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Lavagem do Bonfim: Tradições e Representações da Fé na Bahia1

Por Luís Américo Bonfim2 INTRODUÇÃO Este ensaio tem como objetivo empreender uma reflexão sobre métodos interpretativos aplicados à etnografia visual. Partindo de uma questão abordada na minha dissertação de mestrado3, a análise da ocupação do espaço social e das relações interculturais em celebrações religiosas populares, apresento uma análise da festa da Lavagem do Bonfim, em Salvador-BA. Para tanto, parto dos relatos históricos e de um conjunto de fotografias de autoria do etnólogo francês Pierre Verger4, realizadas entre 1946 e 1952, em confronto com a minha pesquisa etnográfica e acervo fotográfico em produção contemporânea, acervo este constituído a partir da captação simétrica das imagens históricas, sendo este um exercício interpretativo instigante e de grande valor documental. Assim, este artigo aborda a ocupação do espaço público numa festa popular de Salvador, demonstrando que, com o passar do tempo – e, principalmente devido ao fato dessas festas se tornarem um atrativo turístico de vulto nacional e internacional – as intervenções das políticas públicas sobre o uso do espaço correm o risco de tolher a liberdade de ir e vir dos participantes, transformando gradativamente as festas num espetáculo excessivamente cênico, restringindo (e às vezes mesmo isolando) cada vez mais a participação popular.

ASPECTOS GEOGRÁFICOS, HISTÓRICOS E RELIGIOSOS DA FESTA DO SENHOR DO BONFIM O culto ao Senhor do Bonfim teve origem em 1669, em Setúbal, Portugal. Ainda neste ano o culto chegou ao Brasil, junto com uma cruz de Jesus Crucificado. Uma imagem igual à existente em Portugal chegou a Salvador-BA em 1745, por meio de um capitão-de-mar-e-guerra da marinha portuguesa, Teodósio Rodrigues de Faria, que era ao mesmo tempo proprietário de três navios que faziam tráfico na costa da África e membro do Comitê de Administração do Fumo. Ele mesmo instituiu a Irmandade e iniciou a construção da Igreja em 1740, sendo que em 24 de junho de 1754, com festas, inaugurou a capela, na única colina existente na Península de Itapagipe – colina que é hoje um sitio tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A atual Igreja Basílica de Nosso Senhor do Bonfim é isolada nos quatro lados, tendo sua fachada voltada para a entrada da Baía-deTodos-os-Santos. Até o ano de 1974 já havia sofrido cinco restaurações (SCT-BA). A tradicional “Lavagem do Bonfim” é considerada a mais importante das festas de largo de Salvador. No inicio, as novenas em homenagem ao Senhor do Bonfim eram feitas na Semana Santa; a partir de 1773 passaram a ser feitas com data móvel (sempre no mês de janeiro). Os festejos religiosos (a parte sacra da festa) consistem
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num novenário que se encerra no segundo domingo após o a Epifania (Dia de Reis). A comemoração começou com a característica dos arraiás portugueses, sendo depois o Senhor do Bonfim sincretizado com Oxalá, mudando o estilo da festa. Segundo Clarival do Prado Valladares
a decorrência desse sincretismo foi a ‘lavagem do Bonfim’ proibida pelo Arcebispo D. Luis Antonio dos Santos, em 1889, porém retomada em diferentes datas, ou no mínimo reconduzida, tanto quanto permitida” (VALLADARES, 1967, p. 40).

O fato da “Lavagem do Bonfim” é atribuído à promessa de um devoto, um soldado sobrevivente da Guerra do Paraguai. Acredita-se que o ritual da lavagem teve origem nos tempos em que os escravos eram obrigados a levar água para lavar as escadarias da Basílica para a festa dos brancos, desde esta época um agradecimento do povo às graças concedidas pelo Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim. Considera-se o ano de 1804 como o da primeira lavagem oficial. O ponto alto da festa acontece no Largo do Bonfim, bem em frente à igreja, no alto da Colina Sagrada, na última quinta-feira antes do final do novenário e é marcada pela lavagem da escadaria e do adro da igreja por baianas vestidas a caráter, trazendo na cabeça potes com água de cheiro (muito disputada entre os fiéis) para lavar o chão da igreja, além de flores para enfeitar o altar. Nos cultos afro-católicos, o Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá, segundo Pierre Verger, "sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais" (VERGER, 1997, p. 259). Ocorre também uma aproximação entre a festa católica e a dos cultos afro-brasileiros, as "Águas de Oxalá". O cortejo parte ainda pela manhã da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e vai até a Baixa do Bonfim, arrastando multidões num percurso de aproximadamente 14 quilômetros. Uma presença certa nessa caminhada é a de autoridades civis e militares, artistas e personalidades da cidade de Salvador, da Bahia e do Brasil. Um aspecto de notável destaque cultural é a presença das práticas votivas na devoção ao Senhor do Bonfim, constituindo-se numa das mais antigas do Brasil e que impressiona pelo seu vigor contemporâneo. Em seu Diário da viagem ao norte do Brasil, Dom Pedro II declara no dia 28 de outubro de 1859:
Pouco depois das 6 da manhã saímos para o Bonfim; o caminho já é muito bonito, tendo belas casas e jardins, e antes de lá chegar passa-se o Dendêzeiro, bela alamêda de palmeiras dendês. Da igreja, colocada sobre um teso, para o qual conduz uma bem lançada calçada, goza-se de vista soberba (...) Há uma casa curiosa tôda cheia, de alto a baixo, de quadros de milagres e ex-votos (DOM PEDRO II, 1959, pp. 147-148).

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Já Moema Parente Augel, na obra Visitantes estrangeiros na Bahia oitocentista, apresenta outra impressão da “sala dos milagres”, registrada no século XIX (entre 1855 e 1859), desta vez de Francisco Michelena y Rójas5:
pelo prodigioso número de moldes de cera representando todos os membros do corpo humano, e pelos quadros de pinturas extravagantes, pode-se deduzir logo o estado de superstição em que se acha a imensa maioria da população (MICHELENA Y RÓJAS, in AUGEL, 1980, p. 164).

São percepções distintas do mesmo evento, em épocas muito próximas. Se, por um lado, Dom Pedro II destaca a beleza do local e a inusitada presença da “sala dos milagres”, Francisco Michelena y Rójas não desconsidera os mesmos atributos, mas parece depreciar a relevância mística e sócio-cultural das práticas votivas. Pelo valor artístico ou pelo valor religioso, as práticas votivas dedicadas ao Senhor Bom Jesus do Bonfim são essencialmente distintas da maioria do que se pode encontrar por todo o Brasil. A começar pelo caráter transcanônico da devoção: Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá, o que faz com que as matrizes religiosas católica e afro-brasileira (especialmente o Candomblé) criem uma simbiose de harmonia poucas vezes verificada em qualquer outro lugar do país. A Lavagem do Bonfim é uma prova indiscutível disso, o Museu de Ex-votos e a tradicional “sala dos milagres” são outras. A fé no Senhor do Bonfim torna sua “sala dos milagres”, a mais famosa e prestigiada da cidade de Salvador, muito mais extensa do que a delimitada no interior da igreja. Nas grades que protegem o adro, as “medidas do Bonfim” (famosas fitinhas) são ordenadamente amarradas pelos devotos, criando um cercado colorido e vibrante ao movimento dos ventos que sopram naquele lugar de vista privilegiada. O que se vê dentro e fora da igreja é um fervor religioso que permanece vivo pelo ano todo, há mais de dois séculos e meio. De dia ou de noite, a Colina Sagrada é sempre um espaço de expressão de pedidos e agradecimentos, riquíssimo palco de performances pessoais, lugar que dilui definitivamente o rigor e a tangibilidade do que se pensa como sagrado. A fé no Senhor do Bonfim é um autêntico signo do patrimônio cultural baiano. Em paralelo aos festejos religiosos há ainda a dita festa "profana", marcada pela presença de barracas de comidas típicas e bebidas, desde as cercanias da Colina Sagrada. Até a década de 1950 as baianas tinham acesso ao interior do templo, onde o chão era lavado “com energia e entusiasmo” (VERGER, 1990, p. 11), até que as autoridades eclesiásticas limitaram a lavagem apenas ao adro da Igreja. Desde o ano de 1998 a Arquidiocese de Salvador, em intervenção conjunta com a Prefeitura Municipal, separou as comemorações do Bonfim das festas organizadas pelos grandes empreendedores da moderna indústria cultural baiana. Blocos e entidades carnavalescas organizavam festas paralelas nos arredores do percurso religioso, desviando o interesse do público mais jovem pelo rito cristão e de certa forma desvirtuando a data festiva, com uma oportunista possibilidade de receita,
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que não retornava à fonte motivadora católica. Promoveram um afastamento dos trios elétricos e caminhões de blocos alternativos que acompanhavam o cortejo desde a Avenida Contorno, muitas vezes sequer chegando à metade do percurso e de certa forma desviando e desvirtuando o caráter religioso do dia, promovendo um mini-carnaval com direito a todos os excessos que lhe são peculiares. O que se pode concluir desta medida de caráter reparador, mais de dez anos depois, é que a Lavagem do Bonfim aos poucos volta a ser o centro das atenções no dia, atraindo pessoas que normalmente não se integravam à festa, seja pela dificuldade de acesso, seja pelo desinteresse despertado pela concorrência de outros eventos. A graça da relação entre o “sagrado” e o “profano” se mantém vigorosamente viva, espalhada por todas as partes, dentro e fora da igreja, nas barracas de comidas típicas e bebidas, na malandragem dos vendedores ambulantes, nas danças sensuais e na vestimenta dos fiéis que ocupam toda a Colina Sagrada. Ao contrario do que se pode pensar, a Festa do Bonfim sempre teve um cunho profano escandaloso. Assim escreveu Pierre Verger em Noticias da Bahia - 1850:
O caráter expansivo e alegre dos habitantes da Bahia, brancos e pretos, se revela nesta lavagem, provocando muitas vezes excessos de entusiasmo que são às vezes objeto de vivas censuras por parte do clero (VERGER, 1999, p. 80).

E disse Wanderley Pinho, sobre época próxima:
Gritos de estimulo surgem entre os assistentes e o entusiasmo cresce tanto que – o álcool ajudando a combater os efeitos nocivos da umidade – ao cabo de pouco tempo é uma verdadeira bacanal, da qual, no dia seguinte, os jornais se queixam e as altas autoridades se indignam (1937, p. 620).

Tudo se mistura: a virtude e o pecado; a devoção católica expressa pela “fitinha do Bonfim” e a tradição afro-brasileira, presente nos patuás e figas, que disputam o mesmo espaço dos tabuleiros de venda de artigos religiosos. É a mistura que se vê também na “Sala dos Milagres” e no Museu dos Ex-votos, recentemente reaberto após longo período de reforma. São permanentes as obras e reformas na infra-estrutura da igreja. Em janeiro de 2000 foi inaugurada a nova iluminação da fachada da igreja. O projeto de iluminação evidenciou as pilastras e a torre dos sinos, ressaltando os elementos arquitetônicos e criando volumes, o que faz da igreja um ponto facilmente avistado desde muitos lugares da capital baiana.

QUESTÕES DE MÉTODO Neste texto não tenho como objetivo estabelecer uma análise de conteúdos à luz da antropologia social, mas simplesmente indicar heuristicamente como estabeleci critérios que possibilitassem uma correspondência biunívoca entre os registros de
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Pierre Verger e sua provável percepção nos dias de hoje. A primeira ação neste sentido foi coletar uma amostragem das fotografias originais que fossem passíveis de uma análise comparativa, ou seja, que contivessem elementos visuais suscetíveis a uma aproximação nos dias de hoje. Como se tratava de uma comparação histórica, tomei como referência uma amostragem de fotografias constituída de 5 (cinco) imagens integrantes do livro Retratos da Bahia (1990). Estas imagens expressavam a visão do etnólogo francês a respeito da Festa, sobre a qual ele já havia se ocupado em alguns artigos. Sobre estas imagens tentei detectar que detalhes poderiam ser retratados por mim e servir de discussão à análise histórica e cultural a que procedia. A partir do exame das imagens fotográficas de Verger e de toda a projeção que a Lavagem do Bonfim ganhava ano após ano, decidi observar a participação popular, sua presença no local da Festa e como o poder público, os órgãos de segurança e as empresas de comunicação de massa se relacionavam neste sistema. O trabalho foi realizado ao longo de três observações, nos anos de 2000, 2004 e 2008, nas quais foram produzidos relatos etnográficos e farta documentação fotográfica.

FÉ E ESPAÇO PÚBLICO: UM EXERCÍCIO HERMENÊUTICO Vale ressaltar que as fotografias tomadas por Pierre Verger no livro Retratos da Bahia dão apenas uma observação parcial do adro da Igreja e alguns closes nas baianas que tradicionalmente participavam da Lavagem. O livro não traz registros da movimentação popular e o fotógrafo toma em quase todas as fotos um plano à altura do nível de observador, não reproduzindo nenhuma imagem panorâmica ou de um plano superior (plonger) da Festa. Apesar do acervo da Fundação Pierre Verger (localizada no bairro da Vila América, em Salvador-BA) conter outras imagens do próprio fotógrafo, inclusive em planos diferentes, optei, por questões de delimitação da amostragem, trabalhar com as fotografias constantes no livro. Tendo estabelecido estes parâmetros, parti para o local da festa, no dia 13 de janeiro de 2000. Cheguei no alto da Colina Sagrada por volta das 11 horas. Apesar de não estar credenciado pela EMTURSA, consegui através de uma conversa com um membro da segurança oficial uma permissão para ter acesso à escadaria e ao adro da Igreja, de onde poderia me posicionar de forma mais favorável. Enquanto o cortejo não chegava, fotografei os preparativos para a Festa. Havia um coral infantil que entoava cânticos religiosos e populares. Também se anunciava a presença de um padre da linha carismática que depois da Lavagem faria o lançamento do seu CD. Nas proximidades do adro da Igreja, uma multidão se acotovelava em busca da famosa água de cheiro, alguns até levavam recipientes
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para coletar uma quantidade maior e levar pra casa. O único inconveniente pra mim, que estava no meio da confusão, eram os respingos de água sobre o equipamento fotográfico. Aproveitei o ambiente ainda livre do cortejo e fiz umas fotografias da disposição do público frente à Igreja. Notei que havia, desde então, uma excessiva preocupação por parte dos órgãos gestores da festa quanto à organização e controle da massa popular (figuras 1 e 2), o que me pareceu a medida do atendimento à imagem desejável do que seria a “Bahia em festa” – um dos estereótipos da “baianidade”, tão caro aos meios de comunicação de massa.

Figura 1. Foto: Luís Américo Bonfim

Figura 2. Foto: Luís Américo Bonfim

Há tempos a Lavagem do Bonfim deixou de ser uma simples festa religiosa de grande apelo popular local para ser manchete nos principais telejornais do Brasil, tema de músicas e um atrativo freqüente nos pacotes turísticos. E como o caráter da cidade de Salvador é turístico, tem uma estruturada indústria de captação de recursos e difusão da sua imagem, não parecia recomendável mostrar manifestações onde prevaleciam uma idéia de desordem e desconforto. Este pensamento é atestado pela própria BAHIATURSA (Empresa de Turismo da Bahia), órgão oficial de turismo âmbito estadual, em declarações do seu staff, no sentido de que “não é interessante passar uma imagem de povão. Isso assusta o turista”, seja ele regional, nacional ou estrangeiro. Chega-se a ponto de criar cordões de isolamento, supervisionados pela Polícia de Choque, para conter a multidão que não só deseja se aproximar da imagem sagrada do Senhor do Bonfim e se molhar da sua água de cheiro, mas cumprimentar os políticos e famosos que acompanham garbosamente o cortejo, sob um sol de quase 35o C. Era nítida a intenção dos órgãos gestores de ordenar o espaço da festa de forma a conter a tão livre e tradicional movimentação popular na Lavagem do Bonfim.

Figura 3: Ocupação dos fieis na parte frontal da igreja Foto: Luís Américo Bonfim

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Historicamente, a Festa do Bonfim é uma das mais autenticas manifestações da religiosidade e da expressão popular do povo baiano. Wanderley Pinho escreve em Cotegipe e Seu Tempo:
“Por todo mês a sociedade bahiana se reunia para as novenas do Bonfim, da Guia e de São Gonçalo. Ali se achava toda a Bahia, em volta da colina de Itapagipe. Mais de 30.000 pessoas aglomeradas vindas das mais longínquas regiões da Província (...) A fina flor da sociedade se reúne, após os eloqüentes sermões, nas casas, construídas à volta da colina sagrada, para diversões, banquetes e danças. (...) O povo subia em chusmas trazido pelos vapores ao Porto do Bonfim, para encher a praça e as ruas de ruídos e danças” (PINHO, 1937, p. 616).

Também o príncipe Maximiliano da Áustria conta: “Todos se misturavam e se empurravam. Sentia-se que era uma festa longamente esperada onde os negros sentiam-se em casa” (1868: 197). Outro fato muito curioso e que só enfatiza a importância do imaginário nacional sobre esta grandiosa manifestação popular é a representação cênica da lavagem da escadaria da Igreja para câmeras de TV locais, com difusão nacional. É como se, para o observador de outras regiões do país, bastasse essa sugestão de cena da lavagem. Chega a ser pouco natural (porque excessivamente ordenada) a disposição das baianas, suas indumentárias impecáveis e um sorriso que está muito mais próximo de um anúncio publicitário (Figuras 4 e 5).

Figura 4. Foto: Luís Américo Bonfim

Figura 5. Foto: Luís Américo Bonfim

Fotografias de Pierre Verger, tomadas entre as décadas de 1940 e 1950 (Figuras 6 e 7), mostram o adro da Igreja quase vazio. Isso se devia, em parte pelo fato da realização da Lavagem naquela época se dar ainda dentro da Igreja (com acesso permitido às tradicionais baianas), sendo o adro ocupado por pessoas comuns que literalmente lavavam com vassouras e água de cheiro o pátio da Basílica.

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Figura 6. Foto: Pierre Verger © FPV

Figura 7. Foto: Pierre Verger © FPV

O que pude verificar em 2002, e até o presente, foi a concentração do grande público nas áreas mais externas ao templo (sempre muito bem guardadas pela Policia de Choque...), as escadarias são ocupadas por profissionais da imprensa e o adro tomado por autoridades, seus assessores, as típicas baianas e algumas celebridades. Às pessoas comuns é vedado o acesso ao palco maior da grande festa. A figura 8 mostra um aspecto do adro às 11 horas, ainda vazio e com a entrada controlada. Às 12 horas (figura 9) as primeiras baianas tomavam a área e recebiam suas vassouras para a tão esperada Lavagem.

Figura 8. Foto: Luís Américo Bonfim

Figura 9. Foto: Luís Américo Bonfim

Somente por volta das 12:30h foi que o cortejo apontou no alto da colina do Bonfim. Guiada pelo então Senador Antônio Carlos Magalhães, pelo Ministro Rafael Greca, pelo Governador do Estado na época, César Borges e pelo Prefeito Antônio Imbassahy, entre outras autoridades, uma verdadeira multidão acompanhava e cantava o Hino ao Senhor do Bonfim, de autoria de João Antônio Wanderlei. A Festa do Bonfim sempre foi um espaço para disputas pelo território políticopartidário municipal e estadual. A recepção às autoridades do governo é sempre um termômetro de sua aceitação, desde a saída na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no bairro do Comércio. Naquele ano, mais uma vez, o governo de situação (do grupo Carlista) foi ovacionado pelo povo. Membros da oposição também participaram da caminhada, a exemplo do então Presidente de Honra do Partido dos Trabalhadores (PT) e hoje ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva e do então declarado candidato à Prefeitura da Cidade do Salvador, Nélson Pellegrino.

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Figura 10. Foto: Pierre Verger © FPV

Figura 11. Foto: Luís Américo Bonfim

Do ponto de vista da indumentária e do gestual, a imagem das baianas não sofreu grandes alterações, como comprovam as figuras 10 e 11. E nem poderia de fato sofrer, uma vez que este talvez seja o mais expressivo ícone da cultura baiana, perfazendo assim uma maior absorção de suas formas pelo imaginário local, nacional e até internacional. Mantém-se os colares, as pulseiras, os jarros de flor com água de cheiro, mas uma tradição se esvai com o tempo: cada vez menos se carrega os tais vasos na cabeça. Estes detalhes ficam ainda mais evidentes nas figuras 12 e 13. A primeira é do acervo foto-documental de Pierre Verger, a segunda é de minha autoria.

Figura 12. Foto: Pierre Verger © FPV

Figura 13. Foto: Luís Américo Bonfim

Também a iluminação da Igreja deu um novo ar ao panorama do Largo do Bonfim. Durante décadas esta iluminação consistia de lâmpadas coloridas colocadas nas arestas das paredes da Igreja e em torno de detalhes das torres dos sinos (figura 14). A nova iluminação valoriza o volume da construção e mostra desde as mais distantes vistas a presença da Basílica no alto da Colina Sagrada. Esta é a única imagem panorâmica da Festa do Bonfim registrada por Verger no livro Retratos da Bahia. Na composição relativa a esta imagem (figura 15), me utilizei da técnica de longa exposição para com a iluminação de um ônibus que passava criar um volume para preencher a área onde na imagem original funcionava uma feira e na ocasião da Lavagem deste ano estava vazia. Como vem acontecendo com certa frequência em alguns locais observados pela cidade, a área que esta feira ocupava hoje está tomada por árvores e arbustos, demonstrando uma certa retomada de áreas verdes
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dentro do perímetro urbano da cidade de Salvador, não obstante o desmatamento de outras áreas verdes.

Figura 14. Foto: Pierre Verger © FPV

Figura 15. Foto: Luís Américo Bonfim

CONCLUSÃO A tradicional festa baiana tem uma característica de hibridez religiosa intensa. O Senhor do Bonfim, Oxalá nos cultos afro-brasileiros, abre a possibilidade de visualizar num mesmo espaço seguidores de religiões distintas, dispostos pacificamente e em clima de festa. Este sincretismo religioso, que marca a “personalidade” cultural do povo baiano, talvez tenha na figura do Senhor do Bonfim-Oxalá o seu melhor exemplo de integração cultural. A vigilância dos poderes público e religioso se mostrou eficiente no sentido de não perder as rédeas do controle social e de poder executar estratégias, que se não são lucrativas em nome da manifestação religiosa, ao menos não permitem que a iniciativa privada, de modo desenfreado, utilize o espaço da fé e a religiosidade como uma mina inexplorada, uma mera fonte de renda. A disposição do espaço social e o próprio caráter das festas são modificáveis ao longo do tempo. Isso faz parte da dinâmica cultural e é plenamente saudável para todas as categorias sociais envolvidas (clero, poder público, fiéis, comerciantes, comunidades locais e distantes espectadores). O perigo reside é na transformação, a partir de um certo “ordenamento” do espaço, da presença popular funcionando como num mero elemento decorativo, empobrecido de ação e participação, isolado no processo cultural. Outro grande objetivo deste trabalho foi articular a fotografia (a partir da sua reconstituição) ao estudo da antropologia. Demonstrar e tentar até compreender as causas das mudanças na vida social através destas imagens (original e reobservada, anos depois). A fotografia toma para si não só o papel de testemunha, mas de comprovante físico dessas mudanças socioculturais.

REFERÊNCIAS
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AUGEL, Moema Parente. Visitantes estrangeiros na Bahia oitocentista. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL/MEC, 1980. BONFIM, Luís Américo Silva. Espelhos da Bahia: Impressões de uma Cidade em Movimento. (Dissertação de Mestrado). Salvador: Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, 2000. DOM PEDRO II. Diário de uma viagem ao norte do Brasil. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1959. MAXIMILIEN (d’Autriche). Souvenirs de ma Vie. Paris, 1868. PINHO, Wanderley de. Cotegipe e Seu Tempo. São Paulo, 1937. SCT-BA: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia. Inventário de proteção do acervo cultural da Bahia/IPACBA. Versão I. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia, 2000. 1 CD-ROM. VALLADARES, Clarival do Prado. Riscadores de Milagres: um Estudo Sôbre a Arte Genuína. Rio de Janeiro: Secretaria de Educação do estado do Bahia. Superintendência de Difusão Cultural, 1967. VERGER, Pierre. Noticias da Bahia - 1850. Salvador: Corrupio. Tradução: Maria Aparecida da Nóbrega, 1999. ____________. Orixás, Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1997. ____________. Retratos da Bahia. Salvador: Corrupio. Tradução: Maria Aparecida da Nóbrega, 1990.
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Versão revista e atualizada de artigo apresentado no II Congresso Virtual de Antropologia, Simpósio em Antropologia Visual, Ciudad Virtual de Antropología y Arqueología/Equipo NAYA, 2000. 2 Doutor em Ciências Sociais (PPGCS-FFCH-UFBA, 2007) e professor adjunto do curso de Mestrado Profissional Interdisciplinar em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social do Centro de Pósgraduação e Pesquisa da Fundação Visconde de Cairu (CEPPEV), Salvador-BA. 3 "Espelhos da Bahia: impressões de uma cidade em movimento", defendida em dezembro de 2000 no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (PPGCS-FFCH-UFBA), sob a orientação do professor doutor Ordep Trindade Serra. 4 Agradeço à diretoria da Fundação Pierre Verger por ter me cedido o direito de uso das imagens originais que são a referência básica deste ensaio, extrato da minha dissertação de mestrado. 5 MICHELENA Y RÓJAS, Francisco, Exploración oficial por la primera vez desde el norte de la America del Sur siempre por rios… Viaje a Rio de Janeiro desde Belen en el Gran Pará, por el Atlántico, tocando en las capitales de las principales provincias de imperio en los años de 1855 hasta 1859 … Publicado bajo los auspicios de gobierno de los Estados Unidos de Venezuela. Bruselas, A. Lacroix, Verboeckhoven y C., 1867.

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