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perta cada vez maior Interêsse em nossos dias. Os problemas da hora presente têm obrigado os homens a recorrer sequlosamente às fontes onde possam encontrar a sabedoria da vida, as normas para proceder no momento atual. Ora entre essas fontes se acham em lugar eminente os livros da Biblia, que contêm os princípios sõbre os quais se construiram quase 20 séculos de civilização cristã. que explica que estudiosos de correntes assaz diversas estejam voltando atenção crescente para a Escritura Sagrada e as questões a elas atinentes; haja vista o grande Interésse com que têm sido analisados por católicos, protestantes, judeus e racionalistas os manuscritos recéxn-descobertos junto ao Mar Morto (alguns julgaram poder haurir dêles nova compreensão da civilização contemporânea). Em particular, aos fiéis católicos impõe-se a necessidade de aprofundarem seus conhecimentos de Sagrada Escritura, já que esta é o manancial por excelência da vida e da piedade cristãs. Contudo não é fácil, ao primeiro contato, compreender os livros da Biblia; foram redigidos em épocas muito remotas (os mais recentes datam do fim do séc. 1 d. O., enquanto os mais antigos são do séc. XIII a. O.), em ambiente semita ou helenista e segundo modos de falar bem diversos dos que hoje estão em uso. Principalmente o Antigo Testamento apresenta dificuldades, não raro ventiladas em conferências ou em simples conversas de amigos. Católicos e não-católicos nessas ocasiões gostariam de conhecer melhor a mentalidade, a alma religiosa, que movia os judeus do Antigo Testamento; gostariam também de possuir normas objetivas, derivadas da moderna filologia, arqueologia, etc., que os ajudassem a interpretar as passagens controvertidas. Foi em vista de tais dlficuldade, que o presente livro se originou. A obra começa por propor algumas noções concernentes á redação dos livros sagrados: o conceito de inspiração biblica (esta não dispensa, mas, ao contrário, utiliza o cabedal de cultura, rica ou pobre, de um autor humano), a mentalidade e os modos de falar característicos dos judeus (o "gênio" da língua hebraica), o emprêgo de antropomorfismos, nomes e números na literatura semita. Vêm depois questões referentes ao conteúdo dos livros sagrados: antes do mais, é exposto o significado positivo, o valor perene que o Antigo Testamento (continua na 2. 11 orelha)

O estudo da Sagrada Fitura des-

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PARA ENTENDER roi ANTIGO TESTAMENTO

DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT O.S.B.

PARA ENTENDER ANTIGO TESTAMENTO
"Quando nasceu..., padeceu, ressuscitou e subiu aos céus, Cristo abriu o livro do Antigo Testamento, pois realizou por atos quanto ali por figuras era insinuado". (Berengáudio, séc. IX).

1956

L2vrarza

AG 1 R

&dgarc,

RIO DE JANEIRO

Copyright de
ARTES GRAFICAS INDÚSTRIAS REUNIDAS S. A. (AGIR)

NIHIL OBSTAT

Côn. J. A. de Castro Pinto
Rio, 9-7-1956

PODE IMPRIfl-SE Rio, iO de julho de 1956

Mons. Caruso
Vigário Geral

CUM PERMISSU SUPERIOR UM ORDINIS

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Rua Bráulio Gomes, 125 (ao lado da Bibi. Mun.) Caixa Postal 6040 'rei.: 34-8300 São Paulo, S. P.

AG 1 R
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ENDEREÇO TELEGRAFICO: "AGIRSA"

.. 0 CAI'......... O génio da língua hebraica ........° O problema .. a Escritura.............. Enumerações proverbiais e arredondadas ..... § 3....................O simbolismo do número como tal ........ patrimônio da Igreja .....0 A filosofia do nome ......... b) o número três ........NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA ........... * 2........... c) o número dez ...................... 2............. 0 CAP.................... Que se entende por inspiração bíblica 9 2..................... E ................... Os números simbolos de qualidades ...° O princípio de solução ...... a) o significado geral dos antropomorfismos ........... 0 Os antropomorfbsmos bíblicos . ..............0 Como o israelita escrevia a História .... Deus semelhante ao homem no Antigo Testamento .............. m ...... § 1...................... CAI'. S...... Sentido exclusivo e sentido precisivo ........ Números mal transmitidos ....................... 1....................................... Apêndice .............. § 1........INDICE Págs ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 9 PREFACIO.....° A Sagrada Escritura e as Ciências Naturais ......... 2........ b) o sentido de alguns antropomorfismos em particular . 17 .. o tema da Sagrada Escritura ............ d) o número doze .......O valor da linguagem shnbolista ......PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS... A ............. Alguns aspectos do simbolismo dos números ........................ A natureza personificada .....11 CAI'........................................ 1—O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇAO. § 2............... 15 15 19 19 21 25 25 30 32 39 40 52 52 53 54 57 60 61 61 65 65 67 61 68 69 70 70 71 71 74 ri— LIVRO INSPIRADO POR DEUS .O simbolismo peculiar de alguns números a) o número sete ................. § 1. IV .................. 0 Os números nos textos bíblicos ............................ § l...

.......... 134 § 4? Poligamia............86 CAP........... CAP.......... O tema da escolha gratuita ou da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza do homem ..................... 7.......19 § 1................ § 1....0 Mentira e fraude . VII - 93 94 98 98 101 103 105 105 107 110 112 A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) .......... Aod e Jael: a amabilidade a serviço do morticínio .................... poligamia ............ O tema da habitação de Deus . O tema do pastor ................................. § 29 Os fios condutores do Antigo Testamento .................O HERDEIRO EM IDADE INFANTIL ................... 151 151 152 154 157 161 ............. 125 § 2.................................................. O tema da videira ................0 O Deus que fuimina ......6 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Págs..... V ..................80 § 2............................0 Diversas etapas e uma só meta ..... 140 Judite...... VIII— A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) ......... § 4....................................0 As imprecações ......................0 Os tipos bíblicos ............ divórcio e incesto . 138 140 § 5.................. 123 123 § 1.......... § 5....................... O tema da Aliança .... 137 e) ulteriores aspectos ......................................................................0 A lei do talião ..... 134 divórcio ............................................. 114 146 § 6.................... 132 § 3........ a fraudulência do Patriarca Jacó ....................0 O externiinlo dos inimigos . 115 CAP..................0 Um principio geral ........ 150 CAP.... § 1......................... IX - O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO ...0 A artéria central da Sagrada Escritura: a figura do Messias..................................................... O tema da prevaricação e da restauração correspondente .....................................° Conclusão . O tema do deserto .... GAP....... VI— AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA .......... O tema do maná .......0 Pureza e impureza ritual ....O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO ........0 O "mau espirito" do Senhor ...... § 3......................................................OS DESMANDOS DA CRIANÇA .....° A escravatura ... § 2 0 O recenseamento pecaminoso ........................

......................................... ... ............0 As doenças Entre as nações pagãs No povo de Israel 29 Os sonhos .........4-9.............. ...... .......... ...0 A grande surprêsa póstuma ............ LISTA DOS TEXTOS BÍBLICOS MAIS PARTICULARMENTE CONSIDERADOS ..................... ....5-31) A passagem do Rio Jordão (Jos 3.... ....... CAP........0 § § § § 4... .............. Sab 16.... 189 189 196 CAP.......... XXII § § § - 1» 2. ....... ..... X ....... ..) 29 "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue 171 possui a vida eterna................0 7.......... 165 CAP.......... Núm 11..." 166 (Hebr 9...... ...............° 5............................. ............. 175 175 175 178 183 CAP................ Pré-requisitos naturais A .....................15-26) As dez pragas do Egito (Êx 7.........36) A passagem do Mar Vermelho e do Rio Jordão A travessia do Mar Vermelho (Êx 14.......31-14...31) ....22.....54.... ......7-17) A queda dos muros de Jericó (Jos 6...............................................° No inexorável fôsso dos mortos § 2...Boa edição do texto sagrado B .......................) ...................ÍNDICE 7 Págs.....22-35) A história de Sansão (Jz 13-16) ............................... ................................... XIV COMO LEREI A BÍBLIA" 1 0 Os pressupostos de frutuosa leitura 1............... ÍNDICE DE NOMES E TEMAS ............ .. § ............... DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12....... ÍNDICE DE AUTORES CITADOS .....20-29) Balaã e o asno que falou (Núna 22..........2-36....................... .............° 3........0 "Sem efusão de sangue não há remissão de pecado...14-12.... O maná (Êx 16............. ........ .. ...... TABELA CRONOLÓGICA .......0 Pequena antologia bíblica MAPA ILUSTRATIVO DO ËXODO E.........................SANGUE E VIDA 1.....1-20) ... EM PARTICULAR." (Jo 6........ 201 202 205 210 210 212 214 219 223 226 233 233 233 233 235 236 240 245 253 257 261 262 265 CAP..................... ...Noções introdutórias 2.. Pé-requisitos sobrenaturais § 2 0 Itinerário através da Biblia § 3......................................0 'PRODIGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO A mulher de Lote transformada em estátua de sal (Gên 19... .... .....0 6............ XI § § DOENÇAS E SONHOS 1................................. XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS § 1................... ..........

O ponto separa versiculos. . incluindo na citação os versículos e capítulos intermédios.2. Jo Jud Apc Tessalonicenses Timóteo rito Filêmon Hebreus Tiago Pedro João (epístolas) Judas Apocalipse A vírgula separa capitulos de versiculos. O ponto-e-virguia separa capítulos. ABREVIATURAS segue Os livros da Sagrada Escritura são brevemente citados como se ANTIGO TESTAMENTO Gên Éx Lev Nún Dt Jos Jz Rut 5am Es Par (Crôn) Esdr Ne Tob Jdt Est JÓ Si Prov Eci Cânt Gênesis Êxodo Levitico Números Deuteronômio Josué Juizes Rute Samuel Reis Paralipômenos (ou Crônicas) Esdras Neemias Toblas Judite Ester Jó Saimos Provérbios Eclesiastes Cântico dos Cânticos Sab Edo Is Jer Lam Bar Ez Dan Os 31 Am Aix! Jon Miq Na Hab Sof Ag Zac Mal Mac Sabedoria Eclesiástico Isaias Jeremias Lamentações Baruque Ezequiel Daniel Osélas Joel Amós Abdias Jonas Miquéias Naum Habacuque Sol onias Ageu Zacarlas Malaquias Macabeus NOVO TESTAMENTO ivIt Mc Le Jo At Rom Cor Gâl El Fip Co! Mateus Marcos Lucas João Atos dos Apóstolos Romanos Coríntios Gálatas Eféslos Filipenses Colossenses Tes Tim Ti FIm Hebr Tg Pdr 1.3. O hífen separa tanto versiculos como capítulos.ABREVIATURAS E EXPLICAÇÕES 1.

Depois que a antiga Aliança cedeu à nova e definitiva Aliança. em particular à Aliança que estava para pactuar com Israel ao pé do monte Sinai. donde a designação de 'ocultos" ou "secretos". Êsses escritos podiam edificar os fiéis e gozar de certa autoridade. e. a terceira parte do versículo. Apócrifo (em grego. . EXPLICAÇÕES Apocalipse (em grego. o nome "Javé" caiu naturalmente em desuso no povo de Deus.10 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um s após um número indica a unidade imediatamente seguinte. leanón = regra. quanto aos do Novo Testamento. a fim de consolar os'leitores atribulados. Apresentando as provações de sua época como coisas já previstas por Deus. Lev. designam respectivamente a primeira. Nas circunstâncias em que foi revelado. cf. Êx. Is 42.13-15). selada pelo sangue de Cristo. apokálypsis = revelação): gênero literário em que o autor. seja do universo. e lógos = palavra. Vg = edição latina dos textos bíblicos devida a São Jerônimo (t 420). = cêrca 2. Em oposição aos apócrifos. avivava naturalmente a confiança dos leitores no auxilio da Providência. Hagiçigrafo ( em grego. retocou a tradução latina já existente no século IV. descrevia acontecimentos presentes e futuros (de preferência. a segunda. a vinda do Messias e a instauração cIo seu reino glorioso). catálogo) das Escrituras inspiradas ou da Biblia. discurso): nome do tratado teológico concernente às coisas últimas ou à consumação. junto ao número de um versículo. do século III ao século 1 ai]. a fidelidade absoluta do Senhor às suas promessas. às vêzes revestindo a autoridade de antigo personagem. entre os cristãos. Antiga tradição. Entre os apócrifos figuram os numerosos "Apocalipses" da literatura rabinica. Escatologia (do grego éschaton = último. designa Aquêle que sem restrição possui o ser ou Aquêle cuja existência é soberana e cuja atividade é sumamente eficaz. apókryplwn = oculto. Dt) havia sido traduzido por setenta e dois judeus no espaço de setenta e dois dias. O novo texto assim apresentado aos cristãos em breve se tornou de uso comum. b. narrava que o Pentateuco (Gên. a. ca.n (em grego. enumerados no cãnc. Núm. Daí o título: tradução "dos Setenta Intérpretes" (LXX). seja do individuo. Além disto. contudo não eram lidos nas assembléias de culto público. isto é. hagiógraphos = escritor sagrado): nome geralmente atribuido aos autores de livros da Sagrada Escritura. quando lhe revelou o seu desígnio de tirar do Egito a nação israelita e dela fãzer o pova de Deus por excelência (cf. distinguem-se os livros canónicos. Lste traduziu diretamente do hebraico os livros do Antigo Testamento que êle julgava canõnicos ou inspirados. A luz da filologia hebraica. o termo significa "Êle é" ou "Aquêle que é". mas carecentes da prerrogativa da inspiração bíblica. tal nome inculcava a imutabilidade de Deus. secreto): nome que designa livros redigidos por judeus ou por antigos cristãos segundo o estilo das Escrituras Sagradas. ou seja. hoje destituída de autoridade.8. donde o nome de "Vulgata" (forma) (Vg). Êx 3. Javé: nome com que o Criador se deu a conhecer a Moisés. note-se LXX = tradução grega do Antigo Testamento efetuada aos poucos no Egito.

a metade ou mais da metade da Biblia Sagrada. de mensagem valiosa. Tais pessoas lêem o Evangelho. pois tocam as questões de origem. arrefecem em seu entusiasmo: o fundo ao qual se sobrepõe a Revelação cristã. em particular com os livros sagrados ditos do "Antigo Testamento" Os problemas surgem. e que. e não raro cruciantes. como diz a tradição cristã. problemas capitais entre todos os demais. preferem.6)! Dúvidas existem também na mente de não poucos fiéis católicos. antes. Têm por finalidade ir ao encontro daqueles que revolvem problemas de ordem religiosa ou filosófica. lhes parece muito diverso desta e. mais avultados talvez. com sua doutrina.. Jo 14. pois. deixam-se ficar hesitantes diante da porta da Igreja do Cristo ou vão perder-se por novos "caminhos" de procura da Verdade.. são sempre portadoras. Is 40. que lhes apresenta a figura do Cristo. despertar a alegria que jorra dlo conhecimento da Verdade. deixar fechada a parte inicial.embora a reconheçam como Palavra de Deus lhes parece ter quase esgotado em séculos anteriores a sua mensagem. Em conseqüência. nos tempos atuais. sem dificuldade reconhecem-na como digna e autêntica mensagem de Deus. fim. e julgam-na muito nobre. perene como a própria Palavra de Deus (cf. adquiriu novo poder . os quais por vézes se vêem um tanto surpresos diante de passa gens do Antigo Testamento. pouco teria que dizer. inaceitável. originaram-se estas páginas. Inspirado pelo Espírito Santo antes do Cri-sto e em vista do Cristo. Esta . para aquêles que não possuem a fé. o Antigo Testamento não perdeu seu significado após a vinda do Messias. por isto. longe do Cristo. mas em sua lealdade estão dispostos a se render a tudo que seja bom e belo. os capítulos dêste livro tendem a mostrar que as Escrituras antigas não contêm apenas episódios complicados.. por isto. que é justamente o Caminho. desconcertantes. desde que se lhes anuncie o nexo indissolúvel existente entre os Santos Evangelhos e o Antigo Testamento. mesmo quando apresentam coisas dêste gênero. em seu âmago. Visando. é não raro detido por dificuldades que lhe provêm do contato com a própria Palavra de Deus. Mas.PREFÁCIO Quem sinceramente procura a Deus.8). significado do homem e de sua existência na terra. a Verdade e a Vida (cf. Sugeridas pelo desejo de auxiliar a uns e outros.

12 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de expressão. séc. num só côro com os escritos do Novo Testamento. luminosidade plena ás páginas do Antigo Testamento. que permitiram aos estudiosos como que reviver episódios do Antigo Testamento. os escritores sagrados de Israel se referiam ao Messias por meio de símbolos e sentenças misteriosas. As excavações arqueológicas no Oriente trouxeram ao conhecimento do público importantes dados." (Ruperto de Deutz. tal observador saberia descobrir no esbôço muito mais acenos ou riquezas do que aquêle que não conhecesse a obra terminada.. coloridas e vivas. XII. É o que. outrossim. tornou-se o "cântico novo" (cf. tornando-as. se aplica aos escritos sagrados de Israel. Poderia ser assemelhado a um clichê. L'Epitre aux Hébreux. luminoso. gravado sôbre a sua superfície. concorrem para ilustrar a figura do Senhor Jesus. figura que está esculpidia sõbre a face da história inteira do gênero humano. porém. 1. Rowley: The Rediscovery of the Olá Testament. Londres. que glorifica o Redentor outrora aguardado. 331.) Na base destas considerações. com sua linguagem. para ser cada vez mais vigorosa. Is 42.9). Assim fala o Antigo Testamento ao leitor que. têm-se proposto na literatura moderna comparações assaz significativas. "A Antiga Aliança é tão cristã quanto a Nova. vê-se bem que não pode haver compreensão do Evangelho nem renovação da catequese cristá (renovação que muitas e belas iniciativas hoje em dia procuram realizar) senão mediante a devida utilização dos escritos do Antigo Testamento. Éstes agora. Pode-Àe. ora ftgurado. enquanto o clichê não é revelado. Splcq. há di)' erença apenas no modo como Deus ensina: modo ora claro. Ora o "revelador" que deu clareza. 1952. indiscernível. hoje presente entre nós. parecem incutir os acontecimentos mesmos dos últimos decênios. foi o Senhor Jesus com o seu Evangelho. Para melhor dar a entender o valor cristão do Antigo Testamento. ixi Apoc 1. H. a vinda do Cristo só fêz tornar patente o significado profundo de tais acenos. Ora a impressão de que a antiga Lei se tornou nova no setor das investigações científicas deve suscitar 1 "O Antigo Testamento é como que o cântico novo a significar por Imagens e figuras múltiplas a mesma realidade que o Novo Testamento. Êste representa um objeto preciso. 1 Com efeito. A vida cristã. há de saber sempre melhor nutrir-se da Palavra de Deus. tal como o Senhor a comunicou aos homens." (C. as páginas dêste parecem aos eruditos ter sido também recém-descobertas (atesta-o bem o título da obra de H. lembrar o caso de um homem que considerasse uma tela de pintura rematada e depois lançasse os olhos sôbre o esquema ou croqui cIo mesmo quadro. 1945). depois de conhecer o Cristo.10). .. por assim dizer.. Paris. ou submetido a unt "revelado?' que o torne claro.

são focalizadas questões de redação e forma literária dos escritos sagrados: o sentido da inspiração bíblica (cap. ainda uma vez apresentadas ã consideração do leitor. o quadro do paraíso. No fin dos tempos. 1H e IV). já plenamente desabrochadas. Apc 21. Jo 6. faz ecoar acordes disseminados por todo o Antigo Testamento. longe de ser abandonadas pelo Arquiteto do mundo e dos séculos. 11). Depois de estabelecido um princípio que é chave para a solução de qualquer dificuldade bíblica (cap. prometida ao povo de Deus nos inícios da história sagrada. 1). o Antigo Testamento não poderá deixar de ser também mais valor rizado como ESPÍRITO e ViDA ou mensagem de Deus aos homens (cf. trajada como a noiva que vai ao encontro de seu noivo" (Apc 21.6. V e VI). a mensagem perene das Escrituras judaicas. * * * Uma vez proposta a finalidade destas páginas. resta indicar o roteiro que percorrem. Assim o tema da "Cidade Santa.2-5). vão sendo reproduzidas lenta e fiel: mente. Assim as figuras esquemáticas do Antigo Testamento recebem nas últimas páginas da Bíblia os matizes mais vivos possiveis e são.PREFÁCIO 13 efeito semelhante no espírito daqueles que consideram os escritos de Israel não apenas como livro de erudição humana. A seguir. Êx 3. porém. Gên 2).8-10). aborda-se o conteúdo mesmo do Antigo Testamento: Primeiramente.3.8). . dizer que a situação dos cristãos peregrinos neste mundo só se entende como prolongamento de uma história pré-cristã: a própria consumação final é anunciada pela Palavra de Deus mediante alusões contínuas a tipos e episódios do Antigo Testamento. As Escrituras israelitas aparecem então qual maqueta (de argila. maqueta cujas linhas. 22. ate se completar a construção (cf. o que há de positivo. é reproduzido no Apocalipse ou na cena final dos séculos (cf. Mt 5. Hebr 11. 2 Cor 3. Jerusalém nova. algumas notas características da linguagem semítica ou israelita (caps. o Antigo Testamento desvendara todo o seu sentido.5) e só será plenamente concedida quando céu novo e terra nova forem instaurados na criação (cf. cêra ou madeira) de edificio fizturo. é anunciada também por Jesus aos mansos de coração (cf. Não seria suficiente.2).63). é pôsto em relêvo (caps. lugar de felicidade dos primeiros pais (cf.1). e sàmente então. mas principalmente como código de Sabedoria sobrenatural: mais claramente apreciado na qualidade de LETRA ou doctmentó literário. a terra "onde correm leite e mel" (cf. em proporções mais amplas e com material definitivo.

nem por elas engane. maio de 1956. Abram-se agora os capítulos acima assinalados sob o eco de famosas palavras de Santo Agostinho dirigidas ao Senhor Deus: "Sejam as minhas castas delicias as tuas Escrituras. O conjunto se encerra com a apresentação de pequeno guia prático para a leitura da Bíblia (cap. Não abandones os teus dons. e considere as maravilhas da tua Lei. desde o principio.7. até o reino perpétuo da tua Cidade Santa. considerada a doutrina religiosa. 11. O cap.. Outros tentas do Antigo Testamento que talvez ainda suscitem ao leitor dificuldades (de menor vulto. entre os israelitas. Xlii expõe a interpretação que a tais seções dá a exegese católica contemporânea. Dá o que amo. pois não 101 em vão que quiseste fõssem escritos os densos segredos de tantas páginas. . no qual lizeste o céu e a terra. Mais uma fonte de perplexidade é o caráter maravilhoso que tomam certos episódios narrados pela história sagrada. X. 0 AUTOR. porém. ficam não poucos pontos obscuros.14 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Já. que. e beba a Ti. e ouça a voz de louvor. os caps. sempre válida. e às noções de vida póstuma. XIV). por se basearem em pressupostos de medicina e antropologia hoje carecentes de valor: é. e não a leches áqueles que batem. XI e XII tratam de expressões e manifestações da religiosidade do Antigo Testamento que ao leitor moderno parecem estranhas ou desprezíveis." (Confissões. Eis que a tua VOZ é a minha alegria. pois amo. porém) foram deixados de parte. nem seja eu por elas enganado.. a tua voz está acima da abundáncia das volúpias. Os caps. por pertencerem antes à alçada de um comentário do texto sagrado. iii. que se prendia à utilização do sangue. nem desprezes a tua erva que tem séde. VII.) Rio de Janeiro. mas coadjuvada por melhores instrumentos de trabalho do que os de outrora. Louve-Te eu por tudo que encontrar nos teus livros. sem recear o "maravilhoso". pois.. à conceituação das doenças. e Jôste Tu que o deste. Dá lugar ás nossas meditações sôbre os mistérios da tua Lei. ao lado das grandes e luminosas linhas. . dos sonhos. viir e IX procuram mostrar o que podem significar as narrativas de pecados "escandalosos" nos livros que Deus inspirou.

Contudo. empreendendo a leitura sistemática da mesma. servem-se. difícil demais para ser alimento da vida espiritual. o mesmo se sente como que atemo- . As páginas inspiradas por Deus certamente não excluem o que os santos e justos escreveram de verídico e belo. não se podem furtar.CAPÍTULO 1 O PROBLEMA BIBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO § 1. "Deus não se terá abalado por pouca coisa. de obras e opúsculos religiosos posteriores à Bíblia. Esta é. para entender as páginas bíblicas. quando se lembra ao leitor. o primeiro manancial de espiritualidade dos fiéis. mas. onde não têm o costume de procurar o nutrimento da vida espiritual.. perante certas páginas do texto sagrado. são subestimados em favor de objetos e práticas menõs ricos e eficases para a santificação. e quase que exclusivamente. E. alguns núcleos de fiéis têm tentado explorar os tesouros da Sagrada Escritura. ela lhes parece arcaica. conseqüentemente. pois. Eucaristia. 0 O PROBLEMA É fato inegável que bom número dos católicos de hoje. ainda que animados pelas mais sinceras disposições. Em um e outro caso observa-se que os maiores dons de Deus não são suficientemente procurados. mesmo dentre os mais fiéis à vida cristã. se requerem certas noções introdutórias. desapontado ou escandalizado. com prazer. um livro mais ou menos cerrado. para revigorar sua piedade. quase que por definição. exigem para si a primazia na biblioteca ou na cabeceira do cristão. Tal verificação não pode deixar de impressionar a quem sôbre ela reflita. O fato de que a Bíblia não é devidamente conhecida causa pesar semelhante ao que suscita o esquecimento de alguns cristãos em relação à S. para êles. Todo católico professa que a Bíblia é livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores. Conscientes de tal anomaiia. à impressão de mal-estar ou mesmo de escândalo ou à conclusão de que a Escritura é livro obscuro. não estão familiarizados com a Sagrada Escritura.. alheia às idéias e à terminologia que os cristãos costuitam ter na mente e nos lábios. esperar-se-ia que fôsse a obra mais lida e explorada pelos cristãos. dir-se-ia em linguagem popular. que. .

Julgamos poder encontrar esta paz. etc. ou por meio de reflexão pessoal sôbre alguns textos prediletos ou pela meditação de alguns pensamentos familiares ou pela leitura de excertos. ou que só admite a literatura escandalosa quando esta se apresenta com aparato e fama.)." "Há na Biblia uma série de histórias horrendas. não se compreende quase nada na Sagrada Escritura. densos e curtos. Contribuir para a renovação. e não livros de erudição. Depois da labuta de cada dia. que jamais freqüentei. A leitura frutuosa da Bíblia exige árduo trabalho literário. mas se acham luminosamente expressas. esta respiração profunda em Deus. que possam aproveitar. não obstante. que em minha infância e juventude só me falaram do Antigo Testamento em têrmos negativos: encerra histórias demasiado realistas para poder ser colocado nas mãos de qualquer leitor. onde os homens do séc. A situação assim esboçada pede ser revolvida. ao menos para se recolocar o texto no seu contexto e no seu clima de origem (exegese. Não temos tempo para fazer isto tudo: cada família se acha sobrecarregada com obrigações profissionais.. escreve outra pessoa. Não quero defender a hipocrisia da nossa sociedade contemporânea. iluminada. É esta uma forma de resistência. de história. Devo dizer que não li Daniel-Rops. a fim de se perceber mais ao vivo o doloroso realismo do problema: "A Bíblia é objeto de museu. em que as verdades religiosas não se encontram ocultas sob uma multidão de imagens e de fatos. porque a Sagrada Escritura se lhe afigura então objeto de estudo científico antes do que livro de edificação sobrenatural. E. oração. os depoimentos são anônimos. . A solução. desejamos repouso. transformada. O Antigo Testamento procede de um espírito totalmente diverso do do Evangelho.16 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rizado pelas exigências que a técnica exegética moderna lhe parece impor. faz-lhe perder o ânimo. nem todos têm tempo ou aptidão! Um inquérito recém-realizado na França nos dá a conhecer com exatidão as opiniões de fiéis que têm procurado ler a Escritura." "Noto. que à Biblia prefere a literatura "de água de rosas". Alguma coisa dentro de mim se recusa a crer que minha vida possa ser ajudada.. escreve uma dirigente da Ação Católica. e. de nomes e datas. atual. "Les catholiques lisent-ils la Bible?" em La Vis Epiritucue Stipplément 12 (1950) • 84-98.. que meu pároco dá cursos de Sagrada Escritura. Vão aqui transcritos alguns dêstes testemimhos. Ora é o espírito do Evangelho só que devemos procurar. é o que se propõem os capítulos se1 Como se compreende. em vez de o satisfazer. XX nada encontram Tais depoimentos encontram eco espontâneo fora mesmo da França. não coisa viva. por essas narrativas pré-históricas. foram colhidos no artigo de Henry. não sentiríamos atrativo por êsse estudo árido. é muito difícil perceber como julgar tódas essas histórias. paz." Eis o depoimento de um grupo de casais: "Salvo algumas passagens esparsas cá e lá. para o estudo erudito. estudo dos gêneros literários. materiais e educativas.. mesmo se tivéssemos tempo. calma." 1 É livro ante-diluviano. são a expressão fiel do que muitas vêzes se pensa também no Brasil. como se sabe. A história dêsse obscuro povo hebreu parece tão longínqua que se torna meio-irreal.

Ora. manual de protestantismo. errôneas e ímpias. passou a ser o arsenal de argumentos dos herejes. Descobrindo no Oriente manuscritos e monumentos pré-cristãos. a Escritura. foram suficientes para criar entre os católicos uma atmosfera de pouca "simpatia" para com a Bíblia. 2 Ora isto contribuiu naturalmente para que se acen2 Principalmente a Escola alemã de Tuebingen. Em tôrno da Escritura formaram-se escolas diversas. eruditos muitas vézes sem fé. porém. a Suiça (Steck). porém. Muitas vêzes. o . a Ps. que abusivamente fêz da Biblia a principal fonte de seus erros religiosos.. interessa-nos considerar mais atentamente as causas do distanciamento dos fiéis em relação à Escritura. a inglaterra (Johnson.. Uma das raízes remotas da desconfiança dos católicos frente à Sagrada Escritura é. e isto os fêz chegar a conclusões estranhas à Biblia. tendo deixado de ser o manual daqueles que visavam a piedade. Reforma Protestante. se distinguiu por suas teses hipercriticas.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 17 guintes. quiseram mesmo confirmá-los por seus trabalhos científicos. escola de heresias. a Bíblia. de mais a mais que na Bíblia há realmente expressões e narrativas cujo sentido não é evidente à primeira leitura. os estudiosos não se conseguiram emancipar de preconceitos filosóficos ou racionalistas. Paulo foram reduzidas a ficções literárias. Com efeito. em boa parte norteadas por protestantes liberais. XIX veio corroborar a desconfiança. XVI. recordaremos alguns fatos da história religiosa moderna. Tais normas (em si muito sábias e oportunas). se prestam a mal-entendidos ou escândalos. a Itália (Bossi). sem dúvida. se tornou o objeto de exploração dos homens de ciência. assim como o continuado abuso dos protestantes. a França (Couchoud). A tal fim. as autoridades eclesiásticas viram-se obrigadas a lhes restringir de certo modo o uso da Sagrada Escritura: no Concilio de Trento (1545-1563). para impedir fôssem seduzidos os fiéis. assiduamente manejada pelos protestantes. esta passou a ser julgada livro perigoso. As suas pesquisas não raro tiveram por resultado ilustrar maravilhosamente o sentido de passagens bíblicas obscuras. Naber). Fomentou uma onda de cepticismo que se propalou pela Holanda (Pierson. de estudarmos algumas vias de solução do problema. tendo à frente Bruno Bauer (t1882). os Estados Unidos da América (Smlth). A história do séc. por isto mesmo. os sábios puseram-se a compará-los com a antiga literatura religiosa de Israel. Robertson). Antes. aconteceu que. aos Evangelhos e aos escritos paulinos se denegou tôda autenticidade. No séc. obra colocada no Índice dos livros proibidos pela Igreja! . e que. correntes eruditas de pensamento. por todo o século passado. As figuras de Jesus e S. o texto latino da Vulgata foi declarado autêntico e aos fiéis se proibiu a leitura de traduções vernáculas da Bíblia não acompanhadas de notas explicativas conformes à doutrina católica. irrompeu o movimento luterano. Tais opiniões se foram disseminando através dos tempos sem grandes dificuldades.

Perante a confusão suscitada pelos eruditos. já qUe. inovador. sem consideração do respectivo panorama histórico. da Encarnação e do Corpo Místico. teria tentado conciliá-las. caíram assim numa atitude simplória. Cristiano Baur (t1860). Desta atitude resultou em não poucos dos contemporâneos a idéia de que a Bíblia é livro retrógrado em relação à ciência.livro perigoso a novo título. . O homem dos nossos tempos tem acentuada sêde de tudo que é genuíno. O movimento bíblico é portador de um título. ao menos. tantos se perderam nos mais variados erros do liberalismo e da impiedade. vocabulário. alguns círculos católicos se fecharam por completo à utilização dos recentes dados da ciência na exegese bíblica. átimo repertório de histórias para crianças. e entre os próprios católicos. se não a êstes. seria a expressão da conciliação jã obtida. João.18 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tuasse mais ainda nos católicos a impressão de que a Escritura é livro reservado: reservado aos protestantes ou. o livro dos Atos dos Apóstolos. reavivando em si uma mentalidade mais tipicamente cristã. de modo nenhum. II.. Isto se dá também no setor religioso. fantasista.. lendo e expondo as passagens da Sagrada Es-. Assim a recente história da exegese parecia confirmar o preconceito de que a leitura do texto sagrado constitui um risco para a verdadeira religiosidade. infantil. manifestam o desejo de viver as conseqüências práticas dos mistérios da SS. capaz de lhe assegurar pleno êxito. àqueles que têm muita ciência . Entendida de maneira demasiado humana. é no mundo herdeiro de tais preconceitos que se procura despertar hoje um movimento católico de volta à Escritura. tudo que sej a fruto de mera convenção. para não se cair na infidelidade ao ler a Bíblia! A situação se complicou mais ainda em virtude de um terceiro fator.. Os nossos fiéis têm procurado praticar a sua religião imediatamente à luz dos grandes dogmas. seria necessária muita fé. depois de 160. sustento de um espírito esclarecido. a Bíblia veio a seróbjeto de desprêzo daqueles mesmos que procuravam uma religiosidade elevada. digna do verdadeiro Deus! Pois bem. mais moderados. Trindade. procura tomar consciência da razão de ser de tôdas as coisas. Assim. por exemplo. XIX. o Evangelho de S. critura sem muito discernimento das regras de estilo. que as pesquisas modernas desvendaram. no séc. e rejeita o que lhe pareça destituído de fundamento objetivo. ao estudá-lo no séc. Poderá esta iniciativa contar com alguma probabilidade de sucesso? A resposta afirmativa se impõe. O cientificismo bíblico. menos superficial ou desvircristianismo passou por produto da filosofia religiosa de Alexandria e da sabedoria popular dos romanos! Alguns autores de Tuebingen. provocou uma reação imediata. porém. autêntico. admitiam que no séc.. 1 a cristandade estava dividida em facção petrina e facção paulina.

) . Liturgia (Mediator Dei. por dois motivos: a) o tema da Sagrada Escritura. XVI. pois. a Bíblia. procurando deduzir da mesma as idéias mais desconexas possíveis. 3 Em outros termos: nota-se uma sêde de voltar às fontes da verdade e da vida cristãs.. Através dos seus setenta e quatro variados livros. espíritas. cada qual do seu modo. visam introduzir os fiéis na leitura do livro sagrado. é por esta e pela tradição oral que a Igreja se orienta. Santidade sôbre a S. Ora entre as fontes de revigoramento da vida cristã está certamente a Escritura Sagrada. dans ia mêlée actueile. a fim de que o sal da terra seja sal ainda mais autêntico. bem característica da nossa época. as disposições da Providência em vista da salvação do homem. a saber. E isto. é do âmago do dogma que Pio XII deseja se nutra a espiritualidade crista. 4 Cc nwuveme. teosofistas. humanamente falando. por seus escritos. (Henry. § 2. uma observação prévia. desde os primórdios até o fim dos tempos. force la conscicift de chacun d présenter les piêces authentiques de ia croyancc. art. etc. falam em nome da Sagrada Escritura. amênera les catholiques à tire de pias cii pias la Bibie. que será também um princípio geral de solução para as dificuldades acima apontadas. fornecendo noções que lhes tornem possível desfrutar o rico conteúdo das páginas inspiradas. C'cst da moins cc que nous pouvons espérer lopalement.) que. Os comentadores consideram a Mediator Dei como o segundo capitulo de uma única obra que começou com a encíclica sõbre o Corpo Mistico de Cristo (Mystiet Ccrporis. Apresenta-nos em suas fases sucessivas. tem estimulado tão louvável tendência: a encíclica de S. permite prever todo o êxito ao movimento bíblico contemporâneo. De modo particular se sentem os católicos contemporâneos impelidos a tomar conhecimento da genuína mensagem da Bíblia. mobilizando tudo que elas possuem de vital. a sêde do autêntico. cit. 0 O PRINCIPIO DE SOLIJÇAO Os capítulos que se seguem. por verificarem que se vai multiplicando o número de confissões religiosas (seitas protestantes. em última análise. que. numa fase da história em que diversas facções humanas se chocam. É. o mistério de um Deus que desce até o homem para elevar o homem 3 O Santo Padre Pio XII. de 20 de novembro de 1947) apela freqüentemente para os dogmas da Encarnação e da Redenção. de 29 de junho de 1943). dos quais deduz conclusões atinentes à vida de oração. recorde-se de que uma atitude de fé sobrenatural é condição absoluta para penetrar o âmago da mesma. trata de um só objeto.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 19 tuada pelas influências não-católicas que sofreu a partir do séc. Quem quer que se apreste a ler a Escritura. 98.zt irrésistible qui. porém. Impõe-se.

já não se admira diante dasmúltiplas formas da condescendência divina sugeridas pela Bíblia. longe de se deixar desnortear por textos difíceis. 15. in lo 15. tais 'problemas" na realidade não são maiores enigmas do que a proposição de um Deus pregado à cruz. de diversos rnodos. V. O Deve-se mesmo observar que. Por tratar de tal tema.1. • O O significado geral do Antigo Testamento e da História Sagrada será objeto de ulterlores considerações no cap. a Bíblia tem necessàriamente passagens quase desconcertantes para o leitor que a queira julgar inicamente à luz da sabedoria humana: a sua linguagem é simples e pobre.8). Essa descida de Deus ao homem é também o mistério de um Amor que.tal descida não é simplesmente uma vinda. rejeitado. in . embora seja inconfundível. se quer dar derramaildo o bem sôbre os indigentes. semelhante à de um judeu antigo. às tradições dos semitas antigos. Flp 2. quanto mais a vida sobrenatural nêle está arraigada. Disto se segue que a chave para se penetrar na Bíblia há de ser uma fé coerente no mistério da Encarnação do Verbo. de uma adaptação da Majestade do Criador aos moldes pequeninos do pensamento e da vida da criatura. os livros sagrados do Antigo Testamento) e que continua a se manifestar em tôda a história do cristianismo. A atitude de fé já por si desfaz muitos dos problemas que o conteúdo e a forma literária da Sagrada Escritura apresentam. mal entendido. ela tem o caráter quase paradoxal de uma condescendência 5 de Deus para com o homem. mas que tem seus prenúncios nos séculos anteriores (entre os quais. em cada urna das passagens da Bíblia. Encarnação que se deu na plenitude dos tempos. mostra-se invencível na arte de procurar o indigente ingrato.1).3. 11.2. 3. Não há dúvida. que a usa freqüentemente (ei. tal cristão discerne cada vez melhor o que é contingente e o que é mensagem perene. mas que é. o próprio Autor das Escrituras. e a figura de Deus 4ue ela apresenta. E . é que lhe fala mais claramente o Mestre interior. Assim como não podemos indicar a última razão por que Deus se fêz homem na plenitude dos tempos.Gen h. . as vias pelas quais Éle procura o homem transcendem 'infinitam ente o bom-senso da criatura.20 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ao consórcio de Deus. está por vêzes adaptada à mentalidade oriental e aos costumes. os planos de Deus. assim também não sabemos dizer porque se quis adaptar à linguagem do homem no livro sagrado nem porque quis incluir no seu plano providencial tantos instrumentos rudes e imperfeitos. João Crisóstomo.note-se bem . quem na fé aceita o aniquilamento do Filho de Deus até a morte de servo (cf. embora soberano e independente. tanto üiais também êle experimenta afinidade com os dizeres da Escritura. quanto mais a fé é viva e forte no leitor. 6 A expressão é de S. não obstante.

Donde se vê bem que tal crença é básica para o católico que se proponha ler a sagrada Escritura. deverá simplesmente adorar. não pode deixar de estar também 'rntimamente associada à fé na Igreja. 85). porque crêem na autoridade infalível cio magistério da Igreja. seguindo apenas as insinuações da ciência ou ào seu bom-senso pessoal. Com efeito. 7 8 . renunciando a exercer o espírito de crítica. T. 2 Pdr. dos demais leitores da Bíblia (protestantes. b) a Escritura. etc. Quem admite isto. 7. Bar. A penetração da Sagrada Escritura. seria incoerente o católico que procurasse estudar a Sagrada Escritura independentemente do magistério da Igreja. tenham os fiéis consciência de que não poderão sempre por argumentos filológicos. isto se dá. o mistério da Encarnação do Verbo sempre exigirá a adoração reverente dos fiéis. já que pela Igreja Cristo ensina aos homens. Por conseguinte." Destas considerações decorre que. 2 e 3 Jo. literários provar a protestantes e racionalistas que a interDivina eloquia cum Iegente crescunt (in Ez 1. Se os católicos mantêm o seu ponto Qe vista. é na Igreja que o Verbo Encarnado prolonga a sua vida e a sua obra de iluminar e salvar os homens. mas ao menos indica verdades de fé às quais nenhum exegeta pode derrogar sem cair no êrro. tenha consciência de que encontrará passagens diante das quais. As razões de uma parte e de outra não bastam para dirimir a questão. os juízos de Deus. Todos sabem que Lutero não reconheceu como inspirados ou canônicos certos livros que os católicos admitem como tais (assim Tob.). Hebr. em Última análise. para os católicos. até o fim da vida. patrimônio da Igreja. é pela Igreja que lhes dá a saber o sentido da Palavra escrita de Deus. 1 e 2 Mac. em última análise. Gregório Magno (f 604) exprimia esta verdade numa frase incisiva: "Os dizeres de Deus crescem com aquêle que os lê. ao abordar a Escritura.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCÍPIO DE SOLUÇÃO 21 S. Apc). Jdt. ninguém se prometerá chegar um dia a compreendê-la como compreende um livro ditado imicamente pela sabedoria humana. que é a Bíblia. 9 Exemplo notório é o do cânon ou catálogo das Escrituras sagradas. ao contrário. ela se exerce já na questão de saber em que consiste a Biblia. deduzidas da histôria. Como. para os rejeitar. ° Sendo assim. distancia radicalmente o católico. há de reconhecer que à Igreja compete. espíritas. arqueológicos. Rolo. É esta fé na Igreja que. de resto. Sab. Os protestantes apresentam razoes. dar a genuína interpretação da Escritura. sendo função da fé na Encarnação. racionalistas. Pode acontecer mesmo que a autoridade da Igreja seja o único argumento decisivo para que o católico tome tal posição exegética em vez de outra. a proferir algum juízo. Jud. Os católicos também desenvolvem argumentos para os admitir. Verdade é que o magistério eclesiástico não dita normas positivas para o entendimento de todo e qualquer texto bíblico.

11 Isto bem se entende pelo fato de que escrever era arte difícil na antiguidade. Por volta de 51. ape- 1' / . Como isto? É preciso não esquecer que os livros da Escritura tiveram origem ocasional ou esporádica. em que S. o material respectivo (papiro ou pergaminho) era raro. sabe-se que Jesus Cristo comunicou todo o seu ensinamento aos Apóstolos por via meramente oral. Foi o que ocasionou a primeira epístola aos tessalonicenses. porém: não será constrangedora. o Apóstolo estêve em Tessalonica (Macedônia).1-15). não raro. Paulo teve noticia de que os tessalonicenses nutriam dúvidas a respeito cIo dia do juízo final e da sorte que então tocaria aos irmãos defuntos. deverão. pode-se dizer que ela é não apenas imposta pela Igreja. demorar aí tanto quanto necessário para rematar a catequese dos recém-convertidos: um tumulto provocado pelos judeus obrigou-o a procurar refúgio em Atenas e corinto (cf. Paulo aos tessalonlcenses. em térmos breves. apenas elucidavam os aspectos que davam lugar a mal-entendidos entre os fiéis. porém. pois. Ora. Já que esta primeira carta não bastou para acalmar os ânimos. os Apóstolos não se preocuparam grandemente com a redação da doutrina recebida de Cristo. esta atitude dos católicos? Não. 12 Haja vista. mas exigida pela índole mesma da Escritura Sagrada. pouco digna da inteligência humana. escreveu a segunda epístola aos tessaloaicenses.22 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pretação dada pelos católicos a tal passagem bíblica é a autêntica. atendendo a essas necessidades contingentes é que os Apóstolos e Evangelistas redigiram suas cartas e suas biografias de Jesus (Evangelhos). de modo nenhum intencionavam expô-los de maneira sistemática ou exaustiva. exigia muito tempo e grande habilidade por parte do autor. por exemplo. torna-se por vêzes vão querer argumentar com êles. o magistério se exercia quase ünicamente pela palavra viva. Por sua vez. professar que é a voz da Igreja que os leva a optar entre duas explicações que. porém. Paulo aborda aspectos da doutrina da segunda vinda de Cristo. porque apenas intencionava completar a pregação de viva voz. tais dúvidas provocavam agitação entre os fiéis e solicitavam a intervenção do Apóstolo. ao abordar pontos de doutrina em tais escritos. à luz dos critérios literários. Não se pôde. pressupondo de resto os ensinamentos que de viva voz haviam transmitido. No tocante ao Novo Testamento. '° Pergunta-se. a maneira como se originaram as duas epístolas de S. onde fundou o primeiro núcleo de cristãos da cidade. de sorte que subtrair-se a essa posição vem a ser infidelidade para com o texto mesmo que se quer elucidar. " Acontecia. foram-na transmitindo de viva voz pela pregação. ciente disto. que esporàdicamente os fiéis desta ou daquela região propunham questões particulares (de índole dogmática ou moral) aos Apóstolos ou pediam que lhes enviassem uma súmula escrita do que haviam pregado. 12 Daqui se segue 10 Já que os não-catúlicos não reconhecem tal magistério. poucos meses mais tarde. em que de novo só se propunlia desfazer os mal-entendidos dos fiéis. Em conseqüência. pouco depois de chegar a Corinto. porém. seriam igualmente plausíveis. Paulo. At 17.

Errôneo. esta pequena parte não constitui um bloco fechado e completo em si. apresentem hoje dificuldades exegéticas insolúveis. sem prêviamente tomar conhecimento exato do veículo humano a que se quis ligar a Palavra de Deus. embora a atitude de fé seja a atitude primária para uma profícua leitura do texto sagrado. é preciso mesmo dizer que só pequena parte das verdades de fé foi explicitamente consignada por escrito. humano. para que se manifeste em seu tempo. seria desprezar. pois. em nome da fé ou da piedade. o primeiro elemento a ser consultado seja o conjunto de ensinamentos que sempre se transmitiram ao lado da Escritura no povo de Deus ou na Igreja. .5s). é o espírito sobrenatural do leitor que a deve perscrutar. enquanto tal. e cultura oriental antiga. E. o recurso aos resultados da ciência moderna empreendido pelos bons exegetas conlaudo. para o seu ensinamento oral (cf. como modalidade nova da mesma. depende desta. em outros têrmos. mas ficaram na tradição meramente oral da cristandade. Esta é. não se pode deixar de salientar que. para a redação das páginas sagradas. contribuíram com seu cabedal de cultura. ninguém pretenderá apreender a mensagem divina da Escritura. de resto. ora não resta dúvida de que êste outro aspecto da Escritura só pode ser entendido mediante o recurso às noções de cultura pressupostas pelos autores bíblicos. Semelhantemente. porém.O PROBLEMA BÍBLICO E SEU PRINCIPIO DE SOLUÇÃO 23 que muitos temas da autêntica pregação de Jesus ou do depósito revelado não passaram para o papiro. pois se originou dentro da tradição oral. e. um livro divino. os escritos do Antigo Testamento. É o que explica que estas duas epistolas. esporádica. 13 É o que faz que. Por fim. certamente inteligíveis para os seus primeiros leitores. De tudo isto resulta claramente que o recurso à tradição. Apenas fragmentos cio historiograf ia ou dos cráculos dos profetas ou das máximas dos sábios de Israel nos foram consignados. que ainda hoje vive entre os cristãos e tem seu autêntico órgão de expressão no niagistério da Igreja. 2 Tes 2. como se deduz da critica literária dos livros do Antigo Testamento. tiveram origem ocasional. portador de mensagem sobrenatural. da Bíblia. que o detém. na exegese da Sagrada Escritura. sem dúvida. que. mas é inseparável da tradição oral. Tendo em vista as disposições habituais da Providência. é exigência decorrente da índole mesma da Sagrada Escritura. é. Ao mesmo tempo.5s: "Não vos lembrais de que eu vos dizia essas coisas quando ainda estava convosco? Agora sabeis o. a tradiçâo oral. como se vê. faltam-nos os elementos da pregação oral que deviam esclarecer o que Paulo diz a respeito da aparição do Anticristo e do Obstáculo que o detém (cf. 2. é obra de autores humanos. longe de ser imposição arbitrária da autoridade eclesiástica.") 15 Isto se compreende já pelo fato de que escrever era relativamente pouco usual entre os antigos. ela de modo nenhum dispensa certo estudo ou esfôrço que vise penetrar e entender o aspecto literário.

está pronto a exercer a fé renunciando a julgar as autênticas obras de Deus. as noções introdutórias na Escritura encontram-se redigidas sob forma breve e simples em opúsculos das diversas línguas modernas. mas. que. eis o pressuposto de uma leitura frutuosa do livro sagrado. nada despreza daquilo que de verídico ensina a ciência. de outro lado. . É claro. eis o princípio geral para a solução dos problemas da Bíblia. Deus houve por bem fazer da sua Palavra a mensagem para todos os homens. que nem todos os leitores da Escritura estão obrigados a fazer os mesmos estudos para desfrutar o conteúdo do texto sagtado. Em conclusão: espírito sobrenatural muito vivo. de um lado. porém. não sõmente para aquêles a quem é dado o lazer do estudo. tais opúsculos possibilitam o acesso ao livro sagrado mesmo às pessoas que. por suas circunstâncias de vida.24 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO temporâneos. menos se possam dedicar ao estudo.

0). verificou-se. 0 ) e da história profana Q 3.CAi'ínJLo II LIVRO INSPIRADO POR DEUS Quem toma em mãos a Sagrada Escritura para dela fazer o seu livro de doutrina e espiritualidade. é geralmente movido por uma crença de importância capital: a Bíblia é a Palavra de Deus. sua transfixão na cruz (Zac 12.12).13-53. goza. Ao estudo dêste problema. também não vêem como se possa conciliar o conceito de inspiração divina com o estudo das fontes humanas de um trecho bíblico. estar associada a êste outro dom divino. abordando primeiramente o conceito de inspiração em si Q 1. de autoridade única. séculos antes de Cristo. Livro inspirado pelo Altíssimo. Não poucos se admiram ao verificar que a Escritura se assemelha muito a obras profanas. sua paixão expiatória (Is 50. de inspiração bíblica não é claro a todos os cristãos. O conceito. § 1. pois. não ocorre necessàriamente. a documentos da literatura antiga. sim. visto que deviam fazer parte da .0 ). se dedicará o presente capítulo. consignaram por escrito pormenores da vida do Messias.10).4-10. quando os profetas de Israel.1). com a crítica literária e paleográfica do texto. porém. depois as relações da Escritura com as conclusões das ciências naturais (§ 2. que é capital em tôda iniciação bíblica. ou seja. "Livro inspirado por Deus" parece-lhes ser obra absolutamente emancipada das fases de preparação por que costuma passar todo produto literário humano. com as hipóteses de acréscimos ou interpolações feitas a determinada passagem etc. faz-se mister remover logo duas opiniões errôneas: a) inspiração bíblica de modo nenhum é revelação. ao ensinamento de verdades até o presente ignoradas pelo hagiógrafo. por exemplo. porém.0 QUE SE ENTENDE POR INSPIRAÇÃO BIBLICA? Na procura da resposta autêntica à pergunta. A iaspiração pode. 52. Isto. Tais episódios foram redigidos sob a influência de dois dons sobrenaturais: o da inspiração bíblica. tais como o seu nascimento em Belém de Judá (Miq 5. comunicação sobrenatural de verdades desconhecidas ao escritor.

com a lucidez do próprio Deus. consultado testemunhas (cf.29. b) se a inspiração bíblica não é necessàriamente revelação. ilumina a inteligência do hagiógraf o. 3 lis 14. consignaram os mesmos episódios (cf. o hagiógraf o examine a veracidade das noções que êle tem na mente. e o da revelação. êste processo não implica comunicação de novos conhecimentos. Mt 2. 2 Crôn 9.7. a inspiração importa moção da vontade e das potências executivas do hagiógrafo.inteligência. 29. . pois haviam presenciado os fatos ou tinham sido informados por testemunhas abalizadas. emancipado de vestígios da personalidade do autor humano.16-38).23. por assim dizer. enquanto as proposições aptas a êste fim lhe são apresentadas como tais. Jo 19. Deus. ainda se pode explicitar do seguinte modo: a inspiração bíblica.37. De resto. Isto tudo quer dizer que. prêviamente adquiridas. 21. proposições verídicas. 8. o livro estaria. Lc 1. ao contrário a suscita. já o fizeram apenas sob o influxo da inspiração bíblica. ou seja. porém. também não consiste em ditado meramente mecânico.32s). 1-3).19. a seu turno. 24. Como se vê. escreva aquilo que percebeu em sua mente ilustrada.35.. sem o mínimo êrro. Em têrmos positivos. por exemplo. a fim de que êste resolva escrever & de fato. Êsse ditado dispensaria tôda a ciência pessoal do hagiógraf o. vamos encontrar noções que diríamos "humanas" (não falsas. de sorte que êste. bem como o seu esfôrço de composição literária. O qué acaba de ser dito. At 8. Em outros têrmos: a inspiração faz que.29. mas de maior certeza (da certeza do próprio Deus) na posse das verdades já adquiridas. 15. citam também as fontes compulsadas (os anais dos reis de Israel. não por revelação divina.6. os evangelistas.29. Essa iluminação faz que noções ineptas a comunicar as verdades intencionadas por Deus apareçam à mente do hagiógrafo como inadequadas. longe de extinguir a atividade do hagiógrafo (ou o trabalho de um escritor).1-4. porém).24. pela inspiração. serem a expressão autêntica da mensagem que o Senhor quer transmitir aos leitores. na Bíblia redigida sob a inspiração divina. a inspiração bíblica? Supondo no homem um cabedal de cultura. 2 Mac 2. os autores bíblicos apelam freqüentemente para a sua experiência. Além de iluminação da.17. com a clarividência de Deus. pois certamente os autores sagrados não adquiriram essas notícias por estudo ou por via meramente humana. em 1 Crôn 27. atestam ter visto ou ouvido o que referem (cf. Quando. 11.31. 1 J0 1. J0 19. formuladas segundo os moldes usuais entre os homens da antiguidade. ter investigado documentos. que é. pois. as escolha e formule de modo a se tornarem a expressão fiel dos pensamentos do Altíssimo.26 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Escritura. tal como se dá entre o autor de uma carta e seu dactilógrafo.). perceba tais e tais verdades. . 24-32.

VIU a. O conceito de inspiração é bem ilustrado pela analogia do homem que. grossura. dom (de Deus) outorgado em favor da comunidade dos fiéis. o que quer dizer: fica subordinada à educação e às categorias culturais de um escritor humano.). um cabedal. Mateus. 1 designa aqui a inspiração. de palavra do homem. O efeito produzido na pedra se deve atribuir tanto ao escritor como ao seu instrumento. 2 Com efeito.C. 2 Do fato de que a Escritura é inspirada por Deus (nos têrmos acima expostos) segue-se a sua inerrância ou isenção de êrro dou"Carisma". mais precisamente: de um judeu que viveu no Oriente há mais de três ou há quase dois milênios atrás. rico ou pobre. mistério pelo qual o Filho de Deus apareceu na terra revestido da natureza humana. Anàlogamente se relacionam Deus e o hagiógrafo na composição dos livros sagrados: as idéias ensinadas pela obra provêm primàriamente de Deus. a fim de que produza efeito não simplesmente humano. as impressões de um homem dos campos. afeito aos números. escreve sôbre o quadro-negro. cultura própria. a inspiração tem sua semelhança com o mistério da Encarnação. um sem o outro não o produziria. um só pensamento pode mesmo tomar configurações bem diversas conforme os diver sos tipos de giz usados. não obstante. simples pastor. cf. sem mutilar a esta. Autor principal. que serve para exprimir tais idéias. como S. vontade. ao passo que ao giz se deve reduzir a forma visível dos mesmos na pedra (côr. certa graciosidade. Em conseqüência. na Escritura depreendem-se os vestígios característicos de um homem de cultura esmerada e trato nobre. os cálculos harmoniosos e simétricos de um cobrador de impostos. como S. ignorando muita coisa das ciências e das artes que hoje se conhecem. um dos ilustres cidadãos de Jerusalém no séc. mas humano e divino. como o de Jeremias. não desprezível. as de um temperamento muito sensível e vibrante.15) aos demais homens. potências executivas) e percorre simultâneamente com êste as etapas necessárias para a redação de um livro. porém. 1 Deus penetra tôdas as faculdades do escritor (inteligência. de valores humanos. eleva-a a plano superior. todavia a forma literária. a veste. antes servindo-se de tudo que lhe pertence e equiparando-se integralmente (exceto no pecado. de modo que a obra daí resultante não apenas contém a Palavra de Deus.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 27 suscitando-a. Lucas. para exprimir a verdade divina. Sim. a veste. como Aniós. a vivacidade de um Jovem fogoso. E nesse efeito encontram-se inevitàvelmente os vestígios de um e outro agente: ao homem se devem atribuir os pensamentos expressos. pouco preocupado com o estilo. a terminologia e a finura de espírito de um médico de formação helenista. E note-se que cada hagiógraf o deu os seus pressupostos pessoais. como S. é condicionada pelo hagiógrafo. Hebr 4.. com um pedaço de giz. possuindo. . que tomou a face. pelo influxo do carisma. como Isai as. etc. Marcos. mas é a Palavra de Deus.

diálogos (Jó) . não. outras as da história "edificante" ou "moralizante". modalidade contingente. Esta cláusula. de tal modo que nenhun-i leitor interpretaria uma peça jurídica..) 4 Esta verificação dá claramente a entender que o cultivo de certas disciplinas profanas. ninguém ousará atribuir indiferentemente ao autor qualquer das teses conciliáveis com o conteúdo "bruto" de seus vocábulos." (Citação transcrita de Gourbillon. como o recomendavam ainda recentemente os Sumos Pontífices. Daqui se deduz a imperiosa necessidade de discernir o que se chama o "gênero literário" de cada livro da Sagrada Escritura. Jeremias. etc. em que os artifícios e as metáforas são de praxe. Paris. Platão dizia: "Mentiroso como um poeta. de resto. O que quer dizer. deveria ser imputado ao próprio Deus! Jamais. nenhum leitor se pode julgar autorizado intérprete de tal ou tal seção bíblica.. como a filologia. Sem saber qual o gênero literário com que se defronta. Santidade Pio XII em 1943: "Bem preparado com o conhecimento das línguas antigas e com os recursos . a qual prima pela precisão de suas palavras e a concisão de suas sentenças. se poderia esquecer neste assunto uma cláusula de grande alcance: já que a inerrante Palavra de Deus toma na Bíblia uma veste humana. caso nela existisse. 1 Ora na Bíblia há livros de leis (o Levítico). lhes queria atribuir. etc. história edificante ou ornamentada com fim catequético (Tobias. outras as da poesia. se prende a uma regra geral de hermenêutica. em têrmos mais claros: as afirmações da Sagrada Escritura só gozam da absoluta veracidade da Palavra de Deus quando entendidas no sentido mesmo que o hagiógrafo. não é senão mediante a interpretação desta que aquela pode ser atingida. como interpreta uma seção poética. não constitui. outras as de uma seção de crônicas. a arte crítica dos textos. Após Leão XXII (Enc. para a exegese católica. profecias (Isaías. a arqueologia. E que será prõpriamente o "gênero literário"? Esta expressão •designa o conjunto das regras de estilo e o vocabulário que os homens de determinada época ou região costumavam observar quando queriam escrever sôbre certo tema. mas vem a ser tarefa a que as nossas escolas não se podem furtar.. Providenti. pois. a saber: o autêntico significado de uma obra literária só se patenteia a quem procure reconstituir a mentalidade do respectivo autor e as circunstâncias em que escrevia. Comment tire la Bible. lhes possa dar. êste. Judite e Ester). 3 verificando isto. outras as da profecia. história estritamente dita (os livros dos Reis. não há dúvida. a história do antigo Oriente. outras são as normas de redação de um texto de leis.ssimus) • escrevia S.28 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO trinário. os Salmos). 23. Embora não raro as palavras de determinado texto sejam suscetíveis de mais de uma interpretação. quando interpretadas no sentido que um leitor moderno. porém. Ezequiel). seu porta-voz humano.. em leitura superficial. poesia (o Cântico dos Cânticos. o primeiro dos Macabeus).

sim. crescem pouco a pouco e não se colhe fruto senao depois de muito trabalho. valendo-se da ciência das linguas. pois. pois.. o que se dá na Igreja não é mudança de dogma. Em nossos dias. por conseguinte. 315. tendo projetado luz valiosa sôbre as páginas bíblicas levam-nos a dizer que a genuína mensagem das Escrituras. com tõda a diligência. Procurem-no. etnologia e de outras ciências. o que se verifica é. Assim precisamente sucedeu que a muitas questões o .. com o auxilio da história. 5 Isto poderia fazer crer que a Igreja mudou os seus dogmas e pràticamente nega a inerrância da Palavra de Deus. intérprete deve.. mudança da Palavra de Deus (o Magistério eclesiástico nunca declarou verdades de fé as proposições dos exe . Deus e as Escrituras não alteram a sua doutrina. quando não se possuíam tão esmerados instrumentos de trabalho. mas há ainda hoje graves questões que não pouco agitam os espíritos dos católicos.. examinar e distinguir claramente que géneros literários quiseram empregar.. e interpretação falível que os homens podem dar a êste texto.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 29 O fato de que a inerrante Palavra de Deus está associada aos gêneros literários dos antigos semitas ainda é fecundo para explicar um fenômeno aparentemente estranho: hoje os autores católicos já não atribuem à Escritura proposições que antigos e medievais afirmavam em nome da mesma." (Enc. para tirar a limpo o pensamento do autor. os escritores daquelas épocas remotas. antes. o conhecimento mais exato de passagens da Escritura que nos ficam obscuras: "Não é para admirar se não se venceram nem resolveram ainda tõdas as dificuldades. todavia. entre doutrina divina inerrante. da comparação com passos semelhantes.) 5 É o que se verifica principalmente na história das origens do mundo e do homem. contida na Escritura. necessitar de remodelação à medida que se descobrem novos instrumentos de pesquisa. getas hoje revogadas). já que esta só pode ser percebida mediante a consideração da sua face humana ou dos gêneros literários. Neste trabalho tenham os intérpretes bem presente que o seu maior cuidado deve ser distinguir claramente e precisar qual seja o sentido literal das palavras bíblicas. o sua Santidade o Papa Pio XII manifestava em nossos dias a esperança deque os tempos futuros nos forneçam ainda novos meios de estudo e. As recentes excavações no Oriente. se vai manifestando deficiente a interpretação que a certos trechos se dava. está claro que. Distinga-se. O labor do homem é indispensável para se entender a Bíblia. por conseguinte. em pontos de importância secundária. arqueologia. Tal conclusão seria precipitada. Acta Apostolicae Sedis 35 [1943] 310. do exame do contexto. Não é caso para desanimar. não era sempre plenamente percebida pelos intérpretes antigos. o aperfeiçoamento dos métodos exegéticos e conseqüentemente a reforma da interpretação de um texto cuja mensagem em si mesma é una e constante. basta refletir que nos estudos humanos sucede como nas coisas naturais. Divino ali jante Spiritu. 6 da crítica. coisas tôdas de que se costuma tirar partido na interpretação dos escritores profanos. na proporção em que melhor se vão conhecendo os processos de redação dos povos antigos. aplique-se o exegeta católico àquele que é o principal de todos os seus deveres: indagar e expor o sentido genuíno dos Livros sagrados. e êste labor pode..

astronômica. a Sagrada Escritura também alude a conceitos de índole científica (física. etc.. era. popular. porém. entra por vêzes em aparente conflito com as ciências da natureza. quanto às referências de outra ordem. mas em função de proposições religiosas.) . errôneamente Interpretada em tal sentido. dir-se-á: tôdas as vêzes que uma antiga sentença exegética seja comprovada falsa à luz das ciências modernas. com efeito. era estritamente religiosa: o Espírito Santo. pelos autores bíblicos. Contudo. de modo nenhum temas que diríamos profanos ou científicos. não resolvidas e indecisas nos tempos passados. podem exprimir veracidade relativa. § 2. observe-se que a finalidade em vista da qual Deus moveu os hagiógrafos a escrever." (Ibid. esperar que tarnbëm as que hoje nos parecem sumamente complicadas e dificílimas. cientista que por volta de 1615 começou a ensinar a tese do movimento da terra em tôrno do sol. depois de momentâneamente condenado pelo Santo Oficio (tribunal eclesiástico que não goza da infalibilidade própria do magistério universal da Igreja). lhes parecia Inculcar o geocentrismo. biológica. comprovara-se que errônea era 4etermino4a interpretação dada à Sagrada Escritura. pré-científica. não são visadas em si. Galileo foi reabilitado e suas Idéias aceitas por exegetas e teólogos.mas na interpretação que os homens davam a esta. quis ensinar aos homens £nicamente verdades que importem à salvação eterna. já que o homem procura a salvação dentro do cenário da natureza. Muitos de seus contemporâneos julgavam que contradizia à inerrante palavra da Sagrada Escritura.0 A SAGRADA ESCRITURA E AS CIÊNCIAS NATURAIS Importa agora abordar mais detidamente o problema particular que acaba de ser insinuado. Estas noções profanas na Bíblia servem de mero veículo. esta. a Sagrada Escritura não ensina tais conclusões de ordem meramente científica.7-15) como pe10 fato de que a Encarnação teve lugar na terra. pois. 318. Pode-se. o centro do universo. Na realidade. com uma constante aplicação virão a ser um dia plenamente dilucidadas. não a Escritura mesma. reconheça-se que o êrro estava contido não na Sagrada Escritura. por conseguinte.30 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO e Em suma. a saber: embora a Bíblia seja a inerrante Palavra de Deus. Como será isto possível? Antes do mais. a qual deveria ser. tanto por caúsa do propalado milagre de Josué (Jos 10. Desta afirmação decorrem importantes conseqüências: às proposições religiosas da Sagrada Escritura cabe veracidade absoluta.). a qual se distingue da veracontroversas. Por isto é que. Haja vista o caso de Galileo Gaifiei. só nos nossos dias com o progresso dos estudos se encontrou felizmente solução.

pois se baseiam na aparência que os fenômenos realmente apresentam. A Bíblia. Por isto é que a linguagem do cientista é precisa.Já que o Livro de Deus nada quer ensinar neste setor. que formulassem verdades religiosas mediante os conceitos de ciência que estavam em voga no seu povo. pois. fala-se da baleia como "peixe". pode ser assaz livre. de pontos de vista diversos: o cientista considera os elementos em si mesmos. não o interessa ir além disto (a menos que passe para os domínios da Filosofia e da Teologia).s. o firmamento. do morcêgo como "ave". Tais noções. Procedem. servir-se de outra linguagem seria mesmo tornar a mensagem religiosa da Bíblia ininteligível aos seus destinatários durante muitos séculos. como se propunha o hagíógrafo.4a. Aplicação muito clara desta distinção tem-se na narrativa da criação em Oãn 1. Ora o Espírito de Deus. conceber .LIVRO INSPIRADO POR DEUS 31 cidade científica. inculcar que todos os sêres designados mediante "tais" e "tais" noções se relacionam com Deus como criaturas dependentes do Criador. ao contrário. pouco importavam as fórmulas cosmológicas ou biológicas. 1954). refletida 4 técnica. mas. só a interessa.n. com o homem.. desde que indicassem as diversas criaturas que cercam o homem). O leitor contemporâneo. Les plus ancienfles traditions "Os dogmas (na narrativa biblica da criação) são revestidos à moda do Oriente e realçados por poesia maravilhosa. por assim dizer. enquanto a da Bíblia. etc. eram suficientes para designar o mundo visível e suas relações com Deus.. embora imperfeitas aos olhos do homem moderno. permitiu. versando sôbre os mesmos temas. Estas expressões não deixam de ter fundamento objetivo. mas se adapta ao modo de falar dos contemporâneos. ao inspirar os hagiógrafos. sim. portanto. Como se poderiam. não tomará as alusões da Escritura como insinuação de teses físicas. A cosmologia pressuposta pelo autor sagrado é. não há choque entre o mesmo e a ciência humana quando se ref erem às criaturas materiais. a tangente que passa por cada ser visível e o liga com Deus. Ora bastava ao hagiógraf o esta veracidade relativa. como se vã. refere-os às suas causas próximas e dá-se por satisfeito depois de ter tomado conhecimento da estrutura de cada ente corpóreo. insustentável (a luz seria anterior às estrêlas. haveria uma abóboda cristalina. não julgou necessário revelar-lhes a estrutura do universo e dos sêres vivos. 7 dit Pentateu que (Paris. aos olhos da ciência moderna. Steinman. sem os induzir em êrro científico. Ainda hoje na linguagem cotidiana se diz que "o sol nasce e se põe". a perf&ção do Altíssimo (no caso. impregnada únicamente de Veracidade popular. 92: ótimas são as observações de J. cosmológica. pois êle não queria descrever as fases pelas quais o mundo se originou. biológicas.1-2. . tudo contempla de um plano superior. aliás. todos sabem que não quer ensinar astronomia. destinadas a refletir. sim. Mesmo quando o hamem de ciências se refere ao "nascer" e ao "pôr" do sol. sôbre a terra) todavia corresponde ao que se ensinava entre os judeus antigos.

c.. de resto. ° Em conseqüência. De Genesi ad Iitt. "a incessante alternância da Discórdia e da Amizade". Sonho de Cipião 7. Aristóteles. intperf. mostra-se inconsistente a supeita de desacôrdo entre a Sagrada Escritura genu'mamente entendida e os genuínos dados da ciência. cap. Enc. mencionando-a na Lei. onde o hagiógrafo apresenta a lebre como animal ruminante. Agostinho. Comentãrjo da Quarta Ecloga de Vergltio. À luz dêstes princípios e exemplos. sem dúvida. o esquecimento e o repúdio do corpo e do corpóreo.) O Testemunhos ou vestlgios desta ideologia oriental encontram-se em: Empédocles. Provi denttssimus. pouco prezavam a história.. não carece. cuja cabeça vem a morder a própria cauda (princípio e fim coincidem no mesmo ponto. a sucessão dos tempos jamais conhecerá remate ou consumação final. § 3 • 0 COMO O ISRAELITA ESCREVIA A HISTÓRIA Os antigos povos do Oriente. de veracidade popular (a lebre está continuamente a mover os rnaxiliares e os lábios) . sim! Como. ep. o foram Péguy e ClaudeI! Não falavam os antigos. ou seja. "a aspiração e a expiração de Brama". da barbârie dos escultores do estilo românico ?" 8 "2 certo que nunca haverá desacôrdo real entre o teólogo e o cientista. c. Terão sido ingênuos (raïfs) os escritores javistas? Se o quisermos. . Ëste circular contínuo e monótono da história era dito "o ritmo do yin e do yang". acontecimentos já verificados no pretérito se reproduzirão em época futura. caps." (Leão XIfl. Stobeu. 'por nada afirmar irrefletidamente e não fazer passar por verdade bm conhecida aquilo de que não tenham conhecimento claro'. a fim de passarem a viver num mundo transcendente. Meteor. deficiente. 3. Séneca. 1. V. despertasse no israelita uma atitude religiosa. 30 e 115. porém. 28s. Agostinho. os quais se repetem regulamente. 8. enquanto um e outro se mantiverem dentro de seus limites e se esforçarem. li. 1. Eclogae physicae 1. 4. como diz S. Quaestiones naturales 1. e tal veracidade era suficiente para que o Espirito Santo.ciclos do mundo presente mediante a ascese. todo o movimento que se registra entre os dois têrmos nada de novo acarreta!). 3.1. a tendência de muitos indivíduos era emancipar-se dos. Representavam esta concepção recorrendo à figura de uma serpente enrolada.32 PAiA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO * Outro texto significativo é o de Lev 11. Censorino. fidelidade e amor a Deus. cf. as coisas de outra forma? Dizer que Deus concebeu em sua mente as nebulosas e criou a alma humana no fim de uma série de sêres em evolução não esclarece mais o mistério do que dizer que Deus plasmou o corpo do homem servindo-se de barro e plantou num oásis árvores frutíferas.30. S. De die natali 18. 82. Cicero. Da geração e da corrução 1. 9. sérvio. Era assaz generalizada a tese de que os séculos constituem ciclos fechados. com sentimentos de compaixão. 1. 2. por muito elevado que fôsse o seu grau de cultura. "a dança de Siva que produz e destrói sucessivamente os mundos".6. Fragm. A classificação é.

aberrações. a transcrição de documentos dos arquivos orientais .) 11 Dentre as várias obras que nos últimos tempos têm proposto o confronto e a concórdia entre os dados da Bíblia e documentos de arqueologia. os críticos modernos racionalistas: "Dentre todos os povos asiático-europeus. e o ter feito com esmêro tal que só foi superado pelos gregos. na literatura dos hebreus. Ora nesse ambiente o povo de Israel se distingue por ter cultivado a história.. a expressão da fantasia popular ou de uma religiosidade politeísta. com o relato contínuo e fiel das fases sucessivas da evolução humana. etc. do Egito. aquêles se comprovam fiéis à verdade. entre as demais nações antigas do Oriente. Na Grécia surgiu mais tarde.. assiriologia. documentos parciais . que ocupa lugar priviIegado entre todos os povos civilizados do Oriente. particularmente Interessante é a de W. sômente Israel e a Grécia possuem autêntica historiograf ia. paleontologia. ultrapassando as categorias culturais do seu ambiente. exuberante (nos diversos acervos de ruínas excavados no Oriente até hoje. 227. 1921. a historiografia se originou em época tão remota que causa surprêsa. se distinguia singularmente na arte de escrever a história. Meyer. que coincide com os escritos bíblicos. mitológicas." (Ibid. apenas se descobriram elementos -. Quando o faziam. Em Israel. . 1954). 315. 11 A história de Israel assim descrita se desdobra uniformemente. não se encontrou uma síntese histórica dos tempos antigos. tenham com tanto esmêro cultivado a historiografia? E. ou seja.. suscitadas entre os hebreus pela idolatria dos povos vizinhos. em grau maior ou menor. Pio XII chamava a atenção para tal fenômeno em sua Encíclica Divino 10 ai/Jante Spiritu: "As pesquisas comprovaram claramente que o povo israelita.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 33 Isto explica que os antigos orientais pouco se tenham preocupado com historiografia. E como se explica que os rudes judeus. Quando é possível controlar as afirmações dos cronistas de Israel à luz de textos profanos. RelIer. etc. Geschichte der Altertums 14 1. mas eram. visavam apenas episódios restritos ou envolviam as narrativas dentro de concepções lendárias.para se reconstituir a história da Assíria. não sem admiração. e produziu logo de início obras de importância. egiptologia. Und die Eibel hat cfocft recht 1 (Duesseldorf. inscrições. É o que reconhecem.). sob a influência de uma ideologia monoteísta assaz forte para superar crises. é delineada a história do povo em traços contínuos e de modo que pressupõe a pesquisa de fontes. e isto tanto pela fidelidade como pela antiguidade das narrativas. condizentes com o que referem outras fontes.." 10 Com efeito. de sorte que os relatos já não transmitiam a notícia de fatos ocorridos. mestres da historiograf ia ocidental...

procura realçar o sentido religioso dos acontecimentos. . Em conseqüência. dando-lhes côngruo desenvolvimento e realce. 31-36. Aliás. os hebreus julgavam-na tôda perpassada por um plano divino. Por exemplo. o historiador deduz a lição contida nos fatos. Tenham-se em vista. magistra vitae luz da verdade. a escassez de pormenores que se diriam de ordem meramente profana. 12 Entende-se.4. quanto a Davi. o passado lhes aparecia qual mensagem divina a prenunciar reaJizações futuras ou a admoestar a melhor conduta de vida. os escritores de Israel se tenham preocupado com a redação de suas crônicás. mas destituídos de importância para a salvação dos fiéis. São. posterior aos de 8am e Rs. 14 Muito interessante a êste propósito é confrontar os livros dos Reis (San e Rs) com os das Crônicas. Longe de professar que a sucessão dos tempos carece de sentido.Jer'31. . 40. sabiam que.. 11.1-l0. Vis. pois. Não seria justo. de fato. a fim de se poderem interpretar com exatidão as crônicas existentes na Sagrada Escritura. Éstes. que. pois. a história do reino cismático do Norte (Samaria). viam. ou seja. querendo predizer a futura Redenção messiãnica e a instauração visível do reino de Deus. de Deus.. que passa pela Casa de Davi no reino meridional. mestra da vida" (De Oratore 2. 13 Cicero tem a história na conta de "lux veritatis . 2 Crôn 12 Muito claramente se afirma esta concepção nos escritos dos Profetas. pois não interessa a linhagem messiânica. a fim de melhor pôr em evidência o significado religioso dos episódios. 15-17. a história era geralmente considerada qual "mestra da vida". paralelos entre si. é silenciada em Crõn. em algumas passagens historiográficas da Sagrada Escritura. cf. sim.. 13 devendo as narrativas de feitos pretéritos servir de escola às gerações pósteras. inconfundível com a das outras nações do Oriente. pois. descreviam-nas com os traços característicos de duas "redenções" anteriores de Israel. que nela se vai atuando e tende à consumação no fim dos séculos. acrescentando outros na trama anteriormente redigida. ou seja. serão indicados exemplos dessa escassez pragmática. porém.34 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A razão do fenômeno está na religiosidade de Israel. Deus fala e age pelos acontecimentos. nos grandes acontecimentosda história comunicações.. movidos por tal ideologia. porém. Outras observações se devem acrescentar à precedente. para o erudito. 44.1-5. Is 35.. por revelação divina.8s). sempre que possível. referida em Rs. evocando os acontecimentos do êxodo do Egito e os do regresso após o cativeiro babilônico (cf.. portanto.9). 14 A pãg.16-19. afirmar-se apenas esta nota da historiografia em Israel. valiosos.26-45. ora mais claras ora mais veladas. Os 2. justamente nas seções paralelas que o autor de Crôn. ainda os seguintes itens: a) a historiografia israelita é tôda pragmática-religiosa. Os israelitas tiveram consciência particularmente viva dêste princípio. selecionou os dados da história. é exaltado em Crôn com títulos que ate então só eram atribuidos a Moisés ("homem de Deus". ninguém estranhará. entre os próprios pagãos. nota-se. em grande parte. omitindo uns.

5. 13.21s. o relato paralelo falta em 4 Rs 23.8). nem perscrutar o porvir. se permitiam transcrever documentos alheios sem indicar as respectivas fontes. os nossos hagiógrafos inclusive.31-43 e 2 Mac 10. faz questão de notar que pelo monarca pagão era o Senhor quem exortava à prudência. Em 2 Crõn 35. cf. 7. No segundo. J. adaptadas ao desenvolvimento moral e inteletual do gênero humano. as Intervenções de Deus em favor dos seus fiéis são muito mais freqüentes e vivamente inculcadas: notem-se 1 Mac 6. 15. o trono de Salomão é chamado "o trono de Jave" (CL 1 Crón 29.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 35 8. em tal caso o érro não teria sido endossado pelo historiador sagrado e não afeta15 l'Áncien Veja-se. 15 Esta designação talvez pareça paradoxal. os historiadores semitas. 9. 12.o que justamente é profecia. Algo de semelhante se verifica ao se compararem entre si as seções paralelas do primeiro e do segundo livro dos Macabeus.29. Le ddveloppement des idées Testament (Aix-en-Provence.23. perseguidor do povo de Deus) e 2 Mac 9. 2 Crôn 9.12-17. 7-10). 43. fêz que redigissem as suas narrativas de modo a conterem alusões ao futuro. Tal proceder redacional tem repercussão nos métodos de exegese: em presença de uma noticia de história aparentemente errônea na Sagrada Escritura pode-se supor seja devida a citação implicita ou a um autor anônimo. 29. entre outros. a cujos dizeres o hagiógraf o não intencionava subscrever. 1 Mac 5. Note-se. que a história bíblica foi escrita por homens inspirados (no sentido acima exposto).4). ao referir uma admoestação do Faraó Necao ao rei Josias. Em conseqüência.8). de "direitos autorais". É bem possível que não tivessem a intenção de garantir a veracidade das passagensassim transcritas. praticavam assim o que se chama "citações implícitas". enquanto a profecia ao futuro.28-30 (onde se poderia esperar). o reino de Judá é dito "o reino de Javé" (cL 2 Crôn 13. mas mostrar os traços de um grande desígnio divino que. "servo de Deus". O autor de 2 Mac não hesita mesmo em interromper o fio da história para tecer reflexões teológicas em tôrno dêste ou daquele episódio (cf. embora nada fizessem para se distinguir do autor de tais ditos. 1 Crôn 17. a cronograf ia bíblica é por exegetas modernos chamada "história profética". 2 Mac 3. homens que tudo viam à luz de Deus. ora o Altíssimo não permitiu fizessem a descrição do pretérito como se fôsse algo de fechado em si. 4.1-28 (descrição muito mais longa e calorosa. de Judá. pois a história se refere ao passado. se vai desdobrando em fases simétricas. ao contrário.14.17-20. O que interessava os autores bíblicos não era nem simplesmente contar o passado. constituindo o esquema ou prenúncio de realidades maiores vindouras .1-16 (narrativa sóbria da morte do rei Antioco Epifanes.5. 6.1. b) o senso de propriedade literária.15-17. porém. Em conseqüência do seu pragmatismo. duns . Guitton. o cronista. quando comparados com o magistério de viva voz. imutável em si. cheia de entusiasmo religioso). era muito exiguo no Oriente antigo. ao ensinamento por escrito ou à atividade literária se atribuía pouco valor. 1947).

embora possam bem ser conciliadas pelo exegeta atento. A. de fato. Cliaine. para que se admita uma citação Implícita em determinada passagem da Bíblia. que reconstituir o ponto de vista próprio do autor de cada um dos documentos. 17 o historiógrafo semita também não se preocupava muito com a exata cronologia e topografia dos acontecimentos. 9.naturalmente sujeitos a dúvidas . É o caso. Clamer. Podia. Lagrange. . um autor transcrever dois ou mais relatos do mesmo fato provenientes de fontes diversas sem se preocupar com a fusão harmoniosa dos mesmos numa só peça literária bem trabalhada. 1909). (Paris. autores posteriores se permitiam retocar. transcreveu um documento alheio. pois. em Revue bftlique.1-29 ocorrem três versões da morte do rei Antíoco IV Epifanes.2-29 (bênção de Moisés sôbre as tribos de Israel). 16 Dado que o cumprimento destas duas condições dif'icllmente se pode averiguar. à primeira vista.24. ao referir ditos alheios. Cf. torna-se raro o recurso à hipótese de citação Implícita para a solução de algum problema exegético. que caracterizava os hebreus. 1898.740.. por exemplo. Freqüentemente indicava as localidades e contava os tempos de maneira 16 cf. em La Sainte flib1e de Pirot-Clamer I. Dt 33. assim como o trabalho de mãos sucessivas. Em tais casos podia acontecer que o hagiógrafo não julgasse necessário reproduzir verbalmente o discurso. o historiador usava do discurso direto de preferência ao indireto. ibid. um tanto desconexos entre si e destituídos de explicação que guie o leitor. onde sê encontram coleções de leis que. supõem circunstâncias e fases diversas da história de Israel. (2) sem ter a intenção de o aprovar ou de garantir a sua veracidade. onde se encontram duas narrativas da criação do mundo (Gén 1. redigia então com suas palavras próprias o teor da oração.4b-3. não se dava grande importância a pormenores tais como os do acabamento literário de uma obra. Em Gên 6-9 têm-se dois relatos do dilúvio justapostos com seus pormenores próprios. Enchiridion Symbolorurn. como se fôra proferida tal qual figurava no texto. 2 Mac 1. 1953). 489.24) redigidas independentemente uma da outra. tendo. 494. Tal caso é freqüente na Torá (Lei). Genêse.11-17. visto que o senso de propriedade literária não suscitava escrúpulos. "Deutéronome". as quais. muitas vêzes.4a e Gên 2. 2-27 (bênção de Jacó moribundo sôbre os seus filhos). 17 Os comentadores apontam como exemplos . é preciso conste com certeza que (1) o hagiógrafo. ampliar. o decreto da Pontificia Comissão Bíblica de 13 de fevereiro de 1905 (Denziger. que êle colocava nos lábios de outrem. 11.os textos de Gên 49.1-16. "Genêse". de Gên 1. J. para isto.36 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ria a inerrância da Escritura. sem denunciar explicitamente o seu trabalho de remodelação.1-2. Em 1 Mac 6. 539.1-3. Ao leitor ficava a tarefa de fazer a síntese de dados às vêzes aparentemente contraditórios entre si. embora justapostas. Esta tendência se explica pela dificuldade de abstrair. Contudo. divergem entre si. "modernizar" obras dos antigos.

nem por outro lado.11. porém. históricas. 13. sim. em Gên 4.17-24 e 5. 4. 67s. Para tornar mais significativos os episódios antigos. sem dúvida. expressa em famosa carta datada de 16 de janeiro de 1948: "O problema das formas literárias dos onze primeiros capítulos do Gênesis é muito mais obscuro e intrincado (que o da origem do Pentateuco). negar ou afirmar a historicidade em bloco sem lhes aplicar indevidamente as normas de um gênero literário sob o qual não podem ser classificados. acontecimentos ocorridos no pretérito. Jz 3. Podemos concordar em que êstes capítulos não formam uma história no sentido clássico e moderno. qualidades dos indivíduos a quem são atribuídos. cujo significado será exposto adiante à pág. 28. 179-198. Também o autêntico grau de cultura e civilização dos quadros e personagens bíblicos parecia negligenciável aos historiadores sagrados. em absoluto. é de esperar se nos tornem claras algumas expressões de Gên 1-11 hoje ainda sujeitas a mais de uma interpretação. interpretá-los tão segura e rigidamente como as demais seções de historiografia da Bíblia. tenham-se na memória. assim no livro dos Juízes o período de quarenta anos (duração média de uma geração) costuma designar acontecimentos rematados. não seria lícito. Bettencourt. 16. veja-se E. Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das categorias clássicas e não podem ser julgadas segundo os gêneros literários greco-latinos ou modernos. As vêzes os números de dias. O primeiro dever da exegese científica neste particular consiste em estudar atentamente tõdas as questões literárias.30. 32. entram na categoria de mitologia ou fábula. Não se lhes pode. culturais e religiosas relacionadas com êstes 18 A respeito. . mediante vocabulário e estilo muito dependentes de textos profanos. portanto.1. duração. mas. Podia servir-se também de cronologia esquemática. mas é preciso confessar também que os atuais dados científicos não permitem dar uma solução positiva a todos os problemas que êles suscitam.20. meses ou anos não indicam. É o que se dá na "pré-história bíblica" (Gên 1-11). mais aptos a transmitir determinada mensagem aos destinatários do livro. 15. Referem. É esta a mente da Pontifícia Comissão Bíblica. Com o decorrer dos tempos e o progressivo conhecimento do mundo oriental antigo. Ciência e Fé na História dos Prinjór- dios (Rio. 8. acarretando làgicamente os períodos de vinte e oitenta anos (cf.3. científicas. os ml2e primeiros capítulos cio Gênesis pertencem a gênero literário próprio. 19552). de um lado. por exemplo.LIVRO INSPIRADO POR DEUS 37 vaga. aludem provàvelmente a certos tópicos das cosmogonias e da história das origens de outros povos. transmitidos. 5. projetando no passado os dados da cultura do seu tempo. 18 g) em particular. o hagiágrafo não raro os descreve anacrônicamente.31). as listas genealógicas dos setitas e dos semitas.1-32.

Sàmente assim se pode esperar entender mais claramente a verdadeira natureza de algumas narrativas dos primeiros capítulos do Gênesis. ." 19 Eis as principais noções que elucidam o significado da expressão "BÍBLIA. é preciso praticar a paciência. quando na realidade relatam as verdades fundamentais pressupostas à dispensação da salvação. juntamente com a descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. numa palavra. Nas páginas que se seguem. seria preciso investigar os sistemas literários dos antigos povos orientais. que é prudência e sabedoria da vida. epigráfica e literária. 19 Acta ApostoUeae Sedis 40 (1948) • 46s. sua maneira de exprimir o pensamento e sua noção mesma de verdade histórica. Proclamar de antemão que tais narrativas não são históricas no sentido moderno da palavra induziria fàcilmente a se acreditar que elas não o são em nenhum sentido. reunir sem preconceitos todo o material das ciências paleoiflológica e histórica. Enquanto se espera. em seguida. adaptada às inteligências de uma humanidade pouco desenvolvida.38 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO capítulos. em linguagem simples e figurada. seria necessário. O LIVRO QUE DEUS INSPIROU". encontrarão aplicação freqüente e fecunda. sua psicologia.

filho de Noé (cl. também descendente de Sem: o povo hebreu". idiomas de que Deus se quis servir para falar aos homens na Bíblia: o hebraico. é o hebraico. voltaram à Palestina e reconstituiram a nação sagrada (sée. Chama-se igualmente "o povo judeu". HEBRAICO MOASITIc0 -PONtUO . já que a tribo de Judá se tornou a estirpe do Messias..C.24). porém. em maior número. La SETENTRIONAIS Nico ERIDIONAIS CANANE U ÁRA' " ar tOPE ANTIGO CANANEU FENICIO. ef. 1 Entre . CRENTAL DICO ASSÍRIO-BABI. do qual tomou nome a nação arainéla ou síria. no tempo de Cristo. mormente quando após o exilio babilônico foram os filhos de Judá que. dizia-se que a inspiração divina não extingue a contribuição do escritor humano na redação dos livros sagrados. cuja língua materna.). todo o povo messiânico ou israelita tomou outrossim o nome de "judeu" ou "judaico".outros descendentes de Sem. de modo a vir a ser nos séc. um dos netos de Abraão. Três são os idiomas comumente ditos sagrados. É o que nos leva agora a investigar e analisar as particularidades de expressão e estilo com que os autores do Antigo e do Novo Testamento marcaram as páginas bíblicas. DIOMAS SEMITaS OCIOE ' iI . 1V/til a. 1 Éste mesmo povo é também dito "israelita". conta-se ainda Arara. Gên 10. tradicional. residente na Sina e na Alta Mesopotâmia. nome derivado de Israel (ou Jacô). Ne 13. a língua usual do próprio povo de Abraão (cl. e sutil do que êste. um dos pósteros de Sem.C.26). VI a. o aramaico e o grego. Foi de Heber que tomou nome o povo oriundo de Abraão. ficando o hebraico reservado para o culto sagrado. Judá era um dos doze filhos de Jacã ou Israel. mais rica. O adjetivo "hebraico" se deriva do nome do Patriarca Heber ('Êbher ou 'Ibhrfj. O aramaico se foi tornando cada vez mais comum entre os povos do Oriente (principalmente em suas relações diplomáticas. apelativo proveniente de Judã.21-25). 4 Es 18. era o aramaico o idioma falado entre os judeus. era dotada de língua muito semelhante ao hebraico.CAPÍTULO III PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS No capítulo anterior.

er. 1950). ob. portanto. adquirir o conhecimento dos idiomas originais. 111/11 ao. Charlier julga que o Evangelho de S. torna-se importante para o estudo dos livros sagrados ter em vista as notas constitutivas do que se chama "o gênio" ou "espírito" da língua hebraica. pode ser considerado obra-prima do gênio literário semita. herdeiros. Esdr 4. o presente capítulo se prolongará no cap. IV. Jer 10. quais as principais características de pensamento e linguagem dos autores bíblicos? 2 Eis como se localizam os dois idiomas dentro da respectiva fasnilia lingülstica: 3 O. no Antigo Testamento. hebraica. concernente aos antropomorfismos bíblicos em particular. cit. La Zecture chréticnne de Ia Bible (Maredsousa. ao qual se seguirá o § 2. hajam sido redigidos originàriamente em aramaico.0. Cf. outrossim todo o Novo Testamento (com exceção do Evangelho de S.4b-7. mais precisamente.0 dos Macabeus. da cultura religiosa do povo de Israel. Com efeito. hoje só existe em tradução grega. 7. É possivel que também os livros de Tobias e Judite. Serão expostas abaixo no § 1. na Sagrada Escritura. em grande parte. § 1. Todavia quem se compenetra da mentalidade ou do gênio semítico. Em grego foram concebidos. De resto. assim como do Evangelho de S. o qual. Ésses três idiomas são. pelo menos (como no caso de S. pertencem ao grupo das línguas semiticas. Mateus. veículos de mentalidade bem característica . 1 Sendo assim. em boa tradução vernácula. oriunda em Alexandria (Egito) nos séc. 2 Em hebraico foram redigidos quase todos os livros do Antigo Testamento. 4 Charll.. o livro da Sabedoria e o 2. dos quais atualmente só se conhecem traduções. embora escrito em grego vuigar correto. difícil é à maioria dos fiéis que desejem ler a Sagrada Escritura. torna-se capaz de discernir os matizes e as finuras de expressão que os livros sagrados. "O conhecimento mesmo das linguas originais se torna inútil. ambiente que transparece no texto biblico. eram hebretis ou." Pergunta-se. Deve-se notar ainda que a tradução gtega do Antigo Testamento dita dos Setenta Intérpretes.12-26. lhe oferecem. É preciso aprender a ler entre as linhas e procurar penetrar aos poucos no ambiente de vida em que se movia o autor sagrado. é de grande valor filológico para se reconstituir tanto o teor original de algumas passagens como a mentalidade dos antigos judeus. pois. João. se não é vivificado por uma comunhão simpática e intuitiva com o gênio próprio da civilização à qual pertencia o escritor biblico. . porém.8-6. Mateus).40 BABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Os idiomas hebraico e aramaico. O aramaico é o idioma original de fragmentos do Antigo Testamento (Dan 2. 144. Lucas).a mentalidade semítica ou. 45. mesmo os que escreveram em língua grega.18..11).0.28. os escritores bíblicos. 0 O GÉNIO DA LINGIJA HEBRAICA Não há dúvida. que há de considerar o uso do nome e dos números nas páginas sagradas.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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1. O gênio semita é intuitivo muito mais do que abstrativo. O que quer dizer: o judeu, ao perceber um objeto; não se preocupava grandemente com o discernimento de notas essenciais e acidentais do mesmo; apreendia-o e descrevia-o simplesmente com suas características concretas, individuais. O concreto interessava-o mais do que o abstrato.
Eis alguns casos em que o israelita, em vez de usar conceitos e têrmos abstratos, universais, se comprazia em circunlocuções de caráter mais concreto: Em lugar de dizer "tomar posse, dominar", o judeu às vêzes preferia a expressão "lançar a sandália sôbre. .", que lembrava o gesto concreto ou o cerimonial da tomada de posse: "Sôbre Edom lançarei a minha sandália, Sôbre a terra dos filLsteus cantarei o meu triunfo " (Si 59,iO.) ei. si 107,10; Gên 13,17; Dt 25,9; Jos 10,24; Rut 4,7. A expressão "sentir-se feliz, alegre" podia ser substituida pelos dizeres "ter a alma saciada de gordura", visto ser a gordura sinal de suficiência ou plenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina: "Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, E de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor." (Si 62,6; cf. 51 35,9.) Quando alguém se julgava "em perigo de vida", dizia concretamente que "trazia a sua.alma nas mãos", já que "ter nas mãos" é a atitude que imediatamente precede a entrega: "Minha alma está sempre em minhas mãos, Mas não esqueço a tua lei." (51 118,109.) Cf. Jz 12,3; 1 Sam 19,5; Jó 13,14; Est 14,4. "Expor a própria vida" ou "estar decidido a morrer" era equivalente a "tomar a própria carne entre os dentes", ou seja, morder-se: "Tomo a minha carne entre os meus dentes, Coloco a minha vida em minha mão." (Jó 13,143 A Idéia abstrata de posse ou de largueza, liberalidade era expressa pelo têrmo concreto "mão", já que a mão é o órgão que diretamente apreende ou distribui. Assim lê-se em Lev 5,7: "Se sua mão não atingir o valor de uma ovelha,...". O que quer dizer: "Se suas posses não lhe permitirem comprar uma ovelha,. 3 Rs 10,13: "O rei Salomão deu à rainha de Sabá tudo que ela desejava.., como a mão do rei Salomão", Isto é, ".. . de acórdo com a opulõncia de um rei tal como Salomão"; Gên 43,34: "A porção de Benjamim era cinco mãos mais abundante que as porções de todos êles (seus irmãos)", frase em que "cinco mãos" significam "cinco vêzes".
5 Observamos que as traduções modernas da sagrada Escritura não raro usam os verbos próprios, em vez de ficar prêsas às expressões mais concretas do texto original. Os semitismos não seriam sempre inteligiveis ao leitor moderno.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

A figura de linguagem "mão curta" ou 'encurtada" designava parcimônia ao dar: "A máo do Senhor seria curta demais? Verás sem demora se acontecerá ou não o que te disse!", falava Javé ao anunciar as codornizes no deserto (Núm 11,23); "A mão do Senhor não é curta demais para salvar." (Is 59,1.) "Governar" tinha por sinônimo o têrmo mais concreto "julgar", e, em vez de 'Governador", podia-se dizer "Juiz", visto que, num povo primitivo, a função mais freqüente de quem governa é a de julgar os litígios entre os súditos. Haja vista o título do livro dos "Juizes" (= governadores de Israel desde os tempos de Josué até a monarquia). "Poder, fôrça" era conceito expresso pelo vocábulo "chifre", pois é neste que parece residir a fôrça de muitos animais:

"(Deus é) meu escudo é o chifre de minha salvação (= a fôrça que me salva)" (SI 17,3.) "Abaterei todos os chifres dos malvados, E os chifres dos justos serão exaltados." (S1 74,11.) A tendência a fixar a atenção sôbre os indivíduos concretos levava o hebreu a realçar o que há de dinâmico em cada ser; comprazia-se em considerar o comportamento e os efeitos dé pessoas e coisas, mais do que o seu Valor estático, essencial. Assim tudo, de certo modo, se podia tomar vivo e agente, para o semita. Os substantivos do vocabulário hebraico são os próprios verbos ou derivam-se de verbos; o verbo (ordinàriamente constituído por três consoantes) é a palavra fundamental do léxico israelita. Isto bem mostra que o aspecto principal sob o qual o judeu visava cada objeto era o aspecto dinâmico, ativo. Em particular, note-se que o têrmo dabhar, que originàriamente significava "palavra", podia igualmente designar "coisa", pois tôda coisa era pelos judeus concebida primàriamente como efeito, efeito, sim, direto ou indireto, da palavra criadora de Deus. Conseqüentemente às premissas até aqui expostas, tendia o semita a focalizar, acima de tudo, a importância vital, a mensagem prática, que pudesse estar ligada às pessoas ou coisas apreendidas. O orador e o escritor, ao dissertarem, baseavam-se muito na sua experiência pessoal e visavam despertar impressões semelhantes, muito vivas, nos seus ouvintes e leitores. Procuravam transmitir da maneira mais penetrante possível um estado de aima. Isto faz que uma página de literatura semita seja impregnada de movimento, variedade de pessoas e coisas que se sucedem com realismo; emoções, afetos diversos a perpassam. Já que a linguagem
O "Ce que, par ãxemple, nolLs considérons comme personnification littéraire correspond chez les Sémites à une perception animée du monde extérietr, car l'esprit sémitique saisit l'un4vers dans son moizvement; ii est plus sensible au dylZanflSme de la vie qu'd la cotitemplation des idées et des /orines." (E. Beaucamp, "Poésie et seus de la nature dans Ia Bible". em Bible et vie chrétienne 11 [19551 25.)

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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semita ficava particularmente ligada à experiência, diz-se que ela evocava ainda mais do que exprimia. 4. Consciente de que, para transmitir a experiência ou as intuições, as palavras são por vêzes pobres, o semita recorria freqiientemente aos gestos, às pausas, aos artifícios da entoação de voz. O falar dos antigos judeus terá sido exuberante, teatral, como o de certos povos orientais de nossos tempos. Dada a sua vivacidade, o israelita era muito dado às expressões fortes, hiperbólicas ou contrastantes.
Hipérbole muito ousada é a do rei Benadad da Síria, que, desejando chamar a atenção para o seu numeroso exército, exclamava: "Tratem-me os deuses com todo o rigor se a poeira da Sarnaria basta para encher a palma da mão de toda a gente que me segue 1" (3 Rs 20,10.) Hiperbólicas também são as expressões "a terra inteira, todos os povos", que certamente se referem a certas regiões ou nações apenas, em Gên 41.54.57; Dt 2,25; 2 Crôn 20,29; At 2,5. Visando distinguir entre "amar mais" e "amar menos", o judeu empregava os têrmos "amar" simplesmente e "odiar", a fim de que a oposição mais se evidenciasse. É o que se verifica, por exemplo, na frase de Jesus: "Se alguém vem a Mim e não odeia pai, mãe, espõsa, filhos, irmãos e irmãs, até mesmo a própria vida, não pode ser meu discipulo." (Lc 14,26s.) O "odiar" desta frase é ôtimamente explicado pelo texto paralelo de Mt 10,37, onde se lê "amar menos". No mesmo sentido, em Mal 1,3, diz o Senhor: "Amei Jacó, e odiei Esaú." (Cf. Ram 9,13.) Em Jo 12,25 afirma Jesus: "Quem ama a sua vida, perde-a; e quem odeia a sua vida no mundo presente, guarda-a para a vida eterna." Nesta sentença a oposição "amar-odiar" significa "satisfazer desregradamente" e "coibir devidamente" as tendéncias da alma, podendo a coibição ou renúncia levar até a morte do martírio. Os judeus eram particuiarmente dispostos a recorrer aos contrastes pelo fato de que a lingua hebraica carece de forma p1rópria para indicar o grau comparativo dos adjetivos. O confronto podia ser expresso pela justaposição de têrmos opostos, sendo a oposição subentendida como algo de relativo ou gradativo apenas. Esta observação ajuda a entender o texto do Antigo Testamento citado por Jesus: "Desejo (a prática de) misericórdia, não (a oferta de) sacrifício." (Mt 9,13; cf. Os 6,6; 1 5am 15,22.) A afirmação quer dizer: "Mais do que os sacrifícios rituais, agrada-me o exercício da caridade e da misericórdia.' Em Mt 22,14 declara ainda o Senhor: "Muitos são chamados, poucos escolhidos." Axioma que no seu contexto semítico provávelmente significa: "Maior número é o dos homens chamados (à fé); menor número, o dos escolhidos (para a bem-aventurança eterna)

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

5. Após quanto foi dito acima, entende-se bem que os israelitas usassem de freqüentes comparações e imagens, visando também por esta via impressionar mais profundamente os ouvintes. Já Que os hebreus tendiam a considerar o aspecto dinâmico e vital de cada ser, sabiam aproveitar-se largamente dos objetos materiais que os cercavam, para ilustrar verdades abstratas ou sobrenaturais; daí, na Sagrada Escritura, o uso abundante de símbolos. Êstes constituem, sem dúvida, um artifício muito apto a traduzir o sentido concreto e o valor que para a vida têm as proposições religiosas. As parábolas não são senão símbolos mais desenvolvidos ou explicados: constam de uma história fictícia, à qual o narrador liga determinada mensagem doutrinária. Para se depreender esta lição, não se pode esquecer que na parábola nem todos os elementos são portadores de significado superior; alguns são envolvidos na narrativa ijnicamente para sustentar os elementos-chaves (assim na parábola do filho pródigo, em Lc 15,11-32, não se queira atribuir valor doutrinário ao anel nem ao calçado dados ao perdulário que volta, nem ao vitelo abatido, vv. 22s; êstes pormenores visam ftnicamente tornar mais viva a lição da parábola, que inculca a misericórdia de Deus para com o pecador). O simbolismo tinha especial aplicação para exprimir atitudes ou qualidades de alma; em vez de usar têrmos próprios, neste árduo setor os judeus recorriam freqüentemente a expressões derivadas do mundo irracionai, as quais não deixam por vêzes de nos causar estranheza (contudo o recurso se compreende bem à luz da mentalidade dos semitas: considerando primàriamente a natureza em função do Criador e do homem, fàcilmente ligavam o conceito de determinada qualidade de Deus ou do homem com tal elemento material). Haja vista um ou outro exemplo:
a idéia de fraqueza humana (tanto moral como física) era expressa pelos têrmos 'carne, poeira e cinza: "Os egipcios são homens, não Deus 1 Os seus cavalos são carne, não espirito." (Is 31,3; ci. Gên 18,27; 36 30,19) a fortaleza, ao contráto, era associada à idéia de montanha, rochedo. Por isto Javé é a montanha, é "meu rochedo", no qual o homem se abriga encontrando amparo (cf. Si 17,3; 18,15; 613.8) é) a beleza, o encanto (mesmo espiritual) eram significados por simbolos muito materiais. Particularmente interessante, sob éste ponto de vista, é a figura do espôso no Cântico dos cânticos, cujo aspecto atraente é assim descrito "Meu bem-amado é fresco e rubicundo; Distingue-se entre dez mil. Sua cabeça é ouro puro, Seus cachos de cabelos, flexíveis como ramos de palme ira, São negros como o corvo.
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veja-se o Apêndice a êste capitulo.

PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS

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Seus olhos são como pombas à margem dos riachos, As quais se banham em leite Suas faces são como plantações de bálsamo, Como canteiros de plantas aromáticas. Seus lábios são como lírios Dos quais corre a mirra mais pura. Suas mãos são cilindros de ouro Ornados com pedras de Tarsis. Seu busto é obra-prima de marfim, Recoberta de safiros. Suas pernas são colunas de alabastro, Pousadas sõbré bases de ouro puro. Seu olhar é como o do Líbano, Elegante como o cedro. Sua palavra é doçura. Tõda a sua personalidade é puro encanto. Tal é meu bem-amado, tal meu amigo, Õ filhas de Jerusalém 1" (Cãnt 5,10-16.) Neste quadro são postas em realce três qualidades do espõso: fortaleza e virilidade, designadas pela comparação de seus membros com peças de ouro, mármore, marfim (vv. 11.14.15) ou com os imponentes cedros do Libano (v. 16); raça e beleza masculinas, significadas pela menção de cõres, elementos aromáticos ou doces (flõres, árvores) nos vv. 10.11.13.15.16; pureza e fidelidade, traduzidas pelas imagens da pomba, da água, do leite (v. 12). A mente do autor não se deixava perturbar pela combinação de símbolos tão heterogêneos; de cada um déstcs focalizava apenas o aspecto que se enquadrava dentro do conjunto e podia evocar a idéia de encanto masculino. Para desfazer a impressão de rigidez, talvez suscitada pelos símbolos de pedras e metais preciosos, o hagiágrafo em outros lugares recorria a imagens de ordem diversa, que completavam as anteriores: "Corre meu bem-amado, E toma-te semelhante à gazela Ou ao pequenino da corça Sôbre as montanhas de bálsamo 1" (8,14; cf. 2,17.) Por sua vez, a figura da espôsa no Cântico dos Cânticos é descrita com Imagens paralelas às do espõso: a beleza feminina aparece sob os sinais de flõres, palmas, objetos perfumados ou doces (cf. 2,1s; 4,10s.14); por seu encanto e pureza, a jovem é comparada à pomba (6,8s; 1,15; 4,1; 2,14); a sua fecundidade é assemelhada à de animais domésticos e cereais (4,2; 6,5s; 7,3s) ; 8 d) a índole agradável, aceitável, de uma oferta feita a Deus era simbolizada pelo imaginário perfume da oferenda. Para dizer que Javé a aceitava, o semita afirmava que o Senhor sentia tal aroma com prazer. Foi o que, conforme Gên 8,24, se deu quando Noé ofereceu o sacrificio após
8 Ao interpretar desta forma os simbolos do Cântico dos Cânticos, seguimos a autorijade de T. Boman na sua famosa obra Das hebraeische Denken im Verglelch mit dem griechischen ( Goettingen, 1954), 62-69.

tendia a desenvolver o pensamento conforme um esquema que se poderia assim reproduzir: numa proposição inicial. ilustra igualmente bem o proceder estilístico dos semitas: a linha. seria desenvolvido). o semita o exprimia afirmando diretamente as impressões que tais cenas causam no observador. A figura de uma espiral que se vai estreitando na direção de cima para baixo. a evocação de uma floresta com sua vegetação.. ei norz par une mise en correspondance de nos dii férenis états d'àme avec lordonnance du monde matérieL" Eeaucamp. nossos hagiógrafos. principalmente quando O "Les écrivain. O que êstes quadros têm de belo. O judeu contemplava o seu objeto de um lado. o orador afirmava compendiosamente o que tinha em vista dizer (propunha como que um prelúdio musical. volta periôdicamente aos lados direito e esquerdo do eixo. Le dynamisme de la peizsée d'israel te discerne -dans la nature que ce qui bouge. para ir aos poucos abrangendo tôda a realidade. considerando a ação de tudo iso na sensibilidade e na mente do homem. até completar a enunciação do pensamento ou a enumeração dos pormenores. suas aves a cantar. onde já ressoava antecipadamente todo o grande tema que. é simplesmente a repetição da anterior. feito isto. 6. o observador que faça o trajeto da espiral. nâo se detinham em anausar as linhas e o contôrno de cada objeto: em vão se procuraria na Bíblia a descrição de uma paisagem de sol nascente ou poente.. as orações dos santos sobem a Deus como agradável incenso. e com razão. ou seja. mico de cada ser. . a seguir. cit. 30. 1 5am 26. porém.3s). 8. esta. percorrendo círculos. Tem-se dito.. Outra particularidade do estilo semita conexa com as anteriores é a exposição das idéias em frases paralelas coordenadas.. o fazem voltar com variações sempre novas. que constroem gradativamente de baixo para cima. em frases coordenadas à primeira.46 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO o dilúvio..19). estando para oferecer. contemplava-o do outro lado.ouvement. Ao contrário. mas apresentam-se cada vez mais densas. que a arte conforme a qual os escritores judeus compunham as suas frases.s sacrés te se rnontrent guêre enelins à analyser Les lignes et à dessiner Les contours. esperava que a mesma coisa se desse (c!. O israelita não era muito propenso a subordinar entre si as proposições do Seu discurso. repetia a mesma idéia acrescentando-lhe de cada vez uma circunstância nova. no decurso da melodia. Aussi La communion entre l'homme et Les réalités extërteures s'établit-eLle par relation de mouvement à m. nenhuma dessas voltas. suas fontes. Em suma.8 (c!. Davi. Em Apc 5. os semitas. de uma noite de luar ou de estrêlas múltiplas. mas a dos músicos. Assim também as frases paralelas dos semitas não são meras repetições. Confirma-se assim a observação já feita: não se preocupavam tanto com o valor estático quanto com o aspecto diná. voltando aos mesmos lados. que logo de início propõem o seu tema ou leitmotiv e. dando a perceber ao leitor novos matizes da idéia dominante. da espiral. não era a dos arquitetos. art. apreende com clareza cada vez maior o ponto final.

XIX. apresentado compendiosamente na fórmula introdutória . lugar. que o ôlho da alma sabe polir e combmar num plano superior. A titulo de exemplos de paralelismo. a "razão" era dita logos. . causa. enriquecendo incessantemente ora êste aspecto. quando a frase posterior acrescenta algo de novo (mas acidental) à anterior: circunstâncias de tempo. eis algumas passagens caracteristicas: a) no cap. o "colecionar" e 'pôr em ordem" as diversas facêtas da realidade ? O silogismo (de syn e lego) não é. ora outro aspecto do pensamento. para o judeu. Aristôteles. VI do seu Evangelho. lhe parecia grande demais para poder ser abraçada de uma só vez. comprazia-se em despertar a impressão de "choques" de idéias. o processo de compreender consistia princpalmente em perceber os diversos aspectos da verdade e formulá-los em justaposição? Ao contrário. o conceito "compreender" era expresso pelo vocábulo bin. 150s. O escritor semita esboça primeiramente uma rápida silhueta do conjunto. O paralelismo semita de que falávamos acima pode ter caráter sintético ou antitético. Porfírio e outros).PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 47 era realidade religiosa. a seguir." Charlier. bina vem a ser "compreensão. dividir".. embora nem todos os estudiosos o reconheçam. é bem calculada de modo a impressionar o ouvinte. ao contrário. a segunda proposição tem por finalidade agir mais vivamente sôbre o espírito do leitor. O semita. apos narrar o milagre da multiplicação dos pães (1-15). senão o ato de recolher. cujo significado original é "separar. que tanto cultivaram o raciocinio e os silogismos (cf. Caráter sintético. Fala-se também do paralelismo sinônimo dos hebreus. Notemos o lento desabrochar do pensamento de Cristo neste sermão: Os judeus aglomeravam-se em tôrno do Mestre em Cafarnaum por causa do pão terrestre ou natural que êle acabara de multiplicar. refere a longa promessa da S. traços. a verdade é então realçada pela justaposição dos contrastes. diz-lhes então o Salvador: 10 "O semita diz tudo em cada frase. 10 A tendência dos hebreus a coordenar as idéias antes do que a subordiná-las se traduz também num pormenor filológico: para o israelita. acrescentando de cada vez um retoque ou nova precisão. Também neste caso a repetição não se torna supérflua. em pinceladas sucessivas. entre os gregos.. Não quer isto dizer que. recolher. João. éle o tem. inteligência". acumula sôbre éste esbôço multidão de traços aparentemente autónomos e não raro contraditõrios. Esta denominação não insinuaria que os gregos atribuiam k razão. como tarefa primária. mas volta sucessivamente à carga. etimolàgicamente falando. La lecture chrétienne de la Bible. Êste proceder lembra um pouco os métodos da Escola de pintura impressionista de fins do séc. Eucaristia que o Senhor fêz a seguir (22-72). Êste se verificaria quando as frases só diferem entre si pelo emprêgo de têrmos equivalentes. de resto. O caráter antitético se verifica quando a frase paralela repete em têrmos negativos o que a precedente disse em têrmos positivos. porém. vocábulo derivado de lego. etc. o Apóstolo S.

porém. cada vez mais próximos da realidade final. não. repetindo e desenvolvendo a idéia. que não preservara da morte os israelitas no deserto.20). 6. Si 77.13s. Todavia. que do céu desci. para finalmente "dar o bote" com tõda a precisão: ." (V. Jesus mais uma vez aprofunda o seu pensamento: o novo maná.. Êste objeto.52. objeto mais digno das aspirações dos ouvintes. superior ao da terra. contido no Pão da Vida.) E dêste fato que Jesus parte no seu discurso.24s. mas enquanto vivificados pela Divindade ( no caso. não porque vistes sinais. •tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia." (V. Sou o pão vivo.. o maná dado por Cristo poderia ser dito simplesmente o pão da vida (eterna): "Em verdade...54s. a carne para nada serve. foi sendo considerado sob vários aspectos..) Não é tudo.. Jesus. voa sôbre ela aproximando-se em circulos concêntricos. não tereis a vida em vós. Por isto. acrescenta tratar-se de novo pão do céu.48 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO. Se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue. os judeus já o conheciam: era o maná. visado desde o inicio do discurso. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá a vida' ao mundo. mas já "pão da vida". um pão do céu. é identificado com a carne e o sangue do próprio Cristo: "Eu sou o pão da vida. mas porque comestes pão e estais saciados. 64. à diferença do maná de Moisés.51. à semelhança do que se dá com a águia que. Jesus anuncia um pão do céu. e o pão que hei de dar. em ulterior instância. dado por intermédio de Moisés outrora no deserto (cf. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. E quais seriam estas realidades? Primeiramente em oposição ao pão da terra.. depois de ter fitado a sua futura prõsa." (Vv. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. que os judeus procuravam.) Uma derradeira precisão ainda se impunha: tratar-se-ia da carne e do sangue do Filho do homem. 26.) Todo êste discurso se deixa dispor em círculos concêntricos: Jesus falou. mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. que a êles estaria unida: "É o Espirito que vivifica..." (Vv.31s e Éx 16. tomados em sua realidade natural e material apenas. em verdade vos digo: vós me procurais. 32s. dito não apenas "pão do céu" (como no Antigo Testamento). principal. "Em verdade. passando dos conceitos mais vastos e dos elementos visíveis a conceitos mais precisos.. Sab 16. dita "Espirito"). para a vida do mundo. Começa por insinuar que a multiplicação dos pães devia ser entendida como sinal de realidades transcendentes.. é a minha carne. 48. para finalmente atingir o objeto invisível.

8. Exprime-se no ritmo de "vai-e-vem" contemplativo a que acenamos: "Nós que morremos ao pecado. Cris b) outro exemplo. afirmam sempre a mesma verdade.2-8. configurada à de Cristo. a fim de que o corpo contaminado pelo pecado fõsse destruído e já não sejamos escravos do pecado. embora menos claro do que o anterior.ca do 1- - s' €ese.. como ainda viveríamos no pecado? Então não sabeis que nós todos. seremos enxertados também por ressurreição semelhante à dÊle. Ainda hoje. a fim de que. Ora. o autor enunciava os têrmos opostos ou extremos que circunscreviam o seu conceito ou entre os quais girava o seu pensamento. verifica-se nêle a coordenação de frases que.também nós uma vida nova. c) o paralelismo antitético dos semitas podia tomar a seguinte modalidade: para exprimir a 'totalidade". não sõmente entre os semitas. fomos com Êle sepultados pelo batismo em sua morte. O Apóstolo ensina que todo cristão. encontra-se na epístola de S. por morte semelhante à de Cristo.. Sejam mencionados alguns textos extrabiblicos da antiguidade: . como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai. vivamos. Paulo aos Romanos 6. que fomos batizados em Jesus Cristo. 11 Assim: 11 Aliás. antes. por exemplo. cremos que viveremos também com Êle. mas entre os povos antigos em geral. se acha num estado de morte (ao velho homem) e vida nova. assim como nas línguas modernas (se bem que em proporções mais restritas). fomos enxertados em Cristo. fomos batizados (imersos) em sua morte? Por conseguinte. por efeito do batismo.PAItTJCULAEIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 49 — . se morremos com Cristo. ocorre o mesmo artificio de estilo. Sabemos que nosso velho homem foi crucificado com Cristo. Se.' Êste trecho não apresenta pràpriamente proposições concatenadas de modo a formar um raciocínio. se diz: "Farei por ti o possível e o impossivel" no sentido de "tudo farei por ti". cada qual com seus matizes.

12 Verifique-se também: Gên 24. .17.50 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a idéia de "tudo. Edo 11. que propõe." 12 Éste modo de falar ocorre também nos lábios de Jesus em Mc 3. 31. Estas referências se devem a O. quais. Um documento egípcio fala do grande deus de Tebas. "alma e carne" designava "o homem inteiro" (cf. "homens e mulheres. 14.Comeu o que havia e o que não havia. 29. crianças e anciãos" significava "todos os habitantes.22). e não posso mais sair nem entrar.22. Edipo Rei 300. 2 Sam 14. sim.6) "(O Senhor) encheu-os (os primeiros pais) de ciência e inteligência. Is 10. J05 6. L'ezrpression de la totalíté par l'opposition de deur contraireC'." (Dt 31. 360." Cf. servia para exprimir toda a atividade de um individuo.21. Gên 1. Electro. Ser 51. Entenda-se: "desapareceu sem dizer palavra". "céu e terra" supria o têrmo "o Universo". as que é licito praticar?" (haja vista o rigor dos f ar!seus em relação à observância do repouso do sábado). 3éme série (1945).7 diz o rei Salomão ao Senhor: "Sou pequenino e jovem. dizia de um homem glutão: "Manducavit quod fim et quod non pai. 50.". de que carecia o hebraico (cf.8). Wmn relato egípcio do Médio Império. Lambert. um camponês se dirigia ao seu juiz nestes têrmos: "Grande intendente. tôdas as coisas" podia ser circunscrita pela expressão "o bem e o mar'. o poeta satirico latino. 1. meu mestre. tôda a população" (cf. Já 14.24. deu-lhes a conhecer o bem e o mal (ciência muito ampla) . salvar uma vida ou extingui-la?" (Cf. Ou em têrmos ainda mais claros: "Em dia de sábado.3). não sei sair nem entrar. 1933). Bacchantes. a rainha se retirou "antes de proferir algo de bom ou de mau". não será licito fazer absolutamente nada? Não será permitido nem mesmo praticar o bem salvando uma vida ?". Ser 36. Antigono 1245. em Vivre et Penser. 91-103. Etude sur te coizte dii FelZah plaidoyeur (Rome.2. o qual criou "o que existe e o que não existe" (rrtôdas as coisas). Suys. Amom.) Como conceber que Jesus tenha perguntado se é licito cometer o mal ou matar em dia de sábado? A tradução. demasiado servil. "Lier-Délier. "homens e gado" era o binômio equivalente a "todos os sêres vivos" (cf. dentre a totalidade das obras possiveis. onde se lê verbalmente: "t permitido em dia de sábado fazer o bem ou fazer o mal. tendo ambos os verbos o mesmo sujeito.9. já que tudo que existe de concreto é bom ou mau (cf. E.18. é infiel ao pensamento de Cristo.50.1. 800. Plauto. Si 123. grande dos grandes." Trinummus. Ãnttgono 1109. Aponta-se na literatura grega um emprêgo semelhante da mesma expressão: confonne Sófocles.22). . que governas as coisas que nao existem e as que existem (= tádas as coisas) .) em 3 Es 3. "sair e entrar". a seguinte questão: "Em sábado. Lc 6. Sófocles. até mesmo as tarefas de administração régia: "Disse-lhes (Moisés) : Tenho hoje cento e vinte anos. 305. Veja-se ainda Euripides.4.

6. "caminhar e repousar-se" são outras fórmulas que designam tôda a atividade de um indivíduo: "Sabes quando estou assentado e quando estou em pé. 2 8am 3. qual tesouro." (2 Crôn 15. assim é que o "sair" e o "entrar" (note-se bem a ordem dos têrmos!) compreendiam e definiam a atividade dos cidadãos. 13.2s) . será ratificado por Deus. Erman.) Nesta passagem. Assim diz o Senhor a Pedro. será ligado nos céus. usando de uma construção tipicamente semitica: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus.8.) Assim se interpretará a frase final: os filhos do vizir dispuseram tóda a sua conduta em conformidade com as instruções deixadas por seu pai. mas haverá terror em tõda parte para todos os habitantes da terra." (Zac 8. ao qual se associava naturalmente um "entrar" após terminados os afazeres. 4 Rs 11." (Mt 16. tanto menor era a área que ocupava.16. empregava-se para designar "todos os individuos" (sair e entrar. não há paz. sendo diversos os sujeitos dos dois verbos. 19. J0 109. e significa: 'Tudo que na terra fizeres para introduzir os homens no reino dos céus. 3 Rs 15.21.10).28.27." (citação de A. 1 8am 18.25. . Com significado idêntico. Ez 43. não sômente a que se exercia em tôrno de vínculos. 9. 29.19. Tu me observas quando caminho e quando repouso". "as chaves" designam o poder. Si 120. At 1." (Ez 35. "Para quem sai e para quem entra (= para ninguém). como as que os antigos costumavam edificar. levantaram_se e sentaram-se de acórdo com essa doutrina. 15 Também se encontram paralelos desta expressão fora de Israel: O vizir do faraó Huni entregou a seus filhos. para o hebreu. 'a A semântica da expressão "sair e entrar" é assaz curiosa e digna de nota: imagine-se uma cidade bem defendida por muralhas. 100.17.8. Die Literatur der Aegypter. "Então prostraram-se sôbre o ventre.5).28. a expressão bipartida que se segue exprime a totalidade dêsse poder. Disto se seguia que qualquer atividade de certa importância implicava geralmente um "sair da cidade". e tudo que desligares na terra. 13 parece ser atividade que caracteriza qualquer homem) "Naquele tempo não haverá paz nem para quem sair nem para quem entrar. tudo que ligares na terra. quanto mais fortificado era o reduto. Is 31. leram o livro como estava redigido.". será desligado nos céus.7V) 14 "estar assentado e estar em pé". "E retirarei de lá aquêle que vai e aquéle que vem (= todos).10 diz o mesmo: "Dai-me sabedoria e inteligência a fim de que eu possa sair diante déste povo e entrar. e isto lhes foi mais agradável do que tudo que se encontrava na terra do Egito.DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 51 em 2 Crõn 1. ocorre algumas poucas vêzes na Sagrada Escritura o binómio "ir e vir"." Não seria condizente com a filologia querer especificar os poderes expressos por "ligar e desligar". 15 também a expressão "ligar e desligar" indicava tôda a operosidade de um homem. um escrito em que consignara os resultados de suas longas experiências. "sair e entrar". cf.11. 14 Muito interessante é que a versão grega dos LXX traduziu o objeto da frase acima por "homens e gado". diz o salmista ao Senhor querendo inculcar que Deus tudo sabe a respeito do homem (Si 138.

e as árvores do campo batam as mãos em aplausos.6). rejubilem-se as colinas e suas florestas. êste sangue. 17 Palavra derivada do grego: (znthropos = homem." (Is 22. Gên 4.32) e receber o sangue de Abel (cf. ninguém abrirá. 0 OS ANTROPOMORFISMOS BIBLICOS 1. por ocasião da libertação de Israel detido no exílio babilónico (cf. Núm 16. 16 Eis as principais natas do "gênio" lingilístico dos semitas. E.7). Jo 38. Pergunta-se: que sentido terá um modo de falar tão alheio ao nosso? Tais expressões constituem para os hagiágrafos mais do que ornamentos literários. poderia mudar a situação. morph4 = forma.11).) O que quer dizer: "será detentor de supremo poder.23. § 2. quando êle fechar. Sófooles. Para seavaliar ainda melhor o que acima foi dito. extensivo a todo e qualquer setor". profere um brado. por exemplo. ninguém fechará. é mister nos detenhamos agora sôbre um ou outro particular do estilo literário semítico. É o que se fará no parágrafo abaixo e no capítulo seguinte dêste estudo. Praticavam assim o antropomorfismo 11 ao falar da natureza. SI 18. por nenhum expediente. por sua vez. por elas se traduz uma con16 A expressão também era usual fora da literatura bíblica. Entenda-se: eu. quando Deus criou a terra (cf. 55. Gên 4.17s) os montes prorrompam em júbilo. a terra abriu a bôca para tragar Datã e Abiron (cf. lê-se em sentido análogo uni oráculo do Senhor referente ao Messias: "Colocarei sóbre as suas espáduas a chave da Casa de Davi. partes ou membros do corpo humano.52 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO No Antigo Testamento. as estrêlas da manhã cantavam em côro. Núm 21.22. Is 44. qudr desligue. que poderia ainda conseguir?" (Antigoizo. exultem os céus e as profundezas da terra. Com efeito. que se ergue da terra aos céus (cf. aos elementos irracionais.12). por ocasião da vitória de Israel (cf. coloca nos lábios de Ismena a seguinte exclamação: "Ó infeliz. se as coisas chegaram a êste ponto. 40). o sol é como um herói que exulta ao percorrer a sua via (ci.10). Eu. fazendo eco ao dinamismo do homem. antropomorfismo do qual eis aqui alguns casos típicos: o poço de Beer é convidado a subir (1) e soltar clamores de alegria. quer ligue. A NATUREZA PERSONIFICADA Já que o oriental se comprazia em conceber o mundo inteiro como animado. . compreende-se que os hagiágrafos não tenham hesitado em atribuir figura humana. quando êle abrir.

. é transmissora de mensagem divina.8.14. Terás uma aliança com as pedras do campo. 2.12. sujeitos aos abusos que dêles faz o homem.5). Ram 8. Is 51.. 1 Sam 15.18. mâo direita (cf.9.22s.21).17.27). ora de louvor e congratulação jubilosa (para quem é reto). Expressão muito viva de solidariedade são as palavras de Já. olhos (cf. Sl 17.4).9..PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 53 cepção religiosa intimamente arraigada na alma do israelita e nos escritos bíblicos em geral: a natureza tôda é solidária com o homem.4. que assim interpela o justo: "Tu te rirás da devastação e da fome. cujo sôpro desencadeia os ventos sôbre a terra (cf. Is 30.37. Não temerás os aiflmais da terra. que referem ter a natureza entrado em desordem por efeito do pecado do homem (cf.15. em particular.15. Dt 5. braços (cf. Jos 9.12. 16. Paulo. aliás. ora de repreensão (para o indivíduo ou os povos pecadores). Jer 27. em conseqüência. Lx 33. S..25. Dt 11. diz que até o fim dos tempos os irracionais "gemem". e aguardam a glorificação dos filhos de Deus (cf.11. SI 8. 85. Sl 10.19.36).10. nariz e narinas. 81 17.). Dt 8.4. 519. Is 65.5. é insinuada já pelas primeiras páginas da Escritura.27). Dt 9. Am 9. Lx 15. os hagiógrafos nos apresentam mesmo o Senhor Altíssimo sob traços humanos. dedos (cf.23.7.16.10). por ela se manifesta o Criador e o Senhor Providente. Esta verdade.19.) Mas não sômente aos elementos irracionais se aplicam os antropomorfismos na Sagrada Escritura." (5. língua (cf.9. E o bestiame da terra estará em paz contigo.20). 26. Já 11. mãos (e!. lábios (cf. bôca (cf. Am 9. Lx 15. voz (cf. 819.16)..3. ouvidos (cf. Assim o Criador é dito ter face (cf.4.31. SI 17. 81 17. em outros têrmos: a natureza reflete a voz de Deus.2.14.1.4).6. Gên 3). Si 17.5. pálpebras (cf. Lx 31.8. 2 Sam 15.14). 19-22). Gên 3. seu rei.2).2. 1 8am 15. DEUS SEMELHANTE AO HOMEM NO ANTIGO TESTAMENTO Quem lê o Antigo Testamento não pode deixar de observar quão freqüente e fàcilmente ao Senhor Deus são atribuídas feições humanas. Gên 4. Lx 33. Lx 5.24. 1 5am 8. Si 10. Is 1. Is 30. Já 40.

Si 103.4). é induzido a compará-los com os atributos da criatura. De resto. e pés que levantam nuvens de poeira (cf. mentalidade que pede ser corrigida pelo raciocínio filosófico. que o Criador não é como o homem (o que claramente transparece nos textos bíblicos abaixo citados).8. Dt 12.1). muito surpreendente num livro que se diz ter por autor principal o próprio Deus? a) o significado geral dos antropomorfismos.17). 1 Sam 15. Dt 28. Am 1. paira sôbre as asas do vento (cf. o espírito humano na vida presente. Sl 105. Gên 3. a aversão (ei.24.2. Além disto.13). a vingança (cf.34.19). pouco afeitos à abstração. Si 2. metafísico. paixão.23). com 18 Anthropos = homem. voa. passeia no jardim do Eden (cf. Jer 26.16).9) implica para a inteligência. referindo-se ao Todo-Poderoso usavam copiosamente dos vocábulos que designam as coisas corpóreas. Também os afetos humanos marcam a figura do Senhor Deus (antropopatismos): 18 o desgôsto (cf.14). 34. Lev 20.18). ruge (ei.3.7). Is 1.6. asas e penas sob as quais protege os justos (ei.12.40).1. 90. ri (cf.7. qualquer pensador. a complacência (ei. Si 43. Si 131.2).10). dificilmente se desvendilhavam de concepções de ordem sensível. costas (ei. 2 8am 24. Si 17. Os israelitas. Is 7.65). mas diflcilmente percebiam o que o fato de "Deus ser Deus. Sof 3.11). páthos = afeto. dorme (cf. sim. um belo manto.8).8).5). 8117.23). Êx 20. Na 1. Sl 46. a imortalidade de Deus. Dt 32. Is 6. e não homem" (ei. Jer 9. 1 Crôn 28. impõe-se de novo a questão: que sentido poderá ter tal modo de falar. na Sagrada Escritura. Is 9.31. para dar a entender os predicados da Divindade.1). Êx 32.19).54 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pés (ei. Gên 7.35. até mesmo ao falarem de Deus. 34.3.4). Lev 1. Está assentado em um trono régio (cf. Os 11. é guerreiro valente (ei. Diante de tais expressões. fecha a porta da arca de Noé (cf. 1x 15. desperta-se (ei. o ódio ou a abominação (cf. .8).23). a inveja (cf. 32. é incapaz de conceber a Deus como Êle existe em Si mesmo. assovia (ei. a alegria (ei. cavalga sôbre um Querubim. Por isto. Gên 6.31).63. Reconheciam. o Senhor clama (cf. cujas orlas enchem o templo (cf.35. Éx 15. 56. Não há dúvida de que os antropomorfismos da Escritura têm suas raízes na mentalidade primitiva dos semitas. compras-se com suave perfume (cf. Sl 23.2. a cólera (cf. dependendo constantemente de imagens sensíveis. Si 17.5. Éx 33. o arrependimento (ei.41.24). 81 77. 1 Sam 26.

com as..16). à diferença dos deuses dos filósofos pagãos.Dio. .. mas através de revela ções se1íveis (outorgadas aos Patriarcas. Êstes.. (Cf.. julgavam. Jer 10. em 51 41. dêstes exigindo fidelidade inviolável. Assim os antropomorfismos bíblicos inculcam que o Deus verdadeiro não é mera fórmula abstrata. 21 É êste aspecto rigido que caracteriza a Divindade nos sistemas filosóficos de Platão e Aristóteles. Nygren. 20. afirmam-nos de maneira marcante 10 Já o poeta dizia: "Cosi portar convieztsi ai vostro ingegn. . diferenciava dos idolos dos pagãos o Deus verdadeiro.70. era o seguinte: o Deus de Israel é um Ser vivo e pessoal. 1 Sam 14.19. um dos aspectos que mais espontâneamente detinham a atenção do israelita. ama realmente os indivíduos. ou. etc. mas o Senhor condescendente. Os falsos deuses eram ditos "deuses mortos" (ef. da metafísica.s 19. pois uma das fórmulas de juramento mais usuais rezava: "Assim como o Senhor (Deus) é vivo . com seus traços semelhantes aos dos homens. É certamente muito antiga. 20 . de:perta. 19 Esta observação. acompanha a nossa "aventura" na terra. aos olhos do israelita.39.9.17. Cf. têm mãos e não apalpam. sim. a Divindade não necessita do homem.1-10.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 55 as contínuas vicissitudes do homem..23. mais adequadamente a transcendência de Deus. apreendendo a Divindade através do raciocínio. limitações do nosso ser.2. Êstes autores ensinavam que Deus. Jó 27. 1944).21. e o orienta continuamente. mas de modo nenhum corresponde às aspirações da criatura. 4 R. porém. aos justos posteriores). que o Transcendente. à sorte dos mortais. porém. Bar 6.5-7). Ora. o recurso aos antropomorfismos era muito apto.) Era mesmo o título "Deus vivo" que. para traduzir tais impressões. 12. amigo. Rei. Canto IV 40-453 A expressão "Deus vivo" ocorre.4s. 20 Com efeito. Pai . concebiam. como se precisasse das criaturas.3. sim. enquanto o homem precisa de Deus. por exemplo. Ao considerar a Deus. a sua imensidade.24s. A. 4. Mt 16. Dan 14. a atração do homem.4. deuses "que têm bõca e não falam. justamente por ser superior ao homem.Jz 8. e piedi e mano Attribuisce a . ainda mais concretamente. acompanhados geralmente de impressionante aparato. 2 5am 2. têm pés e não andam" (51 113... alheio.6.45. A descrição do Altíssimo como Guerreiro. 14. têm olhos e não vêem. Por questo la Scrittura condiscende A vostra factitate. Paradiso.o Perocché solo da sensato apprendc CiÕ cite Ia poscia d.27. 26." (Dante. Por êstes fenômenos.11.. Dt 5. Sab 15. a Moisés. se conserva frio. têm ouvidos e não ouvem. 19. não bastaria para explicar o significado dos antropomorfismos na Sagrada Escritura. pois. 21 Não assim é o Deus verdadeiro.5. cd altro intende. Erôs et Agapê (Paris. o Deus de Israel dava-se a conhecer como o Senhor que permanece próximo do homem.3. servia para exprimir que o Deus de Israel é o Soberano que se interessa profunda e surpreendentemente por tudo que concerne o homem. sendo perfeitissimo. Abraão e seus descendentes chegaram ao conhecimento do verdadeiro Deus não em conseqüência de raciocínios especulativos.'intelletto degno.

) O homem tem perfeições em grau finito. 1 5am 15. e não homem . Não destruirei de novo Efraim.4s). e não Deus. seria "diminuir-se. não se cansa (cf. a Lei mosaica proibia estritamente a confecção de qualquer imagem (de homem ou animal) que representasse Javé (cf. das suas intervenções na história.4). Jó 10. 22 em outras páginas bíblicas lê-se que o Criador não tem olhos como os homens (cf. como te entregaria.2: "Tu és homem. Pois sou Deus. Is 40. Não se poderia deixar de observar ainda que. embora se distanciassem de noções abstratas para aderir a concepções iniperfeitas. As mesmas Idéias repercutem no texto de Es 28. alheio à mentalidade veterotestamentária. á Efraim. os antropomorfismos os realçavam muito bem. os livros sagrados não deixavam de incutir a espiritualidade e transcendência de Deus. Israel? Meu coração se revira dentro de mim E tôdas as minhas comiserações se comovem. Além disto. não cochila nem dorme (cf. Deus as tem em grau Infinito. rebaixar-se'. os israelitas eram assim premunidos contra o perigo de equiparar o conceito que tinham de Deus ao que os povos pagãos nutriam. pela própria Revelação divina. Pode-se dizer que aquilo que a fé em Deus no Antigo Testamento visava primàriamente era a sua personalidade toda-poderosa e o caráter pessoal imediato. falando da misericórdia do Altíssimo para com Israel. êstes aspectos.4).24: "Deus é espírito. Em meio de ti está o Santo. mesmo nos trechos em que mais realçavam a proximidade do Senhor.28). Éx 20. o seu interêsse pelo povo: assim o profeta Oséias." (Os I1. em espírito e verdade O devem adorar". os filhos de Israel eram. e os que O adoram. Núm 23. Sendo as imagens o grande esteio da idolatria. pouco filosóficas.19). A pura espiritualidade de Deus só foi explicitamente afirmada no Novo Testamento. Êstes textos atestam que o conceito de um Deus transcendente não era. preservados de cair nas idéias grosseiras dos mitólogos ou dos idólatras pagãos.Ss. baseava o caráter inesgotável dessa misericórdia (= "compaixão") no fato mesmo de Deus ser Deus e não homem. Com efeito. não se arrepende nem mente (cf. em Jo 4. Não darei curso ao ardor da minha cólera. Por isto perdoa mesmo quando os homens julgam que "perdoar" seria derrogar a aiguzna de suas qualidades. em absoluto. Sl 120." .56 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO os autores semitas inspirados. Embora tornes o teu coração semelhante ao de Deus. 22 'Como te abandonaria eu.29. ou seja.

Fàcilmente. Mais uma ligeira observação: quem reflita sôbre os antropomorfismos bíblicos à luz do grande plano salvífico de Deus. tendiam a exaltar a transcendência de Deus e. sim. em Jos 4. E não sem fundamento objetivo: o furor costuma-se exprimir por respiração mais veemente. muito natural à nossa mente. referindo-se ao homem: . visando com isto designar os respectivos predicados do Altíssimo. em vez de "mão de Javé" (hebr.PARnCULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 57 Os judeus que em Alexandria. que significa "nariz". o israelita era propenso a exprimir certas qualldades da alma mencionando determinados membros ou sentidos do corpo que mais estreitamente pareciam relacionados com elas. o que aparece nitidamente nas duas passagens abaixo. SI 17. a partir do séc.18. pois. mormente na naturza exuberante dos orientais. 10).9. em particular à do indivíduo primitivo. com a idéia de braço se associa naturalmente a de fôrça. Os antropomorfismos da Sagrada Escritura. Éx 15.24. quando o Filho de Deus tomou carne humana: o Senhor do Universo é também o Deus dos pequeninos. ela foi por Deus utilizada para inculcar uma verdade que os filósofos da antiguidade jamais conceberam adequadamente. em última análise nêles reconhecerá como que prenúncios da Encarnação. sem dúvida. É o que dá claramente a entender Jeremias. verdade que havia de ressoar por excelência na plenitude dos tempos. são a resposta providencial ao anelo de todo mortal de saber que Deus está atento à sorte do homem.).. lê-se "o poder do Senhor" (grego). Conseqüentemente. Já ao se referir a indivíduos humanos. A tendência a atribuir ao Altíssimo aspecto e afetos humanos é. tratando de Deus. citadas dentre outras muitas: Êx 249-11 (texto hebraico) refere que Moisés e muitos dos anciáos de Israel subiram ao monte Sinal e "viram a Deus". os hagiógrafos com muita espontaneidade atribuíam essas mesmas partes do corpo ao Senhor.16). Ora no trecho correspondente puseram os tradutores gregos: "Viram o lugar em que se achava o Deus de Israel. Alguns exemplos elucidarão o proceder: o Senhor Deus tem narie e narinas. poder (ainda hoje a linguagem popular diz: "N. exalação nasal mais intensa." (V. traduziram a Sagrada Escritura do hebraico para o grego. no povo de Israel.. contudo. o Deus do coração humano. é um braço!"). por isto. se entende que a menção do nariz fumegante de Javé na Sagrada Escritura deva ser interpretada como expressão da justiça de Deus que pune os homens maus (cf. b) o sentido de alguns antropo-morfismos em particular. a atenuar ou eliminar os antropomorfísmos bíblicos. portanto. cólera". é. e mais ainda a Encarnação. dando-nos a famosa edição dita dos Setenta intérpretes. O têrmo hebraico 'af.. pode também significar "ira. III aO.

significa freqüentemente na Bíblia a personalidade. . as mãos.é "fugir de tal pessoa ou objeto . o poder. em Lc 1." (17." (Êx 15." e') as mãos simbolizam freqüentemente a faculdade de dispor ou simplesmente o poder (como ainda hoje na expressão: "estar nas mãos dos mais velhos. da história. são fàcilmente associados à idéia de conhecimento. Em conseqüência.. talvez me dispense bom acolhimento. se assinalou pela sua fôrça. "fugir da face de . Vossa direita.58 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Maldito todo aquêle que se apóla sôbre o homem E faz da carne o seu braço. por exemplo.) a face ou o rosto. nas páginas sagradas..." (Si 94. Na Sagrada Escritura. . Por conseguinte.515: "(O Senhor) fêz coisas poderosas com o seu braço. das autoridades").. De resto verifica-se entre as crianças a tendência espontânea a recobrirem o rosto com as mãos. principalmente a destra. usado." (S1 115. "ver a face" é não raro sinônimo de "comparecer perante (tal pessoa) ". constituindo para o homem uma das principais fontes de informações. coisa que se verifica ainda nas nossas expressões "aos olhos da sociedade.5.) "O Senhor tem em suas máos as profundezas da terra.6.. da ciência.4. Dispersou os que se ensoberbeciam Derrubou do trono os potentados.15. esmagou o inimigo. Enquanto o seu coração se afasta do Senhor. . .) os olhos. a sua personalidade. a seguir.) À luz dêste texto. conseqüentemente os olhos simbolizam o conhecimento que os homens ou Deus possuem: "Os olhos se lhes abriram (a Adão e Eva) (Gên 3. conceituacão. torna-se claro o antropomorfismo correspondente.7. A Êle pertencem os cumes das montanhas..) "Preciosa aos olhos do Senhor É a morte dos seus fiéis. fala Jacó: "Aplacá-lo-ei por meio dos presentes que envio préviamente.. a fim de ocultarem a consciência ou o seu íntimo. Senhor. verei a sua /ace (de Esaú). por exemplo.. Assim. de Deus: "Vossa direita. de Javé significam a fôrça. Exaltou os humildes." (Gên 32.." ou ainda "esquivar-se à influência de..) A luz dêstes dizeres hão de se entender os antropomorfismos: . sendo a sede dos órgãos que exprimem o intimo do indivíduo...21.. Senhor.

doação de amizade.8s. Tiago. ou seja. Senhor.) Conforme Êx 33. portadores de tese muito veridica e importante para a alma religiosa: o Deus sumamente transcendente é também intimamente próximo ao homem e solícito do bem da sua criatura! . mais nenhum valor possuem. o modo como os judeus entendiam êsses antropopatismos parece-nos atestado por S.) Estas considerações são suficientes para se concluir que os antropomorfismos e antropopatismos bíblicos não constituem simplesmente o produto de mente filosàficamente pobre ou simplória. Deus é dito "irritar-se". . não podem ser tratados como expressões que.11.) "Procuro a tua face. não faz senão punir em justiça os que o merecem." pode simbolizar um ato que se processa essencialmente no plano do espírito. Se. Quando Javé "se arrepende". a "inveja" de Javé significa o desejo que o Senhor. isto insinua bem que.PARTICULARIDADES DE LINGUAGEM DOS SEMITAS 59 "Até quando. se "se entristece". aprova e confirma o bem. o primeiro bispo de Jerusalém. Quanto aos afetos (alegria." (1. sumamente bom. acentua a incompatibilidade do mal com o que é de Deus. podia escrever sem ulterior explicação "Junto ao Pai das luzes não se verifica vicissitude nem sombra de mudança. são.17. na Sagrada Escritura. à semelhança do que se dá quando um homem se arrepende do que fêz. o Senhor falava "face a face" com Moisês. Senhor. embora se dirigisse a israelitas educados na ideologia veterotestamentária e recém-convertidos ao cristianismo. errôneo seria equipará-los aos sentimentos baixos e apaixonados dos homens ou dos deuses do paganismo. me esquecerás? Até quando rue ocultarás a tua face (= sorriso... o ato corporal de "voltar a face para. bondade)?" (Si 12." (SI 26. Tu és o meu amparo. procede de forma imprevista às criaturas. Aliás. entenda-se que. Não me ocultes o teu rosto. se "se alegra".2. ira. Nesta seção. Não rejeites encolerizado o teu servo. que. o antropomorfismo é logo explicado pelo apôsto "como um amigo fala ao amigo". não faz senão repreender o pecador que comete a iniqüidade. guarda fiel das tradições judaicas. em conseqüência da conduta dos homens. do seu modo. Ao contrário. se "se vinga". com o progredir dos tempos. arrependimento) que os hagiógrafos atribuem ao Senhor.. tem de ser amado por seu povo renitente e infiel. na mente dos hagiógraf os.

faça uso dêste (e uso assaz freqüente) para transmitir verdades sobrenaturais. aproveitando a inclinação inata do homem (mesmo do varão culto) ao simbolismo. 1951). se separa da realidade profunda da vida e do seu próprio psiquismo. por definição. sim. os recentes estudiosos da história. Com efeito. da psicologia. tem sido comprovada a sobrevivência subconsciente de grande número de imagens. metafísicos. Isto quer dizer também: mesmo o individuo mais "realista" vive de imagens. tôdas as suas noções a partir dos sentidos ou de imagens materiais. das figuras sensíveis donde parte o seu conhecimento. os finos matizes dos objetos. diz-se que hoje em dia o mundo ocidental (a cultura européia e americana) está de novo descobrindo o valor dos simbolos. Podem-se encontrar conclusões de estudos modernos sõbre o assunto na obra de Mircea Eliade. e êste simbolismo subconsciente é às vêzes mais forte do que a vida consciente do indivíduo. principalmente ao se tratar de exprimir verdades religiosas. é apetias camuflar ou mutilar os simbolos. nunca. nem ao raciocinar nem ao exprimir as suãs conclusões. os consegue eliminar de sua mente. abstraindo conceitos universais. A imaginação. que a razão e os conceitos humanos não podem definir de maneira cabal e exaustiva. embora reflita sôbre estas. Éste adquire. XIX ocasionou contra o simbolismo. e até da psicanálise. O simbolismo tem por fim exprimir as mais secretas modalidades. Ora bem se compreende que.60 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO APÊNDICE O VALOR DA LINGUAGEM SIMBOLISTA Após a acerba campanha ou desconfiança que o racionalismo do séc. simbolos. Mesmo no homem moderno. porém. ao raciocínio. as proposições religiosas. Images et Symboles (Pãris. por mais "racionalista" que pretenda ser. A justo título se diz que o homem que não tem "imaginação" ou dela não quer usar. O que o homem pode fazer. . que são o suporte e veículo de sua ciência. esteriliza a sua atividade e produtividade. mas as fórmulas já não sabem traduzir adequadamente. mostra o que é refratário ao conceito. o simbolismo tenha função importante. versam em tôrno de objetos transcendentes. e. jamais se pode desvencilhar. devidamente utilizada. constitui uma exigência da natureza psico-física do homem. afirmam cada vez mais categàricamente que o recurso a imagens e figuras é espontâneo ao indivíduo que pensa e fala. ou ainda aquilo que a intuição apreende. Assim se explica que a Escritura Sagrada.

dotada das energias próprias do respectivo sujeito. Ao contrário. ' Não ter nome" wm a ser o mesmo que não ter existência". não era uma designação arbitràriamente anexa ao seu portador. Em conseqüência. ocasionando na Sagrada Escritura modos de falar a nós estranhos. diziam proverbialmente os . dos quais os mais dignos de nota são os seguintes: romanos. guerreiros. tinham-no como a caracterização do indivíduo. 0 A FILOSOFIA DO NOME A maneira como os autores bíblicos se referem ao nome. que o Espírito Santo houve por bem respeitar. por exemplo. vai-lhe dedicado o presente capítulo. Tais idéias eram compartilhadas pelo povo de Israel. do gênio semita. Em virtude destas concepções. que as páginas anteriores apresentavam. é um agouro". o autor diz que não eram nomeados. das nações antigas e de tribos atuais não civilizadas não revelavam nem revelam o seu nome. e bem característica. 1 Alguns povos chegavam mesmo a conceber o nome como parte integrante do indivíduo e como coisa misteriosa.CAPÍTULO IV NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA O uso do nome e dos números no texto da Bíblia não constisenão uma expressão a mais. seja de Dèus. de uma função do portador. a fim de não comunicar a sua fôrça íntima.O nome idêias orientais. heróis. seja das criaturas. só se pode explicar à luz de idéias dos orientais. Dada a importância de que se reveste o tema para a interpretação do Livro sagrado. que na principal narrativa babilõnica da origem do mundo. chama a atenção. os indivíduos poderosos. na linguagem oriental antiga. o segrêdo do seu sucesso. autoridades. a expressão da íntima essência ou de um atributo. tui § 1. para significar que o céu e a terra não existiam. para os antigos. E quais seriam essas idéias? O nome. herdeiros 1 "Nomen est omen de . podia designar simplesmente o ser ou a vida do individuo nomeado. É de notar. o nome.

seria chamada (porque deveras se tornaria) "Cidade fiel" (Is 1.. cf. a quem Abigail se dirige nestes têrmos "Não tenha o meu Senhor cuidados para com.18) José. os pacificos serão chamados (= serão) "filhos de Deus" (Mt 5. após haver salvo da fome o Egito.35).". futuro fundamento da Igreja.4. função que de fato desempenhou (Le 1. É o que Deus às vêzes faz ao confiar aos homens um encargo de relêvo: Abram = "Pai elevado" torna-se Abraham = "Pai de multidão" (Gén 17. Montanha santa" (Zac 8. "Desejada. Deus forte. o Deus de Israel é chamado (e é. conforme o anjo..9. "ser chamado.Tacó = "Suplantador" torna-se israel = "Homem forte contra Deus" (Gên 35. Pedro" (Jo 1.45). Príncipe da paz" (Is 9.2-42. Nabal. sem dúvida) "Deus de tôda a terra" (Is 54. O nome é identificado com a própria pessoa ou a existência do respectivo portador: Conforme Edo 6.) - Conseqüentemente.3. Filho de Deus" (Lc 1. "mudar o nome" de alguém significa "assinalar-lhe nova função.10.4). . Paulo pede que a fornicação e outros vícios não sejam nomeados entre os cristãos.32. Em particular nos oráculos proféticos... Moisés contou nomes ou individuos de cada tribo de Israel. o que só pode significar: .10) Raquel chama seu segundo filho Benoni = "filho de minha dor". Assim o futuro Messias será chamado (= será realmente) "Conselheiro admirável. fica sendo Tsaphnath-Panoach = " Provedor da vida". e nêle há Tolice. não sejam praticados. seu nome é "o Tolo.19) a Casa de Deus tem por nome (por conseguinte. S.5).3).5).6).42). . Ao contrário.5) Jesus Cristo. é) "Casa de oração" (Mt 21. . cf. Jerusalém. não mais "Abandonada". mas 'Minha complacência pousa sôbre ela" (Is 62. S. para Cephas = "Pedra. Mt 5. Por ocasião do recenseamento preceituado pelo Senhor.62 . a criança que nasce morta tem o seu nome recoberto pelas trevas (Edo 6. como refere o texto de Núm 1. "Cidade da verdadë. Cidade náo abandonada" (Is 62. o Senhor Jesus muda o nome de Simão.. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O nome revela o íntimo do portador.. nome que Jacó substitui por Benjamim = " filho da direita" (Gên 35. É o que se verifica na história de Davi. segundo os profetas. Si 40.3. Pai eterno.12). Em Ei 5. não tenham existência." (1 5am 2525. pois êste é o que o seu nome indica. nada vem à existência sem que prêviamente haja sido pronunciado o respectivo nome. novo destino na vida".76). João Batista seria dito "Profeta do Altíssimo". deveria ser chamado (= seria) "Filho do Altíssimo. . em egípcio (Gên 41. Is 567). é a mesma coisa que "ser.26). cf.

Êx 23. Jz 13. pois. Gên 32. propriedade do nomeado". Seu sôpro se assemelha à torrente que transborda.21. a fim de que possam usufruir da tutela désse varão (cf. .311 (note-se o paralelismo entre os dois verbos !). Com efeito.27). o templo de Jerusalém é dito "o lugar que Deus escolheu para ai fazer habitar o seu nome" (Dt 12. E sobe até a nuca. Apc 13. Dadas estas concepções em Israel. e te conheço por teu nome.6.5.34. abusos que se verificavam nos cultos pagãos (proferindo o nome da Divindade. a mesma ficaria sendo posse déste chefe israelita (ef.2.11. "Conhecer alguém pelo nome" é conhecer de maneira muito íntima. do nome de Deus. declaram-se com isto servos de Javé pertencentes unicamente ao Senhor (cf. 33." (Is 30. "colocar o nome" de uma pessoa sôbre outra ou sôbre alguma coisa equivalia a "envolver tal pessoa ou coisa dentro do raio de ação do nomeado. 4 Rs 23. Deus prometeu enviar ao seu povo um anjo tutelar. dizia Deus a lvloisés Ainda farei o que pedes. ést.9). se à cidade de Rabá se desse o nome do General Joab. quando o sacerdote abençoava a multidão. 14. pesada nuvem se levanta.28) o monarca vencedor não raro mudava o nome dos homens subjugados. pois encontraste graça aos meus olhos. e o Senhor o abençoava realmente" (Num 6. com especial carinho e interêsse. 2 5am 12. Seus lábios respiram o furor E sua lingua é como fogo devorador.11) por ocasião da travessia do deserto (êxodo do Egito). da eficácia.30.12) o Bom Pastor chama as ovelhas pelo nome e as ama a ponto de dar a vida por elas. "no qual estaria o nome de Jave' (cf.6).e. a Lei de Moisés proibia terminantemente os usos mágicos. declara Jesus em Jo 10. porém. sete mulheres procuram um homem e lhe pedem seja o nome déste preferido sôbre elas.17). do respectivo sujeito. num tempo de calamidade.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 63 O nome sendo empregado como sinônimo da pessoa.20s). 24. a entrega do nome seria a consignação do poder próprio (cf. Sua cólera arde. "colocava o nome de Javé sõbre o povo. Visto que o nome era tido como portador da energia.1) aquêles que escrevem o nome de Javé sôbre a própria mão. se nega a revelá-lo.275). ef. Is 44.17. supersticiosos." (Êx 33. Assim é que. os magos julgavam poder dispor da fôrça de Deus.5.16. os homens por vézes desejam saber o nome de personagem misterioso que lhes aparece. atribuem-se-lhe órgãos e atividade: "Eis que o nome de Javá vem de longe. a fim de significar que doravante estariam sujeitos ao poder do novo soberano (cf. Is 4. pôr sob a proteção" ou também "tornar a pessoa ou o objeto posse. conforme a mentalidade vigente. 16.

Ei-la: O nome de um indivíduo podia designar tôda a linhagem do mesmo. 3 Na raiz dêste fenômeno parece estar a chamada "lei da participação".. E ao melhor dos troncos o filhote do seu jumento.11. a prosperidade que no futuro deve tocar a Judá e a seus descendentes é descrita em têrmos referentes ora à tribo inteira (vv.10-123 Como se vê. herdado dos caldeus. . zelava rigorosamente para que tal concepção não afetasse a verdadeira fé e o legítimo culto de Deus. Tem os olhos rubicundos de vinho E os dentes brancos de leite? (Gên 49.8. Le Frois. 8. o ganzheitiiches DenIcen. Lava a sua veste no vinho e o seu manto no sangue da uva. Destarte Javé tolerava no seu povo um pressuposto da cultura oriental. XVII (1955). Lev 20. 2. as qualidades de um Patriarca prolongando-se na posteridade dêsse varão. Destarte é que "Israel. a qual também teve sua influência na redação de algumas passagens escriturísticas. referir ainda outra modalidade da "Filosof ia do nome" vigente entre os orientais. vigente entre os povos antigos.315-323.8.7. conforme os alemães): os semitas costumavam julgar um individuo em função do todo a que pertencia. "Semitic Totality Thinklng". Jacó" designam a nação eleita inteira em Is 41. irreverente. nos oráculos de Gên 49. ora uma tribo. Será preciso. Éx 20. Dt 5. Contudo o Senhor.2s. O cetro não será removido de Judá (= coletividade). hão de louvar os teus irmãos. porém. antenatos de Abraão. o semita não via dificuldade em aplicar o nome do pai à coletividade dêle descendente. 8 veja-se a respeito B.27. "Esaú" e "Jacó" representam dois povos em Mal 1. o pressuposto era deficiente.64 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO coagindo o mesmo a socorrer os homens!). Nem o bastão de comando dentreos seus pés. 'A ti. do nome de Deus era rigorosamente vedado pela Torá (cf.9-13). os nomes dos filhos de Jacó significam ora uma pessoa. 2 Os exegetas modernos explicam êste modo de falar pela tendência dos oriStais a pensar segundo categorias coletivas (pelo thinking iii totalities. sujeito a ser removido mais tarde. lis). Judá. Qualquer pronunciar vão. conforme os inglêses. J. tolerando.10) ora ao mdlviduo apenas (vi'. 22.. o autor sagrado transfere a sua atenção daquela a esta e vice-versa. 18. Os filhos de teu pai (= as onze tribos de Israel) se prostrarão diante de ti (= tua descendência). lei em virtude da qual se admitia a comunicação de 2 Haja vista o vaticinio proferido sóbre Judá: 8. sem o indicar expl'icitamente.17. em Tire Cathouc BibUcaZ Quarterly. Até que venha Aquêle a quem pertence (o cetro) E a quem os povos obedecerão Êle (Judá) amarra à videira o seu jerico. Tua mão pesará sôbre a nuca dos teus inimigos.

por sua vez. lutadora e vitoriosa. OS NÚMEROS SÍMBOLOS DE QUALIDADES Os números figuram muitas vêzes na Sagrada Escritura não como indicações de quantidade. 137. mas como se "o povo inteiro nêle estivesse. ao aludir a esta em Ape 12. é indispensável tenha o leitor em mente alguns princípios gerais. suscitam. . que a função da Igreja. Mãe e Virgem. 107.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 65 qualidades da parte ao todo e do todo à parte. ao redigir Apc 12. porém. questões múltiplas e árduas. Ora. Robinson. possa simbolizar tanto a Igreja (coletividade) como a Santíssima Virgem Maria (pessoa individual).. João. que pouco fidedignas parecem. 143). são as variantes dos textos (bíblicos ou profanos) paralelos entre si ou a oscilação dos manuscritos antigos que provocam dificuldades de interpretação: entre duas ou três cifras indicadas pelas fontes. a terá apresentado realçando os traços que lhe são comuns com Maria Santíssima. of Corporate Personality". esta é. Fenômeno semelhante se verifica em alguns salmos: tôda a coletividade de Israel ai aparece como que concentrada na pessoa do seu rei. W. a pessoa individual que por excelência representa a coletividade da Igreja. 318. "The Hebrew Conception te Frois. Cf. já foi no início da era cristã compendiosamente realizada em Maria Santíssima. tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrêlas sõbre a cabeça. A "lei da participação" (na medida em que ela é verídica) explica bem que a mulher revestida do sol. 1. na Escritura Sagrada. o significado que toca ao nome nas páginas da Sagrada Escritura. para resolver tais problemas. não como simples lugar-tenente. participando dos predicados desta.. S. é preciso optar. Ëste representa o povo. e êle.. Em conclusão: será necessário recorrer à ideologia particular dos semitas para interpretar. Acontece que.° OS NÚMEROS NOS TEXTOS BÍBLICOS As cifras. por sua vez. 4 de sorte que a pessoa que nomeava um indivíduo se podia estar referindo a tôda uma coletividade e vice-versa. art. Em outros casos. cit. Eis. de que fala Apc 12. mas como enunciações de qualidaem 4 5 Bethelt aur Zeitschritt /uer alttestamenthche Wissenschaft. tomam assim caráter aparentemente fantástico. por conseguinte. 53-56. Por isto. terá intencionado referir-se à Igreja. João. 66 (1936). e não se sabe sempre que critério seguir. ao menos em muitos casos. S. Também éste aspecto da mentalidade oriental foi utilizado pelo Espírito Santo para exprimir a mensagem perene da Palavra de Deus! § 2. fôsse o povo" 5 (ci. abaixo discriminados. SI 59. em algumas passagens. que dá o Cristo ao mundo e ao mesmo tempo luta contra o Dragão até o fim dos tempos. chamam a atenção por referir quantias extraordinàriamente elevadas ou também insignificantes.

os espíritos.. em virtude da sua memória. Em tais fenômenos. A tendência a associar cifras a certos predicados ou também a certos sêres (a Divindade. Nesses casos. os pastôres sabem exatamente verificar a falta de um ou mais animais nos seus rebanhos. Bata então que o homem rude tenha boa memória (e. está claro que as cifras se mostram inverossímeis para quem as queira entender como expoentes matemáticos. bem se vê que a observaçao da . é capaz de verificar a ausência de um só que seja. ou seja.) é muito antiga. quando o aspecto do grupo é mutilado. a série dos números apresenta algo de misterioso para o homem: ela parece poder prolongar-se sem que êste a consiga acompanhar. são a expressão de um juízo que o autor formula a respeito de tal ou tal sujeito. altamente significativas para quem conheça a mentalidade do autor e a afinidade que os antigos estabeleciam entre certos números e determinadas qualidades. Em conseqüência. estas notas tôdas reunidas dão uma configuração de conjunto ao rebanho. os homens rudes não jogam com unidades abstratas. quantos e quais individuos desapareceram. Ela se baseia no fato de que os números estão essencialmente ligados com a idéia de regularidade. pouco dotados de capacidade de abstração. o homem. esta não falta nas tribos de civilização pobre). quebra.isto se dá sem que tais homens saibam contar além de uma ou poucas dezenas! Os estudiosos explicam êstes fenômenos pelo fato de que. configuração que define o rebanho. Divino" ou "Mais Forte. mas tôda unidade lhes fica na mente.66 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO des. Além disto. É o que faz que espontâneamente se liguem com os números as idéias de "Transcendente. as combinações dos números entre si parecem ultrapassar a capacidade do espírito humano. despojadas das notas concretas com que se realizam na natureza. tornam-se. para que proceda pràticamente como se soubesse contar. inseparável de determinados predicados individuais. tão antiga mesmo quanto o uso de contar. percebe de longe se algunia falta e sabe dizer qual ou quais as que se tenham perdido. as criaturas inf eriores. cada unidade está 'mtimamente associada a notas individuais de um sujeito. o percebe e sabe dizer quais as notas que faltam no conjunto. ao ver o gado voltar do pasto para o aprisco. porém.note-se bem . harmonia e. Sim. o proprietário de quatrocentas ou quinhentas ovelhas. o pastor primitivo guarda na memória as notas características de cada animal. também. Fenômenos significativos neste setor são os seguintes: mesmo entre povos primitivos cuja faculdade de contar é muito limitada. E .. em geral. com efeito. Mais Pujante". para o homem primitivo. o proprietário. diferenciação. ao convocar os seus numerosos cães para a caça. periodicidade. o caçador primitivo. Da mesma forma.

Exemplo típico disto verifica-se nas genealogias dos cainitas (prevaricadores) e setitas (fiéis a Deus) em Gén 4.20: Deus tudo dispôs "conforme medida. parece fadada a cair em desuso. Algo de semelhante se dá na linhagem dos semitas. Das hebraeische Denken ira Vergleieh init dera grieehischeit. no decorrer dos tempos. Boman. êle venha a conceber cada cifra jntimamente relacionada com alguma qualidade. ). harmonia. a noção de unidade abstrata. ou seja. seixos"). o nome de cada um dos descendentes de Sete é acompanhado de cifras. o Senhor. porque associa com cada unidade e com o conjunto das unidades predicados característicos. em conseqüência.1-32: enquanto naquela não se encontra a menção de um sô número. com isto..NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 67 qualidade precede a da quantidade ou cifra. ALGUNS ASPECTOS DO SIMBOLISMO DOS NÚMEROS O "simbolismo dos números" acima explicado era patrimônio da sabedoria não só dos famosos pitagóricos e platônicos (gregos). dos israelitas. T. que lhe servem de moldura (o número de anos em que começou a gerar. forma-se..coisa que freqüentemente falta na linhagem dos impios. mas a "figura. a duração total de sua vida . com a indicãção de datas ou cifras equivalentes a datas . Por conseguinte.0 simbolismo do número como tal. Individual. e de cifras de índole meramente quantitativa. diga-se explicítamente. número e pêso". a história dos justos é geralmente apresentada dentro de um quadro numérico. nós feitos em Cordame. Não temais". 1 Entende-se então que. ossinhos. É o que explica a afirmação de Sab 11. mas também dos povos orientais e. É também o que ilustra a admoestação de Jesus: "Mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. de maneira geral. 6 o homem "conta" ou faz como se contasse. Normalmente em cada tribo a civilização e a vida cotidiana se vão tornando mais e mais complexas. ensina que a Providência Divina dispõe ordenadamente até as mínimas circunstâncias da vida humana. O Diz-se que o homem primitivo considera primeiramente no número não a 'grandeza. às unidades e aos seus múltiplos (dai o verbo "calcular". o valor quantitativo". 7 É notário que o homem rude só sabe contar servindo-se dos dedos das mãos ou dos artelhos ou ainda de seixos (cálculos). 144s. A . que originâriamente significa "manejar cálculos. destituídas de significado filosófico ou moral (sem atribuição de qualidades). Esta "Filosofia do número". matemática. . a memória então já não é capaz de reter tudo que caracteriza os múltiplos indivíduos com que o homem lida. 8 2.17-24 e 5. O número por si costuma significar ordem. os quais dão figura concreta. o valor qualitativo" do mesmo. porém. 8 Cf. Eis as principais expressões desta mentalidade na Sagrada Escritura.

sem dúvida. pertencer longa vida.35. Julgava-se em certos círculos (mormente no pitagorismo.22. Jó 3. plural de 'El.19. conforme os autores israelitas. na genealogia dos Patriarcas bibilcos: a extraordinária longevidade (centenas de anos) que lhes vem atribuida.C. o Deus de Israel. Os vassalos cananeus do Egito dirigiam-se ao Faraó mediante a fórmula ilania. 14. plural de Qadosh. 6. • mal se alastra mais e mais.6). empregavam formas de plural. É o que se verifica. Frov 8.10-32. em Gên 11. 10 Cf. Jó. 30. desde Adão até Abraão. "os seus deuses".12-14. O declínio da longevidade à medida que se passam os tempos.8s. a Santidade. a felicidade diminuem no mundo.14. os israelitas queriam dizer que o Senhor é a Fortaleza. Dt 4.3). 10 Ocorrem no texto hebraico da Sagrada Escritura substantivos em forma plural que inegàvelmente designam o único Deus.9. 7. plural de 'Elyon.18). à figura de um Patriarca parece.9).. e o bem-estar. extensão. a Sublimidade mesma (em hebraico.11. Estas formas de plural não indicam multiplicidade de sujeitos ou deuses.11. 9. Prov 9.26. é sinal de que a corrução. • pecado. gozavam de preferência os ímpares. Já que os números freqüentemente indicam qualidades. Deus ou Forte (?) (Gên 5. 11. Aliás sabe-se que também os povos pagãos.18. 30. Tal uso dos números significa que a vida dêstes justos era harmoniosa. desejando que o dia de seu nascimento não fôsse contado entre os dias do ano.20.68 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO portadores da promessa messiânica. Aplicando a Deus os têrmos concretos "Fortes. Ciéncia e Fé na História dos Primórdios (Rio.10. 1905. Cf.1. 9 donde se segue que extraordinária longevidade tem por pressuposto extraordinárias virtudes. não fazia outra coisa senão proferir sôbre o mesmo uma fórmula de maldição (cf. 81. Os 12. os deuses dos deuses.) que o número um é por excelência o Princípio não produzido. que se origina pela interven9 Bar 3. 19552). a santidade. por exemplo. exprime enfàticamente a alta venerabilidade que competia a êsses homens.O simbolismo peculiar de alguns números. a partir do séc. a sublimidade do único Deus. o deus supremo.19. Dentre os números. 16. mas são maneiras de realçar a qualidade expressa pelo respectivo nome: a fortaleza. prêmio que Deus outorga à virtude. vão exercendo cada vez mais os seus efeitos no gênerohumano. o conceito abstrato era expresso pelo plural do têrmo concreto). Is 46.35s. isto é. que lhe confira experiência e autoridade. Dt 4. Era outros têrmos: longa vida é. correspondente ao ideal que Deus lhes traçara. referindo-se a uma Divindade.27. o número dois. perfeito. mas intensidade de um predicado.6. 'Elyonini. Excelsos". Excelso (Dan 7. Santo (Jos 24. E. VI a. entende-se que as expressões de plural na Sagrada Escritura não designam sempre multidão. SI 33. Bettencourt. B . Santos. Assim: 'Elohim. . O deus lunar Sin era chamado ilani seita ilani. Qedoshim.

15.6 lê-se que o homem que haja roubado uma ovelha. contudo ela se explica muito bem. Lc 19. prestar juramento. quebradiços. o orante confessava ter cometido sete vêzes sete pecados.4a). Gên 1. ao traduzir o trecho para o grego. Gên 21. por admitirem divisão em duas partes inteiras. 34s. .4). a distribuição do tempo em semanas (cf. moles ou femininos. viris. que reconhecia e promulgava. parecia essencialmente imperfeito. 12 Em uni cântico penitenciai babilônico. Veja-se ainda Gên 4. assim o discípulo de Cristo há de perdoar setenta vêzes sete vêzes. já em suas primeiras páginas. plenitude.12 O autor de Prov 24. Um fenômeno literário Interessante ainda solicita atenção: no texto hebraico de 2 8am 12. Mt 18. plenitude e perfeição. bb) sempre que se queira exprimir a totalidade. 1' É com êste sentido que êle ocorre. dizer palavra firme. Em outra oração. Ci. se se penetra na mentalidade dos tradutores: no caso. os números ímpares. Em Israel. puseram 'sete ovelhas". opondo-se a isto. eram tidos por fortes. em lugar de "quatro". Esta tradução. pedia sete vézes perdão. isto é.30).37. que os judeus de Alexandria. De resto. indefinidamente. 11 Já na Babilônia sete (= lcissatu) era sinônimo de totalidade. à primeira vista. é estranha. longe de atribuir a "sete" significado quantitativo.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 69 ção do vazio ou do intervalo na unidade. plenitude que é própria da Divindade. O significado importante do setenário entre os orientais compreende-se pelo fato de que êstes povos dividiam o tempo conforme as fases da lua. sete. Eis. definidos. faltas numerosissimas ou de incomensurável gravidade.16 se refere a sete (= tôdas as) quedas do justo.24 (a vingança de Caim e a de Lameque). isto é. porém. O número sete é dos mais dotados de valor simbólico na mentalidade antiga e na Escritura Sagrada. os hebreus derivavam o verbo sliaba.21s. em Prov 6. é obrigado a restituir quatro outras (de acôrdo com a lei formulada em tx 20. Os caldeus fizeram do setenário um número sagrado. por exemplo. perfeitos. Lc 17. a estima geral dedicada ao número sete parecia sancionada pela própria Bíblia. Em geral. a saber: que se há de fazer a compensação cabal. da vida humana. ci. emLeipziger semitische Studien. exata do furto cometido (de resto. quiseram por meio dêste número indicar melhor o que o texto original subentende. aa) nas fórmulas de contratos e juramentos: Abraão deu a Abinieleque sete ovelhas como penhor de que cumpriria sua palavra (cf. atribuíam-lhe o significado de totalidade. que ocorria freqüentemente nas suas histórias religiosas e nas cerimónias de culto. ao contrário. A figura da mão dotada de sete dedos era na Caldéia simbolo da plenitude da fórça e do poder.30 está dito que o ladrão deve restituir sete vêzes o que roubou 1).1-2. Visto que o número sete determina períodos mais ou menos completos. 11 5 (1907). "Siebenzahl und sabbat bei den Babyloniern und im Alten Testament". sempre que haja ocasião para Isto (ci. a) o 'número sete. os números pares eram considerados inf eflores. Hehn. tão grande quanto seja. da mesma raiz que sheba. matemático. J.8).

13. os três amigos de Jó (2. Sejam mencionados ainda: os dez servos (= um grupo completo). que excluem do reino de Deus (1 Cor 6. nas parábolas de Cristo (I. Em tais circunstâncias. a série dos tempos foi preenchida sem algum acontecimento digno de nota para a historiografia religiosa.9s). tal dia ou tal ano é determinado pelo número sete (sétimo dia ou sábado. Sejam aqui mencionados apenas os três filhos de Noé (Gên 6.8. Ci. os três dias passados por Jonas no ventre do monstro marinho (2. O número três gozava também de grande estima entre os se- Em cada um déstes trechos. Éx 20.2.1-17. os. as dez virgens (= todos os cristãos). 15. . é figura que sôbre qualquer de suas bases está sempre em pé. Lev 25. os três anjos que apareceram a Abraão (Gên 18. três justos de Ezequiel (14. mas apenas queria referir-se a todos quantos (. os três companheiros de Daniel (3. O ternário ocorre com freqüência na Escritura.11). mitas.10-32): o hagiógrafo.10). . de modo nenhum entendia dizer quantas gerações mediaram respectivamente entre Adão e Noé. a menção de dez vícios (não exaustiva). Mt 25. não se deixando de modo nenhum derrubar.38s).2). o núm?ro dez foi tido como símbolo de um "todo completo. ao mencionar dez Patriarcas em cada uma. de renovação. O número dez tornou-se importante entre os antigos pelo fato de que o homem primitivo. e) o número dez. É certamente êste o significado que lhe compete nas genealogias dos setitas (Gên 5.. o catálogo (taxativo.70 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO cc) quando se quer indicar um dia ou ano de repouso. ano que mais se assemelhe à perfeição da vida celeste. o sentido do número três há de ser analisado à luz do gênero literário adotado pelo hagiógraf o. fechado em si". as dez dracmas (= número redondo).1). sétimo ano ou ano sabático.1) b) o número três. não sàmente por ser o primeiro composto ímpar. recorria aos dedos de suas mãos.1-32) e dos semitas (Gén 11. Noé e Abraão. embora mais parcimoniosamente do que o número sete. ficando a cifra exata desconhecida tanto ao escritor como ao leitor. ano jubilar ou qüinquagésimo 17 x 7 + 11).14).c 19. ao contar. mas também porque o triângulo equilátero constitui um dos simbolos mais expressivos de firmeza e perfeição. não exaustivo) de dez adversários que não conseguem arrebatar ao cristão o amor de Cristo (Rom 8.23). O que interessava o autor sagrado era dizer que entre Adão e Noé. desta praxe se origffiou o sistema decimal. C+ên 2.10. Noé e Abraão.) tenha realmente havido.

ornada cada qual por uma pérola e o nome de uma das tribos de Israel. todos impregnados de moralismo. Na Sagrada Escritura.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 71 a série de dez milagres narrados sucessivamente para comprovar a autoridade de Jesus após o importantissimo sermão sôbre a montanha (Mt 8s). mas designam qualidades. sôbre cada qual das pedras da base acha-se o nome de um dos Apóstolos. Baseado sôbre os doze Apóstolos quais pedras fundamentais. . 13 d) o 'número doze. Gelin. visando apenas uma iniciação geral na Sagrada Escritura.14-27). guardadas por doze anjos. em L'Ami du Clergë. éle se propaga mediante a pregação dos Apóstolos.20s). agora recrutado dentre tôdas as nações. Um dêstes. a nova Jerusalém.. esta constitui o reino teocrático por excelência. 14 O presente estudo. não comporta mais particulares a respeito dos números bíblicos..16s. escolhidos pelo Senhor para constituírem o elo entre as doze tribos (a totalidade) do antigo Israel e a plenitude do novo Israel. em que os bens outrora outorgados às tribos de Israel se acham multiplicados e oferecidos a todos os homens... Era natural que a cifra. as dez prescrições dirigidas a quem queira subir à montanha do Senhor (Si 14). 51 (1947). o reino messiânico mesmo é freqüentemente assinalado pelo número doze. o reino messiânico é descrito no Apocalipse como Cidade Santa. o número doze é básico para a história do povo de Deus. 12. ou também os atos de obediência à Lei (Ez 18. 14 3. todo santuário apresentava regras próprias. salmo em que é realçado o número dez: A tradição israelita conhecia outros formulários que catalogavam em listas de doze os atos e as pessoas que mereciam maldição (Dt 27. tem doze mil estádios de lado. constitui o salmo 14. ENUMERAÇÕES PROVERBIAIS E ARREDONDADAS Dizia-se acima que os números na Sagrada Escritura por vêzes não são a expressão de quantidades. divisão que já babilônios e egípcios observavam. portadoras da fé e da esperança messiânicas.14. consumação. cuja estrutura é impregnada do mesmo número: tem doze portas.5-9) A. Em Israel essas regras eram enunciadas nos formulários da "liturgia de entrada". simbolizasse. A interpretação de cada um dêstes requer estudo exato do respectivo contexto. a cidade. 13 "Na antiguidade. Apc 21. ordinàriamente rituais. 852. Com efeito. O número doze adquiriu aprêço em virtude da divisão do ano em doze meses. lste constava de doze tribos. que deviam observar os que lã Quisessem entrar para participar das bênçãos do culto. a muralha perimetral mede cento e quarenta e quatro côvados (cf. em conseqüência. totalidade ou plenitude. por sua vez. Tais mdicacões significam o caráter de plenitude. abrangendo um período definido em si. sendo quadrada. que toca à nova Jerusalém ou à Igreja de Cristo.

11.9.o Senhor: Por causa de três crimes de. a arte das medidas. por exemplo. Não revogarei o meu decreto (de punição) (Am 1.8: o profeta anuncia a seis povos pagãos e às duas frações do povo eleito (Judá e Samaria) o castigo divino. no contexto. Considerando êste particular. É aos gregos.. ao se dirigir a cada um dos réus. Com efeito.) E por causa de quatro crimes. porém. encontra-se na história de Davi: para louvar a bravura déste guerreiro. ora. É bem de notar que. mas Incrimina o êrro ou os erros (quantos sejam !) do respectivo povo. após a dita fórmula introdutória. em particular nos livros didáticos ou sapienciais. significa que a iniqüidade ultrapassa mesmo tôda medida e. cantavam os coros popuiares: "Saul matou os seus mil. Davi ainda o é mais". 15 16 .72 PABA ENTENDER O MITIGO TESTAMENTO É mister agora observar que. Exemplo evidente de uso enfático. 70. O artifício servia parte para ajudar a memória dos discípulos (que deviam aprender de cor as máximas sapienciais). é meramente retórica.3.123 O sentido do adágio é claro: "por muito aguerrido que tenha sido Saul.6. proverbial. 15 A instância quatro. proverbial. também enumerações arredondadas.) A menção gradativa de três e quatro crimes não é de ordem matemática nem." (1 5am 21. parte para dar ênfase Haja vista o que se disse sôbre o simbolismo do número três à pág. provoca irrevogàvelmente a punição divina.. cuja civilização surgiu posteriormente à dos semitas. é a disposição dos elementos enunciados em duas séries: ii e n + 1. mesmo ao significar quantidades.. aliás muito expressivo. que o mundo ocidental deve a tendência à precisão matemática. os orientais admitiam fàcilmente certa latitude ao enunciar uma quantidade.6. indica que o réu é grandemente culpado. os exegetas reconhecem haver na Sagrada Escritura enumerações intencionalmente enfáticas. por outro lado. adaptados a artifícios de linguagem.3-2. os seus dez mil. Davi.4. acrescentada logo a seguir. o haglógrafo não enumera nem três nem quatro faltas. etc. 2. Outro artifício de números. 16 Afirmações em que números são mencionados conforme o esquema n. três.13. Raja vista. Gaza. Tiro.1. o texto de Am 1. por vêzes. n + 1 ocorrem freqüentemente na Sagrada Escritura. usa a fórmula introdutória estereotípica: "Assim fala .. à exatidão em geral. possui valor de superlativo. (Damasco. por isto. são. dos gregos receberam os demais europeus a geometria. que não correspondem matemàticamente à realidade. mas tem seu significado próprio.

Note-se também o bis terque de Cícero.5." Como se vê. uma quarta parte. E aquêle que dissemina a discórdia entre irmãos. número da totalidade !) Cf.25s.19. mas são simbolos. em favor do homem. os homens idôneos. SI 61.16. A terra que não se satura de água. um exemplo proveniente de documentos fenicios (ugariticos). dois-três. o emprêgo dos números em provérbios supõe por vêzes o valor simbólico dos mesmos de que tratavam as páginas anteriores.6. dois-três-quatro. as frações enumeradas dão unia soma de 459/420." (Prov 6. A falsa testemunha que profere mentiras. "Der Zahlenspruch im Hebraeischen und Ugaritischen".5. em Is 17.295. em Já 5. morrerá. em Biblica. morrerá. entre outros. a qual excede a unidade. O coração que medita planos pecantinosos. Quatro mesmo nunca dizem: Basta! A região dos mortos. 198. Belo 26. Os pés apressados a correr ao mal. E o fogo que jamais exclama: Basta (Prov 30. em 4 Rs 13. 18 17 Êste artifício de ênfase parece tão espontáneo à psicologia humana que êle ocorre também na literatura extrabiblica.gura figura figura figura figura figura figura um-dois ocorre em Já 40.15s. As mãos que derramam sangue inocente.18s.16-19. três vêzes.4. o orador preferia enunciá-lo parceladamente. quatro-cinco (associada a dois-três). os jovens heróis do mar.e beati de Vergílio." (Já 33. o qual claramente inculca não se dever atribuir ás cifras sentido quantitativo: "Uma têrça parte.12. eis que ela perecerá pela espada. Am 4. Os olhos altivos. Eis alguns exemplos • • • • • • • • • figura figura f. dá! Três coisas são insaciáveis. em Bel 11. eia Prov 30.) "A sanguessuga tem duas filhas: Dá. cinco-seis. uma sexta parte.8. fazendo recair mormente sôbre êste a fôrça da sua afirmação. o ter quaterqv. Miq 5. 50. que hão de ser entendidos á luz do simbolismo oriental dos números. uma sêtima parte. 29-31. em Belo 25.) . em Am Is. Eis. três-quatro.. transcrevemos um ou outro dos textos citados: "Eis.) "Seis coisas há que o Senhor odeia.19. seis-sete. Bea. nove-dez. uma quinta parte será vitimada pela peste. Trata-se. luz dos vivos. E sete que êle abomina. os príncipes. 17 não raro o orador visava com isto acentuar o último membro da série. Prov 6.29. A fim de o salvar da morte E iluminá-lo com a. Não há dúvida. 21 (1940). sete-oito.2. Duas vêzes. pois. será vitimada. A. prendendo mais a atenção do ouvinte. Edo 2619. Os filólcgos têm comprovado que os números enunciados em tais fórmulas não possuem valor matemático. o seio estéril.7. a língua enganadora. Deus faz isso tudo. em Já 33. Prov 30.21-23.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 73 ao discurso: em vez de dizer simplesmente e de uma só vez o valor totai. 18 A fim de tornar mais significativas as referências acima.15s. de números irreais concebidos para indicar que tõdas as categorias de responsáveis de determïnado povo serão atingidas por flagelos diversos (a última fração é a do sétimo.

a proporção entre a circunferência e o diâmetro seria simplesmente igual a três.1-4: "Meu espirito compraz-se em três coisas Aprovadas por Deus e pelos homens: A união entre os irmãos. um ricaço mentiroso. Há problemas de números na Sagrada Escritura ocasionados por erros de cópia ou por deficiente conservação do texto sagrado." (Miq 5.4. Prov 30.1-4. mas simplesmente cifras aproximativas ou arredondadas.12.15. No caso. de acôrdo com 3 Rs 4. Faremos levantar contra êle sete pastôres E oito príncipes do povo. Não era difícil que um copista hebraico incorresse em erros na transmissão dos números. o amor ao próximo. refere que o mar de bronze. era circular e tinha um perímetro de trinta côvados por dez de diâmetro. trés tipos de pessoas que minha alma detesta E cuja vida me é insuportável: Um mendigo soberbo. que na matemática é de 3.24). porém. conforme 2 Sam 24. nada há que obrigue a se atribuir sentido literal a estas cifras. ora êstes por vêzes se assemelhavam tanto entre si que se podiam fàcilmente confundir uns com os outros. Está claro que em tais casos a autêntica interpretação se obtém pela aplicação das normas da arte crítica do texto. 19 Ainda se deve observar que certos números na Sagrada Escritura não parecem ser nem indicações matemáticas. portanto. Há. 4. nem expressões proverbiais.2. grande piscina colocada por Salomão sôbre doze estátuas de bois à entrada do Templo do Senhor. As cifras eram assinaladas pelos caracteres do alfabeto. o valor Ir. foi. os sinais: "Quando o assírio invadir nossa terra E seu pé calcar nosso palácio. que em certo grau levam a reconstituir o teor original da página estudada." . os setenta milhares de vítimas da peste desencadeada sôbre o reino de Davi.23 e 2 Crôn 4. expresso redondamente pela cifra três.) 19 É o que se dá em Edo 25. Edo 25. Ao menos. segundo bons comentadores católicos. NÚMEROS MAL TRANSMITÍDOS Mais uma observaçãõ se imp6e na exegese das cifras bíblicas. E um marido que se entende bem com a espõsa.1416. considerem-se. Exemplo marcante é o seguinte: o autor sagrado em 3 Rs 7.74 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Acontece também que a enunciação seja feita diretamente. Outros exemplos seriam: o total de três mil provérbios que Salomão proferiu em sua vida. E um ancião tolo e Insensato. por exemplo. sem gradação enfática (cf.

e repousou no sétimo Dentre estas duas variantes. anos em Israel. só fazia suscitar . as traduções grega dos LXX (séc. As traduções dos LXX e da Vg suprem a deficiéncia. e exige imperiosamente. mas de modo descabido. A confusão entre "seis (sexto)" e 'sete (sétimo)" se explica fàdllmente.9 (texto hebraico) lê-se que Jeconías tinha oito anos quando começou a reinar.. Diante destas variantes.8.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 75 e (daleth) e (vau) j =100 (qof) e 7=200 (resh) J = 7 (zain) (resh) e =10 (iod) 7 = 200 Eis alguns textos em que as mãos dos copistas introduziram variantes errôneas Gên 2. O contexto a exige." Ao contrário.1 se apresenta lacunoso: "Saul tinha a idade de. interpretando fontes ou seguindo critérios atualmente desconhecidos. e repousou no sétimo dia. O texto hebraico atual. Eis mais urna divergência que muito provãvelmente se há de explicar por deficiente transmissão do texto original. considerada a afinidade gráfica de j(vau = 6) e J(zain = 7).25 fala apenas de quatro mil mangedouras.).2. a qual assinala a duração de quarenta anos ao reinado de Saul." A causa do defeito não poderia ser indicada com precisão.. refere outra tradição judaica. Os tradutores gregos. III a.." São Paulo. Em 2 Crõn 36. assim como a seção paralela de 4 Rs 24. variante que mais fidedigna parece. Assim é que dão a ler: "Saul tinha um ano quando começou a reinar: reinou dois anos em Israel.21. dificil se torna reconstituir a realidade histórica.C. Segundo o texto hebraico de 3 Rs 5. anos. não se hesita em julgar que a segunda é a original. nos terão transmitido o teor de um arquétipo hebraico mais bem conservado do que os nossos. v d.) e síria (séc. Com efeito. Ora a tradução grega dos LXX em 2 Crón 9.) dão a ler: terminou no sexto dia. O texto hebraico hoje conservado de 1 8am 13. em vez de esclarecer. é necessário outrossim se levem em consideração as glossas ou interpolações praticadas por mãos posteriores à do autor..6 (Vg 4. lhe atribuem dezoito anos noinicio do seu reinado. em At 13. embora só esteja conservada em traduções. reinou. acontecia por vêzes que.C. no caso.. assim como a tradução latina da Vulgata (séc. diante de um texto aparentemente obscuro. ao passo que as traduções grega é síria. 1/lI dc. um leitor desejoso de resolver a presumida dificuldade acrescentava um dado que. quando começou a reinar.26) e 2 Crõn 9. Ao se estudarem os problemas de números na Bíblia Sagrada. embora não atestada pela forma atual do texto hebraico..25. apresentam a forma: "Deus terminou no sétimo dia a obra que fizera. Salomão possuia quarenta mil mangedouras para os seus cavalos.

milheiro. Em primeiro lugar.é excessiva. O fato de que Deus haja permitido a introdução de erros de cópia no texto sagrado.15. .8. e Judá 470 000 guerreiros". e 500 000 em Judá. 1 5am 10. Ora o autor de 2 8am 24. assim como a deficiente conservação ou a perda do original de alguns livros. Esta última dif. que têm sido os mais copiados e estudados no decorrer da era cristã.23. Ora pode-se bem admitir que os nomes 'eleph (= milheiro) e centuria hajam sido conservados na linguagem cotidiana. pois. podia designar a fração de uma tribo. Mlq 5. designaria um batalhão (ordinàriamente de mil homens). Aplicando-se tal hipótese aos textos de 1 Crõn 21 e 2 8am 24. mas permitiu que cada qual referisse simplesmente o que aprendera por via humana. relativamente poucas são as variantes de alcance dogmático ou teológico registradas nos códigos sagrados. Com efeito. mesmo quando o efetivo dos batalhões já não era respectivamente de mil ou cem homens. como o reino do Sul. observa-se que a primeira cifra (1100 000 homens armados) se refere a todo o povo de Israel (incluindo a tribo de Judá. menciona "800 000 guerreiros em Israel. significando "milheiro"." 20 A solução do problema é complexa.5 seja o produto de Interpolação. Destarte se chega a plausível solução do problema. em linguagem militar... Feitas. ainda se deve reconhecer que qualquer das cifras .19. tais indicações bastavam para transmitir as verdades de índole religiosa que a história de Davi era destinada a comunicar aos leitores. determinada subdivisão administrativa. estas observações. neste Último texto. Haja vista apenas o seguinte exemplo: Em 1 Grôn 21.1 300 000 (2 8am 24) ou 1100000 homens de guerra (1 Crôn 21) .o que é inverossímil.5 lê-se que sob o rei Davi "todo (o povo de) Israel contava 1100000 guerreiros.76 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO um problema exegético. note-se que algumas recensões gregas de 1 Crôn omitem a cifra de 470 000 guerreiros em Judá. porém. "Judá".. supôe um total de quatro ou cinco milhões de cidadãos em Israel nos tempos de Davi . como centuria em latim significava o batalhâo (ordinàriamente de cem soldados). 'Eleph. não chega a afetar a mensagem religiosa da Bíblia.culdade se esvanece se se considera que o têrmo hebraico 'eleph. como é o caso em Jz 6.9. é entendido como o reino cismático do Norte. bons exegetas admitem que o número de 470 000 em 1 Crôn 21. Assim se originavam complicações para o futuro intérprete da Escritura Sagrada. a quanto parece). o Espírito de Deus não se dignou revelar aos hagiógrafos o número exato de guerreiros.. Além disto. conclui-se que sob o rei Davi havia 1 100 ou 1 300 batalhões em Israel. sem que cada qual tivesse necessàriamente o montante de mil homens. 23. Eliminada esta cifra. em texto paralelo. o leitor se vê diante de duas tradições existentes no povo de Deus a respeito do número de soldados do rei Davi: a tradição de 1 Crôn 21 e a de 2 5am 24. Assim nos livros do Novo Testamento. consignadas num total de 4 270 20 "IFraeI". Já que éstes dados são Indiferentes à mensagem religiosa da Biblia. Sendo assim. apontam-se cêrca de 200 000 variantes. outras vêzes o interpolador visava tornar mais semelhantes entre si dois textos que lhe pareciãm afines um com o outro.

Mc 1. para que a defectibilidade das criaturas não deturpasse a mensagem do Criador. ocidentais modernos.16.2-4). SENTIDO EXCLUSIVO E SENTIDO PRECISIVO Entre os princípios que norteiam a exegese dos números bíblicos.19s. Lc 22. 1 Tim 3. aos números. velou. há menção de um jumento e do jumentinho seu filhote.30-33) e S.18.NOME E NÚMEROS NA SAGRADA ESCRITURA 77 códigos. sôbre cuja fidelidade literária não pairam questões. não obstante. contudo. portanto. ou sentido taxativo. a menos que o contrário se imponha pelo contexto. assim falando. O orador deixava simplesmente de mencionar tôda a quantidade.13. as enumerações costumam ser exatas.51. artigos. não julgavam dever advertir o leitor a respeito do artifício. dá-se-lhes assim sentido exclusivo. sem querer impedir as vicissitudes por que naturalmente passam os manuscritos antigos.14. porém. Usavam assim o número em sentido precisivo. não atingindo o sentido do que o autor sagrado queria dizer. não exaustivo. mais vultuoso.7. Rom 12.1. Que quer isto dizer? Entre nós. porque nem tudo vinha ao caso ou era de interêsse na narrativa A cifra enunciada correspondia à realidade considerada sob certo aspecto. se acrescenta tàcitamente o advérbio "sàmente. porém. Um pouco menos de 200 variantes tocam o significado do texto em pormenores secundários (cf.). excluindo cifra mais elevada do que a referida. 1 Tes 2. O semita. destas variantes. não excluia. que outro número. Eis como tal modo de falar repercute em passagens da Sagrada Escritura: S. Não obstante. Destarte a Providência Divina.. apenas". Cêrca de quinze apenas dizem respeito a assuntos dogmáticos (cf. emprêgo de sinônimos. posição de palavras na frase.. João (12. sem a excluir. mais ou menos paralelos. Marcos (11. fazia também enumerações que apenas prescindiam de quantidade maior. Lucas (19. porém.. Como se há de entender a divergência? . 5. S. não se poderia deixar de mencionar mais o seguinte: os semitas às vêzes atribuíam às suas enumerações sentido precisivo. para resolver as dúvidas teológicas provenientes de tais oscilações. sóbre o qual o Senhor fêz sua entrada solene em Jerusalém. 1 Cor 15.). Mt 1. Jo 1. não exclusivo. uso ou omissão de preposições. não exclusivo.16. a Sagrada Escritura mesma fornece outros textos. a grande maioria versa sôbre ortografia..2-7. Em Mt 21. embora usasse dêste nosso modo de falar.14s) referem que os discípulos levaram a Jesus um jumentinho. absoluto. fôsse também fiel à realidade (considerada então sob aspecto diverso). Lc 2.

Exemplos déste Último têm-se em: Mt 26. pela primeira vez. É o que nos leva a dizer que também neste versiculo não se deve atribuir ao têrnio "até que" sentido exclusivo.2) e S. Jo 20. Lucas (8." O oráculo não significa que.17. naturalmente." (Mc 16. apenas "pTescinde" ou faz abstração do que aconteceu depois. S. não sentido exclusivo. Também nas suas indicações cronológicas os semitas faziam uso dos têrmos ora no sentido exclusivo ora no precisivo.28) refere dois homens endeinonlados. mas apenas precisivo. não "Na Galiléia. Marcos (10. Jo 20. De modo semelhante ammciaram os anjos às mulheres santas: "Preceder-vos-á na Oahléia. disse Jesus aos Apóstolos. da realidade. matemática.46-52) descreve como. "até que". significavam: "Na Galiléia certamente vereis a Jesus (e aquelas manifestações serão as principais) ". ao passo que S. Mc 14.9. ficará o leitor consciente de que nem todo número na Bíblia quer e deve ser entendido como a expressão quantitativa. não exclui o 'depois que". na narrativa dos evangelistas realmente só Interessava mencionar o animal que Jesus montou. Famoso é outrossim o uso bíblico da conjunção "até que" em Mt 1. se se atribui ao enunciado de Mc. Mt 28. Disto se conclui que as profecias de aparições na Gallléia tinham sentido precisivo. após haver Maria dado à luz.28. dependerá sempre do exame do gênero literário usado pelo hagiógrafo. Le e Jo o sentido precisivo dos orientais. O recurso a tais instrumentos exegéticos há de variar. após debelados os inimigos do reino messiânico. Ora.78 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A primeira proposição não se opõe à segunda.32: "Depois que tiver ressuscitado.s santas mulheres (cf. cf. conforme a tradição exegética vigente desde os tempos mais antigos. ensina a sã exegese. Marcos (5. no caso. Mateus (20.30).. de caso a caso. mas também aos Apóstolos (cf. ao sair de Jericó. S. fala de dois cegos.36. cf. Mt 28.) Contudo os evangelistas mesmos referem que no dia da ressurreição Jesus se mostrou em Jerusalém não sômente à. lá O vereis. De antemão. 19. Mateus (8. José tenha tido com ela comércio conjugal. porém. que Jesus libertou do demônio. o Messias haverá de perder o seu primado ou a sua realeza. . o Senhor curou um cego.1 anuncia: "Javé falou a meu Senhor (o Messias): Senta-te à minha direita. Ora. Lc 24. tal interpretação contradiria a tôda a teologia bíblica. Até que eu faça de teus inimigos o supedâneo de teus pés. estas são outras tantas divergências em que o principio acima exposto encontra aplicação. vereis a Jesus".25 está dito que José não se uniu a Maria "até que desse à luz o seu filho. no texto paralelo. não exclusivo. *** As considerações dêste parágrafo visam tão-sàmente indicar as principais vias que conduzem à genuína interpretação dos números ocorrentes na Sagrada Escritura. Portanto. isto não quer dizer que. Em outros térmos..26). S. o 51109. Êste exame manifestará as principais leis de estilo que o autor sagrado tenha seguido ao empregar os números.7. preceder-vos-ei na Gaiiléla". porém.27) mencionam um homem possesso.".lls).

de aparência por vêzes sólida. Mas. escrevia: "No séc. Surgiu mesmo no início da era cristã. II e fundador de seita. d'Harcourt. rejeitava categôricamente os livros sagrados dos israelitas. para o homem moderno. para o cristão ou. Rosenberg afirmava que a antiga Biblia não é mais do que uma "coleção vergonhosa de histórias de proxenetas e bandoleiros". pretextando que tais Seções são pouco convenientes e oportunas em nossos tempos" (Fnc. entram em conflito com as normas do Evangelho. 1924).CAPÍTULO V O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO Não e raro ouvir-se a pergunta: "Qual o valor que. Na Alemanha. 191. após o séc. ]933). o Messias. 40. mais largamente. por conseguinte. o proveito que possa acarretar tal leitura. não se vê. quando os homens perceberam que Jesus. à primeira vista. á qual a Reforma (luterana) ainda não se podia furtar. Mediator Dei. a Igreja não hesita em afirmar que o Antigo Testamento é PalaMarcion (Leipzig2. como se fôsse uru documento can6nico. Catholiques d'AUemagne (Paris. 217. Acta Apostolicae Sedis 39 [1947] 545). II. 1 2 . Adolf von Harnack (t 1930). possa ainda ter a parte da Bíblia chamada o Antigo Testamento?" Parece ditada por mentalidade rude ou bárbara. guardá-lo era uma necessidade fatal. Assim Marcion.). o Papa Pio XII notava com Sumo pesar haver entre os católicos "quem queira cancelar dos autênticos livros de oração pública os textos sagrados do Antigo Testamento. por exemplo. consumara a Revelação do Antigo Testamento. que a Grande Igreja fêz bem de evitar. no séc. da honestidade ou da ciência moderna. 2 Não obstante as objeções. fascismo. Citação encontrada na obra de R. hereje do séc. etc. rejeitar (como fazia Marcion) o Antigo Testamento era uma falha. julgando que a figura do Deus que se apresenta como Amor e Pai no Evangelho é incompativel com a do Juiz rigoroso e punidor do Antigo Testamento. Todavia foi nos nossos tempos que se desferiram os ataques mais violentos contra o Antigo Testamento. suas histórias e afirmações. XVI. conservar ainda o Antigo Testamento no protestantismo. De resto em 1947 SS. provocando "escândalos" de ordem moral ou científica. A questão não é nova." 1 A campanha contra o Antigo Testamento recrudesceu por influência dos credos raciais da sociologia moderna (nazismo. XIX. é o efeito de paralisia religiosa e eclesiástica.

possui a função de Messias (cristo. Por conseguinte também. significativa. do pontõ de vista de Deus. êste. Rei teocrático). primãriamente a designação de uma função. por exemplo. Já que as profecias em Israel o apresentavam como o mais glorioso descendente do rei Davi. travada com o primeiro homem logo depois da criação. sejam crônicas. interessa-nos. Esta multiplicidade quer ser reduzida à unidade para poder manifestar o seu sentido autêntico. portanto como o Ungido por excelência (à semelhança de Davi e dos demais reis de Israel. ora efetuada (Novo Testamento). 5 Messias é têrmo hebraico que.° DIVERSAS ETAPAS E UMA SÓ META Quem abra o Antigo Testamento defronta-se com notável variedade de escritos: livros de história. as variadas páginas do Antigo Testamento . é comumente dita "Testamento". sejam profecias. o aspecto de etapas sucessivas a caminho da restauração prometida. etc. todos os livros que Deus se dignou inspirar no decorrer dessa história. § 1. a encíclica de Pio XI "Mit breunender Sorge". porém. Chrzstós é. 1 Sendo assim. também para os nossos tempos. ora preparada e anunciada (Antigo Testamento). em hebraico). 4 A aliança é. veja-se pãg. nos leva a dizer que tôda a Escritura tem por tema único a Aliança de Deus com os homens ou também o Cristo e sua obra redentora. 4 Sãbre o conceito biblico de 'Aliança". não a soube observar. restaurar o pacto mediante novo homem dito "o Messias". antes do mais. tome. que. Ungido. máximas de sabedoria. que eram sempre ungidos). conforme as páginas iniciais da Bíblia. examinar qual o valor positivo que a Igreja ainda hoje atribui ao Antigo Testamento (caps. após a ruptura. o nome Cristo se foi tornando estritamente nome pessoal do Senhor Jesus. violou-a. Em conseqüência. 102s. é. prometeu.O têrmo hebraico Messias tem seu correspondente exato no grego Christós. direta ou indiretamente visam o Cristo e sua obra. . sejam leis. Isto faz que tôda a história.diríamos mesmo: de tôda a Sagrada Escritura não fazem ressoar senão um tema: o da ALIANÇA DE DEUS COM OS HOMENS. É isto o que. 3 Tenha-se em vista. . consideraremos em particular algumas das dificuldades que mais desnorteiam o leitor de tal parte da Sagrada Escritura. pois. Aos poucos. designa na linguagem bíblica o Restaurador prometido por Deus. mas Deus. datada de 21 de março de 1937. em última análise. eta$s que terminam em Cristo e nos dons que comunicou aos homens. sim. a seguir. cânticos religiosos. de então por diante. V e VI). Jesus (o) Cristo é expressão que se poderia assim desdobrar: o homem que tem por nome civil Jesus (salvador. era simplesmente dito o MESSIAS. que não se deixa vencer em bondade. portanto. profecias. por vicissitudes de tradutores. tradições populares. significando Ungido. para o Messias que convergem os séculos antigos e é em função do Cristo que se desdobra a história religiosa atual.80 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vra de Deus imperecível. Com efeito.

7 e Col 2. 2 Tes 2. não pactuam com a serpente. as diversas etapas da história sagrada sugeridas pelo próprio texto bíblico. 7 Em linguagem paulina. que a história universal tem aos olhos de Deus. por mais explicável que pafeça á luz de fatóres naturais ou mecânicos. 6 violada. abaixo. 1 . Percorreremos. O É o autor de Edo 17. Gên 3. O primeiro marco do Antigo Testamento compreende a cena do paraíso (Gên 1-3) caracterizada por três acontecimentos: a PRIMEIRA ALIANÇA é travada entre Deus e o homem. são. ainda assaz genérica. todos aquêles que lhe aderem (anjos maus e homens prevaricadores). tem dois grandes protagonistas que se disputam a hegemonia: de um lado. no vocabulário de S. 1. o significado intrínseco de personagens e acontecimentos veterotestamentários. Isto implica que. considerada à luz de Deus. Eis o aspecto muito simples. procurando desvendar o significado que tem cada uma no plano de Deus. pode ser aprofundada se se estuda de mais perto o texto do Antigo Testamento. carece de caráter religioso. 'o Anticristo" e "Cristo" (cf. . de outro lado. fomes. procurar perceber o sentido que Deus atribuiu a tais figuras e episódios. doenças foram. pois. muito dramático. mas. do reino de Cristo. João. em outros têrmos. conforme S. Inegàvelmente a história que êle nos apresenta é exuberante em personagens e fatos que excitam a fantasia e não sempre edificam o leitor. Eva penitente e todos aquêles que. Agostinho. Deus a promete restaurar. ora menos evidentes. por graça de Deus. éstes dois antagonistas podem ser chamados 'o mistério da iniqüidade" e "o mistério de Cristo" (f. a mulher esua posteridade.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 81 Esta afirmação. isto é. estabelecendo inimizade entre a mulher e a serpente.15). porém. São estas duas facções que lutam no mundo até o fim dos tempos. quando se consumará a vitória do Bem sôbre o mal. é o jôgo dêstes dois antagonistas (o bem de Cristo e o mal do Anticristo) que se espelha e traduz em todos os acontecimentos da vida tanto dos povos como dos individuos. o ôlho da fé pode e deve discernir. pois não terá sido sem uma intenção superior que o Espírito de Deus fêz tanta coisa fôsse escrita sob o carisma da inspiração. porém. sim. a história. a descendência da mulher e a da serpente (cf. manifestações ora mais claras.2). ao mesmo tempo. Pode-se realmente dizer que nenhum acontecimento da história. Tal aspecto. isto é. sob a face externa. manifestações do reino do pecado ou de Satanás. ou. deve.22).Jo 2. a serpente e sua linhagem. pois. doutro lado. os feitos de virtude e generosidade são dons do Redentor. após a queda original. introduzidas no mundo pela rebeldia de Adão. "a Cidade do Diabo" e "a Cidade de Deus".10 quem fala de aliança conclulda no paraíso entre Deus e os primeiros pais. pela criatura. ou ainda. guerras. não constitui senão a periferia do Antigo Testamento. tanto no individuo como na sociedade.

Israel desejou ter um regime governamental semelhante ao de povos vizinhos. dito de Judá. para Canaã (Palestina atual).: tendo Israel caído cativo do Egito. A entrega da Lei a Israel é pelos livros sagrados designada como ALIANÇA. terra idólatra. A primeira realização da Promessa foi a ALIANÇA MOSAICA. Abraão foi pelo Senhor chamado da Caldéia. Por volta de 1020 a. Instaurou-se então o REINO de Israel. O surto do povo de Deus foi confirmado por cêrca de 1240 a. Deus houve por bem formar ao menos um povo no qual se conservassem a verdadeira fé e a esperança da restauração. a fim de dar início à nação que tomaria o nome de um descendente de Abraão: Israel (Gên 12. como lembra o próprio Deus falando a samuel em 1 5am 8. mais fundado sôbre bases que o bom senso pode apreciar (tal é. Daí chamar-se êste segundo marco da história ".C. porém. Já que. uma constituição teocrática. O cisma se devia à exasperação de ânimos que as exigências de monarcas empreendedores de guerras e obras públicas não podiam deixar de suscitar entre os súditos. aliança. a monarquia). Éste desejo de certo modo significava um arrefecimento da fé: a gente que até então fôra governada por homens extraordinários oportunamente suscitados por Deus nas ocasiões de perigo (os Juízes).1-3). a corrução se alastrava entre os homens. . Samaria e Judá.A PROMESSA".7.C.C. dêsse povo sairia no tempo oportuno o Redentor do mundo inteiro. humanamente mais "garantido". Os dois pequenos Estados irmãos. dando-me. por meio de Moisés. que atingiu o seu apogeu com Davi e Salomão (1000-930). A Abraão Deus se dignou PROMETER que da sua posteridade procederia a bênção para tôdas as nações. a MONARQUIA. A própria monarquia. A Aliança foi explicitada em novo marco da história sagrada. por volta de 1800 a. acarretou a desagregação do povo ou a sua cisão em reino do Norte. sem dúvida. Em vista disto. provisória e nacional. e reino do Sul. politicamente insigni8 O Senhor fõra até então o Rei de Israel. após o primeiro pecado.82 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O segundo marco da história sagrada coincide com o surto de uma nação chamada a ser o povo de Deus.. sem intermediário régio.. ou seja. sim. Deus o quis libertar e introduzir de novo na terra de Canaã. dito da Samaria. 8 queria um govêrno menos dependente da Providência insondável do Criador. travada em vista da restauração da aliança de Deus com todo o gênero humano.

moveram a resistência contra os sírios. os quais. que lhes sufocava o fervor teocrático Após o exílio. Javé assim lhes mandou uma "redenção". gregos. 59.83 ficantes. . um reino tal que "quem não o recebe como uma criancinha. oprimidos pelo domínio estrangeiro (de persas. Muito digna de nota é a epopéia dos irmãos Macabeus (165-134). Em 538 Ciro. porém. sucumbiram finalmente aos golpes de invasores: Sarnaria em 722 se tornou prêsa dos assírios. com tudo que êste reino implica de transcendente. Voltou então para a Palestina uma parte do povo assaz restrita. era o chamado RESTO DE ISRAEL. prosperidade humana. Foi nesses últimos séculos da era antiga que mais se excitou a expectativa do Messias. mas fervorosos adeptos de sua fé. infelizmente. a religiosidade de Israel se foi interiorizando progressivamente. messiânica. que sua missão religiosa não estava necessàriamente ligada com sua missão nacional. os judeus se foram desvencilhando de uma noção demasiado antropomórfica 9 da Divindade e da religião. contribuindo para lhes elevar cada vez mais o modo de 9 CL pág. ao passo que Judá em 587 caiu sob o poder dos babilônios. Mc 10. Judá passou a viver como COIVIIJNIDADE ainda sujeita ao poder estrangeiro. passando a conceber o Criador de modo muito mais puro. DE DEUS. comunidade cuja coesão provinha estritamente do ideal religioso. conquistou a Babilônia e restituiu a liberdade aos judeus. Note-se bem: êsse resto se constituía de judeus pobres. humanamente falando.15). vibrando de autêntica piedade. Privado de todo o aparato exterior (templo. deveria esperar o REINO. os israelitas fàcilmente confundiam a figura do Messias. a qual devia restaurar a vida teocrática na terra santa. rei da Pérsia. com a de um Libertador político. os habitantes de Judá sofreram o EXILIO. que queriam paganizar o povo de Deus. que ainda era etapa em demanda da Redenção plena.. de desconcertante para o "f 116sofo". Deportados para a Babilônia em 587. Restaurador da ordem religiosa. sacrifícios.. egípcios. sírios e romanos sucessivamente). nêle não pode entrar" (cf.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO . A experiência da monarquia teve eminentemente o valor de instrução para Israel: o povo escolhido compreendeu melhor que sua grandeza não era de ordem política. a maior parte do povo se deixou ficar nas regiões do exílio. Israel. O contato com outras nações serviu também de escola aos judeus. Também êste foi altamente pedagógico para o povo de Deus. ritos pomposos) com que serviam a Javé em Jerusalém. pois lá haviam adquirido certo bem-estar ffiaterial. quase malogrados.

Esquemàticamente. a sorte póstuma do homem. ou seja. são tempos de máxima tensão. Uma vez completo o número dos qüe entrarão na bem-aventurança. ao mesmo tempo. se mudou em promessa de bens transcendentes e impereciveis (cf. ao mesmo tempo. o REINO davidico se transformou em REINO DE DEUS ou dos céus (ef. prolonga-se já por vinte séculos. 10 Da vinda de Cristo em diante. 2 Cor 3. a ALIANÇA mosalca se mudou em NOVA ALIANÇA (oL 1 Cor 11. Cristo voltará à terra e porá termo definitivo à história. com efeito. "não ser" filho de Deus. Mt5. É o que nos leva a afirmar que a história chegou ao seu fim (sob o ponto de vista religioso). "ter" e. poder-se-iam assim reproduzir os grandes marcos da história sagrada: 10 Deve-se mesmo dizer que Cristo recapitulou e consumou os grandes marcos da história anterior.3). Israel foi reconhecendo melhor a transcendência de Deus. Pelo Redentor. que visava aparentemente a posse de Canaã e uma mansão terrestre. "não ter" a vida eterna.25. induzindo neste mundo os últimos efeitos da Redenção (a vitória consumada sôbre a morte e as demais conseqüências do pecado). foi admitindo outrossim certo universalismo religioso. . ou seja.5). a noção de que os bens messiânkos não se destinam a um povo apenas. não porque haja a esperar nova revelação dogmática ou novo sacramento.34 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pensar. a história tomou novo sentido: ela se poderia ter rematado logo após a glorificação de Jesus. em Pentecostes. Mt 5. segundo Adão. mas cinicamente para que se preencha o número de cidadãos do reino messiânico. em que o cristão experimenta o que é "ser" e. a PROMESSA. 7. que restaurou a amizade entre Deus e o gênero humano num plano superior ao da primeira aliança violada. Finalmente na plenitude dos tempos veiõ o Messias. dos espíritos.14) . mas a tôdas as nações da terra. Os tempos que correm entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.

O O o ½ -1 z co •lI eM ½ 02 •c 02 o -4 O z o Ei02 .O SIGNITICADO DO AIÇTIGO TESTAMENTO 85 — -4 O' O. cd cd a.- o Ei ri o O O 04 co .a - rA ti0 Çt o ed -01 cq Z O ri) 01 o cd t -o 'a 1 o 01 O) CV) O -1 c' 1 LI .l c o-- ía. cd cdd -a. O o cd cd o. rx pq O o O 'cl cl O ri) pq cl z o . 'a ½ o 'a -4 O cd CO E O QI lcd cl O cd cd 02 o' a.i cl .

considerados em si mesmos ou à luz da "sabedoria humana"." 1 1 § 2. a Aliança. 1949). por êsses personagens ou fatos misteriosos disseminados. Deus. com o decorrer dos séculos. a reconsiderar em nível mais espiritual o que êle viveu e considerou anteriormente em moldes menos dignos de Deus. o Exílio. portanto. Ss. faz-se mister ainda realçar uma característica do processo pelo qual a Sabedoria Divina quis instruir os homens no Antigo Testamento.. o leitor deveria ser recordado de que não é a sua indústria ou "sabedoria" humana que o salva. porém. sim. viveu e aparentemente descobriu a via da salvação. os ideais e as afirmações de Israel constituem a matéria dessa história. a Comunidade. os reveses. povo que não tinha gênio metafísico. Isto quer dizer: há no Antigo Testamento coisas e episódios que. Tais acenos ou tipos. mas religioso. Ésse povo nos aparece movido por um impeto religioso que o leva a ultrapassar-se a si mesmo continuamente. a Monarquia. O Antigo Testamento é a história dêsse povo que viveu as seguintes grandes realidades: a Escolha. mas porque o Senhor queria disseminar por tôda a história sagrada acenos à plenitude dos tempos. quis ou permitiu tais coisas "estranhas" não porque. consideradas em si. o Espírito de Deus quis. Les idées maftresses de l'Ãncien Testament (Paris. ou num plano meramente natural. Nin11 A. As experiêncas. . ). nas Escrituras. a história do dilúvio e da arca de Noé . a intervenção gratuita e soberana de Deus na história. O Antigo Testamento é a história dêsse continuo "ultrapassar-se a si mesmo". formulou-a pouco a pouco. Gelin. prenunciar a história do Messias e do reino messiânico. mas também por meio dos denominados "tipos bíblicos".0 OS TIPOS BÍBLICOS Terminado êste breve percurso da história sagrada. se poderiam dizer infantis. mas. a Promessa. as tentativas. o Ser Transcendente (assim todo o ritual do cordeiro e do sangue que o Senhor mandou aos israelitas observassem por ocasião da saída do Egito. não se lhe poderia dar melhor interpretação do que a que Gelin assim formula: "Um povo de mentalidade intelectual assaz lerda. o sacrifício de Abraão. Nesses particularès do Antigo Testamento. dessa espiritualização crescente. ao Messias.86 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Quanto ao Antigo Testamento em particular. se projetavam os traços e a luz do que havia de vir posteriormente. manifestariam cada vez mais o seu significado. talvez pouco dignos de Deus. fôssem capazes de edificar os leitores (!). Tal característica bem pode ser chamada a chave para se interpretar a literatura inspirada de Israel Com efeito. a fraude de Jacó nas relações com seu irmão Esaú. e seriam plenamente inteligíveis após a vinda do Messias. não sàmente por palavras.. dêsse catecumenato.

" ." (Lo 24.21). todos os profetas e tôdas as Escrituras". Profetas e salmos" são têrmos que. Quem se fecha a essa perspectiva. pelos profetas e os salmos". mostrando-lhes como sua paixão e glorificação se acham prenunciadas nestes livros. li ora. segundo os judeus. elas são essencialmente sinais. pois julgais por elas possuir a vida eterna.) "Moisés e os profetas" é expressão sumária para designar tôda a Escritura Sagrada (cf. justamente os da Lei mosaica são os que menos vaticínios explícitos contêm a respeito do Messias. tal atitude exegética seria subterfúgio sutil se o próprio Autor Divino das Escrituras não nos tivesse revelado o seu intento de prefigurar o Novo Testamento nas páginas anteriores a éste. e não quereis vir a Mim para ter a vida.) Cf. Jo 1.44-463 "Moisés. acreditaríeis em Mim também.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 87 guém. etc. 28.45. At 13. 4 "Disse-lhes: 'Õ homens sem entendimento e tardos de coração para crer em tudo que disseram as profetas Não era preciso que o Cristo sofresse para entrar em sua glória?' E. nos profetas e nos salmos. pois foi a meu respeito que êle escreveu. civis.. 13 Aos discípulos de Emaús Jesus expôs "Moisés. na impossibilidade de avaliar o Antigo Testamento.23. tipos todos orientados para seus correspondentes antítipos.39: "Sondais as Escrituras. explicou-lhes. 14 Mais ainda: afirmava o Senhor que a Lei mosaica mesma. 24. fala de Jesus. dessa 12 Não será isto uma evasiva semelhante à dos estóicos e filósofos pagãos posteriores que." (Jo 5. Êste era dividido em três partes. donde se segue que. como se fôsse intencionado por Deus qual imagem de algo de posterior e mais sublime? 12 Não há dúvida. julgando indignos os mitos narrados por Homero e pelos primeiros "teólogos" gregos. Jo 5. pode pretender interpretar tais figuras. a partir dos quais hão de ser entendidos." (Lo 24.29. E como se nos manifesta tal intenção divina? De maneira geral dizia Cristo que tôda a sua vida e obra fôra predita "por Moisés.46. porém: não será arbitrário querer explicar o que o Antigo Testamento tem de estranho. ora sao elas que dão testemunho de Mim. interpretavam arbitràriamente a mitologia num sentido alegórico. designavam todo o catálogo das Escrituras. o que a Éle dizia respeito. separando-as da história subseqüente. Lo 16. começando por Moisés e (continuando) por todos os profetas. e disse-lhes: "Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia. apresentam a antiga história de Israel e prescrições rituais. em tõdas as Escrituras. vê-se. por muito rude e primitiva que pareça. dentre os Jivros do Antigo Testamento.25-27. pois.14. Rom 3. Pergunta-se.31. cada uma das quais recebia o nome do seu livro ou autor principal.15. como se as diversas peripêcias do Olimpo significassem verdades filosóficas? 13 são palavras de Jesus ressuscitado aos apóstolos: "Eis o que vos disse quando ainda estava convosco: era preciso se cumprisse tudo que a meu respeito está escrito na lei de Moisés. 1"Se acrejitásseis em Moisés. necessãriamente." Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras.

33-37) as graças e punições do êxodo = tipo das graças e punições do Cristianismo (ci. se pode dizer que têm sentido típico: o primeiro Adão (Gên 1.15. 3.8s) = tipo do Salvador crucificado (cf. Eis a lista completa dos trechos do Antigo Testamento dos quais.22-31). asseverando que os diversos acontecimentos do êxodo de Israel (passagem do Egito para Canaã) se deram a titulo de "figura (tipos. durante três sábados. Rebeca e seus dois filhos. Mt 2. o Autor Divino da Bíblia nos deu expilditamente a conhecer que é tipo das reaiidades messiânicas. rei e sacerdote que oferece pão e vinho (Gên 14. Melquisedeque. Paulo foi ter com os judeus e. discorreu com êles na base das Escrituras.17) a serpente de bronze (Núm 21. .26) = tipo do futuro (cf. 1 Cor 10. Espâsa e Mãe (cf. o maná no deserto (Êx 16. e foram escritas para nossa erudição.13s) = tipo do alimento do povo messiânico (cf. o cordeiro pascoal (Êx 12. 1 Cor 10. também Paulo manifestava aos seus ouvintes o caráter messiânico da paixão e da ressurreição de Cristo.49-51. Múni 9. Jo 19.2s).21-31) = tipo do batismo (cf.25) = tipo das duas dispensações da graça. recorrendo às Escrituras do Antigo Testamento. explicando e afirmando que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dentre os mortos" (At 17. 16 A respeito de um ou outro personagem ou acontecimento particular. com certeza garantida pelo próprio Deus no Novo Testamento.ls).1-19) = tipo do sacrificio de Cristo (cf. Col 2. alguns episódios (ao menos os mais característicos) e alguns preceitos devem ter valor típico. Jo 6. no Antigo e no Novo Testamento (cf. 21.) Como Jesus. Rom 9. Jo 3. o rei pacifico (2 5am 7.17-20) = tipo de Cristo Rei e Sacerdote (cf. Principe da paz (cf. 21-26) = tipo do povo messiânico (cf.1-11). segundo o grego typoi) do que nos concerne" (1 Cor 10.10-13) Salomão.5) o filho de Deus no Antigo Testamento (Os 11.20).1-3." (1 Cor 10.11. S. Hebr 11. Hebr 1. Paulo faz eco às asserções de Jesus.1) = tipo do Filho de Deus Encarnado (ci. Esaú e Jacó (Gên 25. a nós que chega- "Tôdas essas coisas lhes aconteciam em figura (typi- mos aos fins dos tempos.6): koos).14) = tipo do Messias.20) = tipo da Igreja.11s) • passagem do Mar Vermelho (Éx 14.9-14) = tipo do batismo (ci. o sacrificio de Isaque (Gên 22.21-24. "conforme o seu costume.31s) Abraão e seus dois filhos (Gên 16. 1 Pdr 3. Si 109).46. Gál 4.14).17-19).88 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO história e dessas leis.15).12) = tipo da Vitima perfeita (ci. valor de sinais do Messias. Ape 2. • circuncisão (Gên 17.14) 16 Em Tessalonica. as águas do dilúvio (Gên 7) = tipo do batismo (cf. espõsa e mãe (Gên 2. a primeira mulher. Rom 5. Hebr 7. Ef 5.

diremos: são os testemunhos da Escritura mesma que nos levam a ver no Antigo Testamento uma longa preparação para o Cristo. 17 Em resumo. ora mais pálido. o mistério do Cristo (cf. É. se distingue da alegoria pela característica seguinte: o tipo implica um personagem. Com isto. ao contrário. basta lembrar que na Escritura há tabelas genealógicas (cf. outro mais abstrato. Ester. espiritualizado. como aceno ou figura longinqua. chefe do povo de Deus (Jos) = tipo de Jesus Redentor. porém. só tenham sentido literal muito simples. com absoluta segurança. atribuindo-lhes. pois. regendo a história. A êstes se podem acrescentar outros traços cujo sentido típico é garantido pelo unânime testemunho da tradição cristã: Abel. não está dito que tôdas as seções do Antigo Testamento se referem diretamente ao Messias e ao seu reino. a mulher forte por suas virtudes (Jdt) = tipo de Maria Santissima. Ao contrário. não podem ser reconhecidos. J05 13-21). ora mais vívído. na mente do escritor que dela se serve.2) se projeta esquemàticamente. descrições geográficas (cf. Josué. José. pois.1-50. dispõe haja homens e fatos no pretérito relacionados com análogos futuros. nos primórdios e no decurso da história sagrada. o tipo.39s). Fonte e consistência da alegoria estão. Deus o pode perfeitamente fazer já que todos os tempos lhe são igualmente presentes. Contudo os textos que.3-15) = tipo de Cristo sacrificado pelos seus. Col 2. 17 Em linguagem técnica.1-34) = tipo da Redenção (ci. como êstes.1-11) = tipo da morte e da ressurreiçë. existam outros tipos no Antigo Testamento. além dos citados. Judite. que gozava do privilégio de livre acesso ao rei (Est 15. um objeto ou um acontecimento que realmente existiu na história e que Deus houve por bem ordenar. o Patriarca vendido por seus Irmãos e salvador dos mesmos (Gén 37. 1 Crôn 1-9). diversas narrativas que carecem de interêsse religioso imediato.'ide Cristo (ci. pois. é um fenômeno prôpriamente literário: consiste em que o escritor use de determinados vocábulos. Mt 12. alusivo a Cristo.7-9) o perigo mortal de Jonas e a subsequente libertação (Jon 2. Hebr 9. único senhor capaz de dispor acontecimentos pretéritos da história em vista de outros futuros. além do seu significado imediato. seria artificial e pernicioso querer descobrir em cada passagem da Bíblia um significado simbólico.26) = tipo de Cristo entregue por 30 moedas e Salvador do mundo. a outro personagem. . a alegoria. no fim dos tempos estará consumado.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 89 o rito do dia da Expiação (Lev 16. porém. o justo imolado por seu irmão Caim (Gên 4. a vitória de Davi sóbre Golias (1 Sam 17) = tipo da vitória de Cristo sôbre o demônio. senão por revelação do próprio Deus. fonte e consistência do tipo se acham na mente de Deus que.4-19) = tipo de Maria Santíssima dotada do privilégio da Imaculada Conceição. objeto ou acontecimento da era messiânica. não deixam. Não há dúvida de que nem os autores inspirados nem a tradição cristã tinham em mente enumerar todos os tipos da Escritura sagrada. que afirmamos existir na sagrada Escritwa. de crer que.

chamada Rute. 19 Eis uma comparação oportunamente sugerida por S. não tudo que se toca emite suave som. a estrangeira (um dos quatro nomes fentninos expressamente citados na árvore genealógica de Jesus. Semelhantemente: Êxodo do Egito -. êxodo da Babilônia -. o tema messiânico. contràriamente ao estilo das genealogias orientais. mas também de tôdas as nações da terra. 30s. ao apresentar a pessoa do Messias no Evangelho..5). ou. a figura de Davi é longamente descrita nas Escrituras. 18 Mais concretamente ainda: as genealogias. mas produzem-no apenas as cordas. narra a história . dela nasce Obed. nas narrativas proféticas. cf. bastava que tais noções fóssem dotadas da veracidade comumente dita "popular. Os' 3. Mt 1. êstes. que só indiretamente têm relação com o tema primário da Biblia . de exprimir. o Espírito Santo não julgou necessário comunicar alguma revelação a tal escritor a respeito de particulares que só desempenham papel secundário no Livro Sagrado. as indicações cronológicas e geográficas dão forma à história dos reis de Israel e dos personagens do Antigo Testamento. Cf. não obstante. se não o significa. pois. Por que terá o Espírito Santo outorgado o carisma da inspiração para se escrever história tão humana? A finalidade imediata se depreende de Ru 4. encontra-se no livro sagrado a fim de que pudessem ser inseridos os trechos que significam algo de superior. conforme o Evangelista.aparentemente insignificante do ponto de vista religioso . Mateus pode comunicar. ou por Si já significa algo de futuro. Cristo é. Ora. Mateus 'recapitula" essas duas histórias anteriores: Cristo. é três vêzes (ou por excelência) o que foi o rei Davi (cf. Jer 30. Em esquema: História de Rute . Por sua vez.5: Cristo é Davi por excelência). os demais elementos são colocados no conjunto da citara.17) e.. cf.1-17. como filho de Davi. que. fornecem a trama necessária para que pessoas e fatos se articulem orgânicamente em vista da grande finalidade que é o Messias. é descendente de Rute. é esposada pelo israelita Booz e assim entra no povo de Deus. eis a mensagem que S.a pessoa e a obra do Messias (Mt 1. Da mesma forma. por sua vez.. Agostinho: "Nas citaras e em semelhantes instrumentos musicais. 22. Ez 32. porque constitui um dos tipos mais famosos do Messias (= Filho de Davi).história de Davi ." (Contra Faustum Mau. pág. pois constituem o arcabouço que sustenta os grandes marcos da história sagrada. essas noções foram consignadas no Livro Sagrado tais como as conhecia ou podia conhecer o autor humano da Bíblia.de uma estrangeira moabita. com seus quatro capítulos. pré-científica".23s. o Salvador não só do povo de Davi.90 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO por isto. a fim de que haja aonde as cordas sonoras se prendam.17: trata-se de introduzir na história sagrada a genealogia do rei Davi. pai de Isai e avô de Davi. tendo por base a história aparentemente profana de Rute. dão forma e colorido à figura do Messias.) . aquilo que dentre os feitos dos homens é descrito em espírito profético.94. 19 Eis um exemplo muito expressivo entre outros: o livrinho de Rute. junto com os demais.9. S. Mt 1. Redenção messiânica (1240) (538) * * * 18 Já que a sagrada Escritura alude a muitas noções de índole profana. apõs vacilações de amor.o Messias -.

os ensinamentos de Cdsto não poderiam ser devidamente assimilados. pois. do gênero humano cativo sob o jugo do "Faraó" dêste mundo. exclui-lo do uso dos cristãos equivaleria a volatilizar o Evangelho. tirar a êste o valor de consumação de sábia pedagogia divina. 85 (1951). é dado aos cristãos ver os antítipos.12). Ef 6. a Santa Igreja faz passar ante os olhos dos fiéis os textos respectivos do Antigo Testamento (em particular. 20 Esta conclusão será ulteriormente esclarecida e confirmada pelo que se há de dizer no capítulo seguinte. após a vinda do Messias. ora com imagens e figuras. 8. por resumidas que sejam. mas vocabulário de linguas ocidentais. em vista da Igreja). impossível ser cristão. principalmente do alemão antigo (que constitui a substãnoia do idioma chamado "yiddish"). hoje em dia.) que convinham à celebração da Páscoa judaica. a Igreja tem consciência de continuar em sua vida a história do povo de Deus iniciada no Antigo Testamento. Comparação proposta por Hamman. pois. 'Pourquoi faut-il lire l'Ancien Testament". . É por isto que. Querer. sem que se estime e valorize o Antigo Testamento. mais importante. Em conseqüência. enquadrou-a dentro das circunstâncias (data. com isto o Senhor sobrepôs à Páscoa "típica" a Páscoa em sentido pleno. Cristo mesmo." (Lc 16. É o próprio Jesus quem o insinua delicadamente numa de suas parábolas: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas. as realidades mais plenas outrora esboçadas. Ë principalmente através da S. mesmo se alguém ressuscite dentre os mortos. aos olhos da fé. os textos do Antigo Testamento têm. das imagens. Haja vista principalmente a solenidade de Páscoa: a libertação dos israelitas cativos no Egito (Páscoa judaica) realizou-se para possibilitar a libertação. Nos tempos presentes. ao lado dos tipos. de que fala o Antigo Testamento. do Príncipe das trevas (cf. ritos legais. ou seja. Assim também ninguém entende plenamente o S.313 Impossível. Liturgia ou pelos seus ritos e preces oficiais que a Igreja mostra como entende e quanto estima o Antigo Testamento. etc. Não é por mero espírito de tradição ou conservativismo arqueológico que ainda hoje os cristãos se servem dêstes textos. ao comemorar os mistérios da Redenção simplesmente dita (morte e ressurreição de Cristo). os que se referem à imolação do cordeiro pascoal. em La Vis Spifltudlle. portanto. por qualquer pretexto que seja. a Santa Igreja compõe em tôrno dos ritos uma moldura de textos do Antigo e do Novo Testamento que elucidam. à travessia do mar vermelho.O SIGNIFICADO DO ANTIGO TESTAMENTO 91 Estas considerações. caso desconheça o seu fundo de Antigo Testamento. Evangelho. Não. não lhe darão fé. sentido muito mais manifesto do que antes de Cristo. efetuando esta Redenção mais valiosa. ao celebrar os mistérios do Crista e da Redenção na Liturgia. crer na autêntica mensagem de Jesus Cristo. ora com dizeres explícitos. aos episódios do êxodo no de20 Os Santos Evangelhos se poderiam comparar a jornais dos judeus modernos. as grandes fases da história sagrada pré-cristã eram etapas que Deus dispunha em vista do Cristo e do reino de Deus (por conseguinte. aquilo que se celebra no culto cristão. não deixam de pôr em relêvo o significado do Antigo Testamento. Está claro que ninguém pode entender as noticias modernas e sensacionais dêsses periódicos se não conhece o alfabeto judaico antigo que as veicula. que são escritos com caracteres hebraicos.

6.) . Mas a palavra de Deus permanece para sempre !" (Is 40. A erva seca e a flor murcha.8.92 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO serto). Êstes trechos fazem o papel de aceitos antigos às realidades presentes (o que se torna evidente se se confrontam os textos da Liturgia da Semana Santa com a tabela de tipos aciha proposta). "Tôda criatura é semelhante à erva E tôda a sua graça é como a flor dos campos.

e (isto é particularmente belo) encaminham-se.. mas parece que o Criador conta com tôda essa deficiência e a utiliza para a fazer servir a um fim providencial ou à plena manifestação do Bem. ao ler o Antigo Testamento. da Pérsia. nem de história. Aquilo a que o cristão deve primàriamente voltar a atenção. Convém-nos agora aprofundar uma das conseqüências mais importantes que desta afirmação decorrem. O dedo de Deus nas Escrituras só se torna perceptível a quem considere a direção geral das mesmas 1 ou a quem observe como as fases da história bíblica se encaminham aos poucos para um têrmo único . sem que. a trama da história que lentamente se desenvolve ante os seus olhos. sim. Israel. suportes de uma única grande idéia. a providência paterna do Criador. nem de ciências naturais .). nem de geografia. mostrando-se continuamente incapaz de viver coerentemente com tão elevada ideologia. a justa sanção etc. um movimento ascensional contínuo: um povozinho do Oriente.. para obter esta convergência. e a Sagrada Escritura em geral. não são os pormenores.o Messias. O que primàriamente merece a atenção do leitor é o movimento de conjunto. da Grécia e de Roma). 57 (1947) • 8535. . da Mesopotâmia. em L'Ami du Clergé. tais pormenores só foram consignados na Bíblia a título de suportes de verdades superiores.. . a miséria humana aí se atua sem pudor." Citado por Gelin. A história sagrada é. destituído de gênio (ao lado das grandes civilizações do Egito. não obstante. ao contrário. apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram. Deus violente o homem e a natureza. por si sempre tendente ao grosseiro e material. pôde ser durante quase 2 000 anos o depositário e defensor da fé num Deus transcendente e em verdades sublimes que nem os grandes filósofos pré-cristãos souberam conceber (a criação do miando a partir do nada. guardou e 1 Já Claudel dizia: "Le sens d'un livre.. c'est sa direction. em todo o decurso do Antigo Testamento o Senhor respeita a criatura e suas fraquezas.CAPÍTULO VI AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA No capítulo precedente verificamos que a idéia do Messias domina todo o Antigo Testamento.

mais fàcilmente podia apreender. Rei Vitorioso. do Livro de Deus. Livros posteriores ao exílio babilônico (ditos sapienciais) descrevem o aspecto transcendente do Messias: falam da Sabedoria de Deus como se fôsse Pessoa que de tôda a eternidade existe com o Criador e exerce o papel de Medianeira entre o Autor do mundo e o gênero humano. Como se apresentam. sob os quais a ação divina se quis ocultar. transmitiu ao mundo o seu patrimônio de sabedoria. perene. porém.• não como se necessáriamente a consideração das minúcias do texto sagrado impedisse a visão do sobrenatural. correm fios condutores (que abaixo chamaremos "temas"). arrisca-se a perder-se num emaranhado de causas segundas. aspecto quê o povo rude. pois. e mesmo o emdito. 2 Dizemos: "caso se prenda.94 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO afinal. arrisca-se . uma é como que a artéria central: a REVELAÇÃO DO MESSIAS. os quais desenvolvem um ou outro aspecto particular da pessoa ou da obra do Messias. agentes humanos ou mecânicos. que constituem a estrutura. É isto o que. antes do mais. que atuou e atua em cada episódio da história. afeito às guerras e pouco dado à Filosofia. cara a Deus e amiga dos homens. de acôrdo com a capacidade dos homens simpies a que a mensagem bíblica se dirigia: Os livros mais antigos de Israel põem em realce principalmente a face humana do Messias: descrevem-no como Grande Herói. todos os bens divinos se concentram nessa Sabedoria. passará possivelmente de olhos fechados ao lado de grandes verdades e tropeçará em minúcias insignificantes. na Escritura Sagrada a revelação do Messias e as suas linhas laterais ? § 1. É fácil. patenteando finalmente o seu pleno significado na história de Jesus Cristo e do seu reino.° A ARTÉRIA CENTRAL DA SAGRADA ESCRITURA: A FIGURA DO MESSIAS A figura do Messias foi sendo delineada progressivamente no Antigo Testamento. Caso se prenda a minúcias do texto bíblico. Dessas linhas mestras. as notas essenciais. que o'simples leitor. . nada mais vejam nas Escrituras do que as minúcias que impressionam a fantasia ou chamam a atenção do homem de ciências. caracteriza a história sagrada como mensagem divina. É esta grande visão que deve dominar a interpretação dos acontecimentos particulares do Antigo Testamento.. muito ao contrário ) os pormenores são consignados na Bíblia para sustentar a mensagem divina.. Ao lado da artéria central. importa-nos chamar a atenção do leitor para o fato de que há na Bíblia o que se poderia dizer "linhas mestras" ou "fios condutores". Tal é o aspecto predominante nos livros históricos do Antigo Testamento. o leitor se arrisca 2 a não perceber a Mão de Deus. após 18 séculos.. Sendo assim..

Outros livros do Antigo Testamento posteriores ao exilio desvendam o aspecto mais misterioso do Messias: é. Sabedoria eterna. que se encontra principalmente nos livros proféticos.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 95 3. não nos quis salvar senão unida à humanidade. Eis o aspecto do Messias Deus e Homem. implica a sua Divindade. . por sua vez. sim.Antigo Testamento: 3 Claro está que os diversos aspectos do Messias se apelam recIprocamente: mesmo o titulo de Herói ou Rei vitorioso. por muita soberana que seja. A sua Divindade. tal como é apregoado pela Bíblia. Rei Vitorioso. Em esquema assim se dispõem os principais traços do Cristo no . mas não cumpre sua missão de beneficiar os homens senão mediante o sofrimento e a morte.

! o . 2cc c O Z cc - o o 4-. 020 o dcc o co toId'4d4 ' -o - o.) 4-) O 'oii t-O• rCI cc - o.PARA ENTE±{DER O ANTIGO TESTAMENTO — o.. C' o o O c acc t cco. ccc cc (ti cc cc 4 o. çztifl-.•- — o 0 4-' rA 'cc cc cc o o ti £o o CO o no 1-o O. O 0<1 O. cc -o-- cc t o o. 04. 0 d O O O CO O O O t o ti OO c cc . cc o -o t 01 4' 0'•° '4-4 j CO C 1 o.

cc ' tio vt 0-t D1• O oot rcc.'7'nQccÇ.4 R ti cc o LO cc lO t o ti O 00 oi lo C . 0 a) c ccti Ott t 0 10. dq .0 U2ot 1 u cl'g o 2 CO cc cc Ci (5 cc d aD 1 o 00 od. .O.. O_ cl.N °E 4. ' ci-i.° O a) ooI lI. o o ti o 'O • co o ti e'o -ii 'O . V1N 0 cli u. ti - O O O O O ti4 li cc O O ti ti Co e- O cc 0 flC.t O t 97 - t-cc - cc dO 4LL cc cc co - Ee-to -.a. 11 Z o Z o 0 cc ctO Q < O O cc cc 6 Lfl R co . o —lo Citi til O o>0 •LO — cc Liti R CO 9 E O cc LO 1• 00 — O o!. °t 4CJ C') .9p1 0cc ttocc • tiq q40 o o .4.l !l1 dt fl ' ccaOtt . cojc2 cc - r cc • jcc 4 OQiti ti t cc 1 ti o ia ° ti cco.icc 0a o - r OO' c < ti c0. Li rr cc t cc cc PI cc.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 0 sn o ti O ti O .

infecunda como era. êste "garantiria" a realização do plano de Deus . para ir em demanda de região não indicada. Ê esta certamente uma das notas mais características da ação divina entre os homens. sim. O TEMA DA ESCOLHA GRATUITA OU DA FÔRÇA DE DEUS QUE SE MANIFESTA NA FRAQUEZA DO HOMEM Que significam êsses títulos? Querem dizer que.98 PARA ENTENDER O MiTIGO TESTAMENTO Tal é a artéria central do Antigo Testamento. de acôrdo com a sua "sabedoria". 21. 0 os nos CONDUTORES DO ANTIGO TESTAMENTO 1. Dos dois filhos de Isaque.23). a mais fragorosa derrota possível: Abrado. de tôda a sua nação e do Egito (cf. A promessa feita a Abraão foi repetida a Isaque. Jos 24. salvífica de Cristo. se tornou o salvador dos irmãos. Esaú. a Caldéia. foi condenado à morte José. o Senhor suscitou ao casal estéril. Dos doze filhos de Jacó. herdeiro que. O Senhor dignou-se realizar a sua obra. destituídos de sabedoria ou algum outro titulo. sem dúvida Amigo gratuitamente escolhido e amado.. Vejamos agora fios condutores que paralelamente a tal artéria desdobram aspectos particulares da obra messiânica. foi pôsto de parte em benefício do irmão Jacá. Abraão.1-3). por excelência.1-50. não lhe dava a prole que Javé prometera abençoar. 18. Todavia o filho gerado pela prudência de Abraão.1-3). sem deixar que a prudência humana se pusesse a calcular as probabilidades de êxito. vendo que sua espôsa Sara. uma descendência para si. que por si seria herdeiro dos bens paternos. em virtude desta condenaçào mesma. por sua natureza incapazes de levar a têrmo a missão recebida. verificando-se desde os primórdios do Antigo Testamento. houve por bem escolher elementos aparentemente ineptos. foi por Deus preterido em favor de Isaque. mais tarde e inesperadamente. o qual não tinha título para herdar a Promessa (ef. Gên 12. § 2. Gên 37. descendente de linhagem idólatra (cf. Gên 16. Jdt 5.26).2. Gên 27. Tg 2. Abraão foi dito "Amigo de Deus" (cf. Deús. mas derrotando os cálculos humanos! (Cf. onde o Senhor lhe prometia posteridade abençoada (cf. Por ter dado fé a tão estranho vaticínio.1-45). a qual foi. da qual lhe nasceu Ismael. culmina na obra. . foi chamado por Deus a emigrar da sua terra. o mais velho. em aparência. para a realização de seu plano. uniu-se à escrava Agar. resolveu assegurar.8).1-15. o qual.. através de tôda a história sagrada.1-16.

voltou para a Terra Santa o chamado "Resto de Israel".AS LINRAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 99 Ao sair do Egito. das quais não a maior. Jdt e Est). travou para conquistar Canaã. Cristo escolheu um "pequeno rebanho" (cf. 214-219. Lc 12. se tornaram salvadoras do seu povo. após a morte de seu filho e sucessor Salomão. Gedeão só conservasse trezentos homens. do qual jamais pensara seu pai pudesse ser objeto de complacêucia divina (cf. cujo currículo de vida terminou com a ignominiosa condenação à morte de escravo. que constava apenas de duas dentre as doze tribos. os irmãos Macabeus. IV e V a. Lc 6. povo de escravos libertos. II. Em meados do séc. provàvelmente nos séc. 1-2 Mac). Jz 7. ' Na subseqüente época dos Juizes. humanamente fadados a fracassar (cf.3). ou seja. Tôda essa história antiga conflui para o Messias. as quais empreenderam a restauração da teocracia (cf. Isto fêz que os conceitos de "povo de Deus" e "pobres" (anawim) se tornassem quase sinônimos na literatura judaica posterior (cf..1-13). 3 Es 12. 4 Sóbre a tomada de Jericó. isto é. continuou a ser a portadora da bênção messiânica (cf. tipo do Messias. mas heróicas. humanamente falando. aos quais deu o triunfo por meio de artifício. Duas mulheres. continua a se verificar o mesmo proceder divino na atuação do plano salvífico. Mt 5. Judite e Ester. Após o exílio de todo o povo de Israel na Babilônia (587-538). os descendentes de Abraão e dos Patriarcas. a qual no plano de Deus estava destinada a ser o triunfo definitivo do Bem sôbre o mal. Lc 24.C. parte pequena da nação. a vitória de Gedeáo sôbre os madianitas atesta eloqüentemente o mesmo: o Senhor mandou que. veja-se em particular as págs.1-22). Esdr-Ne). mas a menor. povo destituído de todo brilho político ou cultural. ao lado de nações cultas e poderosas.20. veio a cindir-se em duas partes. O reino de Davi. Judá. Sarnaria. de numeroso exército. são evidente testemunho da fôrça de Deus que se manifesta na fraqueza humana. morte desconcertante para os homens (cf.32). sob Moisés e Josué. 1 5am 16. pastorzinho de ovelhas. Para o fazer rei bem-amado de Israel. . infantil (cf. pela aliança travada no Sinai passaram a constituir o povo de Deus. quando todos os recursos humanos pareciam esgotados (cf.13-35). Depois de Jesus. constituída por famílias pobres. Davi. Deus quis escolher o filho mais jovem de Isaí.1-13.33) de doze homens rudes (em maioria. a reação contra os sírios corrutores foi vitoriosamente levada a cabo por um punhado de homens corajosos. A travessia do deserto sinaítico e as guerras que Israel.

Cf. Paulo vê expressa essa norma já por. aos quais Deus.1-7). No fim da história antiga. fazem ressoar o mesmo tema. texto em que 8. A figura de Paulo. para a execução de seus desígnios. aos quais confiou a propagação do Evangelho num mundo hostil. de resto. Lc 1. outro dos grandes chefes de Israel. Samuel.14 (LXX) e Jer 9. nasce João Batista. Jz 13. Tão estupenda natividade vinha bem éredenciada pelos episódios semelhantes que a haviam precedido! Pergunta-se agora: será possível descobrir por que terá Deus tão freqüentemente procedido dessa maneira que desconcerta o homem? A resposta não é difícil. 5 O Apóstolo. em Is 1. Lc 1. contraste que o Senhor lhe assegurou ser garantia de pleno sucesso na obra de Deus: "É na fraqueza (do homem) que meu poder se mostrã soberano. Isaque. Is 29. . em particular. por meio de um anjo. Mãe e Virgem.9.46-55) a intervenção soberana de Deus. formulava claramente a "quase-lei" da escolha dos humildes.18-31. assim como os utiliza. ao considerar os primeiros.24 (LXX). nasceu de mãe estéril.100 PAfl ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO pescadõres). que a princípio não quis crer na possibilidade do portento! (Cf. A todos êsses casos se sobrepõe a natividade do Messias. anunciado a Maria pelo mesmo arcanjo. Ana. 1 Cor 1. representa o contraste en tre a debilidade do homem e a fôrça realizadora do Altíssimo. ainda se poderiam notar cinco outros que. não querem tanto chamar a atenção para os por menores referidos como para a seguinte verdade eterna: todo dom de Deus é gratuito. com efeito. 1 8am 1. Sansão.) Ao lado dêstes episódios. o Salvador foi virginal mente concebido e gerado (cf." (2 Cor 12. à qual Deus quis dar prole maravilhosamente abençoada (Cf.1-2.26-38. fiéis de Corinto.1-25). sob o aspecto particular das NATIVIDADES EXTRAORDINÁRIAS.10). prenúncio da restauração messiânica (cf. nasceu de Manué e sua mulher infecunda. um dos mais remotos antepassados do Messias. Os feitos portentosos. prefigurando assim a natividade do Cristo. preconizado pelo arcanjo Gabriel a seu pai Zacarias. reconheceu num cântico (que é arquétipo do de Maria. eivado de sabedoria meramente humana.1-8). 2. ao receber tal prole. quis anunciar a próxima conceição (cf. que acabam de ser assinalados. Observe-se.5-25). cómo alguns dos homens de Deus foram dados ao mundo em circunstâncias que excediam tôdas as expectativas humanas. um dos "redentores" (Juizes) antigos do povo de Deus. Gên 21. Deus também pode dispensar os instrumentos criados. foi igualmente fruto de ventre estéril.

pois o Criador é soberano ao estabelecer as cláusulas do pacto.15). por vêzes.19s. sômente a religião revelada a Israel e aos crIstãos concebe as relações da Divindade com o homem como Aliança. . que o homem se prepara para receber o Divino. A aliança paradisíaca foi renovada na plenitude dos tempos pelo Messias. Edo 17. sempre limitado.Yos 26.17-19.14. Spicq. 1 Cor 11.16. Cl. não deixa de inculcar a soberania do Deus que entra em aliança com a Criatura: Deus é dito prescrever a aliança (Hebr 9.se faz em vista do que o texto sagrado chama "a ALIANÇA". 285. 2.19) ainda fala de aliança. sinônimo de "decálogo" (Dt 4.15s). foi violada pelos primeiros pais (Gên 3). para Israel.25. pouco depois da queda.13. fá-lo por favor divino. A Escritura. Com efeito. em troca. o Senhor.31. A nova e definitiva aliança outorgou a todo o gênero humano bens ainda maiores do que os dons perdidos no paraíso (cf. o profeta 6 A formulação jurídica do contrato é muito clara em Dt 26.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 101 Não queira. de "Lei ou mandamento do Senhor" (Núm 15. João no Apocalipse (11. 29. Se esta é chamada a colaborar na obra da Redenção.3-9). vida imortal bem-aventurada (cf. Com efeito.2-18. na consumação da história. Rom 5. segundo Adão. Dt 4. é a isto que os livros bíblicos chamam "Aliança de Deus com os homens". É antes pela renúncia. que se destinava a todo o gênero humano.1-7. prometeu restaurá-la (Gên 3. O TEMA DA ALIANÇA A vocação gratuita que Deus dirige aos homens . "aliança" é.12s). Gên2. ° Eis como se desenvolve a noção de Aliança sagrada Logo na primeira página da história. pois. L'Epitre aux Ilébreuz JI (Paris 1953). embora não reste dúvida de que não há paridade entre os dois contraentes. A aliança messiânica manifestará tôda a sua excelência na vida celeste.lz 2. 3 Rs 17. . pela morte a si mesmo. É de particular interêsse notar que. o dom de Deus excede o entendimento da criatura.20). entre as múltiplas religiões do orbe. o Criador entra em aliança com o homem recém-criado: pede-lhe fidelidade a um preceito e propõe-lhe. o homem julgar a ação da Providência confor me as categorias do seu bom senso. que corresponde antitèticamente ao primeiro homem e assim divide a história em duas grandes fases.15-17. Por isto é que S.10). porém.20). C. "guardar a aliança" coincide com "ouvir a voz de Deus" (Éx 19. 5. Esta aliança. aliás. caso se mostrassem fiéis à Lei divina (ou quisessem reproduzir em sua vida os traços da Santidade incriada).objeto do tema anterior . às criaturas chamadas o Soberano Senhor prometeu dar o consórcio dos seus bens. .

20-26. a Aliança messiânica. Edo 44. Jos 24.1-8). perpétua" (ef. com Isaque e Jacó. 2 Sam 23. comparável à solidez que convém a um pacto solene. Jer 33. Entre a violação e a restauração da Aliança com todos os homens.12s). 60-63. Mal 2. que quer dizer o têrmo Aliança. com Aarão. por essa ocasião. com a linhagem de Abraão. com Fineés.4. Deus outorga àquele e à sua posteridade o exercício do sacerdócio em Israel (e!. 4. sendo simbolo da ineorrutibiIldade (conserva a. o rei de cuja casa descenderia o Messias (e!. com Abraão. 61. 37. 2 Crôn 21. Precisamente.7s. Gên 15. O sal. Assim há um pacto: com Noé.4s). com Josué.carne). Is 54.21-28.18). trava-se a famosa aliança do Sinai. Núm 25.7-21). é insinuada em Os 2. já constituída em povo numeroso. 9. ou seja. o Senhor Deus se dignou entrar em mÚltiplos pactos parciais e provisórios. 55. tendo Moisés como mediador (e!. o Patriarca do povo escolhido (e!. Gên 6.25).5. sucessor de Moisés na direção do povo e renovador da aliança sinaítica (e!.8-17.3-9.25). a cuja tribo Deus confiou o serviço do santuário (cf. Êx 2. também 2 Crõn 13.14-25. tão persistentemente empregado pela Escritura para designar as relações do Criador com o homem? O vocábulo significa que Deus quer bem ao homem. 56. Éx 19.3. novo pai do gênero humano (e!. e o quer de maneira firme. dentre os diversos tipos de contrato humano. antepassado de Aarão. definitiva. 24. o que mais corresponde a tal disposição divina é o da aliança matrimoniaL 7 O texto sagrado.19). fala de 'uma aliança de sal. significava bem a firmeza do pacto.31-34.18). .8. com Levi. descendentes imediatos de Abraão (cf.4.25.10. a quem foi confirmado o poder sacerdotal (cf. com Davi.102 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vê no céu a arca da aliança do Sinai. 51 88. irmão de Moisés.18. o símbolo do pacto que Deus outrora quis travar com Israel em vista da obra do Messias. 34. descendente de Aarão e zeloso propugnador da Lei de Deus.7. novo Adão. Ez 16. que. visavam assegurar a reparação da aliança universal. Edo 45. claramente anunciada em Jer 31. considerado. após o dilúvio.5 e Ne 6. 17. Núm 18.24).

Em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá Uma aliança nova.29.C. 1 Por isto.32. na linguagem cristã. Assim o têrmo "testamento" passou. Dt 7.6s). As mesmas idéias se refletem no fato de que "aliança" e "promessas" estão 'mtimamente associadas entre si em Gál 3. a ser usado na acepção do antigo vocábulo berith. 9.10. Ef 2.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Com efeito.12. 3 Es 8. Ne 1. fx 34.9. 5 . porém.15. berith (aliança) e hescã (graça) são noções que se evocam mfttuainente na Escritura Sagrada (ei. 81 88. Is 54. dicztheke.oráculo de Javé. Acontece. que significa determinado tipo de disposição.17.4. como se pode falar de "Nova Aliança" e "Antiga Aliança".29). Éste apresenta o aspecto de uma prevaricação.5. vil/VI a. 34s. disposição (unilateral). à qual Deus promete "Eis que dias vêm .concepção que os profetas rebatiam freqüentemente. para Deus. Por fim. em última análise. que a estupenda condescendência divina expressa pelo têrmo hebraico berith foi causando "escrúpulos" aos israelitas. Dan 9. Aliança que êles violaram. Hebr 10. sim. são como que a herança recebida de Cristo Vítima. a transcendência de Deus ao entrar em relação com os homens.3. os judeus decadentes nos séc. Rom 9.1 õsse o seu Espõso?' 9 Aliás. em Jer 31. êstes empregaram o vocábulo grego diatheke em lugar de berith. Donde se segue que. Hebr 86. Não como a aliança que travei com os seus pais. é a palavra originàriamente usada pela Escritura! 3.C. quando nos séc. julgavam que Deus precisava de seu povo e que a sorte de Javé estava intimamente ligada à de Israel . At 3. a Escritura foi traduzida do hebraico para o grego por judeus de Alexandria (Egito). lhes parecia ressalvar melhor a soberania. a disposição que se torna válida pela morte de quem dispõe. ou seja. 50. Conseqüentemente.23. outorgados em vista da morte de Cristo. O TEMA DA PREVARICAÇÃO E DA RESTAURAÇÃO CORRESPONDENTE A história sagrada abre-se com o episódio do paraíso.25. êstes se deixaram guiar de novo por idéias teológicas: substituiram o térmo diatheke por testamentum. No dia em que os tomei pela mão Para os fazer sair da terra do Egito. "ser fiel à sua aliança" significa "conservar o amor outrora manifestado aos homens" (cf. Embora Eu . sendo que o têrmo "aliança". 111/1 a. os cristãos haviam. fala-se hoje de "Novo Testamento" e "Antigo Testamento". 10545. verificado que todos os dons de Deus foram. 55.4. 9. apesar de tudo que êle tem de surpreendente ou mesmo espantoso.31s o Senhor menciona explicitamente o contrato nupcial para ilustrar o amor que te dedica à criatura. quando o texto grego foi traduzido para o latim pelos cristãos.

porém. A corrução grassa e motiva o tremendo dilúvio (Gên 6.14.17-28).25s).8-17). que permanece fiel (2 5am 7. obcecam o povo e o levam a rejeitar o Messias. O PRIMEIRO ADÃO RESTAURAÇÃO O proto-evangelho (Gên 3. O pacto de Deus com Noé após a punição (Gên 9. nunca. A corrução chega ao extremo e provoca o exílio babilõnico (4 Rs 23. At 28.20-35). O dom messiânico é transferido dos judeus para os gentios (cf. as repetidas apostasias religiosas de Israel merecem ao povo ser entregue às mãos dos inimigos cananeus (Jz).7-23).36-25. em lugar do justo imolado (Gên 4. por muito intenso que seja.20: "Onde o pecado abundou. consiga absorver o bem. sem que o mal moral. assim como marcam a primeira página da Bíblia. 5.14).104 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO dar remédio em tempo oportuno. que prossegue a obra de Deus sôbre bases mais puras (Esdr-Ne).38). como se exprime o Missal Romano. No inicio da monarquia. O orgulho religioso. dada a sua fé.6). são conservados em vida (o resto de Israel !) e continuam a obra de Deus (Núm 14. O povo é punido por Deus.26). caracterizam tôda a história subseqüente. 15. A monarquia não perece. êstes dois têrmos miséria do homem que desfaz a obra de Deus. o primeiro rei. o farisaismo. cf. . A pouca fé de Israel no deserto faz que tôda uma geração aí pereça (Núm 14. entregue ao total extermínio (3-4 Es.0 influxo do mistério da iniqüidade e o do mistério de Cristo se fazem sentir alternativamente no decurso dos ' séculos. 10 "a contínua repa10 secreta do sábado 'in albis". o justo (Gên 4. O inorticinio de Abel.1-35). o povo de Deus freqüentemente se alia a nações idólatras e se corrompe em falsos cultos (3-4 Es).") Pode-se assim dizer que uma das idéias centrais da história sagrada é. O SEGUNDO ADÃO (Rom 5. Deus suscita oportunamente 'redentores" (os ditos Juizes) do seu povo (Jz). Josué e Galeb. principalmente 4 Rs. É o que se percebe pelo seguinte esquema: PREVARiCAÇÃO O pecado dos primeiros pais (Gên 3.3-15). .1-8. e paciência bondosa do Criador que restaura a criatura -. Após o ingresso em Canaã. Pois bem. se mostra indigno 0 San 13.15) Sete. a graça superabundou. Salva-se do exílio o "resto de Israel". 17. Saul. mas Deus escolhe em outra tribo o pastorzinho. Sob os reis subseqüentes.1-15.8-16).

.1-11). as vias do Senhor (cf.16. 33. O TEMA DA HABITAÇÃO DE DEUS Deus se digna morar com os homens. por sua pregação e seu batismo.14.2). S. Éx 25. é o fato de que a presença do Senhor é assinalada por um fulgor (em hebraico. antes de iniciar a vida pública passa quarenta dias na solidão em jejum e oração (cf. e lhe falarei ao coração. 1 5am 23. 5. sendo Israel nômade no deserto. Elias jejua quarenta dias no êrmo de Horeb. a morada de Javé se reduz a uma tenda movediça feita de peles de animais. 3. embora com modalidades diversas das do Antigo Testamento.) Ora chama a atenção o papel que a Escritura atribui ao deserto no decorrer da história: êle é o teatro predileto das manifestações divinas. João Batista retira-se para o deserto a fim de preparar. O TEMA DO DESERTO O Senhor fala aos homens em meio ao silêncio das criaturas. aguardando o triunfo final do reino de Deus (cf. 3 Rs 19. só deixará de se verificar quando Deus outorgar ao gênero humana a sua consumação final.8-16. no recolhimento e na solidão. Shekina) que paira sôbre a tenda (cf. zelosamente procurado pelos homens de Deus antes de realizarem feitos gloriosos. à semelhança dos homens. refugia-se no deserto. 4. antes de subir ao trono (cf. 4. Apc 12. O êxodo de Israel. O exílio na Babilônia.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 105 ração da salvação humana".23). perseguido por Saul.1-18). 3. Mt 4. Nos primórdios da história sagrada. é escola de purificação para Israel. É o que o próprio Espírito Santo inculca quando diz pelo profeta. A Igreja. Ora a Escntura faz ver como aos poucos se nobilita o lugar da mansão de Deus na terra. Muito digno de nota. antes de receber a missão de ungir os reis (cf. vive no deserto durante todo o decurso da história." (Os 2. que assinala grandes favores para o povo de Deus e precede a conquista de Canaã. salvação que a miséria do homem põe constantemente em perigo. comparável à mansão no deserto. Jesus. S. Davi.80. tendo em vista o reerguimento da nação teocrática: "Eis que a atrairei e a levarei para o deserto.7-11. Lc 1. 1.6). 2. 24. simbolizada pela mulher do Apocalipse. fêz-se através do deserto. Assim 1. porém. Esta idéia se estende ainda por tôda a história do cristianismo.

" Não se poderia passar sob silêncio um particular filológico: O têrmo grego skené ( tenda). os israelitas quiseram preparar mansão mais condigna para a Majestade Divina: o rei Salomão. "E vimos a sua glória. na tradição judaica posterior.1-4).lOs).38.k .n. nuvem fulgurante encheu a casa do Senhor.32-40.14. está claro que o templo de Salomão ainda estava longe de corresponder à Majestade Divina. Basta apenas verificar a analogia. na qual viveu entre os homens. pois. construiu o famoso templo de Jerusaim.14.16-23). esta era um templo vivo do Deus vivo. templo capaz de reconhecer o seu Senhor e amá-lO. Por isto. chegando a aterrar os homens. "Vimos a glória dé Deus através dos milagres de Jesus. S. Não nos interessa aqui estudár a etimologia destas duas palavras.106 PABA ENTENDER O AIÇTIGO TESTAMENTO 39.13-51). Na solene dedicação da nova morada. o que se realizava imperfeitamente no tabernáculo do deserto (e no templo de Salomão) já se verificou muito mais dignamente na natureza humana de Cristo. que toma significado especial se se tem em de vista 11 A traduflo da Vulgata habitavit ( habitou) é muito wn particular especialmente visado pelo Evangelista. 7. glória como que do Unigênito do Pai. sé podia usar o termo shekina como sinônimo de "morada de Deus" ou como equivalente ao nome mesmo de Javé. donde se deriva o verbo slcenoo (erguer a tenda) em Jo 1. e ergueu a sua tenda (eskenosen) 11 entre nós. geral e faz perder . João Evangelista o refere nos seguintes têrmos: "O Verbo se fêz carne. Ésse esplendor se tornou tão característico da mansão de Deus que." Esta observação alude ao esplendor (Shekina) que acompanhava a morada de Deus no Antigo Testamento. o Apóstolo.) As duas primeiras frases são paralelas uma à outra. e vimos a sua glória. empregando o material mais rico e os artífices mais hábeis das regiões vizinhas (cf. faz notar que aos discípulos de Cristo foi dado contemplar aquilo que afugentava os próprios sacerdotes da antiga Lei. glória como que do Unigênito do Pai. com visivel alegria (cf. de tal modo que nem os sucerdotes lá puderam permanecer (cf. 3 Rs 6.1-38. Embora fôsse mais digno do que a tenda movediça. 3 Rs 8. Núm 9. da sua transfiguração e da sua ressurreição. reproduz equivalentemente as consoan tes do vocábulo hebraico shekina: s(h) . querem dizer que a carne de Jesus Cristo se tornou a nova tenda ou morada de Deus." (1. 1 Jo 1. nova dilatação do tema se verificou: Deus Filho quis unir-Se a uma natureza humana. Uma tez estabelecidos na terra prometida.

O maná é mencionado pela primeira vez na história do êxodo (cf.19-21). Éx 16... Mais uma palavra que atravessa tôda a Escritura Sagrada. E Aquêle que está assentado no trono erigirá sôbre éles a sua tenda (skenosei ep'autous)..(7. é semente da glória celeste.lSs.16). 2 Cor 6. a Igreja de Cristo. só estará plenamente desabrochada na bem-aventurança futura.19-22). o Senhor apelou para o seu poder de ressuscitar "o templo do seu corpo" (cf. . Não terão mais fome. por isto também a dignidade do templo vivo que agora compete aos discípulos de Cristo. perpassa a história sagrada até o fim (Apc). participam da vida de Cristo e da Trindade 58. de maneira a poderem ser realmente ditos mansão viva de Deus (cf.. constituída pelos fiéis unidos entre si e com Jesus. qual portadora de mensagem cada vez mais clara. Ef 2. nem os abaterá mais o calor do sol . Ainda vem a propósito uma palavra de Jesus: para justificar a expulsão dos vendilhões instalados no templo de Jerusalém. O TEMA DO MANÁ 12 Maná.19.. nem sêde. 1.13-31): a fim de sustentar os israelitas no deserto. é dita o templo santo do Senhor (cf. só se podia aprovisionar a quantidade 12 As idéias aqui expostas encontram seu complemento às págs. S.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 107 mente que as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento têm tôdas o mesmo Autor Divino. só estará completo na eternidade. pois cada qual foi destinado a se tornar conforme à imagem do Filho de Deus (cf. que já ocorria na primeira fase da habitação de Deus entre os homens (ex). Pelo mesmo motivo. 4.. a noção da tenda. 219-223. É o que o Apocalipse insinua ao descrever a felicidade celestial dos justos: 'Estão diante do trono de Deus. Bom 8.. a idéia de templo de Deus se realiza semelhantemente em cada cristão. porém. As subseqüentes realizações do tema tendem para êste têrmo: fazer de cada indivíduo humano (em alma e corpo) um portador de Deus. O tema da habitação de Deus.. pois se derretiam ao calor do sol. possuindo a graça santificante. depositário translúcido da glória do Criador. Os fiéis. dar-se-á em proporções reduzidas em cada um dos irmãos de Jesus no dia da ressurreição final. A graça que o cristão peregrino possui. Isto se deu na plenitude dos tempos e em grau perfeitíssimo no Cristo Jesus.29). Após a Encarnação. o Senhor lhes suscitou uns grãozinhos (maná) com gôsto de óleo ou mel.. o povo devia recolhê-los antes do nascer do dia. e servem-Lhe dia e noite no seu templo. É em função desta meta que os séculos se vão sucedendo! 6.) Como se vê. Jo 2. 1 Cor 6.

12). Dado em vista da instalação de Israel na terra prometida. a fim de permitir aos israelitas o repouso sagrado do sábado (cf.19). Mt 4. o hagiógraf o canta no livro da Sabedoria: "Saciaste o teu povo com o alimento dos anjos.4-6). Assim.20s. e lamentou amargamente não ter mais a carne. O qual proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paladares. era considerado um prenúncio do reino messiânico. aceno a realidade de ordem superior (cf. Tob 12. chamando-o "miserável alimento" (Núm 21. não comem (cf. mas devia ser um sinal religioso. porém. todavia. . sendo incorpóreos. Éstes e outros pormenores misteriosos da história do maná dão suficientemente a entender que tal alimento não era suscitado por Deus simplesmente para nutrir a vida corporal dos israelitas. que em breve se estragavam.) Os Rabinos. Núm 11. J05 5.3. Interessa-nos chamar a atenção para o caráter religioso que ésse alimento tinha: os grãozinhos. de 3. se não exclusivo.108 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO necessária para a respectiva jornada. isto é. o povo concebeu náusea do maná. passou a ser descrito pelos autores posteriores em têrmos idílicos. um gomor . esquecendo que . constituiu o maná o alimento. Ëx 16. Gál 3. ao menos principal de Israel (cf. E lhe deste do céu.16-18).5).o maná ao povo causara fastio por sua insipidez (cf. demonstrava a suavidade de que usas para com vossos filhos. por seu lado.4-6). o pão dos anjos. conservavam-se íntegros nas 48 h finais da semana. os pepinos. mediam as suas provisões e verificavam possuir exatamente a porção permitida para um dia. SI 77.4). recolhiam uns maior.. de que se nutria no Egito (cf.ca.38.19-30). o peixe.19). vindo à terra. ' 13 'Pão dos anjos" (cf. Durante os quarenta anos de travessia do deserto. os melões. Núm 11. At 7. alimentando o seu povo com o pão do céu. outros menor quantidade de maná. os israelitas. pois o maná se deteriorava em 24 h." (Sab 16.8 litros (cf. mas significava "pão que os anjos dão ou ministram em nome de Javé". por ti enviada. o alho. Com o tempo. Ora foi justamente qual sinal ou tipo que a tradição judaica interpretou o maná. etc. pois os judeus tinham consciência de que os anjos. já que os anjos eram considerados os transmissores das grandes dádivas de Deus aos homens (cf. ao chegar às respectivas tendas. sem fadiga. desobedecendo a Javé. Ésse pão se acomodava ao desejo de quem o comia E se transformava no que cada qual quisesse. nutriam a convicção de que o Messias. um pão já preparado. 2. Essa substância. repetiria o prodígio do maná. Dt 8. Êx 16.24) não quer dizer "pão que os anjos comem".

mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. não seria senão a carne e o sangue de Jesus. portanto. Seria o pão messiânico. não. êle significa "o que o ôlho jamais viu.. o nutrimento do povo de Deus estabelecido na plena posse dos bens messiânicos. 49. sem dúvida. terá a vida eterna. que haveriam de superar a morte pela sua resurreição gloriosa. darei o maná oculto e um seixo branco.) maná. e não preservava da morte. O maná que Israel comera no deserto tinha por função levar o povo à exígua terra de Canaã. 14 A Eucaristia. Eu sou o pão vivo que desce do céu. o coração do homem jamais percebeu" (1 Çor 2. que ninguém conhecerá a não ser quem o receber.. em última análise. desconhecido ao homem. Ora o maná que Jesus prometia. Significa a plena união com Deus.17. já concede no íntimo da alma. no Antigo Testamento ou no início da Quem vencer o certame da vida presente receberá de novo.) . na vida celeste! Desta vez. porém. no Evangelho. VI: "A quem vencer. e se dignou.. quem déle comer. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue. e faria triunfar da própria morte. a Eucaristia. que vem a ser como que o complemento das palavras de Jesus proferidas no Evangelho de S. que aos poucos penetra alma e corpo do cristão. maná ainda no Apocalipse.. o maná é dito oculto. tal qual o esperavam os judeus imbuidos de expectativas demasiado humanas. mas universal. união com Deus que a Eucaristia. vcsso$ pais comeram o maná no deserto e morreram. Por isto. no Apocalipse o autor sagrado coloca nos lábios do Senhor a seguinte promessa. porém.. ainda não encerra o tema do maná." (2. encaminhando o israelita para a terra prometida (Canaã). de fato. cap. maná. maná na plenitude dos tempos.51.9). sim. pois o pão de Deus é aquêle que desce do céu e dá vida ao mundo. história sagrada. devendo atingir o seu pleno desabrochar na eternidade.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 10 Assim a idéia do maná Crescia em seu significado: nastradiçôes judaicas não designava simplesmente o alimento pobrõ do israelita nômade. ou seja. mas evocava... no Novo Testamento. Maná. porém. o maná celeste designa a visão face a face do Deus Trino e a bem-aventurança que dai resulta. Ela é um fermento de vida nova. que o pão do deserto no Antigo Testamento de certo modo iniciava. Em verdade.32s. ptometer pão do céu. só patenteada a quem a experimenta! 14 "Em verdade. João. O Messias veio. a menção permanece muito lacônica. jamais morrerá. em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu. o ouvido jamais ouviu.To 6. e sôbre o seixo um nome novo escrito. mas através de véus. •e Eu o ressuscitarei no último diaY' (.. introduziria no reino de Deus não nacional. tal alimento.

1-7). Observemos o percurso grandioso dessa figura nos textos bíblicos. Ao passo que o oráculo de Isaías apenas anunciava o castigo. esta não podia deixar de ser planta de grande estima..22). mas em circunstâncias diversas: em nome de Deus. que o povo de Deus esquecesse a sua fé e adotasse cultos alheios. da oliveira e da vide. (Particularmente importante é o v. Ezequiel aludia às depredações que os inimigos haviam infligido ao povo de Deus a partir de 722 (queda de Samaria) e que continuariam a infligir até arrasar Jerusalém e levar para o exílio (587-538) a maioria da população de Judá. o Senhor prometia entregar a árvore inútil a viandantes e animais.. dela esperando frutos condignos no tempo oportuno. a uma videira. repreendia o povo de Israel por suas múltiplas infidelidades à Lei. o profeta Ezequiel retomava a imagem (15. nem um cabide se faz com pau de uva.C. pois a videira de Deus só produzia uvas amargas. Javé era apresentado como vinhateiro que dispensara todos os cuidados à sua vide. só pode ser avaliada pela qualidade do seu lenho.. Is 5. VI a. o profeta Isaías fazia reviver a mesma imagem. perguntava o profeta. 4: "Que devia ter eu feito por minha videira. contrastante com a idolatria de outras nações. Por conseguinte. . Com isto. VIII a. porém. Ezequiel o supunha já em curso e incitava o povo a refletir sôbre o mesmo. seu filho. cujos ramos viçosos e férteis recobrem tôda a muralha do pomar (cf. ciências e outros bens de cultura em Israel eram estritamente dependentes do que produziam os povos vizinhos. Gên 49. era íjnicamente a sua religião. Já em época muito remota. pois belas artes.110 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO 7. eis. Desde que não dê frutos bons.C. A que serve uma videira selvagem?.1-8). que não tenha feito?") No início do séc. A imagem quadrava bem com a realidade! Aquilo que dava significado à nação de Israel na antiguidade. A única justificativa da existência de Israel era (e ainda hoje continua a ser) a sua missão religiosa. porém. que se via decepcionado. Dado. Ora o lenho da vide é absolutamente imprestável a qualquer trabalho de marcenaria. o Patriarca Jacó comparava a abençoada tribo de José. Em conseqüência. baseada em monoteísmo muito puro. a destruição. No fim do séc. O TEMA DA VIDEIRA A vfrieira constitui uma imagem habitual com que as Escrituras do Antigo Testamento designam o povo de Deus. per•dia todo o seu valor na história. que a devastariam (cf. Para uma nação que vivia principalmente do trigo. um só destino pode ter a videira brava: o fogo.

restaura-nos.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 111 As objurgações de Ezequiel têm. eis brevemente o que significa tal texto bíblico. tudo pereceu." (Si 79. aquela que não pode dar uvas amargas. Limpaste o terreno diante dela. não já para interpelá-la na qualidade de Senhor. Senhor Deus dos exércitos. a fim de que a videira antiga. não venha mais a renegar a sua qualidade e o seu des- . mas para se identificar com ela: "A videira. sou Eu. que. Deus mesmo se fêz videira. homens de qualquer nação. e sou a verdadeira videira. como por meio dos profetas fizera.) Nas situações mais perplexas. autêntica (o novo homem).20). nunca é frustrado um sincero apêlo do homem atribulado à Misericórdia Divina. coloca-se o salmo 79. impiora restauração. Os ramos dessa videira sois vós. valor universal: caso o homem. Lançou raízes e encheu o país. e seremos salvos. é a voz do pecador que se sente justamente punido pelo Deus Santo: deplora a situação presente e. Faze brilhar a tua face. 20. Com efeito. Está queimada pelo fogo. Ante a tua face ameaçadora. em qualquer tempo. com muita confiança. doravante. Redenção que Deus benignamente havia de mandar: "Arrancaste do Egito uma videira. em J0 15. Jesus. portanto. aliás. a videira nova. 1 Jo 3. e participareis da minha vida divina. a natureza humana. enxertada no novo tronco.9s.1-8. sabendo que Deus é maior do que o coração humano (cf. sempre corresponderá ao ideal que o Pai lhe assinalou. sem que esta se reerguessé da sua miséria. os seus valores naturais mesmos perdem todo significado. 17. Expeliste as nações para plantá-la. dareis fruto múltiplo e bom. a Escritura punha remate a lento processo pedagógico que nos ilustra o dogma da Encarnação: depois de ter feito tudo que podia fazer para salvar a videira. trouxe a resposta divina à prece do povo oprimido. Em quarto lugar na evolução do tema. renegue o seu destino religioso. Referia-se de novo à videira. que apresenta a prece da videira entregue aos incursos inimigos. A videira de Israel pedia assim a sua Redenção. caso permaneçais em Mim e Eu em vós. talhada." Referindo estas palavras de Cristo. Sereis enxertados em Mim.

a dirija.14. Os textos biblicos são como as veias de uma mina. o mistério de palavras humanas divinamente inspiradas. êsse Pastor traria o nome profético de Josué (etimolôgicamente igual a Jesus). lugar-tenente de Javé. Miquéias. Destarte tem-se a im5ressão de tocar com as próprias mãos.20. Quanto mais alguém penetra no seu Interior.16s: "Que o Senhor. ob. para o qual tôda a história antiga convergia. pois. é interessante notar que." É a Closw.3. 31. tanto mais ricas são as pedras preciosas que lhe aparecem. e com mais significado ainda.. tais foram Abraão e seu sobrinho Lote (cf. mas o Messias.) 15 Ótima reflexão sôbre o tema da videira ocorre na obra de G. ficar alheia à vida e aos escritos da nação israelita. os justos portadores da bênção de Deus. .11). Gén 4. Os vocábulos da Escritura não são pobres nem vazios. 114: "A metáfora da videira e dos seus ramos constitui ótimo esp&ime da profundidade e da riqueza da Palavra de Deus que nos é oferecida pela Sagrada Escritura.1). apascentará suas ovelhas.. A vida decorrerá tranqüila... Cedo introduziu-se nos livros sagrados o pastor como símbolo de realidade religiosa. Deus instituiu um Pastor para Israel. 1 Sam 16. Com efeito. sim. 15 Foi esta a solução que a bondosa Sabedoria de Deus quis propor ao problema da fraqueza humana! 8. Wege itt dic Jieilige Sehrift (Eegensburg.. O TEMA DO PASTOR A figura do pastor gozava de particular estima e autoridade entre os povos do Oriente. acrescentava "Será firme. que com uma só palavra tudo diz. Núm 27. Não. depois de predizer que o Salvador nasceria em Belém de Judá (5. mediante a figura do Pastor que êstes designam não um guia provisório de Israel. tal foi o Legislador Moisés (cf. herdeiros das promessas e figuras do Messias. É]... Pois êle será grande até as extremidades da terra. Closen. são pastôres tal foi Abel (cf. E não há Que recear se esgote o tesouro. 1939). os Patriarcas Isaque e Jacó (cf.1). Êx 3.2). a fim de que o povo do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor O tema volta a ressoar. Em primeiro lugar.112 FAlIA ENTENDEU O ANTIGO TESTAMENTO tino. cit.2-7). Gên 13.. êles participam daquele privilégio de Deus." (5. nos escritos dos Profetas. Cf. nas quais sempre se pode cavar mais fundo.18). constitua sôbre a multidão um homem que. cuja economia muito dependia da indústria pastoril. como as palavras do homem. que devemos as considerações acima sôbre o tema da videira. tal foi o rei próspero Davi (cf. a pedido de Moisés. Não podia. Protegido pela fôrça do Senhor. por exemplo. desde remotas épocas. Gên 26.

Jesus moveu-se de compaixão com êles. porque estavam lànguidos e abatidos como ovelhas que não têm pastor. encontrando-a. prometendo que o próprio Deus se faria o Pastor de Israel "Pois que minhas ovelhas foram entregues à depredação e se tornaram prêsa de todos os animais selvagens. Jo 10. Mt 25.12s) refere o salário do Pastor.3-7 Jesus se apresentava de novo como o Bom Pastor. carrega-a sôbre os ombros e se rejubila considerando tnicamente a salvação da mesma. Éx 21. assim S. eu mesmo tomarei conta das minhas ovelhas. o juízo final é proposto por Jesus como a cena em que o Pastor há de separar ovelhas e bodes. Como um pastor passa em revista as ovelhas no dia em que se encontra entre as ovelhas dispersas. Congregá-las-ei dos diversos países. . investido em seus poderes pela entrega do título ou do báculo de pastor. 1-6 e Is 40. se declarou o Bom Pastor (note-se a ênfase do adjetivo).lOs.. quê não hesita em dar a morte por suas ovelhas. visando principalmente seus interêsses pessoais (cf. 10. Por fim.) Esta profecia tem seus paralelos eloqüentes em Jer 23.9s) observa que se cumpriu tal oráculo quando o Senhor Jesus foi vendido aos fariseus a trôco de trinta dinheiros (cf. e ainda hoje seja. Javé censura quais pastôres hifiéis os que governavam o povo eleito. Vêm a propósito as palavras de Jesus em Mt 9." (34.. Ora o Evangelista S. qual imediato Vigário do Senhor no mundo. ouvi a palavra do Senhor.. por falta de pastor. o exemplar do Pastor. apascenta minhas ovelhas. dando remate às etapas do tema.15-17.36. 12-14. da maneira mais coerente possível.. atribuindo a cada qual o respectivo destino (cf.) . Eis-me. enquanto os falsos guias fogem.1-18). ou seja. quantia equivalente ao preço de um escravo (cf. na plenitude dos tempos o Messias. eu as apascentarei em ricos pastas e elas repousarão em bom aprisco. assim passarei em revista minhas ovelhas. Mateus (27. Nesta linha de idéias. as quais fazem eco ao texto de Núm acima citado: "Contemplando essa multidão de homens.15).32). vindo ao mundo. que carinhosamente se põe ao encalce da ovelha desgarrada.. entende-se que o representante de Cristo na terra tenha sido. Em Lc 15." Conseqüentemente. Outro traço digno de nota: o Profeta Zacarias (11.. Mt 26." (Jo 21.31-46). pois que meus pastôres não se ocupam delas.AS LINHAS MESTRAS DA SAGRADA ESCRITURA 113 Em Ezequiel 34.. o preço pelo qual haveria de ser avaliada a sua obra ou missão: trinta moedas de prata. Pedro. ouviu o mandamento de Jesus: "Apascenta meus cordeiros. realizou em si. apascentam-se a si mesmos e não apascentam as minhas ovelhas..

114 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A figura de Cristo Bom Pastor ocorre também nas epístolas dos Apóstolos (cf. * * * Ainda outros fios condutores se poderiam indicar. o tema do "dia do Senhor" ou das visitas de Deus (visíveis e invisíveis). pedido de misericórdia em hora angustiosa. mais do qõe o valor que o Espírito Santo mesmo lhes quis atribuir: valor de meros veículos ou sustentáculos do Divino. cântico de confiança. 5. esta série de textos forma um conjunto dos mais significativos da Santa Bíblia. procure ler os livros mais antigos da Bíblia à luz das Escrituras posteriores e da Revelação cristã. Consciente disto. que o cristão não dê aos elementos humanos que a Bíblia apresenta. assim julgará cada texto dentro da sua perspectiva própria. do vinho. o tema do paraíso ou da terra prometida.25. 1 Pdr 2. do óleo. Não há dúvida. as quais sempre foram caras tradição cristã: o salmo 22. é preciso. Contudo.20) e no Apocalipse de S. sim. dentro do grande plano que Deus concebeu a respeito dêste mundo. e o salmo 79. Nos salmos 94 e 99 o povo de Deus. etc. o que acima foi exposto já abre o ôlho do leitor para o autêntico objeto das Escrituras Sagradas.1-4. Hebr 13. qual santa grei. prorrompe em aclamações adoração ao Pastor Divino.17). e com deleite sorverá a Verdade na sua fonte divina! . Tais seriam o tema dos sacramentos (da água. que perpassam tôda a Escritura paralelamente à idéia central do Messias e elucidam um ou outro aspecto dêste. do trigo). A Escritura Sagrada nos quis ensinai duas belas preces ao Bom Pastor. João (7.

a fim de ter prole. veja-se a pág. Gên 16.10. aliás. os "escândalos" da moralidade do Antigo Testamento.20). * * * Três afirmações cada vez mais precisas nos possibilitarão proferir um juízo sôbre as narrativas "pouco edificantes" da história sagrada. O filho assim gerado. mesmo os mais chegados a Deus. eram dotados de mentalidade primitiva e. condena: os homens da Antiga Lei. VIII). se acham. sinal de bênção (ef. porém. Antes do mais. satisfaz ao Patriarca. crueldade para com os adversários. A respeito dêste episódio.25). à primeira vista. Gên 16.CApíTuLo VII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) O HERDEIRO EM IDADE INFANTE Os dois capítulos anteriores procuravam mostrar a história do Antigo Testamento como paulatina ascensão do homem rude a um grau de religiosidade mais pura e perfeita. poligamia. Ésses males morais desnorteiam particularmente o leitor moderno pela circunstância de que nem a consciência parecia repreender os israelitas que assim procediam. Em outras palavras: 1 Haja vista apenas o caso de Abraão. 17.mentira. nem o próprio Deus os censurava ou coibia. Deus mesmo promete que a Ismael dará uma posteridade inumerável. fraude.. Sara quem estimula Abraão a tal feito (ef. dada a esterilidade de sua espõsa Sara. que ora se impõem à nossa consideração. 98. . que projetarão luz sôbre aspectos particulares da moralidade veterotestamentária (cap. de princípio a fim.. de acôrdo com ela. Proporemos abaixo alguns princípios de caráter geral (cap. se une tranqüulamente à escrava Agar. Ismael. São êsses fenômenos estranhos ou. concubinato. no estudo do problema é preciso se atenda ao seguinte Nem tudo que o Antigo Testamento narra é proposto ou insinuado como norma de conduta para o leitor. que. Nessa ascensão. praticavam o que hoje diríamos "escândalos morais" . como esperaríamos nós. É. 1. se quisermos. disseminados episódios que a consciência cristã. VII).

penitente.25-30). Poderia até haver certo grau de farisaísmo ou hipocrisia naqueles que se admirassem por encontrar falhas no próximo. não escapa à perspectiva dos autores sagrados. enganado por seu tio Labã (ci.116 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO nem todos os heróis de um livro inspirado por Deus são inspirados em cada um dos seus atos. O mesmo se diga da inveja de Saul contra Davi (ci. 4 Excetua-se apenas a Bem-aventurada virgem Maria. 2 5am 13. . certamente isto não é edificante. Também Saul se penitenciou quando objurgado por Samuel (ef.42-45). deva por si causar surprêsa. Gên 27. 27. Jacó também é castigado. 37.24s). 1 5am 19. o fato de que a criatura peque e depois. censura Jacó (ci. Algo de semelhante fêz o sacerdote Heli (cf. reconheceu a culpa (ci.28-30. além disto. não raro.1-22). Ora que significa o fato de que. porém. 2 ora é o modo de narrar mesmo do hagiógrafo que dá a entender tratar-se de um ato mau à luz da própria moralidade do Antigo Testamento. quedas. vem o caso de Davi. 27. pois deve mandar partir o filho predileto para a Mesopotãmla (ci. e não bênção (ci. 32.11-14). 29. Baque. o autor sagrado dá mais de uma vez a entender que se trata de um feito condenável: Rebeca e Jacó reconhecem que. Verifica-se que os opúsculos históricos da Bíblia por vêzes referem os feitos iníquos. 8 O incesto de Amnon com sua irmã Tamar é nitidamente relatado como ato pecaminoso (ci. por sua vez. após os quais teme a vingança de seu irmão Esaú (ci. que déle conseguem separar o filho bem-amado José (ci. que. Rebeca é punidá. 1 5am 15. atrairá maldição.10-13). ora é o Senhor que censura os feitos pecaminosos. se o artificio fôr descoberto prematuramente. não sàmente não espanta. nem mesmo os Santos nasceram tais. mas é autêntico motivo 2 Como exemplo. porque tem que passar longos anos no exilio. através de muitas lutas e. sem os julgar. após duplo crime repreendido pelo profeta Natã. Ao narrar o proceder fraudulento de Jacô.12s). e de pecados reconhecidos como tais? que o homem peque. há narrativas de pecados. 2 5am 12. 1 Sam 3. 1 mas se tornaram santos por graça de Deus. o próprio Jacó é. Ora esta tragédia comum a todo homem.35). Por vêzes. ao perceber a fraude. que usurpou a bênção reservada a seu Irmão Esaú. dadas as circunstâncias habituais em que se desenvolve uma vida humana. na Sagrada Escritura. ela tinha que ser envolvida dentro do "temário" da Biblia e tomar-se um dos assuntos do colóquio de Deus com o homem através das páginas sagradas. Todavia não é algo que. acrescentam às narrativas uma nota condenatória dõ mal: ora são os próprios personagens bíblicos que se penitenciam por ter agido erradamente. 29. mesmo aos justos. reconheça a culpa.18). já que ela constitui o fundo real da vida humana.25-36).25) e por seus filhos.

entre o Prevaricador e o Restaurador. que a tenha apagado (pela penitência). Rom 5. o fato de que "onde o pecado abundara. como os autores bíblicos (ou." Apologia David ad Theodosium Augustum. Hebr 5. o rei não hesitou em realizã-lo abertamente. é obra da natureza. não nos surpreende que Deus.coisa que costumam fazer os reis. e sua antítese.11-14): "Davi pecou . Confessou a culpa. a reduziria a um livro de pedagogia infantil ou. Estas observações.6. em certo grau. Em outros têrmos: os "escândalos" narrados no An5. não pode deixar de narrar as manifestações de miséria espiritual do homem decaído. é que se realça a correlativa generosidade do Criador.6-16). Que tenha caldo em falta. superabundante foi a graça" (ef. Além disto. prostrado por terra deplorou a desgraça.coisa que não costumam fazer os reis. . há na Bíblia também alimento sólido. ou seja. pergunta-se: embora no homem o pecado não seja para admirar. como se diz. A história bíblica foi redigida não apenas para evocar casos morais êdificantes. Aquilo que os simples cidadãos se envergonham de fazer. o ideal de uma vida virtuosa inclui a penitência. embora todos. além de nutrimento infantil. 5 pois a penitência é coisa que nem todos praticain. Se. orou.12-14. o Espírito Sano). histórias que diretamente induzam à virtude.. o segundo Adão. estas constituem o fundo ao qual se sobrepôs a misericórdia do Salvador.14). mas submeteut. Ef 4. tenha proposto a figura de homens penitentes. por que é que a Bíblia o descreve? Encontra-se repetidamente a narrativa de feitos iníquos nas páginas que.se ã penitência. pediu indulgência. histórias edificantes. E como se hão de desvendar essas verdades dogmáticas transmitidas pelas histórias "não edificantes" da Sagrada Escritura? Tenha-se em mente que a história sagrada é a história do gênero humano colocado entre a queda original e o respectivo reerguimento.. a um alimento para crianças (leite). 2. sejam pecadores. gemeu . Ambrósio (t 397) notava a respeito da penitência de Davi (2 San 12. sem silenciar o pecado que prèviamente cometeram. entre o primeiro Adão. dir-se-á: a dificuldade é formulada a partir de um pressuposto assaz deficiente.. que manifestam a sublime Sabedoria divina ao homem capazde a apreender (cf. chorou. conforme o Apóstolo (1 Cor 3. profundas verdades dogmáticas.. porém. pois sabemos que as histórias de penitência edificante nao sao as mais freqüentes nem as mais características do Antigo Testamento. sômente se se mostra com clareza a depressão moral a que chegou o gênero humano após o primeiro pecado.20).A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 117 de edificação. jejuou. descreve a história sob êsse ponto de vista. quem assim pensasse.1-3. Contudo. 1 Cor 2. em última análise. Ora quem. pois. não bastam para resolver todo o problema. é obra da virtude (sobreaatural) . no livro sagrado. 2. ou seja. visam por excelência a santificação dos leitores 1 Será possível crer no valor de tais Escrituras? Em resposta. infiel.

numa espécie de adultério (ef. cf. Gên 16. pois. de fato.. Ora são êsses varões (Abraã Davi . 6 7 tecostes S." É.8) Davi foi um guerreiro não raro cruel. compadecendo-Vos e perdoando. manifestais a vossa onipoténcia. deixam aberta ainda uma questão: por vêzes no Antigo Testamento os homens cometem atos ao nosso critério pecaminosos. sem que a consciência os pareça incriminar. quando não encontram correspondência. antes de tudo. antes de tudo. então também êles lhe falarão de algo de muito sublime.0 domingo depois de Pen- Deus. diz tranqüilamente que sua espõsa Sara é sua irmã. de moda contingente? Para dissipar esta dificuldade. passe além da aparência superficial.1-3). à luz de Deus mesmo. . a condescendência e a imensa caridade do Salvador. tendem a arrefecer e se extinguir. Tem concubinas até o fim da vida. para que se ponha em relêvo a figura grandiosa do segundo Adão. conforme os teólogos. Que santidade é essa? Não estaria assim insinuado que o que hoje se tacha de pecado.. com os episódios de "barbárie" das Escrituras antigas.. a fim de que o Faraó. E.118 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO tigo Testamento não nos incutem a miséria dos filhos de Adão apenas para se descrever a história. 2 Sam 7. que se dignou dar remédio a tanta vileza da criatura. mas. lhe evocarão o Deus invencível em bondade. não simplesmente do ponto de vista dos homens do século XX. em última anáiise.. A bondade e o amor das criaturas. antigamente podia ser até virtude? Não se poderia inferir da Bíblia que o bem e o mal moral são questão de oportunidade.. ) que a Bíblia apresenta como justos ou heróis do Antigo Testamento. diz o Génesis que "morreu em feliz velhice" (Gên 25.. para verificarmos (talvez com curiosidade mórbida) o que se deu. em Tit 3. 8 Assim Abraão.4. 8 nem Deus é dito repreender tais ações. Estas considerações. não venha a matar o marido Abraão (cf. Paulo fala da philanthropia de Deus. é preciso de novo consideremos o problema dentro de quadro muito vasto. que houve por bem acudir a tais homens. não se deixe o leitor prender ao aspecto repugnante que êles podem ter em comum com as narrativas de panfletos modernos. O mesmo Patriarca se une à sua serva Agar. pois.. e olhe "para dentro dêsses acontecimentos" com o olhar de Deus. Gên 12. a sua ilimitada Perfeição.10-20). Note-se a oração do Missal Romano no 10. é. cobiçando a bela Sara. nos atos de compadecer-se da contínua fraqueza humana e perdoar. 6 Ao se defrontar. ao eriuigrar para o Egito. O É essa relatividade da moral que professa a moderna "Ética da situação" ou o "Existencialismo ético". perdoando um sem-número de vêzes ao pecador sinceramente arrependido que Deus manifesta sua inesgotável ou infinita Bondade. por muito significativas que possam ser. sim. 3. por mais intensos que sejam. teve igualmente seu harém. prometeu tornar inabalável o seu trono até que de sua linhagem nascesse o Messias. Deus desde cedo o abençoou.8-16. apesar de tudo. Não obstante. que Deus por excelência revela a sua Onipotência.

de resto. porém. Haja vista a criança: a sua consciência é assaz rudimentar. lhe indicam como tal. e não plantar árvores adultas. Histoire d'Abraham (Paris. à obra de. a qual através dos séculos se foi tornando mais apurada. uma consciência moral ainda embrionária. Deus lhes poderia ter revelado imediatamente tudo que a lei natural hoje nos incute. . se verifica igualmente na ordem moral. Conseqüentemente também os membros do povo de Deus. Deus quis que se desse com o gênero humano inteiro algo de semelhante ao que se verifica com tôda criança: nos. E dois seriam. possuíam. evita o mal". O pequenino conhece. também a Revelação divina os ajudaria a perceber a via para atingirem a perfeição (a Revelação era absolutamente necessária. sim. poucos deveres. Percebiam bem que é preciso absolutamente "fazer o bem e evitar o mal". obedecer a tudo que vissem ser da Vontadedé Deus.A MORALIDADE DO ANflGO TESTAMENTO (1) 119 Qual será. os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida. De outro lado. Só aos poucos é que o adolescente vai percebendo as conseqüências concretas do princípio "Faze o bem. mas a maioria das aplicações concretas dêste princípio escapavam à sua percepção. sem dúvida. atingem a estatura definitiva. a reflexão. o mal será primàriamente desobedecer a. Não há dúvida. minuciosa.. evita o mal". AS idéias desenvolvidas neste itern 3 se devem. Pois bem. pois. indica. que o Criador se dignou tornar portadores da verdadeira fé. energias e qualidades. conforme o plano divino. quanto ao fundo. 10 Ora o que se dá na ordem física. evita o mal". vem a ser primàriamente o que os mais velhos. suposta a elevação do homem a um fim sobrenatural. de geração em geração.. lo O Criador se poderia comparar a um agricultor que costuma lançar sementes na terra. um preceito fundamental: "Faze o bem. R. primórdios da história. Todavia em que consiste exatamente o bem a praticar e o mal a evitar. um lento desabrochar que. nêles contidas só aos poucos se desdobram. através de um desabrochar mais ou menos lento. êstes. êsse autêntico modo de ver? Quem observa as obras de Deus.. verifica que o Criador costuma dar existência a cada ser mediante um processo de desenvolvimento paulatino: na natureza os corpos vivos se originam em estado embrionário e. no que diz respeito à consciência humana.' a compreender melhor as exigências do princípio "Faze o bem. os fatôres que haviam de fomentar ésse desabrochar: de um lado. apesar da sua sublime vocação. Maritain. êle não o sabe dizer com muita clareza. assim o bem. carregadas de frutos. para êle. a qual levaria os homens. e poucas restrições impõe. 1947). poucas são as conclusões práticas que êle deduz daquele mandamento básico. preferiu. mais condizia com a maneira como o Senhor criou e rege o mundo.

tomando o israelita como era. Assim fazia que o povo se fôsse elevando espiritualmente. Tendo-as percebido. serve-se delas para insinuar aspectos da verdade. Mais precisamente: a história do povo de Deus. em parte. se desembaraçassem lentamente de tradições pouco exatas. aperfeiçoou-os gradativamente a fim de levar o povo a poder receber a Revelação cristã. recebera como herança de seus antepassados muitas tradições e costumes inspirados por mentalidade rude e supersticiosa. preferiu ir contemporizando. houve por bem escolher Abraão e sua posteridade para constituírem o povo messiânico. crescessem por ação da Providência Divina e de revelações especiais. que significa a plenitude ou a consumação do processo. começa com a. Não há dúvida. o Patriarca de Ur da Caldéia para a terra de Canaã. como a tinham os homens do Antigo Testamento. pois. desejando preservar a verdadeira fé e a esperança messiânica no mundo idólatra. 343.120 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fim que ultrapassa as exigências da natureza). Começou (o seu ensinamento) utilizando os conceitos que Israel possuia. Deus permitiu que a Teologia e a Moral do Antigo Testamento se desenvolvessem aos poucos. onde se estabeleceu a nação abraamítica ou israelita. tal preghdor. Ora na Biblia o Espirito santo é tal mestre. é muito importante frizar que uma consciência moral ora mais. eliminou em térmos severos o que era estritamente politeísta. . É claro que essa gente. quanto às outras observâncias. em grande parte por causa das conseqüências do pecado original que obscureciam a inteligência e debilitavan a vontade do homem. elevá-lo. Deus. Deus serviu-se das concepções de Israel como de um ponto de partida. em Tire Catholic Biblical Qztarterly. dotados de consciência primitiva. observando que o Pedagogo Divino não quis apagar O cabedal de idéias religiosas que Israel possuia por ocasião da Aliança no Sinal. embora fôssem pouco exatas. e elevada santidade." (30 15. dêstes dois "catalizadores". coma Eu vos amei. às práticas antigas não politeístas. a consciência do povo de Deus foi percorrendo o longo caminho pie vai da moralidade simples dos Patriarcas do Antigo Testamento à lei de Cristo no Evangelho . ora menos embrionária. Não quis romper os laços do povo com o seu passado. 17 (1955). ou seja.a caridade. o Criador havia de poil-lo. Sob a influência. mas o Legislador não quis cortar bruscamente tôdas essas tradições (isto seria antipedagógico). permitiu. chamou." O autor prossegue. esforça-se por descobrir as idéias estranhas e tôlas que êste possui. vocação de Abraão. pois. pois. sem intervir por meio de milagres. o Mestre divino apenas quis insuflar novo espírito. não é incompatível com santidade.. J. até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho: "Êste é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros.. a história bíblica. oriunda de ambiente pagão.. Era com gente de tal nível cultural e moral que o Senhor havia de tratar continuamente. P. vem oportunamente ilustrar a doutrina: "Quando um professor quer influenciar a mente do seu discípulo.) 11 Dito isto.. C. de inteligência obscurecida e vontade Inclinada ao mal. à semelhança dos demais povos orientais.. Weisengoff. II A seguinte comparação. proposta por um autor moderno. comunicando nobres idéias e aspirações aos israelitas mediante as instituições herdadas dos antenatos caldeus. "Inerrancy of the Old Testament in rellgious Matters". enfim pela mentalidade que podiam ter os homens após o pecado de Adão.12.. êsse patrimônio primitivo de tradições e crenças. pois não estava à altura do culto do verdadeiro Deus. o percurso foi lento e árduo. que o povo vivesse.

acarretava. a inocência consiste em que o homem nada faça contra a sua consciência. morreram em santa paz com o senhor. A luz destas idéias. nada que lhe pareÇa contradizer à Vontade de Deus. 116s. não há dúvida. 12 Tal é. como dá a entender o texto bíblico. o primitivo ascendente (certos atos práticados no Antigo Testamento) e o primitivo decadente (os mesmos atos. desde que o indivíduo em nada contradiga à sua consciência. Também não vacilou. atingiu o pleno desenvolvimento.1-18).A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (1) 121 E como não é incompatível? Em qualquer época da história. numa palavra. êste "tudo".1-4). por conseguinte. mas não sempre foi percebido como tal pelos homens. vemos que é preciso distinguir dois tipos de moralidade primitiva. Na medida em que a consciência não os repreendesse. é mais exigente. mas pelo ânimo interior com que se entregavam ao pouco ou muito que percebiam ser da Vontade de Deus (e êste ânimo interior ainda hoje é digno de ser imitado por qualquer cristão: assim a fé de Abraão. Há. Gên 12. quando por debilidade da natureza as violaram. Gén 22. a do homem nos primórdios da história. já que a consciência iluminada por Cristo tem muito mais clara intuição do bem e do mal. não pelo aspecto exterior de sua vida (êste. se esforçavam por não transgredir as poucas normas que o Seu senso moral lhes incutia e. o que hoje é pecado contra a lei natural sempre foi hediondo aos olhos de Deus (o mal não depende de mera convenção humana). esfôrço notável para êles. Tais varões. fazendo-o. o fervor da oração de Davi.). muito tenham agradado a Deus. não deixavam de nutrir prontidão absoluta para cumprir o que Deus lhes pedisse. entre outros. já que a sua consciência moral só aos poucos. não atrai a consciência cristã). foram certa vez incrédulos (cf. à qual Deus o chamava (cf. podiam seguir seus costumes primitivos. era pouco em comparação com o padrão moral que hoje nos é proposto. é compatível com elevada santidade. o caso de Davi. 12 Tais homens davam a Deus tudo. caso sejam reproduzidos por quem de algum modo conheceu a Cristo). Ao passo que outrora a imperfeição da moralidade provinha do estado infantil da consciência humana. . Outra é a moralidade imperfeita do homem que teve conhecimento do Evangelho: para êste individuo. ela hoje proviria de decrepitude ou degenerescência culpável. disto se arrependeram sinceramente. 13 Ora era esta incondicional adesão ao Senhor que os tornava justos. que não hesitou em deixar sua terra e sua parentela para ir a região desconhecida. imperfeita: uma. o zêlo de Elias pela causa de Javé. são modelos de santidade. seria ilicito. etc. 13 Note-se o caso de Abraão. Não há dúvida. por vêzes. Núm 215-12) não obstante. porém. mencionado à pág. Ora os grandes vultos da história sagrada. que sabiam dever dar-Lhe. quando o Senhor lhe pediu oferecesse seu filho em sacrifício (e!. Tal é também o de Moisés e Aarão: embora por seu zêlo religioso. através de séculos. repetir o que era praticado pelos justos do Antigo Testamento.

pois "servir a Deus. Ora está claro que um pai tem. a fim de que se mantenha à altura do seu destino sobrenatural. em lugar da lei e do espírito de temor. exigências muito mais íntimas e delicadas que as do patrão em relação ao servo. que precederam a vinda de Cristo. Noblesse exige. é reinar" O significado destas considerações se patenteará ainda meilior no capítulo seguinte.122 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em conclusão: Deus houve por bem fazer do homem seu filho. por conseguinte. 14 CL Missal Romano. chamando-o ao consórcio íntimo da vida e da felicidade divinas. a consciência lhe pede mais do que pedia outrora. em vez de o deixar na qualidade de servq. Feliz todo aquêle que se sujeita a tais imperativos. em relação ao filho. quis dar-lhe o espírito de amor. que analisará alguns pontos particulares da moralidade do Antigo Testamento. foi dignificado. 'Posteomunhão da Missa Pela Paz". o que quer dizer: o homem se aperfeiçoou. servir à lei de Cristo. .

contusão por contusão. Há. e justiça perfeita. mitigar o rigor da pena a ser imposta. por conseguinte. da máquina.CA1'i'ruLo VIII A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) OS DESMANDOS DA CRIANÇA Não se chegaria a satisfatório entendimento do Antigo Testamento se não se considerassem de per si os principais temas de "escândalo" moral que êle apresenta. É o que se fará no presente capítulo. pé por pé. Trechos semelhantes ocorrem em Lev 24. A lei do talião muito aproxima o homem do autômato. embora pareça por excelência garantir a justiça. Todavia esta forma de reparação.12-14. o efeito que todo processo judiciário tem em vista: restabelecer o mais exatamente possível a ordem violada. 1 •que assim se formulava "Darás vida por vida. incutindo um desagravo equivalente ao agravo. É êste. porém.21. a lei do taliâo não leva em conta as cir•cuhstâncias particulares de cada delito. . § 1. tal. com efeito. t 21. não raro pode ferir a eqüidade. É esta a famosa lei do talião." 2 Tal norma inegàvelmente visava instaurar justiça. circunstâncias capazes de atenuar a culpabilidade do delinqUente e.23-25. é substantivo latino derivado do adjetivo tahs. mão por mão. Dt 19. aliás. não dando suficiente aten• Lx 21. ôlho por ôlho. tallonis. maneiras diversas de executar êste princípio: o modo mais simples consiste. ferimento por ferimento. sem dúvida.° A LEI DO TALIÃO Como se sabe. dente por dente. queimadura por queimadura. em exigir do culpado o mesmo objeto materialmente entendido. 1 2 Talio. o código legislativo de Moisés mandava que o dano causado ao próximo fôsse reparado pela imposição de semeiliante prejuízo ao delinquente.11-21.

a natureza espiritual e material do homem exige que as sanções infligidas a êste não sejam de ordem meramente material.) "Morte ao filho do arquiteto. que deve ser julgado primàriamente conforme a sua consciência. 2633 "Morte ao arquiteto de uma casa que desmorone sôbre o proprietário. a menos que haja (outro) entendimento. considere-se que tal maneira de punir era de uso mais ou menos geral entre os povos do antigo Oriente.) "Boi por boi.) "Membro quebrado por membro quebrado. para indivíduos rudes. . Pois bem." (Axt. que são coisa f amiliar ao homem culto. E por que eram tão comuns êsses princípios ? A sua difusão se explica por corresponderem bem ao grau de civilização primitiva do homem antigo. eram aptos a reprimir pretensões exageradas da pessoa que tendesse a explorar a sua situação de vítima. Ademais." (Art." 3 Eis. 200. caso nisto consentisse a vítima. impunham fàcilmente temor. o Senhor se dignou respeitar a por exemplo. carneiro por carneiro. Já antes de receberem a lei teocrática. em meio a nações para quem tal praxe era de todo normal. não se explicaria uso tão generalizado). assim como no Direito Romano. pergunta-se: como pôde a lei do talião entrar no código legislativo do povo de Deus? Antes do mais. art. .C. Com o progresso. 230. Se assim é. 229. era freio mais eficaz do que motivos de ordem moral." (Art.Sofra o talião aquêle que tiver fraturado um membro (alheio). 197. da cultura. lii cum eo pactt. o que.C. Simplificavam a aplicação da justiça.). mas incluam também uma pena de índole moral. Além disto. bem anterior à Lei mosaica (1240 a. os filhos de Israel praticavam o talião.124 PARA ENTENDER O AN'rrno TESTAMENTO ção à dignidade espiritual do réu. prescrevia: "Olho vazado por ôlho vazado. pena que afete o homem diretamente na sua qualidade de ser inteligente. "Si membrum rupit. ao promulgar a Magna Carta de Israel. Assim o código babilônico dito do rei Hamurapi (depois de 1700 a." (Cf. os antigos pagãos foram percebendo o grau imperfeito da retribuição pelo talião. 196. dispensando de muitas ponderações. de 559). se a casa cai sôbre o filho do proprietário. como reza a Lei Romana das XII Tábuas: talio esto.) "Dente espedaçado por dente espedaçado.1 Normas análogas encontram-se na legislação de Atenas promulgada por Solon (f ca. admitiam que o criminoso págasse indenização monetária. Por êstes títulos se vê que o talião era oportuno entre os povos primitivos (se não o fôsse realmente." (Art. Ora a todo êste processo de evolução o próprio Deus se quis acomodar na educação do seu povo. art. Conseqüentemente. Além do mais.). porém. mostrando de antemão a pena do delinqüente." (Cf.

entre os judeus próximos à era cristã.8.24. de modo geral. IV." (Ci. na guerra.7. Ci.5. 1 da nossa era "Aquéle que mutilar o próximo padecerá pena idêntica. tendem a refrear as paixões do indivíduo e torná-lo cada vez mais semelhante ao Exemplar Divino. e autoriza-a a proceder assim. sim. que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária. Mt 7. inteligíveis aos homens do Antigo Testamento.1. 4 Por fim. Com a prática do talião estão estreitarnente ligados dois outros usos: o herém (extermínio dos inimigos) e as imprecações. aboliu de todo a prática. 21-25). Mt 5. 1. obterá misericórdia. Mt 5. mesmo de mulheres e crianças. hão de ser avaliadas segundo o grau de responsabilidade moral do delinqUente. 5 Não teriam sido. os historiadores extrabíblicos referem que. o talião podia ser substituído pela indenização pecuniária. porém. fôssem apenas despojados de seus bens e reduzidos à escravidão! Tal praxe era chamada o herém ( anátema). por exemplo. a honra dos seus deuses estava em jôgo. porém. o tratado rabinico Mishna. rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento. Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo "Quem pratica a misericórdia. cada qual será julgado conforme tiver êle mesmo julgado. Com efeito. Dado. ao povo vencedor reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos. É muito importante notar que o herém se baseava não sàmente num grau de cultura pouco evoluída. a lei lhe reconhece o pleno direito de avaliar a perda sofrida. haveria de reformá-la. caso tema cometer alguma crueldade. Estas. ." (Ant.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 125 tradição da sua gente.3842. aconselhando mesmo aos discípulos perdoassem gratuitamente a quem os ofendesse (cf. Le 6. assim como a vitória significaria triunfo da Divindade. mas também numa ideologia religiosa para nós estranha: cada povo julgava que. porém.37s.) "Quem não julga. ximo. uma derrota militar seria escárnio para os deuses da nação vencida.. § 2.. Babha Quamma 17111.1s.. Mc 4. não.. felizes se poderiam considerar aquêles que. mas aos poucos. não Unicamente segundo o dano material que o réu haja produzido.0 O EXTERMINJO DOS INIMIGOS Muito menos polido que hoje era outrora o direito de guerra. No Oriente. visando o homem como imagem de Deus. derrotados na guerra.35). sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo. 5 As palavras de Jesus acima citadas de modo nenhum implicam que a justiça cristã não seja lícito aplicar penas aos réus comprovados. aos deuses do vencedor julgavam que deviam ser religiosamente imo4 É o que atesta. : Eis normas que. o Messias. o historiador judeu flãvio José no séc. Por conseguinte." (Cf.) . será julgado. a cada um será aplicada a medida que êle tiver aplicado ao pró-.

A mesma raiz semita deu a palavra liarim. Havia igualmente um lierém de maldição ou anátema: certa pessoa o coisa. 7 Annales." 7 Ora tal praxe. familiar aos antigos. por conseguinte.-M.C. pois eu os devotara ao anátema em honra de Astar-Camos. Podia haver um herém de santidade. toma Nebo combatendo contra Israel. Lev 27. por um ato de extermínio total. tomei-o. viri.14. Todavia. era tão comum que não sõmente os semitas. os haveres. Entre numerosissimos objetos de bronze excavados nas turfeiras da finamarca não se encontrou um só intato. os cavalos precipitados em desfiladeiros. voto êste em virtude do qual são entregues ao extermínio cavalos. subtraído ao uso profano. reservado para Deus. as famílias. quebrando contra as muralhas vasos de diversos tipos. aliás. possuía a verdadeira fé. Descobriu-se mesmo uma inscrição de Mesa. o herém se tornava particularmente necessário e imperioso: ôste povo. e êle só. o ouro e a prata lançados ao rio.G. abominável aos olhos de Deus. Os gauleses queimavam a présa ou atiravam-na nos lagos.. referente á batalha que Me travou vitoriosamente contra Joram.Os vencedores devotaram a Marte e Mercúrio o acampamento inimigo.13).28s. para os hebreus.. matando os animais. interditado" ou. determinado objeto era entao oferecido ao serviço de Deus por uma consagração irrevogãvel (cf. as cidades. era de sumo interêsse na história sagrada que Israel não corrompesse a sua religião.126 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO lados. inutilizaram tóda a prêsa capturada: as vestes dos inimigos foram rasgadas e atiradas ao vento. em suma aniquilando os despojos consideráveis de que se haviam apropriado em Módena. depois de insigne vitória sóbre o cônsul romano Manilio. não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus dentre O Herem.4-27: ". 8 A própria sagrada Escritura dá testemunho de quanto ésse uso era frequente entre os pagãos (ef. para um dia transmiti-la ao mundo. em Revue biblique. Is 37. Orósio. rei de Israel (852-846 a.16). 13. o harém dos orientais.E Gamos me disse: 'Vai. Os ligúrios fizeram algo de semelhante em 176 a. 323s.57. era destruida em afirmação da santidade e da justiça de Deus.. Miq 4. 6 o uso. batalha mencionada em 4 Es 3. em sua acepção original semítica. a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida. esquartejando os prisioneiros. . nenhuma arma que não tivesse sido quebrada.. . homens e tudo que pertence aos vencidos. a fim de manter incontaminada a crença de Israel. do povo vencido. 4 Es 14. 8 foi também respeitada •por Deus nas suas relações com Israel. Esta imolação não era um sacrifício prôpriamente dito. matei tudo: sete mil hômens e crianças e mulheres e donzelas e servas.11. 57 (1950). Abel "L'anathême de Jéricho et la maison de Eahab". 2 Crõn 32. o equipamento dos homens destruido em mil pedaços (cf. rei de Moab.. mas até os germanos o praticavam. e apreendi os objetos de Javé e os levei à presença de Camos. Eis mais alguns exemplos de prática do herém fora de Israel: Os cimbrios e os teutônios. na linguagem religiosa. quo voto equi. Deve-se mesmo dizer que.' Fui-me de noite e combati contra éle desde o despontar da aurora até o meio-dia. II istoriarum liber 5.11). segundo o testemunho de Tácito: "Vic'torts ctiversam acieni Marti cxc Mercurio sacravere. cuneta victa occisioni dantur. pois não consistia no oferecimento de algo de agradável a Deus. podendo servir ulteriormente. os homens." Noticias colhidas no artigo de F. apartamento secreto das mulheres. significa algo de "separado.).

Entregarás êsses povos ao anátema: os heteus. embora tivesse de Deus e da religião conceitos muito superiores aos de seus contemporâneos. 10 Muito á propósito vêm as observações de A. 10 Apoiando-se nestas idéias. a e*periência mais de uma vez comprovou que.Satanás. U (Paris. Dentro da ideologia do Antigo Testamento. inversamente. como o Senhor teu Deus te mandou.1s.. 9 Assim os madianitas induziram Israel à luxúria e à idolatria durante a travessia do deserto (cf. cf. podia-se com tôda a razão dizer que o reino das trevas triunfava sôbre o reino da luz cada vez que Israel sucumbia na guerra. no paganismo cananeu o mais grave perigo ao qual estava exposta esta salvação. Procuremos explicitar melhor o que a concepção acima exposta acarretava para os homens do Antigo Testamento. não recuando diante da violência mesmo sangrenta. 563: "Moisés. nessas ocasioes o Príncipe dêste mundo parecia pôr em perigo a causa messiânica." .16-18. Deus.Jz 2. 7.23s. 1946). " Em conseqüência. não deixava de sofrer a Influência do ambiente. os triunfos dos pagãos seriam triunfos daquele que. na história. é o mentor da vida dos pagãos . de Abraáo ao verdadeiro Deus era.16) 'os cananeus não exterminados contaminaram freqüentemente o povo de Deus por ocasião da ocupação da Terra Santa (cf. Em outros têrmos: já que o Senhor decretara realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel. os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas. nelas não deixarás a vida a indivíduo nenhum que respire.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 127 os demais povos.. ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra. tal procedimento. La Saiste Bible. povo de Javé. não hesitava em recorrer às leis de guerra vigentes outrora e assim exterminar os cananeus e os outros habitantes da terra. tendo confiado a Moisés a chefia do seu povo. fazia que a sorte dêsse povo viesse a ser nada menos que a do reino de Deus em meio ao reino do êrro e do pecado. a fim de se precaverem danos religiosos (repita-se: a fidelidade dos filhos. 34-38 e o quadro da história dos Juizes em . os cananeus.10-19). a fim de conjurar o dito perigo." (M 20. Núm 25. Clamer. era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém e o sancionasse. os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do reino de Deus. a fim de que não vos ensSem a imitar tódas as abominações que êles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus. portanto.) 2. não sem razão. Já que êle via.2-4. permitia. fomenta a idolatria. que não podia ficar exposto a risco nenhum). em última análise. O fato de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo inteiramente idólatra. quando a sua obra de chefe do povo estivesse em jõgo ou desde que se tratasse de assegurar a salvação de Israel. Si 105. os heveus e os jebuseus. de sorte que em vários pontos êle seguia o modo de ver do seu tempo. os ferezeus. 31. eis como o legislador sagrado incutia o herém a Israel: "Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus te há de dar como herança. um valor insubstituível. os amorreus.

era de todo própriã (monoteísta).35. A consciência de que os feitos belicosos de Israel eram obra religiosa aparece claramente no livro de Ester: o conflito entre judeus e persas que êste opúsculo descreve. que as animava em Israel. entregando freqüentemente os israelitas à opressão dos inimigos no tempo dos Juizes (cf. se recusou a prestar homenagem (fazer genuflexão) a Amã. homenagem que tinha significado religioso. ao caminhar com a arca do Senhor e o povo pelo deserto. 13 Foi o que o senhor fêz rejeitando o rei Saul. "de volta a Siccleg. teu acampamento. e que os'vossos inimigos sejam dispersos! Fujam diante da vossa face aquêles que vos odeiam !" (Núm 10. seus amigos. o que LIe faz por causas segundas ou instrumentos e o que Êle apenas permite.40) 12 e. 2 5am 11. a fim de que Êle não encontre em ti algo de indigno e se afaste de ti. . Eis igualmente por que se afirmava. 11 Assim. PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO a salvação do gênero humano. O guerreiro era um homem santificado. deve ser santo. Por isto não costumavam distinguir entre o que Deus faz diretamente. consagrado ao serviço de Deus "O Senhor teu Deus caminha em meio do teu acampamento. Jz 1.meramente politica em aparência.16-30. porém. cf. cf. e de fato se libertou. Em conseqüência." 12 Os israelitas tinham uma concepção do universo e da história estritamente religiosa. Núm 31-19-24. se originou do fato de que Mardoqueu. segundo um modo de falar típico dos israelitas. porém. pág. Senhor. assim como uma linguàgem muito menos matizada ou filosófica. quDeus mesmo inculca o herém (e!.) Verdade é que outros povos antigos guardavam semelhantes normas de pureza na guerra. Ora foi dessa opressão . o povo eleito passou a ser perseguido. caso êste não fôsse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham. dizendo: "Eis um presente para vós.11. Jos 10. 13 O conceito de que as guerras de Israel eram ato religioso explica outrossim as prescrições de pureza impostas aos guerreiros hebreus: era excluído do acampamento militar todo homem que tivesse tido relações conjugais ou contraído imundície legal por ãcidente ou por toque de cadáveres. 11 que as suas guerras ieram "as guerras de Javé" (cf.21-33 e 2.6. a mentalidade. As observâncias podem ter sido comuns a muitas nações. 1 5am 21. no fundo.128.11-23). exclamava Moisés: "Levantai-vos. os hagiógrafos attibuem diretamente a Javê os têrmos com que os chefes Israelitas promulgavam a lei do herém segundo o costume vigente entre os antigos povos.14. Eis por quesos hebreus diziam que os inimigos de Israel eram os inimigos de Javé e vice-versa.42). primeiro ministro do rei da Pérsia. 120.16) ou que "Javé combatia em favor de Israel" (cf. puniria os próprios judeus. israelita. conforme 1 5am 15. portanto. proveniente da prêsa dos inimigos de Javé.) Conforme 1 5am 30. para te proteger e entregar diante de ti os teus inimigos.que a chama javista de Israel se procurou libertar. do que a nossa. Jos 10. em conseqüência disto.26. Éx 17. estritamente religiosa . de se aproveitar dos bens alheios). Davi enviou parte da prêsa (dos amalecitas) aos anclãos de Judá." (Dt 23.15.

A MORALIDADE DO ANTIGO TEStJCMENTO

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3. Ulterior obsertaão Cimpõe: embora a legislação de Is rael reconhecesse o herém, ela o abrandava assaz, em confronto do que faziam os outros povos. 14 Msim, tolerando o herém, mas um herém mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento. 15 Eis alguns testemunhos: o Deuteronômio muito insiste na humarlização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que, fia campanha dê conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não-cananéia, o povo eleito procure reduzir as seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversária obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças; 1 a mulher não-cananéia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como espôsa de um israelita, que a trataria com todo o carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (cf. Dt 21,10-14). Dois episódios da história sagrada, um do período dos Juizes (cf. Jz 21,13) e o outro do reinado de Davi (cf. 2 Sam 20,14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra
14 Os monumentos e os textos assirios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedãneos para os pés dos monarcas, etc. (ci. também Heródoto, IV, 150). Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram o ventre de mulheres israelitas grávidas (ci. Am 1,13; Os 14,1). O mesmo profeta descreve e condena as atrocidades praticadas em guerra pelos sinos, os filisteus, os tinos, os edomitas, os amonitas, os moabitas (Am 1,3-2,3). Eliseu prediz que os sinos hão de esmagar as cniancinhas e violar o ventre das mulheres grávidas de Israel (cf. 4 Rs 8,12). sabe-se outrcssim, por 4 Rs 25,7, que os babilônios estrangularam os filhos de Sedecias, rei de .Judá, ao passo que a éste Nabucodonosor mandou crivar os olhos, prender com duas correntes e deportar para a Babilônia (ci. Na 3,10). Semelhantes costumes bélicos vigentes entre os persas são atestados por Is 13,16-18. Os motivos que levavam os pagãos a praticar o herém provinham de urna religiosidade muito menos elevada que a israelita. Não raro pressupunham que os deuses se compraziam no exterminio dos homens como tal: Mesa, por exemplo, rei pagão de Moab, numa famosa inscniçáo (cf. nota 7 dêste capitulo), afirma que, após a conquista da cidade de Cariataim, fêz perecer tôda a população que ai se encontrava, a fim de oferecer um espetáculo agradável a Camós, deus de Moab (linhas lis). 15 Aliás, o simples fato de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis teocráticas, devia concorrer para coibir a eventual tendência dos chefes de Israel aos abusos, à violência irrefreada. 16 Ci. Dt 20,10-18. O modo de tratar as cidades cananéias seria outro, pois, estando localizadas na terra mesma que Israel devia habitar, a coexistência de cananeus pagãos com os israelitas fiéis oferecia grave perigo de contaminação pagã. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do herém ao vencer os cananeus, como inculca Dt 7,2-5; 20,15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel õ preceito do herém era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que êle fôra sancionado paS o povo hebreu.

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PARA ENTÊNDER O AlTIG0 TESTAMENTO

morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entraram èm acôrdo com inimigos não-cananeus. Houve também varões dopovo de Deus que espontâneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exempio: conforme 2 5am 8,2, Davi, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar apenas a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte ... ! É o que explica que, em 3 Rs 20,31, os sírios reconheçam a demência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Benhadad, vencido por Acab:
"Ouvimos que os reis da casa de Israel são reis dementes. Permite que nos revistamos de sacos sôbre os rins e cordas sôbre as cabeças, 17 e que vamos ter com o rei de Israel; talvez te poupe a vida."

4. Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do herém, por vêzes se deixavam levar não pelo zêlo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jeú: êste General foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a casa de Acab, rei iníquo seu antecessor (cf. 4 Rs 9,2-10); Jeú o fêz realmente, mas, embora intencionasse zelar pelos interêsses de Javé, cedeu a crueldade horrorosa (cf. 4 Rs 10,1-17) ... Ora o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oséias (cf. Os 1,4s). Êste episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.
Também Davi parece ter-se deixado arrastar a excessos no episódio relatado em 1 5am 27,8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca de Israel se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benévolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenara ao anátema (ci. 1 5am 15,3) ; os gessurianos e os gezrianos, que eram provàvelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquis e, temendo contrõle ou represálias da parte dêste, dizia-lhe ter feito expedições nas regiões do Negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e a seus aliados. Tais depredações procediam realmente de zélo religioso ? E a mentira subseqüente que as encobria, poderia ser justificada? De resto, a Sagrada Escritura fornece indicio de que os freqüentes derramamentos de sangue por Davi cometidos não sempte corresponderam ao plano divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o templo de Javé em Jerusalém, recebu do Senhor formal recusa, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o templo, santuário da paz, fôsse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (cf. 1 Crõn 22,8-10; 28,3).
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Indumentária de penitência

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• 5. Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia fôsse o herêm praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Dt 13,13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fratricida contra a tribo de Benjamim (Jz 20,1-48; 21,1-14). A medida, porém, que se ia elevando o nível cultural e.moral de Israel, abrandava-se a praxe do herém entre conacionais; assim na época de Esdras (séc. V/IV), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e a sua exclusão das assembléias do povo (Esdr 10,8). 6. Ainda outro elemento deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas •do Antigo Testamento: é a nzentalida4e do clã ou coletivista. Entre os antigos de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não sàmente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isto se explica, em grande parte, pelo gênerode vida nômade que levavam os primitivos. Com efeito, os nómades vivem da grei, dos rebanhos que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter gregário ou coletivista à vida do clã, fazendo que o indivíduo como ta desapareça na engrenagem do todo. Ademais na vida nômade é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vêzes na antiguidade que os fatôres da história não são "êste" e "aquêle indivíduo", mas "êste" e "aquêle clã". IS Ora êste modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeito, todo o grupo respectivo se julgava atingido; por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a coletividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os freqüentes choques de tribo contra tribo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também êsse o motivo por que muitas vêzes os filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por
18 Manifestações de tal mentalidade encontram-se não sõmente entre os semitas, mas também entre os gregos antigos: assim a totalidade dos troianos teve que pagar pelo malefício de Paris; creso expiou o morticínio cometido por Gigés, seu antepassado em quinto grau; Eurlpides declarou que "os deuses fazem redundar contra os descendentes os passos falsos dados pelos antenatos". A mesma lei da solidariedade, a mentalidade do clã, é vigente ainda hoj e em tribos orientais nómades. Cf. E. sellin, "Das sub jekt der altisraelitischen Religion", em Neue kirchlic/te Zeztschrift, 4 (1893), 444; J. De Fraine, "Individu et société dans la religion de l'Anclen Testament", em Biblíca, 33 (1952), 451s.

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PARA ENtÊÏ,tDERt Õ ANTIGO TESTAMENTO

um legislador condenados à maldil&' 'Nhistória'üagfada apíesenta disto um exemplo assaz significativo em 1 5am 15,1-3: Samuel manda a Saul e±tern'iiie os amalecitas - homens, mulheres, crianças - e todo o seu gado, porque em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia já mais de dois séculos, se tinham oposto à'passagem do povo de Deus (cf. Éx 17,8-13; Núm 14,45; Jz 3,13; 6,3); Moisés, em conseqüência, os tinha condenado a completo extermínio (cf. Dt 25,17-19; Núm 24,20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos! 20 Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também êsse modo de ver imperfeito. Acontecia no séc. VI que os judeus, punidos por guerras e deportações, se queixavam de que seus pais haviam comido uvas amargas e os dentes dos filhos sofriam em conseqüência (e!. Ez 18,2; Jer 31,29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipôcritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou expl'icitamente negar a veracidade do pressuposto: "Eis que têdas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha; a alma que pecar, essa morrerá."
(Ez 18,4; cf. Jer 31,30.)

Assim mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional...
§
3,0

AS IMPRECAÇÜES

Ocorrem no Antigo Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja o mal àqueles que o angustiam. São frases que, à primeira leitura, parecem aptas a ofender a consciência do cristão e pedem um esclarecimento exegético. Dentre essas fórmulas, não se negará que algumas sejam expressão da paixão desregrada; acham-se simplesmente citadas ou consignadas, como ditos alheios, pelo hagiógrafo, não, porém,
10 "Derramar o sangue de um membro da família é derramar o sangue do grupo, é atingir o corpo orgânico. Isto vale até em caso de suicídio e de abôrto; mas vale principalmente em caso de morticjnio... Tudo é comum: a injúria, o prejuizo, o dever e até o sangue; ainda em nosos tempos, em caso de homieldio, os árabes dizem: Nosso sangue foi derramado." J. De Fraine, art. cit., 456. "Cada grupo entre os semitas constitui um só vivente, como uma única massa animada, formada de carne e osso, da qual parte nenhuma pode ser tnincada sem que todos os membros sofram com isto." R. Smith, Retigion of Mie Semitios, 274, citado por A. Leds, La croyance à la vie fature et te culto des morta dans l'antiqulté israélite, II (Paris, 1906), 274. 20 De resto, o decálogo mesmo foi formulado em têrmos adaptados a essa mentalidade coletivista. Eis como se encerra o primeiro mandamento: 'Sou o Senhor vosso Deus,,., castigo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até a milésima geração áqueles que me amam e observam meus mandamentos." (Êx 20,5s.)

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aprovadas nem propostas peio Espírito Santo qual modêlo de sentimentos do homem de Deus. O contexto indica quais sejam tais imprecações pecaminosas (cf., por exemplo, 1 8am 22,16; Si 39,16; 40,6-10). Muitas, porém, das imprecacões do Antigo Testamento, mormente do saltério, não são de modo nenhum condenáveis; têm significado bom, até hoje válido. Para entendê-las, será preciso considerar que procedem de um ânimo intimamente unido a Deus,.., por mais estranho que ]sto pareça. Em verdade, os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, não o costumavam fazer a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas advogavam os interêsses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou impilcitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser os adversários do próprio Deus. 21 Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos têrmos com que os antigos orientais, dotados de ânimo férvido, costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a tôda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína. Isto mais ainda se compreende se se leva em conta que os hagiógrafos não costumavam fazer distinção explícita entre a pessoa que praticava o mal, e o mal por ela cometido; já que, na realidade cotidiana, a injúria se nos depara geralmente associada a determinado indivíduo que lhe dá origem, o autor sagrado, desejando a extinção das injúrias. (o que em si é coisa ótima), envolvia na sua fórmula imprecatória a pessoa mesma injuriante (o que não quer dizer que desejasse mal a esta como tal). É dessa situação psicológica que resulta o modo de falar surpreendente das imprecações bíblicas. Quanto aos têrmos com que se acham formuladas, convém frisar que pertencem ao vocabulário oriental, tendente às hipérboles e à ênfase. São muitas vêzes tirados diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de outrora. É o que dá tanta
o que claramente transparece dos seguintes textos: "A sombra das tuas asas agasalha-me contra os pecadores que me fazem violência, Contra os inimigos que, sedentos, me rodeiam." (SI 16,8s.) Sejam confundidos e corem de vergonha os que procuram arrebatar-me a vida! Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te procuram !" (51 39,15.17.) "Ouvir-me-á e os humilhará Deus, que tem um trono eterno, Pois não há nêles conversão, e não temem a Deus." (51 54,19s.) 'Não entrarão em si, porventura, os que cometem iniqüidade, Os que devoram o meu povo assim como engolem pão, Os que não invocam a Deus?" (SI 53,5.)
21 É

aliança "da qual o Senhor é testemunha" (cf. tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo. derrogar ao amor dos homens.) .134 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO vivacidade . 2. e deve.28. 22 Visto ser "aliança de Deus". Deus será testemunha entre mim e ti.17).23s). Sem.. pois.° POLIGAMIA. com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo. transportar-se-á.. o contrãto entre marido e espôsa é. não contra os maus. espiritismo . tôdas as potências.39.44). pois. Gên 1... Mal 2. quando pela primeira vez aparece na história sagrada. Para o cristão. quando nos tivermos separado Se maltratares minhas filhas e tomares outras mulheres ao lado de minhas f 1lhas . protestantismo. em parte são tudo que há de mal disseminado em tôrno de nós. reze os salmos imprecatórios. baluartes que.. subtraindo-o ao plano de simples função da natureza para lhe dar valor religioso (cf.49s. porém. mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão.e. será preciso descontar o que tais fórmulas possam ter de hiperbólico e convencional. o leitor da Bíblia verá nas imprecações (em particular. Que o cristão.que faz 22 Muito significativas são também as palavras que Labã proferiu quando se despediu de seu genro . apresentado como figura da união de Deus . Não há dúvida. o matrimônio monogâmico . a quem dera as duas filhas por espõsas: "Que o Senhor nos observe. § 4. Por ido. nos salmos imprecatórios) a expressão do desejo de que justiça seja feita." (Gên 32. À luz destas considerações. às frases impreôató rias. o discípulo de Jesus tem por lei "amar os inimigos. entendê-las-á como fórmulas dirigidas contra os males e o Mal.. ocultamente movidas por Satanás. Mt 5.Jaeó. se esforçam por disseminar o êrro e o pecado no mundo! E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios. devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás. DIVÓRCIO E INCESTO a) poligamia. para um plano todo impessoal.dir-se-ia mesmo: crueldad& 19 .14). em suma. orar pelos que o perseguem" (cf. os abusos coibidos. ) que. em parte.. nos livros posteriores da Sagrada Escritura. O matrimônio. note-se bem. são as tendências desregradas da própria natureza humana. do íntimo do coração. chamado "aliança de Deus" (Prov 2. seitas (comunismo maçonaria. o Criador mesmo o instituiu e abençoou. Para se perceber a verdadeira mente do autor sagrado. a mim e a ti. o matrimônio .é. principalmente nos escritos dos Profetas. deve desejar a extirpação completa dêste potentado e dos seus baluar tes. é união monogâmica. êle pode.

Abraão tinha Sara por espôsa principal (Gên 12. ao lado dela. 3..A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 135 as vêzes de Espôso .3.22). a escrava (Gên 16. Jer 2.que se comporta como espósa. setenta e sete vêzes. Gên 4.18). POVO .C.1. pois. A legislação 23 Observa-se que. 62. o pai de Samuel.19) Éste é o sexto membro da linhagem de Caim.2. Gên 6. Is 50. a figura da espõsa única tinha então que ceder à das duas irmãs esposadas ao mesmo varão. havia Agar. caracterizada pela corrução (o que já por si toma suspeita a novidade dos matrimônios de Lameque). 11. o hagiógrafo indiretamente condena o bígamo.5). teve duas espôsas (1 Sam 1. Éste dispositivo da Torá se explica por um ato de tolerância divina. Assim: . 249. n.2).17.1-32). ouvi minha voz. cada uma das quais o instigou a unir-se com uma escrava (Gên 29.18). o autor sagrado lhe atribui uma nota pejorativa. fiéis a Deus (Gên 5. 25. O rei Davi tinha um harém numeroso (1 Sam 18.23s.15. porém. Lev 18. pág.1-49 e Jer 36-13. 24 A praxe da poligamia foi finalmente reconhecida pela Lei mosaica em 1240 (cf. mas distintamente às duas partes em que o reino de Salomão se havia cindido.27. ticaná. Ora. 24 Homens retos e homens indignos de Israel foram polígamos. escutai minha palavra: Matei um homem em troca de um ferimento recebido. 5. 21.25. . 3. De Abraão (ca. são monogâmicos." (Gên 4.27). A exceção se explica pelo fato de que o hagiógrafo queria aludir não ao povo de Deus como tal. Dt 17. porém. em Es 23. referindo o episódio. Esaú teve três mulheres (Gên 36. a bigamia é introduzida na Escritura. E um jovem em compensação de uma contusão. a imagem que deve indicar a realidade espiritual é a de um matrimônio bigamo: o espôso tem duas espôsas Irmãs.21s. os homens. de 1800 a. se refere ao contrato de um jovem com uma donzela (Sara). o justo salvo das águas (Gên 6-9).1s). 2 Sam 3. Ao matrimônio bigamo assim descrito não se pode atribuir valor de nodêlo. assim como Noé. Precisamente o que caracteriza a corrução antes do dilúvio é o irrefreado comércio matrimonial. pois frisa a índole sanguinária e vingativa que o Patriarca manifesta em versos às duas espôsas: "Adá e Selá. talvez a poligamia (cf. mesmo piedosos.5s. 23 O livro que por excelência apregoa a santidade da vida conjugal. Mulheres de Lameque. Gên 12) em diante. 54.2-5. O primeiro caso de bigamia que a Sagrada Escritura registra. e concubinas (Gên 25.29. Lameque.1-13).° 19). de mais a mais que a Lei mosaica explicitamente condenava a união de um varão com duas irmãs (ci. Vejam-se Os 1. verifica-se na família de Lameque (cf.13. Caim será vingado sete vêzes. Famoso foi o harém de Salomão (3 Rs 11. o livro de Tobias. 30.39-43.2.5. têm freqüentemente (dir-se-ia: normalmente) mais de uma espôsa. Lev 18.6). Jacá esposou Lia e Raquel. para que a metáfora correspondesse à realidade (cf.1-4.) Quando.1). cf. 2. A linhagem dos setitas.14).com sçu.

uma só era feita "grande espósa" ou rainha. estados ou fases de "impureza legal" (os períodos de menstruação. linhagem do Messias). Is 63.) E. sua escrava (Gén 30. sem implicar necessàriamente culpa no indivíduo por ela afetado. exclamou Raquel: "Deus me fêz justiça.) Não sômente em Israel. doenças etc.95). quando Balá gerou Dã. e por ela terei tambêni eu uma família !" (Gên 30. como dote de casamento. fêz que Jacó se unisse a Balá. Entende-se então que.) Com efeito. 25 Os hebreus. filhas de régulos submetidos ao Egito (as quais. 26 A largueza tolerante de que assim dava provas a Lei mosaica erã de certo modo compensada por restrições que a mesma formulava a respeito do uso do matrimônio. O Faraó possuía numerosas mulheres. que prole numerosa era sinal de bênção divina (pois.14.6. não era assim.9 e Os 9. filhas de altos funcionários.) 27 A impureza legal estava baseada em fenômenos fisiológicos (às vêzes. mas também na antiga Caldéia. agregava o pai de família à. 27 É verdade que também outres povos conheciam tais restrições ou estados de "impureza". 144-146). da mesma forma procedeu Lia. . A patroa podia ceder o seu lugar à escrava nas relações com o marido. os reis da Babilónia tinham nos respectivos haréns mulheres de condições variadas.8. a existência legal de unia concubina ou de uma escrava. o varão hebreu procurasse unir-se a outra. Ademais julgavam encontrar em sua ideologia religiosa um estímulo possante para não se afastar do uso geral: os descendentes de Abraão estimavam. Lc 1. por exemplo. sim. nos quais os cônjuges eram obrigados a se abster do comércio matrimonial. ouviu a minha voz e me deu um filho. que ficaria à sua disposição para o resto da vida." (art. Dizia Raquel: "Que Balá dê à luz sóbre os meus joelhos. culpada. já pelo seu âmbito de vida. estéril. que o sujeito contrai por uma vontade inclinada ao mal. inclinadas a seguir tal praxe. doenças). todavia Moisés. ou estrangeiras.3. Por Isto. caso esse homem. apresentando a serva Zelfa a Jacó (Gén 30. O mesmo se dava no Egito. no caso de ser infecunda a espôsa. que a espósa apresentava ao marido (art. de seu prestígio. Distingue-se bem da "impureza moral". por vêzes. a mulher rica recebla de sua família. iam ter à cõrte na qualidade de reféns). ao 25 Sabe-se que o número de mulheres que um proprietário oriental possuia. globo as pa1avrasde Jesus: "Foi pI r cauid & dureza do vosso coração que Molsés permitiu. uma escrava.3s). Essas mulheres em maioria ficavam sendo concubinas. eram. enumerava. 26 Assim Raquel. não se lhe dará autorização para isto e êle não tomará concubina. 144. por conseguinte. sim.136 PARA ENTENDER' O ANTIGO TESTAMENTO matrimonial de Israel podem-se apiieaPrm. próxima ou remotamente. a algumas era dada a dignidade de "espósas régias". queira tomar uma concubina. era tido como indício de sua riqueza." (Gên 30. caso a escrava fõsse fecunda: "Se um homem esposar uma mulher e se esta der ao marido uma escrava que procrie filhos. O código legislativo do rei Hamurapi prevê. no decorrer dos tempos a poligamia se tomara comum no antigo Oriente. ao passo que esterilidade equivalia a maldição (cf. ao lado da espõsa principal. porém. a principio. e que não seria concubina." (CL Mt 19. a uma mulher livre ou à escrava da sua consorte (a prole da escrava era considerada pertencente à patroa). tornando-se então a prole da escrava propriedade da patroa.).25). O Código de Hamurapi proibia ao marido tomar uma concubina.

Referindo-se a êste texto bíblico.houvesse "algo de repugnante" na mulher . Lesêtre. diz o Senhor. Anàlogamente se exprime H. "Mariage". II (Paris. queria levantar a mente do povo a um ideal que os pagãos estavam longe de conceber. comenta Clamer: "Tais prescrições (restritivas do matrimônio) .' (Lev 11.Sai'nte flible. interior. eis o que o Senhor recomendava após discriminar as impurezas legais.. que conservavam a idéia e a prática do matrimônio em certo nível moral e contrastavam com a licenciosidade tolerada por outros povos. 763: "A lei mosaica se adaptava aos costumes da época autorizando o divorcio e deixando em vigor a poligamia. Aliás. o instinto racional mesmo sabia utilizá-lo para se defender contra os ímpetos do instinto animal. cedendo o lugar à monogamia inicial (cf. sim. apto a corrigir a dureza de coração da sua gente: deveriam ser observados em virtude de uma aspiração à pureza moral. Eis outro elemento da antiga Lei que causa surprêsa ao cristão: a praxe do divórcio. quando foram inseridos na legislação de Israel. Estas concessões eram contrabalançadas pelos Impedimentos matrimoniais de parentesco e pelas regras severas de pureza legal. Exigia. pelo Evangelho. Mt 19. é importante notar que os textos bíblicos referentes ao divórcio não o instituem em Israel (como não instituem a poligamia).4-6). a Lei mosaica motivo sério . reconhecendo usos comuns dos antigos povos. não implicavam necessàriamente superstição degradante. qualquer que tenha sido a origem dos costumes tradicionais promulgados pelo código mosaico. mas. já ninguém mais sabia o seu significado originário. nos periodos mais perigosos da menstruação ou do parto. IV (Paris. a mulher era colocada sob a tutela de um interdito religioso. porque 'sou santo e não vos tomareis impuros" (Lev 11. 1946). a poligamia seria removida dos usos do povo de Deus. Sendo expressão da vontade de Deus.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO r ) sanciOnfrlas (II) 137 oficialmente para Israel. ou à santidade: "Vós vos santificareis e sereis sant8s. supondo-o já em vigor.para que o marido a pudesse repudiar 28 La ." . o freio religioso sendo quase o único que impusesse resjieito.44).. determinam as formalidades necessárias para o tornar legal e diminuir a sua freqüência. não será preciso dizer que. em Dictionnaire de Ia nuble. e não vos tomareis impuros..44) " 28 Na plenitude dos tempos.. 1928). Antes do mais. porque sou santo. 102. b) divórcio. êsses usos tradicionais visavam assegurar a santidade do povo de Deus: 'Vós vos santificareis e sereis santos. o Legislador hebreu lhes atribuía um significado mais nobre.

por exemplo. Na plenitude dos tempos. irmão com irmã. que se constituíram famílias diversas.138 PARA ENTENDER O ARTIGO TESTAMENTO (cf. Ole restituirá a essa mulher o seu cheriqton (espécie de dote) . entre os árabes. Também êste dispositivo visava restringir os divórcios. não havia outro meio natural de prover à propagação da espécie. as restrições cederiam à proibição formal (cf.. Mt 19. concubinato e divórcio reconhecidos pela Lei. e se o marido sai e muito a negligencia. a fraqueza humana nêles se manifestou. na história sagrada. Isto foi por Deus permitido em vista das extraordinárias circunstâncias em que então se achava o gênero humano. e) ulteriores aspectos. Também esta cláusula restritiva não figurava no Código de Hamurapi. 137. houve. se casaram entre si.1-4.(Art. irrepreensivel. a Lei mosaica só ao marido reconhecia a iniciativa do divórcio. porém. Por fim. onde se lêem diversos motivos para que a mulher repudie o espôso. pode tomar o seu cheriqton e ir-se para a casa de seu pai. sim. por exemplo. ou seja. Tal exigência não ocorria. Logo. Jer 3. essa mulher não tem culpa. ou uma espOsa que lhe tiver procriado filhos. entrou em absoluto vigor o ditame de consciência que proibe o matrimônio entre irmãos.1). eis um entre outros artigos babilônicos: "Se uma espOsa é boa dona de casa.) Além disto. 142.. a Lei israelita bem dava a entender quão pouco desejável é o divórcio numa sociedade que tenda à perfeição.. caso haja entrementes vivido com outro homem (condição justamente contrária à legislação mosaica) 1 Por essas diversas restrições.3-9). o qual simplesmente rezava: "Se um homem estiver disposto a repudiar uma concubina que lhe tiver procriado filhos." (Art. Ao lado dos casos de poligamia. o fundo negro sôbre o qual mais havia de sobressair a graça da Redenção. caso.1). constituindo. episódios que em hipótese alguma poderiam ser justificados. o seu primeiro marido nunca mais a poderia retomar por espôsa (cf. . os filhos de Adão e Eva. a mulher jamais a podia tomar. ainda parece oportuno observar: Os indivíduos humanos da primeira geração. Dt 24. admoestando o marido a que não se separasse sem reflexão prévia. que a mulher repudiada contraísse novas núpcias.. o Corã permite que a mulher repudiada seja de novo recebida pelo marido. chamada a ser o povo de Deus. Dt 24.) Mais ainda: a legislação israelita permitia. como dissemos. sem dúvida. Fora de Israel. se casasse de novo. porém. no Código de Hamurapi.

para exprimir a animosidade. A Ironia é tão acerba. são inclinados a crer que o trecho refere não uma história real. 30 Dêstes varões éram ditas proceder as duas nações Inimigas ferrenhas de Israel. Dt 27. 207. impuras. 32. quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon. De resto. Lagrange resume as razões que o levam a adotar esta explicação: "O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio.1-13.34. 29 Os exegetas recentes.7$ Lote é dito "o justo". tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo. 297. 31 A narrativa. 1 (Paris. sim. J. a conduta licenciosa de Salomão. S. ter-se-ia formado em Israel uma narrativa fictícia: "Moab" (mé-ab) podia. haviam Incorrido no ódio e no desprêzo dêstes (cf.e historiqve.36). a quem náo se pode imputar culpa no caso. 1949). ludibriada. Ez 25. Dt 17. segundo um têrmo paralelo árâbe.6-8). e gerado os varões a quem teriam impósto os nomes adequados "Êle é do meu pai (Moab). Eis como o Pe. exprimiria uma "história" imaginada para depreciar amonitas e moabitas. 29 30 . conforme Gên 19. concebido de seu pai Lote.. a Lei admoestava particularmente o rei contra os abusos' da poligamia (ci. significar "file é do meu pai". mas o que se chama uma narrativa etnológica". 3 R. relatado em Gên 19.6-10.26.17) o feito das duas filhas de Lote. Jer 48. êstes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita como os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 139 Tais episódios são entre outros: o pecado de Onã (donde o nome do vício "onanismo").20. sem contra êles protestar: 'Assinalam o trecho com pontinhos. o atentado incestuoso dos sodomitas. como refere Gên 38.1-25. "Amon" (ben-ammi) seria "Filho do meu povo" ou. Pois bem.. Lev 18. Com Lagrange concordam Clamer. poderia ser também julgado culpa grave. as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado. 29-33). o hagiógrafo pode ter consignado no Em 2 Pdr 2. 253. cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que. portanto.. que acarretou. como punição.30-38. o sentido exegético é muito exato: uma sátira não é história. Ora. que Deus puniu severamente. 31 Os hebreus abominavam o ato incestuoso que atribuiam às filhas de Lote (ci. Esta insistência se explica bem pela intenção de dar uma interpretação pejorativa aos dois nomes. as duas jovens teriam tido cópula carnal com seu pail Apenas seria de notar que a narrativa faz de Lote uma vitima inconsciente. La Sazute Bible.23. Note-se como por três vêzes é inculcado que as filhas de Lote conceberam de seu pai (vv. gente com a qual não se podia ter amizade. Chame.s 11. também "Filho do meu pai".1-11). o cisma do reino dêste monarca (cf. "Filho do meu pai" (Amon). porém. 32 La method. Dt 23. Le livre de la Getzése (Paris. Com efeito." 32 A Interpretação assim concebida não é Incompativel com a inspiração do texto sagrado. conforme a etimologia. sem causar maior surprêsa do que os episódios anteriores.' Abstração feita da finalidade do pontilhado. que foi devidamente castigado.3-7. para indicar que não merece fé. Jerõnimo dizia dos rabinos do seu tempo. os trocadilhos tão artificiosos e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender. 1953).

. com a intenção de enganar o próximo. motivo de debates. dando-lhe a entender que era o filho mais velho Esaú. inserindo o episódio de Gên 19. por isto. Todavia esta norma. Jacó aproveitou-se da fadiga de seu irmão que voltava da caça. Mais tarde.se apresentou ao pai débil e cego. tem um nome que. segundo a etimologia popular hebraica (cf.° MENTIRA E FRAUDE A moral cristã ensina que jamais é lícito dar a entender o contrário do que se julga ser verdade. 34 "Segurar o calcanhar" é bem o sinal de "suplantar". o caracteriza na história sagrada. 17.17). que o constituía 33 Sabe-se que ainda no séc. nos térmos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel. a) a fraudulência do Patriarca Jacó.a todos os cristãos desde o início da nossa era.de resto. é autêntico oráculo: . 25. Não qüeria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia. saiu do seio materno segurando o calcanhar de seu irmão gêmeo Esaú. Rebeca sentira que colidiam entre si no ventre materno. por vêzes. Gên 25. Jacó. 33 Não é. e. por depender de grande pureza de consciência. Os teõlogos católicos. Esta designação. de fato. Antes da morte de Isaque. 34 De resto. porém. de admirar que na Sagrada Escritura se achem relatados casos de mentira até de homens e mulheres piedosos. Já que uma ou outra dessas histórias se torna. pois. não era de todo clara aos homens anteriores a Cristo (nem aos pagãos nem aos israelitas).29-34). filho de Isaque. ItjL 5.36). Coflat. quando ainda gestava os dois gêmeos. e fôra por Deus advertida de que tal luta se prolongaria no decurso de sua vida. que o precedia e que. e ainda hoje repudiam. a animosidade existente êntre o séu povo e os adversários do seu povo. mesmo tal espécie de mentira.24-26). analisar-se-ão abaixo alguns episódios clássicos. teria todos os direitos de filho mais velho (cf. o autor não fazia senão exprimir. cujo3significãdo'era conhecido entré" os judeus. comprou para si os direitos de primogênito (cf. Jacó . Gên 27. em troca de um prato de lentilhas oportunamente oferecido a Esaú. v alguns autores cristãos julgavam licita a mentira formal. assim conseguiu enganar o pai e usurpar para si a bênção de primogênito. Já ao nascer. instigado por sua mãe Rebeca . em breve repudiaram. cassiano. sendo que o mais velho acabaria por servir ao mais jovem (cf. desde que fôsse proferida com a finalidade de promover o bem (cf.30-38. 25.140 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO livro do Gênesis tradições populares.0 Suplantador.22s). nem foi eidente.

nas quais fizera incisões a fim de as tornar raiadas ou listradas de branco.Jerõnimo (séc. Jerônimo. Jacó se foi para a Mesopotâmia a fim de escolher espôsa na família de seus ancestrais. Tendo-se fixado em casa de seu tio Labã. Note-se a ênfase com que o astuto varão. O expediente usado por Jacó pode ter sido mera ocasião para que Deus o beneficiasse. resolveu levar consigo parte do gado de seu tio. mas também das promessas divinas referentes ao povo do Messias (cf. De venatione. nasceriam dos carneiros brancos e das cabras negras ou escuras de Labã (êste. Gen 30. Após estas vitórias fraudulentaá. a visão désses ramos devia influenciar a formação do embrião.5. esta terá sido. Inculca ter sido especialmente auxiliado por Deus: "vejo no rosto de vosso pai (Labã) que Me não me é favorável como antes. 30. optou por Raquel. talvez negue a possibilidade da influência natural de tais fatóres sõbre o processo gener ativo. Tôdas as vézes que éle dizia: 'A prole malhada será tua paga'. mas Deus não permitiu que me fizesse mal. pertence a nós e a nossos filhos. Assim Jacó se tornou rico à custa alheia (cf. Agostinho. V). parte aparentemente modesta. liber XII.. Deus tirou a vosso pai o gado e o deu a mim (30. tõda a riqueza que Deus tirou de nosso pai. o Patriarca colocava diante de seus olhos varas de salgueiro. Antes. 327s.1-30). 23. Hist. VII. nat. "Liber hebraicarum quaestionum" in Genesin. 1. Hipõcrates. 1. Isidoro de Sevilha. 27. mas o Deus de meu pai estéve comigo. e dez vézes mudou o meu salário.1-45). para que os carneiros brancos e as cabras não malhadas gerassem prole respectivamente negra e malhada. é o tipo normal e mais freqüente do gado). para o futuro. amendoeira.25-43). 33 O processo utilizado por Jacó para obter cabras malhadas foi o seguinte: Quando os animais estavam para entrar em cópula. filha dêste. . 10. Como quer que seja. 58-60. 93. possuidora de mais exatos conhecimentos. O artifício estava muito em voga entre os antigos. todos os animais davam à. como ainda hoje freqüentemente pensa o nosso povo. Nos tempos de S. produzindo prole malhada (d. julgavam. os animais geravam filhotes ralados. o texto sagrado dá a entender que o artifício de Jacã se tornou eficiente por especial intervenção de Deus. Plínio. dizia-se que os espanhóis por meio de tais artifícios sabiam variegar a côrde seus cavalos. Jacó se quis indenizar dos trabalhos que lhe foram extorquidos: aceitando uma oferta de Labã. a causa do êxito do processo que por si mesmo talvez fõsse vão. luz filhotes malhados.." Estes versiculos Indicam a causa profunda de um fenômeno que vulgarmente se atribula ao artificio utilizado por Jacó. ed. A ciência genética moderna. . e não aquêle. sempre que êle dizia: 'A prole raiada será tua paga'. in Heptat. Todavia a modéstia de Jacó era ilusória: o "Suplantador" soube usar de um artifício habitual entre os criadores de gado primitivos.. vejam-se os testemunhos de Opiano. 16 respondem Raquel e Lia: "Sim. de regressar à sua terra com a família já constituída. plátano. todavia só conseguiu obter o assentimento definitivo de Labã após haver sido explorado por êste.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 141 herdeiro não sàmente dos haveres paternos. Cf. No v.. Migne lat.7-9). S. porém. prestando-lhe quatorze anos de serviço agrícola e pastoril (cf. a saber: os cordeiros negros e as cabras malhadas que. Quaest. 29. Vosso pai burlou-se de mim. 1. depois de obter o sucesso. Etymolcgiarinn.37-39). em última análise. a qual lhe pertenceria. 985. que certos objetos avistados durante a concepção ou a gestação acarretavam notas próprias na prole.. segundo S.

Em vez de a repreender. ou seja. julgou ter chegado a hora de sofrer o castigo de Deus. 1 (Paris. na caminhada de volta à Palestina. A narrativa é certamente obscura. depois de várias fraudes. mas estritamente na consciência dêste. porém.142 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ora foi êsse homem tão fraudulento que Deus abençoou. equivalia para éle a uma agonia ou luta. pediu ao Patriarca que o deixasse partir. "pois. também dos homens hás de triunfar" (v. Le livre ÃXe la Genêse (Paris. pedindo ser libertado. o tomaria "di-. mas ainda quis tocar o nervo da anca de . 1953).Jacó. o Patriarca certa noite lutou contra um personagem misterioso que lhe aparecera.. tornando-o coxo. A. ao contrário. Chame. finalmente. embora o pudesse "derrotar". o por36 01.o que contribui para tornar mais enigmático o cenário de Gên 32. o fêz cair em si. 29). 1949). 394-7. mas não deixou de se mostrar superior.23-32 narra que. dir-se-ia que o Senhor confirmou a violação de direitos que Jacó cometeu em sua vida.. se lhe poderia atribuir. conseguiu sair da depressão. 30 Ei-lo O hagiógrafo ou a tradição israelita teriam recorrido a imagem antropomórfica muito viva para designar uma luta que se passou não fora de Jacó. J. quem terá vencido? Notemos que o estranho personagem fêz as vêzes de mais fraco. não morreu nessa crise. O Patriarca. o estranho adversário não sâmente lhe deu a bênção. - .. até mesmo com Deus . à primeira vista.. o perigo de morte que então enfrentava. mas. sabendo que seu irmão Esaú lhe ia ao encontro com quatrocentos homens.4s. o desconhecido confessou-se impotente. Como se há de entender essa história? Uma fase posterior da existência de Jacó nos leva à reta interpretação: O hagiógrafo em Gên 32. O "Suplantador". via-se de regresso à casa. mutilando a Jacó. dizia. não o amaldiçoaria. 12. identifica o lutador anônimo com um anjo. 346-8. vinamente" forte contra os homens ( "Israel"). fôste forte contra Deus. a seguir. o Senhor lhe deu a saber que o pouparia. O resultado da luta também é ambíguo. O "Suplantador" rogou-lhe então a bênção como condição para que o libertasse. O profeta Oséias. mas também mudou-lhe o nome de Jacó para "Israel" (= Forte contra Deus). Que significa isso tudo? Os estudiosos contemporâneos dão ao trecho um sentido muito mais nobre e espiritual do que o que. o abatimento a que êste pensamento o reduziu. tomando consciência dos atos injustos que cometera. em resposta. ao contrário. La Sainte Bible. daí por diante. dando-lhe a bênção desejada (coisa que só em nome de Deus pode ser dada) e impondo-lhe novo nome (que era um oráculo profético). Com efeito. Clamer. dizem.

Le combat spiritwet est aussi brutal que la luite d'hommes. portanto. 37 O valor destas explicações não impede ainda se pergunte: mas por que terá Deus escolhido tal varão para colocá-lo à frente do povo messiânico. R. queria escolher..ee a duré quatre ans." O mesmo autor cita o seguinte trecho de Paul Claudel. Joly. J'acó. o mais jovem. 41: "A luta de Jacd. Auz sources bibliques (Paris. com o anjo não será a imagem de tóda a nossa vida espiritual? Lutamos contra Deus. na linhagem dos grandes precursores de Cristo? Não será isto uma insinuação de que a fraude ainda hoje poderia ser abençoada? O Senhor quis escolher o "Suplantador" para ensinar aos homens que os dons divinos são absolutamente gratuitos. resistimo-Lhe. Jacó era o realizador inquieto e complicado. de sorte que foi pelos miseráveis que Deus quis libertar da miséria a criatura. 1.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 143 tador das inabaláveis promessas e bênçãos messiânicas. por seus títulos naturais. para finalmente envolver mesmo a miséria de tal homem dentro da obra da Redenção. que na verdade nos tornamos vencedores. como triunfou em outros varões indignos. 31 Esta afirmaçao. réduit.12 "A Sabedoria outorgou-lhe (a Jacó) o prêmio em árduo combate. para o futuro.. oportuno comentário de O. A fim de que êle reconhecesse que a piedade é mais poderosa do que tudo. HLstoire d'israel. Israel será o triunfador enérgico e benévolo. que narra a sua conversão: "Cette résistan. não é a criatura que. uma dobra na vida do Patriarca: de conquistador trapaceiro e turbulento. J'ose diTe que je fie une belie défense et que la luite fut Ioyale et compléte. O defeito deixado na coxa de Israel lembrar-lhe-ia a "impotência" do seu poder humano e a "prepotência" de Deus que liberalmente outorga a vitória ao indivíduo que Êle escolhe. deixou que se aí ir masse com liberdade. o mais destituído de qualidades. herdeiros da promessa messiânica.icciotti. Mas nem por isto violentou a personalidade humana de Jacó. portanto. ora é no momento em que somos vencidos por Deus e Lhe pedimos nos abençoe. a bondade de Deus triunfou em Jacó. alheio às maquinações ilícitas e confiante em Deus só. êle havia de se tornar o triunfador abençoado. não seria o "Suplantador" que vence por meios fraudulentos. Je fus définitivement forcé. dentre os dois filhos de Isaque. mas aquêle que sabe contar com o auxílio de Deus mais do que com a própria habilidade. verifica-se impressionante mudança. ou seja. Pode-se dizer também que Deus se quer deixar vencer por nossa oração." 38 A propósito se pode citar a observação de E. 158s: "Se se observam atentamente os traços com os quais a Biblia nos apresenta o homem conhecido antes e depois da luta com Deus..." A luta misteriosa de Jacó significa. pois a graça pode fazer dos iníquos os justos que sirvam a uma obra perfeita. o que delicadamente insinua Sab 10. 1950). suscita a munificência divina. esta se atua também sôbre os que nada de meritório têm. propenso a suplantar fraudulentamente. O Senhor." ar Eis o .

êste foi vitorioso para Israel.. durante a qual se embriagou. não mentiu. conseguiu entrar no acampamento inimigo. Para o homem. Betúlia. matou. salva segundo um plano muito belo e harmonioso. na Sagrada Escritura. entendeu que lhe se- . salvou a sua cidade.. voltou para Betúlia. procurou seduzir por sua beleza feminina e suas expressões de duplo sentido (note-se: dando a entender a Holofernes que denunciaria os segredos da derrota de Israel. Aod e Jael: a amabilidade a serviço do niorticínio. a alta noite.144 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO porém. Holofernes. E o Senhor. Em poucas palavras.. A seguir. abençoou-a. pois. assediada pelo General assírio Holofernes. disse ao General que sômente a apostasia religiosa seria capaz de prostrar aquêle povo . alegando que Deus salva os pecadores. pois o pânico se apoderara dos assírios estupefatos.155). Quando os seus concidadãos já perdiam a confiança no auxílio divino. por isto ninguém presumirá abusar da Misericórdia. o que não é para desprezar. fervor de orientais exuberantes e rudes. dando-lhe pleno êxito. recordemo-nos de que estamos diante de um episódio das guerras de Israel. Fêz o papel de fugitiva. Holofernes acolheu-a com carinho e. Que significa isto? Para aproximar-nos da reta interpretação. Judite revestiu-se dos ornamentos mais valiosos e. cf. a nós desconhecido (cf. porém. as quais. alegando às sentinelas que ia rezar fora do acampamento. em que todo o fervor religioso se acha empenhado e. Judite aproveitou a ocasião para decepá-lo.o que era verdade. onde estimulou a sua gente ao ataque. eis que Judite foi ambígua em suas atitudes e palavras. mas não "tem obrigação" de o fazer. tomam o significado de luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás.1-12. b) Judite. de modo nenhum implica que ao homem seja lícito agir contra a consciência ou fraudulentamente. O livro de Judite nos apresenta a história de uma viúva israelita que. dada a sua beleza. são combates. apresentou-se ao General como a deser tora que lhe havia de denunciar os segredos aptos para captar Israel. Nessa luta. tportanto. pois. excitado pela paixão ofereceu-lhe uma ceia. em vez de a punir. deixada a sós na tenda com o General adormecido. Judite parece ter enganado. pela astúcia. 11. O Senhor salva. sim. entre a luz e as trevas.. após alguns dias. fica sendo única norma inabalável: cumprir em todo tempo a Vontade de Deus tal como a consciência a manifesta. a seguir. lançando-se voluntàriamente num abismo de que não se pode retirar por suas próprias fôrças. Bom 9. de fato..

como Holofernes. a fim de que não fôsse capturado pelos vencedores. estrangeira aliada a Israel.144.5-9. para prostrar os soberbos e ímpios (Holofernes e seu exército). matou-o desapiedadamente (Jz 3. com um martelo enfiou-lhe nas têmporas um piquete.):' O Juiz ou chefe israelita Aod. Não é isto o que o autor sagrado quer julgar quando relata os dois episódios. que lhe perfurou por completo o crânio e o deixou morto. poderia ter desconfiado de um ardil de guerra.17-22). a seguir. 13. Fê-lo. Difícil será proferir um juízo sôbre a moralidade dêsses atos. tirou de sob o manto uma espada que trazia oculta e.. não foi tanto o modo de agir da heroína. recebeu em sua tenda o chefe cananeu Sisará. alegou ter um oráculo de Deus a transmitir ao monarca. que continuou a crer no auxílio divino quando os concidadãos já perdiam todo o entusiasmo teocrático. era condicionado pelos costumes bélicos da época. A diferença do que se dá no livro de Judite. consciência de ofender a Deus. mulher cinéia. piedoso's (Judite). pois. O que o Senhor assim sancionou. fixo ao solo (Jz 4. 12. que Judite procedeu depois de ter orado e várias vêzes pedido ao Senhor que abençoasse o seu empreendimento (cf.C.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 145 riam revelados segredos estratégicos).9. eis a tese perene que o livro de Judite nos comunica através de seus dizeres circunstanciados pela mentalidade de uma época! O feito de Judite tinha dois precedentes seMelhantes nos primórdios de Israel (época dos Juízes. ora os estratagemas•jamais foram condenados entre beligerantes.. era impelida pelo zêlo religioso que a vida continente e piedosa nela havia acendido. que fugia derrotado em guerra pelos israelitas. Deixado então a sós com Eglon. 1160-1020 a. deitar-se e recobriu-o cuidadosamente. Pode ter havido culpa em Aod e Jael. outrossim. não teve.. é a fé dessa mulher. Jael. tendo Sisará adormecido.. por bem confirmar em Judite e propor a todos os homens (também aos cristãos).6s). o expediente a que esta recorreu. não enganam senão os imperitos ou os obcecados. mostrou-se disposta a ocultá-lo. se êste não estivera detido pela concupiscência. e serve-se dos humildes. não para os . tendo ido certa vez pagar o tributo a Eglon. êle os narra com tôda a objetividade. Deus recompensa a fidelidade. Deus quis dar pleno êxito à tarefa de Judite. que oprimia o povo de Deus. rei de Moab. ao contrário. O que o Senhor houve. Observe-se. Procedimento e declarações como os de Judite em tempo de guerra são por si mesmos suspeitos. pois. A sua consciência é assim isenta de culpa subjetiva. enfiando-lha na carne.15-22). o texto sagrado de modo nenhum insinua tenham sido inspirados por Deus ou feitos após oração ao Senhor.

pois..quem tocasse objetos julgados impuros (cf: Lev 11. impuro. o porco. iv (Paris).. não será que a pureza ou a santidade inculcada pelo Antigo Testamento era algo de meramente exterior." Lagrange.1-17). pôde servir-se de Aod como de um salvador. Eis o que os episódios de Aod e Jael devem significar para o leitor moderno.146 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO propor como norma. da mesma forma como se serviu de Eglon como de uni flagelo. pode ser aproveitada para comunicar benefícios divinos. a mulher após o parto (cf. Lev 15.18). 1903). hemorragia crônica (cf.57). Le livre eles Juges (Paris. assim. Assim. dai concluírem alguns autores que a santidade originàriamente para os judeus significava pureza de ordem física. 55s. por exemplo. por exemplo. independentemente do valor moral dos seus atos. independente da vontade e da pureza interior. mas para mostrar como Deus. porém. gonorréia (cf. sem que contraísse necessàriamente alguma culpa em consciência. ou simplesmente limpeza. a águia.. moral? Havia no mosaísmo um autêntico conceito de santidade? O térmo hebraico qodesh ( santidade) implica a idéia de separação. que ainda não derramara a graça reservada para os tempos do Messias. não obstante. a originalidade da religião judaica? Como é então revelada por Deus? Abstração feita da origem dos preceitos de pureza legal. § 6. .1-14. Quem lê essas minuciosas prescrições do mosaísmo. A higiene e a limpeza foram uma das principais preocupações dos antigos legisladores.. o cisne.° PUREZA E IMPUREZA RITUAL A Lei mosaica enumerava longa série de atos e ocasiões que tornavam o homem "impuro". era considerado imundo quem comesse ou simplesmente tocasse certos animais . Lev 15. 20. escrevia Renan: "As idéias de pureza e Impureza eram a princípio equivalentes às de limpeza e sujeira. a Escritura dá a ver que a própria Imperfeição do homèín. concebe sem demora duas questões importantes As leis de pureza e impureza ritual têm seus paralelos em cultos pagãos da antiguidade e dos nossos tempos. quem fôsse acometido por lepra (cf.1-47) . Lev 11.. Lev 15. a avestruz.25s). ritual. Lev 13. O impuro não era reabilitado senão após um ou mais dias.1-8). sabe. 19 mais uma vez. SI.25-30)." Histoire du peu pie d'israel. Onde está. no plano do Criador. Lev 12.a lebre. impuros eram também os cônjuges após o ato conjugal (cf. (cf. extrínseco. permitindo que a natureza humana atue os seus instintos. oferta de sacrifício. do ponto de vista meramente legal. devendo finalmente sujeitar-se a um ritual de purificação (banho. fazê-la cooperar para a realização de um plano sábio. 39 "Deus.44s.

desde as suas origens. Seqüestrando-o da terra idólatra e constituindo-o como nação independente. e determinada divindade. desde os tempos de Abraão (ca. os seus antepassados caldeus os observavam. de ordem ftnicamente natural ou fisiológica. incluiu nela as prescrições rituais já vigentes em sua nação. Com efeito. a tais observâncias. quando em 1240 Moisés. procurou fazer dêsses usos o estímulo para que os israelitas. não se poderia assinalar para cada qual dessas determinações uma causa respectiva. porém. do animal totem (térmo derivado da língua dos índios algonquins do México setentrional). Por conseguinte. admitiam também a influência dos demônios no mistério da comunicação da vida ou da geração da prole (nem gregos e romanos eram alheios a essas crenças). oriundo do ambiente pagão da Mesopotâmia. e pacientemente elevá-lo a maior perfeição. relacionados com a Divindade ou com demônios. conforme o termo técnico oriundo da Polinésia). nem tão primitiva. ancestral com o qual tal família ou tribo se julgava aparentada e ao qual conseclüentemente dedicavam profunda veneração. em tôdas as tribos primitivas que tais normas não têm significado meramente higiênicõ. Pensavam igualmente que certos animais são sagrados.). reconhecem os estudiosos que a crença nos tabus e nos totens não era nem tão generalizada. a pedagogia divina sempre teve por tática tomar o homem como êle é. nem tão uniforme. Apenas tratou de incutir espírito novo. Observa-se. o respeito à Divindade que de maneira geral ditava tais observâncias de caráter aparentemente profano. ou seja. agraciada pela revelação da verdadeira fé. Falavam. pois. 40 era. Deus não quis simplesmente extirpar as observâncias tradicionais da gente de Abraão. Ora o povo de Israel. promulgou a Magna Carta de Israel. conheceu usos de pureza e impureza legal. utilidade medicinal apenas. como as que habitavam os antigos semitas.C. mas geralmente possuem valor religioso. significado superior. Hoje em dia. tal doença ou tal função fisiológica. como no fim do século passado asseveraram os historiadores. não. . era rigorosamente necessário que o povo rude ou infantil não negligenciasse certas cautelas de higiene!). observando uma pureza exterior. nem tão religiosa. a tini de se assegurar mais eficazmente a sua fiel observância (em regiões de clima quente. em nome de Deus. elas muitas vêzes só se explicam por motivos religiosos ou "místicos". isto é. removendo tudo que poderia ter sabor de superstição ou de algum modo lembrar a idolatria. Eis a resposta global que se há de dar a essas duas questões: É inegável que muitas das prescrições mosaicas concernentes à pureza exterior são análogas às de povos pagãos antigos e modernos. ritual. outrossim. ou são a sede de potências sobrenaturais" (são tabus. porque os homens julgavam haver nexo especial entre tal objeto ou tal animal. de 1800 a.A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II) 147 Certas leis que visavam garantir a saúde pública teriam sido sancionadas em nome da religião pela autoridade competente. se tornassem outrossim ciosos da fidelidade 40 Os antigos julgavam ser cada doença causada no homem por um mau espírito.

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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

a Deus, ou seja, de pureza moral, interior (muito mais importante !): "Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo, e não vos tomareis impuros." (Lev 11,44.) Como se vê, a fim de alçar o homem ao ideal de imitar a Deus, o Legislador, no Antigo Testamento, quis partir das observâncias imperfeitas a que o semita estava habituado; inseriu-as, porém, dentro da seguinte perspectiva
DEUS SANTO; POR ISTO, O SEU POVO DEVE SER SANTO.

1
f

(nexo necessário, até hoje válido) (nexo contingente, ab-rogado desde que o gênero Ti =0cci2 cial moral mais perfeita) 41

E, PARA QUE SEJA SANTO, OBSERVE EM ESPÍRITO MONOTKÍSTA AS NORMAS DE PUREZA TRADICIONAIS.

É preciso acrescentar que, além do significado acima exposto, as proibições relativas a animais e objetos impuros visavam criar uma barreira entre o povo de Deus e estrangeiros (cananeus, mesopotâmios, gregos e romanos) com que Israel se havia de encontrar no decorrer da história; justamente a necessidade de não contrair impureza ritual, exterior, fêz que Israel não se tenha mesclado com as nações pagãs, nem quando estava disseminado no exílio (587-538 a.C.), nem quando a terra santa foi ocupada pelos helenistas no tempo dos Macabeus (165-134 a.C.). Assim as prescrições rituais, impondo distância do paganismo, preservavam a verdadeira fé, ajudavam o judaísmo a realizar sua missão religiosa. Note-se ainda o seguinte: é sentença aceita por muitos exegetas que em Israel a condenação de alguns animais como impuros (o camelo, o porco, a lebre, o cavalo, o asno, o cão) se deve em parte a uma reação contra o culto dos mesmos nos povos vizinhos de Israel. Os semitas associavam tradicionalmente os "gênios" do deserto, potências superiores (seirini, sedini, Azazel, siyyim), com certas espécies de animais. O fato de que o israelita, por tradição de seus antenatos semitas, admitia certos atos e estados de impureza legal, extrínseca, destituída de culpa moral intrínseca, influiu no conceito de pecado que o povo de Deus nutriu até os tempos de Cristo. Vvendo sempre de sobreaviso contra as possíveis contaminações por doenças ou contato de animais ou objetos impuros, os hebreus, de41 Na Reve]ação cristã, a terceira proposição do esquema seria assim formulada: E, PARA QUE SEJA SANTO, PRATIQUE O AMOR, POIS DEUS 2 AMOR (ci. 1 Jo 4,7-11).

A MORALIDADE DO ANTIGO TESTAMENTO (II)

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pois de ter recebido a Lei mosaica com seus preceitos morais, eram propensos a analisar, nas transgressões da Lei, mais o ato exterior do que a intenção do transgressor; não davam grande atenção ao que pràpriamente caracteriza o pecado: a desobediência de uma personaiidade contra um Deus pessoal (cf. pág. 160s). Como quer que seja, os interditos meramente rituais, legais, iam do seu modo contribuindo para inculcar ao povo de Israel o conceito de transcendência divina ou a idéia de que Deus por si é alheio a muita coisa familiar ao homem pecador. Com o tempo, porém, ao se apurar a mentalidade filosófica de Israel, os hebreus foram concebendo mais exatamente o caráter pessoal e sumamente moral da religião; perceberam então melhor o significado meramente pedagógico, secundário, de tais proibições. 42 A titulo de complemento, seguem-se breves observações sõbre as principais teorias que se propõein elucidar a origem das leis de pureza legal: O motivo de higiene, embora possa estar na origem de muitas dessas normas, não é suficiente por si sõ para explicar têda,s as proibições rituais. Com efeito, embora possa justificar a proibição da carne de porco, não justifica a do cavalo, a do asno, a da lebre ... ; os árabes antigos e modernos sempre comeram carne de camelo, de avestruz que a Lei mosaica proibe; os beduinos do deserto da Sina comiam camundongos, também vedados aos hebreus. ¶ Também não basta apelar para a repugnância que a carne dos animais proibidos suscita ao paladar. A águia, o abutre, vedados por Moisés, talvez causem repulsa, por se alimentarem de cadáveres; mas o paladar ou os gostos são algo de bem relativo; o profeta Isaias (66,17) via-se obrigado a anunciar graves castigos àqueles que se deleitavam em comer carne de porco, casnundongos e manjares abomináveis 1 Quanto aos motivos de tabu e toteniismo, são opostos à medula da Lei mosaica, a qual apregoa estrito monoteísmo, um só Deus, e um Deus que não tolera ser representado por imagem alguma, seja de homem, seja de animal. Destas considerações se percebe que só por um concurso de fatõres diversos se explicam cabalmente os preceitos de pureza legal vigentes entre os povos primitivos. Talvez com o decorrer dos tempos os homens tenham perdido a consciência clara do motivo por que observavam a maioria dêsses usos.
42 "Os interditos (de pureza ritual) não careciam de valor religioso, pois arraigavam nos corações a consciência da transcendência de Deus. Percebemos a elevada noção que tinham Davi e seus contemporâneos, da domínio absoluto de .Javé. Tais leis, porém, cuja razão de ser já fôra esquecida, fàcilmente davam ocasião a que os israelitas considerassem a Deus como senhor caprichoso e dura. Os interditos, cujo significado era desconhecido, tornavam-se usos sociais, meramente leigos, destituídos de eficácia religiosa... Por isto foram sendo, aos poucos, transformados e eliminados mediante o aperfeiçoamento das noções religiosas do povo." A. George, "Fautes contre Yahweh duns les livres de Samuel", em

Revue biblique, 53 [1946], 169.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

§ 7.° A ESCRAVATURA Após tudo que foi dito sôbre a mentalidade dos antigos orientais e de Israel, já não causa surprêsa verificar que estêve em vigor neste povo a escravatura. A Lei de Moisés, embora não tenha abolido praxe tão comum e duradoura entre as nações, assegurou, ao menos aos escravos israelitas, 43 tratamento assaz brando, tratamento que, em confronto com o de outras legislações, podia ser equiparado ao de um doméstico ou mercenário (cf. Lev 25,39s). Era geralmente a pobreza, a falta de recursos para pagar as dívidas, que motivava a escravidão em Israel: o devedõr indenizava o credor dando-lhe o seu trabalho e quase a sua personalidade. Todavia, após seis anos de serviço não remunerado e castigos infligidos segundo o arbítrio do patrão, o escravo israelita possuía o direito de ser restituído à liberdade (cf. Éx 21,2s). Emancipando-o, o senhor tinha obrigação de lhe fornecer um pouco de gado e produtos agrícolas, a fim de que pudesse viver até encontrar um ganha-pão próprio (cf. Dt 15,12-15). Caso no período dos seis anos de servidão se registrasse um ano de jubileu (todo ano qüinquagésimo, ano de renovação, de perdão geral, restauração de tudo à ordem inicial), o escravo recuperaria então a liberdade. A Lei previa o caso de que um escravo, sentindo-se bem em casa do patrão, não quisesse fazer uso do direito de voltar ao estado livre (cf. Êx 21,5s; Dt 15,16s), o que é indício de que realmente vigorava notável senso humanitário entre os patrões israelitas. Os escravos usufruíam do repouso do sábado (cf. Êx 20,10) e participavam das festas prescritas pela Lei (cf. Éx 12,44; Dt 12,12.18; 16,11.14). Como se depreende, a Revelação divina contribuía poderosamente para mitigar a sorte dos servos israelitas. Quanto ao fundamento sôbre o qual a Lei mosaica estabelecia essas normas, era não simples filantropia, mas explicitamente a crença religiosa de Israel: a Torá lembrava, sim, a todos os filhos de Abraão que haviam sido escravos no Egito, tendo-os Javé resgatado para que todos fôssem libertos de Deus (cf. Lev 25,42s; Dt 15,15); o exemplo da Benevolência divina era assim incutido como norma que, caso fôsse coerentemente interpretada, induziria a abolição da escravatura em Israel (de resto, o exemplar da Benignidade de Deus para com seu povo mais de uma vez era evocado pela Lei para abrandar os costumes dos hebreus) (cf. Lev 23,31-33; 24,43; 25,38.55; 26,12).
43 Aos estrangeiros feitos servos de israelitas não se reconheciam as regalias enunciadas neste parágrafo (cf. Lev 2544-46).

CAPÍTULO

IX

O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO A história bíblica, assim como a da civilização profana, não deixam de fornecer indícios de que o homem antigo tinha mentalidade rude - dura cerviz, como dizem, a respeito de seu povo, os autores israelitas (cf. Éx 32,9; 33,3; Dt 9,6; 10,16). Todavia uma dificuldade se põe a quem lê a Sagrada Escritura: esta, em um ou outro caso, parece ensinar que o próprio Deus é o Autor da dureza de coração do homem; dir-se-ia que o Altíssimo se compraz em provocar a criatura ao pecado e punir os delinqüentes com rigor desproporcional. É o que faz que no Antigo Testamento predomine a figura de um Deus aparentemente "vingativo, mais ou menos arbitrário na aplicação da justiça". Ao estudo dêste tema dedicar-se-á o presente capítulo. Longe de pretender reconstituir a "teologia" do Antigo Testamento, restringir-se-á ao aspecto "Deus e o pecado na Antiga Aliança". § 1. ° UM PRINCÍPIO GERAL Para se abordar devidamente o assunto, tenha-se em vista. um traço já mencionado da mentalidade oriental: o semita tendia a exaltar a ação de Deus em tudo que aconteça na história, sem distinguir se tal efeito é, direta ou indiretamente, causado ou apenas permitido pelo Altíssimo. 1 Esta tendência, de resto, se enquadra dentro de uma atitude ainda mais geral do pensamento hebraico: o judeu era propenso a atribuir ao dinamismo, ao movimento, o primado sôbre os demais valores que constituem um ser perfeito. Era, pois, a fim de mais colocar em realce a suma Perfeição Divina que êle imputava ao Todo-Poderoso intervenção direta, soberana, em tudo que se faz no mundo; Javé, por conseguinte, na Sagrada Escritura, é apresentado em ato de trovejar (S1 28), ocultar Jeremias e Baruque contra investidas dos ímpios, 2 ditar ou escrever o conteúdo. das tábuas da Lei; 3 os israelitas chegavam a admitir que nem o
Cf. pág. 128, n. 12. Ci. Jer 36,26: "O rei mandou... prendessem Baruque, o secretário, e Jeremias, o profeta; mas Javé os ocultou." Pouco antes, referia o texto sagrado: "Os chefes (do povo) disseram a BaTuque: vai, esconde-te, a ti e a Jerernias; e ninguém saiba onde estais.' (36,19.) 3 Ci. Éx 32,16; vejam-se também Am 4,7.9s; 5,27; 8,10; Êx 21,13.
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PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO

mal fica fora da alçada da atividade divina. 1 Tal modo de falar, apresentando Deus sempre muito envolvido nas façanhas dos homens, acarretava o risco de se encobrir indevidamente outro aspecto da Divindade: a sua absoluta transcendência. Ao contrário, a mentalidade grega, que neste ponto mais influenciou o pensamento cristão, inclinava-se a exaltar principalmente a perfeição ontológica, o perfeitíssimo Ser de Deus como tal; para ela, a Divindade era objeto de contemplação mais ainda
do que sujeito de atividade.

Esta advertência já nos abre a via ao entendimento das passagens bíblicas que falam da intervenção de Deus no mal cometido pelos homens. Passamos a examinar os principais dêsses textos. § 2. 0 O RECENSEAMENTO PECAMINOSO Não há talvez trecho que mais revele a mentalidade dos autores sagrados na questão proposta, do que a narrativa de um recenseamento do povo de Israel instituído pelo rei Davi. Referem-no dois textos bíblicos: 2 5am 24,1-4 e 1 Crôn 21,14. Comparemo-los entre si 2 5am 24,1. "A ira do Senhor 1 Crôn 21,1. "Satâ se levanse inflamou de novo contra Israel, e incitou Davi contra êles, dizen-

do: 'Vai, faze o recenseamento de Israel e de Judá. 2. O rei então disse a Joab, chefe do exército, que estava com êle : 'Percorre, pois, tâdas as tribos de Israel, desde Dá até Dersabé; faze o alistamento do povo a fim de que eu fique sabendo o total da população.' 3. Joab respondeu ao rei: 'Que o Senhor teu Deus torne o povo cem vêzes mais numeroso do que é agora, e que os olhos do rei meu senhor o vejam Mas por que se compraz o Senhor meu rei em faz3r isso?' 4. A palavra do rei, porém, prevaleceu contra Joab e contra os chefes do exército; e Joab e os chefes do exército partiram a fim de fazer o recenseamento do povo de Israel."
4,

2. Disse então Davi a Joab e aos chefes do povo: 'Ide, contai, a população de Israel desde Dersabé até Dá, e trazei-me o resultado, a fim de que eu conheça o seu número.' 3. Joab respondeu: 'Que o Senhor torne o povo cem vézes mais numeroso 1 Ó rei meu senhor, não são todos escravos do meu senhor? Por que é, pois, que o meu senhor pede isso? Por que fazer vir o petado sôbre Israel 2' 4. Mas a palavra do rei prevaleceu contra Joab. Éste se foi e percorreu todo Israel, voltando por fim a Jerusalém."

tou contra Israel e excitou Davi a fazer o recenseamento de Israel.

CL Am 3,6: "Ressoa a trombeta em alguma cidade, sem que o povo se espante? Assim acontece desgraça em alguma cidade. Sem que Javé seja o seu autor ?" Como se compreende, o mal é apenas permitido por Deus, que, tendo feito as criaturas livres, não lhes impede a opção entre o bem e o mal; antes, permite cometam o mal, que o próprio senhor sabe fazer cooperar para a vitória decisiva do Bem no fim dos tempos. 5 Cf. T. Boman, Das hebraeische .Denke2t im Vergleich viU devi griechischen ( Goettingen, 1934).

7 Já que um recenseamento significava 'contar vidas". Eis como o episódio era narrado no séc.Satã (= Adversário). em conseqüência. entrar em setor que é propriedade exclusiva de Deus. IX a. excitado o monarca a promover um recenseamento das tribos de Israel. Gelin. IV/HI aO. com os israelitas. Problêmes d'Ancien Testament (Paris. IX a. um recenseamento significava ato de arrogância do homem frente a Deus. 9 . por excelência. 1955). Só tardiarnnte. Davi insistiu na execução da ordem. para isto.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 153 Particular importante: 2 8am data provàvelmente do séc. procedia como qualquer outro soberano. ainda hoje não se possa proceder ao recenseamento exato de certas tribos de beduinos na Palestina.3 (o sacerdote que incorre em falta. 6 o texto bíblico mesmo insinua esta concepção: refere que Joab.C. prescrevia a Lei mosaica que. VI ao. Gên 15.C. Bettencourt. o Senhor houve por bem servir-se. Diz então o hagiógrafo que Deus mesmo instigou Davi ao pecado. devendo puni-lo. ed. . torna culpado o povo). o povo de Deus. a Satã a instigação ao mal que a Deus fôra imputada. 1V/Til a. castigado pelo flagelo de uma peste que durante três dias assolou a nação. pouco antes da seção acima...5).) referiu no livro das Crônicas a mesma história. E. O autor de 2 8am 24 dava a entender. Não obstante as palavras de Joab. 267s. 34. 6 E êste modo de pensar que explica. Veja-se. 1 Mais ainda: tendo Deus prometido a Abraão posteridade inumerável (cf. teria.3). Ciéncia e Fé na História dos Primórdios. mandando recenseá-lo. ao passo que 1 Crôn terá sido redigido nos sêc. consciência de que 2 8am 24 empregava um modo de falar ambíguo.. isto é. a respeito. mas a deve tõda e exclusivamente a Deus. CL A. é nome próprio e designa um anjo tentador. foi. como se se considerasse senhor absoluto dos seus súditos e contasse ünicamente com os recursos de administração humanos. (Rio. procurou dissuadir o rei (2 Sam 24. que o povo de Israel incorrera em grave culpa perante Deus. 1952). é que êste conceito aparece na angelologia judaica. porém. depois do exilio (séc. conforme o caso paralelo considerado em Lev 4. e com particular razão o fêz: Israel era. nos casos de recenseamento legitimo. tendo recebido a dita ordem. Tinha.1. Ex 30. Isto lhe lembraria que éle não é senhor da sua vida. Um redator bem posterior (séc. general de Davi. e resolveu dar mais precisão teológica à fórmula do cronista anterior: atribuiu. Perguntar-se-á de passagem: e que mal podia haver nessa medida de caráter administrativo? Para os orientais. usado sem artigo em 1 Crôn 21. todo individuo alistado pagasse um tributo a Javé (cf. sim. pois. 8 O pecado de Davi tornava o povo inteiro culpado. um recenseamento do povo tomava f àcilmente o aspecto de verificação do dom de Deus.12). ditada por falta de confiança. 2. o monarca. pois implicava a intromissão da criatura num domínio reservado ao Criador só — o da multiplicação dos sêres vivos. de uma falta do rei Davi.).C.

enfurecido. o Senhor se afastou dêle. Aliás. "Espírito". designa claramente. de 50 dc. o vocábulo "espírito" deve ser interpretado à luz de outros trechos do Antigo Testamento. do "espírito de sabedoria" (Éx 28.30). deixava-nos concluir que o Altíssimo não fizera senão permitir a falta. Ilustrados por tais textos.12. Ora a Escritura explica isso tudo. foi rejeitado por Deus. em tôdas essas passagens. do "espírito de impureza" (Zac 13.14. dizendo que "o espfrito do Senhor se retirou de Saul. etc. disposições interiores de um indivíduo. em que predomina ora a inveja.154 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Mencionava assim o verdadeiro inspirador do pecado de Davi.10). ora outro atributo (não se trata ai de algum anjo ou demônio).23. esta atitude mesma é mencionada cõmo proveniente do Senhor. cada um é tentado por sua própria concupiscência. uma atitude de ânimo. ora a infidelidade. tentou matar Davi. § 3° O "MAU ESPIRITO" DO SENHOR 1." (1.' Com efeito. ao ser tentado. 5. Deus não pode ser tentado para o mal nem tenta alguém.10. na sua epístola. Tiago.). os dizeres de 1 Sam significam. e um mau espírito. 10 deixou-se conseqüentemente mover por disposições más. que Saul perdeu suas habituais disposições de piedade e deferência para com Javé ("o espírito do Senhor dêle se retirou"). Ao contrário. o "mau espírito do Senhor" é mencionado outrossim em 1 Sam 18. reagia contra a falsa noção que o texto de 2 5am 24 podia sugerir: "Ninguém. dir-se-ia interpretando fielmente a mente do hagiÕgrafo expressa em 1 8am 15.14. prestes a englobá-la dentro do sábio plano da Providência. pois.2). Núin 5. conforme o contexto. que o levavam até ao desvairo. vindo do Senhor. Como se há de entender uma tal "possessão"? Nas expressões acima. abrindo-nos o caminho para a exegese de outras semelhantes. ora a luxúria. uma atitude hostil ao Senhor ("um espírito mau"). do "espírito de torpor" (Is 29. por duas vêzes.3). dêle se apossou" (1 8am 16. O rei Saul. Em conseqüência. no início da era cristã (ca.13. que falam do "espírito de inveja que se apodera de um marido" (cf. do "espírito de prostituição" ou apostasia religiosa (Os 4. 10 Já que Saul se afastara do Senhor. diga: 'É Deus quem me tenta.) Eis como a Sagrada Escritura mesma explica uma de suas passagens obscuras. 1 Sam 18. também o apóstolo S.9).10s). traspassando-o com uma lança contra o muro (cf.4). depois de se ter tornado indigno de sua missão. via-se freqüentemente acometido de acessos de neurastenia. ora a sabedoria. 19. .

12 Tais passagens significam apenas que Deus é o Autor de feitos destinados a promover o bem dos pecadores. que em tudo viam a atividade de Deus. afirmando em Lx 8.17. visando a obstinação dos pecadores." (Is 6. fechando-se nos seus propósitos perversos. 14. Quanto à missão de pregar confiada ao profeta Isaías.scientemente no mal. e dize a ésse povo: Ouvi. Para os judeus. Jos 11. 10.12.15). sim. De tal modo que não se converta e não seja curado. 13 Os magos do Egito com razão perceberam nos prodigios realizados e dedo da Divindade e o intimaram expllcitamente a Faraó (cf. Faraó reconhecia estar faltando contra Deus (cf.14. e não entendais.4. Semelhante é a exegese do trecho de Jz 9. Lx 9. espírito que provocou rebelião dos siquemitas contra seu chefe. isto equivalia a uma ação direta do Senhor sôbre o coração humano. Isto não quer dizer senão que o Senhor deixou se originassem discórdias graves entre homens que se haviam prêviamente associado para cometer hediondo morticínio (ou seja.16-20. 7. seja do Faraó. o assassinato de setenta consanguíneos de Abimeleque). 11 12 . 3 Rs 12.235: "Deus enviou um espírito mau entre Abimeleque e os habitantes de Siquém".3. à vista das mesmas obstinam-se ainda mais con. o egoísmo não refreado dos contraentes tende a rompê-la! É o que se dá sem especial intervenção de Deus. 17. resistindo aos sinais divinos. e não compreendais.. se se consideram passagens como Is 1.) Eis ainda alguns paralelos: Dt 2.35). Vêde.28 que o monarca mesmo "endureceu o seu coração". Éx 8. do seu êrro. O Senhor mandou ao profeta Balas: "vai.1. em si benévola.20. 16.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 155 porque foi Deus quem permitiu.27.11. assim procedendo. cedo ou tarde.9.. Êz 4.27. 11 ou que "continuou a pecar e tornou pesado o seu coração" (9.11. fisiológicas e psicológicas.15. toma-se ocasião para que a criatura tome grave atitude pecaminosa.9s). " seja do povo eleito. 9.21.19-23.16).25. foi o que se deu no caso acima. em vez de se render ao significado providencial de tais obras e se salvarem.8.30. 2 6am 12. torna-Se evidente que não visava obcecar o povo no pecado (como poderia sugerir Is 6. que Saul fôsse infiel e ressentisse as conseqüênõias. destarte a ação divina. Análogos aos textos antecedentes são aquêles onde o hagiógraf o diz que Deus endurece o coração dos homens. todavia os homens.10. 11. 10. 22. 1 6am 2. Cf. Na história do Faraó em particular. o próprio hagiógrafo interpreta a sua expressão literária.11. Torna pesado o coração dêsse povo E duros os seus ouvidos. A aliança fundada sôbre planos pecaminosos não pode ser duradoura.

porém. Por fim. surge na assembléia dos sedutores e destemidamente anuncia o absoluto malôgro da batalha.. Contudo. Paralelamente. ainda se poderia citar o de 3 Rs 22. portanto. apresentou-se então a Javé um dos assistentes celestes. que era mero artifício oratório. não corresponde.C. predisseram ao rei pleno sucesso na campanha. resolveu consultar os profetas que o assistiam. O hagiógrafo conduz o leitor à côrte do rei Acab de Israel (874-853 a. Eis. vendo que Acab não lhe dava crédito..) 4. ou seja. antes. que em dado momento um autêntico profeta. As admoestações de Isaías. rei por meio de novo expediente. de partir para a guerra. Na base desta narrativa. sem tolher a liberdade do homem. segundo a mente mesma de Miquéias. A proposta tendo sido aceita pelo Senhor. Interrogados. afirmando categàricamente "Deus a ninguém manda seja ímpio.).. realizara o emissário a sua missão. tentou persuadir o. o Senhor sabe sempre envolver os desmandos dêste dentro de um plano sumamente harmonioso. não hesitasse o rei em abrir os olhos para o perigo que o ameaçava na expedição planejada! Neste trecho bíblico. deliberavam sôbre a maneira mais eficaz de iludir Acab.6-23: é em têrmos particularmente vivos e insistentes que apresenta o "mau espírito do Senhor".156 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que o profeta exorta os judeus à conversão. Ora havia naquela época não poucos falsos portadores da Palavra de Deus.20. na plenitude dos tempos. o autor do Eclesiástico dava com tôda a clareza a norma básica para a exegese dos textos acima. a um fato que se tenha realizado no . embora soubesse que seus ensinamentos e milagres acarretariam a queda momentânea de Israel. seriam ocasião para que muitos. onde prediz que a ação de Deus purificará Israel.25-27. não quis deixar de apregoar a "Boa Nova". a visão da côrte celeste e do anjo sedutor que Deus envia à terra. ter visto os céus abertos e o Senhor sentado num trono. porém. o qual desejava fazer uma expedição bélica contra o rei da Síria. Miquéias. A ninguém concede a licença de pecar." (15. fechassem ainda mais conscientemente os olhos à verdade. que faziam carreira na côrte real. o qual se ofereceu para tornar mentirosos e enganadores todos os profetas da côrte de Acab. porém. induzindo-o à infeliz incursão contra o rei da Síria. em meio aos anjos seus conselheiros. já próximo da era cristã. um antropomorfismo impressionante: disse-lhe.. pois. podia Miquéias repetir ainda com mais vivacidade a sua advertência: as palavras dos profetas encorajando Acab à guerra não eram senão o efeito de uma ação sedutora muito consciente e maliciosa. eram a trama de homens mal intencionados. Na linha dos episódios que vimos analisando. obstinados no mal. e Is 1. Jesus.

VI a.C. conforme o texto hebraico atual e a tradução latina da Vulgata. concede licença para desencadear males na terra. pois destarte o Senhor lhe faria expiar o morticínio anteriormente cometido contra Nabot (cf. rezava uma cláusula referente aos caatitas ou ministros subalternos do culto: IA Cf.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 157 mundo superno.. se deu o seguinte episódio: 'O Senhor prostrou os habitantes de Betsamés.19. tinham. 9. como se depreende de várias prescrições da Lei mosaica. § 40 Ø DEUS QUE FULMINA Há duas passagens da história sagrada em que Deus é mostrado a punir os homens com a morte. aldeia israelita.) O texto. foi então que. depois que. por terem olhado para a arca. conforme um plano sábio. ela não passa de mero recurso de linguagem destinado a calar no ânimo do rei Acab mais fundo que uma simples admoestação. a noção de um anjo mau sedutor a quem Javé.). A realidade correspondente a tais artifícios não é senão a seguinte: Javé resolvera permitir (sem deliberar com os anjos) que Acab fôsse seduzido pelos mentirosos oragos da côrte e. raptada pelos filisteus.). 153. IX a. Numa das etapas do itinerário. já no séc. sofresse grave derrota.C. Ora a falta de respeito para com o Divino foi sempre considerada grave culpa no Antigo Testamento. Miquéias e seus interlocutores tenham tido conhecimento de tal espírito tentador. em conseqüência. n. sim. Daí perguntar-se: será tão cruel procedimento compatível com o conceito de Justiça Divina? 1. ainda nos é forçoso dizer que o acesso dêsse anjo maligno junto a Deus e a aceitação dos seus serviços por parte do Senhor são meros artifícios usados pelo profeta para avivar a sua exortação. 3 Rs 21. por exemplo. prostrou setenta homens dentre o povo e cinqüenta mil da multidão. Os judeus. Assim. 14 Dado que. de 1050 a.1-29). principalmente após o exílio (séc. sem dúvida. O primeiro dos ditos trechos faz-nos retroceder aos tempos de Samuel (ca. . o móvel sagrado pousou em Betsamés. Refere-se à volta da arca do Senhor para o seu santuário em Israel. pãg.' (1 5am 6.C. oferece ao leitor dificuldades de interpretação literárias e teológicas. Os exegetas lhe têm dado explicações diversas: a) os betsamitas lançaram para a arca do Senhor olhares curiosos. indiscretos ou irreverentes. sem que para isto pareça haver culpa proporcional. estivera ém terra pagã.

a cifra de cinqüenta mil ultrapassaria o número de habitantes de tôda a região de Betsamés. O conhecimento dêstes particulares certamente contribui para esclarecer certos textos da Sagrada Escritura. que os antigos. das quais a segunda é evidentemente errônea. o problema parece estar mal formulado. Éx 19. morram. julgavam que o sagrado é intangível. dado o perigo que ameaçava o povo. não se podiam. corno julgam bons exegetas modernos. há quem julgue que os betsamitas foram punidos por anteriores pecados do povo ainda não expiados.. ainda que fôsse por mero olhar (cf. os críticos bíblicõs dão preferência à forma do texto de 1 5am 6.. não é mencionada por alguns manuscritos hebraicos nem por Flávio José (Ant.15) não atesta o seu respeito religioso ? considerando tais dificuldades. em conseqüência. De modo geral. alguns israelitas hajam indevidamente tocado a arca (Ant. inacessível ao homem não iniciado. Núm 4. Entre os judeus.. Flávio José. pois refere duas cotas de vítimas (setenta e cinqüenta mil). supõe que. mesmo pagãos.4).1.1.C. sem perigo de morte.21).) Os levitas mesmos. 6. Éx 19. quando a glória do Senhor se tornou manifesta sôbre o monte Sinai. sem arriscar a vida. para que não entrem. terá sido interpolada.19 parece ter sido maltratado pela tradição literária. homens exclusivamente dedicados ao santuário.515). 6. Moisés cerrou o acesso à montanha. o versículo 1 Sam 6. ' Na verdade. em particular." (Núm 4. a fim de que o povo não se aproximasse indevidamente do lugar da aparição (cf.195. todos os objetos religiosos.23). para ver os objetos sagrados e. Sabe-se.4).19 apresentada pela tradução grega dos LXX: . principalmente os que servem ao culto divino. a irreverência para com as leis do culto eram punidas com especial rigor. simultâneamente com o olhar. aliás. Contudo pergunta-se se realmente podia haver culpa grave nos betsamitas por terem considerado a arca.. Aarão e seus filhos assinalarão a cada qual o seu ofício. Nenhuma dessas interpretações satisfaz plenamente. 6.158 PABA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "A fim de que (os caatitas) vivam e não morram quando se aproximarem dos objetos sagrados. de adotar usos e crenças do paganismo. 1 d. comportam a presença de uma fôrça misteriosa e temível. entrar em contato com o Santo. além disto. O texto hebraico dos livros de Samuel chegou até nós em estado de conservação deficiente. por um só instante que seja. invisível. por isto.. a nenhum profano era lícito. aproximar da arca do Senhor antes que os sacerdotes a tivessem recoberto (cf. historiador judaico do séc.. Considerando isto. que se oferecia aos ornares de todos? O fato de haverem prèviamente oferecido sacrifícios ao Senhor (cf.

note-se bem . pois diz o texto sagrado (6. por análogos motivos." '° Outros autores (Fritz Kahn. 1949). a fim de explorar a religiosidade do povo! ' Esta sentença. itinerário interrompido pela permanência da mesma em Cariatiarim ou Eaalá. Médeblelie. enfurecido. pasta sôbre um carro de bois. da qual uma centelha fere o homem profano como um raio. E . O escândalo assim suscitado teria provocado a punição de setenta membros de tal família! A necessidade de preservar a verdadeira fé e excitar a consciência de um povo de dura cerviz podiam exigir tão severa intervenção de Deus. e isto. O Senhor então prostrou setenta homens dentre êles. 1 5am 7. Trecho que. os castigos infligidos pelo Senhor. dado o seu Ê esta a variante que preferem. Theologlsches Woerterbuch zum Neuen Testameat 1 (Stuttgart.0 "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANflGO TESTAMENTO 159 "Os filhos de Jeconias. não da crueldade. a sentença de que o exegeta moderno Procksch se faz porta-voz "A arca aparece coEo que cárregada de eletricidade sagrada. 171-173. lago. dentre todos os moradores de Betsamés.. teriam tomado uma atitude de indiferença. porém. que se carregava mediante eletricidade atmosférica". de mais a mais que o episódio se dava numa fase da história assaz remota.7-10). 1953. Em geral. de resto.1). Como interpretá-la? Antes do mais. nos são desconhecidos." 15 Os filhos de Jeconias. 92). haviam feito da arca "um autêntico condensador elétrico. o fulminou com a morte. O hagiógrafo continua a descrever o itinerário da arca do Senhor em Israel. 373. de Vaux. que durante o trajeto certo varão chamado Oza percebeu que a arca. Aconteceu. explicam que os sacerdotes de Israel. Tal punição talvez desnorteie a boa mente do leitor. XVIII (1955). mas não criticavam. que. quando Israel ainda era muito rude. Denis Papin). cedendo à imaginação. Les livres de (Paris. foram os únicos que não se alegraram ao ver a arca do Senhor. tocou-a então com as mãos a fim de ampará-la. R. Tendo estado setenta anos em Cariatiarim. porém. conhecedores dos segredos da eletricidade. rejeitar-se-á.a advertência produziu seus efeitos.. por exemplo. o Senhor. corria o risco de cair por terra. pouco após o episódio de Betsamés acima referido (cf. o santuário foi transferido para Jerusalém. chama a atenção é o de 2 5am 6. 15 Samuel . III (Paris.20) que os betsamitas reconheceram no ocorrido um sinal. de Pirot-Clamer. 41) A. onde Davi erigira a capital do seu reino. "Les livres des Rois" em La Sainte Ribis.6s (paralelo a 1 Crôn 13. os israelitas temiam. mas da santidade de Deus! . como descabida.. 17 Veja-se curiosa exposição da tese em Anhembi. 2. 16 Artigo publicado em Kittel.. contrastando com o entusiasmo sagrado do povo.

21s. não era permitido aos hebreus violar os objetos sagrados com olhares indiscretos (como acima ficou dito). ao contrário. Como quer que seja.42. representava uma falta contra as prescrições de culto israelita.C.. embora fôssem encarregados de transportar os objetos do culto (turíbulos. 1940). pinças. nem a teologia. SI 75. porêm. involuntário. que não sempre distingue entre transgressão objetiva e culpa subjetiva. negligência")...53. e barras que jamais deveriam ser separadas do móvel. sem levar em conta a intenção de quem agia. era boa a sua intenção. consciente. dir-se-ia que houve uma intervenção de Deus entre o toque e a fulminação.160 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO caráter gratuito. A pena de morte infligida a Oza por haver transgredido a proibição poderá parecer excessivamente severa. 20 Aliás. 20 Algo de semelhante se dá às vêzes ainda hoje com o homem simples. voluntário. 43.. carece de fundamento tanto no texto sagrado como na própria história da civilização humana (que assinala a utilização das fôrças elétricas a época relativamente recente). 17111 a. ao se ler a narrativa.. a fim de não se dar ocasião a que alguém o ousasse tocar diretamente (cf. deviam fazê-lo sem os atingir com as mãos (cf. 31. Com efeito. (Gên 31. séc.15).12. ' consideravam não raro apenas a ação externa. é irrisória. O original hebraico diz que Oza foi punido por sua "falta" ('al-hassal. o patriarca Jacó. também "êrro. há de ser estimado à luz da concepção particularmente rigorista com que em Israel era tachada a violação das coisas santas (cf. 158). 18 Uma dúvida ainda fica: terá tido Oza ao menos a consciência de que praticava algo de condenável? Não parece que.). note-se que a causa da morte de Oza não parece proceder da arca mesma. O episódio. Os 2. Núm 4. Éx 25. muito menos lhes era lícito tocá-los. e pecado material. os antigos israelitas não distinguiam muito exatamente entre pecado formal. bacias. Hehlisch. considerada em si. inconsciente. 18 Consoante essa mentalidade rude. P. muito apurada. ). Theologie des Alten Testamente (Boim. já que desejava preservar de incidente a arca do Senhor? O texto bíblico não é muito claro neste particular. Tão rigorosa era mesmo esta última proibição que os próprios levitas. já falam claramente da mansidão e da ternura divinas (ef. 10 Cf. pág. etc . designava o Altíssimo pelos três seguintes títulos: "O Deus de meu pai. nos ínicios da história sagrada. Entre outras coisas..) Livros posteriores da sagrada Escritura. - . Mas por que terá o Senhor procedido de maneira tão prepotente ? A ação de Oza. o Deus de Abraão. só podiam carregar a arca do Senhor servindo-se de barras. porém.15).. o Terror de isaque . cf. ademais é preciso não esquecer que no Antigo Testamento nos defrontamos com um povo que muitas vêzes só se rende às impressões fortes.

Conforme 1 5am 14. Mt 5.12-14. que intercedeu pelo réu inconsciente. porém. já que o texto sagrado não fornece indicações suficientes para tal. A prova de que essa desordem era injúria feita a Deus é que devia ser reparada por um sacrifício. em Revue biblique. para haver falta. a distinção entre pecado cometido por mdústria maliciosa e pecado cometido como que involuntárlamente. é preciso haver responsabilidade pessoal do pecador. exegetas que. em um ou outro caso. Também nao se percebe devidamente que as exigências de . inconsciente. La Judaïsme pciiestinien au temlos de Jésus-Christ. julgam necessário renunciar ao entendimento pleno do episódio de 2 5am 6. Importante: o autor julga que a concepção rabínica é a expressão fiel do que se acha nos livros do Antigo Testamento. quer não. assim como da mentalidade judaica. É o que ocorre ao se tratar de homicídio. encontram-se outros que os completam. julgava que isto lhe podia ter acontecido em punição de faltas que ela mesma ignorava (cf. tendo perdido o filho. prescreve. seu pai. George.1-5. há falta porque há desordem." A. em Éx 21. 82.20) do Evangelho. A viúva de Sarepta.. cristãos. pois dão 21 "Levando em conta as idéias professadas no Antigo Testamento e em tõda a literatura judaica. não causa estranheza que Oza. quer seja conhecido. a ofensa contia Javé tema a forma de um ato proibido em sua materialidade mesma. salvou-o o bom senso do povo. 182. fizera em nome de todo o exército. em última análise. de que Jônatas não tinha conhecimento. pudéssemos finalmente compreender a "justiça melhor" (cf. 3 Rs 17. não obstante. Ao lado dos trechos que manifestam rude mentalidade religiosa em Israel.6s. pelo simples fato de ter cometido um ato em si mau.6 trata de faltas cometidas por ignorância. 21 Assim é que no Antigo Testamento a longa seção de Lev 4. voto. Eis o testemunho de outro abalizado autor "Para as gerações antigas. expressa pela lei. 22 Considerados êstes particulares. antes.Javé são conformes à sua sabedoria tanto quanto ao seu Poder. Trazem.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 161 dos rabinos contemporâneos de Cristo fazia distinção entre pecado formal e pecado meramente material. negligenciando a intenção do agente. § 5. que dava valor preponderante às ações exteriores. é a violação de um mandamento. quer não. Não faltam. 'Pautes contre Yahweh dans (es livres de Samuel". porém. se possa ter tornado merecedor de castigo. um ensinamento religioso: veja-se nêles mais um aspecto dos preparativos pelos quais o Senhor quis fazer passar o gênero humano a fim de que nós. Jônatas se viu ameaçado de sofrer a morte por ter violado um voto que Saul. Bonsirven. 53 [1946]. Ainda não se percebe claramente que.18). tal finalidade seria indigna de Deus. quer seja a transgressão consciente e deliberada. 1935).. II (Paris.24-45. é esta uma conselüéncia direta do caráter jurídico da moral judaica. . podemos definir o pecado como sendo a transgressão da vontade divina. sacrifícios expiatórios para tais ações. porém. 22 verifica-se. embora animado por boa intenção." J.° CONCLUSÃO Os episódios acima analisados não foram consignados nas Escrituras para fazer tropeçar o leitor cristão.

6-14. Mc 12. 28. por meio de Moisés.5.37.27). Mas porque o Senhor vos ama e quis cumprir o juramento que fêz a vossos pais.9-12.18. a Escritura do Antigo Testamento. é também Aquêle em cuja benevolência o povo deposita profunda confiança.37. embora pouco esclarecido.5. ci." (Dt 9. o Senhor. sois o mínimo de todos os povos. mostrava também ser o Deus de Bondade e Amor. 17. no zêlo religioso sincero. 4. Talvez nenhum livro histórico da Sagrada Escritura ponha tanto em realce a piedade pessoal.6). tôdas as admoestações dos Profetas e. 19. lembrava que se revelara aos Patriarcas e exercera a sua Providência para com Israel.9.162 PARA ENTENDER 0 MiTIGO TESTAMENTO a ver que o Senhor Deus. É o quõ se verifica na história deAna. O Senhor aderiu a vós e vos escolheu. Mt 22. seu desejo de of erecer sacrifícios em 1 5am 13." (Dt 6. não porque ultrapasseis em número todos os povos. na celebração freqüente dos sacrifícios populares (1 Sam 2. como reconhecia o Doutor da Lei perante Jesus (cf. sois um povo de dura cerviz.) "Amarás o teu próximo como a ti mesmo.18s). ao mesmo tempo que se revelava como "Deus de Justiça".13. o voto de Saul em 1 Sam 14. 19. donde procede a maioria dos textos considerados neste capítulo. 15. pede um filho (1 8am 1. amor a Deus: "Amarás o Senhor teu Deus. outras afirmações em 11. devota e confiante. 2 8am 5. principalmente no amor de Davi..10.13. Lc 10." (Lev 19. dentre todas os povos que estão sôbre a face da terra. pois é o grande Miado e Tutor de Israel. em geral.34-40.) Voltando-nos agora para os livros de Samuel em particular.20:26). Com efeito.6s.. 8. que. principalmente na guerra: 1 Sam 4. Da sua parte. de tôda a tua alma e com tôdas as tuas fôrças.28-31.5. que promove .15.8-10.) "Sabei que não é por causa da vossa justiça que o Senhor vosso Deus vos dá êsse belo pais (Canaã) como propr!edade.24-35.6. de todo o teu coração.11. A êstes dois mandamentos se podiam reduzir tôda a Lei. observamos os seguintes traços complementares: O Senhor que pune. as íntimas relações dos fiéis com o Senhor. de Saul (cf. não em virtude de algum direito ou merecimento do povo. no entusiasmo das "escolas de profetas" (1 8am 10. mas por mero amor: ilO Senhor vosso Deus Vos escolheu. como os livros de Samuel.) O segundo lhe era semelhante: cf.20)." (Dt 7. o primeiro preceito da Lei mosaica era o do amor.

18s. embora muito valor se desse ao aspecto exterior da santidade ou da virtude.19s. art.31). Deus.21).25. 24. o autor sagrado inculcava que Deus vê além das aparências: "O homem considera a face. testemunha amor.7.22.) 2 23 Observações devidas a George. porém. .514-16. após o pecado.O "DEUS DE JUSTIÇA" DO ANTIGO TESTAMENTO 163 o culto Sagrado (1 Sam 26. Por fim. 182s. 2 Sam 6. percebe o coração.10). Davi sabe que a sua vida é cara a Deus (1 5am 26. cit. o seu arrependimento.. não temor apenas (2 5am 12.13. 2 5am 7.16-23." (1 5am 16. 15.24. 12.

de um lado. e ainda é. O primeiro de tais ternas é o do sangue. Esta tese (deficiente. Os textos israelitas que se referem ao sangue. observando o papel importante que o sangue desempenha no funcionamento de um organismo. 1 1 Poema assino da criação vI. Pode-se notar. Os sábios antigos. será preciso mostrar a mentalidade própria que anima os hagiógrafos quando. assim lhes comunicara a vida. Cf. no intuito de transmitir a sua mensagem. estabeleceram o princípio solene: "O sangue é • sede e o veículo da alma ou da vida" ou "O sangue coincide com • vida mesma". por exemplo. bem como em oitenta e oito passagens do Novo Testamento. de outro lado. intimamente associado à religiosidade e ao culto sagrado em geral. êle desempenha notável função. Eis o que nos leva a empreender o estudo proposto neste capítulo. 5. que se poderia perguntar se isto não implica derrogação ao conceito de um Deus espiritual e transcendente.CAPÍTULO X SANGUE E VIDA Os três capítulos que se seguem considerarão alguns temas por ocasião dos quais os escritos do Antigo Testamento aludem a concepções assaz propagadas entre os povos do Oriente. Clwix de tentes religietx assijro-babyloniens ( Paris. assim como no cristianismo. a fim de que o leitor possa plenamente penetrar o sentido do texto bíblico. hão de ser devidamente focalizadas. Estas. principalmente nos atos da liturgia. principalmente os semitas. 1907). Outrossim M. 65. atribuem-lhe importância tal. se exprimem de forma semelhante à da literatura extrabíblica. Etudes sur Les . Lagrange. O sangue era. O valor religioso do sangue está baseado num pressuposto da fisiologia oriental. Dhorme. é mencionado cêrca de trezentas e oitenta vêzes nas páginas do Antigo Testamento. que entre os assírios o poema da criação afirmava ter o deus Marduque plasmado os homens com o seu próprio sangue. não há dávida) haveria de entrar nas concepções religiosas dos antigos homens. P.-J. Na religião de Israel.

quo est sedes animae. Estas idéias tiveram duas conseqüências práticas de grande importância na história sagrada § 1. 1.23. é o de colocar-se na atitude de réu e reconhecer a justa sentença que sôbre êle pesa. 1 Por conseguinte.11.sangutnis imttationem. cedendo ao pecado. 5. 231.3.." (Lev 17. o mesmo se narra dos mártires do Antigo e do Novo Testamento em 2 Mac 8.166 PAfl ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO O conceito fisiológico era igualmente familiar aos israelitas. 252s. ii. L'évolutíon religicuse .14. conforme o Apóstolo." (Dt 12. 243.2. que é a vida mesma. Não podendo. à imitação do sangue. portanto. no qual está a. 349. necessário para a santificação do homem decaído. . ainda pode aspirar a uma reconciliação com Deus. Tão estranha lei se entende pelo fato de que. pela desobediência o homem se afasta de Deus. norteia a dispensação dos dons de Deus após a culpa cometida no 'paraísa O derramamento de sangue foi. sede da alma. 79. em virtude de gratuita condescendência divina. Assim em Gên 4. que exprimia junto a Deus os sentimentos de justiça do defunto. o prirneiro passo que há de dar. incorre inevitáveimente na morte.) A morte não é sanção que Deus arbitrà. Mesmo entre os romanos encontram-se vestigios de tal fisiologia. • alma de tôda carne é o sangue. ad . Todavia Deus não permite que o homem tire a vida a si mesmo. e será até o fim dos tempos. consoante a sua praxe de educar e elevar os homens mediante uma condescendência prévia.10 o sangue de Abel. certamente hás de morrer. mas corolário lógico da culpa." (Oén 2. Dhorme.Lança fora a alma côr de púrpura.. o homem perdeu o direito à vida. Afirmava a Lei mosaica: "O sangue é a alma (= vida).) Ou ainda: "A alma (= vida) da carne está no sangue. ainda que o fizesse em ódio ao pecado (a vida é propriedade exclusiva do Criador). derramar o próprio sangue para reconcir d'israel. religions sêmiUques (Paris. Vergilio mesmo refere: 'Purpuream vomit UM animam . iniquamente sacrificado. Apc 6." Agi. 3 "No dia em que comeres do fruto proibido. 2 De resto. em conseqüência disto." Aen. 1905).22) É êste o princípio solene que. Deus no Antigo Testamento houve por bem adaptar as suas determinações a tal concepção.rlamente impôs ao pecador. por isto. Hebr 12... atribuíam-lhe uma voz própria. é dito clamar a Deus. . 17.) 2 De tal modo era o sangue identificado com a vida que após • morte do indivíduo os judeus julgavam que o sangue conserva autonomia e personalidade. sim. E.24. se após a queda o culpado. 9.0 "SEM EFUSÃO DE SANGUE NÃO HÁ REMISSÃO DE PECADO" (Hebr 9.. 201-219. ainda nas línguas modernas empregam-se equivalentemente as expressões "dar a vida" e "dar o sangue" pela pátria.. sérvio escreve: "..

algo de abominável a Deus. reconciliação com Deus. "Die substitutionstheorie und das alttestamentliche Opfer"." (li. o cordeiro era substituição. 1 Assim. em lugar do peito do homem. 106 (1932). 21 (1940). 290. 'tal oblação exprimia o arrependimento do homem pecador e seu anelo de se unir de novo a Deus. Algo de semelhante é atestado por Ovídio. "Survivancez par substitution des enfants dans l'Afrique romaine". 4 imolavam-nos e ofereciam o seu sangue a Deus em substituição do sangue. A. 592-599. Metzinger. Veja-se também S.. sanguina pra sanguine. Por disposicão divina. vida por vida."Pagaram a dívida sagrada. porém. da personalidade. Is 1. que trazem fórmulas como: "Sa- crum redgiderant. estava intimamente ligada no Antigo Testamento a noção de aliança com o Senhor. inflamada de zêlo religioso. um costume quase espontâneo entre os povos dé outrora) recorriam a animais irracionais. Baseados nesse conceito de expiação. Carcopino. pois. Ez 44. tais vítimas preenchiam de certo modo a finalidade de satisfazer à Justiça divina (cf.11.SANGUE E VIDA 167 liar-se com o Senhor." Cf. tornavam-se um sinal de hipocrisia.. do oferente. após o dilúvio. à semelhança do que se dera com Adão no paraíso: dotadó da amizade divina.11). é a que se acha acima exposta. a nuca do cordeiro. expressão de concepções politeístas e supersticiosas. em Bíblica.7). . 1. sangue por sangue. O autor faz notar que no Oriente de nossos tempos ainda está em vigor tal antiquíssimo costume. Curtiss. Na medida em que eram realmente a afirmação de uma alma contrita. dos quais refere varrão: Populus pro se in ignam animalia mittit . Em testemunho do costume entre os semitas. o peito do cordeiro. Lev 17." De lingua latina. 156-162. Pasti.10 quem fala pràpriamente dessa aliança com os primeiros pais. Ainda em 1930 foram descobertas no santuário de Saturno em N'gaous (Africa romana) quatro monumentos votivos. 1913). com Noé salvo 4 Entre os pagãos. em lugar da nuca do homem. fôra chamado a uma aliança com o Criador. 159-187. os judeus conheciam muitos e variados sacrifícios no seu ritual. reaver a graça equivalia a entrar num pacto sagrado com Deus. Lev 1-7)." 'Alma por alma. todavia a idéia fundamental que a inspirava. (0 sacerdote) oferece o cordeiro em lugar da vida (do devoto) a cabeça do cordeiro. desde. rientaUschen Geisteskultur ( Leipzig. eis ao menos um texto do ritual assirio-babilónico: "0 cordeiro faz as vêzes do homem. gratidão e suas preces (cf. desde remota antiguidade os israelitas (seguindo. distinguiam tipos diversos de impureza.O povo atira animais ao fogo em seu favor. Handbuch der alto-.. 5 É o autor de Edo 17. 1903). em Revue d'histoire dez Reltgions. 353-377. que não fôssem acompanhadas de uma oblação interior ou de autêntico espírito de penitência. éle a entrega em lugar da cá beça do homem. 6. Também mediante a oblação de sangue exprimiam adoração. como se compreende. de resto. como os profetas de Israel muitas vêzes afirmaram (cf. Cf. a cada um dos quais correspondia uma oferen da própria. A idéia de expiação. a praxe era. da vida. obra em que se encontram citados vários outros textos). vita pra vita" . 247-272. Ursemitisehe Reliqion fia Voliesleben dez tteutigen Orients (Leipzig." "Anima pra anima. J.. Jeremias. agnum pro vi (caria). O uso tornou-se comum mesmo entre os romanos.20. A.

2. 18-20). ef. Gên 15. 19. o mesmo. porém. comunhao que O Abraão não passou em meio às vitimas. pois já cumprira a sua pafle.21. por ocasião da décima praga desencadeada sôbre o Egito. Tendo libertado o seu povo. os contraentes imolavam vítimas. por exemplo. isto é. fõra o sangue de vítimas que. indiretamente. chamado do torrão natal idólatra para a terra sagrada. 6 Outra aliança divina que de mais perto interessa considerar. querendo. já que Israel aceitava as disposições divinas. chefiado por Moisés. merecera para êstes a preservação da morte e. . Com efeito. passou entre as carnes (cf.3-8. Éx 3. para exprimir que se obrigavam irrestritamente até a morte a observar o pacto. dêste modo. Êste rito teve aplicação. com Moisés e o povo israelita tirados do cativeiro egípcio. Moisés derramou metade do sangue das vítimas sôbre o altar . 13. Hebr 9. é um compromisso mútuo. que estavam dispostos a derramar o sangue e sofrer a morte. significar que assumiriam a sorte das vítimas. e uma coluna de fumaça e fogo (habitual símbolo do Senhor. dividiam-nas ao meio e colocavam as respectivas metades em duas filas paralelas. quando Deus se dignou travar aliança com Abraão. qualquer aliança travada entre homens implica a aceitação de deveres de parte a parte. No Oriente antigo. Por que isto ? De modo geral. caso se tornassem infiéis ou perjuros. um e outro dos pactuantes passavam por entre as carnes imoladas. na história sagrada. prometendo-lhe posteridade numerosa e abençoada em troca da fidelidade que o Patriarca até então mostrara ao Altíssimo: Abraão distribuiu em duas filas animais prêviamente imolados e divididos. Neste pacto o sangue desempenhou papel ainda mais significativo. adaptando-se à mentalidade do homem primitivo. file o fêz com Abraão. dessa vez. ao pé do monte Sinai.168 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO das águas Deus travou uma aliança. marcando as portas dos israelitas.19s). caso a observasse. Ora essas e outras convenções sagradas foram concluídas mediante efusão de sangue.e metade sôbre o povo (cf.9. tendo sido fiel a Deus nas provações a que até então tAra submetido. Éx 24. é a que posteriormente Javé quis concluir com todo o povo de Abraão. não se verificou o rito da passagem dos contraentes entre as carnes imoladas.7-19). Êx 12. com isto. a seguir.29-36). Tal gesto significava a comunhão íntima que para o futuro existiria entre Deus e o seu povo. o compromisso mútuo foi selado mediante a imolação de animais. prometendo-lhe prosperidade. Deus entrou igualmente em aiiança.que representava o Senhor Deus . Deus houve por bem dar-lhe uma constituição própria (a Lei mosaica). o fim do cativeiro (cf. Deus dava a entender que não deixaria de cumprir as suas promessas de bênção.

embora condizentes com a antiga mentalidade oriental. sé podiam ter valor provisôrio. seus filhos e a indumentária de todos: "Assim serão consagrados Aarão e seus trajes. que me deste um corpo. quis um dia dizer ao Pai: "Sacrificio e oblação. à prática das boas obras e ao caminho reto da justiça. Como poderia o sangue de sêres inferiores ao homem. poderia talvez julgá-las um tanto infantis. e com o sangue ungisse a orelha direita. fazendo que dêste dependesse a legalidade religiosa dos homens. Além disto. sim.21. inconscientes do que é o pecado. eram. a fidelidade dos sacerdotes respectivamente à palavra de Deus. com isto.23s. a Moisés Jayé mandou que imolasse um carneiro. Era. na plenitude dos tempos. oferecidos de maneira demasiado formalista. assim como os seus filhos e os trajes de seus filhos." (Êx 29. Puro Espírito. sem dúvida. textos em que o Senhor repudia os sacnficios hipôcritas de Israel).SANGUE E VIDA 169 teria conseqüências de vida e de morte (cf. tenha determinado dar tal relêvo ao sangue de irracionais. mas dêle não se podia remir. porém. Lev 8. até a morte (significada pelo sangue derramado) Aarão e seus filhos pertenceriam ao serviço do Senhor. que se lançara no delito. feito isto. 30. sem o necessário espirito de reparação (ef.11. obter plena pureza para a consciência humana? Foi por isto que. abstração feita do que se seguiria nos séculos posteriores. Não se pode negar que as vítimas e os ritos do Antigo Testamento eram precários. ou seja. o polegar direito e o artelho direito maior de Aarão e seus filhos. de então por diante. Is 1. Eis.7. Prossigamos. . pois. mas.) A efusão do sangue sôbre o corpo e as vestes simbolizava que tôda a pessoa do sacerdote estava como que envolvida pela graça divina. quem quisesse interpretar essas passagens independentemente do seu grande contexto histórico. não se explicaria bem que Deus. no sangue que se fundavam as novas relações do Criador com as criaturas. cf. no judaismo decadente.165). era o sangue que mais uma vez associava Deus com os homens e os homens com Deus. devia o Legislador aspergir com sangue Aarão. Es 44. pois. Tais episódios dão a entender com suficiente clareza a importância e a eficácia que o próprio Debs se dignou atribuir ao sangue desde o início da história sagrada. Hebr 9. o Filho de Deus. apiedando-se da sorte do homem. a representação de uma pessoa humana por um animal irracional imolado era um artifício reconhecido. pela Lei mosaica. indicando. eram insuficientes para realizar o plano divino. não os quiseste. Todavia. havia desproporção entre os dois térmos. O poder que o sangue tinha de unir ao Senhor se atuou ainda na instituição do sacerdócio do Antigo Testamento. o curso da história sagrada. imperfeito. 1 "Não os quiseste" como se fõssem algo de definitivo.

mas também à Majestade do Criador. 'elevação do homem ao estado de filho de Deus. Deus e suas criaturas. Paulo acrescentaria: nesse sangue também os anjos bons se aproximam do homem. os pecados do mundo cometidos desde os primórdios até o fim dos tempos.se compreende. Então disse: 'Eis que venho. obteve.8." (Col 120. Com a autoridade de Senhor da vida. S. vida humana santa por vida humana prevaricadora. sàmente enquanto estavam relacionadas (como figuras e prenúncios) com a Cruz é que tinham valor as vítimas imoladas desde os primeiros séculos. É neste sangue que Deus e o homem se encontram num consórcio muito mais íntimo do que o do paraíso perdido.7-9.'" Desejoso de expiar o põcado e reconciliar com o Pai o gêúero humano. as que estão aa terra e as que estão nos céus. para fazer. o sangue de Cristo tinha junto ao Altíssimo um poder de intercessão incomparàvelmente mais eloqüente do que o das vítimas do Antigo Testamento. com plena consciência. ó Deus. fêz-se o segundo Adão.170 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Holocaustos e sacrifícios pelos pecados. pois. cujos preceitos se resumem em amar a Deus e àqueles a quem Deus ama. com tôda a generosidade que o amor inspira. pois a infidelidade de Adão criara uma divisão entre criaturas fiéis e criaturas infiéis ao Criador. era o sangue sacerdotal por excelência. que até a vinda de Cristo era mero sinal. instaurando a• paz pelo sangue da sua cruz.. era apto a expiar de maneira cabal. e morte de cruz). o sangue. tornou-se. não os aprovaste. eis o que o sangue de Cristo nos mereceu. aquêle que incorreu na morte por amor ao Pai.... o centro da história. a tua vontade. pagava o devido tributo à Justiça divina. a fim de libertar a êstes. mesmo superabundante. FIp 2. destino final que é a vida imperecível do céu. Hebr 10. sofreu a sortê dos réus. pelo sacrifício do Re51 39. Tornou-se desta forma a antItese exata do primeiro homem. no sangue de Cristo.) 9 . para reparar a obra do primeiro Adão. portanto. Simbõlizando a vida infinitamente preciosa do Homem-Deus.5-7. que incorreu na morte em revolta ao Pai. sangue humano inocente por sangue humano iníquo eram finalmente oferecidos a Deus. nova aliança. (até a morte. pois correspondia não apenas à dignidade do homem. Como . o Filho de Deus tomou uma natureza humana e ofereceu em nome de todos a sua carne e o seu preciosíssimo sangue. sem restrição os benefícios que as múltiplas imolações da Lei mosaica só conseguiam em pálidos têrmos: remissão dos pcados. 'Por Chato Deus quis reconciliar consigo todas as coisas. e constituiu-se a vítima que. tocam-se o céu e a terra. Cristo substituiu-se assim às hóstias irracionais dos antigos ritos. 9 Ésse sangue ocupa o centro do mundo.. cf.

antes. o Sénhor Jesus se dignou dizer-lhes: "Bebei todos.. Por sete vêzes (número da plenitude) inculca a Lei mosaica tal ordem comereis carne com a sua alma (= sangue)" (Gên "Voltarei minha face contra aquêle que tiver consumido sangue. ao abaterem um animal comestível eram obrigados a levá-lo aos sacerdotes." 10 Como se vê. Apresentando aos discípulos um cálice.26. por efeito das circunstâncias. Sôbre êste fundo de proibições tão solenes é que ressoou na plenitude dos tempos um preceito emanado do mesmo Deus. que parecia contradizer aos desígnios antigos. entre os israelitas. § 2." Pela primeira vez na história. Deus permitia. que lhe extraiam o sangue. Por conseguinte. a fim de o oferecer sôbre o altar do Senhor..17. Daí se seguia a estrita proibição de jamais beberem sangue.12-14. Dt 12.4-6). Só Deus é senhor da vida e da morte. Lev 3. sangue da aliança nova. sinal portador e realizador da vida. Ora é proposição fundamental de tôda religião que a vida é propriedade exclusiva da Divindade.13). também não a conserva como desejaria. 7. Se.16.8-10). da observância da mes"Não 9. preceituava. o sangue fôsse igualmente tido como propriedade de Deus. a que Jesus dava na última ceia. Lev 17. o qual será derramado por muitos para a remissão dos pecados. . só depois dêste rito lhes era lícito comer a carne (cf. pois isto é o meu sangue. a Lei prescrevia que fizessem escorrer o seu sangue e recobrissem de terra o líquido precioso (cf. Estas premissas fizeram que. sinal eficaz. o homem bem percebe que a vida lhe é transcendente. o consumo do sangue era considerado uma espécie de sacrilégio. Hebr 9. após uma caçada. algo de sagrado. Cf. 17.54) Voltemos ao pressuposto fisiológico: no sangue está a vida.10. da vida eterna (cf. os filhos de Israel. não fôsse possível levar a prêsa ao altar do Senhor. o sangue se identifica com a vida do animal. e o separarei do meu povo. aos seus fiéis que bebessem sangue.4) 10 Lev 17.27. Lev 17. e o sangue do Filho de Deus feito homem! E não era uma ordem de somenos importância. êle jamais a produz artificialmente.° "QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE POSSUI A VIDA ETERNA" (Jo 6.SANGUE E VIDA 171 dentor. 19. para qual estava reservada a gravíssima pena da excomunhão.235.

com efeito. do seu modo." (Jo 6. já o primeiro homem foi elevado à ordem da graça e destinado a um fim último sobrenatural. em outros têrmos: desde tôda a eternidade foi o homem chamado a se tornar filho e herdeiro de Déus. O aspecto positivo da vocação do homem . não tereis a vida em vós. possui a vida eterna. 57. e só êste. vida imortal num corpo ressuscitado. Com efeito. Por conseguinte.viver a vida de filho de Deus. permanece em mim. isto é. nem queira viver para outro fim senão êste .54s. Ora o aspecto negativo desta vocação . Não se dê por satisfeito com meta inferior à visão de Deus face a face.não viver vida meramente natural. para os homens. deve tocar a todos os homens. e eu nêle. mediante o seu "jôgo" de proibições e preceitos. mas a participar da vida do próprio Deus. por ser o do Homem-Deus. a uma posse de Deus tal que ultrapassa as exigências da natureza.. pode comunicar a vitória sôbre a morte que. uma vez pressuposto que o sangue seja o veículo da vida. Expliquemo-nos: o gênero humano nunca estêve destinado a um fim meramente natural. o consumo de sangue implicava excomunhão. desde que considerado como veículo da vida. condescendendo com o homem de mentalidade primitiva. de maneira marcante. surge espontâneamente a questão: por que terá Deus assim "jogado" com suas proibições e seus preceitos ? Na legislação concernente ao sangue. só pode comunicar vida precária e bem-estar exíguo. a posse da vida eterna: "Se não beberdes o sangue do Filho do homem. isto é. Aquêle que. no Novo Testamento. a Sabedoria divina queria inculcar. a vocação do homem a viver vida não meramente natural. como dissemos. êste sangue. não faz senão diferir a morte certa que toca aos filhos de Adão.vemo-lo expresso na entrega do sangue do Filho de Deus como alimènto aos discípulos. glorioso .) Note-se o contraste: no Antigo Testamento. é o consumo de sangue condição indispensável para que haja comunhão do homem com Deus e também com o próximo. a fim de o elevar aos poucos à compreensão de verdade mais sublime. que nada menos do que a participação da vida divina está reservada ao homem.vemo-lo insinuado nas proibições do Antigo Testamento: o sangue de animais.172 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO ma dependeria. à consecução da bem-aventurança que a natureza por si exigiria.. Para quem reflita sôbre os textos citados. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue. a proibição rígida do Antigo Testamento e o preceito não menos categórico de Jesus significam.. conforme o plano divino.eis o que a legislação bíblica concernente ao sangue hoje • . bebe o meu sangue. o Senhor quis adaptar-se a uma tese da fisiologia antiga.. não se contentar simplesmente com os bens que a criatura proporciona .

talvez estranhos nos nossos dias. Sem o saber. por Cristo. cada qual do seu modo. Os preceitos rituais do Antigo Testamento. é. e por um só tipo de sangue. a grandeza das realidades que hoje. . são ainda portadores de uma mensagem: ilustram. embora o sangue não seja a sede da alma e da vida. que conseguimos a vida verdadeira. o do Filho de Deus feito homem. não obstante. a que não sucumbe à morte. pelo sangue. embora não tenham mais vigor de lei. possuímos. os homens dos séculos pré-cristãos nos ajudaram a compreender que.SANGUE E VIDA 173 nos transmite.

Ora os autores dos livros sagrados freqüentemente se referem a doenças ou apresentam interpretações de sonhos em têrmos que parecem simplórios. chegar a Deus. pouco condizentes com a Sabedoria de Deus e a ideologia de um homem culto. causados pela influência de sêres invisíveis nefastos. ainda hoje usuais. também às enfermidades físicas sabiam dar interpretação religiosa. ENTRE AS NAÇÕES PAGÃS Fora de Israel. que purificariam o homem e afugentariam os espíritos. Mesmo ao aplicar meios terapêuticos autênticos. por sua vez. 1. estimulando-o a perscrutar-lhes as origens e os remédios. sacrifícios. sempre solicitaram a atenção do homem. Interessa-nos verificar como isto se fêz entre os povos pagãos e como a Sagrada Escritura. § 1. exorcismos e outros ritos religiosos. em particular. como bem se entende. ou seja. julgavam mesmo necessário vê-las através dêste prisma. os antigos os justificavam por motivos religiosos. era comum atribuir as moléstias do corpo à ação de maus espíritos. Visto que os antigos costumavam considerar tôdas as coisas à luz da religião. pela Sagrada Escritura. assim julgavam . a conceição de prole. o parto) e os cadáveres eram tidos como impuros. da doença. Dos efeitos dêsses agentes malignos e. aprecia as doenças. levando fàcilmente o indivíduo à superstição. Eis a razão por que o capítulo presente se propõe considerar o problema e procurar o autêntico significado que os mencionados fenômenos devem ter no livro inspirado pelo Senhor Deus. devia o enfêrmo libertar-se recorrendo não tanto a processos e remédios cientificamente estudados. mas principalmente a preces.° AS DOENÇAS As doenças. até certas funções fisiolágicas (como a menstruação.CAPÍTULO XI DOENÇAS E SONHOS Doenças e sonhos são objetos em tôrno dos quais a imaginação popular de todos os tempos muito se exerceu. Desta forma sonhos e doenças na Bíblia vêm a ser por vêzes uma pedra de tropêço para quem deseja.

). expelir o demônio 1 do corpo do paciente. Podia ter intenções benévolas ou malignas. George. as doenças. praticavam cortes na carne do enfêrmo. terão contribuído para que se admitisse a liifluência de maus espíritos na origem de fenômenos fisiológicos: o caráter mais ou menos repugnante de certos dentre êstes (lepra. debilitação. 2 É importante notar que nem todos os casos de presumida influência dos espíritos maus eram casos de culpa moral. Ao falar de "espiritos".. em português) significava originàriamente. provocando escapamento de sangue. Sôbre o mesmo assunto vejam-se também a pág. o que se verifica já sem hesitação nos escritos cristãos. moléstia em que o homem. poderia ter sido cometida numa existência antenor à presente. um ser superior ao homem dotado de influência sObre a vida humana. contorcendo-se desfigurado. 167s. chagas. com o mesmo fim. . etc. invisiveis. tocassem cadáveres.176 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO que massagens. porém. os demónios foram sendo mais e mais considerados nefastos ao homem. porém. por fim. donde êle partiria definitivamente. os antigos entendiam geralmente sêres corpôreos sutis. 146s dêste livro. em seus oráculos freqüentemente receitava banhos. 53 (1946). às leis de saúde. Prescreviam outrossim banhos de purificação para a mulher. Em particular. La Religion des Hébreuz nomaas. assim corho para as pessoas que provocassem a morte de outrem. A luz dêstes pressupostos explicam-se estranhos pormenores de terapêutica e religiosidade antigas: "doença divina" (divinus morbus. Aos poucos. não se podia dar significado mais autoritativo do que o significado religioso. emprêgo de vapores teriam por efeito calcar ou molestar e. 302s. que são graves. não a produziu nem a conserva indefinidamente. causa da moléstia. entre os romanas) era o nome que se dava à epilepsia. a culpa. muitos implicavam simplesmente fenômenos naturais. A. Conforme crenças orientais. Dhorme. Os antigos. entre os paflos. fisiológicos. Ao ver um louco. 2 Asclépio ou Esculápio o Deus Médico. ou então deslocar o mau espírito do órgão afetado para os pés do doente.. que é a existência. O fundamento principal desta tese é assaz evidente: todo indivíduo tem consciência de não ser senhor de sua vida. 1 A palavra grega daimon (donde 'demônio'. ao menos entre os povos primitivos anteriores a Israel. 3 Cf. E. e a preocupação de conservar na sociedade rude a necessária higiene. 'Fautes contre Yahweh dans les Livres de Sanluel". robustecimento e extinção) como sujeito a sêres superiores ao homem. conservação. eram tidas na conta de castigo infligido pela Divindade ou pelos espíritos que os homens houvessem irritado. parece claramente sujeito à moção de um ser superior. Ainda dois outros fatôres. mais poderosos que o homem. pondo em perigo o bem fundamental. sangue que consigo levaria o espírito funesto. tendiam a conceber tudo que se refere à vida humana (sua geração. em Revue bibli4ue.

.. que sobreviera àquela cidade entre 596 e 593 a.DOENÇAS E SONHOS 177 costumavam os orientais arredar-se com temor sagrado. ritos de expiação. medicina e filosofia não raro eram simultâneamente cultivadas.)." Seguia-se a descrição da cura da doença respectiva. e nos respectivos lugares da cidade em que cada uma se deitou. entre outros. chaga perigosa incurável. lhe fêz contrair uma espécie de lepra acompanhada de cã.. achaque". Na mitologia grega tomou-se muito estimada a figura do "herói doente e sofredor". uma mordida mortal.C.. seus discipulos o derivavam de epilcourein. sim. ovelhas pretas e ovelhas brancas. e vice-versa. que não possa ser amainada por curativo. por exemplo. portadores da sabedoria moral necessária para curar as chagas ou os vícios do espírito. êste produzia a enthousia. isto é. Cf. 1085. em conseqüência. maltratá-lo seria o mesmo que atentar contra os direitos do Todo-Poderoso.. curar. Entende-se outrossim que a técnica de curar moléstias tenha recorrido a exorcismos. etc. imolaram-nas em sacrifício. um cretense chamado Epimênides. e. 8 E o que explica o trocadilho feito em tôrno do nome do filósofo Epicuro. Permite que teu servo viva. Fase cessar a sua febre (?) e aflição. 4 tendo Deus colocado a mão sôbre êle. o cnthousiasmõs. rezava o fiel devoto: "Meus pecados. IV (Stuttgart. mas também a cessação de doenças (a cura do corpo). tratar em tódas as acepções do têmo. têm igualmente o sentido de "peste. o código babilõnico de Hamurapi (séc. Explica-se também que códigos legislativos religiosos da antiguidade ameaçassem doenças àqueles que ousassem violar os seus preceitos. tendo irrompido uma epidemia mórbida em Atenas. 7 Algumas das palavras babilónicas que significam "pecado". .. 1942). Theologísclzcs Woertcrbuch rum Neuen Tertame?rt. perdoa seu pecado. a fim de que glorifique o teu poder. a partir da colina do Areópago. Nósos em Kittel. pelo mal dos pesadelos noturnos que lhe infligia o demônio Efialtes. Ele (o deus invocado) permitiu que o vento os levasse." (Tooi proseelconti th. por coceira que o deprimia e tornava melancólico. os médicos eram também filósofos.eoot). 8 Não se poderia silenciar.ibras. Divindade nos seguintes termos: "Segura a sua mão (do enfêrmo). 6 Narra Diógenes Laércio (1. o super-homem provado pela dor: era afetado.. mesmo num estudo de Sagrada Escritura. Nesses mesmos lugares foram erectos altares com a dedicácia: "Ao deus a quem compete." Em outro texto. Haja vista.. Depois de Alexandre Magno. conforme um ritual babilónico. ainda o seguinte aspecto da ideologia pagã concernente às doenças. pois julgavam que tal homem (rnedjnoun) estava possuído por um djin ou gênio. XVIII ao. soltaram então. o contato com o sangue de Nessos. dirigir-se à. devia o sacerdote ao qual se apresentasse um doente. deu à população o conselho de a debelar oferecendo sacrifícios ao deus que provàvelmente não os recebera nas funções do culto.110) que. oepke. portador do veneno da hidra. Sàmente 4 Também entre os gregos o 'entusiasmado" era o homem possuído por um theõs (deus). desencadeara a peste. sobressai o tipo de Hércules. muitos cânticos penitenciais dos antigos povos pediam não sèmente o perdão de pecados (a cura da alma). peste maligna. que se termina condenando os eventuais transgressores a "uma doença grave. que o médico não saiba diagnosticar.

a concepção era radicalmente monoteísta: o primeiro pai. porém. que reflete o desequilíbrio introduzido por Adão nas suas relações com Deus. Assim é que os pagãos reabilitavam ou resgatavam o conceito de doenças e flagelos decorrentes das vicissitudes desta vida. a plenitude. a saber: o senso trágico e. como se êstes dois têrmos fôssem estritamente correlativos entre si. nisto manifestavam um traço profundo da sua psicologia e religiosidade. 2. Como os demais povos antigos. acrescentando à culpa do primeiro homem as suas faltas pessoais. Esta tese. são castigo. é que explicavam também desta forma as moléstias dos heróis mitológicos. os textos bíblicos concernentes às doenças apresentam suas analogias com os documentos profanos antigos. freqüentemente no Antigo Testamento ocorre o binômio "pecado-doença".• buir as doenças à ira de deuses ou demônios. tornam-se mais e mais sujeitos ao padecimento e à moléstia. Notem-se os seguintes exemplos: - . representante do gênero humano. em conseqüência. deixando-se aplacar logo que sé lhes oferecessem "dádivas". os gregos costumavam atri. Na ideologia de Israel e na dos demais povos há um fundo doutrinário comum: a crença de que as doenças provêm de uma ofensa do homem à Divindade. a ação dos demônios. admitiam também muitos espíritos causadores cada: qual de determinada doença. e fatôres necessários. ao contrário. Interessante. o furor e a inveja dos deuses desencadeando-se sôbre o homem. Assim o drama do pecado marcou profundamente a ideologia dos judeus atinente à doença. A mentalidade. eram considerados fatôres. do desenvolvimento do individuo.178 PARA ENflNDIR O ANTIGO TESTAMENTO a morte e a apoteose puseram têrmo aos padecimentos de Hércules. os mitos punham em realce que é pela dor que o homem se comprova e atinge a sua maturidade. otimista do povo grego. revoltou-se contra o Criador Bondoso no paraíso. NO POVO DE ISRAEL Passemos agora à consideração dos livros sagrados de Israel. porém. que os perpassa é bem diversa da que inspirou os trechos pagãos. porém. Oriundos no mundo greco-oriental em que as idéias acima tinham curso. experimentam no próprio corpo um desequilibrio (doenças). semideuses. julgavam outrossim possível que êstes punidores do homem pudessem proceder por mero desejo de vingança ou inveja. todos os seus descendentes sofrem a revolta da nattireza. os filhos de Adão. à semelhança de homens apaixonados. ao mesmo tempo. entre os pagãos era explicada de acôrdo com as idéias politeístas de cada povo: admitindo muitos deuses e. Em Israel. intensificam a desordem.

assim procederam as espôsas de Jó e Tobias em relação aos respectivos maridos (cf. Mas ora ao Senhor. não desprezes meu conselho. que datam aproximadmente do ano 200 a..12-14.58-61). doenças perniciosas e tenazes.12: o autor narra que o rei Aza de Judá. Por êles o homem produz a cura e extingue a dor. 1. Meu filho. de modo nenhum implica menosprêzo em Israel para com os médicos ou profissionais da ciência. Éle é admirado em presença dos grandes. Moisés prediz justos castigos. Que êle não te abandone. escrito pouco antes do Edo. Haja vista a recomendação do sábio mestre.7. os israelitas às vêzes infligiam aos seus enfermos tratamento de desprêzo e escárnio (tratamento que a Bíblia refere.6-10. diante das quais tremias. levanta as tuas mãos E purifica de todo pecado o teu coração . porém. procurar recuperar a saúde por simples recurso à medicina parecia ser endurecimento ou obstinação do pecador ferido! o texto de 2 Crôn 16. Ora.. Afasta o pecado. em Edo 38: -'Honra o médico por causa das tuas indigências. e elas se prenderão a ti. e tle te curará. Fará voltar sôbre ti tôdas as moléstias do Egito. ." (Vv. Além disto. O Senhor fêz a terra produzir os medicamentos. mas de modo nenhum aprova).) Êstes dizeres..3s. os amigos de que se queixa o salmista no 51 40.." (Dt 28...9s. tendo-se mostrado infiel ao Senhor..C. foi acometido de uma doença dos pés (gôta ?). parecem visar uma tendência do judaísmo a vilipendiar a medicina. particularmente digno de nota é o episódio de 2 Crôn 16.9s. foi o Senhor que o criou. Jó 2. mas os médicos"! De tal forma os conceitos de "pecado" e "doença" eram associados entre si que não se via lugar para uma cura meramente científica das moléstias.DOENÇAS E SONHOS • 179 aos transgressores da Lei de Deus. o Senhor inflígirã a ti e à tua posteridade pragas ex traordinárias. Pois também êles (os médicos) oram ao Senhor.15-23). precisamente por ser tidos como pecadores denunciadps pela própria justiça divina. . dá acesso ao médico. se caires doente. até que sejas exterminado. Tob 2. pragas graves e persistentes. para cúmulo de sua infidelidade e infelicidade.. que muito o fazia sofrer. pois a sua arte te é necessária. entre os quais a irrupção de doenças: "Se não fôres solícito em observar tódas as palavras desta lei. A seguir. o Senhor desencadeará sôbre ti tôda espécie de doenças e pragas que não são mencionadas neste livro da Lei. Suas mãos terão sucesso.12. E o homem sensato não os desdenha. 0 livro apócrifo de Henoque. Pois foi o Altíssimo que o criou A ciência do médico lhe faz levantar a cabeça. Aza "mesmo durante a doença não procurou o Senhor.

Contràriamente. se pode servir do ministério de espíritos ou anjos. Esta conclusão é insinuada. os israelitas reconheciam que o Senhor Deus. ° Javé manda ou permite. ao punir alguém com moléstia ou morte.19. na teologia de Israel.e ainda hoje se dizem— possuidores de fórmulas ou receitas extorquidas da Divindade por indústria do homem ou reveladas por um espírito superior às vêzes invejoso de outro. Tais homens se diziam . os outros o "exército dos céus" (cf. o autor sagrado inculca que o médicõ tem vocação divina e é indispensável.6.8-12). 3 Rs 22.180 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO incriminava os anjos maus por haver comunicado aos homens a ciência dos diagnósticos e dos remédios (8. dizia a indispensável fórmula. o curandeiro consegue "forçar" a Divindade a produzir o que o "sábio" quer. io ciência e magia eram tão ligadas entre si que na prática o médico não raro era mago. os astros. na Sagrada Escritura. recitava outras tantas fórmulas sõbre os diversos ingredientes de que se servia para a fabricação do medicamento. o enfêrmo deve primeiramente confiar-se a Deus e purificar a alma. cada vez que aplicava ou retirava uma bandagem. postos era paralelo (cf. na história de Jó (cf. Si 32. como se julga). 10 O Justamente o conceito de anjo. Dt 4. que povoam ou ornamentam o céu juntamente com outras criaturas. Dizia uma imprecação quando tomava em mãos o vaso que servia para medir as substâncias necessárias à coafecção de um remédio. reduzidos à categoria de criaturas de Deus.12.2). 12-14). considerando a êstes como deuses (cf. O médico egipcio "associava fórmulas mágicas a toda a sua atividade. no flagelo da peste que castigou o reino de Davi (cf. Contudo . 45. Tais séres celestes terão sido. 139-141. Éx 12. Th4oiogie de l'Ancieir l'estament. em particular pelo fato de que anjos e astros. 126. a seguir. 2 Sam 24. 17. proferia outra quando o doente bebia a poção. em reação contra o politeismo dos babilônios e de outros povos.. Is 37. Si 148. 1954). poderá esperar alívio da intervenção do médico.22. Jó 38.19. Foi o que realmente se deu na mortandade dos primogênitos do Egito (cf.36. o qual há de recorrer tanto à ciência quanto à oração (cf.3s. 1. dispondo das mesmas. 69.8).3). Tob 3. mas inferior a Deus (criatura. embora relativa. o mal desencadeado pelo anjo terá sido uma epidemia mórbida. Jó 1. Jos 5. Cf. Jer 33.14. portanto). Esta mesma verdade é indiretamente confirmada pelo fato de que a legislação de Israel não tolerava a existência de curandeiros ou magos.7).16s). tenha-se confiança nêle. de sorte a violar o monoteísmo de Israel. Admitindo nos têrmos acima o pecado como raiz das doenças." Citação de um estudo . parece ter-se desenvolvido. SI 148. van Imschoot. Ne 9.e isto merece tôda a atenção . que são os anjos. são intimamente associados entre si (cf. entre os israelitas.1-5). (Paris. 2.12. P.7). na de Sara (cf.23). e o anjo executa o desígnio do Senhor Deus. que adoravam o exército dos céus". movendo-se todos em plena sujeição às ordens do Único senhor. Entrava em casa do paciente pronunciando uma fónnula mágica.jamais o "anjo do extermínio ou da enfermidade" nos textos bíblicos é apresentado como outro Deus ou como semideus. espirito superior ao homem. constituem uns o "exército de Javé" tcf. Is 4426.6). no extermínio do exército dos assírios (cf..

. era curva. a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado. 759. e envolvendo-a numa visão otimista do universo. Encontrava-se lã uma mulher possuida. porém. Lexa. e não podia em " O Senhor curou-a. e repetidamente..14. Encontra-se ainda. podendo ser provocada por um mau espírito ou por Satanás "Jesus ensinava numa sinagoga em dia de sábado..30). a fim de que não te aconteça algo de pior. transcrita de Spicc. porém.10s. Mc 9. "L'Ecclésiastique". Lc 11.Jo 5. por um espírito que a tornava enfêrma.. 11 Notem-se também as palavras de Jesus a respeito da enfermidade de Lázaro "Essa doença não é mortal. Éx 20. nem seus pais. VI (Paris. As noções dos hebreus se aperfeiçoaram com a revelação cristã. que Satanás paralisava havia dezoito anos. por exemplo.mas verifica-se para a glória de Deus. 172.) Episódios semelhantes ocorrem em Mt 12. são incompatíveis com a crença num só Deus.) Veja-se ainda Lc 13. Senhor de todos os espíritos e homens.17. mas isso aconteceu a fim de que as obras de Deus nêle se manifestem. êle ou seus pais. o Senhor. Em .22s. Eucaristia (cf. não se creia que tôda enfermidade provém de culpa pessoal e grave cõmetida pelo paciente ou seus familiares. e disse: "Essa absoluto erguer a cabeça filha de Abraão. como professa a Revelação desde o livro do Gênesis. recomenda-lhe: "Eis-te são.14.2-6. trouxe nova luz sôbre a maneira como se ligam entre si pecado e doença. viu Jesus um homem cego de nascença. 1 Cor 11. tendo curado um paralítico. para que nascesse cego ?' Jesus respondeu: 'Nem êle pecou. havia dezoito anos. não peques mais.'" (Jo 9. estas são simples e de maravilhosa eficácia medicinal.1-33 li de F.. em La Sainte Bible. 1946).. crença que tôda a literatura israelita professava solenemente (cf. A Providência Divina pode permitir que penosas doenças acometam os justos não precisamente para castigá-los. Perguntaram-lhe então os discípulos: 'Senhor.. . Embora esta seja decorrente daquela.DOENÇAS E SONHOS 181 Está claro que tais concepções só se podem originar no politeísmo ou num ambiente em que a noção de Deus é deficiente." L'Egijpte dez astrologues. .6-10). a tese de que a moléstia é conseqüência do pecado." (Jo 11. Muito claro é o episódio seguinte "Ao passar.. Dt 5. de Pirot-Clamer. Os escritos do Novo Testamento se sobrepõem à ideologia israelita no tocante às doenças. não convinha libertá-la dêsse vinculo em dia de sábado?" (Lc 13. O Senhor Jesus. completando-a.4.1-5. como conhece as 'simpatias' das pedras. o rei Nechepso já tomou conhecimento das 'simpatias' dessas plantas.16. mas em vista de outros fins. Interessantes também são as observações de Cumont 'Asclépios (Imflotep) revela no seu santuário ao médico Tessalos o momento e o lugar propícios á colheita das plantas sujeitas aos planêtas e aos sinais do Zodiaco." Na comunidade de Corinto doenças e mortes prematuras entre os fiéis eram por 5: Paulo atribuidas à recepção sacrilega da S. quem pecou.

assim a fé cristã.) A punição. Não obstante. como se vê. mas o autêntico homem . não se ensoberbecesse pelos donsextraordinários que recebera de Deus (visões. modo que implica progresso notável em relação à mentalidade do Antigo Testamento? "Experimento prazer nas misérias extremas que sofro por Cristo.9s. no caso. continuamente recordado da debilidade ou miséria de sua natureza. achaque físico). Experimento prazer nas fraquezas nas misérias extremas que sofro por Cristo. não fôra. etc. O Apóstolo refere que o Senhor "colocou em sua carne um aguilhão". mas é outrossim ocasião de exaltação. Foi o padecimento de Jesus que revolveu as antigas concepções de sofrimento e miséria física. é pedagogo para o discípulo de Cristo. a fim de que a fôrça de Cristo habite em mim.182 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO E quais as obras de Deus que.). Cristo. Pois. apenas Cristo lhe prometera a sua graça para tudo suportar. conforme Jesus. a sabédoria helênica. abraçou a angústia e a morte como justa sançao devida ao pecado de Adão." É. êxtases. que decretou salvar e glorificar o homem pela miséria mesma de sua natureza. se manifestam no justo acometido pela doença? O Senhor poderia dar a autêntica resposta apontando para o otimismo dos gregos que forjaram o mito de Hércules ou do herói aflito. Paulo diz ter rogado três vêzes ao Senhor que o eximisse de tal padecimento. por conseguinte. que êle também chama "um anjo de Satanás que me esbofeteia" (12." (12.9). em outros têrmos: é também obra do Amor. os intérpretes julgam tratar-se de doença. de redenção para o homem. mas também ocasião de amadurecimento e perfeição para o homem. quando sou fraco. gloriar-me dos meus achaques. o que era deprimente. se convertera em ocasião de complacência! E qual o fator dêsse novo modo de pensar. Obra da Justiça e obra do Amor misericordioso de Deus. eis o que se manifesta nas doenças do cristão. num plano ainda mais elevado ou sobrenatural. o Apóstolo concluía em tom de triunfo: "Prefiro. atendido. Em vista disto. E porque assim o teria punido a Providência? A fim de que. "pois é na miséria (do homem) que o poder (de Deus) exerce tôda a sua pujança" (12. Paulo (2 Cor 12). Mas donde se depreende tal conclusão? Muito significativa a êste propósito é uma página dé S. ensina que a moléstia não é tnicamente castigo (como se julgava nos primeiros tempos do povo de Israel). a miséria da carne se tornara fortaleza e título de glória para o Apóstolo. verdadeiro homem. porém. Como os gregos julgavam que a doença não é apenas sanção.7. obra da Justiça de Deus. justamente então é que sou forte. a união com Cristo que dá novo sentido ao sofrimehto de Paulo é do cristão.

a mentalidade. não mais percebendo os animais. 12 Em particular. A propósito do faraó Chechonque 1 narra-se o seguinte: um reizete eglpeio viu durante a noite duas serpentes. por exemplo. havia de conquistar o Egito .° OS SONHOS Num cenário de vida oriental. simbolos. pois o homem do Levante. muito digno de Deus. Era por estar plenamente consciente desta verdade que Paulo ousava proferir a paradoxal interpretação de seus achaques em 2 Cor 12. livro sagrado apresenta passagens que certos exegetas quiseram comparar às dos documentos pagãos. o padecimento do Filho de Deus na carne humana foi um sofrimento não apenas suportado. Mestre. o Senhor preparava. transformando a morte em passagem para a imortalidade. orientais e concepções antigas depuradas de politeísmo. verdadeiro Deus. a doença e a morte na trajetória do homem! § 2. recebendo dêstes admoestações atinentes ao passado ou ao presente. a revelação do sentido profundo. Ora o fato de que em Cristo a natureza padecente estava unida à Divindade. dotado de fantasia particularmente fecunda. para a plenitude dos tempos. transformou o sofrimento. o. não pode deixar de tocar aos sonhos papel importante. mas também o de remodelação do homem. os sonhos eram geralmente tidos como estados de alma nos quais o homem entrava em contato com o mundo dos deuses ou dos gênios (espíritos superiores). pensava-se que principalmente os reis eram agraciados por tais comunicações do Alto. que têm o sofrimento. Eis o têrmo no qual se remata a doutrina bíblica concernente às enfermidades do corpo. para libertar o réu. Em algumas páginas do Antigo Testamento. a sorte de todo e qualquer discípulo de Cristo que sofra unido ao. Através de expressões. tragado pela Vida. Tendo Interrogado os Intérpretes a respeito desta visão. Entre os povos antigos. porém. que perpassa os trechos escriturísticos é muito mais elevada que a da literatura extrabíblica. aos sonhos da terceira parte da noite 12 No Egito. contava-se que o deus Ptah indicara ao faraó Merenptah o que devia fazer numa ocasião em que povos do mar invadiam o deita do Nilo. a outra à esquerda.DOENÇAS E SONHOS 183 Jesus era. uma à sua direita. verificou haver sonhado. Sabia que a sorte de Cristo se tornaria a sorte de Paulo. divinizando-o. foi a pena não simplesmente do réu. Acordou e. responderam-lhe que um próspero futuro lhe estava reservado: já senhor do Alto Egito. vive muito de imagens. mas do Rei que se fêz réu. mas também vencido. nos quais êle vê significadas realidades superiores. ao mesmo tempo. dando-lhe o significado não sômente de pena justa (como o tinha no Antigo Testamento). revelações a respeito de acontecimentos ocultos ou futuros.

. os que marcam a vida do profeta. a atenção o fato de que na Sagrada Escritura o povo de Israel professa fé nos sonhos e o próprio Deus parece corroborar esta atitude. Já que as imagens vistas em sonho eram não raro ambíguas. O documento data da 19? dinastia (os.184 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO atribuía-se grande significado. Daniel (cf. 14 O papiro Chester Beatty III apresenta alguns dos critérios de interpretação. pois os conceitos de "asno" e 'grande" eram homônimos. O homem que tivesse tido um sonho inquietador não devia desesperar. Dan 2. critérios mais complicados. mau. expl'icitamente provocados ou elucidados pelo Senhor.) .. Êste proceder afugentaria todos os maus agouras transmitidos pelos sonhos.5-22. La vis quotidienne eu Egypte. os que caracterizam a história do Patriarca José. e uma cobra. engrandêcimento. refere..gos de palavras eram muito explorados: Comer carne de asno. Também se usava a seguinte receita: umedecer em cerveja alguns páes com ervas verdes. a interpretação do sonho se fazia simplesmente por analogia: um sonho feliz era bom agouro. . porém.837. depois no Egito (cf. que usavam de técnica complexa. por exemplo. porém. 41. escreveu cinco livros intitulados Øncirokritikã. episódios bíblicos em que os sonhos. Recomendava-se-lhe que invocasse a deusa Isis. 46-49.5-11.1-36). 14 É claro que a crença no valor profético dos sonhos estava freqüentemente ligada a superstição. No séc. código importante para os decifradores de . Eis o que se depreende do mesmo Em muitos casos. Artemidoro de Éfeso. emblema da região setentrional do pais. 13 Cf. anunciava prazeres. pois havia meios para deter os infortúnios previstos. ao passo que mau sonho presagiava desgraça. tomavam ingredientes provocadores de sonhos. Para quem não pudesse consultar os adivinhos. La vie quoticlienne eu Egypte au temps de Ramsds (Paris). 4.4. desempenham função notável. nos templos de Esculápio (o Deus Médico). harpa. havia intérpretes oficiais das mesmas. P. significava elevação. Sonhos obscenos valiam como péssimos prenúncios. existiam catálogos de elucidação. Havia. Montet. pois o nome tomé. no Novo inteiro e fazer aparecer sôbre a sua cabeça um abutre. Sonhar com homens de autoridade e poder também implicava bem-estar para o futuro. sim. e com o conjunto resultante se esfregava o rosto de quem havia sonhado. 40. fazia pensar em bin. porém. residente na casa paterna. Odisséia. Assim os trocadilhos ou jo. ã mistura acrescentava-se incenso. dinastia (2000-1800). estava para desencadear. preconceitos humanos. a fim de que a interpretação dos sonhos não ficasse ao alcance de qualquer individuo. em sonho. a. a qual saberia como defender o devoto dos males que Sete. II dc. Chama. simbolo das terras meridionais. baseado em suas experiências. os homens de tal ou tal religião procuravam dormir nos santuários respectivos. tais como estavam em uso no Egito. Há. aparentemente científica. 46-8. Montet.sonhos. e não raro levava a graves erros na vida prática (à semelhança do que ainda nos tempos atuais se verifica). Cf. Gên 37. Homero. idéias contemporâneas à 12. de 1300 a. era freqüentemente por sonhos que os doentes recebiam a indicação do processo de sua cura. filho de Nout. Receber uma harpa implicava desgraça. tenham-se em vista. Pão branco em sonho era bom sinal.7).C.

11s." 17 Cf. porém.2-4. visando com isto remover todo vestígio de politeísmo ou superstição que os povos pagãos professavam juntamente com aquela. Dt 13.14.16.22). visões. Jz 7. 5.3. Nos tempos da decadência religiosa (séc.6. após breve reflexão. Mt 1.12s. considerando-as manifestações da Divindade. como os havia entre os babilônios (cf. Vil/VI) pululavam os falsos profetas.12s. nem os encantadores.6 lê-se mesmo qe as visões e os sonhos eram meios pelos quais Deus se costumava revelar aos profetas "Se há entre vós um profeta. e torná-los instrumentos de seus planos. Dan 2. 19.3s. Gên 41. 2. é em visão que a êle me revelo. com o povo de IsraeL O Senhor. é em sonho que lhe talo.'" Dan 2. Já 33. por suas disposições psicológicas. em particular. Gên 40. Não há. 31.DOENÇAS E SONHOS 185 Testamento. possui o "espírito de Deus". por favor. Ora Éle o fêz realmente em casos descritos pelos livros sagrados. os necromantes. 18.10s). 1 Es 3. 4.11. poderão parecer desconcertantes tão favoráveis alusões aos sonhos na história sagrada.. mesmo pagãos. (cf. Há.15. ora Javé não cessava de acautelar os seus fiéis contra tais ilusões: 15 Outras referências a sonhos ocorrem em Gên 20. o vosso sonho. .8). José. no céu um Deus que desvenda os mistérios e quer comunicar ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer na sucessão dos tempos. conforme a Bíblia. nem os astrálogos o poderão elucidar. os de S.26. 1 Sam 28. JI 3. 15 À primeira vista. o verdadeiro Deus dignou-se utilizá-las para se comunicar com os homens. .275: "Daniel respondeu em presença do rei e disse: 'O mistério que o rei deseja compreender. verifica-se que também êstes têm significado condizente com a Sabedoria de Deus.5s.'" Vejam-se também Gên 41.8: "Disseram o copeiro e o padeiro do Faraó: 'Tivemos um sonho e aqui não se acha quem no-lo explique.5. vossos anciães terão sonhos. era propenso a deixar-se guiar por imaginações noturnas.' Respondeu-lhes José: 'Então não é a Deus que toca interpretar ? Narrai-me. e o dos magos (cf.20-24. Contudo. os adivinhos. sem dúvida.1: "Derramarei meu Espírito sõbre todo ser vivo: vossos filhos e filhas profetizarão. 5. compete a quem.13s. Dàn 4.15) e os egípcios (cf. 16 CX. em Núm 12. 28. intérpretes profissionais ou técnicos dos sonhos. que diziam haver recebido em sonho autênticas comunicações do Senhor. 17 Os intérpretes populares de sonhos são condenados pela Lei mosaica junto com os magos. Já que o oriental. como o Patriarca José e o profeta Daniel. nem os sábios. porém. vossos jovens. A explicação dos sonhos se deve a dom esporádico de Deus.15. pode provocar tais fenômenos psicofisiológicos.38s. nem os magos." 16 Contudo muito se devem notar as restrições que os autores bíblicos impõem à crença nos sonhos. Lev 19.24.2.

No judaísmo posterior.12).) Como se vê. êste texto. que pode sair de puro? Da mentira.. Os quais caíram porque nêles colocavam a esperança. Gên 15. que em meu nome profõrem falsos oráculos. apto a dar auto18 É preciso. órgâo das falsas predições messiânicas que fervilhavam em Israel sob o domínio romano. os genuínos profetas. porém. Estas se deram. Êsses profetas julgam que poderão fazer esquecer o meu nome ao meu povo mediante os sonhos que contam uns aos outros 7' (Jer 23. não deixa de reconhecer que o Senhor os pode suscitar. nos tempos dos Patriarcas. 1 5am 3). nas proximidades da era cristã. tive um sonho 1' . Quem confronta os livros sagrados entre si chega à conclusão de que.186 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Ouço o que dizem êsses profetas. VIII. É quem se prende aos sonhos. os sonhos constituíam estimado artifício de estilo. por exemplo. ou seja. Éstes eram invocados para servir de fundamento a concepções e profecias fantásticas.25.) Também os sábios de Israel. Zac 1. a fim de se manifestar aos homens. E os sonhos dão asas aos tolos. A menos que o Altíssimo te envie uma visão. A reserva. ora diurna.141. isto é.27.8). na do profeta Zacarias (cf. nos primórdios da história de Israel (séc." (Edo 34. na história de Abraão (cf. os agouros e os sonhos são coisas vás.. recebiam as comunicações de Deus geralmente em estado de vigília. Semelhantes às Imaginações do coração de uma mulher que está pára dar à luz. mais freqüentes eram os autênticos sonhos proféticos do que na época da monarquia (séc. sem dúvida. . a partir do séc. XVIII/XIII). . professada nas passagens acima dá suficientemente a entender que tais fenômenós noturnos éstavam longe de constituir a fonte principal das revelações divinas no Antigo Testamento. Na literatura dos rabinos. XI/VI). que pode sair de verídico? A adivinhação. . distinguir dos sonhos as visões Ocorrentes durante a noite. Semelhante àquele que procura apreender uma sombra ou perseguir o vento. afirmando: 'Tive um sonho. na de Samuel (ef. Não apliques o coração a essas coisas. recrudesceu entre os israelitas a crença nos sonhos. IS como atestam alguns dos seus orácuJos. admoestavam-nos contra as imaginações noturnas "O insensato se entrega a esperanças vás e enganosas. Pois os sonhos enganaram a muitos. ao mesmo tempo que inculca prudência em relação aos sonhos. Do que é Impuro. ora noturna.1-7 [Vg 31. propondo aos jovens discípulos conselhos para a vida.

porém. M. Isaias. IV (Edinburgh.DOENÇAS E SONHOS 187 ridade aos oráculos mais surpreendentes. Cf. em cada ocasião na cidade de Jerusalém exerciam a sua profissão simultâneamente vinte e quatro adivinhos de visões noturnas. contemporâneos aos Essênios. Baruque.James Hastings. residentes no deserto. Gaster. 20 Estas. eram na mesma época assíduos cultores da arte de explicar os sonhos. 1 Os ascetas judaicos chamados Essênios. Basta recordar os Apocalipses apócrifos de Henoclue. eram manifestações que se desviavam da linha da Escritura Sagrada. lO 20 . i935) • 812. 'Divination" ("Jewish") em Encyciotoaedia 01 Reflgion and Ethicg edited by .

37. Já 34. princípio vital.10. O hebreu admitia no homem dois elementos constitutivos: a alma ou espírito (nesharnah. e qual o significado de tais idéias no conjunto das Escrituras? Ao se estudar esta questão. deixando a matéria. percorrendo em dois parágrafos as duas fases que caracterizam a evolução do pensamento judaico.35. o corpo se dissolve na poeira da terra (cf. matéria concreta que a alma vivifica (cf. Gên 15. a carne (basar). e o corpo.29). sem hesitação. pois. ruah). Núm 27. § 1.14s. ao contrário. Ao passo que o espírito humano é imortal (cf. A fim de facilitar a leitura do Antigo Testamento. muito.2). respeitando assim a lenta capacidade de compreensão dos seus fiéis. Si 103. à primeira vista.CApÍTULo XII A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS Os escritores do Antigo Testamento não raro se referem à condição dos defuntos em têrmos um tanto surpreendentes para o leitor cristão.° NO INEXORÁVEL FOSSO DOS MORTOS Tornou-se de importância decisiva para a teologia judaica um pressuposto de psicologia. o Senhor só aos poucos foi manifestando as noções concernentes ao assunto.15. Daí surge o problema: que pensavam os judeus a respeito dos chamados "novíssimos" (últimos acontecimentos e estados). 31. Já 34.8. que se manifesta principalmente pelo hálito ou pela respiração. ncpheslz. muito especialmente da revelação divina.29). Si 103. Ora. divergem do que ensina o Evangelho. O conhecimento do que ela importa depende. julgava que o espírito. rude e simples. as páginas que se seguem proporão as concepções de Israel sôbre o além-túmulo. dependente das noções concretas. 25. pouco inclinado à abstração.13. Ora ao povo de Israel. Professam concepções que. levar-se-á em conta que a vida póstuma escapa em absoluto à experiência do homem colocado neste mundo. pudesse levar vida autêntica. separada do corpo. cai num estado de depressão . o israelita díficilmente concebia que uma alma humana.

Is 14. Já 7. 10 Em conseqüência.13) ou "do silêncio" (SI 93. destituídos de fôrça.49.12.3. vocábulo de etimoiogia obscura. patrões e escravos. subterrâneo'. a personalidade só subsistiria em alma e corpo.39.16. S A tradução do Antigo Testamento dita "dos Setenta" verte sheol por Hades. A mesma região era também designada por bor. não sofrem pena nem gozam de felicidade.14. 88.190 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO ou quase inconsciência.17. ser vazio (donde she'ol = caverna). veio a ser o apelativo da própria mansão dos defuntos. 3 Cf.20. como canta o simbolo de fé. 10.18. fossa ou poço. o Cf. Tal região era chamada sheol. talvez derivado da raiz sha'al. Por extensão. Hab 2.23: "sei que me levarás à morte. 2 Textos poéticos comparam-na com um cárcere de portas aferrolhadas. Enquanto o corpo é destinado a se dissolver na poeira da terra. 140. que Cristo desceu após a morte." 01. 1 atribuem-lhe bôca ou goela 6 e mãos.14. de consistência.17). 8 01. Foi no sheol.-. Já 30. 7 01. Prov 1. se encontram tôdas e permanecem indif erentemente sujeitas à mesma sorte. 38. 114. ou com um monstro insaciável que devora todos os viventes. Is 38. jamais na alma só. . Si 48. que os israelitas ju'gavam ser a região única de todos os mortos. onde as almas de justos e pecadores.14. o católico deverá ter em mente o significado Cf. BaiiIIy. 5 01. 4 ou ainda com um caçador que sabe h&bilmente coiocar os seus laços e armadilhas. O Nades é nome originàriamente usado na mitologia grega para designar o Deus da região dos mortos (também chamado Flutão).17. 7 que jamais largam a sua prêsa.13. 2 Sam 12. 10 Adjetivo que designa o lugar "baixo" ou "abaixo de. Cf. da qual só aos poucos o povo de Deus foi tomando conhecimento e que os católicos chamam "inferno". mclusive S. obscura. dos impotentes.23.6.16.16. reis e mendigos. Is 5. Si 9. Ainda num ulterior desdobramento de sentido. 0 ao passo que os latinos. Si 68. ocorrentes em traduções (latina e vernácula) do Antigo Testamento. que não é prêmio nem castigo. designam o shool.18.16. de modo nenhum indicam a mansão ou a sorte própria dos pecadores defuntos. A. 27. desde os inicios da história sagrada. o espírito vai ter a uma região subterrânea. deve-se notar que os vocábulos infernus. 38. jovens e anciãos. Inferno no sentido do Antigo Testamento.7. a tese de que a morte põe têrmo à vida intelectiva e afetiva do homem. 87.9s. 1 . Os 13. 106. Ao se deparar com o têrmo "inferno" em uma tradução latina ou vernácula da Escritura.10. ' colocadas na "terra do esquecimento" (Si 87. 40s.4.7.14. Jon 2. Nades podia significar a própria morte. Estas premissas acarretaram. 14. Si 77. inferno. 20.5. A mansão onde se reúnem todos os vivos. Sab 16. 14. 113.15. a. isto é. usam o tõrmo infernus. estão agregadas à categoria dos rephaim. donde ninguém jamais sai. Jerônimo na Vulgata. Já 17. mansão cuja existência era prol essada pelos gregos como pelos hebreus.12. Si 29. Dictionnaire grec-français (Parisli).21.5. Si 17.

longa vida). ocasionam um pouco daquela felicidade que o Altissimo destina à sua criatura (cf. que cedo ou tarde experimenta tédio ao servir-se das criaturas. Para interpretá-lo devidamente. . Dai a atitude acabrunhada.18." (2. conforme SI 36. Si 33.. 2. 3. a fim de evitar interpretações errôneas (cf.7). ao trabalho como fontes de alegria para o homem.16.riquezas.26. o qual por vêzes causa surprêsa ao leitor cristão. afirmavam. e f ehz por possuir suficiência ou abundância de bens terrestres (campos. 28. gado. . 30.15.com relação à aquisição da ciência: 2.20.713-18. qualquer dos bens dêste mundo lhe parece exíguo demais para o homem.e mostra-se céptico a respeito de tudo. caindo em estado de insatisfação ou perplexidade.C.1-30.14.13. o filho de pai honesto jamais teria que mendigar o seu pão. estudo da verdade. por exemplo. É justamente à luz dêste estado de coisas que se há de entender o livro do Eclesiastes. o esfôrço feito para conseguir alegria mediante o uso destas é geralmente mal compensado. 11 A conclusão era muito simples.24s. como há pecadores materialmente prósperos . Já 14. a partir dos séculos Vil/VI os pensadores judeus eram não raro tentados a duvidar da tese antiga.o que não podia deixar de constituir para êles paradoxo inexplicável.13.17. válida talvez para a mentalidade de um povo infantil. 8. 'Tudo é decepção e procura de vento.17. afirma serem dons de Deus. . X a.) "Também isto é decepção e tempo perdido. ao beber.C. 3.13. Ao contrário. deixando o homem desiludido.. Tais idéias levavam os judeus a julgar que a sanção da Justiça Divina devida a justos e pecadores pôr suas obras é executada neste mundo. não após a morte (que extingue a lucidez do espírito). mais e mais os israelitas verificavam que existem justos aflitos." (1. 54.): o hagiógrafo considera sucessivamente os diversos valores aos quais os homens costumam pedir felicidade na terra . aparentemente epicurista do autor. 9.13-15. doença ou quaiquer aflição na vida presente eram explicadas como castigo divino correspondente a pecado cometido pelo indivíduo aflito ou por seus antepassados. 13 não se dá por desgarrado na estrada da vida. Conseqüentemente. Di 8. Com efeito. Edo 51. 113. mas sujeita a reforma desde que êste povo ganhasse a experiência dos séculos.18. é mister não se perder de vista a mentalidade do autor (que não é o rei Salomão no séc. que o homem virtuoso deve ser feliz. pois. 13 Quando o escritor se refere ao comer. 5.15s. com relação aos esforços para a consecução de um ideal terrestre: 2..25. Cf. 17.) Pessimismo . III a. indigência. família numerosa. volúpia dos sentidos. Prov.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 191 complexo da palavra. 11 12 . mas um anônimo do séc.6-18.9).18-23. 12 Contudo quem observa atentamente verifica que o hagiógraf o está longe de ser um agnóstico ou um gozador mâterialista. nas traduções portuguêsas Si 9.

feito por Deus e para Deus. Mt 16. a sêde do Infinito encontra saciedade na vida póstuma. Pois nisto consiste o ideal de todo homem. 2.19-31. ignorando que. esta. 15 Cristo." (12. É o que transparece das palavras com que encerra a série de suas divagações pessimistas "Conclusão: bem ponderadas tôdas as coisas.26. Vivendo à luz da revelação não consumada do Antigo Testamento. na visão de Deus face a face. êle os podia. 15 Cf. conhecia apenas o que lhe ofereciam os sêres criados. e na eternidade pela contemplação direta. Não há vantagem do homem sôbre o animal.192 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Se. acha-se bem na linha dos textos do Antigo Testamento que preparam o Evangelho. 1.24s. o único ideal ao qual o homem se deva incondicionalmente aplicar. longe de desnortear o cristão. Éste. e inquieto está repousa em Ti.) A profissão de absoluta fidelidade a Deus que sela o livro do Eclesiastes projeta luz sôbre as apreciações negativas que o hagiógrafo tece a respeito dos bens criados. de outro lado crê plenamente en Deus e no valor da observância da lei divina. Confissões... e. com efeito. julgar insuficientes. Pois tudo é decepção. já nos é possível penetrar o significado particular de estranhas afirmações do autor: "A sorte dos filhos do homem e a sorte dos animais são jdênticas. estas se mostram portadoras de uma tese positiva e rica. 14 "Fizeste-nos para Ti.18. Uma vez percebida a grande tese do Eclesiastes. o espírito humano só repousa no Criador. êle não acredita na felicidade que lhe oferecem as criaturas (cf. e todo homem igualmente. outorgada nesta vida pela graça. dè um lado. o Bem Infinito.2. O Eclesiastes assim. Ambos possuem o mesmo sôpro.10s). revelou que tal desprendimento tem sua contraface na posse de Deus. 18. devia mesmo. 14 ora é justamente por ter consciência de que é capaz de apreender o Infinito que o hagiógrafo não se dá por satisfeito com algum valor limitado e toma o partido do "não-conformismo" frente aos bens terrestres.13. Sim. Em última análise. Como um morre. Lc 16. o nosso coração enquanto não . o pessimismo do autor nada mais é do que a expressão de nostalgia profunda ou da sêde do Infinito que êle.1. o autor só podia dar às suas exclamações um caráter negativo ou céptico. porém. traz dentro de si. Agostinho.14. assim morre o outro. e esta só. ensina a tratar com desapêgo os bens terrestres. de fato. fica-lhe sendo norma inabalável." S. êstes. 1. Teme a Deus e observa os seus mandamentos.

mas.12. sabem qué hão de morrer. i E por que se terá o escritor tão rudemente expresso nos versículos acima? O motivo é que apenas visava inculcar a seguinte norma prática: já que o homem (do Antigo Testamento) nada sabe da bem-aventurança póstuma. Ruah. não recebem mais salário. todavia não era como filósofo. que o hagiág'rafo falava. 11. a quem chamam a atenção apenas os sinais exteriores.9.13. para o autor. deve procurar a felicidade. é de igual índole no homem e nos outros animais. para onde vais. com efeito. Semelhantes idéias repercutem ainda no texto de Eci 9. designava primàriamente um sôpro sensível. O mesmo tênno. por redundância. sim. evidentemente. o sôpro das narinas. felicidade que por certo o diferencia dos irracionais." 16 "Não há possibilidade de agir ou de adquirir compreensão. da vida. Em outras passagens do livro. esta ensina que tanto o homem como o irracional terminam os seus dias pela norte. ciênoia Ou sabedoria no Sheol. 8. A afirmação de que o sôpro (ruah) é da mesma natureza no homem e nos irracionais deve ser entendida à luz da terntinologia judaica antiga. não há dúvida. ou teologia. ninguém saberia dizer se de algum modo sobrevivem. pois professa que vai para o shcol 16 e menciona o juízo de Deus sôbre o indivíduo apos a morte. há esperança.10.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 193 Tudo vai para o mesmo lugar. êste. Não há dúvida.) Tenha-se ante os olhos que o escritor nestes versículos não visa propor alguma tese de filosofia. é na presente vida que. 12. pela observação dos sentidos apenas. o autor reconhece a sobrevivência da alma humana. enquanto permanece agregado à sociedade dos vivos.19-21. na base de raciocínios abstratos. Os vivos. servindo fielmente a Deus e utilizando moderadamente as ocasiões que Êste lhe concede." (9. ao passo que os mortos nada sabem. Quem pode dizer se o sôpro dos filhos dos homens se dirige para o alto E o sôpro dos animais desce às regiões subterrâneas 7" (3. pois já não há recordação dêles. mais vale um cão vivo do que um leão morto. E tudo volta para a poeira. na qualidade de observador popular. e terminam-nos de tal forma que nenhum sinal sensível indique necessàriamente haver destino diverso para um e para outro.) 17 Ci'. . já que o sôpro das narinas ou a respiração é distintivo da vida. Tudo vem da poeira.45 "Para o homem. a sã filosofia ensina que o principio vital (alma) do homem é imortal. que refere o que a experiência imediata lhe incute. Ora'. sensíveis. ao passo que o dos irracionais perece. significava também o principio vital. mas toma Simplesmente a atitude do observador popular.

A." J. mostra-se céptico diante de todos os atrativos dêste mundo. oriundo da Caldéia. '' apenas fêz remover dc tal concepção qualquer vestígio de paganismo. aliás. Cf. 11 Não sendo por si mesma contraditória às verdades por Deus reveladas aos Patriarcas. Tal indivíduo experimenta naturalmente a sêde do Infinito. que muito diferiam das dos egípcios. embora conheça o verdadeiro Deus. que." E. Estas explicações talvez tenham suscitado nova questão na mente do leitor. ainda ignora muitos dos desígnios divinos. assim como grande número de seus semelhantes. porém. José. Davi. 134.194 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Estas palavras são sugeridas pela opinião de que a morte introduz em estado de consciência quase extinta. Tournay. ela constituía como que um patrimônio dos antigos orientais. em ReDize d'histoire des Religions. 134. 321. 249s. A éste respeito. "A concepção que do além-túmulo tinham os judeus era a de todos os semitas do seu tempo. 123 (1941). por isto.. O Eclesiastes assim representa tipicamente a mentalidade do homem que. sempre lhes estêve destinada). "L'eschztologie individuelle dans les Psaumes". 231. não deixará de proporcionar aos fiéis a recompensa do bem por êles praticado (cf. pág. patrimônio que Abraão. os semitas haviam adotado as idéias dos babilônios. o Senhor Deus. Les religions dcc BabyIoniens ei des Assijriens (1945). por exemplo. E. A fim de viverem como justos e conseguirem a vida eterna (que. fica sempre esperança de conquistar certa felicidade neste mundo. que os hebreus igualmente professavam. inoculada no mais profundo do seu ser. conserva o otimismo. Em seu bom senso. 1941). seria fácil demonstrá-lo mediante recurso aos textos cuneiformes. com esta fé se santificaram Abraão. Deus permitiu que o autor sagrado. nos inícios da história sagrada. ficassem por muitos séculos dependentes de concepções obscuras no tocante à existência póstuma. já não resta possibilidade de conquistar algum bem. "L'idée de l'au-delà dans la religlon hébrarque". mesmo para os mais nobres (simbolizados pelo leão). 12. des origines au milien diz Vilie. Quanto à noção do sheal. reservando-se para 18 "Os exegetas já de há muito reconhecem que os antigos hebreus professavam a respeito do além-túmulo crenças semelhantes às dos outros povos semitas. Israel. 113-142. qualquer que seja a sua condição (o cão simboliza o gênero de vida mais duro possível). id. Lods. cf.. Guitton.. 121. para os vivos. em Revue biblique. por vias ocultas. Por que não terá de início elucidado tão interessante ponto de doutrina? Não era necessário à salvação dos israelitas que o Senhor lhes revelasse com tôda a clareza o que se dá após a morte. Isaque. sem dúvida.13s). encerra as suas disputações entregando-se confiante ao Senhor. bastava cressem na Justiça Divina e nas suas sanções. mas seguras. herdou de seus ancestrais. Dhorrne. 481. siêcle. ao passo que para os mortos. 56 [19491. Le développement des ldées dans I'Âncien Testament (Aix-en-Provence. . 19 Como. em outros casos.

foi.tão veementemente repudiada pela Lei divina consiste na falsa noção de Deus que ela pressupõe. Entre vivos e defuntos. ora entre vivos existem meios de intercâmbio naturais. É o Criador. A Lei de Moisés. na mitologia grega. por instituição divina.7-14). porque interrogara e consultara os que evocam os mortos. não leva em devida consideração os desígnios e direitos de Deus.) A razão por que a necromancia era . porém. por oráculos." (Lev 20.27.) "Todo homem ou tôda mulher que evocar os espíritos ou se der à adivinhação será punido de morte. quem institui as relações entre as criaturas e o modo como se desenvolvem. em última análise. viu." (1 Crôn 10. responder aos vivos. estava a crença de que podiam ser evocados e.. promiscuamente se deviam epcontrar bons e maus. assim pensando. havereis de replicar: 'Então um povo não deve consultar o seu Deus? Consultará os mortos em favor dos vivos ?'" (Is 8. porém.e é . também o profeta Isaias incriminava o abuso: os adivinhos. repetidaniente condenava a praxe: "Se alguém se dirigir aos que evocam os espiritos e aos adivinhos.. Entre outras falsas noções que o paganismo associava à sorte dos defuntos.. Com efeito. "Pitonisa" vem a ser a mulher que. em revelação posterior. conforme as idéias antigas. lapidá-los-ão. é a serpente que Apoio matou. seu sangue recairá sôbre êles. os israelitas foram freqüentemente tentados a adotá-la. foi ter com a pitonisa 20 de Endor.) No séc. por meio de certas fÓrmulas. o rei Saul. voltarei minha face contra êsse homem e o afastarei do meu povo. 20 passou . O nome a designar o profeta ou adivinho inspirado por Apoio. refere: "Se vos disserem: 'Consultai os que evocam os mortos e "Saul. o deus dos oráculos. sim. que. a única mansão em que. que murmuram e respondem em voz baixa'. poderá entrar em comunicação com êles. Não obstante..A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 195 as proximidades da era cristã comunicar mais claras noções de escatologia. pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel. para se entregar às suas práticas.13. por assim dizer. por exemplo. se tomara culpado diante do Senhor." (Lev 20. porém. Tal proposição. pretenda desvendar o futuro. 1 Sam 28. em compartimentos: diversas são as sortes pÓstumas do justo e do pecador (veja-se abaixo). os gestos. nos é lícito e necessário usar (tais são a linguagem oral. atribu1ado numa campanha bélica. faltam tais Python. seu conselheiro de outrora (cf. em nome da Divindade.19. dividida. por sua vez. Quem evoca os mortos julga que.6.) O cronista sagrado. a escrita). era oposta à idéia de que as almas dos mortos vivem destituídas de conhecimento e afeto.

subsistindo em espírito apenas. porém. Em épocas mais ou menos remotas da história sagrada. entregar à contemplação da Verdade. 0 .. estavam psicolôgicamente preparados pata receber a mensagem da ressurreição da carne e da subseqüente bem-aventurança. tomando como mera ocasião a visita do rei à pitonisa.. para satisfazer à curiosidade ou ao capricho das criaturas. com mais liberdade. justamente por êsTmotivo. Isto não quer dizer que impossível seja a comunicação entre vivos e mortos. permitiu-o gratuitainente. cuja filosofia era mais esmerada. os israelitas. estão subtraídos ao conhecimento ou à apreensão dos vivos. ensinavam que. sendo intrusão do homem em fôro no qual êle não possui jurisdição. e não prêmio). o desejo de admoestar o rei à penitência. o espírito não é objeto natural do conhecimento dos sentidos. a alma se poderia. já que os defuntos. não deixavam de apresentar sólido ponto de apoio à revelação de conceitos escatológicos mais claros. ). não se segue que Deus se dirija aos homens por via tão estranha tôdas as vêzes que êstes o desejem. ao menos no fim de sua vida. a exortação dirigida a Saul em circunstâncias tão extraordinárias seria particularmente eficaz.A GRANDE SURPRÉSA PÓSTUMA As noções de antropologia e teõlogla que levavam os judeus a admitir o slieol. se toma um abuso e implica derrogação ao conceito de sõberania divina. por exemplo. Deus se dignou permitir que o espírito de Samuel evocado respondesse. Disto... porém. § 2. não manifestada pelas leis da natureza. por muito imperfeitas que fôssem. se achavam menos habilitados a acolher o dogma cristão: os sábios gregos. vontade de Deus que os homens não podem perscrutar nem captar a seu bel-prazer. por alguns séculos os manteve avessos à perspectiva de uma ressurreição da carne (esta lhes parecia ser novo encarceramento da alma. Note-se que outros povos. esta proposição. pQrém. se dê. como se depreende das palavras de Samuel. a qual começa pelos sentidos (visão. audição. O motivo por que então o Senhor atendeu a Saul foi. talvez já um ou outro escritor tenha aludido em têrmos breves e timidos à ressurreição da carne e à subseqüente visão de Deus. No caso de Saul. Assim nos salmos (cuja data de origem dificilmente se poderia indicar com precisão) lêem-se expressões como . depende estritamente da soberana Vontade de Deus. Em Israel sob a pedagogia divina. separada do corpo. julgando que o homem consta necessàriaméúte de alma e corpo e só pode ser feliz quando os dois compõnentes se acham reunidos. caso. aos poucos se foram dareando os horizontes. Eis como a necromancia. Com efeito.196 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO meios.

embora esta não pareça ser alheia à ideologia e às expressões mesmas de mais de um dêsses cânticos. Com efeito.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 197 "Não entregarás minha alma ao sheol. que em parte é um apocalipse (ou revelação do que se dará nos tempos finais) provàvelmente 21 Cf. de pressentimentos de ressurreição ainda vagos. afirmam tratar-se de fórmulas poéticas.) "Quanto a mim. esperança que teria ficado sem ressonância no povo de Israel até o séc. a perseguição desenca deada pelo rei sírio Antíoco IV Epifanes (175-164). 56 (1949) . que mencionam apenas a libertação de perigo mortal e a alegria daí proveniente no decorrer desta vida mesma. 2 Mac 7." (51 15. não implicando a crença na ressurreição e na bem-aventurança póstuma. Pois me arrebatará das mãos do shcol. 21 Em conclusão: não se poderá insistir sôbre o testemunho dos salmos a respeito da bem-aventurança eterna. Dar-me-ás a conhecer a alegria inebriante da tua presença. Em apoio desta interpretação. seriam a expressão de aspirações individuais. 51 72. citam passagens tanto da Sagrada Escritura como da literatura extrabíblica nas quais ocorrem frases semelhantes com sentido evidentemente metafórico. em Inocência contemplarei a tua face. saciar-me-ei pela visão da tua Imagem. "L'eschatologie individueile dans les Psaumes".) "Deus me resgatará." (51 48. porém.1-41).16." (Si 16. preparados pela reflexão de gerações anteriores. hiperbólicas. entre os quais se tornaram famosos os sete irmãos Macabeus (cf. 9045s. Alguns julgam que manifestam a esperança de vida póstuma bem-aventurada. em Revue .C. souberam dar solução em séculos precedentes inatdita.24-26.) Of. no livro de Daniel. II. Tournay. Ao despertar. Outros estudiosos.15. A luta dos justos em prol da fé parece ter vivamente desper tado entre os judeus a questão: ao sacrifício do sangue e da vida por amor à verdadeira fé não se seguirá resposta do Altíssimo? Terão os heróis. Como quer que seja no séc. Os exegetas não concordam entre si sôbre o sentido exato dêstes dizeres. indefinidamente a mesma sorte que os apóstatas ? A éste quesito os contemporâneos dos Macabeus. II a. suscitou mártires israelitas. relegados para o sheol. As delícias de estar para sempre à tua direita. a primeira campanha anti-religiosa da história judaica. Nem permitirás que o teu fiel veja a fossa. bibUque. Ensinar-me-ás o caminho da vida. 481-506.10s.

C.7). Alusão direta aos mártires da perseguição suscitada por Antioco Epi- . 23 fanes. em conseqüência. CL P. 4. Enfim a todos serádado perceber os sábios desígnios que a Providência Divina tem em mira quando na terra permite aparente vitória dos ímpios. silenciou o dogma da ressurreição. referindo-se à escatologia. devendo OS justos 23 "brilhar como o esplendor do firmamento e como as estrêlas dotadas dé fulgor perpétuo" (cf. que haveria de assinalar a justos e pecadores a devida sanção (cf. 4. contudo pôs fortemente em realce a doutrina de que. 3. os mártires apelavam para o futuro juízo de Deus. o gôzo materialista dos prazeres dêste mundo acarreta fim funesto (3. derrota dos bons (3.6): ci justo pode ser aflito. Le déve- loppement dez idées dans VAncien Testamezt.) Seu irmão prosseguia: "Felizes os que morrem pela mão dos homens. a nós que morremos para ser fiéis às suas leis. de ser ressuscitados por Êle 1 Quanto a ti. Os próprios justos. 7. a tua ressurreição não será para a vida (bem-aventurada) 1" (7. Dizia. ao ímpio juiz um dos justos supliciados: "Tu nos tiras a vida presente. 5.10-12).9. ao contrário. paralelamente. abuso do poder levam à ruína póstuma.9. perseguidos e humilhados neste mundo pelos ímpios prepotentes. afirma a ressurreição e a bem-aventurança póstuma destinada aos fiéis. tornar-se-ão o critério conforme o qual será piblicamente avaliada a conduta dêstes (3. Éstes testemunhos encontram seu complemento no livro da Sabedoria. com a esperança que de Deus receberam.8.1-13).35s). mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna. os fiéis.) Diante dos carrascos.42-45 Judas Macabeu. Guitton. após a morte. 1951). recebendo cada qual a respectiva sanção. talvez a fim de não ferir a ideologia do ambiente helenista em que se achava. Passelecq. por exemplo. O seu autor. 22 encontra-se a profissão de fé na ressurreição da carne. No segundo livro dos Macabeus transparece a mesma crença.16. Em 2 Mac 12. desprezados pelos maus. Dan 12.20-5. 55s.198 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO oriundo na época dos Macabeus. escrito em grego na cidade de Alexandria (Egito) durante o séc. os pecadores sofrerão grande decepção ao verificar a inversão da escala de valores por êles instituída: arrogância. o pecador pode gozar de 22 As seções historiográficas do livro podem reproduzir documentos anteriores a ésse período. sem que tenha incor rido na maldição divina." (7. justos e pecadores são por Deus julgados. 1 a. 172s.14. conhecerão a exaltação e o triunfo definitivos (cf.2s). por sua vez. Onde biblique (Maredsous.

porque não há slzeol (vocábulo do Antigo Testamento hebraico outrora ambiguamente traduzido por 'inferno') . em têrmos claros anunciou o juízo final. portanto. Mt 25. que representa a sorte feliz dos justos. devia ceder a noções mais precisas. lugar que. o valor do sofrimento abraçado por amor de Deus. que se torna a triste sanção devida aos pecadores. ocorre.. 2 Mac 12. tendo renegado a Deus porsuas obras. em união com a Cruz do Redentor (cf. em que o bem e a iniqüidade serão devidamente focalizados. Estas concepções de fins do Antigo Testamento ainda haviam de ser explicitadas pela revelação cristã: o Messias incutiu aos homens o significado positivo. seria dizer: "Não há estado de condenação eterna para os pecadores (= inferno. ser réu perante a Justiça eterna.39-46. neutro.foi pela revelação cristã repartido em dois outros têrmos ou estados. a plenitude dos tempos.A SORTE PÓSTUMA NA EXPECTATIVA DO POVO DE DEUS 199 prosperidade material e. Mt 5. . pôr assim dizer. Em Apc 20.. implicitamente revelado em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento (cf. ao aproximar-se. por conseguinte.14 (trad.25s. porém." Será o "inferno" aqui mencionado o lugar dos réprobos. na terminologia técnica católica). 24 O vocábulo infernus ( em vernáculo. a 24 O purgatório há de ser considerado como adro do céu. Ela fôra. não obstante." Note-se bem que o conceito de sheol só foi removido pela revelação divina a fim de dar lugar ao de um estado de punição definitiva para os réprobos e ao de recompensa eterna para os justos. a dos que. na teologia católica em sentido diverso do que tem geralmente nas traduções latinas e portuguêsas do Antigo Testamento. Matos Soares).31-46). Com efeito. pois.10-15). Eis um exemplo de como não se deve proceder neste terreno. tendo procurado ser bons como Deus é bom. estarão habilitados a viver para todo o sempre na presença do Senhor. 1 Cor 3. deverão eternamente sentir as conseqüências desta apostasia (cf. inferno) foi sendo reservado pelos cristãos latinos para significar o estado definitivo dos réprobos. sem dúvida.14 lê-se na tradução portuguêsa de Matos Soares: "O inferno e a morte foram lançados no tanque de fogo. suficiente para sustentar a piedade de um povo rude durante vários séculos . Ilógico. a . a antiga ideologia do sheol perdeu o seu sentido. Desde que tais noções tomaram vulto na mente do povo de Deus. estaria destinado a desaparecer no fim dos séculos? Errôneo seria basear a interpretação do texto na assonância existente entre o nome que indica a sorte dos réprobos (inferno) e o vocábulo "inferno" ocorrente em Apc 20. um positivo e o outro negativo: o céu. o inferno.24-27). devendo o gênero humano conseqüentemente distribuir-se por duas grandes categorias: a daqueles que.termo. Mt 16. lugar de encontro de bons e maus reduzidos à quase-inconsciência . Deixará de existir após o juízo final. O sheol de outrora .

e predizia que serão aniquilados no fim dos tempos. explicado. o cristão não deixa de possuir um penhor e antegôzo da vida eterna: a graça em sua alma é a semente da glória celeste. João em Apc 20. continuando uni uso literário da tradição biblica.55s. para incutir que o pecado e todas as suas conseqüências (entre as quais a morte e a "morada dos mortos") deixarão de existir no mundo remido e consumado por Cristo. João). conforme a linguagem dos gregos antigos. Não há. A doutrina escatológica revelada por Jesus deverá. como o pecador carrega o inferno dentro de si.. pois. a concebia e personificava. consumar-se na visão face a face. Is 25. pelo vocábulo "morte" justaposto: "ÇA morte e o inferno serão lançados..8. ela lhe dá a experiência da bem-aventurança final.200 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO palavra "inferno" nesta passagem é a tradução do grego Hwtes (térmo do original de S. O justo traz o céu em seu íntimo. vê-se. desabrochando. a mansão dos mortos correspondente ao sheol dos hebreus.14 intencionava aludir a um conceito do Antigo Testamento.14 senão uma afirmação paralela à de 1 Cor 15. Os 13. embora na realidade não exista região coletiva dos mortos (o sheol dos judeus). de resto. a .14. o autor sagrado. Todavia já agora. Ora o Hajas é." Personificava assim a morte e a região dos mortos como adversários do gênero humano. eis como atualmente se formula um dos aspectos mais importantes da doutrina dos novíssimos. na posse direta dos bens prometidos.26. em Ape 20. pois. peregrino nesta terra. que S. por sua vez.

. Não é. destituídas. O Senhor não costuma exigir fé sem apresentar "credenciais". Para o católico. É não menos certo que Deus não dêrroga às leis por Éle mesmo incutidas ao mundo. - . ilícito perguntar se alguns dos propalados milagres do Antigo Testamento são realmente tais. a Sagrada Escritura. sinais que satisfaçam à natureza intelectual e. não implica que o Criador tenha realizado portentos. de proporção com os acontecimentos anteriores e subseqüentes. sim. "a êsmo". porém. era como que normal ou necessário suscitasse Deus milagres ou manifestações mais evidentes da sua presença e ação no mundo. porém. o homem contemporâneo não o saberia fazer sem por vêzes sofrer constrangimento. à primeira vista. ou não será que o leitor moderno é num ou noutro ponto propenso a racionalismo exagerado? Antes de se passar a respostas particulares. o Senhor não "brinca" com o seu poder sôbre a natureza. é errônea a posição de quem queira simplesmente negar fé a certos episódios da Bíblia por narrarem feitos portentosos. se diriam demasiado infantis ou portentosos para poder ser conjugados com a noção de Sabedoria Divina e com o bom senso humano. torna-se oportuna uma observação de ordem geral. dir-se-á que. Ponderado isto.). Ao passo que os antigos judeus e os cristãos até época recente os interpretavam literalmente. sensível do homem. apresenta episódios que. etc. porém. principalmente nos livros do Antigo Testamento. dilúvio.. sem que haja proporção entre o milagre e o fim a ser atingido.CAPÍTULO XIII "PRODIGIOS" E PRODIGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO Além da famosa "pré-história" bíblica (Gên 1-11: origem do mundo. Esta proposição. pecado. isto é.. da Onipotência Divina. Surge assim a questão do sentido autêntico que têm essas passagens: a tradição exegética as terá entendido devidamente?. como se diria. A fim de atrair a dureza de coração da criatura inclinada ao mal desde o primeiro pecado. ao mesmo tempo. do homem. seria incoerente e ilícito negar o sobrenatural e portentoso na história das relações de Deus com o homem.. sem dúvida. Parecem manifestações retumbantes.

com sua espôsa e suas filhas. 1955). se retirasse da mesma. Muitos dêstes dados vieram projetar valiosa luz sôbre as páginas da Sagrada Escritura. o presente capítulo considerará textos sôbre cujo sentido pairam dúvidas ou concepções errôneas. dêstes princípios ainda teóricos.. procurar-se-á pôr em realce o que mais deve deter a atenção do leitor. Ora as novas interpretações em não poucos casos diminuem ou removem o caráter portentoso que tradicionalmente se atribuía a alguns episódios. assaz diferente da história normal das relações de Deus com os homens. a saber: o significado religioso que tais trechos possuem no conjunto da Revelação (pois. tendo o Senhor resolvido destruir pelo fogo a cidade de Sodoma prevaricadora. olhar que 1 A chamada "pré-história bíblica" já foi objeto do nosso estudo intitulado Ciénda e Fé na História dos Primórdios (Rio de Janeir02. eram induzidos a propor uma história sagrada cheia de fenômenos extraordinários. Os exegetas antigos e medievais. . não percebiam certos matizes de expressão e.. desejosa de verificar se se cumpria a promessa divina. porém. foi primàriamente em vista de uma mensagem de vida eterna que o Espírito de Deus quis fôssem consignados na Bíblia). ao lado disto. faziam-no por carecer dos instrumentos filológicos e paleológicos que hoje possuimos para recolocar as páginas bíblicas dentro da respectiva moldura semítica. a fim de não ser punido com os pecadores. Eis.15-26) Diz o texto sagrado (Gên 19. o justo Lote. a mulher de Lote. sem dúvida. em virtude desta carência. impõem-se à consideraçãb fatos recentes: têm-se descoberto no Oriente documentos que manifestam bem o âmbito de vida. lançou para trás um olhar curioso e inoportuno. durante a fuga.0 A MIJLIIER DE LOTE TRANSFORMADA EM ESTÁTUA DE SAL (Gên 19. permitindo mais exata compreensão dos seus dizeres. porém.15-26) que. conseqüentemente. mandou que um sobrinho de Abraão nela residente. Sendo assim. que. entendendo-os como se narrassem milagres. § 1. a maneira de pensar e falar dos povos pré-cristãos.202 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Esta observação já bastaria para levar o estudioso a reexaminar a exegese de um ou outro dos textos sagrados e verificar se autêntica é a interpretação que se lhes dava na antiguidade. à luz dos mais recentes estudos. pensam sôbre o seu aspecto portentoso. ' Propor-se-á o que os exegetas católicos. Ao lado.

Essas rochas são jovens que."PEODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 203 contradizia diretamente a instruções dadas pelo Senhor. pano a fim de enxugar o recém-nascido. porém. contra os quais o jumentinho de Ahmud tomou a palavra a fim de o defender. o marido com a espingarda e os camelos. o oficial encontrou os dois malvados imóveis como pedra. é preciso ter visitado as regiões do Mar Morto (ao sul ou sudoeste do qual ficava Sodoma) e convivido um pouco com os beduínos habitantes da região. se mostraram incõnvenientes. Alá. porém. não longe de Durah. ao atravessar uma planície cercada por montanhas de estranha silhueta. Com insistência particular. disseram-lhe êles com voz surda análoga ao tinir da pedra. acometida pelas dores do parto. Eis algumas destas. porém. na zona de Maã. Depois do incidente. se encontra uma rocha de configuração mais ou menos fantástica. para compreender o episódio. 1903). ao dançar. lhe disse o guia: "Vê esta planicie? Outrora era coberta de arrozais. ao sul de Hebron.17. 202. a criança. Alã as transformou era pedra e amaldiçoou a regiao. Ao voltar.) 3 Cf." (Gên 19. se te queres conEervar em vida. 2 "Fege." O mesmo refere que no território de Durah. usou para isto o pão que levava como provisão de viagem. "tornou-se uma estátua de sal". tais como têm sido relatadas por recentes exploradores do Oriente: . a fim de não pereceres. montada sôbre um camelo. o percebeu. prosseguiu a estrada. No folclore árabe relata-se que Ahmud era oficial muito conceituado junto ao seu xeque Kerak. Não tendo.Jaussen narra que certo dia. Contudo não parece ser isto o que o texto sagrado quer dizer se tenha realizado. refere o autor bíblico (v. 26). . Lagrange. foge para a montanha. Ahmud. atravessava a região com o marido. deu à luz. estavam fixos ao solo. e irritou-se de tal modo que transformou em rochedo a mulher. A "transformação de indivíduos humanos em estátuas de rocha por efeito de castigo divino" é tema não raro nas tradições árabes palestinenses. advertem os exegetas que. 2 Em conseqüência. Certo dia. pecamos". a propósito da qual o guia ifie contou a história seguinte: jovem senhora. em viagem foi caluniado por dois homens. La méthode historique (Paris. tendo-se tornado semelhantes a rochedos: "Perdoa-nos. Não olhes para trás nem pares tm lugar algum na planície. Como se há de entender a narrativa? De modo nenhum a transformação de uma mulher em estátua de sal implica absurdo ou fenômeno que a Onipotência Divina não possa efetuar.

e severamente castigado. ainda se vê em nossos tempos extensa colina de sai-gema semelhante a uma baleia. para admirar que. dígio que com êles se dera. restituidos à natureza humana. o qual refere a Jaussen. entre os antigos semitas. é possível que uma crosta de sal haja em breve recoberto o seu cadáver.204 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de boa índole como era. é. Chame. Ovidio (t 17118 dc. Hemnlsch. Das Buch Genesis (Bonn. as histórias de Niobe. 7 Lote e sua mulher terão vivido no séc. mina inesgotável. falar de petrificação de um indivíduo era o mesmo que afirmar haver sido castigado. Cadmos e Harmonia incluem semelhante tópico.. falasse de "petrificação" da criatura renitente. pois.C. Tendo sido assim punida.C. 1930). Estas averiguações levam a concluir que. pouco antes da era cristã. aos quais a fantasia popular fàcilmente atribui o aspecto de mulher. a. 301-312. 6 Independentemente. 6. perdoou-lhes. na série das Mil e Uma Noites.). o historiador judeu Flávio José dizia ter visto um bloco salino que era comu4 As narrativas são transcritas do comentário de J. xviii . a imaginação do povo tenha associado entre si o episódio da mulher de Lote. Entre os gregos. A expressão tinha sentido meramente metafórico e parece ter entrado como tal na Escritura Sagrada. é isto o que o texto sagrado quer incutir em primeira linha. o autor do livrõ bíblico da Sabedoria (10. 1 no séc. Não é. dever-se-á dizer que a mulher de Lote foi fulminada pela morte em castigo da sua incredulidade e desobediência ao Senhor. Metamorfoses. 1949). alude também a dois príncipes metamorfoseados em rocha negra. 297s. Ora aí as erosões e outros fenômenos geológicos ptoduzein constantemente a formação de blocos rochosos. Coutumes des Arabes au pays de Moab. de configuração estranha. 250. pois. 251s. Na região de Djebel Sudum ou Usdum."petrif icada" conforme o modo de falar antigo. pela Divindade. O conto das "Duas Irmãs Ciumentas". monumento de uma alma incrédula" existente na região de Sodoma. 1 d. porém. Os dois árabes. hoje correspondente à antiga cidade de Sodoma. da qual se abastecem as famílias de Jerusalém. então. Assim. Le livre de la Genese (Paris. Assim pensa P. . e uma ou outra dessas pedras às quais a erosão dava aspecto feminino. Na realidade. no decorrer dos tempos. recorrendo a imagem comum na literatura de seu tempo. dêste outro fenômeno.7) aludia a uma "coluna de sal. narraram a todos os vizinhos o pro. tais blocos podem conservar por tempo notável a sua aparência. como costuma recobrir árvores e demais objetos postos à margem do Mar Morto. Ci. a fulminação da espôsa de Lote já era fato suficiente para que o autor sagrado.

11. Em vista disto. movidos por fé tíbia. Não toca aos homens ponderar os motivos por que o Senhor procedeu tão severamente no caso. quando a peregrina Sílvia Etéria. olham para trás. § 2. indicam os beduínos um bloco de aproximadamente 15 m de altura. Para êstes pode-se recear castigo análogo ao que fulminou a desgraçada mulher. o Senhor decretou libertá-los. Quem procurar conservar a vida.) Com estas palavras. enviou Moisés. na Sagrada Escritura. conservá-la-á. porém. 1. nutrindo ainda a nostalgia do que abandonaram e permanecendo apegados a prazeres e bens que não lhes são de utilidade para a vida eterna. a mulher de Lote vem a ser o tipo de todos aquêles que. muito sóbrio. Na admoestação do Senhor. Estas expressões. em nome . Cristo incutia aos discípulos total desprendimento para poderem salvar a sua alma. soberano do país. perdê-la-á. ou seja.0 AS DEZ PRAGAS DO EGITO (tx 7. à presença de Faraó. porém. a morte. "Petrificação" e identificação de rochas com os vestígios da criatura incrédula são expressões de mentalidade e linguagem dos povos do Oriente e da tradição israelita. isto é. sabe-se. não se apontava estátua da espôsa de Lote. Jesus mesmo se fêz para nós o intérprete da história. em vista de uma admoestação salutar dirigida a cada fiel. ao empreenderem uma tarefa importante ou a máxima tarefa da salvação eterna. que êles dizem ser "a itulher" ou também "a filha de Lote" (bint Lout) Em conclusão: uma exegese atenta do episódio da mulher de Lote leva a distinguir entre o "fato" e a "maneira literária ou popular" de exprimir o fato. sim.31-33. em pormenores: a espõsa de Lote foi fulminada pela morte sôbre a estrada. a morte sobrenatural. Não foi para isto que o Espírito de Deus nos quis transmitir o episódio. quando fugia de Sodoma. recobrem um fato certamente histórico. mas.14-12. estava o povo de Israel cativo no Egito e sujeito a duros trabalhos forçados. constituído chefe do povo. das Gálias. visitou a Terra Santa. "quem estiver nos campos não volte atrás.36) Por volta de 1250 a. que em fins do séc." (Lc 17. Atendendo ao clamor dos infelizes escravizados. Lembrai-vos da mulher de Lote. deduzindo o seu significado perene No dia solene do juizo sôbre Jerusalém. procedem fútil ou levianamente. e quem a perder. Em nossos tempos."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 205 mente identificado com a mulher de Lote (Ant.4). a fim de intimar o monarca. IV.C.

Eis a lista dos flagelos assim ocasionados: 7.13-35. antes. porém. desenvolveram-se com veemência fora do comum. Onda de mosquitos: 8. Uma vez determinada a cronologia. pois.18.1. de outro lado. Faraó. desencadeando dez pragas sôbre o Egito. atribuindo-as à intervenção explícita do Senhor. 8.1-20. onde estavam domiciliados os israelitas (cf. no decorrer dos séculos parece ter acentuado a índole extraordinária dos acontecimentos. se há de reconstituir a história. mas em vista do modo como se verificaram. além dos têrmos intencionados pelo próprio Deus. aludindo à confecção de palha. com o início da primavera (mês de abril).16-28. A morte dos primogênitos dos egípcios: 12. Ora. O autor sagrado incute o caráter portentoso de tais pragas. Com efeito. os versículos Éx 3.206 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO de Deus. a libertar os israelitas.12. Deus. julga-se que as pragas do Egito não foram senão flagelos que. Sanha de mõscas venenosas ou de vespas: 8. se produzem naquele país por ação de fatôres naturais. note-se que as dez pragas se devem ter sucedido entre os meses de junho e abril subseqüente. dentro do período assinalado. porém. sendo que o primeiro.1) começaram a se desencadear os flagelos. sem graves razões. e 5. tiveram origem. referem circunstâncias da vida do Egito nos meses de maio e junho. após uma análise conscienciosa do texto bíblico. como se tem dito freqüentemente.8-12. das quais sàmente a décima conseguiu dobrar a dureza de coração do rei. e cessaram a mandado do mesmo. falando de pastoreio de ovelhas na estepe.68. poupando. Ora pouco depois (6.11-25.26). ou seja. como se verá abaixo. Tumores e pústulas nos homens e no bestiame: 9. Trevas sôbre o país: 10. Geada: 9. Eis como. servir-se . procura. no momento predito por êste. condiz bem com a situação do país em junho.26-8.29s. Conversão das águas do rio Milo em sangue envenenado: Êx Invasão de rãs nos rios e nas casas do Egito: 7. naturais no Egito.1-7. A imaginaÇão humana. sim. Em primeiro lugar. E qual o fundamento desta tese? Ê a observação de certos fenômenos. em mais de um caso.12-15. os quais podem muito bem corresponder ao que descreve o texto sagrado. Invasão de gafanhotos: 10.21-27. certo é que a morte dos primogênitos coincidiu com a primeira Páscoa. por isto. o Senhor houve por bem demonstrar-me o seu poder. a região de Gessen. por ordem de Moisés. não derroga às leis da natureza. dado o concurso de circunstâncias particulares. milagres não em si ou por seu desenrolar intrínseco.11. não se quis render ao pedido. Peste sõbre o gado: 9. Foram. porém. 9.

1953). 1 (Paris. O. as águas de um rio ou lago podem tomar coloração vermelha. estas. Da sexta praga em diante foram êles mesmos atingidos. O primeiro flagelo se deve à enchente do rio Nilo. anualmente verificada em fins do mês de junho. O fato. "Plaie". 1945). A massa dos crustáceos invasores dava a impressão de que um corante avermelhado havia sido derramado nas águas. ao menos em setor restrito. As águas costumam tomar então aspecto vermelho por causa de detritos de barro que descem dos lagos da Abissínia. tudo isto era familiar aos egípcios. H.. os quais tornaram venenoso o manancial. Normalmente. não lhe pareciam . Por ocasião da terceira praga. e em circunstâncias diversas. Histoírc Sainte (Paris. está averiguado que também cers 'flagelados" rubros (englena sanguínea). em Dictionnaire de la Bible. 8. parecendo transformadas em sangue. 1947). II. Assim o primeiro e o segundo (cf. por via natural. o que bem se explica pelo fato de trazerem as pulgas de água algumas gatinhas de óleo vermelho no seu organismo. verificou-se numa baia perto de mel (Alemanha) a irrupção de numerosissimas pulgas de água (daphniae. consumiram todo o oxigênio da água. 312. Buysschaert. Também a renitência do Faraó insinua que o monarca não se impressionou pelas nove primeiras pragas. estas. 3). dão colorido sanguíneo à água.e realmente não terão sido fenômenos até então inauditos. Ricciotti. como D. Histoire d'israel. 10 estes fatos dão a ver que. (Paris2. eis o sinal de que eram enviadas por Deus. Vigouroux. Israel et te judalsme dans l'Áncien Orient (Bruges. 1912). 8. Heinisch. juntamente com os coanoflagelados que aderiam à couraça das mesmas. 97. 1. A mesma sentença é sustentada por outros autores católicos. Das Buck Exodus (Bonn 1934). é êste o fenômeno dito "do Nio vermelho".. l{einisch. 10 Çf. Éx 7. 154. um ou outro dos flagelos provocados por Moisés. P. 1 disto se depreende que se tratava de fenômenos decorrentes das energias da natureza devidamente exploradas. as águas da cheia não são nocivas nem aos homens nem ao gado. É o que sugere que a enchente da primeira praga haja sido acompanhada por outro fenômeno. professor da Universidade de Nimwegen (Holanda). observa-se que os magos do Egito puderam reproduzir. porém. confessaram sua Incapacidade (cf. ocasionando o perecimento dos peixes da baía por sufocação."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 207 do curso habitual dos elementos para realizar os seus maravilhosos desígnios. 81. La Bible et les découvertes modernes. . 216.-Rops.22." O. o chamado "Lago Vermelho" perto de Lucerna (Suíça) deve o seu matLz caracteristico a uma espécie de alga (oscillatoria rubescens). V. como talvez a invasão de pequenos animais dentro do rio. ° Posta a conclusão acima. de que se tenham verificado no momento preciso em que Moisés as evocava. aponta fatos hstóricos que podem servir para ilustrar o texto bíblico: em setembro de 1913. o qual se pode parecer com a transformação da caudal em rio de sangue. resta considerar como se desenvolveram as dez calamidades. 9 "AS famosas pragas do Egito. portanto.14s). A título de confirmação. porém. Lesêtre. crustáceos cladoceros). 451s.. caso se tomem numerosos..

três. Faraó. como as que se deram na quinta e na sexta praga. replicando "Quem é Javé para que eu obedeça à sua voz. deixando sair Israel? Não conheço Javé. Am 4. mosquitos e vespas (segunda. Ji 1. mormente em países orientais. que. onde tal calamidade parece ter ocorrido com certa freqüên•cia (cf. pois. que constituem a nona praga. Entendidas as pragas do Egito no respectivo ambiente e clima. por meio de Moisés intimara o soberano do Egito a deixar partir o povo hebreu. faz-se mister realçar a mensagem religiosa em vista da qual o Senhor permitiu o seu desencadeamento. suficientemente espêssas para provocar escurecimento da atmosfera. carregando consigo enormes quantidades de areia. Uma invasão de gafanhotos (oitava praga) também não seria para estranhar em fev&reiro ou março. terceira e quarta pragas) são conseqüências das enchentes do Nilo. e não permitirei que Israel se vã. Deus. nenhum fenômeno ordinário se lhe pode comparar. multiplica-se um dos fatores principais para o aparecimento de tais animais. recusou-se.2. Inundações e invasões de animaizinhos provocam não raro doenças e epidemias. penetram nas habitações dos homens e os molestam. se verificam inundações.26).Quanto às trevas. terão sido acarretadas pelo famoso vento quente dito lchamsin ou simun. . Conforme Heródoto (3.208 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO A esta seguiram-se outras calamidades conforme um encadeamento assaz compreensível.9). Sua ação se faz sentir em março ou abril. até seis dias contínuos. parte do exército de Cambises foi sepultada nas areias dêsse vendaval. As invasões de rãs. Normalmente rãs e mosquitos põem ovos na água ou sôbre as águas. tratando com os homens segundo a sua condição de criaturas livres. durante os quais ainda hoje as estações ferroviárias funcionam à luz acesa em pleno dia. Poderá haver algum intento sábio na provocação de tanto furor da natureza? Sim. porém. e no decurso de dois. por vêzes ainda em maio." (Éx 5. No tocante à décima calamidade (morte dos primogênitos). A geada (sétima praga) é fenômeno que se terá produzido no mês de fevereiro. em conseqüência. Quando.4. onde os mesmoSse desenvolvem. Éste sopra a partir do deserto. As águas terão ocasionado também o ambiente favorável à reprodução extraordinária de môscas venenosas. quando ela se verifica no Egito.) . Foi decisiva para que Faraó se rendesse.

11 Se tal não foi o artifício aplicado pelos magos de Faraó. todo homem pôsto diante dc mistério de Deus). a soberania absoluta do Deus de Israel. Nada escapa ao plano do Criador. o qual havia de compreender que Javé não era o Deus desprezível de um povo escravizado (na antiguidade se avaliavam os atributos da Divindade pelos predicados do povo que a cultuava). Heinisch. . Deviam tomar caráter exuberante. o trato com serpentes. obtendo finalmente do homem relutante o reconhecimento e a homenagem devidos. pode-se admitir que tenham levado à presença do monarca bastões e serpentes ocultas. Ainda em nossos tempos diz-se que reproduzem a conversão referida pelo texto do Êxodo: há um tipo de serpente em cuja cabeça determinado centro nervoso pode ser delicadamente comprimido de sorte a provocar ããibra ou entesamento de todo o animal. O mesmo prodigio é atribuido aos magos de Faraó . é o Soberano capaz de encer a dureza de cora r ção das mais altivas criaturas. As pragas . 74. tipo do homem soberbo. sim. a fim de impressionar a fantasia.11 PE0DÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 209 O monarca se obstinou mesmo diante de um prodígio que. a sensibilidade de homens empedernidos.10-13). tinham por fim demonstrar. que se faça cessar a pressão e com violência se atire o "bastão" ao solo. Ao passo que a transformação realizada pelo homem de Deus a mandado do Senhor se reduz simplesmente à ação da Onipotência Divina. Aos egípcios e orientais era familiar. obteve de seus magos a realização de portento semelhante (CL Éx 7.. eram utilizadas para muitos fins. a seguir. sob permissão divina. a qual se transformou em serpente. Aarão lançou uma vara ao chão. proporções muito vastas. O fato de que a serpente de Aarão devorou as dos magos era portento suscitado por Deus para significar que a sabedoria dos homens não prevaleceria contra os designios divinos. aliás. porém. por gestos rápidos. -Ezodus. de dura cerviz ou fé vacilante (como. éste então toma a forma de bastão retilíneo. o Senhor desencadeou. esteio de obstinação contra Deus. mas. A lição se dirigia primeiramente a Faraó.mas a serpente de Aarão devorou as dos magos. recupera a natural mobilidade. para corroborar a intimação.. terão feito desaparecer aquêles e lançado estas ao chão. O ensinamento aproveitaria também a Israel (ou aos fiéis de todos 9s tempos). ao contrário. Éste povo. como hábeis prestidigitadores. só se pode entender por um concurso de agentes naturais devidamente explorados pelos "sábios" da côrte. com evidência crescente. a sua imitação por parte dos magos..uêle. não há obstáculo que Lhe impeça o cumprimento de 11 cf. mediante encantamentos. Logo.que. tomaria consciência de que o Criador é fiel na execução das suas promessas. Moisés e seu irmão Aarão efetuaram em nome de Deus. as quais. nada pode frustrar o seu desígnio de fazer que o mal do homem sirva ao Bem de Deus e que êste na fim da história do mundo obtenha a vitória sôbre aq.

por nova ordem do Senhor. Faraó. de um lado.° A PASSAGEM DO MAR VERMELHO E 00 RIO JOROAO 1. 6. confessava Pedro após ouvir a "palavra dura" de Cristo (Jo 6. a mandado de Javé. A confiança no Senhor seria incutida 'como atitude que na alma humana deve prevalecer contra a pusilanimidade e a revolta. Alcançou-os perto do Mar. resolveu ir-lhes ao encalço. "Senhor. após as primeiras etapas dos emigrantes. a quem iriamos nós? Téns as palavras da vida eterna 1". . levando mulheres. que lhes teriam acarretado a morte. viram-se em graves apuros. mas ordenou. não fôra uma intervenção extraordinária de Deus. arrependido da concessão. pois. Eis. deixassem os israelltas o Egito. seguiram-Lhes as pegadas. causando opacidade entre os dois acampamentos. § 3. porém.5-31) O texto sagrado refere que. estendeu a mão sôbre o mar. se colocasse entre êste e o exército egípcio. Éstes. realizou um prodígio totalmente insólito ou alheio à natureza dos elementos. Chegando. do outro. Era a oportuna válvula de salvação . e as tropas inimigas. aterrorizado. crianças. Pergunta-se. sem demora. Como escaparia ao perigo iminente? O Senhor fêz que a coluna de nuvem que antecedia Israel. A TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 14. ao despontar do dia.66). às margens do mar Vermelho. se retiraram em caravana na direção do Oriente. Moisés. que então se fecharam sôbre a tropa de egípcios. fazendo perecer os perseguidores. dividindo o Mar Vermelho. de modo a formar no meio das águas um corredor. Moisés... de sorte que a multidão israelita se viu comprimida entre as águas. . gado e demais haveres.210 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO sua palavra. um vento impetuoso de leste pôs-se a soprar durante uma noite inteira. Como se há de entender esta narrativa? Do texto sagrado se poderia inferir que o Senhor. não sàmente permitiu. palavra que fizera apostatar não poucos dos ouvintes de Jesus (cf.68 e 60). que. mais uma vez estendeu a mão sôbre as águas. os israelitas por êle enveredaram. Faraó. após a décima praga. entrando no corredor aberto. porém. Com efeito. porém. passando o mar a pé totalmente enxuto! Quando os soldados de Faraó perceberam que os fugitivos se haviam lançado na direção do mar. A seguir. se o texto bíblico insinua de fato tão extraordinária intervenção da Onipotência Divina.

Eis verbalmente o parecer de Bourdon: "Julgamos que em tempos históricos. era simultâneamente templo religioso e fortim militar. mais precisamente: na época do êxodo."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 211 A isto respondem competentes estudiosos que não sàmente o livro sagrado. donde na Idade Média partiam as naves para a Índia.incorveja-se o mapa respectivo no fim do livro. duração . ) em que se verificou. situada nas proximidades da estrada e do vau referidos. vau ainda utilizado em nossos tempos (é a passagem 12 13 . Ora o texto bíblico insinua que o êxodo dos israelitas se fêz por um vau. de leste soprando sóbre as águas. e reabastecer as caravanas que do Egito se dirigiam às minas do Monte Sinai. passando pelo Egito. 1240 a. suficiente para criar entre o Egito e o deserto de leste um obstâculo importante. desembocava num vau ainda hoje existente na parte meridional dos Lagos Amargos. visto o vento impetuoso que. supõe que não tinham a travessia na conta de coisa impossível. e com razão. conforme as inscrições. mas também os vestígios de arqueologia recém-descobertos. havia uma passagem através das águas que então constituíam o Mar Vermelho. devia servir para proteger ã fronteira. canais e pãz3tanos senão pelo vau de Sues (entre Teu colzum e a cidade de Suez contemporânea). etc. impedindo entrassem na terra do Faraó invasores indesejáveis.. 12 Tais descobertas levam a admitir que. e se prolongava do outro lado das águas. descobriu vestígios de uma estrada que. esta construção. era bem capaz de nelas abrir um corredor. é hoje um acervo de ruínas situadas a dez quilómetros do litoral. havia entre o leito atual dos Lagos Amargos e o fundo do golfo de sues uma comunicação precária sem dúvida. Eis como se explicam tais autores: Nos tempos pré-históricos comunicavam entre si os Mares Mediterrâneo e Vermelho. julga-se que o Mar Vermelho se prolongava ainda até os Lagos Amargos e talvez o Lago de Tiznsah (situados hoje no referido istmo). o pôrto de Colzum. Não existia passagem através dessa rêde de lagos. em território egípcio. passagem cuja utilização dependia das circunstâncias de ventos. que tendia a recuar.C. Sim. oficial de marinha frantês encarregado durante muitos anos do serviço do canal de Suez. intermitente talvez conforme a altura média das águas do mar . só tendo de extraordinário as circunstâncias (hora. Na época de Moisés (ca. não devia ser muito profundo. levam a concluir que a divisão do Mar Vermelho se deve a uma concatenação de causas naturais. lagunas. Bour don. o mesmo explorador encontrou as ruínas de um edifício que. 13 O que os egípcios ignoravam .). Nesta sua extremidade setentrional o mar. Há decênios atrás. deviam julgar que a passagem se tomara praticável naquela ocasião. os quais só aos poueos foram sendo separados pelo istmo de Suez. nos tempos de Moisés.o que basta para que a travessia dos israelitas conserve todo o seu caráter milagroso -. ou seja. marés. o fato de que os egípcios se precipitaram águas a dentro. ao pé do Djebel (monte) Abu Hasa..

46.7-17) A Moisés sucedeu Josué no govêrno do povo de Deus.10.26. Tito Livio. A PASSAGEM DO RIO JORDÃO (Jos 3. 14 Não se creia.26.). 120. já que as águas pareciam constituir obstáculo natural aos invasores. recordando o seguinte episódio da história profana: Nas famosas guerras púnicas entre Roma e Cartago (264-146 a.7 refere ter-se feito uma seleção de armas e guerreiros para constituírem a tropa perseguidora. Ora aconteceu que um vento Inesperado removeu as águas e permitiu que quinhentos soldados romanos tivessem acesso a Cartago (cf. Quanto ao monarca. Polibio 10. A seguinte observação parece do seu modo insinuar que a travessia se fêz pela parte setentrional do mar. Um ou outro exegeta 15 tenta de certo mddo ilustrar a passagem. 2206.4). porém. "The passage of the . em trechos como Jos 2. Ora às margens do Mar Vermelho não se encontra o arbusto do junco. o texto bíblico.23. Heinisch. para penetrar na Palestina. Das Buch Exodus. Keller. SoaIlard.Red Sea". parte que atualmente já não existe: o texto biblico fala de passagem do "Mar dos Juncos". ó deixaria de soprar logo que o povo eleito o pudesse dispensar (sabe-se. ou pelos vaus do pequeno Lago Amargo na vizinhança da atual extremidade meridional dêste último.212 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO rendo por isto num êrro fatal . os cartagineses não se preocuparam com a defesa dessa zona. em Expository Times. O novo chefe devia consumar a obra do antecessor. 1955). O texto de Éx 14. 1. Historiar. 2. . era mister atravessar o Jordão. Isto se fêz. como narra o haprincipal). Ora. contudo não se lhe pode atribuir grande pêso na exegese do Êxodo. o chefe romano Ciplão dito "o Africano" conseguiu entrar em Cartago por um lado da cidade contiguo a uma laguna. 16 Cf. O episódio é significativo. 7. 55-61.C." Texto citado por O. 51105. w. Und die Bibel hat doch recht. H. disto se poderá deduzir que se desenvolvia outrora junto às águas que prolongavam o hodierno Mar Vermelho e deviam constituir prôpriamente o Mar dos Juncos. que o sirocco da Arábia.4s).22. 14 a. 120.era o modo maravilhoso como se tornara transitável o vau: o vento fôra suscitado por Deus no momento favorável a Is±ael. autor que apela para H. 13. se se têm em vista os térmos muito sóbrios com que os historiadores greco-romanos se referem ao assunto.28. aliás. Ricciotti. o vento qadim.9. começa de imprevisto e cessa também repenti' namente). 135. lix 14. 1. não o di2 (cf. Histoire d'Israel. que no desastre hajam perecido todo o exército do Egito e o Faraó. talvez pouco mais de mil carros armados hajam sido tragados pelas águas. que morrera deixando Israel à entrada da terra de Canaã. 42 (1930-31). não do "Mar Vermelho". é possível que tenha tomado parte na expedição. 15. (Düsseldorf.

Não se via como a multidão de Israel poderia atravessar. Que interpretação se há de dar ao texto bíblico? Nada se pode objetar a quem julgue que as águas do Jordão."PRODÍGIOS" E PEODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 213 giógrafo. depois de implantadas. Além disto. situada no além-rio. detendo-se perto da cidade de Adom (hoje El-Damieh.7. verificaram que o Jordão deixara de correr. contràriamente às leis da natureza. porém. quis reproduzir o portento realizado no princípio da obra de Moisés. Não é necessário. retiraram-se e o rio continuou o curso normal. o Senhor. admitir tão estupenda intervenção do Criador. 16 . Então o Senhor mandou que dois sacerdotes. Corria então a época da messe (março-abril). época em que o sol da primavera faz derreter as neves do monte Hermon. A semelhança dos dois fenômenos é de certo modo explicada pelo texto sagrado: conforme Jos 3. a corrente chegou a derrubar e arrastar algumas destas.'" Seguem-se as instruções para a travessia do Jordão. assim o leito da corrente apareceu sêco.14. a 25 km ao norte de Jericó). o ímpeto das águas. no episódio. carregando a arca da Aliança. como estive com Moisés.0 Jordão na região de El-Damieh. nessas circunstâncias a própria natureza veio em auxílio aos operários: à meia-noite de 7 para 8 de dezembro. sabe-se que em 1267 o sultão do Egito Melik-Daher-Bibars II desejava mandar construir uma ponte sôbre . Jos 3. terminada esta. os sacerdotes detentores da arca permaneceram imóveis por todo o tempo da travessia. a fim de mostrar a Israel que Deus dirigia o novo guia como sempre orientara o anterior. logo que isto se deu. 16 E como se deu a intervenção divina? A caravana israelita estacionou à margem esquerda do Jordão. Edo 24. entrassem no rio. constituíram repentinamente um muro imóvel em Adom. no início da missão de Josué. a caudal interrompeu o seu curso. à luz de tochas. desabaram sôbre o leito do rio.26 e 1 Crôn 12.23. por ação de um terremoto. Com efeito. ainda em 1927. mas é pouco profunda.15).7. e que fàcilmente desmoronam. na região de Adom (El-Damíeh) as águas do Jordão correm entre bancos de argila. por exemplo: O Senhor disse a Josué: 'Hoje começarei a exaltar-te aos olhos de todo Israel. ocasionando a cheia brusca e impetuosa do rio (cf. paralelamente ao que se deu na travessia do Mar Vermelho. diante da cidade de Jericó. então. dificultava grandemente o lançamento das pilastras de base. cuja altura atinge 13 m. porém. obstruindo o fluxo das águas pelo espaço de 21 h. a torrente tem aí a largura de 80 m aiíroximadamente. 4. a pé enxuto. e os filhos de Israel o transpuseram fàcilmente. apressaram-se em consolidar os Cf. para que saibam que estarei contigo.

que só se verificou por intervenção extraordinária de Deus.-M. § 40 A QUEDA DOS MUROS DE JERICÓ (los 6. o que se verificou: Havendo os filhos de Israel acampado diante de Jericó. confiantes no poder de suas muralhas. em grandes linhas. sómente pelas dez horas da manhã. se os fatôres naturais na zona do Jordão podem produzir tais fenômenos. 481. para poder ser bem defendida). Eis. os quais averiguaram que enorme bloco de terra da margem ocidental se havia precipitado no rio. Não há dúvida. os desfiles se fizeram ao som das trombetas dos sacerdotes. por seis dias consecutivos deram processionalmente a volta da cidade (a qual não devia ter perímetro muito longo. pôde a torrente retomar o seu curso normal. É o que a Sagrada Escritura explicitamente recorda num dos livros posteriores do Antigo Testamento: 17 Noticia devida a F. os habitantes da cidade. Contudo. as muralhas de Jericó desmoronaram e os assaltantes puderam penetrar na cidade. em conseqüência. que levavam a arca de Javé. No sétimo dia.1-20) parece ter sofrido glossas no decorrerdos tempos. se espalhavam pelo vale ao norte do dique. 1 (Paris 2 . esperando que a penúria ou alguma inclemência da natureza obrigasse os invasores a retroceder. Jos 4.13) responderam imediatamente com brado poderosíssimo.214 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO fundamentos da ponte. f echaram-se no interior destas. habitada por cananeus hostis. é plausível afirmar que Deus se tenha servido de semelhantes meios para possibilitar aos israelitas a passagem do rio. " Ora. Géographie 4e Ia Palestine. Foi então que. 1933).1-20) Logo após a travessia do Jordão. efetuaram sete circuitos. após os quais ressoaram as trombetas. constituindo uma barreira artificial. O texto bíblico referente ao episódio (Jos 6. a fim de se certificar da futura estabilidade da obra. . a estas os quarenta mil filhos de Israel (cf. ademais as recensões hebraica e grega apresentam pequenas divergências entre si. junto com os sacerdotes. quiseram investigar a causa do fenômeno: enviaram rio acima exploradores a cavalo. trata-se aqui de um feito maravilhoso. as águas. obtendo por fim estrondosa vitória. porém. em conseqüência. prestando-se atualmente a diversos ensaios de reconstituição e interpretação. os guerreiros hebreus. Tiveram que se dispor ao assalto do reduto inimigo. após haver vencido o obstáculo. a mandado do Senhor. os filhos de Israel defrontaram-se com a cidade de Jericó. Abel.

em um ou outro caso. que Josué recorreu a tática semelhante com a intenção de fazer crer aos habitantes de Jericó que os seus planos eram pacíficos e não visavam uru ataque à cidade (em tempo de guerra justa. e os moradores se renderam. que o ilustre exegeta. É de notar. mas também às que enganam e desnorteiam o adversário). com seus toques de trombeta. Assim 1. o que narra Sexto Júlio Frontino. Eis."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 215 "O soberano Senhor do mundo. apelando para critérios filológicos." (2 Mac 12. julga o Pe. Precisava o Todo-Poderoso de que os israelitas fizessem o circuito da cidade para que lHe desmantelasse as fortificações 2 Que relação há entre as procissões. sem catapulta e sem máquinas de guerra. os exegetü têm procurado estabelecer um nexo entre ésses desfiles e a vitória final. Domício transformou essa espécie de passeata em ataque repentino. Abel O. visto então que negligenciavam o serviço de vigiláncia. autor da obra Stratagemata (catálogo de estratagemas) sob o Imperador Domiciano (81-96) "fornido Calvino cercava na Ligúria a cidade de Luna. é obrigado a afirmar que as "passeatas" dos israelitas se realizavam em absoluto silêncio. Alguns apelam para o testemunho de cronistas da antiguidade. 3. com o fim de ludibriar o inimigo.. . de sorte a não provocar suspeita ou alarma na cidade de Jericó. porém. professor da Escola Bíblica de Jerusalém. reconduzindo-as. os quais referem que tropas assaltantes." Merece atenção o fato de que o autor refere êste estratagema sob o título "Dc faflendis ijis qui obsidebuntur. E. 1. 2. ao acampamento. para construir a sua hipótese. localidade defendida tanto por sua posição geográfica como por obras de fortificação. torna-se lícito o recurso não sõrnente a manobras cruentas. a fim de inferir êste traço da narrativa bíblica. e o desmoronamento subseqüente? Pressupondo que eram um estratagema bélico. Como se procede para enganar os que são sitiados. P. por exemplo. A cidade foi tomada. Esta tática incutiu aos habitantes a convicção de que os romanos não queriam senão exercitar-se. derrubou os muros de Jericó nos tempos de Josué. Muito freqüentemente mandava que tôdas as suas tropas desfilassem ao redor da mesma. Abel.) Contudo não pode deixar de chamar a atenção o artifício prescrito pelo Senhor. fizeram repetidos circuitos da cidade ou do acampamento sitiados.15. nem toque de trombeta nem clamor de guerra emanava de Israel." IS Baseando-se neste testemunho. distingue dois documentos fontes do 18 Stratagemata. a seguir.

Caso se admita uma das duas hipóteses acima propostas. Abel4 "Les stratagèmes dans le livre de Josué". em Revue bibflque ) 56 (1949). o toque das trombetas. apelando igualmente para a mentalidade e a praxe dos antigos. Êstes admitiam. lhe parece narrar unicamente desfiles silenciosos! 19 A sentença do Pe[ Abel não deixa de ter autoridade. Em vez de tranqüilizar os habitantes de Jericó. o número setenário (dos desfiles. o "fundamental". Sôbre êste fi. ainda fica margem para a pergunta: como se deu o assalto à cidade após a preparação psicológica dos sete dias? Sem poder reconstituir o quadro com precisão. Esta sentença não pode ser comprovada de maneira decisiva. a existência de um Deus próprio dos israelitas. dos dias de cêrco). TESTAMENTO texto atual de Jos 6. Há queüi. como também nada de sério se lhe poderia objetar. É preciso não esquecer que. protetor poderoso desta gente. teriam tido por fim aterrorizá-los! . ° CI. isto tudo os fazia temer (cf. dada a escassez de dados. Contudo baseia-se num postulado que não pode ser estabelecido com segivança. É o que a toma discutível. o brado final deviam ser ritos aptos a impressionar os "supersticiosos" moradores de Jericó. devia insinuar a êsses homens a ruína total que o pujante Senhor lhes destinava. Josué soltou o brado de avanço. já não terá encontrado grande resistência por parte dos defensores da cidade.-M. Jos 2. 20 ora no caso parecia que o Deus de Israel se anunciava mais forte que os deuses de Jericó.216 PARA ENTENDER O ANTIGO. os exegetas por vêzes sugerem um ou outro particular que a narrativa lhes parece oferecer 19 F. a guerra era ação religiosa. haviam ouvido falar dos prodígios realizados por Javé em prol dos hebreus na saída do Egito.8-11). documentos dos quais o primÉlto. 325s. os desfiles dos israelitas podiam-lhes parecer equivalentes a uma tomada de posse do terreno em nome do Deus Forte de Israel. julgavam que os respectivos deuses pugnavam entre si. como se mostrara mais poderoso que os dos egípcios e de outras nações. sendo símbolo de totalidade. A ostentação da arca (quase "estandarte" da teocra.cia israelita) acompanhada pelos sacerdotes e os guerreiros. . Assim os desfiles em tôrno de Jericó teriam desempenhado o papel de causar pessimismo psicológico e religioso aos assediados: quando no fim dos sete dias de estratagema.mdo. pãgs. explorando êste estado de alma. 125-128. explique de outra maneira o valor bélico dos circuitos praticados pelos filhos de Israel. sim. 2. junto com os povos que se defrontavam. condenando-os ao anátema. para os antigos. na travessia do Mar Vermelho e no deserto.

Le chanoine Albin Vait Hoonaeker (Paris. Histoirc Sai nte (Paris. 1935). Se. É. os invasores lhe teriam ateado fõgo. metafórico que êle ocorre. . Estas diversas conjeturas formuladas para explicar os desf iles dos israelitas como estratagema bélico. isto é. em Vivre et pense?. 23 o toque diário de trombetas teria sido um artifício para prender a atenção dos habitantes de Jericó. atraiçoando os concidadãos. antes do cêrco da cidade. que J. enquanto operários israelitas cavavam galerias debaixo das muralhas de Jericó. Com efeito. J. 21 22 a. Tournay por sua vez preconizam. e não as muralhas. sim.16. o pânico teria então irrompido em Jericó. teriam caído. Esta mulher. prometido dar ingresso aos invasores pela sua casa. 2..15-20). poupando apenas a casa de Rahab. 22 Significaria então a guarnição militar. terá. 24 3. não possuem senão o valor de suposições mais ou menos fundadas no texto e na arqueologia. Jos 2)." (1 5am 25. eis os têrmos com que. pois.15). van Hoonacker.. Tournay. Aproveitando-se da situação confusa e das ruínas causadas pelo incêndio. embora muito eruditas. Éstes. com valor homah. logo que se propusessem empreender o assalto. • ' Os a. cuja casa estava situada na periferia da cidade (cf. Para apoiar a tese. os homens que montavam a guarda às portas de Jericó. homens de Davi nos serviram de muralha (homait) tanto de noite como de dia. Entrando em Jericó. por exemplo. no fim da Escritura. . os estudiosos fazem notar a precisão de topografia e de sinais. decidira salvar-se com os seus familiares. o Apóstolo de Cristo se refere ao episódiõ: 322s. 29s. . J. o brado mais forte teria sido sinal para que pusessem fogo à armação de madeira que sustentava os muros e se retirassem. 163. 2.) 23 É esta a sentença de A. 24 Sentença brevemente referida por D.16. permitindo o ingresso na cidade sem desferir algum golpe. Coppens. Não se pode insistir sõbre o papel estratégico de tais procissões. desfalecido de terror após o estratagema de Josué. em 1 5am 25. Uma consideração mais atenta dos trechos sagrados insinua que o seu significado primordial é de outra ordem: é significado religioso. posta no perímetro das muralhas. "A propos des muralUes de Jéricho". série (1945) • 304-6. crendo que realmente Javé havia de entregar Jericó aos hebreus."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 217 os espiões que. teriam capitulado. uma vez terminados os trabalhos.. os filhos de Israel teriam conseguido penetrar na cidade..-Rops. coppens e E. a recomendação de silêncio. ibid. concluíram um pacto com a meretriz Rahab. não militar. no diálogo travado entre Rahab e os exploradores (cf. estiveram em Jericó (cf. 1943). 21 pode-se interpretar em sentido figurado o têrmo hebraico geralmente traduzido por "muralha".

Dennefeld. sino por la omnipotencia divina. Ricciotti. etc. 1 (Barcelona2. antes do mais. o Senhor se tenha servido de causas segundas. não. Bons autores pensam que permitiu um terremoto em momento oportuno. o Senhor recompensou-a com retumbante vitória. professavam crer no Auxílio de Deus. RI carácter religioso de ia cosa. não nos seria lícito fechar os olhos a ulteriores considerações: é bem possível que. Spicq.eficaces eran en si miemos los medias empleados. 177. porque Deus intervém comprovando-a. Das Buck Josue (Bonn. n. Schulz. hicieron realtar ei suceso como obra de Dias.. Verdade é que entre a atitude de fé dos hebreus que assediaram Jericó. Depois de ter experimentado essa fé.30. cuya eficacia tanto mãe resalta cuanto más in. Isto quer dizer que. 277. a manobra adequada . por consiguiente. 1935). Ademais não se pode esquecer que a conquista de «Jericá tinha significado religioso. Texto de Schusber-Holzanuner. foi aquela que de Deus obteve esta. Se tivésseis fé como um grão de mostarda!" C. sino a DiOS. M. depois de se lhes haver dado a volta durante sete dias. porém. A. 1946). O. eia alcança o que intenta. ei sagrado número siete. são superados os obstáculos mais pujantes que se opõem à posse da Terra prometida. mas estos sefzaiaban ya de ant em ano ei instante dei dernsmbamiento y excinian. praticando aquêles artifícios (cujo valor militar é incerto e não importa muito no caso)..13s). Tais cerimônias foram prescritas pelo Senhor. .) Esta breve frase estabelece um nexo entre a fé dos israelitas e a conquista de Jericá. L'Epitre auz Ei ébreux. e a conquista da cidade medearam os desfiles de sete dias. Ef 6. 25 Cf. Os seus frutos são evidentes: a primeira grande praça-forte cananéia caiu em mãos do povo de Deus. L. foram inculcadas primàriamente para que os filhos de Israel tivessem ocasião de exercer a sua fé. toda expliccicián natural dei hecho. 25 Firme êste princípio básico para a interpretação do episódio.30). em recompensa da fé. sín la anal no se hubiera realizado ei prodigio: 'Por la fe se derrumbaron los muros nos de Jericól" (Hebr 11. Porque no se derrumbaron las murailas por ei griterlc dei pueblo ti por ei resonar de las trompetas ti por ias siete vueltas. ei objeto era hacer ver a Israel que ei resultado Javorabie se debite no sólo a las armas.218 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO "Foi pela lê que Os muros de' Jericú desmoronaram. graças às armas (Ia fé (cf. Histoire d'israel et de l'Aiwien Orient (Paris. Historia bíblica. 125-128). mientras por otra pane ei proceder de los israelitas fué un hermosisimo testimonio de su confianza en Dios. . que dispensa máquinas de guerra desde que le queira realizar algum desígnio." (Hebr 11. 349. os hebreus. Histoire d'israel 1. como as guerras de Israel em geral (cf. 26 à semelhança do que se verificou posteriormente numa bataiha 25 "A fé pouco se preocupa com os meios.° 1. 1924). para entregar Jericó aos israelitas em prêmio de sua fé. págs. encaminada a dirigir los altos destinos dei pueblo. II (Paris. seja aqui transcrito ainda o testemunho de recentes e abalizados exegetas católicos "Las ejete vueitas alrededor de Jericó con ei Arca de ia Alianza tiene mede manobra militar que de religiosa. 361. 1953). como se Javé visasse ensinar aos seus fiéis um estratagema bélico. 22s.

embora o assinalem geralmente ao intervalo que corre entre 1400 e 1200 a. a êstes alude Jos 24. Em conclusão: as manobras dos hebreus em tôrno de Jericó têm primàriamente o significado de um testemunho da fé que Deus exigia de seu povo. deixaram de se] sustentados pelo maná (cf. Jos 5.. Sab 16. sofreu destruição.15: 'O espanto apoderou-se do acampamento dos filisa terra tremeu. como às• vêzes acontecia (cf. . Quanto à arqueologia. é de crer que o texto do livro de Josué não nos refere a história completa da tomada de Jericó. as excavações levadas a efeito desde 1908 no local da antiga cidade fizeram ver que a muralha de Jericó construída após 1600 a. Veja-se a propósito P. excitar uma sincera atitude religiosa perante o verdadeiro Deus.° o MANÁ (tx 16. (ora Josué tomou Jericó por volta de 1200 a."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 219 contra os fiisteus." 2u Jos 6. Núm 11. a. o seu lado orietal foi mesmo totalmente arrazado.6). Humbert.C. 1 5am 14. .4-9. Analyse d'tia rite biblique (Neuchãtel. portentosa. Éste vem a ser mais um ma bíblico por vêzes submetido a hesitações e interpretações.C. cujos pormenores não podemos descrever com exatidão." 28 Lembra o chefe israelita à sua gente: 'Os homens de Jencó combateram contra vós. A resposta do Senhor ao seu povo consistiu certamente numa iatervenção poderosa..20-29) Ao entrarem os israelitas na terra de Canaã. Jdt 7. 1946). entre os germanos).2-36. ou seja. 29 Nem se exclui a ação devastadora da sêde na cidade cercada. a sua finalidade imediata era provocar um bem de ordem espiritual numa gente rude como Israel.C. barritus. § 5. exprime um grito de índole fortemente gutural. é onomatopaico. pois a única fonte de abastecimento pode ter estado fora dos muros do reduto. 27 Não terá dispensado de pequenos combates o exército de Josué. visto que o texto sagrado não fornece os elementos para isto.). havia um terror de Deus. 28 O clamor proferido pelo povo israelita imediatamente antes de assaltarem a cidade parece não ser senão a terou'a ou o brado de ataque que marcava o início das batalhas de outrora. entre os gregos.5. mas se restringe ao episódio que realçava a influência do fator "fé" na campanha bélica. como insinuam as letras r e ' do vocábulo. Os exércitos antigos costumavam desmcadear as suas batalhas mediante veemente clamor (alalá. 29. Os arqueólogos discutem sôbre a época precisa em que se deu o desastre. O térmo hebraico terou'a (clamor) • ocorrente no versículo acima citado. La "Terou'a".11. cessou o regime extraordinário de alimentação qt e o Senhor Deus lhes proporcionara no deserto.12). 27 teus . Cf. Eis o que as páginas sagradas a seu respeito referem. Em suma.

cf. porém. na península do Sinai e no vale do Jordão. de Israel (a caravana nômade ter-se-á nutrido. Por sua tí'ansparência e consistência. de modo a se confeccionarem pães. nos tempos atuais. saindo do respectivo acampamento. como se dirá abaixo. Podia ser triturado e cozido ao fogo. O seu gôsto parecia-se com o de uma torta feita com óleo ou mel (cf. O texto sagrado fornece mais algumas informações sôbre o alimento maravilhoso: tinha a grossura do grão de coriandro. em escala pequena. resina aromática de côr levemente amarelada (cf.13-15.31). Durante os quarenta anos da travessia do deserto. o Senhor lhes 'suscitou um alimento especial: na manhã seguinte.220 PARA ENTENDER O ANTJGO TESTAMENTO Seis semanas após a saída do Egito. constituiu o maná o alimento não exclusivo. perguntavam uns aos outros: "Man liii? Que é isso ?" Ao que Moisés respondeu: "É o pão que o Senhor vos envia para vos nutrir. sem o concurso de agentes criados. surpresos. de modo que os israelitas arrecadavam apenas a porção necessária ao dia respectivo. . perfurando os ramos dêsse vegetal. assemelhava-se ao bcieuium. muito abundante no Egito. maná (cf. mas principal. ou seja. comum um arbusto chamado tamaris mannifera. único no seu gênero. já conforme os antigos monges do lugar. 30 Todavia em 1927 a 80 Esta tese se deve ao botânico alemão O. que.31).6). deram a tal substância o nome de man. Na península do Sinai é. oflmigrantes começarálfi a experimentar a escassez de víveres. Núm 11." Em conseqüência. grão que mede 5 mm de diâmetro. deviam-se observar cuidados especiais: os grãos se der retiam ao calor do áol.7). Êx 16. Até os últimos tempos. semelhante a gotas de geada. Como se há de entender esta providencial dispensação de alimento? Na tradição exegética. Núm 11. Eis. lhes fazia suar uma gelatina melosa. que. sim. encontraram por terra algo como grãos com aparência de geléia branca. exceto às sextas-feiras. O autor causou sensação e surprêsa entre os seua contemporâneos. Quanto à maneira de recolhê4o. também dos seus rebanhos e de víveres permutados com os povos que encontrava. é produtor do maná. os hebreus. Ehrenberg. um alimento. um gomor por pessoa (3. terá utilizado afim de suscitar o fenômeno narrado pela Bíblia. estêve e ainda está de pé a tese de que o maná foi especialmente criado por Deus para o seu povo. julgava-se que um inseto. Dt 2.64 1). teria caído do céu. também não se conservavam por mais de 24 h. de sorte que era preciso aprovisioná-los antes do nascer do dia. esta hipótese vai sendo mais e mais preterida. que em 1823 a divulgou na obra Symbolae phygicae. Averiguaram-se fatôres naturais que o Senhor Deus. Tendo-se êles queixado a Moisés. conforme o seu habitual proceder.8 e lix 16.

ri (Paris. 33 Cf. 124s. Bodenheimer e O. excitadas pela luz e o calor do dia. "Ergebnisse der sinaiexpedition 1927 der hebraeischen Tjniversitaet Jerusalem". maná do céu. 92-100. lllstoire d'israel. 1946). tomando côr branca ou amarelada. G. Düsseldorf. ainda hoje recolhido pelos beduínos." (Relato devido a Breitenbach. Theodor.eutschen Palaestina-Vereins. ep. posta ao ar livre. e possui sabor doce. prende-se e adere aos dentes. Si davam a saber de maneira definitiva que a dita resina não se deve diretamente à tamaris maniviferar mas à ação de dois insetos sôbre o arbusto: a trabutina nwnniparo e o najacoccus serpentinus minor. Unct dia Bibel hat doch recht. 1. Ambrósia (t 397).6. 14 Para êsses autores. Clamer. muito alimentícia. Fr. a goma produzida se solidifica. logo que Moisés o anunciou e fora das épocas habituais (isto é. A. Das Buch Erodus. Ubach. guardam e vendem para os peregrinos e estrangeiros que lá vão ter. os troncos das árvores. exceto aos sábados. até êste momento permanecem inativas. publicados em 1929. de mais a mais que já na antiguidade se insinuava tal sentença. de Pirot-Clamer. 63-75.1 não hesitam em identificar êste com aquêle. A.o que se dá por volta de 8. durante os quarenta anos de travessia). dando um bloco da grandeza de uma avelã.1. 32 Em conseqüência. S. KelIer. . Ant. compramo-lo em boa quantidade. aspecto e gôsto do produtõ da tamaris mannif era. 53 (1930). as pedras.) Estas notfcias se podem completar pelo que a respeito do maná referia um peregrino do Sinai no ano de 1483 "Em todos os vales das cercanias do Monte Sinai. 304. diversas gotas se podem conglomerar. "Les Nombres". P. fora também das regiões 31 a. sim. a mencionada geléia em quantidades extraordinárias (de sorte a sustentar milhares de homens). o levem: "As formigas começam a sua atividade de aprovisionar depois que o solo tenha atingido a temperatura aproximada de 21° Celsius . exegetas modernos 3. os resultados das explorações.30 h. 134-7. encontra-se atualmente ainda pão do céu. por éles denominado Mann es-sarna. Como se depreende. Heinisch. "Neue Forschungen auf der Sinailialbinsel". 1955. É doce como o mel. à semelhança de mel cristalizado. S. o maravilhoso na produção do maná foi o modo como Deus provocou o seu aparecimento: dispensou.) Os textos acima foram transcritos da obra de W. em Zettsohrift das d. de tamanho variável entre o de uma cabeça de alfinête e o de um grão de ervilha. 34 Além da tradição dos monges do Sinai. 64." (Trecho do relatório da expedição de 1927. 238s. diàriamente ou quase diáriamente.1. em La Satnte fibra. que os monges e os árabes recolhem. antes que as formigas."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 221 universfdade de Jerusalém enviou uma expedição à região do Sinal para apurar exatamente o processo. à semelhança de orvalho ou geada e. são correspondentes aos do maná bíblico. Kaiser. sob forma de gotas brilhantes. Recolhem-no de manhã muito cedo. é aromática. notem-se Flávio José. Ésse pão do céu cai de madrugada. decano da catedral de Mogúncla. L'Exode ei Levitic (La Biblia. Éstes animatzinhos sugam a seiva do vegetal e a expelem sob forma de gotas resinosas. 32 Os árabes ainda atualmente exploram e exportam tal produto. 3. pousa sóbre a erva. Ricciottl. quando o consomem. ilustrado pels monjos de Mont Serrat).

sabe-se que os grãozinhos pareceram insípidos aos hebreus. Os seus armazéns de reserva estão cheios de cevada e cereais. sabe-se que normalmente o maná só se produz nos meses de maio a agôsto. evocados em têrmos idílicos. na realidade. Eia.19-30). pois. O autor de Sab mostra-se fiel expressão desta tendência: já que o maná fôra tão evidente sinal da futura instauração do reino messiânico. como também há romãs.zara para instalar Israel em Canaá (séc.) foram sendo mais e'mais considerados em perspectiva otimista. Todos se alegram por poder viver nesta terra. Agora nossa alma está ressequida. ideal. as suas lagunas estão povoadas de aves. só pode ser entendida se se reconstituem as circunstâncias em que foi escrito o livro da Sabedoria. 'por todo o percurso dos israelitas a partir das fronteiras do Egito até a entrada na Palestina). Há cebola e alho para os alimentos.20s. das cebolas e do alho. preponderantemente na península do Sinai e em quantidade que nos melhores anos é de 300 k aproximadamente. Os seus lagos estão cheios de peixes. Quanto à afirmação de Sab 16.o que devia incutir confiança no Senhor. Nada mais resta! Nossos olhos só vêem maná. à luz do reino messiânico que êles preparavam. melões.222 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO em que hoje costuma crescer a tamarts mannif era (isto é. ao passo que aos sábados não era dada (particular que inculcava ao povo a observância do dia do Senhor). Êste teve origem no séc. em Alexandria. É o jovem discípulo Pai-Bes que assim escreve ao seu mestre Amen-em-Opet: "vim ter a Casa-de-Rarnsés-o-Favorito-de-Amon (= cidade de Ramsés). Também se devem a extraordinária intervenção divina os seguintes pormenores: o maná às sextas-feiras caía em porção dupla.4-6." (Núni 11. azeitonas e figos nos pomares. atingem a altura do céu. vinho doce. cidade opulenta como nenhuma outra. e vejo que é maravilhosa. 114. conforme a qual o maná "proporcionava todo deleite e se adaptava a todos os paiadares. 1 a. as suas planícies estão recobertas de capim verde. Ora. Diàriamente recebe a cidade carne fresca e alimento. . Éx 16. durante a semana o maná conservada por mais de 24 h se deteriorava . assim como dos pepinos. tJnd die Bibei hat doou. pois. os quais protestaram contra o alimento miserável que repetidamente lhes era dado: "Quem nos dará carne para comer? Recordamo-nos dos peixes que comiasnos gratuitamente no Egito. O canal do deIta Shi-Hor fornece sal e salitre. recht. Os seus campos oferecem multidão de coisas boas. celebremos aqui as festas do céu e o inicio das estações do ano 1" Texto publicado por Keiler.C.C. notamos que a fartura de viveres do Egito (região -de Ramsés) é atestada por um papiro da época em que os israelitas eram súditos •de Faraó. no decorrer dos séculos. Aqui há todos os dias viveres frescos e carne. os feitos grandiosos que o Senhor reali. o hagiógraf o não hesitou em apresentá-lo como alimento delicioso. mais saboroso do que o mel. e ninguém exclama: 'Queira Deus!' A gente miúda vive como a gente graúda. que para cada dia distribui o necessário (cf. Demorar-se lá acarreta vida ideal. transformando-se no que cada qual quisesse". As naves vêm e vão-se. eram. e as suas frutas nos campos cultivados têm o sabor de mel.) 35 35 A título de ilustração. XIII a. O mesmo deus Ra fundou-a segundo o plano de Tebas. maçãs.

porém. resolveu recorrer ao poder religioso: lembrou-se de um mago residente em Petor. legados portadores de ricos presentes e promessas. Balaã era temente à Divindade. Como Balaã espancasse veementemente o animal. 36 § 6. de Pirot-Clamer. 1946). experimentou estranha aventura: um anjo de Javé. era Balaã. de modo que o jumento só pôde passar atritando o pé de Balaã contra as pedras do muro. VI (Paris. por isto não quis partir sem consultar o Senhor. Ao viajar para Moab sôbre um jumentinlio. permitia-lhe. conforme o desejo dos que o comiam. É esta a expressão poética talvez hiperbólica." J. pois. 'Le livre de la Sagesse". Mandou. Após insistência. Balaã. o qual lograra fama em todo o Oriente. os quais lhe rogaram fôsse ter ao país de Moab e de lá amaldiçoasse os israelitas acampados na vizinhança. 6 "O maná tomava os sabores tais diversos. não é notícia de historiografia estritamente dita. o qual explicou que algo de extraordinário se dera. Baiaque. mago e repreendeu-o por ter encetado tal viagem. não podendo prosseguir. A história assim descrita pelo livro sagrado pede algumas explicações para ser devidamente entendida. apesar das insistências contrárias de Balaque. 511. de espada na mão. continuar. . "o Senhor abriu a bôca do jumento" (22. só proferiu os oráculos de bom presságio para Israel que o Senhor Deus lhe inspirava. todos os israelitas encontraram no maná o seu sustento. Aconteceu que o nimor das vitórias dos hebreus sôbre povos que haviam tentado criar-lhes obstáculos aterrorizou o rei de Moab.28). pois.° BALAA E O ASNO QUE FALOU (Núm 22. junto ao Euírates. Weber."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 223 A afirmação. assustou o animal. exaltadamente otimista do livro da Sabedoria deriva-se das leis do estilo épico em que o hagiógrafo escreveu. de novo apareceu o anjo num caminho estreito. Reputando-se incapaz de conjurar o perigo pelas armas apenas. se deitou por terra. à condição. Então o anjo se tornou visível também ao. em terceira aparição. o qual viu ameaçada a subsistência da sua gente. renovando a condição anteriormente expressa. de não proferir sôbre Israel senão os oráculos que lhe fôssem inspirados do alto. porém. em La Sainte Bible. durante quarenta anos. do fato de que. obteve licença para seguir via' gem.22-35) Ainda na travessia de Israel pelo deserto deu-se um episódio que chama a atenção tanto do estudioso como do curioso: é um aspecto do encontro da caravana nômade com o mago Baiaã. o anjo se postou em lugar tão estreito que o asno. fazendo que se desviasse da estrada e entrasse nos campos. Chegando a Moab.

vivia um homem justo e amigo de Deus. Dt 23. Filo. rogou a Deus que não atendesse às orações nem de uma nem de outra facção. isto é. Jdt 5.14. 2 Pdr 2. os quais. 37 A praxe de oferecer ricas dádivas aos adivinhos é atestada também por Dan 2. 38 Em NCun 22. judeu alexandrino do séc. eram os magos e adivinhos. porém. invocara a Divindade (o mago ter-se-á dirigido simplesmente ao Poder Divino competente para o esclarecer no caso). os judeus lapidaram Onias (Ant. o qual diflcilmente se entenderia na bôca de um adivinho pagão. o escritor Flávio José narra o seguinte episódio: Durante a guerra civil entre João Ifircano e Aristóbulo (67-63 a. Segundo a mentalidade comum dos pagãos.4s. não quer dizer que habitualmente Lhe prestava culto nem mesmo que era monoteísta. 11 O fato de que êle reverenciou o Deus de Israel. passou para a tradição judaica e cristã com nota depreciativa. o qual pela oração obtivera chuva numa época de sêca. que a figura de Balaâ. Em Israel êsses homens de Deus eram os justos. Núm 23. Pediram-lhe que amaldiçoasse Aristóbulo e seu partido. 1 d.18 Balaã chama Javé "meu Deus". Núm 23. 2. Onias.6. 39 As noticMs se haviam propagado ràpidamente nas terras orientais. que considera Ealaã como defensor do povo de Israel contra Balaque.3. Comunicou-lhe alguns de seus desígnios a respeito de Israel.7.). conforme o texto hebraico atual e a vulgata latina.1). De vita Mcnjsis 1. 40 Cf. 14.3-9. 40 ficou sendo o tipo do homem avarento.7-10. 1). O Senhor Deus se dignou responder a Balaã. note-se. embora tenha deixado vaticínios de ótimo agouro para Israel. em grande parte por intermédio dos mercadores que comerciavam assiduamente entre o Egito e a Asia anterior (cf. Exercia a profissão de mago ou adivinho. 38 apenas. deixando-se guiar pelas suas inspirações. Jud 11.9. J05 24. omite e pronome possessivo. que. o que não supõe necessàriamente santidade na respectiva criatura (cf. que acima de Deus estima os seus interêsses próprios. tendo tido conhecimento de quanto o Senhor fizera por seu povo desde a saída do Egito.15s. porém. vivia perscrutando os sinais que & natureza ou artifícios secretos lhe ofereciam (cf. lu reconhecia a existência e o poder respeitável do Deus de Israel.9s. que Balaã é pagão. Entre os pagãos. Na história do povo de Deus. mas não raro recebiam gratuitas comunicações do verdadeiro Deus. recebia paga correspondente (cf. .14. Excetua-se. J05 2. porém.C. em troca de seus oráculos. Eis. materiais. 24. o caso de Caifás em J0 11.5-25). não recorriam a artifícios mágicos (invenção humana). fê-lo assim instrumento de autênticas revelações nos oráculos que proferiu (cf. e não queria incorrer no seu furor. expedientes sujeitos à falibilidade como os seus autores.6.48. Núm 22. 5. 24. 15-24). não deixava de admitir as divindades dos outros povos. sinais mediante os quais julgava perceber os desígnios da Divindade. temeroso. A versão grega dos LXX. Apo 2. 18-24. Dada a eficácia que atribuiam a esta maldição. não israelita.224 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Em primeiro lugar. ao lado de Javé.7). antes de falar.50-52). porém. Miq 6. chamado Onias. como se entende.. Atribula-se na antiguidade eficácia infalivel às palavras de bênção ou maldição proferidas por um 'homem de Deus". os quais lançavam mão de expedientes excogitados pelos homens ou pelo demônio. Êx 15.C.

Não é esta. irritado. não ousou desobedecer para não se expor ao castigo conseqüente. sonho de Balaã. as graças do Senhor foram em Balaã suf ocadas pela cobiça de vantagens temporais e pela amargura de não as ter alcançado. 22. visão de alucinado etc. em outros têrmos: ouvindo o asno. considerando a narrativa inteira como lenda. Ora uma viagem com tal propósito não podia deixar de desagradar ao Senhor. Embora já antes de partir para Moab soubesse que Deus abençoara Israel (cf. mas. A repreensão se efetuou com o concurso de fenômenos sensíveis. Em suma. Entre os que defendem a realidade histórica do episódio. voz de Deus no seu íntimo. 22. persuadindo os madianitas a seduzir o povo para a apostasia religiosa (cf. são ditadas pelo desejo de não admitir o sobrenatural no curso dos acontecimentos. Assim o episódio . enquanto cavalgava. Tais sentenças.18s). a fim de não perder o salârio devido às suas fadigas. como em vários outros casos.12). muito impressionável. refletindo consigo. 31."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 225 Por que isto? Será essa a genuína face de Balaã? O texto sagrado o explica. às instâncias do rei quis dar resposta favorável. Balaã tudo fêz para não perder os ricos prêmios que lhe prometia Balaque caso amaldiçoasse. Assim entra em cena no texto bíblico o asno que fala. esperando que Deus mudasse os seus desígnios (22.16). Já que o fenômeno foi ocasionado pelas aparições de um anjo que dificultava a caminhada.. impedido a viagem que file mesmo pouco antes autorizara (cf. não excluiu a possibilidade de amaldiçoar (22. aos quais o oriental. a única explicação possível do texto sagrado. não tendo recebido licença para isto.. Conforme outros exegetas. o animal espancado emitiu os sons queixosos que lhe são habituais. mito popular. se rende com mais facilidade. há quem julgue que o asno produziu realmente sons de linguagem humana. a qual o censurava amargamente por estar viajando com propósitos contrários ao Senhor ou por se haver deixado obcecar pela perspectiva do ouro. mas Balaã interpretou-os como admoestação que Deus lhe dirigia. por um emissário.20 e 22) ? O proceder se explica bem se se admite que Balaã não viajava com a disposição de ânimo (docilidade às futuras comunicações divinas) que o Senhor lhe incutira ao permitir a partida. que houve por bem chamar Balaã à ordem. terá tomado a resolução de amaldiçoar em qualquer caso. procurou desforra: tentou mais tarde levar Israel à ruína.38). pergunta-se antes do mais: por que terá Deus. chégando à terra de Moab.. Balaã ouviu simultâneamente a voz da consciência. Não faltaram os que lhe denegaram historicidade. 1 nesta perspectiva que se deve considerar o episódio do jumento que falou ao mago... o adivinho. porém.

um dos chefes que Deus suscitou ao seu povo no período que corre entre a morte de Josué. "Les Nombres". n. A visão e os dizeres do anjo. a fim de que debelasse os inimigos. Nas ocasiões de maior tribulação. Já S. tutor do de Deus segundo Dan 12. 421.° A HISTÓRIA DE SANSÃO (Jz 13-16) Muito explorada tem sido a figura de Sansão pela fantasia tanto dos homens simples como dos artistas." É o Cardeal Meignan quem observa: "O Apóstolo fala conforme a opinião comum dos judeus. II. sàmente na. 42 L'Ancien Testament. acontecia que o Senhor infundia a um israelita coragem e poder extraordinários. De vita Moysis. Clamer.. se travou entre o temor de Deus. Êsses homens.. 1896. chefes esporá41 Alguns dos antigos julgavam tratar-se do arcanjo S. em conseqüência. terão corroborado a voz da consciência e feito que o adivinho se rendesse finalmente à admoestação do Senhor. Miguel. de um lado. e a paixão da avareza. consciência do mago é que os berros desarticulados do animaL tomaram o vulto e o significado das palavras que o autor sagrado.° 1. ed. não a realidade material dos fatos. episódio que é mais do que a história de um animal que falal. § 7. Propugna-a outrossim A. 386s.15s: "Balaã." 42 O que acaba de ser exposto parece pôr em suficiente evidência o sentido religioso e autêntico do episódio de Balaã.. Eis o que a Sagrada Escritura lhes apresenta: Sansão foi um dos grandes Juízes. no ânimo do adivinho em viagem. 41 sobrevindo a êsse estado de alma de Balaã. 216. foi autorizado a prosseguir viagem. 44. Migne gr. Esta última interpretação é muito digna da Sabedoria e da Providência divinas. amou o salário da iniqüidade. De MoIse à David. visa o ensinamento moral. povo . visando maior ênfase. disto se prevaleciam os cananeus vizinhos. Não se lhe pode opor o texto de 2 Pdr 2. e o início da monarquia (1020).. ou seja.1. mas foi repreendido por sua desobediência: um animal mudo fêz ouvir voz humana para reprimir a demência do profeta. filho de Bosor. para atacar e oprimir o povo. do outro lado. coloca diretamente na bôca do jumento.226 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO não viria a ser senão o relato vivo e dramático da luta que. Não havia govêrno organizado em Israel nessa época. Gregório de Nissa (t 394) se fazia arauto da explicação mais larga acima proposta. em La Sainte Bible. conquistador da terra de Canaã (1200).

eram os chamados Juizes. não extinguia as tendências desregradas da natureza em Sansão. à semelhança do que se costumava fazer no Oriente "Daquele que come. Núm 6. porém. os filisteus perplexos foram pedir à mulher de Sansão. A caminho desta localidade.23-26). foi a Ascalão. Cresceu. ao qual um anjo apareceu por duas vêzes. .. foi certa vez acometido por um leão. O favor de Deus.2-8. 42). servindo-se dos seus despojos para pagar o que devia. é muito marcada pelo maravilhosb. At 21. Dias mais tarde. nazir. saiu o que se come. após três dias de reflexão. lhe arrancasse o segrêdo do enigma. Era êste o primeiro dano que êle infligia aos inimigos. contra a vontade de seus pais. Quando. enquanto o gestasse. separado). pagaria cada qual o mesmo preço. Chegado à idade viril. E do forte saiu o doce. abençoado pelo Senhor. 43 "JuIzes". propâs aos trinta convivas do festim um enigma. " Tornar-se-ia o defensor de sua gente contra os filisteus hostis. observar a abstinência de bebidas em lugar do filho. Ora. Ora o menino nasceu e foi chamado Sansão. porque a função principal de quem governa um povo simples vem a ser o julgamento das causas. que êle matou com as próprias mãos. enquanto o gestava. viu no cadáver do animal um enxame de abelhas e mel. predizendo o nascimento de um filho.31). Núm 6. Jz 13. que eram homens ou mulheres consagrados a Deus por tríplice voto: abster-se de bebidas inebriantes e dos produtos da videira em geral. dado. 44 No povo hebraico existia a categoria dos narireus (em hebraico." (Jz 14. Já que o menino devia ser desde o início de sua existência consagrado ao Senhor.7)."PRODÍGIOS" E PRODÍGIOS DO ANTIGO TESTAMENTO 227 dicos de Israel. não se contaminar pelo contato de cadáveres (cf. quis esposar uma donzela fiistéia da cidade de Tamna. refazendo a estrada. que não lhe dessem a interpretação. o jovem. Contudo. dizia-se que o nazireu trazia na Õabeça a consagração ao seu Deus (cf. 41 entre os quais sobressai Sansão (cf. A vida dêste herói. Em vista da sua cabeleira. pelo que deixaria crescer os cabelos. após estas peripécias.14. dos lítigios cotidianos (cf.) Caso lhe pudessem explicar o sentido dêstes versas ao cabo dos sete dias de festa. o israelita não se embaraçou para desquitar-se da dívida: irritado. Seria consagrado ao Senhor desde o seio materno (nazireu). coisa que ela obteve. não há dúvida. os trinta filisteus receberiam cada qual uma peça de roupa fina e uma túnica preciosa. celebrava as núpcias em Tamna.1-16. tocava á sua mãe.. deixar crescer os cabelos e a barba. porém. e sua mãe. que lhe dava energia de alma e vigor de corpo fora do comum. pág. se deveria abster de bebidas fermentadas e alimentos impuros. Havia na tribo de Dã um casal estéril. onde matou trinta filisteus.

revelou-lhe que tudo dependia da sua cabeleira. o veemente incêndio provocado destruiu não só o grão. que êle amarrou duas a duas pela cauda. e sacudiu-as. que lhe crivaram os olhos. fazendo que os demais fugissem de mêdo. Os irmãos do herói prostrado lhe recolheram os despojos e os sepultaram no túmulo paterno. enquanto a escarneciam.. porém. mas. fazendo desmoronar a construção. Um belo dia. ao comparecer diante dêstes. reuniram-se em seu templo.228 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Tempos depois. que estavam maduros para a messe. O herói. apanhou o primeiro objeto que encontrou . Entrementes a cabeleira de Sansão crescia de novo e o vigor lhe voltava. que fôra dada em matrimônio a outro homem. extinguindo-se desta forma. provàvelmente israelita.uma mandíbula de asno lançada ao chão . mandaram cortar os cabelos do lutador adormecido. aonde mandaram levar Sansão. Sansão pereceu. . Os fiisteus então muito insistiram para que ela se informasse a respeito do segrêdo da fôrça de Sansão. mas também as videiras e oliveiras. certa vez. porém. Os filisteus então f echaram as portas da cidade durante a noite e. Em represália. e deixou os animais assim atados debandar pelos campos de trigo dos filisteus. refugiado então na caverna de Etam (país de Judá). Levaram-no a Gaza. o homem valente foi à cidade filistéia de Gaza e deteve-se em casa de uma meretriz. vigilantes. Ora. o israelita foi entregue aos inimigos. Eis. apaixonou-se ilicitamente por uma mulher chamada Dalila. finalmente. levou-as para uma montanha. porém. Em outra ocasião. Êste. resolveu punir de novo os filisteus: capturou trezentas rapôsas. pelo que.. De volta à pátria. a altas horas Sansão saiu de casa. causou a morte de maior número de filisteus do que durante tôda a sua vida. ataram-no com duas correntes e obrigaram-no a volver a mó de um moinho. Soube. que. Indignado. devia perecer vítima da sua concupiscência. os filisteus resolveram festejar o seu deus Dagon pela vitória obtida sôbre o tenaz adversário. aprestavam-se a matá-lo de madrugada. os adversários queimaram viva a mulher de Sansão e exigiram dos homens de Judá que lhes entregassem tão perigoso inimigo.e com esta arma improvisada espancou mil adversários. Sansão rompeu seus liames. voltou a Tamna para rever a espôsa. Já sem fôrças. Contudo. como faziam as mulheres e os escravos. O herói consentiu em que seus conacionais o ligassem com duas cordas nQvas e levassem ao acampamento dos filisteus. apoderou-se das portas da cidade e. a cada par de caudas prendeu uma tocha acesa. a vítima agarrou-se às duas colunas que sustentavam o teto da casa. Com isto. colocando-as sôbre os ombros.

a título de ilustração. desde. porém. O nome de Sansão. pois. as rapôsas e o asno teriam entrado na história de Sansão. tornou-se tão fraco como qualquer homem. das quais. o leão. Enquanto Sansão foi fiel ao Senhor e às obrigações do nazireato (entre outras. ou entre Sansão e Re. Miás. Ora. em grau maior ou menor. pois. porém. Não se queira ver. à de não cortar os cabelos). Ili-Shamshu. os seus cabelos seriam a designação figurada dos raios do sol. que caiu em infidelidade (dando ocasião a que o despojassem da cabeleira). os episódios de Sansão contêm mais de uma alusão ao sol: o nome do lutador provém do hebraico shemesk. explica-se perfeitamente dentro do quadro religioso de Israel: deixar crescer o cabelo era um dos elementos do nazireato. terão adotado um nome usual no seu ambiente. em virtude das suas côres. Êste traço. sejam aqui registradas algumas das mais curiosas explicações mitológicas: houve quem quisesse identificar a história de Sansão com o mito do Hércules grego. deus egípcio. A história de Sansão seria um canto tradicional dos filisteus levemente retocado pelo hagiógraf o. embora se derive de shemesk. o texto sagrado mais de uma vez faz notar que o poder de Sansão .sinal de uma adesão de alma a Deus. herói da Babilônia antiga. afirmam. sol. arbitrárias. Aparentemente fabulosa é a notícia de que a fôrça de Sansão residia em sua cabeleira. que o tornava vitorioso. Éste é um herói solar. era assaz espalhado em Canaã sob as formas Shpsgyn (yn indicava a pertinência à Divindade). portanto. as relações de Sansão com mulheres indicariam que o deus Sol é o deus da fecundidade e da geração. Os pais do herói. sol. não é necessàriamente indício da sobrevivência de algum mito solar em Israel. era movido pelo Onipotente e se mostrava mais poderoso que tudo. a sua fórça extraordinária lhe provinha diretamente de Deus. simbolizam o sol 1 Outros preferiram traçar um paralelo entre Sansão e Gilgamesh. explicação folclórica: alguns autores recorrem às narrativas populares. era o fato de que Sansão estava consagrado a Deus e se deixava mover pelo Senhor. porque. significava a entrega ou consagração absoluta da criatura a Deus (a entrega era tal que não se queria cortar coisa nenhuma da pessoa consagrada)."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 229 A narrativa bíblica assim concebida tem inspirado interpretações diversas. Em última análise. Elshps. tinha por figura central um herói cuja fôrça residia na cabeleira. na cabeleira de Sansão mais do que um sinal . instituição mosaica. O autor sagrado haveria feito dêsse tipo pagão um nazireu israelita Já a variedade das tentativas de interpretação dá a entender que são.

. a lei do nazireato ainda não impunha tOdas as obrigações consignadas em Núm 6 (êste capitulo poderia referir determinações posteriores á época de Moisés.230 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO descia diretamente do Altíssimo (cf. observe-se que Sansão paga sua dívida aos trinta filisteus. porém. que a fantasia popular explorou com deleite os feitos portentosos da história.25. em particular.18s. embora já tivesse recuperado a cabeleira. rejeitado pelos pais de Sansão. 5045 Mesmo o desígnio de se casar com uma filistéia.16. ou seja. ora mais ora menos acentuado. alguns versos disseminados pela narrativa são expressões desta sátira (cf. ser utilizado por Deus como instrumento para a realização de grandes obras. Todavia o nazireato de Sansão.619. exercendo especial providência em tôrno do jovem. pó-lo em contato com os adversários de Israel (ef. por sua infidelidade perdera o direito à tutela divina. Sansão. dotado de coragem a tôda prova. 15. Sansão foi moralmente fraco e cometeu pecados. Jz 14. 14.19). £ste. muitos episódios da história sagrada demonstram que um homem pode ter graves falhas morais e. Como quer que seja.15). séc. docilidade a Deus) como segrêdo das vitórias dêste Jui2. Não há dúvida.4). Jz 14. 46 Após estas considerações. vê-se que não há razão para negar a historicidade dos episódios de Sansão. era simbolizada apenas pela conservação da cabeleira. era. saindo à noite. cujas portas êle. divertindo-se à custa de Sansão. pediu o auxílio de Deus. 13. indique a fé (no caso. esta já não era sinal. ao refletir sôbre a história de Sansão em Hebr 11. 1 Sam 13. e de suas correspondentes derrotas. XIII e á de Sansão. despojando os próprios filisteus! A ironia vem a ser também apologia religiosa no episódio final: justamente quando os pagãos celebravam a festa de sua Divindade. séc. Parece inegável. intencionava. cuja civilização era mais avançada que a de Israel (cf. 46 Julgam alguns exegetas que. 15. conforme um grande plano. arranca e carrega sôbre os ombros. reconhecendo que.19-22).8-10. nas subseqüentes gerações de Israel. Xi).32. cidade bem vigiada. 16. mas também de paixões desregradas e espírito mordaz. a descrição das invectivas dos filisteus. nos tempos de Sansão. não obstante. como observa expilcitamente o hagiágrafo. Notem-se os traços de "humor" e sátira contidos na narrativa tal como a redigiu o povo e a consignou o hagiógrafo: o "humor" é muito vivo na cena dos campos que Sansão incendeia ateando tochas às caudas de rapôsas ligadas aos pares no episódio de Gaza. 45 Para realizar o prodígio final.14). inspirado ao herói pelo Senhor. infligidas por um só israelita. É o que faz que o Apóstolo. 14. parece não ter jamais observado a primeira e a terceira das prescrições impostas aos nazireus em Núm 6: evitar o toque de cadáveres e o consumo de vinho (cf. Sansão foi descrito como o herói popular por excelência. não pode deixar de decorrer num tom geral de sarcasmo. a fidelidade que o Senhor pedia ao herói. em oração humilde e confiante.

É ."PRODÍGIOS" E PRODÍGIO5 DO ANTIGO TESTAMENTO 231 freram a maior de suas perdas. 2 Cor 12. a manifestação de que "a fôrça de Deus se expande em plenitude na fraqueza do homem que se Lhe confia" (cf.poder-se-ia dizer . o desabamento do templo de Dagon ocasionado por um homem prisioneiro e cego que Javé movia. torna-se.nesta frase paulina que se compendia a mensagem perene da história de Sansão. conforme a mentalidade do Antigo Testamento.9). . a mais clara demonstração da inanidade do ídolo.

e nos nossos dias em números assaz notável. seja religioso. Existem. Está claro que. pois. O fato de que é obra divino-humana requer do leitor disposições próprias. promovendo a leitura assídua e frutuosa da Palavra de Deus. não se lê como outro livro. 0) e elementos de uma antologia bíblica (§ 3 . Êste privilégio. é reservado a poucos. o ideal seria ler a Escritura no seu teor original .humano e divino .CAFÍTULO XIV COMO LEREI A BÍBLIA? As indicações de ordem filológica. cujo uso supre adequadamente o dos textos originais da Sagrada Escritura. A Sagrada Escritura. os pressupostos de contato fecundo com a mesma são de Consoante os dois aspectos . a língua portuguêsa até hoje não conta uma tradução satisfatória da Bíblia. traduções vernáculas. pois. antes do mais. acrescentando normas práticas para o uso da Escritura (§ 2. Levando. Eis.0). porém. sem as quais mais ou menos vão ficaria o contato com as páginas sagradas. o leitor deverá dar atenção aos predicados do texto que utilizará. aramaico ou grego. seja profano.Boa edição do texto sagrado. O texto lusitano dito de João Ferreira d'Almeida se deve a um pastor calvinista que nasceu em Lisboa (1628) e viveu muito .0 OS PRESSUPOSTOS DE FRUTUOSA LEITURA Sagrada.da Bíblia ordem natural e sobrenatural. E quais seriam as mais recomendáveis? Infelizmente. § 1. que êste último capítulo examinará tais pré-requisitos Q 1. porém. PRÈ-REQUISITOS NATURAIS A . o Senhor Deus não quis privar os fiéis do conhecimento exato de sua Palavra únicamente por motivo de preparo intelectual. em conta a indigência humana. Como acontece com qualquer obra literária. 0) .hebraico. 1. histórica e científica apresentadas nos capítulos anteriores convergem tôdas para um fim: aproximar do texto sagrado o fiel cristão.

em inglês: 2'/ie Holy Bible.S. hierática e é dotada de ótima introdução. La Sainte Bible de Maredsous (Namur. é muito de aconselhar às pessoas que o possam. Paris) apresentam um texto digno de todo o aprêço. 1951) procede diretamente do original hebraico. a partir de 1952. Bonsirven e Tricot (Desclée. 1 herdando as falhas de versão que já esta apresenta. traduzida por Crampon.). Ê. Jerônimo no séc. enquanto as de L. não receando por isto afastar-se de certas formas usuais nas traduções anteriores. 1956. apenas o livro dos Salmos se encontra em forma vernácula de todo louvável: a edição de E. Paulo. Embora tivesse a intenção de seguir os originais bíblicos. holandesa e outras. que tem sido bem apresentado em português. . As demais traduções portuguêsas da Bíblia inteira (Pereira de Figueiredo. La Sainte Rible. tradução de Catholic Biblical Association of America (Paterson. o antigo tradutor não dispunha dos recursos e conhecimentos com os quais contam os filólogos modernos. Bélgica) serve-se de linguagem muito viva. fala urna linguagem pouco usual ao leitor moderno e carregada de estrangeirismos. Eis o que se poderia indicar a propósito: em Irancês A Biblia dita "de Jerusalém". O texto do Novo Testamento foi publicado em 1681 e o do Antigo em 1748 (edição póstuma). acompanhado de valiosas páginas introdutórias. New Jersey. dando assim ao público uma obra de terceira ou quarta mão. Na falta de boa tradução portuguêsa. recorram às versões do original existentes em outros idiomas modernos. devendo estar completo dentro de alguns anos. usa de linguagem solene. Vofl (Universidade Católica de S.A. 1947) e Pickel-Beltrão (5. pois. Rio de Janeiro. Paulo. Paulo) em colaboração com a Editôra AGIR." Paris. 1947) reproduzem com tôda a fidelidade possível o texto latino judiciosamente confeccionado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1945). com interêsse que o público acompanha a publicação de nova tradução vernácula dos originais bíblicos devida à Liga de Estudos Bíblicos (5. Tournai. Pirot-Clamer (2. "Les Éditions du Cerf. redigida em estilo francês muito agradável e acompanhada de valiosas notas e introduções. rigorosamente exata do ponto de vista exegético. Matos Soares) se baseiam na Vulgata latina. rue de la Planche. o tradutor serviu-se de traduções já existentes castelhano. elaborada sob a direção da Escola Bíblica de Jerusalém. familiar. É êste o texto geralmente editado pelas Sociedades Bíblicas Protestantes. V. U. principalmente expressões holandesas. Embora muitos encómios mereça. o novo texto tem saído aos fascículos.234 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tempo na Holanda. Já apareceram os 1 Tradução dos originais confeccionada por S. 1952). Fora o Novo Testamento. Franca (AGIR.

Straubinger. Está claro que o texto utilizado pelos fiéis católicos será sempre acompanhado de notas explicativas e aprovação eclesiástica. Altes una Neues Testament (Zürich. El Antiguo Testamento. em alemão: Riessler-Storr. o recurso a tradução fiel é de grande importância. A Biblia em três volumes. La Sacra Bibbia ( a partir de 1949. (larofalo-Rinaldi. Das Neue Testament (Paderborn. La Sacra Bibbia. 1 (de Gên a Rut) e III (livros sapienciais). Quem empreendesse a leitura de uma obra clássica sem tomar conhecimento prévio da personalidade do autor e das circunstân- . dela tira o que bem lhe agrada (crenças contrárias umas às outras). É o que se verifica fora da Igreja Católica. em espanhol: Nácar Fuster-Colunga.Noções introdutórias. 1951). Katholische Familienbibel. dentro da qual ela se originou e até hoje se conservou (cf. Klosterneuburg bel Wien 1951/2. El Nuevo Testamento según ei texto original griego (Buenos Aires. é tesouro inseparável da tradição oral. de "Klosterneuburger Bibelapostolat". bem como o Novo Testamento. 1947/1949). Sagrada Biblia. II e IV. 1948). nas denominações cristãs que a partir do séc. 1949). não a Verdade. 1947). XVI (Lutero. Bover-Cantera. portadora de problemas que os originais não suscitam. Vaccari. Sagrada Biblia (Madrid. sob os auspicios do Pontifício Instituto Bibilco de Roma (tradução começada em 1923. ainda em elaboração). pois a Bíblia é patrimônio da Santa Igreja. Em suma. em italiano: A. a J. Calvino. dois volumes na coleção "Biblioteca de Autores Cristianos" (Madrid. págs. 1952). 1953). traduccion directa de los textos primitivos (Buenos Aires.COMO LEREI A BÍBLIA? 235 vois. Die Heilige Schrift des Alten una Neuen Testamentes (Mainz. Heiwe. já não encontra nestes a Palavra de Deus. os vols. Zwingli) vieram à luz e hoje pululam: cada inovador de religião. 3 vois. 1947). a do Novo. Das Alte Testament (Paderborn/Wien. estão anunciados para 1957. colocado a sós diante da Bíblia. Schafer. 21-23). A tradução do Antigo Testamento é devida a flus Parsch. Roscb. que só pode ser uma. B . Observa-se que boa parte das dificuldades experimentadas pelo leitor moderno ao abordar a Bíblia provém do fato de lhe ser esta transmitida em forma vernácula imperfeita. Quem não aceita o testemunho da tradição na interpretação dos livros sagrados. ainda em curso de publicação).

257-260). incumbência a que nem todos se podem entregar. 1951). ed. os Reis. visa apenas as noções necessárias para que o leitor possa levar devidamente em conta o aspecto humano que a Palavra de Deus quis tomar e assim. recomenda-se P. xv . indispensável um mínimo de "iniciação bíblica". quando se trata de ler uma biblioteca oriunda entre o séc. 1948).236 PARA ENTENDER 0 ANTIGO TESTAMENTO elas em que escreveu. pois o leitor perceberá melhor o que implicam. 1 da nossa era. xiv. A experiência ensina que o contato assíduo com a Sagrada Escritura mesma. quanto mais se cul2 Em português. certas denominações ou frases breves lhe falarão imediatamente com nova linguagem. publicada pela Editâra das Américas (São Paulo. livros ditados por mentalidade e leis de estilo bem diversas das do homem contemporâneo. 85. 2 Esta exigência não implica estudos longos e sutis. L'Átlas hisforique: de l'Áncien Testameijt. 1951) Robert-Tricot. Spes. pois.C. então. XIII a. para maior segurança e ef icácia. Tellier. os veios que unem o primeiro ao segundo Adão (Cristo). . Guide Biblique (Maredsous. Quem possui em seu espírito (ou. e XVI da Biblia Sagrada (versão de Pereira de Figueiredo). An2 sources bibliques (Paris2. Torna-se. Compreende-se que o mesmo se dê. Passelecq. vejam-se os vois. 1954). PRÉ-REQUISITOS SOBRENATURAIS As normas acima seriam suficientes para se fazer uma leitura proveitosa da Bíblia. também em fôlha de papel colocada junto ao texto bíblico) a recordação dêsses grandes marcos (alguns nomes e datas). arriscar-se-ia a não a entender ou interpretá-la falsamente. Chrcnologic et géographie (Paris. E. Os ditos volumes contêm "Introdução Geral e Especial aos livros do Antigo e do Novo Testamento". é suficiente para a frutuosa compreensão da Palavra de Deus. dever-se-ia mesmo acrescentar que. por meio do veículo. Entre as tarefas de iniciação bíblica. caso esta fôsse livro meramente humano. Valioso é também um Atlas bíblico. 1950). datas e localidades de menor importância ocorrentes na leitura. Initiation bibliqve (Paris3. Procure formar em sua mente o quadro geral dêsses séculos. é de crer que isto se possa fazer sem grande esfôrço. Em francês.Joly. tal como o proporcionam opúsculos modernos. com estudos biblicos adicionais (colaboração de professôres de Exegese do Brasil). passando pelos Patriarcas. 2. e o séc. consiga chegar ao cerne do Livro sagrado. os Profetas de Israel. isto é. dispõe dos pontos cardeais para se orientar diante de alusões a personagens. muito se recomenda ao leitor queira fixar na mente as grandes linhas da história sagrada. retendo na memória os poucos marcos ou as etapas que sucessivamente lhes vão imprimindo o seu aspecto característico (vejam-se as tabelas às págs. como o de P. empreendido à luz de poucos• conhecimentos essenciais e com as disposições de espírito abaixo enunciadas.

Bem se entende esta proposição se se tem em vista que a Sagrada Escritura constitui um sacramental. são colhidos em medida correspondente. tanto mais fruto se retiraria das Escrituras.C0M0 LEREI A BÍBLIA? 237 tivassem as disposições enunciadas. At 8. frutos que a Escritura tende primàriamente a outorgar. na falta de instrumentos humanos. 3. pois Deus lhe fala por aquéles escritos. a aborda com espírito religioso. não são senão manifestações da fé e da caridade pressupostas no leitor da Escritura Sagrada. são os pré-requisitos sobrenaturais os que mais concorrem para o autêntico desfrutamento dos livros sagrados. Donde se segue que ela só revela seu conteúdo profundo a quem. sim. Por conseguinte. em sua realidade mais íntima. lucras grande santificação pela leitura mesma. é iniciado nas coisas de Deus. a solicitude apontados pelo Santo Doutor como condições para que Deus. torna-se melhor. é impossivel. que alguém fique sem fruto se se dá zelosamente à leitura atenta e freqüente das Escrituras. Se nem mesmo pela assiduidade da leitura chegares a compreender o que está escrito. às disposições religiosas do leitor. João Crisóstomo (t 407) quem o ensina: "Quem se entrega a uma leitura atenta (dos santos Evangelhos) é como que introduzido num templo sagrado.. digo. ainda que não haja homem capaz de te explicar o que procuras. serm.. o grau de fé e amor sobrenaturais do cristão que a ela se aplica.. 3 De Lazaro. porém. dizem. procura alguém mais sábio. além de apresentar disposições naturais. mas na estrita proporçâo da fé e da caridade com que os fiéis o usam. manifesta teu grande desejo. mas.. É S.. purificado. os frutos de união com Deus.30s) É impossivel.2s. e. fale no íntimo da alma. . Quando Deus te vir movido por tão ardente anelo. não desprezará tua vigilância e solicitude. antes do mais. Isto implica que não será em primeiro lugar a perspicácia da inteligência humana que conseguirá desvendar o sentido das passagens obscuras da Bíblia. se não entendemos o que os livros (sagrados) contém? Mesmo que não compreendas o que néles está depositado. Acontece. a Bíblia C o Livro de Deus. Lembra-te do eunuco da rainha da Etiópia (ci. vai ter com um mestre. são os que o leitor mais há de procurar desenvolver em si." 3 O zêlo. Ële mesmo certamente o revelará a ti. Em última análise. que. Ora todo sacramental é sinal sensível que comunica a graça não pelo seu mero uso ou aplicação. Ainda breve observação decorre destas premissas: a leitura das páginas sagradas pode ser grandemente útil e valiosa mesmo quando o leitor não entenda todo o sentido do texto bíblico. Que acontecerá.

etc. importa creia o leitor no Cristo.. a história do pecado ã qual se segue a promessa de perdão. . em Commeitt tire la Bible ( Paris) 43. embora não sempre aflore à primeira pesquisa. veja-se também 1 . A fé autêntica se mostra forte e confiante. que é a miséria comum de todos os homens." 3. que lhe entrega êsse Livro qual depositária e autêntica intérprete do mesmo. isto te deve dar confiança. aguça a visão da fé. creia no Espírito Santo. "Un itinéraire". cair na temeridade). 5 pois cria conaturalidade com o SenhQr e com os atributos. pois sabe que tais questões têm solução. Impossivel nos teria sido viver na intimidade de Jesus.Jo 3. ora por propor a transcendência do Altíssimo. ou melhor. assim como a de se defrontar com as mistérios da Sabedoria de Deus. De resto. míseros homens. desde que para o futuro nos saibamos 'guardar puros das nódoas dêste mundo' e viver no Amor e na Misericórdia. A pureza de coração (como diz Jesus no Evangelho) faz ver a Deus.238 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Impõe-se agora breve análise daquilo que implicam estas duas disposições A fé. pouco importa o pecado passado. A primeira cena da Biblia após a criação é a história de um pecado. " A fé não receia considerar de frente os problemas aparentemente mais intrincados de exegese. por pouco que conheças tua própria ffiiséria. Gourbilion. aos fiéis. não pusilânime (sem. 5 Cf.8. e possibilita ao cristão penetrar mais e mais o sentido das verdades encerradas nos textos bíblicos ou nas fórmulas dogmáticas. aos corajosos. seu valor pedagógico) algum juízo ditado inicamente pela razão humana. por isto. creia na Santa Igreja. Mais brevemente: creia nas duas proposições explanadas às págs. A fé aceita de antemão a possibilidade de não compreender imediatamente o significado das páginas sagradas. Para conseguir o intento. no caso. 19-24 dêste estudo. Mt 5. mistérios que desnorteiam. ou muito mais. é a promessa do reino aos pequenlnos. sem encontrarmos a Madalena junto à virgem. que guia e santifica a Igreja.2s.-O. as obras do Senhor . que é o conteúdo do Livro Sagrado. assim. crítica da texto. Já na ordem natural é o amor que leva o homem a procurar o objeto amado a fim de o contemplar de perto e desfrutar. antes permaneça por muito tempo velada. história das religiões.tema de que fala a Escritura. b) inseparável da fé viva é a caridade. Tal fé opõe-se ao orgulho inteletual ou à pretensão de querer proferir sôbre os textos bíblicos (seu sentido. 4 "Não receies (6 cristão) cotejar por vézes ria Bíblia grandes pecadores. A Biblia é a história da misericórdia. sua genuinidade. ora por narrar a condescendência do Mesmo com a pequenez do homem. na ordem sobrenatural é a caridade ou o amor de Deus que abre o ôlho da mente. o amor a Deus move naturalmente o cristão a purificar a sua mente e O seu afeto de qualquer imagem ou inclinação alheia à santidade do Altíssimo.

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O mesmo amor incita à perseverán.ça na leitura da Bíblia. A assiduidade regular e fiel é condição importante para que haja aproveitamento da Palavra de Deus. Não fique o leitor detido em textos que momentâneamente êle não entenda, mas passe adiante, sem perder ânimo. Em ulterior leitura, voltando aos mesmos trechos, terá possivelmente adquirido maior afinidade com o Espírito e a Palavra de Deus; estará então habilitado a perceber o sentido do que antes lhe era impérvio. Por fim, ainda sob o ditame do amor, a leitura da Biblia há de se processar numa atmosfera de oração; o uso dos sacramentais constitui, sim, uma das atuações do espírito de oração do cristão. É, pois, de recomendar que, ao abrir o livro inspirado, o leitor eleve a mente a Deus, pedindo-lhe as devidas disposições para entrar em comunhão com a sua Palavra; faça o mesmo, solicite luz do espírito, ao se defrontar com algum texto particularmente difícil ou rico de sentido; o Mestre interior nessas ocasiões há de ser interrogado com a diligência que a caridade desperta. Independentemente, porém, das dificuldades que o texto sagrado ofereça, a leitura da Palavra de Deus deve habitualmente desabrochar numa prece; ela é nutrimento não só para a inteligência, mas também para a vontade; esta, portanto, sob qualquer de suas expressões (ato de adoração, complacência, gratidão, anelo, contrição), há de se afirmar, depois de estimulada pelo contato do texto sagrado. Por conseguinte, se a graça o inspirar, o discípulo de Crísto intercalará em sua leitura oportunas elevações a Deus; caso não, rezará ao menos ao concluir. S. Agostinho, numa passagem das Confissões, deixava entrever algo de seu ânimo interior ao ler a Sagrada Escritura:
"No principio fizeste o céu e a terra. Moisés escreveu isto (cf. Gên 1,1), escreveu e se foi; passou dêste mundo a Ti. Já não se encontra diante de mim; se aqui estivesse, a êle recorreria, interrogá-lo-ia, e pedir-lhe-ia em teu nome que me explicasse essas palavras; aplicaria os ouvidos de meu corpo aos sons que prorrompessem de seus lábios,.. Já, porém, que não o posso interrogar, é a Ti que me dirijo, ó Deus meu, Verdade da qual êle estava penetrado para poder afirmar proposiç6es verdadeiras. Rogo-te, perdoa os meus pecados, e Tu, que àquele teu servo deste proferir tais palavras, dá a mim também a graça de as compreender." (11,3.) É de notar ainda que os Sumos Pontífices, a fim de mais e mais aproximar da Biblia Os fiéis, enriqueceram com indulgências a leitura devota da Sagrada Escritura: quem leia diàriamente, por quinze minutos ao menos, o Santo Evangelho, ganha de cada vez 300 dias de Indulgência. Quem assim o leia durante um mês inteiro, lucra Indulgência plenária.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

§ 2." ITINERARIO ATRAVÉS DA BÍBLIA Uma norma válida para a leitura profícua de qualquer obra se aplica com particular insistência ao uso da Bíblia Sagrada: quem deseje realmente adquirir conhecimento do Livro de Deus não se pode contentar com leituras feitas a êsmo ou segundo inspiração momentânea, embora com assiduidade e periodicidade. Pouco aconselhável, portanto, seria querer "pescar" simplesmente trechos belos, edificantes, sem visar a sistematização da leitura, pois, como diz o Apóstolo, "Deus não é Deus de desordem" (1 Cor 14,33). É preciso que o cristão apreenda a trama, o fio central da Escritura, e tenda ao conhecimento de todos os livros sagrados; saiba oportunamente nutrir-se de cada um, embora possa conservar suas preferências por êste ou aquêle em particular, cuja doutrina mais o sustente. Qual seria, portanto, a ordem ideal a se observar na leitura da Bíblia? As indicações aqui sugeridas não poderão ser muito minuciosas, visto que há um Mestre interior em cada crist&o, 6 o qual guia cada alma por vereda própria, adaptada à sua personalidade, ao seu tipo de espiritualidade. Eis, porém, algumas diretivas certamente úteis a todos os fiéis: A primeira leitura há de ser leitura cursiva, visando proporcionar uma visão de conjunto e dispensando-se de demoradas pesquisas. Não se prenda o cristão a muitos pormenores (certos números, questões de crítica do texto, arqueologia, ciências naturais ... ), pormenores que talvez chamem a atenção de quem está imbuído da mentalidade do séc. XX, mas não tinham grande importância para o autor antigo e não constituíam o objeto primário de suas afirmações. Detendo-se muito em tais minúcias, o principiante arriscar-se-ia a não ver as grandes linhas da Escritura, linhas religiosas, teológicas, para as quais em primeiro lugar se deve voltar o seu interêsse. Mais tarde poderá, sem detrimento da autêntica perspectiva, abordar êsses problemas. Pode haver leitores que lucrem seguindo a série dos livros como se acham nas edições da Bíblia, a partir do Gênesis até o Apocalipse. Contudo, abstração feita de casos particulares, é de aconselhar que se comece pelas seções da Escritura que a nós, cristãos, mais familiares são: os livros do Novo Testamento. Quem quisesse simplesmente ler a Bíblia página por página na ordem em que estas se apresentam, expor-se-ia a conceber, em breve, fastio por não perceber o significado autêntico de muitas passagens. Aliás, seja lícito advertir: em qualquer sistema, os
6 Ê o que principalmente S. Agostinho lembra em suas obras (ef. in lo tr. 1,8; De vita beata, 4,35; De magistro, 12,38.40; Soliloq., 1,1,1).

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livros do Antigo Testamento deverão ser udos à luz da Revelação cristã, que êles prenunciam e sem a qual não se explicam. No Novo Testamento, dar-se-á a primazia aos Evangelhos sinópticos (Mt, Mc e Lc), os quais poderão ser lidos ou separada ou conjuntamente (isto é, considerando-se ao mesmo tempo os textos paralelos). Par-se-á seguir o livro dos Atos dos Apóstolos, que continua a narrativa dos Evangelhos. Constituída esta base histórica, abordar-se-á o Evangelho de S. João, que já apresenta a história "meditada", contemplada de um ponto de vista superior ou da eternidade. Logo depois, estarão a propósito as três epístolas do mesmo Apóstolo, que são reflexões e exortações no estilo do quarto Evangelho. Acrescentar-se-ão as cartas de S. Paulo em sua ordem cronológica, a saber: 1/2 Tes, Gál, 1/2 Cor, Rom, epístolas do cativeiro (Ef, Col, FIm, Flp), epístolas pastorais (1 Tim, Tit, 2 Tim); no fim, leia-se a epístola aos Hebreus, que, embora seja de inspiração paulína, não parece redigida por S. Paulo. £stes escritos falam todos da continuada presença de Cristo entre os homens, não Mais em sua natureza mortal, mas em seu Corpo Místico; tratam da aplicação dos frutos da Redenção à Sociedade e a cada individuo em particular. As epístolas ditas "católicas" 8 desenvolvem o mesmo temário. Quanto ao Apocalipse de S. João, que esboça o têrmo final da história, poderá ser lido depois das cartas dos Apóstolos. Não há, porém, inconveniente em se diferir a leitura dêste livro até que se tenha tomado conhecimento dos demais escritos bíblicos; com efeito, o Apocalipse constitui como que uma recapitulação de tôda a Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento: faz reviver os temas do paraíso terrestre (cf. Apc 22,1-4 e Gên 2,8-15), de Jerusalém, Cidade de Deus (cf. Apc 21,2-22,5 e Is 60,1-22), da Espósa do Senhor (cf. Apc 19,7; 21,2 e Is 62,4s; Os 2,21s, os profetas em geral), do tabernáculo do Altíssimo (cf. Apc 21,3s e Lx 25,1-27) e outros; donde se vê quanto é oportuno conheça o leitor o fundo de idéias a que alude. A leitura 'do Antigo Testamento, conforme alguns autores, pode ser intercalada na do Novo, tomando-se alternadamente livros ou seções desta e daquela parte da Bíblia. Tal praxe visa
7 Fala-se de "Evangelhos sinópticos", porque os très mencionados livros, justapostos entre si, fornecem numerosas passagens paralelas, seguindo uma trama comum para descrever a vida de Jesus. Há edições que os alinham em três colunas verticais, proporcionando a visão de conjunto dos paralelos ou a "sinopse". Entre outras, note-se a de Lavergne-Lagrange (texto francês). "Católicas" (= gerais, universais), porque são cartas encíclicas, dirigidas a vários destinatários, não a uma única comunidade.

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PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO

criar desde o início o hábito de se considerarem Antigo e Novo Testamento como indispensáveis ao cristão e complementares um ao outro. O método poderá tornar-se fecundo...; será preciso, porém, que o leitor se acautele contra o perigo de dispersar desregradamente a atenção ou contra o risco de perder de vista o seu roteiro, a linha una das Escrituras.
Não hâ 1düvida, por exemplo, de que a cena da anunciação do anjo a Maria, no Novo Testamento (Lc 1,26-38), toma relêvo muito vivo para o leitor que haja prêviamente considerado os textos das promessas feitas a DavI (ef. 2 5am 7; SI 88,20-38; Jer 23,5; Ez 34,24; Os 3,5) e as narrativas de anunciações divinas ou angélicas do Antigo Testamento (cf. Gên 18,9-15; 21,14-20; Jz 13,2-25; Is 7,13-16). A alegoria do Bom Pastor (Jo 10,1-18), nos lábios de Cristo, torna-se bem significativa para quem leia concomitantemente as passagens de Miquéias (7,14-20), Isaias (40,11), Ezequiel (34,1-31) e Jeremias (23,1-4) concernentes ao mesmo tema. As palavras de Jesus sõbre a cruz (cf. Mt 27; Mc 15; Lc 23; J'o 19), assim como os pormenores da Paixão, são ilustrados pelos salmos, que nos revelam principalmente a atitude interior de Jesus naquele quadro de sofrimento (cf. 8115; 21; 30; 68).

A respeito do livro dos Salmos, porém, impõe-se uma observação. Éstes cânticos constituem como que o âmago da Escritura ou, se quisermos, o seu remate; com efeito, dizem brevemente o que os demais livros bíblicos comunicam; dizem-no, porém, sob a forma de oração, elevação da alma, que louva a Deus após haver considerado tudo que Lie fêz na história sagrada, e pede-Lhe ainda realize o que prometeu realizar no futuro. É pelos salmos que o cristão aprende a rezar como Cristo rezou, pois Jesus recitava os salmos com o seu povo (cf. Mt 27,46; Lc 23,46; Mt 26,30; Jo 13,18; 15,25; Hebr 10,5-9); é por êles que o cristão se acostuma a orar como a Santa Igreja ora. Por conseguinte, desde o primeiro contato com a Escritura, o saltério não sàmente pode, mas deve ser utilizado na vida de oração do lèitor. 5. No Antigo Testamento, como no Novo, têm prioridade os livros históricos, dispostos na ordem seguinte: Gênesis, 2xodo, Números, Josué, JuIzes, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Macabeus. Ler-se-ão, a seguir, quatro opúsculos que ainda referem história, não, porém, a história geral do povo de Deus, como os recém-citados, mas episódios particulares, edificantes, redigidos em vista da catequese ou do ensinamento dogmático: Rute, Tobias, Judite e Ester. Depois de haver percorrido êstes livros por extenso, o leitor muito ganhará em voltar a sua atenção para resumos da história sagrada que a Escritura mesma apresenta, não raro em estilo meditativo ou de oração. Tais compêndios são, entre outros: SI

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67.77.103-105.1345; Ez 20,1-44; Sab 10,1-12-27; 16,1-19,22; Edo 44,1-50,24; Jdt 5,5-25; At 7,1-53; Hebr 11,1-40. Tornar-se-á então oportuna a leitura dos Profetas, pois êstes, de um lado, ajudam a reconstituir os quadros descritos pelos livros históricos e, por outro lado, só podem ser entendidos se recolocados dentro das circunstâncias históricas em que apareceram. Adote-se a ordem cronológica, que, com probabilidade, é a seguinte: Naum (ca. 620-612) Amós (ca. 760-750) Habacuque (ca. 605-600) Oséias (ca. 750-725) Ezequiel (ca. 593-570) Isaías (ca. 740-603) Daniel (605-536) Miquéias (ca. 735-690) Ageu (ca. 520-518) Sofonias (ca. 630) Zacarias (ca. 520-518) Jeremias (ca. 626-586) Malaquias (ca. 450-430) Baruque (ca. 626-586) Abdias, Joel e Jonas (data incerta) Incontestàvelmente, a leitura dos Profetas não é fácil, e Isto por
vários motivos os Profetas aludem a muitos pormenores da história antiga, localidades geogrãficas e personagens que não nos é possível Identificar com segurança; o estilo dos Profetas; quando predizem o porvir, é geralmente obscuro; reuniam numa só descrição traços de acontecimentos análogos entre si, mas distanciados uns dos outros pelo Intervalo de muitos séculos; assim a restauração do povo de Israel exilado na Babilônia é predita com tópicos que caracterizam a grande libertação, ou seja, a Redenção do pecado e a Instauração do reino glorioso do Messias (haja vista Is 40,1-10; 41,14-20; 44,24-45,25 ... ) ; e) os Profetas se serviam de numerosas imagens, hipérboles e outros artifícios da arte poética; d) os vaticinios, como se encontram hoje nos respectivos livros, não estão sempre dispostos em ordem cronológica.

Em seguida, o leitor passará aos livros sapienciais: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico. 10 Visto serem escritos que ensinam máximas de vida prática ou revolvem questões filosófico-teológicas, não tem importância decisiva a respectiva ordem cronológica; observe-se, porém, que Já e EcI têm afinidade entre si por tratarem do tema do sofrimento e da felicidade neste mundo; Prov e Edo são coleções de normas de prudência, mais esmeradas e desenvolvidas em Edo do que em Prov. O fecho se fará com os livros do Levítico e do Deuteronômio, cujo conteúdo requer um espírito já familiarizado com o Antigo Testamento ou um leitor que já tenha aprendido a "ler" a Lei
O

10

A respeito de Daniel, haja vista a observação das págs. leis. 0 Saltério já se supõe familiar aos leitores de tais livros.

alguns mestres: não receie o leitor. era necessário que os hagiógrafos tecessem a moldura etnográfica. manuseio e entendimento da Escritura tornar-se-ão mais rápidos e eficientes. Contudo.. cada qual as consignará para seu uso particular. poderá ser reservado para o último lugar. a fim de que os grandes vultos portadores de mensagem messiânica pudessem ter pleno significado para nós. leis rituais. Mais três sugestões práticas parecem vir a propósito: é de vantagem que. Assim o volume da Escritura poderá eventualmente fornecer sem delongas o alimento que o cristão dêle aguarda. junto com determinado texto. Mais audaciosamente aconselham . uma obra bem redigida que. não versam sôbre o tema principal da Escritura. Dt 12-26. desdobrada no Novo. Ez 4048 (excetuado o bloco 47. genealogias. visando melhor aproveitamento da Palavra de Deus. etc. o leitor terá. muito recomendável é o seguinte expediente: tome o leitor. ou seja. como dito.244 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO mosâica. se podem percorrer ràpidamente ou saltar trechos concernentes a recenseamentos. para o futuro. 1 Crôn 1-9. portanto. pro- . Estas seções de escol variam segundo a índole de cada um dos fiéis. pois a Bíblia foi tôda redigida em função do Messias e de sua obra. existe para servir ao homem. Estas passagens. medidas. O Apocalipse. Tais seções seriam. os trechos bíblicos que o comentam. êste é instrumento de trabalho e nutrição espiritual. caso o possa. servindo-se de fontes bíblicas e extrabíblicas. descrição do mobiliário sagrado. desde que isto lhe seja lícito. As seções acima enunciadas. Note-se ainda que. civil. obra antecipada no Antigo Testainento. geográfica.e com razão . o leitor vá anotando em fôlha à parte ou em caderninho os trechos que mais lhe "sabem" ou mais o "impressionam". a fim de se consolidar o conhecimento do texto sagrado após uma ou mais leituras diretas da Bíblia. temas que tornariam um tanto enfadonho o contato inicial com «Antigo Testamento. apreendemos também mais claramente o Messias como Irmão nosso. assim compreendemo-los melhor.1-12). por ocasião da primeira leitura. assinalar os seus "trechos vitais" com marcas a lápis feitas no livro sagrado. 35-40. em que aquêles aparecéram na história. por exemplo: Éx 21-31. Anote outrossim nas margens de cada página as seções paralelas ou complementares de tal ou tal passagem. ao tomar contato com o texto sagrado. à história completa do Messias. como se sabe. se comportam na Bíblia como arcabouço ou vigas de ligação que dão consistência ao conjunto.

evitando errôneas associações de textos. História do Povo de Israel (Petrópolis. O Povo Biblico (Põrto. Autor e Mestre das Escrituras. minúcias ou também grandes idéias que até então não havia percebido. De resto. muito pode valer a indicação das mais belas passagens da Escritura. vá diretamente ao texto. indispensável para a melhor compreensão do tema. 13 Em geral. 13 Notem-se P. Eis o que tentarão as páginas seguintes. Fillion.-Rops. É. a experiéncia mesma e. 1938). 2 vois. (Barcelona2. Histoire d'israel. L. 1946) . não queira o leitor confiar na memória. etc. ' uma obra dessas não deixa de ser um compêndio agradável de exegese dos livros históricos e de boa parte dos escritos proféticos. Th4ologie da Nouveau Testament (Paris. (Paris2. 12 assim permanecerá em contínuo contato com o livro inspirado. o leitor tomará o cuidado de compulsar os textos bíblicos a que aluda o historiador. § 3.COMO LEREI A BtELIA? 245 cure reconstituir a história de Israel. Schuster-Holzammer. 12 Éste trabalho acarreta a freqüente interrupção da leitura. abordando-o por via diversa da habitual. Ttidologie de t'Ancjen Testament. porém. Quem assim procede. 1946 e 1947) D. ceppi. Ricciotti. Historia biblica. P. 1954) . por esta. 2 vols. Valiosa é também a obra clássica de Bossuet (t 1704).4lten Testamentes (Bonn. 1940) Kuss-Muller.° PEQUENA ANTOLOGIA BÍBLICA Para despertar quanto possível o interêsse pelo texto sagrado. (Paris. Discours sur l'histoire universeile. 3 vols. van Imschoot. pode com facilidade voltar a tais trechos. o que é de notável vantagem.-Cl. (Paris. J. principalmente de teologia ou história bíblica. agrupando seções 11 Merecem menção: G. Lendo-a. . 1947 e 1948) . concorre grandemente para aprofundar o conhecimento da Sagrada Escritura a leitura imediata de versículos que se encontrem mencionados em alguma monografia. Heinisch. 1927 e 1928). c) será igualmente profícuo gravar aos poucos no espírito os números (de capítulo e versículos) que caracterizam as seções de maior importância. mbora esta lhe recorde em linhas gerais o conteúdo da passagem citada. se encarregarão de manifestar ao leitor outros expedientes valiosos para que mais e mais possa desfrutar o conteúdo sempre fecundo das páginas sagradas. o Espírito de Deus. saberá com certa desenvoltura reconstituir o contexto de determinada passagem. 1951). Bonsirven. anacronismos. A. Theologie des . tome 1 (Dieu). Doctrine da Nouveau Testament (Paris. e não raro ficará agradãvelmente surprêso por encontrar neste matizes. O mesmo poderá ser feito tomando-se por base um manual de teologia bíblica do Antigo ou do Novo Testamento. Ao se defrontar com tais indicações. 1945). Histoire d'israel.

Iii. O trovão. Dt 8. ° hipopótamo: Já 40.2-7. Jer 23. O Deus que traz o mundo na palma da mão: Is 40. DEUS E OS HOMENS O Deus que governa a criatura humana: Já 12. mesmo dentre aquêles julgamos supérfluo citar algumas passagens muito conhecidas dos primeiras livros biblicos.15-24. Ez 34.6-9. 1941). Limitamo-nos ao Antigo Testamento.19-25.20-26.5-8. IL DEUSEOMUNDO A eficácia da Palavra de Deus: Is 55.29. o asno selvagem: Já 39. O Eterno diante do qual tudo passa: Is 40. Imagem e semelhança do seu Autor: Gên 1.14). Jer 23.25-41. O Senhor fala no silêncio da noite: Já 4. a águia: Já 39. Si 89. 14 1. 5. a avestruz: Já 39.20. At 14. o esmêro literário das seções mencionadas nestas listas. Ricciotti. já que os escritos do Novo Testamento são mais familiares aos fiéis.13-18. 51 103. Onisciente e Onipresente: 51 138.1-38.26-28. Si 18. O universo proclama a Deus: Sab 13.12-17. Is 44. O DEUS TRANSCENDENTE A Majestade Divina no trono de sua glória: Is 6.26-30. Si 101.246 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO bíblicas de acôrdo com o tema ou com a forma literária respectiva. 28-31. 1 San 3. é imprescindível lê-las em tradução fiel.1-31 (cf. Os poemas da criação do mundo: Gên 1. 21-25. Já 38-41.1-18).6-11. Mistérios e maravilhas entre os animais: o cavalo: Já 39.1-9 (cf.2-6.25-28. 4..12-21. 4.5s. O Senhor é meu Bom Pastor: Si 22. A confecção das tabelas muito deve à. .1-16. Já 38. O Senhor rege a natureza: Já 9.4. 14 Para se perceber a riqueza do significado.1-5. tradução que observe a forma poética onde ela figura nos originais. O homem comparado a Deus: Já 25.3-9.1-15. Si 8. Is 66.1s.1-2. Sab 12.25-28.14-25. Prov 8 . obra de O.3.6-8.. expressão da Majestade Divina: Si 28.2231. La Bibbia dei eUetatj (Roma.942. O Deus Único: Is 44.26.4-12. Rom 1.e os idolos: Jer 10.. Jo 10. Quem poderia pedir contas a Deus? Is 45.23s.. o crocodilo: Já 40.

A malograda Cidade do Diabo: Gên 11. . A HISTÓRiA DA INIQÜIDADE E DA GRAÇA O primeiro pecado e a primeira misericórdia: Gên 3. "Pequei contra o Senhor 1" (Davi e Natã): 2 San 11. A restauração da Cidade de Deus: Bar 4. • profeta Eiiseu ressuscita uma criança: 4 Es 4.9-14. O Rei fautor de justiça e bonança: Si 71.18-23.1-9. • Juiz universal e o Ancião: Dan 7.1-8. Jo 4.1-8.7-11.1-10.22. • rainha de Sabá em visita ao monarca. Senhor.15-24. V. mostra-me a tua glória !": Êx 33. "Meu Deus.26-12.1-4.21.8-17. 24.1-38.23-9. pois teu servo está atento ": 1 8am 3. 2 Cor 12. • consagração do templo erguido por Salomão: 8.1-15. 7-10. "Nasceu-nos um Pequenino. O varão das dores: Is 52. "Meu povo me esqueceu.11-16).6.1-32.": Is 8.gratuitamente dispensada: Dt 7.18-25..21. Teofania e aliança no Sinai: Êx 19. 1": Jer 18. sábio: Im10. 8. • Renovador da natureza: Is 11. Doloroso anúncio de vitória: 2 Sam 18. E o mal se alastrou. (dilúvio): Gên 6.1-16.30-5.. IV.3-9. • fome durante o cêrco de Samaria: 4 Es 6. Si 128.. Visão profética de prosperidade (Balaã): Núm 23. • tragédia de Jeremias: Jer 37. O Rei dos reis: Si 2 (cf. Queda de Jerusalém: Ser 39.24-41 (cf. Apc 19. .9..1-24. "Senhor. . 24.. : Dt 8. .8-20.1-10. por que me abandonaste ?": Si 21.9).13-53.12..5.1-2 1.19-19..24-30. "Fala. A Nova Aliança: Jer 31. • triste sorte dos primeiros escritos de um Profeta: Ser 36..16-20.13. A fôrça de Deus se manifesta na fraqueza do homem (Davi e Golias): 1 8am 1-58 (cf. 4 Es 24.5-10).10-14. • origem dos samaritanos: 4 Es 17.1-9.15. O MESSIAS E SEU REiNO Origem eterna e temporal do Messias: Miq 5.18-24.6-17. Si 50. meu Deus. "O Senhor é misericordioso e compadecente": Si 102.31-37.1-18. Símbolos de felicidade messiânica: Jer 31.COMO LEREI A BÍBLIA? 247 Amparo na caminhada cotidiana: Si 90. Insurreição contra uma rainha tirânica: 4 Es 11. Providência paterna.

41). A lei do cordeiro pascoal: lix 12. É o que pressupõe o texto acima citado do Dt.9.1-17. : Gên 24. Hostiidades dos senhores egípcios contra os hebreus escravizados: lix 1. VI. O festim do rei Baltasar: Dan 5.26-29.24).9 (ef.33-4.17.248 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Um povo instrumento dos castigos divinos: Is 5.5-21.26-30. Invasão de gafanhotos. "Sê delicado até com as aves ": Dt 22. 107. Como se homenageava o favorito do Faraó: Gên 41.5-10 (cf. Da história de ToMas: uma donzela humilhada pelo demônio: Tob 3. O julgamento das nações: Sof 1.11-14.1-13.24.. Gên 13. LEIS E COSTUMES DO ORIENTE Um juramento na época dos Patriarcas (séc. Um banquete digno do rei da Pérsia: Est 1. .5-11. A perseguição de Antíoco Epifanes: 1 Mac 1. pág. O heroísmo que ela suscitou: 2 Mac 6. assim como as seções de Ru 4.): Gên 24.38-45. Por conseguinte.1-30.6s.8.1-8.2-4.6-18. Mt 22.C. Fórmula de bênção patriarcal: Gên 27. que finalmente volta com a espôsa: Tob 11.24). triunfo e glória: Jdt 15.20-29. SI 59. A grande heroína: o feito de Judite: Jdt 10.57-67.17.24..1-9.1-7.1-32.2-12.10-67. As dádivas do povo fiel para a construção do tabernáculo do Senhor: lix 35.. enquanto os velhos pais aguardaft em casa.: Tob 10. O heroísmo dos reconstrutores da Cidade Santa: Ne 3.7-11.Jos 10. O flagelo da sêca na terra de Judá: Jer 14. 2. Os terríveis caldeus: Hab 1. o ato de tirar o calçado (ou a sandália) e o entregar a outrem significava simbólicamente a entrega de um direito ou de uma propriedade.14-18. E um casamento.42. Judas Macabeu entra em aliança com os romanos: 1 Mac 8. ' 15 Os israelitas costumavam tomar posse de um fundo imóvel colocando sóbre êle o pé ou o calçado (cf.7-23.7.. .26.1-11. Imponente exército oriental: Jdt 2. é libertada do Maligno em piedoso matrimônio: Tob 7.17. o filho.9-16. Que o irmão suscite prole ao irmão falecido (levirato): Dt 25. XVIII a. 5.1-8. semelhante à de um exército: 31 1.

A videira simboliza Sedecias. a nave opulenta que naufraga: Ez 27. A virgem de Israel infiel: . o cedro e a videira: Ez 17. mas ingrata: Ez 16.COMO LEREI A BÍBLIA? 249 Costumes dos ceifadores: Rut 2. 21 Os ossos secos vivificados designam o povo de Israel destroçado pelos inimigos. derrotados por seus adversários e culpados da ruma da nação. Artes. 23 Tiro.944. e o Faraó do Egito. A criancinha abandonada.1-12. 30 Esta peça foi redigida para ilustrar satiricamente o significado da eleição de um rei indigno. passando-se.8-15.1-14. 19. IS A leoa. o dos gregos (Alexandre Magno) e o dos romanos.1-5. 28 A estátua inteira representa o poderio dêste mundo enquanto é hostil a Deus.2-18. 22 A estátua dos quatro impérios: Dan 2.1-14. os candidatos idôneos são representados pelas árvores frutíferas.24-39. que jorra do lado aberto do corpo de Crísto. novo templo da Divindade (cf. as suas quatro partes são sucessivos representantes déste poderio na história antiga. recolhida. O retrato da sábia dona de casa: Prov 31. Nabucodonosor.21. 18 As duas irmãs. partindo do novo templo. 10 é dita videira. Entre éstes dois monarcas vacilava a política dos reis de . 20 o profeta descreve a queda da Assíria.1-10. 21 7: A água que. Abimeleque. Oola e Ooliba: Ez 23. 3. 15.1-43.1-49. Sarnaria eJudá (Jerusalém). mas se presta ao fogo apenas. que a principio foi vassalo de Nabucodonosor. A leoa e os leõezinhos: Ez 19. 20 Ossos secos que retomam vida: Ez 37.Judá.31-45.depois para o jugo egípcio.C. que vém a ser as duas irmãs. A videira bem-amada: Is 5.1-18. Os ornamentos da israelita facêta: Is 3. mas destinado a reerguer-se após o exílio babilõnico. ofícios e sabedoria: Edo 38. Êste é simbolizado pelo espinheiro selvagem.10-31.Jer 2. os leõezinhos são os reis de Judã. X estava dividida em dois remos. o dos medos. 19 O majestoso cedro do Líbano: Ez 31. visando admoestar o Faraó.12-20.32. Oola e Ooliba. conforme os melhores intérpretes.16-23. Compra de um campo no séc. O artesão fabricante de ídolos: Is 44. de Judá.12-20. designam o império dos babilonios. 17 As duas águias significam respectivamente o rei da Babilonia. . SÍMBOLOS E ALEGORIAS As reflexões das árvores sarcásticas: Jz 9. inclinados à aliança ora com um. 10 As duas águias.: Jer 32. idolatria) praticados pelas duas partes da nação e o triste fim de ambas. significa a nação judaica. Sab 14. fertiliza a terra: Ez 47. Ritos fúnebres: Edo 38. 22 Imagem da graça. que a partir do v. 19 A nação escolhida era representada como a Espõsa de Javé na literatura profética. VII. Ezequiel descreve os adultérios (apostasia do verdadeiro Deus.34).1-7.1-36. Desde o séc.7-19. Jo 2. VI a. o qual não dã fruto nem sombra. ora com outro.16-24.11.

22-36. Valores menores e valores maiores: Edo 40.. Impossível mudar a côr da pele: Jer 13.: Is 59. seu amigo muito caro.250 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO O cinturão simbólico: Jer 13.2-11.1-21. "Sê prudente ao procurar a amizade dos grandes ": Edo 13.18-21.1-22.30-34.1-8.1-25. At 21.18-27. Falsa sabedoria. A Sabedoria pousa e frutifica em Israel: Edo 24.14-20..1-15. A sabedoria de Salomão: 3 Es 3.1-16.13.17-27. A SABEDORIA E SUAS NORMAS A origem da Sabedoria: Prov 8.1-22.1-28.185).1-40.12.. Não obstante. Tudo passa. Desgraça a quem se isola: Ecl 4. a dos ímpios gozadores: Sab 2. Jõnatas..21-25. Tôdas as coisas têm seu tempo oportuno: Ecl 3. Onde reside a Sabedoria: Já 28. 24 Pranto pela ruína de Jerusalém: Lam 4. A estima da boa saúde: Edo 30. e o filho dêste. • 24 cântico entoado por Davi depois que na guerra caíram Saul. "Não julgues poder dissimular o teu pecado ": Edo 23.7-14.1-15. O problema da dor: um momento de angústia: Já 3.9-12. 24.6-11.12-32. "Escolhe criteriosamente os teus amigos": Edo 6.10-13.13-16. A Sabedoria comunicada aos homens: Sab 7.53. A ridícula preguiça: Prov 6. confia em Deus: Já 19. VIII. Até os animais reconhecem os tempos 1: Jer 8. colóquio com Deus após o auge da crise: Já 10. O médico e seus préstimos: Edo 38. : J& 29.1-25.16-28.3-26.1-11 (cf. 26.1-22. seu Inimigo. 19.7-13. feliz. Éx 21. Conselhos para o conviva de um festim: Edo 31.5-17. Jo 21. e nada sacia: Ecl 1.1-22.23-29. O drama humano: Era justo.7. "Sê alegre!'t: Edo 30..23. . IX. "Honra pai e niâe": Edo 3.. agora injustamente escarnecido: Já 30. : Já 31. ELEGIA E LIRISMO Lamentação fúnebre: 2 5am 1. Os atos do fraudulento são como . Como tratar o tolo: Edo 22.

": AÇÃO DE GRAÇAS O povo agradece a vitória outorgada ao rei: SI 20.1-23. Dan 3. que ama os pequeninos: 1 5am 2. 83. Consôlo a Jerusalém libertada: Is 51.9-17.23. Bar 2. Como o cervo deseja as fontes das águas.5-11. "Ainda que pai e mãe me abandonem. as tuas obras me deleitam! Louvor ao Deus soberano.2-7. Dois justos oram em favor do povo infiel: Est 13.3-2 1. O cleieitede estar na Casa do Senhor: Si 25. SÚPLICA A oração que sustenta o mundo: Gên 18.. Um desafôgo pessoal diante do Senhor: Jer 20. PRECES ADORA ÇÃO "Vinde. A cidade sem sorriso: Jer 16.. Is 35. Agradecemos os benefícios presentes. "Minha alma. "Senhor. 13. "Piedade.46-55). O clamor dos habitantes de Jerusalém arrasada: Lam 5. Gemidos depois do castigo: Jer 8.1-22.1-8. Si 148..": CONTRIÇÃO "Pecamos. Esdr 9. Senhor!": Ne 1. Senhor!": Sl 50.14-19. Lc 1.1-15. "Minha alma tem sêde de Ti": S162. 1 Crôn 17.17-33.26-45. "A Ti levanto os meus olhos !": Si 122. . Glória ao Deus transcendente: 1 Crôn 29. O louvor da criação inteira ao Criador: Dan 3. X. . : Si 41/42.8s.1-19. A alegria da natureza renovada: Si 95-97.5-37.1-10. "Se o Senhor não tivesse estado conosco. adoremos o Senhor 1": Sl 94. exalta o enhor!": Si 144-147. 14. 9.1-10.11-18. 66.52-90.10-19. 51 112 (ef.COMO LEREI A BÍBLIA? £ 251 Sátira sôbre Babilônia que caiu como estrêla do céu: Is 14.7-18. o Senhor não me abandonará": Si 26.12.17-52. Si 91. 3. 51 123. penhores da plenitude futura: Tob. Os céus cantam a glória de Deus: Si 18.16-27.18-9. A terra deu seus frutos !: S1 64. 9.

. A prece da viúva heróica: Jdt 9. "Não permitas peque pela lingua ou pelo olhar ! ": Edo 22. Comunhão dos santos.1-22.26. seja o mais belo de sua for ma literária.5).6.. Não receie perder tempo. !": Os textos acima indicados destinam-se a ser.1-18.2-19.13-16. O rei pede as bênçãos do Céu em favor do povo: 3 Rs 8. do seu modo.14-42. Ora o velho pai aflito: Tob 3. Poderão ser utilizados por quem pouco ou nada conheça do Antigo Testamento e queira logo tomar contato com o que êste oferece de mais belo.252 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Nostalgia de Jerusalém: Si 136. curiosidade de inspecionar o contexto ou de divagar pelo que fica em tôrno das passagens referidas. e vá folheando as páginas sagradas. Senhor 1": Prov 30. não extinga o leitor a louvável "curiosidade" que nêle possa nascer. Talvez se torne útil a tabela também àqueles que desejem renovar a leitura da Bíblia com a qual já estejam familiarizados.22-64. seja o mais belo de sua doutrina. . Apc 21. Ora o ancião perseguido: Si 70. comunhão de preces: 2 Mac 15. "Nem riquezas nem miséria. Jerusalém significa a pátria celeste (cf.26-23. Gál 4. Em um e outro caso. 2 Crôn 6. Estas então lhe irão falando linguagem cada vez mais significativa! 25 Para o cristão.1-6. 2 Crôn 1. porém. pontos de partida para a leitura do Livro sagrado.7-12.. 25 "Envia-me a tua sabedoria Sab 9.7-9.

MAPA ILUSTRATIVO DO ÉXODO TRAVESSIA DO MAR VERMELHO .

mas debalde.31-14..P. e acamparam junto ao fortim ou Migdol. passando ao pé do Djebel (Monte) Geneffeh. porém.MAPA [LUSTRATIVO DO ÊXODO E. com a intenção de seguir a estrada direta para a Palestina (Canaã). se colocou entre os dois acampamentos e os filhos de Israel entraram pelo Pequeno Lago Amargd. O Senhor. 211) reconstitui a série dos acontecimentos concernentes à passagem do Mar Vermelho (explicitamente assinalada no quadro): Os israelitas. Tellier.31) Eis como o Comandante Bourdon (CL pág. Seguiram-nos através das águas os egípcios. O exército egípcio se aproximou. a nuvem que acompanhava o povo de Deus. 14.2). Atlas historique de l'Ancien Testament (Paris. deu-lhes ordem para que retrocedessem (cf. Desceram então ao longo da margem ocidental do Grande Lago Amargo. Em conseqüência. DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO (Êx 12. pôsto diante de Beelsephon e do Djebel Abu-Hasa. Cf. cidade situada sôbre um dos braços orientais do Nilo. EM PARTICULAR. 1937). deixando Ramsés. R. que naquela época era um prolongamento do Mar Vermelho. .17. Éx 13. dirigiram-se para Etham. 24.. visando cortar aos israelitas o caminho para o Sul.

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1-2 Crônicas O 00 - 3-4 ReJs.SE o t 'a( 01-4 OOt < 00 Q Ø 3) 1-4 '-4 1 00 'o '1 'o o E O a. . O +. . o E (o 41 1 . o . 1-2 Crônicas o-t o t o z o o.258 PA1A ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO c'I I Ia _. O O- .I-4 loca o 0 - E obo too -•0. a to 00 & O 8 ()rt O til VI 1-IOJ o 3-4 Reis.0 o O t' •- a 4 1 csOco —ti aor- VIVIa) .0 to itr .

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o [-4 IZ E . 10g4 ei co O o &t CCCC (a-o o a) CCO O a- O H I-lcz Qr1 r O (Do -F o O- 8 ri .9 0 9 °' o CC ar d otO .260 t PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO tI) s CO 00 l o -: O ri) 0 - 1 ê CC s - E 15 o (a CC O 1 8 .- 00 Fn à 0 (a O 1 O 2 oCC O o o 1 E Oo O O co á .0 o O) ZA eCo o ei O 0.0 O co -Ia 2 tCC O O CC a O 9 O o o z co (a rr o Lcd O CI.

5-31 (a travessia do Mar Vermelho) 210-212 16.1-33.19 (fulminação dos betsamitas) 157-159 16. 148 NÚMEROS 22.15-22 (a simulação de Aod) 145 4.5 (o número de guerreiros de Davi) 76 2 Cita 16.44 (cSéde santos») 137.LISTA DOS TEXTOS BIBLICOS MAIS PABTICULARMENTE CONSIDERADOS GÊNESIS 19.1-17 (a Igreja e Maria) 65 20.Jacó) 141 32.20 30.12 (Asa doente e impio) 179 JUDITE (significado moral) 144s ESTER (o ânimo bélico de Israel) 128 SALMOS 51 79 (a videira devastada) 111 ECLESIASTES (pessimismo e otimismo) 191-195 SABEDORIA 16.17-22 (a simulação de Jael) 145 9.226 DEUTERONÔMIO 20. 219-223 ECLESIÁSTICO 34.8 (enumeração de crimes) 72s MATEUS 1.29-29 (o maná idiilco) 108.6-23 (o anjo sedutor no céu) 156s CRÔMCAS 1 Crôn 13.1-8 (a verdadeira videira) 111 ÁPOCALIPSE 12.6 (fulminação de Oza) 159-161 12.37-39 (as cabras malhadas de .1-14 (estima do médico) 179 ISAIAS 5.1-20 (a queda dos muros de Jericô) 214-219 JUIZES 3. 219-223 21.23s (o mau espírito do Senhor cm S!quém) 155 13-16 (a história de Sansão) 226-231 5AM UEL 1 Sam 6.1-61 (estima dos sonhos) 186 38.7-14 (Saul evoca o espirito de Samuel) 195s 2 Sam 6.15-26 (a mulher de Lote petrificada) 202-205 19.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 RUTE (uma história de amor) 90 REIS 3 lis 22.1-7 (a videira bem-amada) 110 EZEQUIEL 15. 18.20-34} (Esaú e Jacô) 140-144 27.30-38 (as duas filhas de Lote e seu pai) 139s 25.1 (o recenseamento pecaminoso) 152-154 21.3-2.14-12.16-18 (a lei do anátema dc guerra) 127s JOSUÉ 3.10.14.7-17 (a travessia do Jordão) 212-214 6.2-36 (o maná) 107.25 (até que») 78 JOAO 6. 19.1-7 [Vg 31.36 (as dez pragas do Egito) 205 -210 14.23-32 (a luta de Jacó com o anjo) 142-144 ÊXODO 7.14 (região dos mortos e inferno) 1995 .9 (o mau espirito do Senhor em Saul) 154s 28.1-8 (a videira inútil) 110 AMÓS 1.22-72 (o sermão eucarístico) 47s 15.7-10 (futminação de Oza) 159 -161 21.22-35 (Balaã e o asno que falou) 223.6 (restituição do quádruplo) 69s 24.12-14 (a lei do talião) 123-125 LEVÍTICO 11.

sacriflcio de A. 1. 5. Citação implicita: 35s. ijconsciente após a morte: 189s.: 86. 159. «Arrependimento» de Deus: 59. 51 xi. 151. 176. a. 230. 130. 98. 170. 156s. 223-226. Adão.: 102. 217 n. Corá: 138. 149. 15. 98. Cántico dos Cânticos (suas metáforas): 44s. 155s. 167s. 49 n. Cadáver: 149. Animais impuros: 146-149. Cabeleira de Sansão: 226-231. 205-210. 40. 116s. Abel. 116 n. Christós. Contemplativo (estilo): 42. 194. 154. Consciência embrionária: 119s.. 238. 246. Elias: 105. 215-219. Abimeleque (de Siquém): 155: 249 n. Essénios: 187. 247. 160 n. 149 n. Espiral (estilo em) : 46. Epicuro: 177 n. 10. 8. Dinamismo de expressão: 42. Esaú e Jacó: 86. tipo do batismo: 88. 1315. 8. Árabes: 41. 236. 82. D. 8. 162s. 11. 120s. 46. 194. 11. 99. Amor no Antigo Testamento: 161-163. 117s. 9. Amon (origem): 139. 157. 242. 88. 149. 180 n. 101. 206. 68-70. 154. Antioco Epifanes: 35s. 118 n. 248. 247. primeiro e segundo: 88. conselheiros de Deus: 156. Alma. 44. 142. Cronologia esquemática: 37. 176-178. 18. Antropomorfismos: 52-59. 121. 82. Esculápio (Asclépio): 176 n. 112. Coletividade e individuo: 64s. 62. Ungidá: 80 n. 120 n. Cahitas (sem nãmeros): 67. 135s. 147. 180. 76. 3. aliança de Deus com D. 154. tipo do Messias: 89s. 121. 17. 135s. «Direitos autorais» entre os Antigos: 35. Dilúvio: 35. 5. 18. 101-103. tipo de Cristo: 89. 22. 36. 88. 250. 159. 62. 203. 115 n. Abraão: 39. 75. 248. 102. 25. 209. Criação do mundo: 31. Aliança de Deus com os homens: 80-86. 71. em Juta com Jacó: 142. 181-183. 175s. 1 «Catalisadores» da consciéncia: 120. Messias. Aramaico. Concubinato: 118 n. Davi: 34. Apoio: 195 n. sagrados: 147 xi. Circulos concêntricos no discurso: 48. 32. 64. Epicurismo: 191. 201. 91. Cordeiro pascoal: 86. 186 fl. 80 n. Dureza de coração: 136s. Comparativo dos adjetivos: 43. 153. 162. 118. a. 170. Alegoria. 102. diversa do tipo: 89 xi. 2. Anjos bons: 63. Antitipo: 87-92.rrnota . aliança com Deus: 168. no sangue: 165. Circuacisão. 88.INDICE DE NOMES E TEMAS' Aarão: 102. 20. «Alegria» de Deus: 59. 136 xi. 153 n. idioma: 39. 224 n. 152-157. 55. 242. 158. Antropopatismos: 54. 112. 202. a. fl. maus: 81. 204: 227. 247. 72. 206. Condescendência de Deus: 20. 209. 166. 112. Estratagema bélico: 145. Egipcios: 33. 55. 42. Anátema: 125-132. 86. 179s. 169. Deus vivo: 55. simulação de: 145s. 179. 221 n. 132 n. 135. 46-49.. 180. 40. Banho ritual: 146. a. 140-144. 197s. 135 s. 88. 37. 216. 184. 46. Dura cerviz: 154. 167. 16. 132. «Braço» de Deus: 57. 19. Clã: 131. do extermínio: 180. Aod. Demônio: 147 n. 104.

Lei natural: 119: 121. Hércules: 177 s. Gedeão: 99. 13. 63. José. 241. 150. 24. 78. 145. Glossas: 75. Faraó (empedernido): 155. 104. Mardoqueu: 128. 59: 62s. 13: 1805. 87 n. 239. 24. 183. Fé de Israel e queda de Jericó: 218s. 248. 1824. Lutero: 21 n. 7. 1-lerem: 125-132. 226-231. 142. Galileo Galilei: 30. 158. Morte: 166-170. Hamurapi. 7. 25s: 138. 12. 12. «Ligar e desligar»: 51s. 121 n. 177. 221s. código de: 124. 212. 126 n. 148. f. 55. 112. 147. Inferno. 47s. lSls. centro da Biblia: 93. 223 n. 14. 247. 135 n. de sonhos: 175. Liturgia e Antigo Testamento: 79 n. 140-144. 207: 209. 136. por assonância: 199 n. tipo de Cristo: 89. da iniqüidade: 81 n. 177 n. 183-187. 142. 15: 238. e os sonhos: 184. 237s. 91. 12. 177s. 132. Metáfora: 28. Mito: 33. 200. 89. 6. 70. 204. 99. inscrição de: 126 n. Juramento e número sete: 69. M. 208-210. 197s. 47. 23. 152. Escritura: 112 n. 131 n. 99. Josué. 197. Macabeus: 83. Filósofos pagãos: 56. 235-238. 36. 1. Longevidade dos Patriarcas: 68. M. 219 n. 2. Igreja e interpretação da Biblia: 21-23. 57. 7. 102. Iniciação biblica: 23s. 87. Hipérbole: 43. m. Moisés: 10. 37. Jubileu: 70. 82. 229. 178. 72. m. natividadç de 1. 196. m. 67. Mesa. 9. 185. 204. 217. 249 n. 136 n. 212-219. Inerrância bíblica: 27-30. Existencialismo ético: 118s. 18. dos números: 66. 225. Jacó e Esaú: 86. e leitura da Biblia: 19-21. Juizes: 37. 110. 129. Harém: 118 n. 4. desenvolvimento do conceito: 94-98.: 88. pastor: 112. 134s. Exílio babilônico: 34 n. iv + 1 (esquema proverbial): 72-74. Isaque. 87 n. 245. 190 n. 178. Imaculada: 89. 190 a. 3. 48. e a Igreja: 65. 79: 235. e Ester: 89. 89. 20. Hades: 190. 9. Impureza legal e impureza moral: 136. 9. de nome: 63. 50 n. m. Milagre quanto ao modo e q. 15. 12. 109. 34. Lei mosaica: 82-85. 133s. 57. 23. Gênio (semideus) : 148. Narrativa etnológica: 139. 9. 197. 238.. 87 n. Maria SSma. 211s. M. Mago: 63s. m. 229. 91. 189-200. 12. 37. 37. à substância: 206s. 82. 112 n. entre irmãos: 138. tipo de Cristo: 89. 155 n. 56. Mistério de Cristo: 81 n.: 100. . 176. Mudança de dogma: 29. 229. Interpretação autêntica: 21-23. 171-173. 182. 148. 104. M. f. 220s. 214. 91s. 182. 112. 44. Jael (simulação de): 145s. 104. Género literário: 16. sacrificio de 1. 20. 1. 1. Filosofia e medicina entre os Antigos: 177. Individuo e coletividade: 64s. 157. Israel (etimologia) : 62. segundo Adão: 84. 8. 39 a 1. e Judite: 89. 146-149. 181. 12: 127. 52: 83. Gregos: 33. aliança de Deus com: 102. J. 205-210. 194. 17.ÍNDICE DE NOMES E TEMAS Eucaristia: 15. 116 n. M. 98. 29. 149. 116 n. 157. 129 n. símbolo da Aliança: 102s. Jonas: 70. 117. Folclore: 203: 229. 135 n. Mão ( medida): 41. 195 n. 167. M. 5. 91. "Ira" de Deus: 59. 98. Mal e Deus: 152. 147s. 223-226. 29. 110. i. 153 n. 243. político: 83. 121 n. 235s. de Sansão: 230. e a Anunciação: 242. 25. 67s. 104 s. etimologia do nome: 80 a. Moab (origem): 139. figuras do M. Mar Vermelho e batismo: 88. 93. Evocação dos espíritos: 195s. falível: 29. Messias. Matrimônio em Israel: 134-140. 85s. 195 n. 5.: 88s. 36 n. 182. "Inveja" de Deus: 59. 136 n. 28s. 88. in/erilus: 190-200. da S.

Temor e amor no Antigo Testamento: 122. 167. 147. Profetas falsos: 156s. Satanás: 31. 200. 86. 183. 242: s. S. 14. Recapitulação (por Cristo): 84 n. Veracidade científica e v. 149. 70. Totalidade. 199. 168: 183. 40. 91. «Resto» dc Israel: 83. Superstição: 120. «Setenta Intérpretes» (LXX): 10. s. 249s. 75. 103s. 9. s. 125. Shekina: 105-107. 79. 45. 191. 21. Plutão: 190 n. história: 35. imprecatôrios: 132-134. e o Eclesiastes: 191. 185s. 152s. 40. 103. 40. Sôfrimento: 182s. 195 n. 182. material e p. 5. Números. Simbolos: 44-46. Provérbios numéricos: 71-74. 81. 104. Totem: 147 n. 157-159. 196. textos: 152-154. 89. 181s. 134. 234. 147. Suplantador: 140-144. 214. 224 n. 33. em sonho: 183. doze: 71. 244. 191. do paralso: 81. 216. Pobres de Israel: 83. Odiar (= amar menos): 43. Profética. Paraíso: 13. 196-200. significado dos: 65-78. 171. 166: 178. 102. 135. Salmos: 28. 169. 101. 87. disposição (iiatheke) àliança (berith): 103. 24. 14. 75. 144. «Vingança» de Deus: 59. Texto biblico. 114. cinqüenta: 70. 243. 247: p. 104. 183. 132. Pitonisa de Endor: 195s. 182. 194. 20. Serpente de Aarão: 209. Conservação do: 76s: principais traduções modernas: 233-235. Poesia: 28. 201. 90 n. lei da: 64s. três: 70. 101. Rahab: 217. 161-163. 18. 170: 178: 241. 35. Sodoina: 202-205. e doença: 178-183: p. Proto-evangelho: 104. Paradoxo: 29. 17. lo: 90: 241. Pedagogia divina: 120. 196s. Plenitude dos tempos: 20. 151. Nazireu: 226-231. 149. 146-149. Participação. 201s. 157-159. 31 xi. «Sair e entrar»: 50s. Pecado de Adão: 53. Protestantes: 17s. Santidade no Antigo Testamento: 120-122. formal: 1485: 160s. de bronze: 88: s. de Apolo: 195. 7. categoria do pensamento: 64s. Salomão. 51 n. 100 n. Paralelismo de frases: 46-52. Vulgata: 10: 17. SheoZ: 190-200. decadente: 121. s. Racionalismo: 21. Necromancia: 185. «Tristeza» de Deus: 59. 60. 69. Sol (milagre do): 30s. Pré-história bíblica: 37. Parábolas: 44. 104. 73 n. 149. 60. Paralelos. 57. 36. Primitivo ascendente e pr. 137. 89. Promessa (a Abraão): 84-86. 197. Testamento. 157. Purgatório: 199 n. Tabu: 147 n. 127. 223 n. . pré-cientifica: 30s. 184s. 1955. 158s. 4: 175. 246 n. 216: dez: 70. Sabedoria personificada :t 94. 190: 224 n. 135. 38. 167 n. tipo de Cristo: 88.264 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Ressurreição da carne: 182s. 38: 234. 241. 199. Noé: 39. 190. 134. 137s. 99. sete: 69. 156.

: 17 n. Erman. 9.: 217 n. 6.: 79. Filo de Aleaandria: 224 a. George.-M. 14. 3. Haxnman: 91 a. 4. 38. 8. Ferreira dAinxeida.: 71 n. 4. 17: 139 n. 198 a.: 190 n. 204: 221 n. vaa. Clamer. van: 180 n. J. 4. 1. 86. Einpédocles: 32 a. João Crisóstomo. 35. 4. Abade João: 140 a. 15.: 28 n. Heródoto: 129 a. 1. 240 n. 3. 204 n.: 42 n. J. 9. 10. Ei.: 131 a. Er. v.: 218 a. P. J. A. 34 n. 3s. 9. Cicero: 32 n. 36. R. 15. P. 21: 163 a. De Vaux. Beaucamp. Guitton. 40. C. Coppens. 187 a. 1: 153 n. 14. E. 12. São: 20 a. 7. 2. Bossi: 17 a. Eauer. 16. Gourbilina. 2. 176 a. Bourdon: 211. 1.: 51 a. 19 a. 217 a. 33. S.: 149 a.: 221 n.: 165 a. 141 n. Dante: 55 a. 13. Aristóteles: 32 n. R. 8. 4. 23: 176 a. Artemidoro de Éfeso: 184 n.: 245 n. De Fraine. Santo: 117 n. 132 a. Gregório de Nissa. J.ÍNDICE DE AUTORES CITADOS Abel. Jeremias. 194 a. 142 n. 19. 9. 18. 47 a. 18. Charlier. 2. Froatino. Isidoro de Sevilha. 207 10. 35. 33. E. O. 221 n. 34. Ceppi. 13. 17. 37. Buysschaert. 10. Jaussen: 204 a. Hipócrates: 141 a. A. A. 38. 212 a. A. 12. 142 a. Gregório Magno. 214 n. 55 n. 5. Santo: 141 a. l3onsirven. 10. Curtias. 42: 161 a. J. 11. 34. M. J.: 160 a. Closen. Dhorm. 15.: 45 n. 204 n. A. Ohorme. Cumont: 180 n. 33. Fiilion. Santo: 14. 23. 19. G. 1. 17 a. 11. 131 n. L.: 220 II. 15. 24 245 a. Sexto Júlio: 215. São: 21. 2. 9. 35. 90 n. 23. 13. 3. 36. 35. Denziger: 36 a. 31. 158. 226 n. M.: 40 n. 224 n. Baur. 10. . Claudel. 15. 8. 6.: 31 n. 11.: 69 a. 9. P. 32. A. 42. 141 n. 9. Agostinho. Imschoot. • • • Gaster. 71. 67 n. 4.: 79 n. Hoonaciçer. Homero: 87 a.: 143 n. Bodenheim. São: 139. 6.: 165 n. Boman. 6. 152 n. 245 a.: 159 a. Jerônimo. 11. 13.: 245 a. Heinisch. Bossuet: 245 n.: 112 n. 20.-Cl. Gelin. 4. 9. 46 a. 25. 221 ii. 32. O. 184 a. Ch. 93 n. Bailly. 1. 2.: 167 n.: 217 a.tripides: 49 a. 21: 245 n. 32 n. A. J. 137. Harnack. Henry: 16. J. 17. T. J. 13. 14: 208. 238 a. Eliade Mircea: 60. 194 a? 18. 239. 192 11. 47. 234 a. Dennefeid.: 126 n. 18. Diógenes Laércio: 177 a. 7. 221 n.: 36 a. 5. Ambrósio. E. 30. Fr. 127 n.: 161 n. 22. 215s. 253. Ehrenberg. L. F. Cassiano. Fidvio José: 125 a. Hehn. 19. P. 2. A. Johnson: 17 a. 143 a. Chame.: 233s. 190. Joly. 9: 245 a. 20. 11.: 167 a. 42. 5: 237. Daniel-Rops: 16. Couchoud: 17 n.: 35 a. 207 n. 4. 2. 13. 5.6. 93 n.: 167 a. São: 226 a. 236 a. Carcopino. Censorino: 32 n. D'Rarcourt. 139 n.-G.: 36 n. A.: 207 n.

197 n. 21. 1'. 4. 1. Lambert. 9. Reiler. 4 Metzinger. Meignan. r6 I: 19 ri. . 204 ri. 165 ri. Seilin. 194 ri. 1. Stobeu: 32 n. H. R: 119. 25. 2. 9. 31. W. 221 n. 55 ri. P. 146 n.i R. 165 ri. 26. B. 2. 23.obertson: 17 ri. 17. 1'. 217 ri. H. Sebulz. Weber. Steck: 17 n. 18. Weisengof.-J. Lesétre.: 218 n. 52 ri. 15.: 12. Rowley. 4. 11. 31. E. A.: 49 n.: 194 ri. 39. Robinson. Sérvio: 32 ri. 14. 13. 32.: 226.: 55 ri. 33. 11.1. Scullard. tqbclah: 159. A. 10. 33 n.5. 245 ri. 50 ri. Rosenberg: 79. 18. Card. Maritain. 7.: 131 ri. 218 n. Vergilio: 165 ri. 79 ri. 33.: 64 n. 207 ri. 11. 10. 12. 6. 14. 1. E.: 132 ri. 9. 221 ri. Varrão: 167 ri. 4. 6. 184 ri. Pi*fiëio 47. . 139. P. 18. 35. A. 211 ri. 7. Tellier. Suys. Spicq. Platão: 28 n. 1. 101 ri. 15. 28 n. Sehuster-Holzammer: 218 ri. 9. 1. 21. 180 ri. Cl. 25. tjbach: 221 n. 11.: 221 ri. Médeblelie.266 PARA ENTENDER O ANTIGO TESTAMENTO Rerian: 146.1. A. Ruperto de Deutz: 12 ri. Solon de Atenas: 124. Oepke: 177 ri. 2. 16. 9. E.: 198 ri. Oróslo: 126 ri. 22. O.: 236 ri.: 221 n. Ricciotti. 4. 12.: 49 ri. Nygren. Tácito: 126. 10.: 183 ri.: 65 ri.: 212 ri. 36. 3. 37.: 120 ri. 218 ri. 11. 11. 21.: 223 ri. J.:137 ri. 26. Robert-Tricot: 236 ri.: 167 ri.: 36 n. 2. 4. A. Leão XIII: 28 ri. 35. Péguy: 31 ri. W. Plauto: 49 ri. Sófocles: 49 ri.: 159 ri. 212 n. 3. Cl. 207 ri. 235 ri. Lagrange. Meyer. 245 ri. 11. Vigouroux: 207 ri. LodsrA. Tournay. 1! Naber: 17 ri. 2. C. H. B. 5. piersdn: 17 ri. bVldio: 167 ri.: 33 ri. E. 2. Moritet. 3. Smith: 17 ri. 8. 253. 203 ri. 9. 222 n. Tito Lívio: 212. Theodor. b3iano: 141 ri. 4. 35. 32 ri. 19. 14. M. Marcion: 79. J. 7. Kuss-Muller: 245 n. 2. Passelecq. 246 ri. Sérieca: 32 ri.: 31 ri.: 143 ri. . 3. 13. 65n. Pffiio: 141 ri.: 12. Polibio: 212. 28. 2. 7. E.: 33 n. Steinmann. 29 ri. 11. 2. Kaiser. J. Le Prois.

caso se quisesse fazer abstração dos livros do Antigo Testamento. as noções concernentes à vida póstuma e à justa sançáo divina. o papel de relêvo atribuido a doenças e sonhos.). preparando o gênero humano a ouvir um dia a mensagem desconcertante: "Bem-aventurados os que choram.. as imprecações. o exterminio dos inimigos. a cabeleira de Sansão. se encontram os prenúncios e os primeiros moldes" (a expressão é de Santo Agostinho!) dos grandes dona que os cristãos possuem. Czéncia e Fé na Hsõria dos Pri- . as 10 pragas do Egito. etc. que permitia o exerciclo do talião. no Antigo Testamento.. Remunerador dos bons e Punidor dos maus. apenas houve por bem eliminar tudo que nesse patrimônio de cultura era contrário à Idéia de um Deus único." A obra se destina a tódas as pessoas que.a orelha) possui para todo cristão. a poligamia.17. tendo-se revelado a homens rudes ou moralmente infantis. santo. os livros sagrados pré-cristãos. pois.(continuação cIa i. Mt 5. as intervençôes muito fortes de Deus irado. Jesus não veio extinguir a Lei. no decorrer de 18 séculos. Amal até mesmo os vossos inimigos. queiram desfrutar a riqueza de livros que inspiraram amor e heroismo a geraçoes e gerçõe. mas consumá-la e levá-la à sua plenitude (cf. a passagem do Mar Vermelho e do . não quis remodelar repentinamente os hábitos e conceitos dessa gente. o Senhor Deus. os que têm fome e sêde. são consideradas dificuldades especiais que as páginas do Antigo Testamento apresentam ao leitor cristão: rnoralldade muito rude.. o Mestre Divino foi burilando as categorias de pensamento de Israel. Tudo se encerra com um guia prático para a leitura da Biblia. certos milagres da história de Israel cujas proporções parecem derrogar à Sabedoria divina (a queda dos muros de Jericó. Do mesmo autor: mordios A Vida que Começa com a Morte.. A séguir. o asno de Balaão que "falou".s de judeus e cristãos. Aos poucos. a fim de os fazer colaborar num plano muito elevado. isto é.Jordão.. Muitas das hesitações suscitadas pelo Antigo Testamento se dissipam. caso o leitor tome consciência de que • história do povo israelita anterior • Cristo equivale a um processo de lenta pedagogia divina. seria impossivel entender os Santos Evangelhos e os escritos dos Apóstolos. movidas por interêsse sincero. o maná no deserto.

k. JUDITE E ESTER — Traducao de D Etêvo BetLeneourt O S. LIVROS EDITADOS EM E95i TOmAS. B . C P.onte I3i MI.imenv.. Reembóbo Pcata . Manuel . ii:. EVANGELHO SEGUNDO SÃO LU(S Tradução de Mona. 919 Cixa Pta1 133 1•i. Pedreira de Casro O. z-3038 ilurl2. O APOCALIPSE — Tradução de Frei João Jos.Pena. fr. Ar. (utías (J1N i 1i edi c ões. EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS Tradução do Emii Malimaiin 5 0 J * orçi_ Lu .t Gi-aJs Atendem pe'o Sviç. F.Tradução do P. a sair no período 4 anos. aLX J TJ - 25 Muni 6*i4t) R. M EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO . da AGIR QU fl 14 .A SANTA BÍBLIA A SANTA BtBLIA — Tradução feita a partir dos orglnais e oriertada pela Liga de Estudos Bíblicos.ft .