlficuldade, que o presente livro se originou. A obra começa por propor algumas noções concernentes á redação dos livros sagrados: o conceito de inspiração biblica (esta não dispensa, mas, ao contrário, utiliza o cabedal de cultura, rica ou pobre, de um autor humano), a mentalidade e os modos de falar característicos dos judeus (o "gênio" da língua hebraica), o emprêgo de antropomorfismos, nomes e números na literatura semita. Vêm depois questões referentes ao conteúdo dos livros sagrados: antes do mais, é exposto o significado positivo, o valor perene que o Antigo Testamento (continua na 2. 11 orelha)

O estudo da Sagrada Fitura des-

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PARA ENTENDER roi ANTIGO TESTAMENTO

DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT O.S.B.

PARA ENTENDER ANTIGO TESTAMENTO
"Quando nasceu..., padeceu, ressuscitou e subiu aos céus, Cristo abriu o livro do Antigo Testamento, pois realizou por atos quanto ali por figuras era insinuado". (Berengáudio, séc. IX).

1956

L2vrarza

AG 1 R

&dgarc,

RIO DE JANEIRO

Copyright de
ARTES GRAFICAS INDÚSTRIAS REUNIDAS S. A. (AGIR)

NIHIL OBSTAT

Côn. J. A. de Castro Pinto
Rio, 9-7-1956

PODE IMPRIfl-SE Rio, iO de julho de 1956

Mons. Caruso
Vigário Geral

CUM PERMISSU SUPERIOR UM ORDINIS

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Rua Bráulio Gomes, 125 (ao lado da Bibi. Mun.) Caixa Postal 6040 'rei.: 34-8300 São Paulo, S. P.

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ENDEREÇO TELEGRAFICO: "AGIRSA"

.. 0 Os antropomorfbsmos bíblicos ............... a) o significado geral dos antropomorfismos ..... 2. Alguns aspectos do simbolismo dos números ....0 A filosofia do nome ........ c) o número dez .. 17 ..........O simbolismo peculiar de alguns números a) o número sete .... § 2....... Números mal transmitidos .......... S... 2.....° O problema .......11 CAI'. 0 Os números nos textos bíblicos ............. A ... Sentido exclusivo e sentido precisivo .................. A natureza personificada ..... § 1..... O génio da língua hebraica .. Apêndice ...... Os números simbolos de qualidades ....... o tema da Sagrada Escritura .......... 0 CAP..................... b) o sentido de alguns antropomorfismos em particular ...............O valor da linguagem shnbolista ..NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA ........ 1........................ E .................................... Deus semelhante ao homem no Antigo Testamento ....... 15 15 19 19 21 25 25 30 32 39 40 52 52 53 54 57 60 61 61 65 65 67 61 68 69 70 70 71 71 74 ri— LIVRO INSPIRADO POR DEUS ........................ § 1...° O princípio de solução ..° A Sagrada Escritura e as Ciências Naturais .... * 2...............O simbolismo do número como tal ........ Enumerações proverbiais e arredondadas .......................0 Como o israelita escrevia a História ........... ......... CAI'........................................................ § 1.... 0 CAI'......................... Que se entende por inspiração bíblica 9 2........... IV ........... § l........ d) o número doze ......INDICE Págs ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 9 PREFACIO...PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS................... 1—O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇAO................... § 3....... a Escritura............................ patrimônio da Igreja ....... b) o número três ............... m ......................

. § 1................................................. V . 140 Judite......................... § 4........6 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Págs. a fraudulência do Patriarca Jacó .................. § 29 Os fios condutores do Antigo Testamento ... O tema do pastor .....................0 O Deus que fuimina ..... Aod e Jael: a amabilidade a serviço do morticínio ............ 151 151 152 154 157 161 ............................0 Pureza e impureza ritual .............. 123 123 § 1.. VIII— A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) .... 150 CAP..........................................................0 A lei do talião ............... VI— AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA ............... poligamia . O tema da Aliança ...... § 5. § 1.......... § 2 0 O recenseamento pecaminoso ................................80 § 2.......° Conclusão ....19 § 1............................. 125 § 2......... 134 divórcio ................................0 Um principio geral ......0 As imprecações .............. O tema da videira .................................. O tema do deserto ..0 Os tipos bíblicos ........................... 7.....O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO .. 134 § 4? Poligamia...............................° A escravatura .......0 O externiinlo dos inimigos ... O tema do maná .. 138 140 § 5................................................... § 3................ 132 § 3....... O tema da prevaricação e da restauração correspondente ............ 114 146 § 6........... O tema da habitação de Deus ....0 A artéria central da Sagrada Escritura: a figura do Messias........0 Mentira e fraude ..................0 Diversas etapas e uma só meta ................. GAP..... IX - O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO ........... O tema da escolha gratuita ou da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza do homem .................................. 115 CAP.....................................0 O "mau espirito" do Senhor .............. CAP..........OS DESMANDOS DA CRIANÇA ........ 137 e) ulteriores aspectos ..O HERDEIRO EM IDADE INFANTIL ................................................. divórcio e incesto ............86 CAP................................ VII - 93 94 98 98 101 103 105 105 107 110 112 A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) ..................................

............ ........................ CAP.............. .......... Pé-requisitos sobrenaturais § 2 0 Itinerário através da Biblia § 3.. ..) 29 "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue 171 possui a vida eterna...............° 5...... Sab 16................ LISTA DOS TEXTOS BÍBLICOS MAIS PARTICULARMENTE CONSIDERADOS ....22-35) A história de Sansão (Jz 13-16) ............ ..............4-9......... .... .......0 § § § § 4.." 166 (Hebr 9..........) ...... .............0 7.......... EM PARTICULAR..................SANGUE E VIDA 1.. ........Noções introdutórias 2.... ................... ÍNDICE DE NOMES E TEMAS ...22....15-26) As dez pragas do Egito (Êx 7.....31) ......................... O maná (Êx 16.................................... XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS § 1..... .................54......................... 201 202 205 210 210 212 214 219 223 226 233 233 233 233 235 236 240 245 253 257 261 262 265 CAP...36) A passagem do Mar Vermelho e do Rio Jordão A travessia do Mar Vermelho (Êx 14..... ....0 6.... ...................ÍNDICE 7 Págs............... Pré-requisitos naturais A .............................. XIV COMO LEREI A BÍBLIA" 1 0 Os pressupostos de frutuosa leitura 1.....7-17) A queda dos muros de Jericó (Jos 6......... 189 189 196 CAP.............................20-29) Balaã e o asno que falou (Núna 22....° 3...................... .................." (Jo 6...... DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12...... .0 'PRODIGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO A mulher de Lote transformada em estátua de sal (Gên 19. ............................................... XXII § § § - 1» 2...° No inexorável fôsso dos mortos § 2........ .....0 "Sem efusão de sangue não há remissão de pecado..0 Pequena antologia bíblica MAPA ILUSTRATIVO DO ËXODO E........5-31) A passagem do Rio Jordão (Jos 3.. .......Boa edição do texto sagrado B . . .... ÍNDICE DE AUTORES CITADOS ........... 175 175 175 178 183 CAP.............. 165 CAP................... TABELA CRONOLÓGICA . X ...14-12.....................................................................................................2-36................... Núm 11..... XI § § DOENÇAS E SONHOS 1.....0 A grande surprêsa póstuma .. .31-14. ...............1-20) ................ § ...................... ...............0 As doenças Entre as nações pagãs No povo de Israel 29 Os sonhos ... ...... .

incluindo na citação os versículos e capítulos intermédios.ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 1. O hífen separa tanto versiculos como capítulos. O ponto-e-virguia separa capítulos.3. O ponto separa versiculos.2. . ABREVIATURAS segue Os livros da Sagrada Escritura são brevemente citados como se ANTIGO TESTAMENTO Gên Éx Lev Nún Dt Jos Jz Rut 5am Es Par (Crôn) Esdr Ne Tob Jdt Est JÓ Si Prov Eci Cânt Gênesis Êxodo Levitico Números Deuteronômio Josué Juizes Rute Samuel Reis Paralipômenos (ou Crônicas) Esdras Neemias Toblas Judite Ester Jó Saimos Provérbios Eclesiastes Cântico dos Cânticos Sab Edo Is Jer Lam Bar Ez Dan Os 31 Am Aix! Jon Miq Na Hab Sof Ag Zac Mal Mac Sabedoria Eclesiástico Isaias Jeremias Lamentações Baruque Ezequiel Daniel Osélas Joel Amós Abdias Jonas Miquéias Naum Habacuque Sol onias Ageu Zacarlas Malaquias Macabeus NOVO TESTAMENTO ivIt Mc Le Jo At Rom Cor Gâl El Fip Co! Mateus Marcos Lucas João Atos dos Apóstolos Romanos Coríntios Gálatas Eféslos Filipenses Colossenses Tes Tim Ti FIm Hebr Tg Pdr 1. Jo Jud Apc Tessalonicenses Timóteo rito Filêmon Hebreus Tiago Pedro João (epístolas) Judas Apocalipse A vírgula separa capitulos de versiculos.

cf. Em oposição aos apócrifos. donde o nome de "Vulgata" (forma) (Vg). catálogo) das Escrituras inspiradas ou da Biblia. Lste traduziu diretamente do hebraico os livros do Antigo Testamento que êle julgava canõnicos ou inspirados. A luz da filologia hebraica. a. e. Antiga tradição. ca. quanto aos do Novo Testamento. o termo significa "Êle é" ou "Aquêle que é". apókryplwn = oculto. Is 42. a fim de consolar os'leitores atribulados. Vg = edição latina dos textos bíblicos devida a São Jerônimo (t 420). apokálypsis = revelação): gênero literário em que o autor. discurso): nome do tratado teológico concernente às coisas últimas ou à consumação. . Lev. Apresentando as provações de sua época como coisas já previstas por Deus. designa Aquêle que sem restrição possui o ser ou Aquêle cuja existência é soberana e cuja atividade é sumamente eficaz. Êx. selada pelo sangue de Cristo. hagiógraphos = escritor sagrado): nome geralmente atribuido aos autores de livros da Sagrada Escritura. leanón = regra.13-15). Dt) havia sido traduzido por setenta e dois judeus no espaço de setenta e dois dias. a vinda do Messias e a instauração cIo seu reino glorioso). ou seja. hoje destituída de autoridade. a segunda. contudo não eram lidos nas assembléias de culto público. Apócrifo (em grego. e lógos = palavra. Êsses escritos podiam edificar os fiéis e gozar de certa autoridade. enumerados no cãnc. retocou a tradução latina já existente no século IV. Escatologia (do grego éschaton = último. Nas circunstâncias em que foi revelado. seja do universo. note-se LXX = tradução grega do Antigo Testamento efetuada aos poucos no Egito. tal nome inculcava a imutabilidade de Deus. avivava naturalmente a confiança dos leitores no auxilio da Providência. isto é. O novo texto assim apresentado aos cristãos em breve se tornou de uso comum. Hagiçigrafo ( em grego.n (em grego.8. seja do individuo. donde a designação de 'ocultos" ou "secretos". narrava que o Pentateuco (Gên. distinguem-se os livros canónicos.10 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um s após um número indica a unidade imediatamente seguinte. em particular à Aliança que estava para pactuar com Israel ao pé do monte Sinai. Êx 3. às vêzes revestindo a autoridade de antigo personagem. Javé: nome com que o Criador se deu a conhecer a Moisés. Entre os apócrifos figuram os numerosos "Apocalipses" da literatura rabinica. quando lhe revelou o seu desígnio de tirar do Egito a nação israelita e dela fãzer o pova de Deus por excelência (cf. = cêrca 2. Além disto. EXPLICAÇÕES Apocalipse (em grego. designam respectivamente a primeira. a terceira parte do versículo. Depois que a antiga Aliança cedeu à nova e definitiva Aliança. Daí o título: tradução "dos Setenta Intérpretes" (LXX). descrevia acontecimentos presentes e futuros (de preferência. b. entre os cristãos. mas carecentes da prerrogativa da inspiração bíblica. Núm. secreto): nome que designa livros redigidos por judeus ou por antigos cristãos segundo o estilo das Escrituras Sagradas. junto ao número de um versículo. a fidelidade absoluta do Senhor às suas promessas. do século III ao século 1 ai]. o nome "Javé" caiu naturalmente em desuso no povo de Deus.

Is 40.. Sugeridas pelo desejo de auxiliar a uns e outros. deixam-se ficar hesitantes diante da porta da Igreja do Cristo ou vão perder-se por novos "caminhos" de procura da Verdade. em particular com os livros sagrados ditos do "Antigo Testamento" Os problemas surgem. lhes parece muito diverso desta e. a metade ou mais da metade da Biblia Sagrada. o Antigo Testamento não perdeu seu significado após a vinda do Messias. Esta .PREFÁCIO Quem sinceramente procura a Deus. arrefecem em seu entusiasmo: o fundo ao qual se sobrepõe a Revelação cristã. a Verdade e a Vida (cf. originaram-se estas páginas. mas em sua lealdade estão dispostos a se render a tudo que seja bom e belo. significado do homem e de sua existência na terra. os capítulos dêste livro tendem a mostrar que as Escrituras antigas não contêm apenas episódios complicados. e que. os quais por vézes se vêem um tanto surpresos diante de passa gens do Antigo Testamento.8).. pois. como diz a tradição cristã. deixar fechada a parte inicial. pois tocam as questões de origem. Tais pessoas lêem o Evangelho. preferem. Visando. por isto. desconcertantes. mais avultados talvez.. mesmo quando apresentam coisas dêste gênero. que lhes apresenta a figura do Cristo. problemas capitais entre todos os demais. é não raro detido por dificuldades que lhe provêm do contato com a própria Palavra de Deus. desde que se lhes anuncie o nexo indissolúvel existente entre os Santos Evangelhos e o Antigo Testamento. para aquêles que não possuem a fé. fim. antes. Mas. longe do Cristo. despertar a alegria que jorra dlo conhecimento da Verdade. Jo 14. por isto. nos tempos atuais. inaceitável. adquiriu novo poder . com sua doutrina. Inspirado pelo Espírito Santo antes do Cri-sto e em vista do Cristo. em seu âmago. são sempre portadoras. Em conseqüência. sem dificuldade reconhecem-na como digna e autêntica mensagem de Deus.embora a reconheçam como Palavra de Deus lhes parece ter quase esgotado em séculos anteriores a sua mensagem. pouco teria que dizer. que é justamente o Caminho. e não raro cruciantes. Têm por finalidade ir ao encontro daqueles que revolvem problemas de ordem religiosa ou filosófica.6)! Dúvidas existem também na mente de não poucos fiéis católicos. e julgam-na muito nobre. perene como a própria Palavra de Deus (cf. de mensagem valiosa.

luminosidade plena ás páginas do Antigo Testamento. Splcq. se aplica aos escritos sagrados de Israel. A vida cristã. tal como o Senhor a comunicou aos homens. que glorifica o Redentor outrora aguardado. Ora a impressão de que a antiga Lei se tornou nova no setor das investigações científicas deve suscitar 1 "O Antigo Testamento é como que o cântico novo a significar por Imagens e figuras múltiplas a mesma realidade que o Novo Testamento.9). ora ftgurado. É o que. indiscernível. 1945). Ora o "revelador" que deu clareza. As excavações arqueológicas no Oriente trouxeram ao conhecimento do público importantes dados. Pode-Àe. lembrar o caso de um homem que considerasse uma tela de pintura rematada e depois lançasse os olhos sôbre o esquema ou croqui cIo mesmo quadro. hoje presente entre nós. há di)' erença apenas no modo como Deus ensina: modo ora claro." (Ruperto de Deutz. Rowley: The Rediscovery of the Olá Testament. Poderia ser assemelhado a um clichê. Londres. 1.10). que permitiram aos estudiosos como que reviver episódios do Antigo Testamento.. concorrem para ilustrar a figura do Senhor Jesus. outrossim. H. Assim fala o Antigo Testamento ao leitor que. tal observador saberia descobrir no esbôço muito mais acenos ou riquezas do que aquêle que não conhecesse a obra terminada. tornou-se o "cântico novo" (cf. Para melhor dar a entender o valor cristão do Antigo Testamento.) Na base destas considerações. figura que está esculpidia sõbre a face da história inteira do gênero humano. enquanto o clichê não é revelado. foi o Senhor Jesus com o seu Evangelho. Paris. depois de conhecer o Cristo. 1 Com efeito." (C. a vinda do Cristo só fêz tornar patente o significado profundo de tais acenos. "A Antiga Aliança é tão cristã quanto a Nova.. tornando-as. as páginas dêste parecem aos eruditos ter sido também recém-descobertas (atesta-o bem o título da obra de H. 331. porém. parecem incutir os acontecimentos mesmos dos últimos decênios. Êste representa um objeto preciso.. Éstes agora. gravado sôbre a sua superfície. séc. luminoso. Is 42. .12 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de expressão. há de saber sempre melhor nutrir-se da Palavra de Deus. por assim dizer. XII. coloridas e vivas. para ser cada vez mais vigorosa. com sua linguagem. vê-se bem que não pode haver compreensão do Evangelho nem renovação da catequese cristá (renovação que muitas e belas iniciativas hoje em dia procuram realizar) senão mediante a devida utilização dos escritos do Antigo Testamento. 1952. os escritores sagrados de Israel se referiam ao Messias por meio de símbolos e sentenças misteriosas. têm-se proposto na literatura moderna comparações assaz significativas. num só côro com os escritos do Novo Testamento. ixi Apoc 1. ou submetido a unt "revelado?' que o torne claro. L'Epitre aux Hébreux.

lugar de felicidade dos primeiros pais (cf. é anunciada também por Jesus aos mansos de coração (cf. mas principalmente como código de Sabedoria sobrenatural: mais claramente apreciado na qualidade de LETRA ou doctmentó literário. A seguir. em proporções mais amplas e com material definitivo. . maqueta cujas linhas. ainda uma vez apresentadas ã consideração do leitor. a mensagem perene das Escrituras judaicas. 11).3. prometida ao povo de Deus nos inícios da história sagrada. Êx 3. 1). trajada como a noiva que vai ao encontro de seu noivo" (Apc 21. e sàmente então.2-5). o que há de positivo.63). aborda-se o conteúdo mesmo do Antigo Testamento: Primeiramente.8). V e VI). Mt 5. dizer que a situação dos cristãos peregrinos neste mundo só se entende como prolongamento de uma história pré-cristã: a própria consumação final é anunciada pela Palavra de Deus mediante alusões contínuas a tipos e episódios do Antigo Testamento. são focalizadas questões de redação e forma literária dos escritos sagrados: o sentido da inspiração bíblica (cap. Assim as figuras esquemáticas do Antigo Testamento recebem nas últimas páginas da Bíblia os matizes mais vivos possiveis e são. vão sendo reproduzidas lenta e fiel: mente. faz ecoar acordes disseminados por todo o Antigo Testamento. o Antigo Testamento não poderá deixar de ser também mais valor rizado como ESPÍRITO e ViDA ou mensagem de Deus aos homens (cf. é pôsto em relêvo (caps. o Antigo Testamento desvendara todo o seu sentido.PREFÁCIO 13 efeito semelhante no espírito daqueles que consideram os escritos de Israel não apenas como livro de erudição humana.8-10). Hebr 11. Apc 21. Jo 6. Assim o tema da "Cidade Santa. algumas notas características da linguagem semítica ou israelita (caps. cêra ou madeira) de edificio fizturo. Gên 2).5) e só será plenamente concedida quando céu novo e terra nova forem instaurados na criação (cf. é reproduzido no Apocalipse ou na cena final dos séculos (cf. Depois de estabelecido um princípio que é chave para a solução de qualquer dificuldade bíblica (cap. As Escrituras israelitas aparecem então qual maqueta (de argila. o quadro do paraíso.1). No fin dos tempos. longe de ser abandonadas pelo Arquiteto do mundo e dos séculos. 22. resta indicar o roteiro que percorrem. já plenamente desabrochadas.6.2). 1H e IV). Jerusalém nova. 2 Cor 3. a terra "onde correm leite e mel" (cf. porém. * * * Uma vez proposta a finalidade destas páginas. Não seria suficiente. ate se completar a construção (cf.

. até o reino perpétuo da tua Cidade Santa. Não abandones os teus dons. 11. X. que. Dá o que amo. nem desprezes a tua erva que tem séde. e considere as maravilhas da tua Lei. os caps.7. pois. mas coadjuvada por melhores instrumentos de trabalho do que os de outrora. ficam não poucos pontos obscuros. e ouça a voz de louvor. . XI e XII tratam de expressões e manifestações da religiosidade do Antigo Testamento que ao leitor moderno parecem estranhas ou desprezíveis. e não a leches áqueles que batem. Os caps." (Confissões. iii. e às noções de vida póstuma.14 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Já. dos sonhos. e Jôste Tu que o deste. a tua voz está acima da abundáncia das volúpias. e beba a Ti. Abram-se agora os capítulos acima assinalados sob o eco de famosas palavras de Santo Agostinho dirigidas ao Senhor Deus: "Sejam as minhas castas delicias as tuas Escrituras. O conjunto se encerra com a apresentação de pequeno guia prático para a leitura da Bíblia (cap. no qual lizeste o céu e a terra. considerada a doutrina religiosa. Xlii expõe a interpretação que a tais seções dá a exegese católica contemporânea. . maio de 1956. Eis que a tua VOZ é a minha alegria. O cap. por se basearem em pressupostos de medicina e antropologia hoje carecentes de valor: é.. pois não 101 em vão que quiseste fõssem escritos os densos segredos de tantas páginas.. entre os israelitas. Mais uma fonte de perplexidade é o caráter maravilhoso que tomam certos episódios narrados pela história sagrada. nem por elas engane. pois amo. porém) foram deixados de parte. XIV). Outros tentas do Antigo Testamento que talvez ainda suscitem ao leitor dificuldades (de menor vulto. viir e IX procuram mostrar o que podem significar as narrativas de pecados "escandalosos" nos livros que Deus inspirou. à conceituação das doenças.) Rio de Janeiro. VII. ao lado das grandes e luminosas linhas. sempre válida. que se prendia à utilização do sangue. porém. 0 AUTOR. sem recear o "maravilhoso". nem seja eu por elas enganado. desde o principio. por pertencerem antes à alçada de um comentário do texto sagrado. Louve-Te eu por tudo que encontrar nos teus livros. Dá lugar ás nossas meditações sôbre os mistérios da tua Lei.

não estão familiarizados com a Sagrada Escritura. esperar-se-ia que fôsse a obra mais lida e explorada pelos cristãos. "Deus não se terá abalado por pouca coisa. mesmo dentre os mais fiéis à vida cristã. exigem para si a primazia na biblioteca ou na cabeceira do cristão.CAPÍTULO 1 O PROBLEMA BIBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO § 1. para êles. 0 O PROBLEMA É fato inegável que bom número dos católicos de hoje. perante certas páginas do texto sagrado. são subestimados em favor de objetos e práticas menõs ricos e eficases para a santificação. que. Em um e outro caso observa-se que os maiores dons de Deus não são suficientemente procurados. ainda que animados pelas mais sinceras disposições. desapontado ou escandalizado. quando se lembra ao leitor. mas. difícil demais para ser alimento da vida espiritual. E. onde não têm o costume de procurar o nutrimento da vida espiritual. Todo católico professa que a Bíblia é livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores. Conscientes de tal anomaiia. O fato de que a Bíblia não é devidamente conhecida causa pesar semelhante ao que suscita o esquecimento de alguns cristãos em relação à S. conseqüentemente. . quase que por definição. dir-se-ia em linguagem popular. um livro mais ou menos cerrado. alguns núcleos de fiéis têm tentado explorar os tesouros da Sagrada Escritura. e quase que exclusivamente. o mesmo se sente como que atemo- . se requerem certas noções introdutórias. servem-se.. alheia às idéias e à terminologia que os cristãos costuitam ter na mente e nos lábios. de obras e opúsculos religiosos posteriores à Bíblia. pois. As páginas inspiradas por Deus certamente não excluem o que os santos e justos escreveram de verídico e belo. Esta é. Eucaristia. empreendendo a leitura sistemática da mesma. o primeiro manancial de espiritualidade dos fiéis. à impressão de mal-estar ou mesmo de escândalo ou à conclusão de que a Escritura é livro obscuro. não se podem furtar.. para revigorar sua piedade. para entender as páginas bíblicas. Tal verificação não pode deixar de impressionar a quem sôbre ela reflita. ela lhes parece arcaica. Contudo. com prazer.

" "Noto. que possam aproveitar. porque a Sagrada Escritura se lhe afigura então objeto de estudo científico antes do que livro de edificação sobrenatural. etc. Ora é o espírito do Evangelho só que devemos procurar." Eis o depoimento de um grupo de casais: "Salvo algumas passagens esparsas cá e lá.). como se sabe.. Devo dizer que não li Daniel-Rops. transformada. é o que se propõem os capítulos se1 Como se compreende. escreve uma dirigente da Ação Católica. a fim de se perceber mais ao vivo o doloroso realismo do problema: "A Bíblia é objeto de museu. que meu pároco dá cursos de Sagrada Escritura. não sentiríamos atrativo por êsse estudo árido. Não temos tempo para fazer isto tudo: cada família se acha sobrecarregada com obrigações profissionais. foram colhidos no artigo de Henry." 1 É livro ante-diluviano.. O Antigo Testamento procede de um espírito totalmente diverso do do Evangelho. Vão aqui transcritos alguns dêstes testemimhos. Depois da labuta de cada dia. "Les catholiques lisent-ils la Bible?" em La Vis Epiritucue Stipplément 12 (1950) • 84-98. são a expressão fiel do que muitas vêzes se pensa também no Brasil. . é muito difícil perceber como julgar tódas essas histórias. ou que só admite a literatura escandalosa quando esta se apresenta com aparato e fama. por essas narrativas pré-históricas. ao menos para se recolocar o texto no seu contexto e no seu clima de origem (exegese. não se compreende quase nada na Sagrada Escritura. Não quero defender a hipocrisia da nossa sociedade contemporânea. oração. XX nada encontram Tais depoimentos encontram eco espontâneo fora mesmo da França. paz. A situação assim esboçada pede ser revolvida. em que as verdades religiosas não se encontram ocultas sob uma multidão de imagens e de fatos. os depoimentos são anônimos. densos e curtos. em vez de o satisfazer. estudo dos gêneros literários. e. não obstante. Julgamos poder encontrar esta paz. para o estudo erudito. não coisa viva. de história. ou por meio de reflexão pessoal sôbre alguns textos prediletos ou pela meditação de alguns pensamentos familiares ou pela leitura de excertos. calma. desejamos repouso." "Há na Biblia uma série de histórias horrendas. A solução. e não livros de erudição. iluminada. de nomes e datas.. mas se acham luminosamente expressas. esta respiração profunda em Deus. materiais e educativas. Contribuir para a renovação. A leitura frutuosa da Bíblia exige árduo trabalho literário. mesmo se tivéssemos tempo. nem todos têm tempo ou aptidão! Um inquérito recém-realizado na França nos dá a conhecer com exatidão as opiniões de fiéis que têm procurado ler a Escritura. que jamais freqüentei. que à Biblia prefere a literatura "de água de rosas". atual. Alguma coisa dentro de mim se recusa a crer que minha vida possa ser ajudada. faz-lhe perder o ânimo.16 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rizado pelas exigências que a técnica exegética moderna lhe parece impor.. escreve outra pessoa. É esta uma forma de resistência. A história dêsse obscuro povo hebreu parece tão longínqua que se torna meio-irreal. onde os homens do séc. que em minha infância e juventude só me falaram do Antigo Testamento em têrmos negativos: encerra histórias demasiado realistas para poder ser colocado nas mãos de qualquer leitor. E.

de mais a mais que na Bíblia há realmente expressões e narrativas cujo sentido não é evidente à primeira leitura. As figuras de Jesus e S. o . Paulo foram reduzidas a ficções literárias. a Bíblia. Robertson). Antes. Reforma Protestante. XVI. Tais opiniões se foram disseminando através dos tempos sem grandes dificuldades. de estudarmos algumas vias de solução do problema. a Escritura. A tal fim. e que. os estudiosos não se conseguiram emancipar de preconceitos filosóficos ou racionalistas. se distinguiu por suas teses hipercriticas.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 17 guintes. os Estados Unidos da América (Smlth). passou a ser o arsenal de argumentos dos herejes. o texto latino da Vulgata foi declarado autêntico e aos fiéis se proibiu a leitura de traduções vernáculas da Bíblia não acompanhadas de notas explicativas conformes à doutrina católica. a Itália (Bossi). assiduamente manejada pelos protestantes.. eruditos muitas vézes sem fé. foram suficientes para criar entre os católicos uma atmosfera de pouca "simpatia" para com a Bíblia. se tornou o objeto de exploração dos homens de ciência. 2 Ora isto contribuiu naturalmente para que se acen2 Principalmente a Escola alemã de Tuebingen. Fomentou uma onda de cepticismo que se propalou pela Holanda (Pierson. se prestam a mal-entendidos ou escândalos. porém. quiseram mesmo confirmá-los por seus trabalhos científicos. A história do séc. Naber). correntes eruditas de pensamento. a inglaterra (Johnson. por isto mesmo. sem dúvida. Muitas vêzes. manual de protestantismo. Tais normas (em si muito sábias e oportunas). a França (Couchoud). para impedir fôssem seduzidos os fiéis. os sábios puseram-se a compará-los com a antiga literatura religiosa de Israel. obra colocada no Índice dos livros proibidos pela Igreja! . em boa parte norteadas por protestantes liberais. a Ps. Descobrindo no Oriente manuscritos e monumentos pré-cristãos. Ora. e isto os fêz chegar a conclusões estranhas à Biblia. tendo deixado de ser o manual daqueles que visavam a piedade.. Em tôrno da Escritura formaram-se escolas diversas. irrompeu o movimento luterano. As suas pesquisas não raro tiveram por resultado ilustrar maravilhosamente o sentido de passagens bíblicas obscuras. esta passou a ser julgada livro perigoso. interessa-nos considerar mais atentamente as causas do distanciamento dos fiéis em relação à Escritura. XIX veio corroborar a desconfiança. aos Evangelhos e aos escritos paulinos se denegou tôda autenticidade. Com efeito. No séc. errôneas e ímpias. recordaremos alguns fatos da história religiosa moderna. as autoridades eclesiásticas viram-se obrigadas a lhes restringir de certo modo o uso da Sagrada Escritura: no Concilio de Trento (1545-1563). a Suiça (Steck). aconteceu que. Uma das raízes remotas da desconfiança dos católicos frente à Sagrada Escritura é. porém. por todo o século passado. tendo à frente Bruno Bauer (t1882). assim como o continuado abuso dos protestantes. escola de heresias. que abusivamente fêz da Biblia a principal fonte de seus erros religiosos.

vocabulário. que as pesquisas modernas desvendaram. 1 a cristandade estava dividida em facção petrina e facção paulina. e entre os próprios católicos.. para não se cair na infidelidade ao ler a Bíblia! A situação se complicou mais ainda em virtude de um terceiro fator. Poderá esta iniciativa contar com alguma probabilidade de sucesso? A resposta afirmativa se impõe. menos superficial ou desvircristianismo passou por produto da filosofia religiosa de Alexandria e da sabedoria popular dos romanos! Alguns autores de Tuebingen. O homem dos nossos tempos tem acentuada sêde de tudo que é genuíno. . seria a expressão da conciliação jã obtida. autêntico. é no mundo herdeiro de tais preconceitos que se procura despertar hoje um movimento católico de volta à Escritura. provocou uma reação imediata. caíram assim numa atitude simplória.. Desta atitude resultou em não poucos dos contemporâneos a idéia de que a Bíblia é livro retrógrado em relação à ciência. capaz de lhe assegurar pleno êxito. teria tentado conciliá-las. se não a êstes. Assim a recente história da exegese parecia confirmar o preconceito de que a leitura do texto sagrado constitui um risco para a verdadeira religiosidade. XIX. fantasista. Trindade. digna do verdadeiro Deus! Pois bem. infantil. e rejeita o que lhe pareça destituído de fundamento objetivo. Os nossos fiéis têm procurado praticar a sua religião imediatamente à luz dos grandes dogmas. no séc. o Evangelho de S. procura tomar consciência da razão de ser de tôdas as coisas. de modo nenhum. ao estudá-lo no séc.livro perigoso a novo título. O movimento bíblico é portador de um título. já qUe. II. critura sem muito discernimento das regras de estilo.. admitiam que no séc. Entendida de maneira demasiado humana.18 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tuasse mais ainda nos católicos a impressão de que a Escritura é livro reservado: reservado aos protestantes ou. átimo repertório de histórias para crianças. sustento de um espírito esclarecido. a Bíblia veio a seróbjeto de desprêzo daqueles mesmos que procuravam uma religiosidade elevada. o livro dos Atos dos Apóstolos. depois de 160. àqueles que têm muita ciência . mais moderados. sem consideração do respectivo panorama histórico. reavivando em si uma mentalidade mais tipicamente cristã.. O cientificismo bíblico. porém. alguns círculos católicos se fecharam por completo à utilização dos recentes dados da ciência na exegese bíblica. João. por exemplo. ao menos. tantos se perderam nos mais variados erros do liberalismo e da impiedade. Isto se dá também no setor religioso. tudo que sej a fruto de mera convenção. lendo e expondo as passagens da Sagrada Es-. Cristiano Baur (t1860). manifestam o desejo de viver as conseqüências práticas dos mistérios da SS. Assim. Perante a confusão suscitada pelos eruditos. inovador. seria necessária muita fé. da Encarnação e do Corpo Místico.

zt irrésistible qui. fornecendo noções que lhes tornem possível desfrutar o rico conteúdo das páginas inspiradas.. que será também um princípio geral de solução para as dificuldades acima apontadas. pois. XVI. É. 0 O PRINCIPIO DE SOLIJÇAO Os capítulos que se seguem. 3 Em outros termos: nota-se uma sêde de voltar às fontes da verdade e da vida cristãs. § 2. Apresenta-nos em suas fases sucessivas. a fim de que o sal da terra seja sal ainda mais autêntico. permite prever todo o êxito ao movimento bíblico contemporâneo. a Bíblia. numa fase da história em que diversas facções humanas se chocam. falam em nome da Sagrada Escritura. force la conscicift de chacun d présenter les piêces authentiques de ia croyancc. De modo particular se sentem os católicos contemporâneos impelidos a tomar conhecimento da genuína mensagem da Bíblia. Através dos seus setenta e quatro variados livros. (Henry. Os comentadores consideram a Mediator Dei como o segundo capitulo de uma única obra que começou com a encíclica sõbre o Corpo Mistico de Cristo (Mystiet Ccrporis. procurando deduzir da mesma as idéias mais desconexas possíveis. o mistério de um Deus que desce até o homem para elevar o homem 3 O Santo Padre Pio XII. que. E isto. Liturgia (Mediator Dei. cada qual do seu modo.) . por verificarem que se vai multiplicando o número de confissões religiosas (seitas protestantes. uma observação prévia.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 19 tuada pelas influências não-católicas que sofreu a partir do séc. é do âmago do dogma que Pio XII deseja se nutra a espiritualidade crista. Santidade sôbre a S. é por esta e pela tradição oral que a Igreja se orienta. Ora entre as fontes de revigoramento da vida cristã está certamente a Escritura Sagrada. em última análise. bem característica da nossa época. as disposições da Providência em vista da salvação do homem. 98. Impõe-se. de 29 de junho de 1943). cit. por dois motivos: a) o tema da Sagrada Escritura. trata de um só objeto. Quem quer que se apreste a ler a Escritura. a saber. mobilizando tudo que elas possuem de vital. desde os primórdios até o fim dos tempos. art. recorde-se de que uma atitude de fé sobrenatural é condição absoluta para penetrar o âmago da mesma. espíritas. 4 Cc nwuveme. tem estimulado tão louvável tendência: a encíclica de S. C'cst da moins cc que nous pouvons espérer lopalement. a sêde do autêntico. dans ia mêlée actueile. humanamente falando. visam introduzir os fiéis na leitura do livro sagrado. etc. de 20 de novembro de 1947) apela freqüentemente para os dogmas da Encarnação e da Redenção.) que. dos quais deduz conclusões atinentes à vida de oração. teosofistas. porém. por seus escritos. amênera les catholiques à tire de pias cii pias la Bibie.

Assim como não podemos indicar a última razão por que Deus se fêz homem na plenitude dos tempos. quanto mais a fé é viva e forte no leitor.Gen h. Flp 2. E . embora soberano e independente. mas que é. às tradições dos semitas antigos. in . 15. V. 11. Não há dúvida. tais 'problemas" na realidade não são maiores enigmas do que a proposição de um Deus pregado à cruz. os livros sagrados do Antigo Testamento) e que continua a se manifestar em tôda a história do cristianismo. não obstante. a Bíblia tem necessàriamente passagens quase desconcertantes para o leitor que a queira julgar inicamente à luz da sabedoria humana: a sua linguagem é simples e pobre. mostra-se invencível na arte de procurar o indigente ingrato. o próprio Autor das Escrituras. mas que tem seus prenúncios nos séculos anteriores (entre os quais.note-se bem . O Deve-se mesmo observar que. semelhante à de um judeu antigo.3. João Crisóstomo. 3. assim também não sabemos dizer porque se quis adaptar à linguagem do homem no livro sagrado nem porque quis incluir no seu plano providencial tantos instrumentos rudes e imperfeitos. os planos de Deus. tanto üiais também êle experimenta afinidade com os dizeres da Escritura. A atitude de fé já por si desfaz muitos dos problemas que o conteúdo e a forma literária da Sagrada Escritura apresentam. já não se admira diante dasmúltiplas formas da condescendência divina sugeridas pela Bíblia. e a figura de Deus 4ue ela apresenta. em cada urna das passagens da Bíblia. quem na fé aceita o aniquilamento do Filho de Deus até a morte de servo (cf. tal cristão discerne cada vez melhor o que é contingente e o que é mensagem perene.1. de diversos rnodos. mal entendido. Encarnação que se deu na plenitude dos tempos.tal descida não é simplesmente uma vinda. quanto mais a vida sobrenatural nêle está arraigada. que a usa freqüentemente (ei. Por tratar de tal tema. de uma adaptação da Majestade do Criador aos moldes pequeninos do pensamento e da vida da criatura.8). Disto se segue que a chave para se penetrar na Bíblia há de ser uma fé coerente no mistério da Encarnação do Verbo.20 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ao consórcio de Deus.1). embora seja inconfundível. as vias pelas quais Éle procura o homem transcendem 'infinitam ente o bom-senso da criatura.2. está por vêzes adaptada à mentalidade oriental e aos costumes. rejeitado. Essa descida de Deus ao homem é também o mistério de um Amor que. . longe de se deixar desnortear por textos difíceis. in lo 15. 6 A expressão é de S. se quer dar derramaildo o bem sôbre os indigentes. ela tem o caráter quase paradoxal de uma condescendência 5 de Deus para com o homem. • O O significado geral do Antigo Testamento e da História Sagrada será objeto de ulterlores considerações no cap. é que lhe fala mais claramente o Mestre interior.

dar a genuína interpretação da Escritura. ninguém se prometerá chegar um dia a compreendê-la como compreende um livro ditado imicamente pela sabedoria humana. dos demais leitores da Bíblia (protestantes. etc. em Última análise. b) a Escritura. distancia radicalmente o católico. a proferir algum juízo. ao abordar a Escritura. tenham os fiéis consciência de que não poderão sempre por argumentos filológicos. sendo função da fé na Encarnação. tenha consciência de que encontrará passagens diante das quais. arqueológicos.). Hebr. 1 e 2 Mac. É esta fé na Igreja que. Por conseguinte. Jud. em última análise. para os católicos. seguindo apenas as insinuações da ciência ou ào seu bom-senso pessoal. espíritas. para os rejeitar. Os protestantes apresentam razoes. ao contrário. 85). porque crêem na autoridade infalível cio magistério da Igreja. Bar.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 21 S. há de reconhecer que à Igreja compete. Jdt. deduzidas da histôria. é pela Igreja que lhes dá a saber o sentido da Palavra escrita de Deus. Quem admite isto. Com efeito. Donde se vê bem que tal crença é básica para o católico que se proponha ler a sagrada Escritura. Sab. literários provar a protestantes e racionalistas que a interDivina eloquia cum Iegente crescunt (in Ez 1. não pode deixar de estar também 'rntimamente associada à fé na Igreja. Rolo." Destas considerações decorre que. já que pela Igreja Cristo ensina aos homens. A penetração da Sagrada Escritura. até o fim da vida. Se os católicos mantêm o seu ponto Qe vista. ° Sendo assim. 2 Pdr. As razões de uma parte e de outra não bastam para dirimir a questão. 7 8 . 2 e 3 Jo. de resto. seria incoerente o católico que procurasse estudar a Sagrada Escritura independentemente do magistério da Igreja. T. 9 Exemplo notório é o do cânon ou catálogo das Escrituras sagradas. que é a Bíblia. renunciando a exercer o espírito de crítica. mas ao menos indica verdades de fé às quais nenhum exegeta pode derrogar sem cair no êrro. patrimônio da Igreja. Verdade é que o magistério eclesiástico não dita normas positivas para o entendimento de todo e qualquer texto bíblico. Apc). isto se dá. Gregório Magno (f 604) exprimia esta verdade numa frase incisiva: "Os dizeres de Deus crescem com aquêle que os lê. o mistério da Encarnação do Verbo sempre exigirá a adoração reverente dos fiéis. Pode acontecer mesmo que a autoridade da Igreja seja o único argumento decisivo para que o católico tome tal posição exegética em vez de outra. Como. 7. é na Igreja que o Verbo Encarnado prolonga a sua vida e a sua obra de iluminar e salvar os homens. racionalistas. Os católicos também desenvolvem argumentos para os admitir. Todos sabem que Lutero não reconheceu como inspirados ou canônicos certos livros que os católicos admitem como tais (assim Tob. deverá simplesmente adorar. os juízos de Deus. ela se exerce já na questão de saber em que consiste a Biblia.

Ora. porém. porém. de modo nenhum intencionavam expô-los de maneira sistemática ou exaustiva. torna-se por vêzes vão querer argumentar com êles. de sorte que subtrair-se a essa posição vem a ser infidelidade para com o texto mesmo que se quer elucidar. pois. 12 Daqui se segue 10 Já que os não-catúlicos não reconhecem tal magistério. pouco digna da inteligência humana. demorar aí tanto quanto necessário para rematar a catequese dos recém-convertidos: um tumulto provocado pelos judeus obrigou-o a procurar refúgio em Atenas e corinto (cf. Paulo teve noticia de que os tessalonicenses nutriam dúvidas a respeito cIo dia do juízo final e da sorte que então tocaria aos irmãos defuntos. pressupondo de resto os ensinamentos que de viva voz haviam transmitido. Paulo aos tessalonlcenses. pouco depois de chegar a Corinto. ape- 1' / . professar que é a voz da Igreja que os leva a optar entre duas explicações que. por exemplo. apenas elucidavam os aspectos que davam lugar a mal-entendidos entre os fiéis. No tocante ao Novo Testamento. mas exigida pela índole mesma da Escritura Sagrada. Por sua vez. deverão. ao abordar pontos de doutrina em tais escritos. em térmos breves. o magistério se exercia quase ünicamente pela palavra viva. tais dúvidas provocavam agitação entre os fiéis e solicitavam a intervenção do Apóstolo. Foi o que ocasionou a primeira epístola aos tessalonicenses. 11 Isto bem se entende pelo fato de que escrever era arte difícil na antiguidade. Já que esta primeira carta não bastou para acalmar os ânimos. Por volta de 51. onde fundou o primeiro núcleo de cristãos da cidade. Em conseqüência.22 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pretação dada pelos católicos a tal passagem bíblica é a autêntica. não raro. os Apóstolos não se preocuparam grandemente com a redação da doutrina recebida de Cristo. a maneira como se originaram as duas epístolas de S. Como isto? É preciso não esquecer que os livros da Escritura tiveram origem ocasional ou esporádica. exigia muito tempo e grande habilidade por parte do autor. em que de novo só se propunlia desfazer os mal-entendidos dos fiéis. poucos meses mais tarde. Não se pôde.1-15). " Acontecia. escreveu a segunda epístola aos tessaloaicenses. '° Pergunta-se. em que S. esta atitude dos católicos? Não. foram-na transmitindo de viva voz pela pregação. porém: não será constrangedora. ciente disto. sabe-se que Jesus Cristo comunicou todo o seu ensinamento aos Apóstolos por via meramente oral. o Apóstolo estêve em Tessalonica (Macedônia). à luz dos critérios literários. que esporàdicamente os fiéis desta ou daquela região propunham questões particulares (de índole dogmática ou moral) aos Apóstolos ou pediam que lhes enviassem uma súmula escrita do que haviam pregado. pode-se dizer que ela é não apenas imposta pela Igreja. seriam igualmente plausíveis. porém. At 17. Paulo. 12 Haja vista. Paulo aborda aspectos da doutrina da segunda vinda de Cristo. porque apenas intencionava completar a pregação de viva voz. atendendo a essas necessidades contingentes é que os Apóstolos e Evangelistas redigiram suas cartas e suas biografias de Jesus (Evangelhos). o material respectivo (papiro ou pergaminho) era raro.

E. pois. É o que explica que estas duas epistolas. Semelhantemente. certamente inteligíveis para os seus primeiros leitores. enquanto tal. faltam-nos os elementos da pregação oral que deviam esclarecer o que Paulo diz a respeito da aparição do Anticristo e do Obstáculo que o detém (cf. para a redação das páginas sagradas. sem prêviamente tomar conhecimento exato do veículo humano a que se quis ligar a Palavra de Deus. ela de modo nenhum dispensa certo estudo ou esfôrço que vise penetrar e entender o aspecto literário. Por fim. é o espírito sobrenatural do leitor que a deve perscrutar.") 15 Isto se compreende já pelo fato de que escrever era relativamente pouco usual entre os antigos. sem dúvida. embora a atitude de fé seja a atitude primária para uma profícua leitura do texto sagrado. como se vê. na exegese da Sagrada Escritura.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO 23 que muitos temas da autêntica pregação de Jesus ou do depósito revelado não passaram para o papiro. 2. da Bíblia. De tudo isto resulta claramente que o recurso à tradição. 2 Tes 2. como modalidade nova da mesma. que. como se deduz da critica literária dos livros do Antigo Testamento. e. em nome da fé ou da piedade. é. longe de ser imposição arbitrária da autoridade eclesiástica. contribuíram com seu cabedal de cultura. esta pequena parte não constitui um bloco fechado e completo em si. humano. para o seu ensinamento oral (cf. os escritos do Antigo Testamento. é obra de autores humanos. e cultura oriental antiga. esporádica. Tendo em vista as disposições habituais da Providência. é preciso mesmo dizer que só pequena parte das verdades de fé foi explicitamente consignada por escrito. 13 É o que faz que. apresentem hoje dificuldades exegéticas insolúveis. o recurso aos resultados da ciência moderna empreendido pelos bons exegetas conlaudo. é exigência decorrente da índole mesma da Sagrada Escritura.5s: "Não vos lembrais de que eu vos dizia essas coisas quando ainda estava convosco? Agora sabeis o. portador de mensagem sobrenatural. que o detém. não se pode deixar de salientar que. porém. pois se originou dentro da tradição oral. mas ficaram na tradição meramente oral da cristandade. para que se manifeste em seu tempo. tiveram origem ocasional. depende desta. o primeiro elemento a ser consultado seja o conjunto de ensinamentos que sempre se transmitiram ao lado da Escritura no povo de Deus ou na Igreja. a tradiçâo oral. ora não resta dúvida de que êste outro aspecto da Escritura só pode ser entendido mediante o recurso às noções de cultura pressupostas pelos autores bíblicos. de resto. Ao mesmo tempo. que ainda hoje vive entre os cristãos e tem seu autêntico órgão de expressão no niagistério da Igreja. seria desprezar. Errôneo. ninguém pretenderá apreender a mensagem divina da Escritura. Esta é. . Apenas fragmentos cio historiograf ia ou dos cráculos dos profetas ou das máximas dos sábios de Israel nos foram consignados. um livro divino. em outros têrmos.5s). mas é inseparável da tradição oral.

que. tais opúsculos possibilitam o acesso ao livro sagrado mesmo às pessoas que. É claro. por suas circunstâncias de vida. Em conclusão: espírito sobrenatural muito vivo. está pronto a exercer a fé renunciando a julgar as autênticas obras de Deus. menos se possam dedicar ao estudo. as noções introdutórias na Escritura encontram-se redigidas sob forma breve e simples em opúsculos das diversas línguas modernas. de um lado. Deus houve por bem fazer da sua Palavra a mensagem para todos os homens. eis o princípio geral para a solução dos problemas da Bíblia. . que nem todos os leitores da Escritura estão obrigados a fazer os mesmos estudos para desfrutar o conteúdo do texto sagtado. mas. não sõmente para aquêles a quem é dado o lazer do estudo. de outro lado. porém.24 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO temporâneos. eis o pressuposto de uma leitura frutuosa do livro sagrado. nada despreza daquilo que de verídico ensina a ciência.

"Livro inspirado por Deus" parece-lhes ser obra absolutamente emancipada das fases de preparação por que costuma passar todo produto literário humano. se dedicará o presente capítulo. a documentos da literatura antiga. Isto. é geralmente movido por uma crença de importância capital: a Bíblia é a Palavra de Deus. verificou-se. depois as relações da Escritura com as conclusões das ciências naturais (§ 2.1). ou seja. sim. faz-se mister remover logo duas opiniões errôneas: a) inspiração bíblica de modo nenhum é revelação. de inspiração bíblica não é claro a todos os cristãos. sua paixão expiatória (Is 50. 52. séculos antes de Cristo.10). O conceito. Ao estudo dêste problema. goza. Livro inspirado pelo Altíssimo. 0). pois. ao ensinamento de verdades até o presente ignoradas pelo hagiógrafo. não ocorre necessàriamente. que é capital em tôda iniciação bíblica. Não poucos se admiram ao verificar que a Escritura se assemelha muito a obras profanas. 0 ) e da história profana Q 3. por exemplo.13-53. de autoridade única.4-10.0 QUE SE ENTENDE POR INSPIRAÇÃO BIBLICA? Na procura da resposta autêntica à pergunta. porém. Tais episódios foram redigidos sob a influência de dois dons sobrenaturais: o da inspiração bíblica.0 ).CAi'ínJLo II LIVRO INSPIRADO POR DEUS Quem toma em mãos a Sagrada Escritura para dela fazer o seu livro de doutrina e espiritualidade. A iaspiração pode. visto que deviam fazer parte da . com as hipóteses de acréscimos ou interpolações feitas a determinada passagem etc. porém. com a crítica literária e paleográfica do texto. consignaram por escrito pormenores da vida do Messias. quando os profetas de Israel. estar associada a êste outro dom divino.12). abordando primeiramente o conceito de inspiração em si Q 1. § 1. tais como o seu nascimento em Belém de Judá (Miq 5. sua transfixão na cruz (Zac 12. também não vêem como se possa conciliar o conceito de inspiração divina com o estudo das fontes humanas de um trecho bíblico. comunicação sobrenatural de verdades desconhecidas ao escritor.

pela inspiração. Como se vê. e o da revelação.37.7. sem o mínimo êrro. O qué acaba de ser dito. serem a expressão autêntica da mensagem que o Senhor quer transmitir aos leitores. Jo 19. Quando.16-38).23. ilumina a inteligência do hagiógraf o. J0 19. porém. 21. consultado testemunhas (cf. 3 lis 14. também não consiste em ditado meramente mecânico.32s). pois certamente os autores sagrados não adquiriram essas notícias por estudo ou por via meramente humana. Em outros têrmos: a inspiração faz que.1-4. a inspiração bíblica? Supondo no homem um cabedal de cultura. o livro estaria. com a lucidez do próprio Deus. enquanto as proposições aptas a êste fim lhe são apresentadas como tais. os evangelistas. proposições verídicas. Lc 1. ao contrário a suscita. Êsse ditado dispensaria tôda a ciência pessoal do hagiógraf o. escreva aquilo que percebeu em sua mente ilustrada. citam também as fontes compulsadas (os anais dos reis de Israel. At 8. com a clarividência de Deus. Deus. 1-3). ou seja. 11. na Bíblia redigida sob a inspiração divina.). ter investigado documentos. êste processo não implica comunicação de novos conhecimentos.29. pois haviam presenciado os fatos ou tinham sido informados por testemunhas abalizadas. De resto.29. tal como se dá entre o autor de uma carta e seu dactilógrafo. a seu turno. 1 J0 1. b) se a inspiração bíblica não é necessàriamente revelação. a inspiração importa moção da vontade e das potências executivas do hagiógrafo.29. Em têrmos positivos. porém). . o hagiógraf o examine a veracidade das noções que êle tem na mente. Essa iluminação faz que noções ineptas a comunicar as verdades intencionadas por Deus apareçam à mente do hagiógrafo como inadequadas.17. .31. atestam ter visto ou ouvido o que referem (cf. longe de extinguir a atividade do hagiógrafo (ou o trabalho de um escritor). por exemplo. 24-32.35. Mt 2. vamos encontrar noções que diríamos "humanas" (não falsas. 2 Mac 2. formuladas segundo os moldes usuais entre os homens da antiguidade. perceba tais e tais verdades. consignaram os mesmos episódios (cf. os autores bíblicos apelam freqüentemente para a sua experiência.26 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Escritura. de sorte que êste. não por revelação divina. 2 Crôn 9. as escolha e formule de modo a se tornarem a expressão fiel dos pensamentos do Altíssimo. Além de iluminação da.. prêviamente adquiridas. Isto tudo quer dizer que. emancipado de vestígios da personalidade do autor humano. 29.6. bem como o seu esfôrço de composição literária. 15. por assim dizer. já o fizeram apenas sob o influxo da inspiração bíblica. 8. a fim de que êste resolva escrever & de fato.24. que é. 24. mas de maior certeza (da certeza do próprio Deus) na posse das verdades já adquiridas. pois.inteligência. em 1 Crôn 27.19. ainda se pode explicitar do seguinte modo: a inspiração bíblica.

mais precisamente: de um judeu que viveu no Oriente há mais de três ou há quase dois milênios atrás. a veste. Anàlogamente se relacionam Deus e o hagiógrafo na composição dos livros sagrados: as idéias ensinadas pela obra provêm primàriamente de Deus. mas é a Palavra de Deus. Lucas. potências executivas) e percorre simultâneamente com êste as etapas necessárias para a redação de um livro. . a inspiração tem sua semelhança com o mistério da Encarnação. a terminologia e a finura de espírito de um médico de formação helenista. um dos ilustres cidadãos de Jerusalém no séc. a veste. de palavra do homem. pelo influxo do carisma. Hebr 4. como Isai as. E nesse efeito encontram-se inevitàvelmente os vestígios de um e outro agente: ao homem se devem atribuir os pensamentos expressos. um só pensamento pode mesmo tomar configurações bem diversas conforme os diver sos tipos de giz usados. a fim de que produza efeito não simplesmente humano. O efeito produzido na pedra se deve atribuir tanto ao escritor como ao seu instrumento. as impressões de um homem dos campos.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 27 suscitando-a. os cálculos harmoniosos e simétricos de um cobrador de impostos.C. Sim. como S. simples pastor. afeito aos números. com um pedaço de giz. todavia a forma literária. que serve para exprimir tais idéias. VIU a. possuindo. Em conseqüência. como Aniós. pouco preocupado com o estilo. antes servindo-se de tudo que lhe pertence e equiparando-se integralmente (exceto no pecado. E note-se que cada hagiógraf o deu os seus pressupostos pessoais. 2 Com efeito. vontade. escreve sôbre o quadro-negro. O conceito de inspiração é bem ilustrado pela analogia do homem que. um sem o outro não o produziria. Autor principal. ao passo que ao giz se deve reduzir a forma visível dos mesmos na pedra (côr. que tomou a face. a vivacidade de um Jovem fogoso. Marcos. como o de Jeremias. 1 Deus penetra tôdas as faculdades do escritor (inteligência. não obstante. mas humano e divino. certa graciosidade. 2 Do fato de que a Escritura é inspirada por Deus (nos têrmos acima expostos) segue-se a sua inerrância ou isenção de êrro dou"Carisma".. Mateus. as de um temperamento muito sensível e vibrante. porém. o que quer dizer: fica subordinada à educação e às categorias culturais de um escritor humano. cultura própria. sem mutilar a esta. eleva-a a plano superior. cf. não desprezível. um cabedal. ignorando muita coisa das ciências e das artes que hoje se conhecem. para exprimir a verdade divina. como S. na Escritura depreendem-se os vestígios característicos de um homem de cultura esmerada e trato nobre. de modo que a obra daí resultante não apenas contém a Palavra de Deus.). rico ou pobre.15) aos demais homens. como S. de valores humanos. grossura. mistério pelo qual o Filho de Deus apareceu na terra revestido da natureza humana. é condicionada pelo hagiógrafo. etc. dom (de Deus) outorgado em favor da comunidade dos fiéis. 1 designa aqui a inspiração.

como o recomendavam ainda recentemente os Sumos Pontífices. Comment tire la Bible. seu porta-voz humano. história edificante ou ornamentada com fim catequético (Tobias. Providenti. pois. modalidade contingente. o primeiro dos Macabeus). outras as da história "edificante" ou "moralizante". em têrmos mais claros: as afirmações da Sagrada Escritura só gozam da absoluta veracidade da Palavra de Deus quando entendidas no sentido mesmo que o hagiógrafo. etc. mas vem a ser tarefa a que as nossas escolas não se podem furtar. não é senão mediante a interpretação desta que aquela pode ser atingida. O que quer dizer. Jeremias. etc. poesia (o Cântico dos Cânticos. Embora não raro as palavras de determinado texto sejam suscetíveis de mais de uma interpretação.) 4 Esta verificação dá claramente a entender que o cultivo de certas disciplinas profanas. deveria ser imputado ao próprio Deus! Jamais. a arqueologia. Paris. Santidade Pio XII em 1943: "Bem preparado com o conhecimento das línguas antigas e com os recursos . Daqui se deduz a imperiosa necessidade de discernir o que se chama o "gênero literário" de cada livro da Sagrada Escritura. 3 verificando isto. em que os artifícios e as metáforas são de praxe. porém. história estritamente dita (os livros dos Reis. não constitui. profecias (Isaías. como a filologia. a qual prima pela precisão de suas palavras e a concisão de suas sentenças. os Salmos).ssimus) • escrevia S. a arte crítica dos textos. Sem saber qual o gênero literário com que se defronta. não há dúvida. lhes possa dar. como interpreta uma seção poética. Judite e Ester). Após Leão XXII (Enc.28 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO trinário. em leitura superficial. ninguém ousará atribuir indiferentemente ao autor qualquer das teses conciliáveis com o conteúdo "bruto" de seus vocábulos. se poderia esquecer neste assunto uma cláusula de grande alcance: já que a inerrante Palavra de Deus toma na Bíblia uma veste humana. para a exegese católica. caso nela existisse. outras as da profecia. E que será prõpriamente o "gênero literário"? Esta expressão •designa o conjunto das regras de estilo e o vocabulário que os homens de determinada época ou região costumavam observar quando queriam escrever sôbre certo tema. 1 Ora na Bíblia há livros de leis (o Levítico).. outras são as normas de redação de um texto de leis. Ezequiel). a saber: o autêntico significado de uma obra literária só se patenteia a quem procure reconstituir a mentalidade do respectivo autor e as circunstâncias em que escrevia. lhes queria atribuir. outras as da poesia. de tal modo que nenhun-i leitor interpretaria uma peça jurídica. não. quando interpretadas no sentido que um leitor moderno. Esta cláusula.. outras as de uma seção de crônicas. diálogos (Jó) .. 23. de resto. êste." (Citação transcrita de Gourbillon. nenhum leitor se pode julgar autorizado intérprete de tal ou tal seção bíblica.. se prende a uma regra geral de hermenêutica. a história do antigo Oriente. Platão dizia: "Mentiroso como um poeta.

getas hoje revogadas). arqueologia. intérprete deve.. Divino ali jante Spiritu. antes. na proporção em que melhor se vão conhecendo os processos de redação dos povos antigos. contida na Escritura. As recentes excavações no Oriente. 6 da crítica. Deus e as Escrituras não alteram a sua doutrina. etnologia e de outras ciências. do exame do contexto. da comparação com passos semelhantes.. basta refletir que nos estudos humanos sucede como nas coisas naturais. necessitar de remodelação à medida que se descobrem novos instrumentos de pesquisa. se vai manifestando deficiente a interpretação que a certos trechos se dava. Procurem-no. quando não se possuíam tão esmerados instrumentos de trabalho. por conseguinte. Neste trabalho tenham os intérpretes bem presente que o seu maior cuidado deve ser distinguir claramente e precisar qual seja o sentido literal das palavras bíblicas. sim. em pontos de importância secundária. pois. todavia. os escritores daquelas épocas remotas. examinar e distinguir claramente que géneros literários quiseram empregar. coisas tôdas de que se costuma tirar partido na interpretação dos escritores profanos. e êste labor pode. com o auxilio da história. crescem pouco a pouco e não se colhe fruto senao depois de muito trabalho.) 5 É o que se verifica principalmente na história das origens do mundo e do homem. entre doutrina divina inerrante. Distinga-se.. para tirar a limpo o pensamento do autor. 5 Isto poderia fazer crer que a Igreja mudou os seus dogmas e pràticamente nega a inerrância da Palavra de Deus." (Enc. o que se dá na Igreja não é mudança de dogma.. por conseguinte.. 315. tendo projetado luz valiosa sôbre as páginas bíblicas levam-nos a dizer que a genuína mensagem das Escrituras. Em nossos dias. já que esta só pode ser percebida mediante a consideração da sua face humana ou dos gêneros literários. aplique-se o exegeta católico àquele que é o principal de todos os seus deveres: indagar e expor o sentido genuíno dos Livros sagrados. mas há ainda hoje graves questões que não pouco agitam os espíritos dos católicos. o que se verifica é. pois. Assim precisamente sucedeu que a muitas questões o . o aperfeiçoamento dos métodos exegéticos e conseqüentemente a reforma da interpretação de um texto cuja mensagem em si mesma é una e constante. Tal conclusão seria precipitada. mudança da Palavra de Deus (o Magistério eclesiástico nunca declarou verdades de fé as proposições dos exe . e interpretação falível que os homens podem dar a êste texto. Acta Apostolicae Sedis 35 [1943] 310. o conhecimento mais exato de passagens da Escritura que nos ficam obscuras: "Não é para admirar se não se venceram nem resolveram ainda tõdas as dificuldades. o sua Santidade o Papa Pio XII manifestava em nossos dias a esperança deque os tempos futuros nos forneçam ainda novos meios de estudo e. não era sempre plenamente percebida pelos intérpretes antigos. valendo-se da ciência das linguas.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 29 O fato de que a inerrante Palavra de Deus está associada aos gêneros literários dos antigos semitas ainda é fecundo para explicar um fenômeno aparentemente estranho: hoje os autores católicos já não atribuem à Escritura proposições que antigos e medievais afirmavam em nome da mesma.. com tõda a diligência. O labor do homem é indispensável para se entender a Bíblia. Não é caso para desanimar. está claro que.

§ 2.mas na interpretação que os homens davam a esta. por conseguinte. errôneamente Interpretada em tal sentido.. mas em função de proposições religiosas. não resolvidas e indecisas nos tempos passados. não a Escritura mesma. a Sagrada Escritura também alude a conceitos de índole científica (física. era. Contudo. Galileo foi reabilitado e suas Idéias aceitas por exegetas e teólogos. astronômica. Pode-se. entra por vêzes em aparente conflito com as ciências da natureza. 318. comprovara-se que errônea era 4etermino4a interpretação dada à Sagrada Escritura. reconheça-se que o êrro estava contido não na Sagrada Escritura. observe-se que a finalidade em vista da qual Deus moveu os hagiógrafos a escrever. tanto por caúsa do propalado milagre de Josué (Jos 10.7-15) como pe10 fato de que a Encarnação teve lugar na terra. lhes parecia Inculcar o geocentrismo. só nos nossos dias com o progresso dos estudos se encontrou felizmente solução. esperar que tarnbëm as que hoje nos parecem sumamente complicadas e dificílimas. não são visadas em si. com efeito.0 A SAGRADA ESCRITURA E AS CIÊNCIAS NATURAIS Importa agora abordar mais detidamente o problema particular que acaba de ser insinuado. pelos autores bíblicos. já que o homem procura a salvação dentro do cenário da natureza. a qual deveria ser. com uma constante aplicação virão a ser um dia plenamente dilucidadas. a qual se distingue da veracontroversas. a saber: embora a Bíblia seja a inerrante Palavra de Deus. esta. Haja vista o caso de Galileo Gaifiei. Muitos de seus contemporâneos julgavam que contradizia à inerrante palavra da Sagrada Escritura. pois. dir-se-á: tôdas as vêzes que uma antiga sentença exegética seja comprovada falsa à luz das ciências modernas. podem exprimir veracidade relativa. Desta afirmação decorrem importantes conseqüências: às proposições religiosas da Sagrada Escritura cabe veracidade absoluta. quis ensinar aos homens £nicamente verdades que importem à salvação eterna. biológica." (Ibid. porém.30 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO e Em suma. cientista que por volta de 1615 começou a ensinar a tese do movimento da terra em tôrno do sol. quanto às referências de outra ordem. Estas noções profanas na Bíblia servem de mero veículo. etc.). Como será isto possível? Antes do mais. era estritamente religiosa: o Espírito Santo. depois de momentâneamente condenado pelo Santo Oficio (tribunal eclesiástico que não goza da infalibilidade própria do magistério universal da Igreja). de modo nenhum temas que diríamos profanos ou científicos. a Sagrada Escritura não ensina tais conclusões de ordem meramente científica. popular. Por isto é que. o centro do universo. pré-científica. Na realidade.) .

etc. sim. não há choque entre o mesmo e a ciência humana quando se ref erem às criaturas materiais. 1954). mas se adapta ao modo de falar dos contemporâneos. O leitor contemporâneo. Como se poderiam. enquanto a da Bíblia. Ora bastava ao hagiógraf o esta veracidade relativa. embora imperfeitas aos olhos do homem moderno. 92: ótimas são as observações de J.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 31 cidade científica. portanto.1-2. Ainda hoje na linguagem cotidiana se diz que "o sol nasce e se põe".Já que o Livro de Deus nada quer ensinar neste setor. 7 dit Pentateu que (Paris. pouco importavam as fórmulas cosmológicas ou biológicas. A cosmologia pressuposta pelo autor sagrado é. do morcêgo como "ave". Aplicação muito clara desta distinção tem-se na narrativa da criação em Oãn 1. impregnada únicamente de Veracidade popular. versando sôbre os mesmos temas. que formulassem verdades religiosas mediante os conceitos de ciência que estavam em voga no seu povo. pois. destinadas a refletir. aliás.4a. por assim dizer. conceber . o firmamento. Tais noções.. refere-os às suas causas próximas e dá-se por satisfeito depois de ter tomado conhecimento da estrutura de cada ente corpóreo. com o homem. biológicas. fala-se da baleia como "peixe". só a interessa. Ora o Espírito de Deus.. insustentável (a luz seria anterior às estrêlas. refletida 4 técnica. pois se baseiam na aparência que os fenômenos realmente apresentam. ao inspirar os hagiógrafos. aos olhos da ciência moderna. Procedem. de pontos de vista diversos: o cientista considera os elementos em si mesmos. tudo contempla de um plano superior. . todos sabem que não quer ensinar astronomia. Les plus ancienfles traditions "Os dogmas (na narrativa biblica da criação) são revestidos à moda do Oriente e realçados por poesia maravilhosa. não o interessa ir além disto (a menos que passe para os domínios da Filosofia e da Teologia). permitiu. inculcar que todos os sêres designados mediante "tais" e "tais" noções se relacionam com Deus como criaturas dependentes do Criador. cosmológica. haveria uma abóboda cristalina. ao contrário. pode ser assaz livre. pois êle não queria descrever as fases pelas quais o mundo se originou. A Bíblia. Steinman. como se vã. como se propunha o hagíógrafo.s. eram suficientes para designar o mundo visível e suas relações com Deus. servir-se de outra linguagem seria mesmo tornar a mensagem religiosa da Bíblia ininteligível aos seus destinatários durante muitos séculos. a tangente que passa por cada ser visível e o liga com Deus. desde que indicassem as diversas criaturas que cercam o homem). Estas expressões não deixam de ter fundamento objetivo.n. sem os induzir em êrro científico. a perf&ção do Altíssimo (no caso. sôbre a terra) todavia corresponde ao que se ensinava entre os judeus antigos. Por isto é que a linguagem do cientista é precisa. sim. mas. não julgou necessário revelar-lhes a estrutura do universo e dos sêres vivos. não tomará as alusões da Escritura como insinuação de teses físicas. Mesmo quando o hamem de ciências se refere ao "nascer" e ao "pôr" do sol.

fidelidade e amor a Deus. Da geração e da corrução 1. À luz dêstes princípios e exemplos. não carece. Ëste circular contínuo e monótono da história era dito "o ritmo do yin e do yang". de veracidade popular (a lebre está continuamente a mover os rnaxiliares e os lábios) . sérvio. Stobeu. De die natali 18. ep. 3..) O Testemunhos ou vestlgios desta ideologia oriental encontram-se em: Empédocles. Quaestiones naturales 1.ciclos do mundo presente mediante a ascese. a fim de passarem a viver num mundo transcendente. c." (Leão XIfl. 9. § 3 • 0 COMO O ISRAELITA ESCREVIA A HISTÓRIA Os antigos povos do Oriente. como diz S. as coisas de outra forma? Dizer que Deus concebeu em sua mente as nebulosas e criou a alma humana no fim de uma série de sêres em evolução não esclarece mais o mistério do que dizer que Deus plasmou o corpo do homem servindo-se de barro e plantou num oásis árvores frutíferas. Comentãrjo da Quarta Ecloga de Vergltio. sim! Como. de resto. porém.1. cap. S. 3. "a incessante alternância da Discórdia e da Amizade". por muito elevado que fôsse o seu grau de cultura. a tendência de muitos indivíduos era emancipar-se dos. cuja cabeça vem a morder a própria cauda (princípio e fim coincidem no mesmo ponto. "a aspiração e a expiração de Brama". enquanto um e outro se mantiverem dentro de seus limites e se esforçarem. li. 28s. mostra-se inconsistente a supeita de desacôrdo entre a Sagrada Escritura genu'mamente entendida e os genuínos dados da ciência.6. Provi denttssimus. os quais se repetem regulamente. c. o esquecimento e o repúdio do corpo e do corpóreo. 2. 'por nada afirmar irrefletidamente e não fazer passar por verdade bm conhecida aquilo de que não tenham conhecimento claro'. Agostinho.32 PAiA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO * Outro texto significativo é o de Lev 11. despertasse no israelita uma atitude religiosa. "a dança de Siva que produz e destrói sucessivamente os mundos". a sucessão dos tempos jamais conhecerá remate ou consumação final. Sonho de Cipião 7. . sem dúvida. 8. da barbârie dos escultores do estilo românico ?" 8 "2 certo que nunca haverá desacôrdo real entre o teólogo e o cientista. Representavam esta concepção recorrendo à figura de uma serpente enrolada. Agostinho. Cicero. mencionando-a na Lei. ou seja. acontecimentos já verificados no pretérito se reproduzirão em época futura. Censorino. Enc. Meteor. cf.30. 82. pouco prezavam a história. o foram Péguy e ClaudeI! Não falavam os antigos. com sentimentos de compaixão. caps. A classificação é. Séneca. deficiente. Fragm. 4. e tal veracidade era suficiente para que o Espirito Santo. Eclogae physicae 1. 1. Terão sido ingênuos (raïfs) os escritores javistas? Se o quisermos. ° Em conseqüência. De Genesi ad Iitt. 1. onde o hagiógrafo apresenta a lebre como animal ruminante. todo o movimento que se registra entre os dois têrmos nada de novo acarreta!). Aristóteles. 30 e 115. V. 1. intperf.. Era assaz generalizada a tese de que os séculos constituem ciclos fechados.

com o relato contínuo e fiel das fases sucessivas da evolução humana." (Ibid.. inscrições. Quando o faziam. exuberante (nos diversos acervos de ruínas excavados no Oriente até hoje.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 33 Isto explica que os antigos orientais pouco se tenham preocupado com historiografia. 315. documentos parciais . a historiografia se originou em época tão remota que causa surprêsa. entre as demais nações antigas do Oriente.. RelIer. assiriologia. ou seja. egiptologia. sob a influência de uma ideologia monoteísta assaz forte para superar crises. do Egito. na literatura dos hebreus. etc. 11 A história de Israel assim descrita se desdobra uniformemente. etc. suscitadas entre os hebreus pela idolatria dos povos vizinhos. apenas se descobriram elementos -. se distinguia singularmente na arte de escrever a história. aquêles se comprovam fiéis à verdade." 10 Com efeito. Quando é possível controlar as afirmações dos cronistas de Israel à luz de textos profanos. . a expressão da fantasia popular ou de uma religiosidade politeísta. E como se explica que os rudes judeus. a transcrição de documentos dos arquivos orientais . que ocupa lugar priviIegado entre todos os povos civilizados do Oriente. não se encontrou uma síntese histórica dos tempos antigos. Meyer. condizentes com o que referem outras fontes. mitológicas. mas eram. 1954).para se reconstituir a história da Assíria. Em Israel. de sorte que os relatos já não transmitiam a notícia de fatos ocorridos. tenham com tanto esmêro cultivado a historiografia? E. particularmente Interessante é a de W. visavam apenas episódios restritos ou envolviam as narrativas dentro de concepções lendárias.). Pio XII chamava a atenção para tal fenômeno em sua Encíclica Divino 10 ai/Jante Spiritu: "As pesquisas comprovaram claramente que o povo israelita. paleontologia. Na Grécia surgiu mais tarde. e produziu logo de início obras de importância. 1921. Ora nesse ambiente o povo de Israel se distingue por ter cultivado a história. em grau maior ou menor. e isto tanto pela fidelidade como pela antiguidade das narrativas. sômente Israel e a Grécia possuem autêntica historiograf ia. Geschichte der Altertums 14 1.) 11 Dentre as várias obras que nos últimos tempos têm proposto o confronto e a concórdia entre os dados da Bíblia e documentos de arqueologia... que coincide com os escritos bíblicos. mestres da historiograf ia ocidental. ultrapassando as categorias culturais do seu ambiente. os críticos modernos racionalistas: "Dentre todos os povos asiático-europeus.. é delineada a história do povo em traços contínuos e de modo que pressupõe a pesquisa de fontes. aberrações. Und die Eibel hat cfocft recht 1 (Duesseldorf.. não sem admiração. É o que reconhecem. e o ter feito com esmêro tal que só foi superado pelos gregos. 227.

evocando os acontecimentos do êxodo do Egito e os do regresso após o cativeiro babilônico (cf. 13 devendo as narrativas de feitos pretéritos servir de escola às gerações pósteras. sabiam que. referida em Rs. Aliás. São. Por exemplo. nos grandes acontecimentosda história comunicações. a história era geralmente considerada qual "mestra da vida". 14 A pãg. sempre que possível. ninguém estranhará. justamente nas seções paralelas que o autor de Crôn. Deus fala e age pelos acontecimentos. movidos por tal ideologia. porém.. ainda os seguintes itens: a) a historiografia israelita é tôda pragmática-religiosa.Jer'31. Os israelitas tiveram consciência particularmente viva dêste princípio. 44. 14 Muito interessante a êste propósito é confrontar os livros dos Reis (San e Rs) com os das Crônicas. magistra vitae luz da verdade. o passado lhes aparecia qual mensagem divina a prenunciar reaJizações futuras ou a admoestar a melhor conduta de vida.. Éstes.1-5. . por revelação divina. Os 2. Tenham-se em vista. posterior aos de 8am e Rs. o historiador deduz a lição contida nos fatos. que. Is 35. inconfundível com a das outras nações do Oriente. nota-se.1-l0. 40. portanto. 15-17. viam. pois.4. que passa pela Casa de Davi no reino meridional. valiosos. 12 Entende-se. de Deus. descreviam-nas com os traços característicos de duas "redenções" anteriores de Israel. ora mais claras ora mais veladas. mestra da vida" (De Oratore 2. a escassez de pormenores que se diriam de ordem meramente profana. serão indicados exemplos dessa escassez pragmática. é exaltado em Crôn com títulos que ate então só eram atribuidos a Moisés ("homem de Deus". Não seria justo. pois. procura realçar o sentido religioso dos acontecimentos. Em conseqüência. pois. a fim de se poderem interpretar com exatidão as crônicas existentes na Sagrada Escritura. omitindo uns. ou seja.16-19. em grande parte.. os hebreus julgavam-na tôda perpassada por um plano divino. pois não interessa a linhagem messiânica. quanto a Davi.9). mas destituídos de importância para a salvação dos fiéis. entre os próprios pagãos. ou seja. de fato. sim.26-45.. os escritores de Israel se tenham preocupado com a redação de suas crônicás.. que nela se vai atuando e tende à consumação no fim dos séculos.34 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A razão do fenômeno está na religiosidade de Israel. Outras observações se devem acrescentar à precedente. . a fim de melhor pôr em evidência o significado religioso dos episódios. 2 Crôn 12 Muito claramente se afirma esta concepção nos escritos dos Profetas. cf. porém. selecionou os dados da história. é silenciada em Crõn. 11.8s). 31-36. querendo predizer a futura Redenção messiãnica e a instauração visível do reino de Deus. a história do reino cismático do Norte (Samaria). para o erudito. paralelos entre si.. afirmar-se apenas esta nota da historiografia em Israel. Vis. dando-lhes côngruo desenvolvimento e realce. em algumas passagens historiográficas da Sagrada Escritura. 13 Cicero tem a história na conta de "lux veritatis . Longe de professar que a sucessão dos tempos carece de sentido. acrescentando outros na trama anteriormente redigida.

Tal proceder redacional tem repercussão nos métodos de exegese: em presença de uma noticia de história aparentemente errônea na Sagrada Escritura pode-se supor seja devida a citação implicita ou a um autor anônimo. Algo de semelhante se verifica ao se compararem entre si as seções paralelas do primeiro e do segundo livro dos Macabeus. 1 Mac 5. cheia de entusiasmo religioso). ora o Altíssimo não permitiu fizessem a descrição do pretérito como se fôsse algo de fechado em si.17-20. cf.28-30 (onde se poderia esperar). 1 Crôn 17.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 35 8. Guitton.12-17. 1947).23.5.1-28 (descrição muito mais longa e calorosa. Note-se. No segundo. 12. faz questão de notar que pelo monarca pagão era o Senhor quem exortava à prudência. 2 Crôn 9. 2 Mac 3. 15 Esta designação talvez pareça paradoxal. os nossos hagiógrafos inclusive. mas mostrar os traços de um grande desígnio divino que. duns .1. 6. de "direitos autorais". 29. O que interessava os autores bíblicos não era nem simplesmente contar o passado.14. Em conseqüência do seu pragmatismo. Em conseqüência. a cronograf ia bíblica é por exegetas modernos chamada "história profética". a cujos dizeres o hagiógraf o não intencionava subscrever. enquanto a profecia ao futuro. Le ddveloppement des idées Testament (Aix-en-Provence. 43. nem perscrutar o porvir. 13. Em 2 Crõn 35.31-43 e 2 Mac 10. perseguidor do povo de Deus) e 2 Mac 9. ao ensinamento por escrito ou à atividade literária se atribuía pouco valor. 15. de Judá. o cronista. entre outros. homens que tudo viam à luz de Deus. b) o senso de propriedade literária. constituindo o esquema ou prenúncio de realidades maiores vindouras . 4.15-17. J.8). 9. o relato paralelo falta em 4 Rs 23.29. o reino de Judá é dito "o reino de Javé" (cL 2 Crôn 13. embora nada fizessem para se distinguir do autor de tais ditos. 5.21s.8). se vai desdobrando em fases simétricas. o trono de Salomão é chamado "o trono de Jave" (CL 1 Crón 29. pois a história se refere ao passado. porém. ao contrário. as Intervenções de Deus em favor dos seus fiéis são muito mais freqüentes e vivamente inculcadas: notem-se 1 Mac 6. fêz que redigissem as suas narrativas de modo a conterem alusões ao futuro. era muito exiguo no Oriente antigo. "servo de Deus". os historiadores semitas.4). que a história bíblica foi escrita por homens inspirados (no sentido acima exposto). É bem possível que não tivessem a intenção de garantir a veracidade das passagensassim transcritas. em tal caso o érro não teria sido endossado pelo historiador sagrado e não afeta15 l'Áncien Veja-se. ao referir uma admoestação do Faraó Necao ao rei Josias.o que justamente é profecia.1-16 (narrativa sóbria da morte do rei Antioco Epifanes. quando comparados com o magistério de viva voz. praticavam assim o que se chama "citações implícitas". imutável em si. 7-10). adaptadas ao desenvolvimento moral e inteletual do gênero humano. se permitiam transcrever documentos alheios sem indicar as respectivas fontes. O autor de 2 Mac não hesita mesmo em interromper o fio da história para tecer reflexões teológicas em tôrno dêste ou daquele episódio (cf. 7.

o decreto da Pontificia Comissão Bíblica de 13 de fevereiro de 1905 (Denziger. Em 1 Mac 6. Genêse. 1909).1-16. transcreveu um documento alheio. que reconstituir o ponto de vista próprio do autor de cada um dos documentos.4a e Gên 2. Em Gên 6-9 têm-se dois relatos do dilúvio justapostos com seus pormenores próprios. redigia então com suas palavras próprias o teor da oração. Dt 33.36 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ria a inerrância da Escritura. 17 o historiógrafo semita também não se preocupava muito com a exata cronologia e topografia dos acontecimentos. um autor transcrever dois ou mais relatos do mesmo fato provenientes de fontes diversas sem se preocupar com a fusão harmoniosa dos mesmos numa só peça literária bem trabalhada.os textos de Gên 49.11-17. 2 Mac 1. não se dava grande importância a pormenores tais como os do acabamento literário de uma obra. pois.. Cliaine. Esta tendência se explica pela dificuldade de abstrair. as quais.1-3. É o caso. 1898. é preciso conste com certeza que (1) o hagiógrafo. Tal caso é freqüente na Torá (Lei). onde sê encontram coleções de leis que. que caracterizava os hebreus. muitas vêzes.1-29 ocorrem três versões da morte do rei Antíoco IV Epifanes.24. embora possam bem ser conciliadas pelo exegeta atento. 11. 17 Os comentadores apontam como exemplos . "modernizar" obras dos antigos.naturalmente sujeitos a dúvidas . 2-27 (bênção de Jacó moribundo sôbre os seus filhos). para que se admita uma citação Implícita em determinada passagem da Bíblia. tendo. de fato. divergem entre si. 16 Dado que o cumprimento destas duas condições dif'icllmente se pode averiguar. sem denunciar explicitamente o seu trabalho de remodelação. Podia. um tanto desconexos entre si e destituídos de explicação que guie o leitor. por exemplo. 9. onde se encontram duas narrativas da criação do mundo (Gén 1. Enchiridion Symbolorurn. ao referir ditos alheios. como se fôra proferida tal qual figurava no texto. em La Sainte flib1e de Pirot-Clamer I. Lagrange. J. 489. visto que o senso de propriedade literária não suscitava escrúpulos. A. "Deutéronome". Clamer. o historiador usava do discurso direto de preferência ao indireto. que êle colocava nos lábios de outrem. Contudo. (Paris. Ao leitor ficava a tarefa de fazer a síntese de dados às vêzes aparentemente contraditórios entre si.740. (2) sem ter a intenção de o aprovar ou de garantir a sua veracidade.24) redigidas independentemente uma da outra.2-29 (bênção de Moisés sôbre as tribos de Israel). "Genêse". de Gên 1. à primeira vista. 494. para isto. Em tais casos podia acontecer que o hagiógrafo não julgasse necessário reproduzir verbalmente o discurso. ibid.1-2. 1953). . embora justapostas.4b-3. assim como o trabalho de mãos sucessivas. supõem circunstâncias e fases diversas da história de Israel. autores posteriores se permitiam retocar. Freqüentemente indicava as localidades e contava os tempos de maneira 16 cf. Cf. ampliar. 539. em Revue bftlique. torna-se raro o recurso à hipótese de citação Implícita para a solução de algum problema exegético.

portanto. 32.11. mais aptos a transmitir determinada mensagem aos destinatários do livro. O primeiro dever da exegese científica neste particular consiste em estudar atentamente tõdas as questões literárias. expressa em famosa carta datada de 16 de janeiro de 1948: "O problema das formas literárias dos onze primeiros capítulos do Gênesis é muito mais obscuro e intrincado (que o da origem do Pentateuco). Podia servir-se também de cronologia esquemática. 19552). de um lado. duração. entram na categoria de mitologia ou fábula. negar ou afirmar a historicidade em bloco sem lhes aplicar indevidamente as normas de um gênero literário sob o qual não podem ser classificados. 8. os ml2e primeiros capítulos cio Gênesis pertencem a gênero literário próprio. 16. 15. históricas.1-32. . 28. Referem. tenham-se na memória. acarretando làgicamente os períodos de vinte e oitenta anos (cf. por exemplo. Também o autêntico grau de cultura e civilização dos quadros e personagens bíblicos parecia negligenciável aos historiadores sagrados.17-24 e 5.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 37 vaga. é de esperar se nos tornem claras algumas expressões de Gên 1-11 hoje ainda sujeitas a mais de uma interpretação. Para tornar mais significativos os episódios antigos. Jz 3. projetando no passado os dados da cultura do seu tempo. científicas. veja-se E.1. Podemos concordar em que êstes capítulos não formam uma história no sentido clássico e moderno. 5. meses ou anos não indicam. Bettencourt. mediante vocabulário e estilo muito dependentes de textos profanos. 18 g) em particular.20. as listas genealógicas dos setitas e dos semitas. culturais e religiosas relacionadas com êstes 18 A respeito. mas.3. em absoluto. 67s. transmitidos. acontecimentos ocorridos no pretérito. As vêzes os números de dias. em Gên 4. É esta a mente da Pontifícia Comissão Bíblica. não seria lícito. assim no livro dos Juízes o período de quarenta anos (duração média de uma geração) costuma designar acontecimentos rematados. É o que se dá na "pré-história bíblica" (Gên 1-11). 4. sem dúvida. qualidades dos indivíduos a quem são atribuídos. Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das categorias clássicas e não podem ser julgadas segundo os gêneros literários greco-latinos ou modernos. aludem provàvelmente a certos tópicos das cosmogonias e da história das origens de outros povos.30. o hagiágrafo não raro os descreve anacrônicamente. cujo significado será exposto adiante à pág. porém. nem por outro lado. interpretá-los tão segura e rigidamente como as demais seções de historiografia da Bíblia.31). Com o decorrer dos tempos e o progressivo conhecimento do mundo oriental antigo. Não se lhes pode. 13. 179-198. mas é preciso confessar também que os atuais dados científicos não permitem dar uma solução positiva a todos os problemas que êles suscitam. Ciência e Fé na História dos Prinjór- dios (Rio. sim.

sua psicologia. epigráfica e literária. em linguagem simples e figurada. encontrarão aplicação freqüente e fecunda. numa palavra. Sàmente assim se pode esperar entender mais claramente a verdadeira natureza de algumas narrativas dos primeiros capítulos do Gênesis. Enquanto se espera. Proclamar de antemão que tais narrativas não são históricas no sentido moderno da palavra induziria fàcilmente a se acreditar que elas não o são em nenhum sentido. em seguida. reunir sem preconceitos todo o material das ciências paleoiflológica e histórica." 19 Eis as principais noções que elucidam o significado da expressão "BÍBLIA.38 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO capítulos. quando na realidade relatam as verdades fundamentais pressupostas à dispensação da salvação. é preciso praticar a paciência. juntamente com a descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. seria preciso investigar os sistemas literários dos antigos povos orientais. seria necessário. 19 Acta ApostoUeae Sedis 40 (1948) • 46s. adaptada às inteligências de uma humanidade pouco desenvolvida. sua maneira de exprimir o pensamento e sua noção mesma de verdade histórica. Nas páginas que se seguem. O LIVRO QUE DEUS INSPIROU". . que é prudência e sabedoria da vida.

4 Es 18. VI a.outros descendentes de Sem. HEBRAICO MOASITIc0 -PONtUO . todo o povo messiânico ou israelita tomou outrossim o nome de "judeu" ou "judaico". ef. Judá era um dos doze filhos de Jacã ou Israel.C.24). dizia-se que a inspiração divina não extingue a contribuição do escritor humano na redação dos livros sagrados. ficando o hebraico reservado para o culto sagrado. 1 Entre . 1V/til a. um dos netos de Abraão. no tempo de Cristo. 1 Éste mesmo povo é também dito "israelita". também descendente de Sem: o povo hebreu". de modo a vir a ser nos séc. CRENTAL DICO ASSÍRIO-BABI.. É o que nos leva agora a investigar e analisar as particularidades de expressão e estilo com que os autores do Antigo e do Novo Testamento marcaram as páginas bíblicas. porém. conta-se ainda Arara. a língua usual do próprio povo de Abraão (cl. filho de Noé (cl. mais rica. Gên 10. em maior número. do qual tomou nome a nação arainéla ou síria.). Três são os idiomas comumente ditos sagrados. residente na Sina e na Alta Mesopotâmia. o aramaico e o grego. Foi de Heber que tomou nome o povo oriundo de Abraão. Ne 13. era o aramaico o idioma falado entre os judeus. O adjetivo "hebraico" se deriva do nome do Patriarca Heber ('Êbher ou 'Ibhrfj.21-25). DIOMAS SEMITaS OCIOE ' iI . O aramaico se foi tornando cada vez mais comum entre os povos do Oriente (principalmente em suas relações diplomáticas.26). já que a tribo de Judá se tornou a estirpe do Messias. Chama-se igualmente "o povo judeu".CAPÍTULO III PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS No capítulo anterior. idiomas de que Deus se quis servir para falar aos homens na Bíblia: o hebraico. é o hebraico. voltaram à Palestina e reconstituiram a nação sagrada (sée. La SETENTRIONAIS Nico ERIDIONAIS CANANE U ÁRA' " ar tOPE ANTIGO CANANEU FENICIO. tradicional. era dotada de língua muito semelhante ao hebraico. e sutil do que êste. apelativo proveniente de Judã. mormente quando após o exilio babilônico foram os filhos de Judá que. cuja língua materna.C. nome derivado de Israel (ou Jacô). um dos pósteros de Sem.

mesmo os que escreveram em língua grega. torna-se importante para o estudo dos livros sagrados ter em vista as notas constitutivas do que se chama "o gênio" ou "espírito" da língua hebraica. no Antigo Testamento. da cultura religiosa do povo de Israel. É preciso aprender a ler entre as linhas e procurar penetrar aos poucos no ambiente de vida em que se movia o autor sagrado. § 1. cit. o qual. Jer 10. o presente capítulo se prolongará no cap. hajam sido redigidos originàriamente em aramaico. lhe oferecem.a mentalidade semítica ou. Mateus. em grande parte. Deve-se notar ainda que a tradução gtega do Antigo Testamento dita dos Setenta Intérpretes. ambiente que transparece no texto biblico.8-6. 144. veículos de mentalidade bem característica . pois. Ésses três idiomas são. Serão expostas abaixo no § 1. É possivel que também os livros de Tobias e Judite. eram hebretis ou. 111/11 ao.12-26. oriunda em Alexandria (Egito) nos séc. João. "O conhecimento mesmo das linguas originais se torna inútil. Mateus).0. herdeiros. pode ser considerado obra-prima do gênio literário semita. ob.40 BABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Os idiomas hebraico e aramaico. o livro da Sabedoria e o 2. na Sagrada Escritura. 45. ao qual se seguirá o § 2. 4 Charll. pertencem ao grupo das línguas semiticas. hebraica. 2 Em hebraico foram redigidos quase todos os livros do Antigo Testamento. . Em grego foram concebidos." Pergunta-se. Charlier julga que o Evangelho de S. La Zecture chréticnne de Ia Bible (Maredsousa. concernente aos antropomorfismos bíblicos em particular. hoje só existe em tradução grega. Com efeito. dos quais atualmente só se conhecem traduções. embora escrito em grego vuigar correto. em boa tradução vernácula.er. Cf.. porém. é de grande valor filológico para se reconstituir tanto o teor original de algumas passagens como a mentalidade dos antigos judeus. assim como do Evangelho de S.. O aramaico é o idioma original de fragmentos do Antigo Testamento (Dan 2. Todavia quem se compenetra da mentalidade ou do gênio semítico. 7. Esdr 4.18. outrossim todo o Novo Testamento (com exceção do Evangelho de S. mais precisamente. torna-se capaz de discernir os matizes e as finuras de expressão que os livros sagrados. os escritores bíblicos. difícil é à maioria dos fiéis que desejem ler a Sagrada Escritura. 1950).11). 1 Sendo assim. pelo menos (como no caso de S. De resto.4b-7.28. adquirir o conhecimento dos idiomas originais.0.0 dos Macabeus. quais as principais características de pensamento e linguagem dos autores bíblicos? 2 Eis como se localizam os dois idiomas dentro da respectiva fasnilia lingülstica: 3 O. portanto. Lucas). 0 O GÉNIO DA LINGIJA HEBRAICA Não há dúvida. IV. que há de considerar o uso do nome e dos números nas páginas sagradas. se não é vivificado por uma comunhão simpática e intuitiva com o gênio próprio da civilização à qual pertencia o escritor biblico.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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1. O gênio semita é intuitivo muito mais do que abstrativo. O que quer dizer: o judeu, ao perceber um objeto; não se preocupava grandemente com o discernimento de notas essenciais e acidentais do mesmo; apreendia-o e descrevia-o simplesmente com suas características concretas, individuais. O concreto interessava-o mais do que o abstrato.
Eis alguns casos em que o israelita, em vez de usar conceitos e têrmos abstratos, universais, se comprazia em circunlocuções de caráter mais concreto: Em lugar de dizer "tomar posse, dominar", o judeu às vêzes preferia a expressão "lançar a sandália sôbre. .", que lembrava o gesto concreto ou o cerimonial da tomada de posse: "Sôbre Edom lançarei a minha sandália, Sôbre a terra dos filLsteus cantarei o meu triunfo " (Si 59,iO.) ei. si 107,10; Gên 13,17; Dt 25,9; Jos 10,24; Rut 4,7. A expressão "sentir-se feliz, alegre" podia ser substituida pelos dizeres "ter a alma saciada de gordura", visto ser a gordura sinal de suficiência ou plenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina: "Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, E de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor." (Si 62,6; cf. 51 35,9.) Quando alguém se julgava "em perigo de vida", dizia concretamente que "trazia a sua.alma nas mãos", já que "ter nas mãos" é a atitude que imediatamente precede a entrega: "Minha alma está sempre em minhas mãos, Mas não esqueço a tua lei." (51 118,109.) Cf. Jz 12,3; 1 Sam 19,5; Jó 13,14; Est 14,4. "Expor a própria vida" ou "estar decidido a morrer" era equivalente a "tomar a própria carne entre os dentes", ou seja, morder-se: "Tomo a minha carne entre os meus dentes, Coloco a minha vida em minha mão." (Jó 13,143 A Idéia abstrata de posse ou de largueza, liberalidade era expressa pelo têrmo concreto "mão", já que a mão é o órgão que diretamente apreende ou distribui. Assim lê-se em Lev 5,7: "Se sua mão não atingir o valor de uma ovelha,...". O que quer dizer: "Se suas posses não lhe permitirem comprar uma ovelha,. 3 Rs 10,13: "O rei Salomão deu à rainha de Sabá tudo que ela desejava.., como a mão do rei Salomão", Isto é, ".. . de acórdo com a opulõncia de um rei tal como Salomão"; Gên 43,34: "A porção de Benjamim era cinco mãos mais abundante que as porções de todos êles (seus irmãos)", frase em que "cinco mãos" significam "cinco vêzes".
5 Observamos que as traduções modernas da sagrada Escritura não raro usam os verbos próprios, em vez de ficar prêsas às expressões mais concretas do texto original. Os semitismos não seriam sempre inteligiveis ao leitor moderno.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

A figura de linguagem "mão curta" ou 'encurtada" designava parcimônia ao dar: "A máo do Senhor seria curta demais? Verás sem demora se acontecerá ou não o que te disse!", falava Javé ao anunciar as codornizes no deserto (Núm 11,23); "A mão do Senhor não é curta demais para salvar." (Is 59,1.) "Governar" tinha por sinônimo o têrmo mais concreto "julgar", e, em vez de 'Governador", podia-se dizer "Juiz", visto que, num povo primitivo, a função mais freqüente de quem governa é a de julgar os litígios entre os súditos. Haja vista o título do livro dos "Juizes" (= governadores de Israel desde os tempos de Josué até a monarquia). "Poder, fôrça" era conceito expresso pelo vocábulo "chifre", pois é neste que parece residir a fôrça de muitos animais:

"(Deus é) meu escudo é o chifre de minha salvação (= a fôrça que me salva)" (SI 17,3.) "Abaterei todos os chifres dos malvados, E os chifres dos justos serão exaltados." (S1 74,11.) A tendência a fixar a atenção sôbre os indivíduos concretos levava o hebreu a realçar o que há de dinâmico em cada ser; comprazia-se em considerar o comportamento e os efeitos dé pessoas e coisas, mais do que o seu Valor estático, essencial. Assim tudo, de certo modo, se podia tomar vivo e agente, para o semita. Os substantivos do vocabulário hebraico são os próprios verbos ou derivam-se de verbos; o verbo (ordinàriamente constituído por três consoantes) é a palavra fundamental do léxico israelita. Isto bem mostra que o aspecto principal sob o qual o judeu visava cada objeto era o aspecto dinâmico, ativo. Em particular, note-se que o têrmo dabhar, que originàriamente significava "palavra", podia igualmente designar "coisa", pois tôda coisa era pelos judeus concebida primàriamente como efeito, efeito, sim, direto ou indireto, da palavra criadora de Deus. Conseqüentemente às premissas até aqui expostas, tendia o semita a focalizar, acima de tudo, a importância vital, a mensagem prática, que pudesse estar ligada às pessoas ou coisas apreendidas. O orador e o escritor, ao dissertarem, baseavam-se muito na sua experiência pessoal e visavam despertar impressões semelhantes, muito vivas, nos seus ouvintes e leitores. Procuravam transmitir da maneira mais penetrante possível um estado de aima. Isto faz que uma página de literatura semita seja impregnada de movimento, variedade de pessoas e coisas que se sucedem com realismo; emoções, afetos diversos a perpassam. Já que a linguagem
O "Ce que, par ãxemple, nolLs considérons comme personnification littéraire correspond chez les Sémites à une perception animée du monde extérietr, car l'esprit sémitique saisit l'un4vers dans son moizvement; ii est plus sensible au dylZanflSme de la vie qu'd la cotitemplation des idées et des /orines." (E. Beaucamp, "Poésie et seus de la nature dans Ia Bible". em Bible et vie chrétienne 11 [19551 25.)

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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semita ficava particularmente ligada à experiência, diz-se que ela evocava ainda mais do que exprimia. 4. Consciente de que, para transmitir a experiência ou as intuições, as palavras são por vêzes pobres, o semita recorria freqiientemente aos gestos, às pausas, aos artifícios da entoação de voz. O falar dos antigos judeus terá sido exuberante, teatral, como o de certos povos orientais de nossos tempos. Dada a sua vivacidade, o israelita era muito dado às expressões fortes, hiperbólicas ou contrastantes.
Hipérbole muito ousada é a do rei Benadad da Síria, que, desejando chamar a atenção para o seu numeroso exército, exclamava: "Tratem-me os deuses com todo o rigor se a poeira da Sarnaria basta para encher a palma da mão de toda a gente que me segue 1" (3 Rs 20,10.) Hiperbólicas também são as expressões "a terra inteira, todos os povos", que certamente se referem a certas regiões ou nações apenas, em Gên 41.54.57; Dt 2,25; 2 Crôn 20,29; At 2,5. Visando distinguir entre "amar mais" e "amar menos", o judeu empregava os têrmos "amar" simplesmente e "odiar", a fim de que a oposição mais se evidenciasse. É o que se verifica, por exemplo, na frase de Jesus: "Se alguém vem a Mim e não odeia pai, mãe, espõsa, filhos, irmãos e irmãs, até mesmo a própria vida, não pode ser meu discipulo." (Lc 14,26s.) O "odiar" desta frase é ôtimamente explicado pelo texto paralelo de Mt 10,37, onde se lê "amar menos". No mesmo sentido, em Mal 1,3, diz o Senhor: "Amei Jacó, e odiei Esaú." (Cf. Ram 9,13.) Em Jo 12,25 afirma Jesus: "Quem ama a sua vida, perde-a; e quem odeia a sua vida no mundo presente, guarda-a para a vida eterna." Nesta sentença a oposição "amar-odiar" significa "satisfazer desregradamente" e "coibir devidamente" as tendéncias da alma, podendo a coibição ou renúncia levar até a morte do martírio. Os judeus eram particuiarmente dispostos a recorrer aos contrastes pelo fato de que a lingua hebraica carece de forma p1rópria para indicar o grau comparativo dos adjetivos. O confronto podia ser expresso pela justaposição de têrmos opostos, sendo a oposição subentendida como algo de relativo ou gradativo apenas. Esta observação ajuda a entender o texto do Antigo Testamento citado por Jesus: "Desejo (a prática de) misericórdia, não (a oferta de) sacrifício." (Mt 9,13; cf. Os 6,6; 1 5am 15,22.) A afirmação quer dizer: "Mais do que os sacrifícios rituais, agrada-me o exercício da caridade e da misericórdia.' Em Mt 22,14 declara ainda o Senhor: "Muitos são chamados, poucos escolhidos." Axioma que no seu contexto semítico provávelmente significa: "Maior número é o dos homens chamados (à fé); menor número, o dos escolhidos (para a bem-aventurança eterna)

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

5. Após quanto foi dito acima, entende-se bem que os israelitas usassem de freqüentes comparações e imagens, visando também por esta via impressionar mais profundamente os ouvintes. Já Que os hebreus tendiam a considerar o aspecto dinâmico e vital de cada ser, sabiam aproveitar-se largamente dos objetos materiais que os cercavam, para ilustrar verdades abstratas ou sobrenaturais; daí, na Sagrada Escritura, o uso abundante de símbolos. Êstes constituem, sem dúvida, um artifício muito apto a traduzir o sentido concreto e o valor que para a vida têm as proposições religiosas. As parábolas não são senão símbolos mais desenvolvidos ou explicados: constam de uma história fictícia, à qual o narrador liga determinada mensagem doutrinária. Para se depreender esta lição, não se pode esquecer que na parábola nem todos os elementos são portadores de significado superior; alguns são envolvidos na narrativa ijnicamente para sustentar os elementos-chaves (assim na parábola do filho pródigo, em Lc 15,11-32, não se queira atribuir valor doutrinário ao anel nem ao calçado dados ao perdulário que volta, nem ao vitelo abatido, vv. 22s; êstes pormenores visam ftnicamente tornar mais viva a lição da parábola, que inculca a misericórdia de Deus para com o pecador). O simbolismo tinha especial aplicação para exprimir atitudes ou qualidades de alma; em vez de usar têrmos próprios, neste árduo setor os judeus recorriam freqüentemente a expressões derivadas do mundo irracionai, as quais não deixam por vêzes de nos causar estranheza (contudo o recurso se compreende bem à luz da mentalidade dos semitas: considerando primàriamente a natureza em função do Criador e do homem, fàcilmente ligavam o conceito de determinada qualidade de Deus ou do homem com tal elemento material). Haja vista um ou outro exemplo:
a idéia de fraqueza humana (tanto moral como física) era expressa pelos têrmos 'carne, poeira e cinza: "Os egipcios são homens, não Deus 1 Os seus cavalos são carne, não espirito." (Is 31,3; ci. Gên 18,27; 36 30,19) a fortaleza, ao contráto, era associada à idéia de montanha, rochedo. Por isto Javé é a montanha, é "meu rochedo", no qual o homem se abriga encontrando amparo (cf. Si 17,3; 18,15; 613.8) é) a beleza, o encanto (mesmo espiritual) eram significados por simbolos muito materiais. Particularmente interessante, sob éste ponto de vista, é a figura do espôso no Cântico dos cânticos, cujo aspecto atraente é assim descrito "Meu bem-amado é fresco e rubicundo; Distingue-se entre dez mil. Sua cabeça é ouro puro, Seus cachos de cabelos, flexíveis como ramos de palme ira, São negros como o corvo.
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veja-se o Apêndice a êste capitulo.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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Seus olhos são como pombas à margem dos riachos, As quais se banham em leite Suas faces são como plantações de bálsamo, Como canteiros de plantas aromáticas. Seus lábios são como lírios Dos quais corre a mirra mais pura. Suas mãos são cilindros de ouro Ornados com pedras de Tarsis. Seu busto é obra-prima de marfim, Recoberta de safiros. Suas pernas são colunas de alabastro, Pousadas sõbré bases de ouro puro. Seu olhar é como o do Líbano, Elegante como o cedro. Sua palavra é doçura. Tõda a sua personalidade é puro encanto. Tal é meu bem-amado, tal meu amigo, Õ filhas de Jerusalém 1" (Cãnt 5,10-16.) Neste quadro são postas em realce três qualidades do espõso: fortaleza e virilidade, designadas pela comparação de seus membros com peças de ouro, mármore, marfim (vv. 11.14.15) ou com os imponentes cedros do Libano (v. 16); raça e beleza masculinas, significadas pela menção de cõres, elementos aromáticos ou doces (flõres, árvores) nos vv. 10.11.13.15.16; pureza e fidelidade, traduzidas pelas imagens da pomba, da água, do leite (v. 12). A mente do autor não se deixava perturbar pela combinação de símbolos tão heterogêneos; de cada um déstcs focalizava apenas o aspecto que se enquadrava dentro do conjunto e podia evocar a idéia de encanto masculino. Para desfazer a impressão de rigidez, talvez suscitada pelos símbolos de pedras e metais preciosos, o hagiágrafo em outros lugares recorria a imagens de ordem diversa, que completavam as anteriores: "Corre meu bem-amado, E toma-te semelhante à gazela Ou ao pequenino da corça Sôbre as montanhas de bálsamo 1" (8,14; cf. 2,17.) Por sua vez, a figura da espôsa no Cântico dos Cânticos é descrita com Imagens paralelas às do espõso: a beleza feminina aparece sob os sinais de flõres, palmas, objetos perfumados ou doces (cf. 2,1s; 4,10s.14); por seu encanto e pureza, a jovem é comparada à pomba (6,8s; 1,15; 4,1; 2,14); a sua fecundidade é assemelhada à de animais domésticos e cereais (4,2; 6,5s; 7,3s) ; 8 d) a índole agradável, aceitável, de uma oferta feita a Deus era simbolizada pelo imaginário perfume da oferenda. Para dizer que Javé a aceitava, o semita afirmava que o Senhor sentia tal aroma com prazer. Foi o que, conforme Gên 8,24, se deu quando Noé ofereceu o sacrificio após
8 Ao interpretar desta forma os simbolos do Cântico dos Cânticos, seguimos a autorijade de T. Boman na sua famosa obra Das hebraeische Denken im Verglelch mit dem griechischen ( Goettingen, 1954), 62-69.

O israelita não era muito propenso a subordinar entre si as proposições do Seu discurso. 30. não era a dos arquitetos. no decurso da melodia. . O judeu contemplava o seu objeto de um lado. ei norz par une mise en correspondance de nos dii férenis états d'àme avec lordonnance du monde matérieL" Eeaucamp. suas aves a cantar.. art. em frases coordenadas à primeira.. ilustra igualmente bem o proceder estilístico dos semitas: a linha. 8. tendia a desenvolver o pensamento conforme um esquema que se poderia assim reproduzir: numa proposição inicial. 1 5am 26. a seguir.19). Assim também as frases paralelas dos semitas não são meras repetições. mas apresentam-se cada vez mais densas.. principalmente quando O "Les écrivain. feito isto. dando a perceber ao leitor novos matizes da idéia dominante. considerando a ação de tudo iso na sensibilidade e na mente do homem. que constroem gradativamente de baixo para cima. nossos hagiógrafos. nenhuma dessas voltas. de uma noite de luar ou de estrêlas múltiplas. ou seja. apreende com clareza cada vez maior o ponto final. esta. as orações dos santos sobem a Deus como agradável incenso. onde já ressoava antecipadamente todo o grande tema que. A figura de uma espiral que se vai estreitando na direção de cima para baixo. mas a dos músicos. Aussi La communion entre l'homme et Les réalités extërteures s'établit-eLle par relation de mouvement à m. suas fontes. voltando aos mesmos lados. Em suma. para ir aos poucos abrangendo tôda a realidade. nâo se detinham em anausar as linhas e o contôrno de cada objeto: em vão se procuraria na Bíblia a descrição de uma paisagem de sol nascente ou poente.46 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO o dilúvio. percorrendo círculos. repetia a mesma idéia acrescentando-lhe de cada vez uma circunstância nova. mico de cada ser. é simplesmente a repetição da anterior.ouvement. seria desenvolvido). Le dynamisme de la peizsée d'israel te discerne -dans la nature que ce qui bouge. os semitas. até completar a enunciação do pensamento ou a enumeração dos pormenores. o semita o exprimia afirmando diretamente as impressões que tais cenas causam no observador.. volta periôdicamente aos lados direito e esquerdo do eixo. Davi. porém. o fazem voltar com variações sempre novas. contemplava-o do outro lado. a evocação de uma floresta com sua vegetação.3s). 6. Confirma-se assim a observação já feita: não se preocupavam tanto com o valor estático quanto com o aspecto diná. cit. que a arte conforme a qual os escritores judeus compunham as suas frases. o orador afirmava compendiosamente o que tinha em vista dizer (propunha como que um prelúdio musical. Outra particularidade do estilo semita conexa com as anteriores é a exposição das idéias em frases paralelas coordenadas.8 (c!. Em Apc 5. e com razão. o observador que faça o trajeto da espiral. Ao contrário. Tem-se dito. esperava que a mesma coisa se desse (c!. O que êstes quadros têm de belo.. da espiral. estando para oferecer.s sacrés te se rnontrent guêre enelins à analyser Les lignes et à dessiner Les contours. que logo de início propõem o seu tema ou leitmotiv e.

diz-lhes então o Salvador: 10 "O semita diz tudo em cada frase. o Apóstolo S. traços. Êste proceder lembra um pouco os métodos da Escola de pintura impressionista de fins do séc. VI do seu Evangelho. o conceito "compreender" era expresso pelo vocábulo bin. eis algumas passagens caracteristicas: a) no cap. é bem calculada de modo a impressionar o ouvinte. La lecture chrétienne de la Bible. éle o tem. refere a longa promessa da S. O semita. comprazia-se em despertar a impressão de "choques" de idéias. apresentado compendiosamente na fórmula introdutória . Esta denominação não insinuaria que os gregos atribuiam k razão. O escritor semita esboça primeiramente uma rápida silhueta do conjunto. inteligência". Porfírio e outros). O paralelismo semita de que falávamos acima pode ter caráter sintético ou antitético. Também neste caso a repetição não se torna supérflua. como tarefa primária. acumula sôbre éste esbôço multidão de traços aparentemente autónomos e não raro contraditõrios. Não quer isto dizer que.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 47 era realidade religiosa. Fala-se também do paralelismo sinônimo dos hebreus. Aristôteles. lhe parecia grande demais para poder ser abraçada de uma só vez. A titulo de exemplos de paralelismo. Notemos o lento desabrochar do pensamento de Cristo neste sermão: Os judeus aglomeravam-se em tôrno do Mestre em Cafarnaum por causa do pão terrestre ou natural que êle acabara de multiplicar. mas volta sucessivamente à carga. em pinceladas sucessivas. 10 A tendência dos hebreus a coordenar as idéias antes do que a subordiná-las se traduz também num pormenor filológico: para o israelita. 150s. recolher. vocábulo derivado de lego. lugar. o "colecionar" e 'pôr em ordem" as diversas facêtas da realidade ? O silogismo (de syn e lego) não é. etimolàgicamente falando. . O caráter antitético se verifica quando a frase paralela repete em têrmos negativos o que a precedente disse em têrmos positivos. dividir"." Charlier. entre os gregos. de resto. Caráter sintético. a segunda proposição tem por finalidade agir mais vivamente sôbre o espírito do leitor. a "razão" era dita logos. a seguir. XIX. ora outro aspecto do pensamento. acrescentando de cada vez um retoque ou nova precisão. quando a frase posterior acrescenta algo de novo (mas acidental) à anterior: circunstâncias de tempo. João.. cujo significado original é "separar. ao contrário. embora nem todos os estudiosos o reconheçam. bina vem a ser "compreensão. que o ôlho da alma sabe polir e combmar num plano superior. etc. Eucaristia que o Senhor fêz a seguir (22-72). causa. senão o ato de recolher. Êste se verificaria quando as frases só diferem entre si pelo emprêgo de têrmos equivalentes. que tanto cultivaram o raciocinio e os silogismos (cf.. o processo de compreender consistia princpalmente em perceber os diversos aspectos da verdade e formulá-los em justaposição? Ao contrário. porém. a verdade é então realçada pela justaposição dos contrastes. enriquecendo incessantemente ora êste aspecto. para o judeu. apos narrar o milagre da multiplicação dos pães (1-15).

pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá a vida' ao mundo. dita "Espirito"). que os judeus procuravam. não tereis a vida em vós. para a vida do mundo. "Em verdade. mas porque comestes pão e estais saciados. não porque vistes sinais.54s.31s e Éx 16. é a minha carne.51. que não preservara da morte os israelitas no deserto. foi sendo considerado sob vários aspectos.. 48...) Não é tudo.. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. um pão do céu. os judeus já o conheciam: era o maná.. depois de ter fitado a sua futura prõsa. e o pão que hei de dar.52. mas enquanto vivificados pela Divindade ( no caso. objeto mais digno das aspirações dos ouvintes. Se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue. acrescenta tratar-se de novo pão do céu.24s. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. mas já "pão da vida"." (Vv. E quais seriam estas realidades? Primeiramente em oposição ao pão da terra. para finalmente atingir o objeto invisível. é identificado com a carne e o sangue do próprio Cristo: "Eu sou o pão da vida. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Por isto. tomados em sua realidade natural e material apenas. Si 77. Jesus. não. que a êles estaria unida: "É o Espirito que vivifica. principal. visado desde o inicio do discurso. •tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. o maná dado por Cristo poderia ser dito simplesmente o pão da vida (eterna): "Em verdade. contido no Pão da Vida." (V.. repetindo e desenvolvendo a idéia.. voa sôbre ela aproximando-se em circulos concêntricos. 6. para finalmente "dar o bote" com tõda a precisão: . Todavia. superior ao da terra. cada vez mais próximos da realidade final. a carne para nada serve. em ulterior instância. Sab 16. que do céu desci. Começa por insinuar que a multiplicação dos pães devia ser entendida como sinal de realidades transcendentes.) Uma derradeira precisão ainda se impunha: tratar-se-ia da carne e do sangue do Filho do homem. 64. Sou o pão vivo... 32s. Êste objeto. passando dos conceitos mais vastos e dos elementos visíveis a conceitos mais precisos. Jesus anuncia um pão do céu.) Todo êste discurso se deixa dispor em círculos concêntricos: Jesus falou. em verdade vos digo: vós me procurais. dado por intermédio de Moisés outrora no deserto (cf.) E dêste fato que Jesus parte no seu discurso.48 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO. à semelhança do que se dá com a águia que. 26." (Vv." (V. dito não apenas "pão do céu" (como no Antigo Testamento). Jesus mais uma vez aprofunda o seu pensamento: o novo maná. porém.13s. à diferença do maná de Moisés..20)..

fomos enxertados em Cristo. cada qual com seus matizes. encontra-se na epístola de S. como ainda viveríamos no pecado? Então não sabeis que nós todos. não sõmente entre os semitas. verifica-se nêle a coordenação de frases que. c) o paralelismo antitético dos semitas podia tomar a seguinte modalidade: para exprimir a 'totalidade". Ora. assim como nas línguas modernas (se bem que em proporções mais restritas). como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai.. Cris b) outro exemplo. fomos com Êle sepultados pelo batismo em sua morte. Sabemos que nosso velho homem foi crucificado com Cristo. a fim de que. 8.ca do 1- - s' €ese. se acha num estado de morte (ao velho homem) e vida nova.. mas entre os povos antigos em geral. Paulo aos Romanos 6. se diz: "Farei por ti o possível e o impossivel" no sentido de "tudo farei por ti". Exprime-se no ritmo de "vai-e-vem" contemplativo a que acenamos: "Nós que morremos ao pecado. 11 Assim: 11 Aliás. embora menos claro do que o anterior. se morremos com Cristo. ocorre o mesmo artificio de estilo. fomos batizados (imersos) em sua morte? Por conseguinte.também nós uma vida nova. por efeito do batismo. Sejam mencionados alguns textos extrabiblicos da antiguidade: .PAItTJCULAEIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 49 — . O Apóstolo ensina que todo cristão. vivamos. o autor enunciava os têrmos opostos ou extremos que circunscreviam o seu conceito ou entre os quais girava o seu pensamento.2-8. antes. Ainda hoje. configurada à de Cristo. seremos enxertados também por ressurreição semelhante à dÊle. a fim de que o corpo contaminado pelo pecado fõsse destruído e já não sejamos escravos do pecado. Se.' Êste trecho não apresenta pràpriamente proposições concatenadas de modo a formar um raciocínio. por morte semelhante à de Cristo. afirmam sempre a mesma verdade. que fomos batizados em Jesus Cristo. cremos que viveremos também com Êle. por exemplo.

14.) em 3 Es 3. 31. não sei sair nem entrar. é infiel ao pensamento de Cristo. Lc 6. que propõe.21. a rainha se retirou "antes de proferir algo de bom ou de mau". sim. Ser 36.22). 3éme série (1945). salvar uma vida ou extingui-la?" (Cf. tôda a população" (cf. a seguinte questão: "Em sábado. Entenda-se: "desapareceu sem dizer palavra". um camponês se dirigia ao seu juiz nestes têrmos: "Grande intendente." Cf.2.".24. que governas as coisas que nao existem e as que existem (= tádas as coisas) .18. . . meu mestre. de que carecia o hebraico (cf. deu-lhes a conhecer o bem e o mal (ciência muito ampla) .50 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a idéia de "tudo.22)." (Dt 31. J05 6. tôdas as coisas" podia ser circunscrita pela expressão "o bem e o mar'. Suys. Etude sur te coizte dii FelZah plaidoyeur (Rome. dentre a totalidade das obras possiveis. 1933). já que tudo que existe de concreto é bom ou mau (cf.1. e não posso mais sair nem entrar. Gên 1. as que é licito praticar?" (haja vista o rigor dos f ar!seus em relação à observância do repouso do sábado).50. Edipo Rei 300. E. 50.) Como conceber que Jesus tenha perguntado se é licito cometer o mal ou matar em dia de sábado? A tradução. grande dos grandes.Comeu o que havia e o que não havia." Trinummus. 360. 29.9. "céu e terra" supria o têrmo "o Universo"." 12 Éste modo de falar ocorre também nos lábios de Jesus em Mc 3. Lambert. Ser 51. Ou em têrmos ainda mais claros: "Em dia de sábado. Is 10. onde se lê verbalmente: "t permitido em dia de sábado fazer o bem ou fazer o mal. "homens e mulheres. Amom. Já 14. em Vivre et Penser. 2 Sam 14. Aponta-se na literatura grega um emprêgo semelhante da mesma expressão: confonne Sófocles. crianças e anciãos" significava "todos os habitantes.8). "homens e gado" era o binômio equivalente a "todos os sêres vivos" (cf. tendo ambos os verbos o mesmo sujeito. 1. quais. 91-103. não será licito fazer absolutamente nada? Não será permitido nem mesmo praticar o bem salvando uma vida ?". demasiado servil. Sófocles. Edo 11. Wmn relato egípcio do Médio Império. servia para exprimir toda a atividade de um individuo. Bacchantes. Si 123.22.3).17. até mesmo as tarefas de administração régia: "Disse-lhes (Moisés) : Tenho hoje cento e vinte anos. Ãnttgono 1109. "sair e entrar". 305. 800. "Lier-Délier. Antigono 1245. Electro. o qual criou "o que existe e o que não existe" (rrtôdas as coisas).7 diz o rei Salomão ao Senhor: "Sou pequenino e jovem. o poeta satirico latino. Plauto. 12 Verifique-se também: Gên 24. Um documento egípcio fala do grande deus de Tebas.6) "(O Senhor) encheu-os (os primeiros pais) de ciência e inteligência. dizia de um homem glutão: "Manducavit quod fim et quod non pai.4. "alma e carne" designava "o homem inteiro" (cf. L'ezrpression de la totalíté par l'opposition de deur contraireC'. Estas referências se devem a O. Veja-se ainda Euripides.

4 Rs 11. "as chaves" designam o poder.28.19. mas haverá terror em tõda parte para todos os habitantes da terra. será ratificado por Deus." (Ez 35.) Nesta passagem. quanto mais fortificado era o reduto. não sômente a que se exercia em tôrno de vínculos.21.". Die Literatur der Aegypter. assim é que o "sair" e o "entrar" (note-se bem a ordem dos têrmos!) compreendiam e definiam a atividade dos cidadãos. empregava-se para designar "todos os individuos" (sair e entrar. tudo que ligares na terra.8." (Mt 16. Tu me observas quando caminho e quando repouso". será ligado nos céus." Não seria condizente com a filologia querer especificar os poderes expressos por "ligar e desligar". sendo diversos os sujeitos dos dois verbos.11. 29. Ez 43.17. 13. 14 Muito interessante é que a versão grega dos LXX traduziu o objeto da frase acima por "homens e gado". será desligado nos céus. levantaram_se e sentaram-se de acórdo com essa doutrina. ocorre algumas poucas vêzes na Sagrada Escritura o binómio "ir e vir".25. Is 31." (2 Crôn 15. 19. diz o salmista ao Senhor querendo inculcar que Deus tudo sabe a respeito do homem (Si 138.8.5).10). "E retirarei de lá aquêle que vai e aquéle que vem (= todos). qual tesouro. um escrito em que consignara os resultados de suas longas experiências.27. Assim diz o Senhor a Pedro. 100. 15 também a expressão "ligar e desligar" indicava tôda a operosidade de um homem. 13 parece ser atividade que caracteriza qualquer homem) "Naquele tempo não haverá paz nem para quem sair nem para quem entrar.16. 2 8am 3. Com significado idêntico. "Para quem sai e para quem entra (= para ninguém). usando de uma construção tipicamente semitica: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus. "sair e entrar". J0 109.6. Si 120. 3 Rs 15.DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 51 em 2 Crõn 1. At 1. cf. 1 8am 18. 'a A semântica da expressão "sair e entrar" é assaz curiosa e digna de nota: imagine-se uma cidade bem defendida por muralhas." (Zac 8. e significa: 'Tudo que na terra fizeres para introduzir os homens no reino dos céus. 9. e isto lhes foi mais agradável do que tudo que se encontrava na terra do Egito. .) Assim se interpretará a frase final: os filhos do vizir dispuseram tóda a sua conduta em conformidade com as instruções deixadas por seu pai. "caminhar e repousar-se" são outras fórmulas que designam tôda a atividade de um indivíduo: "Sabes quando estou assentado e quando estou em pé.2s) ." (citação de A.7V) 14 "estar assentado e estar em pé". leram o livro como estava redigido. para o hebreu. 15 Também se encontram paralelos desta expressão fora de Israel: O vizir do faraó Huni entregou a seus filhos. como as que os antigos costumavam edificar.10 diz o mesmo: "Dai-me sabedoria e inteligência a fim de que eu possa sair diante déste povo e entrar. não há paz.28. Disto se seguia que qualquer atividade de certa importância implicava geralmente um "sair da cidade". a expressão bipartida que se segue exprime a totalidade dêsse poder. e tudo que desligares na terra. tanto menor era a área que ocupava. Erman. ao qual se associava naturalmente um "entrar" após terminados os afazeres. "Então prostraram-se sôbre o ventre.

que se ergue da terra aos céus (cf. profere um brado. . ninguém fechará.6). por sua vez.10). poderia mudar a situação. por ocasião da libertação de Israel detido no exílio babilónico (cf. por exemplo. aos elementos irracionais. quer ligue. quando Deus criou a terra (cf. a terra abriu a bôca para tragar Datã e Abiron (cf. morph4 = forma. Gên 4. Praticavam assim o antropomorfismo 11 ao falar da natureza. Para seavaliar ainda melhor o que acima foi dito. Núm 21.32) e receber o sangue de Abel (cf. 17 Palavra derivada do grego: (znthropos = homem. SI 18.) O que quer dizer: "será detentor de supremo poder. por nenhum expediente. Sófooles. Com efeito. e as árvores do campo batam as mãos em aplausos. Jo 38. fazendo eco ao dinamismo do homem.17s) os montes prorrompam em júbilo. rejubilem-se as colinas e suas florestas. Gên 4. É o que se fará no parágrafo abaixo e no capítulo seguinte dêste estudo.7). Eu. Is 44. 55. 16 Eis as principais natas do "gênio" lingilístico dos semitas. Entenda-se: eu. quando êle fechar. qudr desligue. por ocasião da vitória de Israel (cf. E. quando êle abrir. Núm 16. 0 OS ANTROPOMORFISMOS BIBLICOS 1. as estrêlas da manhã cantavam em côro. § 2. compreende-se que os hagiágrafos não tenham hesitado em atribuir figura humana." (Is 22.23. Pergunta-se: que sentido terá um modo de falar tão alheio ao nosso? Tais expressões constituem para os hagiágrafos mais do que ornamentos literários. extensivo a todo e qualquer setor".22.11).12). A NATUREZA PERSONIFICADA Já que o oriental se comprazia em conceber o mundo inteiro como animado. ninguém abrirá. é mister nos detenhamos agora sôbre um ou outro particular do estilo literário semítico. êste sangue. partes ou membros do corpo humano. se as coisas chegaram a êste ponto. que poderia ainda conseguir?" (Antigoizo. antropomorfismo do qual eis aqui alguns casos típicos: o poço de Beer é convidado a subir (1) e soltar clamores de alegria. exultem os céus e as profundezas da terra. lê-se em sentido análogo uni oráculo do Senhor referente ao Messias: "Colocarei sóbre as suas espáduas a chave da Casa de Davi.52 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO No Antigo Testamento. por elas se traduz uma con16 A expressão também era usual fora da literatura bíblica. 40). coloca nos lábios de Ismena a seguinte exclamação: "Ó infeliz. o sol é como um herói que exulta ao percorrer a sua via (ci.

mâo direita (cf. Já 11. 519. 1 Sam 15. Am 9.25. . Sl 10.37. sujeitos aos abusos que dêles faz o homem. 81 17. em particular.. Paulo. Dt 8.3. S.17.. e aguardam a glorificação dos filhos de Deus (cf. cujo sôpro desencadeia os ventos sôbre a terra (cf.24. olhos (cf. Is 65. E o bestiame da terra estará em paz contigo.) Mas não sômente aos elementos irracionais se aplicam os antropomorfismos na Sagrada Escritura.1.9. Jos 9.20).4.27).21). Si 17. Si 10.7. Não temerás os aiflmais da terra. Is 51. SI 8. mãos (e!. Is 30.). língua (cf. Gên 3)..22s. Gên 4. é transmissora de mensagem divina.5. 2 Sam 15.19. Lx 15. que referem ter a natureza entrado em desordem por efeito do pecado do homem (cf. ora de louvor e congratulação jubilosa (para quem é reto).2. Ram 8.15.14. dedos (cf. pálpebras (cf. aliás.19. 2.12. Lx 33. é insinuada já pelas primeiras páginas da Escritura. SI 17. Gên 3. Jer 27. braços (cf.2). ouvidos (cf.36).12.10).18.16). lábios (cf. 81 17." (5. Dt 9.5).9. 85. Lx 15. que assim interpela o justo: "Tu te rirás da devastação e da fome.11. Já 40.14.2. Esta verdade. DEUS SEMELHANTE AO HOMEM NO ANTIGO TESTAMENTO Quem lê o Antigo Testamento não pode deixar de observar quão freqüente e fàcilmente ao Senhor Deus são atribuídas feições humanas. Terás uma aliança com as pedras do campo.14).15. em conseqüência. Is 1. bôca (cf. 1 8am 15. por ela se manifesta o Criador e o Senhor Providente. nariz e narinas. em outros têrmos: a natureza reflete a voz de Deus. 16.16.4. voz (cf.27). diz que até o fim dos tempos os irracionais "gemem". Dt 11. 26.10.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 53 cepção religiosa intimamente arraigada na alma do israelita e nos escritos bíblicos em geral: a natureza tôda é solidária com o homem.31. Sl 17. Is 30.4.6. Lx 33. os hagiógrafos nos apresentam mesmo o Senhor Altíssimo sob traços humanos.9.5. 1 5am 8. 819. Lx 5.4). Dt 5. 19-22).23. Lx 31.8. Expressão muito viva de solidariedade são as palavras de Já. Am 9. Assim o Criador é dito ter face (cf.4).8. seu rei. ora de repreensão (para o indivíduo ou os povos pecadores)..

1 Sam 26. Lev 20. até mesmo ao falarem de Deus.3.16). Sl 23. ri (cf. a inveja (cf. Sl 105. asas e penas sob as quais protege os justos (ei. 56. Is 6. Diante de tais expressões.4).34. metafísico. Lev 1.23). a alegria (ei.1).8.23). Reconheciam. que o Criador não é como o homem (o que claramente transparece nos textos bíblicos abaixo citados). a imortalidade de Deus. com 18 Anthropos = homem.8). Si 17. Por isto.1. paixão. passeia no jardim do Eden (cf. Si 17. Êx 32. Os israelitas. Gên 6.5.6. na Sagrada Escritura.3.19). compras-se com suave perfume (cf. paira sôbre as asas do vento (cf. o espírito humano na vida presente. cujas orlas enchem o templo (cf. Dt 28.24). desperta-se (ei.31). voa. Jer 9.2. 1 Crôn 28. Gên 3.35. a complacência (ei. 1x 15. Is 9.65). 90.13). o arrependimento (ei. páthos = afeto. De resto. é induzido a compará-los com os atributos da criatura. 2 8am 24.14).8). é incapaz de conceber a Deus como Êle existe em Si mesmo.4). impõe-se de novo a questão: que sentido poderá ter tal modo de falar. Na 1. Éx 33.9) implica para a inteligência.2). Sl 46. Êx 20. um belo manto. Sof 3. Gên 7. qualquer pensador.41. 81 77.7. 34.17).19). Si 2. Jer 26.7). Si 131. e pés que levantam nuvens de poeira (cf.23).1).24. o ódio ou a abominação (cf. assovia (ei. o Senhor clama (cf. Dt 32.8). Dt 12. Éx 15. dorme (cf. cavalga sôbre um Querubim. costas (ei. para dar a entender os predicados da Divindade. Is 7. Is 1. . pouco afeitos à abstração. ruge (ei. Am 1. referindo-se ao Todo-Poderoso usavam copiosamente dos vocábulos que designam as coisas corpóreas.35. a vingança (cf. Não há dúvida de que os antropomorfismos da Escritura têm suas raízes na mentalidade primitiva dos semitas. a aversão (ei. Si 103.10).5). Também os afetos humanos marcam a figura do Senhor Deus (antropopatismos): 18 o desgôsto (cf.40).63. a cólera (cf. é guerreiro valente (ei. mentalidade que pede ser corrigida pelo raciocínio filosófico.54 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pés (ei. fecha a porta da arca de Noé (cf. Está assentado em um trono régio (cf.31. Si 43. dificilmente se desvendilhavam de concepções de ordem sensível. sim. Os 11. muito surpreendente num livro que se diz ter por autor principal o próprio Deus? a) o significado geral dos antropomorfismos. 32. dependendo constantemente de imagens sensíveis. 34. Além disto. 1 Sam 15.2. 8117.18).11).12. e não homem" (ei. mas diflcilmente percebiam o que o fato de "Deus ser Deus.

4. Nygren. têm pés e não andam" (51 113.27.5. mais adequadamente a transcendência de Deus.4. Por êstes fenômenos.4s.39. Assim os antropomorfismos bíblicos inculcam que o Deus verdadeiro não é mera fórmula abstrata. mas o Senhor condescendente. Os falsos deuses eram ditos "deuses mortos" (ef. que o Transcendente. Pai . com seus traços semelhantes aos dos homens. pois. a sua imensidade. têm mãos e não apalpam.17. apreendendo a Divindade através do raciocínio. Dt 5. concebiam.1-10. Jó 27.2.24s. 1 Sam 14. amigo.5-7). Canto IV 40-453 A expressão "Deus vivo" ocorre. Por questo la Scrittura condiscende A vostra factitate. de:perta. limitações do nosso ser. sim. 21 Não assim é o Deus verdadeiro. têm ouvidos e não ouvem. 20. sim. Jer 10.11. 19 Esta observação. justamente por ser superior ao homem. cd altro intende. Dan 14.3. Sab 15.16).23. A descrição do Altíssimo como Guerreiro. o recurso aos antropomorfismos era muito apto.o Perocché solo da sensato apprendc CiÕ cite Ia poscia d. a Divindade não necessita do homem.. por exemplo. um dos aspectos que mais espontâneamente detinham a atenção do israelita. Rei. com as. da metafísica.70. à sorte dos mortais. ou. a atração do homem.Jz 8. . à diferença dos deuses dos filósofos pagãos. . (Cf.) Era mesmo o título "Deus vivo" que. Erôs et Agapê (Paris. 1944).s 19. porém. Abraão e seus descendentes chegaram ao conhecimento do verdadeiro Deus não em conseqüência de raciocínios especulativos.'intelletto degno.3. 21 É êste aspecto rigido que caracteriza a Divindade nos sistemas filosóficos de Platão e Aristóteles. 4 R. julgavam. A. 2 5am 2. Paradiso. para traduzir tais impressões. Ora. era o seguinte: o Deus de Israel é um Ser vivo e pessoal. e piedi e mano Attribuisce a . 14. É certamente muito antiga. deuses "que têm bõca e não falam. dêstes exigindo fidelidade inviolável. o Deus de Israel dava-se a conhecer como o Senhor que permanece próximo do homem. diferenciava dos idolos dos pagãos o Deus verdadeiro. Êstes autores ensinavam que Deus. 19. têm olhos e não vêem. 26. 12.21. porém. aos olhos do israelita." (Dante.19.. Mt 16.Dio. afirmam-nos de maneira marcante 10 Já o poeta dizia: "Cosi portar convieztsi ai vostro ingegn. em 51 41. enquanto o homem precisa de Deus. servia para exprimir que o Deus de Israel é o Soberano que se interessa profunda e surpreendentemente por tudo que concerne o homem. sendo perfeitissimo. alheio. e o orienta continuamente.9. Cf. mas através de revela ções se1íveis (outorgadas aos Patriarcas. ama realmente os indivíduos... a Moisés. 20 .45. pois uma das fórmulas de juramento mais usuais rezava: "Assim como o Senhor (Deus) é vivo . como se precisasse das criaturas.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 55 as contínuas vicissitudes do homem. Ao considerar a Deus. acompanhados geralmente de impressionante aparato. acompanha a nossa "aventura" na terra. não bastaria para explicar o significado dos antropomorfismos na Sagrada Escritura. se conserva frio.. aos justos posteriores).6. mas de modo nenhum corresponde às aspirações da criatura.. ainda mais concretamente. Êstes. Bar 6. etc. 20 Com efeito...

mesmo nos trechos em que mais realçavam a proximidade do Senhor. não se cansa (cf.28). das suas intervenções na história. Não darei curso ao ardor da minha cólera. Deus as tem em grau Infinito. Is 40. Éx 20.19). embora se distanciassem de noções abstratas para aderir a concepções iniperfeitas.56 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO os autores semitas inspirados. em Jo 4. e não homem . os israelitas eram assim premunidos contra o perigo de equiparar o conceito que tinham de Deus ao que os povos pagãos nutriam.Ss. alheio à mentalidade veterotestamentária. os filhos de Israel eram. Com efeito. Além disto. a Lei mosaica proibia estritamente a confecção de qualquer imagem (de homem ou animal) que representasse Javé (cf. Embora tornes o teu coração semelhante ao de Deus. Pode-se dizer que aquilo que a fé em Deus no Antigo Testamento visava primàriamente era a sua personalidade toda-poderosa e o caráter pessoal imediato. o seu interêsse pelo povo: assim o profeta Oséias.29. Sendo as imagens o grande esteio da idolatria. á Efraim. pela própria Revelação divina. como te entregaria. A pura espiritualidade de Deus só foi explicitamente afirmada no Novo Testamento. ou seja.) O homem tem perfeições em grau finito. Jó 10. e os que O adoram. Por isto perdoa mesmo quando os homens julgam que "perdoar" seria derrogar a aiguzna de suas qualidades. 22 'Como te abandonaria eu. e não Deus. em espírito e verdade O devem adorar". Israel? Meu coração se revira dentro de mim E tôdas as minhas comiserações se comovem. não cochila nem dorme (cf. não se arrepende nem mente (cf. Não se poderia deixar de observar ainda que. seria "diminuir-se. Núm 23." (Os I1.4).4)." . êstes aspectos. falando da misericórdia do Altíssimo para com Israel. As mesmas Idéias repercutem no texto de Es 28.2: "Tu és homem. 22 em outras páginas bíblicas lê-se que o Criador não tem olhos como os homens (cf. os antropomorfismos os realçavam muito bem. baseava o caráter inesgotável dessa misericórdia (= "compaixão") no fato mesmo de Deus ser Deus e não homem. Pois sou Deus.24: "Deus é espírito. pouco filosóficas. Em meio de ti está o Santo. Sl 120. Êstes textos atestam que o conceito de um Deus transcendente não era. rebaixar-se'. Não destruirei de novo Efraim. 1 5am 15. em absoluto. os livros sagrados não deixavam de incutir a espiritualidade e transcendência de Deus.4s). preservados de cair nas idéias grosseiras dos mitólogos ou dos idólatras pagãos.

mormente na naturza exuberante dos orientais. Fàcilmente. muito natural à nossa mente. Mais uma ligeira observação: quem reflita sôbre os antropomorfismos bíblicos à luz do grande plano salvífico de Deus. Éx 15. III aO. portanto. o israelita era propenso a exprimir certas qualldades da alma mencionando determinados membros ou sentidos do corpo que mais estreitamente pareciam relacionados com elas. contudo. dando-nos a famosa edição dita dos Setenta intérpretes. A tendência a atribuir ao Altíssimo aspecto e afetos humanos é. sem dúvida. SI 17. Alguns exemplos elucidarão o proceder: o Senhor Deus tem narie e narinas.24. citadas dentre outras muitas: Êx 249-11 (texto hebraico) refere que Moisés e muitos dos anciáos de Israel subiram ao monte Sinal e "viram a Deus". E não sem fundamento objetivo: o furor costuma-se exprimir por respiração mais veemente. são a resposta providencial ao anelo de todo mortal de saber que Deus está atento à sorte do homem. é. no povo de Israel. O têrmo hebraico 'af. Os antropomorfismos da Sagrada Escritura. tratando de Deus. exalação nasal mais intensa. e mais ainda a Encarnação. em última análise nêles reconhecerá como que prenúncios da Encarnação. Já ao se referir a indivíduos humanos. pode também significar "ira. quando o Filho de Deus tomou carne humana: o Senhor do Universo é também o Deus dos pequeninos.PARnCULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 57 Os judeus que em Alexandria. é um braço!")." (V. em particular à do indivíduo primitivo. pois. É o que dá claramente a entender Jeremias. a partir do séc. ela foi por Deus utilizada para inculcar uma verdade que os filósofos da antiguidade jamais conceberam adequadamente. lê-se "o poder do Senhor" (grego). em vez de "mão de Javé" (hebr. a atenuar ou eliminar os antropomorfísmos bíblicos. tendiam a exaltar a transcendência de Deus e. os hagiógrafos com muita espontaneidade atribuíam essas mesmas partes do corpo ao Senhor.9.. Conseqüentemente. poder (ainda hoje a linguagem popular diz: "N. o Deus do coração humano.. por isto.16).). 10). que significa "nariz". se entende que a menção do nariz fumegante de Javé na Sagrada Escritura deva ser interpretada como expressão da justiça de Deus que pune os homens maus (cf. Ora no trecho correspondente puseram os tradutores gregos: "Viram o lugar em que se achava o Deus de Israel.. traduziram a Sagrada Escritura do hebraico para o grego.18. com a idéia de braço se associa naturalmente a de fôrça. b) o sentido de alguns antropo-morfismos em particular. o que aparece nitidamente nas duas passagens abaixo. verdade que havia de ressoar por excelência na plenitude dos tempos. em Jos 4. visando com isto designar os respectivos predicados do Altíssimo. sim. cólera". referindo-se ao homem: .

" ou ainda "esquivar-se à influência de.) "Preciosa aos olhos do Senhor É a morte dos seus fiéis." (S1 115. esmagou o inimigo.7.5. Exaltou os humildes. da história. De resto verifica-se entre as crianças a tendência espontânea a recobrirem o rosto com as mãos. Por conseguinte." e') as mãos simbolizam freqüentemente a faculdade de dispor ou simplesmente o poder (como ainda hoje na expressão: "estar nas mãos dos mais velhos. Vossa direita. constituindo para o homem uma das principais fontes de informações. Enquanto o seu coração se afasta do Senhor.." (Gên 32. significa freqüentemente na Bíblia a personalidade.. torna-se claro o antropomorfismo correspondente.4.515: "(O Senhor) fêz coisas poderosas com o seu braço. se assinalou pela sua fôrça. sendo a sede dos órgãos que exprimem o intimo do indivíduo. Em conseqüência.... as mãos.) "O Senhor tem em suas máos as profundezas da terra. Assim. conseqüentemente os olhos simbolizam o conhecimento que os homens ou Deus possuem: "Os olhos se lhes abriram (a Adão e Eva) (Gên 3. de Deus: "Vossa direita..) a face ou o rosto. das autoridades"). .. da ciência. Dispersou os que se ensoberbeciam Derrubou do trono os potentados." (Si 94.15.6. . são fàcilmente associados à idéia de conhecimento.) os olhos. fala Jacó: "Aplacá-lo-ei por meio dos presentes que envio préviamente. a sua personalidade.. Senhor. coisa que se verifica ainda nas nossas expressões "aos olhos da sociedade. Na Sagrada Escritura.) A luz dêstes dizeres hão de se entender os antropomorfismos: ... principalmente a destra.é "fugir de tal pessoa ou objeto .. em Lc 1. "fugir da face de . A Êle pertencem os cumes das montanhas. usado. talvez me dispense bom acolhimento..) À luz dêste texto." (Êx 15. Senhor. "ver a face" é não raro sinônimo de "comparecer perante (tal pessoa) ". conceituacão.. por exemplo. verei a sua /ace (de Esaú). o poder. nas páginas sagradas. por exemplo. de Javé significam a fôrça. a seguir.58 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Maldito todo aquêle que se apóla sôbre o homem E faz da carne o seu braço. .21." (17. a fim de ocultarem a consciência ou o seu íntimo. .

o ato corporal de "voltar a face para. Ao contrário. embora se dirigisse a israelitas educados na ideologia veterotestamentária e recém-convertidos ao cristianismo. Não rejeites encolerizado o teu servo. Quando Javé "se arrepende"." pode simbolizar um ato que se processa essencialmente no plano do espírito. o primeiro bispo de Jerusalém.2. são. errôneo seria equipará-los aos sentimentos baixos e apaixonados dos homens ou dos deuses do paganismo. do seu modo. se "se vinga". se "se alegra". não faz senão repreender o pecador que comete a iniqüidade.. me esquecerás? Até quando rue ocultarás a tua face (= sorriso.11. procede de forma imprevista às criaturas. . acentua a incompatibilidade do mal com o que é de Deus. o antropomorfismo é logo explicado pelo apôsto "como um amigo fala ao amigo". doação de amizade. na mente dos hagiógraf os. ou seja. não faz senão punir em justiça os que o merecem. tem de ser amado por seu povo renitente e infiel.8s. na Sagrada Escritura.. Nesta seção. arrependimento) que os hagiógrafos atribuem ao Senhor.) Estas considerações são suficientes para se concluir que os antropomorfismos e antropopatismos bíblicos não constituem simplesmente o produto de mente filosàficamente pobre ou simplória. que. o modo como os judeus entendiam êsses antropopatismos parece-nos atestado por S. ira. portadores de tese muito veridica e importante para a alma religiosa: o Deus sumamente transcendente é também intimamente próximo ao homem e solícito do bem da sua criatura! . com o progredir dos tempos. em conseqüência da conduta dos homens..) Conforme Êx 33. entenda-se que. Aliás. Senhor. Não me ocultes o teu rosto. sumamente bom. Senhor. Tiago. podia escrever sem ulterior explicação "Junto ao Pai das luzes não se verifica vicissitude nem sombra de mudança.) "Procuro a tua face. Deus é dito "irritar-se". não podem ser tratados como expressões que. guarda fiel das tradições judaicas. Tu és o meu amparo.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 59 "Até quando." (1. Quanto aos afetos (alegria.17." (SI 26. o Senhor falava "face a face" com Moisês. bondade)?" (Si 12. mais nenhum valor possuem. a "inveja" de Javé significa o desejo que o Senhor. isto insinua bem que. se "se entristece". aprova e confirma o bem. à semelhança do que se dá quando um homem se arrepende do que fêz. Se.

60 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO APÊNDICE O VALOR DA LINGUAGEM SIMBOLISTA Após a acerba campanha ou desconfiança que o racionalismo do séc. afirmam cada vez mais categàricamente que o recurso a imagens e figuras é espontâneo ao indivíduo que pensa e fala. faça uso dêste (e uso assaz freqüente) para transmitir verdades sobrenaturais. ao raciocínio. as proposições religiosas. das figuras sensíveis donde parte o seu conhecimento. sim. tem sido comprovada a sobrevivência subconsciente de grande número de imagens. os finos matizes dos objetos. mostra o que é refratário ao conceito. Podem-se encontrar conclusões de estudos modernos sõbre o assunto na obra de Mircea Eliade. nem ao raciocinar nem ao exprimir as suãs conclusões. aproveitando a inclinação inata do homem (mesmo do varão culto) ao simbolismo. esteriliza a sua atividade e produtividade. se separa da realidade profunda da vida e do seu próprio psiquismo. simbolos. nunca. metafísicos. da psicologia. 1951). porém. e êste simbolismo subconsciente é às vêzes mais forte do que a vida consciente do indivíduo. Isto quer dizer também: mesmo o individuo mais "realista" vive de imagens. A justo título se diz que o homem que não tem "imaginação" ou dela não quer usar. e até da psicanálise. por mais "racionalista" que pretenda ser. diz-se que hoje em dia o mundo ocidental (a cultura européia e americana) está de novo descobrindo o valor dos simbolos. A imaginação. XIX ocasionou contra o simbolismo. constitui uma exigência da natureza psico-física do homem. o simbolismo tenha função importante. jamais se pode desvencilhar. O simbolismo tem por fim exprimir as mais secretas modalidades. principalmente ao se tratar de exprimir verdades religiosas. os consegue eliminar de sua mente. tôdas as suas noções a partir dos sentidos ou de imagens materiais. e. Com efeito. por definição. mas as fórmulas já não sabem traduzir adequadamente. é apetias camuflar ou mutilar os simbolos. Ora bem se compreende que. . que são o suporte e veículo de sua ciência. ou ainda aquilo que a intuição apreende. que a razão e os conceitos humanos não podem definir de maneira cabal e exaustiva. Images et Symboles (Pãris. os recentes estudiosos da história. Éste adquire. versam em tôrno de objetos transcendentes. embora reflita sôbre estas. Mesmo no homem moderno. abstraindo conceitos universais. O que o homem pode fazer. devidamente utilizada. Assim se explica que a Escritura Sagrada.

na linguagem oriental antiga. dos quais os mais dignos de nota são os seguintes: romanos. podia designar simplesmente o ser ou a vida do individuo nomeado. para os antigos. que na principal narrativa babilõnica da origem do mundo. que as páginas anteriores apresentavam. das nações antigas e de tribos atuais não civilizadas não revelavam nem revelam o seu nome. E quais seriam essas idéias? O nome. não era uma designação arbitràriamente anexa ao seu portador. Dada a importância de que se reveste o tema para a interpretação do Livro sagrado. a expressão da íntima essência ou de um atributo. os indivíduos poderosos. Em conseqüência. chama a atenção.CAPÍTULO IV NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA O uso do nome e dos números no texto da Bíblia não constisenão uma expressão a mais. que o Espírito Santo houve por bem respeitar. de uma função do portador. a fim de não comunicar a sua fôrça íntima. autoridades. guerreiros. 1 Alguns povos chegavam mesmo a conceber o nome como parte integrante do indivíduo e como coisa misteriosa. Ao contrário. ' Não ter nome" wm a ser o mesmo que não ter existência". É de notar. do gênio semita. tinham-no como a caracterização do indivíduo. o nome. seja das criaturas. diziam proverbialmente os . por exemplo. heróis. o segrêdo do seu sucesso. para significar que o céu e a terra não existiam. seja de Dèus. Tais idéias eram compartilhadas pelo povo de Israel. é um agouro". ocasionando na Sagrada Escritura modos de falar a nós estranhos. dotada das energias próprias do respectivo sujeito. e bem característica.O nome idêias orientais. só se pode explicar à luz de idéias dos orientais. o autor diz que não eram nomeados. herdeiros 1 "Nomen est omen de . tui § 1. 0 A FILOSOFIA DO NOME A maneira como os autores bíblicos se referem ao nome. Em virtude destas concepções. vai-lhe dedicado o presente capítulo.

Si 40. É o que se verifica na história de Davi. Paulo pede que a fornicação e outros vícios não sejam nomeados entre os cristãos.5) Jesus Cristo. o que só pode significar: . é) "Casa de oração" (Mt 21. em egípcio (Gên 41. a quem Abigail se dirige nestes têrmos "Não tenha o meu Senhor cuidados para com. conforme o anjo. Em particular nos oráculos proféticos. Montanha santa" (Zac 8. . Nabal. após haver salvo da fome o Egito. Moisés contou nomes ou individuos de cada tribo de Israel. Jerusalém.". Deus forte. nome que Jacó substitui por Benjamim = " filho da direita" (Gên 35.32. Pai eterno. não sejam praticados. É o que Deus às vêzes faz ao confiar aos homens um encargo de relêvo: Abram = "Pai elevado" torna-se Abraham = "Pai de multidão" (Gén 17. mas 'Minha complacência pousa sôbre ela" (Is 62.76).. não mais "Abandonada". como refere o texto de Núm 1. futuro fundamento da Igreja.62 . o Senhor Jesus muda o nome de Simão. João Batista seria dito "Profeta do Altíssimo".. cf. seria chamada (porque deveras se tornaria) "Cidade fiel" (Is 1.10. é a mesma coisa que "ser.45)." (1 5am 2525. Mt 5. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O nome revela o íntimo do portador. para Cephas = "Pedra.4. . deveria ser chamado (= seria) "Filho do Altíssimo. "Desejada. . Cidade náo abandonada" (Is 62. Príncipe da paz" (Is 9. o Deus de Israel é chamado (e é. Assim o futuro Messias será chamado (= será realmente) "Conselheiro admirável.10) Raquel chama seu segundo filho Benoni = "filho de minha dor". "Cidade da verdadë. sem dúvida) "Deus de tôda a terra" (Is 54.6).35).4). os pacificos serão chamados (= serão) "filhos de Deus" (Mt 5.2-42. cf...26). S. e nêle há Tolice.. fica sendo Tsaphnath-Panoach = " Provedor da vida". Por ocasião do recenseamento preceituado pelo Senhor.. novo destino na vida". "mudar o nome" de alguém significa "assinalar-lhe nova função.3).19) a Casa de Deus tem por nome (por conseguinte. segundo os profetas. a criança que nasce morta tem o seu nome recoberto pelas trevas (Edo 6. Is 567). Filho de Deus" (Lc 1.) - Conseqüentemente. "ser chamado. cf.Tacó = "Suplantador" torna-se israel = "Homem forte contra Deus" (Gên 35. .5). não tenham existência. S. Pedro" (Jo 1. seu nome é "o Tolo.3. nada vem à existência sem que prêviamente haja sido pronunciado o respectivo nome.42). Em Ei 5.9. O nome é identificado com a própria pessoa ou a existência do respectivo portador: Conforme Edo 6.3. Ao contrário. função que de fato desempenhou (Le 1.5).18) José. pois êste é o que o seu nome indica.12).

20s). . Sua cólera arde. os magos julgavam poder dispor da fôrça de Deus." (Êx 33. pesada nuvem se levanta. Seu sôpro se assemelha à torrente que transborda.27). do respectivo sujeito.11.e. ést.28) o monarca vencedor não raro mudava o nome dos homens subjugados. quando o sacerdote abençoava a multidão. do nome de Deus.311 (note-se o paralelismo entre os dois verbos !). e o Senhor o abençoava realmente" (Num 6. declaram-se com isto servos de Javé pertencentes unicamente ao Senhor (cf. abusos que se verificavam nos cultos pagãos (proferindo o nome da Divindade. propriedade do nomeado". Deus prometeu enviar ao seu povo um anjo tutelar.2.21. os homens por vézes desejam saber o nome de personagem misterioso que lhes aparece. Com efeito. se à cidade de Rabá se desse o nome do General Joab. a fim de que possam usufruir da tutela désse varão (cf. com especial carinho e interêsse. a mesma ficaria sendo posse déste chefe israelita (ef. 14. 33.6). da eficácia.12) o Bom Pastor chama as ovelhas pelo nome e as ama a ponto de dar a vida por elas. porém. Gên 32.5. ef. Jz 13. "no qual estaria o nome de Jave' (cf.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 63 O nome sendo empregado como sinônimo da pessoa.30. a Lei de Moisés proibia terminantemente os usos mágicos. a fim de significar que doravante estariam sujeitos ao poder do novo soberano (cf. o templo de Jerusalém é dito "o lugar que Deus escolheu para ai fazer habitar o seu nome" (Dt 12. 24. Apc 13. pois encontraste graça aos meus olhos. Assim é que.17. "colocava o nome de Javé sõbre o povo. 2 5am 12. supersticiosos. "colocar o nome" de uma pessoa sôbre outra ou sôbre alguma coisa equivalia a "envolver tal pessoa ou coisa dentro do raio de ação do nomeado." (Is 30.17). sete mulheres procuram um homem e lhe pedem seja o nome déste preferido sôbre elas. dizia Deus a lvloisés Ainda farei o que pedes. Is 44.9).34. E sobe até a nuca. Is 4. Êx 23. a entrega do nome seria a consignação do poder próprio (cf. atribuem-se-lhe órgãos e atividade: "Eis que o nome de Javá vem de longe. "Conhecer alguém pelo nome" é conhecer de maneira muito íntima. se nega a revelá-lo.275). Dadas estas concepções em Israel. pôr sob a proteção" ou também "tornar a pessoa ou o objeto posse. num tempo de calamidade.1) aquêles que escrevem o nome de Javé sôbre a própria mão.16.5. declara Jesus em Jo 10. pois. 16. 4 Rs 23. conforme a mentalidade vigente. e te conheço por teu nome.6.11) por ocasião da travessia do deserto (êxodo do Egito). Seus lábios respiram o furor E sua lingua é como fogo devorador. Visto que o nome era tido como portador da energia.

Dt 5. conforme os inglêses. Até que venha Aquêle a quem pertence (o cetro) E a quem os povos obedecerão Êle (Judá) amarra à videira o seu jerico. referir ainda outra modalidade da "Filosof ia do nome" vigente entre os orientais. Ei-la: O nome de um indivíduo podia designar tôda a linhagem do mesmo. "Esaú" e "Jacó" representam dois povos em Mal 1.8.. sem o indicar expl'icitamente. 'A ti. porém. sujeito a ser removido mais tarde. Éx 20. Lev 20. ora uma tribo. Será preciso. 8.17. Contudo o Senhor. nos oráculos de Gên 49. herdado dos caldeus. a qual também teve sua influência na redação de algumas passagens escriturísticas. XVII (1955). vigente entre os povos antigos. conforme os alemães): os semitas costumavam julgar um individuo em função do todo a que pertencia. 3 Na raiz dêste fenômeno parece estar a chamada "lei da participação". lei em virtude da qual se admitia a comunicação de 2 Haja vista o vaticinio proferido sóbre Judá: 8. 2. Lava a sua veste no vinho e o seu manto no sangue da uva. em Tire Cathouc BibUcaZ Quarterly. Jacó" designam a nação eleita inteira em Is 41. Os filhos de teu pai (= as onze tribos de Israel) se prostrarão diante de ti (= tua descendência). irreverente. a prosperidade que no futuro deve tocar a Judá e a seus descendentes é descrita em têrmos referentes ora à tribo inteira (vv. . 2 Os exegetas modernos explicam êste modo de falar pela tendência dos oriStais a pensar segundo categorias coletivas (pelo thinking iii totalities. hão de louvar os teus irmãos. Destarte é que "Israel.315-323. zelava rigorosamente para que tal concepção não afetasse a verdadeira fé e o legítimo culto de Deus. o semita não via dificuldade em aplicar o nome do pai à coletividade dêle descendente.10-123 Como se vê. 18.2s. O cetro não será removido de Judá (= coletividade). 22..11. "Semitic Totality Thinklng".8. os nomes dos filhos de Jacó significam ora uma pessoa. Destarte Javé tolerava no seu povo um pressuposto da cultura oriental. E ao melhor dos troncos o filhote do seu jumento. antenatos de Abraão. Le Frois. J. Tua mão pesará sôbre a nuca dos teus inimigos. 8 veja-se a respeito B.64 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO coagindo o mesmo a socorrer os homens!). Judá. do nome de Deus era rigorosamente vedado pela Torá (cf.10) ora ao mdlviduo apenas (vi'. lis).9-13). o autor sagrado transfere a sua atenção daquela a esta e vice-versa. as qualidades de um Patriarca prolongando-se na posteridade dêsse varão. o ganzheitiiches DenIcen. tolerando. o pressuposto era deficiente. Qualquer pronunciar vão.7.27. Nem o bastão de comando dentreos seus pés. Tem os olhos rubicundos de vinho E os dentes brancos de leite? (Gên 49.

143). lutadora e vitoriosa. é preciso optar. João. "The Hebrew Conception te Frois. mas como enunciações de qualidaem 4 5 Bethelt aur Zeitschritt /uer alttestamenthche Wissenschaft. que pouco fidedignas parecem. abaixo discriminados. por sua vez. de que fala Apc 12. . fôsse o povo" 5 (ci. ao aludir a esta em Ape 12. que a função da Igreja. terá intencionado referir-se à Igreja. e êle. João. a pessoa individual que por excelência representa a coletividade da Igreja. participando dos predicados desta. esta é. 107. Fenômeno semelhante se verifica em alguns salmos: tôda a coletividade de Israel ai aparece como que concentrada na pessoa do seu rei. Também éste aspecto da mentalidade oriental foi utilizado pelo Espírito Santo para exprimir a mensagem perene da Palavra de Deus! § 2. ao menos em muitos casos. é indispensável tenha o leitor em mente alguns princípios gerais.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 65 qualidades da parte ao todo e do todo à parte. Acontece que. art. tomam assim caráter aparentemente fantástico. a terá apresentado realçando os traços que lhe são comuns com Maria Santíssima. Em conclusão: será necessário recorrer à ideologia particular dos semitas para interpretar. o significado que toca ao nome nas páginas da Sagrada Escritura. por conseguinte. A "lei da participação" (na medida em que ela é verídica) explica bem que a mulher revestida do sol. cit. são as variantes dos textos (bíblicos ou profanos) paralelos entre si ou a oscilação dos manuscritos antigos que provocam dificuldades de interpretação: entre duas ou três cifras indicadas pelas fontes. Mãe e Virgem. Em outros casos. na Escritura Sagrada. suscitam. ao redigir Apc 12... Cf. SI 59. 4 de sorte que a pessoa que nomeava um indivíduo se podia estar referindo a tôda uma coletividade e vice-versa. porém. não como simples lugar-tenente. S. chamam a atenção por referir quantias extraordinàriamente elevadas ou também insignificantes. 66 (1936). mas como se "o povo inteiro nêle estivesse. W. Ora. Eis.° OS NÚMEROS NOS TEXTOS BÍBLICOS As cifras. tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrêlas sõbre a cabeça. em algumas passagens. e não se sabe sempre que critério seguir. questões múltiplas e árduas. para resolver tais problemas. já foi no início da era cristã compendiosamente realizada em Maria Santíssima. Ëste representa o povo. possa simbolizar tanto a Igreja (coletividade) como a Santíssima Virgem Maria (pessoa individual). OS NÚMEROS SÍMBOLOS DE QUALIDADES Os números figuram muitas vêzes na Sagrada Escritura não como indicações de quantidade. 137. Por isto. que dá o Cristo ao mundo e ao mesmo tempo luta contra o Dragão até o fim dos tempos. S. of Corporate Personality". 318. Robinson.. 53-56. 1. por sua vez.

o proprietário. A tendência a associar cifras a certos predicados ou também a certos sêres (a Divindade. em geral. diferenciação. pouco dotados de capacidade de abstração. configuração que define o rebanho. inseparável de determinados predicados individuais. está claro que as cifras se mostram inverossímeis para quem as queira entender como expoentes matemáticos.66 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO des. Bata então que o homem rude tenha boa memória (e. Mais Pujante". esta não falta nas tribos de civilização pobre). bem se vê que a observaçao da . o proprietário de quatrocentas ou quinhentas ovelhas. Da mesma forma. ao convocar os seus numerosos cães para a caça.isto se dá sem que tais homens saibam contar além de uma ou poucas dezenas! Os estudiosos explicam êstes fenômenos pelo fato de que. Sim. o pastor primitivo guarda na memória as notas características de cada animal. harmonia e. Em conseqüência. Em tais fenômenos. ou seja. com efeito. tão antiga mesmo quanto o uso de contar. tornam-se. o caçador primitivo.. também. em virtude da sua memória. para o homem primitivo. quantos e quais individuos desapareceram. Fenômenos significativos neste setor são os seguintes: mesmo entre povos primitivos cuja faculdade de contar é muito limitada. Além disto. para que proceda pràticamente como se soubesse contar. o homem. o percebe e sabe dizer quais as notas que faltam no conjunto. são a expressão de um juízo que o autor formula a respeito de tal ou tal sujeito. mas tôda unidade lhes fica na mente. quebra. a série dos números apresenta algo de misterioso para o homem: ela parece poder prolongar-se sem que êste a consiga acompanhar. cada unidade está 'mtimamente associada a notas individuais de um sujeito. as criaturas inf eriores. os espíritos. Divino" ou "Mais Forte.) é muito antiga. as combinações dos números entre si parecem ultrapassar a capacidade do espírito humano. despojadas das notas concretas com que se realizam na natureza. Ela se baseia no fato de que os números estão essencialmente ligados com a idéia de regularidade. porém. Nesses casos.note-se bem . ao ver o gado voltar do pasto para o aprisco. altamente significativas para quem conheça a mentalidade do autor e a afinidade que os antigos estabeleciam entre certos números e determinadas qualidades. os pastôres sabem exatamente verificar a falta de um ou mais animais nos seus rebanhos. quando o aspecto do grupo é mutilado. é capaz de verificar a ausência de um só que seja. os homens rudes não jogam com unidades abstratas. periodicidade.. E . É o que faz que espontâneamente se liguem com os números as idéias de "Transcendente. estas notas tôdas reunidas dão uma configuração de conjunto ao rebanho. percebe de longe se algunia falta e sabe dizer qual ou quais as que se tenham perdido.

. a história dos justos é geralmente apresentada dentro de um quadro numérico. Individual. Exemplo típico disto verifica-se nas genealogias dos cainitas (prevaricadores) e setitas (fiéis a Deus) em Gén 4.1-32: enquanto naquela não se encontra a menção de um sô número. com isto. às unidades e aos seus múltiplos (dai o verbo "calcular". A .20: Deus tudo dispôs "conforme medida. o valor quantitativo". mas a "figura. 1 Entende-se então que. que lhe servem de moldura (o número de anos em que começou a gerar. matemática. 6 o homem "conta" ou faz como se contasse. a duração total de sua vida . com a indicãção de datas ou cifras equivalentes a datas . de maneira geral. Esta "Filosofia do número". ). forma-se. que originâriamente significa "manejar cálculos. ou seja. Por conseguinte. dos israelitas. 144s. Das hebraeische Denken ira Vergleieh init dera grieehischeit. Não temais". seixos"). os quais dão figura concreta. o nome de cada um dos descendentes de Sete é acompanhado de cifras. É também o que ilustra a admoestação de Jesus: "Mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados.coisa que freqüentemente falta na linhagem dos impios. diga-se explicítamente. e de cifras de índole meramente quantitativa. destituídas de significado filosófico ou moral (sem atribuição de qualidades). no decorrer dos tempos.0 simbolismo do número como tal. . Normalmente em cada tribo a civilização e a vida cotidiana se vão tornando mais e mais complexas.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 67 qualidade precede a da quantidade ou cifra. êle venha a conceber cada cifra jntimamente relacionada com alguma qualidade. nós feitos em Cordame. T. ossinhos. mas também dos povos orientais e. Boman. 8 2. o Senhor. Algo de semelhante se dá na linhagem dos semitas. porém.17-24 e 5. em conseqüência. a noção de unidade abstrata.. número e pêso". porque associa com cada unidade e com o conjunto das unidades predicados característicos. O número por si costuma significar ordem. harmonia. É o que explica a afirmação de Sab 11. O Diz-se que o homem primitivo considera primeiramente no número não a 'grandeza. Eis as principais expressões desta mentalidade na Sagrada Escritura. ensina que a Providência Divina dispõe ordenadamente até as mínimas circunstâncias da vida humana. parece fadada a cair em desuso. o valor qualitativo" do mesmo. a memória então já não é capaz de reter tudo que caracteriza os múltiplos indivíduos com que o homem lida. ALGUNS ASPECTOS DO SIMBOLISMO DOS NÚMEROS O "simbolismo dos números" acima explicado era patrimônio da sabedoria não só dos famosos pitagóricos e platônicos (gregos). 7 É notário que o homem rude só sabe contar servindo-se dos dedos das mãos ou dos artelhos ou ainda de seixos (cálculos). 8 Cf.

O deus lunar Sin era chamado ilani seita ilani. Excelso (Dan 7. 30. o deus supremo. por exemplo. não fazia outra coisa senão proferir sôbre o mesmo uma fórmula de maldição (cf. 10 Cf. plural de 'El. Deus ou Forte (?) (Gên 5. Dentre os números. referindo-se a uma Divindade.18).8s. "os seus deuses". Dt 4. 81. em Gên 11.22. Dt 4.27.11. que lhe confira experiência e autoridade. o conceito abstrato era expresso pelo plural do têrmo concreto). Aplicando a Deus os têrmos concretos "Fortes. Is 46. desejando que o dia de seu nascimento não fôsse contado entre os dias do ano.10. SI 33. prêmio que Deus outorga à virtude.. Aliás sabe-se que também os povos pagãos. Assim: 'Elohim. 9 donde se segue que extraordinária longevidade tem por pressuposto extraordinárias virtudes. vão exercendo cada vez mais os seus efeitos no gênerohumano. Prov 9. 'Elyonini. os deuses dos deuses.12-14. Os vassalos cananeus do Egito dirigiam-se ao Faraó mediante a fórmula ilania. 1905. gozavam de preferência os ímpares. .19. • pecado. entende-se que as expressões de plural na Sagrada Escritura não designam sempre multidão.19.6.35s. 9. sem dúvida. Era outros têrmos: longa vida é. O declínio da longevidade à medida que se passam os tempos. à figura de um Patriarca parece. Já que os números freqüentemente indicam qualidades. 16.6). 6. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios (Rio. correspondente ao ideal que Deus lhes traçara.1. Julgava-se em certos círculos (mormente no pitagorismo. isto é.20. na genealogia dos Patriarcas bibilcos: a extraordinária longevidade (centenas de anos) que lhes vem atribuida. o número dois. a santidade. empregavam formas de plural.O simbolismo peculiar de alguns números. 19552). É o que se verifica. Santo (Jos 24. desde Adão até Abraão.9).) que o número um é por excelência o Princípio não produzido. Qedoshim. a Sublimidade mesma (em hebraico.68 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO portadores da promessa messiânica. conforme os autores israelitas. que se origina pela interven9 Bar 3. Frov 8. Jó 3. e o bem-estar. a felicidade diminuem no mundo. a partir do séc.14. Tal uso dos números significa que a vida dêstes justos era harmoniosa. Excelsos". 30.35. Cf. 11.26.3). extensão. Estas formas de plural não indicam multiplicidade de sujeitos ou deuses. Os 12. E. perfeito. 10 Ocorrem no texto hebraico da Sagrada Escritura substantivos em forma plural que inegàvelmente designam o único Deus.C. o Deus de Israel.9. Santos. mas intensidade de um predicado. 14.10-32. Jó. VI a. Bettencourt. a sublimidade do único Deus. 7. plural de 'Elyon. • mal se alastra mais e mais. pertencer longa vida. plural de Qadosh.18.11. a Santidade. B . os israelitas queriam dizer que o Senhor é a Fortaleza. é sinal de que a corrução. mas são maneiras de realçar a qualidade expressa pelo respectivo nome: a fortaleza. exprime enfàticamente a alta venerabilidade que competia a êsses homens.

a distribuição do tempo em semanas (cf. O número sete é dos mais dotados de valor simbólico na mentalidade antiga e na Escritura Sagrada. Lc 17. "Siebenzahl und sabbat bei den Babyloniern und im Alten Testament".37. exata do furto cometido (de resto. prestar juramento.6 lê-se que o homem que haja roubado uma ovelha. é estranha. por exemplo. que ocorria freqüentemente nas suas histórias religiosas e nas cerimónias de culto. por admitirem divisão em duas partes inteiras. Mt 18.4a). aa) nas fórmulas de contratos e juramentos: Abraão deu a Abinieleque sete ovelhas como penhor de que cumpriria sua palavra (cf. porém. em lugar de "quatro". A figura da mão dotada de sete dedos era na Caldéia simbolo da plenitude da fórça e do poder. Lc 19. plenitude que é própria da Divindade. quiseram por meio dêste número indicar melhor o que o texto original subentende. perfeitos. a estima geral dedicada ao número sete parecia sancionada pela própria Bíblia. O significado importante do setenário entre os orientais compreende-se pelo fato de que êstes povos dividiam o tempo conforme as fases da lua. atribuíam-lhe o significado de totalidade. isto é. J. longe de atribuir a "sete" significado quantitativo. Gên 21. é obrigado a restituir quatro outras (de acôrdo com a lei formulada em tx 20. que os judeus de Alexandria. Esta tradução. plenitude. 12 Em uni cântico penitenciai babilônico. da mesma raiz que sheba. ao contrário. quebradiços. 34s.16 se refere a sete (= tôdas as) quedas do justo. sempre que haja ocasião para Isto (ci. faltas numerosissimas ou de incomensurável gravidade. o orante confessava ter cometido sete vêzes sete pecados. bb) sempre que se queira exprimir a totalidade. . assim o discípulo de Cristo há de perdoar setenta vêzes sete vêzes.24 (a vingança de Caim e a de Lameque). 11 5 (1907). Um fenômeno literário Interessante ainda solicita atenção: no texto hebraico de 2 8am 12.4). puseram 'sete ovelhas". os hebreus derivavam o verbo sliaba. Em outra oração. 1' É com êste sentido que êle ocorre.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 69 ção do vazio ou do intervalo na unidade. em Prov 6. que reconhecia e promulgava. se se penetra na mentalidade dos tradutores: no caso. já em suas primeiras páginas. emLeipziger semitische Studien. à primeira vista. eram tidos por fortes. sete. De resto. 11 Já na Babilônia sete (= lcissatu) era sinônimo de totalidade. os números pares eram considerados inf eflores. definidos. os números ímpares. tão grande quanto seja. matemático. pedia sete vézes perdão. da vida humana. a saber: que se há de fazer a compensação cabal. Ci. ao traduzir o trecho para o grego. plenitude e perfeição. moles ou femininos.15. isto é. Veja-se ainda Gên 4. Eis. a) o 'número sete. indefinidamente. Hehn.30 está dito que o ladrão deve restituir sete vêzes o que roubou 1). Visto que o número sete determina períodos mais ou menos completos.8). contudo ela se explica muito bem.30). dizer palavra firme.12 O autor de Prov 24. Em geral. parecia essencialmente imperfeito.21s. ci. Em Israel. opondo-se a isto. viris. Gên 1. Os caldeus fizeram do setenário um número sagrado.1-2.

três justos de Ezequiel (14. sétimo ano ou ano sabático. o núm?ro dez foi tido como símbolo de um "todo completo. os. C+ên 2. 15. que excluem do reino de Deus (1 Cor 6. ficando a cifra exata desconhecida tanto ao escritor como ao leitor. a série dos tempos foi preenchida sem algum acontecimento digno de nota para a historiografia religiosa. Mt 25.10). nas parábolas de Cristo (I.. Noé e Abraão. Éx 20. o catálogo (taxativo. O número dez tornou-se importante entre os antigos pelo fato de que o homem primitivo.c 19. O número três gozava também de grande estima entre os se- Em cada um déstes trechos.38s).10-32): o hagiógrafo.1-32) e dos semitas (Gén 11. a menção de dez vícios (não exaustiva).13. ano que mais se assemelhe à perfeição da vida celeste. não sàmente por ser o primeiro composto ímpar.1-17. . embora mais parcimoniosamente do que o número sete.11). Sejam aqui mencionados apenas os três filhos de Noé (Gên 6.1).14).10. e) o número dez. mas apenas queria referir-se a todos quantos (. os três amigos de Jó (2. Em tais circunstâncias. as dez dracmas (= número redondo). os três companheiros de Daniel (3. O que interessava o autor sagrado era dizer que entre Adão e Noé. recorria aos dedos de suas mãos. é figura que sôbre qualquer de suas bases está sempre em pé. mas também porque o triângulo equilátero constitui um dos simbolos mais expressivos de firmeza e perfeição. É certamente êste o significado que lhe compete nas genealogias dos setitas (Gên 5. as dez virgens (= todos os cristãos). Lev 25. Noé e Abraão.23).8. ano jubilar ou qüinquagésimo 17 x 7 + 11). fechado em si". . ao contar.2.70 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO cc) quando se quer indicar um dia ou ano de repouso. desta praxe se origffiou o sistema decimal. de modo nenhum entendia dizer quantas gerações mediaram respectivamente entre Adão e Noé. mitas. ao mencionar dez Patriarcas em cada uma. tal dia ou tal ano é determinado pelo número sete (sétimo dia ou sábado. os três dias passados por Jonas no ventre do monstro marinho (2.) tenha realmente havido.1) b) o número três.9s). de renovação. os três anjos que apareceram a Abraão (Gên 18. não se deixando de modo nenhum derrubar. não exaustivo) de dez adversários que não conseguem arrebatar ao cristão o amor de Cristo (Rom 8. Sejam mencionados ainda: os dez servos (= um grupo completo). o sentido do número três há de ser analisado à luz do gênero literário adotado pelo hagiógraf o.2). Ci. O ternário ocorre com freqüência na Escritura.

16s. 14 3. por sua vez. mas designam qualidades. . guardadas por doze anjos. A interpretação de cada um dêstes requer estudo exato do respectivo contexto. ordinàriamente rituais. Um dêstes.. o reino messiânico é descrito no Apocalipse como Cidade Santa. divisão que já babilônios e egípcios observavam. Apc 21. esta constitui o reino teocrático por excelência. 13 d) o 'número doze.. constitui o salmo 14. Tais mdicacões significam o caráter de plenitude. éle se propaga mediante a pregação dos Apóstolos. não comporta mais particulares a respeito dos números bíblicos. Na Sagrada Escritura. 51 (1947). salmo em que é realçado o número dez: A tradição israelita conhecia outros formulários que catalogavam em listas de doze os atos e as pessoas que mereciam maldição (Dt 27.. simbolizasse. em L'Ami du Clergë. Era natural que a cifra. ornada cada qual por uma pérola e o nome de uma das tribos de Israel. que toca à nova Jerusalém ou à Igreja de Cristo. sendo quadrada. 12. a nova Jerusalém. portadoras da fé e da esperança messiânicas.14-27). todo santuário apresentava regras próprias. 13 "Na antiguidade. ENUMERAÇÕES PROVERBIAIS E ARREDONDADAS Dizia-se acima que os números na Sagrada Escritura por vêzes não são a expressão de quantidades. consumação. em que os bens outrora outorgados às tribos de Israel se acham multiplicados e oferecidos a todos os homens. o reino messiânico mesmo é freqüentemente assinalado pelo número doze.20s). Em Israel essas regras eram enunciadas nos formulários da "liturgia de entrada". tem doze mil estádios de lado.. 14 O presente estudo. a muralha perimetral mede cento e quarenta e quatro côvados (cf. o número doze é básico para a história do povo de Deus. totalidade ou plenitude. lste constava de doze tribos. escolhidos pelo Senhor para constituírem o elo entre as doze tribos (a totalidade) do antigo Israel e a plenitude do novo Israel. ou também os atos de obediência à Lei (Ez 18. Baseado sôbre os doze Apóstolos quais pedras fundamentais. Com efeito. a cidade. que deviam observar os que lã Quisessem entrar para participar das bênçãos do culto. agora recrutado dentre tôdas as nações. as dez prescrições dirigidas a quem queira subir à montanha do Senhor (Si 14). todos impregnados de moralismo.5-9) A. visando apenas uma iniciação geral na Sagrada Escritura. Gelin. 852. abrangendo um período definido em si. em conseqüência.14. O número doze adquiriu aprêço em virtude da divisão do ano em doze meses. cuja estrutura é impregnada do mesmo número: tem doze portas.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 71 a série de dez milagres narrados sucessivamente para comprovar a autoridade de Jesus após o importantissimo sermão sôbre a montanha (Mt 8s). sôbre cada qual das pedras da base acha-se o nome de um dos Apóstolos.

que não correspondem matemàticamente à realidade. no contexto. Com efeito. mas Incrimina o êrro ou os erros (quantos sejam !) do respectivo povo. aliás muito expressivo.) E por causa de quatro crimes.11. acrescentada logo a seguir. mas tem seu significado próprio. é a disposição dos elementos enunciados em duas séries: ii e n + 1. os orientais admitiam fàcilmente certa latitude ao enunciar uma quantidade. Davi ainda o é mais". Raja vista. mesmo ao significar quantidades.1. Outro artifício de números. Não revogarei o meu decreto (de punição) (Am 1. Gaza. parte para dar ênfase Haja vista o que se disse sôbre o simbolismo do número três à pág.o Senhor: Por causa de três crimes de. usa a fórmula introdutória estereotípica: "Assim fala ." (1 5am 21. possui valor de superlativo. porém. proverbial. etc.72 PABA ENTENDER O MITIGO TESTAMENTO É mister agora observar que.... por outro lado. 2. É aos gregos. Tiro.. após a dita fórmula introdutória. indica que o réu é grandemente culpado. ora. por vêzes. provoca irrevogàvelmente a punição divina. é meramente retórica. (Damasco. significa que a iniqüidade ultrapassa mesmo tôda medida e. n + 1 ocorrem freqüentemente na Sagrada Escritura. encontra-se na história de Davi: para louvar a bravura déste guerreiro. o haglógrafo não enumera nem três nem quatro faltas. 15 A instância quatro.8: o profeta anuncia a seis povos pagãos e às duas frações do povo eleito (Judá e Samaria) o castigo divino.123 O sentido do adágio é claro: "por muito aguerrido que tenha sido Saul. Considerando êste particular. ao se dirigir a cada um dos réus. proverbial. 16 Afirmações em que números são mencionados conforme o esquema n. dos gregos receberam os demais europeus a geometria. por isto. à exatidão em geral.6. cantavam os coros popuiares: "Saul matou os seus mil. O artifício servia parte para ajudar a memória dos discípulos (que deviam aprender de cor as máximas sapienciais). cuja civilização surgiu posteriormente à dos semitas. os exegetas reconhecem haver na Sagrada Escritura enumerações intencionalmente enfáticas.3-2. Davi.4. a arte das medidas. Exemplo evidente de uso enfático.9. adaptados a artifícios de linguagem.) A menção gradativa de três e quatro crimes não é de ordem matemática nem. também enumerações arredondadas. o texto de Am 1.13. 15 16 . em particular nos livros didáticos ou sapienciais. 70. são.3. que o mundo ocidental deve a tendência à precisão matemática. os seus dez mil. É bem de notar que. por exemplo.6. três.

) . luz dos vivos. morrerá. em Biblica. os jovens heróis do mar.19. 50.2. Miq 5. Os filólcgos têm comprovado que os números enunciados em tais fórmulas não possuem valor matemático. em favor do homem. uma quinta parte será vitimada pela peste. Note-se também o bis terque de Cícero.) "Seis coisas há que o Senhor odeia. prendendo mais a atenção do ouvinte.8. dois-três. 17 não raro o orador visava com isto acentuar o último membro da série. uma sexta parte. sete-oito.25s.16-19. Eis alguns exemplos • • • • • • • • • figura figura f. O coração que medita planos pecantinosos. Prov 30. em Is 17. será vitimada. número da totalidade !) Cf. Eis.) "A sanguessuga tem duas filhas: Dá. um exemplo proveniente de documentos fenicios (ugariticos). a qual excede a unidade. o emprêgo dos números em provérbios supõe por vêzes o valor simbólico dos mesmos de que tratavam as páginas anteriores. 18 A fim de tornar mais significativas as referências acima. A falsa testemunha que profere mentiras. nove-dez.15s. uma sêtima parte. 29-31. mas são simbolos. os príncipes. eis que ela perecerá pela espada. o qual claramente inculca não se dever atribuir ás cifras sentido quantitativo: "Uma têrça parte. os homens idôneos. Duas vêzes.e beati de Vergílio.295. 21 (1940).15s. 18 17 Êste artifício de ênfase parece tão espontáneo à psicologia humana que êle ocorre também na literatura extrabiblica.18s. "Der Zahlenspruch im Hebraeischen und Ugaritischen". fazendo recair mormente sôbre êste a fôrça da sua afirmação. 198. Trata-se.4. Quatro mesmo nunca dizem: Basta! A região dos mortos. quatro-cinco (associada a dois-três). entre outros. o orador preferia enunciá-lo parceladamente.6. As mãos que derramam sangue inocente. que hão de ser entendidos á luz do simbolismo oriental dos números. Belo 26. dois-três-quatro. três vêzes. Deus faz isso tudo. em Am Is. o ter quaterqv. cinco-seis.. Os olhos altivos.19.5. Prov 6. Bea. a língua enganadora.21-23. Am 4. Edo 2619. de números irreais concebidos para indicar que tõdas as categorias de responsáveis de determïnado povo serão atingidas por flagelos diversos (a última fração é a do sétimo." (Já 33. A fim de o salvar da morte E iluminá-lo com a. Os pés apressados a correr ao mal. em 4 Rs 13. E aquêle que dissemina a discórdia entre irmãos." (Prov 6. uma quarta parte.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 73 ao discurso: em vez de dizer simplesmente e de uma só vez o valor totai. em Belo 25. morrerá. E sete que êle abomina. transcrevemos um ou outro dos textos citados: "Eis." Como se vê.29.7. A. eia Prov 30. A terra que não se satura de água.5. Não há dúvida. E o fogo que jamais exclama: Basta (Prov 30.gura figura figura figura figura figura figura um-dois ocorre em Já 40. as frações enumeradas dão unia soma de 459/420. em Bel 11. seis-sete.16. o seio estéril. dá! Três coisas são insaciáveis. em Já 5. SI 61. em Já 33.12. três-quatro. pois.

por exemplo. Há problemas de números na Sagrada Escritura ocasionados por erros de cópia ou por deficiente conservação do texto sagrado. Não era difícil que um copista hebraico incorresse em erros na transmissão dos números.) 19 É o que se dá em Edo 25. de acôrdo com 3 Rs 4. nem expressões proverbiais.2. o valor Ir." (Miq 5. segundo bons comentadores católicos. porém." . Edo 25. sem gradação enfática (cf. Prov 30.1416. o amor ao próximo. mas simplesmente cifras aproximativas ou arredondadas.1-4: "Meu espirito compraz-se em três coisas Aprovadas por Deus e pelos homens: A união entre os irmãos. NÚMEROS MAL TRANSMITÍDOS Mais uma observaçãõ se imp6e na exegese das cifras bíblicas. Faremos levantar contra êle sete pastôres E oito príncipes do povo. E um marido que se entende bem com a espõsa. trés tipos de pessoas que minha alma detesta E cuja vida me é insuportável: Um mendigo soberbo. os sinais: "Quando o assírio invadir nossa terra E seu pé calcar nosso palácio.15. Exemplo marcante é o seguinte: o autor sagrado em 3 Rs 7. que na matemática é de 3.24).1-4. a proporção entre a circunferência e o diâmetro seria simplesmente igual a três. Ao menos. expresso redondamente pela cifra três. conforme 2 Sam 24. nada há que obrigue a se atribuir sentido literal a estas cifras.12. Está claro que em tais casos a autêntica interpretação se obtém pela aplicação das normas da arte crítica do texto. os setenta milhares de vítimas da peste desencadeada sôbre o reino de Davi. No caso. 4. foi.4. portanto.74 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Acontece também que a enunciação seja feita diretamente. Há. refere que o mar de bronze. um ricaço mentiroso. ora êstes por vêzes se assemelhavam tanto entre si que se podiam fàcilmente confundir uns com os outros. Outros exemplos seriam: o total de três mil provérbios que Salomão proferiu em sua vida. grande piscina colocada por Salomão sôbre doze estátuas de bois à entrada do Templo do Senhor. 19 Ainda se deve observar que certos números na Sagrada Escritura não parecem ser nem indicações matemáticas.23 e 2 Crôn 4. era circular e tinha um perímetro de trinta côvados por dez de diâmetro. que em certo grau levam a reconstituir o teor original da página estudada. E um ancião tolo e Insensato. As cifras eram assinaladas pelos caracteres do alfabeto. considerem-se.

2.1 se apresenta lacunoso: "Saul tinha a idade de. Com efeito. e repousou no sétimo Dentre estas duas variantes. 1/lI dc. Segundo o texto hebraico de 3 Rs 5. não se hesita em julgar que a segunda é a original. quando começou a reinar. Eis mais urna divergência que muito provãvelmente se há de explicar por deficiente transmissão do texto original. lhe atribuem dezoito anos noinicio do seu reinado.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 75 e (daleth) e (vau) j =100 (qof) e 7=200 (resh) J = 7 (zain) (resh) e =10 (iod) 7 = 200 Eis alguns textos em que as mãos dos copistas introduziram variantes errôneas Gên 2. em vez de esclarecer." São Paulo. Em 2 Crõn 36." A causa do defeito não poderia ser indicada com precisão. mas de modo descabido.C.. dificil se torna reconstituir a realidade histórica.) dão a ler: terminou no sexto dia. anos.26) e 2 Crõn 9. considerada a afinidade gráfica de j(vau = 6) e J(zain = 7). Diante destas variantes. Assim é que dão a ler: "Saul tinha um ano quando começou a reinar: reinou dois anos em Israel. variante que mais fidedigna parece.25 fala apenas de quatro mil mangedouras. A confusão entre "seis (sexto)" e 'sete (sétimo)" se explica fàdllmente. Ora a tradução grega dos LXX em 2 Crón 9. interpretando fontes ou seguindo critérios atualmente desconhecidos. acontecia por vêzes que. diante de um texto aparentemente obscuro.25. assim como a seção paralela de 4 Rs 24.. Os tradutores gregos.6 (Vg 4. embora não atestada pela forma atual do texto hebraico.8. é necessário outrossim se levem em consideração as glossas ou interpolações praticadas por mãos posteriores à do autor. apresentam a forma: "Deus terminou no sétimo dia a obra que fizera.. v d. a qual assinala a duração de quarenta anos ao reinado de Saul. Ao se estudarem os problemas de números na Bíblia Sagrada. um leitor desejoso de resolver a presumida dificuldade acrescentava um dado que. as traduções grega dos LXX (séc.). As traduções dos LXX e da Vg suprem a deficiéncia.) e síria (séc.C. em At 13. embora só esteja conservada em traduções.21. O contexto a exige. no caso. Salomão possuia quarenta mil mangedouras para os seus cavalos. anos em Israel. assim como a tradução latina da Vulgata (séc..9 (texto hebraico) lê-se que Jeconías tinha oito anos quando começou a reinar.. ao passo que as traduções grega é síria. nos terão transmitido o teor de um arquétipo hebraico mais bem conservado do que os nossos. O texto hebraico hoje conservado de 1 8am 13." Ao contrário. III a. e repousou no sétimo dia.. refere outra tradição judaica. e exige imperiosamente. reinou. O texto hebraico atual. só fazia suscitar .

15. conclui-se que sob o rei Davi havia 1 100 ou 1 300 batalhões em Israel.é excessiva. 1 5am 10.5 seja o produto de Interpolação. O fato de que Deus haja permitido a introdução de erros de cópia no texto sagrado.. supôe um total de quatro ou cinco milhões de cidadãos em Israel nos tempos de Davi . Além disto. Assim nos livros do Novo Testamento. assim como a deficiente conservação ou a perda do original de alguns livros. significando "milheiro".9. relativamente poucas são as variantes de alcance dogmático ou teológico registradas nos códigos sagrados. como o reino do Sul. o Espírito de Deus não se dignou revelar aos hagiógrafos o número exato de guerreiros. Mlq 5. Esta última dif. 'Eleph. designaria um batalhão (ordinàriamente de mil homens). Sendo assim. observa-se que a primeira cifra (1100 000 homens armados) se refere a todo o povo de Israel (incluindo a tribo de Judá. apontam-se cêrca de 200 000 variantes. a quanto parece). sem que cada qual tivesse necessàriamente o montante de mil homens. que têm sido os mais copiados e estudados no decorrer da era cristã.. "Judá". em texto paralelo. Destarte se chega a plausível solução do problema.o que é inverossímil.. Com efeito. Haja vista apenas o seguinte exemplo: Em 1 Grôn 21. o leitor se vê diante de duas tradições existentes no povo de Deus a respeito do número de soldados do rei Davi: a tradição de 1 Crôn 21 e a de 2 5am 24..5 lê-se que sob o rei Davi "todo (o povo de) Israel contava 1100000 guerreiros. Aplicando-se tal hipótese aos textos de 1 Crõn 21 e 2 8am 24. consignadas num total de 4 270 20 "IFraeI"." 20 A solução do problema é complexa. Em primeiro lugar. Assim se originavam complicações para o futuro intérprete da Escritura Sagrada. note-se que algumas recensões gregas de 1 Crôn omitem a cifra de 470 000 guerreiros em Judá. e Judá 470 000 guerreiros".1 300 000 (2 8am 24) ou 1100000 homens de guerra (1 Crôn 21) . Eliminada esta cifra. mas permitiu que cada qual referisse simplesmente o que aprendera por via humana. Já que éstes dados são Indiferentes à mensagem religiosa da Biblia. estas observações. milheiro. podia designar a fração de uma tribo. mesmo quando o efetivo dos batalhões já não era respectivamente de mil ou cem homens. é entendido como o reino cismático do Norte.76 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO um problema exegético. neste Último texto. determinada subdivisão administrativa. como centuria em latim significava o batalhâo (ordinàriamente de cem soldados). outras vêzes o interpolador visava tornar mais semelhantes entre si dois textos que lhe pareciãm afines um com o outro. porém. Ora o autor de 2 8am 24. tais indicações bastavam para transmitir as verdades de índole religiosa que a história de Davi era destinada a comunicar aos leitores. não chega a afetar a mensagem religiosa da Bíblia. pois. Ora pode-se bem admitir que os nomes 'eleph (= milheiro) e centuria hajam sido conservados na linguagem cotidiana.culdade se esvanece se se considera que o têrmo hebraico 'eleph.19.23. . ainda se deve reconhecer que qualquer das cifras . 23. como é o caso em Jz 6. e 500 000 em Judá. Feitas. em linguagem militar.8. menciona "800 000 guerreiros em Israel. bons exegetas admitem que o número de 470 000 em 1 Crôn 21.

14s) referem que os discípulos levaram a Jesus um jumentinho.51. artigos.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 77 códigos.16. não atingindo o sentido do que o autor sagrado queria dizer.. para que a defectibilidade das criaturas não deturpasse a mensagem do Criador. não se poderia deixar de mencionar mais o seguinte: os semitas às vêzes atribuíam às suas enumerações sentido precisivo. Rom 12. porém.). não excluia. porque nem tudo vinha ao caso ou era de interêsse na narrativa A cifra enunciada correspondia à realidade considerada sob certo aspecto. emprêgo de sinônimos. apenas". não exaustivo. João (12. Como se há de entender a divergência? . Lucas (19. a menos que o contrário se imponha pelo contexto. embora usasse dêste nosso modo de falar. uso ou omissão de preposições. a grande maioria versa sôbre ortografia. não exclusivo. ocidentais modernos. dá-se-lhes assim sentido exclusivo.. portanto. fazia também enumerações que apenas prescindiam de quantidade maior.19s. Jo 1. porém.2-4). posição de palavras na frase. absoluto. as enumerações costumam ser exatas. Mc 1. SENTIDO EXCLUSIVO E SENTIDO PRECISIVO Entre os princípios que norteiam a exegese dos números bíblicos. há menção de um jumento e do jumentinho seu filhote. sem querer impedir as vicissitudes por que naturalmente passam os manuscritos antigos. Marcos (11. Destarte a Providência Divina. Usavam assim o número em sentido precisivo. S. sem a excluir.30-33) e S. ou sentido taxativo. Um pouco menos de 200 variantes tocam o significado do texto em pormenores secundários (cf. Cêrca de quinze apenas dizem respeito a assuntos dogmáticos (cf. Lc 2. assim falando. O semita. a Sagrada Escritura mesma fornece outros textos. Que quer isto dizer? Entre nós. Lc 22.. sóbre o qual o Senhor fêz sua entrada solene em Jerusalém.16. fôsse também fiel à realidade (considerada então sob aspecto diverso). Em Mt 21. excluindo cifra mais elevada do que a referida. não obstante. porém.18. para resolver as dúvidas teológicas provenientes de tais oscilações. que outro número. 1 Cor 15.1. velou. sôbre cuja fidelidade literária não pairam questões. 5. 1 Tes 2. O orador deixava simplesmente de mencionar tôda a quantidade. se acrescenta tàcitamente o advérbio "sàmente.2-7. não julgavam dever advertir o leitor a respeito do artifício.14. mais vultuoso. não exclusivo.. aos números. contudo. mais ou menos paralelos. 1 Tim 3.13.7.). Não obstante. destas variantes. Mt 1. Eis como tal modo de falar repercute em passagens da Sagrada Escritura: S.

Marcos (10. Jo 20. Ora. Também nas suas indicações cronológicas os semitas faziam uso dos têrmos ora no sentido exclusivo ora no precisivo. cf. Marcos (5. porém. no texto paralelo.36." O oráculo não significa que.. Lc 24. Mt 28. preceder-vos-ei na Gaiiléla".17.9. tal interpretação contradiria a tôda a teologia bíblica. Mt 28.32: "Depois que tiver ressuscitado. o Messias haverá de perder o seu primado ou a sua realeza. Até que eu faça de teus inimigos o supedâneo de teus pés. fala de dois cegos. na narrativa dos evangelistas realmente só Interessava mencionar o animal que Jesus montou. Portanto.46-52) descreve como. Êste exame manifestará as principais leis de estilo que o autor sagrado tenha seguido ao empregar os números.28) refere dois homens endeinonlados. S. significavam: "Na Galiléia certamente vereis a Jesus (e aquelas manifestações serão as principais) ".) Contudo os evangelistas mesmos referem que no dia da ressurreição Jesus se mostrou em Jerusalém não sômente à.2) e S. porém. ficará o leitor consciente de que nem todo número na Bíblia quer e deve ser entendido como a expressão quantitativa.lls). no caso. não exclusivo. apenas "pTescinde" ou faz abstração do que aconteceu depois. Mateus (20. isto não quer dizer que." (Mc 16. mas também aos Apóstolos (cf. após haver Maria dado à luz.30).1 anuncia: "Javé falou a meu Senhor (o Messias): Senta-te à minha direita. José tenha tido com ela comércio conjugal. conforme a tradição exegética vigente desde os tempos mais antigos.78 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A primeira proposição não se opõe à segunda. dependerá sempre do exame do gênero literário usado pelo hagiógrafo. Jo 20. Exemplos déste Último têm-se em: Mt 26. após debelados os inimigos do reino messiânico. O recurso a tais instrumentos exegéticos há de variar. estas são outras tantas divergências em que o principio acima exposto encontra aplicação. Em outros térmos. pela primeira vez. ensina a sã exegese. vereis a Jesus". se se atribui ao enunciado de Mc. o 51109. Lucas (8. não exclui o 'depois que". naturalmente. mas apenas precisivo. É o que nos leva a dizer que também neste versiculo não se deve atribuir ao têrnio "até que" sentido exclusivo. ao sair de Jericó. 19.7.28. Ora. disse Jesus aos Apóstolos. Famoso é outrossim o uso bíblico da conjunção "até que" em Mt 1. "até que". Le e Jo o sentido precisivo dos orientais.27) mencionam um homem possesso. .". da realidade. S. *** As considerações dêste parágrafo visam tão-sàmente indicar as principais vias que conduzem à genuína interpretação dos números ocorrentes na Sagrada Escritura.. não "Na Galiléia. De modo semelhante ammciaram os anjos às mulheres santas: "Preceder-vos-á na Oahléia. Mateus (8.26). De antemão.s santas mulheres (cf. não sentido exclusivo.25 está dito que José não se uniu a Maria "até que desse à luz o seu filho. ao passo que S. matemática. Disto se conclui que as profecias de aparições na Gallléia tinham sentido precisivo. o Senhor curou um cego. lá O vereis. Mc 14. que Jesus libertou do demônio. S. cf. de caso a caso.

que a Grande Igreja fêz bem de evitar. entram em conflito com as normas do Evangelho. Na Alemanha. 40. Rosenberg afirmava que a antiga Biblia não é mais do que uma "coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros". rejeitava categôricamente os livros sagrados dos israelitas. XVI. Catholiques d'AUemagne (Paris. suas histórias e afirmações. é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica. conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo. ]933). da honestidade ou da ciência moderna. de aparência por vêzes sólida.CAPÍTULO V O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO Não e raro ouvir-se a pergunta: "Qual o valor que. 217. etc. no séc. possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara. para o homem moderno. após o séc. o Papa Pio XII notava com Sumo pesar haver entre os católicos "quem queira cancelar dos autênticos livros de oração pública os textos sagrados do Antigo Testamento.)." 1 A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo. II e fundador de seita. Adolf von Harnack (t 1930). a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é PalaMarcion (Leipzig2. o proveito que possa acarretar tal leitura. provocando "escândalos" de ordem moral ou científica. 1 2 . 1924). II. consumara a Revelação do Antigo Testamento. A questão não é nova. rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha. á qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. Surgiu mesmo no início da era cristã. fascismo. à primeira vista. por exemplo. por conseguinte. Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. De resto em 1947 SS. guardá-lo era uma necessidade fatal. escrevia: "No séc. mais largamente. Citação encontrada na obra de R. d'Harcourt. para o cristão ou. Mediator Dei. 191. quando os homens perceberam que Jesus. como se fôsse uru documento can6nico. o Messias. XIX. 2 Não obstante as objeções. Acta Apostolicae Sedis 39 [1947] 545). pretextando que tais Seções são pouco convenientes e oportunas em nossos tempos" (Fnc. não se vê. Assim Marcion. hereje do séc. julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompativel com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento. Mas.

sejam profecias. Ungido. examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. a seguir. ora preparada e anunciada (Antigo Testamento). do pontõ de vista de Deus. após a ruptura. tome. também para os nossos tempos. em hebraico). 1 Sendo assim. nos leva a dizer que tôda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora. por vicissitudes de tradutores. que não se deixa vencer em bondade. profecias. por exemplo. significativa. mas Deus. o nome Cristo se foi tornando estritamente nome pessoal do Senhor Jesus. Em conseqüência. conforme as páginas iniciais da Bíblia.O têrmo hebraico Messias tem seu correspondente exato no grego Christós. Jesus (o) Cristo é expressão que se poderia assim desdobrar: o homem que tem por nome civil Jesus (salvador. que eram sempre ungidos). tradições populares. É isto o que. sejam crônicas. a encíclica de Pio XI "Mit breunender Sorge". 102s. era simplesmente dito o MESSIAS. etc. Por conseguinte também. as variadas páginas do Antigo Testamento .80 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vra de Deus imperecível. direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. portanto como o Ungido por excelência (à semelhança de Davi e dos demais reis de Israel. cânticos religiosos. veja-se pãg. Já que as profecias em Israel o apresentavam como o mais glorioso descendente do rei Davi. é. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. significando Ungido. § 1. sim. Com efeito. para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual. 3 Tenha-se em vista. restaurar o pacto mediante novo homem dito "o Messias". 4 Sãbre o conceito biblico de 'Aliança". em última análise. pois. prometeu. . é comumente dita "Testamento". máximas de sabedoria. ora efetuada (Novo Testamento). datada de 21 de março de 1937. portanto. . de então por diante. V e VI). possui a função de Messias (cristo. sejam leis. eta$s que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. antes do mais. o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida. 4 A aliança é. Chrzstós é. designa na linguagem bíblica o Restaurador prometido por Deus. travada com o primeiro homem logo depois da criação. porém. Isto faz que tôda a história. interessa-nos. 5 Messias é têrmo hebraico que. que. Rei teocrático). êste.° DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META Quem abra o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história. primãriamente a designação de uma função.diríamos mesmo: de tôda a Sagrada Escritura não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. não a soube observar. violou-a. consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura. Aos poucos. todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história.

não constitui senão a periferia do Antigo Testamento. doenças foram. as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico. quando se consumará a vitória do Bem sôbre o mal. procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus. 6 violada. a descendência da mulher e a da serpente (cf. porém. isto é. 1. após a queda original. Agostinho. pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fêz tanta coisa fôsse escrita sob o carisma da inspiração. 2 Tes 2. Deus a promete restaurar. isto é. éstes dois antagonistas podem ser chamados 'o mistério da iniqüidade" e "o mistério de Cristo" (f.22). pela criatura. não pactuam com a serpente. deve. O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gên 1-3) caracterizada por três acontecimentos: a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem. abaixo. tanto no individuo como na sociedade. ou ainda. no vocabulário de S. Eis o aspecto muito simples. em outros têrmos. pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. muito dramático. 1 . a serpente e sua linhagem. ou. manifestações ora mais claras. pois. Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história. considerada à luz de Deus. São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos. ainda assaz genérica. 'o Anticristo" e "Cristo" (cf.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 81 Esta afirmação. a mulher esua posteridade. sob a face externa. Inegàvelmente a história que êle nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. Eva penitente e todos aquêles que. tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado. porém. o ôlho da fé pode e deve discernir. Isto implica que. 7 Em linguagem paulina. a história. os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor. todos aquêles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores). carece de caráter religioso. "a Cidade do Diabo" e "a Cidade de Deus". ora menos evidentes. o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários. do reino de Cristo.15). por graça de Deus. guerras.7 e Col 2. procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios. introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão. sim. Tal aspecto.Jo 2. de outro lado. estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente. mas. conforme S. O É o autor de Edo 17. são. por mais explicável que pafeça á luz de fatóres naturais ou mecânicos. é o jôgo dêstes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos individuos. . manifestações do reino do pecado ou de Satanás. ao mesmo tempo. que a história universal tem aos olhos de Deus. João. Percorreremos.10 quem fala de aliança conclulda no paraíso entre Deus e os primeiros pais. Gên 3. pois.2). fomes. doutro lado.

dito de Judá. Samaria e Judá. Instaurou-se então o REINO de Israel. a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gên 12. que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930). uma constituição teocrática. Por volta de 1020 a. Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração. por meio de Moisés. a monarquia). a MONARQUIA.C.7. dito da Samaria. A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA.C. politicamente insigni8 O Senhor fõra até então o Rei de Israel. Éste desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fôra governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes). Em vista disto. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada.A PROMESSA". como lembra o próprio Deus falando a samuel em 1 5am 8. Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos. porém. provisória e nacional. travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano. sim. A própria monarquia. e reino do Sul. Os dois pequenos Estados irmãos. Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã. humanamente mais "garantido". A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para tôdas as nações. dêsse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro.. A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA. Daí chamar-se êste segundo marco da história ". O surto do povo de Deus foi confirmado por cêrca de 1240 a. Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldéia. acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte.C. Já que.1-3). sem dúvida. terra idólatra. após o primeiro pecado. ou seja. . sem intermediário régio.: tendo Israel caído cativo do Egito..82 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus. para Canaã (Palestina atual). aliança. mais fundado sôbre bases que o bom senso pode apreciar (tal é. dando-me. por volta de 1800 a. a corrução se alastrava entre os homens. 8 queria um govêrno menos dependente da Providência insondável do Criador.

ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios. sírios e romanos sucessivamente). Israel. que lhes sufocava o fervor teocrático Após o exílio.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO . contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de 9 CL pág. era o chamado RESTO DE ISRAEL. O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus. Javé assim lhes mandou uma "redenção". prosperidade humana. deveria esperar o REINO. passando a conceber o Criador de modo muito mais puro. mas fervorosos adeptos de sua fé. humanamente falando. um reino tal que "quem não o recebe como uma criancinha. os quais. Mc 10. que sua missão religiosa não estava necessàriamente ligada com sua missão nacional. moveram a resistência contra os sírios. . que queriam paganizar o povo de Deus. com tudo que êste reino implica de transcendente. conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus. a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio. os israelitas fàcilmente confundiam a figura do Messias. a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente. 59.83 ficantes. quase malogrados. Judá passou a viver como COIVIIJNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro. Privado de todo o aparato exterior (templo. os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica 9 da Divindade e da religião. a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa. Também êste foi altamente pedagógico para o povo de Deus. gregos. que ainda era etapa em demanda da Redenção plena. messiânica. sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Sarnaria em 722 se tornou prêsa dos assírios. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita. egípcios. infelizmente. vibrando de autêntica piedade. com a de um Libertador político. nêle não pode entrar" (cf.. A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política. porém. DE DEUS. Em 538 Ciro. oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias. ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém. pois lá haviam adquirido certo bem-estar ffiaterial.. Note-se bem: êsse resto se constituía de judeus pobres. Deportados para a Babilônia em 587. sacrifícios. os habitantes de Judá sofreram o EXILIO. comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. Muito digna de nota é a epopéia dos irmãos Macabeus (165-134). Restaurador da ordem religiosa. rei da Pérsia. de desconcertante para o "f 116sofo".15).

dos espíritos. Finalmente na plenitude dos tempos veiõ o Messias. "não ser" filho de Deus. Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus. a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus. 10 Da vinda de Cristo em diante. Uma vez completo o número dos qüe entrarão na bem-aventurança. Mt5. o REINO davidico se transformou em REINO DE DEUS ou dos céus (ef. que visava aparentemente a posse de Canaã e uma mansão terrestre. a ALIANÇA mosalca se mudou em NOVA ALIANÇA (oL 1 Cor 11. . a noção de que os bens messiânkos não se destinam a um povo apenas. Esquemàticamente. a sorte póstuma do homem. "não ter" a vida eterna. Mt 5. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). poder-se-iam assim reproduzir os grandes marcos da história sagrada: 10 Deve-se mesmo dizer que Cristo recapitulou e consumou os grandes marcos da história anterior. foi admitindo outrossim certo universalismo religioso. "ter" e.25. 2 Cor 3. segundo Adão. Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. ao mesmo tempo. a PROMESSA.34 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pensar. Pelo Redentor. com efeito. se mudou em promessa de bens transcendentes e impereciveis (cf.3). em que o cristão experimenta o que é "ser" e. em Pentecostes. que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada. são tempos de máxima tensão. não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento. 7. mas cinicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. ao mesmo tempo. mas a tôdas as nações da terra.5).14) . induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sôbre a morte e as demais conseqüências do pecado). ou seja. Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história. ou seja. prolonga-se já por vinte séculos.

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ao Messias. a reconsiderar em nível mais espiritual o que êle viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. portanto. Gelin. se projetavam os traços e a luz do que havia de vir posteriormente.. manifestariam cada vez mais o seu significado. Ésse povo nos aparece movido por um impeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente. Deus. Ss. talvez pouco dignos de Deus. ou num plano meramente natural. o Exílio. a Monarquia. Isto quer dizer: há no Antigo Testamento coisas e episódios que. O Antigo Testamento é a história dêsse continuo "ultrapassar-se a si mesmo". . porém. a Comunidade.86 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Quanto ao Antigo Testamento em particular. as tentativas. não sàmente por palavras. povo que não tinha gênio metafísico. formulou-a pouco a pouco. fôssem capazes de edificar os leitores (!). consideradas em si. e seriam plenamente inteligíveis após a vinda do Messias. se poderiam dizer infantis. quis ou permitiu tais coisas "estranhas" não porque. considerados em si mesmos ou à luz da "sabedoria humana". dêsse catecumenato. Nesses particularès do Antigo Testamento." 1 1 § 2. Tal característica bem pode ser chamada a chave para se interpretar a literatura inspirada de Israel Com efeito. sim. mas religioso. a intervenção gratuita e soberana de Deus na história. prenunciar a história do Messias e do reino messiânico. a Aliança. faz-se mister ainda realçar uma característica do processo pelo qual a Sabedoria Divina quis instruir os homens no Antigo Testamento..0 OS TIPOS BÍBLICOS Terminado êste breve percurso da história sagrada. Tais acenos ou tipos. 1949). por êsses personagens ou fatos misteriosos disseminados. não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula: "Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda. a Promessa. Les idées maftresses de l'Ãncien Testament (Paris. o Espírito de Deus quis. nas Escrituras. com o decorrer dos séculos. O Antigo Testamento é a história dêsse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha. os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história. a fraude de Jacó nas relações com seu irmão Esaú. dessa espiritualização crescente. o leitor deveria ser recordado de que não é a sua indústria ou "sabedoria" humana que o salva. ). As experiêncas. mas também por meio dos denominados "tipos bíblicos". o Ser Transcendente (assim todo o ritual do cordeiro e do sangue que o Senhor mandou aos israelitas observassem por ocasião da saída do Egito. a história do dilúvio e da arca de Noé . Nin11 A. viveu e aparentemente descobriu a via da salvação. mas. os reveses. o sacrifício de Abraão. mas porque o Senhor queria disseminar por tôda a história sagrada acenos à plenitude dos tempos.

donde se segue que. fala de Jesus. dessa 12 Não será isto uma evasiva semelhante à dos estóicos e filósofos pagãos posteriores que. como se as diversas peripêcias do Olimpo significassem verdades filosóficas? 13 são palavras de Jesus ressuscitado aos apóstolos: "Eis o que vos disse quando ainda estava convosco: era preciso se cumprisse tudo que a meu respeito está escrito na lei de Moisés. Profetas e salmos" são têrmos que.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 87 guém.21). At 13. o que a Éle dizia respeito. Êste era dividido em três partes. Jo 5. todos os profetas e tôdas as Escrituras". em tõdas as Escrituras. elas são essencialmente sinais." . por muito rude e primitiva que pareça. separando-as da história subseqüente. Quem se fecha a essa perspectiva. vê-se. pois. interpretavam arbitràriamente a mitologia num sentido alegórico. pois julgais por elas possuir a vida eterna. começando por Moisés e (continuando) por todos os profetas..44-463 "Moisés. justamente os da Lei mosaica são os que menos vaticínios explícitos contêm a respeito do Messias. segundo os judeus. 13 Aos discípulos de Emaús Jesus expôs "Moisés. 14 Mais ainda: afirmava o Senhor que a Lei mosaica mesma. e não quereis vir a Mim para ter a vida. 24.29. julgando indignos os mitos narrados por Homero e pelos primeiros "teólogos" gregos. pelos profetas e os salmos". porém: não será arbitrário querer explicar o que o Antigo Testamento tem de estranho. e disse-lhes: "Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia. pode pretender interpretar tais figuras. 28.31. 1"Se acrejitásseis em Moisés. ora sao elas que dão testemunho de Mim." (Lo 24. pois foi a meu respeito que êle escreveu. 4 "Disse-lhes: 'Õ homens sem entendimento e tardos de coração para crer em tudo que disseram as profetas Não era preciso que o Cristo sofresse para entrar em sua glória?' E.45. Pergunta-se.23. apresentam a antiga história de Israel e prescrições rituais. Jo 1. Rom 3.) Cf." (Jo 5." (Lo 24. Lo 16. tal atitude exegética seria subterfúgio sutil se o próprio Autor Divino das Escrituras não nos tivesse revelado o seu intento de prefigurar o Novo Testamento nas páginas anteriores a éste. necessãriamente. E como se nos manifesta tal intenção divina? De maneira geral dizia Cristo que tôda a sua vida e obra fôra predita "por Moisés. como se fôsse intencionado por Deus qual imagem de algo de posterior e mais sublime? 12 Não há dúvida.14. etc.) "Moisés e os profetas" é expressão sumária para designar tôda a Escritura Sagrada (cf. civis. tipos todos orientados para seus correspondentes antítipos. nos profetas e nos salmos. designavam todo o catálogo das Escrituras. na impossibilidade de avaliar o Antigo Testamento. cada uma das quais recebia o nome do seu livro ou autor principal. a partir dos quais hão de ser entendidos. acreditaríeis em Mim também.46. explicou-lhes. dentre os Jivros do Antigo Testamento." Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras.25-27. mostrando-lhes como sua paixão e glorificação se acham prenunciadas nestes livros.15. li ora.39: "Sondais as Escrituras.

Col 2. no Antigo e no Novo Testamento (cf. 3. Hebr 7. Paulo foi ter com os judeus e. Rom 9. Hebr 11. Jo 19.46. o maná no deserto (Êx 16.13s) = tipo do alimento do povo messiânico (cf. 21-26) = tipo do povo messiânico (cf. a nós que chega- "Tôdas essas coisas lhes aconteciam em figura (typi- mos aos fins dos tempos. e foram escritas para nossa erudição.49-51. • circuncisão (Gên 17. 1 Cor 10. Melquisedeque." (1 Cor 10. com certeza garantida pelo próprio Deus no Novo Testamento. 1 Cor 10.17-19).25) = tipo das duas dispensações da graça. Principe da paz (cf. também Paulo manifestava aos seus ouvintes o caráter messiânico da paixão e da ressurreição de Cristo.88 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO história e dessas leis.17-20) = tipo de Cristo Rei e Sacerdote (cf.15.) Como Jesus. Mt 2. valor de sinais do Messias. S. Espâsa e Mãe (cf. Eis a lista completa dos trechos do Antigo Testamento dos quais. Si 109).1-19) = tipo do sacrificio de Cristo (cf.14).14) = tipo do Messias.14) 16 Em Tessalonica.12) = tipo da Vitima perfeita (ci.2s).17) a serpente de bronze (Núm 21.26) = tipo do futuro (cf.21-24. 16 A respeito de um ou outro personagem ou acontecimento particular.ls). Ef 5.6): koos). segundo o grego typoi) do que nos concerne" (1 Cor 10. Múni 9.33-37) as graças e punições do êxodo = tipo das graças e punições do Cristianismo (ci. "conforme o seu costume.1-11). 1 Pdr 3. Paulo faz eco às asserções de Jesus.22-31). espõsa e mãe (Gên 2.31s) Abraão e seus dois filhos (Gên 16. se pode dizer que têm sentido típico: o primeiro Adão (Gên 1. . recorrendo às Escrituras do Antigo Testamento. as águas do dilúvio (Gên 7) = tipo do batismo (cf. o cordeiro pascoal (Êx 12.1-3.8s) = tipo do Salvador crucificado (cf. o Autor Divino da Bíblia nos deu expilditamente a conhecer que é tipo das reaiidades messiânicas. o sacrificio de Isaque (Gên 22. asseverando que os diversos acontecimentos do êxodo de Israel (passagem do Egito para Canaã) se deram a titulo de "figura (tipos. Rebeca e seus dois filhos. Ape 2. rei e sacerdote que oferece pão e vinho (Gên 14. Jo 6. Esaú e Jacó (Gên 25. Rom 5. explicando e afirmando que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos" (At 17. alguns episódios (ao menos os mais característicos) e alguns preceitos devem ter valor típico.10-13) Salomão. Hebr 1. 21. a primeira mulher.5) o filho de Deus no Antigo Testamento (Os 11.1) = tipo do Filho de Deus Encarnado (ci. durante três sábados.20). o rei pacifico (2 5am 7.20) = tipo da Igreja.15).11s) • passagem do Mar Vermelho (Éx 14. Jo 3.9-14) = tipo do batismo (ci. discorreu com êles na base das Escrituras.21-31) = tipo do batismo (cf. Gál 4.11.

além dos citados. não podem ser reconhecidos. ora mais pálido. a alegoria. Não há dúvida de que nem os autores inspirados nem a tradição cristã tinham em mente enumerar todos os tipos da Escritura sagrada. pois. chefe do povo de Deus (Jos) = tipo de Jesus Redentor. só tenham sentido literal muito simples. Col 2. A êstes se podem acrescentar outros traços cujo sentido típico é garantido pelo unânime testemunho da tradição cristã: Abel. Ester.1-50. 1 Crôn 1-9).1-11) = tipo da morte e da ressurreiçë.3-15) = tipo de Cristo sacrificado pelos seus. único senhor capaz de dispor acontecimentos pretéritos da história em vista de outros futuros. 17 Em linguagem técnica. no fim dos tempos estará consumado. espiritualizado. o mistério do Cristo (cf. é um fenômeno prôpriamente literário: consiste em que o escritor use de determinados vocábulos. fonte e consistência do tipo se acham na mente de Deus que. a vitória de Davi sóbre Golias (1 Sam 17) = tipo da vitória de Cristo sôbre o demônio. regendo a história.39s). senão por revelação do próprio Deus.'ide Cristo (ci. além do seu significado imediato. como êstes. porém. se distingue da alegoria pela característica seguinte: o tipo implica um personagem. Josué. existam outros tipos no Antigo Testamento. um objeto ou um acontecimento que realmente existiu na história e que Deus houve por bem ordenar. na mente do escritor que dela se serve. pois. Com isto. como aceno ou figura longinqua. alusivo a Cristo.4-19) = tipo de Maria Santíssima dotada do privilégio da Imaculada Conceição. nos primórdios e no decurso da história sagrada. que afirmamos existir na sagrada Escritwa. não deixam. dispõe haja homens e fatos no pretérito relacionados com análogos futuros. o justo imolado por seu irmão Caim (Gên 4. Ao contrário. o Patriarca vendido por seus Irmãos e salvador dos mesmos (Gén 37. 17 Em resumo. que gozava do privilégio de livre acesso ao rei (Est 15. J05 13-21). pois. seria artificial e pernicioso querer descobrir em cada passagem da Bíblia um significado simbólico. diversas narrativas que carecem de interêsse religioso imediato. É. Mt 12. descrições geográficas (cf. ao contrário. Deus o pode perfeitamente fazer já que todos os tempos lhe são igualmente presentes. basta lembrar que na Escritura há tabelas genealógicas (cf. outro mais abstrato.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 89 o rito do dia da Expiação (Lev 16. de crer que. José. a mulher forte por suas virtudes (Jdt) = tipo de Maria Santissima.26) = tipo de Cristo entregue por 30 moedas e Salvador do mundo.1-34) = tipo da Redenção (ci. o tipo. a outro personagem. Hebr 9. Fonte e consistência da alegoria estão. diremos: são os testemunhos da Escritura mesma que nos levam a ver no Antigo Testamento uma longa preparação para o Cristo. não está dito que tôdas as seções do Antigo Testamento se referem diretamente ao Messias e ao seu reino.2) se projeta esquemàticamente.7-9) o perigo mortal de Jonas e a subsequente libertação (Jon 2. Contudo os textos que. porém. Judite. atribuindo-lhes. ora mais vívído. objeto ou acontecimento da era messiânica. . com absoluta segurança.

porque constitui um dos tipos mais famosos do Messias (= Filho de Davi). Cf.a pessoa e a obra do Messias (Mt 1. de exprimir. Os' 3. o Salvador não só do povo de Davi.23s.5). êxodo da Babilônia -. por sua vez.história de Davi . nas narrativas proféticas. narra a história . as indicações cronológicas e geográficas dão forma à história dos reis de Israel e dos personagens do Antigo Testamento. com seus quatro capítulos.. 30s. Semelhantemente: Êxodo do Egito -. Mt 1. que só indiretamente têm relação com o tema primário da Biblia .o Messias -.5: Cristo é Davi por excelência).) . Ora. dão forma e colorido à figura do Messias. conforme o Evangelista. Mateus 'recapitula" essas duas histórias anteriores: Cristo. 19 Eis uma comparação oportunamente sugerida por S. não obstante.. bastava que tais noções fóssem dotadas da veracidade comumente dita "popular.. Cristo é. pai de Isai e avô de Davi. Redenção messiânica (1240) (538) * * * 18 Já que a sagrada Escritura alude a muitas noções de índole profana.17) e. a estrangeira (um dos quatro nomes fentninos expressamente citados na árvore genealógica de Jesus. S. os demais elementos são colocados no conjunto da citara. Mateus pode comunicar. pois constituem o arcabouço que sustenta os grandes marcos da história sagrada. eis a mensagem que S. a figura de Davi é longamente descrita nas Escrituras. encontra-se no livro sagrado a fim de que pudessem ser inseridos os trechos que significam algo de superior. se não o significa. 18 Mais concretamente ainda: as genealogias. dela nasce Obed. Ez 32. ao apresentar a pessoa do Messias no Evangelho. pág. pré-científica".de uma estrangeira moabita. aquilo que dentre os feitos dos homens é descrito em espírito profético. é três vêzes (ou por excelência) o que foi o rei Davi (cf. essas noções foram consignadas no Livro Sagrado tais como as conhecia ou podia conhecer o autor humano da Bíblia. ou por Si já significa algo de futuro.aparentemente insignificante do ponto de vista religioso .9. Da mesma forma.90 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO por isto. ou. Por que terá o Espírito Santo outorgado o carisma da inspiração para se escrever história tão humana? A finalidade imediata se depreende de Ru 4. o Espírito Santo não julgou necessário comunicar alguma revelação a tal escritor a respeito de particulares que só desempenham papel secundário no Livro Sagrado. a fim de que haja aonde as cordas sonoras se prendam. contràriamente ao estilo das genealogias orientais. que. Agostinho: "Nas citaras e em semelhantes instrumentos musicais. êstes. Mt 1.17: trata-se de introduzir na história sagrada a genealogia do rei Davi. 19 Eis um exemplo muito expressivo entre outros: o livrinho de Rute. cf.94. como filho de Davi. Por sua vez. 22. fornecem a trama necessária para que pessoas e fatos se articulem orgânicamente em vista da grande finalidade que é o Messias." (Contra Faustum Mau. mas também de tôdas as nações da terra. é descendente de Rute.1-17. junto com os demais. não tudo que se toca emite suave som. Em esquema: História de Rute . é esposada pelo israelita Booz e assim entra no povo de Deus. chamada Rute. mas produzem-no apenas as cordas. tendo por base a história aparentemente profana de Rute. pois. Jer 30. cf. o tema messiânico. apõs vacilações de amor.

a Santa Igreja compõe em tôrno dos ritos uma moldura de textos do Antigo e do Novo Testamento que elucidam. é dado aos cristãos ver os antítipos. 20 Esta conclusão será ulteriormente esclarecida e confirmada pelo que se há de dizer no capítulo seguinte. do Príncipe das trevas (cf. das imagens. pois. os ensinamentos de Cdsto não poderiam ser devidamente assimilados. hoje em dia. aos episódios do êxodo no de20 Os Santos Evangelhos se poderiam comparar a jornais dos judeus modernos. Em conseqüência. efetuando esta Redenção mais valiosa. sentido muito mais manifesto do que antes de Cristo. Liturgia ou pelos seus ritos e preces oficiais que a Igreja mostra como entende e quanto estima o Antigo Testamento. Evangelho. pois. sem que se estime e valorize o Antigo Testamento. aos olhos da fé. ao celebrar os mistérios do Crista e da Redenção na Liturgia. após a vinda do Messias. Cristo mesmo. a Igreja tem consciência de continuar em sua vida a história do povo de Deus iniciada no Antigo Testamento. É por isto que. por qualquer pretexto que seja. os que se referem à imolação do cordeiro pascoal. as realidades mais plenas outrora esboçadas. Ef 6. enquadrou-a dentro das circunstâncias (data. por resumidas que sejam. mais importante.313 Impossível.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 91 Estas considerações. ora com dizeres explícitos. os textos do Antigo Testamento têm. 8. principalmente do alemão antigo (que constitui a substãnoia do idioma chamado "yiddish"). ritos legais. ao lado dos tipos. Nos tempos presentes. em La Vis Spifltudlle." (Lc 16. as grandes fases da história sagrada pré-cristã eram etapas que Deus dispunha em vista do Cristo e do reino de Deus (por conseguinte. ao comemorar os mistérios da Redenção simplesmente dita (morte e ressurreição de Cristo). Ë principalmente através da S. exclui-lo do uso dos cristãos equivaleria a volatilizar o Evangelho. com isto o Senhor sobrepôs à Páscoa "típica" a Páscoa em sentido pleno. não deixam de pôr em relêvo o significado do Antigo Testamento. à travessia do mar vermelho. não lhe darão fé. Comparação proposta por Hamman. mesmo se alguém ressuscite dentre os mortos. de que fala o Antigo Testamento. etc. Está claro que ninguém pode entender as noticias modernas e sensacionais dêsses periódicos se não conhece o alfabeto judaico antigo que as veicula.) que convinham à celebração da Páscoa judaica.12). crer na autêntica mensagem de Jesus Cristo. . 'Pourquoi faut-il lire l'Ancien Testament". 85 (1951). ou seja. do gênero humano cativo sob o jugo do "Faraó" dêste mundo. a Santa Igreja faz passar ante os olhos dos fiéis os textos respectivos do Antigo Testamento (em particular. É o próprio Jesus quem o insinua delicadamente numa de suas parábolas: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas. portanto. caso desconheça o seu fundo de Antigo Testamento. Não é por mero espírito de tradição ou conservativismo arqueológico que ainda hoje os cristãos se servem dêstes textos. Querer. Haja vista principalmente a solenidade de Páscoa: a libertação dos israelitas cativos no Egito (Páscoa judaica) realizou-se para possibilitar a libertação. tirar a êste o valor de consumação de sábia pedagogia divina. Não. em vista da Igreja). impossível ser cristão. Assim também ninguém entende plenamente o S. aquilo que se celebra no culto cristão. que são escritos com caracteres hebraicos. mas vocabulário de linguas ocidentais. ora com imagens e figuras.

92 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO serto).) . Êstes trechos fazem o papel de aceitos antigos às realidades presentes (o que se torna evidente se se confrontam os textos da Liturgia da Semana Santa com a tabela de tipos aciha proposta). Mas a palavra de Deus permanece para sempre !" (Is 40.8. A erva seca e a flor murcha. "Tôda criatura é semelhante à erva E tôda a sua graça é como a flor dos campos. 6.

e a Sagrada Escritura em geral. c'est sa direction. pôde ser durante quase 2 000 anos o depositário e defensor da fé num Deus transcendente e em verdades sublimes que nem os grandes filósofos pré-cristãos souberam conceber (a criação do miando a partir do nada. a justa sanção etc. O dedo de Deus nas Escrituras só se torna perceptível a quem considere a direção geral das mesmas 1 ou a quem observe como as fases da história bíblica se encaminham aos poucos para um têrmo único . mostrando-se continuamente incapaz de viver coerentemente com tão elevada ideologia. nem de história. da Mesopotâmia. a providência paterna do Criador. ao contrário. em todo o decurso do Antigo Testamento o Senhor respeita a criatura e suas fraquezas. da Pérsia.CAPÍTULO VI AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA No capítulo precedente verificamos que a idéia do Messias domina todo o Antigo Testamento. e (isto é particularmente belo) encaminham-se. apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram. sim. em L'Ami du Clergé. tais pormenores só foram consignados na Bíblia a título de suportes de verdades superiores. nem de ciências naturais . não obstante.). A história sagrada é. mas parece que o Criador conta com tôda essa deficiência e a utiliza para a fazer servir a um fim providencial ou à plena manifestação do Bem. nem de geografia. Israel. O que primàriamente merece a atenção do leitor é o movimento de conjunto. suportes de uma única grande idéia. Aquilo a que o cristão deve primàriamente voltar a atenção. Convém-nos agora aprofundar uma das conseqüências mais importantes que desta afirmação decorrem. um movimento ascensional contínuo: um povozinho do Oriente. a miséria humana aí se atua sem pudor. a trama da história que lentamente se desenvolve ante os seus olhos. sem que." Citado por Gelin. não são os pormenores.. para obter esta convergência. . 57 (1947) • 8535. . Deus violente o homem e a natureza. por si sempre tendente ao grosseiro e material.o Messias. ao ler o Antigo Testamento. destituído de gênio (ao lado das grandes civilizações do Egito.. da Grécia e de Roma)... guardou e 1 Já Claudel dizia: "Le sens d'un livre.

É fácil. 2 Dizemos: "caso se prenda. mais fàcilmente podia apreender. do Livro de Deus. . e mesmo o emdito. as notas essenciais. afeito às guerras e pouco dado à Filosofia. patenteando finalmente o seu pleno significado na história de Jesus Cristo e do seu reino. correm fios condutores (que abaixo chamaremos "temas"). Como se apresentam.. muito ao contrário ) os pormenores são consignados na Bíblia para sustentar a mensagem divina. Tal é o aspecto predominante nos livros históricos do Antigo Testamento.• não como se necessáriamente a consideração das minúcias do texto sagrado impedisse a visão do sobrenatural. agentes humanos ou mecânicos. sob os quais a ação divina se quis ocultar. importa-nos chamar a atenção do leitor para o fato de que há na Bíblia o que se poderia dizer "linhas mestras" ou "fios condutores". Ao lado da artéria central.. todos os bens divinos se concentram nessa Sabedoria. de acôrdo com a capacidade dos homens simpies a que a mensagem bíblica se dirigia: Os livros mais antigos de Israel põem em realce principalmente a face humana do Messias: descrevem-no como Grande Herói. Rei Vitorioso. Caso se prenda a minúcias do texto bíblico. após 18 séculos. na Escritura Sagrada a revelação do Messias e as suas linhas laterais ? § 1. passará possivelmente de olhos fechados ao lado de grandes verdades e tropeçará em minúcias insignificantes. Livros posteriores ao exílio babilônico (ditos sapienciais) descrevem o aspecto transcendente do Messias: falam da Sabedoria de Deus como se fôsse Pessoa que de tôda a eternidade existe com o Criador e exerce o papel de Medianeira entre o Autor do mundo e o gênero humano. arrisca-se a perder-se num emaranhado de causas segundas.94 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO afinal. perene. caracteriza a história sagrada como mensagem divina. É esta grande visão que deve dominar a interpretação dos acontecimentos particulares do Antigo Testamento. que atuou e atua em cada episódio da história.° A ARTÉRIA CENTRAL DA SAGRADA ESCRITURA: A FIGURA DO MESSIAS A figura do Messias foi sendo delineada progressivamente no Antigo Testamento. o leitor se arrisca 2 a não perceber a Mão de Deus. transmitiu ao mundo o seu patrimônio de sabedoria. nada mais vejam nas Escrituras do que as minúcias que impressionam a fantasia ou chamam a atenção do homem de ciências. É isto o que. aspecto quê o povo rude. porém.. uma é como que a artéria central: a REVELAÇÃO DO MESSIAS. que constituem a estrutura. que o'simples leitor. os quais desenvolvem um ou outro aspecto particular da pessoa ou da obra do Messias. cara a Deus e amiga dos homens.. arrisca-se . Sendo assim. antes do mais. pois. Dessas linhas mestras.

Em esquema assim se dispõem os principais traços do Cristo no . implica a sua Divindade. não nos quis salvar senão unida à humanidade. que se encontra principalmente nos livros proféticos. Outros livros do Antigo Testamento posteriores ao exilio desvendam o aspecto mais misterioso do Messias: é. mas não cumpre sua missão de beneficiar os homens senão mediante o sofrimento e a morte. . sim. por sua vez.Antigo Testamento: 3 Claro está que os diversos aspectos do Messias se apelam recIprocamente: mesmo o titulo de Herói ou Rei vitorioso. A sua Divindade. Eis o aspecto do Messias Deus e Homem. por muita soberana que seja. Rei Vitorioso. tal como é apregoado pela Bíblia.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 95 3. Sabedoria eterna.

. 020 o dcc o co toId'4d4 ' -o - o. 04.) 4-) O 'oii t-O• rCI cc - o.PARA ENTE±{DER O ANTIGO TESTAMENTO — o.! o . çztifl-. cc o -o t 01 4' 0'•° '4-4 j CO C 1 o.•- — o 0 4-' rA 'cc cc cc o o ti £o o CO o no 1-o O. O 0<1 O. C' o o O c acc t cco. ccc cc (ti cc cc 4 o. 2cc c O Z cc - o o 4-. cc -o-- cc t o o. 0 d O O O CO O O O t o ti OO c cc .

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1-16.. uniu-se à escrava Agar. Gên 16. Dos doze filhos de Jacó. o qual não tinha título para herdar a Promessa (ef. Gên 27. sem deixar que a prudência humana se pusesse a calcular as probabilidades de êxito. 18. vendo que sua espôsa Sara.1-50. o Senhor suscitou ao casal estéril. Gên 12. sem dúvida Amigo gratuitamente escolhido e amado. de acôrdo com a sua "sabedoria". o mais velho. 21. houve por bem escolher elementos aparentemente ineptos. uma descendência para si. Todavia o filho gerado pela prudência de Abraão. onde o Senhor lhe prometia posteridade abençoada (cf. foi pôsto de parte em benefício do irmão Jacá. Abraão foi dito "Amigo de Deus" (cf. por sua natureza incapazes de levar a têrmo a missão recebida. através de tôda a história sagrada. O Senhor dignou-se realizar a sua obra. para ir em demanda de região não indicada. 0 os nos CONDUTORES DO ANTIGO TESTAMENTO 1. resolveu assegurar. Tg 2. Abraão. sim.8).1-15. a mais fragorosa derrota possível: Abrado. foi por Deus preterido em favor de Isaque. Esaú. da qual lhe nasceu Ismael..98 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO Tal é a artéria central do Antigo Testamento. por excelência. herdeiro que. para a realização de seu plano.1-3). A promessa feita a Abraão foi repetida a Isaque. Dos dois filhos de Isaque. culmina na obra. § 2.2. a Caldéia. mas derrotando os cálculos humanos! (Cf. Jos 24. descendente de linhagem idólatra (cf. foi condenado à morte José. a qual foi. O TEMA DA ESCOLHA GRATUITA OU DA FÔRÇA DE DEUS QUE SE MANIFESTA NA FRAQUEZA DO HOMEM Que significam êsses títulos? Querem dizer que. se tornou o salvador dos irmãos. o qual. Jdt 5.1-45). destituídos de sabedoria ou algum outro titulo. mais tarde e inesperadamente.23). Vejamos agora fios condutores que paralelamente a tal artéria desdobram aspectos particulares da obra messiânica. Por ter dado fé a tão estranho vaticínio. .1-3). não lhe dava a prole que Javé prometera abençoar. Gên 37. em virtude desta condenaçào mesma. verificando-se desde os primórdios do Antigo Testamento. de tôda a sua nação e do Egito (cf. Deús.26). que por si seria herdeiro dos bens paternos. salvífica de Cristo. foi chamado por Deus a emigrar da sua terra. infecunda como era. êste "garantiria" a realização do plano de Deus . Ê esta certamente uma das notas mais características da ação divina entre os homens. em aparência.

AS LINRAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 99 Ao sair do Egito. os irmãos Macabeus. Mt 5. Deus quis escolher o filho mais jovem de Isaí. 3 Es 12. quando todos os recursos humanos pareciam esgotados (cf.1-13). morte desconcertante para os homens (cf. travou para conquistar Canaã. ao lado de nações cultas e poderosas. os descendentes de Abraão e dos Patriarcas. Jdt e Est). infantil (cf. voltou para a Terra Santa o chamado "Resto de Israel".32). A travessia do deserto sinaítico e as guerras que Israel. veja-se em particular as págs. Lc 12. do qual jamais pensara seu pai pudesse ser objeto de complacêucia divina (cf. se tornaram salvadoras do seu povo. cujo currículo de vida terminou com a ignominiosa condenação à morte de escravo. Após o exílio de todo o povo de Israel na Babilônia (587-538). Davi. das quais não a maior. a vitória de Gedeáo sôbre os madianitas atesta eloqüentemente o mesmo: o Senhor mandou que. a reação contra os sírios corrutores foi vitoriosamente levada a cabo por um punhado de homens corajosos. Lc 6.. 4 Sóbre a tomada de Jericó.1-13.1-22). Tôda essa história antiga conflui para o Messias. Em meados do séc. provàvelmente nos séc. ou seja. 1-2 Mac). são evidente testemunho da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza humana. 214-219. Esdr-Ne). Sarnaria.C. 1 5am 16. Judite e Ester. de numeroso exército. pela aliança travada no Sinai passaram a constituir o povo de Deus. povo de escravos libertos. O reino de Davi.3). Duas mulheres. as quais empreenderam a restauração da teocracia (cf. Cristo escolheu um "pequeno rebanho" (cf. continuou a ser a portadora da bênção messiânica (cf. . tipo do Messias. humanamente fadados a fracassar (cf. constituída por famílias pobres.33) de doze homens rudes (em maioria. veio a cindir-se em duas partes. Depois de Jesus. Lc 24. que constava apenas de duas dentre as doze tribos. mas heróicas. isto é. II. continua a se verificar o mesmo proceder divino na atuação do plano salvífico. pastorzinho de ovelhas. a qual no plano de Deus estava destinada a ser o triunfo definitivo do Bem sôbre o mal.20. Isto fêz que os conceitos de "povo de Deus" e "pobres" (anawim) se tornassem quase sinônimos na literatura judaica posterior (cf. Para o fazer rei bem-amado de Israel. mas a menor. após a morte de seu filho e sucessor Salomão. Jz 7. ' Na subseqüente época dos Juizes. parte pequena da nação. povo destituído de todo brilho político ou cultural. Judá. humanamente falando. Gedeão só conservasse trezentos homens. aos quais deu o triunfo por meio de artifício.13-35). IV e V a. sob Moisés e Josué.

assim como os utiliza. Deus também pode dispensar os instrumentos criados. eivado de sabedoria meramente humana. aos quais confiou a propagação do Evangelho num mundo hostil.9.26-38. Samuel. preconizado pelo arcanjo Gabriel a seu pai Zacarias.46-55) a intervenção soberana de Deus. formulava claramente a "quase-lei" da escolha dos humildes. ainda se poderiam notar cinco outros que. prefigurando assim a natividade do Cristo. 5 O Apóstolo. à qual Deus quis dar prole maravilhosamente abençoada (Cf. outro dos grandes chefes de Israel. que acabam de ser assinalados. representa o contraste en tre a debilidade do homem e a fôrça realizadora do Altíssimo. prenúncio da restauração messiânica (cf.5-25).18-31. ao receber tal prole. No fim da história antiga. em Is 1. que a princípio não quis crer na possibilidade do portento! (Cf." (2 Cor 12. Ana. foi igualmente fruto de ventre estéril. cómo alguns dos homens de Deus foram dados ao mundo em circunstâncias que excediam tôdas as expectativas humanas. Sansão. Os feitos portentosos.) Ao lado dêstes episódios. texto em que 8. nasceu de Manué e sua mulher infecunda. aos quais Deus. sob o aspecto particular das NATIVIDADES EXTRAORDINÁRIAS. 1 8am 1. Paulo vê expressa essa norma já por. anunciado a Maria pelo mesmo arcanjo. A todos êsses casos se sobrepõe a natividade do Messias.24 (LXX). um dos "redentores" (Juizes) antigos do povo de Deus. Lc 1. o Salvador foi virginal mente concebido e gerado (cf.10). Cf. Gên 21. um dos mais remotos antepassados do Messias. contraste que o Senhor lhe assegurou ser garantia de pleno sucesso na obra de Deus: "É na fraqueza (do homem) que meu poder se mostrã soberano. não querem tanto chamar a atenção para os por menores referidos como para a seguinte verdade eterna: todo dom de Deus é gratuito. Tão estupenda natividade vinha bem éredenciada pelos episódios semelhantes que a haviam precedido! Pergunta-se agora: será possível descobrir por que terá Deus tão freqüentemente procedido dessa maneira que desconcerta o homem? A resposta não é difícil. nasceu de mãe estéril.1-7). reconheceu num cântico (que é arquétipo do de Maria. quis anunciar a próxima conceição (cf. de resto. em particular. Mãe e Virgem. Isaque.14 (LXX) e Jer 9.100 PAfl ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pescadõres). .1-2. fazem ressoar o mesmo tema. Observe-se. nasce João Batista. ao considerar os primeiros. Is 29. fiéis de Corinto.1-25). 2. com efeito. 1 Cor 1. para a execução de seus desígnios. Jz 13. Lc 1.1-8). por meio de um anjo. A figura de Paulo.

1-7. Edo 17. A nova e definitiva aliança outorgou a todo o gênero humano bens ainda maiores do que os dons perdidos no paraíso (cf. . L'Epitre aux Ilébreuz JI (Paris 1953). não deixa de inculcar a soberania do Deus que entra em aliança com a Criatura: Deus é dito prescrever a aliança (Hebr 9. 1 Cor 11. o dom de Deus excede o entendimento da criatura.20). pela morte a si mesmo. o Criador entra em aliança com o homem recém-criado: pede-lhe fidelidade a um preceito e propõe-lhe. às criaturas chamadas o Soberano Senhor prometeu dar o consórcio dos seus bens.13.17-19. É de particular interêsse notar que. Se esta é chamada a colaborar na obra da Redenção.31. sinônimo de "decálogo" (Dt 4. entre as múltiplas religiões do orbe. 29. . 285. C. segundo Adão.lz 2. porém. pois o Criador é soberano ao estabelecer as cláusulas do pacto. pouco depois da queda. 2. sômente a religião revelada a Israel e aos crIstãos concebe as relações da Divindade com o homem como Aliança. na consumação da história.10). é a isto que os livros bíblicos chamam "Aliança de Deus com os homens". Com efeito.20). "guardar a aliança" coincide com "ouvir a voz de Deus" (Éx 19. o homem julgar a ação da Providência confor me as categorias do seu bom senso.15).16. que corresponde antitèticamente ao primeiro homem e assim divide a história em duas grandes fases. foi violada pelos primeiros pais (Gên 3). para Israel. Por isto é que S. João no Apocalipse (11. que se destinava a todo o gênero humano.15s). ° Eis como se desenvolve a noção de Aliança sagrada Logo na primeira página da história. 3 Rs 17.3-9).15-17. por vêzes. É antes pela renúncia.14. Gên2. de "Lei ou mandamento do Senhor" (Núm 15.2-18. fá-lo por favor divino. A aliança paradisíaca foi renovada na plenitude dos tempos pelo Messias.25. Cl. A Escritura. Spicq.se faz em vista do que o texto sagrado chama "a ALIANÇA". pois.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 101 Não queira.19s. aliás. vida imortal bem-aventurada (cf. A aliança messiânica manifestará tôda a sua excelência na vida celeste. em troca. . que o homem se prepara para receber o Divino. caso se mostrassem fiéis à Lei divina (ou quisessem reproduzir em sua vida os traços da Santidade incriada). prometeu restaurá-la (Gên 3. O TEMA DA ALIANÇA A vocação gratuita que Deus dirige aos homens .Yos 26.objeto do tema anterior . embora não reste dúvida de que não há paridade entre os dois contraentes. o profeta 6 A formulação jurídica do contrato é muito clara em Dt 26.19) ainda fala de aliança. Esta aliança. Com efeito. Dt 4. sempre limitado. 5. o Senhor.12s). "aliança" é. Rom 5.

com Fineés. Edo 45.25). 51 88.24). definitiva.18.3-9.19).21-28. com Abraão. significava bem a firmeza do pacto. já constituída em povo numeroso. Gên 6. com Levi.7.20-26. descendente de Aarão e zeloso propugnador da Lei de Deus. por essa ocasião. 37. com a linhagem de Abraão. a quem foi confirmado o poder sacerdotal (cf. a cuja tribo Deus confiou o serviço do santuário (cf. com Aarão. claramente anunciada em Jer 31. Precisamente. o Senhor Deus se dignou entrar em mÚltiplos pactos parciais e provisórios. 2 Crôn 21. O sal. que quer dizer o têrmo Aliança.25.102 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vê no céu a arca da aliança do Sinai. o símbolo do pacto que Deus outrora quis travar com Israel em vista da obra do Messias.5 e Ne 6.8-17. 55. ou seja. e o quer de maneira firme. fala de 'uma aliança de sal. visavam assegurar a reparação da aliança universal. Jos 24.4. que. tão persistentemente empregado pela Escritura para designar as relações do Criador com o homem? O vocábulo significa que Deus quer bem ao homem. 60-63. 34. considerado. Jer 33. tendo Moisés como mediador (e!. 61.7-21).14-25. Éx 19.25). também 2 Crõn 13. 2 Sam 23. após o dilúvio. descendentes imediatos de Abraão (cf.31-34. Assim há um pacto: com Noé. é insinuada em Os 2. novo pai do gênero humano (e!. com Josué. antepassado de Aarão.4s). perpétua" (ef.4. sucessor de Moisés na direção do povo e renovador da aliança sinaítica (e!. o que mais corresponde a tal disposição divina é o da aliança matrimoniaL 7 O texto sagrado.3. comparável à solidez que convém a um pacto solene. Edo 44. Núm 18. . Gên 15. Is 54. Êx 2.18). o rei de cuja casa descenderia o Messias (e!. trava-se a famosa aliança do Sinai. 17. o Patriarca do povo escolhido (e!. 24. Ez 16. Mal 2. sendo simbolo da ineorrutibiIldade (conserva a. 56. 9.carne). novo Adão.7s.8.18). dentre os diversos tipos de contrato humano. Entre a violação e a restauração da Aliança com todos os homens. com Davi.1-8). Deus outorga àquele e à sua posteridade o exercício do sacerdócio em Israel (e!.5. a Aliança messiânica. irmão de Moisés. Núm 25. com Isaque e Jacó. 4.10.12s).

Rom 9.10. As mesmas idéias se refletem no fato de que "aliança" e "promessas" estão 'mtimamente associadas entre si em Gál 3.C. "ser fiel à sua aliança" significa "conservar o amor outrora manifestado aos homens" (cf.15. 34s. os judeus decadentes nos séc. Assim o têrmo "testamento" passou. em última análise. 9. outorgados em vista da morte de Cristo.1 õsse o seu Espõso?' 9 Aliás. êstes empregaram o vocábulo grego diatheke em lugar de berith.12. fala-se hoje de "Novo Testamento" e "Antigo Testamento". a Escritura foi traduzida do hebraico para o grego por judeus de Alexandria (Egito).29). 55. Em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá Uma aliança nova.29. êstes se deixaram guiar de novo por idéias teológicas: substituiram o térmo diatheke por testamentum. 50.25. Donde se segue que. Aliança que êles violaram.4. Ef 2. apesar de tudo que êle tem de surpreendente ou mesmo espantoso.23. Ne 1. sendo que o têrmo "aliança". para Deus. Embora Eu . Dan 9. Is 54. a ser usado na acepção do antigo vocábulo berith. como se pode falar de "Nova Aliança" e "Antiga Aliança". quando o texto grego foi traduzido para o latim pelos cristãos. 9. Hebr 10. ou seja. em Jer 31. verificado que todos os dons de Deus foram.oráculo de Javé.31s o Senhor menciona explicitamente o contrato nupcial para ilustrar o amor que te dedica à criatura. 81 88. 3 Es 8. à qual Deus promete "Eis que dias vêm . 1 Por isto. na linguagem cristã. Conseqüentemente. berith (aliança) e hescã (graça) são noções que se evocam mfttuainente na Escritura Sagrada (ei. porém. que a estupenda condescendência divina expressa pelo têrmo hebraico berith foi causando "escrúpulos" aos israelitas. vil/VI a. fx 34. Éste apresenta o aspecto de uma prevaricação. 10545. No dia em que os tomei pela mão Para os fazer sair da terra do Egito. At 3.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Com efeito. Acontece. Hebr 86.9. que significa determinado tipo de disposição. dicztheke. é a palavra originàriamente usada pela Escritura! 3. Dt 7. são como que a herança recebida de Cristo Vítima. a transcendência de Deus ao entrar em relação com os homens. disposição (unilateral). lhes parecia ressalvar melhor a soberania. quando nos séc.5. 111/1 a. sim.3.17.concepção que os profetas rebatiam freqüentemente. O TEMA DA PREVARICAÇÃO E DA RESTAURAÇÃO CORRESPONDENTE A história sagrada abre-se com o episódio do paraíso.C. a disposição que se torna válida pela morte de quem dispõe. Não como a aliança que travei com os seus pais. os cristãos haviam. 5 .4.6s). Por fim. julgavam que Deus precisava de seu povo e que a sorte de Javé estava intimamente ligada à de Israel .32.

assim como marcam a primeira página da Bíblia. o justo (Gên 4. porém.7-23). nunca. Josué e Galeb. Deus suscita oportunamente 'redentores" (os ditos Juizes) do seu povo (Jz). mas Deus escolhe em outra tribo o pastorzinho. caracterizam tôda a história subseqüente.8-17). Saul. as repetidas apostasias religiosas de Israel merecem ao povo ser entregue às mãos dos inimigos cananeus (Jz). A corrução grassa e motiva o tremendo dilúvio (Gên 6. O dom messiânico é transferido dos judeus para os gentios (cf. No inicio da monarquia. 17.17-28). Após o ingresso em Canaã. como se exprime o Missal Romano.26). A pouca fé de Israel no deserto faz que tôda uma geração aí pereça (Núm 14.15) Sete. obcecam o povo e o levam a rejeitar o Messias. . É o que se percebe pelo seguinte esquema: PREVARiCAÇÃO O pecado dos primeiros pais (Gên 3. em lugar do justo imolado (Gên 4. êstes dois têrmos miséria do homem que desfaz a obra de Deus.6). principalmente 4 Rs.36-25. O orgulho religioso.1-35). o farisaismo.1-15.25s).3-15). são conservados em vida (o resto de Israel !) e continuam a obra de Deus (Núm 14.38). o povo de Deus freqüentemente se alia a nações idólatras e se corrompe em falsos cultos (3-4 Es).20: "Onde o pecado abundou. que prossegue a obra de Deus sôbre bases mais puras (Esdr-Ne). . sem que o mal moral. O PRIMEIRO ADÃO RESTAURAÇÃO O proto-evangelho (Gên 3. a graça superabundou. O pacto de Deus com Noé após a punição (Gên 9. 5. e paciência bondosa do Criador que restaura a criatura -. o primeiro rei.1-8. At 28. por muito intenso que seja.0 influxo do mistério da iniqüidade e o do mistério de Cristo se fazem sentir alternativamente no decurso dos ' séculos. A monarquia não perece. cf. A corrução chega ao extremo e provoca o exílio babilõnico (4 Rs 23. 15. dada a sua fé. entregue ao total extermínio (3-4 Es. O SEGUNDO ADÃO (Rom 5. O inorticinio de Abel. 10 "a contínua repa10 secreta do sábado 'in albis". O povo é punido por Deus.104 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO dar remédio em tempo oportuno. se mostra indigno 0 San 13. consiga absorver o bem.14). Sob os reis subseqüentes. Salva-se do exílio o "resto de Israel".20-35).8-16). que permanece fiel (2 5am 7.") Pode-se assim dizer que uma das idéias centrais da história sagrada é.14. Pois bem.

É o que o próprio Espírito Santo inculca quando diz pelo profeta. 24. O êxodo de Israel. zelosamente procurado pelos homens de Deus antes de realizarem feitos gloriosos. porém. 4.7-11. O TEMA DA HABITAÇÃO DE DEUS Deus se digna morar com os homens. salvação que a miséria do homem põe constantemente em perigo. só deixará de se verificar quando Deus outorgar ao gênero humana a sua consumação final. A Igreja.8-16. é escola de purificação para Israel. antes de iniciar a vida pública passa quarenta dias na solidão em jejum e oração (cf. Apc 12.80.1-18). Davi. Assim 1. . no recolhimento e na solidão.6). aguardando o triunfo final do reino de Deus (cf.2). Elias jejua quarenta dias no êrmo de Horeb. S. 3 Rs 19. 2. antes de receber a missão de ungir os reis (cf. que assinala grandes favores para o povo de Deus e precede a conquista de Canaã. as vias do Senhor (cf. 33. 3.16. vive no deserto durante todo o decurso da história.23).1-11).) Ora chama a atenção o papel que a Escritura atribui ao deserto no decorrer da história: êle é o teatro predileto das manifestações divinas. Éx 25. Mt 4. à semelhança dos homens. sendo Israel nômade no deserto. Shekina) que paira sôbre a tenda (cf. fêz-se através do deserto. 1 5am 23. Jesus. perseguido por Saul. tendo em vista o reerguimento da nação teocrática: "Eis que a atrairei e a levarei para o deserto. 5. a morada de Javé se reduz a uma tenda movediça feita de peles de animais. por sua pregação e seu batismo." (Os 2.14. O TEMA DO DESERTO O Senhor fala aos homens em meio ao silêncio das criaturas. Nos primórdios da história sagrada. O exílio na Babilônia. Lc 1. é o fato de que a presença do Senhor é assinalada por um fulgor (em hebraico.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 105 ração da salvação humana". João Batista retira-se para o deserto a fim de preparar. Muito digno de nota. 4. comparável à mansão no deserto. Esta idéia se estende ainda por tôda a história do cristianismo. simbolizada pela mulher do Apocalipse. antes de subir ao trono (cf. 1. S. embora com modalidades diversas das do Antigo Testamento. e lhe falarei ao coração. Ora a Escntura faz ver como aos poucos se nobilita o lugar da mansão de Deus na terra. refugia-se no deserto. 3.

3 Rs 6.32-40." Não se poderia passar sob silêncio um particular filológico: O têrmo grego skené ( tenda).106 PABA ENTENDER O AIÇTIGO TESTAMENTO 39. geral e faz perder . o que se realizava imperfeitamente no tabernáculo do deserto (e no templo de Salomão) já se verificou muito mais dignamente na natureza humana de Cristo. nuvem fulgurante encheu a casa do Senhor. João Evangelista o refere nos seguintes têrmos: "O Verbo se fêz carne. da sua transfiguração e da sua ressurreição. esta era um templo vivo do Deus vivo. Uma tez estabelecidos na terra prometida. está claro que o templo de Salomão ainda estava longe de corresponder à Majestade Divina. 1 Jo 1.lOs). e vimos a sua glória. templo capaz de reconhecer o seu Senhor e amá-lO. empregando o material mais rico e os artífices mais hábeis das regiões vizinhas (cf. donde se deriva o verbo slcenoo (erguer a tenda) em Jo 1. querem dizer que a carne de Jesus Cristo se tornou a nova tenda ou morada de Deus. chegando a aterrar os homens. que toma significado especial se se tem em de vista 11 A traduflo da Vulgata habitavit ( habitou) é muito wn particular especialmente visado pelo Evangelista. Por isto. e ergueu a sua tenda (eskenosen) 11 entre nós.16-23). glória como que do Unigênito do Pai.1-4). reproduz equivalentemente as consoan tes do vocábulo hebraico shekina: s(h) .13-51). S.k . na tradição judaica posterior. pois." Esta observação alude ao esplendor (Shekina) que acompanhava a morada de Deus no Antigo Testamento.14.n." (1. com visivel alegria (cf. nova dilatação do tema se verificou: Deus Filho quis unir-Se a uma natureza humana. construiu o famoso templo de Jerusaim. o Apóstolo.14. glória como que do Unigênito do Pai.) As duas primeiras frases são paralelas uma à outra. Na solene dedicação da nova morada. Ésse esplendor se tornou tão característico da mansão de Deus que. "E vimos a sua glória. Não nos interessa aqui estudár a etimologia destas duas palavras. faz notar que aos discípulos de Cristo foi dado contemplar aquilo que afugentava os próprios sacerdotes da antiga Lei. 7.38. Basta apenas verificar a analogia. 3 Rs 8. Núm 9. "Vimos a glória dé Deus através dos milagres de Jesus. os israelitas quiseram preparar mansão mais condigna para a Majestade Divina: o rei Salomão. sé podia usar o termo shekina como sinônimo de "morada de Deus" ou como equivalente ao nome mesmo de Javé. de tal modo que nem os sucerdotes lá puderam permanecer (cf.1-38. Embora fôsse mais digno do que a tenda movediça. na qual viveu entre os homens.

qual portadora de mensagem cada vez mais clara.19. participam da vida de Cristo e da Trindade 58. perpassa a história sagrada até o fim (Apc). Mais uma palavra que atravessa tôda a Escritura Sagrada. Isto se deu na plenitude dos tempos e em grau perfeitíssimo no Cristo Jesus. Após a Encarnação. Os fiéis.29). O maná é mencionado pela primeira vez na história do êxodo (cf. 1 Cor 6. o Senhor lhes suscitou uns grãozinhos (maná) com gôsto de óleo ou mel.. O TEMA DO MANÁ 12 Maná.13-31): a fim de sustentar os israelitas no deserto. A graça que o cristão peregrino possui.19-21). por isto também a dignidade do templo vivo que agora compete aos discípulos de Cristo. porém. E Aquêle que está assentado no trono erigirá sôbre éles a sua tenda (skenosei ep'autous). Éx 16. possuindo a graça santificante.. É em função desta meta que os séculos se vão sucedendo! 6. é dita o templo santo do Senhor (cf.. a Igreja de Cristo. o povo devia recolhê-los antes do nascer do dia. 219-223. Pelo mesmo motivo. nem os abaterá mais o calor do sol . . 4. constituída pelos fiéis unidos entre si e com Jesus.lSs.. Bom 8. nem sêde. Ainda vem a propósito uma palavra de Jesus: para justificar a expulsão dos vendilhões instalados no templo de Jerusalém.. É o que o Apocalipse insinua ao descrever a felicidade celestial dos justos: 'Estão diante do trono de Deus.. Não terão mais fome.. de maneira a poderem ser realmente ditos mansão viva de Deus (cf.) Como se vê. a idéia de templo de Deus se realiza semelhantemente em cada cristão.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 107 mente que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento têm tôdas o mesmo Autor Divino. só estará completo na eternidade. só estará plenamente desabrochada na bem-aventurança futura. o Senhor apelou para o seu poder de ressuscitar "o templo do seu corpo" (cf.19-22).16). só se podia aprovisionar a quantidade 12 As idéias aqui expostas encontram seu complemento às págs. Ef 2. S.. e servem-Lhe dia e noite no seu templo. O tema da habitação de Deus..(7. Jo 2. pois cada qual foi destinado a se tornar conforme à imagem do Filho de Deus (cf. As subseqüentes realizações do tema tendem para êste têrmo: fazer de cada indivíduo humano (em alma e corpo) um portador de Deus. dar-se-á em proporções reduzidas em cada um dos irmãos de Jesus no dia da ressurreição final. a noção da tenda. é semente da glória celeste. 2 Cor 6. que já ocorria na primeira fase da habitação de Deus entre os homens (ex). 1. depositário translúcido da glória do Criador. pois se derretiam ao calor do sol.

recolhiam uns maior. não comem (cf. porém. isto é.20s. um pão já preparado. e lamentou amargamente não ter mais a carne. vindo à terra. se não exclusivo. Essa substância. nutriam a convicção de que o Messias. de 3. os melões. que em breve se estragavam.4-6). por seu lado." (Sab 16.) Os Rabinos. ao menos principal de Israel (cf.19). o alho. sendo incorpóreos. Ora foi justamente qual sinal ou tipo que a tradição judaica interpretou o maná. pois os judeus tinham consciência de que os anjos. Ëx 16. o peixe. todavia. Éstes e outros pormenores misteriosos da história do maná dão suficientemente a entender que tal alimento não era suscitado por Deus simplesmente para nutrir a vida corporal dos israelitas. era considerado um prenúncio do reino messiânico. mas devia ser um sinal religioso. 2. Assim. desobedecendo a Javé. Dado em vista da instalação de Israel na terra prometida.ca.5).16-18). Êx 16. Durante os quarenta anos de travessia do deserto. outros menor quantidade de maná. E lhe deste do céu. os israelitas.19-30). mediam as suas provisões e verificavam possuir exatamente a porção permitida para um dia. sem fadiga. conservavam-se íntegros nas 48 h finais da semana.19). Núm 11. constituiu o maná o alimento. por ti enviada. . Núm 11.12). At 7. O qual proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paladares. Gál 3. um gomor .3. SI 77. Dt 8.4-6). Interessa-nos chamar a atenção para o caráter religioso que ésse alimento tinha: os grãozinhos. chamando-o "miserável alimento" (Núm 21. Tob 12.o maná ao povo causara fastio por sua insipidez (cf. o pão dos anjos. de que se nutria no Egito (cf. os pepinos. a fim de permitir aos israelitas o repouso sagrado do sábado (cf. Ésse pão se acomodava ao desejo de quem o comia E se transformava no que cada qual quisesse.. Com o tempo. mas significava "pão que os anjos dão ou ministram em nome de Javé". Mt 4. alimentando o seu povo com o pão do céu. aceno a realidade de ordem superior (cf. já que os anjos eram considerados os transmissores das grandes dádivas de Deus aos homens (cf. pois o maná se deteriorava em 24 h.24) não quer dizer "pão que os anjos comem". ' 13 'Pão dos anjos" (cf. demonstrava a suavidade de que usas para com vossos filhos. etc. ao chegar às respectivas tendas.4).108 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO necessária para a respectiva jornada. esquecendo que . o hagiógraf o canta no livro da Sabedoria: "Saciaste o teu povo com o alimento dos anjos.8 litros (cf. passou a ser descrito pelos autores posteriores em têrmos idílicos. J05 5.38. o povo concebeu náusea do maná. repetiria o prodígio do maná.

porém... mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Assim a idéia do maná Crescia em seu significado: nastradiçôes judaicas não designava simplesmente o alimento pobrõ do israelita nômade. cap. maná ainda no Apocalipse.To 6. quem déle comer. O Messias veio. história sagrada. O maná que Israel comera no deserto tinha por função levar o povo à exígua terra de Canaã.9). no Apocalipse o autor sagrado coloca nos lábios do Senhor a seguinte promessa. o nutrimento do povo de Deus estabelecido na plena posse dos bens messiânicos. que haveriam de superar a morte pela sua resurreição gloriosa. 14 A Eucaristia. só patenteada a quem a experimenta! 14 "Em verdade. em última análise. não.51. o maná celeste designa a visão face a face do Deus Trino e a bem-aventurança que dai resulta.. Maná.. Por isto. Seria o pão messiânico. maná. a menção permanece muito lacônica. no Novo Testamento. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. Em verdade. ptometer pão do céu. Ela é um fermento de vida nova. ou seja. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá vida ao mundo. de fato. o ouvido jamais ouviu. o coração do homem jamais percebeu" (1 Çor 2." (2.) maná. já concede no íntimo da alma. e não preservava da morte.17. sim. ainda não encerra o tema do maná. no Antigo Testamento ou no início da Quem vencer o certame da vida presente receberá de novo. desconhecido ao homem.. não seria senão a carne e o sangue de Jesus.) . na vida celeste! Desta vez. porém. mas universal. porém. êle significa "o que o ôlho jamais viu. devendo atingir o seu pleno desabrochar na eternidade. que ninguém conhecerá a não ser quem o receber. mas através de véus. a Eucaristia. mas evocava.. VI: "A quem vencer. união com Deus que a Eucaristia. Significa a plena união com Deus. tal alimento. no Evangelho. terá a vida eterna. e se dignou. tal qual o esperavam os judeus imbuidos de expectativas demasiado humanas. que o pão do deserto no Antigo Testamento de certo modo iniciava. o maná é dito oculto. 49. portanto. jamais morrerá. que vem a ser como que o complemento das palavras de Jesus proferidas no Evangelho de S.. •e Eu o ressuscitarei no último diaY' (. Ora o maná que Jesus prometia. introduziria no reino de Deus não nacional. darei o maná oculto e um seixo branco. Eu sou o pão vivo que desce do céu. e sôbre o seixo um nome novo escrito. João. sem dúvida. vcsso$ pais comeram o maná no deserto e morreram. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue. maná na plenitude dos tempos. encaminhando o israelita para a terra prometida (Canaã).. que aos poucos penetra alma e corpo do cristão.32s. e faria triunfar da própria morte.

baseada em monoteísmo muito puro.22). pois belas artes. Ao passo que o oráculo de Isaías apenas anunciava o castigo.. porém. a uma videira. Dado. seu filho.C.. o profeta Isaías fazia reviver a mesma imagem. Desde que não dê frutos bons. VIII a. que o povo de Deus esquecesse a sua fé e adotasse cultos alheios. A única justificativa da existência de Israel era (e ainda hoje continua a ser) a sua missão religiosa. cujos ramos viçosos e férteis recobrem tôda a muralha do pomar (cf.1-7).110 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO 7. Gên 49. O TEMA DA VIDEIRA A vfrieira constitui uma imagem habitual com que as Escrituras do Antigo Testamento designam o povo de Deus. Ezequiel o supunha já em curso e incitava o povo a refletir sôbre o mesmo. nem um cabide se faz com pau de uva. No fim do séc. ciências e outros bens de cultura em Israel eram estritamente dependentes do que produziam os povos vizinhos. eis. 4: "Que devia ter eu feito por minha videira. Ora o lenho da vide é absolutamente imprestável a qualquer trabalho de marcenaria. Já em época muito remota. dela esperando frutos condignos no tempo oportuno. esta não podia deixar de ser planta de grande estima. (Particularmente importante é o v. só pode ser avaliada pela qualidade do seu lenho. da oliveira e da vide. o Patriarca Jacó comparava a abençoada tribo de José. que se via decepcionado. que não tenha feito?") No início do séc. um só destino pode ter a videira brava: o fogo.1-8). Para uma nação que vivia principalmente do trigo. contrastante com a idolatria de outras nações. a destruição. Por conseguinte.C. A imagem quadrava bem com a realidade! Aquilo que dava significado à nação de Israel na antiguidade. Is 5. repreendia o povo de Israel por suas múltiplas infidelidades à Lei. VI a. . perguntava o profeta. Observemos o percurso grandioso dessa figura nos textos bíblicos. pois a videira de Deus só produzia uvas amargas. Em conseqüência. era íjnicamente a sua religião. porém. que a devastariam (cf. o Senhor prometia entregar a árvore inútil a viandantes e animais. A que serve uma videira selvagem?. per•dia todo o seu valor na história. o profeta Ezequiel retomava a imagem (15.. Javé era apresentado como vinhateiro que dispensara todos os cuidados à sua vide. Com isto. mas em circunstâncias diversas: em nome de Deus. Ezequiel aludia às depredações que os inimigos haviam infligido ao povo de Deus a partir de 722 (queda de Samaria) e que continuariam a infligir até arrasar Jerusalém e levar para o exílio (587-538) a maioria da população de Judá.

20). Faze brilhar a tua face. sou Eu. trouxe a resposta divina à prece do povo oprimido. Limpaste o terreno diante dela. valor universal: caso o homem. Expeliste as nações para plantá-la. coloca-se o salmo 79.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 111 As objurgações de Ezequiel têm. talhada. sem que esta se reerguessé da sua miséria. dareis fruto múltiplo e bom. 1 Jo 3. Com efeito.9s. eis brevemente o que significa tal texto bíblico. sempre corresponderá ao ideal que o Pai lhe assinalou. aliás. tudo pereceu. caso permaneçais em Mim e Eu em vós. Redenção que Deus benignamente havia de mandar: "Arrancaste do Egito uma videira. e seremos salvos. homens de qualquer nação. em J0 15. A videira de Israel pedia assim a sua Redenção. Em quarto lugar na evolução do tema. mas para se identificar com ela: "A videira. restaura-nos. e sou a verdadeira videira. nunca é frustrado um sincero apêlo do homem atribulado à Misericórdia Divina. autêntica (o novo homem). Os ramos dessa videira sois vós. e participareis da minha vida divina. os seus valores naturais mesmos perdem todo significado. como por meio dos profetas fizera. doravante." (Si 79. Senhor Deus dos exércitos. impiora restauração. a videira nova.) Nas situações mais perplexas. Deus mesmo se fêz videira. que. 20. Lançou raízes e encheu o país.1-8. Está queimada pelo fogo. que apresenta a prece da videira entregue aos incursos inimigos. em qualquer tempo. a fim de que a videira antiga. a natureza humana. a Escritura punha remate a lento processo pedagógico que nos ilustra o dogma da Encarnação: depois de ter feito tudo que podia fazer para salvar a videira. renegue o seu destino religioso." Referindo estas palavras de Cristo. é a voz do pecador que se sente justamente punido pelo Deus Santo: deplora a situação presente e. Referia-se de novo à videira. não venha mais a renegar a sua qualidade e o seu des- . Ante a tua face ameaçadora. aquela que não pode dar uvas amargas. Jesus. portanto. não já para interpelá-la na qualidade de Senhor. enxertada no novo tronco. sabendo que Deus é maior do que o coração humano (cf. com muita confiança. 17. Sereis enxertados em Mim.

31. êsse Pastor traria o nome profético de Josué (etimolôgicamente igual a Jesus).) 15 Ótima reflexão sôbre o tema da videira ocorre na obra de G. Os textos biblicos são como as veias de uma mina. tais foram Abraão e seu sobrinho Lote (cf.11). o mistério de palavras humanas divinamente inspiradas. nas quais sempre se pode cavar mais fundo.. constitua sôbre a multidão um homem que.. ficar alheia à vida e aos escritos da nação israelita. mediante a figura do Pastor que êstes designam não um guia provisório de Israel.. Cf.1). que devemos as considerações acima sôbre o tema da videira. Êx 3. acrescentava "Será firme. Quanto mais alguém penetra no seu Interior. pois.112 FAlIA ENTENDEU O ANTIGO TESTAMENTO tino. 15 Foi esta a solução que a bondosa Sabedoria de Deus quis propor ao problema da fraqueza humana! 8.16s: "Que o Senhor. Não. depois de predizer que o Salvador nasceria em Belém de Judá (5. a fim de que o povo do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor O tema volta a ressoar. lugar-tenente de Javé. tal foi o Legislador Moisés (cf. ob.2). Gén 4.1). 1939). nos escritos dos Profetas.3. tanto mais ricas são as pedras preciosas que lhe aparecem. Com efeito. apascentará suas ovelhas. Não podia. herdeiros das promessas e figuras do Messias. que com uma só palavra tudo diz. E não há Que recear se esgote o tesouro.. Em primeiro lugar. são pastôres tal foi Abel (cf. para o qual tôda a história antiga convergia.. Destarte tem-se a im5ressão de tocar com as próprias mãos. Pois êle será grande até as extremidades da terra. Gên 13. cuja economia muito dependia da indústria pastoril.18). por exemplo. Protegido pela fôrça do Senhor. desde remotas épocas. a pedido de Moisés. É]. sim. a dirija. O TEMA DO PASTOR A figura do pastor gozava de particular estima e autoridade entre os povos do Oriente.. 1 Sam 16. os Patriarcas Isaque e Jacó (cf.. os justos portadores da bênção de Deus." É a Closw. Closen. 114: "A metáfora da videira e dos seus ramos constitui ótimo esp&ime da profundidade e da riqueza da Palavra de Deus que nos é oferecida pela Sagrada Escritura. êles participam daquele privilégio de Deus. Cedo introduziu-se nos livros sagrados o pastor como símbolo de realidade religiosa. . como as palavras do homem." (5.14. Núm 27.. Wege itt dic Jieilige Sehrift (Eegensburg. mas o Messias.20. e com mais significado ainda. A vida decorrerá tranqüila. cit. tal foi o rei próspero Davi (cf. Gên 26.2-7). Os vocábulos da Escritura não são pobres nem vazios. Miquéias. é interessante notar que. Deus instituiu um Pastor para Israel.

quê não hesita em dar a morte por suas ovelhas. Como um pastor passa em revista as ovelhas no dia em que se encontra entre as ovelhas dispersas. dando remate às etapas do tema. se declarou o Bom Pastor (note-se a ênfase do adjetivo). encontrando-a.. . assim passarei em revista minhas ovelhas. 10. Outro traço digno de nota: o Profeta Zacarias (11. na plenitude dos tempos o Messias.. ouviu o mandamento de Jesus: "Apascenta meus cordeiros. entende-se que o representante de Cristo na terra tenha sido. Mt 26. apascentam-se a si mesmos e não apascentam as minhas ovelhas. o juízo final é proposto por Jesus como a cena em que o Pastor há de separar ovelhas e bodes. 12-14.) Esta profecia tem seus paralelos eloqüentes em Jer 23. Vêm a propósito as palavras de Jesus em Mt 9." Conseqüentemente.15). Pedro. ou seja.. que carinhosamente se põe ao encalce da ovelha desgarrada. prometendo que o próprio Deus se faria o Pastor de Israel "Pois que minhas ovelhas foram entregues à depredação e se tornaram prêsa de todos os animais selvagens. Em Lc 15..36. o preço pelo qual haveria de ser avaliada a sua obra ou missão: trinta moedas de prata. por falta de pastor. Mt 25. da maneira mais coerente possível.32).3-7 Jesus se apresentava de novo como o Bom Pastor.) . pois que meus pastôres não se ocupam delas. Javé censura quais pastôres hifiéis os que governavam o povo eleito. e ainda hoje seja. Congregá-las-ei dos diversos países.9s) observa que se cumpriu tal oráculo quando o Senhor Jesus foi vendido aos fariseus a trôco de trinta dinheiros (cf. ouvi a palavra do Senhor. eu as apascentarei em ricos pastas e elas repousarão em bom aprisco. o exemplar do Pastor. assim S. Jesus moveu-se de compaixão com êles. vindo ao mundo. investido em seus poderes pela entrega do título ou do báculo de pastor. as quais fazem eco ao texto de Núm acima citado: "Contemplando essa multidão de homens.. carrega-a sôbre os ombros e se rejubila considerando tnicamente a salvação da mesma.. qual imediato Vigário do Senhor no mundo.15-17.31-46). Eis-me. Ora o Evangelista S.lOs. Por fim.. Mateus (27. realizou em si." (34.. apascenta minhas ovelhas. enquanto os falsos guias fogem.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 113 Em Ezequiel 34. Éx 21. Jo 10. eu mesmo tomarei conta das minhas ovelhas.12s) refere o salário do Pastor. quantia equivalente ao preço de um escravo (cf. atribuindo a cada qual o respectivo destino (cf." (Jo 21. Nesta linha de idéias. porque estavam lànguidos e abatidos como ovelhas que não têm pastor. visando principalmente seus interêsses pessoais (cf.1-18). 1-6 e Is 40.

A Escritura Sagrada nos quis ensinai duas belas preces ao Bom Pastor. Nos salmos 94 e 99 o povo de Deus. o tema do paraíso ou da terra prometida. as quais sempre foram caras tradição cristã: o salmo 22. o que acima foi exposto já abre o ôlho do leitor para o autêntico objeto das Escrituras Sagradas.114 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A figura de Cristo Bom Pastor ocorre também nas epístolas dos Apóstolos (cf. cântico de confiança. pedido de misericórdia em hora angustiosa. o tema do "dia do Senhor" ou das visitas de Deus (visíveis e invisíveis). etc. sim. procure ler os livros mais antigos da Bíblia à luz das Escrituras posteriores e da Revelação cristã. dentro do grande plano que Deus concebeu a respeito dêste mundo. mais do qõe o valor que o Espírito Santo mesmo lhes quis atribuir: valor de meros veículos ou sustentáculos do Divino. e com deleite sorverá a Verdade na sua fonte divina! . do vinho. assim julgará cada texto dentro da sua perspectiva própria.17). Tais seriam o tema dos sacramentos (da água. do trigo). e o salmo 79. 5.20) e no Apocalipse de S. * * * Ainda outros fios condutores se poderiam indicar. que perpassam tôda a Escritura paralelamente à idéia central do Messias e elucidam um ou outro aspecto dêste. Consciente disto. do óleo. 1 Pdr 2. Hebr 13. Contudo. é preciso.25. esta série de textos forma um conjunto dos mais significativos da Santa Bíblia. que o cristão não dê aos elementos humanos que a Bíblia apresenta. João (7. Não há dúvida.1-4. qual santa grei. prorrompe em aclamações adoração ao Pastor Divino.

os "escândalos" da moralidade do Antigo Testamento. poligamia. Ésses males morais desnorteiam particularmente o leitor moderno pela circunstância de que nem a consciência parecia repreender os israelitas que assim procediam. praticavam o que hoje diríamos "escândalos morais" . Gên 16. no estudo do problema é preciso se atenda ao seguinte Nem tudo que o Antigo Testamento narra é proposto ou insinuado como norma de conduta para o leitor. à primeira vista. Ismael. Em outras palavras: 1 Haja vista apenas o caso de Abraão. 17.. a fim de ter prole.20).25). se une tranqüulamente à escrava Agar. se quisermos. VII).. O filho assim gerado. de princípio a fim. aliás. que. 1. crueldade para com os adversários.CApíTuLo VII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) O HERDEIRO EM IDADE INFANTE Os dois capítulos anteriores procuravam mostrar a história do Antigo Testamento como paulatina ascensão do homem rude a um grau de religiosidade mais pura e perfeita. São êsses fenômenos estranhos ou. satisfaz ao Patriarca.10. disseminados episódios que a consciência cristã. de acôrdo com ela. se acham. * * * Três afirmações cada vez mais precisas nos possibilitarão proferir um juízo sôbre as narrativas "pouco edificantes" da história sagrada. Proporemos abaixo alguns princípios de caráter geral (cap. porém. Deus mesmo promete que a Ismael dará uma posteridade inumerável. como esperaríamos nós. sinal de bênção (ef. A respeito dêste episódio. Sara quem estimula Abraão a tal feito (ef. veja-se a pág. fraude. 98. que projetarão luz sôbre aspectos particulares da moralidade veterotestamentária (cap. condena: os homens da Antiga Lei.mentira. Gên 16. É. Nessa ascensão. nem o próprio Deus os censurava ou coibia. dada a esterilidade de sua espõsa Sara. VIII). . Antes do mais. mesmo os mais chegados a Deus. eram dotados de mentalidade primitiva e. concubinato. que ora se impõem à nossa consideração.

Algo de semelhante fêz o sacerdote Heli (cf. . 2 5am 13. 8 O incesto de Amnon com sua irmã Tamar é nitidamente relatado como ato pecaminoso (ci.10-13). não raro. 1 5am 19. porque tem que passar longos anos no exilio. Ora esta tragédia comum a todo homem. ela tinha que ser envolvida dentro do "temário" da Biblia e tomar-se um dos assuntos do colóquio de Deus com o homem através das páginas sagradas. Jacó também é castigado.24s). 4 Excetua-se apenas a Bem-aventurada virgem Maria.25-36). 1 mas se tornaram santos por graça de Deus. reconheceu a culpa (ci. dadas as circunstâncias habituais em que se desenvolve uma vida humana. que usurpou a bênção reservada a seu Irmão Esaú. O mesmo se diga da inveja de Saul contra Davi (ci. que déle conseguem separar o filho bem-amado José (ci. censura Jacó (ci. acrescentam às narrativas uma nota condenatória dõ mal: ora são os próprios personagens bíblicos que se penitenciam por ter agido erradamente. 29. deva por si causar surprêsa. após duplo crime repreendido pelo profeta Natã. quedas. 2 ora é o modo de narrar mesmo do hagiógrafo que dá a entender tratar-se de um ato mau à luz da própria moralidade do Antigo Testamento. porém.1-22). 1 Sam 3. que. Ora que significa o fato de que. certamente isto não é edificante. 27. vem o caso de Davi. Poderia até haver certo grau de farisaísmo ou hipocrisia naqueles que se admirassem por encontrar falhas no próximo. ao perceber a fraude. Baque.11-14). nem mesmo os Santos nasceram tais. enganado por seu tio Labã (ci. Verifica-se que os opúsculos históricos da Bíblia por vêzes referem os feitos iníquos. se o artificio fôr descoberto prematuramente. ora é o Senhor que censura os feitos pecaminosos. após os quais teme a vingança de seu irmão Esaú (ci. 1 5am 15. 29. 32.28-30. na Sagrada Escritura. através de muitas lutas e. e de pecados reconhecidos como tais? que o homem peque. por sua vez. reconheça a culpa.25-30). Rebeca é punidá. atrairá maldição. o autor sagrado dá mais de uma vez a entender que se trata de um feito condenável: Rebeca e Jacó reconhecem que. além disto. Por vêzes. 27. o fato de que a criatura peque e depois.116 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO nem todos os heróis de um livro inspirado por Deus são inspirados em cada um dos seus atos.42-45). sem os julgar.12s).35). mesmo aos justos.25) e por seus filhos. e não bênção (ci.18). o próprio Jacó é. Também Saul se penitenciou quando objurgado por Samuel (ef. Gên 27. 2 5am 12. penitente. Todavia não é algo que. já que ela constitui o fundo real da vida humana. há narrativas de pecados. mas é autêntico motivo 2 Como exemplo. não sàmente não espanta. Ao narrar o proceder fraudulento de Jacô. 37. não escapa à perspectiva dos autores sagrados. pois deve mandar partir o filho predileto para a Mesopotãmla (ci.

Aquilo que os simples cidadãos se envergonham de fazer. sômente se se mostra com clareza a depressão moral a que chegou o gênero humano após o primeiro pecado. estas constituem o fundo ao qual se sobrepôs a misericórdia do Salvador.. Rom 5. que manifestam a sublime Sabedoria divina ao homem capazde a apreender (cf. A história bíblica foi redigida não apenas para evocar casos morais êdificantes. descreve a história sob êsse ponto de vista. Em outros têrmos: os "escândalos" narrados no An5. dir-se-á: a dificuldade é formulada a partir de um pressuposto assaz deficiente.20). visam por excelência a santificação dos leitores 1 Será possível crer no valor de tais Escrituras? Em resposta. Confessou a culpa. não bastam para resolver todo o problema. em última análise. 2. como se diz. . como os autores bíblicos (ou. superabundante foi a graça" (ef. sejam pecadores. ou seja. Ambrósio (t 397) notava a respeito da penitência de Davi (2 San 12. entre o primeiro Adão. histórias que diretamente induzam à virtude. no livro sagrado. há na Bíblia também alimento sólido..coisa que costumam fazer os reis. Se.14). o ideal de uma vida virtuosa inclui a penitência. histórias edificantes.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 117 de edificação. ou seja. pergunta-se: embora no homem o pecado não seja para admirar. o fato de que "onde o pecado abundara. jejuou. infiel.. pois sabemos que as histórias de penitência edificante nao sao as mais freqüentes nem as mais características do Antigo Testamento.11-14): "Davi pecou . tenha proposto a figura de homens penitentes. em certo grau.1-3.se ã penitência. é que se realça a correlativa generosidade do Criador. 1 Cor 2. a um alimento para crianças (leite). orou. Além disto. Ef 4. 5 pois a penitência é coisa que nem todos praticain. a reduziria a um livro de pedagogia infantil ou. quem assim pensasse. Contudo.12-14. Ora quem." Apologia David ad Theodosium Augustum.6-16). embora todos. não pode deixar de narrar as manifestações de miséria espiritual do homem decaído. pediu indulgência. conforme o Apóstolo (1 Cor 3. profundas verdades dogmáticas. gemeu .. o Espírito Sano).coisa que não costumam fazer os reis. além de nutrimento infantil. entre o Prevaricador e o Restaurador. o rei não hesitou em realizã-lo abertamente. o segundo Adão. e sua antítese. chorou. que a tenha apagado (pela penitência). não nos surpreende que Deus. é obra da virtude (sobreaatural) . Hebr 5. prostrado por terra deplorou a desgraça. Estas observações. é obra da natureza.6. pois. porém. E como se hão de desvendar essas verdades dogmáticas transmitidas pelas histórias "não edificantes" da Sagrada Escritura? Tenha-se em mente que a história sagrada é a história do gênero humano colocado entre a queda original e o respectivo reerguimento. Que tenha caldo em falta. por que é que a Bíblia o descreve? Encontra-se repetidamente a narrativa de feitos iníquos nas páginas que. sem silenciar o pecado que prèviamente cometeram. 2. mas submeteut.

a sua ilimitada Perfeição.. com os episódios de "barbárie" das Escrituras antigas. antes de tudo. 8 Assim Abraão. à luz de Deus mesmo.1-3). ao eriuigrar para o Egito. não venha a matar o marido Abraão (cf. O É essa relatividade da moral que professa a moderna "Ética da situação" ou o "Existencialismo ético". conforme os teólogos. prometeu tornar inabalável o seu trono até que de sua linhagem nascesse o Messias." É. compadecendo-Vos e perdoando.. Gên 12. Tem concubinas até o fim da vida.. 8 nem Deus é dito repreender tais ações. em última anáiise. não se deixe o leitor prender ao aspecto repugnante que êles podem ter em comum com as narrativas de panfletos modernos. antigamente podia ser até virtude? Não se poderia inferir da Bíblia que o bem e o mal moral são questão de oportunidade. apesar de tudo. antes de tudo. Ora são êsses varões (Abraã Davi ..118 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO tigo Testamento não nos incutem a miséria dos filhos de Adão apenas para se descrever a história. para que se ponha em relêvo a figura grandiosa do segundo Adão. de fato. não simplesmente do ponto de vista dos homens do século XX. é. .8) Davi foi um guerreiro não raro cruel. Não obstante. diz tranqüilamente que sua espõsa Sara é sua irmã. pois. A bondade e o amor das criaturas. 6 Ao se defrontar. para verificarmos (talvez com curiosidade mórbida) o que se deu. tendem a arrefecer e se extinguir. passe além da aparência superficial. sem que a consciência os pareça incriminar. 3.4. a fim de que o Faraó. E. Deus desde cedo o abençoou. perdoando um sem-número de vêzes ao pecador sinceramente arrependido que Deus manifesta sua inesgotável ou infinita Bondade. diz o Génesis que "morreu em feliz velhice" (Gên 25. ) que a Bíblia apresenta como justos ou heróis do Antigo Testamento.10-20)... por muito significativas que possam ser. manifestais a vossa onipoténcia. que Deus por excelência revela a sua Onipotência. pois. em Tit 3. que houve por bem acudir a tais homens. Gên 16. O mesmo Patriarca se une à sua serva Agar.0 domingo depois de Pen- Deus. de moda contingente? Para dissipar esta dificuldade. é preciso de novo consideremos o problema dentro de quadro muito vasto.. que se dignou dar remédio a tanta vileza da criatura. teve igualmente seu harém. e olhe "para dentro dêsses acontecimentos" com o olhar de Deus. então também êles lhe falarão de algo de muito sublime. cf. por mais intensos que sejam. cobiçando a bela Sara. Que santidade é essa? Não estaria assim insinuado que o que hoje se tacha de pecado. quando não encontram correspondência. 2 Sam 7. numa espécie de adultério (ef.8-16. deixam aberta ainda uma questão: por vêzes no Antigo Testamento os homens cometem atos ao nosso critério pecaminosos. mas. Paulo fala da philanthropia de Deus. nos atos de compadecer-se da contínua fraqueza humana e perdoar. 6 7 tecostes S. Note-se a oração do Missal Romano no 10. sim. lhe evocarão o Deus invencível em bondade. a condescendência e a imensa caridade do Salvador. Estas considerações.

a reflexão. êstes. Só aos poucos é que o adolescente vai percebendo as conseqüências concretas do princípio "Faze o bem.A MORALIDADE DO ANflGO TESTAMENTO (1) 119 Qual será. vem a ser primàriamente o que os mais velhos. Todavia em que consiste exatamente o bem a praticar e o mal a evitar. os fatôres que haviam de fomentar ésse desabrochar: de um lado. Deus quis que se desse com o gênero humano inteiro algo de semelhante ao que se verifica com tôda criança: nos. através de um desabrochar mais ou menos lento. mais condizia com a maneira como o Senhor criou e rege o mundo.. de geração em geração. e não plantar árvores adultas. sem dúvida. para êle. mas a maioria das aplicações concretas dêste princípio escapavam à sua percepção. êle não o sabe dizer com muita clareza. possuíam. uma consciência moral ainda embrionária.. de resto. também a Revelação divina os ajudaria a perceber a via para atingirem a perfeição (a Revelação era absolutamente necessária. AS idéias desenvolvidas neste itern 3 se devem. Pois bem. 10 Ora o que se dá na ordem física. R. que o Criador se dignou tornar portadores da verdadeira fé. verifica que o Criador costuma dar existência a cada ser mediante um processo de desenvolvimento paulatino: na natureza os corpos vivos se originam em estado embrionário e. energias e qualidades. sim. Histoire d'Abraham (Paris. apesar da sua sublime vocação. indica. 1947). no que diz respeito à consciência humana. a qual levaria os homens. porém. evita o mal".. minuciosa. Conseqüentemente também os membros do povo de Deus. evita o mal". preferiu. primórdios da história. êsse autêntico modo de ver? Quem observa as obras de Deus. Deus lhes poderia ter revelado imediatamente tudo que a lei natural hoje nos incute. O pequenino conhece. De outro lado. pois.' a compreender melhor as exigências do princípio "Faze o bem. um preceito fundamental: "Faze o bem. à obra de. assim o bem. um lento desabrochar que. o mal será primàriamente desobedecer a. a qual através dos séculos se foi tornando mais apurada. e poucas restrições impõe. Haja vista a criança: a sua consciência é assaz rudimentar. evita o mal". poucas são as conclusões práticas que êle deduz daquele mandamento básico. Percebiam bem que é preciso absolutamente "fazer o bem e evitar o mal". lhe indicam como tal. atingem a estatura definitiva. nêles contidas só aos poucos se desdobram. carregadas de frutos. suposta a elevação do homem a um fim sobrenatural. . lo O Criador se poderia comparar a um agricultor que costuma lançar sementes na terra. Não há dúvida. Maritain. obedecer a tudo que vissem ser da Vontadedé Deus. E dois seriam. se verifica igualmente na ordem moral. quanto ao fundo. os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida. poucos deveres. conforme o plano divino.

a história bíblica.. 343. vocação de Abraão. o Mestre divino apenas quis insuflar novo espírito. "Inerrancy of the Old Testament in rellgious Matters".. esforça-se por descobrir as idéias estranhas e tôlas que êste possui. o Patriarca de Ur da Caldéia para a terra de Canaã. Não quis romper os laços do povo com o seu passado. não é incompatível com santidade. crescessem por ação da Providência Divina e de revelações especiais. desejando preservar a verdadeira fé e a esperança messiânica no mundo idólatra. a consciência do povo de Deus foi percorrendo o longo caminho pie vai da moralidade simples dos Patriarcas do Antigo Testamento à lei de Cristo no Evangelho . comunicando nobres idéias e aspirações aos israelitas mediante as instituições herdadas dos antenatos caldeus. elevá-lo.12. pois. Começou (o seu ensinamento) utilizando os conceitos que Israel possuia." (30 15. pois. Deus permitiu que a Teologia e a Moral do Antigo Testamento se desenvolvessem aos poucos. o percurso foi lento e árduo. embora fôssem pouco exatas. . dêstes dois "catalizadores". P. preferiu ir contemporizando. recebera como herança de seus antepassados muitas tradições e costumes inspirados por mentalidade rude e supersticiosa. de inteligência obscurecida e vontade Inclinada ao mal. Era com gente de tal nível cultural e moral que o Senhor havia de tratar continuamente. permitiu. enfim pela mentalidade que podiam ter os homens após o pecado de Adão. vem oportunamente ilustrar a doutrina: "Quando um professor quer influenciar a mente do seu discípulo. pois não estava à altura do culto do verdadeiro Deus. chamou. Não há dúvida. oriunda de ambiente pagão.. onde se estabeleceu a nação abraamítica ou israelita. houve por bem escolher Abraão e sua posteridade para constituírem o povo messiânico. Tendo-as percebido. dotados de consciência primitiva.120 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fim que ultrapassa as exigências da natureza). J. à semelhança dos demais povos orientais. 17 (1955)." O autor prossegue. Deus serviu-se das concepções de Israel como de um ponto de partida. pois. ora menos embrionária. C. em parte. É claro que essa gente. em grande parte por causa das conseqüências do pecado original que obscureciam a inteligência e debilitavan a vontade do homem. proposta por um autor moderno. Sob a influência.. ou seja. como a tinham os homens do Antigo Testamento. serve-se delas para insinuar aspectos da verdade. tomando o israelita como era.) 11 Dito isto. êsse patrimônio primitivo de tradições e crenças. Deus. às práticas antigas não politeístas. sem intervir por meio de milagres. Weisengoff. quanto às outras observâncias. coma Eu vos amei. em Tire Catholic Biblical Qztarterly. II A seguinte comparação. se desembaraçassem lentamente de tradições pouco exatas. que o povo vivesse. e elevada santidade. mas o Legislador não quis cortar bruscamente tôdas essas tradições (isto seria antipedagógico)... até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho: "Êste é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros. Ora na Biblia o Espirito santo é tal mestre. começa com a. é muito importante frizar que uma consciência moral ora mais. aperfeiçoou-os gradativamente a fim de levar o povo a poder receber a Revelação cristã.a caridade. eliminou em térmos severos o que era estritamente politeísta. observando que o Pedagogo Divino não quis apagar O cabedal de idéias religiosas que Israel possuia por ocasião da Aliança no Sinal. que significa a plenitude ou a consumação do processo. Assim fazia que o povo se fôsse elevando espiritualmente. o Criador havia de poil-lo. Mais precisamente: a história do povo de Deus. tal preghdor.

como dá a entender o texto bíblico. esfôrço notável para êles. atingiu o pleno desenvolvimento. Na medida em que a consciência não os repreendesse. 12 Tais homens davam a Deus tudo. numa palavra. o caso de Davi. muito tenham agradado a Deus. por conseguinte. o primitivo ascendente (certos atos práticados no Antigo Testamento) e o primitivo decadente (os mesmos atos. mas não sempre foi percebido como tal pelos homens. Gén 22. a inocência consiste em que o homem nada faça contra a sua consciência. mencionado à pág. já que a sua consciência moral só aos poucos. é mais exigente. morreram em santa paz com o senhor. é compatível com elevada santidade. era pouco em comparação com o padrão moral que hoje nos é proposto. imperfeita: uma. Núm 215-12) não obstante. podiam seguir seus costumes primitivos. o fervor da oração de Davi. Ora os grandes vultos da história sagrada. Há.1-18). que não hesitou em deixar sua terra e sua parentela para ir a região desconhecida. por vêzes. o zêlo de Elias pela causa de Javé. o que hoje é pecado contra a lei natural sempre foi hediondo aos olhos de Deus (o mal não depende de mera convenção humana). A luz destas idéias. acarretava. não atrai a consciência cristã). Não há dúvida. caso sejam reproduzidos por quem de algum modo conheceu a Cristo). à qual Deus o chamava (cf. . Também não vacilou. foram certa vez incrédulos (cf. Ao passo que outrora a imperfeição da moralidade provinha do estado infantil da consciência humana. quando por debilidade da natureza as violaram. repetir o que era praticado pelos justos do Antigo Testamento. não há dúvida. não deixavam de nutrir prontidão absoluta para cumprir o que Deus lhes pedisse. ela hoje proviria de decrepitude ou degenerescência culpável.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 121 E como não é incompatível? Em qualquer época da história. são modelos de santidade. etc. que sabiam dever dar-Lhe. 13 Note-se o caso de Abraão. não pelo aspecto exterior de sua vida (êste. Outra é a moralidade imperfeita do homem que teve conhecimento do Evangelho: para êste individuo. vemos que é preciso distinguir dois tipos de moralidade primitiva. já que a consciência iluminada por Cristo tem muito mais clara intuição do bem e do mal. entre outros. seria ilicito. nada que lhe pareÇa contradizer à Vontade de Deus. 12 Tal é. porém. através de séculos. Gên 12. disto se arrependeram sinceramente.1-4). 13 Ora era esta incondicional adesão ao Senhor que os tornava justos. se esforçavam por não transgredir as poucas normas que o Seu senso moral lhes incutia e. 116s. Tais varões. fazendo-o. a do homem nos primórdios da história. desde que o indivíduo em nada contradiga à sua consciência.). Tal é também o de Moisés e Aarão: embora por seu zêlo religioso. êste "tudo". mas pelo ânimo interior com que se entregavam ao pouco ou muito que percebiam ser da Vontade de Deus (e êste ânimo interior ainda hoje é digno de ser imitado por qualquer cristão: assim a fé de Abraão. quando o Senhor lhe pediu oferecesse seu filho em sacrifício (e!.

foi dignificado. em relação ao filho. quis dar-lhe o espírito de amor. chamando-o ao consórcio íntimo da vida e da felicidade divinas. em lugar da lei e do espírito de temor. em vez de o deixar na qualidade de servq. a fim de que se mantenha à altura do seu destino sobrenatural. pois "servir a Deus. exigências muito mais íntimas e delicadas que as do patrão em relação ao servo. por conseguinte. servir à lei de Cristo. que analisará alguns pontos particulares da moralidade do Antigo Testamento. o que quer dizer: o homem se aperfeiçoou. 14 CL Missal Romano. que precederam a vinda de Cristo. . Noblesse exige. Ora está claro que um pai tem. a consciência lhe pede mais do que pedia outrora. é reinar" O significado destas considerações se patenteará ainda meilior no capítulo seguinte.122 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em conclusão: Deus houve por bem fazer do homem seu filho. 'Posteomunhão da Missa Pela Paz". Feliz todo aquêle que se sujeita a tais imperativos.

com efeito. A lei do talião muito aproxima o homem do autômato.12-14. é substantivo latino derivado do adjetivo tahs. não raro pode ferir a eqüidade. aliás. por conseguinte. É o que se fará no presente capítulo. queimadura por queimadura.23-25. o efeito que todo processo judiciário tem em vista: restabelecer o mais exatamente possível a ordem violada. a lei do taliâo não leva em conta as cir•cuhstâncias particulares de cada delito. tal. contusão por contusão. Dt 19. tallonis. pé por pé. mão por mão. dente por dente. da máquina. o código legislativo de Moisés mandava que o dano causado ao próximo fôsse reparado pela imposição de semeiliante prejuízo ao delinquente. maneiras diversas de executar êste princípio: o modo mais simples consiste. § 1. Trechos semelhantes ocorrem em Lev 24. incutindo um desagravo equivalente ao agravo. Todavia esta forma de reparação. Há. mitigar o rigor da pena a ser imposta.CA1'i'ruLo VIII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) OS DESMANDOS DA CRIANÇA Não se chegaria a satisfatório entendimento do Antigo Testamento se não se considerassem de per si os principais temas de "escândalo" moral que êle apresenta. 1 2 Talio. embora pareça por excelência garantir a justiça. em exigir do culpado o mesmo objeto materialmente entendido. circunstâncias capazes de atenuar a culpabilidade do delinqUente e. não dando suficiente aten• Lx 21. sem dúvida. ôlho por ôlho. t 21.11-21.° A LEI DO TALIÃO Como se sabe. É esta a famosa lei do talião. É êste. porém. 1 •que assim se formulava "Darás vida por vida. e justiça perfeita.21. ferimento por ferimento. ." 2 Tal norma inegàvelmente visava instaurar justiça.

) "Membro quebrado por membro quebrado. Se assim é. 2633 "Morte ao arquiteto de uma casa que desmorone sôbre o proprietário.124 PARA ENTENDER O AN'rrno TESTAMENTO ção à dignidade espiritual do réu. Já antes de receberem a lei teocrática. mas incluam também uma pena de índole moral. eram aptos a reprimir pretensões exageradas da pessoa que tendesse a explorar a sua situação de vítima. 200.) "Dente espedaçado por dente espedaçado. 229. 196. E por que eram tão comuns êsses princípios ? A sua difusão se explica por corresponderem bem ao grau de civilização primitiva do homem antigo. em meio a nações para quem tal praxe era de todo normal. Pois bem. dispensando de muitas ponderações." (Axt.). Por êstes títulos se vê que o talião era oportuno entre os povos primitivos (se não o fôsse realmente. assim como no Direito Romano.) "Morte ao filho do arquiteto." (Art. Além do mais. que deve ser julgado primàriamente conforme a sua consciência. que são coisa f amiliar ao homem culto. . porém. de 559). "Si membrum rupit. 230. os antigos pagãos foram percebendo o grau imperfeito da retribuição pelo talião." (Art. art. a menos que haja (outro) entendimento. era freio mais eficaz do que motivos de ordem moral. admitiam que o criminoso págasse indenização monetária." (Cf. pergunta-se: como pôde a lei do talião entrar no código legislativo do povo de Deus? Antes do mais. ." 3 Eis. 197. Além disto.1 Normas análogas encontram-se na legislação de Atenas promulgada por Solon (f ca. mostrando de antemão a pena do delinqüente.C. para indivíduos rudes. lii cum eo pactt. Simplificavam a aplicação da justiça.C. Ademais. prescrevia: "Olho vazado por ôlho vazado. considere-se que tal maneira de punir era de uso mais ou menos geral entre os povos do antigo Oriente. da cultura. Com o progresso. os filhos de Israel praticavam o talião.Sofra o talião aquêle que tiver fraturado um membro (alheio).). impunham fàcilmente temor. ao promulgar a Magna Carta de Israel.) "Boi por boi. como reza a Lei Romana das XII Tábuas: talio esto. bem anterior à Lei mosaica (1240 a. o Senhor se dignou respeitar a por exemplo. pena que afete o homem diretamente na sua qualidade de ser inteligente. a natureza espiritual e material do homem exige que as sanções infligidas a êste não sejam de ordem meramente material. Conseqüentemente. art. se a casa cai sôbre o filho do proprietário." (Art. não se explicaria uso tão generalizado). Assim o código babilônico dito do rei Hamurapi (depois de 1700 a. carneiro por carneiro. o que." (Cf. caso nisto consentisse a vítima. Ora a todo êste processo de evolução o próprio Deus se quis acomodar na educação do seu povo.

Por conseguinte. de modo geral. a lei lhe reconhece o pleno direito de avaliar a perda sofrida.) . 5 As palavras de Jesus acima citadas de modo nenhum implicam que a justiça cristã não seja lícito aplicar penas aos réus comprovados. Com a prática do talião estão estreitarnente ligados dois outros usos: o herém (extermínio dos inimigos) e as imprecações. 4 Por fim.0 O EXTERMINJO DOS INIMIGOS Muito menos polido que hoje era outrora o direito de guerra. inteligíveis aos homens do Antigo Testamento. não Unicamente segundo o dano material que o réu haja produzido." (Ci. rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento. uma derrota militar seria escárnio para os deuses da nação vencida. aboliu de todo a prática. porém. haveria de reformá-la. porém. Estas. na guerra. IV. sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo... a honra dos seus deuses estava em jôgo. 5 Não teriam sido. ximo. cada qual será julgado conforme tiver êle mesmo julgado. felizes se poderiam considerar aquêles que. derrotados na guerra. caso tema cometer alguma crueldade. Mt 7. sim.1. mesmo de mulheres e crianças. o historiador judeu flãvio José no séc. § 2. Babha Quamma 17111. o talião podia ser substituído pela indenização pecuniária.7. 1. Ci.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 125 tradição da sua gente. visando o homem como imagem de Deus. aos deuses do vencedor julgavam que deviam ser religiosamente imo4 É o que atesta. Mt 5. os historiadores extrabíblicos referem que. Mc 4.3842.35). : Eis normas que. 21-25). aconselhando mesmo aos discípulos perdoassem gratuitamente a quem os ofendesse (cf. Le 6. ao povo vencedor reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos. tendem a refrear as paixões do indivíduo e torná-lo cada vez mais semelhante ao Exemplar Divino.5. hão de ser avaliadas segundo o grau de responsabilidade moral do delinqUente. obterá misericórdia. porém. o tratado rabinico Mishna. que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária.1s. a cada um será aplicada a medida que êle tiver aplicado ao pró-." (Cf. e autoriza-a a proceder assim." (Ant. Com efeito. por exemplo.. mas aos poucos. o Messias. será julgado. Dado. fôssem apenas despojados de seus bens e reduzidos à escravidão! Tal praxe era chamada o herém ( anátema). não. Mt 5.) "Quem não julga.8. mas também numa ideologia religiosa para nós estranha: cada povo julgava que. No Oriente. Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo "Quem pratica a misericórdia. assim como a vitória significaria triunfo da Divindade. 1 da nossa era "Aquéle que mutilar o próximo padecerá pena idêntica..24. entre os judeus próximos à era cristã. .37s. É muito importante notar que o herém se baseava não sàmente num grau de cultura pouco evoluída.

4-27: ". quebrando contra as muralhas vasos de diversos tipos." 7 Ora tal praxe. Deve-se mesmo dizer que. os haveres. homens e tudo que pertence aos vencidos.57. viri. A mesma raiz semita deu a palavra liarim. era de sumo interêsse na história sagrada que Israel não corrompesse a sua religião. o ouro e a prata lançados ao rio. era destruida em afirmação da santidade e da justiça de Deus. 57 (1950). as famílias. Havia igualmente um lierém de maldição ou anátema: certa pessoa o coisa. depois de insigne vitória sóbre o cônsul romano Manilio. mas até os germanos o praticavam. 7 Annales. Lev 27. o harém dos orientais. cuneta victa occisioni dantur.E Gamos me disse: 'Vai. familiar aos antigos." Noticias colhidas no artigo de F. não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus dentre O Herem. inutilizaram tóda a prêsa capturada: as vestes dos inimigos foram rasgadas e atiradas ao vento.Os vencedores devotaram a Marte e Mercúrio o acampamento inimigo. pois não consistia no oferecimento de algo de agradável a Deus. era tão comum que não sõmente os semitas. subtraído ao uso profano. 8 foi também respeitada •por Deus nas suas relações com Israel. Is 37. a fim de manter incontaminada a crença de Israel.126 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO lados. II istoriarum liber 5. Podia haver um herém de santidade. . Eis mais alguns exemplos de prática do herém fora de Israel: Os cimbrios e os teutônios. Orósio. para um dia transmiti-la ao mundo. 4 Es 14. Miq 4.11). segundo o testemunho de Tácito: "Vic'torts ctiversam acieni Marti cxc Mercurio sacravere. do povo vencido. 2 Crõn 32. ..' Fui-me de noite e combati contra éle desde o despontar da aurora até o meio-dia.. pois eu os devotara ao anátema em honra de Astar-Camos. Abel "L'anathême de Jéricho et la maison de Eahab". e êle só. Entre numerosissimos objetos de bronze excavados nas turfeiras da finamarca não se encontrou um só intato. interditado" ou. toma Nebo combatendo contra Israel. rei de Israel (852-846 a. possuía a verdadeira fé... 323s. significa algo de "separado. reservado para Deus. 8 A própria sagrada Escritura dá testemunho de quanto ésse uso era frequente entre os pagãos (ef. 6 o uso. Os gauleses queimavam a présa ou atiravam-na nos lagos. Descobriu-se mesmo uma inscrição de Mesa. 13.). apartamento secreto das mulheres. em sua acepção original semítica. esquartejando os prisioneiros..C. e apreendi os objetos de Javé e os levei à presença de Camos. batalha mencionada em 4 Es 3. Os ligúrios fizeram algo de semelhante em 176 a. aliás. as cidades. referente á batalha que Me travou vitoriosamente contra Joram. nenhuma arma que não tivesse sido quebrada. por um ato de extermínio total.G. tomei-o. o equipamento dos homens destruido em mil pedaços (cf.-M.13). podendo servir ulteriormente. determinado objeto era entao oferecido ao serviço de Deus por uma consagração irrevogãvel (cf.11. matei tudo: sete mil hômens e crianças e mulheres e donzelas e servas.16). na linguagem religiosa. quo voto equi. matando os animais.28s. para os hebreus. Todavia. a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida. rei de Moab. os cavalos precipitados em desfiladeiros. os homens. por conseguinte. em Revue biblique. abominável aos olhos de Deus.14. em suma aniquilando os despojos consideráveis de que se haviam apropriado em Módena. Esta imolação não era um sacrifício prôpriamente dito. o herém se tornava particularmente necessário e imperioso: ôste povo. voto êste em virtude do qual são entregues ao extermínio cavalos.

" (M 20.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 127 os demais povos." . 563: "Moisés. na história. Já que êle via. nelas não deixarás a vida a indivíduo nenhum que respire. a fim de conjurar o dito perigo. podia-se com tôda a razão dizer que o reino das trevas triunfava sôbre o reino da luz cada vez que Israel sucumbia na guerra.. tal procedimento. quando a sua obra de chefe do povo estivesse em jõgo ou desde que se tratasse de assegurar a salvação de Israel. Em outros têrmos: já que o Senhor decretara realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel. Clamer.2-4. 10 Apoiando-se nestas idéias. os heveus e os jebuseus. não hesitava em recorrer às leis de guerra vigentes outrora e assim exterminar os cananeus e os outros habitantes da terra. os cananeus.1s. 7. tendo confiado a Moisés a chefia do seu povo. que não podia ficar exposto a risco nenhum). 34-38 e o quadro da história dos Juizes em . 9 Assim os madianitas induziram Israel à luxúria e à idolatria durante a travessia do deserto (cf. U (Paris. no paganismo cananeu o mais grave perigo ao qual estava exposta esta salvação.) 2. Núm 25.. O fato de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo inteiramente idólatra. de Abraáo ao verdadeiro Deus era.16-18. a e*periência mais de uma vez comprovou que. a fim de que não vos ensSem a imitar tódas as abominações que êles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus. fazia que a sorte dêsse povo viesse a ser nada menos que a do reino de Deus em meio ao reino do êrro e do pecado. permitia. portanto. inversamente. a fim de se precaverem danos religiosos (repita-se: a fidelidade dos filhos. 31. " Em conseqüência. Si 105.10-19). não deixava de sofrer a Influência do ambiente. 1946). Entregarás êsses povos ao anátema: os heteus. nessas ocasioes o Príncipe dêste mundo parecia pôr em perigo a causa messiânica. os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do reino de Deus. em última análise. é o mentor da vida dos pagãos . era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém e o sancionasse. eis como o legislador sagrado incutia o herém a Israel: "Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus te há de dar como herança. povo de Javé.16) 'os cananeus não exterminados contaminaram freqüentemente o povo de Deus por ocasião da ocupação da Terra Santa (cf. ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra. fomenta a idolatria. um valor insubstituível. os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas. cf. 10 Muito á propósito vêm as observações de A.Satanás. de sorte que em vários pontos êle seguia o modo de ver do seu tempo. La Saiste Bible. Deus.23s. os ferezeus.Jz 2. embora tivesse de Deus e da religião conceitos muito superiores aos de seus contemporâneos. não sem razão. os amorreus. não recuando diante da violência mesmo sangrenta. Procuremos explicitar melhor o que a concepção acima exposta acarretava para os homens do Antigo Testamento. os triunfos dos pagãos seriam triunfos daquele que. como o Senhor teu Deus te mandou. Dentro da ideologia do Antigo Testamento.

11 que as suas guerras ieram "as guerras de Javé" (cf. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a salvação do gênero humano. primeiro ministro do rei da Pérsia. 120.6.40) 12 e. portanto. teu acampamento.35. se originou do fato de que Mardoqueu. Jos 10. Eis por quesos hebreus diziam que os inimigos de Israel eram os inimigos de Javé e vice-versa. para te proteger e entregar diante de ti os teus inimigos. consagrado ao serviço de Deus "O Senhor teu Deus caminha em meio do teu acampamento. 1 5am 21.meramente politica em aparência.16) ou que "Javé combatia em favor de Israel" (cf. Jz 1. que as animava em Israel. do que a nossa. .que a chama javista de Israel se procurou libertar.26. o povo eleito passou a ser perseguido. As observâncias podem ter sido comuns a muitas nações. O guerreiro era um homem santificado. israelita. deve ser santo. estritamente religiosa . seus amigos. Por isto não costumavam distinguir entre o que Deus faz diretamente. e que os'vossos inimigos sejam dispersos! Fujam diante da vossa face aquêles que vos odeiam !" (Núm 10. 11 Assim. Senhor. era de todo própriã (monoteísta). de se aproveitar dos bens alheios). 13 Foi o que o senhor fêz rejeitando o rei Saul. no fundo.) Conforme 1 5am 30. caso êste não fôsse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham. cf.21-33 e 2. 2 5am 11. a mentalidade.14. o que LIe faz por causas segundas ou instrumentos e o que Êle apenas permite. Em conseqüência. e de fato se libertou. quDeus mesmo inculca o herém (e!. Núm 31-19-24. A consciência de que os feitos belicosos de Israel eram obra religiosa aparece claramente no livro de Ester: o conflito entre judeus e persas que êste opúsculo descreve. se recusou a prestar homenagem (fazer genuflexão) a Amã. homenagem que tinha significado religioso. dizendo: "Eis um presente para vós. segundo um modo de falar típico dos israelitas. Éx 17. Jos 10.15." 12 Os israelitas tinham uma concepção do universo e da história estritamente religiosa. porém. 13 O conceito de que as guerras de Israel eram ato religioso explica outrossim as prescrições de pureza impostas aos guerreiros hebreus: era excluído do acampamento militar todo homem que tivesse tido relações conjugais ou contraído imundície legal por ãcidente ou por toque de cadáveres. em conseqüência disto.16-30." (Dt 23. exclamava Moisés: "Levantai-vos. proveniente da prêsa dos inimigos de Javé. cf. a fim de que Êle não encontre em ti algo de indigno e se afaste de ti.) Verdade é que outros povos antigos guardavam semelhantes normas de pureza na guerra. Davi enviou parte da prêsa (dos amalecitas) aos anclãos de Judá. puniria os próprios judeus. os hagiógrafos attibuem diretamente a Javê os têrmos com que os chefes Israelitas promulgavam a lei do herém segundo o costume vigente entre os antigos povos. pág. "de volta a Siccleg.128. entregando freqüentemente os israelitas à opressão dos inimigos no tempo dos Juizes (cf. assim como uma linguàgem muito menos matizada ou filosófica. porém. ao caminhar com a arca do Senhor e o povo pelo deserto. Ora foi dessa opressão . conforme 1 5am 15. Eis igualmente por que se afirmava.42).11-23).11.

A MORALIDADE DO ANTIGO TEStJCMENTO

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3. Ulterior obsertaão Cimpõe: embora a legislação de Is rael reconhecesse o herém, ela o abrandava assaz, em confronto do que faziam os outros povos. 14 Msim, tolerando o herém, mas um herém mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento. 15 Eis alguns testemunhos: o Deuteronômio muito insiste na humarlização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que, fia campanha dê conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não-cananéia, o povo eleito procure reduzir as seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversária obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças; 1 a mulher não-cananéia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como espôsa de um israelita, que a trataria com todo o carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (cf. Dt 21,10-14). Dois episódios da história sagrada, um do período dos Juizes (cf. Jz 21,13) e o outro do reinado de Davi (cf. 2 Sam 20,14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra
14 Os monumentos e os textos assirios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedãneos para os pés dos monarcas, etc. (ci. também Heródoto, IV, 150). Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram o ventre de mulheres israelitas grávidas (ci. Am 1,13; Os 14,1). O mesmo profeta descreve e condena as atrocidades praticadas em guerra pelos sinos, os filisteus, os tinos, os edomitas, os amonitas, os moabitas (Am 1,3-2,3). Eliseu prediz que os sinos hão de esmagar as cniancinhas e violar o ventre das mulheres grávidas de Israel (cf. 4 Rs 8,12). sabe-se outrcssim, por 4 Rs 25,7, que os babilônios estrangularam os filhos de Sedecias, rei de .Judá, ao passo que a éste Nabucodonosor mandou crivar os olhos, prender com duas correntes e deportar para a Babilônia (ci. Na 3,10). Semelhantes costumes bélicos vigentes entre os persas são atestados por Is 13,16-18. Os motivos que levavam os pagãos a praticar o herém provinham de urna religiosidade muito menos elevada que a israelita. Não raro pressupunham que os deuses se compraziam no exterminio dos homens como tal: Mesa, por exemplo, rei pagão de Moab, numa famosa inscniçáo (cf. nota 7 dêste capitulo), afirma que, após a conquista da cidade de Cariataim, fêz perecer tôda a população que ai se encontrava, a fim de oferecer um espetáculo agradável a Camós, deus de Moab (linhas lis). 15 Aliás, o simples fato de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis teocráticas, devia concorrer para coibir a eventual tendência dos chefes de Israel aos abusos, à violência irrefreada. 16 Ci. Dt 20,10-18. O modo de tratar as cidades cananéias seria outro, pois, estando localizadas na terra mesma que Israel devia habitar, a coexistência de cananeus pagãos com os israelitas fiéis oferecia grave perigo de contaminação pagã. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do herém ao vencer os cananeus, como inculca Dt 7,2-5; 20,15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel õ preceito do herém era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que êle fôra sancionado paS o povo hebreu.

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PARA ENTÊNDER O AlTIG0 TESTAMENTO

morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entraram èm acôrdo com inimigos não-cananeus. Houve também varões dopovo de Deus que espontâneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exempio: conforme 2 5am 8,2, Davi, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar apenas a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte ... ! É o que explica que, em 3 Rs 20,31, os sírios reconheçam a demência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Benhadad, vencido por Acab:
"Ouvimos que os reis da casa de Israel são reis dementes. Permite que nos revistamos de sacos sôbre os rins e cordas sôbre as cabeças, 17 e que vamos ter com o rei de Israel; talvez te poupe a vida."

4. Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do herém, por vêzes se deixavam levar não pelo zêlo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jeú: êste General foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a casa de Acab, rei iníquo seu antecessor (cf. 4 Rs 9,2-10); Jeú o fêz realmente, mas, embora intencionasse zelar pelos interêsses de Javé, cedeu a crueldade horrorosa (cf. 4 Rs 10,1-17) ... Ora o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oséias (cf. Os 1,4s). Êste episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.
Também Davi parece ter-se deixado arrastar a excessos no episódio relatado em 1 5am 27,8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca de Israel se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benévolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenara ao anátema (ci. 1 5am 15,3) ; os gessurianos e os gezrianos, que eram provàvelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquis e, temendo contrõle ou represálias da parte dêste, dizia-lhe ter feito expedições nas regiões do Negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e a seus aliados. Tais depredações procediam realmente de zélo religioso ? E a mentira subseqüente que as encobria, poderia ser justificada? De resto, a Sagrada Escritura fornece indicio de que os freqüentes derramamentos de sangue por Davi cometidos não sempte corresponderam ao plano divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o templo de Javé em Jerusalém, recebu do Senhor formal recusa, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o templo, santuário da paz, fôsse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (cf. 1 Crõn 22,8-10; 28,3).
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Indumentária de penitência

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• 5. Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia fôsse o herêm praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Dt 13,13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fratricida contra a tribo de Benjamim (Jz 20,1-48; 21,1-14). A medida, porém, que se ia elevando o nível cultural e.moral de Israel, abrandava-se a praxe do herém entre conacionais; assim na época de Esdras (séc. V/IV), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e a sua exclusão das assembléias do povo (Esdr 10,8). 6. Ainda outro elemento deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas •do Antigo Testamento: é a nzentalida4e do clã ou coletivista. Entre os antigos de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não sàmente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isto se explica, em grande parte, pelo gênerode vida nômade que levavam os primitivos. Com efeito, os nómades vivem da grei, dos rebanhos que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter gregário ou coletivista à vida do clã, fazendo que o indivíduo como ta desapareça na engrenagem do todo. Ademais na vida nômade é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vêzes na antiguidade que os fatôres da história não são "êste" e "aquêle indivíduo", mas "êste" e "aquêle clã". IS Ora êste modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeito, todo o grupo respectivo se julgava atingido; por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a coletividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os freqüentes choques de tribo contra tribo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também êsse o motivo por que muitas vêzes os filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por
18 Manifestações de tal mentalidade encontram-se não sõmente entre os semitas, mas também entre os gregos antigos: assim a totalidade dos troianos teve que pagar pelo malefício de Paris; creso expiou o morticínio cometido por Gigés, seu antepassado em quinto grau; Eurlpides declarou que "os deuses fazem redundar contra os descendentes os passos falsos dados pelos antenatos". A mesma lei da solidariedade, a mentalidade do clã, é vigente ainda hoj e em tribos orientais nómades. Cf. E. sellin, "Das sub jekt der altisraelitischen Religion", em Neue kirchlic/te Zeztschrift, 4 (1893), 444; J. De Fraine, "Individu et société dans la religion de l'Anclen Testament", em Biblíca, 33 (1952), 451s.

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PARA ENtÊÏ,tDERt Õ ANTIGO TESTAMENTO

um legislador condenados à maldil&' 'Nhistória'üagfada apíesenta disto um exemplo assaz significativo em 1 5am 15,1-3: Samuel manda a Saul e±tern'iiie os amalecitas - homens, mulheres, crianças - e todo o seu gado, porque em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia já mais de dois séculos, se tinham oposto à'passagem do povo de Deus (cf. Éx 17,8-13; Núm 14,45; Jz 3,13; 6,3); Moisés, em conseqüência, os tinha condenado a completo extermínio (cf. Dt 25,17-19; Núm 24,20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos! 20 Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também êsse modo de ver imperfeito. Acontecia no séc. VI que os judeus, punidos por guerras e deportações, se queixavam de que seus pais haviam comido uvas amargas e os dentes dos filhos sofriam em conseqüência (e!. Ez 18,2; Jer 31,29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipôcritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou expl'icitamente negar a veracidade do pressuposto: "Eis que têdas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha; a alma que pecar, essa morrerá."
(Ez 18,4; cf. Jer 31,30.)

Assim mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional...
§
3,0

AS IMPRECAÇÜES

Ocorrem no Antigo Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja o mal àqueles que o angustiam. São frases que, à primeira leitura, parecem aptas a ofender a consciência do cristão e pedem um esclarecimento exegético. Dentre essas fórmulas, não se negará que algumas sejam expressão da paixão desregrada; acham-se simplesmente citadas ou consignadas, como ditos alheios, pelo hagiógrafo, não, porém,
10 "Derramar o sangue de um membro da família é derramar o sangue do grupo, é atingir o corpo orgânico. Isto vale até em caso de suicídio e de abôrto; mas vale principalmente em caso de morticjnio... Tudo é comum: a injúria, o prejuizo, o dever e até o sangue; ainda em nosos tempos, em caso de homieldio, os árabes dizem: Nosso sangue foi derramado." J. De Fraine, art. cit., 456. "Cada grupo entre os semitas constitui um só vivente, como uma única massa animada, formada de carne e osso, da qual parte nenhuma pode ser tnincada sem que todos os membros sofram com isto." R. Smith, Retigion of Mie Semitios, 274, citado por A. Leds, La croyance à la vie fature et te culto des morta dans l'antiqulté israélite, II (Paris, 1906), 274. 20 De resto, o decálogo mesmo foi formulado em têrmos adaptados a essa mentalidade coletivista. Eis como se encerra o primeiro mandamento: 'Sou o Senhor vosso Deus,,., castigo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até a milésima geração áqueles que me amam e observam meus mandamentos." (Êx 20,5s.)

A MORALIDADE Do ANTIGO TESTAMENTO

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aprovadas nem propostas peio Espírito Santo qual modêlo de sentimentos do homem de Deus. O contexto indica quais sejam tais imprecações pecaminosas (cf., por exemplo, 1 8am 22,16; Si 39,16; 40,6-10). Muitas, porém, das imprecacões do Antigo Testamento, mormente do saltério, não são de modo nenhum condenáveis; têm significado bom, até hoje válido. Para entendê-las, será preciso considerar que procedem de um ânimo intimamente unido a Deus,.., por mais estranho que ]sto pareça. Em verdade, os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, não o costumavam fazer a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas advogavam os interêsses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou impilcitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser os adversários do próprio Deus. 21 Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos têrmos com que os antigos orientais, dotados de ânimo férvido, costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a tôda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína. Isto mais ainda se compreende se se leva em conta que os hagiógrafos não costumavam fazer distinção explícita entre a pessoa que praticava o mal, e o mal por ela cometido; já que, na realidade cotidiana, a injúria se nos depara geralmente associada a determinado indivíduo que lhe dá origem, o autor sagrado, desejando a extinção das injúrias. (o que em si é coisa ótima), envolvia na sua fórmula imprecatória a pessoa mesma injuriante (o que não quer dizer que desejasse mal a esta como tal). É dessa situação psicológica que resulta o modo de falar surpreendente das imprecações bíblicas. Quanto aos têrmos com que se acham formuladas, convém frisar que pertencem ao vocabulário oriental, tendente às hipérboles e à ênfase. São muitas vêzes tirados diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de outrora. É o que dá tanta
o que claramente transparece dos seguintes textos: "A sombra das tuas asas agasalha-me contra os pecadores que me fazem violência, Contra os inimigos que, sedentos, me rodeiam." (SI 16,8s.) Sejam confundidos e corem de vergonha os que procuram arrebatar-me a vida! Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te procuram !" (51 39,15.17.) "Ouvir-me-á e os humilhará Deus, que tem um trono eterno, Pois não há nêles conversão, e não temem a Deus." (51 54,19s.) 'Não entrarão em si, porventura, os que cometem iniqüidade, Os que devoram o meu povo assim como engolem pão, Os que não invocam a Deus?" (SI 53,5.)
21 É

14). Que o cristão. espiritismo . Por ido... orar pelos que o perseguem" (cf. é união monogâmica.° POLIGAMIA. apresentado como figura da união de Deus . a mim e a ti. em parte são tudo que há de mal disseminado em tôrno de nós.Jaeó. 2. tôdas as potências. ) que. protestantismo. quando nos tivermos separado Se maltratares minhas filhas e tomares outras mulheres ao lado de minhas f 1lhas . ocultamente movidas por Satanás.39. o leitor da Bíblia verá nas imprecações (em particular. O matrimônio. Mal 2. porém. os abusos coibidos. pois. o matrimônio monogâmico . a quem dera as duas filhas por espõsas: "Que o Senhor nos observe. se esforçam por disseminar o êrro e o pecado no mundo! E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios.. Deus será testemunha entre mim e ti.. nos livros posteriores da Sagrada Escritura. às frases impreôató rias. Sem. para um plano todo impessoal. são as tendências desregradas da própria natureza humana. em suma. devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás. nos salmos imprecatórios) a expressão do desejo de que justiça seja feita. não contra os maus.. quando pela primeira vez aparece na história sagrada.17). subtraindo-o ao plano de simples função da natureza para lhe dar valor religioso (cf. tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo. em parte. o discípulo de Jesus tem por lei "amar os inimigos. o contrãto entre marido e espôsa é.é.44). chamado "aliança de Deus" (Prov 2. Para o cristão. o matrimônio . mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. Para se perceber a verdadeira mente do autor sagrado. baluartes que.e. do íntimo do coração.28. Não há dúvida.. e deve. derrogar ao amor dos homens." (Gên 32. êle pode. reze os salmos imprecatórios. entendê-las-á como fórmulas dirigidas contra os males e o Mal. deve desejar a extirpação completa dêste potentado e dos seus baluar tes.que faz 22 Muito significativas são também as palavras que Labã proferiu quando se despediu de seu genro . DIVÓRCIO E INCESTO a) poligamia. com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo. será preciso descontar o que tais fórmulas possam ter de hiperbólico e convencional. Mt 5.) . o Criador mesmo o instituiu e abençoou. aliança "da qual o Senhor é testemunha" (cf. pois.dir-se-ia mesmo: crueldad& 19 . principalmente nos escritos dos Profetas.49s.134 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vivacidade . transportar-se-á. seitas (comunismo maçonaria.23s). Gên 1. 22 Visto ser "aliança de Deus". note-se bem. § 4. À luz destas considerações..

1). referindo o episódio. 5. de 1800 a. Ao matrimônio bigamo assim descrito não se pode atribuir valor de nodêlo. fiéis a Deus (Gên 5. Vejam-se Os 1.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 135 as vêzes de Espôso . O rei Davi tinha um harém numeroso (1 Sam 18. 2. mas distintamente às duas partes em que o reino de Salomão se havia cindido. 2 Sam 3.2). Jer 2. ao lado dela. a imagem que deve indicar a realidade espiritual é a de um matrimônio bigamo: o espôso tem duas espôsas Irmãs. Jacá esposou Lia e Raquel.5). 11. mesmo piedosos.21s. pois frisa a índole sanguinária e vingativa que o Patriarca manifesta em versos às duas espôsas: "Adá e Selá. Is 50. pág.° 19). 3. o justo salvo das águas (Gên 6-9). O primeiro caso de bigamia que a Sagrada Escritura registra. 3. 24 A praxe da poligamia foi finalmente reconhecida pela Lei mosaica em 1240 (cf. ouvi minha voz. 21. 54.1. porém. Precisamente o que caracteriza a corrução antes do dilúvio é o irrefreado comércio matrimonial. Gên 6.6). E um jovem em compensação de uma contusão. Lev 18.23s.1-49 e Jer 36-13. o hagiógrafo indiretamente condena o bígamo. o livro de Tobias. pois.17. 23 O livro que por excelência apregoa a santidade da vida conjugal.39-43. 24 Homens retos e homens indignos de Israel foram polígamos. 25. o pai de Samuel.Abraão tinha Sara por espôsa principal (Gên 12. Gên 4. talvez a poligamia (cf. para que a metáfora correspondesse à realidade (cf.1-13).18). Assim: . 30. Gên 12) em diante.1-32). A exceção se explica pelo fato de que o hagiógrafo queria aludir não ao povo de Deus como tal.5. os homens. caracterizada pela corrução (o que já por si toma suspeita a novidade dos matrimônios de Lameque).. se refere ao contrato de um jovem com uma donzela (Sara). A linhagem dos setitas. a escrava (Gên 16. 62.22). verifica-se na família de Lameque (cf. A legislação 23 Observa-se que. n. setenta e sete vêzes. . assim como Noé. são monogâmicos. cf. Dt 17. De Abraão (ca. de mais a mais que a Lei mosaica explicitamente condenava a união de um varão com duas irmãs (ci. 249. têm freqüentemente (dir-se-ia: normalmente) mais de uma espôsa. havia Agar.27.que se comporta como espósa. cada uma das quais o instigou a unir-se com uma escrava (Gên 29. Lameque.3. Lev 18.2.18).29. o autor sagrado lhe atribui uma nota pejorativa.19) Éste é o sexto membro da linhagem de Caim. Éste dispositivo da Torá se explica por um ato de tolerância divina.) Quando. teve duas espôsas (1 Sam 1. POVO .2.14). Famoso foi o harém de Salomão (3 Rs 11.5s.1-4. e concubinas (Gên 25. Esaú teve três mulheres (Gên 36.C.1s). Mulheres de Lameque.com sçu. ticaná.25. Ora.13.2-5. em Es 23.15." (Gên 4. a bigamia é introduzida na Escritura. escutai minha palavra: Matei um homem em troca de um ferimento recebido. a figura da espõsa única tinha então que ceder à das duas irmãs esposadas ao mesmo varão. Caim será vingado sete vêzes. porém.27).

agregava o pai de família à. Is 63. uma escrava." (Gên 30. a principio.6. sim. ao 25 Sabe-se que o número de mulheres que um proprietário oriental possuia. Dizia Raquel: "Que Balá dê à luz sóbre os meus joelhos.25). era tido como indício de sua riqueza. estados ou fases de "impureza legal" (os períodos de menstruação. todavia Moisés. o varão hebreu procurasse unir-se a outra. de seu prestígio. próxima ou remotamente.) 27 A impureza legal estava baseada em fenômenos fisiológicos (às vêzes. linhagem do Messias). queira tomar uma concubina. filhas de altos funcionários.3s). O código legislativo do rei Hamurapi prevê.9 e Os 9. caso a escrava fõsse fecunda: "Se um homem esposar uma mulher e se esta der ao marido uma escrava que procrie filhos. no decorrer dos tempos a poligamia se tomara comum no antigo Oriente. doenças etc. não era assim. . que ficaria à sua disposição para o resto da vida. da mesma forma procedeu Lia.) Não sômente em Israel.14. ou estrangeiras. ao lado da espõsa principal. Distingue-se bem da "impureza moral".95). O mesmo se dava no Egito.). 144-146). Ademais julgavam encontrar em sua ideologia religiosa um estímulo possante para não se afastar do uso geral: os descendentes de Abraão estimavam. por conseguinte. a algumas era dada a dignidade de "espósas régias". apresentando a serva Zelfa a Jacó (Gén 30. porém. que o sujeito contrai por uma vontade inclinada ao mal. nos quais os cônjuges eram obrigados a se abster do comércio matrimonial. Por Isto. sua escrava (Gén 30. culpada.) E. como dote de casamento. que prole numerosa era sinal de bênção divina (pois. no caso de ser infecunda a espôsa. uma só era feita "grande espósa" ou rainha. 144. sim.8. não se lhe dará autorização para isto e êle não tomará concubina. Entende-se então que. mas também na antiga Caldéia. sem implicar necessàriamente culpa no indivíduo por ela afetado. doenças).3. 27 É verdade que também outres povos conheciam tais restrições ou estados de "impureza". ouviu a minha voz e me deu um filho. exclamou Raquel: "Deus me fêz justiça. e por ela terei tambêni eu uma família !" (Gên 30. filhas de régulos submetidos ao Egito (as quais. O Faraó possuía numerosas mulheres. que a espósa apresentava ao marido (art. 26 Assim Raquel. a mulher rica recebla de sua família." (art. quando Balá gerou Dã. por vêzes." (CL Mt 19.136 PARA ENTENDER' O ANTIGO TESTAMENTO matrimonial de Israel podem-se apiieaPrm. já pelo seu âmbito de vida. a uma mulher livre ou à escrava da sua consorte (a prole da escrava era considerada pertencente à patroa). eram. estéril. caso esse homem. e que não seria concubina. ao passo que esterilidade equivalia a maldição (cf. inclinadas a seguir tal praxe. globo as pa1avrasde Jesus: "Foi pI r cauid & dureza do vosso coração que Molsés permitiu. Lc 1. Essas mulheres em maioria ficavam sendo concubinas. iam ter à cõrte na qualidade de reféns). A patroa podia ceder o seu lugar à escrava nas relações com o marido. 26 A largueza tolerante de que assim dava provas a Lei mosaica erã de certo modo compensada por restrições que a mesma formulava a respeito do uso do matrimônio.) Com efeito. 25 Os hebreus. por exemplo. fêz que Jacó se unisse a Balá. os reis da Babilónia tinham nos respectivos haréns mulheres de condições variadas. enumerava. O Código de Hamurapi proibia ao marido tomar uma concubina. tornando-se então a prole da escrava propriedade da patroa. a existência legal de unia concubina ou de uma escrava.

pelo Evangelho. 102.para que o marido a pudesse repudiar 28 La .44). quando foram inseridos na legislação de Israel. sim. o freio religioso sendo quase o único que impusesse resjieito.houvesse "algo de repugnante" na mulher .. IV (Paris. é importante notar que os textos bíblicos referentes ao divórcio não o instituem em Israel (como não instituem a poligamia). comenta Clamer: "Tais prescrições (restritivas do matrimônio) . Referindo-se a êste texto bíblico. Eis outro elemento da antiga Lei que causa surprêsa ao cristão: a praxe do divórcio. 1946). porque sou santo. mas. Anàlogamente se exprime H. "Mariage". Estas concessões eram contrabalançadas pelos Impedimentos matrimoniais de parentesco e pelas regras severas de pureza legal.44) " 28 Na plenitude dos tempos.. b) divórcio. determinam as formalidades necessárias para o tornar legal e diminuir a sua freqüência. não implicavam necessàriamente superstição degradante. já ninguém mais sabia o seu significado originário. a mulher era colocada sob a tutela de um interdito religioso. que conservavam a idéia e a prática do matrimônio em certo nível moral e contrastavam com a licenciosidade tolerada por outros povos. o Legislador hebreu lhes atribuía um significado mais nobre.4-6). Sendo expressão da vontade de Deus. II (Paris. a Lei mosaica motivo sério . nos periodos mais perigosos da menstruação ou do parto. qualquer que tenha sido a origem dos costumes tradicionais promulgados pelo código mosaico. eis o que o Senhor recomendava após discriminar as impurezas legais. ou à santidade: "Vós vos santificareis e sereis sant8s. não será preciso dizer que. Aliás.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO r ) sanciOnfrlas (II) 137 oficialmente para Israel. e não vos tomareis impuros.' (Lev 11. cedendo o lugar à monogamia inicial (cf. apto a corrigir a dureza de coração da sua gente: deveriam ser observados em virtude de uma aspiração à pureza moral. Mt 19." . 763: "A lei mosaica se adaptava aos costumes da época autorizando o divorcio e deixando em vigor a poligamia. supondo-o já em vigor. queria levantar a mente do povo a um ideal que os pagãos estavam longe de conceber. em Dictionnaire de Ia nuble. diz o Senhor. 1928). interior. Lesêtre. Antes do mais.. a poligamia seria removida dos usos do povo de Deus.. reconhecendo usos comuns dos antigos povos. porque 'sou santo e não vos tomareis impuros" (Lev 11. o instinto racional mesmo sabia utilizá-lo para se defender contra os ímpetos do instinto animal. Exigia.Sai'nte flible. êsses usos tradicionais visavam assegurar a santidade do povo de Deus: 'Vós vos santificareis e sereis santos.

a fraqueza humana nêles se manifestou.1-4.1).(Art. Mt 19. ainda parece oportuno observar: Os indivíduos humanos da primeira geração. Isto foi por Deus permitido em vista das extraordinárias circunstâncias em que então se achava o gênero humano. caso. no Código de Hamurapi. concubinato e divórcio reconhecidos pela Lei.138 PARA ENTENDER O ARTIGO TESTAMENTO (cf. porém. irmão com irmã. o fundo negro sôbre o qual mais havia de sobressair a graça da Redenção. eis um entre outros artigos babilônicos: "Se uma espOsa é boa dona de casa.) Além disto.1). os filhos de Adão e Eva.. Também êste dispositivo visava restringir os divórcios.3-9).) Mais ainda: a legislação israelita permitia. o qual simplesmente rezava: "Se um homem estiver disposto a repudiar uma concubina que lhe tiver procriado filhos. chamada a ser o povo de Deus. episódios que em hipótese alguma poderiam ser justificados. ou uma espOsa que lhe tiver procriado filhos. irrepreensivel. se casaram entre si. pode tomar o seu cheriqton e ir-se para a casa de seu pai. porém. como dissemos. Ao lado dos casos de poligamia. na história sagrada. por exemplo. se casasse de novo. constituindo. o seu primeiro marido nunca mais a poderia retomar por espôsa (cf. caso haja entrementes vivido com outro homem (condição justamente contrária à legislação mosaica) 1 Por essas diversas restrições. Dt 24. admoestando o marido a que não se separasse sem reflexão prévia." (Art. 137. Jer 3. Também esta cláusula restritiva não figurava no Código de Hamurapi. a Lei mosaica só ao marido reconhecia a iniciativa do divórcio. entre os árabes. . a mulher jamais a podia tomar. essa mulher não tem culpa. entrou em absoluto vigor o ditame de consciência que proibe o matrimônio entre irmãos. por exemplo. que a mulher repudiada contraísse novas núpcias. Logo. não havia outro meio natural de prover à propagação da espécie. as restrições cederiam à proibição formal (cf. Na plenitude dos tempos. sem dúvida. houve. o Corã permite que a mulher repudiada seja de novo recebida pelo marido. 142. que se constituíram famílias diversas. onde se lêem diversos motivos para que a mulher repudie o espôso.. Fora de Israel. Dt 24. e se o marido sai e muito a negligencia. Por fim... Ole restituirá a essa mulher o seu cheriqton (espécie de dote) . ou seja. a Lei israelita bem dava a entender quão pouco desejável é o divórcio numa sociedade que tenda à perfeição. Tal exigência não ocorria. sim. e) ulteriores aspectos.

29-33). S. que foi devidamente castigado.s 11. que Deus puniu severamente. exprimiria uma "história" imaginada para depreciar amonitas e moabitas. mas o que se chama uma narrativa etnológica". impuras. segundo um têrmo paralelo árâbe. sem contra êles protestar: 'Assinalam o trecho com pontinhos. as duas jovens teriam tido cópula carnal com seu pail Apenas seria de notar que a narrativa faz de Lote uma vitima inconsciente.. 253.26.6-10. os trocadilhos tão artificiosos e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender. sim. 32 La method. sem causar maior surprêsa do que os episódios anteriores. portanto. quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon. Jerõnimo dizia dos rabinos do seu tempo. como punição. poderia ser também julgado culpa grave.23. a Lei admoestava particularmente o rei contra os abusos' da poligamia (ci. gente com a qual não se podia ter amizade. o sentido exegético é muito exato: uma sátira não é história. Ora. as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado. êstes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita como os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam.36). como refere Gên 38. Eis como o Pe. 29 Os exegetas recentes. Dt 17. 29 30 . são inclinados a crer que o trecho refere não uma história real. 1953). cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que.' Abstração feita da finalidade do pontilhado. Lagrange resume as razões que o levam a adotar esta explicação: "O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio.1-13. que acarretou. La Sazute Bible.34. ludibriada. 207. o atentado incestuoso dos sodomitas.17) o feito das duas filhas de Lote. a quem náo se pode imputar culpa no caso.3-7. relatado em Gên 19. Note-se como por três vêzes é inculcado que as filhas de Lote conceberam de seu pai (vv. Ez 25. Dt 23. "Amon" (ben-ammi) seria "Filho do meu povo" ou.1-25. também "Filho do meu pai".6-8).7$ Lote é dito "o justo". Jer 48. Chame. A Ironia é tão acerba. ter-se-ia formado em Israel uma narrativa fictícia: "Moab" (mé-ab) podia. "Filho do meu pai" (Amon). conforme a etimologia.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 139 Tais episódios são entre outros: o pecado de Onã (donde o nome do vício "onanismo"). significar "file é do meu pai". De resto. 3 R. 32. Dt 27. para exprimir a animosidade. 1949). J. o hagiógrafo pode ter consignado no Em 2 Pdr 2.1-11). haviam Incorrido no ódio e no desprêzo dêstes (cf. tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo. Com efeito. Lev 18. 31 Os hebreus abominavam o ato incestuoso que atribuiam às filhas de Lote (ci.e historiqve.. conforme Gên 19. Le livre de la Getzése (Paris." 32 A Interpretação assim concebida não é Incompativel com a inspiração do texto sagrado.. 1 (Paris. Com Lagrange concordam Clamer. 31 A narrativa. Pois bem. o cisma do reino dêste monarca (cf. para indicar que não merece fé. Esta insistência se explica bem pela intenção de dar uma interpretação pejorativa aos dois nomes.30-38. e gerado os varões a quem teriam impósto os nomes adequados "Êle é do meu pai (Moab).20. porém. concebido de seu pai Lote. 30 Dêstes varões éram ditas proceder as duas nações Inimigas ferrenhas de Israel. 297. a conduta licenciosa de Salomão.

por isto. pois. assim conseguiu enganar o pai e usurpar para si a bênção de primogênito. v alguns autores cristãos julgavam licita a mentira formal. Coflat.36). nos térmos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel. instigado por sua mãe Rebeca . desde que fôsse proferida com a finalidade de promover o bem (cf. dando-lhe a entender que era o filho mais velho Esaú.22s). por vêzes. cassiano.se apresentou ao pai débil e cego. inserindo o episódio de Gên 19. Já que uma ou outra dessas histórias se torna. sendo que o mais velho acabaria por servir ao mais jovem (cf. 25.30-38. mesmo tal espécie de mentira.de resto. e. não era de todo clara aos homens anteriores a Cristo (nem aos pagãos nem aos israelitas). Esta designação. . 34 "Segurar o calcanhar" é bem o sinal de "suplantar". ItjL 5.29-34). em troca de um prato de lentilhas oportunamente oferecido a Esaú. Rebeca sentira que colidiam entre si no ventre materno. o caracteriza na história sagrada. que o precedia e que. é autêntico oráculo: . Os teõlogos católicos. analisar-se-ão abaixo alguns episódios clássicos. quando ainda gestava os dois gêmeos. em breve repudiaram. e fôra por Deus advertida de que tal luta se prolongaria no decurso de sua vida. Gên 27. a animosidade existente êntre o séu povo e os adversários do seu povo. que o constituía 33 Sabe-se que ainda no séc. Jacó aproveitou-se da fadiga de seu irmão que voltava da caça.a todos os cristãos desde o início da nossa era. Jacó. Mais tarde. 33 Não é. e ainda hoje repudiam.° MENTIRA E FRAUDE A moral cristã ensina que jamais é lícito dar a entender o contrário do que se julga ser verdade. comprou para si os direitos de primogênito (cf.0 Suplantador. Antes da morte de Isaque. com a intenção de enganar o próximo.24-26). de fato. motivo de debates.17). tem um nome que. de admirar que na Sagrada Escritura se achem relatados casos de mentira até de homens e mulheres piedosos. a) a fraudulência do Patriarca Jacó. saiu do seio materno segurando o calcanhar de seu irmão gêmeo Esaú. Todavia esta norma. segundo a etimologia popular hebraica (cf. o autor não fazia senão exprimir. nem foi eidente. Jacó . filho de Isaque.140 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO livro do Gênesis tradições populares. 25. 17. cujo3significãdo'era conhecido entré" os judeus. por depender de grande pureza de consciência. porém. teria todos os direitos de filho mais velho (cf. Já ao nascer. 34 De resto. Não qüeria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia. Gên 25.

Hist. porém. luz filhotes malhados. VII. 10.25-43). nasceriam dos carneiros brancos e das cabras negras ou escuras de Labã (êste.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 141 herdeiro não sàmente dos haveres paternos. Jacó se foi para a Mesopotâmia a fim de escolher espôsa na família de seus ancestrais. 985. para o futuro. 30. resolveu levar consigo parte do gado de seu tio. De venatione. Quaest.. Note-se a ênfase com que o astuto varão. 16 respondem Raquel e Lia: "Sim. optou por Raquel. o Patriarca colocava diante de seus olhos varas de salgueiro. . 27. 29. Inculca ter sido especialmente auxiliado por Deus: "vejo no rosto de vosso pai (Labã) que Me não me é favorável como antes. Deus tirou a vosso pai o gado e o deu a mim (30. de regressar à sua terra com a família já constituída.1-45). depois de obter o sucesso. liber XII. mas o Deus de meu pai estéve comigo. O expediente usado por Jacó pode ter sido mera ocasião para que Deus o beneficiasse. No v. 327s. Tendo-se fixado em casa de seu tio Labã." Estes versiculos Indicam a causa profunda de um fenômeno que vulgarmente se atribula ao artificio utilizado por Jacó. que certos objetos avistados durante a concepção ou a gestação acarretavam notas próprias na prole. dizia-se que os espanhóis por meio de tais artifícios sabiam variegar a côrde seus cavalos. como ainda hoje freqüentemente pensa o nosso povo. para que os carneiros brancos e as cabras não malhadas gerassem prole respectivamente negra e malhada.. Cf. filha dêste. tõda a riqueza que Deus tirou de nosso pai. Nos tempos de S. Hipõcrates. Todavia a modéstia de Jacó era ilusória: o "Suplantador" soube usar de um artifício habitual entre os criadores de gado primitivos.Jerõnimo (séc. Jacó se quis indenizar dos trabalhos que lhe foram extorquidos: aceitando uma oferta de Labã. Etymolcgiarinn. ed. Isidoro de Sevilha..5. a causa do êxito do processo que por si mesmo talvez fõsse vão. Gen 30. Plínio. Como quer que seja. 58-60. mas também das promessas divinas referentes ao povo do Messias (cf. A ciência genética moderna. o texto sagrado dá a entender que o artifício de Jacã se tornou eficiente por especial intervenção de Deus. Migne lat. nas quais fizera incisões a fim de as tornar raiadas ou listradas de branco. in Heptat. pertence a nós e a nossos filhos. O artifício estava muito em voga entre os antigos. 1. todavia só conseguiu obter o assentimento definitivo de Labã após haver sido explorado por êste. Após estas vitórias fraudulentaá.1-30). possuidora de mais exatos conhecimentos. a saber: os cordeiros negros e as cabras malhadas que. Assim Jacó se tornou rico à custa alheia (cf. produzindo prole malhada (d. Jerônimo.7-9). 23. é o tipo normal e mais freqüente do gado). Agostinho. esta terá sido. vejam-se os testemunhos de Opiano. todos os animais davam à. "Liber hebraicarum quaestionum" in Genesin. amendoeira. a qual lhe pertenceria. plátano. em última análise. V). talvez negue a possibilidade da influência natural de tais fatóres sõbre o processo gener ativo. Antes.. nat. segundo S. e dez vézes mudou o meu salário. S. parte aparentemente modesta. Vosso pai burlou-se de mim. 93.. e não aquêle. os animais geravam filhotes ralados. . sempre que êle dizia: 'A prole raiada será tua paga'. prestando-lhe quatorze anos de serviço agrícola e pastoril (cf. 33 O processo utilizado por Jacó para obter cabras malhadas foi o seguinte: Quando os animais estavam para entrar em cópula. mas Deus não permitiu que me fizesse mal. a visão désses ramos devia influenciar a formação do embrião. 1. 1. julgavam.37-39). Tôdas as vézes que éle dizia: 'A prole malhada será tua paga'.

fôste forte contra Deus. J. 12.4s. conseguiu sair da depressão. depois de várias fraudes. O "Suplantador" rogou-lhe então a bênção como condição para que o libertasse. mas também mudou-lhe o nome de Jacó para "Israel" (= Forte contra Deus). o Patriarca certa noite lutou contra um personagem misterioso que lhe aparecera. finalmente. o estranho adversário não sâmente lhe deu a bênção. tomando consciência dos atos injustos que cometera. quem terá vencido? Notemos que o estranho personagem fêz as vêzes de mais fraco. mutilando a Jacó. O profeta Oséias. Em vez de a repreender. O "Suplantador". 1949). mas estritamente na consciência dêste. o Senhor lhe deu a saber que o pouparia. ao contrário. dando-lhe a bênção desejada (coisa que só em nome de Deus pode ser dada) e impondo-lhe novo nome (que era um oráculo profético). 1953). Como se há de entender essa história? Uma fase posterior da existência de Jacó nos leva à reta interpretação: O hagiógrafo em Gên 32. o tomaria "di-. via-se de regresso à casa. - . ou seja.o que contribui para tornar mais enigmático o cenário de Gên 32. o perigo de morte que então enfrentava.23-32 narra que. A. O Patriarca... Le livre ÃXe la Genêse (Paris. Que significa isso tudo? Os estudiosos contemporâneos dão ao trecho um sentido muito mais nobre e espiritual do que o que. Clamer. 1 (Paris. dizia. equivalia para éle a uma agonia ou luta. pediu ao Patriarca que o deixasse partir. mas não deixou de se mostrar superior. O resultado da luta também é ambíguo. daí por diante. Chame. à primeira vista. julgou ter chegado a hora de sofrer o castigo de Deus. 29).. mas ainda quis tocar o nervo da anca de . também dos homens hás de triunfar" (v. porém. não o amaldiçoaria. sabendo que seu irmão Esaú lhe ia ao encontro com quatrocentos homens. se lhe poderia atribuir.Jacó. vinamente" forte contra os homens ( "Israel"). dir-se-ia que o Senhor confirmou a violação de direitos que Jacó cometeu em sua vida. a seguir. em resposta. 346-8. mas. embora o pudesse "derrotar". "pois.142 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ora foi êsse homem tão fraudulento que Deus abençoou.. 30 Ei-lo O hagiógrafo ou a tradição israelita teriam recorrido a imagem antropomórfica muito viva para designar uma luta que se passou não fora de Jacó. identifica o lutador anônimo com um anjo. o desconhecido confessou-se impotente. ao contrário. na caminhada de volta à Palestina. La Sainte Bible. pedindo ser libertado. até mesmo com Deus . Com efeito. A narrativa é certamente obscura. o fêz cair em si. o abatimento a que êste pensamento o reduziu. dizem. o por36 01. 394-7. tornando-o coxo. não morreu nessa crise.

J'ose diTe que je fie une belie défense et que la luite fut Ioyale et compléte. J'acó. Le combat spiritwet est aussi brutal que la luite d'hommes. o que delicadamente insinua Sab 10. não é a criatura que. 31 Esta afirmaçao.. por seus títulos naturais. Mas nem por isto violentou a personalidade humana de Jacó. com o anjo não será a imagem de tóda a nossa vida espiritual? Lutamos contra Deus.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 143 tador das inabaláveis promessas e bênçãos messiânicas. Auz sources bibliques (Paris. propenso a suplantar fraudulentamente. deixou que se aí ir masse com liberdade. dentre os dois filhos de Isaque. de sorte que foi pelos miseráveis que Deus quis libertar da miséria a criatura.. portanto. Joly. ou seja. 158s: "Se se observam atentamente os traços com os quais a Biblia nos apresenta o homem conhecido antes e depois da luta com Deus. que narra a sua conversão: "Cette résistan." O mesmo autor cita o seguinte trecho de Paul Claudel. suscita a munificência divina." 38 A propósito se pode citar a observação de E. como triunfou em outros varões indignos. ora é no momento em que somos vencidos por Deus e Lhe pedimos nos abençoe.12 "A Sabedoria outorgou-lhe (a Jacó) o prêmio em árduo combate. O defeito deixado na coxa de Israel lembrar-lhe-ia a "impotência" do seu poder humano e a "prepotência" de Deus que liberalmente outorga a vitória ao indivíduo que Êle escolhe. 41: "A luta de Jacd. 37 O valor destas explicações não impede ainda se pergunte: mas por que terá Deus escolhido tal varão para colocá-lo à frente do povo messiânico. para o futuro. não seria o "Suplantador" que vence por meios fraudulentos. para finalmente envolver mesmo a miséria de tal homem dentro da obra da Redenção. alheio às maquinações ilícitas e confiante em Deus só. Jacó era o realizador inquieto e complicado. herdeiros da promessa messiânica. A fim de que êle reconhecesse que a piedade é mais poderosa do que tudo. êle havia de se tornar o triunfador abençoado. verifica-se impressionante mudança. mas aquêle que sabe contar com o auxílio de Deus mais do que com a própria habilidade. o mais jovem.. esta se atua também sôbre os que nada de meritório têm. a bondade de Deus triunfou em Jacó. Pode-se dizer também que Deus se quer deixar vencer por nossa oração. o mais destituído de qualidades.icciotti. Israel será o triunfador enérgico e benévolo. pois a graça pode fazer dos iníquos os justos que sirvam a uma obra perfeita. resistimo-Lhe. HLstoire d'israel.ee a duré quatre ans. queria escolher. Je fus définitivement forcé. O Senhor. 1950). que na verdade nos tornamos vencedores. réduit." A luta misteriosa de Jacó significa.. na linhagem dos grandes precursores de Cristo? Não será isto uma insinuação de que a fraude ainda hoje poderia ser abençoada? O Senhor quis escolher o "Suplantador" para ensinar aos homens que os dons divinos são absolutamente gratuitos. oportuno comentário de O." ar Eis o . portanto. uma dobra na vida do Patriarca: de conquistador trapaceiro e turbulento. R. 1.

em que todo o fervor religioso se acha empenhado e. pois. Judite revestiu-se dos ornamentos mais valiosos e. cf. procurou seduzir por sua beleza feminina e suas expressões de duplo sentido (note-se: dando a entender a Holofernes que denunciaria os segredos da derrota de Israel. entre a luz e as trevas. Fêz o papel de fugitiva. Em poucas palavras. de fato.. Aod e Jael: a amabilidade a serviço do niorticínio. em vez de a punir. dando-lhe pleno êxito. Judite aproveitou a ocasião para decepá-lo.o que era verdade. O livro de Judite nos apresenta a história de uma viúva israelita que. dada a sua beleza. Bom 9. a seguir. abençoou-a. pois o pânico se apoderara dos assírios estupefatos. Quando os seus concidadãos já perdiam a confiança no auxílio divino. a alta noite. disse ao General que sômente a apostasia religiosa seria capaz de prostrar aquêle povo .1-12. pois. Betúlia. onde estimulou a sua gente ao ataque. fervor de orientais exuberantes e rudes. Holofernes acolheu-a com carinho e. de modo nenhum implica que ao homem seja lícito agir contra a consciência ou fraudulentamente.. Que significa isto? Para aproximar-nos da reta interpretação. pela astúcia. Judite parece ter enganado. recordemo-nos de que estamos diante de um episódio das guerras de Israel. na Sagrada Escritura. mas não "tem obrigação" de o fazer. O Senhor salva. Para o homem. o que não é para desprezar. eis que Judite foi ambígua em suas atitudes e palavras. alegando que Deus salva os pecadores... matou. porém. a nós desconhecido (cf. excitado pela paixão ofereceu-lhe uma ceia. são combates. tportanto. sim. fica sendo única norma inabalável: cumprir em todo tempo a Vontade de Deus tal como a consciência a manifesta. Holofernes. A seguir. Nessa luta. 11. durante a qual se embriagou. deixada a sós na tenda com o General adormecido. entendeu que lhe se- . lançando-se voluntàriamente num abismo de que não se pode retirar por suas próprias fôrças. conseguiu entrar no acampamento inimigo. salvou a sua cidade. por isto ninguém presumirá abusar da Misericórdia. salva segundo um plano muito belo e harmonioso. E o Senhor. após alguns dias. alegando às sentinelas que ia rezar fora do acampamento. voltou para Betúlia. êste foi vitorioso para Israel. b) Judite.144 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO porém. as quais. tomam o significado de luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás..155). não mentiu. assediada pelo General assírio Holofernes. apresentou-se ao General como a deser tora que lhe havia de denunciar os segredos aptos para captar Israel.

144. fixo ao solo (Jz 4. que oprimia o povo de Deus. pois. Deus quis dar pleno êxito à tarefa de Judite. poderia ter desconfiado de um ardil de guerra. recebeu em sua tenda o chefe cananeu Sisará. rei de Moab. o texto sagrado de modo nenhum insinua tenham sido inspirados por Deus ou feitos após oração ao Senhor. que Judite procedeu depois de ter orado e várias vêzes pedido ao Senhor que abençoasse o seu empreendimento (cf. Deus recompensa a fidelidade. não para os .. ao contrário. eis a tese perene que o livro de Judite nos comunica através de seus dizeres circunstanciados pela mentalidade de uma época! O feito de Judite tinha dois precedentes seMelhantes nos primórdios de Israel (época dos Juízes. não teve.6s). Observe-se.9.. ora os estratagemas•jamais foram condenados entre beligerantes. para prostrar os soberbos e ímpios (Holofernes e seu exército). tirou de sob o manto uma espada que trazia oculta e. com um martelo enfiou-lhe nas têmporas um piquete. a seguir. A diferença do que se dá no livro de Judite.15-22). que fugia derrotado em guerra pelos israelitas.C. a fim de que não fôsse capturado pelos vencedores. Deixado então a sós com Eglon. que lhe perfurou por completo o crânio e o deixou morto. 1160-1020 a. 13. Não é isto o que o autor sagrado quer julgar quando relata os dois episódios. Fê-lo. alegou ter um oráculo de Deus a transmitir ao monarca. êle os narra com tôda a objetividade.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 145 riam revelados segredos estratégicos). pois. era condicionado pelos costumes bélicos da época. matou-o desapiedadamente (Jz 3. tendo ido certa vez pagar o tributo a Eglon. como Holofernes. e serve-se dos humildes. tendo Sisará adormecido. por bem confirmar em Judite e propor a todos os homens (também aos cristãos)..17-22). O que o Senhor assim sancionou. é a fé dessa mulher. o expediente a que esta recorreu. não enganam senão os imperitos ou os obcecados. Pode ter havido culpa em Aod e Jael. 12. mostrou-se disposta a ocultá-lo.. se êste não estivera detido pela concupiscência. era impelida pelo zêlo religioso que a vida continente e piedosa nela havia acendido. consciência de ofender a Deus. estrangeira aliada a Israel. O que o Senhor houve. A sua consciência é assim isenta de culpa subjetiva. Procedimento e declarações como os de Judite em tempo de guerra são por si mesmos suspeitos. que continuou a crer no auxílio divino quando os concidadãos já perdiam todo o entusiasmo teocrático. Difícil será proferir um juízo sôbre a moralidade dêsses atos. mulher cinéia. piedoso's (Judite). deitar-se e recobriu-o cuidadosamente. Jael.):' O Juiz ou chefe israelita Aod. não foi tanto o modo de agir da heroína. enfiando-lha na carne. outrossim.5-9.

O impuro não era reabilitado senão após um ou mais dias. devendo finalmente sujeitar-se a um ritual de purificação (banho. pôde servir-se de Aod como de um salvador. que ainda não derramara a graça reservada para os tempos do Messias. pode ser aproveitada para comunicar benefícios divinos. Lev 15. . permitindo que a natureza humana atue os seus instintos.. extrínseco. quem fôsse acometido por lepra (cf.. no plano do Criador. Le livre eles Juges (Paris.quem tocasse objetos julgados impuros (cf: Lev 11." Histoire du peu pie d'israel.146 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO propor como norma. iv (Paris). era considerado imundo quem comesse ou simplesmente tocasse certos animais . A higiene e a limpeza foram uma das principais preocupações dos antigos legisladores. a águia. concebe sem demora duas questões importantes As leis de pureza e impureza ritual têm seus paralelos em cultos pagãos da antiguidade e dos nossos tempos. a mulher após o parto (cf.57).1-14. Lev 15.. a avestruz. 19 mais uma vez. oferta de sacrifício. 20.1-8). assim. hemorragia crônica (cf. (cf. escrevia Renan: "As idéias de pureza e Impureza eram a princípio equivalentes às de limpeza e sujeira... ritual. por exemplo. impuros eram também os cônjuges após o ato conjugal (cf. Lev 15. Lev 13. Assim.° PUREZA E IMPUREZA RITUAL A Lei mosaica enumerava longa série de atos e ocasiões que tornavam o homem "impuro".25-30). § 6. a originalidade da religião judaica? Como é então revelada por Deus? Abstração feita da origem dos preceitos de pureza legal. Onde está. moral? Havia no mosaísmo um autêntico conceito de santidade? O térmo hebraico qodesh ( santidade) implica a idéia de separação.a lebre.44s. 55s. da mesma forma como se serviu de Eglon como de uni flagelo.1-47) . Lev 12. SI. o cisne. ou simplesmente limpeza. não será que a pureza ou a santidade inculcada pelo Antigo Testamento era algo de meramente exterior. do ponto de vista meramente legal.1-17). não obstante. Quem lê essas minuciosas prescrições do mosaísmo. 1903). Lev 11. fazê-la cooperar para a realização de um plano sábio. gonorréia (cf. impuro. independente da vontade e da pureza interior.25s). pois. sabe. porém. por exemplo. 39 "Deus. o porco. mas para mostrar como Deus. a Escritura dá a ver que a própria Imperfeição do homèín. independentemente do valor moral dos seus atos." Lagrange.18). dai concluírem alguns autores que a santidade originàriamente para os judeus significava pureza de ordem física. Eis o que os episódios de Aod e Jael devem significar para o leitor moderno. sem que contraísse necessàriamente alguma culpa em consciência.

Apenas tratou de incutir espírito novo. em tôdas as tribos primitivas que tais normas não têm significado meramente higiênicõ. ancestral com o qual tal família ou tribo se julgava aparentada e ao qual conseclüentemente dedicavam profunda veneração. ritual. elas muitas vêzes só se explicam por motivos religiosos ou "místicos". porém. a tini de se assegurar mais eficazmente a sua fiel observância (em regiões de clima quente. do animal totem (térmo derivado da língua dos índios algonquins do México setentrional). nem tão uniforme. como no fim do século passado asseveraram os historiadores. pois. oriundo do ambiente pagão da Mesopotâmia. de 1800 a. relacionados com a Divindade ou com demônios. reconhecem os estudiosos que a crença nos tabus e nos totens não era nem tão generalizada. conforme o termo técnico oriundo da Polinésia). Hoje em dia. observando uma pureza exterior. ou seja. não. em nome de Deus. tal doença ou tal função fisiológica. conheceu usos de pureza e impureza legal. os seus antepassados caldeus os observavam. ou são a sede de potências sobrenaturais" (são tabus. 40 era. porque os homens julgavam haver nexo especial entre tal objeto ou tal animal. Seqüestrando-o da terra idólatra e constituindo-o como nação independente. e pacientemente elevá-lo a maior perfeição. mas geralmente possuem valor religioso. nem tão primitiva. de ordem ftnicamente natural ou fisiológica. e determinada divindade. a pedagogia divina sempre teve por tática tomar o homem como êle é.). quando em 1240 Moisés. Com efeito. Observa-se. como as que habitavam os antigos semitas. Pensavam igualmente que certos animais são sagrados.C. o respeito à Divindade que de maneira geral ditava tais observâncias de caráter aparentemente profano. se tornassem outrossim ciosos da fidelidade 40 Os antigos julgavam ser cada doença causada no homem por um mau espírito. procurou fazer dêsses usos o estímulo para que os israelitas. outrossim. a tais observâncias. admitiam também a influência dos demônios no mistério da comunicação da vida ou da geração da prole (nem gregos e romanos eram alheios a essas crenças). significado superior. desde os tempos de Abraão (ca. . nem tão religiosa. removendo tudo que poderia ter sabor de superstição ou de algum modo lembrar a idolatria. Deus não quis simplesmente extirpar as observâncias tradicionais da gente de Abraão. promulgou a Magna Carta de Israel. desde as suas origens.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 147 Certas leis que visavam garantir a saúde pública teriam sido sancionadas em nome da religião pela autoridade competente. não se poderia assinalar para cada qual dessas determinações uma causa respectiva. Falavam. era rigorosamente necessário que o povo rude ou infantil não negligenciasse certas cautelas de higiene!). Eis a resposta global que se há de dar a essas duas questões: É inegável que muitas das prescrições mosaicas concernentes à pureza exterior são análogas às de povos pagãos antigos e modernos. agraciada pela revelação da verdadeira fé. incluiu nela as prescrições rituais já vigentes em sua nação. utilidade medicinal apenas. Ora o povo de Israel. isto é. Por conseguinte.

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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

a Deus, ou seja, de pureza moral, interior (muito mais importante !): "Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo, e não vos tomareis impuros." (Lev 11,44.) Como se vê, a fim de alçar o homem ao ideal de imitar a Deus, o Legislador, no Antigo Testamento, quis partir das observâncias imperfeitas a que o semita estava habituado; inseriu-as, porém, dentro da seguinte perspectiva
DEUS SANTO; POR ISTO, O SEU POVO DEVE SER SANTO.

1
f

(nexo necessário, até hoje válido) (nexo contingente, ab-rogado desde que o gênero Ti =0cci2 cial moral mais perfeita) 41

E, PARA QUE SEJA SANTO, OBSERVE EM ESPÍRITO MONOTKÍSTA AS NORMAS DE PUREZA TRADICIONAIS.

É preciso acrescentar que, além do significado acima exposto, as proibições relativas a animais e objetos impuros visavam criar uma barreira entre o povo de Deus e estrangeiros (cananeus, mesopotâmios, gregos e romanos) com que Israel se havia de encontrar no decorrer da história; justamente a necessidade de não contrair impureza ritual, exterior, fêz que Israel não se tenha mesclado com as nações pagãs, nem quando estava disseminado no exílio (587-538 a.C.), nem quando a terra santa foi ocupada pelos helenistas no tempo dos Macabeus (165-134 a.C.). Assim as prescrições rituais, impondo distância do paganismo, preservavam a verdadeira fé, ajudavam o judaísmo a realizar sua missão religiosa. Note-se ainda o seguinte: é sentença aceita por muitos exegetas que em Israel a condenação de alguns animais como impuros (o camelo, o porco, a lebre, o cavalo, o asno, o cão) se deve em parte a uma reação contra o culto dos mesmos nos povos vizinhos de Israel. Os semitas associavam tradicionalmente os "gênios" do deserto, potências superiores (seirini, sedini, Azazel, siyyim), com certas espécies de animais. O fato de que o israelita, por tradição de seus antenatos semitas, admitia certos atos e estados de impureza legal, extrínseca, destituída de culpa moral intrínseca, influiu no conceito de pecado que o povo de Deus nutriu até os tempos de Cristo. Vvendo sempre de sobreaviso contra as possíveis contaminações por doenças ou contato de animais ou objetos impuros, os hebreus, de41 Na Reve]ação cristã, a terceira proposição do esquema seria assim formulada: E, PARA QUE SEJA SANTO, PRATIQUE O AMOR, POIS DEUS 2 AMOR (ci. 1 Jo 4,7-11).

A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II)

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pois de ter recebido a Lei mosaica com seus preceitos morais, eram propensos a analisar, nas transgressões da Lei, mais o ato exterior do que a intenção do transgressor; não davam grande atenção ao que pràpriamente caracteriza o pecado: a desobediência de uma personaiidade contra um Deus pessoal (cf. pág. 160s). Como quer que seja, os interditos meramente rituais, legais, iam do seu modo contribuindo para inculcar ao povo de Israel o conceito de transcendência divina ou a idéia de que Deus por si é alheio a muita coisa familiar ao homem pecador. Com o tempo, porém, ao se apurar a mentalidade filosófica de Israel, os hebreus foram concebendo mais exatamente o caráter pessoal e sumamente moral da religião; perceberam então melhor o significado meramente pedagógico, secundário, de tais proibições. 42 A titulo de complemento, seguem-se breves observações sõbre as principais teorias que se propõein elucidar a origem das leis de pureza legal: O motivo de higiene, embora possa estar na origem de muitas dessas normas, não é suficiente por si sõ para explicar têda,s as proibições rituais. Com efeito, embora possa justificar a proibição da carne de porco, não justifica a do cavalo, a do asno, a da lebre ... ; os árabes antigos e modernos sempre comeram carne de camelo, de avestruz que a Lei mosaica proibe; os beduinos do deserto da Sina comiam camundongos, também vedados aos hebreus. ¶ Também não basta apelar para a repugnância que a carne dos animais proibidos suscita ao paladar. A águia, o abutre, vedados por Moisés, talvez causem repulsa, por se alimentarem de cadáveres; mas o paladar ou os gostos são algo de bem relativo; o profeta Isaias (66,17) via-se obrigado a anunciar graves castigos àqueles que se deleitavam em comer carne de porco, casnundongos e manjares abomináveis 1 Quanto aos motivos de tabu e toteniismo, são opostos à medula da Lei mosaica, a qual apregoa estrito monoteísmo, um só Deus, e um Deus que não tolera ser representado por imagem alguma, seja de homem, seja de animal. Destas considerações se percebe que só por um concurso de fatõres diversos se explicam cabalmente os preceitos de pureza legal vigentes entre os povos primitivos. Talvez com o decorrer dos tempos os homens tenham perdido a consciência clara do motivo por que observavam a maioria dêsses usos.
42 "Os interditos (de pureza ritual) não careciam de valor religioso, pois arraigavam nos corações a consciência da transcendência de Deus. Percebemos a elevada noção que tinham Davi e seus contemporâneos, da domínio absoluto de .Javé. Tais leis, porém, cuja razão de ser já fôra esquecida, fàcilmente davam ocasião a que os israelitas considerassem a Deus como senhor caprichoso e dura. Os interditos, cujo significado era desconhecido, tornavam-se usos sociais, meramente leigos, destituídos de eficácia religiosa... Por isto foram sendo, aos poucos, transformados e eliminados mediante o aperfeiçoamento das noções religiosas do povo." A. George, "Fautes contre Yahweh duns les livres de Samuel", em

Revue biblique, 53 [1946], 169.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

§ 7.° A ESCRAVATURA Após tudo que foi dito sôbre a mentalidade dos antigos orientais e de Israel, já não causa surprêsa verificar que estêve em vigor neste povo a escravatura. A Lei de Moisés, embora não tenha abolido praxe tão comum e duradoura entre as nações, assegurou, ao menos aos escravos israelitas, 43 tratamento assaz brando, tratamento que, em confronto com o de outras legislações, podia ser equiparado ao de um doméstico ou mercenário (cf. Lev 25,39s). Era geralmente a pobreza, a falta de recursos para pagar as dívidas, que motivava a escravidão em Israel: o devedõr indenizava o credor dando-lhe o seu trabalho e quase a sua personalidade. Todavia, após seis anos de serviço não remunerado e castigos infligidos segundo o arbítrio do patrão, o escravo israelita possuía o direito de ser restituído à liberdade (cf. Éx 21,2s). Emancipando-o, o senhor tinha obrigação de lhe fornecer um pouco de gado e produtos agrícolas, a fim de que pudesse viver até encontrar um ganha-pão próprio (cf. Dt 15,12-15). Caso no período dos seis anos de servidão se registrasse um ano de jubileu (todo ano qüinquagésimo, ano de renovação, de perdão geral, restauração de tudo à ordem inicial), o escravo recuperaria então a liberdade. A Lei previa o caso de que um escravo, sentindo-se bem em casa do patrão, não quisesse fazer uso do direito de voltar ao estado livre (cf. Êx 21,5s; Dt 15,16s), o que é indício de que realmente vigorava notável senso humanitário entre os patrões israelitas. Os escravos usufruíam do repouso do sábado (cf. Êx 20,10) e participavam das festas prescritas pela Lei (cf. Éx 12,44; Dt 12,12.18; 16,11.14). Como se depreende, a Revelação divina contribuía poderosamente para mitigar a sorte dos servos israelitas. Quanto ao fundamento sôbre o qual a Lei mosaica estabelecia essas normas, era não simples filantropia, mas explicitamente a crença religiosa de Israel: a Torá lembrava, sim, a todos os filhos de Abraão que haviam sido escravos no Egito, tendo-os Javé resgatado para que todos fôssem libertos de Deus (cf. Lev 25,42s; Dt 15,15); o exemplo da Benevolência divina era assim incutido como norma que, caso fôsse coerentemente interpretada, induziria a abolição da escravatura em Israel (de resto, o exemplar da Benignidade de Deus para com seu povo mais de uma vez era evocado pela Lei para abrandar os costumes dos hebreus) (cf. Lev 23,31-33; 24,43; 25,38.55; 26,12).
43 Aos estrangeiros feitos servos de israelitas não se reconheciam as regalias enunciadas neste parágrafo (cf. Lev 2544-46).

CAPÍTULO

IX

O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO A história bíblica, assim como a da civilização profana, não deixam de fornecer indícios de que o homem antigo tinha mentalidade rude - dura cerviz, como dizem, a respeito de seu povo, os autores israelitas (cf. Éx 32,9; 33,3; Dt 9,6; 10,16). Todavia uma dificuldade se põe a quem lê a Sagrada Escritura: esta, em um ou outro caso, parece ensinar que o próprio Deus é o Autor da dureza de coração do homem; dir-se-ia que o Altíssimo se compraz em provocar a criatura ao pecado e punir os delinqüentes com rigor desproporcional. É o que faz que no Antigo Testamento predomine a figura de um Deus aparentemente "vingativo, mais ou menos arbitrário na aplicação da justiça". Ao estudo dêste tema dedicar-se-á o presente capítulo. Longe de pretender reconstituir a "teologia" do Antigo Testamento, restringir-se-á ao aspecto "Deus e o pecado na Antiga Aliança". § 1. ° UM PRINCÍPIO GERAL Para se abordar devidamente o assunto, tenha-se em vista. um traço já mencionado da mentalidade oriental: o semita tendia a exaltar a ação de Deus em tudo que aconteça na história, sem distinguir se tal efeito é, direta ou indiretamente, causado ou apenas permitido pelo Altíssimo. 1 Esta tendência, de resto, se enquadra dentro de uma atitude ainda mais geral do pensamento hebraico: o judeu era propenso a atribuir ao dinamismo, ao movimento, o primado sôbre os demais valores que constituem um ser perfeito. Era, pois, a fim de mais colocar em realce a suma Perfeição Divina que êle imputava ao Todo-Poderoso intervenção direta, soberana, em tudo que se faz no mundo; Javé, por conseguinte, na Sagrada Escritura, é apresentado em ato de trovejar (S1 28), ocultar Jeremias e Baruque contra investidas dos ímpios, 2 ditar ou escrever o conteúdo. das tábuas da Lei; 3 os israelitas chegavam a admitir que nem o
Cf. pág. 128, n. 12. Ci. Jer 36,26: "O rei mandou... prendessem Baruque, o secretário, e Jeremias, o profeta; mas Javé os ocultou." Pouco antes, referia o texto sagrado: "Os chefes (do povo) disseram a BaTuque: vai, esconde-te, a ti e a Jerernias; e ninguém saiba onde estais.' (36,19.) 3 Ci. Éx 32,16; vejam-se também Am 4,7.9s; 5,27; 8,10; Êx 21,13.
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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

mal fica fora da alçada da atividade divina. 1 Tal modo de falar, apresentando Deus sempre muito envolvido nas façanhas dos homens, acarretava o risco de se encobrir indevidamente outro aspecto da Divindade: a sua absoluta transcendência. Ao contrário, a mentalidade grega, que neste ponto mais influenciou o pensamento cristão, inclinava-se a exaltar principalmente a perfeição ontológica, o perfeitíssimo Ser de Deus como tal; para ela, a Divindade era objeto de contemplação mais ainda
do que sujeito de atividade.

Esta advertência já nos abre a via ao entendimento das passagens bíblicas que falam da intervenção de Deus no mal cometido pelos homens. Passamos a examinar os principais dêsses textos. § 2. 0 O RECENSEAMENTO PECAMINOSO Não há talvez trecho que mais revele a mentalidade dos autores sagrados na questão proposta, do que a narrativa de um recenseamento do povo de Israel instituído pelo rei Davi. Referem-no dois textos bíblicos: 2 5am 24,1-4 e 1 Crôn 21,14. Comparemo-los entre si 2 5am 24,1. "A ira do Senhor 1 Crôn 21,1. "Satâ se levanse inflamou de novo contra Israel, e incitou Davi contra êles, dizen-

do: 'Vai, faze o recenseamento de Israel e de Judá. 2. O rei então disse a Joab, chefe do exército, que estava com êle : 'Percorre, pois, tâdas as tribos de Israel, desde Dá até Dersabé; faze o alistamento do povo a fim de que eu fique sabendo o total da população.' 3. Joab respondeu ao rei: 'Que o Senhor teu Deus torne o povo cem vêzes mais numeroso do que é agora, e que os olhos do rei meu senhor o vejam Mas por que se compraz o Senhor meu rei em faz3r isso?' 4. A palavra do rei, porém, prevaleceu contra Joab e contra os chefes do exército; e Joab e os chefes do exército partiram a fim de fazer o recenseamento do povo de Israel."
4,

2. Disse então Davi a Joab e aos chefes do povo: 'Ide, contai, a população de Israel desde Dersabé até Dá, e trazei-me o resultado, a fim de que eu conheça o seu número.' 3. Joab respondeu: 'Que o Senhor torne o povo cem vézes mais numeroso 1 Ó rei meu senhor, não são todos escravos do meu senhor? Por que é, pois, que o meu senhor pede isso? Por que fazer vir o petado sôbre Israel 2' 4. Mas a palavra do rei prevaleceu contra Joab. Éste se foi e percorreu todo Israel, voltando por fim a Jerusalém."

tou contra Israel e excitou Davi a fazer o recenseamento de Israel.

CL Am 3,6: "Ressoa a trombeta em alguma cidade, sem que o povo se espante? Assim acontece desgraça em alguma cidade. Sem que Javé seja o seu autor ?" Como se compreende, o mal é apenas permitido por Deus, que, tendo feito as criaturas livres, não lhes impede a opção entre o bem e o mal; antes, permite cometam o mal, que o próprio senhor sabe fazer cooperar para a vitória decisiva do Bem no fim dos tempos. 5 Cf. T. Boman, Das hebraeische .Denke2t im Vergleich viU devi griechischen ( Goettingen, 1934).

Só tardiarnnte.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 153 Particular importante: 2 8am data provàvelmente do séc. Diz então o hagiógrafo que Deus mesmo instigou Davi ao pecado. pois implicava a intromissão da criatura num domínio reservado ao Criador só — o da multiplicação dos sêres vivos.1.. 8 O pecado de Davi tornava o povo inteiro culpado. a respeito.12). Não obstante as palavras de Joab. prescrevia a Lei mosaica que. IV/HI aO. Bettencourt. Davi insistiu na execução da ordem. Eis como o episódio era narrado no séc.. 1V/Til a. de uma falta do rei Davi. é nome próprio e designa um anjo tentador. Veja-se.. pouco antes da seção acima. nos casos de recenseamento legitimo. devendo puni-lo. o povo de Deus. Gelin. um recenseamento do povo tomava f àcilmente o aspecto de verificação do dom de Deus. usado sem artigo em 1 Crôn 21. e com particular razão o fêz: Israel era. procedia como qualquer outro soberano. general de Davi. ao passo que 1 Crôn terá sido redigido nos sêc.). é que êste conceito aparece na angelologia judaica.C. depois do exilio (séc. torna culpado o povo). pois. ditada por falta de confiança. Ex 30. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios.C. Perguntar-se-á de passagem: e que mal podia haver nessa medida de caráter administrativo? Para os orientais. 1 Mais ainda: tendo Deus prometido a Abraão posteridade inumerável (cf. isto é. o Senhor houve por bem servir-se. para isto.) referiu no livro das Crônicas a mesma história. castigado pelo flagelo de uma peste que durante três dias assolou a nação. 6 E êste modo de pensar que explica.Satã (= Adversário). (Rio. conforme o caso paralelo considerado em Lev 4. que o povo de Israel incorrera em grave culpa perante Deus. 6 o texto bíblico mesmo insinua esta concepção: refere que Joab. consciência de que 2 8am 24 empregava um modo de falar ambíguo. O autor de 2 8am 24 dava a entender. porém.3). 1952). ed. . IX a. tendo recebido a dita ordem. Isto lhe lembraria que éle não é senhor da sua vida. um recenseamento significava ato de arrogância do homem frente a Deus. E. Problêmes d'Ancien Testament (Paris. VI ao. IX a. como se se considerasse senhor absoluto dos seus súditos e contasse ünicamente com os recursos de administração humanos. 267s. 2.C. em conseqüência. 7 Já que um recenseamento significava 'contar vidas". foi. CL A. Gên 15. Um redator bem posterior (séc. com os israelitas. 1955). por excelência.5). mas a deve tõda e exclusivamente a Deus. procurou dissuadir o rei (2 Sam 24. teria. entrar em setor que é propriedade exclusiva de Deus. 9 . excitado o monarca a promover um recenseamento das tribos de Israel. mandando recenseá-lo. a Satã a instigação ao mal que a Deus fôra imputada. sim. Tinha. todo individuo alistado pagasse um tributo a Javé (cf.3 (o sacerdote que incorre em falta. ainda hoje não se possa proceder ao recenseamento exato de certas tribos de beduinos na Palestina. 34. o monarca. e resolveu dar mais precisão teológica à fórmula do cronista anterior: atribuiu.

do "espírito de impureza" (Zac 13.2). etc. Aliás. ora a sabedoria. que falam do "espírito de inveja que se apodera de um marido" (cf. os dizeres de 1 Sam significam. 1 Sam 18. 10 deixou-se conseqüentemente mover por disposições más.' Com efeito. esta atitude mesma é mencionada cõmo proveniente do Senhor. Ilustrados por tais textos. disposições interiores de um indivíduo. Deus não pode ser tentado para o mal nem tenta alguém. reagia contra a falsa noção que o texto de 2 5am 24 podia sugerir: "Ninguém. cada um é tentado por sua própria concupiscência. Ao contrário. o Senhor se afastou dêle. Em conseqüência. de 50 dc.10. 19. que Saul perdeu suas habituais disposições de piedade e deferência para com Javé ("o espírito do Senhor dêle se retirou"). uma atitude hostil ao Senhor ("um espírito mau"). que o levavam até ao desvairo. também o apóstolo S. no início da era cristã (ca. enfurecido.23. vindo do Senhor. ora a infidelidade. uma atitude de ânimo." (1. "Espírito". § 3° O "MAU ESPIRITO" DO SENHOR 1. Como se há de entender uma tal "possessão"? Nas expressões acima. 10 Já que Saul se afastara do Senhor. e um mau espírito. prestes a englobá-la dentro do sábio plano da Providência. em tôdas essas passagens.14.4). tentou matar Davi. ao ser tentado. ora outro atributo (não se trata ai de algum anjo ou demônio). dir-se-ia interpretando fielmente a mente do hagiÕgrafo expressa em 1 8am 15.13. deixava-nos concluir que o Altíssimo não fizera senão permitir a falta. depois de se ter tornado indigno de sua missão. . do "espírito de prostituição" ou apostasia religiosa (Os 4. conforme o contexto.12.14. dêle se apossou" (1 8am 16.30). ora a luxúria. designa claramente.10s). O rei Saul. traspassando-o com uma lança contra o muro (cf. dizendo que "o espfrito do Senhor se retirou de Saul.3). pois. em que predomina ora a inveja. 5. o "mau espírito do Senhor" é mencionado outrossim em 1 Sam 18.10).). o vocábulo "espírito" deve ser interpretado à luz de outros trechos do Antigo Testamento. abrindo-nos o caminho para a exegese de outras semelhantes. Ora a Escritura explica isso tudo. via-se freqüentemente acometido de acessos de neurastenia. por duas vêzes.9). diga: 'É Deus quem me tenta. foi rejeitado por Deus. do "espírito de sabedoria" (Éx 28.) Eis como a Sagrada Escritura mesma explica uma de suas passagens obscuras.154 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Mencionava assim o verdadeiro inspirador do pecado de Davi. Núin 5. Tiago. na sua epístola. do "espírito de torpor" (Is 29.

Êz 4. 7. Faraó reconhecia estar faltando contra Deus (cf.10. 11. 17. em vez de se render ao significado providencial de tais obras e se salvarem.35).11.4. Jos 11. Na história do Faraó em particular. o assassinato de setenta consanguíneos de Abimeleque). e não entendais. Quanto à missão de pregar confiada ao profeta Isaías. Isto não quer dizer senão que o Senhor deixou se originassem discórdias graves entre homens que se haviam prêviamente associado para cometer hediondo morticínio (ou seja. fechando-se nos seus propósitos perversos. Lx 9.1.28 que o monarca mesmo "endureceu o seu coração". 9. do seu êrro. " seja do povo eleito.11.15). Análogos aos textos antecedentes são aquêles onde o hagiógraf o diz que Deus endurece o coração dos homens.20." (Is 6. fisiológicas e psicológicas. isto equivalia a uma ação direta do Senhor sôbre o coração humano. assim procedendo. 1 6am 2.. destarte a ação divina. o egoísmo não refreado dos contraentes tende a rompê-la! É o que se dá sem especial intervenção de Deus. 11 12 .. que Saul fôsse infiel e ressentisse as conseqüênõias.15.11.9s).14. espírito que provocou rebelião dos siquemitas contra seu chefe.9. à vista das mesmas obstinam-se ainda mais con. De tal modo que não se converta e não seja curado. 22. O Senhor mandou ao profeta Balas: "vai. sim. 13 Os magos do Egito com razão perceberam nos prodigios realizados e dedo da Divindade e o intimaram expllcitamente a Faraó (cf. Semelhante é a exegese do trecho de Jz 9. Torna pesado o coração dêsse povo E duros os seus ouvidos. 12 Tais passagens significam apenas que Deus é o Autor de feitos destinados a promover o bem dos pecadores.27. foi o que se deu no caso acima. em si benévola. Para os judeus. A aliança fundada sôbre planos pecaminosos não pode ser duradoura. e dize a ésse povo: Ouvi. 10. seja do Faraó.21. se se consideram passagens como Is 1. e não compreendais.30. 11 ou que "continuou a pecar e tornou pesado o seu coração" (9. 14. torna-Se evidente que não visava obcecar o povo no pecado (como poderia sugerir Is 6. cedo ou tarde.) Eis ainda alguns paralelos: Dt 2.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 155 porque foi Deus quem permitiu. resistindo aos sinais divinos. Cf. 16.12. todavia os homens.17. afirmando em Lx 8.8. Éx 8.19-23. o próprio hagiógrafo interpreta a sua expressão literária. 2 6am 12. toma-se ocasião para que a criatura tome grave atitude pecaminosa. visando a obstinação dos pecadores.25. Vêde.scientemente no mal.16-20.235: "Deus enviou um espírito mau entre Abimeleque e os habitantes de Siquém".16).3. 3 Rs 12.27. que em tudo viam a atividade de Deus. 10.

Eis. eram a trama de homens mal intencionados.C. podia Miquéias repetir ainda com mais vivacidade a sua advertência: as palavras dos profetas encorajando Acab à guerra não eram senão o efeito de uma ação sedutora muito consciente e maliciosa." (15. de partir para a guerra. e Is 1. porém. deliberavam sôbre a maneira mais eficaz de iludir Acab. Miquéias. pois.). um antropomorfismo impressionante: disse-lhe.20. não corresponde. rei por meio de novo expediente. induzindo-o à infeliz incursão contra o rei da Síria. Jesus. o qual se ofereceu para tornar mentirosos e enganadores todos os profetas da côrte de Acab. ainda se poderia citar o de 3 Rs 22. Ora havia naquela época não poucos falsos portadores da Palavra de Deus. que em dado momento um autêntico profeta. não quis deixar de apregoar a "Boa Nova". o autor do Eclesiástico dava com tôda a clareza a norma básica para a exegese dos textos acima. segundo a mente mesma de Miquéias. a visão da côrte celeste e do anjo sedutor que Deus envia à terra. surge na assembléia dos sedutores e destemidamente anuncia o absoluto malôgro da batalha. Por fim. A ninguém concede a licença de pecar. resolveu consultar os profetas que o assistiam.156 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que o profeta exorta os judeus à conversão.. predisseram ao rei pleno sucesso na campanha. A proposta tendo sido aceita pelo Senhor.6-23: é em têrmos particularmente vivos e insistentes que apresenta o "mau espírito do Senhor". porém. sem tolher a liberdade do homem. obstinados no mal. Na linha dos episódios que vimos analisando. tentou persuadir o. que era mero artifício oratório. embora soubesse que seus ensinamentos e milagres acarretariam a queda momentânea de Israel.25-27.) 4. O hagiógrafo conduz o leitor à côrte do rei Acab de Israel (874-853 a. ou seja. apresentou-se então a Javé um dos assistentes celestes. afirmando categàricamente "Deus a ninguém manda seja ímpio. Interrogados. já próximo da era cristã. As admoestações de Isaías. portanto. ter visto os céus abertos e o Senhor sentado num trono. realizara o emissário a sua missão. o qual desejava fazer uma expedição bélica contra o rei da Síria. Na base desta narrativa. Paralelamente. Contudo. a um fato que se tenha realizado no . que faziam carreira na côrte real. porém... antes. o Senhor sabe sempre envolver os desmandos dêste dentro de um plano sumamente harmonioso. na plenitude dos tempos. onde prediz que a ação de Deus purificará Israel. seriam ocasião para que muitos. vendo que Acab não lhe dava crédito.. fechassem ainda mais conscientemente os olhos à verdade. em meio aos anjos seus conselheiros. não hesitasse o rei em abrir os olhos para o perigo que o ameaçava na expedição planejada! Neste trecho bíblico.

Ora a falta de respeito para com o Divino foi sempre considerada grave culpa no Antigo Testamento. estivera ém terra pagã. n. concede licença para desencadear males na terra. pãg.) O texto. tinham. principalmente após o exílio (séc. O primeiro dos ditos trechos faz-nos retroceder aos tempos de Samuel (ca. Os judeus. em conseqüência.19. 3 Rs 21.C. Os exegetas lhe têm dado explicações diversas: a) os betsamitas lançaram para a arca do Senhor olhares curiosos. como se depreende de várias prescrições da Lei mosaica.1-29). sem dúvida. ainda nos é forçoso dizer que o acesso dêsse anjo maligno junto a Deus e a aceitação dos seus serviços por parte do Senhor são meros artifícios usados pelo profeta para avivar a sua exortação.. conforme um plano sábio.C. Numa das etapas do itinerário. 14 Dado que. Miquéias e seus interlocutores tenham tido conhecimento de tal espírito tentador. § 40 Ø DEUS QUE FULMINA Há duas passagens da história sagrada em que Deus é mostrado a punir os homens com a morte. 9. IX a. pois destarte o Senhor lhe faria expiar o morticínio anteriormente cometido contra Nabot (cf. rezava uma cláusula referente aos caatitas ou ministros subalternos do culto: IA Cf. VI a. já no séc.). raptada pelos filisteus.' (1 5am 6. indiscretos ou irreverentes.). prostrou setenta homens dentre o povo e cinqüenta mil da multidão. por exemplo. sem que para isto pareça haver culpa proporcional. ela não passa de mero recurso de linguagem destinado a calar no ânimo do rei Acab mais fundo que uma simples admoestação. por terem olhado para a arca. foi então que.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 157 mundo superno. o móvel sagrado pousou em Betsamés. Daí perguntar-se: será tão cruel procedimento compatível com o conceito de Justiça Divina? 1. 153. sofresse grave derrota. A realidade correspondente a tais artifícios não é senão a seguinte: Javé resolvera permitir (sem deliberar com os anjos) que Acab fôsse seduzido pelos mentirosos oragos da côrte e. sim. se deu o seguinte episódio: 'O Senhor prostrou os habitantes de Betsamés. . a noção de um anjo mau sedutor a quem Javé. depois que. oferece ao leitor dificuldades de interpretação literárias e teológicas. de 1050 a. Refere-se à volta da arca do Senhor para o seu santuário em Israel.C. Assim. conforme o texto hebraico atual e a tradução latina da Vulgata. aldeia israelita.

alguns israelitas hajam indevidamente tocado a arca (Ant. para ver os objetos sagrados e. quando a glória do Senhor se tornou manifesta sôbre o monte Sinai. Flávio José.4). simultâneamente com o olhar. Sabe-se.1. Entre os judeus. 6. 1 d..C. morram. de adotar usos e crenças do paganismo. 6. em particular. a fim de que o povo não se aproximasse indevidamente do lugar da aparição (cf. invisível. por isto.. ainda que fôsse por mero olhar (cf. Éx 19.158 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "A fim de que (os caatitas) vivam e não morram quando se aproximarem dos objetos sagrados. Éx 19. Nenhuma dessas interpretações satisfaz plenamente. dado o perigo que ameaçava o povo." (Núm 4. para que não entrem.19 parece ter sido maltratado pela tradição literária. a nenhum profano era lícito. principalmente os que servem ao culto divino. que se oferecia aos ornares de todos? O fato de haverem prèviamente oferecido sacrifícios ao Senhor (cf. O texto hebraico dos livros de Samuel chegou até nós em estado de conservação deficiente. há quem julgue que os betsamitas foram punidos por anteriores pecados do povo ainda não expiados. pois refere duas cotas de vítimas (setenta e cinqüenta mil). historiador judaico do séc. supõe que.. homens exclusivamente dedicados ao santuário. não é mencionada por alguns manuscritos hebraicos nem por Flávio José (Ant. comportam a presença de uma fôrça misteriosa e temível. 6. Considerando isto. Núm 4. por um só instante que seja. a irreverência para com as leis do culto eram punidas com especial rigor. terá sido interpolada.. Aarão e seus filhos assinalarão a cada qual o seu ofício. ' Na verdade. sem arriscar a vida. julgavam que o sagrado é intangível. mesmo pagãos. que os antigos. inacessível ao homem não iniciado.515). o versículo 1 Sam 6.21). sem perigo de morte.. em conseqüência.) Os levitas mesmos. corno julgam bons exegetas modernos.1.4). o problema parece estar mal formulado. O conhecimento dêstes particulares certamente contribui para esclarecer certos textos da Sagrada Escritura. Contudo pergunta-se se realmente podia haver culpa grave nos betsamitas por terem considerado a arca.195. aliás. todos os objetos religiosos. a cifra de cinqüenta mil ultrapassaria o número de habitantes de tôda a região de Betsamés. não se podiam. das quais a segunda é evidentemente errônea.23). Moisés cerrou o acesso à montanha.15) não atesta o seu respeito religioso ? considerando tais dificuldades. entrar em contato com o Santo.. além disto. os críticos bíblicõs dão preferência à forma do texto de 1 5am 6. aproximar da arca do Senhor antes que os sacerdotes a tivessem recoberto (cf. De modo geral.19 apresentada pela tradução grega dos LXX: .

17 Veja-se curiosa exposição da tese em Anhembi. III (Paris.6s (paralelo a 1 Crôn 13.7-10). e isto. O hagiógrafo continua a descrever o itinerário da arca do Senhor em Israel. 171-173. Em geral.. cedendo à imaginação. "Les livres des Rois" em La Sainte Ribis. itinerário interrompido pela permanência da mesma em Cariatiarim ou Eaalá. de Pirot-Clamer. que. mas da santidade de Deus! . Como interpretá-la? Antes do mais. porém. XVIII (1955). 16 Artigo publicado em Kittel." 15 Os filhos de Jeconias. dentre todos os moradores de Betsamés. por análogos motivos. 1949).. porém. onde Davi erigira a capital do seu reino. Denis Papin). os israelitas temiam. Tal punição talvez desnorteie a boa mente do leitor. O Senhor então prostrou setenta homens dentre êles.. enfurecido.a advertência produziu seus efeitos.0 "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANflGO TESTAMENTO 159 "Os filhos de Jeconias.1). E . tocou-a então com as mãos a fim de ampará-la. quando Israel ainda era muito rude. dado o seu Ê esta a variante que preferem. lago. explicam que os sacerdotes de Israel. haviam feito da arca "um autêntico condensador elétrico. pois diz o texto sagrado (6. de mais a mais que o episódio se dava numa fase da história assaz remota." '° Outros autores (Fritz Kahn. não da crueldade. de Vaux. O escândalo assim suscitado teria provocado a punição de setenta membros de tal família! A necessidade de preservar a verdadeira fé e excitar a consciência de um povo de dura cerviz podiam exigir tão severa intervenção de Deus. mas não criticavam. de resto. R. 41) A. os castigos infligidos pelo Senhor. pasta sôbre um carro de bois. Tendo estado setenta anos em Cariatiarim.. Aconteceu. pouco após o episódio de Betsamés acima referido (cf. rejeitar-se-á. 2.note-se bem . o santuário foi transferido para Jerusalém. corria o risco de cair por terra. 373. 1953. Médeblelie. Trecho que. conhecedores dos segredos da eletricidade.20) que os betsamitas reconheceram no ocorrido um sinal. chama a atenção é o de 2 5am 6. a fim de explorar a religiosidade do povo! ' Esta sentença. da qual uma centelha fere o homem profano como um raio. Les livres de (Paris. Theologlsches Woerterbuch zum Neuen Testameat 1 (Stuttgart. como descabida. foram os únicos que não se alegraram ao ver a arca do Senhor. 15 Samuel . o fulminou com a morte. que se carregava mediante eletricidade atmosférica". a sentença de que o exegeta moderno Procksch se faz porta-voz "A arca aparece coEo que cárregada de eletricidade sagrada. por exemplo. o Senhor. teriam tomado uma atitude de indiferença. contrastando com o entusiasmo sagrado do povo. nos são desconhecidos. 92). 1 5am 7. que durante o trajeto certo varão chamado Oza percebeu que a arca.

10 Cf. SI 75. Com efeito. que não sempre distingue entre transgressão objetiva e culpa subjetiva.15). ao contrário. - . pág. ao se ler a narrativa.. ' consideravam não raro apenas a ação externa. sem levar em conta a intenção de quem agia.12.21s.). carece de fundamento tanto no texto sagrado como na própria história da civilização humana (que assinala a utilização das fôrças elétricas a época relativamente recente). Núm 4. voluntário. porêm. séc. e pecado material. Theologie des Alten Testamente (Boim. o Terror de isaque . era boa a sua intenção. 17111 a... bacias. representava uma falta contra as prescrições de culto israelita.) Livros posteriores da sagrada Escritura. note-se que a causa da morte de Oza não parece proceder da arca mesma. A pena de morte infligida a Oza por haver transgredido a proibição poderá parecer excessivamente severa.53. dir-se-ia que houve uma intervenção de Deus entre o toque e a fulminação. O episódio.. há de ser estimado à luz da concepção particularmente rigorista com que em Israel era tachada a violação das coisas santas (cf. deviam fazê-lo sem os atingir com as mãos (cf. considerada em si. embora fôssem encarregados de transportar os objetos do culto (turíbulos. já que desejava preservar de incidente a arca do Senhor? O texto bíblico não é muito claro neste particular. já falam claramente da mansidão e da ternura divinas (ef. o Deus de Abraão. nos ínicios da história sagrada. Hehlisch. Como quer que seja. Entre outras coisas.15).C... cf. 1940). só podiam carregar a arca do Senhor servindo-se de barras. etc . (Gên 31. Tão rigorosa era mesmo esta última proibição que os próprios levitas. muito menos lhes era lícito tocá-los. 43. designava o Altíssimo pelos três seguintes títulos: "O Deus de meu pai. O original hebraico diz que Oza foi punido por sua "falta" ('al-hassal. consciente. 31. 18 Uma dúvida ainda fica: terá tido Oza ao menos a consciência de que praticava algo de condenável? Não parece que. 20 Algo de semelhante se dá às vêzes ainda hoje com o homem simples. o patriarca Jacó. ). nem a teologia. P. também "êrro. ademais é preciso não esquecer que no Antigo Testamento nos defrontamos com um povo que muitas vêzes só se rende às impressões fortes. a fim de não se dar ocasião a que alguém o ousasse tocar diretamente (cf. Éx 25. muito apurada.42.160 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO caráter gratuito. os antigos israelitas não distinguiam muito exatamente entre pecado formal. Mas por que terá o Senhor procedido de maneira tão prepotente ? A ação de Oza. e barras que jamais deveriam ser separadas do móvel. 20 Aliás. inconsciente. porém. pinças. é irrisória. negligência").. Os 2. involuntário. 18 Consoante essa mentalidade rude. 158). não era permitido aos hebreus violar os objetos sagrados com olhares indiscretos (como acima ficou dito).

porém. que dava valor preponderante às ações exteriores. É o que ocorre ao se tratar de homicídio.18). Ao lado dos trechos que manifestam rude mentalidade religiosa em Israel. A viúva de Sarepta. Não faltam. em última análise. Trazem.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 161 dos rabinos contemporâneos de Cristo fazia distinção entre pecado formal e pecado meramente material. quer não. julgam necessário renunciar ao entendimento pleno do episódio de 2 5am 6. embora animado por boa intenção. porém. podemos definir o pecado como sendo a transgressão da vontade divina. antes. Jônatas se viu ameaçado de sofrer a morte por ter violado um voto que Saul. seu pai. tal finalidade seria indigna de Deus. expressa pela lei. . Mt 5. a ofensa contia Javé tema a forma de um ato proibido em sua materialidade mesma. não obstante." A. negligenciando a intenção do agente. pois dão 21 "Levando em conta as idéias professadas no Antigo Testamento e em tõda a literatura judaica. 1935). Também nao se percebe devidamente que as exigências de . julgava que isto lhe podia ter acontecido em punição de faltas que ela mesma ignorava (cf.24-45. quer seja a transgressão consciente e deliberada. La Judaïsme pciiestinien au temlos de Jésus-Christ..6s. 22 Considerados êstes particulares. já que o texto sagrado não fornece indicações suficientes para tal. 182.6 trata de faltas cometidas por ignorância.Javé são conformes à sua sabedoria tanto quanto ao seu Poder. 3 Rs 17.1-5.20) do Evangelho. há falta porque há desordem. exegetas que. 82.° CONCLUSÃO Os episódios acima analisados não foram consignados nas Escrituras para fazer tropeçar o leitor cristão. quer seja conhecido. tendo perdido o filho. 22 verifica-se. é preciso haver responsabilidade pessoal do pecador. não causa estranheza que Oza. pudéssemos finalmente compreender a "justiça melhor" (cf.12-14. Conforme 1 5am 14.. Bonsirven. em Éx 21. a distinção entre pecado cometido por mdústria maliciosa e pecado cometido como que involuntárlamente." J. fizera em nome de todo o exército. § 5. Eis o testemunho de outro abalizado autor "Para as gerações antigas. é a violação de um mandamento. sacrifícios expiatórios para tais ações. em um ou outro caso. voto. em Revue biblique. pelo simples fato de ter cometido um ato em si mau. um ensinamento religioso: veja-se nêles mais um aspecto dos preparativos pelos quais o Senhor quis fazer passar o gênero humano a fim de que nós. Ainda não se percebe claramente que. assim como da mentalidade judaica. salvou-o o bom senso do povo. é esta uma conselüéncia direta do caráter jurídico da moral judaica. II (Paris. para haver falta. encontram-se outros que os completam. 53 [1946]. se possa ter tornado merecedor de castigo. porém. George. inconsciente. 'Pautes contre Yahweh dans (es livres de Samuel". Importante: o autor julga que a concepção rabínica é a expressão fiel do que se acha nos livros do Antigo Testamento. cristãos. quer não. A prova de que essa desordem era injúria feita a Deus é que devia ser reparada por um sacrifício. 21 Assim é que no Antigo Testamento a longa seção de Lev 4. prescreve. que intercedeu pelo réu inconsciente. de que Jônatas não tinha conhecimento.

na celebração freqüente dos sacrifícios populares (1 Sam 2. outras afirmações em 11. de Saul (cf.13.24-35. Lc 10. 17." (Dt 6.162 PARA ENTENDER 0 MiTIGO TESTAMENTO a ver que o Senhor Deus.20:26). que.9-12. seu desejo de of erecer sacrifícios em 1 5am 13. o primeiro preceito da Lei mosaica era o do amor.) "Amarás o teu próximo como a ti mesmo. sois um povo de dura cerviz.37. lembrava que se revelara aos Patriarcas e exercera a sua Providência para com Israel. a Escritura do Antigo Testamento." (Dt 9. principalmente no amor de Davi. não porque ultrapasseis em número todos os povos. o voto de Saul em 1 Sam 14. donde procede a maioria dos textos considerados neste capítulo." (Lev 19.11. ci.. ao mesmo tempo que se revelava como "Deus de Justiça".18s). Mc 12.) "Sabei que não é por causa da vossa justiça que o Senhor vosso Deus vos dá êsse belo pais (Canaã) como propr!edade. as íntimas relações dos fiéis com o Senhor. Talvez nenhum livro histórico da Sagrada Escritura ponha tanto em realce a piedade pessoal. O Senhor aderiu a vós e vos escolheu. principalmente na guerra: 1 Sam 4. amor a Deus: "Amarás o Senhor teu Deus. em geral.15. como os livros de Samuel. dentre todas os povos que estão sôbre a face da terra. 15..18. Com efeito.) O segundo lhe era semelhante: cf. Mt 22. 8. que promove .20).10. observamos os seguintes traços complementares: O Senhor que pune. Mas porque o Senhor vos ama e quis cumprir o juramento que fêz a vossos pais. mostrava também ser o Deus de Bondade e Amor. devota e confiante. mas por mero amor: ilO Senhor vosso Deus Vos escolheu.) Voltando-nos agora para os livros de Samuel em particular. o Senhor. 2 8am 5. não em virtude de algum direito ou merecimento do povo. 19.8-10. de todo o teu coração.5. de tôda a tua alma e com tôdas as tuas fôrças.9. Da sua parte. no entusiasmo das "escolas de profetas" (1 8am 10." (Dt 7.5.6.5. é também Aquêle em cuja benevolência o povo deposita profunda confiança. sois o mínimo de todos os povos.6). tôdas as admoestações dos Profetas e. pois é o grande Miado e Tutor de Israel. É o quõ se verifica na história deAna. A êstes dois mandamentos se podiam reduzir tôda a Lei. 4.37. por meio de Moisés. como reconhecia o Doutor da Lei perante Jesus (cf.13.6s.6-14.28-31. pede um filho (1 8am 1.27).34-40. 28. embora pouco esclarecido. 19. no zêlo religioso sincero.

. após o pecado. 15. porém. art.7.21). não temor apenas (2 5am 12.24. Davi sabe que a sua vida é cara a Deus (1 5am 26.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 163 o culto Sagrado (1 Sam 26. 182s.22.16-23. 2 Sam 6. 24.) 2 23 Observações devidas a George. 2 5am 7. percebe o coração. embora muito valor se desse ao aspecto exterior da santidade ou da virtude. o autor sagrado inculcava que Deus vê além das aparências: "O homem considera a face. o seu arrependimento.19s." (1 5am 16. cit.514-16. 12. .18s. testemunha amor.10). Deus.31). Por fim.25.13.

65. observando o papel importante que o sangue desempenha no funcionamento de um organismo. êle desempenha notável função. será preciso mostrar a mentalidade própria que anima os hagiógrafos quando. Dhorme. que entre os assírios o poema da criação afirmava ter o deus Marduque plasmado os homens com o seu próprio sangue. que se poderia perguntar se isto não implica derrogação ao conceito de um Deus espiritual e transcendente. O sangue era.-J. Esta tese (deficiente. e ainda é. de outro lado. Os textos israelitas que se referem ao sangue. 1907). assim como no cristianismo.CAPÍTULO X SANGUE E VIDA Os três capítulos que se seguem considerarão alguns temas por ocasião dos quais os escritos do Antigo Testamento aludem a concepções assaz propagadas entre os povos do Oriente. no intuito de transmitir a sua mensagem. O primeiro de tais ternas é o do sangue. principalmente os semitas. intimamente associado à religiosidade e ao culto sagrado em geral. é mencionado cêrca de trezentas e oitenta vêzes nas páginas do Antigo Testamento. por exemplo. não há dávida) haveria de entrar nas concepções religiosas dos antigos homens. 5. de um lado. Os sábios antigos. Outrossim M. Estas. Etudes sur Les . Na religião de Israel. O valor religioso do sangue está baseado num pressuposto da fisiologia oriental. estabeleceram o princípio solene: "O sangue é • sede e o veículo da alma ou da vida" ou "O sangue coincide com • vida mesma". atribuem-lhe importância tal. Cf. Clwix de tentes religietx assijro-babyloniens ( Paris. P. Lagrange. 1 1 Poema assino da criação vI. se exprimem de forma semelhante à da literatura extrabíblica. assim lhes comunicara a vida. Eis o que nos leva a empreender o estudo proposto neste capítulo. Pode-se notar. principalmente nos atos da liturgia. a fim de que o leitor possa plenamente penetrar o sentido do texto bíblico. bem como em oitenta e oito passagens do Novo Testamento. hão de ser devidamente focalizadas.

" (Lev 17.24. ainda pode aspirar a uma reconciliação com Deus. • alma de tôda carne é o sangue. se após a queda o culpado.. 201-219. à imitação do sangue. 231. conforme o Apóstolo. atribuíam-lhe uma voz própria.. Afirmava a Lei mosaica: "O sangue é a alma (= vida). 17. 1.rlamente impôs ao pecador. portanto." Agi. mas corolário lógico da culpa. ad .) A morte não é sanção que Deus arbitrà." Aen.Lança fora a alma côr de púrpura. Tão estranha lei se entende pelo fato de que.10 o sangue de Abel. 2 De resto. iniquamente sacrificado. .166 PAfl ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO O conceito fisiológico era igualmente familiar aos israelitas. quo est sedes animae." (Dt 12. consoante a sua praxe de educar e elevar os homens mediante uma condescendência prévia. 79. 349.22) É êste o princípio solene que. sérvio escreve: ". necessário para a santificação do homem decaído. Não podendo. religions sêmiUques (Paris. em virtude de gratuita condescendência divina. L'évolutíon religicuse . o homem perdeu o direito à vida. 252s.14.. 5. 3 "No dia em que comeres do fruto proibido. e será até o fim dos tempos. o prirneiro passo que há de dar. que exprimia junto a Deus os sentimentos de justiça do defunto. norteia a dispensação dos dons de Deus após a culpa cometida no 'paraísa O derramamento de sangue foi. 9.) 2 De tal modo era o sangue identificado com a vida que após • morte do indivíduo os judeus julgavam que o sangue conserva autonomia e personalidade. é o de colocar-se na atitude de réu e reconhecer a justa sentença que sôbre êle pesa. Todavia Deus não permite que o homem tire a vida a si mesmo. sim. Apc 6.2. 243. Deus no Antigo Testamento houve por bem adaptar as suas determinações a tal concepção.sangutnis imttationem.. o mesmo se narra dos mártires do Antigo e do Novo Testamento em 2 Mac 8. por isto.. ainda nas línguas modernas empregam-se equivalentemente as expressões "dar a vida" e "dar o sangue" pela pátria.11. E. Assim em Gên 4. é dito clamar a Deus. Vergilio mesmo refere: 'Purpuream vomit UM animam . 1905). Mesmo entre os romanos encontram-se vestigios de tal fisiologia." (Oén 2. sede da alma. . certamente hás de morrer.0 "SEM EFUSÃO DE SANGUE NÃO HÁ REMISSÃO DE PECADO" (Hebr 9. incorre inevitáveimente na morte. derramar o próprio sangue para reconcir d'israel. ainda que o fizesse em ódio ao pecado (a vida é propriedade exclusiva do Criador). que é a vida mesma.) Ou ainda: "A alma (= vida) da carne está no sangue... Dhorme. Hebr 12. Estas idéias tiveram duas conseqüências práticas de grande importância na história sagrada § 1. 1 Por conseguinte.23. pela desobediência o homem se afasta de Deus. cedendo ao pecado. no qual está a.3. em conseqüência disto. ii.

5 É o autor de Edo 17.. dos quais refere varrão: Populus pro se in ignam animalia mittit . vita pra vita" . em lugar do peito do homem..SANGUE E VIDA 167 liar-se com o Senhor." (li." "Anima pra anima. 1913).7).11). Metzinger. fôra chamado a uma aliança com o Criador.20." De lingua latina. pois. a nuca do cordeiro. 156-162. porém. Baseados nesse conceito de expiação. O uso tornou-se comum mesmo entre os romanos... 247-272. que não fôssem acompanhadas de uma oblação interior ou de autêntico espírito de penitência. "Die substitutionstheorie und das alttestamentliche Opfer". Ez 44. ." Cf. como se compreende. 106 (1932). estava intimamente ligada no Antigo Testamento a noção de aliança com o Senhor. 4 imolavam-nos e ofereciam o seu sangue a Deus em substituição do sangue. o peito do cordeiro. da personalidade. da vida. Algo de semelhante é atestado por Ovídio. Na medida em que eram realmente a afirmação de uma alma contrita. Is 1. expressão de concepções politeístas e supersticiosas. O autor faz notar que no Oriente de nossos tempos ainda está em vigor tal antiquíssimo costume. de resto. Pasti. (0 sacerdote) oferece o cordeiro em lugar da vida (do devoto) a cabeça do cordeiro. o cordeiro era substituição.O povo atira animais ao fogo em seu favor. em Revue d'histoire dez Reltgions. eis ao menos um texto do ritual assirio-babilónico: "0 cordeiro faz as vêzes do homem. a praxe era. tais vítimas preenchiam de certo modo a finalidade de satisfazer à Justiça divina (cf. Cf. vida por vida. 592-599. Lev 1-7). que trazem fórmulas como: "Sa- crum redgiderant. 'tal oblação exprimia o arrependimento do homem pecador e seu anelo de se unir de novo a Deus. com Noé salvo 4 Entre os pagãos. A. A. reconciliação com Deus. 290."Pagaram a dívida sagrada. a cada um dos quais correspondia uma oferen da própria. reaver a graça equivalia a entrar num pacto sagrado com Deus. 6. à semelhança do que se dera com Adão no paraíso: dotadó da amizade divina. do oferente. em Bíblica. todavia a idéia fundamental que a inspirava. gratidão e suas preces (cf. distinguiam tipos diversos de impureza. inflamada de zêlo religioso. um costume quase espontâneo entre os povos dé outrora) recorriam a animais irracionais. 1 Assim. sanguina pra sanguine. em lugar da nuca do homem. 159-187.11. A idéia de expiação. Também mediante a oblação de sangue exprimiam adoração. Veja-se também S. éle a entrega em lugar da cá beça do homem. Ainda em 1930 foram descobertas no santuário de Saturno em N'gaous (Africa romana) quatro monumentos votivos. Curtiss. é a que se acha acima exposta.10 quem fala pràpriamente dessa aliança com os primeiros pais." 'Alma por alma. sangue por sangue. 353-377. desde. como os profetas de Israel muitas vêzes afirmaram (cf. Em testemunho do costume entre os semitas. obra em que se encontram citados vários outros textos). 1. agnum pro vi (caria). tornavam-se um sinal de hipocrisia. desde remota antiguidade os israelitas (seguindo. Ursemitisehe Reliqion fia Voliesleben dez tteutigen Orients (Leipzig. 21 (1940). 1903). Handbuch der alto-. os judeus conheciam muitos e variados sacrifícios no seu ritual. rientaUschen Geisteskultur ( Leipzig. Jeremias. algo de abominável a Deus. Por disposicão divina. Lev 17. J. após o dilúvio. Carcopino. "Survivancez par substitution des enfants dans l'Afrique romaine".

7-19). o mesmo. por ocasião da décima praga desencadeada sôbre o Egito. o compromisso mútuo foi selado mediante a imolação de animais. a seguir. um e outro dos pactuantes passavam por entre as carnes imoladas. porém. file o fêz com Abraão.21. caso se tornassem infiéis ou perjuros. chefiado por Moisés. os contraentes imolavam vítimas. merecera para êstes a preservação da morte e. é um compromisso mútuo. já que Israel aceitava as disposições divinas.e metade sôbre o povo (cf. 18-20). Êx 12. ao pé do monte Sinai. Deus houve por bem dar-lhe uma constituição própria (a Lei mosaica). qualquer aliança travada entre homens implica a aceitação de deveres de parte a parte. na história sagrada. Neste pacto o sangue desempenhou papel ainda mais significativo.29-36). Tendo libertado o seu povo. . Gên 15. para exprimir que se obrigavam irrestritamente até a morte a observar o pacto. indiretamente.19s). comunhao que O Abraão não passou em meio às vitimas. adaptando-se à mentalidade do homem primitivo. não se verificou o rito da passagem dos contraentes entre as carnes imoladas.que representava o Senhor Deus .9. No Oriente antigo. é a que posteriormente Javé quis concluir com todo o povo de Abraão. caso a observasse. Por que isto ? De modo geral. dividiam-nas ao meio e colocavam as respectivas metades em duas filas paralelas. e uma coluna de fumaça e fogo (habitual símbolo do Senhor. com isto. quando Deus se dignou travar aliança com Abraão. chamado do torrão natal idólatra para a terra sagrada. o fim do cativeiro (cf. Com efeito. pois já cumprira a sua pafle. prometendo-lhe posteridade numerosa e abençoada em troca da fidelidade que o Patriarca até então mostrara ao Altíssimo: Abraão distribuiu em duas filas animais prêviamente imolados e divididos. tendo sido fiel a Deus nas provações a que até então tAra submetido. Tal gesto significava a comunhão íntima que para o futuro existiria entre Deus e o seu povo. 13. Deus entrou igualmente em aiiança. dêste modo. Moisés derramou metade do sangue das vítimas sôbre o altar . significar que assumiriam a sorte das vítimas. 19. que estavam dispostos a derramar o sangue e sofrer a morte. marcando as portas dos israelitas. passou entre as carnes (cf.168 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO das águas Deus travou uma aliança. Deus dava a entender que não deixaria de cumprir as suas promessas de bênção. 6 Outra aliança divina que de mais perto interessa considerar. por exemplo. ef. Êste rito teve aplicação. querendo. dessa vez. Éx 3. com Moisés e o povo israelita tirados do cativeiro egípcio.2. prometendo-lhe prosperidade. fõra o sangue de vítimas que.3-8. Ora essas e outras convenções sagradas foram concluídas mediante efusão de sangue. isto é. Hebr 9. Éx 24.

sem o necessário espirito de reparação (ef. Todavia. imperfeito. a fidelidade dos sacerdotes respectivamente à palavra de Deus. mas dêle não se podia remir. . eram. de então por diante. havia desproporção entre os dois térmos. Eis. Hebr 9. não os quiseste. que se lançara no delito. porém. 1 "Não os quiseste" como se fõssem algo de definitivo.21. no sangue que se fundavam as novas relações do Criador com as criaturas. textos em que o Senhor repudia os sacnficios hipôcritas de Israel).23s. na plenitude dos tempos. eram insuficientes para realizar o plano divino. indicando. Como poderia o sangue de sêres inferiores ao homem.SANGUE E VIDA 169 teria conseqüências de vida e de morte (cf.165). quis um dia dizer ao Pai: "Sacrificio e oblação. mas. feito isto. devia o Legislador aspergir com sangue Aarão. seus filhos e a indumentária de todos: "Assim serão consagrados Aarão e seus trajes. Não se pode negar que as vítimas e os ritos do Antigo Testamento eram precários. obter plena pureza para a consciência humana? Foi por isto que. abstração feita do que se seguiria nos séculos posteriores. até a morte (significada pelo sangue derramado) Aarão e seus filhos pertenceriam ao serviço do Senhor.) A efusão do sangue sôbre o corpo e as vestes simbolizava que tôda a pessoa do sacerdote estava como que envolvida pela graça divina. fazendo que dêste dependesse a legalidade religiosa dos homens. O poder que o sangue tinha de unir ao Senhor se atuou ainda na instituição do sacerdócio do Antigo Testamento. pois. ou seja. pela Lei mosaica. sé podiam ter valor provisôrio. pois. não se explicaria bem que Deus. poderia talvez julgá-las um tanto infantis.11.7. Tais episódios dão a entender com suficiente clareza a importância e a eficácia que o próprio Debs se dignou atribuir ao sangue desde o início da história sagrada. Além disto. com isto. o Filho de Deus. no judaismo decadente. que me deste um corpo. 30. assim como os seus filhos e os trajes de seus filhos. o polegar direito e o artelho direito maior de Aarão e seus filhos. o curso da história sagrada. Is 1. Es 44. era o sangue que mais uma vez associava Deus com os homens e os homens com Deus. Era. Puro Espírito. apiedando-se da sorte do homem. e com o sangue ungisse a orelha direita. embora condizentes com a antiga mentalidade oriental. a representação de uma pessoa humana por um animal irracional imolado era um artifício reconhecido. inconscientes do que é o pecado. sim. quem quisesse interpretar essas passagens independentemente do seu grande contexto histórico. a Moisés Jayé mandou que imolasse um carneiro. tenha determinado dar tal relêvo ao sangue de irracionais. Lev 8. cf. Prossigamos. oferecidos de maneira demasiado formalista." (Êx 29. à prática das boas obras e ao caminho reto da justiça. sem dúvida.

fêz-se o segundo Adão. pois a infidelidade de Adão criara uma divisão entre criaturas fiéis e criaturas infiéis ao Criador. no sangue de Cristo. Deus e suas criaturas. 'Por Chato Deus quis reconciliar consigo todas as coisas. o Filho de Deus tomou uma natureza humana e ofereceu em nome de todos a sua carne e o seu preciosíssimo sangue. obteve. S. Paulo acrescentaria: nesse sangue também os anjos bons se aproximam do homem. não os aprovaste. tocam-se o céu e a terra.8. Tornou-se desta forma a antItese exata do primeiro homem. 9 Ésse sangue ocupa o centro do mundo. sangue humano inocente por sangue humano iníquo eram finalmente oferecidos a Deus. cujos preceitos se resumem em amar a Deus e àqueles a quem Deus ama. o centro da história.se compreende. com tôda a generosidade que o amor inspira. Com a autoridade de Senhor da vida.'" Desejoso de expiar o põcado e reconciliar com o Pai o gêúero humano. com plena consciência. sofreu a sortê dos réus. eis o que o sangue de Cristo nos mereceu. mas também à Majestade do Criador.) 9 . Então disse: 'Eis que venho. Hebr 10.7-9. FIp 2. sem restrição os benefícios que as múltiplas imolações da Lei mosaica só conseguiam em pálidos têrmos: remissão dos pcados. (até a morte. para fazer.. Simbõlizando a vida infinitamente preciosa do Homem-Deus. as que estão aa terra e as que estão nos céus.170 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Holocaustos e sacrifícios pelos pecados. destino final que é a vida imperecível do céu. e morte de cruz). instaurando a• paz pelo sangue da sua cruz. era o sangue sacerdotal por excelência. os pecados do mundo cometidos desde os primórdios até o fim dos tempos. Cristo substituiu-se assim às hóstias irracionais dos antigos ritos. para reparar a obra do primeiro Adão. nova aliança. É neste sangue que Deus e o homem se encontram num consórcio muito mais íntimo do que o do paraíso perdido. e constituiu-se a vítima que. o sangue de Cristo tinha junto ao Altíssimo um poder de intercessão incomparàvelmente mais eloqüente do que o das vítimas do Antigo Testamento. tornou-se. ó Deus. vida humana santa por vida humana prevaricadora. que até a vinda de Cristo era mero sinal.... aquêle que incorreu na morte por amor ao Pai. pois correspondia não apenas à dignidade do homem. pelo sacrifício do Re51 39. sàmente enquanto estavam relacionadas (como figuras e prenúncios) com a Cruz é que tinham valor as vítimas imoladas desde os primeiros séculos. era apto a expiar de maneira cabal. o sangue.." (Col 120. 'elevação do homem ao estado de filho de Deus. mesmo superabundante. Como . a fim de libertar a êstes. cf. pagava o devido tributo à Justiça divina. pois. que incorreu na morte em revolta ao Pai.5-7. a tua vontade. portanto.

a Lei prescrevia que fizessem escorrer o seu sangue e recobrissem de terra o líquido precioso (cf. 7. da observância da mes"Não 9. Hebr 9.4) 10 Lev 17. Cf. sangue da aliança nova. o consumo do sangue era considerado uma espécie de sacrilégio. para qual estava reservada a gravíssima pena da excomunhão." 10 Como se vê. sinal portador e realizador da vida. Dt 12.12-14. ao abaterem um animal comestível eram obrigados a levá-lo aos sacerdotes.° "QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE POSSUI A VIDA ETERNA" (Jo 6. 19. Deus permitia. sinal eficaz. o homem bem percebe que a vida lhe é transcendente. 17.8-10). .10. Ora é proposição fundamental de tôda religião que a vida é propriedade exclusiva da Divindade. da vida eterna (cf. preceituava. e o sangue do Filho de Deus feito homem! E não era uma ordem de somenos importância.26. por efeito das circunstâncias. não fôsse possível levar a prêsa ao altar do Senhor. algo de sagrado. que parecia contradizer aos desígnios antigos. os filhos de Israel." Pela primeira vez na história. êle jamais a produz artificialmente. Por conseguinte. também não a conserva como desejaria.SANGUE E VIDA 171 dentor.27. que lhe extraiam o sangue. o sangue se identifica com a vida do animal. o sangue fôsse igualmente tido como propriedade de Deus. Sôbre êste fundo de proibições tão solenes é que ressoou na plenitude dos tempos um preceito emanado do mesmo Deus. antes. a que Jesus dava na última ceia. Apresentando aos discípulos um cálice. pois isto é o meu sangue. Lev 17. Daí se seguia a estrita proibição de jamais beberem sangue. a fim de o oferecer sôbre o altar do Senhor..13). § 2. Por sete vêzes (número da plenitude) inculca a Lei mosaica tal ordem comereis carne com a sua alma (= sangue)" (Gên "Voltarei minha face contra aquêle que tiver consumido sangue. aos seus fiéis que bebessem sangue. e o separarei do meu povo.. após uma caçada.4-6). o Sénhor Jesus se dignou dizer-lhes: "Bebei todos.54) Voltemos ao pressuposto fisiológico: no sangue está a vida. Lev 3. entre os israelitas. só depois dêste rito lhes era lícito comer a carne (cf. o qual será derramado por muitos para a remissão dos pecados. Estas premissas fizeram que.16.17. Se. Lev 17.235. Só Deus é senhor da vida e da morte.

é o consumo de sangue condição indispensável para que haja comunhão do homem com Deus e também com o próximo. O aspecto positivo da vocação do homem .eis o que a legislação bíblica concernente ao sangue hoje • . de maneira marcante. bebe o meu sangue. Para quem reflita sôbre os textos citados. Por conseguinte.172 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ma dependeria. glorioso .. nem queira viver para outro fim senão êste . em outros têrmos: desde tôda a eternidade foi o homem chamado a se tornar filho e herdeiro de Déus. conforme o plano divino.vemo-lo insinuado nas proibições do Antigo Testamento: o sangue de animais. deve tocar a todos os homens. a uma posse de Deus tal que ultrapassa as exigências da natureza. vida imortal num corpo ressuscitado. permanece em mim. a fim de o elevar aos poucos à compreensão de verdade mais sublime. a proibição rígida do Antigo Testamento e o preceito não menos categórico de Jesus significam. o consumo de sangue implicava excomunhão. mediante o seu "jôgo" de proibições e preceitos. Não se dê por satisfeito com meta inferior à visão de Deus face a face. surge espontâneamente a questão: por que terá Deus assim "jogado" com suas proibições e seus preceitos ? Na legislação concernente ao sangue. por ser o do Homem-Deus. a vocação do homem a viver vida não meramente natural. já o primeiro homem foi elevado à ordem da graça e destinado a um fim último sobrenatural. a Sabedoria divina queria inculcar. no Novo Testamento." (Jo 6.. isto é.viver a vida de filho de Deus.. a posse da vida eterna: "Se não beberdes o sangue do Filho do homem. do seu modo. e só êste. condescendendo com o homem de mentalidade primitiva.. mas a participar da vida do próprio Deus. pode comunicar a vitória sôbre a morte que. o Senhor quis adaptar-se a uma tese da fisiologia antiga.vemo-lo expresso na entrega do sangue do Filho de Deus como alimènto aos discípulos. não tereis a vida em vós. Com efeito.não viver vida meramente natural. possui a vida eterna. desde que considerado como veículo da vida. com efeito. e eu nêle. que nada menos do que a participação da vida divina está reservada ao homem. só pode comunicar vida precária e bem-estar exíguo. à consecução da bem-aventurança que a natureza por si exigiria. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. êste sangue. Aquêle que. não se contentar simplesmente com os bens que a criatura proporciona . como dissemos. uma vez pressuposto que o sangue seja o veículo da vida.) Note-se o contraste: no Antigo Testamento. Ora o aspecto negativo desta vocação . não faz senão diferir a morte certa que toca aos filhos de Adão. Expliquemo-nos: o gênero humano nunca estêve destinado a um fim meramente natural. para os homens. 57.54s. isto é.

os homens dos séculos pré-cristãos nos ajudaram a compreender que. cada qual do seu modo. embora o sangue não seja a sede da alma e da vida. pelo sangue. é. o do Filho de Deus feito homem. Sem o saber.SANGUE E VIDA 173 nos transmite. . e por um só tipo de sangue. possuímos. a grandeza das realidades que hoje. por Cristo. não obstante. que conseguimos a vida verdadeira. são ainda portadores de uma mensagem: ilustram. Os preceitos rituais do Antigo Testamento. a que não sucumbe à morte. embora não tenham mais vigor de lei. talvez estranhos nos nossos dias.

estimulando-o a perscrutar-lhes as origens e os remédios. chegar a Deus. aprecia as doenças. exorcismos e outros ritos religiosos. julgavam mesmo necessário vê-las através dêste prisma.CAPÍTULO XI DOENÇAS E SONHOS Doenças e sonhos são objetos em tôrno dos quais a imaginação popular de todos os tempos muito se exerceu. causados pela influência de sêres invisíveis nefastos. sempre solicitaram a atenção do homem. pela Sagrada Escritura. Visto que os antigos costumavam considerar tôdas as coisas à luz da religião. levando fàcilmente o indivíduo à superstição. Interessa-nos verificar como isto se fêz entre os povos pagãos e como a Sagrada Escritura. também às enfermidades físicas sabiam dar interpretação religiosa. ou seja. até certas funções fisiolágicas (como a menstruação. ENTRE AS NAÇÕES PAGÃS Fora de Israel.° AS DOENÇAS As doenças. ainda hoje usuais. Ora os autores dos livros sagrados freqüentemente se referem a doenças ou apresentam interpretações de sonhos em têrmos que parecem simplórios. o parto) e os cadáveres eram tidos como impuros. Desta forma sonhos e doenças na Bíblia vêm a ser por vêzes uma pedra de tropêço para quem deseja. Mesmo ao aplicar meios terapêuticos autênticos. Dos efeitos dêsses agentes malignos e. como bem se entende. por sua vez. em particular. que purificariam o homem e afugentariam os espíritos. da doença. devia o enfêrmo libertar-se recorrendo não tanto a processos e remédios cientificamente estudados. § 1. Eis a razão por que o capítulo presente se propõe considerar o problema e procurar o autêntico significado que os mencionados fenômenos devem ter no livro inspirado pelo Senhor Deus. os antigos os justificavam por motivos religiosos. 1. mas principalmente a preces. assim julgavam . a conceição de prole. era comum atribuir as moléstias do corpo à ação de maus espíritos. sacrifícios. pouco condizentes com a Sabedoria de Deus e a ideologia de um homem culto.

emprêgo de vapores teriam por efeito calcar ou molestar e. debilitação. tocassem cadáveres. Em particular. terão contribuído para que se admitisse a liifluência de maus espíritos na origem de fenômenos fisiológicos: o caráter mais ou menos repugnante de certos dentre êstes (lepra. causa da moléstia. Dhorme. o que se verifica já sem hesitação nos escritos cristãos. donde êle partiria definitivamente. conservação. entre os romanas) era o nome que se dava à epilepsia.176 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO que massagens. sangue que consigo levaria o espírito funesto. 302s. as doenças. Ao falar de "espiritos". 146s dêste livro. . Podia ter intenções benévolas ou malignas.. Conforme crenças orientais. 1 A palavra grega daimon (donde 'demônio'.). 53 (1946). A. moléstia em que o homem. 2 Asclépio ou Esculápio o Deus Médico. com o mesmo fim. contorcendo-se desfigurado. 'Fautes contre Yahweh dans les Livres de Sanluel". Os antigos. em seus oráculos freqüentemente receitava banhos. provocando escapamento de sangue. porém. E. chagas. A luz dêstes pressupostos explicam-se estranhos pormenores de terapêutica e religiosidade antigas: "doença divina" (divinus morbus. expelir o demônio 1 do corpo do paciente. às leis de saúde. parece claramente sujeito à moção de um ser superior. 167s. entre os paflos. eram tidas na conta de castigo infligido pela Divindade ou pelos espíritos que os homens houvessem irritado. ou então deslocar o mau espírito do órgão afetado para os pés do doente. os antigos entendiam geralmente sêres corpôreos sutis. porém. os demónios foram sendo mais e mais considerados nefastos ao homem. invisiveis. fisiológicos. e a preocupação de conservar na sociedade rude a necessária higiene. Ao ver um louco. assim corho para as pessoas que provocassem a morte de outrem. La Religion des Hébreuz nomaas. Aos poucos. não a produziu nem a conserva indefinidamente. mais poderosos que o homem. muitos implicavam simplesmente fenômenos naturais. a culpa. Sôbre o mesmo assunto vejam-se também a pág. não se podia dar significado mais autoritativo do que o significado religioso.. ao menos entre os povos primitivos anteriores a Israel. praticavam cortes na carne do enfêrmo. Ainda dois outros fatôres. em Revue bibli4ue. poderia ter sido cometida numa existência antenor à presente. que é a existência. em português) significava originàriamente. um ser superior ao homem dotado de influência sObre a vida humana. robustecimento e extinção) como sujeito a sêres superiores ao homem. O fundamento principal desta tese é assaz evidente: todo indivíduo tem consciência de não ser senhor de sua vida. 2 É importante notar que nem todos os casos de presumida influência dos espíritos maus eram casos de culpa moral. etc. por fim. Prescreviam outrossim banhos de purificação para a mulher. 3 Cf. tendiam a conceber tudo que se refere à vida humana (sua geração. pondo em perigo o bem fundamental. que são graves. George.

a partir da colina do Areópago. imolaram-nas em sacrifício.ibras. portador do veneno da hidra.110) que. mesmo num estudo de Sagrada Escritura. chaga perigosa incurável. Nósos em Kittel. sim. Divindade nos seguintes termos: "Segura a sua mão (do enfêrmo). . dirigir-se à. êste produzia a enthousia. o cnthousiasmõs. pelo mal dos pesadelos noturnos que lhe infligia o demônio Efialtes.. Sàmente 4 Também entre os gregos o 'entusiasmado" era o homem possuído por um theõs (deus). perdoa seu pecado. por coceira que o deprimia e tornava melancólico. Explica-se também que códigos legislativos religiosos da antiguidade ameaçassem doenças àqueles que ousassem violar os seus preceitos. isto é. tendo irrompido uma epidemia mórbida em Atenas. e. 1085. a fim de que glorifique o teu poder.DOENÇAS E SONHOS 177 costumavam os orientais arredar-se com temor sagrado. rezava o fiel devoto: "Meus pecados.. ovelhas pretas e ovelhas brancas. mas também a cessação de doenças (a cura do corpo).. portadores da sabedoria moral necessária para curar as chagas ou os vícios do espírito. que sobreviera àquela cidade entre 596 e 593 a. medicina e filosofia não raro eram simultâneamente cultivadas.. desencadeara a peste. uma mordida mortal.. sobressai o tipo de Hércules. Haja vista. que se termina condenando os eventuais transgressores a "uma doença grave. peste maligna. 6 Narra Diógenes Laércio (1. e nos respectivos lugares da cidade em que cada uma se deitou. etc. 8 E o que explica o trocadilho feito em tôrno do nome do filósofo Epicuro. 1942).. pois julgavam que tal homem (rnedjnoun) estava possuído por um djin ou gênio. Permite que teu servo viva. em conseqüência. seus discipulos o derivavam de epilcourein. soltaram então. tratar em tódas as acepções do têmo. ritos de expiação.). curar." Em outro texto. entre outros. Ele (o deus invocado) permitiu que o vento os levasse. Nesses mesmos lugares foram erectos altares com a dedicácia: "Ao deus a quem compete. os médicos eram também filósofos. 7 Algumas das palavras babilónicas que significam "pecado". o código babilõnico de Hamurapi (séc. conforme um ritual babilónico. devia o sacerdote ao qual se apresentasse um doente. o contato com o sangue de Nessos. lhe fêz contrair uma espécie de lepra acompanhada de cã. maltratá-lo seria o mesmo que atentar contra os direitos do Todo-Poderoso.." (Tooi proseelconti th. e vice-versa. XVIII ao. oepke. IV (Stuttgart.C. 8 Não se poderia silenciar. um cretense chamado Epimênides. Fase cessar a sua febre (?) e aflição. achaque". muitos cânticos penitenciais dos antigos povos pediam não sèmente o perdão de pecados (a cura da alma). 4 tendo Deus colocado a mão sôbre êle." Seguia-se a descrição da cura da doença respectiva. ainda o seguinte aspecto da ideologia pagã concernente às doenças. que o médico não saiba diagnosticar.. que não possa ser amainada por curativo. têm igualmente o sentido de "peste. Cf. por exemplo. Depois de Alexandre Magno. deu à população o conselho de a debelar oferecendo sacrifícios ao deus que provàvelmente não os recebera nas funções do culto. Theologísclzcs Woertcrbuch rum Neuen Tertame?rt. Entende-se outrossim que a técnica de curar moléstias tenha recorrido a exorcismos. Na mitologia grega tomou-se muito estimada a figura do "herói doente e sofredor".eoot). o super-homem provado pela dor: era afetado.

representante do gênero humano. a plenitude. experimentam no próprio corpo um desequilibrio (doenças). Notem-se os seguintes exemplos: - . eram considerados fatôres. intensificam a desordem. é que explicavam também desta forma as moléstias dos heróis mitológicos. 2. admitiam também muitos espíritos causadores cada: qual de determinada doença. A mentalidade. porém. os filhos de Adão. em conseqüência. Como os demais povos antigos. acrescentando à culpa do primeiro homem as suas faltas pessoais. à semelhança de homens apaixonados. os textos bíblicos concernentes às doenças apresentam suas analogias com os documentos profanos antigos. ao contrário. Interessante. que reflete o desequilíbrio introduzido por Adão nas suas relações com Deus. ao mesmo tempo. semideuses. são castigo. Oriundos no mundo greco-oriental em que as idéias acima tinham curso. porém. e fatôres necessários. Esta tese. otimista do povo grego. porém. a ação dos demônios. NO POVO DE ISRAEL Passemos agora à consideração dos livros sagrados de Israel. deixando-se aplacar logo que sé lhes oferecessem "dádivas". o furor e a inveja dos deuses desencadeando-se sôbre o homem. como se êstes dois têrmos fôssem estritamente correlativos entre si.• buir as doenças à ira de deuses ou demônios. os mitos punham em realce que é pela dor que o homem se comprova e atinge a sua maturidade.178 PARA ENflNDIR O ANTIGO TESTAMENTO a morte e a apoteose puseram têrmo aos padecimentos de Hércules. Assim o drama do pecado marcou profundamente a ideologia dos judeus atinente à doença. a concepção era radicalmente monoteísta: o primeiro pai. Em Israel. entre os pagãos era explicada de acôrdo com as idéias politeístas de cada povo: admitindo muitos deuses e. Na ideologia de Israel e na dos demais povos há um fundo doutrinário comum: a crença de que as doenças provêm de uma ofensa do homem à Divindade. julgavam outrossim possível que êstes punidores do homem pudessem proceder por mero desejo de vingança ou inveja. revoltou-se contra o Criador Bondoso no paraíso. Assim é que os pagãos reabilitavam ou resgatavam o conceito de doenças e flagelos decorrentes das vicissitudes desta vida. os gregos costumavam atri. do desenvolvimento do individuo. que os perpassa é bem diversa da que inspirou os trechos pagãos. todos os seus descendentes sofrem a revolta da nattireza. nisto manifestavam um traço profundo da sua psicologia e religiosidade. a saber: o senso trágico e. tornam-se mais e mais sujeitos ao padecimento e à moléstia. freqüentemente no Antigo Testamento ocorre o binômio "pecado-doença".

e tle te curará." (Dt 28. que muito o fazia sofrer.6-10. Pois foi o Altíssimo que o criou A ciência do médico lhe faz levantar a cabeça.9s.C. . Mas ora ao Senhor.. levanta as tuas mãos E purifica de todo pecado o teu coração . parecem visar uma tendência do judaísmo a vilipendiar a medicina. pragas graves e persistentes. entre os quais a irrupção de doenças: "Se não fôres solícito em observar tódas as palavras desta lei. tendo-se mostrado infiel ao Senhor. que datam aproximadmente do ano 200 a..12. Tob 2. mas os médicos"! De tal forma os conceitos de "pecado" e "doença" eram associados entre si que não se via lugar para uma cura meramente científica das moléstias. escrito pouco antes do Edo.. 1. Além disto. procurar recuperar a saúde por simples recurso à medicina parecia ser endurecimento ou obstinação do pecador ferido! o texto de 2 Crôn 16. de modo nenhum implica menosprêzo em Israel para com os médicos ou profissionais da ciência. assim procederam as espôsas de Jó e Tobias em relação aos respectivos maridos (cf. Aza "mesmo durante a doença não procurou o Senhor. O Senhor fêz a terra produzir os medicamentos. até que sejas exterminado.58-61). Que êle não te abandone. para cúmulo de sua infidelidade e infelicidade. os israelitas às vêzes infligiam aos seus enfermos tratamento de desprêzo e escárnio (tratamento que a Bíblia refere. foi acometido de uma doença dos pés (gôta ?). o Senhor desencadeará sôbre ti tôda espécie de doenças e pragas que não são mencionadas neste livro da Lei. Suas mãos terão sucesso. Jó 2.3s. A seguir. foi o Senhor que o criou. e elas se prenderão a ti.7.DOENÇAS E SONHOS • 179 aos transgressores da Lei de Deus. diante das quais tremias. em Edo 38: -'Honra o médico por causa das tuas indigências. porém. doenças perniciosas e tenazes. . dá acesso ao médico. precisamente por ser tidos como pecadores denunciadps pela própria justiça divina. 0 livro apócrifo de Henoque. Afasta o pecado. Moisés prediz justos castigos. os amigos de que se queixa o salmista no 51 40. o Senhor inflígirã a ti e à tua posteridade pragas ex traordinárias.. E o homem sensato não os desdenha.) Êstes dizeres." (Vv..12-14. particularmente digno de nota é o episódio de 2 Crôn 16.12: o autor narra que o rei Aza de Judá.. mas de modo nenhum aprova).15-23). Meu filho. Fará voltar sôbre ti tôdas as moléstias do Egito. Pois também êles (os médicos) oram ao Senhor.. não desprezes meu conselho. Haja vista a recomendação do sábio mestre. Ora. pois a sua arte te é necessária. Por êles o homem produz a cura e extingue a dor. se caires doente.. Éle é admirado em presença dos grandes.9s.

parece ter-se desenvolvido. de sorte a violar o monoteísmo de Israel. 2. ao punir alguém com moléstia ou morte. Dt 4. Contudo . portanto). Foi o que realmente se deu na mortandade dos primogênitos do Egito (cf.jamais o "anjo do extermínio ou da enfermidade" nos textos bíblicos é apresentado como outro Deus ou como semideus.6).22. na história de Jó (cf. Admitindo nos têrmos acima o pecado como raiz das doenças.23). Si 32.e ainda hoje se dizem— possuidores de fórmulas ou receitas extorquidas da Divindade por indústria do homem ou reveladas por um espírito superior às vêzes invejoso de outro.14. Jer 33.e isto merece tôda a atenção . tenha-se confiança nêle. 10 O Justamente o conceito de anjo. Si 148. dispondo das mesmas. no extermínio do exército dos assírios (cf.6. Entrava em casa do paciente pronunciando uma fónnula mágica. 12-14). na Sagrada Escritura.3s.7). 2 Sam 24. Th4oiogie de l'Ancieir l'estament. ° Javé manda ou permite. 45. van Imschoot. na teologia de Israel. recitava outras tantas fórmulas sõbre os diversos ingredientes de que se servia para a fabricação do medicamento. Tais séres celestes terão sido. na de Sara (cf. em reação contra o politeismo dos babilônios e de outros povos. Tais homens se diziam . SI 148. Éx 12. cada vez que aplicava ou retirava uma bandagem. no flagelo da peste que castigou o reino de Davi (cf. Is 37. Contràriamente.. Jó 38. 69. poderá esperar alívio da intervenção do médico. reduzidos à categoria de criaturas de Deus. o qual há de recorrer tanto à ciência quanto à oração (cf.7).36. Esta conclusão é insinuada.16s). embora relativa. como se julga). o curandeiro consegue "forçar" a Divindade a produzir o que o "sábio" quer. e o anjo executa o desígnio do Senhor Deus. io ciência e magia eram tão ligadas entre si que na prática o médico não raro era mago. Jos 5. postos era paralelo (cf.3). considerando a êstes como deuses (cf. (Paris. que povoam ou ornamentam o céu juntamente com outras criaturas.12.19.1-5). Ne 9. o mal desencadeado pelo anjo terá sido uma epidemia mórbida. espirito superior ao homem.180 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO incriminava os anjos maus por haver comunicado aos homens a ciência dos diagnósticos e dos remédios (8. os israelitas reconheciam que o Senhor Deus. mas inferior a Deus (criatura. o autor sagrado inculca que o médicõ tem vocação divina e é indispensável. entre os israelitas. que são os anjos. dizia a indispensável fórmula. 126." Citação de um estudo . os astros. os outros o "exército dos céus" (cf. se pode servir do ministério de espíritos ou anjos. são intimamente associados entre si (cf. a seguir. constituem uns o "exército de Javé" tcf. o enfêrmo deve primeiramente confiar-se a Deus e purificar a alma. em particular pelo fato de que anjos e astros.12.8-12). Dizia uma imprecação quando tomava em mãos o vaso que servia para medir as substâncias necessárias à coafecção de um remédio. Cf. O médico egipcio "associava fórmulas mágicas a toda a sua atividade. 1954). proferia outra quando o doente bebia a poção. Is 4426. Esta mesma verdade é indiretamente confirmada pelo fato de que a legislação de Israel não tolerava a existência de curandeiros ou magos. Jó 1. movendo-se todos em plena sujeição às ordens do Único senhor. 17.2). 1. 139-141. que adoravam o exército dos céus".. 3 Rs 22. P. Tob 3.19.8).

a fim de que não te aconteça algo de pior.14.17. 11 Notem-se também as palavras de Jesus a respeito da enfermidade de Lázaro "Essa doença não é mortal. como professa a Revelação desde o livro do Gênesis." (Jo 11. Em . e disse: "Essa absoluto erguer a cabeça filha de Abraão. transcrita de Spicc. Mc 9. de Pirot-Clamer.10s.30). VI (Paris.'" (Jo 9.14. O Senhor Jesus. Lc 11..22s. e não podia em " O Senhor curou-a. que Satanás paralisava havia dezoito anos. Eucaristia (cf. estas são simples e de maravilhosa eficácia medicinal. não peques mais. nem seus pais. 759. . o rei Nechepso já tomou conhecimento das 'simpatias' dessas plantas. a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado. e repetidamente. viu Jesus um homem cego de nascença. havia dezoito anos. 1946). o Senhor. Encontrava-se lã uma mulher possuida." L'Egijpte dez astrologues. Encontra-se ainda. Dt 5. êle ou seus pais.1-5..1-33 li de F. podendo ser provocada por um mau espírito ou por Satanás "Jesus ensinava numa sinagoga em dia de sábado. são incompatíveis com a crença num só Deus.4. . Muito claro é o episódio seguinte "Ao passar.16. porém. mas isso aconteceu a fim de que as obras de Deus nêle se manifestem. e envolvendo-a numa visão otimista do universo. porém. Lexa.2-6. por exemplo. por um espírito que a tornava enfêrma. As noções dos hebreus se aperfeiçoaram com a revelação cristã...mas verifica-se para a glória de Deus.Jo 5. a tese de que a moléstia é conseqüência do pecado. completando-a. como conhece as 'simpatias' das pedras.) Episódios semelhantes ocorrem em Mt 12. não se creia que tôda enfermidade provém de culpa pessoal e grave cõmetida pelo paciente ou seus familiares. .) Veja-se ainda Lc 13. Perguntaram-lhe então os discípulos: 'Senhor. quem pecou. 1 Cor 11. Interessantes também são as observações de Cumont 'Asclépios (Imflotep) revela no seu santuário ao médico Tessalos o momento e o lugar propícios á colheita das plantas sujeitas aos planêtas e aos sinais do Zodiaco. não convinha libertá-la dêsse vinculo em dia de sábado?" (Lc 13.6-10). A Providência Divina pode permitir que penosas doenças acometam os justos não precisamente para castigá-los. recomenda-lhe: "Eis-te são. 172. para que nascesse cego ?' Jesus respondeu: 'Nem êle pecou. Embora esta seja decorrente daquela..DOENÇAS E SONHOS 181 Está claro que tais concepções só se podem originar no politeísmo ou num ambiente em que a noção de Deus é deficiente. em La Sainte Bible. crença que tôda a literatura israelita professava solenemente (cf. Éx 20. era curva. "L'Ecclésiastique". Senhor de todos os espíritos e homens.. Os escritos do Novo Testamento se sobrepõem à ideologia israelita no tocante às doenças.." Na comunidade de Corinto doenças e mortes prematuras entre os fiéis eram por 5: Paulo atribuidas à recepção sacrilega da S. tendo curado um paralítico. trouxe nova luz sôbre a maneira como se ligam entre si pecado e doença. mas em vista de outros fins.

se convertera em ocasião de complacência! E qual o fator dêsse novo modo de pensar. Paulo (2 Cor 12). Obra da Justiça e obra do Amor misericordioso de Deus. gloriar-me dos meus achaques. Em vista disto. os intérpretes julgam tratar-se de doença. Mas donde se depreende tal conclusão? Muito significativa a êste propósito é uma página dé S. se manifestam no justo acometido pela doença? O Senhor poderia dar a autêntica resposta apontando para o otimismo dos gregos que forjaram o mito de Hércules ou do herói aflito. Experimento prazer nas fraquezas nas misérias extremas que sofro por Cristo. abraçou a angústia e a morte como justa sançao devida ao pecado de Adão. que êle também chama "um anjo de Satanás que me esbofeteia" (12. não fôra. apenas Cristo lhe prometera a sua graça para tudo suportar. mas também ocasião de amadurecimento e perfeição para o homem. a fim de que a fôrça de Cristo habite em mim. atendido.9s. Foi o padecimento de Jesus que revolveu as antigas concepções de sofrimento e miséria física. E porque assim o teria punido a Providência? A fim de que.182 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO E quais as obras de Deus que. de redenção para o homem. Cristo. num plano ainda mais elevado ou sobrenatural. "pois é na miséria (do homem) que o poder (de Deus) exerce tôda a sua pujança" (12. obra da Justiça de Deus. Não obstante. mas o autêntico homem .). assim a fé cristã. eis o que se manifesta nas doenças do cristão. ensina que a moléstia não é tnicamente castigo (como se julgava nos primeiros tempos do povo de Israel). porém. a união com Cristo que dá novo sentido ao sofrimehto de Paulo é do cristão. a miséria da carne se tornara fortaleza e título de glória para o Apóstolo. achaque físico). no caso. justamente então é que sou forte. conforme Jesus. continuamente recordado da debilidade ou miséria de sua natureza. o Apóstolo concluía em tom de triunfo: "Prefiro. verdadeiro homem. como se vê. o que era deprimente. êxtases. quando sou fraco.) A punição. etc. Pois. é pedagogo para o discípulo de Cristo. em outros têrmos: é também obra do Amor." É. O Apóstolo refere que o Senhor "colocou em sua carne um aguilhão". a sabédoria helênica. não se ensoberbecesse pelos donsextraordinários que recebera de Deus (visões. modo que implica progresso notável em relação à mentalidade do Antigo Testamento? "Experimento prazer nas misérias extremas que sofro por Cristo. mas é outrossim ocasião de exaltação. Paulo diz ter rogado três vêzes ao Senhor que o eximisse de tal padecimento.7." (12. por conseguinte.9). que decretou salvar e glorificar o homem pela miséria mesma de sua natureza. Como os gregos julgavam que a doença não é apenas sanção.

os sonhos eram geralmente tidos como estados de alma nos quais o homem entrava em contato com o mundo dos deuses ou dos gênios (espíritos superiores). o padecimento do Filho de Deus na carne humana foi um sofrimento não apenas suportado.DOENÇAS E SONHOS 183 Jesus era. Ora o fato de que em Cristo a natureza padecente estava unida à Divindade. simbolos. Através de expressões. ao mesmo tempo. dando-lhe o significado não sômente de pena justa (como o tinha no Antigo Testamento). a mentalidade. não pode deixar de tocar aos sonhos papel importante. não mais percebendo os animais. foi a pena não simplesmente do réu. responderam-lhe que um próspero futuro lhe estava reservado: já senhor do Alto Egito.° OS SONHOS Num cenário de vida oriental. A propósito do faraó Chechonque 1 narra-se o seguinte: um reizete eglpeio viu durante a noite duas serpentes. Mestre. verdadeiro Deus. recebendo dêstes admoestações atinentes ao passado ou ao presente. a doença e a morte na trajetória do homem! § 2. para a plenitude dos tempos. Entre os povos antigos. mas do Rei que se fêz réu. a revelação do sentido profundo. aos sonhos da terceira parte da noite 12 No Egito. que perpassa os trechos escriturísticos é muito mais elevada que a da literatura extrabíblica. transformou o sofrimento. nos quais êle vê significadas realidades superiores. a sorte de todo e qualquer discípulo de Cristo que sofra unido ao. que têm o sofrimento. o. Em algumas páginas do Antigo Testamento. o Senhor preparava. vive muito de imagens. revelações a respeito de acontecimentos ocultos ou futuros. orientais e concepções antigas depuradas de politeísmo. muito digno de Deus. transformando a morte em passagem para a imortalidade. divinizando-o. Era por estar plenamente consciente desta verdade que Paulo ousava proferir a paradoxal interpretação de seus achaques em 2 Cor 12. Acordou e. pois o homem do Levante. Tendo Interrogado os Intérpretes a respeito desta visão. mas também vencido. mas também o de remodelação do homem. a outra à esquerda. Sabia que a sorte de Cristo se tornaria a sorte de Paulo. porém. tragado pela Vida. 12 Em particular. contava-se que o deus Ptah indicara ao faraó Merenptah o que devia fazer numa ocasião em que povos do mar invadiam o deita do Nilo. por exemplo. dotado de fantasia particularmente fecunda. livro sagrado apresenta passagens que certos exegetas quiseram comparar às dos documentos pagãos. Eis o têrmo no qual se remata a doutrina bíblica concernente às enfermidades do corpo. uma à sua direita. havia de conquistar o Egito . verificou haver sonhado. para libertar o réu. pensava-se que principalmente os reis eram agraciados por tais comunicações do Alto.

Montet. estava para desencadear. 14 O papiro Chester Beatty III apresenta alguns dos critérios de interpretação. . Recomendava-se-lhe que invocasse a deusa Isis. refere. Receber uma harpa implicava desgraça. emblema da região setentrional do pais.. e não raro levava a graves erros na vida prática (à semelhança do que ainda nos tempos atuais se verifica). idéias contemporâneas à 12. e uma cobra. sim. Para quem não pudesse consultar os adivinhos.5-11. P. Sonhar com homens de autoridade e poder também implicava bem-estar para o futuro. baseado em suas experiências. aparentemente científica. Artemidoro de Éfeso. 14 É claro que a crença no valor profético dos sonhos estava freqüentemente ligada a superstição.1-36).837. Sonhos obscenos valiam como péssimos prenúncios. Homero. Montet. porém. depois no Egito (cf. Também se usava a seguinte receita: umedecer em cerveja alguns páes com ervas verdes. tenham-se em vista. Gên 37. harpa. 46-49. II dc. anunciava prazeres. simbolo das terras meridionais. código importante para os decifradores de . desempenham função notável. preconceitos humanos.. Chama. a qual saberia como defender o devoto dos males que Sete. a fim de que a interpretação dos sonhos não ficasse ao alcance de qualquer individuo. Já que as imagens vistas em sonho eram não raro ambíguas. 46-8.gos de palavras eram muito explorados: Comer carne de asno. existiam catálogos de elucidação. residente na casa paterna. os homens de tal ou tal religião procuravam dormir nos santuários respectivos. O homem que tivesse tido um sonho inquietador não devia desesperar. No séc. porém. Eis o que se depreende do mesmo Em muitos casos. os que caracterizam a história do Patriarca José. ã mistura acrescentava-se incenso. a atenção o fato de que na Sagrada Escritura o povo de Israel professa fé nos sonhos e o próprio Deus parece corroborar esta atitude. engrandêcimento. havia intérpretes oficiais das mesmas.7). os que marcam a vida do profeta.C. 4.184 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO atribuía-se grande significado. ao passo que mau sonho presagiava desgraça. pois havia meios para deter os infortúnios previstos. critérios mais complicados. 41. a interpretação do sonho se fazia simplesmente por analogia: um sonho feliz era bom agouro. Assim os trocadilhos ou jo. expl'icitamente provocados ou elucidados pelo Senhor. Há. fazia pensar em bin. mau. La vis quotidienne eu Egypte. 13 Cf.4. La vie quoticlienne eu Egypte au temps de Ramsds (Paris). O documento data da 19? dinastia (os. por exemplo. Cf. Havia. 40. dinastia (2000-1800).sonhos. era freqüentemente por sonhos que os doentes recebiam a indicação do processo de sua cura. a. tomavam ingredientes provocadores de sonhos. filho de Nout.5-22. Daniel (cf. tais como estavam em uso no Egito. no Novo inteiro e fazer aparecer sôbre a sua cabeça um abutre. Pão branco em sonho era bom sinal. episódios bíblicos em que os sonhos. e com o conjunto resultante se esfregava o rosto de quem havia sonhado. significava elevação. Dan 2. Odisséia. pois o nome tomé. pois os conceitos de "asno" e 'grande" eram homônimos.. de 1300 a. porém. Êste proceder afugentaria todos os maus agouras transmitidos pelos sonhos. em sonho. nos templos de Esculápio (o Deus Médico). que usavam de técnica complexa.) . escreveu cinco livros intitulados Øncirokritikã.

pode provocar tais fenômenos psicofisiológicos.'" Vejam-se também Gên 41. 5. ora Javé não cessava de acautelar os seus fiéis contra tais ilusões: 15 Outras referências a sonhos ocorrem em Gên 20. é em sonho que lhe talo. intérpretes profissionais ou técnicos dos sonhos.22).10s).26.6 lê-se mesmo qe as visões e os sonhos eram meios pelos quais Deus se costumava revelar aos profetas "Se há entre vós um profeta. 5. verifica-se que também êstes têm significado condizente com a Sabedoria de Deus.'" Dan 2.6.16.8: "Disseram o copeiro e o padeiro do Faraó: 'Tivemos um sonho e aqui não se acha quem no-lo explique. . Gên 41. nem os encantadores. considerando-as manifestações da Divindade. conforme a Bíblia. sem dúvida. como o Patriarca José e o profeta Daniel.38s.8). Já que o oriental. (cf. após breve reflexão.13s. Vil/VI) pululavam os falsos profetas.15. Nos tempos da decadência religiosa (séc. em Núm 12. 16 CX. . é em visão que a êle me revelo." 16 Contudo muito se devem notar as restrições que os autores bíblicos impõem à crença nos sonhos. 19. e o dos magos (cf.24. por suas disposições psicológicas. Dan 2.2. e torná-los instrumentos de seus planos. possui o "espírito de Deus". Contudo. em particular. mesmo pagãos. 31. Já 33.11.12s. nem os sábios. 1 Sam 28. porém.3s. vossos jovens. 28. com o povo de IsraeL O Senhor. Mt 1. 4. o vosso sonho. era propenso a deixar-se guiar por imaginações noturnas. os adivinhos. José.14. os de S. Ora Éle o fêz realmente em casos descritos pelos livros sagrados. visando com isto remover todo vestígio de politeísmo ou superstição que os povos pagãos professavam juntamente com aquela. JI 3.. Há.1: "Derramarei meu Espírito sõbre todo ser vivo: vossos filhos e filhas profetizarão. Dàn 4. Jz 7.2-4. 1 Es 3. 15 À primeira vista. o verdadeiro Deus dignou-se utilizá-las para se comunicar com os homens. 2. Dt 13. que diziam haver recebido em sonho autênticas comunicações do Senhor.5s. os necromantes. 18. por favor. vossos anciães terão sonhos. Não há. nem os astrálogos o poderão elucidar. nem os magos. poderão parecer desconcertantes tão favoráveis alusões aos sonhos na história sagrada.20-24. porém.DOENÇAS E SONHOS 185 Testamento. compete a quem.15. Gên 40. 17 Os intérpretes populares de sonhos são condenados pela Lei mosaica junto com os magos. como os havia entre os babilônios (cf.12s. visões.' Respondeu-lhes José: 'Então não é a Deus que toca interpretar ? Narrai-me.3. A explicação dos sonhos se deve a dom esporádico de Deus." 17 Cf.15) e os egípcios (cf. Lev 19.275: "Daniel respondeu em presença do rei e disse: 'O mistério que o rei deseja compreender.5. no céu um Deus que desvenda os mistérios e quer comunicar ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer na sucessão dos tempos.11s.

Zac 1.) Também os sábios de Israel. Na literatura dos rabinos. A menos que o Altíssimo te envie uma visão. E os sonhos dão asas aos tolos. os sonhos constituíam estimado artifício de estilo. recebiam as comunicações de Deus geralmente em estado de vigília. ora noturna. No judaísmo posterior. Semelhantes às Imaginações do coração de uma mulher que está pára dar à luz. 1 5am 3). sem dúvida. Os quais caíram porque nêles colocavam a esperança. propondo aos jovens discípulos conselhos para a vida. que pode sair de verídico? A adivinhação. que em meu nome profõrem falsos oráculos. XVIII/XIII).) Como se vê. Estas se deram. na de Samuel (ef.. recrudesceu entre os israelitas a crença nos sonhos. .8). Êsses profetas julgam que poderão fazer esquecer o meu nome ao meu povo mediante os sonhos que contam uns aos outros 7' (Jer 23. A reserva. os genuínos profetas. que pode sair de puro? Da mentira. distinguir dos sonhos as visões Ocorrentes durante a noite. Pois os sonhos enganaram a muitos. Não apliques o coração a essas coisas. na história de Abraão (cf. VIII. na do profeta Zacarias (cf. tive um sonho 1' . ora diurna. . Gên 15. XI/VI).141. Éstes eram invocados para servir de fundamento a concepções e profecias fantásticas.186 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Ouço o que dizem êsses profetas.25. os agouros e os sonhos são coisas vás. nas proximidades da era cristã. ou seja. professada nas passagens acima dá suficientemente a entender que tais fenômenós noturnos éstavam longe de constituir a fonte principal das revelações divinas no Antigo Testamento. É quem se prende aos sonhos. Semelhante àquele que procura apreender uma sombra ou perseguir o vento. IS como atestam alguns dos seus orácuJos. afirmando: 'Tive um sonho. a partir do séc. isto é. êste texto. Quem confronta os livros sagrados entre si chega à conclusão de que. ao mesmo tempo que inculca prudência em relação aos sonhos. mais freqüentes eram os autênticos sonhos proféticos do que na época da monarquia (séc.12). admoestavam-nos contra as imaginações noturnas "O insensato se entrega a esperanças vás e enganosas. apto a dar auto18 É preciso." (Edo 34. Do que é Impuro.1-7 [Vg 31. nos primórdios da história de Israel (séc.27.. porém. a fim de se manifestar aos homens. nos tempos dos Patriarcas. . por exemplo. órgâo das falsas predições messiânicas que fervilhavam em Israel sob o domínio romano. não deixa de reconhecer que o Senhor os pode suscitar.

eram manifestações que se desviavam da linha da Escritura Sagrada. residentes no deserto. Cf. lO 20 . Isaias. em cada ocasião na cidade de Jerusalém exerciam a sua profissão simultâneamente vinte e quatro adivinhos de visões noturnas. i935) • 812.DOENÇAS E SONHOS 187 ridade aos oráculos mais surpreendentes. porém. 'Divination" ("Jewish") em Encyciotoaedia 01 Reflgion and Ethicg edited by . Basta recordar os Apocalipses apócrifos de Henoclue. 20 Estas. contemporâneos aos Essênios.James Hastings. Gaster. Baruque. IV (Edinburgh. M. 1 Os ascetas judaicos chamados Essênios. eram na mesma época assíduos cultores da arte de explicar os sonhos.

8. as páginas que se seguem proporão as concepções de Israel sôbre o além-túmulo. Ora ao povo de Israel. muito. o Senhor só aos poucos foi manifestando as noções concernentes ao assunto. princípio vital. respeitando assim a lenta capacidade de compreensão dos seus fiéis. Professam concepções que. Gên 15. julgava que o espírito. Si 103. Ora. matéria concreta que a alma vivifica (cf. o corpo se dissolve na poeira da terra (cf. O hebreu admitia no homem dois elementos constitutivos: a alma ou espírito (nesharnah. § 1. dependente das noções concretas. rude e simples. 25. divergem do que ensina o Evangelho. separada do corpo.° NO INEXORÁVEL FOSSO DOS MORTOS Tornou-se de importância decisiva para a teologia judaica um pressuposto de psicologia.13. o israelita díficilmente concebia que uma alma humana. deixando a matéria.2).29). 37.10.35. percorrendo em dois parágrafos as duas fases que caracterizam a evolução do pensamento judaico. e o corpo. A fim de facilitar a leitura do Antigo Testamento. levar-se-á em conta que a vida póstuma escapa em absoluto à experiência do homem colocado neste mundo. ruah). O conhecimento do que ela importa depende. Ao passo que o espírito humano é imortal (cf. Si 103. Núm 27. pouco inclinado à abstração.14s. 31. sem hesitação. à primeira vista. ncpheslz. pois. Já 34. Já 34. Daí surge o problema: que pensavam os judeus a respeito dos chamados "novíssimos" (últimos acontecimentos e estados).CApÍTULo XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS Os escritores do Antigo Testamento não raro se referem à condição dos defuntos em têrmos um tanto surpreendentes para o leitor cristão. e qual o significado de tais idéias no conjunto das Escrituras? Ao se estudar esta questão.15. pudesse levar vida autêntica.29). que se manifesta principalmente pelo hálito ou pela respiração. ao contrário. cai num estado de depressão . a carne (basar). muito especialmente da revelação divina.

Por extensão. 4 ou ainda com um caçador que sabe h&bilmente coiocar os seus laços e armadilhas.-. Si 77. reis e mendigos.14. Is 38. 10 Adjetivo que designa o lugar "baixo" ou "abaixo de. Hab 2.18. . 88. como canta o simbolo de fé. A. veio a ser o apelativo da própria mansão dos defuntos. 27. a tese de que a morte põe têrmo à vida intelectiva e afetiva do homem. destituídos de fôrça. vocábulo de etimoiogia obscura.12.4. mclusive S.5. S A tradução do Antigo Testamento dita "dos Setenta" verte sheol por Hades." 01.16. Enquanto o corpo é destinado a se dissolver na poeira da terra. não sofrem pena nem gozam de felicidade.17. 3 Cf.10.17). dos impotentes.18. 1 .14. patrões e escravos. Si 68. deve-se notar que os vocábulos infernus. da qual só aos poucos o povo de Deus foi tomando conhecimento e que os católicos chamam "inferno".20.14. inferno. 114. onde as almas de justos e pecadores. ser vazio (donde she'ol = caverna). 2 Textos poéticos comparam-na com um cárcere de portas aferrolhadas. subterrâneo'. ocorrentes em traduções (latina e vernácula) do Antigo Testamento. 140. talvez derivado da raiz sha'al. que os israelitas ju'gavam ser a região única de todos os mortos. 38. Ao se deparar com o têrmo "inferno" em uma tradução latina ou vernácula da Escritura. 113. Foi no sheol. Já 17. 10 Em conseqüência. Is 14. 1 atribuem-lhe bôca ou goela 6 e mãos. estão agregadas à categoria dos rephaim. designam o shool.13) ou "do silêncio" (SI 93. o católico deverá ter em mente o significado Cf.190 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO ou quase inconsciência.7. A mansão onde se reúnem todos os vivos.9s.23. 87. 0 ao passo que os latinos. desde os inicios da história sagrada. Os 13. 2 Sam 12. Si 48. fossa ou poço. Cf. BaiiIIy. 106.23: "sei que me levarás à morte.16.16.21.13. Si 9. Ainda num ulterior desdobramento de sentido. 7 que jamais largam a sua prêsa.6. Jon 2.14. Tal região era chamada sheol. ou com um monstro insaciável que devora todos os viventes. 20. 5 01.3. de consistência. Is 5. a personalidade só subsistiria em alma e corpo. Si 29. Nades podia significar a própria morte.7.5.17. O Nades é nome originàriamente usado na mitologia grega para designar o Deus da região dos mortos (também chamado Flutão). Prov 1.39. Já 7. 8 01. a.16. Inferno no sentido do Antigo Testamento. ' colocadas na "terra do esquecimento" (Si 87.12. 7 01. jovens e anciãos. jamais na alma só. se encontram tôdas e permanecem indif erentemente sujeitas à mesma sorte. de modo nenhum indicam a mansão ou a sorte própria dos pecadores defuntos. isto é. Estas premissas acarretaram. o espírito vai ter a uma região subterrânea. donde ninguém jamais sai. 40s. que Cristo desceu após a morte.15. 38. usam o tõrmo infernus. o Cf. Dictionnaire grec-français (Parisli). Si 17. que não é prêmio nem castigo. obscura. 14. Sab 16. Já 30. 10. Jerônimo na Vulgata.49. A mesma região era também designada por bor. mansão cuja existência era prol essada pelos gregos como pelos hebreus. 14.

'Tudo é decepção e procura de vento.17.18.) "Também isto é decepção e tempo perdido. 9. gado.13. X a. 3.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 191 complexo da palavra.18-23." (1. com relação aos esforços para a consecução de um ideal terrestre: 2. . longa vida). 11 12 . É justamente à luz dêste estado de coisas que se há de entender o livro do Eclesiastes. 17. III a.) Pessimismo . afirma serem dons de Deus. 13 não se dá por desgarrado na estrada da vida. Tais idéias levavam os judeus a julgar que a sanção da Justiça Divina devida a justos e pecadores pôr suas obras é executada neste mundo. o filho de pai honesto jamais teria que mendigar o seu pão. ocasionam um pouco daquela felicidade que o Altissimo destina à sua criatura (cf. é mister não se perder de vista a mentalidade do autor (que não é o rei Salomão no séc. 3. 8.C.713-18.24s. família numerosa. 54. Cf. Já 14. afirmavam. Para interpretá-lo devidamente. Com efeito. qualquer dos bens dêste mundo lhe parece exíguo demais para o homem.17. ao trabalho como fontes de alegria para o homem. mas sujeita a reforma desde que êste povo ganhasse a experiência dos séculos. o qual por vêzes causa surprêsa ao leitor cristão. e f ehz por possuir suficiência ou abundância de bens terrestres (campos. que cedo ou tarde experimenta tédio ao servir-se das criaturas.13-15. estudo da verdade. doença ou quaiquer aflição na vida presente eram explicadas como castigo divino correspondente a pecado cometido pelo indivíduo aflito ou por seus antepassados.18. 30. por exemplo.): o hagiógrafo considera sucessivamente os diversos valores aos quais os homens costumam pedir felicidade na terra . conforme SI 36. Si 33. 2.o que não podia deixar de constituir para êles paradoxo inexplicável.com relação à aquisição da ciência: 2.13. mais e mais os israelitas verificavam que existem justos aflitos. 28.e mostra-se céptico a respeito de tudo. a partir dos séculos Vil/VI os pensadores judeus eram não raro tentados a duvidar da tese antiga.1-30. caindo em estado de insatisfação ou perplexidade. Prov. que o homem virtuoso deve ser feliz. 113. não após a morte (que extingue a lucidez do espírito). aparentemente epicurista do autor.25. 12 Contudo quem observa atentamente verifica que o hagiógraf o está longe de ser um agnóstico ou um gozador mâterialista. volúpia dos sentidos.15s. Di 8. .16. 5. como há pecadores materialmente prósperos ...15.6-18. .9). pois.20. Dai a atitude acabrunhada. nas traduções portuguêsas Si 9.C. o esfôrço feito para conseguir alegria mediante o uso destas é geralmente mal compensado. Ao contrário.14. Edo 51. 11 A conclusão era muito simples. ao beber. válida talvez para a mentalidade de um povo infantil. deixando o homem desiludido. indigência. mas um anônimo do séc." (2.. 13 Quando o escritor se refere ao comer.13. a fim de evitar interpretações errôneas (cf. Conseqüentemente.26.riquezas.7).

porém. Não há vantagem do homem sôbre o animal.. 1. 2. o pessimismo do autor nada mais é do que a expressão de nostalgia profunda ou da sêde do Infinito que êle. feito por Deus e para Deus. longe de desnortear o cristão. 18. o espírito humano só repousa no Criador.26. revelou que tal desprendimento tem sua contraface na posse de Deus. Vivendo à luz da revelação não consumada do Antigo Testamento. e todo homem igualmente. Teme a Deus e observa os seus mandamentos. ensina a tratar com desapêgo os bens terrestres. acha-se bem na linha dos textos do Antigo Testamento que preparam o Evangelho. conhecia apenas o que lhe ofereciam os sêres criados. Mt 16.2.10s). 1. assim morre o outro. o Bem Infinito. outorgada nesta vida pela graça. na visão de Deus face a face. Em última análise. 15 Cristo. ignorando que. com efeito. esta. de outro lado crê plenamente en Deus e no valor da observância da lei divina. o autor só podia dar às suas exclamações um caráter negativo ou céptico.192 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Se. e esta só. Lc 16. estas se mostram portadoras de uma tese positiva e rica." (12. Ambos possuem o mesmo sôpro.14. e inquieto está repousa em Ti. e na eternidade pela contemplação direta. êle os podia.1.24s. 14 ora é justamente por ter consciência de que é capaz de apreender o Infinito que o hagiógrafo não se dá por satisfeito com algum valor limitado e toma o partido do "não-conformismo" frente aos bens terrestres." S. êle não acredita na felicidade que lhe oferecem as criaturas (cf.. julgar insuficientes. Éste.18. o único ideal ao qual o homem se deva incondicionalmente aplicar. o nosso coração enquanto não . êstes. 15 Cf. Confissões. traz dentro de si. Sim. Pois nisto consiste o ideal de todo homem.19-31. devia mesmo. a sêde do Infinito encontra saciedade na vida póstuma. e. Uma vez percebida a grande tese do Eclesiastes.13. Agostinho. já nos é possível penetrar o significado particular de estranhas afirmações do autor: "A sorte dos filhos do homem e a sorte dos animais são jdênticas.) A profissão de absoluta fidelidade a Deus que sela o livro do Eclesiastes projeta luz sôbre as apreciações negativas que o hagiógrafo tece a respeito dos bens criados. O Eclesiastes assim. 14 "Fizeste-nos para Ti. É o que transparece das palavras com que encerra a série de suas divagações pessimistas "Conclusão: bem ponderadas tôdas as coisas. Como um morre. fica-lhe sendo norma inabalável. dè um lado. de fato. Pois tudo é decepção.

10. servindo fielmente a Deus e utilizando moderadamente as ocasiões que Êste lhe concede. mais vale um cão vivo do que um leão morto. Em outras passagens do livro. ciênoia Ou sabedoria no Sheol. enquanto permanece agregado à sociedade dos vivos.) 17 Ci'. E tudo volta para a poeira.19-21. por redundância. Os vivos. na base de raciocínios abstratos.) Tenha-se ante os olhos que o escritor nestes versículos não visa propor alguma tese de filosofia. há esperança. 12. não há dúvida." 16 "Não há possibilidade de agir ou de adquirir compreensão. Ruah. mas. que refere o que a experiência imediata lhe incute." (9. que o hagiág'rafo falava. O mesmo tênno. para o autor. para onde vais. ou teologia. i E por que se terá o escritor tão rudemente expresso nos versículos acima? O motivo é que apenas visava inculcar a seguinte norma prática: já que o homem (do Antigo Testamento) nada sabe da bem-aventurança póstuma. mas toma Simplesmente a atitude do observador popular. pois professa que vai para o shcol 16 e menciona o juízo de Deus sôbre o indivíduo apos a morte. o autor reconhece a sobrevivência da alma humana. o sôpro das narinas. é de igual índole no homem e nos outros animais. e terminam-nos de tal forma que nenhum sinal sensível indique necessàriamente haver destino diverso para um e para outro. a sã filosofia ensina que o principio vital (alma) do homem é imortal. evidentemente. felicidade que por certo o diferencia dos irracionais.13. A afirmação de que o sôpro (ruah) é da mesma natureza no homem e nos irracionais deve ser entendida à luz da terntinologia judaica antiga. ao passo que o dos irracionais perece. já que o sôpro das narinas ou a respiração é distintivo da vida. 8.12. todavia não era como filósofo. ao passo que os mortos nada sabem.45 "Para o homem. . pela observação dos sentidos apenas. sim. êste. a quem chamam a atenção apenas os sinais exteriores. da vida. sensíveis. Não há dúvida. Ora'. Quem pode dizer se o sôpro dos filhos dos homens se dirige para o alto E o sôpro dos animais desce às regiões subterrâneas 7" (3. pois já não há recordação dêles. é na presente vida que. sabem qué hão de morrer. com efeito.9. não recebem mais salário. 11. Tudo vem da poeira. ninguém saberia dizer se de algum modo sobrevivem. Semelhantes idéias repercutem ainda no texto de Eci 9. significava também o principio vital. designava primàriamente um sôpro sensível.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 193 Tudo vai para o mesmo lugar. na qualidade de observador popular. esta ensina que tanto o homem como o irracional terminam os seus dias pela norte. deve procurar a felicidade.

herdou de seus ancestrais. conserva o otimismo... 1941). 231. A. Les religions dcc BabyIoniens ei des Assijriens (1945). Israel. Por que não terá de início elucidado tão interessante ponto de doutrina? Não era necessário à salvação dos israelitas que o Senhor lhes revelasse com tôda a clareza o que se dá após a morte. O Eclesiastes assim representa tipicamente a mentalidade do homem que. cf. 134. encerra as suas disputações entregando-se confiante ao Senhor. que os hebreus igualmente professavam. 321. "L'eschztologie individuelle dans les Psaumes". sem dúvida. os semitas haviam adotado as idéias dos babilônios. 249s. Le développement des ldées dans I'Âncien Testament (Aix-en-Provence. fica sempre esperança de conquistar certa felicidade neste mundo. Isaque. mas seguras. por vias ocultas." E. des origines au milien diz Vilie. 19 Como. Dhorrne. Deus permitiu que o autor sagrado. ficassem por muitos séculos dependentes de concepções obscuras no tocante à existência póstuma. em Revue biblique. qualquer que seja a sua condição (o cão simboliza o gênero de vida mais duro possível). siêcle. 11 Não sendo por si mesma contraditória às verdades por Deus reveladas aos Patriarcas. 134. em outros casos. '' apenas fêz remover dc tal concepção qualquer vestígio de paganismo. seria fácil demonstrá-lo mediante recurso aos textos cuneiformes. mesmo para os mais nobres (simbolizados pelo leão). Guitton. assim como grande número de seus semelhantes. aliás. por isto. inoculada no mais profundo do seu ser. A fim de viverem como justos e conseguirem a vida eterna (que. nos inícios da história sagrada. 113-142. oriundo da Caldéia. "L'idée de l'au-delà dans la religlon hébrarque". id. Davi. ao passo que para os mortos. sempre lhes estêve destinada). não deixará de proporcionar aos fiéis a recompensa do bem por êles praticado (cf. ainda ignora muitos dos desígnios divinos.. 481. bastava cressem na Justiça Divina e nas suas sanções. Cf. 123 (1941). para os vivos. em ReDize d'histoire des Religions. E. Em seu bom senso.194 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Estas palavras são sugeridas pela opinião de que a morte introduz em estado de consciência quase extinta. por exemplo. pág. mostra-se céptico diante de todos os atrativos dêste mundo. Quanto à noção do sheal. Tournay. o Senhor Deus. Estas explicações talvez tenham suscitado nova questão na mente do leitor. patrimônio que Abraão. já não resta possibilidade de conquistar algum bem. ." J. que. Tal indivíduo experimenta naturalmente a sêde do Infinito. "A concepção que do além-túmulo tinham os judeus era a de todos os semitas do seu tempo. embora conheça o verdadeiro Deus. A éste respeito.13s). com esta fé se santificaram Abraão. reservando-se para 18 "Os exegetas já de há muito reconhecem que os antigos hebreus professavam a respeito do além-túmulo crenças semelhantes às dos outros povos semitas. 56 [19491. ela constituía como que um patrimônio dos antigos orientais. que muito diferiam das dos egípcios. 121. Lods. José. 12. porém.

foi. estava a crença de que podiam ser evocados e. a escrita). faltam tais Python. nos é lícito e necessário usar (tais são a linguagem oral. por exemplo. que. porém. porém. por sua vez. lapidá-los-ão." (1 Crôn 10. pretenda desvendar o futuro. A Lei de Moisés. os israelitas foram freqüentemente tentados a adotá-la. havereis de replicar: 'Então um povo não deve consultar o seu Deus? Consultará os mortos em favor dos vivos ?'" (Is 8. a única mansão em que. porém. foi ter com a pitonisa 20 de Endor." (Lev 20.tão veementemente repudiada pela Lei divina consiste na falsa noção de Deus que ela pressupõe. o deus dos oráculos.e é .. em compartimentos: diversas são as sortes pÓstumas do justo e do pecador (veja-se abaixo). refere: "Se vos disserem: 'Consultai os que evocam os mortos e "Saul. Não obstante. Com efeito.. conforme as idéias antigas. o rei Saul. 20 passou . também o profeta Isaias incriminava o abuso: os adivinhos. por meio de certas fÓrmulas.. os gestos. assim pensando. ora entre vivos existem meios de intercâmbio naturais. quem institui as relações entre as criaturas e o modo como se desenvolvem. por assim dizer. era oposta à idéia de que as almas dos mortos vivem destituídas de conhecimento e afeto. em última análise. por instituição divina. em revelação posterior. na mitologia grega. Tal proposição. seu sangue recairá sôbre êles. porque interrogara e consultara os que evocam os mortos. viu. voltarei minha face contra êsse homem e o afastarei do meu povo.) A razão por que a necromancia era . para se entregar às suas práticas. 1 Sam 28. não leva em devida consideração os desígnios e direitos de Deus. O nome a designar o profeta ou adivinho inspirado por Apoio. em nome da Divindade.) "Todo homem ou tôda mulher que evocar os espíritos ou se der à adivinhação será punido de morte. é a serpente que Apoio matou. Entre outras falsas noções que o paganismo associava à sorte dos defuntos..19. Quem evoca os mortos julga que. que murmuram e respondem em voz baixa'. atribu1ado numa campanha bélica. Entre vivos e defuntos. se tomara culpado diante do Senhor.) No séc. seu conselheiro de outrora (cf.27.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 195 as proximidades da era cristã comunicar mais claras noções de escatologia. poderá entrar em comunicação com êles. dividida. promiscuamente se deviam epcontrar bons e maus. sim. pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel. repetidaniente condenava a praxe: "Se alguém se dirigir aos que evocam os espiritos e aos adivinhos. por oráculos." (Lev 20. É o Criador. "Pitonisa" vem a ser a mulher que.) O cronista sagrado.7-14). responder aos vivos.6.13.

a exortação dirigida a Saul em circunstâncias tão extraordinárias seria particularmente eficaz. Disto. a qual começa pelos sentidos (visão. como se depreende das palavras de Samuel. e não prêmio).A GRANDE SURPRÉSA PÓSTUMA As noções de antropologia e teõlogla que levavam os judeus a admitir o slieol. não deixavam de apresentar sólido ponto de apoio à revelação de conceitos escatológicos mais claros. ao menos no fim de sua vida. aos poucos se foram dareando os horizontes.. se dê. caso. 0 . com mais liberdade. pQrém.. não manifestada pelas leis da natureza. ).. Em Israel sob a pedagogia divina. se achavam menos habilitados a acolher o dogma cristão: os sábios gregos. Em épocas mais ou menos remotas da história sagrada. audição. No caso de Saul. O motivo por que então o Senhor atendeu a Saul foi. por exemplo. Com efeito. Note-se que outros povos. Isto não quer dizer que impossível seja a comunicação entre vivos e mortos. os israelitas. julgando que o homem consta necessàriaméúte de alma e corpo e só pode ser feliz quando os dois compõnentes se acham reunidos. separada do corpo. o desejo de admoestar o rei à penitência. subsistindo em espírito apenas. não se segue que Deus se dirija aos homens por via tão estranha tôdas as vêzes que êstes o desejem. porém. já que os defuntos. Deus se dignou permitir que o espírito de Samuel evocado respondesse. ensinavam que. estavam psicolôgicamente preparados pata receber a mensagem da ressurreição da carne e da subseqüente bem-aventurança. se toma um abuso e implica derrogação ao conceito de sõberania divina. por alguns séculos os manteve avessos à perspectiva de uma ressurreição da carne (esta lhes parecia ser novo encarceramento da alma. Assim nos salmos (cuja data de origem dificilmente se poderia indicar com precisão) lêem-se expressões como . permitiu-o gratuitainente. talvez já um ou outro escritor tenha aludido em têrmos breves e timidos à ressurreição da carne e à subseqüente visão de Deus. depende estritamente da soberana Vontade de Deus. esta proposição. cuja filosofia era mais esmerada. para satisfazer à curiosidade ou ao capricho das criaturas. justamente por êsTmotivo. tomando como mera ocasião a visita do rei à pitonisa. vontade de Deus que os homens não podem perscrutar nem captar a seu bel-prazer. a alma se poderia. entregar à contemplação da Verdade.196 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO meios.. o espírito não é objeto natural do conhecimento dos sentidos. porém. estão subtraídos ao conhecimento ou à apreensão dos vivos. § 2. sendo intrusão do homem em fôro no qual êle não possui jurisdição. Eis como a necromancia. por muito imperfeitas que fôssem.

souberam dar solução em séculos precedentes inatdita. 2 Mac 7.) "Deus me resgatará.) Of. seriam a expressão de aspirações individuais.24-26.15. porém. preparados pela reflexão de gerações anteriores. Com efeito. II a. indefinidamente a mesma sorte que os apóstatas ? A éste quesito os contemporâneos dos Macabeus. entre os quais se tornaram famosos os sete irmãos Macabeus (cf. que mencionam apenas a libertação de perigo mortal e a alegria daí proveniente no decorrer desta vida mesma. Nem permitirás que o teu fiel veja a fossa. "L'eschatologie individueile dans les Psaumes". hiperbólicas. não implicando a crença na ressurreição e na bem-aventurança póstuma. Dar-me-ás a conhecer a alegria inebriante da tua presença. em Revue . A luta dos justos em prol da fé parece ter vivamente desper tado entre os judeus a questão: ao sacrifício do sangue e da vida por amor à verdadeira fé não se seguirá resposta do Altíssimo? Terão os heróis. 56 (1949) .1-41).C. As delícias de estar para sempre à tua direita. 51 72. Ao despertar. afirmam tratar-se de fórmulas poéticas." (Si 16. no livro de Daniel. Em apoio desta interpretação. a primeira campanha anti-religiosa da história judaica. Os exegetas não concordam entre si sôbre o sentido exato dêstes dizeres. Ensinar-me-ás o caminho da vida." (51 15. Outros estudiosos. Pois me arrebatará das mãos do shcol. suscitou mártires israelitas. Alguns julgam que manifestam a esperança de vida póstuma bem-aventurada.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 197 "Não entregarás minha alma ao sheol. Como quer que seja no séc. que em parte é um apocalipse (ou revelação do que se dará nos tempos finais) provàvelmente 21 Cf. em Inocência contemplarei a tua face. citam passagens tanto da Sagrada Escritura como da literatura extrabíblica nas quais ocorrem frases semelhantes com sentido evidentemente metafórico. II. a perseguição desenca deada pelo rei sírio Antíoco IV Epifanes (175-164)." (51 48. bibUque. 9045s. 21 Em conclusão: não se poderá insistir sôbre o testemunho dos salmos a respeito da bem-aventurança eterna.) "Quanto a mim. embora esta não pareça ser alheia à ideologia e às expressões mesmas de mais de um dêsses cânticos. Tournay. de pressentimentos de ressurreição ainda vagos. esperança que teria ficado sem ressonância no povo de Israel até o séc.10s. 481-506. saciar-me-ei pela visão da tua Imagem.16. relegados para o sheol.

42-45 Judas Macabeu. por sua vez. Alusão direta aos mártires da perseguição suscitada por Antioco Epi- . perseguidos e humilhados neste mundo pelos ímpios prepotentes. CL P.8.2s).16.6): ci justo pode ser aflito. 55s.7). o gôzo materialista dos prazeres dêste mundo acarreta fim funesto (3. por exemplo.20-5. em conseqüência. 5. o pecador pode gozar de 22 As seções historiográficas do livro podem reproduzir documentos anteriores a ésse período. 1951). derrota dos bons (3. 172s. que haveria de assinalar a justos e pecadores a devida sanção (cf. a tua ressurreição não será para a vida (bem-aventurada) 1" (7. os mártires apelavam para o futuro juízo de Deus. 22 encontra-se a profissão de fé na ressurreição da carne. contudo pôs fortemente em realce a doutrina de que. Os próprios justos. Passelecq. 23 fanes. devendo OS justos 23 "brilhar como o esplendor do firmamento e como as estrêlas dotadas dé fulgor perpétuo" (cf. Dan 12. ao ímpio juiz um dos justos supliciados: "Tu nos tiras a vida presente. com a esperança que de Deus receberam." (7.35s). a nós que morremos para ser fiéis às suas leis. conhecerão a exaltação e o triunfo definitivos (cf. 3. mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna. talvez a fim de não ferir a ideologia do ambiente helenista em que se achava. silenciou o dogma da ressurreição. 4. Éstes testemunhos encontram seu complemento no livro da Sabedoria. escrito em grego na cidade de Alexandria (Egito) durante o séc.198 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO oriundo na época dos Macabeus. ao contrário. Em 2 Mac 12.) Seu irmão prosseguia: "Felizes os que morrem pela mão dos homens. 1 a. paralelamente. desprezados pelos maus. 7. Onde biblique (Maredsous. O seu autor.1-13).C. os pecadores sofrerão grande decepção ao verificar a inversão da escala de valores por êles instituída: arrogância. de ser ressuscitados por Êle 1 Quanto a ti.10-12).9. sem que tenha incor rido na maldição divina. recebendo cada qual a respectiva sanção. justos e pecadores são por Deus julgados. Guitton. Le déve- loppement dez idées dans VAncien Testamezt.14. Dizia. tornar-se-ão o critério conforme o qual será piblicamente avaliada a conduta dêstes (3. Enfim a todos serádado perceber os sábios desígnios que a Providência Divina tem em mira quando na terra permite aparente vitória dos ímpios. afirma a ressurreição e a bem-aventurança póstuma destinada aos fiéis. 4. abuso do poder levam à ruína póstuma.) Diante dos carrascos.9. os fiéis. após a morte. referindo-se à escatologia. No segundo livro dos Macabeus transparece a mesma crença.

seria dizer: "Não há estado de condenação eterna para os pecadores (= inferno. lugar que. o inferno. portanto. tendo renegado a Deus porsuas obras.39-46. a antiga ideologia do sheol perdeu o seu sentido. na terminologia técnica católica). Estas concepções de fins do Antigo Testamento ainda haviam de ser explicitadas pela revelação cristã: o Messias incutiu aos homens o significado positivo. porque não há slzeol (vocábulo do Antigo Testamento hebraico outrora ambiguamente traduzido por 'inferno') . suficiente para sustentar a piedade de um povo rude durante vários séculos . em que o bem e a iniqüidade serão devidamente focalizados.. O sheol de outrora . não obstante. a 24 O purgatório há de ser considerado como adro do céu. que se torna a triste sanção devida aos pecadores. a plenitude dos tempos. porém. implicitamente revelado em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento (cf. pois. Com efeito. Mt 25. deverão eternamente sentir as conseqüências desta apostasia (cf.31-46). pôr assim dizer. na teologia católica em sentido diverso do que tem geralmente nas traduções latinas e portuguêsas do Antigo Testamento. ser réu perante a Justiça eterna. lugar de encontro de bons e maus reduzidos à quase-inconsciência .14 (trad. um positivo e o outro negativo: o céu. Eis um exemplo de como não se deve proceder neste terreno. em têrmos claros anunciou o juízo final. neutro. Deixará de existir após o juízo final. a . devendo o gênero humano conseqüentemente distribuir-se por duas grandes categorias: a daqueles que. o valor do sofrimento abraçado por amor de Deus. por conseguinte. estaria destinado a desaparecer no fim dos séculos? Errôneo seria basear a interpretação do texto na assonância existente entre o nome que indica a sorte dos réprobos (inferno) e o vocábulo "inferno" ocorrente em Apc 20. em união com a Cruz do Redentor (cf. estarão habilitados a viver para todo o sempre na presença do Senhor.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 199 prosperidade material e.termo. que representa a sorte feliz dos justos." Note-se bem que o conceito de sheol só foi removido pela revelação divina a fim de dar lugar ao de um estado de punição definitiva para os réprobos e ao de recompensa eterna para os justos." Será o "inferno" aqui mencionado o lugar dos réprobos.10-15). Desde que tais noções tomaram vulto na mente do povo de Deus. Em Apc 20. . ocorre. Ela fôra. ao aproximar-se. tendo procurado ser bons como Deus é bom. 1 Cor 3.. inferno) foi sendo reservado pelos cristãos latinos para significar o estado definitivo dos réprobos. Matos Soares). 24 O vocábulo infernus ( em vernáculo.14 lê-se na tradução portuguêsa de Matos Soares: "O inferno e a morte foram lançados no tanque de fogo.24-27). devia ceder a noções mais precisas. Ilógico. 2 Mac 12.foi pela revelação cristã repartido em dois outros têrmos ou estados. Mt 5. a dos que. sem dúvida. Mt 16.25s.

João).26. ela lhe dá a experiência da bem-aventurança final. pois. a . para incutir que o pecado e todas as suas conseqüências (entre as quais a morte e a "morada dos mortos") deixarão de existir no mundo remido e consumado por Cristo. Is 25. de resto.55s. a concebia e personificava. O justo traz o céu em seu íntimo.14 intencionava aludir a um conceito do Antigo Testamento. em Ape 20. e predizia que serão aniquilados no fim dos tempos.8. o autor sagrado. pelo vocábulo "morte" justaposto: "ÇA morte e o inferno serão lançados. na posse direta dos bens prometidos. Ora o Hajas é.14 senão uma afirmação paralela à de 1 Cor 15. Os 13. continuando uni uso literário da tradição biblica. como o pecador carrega o inferno dentro de si.200 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO palavra "inferno" nesta passagem é a tradução do grego Hwtes (térmo do original de S. que S. explicado. Não há. pois.. consumar-se na visão face a face. por sua vez." Personificava assim a morte e a região dos mortos como adversários do gênero humano. A doutrina escatológica revelada por Jesus deverá. Todavia já agora. João em Apc 20. vê-se. peregrino nesta terra. conforme a linguagem dos gregos antigos. eis como atualmente se formula um dos aspectos mais importantes da doutrina dos novíssimos.. desabrochando. embora na realidade não exista região coletiva dos mortos (o sheol dos judeus). a mansão dos mortos correspondente ao sheol dos hebreus.14. o cristão não deixa de possuir um penhor e antegôzo da vida eterna: a graça em sua alma é a semente da glória celeste.

O Senhor não costuma exigir fé sem apresentar "credenciais". à primeira vista. sem dúvida. sim. principalmente nos livros do Antigo Testamento. porém. isto é. ao mesmo tempo. dilúvio. de proporção com os acontecimentos anteriores e subseqüentes. sensível do homem. era como que normal ou necessário suscitasse Deus milagres ou manifestações mais evidentes da sua presença e ação no mundo. Ao passo que os antigos judeus e os cristãos até época recente os interpretavam literalmente. não implica que o Criador tenha realizado portentos. "a êsmo". porém.. apresenta episódios que..CAPÍTULO XIII "PRODIGIOS" E PRODIGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO Além da famosa "pré-história" bíblica (Gên 1-11: origem do mundo. é errônea a posição de quem queira simplesmente negar fé a certos episódios da Bíblia por narrarem feitos portentosos. etc. se diriam demasiado infantis ou portentosos para poder ser conjugados com a noção de Sabedoria Divina e com o bom senso humano. da Onipotência Divina. a Sagrada Escritura. do homem. A fim de atrair a dureza de coração da criatura inclinada ao mal desde o primeiro pecado. Para o católico. É não menos certo que Deus não dêrroga às leis por Éle mesmo incutidas ao mundo. o homem contemporâneo não o saberia fazer sem por vêzes sofrer constrangimento. o Senhor não "brinca" com o seu poder sôbre a natureza. Não é. ou não será que o leitor moderno é num ou noutro ponto propenso a racionalismo exagerado? Antes de se passar a respostas particulares. dir-se-á que. Ponderado isto. seria incoerente e ilícito negar o sobrenatural e portentoso na história das relações de Deus com o homem. destituídas. ilícito perguntar se alguns dos propalados milagres do Antigo Testamento são realmente tais. Esta proposição. - . Surge assim a questão do sentido autêntico que têm essas passagens: a tradição exegética as terá entendido devidamente?. sinais que satisfaçam à natureza intelectual e. sem que haja proporção entre o milagre e o fim a ser atingido. porém.).. Parecem manifestações retumbantes.. torna-se oportuna uma observação de ordem geral. pecado. como se diria.

porém. conseqüentemente. ' Propor-se-á o que os exegetas católicos. o justo Lote. tendo o Senhor resolvido destruir pelo fogo a cidade de Sodoma prevaricadora. a maneira de pensar e falar dos povos pré-cristãos. Os exegetas antigos e medievais. o presente capítulo considerará textos sôbre cujo sentido pairam dúvidas ou concepções errôneas.. a fim de não ser punido com os pecadores. Ao lado. Sendo assim.0 A MIJLIIER DE LOTE TRANSFORMADA EM ESTÁTUA DE SAL (Gên 19. a saber: o significado religioso que tais trechos possuem no conjunto da Revelação (pois. não percebiam certos matizes de expressão e. Muitos dêstes dados vieram projetar valiosa luz sôbre as páginas da Sagrada Escritura. foi primàriamente em vista de uma mensagem de vida eterna que o Espírito de Deus quis fôssem consignados na Bíblia). procurar-se-á pôr em realce o que mais deve deter a atenção do leitor. durante a fuga.15-26) que. que. Eis. com sua espôsa e suas filhas. à luz dos mais recentes estudos.. mandou que um sobrinho de Abraão nela residente. faziam-no por carecer dos instrumentos filológicos e paleológicos que hoje possuimos para recolocar as páginas bíblicas dentro da respectiva moldura semítica. dêstes princípios ainda teóricos. porém. olhar que 1 A chamada "pré-história bíblica" já foi objeto do nosso estudo intitulado Ciénda e Fé na História dos Primórdios (Rio de Janeir02. em virtude desta carência. se retirasse da mesma. entendendo-os como se narrassem milagres. sem dúvida. . eram induzidos a propor uma história sagrada cheia de fenômenos extraordinários. a mulher de Lote. lançou para trás um olhar curioso e inoportuno. desejosa de verificar se se cumpria a promessa divina.15-26) Diz o texto sagrado (Gên 19. 1955). assaz diferente da história normal das relações de Deus com os homens. ao lado disto. pensam sôbre o seu aspecto portentoso. impõem-se à consideraçãb fatos recentes: têm-se descoberto no Oriente documentos que manifestam bem o âmbito de vida. Ora as novas interpretações em não poucos casos diminuem ou removem o caráter portentoso que tradicionalmente se atribuía a alguns episódios.202 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Esta observação já bastaria para levar o estudioso a reexaminar a exegese de um ou outro dos textos sagrados e verificar se autêntica é a interpretação que se lhes dava na antiguidade. § 1. permitindo mais exata compreensão dos seus dizeres.

2 "Fege. 1903). advertem os exegetas que. e irritou-se de tal modo que transformou em rochedo a mulher. atravessava a região com o marido. Como se há de entender a narrativa? De modo nenhum a transformação de uma mulher em estátua de sal implica absurdo ou fenômeno que a Onipotência Divina não possa efetuar. estavam fixos ao solo. foge para a montanha. Ahmud. refere o autor bíblico (v. Contudo não parece ser isto o que o texto sagrado quer dizer se tenha realizado."PEODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 203 contradizia diretamente a instruções dadas pelo Senhor. Alá.Jaussen narra que certo dia. lhe disse o guia: "Vê esta planicie? Outrora era coberta de arrozais. 202." O mesmo refere que no território de Durah. 26). Ao voltar. deu à luz. pecamos". porém. ao atravessar uma planície cercada por montanhas de estranha silhueta. não longe de Durah. "tornou-se uma estátua de sal". tendo-se tornado semelhantes a rochedos: "Perdoa-nos. é preciso ter visitado as regiões do Mar Morto (ao sul ou sudoeste do qual ficava Sodoma) e convivido um pouco com os beduínos habitantes da região. Não olhes para trás nem pares tm lugar algum na planície. para compreender o episódio. . o oficial encontrou os dois malvados imóveis como pedra. a criança. contra os quais o jumentinho de Ahmud tomou a palavra a fim de o defender. acometida pelas dores do parto. Não tendo. No folclore árabe relata-se que Ahmud era oficial muito conceituado junto ao seu xeque Kerak. Depois do incidente." (Gên 19. Lagrange. ao dançar.17. porém. o percebeu. pano a fim de enxugar o recém-nascido. Com insistência particular. disseram-lhe êles com voz surda análoga ao tinir da pedra. ao sul de Hebron. tais como têm sido relatadas por recentes exploradores do Oriente: . 2 Em conseqüência. na zona de Maã. se encontra uma rocha de configuração mais ou menos fantástica. em viagem foi caluniado por dois homens. usou para isto o pão que levava como provisão de viagem. se te queres conEervar em vida. se mostraram incõnvenientes. Alã as transformou era pedra e amaldiçoou a regiao. montada sôbre um camelo.) 3 Cf. prosseguiu a estrada. La méthode historique (Paris. Certo dia. porém. a fim de não pereceres. Essas rochas são jovens que. a propósito da qual o guia ifie contou a história seguinte: jovem senhora. A "transformação de indivíduos humanos em estátuas de rocha por efeito de castigo divino" é tema não raro nas tradições árabes palestinenses. o marido com a espingarda e os camelos. Eis algumas destas.

297s. Le livre de la Genese (Paris. Entre os gregos. tais blocos podem conservar por tempo notável a sua aparência. 301-312. Ovidio (t 17118 dc. a imaginação do povo tenha associado entre si o episódio da mulher de Lote. Não é. Hemnlsch. Assim pensa P. 7 Lote e sua mulher terão vivido no séc. Cadmos e Harmonia incluem semelhante tópico. O conto das "Duas Irmãs Ciumentas". mina inesgotável. recorrendo a imagem comum na literatura de seu tempo. narraram a todos os vizinhos o pro. dêste outro fenômeno. restituidos à natureza humana. A expressão tinha sentido meramente metafórico e parece ter entrado como tal na Escritura Sagrada. o historiador judeu Flávio José dizia ter visto um bloco salino que era comu4 As narrativas são transcritas do comentário de J. Tendo sido assim punida. e uma ou outra dessas pedras às quais a erosão dava aspecto feminino. o autor do livrõ bíblico da Sabedoria (10."petrif icada" conforme o modo de falar antigo. as histórias de Niobe. pela Divindade. Assim. falar de petrificação de um indivíduo era o mesmo que afirmar haver sido castigado. Na região de Djebel Sudum ou Usdum. . o qual refere a Jaussen. 6. Das Buch Genesis (Bonn. 251s.). no decorrer dos tempos.C. 1 d. 1930). porém. aos quais a fantasia popular fàcilmente atribui o aspecto de mulher. alude também a dois príncipes metamorfoseados em rocha negra. hoje correspondente à antiga cidade de Sodoma.204 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de boa índole como era. e severamente castigado. da qual se abastecem as famílias de Jerusalém. 6 Independentemente. Ci. pouco antes da era cristã. 1 no séc. Ora aí as erosões e outros fenômenos geológicos ptoduzein constantemente a formação de blocos rochosos. é possível que uma crosta de sal haja em breve recoberto o seu cadáver. Na realidade. pois. Coutumes des Arabes au pays de Moab. entre os antigos semitas. Metamorfoses. como costuma recobrir árvores e demais objetos postos à margem do Mar Morto. 1949). Chame. dever-se-á dizer que a mulher de Lote foi fulminada pela morte em castigo da sua incredulidade e desobediência ao Senhor. para admirar que.C. a.7) aludia a uma "coluna de sal. pois. monumento de uma alma incrédula" existente na região de Sodoma. então.. Os dois árabes. xviii . ainda se vê em nossos tempos extensa colina de sai-gema semelhante a uma baleia. na série das Mil e Uma Noites. falasse de "petrificação" da criatura renitente. de configuração estranha. 250. Estas averiguações levam a concluir que. é isto o que o texto sagrado quer incutir em primeira linha. a fulminação da espôsa de Lote já era fato suficiente para que o autor sagrado. dígio que com êles se dera. perdoou-lhes. é.

soberano do país.11. indicam os beduínos um bloco de aproximadamente 15 m de altura. porém. mas.14-12. quando fugia de Sodoma. a morte. muito sóbrio.0 AS DEZ PRAGAS DO EGITO (tx 7. § 2. em pormenores: a espõsa de Lote foi fulminada pela morte sôbre a estrada. "Petrificação" e identificação de rochas com os vestígios da criatura incrédula são expressões de mentalidade e linguagem dos povos do Oriente e da tradição israelita. Lembrai-vos da mulher de Lote. constituído chefe do povo."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 205 mente identificado com a mulher de Lote (Ant. porém. não se apontava estátua da espôsa de Lote. Não toca aos homens ponderar os motivos por que o Senhor procedeu tão severamente no caso. conservá-la-á. o Senhor decretou libertá-los. que êles dizem ser "a itulher" ou também "a filha de Lote" (bint Lout) Em conclusão: uma exegese atenta do episódio da mulher de Lote leva a distinguir entre o "fato" e a "maneira literária ou popular" de exprimir o fato. ao empreenderem uma tarefa importante ou a máxima tarefa da salvação eterna. das Gálias. Na admoestação do Senhor. quando a peregrina Sílvia Etéria. Estas expressões. 1. sim. enviou Moisés. procedem fútil ou levianamente. recobrem um fato certamente histórico. Cristo incutia aos discípulos total desprendimento para poderem salvar a sua alma. "quem estiver nos campos não volte atrás.36) Por volta de 1250 a. Para êstes pode-se recear castigo análogo ao que fulminou a desgraçada mulher. Em vista disto. e quem a perder. perdê-la-á. a mulher de Lote vem a ser o tipo de todos aquêles que. isto é." (Lc 17. a morte sobrenatural.4). nutrindo ainda a nostalgia do que abandonaram e permanecendo apegados a prazeres e bens que não lhes são de utilidade para a vida eterna. em vista de uma admoestação salutar dirigida a cada fiel.) Com estas palavras. que em fins do séc. movidos por fé tíbia. em nome . estava o povo de Israel cativo no Egito e sujeito a duros trabalhos forçados. IV. sabe-se. olham para trás. visitou a Terra Santa. à presença de Faraó. Quem procurar conservar a vida. deduzindo o seu significado perene No dia solene do juizo sôbre Jerusalém. ou seja. Em nossos tempos. Jesus mesmo se fêz para nós o intérprete da história. Atendendo ao clamor dos infelizes escravizados.31-33. Não foi para isto que o Espírito de Deus nos quis transmitir o episódio.C. na Sagrada Escritura. a fim de intimar o monarca.

Deus. A morte dos primogênitos dos egípcios: 12. julga-se que as pragas do Egito não foram senão flagelos que. E qual o fundamento desta tese? Ê a observação de certos fenômenos. em mais de um caso.13-35. 9. 8. Com efeito. após uma análise conscienciosa do texto bíblico.12. referem circunstâncias da vida do Egito nos meses de maio e junho. o Senhor houve por bem demonstrar-me o seu poder.1) começaram a se desencadear os flagelos. note-se que as dez pragas se devem ter sucedido entre os meses de junho e abril subseqüente.8-12. Em primeiro lugar. pois. por ordem de Moisés. Tumores e pústulas nos homens e no bestiame: 9. A imaginaÇão humana. das quais sàmente a décima conseguiu dobrar a dureza de coração do rei. de outro lado. no decorrer dos séculos parece ter acentuado a índole extraordinária dos acontecimentos. aludindo à confecção de palha. Geada: 9. Foram. não derroga às leis da natureza. tiveram origem. servir-se .1-20. sendo que o primeiro.26-8. poupando.1-7. Uma vez determinada a cronologia.26).18. certo é que a morte dos primogênitos coincidiu com a primeira Páscoa. e cessaram a mandado do mesmo. sim. os quais podem muito bem corresponder ao que descreve o texto sagrado. sem graves razões. se produzem naquele país por ação de fatôres naturais.29s. naturais no Egito. dado o concurso de circunstâncias particulares. Eis a lista dos flagelos assim ocasionados: 7. porém. Peste sõbre o gado: 9. onde estavam domiciliados os israelitas (cf. ou seja. no momento predito por êste. como se tem dito freqüentemente. milagres não em si ou por seu desenrolar intrínseco. Eis como. Conversão das águas do rio Milo em sangue envenenado: Êx Invasão de rãs nos rios e nas casas do Egito: 7. antes. e 5.11-25. os versículos Éx 3. desenvolveram-se com veemência fora do comum.21-27. Onda de mosquitos: 8. porém.16-28. como se verá abaixo. Trevas sôbre o país: 10. falando de pastoreio de ovelhas na estepe. Sanha de mõscas venenosas ou de vespas: 8. dentro do período assinalado. se há de reconstituir a história. Faraó.1. a região de Gessen.68. porém. por isto.12-15. além dos têrmos intencionados pelo próprio Deus. procura. O autor sagrado incute o caráter portentoso de tais pragas. condiz bem com a situação do país em junho. a libertar os israelitas. Ora. desencadeando dez pragas sôbre o Egito. mas em vista do modo como se verificaram. Invasão de gafanhotos: 10. atribuindo-as à intervenção explícita do Senhor. com o início da primavera (mês de abril). Ora pouco depois (6.11. não se quis render ao pedido.206 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de Deus.

10 Çf. 97. juntamente com os coanoflagelados que aderiam à couraça das mesmas. 9 "AS famosas pragas do Egito.. H. o que bem se explica pelo fato de trazerem as pulgas de água algumas gatinhas de óleo vermelho no seu organismo. como D. 1947). aponta fatos hstóricos que podem servir para ilustrar o texto bíblico: em setembro de 1913. Da sexta praga em diante foram êles mesmos atingidos. portanto. Israel et te judalsme dans l'Áncien Orient (Bruges.14s). A título de confirmação. ocasionando o perecimento dos peixes da baía por sufocação. anualmente verificada em fins do mês de junho. l{einisch. e em circunstâncias diversas. Lesêtre. Normalmente. caso se tomem numerosos. Das Buck Exodus (Bonn 1934). o qual se pode parecer com a transformação da caudal em rio de sangue. Por ocasião da terceira praga. 10 estes fatos dão a ver que. 154. verificou-se numa baia perto de mel (Alemanha) a irrupção de numerosissimas pulgas de água (daphniae. As águas costumam tomar então aspecto vermelho por causa de detritos de barro que descem dos lagos da Abissínia. P. 216. 312. professor da Universidade de Nimwegen (Holanda). porém. em Dictionnaire de la Bible. 1 (Paris. II." O. está averiguado que também cers 'flagelados" rubros (englena sanguínea). (Paris2. 1 disto se depreende que se tratava de fenômenos decorrentes das energias da natureza devidamente exploradas. crustáceos cladoceros). eis o sinal de que eram enviadas por Deus. confessaram sua Incapacidade (cf. um ou outro dos flagelos provocados por Moisés. La Bible et les découvertes modernes. É o que sugere que a enchente da primeira praga haja sido acompanhada por outro fenômeno. O fato. de que se tenham verificado no momento preciso em que Moisés as evocava. Éx 7.e realmente não terão sido fenômenos até então inauditos. "Plaie". A massa dos crustáceos invasores dava a impressão de que um corante avermelhado havia sido derramado nas águas. estas. dão colorido sanguíneo à água. 3). resta considerar como se desenvolveram as dez calamidades. 1912). consumiram todo o oxigênio da água."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 207 do curso habitual dos elementos para realizar os seus maravilhosos desígnios. como talvez a invasão de pequenos animais dentro do rio. Histoírc Sainte (Paris. . 1953). Assim o primeiro e o segundo (cf. os quais tornaram venenoso o manancial. O primeiro flagelo se deve à enchente do rio Nilo. as águas de um rio ou lago podem tomar coloração vermelha. Ricciotti. Histoire d'israel.. observa-se que os magos do Egito puderam reproduzir. Também a renitência do Faraó insinua que o monarca não se impressionou pelas nove primeiras pragas. A mesma sentença é sustentada por outros autores católicos.. V.-Rops. ° Posta a conclusão acima.22. tudo isto era familiar aos egípcios.. estas. 1. o chamado "Lago Vermelho" perto de Lucerna (Suíça) deve o seu matLz caracteristico a uma espécie de alga (oscillatoria rubescens). 81. porém. por via natural. as águas da cheia não são nocivas nem aos homens nem ao gado. Heinisch. O. ao menos em setor restrito. 1945). 451s. 8. 8. é êste o fenômeno dito "do Nio vermelho". Vigouroux. Buysschaert. parecendo transformadas em sangue. não lhe pareciam .

nenhum fenômeno ordinário se lhe pode comparar. que. Faraó. onde tal calamidade parece ter ocorrido com certa freqüên•cia (cf. Sua ação se faz sentir em março ou abril.9). pois. Normalmente rãs e mosquitos põem ovos na água ou sôbre as águas. As águas terão ocasionado também o ambiente favorável à reprodução extraordinária de môscas venenosas. Poderá haver algum intento sábio na provocação de tanto furor da natureza? Sim. terão sido acarretadas pelo famoso vento quente dito lchamsin ou simun.2. mormente em países orientais. por vêzes ainda em maio.26). As invasões de rãs. Inundações e invasões de animaizinhos provocam não raro doenças e epidemias. quando ela se verifica no Egito. carregando consigo enormes quantidades de areia. parte do exército de Cambises foi sepultada nas areias dêsse vendaval. e não permitirei que Israel se vã. Foi decisiva para que Faraó se rendesse.4. recusou-se.Quanto às trevas.) . Quando. deixando sair Israel? Não conheço Javé. durante os quais ainda hoje as estações ferroviárias funcionam à luz acesa em pleno dia. penetram nas habitações dos homens e os molestam. mosquitos e vespas (segunda. No tocante à décima calamidade (morte dos primogênitos). que constituem a nona praga. suficientemente espêssas para provocar escurecimento da atmosfera. Am 4. . até seis dias contínuos. Conforme Heródoto (3. se verificam inundações. A geada (sétima praga) é fenômeno que se terá produzido no mês de fevereiro. por meio de Moisés intimara o soberano do Egito a deixar partir o povo hebreu. tratando com os homens segundo a sua condição de criaturas livres. três. como as que se deram na quinta e na sexta praga. Uma invasão de gafanhotos (oitava praga) também não seria para estranhar em fev&reiro ou março. em conseqüência. onde os mesmoSse desenvolvem. faz-se mister realçar a mensagem religiosa em vista da qual o Senhor permitiu o seu desencadeamento. porém. Entendidas as pragas do Egito no respectivo ambiente e clima. terceira e quarta pragas) são conseqüências das enchentes do Nilo.208 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A esta seguiram-se outras calamidades conforme um encadeamento assaz compreensível." (Éx 5. Ji 1. multiplica-se um dos fatores principais para o aparecimento de tais animais. Éste sopra a partir do deserto. replicando "Quem é Javé para que eu obedeça à sua voz. e no decurso de dois. Deus.

obtendo finalmente do homem relutante o reconhecimento e a homenagem devidos. Aarão lançou uma vara ao chão. Logo. o Senhor desencadeou. nada pode frustrar o seu desígnio de fazer que o mal do homem sirva ao Bem de Deus e que êste na fim da história do mundo obtenha a vitória sôbre aq. a sua imitação por parte dos magos. de dura cerviz ou fé vacilante (como. a sensibilidade de homens empedernidos. A lição se dirigia primeiramente a Faraó. só se pode entender por um concurso de agentes naturais devidamente explorados pelos "sábios" da côrte. As pragas . 11 Se tal não foi o artifício aplicado pelos magos de Faraó. O mesmo prodigio é atribuido aos magos de Faraó . como hábeis prestidigitadores. recupera a natural mobilidade. aliás. tomaria consciência de que o Criador é fiel na execução das suas promessas. tipo do homem soberbo.que. sob permissão divina. Nada escapa ao plano do Criador. Moisés e seu irmão Aarão efetuaram em nome de Deus. Heinisch.11 PE0DÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 209 O monarca se obstinou mesmo diante de um prodígio que. terão feito desaparecer aquêles e lançado estas ao chão. pode-se admitir que tenham levado à presença do monarca bastões e serpentes ocultas. Éste povo.mas a serpente de Aarão devorou as dos magos. a qual se transformou em serpente. ao contrário. Deviam tomar caráter exuberante. O ensinamento aproveitaria também a Israel (ou aos fiéis de todos 9s tempos). eram utilizadas para muitos fins. éste então toma a forma de bastão retilíneo. a seguir. esteio de obstinação contra Deus. com evidência crescente. proporções muito vastas.. a soberania absoluta do Deus de Israel. porém. não há obstáculo que Lhe impeça o cumprimento de 11 cf. todo homem pôsto diante dc mistério de Deus). a fim de impressionar a fantasia. mediante encantamentos. o trato com serpentes. que se faça cessar a pressão e com violência se atire o "bastão" ao solo. para corroborar a intimação.uêle. o qual havia de compreender que Javé não era o Deus desprezível de um povo escravizado (na antiguidade se avaliavam os atributos da Divindade pelos predicados do povo que a cultuava). sim.. . mas.. O fato de que a serpente de Aarão devorou as dos magos era portento suscitado por Deus para significar que a sabedoria dos homens não prevaleceria contra os designios divinos. Ainda em nossos tempos diz-se que reproduzem a conversão referida pelo texto do Êxodo: há um tipo de serpente em cuja cabeça determinado centro nervoso pode ser delicadamente comprimido de sorte a provocar ããibra ou entesamento de todo o animal. Ao passo que a transformação realizada pelo homem de Deus a mandado do Senhor se reduz simplesmente à ação da Onipotência Divina. por gestos rápidos.10-13). é o Soberano capaz de encer a dureza de cora r ção das mais altivas criaturas. as quais. Aos egípcios e orientais era familiar. obteve de seus magos a realização de portento semelhante (CL Éx 7. -Ezodus. tinham por fim demonstrar. 74.

Moisés. palavra que fizera apostatar não poucos dos ouvintes de Jesus (cf. Pergunta-se. porém. Alcançou-os perto do Mar. aterrorizado. sem demora. a mandado de Javé. não fôra uma intervenção extraordinária de Deus. às margens do mar Vermelho. Eis. de sorte que a multidão israelita se viu comprimida entre as águas. Como escaparia ao perigo iminente? O Senhor fêz que a coluna de nuvem que antecedia Israel. gado e demais haveres. . Com efeito. entrando no corredor aberto. após as primeiras etapas dos emigrantes. a quem iriamos nós? Téns as palavras da vida eterna 1". estendeu a mão sôbre o mar. resolveu ir-lhes ao encalço.. se colocasse entre êste e o exército egípcio. seguiram-Lhes as pegadas. Éstes. Era a oportuna válvula de salvação . Faraó. mas ordenou. e as tropas inimigas. do outro. dividindo o Mar Vermelho. causando opacidade entre os dois acampamentos. Moisés. que. confessava Pedro após ouvir a "palavra dura" de Cristo (Jo 6.66). porém.210 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO sua palavra. levando mulheres. se retiraram em caravana na direção do Oriente.5-31) O texto sagrado refere que. Chegando. A TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 14. se o texto bíblico insinua de fato tão extraordinária intervenção da Onipotência Divina. realizou um prodígio totalmente insólito ou alheio à natureza dos elementos. Faraó.68 e 60). passando o mar a pé totalmente enxuto! Quando os soldados de Faraó perceberam que os fugitivos se haviam lançado na direção do mar. após a décima praga. . mais uma vez estendeu a mão sôbre as águas. Como se há de entender esta narrativa? Do texto sagrado se poderia inferir que o Senhor. não sàmente permitiu. que então se fecharam sôbre a tropa de egípcios.. crianças. pois. de modo a formar no meio das águas um corredor. viram-se em graves apuros. deixassem os israelltas o Egito. arrependido da concessão. A confiança no Senhor seria incutida 'como atitude que na alma humana deve prevalecer contra a pusilanimidade e a revolta. ao despontar do dia. A seguir. por nova ordem do Senhor. "Senhor. um vento impetuoso de leste pôs-se a soprar durante uma noite inteira. que lhes teriam acarretado a morte. § 3. fazendo perecer os perseguidores. porém. 6.° A PASSAGEM DO MAR VERMELHO E 00 RIO JOROAO 1. de um lado. os israelitas por êle enveredaram.

e se prolongava do outro lado das águas. o fato de que os egípcios se precipitaram águas a dentro. e reabastecer as caravanas que do Egito se dirigiam às minas do Monte Sinai. suficiente para criar entre o Egito e o deserto de leste um obstâculo importante. os quais só aos poueos foram sendo separados pelo istmo de Suez. supõe que não tinham a travessia na conta de coisa impossível. vau ainda utilizado em nossos tempos (é a passagem 12 13 .). intermitente talvez conforme a altura média das águas do mar . o mesmo explorador encontrou as ruínas de um edifício que. mais precisamente: na época do êxodo. situada nas proximidades da estrada e do vau referidos. marés. canais e pãz3tanos senão pelo vau de Sues (entre Teu colzum e a cidade de Suez contemporânea).o que basta para que a travessia dos israelitas conserve todo o seu caráter milagroso -. descobriu vestígios de uma estrada que. Nesta sua extremidade setentrional o mar. ) em que se verificou. ao pé do Djebel (monte) Abu Hasa.incorveja-se o mapa respectivo no fim do livro. o pôrto de Colzum. oficial de marinha frantês encarregado durante muitos anos do serviço do canal de Suez. e com razão. passagem cuja utilização dependia das circunstâncias de ventos. em território egípcio. 1240 a.. passando pelo Egito. ou seja. Bour don. desembocava num vau ainda hoje existente na parte meridional dos Lagos Amargos. Eis verbalmente o parecer de Bourdon: "Julgamos que em tempos históricos. visto o vento impetuoso que. Há decênios atrás. Não existia passagem através dessa rêde de lagos. mas também os vestígios de arqueologia recém-descobertos. havia uma passagem através das águas que então constituíam o Mar Vermelho. de leste soprando sóbre as águas. levam a concluir que a divisão do Mar Vermelho se deve a uma concatenação de causas naturais.. deviam julgar que a passagem se tomara praticável naquela ocasião. Na época de Moisés (ca. conforme as inscrições. nos tempos de Moisés. havia entre o leito atual dos Lagos Amargos e o fundo do golfo de sues uma comunicação precária sem dúvida. Sim. que tendia a recuar. não devia ser muito profundo. Eis como se explicam tais autores: Nos tempos pré-históricos comunicavam entre si os Mares Mediterrâneo e Vermelho. Ora o texto bíblico insinua que o êxodo dos israelitas se fêz por um vau. é hoje um acervo de ruínas situadas a dez quilómetros do litoral. só tendo de extraordinário as circunstâncias (hora. devia servir para proteger ã fronteira. etc. impedindo entrassem na terra do Faraó invasores indesejáveis. era bem capaz de nelas abrir um corredor. esta construção. julga-se que o Mar Vermelho se prolongava ainda até os Lagos Amargos e talvez o Lago de Tiznsah (situados hoje no referido istmo). era simultâneamente templo religioso e fortim militar. 13 O que os egípcios ignoravam ."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 211 A isto respondem competentes estudiosos que não sàmente o livro sagrado.C. lagunas. duração . donde na Idade Média partiam as naves para a Índia. 12 Tais descobertas levam a admitir que.

que no desastre hajam perecido todo o exército do Egito e o Faraó.46.era o modo maravilhoso como se tornara transitável o vau: o vento fôra suscitado por Deus no momento favorável a Is±ael. Ricciotti. 2206. aliás.28. Tito Livio. 55-61. Polibio 10. Isto se fêz. é possível que tenha tomado parte na expedição.26.). contudo não se lhe pode atribuir grande pêso na exegese do Êxodo. Das Buch Exodus. Histoire d'Israel. o vento qadim.212 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rendo por isto num êrro fatal . O novo chefe devia consumar a obra do antecessor. que morrera deixando Israel à entrada da terra de Canaã. o chefe romano Ciplão dito "o Africano" conseguiu entrar em Cartago por um lado da cidade contiguo a uma laguna. o texto bíblico. 120.23. (Düsseldorf. 42 (1930-31).7-17) A Moisés sucedeu Josué no govêrno do povo de Deus. Ora aconteceu que um vento Inesperado removeu as águas e permitiu que quinhentos soldados romanos tivessem acesso a Cartago (cf. SoaIlard. 13. w. 120. talvez pouco mais de mil carros armados hajam sido tragados pelas águas. disto se poderá deduzir que se desenvolvia outrora junto às águas que prolongavam o hodierno Mar Vermelho e deviam constituir prôpriamente o Mar dos Juncos.C. em Expository Times. O texto de Éx 14. "The passage of the . como narra o haprincipal). 135. era mister atravessar o Jordão. Keller.4s).22. parte que atualmente já não existe: o texto biblico fala de passagem do "Mar dos Juncos". começa de imprevisto e cessa também repenti' namente).9. autor que apela para H." Texto citado por O. ou pelos vaus do pequeno Lago Amargo na vizinhança da atual extremidade meridional dêste último. em trechos como Jos 2. os cartagineses não se preocuparam com a defesa dessa zona. 2.4). Quanto ao monarca. Und die Bibel hat doch recht.7 refere ter-se feito uma seleção de armas e guerreiros para constituírem a tropa perseguidora.26. ó deixaria de soprar logo que o povo eleito o pudesse dispensar (sabe-se. 14 a. H. já que as águas pareciam constituir obstáculo natural aos invasores. 1955).10. A seguinte observação parece do seu modo insinuar que a travessia se fêz pela parte setentrional do mar. Historiar. Heinisch. Ora. A PASSAGEM DO RIO JORDÃO (Jos 3. 1. 51105. recordando o seguinte episódio da história profana: Nas famosas guerras púnicas entre Roma e Cartago (264-146 a. Ora às margens do Mar Vermelho não se encontra o arbusto do junco. porém. que o sirocco da Arábia. 1. 7. não do "Mar Vermelho".Red Sea". Um ou outro exegeta 15 tenta de certo mddo ilustrar a passagem. 14 Não se creia. não o di2 (cf. . para penetrar na Palestina. O episódio é significativo. 15. 16 Cf. lix 14. se se têm em vista os térmos muito sóbrios com que os historiadores greco-romanos se referem ao assunto.

Além disto. então. Não é necessário.7. o Senhor. assim o leito da corrente apareceu sêco. contràriamente às leis da natureza. Edo 24. Então o Senhor mandou que dois sacerdotes. obstruindo o fluxo das águas pelo espaço de 21 h. terminada esta. quis reproduzir o portento realizado no princípio da obra de Moisés. apressaram-se em consolidar os Cf. cuja altura atinge 13 m.14. dificultava grandemente o lançamento das pilastras de base. mas é pouco profunda. por ação de um terremoto. Não se via como a multidão de Israel poderia atravessar. situada no além-rio. a 25 km ao norte de Jericó). a pé enxuto. Jos 3. e que fàcilmente desmoronam. constituíram repentinamente um muro imóvel em Adom. verificaram que o Jordão deixara de correr. a fim de mostrar a Israel que Deus dirigia o novo guia como sempre orientara o anterior. e os filhos de Israel o transpuseram fàcilmente.0 Jordão na região de El-Damieh. 16 .'" Seguem-se as instruções para a travessia do Jordão. como estive com Moisés. paralelamente ao que se deu na travessia do Mar Vermelho. retiraram-se e o rio continuou o curso normal. 4."PRODÍGIOS" E PEODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 213 giógrafo. A semelhança dos dois fenômenos é de certo modo explicada pelo texto sagrado: conforme Jos 3. na região de Adom (El-Damíeh) as águas do Jordão correm entre bancos de argila. a caudal interrompeu o seu curso.15). a corrente chegou a derrubar e arrastar algumas destas.23. desabaram sôbre o leito do rio. logo que isto se deu. ocasionando a cheia brusca e impetuosa do rio (cf. o ímpeto das águas. época em que o sol da primavera faz derreter as neves do monte Hermon. Com efeito. Corria então a época da messe (março-abril).26 e 1 Crôn 12. para que saibam que estarei contigo. entrassem no rio. 16 E como se deu a intervenção divina? A caravana israelita estacionou à margem esquerda do Jordão. no início da missão de Josué. admitir tão estupenda intervenção do Criador. porém. os sacerdotes detentores da arca permaneceram imóveis por todo o tempo da travessia. porém. carregando a arca da Aliança. nessas circunstâncias a própria natureza veio em auxílio aos operários: à meia-noite de 7 para 8 de dezembro. depois de implantadas. diante da cidade de Jericó. por exemplo: O Senhor disse a Josué: 'Hoje começarei a exaltar-te aos olhos de todo Israel. no episódio. à luz de tochas. a torrente tem aí a largura de 80 m aiíroximadamente. ainda em 1927.7. sabe-se que em 1267 o sultão do Egito Melik-Daher-Bibars II desejava mandar construir uma ponte sôbre . detendo-se perto da cidade de Adom (hoje El-Damieh. Que interpretação se há de dar ao texto bíblico? Nada se pode objetar a quem julgue que as águas do Jordão.

a estas os quarenta mil filhos de Israel (cf. f echaram-se no interior destas. se espalhavam pelo vale ao norte do dique. . junto com os sacerdotes. No sétimo dia. quiseram investigar a causa do fenômeno: enviaram rio acima exploradores a cavalo.1-20) parece ter sofrido glossas no decorrerdos tempos. os guerreiros hebreus.-M. os habitantes da cidade. o que se verificou: Havendo os filhos de Israel acampado diante de Jericó. é plausível afirmar que Deus se tenha servido de semelhantes meios para possibilitar aos israelitas a passagem do rio. para poder ser bem defendida). porém. os quais averiguaram que enorme bloco de terra da margem ocidental se havia precipitado no rio. os desfiles se fizeram ao som das trombetas dos sacerdotes. obtendo por fim estrondosa vitória. 1933). se os fatôres naturais na zona do Jordão podem produzir tais fenômenos. É o que a Sagrada Escritura explicitamente recorda num dos livros posteriores do Antigo Testamento: 17 Noticia devida a F. Contudo. os filhos de Israel defrontaram-se com a cidade de Jericó. em conseqüência. 1 (Paris 2 . ademais as recensões hebraica e grega apresentam pequenas divergências entre si. que levavam a arca de Javé. pôde a torrente retomar o seu curso normal. a mandado do Senhor. a fim de se certificar da futura estabilidade da obra. por seis dias consecutivos deram processionalmente a volta da cidade (a qual não devia ter perímetro muito longo. § 40 A QUEDA DOS MUROS DE JERICÓ (los 6. " Ora. as muralhas de Jericó desmoronaram e os assaltantes puderam penetrar na cidade.1-20) Logo após a travessia do Jordão. após os quais ressoaram as trombetas.214 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fundamentos da ponte. confiantes no poder de suas muralhas. Abel. prestando-se atualmente a diversos ensaios de reconstituição e interpretação. após haver vencido o obstáculo. em grandes linhas. Eis. efetuaram sete circuitos. em conseqüência. sómente pelas dez horas da manhã. Tiveram que se dispor ao assalto do reduto inimigo. 481. que só se verificou por intervenção extraordinária de Deus. Jos 4. constituindo uma barreira artificial. O texto bíblico referente ao episódio (Jos 6. trata-se aqui de um feito maravilhoso.13) responderam imediatamente com brado poderosíssimo. Foi então que. esperando que a penúria ou alguma inclemência da natureza obrigasse os invasores a retroceder. Não há dúvida. habitada por cananeus hostis. as águas. Géographie 4e Ia Palestine.

Alguns apelam para o testemunho de cronistas da antiguidade." Merece atenção o fato de que o autor refere êste estratagema sob o título "Dc faflendis ijis qui obsidebuntur. nem toque de trombeta nem clamor de guerra emanava de Israel. A cidade foi tomada. sem catapulta e sem máquinas de guerra. julga o Pe. Abel O."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 215 "O soberano Senhor do mundo. é obrigado a afirmar que as "passeatas" dos israelitas se realizavam em absoluto silêncio. professor da Escola Bíblica de Jerusalém." IS Baseando-se neste testemunho. Como se procede para enganar os que são sitiados. fizeram repetidos circuitos da cidade ou do acampamento sitiados. Abel. e os moradores se renderam. É de notar.15. e o desmoronamento subseqüente? Pressupondo que eram um estratagema bélico. visto então que negligenciavam o serviço de vigiláncia. mas também às que enganam e desnorteiam o adversário). derrubou os muros de Jericó nos tempos de Josué. os quais referem que tropas assaltantes. o que narra Sexto Júlio Frontino. Domício transformou essa espécie de passeata em ataque repentino. Assim 1. de sorte a não provocar suspeita ou alarma na cidade de Jericó. a seguir. E.) Contudo não pode deixar de chamar a atenção o artifício prescrito pelo Senhor. torna-se lícito o recurso não sõrnente a manobras cruentas. localidade defendida tanto por sua posição geográfica como por obras de fortificação. que Josué recorreu a tática semelhante com a intenção de fazer crer aos habitantes de Jericó que os seus planos eram pacíficos e não visavam uru ataque à cidade (em tempo de guerra justa. que o ilustre exegeta. 3. porém. em um ou outro caso. apelando para critérios filológicos.. os exegetü têm procurado estabelecer um nexo entre ésses desfiles e a vitória final. a fim de inferir êste traço da narrativa bíblica. por exemplo. . distingue dois documentos fontes do 18 Stratagemata. com seus toques de trombeta. Precisava o Todo-Poderoso de que os israelitas fizessem o circuito da cidade para que lHe desmantelasse as fortificações 2 Que relação há entre as procissões. ao acampamento. Eis. autor da obra Stratagemata (catálogo de estratagemas) sob o Imperador Domiciano (81-96) "fornido Calvino cercava na Ligúria a cidade de Luna. P. reconduzindo-as. Esta tática incutiu aos habitantes a convicção de que os romanos não queriam senão exercitar-se." (2 Mac 12. Muito freqüentemente mandava que tôdas as suas tropas desfilassem ao redor da mesma. 2. para construir a sua hipótese. 1. com o fim de ludibriar o inimigo.

20 ora no caso parecia que o Deus de Israel se anunciava mais forte que os deuses de Jericó.8-11). documentos dos quais o primÉlto. em Revue bibflque ) 56 (1949). a guerra era ação religiosa.mdo. teriam tido por fim aterrorizá-los! . ° CI. o número setenário (dos desfiles. TESTAMENTO texto atual de Jos 6. A ostentação da arca (quase "estandarte" da teocra.216 PARA ENTENDER O ANTIGO. julgavam que os respectivos deuses pugnavam entre si. protetor poderoso desta gente.-M. apelando igualmente para a mentalidade e a praxe dos antigos. dada a escassez de dados. Jos 2. sim. na travessia do Mar Vermelho e no deserto. haviam ouvido falar dos prodígios realizados por Javé em prol dos hebreus na saída do Egito. Êstes admitiam. Josué soltou o brado de avanço. para os antigos. Assim os desfiles em tôrno de Jericó teriam desempenhado o papel de causar pessimismo psicológico e religioso aos assediados: quando no fim dos sete dias de estratagema. explique de outra maneira o valor bélico dos circuitos praticados pelos filhos de Israel. os exegetas por vêzes sugerem um ou outro particular que a narrativa lhes parece oferecer 19 F. explorando êste estado de alma. o brado final deviam ser ritos aptos a impressionar os "supersticiosos" moradores de Jericó. Abel4 "Les stratagèmes dans le livre de Josué". Sôbre êste fi. 125-128. junto com os povos que se defrontavam. Caso se admita uma das duas hipóteses acima propostas. o toque das trombetas. como se mostrara mais poderoso que os dos egípcios e de outras nações. os desfiles dos israelitas podiam-lhes parecer equivalentes a uma tomada de posse do terreno em nome do Deus Forte de Israel. Esta sentença não pode ser comprovada de maneira decisiva. . 325s. lhe parece narrar unicamente desfiles silenciosos! 19 A sentença do Pe[ Abel não deixa de ter autoridade. o "fundamental".cia israelita) acompanhada pelos sacerdotes e os guerreiros. dos dias de cêrco). Há queüi. Em vez de tranqüilizar os habitantes de Jericó. É o que a toma discutível. a existência de um Deus próprio dos israelitas. É preciso não esquecer que. como também nada de sério se lhe poderia objetar. 2. ainda fica margem para a pergunta: como se deu o assalto à cidade após a preparação psicológica dos sete dias? Sem poder reconstituir o quadro com precisão. condenando-os ao anátema. pãgs. sendo símbolo de totalidade. devia insinuar a êsses homens a ruína total que o pujante Senhor lhes destinava. Contudo baseia-se num postulado que não pode ser estabelecido com segivança. já não terá encontrado grande resistência por parte dos defensores da cidade. isto tudo os fazia temer (cf.

antes do cêrco da cidade. e não as muralhas. 21 22 a. com valor homah. Coppens.16. enquanto operários israelitas cavavam galerias debaixo das muralhas de Jericó. J. a recomendação de silêncio. poupando apenas a casa de Rahab.15-20). . van Hoonacker. Éstes. no fim da Escritura. os homens que montavam a guarda às portas de Jericó. os estudiosos fazem notar a precisão de topografia e de sinais..) 23 É esta a sentença de A. J. prometido dar ingresso aos invasores pela sua casa. coppens e E. não militar. atraiçoando os concidadãos. pois. teriam caído. logo que se propusessem empreender o assalto. sim. Jos 2). 163.15). 22 Significaria então a guarnição militar. uma vez terminados os trabalhos. Se. no diálogo travado entre Rahab e os exploradores (cf. 29s. Uma consideração mais atenta dos trechos sagrados insinua que o seu significado primordial é de outra ordem: é significado religioso. embora muito eruditas. o Apóstolo de Cristo se refere ao episódiõ: 322s. não possuem senão o valor de suposições mais ou menos fundadas no texto e na arqueologia. posta no perímetro das muralhas. que J. Estas diversas conjeturas formuladas para explicar os desf iles dos israelitas como estratagema bélico. Entrando em Jericó. ibid. metafórico que êle ocorre. permitindo o ingresso na cidade sem desferir algum golpe. decidira salvar-se com os seus familiares." (1 5am 25. 21 pode-se interpretar em sentido figurado o têrmo hebraico geralmente traduzido por "muralha". os filhos de Israel teriam conseguido penetrar na cidade. Com efeito.-Rops. estiveram em Jericó (cf."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 217 os espiões que. terá. desfalecido de terror após o estratagema de Josué. concluíram um pacto com a meretriz Rahab. série (1945) • 304-6. . 1943). É. "A propos des muralUes de Jéricho". Tournay. cuja casa estava situada na periferia da cidade (cf. Esta mulher. o brado mais forte teria sido sinal para que pusessem fogo à armação de madeira que sustentava os muros e se retirassem. 24 3. 24 Sentença brevemente referida por D. os invasores lhe teriam ateado fõgo. homens de Davi nos serviram de muralha (homait) tanto de noite como de dia.16.. 2. Le chanoine Albin Vait Hoonaeker (Paris. teriam capitulado. crendo que realmente Javé havia de entregar Jericó aos hebreus. Não se pode insistir sõbre o papel estratégico de tais procissões. Para apoiar a tese. Tournay por sua vez preconizam. em Vivre et pense?. o pânico teria então irrompido em Jericó. • ' Os a. .. em 1 5am 25. 2. eis os têrmos com que. por exemplo. 23 o toque diário de trombetas teria sido um artifício para prender a atenção dos habitantes de Jericó. Aproveitando-se da situação confusa e das ruínas causadas pelo incêndio. Histoirc Sai nte (Paris. isto é.. 1935).

Histoire d'israel et de l'Aiwien Orient (Paris. por consiguiente. em recompensa da fé. o Senhor se tenha servido de causas segundas. 1953). .30. graças às armas (Ia fé (cf. Schulz. foram inculcadas primàriamente para que os filhos de Israel tivessem ocasião de exercer a sua fé. que dispensa máquinas de guerra desde que le queira realizar algum desígnio. L'Epitre auz Ei ébreux. Dennefeld. encaminada a dirigir los altos destinos dei pueblo. A. mas estos sefzaiaban ya de ant em ano ei instante dei dernsmbamiento y excinian. 277. praticando aquêles artifícios (cujo valor militar é incerto e não importa muito no caso). Ademais não se pode esquecer que a conquista de «Jericá tinha significado religioso. Depois de ter experimentado essa fé. como as guerras de Israel em geral (cf. antes do mais. L. 1935). depois de se lhes haver dado a volta durante sete dias. cuya eficacia tanto mãe resalta cuanto más in. Spicq. como se Javé visasse ensinar aos seus fiéis um estratagema bélico. ei objeto era hacer ver a Israel que ei resultado Javorabie se debite no sólo a las armas. Verdade é que entre a atitude de fé dos hebreus que assediaram Jericó. Ricciotti.° 1. a manobra adequada . porém. 1 (Barcelona2. Das Buck Josue (Bonn. não nos seria lícito fechar os olhos a ulteriores considerações: é bem possível que. págs.) Esta breve frase estabelece um nexo entre a fé dos israelitas e a conquista de Jericá.. mientras por otra pane ei proceder de los israelitas fué un hermosisimo testimonio de su confianza en Dios. sino por la omnipotencia divina. não. Histoire d'israel 1. 22s. os hebreus. para entregar Jericó aos israelitas em prêmio de sua fé. n. M. sino a DiOS.. 25 Cf. II (Paris. 1924). toda expliccicián natural dei hecho. O. são superados os obstáculos mais pujantes que se opõem à posse da Terra prometida. professavam crer no Auxílio de Deus. etc. 125-128). sín la anal no se hubiera realizado ei prodigio: 'Por la fe se derrumbaron los muros nos de Jericól" (Hebr 11. o Senhor recompensou-a com retumbante vitória.218 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Foi pela lê que Os muros de' Jericú desmoronaram. seja aqui transcrito ainda o testemunho de recentes e abalizados exegetas católicos "Las ejete vueitas alrededor de Jericó con ei Arca de ia Alianza tiene mede manobra militar que de religiosa. hicieron realtar ei suceso como obra de Dias. Isto quer dizer que. 349. Se tivésseis fé como um grão de mostarda!" C. 177.13s). 1946). RI carácter religioso de ia cosa. eia alcança o que intenta. e a conquista da cidade medearam os desfiles de sete dias. foi aquela que de Deus obteve esta. Os seus frutos são evidentes: a primeira grande praça-forte cananéia caiu em mãos do povo de Deus. Texto de Schusber-Holzanuner. 25 Firme êste princípio básico para a interpretação do episódio. porque Deus intervém comprovando-a." (Hebr 11. Bons autores pensam que permitiu um terremoto em momento oportuno. 26 à semelhança do que se verificou posteriormente numa bataiha 25 "A fé pouco se preocupa com os meios. Tais cerimônias foram prescritas pelo Senhor. ei sagrado número siete. 361. Historia bíblica. .eficaces eran en si miemos los medias empleados.30). Ef 6. Porque no se derrumbaron las murailas por ei griterlc dei pueblo ti por ei resonar de las trompetas ti por ias siete vueltas.

Sab 16. Em conclusão: as manobras dos hebreus em tôrno de Jericó têm primàriamente o significado de um testemunho da fé que Deus exigia de seu povo. 1946). § 5. as excavações levadas a efeito desde 1908 no local da antiga cidade fizeram ver que a muralha de Jericó construída após 1600 a.2-36. exprime um grito de índole fortemente gutural. Os exércitos antigos costumavam desmcadear as suas batalhas mediante veemente clamor (alalá. 29. Eis o que as páginas sagradas a seu respeito referem." 28 Lembra o chefe israelita à sua gente: 'Os homens de Jencó combateram contra vós. 27 Não terá dispensado de pequenos combates o exército de Josué. visto que o texto sagrado não fornece os elementos para isto. mas se restringe ao episódio que realçava a influência do fator "fé" na campanha bélica. deixaram de se] sustentados pelo maná (cf. é onomatopaico.C. A resposta do Senhor ao seu povo consistiu certamente numa iatervenção poderosa. sofreu destruição.12).C.11. ou seja. . Em suma.C. .4-9.° o MANÁ (tx 16. a sua finalidade imediata era provocar um bem de ordem espiritual numa gente rude como Israel. Éste vem a ser mais um ma bíblico por vêzes submetido a hesitações e interpretações. (ora Josué tomou Jericó por volta de 1200 a. 27 teus .)."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 219 contra os fiisteus. portentosa. Analyse d'tia rite biblique (Neuchãtel. embora o assinalem geralmente ao intervalo que corre entre 1400 e 1200 a. Núm 11.. Jdt 7.20-29) Ao entrarem os israelitas na terra de Canaã. pois a única fonte de abastecimento pode ter estado fora dos muros do reduto. a. o seu lado orietal foi mesmo totalmente arrazado.. Cf. excitar uma sincera atitude religiosa perante o verdadeiro Deus.5. Quanto à arqueologia. havia um terror de Deus. Jos 5. barritus. a êstes alude Jos 24. entre os germanos).6). 1 5am 14. La "Terou'a". é de crer que o texto do livro de Josué não nos refere a história completa da tomada de Jericó. 29 Nem se exclui a ação devastadora da sêde na cidade cercada. 28 O clamor proferido pelo povo israelita imediatamente antes de assaltarem a cidade parece não ser senão a terou'a ou o brado de ataque que marcava o início das batalhas de outrora. Os arqueólogos discutem sôbre a época precisa em que se deu o desastre. Veja-se a propósito P." 2u Jos 6. como insinuam as letras r e ' do vocábulo. entre os gregos.15: 'O espanto apoderou-se do acampamento dos filisa terra tremeu. O térmo hebraico terou'a (clamor) • ocorrente no versículo acima citado. como às• vêzes acontecia (cf. cessou o regime extraordinário de alimentação qt e o Senhor Deus lhes proporcionara no deserto. cujos pormenores não podemos descrever com exatidão. Humbert.

O seu gôsto parecia-se com o de uma torta feita com óleo ou mel (cf. único no seu gênero. Durante os quarenta anos da travessia do deserto. saindo do respectivo acampamento. em escala pequena. ou seja. resina aromática de côr levemente amarelada (cf. 30 Todavia em 1927 a 80 Esta tese se deve ao botânico alemão O. Ehrenberg. de sorte que era preciso aprovisioná-los antes do nascer do dia. o Senhor lhes 'suscitou um alimento especial: na manhã seguinte. grão que mede 5 mm de diâmetro. mas principal. teria caído do céu. como se dirá abaixo. terá utilizado afim de suscitar o fenômeno narrado pela Bíblia. Núm 11.220 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO Seis semanas após a saída do Egito. exceto às sextas-feiras. julgava-se que um inseto. de Israel (a caravana nômade ter-se-á nutrido. perguntavam uns aos outros: "Man liii? Que é isso ?" Ao que Moisés respondeu: "É o pão que o Senhor vos envia para vos nutrir. cf. comum um arbusto chamado tamaris mannifera. Dt 2. lhes fazia suar uma gelatina melosa.64 1). muito abundante no Egito. semelhante a gotas de geada. Quanto à maneira de recolhê4o. Averiguaram-se fatôres naturais que o Senhor Deus. Por sua tí'ansparência e consistência. maná (cf. Núm 11. os hebreus. deram a tal substância o nome de man. constituiu o maná o alimento não exclusivo.8 e lix 16. porém. . Podia ser triturado e cozido ao fogo. conforme o seu habitual proceder.6). também não se conservavam por mais de 24 h. de modo que os israelitas arrecadavam apenas a porção necessária ao dia respectivo. também dos seus rebanhos e de víveres permutados com os povos que encontrava. oflmigrantes começarálfi a experimentar a escassez de víveres. na península do Sinai e no vale do Jordão.31). um gomor por pessoa (3. Como se há de entender esta providencial dispensação de alimento? Na tradição exegética.7). esta hipótese vai sendo mais e mais preterida. Na península do Sinai é. um alimento. nos tempos atuais.13-15. O texto sagrado fornece mais algumas informações sôbre o alimento maravilhoso: tinha a grossura do grão de coriandro. encontraram por terra algo como grãos com aparência de geléia branca. Êx 16. que. Até os últimos tempos. é produtor do maná. já conforme os antigos monges do lugar. Eis.31). deviam-se observar cuidados especiais: os grãos se der retiam ao calor do áol. perfurando os ramos dêsse vegetal. O autor causou sensação e surprêsa entre os seua contemporâneos. sem o concurso de agentes criados. que em 1823 a divulgou na obra Symbolae phygicae. estêve e ainda está de pé a tese de que o maná foi especialmente criado por Deus para o seu povo." Em conseqüência. que. assemelhava-se ao bcieuium. de modo a se confeccionarem pães. surpresos. sim. Tendo-se êles queixado a Moisés.

compramo-lo em boa quantidade. 238s. L'Exode ei Levitic (La Biblia. pousa sóbre a erva. 1955. o levem: "As formigas começam a sua atividade de aprovisionar depois que o solo tenha atingido a temperatura aproximada de 21° Celsius .eutschen Palaestina-Vereins.o que se dá por volta de 8. Si davam a saber de maneira definitiva que a dita resina não se deve diretamente à tamaris maniviferar mas à ação de dois insetos sôbre o arbusto: a trabutina nwnniparo e o najacoccus serpentinus minor. 33 Cf. a mencionada geléia em quantidades extraordinárias (de sorte a sustentar milhares de homens). maná do céu. a goma produzida se solidifica. P. ep. Recolhem-no de manhã muito cedo. 3. Heinisch. "Neue Forschungen auf der Sinailialbinsel". ainda hoje recolhido pelos beduínos.6. e possui sabor doce. Theodor. até êste momento permanecem inativas. "Ergebnisse der sinaiexpedition 1927 der hebraeischen Tjniversitaet Jerusalem". É doce como o mel. de Pirot-Clamer. ilustrado pels monjos de Mont Serrat). 64. posta ao ar livre. S. 32 Em conseqüência. excitadas pela luz e o calor do dia. Éstes animatzinhos sugam a seiva do vegetal e a expelem sob forma de gotas resinosas. 1946).1 não hesitam em identificar êste com aquêle. 92-100. 14 Para êsses autores. em La Satnte fibra. 53 (1930). os resultados das explorações. 124s. 1. A.) Os textos acima foram transcritos da obra de W. as pedras. 134-7. exegetas modernos 3. de mais a mais que já na antiguidade se insinuava tal sentença. encontra-se atualmente ainda pão do céu." (Trecho do relatório da expedição de 1927. são correspondentes aos do maná bíblico. lllstoire d'israel. de tamanho variável entre o de uma cabeça de alfinête e o de um grão de ervilha. fora também das regiões 31 a. quando o consomem."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 221 universfdade de Jerusalém enviou uma expedição à região do Sinal para apurar exatamente o processo. aspecto e gôsto do produtõ da tamaris mannif era." (Relato devido a Breitenbach. S. Unct dia Bibel hat doch recht. Ambrósia (t 397). dando um bloco da grandeza de uma avelã. Kaiser. antes que as formigas.1. ri (Paris. 304. Ricciottl. logo que Moisés o anunciou e fora das épocas habituais (isto é. os troncos das árvores. prende-se e adere aos dentes. A. KelIer. Ésse pão do céu cai de madrugada. Clamer. 34 Além da tradição dos monges do Sinai. "Les Nombres". sob forma de gotas brilhantes. Bodenheimer e O. à semelhança de orvalho ou geada e. 63-75. Ubach. é aromática. à semelhança de mel cristalizado. Düsseldorf. notem-se Flávio José. Das Buch Erodus. tomando côr branca ou amarelada. durante os quarenta anos de travessia).) Estas notfcias se podem completar pelo que a respeito do maná referia um peregrino do Sinai no ano de 1483 "Em todos os vales das cercanias do Monte Sinai. decano da catedral de Mogúncla. diàriamente ou quase diáriamente. . em Zettsohrift das d. exceto aos sábados. muito alimentícia.30 h. Fr. Como se depreende. 32 Os árabes ainda atualmente exploram e exportam tal produto. Ant. diversas gotas se podem conglomerar. sim.1. que os monges e os árabes recolhem. o maravilhoso na produção do maná foi o modo como Deus provocou o seu aparecimento: dispensou. publicados em 1929. guardam e vendem para os peregrinos e estrangeiros que lá vão ter. por éles denominado Mann es-sarna. G.

que para cada dia distribui o necessário (cf. maçãs. mais saboroso do que o mel. celebremos aqui as festas do céu e o inicio das estações do ano 1" Texto publicado por Keiler. só pode ser entendida se se reconstituem as circunstâncias em que foi escrito o livro da Sabedoria. e ninguém exclama: 'Queira Deus!' A gente miúda vive como a gente graúda. atingem a altura do céu. Os seus lagos estão cheios de peixes.zara para instalar Israel em Canaá (séc. na realidade. cidade opulenta como nenhuma outra. O mesmo deus Ra fundou-a segundo o plano de Tebas. pois. Os seus armazéns de reserva estão cheios de cevada e cereais. 114. das cebolas e do alho. o hagiógraf o não hesitou em apresentá-lo como alimento delicioso. à luz do reino messiânico que êles preparavam. no decorrer dos séculos. Éx 16. Quanto à afirmação de Sab 16. como também há romãs. 1 a. Eia." (Núni 11. as suas planícies estão recobertas de capim verde. Os seus campos oferecem multidão de coisas boas. tJnd die Bibei hat doou.C. Nada mais resta! Nossos olhos só vêem maná. assim como dos pepinos. os feitos grandiosos que o Senhor reali. Êste teve origem no séc.20s. durante a semana o maná conservada por mais de 24 h se deteriorava . O canal do deIta Shi-Hor fornece sal e salitre. azeitonas e figos nos pomares. As naves vêm e vão-se. eram. vinho doce. e vejo que é maravilhosa. os quais protestaram contra o alimento miserável que repetidamente lhes era dado: "Quem nos dará carne para comer? Recordamo-nos dos peixes que comiasnos gratuitamente no Egito. É o jovem discípulo Pai-Bes que assim escreve ao seu mestre Amen-em-Opet: "vim ter a Casa-de-Rarnsés-o-Favorito-de-Amon (= cidade de Ramsés).) 35 35 A título de ilustração.) foram sendo mais e'mais considerados em perspectiva otimista.19-30). notamos que a fartura de viveres do Egito (região -de Ramsés) é atestada por um papiro da época em que os israelitas eram súditos •de Faraó.4-6. Ora. XIII a. conforme a qual o maná "proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paiadares. Demorar-se lá acarreta vida ideal.C.222 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que hoje costuma crescer a tamarts mannif era (isto é. evocados em têrmos idílicos. Também se devem a extraordinária intervenção divina os seguintes pormenores: o maná às sextas-feiras caía em porção dupla. . ideal. e as suas frutas nos campos cultivados têm o sabor de mel. sabe-se que normalmente o maná só se produz nos meses de maio a agôsto. 'por todo o percurso dos israelitas a partir das fronteiras do Egito até a entrada na Palestina). recht. sabe-se que os grãozinhos pareceram insípidos aos hebreus. ao passo que aos sábados não era dada (particular que inculcava ao povo a observância do dia do Senhor). em Alexandria. transformando-se no que cada qual quisesse". Agora nossa alma está ressequida.o que devia incutir confiança no Senhor. preponderantemente na península do Sinai e em quantidade que nos melhores anos é de 300 k aproximadamente. O autor de Sab mostra-se fiel expressão desta tendência: já que o maná fôra tão evidente sinal da futura instauração do reino messiânico. Diàriamente recebe a cidade carne fresca e alimento. Há cebola e alho para os alimentos. melões. as suas lagunas estão povoadas de aves. pois. Todos se alegram por poder viver nesta terra. Aqui há todos os dias viveres frescos e carne.

Weber. o qual lograra fama em todo o Oriente. Balaã. os quais lhe rogaram fôsse ter ao país de Moab e de lá amaldiçoasse os israelitas acampados na vizinhança. VI (Paris. por isto não quis partir sem consultar o Senhor. era Balaã. de espada na mão. continuar. 36 § 6.22-35) Ainda na travessia de Israel pelo deserto deu-se um episódio que chama a atenção tanto do estudioso como do curioso: é um aspecto do encontro da caravana nômade com o mago Baiaã. 6 "O maná tomava os sabores tais diversos. porém. É esta a expressão poética talvez hiperbólica."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 223 A afirmação. Então o anjo se tornou visível também ao. à condição. não é notícia de historiografia estritamente dita. de modo que o jumento só pôde passar atritando o pé de Balaã contra as pedras do muro. durante quarenta anos. experimentou estranha aventura: um anjo de Javé. Como Balaã espancasse veementemente o animal. Balaã era temente à Divindade.° BALAA E O ASNO QUE FALOU (Núm 22. de não proferir sôbre Israel senão os oráculos que lhe fôssem inspirados do alto. o qual explicou que algo de extraordinário se dera. "o Senhor abriu a bôca do jumento" (22. Aconteceu que o nimor das vitórias dos hebreus sôbre povos que haviam tentado criar-lhes obstáculos aterrorizou o rei de Moab. 1946). se deitou por terra. mago e repreendeu-o por ter encetado tal viagem. todos os israelitas encontraram no maná o seu sustento. . de Pirot-Clamer. porém. junto ao Euírates. assustou o animal. Baiaque. Mandou. não podendo prosseguir. conforme o desejo dos que o comiam. A história assim descrita pelo livro sagrado pede algumas explicações para ser devidamente entendida." J. em La Sainte Bible. Chegando a Moab. apesar das insistências contrárias de Balaque.28). o anjo se postou em lugar tão estreito que o asno. Reputando-se incapaz de conjurar o perigo pelas armas apenas. exaltadamente otimista do livro da Sabedoria deriva-se das leis do estilo épico em que o hagiógrafo escreveu. permitia-lhe. Ao viajar para Moab sôbre um jumentinlio. do fato de que. 511. renovando a condição anteriormente expressa. pois. obteve licença para seguir via' gem. fazendo que se desviasse da estrada e entrasse nos campos. só proferiu os oráculos de bom presságio para Israel que o Senhor Deus lhe inspirava. Após insistência. o qual viu ameaçada a subsistência da sua gente. 'Le livre de la Sagesse". em terceira aparição. resolveu recorrer ao poder religioso: lembrou-se de um mago residente em Petor. legados portadores de ricos presentes e promessas. de novo apareceu o anjo num caminho estreito. pois.

judeu alexandrino do séc. 40 ficou sendo o tipo do homem avarento. O Senhor Deus se dignou responder a Balaã. recebia paga correspondente (cf. o qual pela oração obtivera chuva numa época de sêca. os quais. o qual diflcilmente se entenderia na bôca de um adivinho pagão. tendo tido conhecimento de quanto o Senhor fizera por seu povo desde a saída do Egito.C. temeroso. que a figura de Balaâ.48. 2. 5.5-25). antes de falar.15s.9.7). Núm 23.7. isto é. vivia um homem justo e amigo de Deus. mas não raro recebiam gratuitas comunicações do verdadeiro Deus. Exercia a profissão de mago ou adivinho. sinais mediante os quais julgava perceber os desígnios da Divindade. vivia perscrutando os sinais que & natureza ou artifícios secretos lhe ofereciam (cf. omite e pronome possessivo.14. 24.6. fê-lo assim instrumento de autênticas revelações nos oráculos que proferiu (cf. Núm 22. 24. A versão grega dos LXX. J05 2.6.50-52). ao lado de Javé. 2 Pdr 2. porém. e não queria incorrer no seu furor. passou para a tradição judaica e cristã com nota depreciativa. eram os magos e adivinhos. porém. Onias. Em Israel êsses homens de Deus eram os justos.3. 11 O fato de que êle reverenciou o Deus de Israel. embora tenha deixado vaticínios de ótimo agouro para Israel. 38 apenas. 37 A praxe de oferecer ricas dádivas aos adivinhos é atestada também por Dan 2. não israelita. 18-24. que Balaã é pagão. não recorriam a artifícios mágicos (invenção humana). Comunicou-lhe alguns de seus desígnios a respeito de Israel. o escritor Flávio José narra o seguinte episódio: Durante a guerra civil entre João Ifircano e Aristóbulo (67-63 a. 38 Em NCun 22. Filo. Atribula-se na antiguidade eficácia infalivel às palavras de bênção ou maldição proferidas por um 'homem de Deus". Êx 15.18 Balaã chama Javé "meu Deus".3-9. 15-24). Pediram-lhe que amaldiçoasse Aristóbulo e seu partido. que acima de Deus estima os seus interêsses próprios. . como se entende. J05 24. expedientes sujeitos à falibilidade como os seus autores. não deixava de admitir as divindades dos outros povos. o caso de Caifás em J0 11. em troca de seus oráculos. 1). Jdt 5.9s. lu reconhecia a existência e o poder respeitável do Deus de Israel. o que não supõe necessàriamente santidade na respectiva criatura (cf. 1 d.C. em grande parte por intermédio dos mercadores que comerciavam assiduamente entre o Egito e a Asia anterior (cf. que. 40 Cf.1). materiais. Jud 11. Na história do povo de Deus. 14.7-10. porém. deixando-se guiar pelas suas inspirações.14. que considera Ealaã como defensor do povo de Israel contra Balaque. Eis. invocara a Divindade (o mago ter-se-á dirigido simplesmente ao Poder Divino competente para o esclarecer no caso). Excetua-se. Dada a eficácia que atribuiam a esta maldição.. Núm 23. De vita Mcnjsis 1. não quer dizer que habitualmente Lhe prestava culto nem mesmo que era monoteísta. Dt 23. Miq 6. os judeus lapidaram Onias (Ant. chamado Onias. 39 As noticMs se haviam propagado ràpidamente nas terras orientais. porém.224 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em primeiro lugar. Apo 2. conforme o texto hebraico atual e a vulgata latina.). os quais lançavam mão de expedientes excogitados pelos homens ou pelo demônio. Segundo a mentalidade comum dos pagãos. note-se. rogou a Deus que não atendesse às orações nem de uma nem de outra facção.4s. Entre os pagãos.

se rende com mais facilidade. são ditadas pelo desejo de não admitir o sobrenatural no curso dos acontecimentos. visão de alucinado etc. 31. procurou desforra: tentou mais tarde levar Israel à ruína. 22. em outros têrmos: ouvindo o asno. voz de Deus no seu íntimo. Já que o fenômeno foi ocasionado pelas aparições de um anjo que dificultava a caminhada. como em vários outros casos. persuadindo os madianitas a seduzir o povo para a apostasia religiosa (cf.. mas Balaã interpretou-os como admoestação que Deus lhe dirigia. esperando que Deus mudasse os seus desígnios (22. aos quais o oriental. Não é esta. Tais sentenças. 22. Ora uma viagem com tal propósito não podia deixar de desagradar ao Senhor. Conforme outros exegetas. pergunta-se antes do mais: por que terá Deus. Balaã ouviu simultâneamente a voz da consciência.16).. enquanto cavalgava. mas. Embora já antes de partir para Moab soubesse que Deus abençoara Israel (cf. que houve por bem chamar Balaã à ordem. considerando a narrativa inteira como lenda. a única explicação possível do texto sagrado. A repreensão se efetuou com o concurso de fenômenos sensíveis. terá tomado a resolução de amaldiçoar em qualquer caso.20 e 22) ? O proceder se explica bem se se admite que Balaã não viajava com a disposição de ânimo (docilidade às futuras comunicações divinas) que o Senhor lhe incutira ao permitir a partida. porém. a fim de não perder o salârio devido às suas fadigas.. Não faltaram os que lhe denegaram historicidade. Entre os que defendem a realidade histórica do episódio. impedido a viagem que file mesmo pouco antes autorizara (cf. não excluiu a possibilidade de amaldiçoar (22. mito popular. Assim entra em cena no texto bíblico o asno que fala.. refletindo consigo. a qual o censurava amargamente por estar viajando com propósitos contrários ao Senhor ou por se haver deixado obcecar pela perspectiva do ouro. sonho de Balaã.18s)."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 225 Por que isto? Será essa a genuína face de Balaã? O texto sagrado o explica. muito impressionável. o adivinho. chégando à terra de Moab. 1 nesta perspectiva que se deve considerar o episódio do jumento que falou ao mago.12). não ousou desobedecer para não se expor ao castigo conseqüente. Em suma. por um emissário. o animal espancado emitiu os sons queixosos que lhe são habituais. às instâncias do rei quis dar resposta favorável.. Assim o episódio . há quem julgue que o asno produziu realmente sons de linguagem humana. Balaã tudo fêz para não perder os ricos prêmios que lhe prometia Balaque caso amaldiçoasse. irritado. as graças do Senhor foram em Balaã suf ocadas pela cobiça de vantagens temporais e pela amargura de não as ter alcançado. não tendo recebido licença para isto.38).

A visão e os dizeres do anjo. Miguel." É o Cardeal Meignan quem observa: "O Apóstolo fala conforme a opinião comum dos judeus. terão corroborado a voz da consciência e feito que o adivinho se rendesse finalmente à admoestação do Senhor. visando maior ênfase. Nas ocasiões de maior tribulação. Já S. mas foi repreendido por sua desobediência: um animal mudo fêz ouvir voz humana para reprimir a demência do profeta. § 7. disto se prevaleciam os cananeus vizinhos. II.15s: "Balaã. um dos chefes que Deus suscitou ao seu povo no período que corre entre a morte de Josué. Propugna-a outrossim A. chefes esporá41 Alguns dos antigos julgavam tratar-se do arcanjo S. de um lado. 1896. acontecia que o Senhor infundia a um israelita coragem e poder extraordinários. em La Sainte Bible." 42 O que acaba de ser exposto parece pôr em suficiente evidência o sentido religioso e autêntico do episódio de Balaã.. Clamer. visa o ensinamento moral.. Gregório de Nissa (t 394) se fazia arauto da explicação mais larga acima proposta. se travou entre o temor de Deus.. filho de Bosor. 42 L'Ancien Testament. e o início da monarquia (1020). De vita Moysis. para atacar e oprimir o povo. Êsses homens. sàmente na. consciência do mago é que os berros desarticulados do animaL tomaram o vulto e o significado das palavras que o autor sagrado. n.° A HISTÓRIA DE SANSÃO (Jz 13-16) Muito explorada tem sido a figura de Sansão pela fantasia tanto dos homens simples como dos artistas. Não se lhe pode opor o texto de 2 Pdr 2. não a realidade material dos fatos. em conseqüência. tutor do de Deus segundo Dan 12. Esta última interpretação é muito digna da Sabedoria e da Providência divinas. 216. 44.1. amou o salário da iniqüidade.226 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO não viria a ser senão o relato vivo e dramático da luta que. Migne gr. 386s. 41 sobrevindo a êsse estado de alma de Balaã. a fim de que debelasse os inimigos. Eis o que a Sagrada Escritura lhes apresenta: Sansão foi um dos grandes Juízes. episódio que é mais do que a história de um animal que falal. 421. De MoIse à David. ou seja. "Les Nombres". no ânimo do adivinho em viagem. ed. conquistador da terra de Canaã (1200). povo . foi autorizado a prosseguir viagem.° 1. do outro lado. coloca diretamente na bôca do jumento.. e a paixão da avareza. Não havia govêrno organizado em Israel nessa época.

porém. Quando.. viu no cadáver do animal um enxame de abelhas e mel. A vida dêste herói.23-26). quis esposar uma donzela fiistéia da cidade de Tamna. o jovem. foi certa vez acometido por um leão. eram os chamados Juizes. tocava á sua mãe. dado.31). 41 entre os quais sobressai Sansão (cf. Contudo. Dias mais tarde." (Jz 14. O favor de Deus. nazir. propâs aos trinta convivas do festim um enigma. At 21. celebrava as núpcias em Tamna. é muito marcada pelo maravilhosb. porque a função principal de quem governa um povo simples vem a ser o julgamento das causas. após três dias de reflexão. abençoado pelo Senhor. coisa que ela obteve. Cresceu.7). servindo-se dos seus despojos para pagar o que devia. Núm 6. 43 "JuIzes". Ora o menino nasceu e foi chamado Sansão. contra a vontade de seus pais. Em vista da sua cabeleira. não se contaminar pelo contato de cadáveres (cf."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 227 dicos de Israel. onde matou trinta filisteus. os filisteus perplexos foram pedir à mulher de Sansão. E do forte saiu o doce. pelo que deixaria crescer os cabelos. à semelhança do que se costumava fazer no Oriente "Daquele que come. 44 No povo hebraico existia a categoria dos narireus (em hebraico. dizia-se que o nazireu trazia na Õabeça a consagração ao seu Deus (cf. que lhe dava energia de alma e vigor de corpo fora do comum. A caminho desta localidade.14. deixar crescer os cabelos e a barba. Havia na tribo de Dã um casal estéril. pág. Núm 6. Já que o menino devia ser desde o início de sua existência consagrado ao Senhor. dos lítigios cotidianos (cf. enquanto o gestasse. " Tornar-se-ia o defensor de sua gente contra os filisteus hostis. Chegado à idade viril. que eram homens ou mulheres consagrados a Deus por tríplice voto: abster-se de bebidas inebriantes e dos produtos da videira em geral. ao qual um anjo apareceu por duas vêzes. saiu o que se come. . e sua mãe. que não lhe dessem a interpretação.) Caso lhe pudessem explicar o sentido dêstes versas ao cabo dos sete dias de festa. após estas peripécias. lhe arrancasse o segrêdo do enigma. pagaria cada qual o mesmo preço. Era êste o primeiro dano que êle infligia aos inimigos. os trinta filisteus receberiam cada qual uma peça de roupa fina e uma túnica preciosa. que êle matou com as próprias mãos. separado). não há dúvida. Jz 13.. Ora. o israelita não se embaraçou para desquitar-se da dívida: irritado. 42).1-16.2-8. predizendo o nascimento de um filho. observar a abstinência de bebidas em lugar do filho. foi a Ascalão. enquanto o gestava. se deveria abster de bebidas fermentadas e alimentos impuros. Seria consagrado ao Senhor desde o seio materno (nazireu). porém. refazendo a estrada. não extinguia as tendências desregradas da natureza em Sansão.

certa vez. o israelita foi entregue aos inimigos. como faziam as mulheres e os escravos. voltou a Tamna para rever a espôsa. Ora. aprestavam-se a matá-lo de madrugada. apoderou-se das portas da cidade e. aonde mandaram levar Sansão. Com isto. Os filisteus então f echaram as portas da cidade durante a noite e. pelo que. levou-as para uma montanha. Sansão pereceu. os adversários queimaram viva a mulher de Sansão e exigiram dos homens de Judá que lhes entregassem tão perigoso inimigo. Êste. O herói consentiu em que seus conacionais o ligassem com duas cordas nQvas e levassem ao acampamento dos filisteus. fazendo desmoronar a construção. os filisteus resolveram festejar o seu deus Dagon pela vitória obtida sôbre o tenaz adversário. provàvelmente israelita. que fôra dada em matrimônio a outro homem. que. mas. porém. ataram-no com duas correntes e obrigaram-no a volver a mó de um moinho. que estavam maduros para a messe. a vítima agarrou-se às duas colunas que sustentavam o teto da casa. fazendo que os demais fugissem de mêdo. vigilantes. revelou-lhe que tudo dependia da sua cabeleira.e com esta arma improvisada espancou mil adversários. Sansão rompeu seus liames. e sacudiu-as. enquanto a escarneciam. O herói. De volta à pátria. devia perecer vítima da sua concupiscência. a altas horas Sansão saiu de casa. Contudo. causou a morte de maior número de filisteus do que durante tôda a sua vida. que lhe crivaram os olhos. Já sem fôrças. Soube.. resolveu punir de novo os filisteus: capturou trezentas rapôsas. Os fiisteus então muito insistiram para que ela se informasse a respeito do segrêdo da fôrça de Sansão. ao comparecer diante dêstes. o veemente incêndio provocado destruiu não só o grão. Em represália.uma mandíbula de asno lançada ao chão .228 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Tempos depois. mas também as videiras e oliveiras. porém. Entrementes a cabeleira de Sansão crescia de novo e o vigor lhe voltava. Indignado. . Os irmãos do herói prostrado lhe recolheram os despojos e os sepultaram no túmulo paterno. Eis. a cada par de caudas prendeu uma tocha acesa. Um belo dia.. Em outra ocasião. finalmente. Levaram-no a Gaza. mandaram cortar os cabelos do lutador adormecido. e deixou os animais assim atados debandar pelos campos de trigo dos filisteus. colocando-as sôbre os ombros. apaixonou-se ilicitamente por uma mulher chamada Dalila. refugiado então na caverna de Etam (país de Judá). que êle amarrou duas a duas pela cauda. apanhou o primeiro objeto que encontrou . reuniram-se em seu templo. o homem valente foi à cidade filistéia de Gaza e deteve-se em casa de uma meretriz. porém. extinguindo-se desta forma.

Elshps. que caiu em infidelidade (dando ocasião a que o despojassem da cabeleira). as rapôsas e o asno teriam entrado na história de Sansão. Os pais do herói. ou entre Sansão e Re. terão adotado um nome usual no seu ambiente. embora se derive de shemesk. Éste é um herói solar. desde. explica-se perfeitamente dentro do quadro religioso de Israel: deixar crescer o cabelo era um dos elementos do nazireato. a título de ilustração. tinha por figura central um herói cuja fôrça residia na cabeleira. arbitrárias. Enquanto Sansão foi fiel ao Senhor e às obrigações do nazireato (entre outras. era assaz espalhado em Canaã sob as formas Shpsgyn (yn indicava a pertinência à Divindade). Miás. a sua fórça extraordinária lhe provinha diretamente de Deus. os episódios de Sansão contêm mais de uma alusão ao sol: o nome do lutador provém do hebraico shemesk.sinal de uma adesão de alma a Deus. Não se queira ver."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 229 A narrativa bíblica assim concebida tem inspirado interpretações diversas. pois. afirmam. era movido pelo Onipotente e se mostrava mais poderoso que tudo. na cabeleira de Sansão mais do que um sinal . sol. tornou-se tão fraco como qualquer homem. porém. porque. porém. explicação folclórica: alguns autores recorrem às narrativas populares. sejam aqui registradas algumas das mais curiosas explicações mitológicas: houve quem quisesse identificar a história de Sansão com o mito do Hércules grego. que o tornava vitorioso. o texto sagrado mais de uma vez faz notar que o poder de Sansão . Êste traço. simbolizam o sol 1 Outros preferiram traçar um paralelo entre Sansão e Gilgamesh. O autor sagrado haveria feito dêsse tipo pagão um nazireu israelita Já a variedade das tentativas de interpretação dá a entender que são. portanto. deus egípcio. sol. instituição mosaica. Ora. Ili-Shamshu. o leão. Em última análise. era o fato de que Sansão estava consagrado a Deus e se deixava mover pelo Senhor. pois. herói da Babilônia antiga. das quais. os seus cabelos seriam a designação figurada dos raios do sol. não é necessàriamente indício da sobrevivência de algum mito solar em Israel. A história de Sansão seria um canto tradicional dos filisteus levemente retocado pelo hagiógraf o. as relações de Sansão com mulheres indicariam que o deus Sol é o deus da fecundidade e da geração. Aparentemente fabulosa é a notícia de que a fôrça de Sansão residia em sua cabeleira. em grau maior ou menor. em virtude das suas côres. O nome de Sansão. à de não cortar os cabelos). significava a entrega ou consagração absoluta da criatura a Deus (a entrega era tal que não se queria cortar coisa nenhuma da pessoa consagrada).

1 Sam 13. 16. Como quer que seja. e de suas correspondentes derrotas. cuja civilização era mais avançada que a de Israel (cf. exercendo especial providência em tôrno do jovem. em particular. infligidas por um só israelita. Notem-se os traços de "humor" e sátira contidos na narrativa tal como a redigiu o povo e a consignou o hagiógrafo: o "humor" é muito vivo na cena dos campos que Sansão incendeia ateando tochas às caudas de rapôsas ligadas aos pares no episódio de Gaza. Parece inegável.18s. a fidelidade que o Senhor pedia ao herói. era. 15.619.15). não pode deixar de decorrer num tom geral de sarcasmo. intencionava. 13. Sansão foi descrito como o herói popular por excelência. 15. vê-se que não há razão para negar a historicidade dos episódios de Sansão. era simbolizada apenas pela conservação da cabeleira. conforme um grande plano. 46 Após estas considerações.14).16.230 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO descia diretamente do Altíssimo (cf. observe-se que Sansão paga sua dívida aos trinta filisteus. a descrição das invectivas dos filisteus. não obstante.32. pediu o auxílio de Deus. cujas portas êle. inspirado ao herói pelo Senhor. alguns versos disseminados pela narrativa são expressões desta sátira (cf. rejeitado pelos pais de Sansão. por sua infidelidade perdera o direito à tutela divina. nos tempos de Sansão. Jz 14. 45 Para realizar o prodígio final. divertindo-se à custa de Sansão. porém. 46 Julgam alguns exegetas que. ao refletir sôbre a história de Sansão em Hebr 11. ou seja. dotado de coragem a tôda prova. Sansão. Todavia o nazireato de Sansão.25. . séc. nas subseqüentes gerações de Israel. XIII e á de Sansão. séc. arranca e carrega sôbre os ombros. parece não ter jamais observado a primeira e a terceira das prescrições impostas aos nazireus em Núm 6: evitar o toque de cadáveres e o consumo de vinho (cf.19-22). esta já não era sinal. Jz 14. £ste. Sansão foi moralmente fraco e cometeu pecados. 14. mas também de paixões desregradas e espírito mordaz. despojando os próprios filisteus! A ironia vem a ser também apologia religiosa no episódio final: justamente quando os pagãos celebravam a festa de sua Divindade. Não há dúvida. ora mais ora menos acentuado. a lei do nazireato ainda não impunha tOdas as obrigações consignadas em Núm 6 (êste capitulo poderia referir determinações posteriores á época de Moisés.8-10. reconhecendo que. 14. em oração humilde e confiante. saindo à noite.4). indique a fé (no caso. muitos episódios da história sagrada demonstram que um homem pode ter graves falhas morais e. docilidade a Deus) como segrêdo das vitórias dêste Jui2. como observa expilcitamente o hagiágrafo. Xi). 5045 Mesmo o desígnio de se casar com uma filistéia. que a fantasia popular explorou com deleite os feitos portentosos da história. pó-lo em contato com os adversários de Israel (ef. ser utilizado por Deus como instrumento para a realização de grandes obras. É o que faz que o Apóstolo. cidade bem vigiada. embora já tivesse recuperado a cabeleira.19).

o desabamento do templo de Dagon ocasionado por um homem prisioneiro e cego que Javé movia.9). conforme a mentalidade do Antigo Testamento. a mais clara demonstração da inanidade do ídolo.nesta frase paulina que se compendia a mensagem perene da história de Sansão. . 2 Cor 12. torna-se. a manifestação de que "a fôrça de Deus se expande em plenitude na fraqueza do homem que se Lhe confia" (cf.poder-se-ia dizer . É ."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 231 freram a maior de suas perdas.

não se lê como outro livro.hebraico. Existem.humano e divino . traduções vernáculas.0 OS PRESSUPOSTOS DE FRUTUOSA LEITURA Sagrada.Boa edição do texto sagrado. seja profano. o leitor deverá dar atenção aos predicados do texto que utilizará. a língua portuguêsa até hoje não conta uma tradução satisfatória da Bíblia. acrescentando normas práticas para o uso da Escritura (§ 2. § 1. porém. Como acontece com qualquer obra literária. promovendo a leitura assídua e frutuosa da Palavra de Deus. 1. Está claro que. é reservado a poucos. O texto lusitano dito de João Ferreira d'Almeida se deve a um pastor calvinista que nasceu em Lisboa (1628) e viveu muito . antes do mais. Eis. o ideal seria ler a Escritura no seu teor original . porém. sem as quais mais ou menos vão ficaria o contato com as páginas sagradas. que êste último capítulo examinará tais pré-requisitos Q 1. Êste privilégio. 0) e elementos de uma antologia bíblica (§ 3 .0). aramaico ou grego. PRÈ-REQUISITOS NATURAIS A . pois. 0) . cujo uso supre adequadamente o dos textos originais da Sagrada Escritura. E quais seriam as mais recomendáveis? Infelizmente. seja religioso. os pressupostos de contato fecundo com a mesma são de Consoante os dois aspectos . pois. A Sagrada Escritura. O fato de que é obra divino-humana requer do leitor disposições próprias. Levando.CAFÍTULO XIV COMO LEREI A BÍBLIA? As indicações de ordem filológica. histórica e científica apresentadas nos capítulos anteriores convergem tôdas para um fim: aproximar do texto sagrado o fiel cristão.da Bíblia ordem natural e sobrenatural. e nos nossos dias em números assaz notável. em conta a indigência humana. o Senhor Deus não quis privar os fiéis do conhecimento exato de sua Palavra únicamente por motivo de preparo intelectual.

Já apareceram os 1 Tradução dos originais confeccionada por S. o antigo tradutor não dispunha dos recursos e conhecimentos com os quais contam os filólogos modernos. Vofl (Universidade Católica de S. Ê.S. Matos Soares) se baseiam na Vulgata latina. Rio de Janeiro. V. As demais traduções portuguêsas da Bíblia inteira (Pereira de Figueiredo. Paris) apresentam um texto digno de todo o aprêço. O texto do Novo Testamento foi publicado em 1681 e o do Antigo em 1748 (edição póstuma). a partir de 1952. principalmente expressões holandesas. em inglês: 2'/ie Holy Bible. o tradutor serviu-se de traduções já existentes castelhano. La Sainte Rible. rue de la Planche. acompanhado de valiosas páginas introdutórias. familiar. Pirot-Clamer (2. Fora o Novo Testamento. Paulo. apenas o livro dos Salmos se encontra em forma vernácula de todo louvável: a edição de E. recorram às versões do original existentes em outros idiomas modernos. 1947) e Pickel-Beltrão (5. não receando por isto afastar-se de certas formas usuais nas traduções anteriores. La Sainte Bible de Maredsous (Namur. Tournai. 1947) reproduzem com tôda a fidelidade possível o texto latino judiciosamente confeccionado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1945)." Paris. é muito de aconselhar às pessoas que o possam. holandesa e outras. enquanto as de L. usa de linguagem solene. Bonsirven e Tricot (Desclée. 1 herdando as falhas de versão que já esta apresenta. traduzida por Crampon. com interêsse que o público acompanha a publicação de nova tradução vernácula dos originais bíblicos devida à Liga de Estudos Bíblicos (5. Paulo. pois. devendo estar completo dentro de alguns anos.234 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tempo na Holanda. Eis o que se poderia indicar a propósito: em Irancês A Biblia dita "de Jerusalém". Franca (AGIR. U. fala urna linguagem pouco usual ao leitor moderno e carregada de estrangeirismos. dando assim ao público uma obra de terceira ou quarta mão. 1951) procede diretamente do original hebraico. Bélgica) serve-se de linguagem muito viva. hierática e é dotada de ótima introdução. rigorosamente exata do ponto de vista exegético. Embora tivesse a intenção de seguir os originais bíblicos. . redigida em estilo francês muito agradável e acompanhada de valiosas notas e introduções.). Embora muitos encómios mereça. Paulo) em colaboração com a Editôra AGIR. elaborada sob a direção da Escola Bíblica de Jerusalém. tradução de Catholic Biblical Association of America (Paterson. 1956. o novo texto tem saído aos fascículos.A. "Les Éditions du Cerf. New Jersey. que tem sido bem apresentado em português. É êste o texto geralmente editado pelas Sociedades Bíblicas Protestantes. Jerônimo no séc. Na falta de boa tradução portuguêsa. 1952).

XVI (Lutero. Straubinger. 3 vois. B . É o que se verifica fora da Igreja Católica. estão anunciados para 1957. não a Verdade. já não encontra nestes a Palavra de Deus. Sagrada Biblia. 1952). 1953). Das Alte Testament (Paderborn/Wien. El Nuevo Testamento según ei texto original griego (Buenos Aires. Quem empreendesse a leitura de uma obra clássica sem tomar conhecimento prévio da personalidade do autor e das circunstân- . Está claro que o texto utilizado pelos fiéis católicos será sempre acompanhado de notas explicativas e aprovação eclesiástica. Zwingli) vieram à luz e hoje pululam: cada inovador de religião. Altes una Neues Testament (Zürich. em italiano: A. é tesouro inseparável da tradição oral.Noções introdutórias. La Sacra Bibbia ( a partir de 1949. 1949). Katholische Familienbibel. em alemão: Riessler-Storr. 21-23). o recurso a tradução fiel é de grande importância. ainda em elaboração). os vols. em espanhol: Nácar Fuster-Colunga. Das Neue Testament (Paderborn. El Antiguo Testamento. La Sacra Bibbia. Sagrada Biblia (Madrid. Die Heilige Schrift des Alten una Neuen Testamentes (Mainz. traduccion directa de los textos primitivos (Buenos Aires. dela tira o que bem lhe agrada (crenças contrárias umas às outras). 1947). 1947/1949). pois a Bíblia é patrimônio da Santa Igreja. dentro da qual ela se originou e até hoje se conservou (cf. (larofalo-Rinaldi. Klosterneuburg bel Wien 1951/2. 1947). a J. Roscb. dois volumes na coleção "Biblioteca de Autores Cristianos" (Madrid. Schafer. 1951).COMO LEREI A BÍBLIA? 235 vois. Bover-Cantera. págs. ainda em curso de publicação). Em suma. nas denominações cristãs que a partir do séc. 1 (de Gên a Rut) e III (livros sapienciais). de "Klosterneuburger Bibelapostolat". portadora de problemas que os originais não suscitam. II e IV. sob os auspicios do Pontifício Instituto Bibilco de Roma (tradução começada em 1923. A Biblia em três volumes. Observa-se que boa parte das dificuldades experimentadas pelo leitor moderno ao abordar a Bíblia provém do fato de lhe ser esta transmitida em forma vernácula imperfeita. Heiwe. 1948). a do Novo. colocado a sós diante da Bíblia. Quem não aceita o testemunho da tradição na interpretação dos livros sagrados. que só pode ser uma. Vaccari. Calvino. A tradução do Antigo Testamento é devida a flus Parsch. bem como o Novo Testamento.

Em francês. datas e localidades de menor importância ocorrentes na leitura. xiv. isto é. E. XIII a. os veios que unem o primeiro ao segundo Adão (Cristo). 1951) Robert-Tricot. 1948). e XVI da Biblia Sagrada (versão de Pereira de Figueiredo). Entre as tarefas de iniciação bíblica. os Profetas de Israel. Tellier. visa apenas as noções necessárias para que o leitor possa levar devidamente em conta o aspecto humano que a Palavra de Deus quis tomar e assim. tal como o proporcionam opúsculos modernos. livros ditados por mentalidade e leis de estilo bem diversas das do homem contemporâneo. 2 Esta exigência não implica estudos longos e sutis. quanto mais se cul2 Em português. 1 da nossa era. Passelecq. dever-se-ia mesmo acrescentar que. . 85. então.236 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO elas em que escreveu.C. Compreende-se que o mesmo se dê. publicada pela Editâra das Américas (São Paulo. 257-260). também em fôlha de papel colocada junto ao texto bíblico) a recordação dêsses grandes marcos (alguns nomes e datas). incumbência a que nem todos se podem entregar. 2.Joly. Spes. An2 sources bibliques (Paris2. Torna-se. empreendido à luz de poucos• conhecimentos essenciais e com as disposições de espírito abaixo enunciadas. consiga chegar ao cerne do Livro sagrado. Valioso é também um Atlas bíblico. Os ditos volumes contêm "Introdução Geral e Especial aos livros do Antigo e do Novo Testamento". arriscar-se-ia a não a entender ou interpretá-la falsamente. Procure formar em sua mente o quadro geral dêsses séculos. pois o leitor perceberá melhor o que implicam. os Reis. e o séc. passando pelos Patriarcas. Quem possui em seu espírito (ou. como o de P. A experiência ensina que o contato assíduo com a Sagrada Escritura mesma. L'Átlas hisforique: de l'Áncien Testameijt. 1951). PRÉ-REQUISITOS SOBRENATURAIS As normas acima seriam suficientes para se fazer uma leitura proveitosa da Bíblia. recomenda-se P. pois. 1950). Initiation bibliqve (Paris3. Chrcnologic et géographie (Paris. indispensável um mínimo de "iniciação bíblica". é de crer que isto se possa fazer sem grande esfôrço. ed. Guide Biblique (Maredsous. 1954). para maior segurança e ef icácia. xv . quando se trata de ler uma biblioteca oriunda entre o séc. retendo na memória os poucos marcos ou as etapas que sucessivamente lhes vão imprimindo o seu aspecto característico (vejam-se as tabelas às págs. com estudos biblicos adicionais (colaboração de professôres de Exegese do Brasil). vejam-se os vois. é suficiente para a frutuosa compreensão da Palavra de Deus. dispõe dos pontos cardeais para se orientar diante de alusões a personagens. caso esta fôsse livro meramente humano. certas denominações ou frases breves lhe falarão imediatamente com nova linguagem. por meio do veículo. muito se recomenda ao leitor queira fixar na mente as grandes linhas da história sagrada.

na falta de instrumentos humanos. ainda que não haja homem capaz de te explicar o que procuras. são os que o leitor mais há de procurar desenvolver em si. Que acontecerá. os frutos de união com Deus. É S. e. são colhidos em medida correspondente. procura alguém mais sábio. Ainda breve observação decorre destas premissas: a leitura das páginas sagradas pode ser grandemente útil e valiosa mesmo quando o leitor não entenda todo o sentido do texto bíblico. é iniciado nas coisas de Deus. não desprezará tua vigilância e solicitude. que. dizem.. digo.. além de apresentar disposições naturais.. fale no íntimo da alma. vai ter com um mestre. não são senão manifestações da fé e da caridade pressupostas no leitor da Escritura Sagrada. lucras grande santificação pela leitura mesma. At 8.. purificado. torna-se melhor. a aborda com espírito religioso. a solicitude apontados pelo Santo Doutor como condições para que Deus. é impossivel. Lembra-te do eunuco da rainha da Etiópia (ci. que alguém fique sem fruto se se dá zelosamente à leitura atenta e freqüente das Escrituras. tanto mais fruto se retiraria das Escrituras. Por conseguinte." 3 O zêlo. às disposições religiosas do leitor. Donde se segue que ela só revela seu conteúdo profundo a quem. Se nem mesmo pela assiduidade da leitura chegares a compreender o que está escrito. 3. Ële mesmo certamente o revelará a ti. em sua realidade mais íntima. João Crisóstomo (t 407) quem o ensina: "Quem se entrega a uma leitura atenta (dos santos Evangelhos) é como que introduzido num templo sagrado. se não entendemos o que os livros (sagrados) contém? Mesmo que não compreendas o que néles está depositado. o grau de fé e amor sobrenaturais do cristão que a ela se aplica. Quando Deus te vir movido por tão ardente anelo.C0M0 LEREI A BÍBLIA? 237 tivassem as disposições enunciadas. Isto implica que não será em primeiro lugar a perspicácia da inteligência humana que conseguirá desvendar o sentido das passagens obscuras da Bíblia. Acontece..2s. Bem se entende esta proposição se se tem em vista que a Sagrada Escritura constitui um sacramental.30s) É impossivel. porém. . frutos que a Escritura tende primàriamente a outorgar. mas. Ora todo sacramental é sinal sensível que comunica a graça não pelo seu mero uso ou aplicação. são os pré-requisitos sobrenaturais os que mais concorrem para o autêntico desfrutamento dos livros sagrados. serm. 3 De Lazaro. antes do mais. pois Deus lhe fala por aquéles escritos. Em última análise. mas na estrita proporçâo da fé e da caridade com que os fiéis o usam. manifesta teu grande desejo. sim. a Bíblia C o Livro de Deus.

cair na temeridade). A pureza de coração (como diz Jesus no Evangelho) faz ver a Deus. embora não sempre aflore à primeira pesquisa. b) inseparável da fé viva é a caridade. Impossivel nos teria sido viver na intimidade de Jesus. pouco importa o pecado passado.8. que é a miséria comum de todos os homens. "Un itinéraire". 4 "Não receies (6 cristão) cotejar por vézes ria Bíblia grandes pecadores. o amor a Deus move naturalmente o cristão a purificar a sua mente e O seu afeto de qualquer imagem ou inclinação alheia à santidade do Altíssimo. creia na Santa Igreja. não pusilânime (sem. ora por narrar a condescendência do Mesmo com a pequenez do homem. em Commeitt tire la Bible ( Paris) 43. antes permaneça por muito tempo velada. que lhe entrega êsse Livro qual depositária e autêntica intérprete do mesmo.2s. 5 pois cria conaturalidade com o SenhQr e com os atributos. desde que para o futuro nos saibamos 'guardar puros das nódoas dêste mundo' e viver no Amor e na Misericórdia. sua genuinidade. a história do pecado ã qual se segue a promessa de perdão. que é o conteúdo do Livro Sagrado. crítica da texto. assim. creia no Espírito Santo. aos fiéis. veja-se também 1 . seu valor pedagógico) algum juízo ditado inicamente pela razão humana. 5 Cf.. importa creia o leitor no Cristo. história das religiões. no caso. ora por propor a transcendência do Altíssimo. que guia e santifica a Igreja. Para conseguir o intento. A fé aceita de antemão a possibilidade de não compreender imediatamente o significado das páginas sagradas. A fé autêntica se mostra forte e confiante. pois sabe que tais questões têm solução. ou muito mais. isto te deve dar confiança. por isto. sem encontrarmos a Madalena junto à virgem. etc.238 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Impõe-se agora breve análise daquilo que implicam estas duas disposições A fé. Já na ordem natural é o amor que leva o homem a procurar o objeto amado a fim de o contemplar de perto e desfrutar. " A fé não receia considerar de frente os problemas aparentemente mais intrincados de exegese. aos corajosos. ou melhor.-O. e possibilita ao cristão penetrar mais e mais o sentido das verdades encerradas nos textos bíblicos ou nas fórmulas dogmáticas. é a promessa do reino aos pequenlnos. assim como a de se defrontar com as mistérios da Sabedoria de Deus. De resto. Mt 5.Jo 3. na ordem sobrenatural é a caridade ou o amor de Deus que abre o ôlho da mente." 3.tema de que fala a Escritura. as obras do Senhor . míseros homens. A Biblia é a história da misericórdia. mistérios que desnorteiam. . Mais brevemente: creia nas duas proposições explanadas às págs. aguça a visão da fé. por pouco que conheças tua própria ffiiséria. 19-24 dêste estudo. Gourbilion. Tal fé opõe-se ao orgulho inteletual ou à pretensão de querer proferir sôbre os textos bíblicos (seu sentido. A primeira cena da Biblia após a criação é a história de um pecado.

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O mesmo amor incita à perseverán.ça na leitura da Bíblia. A assiduidade regular e fiel é condição importante para que haja aproveitamento da Palavra de Deus. Não fique o leitor detido em textos que momentâneamente êle não entenda, mas passe adiante, sem perder ânimo. Em ulterior leitura, voltando aos mesmos trechos, terá possivelmente adquirido maior afinidade com o Espírito e a Palavra de Deus; estará então habilitado a perceber o sentido do que antes lhe era impérvio. Por fim, ainda sob o ditame do amor, a leitura da Biblia há de se processar numa atmosfera de oração; o uso dos sacramentais constitui, sim, uma das atuações do espírito de oração do cristão. É, pois, de recomendar que, ao abrir o livro inspirado, o leitor eleve a mente a Deus, pedindo-lhe as devidas disposições para entrar em comunhão com a sua Palavra; faça o mesmo, solicite luz do espírito, ao se defrontar com algum texto particularmente difícil ou rico de sentido; o Mestre interior nessas ocasiões há de ser interrogado com a diligência que a caridade desperta. Independentemente, porém, das dificuldades que o texto sagrado ofereça, a leitura da Palavra de Deus deve habitualmente desabrochar numa prece; ela é nutrimento não só para a inteligência, mas também para a vontade; esta, portanto, sob qualquer de suas expressões (ato de adoração, complacência, gratidão, anelo, contrição), há de se afirmar, depois de estimulada pelo contato do texto sagrado. Por conseguinte, se a graça o inspirar, o discípulo de Crísto intercalará em sua leitura oportunas elevações a Deus; caso não, rezará ao menos ao concluir. S. Agostinho, numa passagem das Confissões, deixava entrever algo de seu ânimo interior ao ler a Sagrada Escritura:
"No principio fizeste o céu e a terra. Moisés escreveu isto (cf. Gên 1,1), escreveu e se foi; passou dêste mundo a Ti. Já não se encontra diante de mim; se aqui estivesse, a êle recorreria, interrogá-lo-ia, e pedir-lhe-ia em teu nome que me explicasse essas palavras; aplicaria os ouvidos de meu corpo aos sons que prorrompessem de seus lábios,.. Já, porém, que não o posso interrogar, é a Ti que me dirijo, ó Deus meu, Verdade da qual êle estava penetrado para poder afirmar proposiç6es verdadeiras. Rogo-te, perdoa os meus pecados, e Tu, que àquele teu servo deste proferir tais palavras, dá a mim também a graça de as compreender." (11,3.) É de notar ainda que os Sumos Pontífices, a fim de mais e mais aproximar da Biblia Os fiéis, enriqueceram com indulgências a leitura devota da Sagrada Escritura: quem leia diàriamente, por quinze minutos ao menos, o Santo Evangelho, ganha de cada vez 300 dias de Indulgência. Quem assim o leia durante um mês inteiro, lucra Indulgência plenária.

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§ 2." ITINERARIO ATRAVÉS DA BÍBLIA Uma norma válida para a leitura profícua de qualquer obra se aplica com particular insistência ao uso da Bíblia Sagrada: quem deseje realmente adquirir conhecimento do Livro de Deus não se pode contentar com leituras feitas a êsmo ou segundo inspiração momentânea, embora com assiduidade e periodicidade. Pouco aconselhável, portanto, seria querer "pescar" simplesmente trechos belos, edificantes, sem visar a sistematização da leitura, pois, como diz o Apóstolo, "Deus não é Deus de desordem" (1 Cor 14,33). É preciso que o cristão apreenda a trama, o fio central da Escritura, e tenda ao conhecimento de todos os livros sagrados; saiba oportunamente nutrir-se de cada um, embora possa conservar suas preferências por êste ou aquêle em particular, cuja doutrina mais o sustente. Qual seria, portanto, a ordem ideal a se observar na leitura da Bíblia? As indicações aqui sugeridas não poderão ser muito minuciosas, visto que há um Mestre interior em cada crist&o, 6 o qual guia cada alma por vereda própria, adaptada à sua personalidade, ao seu tipo de espiritualidade. Eis, porém, algumas diretivas certamente úteis a todos os fiéis: A primeira leitura há de ser leitura cursiva, visando proporcionar uma visão de conjunto e dispensando-se de demoradas pesquisas. Não se prenda o cristão a muitos pormenores (certos números, questões de crítica do texto, arqueologia, ciências naturais ... ), pormenores que talvez chamem a atenção de quem está imbuído da mentalidade do séc. XX, mas não tinham grande importância para o autor antigo e não constituíam o objeto primário de suas afirmações. Detendo-se muito em tais minúcias, o principiante arriscar-se-ia a não ver as grandes linhas da Escritura, linhas religiosas, teológicas, para as quais em primeiro lugar se deve voltar o seu interêsse. Mais tarde poderá, sem detrimento da autêntica perspectiva, abordar êsses problemas. Pode haver leitores que lucrem seguindo a série dos livros como se acham nas edições da Bíblia, a partir do Gênesis até o Apocalipse. Contudo, abstração feita de casos particulares, é de aconselhar que se comece pelas seções da Escritura que a nós, cristãos, mais familiares são: os livros do Novo Testamento. Quem quisesse simplesmente ler a Bíblia página por página na ordem em que estas se apresentam, expor-se-ia a conceber, em breve, fastio por não perceber o significado autêntico de muitas passagens. Aliás, seja lícito advertir: em qualquer sistema, os
6 Ê o que principalmente S. Agostinho lembra em suas obras (ef. in lo tr. 1,8; De vita beata, 4,35; De magistro, 12,38.40; Soliloq., 1,1,1).

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livros do Antigo Testamento deverão ser udos à luz da Revelação cristã, que êles prenunciam e sem a qual não se explicam. No Novo Testamento, dar-se-á a primazia aos Evangelhos sinópticos (Mt, Mc e Lc), os quais poderão ser lidos ou separada ou conjuntamente (isto é, considerando-se ao mesmo tempo os textos paralelos). Par-se-á seguir o livro dos Atos dos Apóstolos, que continua a narrativa dos Evangelhos. Constituída esta base histórica, abordar-se-á o Evangelho de S. João, que já apresenta a história "meditada", contemplada de um ponto de vista superior ou da eternidade. Logo depois, estarão a propósito as três epístolas do mesmo Apóstolo, que são reflexões e exortações no estilo do quarto Evangelho. Acrescentar-se-ão as cartas de S. Paulo em sua ordem cronológica, a saber: 1/2 Tes, Gál, 1/2 Cor, Rom, epístolas do cativeiro (Ef, Col, FIm, Flp), epístolas pastorais (1 Tim, Tit, 2 Tim); no fim, leia-se a epístola aos Hebreus, que, embora seja de inspiração paulína, não parece redigida por S. Paulo. £stes escritos falam todos da continuada presença de Cristo entre os homens, não Mais em sua natureza mortal, mas em seu Corpo Místico; tratam da aplicação dos frutos da Redenção à Sociedade e a cada individuo em particular. As epístolas ditas "católicas" 8 desenvolvem o mesmo temário. Quanto ao Apocalipse de S. João, que esboça o têrmo final da história, poderá ser lido depois das cartas dos Apóstolos. Não há, porém, inconveniente em se diferir a leitura dêste livro até que se tenha tomado conhecimento dos demais escritos bíblicos; com efeito, o Apocalipse constitui como que uma recapitulação de tôda a Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento: faz reviver os temas do paraíso terrestre (cf. Apc 22,1-4 e Gên 2,8-15), de Jerusalém, Cidade de Deus (cf. Apc 21,2-22,5 e Is 60,1-22), da Espósa do Senhor (cf. Apc 19,7; 21,2 e Is 62,4s; Os 2,21s, os profetas em geral), do tabernáculo do Altíssimo (cf. Apc 21,3s e Lx 25,1-27) e outros; donde se vê quanto é oportuno conheça o leitor o fundo de idéias a que alude. A leitura 'do Antigo Testamento, conforme alguns autores, pode ser intercalada na do Novo, tomando-se alternadamente livros ou seções desta e daquela parte da Bíblia. Tal praxe visa
7 Fala-se de "Evangelhos sinópticos", porque os très mencionados livros, justapostos entre si, fornecem numerosas passagens paralelas, seguindo uma trama comum para descrever a vida de Jesus. Há edições que os alinham em três colunas verticais, proporcionando a visão de conjunto dos paralelos ou a "sinopse". Entre outras, note-se a de Lavergne-Lagrange (texto francês). "Católicas" (= gerais, universais), porque são cartas encíclicas, dirigidas a vários destinatários, não a uma única comunidade.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

criar desde o início o hábito de se considerarem Antigo e Novo Testamento como indispensáveis ao cristão e complementares um ao outro. O método poderá tornar-se fecundo...; será preciso, porém, que o leitor se acautele contra o perigo de dispersar desregradamente a atenção ou contra o risco de perder de vista o seu roteiro, a linha una das Escrituras.
Não hâ 1düvida, por exemplo, de que a cena da anunciação do anjo a Maria, no Novo Testamento (Lc 1,26-38), toma relêvo muito vivo para o leitor que haja prêviamente considerado os textos das promessas feitas a DavI (ef. 2 5am 7; SI 88,20-38; Jer 23,5; Ez 34,24; Os 3,5) e as narrativas de anunciações divinas ou angélicas do Antigo Testamento (cf. Gên 18,9-15; 21,14-20; Jz 13,2-25; Is 7,13-16). A alegoria do Bom Pastor (Jo 10,1-18), nos lábios de Cristo, torna-se bem significativa para quem leia concomitantemente as passagens de Miquéias (7,14-20), Isaias (40,11), Ezequiel (34,1-31) e Jeremias (23,1-4) concernentes ao mesmo tema. As palavras de Jesus sõbre a cruz (cf. Mt 27; Mc 15; Lc 23; J'o 19), assim como os pormenores da Paixão, são ilustrados pelos salmos, que nos revelam principalmente a atitude interior de Jesus naquele quadro de sofrimento (cf. 8115; 21; 30; 68).

A respeito do livro dos Salmos, porém, impõe-se uma observação. Éstes cânticos constituem como que o âmago da Escritura ou, se quisermos, o seu remate; com efeito, dizem brevemente o que os demais livros bíblicos comunicam; dizem-no, porém, sob a forma de oração, elevação da alma, que louva a Deus após haver considerado tudo que Lie fêz na história sagrada, e pede-Lhe ainda realize o que prometeu realizar no futuro. É pelos salmos que o cristão aprende a rezar como Cristo rezou, pois Jesus recitava os salmos com o seu povo (cf. Mt 27,46; Lc 23,46; Mt 26,30; Jo 13,18; 15,25; Hebr 10,5-9); é por êles que o cristão se acostuma a orar como a Santa Igreja ora. Por conseguinte, desde o primeiro contato com a Escritura, o saltério não sàmente pode, mas deve ser utilizado na vida de oração do lèitor. 5. No Antigo Testamento, como no Novo, têm prioridade os livros históricos, dispostos na ordem seguinte: Gênesis, 2xodo, Números, Josué, JuIzes, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Macabeus. Ler-se-ão, a seguir, quatro opúsculos que ainda referem história, não, porém, a história geral do povo de Deus, como os recém-citados, mas episódios particulares, edificantes, redigidos em vista da catequese ou do ensinamento dogmático: Rute, Tobias, Judite e Ester. Depois de haver percorrido êstes livros por extenso, o leitor muito ganhará em voltar a sua atenção para resumos da história sagrada que a Escritura mesma apresenta, não raro em estilo meditativo ou de oração. Tais compêndios são, entre outros: SI

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67.77.103-105.1345; Ez 20,1-44; Sab 10,1-12-27; 16,1-19,22; Edo 44,1-50,24; Jdt 5,5-25; At 7,1-53; Hebr 11,1-40. Tornar-se-á então oportuna a leitura dos Profetas, pois êstes, de um lado, ajudam a reconstituir os quadros descritos pelos livros históricos e, por outro lado, só podem ser entendidos se recolocados dentro das circunstâncias históricas em que apareceram. Adote-se a ordem cronológica, que, com probabilidade, é a seguinte: Naum (ca. 620-612) Amós (ca. 760-750) Habacuque (ca. 605-600) Oséias (ca. 750-725) Ezequiel (ca. 593-570) Isaías (ca. 740-603) Daniel (605-536) Miquéias (ca. 735-690) Ageu (ca. 520-518) Sofonias (ca. 630) Zacarias (ca. 520-518) Jeremias (ca. 626-586) Malaquias (ca. 450-430) Baruque (ca. 626-586) Abdias, Joel e Jonas (data incerta) Incontestàvelmente, a leitura dos Profetas não é fácil, e Isto por
vários motivos os Profetas aludem a muitos pormenores da história antiga, localidades geogrãficas e personagens que não nos é possível Identificar com segurança; o estilo dos Profetas; quando predizem o porvir, é geralmente obscuro; reuniam numa só descrição traços de acontecimentos análogos entre si, mas distanciados uns dos outros pelo Intervalo de muitos séculos; assim a restauração do povo de Israel exilado na Babilônia é predita com tópicos que caracterizam a grande libertação, ou seja, a Redenção do pecado e a Instauração do reino glorioso do Messias (haja vista Is 40,1-10; 41,14-20; 44,24-45,25 ... ) ; e) os Profetas se serviam de numerosas imagens, hipérboles e outros artifícios da arte poética; d) os vaticinios, como se encontram hoje nos respectivos livros, não estão sempre dispostos em ordem cronológica.

Em seguida, o leitor passará aos livros sapienciais: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico. 10 Visto serem escritos que ensinam máximas de vida prática ou revolvem questões filosófico-teológicas, não tem importância decisiva a respectiva ordem cronológica; observe-se, porém, que Já e EcI têm afinidade entre si por tratarem do tema do sofrimento e da felicidade neste mundo; Prov e Edo são coleções de normas de prudência, mais esmeradas e desenvolvidas em Edo do que em Prov. O fecho se fará com os livros do Levítico e do Deuteronômio, cujo conteúdo requer um espírito já familiarizado com o Antigo Testamento ou um leitor que já tenha aprendido a "ler" a Lei
O

10

A respeito de Daniel, haja vista a observação das págs. leis. 0 Saltério já se supõe familiar aos leitores de tais livros.

Assim o volume da Escritura poderá eventualmente fornecer sem delongas o alimento que o cristão dêle aguarda. Mais audaciosamente aconselham . por exemplo: Éx 21-31. se comportam na Bíblia como arcabouço ou vigas de ligação que dão consistência ao conjunto.244 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO mosâica. era necessário que os hagiógrafos tecessem a moldura etnográfica. 1 Crôn 1-9. Ez 4048 (excetuado o bloco 47. o leitor vá anotando em fôlha à parte ou em caderninho os trechos que mais lhe "sabem" ou mais o "impressionam". civil. geográfica.e com razão . assinalar os seus "trechos vitais" com marcas a lápis feitas no livro sagrado. portanto. uma obra bem redigida que. junto com determinado texto. cada qual as consignará para seu uso particular. a fim de se consolidar o conhecimento do texto sagrado após uma ou mais leituras diretas da Bíblia. caso o possa. Note-se ainda que. O Apocalipse. servindo-se de fontes bíblicas e extrabíblicas. desde que isto lhe seja lícito. o leitor terá. pois a Bíblia foi tôda redigida em função do Messias e de sua obra. Tais seções seriam. As seções acima enunciadas. obra antecipada no Antigo Testainento. não versam sôbre o tema principal da Escritura. temas que tornariam um tanto enfadonho o contato inicial com «Antigo Testamento. por ocasião da primeira leitura.1-12). medidas. os trechos bíblicos que o comentam. poderá ser reservado para o último lugar. apreendemos também mais claramente o Messias como Irmão nosso.alguns mestres: não receie o leitor. em que aquêles aparecéram na história. etc. a fim de que os grandes vultos portadores de mensagem messiânica pudessem ter pleno significado para nós. Contudo. manuseio e entendimento da Escritura tornar-se-ão mais rápidos e eficientes. 35-40. pro- . Estas passagens. existe para servir ao homem. visando melhor aproveitamento da Palavra de Deus. êste é instrumento de trabalho e nutrição espiritual. genealogias. assim compreendemo-los melhor. Anote outrossim nas margens de cada página as seções paralelas ou complementares de tal ou tal passagem. Mais três sugestões práticas parecem vir a propósito: é de vantagem que. ao tomar contato com o texto sagrado.. desdobrada no Novo. descrição do mobiliário sagrado. para o futuro. se podem percorrer ràpidamente ou saltar trechos concernentes a recenseamentos. como dito. Estas seções de escol variam segundo a índole de cada um dos fiéis. como se sabe. Dt 12-26. muito recomendável é o seguinte expediente: tome o leitor. à história completa do Messias. leis rituais. ou seja.

° PEQUENA ANTOLOGIA BÍBLICA Para despertar quanto possível o interêsse pelo texto sagrado. L. 1927 e 1928). van Imschoot.-Rops. 13 Em geral. Histoire d'israel. 3 vols. A. não queira o leitor confiar na memória. 1940) Kuss-Muller. 1945). 2 vols. mbora esta lhe recorde em linhas gerais o conteúdo da passagem citada. Historia biblica. 1947 e 1948) . evitando errôneas associações de textos. § 3. (Paris2. Fillion. anacronismos. Doctrine da Nouveau Testament (Paris. c) será igualmente profícuo gravar aos poucos no espírito os números (de capítulo e versículos) que caracterizam as seções de maior importância. por esta. História do Povo de Israel (Petrópolis. 13 Notem-se P. minúcias ou também grandes idéias que até então não havia percebido. Ttidologie de t'Ancjen Testament. e não raro ficará agradãvelmente surprêso por encontrar neste matizes. 1946 e 1947) D. Th4ologie da Nouveau Testament (Paris. o que é de notável vantagem. o leitor tomará o cuidado de compulsar os textos bíblicos a que aluda o historiador. (Paris. Quem assim procede. 1951). 12 assim permanecerá em contínuo contato com o livro inspirado. Schuster-Holzammer.-Cl. 1946) . muito pode valer a indicação das mais belas passagens da Escritura. Histoire d'israel. O mesmo poderá ser feito tomando-se por base um manual de teologia bíblica do Antigo ou do Novo Testamento. etc. . pode com facilidade voltar a tais trechos.COMO LEREI A BtELIA? 245 cure reconstituir a história de Israel. Autor e Mestre das Escrituras. P. porém.4lten Testamentes (Bonn. saberá com certa desenvoltura reconstituir o contexto de determinada passagem. Ao se defrontar com tais indicações. concorre grandemente para aprofundar o conhecimento da Sagrada Escritura a leitura imediata de versículos que se encontrem mencionados em alguma monografia. a experiéncia mesma e. (Barcelona2. (Paris. agrupando seções 11 Merecem menção: G. 12 Éste trabalho acarreta a freqüente interrupção da leitura. J. tome 1 (Dieu). O Povo Biblico (Põrto. Ricciotti. Valiosa é também a obra clássica de Bossuet (t 1704). ceppi. ' uma obra dessas não deixa de ser um compêndio agradável de exegese dos livros históricos e de boa parte dos escritos proféticos. Discours sur l'histoire universeile. principalmente de teologia ou história bíblica. Lendo-a. 1938). Eis o que tentarão as páginas seguintes. 1954) . se encarregarão de manifestar ao leitor outros expedientes valiosos para que mais e mais possa desfrutar o conteúdo sempre fecundo das páginas sagradas. Theologie des . 2 vois. vá diretamente ao texto. abordando-o por via diversa da habitual. Bonsirven. indispensável para a melhor compreensão do tema. De resto. o Espírito de Deus. É. Heinisch.

Jer 23. At 14.1-18). Rom 1.. DEUS E OS HOMENS O Deus que governa a criatura humana: Já 12. Si 8. Já 38-41. O Eterno diante do qual tudo passa: Is 40.25-28.. Prov 8 . Ez 34.4-12.15-24. Is 44.23s.1-31 (cf. tradução que observe a forma poética onde ela figura nos originais.. O Senhor rege a natureza: Já 9. Iii.25-41. O Senhor fala no silêncio da noite: Já 4. O homem comparado a Deus: Já 25.29. o crocodilo: Já 40.6-11.26.e os idolos: Jer 10. O trovão. expressão da Majestade Divina: Si 28. A confecção das tabelas muito deve à.5-8. O DEUS TRANSCENDENTE A Majestade Divina no trono de sua glória: Is 6. Já 38. La Bibbia dei eUetatj (Roma.19-25. é imprescindível lê-las em tradução fiel.6-8. Jo 10. Limitamo-nos ao Antigo Testamento..25-28.2231.3-9. Ricciotti.14-25. Quem poderia pedir contas a Deus? Is 45. 1 San 3.942. O universo proclama a Deus: Sab 13. IL DEUSEOMUNDO A eficácia da Palavra de Deus: Is 55. 4. já que os escritos do Novo Testamento são mais familiares aos fiéis.5s.2-7.14).12-17. ° hipopótamo: Já 40. Si 89. .3. Is 66.6-9. Sab 12.1-15. 4. 14 Para se perceber a riqueza do significado. 51 103. Mistérios e maravilhas entre os animais: o cavalo: Já 39.1-5.26-28. 1941).13-18. o asno selvagem: Já 39.1-2. Si 101.20. Jer 23.1-38. Os poemas da criação do mundo: Gên 1. 21-25. 28-31. Dt 8. 14 1.1s. a avestruz: Já 39.246 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO bíblicas de acôrdo com o tema ou com a forma literária respectiva.12-21. a águia: Já 39.1-9 (cf. o esmêro literário das seções mencionadas nestas listas. O Deus Único: Is 44. obra de O. mesmo dentre aquêles julgamos supérfluo citar algumas passagens muito conhecidas dos primeiras livros biblicos.26-30. 5.2-6.4.1-16. Imagem e semelhança do seu Autor: Gên 1. O Senhor é meu Bom Pastor: Si 22. Si 18. O Deus que traz o mundo na palma da mão: Is 40. Onisciente e Onipresente: 51 138.20-26.

3-9. "Senhor.1-9..9. 8. IV. "O Senhor é misericordioso e compadecente": Si 102. • Juiz universal e o Ancião: Dan 7.22.26-12. : Dt 8. A HISTÓRiA DA INIQÜIDADE E DA GRAÇA O primeiro pecado e a primeira misericórdia: Gên 3.10-14.24-30. (dilúvio): Gên 6.1-8.1-38. O varão das dores: Is 52.9-14.11-16). O Rei dos reis: Si 2 (cf. Visão profética de prosperidade (Balaã): Núm 23.18-25. Teofania e aliança no Sinai: Êx 19.1-10. Senhor.1-9. "Meu povo me esqueceu.12.21.": Is 8. por que me abandonaste ?": Si 21.21. 4 Es 24..31-37.1-32. pois teu servo está atento ": 1 8am 3. • origem dos samaritanos: 4 Es 17. O MESSIAS E SEU REiNO Origem eterna e temporal do Messias: Miq 5. A Nova Aliança: Jer 31.18-23. A malograda Cidade do Diabo: Gên 11. meu Deus.1-8. • triste sorte dos primeiros escritos de um Profeta: Ser 36.16-20. 24.1-4.. . Doloroso anúncio de vitória: 2 Sam 18.7-11. . Providência paterna. A restauração da Cidade de Deus: Bar 4. "Fala. "Meu Deus. 1": Jer 18. A fôrça de Deus se manifesta na fraqueza do homem (Davi e Golias): 1 8am 1-58 (cf. 24...1-2 1. Jo 4. . Queda de Jerusalém: Ser 39. Si 128.5.1-18.8-17. Apc 19.23-9.6-17.13-53. Símbolos de felicidade messiânica: Jer 31.18-24. • rainha de Sabá em visita ao monarca. "Nasceu-nos um Pequenino.6. V.15. O Rei fautor de justiça e bonança: Si 71. E o mal se alastrou. • profeta Eiiseu ressuscita uma criança: 4 Es 4.9).15-24. Si 50. sábio: Im10.gratuitamente dispensada: Dt 7.5-10). • tragédia de Jeremias: Jer 37.30-5. 2 Cor 12..COMO LEREI A BÍBLIA? 247 Amparo na caminhada cotidiana: Si 90. • fome durante o cêrco de Samaria: 4 Es 6.1-24. .13. • consagração do templo erguido por Salomão: 8. • Renovador da natureza: Is 11.19-19. Insurreição contra uma rainha tirânica: 4 Es 11.1-16.24-41 (cf. 7-10.1-10.8-20. "Pequei contra o Senhor 1" (Davi e Natã): 2 San 11... mostra-me a tua glória !": Êx 33.1-15.

2-12. É o que pressupõe o texto acima citado do Dt.1-8.26-30.17. 2.7-11. "Sê delicado até com as aves ": Dt 22. A perseguição de Antíoco Epifanes: 1 Mac 1.57-67..38-45.26.20-29.24). Fórmula de bênção patriarcal: Gên 27.1-32. A grande heroína: o feito de Judite: Jdt 10. enquanto os velhos pais aguardaft em casa. Como se homenageava o favorito do Faraó: Gên 41.5-11. é libertada do Maligno em piedoso matrimônio: Tob 7. Judas Macabeu entra em aliança com os romanos: 1 Mac 8.1-17. : Gên 24. O heroísmo dos reconstrutores da Cidade Santa: Ne 3. O flagelo da sêca na terra de Judá: Jer 14. Por conseguinte.17.2-4. Gên 13. LEIS E COSTUMES DO ORIENTE Um juramento na época dos Patriarcas (séc.Jos 10. triunfo e glória: Jdt 15.248 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um povo instrumento dos castigos divinos: Is 5.. A lei do cordeiro pascoal: lix 12. que finalmente volta com a espôsa: Tob 11.1-13. Os terríveis caldeus: Hab 1. Mt 22. Que o irmão suscite prole ao irmão falecido (levirato): Dt 25. pág.C.14-18.42. O heroísmo que ela suscitou: 2 Mac 6.1-9.: Tob 10.): Gên 24..5-21. As dádivas do povo fiel para a construção do tabernáculo do Senhor: lix 35.9.1-8.11-14. ' 15 Os israelitas costumavam tomar posse de um fundo imóvel colocando sóbre êle o pé ou o calçado (cf.9-16.1-30.24. O festim do rei Baltasar: Dan 5. Hostiidades dos senhores egípcios contra os hebreus escravizados: lix 1.10-67.7-23. E um casamento. o ato de tirar o calçado (ou a sandália) e o entregar a outrem significava simbólicamente a entrega de um direito ou de uma propriedade. SI 59. assim como as seções de Ru 4. 107. VI.8. O julgamento das nações: Sof 1. XVIII a. Da história de ToMas: uma donzela humilhada pelo demônio: Tob 3.6s.1-7. Um banquete digno do rei da Pérsia: Est 1. 41).24.5-10 (cf.24). Imponente exército oriental: Jdt 2.. 5. semelhante à de um exército: 31 1.7.1-11. .9 (ef. Invasão de gafanhotos. o filho.26-29.17. .6-18.33-4.

7-19. SÍMBOLOS E ALEGORIAS As reflexões das árvores sarcásticas: Jz 9. 3.12-20. Êste é simbolizado pelo espinheiro selvagem. 20 o profeta descreve a queda da Assíria.31-45. mas destinado a reerguer-se após o exílio babilõnico. 22 A estátua dos quatro impérios: Dan 2.944. 18 As duas irmãs. o qual não dã fruto nem sombra.34). ofícios e sabedoria: Edo 38. as suas quatro partes são sucessivos representantes déste poderio na história antiga. e o Faraó do Egito. que jorra do lado aberto do corpo de Crísto. A leoa e os leõezinhos: Ez 19.1-49. Sarnaria eJudá (Jerusalém). 19 A nação escolhida era representada como a Espõsa de Javé na literatura profética.2-18.21. O artesão fabricante de ídolos: Is 44.Judá. Oola e Ooliba: Ez 23. inclinados à aliança ora com um. designam o império dos babilonios. fertiliza a terra: Ez 47. 21 Os ossos secos vivificados designam o povo de Israel destroçado pelos inimigos.: Jer 32. X estava dividida em dois remos. mas ingrata: Ez 16.10-31. passando-se. O retrato da sábia dona de casa: Prov 31.16-24.1-10. Artes. A virgem de Israel infiel: . que vém a ser as duas irmãs. Ritos fúnebres: Edo 38. Compra de um campo no séc. 19.Jer 2. VI a. VII. mas se presta ao fogo apenas.COMO LEREI A BÍBLIA? 249 Costumes dos ceifadores: Rut 2.12-20.1-36. Abimeleque. Nabucodonosor. Os ornamentos da israelita facêta: Is 3. o dos gregos (Alexandre Magno) e o dos romanos. Entre éstes dois monarcas vacilava a política dos reis de . derrotados por seus adversários e culpados da ruma da nação. novo templo da Divindade (cf. o dos medos. visando admoestar o Faraó. A criancinha abandonada. que a principio foi vassalo de Nabucodonosor. 21 7: A água que. A videira bem-amada: Is 5. de Judá.1-14.8-15. os candidatos idôneos são representados pelas árvores frutíferas.1-18.32. Desde o séc. 22 Imagem da graça. os leõezinhos são os reis de Judã. 10 As duas águias. 10 é dita videira.1-5. 30 Esta peça foi redigida para ilustrar satiricamente o significado da eleição de um rei indigno.1-12.depois para o jugo egípcio. Oola e Ooliba. A videira simboliza Sedecias. 15. 23 Tiro. Jo 2. IS A leoa.11.24-39. conforme os melhores intérpretes. Ezequiel descreve os adultérios (apostasia do verdadeiro Deus. 28 A estátua inteira representa o poderio dêste mundo enquanto é hostil a Deus.16-23.C. 19 O majestoso cedro do Líbano: Ez 31. significa a nação judaica.1-43. 20 Ossos secos que retomam vida: Ez 37. o cedro e a videira: Ez 17.1-14. que a partir do v. partindo do novo templo. Sab 14. ora com outro. recolhida. . a nave opulenta que naufraga: Ez 27. idolatria) praticados pelas duas partes da nação e o triste fim de ambas.1-7. 17 As duas águias significam respectivamente o rei da Babilonia.

Valores menores e valores maiores: Edo 40. • 24 cântico entoado por Davi depois que na guerra caíram Saul. O problema da dor: um momento de angústia: Já 3.2-11..10-13. Éx 21. At 21.7-14.. Tudo passa. A estima da boa saúde: Edo 30.53.21-25. Impossível mudar a côr da pele: Jer 13.17-27.1-8. O médico e seus préstimos: Edo 38.1-11 (cf. e o filho dêste. Desgraça a quem se isola: Ecl 4.: Is 59.13-16.1-22. "Honra pai e niâe": Edo 3.. Tôdas as coisas têm seu tempo oportuno: Ecl 3.1-25. Jo 21.1-15. 26.7-13.12-32. O drama humano: Era justo. Falsa sabedoria. confia em Deus: Já 19..23.5-17.6-11.30-34.18-27. 24. agora injustamente escarnecido: Já 30.7.23-29. A SABEDORIA E SUAS NORMAS A origem da Sabedoria: Prov 8. Não obstante. "Sê alegre!'t: Edo 30.1-21. IX. Os atos do fraudulento são como ... a dos ímpios gozadores: Sab 2. Até os animais reconhecem os tempos 1: Jer 8.1-40. seu Inimigo. 19.1-15. Onde reside a Sabedoria: Já 28.1-25.22-36.1-22. A Sabedoria pousa e frutifica em Israel: Edo 24. Jõnatas. feliz.9-12.13.250 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O cinturão simbólico: Jer 13.12. A ridícula preguiça: Prov 6. . "Não julgues poder dissimular o teu pecado ": Edo 23.3-26. : J& 29.18-21.16-28. A sabedoria de Salomão: 3 Es 3. Como tratar o tolo: Edo 22.1-22. "Sê prudente ao procurar a amizade dos grandes ": Edo 13. Conselhos para o conviva de um festim: Edo 31.1-16. : Já 31.14-20. 24 Pranto pela ruína de Jerusalém: Lam 4.1-28. e nada sacia: Ecl 1. VIII. A Sabedoria comunicada aos homens: Sab 7. "Escolhe criteriosamente os teus amigos": Edo 6. colóquio com Deus após o auge da crise: Já 10. seu amigo muito caro. ELEGIA E LIRISMO Lamentação fúnebre: 2 5am 1.185).1-22.

Senhor!": Ne 1.46-55). 13. A cidade sem sorriso: Jer 16. Agradecemos os benefícios presentes. .1-10. Os céus cantam a glória de Deus: Si 18. SÚPLICA A oração que sustenta o mundo: Gên 18. "Minha alma. que ama os pequeninos: 1 5am 2.5-11.": CONTRIÇÃO "Pecamos. "Minha alma tem sêde de Ti": S162. Bar 2. 51 123. Si 148. : Si 41/42. "Se o Senhor não tivesse estado conosco.16-27.1-8. A terra deu seus frutos !: S1 64. 1 Crôn 17. Como o cervo deseja as fontes das águas. 83.5-37.18-9. Lc 1. PRECES ADORA ÇÃO "Vinde. 9. 51 112 (ef.8s.7-18.26-45. 9. Si 91.2-7. A alegria da natureza renovada: Si 95-97. O clamor dos habitantes de Jerusalém arrasada: Lam 5.1-23..14-19. Is 35. penhores da plenitude futura: Tob. Consôlo a Jerusalém libertada: Is 51.12. Dan 3. exalta o enhor!": Si 144-147. adoremos o Senhor 1": Sl 94. ": AÇÃO DE GRAÇAS O povo agradece a vitória outorgada ao rei: SI 20.. 66. Um desafôgo pessoal diante do Senhor: Jer 20. O louvor da criação inteira ao Criador: Dan 3. Glória ao Deus transcendente: 1 Crôn 29. 14. Dois justos oram em favor do povo infiel: Est 13.52-90. 3. Esdr 9.23. "A Ti levanto os meus olhos !": Si 122.9-17.10-19. Gemidos depois do castigo: Jer 8.1-10.1-22. as tuas obras me deleitam! Louvor ao Deus soberano..COMO LEREI A BÍBLIA? £ 251 Sátira sôbre Babilônia que caiu como estrêla do céu: Is 14.1-15. o Senhor não me abandonará": Si 26.3-2 1.17-33.11-18.17-52. O cleieitede estar na Casa do Senhor: Si 25. X. "Senhor. .1-19. "Piedade. "Ainda que pai e mãe me abandonem. Senhor!": Sl 50.

Estas então lhe irão falando linguagem cada vez mais significativa! 25 Para o cristão. do seu modo.14-42. curiosidade de inspecionar o contexto ou de divagar pelo que fica em tôrno das passagens referidas. Apc 21. Comunhão dos santos.5). seja o mais belo de sua for ma literária..1-22. "Nem riquezas nem miséria. Ora o velho pai aflito: Tob 3. 2 Crôn 6. A prece da viúva heróica: Jdt 9. 2 Crôn 1.1-18. seja o mais belo de sua doutrina. !": Os textos acima indicados destinam-se a ser. Não receie perder tempo. e vá folheando as páginas sagradas.26-23.13-16.252 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Nostalgia de Jerusalém: Si 136. Talvez se torne útil a tabela também àqueles que desejem renovar a leitura da Bíblia com a qual já estejam familiarizados. porém. O rei pede as bênçãos do Céu em favor do povo: 3 Rs 8.26.2-19. comunhão de preces: 2 Mac 15..1-6. pontos de partida para a leitura do Livro sagrado. não extinga o leitor a louvável "curiosidade" que nêle possa nascer. . 25 "Envia-me a tua sabedoria Sab 9. Ora o ancião perseguido: Si 70.22-64. "Não permitas peque pela lingua ou pelo olhar ! ": Edo 22..6. Em um e outro caso. Poderão ser utilizados por quem pouco ou nada conheça do Antigo Testamento e queira logo tomar contato com o que êste oferece de mais belo. Senhor 1": Prov 30.7-9.7-12. Jerusalém significa a pátria celeste (cf. Gál 4.

MAPA ILUSTRATIVO DO ÉXODO TRAVESSIA DO MAR VERMELHO .

31) Eis como o Comandante Bourdon (CL pág.17. mas debalde. Tellier.. pôsto diante de Beelsephon e do Djebel Abu-Hasa. . passando ao pé do Djebel (Monte) Geneffeh.2). 24. Cf. porém. e acamparam junto ao fortim ou Migdol. O Senhor. que naquela época era um prolongamento do Mar Vermelho. dirigiram-se para Etham. Éx 13. cidade situada sôbre um dos braços orientais do Nilo. deixando Ramsés. se colocou entre os dois acampamentos e os filhos de Israel entraram pelo Pequeno Lago Amargd.MAPA [LUSTRATIVO DO ÊXODO E. com a intenção de seguir a estrada direta para a Palestina (Canaã). deu-lhes ordem para que retrocedessem (cf. Desceram então ao longo da margem ocidental do Grande Lago Amargo. Em conseqüência. 14. 211) reconstitui a série dos acontecimentos concernentes à passagem do Mar Vermelho (explicitamente assinalada no quadro): Os israelitas. Seguiram-nos através das águas os egípcios.P. EM PARTICULAR. 1937). DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12.. visando cortar aos israelitas o caminho para o Sul. O exército egípcio se aproximou. R.31-14. Atlas historique de l'Ancien Testament (Paris. a nuvem que acompanhava o povo de Deus.

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9 0 9 °' o CC ar d otO . o [-4 IZ E .- 00 Fn à 0 (a O 1 O 2 oCC O o o 1 E Oo O O co á .0 o O) ZA eCo o ei O 0.0 O co -Ia 2 tCC O O CC a O 9 O o o z co (a rr o Lcd O CI. 10g4 ei co O o &t CCCC (a-o o a) CCO O a- O H I-lcz Qr1 r O (Do -F o O- 8 ri .260 t PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tI) s CO 00 l o -: O ri) 0 - 1 ê CC s - E 15 o (a CC O 1 8 .

1-33. 18.14.16-18 (a lei do anátema dc guerra) 127s JOSUÉ 3.30-38 (as duas filhas de Lote e seu pai) 139s 25.6 (restituição do quádruplo) 69s 24. 219-223 21.1-20 (a queda dos muros de Jericô) 214-219 JUIZES 3.1-7 [Vg 31.36 (as dez pragas do Egito) 205 -210 14.44 (cSéde santos») 137. 219-223 ECLESIÁSTICO 34. 148 NÚMEROS 22.23s (o mau espírito do Senhor cm S!quém) 155 13-16 (a história de Sansão) 226-231 5AM UEL 1 Sam 6.9 (o mau espirito do Senhor em Saul) 154s 28.1-61 (estima dos sonhos) 186 38.7-10 (futminação de Oza) 159 -161 21.23-32 (a luta de Jacó com o anjo) 142-144 ÊXODO 7. 19.14 (região dos mortos e inferno) 1995 .20-34} (Esaú e Jacô) 140-144 27.25 (até que») 78 JOAO 6.17-22 (a simulação de Jael) 145 9.37-39 (as cabras malhadas de .15-22 (a simulação de Aod) 145 4.6-23 (o anjo sedutor no céu) 156s CRÔMCAS 1 Crôn 13.3-2.22-72 (o sermão eucarístico) 47s 15.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 RUTE (uma história de amor) 90 REIS 3 lis 22.2-36 (o maná) 107.10.12 (Asa doente e impio) 179 JUDITE (significado moral) 144s ESTER (o ânimo bélico de Israel) 128 SALMOS 51 79 (a videira devastada) 111 ECLESIASTES (pessimismo e otimismo) 191-195 SABEDORIA 16.5 (o número de guerreiros de Davi) 76 2 Cita 16.7-17 (a travessia do Jordão) 212-214 6.19 (fulminação dos betsamitas) 157-159 16.7-14 (Saul evoca o espirito de Samuel) 195s 2 Sam 6.5-31 (a travessia do Mar Vermelho) 210-212 16.LISTA DOS TEXTOS BIBLICOS MAIS PABTICULARMENTE CONSIDERADOS GÊNESIS 19.8 (enumeração de crimes) 72s MATEUS 1.1-14 (estima do médico) 179 ISAIAS 5.6 (fulminação de Oza) 159-161 12.14-12.1-8 (a verdadeira videira) 111 ÁPOCALIPSE 12.29-29 (o maná idiilco) 108.15-26 (a mulher de Lote petrificada) 202-205 19.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 21.1-7 (a videira bem-amada) 110 EZEQUIEL 15.1-17 (a Igreja e Maria) 65 20.226 DEUTERONÔMIO 20.12-14 (a lei do talião) 123-125 LEVÍTICO 11.1-8 (a videira inútil) 110 AMÓS 1.20 30.Jacó) 141 32.22-35 (Balaã e o asno que falou) 223.

154. 112. Adão. Circulos concêntricos no discurso: 48. Amor no Antigo Testamento: 161-163. 118. Dilúvio: 35. Antropomorfismos: 52-59. 136 xi. 120 n. Ungidá: 80 n. Essénios: 187. 82. 157. 224 n. 32. Árabes: 41. Dureza de coração: 136s. 104.rrnota . 170. Cadáver: 149. 121. primeiro e segundo: 88. 15. 10. a. 135 s. 88. Dura cerviz: 154. 82. 36. Abimeleque (de Siquém): 155: 249 n. aliança com Deus: 168. 102. 91. 242. 49 n. 8. Alma. sagrados: 147 xi. 162s. Elias: 105. 5. 167s. 170. 149. 202. 203. 18. 102. idioma: 39. 154. 159. 140-144. 44. Christós. Deus vivo: 55. em Juta com Jacó: 142. 8. Contemplativo (estilo): 42. do extermínio: 180. 19. 159. 121. 98. 221 n. 5. 46. a. Corá: 138. Cabeleira de Sansão: 226-231. 154. 37. Amon (origem): 139. «Direitos autorais» entre os Antigos: 35. aliança de Deus com D. «Alegria» de Deus: 59. 112. 246. 205-210. 1315. 116s. 71. Davi: 34. Aramaico. Comparativo dos adjetivos: 43. Cántico dos Cânticos (suas metáforas): 44s. Condescendência de Deus: 20. Epicuro: 177 n. Egipcios: 33. 101-103. 88. Circuacisão. 209. Antitipo: 87-92. Animais impuros: 146-149. 186 fl. 132 n. 160 n. 247.. Dinamismo de expressão: 42. Estratagema bélico: 145. 25. 247. 8. 176. 149 n. a. Cahitas (sem nãmeros): 67. 151. 135s. 180 n. 158. 242. Abel. 155s. 179s.: 86. 46-49. diversa do tipo: 89 xi. ijconsciente após a morte: 189s.. 175s. 184. 153. 236. Anjos bons: 63. 16. 201. 1. a. Espiral (estilo em) : 46. 176-178. 248. 62. 118 n. 250. 152-157. 197s. 115 n. 98. Anátema: 125-132. 162. 51 xi. 167. 206. 181-183. 166. 116 n. 156s. 80 n. Concubinato: 118 n. conselheiros de Deus: 156. Abraão: 39. 194. Coletividade e individuo: 64s. 223-226. 42. Demônio: 147 n. maus: 81. Citação implicita: 35s. 180. 132. Banho ritual: 146. 46. 238. 40. 117s. Antropopatismos: 54. 180. Alegoria. 22. 72. 1 «Catalisadores» da consciéncia: 120. 76. 18. Cordeiro pascoal: 86. 248. 55. Aod. 216. 20. «Arrependimento» de Deus: 59. Cronologia esquemática: 37. 9. Messias. simulação de: 145s. 2. 135.: 102. 17. 247. 215-219. 147. 135s. 55. «Braço» de Deus: 57. Antioco Epifanes: 35s. 209. sacriflcio de A. Epicurismo: 191. 206. 101. 230. 75. 120s. no sangue: 165. 194. 99. 179. Consciência embrionária: 119s. 68-70. Clã: 131. tipo de Cristo: 89. 88. 64. 11. 153 n. 112. 217 n. 88. 149. 204: 227. tipo do batismo: 88. Aliança de Deus com os homens: 80-86. 62.INDICE DE NOMES E TEMAS' Aarão: 102. fl. 86. Apoio: 195 n. 169. Criação do mundo: 31. Esculápio (Asclépio): 176 n. D. tipo do Messias: 89s. 11. 40. 142. 130. 3. Esaú e Jacó: 86.

214. 249 n. da S. 37. 1. 133s. 88. 235-238. 229. da iniqüidade: 81 n. e os sonhos: 184. 59: 62s. dos números: 66. 116 n. 229. Individuo e coletividade: 64s. segundo Adão: 84. 36. m. M. 6.ÍNDICE DE NOMES E TEMAS Eucaristia: 15. Mar Vermelho e batismo: 88. 20. 134s. 148. 150. 25. Género literário: 16. Messias. f. M. "Inveja" de Deus: 59. iv + 1 (esquema proverbial): 72-74. natividadç de 1. 98. Matrimônio em Israel: 134-140. 181. 195 n. 248. 135 n. 23. 104 s. Inerrância bíblica: 27-30. 72. 44. José. m. m. 112 n. 47. 91. 2. 93. J. 226-231. 148. 57. Filosofia e medicina entre os Antigos: 177. 147s. Mito: 33. 5. 212-219. 241. M. Narrativa etnológica: 139. 78. 182. Mal e Deus: 152. Juizes: 37. 48. por assonância: 199 n. 183. Lutero: 21 n. 212. 177. à substância: 206s. 204. M. 157. 1. 121 n. 8. 217. 190 n. 82. 223 n.. 36 n. 155 n. Mistério de Cristo: 81 n. . 182. 157. 131 n. 87. 182. 129 n. Existencialismo ético: 118s. Filósofos pagãos: 56. 15: 238. 91s. 183-187. 9. 3. 7.: 88. Gênio (semideus) : 148. sacrificio de 1. Longevidade dos Patriarcas: 68. 129. Josué. 190 a. 12. 121 n. 12. tipo de Cristo: 89. e a Anunciação: 242. Glossas: 75. 176. 87 n. Escritura: 112 n. figuras do M. 79: 235. 50 n. 194. 167. 178. pastor: 112. 142. Lei natural: 119: 121. Jacó e Esaú: 86. Jonas: 70. Harém: 118 n. 47s. Mardoqueu: 128. Interpretação autêntica: 21-23. 89. desenvolvimento do conceito: 94-98. Folclore: 203: 229. Hamurapi. 117. 13. 197s. 104. 136. 89. Israel (etimologia) : 62. m. 152. 1824. lSls. Juramento e número sete: 69. 87 n. M. de sonhos: 175. Inferno. 177 n. 56. 17. 211s. 220s. símbolo da Aliança: 102s. 14. Imaculada: 89. 204. Milagre quanto ao modo e q. 104. 5. 110. 24. 140-144. código de: 124. f. 70. 136 n. 237s. falível: 29. 15. Iniciação biblica: 23s. e a Igreja: 65. Gregos: 33. 243. 1. 196. 98. 67. 142. 110.: 100. 189-200. tipo de Cristo: 89. 63. 116 n. 239. e leitura da Biblia: 19-21. Mesa. Macabeus: 83. 52: 83. 37. 20. 177s. 235s. 136 n. Evocação dos espíritos: 195s. Hades: 190. Lei mosaica: 82-85. 85s. 25s: 138. m. 7. 197. M. 223-226. Faraó (empedernido): 155. 4. 13: 1805. 87 n. Mudança de dogma: 29. 102. 12. Morte: 166-170. 104. 29. 9. 34. e Judite: 89. 24. 9.: 88s. Moisés: 10. Metáfora: 28. 7. 221s. 146-149. Fé de Israel e queda de Jericó: 218s. Moab (origem): 139. Galileo Galilei: 30. entre irmãos: 138. 178. 37. in/erilus: 190-200. 208-210. 99. Impureza legal e impureza moral: 136. Jubileu: 70. 112. 12: 127. inscrição de: 126 n. 57. 185. 247. e Ester: 89. centro da Biblia: 93. Liturgia e Antigo Testamento: 79 n. Hércules: 177 s. político: 83. 109. de nome: 63. 91. 207: 209. Igreja e interpretação da Biblia: 21-23. 145. Gedeão: 99. 135 n. Isaque. 55. Exílio babilônico: 34 n. 200. 229. 126 n. i. 1-lerem: 125-132. 23. 18. Mão ( medida): 41. 158. 29. 67s. 205-210. 171-173. 225. 153 n. 238. Jael (simulação de): 145s. 28s. 99. de Sansão: 230. 197. 219 n. Maria SSma. 39 a 1. 91. 82. aliança de Deus com: 102. Hipérbole: 43. «Ligar e desligar»: 51s. 132. 12. 9. 112. 147. "Ira" de Deus: 59. Mago: 63s. 195 n. 149. 12. 245. etimologia do nome: 80 a.

249s. 14. 166: 178. Profética. 33. 103s. Participação. 190. 158s. «Sair e entrar»: 50s. 200. 38. 21. Pecado de Adão: 53. 149. Conservação do: 76s: principais traduções modernas: 233-235. e o Eclesiastes: 191. 152s. Sôfrimento: 182s. 144. 157-159. 127. Totalidade. s. 244.264 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ressurreição da carne: 182s. 168: 183. Superstição: 120. 169. 157-159. 170: 178: 241. 184s. 151. Nazireu: 226-231. 73 n. 201. lei da: 64s. Primitivo ascendente e pr. Pobres de Israel: 83. 86. Sodoina: 202-205. 246 n. Paraíso: 13. Proto-evangelho: 104. 75. Paradoxo: 29. 24. 183. categoria do pensamento: 64s. 60. 101. Números. 234. 70. 147. 156. Tabu: 147 n. Protestantes: 17s. 149. 45. Purgatório: 199 n. 137s. 40. 183. 191. Sabedoria personificada :t 94. 146-149. 196-200. 243. 60. 89. Temor e amor no Antigo Testamento: 122. 182. material e p. Plutão: 190 n. lo: 90: 241. Testamento. 196s. 214. formal: 1485: 160s. em sonho: 183. 75. 103. doze: 71. Pitonisa de Endor: 195s. e doença: 178-183: p. 147. Odiar (= amar menos): 43. 81. 195 n. Suplantador: 140-144. 132. Pré-história bíblica: 37. 134. 201s. 87. Paralelismo de frases: 46-52. 40. 89. Poesia: 28. 17. 7. 51 n. 161-163. Serpente de Aarão: 209. 114. Promessa (a Abraão): 84-86. 104. 157. . 99. 69. 167 n. Plenitude dos tempos: 20. 242: s. «Tristeza» de Deus: 59. Racionalismo: 21. 182. 1955. 135. 199. Rahab: 217. 90 n. imprecatôrios: 132-134. 199. cinqüenta: 70. 135. 79. Noé: 39. do paralso: 81. 241. 104. Paralelos. de Apolo: 195. Satanás: 31. 31 xi. Salomão. 197. S. 9. 216: dez: 70. 18. 216. de bronze: 88: s. 100 n. pré-cientifica: 30s. 5. Texto biblico. 224 n. «Setenta Intérpretes» (LXX): 10. 194. s. «Resto» dc Israel: 83. Provérbios numéricos: 71-74. 91. 196. Simbolos: 44-46. 171. 101. 149. Pedagogia divina: 120. significado dos: 65-78. Profetas falsos: 156s. textos: 152-154. 38: 234. SheoZ: 190-200. Necromancia: 185. Salmos: 28. 185s. Santidade no Antigo Testamento: 120-122. 137. 4: 175. 134. Parábolas: 44. três: 70. 36. 247: p. 14. disposição (iiatheke) àliança (berith): 103. «Vingança» de Deus: 59. Recapitulação (por Cristo): 84 n. sete: 69. 223 n. Shekina: 105-107. Veracidade científica e v. 102. 125. 57. 181s. tipo de Cristo: 88. história: 35. 20. 40. 167. decadente: 121. Vulgata: 10: 17. Totem: 147 n. 35. Sol (milagre do): 30s. s. 191. 190: 224 n. 104.

Bailly.: 207 n. 93 n. 11. Eliade Mircea: 60. Santo: 141 a. 17. Ei.: 217 a. D'Rarcourt. P. A. 35. 139 n.: 79 n. Froatino. Clamer. Couchoud: 17 n. 55 n. 9. P. F. 9. Boman. 35. 13.: 31 n.ÍNDICE DE AUTORES CITADOS Abel. São: 21.: 36 a. 4. Heinisch. 13. Daniel-Rops: 16. 9. De Fraine. 10. 221 n. 34. Bodenheim. E. Ferreira dAinxeida. J. 2. 4. De Vaux. 17: 139 n.: 167 a. 36. 9. 47 a. 20. 204: 221 n. 236 a. 198 a. 90 n. Joly. Fidvio José: 125 a. Beaucamp. Denziger: 36 a. 20. 36. 8. J. . Ch. 18.: 218 a. Guitton. Haxnman: 91 a. Johnson: 17 a. 207 10. 245 a. A. G.: 165 a. 24 245 a. L. 35. v. 2. Chame. Santo: 117 n. Heródoto: 129 a. A. 9. 14: 208. 13.: 190 n. 1. 3. • • • Gaster.: 245 n. Jeremias. 46 a.: 112 n.: 45 n.: 143 n. 1: 153 n. 9. 42.: 79. 11.: 165 n. Dennefeid.: 217 n.: 35 a. Eauer. George. J. 253. 71. 9. 5. J. Sexto Júlio: 215. 23. 239. 30. Henry: 16. 6. 10.tripides: 49 a. 15. 8. 32 n. 86. 141 n. 142 a. A. 15.: 40 n. J. São: 20 a. 204 n. 15. Ohorme. 190. 15.: 126 n. 4. Cumont: 180 n. 221 ii. Fr. van: 180 n. 32. 18. 93 n. Censorino: 32 n. 2.: 167 n.: 149 a.: 36 n. 17 a. 11.: 220 II. Imschoot. 137. 9. 34 n. Coppens. 19. 31. 240 n. Ehrenberg. 11. 207 n. 23: 176 a.: 160 a.: 233s. J. 42. 194 a. 224 n. 15. 33. Buysschaert. 214 n. 3s. O. 4.-G. Bossi: 17 a. 2. 19 a. E. Hoonaciçer. 5.: 221 n. 238 a. 19. 18. 23. Claudel. Homero: 87 a. 47. 4.: 51 a. Cassiano. 1. Er.: 28 n. 234 a. S. 34. 212 a. T. Fiilion.: 159 a.: 17 n. 194 a? 18. 8. 152 n. 1. 40. 226 n.: 69 a. J. Santo: 14. P. 13. Harnack. Gregório Magno. 32. Isidoro de Sevilha.6. São: 139. 19. 10. Hipócrates: 141 a. 67 n. Erman. Jaussen: 204 a. 184 a. 21: 245 n. 13. 10. Baur. Dante: 55 a. Bossuet: 245 n. 217 a. Gregório de Nissa. Cicero: 32 n. 35.-M.: 131 a. 187 a. R. 132 a. Ceppi. 42: 161 a. 12. 12. vaa. 16. 6. A. Carcopino. 127 n. E. 22.: 167 a. Bourdon: 211. Gelin.: 161 n. Artemidoro de Éfeso: 184 n. 2. Abade João: 140 a. 4. M. 7.: 71 n. A. 1. A. Einpédocles: 32 a.-Cl. J. 25. Aristóteles: 32 n. Jerônimo. 2. Agostinho. 3. J. 131 n. Ambrósio. 37. 7. A. O. 176 a. Diógenes Laércio: 177 a. M. Filo de Aleaandria: 224 a. 141 n. 33. 14. 38. 33. 13. 17. 4. 11. 14. 143 a. 5: 237. 6. 158. 4. L. 38. A. R. P. 204 n. 1. l3onsirven.: 42 n. Closen. São: 226 a. 221 n. Curtias. João Crisóstomo. 3. 9: 245 a. Gourbilina. Charlier. 215s. 2.: 245 a. C. 142 n. 21: 163 a. 192 11. 5. Dhorm. 6. Hehn.

Meyer.: 31 ri. 7. 7. 14. 180 ri. r6 I: 19 ri. Ruperto de Deutz: 12 ri. E.: 198 ri. Plauto: 49 ri. A. 11. Vergilio: 165 ri. 4. 11. J.: 131 ri. 23. Kaiser.: 143 ri. 9. 203 ri.: 221 n.266 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Rerian: 146. E.: 55 ri. 6. 9. 18.: 49 ri. 197 n. 22. 13. 12.: 33 n. Vigouroux: 207 ri. C. 204 ri. Lagrange. 4. 11. 221 n. b3iano: 141 ri. 1. 11. H. 2. 11. 65n.: 223 ri. 1. Solon de Atenas: 124. 245 ri. W. 21. 14. 11. Weisengof. W. 18. 3. 9. 165 ri. 1.: 120 ri. 2. Moritet. 6.: 12. B. 4. Leão XIII: 28 ri. 79 ri. piersdn: 17 ri. 26. Weber. 146 n.: 65 ri.: 183 ri. 2. Médeblelie. Reiler. 211 ri. Theodor. 2. 221 ri. 33. B. 14. P.5. A. Seilin. 21. 25. 31. Platão: 28 n. 15. 21. 165 ri.1. 33. 1. H. 25. 9. Cl. . 4 Metzinger. Sehuster-Holzammer: 218 ri. tjbach: 221 n. 33 n. tqbclah: 159. 50 ri. Rosenberg: 79. Le Prois. 207 ri. Péguy: 31 ri. 16.: 226. 235 ri. 10. Robinson. Steinmann. Passelecq. Sérieca: 32 ri.: 132 ri. Tellier.-J. 15. O. 10. Varrão: 167 ri. 10. Sérvio: 32 ri. 3. P. 11. Sebulz. E. Scullard.: 33 ri. 5. 11. Lambert. 4.: 218 n. Ricciotti. 35.1. Spicq. 101 ri. 1'. 28. Suys.: 167 ri. 218 ri. 19.:137 ri. Tournay. 52 ri. 253. 39. LodsrA. Sófocles: 49 ri. Smith: 17 ri. 3. . 7. 1'. Polibio: 212.: 64 n. 9. M. J. Oepke: 177 ri. 28 n. Meignan. 4. 26. R: 119.: 236 ri. 207 ri.: 12. 2. 35. 35. . 32 ri. 55 ri. Card. 32. Nygren. Robert-Tricot: 236 ri. 212 n. 13.: 212 ri. 2. Pi*fiëio 47. 3. J. A. 139. 9.: 194 ri.obertson: 17 ri. 222 n.: 49 n. Lesétre. 2.: 221 ri. 245 ri. Kuss-Muller: 245 n. 8. Stobeu: 32 n. H. 12. 1.: 36 n. 29 ri. 218 n. A. Cl. E. 1! Naber: 17 ri. 31.: 159 ri. 7. 194 ri. bVldio: 167 ri. Oróslo: 126 ri. 184 ri. Marcion: 79. 37. 2. Tito Lívio: 212. Steck: 17 n. A. 36. 217 ri. 2. Tácito: 126.i R. 246 ri. Rowley. 4. Pffiio: 141 ri. Maritain. 18. E. 17.

Czéncia e Fé na Hsõria dos Pri- . no decorrer de 18 séculos. as noções concernentes à vida póstuma e à justa sançáo divina. movidas por interêsse sincero. tendo-se revelado a homens rudes ou moralmente infantis. a fim de os fazer colaborar num plano muito elevado. preparando o gênero humano a ouvir um dia a mensagem desconcertante: "Bem-aventurados os que choram. caso o leitor tome consciência de que • história do povo israelita anterior • Cristo equivale a um processo de lenta pedagogia divina. queiram desfrutar a riqueza de livros que inspiraram amor e heroismo a geraçoes e gerçõe. o asno de Balaão que "falou". mas consumá-la e levá-la à sua plenitude (cf. Muitas das hesitações suscitadas pelo Antigo Testamento se dissipam.. Amal até mesmo os vossos inimigos. as intervençôes muito fortes de Deus irado. as imprecações. Tudo se encerra com um guia prático para a leitura da Biblia.(continuação cIa i. caso se quisesse fazer abstração dos livros do Antigo Testamento. certos milagres da história de Israel cujas proporções parecem derrogar à Sabedoria divina (a queda dos muros de Jericó. o Mestre Divino foi burilando as categorias de pensamento de Israel.17.. A séguir." A obra se destina a tódas as pessoas que. etc. apenas houve por bem eliminar tudo que nesse patrimônio de cultura era contrário à Idéia de um Deus único. Mt 5.Jordão.. pois. a poligamia. Do mesmo autor: mordios A Vida que Começa com a Morte.a orelha) possui para todo cristão. os que têm fome e sêde. seria impossivel entender os Santos Evangelhos e os escritos dos Apóstolos. são consideradas dificuldades especiais que as páginas do Antigo Testamento apresentam ao leitor cristão: rnoralldade muito rude.). Jesus não veio extinguir a Lei. a cabeleira de Sansão. Remunerador dos bons e Punidor dos maus. santo. o papel de relêvo atribuido a doenças e sonhos.. isto é.s de judeus e cristãos. o exterminio dos inimigos. se encontram os prenúncios e os primeiros moldes" (a expressão é de Santo Agostinho!) dos grandes dona que os cristãos possuem. os livros sagrados pré-cristãos. a passagem do Mar Vermelho e do . Aos poucos. que permitia o exerciclo do talião. não quis remodelar repentinamente os hábitos e conceitos dessa gente. as 10 pragas do Egito. no Antigo Testamento. o maná no deserto. o Senhor Deus..

aLX J TJ - 25 Muni 6*i4t) R.Tradução do P. da AGIR QU fl 14 . z-3038 ilurl2. a sair no período 4 anos. ii:. Pedreira de Casro O.ft . M EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO .onte I3i MI. LIVROS EDITADOS EM E95i TOmAS.Pena. JUDITE E ESTER — Traducao de D Etêvo BetLeneourt O S. Ar. fr.A SANTA BÍBLIA A SANTA BtBLIA — Tradução feita a partir dos orglnais e oriertada pela Liga de Estudos Bíblicos. B .. EVANGELHO SEGUNDO SÃO LU(S Tradução de Mona. Reembóbo Pcata . F.k. EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS Tradução do Emii Malimaiin 5 0 J * orçi_ Lu . 919 Cixa Pta1 133 1•i. C P. (utías (J1N i 1i edi c ões. Manuel .imenv.t Gi-aJs Atendem pe'o Sviç. O APOCALIPSE — Tradução de Frei João Jos.

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