Você está na página 1de 92

FUNDAÇÃO MARIO COVAS

em revista
ano 1 - março 2009 - n º 3
Em revista

acervos de
personalidades
editorial

Dançando com acervos


Detalhista, minucioso, perfeccionista, Mario Covas não tomava decisões sem ter
estudado a fundo o assunto. Não importava se fosse a construção de um viaduto ou o
enfrentamento de um adversário político, a recepção a um chefe de Estado ou o rumo
de uma campanha política. Pedia constantemente informações a seus assessores diretos
e não aceitava meias respostas, dados incompletos. Era um exigente assumido. Mas,
ao mesmo tempo em que desesperava o pessoal de gabinete, Covas gerava um volume
enorme e importante de documentos em todo cargo público que exercia. O resultado
desse detalhismo é o acervo que a Fundação Mario Covas tem o prazer de preservar.

E se o acervo Mario Covas tem a marca da minúcia, o que caracterizaria outros arquivos
pessoais? Como a Fundação poderia aprender com a experiência de outras instituições
de preservação de memória? Como poderia compartilhar sua experiência? Assim nasceu a
ideia do Seminário Acervos de Personalidades, que realizamos nos dias 20 a 22 de agosto
de 2008, na sede da Fundação, reunindo arquivistas e historiadores responsáveis por
acervos diversos, de vários Estados do país e até de Portugal.

Nos três dias do evento, conhecemos o trabalho do Centro 25 de Abril com os documentos
sobre a Revolução dos Cravos, que devolveu a democracia a Portugal. Aprendemos com
a abordagem organizacional adotada pela Casa de Oswaldo Cruz para os arquivos dos
cientistas. Descobrimos porque o desprendimento do escritor Erico Verissimo complica a
montagem de seu acervo literário e a Fundação Energia e Saneamento tem tantas fotos
de São Paulo. Nos entristecemos com as dificuldades do Centro de Memória da Bahia em
obter recursos para manter suas preciosidades históricas. E nos alegramos com a bem-
sucedida iniciativa da Unicamp de preservar a memória da região de Campinas.

O olhar de cada palestrante sobre o patrimônio histórico, cultural, científico ou


arquitetônico que cuida é o que veremos nas próximas páginas. Cada um com sua
trajetória, suas peculiaridades, suas marcas. Inclusive o nosso.

Antonio Carlos Rizeque Malufe


Presidente da Fundação Mario Covas

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 3


Índice

Fotoclip 6

Em debate, os arquivos 8

Tudo em ordem no acervo Covas 12

Lei Rouanet viabiliza Centro de Memória 16

Enfim, a sede própria 18

O fio condutor de uma vida 22

“Temos de ir mais fundo no acervo” 26

Quando a pessoa é maior que o cargo 30

A minúcia dá o tom do arquivo 32

Luz, gás, água e preservação 36

No 25 de Abril, o particular é público 38

Revolução com cravos 42

Existe arquivo inocente? 43

Todo documento é importante 44

A COC na rota dos cientistas 48

Dos prédios aos documentos 53

4 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


108 anos de saúde 54

Facilidades para o pesquisador 56

CMU, o guardião da memória de Campinas 58

Francisco Glicério contra o rei 61

Adolfo Gordo e a primeiras leis da República 63

Grama e Izalene, prefeitos com acervo preservado 64

A memória da Bahia 66

Uma história de persistência 70

O palácio Rio Branco 72

Pedro Calmon, filho de Amargosa 73

Erico Verissimo reúne o acervo 75

Em busca de um espaço 79

Da farmácia à glória literária 81

“Lidar com o ALEV é um privilégio” 83

Créditos 86

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 5


fotoclip
Raquel Freitas, coordenadora do Centro de Memória da Fundação Mario Covas, em palestra no seminário

Em debate,
os arquivos
Profissionais arquivistas discutem os desafios da preservação de
acervos de personalidades em Seminário da Fundação Mario Covas

Como preservar os documentos pessoais da melhor forma possível e, com eles,


registrar a trajetória das personalidades que fizeram história na política, nas
artes, na ciência e em outras áreas? A questão foi discutida em profundidade
por profissionais arquivistas de várias entidades nos dias 20, 21 e 22 de agosto de
2008, durante o Seminário Internacional Acervos de Personalidades: Desafios e
Perspectivas. Promovido pela Fundação Mario Covas (FMC) em sua sede, o evento
marcou a inauguração do Centro de Memória e o lançamento do Guia do Acervo.

8 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Natércia Coimbra fala sobre a preservação de acervos de personalidades públicas em Portugal

A atuação das entidades dedicadas à manutenção A instituição, ligada à Universidade de Coimbra,


de acervos de personalidades ainda é pouco reúne cerca de 3 milhões de documentos
difundida no Brasil, mas o seminário realizado referentes ao movimento que restabeleceu a
pela Fundação Mario Covas mostrou a importância democracia no país, em 1974, após décadas de
de ações de preservação da memória como legado convivência com o regime ditatorial salazarista.
para as gerações futuras e o aperfeiçoamento “Ao longo dos anos, o 25 de Abril se tornou
da cidadania. Na grande maioria dos países o principal depósito documental da história
europeus, iniciativas como as empreendidas recente de Portugal. É nosso dever não esquecer
pela FMC têm tradição e contam com respaldo e não deixar perder a memória contida em nossos
governamental, como se pode constatar ao arquivos”, afirmou em sua palestra.
conhecer a bem-sucedida experiência do Centro
de Documentação 25 de Abril, de Portugal. O arquivista, segundo Natércia Coimbra, tem um
papel crítico e fundamental na construção da
De volta à democracia narrativa sobre a trajetória da personalidade:
“Mais do que um relato histórico e imparcial,
No primeiro dia de palestras do seminário, a os nossos arquivos precisam ser transparentes”,
professora Natércia Coimbra, coordenadora do disse à audiência da Fundação Mario Covas.
Centro de Documentação 25 de Abril, falou sobre O 25 de Abril foi o primeiro centro de memória
acervos de personalidades públicas em Portugal. português a ter uma página na internet e a

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 9


Luis Sergio Matarazzo, diretor secretário da FMC, abre o evento com Natércia Coimbra e Raquel Freitas

primeira biblioteca do país – com 8 mil volumes Os desafios e perspectivas de instituições de


– a oferecer sua base de dados via web. memória foram o tema da palestra de Consuelo
Novais Sampaio, da Fundação Pedro Calmon. A
Experiência brasileira entidade cuida do acervo político do Estado da
Bahia e vivia, na ocasião, o drama da redução de
Profissionais de centros de memória sediados em recursos e da mudança de sede.
diferentes Estados brasileiros deram inestimável
contribuição ao seminário. Maria da Glória Numa situação mais confortável, Fernando
Bordini, professora da Universidade Federal Antonio Abrahão falou do trabalho do Centro de
do Rio Grande do Sul, falou de sua experiência Memória Unicamp, órgão de uma universidade
com o acervo literário do escritor gaúcho Erico pública estadual dedicado à preservação de
Verissimo, na ocasião ainda sem sede definitiva acervos pessoais de personalidades da região de
e condição de ser aberto à pesquisa pelo público. Campinas, interior paulista.

Paulo Roberto Elian dos Santos, vice-diretor Raquel Freitas, coordenadora do Centro de
da Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz, no Rio de Memória Mario Covas, e Marcia Pazin, especialista
Janeiro, discorreu sobre os acervos dos cientistas em organização de arquivos, falaram de sua
brasileiros. Dadas as especificidades dos arquivos experiência na organização da memória Covas,
desses profissionais, a entidade adotou a suas dificuldades e vitórias. Há atualmente no
organização dos documentos por função exercida Centro de Memória milhares de documentos
pelo cientista, numa abordagem inovadora. textuais, 3.639 audiovisuais, 1.918 tridimensionais

10 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


e outros 11.402 documentos fotográficos. Seu
acervo conta a trajetória política de Mario Covas,
desde a militância na cidade de Santos, onde
nasceu, até o período em que governou o Estado
de São Paulo, passando pela atuação como
deputado federal, prefeito nomeado da cidade
de São Paulo e senador da República.

Contando com uma audiência de mais de cem


profissionais ligados à preservação de memória,
o seminário atingiu plenamente seus objetivos.
Em primeiro lugar, o evento abordou temas
relevantes para a área, entre eles experiência
de organização de acervos de personalidades,
construção da memória e potencial de pesquisa,
Integrantes da equipe do Centro de Memória
acervos literários e de cientistas, desafios e
participam do evento como ouvintes
perspectivas de instituições de preservação da
memória. O seminário também funcionou como
um meio de divulgação das metodologias de
trabalho e estabeleceu um canal de comunicação
entre o Centro de Memória Mario Covas e
as outras instituições, fundamentais para o
desenvolvimento das técnicas arquivísticas.

Profissionais arquivistas e historiadores compõem a audiência do Seminário Acervos de Personalidades

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 11


Tudo em ordem no acervo Covas
Em um ano e meio, a equipe do Centro de Memória organizou o
arquivo, publicou o Guia do Acervo e abriu as portas para a pesquisa

Preservar, organizar e dar acesso


público ao legado do ex-governador
Mario Covas é a missão cumprida com
muito trabalho e persistência pela
Fundação Mario Covas. Mas como foi
que isso se deu? Quem contou a história
à audiência do Seminário Acervos de
Personalidades foi Raquel Freitas,
profissional com 13 anos de experiência
na preservação e montagem de
acervos, que chegou em março de 2007
à Fundação para executar o projeto de
implementação do Centro de Memória.
Técnico do Centro de Memória trata fotografia

Criada em 21 de abril de 2001, a Fundação Mario do material. “Tínhamos um ano para montar o
Covas passou três anos em fase de garimpagem de acervo, um prazo muito corrido”, disse Raquel
documentos. Ex-assessores, amigos e familiares Freitas à audiência do seminário. “Até porque
do ex-governador recolheram a documentação o arquivo sofreu três mudanças de local, o que
para formar o acervo. Em seguida, realizaram-se dificultou bastante o nosso trabalho.”
vários estudos para a captação de recursos que
viabilizassem a organização do material coletado.
Para começar, Raquel fez a leitura das atas
Um projeto estribado na Lei Rouanet (leia texto
da Fundação Mario Covas para entender sua
na página 16) foi então elaborado, encaminhado
ao Ministério da Cultura e aprovado em meados formação, como o acervo chegou, os relatórios
de 2006. Seis meses depois, os primeiros aportes produzidos nesse processo e sua transferência
foram feitos, e Raquel Freitas, contratada. para a sede, além do material sobre a trajetória
política do ex-governador. Depois, tratou de
A documentação inicial do acervo Mario Covas conhecer o projeto Cultura, Política e Cidadania, a
foi recolhida nas diversas áreas de apoio ao ex- Organização da Memória Covas. Após dois meses
governador do Palácio dos Bandeirantes, como a se inteirando dos fatos, traçou as diretrizes para
secretaria particular, as assessorias de imprensa, a execução dos produtos definidos no projeto.
de gabinete e a especial, além do núcleo de
gerenciamento de informações administrativas
Com o apoio de patrocinadores, foi possível
responsável pelo protocolo do gabinete.
instituir o Centro de Memória, cuja missão é
Posteriormente foram incorporados documentos
resgatar, preservar, organizar e tornar disponível
doados pela esposa, dona Lila, a filha, Renata
Covas, e outros familiares. Toda a coleta foi feita o acervo, que constitui ação relevante para
por um grupo de assessores que davam suporte preservar a história brasileira e oferecer novas
às ações de Mario Covas, buscando as informações fontes de pesquisa. “Queremos ser referência
necessárias para ele tomar decisões. em centro de memória, organizar e tornar
acessível ao publico o patrimônio documental,
A organização desenvolver projetos culturais e educativos
voltados para a responsabilidade da preservação
Com o primeiro aporte de recursos, no final de patrimonial, incentivar e apoiar ações no âmbito
2006, iniciaram-se os trabalhos de organização da preservação dos acervos de caráter relevante

12 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Trainéis deslizantes acomodam os diplomas e títulos recebidos por Mario Covas em sua vida pública

para a história brasileira e fortalecer a imagem VHS, cassete, Betacam –, 1.918 objetos e 11.042
da Fundação”, disse Raquel Freitas. documentos fotográficos”, disse a coordenadora
do Centro de Memória. O registro topográfico
O segundo passo foi a formação de equipe técnica. desses documentos possibilitou uma visão
“Nos preocupamos em contratar pessoas com boa panorâmica do acervo, importante para a
formação, introduzi-las nas teorias de arquivística concepção do Guia do Acervo. “Agora nós estamos
e trabalhar muito pontualmente. Foram quase caminhando para o inventário e o catálogo. Até
quatro meses e meio de leitura, reuniões sobre o início de 2009 vamos disponibilizar o acervo
a história de Mario Covas e de como trabalhar fotográfico e o de honrarias em catálogo no
com a norma de descrição arquivística ISAD(G)”, nosso banco de dados.”
afirmou. Foram contratados inicialmente dois
técnicos documentalistas, que passaram por um A rotina de atendimento de pesquisa foi colocada
processo de integração e treinamento. Diversos no módulo de atendimento do sistema, de forma
profissionais, entre pesquisadores, consultores a manter o controle das informações liberadas
ligados à organização e à preservação de acervos, para consulta, de que forma elas serão utilizadas,
deram sua contribuição ao projeto. a quem estão sendo cedidas e o que o usuário fará
com elas. O módulo de atendimento à pesquisa
As quatro fases estabelece as etapas para o cadastramento e o
controle das informações abertas aos usuários.
O trabalho foi dividido em quatro fases de
organização: o acervo textual, o audiovisual, O Guia do Acervo foi o primeiro instrumento de
o fotográfico e o tridimensional. O registro pesquisa elaborado para os acervos organizados.
topográfico foi feito já no banco de dados, o que “Mais do que isso, foi um mecanismo de
possibilitou atender aos pedidos de consulta dos conhecimento da documentação e do acervo
pesquisadores, abrir o acervo para o público. “Em de um modo global, permitindo a análise do
um ano e meio saímos do zero em instrumentos ponto de vista de sua criação e acumulação,
de controle da documentação para números das características físicas e do suporte dos
significativos: 1.167 caixas de documentos gêneros documentais. Foi possível encontrar
textuais, 3.639 documentos audiovisuais – fitas até negativo fotográfico de vidro e as cartas

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 13


que Mario Covas escreveu quando esteve preso corrente e possuía uma ficha catalográfica muito
no DOPS (Departamento de Ordem Política e próxima da utilizada em biblioteconomia.
Social), resgatando todos os sentimentos que
ele relata ali”, disse Raquel. Um material muito “Nós tivemos todo o trabalho de analisar essas
interessante, segundo a coordenadora do Centro fichas do Palácio para saber qual ação iríamos
de Memória, é o que abrange os dois períodos de colocar adiante em relação à formatação do
doença do ex-governador. “A população mandou Guia do Acervo. Depois, com recursos obtidos
muitas cartas para ele, quase 14 mil cartas. Dá com os patrocinadores, conseguimos chegar
até para fazer um estudo sociológico sobre a à sala climatizada, equipada com iluminação
comoção popular em relação à doença dele, os correta, arquivos deslizantes, material de
conselhos que davam. Há cartas em que relatam acondicionamento adequado, material de
que tiveram um sonho, que tudo iria dar certo.” proteção para os nossos técnicos documentalistas,
e comprar os trainéis para pendurar os quadros.
Após a abertura do acervo à pesquisa, foram Por fim, com a compra da sede, conseguimos ter
atendidas até o primeiro dia do seminário 46 uma sala exclusiva para o acervo.”
consultas, mesmo sem divulgação. “Agora temos
a ajuda de uma assessoria de imprensa para Na sala de triagem, explicou Raquel, é feito todo o
divulgar que o Centro de Memória existe e está tratamento técnico do acervo, como tirar cola de
aberto à consulta, que é possível consultar o Guia foto, limpar documento. Há uma sala de reserva
online. Com isso, acreditamos que esse número técnica, onde todos entram de avental, trabalham
cresça e muito.” Afinal, trata-se de um acervo de de luva e máscara e limpam as mãos com álcool.
interesse geral, organizado com recursos públicos “Tivemos problemas com cupins nos quadros, o
e que tem como meta ser aberto à população. que nos obrigou a chamar um especialista para
eliminá-los. Há uma série de critérios que temos
Durante sua exposição, Raquel mostrou uma foto de obedecer e fazer valer os princípios para que
do acervo em fase de organização na antiga sede. nosso trabalho seja a cada dia mais qualificado.
Era um verdadeiro quebra-cabeças. “Mas a equipe Temos de lutar por esses princípios, mostrar que
se empenhou e nós conseguimos organizá-lo”, nós temos qualidade técnica e disponibilizar esses
disse Raquel, lembrando que toda a organização acervos para consulta”, finalizou a coordenadora
feita no Palácio dos Bandeirantes era de arquivo do Centro de Memória da FMC.

Na sala climatizada, técnicos do Centro de Memória da Fundação Mario Covas arquivam documentos

14 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


A Fundação Mario Covas
organizou

1.918
objetos
3.639
documentos
audiovisuais
1.167
caixas de
documentos
textuais

11.042
fotos

14 mil é o número de cartas enviadas


pela população desejando
melhoras a Covas, todas
integrantes do acervo da FMC

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 15


Troféus, salvas, honrarias, esculturas e outros presentes diplomáticos integram o Acervo Mario Covas

LEI ROUANET VIABILIZA


CENTRO DE MEMÓRIA
Projeto aprovado pelo Ministério da Cultura permitiu a captação
de recursos para a organização do acervo MARIO COVAS

O Centro de Memória da Fundação Mario Covas


contou com recursos captados por meio da Lei

1,071
Rouanet para organizar seu acervo e torná-
lo acessível à pesquisa do público. O projeto
Memória Mario Covas, elaborado com esse fim,
foi aprovado pelo Ministério da Cultura no dia
23 de maio de 2007, permitindo que a Fundação
milhão de reais foi quanto captasse na iniciativa privada 1,071 milhão de
a FMC pôde captar na reais até o final do mesmo ano.
iniciativa privada
Os objetivos iniciais do projeto eram a criação de
infraestrutura, a realização das primeiras etapas
de organização, a implementação do sistema de
informatização e da recuperação da informação,

16 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


O que é a Lei Rouanet
o lançamento do primeiro instrumento de
pesquisa - o Guia do Acervo -, a realização de um Decretada em 23 de dezembro de
seminário e o lançamento de cinco publicações 1991 pelo presidente da República
relacionadas ao acervo, além de abri-lo ao público Fernando Collor de Mello, a Lei
em geral. Todos foram cumpridos, incluindo esta
Federal de Incentivo à Cultura (nº
revista, uma das cinco publicadas pela Fundação
Mario Covas em março de 2009.
8.313/91) prevê incentivos fiscais a
empresas e indivíduos que desejem
A ideia por trás do projeto era compartilhar o financiar projetos culturais. Entre
legado, sob a guarda da Fundação, da trajetória outras medidas, permite deduzir do
de 40 anos de atuação pública de um líder que,
Imposto de Renda até 100% do valor
com extremo senso de justiça, dedicou sua vida
ao bem comum. A Fundação tem como preceito investido em um projeto cultural, de
básico preservar e propagar o ideário de Covas, acordo com o enquadramento.
mediante a sustentação dos princípios da ética
e da transparência que balizaram sua trajetória.
É conhecida também por Lei Rouanet
O acervo é composto por documentos que mostram porque sua criação se deve a Sérgio
o cotidiano de um homem público, atuando no Paulo Rouanet, secretário de Cultura
cenário do Legislativo, à frente da municipalidade de Collor. Rouanet é diplomata,
e na gestão do principal Estado brasileiro.
filósofo, antropólogo, tradutor,
São cartas, relatórios, estudos, atos, cartazes,
programas de governo, prestações de contas,
ensaísta e membro da Academia
discussões temáticas, coberturas fotográficas de Brasileira de Letras desde 1992.
ações oficiais, campanhas políticas, entrevistas,
publicações, artigos e matérias jornalísticas,
fotografias, vídeos, correspondências e outros
tantos e diversos documentos.

Acervo fotográfico
Mais um projeto da Fundação Mario Covas encontrou O MECENATO
amparo na Lei Rouanet. Em 1º de dezembro de Projetos com captação de
2008, o Diário Oficial da União publicou a aprovação recursos por ano, NO BRASIL
do projeto de Doação e Digitalização do Acervo
Fotográfico de Mario Covas pelo Ministério da
Cultura, durante a 155ª reunião do Conselho Nacional Ano Nº de projetos
de Incentivo à Cultura (CNIC). Com a aprovação na
categoria de Patrimônio Cultural, no art. 18 da lei, a 2000 1.095
Fundação poderá captar 1, 073 milhão de reais com 2001 1.212
100% de isenção fiscal para os patrocinadores.
2002 1.371
Os recursos serão aplicados para digitalizar, 2003 1.542
classificar e tratar mais de 330 mil cromos,
doados pela A2 Comunicação. Está prevista 2004 2.041
ainda a produção de DVDs, além de um livro e 2005 2.471
uma exposição. A FormArte Projetos, Produção
e Assessoria Ltda., sob a responsabilidade de
2006 2.908
Rosana Dellelis, e o Centro de Memória Mario 2007 3.172
Covas estão produzindo uma publicação especial
de apresentação do projeto, que irá auxiliar na
2008 1.863
captação dos recursos necessários. Fonte: Ministério da Cultura

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 17


Busto de Mario Covas
no saguão da sede
própria da FMC

18 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Enfim,
a sede própria
A Fundação Mario Covas mudou várias vezes de endereço até
chegar ao definitivo, no coração de São Paulo

Dois andares de um prédio na rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, abrigam


a sede própria da Fundação Mario Covas desde o início de 2008. Encontrar o
endereço definitivo foi uma longa batalha, iniciada logo após a criação da
entidade, em 21 abril de 2001. Dentre as possibilidades analisadas pela diretoria,
na época, a preferida foi o aluguel de uma instalação provisória, enquanto se
estudava a viabilidade de compra de uma sede definitiva ou de um terreno
onde construí-la. Conseguiu-se algo melhor: a cessão, a título gratuito, de
um casarão à rua Tavares Bastos, no bairro paulistano da Pompéia. O imóvel
necessitava uma reforma, e ela foi realizada.

Além da troca de toda a instalação hidráulica lamentava não ter feito durante sua passagem
e elétrica, as obras incluíam novos espaços pela prefeitura paulistana (1983-1985) nem em
destinados a um auditório, salas de reunião e sua vida parlamentar como deputado e senador.
banheiros. Um dos locais mais atraentes era o
chamado Bar da Praia, um quiosque coberto Essa foi a origem do projeto Escriba, organizado
de sapé, no quintal dos fundos, ambiente por Lúcia Maria dal Médico. O material coletado
informal, onde surgiram várias idéias para o em todas as secretarias servia a dois objetivos.
desenvolvimento da Fundação. O primeiro deles era alimentar o “Você sabia?”,
um informativo destinado ao grande público.
A sede provisória foi inaugurada em abril de O segundo era a constituição de um acervo. Os
2002, com uma exposição fotográfica intitulada recortes da imprensa, vídeos e fitas de áudio eram
“A Ação Conforme a Pregação”, que mais tarde todos guardados. Os que Mario Covas considerava
se tornaria itinerante, percorrendo inúmeras especialmente importantes eram merecedores de
cidades paulistas. A exibição documentava uma classificação especial.
passagens significativas da vida de Covas, desde
a formatura na Escola Politécnica, em 1955, até Do Palácio dos Bandeirantes, onde estava, esse
as últimas realizações de sua segunda gestão no material foi transferido para uma pequena casa
governo de São Paulo, 45 anos mais tarde. alugada pela Fundação Mario Covas enquanto
reformava-se a sede. Verificou-se logo que,
Instalada a sede, começou a organização do apesar de extensa, essa documentação referia-
acervo. A ideia do acervo partira do próprio se exclusivamente aos anos de governo. Todo o
Mario Covas. Entre o final da campanha vitoriosa resto encontrava-se espalhado com a família e
em 1994 e o início de sua gestão do Estado de os amigos e nos arquivos da Câmara, do Senado
São Paulo, ele externara sua preocupação em e da Prefeitura. Graças à boa vontade de todos,
preservar a memória de seu governo, algo que esse material começou a afluir à Fundação.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 19


Painel com os fatos mais marcantes da trajetória de Mario Covas na entrada da sede da Fundação

Na sede da rua Tavares Bastos, cuidou-se de com 10 mil reais. Todas as reformas necessárias
organizar os cursos sobre política. Destinavam-se foram novamente efetuadas.
a preencher uma lacuna na educação dos jovens
entre 16 e 18 anos. Essa faixa etária não conhecera Nas instalações definitivas da nova sede, mais
as lutas em prol de democracia conduzidas pelas amplas e apropriadas, foi possível dar acesso
gerações anteriores. E também desconhecia, pois ao público, organizar exposições e seminários.
ainda não haviam chegado aos livros escolares, Ao abrir essa massa de documentos para a
as conquistas da Constituição de 1988, como o população, a Fundação presta um serviço não
Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código apenas à memória de Mario Covas, mas a todos
de Defesa do Consumidor ou o fortalecimento do os interessados na história e nos seus reflexos
Ministério Público. atuais na vida política do Brasil.

Além desses cursos realizados de forma


permanente, a Fundação Mario Covas passou
a realizar seminários sobre a administração
pública baseada na eficiência, nos postulados da
democracia e no respeito ao contribuinte. Quando
a Notre Dame Seguros S/A, empresa proprietária
do imóvel da rua Tavares Bastos, solicitou a
sua devolução, a entidade se transferiu para o
edifício Bandeira, antigo Joelma, no centro da
cidade, onde ficou por seis anos, até a compra da
sede definitiva, no início de 2008.

As novas instalações ocupam dois andares de um


prédio da rua 7 de abril. A aquisição foi conduzida
por Antonio Carlos Malufe, presidente da
Fundação desde abril de 2006, em substituição
a Osvaldo Martins. O contrato assinado com a
Fundação Porto Seguro, do Colégio Porto Seguro,
proprietária do imóvel, estabelece um preço de
300 mil reais, sendo 40 mil de entrada e 26 parcelas
mensais de 10 mil reais cada. Essas quantias
foram asseguradas por doações de empresas e
associações, cada uma delas se comprometendo Trecho de discurso de Covas destaca exposição permanente

20 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Capa do Guia do Acervo, primeira publicação do Centro de Memória da Fundação Mario Covas

O fio condutor de uma vida


O Guia do Acervo reconta a história de Mario Covas desde antes de
seu nascimento até pouco depois de sua morte

O Guia do Acervo, primeira publicação do Centro de Memória da Fundação


Mario Covas, foi lançado no dia 20 de agosto de 2008. Elaborado com base
nas normas estabelecidas pela ISAD (G) – International Standard of Archival
Description (General) e pela Nobrade – Norma Brasileira de Descrição Arquivística,
o Guia descreve a estrutura do acervo e traz textos complementares sobre sua
implementação, além do perfil e da cronologia de vida de Mario Covas.

22 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Raquel Freitas e Antonio Carlos Malufe mostram diplomas e certificados de Covas a visitantes da FMC

O Acervo Mario Covas é composto, principalmente, Documentos pessoais


por documentos de ordem familiar e privada, 1901 - 2001
além daqueles produzidos e acumulados nos
gabinetes de trabalho, durante os mandatos Fazem parte do grupo de documentos pessoais
exercidos como deputado, prefeito nomeado, e familiares as certidões de nascimento,
senador e governador. casamento, óbito e do processo de divórcio
dos pais de Mario Covas. Há também a carteira
O maior volume de documentos refere-se aos de identidade, o comprovante de registro no
últimos anos da vida de Mario Covas, durante Cadastro de Pessoas Físicas da Receita Federal,
os dois mandatos à frente do governo do Estado os passaportes (diplomático e pessoa física),
de São Paulo, uma vez que a documentação carteiras funcionais, carteiras de sócio de clubes,
foi recolhida inicialmente no gabinete do documentação relacionada ao status maçônico,
governador. Posteriormente, foram incorporados boletins escolares e diplomas, entre outros. O
ao acervo os documentos familiares doados pela acervo dispõe ainda de um número expressivo
esposa, Florinda Gomes Covas, e a filha, Renata de fotografias de família, formaturas, jantares e
Covas, com destaque para os álbuns de fotos. outros eventos sociais de caráter privado.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 23


Campanhas eleitorais o acervo dispõe de folhetos, cartazes, adesivos,
1961 – 2000 calendários e jornais de campanha – publicações
divulgando as realizações do candidato em
A documentação refere-se aos períodos de: 1961, cargos públicos exercidos anteriormente.
quando Mario Covas candidatou-se à Prefeitura Constam também bandeirolas, bonés, bottons,
de Santos; 1962, ao concorrer a deputado leques, camisetas, brincos, bexigas, chaveiros,
federal, e 1966, pleiteando a reeleição; 1982, ao saca-rolhas, réguas, apitos, caixas de fósforos,
candidatar-se a deputado federal, após o período lixas de unha, flanelas, aventais, copos, batons,
de cassação; 1986, quando disputou uma vaga frasco contendo pó de guaraná e canetas.
no Senado; 1989, com a campanha presidencial;
1990, ao candidatar-se ao governo do Estado de Cargos públicos
São Paulo; 1994, em que foi novamente candidato
ao governo, e, em 1998, à reeleição. Da campanha Dos três mandatos de Mario Covas como
de 2000, há documentos sobre ao apoio de Mario deputado federal, o acervo possui preciosidades,
Covas a candidaturas municipais. como a documentação referente ao processo de
cassação. Entre os pronunciamentos do deputado,
Administração de campanhas destaca-se o discurso realizado em defesa de
Márcio Moreira Alves às vésperas da edição do Ato
Os documentos abrangem planilhas de custos, Institucional nº 5. Há também projetos de lei,
pesquisas, comprovantes e relatórios de apuração emendas, pareceres e requerimentos.
do Tribunal Superior Eleitoral, relatórios, alguns
com registros fotográficos, de acompanhamento O conjunto de documentos da gestão de Covas
dos serviços prestados às campanhas, cadastros na Prefeitura de São Paulo (1983 – 1985) contém
de contribuintes de campanhas, listagens com sua indicação pelo governador Franco Montoro e
endereços de diretórios e comitês eleitorais, o processo de nomeação. Mario Covas foi o último
crachás utilizados em comícios, carimbos e prefeito “biônico” da cidade.
papéis em branco timbrados com logomarcas de
campanha, correspondência entre diretórios. A documentação referente à atuação como
senador (1987 – 1994) inclui registros da
Documentos partidários e Assembléia Nacional Constituinte, na qual
planos de governo exerceu a liderança da bancada do PMDB, além da
participação na CPI que culminou no processo de
O acervo conta com estatutos e diretrizes impeachment do então presidente da República
partidárias, nos quais são condensadas Fernando Collor de Mello.
orientações políticas, além das propostas de
governo, tanto em escritos preliminares que se Da gestão no governo do Estado de São Paulo
caracterizavam por textos sujeitos à discussão (1988 – 2001), constam tanto os documentos
nos conselhos partidários, como em brochuras produzidos no gabinete como aqueles coletados
para a divulgação das propostas nas campanhas. e armazenados com objetivo de acompanhar as
atividades desenvolvidas pelos órgãos e empresas
Promoção de campanhas públicas, além do acompanhamento de serviços
prestados por empresas privadas contratadas.
Os materiais promocionais utilizados em
campanhas políticas apresentam-se em variados A íntegra do Guia do Acervo está disponível na
suportes e formatos. Dos materiais impressos, internet, no endereço www.fmcovas.org.br.

24 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Comendas recebidas por Covas em
exposição permanente na sede da FMC

“Temos de ir mais fundo


no acervo”
A catalogação de honrarias e
17 álbuns de fotos é o próximo Depois de identificar cada peça, o
passo de Raquel Freitas, Centro de Memória Mario Covas começa
coordenadora do Centro
de Memória Mario Covas, na a aprofundar a organização do acervo.
organização do acervo “Estamos catalogando primeiro as
honrarias, porque são peças delicadas”,
diz Raquel Freitas, coordenadora do
Centro. Em entrevista após o seminário,
Raquel avalia a contribuição do evento
para a FMC e conta quais são seus planos
para o acervo e os maiores desafios
que enfrentará para estar com tudo
catalogado até 2011. Acompanhe.

26 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


FMC – O que o Seminário trouxe de fazer. Estamos catalogando as honrarias,
contribuição para o Centro de porque são peças delicadas. Muitas estavam
Memória MARIO COVAS? quebradas, não havia o mínimo controle.
Então estamos tratando das comendas com
RAQUEL FREITAS – Foi uma troca de informações um cuidado maior. Depois de catalogar todas
muito rica. Cada palestrante expôs uma as honrarias, passaremos para as fotos doadas
realidade de trabalho muito diferente da dos por dona Lila Covas. São quase 17 álbuns com
outros. A professora Consuelo Novais Sampaio, fotos belíssimas. Em seguida, vamos mexer
da Fundação Pedro Calmon, por exemplo, está nos conjuntos documentais, catalogar cada
numa situação delicada, porque o governo da um. É importante detalhar, porque há quem
Bahia diminuiu a verba destinada ao projeto. acredite que o acervo está pronto.
Como se não bastasse, ela terá de deixar o
palácio onde fica o centro de memória, FMC – O que são conjuntos
documentais?
porque pediram o prédio. A professora Maria
da Glória Bordini, dona de uma formação
RAQUEL FREITAS – Conjunto documental é tudo
belíssima na análise da literatura de Erico
aquilo que conseguimos referenciar a um
Verissimo, não tem um lugar definitivo para
dado período. No caso da trajetória política
o acervo. Os documentos estão numa sala
de Mario Covas, reunimos num conjunto,
fechada, não há como organizar.
por exemplo, toda a documentação que faz
referência ao período em que ele foi deputado
FMC – Quais acervos estão em melhor
federal. Integram esse conjunto a campanha,
situação?
a propaganda política, os projetos etc. Agora,
vamos pegar esse conjunto e decidir como
RAQUEL FREITAS – O Centro de Memória
dividi-lo, seguindo critérios de datação, de
da Unicamp é um deles. Fica dentro da
catalogação de cada documento. O acervo
universidade, que reconhece a importância
deve estar todo catalogado em 2011, porque
do centro de preservação da memória. Além
há todo um trabalho de pesquisa a ser feito.
disso, gera pesquisa, porque vende prestação
As pessoas precisam entender que trabalhar
de serviço. Achei isso muito legal. A Casa de
com um arquivo envolve muita metodologia
Oswaldo Cruz vive de pesquisa. Lá é tudo bem
e pesquisa, não é simplesmente pegar e
organizado, com uma equipe estruturada.
cadastrar. É preciso posicioná-lo dentro do
Na Fundação Mario Covas, nós temos a
conjunto em que está inserido.
infraestrutura. Agora, o desafio é ampliar as
possibilidades de pesquisa, ver o que a gente
FMC – O tempo da organização é
pode tirar de informação desse acervo. diferente.

FMC – Em relação às realidades que o


RAQUEL FREITAS – Exato. É preciso ter uma
seminário expôs, em que momento está
a Fundação Mario Covas? Você acha que equipe mínima para projetar um prazo.
o caminho adotado está correto? Catalogar um acervo enorme em duas pessoas
é muito mais demorado do que com nove.
RAQUEL FREITAS – Acho que sim. A primeira
coisa que nós fizemos aqui foi abrir o FMC – A equipe da Fundação Mario Covas
acervo para a consulta, democraticamente. é formada por quantas pessoas?
É um legado para todos os brasileiros. O
primeiro passo foi dado. Mas, em termos RAQUEL FREITAS – Quatro pesquisadores,
de organização, foi um pequeno passo. Há dois técnicos documentalistas e dois
ainda muita coisa por fazer, temos de ir mais estagiários. Todos são da área de História,
fundo. Já sabemos o que está aqui, temos os com treinamento em arquivística realizado
registros, o controle sobre o acervo, mas é só internamente. Daqui para a frente, o
o primeiro passo. desenvolvimento da equipe vai depender do
interesse de cada um. Todos os integrantes
FMC – E qual é o próximo? descobriram que essa é uma outra área em
que o profissional formado em História pode
RAQUEL FREITAS – O próximo passo é a atuar, não precisa ser só professor, e estão
catalogação desse acervo, entrar fundo buscando aperfeiçoamento. Para nós é muito
nele. Na verdade, é o que já começamos a importante esse interesse, porque pegamos o

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A C E R V O S D E P E R S ON A L I D A D E S 27
acervo da Fundação Mario Covas num estágio 2001, demorou dois anos para definir o que
ruim, com muitas mudanças de espaço. O seria o acervo Mario Covas, levou mais dois
maior desafio era entender o caos dessa massa anos para definir um projeto começarmos a
documental e definir como faríamos a primeira executá-lo. Está tudo pronto? Não, não está
organização, que gerou o Guia do Acervo. Foi tudo pronto. Estamos no processo.
um desafio constante e, para eles, muito mais.
FMC – O que o pesquisador encontra
atualmente no site da Fundação
FMC – Vocês estão na sede própria desde
Mario Covas?
quaL DATA?
RAQUEL FREITAS – Nós temos o Guia do
RAQUEL FREITAS – Desde 7 de março de 2007. Acervo disponível no nosso site. Isso não
O projeto foi aprovado em maio de 2006, estava previsto no projeto original. Mas
e o primeiro aporte de recursos entrou em como tínhamos o banco de dados e a
dezembro de 2006. A criação do Centro de infraestrutura de pesquisa em ambiente
Memória foi oficializada no dia 27 de abril web, decidimos oferecer o Guia no site. Foi
de 2007 e, em maio, começamos a traçar as uma decisão importante porque ampliou o
diretrizes de como iríamos trabalhar. O acervo acesso à informação para além dos 3.000
ganhou o espaço que ele merece, tem sala exemplares do Guia impresso. Também
climatizada, arquivos, tudo o que era essencial foi um meio de descobrirmos o perfil das
para começarmos a organizar a documentação pessoas interessadas em consultar o acervo.
considerando os instrumentos de pesquisa que
o banco de dados nos dá. O banco foi montado FMC – O site gerou demanda por
pesquisa?
em níveis de descrição. Qual foi o nível maior? O
Guia. Agora é a vez do inventário e, depois, do
RAQUEL FREITAS – Atendemos a cerca de 50
catálogo. Está fácil, porque temos tudo o que
pedidos de pesquisa no período de um ano.
precisamos, infraestrutura, computador.
FMC – Os pesquisadores já publicaram
FMC – O seminário mostrou diversas alguma obra baseada no material da
realidades nos diferentes centros de Fundação?
memória. Você acredita que o Brasil
está pronto para esse tipo de trabalho? RAQUEL FREITAS – O livro Políticos ao
Entardecer, organizado pelo cientista
RAQUEL FREITAS – Que pergunta difícil. Acho político Ney Figueiredo. Recebemos até um
que o Brasil está no processo. Quando temos convite para ir ao lançamento, que ocorreu
uma associação de arquivistas, criada na em novembro de 2007, na livraria Cultura,
década de 1970 em São Paulo, movimentos do Conjunto Nacional. Essa publicação trata
iniciados pela própria gestão pública, como o do final de vida de oito políticos brasileiros
de expressão. O capítulo O Político Linha
arquivo do Estado, criam-se procedimentos
Reta, escrito pelo jornalista Francisco Viana,
para o tratamento de tudo isso. O Seminário
fala de Mario Covas. A pesquisa foi realizada
mostrou também que tudo esbarra na vontade
por Tiago Abra, que passou uma semana no
política. Eu costumo dizer que trabalhar com Centro de Memória lendo os documentos
acervos é abraçar causas, é justificar que aquilo pessoais, discursos, declarações de Imposto
é importante, é correr atrás de patrocínios, de Renda, tudo o que foi publicado no
batalhar para ter uma infraestrutura mínima. período da doença de Covas. Em outros
casos, o pesquisador nem precisou vir à
FMC – Preservar a memória é algo novo, sede. Nós digitalizamos os documentos e
as pessoas não entendem muito bem o entregamos o material pronto.
que isso vai ser lá na frente.
FMC – O acervo deve crescer na
RAQUEL FREITAS – É verdade. O trabalho do internet?
arquivista é de pesquisa, delicado, preciso. Um
acervo carece de aprofundamento e tempo para RAQUEL FREITAS – Exatamente. Vamos
se organizar. A Fundação foi criada em abril de oferecer mais ferramentas de pesquisa via

28 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


RAQUEL FREITAS
Bacharel em História pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, Raquel
Freitas é pós-graduada em Gestão do
Conhecimento (SENAC-SP), com cursos na área
de organização de acervos históricos. Desde
1992 atua na implantação e organização de
centros de documentação e memória. Foi
coordenadora do Centro de Memória Bunge e
curadora de exposições comemorativas, tais
como: Exposição Memória Bunge, São Paulo
450 anos, A História da Responsabilidade
Social no Brasil, dentre outras. Desde 1995
é membro da Associação dos Arquivistas de
São Paulo. Atualmente é coordenadora do
Centro de Memória Mario Covas.

internet. Mais adiante, vamos agregar ao audiência? COMO ELAS AVALIARAM O


Guia do Acervo a documentação doada por Seminário?
Rose Neubauer, secretária da Educação do
governo do Estado de São Paulo na gestão RAQUEL FREITAS – Muitos vieram nos
Mario Covas. Agora, precisamos divulgar mais cumprimentar, agradecer a iniciativa. A
o acervo, mostrar sua utilidade, para atrair Ana Luísa Correia Ferrari, da Associação dos
cada vez mais pesquisadores.
Funcionários Públicos do Estado de São Paulo,
por exemplo, me disse que viu coisas aqui
FMC – De que forma o Centro de Memória
tão importantes sobre a conduta de trabalho
pretende atrair pesquisadores?
e a trajetória de cada palestrante, que iria
repensar a condução de suas atividades. Claro
RAQUEL FREITAS – Temos de trabalhar muito
que há um certo padrão. Você tem de manter
a pesquisa, a coisa mais séria a fazer com
o acervo dentro dos padrões de conservação
esse acervo. Precisamos criar instrumentos
de pesquisa pontuais e, ao mesmo tempo, e preservação. É preciso ter um banco de
desenvolver ações como a do seminário, que dados, pessoas disponíveis para a pesquisa e
foi uma proposta legal. Nós abrimos espaço a organização interna. O que muda é como
para a discussão, para a troca de informação nos posicionamos nesse acervo, e temos que
e para avaliar que caminho a Fundação deve estar ali como pesquisadores. No caso do
tomar com o Centro de Memória. Centro de Memória Mario Covas, falta cumprir
a etapa que eu considero a mais difícil, que
FMC – Você teve algum retorno é ver quais são as temáticas possíveis que o
das pessoas que FIZERAM PARTE da acervo pode oferecer ao pesquisador.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 29


Quando a
pessoa é maior
que o cargo
A personalidade forte de Mario Covas influenciou a organização
do arquivo, diz a consultora MÁrcia Pazin

O que é público e o que é privado em um arquivo pessoal? Que


importância têm as peculiaridades do indivíduo na formação do acervo
do homem público? Essas questões foram levantadas pela historiadora
e arquivista Márcia Cristina de Carvalho Pazin, em sua palestra no
Seminário Acervos de Personalidades. Consultora na Fundação Mario
Covas, Márcia vem auxiliando na organização do acervo desde 2007, e
foi nas encruzilhadas organizacionais que emergiram das discussões
sobre o que era a memória Mario Covas que ela centrou sua exposição.
Veja a seguir os tópicos tratados pela historiadora.

Mario Covas em entrevista coletiva

Privado x público pessoa com referências culturais próprias,


personalidade, desejos e interesses particulares.
Sempre que falamos de arquivo pessoal, Mesmo atuando na administração pública, as
lembramos das relações privadas, mesmo que os características pessoais é que farão com que
relacionamentos aconteçam no desenvolvimento seu governo seja diferente. Ao mergulhar na
de uma atividade profissional ou acadêmica. É dicotomia entre público e privado, nas relações
no âmbito privado que nos relacionamos. Mas entre um e outro, chegamos à cultura que
quando se trata do acervo pessoal do titular de envolve a formação desses arquivos.
um cargo público é preciso considerar que as
suas decisões e realizações possuem abrangência Características pessoais
oficial. Para a formação do acervo Mario Covas,
por exemplo, vieram documentos de uma série de A personalidade do indivíduo influencia muito
fontes, como assessoria particular, de imprensa e seu trabalho. Ele vai produzir um arquivo pessoal,
núcleo de documentação do governo do Estado. mesmo atuando num cargo público, porque
Na maior parte das vezes, não nos damos conta suas ações são escolhas pessoais que se tornam
do coletivo que está por trás do arquivo pessoal. oficiais. As decisões estão nos arquivos das
O titular do cargo público, por sua vez, é uma secretarias, dos ministérios, de todos os órgãos

30 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


governamentais. Mas tudo o que foi feito antes Gabinete, uma instituição
da tomada de decisão, da transformação de um
projeto de lei em decreto, do que quer que seja o Formado por um grupo de assessores a serviço
documento que oficializou um ato, não está em da pessoa e do país, do Estado, da coletividade,
lugar nenhum ou está no gabinete. o gabinete é uma dificuldade a mais no arquivo
do político. O grupo de assessores diretos é uma
Os papéis de gabinete têm uma diferença instituição a serviço de uma pessoa, que acaba,
fundamental em relação à documentação ela própria, virando uma instituição. Não é só
institucional. Num arquivo institucional, de uma com políticos que isso acontece. Artistas têm
empresa ou de um órgão público, há funções assistentes, cientistas têm alunos e assistentes.
predeterminadas que encaminham a produção Aliás, os cientistas mesclam as atividades de
do arquivo. Na realização dessas funções é que se laboratório com as de pesquisa individual, uma
descortina que tipo de arquivo vai nascer ali. As mistura muito complicada. O gabinete particular
mudanças são um pouco mais lentas, culturais, é uma instituição política no Brasil. Juízes,
institucionais, de estrutura, mas elas têm uma parlamentares, qualquer titular de cargo público
regularidade maior do que no arquivo pessoal, tem um gabinete a seu serviço, e o arquivo
porque ele vai crescer com a vida dessa pessoa. resultante é considerado seu, pessoal.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 31


Nos arquivos correntes de algumas instituições, esses assessores se preocuparam com isso? Por
no momento em que ocorre a troca de gabinete uma característica pessoal de Mario Covas.
ou de presidência ou de juiz responsável, há
uma coleta geral, um esvaziar de armários e um Tanto Osvaldo Martins, que foi secretário de
carregar de caixas para deixar o espaço liberado Comunicação Social, quanto Antonio Carlos
para o próximo ocupante. Essa memória segue Malufe, secretário particular do governador,
com os indivíduos. Não temos visto a formação disseram-me que Mario Covas tinha obsessão
pela informação. Não era para saber mais ou
de acervos com esse material frequentemente.
menos o que estava acontecendo, mas para obter
Essa documentação ainda está muito espalhada,
detalhes concretos, objetivos e exatos sobre os
mas há uma infinidade de titulares de cargos
acontecimentos. São até folclóricas as brigas
públicos que têm documentação abundante e
entre Covas e os assessores, quando a informação
que não sabe para onde enviar esse material.
vinha pela metade. Assim, os assessores
adquiriram a cultura de coletar e arquivar dados
No Brasil, somente os acervos documentais sobre qualquer decisão a ser tomada.
privados dos presidentes da República são
regulados por lei (decreto presidencial nº 4.344, Por tudo isso, devemos prestar atenção redobrada
de 26 de agosto de 2002, que regulamenta a quando existem arquivos privados dessas pessoas
lei nº 8.394/91). Pela legislação, eles devem ser que são entidades. Que cultura existe em torno
preservados, organizados e ter acesso público. dessa pessoa? Quem são as pessoas que tiveram
influência no arquivo, que acabam fazendo
com que ele seja maior, menor, mais ou menos
Sede de informação complexo? Isso conta muito de quem é a pessoa.
Pesquisei e descobri que não há muita literatura
Mario Covas tinha muitos assessores que o no Brasil a respeito da cultura de gabinete. Uma
acompanharam pela maior parte de sua vida pena. Existem muitas questões envolvidas na
pública e foram responsáveis por garantir a produção de um arquivo, que, para compreender,
existência desse acervo. Nas condições em que é necessário que se investigue como ele nasceu,
ocorreu a morte do ex-governador, esse material como foi formado. São várias as condições que
poderia ter se perdido facilmente. Mas por que dão característica específica a um arquivo.

32 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


A minúcia dá o tom
do arquivo A consultora Márcia Pazin
fala das características doS
acervos DA FMC e da Fundação
Energia e Saneamento

Detalhista e completamente dedicado


aos cargos públicos que exercia, Mario
Covas gerou documentos de gabinete
que espelham sua personalidade.
Essa seria a síntese do arquivo do ex-
governador, segundo Márcia Pazin,
consultora da Fundação Mario Covas
e supervisora técnica do acervo da
Fundação Patrimônio Histórico da
Energia e Saneamento. Na entrevista a
seguir, Márcia fala das peculiaridades
de materiais tão distintos.
Márcia Pazin durante palestra na FMC

FMC – Qual é a principal característica acervo em alguns grandes grupos, para


do fundo Mario Covas? facilitar a diferenciação entre o público e o
privado. Não são documentos que deveriam
Márcia Pazin – O fundo Mario Covas é um estar numa secretaria. Não são documentos
arquivo pessoal de alguém que foi, durante essencialmente públicos no sentido de que
muitos anos, titular de cargos públicos no foram publicados ou que são resultado de
poder Legislativo ou no poder Executivo. alguma decisão de um órgão público. São
A característica mais forte desse fundo é o documentos dele, que ele produziu para
grande volume de acervo da atividade política dar origem a outros documentos que são
no período em que ocupou os mandatos. A verdadeiramente públicos. De todo modo, os
maior parte do acervo é composta desse documentos são resultado de toda a atividade
material. Já o material privado, que são as pública de Mario Covas. Primeiro, separamos
coisas dele como participante da família, a vida familiar, privada. Depois, dividimos
as peças pessoais, tem um volume muito toda a documentação pública pelos cargos
pequeno. A principal característica desse que ele ocupou. Há um grupo de documentos
acervo, portanto, é ser de um homem que fez relativos ao Mario Covas senador, outro dele
da vida pública a sua vida. como deputado federal, como prefeito e
assim por diante. Foi organizado dessa forma
FMC – Qual foi o critério adotado para para podermos visualizar a atividade pública
a organização? de Covas e a sua importância.

Márcia Pazin – O arquivo é pessoal, mas de FMC – Como a personalidade de Mario


Covas como ocupante de um cargo público, Covas influenciou na organização e na
em grande parte. Assim, nós dividimos o formação do arquivo?

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 33


Márcia Pazin – Mario Covas era um homem E isso tem um razão de ser. Terminado
minucioso, ligado a detalhes. Quando pedia mandato, o titular precisa ter algum material
uma informação, os assessores tinham para comprovar ou justificar as decisões que
de correr atrás de todos os detalhes. As tomou. É uma forma de proteção. Embora ele
informações vinham em dossiês, relatórios, exerça um cargo público, o arquivo é privado
estudos. Essa necessidade de saber de tudo porque contém documentos que subsidiaram
pormenorizadamente fazia com que se decisões que se tornaram material público.
produzissem muitos documentos, e nisso os Acredito que é possível criar um espaço que
assessores têm um papel muito importante. possa receber esse material. Essa é uma
O arquivo não existe somente pelo Mario proposta da Fundação Mario Covas, que está
Covas, mas também pelos assessores, que abrindo uma oportunidade para que outros
eram muito próximos dele e garantiram a titulares possam deixar lá o seu material para
preservação do material, pois sabiam de ser tratado adequadamente.
sua importância num momento posterior. A
característica minuciosa de Covas contribuiu FMC – Qual o maior desafio da
para que o acervo fosse tão detalhado. organização do arquivo Mario Covas?
Para cada lei elaborada no período em que
esteve no Senado, ele tinha um estudo Márcia Pazin – É a própria identificação
anterior. Para cada problema que surgia em do acervo, saber a qual caixinha aquele
uma das secretarias do Estado, ele tinha um documento pertencia. Vieram coisas de
dossiê sobre aquele assunto para embasar lugares diferentes, e passou muito tempo até
sua decisão. Nas campanhas políticas, ele que se conseguisse ter uma sede estável. A
tinha estudos bastante completos sobre os cada mudança local, algumas coisas somem
adversários. Só o material sobre o (Paulo) ou quebram e se desorganizam. Para remontar
Maluf, por exemplo, enche armários. Para a história de Mario Covas foi necessário fazer
Covas, era importante ter informações para muita pesquisa. Além de desafiadora, a
comparar com o que ele próprio estava identificação foi a coisa mais enriquecedora,
produzindo. Na hora de organizar esse volume do ponto de vista da necessidade de entender
enorme de documentos, a necessidade de a pessoa e o envolvimento de várias outras na
associar cada dossiê a um contexto correto dá composição do arquivo de gabinete. O papel
muito mais trabalho. O arquivista é obrigado a do assessor político é muito importante.
pesquisar de onde aquilo veio para saber que
função estava ocupando. É preciso descobrir o FMC - Falando agora do acervo da
meandro e a lógica das informações. Fundação Energia e Saneamento, que
você cuida mais de perto, quais são as
FMC – Você acredita que os acervos diferenças entre os arquivos pessoais
de personalidades públicas estejam de lá e o de Mario Covas?
sendo bem tratados no Brasil?
Márcia Pazin – Na Fundação Energia e
Márcia Pazin – Não. Nós temos pouquíssimos Saneamento nós temos tanto acervos de
casos de personagens públicas, como empresas privadas, quanto arquivos pessoais
presidentes e governadores, que estão de profissionais, que normalmente são
recebendo algum tipo de tratamento e se técnicos, que trabalharam e foram influentes
tornando públicos para a pesquisa. No Brasil no setor durante muito tempo. É um acervo
nós não temos a tradição de preservar arquivos mais privado, mais individual do que o de
de gabinetes, como o que a Fundação Mario Mario Covas. A exceção é o acervo de Catullo
Covas está fazendo. O que o homem público Branco, um engenheiro que foi deputado
usa em seu cotidiano de trabalho para tomar constitucionalista em 1946 e um homem muito
decisões vai com ele onde quer que vá. importante no setor elétrico. Além disso, o

34 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


acervo dele uma peculiaridade. Quando ele
morreu, em 1980, a família decidiu dividir
o material. Para a Fundação Energia vieram
documentos da atividade profissional como
engenheiro. Para o IEB (Instituto de Estudos
Brasileiros), da USP, foi a biblioteca. E para
a Unesp, foram documentos relacionados à
atividade política, como deputado. Com essa
divisão, perdeu-se um pouco da característica
do arquivo. O que está conosco é bem técnico.

FMC - Qual fundo sob a guarda da


Fundação Energia e Saneamento você
considera o mais precioso?

Márcia Pazin – O fundo mais precioso que


nós temos é o da Light/Eletropaulo. A Light
chegou a São Paulo em 1899 para implantar
todo o sistema de bondes e iluminação
elétrica na cidade. Para isso, fotografou as
obras na cidade toda. O pessoal da Light
adotava um procedimento de trabalho muito
organizado. Temos séries de documentos
que vão desde o final do século XIX até a
década de 1960. Eles registravam as obras e
as ações em relatórios e em fotografia. É um
acervo enorme, riquíssimo, com cerca de 170
mil imagens diferentes desde 1899. Alguns
MÁRCIA PAZIN
fotógrafos bastante importantes fizeram
registros de São Paulo a serviço da Light.
Doutoranda em História Social (Historiografia e
Temos muitas fotos aéreas de São Paulo, de
diversos períodos, para mapear a topografia Documentação) pela FFLCH/USP, Marcia Cristina
dos locais onde iriam passar as linhas de de Carvalho Pazin é especialista em organização
transmissão. Dá para ver, por exemplo, que de arquivos pelo Instituto de Estudos Brasileiros
o curso dos rios Pinheiros e Tietê era muito da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Há vários
diferente originalmente, tinha muito mais anos atua como consultora na implantação de
curvas. Podemos visualizar também o que sistemas de arquivo e organização de acervos
aconteceu com os bairros no entorno desses históricos em instituições públicas e privadas.
rios após a retificação do curso. Desde 2002, é docente no curso de Especialização
em Organização de Arquivos do Instituto de
FMC – E qual é o acervo mais curioso?
Estudos Brasileiros IEDB/USP e em diversos cursos
de extensão cultural. Atualmente, é supervisora
Márcia Pazin – Um acervo curioso é o de
técnica de serviços e projetos especiais da
fotografias de um supermercado que a Light
Fundação Patrimônio Histórico da Energia e
mantinha para os funcionários poderem
Saneamento (FPHES).
comprar mercadorias a preço de custo. Temos,
por exemplo, o acervo de promoções que eles
faziam para os eletricitários. É algo que foge
totalmente da atividade da empresa.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 35


Luz, gás, água
e preservação
A FPHES guarda e divulga o patrimônio histórico e cultural dos
setores de energia e saneamento ambiental

O negócio de fornecer energia elétrica para São Paulo e cidades do interior paulista
gera muita cobiça e história há mais de um século. A Empresa Paulista de Eletricidade,
por exemplo, criada em 1886 pela Marques, Moutte & Cia., acabou engolida pela
Companhia de Água e Luz do Estado de São Paulo, da família Guinle, a mesma que
construiu o famoso Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.

Em 1890, a empresa dos Guinle gerava energia


por usina a vapor em pleno centro de São
Paulo, abastecendo a área comercial. Uma
década depois, a combinação de brechas na
legislação e uma concorrência implacável jogou a
distribuidora de energia no colo da Light, dando
aos ingleses domínio sobre o setor por décadas.
Essa é uma pequena parte da história, contada
pelos documentos guardados pela Fundação
Patrimônio Histórico da Energia e Saneamento
(FPHES), que esteve representada no seminário
da FMC por sua supervisora técnica, Márcia Pazin.

A FPHES é uma instituição privada, sem fins


lucrativos, criada em 1998 com a missão de
preservar e divulgar o patrimônio histórico e
cultural dos setores de energia e saneamento
ambiental. Abriga um acervo arquivístico,
bibliográfico, museológico e ambiental,
referência importante para a história paulista e
brasileira, especialmente no que diz respeito à
industrialização e à urbanização.

Sob a guarda da FPHES estão 34 fundos e coleções,


institucionais e pessoais. Esse material soma
cerca de 2.500 metros lineares de documentos
textuais, 254 mil imagens e 8 mil pranchas
contendo documentos técnicos e cartográficos.
Para assegurar o adequado tratamento de seu
patrimônio e potencializar a divulgação, a
Fundação mantém um Núcleo de Documentação
Estudantes em visita ao Museu da Energia de Itu (SP)
e Pesquisa, na capital paulista, e um sistema de
Museus da Energia implantados nas cidades de São

36 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Turbinas no Museu da Energia Usina Parque do Corumbataí, em Rio Claro, integrante do acervo da FPHES

Paulo, Itu e Jundiaí. Além disso, quatro pequenas A FPHES vem desenvolvendo inúmeros projetos
hidrelétricas, localizadas nos municípios de visando a organização de seu acervo. Para
Rio Claro, Brotas, Santa Rita do Passa-Quatro e assegurar a qualidade desse trabalho, foram
Salesópolis, estão sendo recuperadas para voltar feitas pesquisas sobre as empresas do setor
a gerar energia. Nesses espaços, a FPHES promove energético paulista, tomando como ponto
atividades culturais, educativas e de ecoturismo. de partida as companhias instituidoras. As
pesquisas enfocaram dados sobre a trajetória
O mais abrangente instrumento de pesquisa da administrativa de cada empresa, a formação
FPHES é o Guia da Documentação Arquivística, dos monopólios, holdings e trustes e as
que traz informações gerais sobre os fundos e relações de subordinação administrativa e/ou
coleções custodiados, possibilitando o acesso comercial entre companhias do mesmo grupo.
à pesquisa e funcionando como norteador da Levantaram-se as datas de criação, autorização
utilização do acervo para os mais diversos fins. de funcionamento de empresas estrangeiras,
incorporação, fusão e de encerramento de
A composição do acervo atividades, as alterações de competência e áreas
de concessão, entre outros dados.
A maioria dos documentos sob a responsabilidade
da FPHES foi recolhida ou doada pelas empresas
que a instituíram, por intermédio de seus
departamentos de patrimônio histórico ou
centros de memória. Três grandes conjuntos,
da Eletropaulo, da CESP e da Comgás, foram
recolhidos na criação da FPHES e depois
analisados de forma a manter a individualidade
de empresas que estiveram ligadas a elas, mas
que haviam tido existência jurídica individual.

Fazem parte do acervo arquivos pessoais, como o


do engenheiro mecânico italiano Paolo Zingales
(1920-1955), que participou de projetos das usinas
de Barra Bonita e Funil, entre várias outras, o de
Georges Seylaz (1911-1951), superintendente da
The San Paulo Gas Company, Limited, empresa
que deu origem à Comgás, e o de Raul Almeida
Prado (1896-1945), fotógrafo amador. Luminárias no Museu da Energia de São Paulo

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 37


No 25 de Abril,
o particular é público
Com doações de arquivos pessoais, o Centro de Documentação
da Universidade de Coimbra construiu o principal e mais
democrático acervo sobre a história recente de Portugal

Cartaz comemorativo da Revolução dos Cravos

38 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


O dia 25 de abril de 1974 é caro aos uma instituição pública dotada de autonomia
portugueses. Nessa data, eclodiu a administrativa e financeira, tutelada pelo
Revolução dos Cravos, o movimento que Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
interrompeu um longo período de regime de Portugal. Desde a sua criação, o Centro tem
ditatorial e recolocou Portugal nos trilhos recuperado material disperso, na posse de
da democracia. Muitos documentos foram pessoas, organizações sociais, políticas, culturais
produzidos desde então. Boa parte desse e religiosas. De acordo com Natércia, tornou-se
material, proveniente de arquivos privados pioneiro em seu país na coleta sistemática de
de personalidades políticas e militares, vem arquivos e fundos documentais privados, não
sendo coletada, organizada e preservada previstos na legislação por causa da questão da
no Centro de Documentação 25 de Abril, propriedade. “Apenas esporadicamente é que
da Universidade de Coimbra. Em mais podem entrar no Centro arquivos e papéis oficiais,
de duas décadas de existência, o Centro que, por lei, ficam sob a guarda do Estado. Até
transformou-se no principal repositório então, não havia qualquer entidade voltada para
das memórias da história portuguesa a localização e pesquisa de arquivos privados, de
recente. Para falar de sua experiência na pessoas que quisessem doá-los ao Estado”, disse
construção e preservação do acervo do a coordenadora do 25 de Abril.
Centro 25 de Abril, a Fundação Mario Covas
convidou Natércia Coimbra, coordenadora Um documento puxa outro
da instituição, para participar do Seminário
Acervos de Personalidades. No início dos trabalhos, a equipe do Centro era
muito pequena. “Escrevíamos cartas às pessoas
O trabalho de Natércia Coimbra começou com para saber onde estavam os arquivos que nos
o Centro de Documentação, há 24 anos, por interessavam, porque os oficiais, mal ou bem,
inspiração de Boaventura de Sousa Santos, sabíamos que estavam preservados por lei”,
responsável pela criação do órgão. Sociólogo e relatou Natércia. A Constituição de Portugal
professor da Universidade de Coimbra, Boaventura prevê que os arquivos oficiais podem incorporar
Santos costumava viajar muito, visitando os documentos privados, mas como sua missão não
centros de estudos portugueses nos Estados é essa, o 25 de Abril tomou a tarefa para si. Ao
Unidos. Numa dessas visitas, segundo Natércia, coletar os arquivos, a pequena equipe percebeu
a arquivista da Universidade de Wisconsin- que parte da documentação sobre o período
Madison quis mostrar a ele os documentos de 1974 a 1976 recuperava muita informação
portugueses que comprara recentemente num referente a movimentos sociais e políticos ativos
leilão em Londres, mas ele se recusou a ver ali na oposição política e na resistência organizada
algo que deveria estar em seu país de origem. à ditadura. “Na busca que fizemos, deparamo-
nos com muita gente que viveu anos exilada
Ao retornar a Portugal, Santos propôs a criação na França, na Holanda ou no Brasil, que tinha
de um centro de memória, com o objetivo papéis, jornais, correspondência da época e
principal de reunir materiais únicos e permitir a não sabia o que fazer com esse material”, disse
investigação científica séria e profunda sobre a Natércia em sua palestra. “A todos, pedimos que
vida política e social portuguesa do período que levassem seus documentos ao Centro.”
vai de 25 de abril de 1974 à posse do primeiro
governo constitucional, em 1976. “Era um período Os destinatários das cartas eram, principalmente,
muito limitado no tempo e exigia ação rápida, militares e políticos de presença forte naqueles
para proteger a documentação rara ou única e anos importantes, além de ativistas sociais.
evitar que ela saísse de Portugal”, disse Natércia Nas cartas, Natércia e equipe propunham: “Se
Coimbra à audiência do seminário. algum dia você quiser se desfazer de seus papéis
políticos, não os jogue fora, nós os queremos”.
O Centro de Documentação 25 de Abril foi A estratégia funciona até hoje. “Alguns chegam
oficialmente criado em 1984, como entidade até nós dizendo que receberam o pedido há dez
diretamente ligada à reitoria da Universidade anos, que talvez este seja o momento de doar
de Coimbra. A universidade, por sua vez, é os papéis.” Em outros casos, os motoristas da

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 39


reitoria iam buscar os documentos, quando
não ia Natércia mesmo, em seu próprio carro,
carregando caixotes e caixotes de papéis.

A busca por determinados documentos


acabou trazendo outros. Se a personalidade
foi importante e atuante no pós-25 de abril,
certamente tinha convicções políticas construídas
muito antes. Poderia ter passado por um período
de exílio ou participado de grupos de resistência.
Seus arquivos, portanto, continham papéis
sobre o que fez antes e depois do 25 de abril,
apresentando conexões com outras temáticas,
como o apoio à luta de libertação colonial em
Angola, Moçambique e Cabo Verde.

O fato de o Centro ser uma instituição pública


universitária, segundo Natércia, estimula
as doações de documentos, embora haja
em Portugal outras instituições privadas
credenciadas, como a Fundação Gulbenkian e a
Fundação Mário Soares. “Imbuídas do espírito do
25 de abril, muitas pessoas preferem doar a uma
instituição pública que possa tratar, organizar,
catalogar e difundir a informação, abrindo o
acervo à consulta gratuitamente”, afirma a
coordenadora. Como o trabalho de construção de
um arquivo é moroso e caro, Natércia considera
correto que os contribuintes paguem pela
conservação das diferentes memórias. Outra
garantia que a instituição pública oferece ao
doador é o pessoal qualificado. Na Universidade
de Coimbra, segundo Natércia, ninguém é
contratado sem ter um curso de especialização. É
necessária uma licenciatura de base e cerca de 60
horas de especialização em Ciências Documentais
e Arquivísticas. Além disso, oferece a garantia
de isenção ideológica ou partidária. “Há sempre
a tentação de controlar. Mas todos os partidos
podem lá deixar os seus arquivos, com a garantia
de que tudo será preservado”, afirmou.

Raramente chegam ao Centro arquivos


organizados. Em geral, são papéis de pessoas
que desempenharam funções na administração
pública, por exemplo, ou em instituições privadas
das quais tenha decorrido a produção de um
conjunto de documentos que faz sentido só no
exercício dessa atividade. Mas, com essa pequena
porção de coisas, vêm quase sempre os livros, as Soldados e crianças
revistas e a correspondência pessoal. Os pôsteres
em pleno 25 de abril
e adesivos de campanha, por exemplo, são coisas

40 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


que foram muito importantes para a história
da arte em Portugal, porque vários artistas
plásticos ajudaram a confeccioná-los. “Quando
chega uma coleção, as coisas mais improváveis
a acompanham: documentos pessoais, carteira
de identidade, carteira de sócio de agremiações,
óculos de grau. Por essa razão, já temos cerca
de oito mil livros e fazemos uma seleção. O que
não nos interessa, enviamos para bibliotecas de
outras especialidades”, afirmou.

Internet e história oral


O catálogo da coleção de livros está disponível no
site do 25 de Abril (www1.ci.uc.pt/cd25a/), numa
base de dados pesquisável. São cerca de 17 mil
registros bibliográficos entre artigos de revista
e monografias. O Centro tornou-se também
uma espécie de museu, porque possui objetos
raros, como bandeiras dos países colonizados
por Portugal, fantoches usados em comícios e
o brasão militar de Otelo Saraiva de Carvalho,
estrategista do 25 de abril. Há ainda uma sala
com cerca de 1.500 pastas com recortes de jornais
e revistas, um minucioso trabalho de clipping
realizado de 1976 a 1986 pelo Ministério do
Trabalho e Solidariedade Social e o Conselho da
Revolução. A leitura seletiva feita pelos órgãos
oficiais é, atualmente, uma fonte importante de
informação para os pesquisadores.

O acervo foi crescendo e, com o tempo, ficaram


evidentes partes nebulosas da história. Para
esclarecê-las, o Centro criou, em 1990, o projeto
de história oral, que entrevista personalidades
integrantes da mesma lista montada no início
dos trabalhos da instituição. Em 1994, as novas
tecnologias entraram em ação. “A primeira
decisão que tomamos no 25 de Abril foi de não
ter máquinas de escrever. Começamos com o
computador, com tudo automatizado desde o
início. A única coisa que mantivemos manual
foram as fichas dos nossos doadores, porque era
mais simples para nós”, contou Natércia. Depois,
passou-se à catalogação informatizada da
biblioteca, uma das primeiras de Portugal a ter
acesso online. “Criamos uma página na internet
em 1994, quando o browser disponível ainda era
o Mosaic.” Daí em diante, muita documentação
foi digitalizada, especialmente a partir de 2005,
quando o órgão obteve financiamento do Estado
para esse fim. Embora defenda o uso de novas

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 41


tecnologias, Natércia recomenda cautela com No 25 de Abril, os limites ao acesso são a reserva
a digitalização, para que o documento que se da vida privada e o segredo de Estado. Quando
quer preservar não acabe se perdendo com a há alguma dúvida sobre as questões da vida
obsolescência da tecnologia adotada. privada, o Centro de Documentação segue a
legislação portuguesa, dado que a maior parte da
No arquivo online, há o guia de fundos, área correspondência arquivada lá é de teor político.
em são descritas cerca de 300 doações. Basta Se o problema for de caráter pessoal, é feita uma
um clique para chegar ao inventário do acervo fotocópia do documento, e a parte preocupante
doado, pesquisável em texto livre. Quase todo é riscada. Quando os direitos de privacidade
o acervo é liberado para a pesquisa. “Exigimos e acesso à informação estão em conflito, a
credencial apenas para uma documentação que ponderação é feita caso a caso. “Se o interesse
não pode ser entregue a qualquer um. Quando o público for superior ao da vida privada, nós
interesse é defensável, quando a pessoa chega, damos acesso ao conteúdo”, afirmou Natércia. É
já encontra as pastas separadas.” esse o critério que fala mais alto no 25 de Abril.

nas ruas, solidárias com os soldados revoltosos.


Até o meio da tarde, os golpistas haviam ocupado
a Emissora Nacional, a Rádio Clube Português, o
Aeroporto de Lisboa, o Estado Maior do Exército, o
Ministério do Exército e o Banco de Portugal. Marcello
Caetano, então chefe de governo, rendeu-se no final do
dia, entregando o poder ao general António de Spínola.

O movimento ficou conhecido como a Revolução dos


Cravos. Reza a lenda que o cravo vermelho tornou-se
seu símbolo porque uma florista, que levava cravos
para a abertura de um hotel, distribuíra as flores
Foto de pintura mural do acervo do Centro 25 de Abril aos soldados. Um deles encaixou o cravo no cano da
espingarda e logo foi seguido pelos demais.

Às vésperas da revolução, Portugal era o último


Revolução com cravos império colonial do mundo ocidental. Fazia seus jovens
cumprir serviço militar de quatro anos e mandava-os
lutar na África contra os movimentos de libertação
Passava da meia-noite em Lisboa, quando a Rádio de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Opiniões
Renascença começou a tocar a canção Grândola Vila contrárias ao regime e à guerra eram reprimidos.
Morena, de José Afonso. A música, transmitida nos
primeiros minutos de 25 de abril de 1974, era a senha No dia seguinte ao do golpe, formou-se a Junta de
de confirmação do golpe de Estado militar que livraria Salvação Nacional, responsável pelo governo de
Portugal do regime salazarista, em vigor desde 1926. transição. Entre as medidas imediatas dos militares
revolucionários estavam a extinção da polícia política
O golpe, coordenado e comandado pelo capitão Otelo e da censura, a liberação dos sindicatos e a legalização
Saraiva de Carvalho do quartel da Pontinha, na capital dos partidos. Os presos políticos foram libertados, e
portuguesa, teve a colaboração de vários regimentos os líderes políticos no exílio começaram a voltar para
militares e encontrou quase nenhuma resistência. casa. Em alguns meses a guerra colonial terminou,
Ao amanhecer, as pessoas começaram a juntar-se dando lugar à independência das ex-colônias.

42 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Existe arquivo
inocente?
Lidar com registros do passado requer constantes
questionamentos no presente. Partindo dessa
premissa, Natércia Coimbra convidou a audiência Criança põe cravo em arma de soldado, em
do seminário a uma reflexão sobre conceitos pôster do acervo do Centro 25 de Abril
e preocupações que permeiam o trabalho de
arquivistas, bibliotecários e documentalistas. Ou será, simultaneamente, o lugar e o princípio?
Constitui-se para documentar determinados
O primeiro conceito avaliado foi o de arquivo, acontecimentos históricos ou cria os fatos a partir
mais comumente entendido como um lugar onde da própria narrativa dos documentos? Qual a sua
se guarda documentos ou materiais diversos ação sobre os documentos que reúne? “Creio que
relacionados a uma pessoa, um acontecimento essas questões apontam para respostas que têm
ou uma época. Aprofundando a análise, Natércia a ver com três conceitos: história, memória e
citou o filósofo francês Michel Foucault, que democracia”, afirmou Natércia.
usou o termo arquivo para designar o sistema
de formação de afirmações, um conjunto de O acesso público aos arquivos históricos é uma
regras que determina o que pode ser dito num conquista dos regimes democráticos. Já o conceito
determinado contexto. Uma outra abordagem de memória remete ao dever de não esquecer, o
identifica o arquivo como um lugar de poder dever de preservar. “É muito difícil perceber, num
que se manifesta pelo ato de reunir, estruturar determinado momento, o que é história ou não.
e interpretar signos. “De acordo com essas É fácil para as instituições que querem controlar
teorias, as normas técnicas estabelecidas estão e manipular a história. Portanto, o dever de não
longe de ter um papel inocente no processo de esquecer é extensível a todo o legado histórico”,
arquivagem”, ressaltou a coordenadora do Centro afirmou a coordenadora do 25 de Abril.
25 de Abril. Embora a atitude de conservação e
de reunião seja sempre intelectualmente muito Os arquivistas, segundo Natércia, desempenham
ponderada e muito rigorosa, segundo Natércia, um importante papel como mediadores na seleção
a arquivagem visa fins, bons ou maus, que dos documentos a preservar e da colocação das
determinam o conteúdo do próprio arquivo. coleções à disposição dos pesquisadores. Ao
identificar e ultrapassar os obstáculos criados por
“O que se reúne, a seleção que se faz, nunca é grupos com poder de influência, os arquivistas
inocente, visa objetivos, e nesse momento temos conseguem manter uma característica do passado
ainda um maior desafio, que não são só os papéis, mais equilibrada e permitem às gerações futuras
os materiais iconográficos, suportes de tipologia examinar e avaliar a atividade e a contribuição
variada, mas o mundo virtual”, assinalou. As das diferentes vozes que se fazem ouvir numa
discussões em torno do conceito de arquivo, determinada época. “O arquivista deve chamar a
segundo Natércia, evoluem no final da década de atenção para documentos incômodos e preservá-
1990, princípio dos anos 2000, entre dois diferentes los”, afirmou Natércia. “Até pode evitar que eles
pólos. O arquivo é atual ou virtual? Será ele um sejam vistos, ouvidos ou lidos em determinada
lugar ou um conjunto de princípios e orientações? época, mas deve sempre preservá-los.”

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 43


Todo documento é importante
Pequenos jornais de sindicato podem ser tão úteis ao pesquisador
quanto um manuscrito estratégico, defende Natércia Coimbra, do
Centro de Documentação 25 de Abril

O mais importante num arquivo histórico é tentar localizar o documento que falta
e, localizando, é bom ter condições de conservar, porque se não fizermos mais
nada, já fizemos muito. Palavras de Natércia Coimbra, coordenadora do Centro de
Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra. No caminho da preservação
da memória, proatividade é a palavra de ordem. “Temos de procurar incessantemente,
pôr anúncios pedindo doações, aproveitar todas as nossas iniciativas para pedir:
traga as suas coisas, tudo tem valor”, disse Natércia em entrevista à Fundação Mario
Covas, após sua palestra no seminário. Veja alguns trechos dessa conversa.

FMC – Em sua palestra, você disse que


Procure casar
a Biblioteca Nacional. Se não fôssemos nós a
a forma como se reúne o material não recolher esse tipo de documentação de acesso
é inocente. Como o CENTRO 25 de Abril mais restrito e efêmero, teria se perdido. E
lidou com essa questão?

texto com foto


hoje se sabe de muita coisa a partir desses
pequenos testemunhos.
Natércia COIMBRA – O Centro 25 de Abril está
à disposição do investigador e da ciência, FMC – Do período anterior,

quando possíve
e a ciência não pode ser partidária. Desse salazarista, também há documentos?
ponto de vista, tentamos recolher tudo o
que vier até nós, documentos repetidos ou Natércia COIMBRA – Infelizmente, em Portugal, l
não, o mais possível sem censura. Tudo é sobre o Estado Novo só há o arquivo oficial.
importante, do menor jornal de bairro a um Toda a produção burocrática do Estado, o
manuscrito de Otelo Saraiva de Carvalho, governo guarda nos arquivos nacionais. Nem
estrategista da revolução, da crônica de todos os arquivos pessoais dos políticos do
jornal feita por um jornalista antifascista aos regime autoritário estão guardados. Há alguns
panfletos distribuídos por partidos políticos dispersos em bibliotecas municipais, porque
nas primeiras eleições livres. Não podemos esse tipo de arquivo muitas vezes ia parar nas
fazer distinção do que é ou não importante terras onde as pessoas tinham nascido. Não
para o investigador. Se temos problemas de há em Portugal a prática do recolhimento
espaço, evitamos os documentos repetidos. sistemático de arquivos privados. Daí que,
Mas tudo o que diz respeito àquela época, em relação ao Estado Novo, temos que adotar
seja a visão de esquerda seja a anarquista, critérios de escolha. Nós procuramos preservar
de direita, da política militar ou da civil, para sobretudo os arquivos dos militantes políticos
nós é documentação que pode ser útil ao que foram importantes para a mudança do
pesquisador e ao historiador. Não podemos regime. Quando, por acaso, aparece outro
descuidar de documento nenhum, suporte tipo de documentação, nós guardamos. Um
nenhum, como vídeo, papel, manuscrito, exemplo disso são os documentos sobre
revistas e jornais. Temos pequenos jornais militares e campanhas na África. Chegaram
representativos de lutas sociais muito a nós muitas fotografias da guerra colonial,
importantes, como os de sindicatos e sobre a documentos de propaganda do regime sobre
reforma agrária. Esses movimentos sociais em o funcionamento das instituições, discursos
luta produziram publicações que duravam um de Salazar e de Marcello Caetano e de planos
ou dois números. Ninguém mais tem senão de fomento do governo da época. Mas isso
nós. Não é o tipo de material que iria para não é para nós a parte mais importante.

44 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


FMC – O que o Centro faz para atrair as
pessoas para a pesquisa no acervo?

Natércia COIMBRA - O instrumento mais


importante, sem dúvida, é nossa página
na internet. Temos uma política de difusão
seletiva de informação digital que faz com
que muita gente que pesquisa encontre o
que procura e chegue até nós. O resultado é
impressionante. Nós somos o site mais visitado
da Universidade de Coimbra, possivelmente
porque temos conteúdo, cerca de duzentas
mil páginas digitalizadas online. São arquivos
iconográficos, texto integral. Embora nossa
sala de leitura seja muito pequena, com seis
lugares, há sempre gente lá. Mas a nossa maior
valia é o apoio à distância através do arquivo Militar revolucionário e o cravo em cartaz
e da biblioteca digital. Nós colocamos à
disposição informação estruturada e tratada.
Quem lá procura artistas plásticos encontra os
muros da revolução, as fotografias, os textos, iconográficos e textos. Os estudantes buscam
o 25 de abril contado aos mais jovens com esses conteúdos para fazer os trabalhinhos da
uma cronologia. Temos online o Pulsar da escola. Temos também muitos pesquisadores
Revolução, uma obra ilustrada que editamos que utilizam o guia do acervo online.
em 1997, esgotou e reeditamos, mostrando o
25 de abril hora a hora até 1976. FMC - E quanto por cento do acervo já
está digitalizado?
FMC - As fotos dos muros pintados,
cada um com uma forma de Natércia COIMBRA - Temos neste momento
representação diferente do cravo, 300 doações de grandes espólios, dos quais
chamam mesmo a atenção. 240 já estão catalogados. Disponíveis online
há cerca de cinco grandes arquivos.
Natércia COIMBRA - Os artistas plásticos
tiveram uma participação importante no FMC - Os pesquisadores que utilizaram
movimento. Nós estávamos muito sujeitos o acervo conseguiram extrair um
à ditadura, à censura, e com o 25 de abril olhar novo sobre a história? Geraram
houve uma explosão de informação. Nessa publicações relevantes?
altura, Portugal era um país muito pobre, com
muitas fachadas estragadas. Então os artistas Natércia COIMBRA - No início do projeto,
utilizaram a pintura mural como forma de tínhamos sobretudo investigadores
comunicação de uma mensagem política. estrangeiros, porque em Portugal ninguém
Todos os partidos tinham os “pintores de queria tratar da história portuguesa recente.
parede”. É possível encontrar ainda hoje, Tivemos, por exemplo, a professora Norrie
olhando para os diferentes partidos, a mão e MacQueen, que trabalhou lá e publicou, em
o traço de alguns de nossos grandes artistas. 1997, o livro The Decolonization of Portuguese
Africa: metropolitan revolution and the
FMC – O site recebe quantas visitas por dissolution of empire (A Descolonização da
ano? Qual área é a mais visitada? África Portuguesa: revolução metropolitana
e a dissolução do império), que se tornou
Natércia COIMBRA – Em 2007, tivemos uma referência sobre a descolonização
6.800.000 visitantes únicos, um número portuguesa na África. Uma pesquisadora
enorme em se tratando de Portugal. norte-americana fez no Centro grande
Os conteúdos mais visitados são o que parte de sua investigação sobre a história
nós chamamos de arquivo eletrônico da do partido socialista em Portugal. Há duas
democracia portuguesa. Há documentos obras publicadas recentemente sobre práticas

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 45


culturais da juventude muito baseadas na depois de muito tempo de ditadura, de ficar
nossa documentação sobre os movimentos cada um em seu casulo. O que é importante
estudantis em Portugal na década de 1960. nesse período é a explosão de ideias. As
Entre os estrangeiros temos um italiano muito pessoas sabiam o que queriam e criaram
engraçado, que está comparando a tradição movimentos, associações de moradores,
democrática de Itália, Espanha e Portugal. creches, clínicas para o povo, habitações
Todos os anos saem livros publicados tendo populares. São hoje grandes nomes, todos
como referência a documentação vista no muito bem pagos, os arquitetos que fizeram
Centro. Agora vai sair uma sobre os exilados a primeira construção social com qualidade
políticos em Argel, da doutora Suzana Martins. em Portugal, num projeto muito conhecido
Ela finaliza também sua tese de doutorado e e que foi logo desmantelado por acreditar-
publicará uma obra sobre a oposição política se que era demasiado luxo para os pobres.
portuguesa na década de 1960 em Argel. Nós temos muitos documentos sobre essas
assembléias populares, são coisas únicas.
FMC - Do acervo inteiro, o que é para
você o bem mais precioso? FMC – Preservar a memória é tarefa
que demanda recursos, em geral
Natércia COIMBRA – Manuscritos do escassos. Além disso, a tecnologia
estrategista Otelo Saraiva de Carvalho, de armazenamento de informações
muda ao longo do tempo. Como o Centro
porque foi o plano de operações que permitiu
enfrenta essas questões?
a derrubada do regime. Outro manuscrito
importante é o livro de apontamentos
Natércia COIMBRA - Nós lidamos sempre com
da revolução. À medida que os alvos iam
otimismo, porque falta de meios e recursos
sendo conquistados, eram anotados pelos
humanos há sempre. O mais importante é
militares que estavam na sede clandestina
tentar localizar o documento e, localizando,
do movimento, no quartel da Pontinha. Esse
é bom ter condições de conservar, porque se
livro tem muito valor por ter ficado perdido
não fizermos mais nada, já fizemos muito. A
durante dez anos. Um dia, apareceu-nos um
prioridade é encontrar o que anda perdido,
dos militares que atuaram no 25 de abril com
ir atrás de uns e outros, contatar pessoas e
os livros nas mãos. Estavam todos manchados,
dizer o que é que nos falta ainda. Agora nos
alguns roídos de ratos, mas os recuperamos,
chegam muitas coisas repetidas e sempre
digitalizamos, editamos em livro e o conteúdo
que isso acontece, as encaminhamos para
está disponível na internet. Esses são os
arquivos nacionais. A primeira questão é
principais do ponto de vista do valor exterior.
mesmo localizar, procurar incessantemente,
Agora, o que é muito importante para o pôr anúncios de vez em quando pedindo
estudo da formação política das elites doações, aproveitar todas as nossas
portuguesas é a correspondência privada, iniciativas para fazer apelo à doação: traga as
entre políticos. Por exemplo, as cartas de suas coisas, nós vamos buscar se não as quiser
Fernando Piteira Santos, que foi jornalista, trazer, tudo tem valor, não jogue nada fora
historiador, militante comunista e exilado sem nos perguntar, porque uma das coisas
político. A correspondência dele com outros que as pessoas mais fazem é jogar fora, não
intelectuais é fundamental para percebermos têm noção do valor do documento.
como se procedia em Portugal nas décadas de
1930, 1940, 1950 e 1960. Como as pessoas consumiram cultura naquela
época, quais espetáculos viam, quais filmes.
Também temos fotografias que ninguém Sabemos que correram todos ao cinema
mais tem. São coleções que estavam nas para ver o que antes era proibido. Seria tão
casas das pessoas e teriam sido perdidas importante ver os ingressos de cinema, por
porque as fotos descoram ao longo dos anos. exemplo. Sempre dizemos para mandar tudo
Foi possível recuperar uma coleção de 1.200 o que tiver, que é para saber o que foi feito
murais, hoje disponíveis na internet. Muita depois de 25 de abril. Procuramos avançar no
gente esquece como Portugal viveu os dois caminho também da divulgação, por meio
primeiros anos após a revolução. As pessoas da construção de instrumentos de pesquisa,
estavam nas ruas, queriam participar, viver colocando guias na internet e catalogando.

46 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


FMC - E a digitalização?

Natércia coimbra - Partimos sempre


do princípio de que primeiro temos que
organizar. Só depois de tudo organizado é que
podemos criar as seções e digitalizar.

FMC – Que tipo de mídia vocês


escolheram para o armazenamento
das informações?

Natércia coimbra - Vamos conservando


e mudando. Tivemos muita fita VHS e
passamos para o CD digital. Agora estamos
migrando para grandes discos rígidos, onde
cabem grandes filmes compactados. Mas é
muito caro e não temos pessoal qualificado
para isso. Assim, além das doações de
documentos, procuramos voluntários para
fazer esse trabalho. Temos um especialista
na conversão de arquivos digitais, que nos
faz esses trabalhos de cópia e passagem para
DVD. Apesar do orçamento pequeno, com o
trabalho voluntário conseguimos fazer muita
coisa. Nós envolvemos a comunidade no
nosso trabalho. Procuramos fazer com que as
pessoas trabalhem conosco, gostem tanto do
Centro quanto nós e o considerem delas.

NATÉRCIA COIMBRA
Maria Natércia Coimbra é licenciada em Direito e pós-graduada em Ciências Documentais pela Universidade de Coimbra,
Portugal. Em 1985 foi convidada pelo sociólogo e professor da Faculdade de Economia de Coimbra, doutor Boaventura
de Sousa Santos, para coordenar a instalação e dirigir os serviços técnicos do recém-criado Centro de Documentação 25
de Abril, organismo ligado à reitoria da Universidade de Coimbra, do qual é diretor. Tratava-se de um projeto pioneiro
e inovador de localização, preservação, tratamento técnico e disponibilização ao público de documentos integrados em
espólios privados de políticos cujo papel tenha sido relevante para a história da revolução de 25 de abril de 1974 e da
transição portuguesa para a democracia.

Desde então, Natércia Coimbra tem trabalhado nesse projeto como adjunta do diretor e responsável pela negociação
e orientação técnica da catalogação de cerca de 300 incorporações de coleções e espólios privados de políticos que o
Centro de Documentação 25 de Abril possui em seu acervo documental.

Integrou durante dez anos o conselho técnico da Porbase – Base Nacional Portuguesa de dados Bibliográficos. Assumiu
diversos cargos na Associação Portuguesa de Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas – BAD, tendo sido presidente
do Conselho Regional do Centro entre 1992 e 1996. Desde essa data faz parte da subcomissão nacional de Normalização
e Catalogação. Coordena desde 1995 a página oficial do Centro de Documentação 25 de Abril na internet.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 47


A COC na rota dos cientistas
Construído em grande parte com arquivos pessoais, o acervo da
Casa de Oswaldo Cruz adota a organização por funções exercidas
pelas personalidades

Contar a história da saúde pública


no país e preservar sua memória
passa pelos arquivos pessoais
de personagens eminentes da
área, mesmo que os teóricos da
arquivística clássica torçam o nariz
para esse tipo de documento. A
organização desses acervos, por
sua vez, tende a ser mais eficiente
se a classificação dos arquivos
for feita por conjuntos de funções
exercidas pela personalidade em
questão. Essa é a posição de Paulo
Elian dos Santos, vice-diretor de
informação e patrimônio cultural
da Casa de Oswaldo Cruz (COC),
exposta no Seminário Acervos de
Personalidades, realizado pela
Fundação Mario Covas.

Foto autografada de Oswaldo Cruz

48 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


O Pavilhão Mourisco, prédio central da Fiocruz, no Rio de Janeiro, começou a ser construído em 1904

A Casa de Oswaldo Cruz (COC) é um centro de em 1996, vindo de uma experiência no Arquivo
pesquisa, documentação e informação dedicado Nacional. “O modelo tradicional estava esgotado”,
à memória e à história das ciências biomédicas e disse o vice-diretor de informação e patrimônio
da saúde pública e à educação e divulgação em cultural em sua apresentação no Seminário
ciência e saúde. A COC é responsável pelo arquivo Acervos de Personalidades. “Era possível pensar
permanente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aqueles arquivos de outra maneira.”
instituição pública vinculada ao Ministério da
Saúde, da qual faz parte. Na busca de uma abordagem inovadora no
tratamento desses acervos, Santos revisitou a
O acervo da Casa de Oswaldo Cruz possui, literatura arquivística sobre a classificação de
atualmente, 2 quilômetros de documentos de documentos e a descrição de arquivos pessoais,
texto. No arquivo institucional permanente da um trabalho que deu origem ao seu projeto de
Fiocruz há perto de 1,5 quilômetro de documentos dissertação de mestrado na Universidade de São
recolhidos. O restante é composto por cerca de Paulo, em História Social, sobre Organização de
80 arquivos pessoais de cientistas, médicos, Arquivos Pessoais de Cientistas.
sanitaristas, dirigentes e técnicos com atuação
no campo das ciências biomédicas e da saúde. Oposição e contraposição
A forma como os arquivos pessoais eram A literatura arquivística clássica, expôs Santos,
organizados estava em discussão na COC quando trata as diferenças entre arquivos institucionais e
Paulo Elian dos Santos ingressou na Fiocruz, pessoais, estabelecendo uma oposição: enquanto

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 49


os primeiros representam conjuntos orgânicos, organizar arquivos privados. É uma dissertação de
homogêneos e resultados de uma atividade mestrado sobre o arquivo de Gustavo Capanema,
administrativa, os arquivos pessoais são produto ministro dos mais importantes de Getúlio Vargas,
da intenção de perpetuar uma determinada responsável pela estruturação da área de cultura
imagem, portanto fruto de uma seleção arbitrária. durante o Estado Novo. Uma parte do arquivo de
São apresentados como agrupamentos artificiais Capanema foi construída para contar a biografia
e antinaturais, desprovidos de objetividade e, do ministro, mostrar sua obra.
portanto, do sentido próprio dos arquivos. Em
contraposição a essa idéia, Santos encontraria O indivíduo e sua trajetória
um bom material brasileiro.
Um dado comum nos arquivos pessoais é
Um texto da professora Ana Maria de Almeida a presença de documentos produzidos por
Camargo, da USP, por exemplo, publicado em 1988, instituições, na maioria das vezes públicas, nas
discutia arranjo e descrição de arquivos pessoais, quais o titular exerceu funções e atividades ao
com base na experiência obtida com o arquivo longo de sua trajetória profissional. Nos arquivos
do integralista Plínio Salgado. “Ali começou a de políticos e de cientistas isso é muito comum.
reflexão para trazer os arquivos pessoais para a
arquivística. Ou seja, o documento pessoal não Segundo Santos, a professora Ana Maria sugere
é não-arquivo, é arquivo também”, afirmou o tratar, sob o ponto de vista da arquivística,
vice-diretor da Casa de Oswaldo Cruz. dos contextos e das relações, os materiais não
arquivísticos, bibliográficos e museológicos,
Três aspectos a observar embora fisicamente tenham um tratamento
específico na biblioteca, reserva técnica ou área
Na avaliação de Ana Maria, os arquivos pessoais de museologia. “Eles devem ser pensados na
oferecem uma variedade de peculiaridades que concepção única do acervo e contextualizados
obrigam o arquivista a rever seus conceitos. Para como documentos”, afirmou Santos.
ela, são três os pontos a observar. O primeiro,
a recontextualização dos documentos operada Pensar a organização desses arquivos é pensar a
pelo titular do arquivo ou por seus sucessores. trajetória do indivíduo da forma mais completa.
O segundo, a constituição do universo coberto Aí valem os contratos, viagens, momentos mais
pelo arquivo, que envolve, além das ações que significativos, eventos que devem ser organizados
o vinculam às instituições sociais, outras cujas de forma cronológica, com o detalhamento que
regras são menos visíveis, como as relações de merecem. “Muitas vezes, nas biografias, algumas
amizade, opções intelectuais, obsessões etc. coisas estão encobertas. Olhando o arquivo
pessoal, descobrimos os fatos e eventos da vida
O terceiro aspecto ressaltado pela professora da instituição e do personagem.”
Ana Maria de Almeida Camargo é a inexistência
de parâmetros normativos que transformem o O interesse do vice-diretor da COC sobre o tema
trabalho de classificação e descrição num esforço levou-o a mergulhar na literatura da Sociologia
em que o levantamento das funções e áreas da Ciência, especialmente no livro A Vida de
de ação, como categorias classificatórias dos Laboratório, do filósofo, antropólogo e sociólogo
documentos, é também a construção de uma francês Bruno Latour. Escrito no final dos
biografia. “Na base da reflexão da Ana Maria está anos 1970, o livro é um trabalho antropológico
a idéia de construir uma biografia, como meio de realizado dentro de um laboratório de pesquisa
pensar como classificar os arquivos pessoais”, em neuroendocrinologia, nos Estados Unidos.
afirmou o vice-diretor da COC.
A obra descreve a vida cotidiana de um
Outro trabalho considerado importante por Santos laboratório de pesquisa, a cultura dos cientistas
tem como autora Priscila Fraiz, que integrou a e da instituição a que pertencem. Para Santos,
equipe do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, que trabalha numa instituição que possui mais
instituição que criou uma metodologia de como de 500 laboratórios, a abordagem de Latour

50 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


caiu como uma luva. “Os arquivos de cientistas
que nós temos, institucionais e pessoais, trazem
essa realidade. Fichas, cadernos de laboratório,
diários de pesquisa de campo, algumas coisas
absolutamente incompreensíveis. Conhecer bem
esse material significava conhecer o que faz um
cientista no laboratório e fora dele”, disse em sua
palestra. Entre as atividades extra-laboratório,
o cientista pode fazer política, buscar recursos,
estabelecer cooperações no país ou no exterior,
ocupar cargos em organismos internacionais, daí
a necessidade de conhecer esse mapa.

Foi também fonte de inspiração para Santos


o trabalho da pesquisadora Helen Samuels no
MIT (Massachusetts Institute of Technology)
sobre organização e avaliação de documentos
de instituições científicas. Ela parte da idéia de
que os cientistas, em geral, desempenham um
conjunto de funções, que seriam uma primeira
aproximação de classificação dos arquivos
pessoais. “Tenho sempre a dimensão da vida
pessoal, da formação e da administração da
carreira. Não entra no acervo apenas aquilo que diz
respeito à formação e à titulação como cientista, Carlos Chagas em seu laboratório na Fiocruz
mas tudo o que se refere à administração da
carreira. A carreira é fundamental, é a essência
do trabalho do cientista”, disse Santos.
diversas, sociedades e associações científicas.
Pesquisa administrada “Tal conjunto de funções serve de base para
pensar como organizar os arquivos, e, a partir
Uma outra função, que o diretor da COC chama delas, chegamos aos documentos e às séries
de administração da pesquisa, envolve a documentais”, afirmou Santos.
questão dos recursos necessários para o cientista
desenvolver a pesquisa, toda a produção de A nova proposta de organizar os arquivos teve uma
laboratório e a comunicação do conhecimento, primeira aplicação no arquivo de Frederico Simões
artigos, participação em congressos, tudo o que Barbosa, um sanitarista da Fiocruz, que trabalhou
se pode chamar de comunicação da ciência. em várias instituições, universidades e outros
centros de pesquisa. “Temos discutido algumas
Conta também a docência, sobretudo para adaptações na organização dos arquivos. No caso
aqueles que estão na universidade ou em da investigação científica, trabalhamos com tudo
institutos que têm programas de pós-graduação. o que diz respeito às grandes áreas de pesquisa
Aqui entram desde as atividades de orientação em que o cientista esteve. Na gestão da pesquisa,
de teses e participação em bancas de seminários reunimos tudo o que diz respeito à gestão dos
à gestão de instituições e políticas científicas. projetos, desde a solicitação de recursos, bolsas,
Fazem parte do pacote os circuitos em que aprovação, relatórios de aprovação até a infra-
esses cientistas atuam, o conjunto de redes estrutura necessária.” Gestão de instituições,
de relacionamento que eles estabelecem em relações entre funcionários e intergrupos com os
comitês, grupos de trabalho, missões oficiais, subgrupos de filiação profissional, consultoria e
conselhos editoriais científicos, redes informais, aconselhamento também estão contemplados.
prestação de serviços, consultorias das mais Atualmente, a COC trabalha em dois arquivos: o

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 51


O Pavilhão da Peste ou Prédio do Relógio abriga a Casa de Oswaldo Cruz e seu acervo

do cientista Carlos Chagas, um dos nomes mais das expedições que fez à Amazônia, no começo
importantes das ciências biomédicas no Brasil, da década de 1910. A viagem resultou em extensa
da própria Fiocruz, e o do Carlos Chagas Filho, que documentação fotográfica, relatórios e diários.
também se tornou um cientista.

Entre os documentos pessoais que compõem o


acervo da COC, Santos destacou as cartas escritas

2
por Oswaldo Cruz a seus pares, como o pesquisador
Rocha Lima, e sua esposa, Emília. “No arquivo de
Oswaldo Cruz, a correspondência é expressiva e
muito significativa”, disse Santos. “Não existe

KM
limite entre o que é correspondência pessoal
e o que não é. Como ele passou muito tempo
em expedições no Norte do Brasil, combatendo
doenças, em boa parte das cartas escritas para
a esposa ele trata de assuntos profissionais.
São dúvidas, questionamentos, o tempo todo
presentes nessa correspondência intensa.”
de documentos de texto compõem
o acervo da Casa de Oswaldo Cruz
Do arquivo de Carlos Chagas, um dos destaques é
o diário de campo, escrito pelo pesquisador numa

52 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


(Scientific Electronic Library Online, www.scielo.
org), bilioteca online de trabalhos científicos
de vários países. A revista abriu possibilidades
de trabalho para pesquisadores da história da
saúde, da ciência e da medicina no Brasil, tanto
do Brasil quanto da América Latina, Europa e
Estados Unidos. Começou com periodicidade
quadrimestral, atualmente é trimestral e possui
uma demanda que supera a publicação, segundo
Paulo Elian dos Santos, vice-diretor.

Aos poucos, a Casa de Oswaldo Cruz foi formando,


nos seus quadros, doutores em História, Sociologia
e Ciência Política. Quase que naturalmente, em
2001, a instituição criou um programa de pós-
graduação em História das Ciências e da Saúde,
com a perspectiva de formar pesquisadores nessa
área. A COC, assim, em pouco tempo titulou cerca
de vinte pesquisadores, que, ao longo de dez
anos, tornaram-se doutores.

A direção da COC é apoiada por três vice-diretorias.


A que cuida de informação e patrimônio cultural,
comandada por Santos, responde por todas
as macropolíticas nas áreas de informação e
documentação, tudo o que diz respeito aos
acervos e aos produtos e serviços realizados pela
instituição, sobretudo na internet.

Três serviços estão ligados a essa vice-diretoria:

Dos prédios aos gestão da informação, biblioteca e tecnologia

documentos
da informação. Há ainda dois departamentos, o
de arquivo e documentação e o Museu da Vida,
com áreas responsáveis pela guarda, tratamento
e acesso a esses acervos. O departamento de
A Casa de Oswaldo Cruz foi criada em
arquivo oferece dois serviços, um de arquivo
1986, na esteira do trabalho do grupo de
histórico e outro de gestão de documentos.
preservação do patrimônio arquitetônico da
Fiocruz. Boa parte do campus da fundação é
tombada, por conta dos prédios construídos Arquivo permanente
no começo do século 20, sob a direção de
Oswaldo Cruz, e pela arquitetura modernista Responsável pelo arquivo permanente da Fiocruz,
de alguns pavilhões erguidos nos anos 1950. à COC cabe a guarda e o tratamento do sistema
O grupo responsável pela preservação do de arquivos das 14 unidades da instituição.
patrimônio arquitetônico agregou-se ao
Além do centro de pesquisa do Rio de Janeiro,
projeto da COC e, depois, criou a área de
a fundação conta com cinco outros distribuídos
Educação e Divulgação em Ciências, da qual
faz parte o projeto Museu da Vida. em Manaus, Curitiba, Recife, Salvador e Belo
Horizonte. O serviço de arquivo histórico cuida
Em 1994, a COC criou a revista História, Ciência da sala de consulta, dos arquivos pessoais e de
e Saúde em Manguinhos, disponível no SciELO uma área de preservação de documentos. Seu

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 53


laboratório realiza procedimentos preventivos
de conservação e pequenas restaurações.
“Temos a higienização como tarefa permanente
e constante para a manutenção desses acervos”,
disse Paulo Elian dos Santos. É o caso do Museu da
Vida, que conta com um serviço de museologia,
responsável pelo armazenamento dos objetos,
dos instrumentos e equipamentos médicos e
científicos mais diversos.

No âmbito do departamento de arquivo e


documentação, há o serviço de arquivo histórico,
com a atribuição de reunir, organizar, referenciar
e dar acesso ao acervo arquivístico permanente
da Fiocruz e aos arquivos institucionais e pessoais
sob sua guarda e responsabilidade.

Além de tratar e se responsabilizar pelo acervo


permanente da Fiocruz, esse arquivo histórico
recebe doações de arquivos pessoais, inclusive
de outras instituições, que não têm condições
de abrigar e guardar esses acervos de antigos
diretores sobre dermatologia, pediatria, as mais

108 anos de
diversas áreas da medicina. Nesses casos, a COC faz
convênios de cooperação, para que a instituição
crie as condições de tratar, organizar, preservar
e dar acesso ao acervo. “Em casos excepcionais, saúde
se houver o interesse da instituição, a COC pode
A peste bubônica era um caso tão sério no Brasil,
receber o acervo mediante um contrato que
em 1899, que Cesário Alvim, então prefeito da
estabeleça cláusulas que garantam a guarda e
cidade do Rio de Janeiro, encarregou o barão
a disponibilização. Mas, fundamentalmente,
de Pedro Affonso de providenciar os soros para
trabalhamos com arquivos pessoais”, diz Santos.
combatê-la. Mas onde produzi-los rapidamente?
A COC recebe arquivos de cientistas, médicos,
O barão escolheu a Fazenda Manguinhos, às
sanitaristas, dirigentes e técnicos com atuação
margens da baía de Guanabara. A área abrigara
no campo das ciências biomédicas e da saúde.
o incinerador de lixo da cidade, e os dois prédios
em que moravam os operários dos fornos podiam
Parte do acervo da COC está tratada, disponível
ser usados como laboratórios improvisados.
para pesquisa e é bastante demandada.
Assim, em 25 de maio de 1900, foi inaugurado ali
“Tentamos lidar com isso da melhor maneira,
o Instituto Soroterápico Federal, que deu origem
porque nós não temos uma área que tenha
sido pensada para abrigar um arquivo”, disse à Fundação Oswaldo Cruz.
Santos. A COC funciona num prédio ainda com
muita improvisação, embora tenha havido Oswaldo Cruz era diretor técnico do instituto e,
investimentos em sistemas de climatização dois anos depois, assumiu a direção-geral com
e arquivos deslizantes. O laboratório de grandes planos: produzir remédios e vacinas,
conservação, por exemplo, é ainda uma solução realizar pesquisa científica e atividades ligadas
de adaptação. “Estamos pensando num projeto à saúde pública, seguindo o modelo do Instituto
de um prédio construído especificamente para Pasteur. Em 1903, Rodrigues Alves, então
abrigar o arquivo”, disse Santos. presidente da República, nomeou o cientista
como diretor-geral de saúde pública do país, com
a missão de combater a febre amarela, a peste

54 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Oswaldo Cruz usa
o microscópio em
seu laboratório na
Fiocruz, observado
pelos assistentes

bubônica e a varíola. Daí em diante, o instituto e A idéia da convivência de biólogos e médicos


a importância de Oswaldo Cruz só fizeram crescer. sanitaristas com sociólogos, historiadores,
antropólogos, bibliotecários e arquivistas causou
Em 1970, o Instituto Soroterápico Federal e estranhamento, mas o projeto foi em frente.
outros institutos de pesquisa e órgãos da área Em 1986, foi criada a Casa de Oswaldo Cruz,
de saúde passaram a fazer parte da recém- unidade dedicada à preservação da memória da
criada Fundação Instituto Oswaldo Cruz. Uma instituição e às atividades de pesquisa, ensino,
das entidades reagrupadas na época é a Escola documentação e divulgação da história da saúde
Nacional de Saúde Pública. Fundada em 1954, pública e das ciências biomédicas no Brasil.
a Escola desempenhava um papel importante
na formação de profissionais de saúde pública Atualmente, a Fiocruz é uma das maiores
no Brasil. Nesse mesmo ano, a ditadura militar instituições não-universitárias do país formadoras
que governava o país recrudesceu. Dez cientistas de pesquisadores das áreas de saúde, ciência,
ligados à fundação tiveram seus direitos políticos tecnologia e educação. Oferece 15 cursos de pós-
cassados, foram aposentados compulsoriamente graduação, mestrado e doutorado e possui uma
e impedidos de trabalhar em qualquer instituto escola politécnica que forma profissionais para
que tivesse ajuda do governo federal. atuar no Sistema Único de Saúde (SUS).

Desenvolve atividades de pesquisa e


Memória preservada desenvolvimento tecnológico, prestação de
serviços hospitalares, ambulatoriais de referência
Nos anos 1980, sob a gestão do médico sanitarista em saúde, fabricação de vacinas, medicamentos,
paulista Sérgio Arouca, a idéia de preservação da kits de diagnóstico e reagentes, informação e
memória e da história ganha espaço, na esteira comunicação em saúde, ciência e tecnologia e
da redemocratização do país. Arouca e um grupo controle de qualidade de produtos e serviços.
de sanitaristas da Fiocruz defendiam a criação Emprega cerca de 7.500 servidores e outros
de uma área que unisse as ciências sociais e profissionais em 14 unidades, entre institutos de
biológicas, dando uma nova perspectiva à saúde. pesquisa, escolas, hospitais e fábricas.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 55


Facilidades
para o pesquisador
Paulo Elian dos santos, vice-diretor da Casa de Oswaldo Cruz,
fala dos produtos e serviços que a instituição oferece via web

Saúde pública, vacinas, psicologia. O pesquisador que quiser ir fundo em algum


desses grandes temas e em outros ligados à medicina e à pesquisa científica vai
encontrar farto material de consulta na Casa de Oswaldo Cruz. Para facilitar a vida do
pesquisador, a COC oferece uma série de recursos via internet, como o Guia do Acervo,
fontes de informação bibliográfica e bibliotecas virtuais. Nesta entrevista, Paulo Elian
dos Santos, vice-diretor da COC, fala um pouco desses recursos, entre outros assuntos.

FMC - Em sua palestra, o senhor uma: a garantia de respeito ao contexto


chamou a atenção para a organização de produção dos documentos que estão
dos acervos de cientistas por funções relacionados às atividades e funções
exercidas. Esse tipo de organização desempenhadas pelo titular.
pode ser aplicado a acervos de
políticOs? Quais seriam os benefícios FMC - Por qual razão a construção
dessa abordagem? de biografias seria facilitada pela
Paulo Elian – Pode ser aplicado sim a organização do acervo por funções?
personalidades políticas, uma vez que elas Paulo Elian - A organização dos arquivos
exercem cargos diversos ao longo da vida pessoais não pode prescindir de um exaustivo
pública. São várias as vantagens dessa levantamento biográfico com os eventos que
abordagem, que eu resumiria em apenas ocorreram na trajetória pessoal e profissional

56 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


do titular. Esse levantamento fornece aos publicações, entre elas a revista História,
responsáveis pela organização do arquivo Ciências, Saúde - Manguinhos.
elementos para conhecer as grandes áreas
FMC - Como a Fundação Mario Covas
de ação/atuação do titular. Posteriormente,
poderia aproveitar a experiência da
por meio dos instrumentos de pesquisa
Casa de oswaldo cruz?
elaborados, os pesquisadores terão acesso ao
Paulo Elian - Por meio da troca de
resultado desse trabalho, que deve procurar
experiências. O instrumento mais adequado
respeitar o contexto de produção do material
para viabilizar possíveis parcerias é o convênio
documental encontrado no arquivo.
de cooperação técnica.

FMC - Todos os arquivos pessoais sob a


FMC - Quais são as preciosidades do
guarda da COC estão disponíveis para a
acervo da COC?
pesquisa? Há alguma restrição?
Paulo Elian - É difícil falar de preciosidades.
Paulo Elian - Nem todos os arquivos estão
Seria uma arbitrariedade da minha parte.
organizados. As possíveis restrições que
Mas eu poderia destacar o conjunto da
existam estarão sempre relacionadas aos
correspondência do arquivo Oswaldo Cruz,
limites da legislação arquivística quanto à
os livros de registro dos primeiros grupos de
proteção da intimidade e da vida privada e
funcionários do Instituto Oswaldo Cruz no
aos casos em que determinado documento
início do século XX, e alguns conjuntos de
ou conjunto de documentos necessite de
fotografias que encontramos, por exemplo,
cuidados especiais quanto à conservação.
no arquivo pessoal Belisário Penna (médico
sanitarista brasileiro participante da
FMC - Como a COC estimula a demanda
por pesquisas? Revolução de 1930), e nos arquivos do próprio
Paulo Elian - De diversas formas, sobretudo Instituto, da Fundação Rockefeller, e da
por meio de serviços e produtos que Fundação Serviços Especiais de Saúde Pública.
disponibilizamos na internet. Entre eles
FMC - Há ainda algum documento
temos o Guia do Acervo da Casa de Oswaldo
importante faltando ao acervo?
Cruz, inventários, catálogos de depoimentos
Paulo Elian - Ainda nos falta, no acervo,
orais, repertórios de fontes e bases de
os conjuntos de documentos que ainda não
dados. As fontes de informação bibliográfica
recolhemos dos institutos da Fiocruz.
encontram-se acessíveis nas bases de dados
COC e HISA (Base Bibliográfica em História da
Saúde Pública na América Latina e Caribe).

Um programa de bibliotecas virtuais vem


se desenvolvendo, tendo como primeiros
PAULO ELIAN DOS SANTOS
produtos a Biblioteca Virtual Carlos Chagas, a
Bacharel e licenciado em História pela Universidade do
Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz, a Biblioteca
Virtual Vital Brazil e a Biblioteca Virtual de Rio de Janeiro (PUC/RJ), Paulo Elian dos Santos é mestre
Museus e Centros de Ciências. Essa linha de e doutorando em História Social pela Universidade de
atuação se consolida com a elaboração do São Paulo (USP). Como tecnologista sênior da Casa de
Dicionário Histórico e Biográfico da Saúde Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz,
Pública e das Ciências Biomédicas, em sua coordena o sistema de gestão de documentos e
versão online, e da Biblioteca Virtual em arquivos. É membro do Conselho Nacional de Arquivos
História da Saúde e da Medicina. (CONARQ), integra o conselho editorial da revista
Arquivo&Administração da Associação dos Arquivistas
Outro produto na internet é o site História Brasileiros (AAB). Acumula experiência em Arquivologia,
dos Saberes PSI e Cultura Brasileira, que
com ênfase em organização de arquivos, atuando
disponibiliza artigos, resumos de teses e
principalmente nas seguintes áreas: classificação
dissertações, resenhas de livros e outros
e descrição em arquivos permanentes, sistemas de
links, além de funcionar por meio de listas
de discussão. Realizamos exposições, como arquivos, arquivos pessoais e gestão de arquivos de
A Revolta da Vacina, sobre a revolta popular instituições de ciência, tecnologia e saúde.
ocorrida no Rio de Janeiro em 1904, devido a
uma lei federal que obrigava a a população
a vacinar-se contra a varíola, e diversas

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 57


Fernando Abrahão, diretor da área de arquivos históricos do Centro de Memória Unicamp (CMU)

CMU, o guardião
da memória de Campinas
O Centro de Memória da Unicamp preserva documentos que
recontam a história da região desde a escravatura

Preencher a lacuna deixada pelo poder público, que pouco valor dava aos
arquivos permanentes. Esse foi o mote para a criação do Centro de Memória
Unicamp (CMU), que preserva a memória não só da universidade, mas de toda
a região de Campinas, no interior paulista. “Nada mais correto do que salvar
da destruição esse patrimônio, e nada melhor para historiadores, demógrafos,
sociólogos e demais pesquisadores do que ter à disposição um acervo de fontes
originais de pesquisa no próprio ambiente universitário”, defendeu Fernando
Abrahão, diretor da área de arquivos históricos do CMU, durante sua palestra
no Seminário Acervos de Personalidades, da Fundação Mario Covas.

58 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


O CMU nasceu da vontade de um grupo de Unicamp, em julho de 1985. “Os processos cíveis e
professores do Instituto de Filosofia e Ciências criminais são uma fonte riquíssima para qualquer
Humanas da Unicamp, liderado por José Roberto historiador. Rendem teses de mestrado e
do Amaral Lapa. Desde o final dos anos 1970, doutorado na universidade até hoje, reafirmando
esse grupo acalentava a idéia de levar para que um arquivo de porte é uma fonte inesgotável
dentro da universidade uma significativa parte de produção do conhecimento”, disse Abrahão.
do patrimônio documental preexistente na
região de Campinas. Vários fatores justificavam Impostos e feridos de guerra
essa proposta. A cidade e as áreas vizinhas
assistiram a uma das mais altas concentrações Na pequena e empoeirada sala do centenário
do trabalho escravo no país e acompanharam prédio da Cúria Metropolitana de Campinas
o fluxo expressivo de imigrantes desde meados estava guardada, num canto, a documentação
do século XIX. Depois, engajaram-se nos setores da Coletoria de Rendas, de 1831 a 1890. “Entre os
de ponta da economia desde o ciclo da cana- registros de coleta de impostos, há o que incidia
de-açúcar até o café, definindo sua estrutura sobre o comércio de escravos. Também havia
fundiária e projetando suas forças políticas, que imposto sobre o abate de rezes para a venda
contribuíram decisivamente para a mudança de carne, o tráfego de carroças e seges, aquela
de regime de governo do país em 1889. Para carroça mais chique, a produção e o comércio
completar, essa tradição acabou formando uma de aguardente”, disse Abrahão. Em seguida, foi
cultura, que avançou até a fase industrial que incorporado o arquivo do Corpo de Bombeiros
marca a atualidade. municipal, quando foi extinto.

“As agendas das reuniões daquele grupo de Outros arquivos foram chegando, como o do
professores estão repletas de críticas quanto ao Tribunal de Justiça. “Nós estendemos o convênio
estado de conservação da documentação e de com o Tribunal de Justiça de São Paulo e trouxemos
severas preocupações com o sucesso das futuras os documentos de Jundiaí, porque Campinas
pesquisas”, disse Abrahão. Para fazer frente a fez parte da Comarca de Jundiaí durante um
esse problema, o professor Amaral Lapa propôs bom período. Esses documentos estavam num
um convênio entre a universidade e a Prefeitura, cartório. Se o cartório precisar deles, vamos
para que a Unicamp assumisse os arquivos devolver em melhor estado do que recebemos”,
permanentes do poder Legislativo e do poder afirmou o diretor do CMU.
Executivo campineiro.
Além dos documentos públicos, interessavam
ao CMU os acervos pessoais e os de instituições
A proposta de Lapa não encontrou reciprocidade
de caráter público, mas mantidas pela iniciativa
na administração pública, por ser uma antítese
privada. Por exemplo, o arquivo da Santa
do princípio arquivístico, que preconiza a
Casa de Misericórdia de Campinas, que possui
guarda no próprio local de produção. Travou-
documentos desde 1876. “Entre os registros da
se uma batalha entre o professor Amaral Lapa
Santa Casa estão os das pessoas que se feriram
e os especialistas em arquivologia, que, em em batalha na época da Revolução de 1932 e
apoio aos profissionais de Campinas, foram à deram entrada no hospital. A febre amarela, em
Unicamp para brecar o convênio. Os arquivistas 1889, em Campinas, está toda documentada. Tem
convenceram a administração pública a não fazer relatório dos provedores, prestações de contas,
a doação, embora a Prefeitura não tivesse todas registros do cotidiano médico-hospitalar, é bem
as condições para manter o arquivo histórico. interessante. Só os prontuários médicos ficaram
na própria Santa Casa”, relatou Abrahão.
Lapa não desistiu de preservar o patrimônio
documental da cidade. Negociou com o O acervo do CMU conta também com alguns
Tribunal de Justiça de São Paulo e trouxe para a documentos de fazendas produtoras de café, de
universidade, sob custódia, o arquivo do Tribunal antigas indústrias e de associações de classe, como
de Justiça de Campinas, composto de 50 mil a dos ferroviários, muito fortes em Campinas. A
processos, datados de 1793 até 1940. E foi esse estrada de ferro Mogiana, que passava pelo Sul
arquivo que deu início ao Centro de Memória de Minas e ia até Brasília, saía de lá.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 59


uma indústria de fundição de 1880; de Antonio
Ferreira Cezarino Junior, advogado do trabalho;
de Teodoro de Souza Campos Junior, membro de
uma família tradicional da cidade. “Do acervo
das famílias Quirino dos Santos e Simões, nós
resgatamos cadernos de receita antigos, lá
de 1860, e fizemos um livro”, disse Abrahão à
audiência do seminário.

Presente e futuro
Ao assumir o papel de um dos principais
guardiões da memória de Campinas, o Centro
de Memória Unicamp procurou modernizar suas
dependências e aumentá-las. Para isso, obteve
o apoio da própria Unicamp e da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo -
Técnico do CMU trata documento datado de 1900 Fapesp, em 1998 e 2000.

No final dos anos 1990, o CMU contava com a mais


completa biblioteca especializada em história
regional, uma área para guarda e tratamento
Cartas e receitas culinárias dos documentos fotográficos, um laboratório de
história oral e um laboratório de restauração de
Arquivos pessoais não apareciam com freqüência documentos, fundamental para a preservação
no Centro de Memória Unicamp, por conta da de papéis com mais de 200 anos, como os que
desconfiança das pessoas sobre a qualidade estão lá. Há uma sala de pesquisa, áreas de
do trabalho, segundo Fernando Abrahão. “Não processamento técnico e conservação, e a sala
vencemos a insegurança da sociedade sem de acervo, ocupando 80 metros quadrados com
mostrar o nosso trabalho. Quando você mostra o estantes deslizantes.
que faz, a sociedade reconhece.” Com o tempo, a
resistência foi sendo vencida. O acervo está todo descrito num banco de dados
informatizado. A digitalização está em discussão.
Na fase inicial, dois importantes arquivos “Se eu for digitalizar os 50 mil processos do
pessoais chegaram ao CMU. Um é o de Nelson Tribunal, cada um com duzentas páginas,
Backer Omegna, ministro do Trabalho nos quase são milhões e milhões. Tenho de escalonar
três meses do governo Nereu Ramos (de 11 de prioridades, e isso é complicado”, disse Abrahão.
novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956), que
antecedeu ao de Juscelino Kubitscheck. Nelson A existência do Centro de Memória Unicamp,
Backer Omegna foi jornalista e professor, antes para seu diretor, revela que a universidade
de exercer diferentes funções públicas, como é capaz de atender à demanda da sociedade
vereador e deputado federal. O outro conjunto por uma nova cultura de preservação de seu
relevante é o de Francisco Glicério de Cerqueira patrimônio documental e de acesso a ele. Mas há
Leite, um republicano abolicionista (leia texto desafios a vencer. “Não podemos captar todos os
na página ao lado). “Não é o arquivo completo documentos. Por isso, estabelecer uma política
do Glicério, mas são documentos de riqueza de captação é fundamental, por contraditório
inestimável”, afirmou Abrahão. que pareça. O nosso espaço físico é limitado e não
é mais possível ampliá-lo. Então, promovemos
Com a confiança que o CMU foi ganhando, outros cursos, treinamentos e elaboração e execução
arquivos pessoais e familiares agregaram-se ao de projetos de preservação de acervos junto às
acervo: os documentos da família Faber, dona de empresas públicas e privadas”, afirmou.

60 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Francisco Glicério contra o rei

O arquivo pessoal de Francisco Glicério de


Cerqueira Leite sob a guarda do Centro de
Memória Unicamp é pequeno e rico. São
pouco menos de mil manuscritos, entre
cartas, ofícios, telegramas e bilhetes
recebidos de vários correligionários
republicanos, entre eles nada menos
que Rui Barbosa, Prudente de Morais,
Campos Salles, Quintino Bocaiúva, Júlio de
Mesquita e Herculano de Freitas.

As cartas de Glicério trazem detalhes


importantes acerca das batalhas políticas
travadas entre os defensores do regime
imperial e os republicanos, e entre os
escravagistas e os defensores da abolição,
a partir do terceiro quarto do século XIX.
Glicério participou, em 1868, da fundação
do partido republicano em Campinas.
Pouco depois, com Quirino dos Santos e
Campos Salles, fundou o jornal A Gazeta
de Campinas. Assinou o manifesto
republicano de 1870 e, em 1873, participou
da Convenção de Itu.

Francisco Glicério foi para São Paulo


estudar Direito na faculdade do Largo São
Francisco, mas, no meio do curso, o pai Carta de Campos Salles a Francisco Glicério datada de 1882
morreu, e ele teve de voltar a Campinas
para cuidar da mãe e dos nove irmãos.
Volta, não consegue concluir o curso, mas de seu adversário, mas D. Pedro não o
trabalha como auxiliar de advogado. indicou para o cargo, por motivos óbvios.
A República acabou sendo proclamada, em
Como rábula - aquele que advoga sem ter 1889. Glicério foi então ministro interino
o diploma -, Glicério é reconhecido e cria dos Negócios da Justiça, ministro dos
uma clientela enorme, que permite a ele Transportes e da Agricultura (1890-1891),
trabalhar no movimento republicano e deputado federal e senador da República
nos processos de liberdade de escravos. “O Velha (1902-1916).
Glicério era aquele cara que apaziguava os
ânimos e tinha uma atuação importante. Francisco Glicério faleceu em 1916 como
Ele propôs, no caso da morte de um senador e está enterrado em Campinas.
imperador, que o povo fosse convocado A principal avenida do centro da cidade
para opinar sobre um terceiro reinado ou tem o nome dele, dado 15 dias depois da
a República. É claro que não foi adiante proclamação da República. De suas cartas,
a idéia dele”, disse Fernando Abrahão, 200 foram reunidas pelo CMU num livro.
diretor do Centro de Memória Unicamp. “Reunimos as mais significativas para a
compreensão do movimento republicano
Em 1888, Glicério foi indicado para uma e do abolicionismo. Incluímos índices
vaga no Senado pelo Partido Republicano. temático e onomástico, para facilitar a
Obteve uma votação superior ao dobro busca”, disse Fernando Abrahão.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 61


Processo de inventário de 1896, uma das peças da Justiça de Campinas preservada pelo CMU

62 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Adolfo Gordo e aS primeiras
leis da República

Uma nova leva de arquivos públicos pessoais


de políticos chegou recentemente ao Centro de
Memória Unicamp. Um dos mais interessantes é
o do senador Adolfo Afonso da Silva Gordo, um
republicano contemporâneo de Francisco Glicério
Cerqueira Leite. Adolfo Gordo incorporou ao
sobrenome o apelido do pai, um cidadão robusto,
chamado de gordo pelos fregueses do armazém
que mantinha em Piracicaba.

Bacharel em Direito, foi nomeado governador do


Rio Grande do Norte pelo governo provisório da
República, ficando no cargo apenas três meses.
Como deputado federal e senador, legou seu nome
a duas leis que fizeram história. A primeira, de
1907, dispunha sobre a expulsão de estrangeiros.
A segunda, também conhecida como Lei Adolfo
Gordo, de 1923, foi a primeira lei de imprensa
brasileira, que tentava silenciar. Os adversários e
jornalistas a chamavam de lei infame.

No arquivo do senador há material sobre a lei de


expulsão de estrangeiros e o direito das mulheres
ao voto. “Tem um cartão postal comemorativo
com a professora Júlia Barbosa, a primeira mulher
a ser alistada pela Justiça Eleitoral. Adolfo Gordo Francisco Glicério escreve a Adolfo Gordo em 1914
participa com ênfase nessa lei”, diz Fernando
Abrahão, diretor do CMU. O senador atuou
também em causas importantes, combatendo
vendas fraudulentas de imóveis da antiga estrada No segundo, da vida profissional no escritório de
de ferro Araraquarense. Gordo morreu atropelado advocacia, estão as publicações sobre legislação
em 1929. “Morrer atropelado em 1929, imagina- e disposições gerais. No terceiro grupo, estão
se que tenha sido um atentado, porque, naquela os documentos da vida política, como material
época, os carros não deviam andar tão rápido. das eleições, as nomeações, correspondência,
Ocorre que estavam atravessando a rua cinco pedidos de votos que ele mandava, leis e decretos,
senadores, e só ele faleceu”, conta Abrahão. eventos, finanças e toda a documentação que ele
gerou para a produção das leis que propunha, as
O arquivo de Adolfo Gordo está organizado em primeiras da República. “Esse arquivo já foi fonte
três grupos: a vida pessoal, a profissional e a de uma tese de doutorado defendida na USP por
política. No primeiro, estão documentos pessoais, Alice Beatriz Lang, descendente de Adolfo Gordo
correspondência familiar, recordações de que passou o arquivo do senador para o Centro
formatura, guias de viagem, títulos hipotecários. de Memória Unicamp”, afirma Abrahão.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 63


Gaveteiro de peças do Centro de Memória Unicamp

Grama e Izalene, prefeitos com


acervo preservado
Dois arquivos pessoais de ex-prefeitos de Fernando Abrahão, diretor do CMU. Em 1992, foi
Campinas ampliaram, recentemente, o acervo do eleito para o segundo mandato como prefeito,
Centro de Memória Unicamp: o do tucano José que não chegou a concluir. Como Covas, de quem
Roberto Magalhães Teixeira, conhecido como era amigo, também morreu vítima de câncer.
Grama entre os amigos do PSDB, e o da petista Faz parte de seu currículo a coordenação da
Izalene Tiene, que assumiu o cargo porque campanha presidencial de Fernando Henrique,
o prefeito eleito, Antonio da Costa Santos, em 1994. A parte do arquivo de Grama que
o Toninho, foi assassinado um dia antes dos chegou ao CMU é composta pela hemeroteca e
atentados terroristas ocorridos em 11 de setembro a videoteca de suas campanhas eleitorais e de
de 2001, nos Estados Unidos. suas administrações como prefeito. “Veio tudo
organizadinho, encadernado. O nosso trabalho
Grama começou a carreira política militando foi o de catalogar”, observou Abrahão.
nos grêmios estudantis da PUCCamp, onde
estudava Odontologia no final dos anos 1950 e Izalene Tiene assumiu a Prefeitura de Campinas
início dos 1960. Em 1977, elegeu-se vice-prefeito em meio a grande tristeza no CMU. Toninho,
de Campinas, ocupando também o cargo de um dos fundadores do PT, foi também um dos
secretário da Cultura. Entre 1978 e 1981, foi fundadores do Centro de Memória. Quando
suplente do senador André Franco Montoro, Izalene chegou à Prefeitura, encontrou todos os
período em que se tornou amigo do ex-presidente documentos dos nove meses da gestão Toninho.
Fernando Henrique Cardoso. Assumiu a Prefeitura Para começar a administração dela, teve de fazer
de Campinas em 1982, no mesmo período em que a transição. Assim, o arquivo de Izalene está
Mario Covas foi indicado a prefeito em São Paulo dividido entre a gestão dela e a do Toninho.
pelo então governador Franco Montoro.
“Pelos documentos da gestão de Izalene Tiene,
Em 1990, Grama elegeu-se deputado federal ficamos sabendo que as mulheres representavam
com o maior número de votos na história de 64% do funcionalismo público em Campinas, por
Campinas. “Na ocasião, idealizou o programa exemplo”, diz Abrahão. Esse arquivo ainda está
Bolsa-família, que a gente conhece hoje”, disse em fase de organização.

64 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


A memória da Bahia
O Centro de Memória da Fundação Pedro Calmon preserva cerCa
de 34 acervos de homens públicos do Estado

Consuelo Novais em palestra na FMC

O arquivo privado do governador baiano Otávio Mangabeira foi a peça fundamental


do Centro de Memória da Bahia, da Fundação Pedro Calmon, que guarda, atualmente,
cerca de 34 acervos de homens públicos do Estado. No total, são 135.515 documentos,
computados por páginas, segundo afirmou sua diretora, Consuelo Novais Sampaio,
durante palestra no Seminário Acervos de Personalidades. Parte dos documentos foi
cedida por deputados durante a execução do projeto Dicionário Histórico Biográfico
da Bahia. Do total recolhido, 43.160 estão digitalizados.

66 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


As atividades do Centro de Memória da Bahia homem importantíssimo na evolução da cidade.”
podem ser resumidas, de acordo com sua diretora, A recuperação desse arquivo é um projeto da
em duas ações: a preservação e a difusão da Faculdade de Arquitetura, com apoio do CNPq.
memória histórica do Estado. A preservação
da memória compreende todo o processo de A higienização do acervo iconográfico é realizada
higienização dos documentos. com flanelas especiais. Depois disso, é feita
a triagem e a organização das fotografias por
“O primeiro processo é o de desinfetação. Os período. “Nessa fase, principalmente, pedimos a
documentos são colocados num saco plástico, e colaboração de pessoas que conheceram aqueles
o ar é retirado com um aspirador. O saco com o personagens. Mesmo assim, não conseguimos
documento vai ao freezer por 15 dias, para matar ainda identificar todas as fotos. Tem sido um
todos os microorganismos. Após esse período, o processo lento”, disse Consuelo. Finalizado o
freezer é desligado e fica dois dias sem abrir, para processo de preservação, a documentação está
que não haja o choque térmico. Depois disso, o preparada para ser digitalizada, microfilmada
documento vai para a mesa, onde um técnico, em duas cópias, uma para o Centro de Memória
com a escova, remove os fungos mortos no e outra para a imprensa pública, colocada num
congelamento. É uma fase que precede qualquer cofre de segurança e cadastrada.
tratamento que se queira dar posteriormente aos
documentos”, explicou Consuelo. “A elaboração e a publicação do catálogo de cada
acervo tem sido muito lenta, por falta de apoio,
No Centro de Memória da Bahia, são os mas a Fundação Pedro Calmon está trabalhando
estagiários que fazem a desinfetação. A para integrar esse banco de dados à internet.
higienização prossegue, numa mesa específica, Encontra-se instalado um banco de dados no
com um aspirador que vai sugando todos servidor da própria Fundação. Assim, as imagens
os microorganismos. A fase seguinte é de que o pesquisador escolhe para a pesquisa dele
cadastramento em formulário criado no próprio só podem ser recuperadas no nosso Centro de
Centro de Memória. O cadastramento envolve Memória. Não está ainda ao alcance de todos,
a organização dos documentos em ordem mas chegaremos lá”, afirmou.
cronológica, a classificação em séries, e a
codificação através de ementas e descritores.
Difusão da memória
Todos os colaboradores da instituição são
terceirizados. “Um deles é Alvito, bisneto do A atividade de difusão da memória histórica da
Barão de Jeremoabo, que está nos ajudando na Bahia envolve a promoção de cursos, palestras,
transcrição das cartas do primeiro governador exposições e pesquisas que resultem na
constitucional da Bahia, José Gonçalves da Silva, produção do conhecimento. O Centro de Memória
que era muito amigo do Barão de Jeremoabo, realiza anualmente o curso Conversando com a
e a letra dele é terrível. Alvito lê e um outro sua História, que abrange os períodos colonial,
colaborador transcreve, facilitando a consulta imperial e republicano da Bahia. “Priorizamos
pelos pesquisadores”, disse a diretora do Centro como palestrantes aqueles jovens mestres
de Memória da Bahia à audiência da FMC. e doutores que fizeram suas teses e pouca
oportunidade têm de exibir seu trabalho.” Depois
O Centro utiliza três tipos de formulário: um para da apresentação do palestrante, há um debate.
documentos textuais, outro para iconografia
e fotos e um terceiro para recortes de jornais. “Na última apresentação do curso, em 2006,
“Nós adaptamos esses formulários à nossa o professor Charles Almeida falou sobre as
necessidade, mas os temos cedido a várias filarmônicas baianas. Depois, a filarmônica de
entidades da Bahia, inclusive para a organização Santo Antônio de Jesus fez uma bela exibição em
do Arquivo Privado Mário Mendonça, que é um frente ao palácio. Raramente temos menos de

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 67


Aula do curso Conversando com a sua História, promovido anualmente pelo Centro de Memória da Bahia

cem espectadores, todos intervêm. Em 2008, a 1.510 homens públicos”, disse Consuelo. Foram
apresentação da filarmônica Amantes da Lira, de feitos 415 verbetes com recursos do Fundo de
Santo Amaro, encerrou o curso”, disse a diretora. Cultura do Estado da Bahia. Outros cem foram
possíveis com recursos da FAPESB, que deixou
De nove a dez palestras do curso costumam de colaborar em 2008. “As ações da secretaria
ser selecionadas, transformadas em artigos de Cultura, sob a qual fica a Fundação Pedro
e publicadas na revista História da Bahia, da Calmon, estão sendo carreadas para a construção
Fundação Pedro Calmon. Segundo Consuelo de outro modelo, mais voltado para as artes e
Novais, a revista teve muito boa aceitação, foi ações populares.” Até a realização do seminário,
distribuída por todo o Estado, mas deixou de o Centro de Memória da Bahia construíra 520
circular por falta de recursos. verbetes biográficos e 20 verbetes temáticos, que
se encontram disponíveis para o pesquisador em
O projeto Mostra Memória estabeleceu uma maior cópias digitalizadas em volumes de DVD.
identidade do público com o acervo. Realizaram-
se exposições com documentos e objetos de A publicação das cartas que Otávio Mangabeira
várias personalidades, entre elas o patrono, escreveu e recebeu em dois exílios – de 1930 a
Pedro Calmon, e o governador Otávio Mangabeira. 1934 e de 1937 a 1945 – é um outro projeto em
pauta. “É emocionante ler as cartas dele. A
“Um outro projeto que eu gostaria que fosse correspondência espontânea revela muito do que
levado à cabo é o Dicionário Biográfico Histórico a documentação oficial esconde. Conseguimos
da Bahia, que vai desde a proclamação da a aprovação de uma parte do projeto, para
República até 2006, abrangendo um total de trabalhar as cartas do primeiro exílio.”

68 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Reunião de toda a equipe de pesquisadores e colaboradores do Centro de Memória da Bahia

Muitos desafios uma visão de mundo.” A diretora do Centro de


Memória da Bahia considera que os arquivos
privados têm a vantagem de conter escritos no
Para Consuelo Novais, os desafios de gerir um
calor do acontecimento e, por isso, estão menos
acervo público são muitos, principalmente
sujeitos à preocupação do personagem com a
quando há uma mudança de governo, que tem
imagem que dele se faz ou faria.
um poder maior do que o da instituição e outras
prioridades. Um dos grandes desafios, em sua
Lembrou ainda que a instituição foi criada
opinião, é fazer com que a memória histórica
para estancar a sangria de valiosas fontes
seja entendida pelos gestores das instituições
documentais baianas, recuperar acervos perdidos
mantenedoras como fenômeno coletivo social, e
e disponibilizar para a pesquisa o material sob sua
não algo que seja relativo apenas às elites. “O
guarda. “Mais de 14 ou 15 arquivos importantes da
objetivo maior desses acervos em que nós estamos
Bahia estão no CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas,
trabalhando é a produção do conhecimento, é
inclusive o de Juracy Magalhães (governador em
impulsionar o homem para a frente.”
três mandatos), por não confiar no tratamento
que receberia na Bahia”, lamentou.
“Pessoalmente, gosto muito de uma citação de
Jung (Carl Gustav, psiquiatra suíço): ‘o homem
“Somente preservando a memória poderemos
que cresce sem conhecimento histórico é como se contribuir para o progresso do conhecimento e
tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse para a afirmação da identidade da sociedade
perceber o mundo exterior com exatidão’. Assim, baiana, assegurando-lhe o desenvolvimento que
o que fazemos com os acervos é constituir tanto tem buscado”, finalizou Consuelo Novais.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 69


Uma história de
persistência
A história do Centro de Memória da Bahia,
da Fundação Pedro Calmon, é praticamente
indissociável da trajetória acadêmica de sua
diretora, Consuelo Novais Sampaio. A dificuldade
de obter dados para a sua tese de mestrado,
em 1973, sobre o Poder Legislativo - Partidos
Políticos da Bahia, levou a baiana de Jequié aos
professores Kátia Matoso, Johannes Ioguel e João
José Reis. Os quatro, juntos, decidiram criar um
centro de memória para reunir as informações
perdidas, disse a diretora, em sua palestra no
Seminário Acervos de Personalidades.

“Na condição de coordenadora, fui ao Rio de


Janeiro buscar recursos na Ford Foundation, então
administrada pelo professor Richard Morse. Ao
analisar o nosso projeto, Morse recomendou que
eu fosse à Fundação Getúlio Vargas ver o projeto
da Celina do Amaral Peixoto, que era semelhante.
Fui ao CPDOC, conversei com a Celina, combinamos
de trocar idéias e voltei à Bahia”, disse Consuelo.
Como ainda não era reconhecida pela sociedade
acadêmica baiana, os professores bloquearam o
projeto. Morse, então, recomendou que ela se
candidatasse ao doutorado. E foi o que fez.

O tema escolhido para a tese, defendida na The também de comparação de biografias coletivas,
Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, do Estado de New Jersey. “Para fazer a biografia,
foi Crise no Sistema Oligárquico Brasileiro. “Eu ele teve apenas de ir à biblioteca da própria
objetivava uma comparação da biografia coletiva universidade e tirar os livros com todos os dados.
do Legislativo de antes e depois de 1930, e vim à E o Legislativo de estudo dele era de 1783, século
Bahia coletar dados. Reuni pesquisadores, mas a XVIII. O meu era de pleno século XX, e não tinha
dificuldade continuou a mesma. Para identificar nada. Ele conseguira dados biográficos dos
as datas de nascimento e morte de um deputado, deputados, o que eles fizeram”, contou Consuelo.
em Belmonte, tivemos de ir ao cemitério ver a
lápide, porque o filho dele não sabia”, disse De volta à Bahia, iniciou uma pesquisa que
Consuelo. Resultado: não saiu a biografia, a tese estudava o período entre o golpe de Getúlio
não ficou com a comparação que ela queria fazer. Vargas, de 1937, e o militar, de 1964. Mais uma vez,
deparou-se com a dificuldade em colher dados
A frustração foi ainda maior porque um colega de deputados. “Comecei a fazer entrevistas com
de departamento na universidade americana os remanescentes e seus descendentes. Numa
tinha uma proposta de dissertação semelhante, delas, com o já falecido senador Josafá Marinho,

70 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


falei das minhas tentativas de criar um centro CONSUELO NOVAIS
de memória da Bahia e ele resolveu dar forma
jurídica a ele.” Assim, criou-se a Fundação Pedro
SAMPAIO
Calmon, com a colaboração de Jorge Calmon,
A História é o cerne da vida acadêmica de Consuelo
irmão de Pedro Calmon, que foi deputado e
Novais Sampaio. Graduou-se e licenciou-se em
romancista. Era 1986, ano de eleição, e todos os
História pela Universidade do Brasil (1958), é mestre
cargos foram distribuídos a políticos.
pela Universidade Federal da Bahia (1973) e pela
The Johns Hopkins University (1977). Doutorou-
Consuelo assumiu a direção em 2003, depois que se pela The Johns Hopkins University (1979) e fez
a Fundação Pedro Calmon incorporou os arquivos pós-doutorado na University of California Los
estaduais, municipais e também a biblioteca e Angeles (1986). Atualmente, é diretora do Centro
passou a denominar-se Fundação Pedro Calmon, de Memória da Bahia da Fundação Pedro Calmon.
Centro de Memória e Arquivo Público da Bahia. Sua experiência na área de História tem ênfase em
Assim, passou a funcionar efetivamente como História Latino-Americana, com destaque para
repositório da memória política do Estado, economia regional, oligarquias, regionalismo,
guardando arquivos privados de políticos e ex-g poder político e história da Bahia.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 71


O palácio Rio Branco
O Centro de Memória da Fundação Pedro Calmon de seus salões. Fora formada com o propósito
foi instalado no Palácio Rio Branco, antiga sede de reunir informações sobre a Nova Lusitânia,
do governo do Estado da Bahia e um dos mais que seriam enviadas para a Corte e anexadas à
velhos do Brasil. Localiza-se em Salvador, na História de Portugal, que estava sendo redigida
Praça Tomé de Sousa, onde também estão os pela Academia Real de História Portuguesa.
prédios da Prefeitura da cidade e da Câmara Funcionou como quartel e prisão e abrigou Dom
Municipal e o Elevador Lacerda. Pedro II, quando esteve na Bahia, em 1859.

O palácio começou a ser construído pelo No final do século XIX, o Palácio Rio Branco
primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de ainda ostentava a velha fachada colonial
Sousa, em meados do século XVI, para servir portuguesa, símbolo de decadência na
como o centro da administração portuguesa. nascente República Federativa do Brasil. O
No início, era feito de taipa de pilão, recebendo prédio recebeu, então, uma reforma radical,
posteriormente pequenas ampliações. finalizada em 1900, na gestão do governador
Luís Viana. Reformado, passou a exibir um
A sede da Academia Brasílica dos Esquecidos, imponente estilo neoclássico. Internamente,
a primeira Academia de Letras fundada no agregou uma sofisticada escadaria de ferro
Brasil, em 23 de abril 1724, abrigou-se em um inglês com vidro francês.

72 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


PEDRO CALMON,
FILHO DE
AMARGOSA
Pedro Calmon Moniz de Bittencourt, patrono
do Centro de Memória da Bahia, nasceu em
Amargosa, interior baiano, em 23 de dezembro
de 1902, filho de Pedro Calmon Freire Bittencourt
e Maria Romana Moniz de Aragão Calmon de
Bittencourt. Foi professor, político, historiador,
biógrafo, ensaísta e grande orador.

Em 1920, Pedro Calmon ingressou na


Faculdade de Direito da Bahia. Dois anos
depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro,
para secretariar a Comissão Promotora dos
Congressos do Centenário da Independência,
continuando seus estudos na Universidade do
Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de
Direito da UFRJ, diplomando-se em 1924.

Foi secretário particular do ministro da


Agricultura no governo Artur Bernardes,
habilitando-se, em 1925, no concurso de
provas para conservador do Museu Histórico
Nacional. No Museu, realizou ampla reforma
administrativa e criou a cadeira de História da
Civilização Brasileira, para a qual escreveu um
livro com o mesmo título.
Sede da administração portuguesa nos
tempos do Império, o Palácio Rio Branco
abrigou o Centro de Memória da Bahia Em 1927, ingressou na política como deputado
estadual pela Bahia. Em 1935, foi eleito
deputado federal e, de 1950 a 1951, assumiu o
Em 10 de janeiro de 1912, o palácio foi um dos comando do Ministério da Educação e Saúde,

pontos atingidos pelo bombardeio ordenado no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra.

pelo presidente da República, Hermes da


Seu primeiro trabalho jurídico data de 1926
Fonseca, em Salvador. O ataque destruiu o
– Direito de Propriedade –, inicialmente
acervo de livros raros, que ficava na parte
destinado à tese de doutorado. Em 1935,
térrea. Começou a ser reconstruído no mesmo
publicou o primeiro volume da História Social
ano e foi reinaugurado pelo governador Antônio
do Brasil, uma das obras que o habilitaram
Ferrão Moniz de Aragão, em 1919.
a candidatar-se à Academia Brasileira de
Letras. Elegeu-se em 16 de abril de 1936 para
O palácio reconstruído recebeu o nome de Rio
a Cadeira nº 16, cujo patrono é Gregório de
Branco, em homenagem ao Barão do Rio Branco.
Matos, da qual foi o terceiro ocupante. Ocupou
Mais recentemente, em 1984, o prédio passou por
a presidência da Casa, em 1945. Foi orador
uma restauração completa, devido ao péssimo
oficial do Instituto dos Advogados do Brasil, em
estado de conservação em que se encontrava.
dois períodos; delegado do Brasil à conferência
Em 2009, a pedido do governo Jaques Wagner,
Interamericana do México, em 1945. Morreu no
o prédio histórico deixará de abrigar o Centro
Rio de Janeiro, em 16 de junho de 1985.
de Memória da Bahia. Seu novo endereço será a
Biblioteca Central, na avenida Sete.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 73


Erico VerIssimo
REÚNE O ACERVO
A natureza desprendida do escritor gaúcho é uma das pedras
no caminho da organização de seu aRQUIvo

O escritor
Erico Verissimo
na juventude

Mafalda Verissimo olhava todo santo dia para a papelada deixada pelo marido, o escritor
gaúcho Erico Verissimo, e não se animava e mexer. Doía lembrar dele ali, no escritório de casa,
em plena atividade. Doía lembrar de sua partida deste mundo. Em 1982, sete anos após a
morte de Erico, Mafalda tomou coragem e convidou Maria da Glória Bordini, então professora
de Teoria da Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), para
organizar tudo. Começou assim a se formar o acervo literário do autor de O Tempo e o Vento,
como contou a professora à audiência do Seminário Acervos de Personalidades.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 75


O escritor gaúcho Erico Verissimo e sua biblioteca particular, em Porto Alegre

O convite de Mafalda devia-se ao fato de Maria por tópicos ou por espécies. “Era muita coisa,
da Glória Bordini ter sido secretária editorial da estava tudo revirado, não havia uma ordem
Editora Globo e trabalhado com Erico Verissimo deixada pelo escritor porque muitos anos haviam
no período de 1969 a 1975, últimos anos da vida se passado.” Na época, a coordenadora não
do escritor. “Tínhamos uma relação profissional sabia coisa alguma de arquivologia, mas tinha
muito boa”, afirmou Maria da Glória. O emprego experiência editorial e era formada em Letras.
na editora fora o próprio Erico quem conseguira
para ela, ao ser expurgada da Universidade Como não conhecia arquivologia, tratou de
Federal do Rio Grande do Sul, em 1969, por conta aprender. Visitou o Museu Nacional, no Rio
de arbitrariedades do regime militar. de Janeiro, a Biblioteca Nacional, observou
como é que as coisas se organizavam e criou
Maria da Glória começou a montagem do acervo uma ficha de catalogação básica para poder
com o básico: seleção do material e organização trabalhar com o material. Tais fichas permitiram,

76 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


que nunca termina e nunca está totalmente
organizado, é um trabalho sem fim.” Os sistemas
de recuperação da informação foram sendo
aperfeiçoados aos poucos, com o tempo.

Quando o acervo literário de Erico Verissimo passou


a ser muito procurado pelos pesquisadores,
ficou inviável sua permanência na residência
da família. Foi então transferido para a PUC,
onde Maria da Glória era ainda professora e
colaboradora. Quando ela se aposentou na
UFRGS, ficou um período na PUC como professora
titular de Teoria da Literatura, e o acervo foi junto
com ela. Na universidade, organizaram-se, nos
mesmos moldes do material de Erico Verissimo
outros acervos de escritores gaúchos, como
Dionélio Machado, Mário Quintana e Dalila Ripol.

A informatização do catálogo do acervo foi


realizada com um software desenvolvido
especialmente para o acervo do Erico. Em 2007,
quando fechou o centro de memória da PUC-RS, o
acervo de Erico foi para a casa do filho, o também
escritor Luís Fernando Veríssimo.

A estrutura do acervo

O acervo de Erico Verissimo é constituído de


dezesseis séries ou classes de documentos.
A classe um reúne os originais, englobando
material que não foi publicado ou a última versão
de manuscritos ou prototextos.
dois anos depois, que ela apresentasse, como
professora convidada da PUC-RS, um projeto de Na classe dois, enquadra-se a correspondência
organização do acervo ao Conselho Nacional de ativa e passiva, do escritor e de outras pessoas
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). para ele. Já a série três reúne publicações na
Esse projeto e um outro, sobre Guimarães Rosa, imprensa, desde os recortes que o escritor
foram aprovados em 1984. “Foram pioneiros, guardava até entrevistas, qualquer material
porque o CNPq não trabalhava com esse tipo de que saiu na mídia impressa, seja notícia de
pesquisa científica”, disse Maria da Glória. lançamento de livro seja resenha. Há a classe
Esboços e Notas, que contém todos os prototextos
O acervo continuou sediado na casa de Erico que o Erico deixou de algumas obras.
Verissimo, mas foi crescendo com o trabalho de
coleta, organização e catalogação. “Muita coisa “O Erico não guardava muito material. Muita coisa
chega até hoje. Um acervo é uma coisa viva, ele pôs fora. Muitos originais ele encadernou e

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 77


deu de presente. Vamos descobrindo isso aos livros, revistas, periódicos científicos e jornais,
poucos, quando morre quem ganhou a obra de principalmente nos suplementos literários.
presente, e os filhos ou colocam à disposição
ou leiloam por altos preços. Não temos todos os A adaptação da obra do escritor para outras
originais por esse motivo, eles vão aparecendo linguagens tem uma série própria. Lá estão
aos poucos. Compramos dois, mas custaram caro. “cartazes ou fotos de uma peça de teatro ou de
Somos contra aquisições e, portanto, sempre um filme, a letra do samba enredo da Escola de
pedimos doações”, disse Maria da Glória. A Samba X, programa de balé, tem de tudo”. Outra
categoria Esboços e Notas inclui desde fichários classe é a pinacoteca, com os quadros que Érico
até esboços em folhas datilografadas, com comprou ou recebeu de presente, incluindo
emendas em vários estágios de realização. outros objetos de arte. Em história editorial
estão os contratos, como prestação de contas
Erico Verissimo tinha uma vocação frustrada para para ver a circulação da obra em determinados
desenhista. Por isso, há uma classe Ilustrações, períodos. “Tentamos manter isso atualizado, mas
no acervo. “Ele desenhava muito, às vezes em é difícil porque as editoras não costumam nos
folhas brancas, nas margens dos originais, dos enviar. A série inclui elementos voltados para a
esboços. Há muitas caricaturas e caligramas.” A produção de livros, como o esboço de uma capa,
classe seis comporta os documentos audiovisuais, um desenho que ele mesmo faz para dizer para o
como fotografias, fitas cassete, discos e vídeos. capista como é que ele gostaria que fosse a capa
“A discoteca dele era basicamente clássica. Temos do livro X, que às vezes não é aproveitada.”
vídeos de programas em que ele apareceu.”
Uma classe problemática é a Biblioteca. “A
Na classe Memorabília, que honra a memória biblioteca sempre esteve na casa dele, e a família
do escritor, estão honrarias, como diplomas, usa, empresta, somem os livros.” Como a biblioteca
medalhas, troféus, prêmios e também souvenirs do pai se misturou com a do filho, que é enorme,
de viagem, presentes recebidos, homenagens decidiu-se que os livros até 1975 eram do Erico.
públicas de governantes, parlamentares e Na classe Vida, ficaram as coisas não literárias,
homenagens particulares. “Tem muita gente que documentos pessoais, objetos como óculos,
manda para os autores uma obra ou carta ou canetas, máquina de escrever, comprovantes de
desenho. Incluímos nessa classe os monumentos, atividades profissionais não ligadas à literatura.
ruas e edifícios que têm o nome de personagens “Ele foi diretor do departamento de assuntos
do Erico. Como há muitos, apenas fotografamos.” culturais da Organização dos Estados Americanos
(OEA). A parte diplomática está preservada,
Os comprovantes de edição foram reunidos na um material que conseguimos há muito pouco
classe oito do acervo, que não possui todas as tempo, uns dois anos.”
primeiras edições das obras de Erico. “Ele não
guardava mesmo, dava os livros de presente. Uma das classes do acervo literário tem um
Mas nós temos muitos comprovantes de várias catálogo para descrever as obras. Com o tempo, a
edições das muitas editoras que publicaram a ideia de Maria da Glória é linkar os comprovantes
obra dele e também os comprovantes das edições de edição para saber quantas edições cada
estrangeiras, desde o Japão até a Finlândia.” obra teve e fazer cruzamentos com outros itens
do catálogo. A última é a classe História do
Uma outra classe, muito procurada pelos Acervo, destinada a guardar a memória de quem
pesquisadores de literatura brasileira, traz trabalhou nele e dos eventos e publicações que
os comprovantes de crítica acadêmica em foram realizados sobre o arquivo.

78 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Fachada do Centro Cultural CEEE Erico
Verissimo, em Porto Alegre

Petrobrás, para reformar um prédio e instalar ali


o acervo. Fizemos todo o trâmite, mas não deu
certo, porque mudou o presidente da empresa
na hora em que nós estávamos terminando.”
Mais adiante, tentou-se obter um prédio com
a Associação Rio-grandense de Imprensa, mas
também não deu resultado.

Mais algum tempo, e surgiu a oportunidade de


fazer o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. O
prédio, na região central de Porto Alegre, foi
construído entre os anos de 1926 e 1928 pelo
engenheiro Adolfo Stern, ocupando 2.775 metros
quadrados. Em estilo eclético, mas com influência
francesa do início do século XX, foi tombado em
1994 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e
Artístico do Estado do Rio Grande do Sul.

A reforma do edifício, também conhecido por


Força e Luz, por abrigar as concessionárias de
energia gaúchas, foi patrocinada pela Companhia
Estadual de Energia Elétrica - CEEE, por meio da
Lei de Incentivo à Cultura, custou 4,4 milhões de
reais e durou dois anos. “O prédio tem laboratório,

Em busca de um auditório, projeção digital, copiadoras potentes


para fazer a reprodução, arquivos deslizantes,
espaço mas nós nunca usamos”, disse Maria da Glória.
Discordâncias entre o Estado e os Verissimo sobre
a gestão do Centro teriam influído na decisão.
As várias mudanças de lugar dificultaram o
trabalho de organização do acervo de Erico No prédio do Centro Cultural funcionam salas
Verissimo, iniciado em 1982. Primeiro, o material de exposições, teatro, biblioteca, o Museu da
foi da casa do escritor para a PUC-RS, numa Eletridade do RS, além de um espaço permanente
instalação provisória. Depois de algum tempo, de exposição de acervo de Erico Verissimo,
houve uma reforma no prédio da universidade, atualmente composto de primeiras edições de
que criou um espaço específico para o centro de livros do escritor, 26 fotografias da década de
memória. “As coisas melhoraram, mas nós nunca 70 e manuscritos, segundo Sabrina Lindemann,
tivemos, por exemplo, um laboratório para fazer coordenadora cultural do Centro.
a conservação adequada do material”, disse
Maria da Glória Bordini, coordenadora do acervo. Quando Maria da Glória saiu da PUC-RS, o acervo
voltou para a casa de Luís Fernando Verissimo.
As tentativas de obter a sede definitiva foram Está numa situação mais precária, mas com a
muitas. “Procuramos conseguir recursos com a promessa de uma nova sede, desta vez definitiva.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 79


O retrato do escritor gaúcho, de 1956, faz parte do Acervo Literário Erico Verissimo

80 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Da farmácia à glória literária
Dinheiro curto, inconveniências políticas, cargo diplomático e
mais de uma dezena de obras compõem a trajetória de
Erico VerIssimo

O escritor brasileiro Erico Verissimo nasceu em Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul,
em 17 de dezembro de 1905, filho do farmacêutico Sebastião Verissimo e da dona-de-
casa Abegahy Lopes Verissimo, ambos de tradicionais famílias gaúchas. O pai queria
que fosse estudar na Universidade de Edimburgo, na Escócia, mas ao completar 18
anos, a difícil situação financeira da família não permitiu.
Erico foi então estudar em Porto Alegre e, de volta a Cruz Alta, trabalhou num armazém
e, depois, num banco. Fez um pé de meia e aplicou o dinheiro na sociedade de uma
farmácia. Os negócios com remédios não iam nada bem, mas serviram para conhecer
Mafalda Halfen Volpi, com quem se casaria. Montou nos fundos da farmácia uma
escola de inglês, que se tornou ponto de encontro de pensadores, dando a Erico a
chance de ter contato com o que gostava: literatura e arte.

Seus contos e desenhos foram publicados pela tempos de Cruz Alta. No ano seguinte, lança o
primeira vez nos jornais Correio do Povo e Diário livro infantil Aventuras de Tibicuera.
de Notícias, de Porto Alegre. Em 1930, mudou-
se para a capital gaúcha e passou a conviver O romance Olhai os Lírios do Campo, um de seus
com escritores renomados. No final do ano, foi maiores sucessos, é publicado em 1938. Conquista
contratado para ocupar o cargo de secretário de sua primeira noite de autógrafos com Saga, um
redação da Revista do Globo e, no dia 15 de julho ano depois. Em 1941, Erico passa três meses nos
de 1931, casou-se com Mafalda. Estados Unidos, a convite do Departamento de
Estado, e faz conferências em várias cidades.
Erico Verissimo começa a publicar suas obras. Publica Gato Preto em Campo de Neve e, no ano
Fantoches, livro de contos, vai para as prateleiras seguinte, O Resto é Silêncio. A discordância com
das livrarias em 1932. Um ano depois, é a vez do a ditadura Vargas faz o escritor aceitar o convite
romance Clarissa. Em 1935, ano do nascimento para lecionar Literatura Brasileira na Universidade
de sua primeira filha, Clarissa, lança Caminhos da Califórnia, nos Estados Unidos, e muda-se
Cruzados. No mesmo ano, com o livro Música ao com toda a família para Berkeley.
Longe, obtém o primeiro lugar no Grande Prêmio
de Romance Machado de Assis, da Companhia Seus romances Caminhos Cruzados, O Resto é
Editora Nacional para obras inéditas, e publica a Silêncio e Olhai os Lírios do Campo são editados
biografia A Vida de Joana D’Arc. nos Estados Unidos. Mais tarde suas obras
seriam traduzidas para os idiomas francês,
No ano de 1936, nascem o filho Luis Fernando, alemão, espanhol, finlandês, holandês, húngaro,
seu primeiro livro infantil, As Aventuras do Avião indonésio, italiano, japonês, norueguês, polonês,
Vermelho, e Um Lugar ao Sol, um retrato dos romeno, russo, sueco e tcheco, o que fez de Erico

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 81


Página inicial de O Continente, volume um da trilogia O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo

Verissimo um dos escritores brasileiros mais lidos 1959, para a Europa. Faz palestras em Portugal,
no mundo todo. No retorno ao Brasil, lança A defendendo a democracia, e entra em choque
Volta do Gato Preto, um livro de observações com a ditadura salazarista. Publica O Ataque. Em
sobre a vida em terras americanas. 1961, quando escrevia a última parte da trilogia O
Tempo e o Vento, sofre um infarto.
O Tempo e o Vento, a obra que tanto sonhara,
começa a ser escrita em 1947 e se transforma na Durante o período de recuperação, de quase um
trilogia apontada pela crítica como seu maior ano, faz as correções de O Arquipélago. O golpe
sucesso. Em 1953, a família Verissimo volta aos militar de 1964 inspira O Senhor Embaixador,
Estados Unidos e Erico assume, em Washington, lançado em 1965. Erico faz uma visita a Israel, que
a direção do Departamento de Assuntos rende mais um diário de viagem: O Prisioneiro, de
Culturais da União Panamericana, na Secretaria 1967. Em 1971, publica Incidente em Antares. Em
da Organização dos Estados Americanos. Com a 28 de novembro de 1975, não sobrevive a mais um
mulher Mafalda e o filho Luis Fernando, viaja, em infarto e deixa inacabado Solo de Clarineta.

82 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Maria da Glória Bordini, coordenadora do acervo de Erico Verissimo, durante palestra na FMC

“Lidar com o ALEV é um


privilégio”
Maria da Glória Bordini, coordenadora do Acervo Literário de
Erico Verissimo, fala de sua experiência no trato da memória
do escritor gaúcho

Um acervo é uma obra viva. A cada momento surgem descobertas, confirmações


ou refutações do conhecimento acumulado ao longo do tempo dedicado ao
arquivo, e isso permite ao organizador realizar um trabalho de memória e
história ou memória e crítica, impossível em outras circunstâncias. Essa é a
visão de Maria da Glória Bordini, coordenadora do Acervo Literário de Erico
Verissimo (ALEV), exposta na entrevista à Fundação Mario Covas.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 83


FMC - O Acervo Literário de Erico esse material ao acervo e dar acesso
Verissimo mudou várias vezes de aos pesquisadores?
lugar. Algum documento importante
se perdeu ou estragou nessa
movimentação? MARIA DA GLÓRIA - Normalmente não temos
notícia dos destinatários das doações que
MARIA DA GLÓRIA BORDINI - O ALEV primeiro Erico Verissimo costumava fazer aos amigos.
foi organizado na residência dos Verissimo e, Só sabemos delas quando a pessoa que
depois, foi posto sob a guarda da Pontifícia recebeu entra em contato conosco ou quando
Universidade Católica do Rio Grande do Sul há algum leilão de manuscritos. Erico não
(PUC-RS), onde ocupou dois espaços em deixou registros de suas doações, e a família
andares diversos, sendo por fim devolvido também não os possui.
à residência dos Verissimo. Até onde pude
FMC - Algum trabalho de coleta mais
constatar, não houve perda de nenhum
incisivo do material foi realizado?
documento importante, fundamental, apenas
os descartes usuais de material insignificante
MARIA DA GLÓRIA - Fizemos anúncios
para a memória de Erico Verissimo ou para a
em jornais e programas de televisão nos
pesquisa acadêmica.
primeiros anos de funcionamento do ALEV,
sem resultados. Através de exposições e
FMC - Qual é a maior preciosidade desse
acervo, na sua opinião? publicação de artigos, o ALEV tornou-se
conhecido, e então começamos a receber
MARIA DA GLÓRIA - Sem dúvida, os datiloscritos cartas, fotografias e edições raras, bem como
e os esboços das obras, em especial de O Tempo críticas sobre sua obra.
e Vento, Incidente em Antares, O Senhor
FMC – Por ter formação em Letras
Embaixador, O Prisioneiro e Solo de Clarineta,
e especialização em Teoria da
entre outros. E não se podem esquecer as Literatura, a senhora fez alguma
cartas de Erico e seus correspondentes. especialização em arquivologia para
lidar com o ALEV?
FMC - Qual documento lhe deu mais
satisfação recuperar? MARIA DA GLÓRIA - Minha experiência
com arquivos literários é essencialmente
MARIA DA GLÓRIA – Foi uma enorme satisfação autodidata. De início, para aprender sobre
recuperar os textos datilografados de O a organização de arquivos, visitei o Museu
Retrato, segunda parte de O Tempo e o Nacional e o Museu de Literatura Brasileira
Vento, completando o que tínhamos da da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro,
trilogia. Também foi muito bom obter a cópia o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP),
fotográfica do datiloscrito de Olhai os Lírios do em São Paulo, a Fundação Jorge Amado, em
Campo, doada por José Mindlin (empresário e Salvador, e fui fazendo contatos e observações
colecionador de livros raros), as cartas trocadas em cada local por onde passei.
com Herbert Caro (bibliotecário e tradutor
do alemão) e Vianna Moog (romancista e Fiz apenas um estágio no ITEM/CNRS (Instituto
ensaísta), doadas pelas respectivas famílias, de Textos e Manuscritos Modernos do Centro
e os discursos e outros documentos de Erico Nacional de Pesquisa Científica) de Paris,
na Organização dos Estados Americanos (OEA), graças à colaboração dos colegas do IEB e à
coletados em Washington pela então minha CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de
doutoranda Ana Letícia Fauri. Pessoal de Nível Superior do Ministério da
Educação), mas dedicada à crítica genética.
FMC - As pessoas presenteadas com
Em Paris, visitei outras instituições dedicadas
originais e primeiras edições de Erico
Verissimo não se sensibilizam em doar ao patrimônio material de escritores. Na

84 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Brown University, nos Estados Unidos,
estudei brevemente o sistema de arquivos da
Biblioteca John Carter Brown.

FMC - Como é para uma pessoa dedicada


à obra literária passar tantos anos
na montagem da memória do autor?

MARIA DA GLÓRIA - Trabalhar com fontes


primárias é um privilégio que poucos
pesquisadores têm, em especial quando
se trata de organizar e manter um acervo
pessoal inteiro. A cada momento surgem
descobertas, confirmações ou refutações do
conhecimento estabelecido sobre o autor,
dados novos, permitindo um trabalho de
memória e história, ou de memória e crítica,
como não se pode realizar em outro local.

O Acervo Literário também me proporcionou


pensar teoricamente sobre a materialidade
da literatura, assunto que ainda é muito
pouco explorado no Brasil. Afora o fato de
que tive a grande oportunidade de conhecer MARIA DA GLÓRIA
Erico Verissimo num nível de profundidade BORDINI
que outras áreas não possibilitam.

FMC - O acervo, mesmo sediado na Doutora em Letras pela PUC-RS, Maria da Glória
casa de Luis Fernando, está aberto
Bordini especializou-se em Teoria da Literatura.
à consulta dos pesquisadores? Como
eles fazem para ter acesso? Atualmente, é pesquisadora do CNPq e professora
colaboradora do programa de pós-graduação em
Letras da Universidade Federal do Rio Grande do
MARIA DA GLÓRIA - No momento, o ALEV está
Sul. Foi professora titular do programa de pós-
fechado a consultas. Só podemos atender
graduação em Letras da PUC-RS, onde coordenou
interessados em parte da fortuna crítica e
o Centro de Memória Literária, atualmente
parte do material fotográfico e epistolar, extinto, que reunia acervos de dez escritores
de que temos exemplares extras ou cópias sul-rio-grandenses, e organizou cinco edições
digitalizadas. O acesso é feito através do meu dos Encontros Nacionais de Acervos Literários
e-mail, como coordenadora do ALEV. Brasileiros. Desde 1991, é editora associada
da revista binacional Brasil/Brazil Revista de
FMC - A senhora disse que teríamos Literatura Brasileira, publicada em nova fase
surpresas sobre a sede do acervo. O pela Associação Cultural Acervo Literário de Erico
novo endereço está definido? Como
Verissimo e pela Brown University, dos Estados
está sendo o processo?
Unidos. Coordena, desde 1982, o Acervo Literário
de Erico Verissimo. Publicou Fenomenologia e
MARIA DA GLÓRIA - A definição da futura sede
Teoria Literária, pela Edusp, Criação Literária em
do Acervo Literário de Erico Verissimo está em
Erico Verissimo, pela L&PM, e Caderno de Pauta
fase de finalização. No momento, estamos Simples: Erico Verissimo e a Crítica Literária, pelo
envolvidos nas tratativas contratuais e não IEL/RS, entre outras obras em co-autoria, além de
podemos adiantar mais detalhes. traduções e artigos sobre literatura em livros e
em periódicos nacionais e estrangeiros.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 85


Fundação Mario Covas
Diretoria

Presidente da Fundação Mario Covas Antonio Carlos Rizeque Malufe


Diretor Secretário Luis Sergio Serra Matarazzo
Diretor Tesoureiro Marcos Martinez

Conselho Curador

Presidente Bruno Covas Lopes


Vice-Presidente Belisário dos Santos Junior
Secretário Marco Vinício Petrelluzzi
Membros Vitalícios Florinda Gomes Covas
Mario Covas Neto
Renata Covas Lopes
Rubens Naman Rizek
Membros Eletivos Edson Tomaz de Lima Filho
Edson Vismona
Fernando Padula Novaes
José da Silva Guedes
Luiz Carlos Frigério
Marcos Arbaitman
Marco Ribeiro de Mendonça
Mauro Guilherme Jardim Arce
Michael Paul Zeitlin
Osvaldo Martins de Oliveira Filho
Sami Bussab

Administração Rosangela Lopes Moreno Baptista


Eduardo Strabelli
Odair Aparecido Ribeiro Campos

Centro de Memória Mario Covas



Coordenação Raquel Freitas
Consultora Arquivística Maria Cristina de Carvalho Pazin
Técnicos Documentalistas Gustavo Molina Turra
Noubar Sarkissian Junior
Tiago Silva Rodrigues Navarro
Wesley Cunha Soares
Pesquisadores Pedro Rodrigues de Albuquerque Cavalcanti
Renato de Mattos

Gestão de Projeto Cultural FormArte – Projetos, Produção e Assessoria Ltda.

86 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


Fundação Mario Covas
em revista
Coordenação Editorial Atelier de Imagem e Comunicação
Teresa Cristina Miranda - MTb 12.170

Editora Lucia Reggiani - MTb 11.479


Redação Teresa Cristina Miranda
Lucia Reggiani
Administração Cláudia Sardinha

Projeto Gráfico e Diagramação Anibal Sá Comunicação & Design

Fotografia A2 Fotografia

Edição Angelo Perosa


Produção Rosana Jerônimo Ribeiro
Ana Paula de Oliveira Silva
Fotógrafo Milton Michida

Agradecimentos
A Fundação Mario Covas agradece aos Centro de Documentação 25 de Abril, Centro de Memória
Unicamp, Fundação Patrimônio Histórico da Energia e Saneamento, Casa de Oswaldo Cruz-
Arquivo Fiocruz, Centro de Memória da Bahia e Acervo Literário Erico Verissimo por terem
cedido gentilmente as reproduções de documentos e fotografias que ilustram os textos
sobre seus respectivos acervos, produzidas pelos fotógrafos:
Juca Ferreira
Salomon Cytrynow
Leandro Melo
Paixão Esteves
Luiz Rodrigues

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA a c erv o s d e p ers o n a l i d a d es 87


patrocínio

apoio

88 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA A c erv o s d e Pers o n a l i d a d es


FUNDAÇÃO MARIO COVAS

RUA 7 DE ABRIL, 59 | 2º E 3º ANDARES | CENTRO | SÃO PAULO | SP | CEP 01043-090


TEL/FAX: 55 11 3129-7341 / 55 11 3129-7657
www.fmcovas.org.br
FUNDAÇÃO MARIO COVAS

Você também pode gostar