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perta cada vez maior Interêsse em nossos dias. Os problemas da hora presente têm obrigado os homens a recorrer sequlosamente às fontes onde possam encontrar a sabedoria da vida, as normas para proceder no momento atual. Ora entre essas fontes se acham em lugar eminente os livros da Biblia, que contêm os princípios sõbre os quais se construiram quase 20 séculos de civilização cristã. que explica que estudiosos de correntes assaz diversas estejam voltando atenção crescente para a Escritura Sagrada e as questões a elas atinentes; haja vista o grande Interésse com que têm sido analisados por católicos, protestantes, judeus e racionalistas os manuscritos recéxn-descobertos junto ao Mar Morto (alguns julgaram poder haurir dêles nova compreensão da civilização contemporânea). Em particular, aos fiéis católicos impõe-se a necessidade de aprofundarem seus conhecimentos de Sagrada Escritura, já que esta é o manancial por excelência da vida e da piedade cristãs. Contudo não é fácil, ao primeiro contato, compreender os livros da Biblia; foram redigidos em épocas muito remotas (os mais recentes datam do fim do séc. 1 d. O., enquanto os mais antigos são do séc. XIII a. O.), em ambiente semita ou helenista e segundo modos de falar bem diversos dos que hoje estão em uso. Principalmente o Antigo Testamento apresenta dificuldades, não raro ventiladas em conferências ou em simples conversas de amigos. Católicos e não-católicos nessas ocasiões gostariam de conhecer melhor a mentalidade, a alma religiosa, que movia os judeus do Antigo Testamento; gostariam também de possuir normas objetivas, derivadas da moderna filologia, arqueologia, etc., que os ajudassem a interpretar as passagens controvertidas. Foi em vista de tais dlficuldade, que o presente livro se originou. A obra começa por propor algumas noções concernentes á redação dos livros sagrados: o conceito de inspiração biblica (esta não dispensa, mas, ao contrário, utiliza o cabedal de cultura, rica ou pobre, de um autor humano), a mentalidade e os modos de falar característicos dos judeus (o "gênio" da língua hebraica), o emprêgo de antropomorfismos, nomes e números na literatura semita. Vêm depois questões referentes ao conteúdo dos livros sagrados: antes do mais, é exposto o significado positivo, o valor perene que o Antigo Testamento (continua na 2. 11 orelha)

O estudo da Sagrada Fitura des-

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PARA ENTENDER roi ANTIGO TESTAMENTO

DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT O.S.B.

PARA ENTENDER ANTIGO TESTAMENTO
"Quando nasceu..., padeceu, ressuscitou e subiu aos céus, Cristo abriu o livro do Antigo Testamento, pois realizou por atos quanto ali por figuras era insinuado". (Berengáudio, séc. IX).

1956

L2vrarza

AG 1 R

&dgarc,

RIO DE JANEIRO

Copyright de
ARTES GRAFICAS INDÚSTRIAS REUNIDAS S. A. (AGIR)

NIHIL OBSTAT

Côn. J. A. de Castro Pinto
Rio, 9-7-1956

PODE IMPRIfl-SE Rio, iO de julho de 1956

Mons. Caruso
Vigário Geral

CUM PERMISSU SUPERIOR UM ORDINIS

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ENDEREÇO TELEGRAFICO: "AGIRSA"

.... 0 CAI'........ A natureza personificada .. Deus semelhante ao homem no Antigo Testamento ....O simbolismo peculiar de alguns números a) o número sete ..........INDICE Págs ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 9 PREFACIO.. 17 ...........................O simbolismo do número como tal ............................................................................................ * 2.. 15 15 19 19 21 25 25 30 32 39 40 52 52 53 54 57 60 61 61 65 65 67 61 68 69 70 70 71 71 74 ri— LIVRO INSPIRADO POR DEUS ....... A . Sentido exclusivo e sentido precisivo .............................NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA ...... Que se entende por inspiração bíblica 9 2....... 0 Os antropomorfbsmos bíblicos .... E .........................° O problema .... Números mal transmitidos ................... S.......... 2............................... IV . § 1...... Os números simbolos de qualidades ............0 Como o israelita escrevia a História ...................... m ............. d) o número doze ...................... § 1. patrimônio da Igreja .................° A Sagrada Escritura e as Ciências Naturais ............ b) o sentido de alguns antropomorfismos em particular .... a Escritura............ c) o número dez ..... § 1..................... Alguns aspectos do simbolismo dos números .......................... Enumerações proverbiais e arredondadas .....° O princípio de solução .O valor da linguagem shnbolista ............ § 2.....11 CAI'. a) o significado geral dos antropomorfismos ....... 0 CAP................ O génio da língua hebraica ............ ........ 1—O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇAO. § l........ 0 Os números nos textos bíblicos . 2. CAI'........ § 3..... 1...... Apêndice ... o tema da Sagrada Escritura ..........0 A filosofia do nome ........ b) o número três ........PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS............

............................................................................... § 2 0 O recenseamento pecaminoso ...... § 1..... Aod e Jael: a amabilidade a serviço do morticínio ............................... 151 151 152 154 157 161 ............ 138 140 § 5.0 O externiinlo dos inimigos ................. IX - O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO .... § 5..............0 As imprecações ....6 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Págs..0 O Deus que fuimina ............... § 29 Os fios condutores do Antigo Testamento .................................................. GAP.................. 137 e) ulteriores aspectos .................0 A lei do talião .....................0 Mentira e fraude ........................... 134 divórcio ..... V ........... a fraudulência do Patriarca Jacó ................0 Diversas etapas e uma só meta ....... 115 CAP.. VIII— A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) .................... VII - 93 94 98 98 101 103 105 105 107 110 112 A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) ....................... CAP................................................ poligamia .............° Conclusão .................0 Os tipos bíblicos .... divórcio e incesto ..0 A artéria central da Sagrada Escritura: a figura do Messias....0 Um principio geral ................. O tema da habitação de Deus ........................................... 123 123 § 1................................. 132 § 3.......................... O tema do maná ...............° A escravatura .........19 § 1.................... VI— AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA ....... O tema do deserto ............. 114 146 § 6.......0 O "mau espirito" do Senhor ............. § 4......... § 1..... 134 § 4? Poligamia.....86 CAP..... 150 CAP....80 § 2......O HERDEIRO EM IDADE INFANTIL ..0 Pureza e impureza ritual .O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO . 7.......... O tema da escolha gratuita ou da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza do homem ...... O tema da Aliança ...................................... § 3.. O tema da prevaricação e da restauração correspondente ..............................................OS DESMANDOS DA CRIANÇA ............................................ O tema da videira ...................... O tema do pastor .... 140 Judite.... 125 § 2........................

........... ...... ............................. 165 CAP...........20-29) Balaã e o asno que falou (Núna 22.............................° No inexorável fôsso dos mortos § 2.............. 175 175 175 178 183 CAP.........0 As doenças Entre as nações pagãs No povo de Israel 29 Os sonhos ...ÍNDICE 7 Págs............................... ..22-35) A história de Sansão (Jz 13-16) ..........0 'PRODIGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO A mulher de Lote transformada em estátua de sal (Gên 19................ .....0 A grande surprêsa póstuma . XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS § 1. § ....... ..... .......... ..............7-17) A queda dos muros de Jericó (Jos 6.° 3.........31-14........ ....14-12.... ..........) .0 § § § § 4................." (Jo 6.....SANGUE E VIDA 1. O maná (Êx 16.° 5...Boa edição do texto sagrado B ...... ............. .... TABELA CRONOLÓGICA ............................... EM PARTICULAR..............." 166 (Hebr 9..... 189 189 196 CAP..............0 Pequena antologia bíblica MAPA ILUSTRATIVO DO ËXODO E.....54........... X ..... ......... ........ Sab 16..................... ÍNDICE DE NOMES E TEMAS ........2-36........... ............. LISTA DOS TEXTOS BÍBLICOS MAIS PARTICULARMENTE CONSIDERADOS ............................................. .36) A passagem do Mar Vermelho e do Rio Jordão A travessia do Mar Vermelho (Êx 14... CAP........................... ........ Pé-requisitos sobrenaturais § 2 0 Itinerário através da Biblia § 3..........22....................................................0 "Sem efusão de sangue não há remissão de pecado..4-9.....................................................................Noções introdutórias 2....... 201 202 205 210 210 212 214 219 223 226 233 233 233 233 235 236 240 245 253 257 261 262 265 CAP.............15-26) As dez pragas do Egito (Êx 7............. ... DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12..... XXII § § § - 1» 2. Núm 11.5-31) A passagem do Rio Jordão (Jos 3..............................) 29 "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue 171 possui a vida eterna................... XIV COMO LEREI A BÍBLIA" 1 0 Os pressupostos de frutuosa leitura 1...... ..... .....31) ........1-20) . ..............0 6...... ÍNDICE DE AUTORES CITADOS .......... ..... Pré-requisitos naturais A .................. ..................... XI § § DOENÇAS E SONHOS 1.... ...... ...............0 7..

O ponto-e-virguia separa capítulos. incluindo na citação os versículos e capítulos intermédios. . Jo Jud Apc Tessalonicenses Timóteo rito Filêmon Hebreus Tiago Pedro João (epístolas) Judas Apocalipse A vírgula separa capitulos de versiculos. O ponto separa versiculos.ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 1. O hífen separa tanto versiculos como capítulos. ABREVIATURAS segue Os livros da Sagrada Escritura são brevemente citados como se ANTIGO TESTAMENTO Gên Éx Lev Nún Dt Jos Jz Rut 5am Es Par (Crôn) Esdr Ne Tob Jdt Est JÓ Si Prov Eci Cânt Gênesis Êxodo Levitico Números Deuteronômio Josué Juizes Rute Samuel Reis Paralipômenos (ou Crônicas) Esdras Neemias Toblas Judite Ester Jó Saimos Provérbios Eclesiastes Cântico dos Cânticos Sab Edo Is Jer Lam Bar Ez Dan Os 31 Am Aix! Jon Miq Na Hab Sof Ag Zac Mal Mac Sabedoria Eclesiástico Isaias Jeremias Lamentações Baruque Ezequiel Daniel Osélas Joel Amós Abdias Jonas Miquéias Naum Habacuque Sol onias Ageu Zacarlas Malaquias Macabeus NOVO TESTAMENTO ivIt Mc Le Jo At Rom Cor Gâl El Fip Co! Mateus Marcos Lucas João Atos dos Apóstolos Romanos Coríntios Gálatas Eféslos Filipenses Colossenses Tes Tim Ti FIm Hebr Tg Pdr 1.3.2.

donde a designação de 'ocultos" ou "secretos". Antiga tradição. Núm. junto ao número de um versículo. designa Aquêle que sem restrição possui o ser ou Aquêle cuja existência é soberana e cuja atividade é sumamente eficaz. Depois que a antiga Aliança cedeu à nova e definitiva Aliança. mas carecentes da prerrogativa da inspiração bíblica. seja do universo.13-15). em particular à Aliança que estava para pactuar com Israel ao pé do monte Sinai.8. a terceira parte do versículo. a fim de consolar os'leitores atribulados. Nas circunstâncias em que foi revelado. e. Entre os apócrifos figuram os numerosos "Apocalipses" da literatura rabinica. Em oposição aos apócrifos. do século III ao século 1 ai]. Escatologia (do grego éschaton = último. apokálypsis = revelação): gênero literário em que o autor. ou seja. enumerados no cãnc. note-se LXX = tradução grega do Antigo Testamento efetuada aos poucos no Egito. discurso): nome do tratado teológico concernente às coisas últimas ou à consumação. Lev. secreto): nome que designa livros redigidos por judeus ou por antigos cristãos segundo o estilo das Escrituras Sagradas. leanón = regra. seja do individuo. Êsses escritos podiam edificar os fiéis e gozar de certa autoridade. Apócrifo (em grego. quando lhe revelou o seu desígnio de tirar do Egito a nação israelita e dela fãzer o pova de Deus por excelência (cf. Dt) havia sido traduzido por setenta e dois judeus no espaço de setenta e dois dias. quanto aos do Novo Testamento. Êx. avivava naturalmente a confiança dos leitores no auxilio da Providência. a segunda. e lógos = palavra.10 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um s após um número indica a unidade imediatamente seguinte. a vinda do Messias e a instauração cIo seu reino glorioso). Vg = edição latina dos textos bíblicos devida a São Jerônimo (t 420). às vêzes revestindo a autoridade de antigo personagem. . A luz da filologia hebraica. Javé: nome com que o Criador se deu a conhecer a Moisés. EXPLICAÇÕES Apocalipse (em grego. o nome "Javé" caiu naturalmente em desuso no povo de Deus. O novo texto assim apresentado aos cristãos em breve se tornou de uso comum. Êx 3. Além disto. b. Apresentando as provações de sua época como coisas já previstas por Deus. entre os cristãos. tal nome inculcava a imutabilidade de Deus. hoje destituída de autoridade. Lste traduziu diretamente do hebraico os livros do Antigo Testamento que êle julgava canõnicos ou inspirados. isto é. donde o nome de "Vulgata" (forma) (Vg). o termo significa "Êle é" ou "Aquêle que é". a fidelidade absoluta do Senhor às suas promessas. narrava que o Pentateuco (Gên. Hagiçigrafo ( em grego. cf.n (em grego. Daí o título: tradução "dos Setenta Intérpretes" (LXX). ca. descrevia acontecimentos presentes e futuros (de preferência. designam respectivamente a primeira. selada pelo sangue de Cristo. contudo não eram lidos nas assembléias de culto público. a. distinguem-se os livros canónicos. apókryplwn = oculto. Is 42. retocou a tradução latina já existente no século IV. catálogo) das Escrituras inspiradas ou da Biblia. hagiógraphos = escritor sagrado): nome geralmente atribuido aos autores de livros da Sagrada Escritura. = cêrca 2.

com sua doutrina. Esta . lhes parece muito diverso desta e. como diz a tradição cristã. são sempre portadoras. e não raro cruciantes. fim. os capítulos dêste livro tendem a mostrar que as Escrituras antigas não contêm apenas episódios complicados. Em conseqüência. significado do homem e de sua existência na terra. e julgam-na muito nobre. inaceitável. deixar fechada a parte inicial. perene como a própria Palavra de Deus (cf. deixam-se ficar hesitantes diante da porta da Igreja do Cristo ou vão perder-se por novos "caminhos" de procura da Verdade. Sugeridas pelo desejo de auxiliar a uns e outros. por isto. para aquêles que não possuem a fé. Têm por finalidade ir ao encontro daqueles que revolvem problemas de ordem religiosa ou filosófica. Visando. que é justamente o Caminho.8). em particular com os livros sagrados ditos do "Antigo Testamento" Os problemas surgem. originaram-se estas páginas. Is 40. pouco teria que dizer. Mas. por isto. Tais pessoas lêem o Evangelho.6)! Dúvidas existem também na mente de não poucos fiéis católicos. antes. arrefecem em seu entusiasmo: o fundo ao qual se sobrepõe a Revelação cristã. Inspirado pelo Espírito Santo antes do Cri-sto e em vista do Cristo.. de mensagem valiosa. despertar a alegria que jorra dlo conhecimento da Verdade.. pois tocam as questões de origem. preferem. desde que se lhes anuncie o nexo indissolúvel existente entre os Santos Evangelhos e o Antigo Testamento. longe do Cristo. a Verdade e a Vida (cf. Jo 14. sem dificuldade reconhecem-na como digna e autêntica mensagem de Deus. mas em sua lealdade estão dispostos a se render a tudo que seja bom e belo.PREFÁCIO Quem sinceramente procura a Deus. os quais por vézes se vêem um tanto surpresos diante de passa gens do Antigo Testamento. que lhes apresenta a figura do Cristo. adquiriu novo poder . em seu âmago.. mais avultados talvez. pois. é não raro detido por dificuldades que lhe provêm do contato com a própria Palavra de Deus.embora a reconheçam como Palavra de Deus lhes parece ter quase esgotado em séculos anteriores a sua mensagem. mesmo quando apresentam coisas dêste gênero. desconcertantes. a metade ou mais da metade da Biblia Sagrada. problemas capitais entre todos os demais. nos tempos atuais. o Antigo Testamento não perdeu seu significado após a vinda do Messias. e que.

XII.10). Para melhor dar a entender o valor cristão do Antigo Testamento. séc. Ora a impressão de que a antiga Lei se tornou nova no setor das investigações científicas deve suscitar 1 "O Antigo Testamento é como que o cântico novo a significar por Imagens e figuras múltiplas a mesma realidade que o Novo Testamento. há de saber sempre melhor nutrir-se da Palavra de Deus. porém. É o que. Rowley: The Rediscovery of the Olá Testament." (C. Éstes agora. 1 Com efeito. Is 42. . tornou-se o "cântico novo" (cf. que permitiram aos estudiosos como que reviver episódios do Antigo Testamento. tal como o Senhor a comunicou aos homens. com sua linguagem. Assim fala o Antigo Testamento ao leitor que. 1. outrossim. vê-se bem que não pode haver compreensão do Evangelho nem renovação da catequese cristá (renovação que muitas e belas iniciativas hoje em dia procuram realizar) senão mediante a devida utilização dos escritos do Antigo Testamento. por assim dizer.12 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de expressão. concorrem para ilustrar a figura do Senhor Jesus. luminosidade plena ás páginas do Antigo Testamento. Londres." (Ruperto de Deutz. figura que está esculpidia sõbre a face da história inteira do gênero humano. As excavações arqueológicas no Oriente trouxeram ao conhecimento do público importantes dados. as páginas dêste parecem aos eruditos ter sido também recém-descobertas (atesta-o bem o título da obra de H. 331. Pode-Àe. 1945). a vinda do Cristo só fêz tornar patente o significado profundo de tais acenos. luminoso. depois de conhecer o Cristo. Ora o "revelador" que deu clareza. ou submetido a unt "revelado?' que o torne claro. têm-se proposto na literatura moderna comparações assaz significativas. Splcq. "A Antiga Aliança é tão cristã quanto a Nova. indiscernível. tal observador saberia descobrir no esbôço muito mais acenos ou riquezas do que aquêle que não conhecesse a obra terminada.. se aplica aos escritos sagrados de Israel. A vida cristã. parecem incutir os acontecimentos mesmos dos últimos decênios. hoje presente entre nós. para ser cada vez mais vigorosa. há di)' erença apenas no modo como Deus ensina: modo ora claro. Poderia ser assemelhado a um clichê. enquanto o clichê não é revelado. tornando-as.9). ixi Apoc 1. L'Epitre aux Hébreux. os escritores sagrados de Israel se referiam ao Messias por meio de símbolos e sentenças misteriosas. lembrar o caso de um homem que considerasse uma tela de pintura rematada e depois lançasse os olhos sôbre o esquema ou croqui cIo mesmo quadro. 1952. que glorifica o Redentor outrora aguardado.. ora ftgurado. Paris. coloridas e vivas. Êste representa um objeto preciso. gravado sôbre a sua superfície.. num só côro com os escritos do Novo Testamento. foi o Senhor Jesus com o seu Evangelho.) Na base destas considerações. H.

2 Cor 3. Assim as figuras esquemáticas do Antigo Testamento recebem nas últimas páginas da Bíblia os matizes mais vivos possiveis e são. Depois de estabelecido um princípio que é chave para a solução de qualquer dificuldade bíblica (cap. Jo 6. é pôsto em relêvo (caps. já plenamente desabrochadas. Apc 21. prometida ao povo de Deus nos inícios da história sagrada. trajada como a noiva que vai ao encontro de seu noivo" (Apc 21. cêra ou madeira) de edificio fizturo.3.6.PREFÁCIO 13 efeito semelhante no espírito daqueles que consideram os escritos de Israel não apenas como livro de erudição humana. maqueta cujas linhas. o quadro do paraíso. Jerusalém nova. longe de ser abandonadas pelo Arquiteto do mundo e dos séculos. 22. porém. . Hebr 11. * * * Uma vez proposta a finalidade destas páginas.8). lugar de felicidade dos primeiros pais (cf. é anunciada também por Jesus aos mansos de coração (cf. a terra "onde correm leite e mel" (cf. o Antigo Testamento desvendara todo o seu sentido. vão sendo reproduzidas lenta e fiel: mente.5) e só será plenamente concedida quando céu novo e terra nova forem instaurados na criação (cf.63). aborda-se o conteúdo mesmo do Antigo Testamento: Primeiramente. No fin dos tempos. mas principalmente como código de Sabedoria sobrenatural: mais claramente apreciado na qualidade de LETRA ou doctmentó literário. e sàmente então. Não seria suficiente. dizer que a situação dos cristãos peregrinos neste mundo só se entende como prolongamento de uma história pré-cristã: a própria consumação final é anunciada pela Palavra de Deus mediante alusões contínuas a tipos e episódios do Antigo Testamento. Mt 5. são focalizadas questões de redação e forma literária dos escritos sagrados: o sentido da inspiração bíblica (cap. a mensagem perene das Escrituras judaicas. é reproduzido no Apocalipse ou na cena final dos séculos (cf. ate se completar a construção (cf.2-5). 1). A seguir.1). resta indicar o roteiro que percorrem.8-10). V e VI). 1H e IV). 11).2). o que há de positivo. algumas notas características da linguagem semítica ou israelita (caps. Êx 3. o Antigo Testamento não poderá deixar de ser também mais valor rizado como ESPÍRITO e ViDA ou mensagem de Deus aos homens (cf. faz ecoar acordes disseminados por todo o Antigo Testamento. Assim o tema da "Cidade Santa. ainda uma vez apresentadas ã consideração do leitor. em proporções mais amplas e com material definitivo. Gên 2). As Escrituras israelitas aparecem então qual maqueta (de argila.

X. à conceituação das doenças. nem desprezes a tua erva que tem séde. O conjunto se encerra com a apresentação de pequeno guia prático para a leitura da Bíblia (cap. pois." (Confissões. Abram-se agora os capítulos acima assinalados sob o eco de famosas palavras de Santo Agostinho dirigidas ao Senhor Deus: "Sejam as minhas castas delicias as tuas Escrituras. que se prendia à utilização do sangue. Outros tentas do Antigo Testamento que talvez ainda suscitem ao leitor dificuldades (de menor vulto. e Jôste Tu que o deste. Não abandones os teus dons.) Rio de Janeiro. viir e IX procuram mostrar o que podem significar as narrativas de pecados "escandalosos" nos livros que Deus inspirou. nem por elas engane. e não a leches áqueles que batem. Eis que a tua VOZ é a minha alegria. VII. maio de 1956. considerada a doutrina religiosa.14 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Já. mas coadjuvada por melhores instrumentos de trabalho do que os de outrora. Dá o que amo. ao lado das grandes e luminosas linhas. XI e XII tratam de expressões e manifestações da religiosidade do Antigo Testamento que ao leitor moderno parecem estranhas ou desprezíveis. porém. sem recear o "maravilhoso". Mais uma fonte de perplexidade é o caráter maravilhoso que tomam certos episódios narrados pela história sagrada. iii. 11.. 0 AUTOR. entre os israelitas. e beba a Ti. pois amo. Dá lugar ás nossas meditações sôbre os mistérios da tua Lei. porém) foram deixados de parte. . Xlii expõe a interpretação que a tais seções dá a exegese católica contemporânea. XIV).. pois não 101 em vão que quiseste fõssem escritos os densos segredos de tantas páginas. por pertencerem antes à alçada de um comentário do texto sagrado. nem seja eu por elas enganado. que. desde o principio. os caps. Os caps.. sempre válida. e ouça a voz de louvor. Louve-Te eu por tudo que encontrar nos teus livros. a tua voz está acima da abundáncia das volúpias. . por se basearem em pressupostos de medicina e antropologia hoje carecentes de valor: é.7. ficam não poucos pontos obscuros. até o reino perpétuo da tua Cidade Santa. e considere as maravilhas da tua Lei. e às noções de vida póstuma. dos sonhos. no qual lizeste o céu e a terra. O cap.

desapontado ou escandalizado.CAPÍTULO 1 O PROBLEMA BIBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO § 1. que. Esta é. alheia às idéias e à terminologia que os cristãos costuitam ter na mente e nos lábios. dir-se-ia em linguagem popular. quase que por definição. Contudo. para entender as páginas bíblicas. As páginas inspiradas por Deus certamente não excluem o que os santos e justos escreveram de verídico e belo. para revigorar sua piedade. . perante certas páginas do texto sagrado. difícil demais para ser alimento da vida espiritual. Em um e outro caso observa-se que os maiores dons de Deus não são suficientemente procurados. e quase que exclusivamente. E. Conscientes de tal anomaiia. exigem para si a primazia na biblioteca ou na cabeceira do cristão. conseqüentemente. se requerem certas noções introdutórias.. o primeiro manancial de espiritualidade dos fiéis. "Deus não se terá abalado por pouca coisa. não estão familiarizados com a Sagrada Escritura. O fato de que a Bíblia não é devidamente conhecida causa pesar semelhante ao que suscita o esquecimento de alguns cristãos em relação à S. ainda que animados pelas mais sinceras disposições. o mesmo se sente como que atemo- . não se podem furtar. esperar-se-ia que fôsse a obra mais lida e explorada pelos cristãos. mas. alguns núcleos de fiéis têm tentado explorar os tesouros da Sagrada Escritura. Eucaristia. empreendendo a leitura sistemática da mesma. pois. ela lhes parece arcaica. Todo católico professa que a Bíblia é livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores. um livro mais ou menos cerrado.. 0 O PROBLEMA É fato inegável que bom número dos católicos de hoje. para êles. com prazer. quando se lembra ao leitor. de obras e opúsculos religiosos posteriores à Bíblia. servem-se. onde não têm o costume de procurar o nutrimento da vida espiritual. à impressão de mal-estar ou mesmo de escândalo ou à conclusão de que a Escritura é livro obscuro. são subestimados em favor de objetos e práticas menõs ricos e eficases para a santificação. Tal verificação não pode deixar de impressionar a quem sôbre ela reflita. mesmo dentre os mais fiéis à vida cristã.

Julgamos poder encontrar esta paz. estudo dos gêneros literários. que jamais freqüentei. é o que se propõem os capítulos se1 Como se compreende. não obstante. mesmo se tivéssemos tempo. e não livros de erudição. a fim de se perceber mais ao vivo o doloroso realismo do problema: "A Bíblia é objeto de museu. é muito difícil perceber como julgar tódas essas histórias. escreve uma dirigente da Ação Católica. em vez de o satisfazer. Não quero defender a hipocrisia da nossa sociedade contemporânea. Alguma coisa dentro de mim se recusa a crer que minha vida possa ser ajudada. "Les catholiques lisent-ils la Bible?" em La Vis Epiritucue Stipplément 12 (1950) • 84-98. O Antigo Testamento procede de um espírito totalmente diverso do do Evangelho. paz. não se compreende quase nada na Sagrada Escritura. foram colhidos no artigo de Henry. calma. esta respiração profunda em Deus. A história dêsse obscuro povo hebreu parece tão longínqua que se torna meio-irreal. Vão aqui transcritos alguns dêstes testemimhos. para o estudo erudito. XX nada encontram Tais depoimentos encontram eco espontâneo fora mesmo da França." "Há na Biblia uma série de histórias horrendas. ao menos para se recolocar o texto no seu contexto e no seu clima de origem (exegese. Depois da labuta de cada dia. materiais e educativas. densos e curtos. por essas narrativas pré-históricas. E. não sentiríamos atrativo por êsse estudo árido. e. transformada. os depoimentos são anônimos. nem todos têm tempo ou aptidão! Um inquérito recém-realizado na França nos dá a conhecer com exatidão as opiniões de fiéis que têm procurado ler a Escritura. oração.16 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rizado pelas exigências que a técnica exegética moderna lhe parece impor. iluminada. de história. de nomes e datas. que à Biblia prefere a literatura "de água de rosas"." Eis o depoimento de um grupo de casais: "Salvo algumas passagens esparsas cá e lá. A leitura frutuosa da Bíblia exige árduo trabalho literário. que em minha infância e juventude só me falaram do Antigo Testamento em têrmos negativos: encerra histórias demasiado realistas para poder ser colocado nas mãos de qualquer leitor." "Noto. desejamos repouso. atual. que possam aproveitar.).. etc.. Não temos tempo para fazer isto tudo: cada família se acha sobrecarregada com obrigações profissionais. . ou por meio de reflexão pessoal sôbre alguns textos prediletos ou pela meditação de alguns pensamentos familiares ou pela leitura de excertos. não coisa viva.. ou que só admite a literatura escandalosa quando esta se apresenta com aparato e fama. mas se acham luminosamente expressas." 1 É livro ante-diluviano. É esta uma forma de resistência. Contribuir para a renovação. são a expressão fiel do que muitas vêzes se pensa também no Brasil. faz-lhe perder o ânimo. porque a Sagrada Escritura se lhe afigura então objeto de estudo científico antes do que livro de edificação sobrenatural. que meu pároco dá cursos de Sagrada Escritura. onde os homens do séc. escreve outra pessoa. A situação assim esboçada pede ser revolvida. A solução. Ora é o espírito do Evangelho só que devemos procurar. como se sabe.. Devo dizer que não li Daniel-Rops. em que as verdades religiosas não se encontram ocultas sob uma multidão de imagens e de fatos.

o . e isto os fêz chegar a conclusões estranhas à Biblia. esta passou a ser julgada livro perigoso. o texto latino da Vulgata foi declarado autêntico e aos fiéis se proibiu a leitura de traduções vernáculas da Bíblia não acompanhadas de notas explicativas conformes à doutrina católica. Tais opiniões se foram disseminando através dos tempos sem grandes dificuldades. obra colocada no Índice dos livros proibidos pela Igreja! . se distinguiu por suas teses hipercriticas. de estudarmos algumas vias de solução do problema. Uma das raízes remotas da desconfiança dos católicos frente à Sagrada Escritura é. Tais normas (em si muito sábias e oportunas). quiseram mesmo confirmá-los por seus trabalhos científicos. foram suficientes para criar entre os católicos uma atmosfera de pouca "simpatia" para com a Bíblia. escola de heresias. a Suiça (Steck). assiduamente manejada pelos protestantes. As figuras de Jesus e S. porém. interessa-nos considerar mais atentamente as causas do distanciamento dos fiéis em relação à Escritura. Naber). No séc. por isto mesmo. XVI. passou a ser o arsenal de argumentos dos herejes. se tornou o objeto de exploração dos homens de ciência. por todo o século passado. A história do séc.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 17 guintes. os estudiosos não se conseguiram emancipar de preconceitos filosóficos ou racionalistas. Em tôrno da Escritura formaram-se escolas diversas. 2 Ora isto contribuiu naturalmente para que se acen2 Principalmente a Escola alemã de Tuebingen. As suas pesquisas não raro tiveram por resultado ilustrar maravilhosamente o sentido de passagens bíblicas obscuras. Paulo foram reduzidas a ficções literárias. os Estados Unidos da América (Smlth). porém. a Escritura. recordaremos alguns fatos da história religiosa moderna. tendo deixado de ser o manual daqueles que visavam a piedade. se prestam a mal-entendidos ou escândalos. Descobrindo no Oriente manuscritos e monumentos pré-cristãos. a inglaterra (Johnson... aos Evangelhos e aos escritos paulinos se denegou tôda autenticidade. sem dúvida. assim como o continuado abuso dos protestantes. Ora. de mais a mais que na Bíblia há realmente expressões e narrativas cujo sentido não é evidente à primeira leitura. Robertson). que abusivamente fêz da Biblia a principal fonte de seus erros religiosos. a Itália (Bossi). a França (Couchoud). aconteceu que. a Bíblia. eruditos muitas vézes sem fé. tendo à frente Bruno Bauer (t1882). Fomentou uma onda de cepticismo que se propalou pela Holanda (Pierson. e que. correntes eruditas de pensamento. manual de protestantismo. Com efeito. em boa parte norteadas por protestantes liberais. as autoridades eclesiásticas viram-se obrigadas a lhes restringir de certo modo o uso da Sagrada Escritura: no Concilio de Trento (1545-1563). irrompeu o movimento luterano. A tal fim. Muitas vêzes. a Ps. Antes. XIX veio corroborar a desconfiança. para impedir fôssem seduzidos os fiéis. errôneas e ímpias. Reforma Protestante. os sábios puseram-se a compará-los com a antiga literatura religiosa de Israel.

ao estudá-lo no séc. manifestam o desejo de viver as conseqüências práticas dos mistérios da SS. teria tentado conciliá-las. é no mundo herdeiro de tais preconceitos que se procura despertar hoje um movimento católico de volta à Escritura. II. XIX. e entre os próprios católicos. se não a êstes. o livro dos Atos dos Apóstolos. Perante a confusão suscitada pelos eruditos. por exemplo. àqueles que têm muita ciência . sustento de um espírito esclarecido. e rejeita o que lhe pareça destituído de fundamento objetivo. caíram assim numa atitude simplória.. O cientificismo bíblico. Poderá esta iniciativa contar com alguma probabilidade de sucesso? A resposta afirmativa se impõe.livro perigoso a novo título.18 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tuasse mais ainda nos católicos a impressão de que a Escritura é livro reservado: reservado aos protestantes ou. Cristiano Baur (t1860). o Evangelho de S. reavivando em si uma mentalidade mais tipicamente cristã.. já qUe. vocabulário. O movimento bíblico é portador de um título. sem consideração do respectivo panorama histórico. tantos se perderam nos mais variados erros do liberalismo e da impiedade. inovador. que as pesquisas modernas desvendaram. seria necessária muita fé. seria a expressão da conciliação jã obtida. procura tomar consciência da razão de ser de tôdas as coisas. Entendida de maneira demasiado humana. capaz de lhe assegurar pleno êxito. autêntico. tudo que sej a fruto de mera convenção. Os nossos fiéis têm procurado praticar a sua religião imediatamente à luz dos grandes dogmas. 1 a cristandade estava dividida em facção petrina e facção paulina. átimo repertório de histórias para crianças. digna do verdadeiro Deus! Pois bem. provocou uma reação imediata. critura sem muito discernimento das regras de estilo. ao menos. de modo nenhum. da Encarnação e do Corpo Místico. para não se cair na infidelidade ao ler a Bíblia! A situação se complicou mais ainda em virtude de um terceiro fator.. O homem dos nossos tempos tem acentuada sêde de tudo que é genuíno. admitiam que no séc. menos superficial ou desvircristianismo passou por produto da filosofia religiosa de Alexandria e da sabedoria popular dos romanos! Alguns autores de Tuebingen. mais moderados. alguns círculos católicos se fecharam por completo à utilização dos recentes dados da ciência na exegese bíblica.. lendo e expondo as passagens da Sagrada Es-. Assim. João. porém. Trindade. Isto se dá também no setor religioso. depois de 160. a Bíblia veio a seróbjeto de desprêzo daqueles mesmos que procuravam uma religiosidade elevada. . Desta atitude resultou em não poucos dos contemporâneos a idéia de que a Bíblia é livro retrógrado em relação à ciência. infantil. no séc. fantasista. Assim a recente história da exegese parecia confirmar o preconceito de que a leitura do texto sagrado constitui um risco para a verdadeira religiosidade.

numa fase da história em que diversas facções humanas se chocam. Santidade sôbre a S. XVI. mobilizando tudo que elas possuem de vital. falam em nome da Sagrada Escritura. bem característica da nossa época. trata de um só objeto.. permite prever todo o êxito ao movimento bíblico contemporâneo. desde os primórdios até o fim dos tempos. as disposições da Providência em vista da salvação do homem. Ora entre as fontes de revigoramento da vida cristã está certamente a Escritura Sagrada. dans ia mêlée actueile. 0 O PRINCIPIO DE SOLIJÇAO Os capítulos que se seguem. cit. E isto. cada qual do seu modo. que. Quem quer que se apreste a ler a Escritura. de 20 de novembro de 1947) apela freqüentemente para os dogmas da Encarnação e da Redenção. a saber. a Bíblia. uma observação prévia. Os comentadores consideram a Mediator Dei como o segundo capitulo de uma única obra que começou com a encíclica sõbre o Corpo Mistico de Cristo (Mystiet Ccrporis. que será também um princípio geral de solução para as dificuldades acima apontadas. Através dos seus setenta e quatro variados livros. é do âmago do dogma que Pio XII deseja se nutra a espiritualidade crista. C'cst da moins cc que nous pouvons espérer lopalement. por seus escritos. recorde-se de que uma atitude de fé sobrenatural é condição absoluta para penetrar o âmago da mesma. em última análise. tem estimulado tão louvável tendência: a encíclica de S. Apresenta-nos em suas fases sucessivas. teosofistas. etc. fornecendo noções que lhes tornem possível desfrutar o rico conteúdo das páginas inspiradas. Impõe-se. de 29 de junho de 1943). 4 Cc nwuveme.) que. humanamente falando.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 19 tuada pelas influências não-católicas que sofreu a partir do séc.) . 3 Em outros termos: nota-se uma sêde de voltar às fontes da verdade e da vida cristãs. porém.zt irrésistible qui. a fim de que o sal da terra seja sal ainda mais autêntico. De modo particular se sentem os católicos contemporâneos impelidos a tomar conhecimento da genuína mensagem da Bíblia. por dois motivos: a) o tema da Sagrada Escritura. force la conscicift de chacun d présenter les piêces authentiques de ia croyancc. § 2. o mistério de um Deus que desce até o homem para elevar o homem 3 O Santo Padre Pio XII. é por esta e pela tradição oral que a Igreja se orienta. É. a sêde do autêntico. procurando deduzir da mesma as idéias mais desconexas possíveis. art. por verificarem que se vai multiplicando o número de confissões religiosas (seitas protestantes. espíritas. 98. Liturgia (Mediator Dei. pois. dos quais deduz conclusões atinentes à vida de oração. visam introduzir os fiéis na leitura do livro sagrado. amênera les catholiques à tire de pias cii pias la Bibie. (Henry.

• O O significado geral do Antigo Testamento e da História Sagrada será objeto de ulterlores considerações no cap. 11. os livros sagrados do Antigo Testamento) e que continua a se manifestar em tôda a história do cristianismo. O Deve-se mesmo observar que. Disto se segue que a chave para se penetrar na Bíblia há de ser uma fé coerente no mistério da Encarnação do Verbo. rejeitado.8). em cada urna das passagens da Bíblia. 15. o próprio Autor das Escrituras. in .20 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ao consórcio de Deus.tal descida não é simplesmente uma vinda. Encarnação que se deu na plenitude dos tempos. 6 A expressão é de S. Essa descida de Deus ao homem é também o mistério de um Amor que.1. João Crisóstomo. de diversos rnodos. não obstante. embora seja inconfundível. as vias pelas quais Éle procura o homem transcendem 'infinitam ente o bom-senso da criatura. assim também não sabemos dizer porque se quis adaptar à linguagem do homem no livro sagrado nem porque quis incluir no seu plano providencial tantos instrumentos rudes e imperfeitos. a Bíblia tem necessàriamente passagens quase desconcertantes para o leitor que a queira julgar inicamente à luz da sabedoria humana: a sua linguagem é simples e pobre. quanto mais a vida sobrenatural nêle está arraigada. tal cristão discerne cada vez melhor o que é contingente e o que é mensagem perene.3. está por vêzes adaptada à mentalidade oriental e aos costumes. Por tratar de tal tema. . A atitude de fé já por si desfaz muitos dos problemas que o conteúdo e a forma literária da Sagrada Escritura apresentam. mal entendido. se quer dar derramaildo o bem sôbre os indigentes. e a figura de Deus 4ue ela apresenta. já não se admira diante dasmúltiplas formas da condescendência divina sugeridas pela Bíblia. E . 3. embora soberano e independente. de uma adaptação da Majestade do Criador aos moldes pequeninos do pensamento e da vida da criatura. mostra-se invencível na arte de procurar o indigente ingrato. V. tanto üiais também êle experimenta afinidade com os dizeres da Escritura. ela tem o caráter quase paradoxal de uma condescendência 5 de Deus para com o homem. é que lhe fala mais claramente o Mestre interior. Flp 2.note-se bem . às tradições dos semitas antigos. mas que é. Não há dúvida.1). semelhante à de um judeu antigo.2. in lo 15. que a usa freqüentemente (ei. quem na fé aceita o aniquilamento do Filho de Deus até a morte de servo (cf. os planos de Deus. Assim como não podemos indicar a última razão por que Deus se fêz homem na plenitude dos tempos. longe de se deixar desnortear por textos difíceis. mas que tem seus prenúncios nos séculos anteriores (entre os quais.Gen h. quanto mais a fé é viva e forte no leitor. tais 'problemas" na realidade não são maiores enigmas do que a proposição de um Deus pregado à cruz.

O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 21 S. Gregório Magno (f 604) exprimia esta verdade numa frase incisiva: "Os dizeres de Deus crescem com aquêle que os lê. deverá simplesmente adorar. Jdt. patrimônio da Igreja. racionalistas. Se os católicos mantêm o seu ponto Qe vista. já que pela Igreja Cristo ensina aos homens. é pela Igreja que lhes dá a saber o sentido da Palavra escrita de Deus. 2 Pdr. de resto. em última análise. não pode deixar de estar também 'rntimamente associada à fé na Igreja. Jud. para os rejeitar. Todos sabem que Lutero não reconheceu como inspirados ou canônicos certos livros que os católicos admitem como tais (assim Tob. é na Igreja que o Verbo Encarnado prolonga a sua vida e a sua obra de iluminar e salvar os homens. A penetração da Sagrada Escritura. ° Sendo assim. As razões de uma parte e de outra não bastam para dirimir a questão. 7. isto se dá. Pode acontecer mesmo que a autoridade da Igreja seja o único argumento decisivo para que o católico tome tal posição exegética em vez de outra. ela se exerce já na questão de saber em que consiste a Biblia. até o fim da vida. renunciando a exercer o espírito de crítica. Os protestantes apresentam razoes. para os católicos. tenha consciência de que encontrará passagens diante das quais. Os católicos também desenvolvem argumentos para os admitir. sendo função da fé na Encarnação. espíritas. Hebr. dar a genuína interpretação da Escritura. Quem admite isto. dos demais leitores da Bíblia (protestantes. arqueológicos. Bar. os juízos de Deus. deduzidas da histôria. a proferir algum juízo. 2 e 3 Jo. etc. 1 e 2 Mac. ninguém se prometerá chegar um dia a compreendê-la como compreende um livro ditado imicamente pela sabedoria humana. Donde se vê bem que tal crença é básica para o católico que se proponha ler a sagrada Escritura. T. Verdade é que o magistério eclesiástico não dita normas positivas para o entendimento de todo e qualquer texto bíblico. mas ao menos indica verdades de fé às quais nenhum exegeta pode derrogar sem cair no êrro. em Última análise. Como. que é a Bíblia. Rolo. distancia radicalmente o católico. Com efeito." Destas considerações decorre que. porque crêem na autoridade infalível cio magistério da Igreja. b) a Escritura. ao contrário.). 85). 7 8 . o mistério da Encarnação do Verbo sempre exigirá a adoração reverente dos fiéis. Apc). Sab. Por conseguinte. 9 Exemplo notório é o do cânon ou catálogo das Escrituras sagradas. É esta fé na Igreja que. seguindo apenas as insinuações da ciência ou ào seu bom-senso pessoal. ao abordar a Escritura. literários provar a protestantes e racionalistas que a interDivina eloquia cum Iegente crescunt (in Ez 1. seria incoerente o católico que procurasse estudar a Sagrada Escritura independentemente do magistério da Igreja. há de reconhecer que à Igreja compete. tenham os fiéis consciência de que não poderão sempre por argumentos filológicos.

onde fundou o primeiro núcleo de cristãos da cidade. Foi o que ocasionou a primeira epístola aos tessalonicenses. Em conseqüência. a maneira como se originaram as duas epístolas de S. Não se pôde. professar que é a voz da Igreja que os leva a optar entre duas explicações que. em que S. atendendo a essas necessidades contingentes é que os Apóstolos e Evangelistas redigiram suas cartas e suas biografias de Jesus (Evangelhos). exigia muito tempo e grande habilidade por parte do autor. à luz dos critérios literários. deverão. não raro. poucos meses mais tarde. " Acontecia. pode-se dizer que ela é não apenas imposta pela Igreja. porém: não será constrangedora.22 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pretação dada pelos católicos a tal passagem bíblica é a autêntica. o material respectivo (papiro ou pergaminho) era raro. seriam igualmente plausíveis. At 17. os Apóstolos não se preocuparam grandemente com a redação da doutrina recebida de Cristo.1-15). pouco digna da inteligência humana. ciente disto. 11 Isto bem se entende pelo fato de que escrever era arte difícil na antiguidade. ape- 1' / . Ora. em que de novo só se propunlia desfazer os mal-entendidos dos fiéis. Paulo aborda aspectos da doutrina da segunda vinda de Cristo. torna-se por vêzes vão querer argumentar com êles. pressupondo de resto os ensinamentos que de viva voz haviam transmitido. de sorte que subtrair-se a essa posição vem a ser infidelidade para com o texto mesmo que se quer elucidar. porém. Por volta de 51. mas exigida pela índole mesma da Escritura Sagrada. tais dúvidas provocavam agitação entre os fiéis e solicitavam a intervenção do Apóstolo. pouco depois de chegar a Corinto. Paulo teve noticia de que os tessalonicenses nutriam dúvidas a respeito cIo dia do juízo final e da sorte que então tocaria aos irmãos defuntos. em térmos breves. por exemplo. escreveu a segunda epístola aos tessaloaicenses. sabe-se que Jesus Cristo comunicou todo o seu ensinamento aos Apóstolos por via meramente oral. de modo nenhum intencionavam expô-los de maneira sistemática ou exaustiva. porém. porque apenas intencionava completar a pregação de viva voz. foram-na transmitindo de viva voz pela pregação. que esporàdicamente os fiéis desta ou daquela região propunham questões particulares (de índole dogmática ou moral) aos Apóstolos ou pediam que lhes enviassem uma súmula escrita do que haviam pregado. No tocante ao Novo Testamento. o Apóstolo estêve em Tessalonica (Macedônia). porém. 12 Haja vista. Como isto? É preciso não esquecer que os livros da Escritura tiveram origem ocasional ou esporádica. o magistério se exercia quase ünicamente pela palavra viva. 12 Daqui se segue 10 Já que os não-catúlicos não reconhecem tal magistério. demorar aí tanto quanto necessário para rematar a catequese dos recém-convertidos: um tumulto provocado pelos judeus obrigou-o a procurar refúgio em Atenas e corinto (cf. pois. ao abordar pontos de doutrina em tais escritos. Por sua vez. '° Pergunta-se. esta atitude dos católicos? Não. apenas elucidavam os aspectos que davam lugar a mal-entendidos entre os fiéis. Paulo aos tessalonlcenses. Paulo. Já que esta primeira carta não bastou para acalmar os ânimos.

os escritos do Antigo Testamento. Apenas fragmentos cio historiograf ia ou dos cráculos dos profetas ou das máximas dos sábios de Israel nos foram consignados. Errôneo. como se deduz da critica literária dos livros do Antigo Testamento. não se pode deixar de salientar que. de resto. ninguém pretenderá apreender a mensagem divina da Escritura. é.5s). sem prêviamente tomar conhecimento exato do veículo humano a que se quis ligar a Palavra de Deus. o recurso aos resultados da ciência moderna empreendido pelos bons exegetas conlaudo. apresentem hoje dificuldades exegéticas insolúveis. tiveram origem ocasional. sem dúvida. na exegese da Sagrada Escritura.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO 23 que muitos temas da autêntica pregação de Jesus ou do depósito revelado não passaram para o papiro. é exigência decorrente da índole mesma da Sagrada Escritura. enquanto tal. ora não resta dúvida de que êste outro aspecto da Escritura só pode ser entendido mediante o recurso às noções de cultura pressupostas pelos autores bíblicos. Tendo em vista as disposições habituais da Providência. pois. esporádica. da Bíblia. 2 Tes 2.") 15 Isto se compreende já pelo fato de que escrever era relativamente pouco usual entre os antigos. Esta é. depende desta. como se vê. portador de mensagem sobrenatural. faltam-nos os elementos da pregação oral que deviam esclarecer o que Paulo diz a respeito da aparição do Anticristo e do Obstáculo que o detém (cf. que o detém. em outros têrmos. certamente inteligíveis para os seus primeiros leitores. Ao mesmo tempo. Por fim. mas é inseparável da tradição oral. 2. é preciso mesmo dizer que só pequena parte das verdades de fé foi explicitamente consignada por escrito. e. ela de modo nenhum dispensa certo estudo ou esfôrço que vise penetrar e entender o aspecto literário. É o que explica que estas duas epistolas. De tudo isto resulta claramente que o recurso à tradição. embora a atitude de fé seja a atitude primária para uma profícua leitura do texto sagrado. e cultura oriental antiga. em nome da fé ou da piedade. porém. Semelhantemente. contribuíram com seu cabedal de cultura. longe de ser imposição arbitrária da autoridade eclesiástica. pois se originou dentro da tradição oral. para o seu ensinamento oral (cf. um livro divino. . para a redação das páginas sagradas. 13 É o que faz que. que. é obra de autores humanos. E. seria desprezar.5s: "Não vos lembrais de que eu vos dizia essas coisas quando ainda estava convosco? Agora sabeis o. como modalidade nova da mesma. esta pequena parte não constitui um bloco fechado e completo em si. a tradiçâo oral. que ainda hoje vive entre os cristãos e tem seu autêntico órgão de expressão no niagistério da Igreja. é o espírito sobrenatural do leitor que a deve perscrutar. para que se manifeste em seu tempo. o primeiro elemento a ser consultado seja o conjunto de ensinamentos que sempre se transmitiram ao lado da Escritura no povo de Deus ou na Igreja. humano. mas ficaram na tradição meramente oral da cristandade.

nada despreza daquilo que de verídico ensina a ciência. Deus houve por bem fazer da sua Palavra a mensagem para todos os homens. não sõmente para aquêles a quem é dado o lazer do estudo.24 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO temporâneos. está pronto a exercer a fé renunciando a julgar as autênticas obras de Deus. É claro. por suas circunstâncias de vida. porém. tais opúsculos possibilitam o acesso ao livro sagrado mesmo às pessoas que. que. eis o princípio geral para a solução dos problemas da Bíblia. mas. Em conclusão: espírito sobrenatural muito vivo. . de um lado. menos se possam dedicar ao estudo. de outro lado. que nem todos os leitores da Escritura estão obrigados a fazer os mesmos estudos para desfrutar o conteúdo do texto sagtado. eis o pressuposto de uma leitura frutuosa do livro sagrado. as noções introdutórias na Escritura encontram-se redigidas sob forma breve e simples em opúsculos das diversas línguas modernas.

O conceito. A iaspiração pode. verificou-se. sua paixão expiatória (Is 50.0 ).0 QUE SE ENTENDE POR INSPIRAÇÃO BIBLICA? Na procura da resposta autêntica à pergunta. de autoridade única. visto que deviam fazer parte da . Ao estudo dêste problema. § 1. goza. quando os profetas de Israel. 0). Tais episódios foram redigidos sob a influência de dois dons sobrenaturais: o da inspiração bíblica.1). ao ensinamento de verdades até o presente ignoradas pelo hagiógrafo. porém.4-10. Não poucos se admiram ao verificar que a Escritura se assemelha muito a obras profanas.12). pois. também não vêem como se possa conciliar o conceito de inspiração divina com o estudo das fontes humanas de um trecho bíblico. ou seja. sua transfixão na cruz (Zac 12. é geralmente movido por uma crença de importância capital: a Bíblia é a Palavra de Deus. 0 ) e da história profana Q 3. tais como o seu nascimento em Belém de Judá (Miq 5. estar associada a êste outro dom divino. a documentos da literatura antiga. consignaram por escrito pormenores da vida do Messias. comunicação sobrenatural de verdades desconhecidas ao escritor. faz-se mister remover logo duas opiniões errôneas: a) inspiração bíblica de modo nenhum é revelação. Isto. porém. abordando primeiramente o conceito de inspiração em si Q 1. depois as relações da Escritura com as conclusões das ciências naturais (§ 2. de inspiração bíblica não é claro a todos os cristãos. com a crítica literária e paleográfica do texto. sim. Livro inspirado pelo Altíssimo. que é capital em tôda iniciação bíblica. por exemplo. séculos antes de Cristo.10).13-53. "Livro inspirado por Deus" parece-lhes ser obra absolutamente emancipada das fases de preparação por que costuma passar todo produto literário humano. com as hipóteses de acréscimos ou interpolações feitas a determinada passagem etc. se dedicará o presente capítulo. não ocorre necessàriamente.CAi'ínJLo II LIVRO INSPIRADO POR DEUS Quem toma em mãos a Sagrada Escritura para dela fazer o seu livro de doutrina e espiritualidade. 52.

Além de iluminação da. o hagiógraf o examine a veracidade das noções que êle tem na mente.37.7. Êsse ditado dispensaria tôda a ciência pessoal do hagiógraf o. a inspiração importa moção da vontade e das potências executivas do hagiógrafo. pela inspiração. vamos encontrar noções que diríamos "humanas" (não falsas. Quando. por exemplo. Mt 2. proposições verídicas. na Bíblia redigida sob a inspiração divina. tal como se dá entre o autor de uma carta e seu dactilógrafo. 1-3). com a clarividência de Deus. pois haviam presenciado os fatos ou tinham sido informados por testemunhas abalizadas. 1 J0 1.1-4.29. J0 19. serem a expressão autêntica da mensagem que o Senhor quer transmitir aos leitores. 29. porém. e o da revelação. 11. Em outros têrmos: a inspiração faz que. O qué acaba de ser dito.29. com a lucidez do próprio Deus. as escolha e formule de modo a se tornarem a expressão fiel dos pensamentos do Altíssimo. pois certamente os autores sagrados não adquiriram essas notícias por estudo ou por via meramente humana.26 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Escritura. o livro estaria. longe de extinguir a atividade do hagiógrafo (ou o trabalho de um escritor). 24. ainda se pode explicitar do seguinte modo: a inspiração bíblica. em 1 Crôn 27. .23. sem o mínimo êrro. Em têrmos positivos. 3 lis 14.24. mas de maior certeza (da certeza do próprio Deus) na posse das verdades já adquiridas. . 15. a inspiração bíblica? Supondo no homem um cabedal de cultura. ao contrário a suscita. emancipado de vestígios da personalidade do autor humano. atestam ter visto ou ouvido o que referem (cf. de sorte que êste. 2 Mac 2.). Essa iluminação faz que noções ineptas a comunicar as verdades intencionadas por Deus apareçam à mente do hagiógrafo como inadequadas. formuladas segundo os moldes usuais entre os homens da antiguidade. porém). a seu turno.29. que é. perceba tais e tais verdades. Como se vê. pois. ou seja. 8. êste processo não implica comunicação de novos conhecimentos. escreva aquilo que percebeu em sua mente ilustrada.31. ilumina a inteligência do hagiógraf o. enquanto as proposições aptas a êste fim lhe são apresentadas como tais. por assim dizer. Lc 1. consignaram os mesmos episódios (cf. 24-32.17.inteligência. os evangelistas.32s). Deus. prêviamente adquiridas. b) se a inspiração bíblica não é necessàriamente revelação. Jo 19. já o fizeram apenas sob o influxo da inspiração bíblica.6.16-38). 21. De resto. ter investigado documentos. não por revelação divina.19..35. consultado testemunhas (cf. At 8. 2 Crôn 9. os autores bíblicos apelam freqüentemente para a sua experiência. bem como o seu esfôrço de composição literária. também não consiste em ditado meramente mecânico. citam também as fontes compulsadas (os anais dos reis de Israel. a fim de que êste resolva escrever & de fato. Isto tudo quer dizer que.

LIVRO INSPIRADO POR DEUS 27 suscitando-a. um só pensamento pode mesmo tomar configurações bem diversas conforme os diver sos tipos de giz usados. as impressões de um homem dos campos. que tomou a face. a fim de que produza efeito não simplesmente humano. pouco preocupado com o estilo. Hebr 4. rico ou pobre. como S. todavia a forma literária. cf. Mateus.15) aos demais homens. de palavra do homem. a inspiração tem sua semelhança com o mistério da Encarnação. O conceito de inspiração é bem ilustrado pela analogia do homem que. Marcos. de modo que a obra daí resultante não apenas contém a Palavra de Deus. 1 designa aqui a inspiração. como o de Jeremias. mais precisamente: de um judeu que viveu no Oriente há mais de três ou há quase dois milênios atrás. etc. O efeito produzido na pedra se deve atribuir tanto ao escritor como ao seu instrumento. de valores humanos. potências executivas) e percorre simultâneamente com êste as etapas necessárias para a redação de um livro. na Escritura depreendem-se os vestígios característicos de um homem de cultura esmerada e trato nobre. como S. ao passo que ao giz se deve reduzir a forma visível dos mesmos na pedra (côr.. mas humano e divino. não desprezível. como S. E note-se que cada hagiógraf o deu os seus pressupostos pessoais. 2 Do fato de que a Escritura é inspirada por Deus (nos têrmos acima expostos) segue-se a sua inerrância ou isenção de êrro dou"Carisma". um dos ilustres cidadãos de Jerusalém no séc. . que serve para exprimir tais idéias. um cabedal. a vivacidade de um Jovem fogoso. Anàlogamente se relacionam Deus e o hagiógrafo na composição dos livros sagrados: as idéias ensinadas pela obra provêm primàriamente de Deus. para exprimir a verdade divina. mas é a Palavra de Deus. as de um temperamento muito sensível e vibrante. E nesse efeito encontram-se inevitàvelmente os vestígios de um e outro agente: ao homem se devem atribuir os pensamentos expressos. a terminologia e a finura de espírito de um médico de formação helenista. mistério pelo qual o Filho de Deus apareceu na terra revestido da natureza humana. os cálculos harmoniosos e simétricos de um cobrador de impostos. é condicionada pelo hagiógrafo. cultura própria. Autor principal.). como Isai as. possuindo. VIU a. certa graciosidade. a veste. um sem o outro não o produziria. afeito aos números. ignorando muita coisa das ciências e das artes que hoje se conhecem. 1 Deus penetra tôdas as faculdades do escritor (inteligência. Lucas. eleva-a a plano superior. o que quer dizer: fica subordinada à educação e às categorias culturais de um escritor humano. pelo influxo do carisma. não obstante. a veste. 2 Com efeito. dom (de Deus) outorgado em favor da comunidade dos fiéis.C. como Aniós. Sim. sem mutilar a esta. escreve sôbre o quadro-negro. porém. vontade. grossura. Em conseqüência. antes servindo-se de tudo que lhe pertence e equiparando-se integralmente (exceto no pecado. simples pastor. com um pedaço de giz.

história edificante ou ornamentada com fim catequético (Tobias. Jeremias. para a exegese católica. como interpreta uma seção poética.. etc. em que os artifícios e as metáforas são de praxe. a arte crítica dos textos. outras as de uma seção de crônicas. não é senão mediante a interpretação desta que aquela pode ser atingida. outras as da poesia. mas vem a ser tarefa a que as nossas escolas não se podem furtar. Esta cláusula. diálogos (Jó) . não há dúvida. Comment tire la Bible.ssimus) • escrevia S. Após Leão XXII (Enc. como o recomendavam ainda recentemente os Sumos Pontífices. outras são as normas de redação de um texto de leis. nenhum leitor se pode julgar autorizado intérprete de tal ou tal seção bíblica. história estritamente dita (os livros dos Reis. caso nela existisse. êste.. Embora não raro as palavras de determinado texto sejam suscetíveis de mais de uma interpretação.28 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO trinário. lhes possa dar. Ezequiel). outras as da profecia. a arqueologia." (Citação transcrita de Gourbillon. deveria ser imputado ao próprio Deus! Jamais. modalidade contingente. a história do antigo Oriente. Paris. Platão dizia: "Mentiroso como um poeta. O que quer dizer. se poderia esquecer neste assunto uma cláusula de grande alcance: já que a inerrante Palavra de Deus toma na Bíblia uma veste humana. profecias (Isaías. lhes queria atribuir. etc. 23. se prende a uma regra geral de hermenêutica. como a filologia.. a saber: o autêntico significado de uma obra literária só se patenteia a quem procure reconstituir a mentalidade do respectivo autor e as circunstâncias em que escrevia. em leitura superficial. Sem saber qual o gênero literário com que se defronta. em têrmos mais claros: as afirmações da Sagrada Escritura só gozam da absoluta veracidade da Palavra de Deus quando entendidas no sentido mesmo que o hagiógrafo. 1 Ora na Bíblia há livros de leis (o Levítico).. porém. a qual prima pela precisão de suas palavras e a concisão de suas sentenças.) 4 Esta verificação dá claramente a entender que o cultivo de certas disciplinas profanas. pois. Daqui se deduz a imperiosa necessidade de discernir o que se chama o "gênero literário" de cada livro da Sagrada Escritura. outras as da história "edificante" ou "moralizante". de tal modo que nenhun-i leitor interpretaria uma peça jurídica. de resto. Santidade Pio XII em 1943: "Bem preparado com o conhecimento das línguas antigas e com os recursos . o primeiro dos Macabeus). os Salmos). seu porta-voz humano. quando interpretadas no sentido que um leitor moderno. não. ninguém ousará atribuir indiferentemente ao autor qualquer das teses conciliáveis com o conteúdo "bruto" de seus vocábulos. E que será prõpriamente o "gênero literário"? Esta expressão •designa o conjunto das regras de estilo e o vocabulário que os homens de determinada época ou região costumavam observar quando queriam escrever sôbre certo tema. poesia (o Cântico dos Cânticos. não constitui. 3 verificando isto. Providenti. Judite e Ester).

o aperfeiçoamento dos métodos exegéticos e conseqüentemente a reforma da interpretação de um texto cuja mensagem em si mesma é una e constante.) 5 É o que se verifica principalmente na história das origens do mundo e do homem.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 29 O fato de que a inerrante Palavra de Deus está associada aos gêneros literários dos antigos semitas ainda é fecundo para explicar um fenômeno aparentemente estranho: hoje os autores católicos já não atribuem à Escritura proposições que antigos e medievais afirmavam em nome da mesma. o conhecimento mais exato de passagens da Escritura que nos ficam obscuras: "Não é para admirar se não se venceram nem resolveram ainda tõdas as dificuldades. coisas tôdas de que se costuma tirar partido na interpretação dos escritores profanos. crescem pouco a pouco e não se colhe fruto senao depois de muito trabalho. o que se verifica é. examinar e distinguir claramente que géneros literários quiseram empregar. e interpretação falível que os homens podem dar a êste texto. mudança da Palavra de Deus (o Magistério eclesiástico nunca declarou verdades de fé as proposições dos exe . não era sempre plenamente percebida pelos intérpretes antigos. se vai manifestando deficiente a interpretação que a certos trechos se dava. Não é caso para desanimar. quando não se possuíam tão esmerados instrumentos de trabalho. Acta Apostolicae Sedis 35 [1943] 310." (Enc. Distinga-se.. aplique-se o exegeta católico àquele que é o principal de todos os seus deveres: indagar e expor o sentido genuíno dos Livros sagrados. O labor do homem é indispensável para se entender a Bíblia. para tirar a limpo o pensamento do autor.. tendo projetado luz valiosa sôbre as páginas bíblicas levam-nos a dizer que a genuína mensagem das Escrituras.. Divino ali jante Spiritu. Tal conclusão seria precipitada. da comparação com passos semelhantes. Deus e as Escrituras não alteram a sua doutrina. com o auxilio da história. o que se dá na Igreja não é mudança de dogma. o sua Santidade o Papa Pio XII manifestava em nossos dias a esperança deque os tempos futuros nos forneçam ainda novos meios de estudo e. arqueologia. getas hoje revogadas). e êste labor pode. 5 Isto poderia fazer crer que a Igreja mudou os seus dogmas e pràticamente nega a inerrância da Palavra de Deus. está claro que.. do exame do contexto. todavia.. Em nossos dias. Neste trabalho tenham os intérpretes bem presente que o seu maior cuidado deve ser distinguir claramente e precisar qual seja o sentido literal das palavras bíblicas. mas há ainda hoje graves questões que não pouco agitam os espíritos dos católicos. por conseguinte. entre doutrina divina inerrante. valendo-se da ciência das linguas. Assim precisamente sucedeu que a muitas questões o . As recentes excavações no Oriente. com tõda a diligência. necessitar de remodelação à medida que se descobrem novos instrumentos de pesquisa. em pontos de importância secundária.. intérprete deve. os escritores daquelas épocas remotas. antes. 315. basta refletir que nos estudos humanos sucede como nas coisas naturais. na proporção em que melhor se vão conhecendo os processos de redação dos povos antigos. pois. por conseguinte. já que esta só pode ser percebida mediante a consideração da sua face humana ou dos gêneros literários. Procurem-no. 6 da crítica. sim. contida na Escritura. etnologia e de outras ciências. pois.

entra por vêzes em aparente conflito com as ciências da natureza. Estas noções profanas na Bíblia servem de mero veículo. observe-se que a finalidade em vista da qual Deus moveu os hagiógrafos a escrever. lhes parecia Inculcar o geocentrismo. a Sagrada Escritura também alude a conceitos de índole científica (física. a Sagrada Escritura não ensina tais conclusões de ordem meramente científica. Na realidade. Muitos de seus contemporâneos julgavam que contradizia à inerrante palavra da Sagrada Escritura. Pode-se.). tanto por caúsa do propalado milagre de Josué (Jos 10. pois.0 A SAGRADA ESCRITURA E AS CIÊNCIAS NATURAIS Importa agora abordar mais detidamente o problema particular que acaba de ser insinuado. § 2. Contudo. não a Escritura mesma. Desta afirmação decorrem importantes conseqüências: às proposições religiosas da Sagrada Escritura cabe veracidade absoluta." (Ibid. só nos nossos dias com o progresso dos estudos se encontrou felizmente solução. pré-científica. mas em função de proposições religiosas. por conseguinte.30 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO e Em suma. etc. depois de momentâneamente condenado pelo Santo Oficio (tribunal eclesiástico que não goza da infalibilidade própria do magistério universal da Igreja). quanto às referências de outra ordem. porém. Galileo foi reabilitado e suas Idéias aceitas por exegetas e teólogos.7-15) como pe10 fato de que a Encarnação teve lugar na terra. Como será isto possível? Antes do mais. a qual se distingue da veracontroversas. cientista que por volta de 1615 começou a ensinar a tese do movimento da terra em tôrno do sol. o centro do universo. já que o homem procura a salvação dentro do cenário da natureza. não resolvidas e indecisas nos tempos passados.) . comprovara-se que errônea era 4etermino4a interpretação dada à Sagrada Escritura. errôneamente Interpretada em tal sentido.. era estritamente religiosa: o Espírito Santo. popular. pelos autores bíblicos. com efeito. quis ensinar aos homens £nicamente verdades que importem à salvação eterna. biológica. Haja vista o caso de Galileo Gaifiei. astronômica. não são visadas em si. podem exprimir veracidade relativa. esta. de modo nenhum temas que diríamos profanos ou científicos. reconheça-se que o êrro estava contido não na Sagrada Escritura. a qual deveria ser. 318. Por isto é que. dir-se-á: tôdas as vêzes que uma antiga sentença exegética seja comprovada falsa à luz das ciências modernas. esperar que tarnbëm as que hoje nos parecem sumamente complicadas e dificílimas. era. a saber: embora a Bíblia seja a inerrante Palavra de Deus. com uma constante aplicação virão a ser um dia plenamente dilucidadas.mas na interpretação que os homens davam a esta.

não o interessa ir além disto (a menos que passe para os domínios da Filosofia e da Teologia). todos sabem que não quer ensinar astronomia. como se vã. Procedem. refere-os às suas causas próximas e dá-se por satisfeito depois de ter tomado conhecimento da estrutura de cada ente corpóreo. ao inspirar os hagiógrafos. Ora o Espírito de Deus. sôbre a terra) todavia corresponde ao que se ensinava entre os judeus antigos.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 31 cidade científica. etc. Por isto é que a linguagem do cientista é precisa. Estas expressões não deixam de ter fundamento objetivo. Mesmo quando o hamem de ciências se refere ao "nascer" e ao "pôr" do sol. pois se baseiam na aparência que os fenômenos realmente apresentam. com o homem. o firmamento.n. servir-se de outra linguagem seria mesmo tornar a mensagem religiosa da Bíblia ininteligível aos seus destinatários durante muitos séculos. Les plus ancienfles traditions "Os dogmas (na narrativa biblica da criação) são revestidos à moda do Oriente e realçados por poesia maravilhosa. enquanto a da Bíblia. . versando sôbre os mesmos temas. não julgou necessário revelar-lhes a estrutura do universo e dos sêres vivos. como se propunha o hagíógrafo.Já que o Livro de Deus nada quer ensinar neste setor. de pontos de vista diversos: o cientista considera os elementos em si mesmos. Ainda hoje na linguagem cotidiana se diz que "o sol nasce e se põe". não tomará as alusões da Escritura como insinuação de teses físicas. cosmológica.1-2. não há choque entre o mesmo e a ciência humana quando se ref erem às criaturas materiais. pouco importavam as fórmulas cosmológicas ou biológicas. conceber . 1954). Como se poderiam. eram suficientes para designar o mundo visível e suas relações com Deus. Aplicação muito clara desta distinção tem-se na narrativa da criação em Oãn 1. aos olhos da ciência moderna. refletida 4 técnica. tudo contempla de um plano superior. pois êle não queria descrever as fases pelas quais o mundo se originou. inculcar que todos os sêres designados mediante "tais" e "tais" noções se relacionam com Deus como criaturas dependentes do Criador. só a interessa. Tais noções. impregnada únicamente de Veracidade popular. mas se adapta ao modo de falar dos contemporâneos. haveria uma abóboda cristalina. desde que indicassem as diversas criaturas que cercam o homem). Ora bastava ao hagiógraf o esta veracidade relativa. pois. biológicas..4a. 92: ótimas são as observações de J. a perf&ção do Altíssimo (no caso. pode ser assaz livre. permitiu. sim.s. A Bíblia. insustentável (a luz seria anterior às estrêlas. fala-se da baleia como "peixe". sim.. portanto. ao contrário. A cosmologia pressuposta pelo autor sagrado é. embora imperfeitas aos olhos do homem moderno. aliás. 7 dit Pentateu que (Paris. sem os induzir em êrro científico. mas. por assim dizer. que formulassem verdades religiosas mediante os conceitos de ciência que estavam em voga no seu povo. destinadas a refletir. Steinman. a tangente que passa por cada ser visível e o liga com Deus. do morcêgo como "ave". O leitor contemporâneo.

cuja cabeça vem a morder a própria cauda (princípio e fim coincidem no mesmo ponto. Representavam esta concepção recorrendo à figura de uma serpente enrolada. Censorino. sim! Como. ° Em conseqüência. li. Comentãrjo da Quarta Ecloga de Vergltio. Era assaz generalizada a tese de que os séculos constituem ciclos fechados. 4. como diz S. mostra-se inconsistente a supeita de desacôrdo entre a Sagrada Escritura genu'mamente entendida e os genuínos dados da ciência. os quais se repetem regulamente. Stobeu. não carece. sérvio.) O Testemunhos ou vestlgios desta ideologia oriental encontram-se em: Empédocles. 1. A classificação é.30. por muito elevado que fôsse o seu grau de cultura. 8. Fragm. Quaestiones naturales 1. a sucessão dos tempos jamais conhecerá remate ou consumação final. deficiente. Ëste circular contínuo e monótono da história era dito "o ritmo do yin e do yang". Sonho de Cipião 7. ou seja. fidelidade e amor a Deus. 28s. a fim de passarem a viver num mundo transcendente. . e tal veracidade era suficiente para que o Espirito Santo. S. porém. 1. as coisas de outra forma? Dizer que Deus concebeu em sua mente as nebulosas e criou a alma humana no fim de uma série de sêres em evolução não esclarece mais o mistério do que dizer que Deus plasmou o corpo do homem servindo-se de barro e plantou num oásis árvores frutíferas. despertasse no israelita uma atitude religiosa. ep. Agostinho. acontecimentos já verificados no pretérito se reproduzirão em época futura. mencionando-a na Lei." (Leão XIfl. a tendência de muitos indivíduos era emancipar-se dos. Séneca. c. com sentimentos de compaixão. enquanto um e outro se mantiverem dentro de seus limites e se esforçarem. V. Eclogae physicae 1.1. Meteor. 2. "a incessante alternância da Discórdia e da Amizade".. cf. o foram Péguy e ClaudeI! Não falavam os antigos. pouco prezavam a história.. 3. caps. § 3 • 0 COMO O ISRAELITA ESCREVIA A HISTÓRIA Os antigos povos do Oriente. "a aspiração e a expiração de Brama". cap.32 PAiA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO * Outro texto significativo é o de Lev 11. de veracidade popular (a lebre está continuamente a mover os rnaxiliares e os lábios) . "a dança de Siva que produz e destrói sucessivamente os mundos". Aristóteles. 3. 1. Cicero. sem dúvida. À luz dêstes princípios e exemplos. Enc. Da geração e da corrução 1. de resto. Terão sido ingênuos (raïfs) os escritores javistas? Se o quisermos. 9. De Genesi ad Iitt. todo o movimento que se registra entre os dois têrmos nada de novo acarreta!).ciclos do mundo presente mediante a ascese. 30 e 115. Provi denttssimus. da barbârie dos escultores do estilo românico ?" 8 "2 certo que nunca haverá desacôrdo real entre o teólogo e o cientista. onde o hagiógrafo apresenta a lebre como animal ruminante. 82. De die natali 18. intperf. 'por nada afirmar irrefletidamente e não fazer passar por verdade bm conhecida aquilo de que não tenham conhecimento claro'. o esquecimento e o repúdio do corpo e do corpóreo. c.6. Agostinho.

Na Grécia surgiu mais tarde. ultrapassando as categorias culturais do seu ambiente. Quando é possível controlar as afirmações dos cronistas de Israel à luz de textos profanos. 315. Und die Eibel hat cfocft recht 1 (Duesseldorf. não se encontrou uma síntese histórica dos tempos antigos. . Ora nesse ambiente o povo de Israel se distingue por ter cultivado a história. Quando o faziam. na literatura dos hebreus.. sob a influência de uma ideologia monoteísta assaz forte para superar crises. suscitadas entre os hebreus pela idolatria dos povos vizinhos.para se reconstituir a história da Assíria. aberrações. que ocupa lugar priviIegado entre todos os povos civilizados do Oriente. de sorte que os relatos já não transmitiam a notícia de fatos ocorridos. assiriologia. aquêles se comprovam fiéis à verdade. 1954). 227.) 11 Dentre as várias obras que nos últimos tempos têm proposto o confronto e a concórdia entre os dados da Bíblia e documentos de arqueologia.. do Egito. É o que reconhecem. 1921. 11 A história de Israel assim descrita se desdobra uniformemente. Em Israel." 10 Com efeito. é delineada a história do povo em traços contínuos e de modo que pressupõe a pesquisa de fontes. a expressão da fantasia popular ou de uma religiosidade politeísta. os críticos modernos racionalistas: "Dentre todos os povos asiático-europeus. e isto tanto pela fidelidade como pela antiguidade das narrativas. E como se explica que os rudes judeus. egiptologia. etc. se distinguia singularmente na arte de escrever a história. etc..LIVRO INSPIRADO POR DEUS 33 Isto explica que os antigos orientais pouco se tenham preocupado com historiografia. não sem admiração. visavam apenas episódios restritos ou envolviam as narrativas dentro de concepções lendárias. em grau maior ou menor. Pio XII chamava a atenção para tal fenômeno em sua Encíclica Divino 10 ai/Jante Spiritu: "As pesquisas comprovaram claramente que o povo israelita. paleontologia. Geschichte der Altertums 14 1. e o ter feito com esmêro tal que só foi superado pelos gregos. tenham com tanto esmêro cultivado a historiografia? E. mestres da historiograf ia ocidental. entre as demais nações antigas do Oriente. condizentes com o que referem outras fontes.). e produziu logo de início obras de importância. ou seja." (Ibid. mas eram. Meyer.. mitológicas. apenas se descobriram elementos -.. a transcrição de documentos dos arquivos orientais . particularmente Interessante é a de W.. documentos parciais . que coincide com os escritos bíblicos. com o relato contínuo e fiel das fases sucessivas da evolução humana. RelIer. inscrições. exuberante (nos diversos acervos de ruínas excavados no Oriente até hoje. sômente Israel e a Grécia possuem autêntica historiograf ia. a historiografia se originou em época tão remota que causa surprêsa.

ou seja. sim. 13 Cicero tem a história na conta de "lux veritatis . pois não interessa a linhagem messiânica. os hebreus julgavam-na tôda perpassada por um plano divino. Deus fala e age pelos acontecimentos. Os 2. 2 Crôn 12 Muito claramente se afirma esta concepção nos escritos dos Profetas.. Em conseqüência. dando-lhes côngruo desenvolvimento e realce. portanto.. é silenciada em Crõn. em algumas passagens historiográficas da Sagrada Escritura. os escritores de Israel se tenham preocupado com a redação de suas crônicás. a escassez de pormenores que se diriam de ordem meramente profana.34 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A razão do fenômeno está na religiosidade de Israel..26-45. evocando os acontecimentos do êxodo do Egito e os do regresso após o cativeiro babilônico (cf. pois. referida em Rs. valiosos. ainda os seguintes itens: a) a historiografia israelita é tôda pragmática-religiosa. Aliás. inconfundível com a das outras nações do Oriente. magistra vitae luz da verdade. 15-17.9). 14 Muito interessante a êste propósito é confrontar os livros dos Reis (San e Rs) com os das Crônicas.. procura realçar o sentido religioso dos acontecimentos. que nela se vai atuando e tende à consumação no fim dos séculos.1-l0. 13 devendo as narrativas de feitos pretéritos servir de escola às gerações pósteras. Vis. Is 35. 12 Entende-se. posterior aos de 8am e Rs. 31-36. o passado lhes aparecia qual mensagem divina a prenunciar reaJizações futuras ou a admoestar a melhor conduta de vida. é exaltado em Crôn com títulos que ate então só eram atribuidos a Moisés ("homem de Deus". . de Deus. 11. 44. movidos por tal ideologia. serão indicados exemplos dessa escassez pragmática. justamente nas seções paralelas que o autor de Crôn. quanto a Davi.. selecionou os dados da história. a história era geralmente considerada qual "mestra da vida". pois.Jer'31. pois.16-19. sabiam que. de fato. Outras observações se devem acrescentar à precedente. querendo predizer a futura Redenção messiãnica e a instauração visível do reino de Deus. Os israelitas tiveram consciência particularmente viva dêste princípio. mestra da vida" (De Oratore 2. Por exemplo. afirmar-se apenas esta nota da historiografia em Israel. por revelação divina. a história do reino cismático do Norte (Samaria). cf. omitindo uns. em grande parte. Longe de professar que a sucessão dos tempos carece de sentido. porém. porém. descreviam-nas com os traços característicos de duas "redenções" anteriores de Israel.. viam. 40. a fim de se poderem interpretar com exatidão as crônicas existentes na Sagrada Escritura. entre os próprios pagãos. mas destituídos de importância para a salvação dos fiéis. a fim de melhor pôr em evidência o significado religioso dos episódios.1-5. 14 A pãg. que passa pela Casa de Davi no reino meridional. Não seria justo. São. paralelos entre si. que. nos grandes acontecimentosda história comunicações. sempre que possível.8s).4. nota-se. para o erudito. Éstes. ou seja. o historiador deduz a lição contida nos fatos. ora mais claras ora mais veladas. acrescentando outros na trama anteriormente redigida. ninguém estranhará. Tenham-se em vista. .

era muito exiguo no Oriente antigo.o que justamente é profecia. ao ensinamento por escrito ou à atividade literária se atribuía pouco valor. fêz que redigissem as suas narrativas de modo a conterem alusões ao futuro. 2 Mac 3. É bem possível que não tivessem a intenção de garantir a veracidade das passagensassim transcritas. os nossos hagiógrafos inclusive. nem perscrutar o porvir. faz questão de notar que pelo monarca pagão era o Senhor quem exortava à prudência.14. adaptadas ao desenvolvimento moral e inteletual do gênero humano. Algo de semelhante se verifica ao se compararem entre si as seções paralelas do primeiro e do segundo livro dos Macabeus.8).8). ao contrário. homens que tudo viam à luz de Deus. as Intervenções de Deus em favor dos seus fiéis são muito mais freqüentes e vivamente inculcadas: notem-se 1 Mac 6.12-17. os historiadores semitas. No segundo. quando comparados com o magistério de viva voz. 7-10). de "direitos autorais". de Judá. a cujos dizeres o hagiógraf o não intencionava subscrever. o cronista. 5. imutável em si. 4. cheia de entusiasmo religioso). perseguidor do povo de Deus) e 2 Mac 9. 7. se vai desdobrando em fases simétricas.5. Em conseqüência do seu pragmatismo. 1947). embora nada fizessem para se distinguir do autor de tais ditos.29. 9. 2 Crôn 9. o reino de Judá é dito "o reino de Javé" (cL 2 Crôn 13. Note-se.15-17. a cronograf ia bíblica é por exegetas modernos chamada "história profética".1. porém. o trono de Salomão é chamado "o trono de Jave" (CL 1 Crón 29. 29. 43.28-30 (onde se poderia esperar). Em conseqüência. em tal caso o érro não teria sido endossado pelo historiador sagrado e não afeta15 l'Áncien Veja-se. cf.23. o relato paralelo falta em 4 Rs 23. pois a história se refere ao passado. 6. entre outros. 1 Mac 5. b) o senso de propriedade literária.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 35 8. ora o Altíssimo não permitiu fizessem a descrição do pretérito como se fôsse algo de fechado em si. 1 Crôn 17.1-28 (descrição muito mais longa e calorosa. se permitiam transcrever documentos alheios sem indicar as respectivas fontes. constituindo o esquema ou prenúncio de realidades maiores vindouras . mas mostrar os traços de um grande desígnio divino que.17-20. Le ddveloppement des idées Testament (Aix-en-Provence. ao referir uma admoestação do Faraó Necao ao rei Josias. 12. O que interessava os autores bíblicos não era nem simplesmente contar o passado. Em 2 Crõn 35. "servo de Deus". duns . 15. Tal proceder redacional tem repercussão nos métodos de exegese: em presença de uma noticia de história aparentemente errônea na Sagrada Escritura pode-se supor seja devida a citação implicita ou a um autor anônimo. 15 Esta designação talvez pareça paradoxal.31-43 e 2 Mac 10. praticavam assim o que se chama "citações implícitas". que a história bíblica foi escrita por homens inspirados (no sentido acima exposto). Guitton.1-16 (narrativa sóbria da morte do rei Antioco Epifanes. J. 13. O autor de 2 Mac não hesita mesmo em interromper o fio da história para tecer reflexões teológicas em tôrno dêste ou daquele episódio (cf. enquanto a profecia ao futuro.4).21s.

ibid. É o caso. Genêse. visto que o senso de propriedade literária não suscitava escrúpulos.36 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ria a inerrância da Escritura. .4b-3. autores posteriores se permitiam retocar. de Gên 1. embora possam bem ser conciliadas pelo exegeta atento. de fato. por exemplo. em Revue bftlique. (2) sem ter a intenção de o aprovar ou de garantir a sua veracidade. supõem circunstâncias e fases diversas da história de Israel. como se fôra proferida tal qual figurava no texto. Podia.1-3. um autor transcrever dois ou mais relatos do mesmo fato provenientes de fontes diversas sem se preocupar com a fusão harmoniosa dos mesmos numa só peça literária bem trabalhada.1-2.740. "Deutéronome". 489. sem denunciar explicitamente o seu trabalho de remodelação..24) redigidas independentemente uma da outra. à primeira vista. em La Sainte flib1e de Pirot-Clamer I. ao referir ditos alheios. Contudo. embora justapostas. não se dava grande importância a pormenores tais como os do acabamento literário de uma obra. que reconstituir o ponto de vista próprio do autor de cada um dos documentos. é preciso conste com certeza que (1) o hagiógrafo. torna-se raro o recurso à hipótese de citação Implícita para a solução de algum problema exegético.4a e Gên 2. onde se encontram duas narrativas da criação do mundo (Gén 1. para que se admita uma citação Implícita em determinada passagem da Bíblia. redigia então com suas palavras próprias o teor da oração. transcreveu um documento alheio. muitas vêzes. "Genêse". ampliar. Em tais casos podia acontecer que o hagiógrafo não julgasse necessário reproduzir verbalmente o discurso. 1898. divergem entre si. tendo. um tanto desconexos entre si e destituídos de explicação que guie o leitor. J. pois. 539. assim como o trabalho de mãos sucessivas. 1909). onde sê encontram coleções de leis que. 11. Dt 33. 17 Os comentadores apontam como exemplos . Clamer. Em 1 Mac 6. Enchiridion Symbolorurn. 9. as quais. (Paris. que caracterizava os hebreus. para isto. Lagrange. 17 o historiógrafo semita também não se preocupava muito com a exata cronologia e topografia dos acontecimentos.os textos de Gên 49. Em Gên 6-9 têm-se dois relatos do dilúvio justapostos com seus pormenores próprios. Ao leitor ficava a tarefa de fazer a síntese de dados às vêzes aparentemente contraditórios entre si. Tal caso é freqüente na Torá (Lei). Freqüentemente indicava as localidades e contava os tempos de maneira 16 cf. "modernizar" obras dos antigos.11-17.naturalmente sujeitos a dúvidas . 1953).1-29 ocorrem três versões da morte do rei Antíoco IV Epifanes. 16 Dado que o cumprimento destas duas condições dif'icllmente se pode averiguar. Cliaine.24. A. Cf. 494. 2-27 (bênção de Jacó moribundo sôbre os seus filhos). 2 Mac 1. o historiador usava do discurso direto de preferência ao indireto. que êle colocava nos lábios de outrem. o decreto da Pontificia Comissão Bíblica de 13 de fevereiro de 1905 (Denziger.2-29 (bênção de Moisés sôbre as tribos de Israel).1-16. Esta tendência se explica pela dificuldade de abstrair.

mais aptos a transmitir determinada mensagem aos destinatários do livro. 4. Ciência e Fé na História dos Prinjór- dios (Rio. 19552). 15. duração. tenham-se na memória.11.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 37 vaga. Jz 3. Podemos concordar em que êstes capítulos não formam uma história no sentido clássico e moderno. transmitidos.20.1. mas é preciso confessar também que os atuais dados científicos não permitem dar uma solução positiva a todos os problemas que êles suscitam. Não se lhes pode. 32. interpretá-los tão segura e rigidamente como as demais seções de historiografia da Bíblia. Referem.31). 13. É o que se dá na "pré-história bíblica" (Gên 1-11). 28. 5. acarretando làgicamente os períodos de vinte e oitenta anos (cf. qualidades dos indivíduos a quem são atribuídos.30. projetando no passado os dados da cultura do seu tempo. Bettencourt. Podia servir-se também de cronologia esquemática. Também o autêntico grau de cultura e civilização dos quadros e personagens bíblicos parecia negligenciável aos historiadores sagrados. Com o decorrer dos tempos e o progressivo conhecimento do mundo oriental antigo. mas. entram na categoria de mitologia ou fábula. os ml2e primeiros capítulos cio Gênesis pertencem a gênero literário próprio. científicas. é de esperar se nos tornem claras algumas expressões de Gên 1-11 hoje ainda sujeitas a mais de uma interpretação. acontecimentos ocorridos no pretérito. 18 g) em particular.3. as listas genealógicas dos setitas e dos semitas. 16. não seria lícito. É esta a mente da Pontifícia Comissão Bíblica. de um lado. porém. 179-198. 8. sem dúvida. portanto. veja-se E. negar ou afirmar a historicidade em bloco sem lhes aplicar indevidamente as normas de um gênero literário sob o qual não podem ser classificados. As vêzes os números de dias. nem por outro lado. mediante vocabulário e estilo muito dependentes de textos profanos. assim no livro dos Juízes o período de quarenta anos (duração média de uma geração) costuma designar acontecimentos rematados. o hagiágrafo não raro os descreve anacrônicamente. sim.1-32. Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das categorias clássicas e não podem ser julgadas segundo os gêneros literários greco-latinos ou modernos. O primeiro dever da exegese científica neste particular consiste em estudar atentamente tõdas as questões literárias. meses ou anos não indicam. históricas. cujo significado será exposto adiante à pág. em Gên 4. aludem provàvelmente a certos tópicos das cosmogonias e da história das origens de outros povos. expressa em famosa carta datada de 16 de janeiro de 1948: "O problema das formas literárias dos onze primeiros capítulos do Gênesis é muito mais obscuro e intrincado (que o da origem do Pentateuco). Para tornar mais significativos os episódios antigos. 67s. .17-24 e 5. culturais e religiosas relacionadas com êstes 18 A respeito. em absoluto. por exemplo.

adaptada às inteligências de uma humanidade pouco desenvolvida. em linguagem simples e figurada.38 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO capítulos. Sàmente assim se pode esperar entender mais claramente a verdadeira natureza de algumas narrativas dos primeiros capítulos do Gênesis." 19 Eis as principais noções que elucidam o significado da expressão "BÍBLIA. Proclamar de antemão que tais narrativas não são históricas no sentido moderno da palavra induziria fàcilmente a se acreditar que elas não o são em nenhum sentido. quando na realidade relatam as verdades fundamentais pressupostas à dispensação da salvação. . sua maneira de exprimir o pensamento e sua noção mesma de verdade histórica. sua psicologia. juntamente com a descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. numa palavra. seria necessário. que é prudência e sabedoria da vida. encontrarão aplicação freqüente e fecunda. reunir sem preconceitos todo o material das ciências paleoiflológica e histórica. Nas páginas que se seguem. O LIVRO QUE DEUS INSPIROU". é preciso praticar a paciência. Enquanto se espera. 19 Acta ApostoUeae Sedis 40 (1948) • 46s. seria preciso investigar os sistemas literários dos antigos povos orientais. epigráfica e literária. em seguida.

Foi de Heber que tomou nome o povo oriundo de Abraão. DIOMAS SEMITaS OCIOE ' iI . CRENTAL DICO ASSÍRIO-BABI. Chama-se igualmente "o povo judeu". La SETENTRIONAIS Nico ERIDIONAIS CANANE U ÁRA' " ar tOPE ANTIGO CANANEU FENICIO. voltaram à Palestina e reconstituiram a nação sagrada (sée.C.). filho de Noé (cl. era dotada de língua muito semelhante ao hebraico. de modo a vir a ser nos séc. VI a. O aramaico se foi tornando cada vez mais comum entre os povos do Oriente (principalmente em suas relações diplomáticas. cuja língua materna.. residente na Sina e na Alta Mesopotâmia. ef. 4 Es 18. Gên 10. mais rica. tradicional. todo o povo messiânico ou israelita tomou outrossim o nome de "judeu" ou "judaico". 1 Entre .CAPÍTULO III PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS No capítulo anterior. um dos netos de Abraão. a língua usual do próprio povo de Abraão (cl. conta-se ainda Arara. É o que nos leva agora a investigar e analisar as particularidades de expressão e estilo com que os autores do Antigo e do Novo Testamento marcaram as páginas bíblicas. do qual tomou nome a nação arainéla ou síria. ficando o hebraico reservado para o culto sagrado. porém. dizia-se que a inspiração divina não extingue a contribuição do escritor humano na redação dos livros sagrados. Ne 13.outros descendentes de Sem. mormente quando após o exilio babilônico foram os filhos de Judá que.24). idiomas de que Deus se quis servir para falar aos homens na Bíblia: o hebraico. apelativo proveniente de Judã.C. nome derivado de Israel (ou Jacô). Judá era um dos doze filhos de Jacã ou Israel. HEBRAICO MOASITIc0 -PONtUO . no tempo de Cristo. é o hebraico. e sutil do que êste. também descendente de Sem: o povo hebreu".26). o aramaico e o grego. já que a tribo de Judá se tornou a estirpe do Messias. um dos pósteros de Sem. 1 Éste mesmo povo é também dito "israelita". em maior número. era o aramaico o idioma falado entre os judeus. Três são os idiomas comumente ditos sagrados.21-25). 1V/til a. O adjetivo "hebraico" se deriva do nome do Patriarca Heber ('Êbher ou 'Ibhrfj.

veículos de mentalidade bem característica . da cultura religiosa do povo de Israel. portanto. assim como do Evangelho de S. pertencem ao grupo das línguas semiticas. pois.4b-7. ao qual se seguirá o § 2. porém. Jer 10. dos quais atualmente só se conhecem traduções. 1950). os escritores bíblicos. "O conhecimento mesmo das linguas originais se torna inútil. 1 Sendo assim. é de grande valor filológico para se reconstituir tanto o teor original de algumas passagens como a mentalidade dos antigos judeus. La Zecture chréticnne de Ia Bible (Maredsousa. cit. Com efeito. É possivel que também os livros de Tobias e Judite. João. Todavia quem se compenetra da mentalidade ou do gênio semítico. Serão expostas abaixo no § 1. lhe oferecem. De resto. difícil é à maioria dos fiéis que desejem ler a Sagrada Escritura. em boa tradução vernácula." Pergunta-se. que há de considerar o uso do nome e dos números nas páginas sagradas. o qual.11). torna-se importante para o estudo dos livros sagrados ter em vista as notas constitutivas do que se chama "o gênio" ou "espírito" da língua hebraica.40 BABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Os idiomas hebraico e aramaico. eram hebretis ou.12-26.er.0. Em grego foram concebidos. torna-se capaz de discernir os matizes e as finuras de expressão que os livros sagrados. Mateus). hoje só existe em tradução grega.. pelo menos (como no caso de S. 2 Em hebraico foram redigidos quase todos os livros do Antigo Testamento. Lucas). em grande parte. mesmo os que escreveram em língua grega. quais as principais características de pensamento e linguagem dos autores bíblicos? 2 Eis como se localizam os dois idiomas dentro da respectiva fasnilia lingülstica: 3 O. § 1. pode ser considerado obra-prima do gênio literário semita.0 dos Macabeus. Esdr 4.18.a mentalidade semítica ou. Deve-se notar ainda que a tradução gtega do Antigo Testamento dita dos Setenta Intérpretes. Charlier julga que o Evangelho de S. 0 O GÉNIO DA LINGIJA HEBRAICA Não há dúvida. adquirir o conhecimento dos idiomas originais.. concernente aos antropomorfismos bíblicos em particular. IV. outrossim todo o Novo Testamento (com exceção do Evangelho de S. É preciso aprender a ler entre as linhas e procurar penetrar aos poucos no ambiente de vida em que se movia o autor sagrado. 7.0. . Cf. mais precisamente.28. 111/11 ao. ob. o presente capítulo se prolongará no cap. Ésses três idiomas são.8-6. Mateus. o livro da Sabedoria e o 2. na Sagrada Escritura. 144. 45. hebraica. se não é vivificado por uma comunhão simpática e intuitiva com o gênio próprio da civilização à qual pertencia o escritor biblico. ambiente que transparece no texto biblico. O aramaico é o idioma original de fragmentos do Antigo Testamento (Dan 2. herdeiros. no Antigo Testamento. embora escrito em grego vuigar correto. hajam sido redigidos originàriamente em aramaico. oriunda em Alexandria (Egito) nos séc. 4 Charll.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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1. O gênio semita é intuitivo muito mais do que abstrativo. O que quer dizer: o judeu, ao perceber um objeto; não se preocupava grandemente com o discernimento de notas essenciais e acidentais do mesmo; apreendia-o e descrevia-o simplesmente com suas características concretas, individuais. O concreto interessava-o mais do que o abstrato.
Eis alguns casos em que o israelita, em vez de usar conceitos e têrmos abstratos, universais, se comprazia em circunlocuções de caráter mais concreto: Em lugar de dizer "tomar posse, dominar", o judeu às vêzes preferia a expressão "lançar a sandália sôbre. .", que lembrava o gesto concreto ou o cerimonial da tomada de posse: "Sôbre Edom lançarei a minha sandália, Sôbre a terra dos filLsteus cantarei o meu triunfo " (Si 59,iO.) ei. si 107,10; Gên 13,17; Dt 25,9; Jos 10,24; Rut 4,7. A expressão "sentir-se feliz, alegre" podia ser substituida pelos dizeres "ter a alma saciada de gordura", visto ser a gordura sinal de suficiência ou plenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina: "Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, E de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor." (Si 62,6; cf. 51 35,9.) Quando alguém se julgava "em perigo de vida", dizia concretamente que "trazia a sua.alma nas mãos", já que "ter nas mãos" é a atitude que imediatamente precede a entrega: "Minha alma está sempre em minhas mãos, Mas não esqueço a tua lei." (51 118,109.) Cf. Jz 12,3; 1 Sam 19,5; Jó 13,14; Est 14,4. "Expor a própria vida" ou "estar decidido a morrer" era equivalente a "tomar a própria carne entre os dentes", ou seja, morder-se: "Tomo a minha carne entre os meus dentes, Coloco a minha vida em minha mão." (Jó 13,143 A Idéia abstrata de posse ou de largueza, liberalidade era expressa pelo têrmo concreto "mão", já que a mão é o órgão que diretamente apreende ou distribui. Assim lê-se em Lev 5,7: "Se sua mão não atingir o valor de uma ovelha,...". O que quer dizer: "Se suas posses não lhe permitirem comprar uma ovelha,. 3 Rs 10,13: "O rei Salomão deu à rainha de Sabá tudo que ela desejava.., como a mão do rei Salomão", Isto é, ".. . de acórdo com a opulõncia de um rei tal como Salomão"; Gên 43,34: "A porção de Benjamim era cinco mãos mais abundante que as porções de todos êles (seus irmãos)", frase em que "cinco mãos" significam "cinco vêzes".
5 Observamos que as traduções modernas da sagrada Escritura não raro usam os verbos próprios, em vez de ficar prêsas às expressões mais concretas do texto original. Os semitismos não seriam sempre inteligiveis ao leitor moderno.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

A figura de linguagem "mão curta" ou 'encurtada" designava parcimônia ao dar: "A máo do Senhor seria curta demais? Verás sem demora se acontecerá ou não o que te disse!", falava Javé ao anunciar as codornizes no deserto (Núm 11,23); "A mão do Senhor não é curta demais para salvar." (Is 59,1.) "Governar" tinha por sinônimo o têrmo mais concreto "julgar", e, em vez de 'Governador", podia-se dizer "Juiz", visto que, num povo primitivo, a função mais freqüente de quem governa é a de julgar os litígios entre os súditos. Haja vista o título do livro dos "Juizes" (= governadores de Israel desde os tempos de Josué até a monarquia). "Poder, fôrça" era conceito expresso pelo vocábulo "chifre", pois é neste que parece residir a fôrça de muitos animais:

"(Deus é) meu escudo é o chifre de minha salvação (= a fôrça que me salva)" (SI 17,3.) "Abaterei todos os chifres dos malvados, E os chifres dos justos serão exaltados." (S1 74,11.) A tendência a fixar a atenção sôbre os indivíduos concretos levava o hebreu a realçar o que há de dinâmico em cada ser; comprazia-se em considerar o comportamento e os efeitos dé pessoas e coisas, mais do que o seu Valor estático, essencial. Assim tudo, de certo modo, se podia tomar vivo e agente, para o semita. Os substantivos do vocabulário hebraico são os próprios verbos ou derivam-se de verbos; o verbo (ordinàriamente constituído por três consoantes) é a palavra fundamental do léxico israelita. Isto bem mostra que o aspecto principal sob o qual o judeu visava cada objeto era o aspecto dinâmico, ativo. Em particular, note-se que o têrmo dabhar, que originàriamente significava "palavra", podia igualmente designar "coisa", pois tôda coisa era pelos judeus concebida primàriamente como efeito, efeito, sim, direto ou indireto, da palavra criadora de Deus. Conseqüentemente às premissas até aqui expostas, tendia o semita a focalizar, acima de tudo, a importância vital, a mensagem prática, que pudesse estar ligada às pessoas ou coisas apreendidas. O orador e o escritor, ao dissertarem, baseavam-se muito na sua experiência pessoal e visavam despertar impressões semelhantes, muito vivas, nos seus ouvintes e leitores. Procuravam transmitir da maneira mais penetrante possível um estado de aima. Isto faz que uma página de literatura semita seja impregnada de movimento, variedade de pessoas e coisas que se sucedem com realismo; emoções, afetos diversos a perpassam. Já que a linguagem
O "Ce que, par ãxemple, nolLs considérons comme personnification littéraire correspond chez les Sémites à une perception animée du monde extérietr, car l'esprit sémitique saisit l'un4vers dans son moizvement; ii est plus sensible au dylZanflSme de la vie qu'd la cotitemplation des idées et des /orines." (E. Beaucamp, "Poésie et seus de la nature dans Ia Bible". em Bible et vie chrétienne 11 [19551 25.)

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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semita ficava particularmente ligada à experiência, diz-se que ela evocava ainda mais do que exprimia. 4. Consciente de que, para transmitir a experiência ou as intuições, as palavras são por vêzes pobres, o semita recorria freqiientemente aos gestos, às pausas, aos artifícios da entoação de voz. O falar dos antigos judeus terá sido exuberante, teatral, como o de certos povos orientais de nossos tempos. Dada a sua vivacidade, o israelita era muito dado às expressões fortes, hiperbólicas ou contrastantes.
Hipérbole muito ousada é a do rei Benadad da Síria, que, desejando chamar a atenção para o seu numeroso exército, exclamava: "Tratem-me os deuses com todo o rigor se a poeira da Sarnaria basta para encher a palma da mão de toda a gente que me segue 1" (3 Rs 20,10.) Hiperbólicas também são as expressões "a terra inteira, todos os povos", que certamente se referem a certas regiões ou nações apenas, em Gên 41.54.57; Dt 2,25; 2 Crôn 20,29; At 2,5. Visando distinguir entre "amar mais" e "amar menos", o judeu empregava os têrmos "amar" simplesmente e "odiar", a fim de que a oposição mais se evidenciasse. É o que se verifica, por exemplo, na frase de Jesus: "Se alguém vem a Mim e não odeia pai, mãe, espõsa, filhos, irmãos e irmãs, até mesmo a própria vida, não pode ser meu discipulo." (Lc 14,26s.) O "odiar" desta frase é ôtimamente explicado pelo texto paralelo de Mt 10,37, onde se lê "amar menos". No mesmo sentido, em Mal 1,3, diz o Senhor: "Amei Jacó, e odiei Esaú." (Cf. Ram 9,13.) Em Jo 12,25 afirma Jesus: "Quem ama a sua vida, perde-a; e quem odeia a sua vida no mundo presente, guarda-a para a vida eterna." Nesta sentença a oposição "amar-odiar" significa "satisfazer desregradamente" e "coibir devidamente" as tendéncias da alma, podendo a coibição ou renúncia levar até a morte do martírio. Os judeus eram particuiarmente dispostos a recorrer aos contrastes pelo fato de que a lingua hebraica carece de forma p1rópria para indicar o grau comparativo dos adjetivos. O confronto podia ser expresso pela justaposição de têrmos opostos, sendo a oposição subentendida como algo de relativo ou gradativo apenas. Esta observação ajuda a entender o texto do Antigo Testamento citado por Jesus: "Desejo (a prática de) misericórdia, não (a oferta de) sacrifício." (Mt 9,13; cf. Os 6,6; 1 5am 15,22.) A afirmação quer dizer: "Mais do que os sacrifícios rituais, agrada-me o exercício da caridade e da misericórdia.' Em Mt 22,14 declara ainda o Senhor: "Muitos são chamados, poucos escolhidos." Axioma que no seu contexto semítico provávelmente significa: "Maior número é o dos homens chamados (à fé); menor número, o dos escolhidos (para a bem-aventurança eterna)

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

5. Após quanto foi dito acima, entende-se bem que os israelitas usassem de freqüentes comparações e imagens, visando também por esta via impressionar mais profundamente os ouvintes. Já Que os hebreus tendiam a considerar o aspecto dinâmico e vital de cada ser, sabiam aproveitar-se largamente dos objetos materiais que os cercavam, para ilustrar verdades abstratas ou sobrenaturais; daí, na Sagrada Escritura, o uso abundante de símbolos. Êstes constituem, sem dúvida, um artifício muito apto a traduzir o sentido concreto e o valor que para a vida têm as proposições religiosas. As parábolas não são senão símbolos mais desenvolvidos ou explicados: constam de uma história fictícia, à qual o narrador liga determinada mensagem doutrinária. Para se depreender esta lição, não se pode esquecer que na parábola nem todos os elementos são portadores de significado superior; alguns são envolvidos na narrativa ijnicamente para sustentar os elementos-chaves (assim na parábola do filho pródigo, em Lc 15,11-32, não se queira atribuir valor doutrinário ao anel nem ao calçado dados ao perdulário que volta, nem ao vitelo abatido, vv. 22s; êstes pormenores visam ftnicamente tornar mais viva a lição da parábola, que inculca a misericórdia de Deus para com o pecador). O simbolismo tinha especial aplicação para exprimir atitudes ou qualidades de alma; em vez de usar têrmos próprios, neste árduo setor os judeus recorriam freqüentemente a expressões derivadas do mundo irracionai, as quais não deixam por vêzes de nos causar estranheza (contudo o recurso se compreende bem à luz da mentalidade dos semitas: considerando primàriamente a natureza em função do Criador e do homem, fàcilmente ligavam o conceito de determinada qualidade de Deus ou do homem com tal elemento material). Haja vista um ou outro exemplo:
a idéia de fraqueza humana (tanto moral como física) era expressa pelos têrmos 'carne, poeira e cinza: "Os egipcios são homens, não Deus 1 Os seus cavalos são carne, não espirito." (Is 31,3; ci. Gên 18,27; 36 30,19) a fortaleza, ao contráto, era associada à idéia de montanha, rochedo. Por isto Javé é a montanha, é "meu rochedo", no qual o homem se abriga encontrando amparo (cf. Si 17,3; 18,15; 613.8) é) a beleza, o encanto (mesmo espiritual) eram significados por simbolos muito materiais. Particularmente interessante, sob éste ponto de vista, é a figura do espôso no Cântico dos cânticos, cujo aspecto atraente é assim descrito "Meu bem-amado é fresco e rubicundo; Distingue-se entre dez mil. Sua cabeça é ouro puro, Seus cachos de cabelos, flexíveis como ramos de palme ira, São negros como o corvo.
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veja-se o Apêndice a êste capitulo.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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Seus olhos são como pombas à margem dos riachos, As quais se banham em leite Suas faces são como plantações de bálsamo, Como canteiros de plantas aromáticas. Seus lábios são como lírios Dos quais corre a mirra mais pura. Suas mãos são cilindros de ouro Ornados com pedras de Tarsis. Seu busto é obra-prima de marfim, Recoberta de safiros. Suas pernas são colunas de alabastro, Pousadas sõbré bases de ouro puro. Seu olhar é como o do Líbano, Elegante como o cedro. Sua palavra é doçura. Tõda a sua personalidade é puro encanto. Tal é meu bem-amado, tal meu amigo, Õ filhas de Jerusalém 1" (Cãnt 5,10-16.) Neste quadro são postas em realce três qualidades do espõso: fortaleza e virilidade, designadas pela comparação de seus membros com peças de ouro, mármore, marfim (vv. 11.14.15) ou com os imponentes cedros do Libano (v. 16); raça e beleza masculinas, significadas pela menção de cõres, elementos aromáticos ou doces (flõres, árvores) nos vv. 10.11.13.15.16; pureza e fidelidade, traduzidas pelas imagens da pomba, da água, do leite (v. 12). A mente do autor não se deixava perturbar pela combinação de símbolos tão heterogêneos; de cada um déstcs focalizava apenas o aspecto que se enquadrava dentro do conjunto e podia evocar a idéia de encanto masculino. Para desfazer a impressão de rigidez, talvez suscitada pelos símbolos de pedras e metais preciosos, o hagiágrafo em outros lugares recorria a imagens de ordem diversa, que completavam as anteriores: "Corre meu bem-amado, E toma-te semelhante à gazela Ou ao pequenino da corça Sôbre as montanhas de bálsamo 1" (8,14; cf. 2,17.) Por sua vez, a figura da espôsa no Cântico dos Cânticos é descrita com Imagens paralelas às do espõso: a beleza feminina aparece sob os sinais de flõres, palmas, objetos perfumados ou doces (cf. 2,1s; 4,10s.14); por seu encanto e pureza, a jovem é comparada à pomba (6,8s; 1,15; 4,1; 2,14); a sua fecundidade é assemelhada à de animais domésticos e cereais (4,2; 6,5s; 7,3s) ; 8 d) a índole agradável, aceitável, de uma oferta feita a Deus era simbolizada pelo imaginário perfume da oferenda. Para dizer que Javé a aceitava, o semita afirmava que o Senhor sentia tal aroma com prazer. Foi o que, conforme Gên 8,24, se deu quando Noé ofereceu o sacrificio após
8 Ao interpretar desta forma os simbolos do Cântico dos Cânticos, seguimos a autorijade de T. Boman na sua famosa obra Das hebraeische Denken im Verglelch mit dem griechischen ( Goettingen, 1954), 62-69.

o semita o exprimia afirmando diretamente as impressões que tais cenas causam no observador. estando para oferecer. até completar a enunciação do pensamento ou a enumeração dos pormenores. volta periôdicamente aos lados direito e esquerdo do eixo. . suas aves a cantar. ei norz par une mise en correspondance de nos dii férenis états d'àme avec lordonnance du monde matérieL" Eeaucamp. tendia a desenvolver o pensamento conforme um esquema que se poderia assim reproduzir: numa proposição inicial. considerando a ação de tudo iso na sensibilidade e na mente do homem. art. onde já ressoava antecipadamente todo o grande tema que..8 (c!. é simplesmente a repetição da anterior.. feito isto. que logo de início propõem o seu tema ou leitmotiv e. 30. para ir aos poucos abrangendo tôda a realidade. os semitas.46 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO o dilúvio. esperava que a mesma coisa se desse (c!. da espiral. dando a perceber ao leitor novos matizes da idéia dominante. contemplava-o do outro lado. repetia a mesma idéia acrescentando-lhe de cada vez uma circunstância nova. O que êstes quadros têm de belo. Davi...ouvement. suas fontes. 6. em frases coordenadas à primeira. mas apresentam-se cada vez mais densas.. Tem-se dito. O israelita não era muito propenso a subordinar entre si as proposições do Seu discurso. seria desenvolvido). nâo se detinham em anausar as linhas e o contôrno de cada objeto: em vão se procuraria na Bíblia a descrição de uma paisagem de sol nascente ou poente. nenhuma dessas voltas.19). no decurso da melodia. o fazem voltar com variações sempre novas. 8. nossos hagiógrafos. Em Apc 5. Em suma. voltando aos mesmos lados. de uma noite de luar ou de estrêlas múltiplas. A figura de uma espiral que se vai estreitando na direção de cima para baixo. não era a dos arquitetos. a seguir. que a arte conforme a qual os escritores judeus compunham as suas frases. O judeu contemplava o seu objeto de um lado. a evocação de uma floresta com sua vegetação. apreende com clareza cada vez maior o ponto final. percorrendo círculos. Outra particularidade do estilo semita conexa com as anteriores é a exposição das idéias em frases paralelas coordenadas. Ao contrário.s sacrés te se rnontrent guêre enelins à analyser Les lignes et à dessiner Les contours. Aussi La communion entre l'homme et Les réalités extërteures s'établit-eLle par relation de mouvement à m. mas a dos músicos. o observador que faça o trajeto da espiral. o orador afirmava compendiosamente o que tinha em vista dizer (propunha como que um prelúdio musical. Confirma-se assim a observação já feita: não se preocupavam tanto com o valor estático quanto com o aspecto diná. as orações dos santos sobem a Deus como agradável incenso. ilustra igualmente bem o proceder estilístico dos semitas: a linha. mico de cada ser. 1 5am 26. cit. Assim também as frases paralelas dos semitas não são meras repetições. e com razão. porém. que constroem gradativamente de baixo para cima. Le dynamisme de la peizsée d'israel te discerne -dans la nature que ce qui bouge. principalmente quando O "Les écrivain.3s). ou seja. esta.

etc. mas volta sucessivamente à carga. é bem calculada de modo a impressionar o ouvinte. a segunda proposição tem por finalidade agir mais vivamente sôbre o espírito do leitor. éle o tem. 150s. comprazia-se em despertar a impressão de "choques" de idéias. para o judeu. Caráter sintético. Porfírio e outros).. acrescentando de cada vez um retoque ou nova precisão. em pinceladas sucessivas. como tarefa primária. embora nem todos os estudiosos o reconheçam. diz-lhes então o Salvador: 10 "O semita diz tudo em cada frase. Fala-se também do paralelismo sinônimo dos hebreus. a verdade é então realçada pela justaposição dos contrastes. o Apóstolo S. Esta denominação não insinuaria que os gregos atribuiam k razão. refere a longa promessa da S. Notemos o lento desabrochar do pensamento de Cristo neste sermão: Os judeus aglomeravam-se em tôrno do Mestre em Cafarnaum por causa do pão terrestre ou natural que êle acabara de multiplicar. a seguir. apresentado compendiosamente na fórmula introdutória . ora outro aspecto do pensamento. O paralelismo semita de que falávamos acima pode ter caráter sintético ou antitético. Eucaristia que o Senhor fêz a seguir (22-72). VI do seu Evangelho. O semita. XIX. lhe parecia grande demais para poder ser abraçada de uma só vez. bina vem a ser "compreensão. apos narrar o milagre da multiplicação dos pães (1-15). a "razão" era dita logos.. vocábulo derivado de lego. o conceito "compreender" era expresso pelo vocábulo bin. Não quer isto dizer que. Êste se verificaria quando as frases só diferem entre si pelo emprêgo de têrmos equivalentes. que o ôlho da alma sabe polir e combmar num plano superior. que tanto cultivaram o raciocinio e os silogismos (cf. lugar. recolher. O caráter antitético se verifica quando a frase paralela repete em têrmos negativos o que a precedente disse em têrmos positivos. A titulo de exemplos de paralelismo. cujo significado original é "separar. dividir". traços. enriquecendo incessantemente ora êste aspecto. ." Charlier. 10 A tendência dos hebreus a coordenar as idéias antes do que a subordiná-las se traduz também num pormenor filológico: para o israelita. inteligência". La lecture chrétienne de la Bible. ao contrário. entre os gregos. causa. senão o ato de recolher. João. o "colecionar" e 'pôr em ordem" as diversas facêtas da realidade ? O silogismo (de syn e lego) não é. Êste proceder lembra um pouco os métodos da Escola de pintura impressionista de fins do séc. quando a frase posterior acrescenta algo de novo (mas acidental) à anterior: circunstâncias de tempo. o processo de compreender consistia princpalmente em perceber os diversos aspectos da verdade e formulá-los em justaposição? Ao contrário. de resto. Aristôteles. etimolàgicamente falando.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 47 era realidade religiosa. acumula sôbre éste esbôço multidão de traços aparentemente autónomos e não raro contraditõrios. porém. eis algumas passagens caracteristicas: a) no cap. Também neste caso a repetição não se torna supérflua. O escritor semita esboça primeiramente uma rápida silhueta do conjunto.

" (Vv.) Não é tudo. principal. Jesus mais uma vez aprofunda o seu pensamento: o novo maná. E quais seriam estas realidades? Primeiramente em oposição ao pão da terra. que a êles estaria unida: "É o Espirito que vivifica. um pão do céu. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá a vida' ao mundo.. 64.) E dêste fato que Jesus parte no seu discurso. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. porém." (Vv.. Sou o pão vivo. Jesus anuncia um pão do céu. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. os judeus já o conheciam: era o maná. o maná dado por Cristo poderia ser dito simplesmente o pão da vida (eterna): "Em verdade. Êste objeto. que não preservara da morte os israelitas no deserto." (V. à diferença do maná de Moisés. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. não.24s.52." (V. não tereis a vida em vós.20)..54s.. em ulterior instância. é a minha carne. mas enquanto vivificados pela Divindade ( no caso.. para finalmente atingir o objeto invisível. Começa por insinuar que a multiplicação dos pães devia ser entendida como sinal de realidades transcendentes.31s e Éx 16. Jesus. Todavia. Sab 16.. 48. Se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue. 26..13s. em verdade vos digo: vós me procurais. dito não apenas "pão do céu" (como no Antigo Testamento)... que do céu desci.51. contido no Pão da Vida. cada vez mais próximos da realidade final. acrescenta tratar-se de novo pão do céu. à semelhança do que se dá com a águia que.. mas porque comestes pão e estais saciados. superior ao da terra. tomados em sua realidade natural e material apenas. "Em verdade. 6. voa sôbre ela aproximando-se em circulos concêntricos. que os judeus procuravam. repetindo e desenvolvendo a idéia. para finalmente "dar o bote" com tõda a precisão: . mas já "pão da vida". Si 77. •tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia.. dita "Espirito"). para a vida do mundo. e o pão que hei de dar.) Todo êste discurso se deixa dispor em círculos concêntricos: Jesus falou. não porque vistes sinais. passando dos conceitos mais vastos e dos elementos visíveis a conceitos mais precisos. é identificado com a carne e o sangue do próprio Cristo: "Eu sou o pão da vida. foi sendo considerado sob vários aspectos. depois de ter fitado a sua futura prõsa.48 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO.) Uma derradeira precisão ainda se impunha: tratar-se-ia da carne e do sangue do Filho do homem. a carne para nada serve. 32s. Por isto. visado desde o inicio do discurso. dado por intermédio de Moisés outrora no deserto (cf. objeto mais digno das aspirações dos ouvintes.

afirmam sempre a mesma verdade. a fim de que. que fomos batizados em Jesus Cristo. configurada à de Cristo. se diz: "Farei por ti o possível e o impossivel" no sentido de "tudo farei por ti". Cris b) outro exemplo.ca do 1- - s' €ese. O Apóstolo ensina que todo cristão. Ainda hoje. como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai. se acha num estado de morte (ao velho homem) e vida nova. como ainda viveríamos no pecado? Então não sabeis que nós todos. por morte semelhante à de Cristo. fomos batizados (imersos) em sua morte? Por conseguinte. Exprime-se no ritmo de "vai-e-vem" contemplativo a que acenamos: "Nós que morremos ao pecado. antes. fomos com Êle sepultados pelo batismo em sua morte. mas entre os povos antigos em geral.' Êste trecho não apresenta pràpriamente proposições concatenadas de modo a formar um raciocínio. fomos enxertados em Cristo. encontra-se na epístola de S. assim como nas línguas modernas (se bem que em proporções mais restritas). a fim de que o corpo contaminado pelo pecado fõsse destruído e já não sejamos escravos do pecado.2-8. por exemplo. Se.PAItTJCULAEIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 49 — . se morremos com Cristo.. o autor enunciava os têrmos opostos ou extremos que circunscreviam o seu conceito ou entre os quais girava o seu pensamento. Ora. não sõmente entre os semitas. c) o paralelismo antitético dos semitas podia tomar a seguinte modalidade: para exprimir a 'totalidade". por efeito do batismo. Sejam mencionados alguns textos extrabiblicos da antiguidade: . Paulo aos Romanos 6. cremos que viveremos também com Êle. 11 Assim: 11 Aliás.. ocorre o mesmo artificio de estilo. verifica-se nêle a coordenação de frases que. seremos enxertados também por ressurreição semelhante à dÊle. vivamos.também nós uma vida nova. embora menos claro do que o anterior. Sabemos que nosso velho homem foi crucificado com Cristo. 8. cada qual com seus matizes.

quais. "Lier-Délier.18. 800. onde se lê verbalmente: "t permitido em dia de sábado fazer o bem ou fazer o mal. um camponês se dirigia ao seu juiz nestes têrmos: "Grande intendente. Suys. Um documento egípcio fala do grande deus de Tebas. 91-103.".7 diz o rei Salomão ao Senhor: "Sou pequenino e jovem. que propõe. o qual criou "o que existe e o que não existe" (rrtôdas as coisas). Sófocles. e não posso mais sair nem entrar. de que carecia o hebraico (cf. 29.2. 31. tôda a população" (cf. Etude sur te coizte dii FelZah plaidoyeur (Rome. Wmn relato egípcio do Médio Império. Aponta-se na literatura grega um emprêgo semelhante da mesma expressão: confonne Sófocles. o poeta satirico latino. . já que tudo que existe de concreto é bom ou mau (cf. tôdas as coisas" podia ser circunscrita pela expressão "o bem e o mar'. demasiado servil." (Dt 31.3). 50. deu-lhes a conhecer o bem e o mal (ciência muito ampla) . Lambert. crianças e anciãos" significava "todos os habitantes.1. E. Electro.22). Amom.50. Gên 1. Plauto. Si 123. 1933).) em 3 Es 3. Veja-se ainda Euripides. "homens e mulheres. grande dos grandes." 12 Éste modo de falar ocorre também nos lábios de Jesus em Mc 3. a rainha se retirou "antes de proferir algo de bom ou de mau". servia para exprimir toda a atividade de um individuo.9. dentre a totalidade das obras possiveis. salvar uma vida ou extingui-la?" (Cf. Antigono 1245. Ser 51. . 2 Sam 14. Entenda-se: "desapareceu sem dizer palavra".6) "(O Senhor) encheu-os (os primeiros pais) de ciência e inteligência. L'ezrpression de la totalíté par l'opposition de deur contraireC'. que governas as coisas que nao existem e as que existem (= tádas as coisas) . Edo 11.24. "céu e terra" supria o têrmo "o Universo".4. Edipo Rei 300." Trinummus. Ser 36. não será licito fazer absolutamente nada? Não será permitido nem mesmo praticar o bem salvando uma vida ?". Ãnttgono 1109. em Vivre et Penser.) Como conceber que Jesus tenha perguntado se é licito cometer o mal ou matar em dia de sábado? A tradução. tendo ambos os verbos o mesmo sujeito. Ou em têrmos ainda mais claros: "Em dia de sábado.21. Lc 6.22). 3éme série (1945).22.Comeu o que havia e o que não havia. 1. sim. até mesmo as tarefas de administração régia: "Disse-lhes (Moisés) : Tenho hoje cento e vinte anos. J05 6. "alma e carne" designava "o homem inteiro" (cf. 360. "homens e gado" era o binômio equivalente a "todos os sêres vivos" (cf. "sair e entrar".50 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a idéia de "tudo. Estas referências se devem a O. Já 14. dizia de um homem glutão: "Manducavit quod fim et quod non pai. 12 Verifique-se também: Gên 24. a seguinte questão: "Em sábado. Is 10. as que é licito praticar?" (haja vista o rigor dos f ar!seus em relação à observância do repouso do sábado). não sei sair nem entrar. 305.17.8). meu mestre." Cf. 14. é infiel ao pensamento de Cristo. Bacchantes.

empregava-se para designar "todos os individuos" (sair e entrar. ao qual se associava naturalmente um "entrar" após terminados os afazeres." (citação de A. não há paz. 100. será desligado nos céus. Com significado idêntico. "sair e entrar"." (Mt 16.) Nesta passagem. 14 Muito interessante é que a versão grega dos LXX traduziu o objeto da frase acima por "homens e gado"." (Zac 8.27. 9. 4 Rs 11. a expressão bipartida que se segue exprime a totalidade dêsse poder. e tudo que desligares na terra. como as que os antigos costumavam edificar. Is 31.5). 'a A semântica da expressão "sair e entrar" é assaz curiosa e digna de nota: imagine-se uma cidade bem defendida por muralhas.25. "Para quem sai e para quem entra (= para ninguém). não sômente a que se exercia em tôrno de vínculos. ocorre algumas poucas vêzes na Sagrada Escritura o binómio "ir e vir". quanto mais fortificado era o reduto. 1 8am 18.DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 51 em 2 Crõn 1. e isto lhes foi mais agradável do que tudo que se encontrava na terra do Egito. 15 também a expressão "ligar e desligar" indicava tôda a operosidade de um homem. qual tesouro. levantaram_se e sentaram-se de acórdo com essa doutrina. diz o salmista ao Senhor querendo inculcar que Deus tudo sabe a respeito do homem (Si 138. "Então prostraram-se sôbre o ventre. leram o livro como estava redigido. .8. e significa: 'Tudo que na terra fizeres para introduzir os homens no reino dos céus.17.) Assim se interpretará a frase final: os filhos do vizir dispuseram tóda a sua conduta em conformidade com as instruções deixadas por seu pai.6.10 diz o mesmo: "Dai-me sabedoria e inteligência a fim de que eu possa sair diante déste povo e entrar. cf. Assim diz o Senhor a Pedro.10)." (Ez 35. Si 120. "caminhar e repousar-se" são outras fórmulas que designam tôda a atividade de um indivíduo: "Sabes quando estou assentado e quando estou em pé. "as chaves" designam o poder.16.28. para o hebreu.19. sendo diversos os sujeitos dos dois verbos.7V) 14 "estar assentado e estar em pé". 13 parece ser atividade que caracteriza qualquer homem) "Naquele tempo não haverá paz nem para quem sair nem para quem entrar. At 1.21. assim é que o "sair" e o "entrar" (note-se bem a ordem dos têrmos!) compreendiam e definiam a atividade dos cidadãos. Tu me observas quando caminho e quando repouso".28. Erman.". Die Literatur der Aegypter. será ligado nos céus. 13. 19. mas haverá terror em tõda parte para todos os habitantes da terra. Disto se seguia que qualquer atividade de certa importância implicava geralmente um "sair da cidade". 15 Também se encontram paralelos desta expressão fora de Israel: O vizir do faraó Huni entregou a seus filhos. um escrito em que consignara os resultados de suas longas experiências." Não seria condizente com a filologia querer especificar os poderes expressos por "ligar e desligar".11. tanto menor era a área que ocupava." (2 Crôn 15. 3 Rs 15. "E retirarei de lá aquêle que vai e aquéle que vem (= todos). usando de uma construção tipicamente semitica: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus. tudo que ligares na terra. Ez 43. J0 109.2s) . 29. 2 8am 3. será ratificado por Deus.8.

É o que se fará no parágrafo abaixo e no capítulo seguinte dêste estudo. . 17 Palavra derivada do grego: (znthropos = homem. ninguém abrirá. A NATUREZA PERSONIFICADA Já que o oriental se comprazia em conceber o mundo inteiro como animado. quando Deus criou a terra (cf. é mister nos detenhamos agora sôbre um ou outro particular do estilo literário semítico.32) e receber o sangue de Abel (cf. SI 18. por elas se traduz uma con16 A expressão também era usual fora da literatura bíblica. lê-se em sentido análogo uni oráculo do Senhor referente ao Messias: "Colocarei sóbre as suas espáduas a chave da Casa de Davi. Is 44.7). 40). poderia mudar a situação. por sua vez.23.6). a terra abriu a bôca para tragar Datã e Abiron (cf. qudr desligue. Com efeito. por ocasião da libertação de Israel detido no exílio babilónico (cf. extensivo a todo e qualquer setor". Sófooles.12). aos elementos irracionais. se as coisas chegaram a êste ponto. Praticavam assim o antropomorfismo 11 ao falar da natureza. exultem os céus e as profundezas da terra.17s) os montes prorrompam em júbilo. antropomorfismo do qual eis aqui alguns casos típicos: o poço de Beer é convidado a subir (1) e soltar clamores de alegria. partes ou membros do corpo humano. profere um brado. êste sangue. que se ergue da terra aos céus (cf. Entenda-se: eu.10). Jo 38. Gên 4. 0 OS ANTROPOMORFISMOS BIBLICOS 1. compreende-se que os hagiágrafos não tenham hesitado em atribuir figura humana. E. rejubilem-se as colinas e suas florestas. quer ligue. ninguém fechará. Núm 21. por exemplo. fazendo eco ao dinamismo do homem.52 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO No Antigo Testamento." (Is 22. 16 Eis as principais natas do "gênio" lingilístico dos semitas. que poderia ainda conseguir?" (Antigoizo.11). morph4 = forma. Eu. 55.) O que quer dizer: "será detentor de supremo poder. Para seavaliar ainda melhor o que acima foi dito. e as árvores do campo batam as mãos em aplausos.22. Pergunta-se: que sentido terá um modo de falar tão alheio ao nosso? Tais expressões constituem para os hagiágrafos mais do que ornamentos literários. as estrêlas da manhã cantavam em côro. por nenhum expediente. por ocasião da vitória de Israel (cf. quando êle abrir. o sol é como um herói que exulta ao percorrer a sua via (ci. quando êle fechar. § 2. Gên 4. Núm 16. coloca nos lábios de Ismena a seguinte exclamação: "Ó infeliz.

voz (cf. Lx 5. .16).12. os hagiógrafos nos apresentam mesmo o Senhor Altíssimo sob traços humanos.. que assim interpela o justo: "Tu te rirás da devastação e da fome. é insinuada já pelas primeiras páginas da Escritura." (5. Lx 31.21). Dt 5. braços (cf.4.20). mâo direita (cf. olhos (cf..23. Gên 3.8..36).8. 81 17. 1 8am 15.16.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 53 cepção religiosa intimamente arraigada na alma do israelita e nos escritos bíblicos em geral: a natureza tôda é solidária com o homem. Paulo. 519. Jer 27.10. Esta verdade.14. 19-22). 2 Sam 15. ora de repreensão (para o indivíduo ou os povos pecadores).24. Sl 10. em conseqüência. Si 17.14. Is 1. bôca (cf.7. mãos (e!. e aguardam a glorificação dos filhos de Deus (cf.9.6.2). 16. Já 40.9. que referem ter a natureza entrado em desordem por efeito do pecado do homem (cf. Terás uma aliança com as pedras do campo. em outros têrmos: a natureza reflete a voz de Deus. 81 17.5). Is 30.2. Gên 3). Is 30. diz que até o fim dos tempos os irracionais "gemem". aliás. dedos (cf. Lx 15. Sl 17.9. Lx 15.12.31.19. Is 51. Dt 8. sujeitos aos abusos que dêles faz o homem. 1 5am 8.) Mas não sômente aos elementos irracionais se aplicam os antropomorfismos na Sagrada Escritura.). cujo sôpro desencadeia os ventos sôbre a terra (cf.17. E o bestiame da terra estará em paz contigo. Dt 9.4. 85. Dt 11. SI 17.3.4. Expressão muito viva de solidariedade são as palavras de Já. nariz e narinas. lábios (cf.14).11. Gên 4. seu rei. 2.22s.27).15. Não temerás os aiflmais da terra. Lx 33. Ram 8.18. Assim o Criador é dito ter face (cf. S.2. em particular.. Is 65.5.4). 819. por ela se manifesta o Criador e o Senhor Providente.25.5. 26. Am 9. Já 11. ora de louvor e congratulação jubilosa (para quem é reto). SI 8.10). 1 Sam 15. língua (cf. é transmissora de mensagem divina.15. Am 9. Jos 9. Si 10. Lx 33.27). pálpebras (cf. DEUS SEMELHANTE AO HOMEM NO ANTIGO TESTAMENTO Quem lê o Antigo Testamento não pode deixar de observar quão freqüente e fàcilmente ao Senhor Deus são atribuídas feições humanas.4).19. ouvidos (cf.37.1.

um belo manto.24). Éx 15.65). é incapaz de conceber a Deus como Êle existe em Si mesmo. Si 2.11). paira sôbre as asas do vento (cf. ruge (ei. Também os afetos humanos marcam a figura do Senhor Deus (antropopatismos): 18 o desgôsto (cf.35. a alegria (ei.18). asas e penas sob as quais protege os justos (ei.2. assovia (ei. Sof 3. De resto. Is 6.7. 1 Sam 15. páthos = afeto. voa. 2 8am 24. a inveja (cf. Os israelitas.31. que o Criador não é como o homem (o que claramente transparece nos textos bíblicos abaixo citados). Is 7. passeia no jardim do Eden (cf. compras-se com suave perfume (cf.12. cavalga sôbre um Querubim. Is 1.23).54 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pés (ei. mas diflcilmente percebiam o que o fato de "Deus ser Deus.8). Si 43.8). Sl 105.19). 34. Gên 3. 8117.3.63.2. Éx 33. fecha a porta da arca de Noé (cf. 32.31). Por isto. 1 Crôn 28.1).3. é guerreiro valente (ei. o espírito humano na vida presente. dificilmente se desvendilhavam de concepções de ordem sensível. o arrependimento (ei. desperta-se (ei.13). Dt 28. com 18 Anthropos = homem. Êx 20.23).5). Jer 26. 1 Sam 26. para dar a entender os predicados da Divindade.4). a imortalidade de Deus. 1x 15. o ódio ou a abominação (cf. Si 103. referindo-se ao Todo-Poderoso usavam copiosamente dos vocábulos que designam as coisas corpóreas. pouco afeitos à abstração.1. Não há dúvida de que os antropomorfismos da Escritura têm suas raízes na mentalidade primitiva dos semitas.6. costas (ei. metafísico.8).4). é induzido a compará-los com os atributos da criatura. o Senhor clama (cf. dorme (cf. até mesmo ao falarem de Deus.7).40). Está assentado em um trono régio (cf. Diante de tais expressões. a complacência (ei.19). Gên 7. sim. paixão.34. Os 11. dependendo constantemente de imagens sensíveis.9) implica para a inteligência. mentalidade que pede ser corrigida pelo raciocínio filosófico. Sl 46. na Sagrada Escritura. Is 9.2).24. 56. Na 1. Si 17. cujas orlas enchem o templo (cf.23). e não homem" (ei. 90. Dt 32. Êx 32.8. qualquer pensador. a vingança (cf. Si 17. Jer 9.10).17). 34. a aversão (ei. Gên 6.35. Si 131. a cólera (cf. ri (cf. . impõe-se de novo a questão: que sentido poderá ter tal modo de falar. Lev 20.1). Reconheciam. Dt 12. Lev 1. Am 1.16). Sl 23.14). 81 77.5.41. muito surpreendente num livro que se diz ter por autor principal o próprio Deus? a) o significado geral dos antropomorfismos. Além disto. e pés que levantam nuvens de poeira (cf.

A. em 51 41. 20 . se conserva frio.17. Assim os antropomorfismos bíblicos inculcam que o Deus verdadeiro não é mera fórmula abstrata.4s. aos olhos do israelita.11. Dt 5. têm ouvidos e não ouvem. como se precisasse das criaturas. 12. mas o Senhor condescendente..39.6. Bar 6. Cf.27.2. que o Transcendente. Paradiso. por exemplo. sim. mas de modo nenhum corresponde às aspirações da criatura. o recurso aos antropomorfismos era muito apto.24s. Jó 27. porém. pois.70. têm olhos e não vêem. a sua imensidade. sendo perfeitissimo. Dan 14. 21 Não assim é o Deus verdadeiro. ama realmente os indivíduos. Ora. com as.o Perocché solo da sensato apprendc CiÕ cite Ia poscia d.45. Rei. acompanhados geralmente de impressionante aparato. Jer 10. acompanha a nossa "aventura" na terra. deuses "que têm bõca e não falam. apreendendo a Divindade através do raciocínio. diferenciava dos idolos dos pagãos o Deus verdadeiro.s 19. com seus traços semelhantes aos dos homens.5-7).Dio. têm mãos e não apalpam.1-10." (Dante. à sorte dos mortais. a Moisés. ainda mais concretamente. mas através de revela ções se1íveis (outorgadas aos Patriarcas. 2 5am 2. Por êstes fenômenos.. era o seguinte: o Deus de Israel é um Ser vivo e pessoal. Êstes autores ensinavam que Deus. justamente por ser superior ao homem. Abraão e seus descendentes chegaram ao conhecimento do verdadeiro Deus não em conseqüência de raciocínios especulativos. e o orienta continuamente. Sab 15. cd altro intende. pois uma das fórmulas de juramento mais usuais rezava: "Assim como o Senhor (Deus) é vivo . servia para exprimir que o Deus de Israel é o Soberano que se interessa profunda e surpreendentemente por tudo que concerne o homem. afirmam-nos de maneira marcante 10 Já o poeta dizia: "Cosi portar convieztsi ai vostro ingegn. porém. limitações do nosso ser. Os falsos deuses eram ditos "deuses mortos" (ef.. Pai .3. da metafísica.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 55 as contínuas vicissitudes do homem. 20. têm pés e não andam" (51 113. Mt 16. o Deus de Israel dava-se a conhecer como o Senhor que permanece próximo do homem. concebiam. alheio. mais adequadamente a transcendência de Deus. amigo. a Divindade não necessita do homem. Por questo la Scrittura condiscende A vostra factitate. 1 Sam 14.. 4. 20 Com efeito. 21 É êste aspecto rigido que caracteriza a Divindade nos sistemas filosóficos de Platão e Aristóteles. 19 Esta observação. a atração do homem. etc. enquanto o homem precisa de Deus. e piedi e mano Attribuisce a . Canto IV 40-453 A expressão "Deus vivo" ocorre. .. ou. um dos aspectos que mais espontâneamente detinham a atenção do israelita. julgavam.4. (Cf. sim.. à diferença dos deuses dos filósofos pagãos. aos justos posteriores).'intelletto degno. 26. É certamente muito antiga. não bastaria para explicar o significado dos antropomorfismos na Sagrada Escritura.Jz 8.9. 4 R.19. Ao considerar a Deus. Erôs et Agapê (Paris..) Era mesmo o título "Deus vivo" que. para traduzir tais impressões. Nygren.21. .5.. Êstes. de:perta.3. 14. 19. 1944).23. dêstes exigindo fidelidade inviolável.16). A descrição do Altíssimo como Guerreiro.

Sendo as imagens o grande esteio da idolatria.4s). As mesmas Idéias repercutem no texto de Es 28. falando da misericórdia do Altíssimo para com Israel.29.24: "Deus é espírito. os antropomorfismos os realçavam muito bem. não se cansa (cf. a Lei mosaica proibia estritamente a confecção de qualquer imagem (de homem ou animal) que representasse Javé (cf. á Efraim. Em meio de ti está o Santo. em Jo 4.4).19). Pode-se dizer que aquilo que a fé em Deus no Antigo Testamento visava primàriamente era a sua personalidade toda-poderosa e o caráter pessoal imediato. e não homem . rebaixar-se'. pouco filosóficas. Embora tornes o teu coração semelhante ao de Deus. os filhos de Israel eram. Pois sou Deus. alheio à mentalidade veterotestamentária. 22 'Como te abandonaria eu. das suas intervenções na história. Não darei curso ao ardor da minha cólera. Não destruirei de novo Efraim. Éx 20. e os que O adoram. Sl 120. seria "diminuir-se. em absoluto. 1 5am 15.4). ou seja. não cochila nem dorme (cf. Não se poderia deixar de observar ainda que. os livros sagrados não deixavam de incutir a espiritualidade e transcendência de Deus. preservados de cair nas idéias grosseiras dos mitólogos ou dos idólatras pagãos. embora se distanciassem de noções abstratas para aderir a concepções iniperfeitas. em espírito e verdade O devem adorar". Deus as tem em grau Infinito. Jó 10.28). como te entregaria.Ss. pela própria Revelação divina. baseava o caráter inesgotável dessa misericórdia (= "compaixão") no fato mesmo de Deus ser Deus e não homem. Com efeito.56 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO os autores semitas inspirados. A pura espiritualidade de Deus só foi explicitamente afirmada no Novo Testamento. Além disto.) O homem tem perfeições em grau finito. Êstes textos atestam que o conceito de um Deus transcendente não era. Por isto perdoa mesmo quando os homens julgam que "perdoar" seria derrogar a aiguzna de suas qualidades. mesmo nos trechos em que mais realçavam a proximidade do Senhor. Is 40. não se arrepende nem mente (cf." (Os I1. Núm 23. Israel? Meu coração se revira dentro de mim E tôdas as minhas comiserações se comovem. o seu interêsse pelo povo: assim o profeta Oséias. os israelitas eram assim premunidos contra o perigo de equiparar o conceito que tinham de Deus ao que os povos pagãos nutriam." . e não Deus. êstes aspectos. 22 em outras páginas bíblicas lê-se que o Criador não tem olhos como os homens (cf.2: "Tu és homem.

é um braço!"). quando o Filho de Deus tomou carne humana: o Senhor do Universo é também o Deus dos pequeninos. poder (ainda hoje a linguagem popular diz: "N. citadas dentre outras muitas: Êx 249-11 (texto hebraico) refere que Moisés e muitos dos anciáos de Israel subiram ao monte Sinal e "viram a Deus". Ora no trecho correspondente puseram os tradutores gregos: "Viram o lugar em que se achava o Deus de Israel.9. exalação nasal mais intensa. que significa "nariz". a partir do séc. o que aparece nitidamente nas duas passagens abaixo. em última análise nêles reconhecerá como que prenúncios da Encarnação. a atenuar ou eliminar os antropomorfísmos bíblicos. tratando de Deus. em vez de "mão de Javé" (hebr. portanto. SI 17. no povo de Israel. b) o sentido de alguns antropo-morfismos em particular. lê-se "o poder do Senhor" (grego). pode também significar "ira. O têrmo hebraico 'af. III aO. com a idéia de braço se associa naturalmente a de fôrça. Já ao se referir a indivíduos humanos. traduziram a Sagrada Escritura do hebraico para o grego.). A tendência a atribuir ao Altíssimo aspecto e afetos humanos é. É o que dá claramente a entender Jeremias. mormente na naturza exuberante dos orientais.16). tendiam a exaltar a transcendência de Deus e. em Jos 4. contudo. Éx 15. dando-nos a famosa edição dita dos Setenta intérpretes. Os antropomorfismos da Sagrada Escritura. muito natural à nossa mente. em particular à do indivíduo primitivo. o israelita era propenso a exprimir certas qualldades da alma mencionando determinados membros ou sentidos do corpo que mais estreitamente pareciam relacionados com elas. por isto. Fàcilmente. sem dúvida. cólera". o Deus do coração humano. ela foi por Deus utilizada para inculcar uma verdade que os filósofos da antiguidade jamais conceberam adequadamente. Conseqüentemente. pois.. E não sem fundamento objetivo: o furor costuma-se exprimir por respiração mais veemente.24. sim.. Alguns exemplos elucidarão o proceder: o Senhor Deus tem narie e narinas. Mais uma ligeira observação: quem reflita sôbre os antropomorfismos bíblicos à luz do grande plano salvífico de Deus. é. verdade que havia de ressoar por excelência na plenitude dos tempos. referindo-se ao homem: .18.PARnCULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 57 Os judeus que em Alexandria." (V. são a resposta providencial ao anelo de todo mortal de saber que Deus está atento à sorte do homem. e mais ainda a Encarnação. 10). se entende que a menção do nariz fumegante de Javé na Sagrada Escritura deva ser interpretada como expressão da justiça de Deus que pune os homens maus (cf. os hagiógrafos com muita espontaneidade atribuíam essas mesmas partes do corpo ao Senhor. visando com isto designar os respectivos predicados do Altíssimo..

se assinalou pela sua fôrça. usado. .) À luz dêste texto." e') as mãos simbolizam freqüentemente a faculdade de dispor ou simplesmente o poder (como ainda hoje na expressão: "estar nas mãos dos mais velhos. são fàcilmente associados à idéia de conhecimento.4.. de Javé significam a fôrça.) A luz dêstes dizeres hão de se entender os antropomorfismos: . coisa que se verifica ainda nas nossas expressões "aos olhos da sociedade.... ... fala Jacó: "Aplacá-lo-ei por meio dos presentes que envio préviamente.7. verei a sua /ace (de Esaú). Vossa direita.58 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Maldito todo aquêle que se apóla sôbre o homem E faz da carne o seu braço. a fim de ocultarem a consciência ou o seu íntimo.. conceituacão. Dispersou os que se ensoberbeciam Derrubou do trono os potentados." ou ainda "esquivar-se à influência de. Em conseqüência. em Lc 1. as mãos. Exaltou os humildes. talvez me dispense bom acolhimento. Senhor. Por conseguinte. torna-se claro o antropomorfismo correspondente. "ver a face" é não raro sinônimo de "comparecer perante (tal pessoa) ". conseqüentemente os olhos simbolizam o conhecimento que os homens ou Deus possuem: "Os olhos se lhes abriram (a Adão e Eva) (Gên 3..515: "(O Senhor) fêz coisas poderosas com o seu braço. Assim...6. . Senhor. esmagou o inimigo." (S1 115. principalmente a destra.) "O Senhor tem em suas máos as profundezas da terra. sendo a sede dos órgãos que exprimem o intimo do indivíduo. constituindo para o homem uma das principais fontes de informações. o poder." (Êx 15." (17. a sua personalidade.5." (Gên 32. da história. por exemplo. ..) a face ou o rosto. A Êle pertencem os cumes das montanhas. da ciência. de Deus: "Vossa direita.. "fugir da face de . por exemplo. Na Sagrada Escritura.) "Preciosa aos olhos do Senhor É a morte dos seus fiéis. das autoridades"). nas páginas sagradas.15. significa freqüentemente na Bíblia a personalidade." (Si 94. a seguir. Enquanto o seu coração se afasta do Senhor.. De resto verifica-se entre as crianças a tendência espontânea a recobrirem o rosto com as mãos.21.) os olhos.é "fugir de tal pessoa ou objeto .

portadores de tese muito veridica e importante para a alma religiosa: o Deus sumamente transcendente é também intimamente próximo ao homem e solícito do bem da sua criatura! . não podem ser tratados como expressões que. a "inveja" de Javé significa o desejo que o Senhor. ou seja. ira.) Conforme Êx 33. com o progredir dos tempos. na mente dos hagiógraf os. Senhor. se "se vinga". Quanto aos afetos (alegria.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 59 "Até quando. Quando Javé "se arrepende".17. se "se entristece". Senhor. Nesta seção. o antropomorfismo é logo explicado pelo apôsto "como um amigo fala ao amigo"..8s. Deus é dito "irritar-se"." (SI 26." pode simbolizar um ato que se processa essencialmente no plano do espírito. procede de forma imprevista às criaturas. Não me ocultes o teu rosto.11..2. Tu és o meu amparo. não faz senão repreender o pecador que comete a iniqüidade. à semelhança do que se dá quando um homem se arrepende do que fêz. me esquecerás? Até quando rue ocultarás a tua face (= sorriso. Aliás. o primeiro bispo de Jerusalém. entenda-se que. sumamente bom.) "Procuro a tua face. aprova e confirma o bem. errôneo seria equipará-los aos sentimentos baixos e apaixonados dos homens ou dos deuses do paganismo. acentua a incompatibilidade do mal com o que é de Deus. o ato corporal de "voltar a face para.. Não rejeites encolerizado o teu servo. que. em conseqüência da conduta dos homens." (1. se "se alegra". na Sagrada Escritura. tem de ser amado por seu povo renitente e infiel. do seu modo. guarda fiel das tradições judaicas.) Estas considerações são suficientes para se concluir que os antropomorfismos e antropopatismos bíblicos não constituem simplesmente o produto de mente filosàficamente pobre ou simplória. bondade)?" (Si 12. isto insinua bem que. arrependimento) que os hagiógrafos atribuem ao Senhor. não faz senão punir em justiça os que o merecem. embora se dirigisse a israelitas educados na ideologia veterotestamentária e recém-convertidos ao cristianismo. Tiago. o Senhor falava "face a face" com Moisês. Se. Ao contrário. são. doação de amizade. o modo como os judeus entendiam êsses antropopatismos parece-nos atestado por S. podia escrever sem ulterior explicação "Junto ao Pai das luzes não se verifica vicissitude nem sombra de mudança. mais nenhum valor possuem. .

aproveitando a inclinação inata do homem (mesmo do varão culto) ao simbolismo. se separa da realidade profunda da vida e do seu próprio psiquismo. jamais se pode desvencilhar. e até da psicanálise. A imaginação. Podem-se encontrar conclusões de estudos modernos sõbre o assunto na obra de Mircea Eliade. Mesmo no homem moderno. tem sido comprovada a sobrevivência subconsciente de grande número de imagens. mostra o que é refratário ao conceito. e êste simbolismo subconsciente é às vêzes mais forte do que a vida consciente do indivíduo. embora reflita sôbre estas. os recentes estudiosos da história. Éste adquire. as proposições religiosas. metafísicos. os consegue eliminar de sua mente. nunca. Isto quer dizer também: mesmo o individuo mais "realista" vive de imagens. sim. os finos matizes dos objetos. por definição. e.60 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO APÊNDICE O VALOR DA LINGUAGEM SIMBOLISTA Após a acerba campanha ou desconfiança que o racionalismo do séc. afirmam cada vez mais categàricamente que o recurso a imagens e figuras é espontâneo ao indivíduo que pensa e fala. porém. das figuras sensíveis donde parte o seu conhecimento. O que o homem pode fazer. diz-se que hoje em dia o mundo ocidental (a cultura européia e americana) está de novo descobrindo o valor dos simbolos. ou ainda aquilo que a intuição apreende. que a razão e os conceitos humanos não podem definir de maneira cabal e exaustiva. XIX ocasionou contra o simbolismo. o simbolismo tenha função importante. faça uso dêste (e uso assaz freqüente) para transmitir verdades sobrenaturais. ao raciocínio. versam em tôrno de objetos transcendentes. tôdas as suas noções a partir dos sentidos ou de imagens materiais. mas as fórmulas já não sabem traduzir adequadamente. A justo título se diz que o homem que não tem "imaginação" ou dela não quer usar. por mais "racionalista" que pretenda ser. constitui uma exigência da natureza psico-física do homem. . da psicologia. abstraindo conceitos universais. Assim se explica que a Escritura Sagrada. principalmente ao se tratar de exprimir verdades religiosas. Images et Symboles (Pãris. devidamente utilizada. 1951). Com efeito. é apetias camuflar ou mutilar os simbolos. que são o suporte e veículo de sua ciência. simbolos. esteriliza a sua atividade e produtividade. Ora bem se compreende que. O simbolismo tem por fim exprimir as mais secretas modalidades. nem ao raciocinar nem ao exprimir as suãs conclusões.

dos quais os mais dignos de nota são os seguintes: romanos. que o Espírito Santo houve por bem respeitar. não era uma designação arbitràriamente anexa ao seu portador. heróis. o nome. que na principal narrativa babilõnica da origem do mundo. que as páginas anteriores apresentavam. seja de Dèus. autoridades. 0 A FILOSOFIA DO NOME A maneira como os autores bíblicos se referem ao nome. chama a atenção. por exemplo. o segrêdo do seu sucesso. os indivíduos poderosos. na linguagem oriental antiga. seja das criaturas. de uma função do portador. Ao contrário.CAPÍTULO IV NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA O uso do nome e dos números no texto da Bíblia não constisenão uma expressão a mais. E quais seriam essas idéias? O nome. para significar que o céu e a terra não existiam. ocasionando na Sagrada Escritura modos de falar a nós estranhos. Tais idéias eram compartilhadas pelo povo de Israel. diziam proverbialmente os . tui § 1. É de notar. e bem característica. só se pode explicar à luz de idéias dos orientais. ' Não ter nome" wm a ser o mesmo que não ter existência". Em virtude destas concepções. o autor diz que não eram nomeados. é um agouro". a expressão da íntima essência ou de um atributo. tinham-no como a caracterização do indivíduo. Em conseqüência. para os antigos. Dada a importância de que se reveste o tema para a interpretação do Livro sagrado. do gênio semita. a fim de não comunicar a sua fôrça íntima.O nome idêias orientais. vai-lhe dedicado o presente capítulo. herdeiros 1 "Nomen est omen de . podia designar simplesmente o ser ou a vida do individuo nomeado. das nações antigas e de tribos atuais não civilizadas não revelavam nem revelam o seu nome. 1 Alguns povos chegavam mesmo a conceber o nome como parte integrante do indivíduo e como coisa misteriosa. dotada das energias próprias do respectivo sujeito. guerreiros.

a criança que nasce morta tem o seu nome recoberto pelas trevas (Edo 6...) - Conseqüentemente. Moisés contou nomes ou individuos de cada tribo de Israel.62 .35).10) Raquel chama seu segundo filho Benoni = "filho de minha dor". não sejam praticados.3. S.45).4. "Desejada.". Deus forte. o que só pode significar: . cf.9. cf. "Cidade da verdadë.Tacó = "Suplantador" torna-se israel = "Homem forte contra Deus" (Gên 35. segundo os profetas. Pedro" (Jo 1. Paulo pede que a fornicação e outros vícios não sejam nomeados entre os cristãos.. sem dúvida) "Deus de tôda a terra" (Is 54. seu nome é "o Tolo.5). para Cephas = "Pedra. Jerusalém. . Ao contrário.5).5) Jesus Cristo.76). é a mesma coisa que "ser. Por ocasião do recenseamento preceituado pelo Senhor. É o que se verifica na história de Davi. . futuro fundamento da Igreja. Is 567).42). deveria ser chamado (= seria) "Filho do Altíssimo.. o Deus de Israel é chamado (e é.3). Em Ei 5. Si 40. função que de fato desempenhou (Le 1. não tenham existência.4). é) "Casa de oração" (Mt 21. Nabal. É o que Deus às vêzes faz ao confiar aos homens um encargo de relêvo: Abram = "Pai elevado" torna-se Abraham = "Pai de multidão" (Gén 17. . conforme o anjo. nada vem à existência sem que prêviamente haja sido pronunciado o respectivo nome. pois êste é o que o seu nome indica. novo destino na vida"." (1 5am 2525. seria chamada (porque deveras se tornaria) "Cidade fiel" (Is 1.6). Cidade náo abandonada" (Is 62. após haver salvo da fome o Egito. Assim o futuro Messias será chamado (= será realmente) "Conselheiro admirável. Príncipe da paz" (Is 9. cf. fica sendo Tsaphnath-Panoach = " Provedor da vida". O nome é identificado com a própria pessoa ou a existência do respectivo portador: Conforme Edo 6. Pai eterno.10. João Batista seria dito "Profeta do Altíssimo". . como refere o texto de Núm 1. o Senhor Jesus muda o nome de Simão. e nêle há Tolice.. Filho de Deus" (Lc 1. os pacificos serão chamados (= serão) "filhos de Deus" (Mt 5. Em particular nos oráculos proféticos. Mt 5. "mudar o nome" de alguém significa "assinalar-lhe nova função.32.2-42.26). em egípcio (Gên 41. Montanha santa" (Zac 8.3.18) José. S. mas 'Minha complacência pousa sôbre ela" (Is 62..12). "ser chamado. não mais "Abandonada".19) a Casa de Deus tem por nome (por conseguinte. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O nome revela o íntimo do portador. a quem Abigail se dirige nestes têrmos "Não tenha o meu Senhor cuidados para com. nome que Jacó substitui por Benjamim = " filho da direita" (Gên 35.

33.20s). 2 5am 12.12) o Bom Pastor chama as ovelhas pelo nome e as ama a ponto de dar a vida por elas." (Is 30. Jz 13. Is 44. Sua cólera arde. a Lei de Moisés proibia terminantemente os usos mágicos. 4 Rs 23. abusos que se verificavam nos cultos pagãos (proferindo o nome da Divindade.2.27).6).17). e te conheço por teu nome. 14.6. dizia Deus a lvloisés Ainda farei o que pedes. Seu sôpro se assemelha à torrente que transborda. da eficácia. "colocava o nome de Javé sõbre o povo. os magos julgavam poder dispor da fôrça de Deus. se à cidade de Rabá se desse o nome do General Joab. num tempo de calamidade. conforme a mentalidade vigente.30. Is 4. "colocar o nome" de uma pessoa sôbre outra ou sôbre alguma coisa equivalia a "envolver tal pessoa ou coisa dentro do raio de ação do nomeado. o templo de Jerusalém é dito "o lugar que Deus escolheu para ai fazer habitar o seu nome" (Dt 12. pôr sob a proteção" ou também "tornar a pessoa ou o objeto posse. "Conhecer alguém pelo nome" é conhecer de maneira muito íntima. do nome de Deus.11) por ocasião da travessia do deserto (êxodo do Egito). Dadas estas concepções em Israel.e. a fim de significar que doravante estariam sujeitos ao poder do novo soberano (cf. Apc 13. Deus prometeu enviar ao seu povo um anjo tutelar. .311 (note-se o paralelismo entre os dois verbos !). Assim é que. declara Jesus em Jo 10. ef.9). a entrega do nome seria a consignação do poder próprio (cf. Com efeito. Gên 32. porém. sete mulheres procuram um homem e lhe pedem seja o nome déste preferido sôbre elas.275). atribuem-se-lhe órgãos e atividade: "Eis que o nome de Javá vem de longe. Seus lábios respiram o furor E sua lingua é como fogo devorador. do respectivo sujeito. os homens por vézes desejam saber o nome de personagem misterioso que lhes aparece. a fim de que possam usufruir da tutela désse varão (cf. ést. com especial carinho e interêsse.21.17.16. a mesma ficaria sendo posse déste chefe israelita (ef.5.28) o monarca vencedor não raro mudava o nome dos homens subjugados. pois.11.1) aquêles que escrevem o nome de Javé sôbre a própria mão. 24.5. Êx 23. Visto que o nome era tido como portador da energia." (Êx 33. "no qual estaria o nome de Jave' (cf. 16. supersticiosos. pesada nuvem se levanta. declaram-se com isto servos de Javé pertencentes unicamente ao Senhor (cf.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 63 O nome sendo empregado como sinônimo da pessoa. se nega a revelá-lo. pois encontraste graça aos meus olhos. E sobe até a nuca. propriedade do nomeado". quando o sacerdote abençoava a multidão.34. e o Senhor o abençoava realmente" (Num 6.

Ei-la: O nome de um indivíduo podia designar tôda a linhagem do mesmo. O cetro não será removido de Judá (= coletividade).10-123 Como se vê.315-323. em Tire Cathouc BibUcaZ Quarterly. Qualquer pronunciar vão. . vigente entre os povos antigos. Os filhos de teu pai (= as onze tribos de Israel) se prostrarão diante de ti (= tua descendência).7.27. Destarte é que "Israel.11.64 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO coagindo o mesmo a socorrer os homens!). herdado dos caldeus. zelava rigorosamente para que tal concepção não afetasse a verdadeira fé e o legítimo culto de Deus. 18. Éx 20. Lava a sua veste no vinho e o seu manto no sangue da uva.8.. Será preciso. o autor sagrado transfere a sua atenção daquela a esta e vice-versa. 8. os nomes dos filhos de Jacó significam ora uma pessoa. antenatos de Abraão. as qualidades de um Patriarca prolongando-se na posteridade dêsse varão. conforme os inglêses.2s. Tua mão pesará sôbre a nuca dos teus inimigos. o pressuposto era deficiente.9-13). Le Frois. XVII (1955).8. 'A ti. referir ainda outra modalidade da "Filosof ia do nome" vigente entre os orientais. ora uma tribo. 3 Na raiz dêste fenômeno parece estar a chamada "lei da participação". 8 veja-se a respeito B. Destarte Javé tolerava no seu povo um pressuposto da cultura oriental. Lev 20.. 2 Os exegetas modernos explicam êste modo de falar pela tendência dos oriStais a pensar segundo categorias coletivas (pelo thinking iii totalities. a qual também teve sua influência na redação de algumas passagens escriturísticas. Judá. Dt 5. Até que venha Aquêle a quem pertence (o cetro) E a quem os povos obedecerão Êle (Judá) amarra à videira o seu jerico. o ganzheitiiches DenIcen. conforme os alemães): os semitas costumavam julgar um individuo em função do todo a que pertencia. lis). hão de louvar os teus irmãos. a prosperidade que no futuro deve tocar a Judá e a seus descendentes é descrita em têrmos referentes ora à tribo inteira (vv. J. 22. sujeito a ser removido mais tarde. Nem o bastão de comando dentreos seus pés. o semita não via dificuldade em aplicar o nome do pai à coletividade dêle descendente. Jacó" designam a nação eleita inteira em Is 41.10) ora ao mdlviduo apenas (vi'. irreverente. sem o indicar expl'icitamente. E ao melhor dos troncos o filhote do seu jumento. Tem os olhos rubicundos de vinho E os dentes brancos de leite? (Gên 49. tolerando. Contudo o Senhor. porém. lei em virtude da qual se admitia a comunicação de 2 Haja vista o vaticinio proferido sóbre Judá: 8. do nome de Deus era rigorosamente vedado pela Torá (cf. "Semitic Totality Thinklng". nos oráculos de Gên 49.17. "Esaú" e "Jacó" representam dois povos em Mal 1. 2.

"The Hebrew Conception te Frois. chamam a atenção por referir quantias extraordinàriamente elevadas ou também insignificantes. suscitam. são as variantes dos textos (bíblicos ou profanos) paralelos entre si ou a oscilação dos manuscritos antigos que provocam dificuldades de interpretação: entre duas ou três cifras indicadas pelas fontes. Ora.° OS NÚMEROS NOS TEXTOS BÍBLICOS As cifras. possa simbolizar tanto a Igreja (coletividade) como a Santíssima Virgem Maria (pessoa individual). questões múltiplas e árduas. Em outros casos. SI 59. cit. por conseguinte. em algumas passagens. . 107. ao redigir Apc 12. tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrêlas sõbre a cabeça. que a função da Igreja. OS NÚMEROS SÍMBOLOS DE QUALIDADES Os números figuram muitas vêzes na Sagrada Escritura não como indicações de quantidade. fôsse o povo" 5 (ci. 137. 1. Em conclusão: será necessário recorrer à ideologia particular dos semitas para interpretar. João. W.. A "lei da participação" (na medida em que ela é verídica) explica bem que a mulher revestida do sol. Mãe e Virgem. S. não como simples lugar-tenente. é indispensável tenha o leitor em mente alguns princípios gerais. abaixo discriminados. 143). mas como enunciações de qualidaem 4 5 Bethelt aur Zeitschritt /uer alttestamenthche Wissenschaft. Por isto. art. Cf. na Escritura Sagrada. para resolver tais problemas... ao menos em muitos casos. de que fala Apc 12. 4 de sorte que a pessoa que nomeava um indivíduo se podia estar referindo a tôda uma coletividade e vice-versa. o significado que toca ao nome nas páginas da Sagrada Escritura. e não se sabe sempre que critério seguir.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 65 qualidades da parte ao todo e do todo à parte. tomam assim caráter aparentemente fantástico. por sua vez. 66 (1936). Acontece que. 53-56. Robinson. e êle. lutadora e vitoriosa. porém. S. é preciso optar. Fenômeno semelhante se verifica em alguns salmos: tôda a coletividade de Israel ai aparece como que concentrada na pessoa do seu rei. of Corporate Personality". Eis. ao aludir a esta em Ape 12. Também éste aspecto da mentalidade oriental foi utilizado pelo Espírito Santo para exprimir a mensagem perene da Palavra de Deus! § 2. 318. a terá apresentado realçando os traços que lhe são comuns com Maria Santíssima. Ëste representa o povo. esta é. participando dos predicados desta. a pessoa individual que por excelência representa a coletividade da Igreja. já foi no início da era cristã compendiosamente realizada em Maria Santíssima. mas como se "o povo inteiro nêle estivesse. terá intencionado referir-se à Igreja. João. que pouco fidedignas parecem. por sua vez. que dá o Cristo ao mundo e ao mesmo tempo luta contra o Dragão até o fim dos tempos.

com efeito. o caçador primitivo. os homens rudes não jogam com unidades abstratas. configuração que define o rebanho. para o homem primitivo.isto se dá sem que tais homens saibam contar além de uma ou poucas dezenas! Os estudiosos explicam êstes fenômenos pelo fato de que. pouco dotados de capacidade de abstração. estas notas tôdas reunidas dão uma configuração de conjunto ao rebanho. é capaz de verificar a ausência de um só que seja. quebra. esta não falta nas tribos de civilização pobre). o proprietário. o percebe e sabe dizer quais as notas que faltam no conjunto. diferenciação. Nesses casos. as combinações dos números entre si parecem ultrapassar a capacidade do espírito humano. os espíritos.. quantos e quais individuos desapareceram. ou seja. E . Em conseqüência. quando o aspecto do grupo é mutilado. em virtude da sua memória. inseparável de determinados predicados individuais. É o que faz que espontâneamente se liguem com os números as idéias de "Transcendente. ao ver o gado voltar do pasto para o aprisco. Bata então que o homem rude tenha boa memória (e. Além disto. despojadas das notas concretas com que se realizam na natureza. também. periodicidade. em geral. tornam-se. Ela se baseia no fato de que os números estão essencialmente ligados com a idéia de regularidade. Fenômenos significativos neste setor são os seguintes: mesmo entre povos primitivos cuja faculdade de contar é muito limitada.note-se bem . mas tôda unidade lhes fica na mente. o pastor primitivo guarda na memória as notas características de cada animal. percebe de longe se algunia falta e sabe dizer qual ou quais as que se tenham perdido.66 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO des. harmonia e. os pastôres sabem exatamente verificar a falta de um ou mais animais nos seus rebanhos. o homem.) é muito antiga. está claro que as cifras se mostram inverossímeis para quem as queira entender como expoentes matemáticos. o proprietário de quatrocentas ou quinhentas ovelhas. Divino" ou "Mais Forte. bem se vê que a observaçao da . porém. são a expressão de um juízo que o autor formula a respeito de tal ou tal sujeito. ao convocar os seus numerosos cães para a caça. Em tais fenômenos. a série dos números apresenta algo de misterioso para o homem: ela parece poder prolongar-se sem que êste a consiga acompanhar. cada unidade está 'mtimamente associada a notas individuais de um sujeito. para que proceda pràticamente como se soubesse contar. altamente significativas para quem conheça a mentalidade do autor e a afinidade que os antigos estabeleciam entre certos números e determinadas qualidades. Mais Pujante". tão antiga mesmo quanto o uso de contar. A tendência a associar cifras a certos predicados ou também a certos sêres (a Divindade. as criaturas inf eriores. Da mesma forma.. Sim.

que lhe servem de moldura (o número de anos em que começou a gerar. a noção de unidade abstrata. Por conseguinte. a memória então já não é capaz de reter tudo que caracteriza os múltiplos indivíduos com que o homem lida. ensina que a Providência Divina dispõe ordenadamente até as mínimas circunstâncias da vida humana. Normalmente em cada tribo a civilização e a vida cotidiana se vão tornando mais e mais complexas. o valor qualitativo" do mesmo. em conseqüência. ossinhos. destituídas de significado filosófico ou moral (sem atribuição de qualidades). forma-se. ). Algo de semelhante se dá na linhagem dos semitas. o nome de cada um dos descendentes de Sete é acompanhado de cifras. número e pêso". seixos"). os quais dão figura concreta.0 simbolismo do número como tal. de maneira geral. parece fadada a cair em desuso. e de cifras de índole meramente quantitativa.. mas a "figura. êle venha a conceber cada cifra jntimamente relacionada com alguma qualidade. 7 É notário que o homem rude só sabe contar servindo-se dos dedos das mãos ou dos artelhos ou ainda de seixos (cálculos). a história dos justos é geralmente apresentada dentro de um quadro numérico. 144s.20: Deus tudo dispôs "conforme medida. ALGUNS ASPECTOS DO SIMBOLISMO DOS NÚMEROS O "simbolismo dos números" acima explicado era patrimônio da sabedoria não só dos famosos pitagóricos e platônicos (gregos). matemática. A .. às unidades e aos seus múltiplos (dai o verbo "calcular". com a indicãção de datas ou cifras equivalentes a datas . o valor quantitativo". com isto. Individual. Não temais". . a duração total de sua vida . Esta "Filosofia do número". Exemplo típico disto verifica-se nas genealogias dos cainitas (prevaricadores) e setitas (fiéis a Deus) em Gén 4. 8 Cf.17-24 e 5. mas também dos povos orientais e. no decorrer dos tempos. o Senhor. 8 2. porém. É também o que ilustra a admoestação de Jesus: "Mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. 6 o homem "conta" ou faz como se contasse.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 67 qualidade precede a da quantidade ou cifra. nós feitos em Cordame. O número por si costuma significar ordem. Das hebraeische Denken ira Vergleieh init dera grieehischeit. ou seja. harmonia. 1 Entende-se então que. que originâriamente significa "manejar cálculos. dos israelitas.1-32: enquanto naquela não se encontra a menção de um sô número. T. diga-se explicítamente.coisa que freqüentemente falta na linhagem dos impios. Boman. É o que explica a afirmação de Sab 11. porque associa com cada unidade e com o conjunto das unidades predicados característicos. O Diz-se que o homem primitivo considera primeiramente no número não a 'grandeza. Eis as principais expressões desta mentalidade na Sagrada Escritura.

que lhe confira experiência e autoridade. Era outros têrmos: longa vida é. vão exercendo cada vez mais os seus efeitos no gênerohumano. Os vassalos cananeus do Egito dirigiam-se ao Faraó mediante a fórmula ilania. prêmio que Deus outorga à virtude. 16. o deus supremo..) que o número um é por excelência o Princípio não produzido.19.3). isto é. não fazia outra coisa senão proferir sôbre o mesmo uma fórmula de maldição (cf.10. mas são maneiras de realçar a qualidade expressa pelo respectivo nome: a fortaleza. mas intensidade de um predicado. a partir do séc. Aliás sabe-se que também os povos pagãos. Excelsos". plural de 'Elyon.11. Frov 8. por exemplo. plural de 'El. E. Assim: 'Elohim. 30.1. Aplicando a Deus os têrmos concretos "Fortes. Bettencourt. 10 Cf.20. empregavam formas de plural. Santos. "os seus deuses". conforme os autores israelitas. Já que os números freqüentemente indicam qualidades. que se origina pela interven9 Bar 3.35. o conceito abstrato era expresso pelo plural do têrmo concreto). 11. perfeito. O deus lunar Sin era chamado ilani seita ilani.10-32. Is 46. entende-se que as expressões de plural na Sagrada Escritura não designam sempre multidão.68 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO portadores da promessa messiânica. Cf. 1905.6. Jó 3.C. 9 donde se segue que extraordinária longevidade tem por pressuposto extraordinárias virtudes. Tal uso dos números significa que a vida dêstes justos era harmoniosa. Dentre os números.19. o número dois. Dt 4. Estas formas de plural não indicam multiplicidade de sujeitos ou deuses. desde Adão até Abraão. Jó. O declínio da longevidade à medida que se passam os tempos. Julgava-se em certos círculos (mormente no pitagorismo.6). 'Elyonini. extensão. 81.22. desejando que o dia de seu nascimento não fôsse contado entre os dias do ano.9. . SI 33. Santo (Jos 24. sem dúvida.11. plural de Qadosh.9).27. pertencer longa vida. 10 Ocorrem no texto hebraico da Sagrada Escritura substantivos em forma plural que inegàvelmente designam o único Deus. na genealogia dos Patriarcas bibilcos: a extraordinária longevidade (centenas de anos) que lhes vem atribuida. Dt 4. em Gên 11. Qedoshim. Deus ou Forte (?) (Gên 5. B . 7. correspondente ao ideal que Deus lhes traçara. 14.O simbolismo peculiar de alguns números. à figura de um Patriarca parece. os israelitas queriam dizer que o Senhor é a Fortaleza. VI a.26. a santidade. Prov 9. Os 12. a Sublimidade mesma (em hebraico. os deuses dos deuses. a felicidade diminuem no mundo.12-14. o Deus de Israel. 6. 9. a sublimidade do único Deus. 30. 19552).14. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios (Rio.18). • pecado. a Santidade. e o bem-estar.18.8s.35s. É o que se verifica. gozavam de preferência os ímpares. é sinal de que a corrução. exprime enfàticamente a alta venerabilidade que competia a êsses homens. referindo-se a uma Divindade. Excelso (Dan 7. • mal se alastra mais e mais.

exata do furto cometido (de resto. opondo-se a isto. isto é. a) o 'número sete. 11 Já na Babilônia sete (= lcissatu) era sinônimo de totalidade. por admitirem divisão em duas partes inteiras. faltas numerosissimas ou de incomensurável gravidade. Em Israel. emLeipziger semitische Studien. longe de atribuir a "sete" significado quantitativo. O número sete é dos mais dotados de valor simbólico na mentalidade antiga e na Escritura Sagrada. perfeitos. por exemplo. Gên 1.15. 34s. . Os caldeus fizeram do setenário um número sagrado. sete. ao contrário. quebradiços. plenitude. 12 Em uni cântico penitenciai babilônico. contudo ela se explica muito bem. O significado importante do setenário entre os orientais compreende-se pelo fato de que êstes povos dividiam o tempo conforme as fases da lua. Lc 19. quiseram por meio dêste número indicar melhor o que o texto original subentende. Visto que o número sete determina períodos mais ou menos completos. indefinidamente.24 (a vingança de Caim e a de Lameque). em lugar de "quatro".8). Mt 18. Esta tradução. plenitude e perfeição. à primeira vista. Lc 17. os números ímpares. a saber: que se há de fazer a compensação cabal.21s. bb) sempre que se queira exprimir a totalidade. De resto. viris. Em geral. isto é. que reconhecia e promulgava. prestar juramento. assim o discípulo de Cristo há de perdoar setenta vêzes sete vêzes. aa) nas fórmulas de contratos e juramentos: Abraão deu a Abinieleque sete ovelhas como penhor de que cumpriria sua palavra (cf.30 está dito que o ladrão deve restituir sete vêzes o que roubou 1). eram tidos por fortes. ao traduzir o trecho para o grego.37. porém. definidos. a estima geral dedicada ao número sete parecia sancionada pela própria Bíblia. o orante confessava ter cometido sete vêzes sete pecados. a distribuição do tempo em semanas (cf. os hebreus derivavam o verbo sliaba. Hehn. Um fenômeno literário Interessante ainda solicita atenção: no texto hebraico de 2 8am 12. matemático. puseram 'sete ovelhas".4a). que os judeus de Alexandria.6 lê-se que o homem que haja roubado uma ovelha. é obrigado a restituir quatro outras (de acôrdo com a lei formulada em tx 20. tão grande quanto seja.12 O autor de Prov 24. Gên 21. Veja-se ainda Gên 4.16 se refere a sete (= tôdas as) quedas do justo. dizer palavra firme. plenitude que é própria da Divindade. parecia essencialmente imperfeito. moles ou femininos. atribuíam-lhe o significado de totalidade. "Siebenzahl und sabbat bei den Babyloniern und im Alten Testament". já em suas primeiras páginas. A figura da mão dotada de sete dedos era na Caldéia simbolo da plenitude da fórça e do poder.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 69 ção do vazio ou do intervalo na unidade.4). sempre que haja ocasião para Isto (ci. em Prov 6. 1' É com êste sentido que êle ocorre. J. da vida humana. Eis. ci. os números pares eram considerados inf eflores. Em outra oração. da mesma raiz que sheba.30). se se penetra na mentalidade dos tradutores: no caso. pedia sete vézes perdão. Ci. 11 5 (1907). que ocorria freqüentemente nas suas histórias religiosas e nas cerimónias de culto. é estranha.1-2.

a menção de dez vícios (não exaustiva). mitas. . e) o número dez.23). C+ên 2. Sejam mencionados ainda: os dez servos (= um grupo completo). ano que mais se assemelhe à perfeição da vida celeste. as dez dracmas (= número redondo).11). fechado em si". não exaustivo) de dez adversários que não conseguem arrebatar ao cristão o amor de Cristo (Rom 8.) tenha realmente havido. é figura que sôbre qualquer de suas bases está sempre em pé.2).10. os três anjos que apareceram a Abraão (Gên 18.9s).. mas apenas queria referir-se a todos quantos (. os três dias passados por Jonas no ventre do monstro marinho (2.1). O número três gozava também de grande estima entre os se- Em cada um déstes trechos. embora mais parcimoniosamente do que o número sete. recorria aos dedos de suas mãos.13. O que interessava o autor sagrado era dizer que entre Adão e Noé. ano jubilar ou qüinquagésimo 17 x 7 + 11). Noé e Abraão. os três amigos de Jó (2.8. de renovação. ao mencionar dez Patriarcas em cada uma. não sàmente por ser o primeiro composto ímpar. Lev 25. desta praxe se origffiou o sistema decimal.c 19.10-32): o hagiógrafo.1-17. sétimo ano ou ano sabático. tal dia ou tal ano é determinado pelo número sete (sétimo dia ou sábado. os três companheiros de Daniel (3. o núm?ro dez foi tido como símbolo de um "todo completo. ao contar.10). Sejam aqui mencionados apenas os três filhos de Noé (Gên 6. O ternário ocorre com freqüência na Escritura. Mt 25. os. o sentido do número três há de ser analisado à luz do gênero literário adotado pelo hagiógraf o. . ficando a cifra exata desconhecida tanto ao escritor como ao leitor. que excluem do reino de Deus (1 Cor 6. de modo nenhum entendia dizer quantas gerações mediaram respectivamente entre Adão e Noé. O número dez tornou-se importante entre os antigos pelo fato de que o homem primitivo. o catálogo (taxativo. mas também porque o triângulo equilátero constitui um dos simbolos mais expressivos de firmeza e perfeição. Éx 20. 15. não se deixando de modo nenhum derrubar. Ci. É certamente êste o significado que lhe compete nas genealogias dos setitas (Gên 5. nas parábolas de Cristo (I.1-32) e dos semitas (Gén 11.2. as dez virgens (= todos os cristãos). Em tais circunstâncias.70 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO cc) quando se quer indicar um dia ou ano de repouso. três justos de Ezequiel (14.1) b) o número três. Noé e Abraão.38s). a série dos tempos foi preenchida sem algum acontecimento digno de nota para a historiografia religiosa.14).

Baseado sôbre os doze Apóstolos quais pedras fundamentais.16s. sendo quadrada.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 71 a série de dez milagres narrados sucessivamente para comprovar a autoridade de Jesus após o importantissimo sermão sôbre a montanha (Mt 8s). 13 d) o 'número doze. constitui o salmo 14. todo santuário apresentava regras próprias. por sua vez. Gelin. abrangendo um período definido em si. o reino messiânico mesmo é freqüentemente assinalado pelo número doze. em que os bens outrora outorgados às tribos de Israel se acham multiplicados e oferecidos a todos os homens. a muralha perimetral mede cento e quarenta e quatro côvados (cf.. Na Sagrada Escritura. guardadas por doze anjos. 51 (1947). que toca à nova Jerusalém ou à Igreja de Cristo. 852. sôbre cada qual das pedras da base acha-se o nome de um dos Apóstolos..5-9) A. simbolizasse. Em Israel essas regras eram enunciadas nos formulários da "liturgia de entrada". visando apenas uma iniciação geral na Sagrada Escritura. Apc 21. que deviam observar os que lã Quisessem entrar para participar das bênçãos do culto.. a cidade. o número doze é básico para a história do povo de Deus.. as dez prescrições dirigidas a quem queira subir à montanha do Senhor (Si 14). portadoras da fé e da esperança messiânicas. cuja estrutura é impregnada do mesmo número: tem doze portas.14-27). em conseqüência. éle se propaga mediante a pregação dos Apóstolos. em L'Ami du Clergë. tem doze mil estádios de lado. o reino messiânico é descrito no Apocalipse como Cidade Santa. Com efeito. 12. ou também os atos de obediência à Lei (Ez 18. 14 3. totalidade ou plenitude. todos impregnados de moralismo. O número doze adquiriu aprêço em virtude da divisão do ano em doze meses. agora recrutado dentre tôdas as nações. escolhidos pelo Senhor para constituírem o elo entre as doze tribos (a totalidade) do antigo Israel e a plenitude do novo Israel. 13 "Na antiguidade. ENUMERAÇÕES PROVERBIAIS E ARREDONDADAS Dizia-se acima que os números na Sagrada Escritura por vêzes não são a expressão de quantidades. . A interpretação de cada um dêstes requer estudo exato do respectivo contexto. mas designam qualidades. divisão que já babilônios e egípcios observavam. ordinàriamente rituais.14. ornada cada qual por uma pérola e o nome de uma das tribos de Israel. Era natural que a cifra. 14 O presente estudo. Tais mdicacões significam o caráter de plenitude. consumação. esta constitui o reino teocrático por excelência. lste constava de doze tribos. a nova Jerusalém. Um dêstes. salmo em que é realçado o número dez: A tradição israelita conhecia outros formulários que catalogavam em listas de doze os atos e as pessoas que mereciam maldição (Dt 27. não comporta mais particulares a respeito dos números bíblicos.20s).

3. etc.. a arte das medidas. Não revogarei o meu decreto (de punição) (Am 1. Tiro. cuja civilização surgiu posteriormente à dos semitas. mesmo ao significar quantidades. 15 A instância quatro. adaptados a artifícios de linguagem. os seus dez mil.3-2.) A menção gradativa de três e quatro crimes não é de ordem matemática nem. mas Incrimina o êrro ou os erros (quantos sejam !) do respectivo povo. em particular nos livros didáticos ou sapienciais.. é a disposição dos elementos enunciados em duas séries: ii e n + 1. por outro lado.72 PABA ENTENDER O MITIGO TESTAMENTO É mister agora observar que.11.6. O artifício servia parte para ajudar a memória dos discípulos (que deviam aprender de cor as máximas sapienciais). É bem de notar que. Davi. 15 16 . no contexto. à exatidão em geral. provoca irrevogàvelmente a punição divina. Gaza. n + 1 ocorrem freqüentemente na Sagrada Escritura. que não correspondem matemàticamente à realidade. que o mundo ocidental deve a tendência à precisão matemática. 2.. após a dita fórmula introdutória.13. por isto. por exemplo. ora." (1 5am 21. proverbial.o Senhor: Por causa de três crimes de. os orientais admitiam fàcilmente certa latitude ao enunciar uma quantidade. 70. Davi ainda o é mais". é meramente retórica.) E por causa de quatro crimes.8: o profeta anuncia a seis povos pagãos e às duas frações do povo eleito (Judá e Samaria) o castigo divino. ao se dirigir a cada um dos réus. acrescentada logo a seguir. encontra-se na história de Davi: para louvar a bravura déste guerreiro. 16 Afirmações em que números são mencionados conforme o esquema n.1. três.4. (Damasco. Exemplo evidente de uso enfático. Raja vista. os exegetas reconhecem haver na Sagrada Escritura enumerações intencionalmente enfáticas. indica que o réu é grandemente culpado. aliás muito expressivo. o texto de Am 1. mas tem seu significado próprio. são. cantavam os coros popuiares: "Saul matou os seus mil. por vêzes.123 O sentido do adágio é claro: "por muito aguerrido que tenha sido Saul. usa a fórmula introdutória estereotípica: "Assim fala . possui valor de superlativo. o haglógrafo não enumera nem três nem quatro faltas. também enumerações arredondadas. dos gregos receberam os demais europeus a geometria.6. Outro artifício de números. Com efeito. significa que a iniqüidade ultrapassa mesmo tôda medida e. proverbial. porém. Considerando êste particular.. É aos gregos.9. parte para dar ênfase Haja vista o que se disse sôbre o simbolismo do número três à pág.

gura figura figura figura figura figura figura um-dois ocorre em Já 40. os príncipes. os jovens heróis do mar. dois-três-quatro. Os olhos altivos. 50. A fim de o salvar da morte E iluminá-lo com a.5.15s. em Biblica.16-19. A. morrerá. Belo 26. dá! Três coisas são insaciáveis." Como se vê. os homens idôneos. uma sexta parte. de números irreais concebidos para indicar que tõdas as categorias de responsáveis de determïnado povo serão atingidas por flagelos diversos (a última fração é a do sétimo. que hão de ser entendidos á luz do simbolismo oriental dos números. o ter quaterqv.5. em Is 17. a qual excede a unidade. número da totalidade !) Cf.6. E sete que êle abomina. eis que ela perecerá pela espada.7.4." (Prov 6. SI 61. A falsa testemunha que profere mentiras. O coração que medita planos pecantinosos. em 4 Rs 13. em Belo 25. Trata-se. mas são simbolos. Note-se também o bis terque de Cícero. morrerá. entre outros.16." (Já 33. sete-oito.19.21-23. em Bel 11. Prov 30.295. uma sêtima parte. 29-31. 17 não raro o orador visava com isto acentuar o último membro da série. o emprêgo dos números em provérbios supõe por vêzes o valor simbólico dos mesmos de que tratavam as páginas anteriores. as frações enumeradas dão unia soma de 459/420. 21 (1940). a língua enganadora. 198. "Der Zahlenspruch im Hebraeischen und Ugaritischen".19.) . Eis alguns exemplos • • • • • • • • • figura figura f. 18 17 Êste artifício de ênfase parece tão espontáneo à psicologia humana que êle ocorre também na literatura extrabiblica. 18 A fim de tornar mais significativas as referências acima. As mãos que derramam sangue inocente. Quatro mesmo nunca dizem: Basta! A região dos mortos.) "A sanguessuga tem duas filhas: Dá. seis-sete.8.) "Seis coisas há que o Senhor odeia. quatro-cinco (associada a dois-três). o qual claramente inculca não se dever atribuir ás cifras sentido quantitativo: "Uma têrça parte. Deus faz isso tudo.2. o orador preferia enunciá-lo parceladamente. Os filólcgos têm comprovado que os números enunciados em tais fórmulas não possuem valor matemático. um exemplo proveniente de documentos fenicios (ugariticos). Não há dúvida. luz dos vivos. fazendo recair mormente sôbre êste a fôrça da sua afirmação. Os pés apressados a correr ao mal. em Am Is. em favor do homem.. o seio estéril. eia Prov 30. E aquêle que dissemina a discórdia entre irmãos. cinco-seis. Am 4. A terra que não se satura de água.12. em Já 5. será vitimada. Duas vêzes. Edo 2619. transcrevemos um ou outro dos textos citados: "Eis. pois. E o fogo que jamais exclama: Basta (Prov 30.25s.15s. três vêzes. uma quarta parte. Miq 5. Eis. uma quinta parte será vitimada pela peste. prendendo mais a atenção do ouvinte. dois-três. três-quatro. em Já 33.29. Prov 6. nove-dez. Bea.18s.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 73 ao discurso: em vez de dizer simplesmente e de uma só vez o valor totai.e beati de Vergílio.

Exemplo marcante é o seguinte: o autor sagrado em 3 Rs 7. ora êstes por vêzes se assemelhavam tanto entre si que se podiam fàcilmente confundir uns com os outros. os sinais: "Quando o assírio invadir nossa terra E seu pé calcar nosso palácio. nada há que obrigue a se atribuir sentido literal a estas cifras. porém. E um marido que se entende bem com a espõsa.12. Faremos levantar contra êle sete pastôres E oito príncipes do povo. Outros exemplos seriam: o total de três mil provérbios que Salomão proferiu em sua vida. 4.1-4: "Meu espirito compraz-se em três coisas Aprovadas por Deus e pelos homens: A união entre os irmãos. foi. que na matemática é de 3. que em certo grau levam a reconstituir o teor original da página estudada. 19 Ainda se deve observar que certos números na Sagrada Escritura não parecem ser nem indicações matemáticas. era circular e tinha um perímetro de trinta côvados por dez de diâmetro. NÚMEROS MAL TRANSMITÍDOS Mais uma observaçãõ se imp6e na exegese das cifras bíblicas.23 e 2 Crôn 4. o amor ao próximo. Há. o valor Ir. grande piscina colocada por Salomão sôbre doze estátuas de bois à entrada do Templo do Senhor.74 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Acontece também que a enunciação seja feita diretamente. E um ancião tolo e Insensato. Ao menos. portanto.1-4.2.4. de acôrdo com 3 Rs 4. Não era difícil que um copista hebraico incorresse em erros na transmissão dos números. os setenta milhares de vítimas da peste desencadeada sôbre o reino de Davi. expresso redondamente pela cifra três. No caso. segundo bons comentadores católicos. por exemplo. nem expressões proverbiais. um ricaço mentiroso. Está claro que em tais casos a autêntica interpretação se obtém pela aplicação das normas da arte crítica do texto. trés tipos de pessoas que minha alma detesta E cuja vida me é insuportável: Um mendigo soberbo. considerem-se. mas simplesmente cifras aproximativas ou arredondadas.24).) 19 É o que se dá em Edo 25." (Miq 5. refere que o mar de bronze. Há problemas de números na Sagrada Escritura ocasionados por erros de cópia ou por deficiente conservação do texto sagrado. a proporção entre a circunferência e o diâmetro seria simplesmente igual a três. As cifras eram assinaladas pelos caracteres do alfabeto. Edo 25.15. sem gradação enfática (cf. Prov 30." . conforme 2 Sam 24.1416.

as traduções grega dos LXX (séc. Salomão possuia quarenta mil mangedouras para os seus cavalos.. v d. é necessário outrossim se levem em consideração as glossas ou interpolações praticadas por mãos posteriores à do autor. Ora a tradução grega dos LXX em 2 Crón 9. Diante destas variantes. embora só esteja conservada em traduções.8. nos terão transmitido o teor de um arquétipo hebraico mais bem conservado do que os nossos. variante que mais fidedigna parece. mas de modo descabido. acontecia por vêzes que.2. reinou. Assim é que dão a ler: "Saul tinha um ano quando começou a reinar: reinou dois anos em Israel. em vez de esclarecer. A confusão entre "seis (sexto)" e 'sete (sétimo)" se explica fàdllmente. Em 2 Crõn 36.. a qual assinala a duração de quarenta anos ao reinado de Saul.6 (Vg 4.21. Segundo o texto hebraico de 3 Rs 5.). Com efeito.9 (texto hebraico) lê-se que Jeconías tinha oito anos quando começou a reinar.. 1/lI dc. interpretando fontes ou seguindo critérios atualmente desconhecidos. Os tradutores gregos. assim como a seção paralela de 4 Rs 24. quando começou a reinar. anos em Israel.26) e 2 Crõn 9. e exige imperiosamente. Ao se estudarem os problemas de números na Bíblia Sagrada. O contexto a exige.) e síria (séc.25.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 75 e (daleth) e (vau) j =100 (qof) e 7=200 (resh) J = 7 (zain) (resh) e =10 (iod) 7 = 200 Eis alguns textos em que as mãos dos copistas introduziram variantes errôneas Gên 2. refere outra tradição judaica. não se hesita em julgar que a segunda é a original.C. considerada a afinidade gráfica de j(vau = 6) e J(zain = 7). apresentam a forma: "Deus terminou no sétimo dia a obra que fizera. e repousou no sétimo dia.25 fala apenas de quatro mil mangedouras. lhe atribuem dezoito anos noinicio do seu reinado. III a. em At 13.1 se apresenta lacunoso: "Saul tinha a idade de. O texto hebraico atual. diante de um texto aparentemente obscuro. anos. um leitor desejoso de resolver a presumida dificuldade acrescentava um dado que. no caso. embora não atestada pela forma atual do texto hebraico. O texto hebraico hoje conservado de 1 8am 13.) dão a ler: terminou no sexto dia.. assim como a tradução latina da Vulgata (séc. dificil se torna reconstituir a realidade histórica.C." A causa do defeito não poderia ser indicada com precisão.. só fazia suscitar ." Ao contrário. ao passo que as traduções grega é síria. Eis mais urna divergência que muito provãvelmente se há de explicar por deficiente transmissão do texto original. e repousou no sétimo Dentre estas duas variantes." São Paulo. As traduções dos LXX e da Vg suprem a deficiéncia..

como o reino do Sul. sem que cada qual tivesse necessàriamente o montante de mil homens. como é o caso em Jz 6. milheiro.culdade se esvanece se se considera que o têrmo hebraico 'eleph. neste Último texto.19. Mlq 5. estas observações. menciona "800 000 guerreiros em Israel. bons exegetas admitem que o número de 470 000 em 1 Crôn 21.1 300 000 (2 8am 24) ou 1100000 homens de guerra (1 Crôn 21) . não chega a afetar a mensagem religiosa da Bíblia. Sendo assim. 'Eleph.5 seja o produto de Interpolação. porém. Com efeito. o leitor se vê diante de duas tradições existentes no povo de Deus a respeito do número de soldados do rei Davi: a tradição de 1 Crôn 21 e a de 2 5am 24. tais indicações bastavam para transmitir as verdades de índole religiosa que a história de Davi era destinada a comunicar aos leitores. Destarte se chega a plausível solução do problema." 20 A solução do problema é complexa. 1 5am 10. determinada subdivisão administrativa.8.23. que têm sido os mais copiados e estudados no decorrer da era cristã. em texto paralelo.15. Esta última dif. consignadas num total de 4 270 20 "IFraeI". designaria um batalhão (ordinàriamente de mil homens). . "Judá". mas permitiu que cada qual referisse simplesmente o que aprendera por via humana. podia designar a fração de uma tribo.76 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO um problema exegético. assim como a deficiente conservação ou a perda do original de alguns livros. em linguagem militar. apontam-se cêrca de 200 000 variantes. significando "milheiro". a quanto parece). outras vêzes o interpolador visava tornar mais semelhantes entre si dois textos que lhe pareciãm afines um com o outro. como centuria em latim significava o batalhâo (ordinàriamente de cem soldados). e 500 000 em Judá. ainda se deve reconhecer que qualquer das cifras . mesmo quando o efetivo dos batalhões já não era respectivamente de mil ou cem homens. Aplicando-se tal hipótese aos textos de 1 Crõn 21 e 2 8am 24.5 lê-se que sob o rei Davi "todo (o povo de) Israel contava 1100000 guerreiros.9. O fato de que Deus haja permitido a introdução de erros de cópia no texto sagrado. Em primeiro lugar. Assim se originavam complicações para o futuro intérprete da Escritura Sagrada. e Judá 470 000 guerreiros".. 23. Feitas. Já que éstes dados são Indiferentes à mensagem religiosa da Biblia. note-se que algumas recensões gregas de 1 Crôn omitem a cifra de 470 000 guerreiros em Judá. conclui-se que sob o rei Davi havia 1 100 ou 1 300 batalhões em Israel. é entendido como o reino cismático do Norte.. supôe um total de quatro ou cinco milhões de cidadãos em Israel nos tempos de Davi . Ora pode-se bem admitir que os nomes 'eleph (= milheiro) e centuria hajam sido conservados na linguagem cotidiana.. pois.é excessiva. observa-se que a primeira cifra (1100 000 homens armados) se refere a todo o povo de Israel (incluindo a tribo de Judá. Eliminada esta cifra. o Espírito de Deus não se dignou revelar aos hagiógrafos o número exato de guerreiros. Ora o autor de 2 8am 24.o que é inverossímil. Além disto. relativamente poucas são as variantes de alcance dogmático ou teológico registradas nos códigos sagrados. Haja vista apenas o seguinte exemplo: Em 1 Grôn 21. Assim nos livros do Novo Testamento..

sóbre o qual o Senhor fêz sua entrada solene em Jerusalém. não exaustivo. uso ou omissão de preposições. para que a defectibilidade das criaturas não deturpasse a mensagem do Criador. artigos. a Sagrada Escritura mesma fornece outros textos. Lucas (19. Jo 1. não julgavam dever advertir o leitor a respeito do artifício. 1 Tes 2. porém. Lc 2. as enumerações costumam ser exatas. se acrescenta tàcitamente o advérbio "sàmente. portanto. Um pouco menos de 200 variantes tocam o significado do texto em pormenores secundários (cf.2-7. 1 Tim 3.16. porém. não exclusivo. O orador deixava simplesmente de mencionar tôda a quantidade.30-33) e S..2-4). mais ou menos paralelos. a grande maioria versa sôbre ortografia.18.13. sem querer impedir as vicissitudes por que naturalmente passam os manuscritos antigos. porém. Lc 22. Cêrca de quinze apenas dizem respeito a assuntos dogmáticos (cf.51. apenas". 1 Cor 15. assim falando. O semita. a menos que o contrário se imponha pelo contexto. 5. Mc 1. emprêgo de sinônimos. Destarte a Providência Divina. contudo. não atingindo o sentido do que o autor sagrado queria dizer. Usavam assim o número em sentido precisivo.1.7. Rom 12. há menção de um jumento e do jumentinho seu filhote. para resolver as dúvidas teológicas provenientes de tais oscilações.. porque nem tudo vinha ao caso ou era de interêsse na narrativa A cifra enunciada correspondia à realidade considerada sob certo aspecto.19s. fazia também enumerações que apenas prescindiam de quantidade maior. não excluia.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 77 códigos. SENTIDO EXCLUSIVO E SENTIDO PRECISIVO Entre os princípios que norteiam a exegese dos números bíblicos. Marcos (11. Mt 1.16. Como se há de entender a divergência? . posição de palavras na frase. absoluto.). dá-se-lhes assim sentido exclusivo.).. que outro número. ou sentido taxativo. fôsse também fiel à realidade (considerada então sob aspecto diverso). mais vultuoso. S. excluindo cifra mais elevada do que a referida.14s) referem que os discípulos levaram a Jesus um jumentinho. destas variantes. Em Mt 21.14. João (12.. Que quer isto dizer? Entre nós. embora usasse dêste nosso modo de falar. sem a excluir. não exclusivo. Não obstante. não obstante. ocidentais modernos. Eis como tal modo de falar repercute em passagens da Sagrada Escritura: S. sôbre cuja fidelidade literária não pairam questões. velou. aos números. não se poderia deixar de mencionar mais o seguinte: os semitas às vêzes atribuíam às suas enumerações sentido precisivo.

De modo semelhante ammciaram os anjos às mulheres santas: "Preceder-vos-á na Oahléia.30). o Messias haverá de perder o seu primado ou a sua realeza.2) e S. Lc 24.9. isto não quer dizer que. Disto se conclui que as profecias de aparições na Gallléia tinham sentido precisivo. Famoso é outrossim o uso bíblico da conjunção "até que" em Mt 1.32: "Depois que tiver ressuscitado.25 está dito que José não se uniu a Maria "até que desse à luz o seu filho. mas também aos Apóstolos (cf. ao sair de Jericó. não exclui o 'depois que".46-52) descreve como. Até que eu faça de teus inimigos o supedâneo de teus pés. tal interpretação contradiria a tôda a teologia bíblica. S.78 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A primeira proposição não se opõe à segunda.. conforme a tradição exegética vigente desde os tempos mais antigos. José tenha tido com ela comércio conjugal. Em outros térmos. no texto paralelo. não "Na Galiléia.lls). se se atribui ao enunciado de Mc. Marcos (10. após debelados os inimigos do reino messiânico.s santas mulheres (cf." O oráculo não significa que. Também nas suas indicações cronológicas os semitas faziam uso dos têrmos ora no sentido exclusivo ora no precisivo.1 anuncia: "Javé falou a meu Senhor (o Messias): Senta-te à minha direita. naturalmente. O recurso a tais instrumentos exegéticos há de variar. lá O vereis.28) refere dois homens endeinonlados. que Jesus libertou do demônio. estas são outras tantas divergências em que o principio acima exposto encontra aplicação. Mateus (20. dependerá sempre do exame do gênero literário usado pelo hagiógrafo.7. não sentido exclusivo. Ora. Mc 14. *** As considerações dêste parágrafo visam tão-sàmente indicar as principais vias que conduzem à genuína interpretação dos números ocorrentes na Sagrada Escritura. na narrativa dos evangelistas realmente só Interessava mencionar o animal que Jesus montou. É o que nos leva a dizer que também neste versiculo não se deve atribuir ao têrnio "até que" sentido exclusivo. Marcos (5. cf. preceder-vos-ei na Gaiiléla". no caso.. Mt 28. Êste exame manifestará as principais leis de estilo que o autor sagrado tenha seguido ao empregar os números. não exclusivo. fala de dois cegos. Jo 20. disse Jesus aos Apóstolos. o Senhor curou um cego. .". o 51109. ao passo que S. vereis a Jesus". mas apenas precisivo. 19. Mt 28.36. Le e Jo o sentido precisivo dos orientais. Exemplos déste Último têm-se em: Mt 26.) Contudo os evangelistas mesmos referem que no dia da ressurreição Jesus se mostrou em Jerusalém não sômente à. Ora.28. cf. matemática. após haver Maria dado à luz. S." (Mc 16. Portanto. apenas "pTescinde" ou faz abstração do que aconteceu depois. Lucas (8. porém. Jo 20. Mateus (8.26).27) mencionam um homem possesso. ensina a sã exegese. De antemão. S. de caso a caso. significavam: "Na Galiléia certamente vereis a Jesus (e aquelas manifestações serão as principais) ".17. pela primeira vez. "até que". da realidade. porém. ficará o leitor consciente de que nem todo número na Bíblia quer e deve ser entendido como a expressão quantitativa.

suas histórias e afirmações. de aparência por vêzes sólida. para o cristão ou. a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é PalaMarcion (Leipzig2." 1 A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo. da honestidade ou da ciência moderna. XVI. 191. hereje do séc. rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha. julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompativel com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento. ]933). Surgiu mesmo no início da era cristã. Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. para o homem moderno. 40. 1 2 . que a Grande Igreja fêz bem de evitar. após o séc.). d'Harcourt. escrevia: "No séc. no séc. Citação encontrada na obra de R. Mas. II e fundador de seita. Adolf von Harnack (t 1930). à primeira vista. Rosenberg afirmava que a antiga Biblia não é mais do que uma "coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros". mais largamente. consumara a Revelação do Antigo Testamento. Mediator Dei. quando os homens perceberam que Jesus. XIX. A questão não é nova. o proveito que possa acarretar tal leitura. por exemplo. possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara. o Papa Pio XII notava com Sumo pesar haver entre os católicos "quem queira cancelar dos autênticos livros de oração pública os textos sagrados do Antigo Testamento. Na Alemanha. conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo. 217. etc.CAPÍTULO V O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO Não e raro ouvir-se a pergunta: "Qual o valor que. não se vê. Assim Marcion. rejeitava categôricamente os livros sagrados dos israelitas. fascismo. Catholiques d'AUemagne (Paris. é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica. pretextando que tais Seções são pouco convenientes e oportunas em nossos tempos" (Fnc. por conseguinte. o Messias. Acta Apostolicae Sedis 39 [1947] 545). entram em conflito com as normas do Evangelho. guardá-lo era uma necessidade fatal. 2 Não obstante as objeções. II. como se fôsse uru documento can6nico. De resto em 1947 SS. á qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. provocando "escândalos" de ordem moral ou científica. 1924).

datada de 21 de março de 1937. ora preparada e anunciada (Antigo Testamento). 102s. é. nos leva a dizer que tôda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora. Em conseqüência. examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. portanto como o Ungido por excelência (à semelhança de Davi e dos demais reis de Israel.80 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vra de Deus imperecível. que eram sempre ungidos). § 1. ora efetuada (Novo Testamento). após a ruptura. a seguir. Ungido. 5 Messias é têrmo hebraico que. em última análise. por vicissitudes de tradutores. Isto faz que tôda a história. . etc. 4 A aliança é. máximas de sabedoria. também para os nossos tempos. porém. 4 Sãbre o conceito biblico de 'Aliança".° DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META Quem abra o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história. Aos poucos. V e VI). o nome Cristo se foi tornando estritamente nome pessoal do Senhor Jesus. designa na linguagem bíblica o Restaurador prometido por Deus. que. as variadas páginas do Antigo Testamento . era simplesmente dito o MESSIAS. significativa. restaurar o pacto mediante novo homem dito "o Messias". possui a função de Messias (cristo.O têrmo hebraico Messias tem seu correspondente exato no grego Christós. significando Ungido. interessa-nos. mas Deus. eta$s que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. a encíclica de Pio XI "Mit breunender Sorge". do pontõ de vista de Deus. sim. prometeu. que não se deixa vencer em bondade. Rei teocrático). é comumente dita "Testamento". êste. Chrzstós é. Jesus (o) Cristo é expressão que se poderia assim desdobrar: o homem que tem por nome civil Jesus (salvador. . tome. sejam crônicas. cânticos religiosos. profecias. de então por diante. sejam leis. conforme as páginas iniciais da Bíblia. travada com o primeiro homem logo depois da criação. direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. não a soube observar. Já que as profecias em Israel o apresentavam como o mais glorioso descendente do rei Davi. Por conseguinte também. 3 Tenha-se em vista. É isto o que. por exemplo. em hebraico). primãriamente a designação de uma função. 1 Sendo assim. Com efeito. portanto. violou-a. para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual. o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida.diríamos mesmo: de tôda a Sagrada Escritura não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. veja-se pãg. pois. antes do mais. consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura. sejam profecias. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história. tradições populares.

estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 81 Esta afirmação. tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado. abaixo. carece de caráter religioso. os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor. . tanto no individuo como na sociedade. O É o autor de Edo 17. 7 Em linguagem paulina. O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gên 1-3) caracterizada por três acontecimentos: a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem. pela criatura. "a Cidade do Diabo" e "a Cidade de Deus". não constitui senão a periferia do Antigo Testamento. Eva penitente e todos aquêles que. não pactuam com a serpente. mas. ou. Gên 3. ao mesmo tempo. 1 .22). considerada à luz de Deus. 1. muito dramático. Eis o aspecto muito simples. pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fêz tanta coisa fôsse escrita sob o carisma da inspiração. a mulher esua posteridade. pois. manifestações ora mais claras. no vocabulário de S.10 quem fala de aliança conclulda no paraíso entre Deus e os primeiros pais. após a queda original. Percorreremos. pois. a serpente e sua linhagem. que a história universal tem aos olhos de Deus.Jo 2. são. isto é. doenças foram. manifestações do reino do pecado ou de Satanás. em outros têrmos. as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico. Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história. conforme S. Agostinho. ainda assaz genérica. éstes dois antagonistas podem ser chamados 'o mistério da iniqüidade" e "o mistério de Cristo" (f. guerras. por graça de Deus. por mais explicável que pafeça á luz de fatóres naturais ou mecânicos. 'o Anticristo" e "Cristo" (cf. pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. deve. doutro lado. do reino de Cristo. ora menos evidentes. isto é. Inegàvelmente a história que êle nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. porém. procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus. introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão. 6 violada. todos aquêles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores). o ôlho da fé pode e deve discernir. Tal aspecto. Deus a promete restaurar.2).7 e Col 2. porém. de outro lado.15). a descendência da mulher e a da serpente (cf. São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos. é o jôgo dêstes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos individuos. sim. sob a face externa. ou ainda. 2 Tes 2. o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários. quando se consumará a vitória do Bem sôbre o mal. fomes. João. procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios. a história. Isto implica que.

A própria monarquia. dêsse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. dando-me. Daí chamar-se êste segundo marco da história ". dito da Samaria. provisória e nacional. a corrução se alastrava entre os homens. humanamente mais "garantido". . sim.A PROMESSA". 8 queria um govêrno menos dependente da Providência insondável do Criador. Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldéia. Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração. Por volta de 1020 a. dito de Judá. Éste desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fôra governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes). sem intermediário régio. Já que. por meio de Moisés. para Canaã (Palestina atual).. mais fundado sôbre bases que o bom senso pode apreciar (tal é. travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano.C.82 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus. Instaurou-se então o REINO de Israel. a monarquia).. uma constituição teocrática. Em vista disto.C. após o primeiro pecado. Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos. O surto do povo de Deus foi confirmado por cêrca de 1240 a.C. por volta de 1800 a.7. e reino do Sul. como lembra o próprio Deus falando a samuel em 1 5am 8.: tendo Israel caído cativo do Egito. A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para tôdas as nações. a MONARQUIA. Os dois pequenos Estados irmãos. ou seja. que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930). aliança. A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA. acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte. porém. A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA. terra idólatra. politicamente insigni8 O Senhor fõra até então o Rei de Israel. Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã. Samaria e Judá. sem dúvida. A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada.1-3). a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gên 12. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos.

Muito digna de nota é a epopéia dos irmãos Macabeus (165-134). que queriam paganizar o povo de Deus. Restaurador da ordem religiosa.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO . os quais. sacrifícios. quase malogrados. Em 538 Ciro. infelizmente. conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus. . ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita. os habitantes de Judá sofreram o EXILIO. Também êste foi altamente pedagógico para o povo de Deus. pois lá haviam adquirido certo bem-estar ffiaterial. passando a conceber o Criador de modo muito mais puro. um reino tal que "quem não o recebe como uma criancinha.15). a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias. Privado de todo o aparato exterior (templo. os israelitas fàcilmente confundiam a figura do Messias. moveram a resistência contra os sírios. prosperidade humana. A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política. DE DEUS.. comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio. contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de 9 CL pág. porém. era o chamado RESTO DE ISRAEL. 59. messiânica. Judá passou a viver como COIVIIJNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro. sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Sarnaria em 722 se tornou prêsa dos assírios. que sua missão religiosa não estava necessàriamente ligada com sua missão nacional. a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa. O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus. com a de um Libertador político. mas fervorosos adeptos de sua fé. os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica 9 da Divindade e da religião. de desconcertante para o "f 116sofo". Mc 10. deveria esperar o REINO. ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios. rei da Pérsia. oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas. Israel.83 ficantes. vibrando de autêntica piedade. nêle não pode entrar" (cf. Javé assim lhes mandou uma "redenção". gregos. Deportados para a Babilônia em 587. sírios e romanos sucessivamente). egípcios.. humanamente falando. com tudo que êste reino implica de transcendente. Note-se bem: êsse resto se constituía de judeus pobres. que ainda era etapa em demanda da Redenção plena. que lhes sufocava o fervor teocrático Após o exílio.

dos espíritos. 2 Cor 3. se mudou em promessa de bens transcendentes e impereciveis (cf. segundo Adão. . "não ter" a vida eterna. Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus.34 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pensar. a PROMESSA. a sorte póstuma do homem. ao mesmo tempo.25. Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história. que visava aparentemente a posse de Canaã e uma mansão terrestre. induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sôbre a morte e as demais conseqüências do pecado). não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento. ou seja. em Pentecostes. prolonga-se já por vinte séculos.14) . o REINO davidico se transformou em REINO DE DEUS ou dos céus (ef. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). são tempos de máxima tensão. mas cinicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. foi admitindo outrossim certo universalismo religioso. ou seja. Mt 5. a ALIANÇA mosalca se mudou em NOVA ALIANÇA (oL 1 Cor 11. que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada. a noção de que os bens messiânkos não se destinam a um povo apenas. mas a tôdas as nações da terra. em que o cristão experimenta o que é "ser" e. poder-se-iam assim reproduzir os grandes marcos da história sagrada: 10 Deve-se mesmo dizer que Cristo recapitulou e consumou os grandes marcos da história anterior.3).5). Pelo Redentor. "ter" e. ao mesmo tempo. com efeito. 7. Mt5. "não ser" filho de Deus. 10 Da vinda de Cristo em diante. Finalmente na plenitude dos tempos veiõ o Messias. Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus. Uma vez completo o número dos qüe entrarão na bem-aventurança. Esquemàticamente.

'a ½ o 'a -4 O cd CO E O QI lcd cl O cd cd 02 o' a. O o cd cd o.i cl . cd cd a. rx pq O o O 'cl cl O ri) pq cl z o .a - rA ti0 Çt o ed -01 cq Z O ri) 01 o cd t -o 'a 1 o 01 O) CV) O -1 c' 1 LI .O SIGNITICADO DO AIÇTIGO TESTAMENTO 85 — -4 O' O.l c o-- ía.- o Ei ri o O O 04 co . cd cdd -a. O O o ½ -1 z co •lI eM ½ 02 •c 02 o -4 O z o Ei02 .

As experiêncas. a intervenção gratuita e soberana de Deus na história.86 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Quanto ao Antigo Testamento em particular. o Espírito de Deus quis. dêsse catecumenato. não sàmente por palavras. a Promessa. a Monarquia. mas. o Exílio. por êsses personagens ou fatos misteriosos disseminados. a fraude de Jacó nas relações com seu irmão Esaú. Les idées maftresses de l'Ãncien Testament (Paris. Gelin. a Aliança. se poderiam dizer infantis. mas porque o Senhor queria disseminar por tôda a história sagrada acenos à plenitude dos tempos. quis ou permitiu tais coisas "estranhas" não porque. a história do dilúvio e da arca de Noé . Ss. 1949). viveu e aparentemente descobriu a via da salvação. o Ser Transcendente (assim todo o ritual do cordeiro e do sangue que o Senhor mandou aos israelitas observassem por ocasião da saída do Egito. a reconsiderar em nível mais espiritual o que êle viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula: "Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda." 1 1 § 2. sim. faz-se mister ainda realçar uma característica do processo pelo qual a Sabedoria Divina quis instruir os homens no Antigo Testamento. Deus.. consideradas em si. Isto quer dizer: há no Antigo Testamento coisas e episódios que. os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história. ao Messias. e seriam plenamente inteligíveis após a vinda do Messias. talvez pouco dignos de Deus. povo que não tinha gênio metafísico.. Tais acenos ou tipos. portanto. porém. O Antigo Testamento é a história dêsse continuo "ultrapassar-se a si mesmo". dessa espiritualização crescente. manifestariam cada vez mais o seu significado. formulou-a pouco a pouco. os reveses. mas também por meio dos denominados "tipos bíblicos". o sacrifício de Abraão. fôssem capazes de edificar os leitores (!). mas religioso. ). O Antigo Testamento é a história dêsse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha. o leitor deveria ser recordado de que não é a sua indústria ou "sabedoria" humana que o salva. com o decorrer dos séculos. se projetavam os traços e a luz do que havia de vir posteriormente. prenunciar a história do Messias e do reino messiânico. Tal característica bem pode ser chamada a chave para se interpretar a literatura inspirada de Israel Com efeito. as tentativas. Nin11 A. Ésse povo nos aparece movido por um impeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente. a Comunidade. . ou num plano meramente natural. nas Escrituras. Nesses particularès do Antigo Testamento.0 OS TIPOS BÍBLICOS Terminado êste breve percurso da história sagrada. considerados em si mesmos ou à luz da "sabedoria humana".

em tõdas as Escrituras." (Lo 24. fala de Jesus.46.44-463 "Moisés.23.39: "Sondais as Escrituras.25-27. dessa 12 Não será isto uma evasiva semelhante à dos estóicos e filósofos pagãos posteriores que. Quem se fecha a essa perspectiva. acreditaríeis em Mim também. E como se nos manifesta tal intenção divina? De maneira geral dizia Cristo que tôda a sua vida e obra fôra predita "por Moisés.) "Moisés e os profetas" é expressão sumária para designar tôda a Escritura Sagrada (cf. 1"Se acrejitásseis em Moisés. pelos profetas e os salmos". vê-se. nos profetas e nos salmos. Rom 3. ora sao elas que dão testemunho de Mim. apresentam a antiga história de Israel e prescrições rituais. interpretavam arbitràriamente a mitologia num sentido alegórico. explicou-lhes.. por muito rude e primitiva que pareça. tipos todos orientados para seus correspondentes antítipos. cada uma das quais recebia o nome do seu livro ou autor principal. o que a Éle dizia respeito. julgando indignos os mitos narrados por Homero e pelos primeiros "teólogos" gregos.14.45. tal atitude exegética seria subterfúgio sutil se o próprio Autor Divino das Escrituras não nos tivesse revelado o seu intento de prefigurar o Novo Testamento nas páginas anteriores a éste. etc. necessãriamente. segundo os judeus. todos os profetas e tôdas as Escrituras". Êste era dividido em três partes. donde se segue que. civis.) Cf. mostrando-lhes como sua paixão e glorificação se acham prenunciadas nestes livros. como se as diversas peripêcias do Olimpo significassem verdades filosóficas? 13 são palavras de Jesus ressuscitado aos apóstolos: "Eis o que vos disse quando ainda estava convosco: era preciso se cumprisse tudo que a meu respeito está escrito na lei de Moisés. a partir dos quais hão de ser entendidos.15. Jo 5. e disse-lhes: "Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia. Pergunta-se. pois foi a meu respeito que êle escreveu. 13 Aos discípulos de Emaús Jesus expôs "Moisés. na impossibilidade de avaliar o Antigo Testamento. começando por Moisés e (continuando) por todos os profetas. separando-as da história subseqüente." . Profetas e salmos" são têrmos que. justamente os da Lei mosaica são os que menos vaticínios explícitos contêm a respeito do Messias. Lo 16. pois julgais por elas possuir a vida eterna. li ora. 28. dentre os Jivros do Antigo Testamento.29." Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras. Jo 1. 4 "Disse-lhes: 'Õ homens sem entendimento e tardos de coração para crer em tudo que disseram as profetas Não era preciso que o Cristo sofresse para entrar em sua glória?' E. 24. 14 Mais ainda: afirmava o Senhor que a Lei mosaica mesma.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 87 guém. como se fôsse intencionado por Deus qual imagem de algo de posterior e mais sublime? 12 Não há dúvida. designavam todo o catálogo das Escrituras. e não quereis vir a Mim para ter a vida." (Jo 5. pode pretender interpretar tais figuras. elas são essencialmente sinais. pois.21). At 13. porém: não será arbitrário querer explicar o que o Antigo Testamento tem de estranho." (Lo 24.31.

20). Melquisedeque. Si 109).15).31s) Abraão e seus dois filhos (Gên 16. Hebr 11. Principe da paz (cf. Jo 19. espõsa e mãe (Gên 2.21-24. a nós que chega- "Tôdas essas coisas lhes aconteciam em figura (typi- mos aos fins dos tempos. Hebr 1. valor de sinais do Messias. Hebr 7.21-31) = tipo do batismo (cf. discorreu com êles na base das Escrituras.20) = tipo da Igreja. Paulo faz eco às asserções de Jesus.6): koos). explicando e afirmando que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos" (At 17. Esaú e Jacó (Gên 25. o maná no deserto (Êx 16. recorrendo às Escrituras do Antigo Testamento. Espâsa e Mãe (cf.11s) • passagem do Mar Vermelho (Éx 14. no Antigo e no Novo Testamento (cf. Col 2. Rebeca e seus dois filhos.1) = tipo do Filho de Deus Encarnado (ci. e foram escritas para nossa erudição. também Paulo manifestava aos seus ouvintes o caráter messiânico da paixão e da ressurreição de Cristo. S.13s) = tipo do alimento do povo messiânico (cf. • circuncisão (Gên 17.26) = tipo do futuro (cf.11. Ape 2. 1 Cor 10. segundo o grego typoi) do que nos concerne" (1 Cor 10. durante três sábados. a primeira mulher. Jo 3.33-37) as graças e punições do êxodo = tipo das graças e punições do Cristianismo (ci. Rom 5. Jo 6.8s) = tipo do Salvador crucificado (cf.14) 16 Em Tessalonica.2s).1-3.ls).25) = tipo das duas dispensações da graça.88 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO história e dessas leis. 21. Múni 9.) Como Jesus. alguns episódios (ao menos os mais característicos) e alguns preceitos devem ter valor típico.15. o cordeiro pascoal (Êx 12. Rom 9.14).9-14) = tipo do batismo (ci. 21-26) = tipo do povo messiânico (cf.17) a serpente de bronze (Núm 21. 3.17-20) = tipo de Cristo Rei e Sacerdote (cf. o Autor Divino da Bíblia nos deu expilditamente a conhecer que é tipo das reaiidades messiânicas. asseverando que os diversos acontecimentos do êxodo de Israel (passagem do Egito para Canaã) se deram a titulo de "figura (tipos.10-13) Salomão.5) o filho de Deus no Antigo Testamento (Os 11. 1 Cor 10.12) = tipo da Vitima perfeita (ci. Paulo foi ter com os judeus e. o sacrificio de Isaque (Gên 22. Gál 4. Ef 5." (1 Cor 10. Eis a lista completa dos trechos do Antigo Testamento dos quais. as águas do dilúvio (Gên 7) = tipo do batismo (cf. o rei pacifico (2 5am 7.49-51.22-31).14) = tipo do Messias. rei e sacerdote que oferece pão e vinho (Gên 14. "conforme o seu costume. . Mt 2. se pode dizer que têm sentido típico: o primeiro Adão (Gên 1. 16 A respeito de um ou outro personagem ou acontecimento particular.1-11). com certeza garantida pelo próprio Deus no Novo Testamento. 1 Pdr 3.1-19) = tipo do sacrificio de Cristo (cf.46.17-19).

não podem ser reconhecidos. que gozava do privilégio de livre acesso ao rei (Est 15. o justo imolado por seu irmão Caim (Gên 4. pois. Com isto.39s). outro mais abstrato.'ide Cristo (ci. ora mais vívído.4-19) = tipo de Maria Santíssima dotada do privilégio da Imaculada Conceição. porém. Fonte e consistência da alegoria estão. com absoluta segurança. 17 Em resumo. além dos citados. Ester. espiritualizado. a alegoria. único senhor capaz de dispor acontecimentos pretéritos da história em vista de outros futuros.1-34) = tipo da Redenção (ci.3-15) = tipo de Cristo sacrificado pelos seus. a vitória de Davi sóbre Golias (1 Sam 17) = tipo da vitória de Cristo sôbre o demônio. 17 Em linguagem técnica. que afirmamos existir na sagrada Escritwa. Mt 12.1-11) = tipo da morte e da ressurreiçë. atribuindo-lhes. 1 Crôn 1-9). não deixam.7-9) o perigo mortal de Jonas e a subsequente libertação (Jon 2. ora mais pálido. Contudo os textos que. Ao contrário. alusivo a Cristo. existam outros tipos no Antigo Testamento. ao contrário. o mistério do Cristo (cf. não está dito que tôdas as seções do Antigo Testamento se referem diretamente ao Messias e ao seu reino. como aceno ou figura longinqua. J05 13-21). de crer que. além do seu significado imediato.2) se projeta esquemàticamente. fonte e consistência do tipo se acham na mente de Deus que. Judite. Col 2. nos primórdios e no decurso da história sagrada. na mente do escritor que dela se serve. objeto ou acontecimento da era messiânica. como êstes. pois. a outro personagem.1-50. A êstes se podem acrescentar outros traços cujo sentido típico é garantido pelo unânime testemunho da tradição cristã: Abel. a mulher forte por suas virtudes (Jdt) = tipo de Maria Santissima. dispõe haja homens e fatos no pretérito relacionados com análogos futuros. é um fenômeno prôpriamente literário: consiste em que o escritor use de determinados vocábulos. descrições geográficas (cf. se distingue da alegoria pela característica seguinte: o tipo implica um personagem. o tipo. Josué. só tenham sentido literal muito simples. o Patriarca vendido por seus Irmãos e salvador dos mesmos (Gén 37. no fim dos tempos estará consumado. chefe do povo de Deus (Jos) = tipo de Jesus Redentor. seria artificial e pernicioso querer descobrir em cada passagem da Bíblia um significado simbólico. porém. Hebr 9. regendo a história. pois. diremos: são os testemunhos da Escritura mesma que nos levam a ver no Antigo Testamento uma longa preparação para o Cristo. diversas narrativas que carecem de interêsse religioso imediato. José. Deus o pode perfeitamente fazer já que todos os tempos lhe são igualmente presentes. . senão por revelação do próprio Deus.26) = tipo de Cristo entregue por 30 moedas e Salvador do mundo.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 89 o rito do dia da Expiação (Lev 16. basta lembrar que na Escritura há tabelas genealógicas (cf. Não há dúvida de que nem os autores inspirados nem a tradição cristã tinham em mente enumerar todos os tipos da Escritura sagrada. um objeto ou um acontecimento que realmente existiu na história e que Deus houve por bem ordenar. É.

fornecem a trama necessária para que pessoas e fatos se articulem orgânicamente em vista da grande finalidade que é o Messias. não obstante. porque constitui um dos tipos mais famosos do Messias (= Filho de Davi). o Espírito Santo não julgou necessário comunicar alguma revelação a tal escritor a respeito de particulares que só desempenham papel secundário no Livro Sagrado. pois constituem o arcabouço que sustenta os grandes marcos da história sagrada. Agostinho: "Nas citaras e em semelhantes instrumentos musicais. dela nasce Obed. apõs vacilações de amor. essas noções foram consignadas no Livro Sagrado tais como as conhecia ou podia conhecer o autor humano da Bíblia. Cristo é. é três vêzes (ou por excelência) o que foi o rei Davi (cf. como filho de Davi. nas narrativas proféticas. cf. Redenção messiânica (1240) (538) * * * 18 Já que a sagrada Escritura alude a muitas noções de índole profana.9. os demais elementos são colocados no conjunto da citara. ou. Jer 30. Os' 3. Semelhantemente: Êxodo do Egito -. pág.5). de exprimir." (Contra Faustum Mau.1-17. 18 Mais concretamente ainda: as genealogias.90 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO por isto. 19 Eis uma comparação oportunamente sugerida por S.94.) .17) e. êstes. que. narra a história . a figura de Davi é longamente descrita nas Escrituras. ou por Si já significa algo de futuro. mas também de tôdas as nações da terra. 22. Cf. é esposada pelo israelita Booz e assim entra no povo de Deus. mas produzem-no apenas as cordas.17: trata-se de introduzir na história sagrada a genealogia do rei Davi. é descendente de Rute. Mt 1. êxodo da Babilônia -. 30s. dão forma e colorido à figura do Messias. não tudo que se toca emite suave som. pois. contràriamente ao estilo das genealogias orientais.5: Cristo é Davi por excelência). cf. eis a mensagem que S. a estrangeira (um dos quatro nomes fentninos expressamente citados na árvore genealógica de Jesus. Mateus pode comunicar. ao apresentar a pessoa do Messias no Evangelho.. 19 Eis um exemplo muito expressivo entre outros: o livrinho de Rute. pai de Isai e avô de Davi. encontra-se no livro sagrado a fim de que pudessem ser inseridos os trechos que significam algo de superior. que só indiretamente têm relação com o tema primário da Biblia . as indicações cronológicas e geográficas dão forma à história dos reis de Israel e dos personagens do Antigo Testamento.23s. Em esquema: História de Rute . Ez 32. por sua vez. bastava que tais noções fóssem dotadas da veracidade comumente dita "popular. se não o significa.aparentemente insignificante do ponto de vista religioso . Ora. Por que terá o Espírito Santo outorgado o carisma da inspiração para se escrever história tão humana? A finalidade imediata se depreende de Ru 4. a fim de que haja aonde as cordas sonoras se prendam. tendo por base a história aparentemente profana de Rute. Da mesma forma. com seus quatro capítulos. pré-científica". Mt 1.história de Davi . conforme o Evangelista. Por sua vez.de uma estrangeira moabita.a pessoa e a obra do Messias (Mt 1. o tema messiânico. o Salvador não só do povo de Davi.. junto com os demais. Mateus 'recapitula" essas duas histórias anteriores: Cristo. chamada Rute.o Messias -. aquilo que dentre os feitos dos homens é descrito em espírito profético.. S.

não lhe darão fé. 20 Esta conclusão será ulteriormente esclarecida e confirmada pelo que se há de dizer no capítulo seguinte.) que convinham à celebração da Páscoa judaica. Liturgia ou pelos seus ritos e preces oficiais que a Igreja mostra como entende e quanto estima o Antigo Testamento. sem que se estime e valorize o Antigo Testamento. É o próprio Jesus quem o insinua delicadamente numa de suas parábolas: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas. do gênero humano cativo sob o jugo do "Faraó" dêste mundo. Não. tirar a êste o valor de consumação de sábia pedagogia divina. sentido muito mais manifesto do que antes de Cristo. ora com dizeres explícitos. Comparação proposta por Hamman. Não é por mero espírito de tradição ou conservativismo arqueológico que ainda hoje os cristãos se servem dêstes textos. ao comemorar os mistérios da Redenção simplesmente dita (morte e ressurreição de Cristo). por qualquer pretexto que seja. É por isto que. que são escritos com caracteres hebraicos. a Santa Igreja faz passar ante os olhos dos fiéis os textos respectivos do Antigo Testamento (em particular. hoje em dia. aos episódios do êxodo no de20 Os Santos Evangelhos se poderiam comparar a jornais dos judeus modernos. Evangelho.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 91 Estas considerações. é dado aos cristãos ver os antítipos. ritos legais. Nos tempos presentes. mais importante. do Príncipe das trevas (cf. as realidades mais plenas outrora esboçadas.313 Impossível. Está claro que ninguém pode entender as noticias modernas e sensacionais dêsses periódicos se não conhece o alfabeto judaico antigo que as veicula. efetuando esta Redenção mais valiosa. principalmente do alemão antigo (que constitui a substãnoia do idioma chamado "yiddish"). os ensinamentos de Cdsto não poderiam ser devidamente assimilados. Ef 6. Em conseqüência. os que se referem à imolação do cordeiro pascoal. 8. por resumidas que sejam. . em La Vis Spifltudlle. à travessia do mar vermelho. Assim também ninguém entende plenamente o S. aos olhos da fé. enquadrou-a dentro das circunstâncias (data. impossível ser cristão. 85 (1951). não deixam de pôr em relêvo o significado do Antigo Testamento. ou seja. ora com imagens e figuras. os textos do Antigo Testamento têm. 'Pourquoi faut-il lire l'Ancien Testament". das imagens. Haja vista principalmente a solenidade de Páscoa: a libertação dos israelitas cativos no Egito (Páscoa judaica) realizou-se para possibilitar a libertação.12). em vista da Igreja). exclui-lo do uso dos cristãos equivaleria a volatilizar o Evangelho. Cristo mesmo. Ë principalmente através da S. as grandes fases da história sagrada pré-cristã eram etapas que Deus dispunha em vista do Cristo e do reino de Deus (por conseguinte. portanto. com isto o Senhor sobrepôs à Páscoa "típica" a Páscoa em sentido pleno. mesmo se alguém ressuscite dentre os mortos. etc. ao lado dos tipos. pois." (Lc 16. pois. a Santa Igreja compõe em tôrno dos ritos uma moldura de textos do Antigo e do Novo Testamento que elucidam. crer na autêntica mensagem de Jesus Cristo. caso desconheça o seu fundo de Antigo Testamento. Querer. de que fala o Antigo Testamento. mas vocabulário de linguas ocidentais. após a vinda do Messias. aquilo que se celebra no culto cristão. ao celebrar os mistérios do Crista e da Redenção na Liturgia. a Igreja tem consciência de continuar em sua vida a história do povo de Deus iniciada no Antigo Testamento.

92 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO serto). 6.8. Êstes trechos fazem o papel de aceitos antigos às realidades presentes (o que se torna evidente se se confrontam os textos da Liturgia da Semana Santa com a tabela de tipos aciha proposta). A erva seca e a flor murcha.) . "Tôda criatura é semelhante à erva E tôda a sua graça é como a flor dos campos. Mas a palavra de Deus permanece para sempre !" (Is 40.

Convém-nos agora aprofundar uma das conseqüências mais importantes que desta afirmação decorrem. por si sempre tendente ao grosseiro e material. c'est sa direction. Aquilo a que o cristão deve primàriamente voltar a atenção. para obter esta convergência. . 57 (1947) • 8535. a justa sanção etc.. um movimento ascensional contínuo: um povozinho do Oriente. e a Sagrada Escritura em geral. em todo o decurso do Antigo Testamento o Senhor respeita a criatura e suas fraquezas. mostrando-se continuamente incapaz de viver coerentemente com tão elevada ideologia. nem de ciências naturais . a trama da história que lentamente se desenvolve ante os seus olhos. suportes de uma única grande idéia. Deus violente o homem e a natureza. apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram. nem de história. da Pérsia. da Grécia e de Roma).CAPÍTULO VI AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA No capítulo precedente verificamos que a idéia do Messias domina todo o Antigo Testamento. ao contrário. destituído de gênio (ao lado das grandes civilizações do Egito.). da Mesopotâmia. ao ler o Antigo Testamento. pôde ser durante quase 2 000 anos o depositário e defensor da fé num Deus transcendente e em verdades sublimes que nem os grandes filósofos pré-cristãos souberam conceber (a criação do miando a partir do nada. A história sagrada é. a providência paterna do Criador. O que primàriamente merece a atenção do leitor é o movimento de conjunto.o Messias. . guardou e 1 Já Claudel dizia: "Le sens d'un livre." Citado por Gelin. O dedo de Deus nas Escrituras só se torna perceptível a quem considere a direção geral das mesmas 1 ou a quem observe como as fases da história bíblica se encaminham aos poucos para um têrmo único . não obstante. sem que. e (isto é particularmente belo) encaminham-se. não são os pormenores. em L'Ami du Clergé. tais pormenores só foram consignados na Bíblia a título de suportes de verdades superiores. Israel. mas parece que o Criador conta com tôda essa deficiência e a utiliza para a fazer servir a um fim providencial ou à plena manifestação do Bem.. nem de geografia... sim. a miséria humana aí se atua sem pudor.

porém. arrisca-se .° A ARTÉRIA CENTRAL DA SAGRADA ESCRITURA: A FIGURA DO MESSIAS A figura do Messias foi sendo delineada progressivamente no Antigo Testamento. uma é como que a artéria central: a REVELAÇÃO DO MESSIAS.. É esta grande visão que deve dominar a interpretação dos acontecimentos particulares do Antigo Testamento. correm fios condutores (que abaixo chamaremos "temas").. mais fàcilmente podia apreender.94 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO afinal. patenteando finalmente o seu pleno significado na história de Jesus Cristo e do seu reino. 2 Dizemos: "caso se prenda. e mesmo o emdito. transmitiu ao mundo o seu patrimônio de sabedoria. perene. agentes humanos ou mecânicos. Caso se prenda a minúcias do texto bíblico. de acôrdo com a capacidade dos homens simpies a que a mensagem bíblica se dirigia: Os livros mais antigos de Israel põem em realce principalmente a face humana do Messias: descrevem-no como Grande Herói. o leitor se arrisca 2 a não perceber a Mão de Deus. que atuou e atua em cada episódio da história. Sendo assim. após 18 séculos. Como se apresentam. que constituem a estrutura. Rei Vitorioso. do Livro de Deus. passará possivelmente de olhos fechados ao lado de grandes verdades e tropeçará em minúcias insignificantes. Ao lado da artéria central. afeito às guerras e pouco dado à Filosofia. É fácil.• não como se necessáriamente a consideração das minúcias do texto sagrado impedisse a visão do sobrenatural.. muito ao contrário ) os pormenores são consignados na Bíblia para sustentar a mensagem divina. que o'simples leitor. arrisca-se a perder-se num emaranhado de causas segundas. caracteriza a história sagrada como mensagem divina. Tal é o aspecto predominante nos livros históricos do Antigo Testamento. cara a Deus e amiga dos homens. as notas essenciais.. Livros posteriores ao exílio babilônico (ditos sapienciais) descrevem o aspecto transcendente do Messias: falam da Sabedoria de Deus como se fôsse Pessoa que de tôda a eternidade existe com o Criador e exerce o papel de Medianeira entre o Autor do mundo e o gênero humano. todos os bens divinos se concentram nessa Sabedoria. os quais desenvolvem um ou outro aspecto particular da pessoa ou da obra do Messias. na Escritura Sagrada a revelação do Messias e as suas linhas laterais ? § 1. nada mais vejam nas Escrituras do que as minúcias que impressionam a fantasia ou chamam a atenção do homem de ciências. antes do mais. . pois. É isto o que. importa-nos chamar a atenção do leitor para o fato de que há na Bíblia o que se poderia dizer "linhas mestras" ou "fios condutores". sob os quais a ação divina se quis ocultar. aspecto quê o povo rude. Dessas linhas mestras.

não nos quis salvar senão unida à humanidade. mas não cumpre sua missão de beneficiar os homens senão mediante o sofrimento e a morte. Sabedoria eterna.Antigo Testamento: 3 Claro está que os diversos aspectos do Messias se apelam recIprocamente: mesmo o titulo de Herói ou Rei vitorioso.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 95 3. por sua vez. tal como é apregoado pela Bíblia. Eis o aspecto do Messias Deus e Homem. . A sua Divindade. implica a sua Divindade. sim. por muita soberana que seja. Rei Vitorioso. que se encontra principalmente nos livros proféticos. Em esquema assim se dispõem os principais traços do Cristo no . Outros livros do Antigo Testamento posteriores ao exilio desvendam o aspecto mais misterioso do Messias: é.

020 o dcc o co toId'4d4 ' -o - o.PARA ENTE±{DER O ANTIGO TESTAMENTO — o.) 4-) O 'oii t-O• rCI cc - o. O 0<1 O. ccc cc (ti cc cc 4 o. 2cc c O Z cc - o o 4-. 04.. cc -o-- cc t o o.•- — o 0 4-' rA 'cc cc cc o o ti £o o CO o no 1-o O. C' o o O c acc t cco. çztifl-. cc o -o t 01 4' 0'•° '4-4 j CO C 1 o.! o . 0 d O O O CO O O O t o ti OO c cc .

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em virtude desta condenaçào mesma. o mais velho.1-15. de acôrdo com a sua "sabedoria". infecunda como era.1-45). de tôda a sua nação e do Egito (cf. a qual foi. onde o Senhor lhe prometia posteridade abençoada (cf.1-3). a Caldéia. em aparência. 21. Abraão. houve por bem escolher elementos aparentemente ineptos. Esaú. Abraão foi dito "Amigo de Deus" (cf. Gên 16. verificando-se desde os primórdios do Antigo Testamento. a mais fragorosa derrota possível: Abrado. Dos dois filhos de Isaque.8). para a realização de seu plano. foi por Deus preterido em favor de Isaque. Jos 24. foi chamado por Deus a emigrar da sua terra.23). por excelência. mais tarde e inesperadamente. Jdt 5.1-50. foi pôsto de parte em benefício do irmão Jacá. Deús. § 2. . se tornou o salvador dos irmãos. herdeiro que.. culmina na obra. O Senhor dignou-se realizar a sua obra. êste "garantiria" a realização do plano de Deus . resolveu assegurar.2. sim. através de tôda a história sagrada. que por si seria herdeiro dos bens paternos. da qual lhe nasceu Ismael. 0 os nos CONDUTORES DO ANTIGO TESTAMENTO 1. Gên 12. Gên 27. não lhe dava a prole que Javé prometera abençoar. foi condenado à morte José. destituídos de sabedoria ou algum outro titulo. Gên 37. Todavia o filho gerado pela prudência de Abraão. Por ter dado fé a tão estranho vaticínio. A promessa feita a Abraão foi repetida a Isaque. vendo que sua espôsa Sara.1-3). Vejamos agora fios condutores que paralelamente a tal artéria desdobram aspectos particulares da obra messiânica. mas derrotando os cálculos humanos! (Cf.1-16. uma descendência para si. sem dúvida Amigo gratuitamente escolhido e amado. 18. o qual.98 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO Tal é a artéria central do Antigo Testamento. Dos doze filhos de Jacó. uniu-se à escrava Agar. descendente de linhagem idólatra (cf. o qual não tinha título para herdar a Promessa (ef. salvífica de Cristo.. O TEMA DA ESCOLHA GRATUITA OU DA FÔRÇA DE DEUS QUE SE MANIFESTA NA FRAQUEZA DO HOMEM Que significam êsses títulos? Querem dizer que. Ê esta certamente uma das notas mais características da ação divina entre os homens. por sua natureza incapazes de levar a têrmo a missão recebida. Tg 2.26). o Senhor suscitou ao casal estéril. sem deixar que a prudência humana se pusesse a calcular as probabilidades de êxito. para ir em demanda de região não indicada.

3 Es 12. provàvelmente nos séc. Gedeão só conservasse trezentos homens. a vitória de Gedeáo sôbre os madianitas atesta eloqüentemente o mesmo: o Senhor mandou que. travou para conquistar Canaã. Após o exílio de todo o povo de Israel na Babilônia (587-538). Depois de Jesus. 1-2 Mac). são evidente testemunho da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza humana. A travessia do deserto sinaítico e as guerras que Israel. continuou a ser a portadora da bênção messiânica (cf. Em meados do séc. a reação contra os sírios corrutores foi vitoriosamente levada a cabo por um punhado de homens corajosos. Jdt e Est). quando todos os recursos humanos pareciam esgotados (cf. veja-se em particular as págs.AS LINRAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 99 Ao sair do Egito. após a morte de seu filho e sucessor Salomão. Lc 12.3). veio a cindir-se em duas partes. ou seja. 1 5am 16. aos quais deu o triunfo por meio de artifício. pastorzinho de ovelhas.32). Davi.1-13). Lc 24. humanamente fadados a fracassar (cf..20. humanamente falando. ao lado de nações cultas e poderosas. sob Moisés e Josué. constituída por famílias pobres. povo destituído de todo brilho político ou cultural. IV e V a. do qual jamais pensara seu pai pudesse ser objeto de complacêucia divina (cf. Cristo escolheu um "pequeno rebanho" (cf. continua a se verificar o mesmo proceder divino na atuação do plano salvífico. Lc 6. voltou para a Terra Santa o chamado "Resto de Israel". ' Na subseqüente época dos Juizes. Isto fêz que os conceitos de "povo de Deus" e "pobres" (anawim) se tornassem quase sinônimos na literatura judaica posterior (cf. Mt 5. Para o fazer rei bem-amado de Israel. os irmãos Macabeus. pela aliança travada no Sinai passaram a constituir o povo de Deus. mas a menor. os descendentes de Abraão e dos Patriarcas. se tornaram salvadoras do seu povo. morte desconcertante para os homens (cf. Sarnaria. a qual no plano de Deus estava destinada a ser o triunfo definitivo do Bem sôbre o mal. Esdr-Ne). 4 Sóbre a tomada de Jericó. mas heróicas. 214-219. que constava apenas de duas dentre as doze tribos. Deus quis escolher o filho mais jovem de Isaí.33) de doze homens rudes (em maioria. Judite e Ester. de numeroso exército.C. II. .1-13. Duas mulheres. povo de escravos libertos.1-22). infantil (cf. das quais não a maior. Tôda essa história antiga conflui para o Messias. cujo currículo de vida terminou com a ignominiosa condenação à morte de escravo. O reino de Davi. isto é.13-35). Jz 7. tipo do Messias. parte pequena da nação. as quais empreenderam a restauração da teocracia (cf. Judá.

Mãe e Virgem. 2.1-7). quis anunciar a próxima conceição (cf. ao receber tal prole. foi igualmente fruto de ventre estéril. outro dos grandes chefes de Israel. nasce João Batista. nasceu de mãe estéril. Is 29. Deus também pode dispensar os instrumentos criados. Jz 13. assim como os utiliza. formulava claramente a "quase-lei" da escolha dos humildes. em Is 1.) Ao lado dêstes episódios. Lc 1. fiéis de Corinto. contraste que o Senhor lhe assegurou ser garantia de pleno sucesso na obra de Deus: "É na fraqueza (do homem) que meu poder se mostrã soberano. à qual Deus quis dar prole maravilhosamente abençoada (Cf. com efeito. nasceu de Manué e sua mulher infecunda. A todos êsses casos se sobrepõe a natividade do Messias. ao considerar os primeiros. Lc 1. Paulo vê expressa essa norma já por. para a execução de seus desígnios. No fim da história antiga. um dos mais remotos antepassados do Messias. cómo alguns dos homens de Deus foram dados ao mundo em circunstâncias que excediam tôdas as expectativas humanas. por meio de um anjo. aos quais Deus. prenúncio da restauração messiânica (cf.46-55) a intervenção soberana de Deus. representa o contraste en tre a debilidade do homem e a fôrça realizadora do Altíssimo. Tão estupenda natividade vinha bem éredenciada pelos episódios semelhantes que a haviam precedido! Pergunta-se agora: será possível descobrir por que terá Deus tão freqüentemente procedido dessa maneira que desconcerta o homem? A resposta não é difícil. prefigurando assim a natividade do Cristo. Observe-se. 1 Cor 1. reconheceu num cântico (que é arquétipo do de Maria. Os feitos portentosos.9. aos quais confiou a propagação do Evangelho num mundo hostil. texto em que 8. preconizado pelo arcanjo Gabriel a seu pai Zacarias. que a princípio não quis crer na possibilidade do portento! (Cf. um dos "redentores" (Juizes) antigos do povo de Deus.18-31. eivado de sabedoria meramente humana. Gên 21.5-25). Sansão.1-2. que acabam de ser assinalados. 1 8am 1. Ana. anunciado a Maria pelo mesmo arcanjo. A figura de Paulo." (2 Cor 12.1-8). o Salvador foi virginal mente concebido e gerado (cf. não querem tanto chamar a atenção para os por menores referidos como para a seguinte verdade eterna: todo dom de Deus é gratuito. Isaque. ainda se poderiam notar cinco outros que. em particular.14 (LXX) e Jer 9. .26-38. Cf. sob o aspecto particular das NATIVIDADES EXTRAORDINÁRIAS.10).1-25).100 PAfl ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pescadõres). de resto. Samuel.24 (LXX). 5 O Apóstolo. fazem ressoar o mesmo tema.

14.objeto do tema anterior . embora não reste dúvida de que não há paridade entre os dois contraentes.20).3-9). pouco depois da queda. pela morte a si mesmo. Por isto é que S.19) ainda fala de aliança. Rom 5. às criaturas chamadas o Soberano Senhor prometeu dar o consórcio dos seus bens. fá-lo por favor divino. "aliança" é. por vêzes. que o homem se prepara para receber o Divino.lz 2. 285. 1 Cor 11. Com efeito. Se esta é chamada a colaborar na obra da Redenção. Gên2.16. .20). o Senhor. para Israel.Yos 26.1-7. sinônimo de "decálogo" (Dt 4.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 101 Não queira. vida imortal bem-aventurada (cf. o dom de Deus excede o entendimento da criatura. C. de "Lei ou mandamento do Senhor" (Núm 15. o profeta 6 A formulação jurídica do contrato é muito clara em Dt 26. A aliança paradisíaca foi renovada na plenitude dos tempos pelo Messias.13. Dt 4. Com efeito. A aliança messiânica manifestará tôda a sua excelência na vida celeste.31. É de particular interêsse notar que.19s. 29. Cl. que se destinava a todo o gênero humano.2-18. não deixa de inculcar a soberania do Deus que entra em aliança com a Criatura: Deus é dito prescrever a aliança (Hebr 9. entre as múltiplas religiões do orbe.se faz em vista do que o texto sagrado chama "a ALIANÇA". A Escritura. pois.10). O TEMA DA ALIANÇA A vocação gratuita que Deus dirige aos homens . o Criador entra em aliança com o homem recém-criado: pede-lhe fidelidade a um preceito e propõe-lhe. Esta aliança. aliás. É antes pela renúncia. L'Epitre aux Ilébreuz JI (Paris 1953). 2. 3 Rs 17. sômente a religião revelada a Israel e aos crIstãos concebe as relações da Divindade com o homem como Aliança.15-17. que corresponde antitèticamente ao primeiro homem e assim divide a história em duas grandes fases. .25. o homem julgar a ação da Providência confor me as categorias do seu bom senso. na consumação da história.15). caso se mostrassem fiéis à Lei divina (ou quisessem reproduzir em sua vida os traços da Santidade incriada). em troca. ° Eis como se desenvolve a noção de Aliança sagrada Logo na primeira página da história. porém. "guardar a aliança" coincide com "ouvir a voz de Deus" (Éx 19. é a isto que os livros bíblicos chamam "Aliança de Deus com os homens". pois o Criador é soberano ao estabelecer as cláusulas do pacto. . segundo Adão. prometeu restaurá-la (Gên 3.12s).15s). 5.17-19. Spicq. foi violada pelos primeiros pais (Gên 3). Edo 17. sempre limitado. João no Apocalipse (11. A nova e definitiva aliança outorgou a todo o gênero humano bens ainda maiores do que os dons perdidos no paraíso (cf.

1-8). o Senhor Deus se dignou entrar em mÚltiplos pactos parciais e provisórios. tão persistentemente empregado pela Escritura para designar as relações do Criador com o homem? O vocábulo significa que Deus quer bem ao homem. já constituída em povo numeroso. Êx 2. 55. por essa ocasião.3. com Aarão.25. 17. Núm 25. sendo simbolo da ineorrutibiIldade (conserva a. a cuja tribo Deus confiou o serviço do santuário (cf. descendentes imediatos de Abraão (cf. perpétua" (ef. 4. novo pai do gênero humano (e!.25). Edo 45. Is 54. é insinuada em Os 2. claramente anunciada em Jer 31.carne). 2 Crôn 21.3-9. o Patriarca do povo escolhido (e!. 56. Entre a violação e a restauração da Aliança com todos os homens. Gên 15. ou seja.31-34.7-21).4s).19). Núm 18. Gên 6. novo Adão.20-26. antepassado de Aarão.8-17. com Josué. trava-se a famosa aliança do Sinai. 34.5 e Ne 6. Jer 33. Assim há um pacto: com Noé.5. dentre os diversos tipos de contrato humano.8. com Isaque e Jacó. 24. 2 Sam 23. definitiva. .18. 51 88.102 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vê no céu a arca da aliança do Sinai.7s. Éx 19. comparável à solidez que convém a um pacto solene. Jos 24. com a linhagem de Abraão. Ez 16. 37.12s). que. Mal 2.21-28. com Levi. fala de 'uma aliança de sal. tendo Moisés como mediador (e!. com Fineés. com Davi. o símbolo do pacto que Deus outrora quis travar com Israel em vista da obra do Messias.14-25. 61. 9. após o dilúvio. considerado. visavam assegurar a reparação da aliança universal.10.18). a quem foi confirmado o poder sacerdotal (cf. com Abraão.18). também 2 Crõn 13. o que mais corresponde a tal disposição divina é o da aliança matrimoniaL 7 O texto sagrado. a Aliança messiânica. Edo 44. Precisamente.4. e o quer de maneira firme. O sal. descendente de Aarão e zeloso propugnador da Lei de Deus.25). significava bem a firmeza do pacto. irmão de Moisés. Deus outorga àquele e à sua posteridade o exercício do sacerdócio em Israel (e!.7. o rei de cuja casa descenderia o Messias (e!.4. sucessor de Moisés na direção do povo e renovador da aliança sinaítica (e!. que quer dizer o têrmo Aliança. 60-63.24).

sendo que o têrmo "aliança". O TEMA DA PREVARICAÇÃO E DA RESTAURAÇÃO CORRESPONDENTE A história sagrada abre-se com o episódio do paraíso. os judeus decadentes nos séc. ou seja. Is 54.concepção que os profetas rebatiam freqüentemente.1 õsse o seu Espõso?' 9 Aliás. Assim o têrmo "testamento" passou. 111/1 a. apesar de tudo que êle tem de surpreendente ou mesmo espantoso.3. Embora Eu . são como que a herança recebida de Cristo Vítima. a disposição que se torna válida pela morte de quem dispõe. Aliança que êles violaram. Hebr 86. Acontece. 3 Es 8. quando nos séc.5. a ser usado na acepção do antigo vocábulo berith. No dia em que os tomei pela mão Para os fazer sair da terra do Egito. outorgados em vista da morte de Cristo. êstes empregaram o vocábulo grego diatheke em lugar de berith. para Deus. "ser fiel à sua aliança" significa "conservar o amor outrora manifestado aos homens" (cf. Por fim.23. em Jer 31.9.oráculo de Javé. disposição (unilateral). 81 88.29).AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Com efeito. em última análise. na linguagem cristã. 50. Donde se segue que.C. Dan 9.C.32. lhes parecia ressalvar melhor a soberania. a Escritura foi traduzida do hebraico para o grego por judeus de Alexandria (Egito). 34s. dicztheke. 9. os cristãos haviam.15. At 3. Ef 2. que significa determinado tipo de disposição.12. vil/VI a.6s). é a palavra originàriamente usada pela Escritura! 3. Não como a aliança que travei com os seus pais. 5 .29. 9. sim. Conseqüentemente. julgavam que Deus precisava de seu povo e que a sorte de Javé estava intimamente ligada à de Israel . Rom 9.25. As mesmas idéias se refletem no fato de que "aliança" e "promessas" estão 'mtimamente associadas entre si em Gál 3. êstes se deixaram guiar de novo por idéias teológicas: substituiram o térmo diatheke por testamentum. que a estupenda condescendência divina expressa pelo têrmo hebraico berith foi causando "escrúpulos" aos israelitas. 55.10. a transcendência de Deus ao entrar em relação com os homens. quando o texto grego foi traduzido para o latim pelos cristãos. fala-se hoje de "Novo Testamento" e "Antigo Testamento". como se pode falar de "Nova Aliança" e "Antiga Aliança".17. Hebr 10.4. berith (aliança) e hescã (graça) são noções que se evocam mfttuainente na Escritura Sagrada (ei. Ne 1. 10545. Éste apresenta o aspecto de uma prevaricação. fx 34.31s o Senhor menciona explicitamente o contrato nupcial para ilustrar o amor que te dedica à criatura. 1 Por isto. porém. Dt 7. à qual Deus promete "Eis que dias vêm . verificado que todos os dons de Deus foram.4. Em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá Uma aliança nova.

Salva-se do exílio o "resto de Israel". o justo (Gên 4. são conservados em vida (o resto de Israel !) e continuam a obra de Deus (Núm 14. assim como marcam a primeira página da Bíblia. caracterizam tôda a história subseqüente. A monarquia não perece. o povo de Deus freqüentemente se alia a nações idólatras e se corrompe em falsos cultos (3-4 Es).") Pode-se assim dizer que uma das idéias centrais da história sagrada é.0 influxo do mistério da iniqüidade e o do mistério de Cristo se fazem sentir alternativamente no decurso dos ' séculos. 17.20: "Onde o pecado abundou.8-17). Saul. mas Deus escolhe em outra tribo o pastorzinho. a graça superabundou.38). A corrução chega ao extremo e provoca o exílio babilõnico (4 Rs 23. êstes dois têrmos miséria do homem que desfaz a obra de Deus. Após o ingresso em Canaã.20-35). Pois bem. O inorticinio de Abel. O PRIMEIRO ADÃO RESTAURAÇÃO O proto-evangelho (Gên 3. em lugar do justo imolado (Gên 4. Deus suscita oportunamente 'redentores" (os ditos Juizes) do seu povo (Jz).14).1-35).36-25. O SEGUNDO ADÃO (Rom 5. . A pouca fé de Israel no deserto faz que tôda uma geração aí pereça (Núm 14. se mostra indigno 0 San 13.14. No inicio da monarquia. É o que se percebe pelo seguinte esquema: PREVARiCAÇÃO O pecado dos primeiros pais (Gên 3. porém. 10 "a contínua repa10 secreta do sábado 'in albis". .1-15. o farisaismo. Sob os reis subseqüentes. por muito intenso que seja. principalmente 4 Rs.7-23).3-15). cf. e paciência bondosa do Criador que restaura a criatura -.25s). A corrução grassa e motiva o tremendo dilúvio (Gên 6. Josué e Galeb.17-28).26). entregue ao total extermínio (3-4 Es. que permanece fiel (2 5am 7. o primeiro rei. consiga absorver o bem. 15. as repetidas apostasias religiosas de Israel merecem ao povo ser entregue às mãos dos inimigos cananeus (Jz).15) Sete. O povo é punido por Deus. At 28. 5. O dom messiânico é transferido dos judeus para os gentios (cf.1-8. sem que o mal moral. dada a sua fé.6).104 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO dar remédio em tempo oportuno. como se exprime o Missal Romano. nunca. obcecam o povo e o levam a rejeitar o Messias. O orgulho religioso. que prossegue a obra de Deus sôbre bases mais puras (Esdr-Ne).8-16). O pacto de Deus com Noé após a punição (Gên 9.

Éx 25. e lhe falarei ao coração.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 105 ração da salvação humana". salvação que a miséria do homem põe constantemente em perigo. Shekina) que paira sôbre a tenda (cf. é escola de purificação para Israel. 3. só deixará de se verificar quando Deus outorgar ao gênero humana a sua consumação final. sendo Israel nômade no deserto. antes de receber a missão de ungir os reis (cf.6). Nos primórdios da história sagrada. comparável à mansão no deserto. Lc 1. à semelhança dos homens. 5. por sua pregação e seu batismo. João Batista retira-se para o deserto a fim de preparar. simbolizada pela mulher do Apocalipse. Apc 12. É o que o próprio Espírito Santo inculca quando diz pelo profeta. 3. O TEMA DO DESERTO O Senhor fala aos homens em meio ao silêncio das criaturas.1-11). Esta idéia se estende ainda por tôda a história do cristianismo. A Igreja. fêz-se através do deserto. antes de subir ao trono (cf. S. Assim 1. 4. embora com modalidades diversas das do Antigo Testamento.80. 2.14.16. que assinala grandes favores para o povo de Deus e precede a conquista de Canaã. Ora a Escntura faz ver como aos poucos se nobilita o lugar da mansão de Deus na terra. no recolhimento e na solidão. aguardando o triunfo final do reino de Deus (cf. refugia-se no deserto. S. O êxodo de Israel.23). antes de iniciar a vida pública passa quarenta dias na solidão em jejum e oração (cf. 1." (Os 2. as vias do Senhor (cf.) Ora chama a atenção o papel que a Escritura atribui ao deserto no decorrer da história: êle é o teatro predileto das manifestações divinas. a morada de Javé se reduz a uma tenda movediça feita de peles de animais. 1 5am 23. Jesus. vive no deserto durante todo o decurso da história. 24. Mt 4.1-18). O exílio na Babilônia. Muito digno de nota. é o fato de que a presença do Senhor é assinalada por um fulgor (em hebraico. 4. zelosamente procurado pelos homens de Deus antes de realizarem feitos gloriosos. Elias jejua quarenta dias no êrmo de Horeb. porém. 33. tendo em vista o reerguimento da nação teocrática: "Eis que a atrairei e a levarei para o deserto. Davi. . O TEMA DA HABITAÇÃO DE DEUS Deus se digna morar com os homens. 3 Rs 19.7-11.2). perseguido por Saul.8-16.

nova dilatação do tema se verificou: Deus Filho quis unir-Se a uma natureza humana. da sua transfiguração e da sua ressurreição. donde se deriva o verbo slcenoo (erguer a tenda) em Jo 1.n. Ésse esplendor se tornou tão característico da mansão de Deus que. faz notar que aos discípulos de Cristo foi dado contemplar aquilo que afugentava os próprios sacerdotes da antiga Lei. glória como que do Unigênito do Pai. Embora fôsse mais digno do que a tenda movediça. João Evangelista o refere nos seguintes têrmos: "O Verbo se fêz carne.1-38.106 PABA ENTENDER O AIÇTIGO TESTAMENTO 39.14. nuvem fulgurante encheu a casa do Senhor.lOs). Núm 9. "E vimos a sua glória.) As duas primeiras frases são paralelas uma à outra." Não se poderia passar sob silêncio um particular filológico: O têrmo grego skené ( tenda). 1 Jo 1. de tal modo que nem os sucerdotes lá puderam permanecer (cf. os israelitas quiseram preparar mansão mais condigna para a Majestade Divina: o rei Salomão. construiu o famoso templo de Jerusaim. com visivel alegria (cf.k . "Vimos a glória dé Deus através dos milagres de Jesus. glória como que do Unigênito do Pai.13-51).38. e ergueu a sua tenda (eskenosen) 11 entre nós. na qual viveu entre os homens.32-40. querem dizer que a carne de Jesus Cristo se tornou a nova tenda ou morada de Deus. esta era um templo vivo do Deus vivo. chegando a aterrar os homens. na tradição judaica posterior." Esta observação alude ao esplendor (Shekina) que acompanhava a morada de Deus no Antigo Testamento. Por isto.16-23). o que se realizava imperfeitamente no tabernáculo do deserto (e no templo de Salomão) já se verificou muito mais dignamente na natureza humana de Cristo. Não nos interessa aqui estudár a etimologia destas duas palavras.14. pois." (1. templo capaz de reconhecer o seu Senhor e amá-lO. está claro que o templo de Salomão ainda estava longe de corresponder à Majestade Divina. 7. Uma tez estabelecidos na terra prometida. o Apóstolo. e vimos a sua glória. Na solene dedicação da nova morada. empregando o material mais rico e os artífices mais hábeis das regiões vizinhas (cf. S. reproduz equivalentemente as consoan tes do vocábulo hebraico shekina: s(h) . sé podia usar o termo shekina como sinônimo de "morada de Deus" ou como equivalente ao nome mesmo de Javé. que toma significado especial se se tem em de vista 11 A traduflo da Vulgata habitavit ( habitou) é muito wn particular especialmente visado pelo Evangelista. 3 Rs 6. 3 Rs 8. geral e faz perder .1-4). Basta apenas verificar a analogia.

lSs. só se podia aprovisionar a quantidade 12 As idéias aqui expostas encontram seu complemento às págs. perpassa a história sagrada até o fim (Apc)... depositário translúcido da glória do Criador. Jo 2. Ainda vem a propósito uma palavra de Jesus: para justificar a expulsão dos vendilhões instalados no templo de Jerusalém.. 1.16). E Aquêle que está assentado no trono erigirá sôbre éles a sua tenda (skenosei ep'autous). participam da vida de Cristo e da Trindade 58. porém. Após a Encarnação. é dita o templo santo do Senhor (cf. Os fiéis. 2 Cor 6. Mais uma palavra que atravessa tôda a Escritura Sagrada. possuindo a graça santificante. A graça que o cristão peregrino possui. nem sêde. 1 Cor 6.. pois se derretiam ao calor do sol. a idéia de templo de Deus se realiza semelhantemente em cada cristão. 4.(7. O TEMA DO MANÁ 12 Maná. nem os abaterá mais o calor do sol . que já ocorria na primeira fase da habitação de Deus entre os homens (ex). é semente da glória celeste. O maná é mencionado pela primeira vez na história do êxodo (cf. por isto também a dignidade do templo vivo que agora compete aos discípulos de Cristo. pois cada qual foi destinado a se tornar conforme à imagem do Filho de Deus (cf. O tema da habitação de Deus. É em função desta meta que os séculos se vão sucedendo! 6. Éx 16. de maneira a poderem ser realmente ditos mansão viva de Deus (cf. constituída pelos fiéis unidos entre si e com Jesus.19. É o que o Apocalipse insinua ao descrever a felicidade celestial dos justos: 'Estão diante do trono de Deus. o Senhor lhes suscitou uns grãozinhos (maná) com gôsto de óleo ou mel. dar-se-á em proporções reduzidas em cada um dos irmãos de Jesus no dia da ressurreição final... qual portadora de mensagem cada vez mais clara.) Como se vê.19-22). só estará completo na eternidade. Não terão mais fome. Isto se deu na plenitude dos tempos e em grau perfeitíssimo no Cristo Jesus. só estará plenamente desabrochada na bem-aventurança futura. S. o Senhor apelou para o seu poder de ressuscitar "o templo do seu corpo" (cf.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 107 mente que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento têm tôdas o mesmo Autor Divino. Bom 8.. a Igreja de Cristo. Pelo mesmo motivo. Ef 2. e servem-Lhe dia e noite no seu templo. a noção da tenda.29).. 219-223.19-21). As subseqüentes realizações do tema tendem para êste têrmo: fazer de cada indivíduo humano (em alma e corpo) um portador de Deus.13-31): a fim de sustentar os israelitas no deserto. o povo devia recolhê-los antes do nascer do dia.. .

Mt 4. desobedecendo a Javé.24) não quer dizer "pão que os anjos comem". Ëx 16. Interessa-nos chamar a atenção para o caráter religioso que ésse alimento tinha: os grãozinhos. demonstrava a suavidade de que usas para com vossos filhos. porém.. Gál 3. aceno a realidade de ordem superior (cf. chamando-o "miserável alimento" (Núm 21. recolhiam uns maior. um gomor . O qual proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paladares. Núm 11. por ti enviada. mediam as suas provisões e verificavam possuir exatamente a porção permitida para um dia.4-6).o maná ao povo causara fastio por sua insipidez (cf. os pepinos. e lamentou amargamente não ter mais a carne." (Sab 16. Ora foi justamente qual sinal ou tipo que a tradição judaica interpretou o maná. Com o tempo. não comem (cf. todavia. ao menos principal de Israel (cf. SI 77. pois os judeus tinham consciência de que os anjos.20s.16-18). os melões.4). que em breve se estragavam. Durante os quarenta anos de travessia do deserto. etc. Éstes e outros pormenores misteriosos da história do maná dão suficientemente a entender que tal alimento não era suscitado por Deus simplesmente para nutrir a vida corporal dos israelitas. de que se nutria no Egito (cf. Dado em vista da instalação de Israel na terra prometida.38. pois o maná se deteriorava em 24 h.ca. ao chegar às respectivas tendas. Essa substância. alimentando o seu povo com o pão do céu. o peixe. mas devia ser um sinal religioso. Êx 16. Dt 8. sem fadiga. era considerado um prenúncio do reino messiânico. se não exclusivo. o pão dos anjos. a fim de permitir aos israelitas o repouso sagrado do sábado (cf. de 3. sendo incorpóreos. o alho. o hagiógraf o canta no livro da Sabedoria: "Saciaste o teu povo com o alimento dos anjos. constituiu o maná o alimento.8 litros (cf.19). um pão já preparado.) Os Rabinos. J05 5. esquecendo que . conservavam-se íntegros nas 48 h finais da semana. 2.19). vindo à terra. os israelitas.4-6). por seu lado.19-30). já que os anjos eram considerados os transmissores das grandes dádivas de Deus aos homens (cf. isto é. o povo concebeu náusea do maná. nutriam a convicção de que o Messias. passou a ser descrito pelos autores posteriores em têrmos idílicos.5). ' 13 'Pão dos anjos" (cf. Ésse pão se acomodava ao desejo de quem o comia E se transformava no que cada qual quisesse. Assim.108 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO necessária para a respectiva jornada. Núm 11. mas significava "pão que os anjos dão ou ministram em nome de Javé".3. repetiria o prodígio do maná.12). E lhe deste do céu. Tob 12. At 7. outros menor quantidade de maná. .

quem déle comer. que vem a ser como que o complemento das palavras de Jesus proferidas no Evangelho de S. ainda não encerra o tema do maná. cap. vcsso$ pais comeram o maná no deserto e morreram.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Assim a idéia do maná Crescia em seu significado: nastradiçôes judaicas não designava simplesmente o alimento pobrõ do israelita nômade. jamais morrerá. introduziria no reino de Deus não nacional. portanto. só patenteada a quem a experimenta! 14 "Em verdade.9). sim.To 6. Maná. terá a vida eterna. o coração do homem jamais percebeu" (1 Çor 2. que ninguém conhecerá a não ser quem o receber. e faria triunfar da própria morte. união com Deus que a Eucaristia.. tal qual o esperavam os judeus imbuidos de expectativas demasiado humanas. que aos poucos penetra alma e corpo do cristão.. que haveriam de superar a morte pela sua resurreição gloriosa. João. no Novo Testamento. VI: "A quem vencer.. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue. 14 A Eucaristia. Por isto. O Messias veio. sem dúvida. porém. a menção permanece muito lacônica. e sôbre o seixo um nome novo escrito. Ela é um fermento de vida nova. Seria o pão messiânico.) maná. devendo atingir o seu pleno desabrochar na eternidade. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Significa a plena união com Deus. de fato.51. o maná é dito oculto. O maná que Israel comera no deserto tinha por função levar o povo à exígua terra de Canaã. não. ptometer pão do céu. encaminhando o israelita para a terra prometida (Canaã). porém. no Evangelho. •e Eu o ressuscitarei no último diaY' (.. desconhecido ao homem. história sagrada. darei o maná oculto e um seixo branco. na vida celeste! Desta vez. que o pão do deserto no Antigo Testamento de certo modo iniciava. o ouvido jamais ouviu. ou seja..17. mas através de véus. maná na plenitude dos tempos. no Apocalipse o autor sagrado coloca nos lábios do Senhor a seguinte promessa.. Eu sou o pão vivo que desce do céu. maná.) ." (2. e não preservava da morte. no Antigo Testamento ou no início da Quem vencer o certame da vida presente receberá de novo. Ora o maná que Jesus prometia. tal alimento. já concede no íntimo da alma. o maná celeste designa a visão face a face do Deus Trino e a bem-aventurança que dai resulta.. a Eucaristia.32s. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. êle significa "o que o ôlho jamais viu. maná ainda no Apocalipse. o nutrimento do povo de Deus estabelecido na plena posse dos bens messiânicos. mas universal. Em verdade. não seria senão a carne e o sangue de Jesus. mas evocava. porém.. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá vida ao mundo. em última análise. e se dignou. 49.

esta não podia deixar de ser planta de grande estima. perguntava o profeta. Ezequiel aludia às depredações que os inimigos haviam infligido ao povo de Deus a partir de 722 (queda de Samaria) e que continuariam a infligir até arrasar Jerusalém e levar para o exílio (587-538) a maioria da população de Judá. VIII a.. a uma videira. o profeta Ezequiel retomava a imagem (15. porém. um só destino pode ter a videira brava: o fogo. o Patriarca Jacó comparava a abençoada tribo de José. VI a.22). o profeta Isaías fazia reviver a mesma imagem. 4: "Que devia ter eu feito por minha videira. Gên 49. que o povo de Deus esquecesse a sua fé e adotasse cultos alheios. pois belas artes. era íjnicamente a sua religião. Com isto. Dado.1-8). O TEMA DA VIDEIRA A vfrieira constitui uma imagem habitual com que as Escrituras do Antigo Testamento designam o povo de Deus. o Senhor prometia entregar a árvore inútil a viandantes e animais.C. (Particularmente importante é o v. só pode ser avaliada pela qualidade do seu lenho. ciências e outros bens de cultura em Israel eram estritamente dependentes do que produziam os povos vizinhos. Ao passo que o oráculo de Isaías apenas anunciava o castigo.. da oliveira e da vide. cujos ramos viçosos e férteis recobrem tôda a muralha do pomar (cf. Já em época muito remota. nem um cabide se faz com pau de uva. Em conseqüência. A única justificativa da existência de Israel era (e ainda hoje continua a ser) a sua missão religiosa. Javé era apresentado como vinhateiro que dispensara todos os cuidados à sua vide. contrastante com a idolatria de outras nações. baseada em monoteísmo muito puro. pois a videira de Deus só produzia uvas amargas.1-7). porém.. Ora o lenho da vide é absolutamente imprestável a qualquer trabalho de marcenaria. . A que serve uma videira selvagem?. Para uma nação que vivia principalmente do trigo. A imagem quadrava bem com a realidade! Aquilo que dava significado à nação de Israel na antiguidade. No fim do séc. Ezequiel o supunha já em curso e incitava o povo a refletir sôbre o mesmo. eis. per•dia todo o seu valor na história. Is 5. Por conseguinte. que se via decepcionado. Desde que não dê frutos bons. a destruição. dela esperando frutos condignos no tempo oportuno. que não tenha feito?") No início do séc.C. seu filho. Observemos o percurso grandioso dessa figura nos textos bíblicos. que a devastariam (cf. mas em circunstâncias diversas: em nome de Deus. repreendia o povo de Israel por suas múltiplas infidelidades à Lei.110 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO 7.

sabendo que Deus é maior do que o coração humano (cf. aquela que não pode dar uvas amargas. Ante a tua face ameaçadora. homens de qualquer nação. Com efeito. renegue o seu destino religioso. e seremos salvos. eis brevemente o que significa tal texto bíblico. Em quarto lugar na evolução do tema. mas para se identificar com ela: "A videira.) Nas situações mais perplexas. nunca é frustrado um sincero apêlo do homem atribulado à Misericórdia Divina. não venha mais a renegar a sua qualidade e o seu des- . dareis fruto múltiplo e bom. os seus valores naturais mesmos perdem todo significado. talhada. doravante. valor universal: caso o homem." (Si 79. Redenção que Deus benignamente havia de mandar: "Arrancaste do Egito uma videira. a natureza humana." Referindo estas palavras de Cristo. 1 Jo 3. sou Eu. a fim de que a videira antiga. enxertada no novo tronco. em J0 15. Referia-se de novo à videira.1-8. autêntica (o novo homem). Limpaste o terreno diante dela. é a voz do pecador que se sente justamente punido pelo Deus Santo: deplora a situação presente e. sempre corresponderá ao ideal que o Pai lhe assinalou. Expeliste as nações para plantá-la. Lançou raízes e encheu o país. não já para interpelá-la na qualidade de Senhor. aliás. sem que esta se reerguessé da sua miséria. Sereis enxertados em Mim. a Escritura punha remate a lento processo pedagógico que nos ilustra o dogma da Encarnação: depois de ter feito tudo que podia fazer para salvar a videira. portanto. com muita confiança. impiora restauração.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 111 As objurgações de Ezequiel têm. Faze brilhar a tua face. 20. e sou a verdadeira videira. que. restaura-nos. Jesus.20). A videira de Israel pedia assim a sua Redenção. tudo pereceu. 17. coloca-se o salmo 79. caso permaneçais em Mim e Eu em vós. Deus mesmo se fêz videira. como por meio dos profetas fizera. trouxe a resposta divina à prece do povo oprimido. em qualquer tempo. Está queimada pelo fogo. e participareis da minha vida divina.9s. que apresenta a prece da videira entregue aos incursos inimigos. Os ramos dessa videira sois vós. a videira nova. Senhor Deus dos exércitos.

E não há Que recear se esgote o tesouro.3. nos escritos dos Profetas. é interessante notar que. nas quais sempre se pode cavar mais fundo..11)." (5. Os vocábulos da Escritura não são pobres nem vazios. Deus instituiu um Pastor para Israel. É]. 1 Sam 16..14. por exemplo.. Cedo introduziu-se nos livros sagrados o pastor como símbolo de realidade religiosa. Não.) 15 Ótima reflexão sôbre o tema da videira ocorre na obra de G. Destarte tem-se a im5ressão de tocar com as próprias mãos. 1939). Quanto mais alguém penetra no seu Interior. êsse Pastor traria o nome profético de Josué (etimolôgicamente igual a Jesus). mediante a figura do Pastor que êstes designam não um guia provisório de Israel. a dirija. Com efeito. os justos portadores da bênção de Deus. 114: "A metáfora da videira e dos seus ramos constitui ótimo esp&ime da profundidade e da riqueza da Palavra de Deus que nos é oferecida pela Sagrada Escritura.16s: "Que o Senhor. a pedido de Moisés.1). Gên 26. Gên 13. são pastôres tal foi Abel (cf. que com uma só palavra tudo diz.112 FAlIA ENTENDEU O ANTIGO TESTAMENTO tino. Gén 4. Closen. pois.. tal foi o rei próspero Davi (cf.2). tanto mais ricas são as pedras preciosas que lhe aparecem. sim. tal foi o Legislador Moisés (cf. Wege itt dic Jieilige Sehrift (Eegensburg. que devemos as considerações acima sôbre o tema da videira. Êx 3. Em primeiro lugar. para o qual tôda a história antiga convergia. cuja economia muito dependia da indústria pastoril.2-7). como as palavras do homem. Núm 27. os Patriarcas Isaque e Jacó (cf. O TEMA DO PASTOR A figura do pastor gozava de particular estima e autoridade entre os povos do Oriente. desde remotas épocas. Não podia. ob. tais foram Abraão e seu sobrinho Lote (cf. Os textos biblicos são como as veias de uma mina. herdeiros das promessas e figuras do Messias.18). 15 Foi esta a solução que a bondosa Sabedoria de Deus quis propor ao problema da fraqueza humana! 8. ficar alheia à vida e aos escritos da nação israelita. a fim de que o povo do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor O tema volta a ressoar. o mistério de palavras humanas divinamente inspiradas. 31.. apascentará suas ovelhas. Protegido pela fôrça do Senhor. constitua sôbre a multidão um homem que. e com mais significado ainda. lugar-tenente de Javé.. Miquéias. depois de predizer que o Salvador nasceria em Belém de Judá (5. cit. Pois êle será grande até as extremidades da terra... acrescentava "Será firme. êles participam daquele privilégio de Deus. mas o Messias. A vida decorrerá tranqüila. Cf.1).20." É a Closw. .

pois que meus pastôres não se ocupam delas. . ou seja.15-17. prometendo que o próprio Deus se faria o Pastor de Israel "Pois que minhas ovelhas foram entregues à depredação e se tornaram prêsa de todos os animais selvagens. Nesta linha de idéias. o juízo final é proposto por Jesus como a cena em que o Pastor há de separar ovelhas e bodes. Em Lc 15.... quê não hesita em dar a morte por suas ovelhas. Jesus moveu-se de compaixão com êles. Ora o Evangelista S.15).AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 113 Em Ezequiel 34. que carinhosamente se põe ao encalce da ovelha desgarrada." (34. atribuindo a cada qual o respectivo destino (cf.. as quais fazem eco ao texto de Núm acima citado: "Contemplando essa multidão de homens. qual imediato Vigário do Senhor no mundo. Outro traço digno de nota: o Profeta Zacarias (11. Congregá-las-ei dos diversos países. ouvi a palavra do Senhor. Éx 21.) Esta profecia tem seus paralelos eloqüentes em Jer 23. Como um pastor passa em revista as ovelhas no dia em que se encontra entre as ovelhas dispersas. vindo ao mundo. entende-se que o representante de Cristo na terra tenha sido. Eis-me.. por falta de pastor.32). Vêm a propósito as palavras de Jesus em Mt 9. assim S. carrega-a sôbre os ombros e se rejubila considerando tnicamente a salvação da mesma.1-18)." (Jo 21.) . apascentam-se a si mesmos e não apascentam as minhas ovelhas.lOs. Pedro. enquanto os falsos guias fogem. dando remate às etapas do tema. realizou em si. visando principalmente seus interêsses pessoais (cf.9s) observa que se cumpriu tal oráculo quando o Senhor Jesus foi vendido aos fariseus a trôco de trinta dinheiros (cf. eu mesmo tomarei conta das minhas ovelhas.3-7 Jesus se apresentava de novo como o Bom Pastor.12s) refere o salário do Pastor. na plenitude dos tempos o Messias. Mt 25. apascenta minhas ovelhas. 12-14. quantia equivalente ao preço de um escravo (cf. Mt 26. da maneira mais coerente possível. Mateus (27.. Por fim.31-46). o exemplar do Pastor. ouviu o mandamento de Jesus: "Apascenta meus cordeiros. Jo 10.. investido em seus poderes pela entrega do título ou do báculo de pastor." Conseqüentemente.. 10. o preço pelo qual haveria de ser avaliada a sua obra ou missão: trinta moedas de prata. porque estavam lànguidos e abatidos como ovelhas que não têm pastor.36. Javé censura quais pastôres hifiéis os que governavam o povo eleito. 1-6 e Is 40. se declarou o Bom Pastor (note-se a ênfase do adjetivo). assim passarei em revista minhas ovelhas. encontrando-a. e ainda hoje seja. eu as apascentarei em ricos pastas e elas repousarão em bom aprisco.

mais do qõe o valor que o Espírito Santo mesmo lhes quis atribuir: valor de meros veículos ou sustentáculos do Divino.1-4. o que acima foi exposto já abre o ôlho do leitor para o autêntico objeto das Escrituras Sagradas. Consciente disto. 1 Pdr 2. o tema do paraíso ou da terra prometida. pedido de misericórdia em hora angustiosa. prorrompe em aclamações adoração ao Pastor Divino. dentro do grande plano que Deus concebeu a respeito dêste mundo. que o cristão não dê aos elementos humanos que a Bíblia apresenta. Nos salmos 94 e 99 o povo de Deus. do óleo. qual santa grei. João (7. Contudo. assim julgará cada texto dentro da sua perspectiva própria. as quais sempre foram caras tradição cristã: o salmo 22.20) e no Apocalipse de S. * * * Ainda outros fios condutores se poderiam indicar. que perpassam tôda a Escritura paralelamente à idéia central do Messias e elucidam um ou outro aspecto dêste. do trigo). é preciso. Não há dúvida.114 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A figura de Cristo Bom Pastor ocorre também nas epístolas dos Apóstolos (cf. Hebr 13. cântico de confiança. esta série de textos forma um conjunto dos mais significativos da Santa Bíblia. e o salmo 79. sim. e com deleite sorverá a Verdade na sua fonte divina! . Tais seriam o tema dos sacramentos (da água.25.17). 5. o tema do "dia do Senhor" ou das visitas de Deus (visíveis e invisíveis). do vinho. procure ler os livros mais antigos da Bíblia à luz das Escrituras posteriores e da Revelação cristã. etc. A Escritura Sagrada nos quis ensinai duas belas preces ao Bom Pastor.

A respeito dêste episódio. É. no estudo do problema é preciso se atenda ao seguinte Nem tudo que o Antigo Testamento narra é proposto ou insinuado como norma de conduta para o leitor. * * * Três afirmações cada vez mais precisas nos possibilitarão proferir um juízo sôbre as narrativas "pouco edificantes" da história sagrada. como esperaríamos nós. VII). O filho assim gerado.mentira. .25). praticavam o que hoje diríamos "escândalos morais" . 98.CApíTuLo VII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) O HERDEIRO EM IDADE INFANTE Os dois capítulos anteriores procuravam mostrar a história do Antigo Testamento como paulatina ascensão do homem rude a um grau de religiosidade mais pura e perfeita. Gên 16. eram dotados de mentalidade primitiva e. poligamia. nem o próprio Deus os censurava ou coibia.. de acôrdo com ela. de princípio a fim. satisfaz ao Patriarca. crueldade para com os adversários. à primeira vista. mesmo os mais chegados a Deus. dada a esterilidade de sua espõsa Sara. aliás. 17. Antes do mais. a fim de ter prole. condena: os homens da Antiga Lei. se quisermos. fraude. Deus mesmo promete que a Ismael dará uma posteridade inumerável. os "escândalos" da moralidade do Antigo Testamento. Em outras palavras: 1 Haja vista apenas o caso de Abraão. Ésses males morais desnorteiam particularmente o leitor moderno pela circunstância de que nem a consciência parecia repreender os israelitas que assim procediam. Sara quem estimula Abraão a tal feito (ef. porém. Gên 16.. que ora se impõem à nossa consideração. se acham. 1. que projetarão luz sôbre aspectos particulares da moralidade veterotestamentária (cap.10. Proporemos abaixo alguns princípios de caráter geral (cap. sinal de bênção (ef. VIII). disseminados episódios que a consciência cristã. veja-se a pág. Nessa ascensão. Ismael. São êsses fenômenos estranhos ou. se une tranqüulamente à escrava Agar.20). concubinato. que.

ao perceber a fraude. quedas. atrairá maldição.25) e por seus filhos. há narrativas de pecados. além disto.25-36).25-30). pois deve mandar partir o filho predileto para a Mesopotãmla (ci. após os quais teme a vingança de seu irmão Esaú (ci. Gên 27. e de pecados reconhecidos como tais? que o homem peque. 32. mesmo aos justos.10-13).24s). censura Jacó (ci. deva por si causar surprêsa. 1 5am 15.35). não escapa à perspectiva dos autores sagrados. já que ela constitui o fundo real da vida humana. ora é o Senhor que censura os feitos pecaminosos. 2 ora é o modo de narrar mesmo do hagiógrafo que dá a entender tratar-se de um ato mau à luz da própria moralidade do Antigo Testamento. .11-14). 29. reconheça a culpa. certamente isto não é edificante. sem os julgar. na Sagrada Escritura. que usurpou a bênção reservada a seu Irmão Esaú. reconheceu a culpa (ci. acrescentam às narrativas uma nota condenatória dõ mal: ora são os próprios personagens bíblicos que se penitenciam por ter agido erradamente.28-30. 29. não sàmente não espanta. penitente. 1 mas se tornaram santos por graça de Deus. nem mesmo os Santos nasceram tais. Jacó também é castigado. vem o caso de Davi. através de muitas lutas e. mas é autêntico motivo 2 Como exemplo. Poderia até haver certo grau de farisaísmo ou hipocrisia naqueles que se admirassem por encontrar falhas no próximo. porque tem que passar longos anos no exilio.116 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO nem todos os heróis de um livro inspirado por Deus são inspirados em cada um dos seus atos. o próprio Jacó é. Baque. O mesmo se diga da inveja de Saul contra Davi (ci. Ora que significa o fato de que.12s). 2 5am 13. Também Saul se penitenciou quando objurgado por Samuel (ef. não raro. Verifica-se que os opúsculos históricos da Bíblia por vêzes referem os feitos iníquos. porém. o autor sagrado dá mais de uma vez a entender que se trata de um feito condenável: Rebeca e Jacó reconhecem que.18). dadas as circunstâncias habituais em que se desenvolve uma vida humana. o fato de que a criatura peque e depois. Ora esta tragédia comum a todo homem. 37. que déle conseguem separar o filho bem-amado José (ci. Todavia não é algo que. Por vêzes. 1 5am 19. ela tinha que ser envolvida dentro do "temário" da Biblia e tomar-se um dos assuntos do colóquio de Deus com o homem através das páginas sagradas. que. 1 Sam 3. Ao narrar o proceder fraudulento de Jacô. 8 O incesto de Amnon com sua irmã Tamar é nitidamente relatado como ato pecaminoso (ci.42-45). 2 5am 12. por sua vez. se o artificio fôr descoberto prematuramente. 4 Excetua-se apenas a Bem-aventurada virgem Maria. Rebeca é punidá. 27. enganado por seu tio Labã (ci. Algo de semelhante fêz o sacerdote Heli (cf.1-22). 27. e não bênção (ci. após duplo crime repreendido pelo profeta Natã.

conforme o Apóstolo (1 Cor 3. ou seja. pois sabemos que as histórias de penitência edificante nao sao as mais freqüentes nem as mais características do Antigo Testamento. 5 pois a penitência é coisa que nem todos praticain. dir-se-á: a dificuldade é formulada a partir de um pressuposto assaz deficiente. Aquilo que os simples cidadãos se envergonham de fazer.. mas submeteut. gemeu . estas constituem o fundo ao qual se sobrepôs a misericórdia do Salvador. sem silenciar o pecado que prèviamente cometeram. o segundo Adão. A história bíblica foi redigida não apenas para evocar casos morais êdificantes. e sua antítese. o Espírito Sano). superabundante foi a graça" (ef. orou.. pediu indulgência.. o fato de que "onde o pecado abundara.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 117 de edificação.. é que se realça a correlativa generosidade do Criador. no livro sagrado.14). Contudo. 2. quem assim pensasse. ou seja. que a tenha apagado (pela penitência). descreve a história sob êsse ponto de vista.1-3.12-14. histórias edificantes. que manifestam a sublime Sabedoria divina ao homem capazde a apreender (cf. chorou. entre o Prevaricador e o Restaurador. Que tenha caldo em falta. .se ã penitência.coisa que não costumam fazer os reis. a um alimento para crianças (leite). Rom 5. a reduziria a um livro de pedagogia infantil ou. não bastam para resolver todo o problema. além de nutrimento infantil. em última análise. histórias que diretamente induzam à virtude. sômente se se mostra com clareza a depressão moral a que chegou o gênero humano após o primeiro pecado. 2. Em outros têrmos: os "escândalos" narrados no An5. é obra da virtude (sobreaatural) . como se diz. Confessou a culpa. entre o primeiro Adão. não nos surpreende que Deus. em certo grau. embora todos. há na Bíblia também alimento sólido. E como se hão de desvendar essas verdades dogmáticas transmitidas pelas histórias "não edificantes" da Sagrada Escritura? Tenha-se em mente que a história sagrada é a história do gênero humano colocado entre a queda original e o respectivo reerguimento. tenha proposto a figura de homens penitentes. Se. Além disto.6-16). Ef 4.6." Apologia David ad Theodosium Augustum. prostrado por terra deplorou a desgraça. Ambrósio (t 397) notava a respeito da penitência de Davi (2 San 12. 1 Cor 2. por que é que a Bíblia o descreve? Encontra-se repetidamente a narrativa de feitos iníquos nas páginas que. como os autores bíblicos (ou. Ora quem. Hebr 5. não pode deixar de narrar as manifestações de miséria espiritual do homem decaído. sejam pecadores. Estas observações. profundas verdades dogmáticas. jejuou. pergunta-se: embora no homem o pecado não seja para admirar.coisa que costumam fazer os reis.20).11-14): "Davi pecou . é obra da natureza. porém. o rei não hesitou em realizã-lo abertamente. infiel. visam por excelência a santificação dos leitores 1 Será possível crer no valor de tais Escrituras? Em resposta. o ideal de uma vida virtuosa inclui a penitência. pois.

8 nem Deus é dito repreender tais ações. E. 2 Sam 7. por muito significativas que possam ser. lhe evocarão o Deus invencível em bondade.. numa espécie de adultério (ef. apesar de tudo.8-16. teve igualmente seu harém. Note-se a oração do Missal Romano no 10. ao eriuigrar para o Egito. cobiçando a bela Sara. nos atos de compadecer-se da contínua fraqueza humana e perdoar. em Tit 3. 3. cf. prometeu tornar inabalável o seu trono até que de sua linhagem nascesse o Messias. . Ora são êsses varões (Abraã Davi . em última anáiise. Estas considerações. antes de tudo. pois. perdoando um sem-número de vêzes ao pecador sinceramente arrependido que Deus manifesta sua inesgotável ou infinita Bondade.8) Davi foi um guerreiro não raro cruel. 6 7 tecostes S. quando não encontram correspondência. que se dignou dar remédio a tanta vileza da criatura.. Tem concubinas até o fim da vida. sim. com os episódios de "barbárie" das Escrituras antigas. manifestais a vossa onipoténcia.. a sua ilimitada Perfeição. de moda contingente? Para dissipar esta dificuldade. A bondade e o amor das criaturas. é preciso de novo consideremos o problema dentro de quadro muito vasto. não se deixe o leitor prender ao aspecto repugnante que êles podem ter em comum com as narrativas de panfletos modernos. mas. compadecendo-Vos e perdoando. tendem a arrefecer e se extinguir. Paulo fala da philanthropia de Deus. não simplesmente do ponto de vista dos homens do século XX. O É essa relatividade da moral que professa a moderna "Ética da situação" ou o "Existencialismo ético". para que se ponha em relêvo a figura grandiosa do segundo Adão. então também êles lhe falarão de algo de muito sublime. Não obstante.10-20). diz o Génesis que "morreu em feliz velhice" (Gên 25. que houve por bem acudir a tais homens." É. 8 Assim Abraão. antigamente podia ser até virtude? Não se poderia inferir da Bíblia que o bem e o mal moral são questão de oportunidade. Gên 16. 6 Ao se defrontar. diz tranqüilamente que sua espõsa Sara é sua irmã. que Deus por excelência revela a sua Onipotência. Deus desde cedo o abençoou. passe além da aparência superficial. ) que a Bíblia apresenta como justos ou heróis do Antigo Testamento. de fato. antes de tudo. para verificarmos (talvez com curiosidade mórbida) o que se deu.1-3). à luz de Deus mesmo.118 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO tigo Testamento não nos incutem a miséria dos filhos de Adão apenas para se descrever a história.. pois. O mesmo Patriarca se une à sua serva Agar. não venha a matar o marido Abraão (cf. é. deixam aberta ainda uma questão: por vêzes no Antigo Testamento os homens cometem atos ao nosso critério pecaminosos.. conforme os teólogos. a condescendência e a imensa caridade do Salvador.. por mais intensos que sejam. Que santidade é essa? Não estaria assim insinuado que o que hoje se tacha de pecado. sem que a consciência os pareça incriminar.4. a fim de que o Faraó.. Gên 12.0 domingo depois de Pen- Deus. e olhe "para dentro dêsses acontecimentos" com o olhar de Deus.

R. AS idéias desenvolvidas neste itern 3 se devem. atingem a estatura definitiva. um lento desabrochar que. suposta a elevação do homem a um fim sobrenatural. Histoire d'Abraham (Paris. êle não o sabe dizer com muita clareza. lo O Criador se poderia comparar a um agricultor que costuma lançar sementes na terra. a qual levaria os homens. primórdios da história. uma consciência moral ainda embrionária. pois. E dois seriam. O pequenino conhece. minuciosa. para êle. um preceito fundamental: "Faze o bem. possuíam. evita o mal".. mais condizia com a maneira como o Senhor criou e rege o mundo. apesar da sua sublime vocação. conforme o plano divino. evita o mal". e não plantar árvores adultas. porém. evita o mal". Conseqüentemente também os membros do povo de Deus. carregadas de frutos. quanto ao fundo. Maritain. êsse autêntico modo de ver? Quem observa as obras de Deus. de geração em geração. os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida. verifica que o Criador costuma dar existência a cada ser mediante um processo de desenvolvimento paulatino: na natureza os corpos vivos se originam em estado embrionário e. preferiu. Pois bem. também a Revelação divina os ajudaria a perceber a via para atingirem a perfeição (a Revelação era absolutamente necessária. de resto.. assim o bem. obedecer a tudo que vissem ser da Vontadedé Deus. nêles contidas só aos poucos se desdobram. sim. êstes. no que diz respeito à consciência humana. Deus lhes poderia ter revelado imediatamente tudo que a lei natural hoje nos incute.A MORALIDADE DO ANflGO TESTAMENTO (1) 119 Qual será. à obra de. os fatôres que haviam de fomentar ésse desabrochar: de um lado. 1947). vem a ser primàriamente o que os mais velhos. . Só aos poucos é que o adolescente vai percebendo as conseqüências concretas do princípio "Faze o bem. o mal será primàriamente desobedecer a. e poucas restrições impõe. através de um desabrochar mais ou menos lento. mas a maioria das aplicações concretas dêste princípio escapavam à sua percepção. Haja vista a criança: a sua consciência é assaz rudimentar. 10 Ora o que se dá na ordem física. poucas são as conclusões práticas que êle deduz daquele mandamento básico. lhe indicam como tal. a reflexão. Não há dúvida.' a compreender melhor as exigências do princípio "Faze o bem. indica. se verifica igualmente na ordem moral. que o Criador se dignou tornar portadores da verdadeira fé.. Percebiam bem que é preciso absolutamente "fazer o bem e evitar o mal". Todavia em que consiste exatamente o bem a praticar e o mal a evitar. Deus quis que se desse com o gênero humano inteiro algo de semelhante ao que se verifica com tôda criança: nos. sem dúvida. poucos deveres. energias e qualidades. a qual através dos séculos se foi tornando mais apurada. De outro lado.

começa com a. comunicando nobres idéias e aspirações aos israelitas mediante as instituições herdadas dos antenatos caldeus. se desembaraçassem lentamente de tradições pouco exatas. coma Eu vos amei. eliminou em térmos severos o que era estritamente politeísta. Assim fazia que o povo se fôsse elevando espiritualmente. onde se estabeleceu a nação abraamítica ou israelita. aperfeiçoou-os gradativamente a fim de levar o povo a poder receber a Revelação cristã.. J... 17 (1955).. sem intervir por meio de milagres. dotados de consciência primitiva. a história bíblica. elevá-lo. tal preghdor. Deus. à semelhança dos demais povos orientais. Weisengoff. o Criador havia de poil-lo. oriunda de ambiente pagão. êsse patrimônio primitivo de tradições e crenças. enfim pela mentalidade que podiam ter os homens após o pecado de Adão. que significa a plenitude ou a consumação do processo. preferiu ir contemporizando. é muito importante frizar que uma consciência moral ora mais. ou seja. vem oportunamente ilustrar a doutrina: "Quando um professor quer influenciar a mente do seu discípulo. que o povo vivesse. em grande parte por causa das conseqüências do pecado original que obscureciam a inteligência e debilitavan a vontade do homem. às práticas antigas não politeístas. . como a tinham os homens do Antigo Testamento. observando que o Pedagogo Divino não quis apagar O cabedal de idéias religiosas que Israel possuia por ocasião da Aliança no Sinal. permitiu. quanto às outras observâncias.) 11 Dito isto. esforça-se por descobrir as idéias estranhas e tôlas que êste possui. Não quis romper os laços do povo com o seu passado. até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho: "Êste é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros. É claro que essa gente. C. II A seguinte comparação. P. Começou (o seu ensinamento) utilizando os conceitos que Israel possuia. pois. não é incompatível com santidade.120 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fim que ultrapassa as exigências da natureza).. dêstes dois "catalizadores"." (30 15. recebera como herança de seus antepassados muitas tradições e costumes inspirados por mentalidade rude e supersticiosa. chamou. o percurso foi lento e árduo. Deus permitiu que a Teologia e a Moral do Antigo Testamento se desenvolvessem aos poucos. Era com gente de tal nível cultural e moral que o Senhor havia de tratar continuamente. crescessem por ação da Providência Divina e de revelações especiais. pois. Ora na Biblia o Espirito santo é tal mestre. Não há dúvida. desejando preservar a verdadeira fé e a esperança messiânica no mundo idólatra. pois. e elevada santidade.12. em Tire Catholic Biblical Qztarterly. o Mestre divino apenas quis insuflar novo espírito. mas o Legislador não quis cortar bruscamente tôdas essas tradições (isto seria antipedagógico). embora fôssem pouco exatas. em parte. o Patriarca de Ur da Caldéia para a terra de Canaã. Deus serviu-se das concepções de Israel como de um ponto de partida. "Inerrancy of the Old Testament in rellgious Matters". Sob a influência. houve por bem escolher Abraão e sua posteridade para constituírem o povo messiânico.a caridade.. ora menos embrionária. vocação de Abraão. de inteligência obscurecida e vontade Inclinada ao mal. serve-se delas para insinuar aspectos da verdade. pois não estava à altura do culto do verdadeiro Deus. proposta por um autor moderno." O autor prossegue. a consciência do povo de Deus foi percorrendo o longo caminho pie vai da moralidade simples dos Patriarcas do Antigo Testamento à lei de Cristo no Evangelho . Tendo-as percebido. Mais precisamente: a história do povo de Deus. 343. tomando o israelita como era.

a do homem nos primórdios da história. 13 Note-se o caso de Abraão. êste "tudo". ela hoje proviria de decrepitude ou degenerescência culpável. mencionado à pág. através de séculos. A luz destas idéias. mas não sempre foi percebido como tal pelos homens.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 121 E como não é incompatível? Em qualquer época da história. entre outros. Outra é a moralidade imperfeita do homem que teve conhecimento do Evangelho: para êste individuo. não pelo aspecto exterior de sua vida (êste. quando por debilidade da natureza as violaram. o que hoje é pecado contra a lei natural sempre foi hediondo aos olhos de Deus (o mal não depende de mera convenção humana).1-18). se esforçavam por não transgredir as poucas normas que o Seu senso moral lhes incutia e. não atrai a consciência cristã). caso sejam reproduzidos por quem de algum modo conheceu a Cristo). Também não vacilou. desde que o indivíduo em nada contradiga à sua consciência. acarretava. Ao passo que outrora a imperfeição da moralidade provinha do estado infantil da consciência humana. esfôrço notável para êles. a inocência consiste em que o homem nada faça contra a sua consciência. o caso de Davi. . que sabiam dever dar-Lhe. 116s. 12 Tal é. quando o Senhor lhe pediu oferecesse seu filho em sacrifício (e!. seria ilicito. era pouco em comparação com o padrão moral que hoje nos é proposto. repetir o que era praticado pelos justos do Antigo Testamento. como dá a entender o texto bíblico. são modelos de santidade. atingiu o pleno desenvolvimento. Há. o primitivo ascendente (certos atos práticados no Antigo Testamento) e o primitivo decadente (os mesmos atos. por conseguinte. Tais varões. podiam seguir seus costumes primitivos. muito tenham agradado a Deus. não há dúvida. o zêlo de Elias pela causa de Javé. Não há dúvida. foram certa vez incrédulos (cf.1-4). que não hesitou em deixar sua terra e sua parentela para ir a região desconhecida. vemos que é preciso distinguir dois tipos de moralidade primitiva. o fervor da oração de Davi. porém. 12 Tais homens davam a Deus tudo. à qual Deus o chamava (cf. nada que lhe pareÇa contradizer à Vontade de Deus. já que a consciência iluminada por Cristo tem muito mais clara intuição do bem e do mal. é mais exigente. Ora os grandes vultos da história sagrada. etc. 13 Ora era esta incondicional adesão ao Senhor que os tornava justos. imperfeita: uma. disto se arrependeram sinceramente. Tal é também o de Moisés e Aarão: embora por seu zêlo religioso. é compatível com elevada santidade.). morreram em santa paz com o senhor. mas pelo ânimo interior com que se entregavam ao pouco ou muito que percebiam ser da Vontade de Deus (e êste ânimo interior ainda hoje é digno de ser imitado por qualquer cristão: assim a fé de Abraão. Gén 22. não deixavam de nutrir prontidão absoluta para cumprir o que Deus lhes pedisse. numa palavra. Núm 215-12) não obstante. já que a sua consciência moral só aos poucos. Na medida em que a consciência não os repreendesse. por vêzes. fazendo-o. Gên 12.

que analisará alguns pontos particulares da moralidade do Antigo Testamento. chamando-o ao consórcio íntimo da vida e da felicidade divinas. servir à lei de Cristo. que precederam a vinda de Cristo.122 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em conclusão: Deus houve por bem fazer do homem seu filho. Ora está claro que um pai tem. 'Posteomunhão da Missa Pela Paz". a fim de que se mantenha à altura do seu destino sobrenatural. 14 CL Missal Romano. por conseguinte. Feliz todo aquêle que se sujeita a tais imperativos. . em vez de o deixar na qualidade de servq. a consciência lhe pede mais do que pedia outrora. foi dignificado. quis dar-lhe o espírito de amor. é reinar" O significado destas considerações se patenteará ainda meilior no capítulo seguinte. em relação ao filho. pois "servir a Deus. em lugar da lei e do espírito de temor. Noblesse exige. exigências muito mais íntimas e delicadas que as do patrão em relação ao servo. o que quer dizer: o homem se aperfeiçoou.

1 2 Talio. sem dúvida. É o que se fará no presente capítulo. 1 •que assim se formulava "Darás vida por vida. não dando suficiente aten• Lx 21. É esta a famosa lei do talião.12-14. tallonis. ôlho por ôlho. com efeito.21. contusão por contusão.11-21. Trechos semelhantes ocorrem em Lev 24. É êste. o efeito que todo processo judiciário tem em vista: restabelecer o mais exatamente possível a ordem violada. dente por dente. por conseguinte. da máquina. em exigir do culpado o mesmo objeto materialmente entendido.° A LEI DO TALIÃO Como se sabe. mão por mão. Dt 19. ferimento por ferimento.CA1'i'ruLo VIII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) OS DESMANDOS DA CRIANÇA Não se chegaria a satisfatório entendimento do Antigo Testamento se não se considerassem de per si os principais temas de "escândalo" moral que êle apresenta. § 1. embora pareça por excelência garantir a justiça.23-25. porém. Há. o código legislativo de Moisés mandava que o dano causado ao próximo fôsse reparado pela imposição de semeiliante prejuízo ao delinquente. . A lei do talião muito aproxima o homem do autômato. aliás. incutindo um desagravo equivalente ao agravo. t 21. Todavia esta forma de reparação. e justiça perfeita. a lei do taliâo não leva em conta as cir•cuhstâncias particulares de cada delito." 2 Tal norma inegàvelmente visava instaurar justiça. mitigar o rigor da pena a ser imposta. tal. não raro pode ferir a eqüidade. pé por pé. é substantivo latino derivado do adjetivo tahs. maneiras diversas de executar êste princípio: o modo mais simples consiste. circunstâncias capazes de atenuar a culpabilidade do delinqUente e. queimadura por queimadura.

229. de 559). que são coisa f amiliar ao homem culto. caso nisto consentisse a vítima. mas incluam também uma pena de índole moral.124 PARA ENTENDER O AN'rrno TESTAMENTO ção à dignidade espiritual do réu. 230. prescrevia: "Olho vazado por ôlho vazado." (Axt.C.) "Membro quebrado por membro quebrado.) "Morte ao filho do arquiteto. carneiro por carneiro. em meio a nações para quem tal praxe era de todo normal. 2633 "Morte ao arquiteto de uma casa que desmorone sôbre o proprietário. para indivíduos rudes. bem anterior à Lei mosaica (1240 a. Com o progresso. admitiam que o criminoso págasse indenização monetária.) "Boi por boi. Conseqüentemente. não se explicaria uso tão generalizado). 200. mostrando de antemão a pena do delinqüente. "Si membrum rupit. Assim o código babilônico dito do rei Hamurapi (depois de 1700 a. lii cum eo pactt. eram aptos a reprimir pretensões exageradas da pessoa que tendesse a explorar a sua situação de vítima. Pois bem. Se assim é. impunham fàcilmente temor." (Art. art. se a casa cai sôbre o filho do proprietário." 3 Eis.) "Dente espedaçado por dente espedaçado. da cultura. E por que eram tão comuns êsses princípios ? A sua difusão se explica por corresponderem bem ao grau de civilização primitiva do homem antigo.). Já antes de receberem a lei teocrática. os filhos de Israel praticavam o talião. Ora a todo êste processo de evolução o próprio Deus se quis acomodar na educação do seu povo. art.Sofra o talião aquêle que tiver fraturado um membro (alheio). . Além do mais. que deve ser julgado primàriamente conforme a sua consciência. a menos que haja (outro) entendimento. pergunta-se: como pôde a lei do talião entrar no código legislativo do povo de Deus? Antes do mais. Por êstes títulos se vê que o talião era oportuno entre os povos primitivos (se não o fôsse realmente. Ademais. Além disto. os antigos pagãos foram percebendo o grau imperfeito da retribuição pelo talião." (Art. a natureza espiritual e material do homem exige que as sanções infligidas a êste não sejam de ordem meramente material. porém. como reza a Lei Romana das XII Tábuas: talio esto. ao promulgar a Magna Carta de Israel. era freio mais eficaz do que motivos de ordem moral. considere-se que tal maneira de punir era de uso mais ou menos geral entre os povos do antigo Oriente. 197." (Art." (Cf. . dispensando de muitas ponderações. o Senhor se dignou respeitar a por exemplo. pena que afete o homem diretamente na sua qualidade de ser inteligente.). assim como no Direito Romano." (Cf. Simplificavam a aplicação da justiça. o que.C. 196.1 Normas análogas encontram-se na legislação de Atenas promulgada por Solon (f ca.

mesmo de mulheres e crianças. caso tema cometer alguma crueldade. Babha Quamma 17111. Mc 4." (Ant. Dado.3842. IV. os historiadores extrabíblicos referem que.37s.. ao povo vencedor reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos. ximo. . Ci. não. será julgado. não Unicamente segundo o dano material que o réu haja produzido. mas aos poucos. 5 As palavras de Jesus acima citadas de modo nenhum implicam que a justiça cristã não seja lícito aplicar penas aos réus comprovados. porém. sim. § 2. mas também numa ideologia religiosa para nós estranha: cada povo julgava que.. assim como a vitória significaria triunfo da Divindade. aos deuses do vencedor julgavam que deviam ser religiosamente imo4 É o que atesta. 4 Por fim. rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento. Mt 5. Com a prática do talião estão estreitarnente ligados dois outros usos: o herém (extermínio dos inimigos) e as imprecações. hão de ser avaliadas segundo o grau de responsabilidade moral do delinqUente.8.. porém. e autoriza-a a proceder assim. sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo. entre os judeus próximos à era cristã. que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária. a honra dos seus deuses estava em jôgo. aboliu de todo a prática. fôssem apenas despojados de seus bens e reduzidos à escravidão! Tal praxe era chamada o herém ( anátema).) "Quem não julga.35). o talião podia ser substituído pela indenização pecuniária.24. uma derrota militar seria escárnio para os deuses da nação vencida. 1. 5 Não teriam sido. tendem a refrear as paixões do indivíduo e torná-lo cada vez mais semelhante ao Exemplar Divino. de modo geral." (Ci.7. na guerra. o Messias.5.1. por exemplo. Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo "Quem pratica a misericórdia. Com efeito. : Eis normas que. No Oriente. Por conseguinte. a lei lhe reconhece o pleno direito de avaliar a perda sofrida. haveria de reformá-la. 21-25). Mt 5.0 O EXTERMINJO DOS INIMIGOS Muito menos polido que hoje era outrora o direito de guerra. 1 da nossa era "Aquéle que mutilar o próximo padecerá pena idêntica. Mt 7. derrotados na guerra.) .A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 125 tradição da sua gente. o tratado rabinico Mishna. obterá misericórdia. É muito importante notar que o herém se baseava não sàmente num grau de cultura pouco evoluída. inteligíveis aos homens do Antigo Testamento. Le 6. felizes se poderiam considerar aquêles que. a cada um será aplicada a medida que êle tiver aplicado ao pró-. cada qual será julgado conforme tiver êle mesmo julgado..1s. aconselhando mesmo aos discípulos perdoassem gratuitamente a quem os ofendesse (cf. porém." (Cf. o historiador judeu flãvio José no séc. visando o homem como imagem de Deus. Estas.

" Noticias colhidas no artigo de F.4-27: ". podendo servir ulteriormente. 6 o uso. pois não consistia no oferecimento de algo de agradável a Deus. 2 Crõn 32.G. possuía a verdadeira fé. rei de Moab. era destruida em afirmação da santidade e da justiça de Deus. depois de insigne vitória sóbre o cônsul romano Manilio. Podia haver um herém de santidade. as famílias. esquartejando os prisioneiros. inutilizaram tóda a prêsa capturada: as vestes dos inimigos foram rasgadas e atiradas ao vento. o harém dos orientais. tomei-o. os cavalos precipitados em desfiladeiros. determinado objeto era entao oferecido ao serviço de Deus por uma consagração irrevogãvel (cf. não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus dentre O Herem. o herém se tornava particularmente necessário e imperioso: ôste povo. a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida. nenhuma arma que não tivesse sido quebrada. em suma aniquilando os despojos consideráveis de que se haviam apropriado em Módena.11. as cidades. Descobriu-se mesmo uma inscrição de Mesa. Todavia.13). cuneta victa occisioni dantur.). apartamento secreto das mulheres.. mas até os germanos o praticavam. Os ligúrios fizeram algo de semelhante em 176 a. quo voto equi.C. 4 Es 14. Deve-se mesmo dizer que. Esta imolação não era um sacrifício prôpriamente dito. na linguagem religiosa. referente á batalha que Me travou vitoriosamente contra Joram. Os gauleses queimavam a présa ou atiravam-na nos lagos. 8 foi também respeitada •por Deus nas suas relações com Israel. batalha mencionada em 4 Es 3. e êle só. os homens.-M.11).' Fui-me de noite e combati contra éle desde o despontar da aurora até o meio-dia. viri. era tão comum que não sõmente os semitas. 8 A própria sagrada Escritura dá testemunho de quanto ésse uso era frequente entre os pagãos (ef. toma Nebo combatendo contra Israel. Miq 4.28s. reservado para Deus.14. quebrando contra as muralhas vasos de diversos tipos." 7 Ora tal praxe. para os hebreus. subtraído ao uso profano. familiar aos antigos. era de sumo interêsse na história sagrada que Israel não corrompesse a sua religião.. e apreendi os objetos de Javé e os levei à presença de Camos.Os vencedores devotaram a Marte e Mercúrio o acampamento inimigo. II istoriarum liber 5. Abel "L'anathême de Jéricho et la maison de Eahab". Havia igualmente um lierém de maldição ou anátema: certa pessoa o coisa..E Gamos me disse: 'Vai. por conseguinte. interditado" ou.57. 323s. pois eu os devotara ao anátema em honra de Astar-Camos. para um dia transmiti-la ao mundo. segundo o testemunho de Tácito: "Vic'torts ctiversam acieni Marti cxc Mercurio sacravere. aliás. Eis mais alguns exemplos de prática do herém fora de Israel: Os cimbrios e os teutônios.16). os haveres. em Revue biblique. matando os animais. voto êste em virtude do qual são entregues ao extermínio cavalos. por um ato de extermínio total. .. rei de Israel (852-846 a. o equipamento dos homens destruido em mil pedaços (cf. Orósio. Lev 27..126 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO lados. Entre numerosissimos objetos de bronze excavados nas turfeiras da finamarca não se encontrou um só intato. matei tudo: sete mil hômens e crianças e mulheres e donzelas e servas. . em sua acepção original semítica. homens e tudo que pertence aos vencidos. significa algo de "separado. abominável aos olhos de Deus. 13. 7 Annales. do povo vencido. a fim de manter incontaminada a crença de Israel. o ouro e a prata lançados ao rio. 57 (1950). Is 37. A mesma raiz semita deu a palavra liarim.

não deixava de sofrer a Influência do ambiente. os ferezeus. os amorreus. é o mentor da vida dos pagãos . portanto. Dentro da ideologia do Antigo Testamento. tal procedimento. U (Paris. como o Senhor teu Deus te mandou.16) 'os cananeus não exterminados contaminaram freqüentemente o povo de Deus por ocasião da ocupação da Terra Santa (cf. a fim de que não vos ensSem a imitar tódas as abominações que êles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus. em última análise. inversamente.23s. ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra. Em outros têrmos: já que o Senhor decretara realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel. Deus. a fim de conjurar o dito perigo. Entregarás êsses povos ao anátema: os heteus. 7. quando a sua obra de chefe do povo estivesse em jõgo ou desde que se tratasse de assegurar a salvação de Israel. Já que êle via. um valor insubstituível. que não podia ficar exposto a risco nenhum). povo de Javé. os cananeus. os triunfos dos pagãos seriam triunfos daquele que. Núm 25. a e*periência mais de uma vez comprovou que. 9 Assim os madianitas induziram Israel à luxúria e à idolatria durante a travessia do deserto (cf. " Em conseqüência. 34-38 e o quadro da história dos Juizes em . de Abraáo ao verdadeiro Deus era. 10 Muito á propósito vêm as observações de A. 10 Apoiando-se nestas idéias. fomenta a idolatria." (M 20. os heveus e os jebuseus. de sorte que em vários pontos êle seguia o modo de ver do seu tempo. Si 105. Clamer. a fim de se precaverem danos religiosos (repita-se: a fidelidade dos filhos. 31. não hesitava em recorrer às leis de guerra vigentes outrora e assim exterminar os cananeus e os outros habitantes da terra." . nessas ocasioes o Príncipe dêste mundo parecia pôr em perigo a causa messiânica. 1946).2-4. fazia que a sorte dêsse povo viesse a ser nada menos que a do reino de Deus em meio ao reino do êrro e do pecado. não sem razão. La Saiste Bible.16-18. os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas.. no paganismo cananeu o mais grave perigo ao qual estava exposta esta salvação. era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém e o sancionasse. eis como o legislador sagrado incutia o herém a Israel: "Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus te há de dar como herança.. os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do reino de Deus. tendo confiado a Moisés a chefia do seu povo.Satanás. permitia.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 127 os demais povos. podia-se com tôda a razão dizer que o reino das trevas triunfava sôbre o reino da luz cada vez que Israel sucumbia na guerra. na história. nelas não deixarás a vida a indivíduo nenhum que respire. não recuando diante da violência mesmo sangrenta.1s.) 2.10-19). cf. 563: "Moisés. Procuremos explicitar melhor o que a concepção acima exposta acarretava para os homens do Antigo Testamento. embora tivesse de Deus e da religião conceitos muito superiores aos de seus contemporâneos. O fato de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo inteiramente idólatra.Jz 2.

para te proteger e entregar diante de ti os teus inimigos.21-33 e 2. Em conseqüência. a fim de que Êle não encontre em ti algo de indigno e se afaste de ti.35.11. Jz 1. proveniente da prêsa dos inimigos de Javé. 13 Foi o que o senhor fêz rejeitando o rei Saul. Jos 10. portanto.40) 12 e. Eis por quesos hebreus diziam que os inimigos de Israel eram os inimigos de Javé e vice-versa. exclamava Moisés: "Levantai-vos. 120. cf. cf. os hagiógrafos attibuem diretamente a Javê os têrmos com que os chefes Israelitas promulgavam a lei do herém segundo o costume vigente entre os antigos povos.128.11-23). O guerreiro era um homem santificado. Eis igualmente por que se afirmava. conforme 1 5am 15. Davi enviou parte da prêsa (dos amalecitas) aos anclãos de Judá. 11 que as suas guerras ieram "as guerras de Javé" (cf. A consciência de que os feitos belicosos de Israel eram obra religiosa aparece claramente no livro de Ester: o conflito entre judeus e persas que êste opúsculo descreve. o que LIe faz por causas segundas ou instrumentos e o que Êle apenas permite.6. As observâncias podem ter sido comuns a muitas nações. de se aproveitar dos bens alheios). Núm 31-19-24.14.26. porém. assim como uma linguàgem muito menos matizada ou filosófica. Jos 10. era de todo própriã (monoteísta).) Conforme 1 5am 30. teu acampamento.que a chama javista de Israel se procurou libertar. ao caminhar com a arca do Senhor e o povo pelo deserto. quDeus mesmo inculca o herém (e!. Por isto não costumavam distinguir entre o que Deus faz diretamente.42). seus amigos. 2 5am 11. 1 5am 21. . Senhor. segundo um modo de falar típico dos israelitas. caso êste não fôsse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham. o povo eleito passou a ser perseguido. primeiro ministro do rei da Pérsia." 12 Os israelitas tinham uma concepção do universo e da história estritamente religiosa. deve ser santo. consagrado ao serviço de Deus "O Senhor teu Deus caminha em meio do teu acampamento.) Verdade é que outros povos antigos guardavam semelhantes normas de pureza na guerra. se originou do fato de que Mardoqueu. pág.15. Éx 17. "de volta a Siccleg.16-30. 11 Assim. e de fato se libertou. 13 O conceito de que as guerras de Israel eram ato religioso explica outrossim as prescrições de pureza impostas aos guerreiros hebreus: era excluído do acampamento militar todo homem que tivesse tido relações conjugais ou contraído imundície legal por ãcidente ou por toque de cadáveres. se recusou a prestar homenagem (fazer genuflexão) a Amã. a mentalidade. Ora foi dessa opressão . do que a nossa.16) ou que "Javé combatia em favor de Israel" (cf. em conseqüência disto. no fundo. estritamente religiosa .meramente politica em aparência. dizendo: "Eis um presente para vós. porém. entregando freqüentemente os israelitas à opressão dos inimigos no tempo dos Juizes (cf. israelita. e que os'vossos inimigos sejam dispersos! Fujam diante da vossa face aquêles que vos odeiam !" (Núm 10. homenagem que tinha significado religioso. puniria os próprios judeus. que as animava em Israel. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a salvação do gênero humano." (Dt 23.

A MORALIDADE DO ANTIGO TEStJCMENTO

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3. Ulterior obsertaão Cimpõe: embora a legislação de Is rael reconhecesse o herém, ela o abrandava assaz, em confronto do que faziam os outros povos. 14 Msim, tolerando o herém, mas um herém mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento. 15 Eis alguns testemunhos: o Deuteronômio muito insiste na humarlização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que, fia campanha dê conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não-cananéia, o povo eleito procure reduzir as seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversária obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças; 1 a mulher não-cananéia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como espôsa de um israelita, que a trataria com todo o carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (cf. Dt 21,10-14). Dois episódios da história sagrada, um do período dos Juizes (cf. Jz 21,13) e o outro do reinado de Davi (cf. 2 Sam 20,14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra
14 Os monumentos e os textos assirios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedãneos para os pés dos monarcas, etc. (ci. também Heródoto, IV, 150). Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram o ventre de mulheres israelitas grávidas (ci. Am 1,13; Os 14,1). O mesmo profeta descreve e condena as atrocidades praticadas em guerra pelos sinos, os filisteus, os tinos, os edomitas, os amonitas, os moabitas (Am 1,3-2,3). Eliseu prediz que os sinos hão de esmagar as cniancinhas e violar o ventre das mulheres grávidas de Israel (cf. 4 Rs 8,12). sabe-se outrcssim, por 4 Rs 25,7, que os babilônios estrangularam os filhos de Sedecias, rei de .Judá, ao passo que a éste Nabucodonosor mandou crivar os olhos, prender com duas correntes e deportar para a Babilônia (ci. Na 3,10). Semelhantes costumes bélicos vigentes entre os persas são atestados por Is 13,16-18. Os motivos que levavam os pagãos a praticar o herém provinham de urna religiosidade muito menos elevada que a israelita. Não raro pressupunham que os deuses se compraziam no exterminio dos homens como tal: Mesa, por exemplo, rei pagão de Moab, numa famosa inscniçáo (cf. nota 7 dêste capitulo), afirma que, após a conquista da cidade de Cariataim, fêz perecer tôda a população que ai se encontrava, a fim de oferecer um espetáculo agradável a Camós, deus de Moab (linhas lis). 15 Aliás, o simples fato de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis teocráticas, devia concorrer para coibir a eventual tendência dos chefes de Israel aos abusos, à violência irrefreada. 16 Ci. Dt 20,10-18. O modo de tratar as cidades cananéias seria outro, pois, estando localizadas na terra mesma que Israel devia habitar, a coexistência de cananeus pagãos com os israelitas fiéis oferecia grave perigo de contaminação pagã. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do herém ao vencer os cananeus, como inculca Dt 7,2-5; 20,15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel õ preceito do herém era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que êle fôra sancionado paS o povo hebreu.

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PARA ENTÊNDER O AlTIG0 TESTAMENTO

morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entraram èm acôrdo com inimigos não-cananeus. Houve também varões dopovo de Deus que espontâneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exempio: conforme 2 5am 8,2, Davi, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar apenas a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte ... ! É o que explica que, em 3 Rs 20,31, os sírios reconheçam a demência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Benhadad, vencido por Acab:
"Ouvimos que os reis da casa de Israel são reis dementes. Permite que nos revistamos de sacos sôbre os rins e cordas sôbre as cabeças, 17 e que vamos ter com o rei de Israel; talvez te poupe a vida."

4. Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do herém, por vêzes se deixavam levar não pelo zêlo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jeú: êste General foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a casa de Acab, rei iníquo seu antecessor (cf. 4 Rs 9,2-10); Jeú o fêz realmente, mas, embora intencionasse zelar pelos interêsses de Javé, cedeu a crueldade horrorosa (cf. 4 Rs 10,1-17) ... Ora o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oséias (cf. Os 1,4s). Êste episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.
Também Davi parece ter-se deixado arrastar a excessos no episódio relatado em 1 5am 27,8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca de Israel se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benévolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenara ao anátema (ci. 1 5am 15,3) ; os gessurianos e os gezrianos, que eram provàvelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquis e, temendo contrõle ou represálias da parte dêste, dizia-lhe ter feito expedições nas regiões do Negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e a seus aliados. Tais depredações procediam realmente de zélo religioso ? E a mentira subseqüente que as encobria, poderia ser justificada? De resto, a Sagrada Escritura fornece indicio de que os freqüentes derramamentos de sangue por Davi cometidos não sempte corresponderam ao plano divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o templo de Javé em Jerusalém, recebu do Senhor formal recusa, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o templo, santuário da paz, fôsse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (cf. 1 Crõn 22,8-10; 28,3).
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Indumentária de penitência

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• 5. Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia fôsse o herêm praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Dt 13,13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fratricida contra a tribo de Benjamim (Jz 20,1-48; 21,1-14). A medida, porém, que se ia elevando o nível cultural e.moral de Israel, abrandava-se a praxe do herém entre conacionais; assim na época de Esdras (séc. V/IV), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e a sua exclusão das assembléias do povo (Esdr 10,8). 6. Ainda outro elemento deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas •do Antigo Testamento: é a nzentalida4e do clã ou coletivista. Entre os antigos de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não sàmente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isto se explica, em grande parte, pelo gênerode vida nômade que levavam os primitivos. Com efeito, os nómades vivem da grei, dos rebanhos que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter gregário ou coletivista à vida do clã, fazendo que o indivíduo como ta desapareça na engrenagem do todo. Ademais na vida nômade é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vêzes na antiguidade que os fatôres da história não são "êste" e "aquêle indivíduo", mas "êste" e "aquêle clã". IS Ora êste modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeito, todo o grupo respectivo se julgava atingido; por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a coletividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os freqüentes choques de tribo contra tribo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também êsse o motivo por que muitas vêzes os filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por
18 Manifestações de tal mentalidade encontram-se não sõmente entre os semitas, mas também entre os gregos antigos: assim a totalidade dos troianos teve que pagar pelo malefício de Paris; creso expiou o morticínio cometido por Gigés, seu antepassado em quinto grau; Eurlpides declarou que "os deuses fazem redundar contra os descendentes os passos falsos dados pelos antenatos". A mesma lei da solidariedade, a mentalidade do clã, é vigente ainda hoj e em tribos orientais nómades. Cf. E. sellin, "Das sub jekt der altisraelitischen Religion", em Neue kirchlic/te Zeztschrift, 4 (1893), 444; J. De Fraine, "Individu et société dans la religion de l'Anclen Testament", em Biblíca, 33 (1952), 451s.

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PARA ENtÊÏ,tDERt Õ ANTIGO TESTAMENTO

um legislador condenados à maldil&' 'Nhistória'üagfada apíesenta disto um exemplo assaz significativo em 1 5am 15,1-3: Samuel manda a Saul e±tern'iiie os amalecitas - homens, mulheres, crianças - e todo o seu gado, porque em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia já mais de dois séculos, se tinham oposto à'passagem do povo de Deus (cf. Éx 17,8-13; Núm 14,45; Jz 3,13; 6,3); Moisés, em conseqüência, os tinha condenado a completo extermínio (cf. Dt 25,17-19; Núm 24,20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos! 20 Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também êsse modo de ver imperfeito. Acontecia no séc. VI que os judeus, punidos por guerras e deportações, se queixavam de que seus pais haviam comido uvas amargas e os dentes dos filhos sofriam em conseqüência (e!. Ez 18,2; Jer 31,29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipôcritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou expl'icitamente negar a veracidade do pressuposto: "Eis que têdas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha; a alma que pecar, essa morrerá."
(Ez 18,4; cf. Jer 31,30.)

Assim mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional...
§
3,0

AS IMPRECAÇÜES

Ocorrem no Antigo Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja o mal àqueles que o angustiam. São frases que, à primeira leitura, parecem aptas a ofender a consciência do cristão e pedem um esclarecimento exegético. Dentre essas fórmulas, não se negará que algumas sejam expressão da paixão desregrada; acham-se simplesmente citadas ou consignadas, como ditos alheios, pelo hagiógrafo, não, porém,
10 "Derramar o sangue de um membro da família é derramar o sangue do grupo, é atingir o corpo orgânico. Isto vale até em caso de suicídio e de abôrto; mas vale principalmente em caso de morticjnio... Tudo é comum: a injúria, o prejuizo, o dever e até o sangue; ainda em nosos tempos, em caso de homieldio, os árabes dizem: Nosso sangue foi derramado." J. De Fraine, art. cit., 456. "Cada grupo entre os semitas constitui um só vivente, como uma única massa animada, formada de carne e osso, da qual parte nenhuma pode ser tnincada sem que todos os membros sofram com isto." R. Smith, Retigion of Mie Semitios, 274, citado por A. Leds, La croyance à la vie fature et te culto des morta dans l'antiqulté israélite, II (Paris, 1906), 274. 20 De resto, o decálogo mesmo foi formulado em têrmos adaptados a essa mentalidade coletivista. Eis como se encerra o primeiro mandamento: 'Sou o Senhor vosso Deus,,., castigo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até a milésima geração áqueles que me amam e observam meus mandamentos." (Êx 20,5s.)

A MORALIDADE Do ANTIGO TESTAMENTO

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aprovadas nem propostas peio Espírito Santo qual modêlo de sentimentos do homem de Deus. O contexto indica quais sejam tais imprecações pecaminosas (cf., por exemplo, 1 8am 22,16; Si 39,16; 40,6-10). Muitas, porém, das imprecacões do Antigo Testamento, mormente do saltério, não são de modo nenhum condenáveis; têm significado bom, até hoje válido. Para entendê-las, será preciso considerar que procedem de um ânimo intimamente unido a Deus,.., por mais estranho que ]sto pareça. Em verdade, os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, não o costumavam fazer a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas advogavam os interêsses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou impilcitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser os adversários do próprio Deus. 21 Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos têrmos com que os antigos orientais, dotados de ânimo férvido, costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a tôda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína. Isto mais ainda se compreende se se leva em conta que os hagiógrafos não costumavam fazer distinção explícita entre a pessoa que praticava o mal, e o mal por ela cometido; já que, na realidade cotidiana, a injúria se nos depara geralmente associada a determinado indivíduo que lhe dá origem, o autor sagrado, desejando a extinção das injúrias. (o que em si é coisa ótima), envolvia na sua fórmula imprecatória a pessoa mesma injuriante (o que não quer dizer que desejasse mal a esta como tal). É dessa situação psicológica que resulta o modo de falar surpreendente das imprecações bíblicas. Quanto aos têrmos com que se acham formuladas, convém frisar que pertencem ao vocabulário oriental, tendente às hipérboles e à ênfase. São muitas vêzes tirados diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de outrora. É o que dá tanta
o que claramente transparece dos seguintes textos: "A sombra das tuas asas agasalha-me contra os pecadores que me fazem violência, Contra os inimigos que, sedentos, me rodeiam." (SI 16,8s.) Sejam confundidos e corem de vergonha os que procuram arrebatar-me a vida! Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te procuram !" (51 39,15.17.) "Ouvir-me-á e os humilhará Deus, que tem um trono eterno, Pois não há nêles conversão, e não temem a Deus." (51 54,19s.) 'Não entrarão em si, porventura, os que cometem iniqüidade, Os que devoram o meu povo assim como engolem pão, Os que não invocam a Deus?" (SI 53,5.)
21 É

pois.. subtraindo-o ao plano de simples função da natureza para lhe dar valor religioso (cf. o matrimônio monogâmico . porém. com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo.) . DIVÓRCIO E INCESTO a) poligamia. o discípulo de Jesus tem por lei "amar os inimigos. nos livros posteriores da Sagrada Escritura. quando pela primeira vez aparece na história sagrada. devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás. note-se bem. Para o cristão.. nos salmos imprecatórios) a expressão do desejo de que justiça seja feita. § 4.. apresentado como figura da união de Deus . em parte são tudo que há de mal disseminado em tôrno de nós. ocultamente movidas por Satanás. protestantismo.49s. o Criador mesmo o instituiu e abençoou. chamado "aliança de Deus" (Prov 2." (Gên 32. reze os salmos imprecatórios. derrogar ao amor dos homens. Mal 2. aliança "da qual o Senhor é testemunha" (cf. Sem. seitas (comunismo maçonaria. o matrimônio . em suma. não contra os maus. mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. para um plano todo impessoal. do íntimo do coração. pois. às frases impreôató rias. 2. 22 Visto ser "aliança de Deus". Gên 1.14). são as tendências desregradas da própria natureza humana. tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo.23s). orar pelos que o perseguem" (cf. À luz destas considerações.que faz 22 Muito significativas são também as palavras que Labã proferiu quando se despediu de seu genro . baluartes que... se esforçam por disseminar o êrro e o pecado no mundo! E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios. Não há dúvida.. espiritismo . e deve. principalmente nos escritos dos Profetas.dir-se-ia mesmo: crueldad& 19 . o contrãto entre marido e espôsa é. Mt 5. deve desejar a extirpação completa dêste potentado e dos seus baluar tes.44). êle pode. entendê-las-á como fórmulas dirigidas contra os males e o Mal. a quem dera as duas filhas por espõsas: "Que o Senhor nos observe. a mim e a ti. o leitor da Bíblia verá nas imprecações (em particular. os abusos coibidos.Jaeó. O matrimônio.. ) que.17).é.28. é união monogâmica.° POLIGAMIA.134 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vivacidade . tôdas as potências. será preciso descontar o que tais fórmulas possam ter de hiperbólico e convencional. Deus será testemunha entre mim e ti. transportar-se-á. quando nos tivermos separado Se maltratares minhas filhas e tomares outras mulheres ao lado de minhas f 1lhas . em parte. Por ido. Para se perceber a verdadeira mente do autor sagrado. Que o cristão.e.39.

6). 24 Homens retos e homens indignos de Israel foram polígamos.1-13). Éste dispositivo da Torá se explica por um ato de tolerância divina.13. cf. o hagiógrafo indiretamente condena o bígamo.1-49 e Jer 36-13. ouvi minha voz. escutai minha palavra: Matei um homem em troca de um ferimento recebido. o autor sagrado lhe atribui uma nota pejorativa.5s. Caim será vingado sete vêzes. pág. O rei Davi tinha um harém numeroso (1 Sam 18. 30.2). . para que a metáfora correspondesse à realidade (cf.Abraão tinha Sara por espôsa principal (Gên 12. se refere ao contrato de um jovem com uma donzela (Sara). De Abraão (ca. talvez a poligamia (cf. A legislação 23 Observa-se que. fiéis a Deus (Gên 5. assim como Noé.23s.17. havia Agar.1s).3. Is 50.18).com sçu. de 1800 a. referindo o episódio.2-5. Esaú teve três mulheres (Gên 36.1). Gên 4. A exceção se explica pelo fato de que o hagiógrafo queria aludir não ao povo de Deus como tal. pois frisa a índole sanguinária e vingativa que o Patriarca manifesta em versos às duas espôsas: "Adá e Selá.5). porém. pois. Lev 18. Mulheres de Lameque.25. Assim: . E um jovem em compensação de uma contusão.) Quando. 24 A praxe da poligamia foi finalmente reconhecida pela Lei mosaica em 1240 (cf.C. 5. 25. setenta e sete vêzes. ao lado dela. o livro de Tobias. n.2. Vejam-se Os 1. mesmo piedosos. porém. Lameque. 3. Precisamente o que caracteriza a corrução antes do dilúvio é o irrefreado comércio matrimonial. 21. 11. Gên 6. o pai de Samuel.14).2. A linhagem dos setitas. Jacá esposou Lia e Raquel. 62.15. Dt 17. 249. O primeiro caso de bigamia que a Sagrada Escritura registra. Ao matrimônio bigamo assim descrito não se pode atribuir valor de nodêlo. a imagem que deve indicar a realidade espiritual é a de um matrimônio bigamo: o espôso tem duas espôsas Irmãs.1. 2 Sam 3.que se comporta como espósa. a escrava (Gên 16.27. Famoso foi o harém de Salomão (3 Rs 11.1-4.19) Éste é o sexto membro da linhagem de Caim. verifica-se na família de Lameque (cf.° 19). POVO .29.18). ticaná. a figura da espõsa única tinha então que ceder à das duas irmãs esposadas ao mesmo varão. Gên 12) em diante.21s. em Es 23. de mais a mais que a Lei mosaica explicitamente condenava a união de um varão com duas irmãs (ci.. Ora.22). o justo salvo das águas (Gên 6-9).1-32)." (Gên 4. têm freqüentemente (dir-se-ia: normalmente) mais de uma espôsa. 23 O livro que por excelência apregoa a santidade da vida conjugal. os homens. cada uma das quais o instigou a unir-se com uma escrava (Gên 29. 3.27). caracterizada pela corrução (o que já por si toma suspeita a novidade dos matrimônios de Lameque). 54.39-43. são monogâmicos. Lev 18. a bigamia é introduzida na Escritura. e concubinas (Gên 25.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 135 as vêzes de Espôso . mas distintamente às duas partes em que o reino de Salomão se havia cindido. Jer 2. teve duas espôsas (1 Sam 1. 2.5.

) 27 A impureza legal estava baseada em fenômenos fisiológicos (às vêzes. o varão hebreu procurasse unir-se a outra. todavia Moisés. 144. que prole numerosa era sinal de bênção divina (pois. linhagem do Messias). a existência legal de unia concubina ou de uma escrava. caso esse homem. Distingue-se bem da "impureza moral". no caso de ser infecunda a espôsa. no decorrer dos tempos a poligamia se tomara comum no antigo Oriente. mas também na antiga Caldéia. e que não seria concubina. os reis da Babilónia tinham nos respectivos haréns mulheres de condições variadas. sim. sem implicar necessàriamente culpa no indivíduo por ela afetado. por vêzes. por exemplo. O código legislativo do rei Hamurapi prevê. iam ter à cõrte na qualidade de reféns).95). que o sujeito contrai por uma vontade inclinada ao mal.136 PARA ENTENDER' O ANTIGO TESTAMENTO matrimonial de Israel podem-se apiieaPrm. Lc 1. eram. ao lado da espõsa principal. globo as pa1avrasde Jesus: "Foi pI r cauid & dureza do vosso coração que Molsés permitiu.14. que a espósa apresentava ao marido (art. Is 63. uma escrava.9 e Os 9. inclinadas a seguir tal praxe. ao passo que esterilidade equivalia a maldição (cf. estéril.) Não sômente em Israel. caso a escrava fõsse fecunda: "Se um homem esposar uma mulher e se esta der ao marido uma escrava que procrie filhos.) Com efeito. culpada." (CL Mt 19. da mesma forma procedeu Lia. sua escrava (Gén 30. filhas de régulos submetidos ao Egito (as quais. estados ou fases de "impureza legal" (os períodos de menstruação. não era assim.25). ao 25 Sabe-se que o número de mulheres que um proprietário oriental possuia.6. já pelo seu âmbito de vida. O Código de Hamurapi proibia ao marido tomar uma concubina. enumerava. a principio." (Gên 30. Dizia Raquel: "Que Balá dê à luz sóbre os meus joelhos. O mesmo se dava no Egito. fêz que Jacó se unisse a Balá.8. Ademais julgavam encontrar em sua ideologia religiosa um estímulo possante para não se afastar do uso geral: os descendentes de Abraão estimavam. ou estrangeiras. ouviu a minha voz e me deu um filho. a mulher rica recebla de sua família. tornando-se então a prole da escrava propriedade da patroa. por conseguinte." (art.) E. Entende-se então que. de seu prestígio. 26 A largueza tolerante de que assim dava provas a Lei mosaica erã de certo modo compensada por restrições que a mesma formulava a respeito do uso do matrimônio. era tido como indício de sua riqueza. não se lhe dará autorização para isto e êle não tomará concubina. quando Balá gerou Dã. 144-146). que ficaria à sua disposição para o resto da vida. O Faraó possuía numerosas mulheres. 25 Os hebreus. 27 É verdade que também outres povos conheciam tais restrições ou estados de "impureza".3.3s). A patroa podia ceder o seu lugar à escrava nas relações com o marido. e por ela terei tambêni eu uma família !" (Gên 30. como dote de casamento. agregava o pai de família à. doenças). filhas de altos funcionários. próxima ou remotamente. uma só era feita "grande espósa" ou rainha.). porém. 26 Assim Raquel. queira tomar uma concubina. exclamou Raquel: "Deus me fêz justiça. . apresentando a serva Zelfa a Jacó (Gén 30. nos quais os cônjuges eram obrigados a se abster do comércio matrimonial. doenças etc. sim. a uma mulher livre ou à escrava da sua consorte (a prole da escrava era considerada pertencente à patroa). a algumas era dada a dignidade de "espósas régias". Essas mulheres em maioria ficavam sendo concubinas. Por Isto.

44) " 28 Na plenitude dos tempos. cedendo o lugar à monogamia inicial (cf. mas. que conservavam a idéia e a prática do matrimônio em certo nível moral e contrastavam com a licenciosidade tolerada por outros povos.4-6). II (Paris. 102. sim. 1946). o Legislador hebreu lhes atribuía um significado mais nobre. Anàlogamente se exprime H. quando foram inseridos na legislação de Israel.para que o marido a pudesse repudiar 28 La . Lesêtre. a mulher era colocada sob a tutela de um interdito religioso. o instinto racional mesmo sabia utilizá-lo para se defender contra os ímpetos do instinto animal. qualquer que tenha sido a origem dos costumes tradicionais promulgados pelo código mosaico. não implicavam necessàriamente superstição degradante. "Mariage". a poligamia seria removida dos usos do povo de Deus. é importante notar que os textos bíblicos referentes ao divórcio não o instituem em Israel (como não instituem a poligamia). eis o que o Senhor recomendava após discriminar as impurezas legais. Mt 19. queria levantar a mente do povo a um ideal que os pagãos estavam longe de conceber. Sendo expressão da vontade de Deus.. 763: "A lei mosaica se adaptava aos costumes da época autorizando o divorcio e deixando em vigor a poligamia." .A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO r ) sanciOnfrlas (II) 137 oficialmente para Israel.. porque sou santo. porque 'sou santo e não vos tomareis impuros" (Lev 11. pelo Evangelho. Exigia.houvesse "algo de repugnante" na mulher .. IV (Paris. em Dictionnaire de Ia nuble. Referindo-se a êste texto bíblico. supondo-o já em vigor. êsses usos tradicionais visavam assegurar a santidade do povo de Deus: 'Vós vos santificareis e sereis santos. e não vos tomareis impuros. determinam as formalidades necessárias para o tornar legal e diminuir a sua freqüência. b) divórcio. a Lei mosaica motivo sério .Sai'nte flible. Estas concessões eram contrabalançadas pelos Impedimentos matrimoniais de parentesco e pelas regras severas de pureza legal. o freio religioso sendo quase o único que impusesse resjieito. reconhecendo usos comuns dos antigos povos.44). comenta Clamer: "Tais prescrições (restritivas do matrimônio) . apto a corrigir a dureza de coração da sua gente: deveriam ser observados em virtude de uma aspiração à pureza moral. Eis outro elemento da antiga Lei que causa surprêsa ao cristão: a praxe do divórcio. interior. 1928).' (Lev 11. Aliás. Antes do mais. já ninguém mais sabia o seu significado originário. diz o Senhor. ou à santidade: "Vós vos santificareis e sereis sant8s. nos periodos mais perigosos da menstruação ou do parto.. não será preciso dizer que.

Mt 19. concubinato e divórcio reconhecidos pela Lei. como dissemos.) Além disto.) Mais ainda: a legislação israelita permitia. na história sagrada. onde se lêem diversos motivos para que a mulher repudie o espôso. eis um entre outros artigos babilônicos: "Se uma espOsa é boa dona de casa. o qual simplesmente rezava: "Se um homem estiver disposto a repudiar uma concubina que lhe tiver procriado filhos. 142. e) ulteriores aspectos. Isto foi por Deus permitido em vista das extraordinárias circunstâncias em que então se achava o gênero humano. episódios que em hipótese alguma poderiam ser justificados. Logo. no Código de Hamurapi. Dt 24. as restrições cederiam à proibição formal (cf." (Art. 137. porém. não havia outro meio natural de prover à propagação da espécie. Também êste dispositivo visava restringir os divórcios. Fora de Israel. o seu primeiro marido nunca mais a poderia retomar por espôsa (cf.. por exemplo.1). pode tomar o seu cheriqton e ir-se para a casa de seu pai. Ole restituirá a essa mulher o seu cheriqton (espécie de dote) . a Lei mosaica só ao marido reconhecia a iniciativa do divórcio. caso. sem dúvida. Ao lado dos casos de poligamia.138 PARA ENTENDER O ARTIGO TESTAMENTO (cf. Dt 24. Jer 3. sim. constituindo.. a Lei israelita bem dava a entender quão pouco desejável é o divórcio numa sociedade que tenda à perfeição.1). o Corã permite que a mulher repudiada seja de novo recebida pelo marido. Também esta cláusula restritiva não figurava no Código de Hamurapi. irrepreensivel. que se constituíram famílias diversas. a mulher jamais a podia tomar. ou seja. por exemplo. a fraqueza humana nêles se manifestou. Na plenitude dos tempos.. admoestando o marido a que não se separasse sem reflexão prévia. porém. essa mulher não tem culpa. caso haja entrementes vivido com outro homem (condição justamente contrária à legislação mosaica) 1 Por essas diversas restrições. que a mulher repudiada contraísse novas núpcias. Tal exigência não ocorria.1-4.. ou uma espOsa que lhe tiver procriado filhos. Por fim. entre os árabes.3-9). o fundo negro sôbre o qual mais havia de sobressair a graça da Redenção. e se o marido sai e muito a negligencia. houve.(Art. os filhos de Adão e Eva. irmão com irmã. . se casaram entre si. entrou em absoluto vigor o ditame de consciência que proibe o matrimônio entre irmãos. ainda parece oportuno observar: Os indivíduos humanos da primeira geração. chamada a ser o povo de Deus. se casasse de novo.

Jer 48. 31 Os hebreus abominavam o ato incestuoso que atribuiam às filhas de Lote (ci.. as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado. Note-se como por três vêzes é inculcado que as filhas de Lote conceberam de seu pai (vv. Lev 18. De resto. haviam Incorrido no ódio e no desprêzo dêstes (cf. sem contra êles protestar: 'Assinalam o trecho com pontinhos. que acarretou. "Amon" (ben-ammi) seria "Filho do meu povo" ou. exprimiria uma "história" imaginada para depreciar amonitas e moabitas. relatado em Gên 19. as duas jovens teriam tido cópula carnal com seu pail Apenas seria de notar que a narrativa faz de Lote uma vitima inconsciente. para exprimir a animosidade.. A Ironia é tão acerba. Eis como o Pe. 30 Dêstes varões éram ditas proceder as duas nações Inimigas ferrenhas de Israel. mas o que se chama uma narrativa etnológica". Lagrange resume as razões que o levam a adotar esta explicação: "O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio. concebido de seu pai Lote. Esta insistência se explica bem pela intenção de dar uma interpretação pejorativa aos dois nomes. 1953). quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon. ludibriada. 297. Chame. "Filho do meu pai" (Amon). portanto. 253. para indicar que não merece fé. o cisma do reino dêste monarca (cf. impuras. o atentado incestuoso dos sodomitas. e gerado os varões a quem teriam impósto os nomes adequados "Êle é do meu pai (Moab). êstes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita como os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam. conforme a etimologia. Ora. Dt 23. que Deus puniu severamente. S.17) o feito das duas filhas de Lote. 3 R. 31 A narrativa. 1 (Paris. Le livre de la Getzése (Paris. porém. os trocadilhos tão artificiosos e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender.20.34. 29-33). La Sazute Bible. 29 Os exegetas recentes. poderia ser também julgado culpa grave.7$ Lote é dito "o justo".26. o sentido exegético é muito exato: uma sátira não é história. Com Lagrange concordam Clamer. Jerõnimo dizia dos rabinos do seu tempo. Pois bem. também "Filho do meu pai". a conduta licenciosa de Salomão. cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que. gente com a qual não se podia ter amizade. 32 La method. que foi devidamente castigado.' Abstração feita da finalidade do pontilhado. como punição. 1949). conforme Gên 19." 32 A Interpretação assim concebida não é Incompativel com a inspiração do texto sagrado.1-25.6-8). ter-se-ia formado em Israel uma narrativa fictícia: "Moab" (mé-ab) podia.s 11. a quem náo se pode imputar culpa no caso.23. tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo. 29 30 . como refere Gên 38.6-10.30-38. o hagiógrafo pode ter consignado no Em 2 Pdr 2.e historiqve.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 139 Tais episódios são entre outros: o pecado de Onã (donde o nome do vício "onanismo"). Dt 27. a Lei admoestava particularmente o rei contra os abusos' da poligamia (ci. sim. sem causar maior surprêsa do que os episódios anteriores. J.1-13.36). 207. Com efeito. 32. significar "file é do meu pai".1-11).. são inclinados a crer que o trecho refere não uma história real. segundo um têrmo paralelo árâbe.3-7. Ez 25. Dt 17.

34 "Segurar o calcanhar" é bem o sinal de "suplantar". Esta designação. o autor não fazia senão exprimir. Mais tarde. 33 Não é.de resto. em breve repudiaram.140 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO livro do Gênesis tradições populares. o caracteriza na história sagrada. tem um nome que. teria todos os direitos de filho mais velho (cf. por depender de grande pureza de consciência. de fato. motivo de debates. sendo que o mais velho acabaria por servir ao mais jovem (cf. assim conseguiu enganar o pai e usurpar para si a bênção de primogênito. Gên 25. saiu do seio materno segurando o calcanhar de seu irmão gêmeo Esaú. cujo3significãdo'era conhecido entré" os judeus.22s).29-34). a) a fraudulência do Patriarca Jacó. por isto.30-38. Os teõlogos católicos. segundo a etimologia popular hebraica (cf. v alguns autores cristãos julgavam licita a mentira formal. 25. Não qüeria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia. cassiano. Jacó. Jacó . instigado por sua mãe Rebeca . Já ao nascer. dando-lhe a entender que era o filho mais velho Esaú. inserindo o episódio de Gên 19. que o precedia e que.24-26). Rebeca sentira que colidiam entre si no ventre materno.0 Suplantador. Já que uma ou outra dessas histórias se torna. em troca de um prato de lentilhas oportunamente oferecido a Esaú. com a intenção de enganar o próximo. porém.17). Antes da morte de Isaque. a animosidade existente êntre o séu povo e os adversários do seu povo. 17. e fôra por Deus advertida de que tal luta se prolongaria no decurso de sua vida. analisar-se-ão abaixo alguns episódios clássicos. filho de Isaque. quando ainda gestava os dois gêmeos. não era de todo clara aos homens anteriores a Cristo (nem aos pagãos nem aos israelitas). e ainda hoje repudiam. é autêntico oráculo: . mesmo tal espécie de mentira. 25. comprou para si os direitos de primogênito (cf. que o constituía 33 Sabe-se que ainda no séc.a todos os cristãos desde o início da nossa era. Todavia esta norma. ItjL 5. nem foi eidente. pois.36). Gên 27.se apresentou ao pai débil e cego. de admirar que na Sagrada Escritura se achem relatados casos de mentira até de homens e mulheres piedosos.° MENTIRA E FRAUDE A moral cristã ensina que jamais é lícito dar a entender o contrário do que se julga ser verdade. desde que fôsse proferida com a finalidade de promover o bem (cf. nos térmos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel. Jacó aproveitou-se da fadiga de seu irmão que voltava da caça. por vêzes. . e. 34 De resto. Coflat.

os animais geravam filhotes ralados. S. esta terá sido. Gen 30. como ainda hoje freqüentemente pensa o nosso povo. 1. De venatione. 33 O processo utilizado por Jacó para obter cabras malhadas foi o seguinte: Quando os animais estavam para entrar em cópula. Jerônimo. Assim Jacó se tornou rico à custa alheia (cf. que certos objetos avistados durante a concepção ou a gestação acarretavam notas próprias na prole. porém. Inculca ter sido especialmente auxiliado por Deus: "vejo no rosto de vosso pai (Labã) que Me não me é favorável como antes. o Patriarca colocava diante de seus olhos varas de salgueiro. Agostinho. Note-se a ênfase com que o astuto varão. para o futuro. segundo S. 327s.. in Heptat.7-9). Após estas vitórias fraudulentaá. todos os animais davam à. filha dêste. Plínio. Vosso pai burlou-se de mim. A ciência genética moderna. dizia-se que os espanhóis por meio de tais artifícios sabiam variegar a côrde seus cavalos. Hist. No v.. em última análise. é o tipo normal e mais freqüente do gado). Hipõcrates. todavia só conseguiu obter o assentimento definitivo de Labã após haver sido explorado por êste. Como quer que seja. Jacó se quis indenizar dos trabalhos que lhe foram extorquidos: aceitando uma oferta de Labã. 27. "Liber hebraicarum quaestionum" in Genesin. a saber: os cordeiros negros e as cabras malhadas que. tõda a riqueza que Deus tirou de nosso pai. 30. de regressar à sua terra com a família já constituída.. produzindo prole malhada (d. 10. Migne lat. O expediente usado por Jacó pode ter sido mera ocasião para que Deus o beneficiasse. depois de obter o sucesso. Deus tirou a vosso pai o gado e o deu a mim (30. VII. Jacó se foi para a Mesopotâmia a fim de escolher espôsa na família de seus ancestrais. nas quais fizera incisões a fim de as tornar raiadas ou listradas de branco. resolveu levar consigo parte do gado de seu tio. 23. Etymolcgiarinn. a visão désses ramos devia influenciar a formação do embrião. 1. Nos tempos de S. Antes. 985.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 141 herdeiro não sàmente dos haveres paternos. possuidora de mais exatos conhecimentos. 16 respondem Raquel e Lia: "Sim. julgavam.5. prestando-lhe quatorze anos de serviço agrícola e pastoril (cf.Jerõnimo (séc. ..1-45). e não aquêle. nasceriam dos carneiros brancos e das cabras negras ou escuras de Labã (êste. sempre que êle dizia: 'A prole raiada será tua paga'. Quaest. ed. o texto sagrado dá a entender que o artifício de Jacã se tornou eficiente por especial intervenção de Deus. e dez vézes mudou o meu salário. plátano. liber XII. nat.1-30). mas Deus não permitiu que me fizesse mal. Isidoro de Sevilha. V). optou por Raquel.25-43). amendoeira. pertence a nós e a nossos filhos. mas também das promessas divinas referentes ao povo do Messias (cf. parte aparentemente modesta. Tôdas as vézes que éle dizia: 'A prole malhada será tua paga'. a causa do êxito do processo que por si mesmo talvez fõsse vão. talvez negue a possibilidade da influência natural de tais fatóres sõbre o processo gener ativo. mas o Deus de meu pai estéve comigo." Estes versiculos Indicam a causa profunda de um fenômeno que vulgarmente se atribula ao artificio utilizado por Jacó.. 29. a qual lhe pertenceria. Cf. 1. luz filhotes malhados. vejam-se os testemunhos de Opiano. 93. O artifício estava muito em voga entre os antigos. 58-60. Tendo-se fixado em casa de seu tio Labã. para que os carneiros brancos e as cabras não malhadas gerassem prole respectivamente negra e malhada. . Todavia a modéstia de Jacó era ilusória: o "Suplantador" soube usar de um artifício habitual entre os criadores de gado primitivos.37-39).

não morreu nessa crise. dizia. não o amaldiçoaria. via-se de regresso à casa. pedindo ser libertado. julgou ter chegado a hora de sofrer o castigo de Deus. quem terá vencido? Notemos que o estranho personagem fêz as vêzes de mais fraco.. mas não deixou de se mostrar superior. tomando consciência dos atos injustos que cometera. embora o pudesse "derrotar".Jacó. dir-se-ia que o Senhor confirmou a violação de direitos que Jacó cometeu em sua vida. pediu ao Patriarca que o deixasse partir. O resultado da luta também é ambíguo. também dos homens hás de triunfar" (v. até mesmo com Deus .. a seguir. 1949). se lhe poderia atribuir. Clamer.4s. vinamente" forte contra os homens ( "Israel"). dando-lhe a bênção desejada (coisa que só em nome de Deus pode ser dada) e impondo-lhe novo nome (que era um oráculo profético). Chame. sabendo que seu irmão Esaú lhe ia ao encontro com quatrocentos homens. o Patriarca certa noite lutou contra um personagem misterioso que lhe aparecera.o que contribui para tornar mais enigmático o cenário de Gên 32. o por36 01. porém. 30 Ei-lo O hagiógrafo ou a tradição israelita teriam recorrido a imagem antropomórfica muito viva para designar uma luta que se passou não fora de Jacó. J. O profeta Oséias. depois de várias fraudes. Como se há de entender essa história? Uma fase posterior da existência de Jacó nos leva à reta interpretação: O hagiógrafo em Gên 32. mas estritamente na consciência dêste. A. Que significa isso tudo? Os estudiosos contemporâneos dão ao trecho um sentido muito mais nobre e espiritual do que o que. o desconhecido confessou-se impotente. o perigo de morte que então enfrentava. ao contrário. na caminhada de volta à Palestina. 346-8. o fêz cair em si. conseguiu sair da depressão. o abatimento a que êste pensamento o reduziu. Com efeito. em resposta. o estranho adversário não sâmente lhe deu a bênção. ao contrário. "pois. 12. o Senhor lhe deu a saber que o pouparia. O "Suplantador". 394-7. ou seja. mutilando a Jacó. fôste forte contra Deus. daí por diante. mas. à primeira vista. mas ainda quis tocar o nervo da anca de .. O Patriarca. Em vez de a repreender. - .142 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ora foi êsse homem tão fraudulento que Deus abençoou. identifica o lutador anônimo com um anjo. A narrativa é certamente obscura. O "Suplantador" rogou-lhe então a bênção como condição para que o libertasse. Le livre ÃXe la Genêse (Paris. o tomaria "di-. finalmente. 1 (Paris. La Sainte Bible. equivalia para éle a uma agonia ou luta..23-32 narra que. dizem. tornando-o coxo. 29). mas também mudou-lhe o nome de Jacó para "Israel" (= Forte contra Deus). 1953).

para finalmente envolver mesmo a miséria de tal homem dentro da obra da Redenção. Auz sources bibliques (Paris. por seus títulos naturais. de sorte que foi pelos miseráveis que Deus quis libertar da miséria a criatura. 1. Je fus définitivement forcé. com o anjo não será a imagem de tóda a nossa vida espiritual? Lutamos contra Deus." ar Eis o .. 158s: "Se se observam atentamente os traços com os quais a Biblia nos apresenta o homem conhecido antes e depois da luta com Deus. A fim de que êle reconhecesse que a piedade é mais poderosa do que tudo. 31 Esta afirmaçao. deixou que se aí ir masse com liberdade. uma dobra na vida do Patriarca: de conquistador trapaceiro e turbulento. ora é no momento em que somos vencidos por Deus e Lhe pedimos nos abençoe. dentre os dois filhos de Isaque. Jacó era o realizador inquieto e complicado. o que delicadamente insinua Sab 10. ou seja. réduit. não seria o "Suplantador" que vence por meios fraudulentos.. Pode-se dizer também que Deus se quer deixar vencer por nossa oração." 38 A propósito se pode citar a observação de E. O defeito deixado na coxa de Israel lembrar-lhe-ia a "impotência" do seu poder humano e a "prepotência" de Deus que liberalmente outorga a vitória ao indivíduo que Êle escolhe. alheio às maquinações ilícitas e confiante em Deus só. que na verdade nos tornamos vencedores.. HLstoire d'israel. Joly. propenso a suplantar fraudulentamente. J'ose diTe que je fie une belie défense et que la luite fut Ioyale et compléte. R.icciotti. não é a criatura que. portanto. O Senhor. verifica-se impressionante mudança. que narra a sua conversão: "Cette résistan. mas aquêle que sabe contar com o auxílio de Deus mais do que com a própria habilidade." O mesmo autor cita o seguinte trecho de Paul Claudel. na linhagem dos grandes precursores de Cristo? Não será isto uma insinuação de que a fraude ainda hoje poderia ser abençoada? O Senhor quis escolher o "Suplantador" para ensinar aos homens que os dons divinos são absolutamente gratuitos. o mais jovem. queria escolher." A luta misteriosa de Jacó significa.12 "A Sabedoria outorgou-lhe (a Jacó) o prêmio em árduo combate. como triunfou em outros varões indignos. êle havia de se tornar o triunfador abençoado.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 143 tador das inabaláveis promessas e bênçãos messiânicas. 41: "A luta de Jacd. pois a graça pode fazer dos iníquos os justos que sirvam a uma obra perfeita. Mas nem por isto violentou a personalidade humana de Jacó. para o futuro. suscita a munificência divina. herdeiros da promessa messiânica.ee a duré quatre ans. resistimo-Lhe. J'acó. 37 O valor destas explicações não impede ainda se pergunte: mas por que terá Deus escolhido tal varão para colocá-lo à frente do povo messiânico. oportuno comentário de O.. portanto. Le combat spiritwet est aussi brutal que la luite d'hommes. 1950). Israel será o triunfador enérgico e benévolo. o mais destituído de qualidades. esta se atua também sôbre os que nada de meritório têm. a bondade de Deus triunfou em Jacó.

pela astúcia. porém. na Sagrada Escritura. após alguns dias. abençoou-a. deixada a sós na tenda com o General adormecido. pois. Em poucas palavras.. procurou seduzir por sua beleza feminina e suas expressões de duplo sentido (note-se: dando a entender a Holofernes que denunciaria os segredos da derrota de Israel. Para o homem. apresentou-se ao General como a deser tora que lhe havia de denunciar os segredos aptos para captar Israel.. Aod e Jael: a amabilidade a serviço do niorticínio. o que não é para desprezar. matou. Bom 9. as quais. lançando-se voluntàriamente num abismo de que não se pode retirar por suas próprias fôrças. voltou para Betúlia. pois o pânico se apoderara dos assírios estupefatos. Judite parece ter enganado. onde estimulou a sua gente ao ataque.155). êste foi vitorioso para Israel. entendeu que lhe se- . são combates. Que significa isto? Para aproximar-nos da reta interpretação. O Senhor salva. Quando os seus concidadãos já perdiam a confiança no auxílio divino. por isto ninguém presumirá abusar da Misericórdia. a seguir. Holofernes acolheu-a com carinho e. assediada pelo General assírio Holofernes. em que todo o fervor religioso se acha empenhado e. salva segundo um plano muito belo e harmonioso. excitado pela paixão ofereceu-lhe uma ceia.. eis que Judite foi ambígua em suas atitudes e palavras. tportanto. não mentiu. disse ao General que sômente a apostasia religiosa seria capaz de prostrar aquêle povo . dando-lhe pleno êxito. A seguir. tomam o significado de luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás.. 11. em vez de a punir. O livro de Judite nos apresenta a história de uma viúva israelita que. b) Judite. sim. Fêz o papel de fugitiva. Holofernes. Betúlia. pois. alegando às sentinelas que ia rezar fora do acampamento. a alta noite. Judite aproveitou a ocasião para decepá-lo.144 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO porém. de fato.o que era verdade. dada a sua beleza.1-12. E o Senhor. conseguiu entrar no acampamento inimigo. salvou a sua cidade. durante a qual se embriagou. a nós desconhecido (cf.. fica sendo única norma inabalável: cumprir em todo tempo a Vontade de Deus tal como a consciência a manifesta. mas não "tem obrigação" de o fazer. recordemo-nos de que estamos diante de um episódio das guerras de Israel. de modo nenhum implica que ao homem seja lícito agir contra a consciência ou fraudulentamente. alegando que Deus salva os pecadores. cf. Nessa luta. fervor de orientais exuberantes e rudes. Judite revestiu-se dos ornamentos mais valiosos e. entre a luz e as trevas.

para prostrar os soberbos e ímpios (Holofernes e seu exército). Deus quis dar pleno êxito à tarefa de Judite..):' O Juiz ou chefe israelita Aod. se êste não estivera detido pela concupiscência. enfiando-lha na carne. que Judite procedeu depois de ter orado e várias vêzes pedido ao Senhor que abençoasse o seu empreendimento (cf. não teve. ao contrário. piedoso's (Judite). Observe-se. poderia ter desconfiado de um ardil de guerra. o expediente a que esta recorreu. Pode ter havido culpa em Aod e Jael. 13. pois. é a fé dessa mulher. que fugia derrotado em guerra pelos israelitas.. alegou ter um oráculo de Deus a transmitir ao monarca. a fim de que não fôsse capturado pelos vencedores. ora os estratagemas•jamais foram condenados entre beligerantes.9.5-9. tendo Sisará adormecido. êle os narra com tôda a objetividade. rei de Moab. estrangeira aliada a Israel. fixo ao solo (Jz 4. Não é isto o que o autor sagrado quer julgar quando relata os dois episódios. como Holofernes. não enganam senão os imperitos ou os obcecados. a seguir. Difícil será proferir um juízo sôbre a moralidade dêsses atos. consciência de ofender a Deus.144. mostrou-se disposta a ocultá-lo.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 145 riam revelados segredos estratégicos).15-22). não para os . Deus recompensa a fidelidade. tendo ido certa vez pagar o tributo a Eglon. recebeu em sua tenda o chefe cananeu Sisará. deitar-se e recobriu-o cuidadosamente. outrossim. O que o Senhor houve. era impelida pelo zêlo religioso que a vida continente e piedosa nela havia acendido. matou-o desapiedadamente (Jz 3. e serve-se dos humildes. não foi tanto o modo de agir da heroína. 12. com um martelo enfiou-lhe nas têmporas um piquete. A diferença do que se dá no livro de Judite. O que o Senhor assim sancionou. Fê-lo. Procedimento e declarações como os de Judite em tempo de guerra são por si mesmos suspeitos. 1160-1020 a. A sua consciência é assim isenta de culpa subjetiva. mulher cinéia..C.6s). Deixado então a sós com Eglon. pois.. Jael. que lhe perfurou por completo o crânio e o deixou morto.17-22). era condicionado pelos costumes bélicos da época. o texto sagrado de modo nenhum insinua tenham sido inspirados por Deus ou feitos após oração ao Senhor. eis a tese perene que o livro de Judite nos comunica através de seus dizeres circunstanciados pela mentalidade de uma época! O feito de Judite tinha dois precedentes seMelhantes nos primórdios de Israel (época dos Juízes. que continuou a crer no auxílio divino quando os concidadãos já perdiam todo o entusiasmo teocrático. tirou de sob o manto uma espada que trazia oculta e. por bem confirmar em Judite e propor a todos os homens (também aos cristãos). que oprimia o povo de Deus.

Onde está. 55s. da mesma forma como se serviu de Eglon como de uni flagelo.146 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO propor como norma.1-14. do ponto de vista meramente legal..a lebre. 1903). não obstante. 39 "Deus. fazê-la cooperar para a realização de um plano sábio. hemorragia crônica (cf. a mulher após o parto (cf. impuros eram também os cônjuges após o ato conjugal (cf. Lev 12. SI. A higiene e a limpeza foram uma das principais preocupações dos antigos legisladores.1-17).quem tocasse objetos julgados impuros (cf: Lev 11. Le livre eles Juges (Paris.° PUREZA E IMPUREZA RITUAL A Lei mosaica enumerava longa série de atos e ocasiões que tornavam o homem "impuro". Lev 15. pois. assim. escrevia Renan: "As idéias de pureza e Impureza eram a princípio equivalentes às de limpeza e sujeira..25-30). Lev 15. a águia. era considerado imundo quem comesse ou simplesmente tocasse certos animais . Lev 15. devendo finalmente sujeitar-se a um ritual de purificação (banho. Lev 11.18).1-8). por exemplo. por exemplo. concebe sem demora duas questões importantes As leis de pureza e impureza ritual têm seus paralelos em cultos pagãos da antiguidade e dos nossos tempos. Assim. ritual. pode ser aproveitada para comunicar benefícios divinos. não será que a pureza ou a santidade inculcada pelo Antigo Testamento era algo de meramente exterior. que ainda não derramara a graça reservada para os tempos do Messias. impuro.. Quem lê essas minuciosas prescrições do mosaísmo." Lagrange. ou simplesmente limpeza. a Escritura dá a ver que a própria Imperfeição do homèín. extrínseco. sabe. 19 mais uma vez. dai concluírem alguns autores que a santidade originàriamente para os judeus significava pureza de ordem física. § 6. porém. (cf.. a avestruz. o porco. pôde servir-se de Aod como de um salvador.57). oferta de sacrifício.25s). o cisne. no plano do Criador. 20. permitindo que a natureza humana atue os seus instintos. O impuro não era reabilitado senão após um ou mais dias. independentemente do valor moral dos seus atos." Histoire du peu pie d'israel. iv (Paris). Lev 13. sem que contraísse necessàriamente alguma culpa em consciência. moral? Havia no mosaísmo um autêntico conceito de santidade? O térmo hebraico qodesh ( santidade) implica a idéia de separação. a originalidade da religião judaica? Como é então revelada por Deus? Abstração feita da origem dos preceitos de pureza legal. independente da vontade e da pureza interior. Eis o que os episódios de Aod e Jael devem significar para o leitor moderno. quem fôsse acometido por lepra (cf. mas para mostrar como Deus. .44s.1-47) .. gonorréia (cf.

observando uma pureza exterior. porque os homens julgavam haver nexo especial entre tal objeto ou tal animal. não. procurou fazer dêsses usos o estímulo para que os israelitas. desde os tempos de Abraão (ca. Apenas tratou de incutir espírito novo. a tini de se assegurar mais eficazmente a sua fiel observância (em regiões de clima quente. removendo tudo que poderia ter sabor de superstição ou de algum modo lembrar a idolatria. elas muitas vêzes só se explicam por motivos religiosos ou "místicos". como as que habitavam os antigos semitas. Por conseguinte. promulgou a Magna Carta de Israel. nem tão uniforme. e determinada divindade. incluiu nela as prescrições rituais já vigentes em sua nação. conheceu usos de pureza e impureza legal. como no fim do século passado asseveraram os historiadores.C. Falavam. a pedagogia divina sempre teve por tática tomar o homem como êle é. nem tão religiosa. Hoje em dia. o respeito à Divindade que de maneira geral ditava tais observâncias de caráter aparentemente profano. do animal totem (térmo derivado da língua dos índios algonquins do México setentrional). a tais observâncias. desde as suas origens. não se poderia assinalar para cada qual dessas determinações uma causa respectiva. Pensavam igualmente que certos animais são sagrados. Com efeito. outrossim. nem tão primitiva. agraciada pela revelação da verdadeira fé. tal doença ou tal função fisiológica. de ordem ftnicamente natural ou fisiológica. Ora o povo de Israel. pois. ritual. 40 era. porém. oriundo do ambiente pagão da Mesopotâmia. Deus não quis simplesmente extirpar as observâncias tradicionais da gente de Abraão. utilidade medicinal apenas. quando em 1240 Moisés. e pacientemente elevá-lo a maior perfeição. em nome de Deus. admitiam também a influência dos demônios no mistério da comunicação da vida ou da geração da prole (nem gregos e romanos eram alheios a essas crenças). ou são a sede de potências sobrenaturais" (são tabus. se tornassem outrossim ciosos da fidelidade 40 Os antigos julgavam ser cada doença causada no homem por um mau espírito. os seus antepassados caldeus os observavam. significado superior. Seqüestrando-o da terra idólatra e constituindo-o como nação independente. de 1800 a. reconhecem os estudiosos que a crença nos tabus e nos totens não era nem tão generalizada. ou seja. era rigorosamente necessário que o povo rude ou infantil não negligenciasse certas cautelas de higiene!).A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 147 Certas leis que visavam garantir a saúde pública teriam sido sancionadas em nome da religião pela autoridade competente. . Eis a resposta global que se há de dar a essas duas questões: É inegável que muitas das prescrições mosaicas concernentes à pureza exterior são análogas às de povos pagãos antigos e modernos. Observa-se. ancestral com o qual tal família ou tribo se julgava aparentada e ao qual conseclüentemente dedicavam profunda veneração. isto é. mas geralmente possuem valor religioso.). relacionados com a Divindade ou com demônios. conforme o termo técnico oriundo da Polinésia). em tôdas as tribos primitivas que tais normas não têm significado meramente higiênicõ.

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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

a Deus, ou seja, de pureza moral, interior (muito mais importante !): "Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo, e não vos tomareis impuros." (Lev 11,44.) Como se vê, a fim de alçar o homem ao ideal de imitar a Deus, o Legislador, no Antigo Testamento, quis partir das observâncias imperfeitas a que o semita estava habituado; inseriu-as, porém, dentro da seguinte perspectiva
DEUS SANTO; POR ISTO, O SEU POVO DEVE SER SANTO.

1
f

(nexo necessário, até hoje válido) (nexo contingente, ab-rogado desde que o gênero Ti =0cci2 cial moral mais perfeita) 41

E, PARA QUE SEJA SANTO, OBSERVE EM ESPÍRITO MONOTKÍSTA AS NORMAS DE PUREZA TRADICIONAIS.

É preciso acrescentar que, além do significado acima exposto, as proibições relativas a animais e objetos impuros visavam criar uma barreira entre o povo de Deus e estrangeiros (cananeus, mesopotâmios, gregos e romanos) com que Israel se havia de encontrar no decorrer da história; justamente a necessidade de não contrair impureza ritual, exterior, fêz que Israel não se tenha mesclado com as nações pagãs, nem quando estava disseminado no exílio (587-538 a.C.), nem quando a terra santa foi ocupada pelos helenistas no tempo dos Macabeus (165-134 a.C.). Assim as prescrições rituais, impondo distância do paganismo, preservavam a verdadeira fé, ajudavam o judaísmo a realizar sua missão religiosa. Note-se ainda o seguinte: é sentença aceita por muitos exegetas que em Israel a condenação de alguns animais como impuros (o camelo, o porco, a lebre, o cavalo, o asno, o cão) se deve em parte a uma reação contra o culto dos mesmos nos povos vizinhos de Israel. Os semitas associavam tradicionalmente os "gênios" do deserto, potências superiores (seirini, sedini, Azazel, siyyim), com certas espécies de animais. O fato de que o israelita, por tradição de seus antenatos semitas, admitia certos atos e estados de impureza legal, extrínseca, destituída de culpa moral intrínseca, influiu no conceito de pecado que o povo de Deus nutriu até os tempos de Cristo. Vvendo sempre de sobreaviso contra as possíveis contaminações por doenças ou contato de animais ou objetos impuros, os hebreus, de41 Na Reve]ação cristã, a terceira proposição do esquema seria assim formulada: E, PARA QUE SEJA SANTO, PRATIQUE O AMOR, POIS DEUS 2 AMOR (ci. 1 Jo 4,7-11).

A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II)

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pois de ter recebido a Lei mosaica com seus preceitos morais, eram propensos a analisar, nas transgressões da Lei, mais o ato exterior do que a intenção do transgressor; não davam grande atenção ao que pràpriamente caracteriza o pecado: a desobediência de uma personaiidade contra um Deus pessoal (cf. pág. 160s). Como quer que seja, os interditos meramente rituais, legais, iam do seu modo contribuindo para inculcar ao povo de Israel o conceito de transcendência divina ou a idéia de que Deus por si é alheio a muita coisa familiar ao homem pecador. Com o tempo, porém, ao se apurar a mentalidade filosófica de Israel, os hebreus foram concebendo mais exatamente o caráter pessoal e sumamente moral da religião; perceberam então melhor o significado meramente pedagógico, secundário, de tais proibições. 42 A titulo de complemento, seguem-se breves observações sõbre as principais teorias que se propõein elucidar a origem das leis de pureza legal: O motivo de higiene, embora possa estar na origem de muitas dessas normas, não é suficiente por si sõ para explicar têda,s as proibições rituais. Com efeito, embora possa justificar a proibição da carne de porco, não justifica a do cavalo, a do asno, a da lebre ... ; os árabes antigos e modernos sempre comeram carne de camelo, de avestruz que a Lei mosaica proibe; os beduinos do deserto da Sina comiam camundongos, também vedados aos hebreus. ¶ Também não basta apelar para a repugnância que a carne dos animais proibidos suscita ao paladar. A águia, o abutre, vedados por Moisés, talvez causem repulsa, por se alimentarem de cadáveres; mas o paladar ou os gostos são algo de bem relativo; o profeta Isaias (66,17) via-se obrigado a anunciar graves castigos àqueles que se deleitavam em comer carne de porco, casnundongos e manjares abomináveis 1 Quanto aos motivos de tabu e toteniismo, são opostos à medula da Lei mosaica, a qual apregoa estrito monoteísmo, um só Deus, e um Deus que não tolera ser representado por imagem alguma, seja de homem, seja de animal. Destas considerações se percebe que só por um concurso de fatõres diversos se explicam cabalmente os preceitos de pureza legal vigentes entre os povos primitivos. Talvez com o decorrer dos tempos os homens tenham perdido a consciência clara do motivo por que observavam a maioria dêsses usos.
42 "Os interditos (de pureza ritual) não careciam de valor religioso, pois arraigavam nos corações a consciência da transcendência de Deus. Percebemos a elevada noção que tinham Davi e seus contemporâneos, da domínio absoluto de .Javé. Tais leis, porém, cuja razão de ser já fôra esquecida, fàcilmente davam ocasião a que os israelitas considerassem a Deus como senhor caprichoso e dura. Os interditos, cujo significado era desconhecido, tornavam-se usos sociais, meramente leigos, destituídos de eficácia religiosa... Por isto foram sendo, aos poucos, transformados e eliminados mediante o aperfeiçoamento das noções religiosas do povo." A. George, "Fautes contre Yahweh duns les livres de Samuel", em

Revue biblique, 53 [1946], 169.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

§ 7.° A ESCRAVATURA Após tudo que foi dito sôbre a mentalidade dos antigos orientais e de Israel, já não causa surprêsa verificar que estêve em vigor neste povo a escravatura. A Lei de Moisés, embora não tenha abolido praxe tão comum e duradoura entre as nações, assegurou, ao menos aos escravos israelitas, 43 tratamento assaz brando, tratamento que, em confronto com o de outras legislações, podia ser equiparado ao de um doméstico ou mercenário (cf. Lev 25,39s). Era geralmente a pobreza, a falta de recursos para pagar as dívidas, que motivava a escravidão em Israel: o devedõr indenizava o credor dando-lhe o seu trabalho e quase a sua personalidade. Todavia, após seis anos de serviço não remunerado e castigos infligidos segundo o arbítrio do patrão, o escravo israelita possuía o direito de ser restituído à liberdade (cf. Éx 21,2s). Emancipando-o, o senhor tinha obrigação de lhe fornecer um pouco de gado e produtos agrícolas, a fim de que pudesse viver até encontrar um ganha-pão próprio (cf. Dt 15,12-15). Caso no período dos seis anos de servidão se registrasse um ano de jubileu (todo ano qüinquagésimo, ano de renovação, de perdão geral, restauração de tudo à ordem inicial), o escravo recuperaria então a liberdade. A Lei previa o caso de que um escravo, sentindo-se bem em casa do patrão, não quisesse fazer uso do direito de voltar ao estado livre (cf. Êx 21,5s; Dt 15,16s), o que é indício de que realmente vigorava notável senso humanitário entre os patrões israelitas. Os escravos usufruíam do repouso do sábado (cf. Êx 20,10) e participavam das festas prescritas pela Lei (cf. Éx 12,44; Dt 12,12.18; 16,11.14). Como se depreende, a Revelação divina contribuía poderosamente para mitigar a sorte dos servos israelitas. Quanto ao fundamento sôbre o qual a Lei mosaica estabelecia essas normas, era não simples filantropia, mas explicitamente a crença religiosa de Israel: a Torá lembrava, sim, a todos os filhos de Abraão que haviam sido escravos no Egito, tendo-os Javé resgatado para que todos fôssem libertos de Deus (cf. Lev 25,42s; Dt 15,15); o exemplo da Benevolência divina era assim incutido como norma que, caso fôsse coerentemente interpretada, induziria a abolição da escravatura em Israel (de resto, o exemplar da Benignidade de Deus para com seu povo mais de uma vez era evocado pela Lei para abrandar os costumes dos hebreus) (cf. Lev 23,31-33; 24,43; 25,38.55; 26,12).
43 Aos estrangeiros feitos servos de israelitas não se reconheciam as regalias enunciadas neste parágrafo (cf. Lev 2544-46).

CAPÍTULO

IX

O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO A história bíblica, assim como a da civilização profana, não deixam de fornecer indícios de que o homem antigo tinha mentalidade rude - dura cerviz, como dizem, a respeito de seu povo, os autores israelitas (cf. Éx 32,9; 33,3; Dt 9,6; 10,16). Todavia uma dificuldade se põe a quem lê a Sagrada Escritura: esta, em um ou outro caso, parece ensinar que o próprio Deus é o Autor da dureza de coração do homem; dir-se-ia que o Altíssimo se compraz em provocar a criatura ao pecado e punir os delinqüentes com rigor desproporcional. É o que faz que no Antigo Testamento predomine a figura de um Deus aparentemente "vingativo, mais ou menos arbitrário na aplicação da justiça". Ao estudo dêste tema dedicar-se-á o presente capítulo. Longe de pretender reconstituir a "teologia" do Antigo Testamento, restringir-se-á ao aspecto "Deus e o pecado na Antiga Aliança". § 1. ° UM PRINCÍPIO GERAL Para se abordar devidamente o assunto, tenha-se em vista. um traço já mencionado da mentalidade oriental: o semita tendia a exaltar a ação de Deus em tudo que aconteça na história, sem distinguir se tal efeito é, direta ou indiretamente, causado ou apenas permitido pelo Altíssimo. 1 Esta tendência, de resto, se enquadra dentro de uma atitude ainda mais geral do pensamento hebraico: o judeu era propenso a atribuir ao dinamismo, ao movimento, o primado sôbre os demais valores que constituem um ser perfeito. Era, pois, a fim de mais colocar em realce a suma Perfeição Divina que êle imputava ao Todo-Poderoso intervenção direta, soberana, em tudo que se faz no mundo; Javé, por conseguinte, na Sagrada Escritura, é apresentado em ato de trovejar (S1 28), ocultar Jeremias e Baruque contra investidas dos ímpios, 2 ditar ou escrever o conteúdo. das tábuas da Lei; 3 os israelitas chegavam a admitir que nem o
Cf. pág. 128, n. 12. Ci. Jer 36,26: "O rei mandou... prendessem Baruque, o secretário, e Jeremias, o profeta; mas Javé os ocultou." Pouco antes, referia o texto sagrado: "Os chefes (do povo) disseram a BaTuque: vai, esconde-te, a ti e a Jerernias; e ninguém saiba onde estais.' (36,19.) 3 Ci. Éx 32,16; vejam-se também Am 4,7.9s; 5,27; 8,10; Êx 21,13.
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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

mal fica fora da alçada da atividade divina. 1 Tal modo de falar, apresentando Deus sempre muito envolvido nas façanhas dos homens, acarretava o risco de se encobrir indevidamente outro aspecto da Divindade: a sua absoluta transcendência. Ao contrário, a mentalidade grega, que neste ponto mais influenciou o pensamento cristão, inclinava-se a exaltar principalmente a perfeição ontológica, o perfeitíssimo Ser de Deus como tal; para ela, a Divindade era objeto de contemplação mais ainda
do que sujeito de atividade.

Esta advertência já nos abre a via ao entendimento das passagens bíblicas que falam da intervenção de Deus no mal cometido pelos homens. Passamos a examinar os principais dêsses textos. § 2. 0 O RECENSEAMENTO PECAMINOSO Não há talvez trecho que mais revele a mentalidade dos autores sagrados na questão proposta, do que a narrativa de um recenseamento do povo de Israel instituído pelo rei Davi. Referem-no dois textos bíblicos: 2 5am 24,1-4 e 1 Crôn 21,14. Comparemo-los entre si 2 5am 24,1. "A ira do Senhor 1 Crôn 21,1. "Satâ se levanse inflamou de novo contra Israel, e incitou Davi contra êles, dizen-

do: 'Vai, faze o recenseamento de Israel e de Judá. 2. O rei então disse a Joab, chefe do exército, que estava com êle : 'Percorre, pois, tâdas as tribos de Israel, desde Dá até Dersabé; faze o alistamento do povo a fim de que eu fique sabendo o total da população.' 3. Joab respondeu ao rei: 'Que o Senhor teu Deus torne o povo cem vêzes mais numeroso do que é agora, e que os olhos do rei meu senhor o vejam Mas por que se compraz o Senhor meu rei em faz3r isso?' 4. A palavra do rei, porém, prevaleceu contra Joab e contra os chefes do exército; e Joab e os chefes do exército partiram a fim de fazer o recenseamento do povo de Israel."
4,

2. Disse então Davi a Joab e aos chefes do povo: 'Ide, contai, a população de Israel desde Dersabé até Dá, e trazei-me o resultado, a fim de que eu conheça o seu número.' 3. Joab respondeu: 'Que o Senhor torne o povo cem vézes mais numeroso 1 Ó rei meu senhor, não são todos escravos do meu senhor? Por que é, pois, que o meu senhor pede isso? Por que fazer vir o petado sôbre Israel 2' 4. Mas a palavra do rei prevaleceu contra Joab. Éste se foi e percorreu todo Israel, voltando por fim a Jerusalém."

tou contra Israel e excitou Davi a fazer o recenseamento de Israel.

CL Am 3,6: "Ressoa a trombeta em alguma cidade, sem que o povo se espante? Assim acontece desgraça em alguma cidade. Sem que Javé seja o seu autor ?" Como se compreende, o mal é apenas permitido por Deus, que, tendo feito as criaturas livres, não lhes impede a opção entre o bem e o mal; antes, permite cometam o mal, que o próprio senhor sabe fazer cooperar para a vitória decisiva do Bem no fim dos tempos. 5 Cf. T. Boman, Das hebraeische .Denke2t im Vergleich viU devi griechischen ( Goettingen, 1934).

um recenseamento do povo tomava f àcilmente o aspecto de verificação do dom de Deus. excitado o monarca a promover um recenseamento das tribos de Israel. pois. ditada por falta de confiança. Perguntar-se-á de passagem: e que mal podia haver nessa medida de caráter administrativo? Para os orientais. mandando recenseá-lo.3).12).. consciência de que 2 8am 24 empregava um modo de falar ambíguo. 34.1. nos casos de recenseamento legitimo. 1955). depois do exilio (séc. ao passo que 1 Crôn terá sido redigido nos sêc. a Satã a instigação ao mal que a Deus fôra imputada. 1952). o Senhor houve por bem servir-se. Isto lhe lembraria que éle não é senhor da sua vida. 6 o texto bíblico mesmo insinua esta concepção: refere que Joab. 1 Mais ainda: tendo Deus prometido a Abraão posteridade inumerável (cf. Um redator bem posterior (séc.Satã (= Adversário). porém. em conseqüência. usado sem artigo em 1 Crôn 21. IX a. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios. CL A. 8 O pecado de Davi tornava o povo inteiro culpado. Veja-se. e resolveu dar mais precisão teológica à fórmula do cronista anterior: atribuiu. para isto. teria. é nome próprio e designa um anjo tentador. procedia como qualquer outro soberano. sim. ed. que o povo de Israel incorrera em grave culpa perante Deus. 1V/Til a. prescrevia a Lei mosaica que. Bettencourt. mas a deve tõda e exclusivamente a Deus.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 153 Particular importante: 2 8am data provàvelmente do séc. Gên 15. Ex 30. pois implicava a intromissão da criatura num domínio reservado ao Criador só — o da multiplicação dos sêres vivos.C.). isto é. general de Davi. ainda hoje não se possa proceder ao recenseamento exato de certas tribos de beduinos na Palestina. VI ao. . como se se considerasse senhor absoluto dos seus súditos e contasse ünicamente com os recursos de administração humanos. devendo puni-lo. conforme o caso paralelo considerado em Lev 4. de uma falta do rei Davi. Tinha. E.) referiu no livro das Crônicas a mesma história. 6 E êste modo de pensar que explica. é que êste conceito aparece na angelologia judaica. a respeito. Gelin. Só tardiarnnte.C. foi. procurou dissuadir o rei (2 Sam 24. O autor de 2 8am 24 dava a entender. 7 Já que um recenseamento significava 'contar vidas". pouco antes da seção acima. 9 .C. 2. tendo recebido a dita ordem. (Rio. torna culpado o povo). IX a.. o monarca. entrar em setor que é propriedade exclusiva de Deus. e com particular razão o fêz: Israel era. Não obstante as palavras de Joab. Diz então o hagiógrafo que Deus mesmo instigou Davi ao pecado.3 (o sacerdote que incorre em falta. 267s. todo individuo alistado pagasse um tributo a Javé (cf. IV/HI aO. Problêmes d'Ancien Testament (Paris. Eis como o episódio era narrado no séc. Davi insistiu na execução da ordem. castigado pelo flagelo de uma peste que durante três dias assolou a nação. um recenseamento significava ato de arrogância do homem frente a Deus. com os israelitas.5).. o povo de Deus. por excelência.

ora a sabedoria. Núin 5. deixava-nos concluir que o Altíssimo não fizera senão permitir a falta.13. ao ser tentado." (1. em que predomina ora a inveja.12. 10 Já que Saul se afastara do Senhor. dêle se apossou" (1 8am 16. de 50 dc. ora a infidelidade. os dizeres de 1 Sam significam. uma atitude hostil ao Senhor ("um espírito mau"). 19. "Espírito". em tôdas essas passagens. tentou matar Davi. . dir-se-ia interpretando fielmente a mente do hagiÕgrafo expressa em 1 8am 15. uma atitude de ânimo.14. Deus não pode ser tentado para o mal nem tenta alguém. via-se freqüentemente acometido de acessos de neurastenia. do "espírito de torpor" (Is 29.4). que o levavam até ao desvairo.) Eis como a Sagrada Escritura mesma explica uma de suas passagens obscuras. do "espírito de impureza" (Zac 13. por duas vêzes. o Senhor se afastou dêle.10. designa claramente. Aliás. conforme o contexto. Ora a Escritura explica isso tudo. disposições interiores de um indivíduo.9). na sua epístola. também o apóstolo S. ora outro atributo (não se trata ai de algum anjo ou demônio). traspassando-o com uma lança contra o muro (cf. do "espírito de prostituição" ou apostasia religiosa (Os 4. reagia contra a falsa noção que o texto de 2 5am 24 podia sugerir: "Ninguém. Tiago. que falam do "espírito de inveja que se apodera de um marido" (cf.154 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Mencionava assim o verdadeiro inspirador do pecado de Davi. Em conseqüência. o "mau espírito do Senhor" é mencionado outrossim em 1 Sam 18.2).10s).10). no início da era cristã (ca. e um mau espírito. cada um é tentado por sua própria concupiscência. diga: 'É Deus quem me tenta. Ao contrário. 10 deixou-se conseqüentemente mover por disposições más. etc. depois de se ter tornado indigno de sua missão. abrindo-nos o caminho para a exegese de outras semelhantes. O rei Saul. 1 Sam 18.3).). ora a luxúria. enfurecido. § 3° O "MAU ESPIRITO" DO SENHOR 1. 5. o vocábulo "espírito" deve ser interpretado à luz de outros trechos do Antigo Testamento. pois.' Com efeito.30). foi rejeitado por Deus. que Saul perdeu suas habituais disposições de piedade e deferência para com Javé ("o espírito do Senhor dêle se retirou").23.14. esta atitude mesma é mencionada cõmo proveniente do Senhor. vindo do Senhor. dizendo que "o espfrito do Senhor se retirou de Saul. Ilustrados por tais textos. prestes a englobá-la dentro do sábio plano da Providência. Como se há de entender uma tal "possessão"? Nas expressões acima. do "espírito de sabedoria" (Éx 28.

35). A aliança fundada sôbre planos pecaminosos não pode ser duradoura. visando a obstinação dos pecadores.10. Semelhante é a exegese do trecho de Jz 9.11.) Eis ainda alguns paralelos: Dt 2. o próprio hagiógrafo interpreta a sua expressão literária. Vêde. Jos 11.3.28 que o monarca mesmo "endureceu o seu coração". 3 Rs 12.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 155 porque foi Deus quem permitiu. sim. Isto não quer dizer senão que o Senhor deixou se originassem discórdias graves entre homens que se haviam prêviamente associado para cometer hediondo morticínio (ou seja. cedo ou tarde. 10. Faraó reconhecia estar faltando contra Deus (cf.27. 17. 16. 2 6am 12. afirmando em Lx 8. Para os judeus.. seja do Faraó. Cf. 11 12 .21.14. 11 ou que "continuou a pecar e tornou pesado o seu coração" (9.11." (Is 6. em si benévola. isto equivalia a uma ação direta do Senhor sôbre o coração humano. O Senhor mandou ao profeta Balas: "vai. o assassinato de setenta consanguíneos de Abimeleque). 7.8. fechando-se nos seus propósitos perversos.16). 12 Tais passagens significam apenas que Deus é o Autor de feitos destinados a promover o bem dos pecadores. e não entendais. Análogos aos textos antecedentes são aquêles onde o hagiógraf o diz que Deus endurece o coração dos homens. 11. em vez de se render ao significado providencial de tais obras e se salvarem. Na história do Faraó em particular. " seja do povo eleito. à vista das mesmas obstinam-se ainda mais con.30. Lx 9. 14. o egoísmo não refreado dos contraentes tende a rompê-la! É o que se dá sem especial intervenção de Deus.9s).15).15. resistindo aos sinais divinos. espírito que provocou rebelião dos siquemitas contra seu chefe.19-23.27. todavia os homens. que em tudo viam a atividade de Deus. que Saul fôsse infiel e ressentisse as conseqüênõias.16-20.25. 1 6am 2. foi o que se deu no caso acima.12. do seu êrro. 9.17. Torna pesado o coração dêsse povo E duros os seus ouvidos.9. assim procedendo. destarte a ação divina. torna-Se evidente que não visava obcecar o povo no pecado (como poderia sugerir Is 6.1.4..scientemente no mal.11. e dize a ésse povo: Ouvi. toma-se ocasião para que a criatura tome grave atitude pecaminosa. Éx 8. se se consideram passagens como Is 1. e não compreendais. 22.235: "Deus enviou um espírito mau entre Abimeleque e os habitantes de Siquém". De tal modo que não se converta e não seja curado. Quanto à missão de pregar confiada ao profeta Isaías. Êz 4. 13 Os magos do Egito com razão perceberam nos prodigios realizados e dedo da Divindade e o intimaram expllcitamente a Faraó (cf.20. 10. fisiológicas e psicológicas.

rei por meio de novo expediente. onde prediz que a ação de Deus purificará Israel.6-23: é em têrmos particularmente vivos e insistentes que apresenta o "mau espírito do Senhor". embora soubesse que seus ensinamentos e milagres acarretariam a queda momentânea de Israel. Ora havia naquela época não poucos falsos portadores da Palavra de Deus. antes.. Na base desta narrativa. sem tolher a liberdade do homem. porém. o autor do Eclesiástico dava com tôda a clareza a norma básica para a exegese dos textos acima. um antropomorfismo impressionante: disse-lhe. que faziam carreira na côrte real. A ninguém concede a licença de pecar. e Is 1.. o qual desejava fazer uma expedição bélica contra o rei da Síria. obstinados no mal. não hesitasse o rei em abrir os olhos para o perigo que o ameaçava na expedição planejada! Neste trecho bíblico. Por fim. O hagiógrafo conduz o leitor à côrte do rei Acab de Israel (874-853 a. o Senhor sabe sempre envolver os desmandos dêste dentro de um plano sumamente harmonioso. Interrogados. porém. portanto. induzindo-o à infeliz incursão contra o rei da Síria. predisseram ao rei pleno sucesso na campanha.C. realizara o emissário a sua missão. A proposta tendo sido aceita pelo Senhor. o qual se ofereceu para tornar mentirosos e enganadores todos os profetas da côrte de Acab. que era mero artifício oratório. seriam ocasião para que muitos. Na linha dos episódios que vimos analisando. surge na assembléia dos sedutores e destemidamente anuncia o absoluto malôgro da batalha. a visão da côrte celeste e do anjo sedutor que Deus envia à terra. tentou persuadir o. As admoestações de Isaías.. Paralelamente. Jesus.). fechassem ainda mais conscientemente os olhos à verdade. Contudo. segundo a mente mesma de Miquéias. porém. afirmando categàricamente "Deus a ninguém manda seja ímpio. ter visto os céus abertos e o Senhor sentado num trono.. não quis deixar de apregoar a "Boa Nova". a um fato que se tenha realizado no .) 4. vendo que Acab não lhe dava crédito. de partir para a guerra.25-27. que em dado momento um autêntico profeta. ou seja.20. na plenitude dos tempos. deliberavam sôbre a maneira mais eficaz de iludir Acab. pois." (15. Eis. já próximo da era cristã. apresentou-se então a Javé um dos assistentes celestes. em meio aos anjos seus conselheiros. não corresponde. resolveu consultar os profetas que o assistiam. ainda se poderia citar o de 3 Rs 22. podia Miquéias repetir ainda com mais vivacidade a sua advertência: as palavras dos profetas encorajando Acab à guerra não eram senão o efeito de uma ação sedutora muito consciente e maliciosa. Miquéias.156 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que o profeta exorta os judeus à conversão. eram a trama de homens mal intencionados.

O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 157 mundo superno. Daí perguntar-se: será tão cruel procedimento compatível com o conceito de Justiça Divina? 1. 3 Rs 21. O primeiro dos ditos trechos faz-nos retroceder aos tempos de Samuel (ca. Os exegetas lhe têm dado explicações diversas: a) os betsamitas lançaram para a arca do Senhor olhares curiosos. A realidade correspondente a tais artifícios não é senão a seguinte: Javé resolvera permitir (sem deliberar com os anjos) que Acab fôsse seduzido pelos mentirosos oragos da côrte e.C. o móvel sagrado pousou em Betsamés. por terem olhado para a arca.) O texto.1-29). sim. prostrou setenta homens dentre o povo e cinqüenta mil da multidão. 153. estivera ém terra pagã.). Assim. ela não passa de mero recurso de linguagem destinado a calar no ânimo do rei Acab mais fundo que uma simples admoestação.C. Os judeus. n. Numa das etapas do itinerário..). foi então que. conforme um plano sábio. em conseqüência. Miquéias e seus interlocutores tenham tido conhecimento de tal espírito tentador. conforme o texto hebraico atual e a tradução latina da Vulgata. sem que para isto pareça haver culpa proporcional. tinham. depois que. 14 Dado que. IX a.' (1 5am 6. principalmente após o exílio (séc. por exemplo. oferece ao leitor dificuldades de interpretação literárias e teológicas. § 40 Ø DEUS QUE FULMINA Há duas passagens da história sagrada em que Deus é mostrado a punir os homens com a morte. aldeia israelita. se deu o seguinte episódio: 'O Senhor prostrou os habitantes de Betsamés. ainda nos é forçoso dizer que o acesso dêsse anjo maligno junto a Deus e a aceitação dos seus serviços por parte do Senhor são meros artifícios usados pelo profeta para avivar a sua exortação. rezava uma cláusula referente aos caatitas ou ministros subalternos do culto: IA Cf. sofresse grave derrota. . raptada pelos filisteus. pois destarte o Senhor lhe faria expiar o morticínio anteriormente cometido contra Nabot (cf. como se depreende de várias prescrições da Lei mosaica. Ora a falta de respeito para com o Divino foi sempre considerada grave culpa no Antigo Testamento. de 1050 a.C.19. sem dúvida. 9. concede licença para desencadear males na terra. VI a. a noção de um anjo mau sedutor a quem Javé. Refere-se à volta da arca do Senhor para o seu santuário em Israel. pãg. já no séc. indiscretos ou irreverentes.

não é mencionada por alguns manuscritos hebraicos nem por Flávio José (Ant. por um só instante que seja. Sabe-se.. ainda que fôsse por mero olhar (cf. Contudo pergunta-se se realmente podia haver culpa grave nos betsamitas por terem considerado a arca. o versículo 1 Sam 6. principalmente os que servem ao culto divino.1." (Núm 4.195. há quem julgue que os betsamitas foram punidos por anteriores pecados do povo ainda não expiados. aliás. 6. sem arriscar a vida. Nenhuma dessas interpretações satisfaz plenamente.21).. os críticos bíblicõs dão preferência à forma do texto de 1 5am 6.4). 6. supõe que. Éx 19. para que não entrem. corno julgam bons exegetas modernos. Aarão e seus filhos assinalarão a cada qual o seu ofício. Moisés cerrou o acesso à montanha.15) não atesta o seu respeito religioso ? considerando tais dificuldades.4).1.19 parece ter sido maltratado pela tradição literária. comportam a presença de uma fôrça misteriosa e temível. Considerando isto. sem perigo de morte.C. além disto. ' Na verdade. de adotar usos e crenças do paganismo. a nenhum profano era lícito. O texto hebraico dos livros de Samuel chegou até nós em estado de conservação deficiente. das quais a segunda é evidentemente errônea. em particular. historiador judaico do séc. Entre os judeus. dado o perigo que ameaçava o povo. entrar em contato com o Santo. Núm 4. julgavam que o sagrado é intangível..19 apresentada pela tradução grega dos LXX: .515).. todos os objetos religiosos. O conhecimento dêstes particulares certamente contribui para esclarecer certos textos da Sagrada Escritura. morram. mesmo pagãos.23). simultâneamente com o olhar. quando a glória do Senhor se tornou manifesta sôbre o monte Sinai. que os antigos. Éx 19. pois refere duas cotas de vítimas (setenta e cinqüenta mil). a irreverência para com as leis do culto eram punidas com especial rigor. a fim de que o povo não se aproximasse indevidamente do lugar da aparição (cf. que se oferecia aos ornares de todos? O fato de haverem prèviamente oferecido sacrifícios ao Senhor (cf.) Os levitas mesmos. aproximar da arca do Senhor antes que os sacerdotes a tivessem recoberto (cf.158 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "A fim de que (os caatitas) vivam e não morram quando se aproximarem dos objetos sagrados.. invisível. 1 d. 6. por isto. homens exclusivamente dedicados ao santuário. inacessível ao homem não iniciado. a cifra de cinqüenta mil ultrapassaria o número de habitantes de tôda a região de Betsamés. terá sido interpolada. o problema parece estar mal formulado. alguns israelitas hajam indevidamente tocado a arca (Ant. não se podiam. para ver os objetos sagrados e.. Flávio José. em conseqüência. De modo geral.

171-173. rejeitar-se-á. pasta sôbre um carro de bois. 16 Artigo publicado em Kittel. corria o risco de cair por terra. cedendo à imaginação. tocou-a então com as mãos a fim de ampará-la. enfurecido. os castigos infligidos pelo Senhor.note-se bem . E . haviam feito da arca "um autêntico condensador elétrico.0 "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANflGO TESTAMENTO 159 "Os filhos de Jeconias. 15 Samuel . de mais a mais que o episódio se dava numa fase da história assaz remota. porém. o Senhor. XVIII (1955).a advertência produziu seus efeitos. explicam que os sacerdotes de Israel. de Pirot-Clamer. que se carregava mediante eletricidade atmosférica". foram os únicos que não se alegraram ao ver a arca do Senhor. o santuário foi transferido para Jerusalém. 1 5am 7. que durante o trajeto certo varão chamado Oza percebeu que a arca. itinerário interrompido pela permanência da mesma em Cariatiarim ou Eaalá. da qual uma centelha fere o homem profano como um raio. contrastando com o entusiasmo sagrado do povo. 1953. Tal punição talvez desnorteie a boa mente do leitor. o fulminou com a morte.. chama a atenção é o de 2 5am 6. 92).7-10). Aconteceu. conhecedores dos segredos da eletricidade. por análogos motivos." 15 Os filhos de Jeconias. por exemplo." '° Outros autores (Fritz Kahn.. mas não criticavam. 17 Veja-se curiosa exposição da tese em Anhembi. "Les livres des Rois" em La Sainte Ribis. O escândalo assim suscitado teria provocado a punição de setenta membros de tal família! A necessidade de preservar a verdadeira fé e excitar a consciência de um povo de dura cerviz podiam exigir tão severa intervenção de Deus. teriam tomado uma atitude de indiferença. 41) A. Como interpretá-la? Antes do mais. como descabida. 1949). Médeblelie. pouco após o episódio de Betsamés acima referido (cf. lago. mas da santidade de Deus! .20) que os betsamitas reconheceram no ocorrido um sinal. os israelitas temiam.1). dentre todos os moradores de Betsamés. a fim de explorar a religiosidade do povo! ' Esta sentença. e isto.6s (paralelo a 1 Crôn 13.. Theologlsches Woerterbuch zum Neuen Testameat 1 (Stuttgart. Tendo estado setenta anos em Cariatiarim. Em geral. onde Davi erigira a capital do seu reino. porém. O hagiógrafo continua a descrever o itinerário da arca do Senhor em Israel. quando Israel ainda era muito rude. 2. 373. de Vaux. que.. nos são desconhecidos. a sentença de que o exegeta moderno Procksch se faz porta-voz "A arca aparece coEo que cárregada de eletricidade sagrada. não da crueldade. Les livres de (Paris. III (Paris. Trecho que. Denis Papin). R. pois diz o texto sagrado (6. O Senhor então prostrou setenta homens dentre êles. de resto. dado o seu Ê esta a variante que preferem.

dir-se-ia que houve uma intervenção de Deus entre o toque e a fulminação. 20 Algo de semelhante se dá às vêzes ainda hoje com o homem simples. só podiam carregar a arca do Senhor servindo-se de barras. voluntário..21s.. nos ínicios da história sagrada.. etc . e pecado material. cf. negligência"). 158).. não era permitido aos hebreus violar os objetos sagrados com olhares indiscretos (como acima ficou dito). é irrisória. pinças.53. ao se ler a narrativa. - . carece de fundamento tanto no texto sagrado como na própria história da civilização humana (que assinala a utilização das fôrças elétricas a época relativamente recente). 18 Consoante essa mentalidade rude. porêm. inconsciente. ' consideravam não raro apenas a ação externa. e barras que jamais deveriam ser separadas do móvel. que não sempre distingue entre transgressão objetiva e culpa subjetiva. já que desejava preservar de incidente a arca do Senhor? O texto bíblico não é muito claro neste particular. 18 Uma dúvida ainda fica: terá tido Oza ao menos a consciência de que praticava algo de condenável? Não parece que. ). Mas por que terá o Senhor procedido de maneira tão prepotente ? A ação de Oza. Como quer que seja. representava uma falta contra as prescrições de culto israelita. A pena de morte infligida a Oza por haver transgredido a proibição poderá parecer excessivamente severa. 10 Cf. designava o Altíssimo pelos três seguintes títulos: "O Deus de meu pai. bacias. era boa a sua intenção. 31.. 20 Aliás..15). 1940). Theologie des Alten Testamente (Boim. pág. 17111 a. séc. também "êrro. ademais é preciso não esquecer que no Antigo Testamento nos defrontamos com um povo que muitas vêzes só se rende às impressões fortes. Os 2. Com efeito. os antigos israelitas não distinguiam muito exatamente entre pecado formal. a fim de não se dar ocasião a que alguém o ousasse tocar diretamente (cf. O original hebraico diz que Oza foi punido por sua "falta" ('al-hassal. deviam fazê-lo sem os atingir com as mãos (cf.42. Tão rigorosa era mesmo esta última proibição que os próprios levitas. Núm 4. sem levar em conta a intenção de quem agia. O episódio. considerada em si.C. muito menos lhes era lícito tocá-los. o patriarca Jacó. Hehlisch. Entre outras coisas.12.. (Gên 31. Éx 25. involuntário.15). já falam claramente da mansidão e da ternura divinas (ef. SI 75. note-se que a causa da morte de Oza não parece proceder da arca mesma. o Deus de Abraão.) Livros posteriores da sagrada Escritura. ao contrário. 43. embora fôssem encarregados de transportar os objetos do culto (turíbulos. nem a teologia. porém. o Terror de isaque . P. há de ser estimado à luz da concepção particularmente rigorista com que em Israel era tachada a violação das coisas santas (cf.160 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO caráter gratuito. consciente.). muito apurada.

voto. Conforme 1 5am 14. julgam necessário renunciar ao entendimento pleno do episódio de 2 5am 6. 182. tendo perdido o filho. em Éx 21. a ofensa contia Javé tema a forma de um ato proibido em sua materialidade mesma. cristãos. é a violação de um mandamento. Trazem. se possa ter tornado merecedor de castigo. Também nao se percebe devidamente que as exigências de . em última análise.18). há falta porque há desordem. Eis o testemunho de outro abalizado autor "Para as gerações antigas. quer não. Ainda não se percebe claramente que. § 5. não causa estranheza que Oza. A viúva de Sarepta.. La Judaïsme pciiestinien au temlos de Jésus-Christ. assim como da mentalidade judaica. tal finalidade seria indigna de Deus. Não faltam.. sacrifícios expiatórios para tais ações. fizera em nome de todo o exército. exegetas que. para haver falta.24-45. Ao lado dos trechos que manifestam rude mentalidade religiosa em Israel. é esta uma conselüéncia direta do caráter jurídico da moral judaica. em um ou outro caso. George. pois dão 21 "Levando em conta as idéias professadas no Antigo Testamento e em tõda a literatura judaica. encontram-se outros que os completam. um ensinamento religioso: veja-se nêles mais um aspecto dos preparativos pelos quais o Senhor quis fazer passar o gênero humano a fim de que nós. quer seja conhecido. 53 [1946]. Jônatas se viu ameaçado de sofrer a morte por ter violado um voto que Saul. julgava que isto lhe podia ter acontecido em punição de faltas que ela mesma ignorava (cf.12-14. .1-5. inconsciente. 3 Rs 17. pudéssemos finalmente compreender a "justiça melhor" (cf. porém.6 trata de faltas cometidas por ignorância. porém. 82. é preciso haver responsabilidade pessoal do pecador. salvou-o o bom senso do povo. Mt 5. que intercedeu pelo réu inconsciente." J. antes. de que Jônatas não tinha conhecimento.Javé são conformes à sua sabedoria tanto quanto ao seu Poder. em Revue biblique. Importante: o autor julga que a concepção rabínica é a expressão fiel do que se acha nos livros do Antigo Testamento.° CONCLUSÃO Os episódios acima analisados não foram consignados nas Escrituras para fazer tropeçar o leitor cristão. não obstante. Bonsirven. embora animado por boa intenção. 22 verifica-se. expressa pela lei. já que o texto sagrado não fornece indicações suficientes para tal. 'Pautes contre Yahweh dans (es livres de Samuel".6s.20) do Evangelho. quer seja a transgressão consciente e deliberada. negligenciando a intenção do agente. podemos definir o pecado como sendo a transgressão da vontade divina. quer não. 22 Considerados êstes particulares. prescreve.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 161 dos rabinos contemporâneos de Cristo fazia distinção entre pecado formal e pecado meramente material. a distinção entre pecado cometido por mdústria maliciosa e pecado cometido como que involuntárlamente." A. 21 Assim é que no Antigo Testamento a longa seção de Lev 4. A prova de que essa desordem era injúria feita a Deus é que devia ser reparada por um sacrifício. porém. pelo simples fato de ter cometido um ato em si mau. II (Paris. 1935). que dava valor preponderante às ações exteriores. É o que ocorre ao se tratar de homicídio. seu pai.

de todo o teu coração. principalmente no amor de Davi. o primeiro preceito da Lei mosaica era o do amor. as íntimas relações dos fiéis com o Senhor. Lc 10." (Dt 7. de Saul (cf.27).15. ci. A êstes dois mandamentos se podiam reduzir tôda a Lei. que promove .37.8-10. em geral. lembrava que se revelara aos Patriarcas e exercera a sua Providência para com Israel.37. que. devota e confiante. 28.6.11. pede um filho (1 8am 1. o Senhor.13. por meio de Moisés. principalmente na guerra: 1 Sam 4. sois o mínimo de todos os povos.18. amor a Deus: "Amarás o Senhor teu Deus.24-35. a Escritura do Antigo Testamento.6s.) "Amarás o teu próximo como a ti mesmo.. tôdas as admoestações dos Profetas e. seu desejo de of erecer sacrifícios em 1 5am 13. é também Aquêle em cuja benevolência o povo deposita profunda confiança. embora pouco esclarecido. 4. Com efeito. Mc 12.18s)." (Dt 6. donde procede a maioria dos textos considerados neste capítulo. O Senhor aderiu a vós e vos escolheu. ao mesmo tempo que se revelava como "Deus de Justiça".) "Sabei que não é por causa da vossa justiça que o Senhor vosso Deus vos dá êsse belo pais (Canaã) como propr!edade. na celebração freqüente dos sacrifícios populares (1 Sam 2.5. 8.9. 19.5. de tôda a tua alma e com tôdas as tuas fôrças.20:26). Talvez nenhum livro histórico da Sagrada Escritura ponha tanto em realce a piedade pessoal. mas por mero amor: ilO Senhor vosso Deus Vos escolheu." (Lev 19. não em virtude de algum direito ou merecimento do povo. pois é o grande Miado e Tutor de Israel. 19. 2 8am 5.34-40. Mt 22.13. observamos os seguintes traços complementares: O Senhor que pune.) O segundo lhe era semelhante: cf. Mas porque o Senhor vos ama e quis cumprir o juramento que fêz a vossos pais. como os livros de Samuel.6). outras afirmações em 11.162 PARA ENTENDER 0 MiTIGO TESTAMENTO a ver que o Senhor Deus.6-14.. É o quõ se verifica na história deAna. dentre todas os povos que estão sôbre a face da terra.20).28-31. o voto de Saul em 1 Sam 14.9-12. como reconhecia o Doutor da Lei perante Jesus (cf. não porque ultrapasseis em número todos os povos.10. sois um povo de dura cerviz.5. 15. mostrava também ser o Deus de Bondade e Amor. Da sua parte." (Dt 9. no entusiasmo das "escolas de profetas" (1 8am 10.) Voltando-nos agora para os livros de Samuel em particular. 17. no zêlo religioso sincero.

O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 163 o culto Sagrado (1 Sam 26. Deus. 182s. após o pecado.25.31). cit. embora muito valor se desse ao aspecto exterior da santidade ou da virtude. porém. não temor apenas (2 5am 12.22. o seu arrependimento.21). .) 2 23 Observações devidas a George." (1 5am 16. o autor sagrado inculcava que Deus vê além das aparências: "O homem considera a face.514-16. 2 5am 7. testemunha amor.16-23.24.18s. art. Por fim. 15. 12.10).13. Davi sabe que a sua vida é cara a Deus (1 5am 26. 2 Sam 6.19s. percebe o coração.7. 24..

observando o papel importante que o sangue desempenha no funcionamento de um organismo. Etudes sur Les . Clwix de tentes religietx assijro-babyloniens ( Paris. será preciso mostrar a mentalidade própria que anima os hagiógrafos quando. bem como em oitenta e oito passagens do Novo Testamento. Dhorme. estabeleceram o princípio solene: "O sangue é • sede e o veículo da alma ou da vida" ou "O sangue coincide com • vida mesma". P. que entre os assírios o poema da criação afirmava ter o deus Marduque plasmado os homens com o seu próprio sangue. que se poderia perguntar se isto não implica derrogação ao conceito de um Deus espiritual e transcendente. assim lhes comunicara a vida. 5. intimamente associado à religiosidade e ao culto sagrado em geral. Os sábios antigos. Na religião de Israel. 1907). 1 1 Poema assino da criação vI. Eis o que nos leva a empreender o estudo proposto neste capítulo. de um lado. de outro lado. é mencionado cêrca de trezentas e oitenta vêzes nas páginas do Antigo Testamento. atribuem-lhe importância tal. 65. êle desempenha notável função. principalmente os semitas. assim como no cristianismo. não há dávida) haveria de entrar nas concepções religiosas dos antigos homens. hão de ser devidamente focalizadas. Lagrange. O primeiro de tais ternas é o do sangue. Outrossim M. O valor religioso do sangue está baseado num pressuposto da fisiologia oriental. a fim de que o leitor possa plenamente penetrar o sentido do texto bíblico.CAPÍTULO X SANGUE E VIDA Os três capítulos que se seguem considerarão alguns temas por ocasião dos quais os escritos do Antigo Testamento aludem a concepções assaz propagadas entre os povos do Oriente. Pode-se notar.-J. principalmente nos atos da liturgia. Os textos israelitas que se referem ao sangue. por exemplo. e ainda é. O sangue era. se exprimem de forma semelhante à da literatura extrabíblica. Estas. Esta tese (deficiente. no intuito de transmitir a sua mensagem. Cf.

necessário para a santificação do homem decaído. • alma de tôda carne é o sangue.sangutnis imttationem. 252s. Vergilio mesmo refere: 'Purpuream vomit UM animam .2. 231. ainda que o fizesse em ódio ao pecado (a vida é propriedade exclusiva do Criador). E." Agi. sérvio escreve: ".. por isto. 243. é dito clamar a Deus. ainda nas línguas modernas empregam-se equivalentemente as expressões "dar a vida" e "dar o sangue" pela pátria. religions sêmiUques (Paris. ii.0 "SEM EFUSÃO DE SANGUE NÃO HÁ REMISSÃO DE PECADO" (Hebr 9. ad . à imitação do sangue.11. Assim em Gên 4. 1 Por conseguinte. derramar o próprio sangue para reconcir d'israel. norteia a dispensação dos dons de Deus após a culpa cometida no 'paraísa O derramamento de sangue foi. 349. 201-219.) 2 De tal modo era o sangue identificado com a vida que após • morte do indivíduo os judeus julgavam que o sangue conserva autonomia e personalidade. ainda pode aspirar a uma reconciliação com Deus. 3 "No dia em que comeres do fruto proibido. quo est sedes animae.. atribuíam-lhe uma voz própria.24. portanto. conforme o Apóstolo. 1905). em virtude de gratuita condescendência divina. é o de colocar-se na atitude de réu e reconhecer a justa sentença que sôbre êle pesa.166 PAfl ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO O conceito fisiológico era igualmente familiar aos israelitas. pela desobediência o homem se afasta de Deus. Deus no Antigo Testamento houve por bem adaptar as suas determinações a tal concepção. Afirmava a Lei mosaica: "O sangue é a alma (= vida). incorre inevitáveimente na morte. . no qual está a." (Lev 17..10 o sangue de Abel.23. consoante a sua praxe de educar e elevar os homens mediante uma condescendência prévia.. 17.. Apc 6. cedendo ao pecado." Aen. sim.22) É êste o princípio solene que. Mesmo entre os romanos encontram-se vestigios de tal fisiologia. 79. sede da alma. Hebr 12. 9. o mesmo se narra dos mártires do Antigo e do Novo Testamento em 2 Mac 8. 1. .. Todavia Deus não permite que o homem tire a vida a si mesmo. L'évolutíon religicuse . Estas idéias tiveram duas conseqüências práticas de grande importância na história sagrada § 1. Dhorme." (Oén 2. em conseqüência disto.rlamente impôs ao pecador. certamente hás de morrer. Tão estranha lei se entende pelo fato de que. 2 De resto.. o homem perdeu o direito à vida.14. 5. iniquamente sacrificado. mas corolário lógico da culpa.Lança fora a alma côr de púrpura.3. Não podendo. que exprimia junto a Deus os sentimentos de justiça do defunto.) A morte não é sanção que Deus arbitrà.) Ou ainda: "A alma (= vida) da carne está no sangue. que é a vida mesma. e será até o fim dos tempos. se após a queda o culpado. o prirneiro passo que há de dar." (Dt 12.

J. O autor faz notar que no Oriente de nossos tempos ainda está em vigor tal antiquíssimo costume.10 quem fala pràpriamente dessa aliança com os primeiros pais. de resto. distinguiam tipos diversos de impureza. 1903). algo de abominável a Deus.O povo atira animais ao fogo em seu favor. após o dilúvio. a cada um dos quais correspondia uma oferen da própria. 6. Lev 17. um costume quase espontâneo entre os povos dé outrora) recorriam a animais irracionais. desde. 106 (1932). como os profetas de Israel muitas vêzes afirmaram (cf." (li. A. Handbuch der alto-. vita pra vita" . da personalidade. à semelhança do que se dera com Adão no paraíso: dotadó da amizade divina." De lingua latina. . reaver a graça equivalia a entrar num pacto sagrado com Deus. porém. obra em que se encontram citados vários outros textos). em lugar da nuca do homem. A idéia de expiação. Lev 1-7)." Cf. gratidão e suas preces (cf.. a nuca do cordeiro. os judeus conheciam muitos e variados sacrifícios no seu ritual. todavia a idéia fundamental que a inspirava. em Revue d'histoire dez Reltgions. inflamada de zêlo religioso. desde remota antiguidade os israelitas (seguindo. como se compreende. que não fôssem acompanhadas de uma oblação interior ou de autêntico espírito de penitência. dos quais refere varrão: Populus pro se in ignam animalia mittit .20. sanguina pra sanguine. é a que se acha acima exposta.. "Survivancez par substitution des enfants dans l'Afrique romaine". tais vítimas preenchiam de certo modo a finalidade de satisfazer à Justiça divina (cf. Na medida em que eram realmente a afirmação de uma alma contrita.. 21 (1940). Em testemunho do costume entre os semitas. Metzinger.SANGUE E VIDA 167 liar-se com o Senhor. sangue por sangue. 1. pois. Cf. expressão de concepções politeístas e supersticiosas. do oferente. "Die substitutionstheorie und das alttestamentliche Opfer". Carcopino. éle a entrega em lugar da cá beça do homem. 'tal oblação exprimia o arrependimento do homem pecador e seu anelo de se unir de novo a Deus. em lugar do peito do homem. Baseados nesse conceito de expiação. 247-272. (0 sacerdote) oferece o cordeiro em lugar da vida (do devoto) a cabeça do cordeiro. Curtiss. 592-599. eis ao menos um texto do ritual assirio-babilónico: "0 cordeiro faz as vêzes do homem. Pasti. Is 1. 4 imolavam-nos e ofereciam o seu sangue a Deus em substituição do sangue. 353-377. 1 Assim." 'Alma por alma. 5 É o autor de Edo 17. vida por vida.. tornavam-se um sinal de hipocrisia. Veja-se também S. Jeremias. 159-187.7).11). estava intimamente ligada no Antigo Testamento a noção de aliança com o Senhor. fôra chamado a uma aliança com o Criador. Ez 44. agnum pro vi (caria). 156-162. da vida. a praxe era. Ursemitisehe Reliqion fia Voliesleben dez tteutigen Orients (Leipzig.11. 290. O uso tornou-se comum mesmo entre os romanos." "Anima pra anima. Ainda em 1930 foram descobertas no santuário de Saturno em N'gaous (Africa romana) quatro monumentos votivos. rientaUschen Geisteskultur ( Leipzig. Também mediante a oblação de sangue exprimiam adoração. reconciliação com Deus. o cordeiro era substituição. 1913). o peito do cordeiro. em Bíblica. A. Algo de semelhante é atestado por Ovídio. com Noé salvo 4 Entre os pagãos. que trazem fórmulas como: "Sa- crum redgiderant. Por disposicão divina."Pagaram a dívida sagrada.

Deus entrou igualmente em aiiança. 13. Gên 15.19s). caso se tornassem infiéis ou perjuros. No Oriente antigo. é a que posteriormente Javé quis concluir com todo o povo de Abraão. ao pé do monte Sinai. comunhao que O Abraão não passou em meio às vitimas. adaptando-se à mentalidade do homem primitivo. com isto.21. pois já cumprira a sua pafle. o mesmo. marcando as portas dos israelitas. significar que assumiriam a sorte das vítimas. Éx 24. já que Israel aceitava as disposições divinas. com Moisés e o povo israelita tirados do cativeiro egípcio. Deus dava a entender que não deixaria de cumprir as suas promessas de bênção. quando Deus se dignou travar aliança com Abraão. é um compromisso mútuo. Ora essas e outras convenções sagradas foram concluídas mediante efusão de sangue. qualquer aliança travada entre homens implica a aceitação de deveres de parte a parte. Moisés derramou metade do sangue das vítimas sôbre o altar . o compromisso mútuo foi selado mediante a imolação de animais. Tendo libertado o seu povo. prometendo-lhe posteridade numerosa e abençoada em troca da fidelidade que o Patriarca até então mostrara ao Altíssimo: Abraão distribuiu em duas filas animais prêviamente imolados e divididos. 19. chamado do torrão natal idólatra para a terra sagrada.9. Êste rito teve aplicação. tendo sido fiel a Deus nas provações a que até então tAra submetido. para exprimir que se obrigavam irrestritamente até a morte a observar o pacto. os contraentes imolavam vítimas.e metade sôbre o povo (cf. caso a observasse. a seguir. isto é. fõra o sangue de vítimas que. o fim do cativeiro (cf.3-8.168 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO das águas Deus travou uma aliança. um e outro dos pactuantes passavam por entre as carnes imoladas. por ocasião da décima praga desencadeada sôbre o Egito.2. Êx 12. indiretamente. Hebr 9. file o fêz com Abraão. dividiam-nas ao meio e colocavam as respectivas metades em duas filas paralelas. Por que isto ? De modo geral. dessa vez. querendo. chefiado por Moisés. não se verificou o rito da passagem dos contraentes entre as carnes imoladas. merecera para êstes a preservação da morte e. Com efeito. Deus houve por bem dar-lhe uma constituição própria (a Lei mosaica).29-36). 18-20). passou entre as carnes (cf. dêste modo.que representava o Senhor Deus . Éx 3. ef. prometendo-lhe prosperidade. e uma coluna de fumaça e fogo (habitual símbolo do Senhor. que estavam dispostos a derramar o sangue e sofrer a morte. . 6 Outra aliança divina que de mais perto interessa considerar. porém. Neste pacto o sangue desempenhou papel ainda mais significativo. Tal gesto significava a comunhão íntima que para o futuro existiria entre Deus e o seu povo. na história sagrada. por exemplo.7-19).

O poder que o sangue tinha de unir ao Senhor se atuou ainda na instituição do sacerdócio do Antigo Testamento. devia o Legislador aspergir com sangue Aarão. Todavia. 30.7. pois. não os quiseste. havia desproporção entre os dois térmos. . Eis. poderia talvez julgá-las um tanto infantis. seus filhos e a indumentária de todos: "Assim serão consagrados Aarão e seus trajes. fazendo que dêste dependesse a legalidade religiosa dos homens. até a morte (significada pelo sangue derramado) Aarão e seus filhos pertenceriam ao serviço do Senhor. apiedando-se da sorte do homem. ou seja. o Filho de Deus.SANGUE E VIDA 169 teria conseqüências de vida e de morte (cf. abstração feita do que se seguiria nos séculos posteriores. no sangue que se fundavam as novas relações do Criador com as criaturas. assim como os seus filhos e os trajes de seus filhos. inconscientes do que é o pecado. eram insuficientes para realizar o plano divino. Não se pode negar que as vítimas e os ritos do Antigo Testamento eram precários. pois. Além disto. sim." (Êx 29. Prossigamos. na plenitude dos tempos. a Moisés Jayé mandou que imolasse um carneiro. Como poderia o sangue de sêres inferiores ao homem. não se explicaria bem que Deus. que me deste um corpo. com isto.165). Hebr 9. Lev 8. oferecidos de maneira demasiado formalista. quem quisesse interpretar essas passagens independentemente do seu grande contexto histórico. indicando. à prática das boas obras e ao caminho reto da justiça. e com o sangue ungisse a orelha direita. de então por diante. Es 44. porém. feito isto. embora condizentes com a antiga mentalidade oriental. no judaismo decadente. tenha determinado dar tal relêvo ao sangue de irracionais. sem o necessário espirito de reparação (ef. Tais episódios dão a entender com suficiente clareza a importância e a eficácia que o próprio Debs se dignou atribuir ao sangue desde o início da história sagrada. o curso da história sagrada. a representação de uma pessoa humana por um animal irracional imolado era um artifício reconhecido. eram.) A efusão do sangue sôbre o corpo e as vestes simbolizava que tôda a pessoa do sacerdote estava como que envolvida pela graça divina. Is 1. mas. o polegar direito e o artelho direito maior de Aarão e seus filhos. 1 "Não os quiseste" como se fõssem algo de definitivo. que se lançara no delito. Era. quis um dia dizer ao Pai: "Sacrificio e oblação. a fidelidade dos sacerdotes respectivamente à palavra de Deus. mas dêle não se podia remir. pela Lei mosaica. obter plena pureza para a consciência humana? Foi por isto que.21. sé podiam ter valor provisôrio. sem dúvida. era o sangue que mais uma vez associava Deus com os homens e os homens com Deus. textos em que o Senhor repudia os sacnficios hipôcritas de Israel).11.23s. Puro Espírito. cf. imperfeito.

o Filho de Deus tomou uma natureza humana e ofereceu em nome de todos a sua carne e o seu preciosíssimo sangue. era apto a expiar de maneira cabal. ó Deus.. 'Por Chato Deus quis reconciliar consigo todas as coisas. com tôda a generosidade que o amor inspira. a fim de libertar a êstes. tornou-se. instaurando a• paz pelo sangue da sua cruz. sofreu a sortê dos réus. com plena consciência. obteve. sem restrição os benefícios que as múltiplas imolações da Lei mosaica só conseguiam em pálidos têrmos: remissão dos pcados. mesmo superabundante. e constituiu-se a vítima que. o sangue. (até a morte. que incorreu na morte em revolta ao Pai..) 9 . Deus e suas criaturas. Tornou-se desta forma a antItese exata do primeiro homem. Paulo acrescentaria: nesse sangue também os anjos bons se aproximam do homem. cujos preceitos se resumem em amar a Deus e àqueles a quem Deus ama. para reparar a obra do primeiro Adão. destino final que é a vida imperecível do céu. para fazer. os pecados do mundo cometidos desde os primórdios até o fim dos tempos. fêz-se o segundo Adão. FIp 2.5-7.. no sangue de Cristo. 9 Ésse sangue ocupa o centro do mundo.170 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Holocaustos e sacrifícios pelos pecados. não os aprovaste. pois. e morte de cruz). as que estão aa terra e as que estão nos céus. Simbõlizando a vida infinitamente preciosa do Homem-Deus. Como .7-9. É neste sangue que Deus e o homem se encontram num consórcio muito mais íntimo do que o do paraíso perdido. pagava o devido tributo à Justiça divina." (Col 120. sàmente enquanto estavam relacionadas (como figuras e prenúncios) com a Cruz é que tinham valor as vítimas imoladas desde os primeiros séculos. S. Então disse: 'Eis que venho. pois correspondia não apenas à dignidade do homem. mas também à Majestade do Criador. tocam-se o céu e a terra. era o sangue sacerdotal por excelência. vida humana santa por vida humana prevaricadora.se compreende. Com a autoridade de Senhor da vida. eis o que o sangue de Cristo nos mereceu. pois a infidelidade de Adão criara uma divisão entre criaturas fiéis e criaturas infiéis ao Criador.8. o centro da história. pelo sacrifício do Re51 39. aquêle que incorreu na morte por amor ao Pai. portanto. o sangue de Cristo tinha junto ao Altíssimo um poder de intercessão incomparàvelmente mais eloqüente do que o das vítimas do Antigo Testamento.. sangue humano inocente por sangue humano iníquo eram finalmente oferecidos a Deus. 'elevação do homem ao estado de filho de Deus. nova aliança. Cristo substituiu-se assim às hóstias irracionais dos antigos ritos. cf. a tua vontade. Hebr 10. que até a vinda de Cristo era mero sinal.'" Desejoso de expiar o põcado e reconciliar com o Pai o gêúero humano..

e o sangue do Filho de Deus feito homem! E não era uma ordem de somenos importância. sinal eficaz. que lhe extraiam o sangue.16." Pela primeira vez na história. sinal portador e realizador da vida. Cf. da vida eterna (cf. o homem bem percebe que a vida lhe é transcendente. § 2.SANGUE E VIDA 171 dentor. ao abaterem um animal comestível eram obrigados a levá-lo aos sacerdotes.4) 10 Lev 17. não fôsse possível levar a prêsa ao altar do Senhor. que parecia contradizer aos desígnios antigos.27. Lev 17. entre os israelitas. para qual estava reservada a gravíssima pena da excomunhão. só depois dêste rito lhes era lícito comer a carne (cf. aos seus fiéis que bebessem sangue. a que Jesus dava na última ceia. sangue da aliança nova. Lev 3. Por conseguinte. o qual será derramado por muitos para a remissão dos pecados. Hebr 9. o Sénhor Jesus se dignou dizer-lhes: "Bebei todos. antes.12-14.° "QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE POSSUI A VIDA ETERNA" (Jo 6. da observância da mes"Não 9. a Lei prescrevia que fizessem escorrer o seu sangue e recobrissem de terra o líquido precioso (cf. 19. o sangue se identifica com a vida do animal. Lev 17.235. os filhos de Israel. êle jamais a produz artificialmente. .. Estas premissas fizeram que. Só Deus é senhor da vida e da morte.4-6). o consumo do sangue era considerado uma espécie de sacrilégio.17. Deus permitia. Ora é proposição fundamental de tôda religião que a vida é propriedade exclusiva da Divindade. Por sete vêzes (número da plenitude) inculca a Lei mosaica tal ordem comereis carne com a sua alma (= sangue)" (Gên "Voltarei minha face contra aquêle que tiver consumido sangue. Sôbre êste fundo de proibições tão solenes é que ressoou na plenitude dos tempos um preceito emanado do mesmo Deus. por efeito das circunstâncias. Apresentando aos discípulos um cálice.. a fim de o oferecer sôbre o altar do Senhor. algo de sagrado.13). após uma caçada. 7. também não a conserva como desejaria. o sangue fôsse igualmente tido como propriedade de Deus. Daí se seguia a estrita proibição de jamais beberem sangue.54) Voltemos ao pressuposto fisiológico: no sangue está a vida. Se.8-10).26. Dt 12. preceituava. 17.10. e o separarei do meu povo." 10 Como se vê. pois isto é o meu sangue.

57. a Sabedoria divina queria inculcar. do seu modo. conforme o plano divino.não viver vida meramente natural. isto é.54s. o consumo de sangue implicava excomunhão. Expliquemo-nos: o gênero humano nunca estêve destinado a um fim meramente natural. em outros têrmos: desde tôda a eternidade foi o homem chamado a se tornar filho e herdeiro de Déus. condescendendo com o homem de mentalidade primitiva. e eu nêle. de maneira marcante. isto é. mas a participar da vida do próprio Deus. a posse da vida eterna: "Se não beberdes o sangue do Filho do homem.172 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ma dependeria. pode comunicar a vitória sôbre a morte que. com efeito. Com efeito.vemo-lo insinuado nas proibições do Antigo Testamento: o sangue de animais. vida imortal num corpo ressuscitado. como dissemos. a proibição rígida do Antigo Testamento e o preceito não menos categórico de Jesus significam. deve tocar a todos os homens. e só êste. Aquêle que. não faz senão diferir a morte certa que toca aos filhos de Adão. o Senhor quis adaptar-se a uma tese da fisiologia antiga. êste sangue.. possui a vida eterna. Não se dê por satisfeito com meta inferior à visão de Deus face a face. é o consumo de sangue condição indispensável para que haja comunhão do homem com Deus e também com o próximo.. a vocação do homem a viver vida não meramente natural. no Novo Testamento. não se contentar simplesmente com os bens que a criatura proporciona . mediante o seu "jôgo" de proibições e preceitos. a uma posse de Deus tal que ultrapassa as exigências da natureza. O aspecto positivo da vocação do homem . não tereis a vida em vós. surge espontâneamente a questão: por que terá Deus assim "jogado" com suas proibições e seus preceitos ? Na legislação concernente ao sangue. nem queira viver para outro fim senão êste .eis o que a legislação bíblica concernente ao sangue hoje • . por ser o do Homem-Deus.viver a vida de filho de Deus. à consecução da bem-aventurança que a natureza por si exigiria. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. bebe o meu sangue. que nada menos do que a participação da vida divina está reservada ao homem. glorioso . desde que considerado como veículo da vida. Para quem reflita sôbre os textos citados. para os homens..vemo-lo expresso na entrega do sangue do Filho de Deus como alimènto aos discípulos. já o primeiro homem foi elevado à ordem da graça e destinado a um fim último sobrenatural. permanece em mim.. uma vez pressuposto que o sangue seja o veículo da vida." (Jo 6. Por conseguinte. só pode comunicar vida precária e bem-estar exíguo. a fim de o elevar aos poucos à compreensão de verdade mais sublime. Ora o aspecto negativo desta vocação .) Note-se o contraste: no Antigo Testamento.

cada qual do seu modo. por Cristo. e por um só tipo de sangue. . Os preceitos rituais do Antigo Testamento. Sem o saber.SANGUE E VIDA 173 nos transmite. é. que conseguimos a vida verdadeira. os homens dos séculos pré-cristãos nos ajudaram a compreender que. embora o sangue não seja a sede da alma e da vida. a grandeza das realidades que hoje. pelo sangue. a que não sucumbe à morte. embora não tenham mais vigor de lei. não obstante. o do Filho de Deus feito homem. talvez estranhos nos nossos dias. possuímos. são ainda portadores de uma mensagem: ilustram.

° AS DOENÇAS As doenças. ENTRE AS NAÇÕES PAGÃS Fora de Israel. os antigos os justificavam por motivos religiosos. o parto) e os cadáveres eram tidos como impuros. Mesmo ao aplicar meios terapêuticos autênticos. § 1. Desta forma sonhos e doenças na Bíblia vêm a ser por vêzes uma pedra de tropêço para quem deseja. mas principalmente a preces. pouco condizentes com a Sabedoria de Deus e a ideologia de um homem culto. Eis a razão por que o capítulo presente se propõe considerar o problema e procurar o autêntico significado que os mencionados fenômenos devem ter no livro inspirado pelo Senhor Deus. Dos efeitos dêsses agentes malignos e. ou seja. também às enfermidades físicas sabiam dar interpretação religiosa. até certas funções fisiolágicas (como a menstruação.CAPÍTULO XI DOENÇAS E SONHOS Doenças e sonhos são objetos em tôrno dos quais a imaginação popular de todos os tempos muito se exerceu. sempre solicitaram a atenção do homem. Visto que os antigos costumavam considerar tôdas as coisas à luz da religião. em particular. 1. da doença. estimulando-o a perscrutar-lhes as origens e os remédios. assim julgavam . sacrifícios. era comum atribuir as moléstias do corpo à ação de maus espíritos. levando fàcilmente o indivíduo à superstição. ainda hoje usuais. Ora os autores dos livros sagrados freqüentemente se referem a doenças ou apresentam interpretações de sonhos em têrmos que parecem simplórios. por sua vez. exorcismos e outros ritos religiosos. a conceição de prole. chegar a Deus. julgavam mesmo necessário vê-las através dêste prisma. Interessa-nos verificar como isto se fêz entre os povos pagãos e como a Sagrada Escritura. como bem se entende. causados pela influência de sêres invisíveis nefastos. aprecia as doenças. pela Sagrada Escritura. devia o enfêrmo libertar-se recorrendo não tanto a processos e remédios cientificamente estudados. que purificariam o homem e afugentariam os espíritos.

poderia ter sido cometida numa existência antenor à presente. porém. 1 A palavra grega daimon (donde 'demônio'. às leis de saúde. muitos implicavam simplesmente fenômenos naturais. 302s. o que se verifica já sem hesitação nos escritos cristãos. A luz dêstes pressupostos explicam-se estranhos pormenores de terapêutica e religiosidade antigas: "doença divina" (divinus morbus. moléstia em que o homem. contorcendo-se desfigurado. porém. Conforme crenças orientais. e a preocupação de conservar na sociedade rude a necessária higiene. que é a existência. ao menos entre os povos primitivos anteriores a Israel. 3 Cf. praticavam cortes na carne do enfêrmo. etc. invisiveis. E. terão contribuído para que se admitisse a liifluência de maus espíritos na origem de fenômenos fisiológicos: o caráter mais ou menos repugnante de certos dentre êstes (lepra.176 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO que massagens. Prescreviam outrossim banhos de purificação para a mulher. emprêgo de vapores teriam por efeito calcar ou molestar e. a culpa. tendiam a conceber tudo que se refere à vida humana (sua geração. Em particular. mais poderosos que o homem. O fundamento principal desta tese é assaz evidente: todo indivíduo tem consciência de não ser senhor de sua vida. sangue que consigo levaria o espírito funesto. robustecimento e extinção) como sujeito a sêres superiores ao homem. 2 É importante notar que nem todos os casos de presumida influência dos espíritos maus eram casos de culpa moral. 'Fautes contre Yahweh dans les Livres de Sanluel". um ser superior ao homem dotado de influência sObre a vida humana. causa da moléstia. tocassem cadáveres. que são graves.. 2 Asclépio ou Esculápio o Deus Médico. em Revue bibli4ue. as doenças. Podia ter intenções benévolas ou malignas. em português) significava originàriamente. provocando escapamento de sangue. com o mesmo fim. ou então deslocar o mau espírito do órgão afetado para os pés do doente. em seus oráculos freqüentemente receitava banhos. não a produziu nem a conserva indefinidamente. parece claramente sujeito à moção de um ser superior. Ao falar de "espiritos". assim corho para as pessoas que provocassem a morte de outrem. Sôbre o mesmo assunto vejam-se também a pág. fisiológicos. La Religion des Hébreuz nomaas. debilitação. Dhorme. por fim. chagas. George. os demónios foram sendo mais e mais considerados nefastos ao homem. . os antigos entendiam geralmente sêres corpôreos sutis. pondo em perigo o bem fundamental. 146s dêste livro. 167s.. Os antigos. Ainda dois outros fatôres. eram tidas na conta de castigo infligido pela Divindade ou pelos espíritos que os homens houvessem irritado. donde êle partiria definitivamente. entre os paflos. 53 (1946). conservação. entre os romanas) era o nome que se dava à epilepsia. Ao ver um louco. não se podia dar significado mais autoritativo do que o significado religioso. Aos poucos. expelir o demônio 1 do corpo do paciente.). A.

8 E o que explica o trocadilho feito em tôrno do nome do filósofo Epicuro. achaque".. tratar em tódas as acepções do têmo. perdoa seu pecado. Na mitologia grega tomou-se muito estimada a figura do "herói doente e sofredor". IV (Stuttgart.. Entende-se outrossim que a técnica de curar moléstias tenha recorrido a exorcismos. que se termina condenando os eventuais transgressores a "uma doença grave. ainda o seguinte aspecto da ideologia pagã concernente às doenças. deu à população o conselho de a debelar oferecendo sacrifícios ao deus que provàvelmente não os recebera nas funções do culto. Nesses mesmos lugares foram erectos altares com a dedicácia: "Ao deus a quem compete.). medicina e filosofia não raro eram simultâneamente cultivadas. a fim de que glorifique o teu poder. Haja vista. um cretense chamado Epimênides. o código babilõnico de Hamurapi (séc. por coceira que o deprimia e tornava melancólico.. Theologísclzcs Woertcrbuch rum Neuen Tertame?rt.ibras. êste produzia a enthousia. mas também a cessação de doenças (a cura do corpo). Depois de Alexandre Magno. a partir da colina do Areópago. Cf. . entre outros. curar." Seguia-se a descrição da cura da doença respectiva. que sobreviera àquela cidade entre 596 e 593 a. pelo mal dos pesadelos noturnos que lhe infligia o demônio Efialtes." Em outro texto. desencadeara a peste.. o super-homem provado pela dor: era afetado. XVIII ao. que o médico não saiba diagnosticar. e vice-versa. muitos cânticos penitenciais dos antigos povos pediam não sèmente o perdão de pecados (a cura da alma). que não possa ser amainada por curativo. e. uma mordida mortal. lhe fêz contrair uma espécie de lepra acompanhada de cã.. por exemplo. devia o sacerdote ao qual se apresentasse um doente.110) que. em conseqüência. conforme um ritual babilónico. oepke. portador do veneno da hidra.. portadores da sabedoria moral necessária para curar as chagas ou os vícios do espírito.C. imolaram-nas em sacrifício. soltaram então. sim. rezava o fiel devoto: "Meus pecados. Nósos em Kittel. 1085. o contato com o sangue de Nessos." (Tooi proseelconti th. e nos respectivos lugares da cidade em que cada uma se deitou. Ele (o deus invocado) permitiu que o vento os levasse. Permite que teu servo viva. chaga perigosa incurável. o cnthousiasmõs. 4 tendo Deus colocado a mão sôbre êle. Fase cessar a sua febre (?) e aflição. Explica-se também que códigos legislativos religiosos da antiguidade ameaçassem doenças àqueles que ousassem violar os seus preceitos. isto é. maltratá-lo seria o mesmo que atentar contra os direitos do Todo-Poderoso. pois julgavam que tal homem (rnedjnoun) estava possuído por um djin ou gênio. 8 Não se poderia silenciar. tendo irrompido uma epidemia mórbida em Atenas. mesmo num estudo de Sagrada Escritura. ovelhas pretas e ovelhas brancas. etc. ritos de expiação. Divindade nos seguintes termos: "Segura a sua mão (do enfêrmo). têm igualmente o sentido de "peste. peste maligna. 1942). 6 Narra Diógenes Laércio (1.DOENÇAS E SONHOS 177 costumavam os orientais arredar-se com temor sagrado.. dirigir-se à..eoot). sobressai o tipo de Hércules. 7 Algumas das palavras babilónicas que significam "pecado". Sàmente 4 Também entre os gregos o 'entusiasmado" era o homem possuído por um theõs (deus). os médicos eram também filósofos. seus discipulos o derivavam de epilcourein.

entre os pagãos era explicada de acôrdo com as idéias politeístas de cada povo: admitindo muitos deuses e. e fatôres necessários. julgavam outrossim possível que êstes punidores do homem pudessem proceder por mero desejo de vingança ou inveja. Oriundos no mundo greco-oriental em que as idéias acima tinham curso. a ação dos demônios. revoltou-se contra o Criador Bondoso no paraíso. otimista do povo grego. Interessante. os textos bíblicos concernentes às doenças apresentam suas analogias com os documentos profanos antigos. nisto manifestavam um traço profundo da sua psicologia e religiosidade. todos os seus descendentes sofrem a revolta da nattireza. que reflete o desequilíbrio introduzido por Adão nas suas relações com Deus. Assim é que os pagãos reabilitavam ou resgatavam o conceito de doenças e flagelos decorrentes das vicissitudes desta vida. em conseqüência. representante do gênero humano. do desenvolvimento do individuo.• buir as doenças à ira de deuses ou demônios. ao contrário. intensificam a desordem. a plenitude. Assim o drama do pecado marcou profundamente a ideologia dos judeus atinente à doença. 2. freqüentemente no Antigo Testamento ocorre o binômio "pecado-doença". experimentam no próprio corpo um desequilibrio (doenças). Em Israel. semideuses. admitiam também muitos espíritos causadores cada: qual de determinada doença.178 PARA ENflNDIR O ANTIGO TESTAMENTO a morte e a apoteose puseram têrmo aos padecimentos de Hércules. são castigo. A mentalidade. Na ideologia de Israel e na dos demais povos há um fundo doutrinário comum: a crença de que as doenças provêm de uma ofensa do homem à Divindade. a saber: o senso trágico e. deixando-se aplacar logo que sé lhes oferecessem "dádivas". o furor e a inveja dos deuses desencadeando-se sôbre o homem. ao mesmo tempo. os filhos de Adão. eram considerados fatôres. que os perpassa é bem diversa da que inspirou os trechos pagãos. os mitos punham em realce que é pela dor que o homem se comprova e atinge a sua maturidade. Como os demais povos antigos. NO POVO DE ISRAEL Passemos agora à consideração dos livros sagrados de Israel. Notem-se os seguintes exemplos: - . porém. como se êstes dois têrmos fôssem estritamente correlativos entre si. é que explicavam também desta forma as moléstias dos heróis mitológicos. os gregos costumavam atri. Esta tese. tornam-se mais e mais sujeitos ao padecimento e à moléstia. acrescentando à culpa do primeiro homem as suas faltas pessoais. porém. porém. à semelhança de homens apaixonados. a concepção era radicalmente monoteísta: o primeiro pai.

precisamente por ser tidos como pecadores denunciadps pela própria justiça divina. Que êle não te abandone. 0 livro apócrifo de Henoque. Meu filho. Ora. Afasta o pecado. parecem visar uma tendência do judaísmo a vilipendiar a medicina. mas os médicos"! De tal forma os conceitos de "pecado" e "doença" eram associados entre si que não se via lugar para uma cura meramente científica das moléstias. Pois também êles (os médicos) oram ao Senhor.DOENÇAS E SONHOS • 179 aos transgressores da Lei de Deus. e tle te curará. Aza "mesmo durante a doença não procurou o Senhor." (Vv." (Dt 28. de modo nenhum implica menosprêzo em Israel para com os médicos ou profissionais da ciência. 1. mas de modo nenhum aprova). foi o Senhor que o criou.) Êstes dizeres.. . ...9s. Moisés prediz justos castigos. os amigos de que se queixa o salmista no 51 40. pois a sua arte te é necessária. escrito pouco antes do Edo. levanta as tuas mãos E purifica de todo pecado o teu coração . A seguir.7. tendo-se mostrado infiel ao Senhor. O Senhor fêz a terra produzir os medicamentos.12. porém.6-10. dá acesso ao médico. Jó 2. pragas graves e persistentes.C. até que sejas exterminado. foi acometido de uma doença dos pés (gôta ?). entre os quais a irrupção de doenças: "Se não fôres solícito em observar tódas as palavras desta lei.12-14. não desprezes meu conselho.. Além disto. o Senhor inflígirã a ti e à tua posteridade pragas ex traordinárias. Pois foi o Altíssimo que o criou A ciência do médico lhe faz levantar a cabeça. doenças perniciosas e tenazes. para cúmulo de sua infidelidade e infelicidade. particularmente digno de nota é o episódio de 2 Crôn 16. Fará voltar sôbre ti tôdas as moléstias do Egito.15-23). assim procederam as espôsas de Jó e Tobias em relação aos respectivos maridos (cf. diante das quais tremias.. e elas se prenderão a ti. Suas mãos terão sucesso.. se caires doente. o Senhor desencadeará sôbre ti tôda espécie de doenças e pragas que não são mencionadas neste livro da Lei.58-61). procurar recuperar a saúde por simples recurso à medicina parecia ser endurecimento ou obstinação do pecador ferido! o texto de 2 Crôn 16.. Tob 2.12: o autor narra que o rei Aza de Judá. Mas ora ao Senhor. em Edo 38: -'Honra o médico por causa das tuas indigências. Haja vista a recomendação do sábio mestre. os israelitas às vêzes infligiam aos seus enfermos tratamento de desprêzo e escárnio (tratamento que a Bíblia refere. que muito o fazia sofrer. E o homem sensato não os desdenha. que datam aproximadmente do ano 200 a. Por êles o homem produz a cura e extingue a dor. Éle é admirado em presença dos grandes..3s.9s.

parece ter-se desenvolvido. Contudo . io ciência e magia eram tão ligadas entre si que na prática o médico não raro era mago. de sorte a violar o monoteísmo de Israel. considerando a êstes como deuses (cf. Jó 1. Si 32. Tais séres celestes terão sido. Dt 4. portanto). Jer 33. 139-141.8-12). Cf.. Entrava em casa do paciente pronunciando uma fónnula mágica. são intimamente associados entre si (cf. 69.12.6. o qual há de recorrer tanto à ciência quanto à oração (cf. 3 Rs 22.12. na teologia de Israel. 1954).7). embora relativa. o enfêrmo deve primeiramente confiar-se a Deus e purificar a alma. Tais homens se diziam . os israelitas reconheciam que o Senhor Deus. dispondo das mesmas. o curandeiro consegue "forçar" a Divindade a produzir o que o "sábio" quer. Esta conclusão é insinuada. postos era paralelo (cf. Tob 3. 12-14). ao punir alguém com moléstia ou morte. cada vez que aplicava ou retirava uma bandagem. o mal desencadeado pelo anjo terá sido uma epidemia mórbida. que povoam ou ornamentam o céu juntamente com outras criaturas. no flagelo da peste que castigou o reino de Davi (cf. reduzidos à categoria de criaturas de Deus." Citação de um estudo .3s. Ne 9. os astros. em particular pelo fato de que anjos e astros. na Sagrada Escritura.36. a seguir.23). os outros o "exército dos céus" (cf. O médico egipcio "associava fórmulas mágicas a toda a sua atividade. Esta mesma verdade é indiretamente confirmada pelo fato de que a legislação de Israel não tolerava a existência de curandeiros ou magos.19. no extermínio do exército dos assírios (cf.8). Éx 12.e ainda hoje se dizem— possuidores de fórmulas ou receitas extorquidas da Divindade por indústria do homem ou reveladas por um espírito superior às vêzes invejoso de outro.180 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO incriminava os anjos maus por haver comunicado aos homens a ciência dos diagnósticos e dos remédios (8.6).7). entre os israelitas. 45. se pode servir do ministério de espíritos ou anjos. na história de Jó (cf. Admitindo nos têrmos acima o pecado como raiz das doenças. 17. Si 148. Contràriamente.14.3). poderá esperar alívio da intervenção do médico. Th4oiogie de l'Ancieir l'estament. que são os anjos. P. e o anjo executa o desígnio do Senhor Deus.16s). mas inferior a Deus (criatura. tenha-se confiança nêle.19. Dizia uma imprecação quando tomava em mãos o vaso que servia para medir as substâncias necessárias à coafecção de um remédio. 126. proferia outra quando o doente bebia a poção. 10 O Justamente o conceito de anjo. 2. (Paris. em reação contra o politeismo dos babilônios e de outros povos.jamais o "anjo do extermínio ou da enfermidade" nos textos bíblicos é apresentado como outro Deus ou como semideus. na de Sara (cf. Jó 38.e isto merece tôda a atenção . Foi o que realmente se deu na mortandade dos primogênitos do Egito (cf.1-5).22. constituem uns o "exército de Javé" tcf.2). recitava outras tantas fórmulas sõbre os diversos ingredientes de que se servia para a fabricação do medicamento. 2 Sam 24.. dizia a indispensável fórmula. que adoravam o exército dos céus". como se julga). Jos 5. van Imschoot. 1. movendo-se todos em plena sujeição às ordens do Único senhor. ° Javé manda ou permite. o autor sagrado inculca que o médicõ tem vocação divina e é indispensável. SI 148. Is 37. espirito superior ao homem. Is 4426.

. Mc 9.6-10). o rei Nechepso já tomou conhecimento das 'simpatias' dessas plantas. O Senhor Jesus. Lexa. e não podia em " O Senhor curou-a. .10s. Os escritos do Novo Testamento se sobrepõem à ideologia israelita no tocante às doenças.mas verifica-se para a glória de Deus. Dt 5.2-6. são incompatíveis com a crença num só Deus.14. porém.) Episódios semelhantes ocorrem em Mt 12.. 1 Cor 11. Perguntaram-lhe então os discípulos: 'Senhor. o Senhor. Muito claro é o episódio seguinte "Ao passar. e disse: "Essa absoluto erguer a cabeça filha de Abraão.) Veja-se ainda Lc 13. de Pirot-Clamer. êle ou seus pais.30)." (Jo 11. por um espírito que a tornava enfêrma. Interessantes também são as observações de Cumont 'Asclépios (Imflotep) revela no seu santuário ao médico Tessalos o momento e o lugar propícios á colheita das plantas sujeitas aos planêtas e aos sinais do Zodiaco. como professa a Revelação desde o livro do Gênesis." L'Egijpte dez astrologues. 172.1-5. como conhece as 'simpatias' das pedras. porém. que Satanás paralisava havia dezoito anos. recomenda-lhe: "Eis-te são. 1946). Encontrava-se lã uma mulher possuida.16. quem pecou. estas são simples e de maravilhosa eficácia medicinal... Senhor de todos os espíritos e homens. Em . "L'Ecclésiastique". Éx 20.17. não se creia que tôda enfermidade provém de culpa pessoal e grave cõmetida pelo paciente ou seus familiares. Lc 11. e envolvendo-a numa visão otimista do universo. a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado.14. e repetidamente. tendo curado um paralítico.1-33 li de F.DOENÇAS E SONHOS 181 Está claro que tais concepções só se podem originar no politeísmo ou num ambiente em que a noção de Deus é deficiente. VI (Paris. . era curva.." Na comunidade de Corinto doenças e mortes prematuras entre os fiéis eram por 5: Paulo atribuidas à recepção sacrilega da S.. para que nascesse cego ?' Jesus respondeu: 'Nem êle pecou. trouxe nova luz sôbre a maneira como se ligam entre si pecado e doença. a fim de que não te aconteça algo de pior. viu Jesus um homem cego de nascença. 759. havia dezoito anos..'" (Jo 9. podendo ser provocada por um mau espírito ou por Satanás "Jesus ensinava numa sinagoga em dia de sábado. mas em vista de outros fins.Jo 5. por exemplo. 11 Notem-se também as palavras de Jesus a respeito da enfermidade de Lázaro "Essa doença não é mortal. Embora esta seja decorrente daquela. completando-a. não peques mais. . crença que tôda a literatura israelita professava solenemente (cf. transcrita de Spicc. Encontra-se ainda.22s. mas isso aconteceu a fim de que as obras de Deus nêle se manifestem. Eucaristia (cf. A Providência Divina pode permitir que penosas doenças acometam os justos não precisamente para castigá-los. não convinha libertá-la dêsse vinculo em dia de sábado?" (Lc 13. a tese de que a moléstia é conseqüência do pecado. nem seus pais.4. As noções dos hebreus se aperfeiçoaram com a revelação cristã. em La Sainte Bible.

porém. gloriar-me dos meus achaques. se manifestam no justo acometido pela doença? O Senhor poderia dar a autêntica resposta apontando para o otimismo dos gregos que forjaram o mito de Hércules ou do herói aflito. os intérpretes julgam tratar-se de doença. num plano ainda mais elevado ou sobrenatural. mas o autêntico homem . apenas Cristo lhe prometera a sua graça para tudo suportar.)." É. no caso.9s. Cristo. que decretou salvar e glorificar o homem pela miséria mesma de sua natureza. não se ensoberbecesse pelos donsextraordinários que recebera de Deus (visões. Foi o padecimento de Jesus que revolveu as antigas concepções de sofrimento e miséria física. "pois é na miséria (do homem) que o poder (de Deus) exerce tôda a sua pujança" (12.7. a fim de que a fôrça de Cristo habite em mim. Paulo (2 Cor 12). justamente então é que sou forte. a sabédoria helênica. E porque assim o teria punido a Providência? A fim de que. modo que implica progresso notável em relação à mentalidade do Antigo Testamento? "Experimento prazer nas misérias extremas que sofro por Cristo. Pois. O Apóstolo refere que o Senhor "colocou em sua carne um aguilhão". etc." (12. Como os gregos julgavam que a doença não é apenas sanção. abraçou a angústia e a morte como justa sançao devida ao pecado de Adão. em outros têrmos: é também obra do Amor. como se vê. mas é outrossim ocasião de exaltação. a miséria da carne se tornara fortaleza e título de glória para o Apóstolo. Mas donde se depreende tal conclusão? Muito significativa a êste propósito é uma página dé S. continuamente recordado da debilidade ou miséria de sua natureza. verdadeiro homem. ensina que a moléstia não é tnicamente castigo (como se julgava nos primeiros tempos do povo de Israel).182 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO E quais as obras de Deus que. Experimento prazer nas fraquezas nas misérias extremas que sofro por Cristo. por conseguinte. Obra da Justiça e obra do Amor misericordioso de Deus. o que era deprimente. de redenção para o homem. não fôra. êxtases. conforme Jesus. a união com Cristo que dá novo sentido ao sofrimehto de Paulo é do cristão. Em vista disto.) A punição. achaque físico). assim a fé cristã. atendido. se convertera em ocasião de complacência! E qual o fator dêsse novo modo de pensar. quando sou fraco.9). que êle também chama "um anjo de Satanás que me esbofeteia" (12. obra da Justiça de Deus. mas também ocasião de amadurecimento e perfeição para o homem. Paulo diz ter rogado três vêzes ao Senhor que o eximisse de tal padecimento. o Apóstolo concluía em tom de triunfo: "Prefiro. é pedagogo para o discípulo de Cristo. Não obstante. eis o que se manifesta nas doenças do cristão.

transformou o sofrimento. para libertar o réu. o padecimento do Filho de Deus na carne humana foi um sofrimento não apenas suportado. o. a sorte de todo e qualquer discípulo de Cristo que sofra unido ao. mas do Rei que se fêz réu. tragado pela Vida. Sabia que a sorte de Cristo se tornaria a sorte de Paulo. Acordou e. 12 Em particular. A propósito do faraó Chechonque 1 narra-se o seguinte: um reizete eglpeio viu durante a noite duas serpentes. livro sagrado apresenta passagens que certos exegetas quiseram comparar às dos documentos pagãos. não pode deixar de tocar aos sonhos papel importante. Entre os povos antigos.DOENÇAS E SONHOS 183 Jesus era. responderam-lhe que um próspero futuro lhe estava reservado: já senhor do Alto Egito. a mentalidade. pois o homem do Levante. a doença e a morte na trajetória do homem! § 2. a outra à esquerda. vive muito de imagens. orientais e concepções antigas depuradas de politeísmo. recebendo dêstes admoestações atinentes ao passado ou ao presente. verdadeiro Deus. Era por estar plenamente consciente desta verdade que Paulo ousava proferir a paradoxal interpretação de seus achaques em 2 Cor 12. para a plenitude dos tempos. ao mesmo tempo. os sonhos eram geralmente tidos como estados de alma nos quais o homem entrava em contato com o mundo dos deuses ou dos gênios (espíritos superiores). que perpassa os trechos escriturísticos é muito mais elevada que a da literatura extrabíblica. dando-lhe o significado não sômente de pena justa (como o tinha no Antigo Testamento). Em algumas páginas do Antigo Testamento. divinizando-o. simbolos. por exemplo. pensava-se que principalmente os reis eram agraciados por tais comunicações do Alto. o Senhor preparava. Através de expressões. muito digno de Deus. não mais percebendo os animais. Eis o têrmo no qual se remata a doutrina bíblica concernente às enfermidades do corpo. nos quais êle vê significadas realidades superiores. mas também vencido. havia de conquistar o Egito . Mestre. Ora o fato de que em Cristo a natureza padecente estava unida à Divindade. que têm o sofrimento. contava-se que o deus Ptah indicara ao faraó Merenptah o que devia fazer numa ocasião em que povos do mar invadiam o deita do Nilo. aos sonhos da terceira parte da noite 12 No Egito.° OS SONHOS Num cenário de vida oriental. porém. Tendo Interrogado os Intérpretes a respeito desta visão. transformando a morte em passagem para a imortalidade. a revelação do sentido profundo. dotado de fantasia particularmente fecunda. verificou haver sonhado. mas também o de remodelação do homem. revelações a respeito de acontecimentos ocultos ou futuros. uma à sua direita. foi a pena não simplesmente do réu.

no Novo inteiro e fazer aparecer sôbre a sua cabeça um abutre. emblema da região setentrional do pais.837. porém.5-11. os que caracterizam a história do Patriarca José. tais como estavam em uso no Egito. 41.gos de palavras eram muito explorados: Comer carne de asno. 13 Cf. sim.C. preconceitos humanos. e não raro levava a graves erros na vida prática (à semelhança do que ainda nos tempos atuais se verifica). significava elevação. episódios bíblicos em que os sonhos. a atenção o fato de que na Sagrada Escritura o povo de Israel professa fé nos sonhos e o próprio Deus parece corroborar esta atitude. . Homero. tenham-se em vista.. Montet. pois o nome tomé. expl'icitamente provocados ou elucidados pelo Senhor. Para quem não pudesse consultar os adivinhos. engrandêcimento.sonhos. código importante para os decifradores de .1-36). baseado em suas experiências. Gên 37. Assim os trocadilhos ou jo. Cf. a fim de que a interpretação dos sonhos não ficasse ao alcance de qualquer individuo. Daniel (cf. existiam catálogos de elucidação. La vis quotidienne eu Egypte. Sonhos obscenos valiam como péssimos prenúncios. mau. 14 É claro que a crença no valor profético dos sonhos estava freqüentemente ligada a superstição.7). refere. filho de Nout. O homem que tivesse tido um sonho inquietador não devia desesperar. Pão branco em sonho era bom sinal. os que marcam a vida do profeta. em sonho. pois os conceitos de "asno" e 'grande" eram homônimos. por exemplo. estava para desencadear. e uma cobra. tomavam ingredientes provocadores de sonhos. residente na casa paterna. ao passo que mau sonho presagiava desgraça. escreveu cinco livros intitulados Øncirokritikã. 14 O papiro Chester Beatty III apresenta alguns dos critérios de interpretação.184 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO atribuía-se grande significado. pois havia meios para deter os infortúnios previstos. simbolo das terras meridionais. 46-8. nos templos de Esculápio (o Deus Médico). Chama. Êste proceder afugentaria todos os maus agouras transmitidos pelos sonhos. No séc. era freqüentemente por sonhos que os doentes recebiam a indicação do processo de sua cura. havia intérpretes oficiais das mesmas. porém. porém. Eis o que se depreende do mesmo Em muitos casos. 46-49. La vie quoticlienne eu Egypte au temps de Ramsds (Paris). Sonhar com homens de autoridade e poder também implicava bem-estar para o futuro.. os homens de tal ou tal religião procuravam dormir nos santuários respectivos. desempenham função notável. critérios mais complicados. Recomendava-se-lhe que invocasse a deusa Isis. harpa. idéias contemporâneas à 12. 40. Também se usava a seguinte receita: umedecer em cerveja alguns páes com ervas verdes. Artemidoro de Éfeso. P. Receber uma harpa implicava desgraça. dinastia (2000-1800).4. depois no Egito (cf. II dc. Já que as imagens vistas em sonho eram não raro ambíguas. fazia pensar em bin. Odisséia. 4. O documento data da 19? dinastia (os.5-22. ã mistura acrescentava-se incenso. aparentemente científica. Havia.) .. a interpretação do sonho se fazia simplesmente por analogia: um sonho feliz era bom agouro. a. Há. e com o conjunto resultante se esfregava o rosto de quem havia sonhado. Dan 2. Montet. a qual saberia como defender o devoto dos males que Sete. anunciava prazeres. que usavam de técnica complexa. de 1300 a.

Contudo. Vil/VI) pululavam os falsos profetas. considerando-as manifestações da Divindade. o vosso sonho.1: "Derramarei meu Espírito sõbre todo ser vivo: vossos filhos e filhas profetizarão. Não há. 18. 1 Sam 28. vossos anciães terão sonhos. ora Javé não cessava de acautelar os seus fiéis contra tais ilusões: 15 Outras referências a sonhos ocorrem em Gên 20.38s. conforme a Bíblia. vossos jovens.8: "Disseram o copeiro e o padeiro do Faraó: 'Tivemos um sonho e aqui não se acha quem no-lo explique.22). como o Patriarca José e o profeta Daniel. Já 33. no céu um Deus que desvenda os mistérios e quer comunicar ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer na sucessão dos tempos. após breve reflexão.12s. 15 À primeira vista." 16 Contudo muito se devem notar as restrições que os autores bíblicos impõem à crença nos sonhos. porém.14.15. pode provocar tais fenômenos psicofisiológicos. 4. e o dos magos (cf. os adivinhos. os de S. e torná-los instrumentos de seus planos. era propenso a deixar-se guiar por imaginações noturnas. 2. intérpretes profissionais ou técnicos dos sonhos.. possui o "espírito de Deus". em Núm 12. sem dúvida. Ora Éle o fêz realmente em casos descritos pelos livros sagrados. por suas disposições psicológicas. JI 3." 17 Cf.'" Dan 2. por favor.'" Vejam-se também Gên 41.5. os necromantes. visando com isto remover todo vestígio de politeísmo ou superstição que os povos pagãos professavam juntamente com aquela. é em sonho que lhe talo. com o povo de IsraeL O Senhor. A explicação dos sonhos se deve a dom esporádico de Deus. porém. nem os encantadores.5s.10s).2.26. verifica-se que também êstes têm significado condizente com a Sabedoria de Deus.3.8). que diziam haver recebido em sonho autênticas comunicações do Senhor. o verdadeiro Deus dignou-se utilizá-las para se comunicar com os homens.3s. 5.6 lê-se mesmo qe as visões e os sonhos eram meios pelos quais Deus se costumava revelar aos profetas "Se há entre vós um profeta. Jz 7. Gên 40. poderão parecer desconcertantes tão favoráveis alusões aos sonhos na história sagrada. Dt 13. compete a quem.13s. nem os sábios.2-4.15. mesmo pagãos. 17 Os intérpretes populares de sonhos são condenados pela Lei mosaica junto com os magos. .DOENÇAS E SONHOS 185 Testamento. 31. Mt 1. Lev 19. 5. 1 Es 3. Há. (cf. Dan 2. Dàn 4. é em visão que a êle me revelo. José.24.15) e os egípcios (cf.6.11s.20-24.12s. em particular. 16 CX. .275: "Daniel respondeu em presença do rei e disse: 'O mistério que o rei deseja compreender. nem os astrálogos o poderão elucidar.16. 19. Já que o oriental. Gên 41. 28.' Respondeu-lhes José: 'Então não é a Deus que toca interpretar ? Narrai-me. visões. Nos tempos da decadência religiosa (séc. como os havia entre os babilônios (cf. nem os magos.11.

que em meu nome profõrem falsos oráculos. apto a dar auto18 É preciso. por exemplo. ao mesmo tempo que inculca prudência em relação aos sonhos. E os sonhos dão asas aos tolos. distinguir dos sonhos as visões Ocorrentes durante a noite. A reserva.) Também os sábios de Israel. sem dúvida. ora diurna. No judaísmo posterior. na história de Abraão (cf. nas proximidades da era cristã. mais freqüentes eram os autênticos sonhos proféticos do que na época da monarquia (séc. porém. professada nas passagens acima dá suficientemente a entender que tais fenômenós noturnos éstavam longe de constituir a fonte principal das revelações divinas no Antigo Testamento. tive um sonho 1' . Semelhantes às Imaginações do coração de uma mulher que está pára dar à luz.. na de Samuel (ef.27. . . XI/VI). que pode sair de verídico? A adivinhação. XVIII/XIII). Não apliques o coração a essas coisas.) Como se vê. a partir do séc. nos tempos dos Patriarcas.8).186 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Ouço o que dizem êsses profetas. a fim de se manifestar aos homens. Pois os sonhos enganaram a muitos.12). recrudesceu entre os israelitas a crença nos sonhos. ou seja. os genuínos profetas.1-7 [Vg 31. Na literatura dos rabinos. na do profeta Zacarias (cf. Zac 1. Estas se deram. afirmando: 'Tive um sonho. Semelhante àquele que procura apreender uma sombra ou perseguir o vento. que pode sair de puro? Da mentira. A menos que o Altíssimo te envie uma visão. admoestavam-nos contra as imaginações noturnas "O insensato se entrega a esperanças vás e enganosas.25. os sonhos constituíam estimado artifício de estilo. não deixa de reconhecer que o Senhor os pode suscitar. Gên 15. Do que é Impuro. . VIII. Os quais caíram porque nêles colocavam a esperança.141. êste texto. Quem confronta os livros sagrados entre si chega à conclusão de que. ora noturna. órgâo das falsas predições messiânicas que fervilhavam em Israel sob o domínio romano. IS como atestam alguns dos seus orácuJos. Êsses profetas julgam que poderão fazer esquecer o meu nome ao meu povo mediante os sonhos que contam uns aos outros 7' (Jer 23." (Edo 34. É quem se prende aos sonhos. recebiam as comunicações de Deus geralmente em estado de vigília.. nos primórdios da história de Israel (séc. 1 5am 3). isto é. os agouros e os sonhos são coisas vás. propondo aos jovens discípulos conselhos para a vida. Éstes eram invocados para servir de fundamento a concepções e profecias fantásticas.

Isaias. Baruque. Cf. eram na mesma época assíduos cultores da arte de explicar os sonhos. eram manifestações que se desviavam da linha da Escritura Sagrada. IV (Edinburgh. porém. Gaster. residentes no deserto.DOENÇAS E SONHOS 187 ridade aos oráculos mais surpreendentes.James Hastings. 20 Estas. M. 'Divination" ("Jewish") em Encyciotoaedia 01 Reflgion and Ethicg edited by . lO 20 . contemporâneos aos Essênios. Basta recordar os Apocalipses apócrifos de Henoclue. i935) • 812. 1 Os ascetas judaicos chamados Essênios. em cada ocasião na cidade de Jerusalém exerciam a sua profissão simultâneamente vinte e quatro adivinhos de visões noturnas.

14s. as páginas que se seguem proporão as concepções de Israel sôbre o além-túmulo. Gên 15. rude e simples. separada do corpo. julgava que o espírito.13. pois. Já 34. o israelita díficilmente concebia que uma alma humana. matéria concreta que a alma vivifica (cf. Professam concepções que. Daí surge o problema: que pensavam os judeus a respeito dos chamados "novíssimos" (últimos acontecimentos e estados). deixando a matéria.2). cai num estado de depressão . dependente das noções concretas. § 1. à primeira vista. o corpo se dissolve na poeira da terra (cf. Já 34. divergem do que ensina o Evangelho.29). Ora. Si 103. o Senhor só aos poucos foi manifestando as noções concernentes ao assunto. 31. 25. ncpheslz. sem hesitação. pudesse levar vida autêntica. 37. percorrendo em dois parágrafos as duas fases que caracterizam a evolução do pensamento judaico.° NO INEXORÁVEL FOSSO DOS MORTOS Tornou-se de importância decisiva para a teologia judaica um pressuposto de psicologia. muito especialmente da revelação divina.15. Si 103. ruah). princípio vital. pouco inclinado à abstração. e qual o significado de tais idéias no conjunto das Escrituras? Ao se estudar esta questão. muito.35.29).8. que se manifesta principalmente pelo hálito ou pela respiração. Núm 27. Ora ao povo de Israel.10. A fim de facilitar a leitura do Antigo Testamento.CApÍTULo XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS Os escritores do Antigo Testamento não raro se referem à condição dos defuntos em têrmos um tanto surpreendentes para o leitor cristão. O hebreu admitia no homem dois elementos constitutivos: a alma ou espírito (nesharnah. levar-se-á em conta que a vida póstuma escapa em absoluto à experiência do homem colocado neste mundo. e o corpo. respeitando assim a lenta capacidade de compreensão dos seus fiéis. O conhecimento do que ela importa depende. ao contrário. a carne (basar). Ao passo que o espírito humano é imortal (cf.

14. Sab 16.17. se encontram tôdas e permanecem indif erentemente sujeitas à mesma sorte.5. S A tradução do Antigo Testamento dita "dos Setenta" verte sheol por Hades. 114. isto é.14.7.14.18. a tese de que a morte põe têrmo à vida intelectiva e afetiva do homem. 8 01. 10 Em conseqüência.7. Já 17. veio a ser o apelativo da própria mansão dos defuntos. Estas premissas acarretaram. Prov 1. jamais na alma só. Ao se deparar com o têrmo "inferno" em uma tradução latina ou vernácula da Escritura. obscura.16. Si 77.-.16. Inferno no sentido do Antigo Testamento. fossa ou poço. Jerônimo na Vulgata. patrões e escravos. o Cf. usam o tõrmo infernus. 106. Enquanto o corpo é destinado a se dissolver na poeira da terra. a. subterrâneo'.18.12.17). inferno. Tal região era chamada sheol. jovens e anciãos.10. 20. 1 atribuem-lhe bôca ou goela 6 e mãos. 7 que jamais largam a sua prêsa. 38. de modo nenhum indicam a mansão ou a sorte própria dos pecadores defuntos.21.13. Foi no sheol. o espírito vai ter a uma região subterrânea. 1 . vocábulo de etimoiogia obscura. 14. 140. destituídos de fôrça. 3 Cf. ser vazio (donde she'ol = caverna). 27. 7 01. A mesma região era também designada por bor.17.5." 01. 4 ou ainda com um caçador que sabe h&bilmente coiocar os seus laços e armadilhas. Jon 2.39.4. Hab 2. O Nades é nome originàriamente usado na mitologia grega para designar o Deus da região dos mortos (também chamado Flutão). A. onde as almas de justos e pecadores. donde ninguém jamais sai. A mansão onde se reúnem todos os vivos.3. mclusive S. como canta o simbolo de fé. BaiiIIy. de consistência. 10. 113.23: "sei que me levarás à morte. estão agregadas à categoria dos rephaim.190 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO ou quase inconsciência. não sofrem pena nem gozam de felicidade.15. 38. designam o shool. desde os inicios da história sagrada.13) ou "do silêncio" (SI 93. da qual só aos poucos o povo de Deus foi tomando conhecimento e que os católicos chamam "inferno". 14. Por extensão. 2 Textos poéticos comparam-na com um cárcere de portas aferrolhadas. o católico deverá ter em mente o significado Cf. Já 7. Já 30. que não é prêmio nem castigo.6. Nades podia significar a própria morte.16. que os israelitas ju'gavam ser a região única de todos os mortos. Is 38. Si 48. 0 ao passo que os latinos. ocorrentes em traduções (latina e vernácula) do Antigo Testamento. dos impotentes. a personalidade só subsistiria em alma e corpo.16. Si 68.23.9s. 88.20. mansão cuja existência era prol essada pelos gregos como pelos hebreus. Si 17. que Cristo desceu após a morte. Is 5. Cf. Si 29. Is 14.49.14. 2 Sam 12. 87. 40s. Os 13. talvez derivado da raiz sha'al.12. Dictionnaire grec-français (Parisli). Si 9. deve-se notar que os vocábulos infernus. . ou com um monstro insaciável que devora todos os viventes. Ainda num ulterior desdobramento de sentido. 10 Adjetivo que designa o lugar "baixo" ou "abaixo de. reis e mendigos. ' colocadas na "terra do esquecimento" (Si 87. 5 01.

por exemplo.C. .7). Já 14.15.15s.. o filho de pai honesto jamais teria que mendigar o seu pão. Conseqüentemente. válida talvez para a mentalidade de um povo infantil. a fim de evitar interpretações errôneas (cf. ao beber. 3. 2. que cedo ou tarde experimenta tédio ao servir-se das criaturas.): o hagiógrafo considera sucessivamente os diversos valores aos quais os homens costumam pedir felicidade na terra . 11 A conclusão era muito simples.13-15." (2.18-23.16. indigência. Ao contrário.) "Também isto é decepção e tempo perdido. aparentemente epicurista do autor.e mostra-se céptico a respeito de tudo. Si 33. estudo da verdade.6-18.riquezas. 113. Prov. 12 Contudo quem observa atentamente verifica que o hagiógraf o está longe de ser um agnóstico ou um gozador mâterialista. mas um anônimo do séc. 28. afirma serem dons de Deus. o qual por vêzes causa surprêsa ao leitor cristão.9). mas sujeita a reforma desde que êste povo ganhasse a experiência dos séculos. É justamente à luz dêste estado de coisas que se há de entender o livro do Eclesiastes. volúpia dos sentidos.13. a partir dos séculos Vil/VI os pensadores judeus eram não raro tentados a duvidar da tese antiga. deixando o homem desiludido.25. Tais idéias levavam os judeus a julgar que a sanção da Justiça Divina devida a justos e pecadores pôr suas obras é executada neste mundo. Dai a atitude acabrunhada. Edo 51. longa vida). qualquer dos bens dêste mundo lhe parece exíguo demais para o homem. e f ehz por possuir suficiência ou abundância de bens terrestres (campos. .13. afirmavam. gado. 17.20. pois.com relação à aquisição da ciência: 2. Cf.17.14. III a. é mister não se perder de vista a mentalidade do autor (que não é o rei Salomão no séc. 11 12 .) Pessimismo . 54. como há pecadores materialmente prósperos .24s. 3. doença ou quaiquer aflição na vida presente eram explicadas como castigo divino correspondente a pecado cometido pelo indivíduo aflito ou por seus antepassados. com relação aos esforços para a consecução de um ideal terrestre: 2. ao trabalho como fontes de alegria para o homem. . caindo em estado de insatisfação ou perplexidade. 5.o que não podia deixar de constituir para êles paradoxo inexplicável. família numerosa. 9.1-30. nas traduções portuguêsas Si 9. 13 não se dá por desgarrado na estrada da vida. X a.C. que o homem virtuoso deve ser feliz.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 191 complexo da palavra. o esfôrço feito para conseguir alegria mediante o uso destas é geralmente mal compensado. não após a morte (que extingue a lucidez do espírito). conforme SI 36. mais e mais os israelitas verificavam que existem justos aflitos.17.18. 8. Com efeito. 13 Quando o escritor se refere ao comer. 'Tudo é decepção e procura de vento.26.713-18..18.13. Di 8. 30.. ocasionam um pouco daquela felicidade que o Altissimo destina à sua criatura (cf." (1. Para interpretá-lo devidamente.

porém. de outro lado crê plenamente en Deus e no valor da observância da lei divina. o único ideal ao qual o homem se deva incondicionalmente aplicar.18. 14 ora é justamente por ter consciência de que é capaz de apreender o Infinito que o hagiógrafo não se dá por satisfeito com algum valor limitado e toma o partido do "não-conformismo" frente aos bens terrestres.10s). na visão de Deus face a face. Agostinho. longe de desnortear o cristão. revelou que tal desprendimento tem sua contraface na posse de Deus. traz dentro de si. 1. e todo homem igualmente. e na eternidade pela contemplação direta. assim morre o outro. acha-se bem na linha dos textos do Antigo Testamento que preparam o Evangelho. êstes. feito por Deus e para Deus." (12. 18. Lc 16.24s. Confissões. Pois nisto consiste o ideal de todo homem. a sêde do Infinito encontra saciedade na vida póstuma. esta.19-31. estas se mostram portadoras de uma tese positiva e rica. dè um lado. 14 "Fizeste-nos para Ti. e esta só." S.14. Pois tudo é decepção. Como um morre. devia mesmo. Vivendo à luz da revelação não consumada do Antigo Testamento. É o que transparece das palavras com que encerra a série de suas divagações pessimistas "Conclusão: bem ponderadas tôdas as coisas. o pessimismo do autor nada mais é do que a expressão de nostalgia profunda ou da sêde do Infinito que êle.) A profissão de absoluta fidelidade a Deus que sela o livro do Eclesiastes projeta luz sôbre as apreciações negativas que o hagiógrafo tece a respeito dos bens criados. Em última análise. Uma vez percebida a grande tese do Eclesiastes. 1. fica-lhe sendo norma inabalável.13. já nos é possível penetrar o significado particular de estranhas afirmações do autor: "A sorte dos filhos do homem e a sorte dos animais são jdênticas. e inquieto está repousa em Ti. 15 Cristo. o espírito humano só repousa no Criador. o Bem Infinito. Ambos possuem o mesmo sôpro. conhecia apenas o que lhe ofereciam os sêres criados. êle não acredita na felicidade que lhe oferecem as criaturas (cf. Éste. Teme a Deus e observa os seus mandamentos. ignorando que. de fato.26.. Mt 16.1. ensina a tratar com desapêgo os bens terrestres. Não há vantagem do homem sôbre o animal. com efeito. Sim. O Eclesiastes assim.192 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Se. o autor só podia dar às suas exclamações um caráter negativo ou céptico. 2. o nosso coração enquanto não . e.. julgar insuficientes. 15 Cf. êle os podia.2. outorgada nesta vida pela graça.

o autor reconhece a sobrevivência da alma humana. 11. i E por que se terá o escritor tão rudemente expresso nos versículos acima? O motivo é que apenas visava inculcar a seguinte norma prática: já que o homem (do Antigo Testamento) nada sabe da bem-aventurança póstuma." 16 "Não há possibilidade de agir ou de adquirir compreensão.9. Ora'. sim. Ruah. deve procurar a felicidade.) Tenha-se ante os olhos que o escritor nestes versículos não visa propor alguma tese de filosofia. servindo fielmente a Deus e utilizando moderadamente as ocasiões que Êste lhe concede. na qualidade de observador popular. Quem pode dizer se o sôpro dos filhos dos homens se dirige para o alto E o sôpro dos animais desce às regiões subterrâneas 7" (3. Em outras passagens do livro. mais vale um cão vivo do que um leão morto.12. ciênoia Ou sabedoria no Sheol. êste. ." (9. o sôpro das narinas. felicidade que por certo o diferencia dos irracionais. para onde vais. na base de raciocínios abstratos. ao passo que o dos irracionais perece. para o autor. ou teologia. designava primàriamente um sôpro sensível. sensíveis.19-21. ao passo que os mortos nada sabem. significava também o principio vital. e terminam-nos de tal forma que nenhum sinal sensível indique necessàriamente haver destino diverso para um e para outro. Semelhantes idéias repercutem ainda no texto de Eci 9. que o hagiág'rafo falava. O mesmo tênno. pois já não há recordação dêles. Não há dúvida. evidentemente. por redundância. pela observação dos sentidos apenas.45 "Para o homem. E tudo volta para a poeira. sabem qué hão de morrer. Tudo vem da poeira. é na presente vida que.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 193 Tudo vai para o mesmo lugar.10. já que o sôpro das narinas ou a respiração é distintivo da vida. mas. mas toma Simplesmente a atitude do observador popular. há esperança. Os vivos. é de igual índole no homem e nos outros animais. que refere o que a experiência imediata lhe incute. a quem chamam a atenção apenas os sinais exteriores. A afirmação de que o sôpro (ruah) é da mesma natureza no homem e nos irracionais deve ser entendida à luz da terntinologia judaica antiga. da vida. pois professa que vai para o shcol 16 e menciona o juízo de Deus sôbre o indivíduo apos a morte.13. a sã filosofia ensina que o principio vital (alma) do homem é imortal. ninguém saberia dizer se de algum modo sobrevivem. 12. 8. não há dúvida. não recebem mais salário.) 17 Ci'. com efeito. todavia não era como filósofo. enquanto permanece agregado à sociedade dos vivos. esta ensina que tanto o homem como o irracional terminam os seus dias pela norte.

reservando-se para 18 "Os exegetas já de há muito reconhecem que os antigos hebreus professavam a respeito do além-túmulo crenças semelhantes às dos outros povos semitas. ficassem por muitos séculos dependentes de concepções obscuras no tocante à existência póstuma. ainda ignora muitos dos desígnios divinos.13s). Tournay. 1941). ela constituía como que um patrimônio dos antigos orientais. conserva o otimismo. A éste respeito. Lods. cf. Les religions dcc BabyIoniens ei des Assijriens (1945). id. mas seguras. o Senhor Deus. Dhorrne. em outros casos. 134. A. "A concepção que do além-túmulo tinham os judeus era a de todos os semitas do seu tempo. que os hebreus igualmente professavam. sempre lhes estêve destinada). 19 Como. pág. por vias ocultas. em ReDize d'histoire des Religions. José." J. patrimônio que Abraão. mesmo para os mais nobres (simbolizados pelo leão). 56 [19491. Davi. que. mostra-se céptico diante de todos os atrativos dêste mundo.. Cf. seria fácil demonstrá-lo mediante recurso aos textos cuneiformes. bastava cressem na Justiça Divina e nas suas sanções. 123 (1941). aliás. com esta fé se santificaram Abraão. "L'idée de l'au-delà dans la religlon hébrarque". não deixará de proporcionar aos fiéis a recompensa do bem por êles praticado (cf.194 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Estas palavras são sugeridas pela opinião de que a morte introduz em estado de consciência quase extinta. Guitton. inoculada no mais profundo do seu ser. herdou de seus ancestrais. 11 Não sendo por si mesma contraditória às verdades por Deus reveladas aos Patriarcas. qualquer que seja a sua condição (o cão simboliza o gênero de vida mais duro possível). fica sempre esperança de conquistar certa felicidade neste mundo. para os vivos." E. 481. Deus permitiu que o autor sagrado. porém. 113-142. ao passo que para os mortos. Tal indivíduo experimenta naturalmente a sêde do Infinito. 249s. 321. 12. embora conheça o verdadeiro Deus.. por isto. Quanto à noção do sheal. Estas explicações talvez tenham suscitado nova questão na mente do leitor. os semitas haviam adotado as idéias dos babilônios. E. oriundo da Caldéia. nos inícios da história sagrada. 121. A fim de viverem como justos e conseguirem a vida eterna (que.. Le développement des ldées dans I'Âncien Testament (Aix-en-Provence. '' apenas fêz remover dc tal concepção qualquer vestígio de paganismo. Em seu bom senso. encerra as suas disputações entregando-se confiante ao Senhor. 231. Isaque. por exemplo. assim como grande número de seus semelhantes. . 134. Por que não terá de início elucidado tão interessante ponto de doutrina? Não era necessário à salvação dos israelitas que o Senhor lhes revelasse com tôda a clareza o que se dá após a morte. O Eclesiastes assim representa tipicamente a mentalidade do homem que. já não resta possibilidade de conquistar algum bem. siêcle. des origines au milien diz Vilie. em Revue biblique. Israel. "L'eschztologie individuelle dans les Psaumes". sem dúvida. que muito diferiam das dos egípcios.

o deus dos oráculos. o rei Saul. na mitologia grega.27.tão veementemente repudiada pela Lei divina consiste na falsa noção de Deus que ela pressupõe. poderá entrar em comunicação com êles.19. repetidaniente condenava a praxe: "Se alguém se dirigir aos que evocam os espiritos e aos adivinhos. em nome da Divindade.." (Lev 20. nos é lícito e necessário usar (tais são a linguagem oral. quem institui as relações entre as criaturas e o modo como se desenvolvem. conforme as idéias antigas.) A razão por que a necromancia era .) O cronista sagrado." (Lev 20. estava a crença de que podiam ser evocados e. havereis de replicar: 'Então um povo não deve consultar o seu Deus? Consultará os mortos em favor dos vivos ?'" (Is 8. Não obstante. em compartimentos: diversas são as sortes pÓstumas do justo e do pecador (veja-se abaixo). dividida.. por instituição divina. por meio de certas fÓrmulas. O nome a designar o profeta ou adivinho inspirado por Apoio. Tal proposição. por exemplo. se tomara culpado diante do Senhor. refere: "Se vos disserem: 'Consultai os que evocam os mortos e "Saul. é a serpente que Apoio matou. Com efeito.. Entre vivos e defuntos. voltarei minha face contra êsse homem e o afastarei do meu povo. viu." (1 Crôn 10. por oráculos. por sua vez. pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel. É o Criador. porém. lapidá-los-ão. por assim dizer. não leva em devida consideração os desígnios e direitos de Deus. a escrita). Quem evoca os mortos julga que. Entre outras falsas noções que o paganismo associava à sorte dos defuntos. era oposta à idéia de que as almas dos mortos vivem destituídas de conhecimento e afeto. foi.7-14). 1 Sam 28.13. responder aos vivos. foi ter com a pitonisa 20 de Endor. em última análise.. pretenda desvendar o futuro.) "Todo homem ou tôda mulher que evocar os espíritos ou se der à adivinhação será punido de morte.e é . faltam tais Python. porque interrogara e consultara os que evocam os mortos.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 195 as proximidades da era cristã comunicar mais claras noções de escatologia. sim. "Pitonisa" vem a ser a mulher que. os israelitas foram freqüentemente tentados a adotá-la. A Lei de Moisés. a única mansão em que. seu conselheiro de outrora (cf. assim pensando. ora entre vivos existem meios de intercâmbio naturais. promiscuamente se deviam epcontrar bons e maus. que. seu sangue recairá sôbre êles. em revelação posterior. 20 passou . que murmuram e respondem em voz baixa'. porém.) No séc. porém. para se entregar às suas práticas.6. os gestos. atribu1ado numa campanha bélica. também o profeta Isaias incriminava o abuso: os adivinhos.

se toma um abuso e implica derrogação ao conceito de sõberania divina. Assim nos salmos (cuja data de origem dificilmente se poderia indicar com precisão) lêem-se expressões como . já que os defuntos. 0 . julgando que o homem consta necessàriaméúte de alma e corpo e só pode ser feliz quando os dois compõnentes se acham reunidos. Com efeito. separada do corpo. por alguns séculos os manteve avessos à perspectiva de uma ressurreição da carne (esta lhes parecia ser novo encarceramento da alma. Eis como a necromancia. o desejo de admoestar o rei à penitência. a exortação dirigida a Saul em circunstâncias tão extraordinárias seria particularmente eficaz. não deixavam de apresentar sólido ponto de apoio à revelação de conceitos escatológicos mais claros. ). depende estritamente da soberana Vontade de Deus. Em épocas mais ou menos remotas da história sagrada. com mais liberdade.. Em Israel sob a pedagogia divina. porém. subsistindo em espírito apenas. estavam psicolôgicamente preparados pata receber a mensagem da ressurreição da carne e da subseqüente bem-aventurança. esta proposição.196 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO meios. porém. por muito imperfeitas que fôssem. caso. Isto não quer dizer que impossível seja a comunicação entre vivos e mortos. § 2. O motivo por que então o Senhor atendeu a Saul foi. se dê. talvez já um ou outro escritor tenha aludido em têrmos breves e timidos à ressurreição da carne e à subseqüente visão de Deus. ao menos no fim de sua vida. como se depreende das palavras de Samuel. pQrém. a alma se poderia. entregar à contemplação da Verdade..A GRANDE SURPRÉSA PÓSTUMA As noções de antropologia e teõlogla que levavam os judeus a admitir o slieol. cuja filosofia era mais esmerada. Note-se que outros povos.. vontade de Deus que os homens não podem perscrutar nem captar a seu bel-prazer.. para satisfazer à curiosidade ou ao capricho das criaturas. audição. tomando como mera ocasião a visita do rei à pitonisa. ensinavam que. não se segue que Deus se dirija aos homens por via tão estranha tôdas as vêzes que êstes o desejem. aos poucos se foram dareando os horizontes. se achavam menos habilitados a acolher o dogma cristão: os sábios gregos. estão subtraídos ao conhecimento ou à apreensão dos vivos. Deus se dignou permitir que o espírito de Samuel evocado respondesse. Disto. por exemplo. sendo intrusão do homem em fôro no qual êle não possui jurisdição. permitiu-o gratuitainente. justamente por êsTmotivo. o espírito não é objeto natural do conhecimento dos sentidos. não manifestada pelas leis da natureza. os israelitas. e não prêmio). No caso de Saul. a qual começa pelos sentidos (visão.

bibUque. As delícias de estar para sempre à tua direita.15. souberam dar solução em séculos precedentes inatdita." (51 48. embora esta não pareça ser alheia à ideologia e às expressões mesmas de mais de um dêsses cânticos. Outros estudiosos. Alguns julgam que manifestam a esperança de vida póstuma bem-aventurada. indefinidamente a mesma sorte que os apóstatas ? A éste quesito os contemporâneos dos Macabeus. Tournay.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 197 "Não entregarás minha alma ao sheol. Ensinar-me-ás o caminho da vida. em Inocência contemplarei a tua face. saciar-me-ei pela visão da tua Imagem. que em parte é um apocalipse (ou revelação do que se dará nos tempos finais) provàvelmente 21 Cf. preparados pela reflexão de gerações anteriores. A luta dos justos em prol da fé parece ter vivamente desper tado entre os judeus a questão: ao sacrifício do sangue e da vida por amor à verdadeira fé não se seguirá resposta do Altíssimo? Terão os heróis. 9045s. 51 72. Em apoio desta interpretação. II. 2 Mac 7. Pois me arrebatará das mãos do shcol. afirmam tratar-se de fórmulas poéticas.1-41).C. Os exegetas não concordam entre si sôbre o sentido exato dêstes dizeres.) Of. hiperbólicas.) "Quanto a mim. não implicando a crença na ressurreição e na bem-aventurança póstuma.) "Deus me resgatará. citam passagens tanto da Sagrada Escritura como da literatura extrabíblica nas quais ocorrem frases semelhantes com sentido evidentemente metafórico. a primeira campanha anti-religiosa da história judaica. 56 (1949) . no livro de Daniel. relegados para o sheol.10s. porém. em Revue . a perseguição desenca deada pelo rei sírio Antíoco IV Epifanes (175-164). 21 Em conclusão: não se poderá insistir sôbre o testemunho dos salmos a respeito da bem-aventurança eterna.16. que mencionam apenas a libertação de perigo mortal e a alegria daí proveniente no decorrer desta vida mesma." (51 15. suscitou mártires israelitas. Dar-me-ás a conhecer a alegria inebriante da tua presença. Ao despertar. "L'eschatologie individueile dans les Psaumes". Com efeito." (Si 16. entre os quais se tornaram famosos os sete irmãos Macabeus (cf. esperança que teria ficado sem ressonância no povo de Israel até o séc. Como quer que seja no séc. II a.24-26. 481-506. de pressentimentos de ressurreição ainda vagos. seriam a expressão de aspirações individuais. Nem permitirás que o teu fiel veja a fossa.

em conseqüência. Dizia. escrito em grego na cidade de Alexandria (Egito) durante o séc. justos e pecadores são por Deus julgados.9. Alusão direta aos mártires da perseguição suscitada por Antioco Epi- .C.42-45 Judas Macabeu. mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna. 23 fanes. sem que tenha incor rido na maldição divina. Le déve- loppement dez idées dans VAncien Testamezt.7). o gôzo materialista dos prazeres dêste mundo acarreta fim funesto (3. afirma a ressurreição e a bem-aventurança póstuma destinada aos fiéis. contudo pôs fortemente em realce a doutrina de que. ao ímpio juiz um dos justos supliciados: "Tu nos tiras a vida presente.198 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO oriundo na época dos Macabeus.) Seu irmão prosseguia: "Felizes os que morrem pela mão dos homens.8.10-12). os fiéis. 172s. 7. silenciou o dogma da ressurreição. abuso do poder levam à ruína póstuma. o pecador pode gozar de 22 As seções historiográficas do livro podem reproduzir documentos anteriores a ésse período. a nós que morremos para ser fiéis às suas leis. tornar-se-ão o critério conforme o qual será piblicamente avaliada a conduta dêstes (3. de ser ressuscitados por Êle 1 Quanto a ti. No segundo livro dos Macabeus transparece a mesma crença. após a morte. 3. Em 2 Mac 12.) Diante dos carrascos. O seu autor.1-13). 4. 4. paralelamente. recebendo cada qual a respectiva sanção. por sua vez. 1 a. perseguidos e humilhados neste mundo pelos ímpios prepotentes. Passelecq.14. os pecadores sofrerão grande decepção ao verificar a inversão da escala de valores por êles instituída: arrogância. derrota dos bons (3." (7. conhecerão a exaltação e o triunfo definitivos (cf. com a esperança que de Deus receberam. devendo OS justos 23 "brilhar como o esplendor do firmamento e como as estrêlas dotadas dé fulgor perpétuo" (cf.6): ci justo pode ser aflito. os mártires apelavam para o futuro juízo de Deus. 55s. 22 encontra-se a profissão de fé na ressurreição da carne. Dan 12.9. talvez a fim de não ferir a ideologia do ambiente helenista em que se achava.16. Enfim a todos serádado perceber os sábios desígnios que a Providência Divina tem em mira quando na terra permite aparente vitória dos ímpios. Éstes testemunhos encontram seu complemento no livro da Sabedoria.2s).35s). desprezados pelos maus. por exemplo. Onde biblique (Maredsous. a tua ressurreição não será para a vida (bem-aventurada) 1" (7.20-5. que haveria de assinalar a justos e pecadores a devida sanção (cf. referindo-se à escatologia. CL P. Os próprios justos. ao contrário. Guitton. 1951). 5.

Ilógico. ao aproximar-se." Será o "inferno" aqui mencionado o lugar dos réprobos. estarão habilitados a viver para todo o sempre na presença do Senhor.. inferno) foi sendo reservado pelos cristãos latinos para significar o estado definitivo dos réprobos. devendo o gênero humano conseqüentemente distribuir-se por duas grandes categorias: a daqueles que. neutro. Ela fôra. lugar de encontro de bons e maus reduzidos à quase-inconsciência . O sheol de outrora . por conseguinte. em união com a Cruz do Redentor (cf. Com efeito.10-15). portanto.foi pela revelação cristã repartido em dois outros têrmos ou estados.39-46. a plenitude dos tempos. que representa a sorte feliz dos justos. um positivo e o outro negativo: o céu. deverão eternamente sentir as conseqüências desta apostasia (cf. a dos que. a antiga ideologia do sheol perdeu o seu sentido.25s. . pôr assim dizer. estaria destinado a desaparecer no fim dos séculos? Errôneo seria basear a interpretação do texto na assonância existente entre o nome que indica a sorte dos réprobos (inferno) e o vocábulo "inferno" ocorrente em Apc 20. Eis um exemplo de como não se deve proceder neste terreno. a . Mt 25. porém. o inferno. ser réu perante a Justiça eterna. sem dúvida. em que o bem e a iniqüidade serão devidamente focalizados.14 (trad. pois. Deixará de existir após o juízo final. Mt 5. o valor do sofrimento abraçado por amor de Deus." Note-se bem que o conceito de sheol só foi removido pela revelação divina a fim de dar lugar ao de um estado de punição definitiva para os réprobos e ao de recompensa eterna para os justos. Estas concepções de fins do Antigo Testamento ainda haviam de ser explicitadas pela revelação cristã: o Messias incutiu aos homens o significado positivo. a 24 O purgatório há de ser considerado como adro do céu.24-27).. lugar que. 24 O vocábulo infernus ( em vernáculo. 1 Cor 3. Em Apc 20. tendo renegado a Deus porsuas obras. na teologia católica em sentido diverso do que tem geralmente nas traduções latinas e portuguêsas do Antigo Testamento. Desde que tais noções tomaram vulto na mente do povo de Deus. não obstante. implicitamente revelado em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento (cf. tendo procurado ser bons como Deus é bom. em têrmos claros anunciou o juízo final. suficiente para sustentar a piedade de um povo rude durante vários séculos .A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 199 prosperidade material e. ocorre.termo. 2 Mac 12.31-46). que se torna a triste sanção devida aos pecadores.14 lê-se na tradução portuguêsa de Matos Soares: "O inferno e a morte foram lançados no tanque de fogo. na terminologia técnica católica). seria dizer: "Não há estado de condenação eterna para os pecadores (= inferno. porque não há slzeol (vocábulo do Antigo Testamento hebraico outrora ambiguamente traduzido por 'inferno') . Mt 16. Matos Soares). devia ceder a noções mais precisas.

por sua vez. Is 25. para incutir que o pecado e todas as suas conseqüências (entre as quais a morte e a "morada dos mortos") deixarão de existir no mundo remido e consumado por Cristo. na posse direta dos bens prometidos.14. conforme a linguagem dos gregos antigos. embora na realidade não exista região coletiva dos mortos (o sheol dos judeus). a mansão dos mortos correspondente ao sheol dos hebreus. desabrochando. Todavia já agora. vê-se. O justo traz o céu em seu íntimo. peregrino nesta terra. e predizia que serão aniquilados no fim dos tempos. o autor sagrado. pois. pelo vocábulo "morte" justaposto: "ÇA morte e o inferno serão lançados.14 intencionava aludir a um conceito do Antigo Testamento.55s.200 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO palavra "inferno" nesta passagem é a tradução do grego Hwtes (térmo do original de S.. como o pecador carrega o inferno dentro de si. o cristão não deixa de possuir um penhor e antegôzo da vida eterna: a graça em sua alma é a semente da glória celeste. Não há.. a concebia e personificava. continuando uni uso literário da tradição biblica. pois.14 senão uma afirmação paralela à de 1 Cor 15. A doutrina escatológica revelada por Jesus deverá.8. em Ape 20. João em Apc 20. Ora o Hajas é. de resto. Os 13. ela lhe dá a experiência da bem-aventurança final. consumar-se na visão face a face. que S. a .26. João). explicado. eis como atualmente se formula um dos aspectos mais importantes da doutrina dos novíssimos." Personificava assim a morte e a região dos mortos como adversários do gênero humano.

O Senhor não costuma exigir fé sem apresentar "credenciais". pecado. etc. ilícito perguntar se alguns dos propalados milagres do Antigo Testamento são realmente tais. a Sagrada Escritura. ou não será que o leitor moderno é num ou noutro ponto propenso a racionalismo exagerado? Antes de se passar a respostas particulares. destituídas.). "a êsmo". Não é. principalmente nos livros do Antigo Testamento. da Onipotência Divina. é errônea a posição de quem queira simplesmente negar fé a certos episódios da Bíblia por narrarem feitos portentosos. se diriam demasiado infantis ou portentosos para poder ser conjugados com a noção de Sabedoria Divina e com o bom senso humano. - . era como que normal ou necessário suscitasse Deus milagres ou manifestações mais evidentes da sua presença e ação no mundo. sem que haja proporção entre o milagre e o fim a ser atingido. sinais que satisfaçam à natureza intelectual e. apresenta episódios que. de proporção com os acontecimentos anteriores e subseqüentes. É não menos certo que Deus não dêrroga às leis por Éle mesmo incutidas ao mundo. como se diria. Parecem manifestações retumbantes. A fim de atrair a dureza de coração da criatura inclinada ao mal desde o primeiro pecado. à primeira vista. torna-se oportuna uma observação de ordem geral. porém. Ponderado isto. isto é. o Senhor não "brinca" com o seu poder sôbre a natureza. seria incoerente e ilícito negar o sobrenatural e portentoso na história das relações de Deus com o homem.CAPÍTULO XIII "PRODIGIOS" E PRODIGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO Além da famosa "pré-história" bíblica (Gên 1-11: origem do mundo. Surge assim a questão do sentido autêntico que têm essas passagens: a tradição exegética as terá entendido devidamente?. Ao passo que os antigos judeus e os cristãos até época recente os interpretavam literalmente. ao mesmo tempo. dir-se-á que.. o homem contemporâneo não o saberia fazer sem por vêzes sofrer constrangimento. dilúvio. Esta proposição. Para o católico.. não implica que o Criador tenha realizado portentos. porém... sim. porém. do homem. sem dúvida. sensível do homem.

§ 1. a maneira de pensar e falar dos povos pré-cristãos.15-26) Diz o texto sagrado (Gên 19. porém. não percebiam certos matizes de expressão e. dêstes princípios ainda teóricos. . Ora as novas interpretações em não poucos casos diminuem ou removem o caráter portentoso que tradicionalmente se atribuía a alguns episódios. faziam-no por carecer dos instrumentos filológicos e paleológicos que hoje possuimos para recolocar as páginas bíblicas dentro da respectiva moldura semítica.. à luz dos mais recentes estudos. assaz diferente da história normal das relações de Deus com os homens. durante a fuga. a fim de não ser punido com os pecadores. ao lado disto. a saber: o significado religioso que tais trechos possuem no conjunto da Revelação (pois. lançou para trás um olhar curioso e inoportuno. tendo o Senhor resolvido destruir pelo fogo a cidade de Sodoma prevaricadora. o presente capítulo considerará textos sôbre cujo sentido pairam dúvidas ou concepções errôneas. com sua espôsa e suas filhas. em virtude desta carência. o justo Lote. impõem-se à consideraçãb fatos recentes: têm-se descoberto no Oriente documentos que manifestam bem o âmbito de vida. permitindo mais exata compreensão dos seus dizeres. desejosa de verificar se se cumpria a promessa divina. se retirasse da mesma. eram induzidos a propor uma história sagrada cheia de fenômenos extraordinários. porém. Os exegetas antigos e medievais. a mulher de Lote. Eis. Ao lado. ' Propor-se-á o que os exegetas católicos.0 A MIJLIIER DE LOTE TRANSFORMADA EM ESTÁTUA DE SAL (Gên 19.15-26) que. entendendo-os como se narrassem milagres. mandou que um sobrinho de Abraão nela residente. procurar-se-á pôr em realce o que mais deve deter a atenção do leitor. Muitos dêstes dados vieram projetar valiosa luz sôbre as páginas da Sagrada Escritura. conseqüentemente. sem dúvida. olhar que 1 A chamada "pré-história bíblica" já foi objeto do nosso estudo intitulado Ciénda e Fé na História dos Primórdios (Rio de Janeir02. Sendo assim. foi primàriamente em vista de uma mensagem de vida eterna que o Espírito de Deus quis fôssem consignados na Bíblia). pensam sôbre o seu aspecto portentoso..202 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Esta observação já bastaria para levar o estudioso a reexaminar a exegese de um ou outro dos textos sagrados e verificar se autêntica é a interpretação que se lhes dava na antiguidade. que. 1955).

em viagem foi caluniado por dois homens. acometida pelas dores do parto. No folclore árabe relata-se que Ahmud era oficial muito conceituado junto ao seu xeque Kerak." (Gên 19. Contudo não parece ser isto o que o texto sagrado quer dizer se tenha realizado. para compreender o episódio. Não tendo. atravessava a região com o marido. .17. 26). se mostraram incõnvenientes. é preciso ter visitado as regiões do Mar Morto (ao sul ou sudoeste do qual ficava Sodoma) e convivido um pouco com os beduínos habitantes da região. ao dançar. o marido com a espingarda e os camelos.) 3 Cf. 2 Em conseqüência. se encontra uma rocha de configuração mais ou menos fantástica. porém. a propósito da qual o guia ifie contou a história seguinte: jovem senhora. "tornou-se uma estátua de sal". La méthode historique (Paris. o oficial encontrou os dois malvados imóveis como pedra. Com insistência particular. porém. Lagrange. tais como têm sido relatadas por recentes exploradores do Oriente: . porém. 1903). deu à luz. na zona de Maã. a criança. 2 "Fege. a fim de não pereceres. A "transformação de indivíduos humanos em estátuas de rocha por efeito de castigo divino" é tema não raro nas tradições árabes palestinenses. se te queres conEervar em vida. contra os quais o jumentinho de Ahmud tomou a palavra a fim de o defender." O mesmo refere que no território de Durah. estavam fixos ao solo. Depois do incidente. Certo dia. lhe disse o guia: "Vê esta planicie? Outrora era coberta de arrozais. o percebeu. tendo-se tornado semelhantes a rochedos: "Perdoa-nos. pano a fim de enxugar o recém-nascido. Não olhes para trás nem pares tm lugar algum na planície. Eis algumas destas. Ao voltar. usou para isto o pão que levava como provisão de viagem. Alá.Jaussen narra que certo dia. prosseguiu a estrada. Essas rochas são jovens que. ao sul de Hebron. Alã as transformou era pedra e amaldiçoou a regiao. ao atravessar uma planície cercada por montanhas de estranha silhueta. advertem os exegetas que. pecamos". não longe de Durah. Como se há de entender a narrativa? De modo nenhum a transformação de uma mulher em estátua de sal implica absurdo ou fenômeno que a Onipotência Divina não possa efetuar. foge para a montanha. 202. disseram-lhe êles com voz surda análoga ao tinir da pedra. Ahmud. e irritou-se de tal modo que transformou em rochedo a mulher."PEODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 203 contradizia diretamente a instruções dadas pelo Senhor. montada sôbre um camelo. refere o autor bíblico (v.

é isto o que o texto sagrado quer incutir em primeira linha. Coutumes des Arabes au pays de Moab. é possível que uma crosta de sal haja em breve recoberto o seu cadáver. dígio que com êles se dera. Tendo sido assim punida. Os dois árabes. xviii . recorrendo a imagem comum na literatura de seu tempo. aos quais a fantasia popular fàcilmente atribui o aspecto de mulher. porém. Entre os gregos. mina inesgotável. o autor do livrõ bíblico da Sabedoria (10. as histórias de Niobe. da qual se abastecem as famílias de Jerusalém. Ovidio (t 17118 dc. 250. ainda se vê em nossos tempos extensa colina de sai-gema semelhante a uma baleia. Na região de Djebel Sudum ou Usdum. a fulminação da espôsa de Lote já era fato suficiente para que o autor sagrado. 7 Lote e sua mulher terão vivido no séc. dever-se-á dizer que a mulher de Lote foi fulminada pela morte em castigo da sua incredulidade e desobediência ao Senhor.204 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de boa índole como era. a imaginação do povo tenha associado entre si o episódio da mulher de Lote. no decorrer dos tempos. falar de petrificação de um indivíduo era o mesmo que afirmar haver sido castigado. 6 Independentemente. entre os antigos semitas. a. Metamorfoses. Ora aí as erosões e outros fenômenos geológicos ptoduzein constantemente a formação de blocos rochosos. 1930).. 1 d. tais blocos podem conservar por tempo notável a sua aparência. Hemnlsch. na série das Mil e Uma Noites. 1 no séc. Chame. 6. 301-312. dêste outro fenômeno. hoje correspondente à antiga cidade de Sodoma. e severamente castigado. como costuma recobrir árvores e demais objetos postos à margem do Mar Morto. 1949). o historiador judeu Flávio José dizia ter visto um bloco salino que era comu4 As narrativas são transcritas do comentário de J.7) aludia a uma "coluna de sal. pois.). Assim pensa P. monumento de uma alma incrédula" existente na região de Sodoma. perdoou-lhes. pois. A expressão tinha sentido meramente metafórico e parece ter entrado como tal na Escritura Sagrada. 297s. falasse de "petrificação" da criatura renitente. de configuração estranha. Le livre de la Genese (Paris."petrif icada" conforme o modo de falar antigo. é. e uma ou outra dessas pedras às quais a erosão dava aspecto feminino. Estas averiguações levam a concluir que. narraram a todos os vizinhos o pro. o qual refere a Jaussen. Não é. para admirar que. Na realidade. 251s. pela Divindade. Cadmos e Harmonia incluem semelhante tópico. alude também a dois príncipes metamorfoseados em rocha negra. Ci. pouco antes da era cristã. . Assim. O conto das "Duas Irmãs Ciumentas".C.C. Das Buch Genesis (Bonn. então. restituidos à natureza humana.

muito sóbrio.36) Por volta de 1250 a. a fim de intimar o monarca. a mulher de Lote vem a ser o tipo de todos aquêles que. Cristo incutia aos discípulos total desprendimento para poderem salvar a sua alma. e quem a perder. Atendendo ao clamor dos infelizes escravizados.C. em pormenores: a espõsa de Lote foi fulminada pela morte sôbre a estrada. porém. sim. soberano do país.4). recobrem um fato certamente histórico. visitou a Terra Santa. Para êstes pode-se recear castigo análogo ao que fulminou a desgraçada mulher. "quem estiver nos campos não volte atrás. a morte.31-33."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 205 mente identificado com a mulher de Lote (Ant. a morte sobrenatural. estava o povo de Israel cativo no Egito e sujeito a duros trabalhos forçados. ao empreenderem uma tarefa importante ou a máxima tarefa da salvação eterna. deduzindo o seu significado perene No dia solene do juizo sôbre Jerusalém. Em vista disto. conservá-la-á. Na admoestação do Senhor. em nome . Não foi para isto que o Espírito de Deus nos quis transmitir o episódio. Jesus mesmo se fêz para nós o intérprete da história. movidos por fé tíbia. à presença de Faraó. sabe-se." (Lc 17.) Com estas palavras. isto é.0 AS DEZ PRAGAS DO EGITO (tx 7. nutrindo ainda a nostalgia do que abandonaram e permanecendo apegados a prazeres e bens que não lhes são de utilidade para a vida eterna. mas. na Sagrada Escritura. Quem procurar conservar a vida. que em fins do séc. em vista de uma admoestação salutar dirigida a cada fiel. perdê-la-á. ou seja. procedem fútil ou levianamente. 1. Estas expressões. quando fugia de Sodoma. Em nossos tempos.11. Não toca aos homens ponderar os motivos por que o Senhor procedeu tão severamente no caso. o Senhor decretou libertá-los. "Petrificação" e identificação de rochas com os vestígios da criatura incrédula são expressões de mentalidade e linguagem dos povos do Oriente e da tradição israelita. enviou Moisés. quando a peregrina Sílvia Etéria. § 2. não se apontava estátua da espôsa de Lote. indicam os beduínos um bloco de aproximadamente 15 m de altura. olham para trás. constituído chefe do povo. porém. que êles dizem ser "a itulher" ou também "a filha de Lote" (bint Lout) Em conclusão: uma exegese atenta do episódio da mulher de Lote leva a distinguir entre o "fato" e a "maneira literária ou popular" de exprimir o fato. das Gálias. Lembrai-vos da mulher de Lote. IV.14-12.

aludindo à confecção de palha.1) começaram a se desencadear os flagelos. sendo que o primeiro. Conversão das águas do rio Milo em sangue envenenado: Êx Invasão de rãs nos rios e nas casas do Egito: 7.1. no decorrer dos séculos parece ter acentuado a índole extraordinária dos acontecimentos. o Senhor houve por bem demonstrar-me o seu poder. Ora.13-35. referem circunstâncias da vida do Egito nos meses de maio e junho. com o início da primavera (mês de abril). Uma vez determinada a cronologia. sem graves razões. Eis como.8-12. porém. Peste sõbre o gado: 9. porém. poupando. não derroga às leis da natureza. certo é que a morte dos primogênitos coincidiu com a primeira Páscoa. antes. tiveram origem.206 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de Deus.1-7. Foram. se produzem naquele país por ação de fatôres naturais. Eis a lista dos flagelos assim ocasionados: 7. sim. em mais de um caso. porém. O autor sagrado incute o caráter portentoso de tais pragas. desenvolveram-se com veemência fora do comum. Com efeito.11-25. além dos têrmos intencionados pelo próprio Deus. A morte dos primogênitos dos egípcios: 12. por ordem de Moisés. mas em vista do modo como se verificaram. dentro do período assinalado. julga-se que as pragas do Egito não foram senão flagelos que.11. A imaginaÇão humana.16-28.1-20.12-15. no momento predito por êste. Ora pouco depois (6. por isto. procura. os quais podem muito bem corresponder ao que descreve o texto sagrado. após uma análise conscienciosa do texto bíblico. servir-se . dado o concurso de circunstâncias particulares. ou seja. naturais no Egito.26). os versículos Éx 3. como se tem dito freqüentemente. 9. Invasão de gafanhotos: 10. pois. condiz bem com a situação do país em junho.18.68. Trevas sôbre o país: 10. milagres não em si ou por seu desenrolar intrínseco. onde estavam domiciliados os israelitas (cf. de outro lado. Deus. E qual o fundamento desta tese? Ê a observação de certos fenômenos. Onda de mosquitos: 8. desencadeando dez pragas sôbre o Egito. 8. note-se que as dez pragas se devem ter sucedido entre os meses de junho e abril subseqüente. Em primeiro lugar. e 5. falando de pastoreio de ovelhas na estepe. atribuindo-as à intervenção explícita do Senhor.29s. a região de Gessen.26-8. Tumores e pústulas nos homens e no bestiame: 9.12. das quais sàmente a décima conseguiu dobrar a dureza de coração do rei.21-27. Geada: 9. não se quis render ao pedido. se há de reconstituir a história. a libertar os israelitas. Sanha de mõscas venenosas ou de vespas: 8. Faraó. e cessaram a mandado do mesmo. como se verá abaixo.

Por ocasião da terceira praga. V.. porém. 81. crustáceos cladoceros). O fato. Heinisch. Éx 7. as águas da cheia não são nocivas nem aos homens nem ao gado. 216. 10 estes fatos dão a ver que. Também a renitência do Faraó insinua que o monarca não se impressionou pelas nove primeiras pragas. O. As águas costumam tomar então aspecto vermelho por causa de detritos de barro que descem dos lagos da Abissínia. em Dictionnaire de la Bible. resta considerar como se desenvolveram as dez calamidades. 9 "AS famosas pragas do Egito.22.e realmente não terão sido fenômenos até então inauditos. Lesêtre. o qual se pode parecer com a transformação da caudal em rio de sangue. um ou outro dos flagelos provocados por Moisés.. 97. 312. Histoire d'israel.14s). anualmente verificada em fins do mês de junho. A mesma sentença é sustentada por outros autores católicos. observa-se que os magos do Egito puderam reproduzir. estas.. eis o sinal de que eram enviadas por Deus. (Paris2. tudo isto era familiar aos egípcios. 8. Assim o primeiro e o segundo (cf. parecendo transformadas em sangue. como talvez a invasão de pequenos animais dentro do rio. 3). caso se tomem numerosos. é êste o fenômeno dito "do Nio vermelho". É o que sugere que a enchente da primeira praga haja sido acompanhada por outro fenômeno. os quais tornaram venenoso o manancial. aponta fatos hstóricos que podem servir para ilustrar o texto bíblico: em setembro de 1913. 1. 154. Israel et te judalsme dans l'Áncien Orient (Bruges. 8. o que bem se explica pelo fato de trazerem as pulgas de água algumas gatinhas de óleo vermelho no seu organismo. l{einisch. A título de confirmação. professor da Universidade de Nimwegen (Holanda). confessaram sua Incapacidade (cf. ° Posta a conclusão acima. está averiguado que também cers 'flagelados" rubros (englena sanguínea). porém. por via natural. de que se tenham verificado no momento preciso em que Moisés as evocava. P. O primeiro flagelo se deve à enchente do rio Nilo. Normalmente. Ricciotti. "Plaie". 1947). II. Buysschaert. verificou-se numa baia perto de mel (Alemanha) a irrupção de numerosissimas pulgas de água (daphniae. portanto. H. 10 Çf. as águas de um rio ou lago podem tomar coloração vermelha. consumiram todo o oxigênio da água. 1 (Paris. estas."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 207 do curso habitual dos elementos para realizar os seus maravilhosos desígnios. La Bible et les découvertes modernes. . ocasionando o perecimento dos peixes da baía por sufocação. ao menos em setor restrito. 1 disto se depreende que se tratava de fenômenos decorrentes das energias da natureza devidamente exploradas. e em circunstâncias diversas. Das Buck Exodus (Bonn 1934). dão colorido sanguíneo à água. como D. o chamado "Lago Vermelho" perto de Lucerna (Suíça) deve o seu matLz caracteristico a uma espécie de alga (oscillatoria rubescens). não lhe pareciam ." O.. 1945). juntamente com os coanoflagelados que aderiam à couraça das mesmas. Da sexta praga em diante foram êles mesmos atingidos. Histoírc Sainte (Paris. Vigouroux. 451s. 1953). 1912).-Rops. A massa dos crustáceos invasores dava a impressão de que um corante avermelhado havia sido derramado nas águas.

pois. multiplica-se um dos fatores principais para o aparecimento de tais animais. Faraó. faz-se mister realçar a mensagem religiosa em vista da qual o Senhor permitiu o seu desencadeamento. durante os quais ainda hoje as estações ferroviárias funcionam à luz acesa em pleno dia. se verificam inundações. Inundações e invasões de animaizinhos provocam não raro doenças e epidemias. Uma invasão de gafanhotos (oitava praga) também não seria para estranhar em fev&reiro ou março. Foi decisiva para que Faraó se rendesse. por meio de Moisés intimara o soberano do Egito a deixar partir o povo hebreu. parte do exército de Cambises foi sepultada nas areias dêsse vendaval. onde tal calamidade parece ter ocorrido com certa freqüên•cia (cf. Conforme Heródoto (3. porém. em conseqüência. . Ji 1.208 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A esta seguiram-se outras calamidades conforme um encadeamento assaz compreensível. como as que se deram na quinta e na sexta praga." (Éx 5.9). mosquitos e vespas (segunda.Quanto às trevas. penetram nas habitações dos homens e os molestam. onde os mesmoSse desenvolvem. Quando. por vêzes ainda em maio. No tocante à décima calamidade (morte dos primogênitos). terceira e quarta pragas) são conseqüências das enchentes do Nilo. As águas terão ocasionado também o ambiente favorável à reprodução extraordinária de môscas venenosas. até seis dias contínuos. Normalmente rãs e mosquitos põem ovos na água ou sôbre as águas.4. Sua ação se faz sentir em março ou abril. Entendidas as pragas do Egito no respectivo ambiente e clima. terão sido acarretadas pelo famoso vento quente dito lchamsin ou simun. quando ela se verifica no Egito. que constituem a nona praga. Am 4. mormente em países orientais.26). nenhum fenômeno ordinário se lhe pode comparar. replicando "Quem é Javé para que eu obedeça à sua voz. deixando sair Israel? Não conheço Javé.2. recusou-se. Poderá haver algum intento sábio na provocação de tanto furor da natureza? Sim. que. e não permitirei que Israel se vã. suficientemente espêssas para provocar escurecimento da atmosfera. três. tratando com os homens segundo a sua condição de criaturas livres.) . carregando consigo enormes quantidades de areia. Deus. As invasões de rãs. e no decurso de dois. Éste sopra a partir do deserto. A geada (sétima praga) é fenômeno que se terá produzido no mês de fevereiro.

é o Soberano capaz de encer a dureza de cora r ção das mais altivas criaturas. eram utilizadas para muitos fins. Logo.uêle. tinham por fim demonstrar. nada pode frustrar o seu desígnio de fazer que o mal do homem sirva ao Bem de Deus e que êste na fim da história do mundo obtenha a vitória sôbre aq. Aos egípcios e orientais era familiar.que. tipo do homem soberbo. mas. o qual havia de compreender que Javé não era o Deus desprezível de um povo escravizado (na antiguidade se avaliavam os atributos da Divindade pelos predicados do povo que a cultuava).11 PE0DÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 209 O monarca se obstinou mesmo diante de um prodígio que. de dura cerviz ou fé vacilante (como. a seguir. O ensinamento aproveitaria também a Israel (ou aos fiéis de todos 9s tempos). mediante encantamentos. como hábeis prestidigitadores. o Senhor desencadeou. todo homem pôsto diante dc mistério de Deus).10-13). o trato com serpentes. As pragas . não há obstáculo que Lhe impeça o cumprimento de 11 cf. 11 Se tal não foi o artifício aplicado pelos magos de Faraó. -Ezodus. 74. com evidência crescente. O mesmo prodigio é atribuido aos magos de Faraó . . só se pode entender por um concurso de agentes naturais devidamente explorados pelos "sábios" da côrte. Moisés e seu irmão Aarão efetuaram em nome de Deus. a sua imitação por parte dos magos. Ao passo que a transformação realizada pelo homem de Deus a mandado do Senhor se reduz simplesmente à ação da Onipotência Divina. obtendo finalmente do homem relutante o reconhecimento e a homenagem devidos. pode-se admitir que tenham levado à presença do monarca bastões e serpentes ocultas. que se faça cessar a pressão e com violência se atire o "bastão" ao solo. tomaria consciência de que o Criador é fiel na execução das suas promessas. obteve de seus magos a realização de portento semelhante (CL Éx 7. porém. O fato de que a serpente de Aarão devorou as dos magos era portento suscitado por Deus para significar que a sabedoria dos homens não prevaleceria contra os designios divinos.. as quais. a sensibilidade de homens empedernidos. proporções muito vastas. terão feito desaparecer aquêles e lançado estas ao chão.. Nada escapa ao plano do Criador. sob permissão divina.mas a serpente de Aarão devorou as dos magos. éste então toma a forma de bastão retilíneo. Aarão lançou uma vara ao chão.. Ainda em nossos tempos diz-se que reproduzem a conversão referida pelo texto do Êxodo: há um tipo de serpente em cuja cabeça determinado centro nervoso pode ser delicadamente comprimido de sorte a provocar ããibra ou entesamento de todo o animal. aliás. a soberania absoluta do Deus de Israel. recupera a natural mobilidade. A lição se dirigia primeiramente a Faraó. Heinisch. a qual se transformou em serpente. Deviam tomar caráter exuberante. a fim de impressionar a fantasia. sim. Éste povo. esteio de obstinação contra Deus. ao contrário. por gestos rápidos. para corroborar a intimação.

210 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO sua palavra. confessava Pedro após ouvir a "palavra dura" de Cristo (Jo 6. que.. estendeu a mão sôbre o mar. Como escaparia ao perigo iminente? O Senhor fêz que a coluna de nuvem que antecedia Israel. arrependido da concessão. se colocasse entre êste e o exército egípcio. mais uma vez estendeu a mão sôbre as águas. ao despontar do dia.5-31) O texto sagrado refere que. Moisés. após a décima praga. palavra que fizera apostatar não poucos dos ouvintes de Jesus (cf. Chegando. deixassem os israelltas o Egito. porém. a mandado de Javé. após as primeiras etapas dos emigrantes. de modo a formar no meio das águas um corredor. seguiram-Lhes as pegadas. que lhes teriam acarretado a morte. que então se fecharam sôbre a tropa de egípcios. Éstes. gado e demais haveres. os israelitas por êle enveredaram. não fôra uma intervenção extraordinária de Deus. viram-se em graves apuros. por nova ordem do Senhor. A TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 14. se retiraram em caravana na direção do Oriente. Faraó. Eis. Faraó.. porém. dividindo o Mar Vermelho. mas ordenou. aterrorizado. resolveu ir-lhes ao encalço.68 e 60). Como se há de entender esta narrativa? Do texto sagrado se poderia inferir que o Senhor. causando opacidade entre os dois acampamentos. . se o texto bíblico insinua de fato tão extraordinária intervenção da Onipotência Divina. entrando no corredor aberto. "Senhor. Alcançou-os perto do Mar. Era a oportuna válvula de salvação . um vento impetuoso de leste pôs-se a soprar durante uma noite inteira. Moisés.° A PASSAGEM DO MAR VERMELHO E 00 RIO JOROAO 1. levando mulheres.66). de um lado. § 3. do outro. não sàmente permitiu. 6. às margens do mar Vermelho. crianças. A confiança no Senhor seria incutida 'como atitude que na alma humana deve prevalecer contra a pusilanimidade e a revolta. Com efeito. fazendo perecer os perseguidores. e as tropas inimigas. . de sorte que a multidão israelita se viu comprimida entre as águas. a quem iriamos nós? Téns as palavras da vida eterna 1". Pergunta-se. passando o mar a pé totalmente enxuto! Quando os soldados de Faraó perceberam que os fugitivos se haviam lançado na direção do mar. porém. pois. realizou um prodígio totalmente insólito ou alheio à natureza dos elementos. A seguir. sem demora.

intermitente talvez conforme a altura média das águas do mar . 13 O que os egípcios ignoravam . Sim. ao pé do Djebel (monte) Abu Hasa. Na época de Moisés (ca. nos tempos de Moisés.o que basta para que a travessia dos israelitas conserve todo o seu caráter milagroso -. Há decênios atrás. e reabastecer as caravanas que do Egito se dirigiam às minas do Monte Sinai. passando pelo Egito. canais e pãz3tanos senão pelo vau de Sues (entre Teu colzum e a cidade de Suez contemporânea). o fato de que os egípcios se precipitaram águas a dentro. suficiente para criar entre o Egito e o deserto de leste um obstâculo importante. o mesmo explorador encontrou as ruínas de um edifício que. não devia ser muito profundo. era simultâneamente templo religioso e fortim militar. e se prolongava do outro lado das águas. esta construção. Não existia passagem através dessa rêde de lagos. ) em que se verificou. passagem cuja utilização dependia das circunstâncias de ventos. 1240 a. marés. só tendo de extraordinário as circunstâncias (hora. ou seja. mas também os vestígios de arqueologia recém-descobertos. vau ainda utilizado em nossos tempos (é a passagem 12 13 .incorveja-se o mapa respectivo no fim do livro. e com razão.. deviam julgar que a passagem se tomara praticável naquela ocasião. visto o vento impetuoso que. havia entre o leito atual dos Lagos Amargos e o fundo do golfo de sues uma comunicação precária sem dúvida. etc. Eis verbalmente o parecer de Bourdon: "Julgamos que em tempos históricos. que tendia a recuar. era bem capaz de nelas abrir um corredor.. impedindo entrassem na terra do Faraó invasores indesejáveis. devia servir para proteger ã fronteira. duração .). Bour don. conforme as inscrições. Ora o texto bíblico insinua que o êxodo dos israelitas se fêz por um vau. havia uma passagem através das águas que então constituíam o Mar Vermelho. Nesta sua extremidade setentrional o mar.C. Eis como se explicam tais autores: Nos tempos pré-históricos comunicavam entre si os Mares Mediterrâneo e Vermelho. o pôrto de Colzum. desembocava num vau ainda hoje existente na parte meridional dos Lagos Amargos. lagunas. 12 Tais descobertas levam a admitir que. é hoje um acervo de ruínas situadas a dez quilómetros do litoral. em território egípcio. oficial de marinha frantês encarregado durante muitos anos do serviço do canal de Suez. descobriu vestígios de uma estrada que. julga-se que o Mar Vermelho se prolongava ainda até os Lagos Amargos e talvez o Lago de Tiznsah (situados hoje no referido istmo). donde na Idade Média partiam as naves para a Índia. situada nas proximidades da estrada e do vau referidos. os quais só aos poueos foram sendo separados pelo istmo de Suez. levam a concluir que a divisão do Mar Vermelho se deve a uma concatenação de causas naturais. supõe que não tinham a travessia na conta de coisa impossível. de leste soprando sóbre as águas."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 211 A isto respondem competentes estudiosos que não sàmente o livro sagrado. mais precisamente: na época do êxodo.

C.7-17) A Moisés sucedeu Josué no govêrno do povo de Deus. 14 a. em Expository Times. que morrera deixando Israel à entrada da terra de Canaã. lix 14.4).). A seguinte observação parece do seu modo insinuar que a travessia se fêz pela parte setentrional do mar.22.26. que o sirocco da Arábia. porém. o chefe romano Ciplão dito "o Africano" conseguiu entrar em Cartago por um lado da cidade contiguo a uma laguna. Und die Bibel hat doch recht. SoaIlard. A PASSAGEM DO RIO JORDÃO (Jos 3. Polibio 10." Texto citado por O. 16 Cf. não o di2 (cf.7 refere ter-se feito uma seleção de armas e guerreiros para constituírem a tropa perseguidora. era mister atravessar o Jordão. os cartagineses não se preocuparam com a defesa dessa zona. Keller. autor que apela para H. 15. 1. 7. recordando o seguinte episódio da história profana: Nas famosas guerras púnicas entre Roma e Cartago (264-146 a. O texto de Éx 14. (Düsseldorf. 1955). 120. "The passage of the .10. 13. 51105. ó deixaria de soprar logo que o povo eleito o pudesse dispensar (sabe-se. em trechos como Jos 2.46.28.9. Quanto ao monarca. 42 (1930-31). Ora aconteceu que um vento Inesperado removeu as águas e permitiu que quinhentos soldados romanos tivessem acesso a Cartago (cf. Isto se fêz. Ora às margens do Mar Vermelho não se encontra o arbusto do junco. 120. 135. 14 Não se creia. para penetrar na Palestina. 2.4s). ou pelos vaus do pequeno Lago Amargo na vizinhança da atual extremidade meridional dêste último. não do "Mar Vermelho". Ricciotti. 55-61. o texto bíblico. 1. Heinisch. se se têm em vista os térmos muito sóbrios com que os historiadores greco-romanos se referem ao assunto. O novo chefe devia consumar a obra do antecessor. w.era o modo maravilhoso como se tornara transitável o vau: o vento fôra suscitado por Deus no momento favorável a Is±ael.23. H. Um ou outro exegeta 15 tenta de certo mddo ilustrar a passagem.Red Sea". Historiar. Tito Livio. o vento qadim. parte que atualmente já não existe: o texto biblico fala de passagem do "Mar dos Juncos". Ora. como narra o haprincipal).26. contudo não se lhe pode atribuir grande pêso na exegese do Êxodo. é possível que tenha tomado parte na expedição. aliás. Das Buch Exodus. disto se poderá deduzir que se desenvolvia outrora junto às águas que prolongavam o hodierno Mar Vermelho e deviam constituir prôpriamente o Mar dos Juncos. O episódio é significativo. já que as águas pareciam constituir obstáculo natural aos invasores. que no desastre hajam perecido todo o exército do Egito e o Faraó.212 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rendo por isto num êrro fatal . começa de imprevisto e cessa também repenti' namente). . Histoire d'Israel. 2206. talvez pouco mais de mil carros armados hajam sido tragados pelas águas.

situada no além-rio. depois de implantadas. porém. 16 E como se deu a intervenção divina? A caravana israelita estacionou à margem esquerda do Jordão. Não se via como a multidão de Israel poderia atravessar. Edo 24. como estive com Moisés. detendo-se perto da cidade de Adom (hoje El-Damieh. porém. o Senhor. retiraram-se e o rio continuou o curso normal.15). constituíram repentinamente um muro imóvel em Adom. no episódio. verificaram que o Jordão deixara de correr. quis reproduzir o portento realizado no princípio da obra de Moisés."PRODÍGIOS" E PEODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 213 giógrafo.23. no início da missão de Josué. para que saibam que estarei contigo.'" Seguem-se as instruções para a travessia do Jordão. a corrente chegou a derrubar e arrastar algumas destas. logo que isto se deu. então. na região de Adom (El-Damíeh) as águas do Jordão correm entre bancos de argila. Corria então a época da messe (março-abril). a torrente tem aí a largura de 80 m aiíroximadamente. diante da cidade de Jericó. por ação de um terremoto. obstruindo o fluxo das águas pelo espaço de 21 h. Além disto. os sacerdotes detentores da arca permaneceram imóveis por todo o tempo da travessia.26 e 1 Crôn 12. o ímpeto das águas. contràriamente às leis da natureza. Com efeito. assim o leito da corrente apareceu sêco.0 Jordão na região de El-Damieh. a 25 km ao norte de Jericó). sabe-se que em 1267 o sultão do Egito Melik-Daher-Bibars II desejava mandar construir uma ponte sôbre . cuja altura atinge 13 m.14. Jos 3. admitir tão estupenda intervenção do Criador. 16 . por exemplo: O Senhor disse a Josué: 'Hoje começarei a exaltar-te aos olhos de todo Israel.7. a caudal interrompeu o seu curso. época em que o sol da primavera faz derreter as neves do monte Hermon. nessas circunstâncias a própria natureza veio em auxílio aos operários: à meia-noite de 7 para 8 de dezembro. e os filhos de Israel o transpuseram fàcilmente. paralelamente ao que se deu na travessia do Mar Vermelho. A semelhança dos dois fenômenos é de certo modo explicada pelo texto sagrado: conforme Jos 3. entrassem no rio. Que interpretação se há de dar ao texto bíblico? Nada se pode objetar a quem julgue que as águas do Jordão. mas é pouco profunda. a fim de mostrar a Israel que Deus dirigia o novo guia como sempre orientara o anterior. à luz de tochas. Não é necessário. carregando a arca da Aliança. Então o Senhor mandou que dois sacerdotes. ocasionando a cheia brusca e impetuosa do rio (cf. dificultava grandemente o lançamento das pilastras de base. desabaram sôbre o leito do rio. ainda em 1927. 4. terminada esta. apressaram-se em consolidar os Cf. e que fàcilmente desmoronam.7. a pé enxuto.

No sétimo dia. em conseqüência. os filhos de Israel defrontaram-se com a cidade de Jericó. " Ora.214 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fundamentos da ponte. efetuaram sete circuitos. Contudo. para poder ser bem defendida). se os fatôres naturais na zona do Jordão podem produzir tais fenômenos. esperando que a penúria ou alguma inclemência da natureza obrigasse os invasores a retroceder. Foi então que. que levavam a arca de Javé. É o que a Sagrada Escritura explicitamente recorda num dos livros posteriores do Antigo Testamento: 17 Noticia devida a F. 1 (Paris 2 . prestando-se atualmente a diversos ensaios de reconstituição e interpretação. confiantes no poder de suas muralhas. as águas. a estas os quarenta mil filhos de Israel (cf. Géographie 4e Ia Palestine. pôde a torrente retomar o seu curso normal.1-20) parece ter sofrido glossas no decorrerdos tempos. o que se verificou: Havendo os filhos de Israel acampado diante de Jericó. constituindo uma barreira artificial. que só se verificou por intervenção extraordinária de Deus. em grandes linhas. em conseqüência. 1933). junto com os sacerdotes. a fim de se certificar da futura estabilidade da obra. habitada por cananeus hostis. os desfiles se fizeram ao som das trombetas dos sacerdotes. ademais as recensões hebraica e grega apresentam pequenas divergências entre si. trata-se aqui de um feito maravilhoso. é plausível afirmar que Deus se tenha servido de semelhantes meios para possibilitar aos israelitas a passagem do rio. por seis dias consecutivos deram processionalmente a volta da cidade (a qual não devia ter perímetro muito longo. Abel.1-20) Logo após a travessia do Jordão. quiseram investigar a causa do fenômeno: enviaram rio acima exploradores a cavalo. sómente pelas dez horas da manhã. Não há dúvida. a mandado do Senhor. após os quais ressoaram as trombetas. Tiveram que se dispor ao assalto do reduto inimigo. . Eis. os quais averiguaram que enorme bloco de terra da margem ocidental se havia precipitado no rio. os habitantes da cidade. obtendo por fim estrondosa vitória. as muralhas de Jericó desmoronaram e os assaltantes puderam penetrar na cidade. após haver vencido o obstáculo. os guerreiros hebreus. se espalhavam pelo vale ao norte do dique. 481. Jos 4. § 40 A QUEDA DOS MUROS DE JERICÓ (los 6.13) responderam imediatamente com brado poderosíssimo. porém.-M. O texto bíblico referente ao episódio (Jos 6. f echaram-se no interior destas.

visto então que negligenciavam o serviço de vigiláncia. os quais referem que tropas assaltantes. reconduzindo-as. por exemplo. . Assim 1. fizeram repetidos circuitos da cidade ou do acampamento sitiados. Eis. com seus toques de trombeta. o que narra Sexto Júlio Frontino. Precisava o Todo-Poderoso de que os israelitas fizessem o circuito da cidade para que lHe desmantelasse as fortificações 2 Que relação há entre as procissões. Esta tática incutiu aos habitantes a convicção de que os romanos não queriam senão exercitar-se." IS Baseando-se neste testemunho. distingue dois documentos fontes do 18 Stratagemata. Como se procede para enganar os que são sitiados. porém. sem catapulta e sem máquinas de guerra. P. 3. professor da Escola Bíblica de Jerusalém. e os moradores se renderam. de sorte a não provocar suspeita ou alarma na cidade de Jericó.) Contudo não pode deixar de chamar a atenção o artifício prescrito pelo Senhor. autor da obra Stratagemata (catálogo de estratagemas) sob o Imperador Domiciano (81-96) "fornido Calvino cercava na Ligúria a cidade de Luna..15. Muito freqüentemente mandava que tôdas as suas tropas desfilassem ao redor da mesma. nem toque de trombeta nem clamor de guerra emanava de Israel. que Josué recorreu a tática semelhante com a intenção de fazer crer aos habitantes de Jericó que os seus planos eram pacíficos e não visavam uru ataque à cidade (em tempo de guerra justa. para construir a sua hipótese. Alguns apelam para o testemunho de cronistas da antiguidade. torna-se lícito o recurso não sõrnente a manobras cruentas." Merece atenção o fato de que o autor refere êste estratagema sob o título "Dc faflendis ijis qui obsidebuntur. derrubou os muros de Jericó nos tempos de Josué. Abel O. em um ou outro caso. com o fim de ludibriar o inimigo. e o desmoronamento subseqüente? Pressupondo que eram um estratagema bélico." (2 Mac 12. que o ilustre exegeta. ao acampamento. a seguir. E. 1. localidade defendida tanto por sua posição geográfica como por obras de fortificação. A cidade foi tomada. é obrigado a afirmar que as "passeatas" dos israelitas se realizavam em absoluto silêncio. mas também às que enganam e desnorteiam o adversário). julga o Pe. a fim de inferir êste traço da narrativa bíblica. apelando para critérios filológicos. Domício transformou essa espécie de passeata em ataque repentino. Abel."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 215 "O soberano Senhor do mundo. 2. os exegetü têm procurado estabelecer um nexo entre ésses desfiles e a vitória final. É de notar.

cia israelita) acompanhada pelos sacerdotes e os guerreiros. 2. pãgs. os exegetas por vêzes sugerem um ou outro particular que a narrativa lhes parece oferecer 19 F. Abel4 "Les stratagèmes dans le livre de Josué". isto tudo os fazia temer (cf. Em vez de tranqüilizar os habitantes de Jericó. o toque das trombetas. em Revue bibflque ) 56 (1949). devia insinuar a êsses homens a ruína total que o pujante Senhor lhes destinava. explorando êste estado de alma. ° CI. . para os antigos. o "fundamental". 325s. 20 ora no caso parecia que o Deus de Israel se anunciava mais forte que os deuses de Jericó. já não terá encontrado grande resistência por parte dos defensores da cidade. Caso se admita uma das duas hipóteses acima propostas. ainda fica margem para a pergunta: como se deu o assalto à cidade após a preparação psicológica dos sete dias? Sem poder reconstituir o quadro com precisão. sim. É o que a toma discutível. Êstes admitiam.mdo. dada a escassez de dados. apelando igualmente para a mentalidade e a praxe dos antigos. na travessia do Mar Vermelho e no deserto. teriam tido por fim aterrorizá-los! . Jos 2. haviam ouvido falar dos prodígios realizados por Javé em prol dos hebreus na saída do Egito. 125-128. os desfiles dos israelitas podiam-lhes parecer equivalentes a uma tomada de posse do terreno em nome do Deus Forte de Israel. Contudo baseia-se num postulado que não pode ser estabelecido com segivança. dos dias de cêrco). lhe parece narrar unicamente desfiles silenciosos! 19 A sentença do Pe[ Abel não deixa de ter autoridade. como se mostrara mais poderoso que os dos egípcios e de outras nações.216 PARA ENTENDER O ANTIGO. junto com os povos que se defrontavam. a guerra era ação religiosa. A ostentação da arca (quase "estandarte" da teocra. a existência de um Deus próprio dos israelitas. explique de outra maneira o valor bélico dos circuitos praticados pelos filhos de Israel. É preciso não esquecer que. como também nada de sério se lhe poderia objetar. o número setenário (dos desfiles. Há queüi. Sôbre êste fi. julgavam que os respectivos deuses pugnavam entre si. documentos dos quais o primÉlto. TESTAMENTO texto atual de Jos 6. Esta sentença não pode ser comprovada de maneira decisiva. Josué soltou o brado de avanço. protetor poderoso desta gente.-M.8-11). condenando-os ao anátema. Assim os desfiles em tôrno de Jericó teriam desempenhado o papel de causar pessimismo psicológico e religioso aos assediados: quando no fim dos sete dias de estratagema. o brado final deviam ser ritos aptos a impressionar os "supersticiosos" moradores de Jericó. sendo símbolo de totalidade.

metafórico que êle ocorre. Esta mulher. o brado mais forte teria sido sinal para que pusessem fogo à armação de madeira que sustentava os muros e se retirassem. logo que se propusessem empreender o assalto. em 1 5am 25. desfalecido de terror após o estratagema de Josué. eis os têrmos com que. sim. J. 1935). terá. Entrando em Jericó. Histoirc Sai nte (Paris. van Hoonacker. o Apóstolo de Cristo se refere ao episódiõ: 322s.. pois. prometido dar ingresso aos invasores pela sua casa.15). uma vez terminados os trabalhos. 29s. isto é." (1 5am 25. teriam caído. 163.. enquanto operários israelitas cavavam galerias debaixo das muralhas de Jericó. Para apoiar a tese. em Vivre et pense?. . os homens que montavam a guarda às portas de Jericó. concluíram um pacto com a meretriz Rahab. É. 21 22 a. estiveram em Jericó (cf. posta no perímetro das muralhas.16. os estudiosos fazem notar a precisão de topografia e de sinais. decidira salvar-se com os seus familiares. Jos 2). Estas diversas conjeturas formuladas para explicar os desf iles dos israelitas como estratagema bélico. Se. com valor homah. no fim da Escritura. e não as muralhas. 1943). . o pânico teria então irrompido em Jericó.. crendo que realmente Javé havia de entregar Jericó aos hebreus. Tournay. 22 Significaria então a guarnição militar. Éstes. 2. Uma consideração mais atenta dos trechos sagrados insinua que o seu significado primordial é de outra ordem: é significado religioso. 24 3. Tournay por sua vez preconizam. não possuem senão o valor de suposições mais ou menos fundadas no texto e na arqueologia. . homens de Davi nos serviram de muralha (homait) tanto de noite como de dia.. poupando apenas a casa de Rahab. a recomendação de silêncio. no diálogo travado entre Rahab e os exploradores (cf.-Rops. antes do cêrco da cidade. os invasores lhe teriam ateado fõgo. não militar. 2. Le chanoine Albin Vait Hoonaeker (Paris. 24 Sentença brevemente referida por D.) 23 É esta a sentença de A. J. embora muito eruditas. ibid. • ' Os a. Com efeito.15-20). por exemplo. 23 o toque diário de trombetas teria sido um artifício para prender a atenção dos habitantes de Jericó. permitindo o ingresso na cidade sem desferir algum golpe. série (1945) • 304-6. 21 pode-se interpretar em sentido figurado o têrmo hebraico geralmente traduzido por "muralha". os filhos de Israel teriam conseguido penetrar na cidade. coppens e E. cuja casa estava situada na periferia da cidade (cf. Não se pode insistir sõbre o papel estratégico de tais procissões. "A propos des muralUes de Jéricho". Aproveitando-se da situação confusa e das ruínas causadas pelo incêndio."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 217 os espiões que. Coppens. que J. teriam capitulado. atraiçoando os concidadãos.16.

sino por la omnipotencia divina. II (Paris. como as guerras de Israel em geral (cf. . não nos seria lícito fechar os olhos a ulteriores considerações: é bem possível que. págs.° 1.30. Ademais não se pode esquecer que a conquista de «Jericá tinha significado religioso. os hebreus. 1 (Barcelona2. sín la anal no se hubiera realizado ei prodigio: 'Por la fe se derrumbaron los muros nos de Jericól" (Hebr 11. Depois de ter experimentado essa fé. encaminada a dirigir los altos destinos dei pueblo. 25 Firme êste princípio básico para a interpretação do episódio. são superados os obstáculos mais pujantes que se opõem à posse da Terra prometida. foram inculcadas primàriamente para que os filhos de Israel tivessem ocasião de exercer a sua fé. 349. A. ei objeto era hacer ver a Israel que ei resultado Javorabie se debite no sólo a las armas. professavam crer no Auxílio de Deus. não. foi aquela que de Deus obteve esta. 361.. L'Epitre auz Ei ébreux. eia alcança o que intenta. Se tivésseis fé como um grão de mostarda!" C. por consiguiente. para entregar Jericó aos israelitas em prêmio de sua fé. Bons autores pensam que permitiu um terremoto em momento oportuno. RI carácter religioso de ia cosa. antes do mais. sino a DiOS. n. 1935). porém. M. Histoire d'israel et de l'Aiwien Orient (Paris. ei sagrado número siete. Das Buck Josue (Bonn. seja aqui transcrito ainda o testemunho de recentes e abalizados exegetas católicos "Las ejete vueitas alrededor de Jericó con ei Arca de ia Alianza tiene mede manobra militar que de religiosa. 1946). 177. Historia bíblica. o Senhor recompensou-a com retumbante vitória. Isto quer dizer que. que dispensa máquinas de guerra desde que le queira realizar algum desígnio. mas estos sefzaiaban ya de ant em ano ei instante dei dernsmbamiento y excinian. Spicq. Texto de Schusber-Holzanuner.13s). L. Ricciotti. em recompensa da fé. Tais cerimônias foram prescritas pelo Senhor. praticando aquêles artifícios (cujo valor militar é incerto e não importa muito no caso). 1953). 26 à semelhança do que se verificou posteriormente numa bataiha 25 "A fé pouco se preocupa com os meios. como se Javé visasse ensinar aos seus fiéis um estratagema bélico. 125-128). 277.) Esta breve frase estabelece um nexo entre a fé dos israelitas e a conquista de Jericá. Histoire d'israel 1. depois de se lhes haver dado a volta durante sete dias. Os seus frutos são evidentes: a primeira grande praça-forte cananéia caiu em mãos do povo de Deus." (Hebr 11. Porque no se derrumbaron las murailas por ei griterlc dei pueblo ti por ei resonar de las trompetas ti por ias siete vueltas. 25 Cf. a manobra adequada .218 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Foi pela lê que Os muros de' Jericú desmoronaram. Dennefeld.30). Schulz. Ef 6. o Senhor se tenha servido de causas segundas. e a conquista da cidade medearam os desfiles de sete dias. . O. graças às armas (Ia fé (cf. 1924). 22s. Verdade é que entre a atitude de fé dos hebreus que assediaram Jericó.. hicieron realtar ei suceso como obra de Dias.eficaces eran en si miemos los medias empleados. mientras por otra pane ei proceder de los israelitas fué un hermosisimo testimonio de su confianza en Dios. toda expliccicián natural dei hecho. porque Deus intervém comprovando-a. etc. cuya eficacia tanto mãe resalta cuanto más in.

1946). Analyse d'tia rite biblique (Neuchãtel.15: 'O espanto apoderou-se do acampamento dos filisa terra tremeu. como às• vêzes acontecia (cf. Sab 16. La "Terou'a".. Em suma. a.6). 28 O clamor proferido pelo povo israelita imediatamente antes de assaltarem a cidade parece não ser senão a terou'a ou o brado de ataque que marcava o início das batalhas de outrora. .).20-29) Ao entrarem os israelitas na terra de Canaã. 29 Nem se exclui a ação devastadora da sêde na cidade cercada. (ora Josué tomou Jericó por volta de 1200 a. . cessou o regime extraordinário de alimentação qt e o Senhor Deus lhes proporcionara no deserto." 2u Jos 6.2-36.." 28 Lembra o chefe israelita à sua gente: 'Os homens de Jencó combateram contra vós. como insinuam as letras r e ' do vocábulo.5. Núm 11. 27 teus . é de crer que o texto do livro de Josué não nos refere a história completa da tomada de Jericó.11. embora o assinalem geralmente ao intervalo que corre entre 1400 e 1200 a. Veja-se a propósito P. § 5.° o MANÁ (tx 16."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 219 contra os fiisteus.4-9. ou seja. Jdt 7. as excavações levadas a efeito desde 1908 no local da antiga cidade fizeram ver que a muralha de Jericó construída após 1600 a. visto que o texto sagrado não fornece os elementos para isto. portentosa.C.12). O térmo hebraico terou'a (clamor) • ocorrente no versículo acima citado. entre os gregos.C. Em conclusão: as manobras dos hebreus em tôrno de Jericó têm primàriamente o significado de um testemunho da fé que Deus exigia de seu povo. A resposta do Senhor ao seu povo consistiu certamente numa iatervenção poderosa. Éste vem a ser mais um ma bíblico por vêzes submetido a hesitações e interpretações. entre os germanos). a sua finalidade imediata era provocar um bem de ordem espiritual numa gente rude como Israel. 29. excitar uma sincera atitude religiosa perante o verdadeiro Deus. é onomatopaico. 1 5am 14. cujos pormenores não podemos descrever com exatidão. Jos 5. Eis o que as páginas sagradas a seu respeito referem. havia um terror de Deus. Humbert. Os exércitos antigos costumavam desmcadear as suas batalhas mediante veemente clamor (alalá. mas se restringe ao episódio que realçava a influência do fator "fé" na campanha bélica. o seu lado orietal foi mesmo totalmente arrazado. sofreu destruição. deixaram de se] sustentados pelo maná (cf. Os arqueólogos discutem sôbre a época precisa em que se deu o desastre. pois a única fonte de abastecimento pode ter estado fora dos muros do reduto. barritus. 27 Não terá dispensado de pequenos combates o exército de Josué. exprime um grito de índole fortemente gutural.C. Cf. a êstes alude Jos 24. Quanto à arqueologia.

único no seu gênero.31). Durante os quarenta anos da travessia do deserto. de modo que os israelitas arrecadavam apenas a porção necessária ao dia respectivo. grão que mede 5 mm de diâmetro. Quanto à maneira de recolhê4o. surpresos. estêve e ainda está de pé a tese de que o maná foi especialmente criado por Deus para o seu povo. cf. ou seja. que. é produtor do maná. muito abundante no Egito. Por sua tí'ansparência e consistência. 30 Todavia em 1927 a 80 Esta tese se deve ao botânico alemão O. Na península do Sinai é. resina aromática de côr levemente amarelada (cf. já conforme os antigos monges do lugar.220 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO Seis semanas após a saída do Egito. sem o concurso de agentes criados. também não se conservavam por mais de 24 h.8 e lix 16. semelhante a gotas de geada. . porém. sim. Podia ser triturado e cozido ao fogo. nos tempos atuais. saindo do respectivo acampamento. exceto às sextas-feiras. Êx 16. encontraram por terra algo como grãos com aparência de geléia branca. deram a tal substância o nome de man. perfurando os ramos dêsse vegetal. Ehrenberg. Até os últimos tempos. Dt 2. assemelhava-se ao bcieuium. mas principal. um gomor por pessoa (3. que em 1823 a divulgou na obra Symbolae phygicae. O autor causou sensação e surprêsa entre os seua contemporâneos.7).6). esta hipótese vai sendo mais e mais preterida." Em conseqüência.64 1). em escala pequena. O texto sagrado fornece mais algumas informações sôbre o alimento maravilhoso: tinha a grossura do grão de coriandro. julgava-se que um inseto. perguntavam uns aos outros: "Man liii? Que é isso ?" Ao que Moisés respondeu: "É o pão que o Senhor vos envia para vos nutrir.31). conforme o seu habitual proceder. deviam-se observar cuidados especiais: os grãos se der retiam ao calor do áol. de sorte que era preciso aprovisioná-los antes do nascer do dia. Núm 11. Como se há de entender esta providencial dispensação de alimento? Na tradição exegética. comum um arbusto chamado tamaris mannifera. de modo a se confeccionarem pães. constituiu o maná o alimento não exclusivo. os hebreus. O seu gôsto parecia-se com o de uma torta feita com óleo ou mel (cf. oflmigrantes começarálfi a experimentar a escassez de víveres. Averiguaram-se fatôres naturais que o Senhor Deus.13-15. terá utilizado afim de suscitar o fenômeno narrado pela Bíblia. maná (cf. também dos seus rebanhos e de víveres permutados com os povos que encontrava. como se dirá abaixo. teria caído do céu. o Senhor lhes 'suscitou um alimento especial: na manhã seguinte. Núm 11. lhes fazia suar uma gelatina melosa. de Israel (a caravana nômade ter-se-á nutrido. Eis. que. na península do Sinai e no vale do Jordão. Tendo-se êles queixado a Moisés. um alimento.

prende-se e adere aos dentes.1. 304. Ricciottl. 124s. L'Exode ei Levitic (La Biblia. à semelhança de orvalho ou geada e. 134-7. ilustrado pels monjos de Mont Serrat). os resultados das explorações. e possui sabor doce. KelIer. maná do céu. 92-100."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 221 universfdade de Jerusalém enviou uma expedição à região do Sinal para apurar exatamente o processo. as pedras. "Les Nombres". É doce como o mel. Unct dia Bibel hat doch recht.eutschen Palaestina-Vereins. lllstoire d'israel. Ubach. Theodor. Das Buch Erodus. A. Como se depreende. G. P. quando o consomem." (Trecho do relatório da expedição de 1927. diversas gotas se podem conglomerar.1 não hesitam em identificar êste com aquêle. Ésse pão do céu cai de madrugada. 63-75.o que se dá por volta de 8. exceto aos sábados. Éstes animatzinhos sugam a seiva do vegetal e a expelem sob forma de gotas resinosas. 34 Além da tradição dos monges do Sinai.6. muito alimentícia. 14 Para êsses autores. Düsseldorf. compramo-lo em boa quantidade. 238s. decano da catedral de Mogúncla. Clamer. S. tomando côr branca ou amarelada. por éles denominado Mann es-sarna. guardam e vendem para os peregrinos e estrangeiros que lá vão ter. 53 (1930). o maravilhoso na produção do maná foi o modo como Deus provocou o seu aparecimento: dispensou.) Os textos acima foram transcritos da obra de W. excitadas pela luz e o calor do dia.) Estas notfcias se podem completar pelo que a respeito do maná referia um peregrino do Sinai no ano de 1483 "Em todos os vales das cercanias do Monte Sinai. antes que as formigas.1. até êste momento permanecem inativas. Si davam a saber de maneira definitiva que a dita resina não se deve diretamente à tamaris maniviferar mas à ação de dois insetos sôbre o arbusto: a trabutina nwnniparo e o najacoccus serpentinus minor. ri (Paris. de tamanho variável entre o de uma cabeça de alfinête e o de um grão de ervilha. publicados em 1929. Heinisch. Kaiser. Recolhem-no de manhã muito cedo. logo que Moisés o anunciou e fora das épocas habituais (isto é. posta ao ar livre. ep. sim. durante os quarenta anos de travessia). Bodenheimer e O. "Ergebnisse der sinaiexpedition 1927 der hebraeischen Tjniversitaet Jerusalem". o levem: "As formigas começam a sua atividade de aprovisionar depois que o solo tenha atingido a temperatura aproximada de 21° Celsius . Ambrósia (t 397). 1946). 3. os troncos das árvores.30 h. é aromática. 32 Em conseqüência. A. pousa sóbre a erva. em Zettsohrift das d." (Relato devido a Breitenbach. dando um bloco da grandeza de uma avelã. . a goma produzida se solidifica. diàriamente ou quase diáriamente. ainda hoje recolhido pelos beduínos. 32 Os árabes ainda atualmente exploram e exportam tal produto. 64. à semelhança de mel cristalizado. 33 Cf. "Neue Forschungen auf der Sinailialbinsel". Ant. que os monges e os árabes recolhem. 1. em La Satnte fibra. sob forma de gotas brilhantes. notem-se Flávio José. de mais a mais que já na antiguidade se insinuava tal sentença. encontra-se atualmente ainda pão do céu. a mencionada geléia em quantidades extraordinárias (de sorte a sustentar milhares de homens). aspecto e gôsto do produtõ da tamaris mannif era. de Pirot-Clamer. fora também das regiões 31 a. S. são correspondentes aos do maná bíblico. Fr. exegetas modernos 3. 1955.

C. as suas lagunas estão povoadas de aves. conforme a qual o maná "proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paiadares. evocados em têrmos idílicos. que para cada dia distribui o necessário (cf. o hagiógraf o não hesitou em apresentá-lo como alimento delicioso. Eia. maçãs. celebremos aqui as festas do céu e o inicio das estações do ano 1" Texto publicado por Keiler. das cebolas e do alho. os feitos grandiosos que o Senhor reali. como também há romãs. pois.C. XIII a. O canal do deIta Shi-Hor fornece sal e salitre.20s. Nada mais resta! Nossos olhos só vêem maná. ideal.) foram sendo mais e'mais considerados em perspectiva otimista.19-30). as suas planícies estão recobertas de capim verde. Há cebola e alho para os alimentos. Agora nossa alma está ressequida.) 35 35 A título de ilustração.222 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que hoje costuma crescer a tamarts mannif era (isto é. É o jovem discípulo Pai-Bes que assim escreve ao seu mestre Amen-em-Opet: "vim ter a Casa-de-Rarnsés-o-Favorito-de-Amon (= cidade de Ramsés). notamos que a fartura de viveres do Egito (região -de Ramsés) é atestada por um papiro da época em que os israelitas eram súditos •de Faraó. melões. os quais protestaram contra o alimento miserável que repetidamente lhes era dado: "Quem nos dará carne para comer? Recordamo-nos dos peixes que comiasnos gratuitamente no Egito. 114. Os seus armazéns de reserva estão cheios de cevada e cereais. O autor de Sab mostra-se fiel expressão desta tendência: já que o maná fôra tão evidente sinal da futura instauração do reino messiânico. Diàriamente recebe a cidade carne fresca e alimento. Éx 16. e as suas frutas nos campos cultivados têm o sabor de mel. transformando-se no que cada qual quisesse". vinho doce. 'por todo o percurso dos israelitas a partir das fronteiras do Egito até a entrada na Palestina). assim como dos pepinos. durante a semana o maná conservada por mais de 24 h se deteriorava . azeitonas e figos nos pomares. e vejo que é maravilhosa. Aqui há todos os dias viveres frescos e carne. 1 a. mais saboroso do que o mel. e ninguém exclama: 'Queira Deus!' A gente miúda vive como a gente graúda. As naves vêm e vão-se. na realidade. eram. sabe-se que normalmente o maná só se produz nos meses de maio a agôsto. Também se devem a extraordinária intervenção divina os seguintes pormenores: o maná às sextas-feiras caía em porção dupla. O mesmo deus Ra fundou-a segundo o plano de Tebas. ao passo que aos sábados não era dada (particular que inculcava ao povo a observância do dia do Senhor). sabe-se que os grãozinhos pareceram insípidos aos hebreus. preponderantemente na península do Sinai e em quantidade que nos melhores anos é de 300 k aproximadamente.4-6." (Núni 11. Demorar-se lá acarreta vida ideal. Os seus lagos estão cheios de peixes.zara para instalar Israel em Canaá (séc. Todos se alegram por poder viver nesta terra.o que devia incutir confiança no Senhor. tJnd die Bibei hat doou. pois. cidade opulenta como nenhuma outra. Os seus campos oferecem multidão de coisas boas. atingem a altura do céu. Ora. Êste teve origem no séc. só pode ser entendida se se reconstituem as circunstâncias em que foi escrito o livro da Sabedoria. recht. em Alexandria. . Quanto à afirmação de Sab 16. à luz do reino messiânico que êles preparavam. no decorrer dos séculos.

renovando a condição anteriormente expressa. 1946). em La Sainte Bible. Weber. de novo apareceu o anjo num caminho estreito. Baiaque. experimentou estranha aventura: um anjo de Javé. Ao viajar para Moab sôbre um jumentinlio. . todos os israelitas encontraram no maná o seu sustento. assustou o animal. Como Balaã espancasse veementemente o animal. o anjo se postou em lugar tão estreito que o asno. por isto não quis partir sem consultar o Senhor. obteve licença para seguir via' gem.22-35) Ainda na travessia de Israel pelo deserto deu-se um episódio que chama a atenção tanto do estudioso como do curioso: é um aspecto do encontro da caravana nômade com o mago Baiaã. porém. junto ao Euírates. 6 "O maná tomava os sabores tais diversos. mago e repreendeu-o por ter encetado tal viagem. o qual explicou que algo de extraordinário se dera. apesar das insistências contrárias de Balaque. não podendo prosseguir. Então o anjo se tornou visível também ao. em terceira aparição. era Balaã. Mandou. não é notícia de historiografia estritamente dita. porém. só proferiu os oráculos de bom presságio para Israel que o Senhor Deus lhe inspirava. VI (Paris. conforme o desejo dos que o comiam. de espada na mão. 511. os quais lhe rogaram fôsse ter ao país de Moab e de lá amaldiçoasse os israelitas acampados na vizinhança."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 223 A afirmação.° BALAA E O ASNO QUE FALOU (Núm 22. durante quarenta anos. Balaã. A história assim descrita pelo livro sagrado pede algumas explicações para ser devidamente entendida. legados portadores de ricos presentes e promessas. Aconteceu que o nimor das vitórias dos hebreus sôbre povos que haviam tentado criar-lhes obstáculos aterrorizou o rei de Moab. Após insistência." J. de não proferir sôbre Israel senão os oráculos que lhe fôssem inspirados do alto. permitia-lhe. Balaã era temente à Divindade. pois. Chegando a Moab. "o Senhor abriu a bôca do jumento" (22.28). resolveu recorrer ao poder religioso: lembrou-se de um mago residente em Petor. pois. Reputando-se incapaz de conjurar o perigo pelas armas apenas. o qual viu ameaçada a subsistência da sua gente. à condição. exaltadamente otimista do livro da Sabedoria deriva-se das leis do estilo épico em que o hagiógrafo escreveu. de modo que o jumento só pôde passar atritando o pé de Balaã contra as pedras do muro. É esta a expressão poética talvez hiperbólica. continuar. 'Le livre de la Sagesse". 36 § 6. de Pirot-Clamer. do fato de que. se deitou por terra. o qual lograra fama em todo o Oriente. fazendo que se desviasse da estrada e entrasse nos campos.

14. 2 Pdr 2..C. os judeus lapidaram Onias (Ant. não deixava de admitir as divindades dos outros povos. os quais. Comunicou-lhe alguns de seus desígnios a respeito de Israel. que Balaã é pagão. o escritor Flávio José narra o seguinte episódio: Durante a guerra civil entre João Ifircano e Aristóbulo (67-63 a. 24. conforme o texto hebraico atual e a vulgata latina. Dt 23.1).9s. deixando-se guiar pelas suas inspirações. rogou a Deus que não atendesse às orações nem de uma nem de outra facção. recebia paga correspondente (cf. 24. que acima de Deus estima os seus interêsses próprios. Em Israel êsses homens de Deus eram os justos.7-10. A versão grega dos LXX. em grande parte por intermédio dos mercadores que comerciavam assiduamente entre o Egito e a Asia anterior (cf. o qual pela oração obtivera chuva numa época de sêca. Filo. Núm 23. 39 As noticMs se haviam propagado ràpidamente nas terras orientais. O Senhor Deus se dignou responder a Balaã. que.). Atribula-se na antiguidade eficácia infalivel às palavras de bênção ou maldição proferidas por um 'homem de Deus".14. Eis. fê-lo assim instrumento de autênticas revelações nos oráculos que proferiu (cf. 40 Cf. Dada a eficácia que atribuiam a esta maldição. 1). ao lado de Javé. eram os magos e adivinhos. antes de falar.7.224 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em primeiro lugar. isto é. 11 O fato de que êle reverenciou o Deus de Israel. em troca de seus oráculos. 2. 38 apenas.3-9. materiais. não recorriam a artifícios mágicos (invenção humana). porém.4s. o que não supõe necessàriamente santidade na respectiva criatura (cf.C. não israelita. tendo tido conhecimento de quanto o Senhor fizera por seu povo desde a saída do Egito. J05 2. que considera Ealaã como defensor do povo de Israel contra Balaque. 38 Em NCun 22. Excetua-se. porém. Núm 22. embora tenha deixado vaticínios de ótimo agouro para Israel.50-52). mas não raro recebiam gratuitas comunicações do verdadeiro Deus. 18-24. porém.48. o qual diflcilmente se entenderia na bôca de um adivinho pagão. 1 d. 37 A praxe de oferecer ricas dádivas aos adivinhos é atestada também por Dan 2. vivia um homem justo e amigo de Deus. Apo 2. os quais lançavam mão de expedientes excogitados pelos homens ou pelo demônio. 40 ficou sendo o tipo do homem avarento. Núm 23. como se entende. Onias. Exercia a profissão de mago ou adivinho. Êx 15.6.6. que a figura de Balaâ.15s. invocara a Divindade (o mago ter-se-á dirigido simplesmente ao Poder Divino competente para o esclarecer no caso). Pediram-lhe que amaldiçoasse Aristóbulo e seu partido. Jud 11. Na história do povo de Deus. Segundo a mentalidade comum dos pagãos. De vita Mcnjsis 1. o caso de Caifás em J0 11. não quer dizer que habitualmente Lhe prestava culto nem mesmo que era monoteísta. 14. 15-24). Entre os pagãos. . 5. chamado Onias. e não queria incorrer no seu furor. temeroso. Jdt 5. J05 24. vivia perscrutando os sinais que & natureza ou artifícios secretos lhe ofereciam (cf. note-se.7).3.5-25). judeu alexandrino do séc.9. expedientes sujeitos à falibilidade como os seus autores. porém. passou para a tradição judaica e cristã com nota depreciativa. lu reconhecia a existência e o poder respeitável do Deus de Israel. omite e pronome possessivo.18 Balaã chama Javé "meu Deus". sinais mediante os quais julgava perceber os desígnios da Divindade. Miq 6.

12). Tais sentenças. persuadindo os madianitas a seduzir o povo para a apostasia religiosa (cf. 22. não excluiu a possibilidade de amaldiçoar (22. considerando a narrativa inteira como lenda. porém.18s). refletindo consigo. Ora uma viagem com tal propósito não podia deixar de desagradar ao Senhor. Em suma. não ousou desobedecer para não se expor ao castigo conseqüente. a fim de não perder o salârio devido às suas fadigas. por um emissário. Entre os que defendem a realidade histórica do episódio. Já que o fenômeno foi ocasionado pelas aparições de um anjo que dificultava a caminhada.. procurou desforra: tentou mais tarde levar Israel à ruína. enquanto cavalgava. mas Balaã interpretou-os como admoestação que Deus lhe dirigia. em outros têrmos: ouvindo o asno. as graças do Senhor foram em Balaã suf ocadas pela cobiça de vantagens temporais e pela amargura de não as ter alcançado.38). Assim entra em cena no texto bíblico o asno que fala.16). o adivinho.. voz de Deus no seu íntimo. aos quais o oriental. 1 nesta perspectiva que se deve considerar o episódio do jumento que falou ao mago.. Balaã ouviu simultâneamente a voz da consciência. Não é esta.20 e 22) ? O proceder se explica bem se se admite que Balaã não viajava com a disposição de ânimo (docilidade às futuras comunicações divinas) que o Senhor lhe incutira ao permitir a partida.. há quem julgue que o asno produziu realmente sons de linguagem humana. a única explicação possível do texto sagrado."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 225 Por que isto? Será essa a genuína face de Balaã? O texto sagrado o explica. a qual o censurava amargamente por estar viajando com propósitos contrários ao Senhor ou por se haver deixado obcecar pela perspectiva do ouro. Embora já antes de partir para Moab soubesse que Deus abençoara Israel (cf. às instâncias do rei quis dar resposta favorável. o animal espancado emitiu os sons queixosos que lhe são habituais. 22. A repreensão se efetuou com o concurso de fenômenos sensíveis. Não faltaram os que lhe denegaram historicidade. são ditadas pelo desejo de não admitir o sobrenatural no curso dos acontecimentos. sonho de Balaã. muito impressionável. mas. Conforme outros exegetas. impedido a viagem que file mesmo pouco antes autorizara (cf. como em vários outros casos. mito popular. não tendo recebido licença para isto. Balaã tudo fêz para não perder os ricos prêmios que lhe prometia Balaque caso amaldiçoasse. chégando à terra de Moab. pergunta-se antes do mais: por que terá Deus. 31. irritado. terá tomado a resolução de amaldiçoar em qualquer caso. esperando que Deus mudasse os seus desígnios (22. que houve por bem chamar Balaã à ordem. visão de alucinado etc. Assim o episódio .. se rende com mais facilidade.

e o início da monarquia (1020). Nas ocasiões de maior tribulação. 421. mas foi repreendido por sua desobediência: um animal mudo fêz ouvir voz humana para reprimir a demência do profeta. em conseqüência." É o Cardeal Meignan quem observa: "O Apóstolo fala conforme a opinião comum dos judeus. Miguel. acontecia que o Senhor infundia a um israelita coragem e poder extraordinários. consciência do mago é que os berros desarticulados do animaL tomaram o vulto e o significado das palavras que o autor sagrado. Não havia govêrno organizado em Israel nessa época. e a paixão da avareza. Propugna-a outrossim A.15s: "Balaã. Eis o que a Sagrada Escritura lhes apresenta: Sansão foi um dos grandes Juízes. Já S.. ou seja.. no ânimo do adivinho em viagem. coloca diretamente na bôca do jumento. Clamer. disto se prevaleciam os cananeus vizinhos. sàmente na. 386s. 44. em La Sainte Bible. Esta última interpretação é muito digna da Sabedoria e da Providência divinas.° 1. terão corroborado a voz da consciência e feito que o adivinho se rendesse finalmente à admoestação do Senhor. visa o ensinamento moral. foi autorizado a prosseguir viagem. Êsses homens.. ed. De vita Moysis.226 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO não viria a ser senão o relato vivo e dramático da luta que. episódio que é mais do que a história de um animal que falal. visando maior ênfase. não a realidade material dos fatos. n. chefes esporá41 Alguns dos antigos julgavam tratar-se do arcanjo S. 216. tutor do de Deus segundo Dan 12. De MoIse à David. se travou entre o temor de Deus. § 7. "Les Nombres". de um lado. do outro lado.° A HISTÓRIA DE SANSÃO (Jz 13-16) Muito explorada tem sido a figura de Sansão pela fantasia tanto dos homens simples como dos artistas. um dos chefes que Deus suscitou ao seu povo no período que corre entre a morte de Josué.1." 42 O que acaba de ser exposto parece pôr em suficiente evidência o sentido religioso e autêntico do episódio de Balaã. II. filho de Bosor. amou o salário da iniqüidade. 42 L'Ancien Testament. conquistador da terra de Canaã (1200). a fim de que debelasse os inimigos. para atacar e oprimir o povo. A visão e os dizeres do anjo. Gregório de Nissa (t 394) se fazia arauto da explicação mais larga acima proposta. povo . 1896.. 41 sobrevindo a êsse estado de alma de Balaã. Não se lhe pode opor o texto de 2 Pdr 2. Migne gr.

que lhe dava energia de alma e vigor de corpo fora do comum. Núm 6. após estas peripécias. os filisteus perplexos foram pedir à mulher de Sansão. após três dias de reflexão. deixar crescer os cabelos e a barba.23-26). porém. O favor de Deus. eram os chamados Juizes. abençoado pelo Senhor. " Tornar-se-ia o defensor de sua gente contra os filisteus hostis.. dos lítigios cotidianos (cf.. pagaria cada qual o mesmo preço. A vida dêste herói. servindo-se dos seus despojos para pagar o que devia. ao qual um anjo apareceu por duas vêzes. Era êste o primeiro dano que êle infligia aos inimigos. o jovem. o israelita não se embaraçou para desquitar-se da dívida: irritado. refazendo a estrada. viu no cadáver do animal um enxame de abelhas e mel. não extinguia as tendências desregradas da natureza em Sansão. pelo que deixaria crescer os cabelos. Cresceu. Em vista da sua cabeleira.) Caso lhe pudessem explicar o sentido dêstes versas ao cabo dos sete dias de festa. onde matou trinta filisteus. Jz 13.14. A caminho desta localidade. tocava á sua mãe. se deveria abster de bebidas fermentadas e alimentos impuros. porém. quis esposar uma donzela fiistéia da cidade de Tamna.2-8. celebrava as núpcias em Tamna. 42). é muito marcada pelo maravilhosb. . At 21. separado). propâs aos trinta convivas do festim um enigma. predizendo o nascimento de um filho. à semelhança do que se costumava fazer no Oriente "Daquele que come. Já que o menino devia ser desde o início de sua existência consagrado ao Senhor. 43 "JuIzes". contra a vontade de seus pais. que não lhe dessem a interpretação. não há dúvida. dado. 41 entre os quais sobressai Sansão (cf. dizia-se que o nazireu trazia na Õabeça a consagração ao seu Deus (cf." (Jz 14. enquanto o gestava.7). enquanto o gestasse. observar a abstinência de bebidas em lugar do filho. pág. Seria consagrado ao Senhor desde o seio materno (nazireu). porque a função principal de quem governa um povo simples vem a ser o julgamento das causas. que êle matou com as próprias mãos. Havia na tribo de Dã um casal estéril. Ora. que eram homens ou mulheres consagrados a Deus por tríplice voto: abster-se de bebidas inebriantes e dos produtos da videira em geral. 44 No povo hebraico existia a categoria dos narireus (em hebraico."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 227 dicos de Israel. Núm 6. lhe arrancasse o segrêdo do enigma. foi certa vez acometido por um leão. não se contaminar pelo contato de cadáveres (cf. Chegado à idade viril. saiu o que se come. os trinta filisteus receberiam cada qual uma peça de roupa fina e uma túnica preciosa. Quando.1-16. Contudo. Ora o menino nasceu e foi chamado Sansão.31). foi a Ascalão. E do forte saiu o doce. e sua mãe. Dias mais tarde. coisa que ela obteve. nazir.

ataram-no com duas correntes e obrigaram-no a volver a mó de um moinho. resolveu punir de novo os filisteus: capturou trezentas rapôsas. O herói consentiu em que seus conacionais o ligassem com duas cordas nQvas e levassem ao acampamento dos filisteus. vigilantes. Os filisteus então f echaram as portas da cidade durante a noite e. apoderou-se das portas da cidade e. fazendo que os demais fugissem de mêdo. reuniram-se em seu templo. ao comparecer diante dêstes. Soube. Sansão rompeu seus liames. certa vez. Entrementes a cabeleira de Sansão crescia de novo e o vigor lhe voltava. porém. apanhou o primeiro objeto que encontrou . a altas horas Sansão saiu de casa. refugiado então na caverna de Etam (país de Judá). a vítima agarrou-se às duas colunas que sustentavam o teto da casa. apaixonou-se ilicitamente por uma mulher chamada Dalila. provàvelmente israelita.uma mandíbula de asno lançada ao chão . a cada par de caudas prendeu uma tocha acesa. mas também as videiras e oliveiras.. revelou-lhe que tudo dependia da sua cabeleira. Contudo. que estavam maduros para a messe. finalmente. Já sem fôrças. o israelita foi entregue aos inimigos. colocando-as sôbre os ombros. mas. o veemente incêndio provocado destruiu não só o grão. extinguindo-se desta forma. enquanto a escarneciam. Em outra ocasião. Os irmãos do herói prostrado lhe recolheram os despojos e os sepultaram no túmulo paterno. que lhe crivaram os olhos. voltou a Tamna para rever a espôsa. levou-as para uma montanha. pelo que.e com esta arma improvisada espancou mil adversários. devia perecer vítima da sua concupiscência. causou a morte de maior número de filisteus do que durante tôda a sua vida. Ora. Indignado. que êle amarrou duas a duas pela cauda. que. porém. fazendo desmoronar a construção. os filisteus resolveram festejar o seu deus Dagon pela vitória obtida sôbre o tenaz adversário. Com isto. Eis. os adversários queimaram viva a mulher de Sansão e exigiram dos homens de Judá que lhes entregassem tão perigoso inimigo. e deixou os animais assim atados debandar pelos campos de trigo dos filisteus. porém. Os fiisteus então muito insistiram para que ela se informasse a respeito do segrêdo da fôrça de Sansão. Êste. . o homem valente foi à cidade filistéia de Gaza e deteve-se em casa de uma meretriz.228 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Tempos depois. que fôra dada em matrimônio a outro homem. Levaram-no a Gaza. De volta à pátria. O herói. Em represália. Um belo dia. e sacudiu-as. aonde mandaram levar Sansão. aprestavam-se a matá-lo de madrugada. Sansão pereceu. mandaram cortar os cabelos do lutador adormecido.. como faziam as mulheres e os escravos.

as rapôsas e o asno teriam entrado na história de Sansão. Enquanto Sansão foi fiel ao Senhor e às obrigações do nazireato (entre outras. Em última análise. era assaz espalhado em Canaã sob as formas Shpsgyn (yn indicava a pertinência à Divindade). explica-se perfeitamente dentro do quadro religioso de Israel: deixar crescer o cabelo era um dos elementos do nazireato. que caiu em infidelidade (dando ocasião a que o despojassem da cabeleira). que o tornava vitorioso. A história de Sansão seria um canto tradicional dos filisteus levemente retocado pelo hagiógraf o. sol. arbitrárias. na cabeleira de Sansão mais do que um sinal . os episódios de Sansão contêm mais de uma alusão ao sol: o nome do lutador provém do hebraico shemesk. a título de ilustração. afirmam. as relações de Sansão com mulheres indicariam que o deus Sol é o deus da fecundidade e da geração. Miás. portanto. sejam aqui registradas algumas das mais curiosas explicações mitológicas: houve quem quisesse identificar a história de Sansão com o mito do Hércules grego. porém. Êste traço. em grau maior ou menor. tinha por figura central um herói cuja fôrça residia na cabeleira. Aparentemente fabulosa é a notícia de que a fôrça de Sansão residia em sua cabeleira. o texto sagrado mais de uma vez faz notar que o poder de Sansão . pois. O nome de Sansão. pois. ou entre Sansão e Re. simbolizam o sol 1 Outros preferiram traçar um paralelo entre Sansão e Gilgamesh. Não se queira ver. O autor sagrado haveria feito dêsse tipo pagão um nazireu israelita Já a variedade das tentativas de interpretação dá a entender que são.sinal de uma adesão de alma a Deus. significava a entrega ou consagração absoluta da criatura a Deus (a entrega era tal que não se queria cortar coisa nenhuma da pessoa consagrada). embora se derive de shemesk. o leão. deus egípcio. Ili-Shamshu. tornou-se tão fraco como qualquer homem. das quais. era o fato de que Sansão estava consagrado a Deus e se deixava mover pelo Senhor. porque. terão adotado um nome usual no seu ambiente. Elshps. instituição mosaica. Éste é um herói solar. era movido pelo Onipotente e se mostrava mais poderoso que tudo. Os pais do herói. a sua fórça extraordinária lhe provinha diretamente de Deus. Ora. os seus cabelos seriam a designação figurada dos raios do sol. não é necessàriamente indício da sobrevivência de algum mito solar em Israel. herói da Babilônia antiga. explicação folclórica: alguns autores recorrem às narrativas populares. sol. à de não cortar os cabelos). porém."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 229 A narrativa bíblica assim concebida tem inspirado interpretações diversas. em virtude das suas côres. desde.

indique a fé (no caso. Jz 14.4). Sansão. XIII e á de Sansão. pó-lo em contato com os adversários de Israel (ef.18s. ora mais ora menos acentuado. como observa expilcitamente o hagiágrafo. 45 Para realizar o prodígio final. 46 Após estas considerações. 16. nos tempos de Sansão. cidade bem vigiada.15). não pode deixar de decorrer num tom geral de sarcasmo. docilidade a Deus) como segrêdo das vitórias dêste Jui2. séc. É o que faz que o Apóstolo. e de suas correspondentes derrotas.230 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO descia diretamente do Altíssimo (cf. infligidas por um só israelita. Como quer que seja. esta já não era sinal.32. ser utilizado por Deus como instrumento para a realização de grandes obras. séc. divertindo-se à custa de Sansão. exercendo especial providência em tôrno do jovem. por sua infidelidade perdera o direito à tutela divina. inspirado ao herói pelo Senhor. 13. era simbolizada apenas pela conservação da cabeleira. vê-se que não há razão para negar a historicidade dos episódios de Sansão. ao refletir sôbre a história de Sansão em Hebr 11. £ste.25. 5045 Mesmo o desígnio de se casar com uma filistéia. 14. Xi). mas também de paixões desregradas e espírito mordaz. em oração humilde e confiante. Não há dúvida. ou seja. 14. Sansão foi descrito como o herói popular por excelência. a fidelidade que o Senhor pedia ao herói.8-10. nas subseqüentes gerações de Israel. despojando os próprios filisteus! A ironia vem a ser também apologia religiosa no episódio final: justamente quando os pagãos celebravam a festa de sua Divindade.14). arranca e carrega sôbre os ombros. Notem-se os traços de "humor" e sátira contidos na narrativa tal como a redigiu o povo e a consignou o hagiógrafo: o "humor" é muito vivo na cena dos campos que Sansão incendeia ateando tochas às caudas de rapôsas ligadas aos pares no episódio de Gaza. alguns versos disseminados pela narrativa são expressões desta sátira (cf. Sansão foi moralmente fraco e cometeu pecados.16. . reconhecendo que. pediu o auxílio de Deus. embora já tivesse recuperado a cabeleira. 15. a descrição das invectivas dos filisteus.19). cuja civilização era mais avançada que a de Israel (cf. 1 Sam 13. em particular. Todavia o nazireato de Sansão. cujas portas êle. era. intencionava. parece não ter jamais observado a primeira e a terceira das prescrições impostas aos nazireus em Núm 6: evitar o toque de cadáveres e o consumo de vinho (cf. a lei do nazireato ainda não impunha tOdas as obrigações consignadas em Núm 6 (êste capitulo poderia referir determinações posteriores á época de Moisés. Jz 14. Parece inegável.619.19-22). 46 Julgam alguns exegetas que. porém. conforme um grande plano. rejeitado pelos pais de Sansão. não obstante. muitos episódios da história sagrada demonstram que um homem pode ter graves falhas morais e. 15. observe-se que Sansão paga sua dívida aos trinta filisteus. saindo à noite. dotado de coragem a tôda prova. que a fantasia popular explorou com deleite os feitos portentosos da história.

a manifestação de que "a fôrça de Deus se expande em plenitude na fraqueza do homem que se Lhe confia" (cf.poder-se-ia dizer . . 2 Cor 12. É . conforme a mentalidade do Antigo Testamento.nesta frase paulina que se compendia a mensagem perene da história de Sansão."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 231 freram a maior de suas perdas. a mais clara demonstração da inanidade do ídolo. torna-se.9). o desabamento do templo de Dagon ocasionado por um homem prisioneiro e cego que Javé movia.

o Senhor Deus não quis privar os fiéis do conhecimento exato de sua Palavra únicamente por motivo de preparo intelectual. o ideal seria ler a Escritura no seu teor original . sem as quais mais ou menos vão ficaria o contato com as páginas sagradas.0 OS PRESSUPOSTOS DE FRUTUOSA LEITURA Sagrada. PRÈ-REQUISITOS NATURAIS A . acrescentando normas práticas para o uso da Escritura (§ 2. não se lê como outro livro. Como acontece com qualquer obra literária.humano e divino . pois. traduções vernáculas. Êste privilégio. é reservado a poucos. Eis. porém. aramaico ou grego. Levando. o leitor deverá dar atenção aos predicados do texto que utilizará. E quais seriam as mais recomendáveis? Infelizmente. antes do mais. 1. os pressupostos de contato fecundo com a mesma são de Consoante os dois aspectos . 0) e elementos de uma antologia bíblica (§ 3 . que êste último capítulo examinará tais pré-requisitos Q 1. e nos nossos dias em números assaz notável. em conta a indigência humana. O texto lusitano dito de João Ferreira d'Almeida se deve a um pastor calvinista que nasceu em Lisboa (1628) e viveu muito .da Bíblia ordem natural e sobrenatural. Existem.CAFÍTULO XIV COMO LEREI A BÍBLIA? As indicações de ordem filológica. O fato de que é obra divino-humana requer do leitor disposições próprias. § 1. A Sagrada Escritura. 0) . cujo uso supre adequadamente o dos textos originais da Sagrada Escritura. porém. seja religioso. promovendo a leitura assídua e frutuosa da Palavra de Deus. a língua portuguêsa até hoje não conta uma tradução satisfatória da Bíblia. seja profano.hebraico.Boa edição do texto sagrado.0). histórica e científica apresentadas nos capítulos anteriores convergem tôdas para um fim: aproximar do texto sagrado o fiel cristão. Está claro que. pois.

recorram às versões do original existentes em outros idiomas modernos. Embora tivesse a intenção de seguir os originais bíblicos. enquanto as de L. rue de la Planche.). principalmente expressões holandesas. tradução de Catholic Biblical Association of America (Paterson. Rio de Janeiro. em inglês: 2'/ie Holy Bible. devendo estar completo dentro de alguns anos. As demais traduções portuguêsas da Bíblia inteira (Pereira de Figueiredo. 1 herdando as falhas de versão que já esta apresenta. U.S. o novo texto tem saído aos fascículos. Bélgica) serve-se de linguagem muito viva. Ê. Já apareceram os 1 Tradução dos originais confeccionada por S. O texto do Novo Testamento foi publicado em 1681 e o do Antigo em 1748 (edição póstuma). acompanhado de valiosas páginas introdutórias. dando assim ao público uma obra de terceira ou quarta mão. Bonsirven e Tricot (Desclée. La Sainte Rible. Paris) apresentam um texto digno de todo o aprêço.A. rigorosamente exata do ponto de vista exegético. Jerônimo no séc. Matos Soares) se baseiam na Vulgata latina. familiar. Embora muitos encómios mereça. 1951) procede diretamente do original hebraico. redigida em estilo francês muito agradável e acompanhada de valiosas notas e introduções. hierática e é dotada de ótima introdução. holandesa e outras. elaborada sob a direção da Escola Bíblica de Jerusalém. É êste o texto geralmente editado pelas Sociedades Bíblicas Protestantes. fala urna linguagem pouco usual ao leitor moderno e carregada de estrangeirismos. apenas o livro dos Salmos se encontra em forma vernácula de todo louvável: a edição de E.234 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tempo na Holanda. Fora o Novo Testamento. Tournai. "Les Éditions du Cerf. Paulo. V. La Sainte Bible de Maredsous (Namur. não receando por isto afastar-se de certas formas usuais nas traduções anteriores. 1956. com interêsse que o público acompanha a publicação de nova tradução vernácula dos originais bíblicos devida à Liga de Estudos Bíblicos (5. . New Jersey. 1947) reproduzem com tôda a fidelidade possível o texto latino judiciosamente confeccionado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1945). Paulo. pois." Paris. é muito de aconselhar às pessoas que o possam. que tem sido bem apresentado em português. usa de linguagem solene. Eis o que se poderia indicar a propósito: em Irancês A Biblia dita "de Jerusalém". Vofl (Universidade Católica de S. Paulo) em colaboração com a Editôra AGIR. 1947) e Pickel-Beltrão (5. Pirot-Clamer (2. o tradutor serviu-se de traduções já existentes castelhano. a partir de 1952. Na falta de boa tradução portuguêsa. o antigo tradutor não dispunha dos recursos e conhecimentos com os quais contam os filólogos modernos. traduzida por Crampon. 1952). Franca (AGIR.

estão anunciados para 1957.COMO LEREI A BÍBLIA? 235 vois. A tradução do Antigo Testamento é devida a flus Parsch. que só pode ser uma. 1 (de Gên a Rut) e III (livros sapienciais). Katholische Familienbibel. a J. 1947). colocado a sós diante da Bíblia. A Biblia em três volumes. 1949). Calvino. Sagrada Biblia (Madrid. dois volumes na coleção "Biblioteca de Autores Cristianos" (Madrid. Das Neue Testament (Paderborn. El Nuevo Testamento según ei texto original griego (Buenos Aires. já não encontra nestes a Palavra de Deus. É o que se verifica fora da Igreja Católica. Die Heilige Schrift des Alten una Neuen Testamentes (Mainz. dela tira o que bem lhe agrada (crenças contrárias umas às outras). II e IV. dentro da qual ela se originou e até hoje se conservou (cf. 3 vois. o recurso a tradução fiel é de grande importância. nas denominações cristãs que a partir do séc. Heiwe.Noções introdutórias. bem como o Novo Testamento. Sagrada Biblia. os vols. pois a Bíblia é patrimônio da Santa Igreja. Zwingli) vieram à luz e hoje pululam: cada inovador de religião. sob os auspicios do Pontifício Instituto Bibilco de Roma (tradução começada em 1923. Roscb. Vaccari. Schafer. Quem não aceita o testemunho da tradição na interpretação dos livros sagrados. em espanhol: Nácar Fuster-Colunga. ainda em curso de publicação). (larofalo-Rinaldi. não a Verdade. págs. B . portadora de problemas que os originais não suscitam. em italiano: A. La Sacra Bibbia ( a partir de 1949. 1948). Altes una Neues Testament (Zürich. de "Klosterneuburger Bibelapostolat". ainda em elaboração). XVI (Lutero. El Antiguo Testamento. Straubinger. a do Novo. Bover-Cantera. Das Alte Testament (Paderborn/Wien. Klosterneuburg bel Wien 1951/2. 1947). Quem empreendesse a leitura de uma obra clássica sem tomar conhecimento prévio da personalidade do autor e das circunstân- . traduccion directa de los textos primitivos (Buenos Aires. La Sacra Bibbia. é tesouro inseparável da tradição oral. Está claro que o texto utilizado pelos fiéis católicos será sempre acompanhado de notas explicativas e aprovação eclesiástica. 1952). 1953). 1947/1949). 1951). 21-23). Em suma. em alemão: Riessler-Storr. Observa-se que boa parte das dificuldades experimentadas pelo leitor moderno ao abordar a Bíblia provém do fato de lhe ser esta transmitida em forma vernácula imperfeita.

xv . os veios que unem o primeiro ao segundo Adão (Cristo). Entre as tarefas de iniciação bíblica. datas e localidades de menor importância ocorrentes na leitura. publicada pela Editâra das Américas (São Paulo. é suficiente para a frutuosa compreensão da Palavra de Deus. vejam-se os vois. dispõe dos pontos cardeais para se orientar diante de alusões a personagens. Compreende-se que o mesmo se dê. Tellier. por meio do veículo.C. PRÉ-REQUISITOS SOBRENATURAIS As normas acima seriam suficientes para se fazer uma leitura proveitosa da Bíblia. An2 sources bibliques (Paris2. 1948). recomenda-se P. Valioso é também um Atlas bíblico. os Profetas de Israel. passando pelos Patriarcas. 85. 2 Esta exigência não implica estudos longos e sutis. Guide Biblique (Maredsous. dever-se-ia mesmo acrescentar que. incumbência a que nem todos se podem entregar. visa apenas as noções necessárias para que o leitor possa levar devidamente em conta o aspecto humano que a Palavra de Deus quis tomar e assim. 1951) Robert-Tricot. então. 1 da nossa era. 1954). arriscar-se-ia a não a entender ou interpretá-la falsamente.Joly. pois. Quem possui em seu espírito (ou. L'Átlas hisforique: de l'Áncien Testameijt. XIII a. livros ditados por mentalidade e leis de estilo bem diversas das do homem contemporâneo. retendo na memória os poucos marcos ou as etapas que sucessivamente lhes vão imprimindo o seu aspecto característico (vejam-se as tabelas às págs. também em fôlha de papel colocada junto ao texto bíblico) a recordação dêsses grandes marcos (alguns nomes e datas). isto é. Torna-se. quando se trata de ler uma biblioteca oriunda entre o séc. Procure formar em sua mente o quadro geral dêsses séculos. e o séc. pois o leitor perceberá melhor o que implicam. indispensável um mínimo de "iniciação bíblica". 257-260). 1951). tal como o proporcionam opúsculos modernos. certas denominações ou frases breves lhe falarão imediatamente com nova linguagem. com estudos biblicos adicionais (colaboração de professôres de Exegese do Brasil). quanto mais se cul2 Em português. Chrcnologic et géographie (Paris. E. Passelecq. consiga chegar ao cerne do Livro sagrado. empreendido à luz de poucos• conhecimentos essenciais e com as disposições de espírito abaixo enunciadas. Spes. . ed. 1950). Em francês. os Reis. é de crer que isto se possa fazer sem grande esfôrço. 2. A experiência ensina que o contato assíduo com a Sagrada Escritura mesma.236 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO elas em que escreveu. Os ditos volumes contêm "Introdução Geral e Especial aos livros do Antigo e do Novo Testamento". muito se recomenda ao leitor queira fixar na mente as grandes linhas da história sagrada. como o de P. para maior segurança e ef icácia. caso esta fôsse livro meramente humano. e XVI da Biblia Sagrada (versão de Pereira de Figueiredo). xiv. Initiation bibliqve (Paris3.

e. digo. Quando Deus te vir movido por tão ardente anelo. os frutos de união com Deus.." 3 O zêlo. Bem se entende esta proposição se se tem em vista que a Sagrada Escritura constitui um sacramental. são os pré-requisitos sobrenaturais os que mais concorrem para o autêntico desfrutamento dos livros sagrados.30s) É impossivel. além de apresentar disposições naturais. Acontece. o grau de fé e amor sobrenaturais do cristão que a ela se aplica. fale no íntimo da alma. ainda que não haja homem capaz de te explicar o que procuras. .C0M0 LEREI A BÍBLIA? 237 tivassem as disposições enunciadas. torna-se melhor. procura alguém mais sábio. a Bíblia C o Livro de Deus. É S.. tanto mais fruto se retiraria das Escrituras. Ainda breve observação decorre destas premissas: a leitura das páginas sagradas pode ser grandemente útil e valiosa mesmo quando o leitor não entenda todo o sentido do texto bíblico. manifesta teu grande desejo. mas. At 8. lucras grande santificação pela leitura mesma. não são senão manifestações da fé e da caridade pressupostas no leitor da Escritura Sagrada.. a aborda com espírito religioso. frutos que a Escritura tende primàriamente a outorgar. antes do mais. porém. que alguém fique sem fruto se se dá zelosamente à leitura atenta e freqüente das Escrituras. vai ter com um mestre. que. Por conseguinte. Se nem mesmo pela assiduidade da leitura chegares a compreender o que está escrito. serm. Em última análise. dizem. Donde se segue que ela só revela seu conteúdo profundo a quem. são os que o leitor mais há de procurar desenvolver em si.2s. pois Deus lhe fala por aquéles escritos. purificado. 3. Ële mesmo certamente o revelará a ti.. é impossivel. a solicitude apontados pelo Santo Doutor como condições para que Deus. sim. às disposições religiosas do leitor. não desprezará tua vigilância e solicitude. João Crisóstomo (t 407) quem o ensina: "Quem se entrega a uma leitura atenta (dos santos Evangelhos) é como que introduzido num templo sagrado. são colhidos em medida correspondente. Que acontecerá. é iniciado nas coisas de Deus. se não entendemos o que os livros (sagrados) contém? Mesmo que não compreendas o que néles está depositado.. Isto implica que não será em primeiro lugar a perspicácia da inteligência humana que conseguirá desvendar o sentido das passagens obscuras da Bíblia. Lembra-te do eunuco da rainha da Etiópia (ci. em sua realidade mais íntima. na falta de instrumentos humanos. Ora todo sacramental é sinal sensível que comunica a graça não pelo seu mero uso ou aplicação. 3 De Lazaro. mas na estrita proporçâo da fé e da caridade com que os fiéis o usam.

Gourbilion. pouco importa o pecado passado. veja-se também 1 . creia na Santa Igreja.tema de que fala a Escritura. que guia e santifica a Igreja. que é o conteúdo do Livro Sagrado. não pusilânime (sem. A primeira cena da Biblia após a criação é a história de um pecado. a história do pecado ã qual se segue a promessa de perdão." 3. 5 pois cria conaturalidade com o SenhQr e com os atributos. A pureza de coração (como diz Jesus no Evangelho) faz ver a Deus. desde que para o futuro nos saibamos 'guardar puros das nódoas dêste mundo' e viver no Amor e na Misericórdia. "Un itinéraire". assim como a de se defrontar com as mistérios da Sabedoria de Deus.Jo 3. crítica da texto.-O. na ordem sobrenatural é a caridade ou o amor de Deus que abre o ôlho da mente.. etc. Impossivel nos teria sido viver na intimidade de Jesus. Mt 5. A fé aceita de antemão a possibilidade de não compreender imediatamente o significado das páginas sagradas. ora por narrar a condescendência do Mesmo com a pequenez do homem. isto te deve dar confiança. aos corajosos. pois sabe que tais questões têm solução. por isto. ou muito mais. cair na temeridade). A fé autêntica se mostra forte e confiante. é a promessa do reino aos pequenlnos. que lhe entrega êsse Livro qual depositária e autêntica intérprete do mesmo. 5 Cf. sua genuinidade. Mais brevemente: creia nas duas proposições explanadas às págs. história das religiões. em Commeitt tire la Bible ( Paris) 43. assim. Já na ordem natural é o amor que leva o homem a procurar o objeto amado a fim de o contemplar de perto e desfrutar. aos fiéis.238 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Impõe-se agora breve análise daquilo que implicam estas duas disposições A fé. Para conseguir o intento. ou melhor. embora não sempre aflore à primeira pesquisa. míseros homens. as obras do Senhor . . o amor a Deus move naturalmente o cristão a purificar a sua mente e O seu afeto de qualquer imagem ou inclinação alheia à santidade do Altíssimo. no caso. antes permaneça por muito tempo velada. 4 "Não receies (6 cristão) cotejar por vézes ria Bíblia grandes pecadores. De resto. por pouco que conheças tua própria ffiiséria. b) inseparável da fé viva é a caridade. A Biblia é a história da misericórdia. seu valor pedagógico) algum juízo ditado inicamente pela razão humana. " A fé não receia considerar de frente os problemas aparentemente mais intrincados de exegese. 19-24 dêste estudo. creia no Espírito Santo. e possibilita ao cristão penetrar mais e mais o sentido das verdades encerradas nos textos bíblicos ou nas fórmulas dogmáticas. importa creia o leitor no Cristo.2s. sem encontrarmos a Madalena junto à virgem. que é a miséria comum de todos os homens.8. Tal fé opõe-se ao orgulho inteletual ou à pretensão de querer proferir sôbre os textos bíblicos (seu sentido. mistérios que desnorteiam. ora por propor a transcendência do Altíssimo. aguça a visão da fé.

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O mesmo amor incita à perseverán.ça na leitura da Bíblia. A assiduidade regular e fiel é condição importante para que haja aproveitamento da Palavra de Deus. Não fique o leitor detido em textos que momentâneamente êle não entenda, mas passe adiante, sem perder ânimo. Em ulterior leitura, voltando aos mesmos trechos, terá possivelmente adquirido maior afinidade com o Espírito e a Palavra de Deus; estará então habilitado a perceber o sentido do que antes lhe era impérvio. Por fim, ainda sob o ditame do amor, a leitura da Biblia há de se processar numa atmosfera de oração; o uso dos sacramentais constitui, sim, uma das atuações do espírito de oração do cristão. É, pois, de recomendar que, ao abrir o livro inspirado, o leitor eleve a mente a Deus, pedindo-lhe as devidas disposições para entrar em comunhão com a sua Palavra; faça o mesmo, solicite luz do espírito, ao se defrontar com algum texto particularmente difícil ou rico de sentido; o Mestre interior nessas ocasiões há de ser interrogado com a diligência que a caridade desperta. Independentemente, porém, das dificuldades que o texto sagrado ofereça, a leitura da Palavra de Deus deve habitualmente desabrochar numa prece; ela é nutrimento não só para a inteligência, mas também para a vontade; esta, portanto, sob qualquer de suas expressões (ato de adoração, complacência, gratidão, anelo, contrição), há de se afirmar, depois de estimulada pelo contato do texto sagrado. Por conseguinte, se a graça o inspirar, o discípulo de Crísto intercalará em sua leitura oportunas elevações a Deus; caso não, rezará ao menos ao concluir. S. Agostinho, numa passagem das Confissões, deixava entrever algo de seu ânimo interior ao ler a Sagrada Escritura:
"No principio fizeste o céu e a terra. Moisés escreveu isto (cf. Gên 1,1), escreveu e se foi; passou dêste mundo a Ti. Já não se encontra diante de mim; se aqui estivesse, a êle recorreria, interrogá-lo-ia, e pedir-lhe-ia em teu nome que me explicasse essas palavras; aplicaria os ouvidos de meu corpo aos sons que prorrompessem de seus lábios,.. Já, porém, que não o posso interrogar, é a Ti que me dirijo, ó Deus meu, Verdade da qual êle estava penetrado para poder afirmar proposiç6es verdadeiras. Rogo-te, perdoa os meus pecados, e Tu, que àquele teu servo deste proferir tais palavras, dá a mim também a graça de as compreender." (11,3.) É de notar ainda que os Sumos Pontífices, a fim de mais e mais aproximar da Biblia Os fiéis, enriqueceram com indulgências a leitura devota da Sagrada Escritura: quem leia diàriamente, por quinze minutos ao menos, o Santo Evangelho, ganha de cada vez 300 dias de Indulgência. Quem assim o leia durante um mês inteiro, lucra Indulgência plenária.

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§ 2." ITINERARIO ATRAVÉS DA BÍBLIA Uma norma válida para a leitura profícua de qualquer obra se aplica com particular insistência ao uso da Bíblia Sagrada: quem deseje realmente adquirir conhecimento do Livro de Deus não se pode contentar com leituras feitas a êsmo ou segundo inspiração momentânea, embora com assiduidade e periodicidade. Pouco aconselhável, portanto, seria querer "pescar" simplesmente trechos belos, edificantes, sem visar a sistematização da leitura, pois, como diz o Apóstolo, "Deus não é Deus de desordem" (1 Cor 14,33). É preciso que o cristão apreenda a trama, o fio central da Escritura, e tenda ao conhecimento de todos os livros sagrados; saiba oportunamente nutrir-se de cada um, embora possa conservar suas preferências por êste ou aquêle em particular, cuja doutrina mais o sustente. Qual seria, portanto, a ordem ideal a se observar na leitura da Bíblia? As indicações aqui sugeridas não poderão ser muito minuciosas, visto que há um Mestre interior em cada crist&o, 6 o qual guia cada alma por vereda própria, adaptada à sua personalidade, ao seu tipo de espiritualidade. Eis, porém, algumas diretivas certamente úteis a todos os fiéis: A primeira leitura há de ser leitura cursiva, visando proporcionar uma visão de conjunto e dispensando-se de demoradas pesquisas. Não se prenda o cristão a muitos pormenores (certos números, questões de crítica do texto, arqueologia, ciências naturais ... ), pormenores que talvez chamem a atenção de quem está imbuído da mentalidade do séc. XX, mas não tinham grande importância para o autor antigo e não constituíam o objeto primário de suas afirmações. Detendo-se muito em tais minúcias, o principiante arriscar-se-ia a não ver as grandes linhas da Escritura, linhas religiosas, teológicas, para as quais em primeiro lugar se deve voltar o seu interêsse. Mais tarde poderá, sem detrimento da autêntica perspectiva, abordar êsses problemas. Pode haver leitores que lucrem seguindo a série dos livros como se acham nas edições da Bíblia, a partir do Gênesis até o Apocalipse. Contudo, abstração feita de casos particulares, é de aconselhar que se comece pelas seções da Escritura que a nós, cristãos, mais familiares são: os livros do Novo Testamento. Quem quisesse simplesmente ler a Bíblia página por página na ordem em que estas se apresentam, expor-se-ia a conceber, em breve, fastio por não perceber o significado autêntico de muitas passagens. Aliás, seja lícito advertir: em qualquer sistema, os
6 Ê o que principalmente S. Agostinho lembra em suas obras (ef. in lo tr. 1,8; De vita beata, 4,35; De magistro, 12,38.40; Soliloq., 1,1,1).

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livros do Antigo Testamento deverão ser udos à luz da Revelação cristã, que êles prenunciam e sem a qual não se explicam. No Novo Testamento, dar-se-á a primazia aos Evangelhos sinópticos (Mt, Mc e Lc), os quais poderão ser lidos ou separada ou conjuntamente (isto é, considerando-se ao mesmo tempo os textos paralelos). Par-se-á seguir o livro dos Atos dos Apóstolos, que continua a narrativa dos Evangelhos. Constituída esta base histórica, abordar-se-á o Evangelho de S. João, que já apresenta a história "meditada", contemplada de um ponto de vista superior ou da eternidade. Logo depois, estarão a propósito as três epístolas do mesmo Apóstolo, que são reflexões e exortações no estilo do quarto Evangelho. Acrescentar-se-ão as cartas de S. Paulo em sua ordem cronológica, a saber: 1/2 Tes, Gál, 1/2 Cor, Rom, epístolas do cativeiro (Ef, Col, FIm, Flp), epístolas pastorais (1 Tim, Tit, 2 Tim); no fim, leia-se a epístola aos Hebreus, que, embora seja de inspiração paulína, não parece redigida por S. Paulo. £stes escritos falam todos da continuada presença de Cristo entre os homens, não Mais em sua natureza mortal, mas em seu Corpo Místico; tratam da aplicação dos frutos da Redenção à Sociedade e a cada individuo em particular. As epístolas ditas "católicas" 8 desenvolvem o mesmo temário. Quanto ao Apocalipse de S. João, que esboça o têrmo final da história, poderá ser lido depois das cartas dos Apóstolos. Não há, porém, inconveniente em se diferir a leitura dêste livro até que se tenha tomado conhecimento dos demais escritos bíblicos; com efeito, o Apocalipse constitui como que uma recapitulação de tôda a Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento: faz reviver os temas do paraíso terrestre (cf. Apc 22,1-4 e Gên 2,8-15), de Jerusalém, Cidade de Deus (cf. Apc 21,2-22,5 e Is 60,1-22), da Espósa do Senhor (cf. Apc 19,7; 21,2 e Is 62,4s; Os 2,21s, os profetas em geral), do tabernáculo do Altíssimo (cf. Apc 21,3s e Lx 25,1-27) e outros; donde se vê quanto é oportuno conheça o leitor o fundo de idéias a que alude. A leitura 'do Antigo Testamento, conforme alguns autores, pode ser intercalada na do Novo, tomando-se alternadamente livros ou seções desta e daquela parte da Bíblia. Tal praxe visa
7 Fala-se de "Evangelhos sinópticos", porque os très mencionados livros, justapostos entre si, fornecem numerosas passagens paralelas, seguindo uma trama comum para descrever a vida de Jesus. Há edições que os alinham em três colunas verticais, proporcionando a visão de conjunto dos paralelos ou a "sinopse". Entre outras, note-se a de Lavergne-Lagrange (texto francês). "Católicas" (= gerais, universais), porque são cartas encíclicas, dirigidas a vários destinatários, não a uma única comunidade.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

criar desde o início o hábito de se considerarem Antigo e Novo Testamento como indispensáveis ao cristão e complementares um ao outro. O método poderá tornar-se fecundo...; será preciso, porém, que o leitor se acautele contra o perigo de dispersar desregradamente a atenção ou contra o risco de perder de vista o seu roteiro, a linha una das Escrituras.
Não hâ 1düvida, por exemplo, de que a cena da anunciação do anjo a Maria, no Novo Testamento (Lc 1,26-38), toma relêvo muito vivo para o leitor que haja prêviamente considerado os textos das promessas feitas a DavI (ef. 2 5am 7; SI 88,20-38; Jer 23,5; Ez 34,24; Os 3,5) e as narrativas de anunciações divinas ou angélicas do Antigo Testamento (cf. Gên 18,9-15; 21,14-20; Jz 13,2-25; Is 7,13-16). A alegoria do Bom Pastor (Jo 10,1-18), nos lábios de Cristo, torna-se bem significativa para quem leia concomitantemente as passagens de Miquéias (7,14-20), Isaias (40,11), Ezequiel (34,1-31) e Jeremias (23,1-4) concernentes ao mesmo tema. As palavras de Jesus sõbre a cruz (cf. Mt 27; Mc 15; Lc 23; J'o 19), assim como os pormenores da Paixão, são ilustrados pelos salmos, que nos revelam principalmente a atitude interior de Jesus naquele quadro de sofrimento (cf. 8115; 21; 30; 68).

A respeito do livro dos Salmos, porém, impõe-se uma observação. Éstes cânticos constituem como que o âmago da Escritura ou, se quisermos, o seu remate; com efeito, dizem brevemente o que os demais livros bíblicos comunicam; dizem-no, porém, sob a forma de oração, elevação da alma, que louva a Deus após haver considerado tudo que Lie fêz na história sagrada, e pede-Lhe ainda realize o que prometeu realizar no futuro. É pelos salmos que o cristão aprende a rezar como Cristo rezou, pois Jesus recitava os salmos com o seu povo (cf. Mt 27,46; Lc 23,46; Mt 26,30; Jo 13,18; 15,25; Hebr 10,5-9); é por êles que o cristão se acostuma a orar como a Santa Igreja ora. Por conseguinte, desde o primeiro contato com a Escritura, o saltério não sàmente pode, mas deve ser utilizado na vida de oração do lèitor. 5. No Antigo Testamento, como no Novo, têm prioridade os livros históricos, dispostos na ordem seguinte: Gênesis, 2xodo, Números, Josué, JuIzes, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Macabeus. Ler-se-ão, a seguir, quatro opúsculos que ainda referem história, não, porém, a história geral do povo de Deus, como os recém-citados, mas episódios particulares, edificantes, redigidos em vista da catequese ou do ensinamento dogmático: Rute, Tobias, Judite e Ester. Depois de haver percorrido êstes livros por extenso, o leitor muito ganhará em voltar a sua atenção para resumos da história sagrada que a Escritura mesma apresenta, não raro em estilo meditativo ou de oração. Tais compêndios são, entre outros: SI

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67.77.103-105.1345; Ez 20,1-44; Sab 10,1-12-27; 16,1-19,22; Edo 44,1-50,24; Jdt 5,5-25; At 7,1-53; Hebr 11,1-40. Tornar-se-á então oportuna a leitura dos Profetas, pois êstes, de um lado, ajudam a reconstituir os quadros descritos pelos livros históricos e, por outro lado, só podem ser entendidos se recolocados dentro das circunstâncias históricas em que apareceram. Adote-se a ordem cronológica, que, com probabilidade, é a seguinte: Naum (ca. 620-612) Amós (ca. 760-750) Habacuque (ca. 605-600) Oséias (ca. 750-725) Ezequiel (ca. 593-570) Isaías (ca. 740-603) Daniel (605-536) Miquéias (ca. 735-690) Ageu (ca. 520-518) Sofonias (ca. 630) Zacarias (ca. 520-518) Jeremias (ca. 626-586) Malaquias (ca. 450-430) Baruque (ca. 626-586) Abdias, Joel e Jonas (data incerta) Incontestàvelmente, a leitura dos Profetas não é fácil, e Isto por
vários motivos os Profetas aludem a muitos pormenores da história antiga, localidades geogrãficas e personagens que não nos é possível Identificar com segurança; o estilo dos Profetas; quando predizem o porvir, é geralmente obscuro; reuniam numa só descrição traços de acontecimentos análogos entre si, mas distanciados uns dos outros pelo Intervalo de muitos séculos; assim a restauração do povo de Israel exilado na Babilônia é predita com tópicos que caracterizam a grande libertação, ou seja, a Redenção do pecado e a Instauração do reino glorioso do Messias (haja vista Is 40,1-10; 41,14-20; 44,24-45,25 ... ) ; e) os Profetas se serviam de numerosas imagens, hipérboles e outros artifícios da arte poética; d) os vaticinios, como se encontram hoje nos respectivos livros, não estão sempre dispostos em ordem cronológica.

Em seguida, o leitor passará aos livros sapienciais: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico. 10 Visto serem escritos que ensinam máximas de vida prática ou revolvem questões filosófico-teológicas, não tem importância decisiva a respectiva ordem cronológica; observe-se, porém, que Já e EcI têm afinidade entre si por tratarem do tema do sofrimento e da felicidade neste mundo; Prov e Edo são coleções de normas de prudência, mais esmeradas e desenvolvidas em Edo do que em Prov. O fecho se fará com os livros do Levítico e do Deuteronômio, cujo conteúdo requer um espírito já familiarizado com o Antigo Testamento ou um leitor que já tenha aprendido a "ler" a Lei
O

10

A respeito de Daniel, haja vista a observação das págs. leis. 0 Saltério já se supõe familiar aos leitores de tais livros.

uma obra bem redigida que. manuseio e entendimento da Escritura tornar-se-ão mais rápidos e eficientes. portanto. à história completa do Messias. como dito. Contudo. pro- . desde que isto lhe seja lícito. como se sabe. Estas passagens. ou seja. desdobrada no Novo. O Apocalipse. se podem percorrer ràpidamente ou saltar trechos concernentes a recenseamentos. Estas seções de escol variam segundo a índole de cada um dos fiéis. se comportam na Bíblia como arcabouço ou vigas de ligação que dão consistência ao conjunto. junto com determinado texto. era necessário que os hagiógrafos tecessem a moldura etnográfica. medidas. Tais seções seriam. muito recomendável é o seguinte expediente: tome o leitor.alguns mestres: não receie o leitor. geográfica. servindo-se de fontes bíblicas e extrabíblicas. o leitor vá anotando em fôlha à parte ou em caderninho os trechos que mais lhe "sabem" ou mais o "impressionam". Dt 12-26. o leitor terá. apreendemos também mais claramente o Messias como Irmão nosso. genealogias. existe para servir ao homem. por exemplo: Éx 21-31. civil. a fim de que os grandes vultos portadores de mensagem messiânica pudessem ter pleno significado para nós. Anote outrossim nas margens de cada página as seções paralelas ou complementares de tal ou tal passagem. ao tomar contato com o texto sagrado. Mais audaciosamente aconselham . assim compreendemo-los melhor. pois a Bíblia foi tôda redigida em função do Messias e de sua obra.244 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO mosâica.e com razão . assinalar os seus "trechos vitais" com marcas a lápis feitas no livro sagrado. Note-se ainda que. temas que tornariam um tanto enfadonho o contato inicial com «Antigo Testamento. 35-40. obra antecipada no Antigo Testainento. As seções acima enunciadas. poderá ser reservado para o último lugar. visando melhor aproveitamento da Palavra de Deus. Ez 4048 (excetuado o bloco 47. 1 Crôn 1-9. para o futuro. Mais três sugestões práticas parecem vir a propósito: é de vantagem que. a fim de se consolidar o conhecimento do texto sagrado após uma ou mais leituras diretas da Bíblia.. por ocasião da primeira leitura. caso o possa. etc.1-12). leis rituais. Assim o volume da Escritura poderá eventualmente fornecer sem delongas o alimento que o cristão dêle aguarda. descrição do mobiliário sagrado. em que aquêles aparecéram na história. êste é instrumento de trabalho e nutrição espiritual. os trechos bíblicos que o comentam. não versam sôbre o tema principal da Escritura. cada qual as consignará para seu uso particular.

Ricciotti. Historia biblica. concorre grandemente para aprofundar o conhecimento da Sagrada Escritura a leitura imediata de versículos que se encontrem mencionados em alguma monografia. A. 12 assim permanecerá em contínuo contato com o livro inspirado. De resto. História do Povo de Israel (Petrópolis. a experiéncia mesma e. minúcias ou também grandes idéias que até então não havia percebido. Ao se defrontar com tais indicações. etc. (Paris. 1940) Kuss-Muller. 1938). É. 12 Éste trabalho acarreta a freqüente interrupção da leitura. anacronismos. indispensável para a melhor compreensão do tema. ' uma obra dessas não deixa de ser um compêndio agradável de exegese dos livros históricos e de boa parte dos escritos proféticos. . 1951). c) será igualmente profícuo gravar aos poucos no espírito os números (de capítulo e versículos) que caracterizam as seções de maior importância. Bonsirven. L. Th4ologie da Nouveau Testament (Paris. o que é de notável vantagem. por esta. Histoire d'israel. (Paris. § 3. Autor e Mestre das Escrituras. abordando-o por via diversa da habitual.-Rops. ceppi. (Barcelona2. O mesmo poderá ser feito tomando-se por base um manual de teologia bíblica do Antigo ou do Novo Testamento. van Imschoot. mbora esta lhe recorde em linhas gerais o conteúdo da passagem citada. Eis o que tentarão as páginas seguintes. Theologie des . Heinisch. Valiosa é também a obra clássica de Bossuet (t 1704). o leitor tomará o cuidado de compulsar os textos bíblicos a que aluda o historiador. 1947 e 1948) . 13 Em geral. Schuster-Holzammer. se encarregarão de manifestar ao leitor outros expedientes valiosos para que mais e mais possa desfrutar o conteúdo sempre fecundo das páginas sagradas. saberá com certa desenvoltura reconstituir o contexto de determinada passagem. tome 1 (Dieu). Lendo-a. 3 vols. O Povo Biblico (Põrto. Fillion. J. 1927 e 1928). Ttidologie de t'Ancjen Testament. 1945). não queira o leitor confiar na memória.-Cl. Doctrine da Nouveau Testament (Paris. 1946 e 1947) D. Discours sur l'histoire universeile. 2 vols. o Espírito de Deus. pode com facilidade voltar a tais trechos. principalmente de teologia ou história bíblica. (Paris2. vá diretamente ao texto. 1946) . evitando errôneas associações de textos. P. 13 Notem-se P. e não raro ficará agradãvelmente surprêso por encontrar neste matizes. Quem assim procede. muito pode valer a indicação das mais belas passagens da Escritura. Histoire d'israel. agrupando seções 11 Merecem menção: G.4lten Testamentes (Bonn. 1954) .° PEQUENA ANTOLOGIA BÍBLICA Para despertar quanto possível o interêsse pelo texto sagrado. porém. 2 vois.COMO LEREI A BtELIA? 245 cure reconstituir a história de Israel.

1-2.1-5.26.6-11. Jer 23.1-31 (cf. At 14.942. mesmo dentre aquêles julgamos supérfluo citar algumas passagens muito conhecidas dos primeiras livros biblicos. 5. o crocodilo: Já 40.1-9 (cf.20. IL DEUSEOMUNDO A eficácia da Palavra de Deus: Is 55.1-16. Jer 23.2231. O Senhor rege a natureza: Já 9. obra de O. é imprescindível lê-las em tradução fiel. a águia: Já 39. Onisciente e Onipresente: 51 138.1-15.3. Prov 8 .15-24. DEUS E OS HOMENS O Deus que governa a criatura humana: Já 12. Mistérios e maravilhas entre os animais: o cavalo: Já 39. O DEUS TRANSCENDENTE A Majestade Divina no trono de sua glória: Is 6. 14 Para se perceber a riqueza do significado. Rom 1.5s. já que os escritos do Novo Testamento são mais familiares aos fiéis. Os poemas da criação do mundo: Gên 1.14-25.1-18). Ez 34. 21-25.3-9. o asno selvagem: Já 39.1-38.5-8. Is 44. O Senhor é meu Bom Pastor: Si 22. Is 66.25-28.6-9. Sab 12. 28-31.. 1 San 3.23s. O trovão.12-17.26-28.25-41.246 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO bíblicas de acôrdo com o tema ou com a forma literária respectiva. 1941). Imagem e semelhança do seu Autor: Gên 1.. Si 8. La Bibbia dei eUetatj (Roma.29.. . O Eterno diante do qual tudo passa: Is 40. Iii. O Deus que traz o mundo na palma da mão: Is 40. O Senhor fala no silêncio da noite: Já 4.. Quem poderia pedir contas a Deus? Is 45. ° hipopótamo: Já 40. Si 89.20-26. 51 103.2-6.14). Si 18. Já 38.2-7. a avestruz: Já 39.4.13-18. 4. Já 38-41.19-25. O homem comparado a Deus: Já 25. tradução que observe a forma poética onde ela figura nos originais. Si 101.12-21.25-28. O universo proclama a Deus: Sab 13. 14 1. Limitamo-nos ao Antigo Testamento. o esmêro literário das seções mencionadas nestas listas.e os idolos: Jer 10. Dt 8. Jo 10.26-30. Ricciotti.1s.6-8. O Deus Único: Is 44. A confecção das tabelas muito deve à. 4.4-12. expressão da Majestade Divina: Si 28.

31-37..1-38.13-53. "Meu Deus.8-17.1-8.. Apc 19.6-17. "Fala. "O Senhor é misericordioso e compadecente": Si 102. • consagração do templo erguido por Salomão: 8. O Rei dos reis: Si 2 (cf.1-10. . IV. 1": Jer 18.1-15.11-16). A malograda Cidade do Diabo: Gên 11. • Juiz universal e o Ancião: Dan 7.1-9.15-24.23-9. Jo 4.1-18. : Dt 8.1-10. Senhor. sábio: Im10.8-20.24-30.19-19. O Rei fautor de justiça e bonança: Si 71.1-24. A restauração da Cidade de Deus: Bar 4.. Doloroso anúncio de vitória: 2 Sam 18...5-10). • origem dos samaritanos: 4 Es 17. (dilúvio): Gên 6. Queda de Jerusalém: Ser 39. • triste sorte dos primeiros escritos de um Profeta: Ser 36.. . por que me abandonaste ?": Si 21.30-5. Insurreição contra uma rainha tirânica: 4 Es 11.24-41 (cf. Si 50.3-9.9). O MESSIAS E SEU REiNO Origem eterna e temporal do Messias: Miq 5. Visão profética de prosperidade (Balaã): Núm 23. 24. meu Deus.21.26-12. • rainha de Sabá em visita ao monarca. • Renovador da natureza: Is 11.1-4.15. "Nasceu-nos um Pequenino.COMO LEREI A BÍBLIA? 247 Amparo na caminhada cotidiana: Si 90.9. Símbolos de felicidade messiânica: Jer 31. . 24. • tragédia de Jeremias: Jer 37.21.6.13. V.16-20.18-25.12. A fôrça de Deus se manifesta na fraqueza do homem (Davi e Golias): 1 8am 1-58 (cf. "Meu povo me esqueceu. A HISTÓRiA DA INIQÜIDADE E DA GRAÇA O primeiro pecado e a primeira misericórdia: Gên 3. E o mal se alastrou.. • fome durante o cêrco de Samaria: 4 Es 6.1-2 1. .5.. A Nova Aliança: Jer 31.22.9-14.1-16.": Is 8.7-11. 7-10.1-8. 2 Cor 12.1-9.10-14. O varão das dores: Is 52. "Pequei contra o Senhor 1" (Davi e Natã): 2 San 11.gratuitamente dispensada: Dt 7. Providência paterna. mostra-me a tua glória !": Êx 33. 8. 4 Es 24. pois teu servo está atento ": 1 8am 3. Teofania e aliança no Sinai: Êx 19.18-23.18-24. Si 128.1-32. • profeta Eiiseu ressuscita uma criança: 4 Es 4. "Senhor.

41). semelhante à de um exército: 31 1. A grande heroína: o feito de Judite: Jdt 10. assim como as seções de Ru 4.6-18.6s.. É o que pressupõe o texto acima citado do Dt.11-14. .7-11.8. o ato de tirar o calçado (ou a sandália) e o entregar a outrem significava simbólicamente a entrega de um direito ou de uma propriedade.24.20-29. Que o irmão suscite prole ao irmão falecido (levirato): Dt 25. E um casamento. SI 59. Fórmula de bênção patriarcal: Gên 27.9.1-13. Um banquete digno do rei da Pérsia: Est 1.1-8.1-8.C. Judas Macabeu entra em aliança com os romanos: 1 Mac 8. LEIS E COSTUMES DO ORIENTE Um juramento na época dos Patriarcas (séc. VI.5-11.1-17.1-11.57-67.1-30.24).26-30.2-4. Como se homenageava o favorito do Faraó: Gên 41. O festim do rei Baltasar: Dan 5.. Imponente exército oriental: Jdt 2. O heroísmo que ela suscitou: 2 Mac 6.17. ' 15 Os israelitas costumavam tomar posse de um fundo imóvel colocando sóbre êle o pé ou o calçado (cf.5-10 (cf.24. pág.10-67. 107.5-21. "Sê delicado até com as aves ": Dt 22.Jos 10.26-29.: Tob 10. Por conseguinte.9-16. O heroísmo dos reconstrutores da Cidade Santa: Ne 3. : Gên 24. A perseguição de Antíoco Epifanes: 1 Mac 1. enquanto os velhos pais aguardaft em casa.248 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um povo instrumento dos castigos divinos: Is 5.7-23.1-9. que finalmente volta com a espôsa: Tob 11.33-4.): Gên 24.17. Da história de ToMas: uma donzela humilhada pelo demônio: Tob 3. triunfo e glória: Jdt 15. As dádivas do povo fiel para a construção do tabernáculo do Senhor: lix 35. XVIII a.26. Hostiidades dos senhores egípcios contra os hebreus escravizados: lix 1.24).1-32. Invasão de gafanhotos. 5. 2. O julgamento das nações: Sof 1. O flagelo da sêca na terra de Judá: Jer 14.2-12. o filho.17.38-45..9 (ef. Gên 13. Mt 22.42.1-7..7.14-18. A lei do cordeiro pascoal: lix 12. . é libertada do Maligno em piedoso matrimônio: Tob 7. Os terríveis caldeus: Hab 1.

23 Tiro. 22 Imagem da graça. Êste é simbolizado pelo espinheiro selvagem. O retrato da sábia dona de casa: Prov 31. 20 o profeta descreve a queda da Assíria. recolhida.1-7. VI a. 17 As duas águias significam respectivamente o rei da Babilonia. X estava dividida em dois remos.depois para o jugo egípcio.1-18. Oola e Ooliba: Ez 23.12-20. A videira bem-amada: Is 5. o dos medos.1-14.16-23. 15. que vém a ser as duas irmãs. os leõezinhos são os reis de Judã. o qual não dã fruto nem sombra.Jer 2. SÍMBOLOS E ALEGORIAS As reflexões das árvores sarcásticas: Jz 9.1-5. 20 Ossos secos que retomam vida: Ez 37. designam o império dos babilonios. que a partir do v. 19 A nação escolhida era representada como a Espõsa de Javé na literatura profética.21. inclinados à aliança ora com um. fertiliza a terra: Ez 47. Sab 14.1-49. 21 7: A água que. novo templo da Divindade (cf.: Jer 32.11.12-20. mas ingrata: Ez 16. 28 A estátua inteira representa o poderio dêste mundo enquanto é hostil a Deus. IS A leoa.Judá. Oola e Ooliba.944. que jorra do lado aberto do corpo de Crísto.24-39. mas destinado a reerguer-se após o exílio babilõnico.7-19. passando-se. O artesão fabricante de ídolos: Is 44. Entre éstes dois monarcas vacilava a política dos reis de .8-15. as suas quatro partes são sucessivos representantes déste poderio na história antiga.10-31. Nabucodonosor. 22 A estátua dos quatro impérios: Dan 2. partindo do novo templo. 21 Os ossos secos vivificados designam o povo de Israel destroçado pelos inimigos. 3. e o Faraó do Egito. Desde o séc. Jo 2. o cedro e a videira: Ez 17. 19. ora com outro.1-43.16-24. Abimeleque. VII. . 18 As duas irmãs. idolatria) praticados pelas duas partes da nação e o triste fim de ambas.31-45.1-10. os candidatos idôneos são representados pelas árvores frutíferas. de Judá.1-14. 10 As duas águias.2-18. A criancinha abandonada. Os ornamentos da israelita facêta: Is 3.COMO LEREI A BÍBLIA? 249 Costumes dos ceifadores: Rut 2. 19 O majestoso cedro do Líbano: Ez 31. Sarnaria eJudá (Jerusalém). A videira simboliza Sedecias. conforme os melhores intérpretes. A virgem de Israel infiel: . o dos gregos (Alexandre Magno) e o dos romanos. Ezequiel descreve os adultérios (apostasia do verdadeiro Deus. derrotados por seus adversários e culpados da ruma da nação. significa a nação judaica.1-36.34). ofícios e sabedoria: Edo 38. Artes. A leoa e os leõezinhos: Ez 19. mas se presta ao fogo apenas. Ritos fúnebres: Edo 38. 10 é dita videira.1-12. que a principio foi vassalo de Nabucodonosor.C. a nave opulenta que naufraga: Ez 27. visando admoestar o Faraó.32. Compra de um campo no séc. 30 Esta peça foi redigida para ilustrar satiricamente o significado da eleição de um rei indigno.

5-17.13.13-16.7.. agora injustamente escarnecido: Já 30. A SABEDORIA E SUAS NORMAS A origem da Sabedoria: Prov 8. Tudo passa. O drama humano: Era justo. Os atos do fraudulento são como . 24 Pranto pela ruína de Jerusalém: Lam 4. O problema da dor: um momento de angústia: Já 3.17-27. ELEGIA E LIRISMO Lamentação fúnebre: 2 5am 1.250 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O cinturão simbólico: Jer 13.12.1-16. At 21.1-25. Desgraça a quem se isola: Ecl 4.1-28.: Is 59.12-32. 19. Jo 21. • 24 cântico entoado por Davi depois que na guerra caíram Saul. "Honra pai e niâe": Edo 3.22-36.1-40. confia em Deus: Já 19. Como tratar o tolo: Edo 22.1-22.16-28.23. : J& 29.9-12. . 26.21-25. O médico e seus préstimos: Edo 38.2-11. e o filho dêste.7-14. IX. A Sabedoria pousa e frutifica em Israel: Edo 24. : Já 31.18-27.1-21. seu Inimigo.7-13.1-15. A Sabedoria comunicada aos homens: Sab 7.30-34.1-22. a dos ímpios gozadores: Sab 2. Até os animais reconhecem os tempos 1: Jer 8. Impossível mudar a côr da pele: Jer 13.10-13..23-29. Valores menores e valores maiores: Edo 40.1-22. 24. "Sê alegre!'t: Edo 30.1-22..3-26. Onde reside a Sabedoria: Já 28. A estima da boa saúde: Edo 30.. Éx 21. seu amigo muito caro. A sabedoria de Salomão: 3 Es 3. Não obstante. "Não julgues poder dissimular o teu pecado ": Edo 23. "Sê prudente ao procurar a amizade dos grandes ": Edo 13.1-11 (cf... "Escolhe criteriosamente os teus amigos": Edo 6.6-11.185). Tôdas as coisas têm seu tempo oportuno: Ecl 3.53. e nada sacia: Ecl 1. A ridícula preguiça: Prov 6.1-15. feliz.14-20.18-21. Falsa sabedoria.1-25. Conselhos para o conviva de um festim: Edo 31. colóquio com Deus após o auge da crise: Já 10. VIII.1-8. Jõnatas.

Si 148.COMO LEREI A BÍBLIA? £ 251 Sátira sôbre Babilônia que caiu como estrêla do céu: Is 14. Um desafôgo pessoal diante do Senhor: Jer 20. "A Ti levanto os meus olhos !": Si 122. SÚPLICA A oração que sustenta o mundo: Gên 18.1-15. 1 Crôn 17.5-11. as tuas obras me deleitam! Louvor ao Deus soberano.. . Consôlo a Jerusalém libertada: Is 51. A terra deu seus frutos !: S1 64. exalta o enhor!": Si 144-147. que ama os pequeninos: 1 5am 2.10-19. Como o cervo deseja as fontes das águas.18-9.8s.52-90. o Senhor não me abandonará": Si 26. adoremos o Senhor 1": Sl 94. "Senhor. "Minha alma. O clamor dos habitantes de Jerusalém arrasada: Lam 5. "Minha alma tem sêde de Ti": S162.5-37.12. Senhor!": Sl 50. O cleieitede estar na Casa do Senhor: Si 25.2-7. Bar 2.14-19.7-18.23.17-33.16-27.3-2 1.": CONTRIÇÃO "Pecamos. Is 35. 66. Dois justos oram em favor do povo infiel: Est 13. .1-22. PRECES ADORA ÇÃO "Vinde. 83.9-17. 14. Senhor!": Ne 1. 13.1-23.. Agradecemos os benefícios presentes. 51 123. ": AÇÃO DE GRAÇAS O povo agradece a vitória outorgada ao rei: SI 20.1-8. A cidade sem sorriso: Jer 16. O louvor da criação inteira ao Criador: Dan 3. penhores da plenitude futura: Tob.17-52.46-55). Dan 3. 51 112 (ef. A alegria da natureza renovada: Si 95-97. Lc 1. Esdr 9. "Se o Senhor não tivesse estado conosco. : Si 41/42.1-19. 9.26-45.. Si 91. Gemidos depois do castigo: Jer 8.1-10.1-10. 3.11-18. Os céus cantam a glória de Deus: Si 18. "Ainda que pai e mãe me abandonem. "Piedade. X. Glória ao Deus transcendente: 1 Crôn 29. 9.

porém.6. . comunhão de preces: 2 Mac 15. "Nem riquezas nem miséria.7-12. Não receie perder tempo.1-6. curiosidade de inspecionar o contexto ou de divagar pelo que fica em tôrno das passagens referidas.26. Senhor 1": Prov 30. Em um e outro caso. seja o mais belo de sua for ma literária. !": Os textos acima indicados destinam-se a ser. Jerusalém significa a pátria celeste (cf. do seu modo. Poderão ser utilizados por quem pouco ou nada conheça do Antigo Testamento e queira logo tomar contato com o que êste oferece de mais belo.14-42. não extinga o leitor a louvável "curiosidade" que nêle possa nascer. e vá folheando as páginas sagradas. "Não permitas peque pela lingua ou pelo olhar ! ": Edo 22. Talvez se torne útil a tabela também àqueles que desejem renovar a leitura da Bíblia com a qual já estejam familiarizados..252 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Nostalgia de Jerusalém: Si 136.22-64. 2 Crôn 6.. seja o mais belo de sua doutrina. Ora o ancião perseguido: Si 70..1-18.1-22.7-9. Apc 21. Estas então lhe irão falando linguagem cada vez mais significativa! 25 Para o cristão. Ora o velho pai aflito: Tob 3. A prece da viúva heróica: Jdt 9.26-23.2-19. Gál 4. pontos de partida para a leitura do Livro sagrado.5). 2 Crôn 1. O rei pede as bênçãos do Céu em favor do povo: 3 Rs 8.13-16. 25 "Envia-me a tua sabedoria Sab 9. Comunhão dos santos.

MAPA ILUSTRATIVO DO ÉXODO TRAVESSIA DO MAR VERMELHO .

211) reconstitui a série dos acontecimentos concernentes à passagem do Mar Vermelho (explicitamente assinalada no quadro): Os israelitas. .P. 24.MAPA [LUSTRATIVO DO ÊXODO E. Desceram então ao longo da margem ocidental do Grande Lago Amargo. O Senhor. EM PARTICULAR.31-14. que naquela época era um prolongamento do Mar Vermelho. cidade situada sôbre um dos braços orientais do Nilo. Cf.2). Atlas historique de l'Ancien Testament (Paris.31) Eis como o Comandante Bourdon (CL pág. 14. deixando Ramsés. Seguiram-nos através das águas os egípcios. Éx 13. se colocou entre os dois acampamentos e os filhos de Israel entraram pelo Pequeno Lago Amargd. DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12.. porém. passando ao pé do Djebel (Monte) Geneffeh. deu-lhes ordem para que retrocedessem (cf. dirigiram-se para Etham. Tellier. pôsto diante de Beelsephon e do Djebel Abu-Hasa.. e acamparam junto ao fortim ou Migdol. com a intenção de seguir a estrada direta para a Palestina (Canaã). O exército egípcio se aproximou. R. 1937). Em conseqüência. visando cortar aos israelitas o caminho para o Sul. mas debalde.17. a nuvem que acompanhava o povo de Deus.

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o [-4 IZ E .260 t PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tI) s CO 00 l o -: O ri) 0 - 1 ê CC s - E 15 o (a CC O 1 8 .9 0 9 °' o CC ar d otO .- 00 Fn à 0 (a O 1 O 2 oCC O o o 1 E Oo O O co á .0 O co -Ia 2 tCC O O CC a O 9 O o o z co (a rr o Lcd O CI.0 o O) ZA eCo o ei O 0. 10g4 ei co O o &t CCCC (a-o o a) CCO O a- O H I-lcz Qr1 r O (Do -F o O- 8 ri .

6 (restituição do quádruplo) 69s 24.15-22 (a simulação de Aod) 145 4.7-14 (Saul evoca o espirito de Samuel) 195s 2 Sam 6.1-61 (estima dos sonhos) 186 38.226 DEUTERONÔMIO 20.30-38 (as duas filhas de Lote e seu pai) 139s 25.1-20 (a queda dos muros de Jericô) 214-219 JUIZES 3. 148 NÚMEROS 22.23-32 (a luta de Jacó com o anjo) 142-144 ÊXODO 7.17-22 (a simulação de Jael) 145 9.20 30.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 RUTE (uma história de amor) 90 REIS 3 lis 22. 219-223 ECLESIÁSTICO 34.1-8 (a verdadeira videira) 111 ÁPOCALIPSE 12.9 (o mau espirito do Senhor em Saul) 154s 28.22-72 (o sermão eucarístico) 47s 15.15-26 (a mulher de Lote petrificada) 202-205 19.12 (Asa doente e impio) 179 JUDITE (significado moral) 144s ESTER (o ânimo bélico de Israel) 128 SALMOS 51 79 (a videira devastada) 111 ECLESIASTES (pessimismo e otimismo) 191-195 SABEDORIA 16.23s (o mau espírito do Senhor cm S!quém) 155 13-16 (a história de Sansão) 226-231 5AM UEL 1 Sam 6.1-7 (a videira bem-amada) 110 EZEQUIEL 15.14 (região dos mortos e inferno) 1995 . 219-223 21.14.14-12.20-34} (Esaú e Jacô) 140-144 27. 18.1-17 (a Igreja e Maria) 65 20.2-36 (o maná) 107.Jacó) 141 32.1-8 (a videira inútil) 110 AMÓS 1.19 (fulminação dos betsamitas) 157-159 16.1-14 (estima do médico) 179 ISAIAS 5.12-14 (a lei do talião) 123-125 LEVÍTICO 11.1-7 [Vg 31.16-18 (a lei do anátema dc guerra) 127s JOSUÉ 3.8 (enumeração de crimes) 72s MATEUS 1.1-33.25 (até que») 78 JOAO 6.6 (fulminação de Oza) 159-161 12.37-39 (as cabras malhadas de .3-2.5 (o número de guerreiros de Davi) 76 2 Cita 16.36 (as dez pragas do Egito) 205 -210 14.LISTA DOS TEXTOS BIBLICOS MAIS PABTICULARMENTE CONSIDERADOS GÊNESIS 19.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 21.22-35 (Balaã e o asno que falou) 223.44 (cSéde santos») 137. 19.7-10 (futminação de Oza) 159 -161 21.7-17 (a travessia do Jordão) 212-214 6.6-23 (o anjo sedutor no céu) 156s CRÔMCAS 1 Crôn 13.10.5-31 (a travessia do Mar Vermelho) 210-212 16.29-29 (o maná idiilco) 108.

Alegoria. 11. Citação implicita: 35s. 8. Animais impuros: 146-149. 104. 247. Comparativo dos adjetivos: 43. do extermínio: 180. 46. Aliança de Deus com os homens: 80-86. 215-219. 46. 82. Consciência embrionária: 119s. 116s. 132. 224 n. 248. Antropopatismos: 54. aliança de Deus com D. 170. no sangue: 165. 1 «Catalisadores» da consciéncia: 120. 216.: 102. 194. 19. 154. maus: 81. 135s. 149. Anátema: 125-132. 82. 37. 112. Dilúvio: 35. 44. tipo de Cristo: 89. 121. fl. 40. 242. tipo do batismo: 88. 162. Aod. Banho ritual: 146. 62. 247. Ungidá: 80 n. 151. 101-103. 180. 72. 25. Egipcios: 33. 9. 147. 91. 166. 197s. 135s. 55. 236. 238. 162s. 203. 64. 51 xi. 186 fl. 206. Deus vivo: 55. 118. 102. 8. 102. conselheiros de Deus: 156. Cadáver: 149. 88. Cabeleira de Sansão: 226-231. 209. Amor no Antigo Testamento: 161-163. 86. 3. «Alegria» de Deus: 59. 201. 68-70. Contemplativo (estilo): 42. 176-178. idioma: 39. 121. Abraão: 39. 179s. Cahitas (sem nãmeros): 67. 181-183. Condescendência de Deus: 20. 116 n. 117s. 120s. 242. 230. 76. Coletividade e individuo: 64s.. 247. 246. 158. Essénios: 187. 202. 98. 140-144. Antioco Epifanes: 35s. Alma. Aramaico. Christós. 169. Clã: 131. 55. 149 n. Antitipo: 87-92. simulação de: 145s. 156s. 17.: 86. 175s. sacriflcio de A. 62. 157. 180 n. 153 n. Adão. Circulos concêntricos no discurso: 48. Apoio: 195 n.. 221 n. 179. Concubinato: 118 n. 46-49. 80 n. em Juta com Jacó: 142. 5. Corá: 138. 130. 88. 2. Anjos bons: 63. Dureza de coração: 136s. Dura cerviz: 154. 42. 18. 160 n. ijconsciente após a morte: 189s. 223-226. 49 n. 22. Amon (origem): 139.INDICE DE NOMES E TEMAS' Aarão: 102. Árabes: 41. 248. 136 xi. Esculápio (Asclépio): 176 n. 75. 1. 176. Cántico dos Cânticos (suas metáforas): 44s. Circuacisão. 98. 8. «Braço» de Deus: 57. 99. 101. 250. 120 n. Estratagema bélico: 145. 10. Antropomorfismos: 52-59. 5. Demônio: 147 n. Cronologia esquemática: 37. sagrados: 147 xi. 205-210. Esaú e Jacó: 86. 18. D. 16. 170. 32. 1315. 88. Elias: 105. Abimeleque (de Siquém): 155: 249 n.rrnota . 159. «Arrependimento» de Deus: 59. 36. Epicurismo: 191. Abel. Epicuro: 177 n. 112. a. 154. Dinamismo de expressão: 42. Criação do mundo: 31. Davi: 34. 153. 167s. primeiro e segundo: 88. tipo do Messias: 89s. 180. 167. a. 149. 118 n. Espiral (estilo em) : 46. 112. 155s. Cordeiro pascoal: 86. 132 n. 194. a. diversa do tipo: 89 xi. a. 88. 15. 135. 159. aliança com Deus: 168. 217 n. 115 n. 204: 227. 40. Messias. 71. 11. 209. «Direitos autorais» entre os Antigos: 35. 152-157. 142. 206. 154. 135 s. 184. 20.

M. 178. Hades: 190. 249 n. 67s. figuras do M. 177 n. 13: 1805. 148. 176. 9. 18. 112. 248. 25. Matrimônio em Israel: 134-140. 109. 196. 67. 241. m. 9. 6. 181. 44. de nome: 63. 104. Gregos: 33. 39 a 1. inscrição de: 126 n.: 88s. Milagre quanto ao modo e q. 195 n. Messias. 126 n. 12. 182. 134s. 183. 85s. Lei natural: 119: 121. símbolo da Aliança: 102s. M. Lutero: 21 n. M. 117. 14. m. 104 s. 29. Liturgia e Antigo Testamento: 79 n. código de: 124. 37. Exílio babilônico: 34 n. 208-210. 15. 225. f. 142. Narrativa etnológica: 139. 207: 209. Gênio (semideus) : 148. 91. 223 n. 121 n. e Ester: 89. 36. Imaculada: 89. 79: 235. e leitura da Biblia: 19-21. 91s. 91. aliança de Deus com: 102. Morte: 166-170.ÍNDICE DE NOMES E TEMAS Eucaristia: 15. 48. 63. 121 n. falível: 29. Juramento e número sete: 69. Isaque.: 100. 112. «Ligar e desligar»: 51s. Jonas: 70. 47s. 102. 34. 239. Israel (etimologia) : 62. 70. Mal e Deus: 152. 12. J. 157. 47. 212. 1824. 59: 62s. sacrificio de 1. Interpretação autêntica: 21-23. 50 n. 190 n. 13. centro da Biblia: 93. Individuo e coletividade: 64s. 99. i. 87. Juizes: 37. José. Jael (simulação de): 145s. 89. Inerrância bíblica: 27-30. 217. 177s. tipo de Cristo: 89. "Inveja" de Deus: 59. 150. 136 n. e os sonhos: 184. 146-149. e a Igreja: 65. 52: 83. 129. 145. M. Folclore: 203: 229. 153 n. Mesa. 25s: 138. desenvolvimento do conceito: 94-98. entre irmãos: 138. 98. Longevidade dos Patriarcas: 68. Impureza legal e impureza moral: 136. 37. e a Anunciação: 242. 136. de Sansão: 230. 182. M. 91. 23. 29. iv + 1 (esquema proverbial): 72-74. 72. 167. Jacó e Esaú: 86. Gedeão: 99. 9. Mito: 33. 133s. 88. 235-238. 158. 12. Filosofia e medicina entre os Antigos: 177. 235s. 190 a. 140-144. e Judite: 89. 104. etimologia do nome: 80 a. 55.. Existencialismo ético: 118s. 89. 28s. 212-219. 17. 149. 171-173. 157. 8. Mistério de Cristo: 81 n. 37. 110. 177. 147. Hércules: 177 s. in/erilus: 190-200. 129 n. 131 n. 5. natividadç de 1. 12. Mão ( medida): 41. 5. 229. Inferno. Mar Vermelho e batismo: 88. 219 n. Iniciação biblica: 23s. tipo de Cristo: 89. 147s. dos números: 66. 1. da iniqüidade: 81 n. 229. 229. da S. lSls. 211s. 155 n. 24. 3. Género literário: 16. 135 n. 20. de sonhos: 175. 243. 135 n. 56. 12: 127. 116 n. 24. Galileo Galilei: 30. 4. Maria SSma. segundo Adão: 84. 238. 7. 23. 15: 238. 183-187. Metáfora: 28. Josué. 57. 57. 12. Escritura: 112 n. 104. 87 n. 226-231. 1-lerem: 125-132. 142. 178. "Ira" de Deus: 59. à substância: 206s. M. Macabeus: 83. 197. Harém: 118 n. 82. 99. 1. m. por assonância: 199 n. f. Hamurapi. 189-200. 182. Mago: 63s. Hipérbole: 43. 195 n. Lei mosaica: 82-85. m. 87 n. 194. 136 n. Glossas: 75. 197. 223-226. 132. 116 n. 2. 9. 82. 78. 204. pastor: 112. 214. 221s. Fé de Israel e queda de Jericó: 218s. 245. 152. 220s. 185. 247.: 88. 36 n. 1. 237s. 197s. 7. 148. 93. m. Moisés: 10. político: 83. 112 n. Evocação dos espíritos: 195s. Moab (origem): 139. Jubileu: 70. 205-210. 87 n. Filósofos pagãos: 56. 110. . 204. 200. Faraó (empedernido): 155. Mudança de dogma: 29. Igreja e interpretação da Biblia: 21-23. 20. 98. 7. Mardoqueu: 128.

«Sair e entrar»: 50s. 152s. cinqüenta: 70. Conservação do: 76s: principais traduções modernas: 233-235. 79. textos: 152-154. Shekina: 105-107. 18. Purgatório: 199 n. 38: 234. doze: 71. 196. 241. 234. Sôfrimento: 182s. 40. 243. Sabedoria personificada :t 94. 147. 134. 157-159. Superstição: 120. 181s. 87. 166: 178. 14. 156. 214. 86. e doença: 178-183: p. 125. material e p. 223 n. categoria do pensamento: 64s. 249s. 73 n. 184s. 244. Plenitude dos tempos: 20. Paraíso: 13. 135. sete: 69. 7. 4: 175. Suplantador: 140-144. 100 n. Odiar (= amar menos): 43. . 99. s. 1955. 60. «Setenta Intérpretes» (LXX): 10. 182. 183. Pedagogia divina: 120. Pecado de Adão: 53. pré-cientifica: 30s. Recapitulação (por Cristo): 84 n. Proto-evangelho: 104. Salomão. Testamento. «Vingança» de Deus: 59. 60. 242: s. 149. 216. 168: 183. Totalidade. 171. 75. 151. Provérbios numéricos: 71-74. Plutão: 190 n. Profetas falsos: 156s. 33. 190: 224 n. 45. 114. 104. 36. de bronze: 88: s. 216: dez: 70. Santidade no Antigo Testamento: 120-122. S. 137s. 195 n. 70. 104. 40. Racionalismo: 21. Parábolas: 44. 89. 38. Sol (milagre do): 30s. Sodoina: 202-205. 134. s. Paralelos. Tabu: 147 n. Paradoxo: 29. significado dos: 65-78. 35. «Tristeza» de Deus: 59. Poesia: 28. 89. 127. 17. 24. 9. Números. Temor e amor no Antigo Testamento: 122. Protestantes: 17s. Promessa (a Abraão): 84-86. Salmos: 28. 14. tipo de Cristo: 88. Texto biblico. Simbolos: 44-46. 199. 167. 20. 51 n. 190. 135. 149. 169. 247: p. 5. 194. 103. 157-159. 246 n. do paralso: 81. em sonho: 183. disposição (iiatheke) àliança (berith): 103. 101. 132. Pobres de Israel: 83. 201. 75. lei da: 64s. Pré-história bíblica: 37. 170: 178: 241. Veracidade científica e v. Rahab: 217. 81. 157. 183. 224 n. 69. de Apolo: 195. imprecatôrios: 132-134. 191. Participação. 200. Serpente de Aarão: 209. 101. 147.264 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ressurreição da carne: 182s. 146-149. 196-200. 191. 182. 161-163. 104. 90 n. Primitivo ascendente e pr. Paralelismo de frases: 46-52. «Resto» dc Israel: 83. 57. 158s. 185s. 40. lo: 90: 241. decadente: 121. Noé: 39. Pitonisa de Endor: 195s. s. Nazireu: 226-231. Satanás: 31. 144. 196s. SheoZ: 190-200. Profética. 201s. formal: 1485: 160s. e o Eclesiastes: 191. 137. três: 70. Totem: 147 n. Vulgata: 10: 17. 197. 91. 167 n. 103s. 102. 149. história: 35. 21. 31 xi. Necromancia: 185. 199.

139 n. F. 17. 1. 10. 13. Gelin. J. 143 a. 15. Denziger: 36 a. Diógenes Laércio: 177 a. Ambrósio. A. 93 n. 9. 47 a. 253. 21: 245 n. 239. . 5.: 42 n. Joly. 33. Claudel. Coppens. 17 a. 42. 35. Johnson: 17 a. 2. J. 204 n.: 220 II. S.: 159 a. São: 20 a. 240 n. Froatino. 1: 153 n. 131 n. 38. Fiilion. Haxnman: 91 a. 8. 142 n. 2. Daniel-Rops: 16.: 218 a. 23: 176 a. 141 n. 187 a. 35. 15. O. 4. Imschoot. 127 n. Closen.: 40 n. Gregório de Nissa. 19. 207 n. 158.: 160 a. Heródoto: 129 a. Cicero: 32 n.-Cl. 32 n. 40. 32. 71. Bailly.: 207 n. Homero: 87 a. Cumont: 180 n. Harnack. 4. Jerônimo.: 45 n. Bossi: 17 a. Charlier. 4.: 69 a.: 190 n. Chame. J. Ohorme. T. 226 n. 16. D'Rarcourt. P. 3s. 1.: 79. Isidoro de Sevilha. 234 a. 184 a.: 217 a. 86. Baur.: 131 a. 221 n. Aristóteles: 32 n. 11.: 149 a. Dennefeid. Fidvio José: 125 a. 18. M. 21: 163 a. 4. João Crisóstomo. Filo de Aleaandria: 224 a. Eauer. A. A. 8. Artemidoro de Éfeso: 184 n.: 167 a. 15. 2. 13. 132 a. 238 a. O. Hipócrates: 141 a. 22. 34. Agostinho. vaa. 9. 1.: 71 n. 207 10. A. 6. 2. 190. Ehrenberg. 9: 245 a.: 245 n. Santo: 117 n. R.: 165 n. 204: 221 n.: 245 a. Bossuet: 245 n. 194 a. 1.: 36 n.: 143 n. 36.: 31 n. 42. São: 21. J. v. Sexto Júlio: 215. 11. 3. 2. 11. 7. 19 a. 37. Clamer. 12. Erman. Eliade Mircea: 60. 1. Censorino: 32 n. 10. 224 n. 13. 13. 12. 31. Dante: 55 a. Jaussen: 204 a. 30. 5. Einpédocles: 32 a. Couchoud: 17 n.: 51 a. J. 7. 11. George. Fr.: 161 n. J. R. 9.: 17 n. 3.: 217 n. 9.: 233s. Bodenheim. L. 4.: 79 n. l3onsirven. M. Gregório Magno. 10. 67 n. Gourbilina. 5. 142 a. 90 n. Carcopino. 47. 8. 34. C. 14. 204 n. 23. A. Guitton. 13.: 28 n. 38. 24 245 a. 11. 215s. J. Hehn. Boman. Abade João: 140 a. De Fraine. 152 n.-M. 137. E. 19. De Vaux. 9. 15. Dhorm. 17: 139 n. 6. São: 139. 4. E.6. Ch. 42: 161 a. 25. J.: 126 n. 9. 3. Santo: 141 a. 141 n. 2.-G. 19. 18. A. São: 226 a.: 221 n. 245 a.: 36 a. A. 221 ii. Henry: 16. 4. 18. P.: 165 a.ÍNDICE DE AUTORES CITADOS Abel. 9. 9. E. 217 a. 17. 15. 5: 237. 46 a. 20. 34 n. Hoonaciçer. Santo: 14. 33. Cassiano.: 35 a. P. Heinisch. 20.: 167 n. 214 n. 176 a. A. 14: 208. 2. J. 36. 93 n. Curtias. 212 a. 35. 32. P. 221 n. 192 11. L. • • • Gaster. 23. Bourdon: 211. 6. Buysschaert. 6. 4. 14.tripides: 49 a. 33. Ceppi.: 112 n. van: 180 n. 198 a. A. Beaucamp. 35. 13. 55 n. Ei. G. Jeremias. 194 a? 18. 236 a. 10. Ferreira dAinxeida.: 167 a. Er.

3. 16. Sérvio: 32 ri. tjbach: 221 n. Tournay. Weber. 22. 2. Sehuster-Holzammer: 218 ri. 6. 197 n. 2. Robert-Tricot: 236 ri. Pi*fiëio 47. E. 65n. 165 ri. 203 ri. 33.: 131 ri.-J. . 3. J. 146 n. A. tqbclah: 159. 7. Stobeu: 32 n. 1. 21. Weisengof. 2. 101 ri. Suys. A. Kaiser. E. Tito Lívio: 212. Scullard. piersdn: 17 ri. 2. 18.: 183 ri. Rowley. B. 218 n. 211 ri. Marcion: 79. 10. b3iano: 141 ri. 8. 14. 139. 31. Médeblelie.: 223 ri.: 218 n. 32 ri. Steck: 17 n.: 12. O. 235 ri. 17. Oepke: 177 ri.: 55 ri.1. 245 ri. 1! Naber: 17 ri. 13. E. 11. 7. Kuss-Muller: 245 n.: 212 ri.: 159 ri.: 33 n. 31. Leão XIII: 28 ri. Passelecq.: 33 ri. Vergilio: 165 ri. Spicq. 19. P. 4.: 221 n. 9. 28. 10. Ruperto de Deutz: 12 ri. 15. R: 119. Ricciotti. 2. 194 ri. 55 ri. 37. Sérieca: 32 ri. 13. Platão: 28 n. 11. Reiler. 26. 245 ri. W. 9. 35. 4.:137 ri. 2.: 49 n. 5. Card. 4. 253. E.obertson: 17 ri. 11. E. 2. B. Cl. 35.: 226. J. 39. 207 ri. P.: 49 ri. 11. 212 n. 4. 218 ri. 184 ri. 35.266 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Rerian: 146. 9. Lagrange. Nygren.: 132 ri. Sebulz.: 236 ri. 1. 1. 246 ri.i R. 9. bVldio: 167 ri. 18. Steinmann. 11. Vigouroux: 207 ri. 9. 4. 36. 221 n. 12. 10. 28 n. 25.: 120 ri. 7. Tellier. 3. Rosenberg: 79. Tácito: 126. 25. 222 n. Varrão: 167 ri. Oróslo: 126 ri. 4. Robinson. 15. Plauto: 49 ri. 221 ri. 6. H. Smith: 17 ri.: 198 ri. 4 Metzinger. 14. 1. 1. 2. 33. 26. Lambert. 12. Theodor. Polibio: 212. 207 ri. 204 ri. H. Sófocles: 49 ri. 7. . Pffiio: 141 ri. 23. 33 n. A. Meignan. C. 9. 11. 1'. Maritain.1.: 143 ri. H. Cl.5.: 167 ri. 50 ri. 11.: 64 n. W. 21. 217 ri.: 221 ri. M.: 65 ri. Le Prois. 11.: 194 ri. r6 I: 19 ri. 165 ri.: 31 ri. 21. 52 ri. LodsrA. 32. 18. Lesétre. 2. Solon de Atenas: 124. . A. J. Péguy: 31 ri.: 36 n. 1'. 29 ri.: 12. Seilin. Meyer. Moritet. 14. 79 ri. A. 3. 180 ri.

não quis remodelar repentinamente os hábitos e conceitos dessa gente.. seria impossivel entender os Santos Evangelhos e os escritos dos Apóstolos. as 10 pragas do Egito. os que têm fome e sêde. a cabeleira de Sansão.. etc. certos milagres da história de Israel cujas proporções parecem derrogar à Sabedoria divina (a queda dos muros de Jericó. isto é. são consideradas dificuldades especiais que as páginas do Antigo Testamento apresentam ao leitor cristão: rnoralldade muito rude. a poligamia. Amal até mesmo os vossos inimigos.(continuação cIa i. caso se quisesse fazer abstração dos livros do Antigo Testamento. o maná no deserto. Remunerador dos bons e Punidor dos maus.s de judeus e cristãos. o Mestre Divino foi burilando as categorias de pensamento de Israel. que permitia o exerciclo do talião. tendo-se revelado a homens rudes ou moralmente infantis.17. as intervençôes muito fortes de Deus irado. movidas por interêsse sincero. pois. no decorrer de 18 séculos. as noções concernentes à vida póstuma e à justa sançáo divina. o papel de relêvo atribuido a doenças e sonhos. caso o leitor tome consciência de que • história do povo israelita anterior • Cristo equivale a um processo de lenta pedagogia divina. Czéncia e Fé na Hsõria dos Pri- . mas consumá-la e levá-la à sua plenitude (cf. o exterminio dos inimigos. A séguir. Mt 5. o asno de Balaão que "falou". o Senhor Deus. Do mesmo autor: mordios A Vida que Começa com a Morte. Aos poucos. santo. as imprecações. no Antigo Testamento. apenas houve por bem eliminar tudo que nesse patrimônio de cultura era contrário à Idéia de um Deus único.). Jesus não veio extinguir a Lei. Tudo se encerra com um guia prático para a leitura da Biblia. a fim de os fazer colaborar num plano muito elevado.Jordão. a passagem do Mar Vermelho e do ... se encontram os prenúncios e os primeiros moldes" (a expressão é de Santo Agostinho!) dos grandes dona que os cristãos possuem.a orelha) possui para todo cristão. os livros sagrados pré-cristãos." A obra se destina a tódas as pessoas que. Muitas das hesitações suscitadas pelo Antigo Testamento se dissipam. queiram desfrutar a riqueza de livros que inspiraram amor e heroismo a geraçoes e gerçõe.. preparando o gênero humano a ouvir um dia a mensagem desconcertante: "Bem-aventurados os que choram.

EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS Tradução do Emii Malimaiin 5 0 J * orçi_ Lu . Pedreira de Casro O.ft . 919 Cixa Pta1 133 1•i. (utías (J1N i 1i edi c ões.k. LIVROS EDITADOS EM E95i TOmAS. da AGIR QU fl 14 .imenv.Pena. Ar.Tradução do P. C P. JUDITE E ESTER — Traducao de D Etêvo BetLeneourt O S.onte I3i MI. F.A SANTA BÍBLIA A SANTA BtBLIA — Tradução feita a partir dos orglnais e oriertada pela Liga de Estudos Bíblicos. Reembóbo Pcata . aLX J TJ - 25 Muni 6*i4t) R. z-3038 ilurl2. B . EVANGELHO SEGUNDO SÃO LU(S Tradução de Mona.t Gi-aJs Atendem pe'o Sviç. M EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO .. ii:. fr. a sair no período 4 anos. O APOCALIPSE — Tradução de Frei João Jos. Manuel .

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