ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N.

3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins

A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault The articulation between “theory” and “social intervention” in Jean-Paul Sartre’s and Michel Foucault’s philosophies

André Constantino Yazbek∗ Doutorando em Filosofia – PUC/SP Professor Colaborador da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP Correio eletrônico: acyzk@hotmail.com Resumo: A partir de uma breve caracterização do horizonte histórico-filosófico dos anos 60 e 70, o presente artigo pretende explicitar a articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, bem como a contraposição de dois modelos de atuação intelectual resultantes deste imbricamento. Palavras-chave: universal”. Abstract: From a brief description of the 60’s and 70’s historical-philosophic horizon, this article aims to explore the articulation between “theory” and “social intervention” presented in Jean-Paul Sartre’s and Michel Foucault’s philosophies, as well as the contrast between two models of intellectual performance as a result of this joint. antropologia-filosófica – “intelectual específico” – “intelectual

André Constantino Yazbek é mestre e doutorando em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). No âmbito do programa de bolsas concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o autor acaba de realizar um estágio de doutorado junto a École Normale Supérieure (Paris/France) e ao Institut Mémoire de l’Édition Contemporaine (Cahen/France). Atualmente, é professor colaborador da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e professor substituto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: acyzk@hotmail.com

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este “sujeito” ocidental – não mais suficientemente encontrará referenciado à pelo universal de da Ilustração uma – se frente exigência premente realizar nova experiência de si mesmo. a razão moderna deverá ser submetida à crítica radical: tanto na ordem do pensamento quanto na ordem das reivindicações político-sociais concretas. perfazendo o ponto de culminância de um processo cujo início poderia ser demarcado em Nietzsche2. 2 1 2 . Traduzida pelo projeto das Luzes e por sua respectiva conceitualização na sistemática hegeliana. o “sujeito “Antes de tudo. philosophical-anthropology – “specific intellectual” – “universal Introdução Se os anos 1960. da reivindicação da particularidade – compreendida como esfera de resistência frente a uma racionalidade que pretende destinar a cada um sua identidade e localidade universais (Ewald. Hegel descobre o princípio dos novos tempos: a subjetividade” (Habermas. de uma crise da própria modernidade (Ewald. com isto. foram marcados por uma considerável desordem no pensamento. porém. faz de sua filosofia o ponto de inflexão fundamental para a “pós-modernidade” (Idem: 124). Destarte. Doravante. a modernidade filosófica consiste na promoção de “uma razão centrada sobre o sujeito”1. como dirá François Ewald. trata-se agora. 2002: 25). Diante de duas alternativas. isto é. ou submeter a razão centrada no sujeito a uma crítica imanente ou abandonar por completo o programa de uma “dialética do esclarecimento”. 1984: 92).André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault Key-words: intellectual”. sobretudo nos anos que se seguiram a agitação característica dos “événements” de Maio de 1968. Assim. no horizonte histórico dos sixties. é preciso que se reconheça aqui o sintoma mais agudo de uma crise do universal. 1984: 93). Nietzsche opta pela segunda. e.

o “pensar o universal”. o autor há de considerar urgente a tarefa de colocar um “ponto final na proliferação da interrogação sobre o homem”: no campo da filosofia. diz-nos Foucault nas páginas finais de sua tese complémentaire. Até então. No que concerne a problemática do sujeito no interior da filosofia contemporânea. apoiandose. Foucault é um das figuras mais representativas da crítica à modernidade filosófica. Entre Sartre e Foucault No panorama francês das décadas de 1960 e 1970.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. sob o ponto de vista da humanidade como um todo. sobretudo na recuperação da démarche nietzschiana. Vejamos mais de perto. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins ocidental” viverá a sua crise sob o signo desta reivindicação da “diferença”. Desde sua tese complementar sobre a antropologia de Kant (1960). Neste horizonte histórico-filosófico – em que os combates na ordem do pensamento engendrarão certas compreensões acerca da intervenção político-social efetiva –. era um princípio de avaliação para todo o pensamento com pretensão filosófica. 1961: 128). a trajetória da questão “Was ist der Mensch?” deve se completar na resposta que a recusa e desarma – “der Übermensch” (Foucault. produzindo um choque que fará ecoar o estrondo de duas gerações diversas da filosofia francesa contemporânea. Foucault seguirá a risca o desiderato expresso em sua tese – e ao final de sua própria trajetória pessoal. os itinerários de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault hão de se cruzar. em olhar retrospectivo e como que a procurar um eixo de organização de seu 3 .

2001a: 1042).André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault próprio trabalho. o silêncio editorial de oito anos que separam A vontade de saber (1976) dos outros dois volumes da História da sexualidade – O uso dos prazeres e O cuidado de si – é exemplar: eles testemunham uma longa maturação intelectual que se traduzirá por um aprofundamento da “démarche” foucaultiana com relação à “problemática do sujeito”. que Foucault promoverá este espécie de “giro de problematização” em sua obra. o filósofo inaugura a década de 1960 com seu esforço de recuperação da dialeticidade do próprio “sujeito”. nos anos 1980 o que o autor nos oferece não será mais o sexo como instância reveladora de “poder”. tomado como ponto de partida e elemento irredutível da investigação filosófica. se até os anos 1976 a sexualidade interessa a Foucault na medida em que constitui um referencial privilegiado – não o único. mas sim a questão do “sujeito” em sua relação com a “verdade”. 1960: 133). o filósofo não hesitará em afirmar que não é o “poder” mas sim o “sujeito” que constitui o tema geral das seus investigações (Foucault. por seu turno. o que está em jogo é nada mais nada menos do que a condição de um sujeito ético a partir de uma determinada na relação consigo. parece representar à época a antítese do projeto foucaultiano: com a sua Critique de la raison dialectique. é na esteira de um aprofundamento da crítica ao sujeito moderno. Como se sabe. tomando-o como elemento irredutível para a compreensão da inteligibilidade da história. reconhecendo a dialética como a “lógica viva da ação” (Sartre. Ora. Em suma. Assim. Sartre pretende que o homem e seu agir sejam 4 . Neste sentido. Jean-Paul Sartre. portanto – daquilo que ele descreveria como sendo a grande empresa de “normatização” no Ocidente moderno.

Deste modo. “/. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins “redescobertos” no próprio cerne do marxismo – tomada como disciplina auxiliar. Sartre reafirma na Critique aquilo que constitui a pedra angular de L’être et le néant.. Sartre acolhe a “antropologia” ao preço de torná-la ponto capital da investigação filosófica: “Considero que o campo filosófico é o homem. então. de fazer face a história no momento mesmo em que ela refluía violentamente sobre aquela geração de pensadores franceses da primeira metade do século XX: em plena a Guerra e a Ocupação. resta ao filósofo retirar o indivíduo da órbita da pura e simples abstração – marca do “idealismo academicista” francês do pré-Guerra –. cabe ao existencialismo justamente a tarefa de “/. o que significa que sua dinâmica se inscreve na “lógica da ação criadora” do sujeito (práxis). a saber. as prerrogativas de um humanismo no interior do qual o “sujeito” encontra seu lastro ontológico-existencial. Situado neste horizonte e tendo perdido a inocência que permitiria (re) organizar as práticas humanas a partir de um fundamento que as justificasse no âmbito da totalidade positiva da história. isto é../ compreendíamos. dirá Sartre. a ontologia estabelece a necessidade de uma antropologia fundada sobre a “historialização”: atravessado por certas significações essenciais. ou seja. 1960: 24). o “devenir” é dialético..ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Sob os auspícios da Critique sartriana. Feitas todas as contas. enfim.. que se encarnam nas tensões da História. que qualquer outro problema só pode ser concebido em relação ao homem” (Sartre. que o concreto é história e a ação é dialética” (Sartre./ engendrar no âmbito do marxismo um verdadeiro conhecimento compreensivo que reencontrará o homem no mundo social e o acompanhará em sua práxis” (Idem: 111). 2004: 107). como “lógica da liberdade” (Idem: 156). reinventando-o no cerne de uma possível síntese entre a irredutibilidade 5 . Tratava-se.

o próprio o método arqueológico de Foucault seria uma reação contra a onda fenomenológica francesa do pós-Guerra. Por esta via. Mas não nos enganemos: o que se lamenta de modo tão intenso não é exatamente a desaparição da história. da descrição das séries e dos limites. Nesta medida. e ainda de acordo com Veyne. ou dos conhecimentos – com uma análise histórica que faça um uso muito evidente das categorias da descontinuidade e da diferença.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault da consciência individual e a relatividade histórica – para tanto. portanto. faz-se necessário resguardar o caráter concreto do universal e a presença do universal no particular. 1969: 23/24). das noções de limiar. 6 . o fato de que em já na introdução de uma obra dedicada a explicitação de seu próprio “método” Foucault nos dê o tom de sua dissonância com relação às tentativas contemporâneas de salvaguardar a “soberania do sujeito”: Proclamaremos que a história foi assassinada a cada vez que nos depararmos – sobretudo quando se trata do pensamento. em segredo porém de maneira completa. Sartre persevera no interior de uma “filosofia do sujeito”. emprestando ao seu pensamento as vozes múltiplas do teatro. referia-se à atividade sintética do sujeito (Foucault. o problema de Foucault poderia ser formulado nos seguintes termos: como conseguir mais do que aquilo que nos permite uma filosofia da consciência – como o existencialismo – sem com isso cair nas aporias do marxismo? (Veyne. 1978: 383). das idéias. Denunciaremos lá um atentado contra os direitos imprescindíveis da história e contra todo o fundamento de toda a historicidade possível. A questão do “humanismo” A se crer nas palavras de Paul Veyne. de ruptura e de transformação. da literatura e do editorial político. É sintomático. mas sim a desaparição desta forma de história que.

. diz-nos Foucault. aos que não querem formalizar sem antropologizar. “/. que provocaria enorme reação por conta do célebre anúncio da “morte do sujeito” – afirmado no contexto de uma crítica ferrenha endereçada às “analíticas da finitude” (a fenomenologia e a sua derivação existencialista. Em meio a estas entrevistas – estamos 7 .ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. E não devemos deixar de lembrar que a obra citada foi.” (Idem: 21/22). por conta do enorme “sucesso” de Les mots et les choses. o espaço onde se situa o seu próprio pensamento. silencioso (Foucault. motivada pela tentativa do autor em fazer face aos mal entendidos e à polêmica gerada por uma obra anterior. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins A “história contínua”. Les mots et les choses (1966). e que. mas igualmente o marxismo): A todos aqueles que ainda querem falar do homem. aos que querem partir dele para obter o acesso a verdade. a todos aqueles que. em que cada qual pretende demonstrar. que não querem pensar sem no mesmo instante pensar que é homem quem pensa. em grande parte. Na seqüência da enorme repercussão da obra. 1966: 353/354).. da eclosão de uma intensa polêmica entre as personalidades de Sartre e Foucault. aquela que se encontra nas antípodas do método arqueológico. seguem-se diversas entrevistas. portanto. é o “correlato indispensável à formação fundadora do sujeito” – nela. a todas essas formas de reflexão tortas e deformadas. de uma certa parte. se debruça sobre a busca das “origens”. aos que ainda colocam questões sobre o que é o homem. de seu reino ou de sua libertação. a elas não podemos opor senão um riso filosófico – quer dizer. É a ocasião./o tempo é concebido em termos de totalização e as revoluções são apenas tomadas de consciência. que não querem mitologizar sem desmistificar. por outro lado. reconduzem todo o conhecimento às verdades do homem ele próprio. por vezes de modo extremamente claro.

2001b: 569/570). da sociologia) à dialética. caracterizando-a como o “magnífico e patético esforço de um homem do século XIX para pensar o século XX” – nesta medida. da economia política. lingüística. e engajado de tal modo que ele não pode deixar de destruí-las para então constituir novas estruturas que. o condicionarão novamente” (Sartre. podemos dizer que há estases da história que são as estruturas.. formalismo (Foucault. Mas é característico que ele não pudesse deixar à margem tudo aquilo que faz parte da cultura contemporânea: lógica. e. Foucault certamente não deixará de lançar seu olhar sobre a Critique de la raison dialectique. Ela o convoca por razões diversas: porque ela é uma filosofia da história.. tampouco Sartre deixará de se posicionar frente a Foucault. por seu turno. que vimos nascer com Russel e que aparecerá em Lèvi-Strauss e nos lingüistas. posto se elide justamente o agente da práxis. as aquisições da psicanálise. Por outro lado. ela. Se quisermos. acabará por denunciar aquilo que seria uma providencial recusa da história nas linhas mestras de Les mots et les choses. o homem é o produto das estruturas apenas na medida em que ele as ultrapassa. me parece que ao escrever a Critique de la raison dialectique de algum modo Sartre colocou um ponto final neste episódio da nossa cultura. enquanto que a dialética. Essa razão analítica é incompatível com o humanismo. Aquilo que ignora o homem é a razão analítica contemporânea. a antropologia e o pensamento dialético estão ligados. 1966: 90/91). Mas ele as recebe enquanto está engajado na história. em sua tentativa de salvaguardar as prerrogativas do sujeito – afirmando que a práxis se efetiva lá mesmo onde poderia se esperar a sua compressão pelas “estruturas”3 –. da história. Sartre é o “último dos hegelianos”: Grosso modo. tornando a fechar um parênteses que se inicia com Hegel. pode-se dizer o seguinte: o humanismo. Ele fez tudo o que pode para reintegrar a cultura contemporânea (quer dizer. /. arremata o autor. Feitas todas as contas./ Ora. porque ela é uma filosofia da alienação e da reconciliação. 8 .André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault ainda em 1966 –. O homem recebe as estruturas – e nesse sentido pode-se dizer que elas o fazem. teoria da informação. porque ela é uma filosofia da prática humana. para Sartre a obra foucaultiana se configuraria 3 “Para mim. convoca acessoriamente o humanismo.

a história. Por detrás da história.. Althusser se encontra em perfeita harmonia com um seleto grupo que. por exemplo. traduzida pelas filosofias do sujeito. Mas Foucault não nos diz aquilo que seria o mais interessante.. 2001c: 871). também o de Sartre: trata-se do “descentramento do sujeito” enquanto ponto de partida da reflexão (Foucault.. em especial. e não obstante o seu “marxismo”. Cada uma destas camadas define as condições de possibilidade de um certo tipo de pensamento que triuinfou durante um certo período. Para tanto. trata-se de uma disputa ao redor do “humanismo” – a ser entendido aqui em sentido lato: é lá. quer dizer. Prova disso é o fato de que o refluxo do marxismo nos anos 60. 1966: 87)./ isso que Foucault nos apresenta é /. bem entendido. seria preciso fazer interferir a práxis. humanista e combativo: /. tem como ponto de convergência algo que fere de modo indelével o “humanismo” em geral e. a primazia daquilo que se poderia chamar de um “substrato do humano” – ou da “existência” – que se jogam as cartas decisivas nessa batalha. parece um elemento crônico da filosofia 9 ./ uma geologia: a série de camadas sucessivas que formam o nosso sólo. encabeçado por Lévi-Strauss e composto por Lacan e pelo próprio Foucault. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins como a “última barreira” que a burguesia poderia erguer contra o marxismo – este sim. na possibilidade ou não de se admitir um “universal antropológico”.. é o marxismo que é visado (Sartre. a saber. Note-se bem: antes de tudo.. e mesmo de tecer elogios ao seu dito “estruturalismo marxista” – enquanto “estruturalista”. um “sujeito fundador”.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. e é precisamente isso que ele recusa /. não impedirá Foucault de apreciar a obra de um pensador como Louis Althusser. Assim. o problema central se refere a um certa “afirmação do humano” que../. como cada pensamento é construído a partir destas condições e como os homens passam de um pensamento a outro.

2001d: 10 ./ é o sistema de poder mesmo que produz a unidade e a generalidade das lutas parciais”) (Foucault. no contexto de sua contraposição a Sartre. ao invés do intelectual universal. da ótica de Foucault “/. E é nesta medida que Foucault contrapõe o marxismo de Althusser ao marxismo impregnado pela fenomenologia e pelo humanismo – e não é preciso muito esforço para encontrar aqui um retrato fiel daquilo que significava à época a tentativa de Sartre para promover em sua Critique a conciliação do “marxismo” com o “existencialismo”: a matriz existencialista carrega consigo tanto a fenomenologia quanto o cartesianismo. Neste bojo.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault francesa desde Descartes. o do intelectual como consciência moral e política de seu tempo.. de uma disputa que se joga no campo de um diagnóstico da própria atualidade filosófica – cuja pretensão é a de estabelecer até que ponto um “universal antropológico” continuaria a dar conta das novas complexidades de uma contemporaneidade cuja marca é a da “reivindicação à diferença”. tipicamente sartriano.. e como conseqüência dos ataques dirigidos à primazia do “sujeito”. estaríamos agora em face do intelectual específico – aquele que se debruça sobre os “pequenos eventos” que subsistem silenciosamente e que permitem à reflexão realizar o “diagnóstico” atento das erupções de forças inéditas no seio da sociedade (até porque. Mas trata-se. “impregnando” o marxismo de ambos. ainda. Foucault também procura efetuar a liquidação de um outro legado tipicamente sartriano. O intelectual Portanto. a saber. é o próprio papel do intelectual que será posto na berlinda. Destarte.

a importância da lutas pontuais frente ao contexto cada vez mais fragmentário da contemporaneidade. transladada para a esfera do papel que o intelectual deverá assumir frente à intervenção político-social exigida por sua época. uma vez mais. assim como também não é ao acaso que 11 . na contestação a Sartre e aos pressupostos de seu engagement. aquela desordem do pensamento: a mesma reivindicação da particularidade frente às pretensões da universalidade.. do ‘discurso’. 1970: 339) (certa herança marxista e hegeliana). Destarte. por conseqüência e extensão. Da posição que Foucault e Sartre assumem frente ao “humanismo” depende a aceitação ou o rechaço não deste ou daquele programa filosófico. /. não traduzirá. É sob este diapasão que. É por isso que a teoria não expressará.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Por conseqüência. Encontramos então./ não totalizante (Idem: 1176). não é de modo gratuito que Sartre se atem à tarefa de compreender a “totalidade dialética da História” (Contat & Rybalka. não aplicará uma pratica : ela é uma prática. afirmando. Foucault há de encanar a perfeição esta nova figura de intelectual. a partir da década de 1970. da ‘verdade’. seu papel é antes o de lutar contra as formas de poder lá onde ele é simultaneamente o objeto e o instrumento deste poder: na ordem do ‘saber’. as lutas e as intervenções sociais também deverão ser travadas em seu âmbito local: O papel do intelectual não é mais o de se colocar ‘um pouco antes ou um pouco ao lado’ para dizer a verdade muda de todos. mas sim do próprio “sujeito metafísico” – e. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins 1176). Mas uma prática local e regional. se retira daí o referencial para que há de balizar o modo através do qual cada um destes pensadores conceberá a forma de intervenção político-social mais efetiva para se responder às exigências de seu tempo. da ‘consciência’..

Não obstante. em meio a agitação característica da época – cada qual emprestando sua figura privilegiada a favor de uma certa causa.. porém. mas para que enfim se possa escutá-las (Colombel. sem dúvida alguma. apesar da surdez das mídias à época. denunciando um crime racista.. em detrimento dos motivos centrais que fazem com que Sartre e Foucault assumam posições diversas no espectro daquilo que se poderia chamar de “filosofia francesa contemporânea”. outro carregando a bandeirola junto com Claude Mauriac. 2004: 42) (eco de preocupações nietzscheanas). remonta ao “J’accuse” de Victor Hugo. etc . um distribuindo os planfetos. /./ lado a lado. as articulações entre filosofia e intervenção política não somente participavam da gestação da obra.. eles se sucedem nas suas conferências de imprensa. cada qual terá em vista um modelo de intelectual a ser afirmado como o mais condizente para a consecução das tarefas de intervenção político-social requeridas naquele contexto. mas – e sobretudo – constituíam o campo da experiência do trabalho 12 . não para falar no lugar das vítimas. Para ambos os filósofos.André Constantino Yazbek A articulação entre “teoria” e “intervenção social” nas filosofias de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault Foucault há de afirmar a função do intelectual como sendo aquela de operar sobre a “produção da verdade” (Adorno. 2000: 50/51). Se.. por conseqüência das diferenças no plano filosófico. que tanto Sartre quanto Foucault encarnem a figura do intelectual militante – vezo de época. ambos se (re) descobrirão na rua. eles estão là no hall do ministério da Justiça para apoiar as reivindicações dos detentos revoltados. isso não impedirá. Deleuze. Glucksmann. nos marcos da cultura francesa. Genet. em Goutte d’Or. mas também herança de uma tradição que.

/ o que é o intelectual. HABERMAS. M. 1994: 31).. 2000. O Discurso filosófico da modernidade.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. CONTAT. F.. & RYBALKA. A tarefa do intelectual: o modelo socrático. 2001e: 1568) Bibliografia ADORNO. M. J. perguntanos o filósofo em 1984. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins prático daquilo que julgavam ser a tarefa do intelectual. – Michel Foucault (1926-1984): O Dossier. Gallimard. 384 (01) : 63-66. In: GROS Frédéric (org. EWALD. J. Paris. encontrando a sua ressonância na intervenção político-social. pp. O fim de um mundo. Por conseqüência. Rio de Janeiro. Martins Fontes. 1970. não deixará de encontrar certa ressonância nas palavras do “derradeiro” Foucault: “/. COLOMBEL. as filosofias de Sartre e Foucault não só exigem como se alimentam e são concomitantemente alimentadas pela prática efetiva. cindida na contradição entre o “universal” e o “particular”. senão aquele que trabalha para que os outros não tenham uma consciência assim tão boa?” (Foucault. representa a “consciência despedaçada” de um dado horizonte histórico (Sartre.). pp. F. de Luiz Sérgio Repa e Rodnei Nascimento. 39-62. São Paulo. 2004. P. 13 . Paris.) – Foucault: a coragem da verdade. 2002. 1984. É não é por outra razão que a afirmação sartriana – bem ao gosto de um certo hegelianismo francês –. Parábola Editorial. In: ESCOBAR. Les écrits de Sartre. Taurus Editora. 92-96. Magazine Litterárie (Dossier Sartre). São Paulo. Sartre et Foucault. Carlos Henrique de (org. segundo a qual a consciência intelectual é aquela que. Trad. últimas entrevistas.

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