ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N.

3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins

A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault The articulation between “theory” and “social intervention” in Jean-Paul Sartre’s and Michel Foucault’s philosophies

André Constantino Yazbek∗ Doutorando em Filosofia – PUC/SP Professor Colaborador da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP Correio eletrônico: acyzk@hotmail.com Resumo: A partir de uma breve caracterização do horizonte histórico-filosófico dos anos 60 e 70, o presente artigo pretende explicitar a articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, bem como a contraposição de dois modelos de atuação intelectual resultantes deste imbricamento. Palavras-chave: universal”. Abstract: From a brief description of the 60’s and 70’s historical-philosophic horizon, this article aims to explore the articulation between “theory” and “social intervention” presented in Jean-Paul Sartre’s and Michel Foucault’s philosophies, as well as the contrast between two models of intellectual performance as a result of this joint. antropologia-filosófica – “intelectual específico” – “intelectual

André Constantino Yazbek é mestre e doutorando em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). No âmbito do programa de bolsas concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o autor acaba de realizar um estágio de doutorado junto a École Normale Supérieure (Paris/France) e ao Institut Mémoire de l’Édition Contemporaine (Cahen/France). Atualmente, é professor colaborador da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e professor substituto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: acyzk@hotmail.com

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isto é. ou submeter a razão centrada no sujeito a uma crítica imanente ou abandonar por completo o programa de uma “dialética do esclarecimento”. faz de sua filosofia o ponto de inflexão fundamental para a “pós-modernidade” (Idem: 124).André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault Key-words: intellectual”. Destarte. trata-se agora. 2 1 2 . da reivindicação da particularidade – compreendida como esfera de resistência frente a uma racionalidade que pretende destinar a cada um sua identidade e localidade universais (Ewald. Nietzsche opta pela segunda. Assim. com isto. o “sujeito “Antes de tudo. 1984: 92). foram marcados por uma considerável desordem no pensamento. Traduzida pelo projeto das Luzes e por sua respectiva conceitualização na sistemática hegeliana. perfazendo o ponto de culminância de um processo cujo início poderia ser demarcado em Nietzsche2. e. este “sujeito” ocidental – não mais suficientemente encontrará referenciado à pelo universal de da Ilustração uma – se frente exigência premente realizar nova experiência de si mesmo. Doravante. a modernidade filosófica consiste na promoção de “uma razão centrada sobre o sujeito”1. no horizonte histórico dos sixties. 1984: 93). 2002: 25). sobretudo nos anos que se seguiram a agitação característica dos “événements” de Maio de 1968. Diante de duas alternativas. de uma crise da própria modernidade (Ewald. porém. a razão moderna deverá ser submetida à crítica radical: tanto na ordem do pensamento quanto na ordem das reivindicações político-sociais concretas. Hegel descobre o princípio dos novos tempos: a subjetividade” (Habermas. é preciso que se reconheça aqui o sintoma mais agudo de uma crise do universal. como dirá François Ewald. philosophical-anthropology – “specific intellectual” – “universal Introdução Se os anos 1960.

ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. era um princípio de avaliação para todo o pensamento com pretensão filosófica. Foucault é um das figuras mais representativas da crítica à modernidade filosófica. Vejamos mais de perto. sobretudo na recuperação da démarche nietzschiana. produzindo um choque que fará ecoar o estrondo de duas gerações diversas da filosofia francesa contemporânea. em olhar retrospectivo e como que a procurar um eixo de organização de seu 3 . 1961: 128). Entre Sartre e Foucault No panorama francês das décadas de 1960 e 1970. Até então. Neste horizonte histórico-filosófico – em que os combates na ordem do pensamento engendrarão certas compreensões acerca da intervenção político-social efetiva –. Foucault seguirá a risca o desiderato expresso em sua tese – e ao final de sua própria trajetória pessoal. apoiandose. sob o ponto de vista da humanidade como um todo. diz-nos Foucault nas páginas finais de sua tese complémentaire. o “pensar o universal”. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins ocidental” viverá a sua crise sob o signo desta reivindicação da “diferença”. Desde sua tese complementar sobre a antropologia de Kant (1960). os itinerários de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault hão de se cruzar. No que concerne a problemática do sujeito no interior da filosofia contemporânea. o autor há de considerar urgente a tarefa de colocar um “ponto final na proliferação da interrogação sobre o homem”: no campo da filosofia. a trajetória da questão “Was ist der Mensch?” deve se completar na resposta que a recusa e desarma – “der Übermensch” (Foucault.

o filósofo não hesitará em afirmar que não é o “poder” mas sim o “sujeito” que constitui o tema geral das seus investigações (Foucault. que Foucault promoverá este espécie de “giro de problematização” em sua obra. nos anos 1980 o que o autor nos oferece não será mais o sexo como instância reveladora de “poder”. o silêncio editorial de oito anos que separam A vontade de saber (1976) dos outros dois volumes da História da sexualidade – O uso dos prazeres e O cuidado de si – é exemplar: eles testemunham uma longa maturação intelectual que se traduzirá por um aprofundamento da “démarche” foucaultiana com relação à “problemática do sujeito”. portanto – daquilo que ele descreveria como sendo a grande empresa de “normatização” no Ocidente moderno. o filósofo inaugura a década de 1960 com seu esforço de recuperação da dialeticidade do próprio “sujeito”. por seu turno. Neste sentido. Assim.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault próprio trabalho. tomado como ponto de partida e elemento irredutível da investigação filosófica. parece representar à época a antítese do projeto foucaultiano: com a sua Critique de la raison dialectique. 2001a: 1042). tomando-o como elemento irredutível para a compreensão da inteligibilidade da história. Sartre pretende que o homem e seu agir sejam 4 . Jean-Paul Sartre. é na esteira de um aprofundamento da crítica ao sujeito moderno. 1960: 133). Em suma. se até os anos 1976 a sexualidade interessa a Foucault na medida em que constitui um referencial privilegiado – não o único. Ora. Como se sabe. reconhecendo a dialética como a “lógica viva da ação” (Sartre. mas sim a questão do “sujeito” em sua relação com a “verdade”. o que está em jogo é nada mais nada menos do que a condição de um sujeito ético a partir de uma determinada na relação consigo.

que qualquer outro problema só pode ser concebido em relação ao homem” (Sartre. isto é. resta ao filósofo retirar o indivíduo da órbita da pura e simples abstração – marca do “idealismo academicista” francês do pré-Guerra –. enfim.. as prerrogativas de um humanismo no interior do qual o “sujeito” encontra seu lastro ontológico-existencial.. a ontologia estabelece a necessidade de uma antropologia fundada sobre a “historialização”: atravessado por certas significações essenciais.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Situado neste horizonte e tendo perdido a inocência que permitiria (re) organizar as práticas humanas a partir de um fundamento que as justificasse no âmbito da totalidade positiva da história. Feitas todas as contas./ compreendíamos. 2004: 107). o que significa que sua dinâmica se inscreve na “lógica da ação criadora” do sujeito (práxis). Sob os auspícios da Critique sartriana./ engendrar no âmbito do marxismo um verdadeiro conhecimento compreensivo que reencontrará o homem no mundo social e o acompanhará em sua práxis” (Idem: 111). ou seja. a saber. 1960: 24). “/.. Deste modo. que o concreto é história e a ação é dialética” (Sartre. Sartre acolhe a “antropologia” ao preço de torná-la ponto capital da investigação filosófica: “Considero que o campo filosófico é o homem. reinventando-o no cerne de uma possível síntese entre a irredutibilidade 5 . o “devenir” é dialético. dirá Sartre. Sartre reafirma na Critique aquilo que constitui a pedra angular de L’être et le néant. como “lógica da liberdade” (Idem: 156). 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins “redescobertos” no próprio cerne do marxismo – tomada como disciplina auxiliar. então. cabe ao existencialismo justamente a tarefa de “/. que se encarnam nas tensões da História.. Tratava-se. de fazer face a história no momento mesmo em que ela refluía violentamente sobre aquela geração de pensadores franceses da primeira metade do século XX: em plena a Guerra e a Ocupação.

Denunciaremos lá um atentado contra os direitos imprescindíveis da história e contra todo o fundamento de toda a historicidade possível. o problema de Foucault poderia ser formulado nos seguintes termos: como conseguir mais do que aquilo que nos permite uma filosofia da consciência – como o existencialismo – sem com isso cair nas aporias do marxismo? (Veyne. referia-se à atividade sintética do sujeito (Foucault. Por esta via. das noções de limiar. portanto. e ainda de acordo com Veyne. em segredo porém de maneira completa. de ruptura e de transformação. ou dos conhecimentos – com uma análise histórica que faça um uso muito evidente das categorias da descontinuidade e da diferença. Sartre persevera no interior de uma “filosofia do sujeito”. A questão do “humanismo” A se crer nas palavras de Paul Veyne. 6 .André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault da consciência individual e a relatividade histórica – para tanto. faz-se necessário resguardar o caráter concreto do universal e a presença do universal no particular. 1969: 23/24). 1978: 383). o fato de que em já na introdução de uma obra dedicada a explicitação de seu próprio “método” Foucault nos dê o tom de sua dissonância com relação às tentativas contemporâneas de salvaguardar a “soberania do sujeito”: Proclamaremos que a história foi assassinada a cada vez que nos depararmos – sobretudo quando se trata do pensamento. da descrição das séries e dos limites. da literatura e do editorial político. mas sim a desaparição desta forma de história que. o próprio o método arqueológico de Foucault seria uma reação contra a onda fenomenológica francesa do pós-Guerra. das idéias. emprestando ao seu pensamento as vozes múltiplas do teatro. Nesta medida. É sintomático. Mas não nos enganemos: o que se lamenta de modo tão intenso não é exatamente a desaparição da história.

diz-nos Foucault. seguem-se diversas entrevistas. Les mots et les choses (1966). de seu reino ou de sua libertação. a todas essas formas de reflexão tortas e deformadas. aquela que se encontra nas antípodas do método arqueológico. que não querem pensar sem no mesmo instante pensar que é homem quem pensa. e que. a todos aqueles que. E não devemos deixar de lembrar que a obra citada foi. por outro lado. é o “correlato indispensável à formação fundadora do sujeito” – nela. de uma certa parte. portanto. Na seqüência da enorme repercussão da obra. se debruça sobre a busca das “origens”. reconduzem todo o conhecimento às verdades do homem ele próprio. em que cada qual pretende demonstrar. que provocaria enorme reação por conta do célebre anúncio da “morte do sujeito” – afirmado no contexto de uma crítica ferrenha endereçada às “analíticas da finitude” (a fenomenologia e a sua derivação existencialista.. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins A “história contínua”. em grande parte. o espaço onde se situa o seu próprio pensamento. aos que querem partir dele para obter o acesso a verdade. aos que não querem formalizar sem antropologizar. que não querem mitologizar sem desmistificar. por conta do enorme “sucesso” de Les mots et les choses. da eclosão de uma intensa polêmica entre as personalidades de Sartre e Foucault. mas igualmente o marxismo): A todos aqueles que ainda querem falar do homem. motivada pela tentativa do autor em fazer face aos mal entendidos e à polêmica gerada por uma obra anterior. 1966: 353/354). a elas não podemos opor senão um riso filosófico – quer dizer. Em meio a estas entrevistas – estamos 7 .ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N.. É a ocasião. silencioso (Foucault. “/. por vezes de modo extremamente claro./o tempo é concebido em termos de totalização e as revoluções são apenas tomadas de consciência.” (Idem: 21/22). aos que ainda colocam questões sobre o que é o homem.

arremata o autor. lingüística. acabará por denunciar aquilo que seria uma providencial recusa da história nas linhas mestras de Les mots et les choses.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault ainda em 1966 –. convoca acessoriamente o humanismo. da história. /. podemos dizer que há estases da história que são as estruturas. porque ela é uma filosofia da alienação e da reconciliação. 2001b: 569/570). posto se elide justamente o agente da práxis. Sartre é o “último dos hegelianos”: Grosso modo. Ela o convoca por razões diversas: porque ela é uma filosofia da história. pode-se dizer o seguinte: o humanismo. Mas ele as recebe enquanto está engajado na história. e engajado de tal modo que ele não pode deixar de destruí-las para então constituir novas estruturas que. me parece que ao escrever a Critique de la raison dialectique de algum modo Sartre colocou um ponto final neste episódio da nossa cultura. Foucault certamente não deixará de lançar seu olhar sobre a Critique de la raison dialectique. o homem é o produto das estruturas apenas na medida em que ele as ultrapassa. 8 .. O homem recebe as estruturas – e nesse sentido pode-se dizer que elas o fazem. Se quisermos.. em sua tentativa de salvaguardar as prerrogativas do sujeito – afirmando que a práxis se efetiva lá mesmo onde poderia se esperar a sua compressão pelas “estruturas”3 –. Feitas todas as contas. as aquisições da psicanálise. teoria da informação. Aquilo que ignora o homem é a razão analítica contemporânea. para Sartre a obra foucaultiana se configuraria 3 “Para mim. ela. caracterizando-a como o “magnífico e patético esforço de um homem do século XIX para pensar o século XX” – nesta medida. da sociologia) à dialética. a antropologia e o pensamento dialético estão ligados./ Ora. o condicionarão novamente” (Sartre. porque ela é uma filosofia da prática humana. e. que vimos nascer com Russel e que aparecerá em Lèvi-Strauss e nos lingüistas. da economia política. formalismo (Foucault. 1966: 90/91). Ele fez tudo o que pode para reintegrar a cultura contemporânea (quer dizer. tampouco Sartre deixará de se posicionar frente a Foucault. tornando a fechar um parênteses que se inicia com Hegel. Por outro lado. enquanto que a dialética. por seu turno. Essa razão analítica é incompatível com o humanismo. Mas é característico que ele não pudesse deixar à margem tudo aquilo que faz parte da cultura contemporânea: lógica.

Por detrás da história.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. bem entendido. não impedirá Foucault de apreciar a obra de um pensador como Louis Althusser. também o de Sartre: trata-se do “descentramento do sujeito” enquanto ponto de partida da reflexão (Foucault. humanista e combativo: /. a primazia daquilo que se poderia chamar de um “substrato do humano” – ou da “existência” – que se jogam as cartas decisivas nessa batalha. 2001c: 871). e não obstante o seu “marxismo”. seria preciso fazer interferir a práxis. e é precisamente isso que ele recusa /... quer dizer./ isso que Foucault nos apresenta é /. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins como a “última barreira” que a burguesia poderia erguer contra o marxismo – este sim. Prova disso é o fato de que o refluxo do marxismo nos anos 60. Althusser se encontra em perfeita harmonia com um seleto grupo que. Para tanto. por exemplo. em especial. encabeçado por Lévi-Strauss e composto por Lacan e pelo próprio Foucault. e mesmo de tecer elogios ao seu dito “estruturalismo marxista” – enquanto “estruturalista”. é o marxismo que é visado (Sartre. traduzida pelas filosofias do sujeito. um “sujeito fundador”. Mas Foucault não nos diz aquilo que seria o mais interessante. a saber.. Assim. tem como ponto de convergência algo que fere de modo indelével o “humanismo” em geral e. Note-se bem: antes de tudo. na possibilidade ou não de se admitir um “universal antropológico”.. 1966: 87)./ uma geologia: a série de camadas sucessivas que formam o nosso sólo./. Cada uma destas camadas define as condições de possibilidade de um certo tipo de pensamento que triuinfou durante um certo período. a história.. como cada pensamento é construído a partir destas condições e como os homens passam de um pensamento a outro. parece um elemento crônico da filosofia 9 .. trata-se de uma disputa ao redor do “humanismo” – a ser entendido aqui em sentido lato: é lá. o problema central se refere a um certa “afirmação do humano” que.

Destarte. 2001d: 10 . Foucault também procura efetuar a liquidação de um outro legado tipicamente sartriano. estaríamos agora em face do intelectual específico – aquele que se debruça sobre os “pequenos eventos” que subsistem silenciosamente e que permitem à reflexão realizar o “diagnóstico” atento das erupções de forças inéditas no seio da sociedade (até porque. é o próprio papel do intelectual que será posto na berlinda. e como conseqüência dos ataques dirigidos à primazia do “sujeito”. E é nesta medida que Foucault contrapõe o marxismo de Althusser ao marxismo impregnado pela fenomenologia e pelo humanismo – e não é preciso muito esforço para encontrar aqui um retrato fiel daquilo que significava à época a tentativa de Sartre para promover em sua Critique a conciliação do “marxismo” com o “existencialismo”: a matriz existencialista carrega consigo tanto a fenomenologia quanto o cartesianismo. a saber.. Mas trata-se./ é o sistema de poder mesmo que produz a unidade e a generalidade das lutas parciais”) (Foucault. Neste bojo. de uma disputa que se joga no campo de um diagnóstico da própria atualidade filosófica – cuja pretensão é a de estabelecer até que ponto um “universal antropológico” continuaria a dar conta das novas complexidades de uma contemporaneidade cuja marca é a da “reivindicação à diferença”. no contexto de sua contraposição a Sartre. da ótica de Foucault “/.. “impregnando” o marxismo de ambos. ao invés do intelectual universal. ainda. tipicamente sartriano. o do intelectual como consciência moral e política de seu tempo. O intelectual Portanto.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault francesa desde Descartes.

Encontramos então. não é de modo gratuito que Sartre se atem à tarefa de compreender a “totalidade dialética da História” (Contat & Rybalka. não traduzirá. por conseqüência e extensão. mas sim do próprio “sujeito metafísico” – e. /. a partir da década de 1970../ não totalizante (Idem: 1176). uma vez mais. se retira daí o referencial para que há de balizar o modo através do qual cada um destes pensadores conceberá a forma de intervenção político-social mais efetiva para se responder às exigências de seu tempo. transladada para a esfera do papel que o intelectual deverá assumir frente à intervenção político-social exigida por sua época. do ‘discurso’. as lutas e as intervenções sociais também deverão ser travadas em seu âmbito local: O papel do intelectual não é mais o de se colocar ‘um pouco antes ou um pouco ao lado’ para dizer a verdade muda de todos. na contestação a Sartre e aos pressupostos de seu engagement. afirmando. É por isso que a teoria não expressará. assim como também não é ao acaso que 11 .. É sob este diapasão que. da ‘consciência’. Da posição que Foucault e Sartre assumem frente ao “humanismo” depende a aceitação ou o rechaço não deste ou daquele programa filosófico. aquela desordem do pensamento: a mesma reivindicação da particularidade frente às pretensões da universalidade.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. a importância da lutas pontuais frente ao contexto cada vez mais fragmentário da contemporaneidade. 1970: 339) (certa herança marxista e hegeliana). da ‘verdade’. Destarte. seu papel é antes o de lutar contra as formas de poder lá onde ele é simultaneamente o objeto e o instrumento deste poder: na ordem do ‘saber’. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins 1176). Foucault há de encanar a perfeição esta nova figura de intelectual. Por conseqüência. não aplicará uma pratica : ela é uma prática. Mas uma prática local e regional.

em detrimento dos motivos centrais que fazem com que Sartre e Foucault assumam posições diversas no espectro daquilo que se poderia chamar de “filosofia francesa contemporânea”. Para ambos os filósofos. eles se sucedem nas suas conferências de imprensa. isso não impedirá. em Goutte d’Or. mas também herança de uma tradição que. por conseqüência das diferenças no plano filosófico. denunciando um crime racista.. remonta ao “J’accuse” de Victor Hugo. /. que tanto Sartre quanto Foucault encarnem a figura do intelectual militante – vezo de época. Não obstante. nos marcos da cultura francesa.. Glucksmann. não para falar no lugar das vítimas./ lado a lado. etc . sem dúvida alguma. Se. Genet. mas para que enfim se possa escutá-las (Colombel. em meio a agitação característica da época – cada qual emprestando sua figura privilegiada a favor de uma certa causa. porém. apesar da surdez das mídias à época. Deleuze.. cada qual terá em vista um modelo de intelectual a ser afirmado como o mais condizente para a consecução das tarefas de intervenção político-social requeridas naquele contexto. ambos se (re) descobrirão na rua. eles estão là no hall do ministério da Justiça para apoiar as reivindicações dos detentos revoltados. mas – e sobretudo – constituíam o campo da experiência do trabalho 12 . um distribuindo os planfetos. outro carregando a bandeirola junto com Claude Mauriac.. 2004: 42) (eco de preocupações nietzscheanas).André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault Foucault há de afirmar a função do intelectual como sendo aquela de operar sobre a “produção da verdade” (Adorno. as articulações entre filosofia e intervenção política não somente participavam da gestação da obra. 2000: 50/51).

perguntanos o filósofo em 1984. J.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N.). M. 384 (01) : 63-66. In: GROS Frédéric (org. São Paulo. Gallimard. Carlos Henrique de (org. 2004. F. cindida na contradição entre o “universal” e o “particular”. O fim de um mundo. Taurus Editora. Paris. pp. P. 2001e: 1568) Bibliografia ADORNO. EWALD. Parábola Editorial. HABERMAS. M. Sartre et Foucault. Martins Fontes. – Michel Foucault (1926-1984): O Dossier. Trad. O Discurso filosófico da modernidade. últimas entrevistas. F. segundo a qual a consciência intelectual é aquela que. 92-96. A tarefa do intelectual: o modelo socrático. Les écrits de Sartre. & RYBALKA. 1984. pp. 39-62. não deixará de encontrar certa ressonância nas palavras do “derradeiro” Foucault: “/. COLOMBEL. senão aquele que trabalha para que os outros não tenham uma consciência assim tão boa?” (Foucault. J.) – Foucault: a coragem da verdade. Por conseqüência. representa a “consciência despedaçada” de um dado horizonte histórico (Sartre. In: ESCOBAR. 2000. 1994: 31). 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins prático daquilo que julgavam ser a tarefa do intelectual. encontrando a sua ressonância na intervenção político-social.. É não é por outra razão que a afirmação sartriana – bem ao gosto de um certo hegelianismo francês –.. 13 . Magazine Litterárie (Dossier Sartre). 1970. as filosofias de Sartre e Foucault não só exigem como se alimentam e são concomitantemente alimentadas pela prática efetiva. 2002. CONTAT. de Luiz Sérgio Repa e Rodnei Nascimento. São Paulo. Rio de Janeiro./ o que é o intelectual. Paris.

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15 . São Paulo. VEYNE. Paris. Em defesa dos intelectuais. 1994. Aprovado em fevereiro/2007. Recebido em dezembro/2006. P. 1978. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins _____________. Seuil. Editora Ática. Comment on écrit l’histoire.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N.

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