Você está na página 1de 5

1

Aos benditos insatisfeitos.


Especialmente os estudantes
Alceu A. Sperança*

*Dedicado à memória do jornalista


Luiz Eziquiel Porfírio (1954-2009)*
"E ainda assim há os insatisfeitos", dizia o ex-secretário
municipal da Saúde de Cascavel (PR), Nadir Wille, ao
prestar contas de suas atividades em um ato promovido na
Câmara Municipal, achando que estava fazendo grande coisa
pela saúde popular.
Ele queria que todos fingissem satisfação com o horrendo e
hipócrita sistema de saúde brasileiro - um primor no papel (e
horrível até no papel, porque aviar a receita será também um
drama) e um caos do exame à internação e à cirurgia.
Benditos insatisfeitos! Sem eles o mundo não evoluiria. E
sem suas justas críticas a saúde, que não anda nada bem em
2

lugar nenhum neste País, apesar da hipocrisia governamental


de confundir o papel com o desempenho, estaria muito pior.
John Stuart Mill nos socorre, bendito seja: "É incontestável
que todos os melhoramentos nas questões humanas são obra
apenas de caracteres insatisfeitos".
Únicos benfeitores
O grande professor português Manuel da Cruz Malpique,
autor de Introdução Sentimental às Bibliotecas, chutava as
canelas dos conformistas sustentando a idéia de que a
civilização, todinha ela, é obra dos insatisfeitos:
"Todas as grandes transformações sociais e materiais de que
a História nos dá conta as devemos à rebeldia de alguns
loucos contra os homens de bom-senso".
Talvez não fosse preciso chamar outros testemunhos geniais
para reforçar a idéia de que a insatisfação é um dos motores
principais de qualquer desenvolvimento, mas não resisto a
apelar para um depoimento conclusivo: Walter Savage
Landor, o bendito autor britânico de Conversações
Imaginárias, sentenciava que "os insatisfeitos são os únicos
benfeitores da humanidade".
Benditos os estudantes, que são, dentre os insatisfeitos, os
que mais têm chances de vencer e transformar seu mundo.
São eles que hoje, em todo o Brasil, puxam o movimento
admirável que exige o passe-livre no lotação.
3

Tarifa antidemocrática
O ônibus é a grande resposta para o caos do trânsito, com
ruas entulhadas de veículos poluentes, conduzidos por gente
estressada a um passo do assassinato ou do suicídio, como se
viu no caso tenebroso do deputado Carli Filho.
É inconcebível, um crime contra a cidadania, que a tarifa
esteja tão alta - ao redor de um dólar, contra alguns poucos
centavos em Cuba e muitos outros países.
É também inconcebível que justamente o direito de ir e vir, o
deslocamento no espaço urbano, seja uma prova cabal da
imensa desigualdade que existe neste País.
Uma revelação clara de que estamos muito longe da
democracia. Votar é só um grão de areia no universo da
democracia, ao contrário do que julgam os banqueiros e
outros riquinhos em geral, para os quais democracia é um
curral inerme e abobalhado que os elege.
4

É antidemocrático e injusto alguém deixar de poluir a cidade


com um automóvel e ao embarcar num lotação tenha que
pagar não só a sua passagem, mas também a dos isentos -
cuja isenção deveria ser custeada pelos poluidores urbanos.
Os malandros que instituíram a isenção pensaram algo
assim: "Vou fazer moral com deficientes, velhinhos e
algumas categorias especiais de meus eleitores. O trouxa do
usuário que continue pagando ou faça como aqueles que
migraram para o transporte individual!"
O Movimento Passe-Livre faz manifestações por todo o País,
encantando todos aqueles que sabem estar na bendita
juventude e nos estudantes a energia que nos falta para obter
uma conquista essencial na atualidade.
Que as melhorias nos serviços públicos sejam fruto da
vontade das pessoas e não das trucagens dos técnicos oficiais
e dos políticos boquirrotos.
É preciso exigir a participação da sociedade na gestão da
coisa pública.
Democradura incivil
A rigor, não há de fato democracia real neste País. Em pleno
2006, duas décadas depois que a ditadura, também chamada
ditabranda por alguns malucos, fez o favor de se suicidar,
estudantes de Florianópolis que pediam o passe-livre foram
espancados por um bando paramilitar.
Quando a polícia chegou, deu cobertura aos bandidos
agressores e prendeu os estudantes, exigindo que o fotógrafo
Cláudio Silva, do jornal Diário Catarinense, destruísse as
imagens das agressões.
5

Como se recusou, Cláudio também foi preso.

Desde então, contam-se às centenas os casos de repressão ao


MPL por todo o País e a única resposta que os jovens
recebem é um repique de injustificáveis reajustes na
passagem do latão ou busão, como eles chamam os ônibus
do transporte coletivo.
Eu estou insatisfeito, sim. Exijo imediatamente a bendita
bolsa-democracia!
*Alceu A. Sperança – escritor paranaense