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UMA LIÇÃO DE CRESCIMENTO: O CONCEITO DE DISCIPULADO DE JOHN WESLEY

(Extraído de “LIÇOES DE MESTRE – Mark Shaw, Ed. Mundo Cristão)

“Acredito que a Igreja evangélica é fraca, preocupada demais consigo mesma e superfi- cial”. Essas foram as palavras de Bill Hull em The Disciple Making Pastor. São pala- vras fortes. O que provocou essa ira em Hull? Parece que o aspecto mais irritante é o crescimento da Igreja. Mas qual o problema com o crescimento da Igreja? Enquanto as igrejas evangélicas vão se enchendo de espectadores, estão ficando vazias de discípu- los. Hull prossegue, “Acredito que a crise da Igreja está relacionada com sua produção, o tipo de pessoa que é produzida”. O que podemos fazer para melhorar a qualidade de um produto? “Proponho como solução que sejamos obedientes à comissão de Cristo, para 'fazer discípulos' e ensinar os cristãos a obedecerem tudo o que Cristo mandou”.

Hull não está sozinho em sua preocupação com a falta de discipulado na Igreja Evan- gélica moderna. Elton Trueblood descreve o problema usando termos militares:

Talvez a maior fraqueza da Igreja Cristã contemporânea seja a de que milhões de supostos membros não estão realmente envolvidos e, o que é pior, não acham estranho esse fato. Assim que reconhecermos as intenções de Cristo para fazer de sua Igreja uma companhia,militante, entenderemos de uma vez por todas que os arranjos convencionais não são suficientes. Inexiste chance real de vitória em uma campanha se 90% dos soldados não possuem treinamento e não se dedicam, mas é exatamente isso o que está ocorrendo hoje em dia.

O capítulo anterior descreveu o avivamento que Deus enviou durante o século XVIII.

George Whitefield, John Wesley e Jonathan Edwards foram os principais agentes usados por Deus durante esse avivamento, que foi uma força poderosa na restauração

da Igreja e da sociedade. Whitefield é lembrado pela evangelização na Europa e na América do Norte. Edwards é lembrado por ter oferecido a teologia que poderia au- mentar a qualidade do avivamento. E John Wesley ofereceu uma nova estrutura do ministério, que estenderia o impacto do Despertamento por meio da disciplina dos novos convertidos.

A grande lição oferecida por Wesley era bastante simples; a Igreja não muda o mun-

do quando gera convertidos, mas quando gera discípulos. Para preservar o fruto do avivamento e transformar a sociedade, a Igreja precisa ir além de fazer convertidos e dedicar-se a fazer com que esses convertidos cheguem à maturidade.

O conceito de discipulado de Wesley renovou o ministério da Igreja, preservou os

frutos do avivamento e foi o exercício prático de muitos princípios da Reforma, dos anabatistas e dos pietistas. Foi uma das grandes lições da história da Igreja. Os líderes que estão preocupados com o fato da Igreja de hoje ser "fraca, egoísta e superficial"

deveriam prestar atenção especial para a poderosa ênfase de Wesley.

Como Wesley desenvolveu esse conceito de discipulado? Que impacto suas idéias tiveram sobre os seus dias? Antes de responder essas questões, precisamos conhecer o homem por trás dessa idéia.

A vida de Wesley

Um menino de seis anos de idade aterrorizado olhava para sua família, que reunida também o olhava em meio à escuridão, abaixo dele. o garoto estava preso um quarto, no andar superior de sua casa, que se consumia em chamas. Segundos antes que o teto desabasse, dois vizinhos conseguiram resgatar aquele menino assustado do quarto cheio de fumaça. Aquela criança jamais se esqueceria daquele dia. Mesmo quando adulto, John Wesley lembraria daquela noite e da mão de Deus sobre a sua vida. Pos- teriormente, Wesley se referiria a si mesmo usando as palavras de Zacarias 3:2: "Um tição tirado do fogo".

Por que ele foi poupado? O que Deus tinha para ele? Olhando em retrospecto, pode- mos dizer que Deus o poupou para poder salvar a Inglaterra - tanto sua Igreja ali quanto o país. Ambos precisavam dessa ajuda. Pensemos sobre a situação que a Ingla- terra vivia no século XVIII.

Os analistas contemporâneos descrevem uma Inglaterra que estava em rebelião moral e intelectual contra o cristianismo. O deísmo [crença que Deus estava longe] estava cobrando seu preço, embora as defesas públicas da fé feitas por cristãos como Joseph Butler tenham retardado um pouco esse processo. Butler descreveu assim os outros desafios que a Igreja encarava no início do século XVIII:

Chegou, não sei como, a ser dado como certo por muitas pessoas que o cristianis- mo não é mais um objeto de investigação, mas que agora se descobriu que é uma ficção. Eles o tratam dessa maneira no presente, como se fosse uma questão com que concordam todas as pessoas de discernimento. Parece que nada permaneceu, pois passou a ser a questão principal de sua zombaria e ridicularização, como se fosse uma maneira de retaliá-lo por ter interrompido os prazeres deste mundo durante tanto tempo.

George Berkley, o bispo de Cloyne, acrescentou que a iniqüidade dominava a socieda- de inglesa a ponto de “ameaçar uma inundação geral e a destruição desses domínios”.

Escrevendo sobre o Despertamento Inglês do século XVIII, A. Skevington Wood do- cumenta a esterilidade moral, espiritual e teológica da Igreja da Inglaterra e das igre- jas que surgiram a partir dela. Embora seja inegável que existissem pontos de luz, a teologia humanista, em conjunto com o moralismo e o racionalismo do clero, con- forme propostos pelo arcebispo Tillotson, deram à Igreja da Inglaterra a tarefa incom- parável de conter essa onda anti-religiosa. Enquanto isso, os não conformistas esta- vam tão afetados pelo arianismo e a frieza espiritual, com exceção de homens piedo- sos como Isaac Watts, que não se podia esperar uma renovação vinda deles.

O início da vida de John Wesley e sua educação formal o preparam para seu chamado de evangelista, reformador e discipulador. Temas marcantes de sua criação foram a disciplina e a ordem. Ele nasceu em 1703, na cidade de Epworth, sendo o 15° filho do reverendo anglicano Samuel Wesley. Desse modo, John Wesley cresceu em uma casa em que cada criança precisava cuidar de si mesma. Sua mãe, Susannah, ensinou seu filho que o segredo do sucesso era “ter um lugar para cada coisa e pôr cada coisa em

seu lugar”. Essa paixão por ordem e disciplina vinha de longe. Os avós de John Wes- ley foram puritanos não conformistas e, na época que foi enviado para Oxford, ele estava convencido de que a preguiça e a superficialidade eram os dois grandes inimi- gos da alma, enquanto o sucesso espiritual podia ser alcançado pela disciplina. Wes- ley acreditava que poderia evitar o relaxamento moral e espiritual se seguisse os pas- sos de seu pai. Ele se tornou diácono em 1725 e foi ordenado ao ministério em 1728.

Enquanto esperava a sua ordenação, Wesley foi professor na Faculdade Lincoln, em Oxford, em 1726, e concluiu seu mestrado em 1727. Porém, sua vida era consumida por algo maior do que o academicismo. Foi durante esses anos como professor que Wesley leu o livro A Serious Call to a Devout and Holy Life (Um Chamado Sério a Uma Vida Santa e Devotada), de William Law. O impacto desse livro em sua vida foi profundo. Wesley se sentiu atraído a uma vida ascética para encontrar a Deus, tri- lhando o caminho da negação do eu e da auto disciplina. Ele provou a força de suas convicções quando assumiu a liderança de uma sociedade religiosa fundada por Char- les, seu irmão mais novo, e que recebeu o apelido jocoso de “Clube Santo”. As regras do clube exigiam uma disciplina pessoal rígida, uma vida devocional rigorosa e um trabalho de caridade considerável entre os pobres.

O Clube Santo não era algo único. Sociedades religiosas como esta estavam se multi- plicando por toda a Inglaterra. As raízes desse movimento de grupos pequenos esta- vam na collegia pietatas do pietismo alemão. Um pastor luterano chamado Philip Spener encorajara a formação dessas sociedades de oração e piedade em seu livro Pia Desideria (1675). Na Inglaterra, Anthony Horneck tentou colocar a idéia de Spener em prática em 1678, quando fundou uma sociedade para jovens anglicanos. No início do século XVII, havia centenas desses grupos pequenos.

Wesley se submeteu às regras rígidas do Clube Santo por um motivo simples; ele queria salvar a sua alma ao ficar livre de todo o pecado. Em uma carta dirigida ao seu pai em 1734, chegou a escrever: “Meu único objetivo na vida é assegurar minha san- tidade pessoal”. Wesley acreditava que encontraria a salvação se pudesse alcançar um estado de completa santidade e pureza. Ele procurava outras oportunidades para lim- par a sua alma.

Uma dessas oportunidades surgiu em 1735. Wesley teve a chance de se tornar missi- onário na colônia recém-fundada no Estado americano da Geórgia. John e seu irmão Charles conheceram o coronel James Oglethorpe, o proprietário da colônia, que os recrutou para trabalhar na Geórgia. John trabalharia como missionário entre os índios, e Charles seria o secretário pessoal do coronel.

Eles logo partiram para a América do Norte. Durante a difícil travessia do oceano, Wesley ficou impressionado com a piedade de um grupo de morávios que estavam a bordo do mesmo navio. Sob a liderança do piedoso David Nitschumann, aqueles pie- tistas alemães demonstraram humildade, serviço amoroso aos outros e coragem mes- mo diante da morte. Wesley sentia que eles manifestavam um nível de fé em Deus e semelhança com Cristo que ele próprio não possuía.

Wesley estava certo em relação a essas duas questões. Geórgia, como um lugar para encontrar a salvação pelas obras, fora um fracasso total. Ele nunca chegou a ter contato com os índios americanos. Na verdade, acabou servindo como sacerdote em uma igreja

local e logo entrou em conflito com seus membros. Wesley se apaixonou por uma mu- lher atraente chamada Sophy Williamson e sonhava com o casamento. Ele ficou assus- tado quando ela repentinamente decidiu casar-se com um homem que estava pouco in- teressado pela religião e, na opinião de Wesley, pouco valia. Wesley retaliou, impedin- do que ela participasse da Ceia do Senhor. Quando foi processado, fugiu de volta para a Inglaterra, tomado por um sentimento de derrota. Em seu diário, ele lamentou: “Fui para a América para converter os índios, mas, oh, quem me salvará”?

De volta à Inglaterra, o desespero de Wesley parecia ter crescido ainda mais. Ele en- controu certo alívio conversando com Peter Bõhler (1712-1775), que liderava um grupo de morávios na Inglaterra. Bõhler falou com Wesley sobre uma experiência de conversão instantânea, baseada na fé somente em Cristo. A obsessão pela salvação que acompanhara Wesley por toda sua vida estava em contraste direto com a visão de Bõhler, para quem a salvação era uma obra de graça radical e imediata que produz uma fé justificadora. Aquilo era demais para Wesley aceitar.

Algumas semanas depois, em 24 de maio de 1738, passando por uma rua de Londres chamada Aldersgate, Wesley teve sua famosa experiência. "Senti meu coração estra- nhamente aquecido", escreveu em seu diário. “Reconheci que eu agora confiava so- mente em Cristo para a salvação e que uma certeza me foi dada de que ele havia: tira- do meus pecados, sim, os meus, e que eu estava salvo da lei do pecado e da morte. Wesley havia experimentado o que Bõhler tentara descrever.

A compreensão doutrinária de Wesley ainda era fraca, e por isso suas emoções eram

inconstantes. Oito meses após a experiência em Aldersgate, ele escreveu:

recebi essa sensação de perdão dos pe-

cados como eu jamais conhecera. Mas tenho tanta certeza de que não sou um cristão hoje quanto sei que certamente Jesus é o Cristo.

Afirmo que não sou um cristão agora [

]

No entanto, uma obra de graça já havia começado e ela transformaria aquele perfec- cionista derrotado em um pregador da graça.

Parte daquela transformação ocorreu com ajuda de George Withefield. Withefield era

um dos membros do Clube Santo, mas se convertera antes de Wesley. Sua evangeliza- ção poderosa, feita a céu aberto, criou uma grande agitação em Londres e também em Bristol. Whitefield estava prestes a sair da Inglaterra para fazer uma viagem pelas colô- nias americanas, e precisava de alguém que assumisse o seu ministério de pregação ao

ar livre. Em março de 1739, Whitefield recrutou um relutante John Wesley para pregar ao ar livre diante dos operários das minas de carvão de Kingswood, em Bristol.

No início, Wesley ficou chocado, pois pensava que “a salvação de almas fosse pecado se realizada fora da igreja”. Ele acabou vencendo sua rejeição pelo “método vil” e pregou aos mineiros atenciosos sobre o texto “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim” (Is 61). Sua mensagem teve uma boa resposta dos ouvintes. Surpreendentemen- te, Wesley também percebeu que suas convicções evangélicas cresciam quando as anunciava a outros. Bõhler o encorajara a “pregar Cristo até que tivesse fé”. A con- versão de Wesley agora estava completa. Ele não apenas nascera de novo, mas tam- bém encontrara o propósito de sua vida: “Reformar a nação, e particularmente a Igre- ja, e espalhar a santidade segundo as Escrituras por essa terra”.

Wesley foi um evangelista extraordinário. Ele desenvolveu um padrão que seguiu du- rante toda sua vida, centrado nas cidades de Londres, Newcastle e Bristol. Embora ocasionalmente pregasse também na Irlanda e na Escócia, nunca mais voltou para a América. O metodismo, como seu movimento era denominado por seus críticos, se espalharia pelo novo mundo por meio da vida de outras pessoas. Wesley ordenou pes- soalmente Thomas Coke em 1784, para que ele supervisionasse o trabalho além do Atlântico. Após sua morte, em 1791, aos 87 anos, chegou-se a estimativa de que, ao longo de sua vida como pregador naquela nação, tenha viajado mais de 400 mil qui- lômetros, na maior parte sobre o lombo de um cavalo, e pregado 40 mil mensagens.

As convicções de Wesley sobre o discipulado

Ignora-se algumas vezes um dos segredos para o sucesso de Wesley. Além de seu tra- balho de evangelização, Wesley foi um abnegado defensor do discipulado radical. Ele possuía fortes convicções sobre a necessidade de firmar os novos convertidos na fé, por isso estabeleceu suas comunidades meto distas em classes, grupos e sociedades especiais para preservar os frutos da evangelização. Embora seus métodos de forma- ção de discípulos não fossem novos, eram tremendamente eficazes.

O conceito de discipulado defendido por Wesley pode ser dividido em quatro convic- ções auxiliares: 1) a necessidade do discipulado; 2) a necessidade de grupos pequenos para discipulado; 3) a necessidade de liderança leiga para o discipulado; e 4) a neces- sidade de fazer da santidade e do serviço o alvo duplo desse discipulado. Cada uma dessas convicções merece ser analisada com cuidado.

1. A necessidade do discipulado

Logo no início de sua carreira evangelística, Wesley sentiu a necessidade de acompa- nhar os que anunciavam a sua decisão por Cristo. Muitos saíam desses encontros ape- nas “meio acordados”. Algum tipo de cuidado posterior era necessário para levar os cristãos novos à maturidade. Quanto mais ele viajava como evangelista, mais con- vencido ficava da necessidade do discipulado. Veja o que ele escreveu em seu diário, no dia 13 de março de 1743, em Tanfield:

Pelas terríveis condições que testemunhei aqui (e deveras em todas as partes da Inglaterra), estou cada vez mais convencido de que o diabo não deseja outra coi- sa senão isto: que o povo em qualquer parte seja meio acordado, e depois deixado para cair no sono novamente. Portanto, estou resolvido, pela graça de Deus, a não iniciar o trabalho em qualquer lugar sem a probabilidade de conservá-lo.

A teologia de Wesley teve um papel importante ao gerar esse desejo por discípulos, em vez de convertidos. Não que sua teologia fosse muito diferente dos outros aviva- listas. Embora Wesley rejeitasse o calvinismo, ele continuava ressaltando muitas das mesmas coisas que Whitefield e Edwards pregavam: a necessidade de novo nasci- mento, justificação pela fé e a graça imerecida de Deus. O que fez Wesley ter essa

preocupação especial com o discipulado foi sua teologia de santidade. Sua singulari- dade está em ressaltar a perfeição cristã e desenvolver métodos para alcançar esse ob- jetivo. Convertidos parciais ou nominais não buscam a santidade radical. Wesley ja- mais poderia descansar com as coisas nesse estado.

Mais tarde ele reafirmaria em seu ministério a centralidade do discipulado para o avi- vamento metodista, quando viu que o discipulado fora negligenciado em uma cidade e calculou que “nove de cada dez que antes estavam meio acordados agora estão em sono mais profundo do que nunca”. Wesley se comprometeu a evitar esse mal, dedi- cando-se tanto ao trabalho de discipulado quanto à evangelização. O discipulado era fundamental.

2. A necessidade de grupos pequenos para discipulado

A partir de 1739, Wesley começou a organizar seus convertidos para serem discipula-

dos. A Fundição, como era chamado o quartel-general de Wesley em Londres, se tor- nou o centro de seu programa para discipulado. Quando viu o grande número de con- vertidos em Londres e a incapacidade de seus pregadores itinerantes de providenciar cuidado espiritual, resolveu fazer algo. Foi então que organizou uma sociedade “Me- todista”. Em 1743, Wesley definiu o que essas sociedades deveriam fazer:

Essa sociedade nada mais é que um grupo de homens reunidos que buscam o po- der da piedade, unidos para orarem juntos, receberem uma palavra de exortação e cuidar um do outro em amor, para que possam ajudar uns aos outros a desenvol- ver a sua salvação.

As sociedades não eram substitutas para a igreja local. Membros de uma sociedade metodista poderiam ser expulsos se deixassem de freqüentar assiduamente a sua igre-

ja local.

Não havia requerimento teológico ou denominacional para alguém ser membro de uma sociedade. A única qualificação era “um desejo de fugir da ira vindoura e ser salvo de seus pecados”. Wesley estava convencido de que todo desejo verdadeiro por salvação seria revelado pelo desejo constante de ser liberto de todo pecado.

Como essa santidade poderia ser obtida? A chave era a disciplina. Para ajudar no avanço da causa da santidade, ele acrescentou às suas sociedades três tipos de grupos pequenos: classes, grupos e sociedades seletas. Wesley estava longe de ser original. Os morávios, Whitefield e muitos outros foram os pioneiros no uso de algumas dessas técnicas. O aspecto que o diferenciava era a intensidade com que Wesley aperfeiçoa- va a estrutura de grupos pequenos para a criação do discipulado radical.

As classes eram o grupo mais básico dentro da estrutura de uma sociedade metodista. Quando Wesley observava que alguns de seus convertidos estavam voltando para o pecado, utilizava as classes como uma maneira de reabilitar os novos convertidos dos hábitos de pecado formados durante toda a vida. Aquelas não eram reuniões para o aprendizado acadêmico. A classe era um grupo pequeno composto de doze a vinte membros, sob a direção de um líder leigo. A classe fazia encontros semanais, à noite,

para evitar o conflito com os horários de trabalho ou freqüência à igreja. O propósito dessas classes envolvia a confissão mútua de pecados e a prestação de contas, visando ao crescimento da santidade. O dinheiro também era coletado para ser distribuído aos pobres. Ingressos eram repartidos para a admissão das pessoas nas “festas de amor” (ceias) e também para a reunião seguinte. Se os membros demonstravam repetidas fraquezas morais e espirituais, não recebiam os ingressos. Contudo, caso se arrepen- dessem, poderiam voltar a participar da reunião.

Os transgressores crônicos recebiam uma disciplina ainda mais severa. Em 1748, Wesley purgou as sociedades de Bristol e as classes, expulsando 170 pessoas do mo- vimento por pecados como violação do dia de descanso, venda de bebidas alcoólicas, mentira habitual, difamação, preguiça, contrabando e desleixo. Ele examinou as clas- ses de Gateshead em 1747 e também insistiu na disciplina geral. ''A sociedade", es- creveu Wesley:

que no primeiro ano era constituída de oitocentos membros, agora está redu-

zida a quatrocentos, mas segundo o velho provérbio, metade é mais do que o to-

do. Não devemos nos envergonhar de nada disso quando falamos com nossos ini- migos no portão.

] [

Além das classes, às quais se esperava que todos os membros da sociedade metodista freqüentassem, Wesley iniciou um segundo tipo: o grupo. Essa estrutura na verdade era uma versão de duas experiências de grupos pequenos que Wesley tivera antes de sua conversão: o Clube Santo, com suas regras rígidas e a necessidade de prestação de contas, e a sociedade da rua Fetter Lane, que Wesley ingressou logo após a sua con- versão. O que Wesley aprendera em primeira mão do grupo pequeno que ele próprio participava aplicava a esse grupo. Um grupo normalmente era composto de cinco a dez membros (somente mulheres ou somente homens) que se reuniam para cuidado pastoral e prestação de contas uns aos outros. Os grupos eram mais exigentes do que as classes. Howard Snyder calcula que talvez 20% dos membros de uma sociedade metodista pertenciam aos grupos.

O grupo tinha seis regras: (1) fazer encontros semanais; (2) ser pontual; (3) começar com louvor e oração; (4) “falar um de cada vez, em ordem, livre e diretamente o ver- dadeiro estado de nossa alma, com as falhas que cometemos em pensamentos, pala- vras ou ações, e as tentações que sentimos desde o nosso último encontro”; (5) termi- nar os encontros orando individualmente pelos membros; e (6) “desejar que uma das pessoas entre nós fale sobre seu estado primeiro, depois pedir que os outros façam, em ordem, perguntas tão variadas e profundas quanto desejarem, sobre seu estado, pecados e tentações”. Esperava-se que os membros fizessem perguntas inquiridoras:

algum pecado conhecido desde a semana passada? Alguma tentação? Como você se livrou delas? Algum pensamento, palavra ou obra duvidosa?

Depois dos grupos vinham as sociedades seletas. Esses eram os grupos pequenos mais especializados, uma espécie de maternidade para futuros líderes. As sociedades seletas deviam (1) manter extrema confidencialidade; (2) ter absoluta submissão ao líder em todas as coisas; e (3) contribuir para um fundo comum com dinheiro que ti- nham sobrando, visando suprir as necessidades. A vida comunitária nesse terceiro nível era intensa, e por causa da prestação de contas mais profunda, dali saíram mui-

tos dos discípulos que ajudaram a reformar a Igreja e a nação.

3. A necessidade de liderança leiga para o discipulado

Wesley logo descobriu que precisaria de um pequeno exército de líderes para manter

o sistema de discipulado usando grupos pequenos. Snyder estima que, por volta de

1800, os pequenos grupos meto distas contavam com 100 mil membros e 10 mil líde- res. A seleção e treinamento desse número tão grande de líderes requeria um esforço sobre-humano.

Os metodistas se preocupavam pouco com o nível de estudo de seus líderes. Para

grande surpresa dos críticos do metodismo, barbeiros, ferreiros e padeiros eram esco- lhidos para pastorear o crescente movimento de grupos pequenos. Pregadores leigos itinerantes cuidavam das sociedades e das classes, impondo disciplina e treinando lí- deres. A descrição de trabalho dos itinerantes comuns incluía pregar, ensinar, estudar, viajar, reunir-se com os grupos e classes, “exercitar-se diariamente e comer com mo- deração”. As mulheres podiam pregar, e muitas estavam envolvidas nos grupos e classes. A importância dessa mobilização maciça de líderes leigos não deve passar

despercebida:

Hoje em dia escutamos que é difícil encontrar um número suficiente de líderes para grupos pequenos ou para assumir outras responsabilidades da igreja. Wesley selecionava um em cada dez, talvez um em cada cinco, para trabalhar em ministé- rios significativos e em liderança. E quem eram essas pessoas? Não eram os de boa educação ou ricos com tempo de sobra nas mãos, porém trabalhadores com pouco ou nenhum treinamento, mas com dons espirituais e disposição para servir.

O discipulado em grupos pequenos seria impossível nessa mobilização maciça de lei-

gos. Wesley estava convencido de que era necessário e mostrou que dava certo. Esta era um aplicação do Princípio de reforma “o sacerdócio de todos os cristãos”.

4. A necessidade de fazer da santidade e do serviço o alvo duplo do discipulado

Qual foi o resultado desse discipulado tão intenso? Qual foi o impacto disso na igreja e no país? O movimento de grupos pequenos de Wesley gerou um novo tipo de cida- dão. Em 1777, ele descreveu como eram esses novos cidadãos:

Esse avivamento religioso se espalhou a tal ponto que nós e nem nossos pais co-

nheceram [

]

Multidões são convencidas de seu pecado e, pouco tempo depois,

ficam tão cheias de alegria e amor que, se estão no corpo ou fora do corpo, não saberiam dizer. E no poder deste amor, colocaram debaixo dos seus pés tudo o que o mundo oferecia, seja algo terrível ou desejável, mostrando evidências, du- rante as provas mais duras, uma boa vontade invariável e branda para com a hu- manidade, e todos os frutos da santidade.

Piedade e boa vontade, espiritualidade e serviço aos outros: esses eram os alvos da evangelização e do discipulado de Wesley; alvos que ele viu sendo cumpridos diante de seus olhos.

Wesley acreditava na perfeição cristã. Ele foi criticado e, creio eu, com razão, pela base teológica questionável desse ensinamento. O que não deve ser ignorado, contu- do, é que a busca pela santidade é um objetivo proposto pela Bíblia. Os efeitos posi- tivos dessa busca eram numerosos: ação social cristã, renovação da família, redução nas taxas de crimes e imoralidade e assim por diante. A ênfase na santidade pessoal e social evitou que o movimento de grupos pequenos de Wesley se tornasse restritivo e acomodado. Quando a santidade e a justiça são os alvos do discipulado, um cristão decidido pode ser formado, alguém que realmente poderá transformar tanto a Igreja quanto a sociedade.

Como usar a idéia de Wesley para tomar decisões

(a partir daqui o autor, Mark Shaw, segue aplicando suas próprias leituras pessoais)

Examinamos a crença de Wesley de que a Igreja não muda o mundo quando gera converti- dos, mas quando faz discípulos. Quatro convicções fornecem a base para essa grande lição: a necessidade de discipulado; a necessidade de grupos pequenos para discipulado; a necessi- dade de liderança leiga no discipulado; santidade e serviço como os alvos do discipulado. A questão com que nos deparamos agora é como colocar essas convicções em prática.

Uso n o 1: Faça dos grupos pequenos uma prioridade em sua igreja, organização e famí- lia. Hoje, existem grupos pequenos em todos os lugares. Os estudos bíblicos proliferam nos refeitórios das universidades e das empresas. Não importa o nome, seja grupo de aliança, grupo de comunhão, grupo de afinidade, grupo de apoio, grupo de recuperação, grupo jovem e grupo missionário, todos eles são parte importante das grandes igrejas. Algum tempo atrás, visitei a maior igreja dos Estados Unidos, com mais de 18 mil membros: a Comunidade Willow Creek de Barrington, Illinois. Casualmente era o domingo em que eles se concentravam no ministério de grupos pequenos da igreja. Muitas vezes pensei como uma igreja de 18 mil pes- soas pode formar uma comunidade e treinar discípulos. Descobri isso naquele domingo. Mais de 2500 grupos pequenos formam uma parte significativa da vida eclesiástica da Willow Cre- ek. Os cultos evangelísticos podem atrair pessoas, mas são os grupos pequenos que as man- têm firmes.

O princípio que se aplica às igrejas, de qualquer tamanho, é que os grupos pequenos são a melhor maneira de aumentar o número de discípulos.

Uso n o 2: Treine outros para fazerem o trabalho de discipulado. Ironicamente, enquanto as grandes igrejas em geral valorizam os grupos pequenos, muitas outras ainda têm restri- ções. Algumas igrejas que antes se concentravam em grupos pequenos acabaram se afas- tando desse modelo. Um dos motivos para isso foi a falta de liderança. Os grupos pequenos requerem esforço, exigem treinamento e acompanhamento constante. Wesley sabia bem dis-

so, mas estava disposto a pagar o preço. A grande tarefa de recrutar, treinar e guiar líderes de grupos pequenos compensava o esforço.

Embora existam vários modelos de grupos pequenos, um dos ministérios mais antigos é o da Igreja em Células, que oferece cursos regionais sobre a formação de grupos pequenos e de liderança para os grupos. Você poderá obter maiores informações em www.celulas.com.br. O ministério produziu e distribui seu próprio material. Além disso, os livros Edificando uma Igreja de Grupos Pequenos, de Bill Donahue e Russ Robinson (Editora Vida), A Igreja Em Células, de Larry Stockstill (Editora Betânia) e o material de David Kornfield sobre a implantação de grupos pequenos (Editora Sepal) podem ser um bom ponto de partida.

Uso n o 3: Adote a estratégia dos três "C''s: Celebração + Congregação + Células = Igre- ja. Algumas igrejas não valorizam o discipulado, alegando que seu foco é o louvor, a escola bíblica dominical, missões ou algum outro aspecto importante da vida da igreja. O discipulado parece ser visto como uma ênfase rival. Minha resposta é que as igrejas saudáveis não isolam apenas um elemento e negligenciam o discipulado. Pelo contrário, integram o discipulado na vida cristã em geral e qualquer ênfase adicional que a igreja possa ter. Uma igreja que se concentra no louvor, deveria conduzir essa ênfase ao âmbito do grupo pequeno e disciplinar as pessoas para a adoração. Igrejas com uma forte ênfase na doutrina deveriam ir além do púlpito e levar o discipulado ao âmbito do grupo pequeno.

Gosto da fórmula proposta por Peter Wagner para o crescimento saudável da igreja: Celebra- ção + Congregação + Células = Igreja. As celebrações são os cultos públicos da igreja. As congregações são os encontros de porte médio, como a escola bíblica dominical. As células são grupos pequenos, de seis a vinte pessoas, onde um relacionamento significativo pode ser desenvolvido e as pessoas podem ser verdadeiramente conhecidas e discipuladas.

Um bom exemplo da integração de celebrações, congregações e células é a igreja Peninsula Comunnity Chapel, em Newport News, Virginia. Sob a liderança do pastor Tom Kenney, que plantou essa igreja no início da década de 1980, cultos criativos e preocupados com as ne- cessidades das pessoas são apenas os aspectos mais visíveis da igreja. Os programas para crianças e a escola bíblica para adultos oferecem um outro tipo de ministério cristão, no âmbi- to da congregação. Cerca de 80% dos membros e freqüentadores regulares dessa igreja par- ticipam dos "grupos satélites", onde o estudo bíblico sério, a adoração criativa, a comunhão profunda e uma forte ênfase em missões ajudam a gerar cristãos equilibrados. Kenneye seu grupo de líderes se reúnem com membros de seus grupos regularmente para um discipulado mais intensivo. Kenney também reúne os líderes desses "grupos satélites" algumas vezes por ano para avaliação e treinamento. Todos os presbíteros da igreja também são líderes de um grupo pequeno. Juntamente com o ensino e missões, o discipulado é uma grande ênfase da Peninsula Comunnity Chapel, e está integrado com tudo o que a igreja faz.

Uso n o 4: Renove a evangelização em sua igreja, acrescentando o aspecto do discipula- do. Uma das peças que faltam na evangelização contemporânea é o discipulado. Wagner ressaltou a necessidade de uma evangelização que vai além das profissões de fé, chegando ao discipulado:

Nosso objetivo na evangelização e na igreja é, insisto, fazer discípulos. Levarmos uma pessoa a tomar a decisão de aceitar Cristo, aconselharmos e orarmos com essa pessoa é uma maneira importante de se fazer discípulos. Mas se a pessoa acaba não estabele- cendo um compromisso com o corpo de Cristo, normalmente validado pelo batismo e fre-

qüência a uma igreja, é pouco provável que possamos considerá-Ia um discípulo.

Durante anos estive envolvido em minha igreja local com um programa conhecido como "evangelismo explosivo". Os resultados foram animadores. Varias decisões por Cristo foram tomadas. Porém, quando olho para aquela experiência, vejo que não acompanhei os decidi- dos o suficiente. Embora alguns tenham alcançado a maturidade em sua vida cristã, outros ficaram perdidos. Se eu fosse começar tudo de novo, daria os seguintes passos: formar grupo de apoio para os novos convertidos; desenvolver relacionamentos pessoais de oração e pres- tação de contas para eles; integrar cada um em um grupo de comunhão onde seriam cuidados e alimentados espiritualmente. Gostaria de encorajá-Io, como líder, a pensar em maneiras de dar maior ênfase ao discipulado em seus esforços atuais para evangelização.

As práticas que apresentei para a lição de Wesley podem ser muito proveitosas para ajudar os membros de sua igreja a trilhar o caminho da maturidade cristã. “Essa é a grande obra”, es- creveu Wesley, “não apenas levar almas a Cristo, mas também edificá-Ias em nossa sagrada fé”.

Wesley convoca a Igreja para declarar guerra contra a graça barata. Dietrich Bonhoeffer expli- ca por que essa guerra deve ser travada:

A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a discipli- na de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem a confissão dos pecados, é a absolvi- ção sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a

A graça preciosa é o Evangelho que

Essa graça é preciosa porque chama ao discipula-

do, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem; e é graça por, assim, lhe dar a vida verdadeira.

cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado [

há de se procurar sempre de novo [

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Para um movimento evangélico que cresceu “fraco, egoísta e superficial”, a graça preciosa do discipulado é o verdadeiro caminho a ser seguido.