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Direitos_Humanos_na_Formação_Inicial_e_Continuada

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Direitos Humanos na Formação Inicial e Continuada

Prezado cursista, bem vindo ao nosso terceiro módulo! O nosso objetivo agora, como sugere o título, é pensarmos na articulação entre os processos de formação dos profissionais da educação, sejam iniciais ou contínuos, e a temática dos Direitos Humanos, aproveitando para discorrer de forma breve e não sistemática sobre alguns conceitos fundamentais que podem servir de inspiração para práticas cotidianas geradoras de uma convivência democrática mais justa e digna. Não ficará de fora a hipótese – nossa e de muitos – de que a Educação é instrumento privilegiado para difusão, promoção e garantia dos Direitos Humanos, especialmente se sua aplicação em experiências pedagógicas, formais ou não-formais, tiver baseada na noção de transversalidade, como ferramenta didática capaz de estimular o bom debate sobre identidade e diferença nas sociedades contemporâneas. A complexidade de suas conformações, salientamos, demanda uma abordagem profunda e profícua sobre o conceito de “cultura” (é só lembrarmos as lições do primeiro módulo), cuja compreensão de suas manifestações diversas e flexíveis é o elemento chave para uma proveitosa mediação da ação docente. Com este fim, inclusive (e dando continuidade ao apreendido com o segundo módulo), é que lançaremos mão de conteúdos presentes em documentos legais, tais como o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), especialmente o seu eixo orientador sobre “Educação e Cultura em Direitos Humanos”, e as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos. Não que consideremos isso como condição suficiente para a promoção dos Direitos Humanos na escola, no bairro, na cidade, na região e no país. Mas, certamente, porque tomamos o prévio conhecimento de tais documentos – pelos profissionais da Educação - como condição necessária para o início deste tipo de trabalho no chão da escola e de outros possíveis ambientes educacionais. Espaços nos quais sempre encontramos sujeitos capazes de fazer uma articulação inteligente entre o acúmulo do que é social e momentaneamente reconhecido como digno de ser levado em conta para a formação das gerações vindouras (e já em construção). E, também, as contradições que mereçam uma análise mais crítica e, quiçá, desenvolvedora de uma conceituação mais refinada (no sentido de adequada) às novas condições sociais que nunca cessam de chegar. Afinal, não é assim que se renovam as reflexões sobre os saberes, as práticas e as metodologias que fazem parte da longa
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além do fato de estar integrada. ou seja. das leis da política ou do sentido da história. acima. no que tange aos nossos Direitos Humanos. 2 . Em defesa da sociologia. 1976. Antes. metassocial. de forma obrigatória. Logo. o francês Alain Touraine2.história das teorias pedagógicas que inspiram o sempre renovado contingente de educadores que atuam no mundo? Não seria diferente. RJ: Zahar Editores. está potencialmente presente nos processos de formação inicial e continuada dos mais diversos tipos de profissionais da educação.. É como diz a canção (Como nossos pais) do cearense Belchior: “O novo sempre vem”. a resistência mais profunda a esta disciplina provém de nosso apego à crença de que os fatos sociais são dirigidos por uma “ordem superior”. Quer que se trate dos desígnios da providência. ao currículo do nosso Ensino Médio desde meados da década passada. grande parte das sociedades e grupos sociais tende a criar constantemente discursos teóricos desse tipo para definir a essência da ordem social existente – e que os beneficia! 1 Parte significativa dos educadores que trabalham na configuração deste curso de extensão são professores de sociologia e/ou disciplinas afins. Alain. 2 TOURAINE. De acordo com um dos maiores especialista na área. depois de banida a partir do início dos anos 1960. “quem gosta de miséria é intelectual”. já dizia o “orgânico” pensador popular e carnavalesco Joãozinho Trinta – de fazermos uma breve apreciação sociológica sobre a relação entre Direito e Educação.. Enfim. na suposição de que tal exercício possa ensejar uma compreensão mais proveitosa sobre estas duas dimensões tão importantes da nossa humana condição.. contraditoriamente. faz algum sentido também aparecer por aqui. sua dificuldade de reconhecimento) da sociologia – não é escassa. A literatura sobre o assunto acima exposto – a importância (e. porém. nos daremos ao luxo – afinal.. Um olhar sociológico sobre o Direito e a Educação Colocamos. portanto. a possível dúvida sobre o exercício proposto porque sabemos (por prática profissional1) que as imagens usuais sobre a ciência dita “sociológica” não é das mais favoráveis – apesar do inelutável fato desta disciplina compor a grade curricular de quase todos os cursos de bacharelado ou licenciatura das Ciências Humanas do ensino superior brasileiro (inclusive da Pedagogia).

o polonês Zygmunt Bauman3. mais compreensão do mundo que nos cerca a partir da configuração latente de um ‘eu’ mais completo (a famosa “consciência de si”). mas como uma das possíveis formas de dar andamento a nossas vidas e organizar as relações entre nós.. de defender “a liberdade e a inovação contra a tradição”. se ela se depara com tanta resistência. em alguns casos. O que nos interessa é salientar que o contato com as teorias e os métodos desta ciência particular pode contribuir.Por que isso [a resistência] acontece? Por que o estudo sociológico. também. de defenderem “a civilização contra a barbárie”. polarizados e antitéticos. 3 4 BAUMAN. da percepção do nosso lugar na sociedade – uma articulação. O pensar sociológico permite. o inferno deve estar mais que cheio. tido como já dado. Nessa perspectiva. Mas. para que passemos a lidar com questões que emergem não como a única. Aprendendo a pensar com a Sociologia. Zygmunt. nem de estilo ou mensagem. Tais tentativas de legitimação de poder encontram-se. não estamos aqui para fazer uma apologia da teoria sociológica. É como se a sociologia tivesse o potencial de abalar algumas confortáveis certezas da vida. MAY. insiste o autor polonês. costuma colocar em questão aquilo que é considerado inquestionável. detalhe não menos importante. mas entes complexamente conectados que se articulam em diversas e flexíveis mediações e relações sociais.. tem potencial imenso de difusão e impacto de suas obras. Afinal. Há fóruns e gente melhor para isso. Ou. Não há comparação aqui. Mas. como expressam os números de venda de seus principais escritos. por fazer perguntas que poucos querem se lembrar de fazer. sociedade e indivíduo não são mais tidos como elementos estanques. de forma ou conteúdo. como sentencia Bauman (o “Paulo Coelho” da sociologia mundial4). por favor. segundo antigo adágio popular: de boas intenções.. Touraine e Bauman não se referem apenas a sociedades “antigas” ou “tradicionais”. que afirmam “caminhar no sentido história”. 2010. Tim. é porque os que detêm o poder procuram legitimar sua posição dominante através da criação discursiva de uma ordem metassocial tida como “sagrada”. RJ: Zahar. 3 . nas sociedades e grupos sociais tidos como “modernos”.. nas suas respectivas áreas (um na literatura popular mundial. portanto. Apenas ousamos insinuar que os dois autores. potencialmente mais positiva entre liberdade individual e controle social. outro no campo das ciências humanas). e cuja simples menção acaba por provocar ressentimentos naqueles que detêm interesses estabelecidos. Assim. na opinião de outro importante pesquisador contemporâneo.

por simples força de vontade. Tim. para o que aqui nos importa. 27-28. 4 . o fim das diferenças.. e a perspectiva de que o diálogo informado pelo conhecimento (especialmente o científico) tem o poder de fazer com que o antagonismo dê lugar à tolerância. Enfim. alteridades. portanto. O que não significa determinar. Cit. Zygmunt. O poder da compreensão não é páreo para as pressões da coerção. tema do nosso curso: o direito de cada membro de todo e qualquer coletivo escolher e pôr em prática maneiras de viver de acordo com suas preferências. seu suposto avesso. melhor expressa na seguinte 5 BAUMAN.Tomamos. de servir a efetivos exercícios de conformação ativa de identidades e. só serão devidamente assegurados e civilizadamente engendrados se estes dispositivos forem canalizados através de mecanismos institucionais (sejam instituídos ou instituintes) plenamente democráticos e dialógicos. enfim.] [às] condições econômicas e políticas dominantes5. enfim. aliadas ao senso comum resignado e submisso [. a sociologia como “sintoma” da consolidação histórica da ideia de “indivíduo”. Capazes. mas salientar uma espécie de direito – expresso e impresso nas mais diversas proclamações dos Direitos Humanos. que se pode melhor entender a ideia de utilização de uma ciência social como “o poder dos sem poder”. assim como a boa resolução dos “naturais” conflitos que surgem da busca de igualdade de acesso a este mesmo direito. tendo adquirido atendimento sociológico. nem dos conflitos. Afinal. É neste sentido. Com os riscos e os benefícios subjacentes que podem derivar destas respectivas escolhas. desde sua gênese a sociologia colaborou para promover dois importantes “impulsos éticos” que surgiram com o nosso mundo moderno. Mas justamente o seu contrário: entender que a garantia do direito às diferenças. Op. dando a ele parte de sua forma e conteúdo: a premissa nietzschiana de que o que nos interessa no homem é aquilo que lhe é “demasiado humano”. MAY... o que desejamos enfatizar é que para além dos excessos de expectativas sobre seus impactos na sociedade. como o próprio Bauman lembra: Não há garantias de que. pp. alguém possa dissolver e destituir o poder das “árduas realidades” da vida. não para fazer a defesa de todo e qualquer individualismo.

. que pode e deve ser expandida a outras ciências congêneres. demanda a conformação e a formação de um número de funções sociais também cada vez mais amplo e diversificado. Massangana. promoção e garantia dos segundos. desfazer”6. PE: Fundação Joaquim Nabuco. à sociologia. por limite de formação e tempo. Pierre Bourdieu claro. p. tão ou mais importantes nos processos de formação inicial e continuada dos profissionais da área educacional. No modelo de análise que inaugura. por exemplo. A miséria do mundo. que visa relacionar Educação e Direitos Humanos (a razão de ser deste curso). a partir de suas preocupações sobre a crise civilizatória de uma sociedade extremamente individualista como a capitalista. 6 7 BOURDIEU. como pensava. precursor da “Economia Política”. É. Estamos fazendo menção ao trabalho de Émile Durkheim. que passa paulatinamente a dedicar-se – na França da virada do século XIX para o século XX – aos estudos sociológicos. 5 . 2010 (Coleção Educadores). cada vez mais diversificadas. debruçando-se (especial ainda que não exclusivamente) sobre questões relativas ao campo pedagógico e. armado deste saber. Link: <http://www. tornando-se o precursor da área de conhecimento até hoje denominada de “Sociologia da Educação”.afirmativa de outro eminente sociólogo contemporâneo.br/download/texto/me4657. Mas esta é uma noção. armado deste saber. Porém. Durkheim identifica como causa central da mesma o processo de expansão quantitativa e qualitativa da divisão social do trabalho. Petrópolis. um filósofo de formação original. Ed. conferir: FILLOUX. 735. Jean-Claude. já que o atendimento das necessidades humanas. Isto não é um fenômeno exclusivamente econômico. o mundo social pode. assim. talvez não seja sem relevância fazer uma breve referência ao que um dos mais importantes pioneiros da sociologia como disciplina acadêmica moderna elaborou sobre o assunto7. Referimo-nos aqui.gov. este infelizmente já falecido: “O que o mundo social fez. 1998. o mundo social pode. Para um estudo mais aprofundado. desfazer. para o nosso exercício específico.pdf>. Pierre.. e que neste módulo busca reforçar a hipótese de que a primeira é um vigoroso instrumento para difusão. RJ: Vozes. Recife. O que o mundo social fez. o filósofo britânico Adam Smith.dominiopublico. Émile Durkheim.

expressos. de ação difusa. Diferentemente. num direito repressivo e inteiramente penal. o que permite o reconhecimento mais fino e efetivo entre as partes e o todo. nos primeiros modelos de sociedade. como acontece com os fenômenos químicos. as “células”. tal como já haviam postulado. responsáveis pela tentativa de adequação entre as representações individuais e sociais. e o reconhecimento de que existe uma interdependência estrutural entre estes mesmos fenômenos sociais. mas também qualitativo para a compreensão e resolução dos problemas das sociedades contemporâneas. possível estudá-los a partir da positividade de um determinado saber empírico. nesses tipos de agrupamento humano. a existência de uma solidariedade cada vez mais orgânica. Ainda que de forma recíproca e. Não por acaso. logo “complexas”. na analogia biológica que o autor francês gostava de utilizar) tivessem cada vez menos condições de reconhecimento imediato do ambiente que o condiciona e o determina. composto de órgãos cada vez mais especializados que têm a função de fazer com que sejam respeitados os compromissos e contratos assumidos. sendo. por exemplo. a base da ordem jurídica é o direito de tipo restitutivo. Como nos demonstra Durkheim. portanto. Saint-Simon e Augusto Comte. nas sociedades mais desenvolvidas. não só um desafio quantitativo. a vigência de uma solidariedade mecânica. fazendo com que suas unidades mais básicas. Certo que em mais de cem anos foram produzidas inúmeras críticas a este tipo de interpretação. em articulação com “organismos” coletivos intermediários. numa outra analogia explicativa. que ficou conhecida pela alcunha de “funcionalista”. já no segundo. supostamente por dar mais ênfase aos aspectos de permanência e anomia nas análises sobre os processos 6 . assevera Durkheim.sobretudo. os indivíduos (podemos dizer. físicos e biológicos. Daí resulta uma de suas conclusões mais clássicas: há. Desafios estes que vão ser as bases de umas mais vigorosas interpretações sociológicas modernas. Montesquieu. um fenômeno “sociológico” que tem por base o contínuo distanciamento entre as partes e o todo de um mesmo “organismo” social. e que possui duas características fundamentais: o reconhecimento de que os fenômenos sociais são passíveis de serem investigados cientificamente. identifica-se que a base dos consensos se processa por intermédio de regulamentos mais simples e diretos. entre outros. portanto. não podemos esquecer. é como se nas sociedades mais “simples” tivéssemos segmentos mais similares e homogêneos. Temos.

porém. comuns a toda e qualquer formação societal. 1980 7 .de mudança social. ainda que forma muito breve e incidental. como também no do subsistema educativo. de um determinado grupo social desta mesma sociedade. Mas não sem antes insistir. conferir: FERNANDES. Ou. focaliza-se nos determinismos sociais necessários para a socialização de todo e qualquer indivíduo. ela não se restringe. aos desenhos e desígnios de um sistema educacional que se quer mais adequado para dar conta das contradições de uma sociedade de industrialização crescente. como vimos. ed. à análise das dimensões relativas ao aprendizado disciplinar imposto socialmente aos seres individuais. o que é ainda mais restrito. Sociedade essa que continua a sofrer mudanças quantitativas e qualitativas em suas divisões e especializações funcionais. 8 Sobre o tema. em estudos futuros de formação inicial ou continuada. como se tal ênfase pudesse ser lida como uma defesa imediata e ardorosa dos mecanismos de “conservação” do status quo de uma determinada sociedade. nos tópicos seguintes deste nosso terceiro módulo. aos que dizem respeito à emergência dos movimentos e das instituições promotoras dos chamados “direitos humanos” e. por complemento. nos fluxos e refluxos dos fenômenos de manutenção e/ou a mudança social. fator que contribui para colocar em xeque os mais diversos tipos de “solidariedade social” – que se compõem e recompõem na maré. Florestan. de que as proposições durkheimianas podem contribuir em muito para que melhor compreendamos alguns aspectos da nossa sociedade contemporânea. Mas não faremos esse balanço aqui8. Fundamentos empíricos da explicação sociológica. Preferimos deixar aos cursistas a liberdade de escolha sobre a validade ou não de. Mas dá também destaque – o que pode parecer contraditório – às “novas” necessidades que emergem das concepções em disputa sobre os “direitos humanos”. A. do ponto de vista pedagógico. Eis o que buscaremos fazer. Direitos humanos e escola nos limites de uma “educação moral” A sociologia de Durkheim. 4. De acordo com Filloux. Queiroz. São Paulo: T. tanto no plano do sistema social global. como faz o já citado Jean-Claude Filloux. Em especial. aprofundar seus conhecimentos sobre a vasta obra do exímio sociólogo.

8 . sem mentir a si mesmo. concretizar-se por mudanças políticas e sociais: “Caminha-se pouco a pouco para um Estado no qual os membros de um mesmo grupo social não terão mais nada em comum entre eles. a dignidade de cada indivíduo que pertence à espécie. intitulado “O Individualismo e os Intelectuais”.. Mas que “educação para direitos humanos” foi essa formulada – “implicitamente” – por Durkheim? Sua preocupação com os desafios de uma “sociedade em mudança” o fez identificar o fenômeno das novas representações coletivas que surgem e são traduzidas em novas ou em reformuladas instituições sociais – desde que. a não ser sua qualidade de homem. Cit. o próprio fato de que Durkheim formulou – implicitamente – o princípio de uma educação para os direitos humanos dá a seu pensamento uma atualidade incontestável. a confiança de Durkheim no desenvolvimento inelutável dos valores humanistas nas sociedades modernas pode. a não ser o próprio homem. ou os atributos constitutivos da pessoa humana em geral. E sua resposta deve estar no desenvolvimento de atitudes capazes de forjar o respeito à legitimação dos direitos. por aparente – repetimos – contradição. óbvio. define esse novo individualismo. O campo pedagógico – responsável pela teorização. implícita ou explícita. das atitudes do mestre no processo educativo: verdades ainda boas para serem ditas nos tempos atuais9. Não resta mais nada que os homens possam amar e honrar em comum. No quadro do moderno individualismo. à responsabilidade e à vocação dos mais diversos atores sociais. Durkheim sabe que o respeito à pessoa humana é. correspondam a novas necessidades deste mesmo meio social. nos deixar perplexos. como “valor supremo”. Sem dúvida. 37. como 9 FILLOUX. pois estamos confrontados a conflitos nos quais os direitos humanos são desacatados. o respeito pela “humanidade no homem”. com toda a evidência. E. da prática educativa – não está imune a este movimento. forjar outros deuses. Num outro nível. que deve. Um texto de 1898. pág. Eis aí como o homem se tornou um ‘deus para o homem’ e porque ele não pode mais. Em suma. Op.Uma leitura atual dos textos de Durkheim remete. particularmente as que se referem à educação moral. hoje. Porém. “daqui por diante”. o melhor antídoto contra os males dos seus excessos. poder-se-ia mostrar que ele orientou a pedagogia para uma tomada de consciência da importância da classe. a interrogações surgidas no presente. do meio escolar.

É esse o espírito de disciplina – pedagógica e grupal –. em comunicação permanente Caminha-se pouco a pouco para um Estado no qual os membros de um mesmo grupo social não terão mais nada em comum entre eles. três “elementos da moralidade” definem. ou em via de modernização. as metas que a sociologia da educação fixa para a escola. a não ser sua qualidade de homem. de forma deliberada. Uma sociedade. o aprendizado do “espírito de disciplina”. Cit. Na sociedade industrial moderna. pág. e para a qual se torna necessária a formulação de um novo tipo de Educação: uma educação moral. temos o desenvolvimento de uma teoria do Estado moderno enquanto “grupo de funcionários”. vivendo e aprendendo com ele. democrática e meritocrática. ao mesmo tempo em que põe o aluno em situação de pessoa criativa. Na mesma obra. Op. de transcendência não religiosa (lembremos que o sociólogo francês escrevia no contexto em que vigia um republicanismo laico) fundada pela. O necessário controle das pulsões e dos desejos egoístas e antissociais deve ser correlativo a um “ensino do grupo”. visando estimular na criança o sentido da vida coletiva. atento aos valores humanistas e à promoção de decisões transparentes. o da “vinculação aos grupos” e o da “autonomia da vontade”10. Uma educação. portanto. portanto. respeitando sua autonomia própria. 23. às regras de uma sociedade que coloca o culto à pessoa no centro de seus valores. Porque de tipo “moral”? Ora. qualificada pelo próprio Durkheim como “socialista humanista”. ao mesmo tempo. a socialização da criança deve comportar aprendizados nesses dois níveis. autônoma. 9 . mas não restrita à razão. em suas formas e seus conteúdos. o indivíduo pode regular os seus insaciáveis “apetites” e passar a operar num estado médio de equilíbrio. porque não pode ser apenas “intelectual”. ou seja. cada consciência individual tem em si algo de divino e encontra-se marcada por um caráter que a torna sagrada e inviolável para os outros”. Não deixa de ser uma profissão de fé racionalista. Émile Durkheim com os outros grupos que constituem a sociedade.cada um de nós encarna algo da humanidade. Assim. que vise ensinar os “alunos” a se submeterem. A hipótese de Durkheim é que apenas em grupo. Um Estado que deve estar.. que pode dar os contornos de combate ao espírito de anarquia potencialmente vigente no plano 10 FILLOUX.

hobbesiano) dela passa a depender sua própria existência. Dois papéis. e não há mais nada. Ele precisa ser compreendido. 10 . da suposição de um viés autoritário na concepção educativa durkheimiana. ao dar forma a uma determinada concepção “moral” de mundo. A educação moral. refreavam violentamente os desejos e as ambições. É. um grande desafio para os projetos. para o interesse do próprio indivíduo.. já que (num raciocínio. e do corpo de mestres como mestres do grupo social. nas sociedades organizadas sobre outras bases. portanto. Petrópolis. E que tipo de relação mestre-aluno se engendra neste tipo de educação que se quer “moral”? No trato dos meios pedagógicos de sua concepção educacional. Uma proposição.social. sentido e desejado por todos aqueles que se propõem o dever de realiza-lo. 42. O “ideal”. Durkheim salienta os papéis do indivíduo mestre de outros indivíduos. na ausência de uma educação moral que seja capaz de despertar no sujeito o desejo de autocontrole. obriga-se a um constante refazer-se e reorganizar-se. 11 DURKHEIM. podemos dizer. Isso porque caíram as barreiras convencionais que. sobretudo. nada corporativa. sobretudo. que possa exercer essa ação reguladora11. Na concepção durkheimiana. na sua função de operar como um meio indispensável para a promoção da cooperação regular. portanto. p. que devem ser adequadamente interpretadas pelo sistema escolar. RJ: Vozes. Émile.. uma mesma função: a promoção das mudanças demandadas pelas novas necessidades sociais. percebemos que há em sua reflexão-proposição uma exigência constante de reconstrução do próprio meio escolar. a não ser a disciplina moral. Ao contrário. este tipo de educação é “útil” não apenas para o interesse da sociedade. programas e propostas de formação inicial e continuada dos educadores profissionais. insinua Durkheim. Eis. nas sociedades democráticas como a nossa que é indispensável ensinar à criança essa moderação salutar. pois. 2008. não se decreta. já que este. Ela é fundamental.

como canal estratégico capaz de produzir uma sociedade igualitária. Estamos exagerando? A julgar pelo que veremos. A educação e a cultura em Direitos Humanos visam à formação de nova mentalidade coletiva para o exercício da solidariedade. 150. um trecho do próprio documento. nas sociedades democráticas que é indispensável ensinar à criança essa moderação salutar. Link: <http://portal. o respeito à pessoa humana é. segundo a sua leitura.br/sedh/pndh3/pndh3. realmente. promoção e garantia dos Direitos Humanos. extrapola o direito à educação permanente e de qualidade. que o teórico em foco é É. entre outros elementos: a) a apreensão de conhecimentos historicamente construídos sobre Direitos Humanos e a sua relação 12 Brasil. por complemento. Vejamos. A educação em Direitos Humanos. Nesse sentido. mais uma vez – contradição.pdf>. não há exagero em nossa última afirmação. Trata-se de mecanismo que articula. abaixo. podemos dizer. do respeito às diversidades e da tolerância. no qual. por aparente – repetimos. 11 .gov. justiça e igualdade12. Diretrizes para uma educação em Direitos Humanos que parece “moral” Uma leitura atenta do Eixo Orientador V do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) revela que. parece-nos que não. Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). As expectativas sobre os seus efeitos. o melhor antídoto contra os males dos seus excessos. ao menos. Brasília. Émile Durkheim um dos precursores do ideal de Educação como instrumento privilegiado para difusão. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. SDH/Pr. sistematizada) por Durkheim nas premissas e ações do Estado brasileiro no campo educacional. promovendo a adoção de novos valores de liberdade. 2010. seu objetivo é combater o preconceito. o documento deixa ver que “permanece” muito da concepção educacional inaugurada (ou. sobretudo. Como processo sistemático e multidimensional que orienta a formação do sujeito de direitos.Lembremos que Durkheim faz toda essa reflexão no cenário de vigência do moderno individualismo. p. Ainda que não a comprove. não são menos ambiciosas. a discriminação e a violência.mj.

12 . decerto. Op. de consonância entre o pensamento do autor francês e a ênfase que o PNDH-3 dá à educação básica na formação dos infantes como “sujeitos de direitos”. do que demonstrar a validade do núcleo fundamental da interpretação durkheimiana sobre os “imperativos éticos” ainda necessários para a constituição de uma sociedade mais republicana e democrática. Conhecer o diferente. tais como: o estudo da temática de gênero e orientação sexual e. regional e local. O que urge de diferencial vê-se nas temáticas contemporâneas ao processo de desenvolvimento social em que se encontra o nosso país. transversalização nos projetos acadêmicos dos diferentes cursos de 13 14 Op. São fortes os indícios. da proteção e da defesa dos Direitos Humanos. é perder o medo do desconhecido. nacional.. Cit. formar opinião respeitosa e combater o preconceito. para o qual o programa prevê a necessária transformação “curricular”. nesse sentido. imigrantes. c) a formação de consciência cidadã capaz de se fazer presente nos níveis cognitivo. social. o sentimento de convivência pacífica. ético e político. linhas de pesquisa. No que tange ao ensino superior. nesse caso. p. b) a afirmação de valores. desde a mais tenra idade. fortalece. e) o fortalecimento de políticas que gerem ações e instrumentos em favor da promoção. atitudes e práticas sociais que expressem a cultura dos Direitos Humanos em todos os espaços da sociedade. Cit. bem como da reparação das violações13. com a inclusão da educação transversal e permanente nos assuntos ligados aos nossos atuais desafios no campo dos Direitos Humanos. 150. as metas previstas (a inclusão dos Direitos Humanos. entre outros. esteja-se priorizando as populações historicamente vulnerabilizadas.com os contextos internacional. com deficiência física ou mental. áreas de concentração. Isso pode ser depreendido da proposição metodológica abaixo que. ainda que.. d) o desenvolvimento de processos metodológicos participativos e de construção coletiva. por meio de diferentes modalidades de disciplinas. p. das culturas indígena e afro-brasileira entre as disciplinas do ensino fundamental e médio. 150. desde cedo. Nossa assertiva visa menos desconsiderar os avanços que vêm conseguindo o Estado e a sociedade brasileira. utilizando linguagens e materiais didáticos contextualizados. às vezes arraigado na própria família14. não faria Durkheim corar: A troca de experiências de crianças de diferentes raças e etnias.

PASSOS. 15 16 Op. configurando-se. assim.. sindicatos. especialmente entre os agentes do sistema de Justiça e segurança pública.). SEMERARO. clubes. entre outros. as premissas na encontramos A educação e a cultura em Direitos Humanos visam à formação de nova mentalidade coletiva para o exercício da solidariedade. 2006. Conferir. L.. v. têm sido objeto de inúmeros estudos da academia brasileira. 13 . limites e potencialidades desse tipo de relacionamento. ONGs. PNDH-3 consideração que o PNDH-3 faz da “educação não formal” na promoção dos Direitos Humanos. relações étnico-raciais e de orientação sexual na prática de todo o serviço público. do respeito às diversidades e da tolerância. p. Cuiabá: EdUFMT. O documento prevê. 37-48. a ser orientada pelos princípios da emancipação e da autonomia. que ultrapassa porém. o estabelecimento de diálogo do nosso Estado e do seu sistema formal de ensino com o “vasto leque brasileiro de movimentos populares. Por complemento. ainda no que tange às nossas especificidades.graduação e pós-graduação. iniciativas tidas como fundamentais para a consolidação do nosso “Estado Democrático de Direito”. A. bem como em programas e projetos de extensão) também podem ser consideradas como uma atualização das preocupações durkheimianas sobre os processos formativos a que deveriam ser submetidos os agentes educativos de sua “educação moral”. neste sentido. . voluntariado e educação: os caminhos giddenianos para a privatização do público. por exemplo: OLIVEIRA. é interessante notar que não se descarta. como um processo de sensibilização e formação da consciência crítica. Educação. Cit. G. cujos resultados não podem deixar de ser considerados para. Na especificidade do caso brasileiro dos tempos atuais. Algo durkheimianas. não é sem importância a previsão de recortes de gênero. 151. entidades empresariais e toda sorte de agrupamentos da sociedade civil que desenvolvem atividades formativas em seu cotidiano”15. especialmente no que tange à proteção do direito à vida e à dignidade da pessoa humana. As contradições. Marcos Marques de. portanto. nos programas de qualificação profissional e.. fronteira política. In: TORRES. p. igrejas. vale ressaltar. (Org. a avaliação e o ajuste desta modalidade de intervenção incentivada pelo nosso Estado nas últimas décadas16. Terceiro setor. a inclusão da temática de Educação em Direitos Humanos nos programas de capacitação de lideranças comunitárias. ao menos. na alfabetização de jovens e adultos.

br/index. assim como na estruturação de ambientes escolares dotados das mínimas condições para os exercícios de ensino e aprendizagem. o acesso à Educação Básica. claro. Claro que permanece a relevância do aporte de valores e princípios de valorização da diversidade. Essa luta. torne-se realidade. a sociedade civil e organismos internacionais envolvidos na temática. Sem dúvida. isto é um bom ponto de partida para a proposição de práticas que transformem à escola num ambiente propício à compreensão e desenvolvimento dos direitos humanos. aos educadores de escolas do ensino fundamental.gov. Sem isso. de reorganização curricular. a igualdade e a fraternidade) e a consequente conformação de um novo horizonte cultural capaz de 17 Conferir: <http://portal. é que este novo documento possibilite algo mais do que a simples oferta. O que se espera. não deve estar desarticulada dos possíveis e factíveis exercícios de elaboração de projetos político-pedagógicos.mec. agora. Representa. não traz mudanças substantivas na direção política que elencamos acima.A homologação. à violência. de referenciais importantes para promover uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos. de inovação dos modelos de gestão e avaliação. além da prometida ampliação da oferta de material didático-pedagógico sobre o tema. que envolveu educadores. e como condição primeira para o exercício pleno dos Direitos Humanos. da produção de novos materiais didáticopedagógicos e dos programas de formação inicial e continuada dos profissionais da educação. médio e superior.php?option=com_content&view=article&id=17810&Itemid=866>. minimamente. assim como de conteúdos que permitam o repúdio ao racismo. e no já citado PNDH-3. na ausência de políticas de valorização docente e de outros profissionais da educação. especialmente se confirmadas as expectativas sobre o trabalho consultivo do Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos (CNEDH). 14 . especialistas na área. documento fruto de um amplo e participativo processo conduzido pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). inclusive. de 2005. das Diretrizes Nacionais de Educação em Direitos Humanos17. Mas a estes instrumentos e mecanismos devem se associar a medidas efetivas de políticas públicas que façam com que. à homofobia e quaisquer outras formas de discriminação. concebido como direito inalienável de todos os cidadãos brasileiros. poucos resultados serão obtidos. em maio do ano passado. demandas antigas que já estavam presente no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Essas são ações que se postam como necessárias e urgentes para assegurar na prática os fundamentos clássicos dos Direitos Humanos (a liberdade.

6% no campo. se não é uma condição suficiente. No campo. Os dados são do Censo Escolar de 2005 (que tal um exercício de atualização?!). não passam de 0. por fim. é uma condição necessária para que o direito à igualdade de acesso a uma escola de “qualidade social referenciada”. Com base no que foi brevemente exposto aqui.5%. por exemplo.1% no campo. centro de nossa preocupação nesse módulo. porém. os preconceitos. o que se poderá esperar de suas possíveis contribuições para a concretização de uma real Educação em Direitos Humanos? Eis. em alguns casos. no campo esse índice não passa de 53.3% na cidade e 2. os dados são também “inspiradores”: enquanto na área urbana o índice de profissionais com formação docente atuando no ensino fundamental com nível superior chega a 87%. Sala de vídeo: 40. colocar a seguinte questão: sem uma mudança efetiva na estrutura material e humana das instituições de ensino existentes no Brasil18.2% das escolas urbanas brasileiras possuem bibliotecas. um “imperativo ético” diante do qual. E no que tange à formação.1%. como quer o PNDH-3.2% possuem laboratórios de informática. E fica aqui uma última dica: o conhecimento estatístico das condições de ensino no Brasil. No campo. que apenas 48. na nossa hipótese. resta-nos. 19. mas não dão conta de mostrar o nível dos desafios que estamos apontando.5% na cidade e 1. ampliar as “desigualdades”. Na cidade. Na cidade.7%.6% nessa situação. os dados do meio urbano chegam à quase 100%. respectivamente. privilégios e distorções sociais ainda presentes em nossa sociedade. No campo. Com internet: 43. não passam de 71. E quanto às redes de energia e saneamento básico. 53% das escolas possuem quadras para a prática esportiva. são apenas 6. No campo. A título de ilustração. se estabeleça por meio de políticas públicas justas. já sabemos. isto é. “focadas” nos problemas diferenciais para garantir a desejada “universalidade”. os agentes e grupos sociais preocupados com a formação das futuras gerações de brasileiros não podem esmorecer. Afinal. feito pelo INEP/MEC. Até mais! 15 .1%. são 5.enterrar. cabe mencionar.5% e 84. um tratamento supostamente “igualitário” pode. pois. definitivamente.

RJ: Vozes. RJ: Zahar. 2010 (Coleção Educadores). Jean-Claude. A. voluntariado e educação: os caminhos giddenianos para a privatização do público. G. Em defesa da sociologia. FILLOUX. Cuiabá: EdUFMT. FERNANDES. PE: Fundação Joaquim Nabuco. Brasília: SDH/Pr. ed.. Queiroz. Émile Durkheim. In: TORRES. RJ: Zahar Editores. 1998. OLIVEIRA. 16 .REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAUMAN. Alain. Petrópolis. TOURAINE. Massangana. DURKHEIM.. Émile. Recife. Zygmunt. (Org. MAY. Educação. Pierre. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil. 1976. Petrópolis. fronteira política. PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS (PNDH-3). PASSOS. A miséria do mundo. Aprendendo a pensar com a Sociologia. 1980. Ed. Florestan. L. BOURDIEU. A educação moral. 2008. Terceiro setor. 2010. SEMERARO.). RJ: Vozes. A. Fundamentos empíricos da explicação sociológica (4ª. Marcos Marques de.) São Paulo: T. 2006. Tim. 2010.

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