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Yazbek_A articulação entre teoria e intervenção social nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault

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ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N.

3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins

A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault The articulation between “theory” and “social intervention” in Jean-Paul Sartre’s and Michel Foucault’s philosophies

André Constantino Yazbek∗ Doutorando em Filosofia – PUC/SP Professor Colaborador da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP Correio eletrônico: acyzk@hotmail.com Resumo: A partir de uma breve caracterização do horizonte histórico-filosófico dos anos 60 e 70, o presente artigo pretende explicitar a articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, bem como a contraposição de dois modelos de atuação intelectual resultantes deste imbricamento. Palavras-chave: universal”. Abstract: From a brief description of the 60’s and 70’s historical-philosophic horizon, this article aims to explore the articulation between “theory” and “social intervention” presented in Jean-Paul Sartre’s and Michel Foucault’s philosophies, as well as the contrast between two models of intellectual performance as a result of this joint. antropologia-filosófica – “intelectual específico” – “intelectual

André Constantino Yazbek é mestre e doutorando em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). No âmbito do programa de bolsas concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o autor acaba de realizar um estágio de doutorado junto a École Normale Supérieure (Paris/France) e ao Institut Mémoire de l’Édition Contemporaine (Cahen/France). Atualmente, é professor colaborador da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e professor substituto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: acyzk@hotmail.com

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2 1 2 . de uma crise da própria modernidade (Ewald. Destarte. faz de sua filosofia o ponto de inflexão fundamental para a “pós-modernidade” (Idem: 124). Traduzida pelo projeto das Luzes e por sua respectiva conceitualização na sistemática hegeliana. e. 1984: 93). philosophical-anthropology – “specific intellectual” – “universal Introdução Se os anos 1960. a razão moderna deverá ser submetida à crítica radical: tanto na ordem do pensamento quanto na ordem das reivindicações político-sociais concretas. porém. foram marcados por uma considerável desordem no pensamento. no horizonte histórico dos sixties. Assim. sobretudo nos anos que se seguiram a agitação característica dos “événements” de Maio de 1968. é preciso que se reconheça aqui o sintoma mais agudo de uma crise do universal. da reivindicação da particularidade – compreendida como esfera de resistência frente a uma racionalidade que pretende destinar a cada um sua identidade e localidade universais (Ewald. com isto. o “sujeito “Antes de tudo. este “sujeito” ocidental – não mais suficientemente encontrará referenciado à pelo universal de da Ilustração uma – se frente exigência premente realizar nova experiência de si mesmo. a modernidade filosófica consiste na promoção de “uma razão centrada sobre o sujeito”1. Hegel descobre o princípio dos novos tempos: a subjetividade” (Habermas. trata-se agora. Nietzsche opta pela segunda. ou submeter a razão centrada no sujeito a uma crítica imanente ou abandonar por completo o programa de uma “dialética do esclarecimento”. 1984: 92). 2002: 25). perfazendo o ponto de culminância de um processo cujo início poderia ser demarcado em Nietzsche2. isto é.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault Key-words: intellectual”. Diante de duas alternativas. Doravante. como dirá François Ewald.

Até então. Desde sua tese complementar sobre a antropologia de Kant (1960). em olhar retrospectivo e como que a procurar um eixo de organização de seu 3 . Vejamos mais de perto.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. sob o ponto de vista da humanidade como um todo. Neste horizonte histórico-filosófico – em que os combates na ordem do pensamento engendrarão certas compreensões acerca da intervenção político-social efetiva –. produzindo um choque que fará ecoar o estrondo de duas gerações diversas da filosofia francesa contemporânea. os itinerários de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault hão de se cruzar. era um princípio de avaliação para todo o pensamento com pretensão filosófica. 1961: 128). apoiandose. Foucault é um das figuras mais representativas da crítica à modernidade filosófica. o autor há de considerar urgente a tarefa de colocar um “ponto final na proliferação da interrogação sobre o homem”: no campo da filosofia. sobretudo na recuperação da démarche nietzschiana. o “pensar o universal”. a trajetória da questão “Was ist der Mensch?” deve se completar na resposta que a recusa e desarma – “der Übermensch” (Foucault. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins ocidental” viverá a sua crise sob o signo desta reivindicação da “diferença”. diz-nos Foucault nas páginas finais de sua tese complémentaire. Foucault seguirá a risca o desiderato expresso em sua tese – e ao final de sua própria trajetória pessoal. No que concerne a problemática do sujeito no interior da filosofia contemporânea. Entre Sartre e Foucault No panorama francês das décadas de 1960 e 1970.

mas sim a questão do “sujeito” em sua relação com a “verdade”. o filósofo inaugura a década de 1960 com seu esforço de recuperação da dialeticidade do próprio “sujeito”. por seu turno. que Foucault promoverá este espécie de “giro de problematização” em sua obra. se até os anos 1976 a sexualidade interessa a Foucault na medida em que constitui um referencial privilegiado – não o único. o que está em jogo é nada mais nada menos do que a condição de um sujeito ético a partir de uma determinada na relação consigo. Neste sentido. nos anos 1980 o que o autor nos oferece não será mais o sexo como instância reveladora de “poder”. Assim. Em suma. reconhecendo a dialética como a “lógica viva da ação” (Sartre. tomando-o como elemento irredutível para a compreensão da inteligibilidade da história. Como se sabe. Sartre pretende que o homem e seu agir sejam 4 . 2001a: 1042). o silêncio editorial de oito anos que separam A vontade de saber (1976) dos outros dois volumes da História da sexualidade – O uso dos prazeres e O cuidado de si – é exemplar: eles testemunham uma longa maturação intelectual que se traduzirá por um aprofundamento da “démarche” foucaultiana com relação à “problemática do sujeito”.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault próprio trabalho. parece representar à época a antítese do projeto foucaultiano: com a sua Critique de la raison dialectique. Ora. tomado como ponto de partida e elemento irredutível da investigação filosófica. 1960: 133). portanto – daquilo que ele descreveria como sendo a grande empresa de “normatização” no Ocidente moderno. é na esteira de um aprofundamento da crítica ao sujeito moderno. o filósofo não hesitará em afirmar que não é o “poder” mas sim o “sujeito” que constitui o tema geral das seus investigações (Foucault. Jean-Paul Sartre.

que o concreto é história e a ação é dialética” (Sartre.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Sob os auspícios da Critique sartriana. como “lógica da liberdade” (Idem: 156). 1960: 24). Sartre acolhe a “antropologia” ao preço de torná-la ponto capital da investigação filosófica: “Considero que o campo filosófico é o homem. que qualquer outro problema só pode ser concebido em relação ao homem” (Sartre.. isto é. enfim. “/. resta ao filósofo retirar o indivíduo da órbita da pura e simples abstração – marca do “idealismo academicista” francês do pré-Guerra –. Deste modo. a ontologia estabelece a necessidade de uma antropologia fundada sobre a “historialização”: atravessado por certas significações essenciais.. Situado neste horizonte e tendo perdido a inocência que permitiria (re) organizar as práticas humanas a partir de um fundamento que as justificasse no âmbito da totalidade positiva da história. Sartre reafirma na Critique aquilo que constitui a pedra angular de L’être et le néant. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins “redescobertos” no próprio cerne do marxismo – tomada como disciplina auxiliar. 2004: 107). o que significa que sua dinâmica se inscreve na “lógica da ação criadora” do sujeito (práxis). dirá Sartre. as prerrogativas de um humanismo no interior do qual o “sujeito” encontra seu lastro ontológico-existencial. o “devenir” é dialético. cabe ao existencialismo justamente a tarefa de “/. de fazer face a história no momento mesmo em que ela refluía violentamente sobre aquela geração de pensadores franceses da primeira metade do século XX: em plena a Guerra e a Ocupação. ou seja. que se encarnam nas tensões da História. a saber. Tratava-se. então. Feitas todas as contas./ engendrar no âmbito do marxismo um verdadeiro conhecimento compreensivo que reencontrará o homem no mundo social e o acompanhará em sua práxis” (Idem: 111). reinventando-o no cerne de uma possível síntese entre a irredutibilidade 5 ../ compreendíamos..

Sartre persevera no interior de uma “filosofia do sujeito”. o fato de que em já na introdução de uma obra dedicada a explicitação de seu próprio “método” Foucault nos dê o tom de sua dissonância com relação às tentativas contemporâneas de salvaguardar a “soberania do sujeito”: Proclamaremos que a história foi assassinada a cada vez que nos depararmos – sobretudo quando se trata do pensamento. o problema de Foucault poderia ser formulado nos seguintes termos: como conseguir mais do que aquilo que nos permite uma filosofia da consciência – como o existencialismo – sem com isso cair nas aporias do marxismo? (Veyne. Denunciaremos lá um atentado contra os direitos imprescindíveis da história e contra todo o fundamento de toda a historicidade possível. 1969: 23/24). É sintomático. 6 . e ainda de acordo com Veyne. mas sim a desaparição desta forma de história que. 1978: 383). em segredo porém de maneira completa. Mas não nos enganemos: o que se lamenta de modo tão intenso não é exatamente a desaparição da história. da descrição das séries e dos limites. das idéias. Nesta medida. o próprio o método arqueológico de Foucault seria uma reação contra a onda fenomenológica francesa do pós-Guerra. das noções de limiar. emprestando ao seu pensamento as vozes múltiplas do teatro.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault da consciência individual e a relatividade histórica – para tanto. da literatura e do editorial político. referia-se à atividade sintética do sujeito (Foucault. de ruptura e de transformação. ou dos conhecimentos – com uma análise histórica que faça um uso muito evidente das categorias da descontinuidade e da diferença. faz-se necessário resguardar o caráter concreto do universal e a presença do universal no particular. portanto. Por esta via. A questão do “humanismo” A se crer nas palavras de Paul Veyne.

ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Na seqüência da enorme repercussão da obra. a elas não podemos opor senão um riso filosófico – quer dizer. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins A “história contínua”. que não querem mitologizar sem desmistificar. de uma certa parte. Em meio a estas entrevistas – estamos 7 . seguem-se diversas entrevistas. por vezes de modo extremamente claro. aos que querem partir dele para obter o acesso a verdade. E não devemos deixar de lembrar que a obra citada foi. se debruça sobre a busca das “origens”.. em que cada qual pretende demonstrar. o espaço onde se situa o seu próprio pensamento. por conta do enorme “sucesso” de Les mots et les choses. silencioso (Foucault.. que provocaria enorme reação por conta do célebre anúncio da “morte do sujeito” – afirmado no contexto de uma crítica ferrenha endereçada às “analíticas da finitude” (a fenomenologia e a sua derivação existencialista. mas igualmente o marxismo): A todos aqueles que ainda querem falar do homem./o tempo é concebido em termos de totalização e as revoluções são apenas tomadas de consciência. da eclosão de uma intensa polêmica entre as personalidades de Sartre e Foucault. portanto. é o “correlato indispensável à formação fundadora do sujeito” – nela. e que. em grande parte. de seu reino ou de sua libertação. por outro lado. motivada pela tentativa do autor em fazer face aos mal entendidos e à polêmica gerada por uma obra anterior. que não querem pensar sem no mesmo instante pensar que é homem quem pensa. Les mots et les choses (1966). reconduzem todo o conhecimento às verdades do homem ele próprio. a todos aqueles que. É a ocasião. “/.” (Idem: 21/22). a todas essas formas de reflexão tortas e deformadas. diz-nos Foucault. aos que ainda colocam questões sobre o que é o homem. aos que não querem formalizar sem antropologizar. aquela que se encontra nas antípodas do método arqueológico. 1966: 353/354).

e engajado de tal modo que ele não pode deixar de destruí-las para então constituir novas estruturas que. Mas é característico que ele não pudesse deixar à margem tudo aquilo que faz parte da cultura contemporânea: lógica. pode-se dizer o seguinte: o humanismo. Aquilo que ignora o homem é a razão analítica contemporânea. que vimos nascer com Russel e que aparecerá em Lèvi-Strauss e nos lingüistas. /. 2001b: 569/570). tornando a fechar um parênteses que se inicia com Hegel. O homem recebe as estruturas – e nesse sentido pode-se dizer que elas o fazem. arremata o autor. o condicionarão novamente” (Sartre..André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault ainda em 1966 –. Por outro lado./ Ora. porque ela é uma filosofia da alienação e da reconciliação. Mas ele as recebe enquanto está engajado na história. por seu turno. 1966: 90/91). porque ela é uma filosofia da prática humana. formalismo (Foucault. caracterizando-a como o “magnífico e patético esforço de um homem do século XIX para pensar o século XX” – nesta medida.. Sartre é o “último dos hegelianos”: Grosso modo. acabará por denunciar aquilo que seria uma providencial recusa da história nas linhas mestras de Les mots et les choses. Foucault certamente não deixará de lançar seu olhar sobre a Critique de la raison dialectique. Ela o convoca por razões diversas: porque ela é uma filosofia da história. me parece que ao escrever a Critique de la raison dialectique de algum modo Sartre colocou um ponto final neste episódio da nossa cultura. Ele fez tudo o que pode para reintegrar a cultura contemporânea (quer dizer. podemos dizer que há estases da história que são as estruturas. lingüística. Se quisermos. a antropologia e o pensamento dialético estão ligados. enquanto que a dialética. da história. convoca acessoriamente o humanismo. ela. Essa razão analítica é incompatível com o humanismo. posto se elide justamente o agente da práxis. da sociologia) à dialética. e. Feitas todas as contas. da economia política. o homem é o produto das estruturas apenas na medida em que ele as ultrapassa. em sua tentativa de salvaguardar as prerrogativas do sujeito – afirmando que a práxis se efetiva lá mesmo onde poderia se esperar a sua compressão pelas “estruturas”3 –. as aquisições da psicanálise. para Sartre a obra foucaultiana se configuraria 3 “Para mim. teoria da informação. 8 . tampouco Sartre deixará de se posicionar frente a Foucault.

traduzida pelas filosofias do sujeito. bem entendido. também o de Sartre: trata-se do “descentramento do sujeito” enquanto ponto de partida da reflexão (Foucault. na possibilidade ou não de se admitir um “universal antropológico”. e não obstante o seu “marxismo”. um “sujeito fundador”. humanista e combativo: /.. Cada uma destas camadas define as condições de possibilidade de um certo tipo de pensamento que triuinfou durante um certo período.. o problema central se refere a um certa “afirmação do humano” que./ uma geologia: a série de camadas sucessivas que formam o nosso sólo. Mas Foucault não nos diz aquilo que seria o mais interessante. e mesmo de tecer elogios ao seu dito “estruturalismo marxista” – enquanto “estruturalista”. quer dizer.. em especial. Assim./..ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. encabeçado por Lévi-Strauss e composto por Lacan e pelo próprio Foucault. parece um elemento crônico da filosofia 9 . Note-se bem: antes de tudo. 1966: 87)./ isso que Foucault nos apresenta é /.. a história. tem como ponto de convergência algo que fere de modo indelével o “humanismo” em geral e. a saber.. Prova disso é o fato de que o refluxo do marxismo nos anos 60. por exemplo. a primazia daquilo que se poderia chamar de um “substrato do humano” – ou da “existência” – que se jogam as cartas decisivas nessa batalha. Althusser se encontra em perfeita harmonia com um seleto grupo que. não impedirá Foucault de apreciar a obra de um pensador como Louis Althusser. e é precisamente isso que ele recusa /. trata-se de uma disputa ao redor do “humanismo” – a ser entendido aqui em sentido lato: é lá. 2001c: 871). Para tanto. é o marxismo que é visado (Sartre. como cada pensamento é construído a partir destas condições e como os homens passam de um pensamento a outro. Por detrás da história. seria preciso fazer interferir a práxis. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins como a “última barreira” que a burguesia poderia erguer contra o marxismo – este sim.

no contexto de sua contraposição a Sartre. a saber. “impregnando” o marxismo de ambos. e como conseqüência dos ataques dirigidos à primazia do “sujeito”./ é o sistema de poder mesmo que produz a unidade e a generalidade das lutas parciais”) (Foucault. Neste bojo. Foucault também procura efetuar a liquidação de um outro legado tipicamente sartriano. Destarte. estaríamos agora em face do intelectual específico – aquele que se debruça sobre os “pequenos eventos” que subsistem silenciosamente e que permitem à reflexão realizar o “diagnóstico” atento das erupções de forças inéditas no seio da sociedade (até porque.. é o próprio papel do intelectual que será posto na berlinda.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault francesa desde Descartes. O intelectual Portanto. 2001d: 10 . Mas trata-se. de uma disputa que se joga no campo de um diagnóstico da própria atualidade filosófica – cuja pretensão é a de estabelecer até que ponto um “universal antropológico” continuaria a dar conta das novas complexidades de uma contemporaneidade cuja marca é a da “reivindicação à diferença”. ao invés do intelectual universal. ainda. o do intelectual como consciência moral e política de seu tempo.. da ótica de Foucault “/. E é nesta medida que Foucault contrapõe o marxismo de Althusser ao marxismo impregnado pela fenomenologia e pelo humanismo – e não é preciso muito esforço para encontrar aqui um retrato fiel daquilo que significava à época a tentativa de Sartre para promover em sua Critique a conciliação do “marxismo” com o “existencialismo”: a matriz existencialista carrega consigo tanto a fenomenologia quanto o cartesianismo. tipicamente sartriano.

.. É sob este diapasão que. não traduzirá. /. da ‘consciência’. não aplicará uma pratica : ela é uma prática. a importância da lutas pontuais frente ao contexto cada vez mais fragmentário da contemporaneidade./ não totalizante (Idem: 1176). da ‘verdade’. se retira daí o referencial para que há de balizar o modo através do qual cada um destes pensadores conceberá a forma de intervenção político-social mais efetiva para se responder às exigências de seu tempo. Por conseqüência.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Encontramos então. do ‘discurso’. por conseqüência e extensão. seu papel é antes o de lutar contra as formas de poder lá onde ele é simultaneamente o objeto e o instrumento deste poder: na ordem do ‘saber’. assim como também não é ao acaso que 11 . a partir da década de 1970. Da posição que Foucault e Sartre assumem frente ao “humanismo” depende a aceitação ou o rechaço não deste ou daquele programa filosófico. não é de modo gratuito que Sartre se atem à tarefa de compreender a “totalidade dialética da História” (Contat & Rybalka. 1970: 339) (certa herança marxista e hegeliana). as lutas e as intervenções sociais também deverão ser travadas em seu âmbito local: O papel do intelectual não é mais o de se colocar ‘um pouco antes ou um pouco ao lado’ para dizer a verdade muda de todos. na contestação a Sartre e aos pressupostos de seu engagement. Mas uma prática local e regional. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins 1176). É por isso que a teoria não expressará. aquela desordem do pensamento: a mesma reivindicação da particularidade frente às pretensões da universalidade. afirmando. transladada para a esfera do papel que o intelectual deverá assumir frente à intervenção político-social exigida por sua época. Destarte. Foucault há de encanar a perfeição esta nova figura de intelectual. uma vez mais. mas sim do próprio “sujeito metafísico” – e.

um distribuindo os planfetos. nos marcos da cultura francesa. cada qual terá em vista um modelo de intelectual a ser afirmado como o mais condizente para a consecução das tarefas de intervenção político-social requeridas naquele contexto. /.. eles estão là no hall do ministério da Justiça para apoiar as reivindicações dos detentos revoltados. remonta ao “J’accuse” de Victor Hugo.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault Foucault há de afirmar a função do intelectual como sendo aquela de operar sobre a “produção da verdade” (Adorno. Deleuze. eles se sucedem nas suas conferências de imprensa.. Não obstante./ lado a lado. não para falar no lugar das vítimas. em detrimento dos motivos centrais que fazem com que Sartre e Foucault assumam posições diversas no espectro daquilo que se poderia chamar de “filosofia francesa contemporânea”. que tanto Sartre quanto Foucault encarnem a figura do intelectual militante – vezo de época. Glucksmann. Para ambos os filósofos. mas para que enfim se possa escutá-las (Colombel. sem dúvida alguma. 2000: 50/51). Se. 2004: 42) (eco de preocupações nietzscheanas). outro carregando a bandeirola junto com Claude Mauriac. em meio a agitação característica da época – cada qual emprestando sua figura privilegiada a favor de uma certa causa. mas – e sobretudo – constituíam o campo da experiência do trabalho 12 . ambos se (re) descobrirão na rua. porém. etc .. as articulações entre filosofia e intervenção política não somente participavam da gestação da obra. Genet. mas também herança de uma tradição que. apesar da surdez das mídias à época. denunciando um crime racista. por conseqüência das diferenças no plano filosófico.. em Goutte d’Or. isso não impedirá.

/ o que é o intelectual. senão aquele que trabalha para que os outros não tenham uma consciência assim tão boa?” (Foucault. Martins Fontes. não deixará de encontrar certa ressonância nas palavras do “derradeiro” Foucault: “/. CONTAT.. EWALD. J. São Paulo. F. 1970. O Discurso filosófico da modernidade. HABERMAS. 2002. Gallimard. 92-96. 13 . Paris. segundo a qual a consciência intelectual é aquela que. P. encontrando a sua ressonância na intervenção político-social.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Paris. pp. In: GROS Frédéric (org. A tarefa do intelectual: o modelo socrático. COLOMBEL. pp. & RYBALKA.). 2004. J. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins prático daquilo que julgavam ser a tarefa do intelectual. representa a “consciência despedaçada” de um dado horizonte histórico (Sartre. M. Magazine Litterárie (Dossier Sartre). Taurus Editora. O fim de um mundo. Carlos Henrique de (org. Sartre et Foucault. perguntanos o filósofo em 1984.. 1984. F. 2000. 39-62. Trad. É não é por outra razão que a afirmação sartriana – bem ao gosto de um certo hegelianismo francês –. 384 (01) : 63-66. Les écrits de Sartre. de Luiz Sérgio Repa e Rodnei Nascimento. São Paulo. 2001e: 1568) Bibliografia ADORNO. 1994: 31). Parábola Editorial. Rio de Janeiro.) – Foucault: a coragem da verdade. as filosofias de Sartre e Foucault não só exigem como se alimentam e são concomitantemente alimentadas pela prática efetiva. cindida na contradição entre o “universal” e o “particular”. últimas entrevistas. M. Por conseqüência. In: ESCOBAR. – Michel Foucault (1926-1984): O Dossier.

& EWALD. Tome I. (Sorbonne). & EWALD. 1976-1988. 2001c. Bibliothèque des Sciences Humaines. Gallimard. Paris. Paris. 1954-1975. (org. 2001a. (org. 2001e. Gallimard. 2001d. Paris. Paris. L’Arc. Paris. M. & EWALD. Dits et écrits II. L’homme est-il mort? 2001b. Entretien avec Michel Foucault. Les intellectuels et le pouvoir. Thèse complémentaire pour le doctorat es lettres. Dits et écrits II. Quarto Gallimard. ________________. (org. In: DEFERT. Université de Paris ______________.). In: DEFERT. Margem. 1976-1988. 14 . F. ________________. Gallimard. D. Jean-Paul Sartre répond. D. 1954-1975.): pp. Gallimard.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault FOUCAULT. 2001a. In: DEFERT. ________________. In: DEFERT. Dits et écrits I. & EWALD. D. 1976-1988.). F. 1966. Quarto Gallimard. 107-115. F.). 8796. P. F. _______________. Quarto Gallimard. Antropologia: entrevista com Jean-Paul Sartre. 1969. L'intellectuel et les pouvoirs. ________________. D. 1960. Dits et écrits II. ________________. 30: pp. São Paulo. (org. Paris. In: DEFERT. L’archeologie du savoir. D. Le sujet et le pouvoir. & EWALD. 19 (jun. SARTRE. Quarto Gallimard.). J. Paris. (org. Paris. ____________. 1966. Les Mots et Les Choses: une archéologie des sciences humaines. 2004. Paris. Bibliothèque des Idées.). ____________. Critique de la raison dialectique (précédé de Question de méthode): théorie des ensembles pratiques. Paris. Introduction à l’anthropologie de Kant. F. Dits et écrits I.

3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins _____________. Seuil. 15 . Editora Ática. 1978. Aprovado em fevereiro/2007. Em defesa dos intelectuais. P. Paris.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. 1994. Comment on écrit l’histoire. VEYNE. Recebido em dezembro/2006. São Paulo.

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