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Já sabemos que o amido é formado pela combinação da amilose com a amilopectina.

Também sabemos que a amilose forma um complexo azul com o iodo, enquanto
a amilopectina forma um
complexo vermelho. Qual será então a cor do complexo iodo - amido???
O complexo esquematizado ao lado apresenta coloração azul intensa, desenvolvida pela
oclusão (aprisionamento) do iodo nas cadeias lineares da amilose.
E a interação iodo -amilopectina?

Como vimos, o aprisionamento do iodo dá-se no interior da hélice


formada pela amilose. Como a amilopectina não apresenta estrutura
helicoidal, devido à presença das ramificações, a interação com o iodo será
menor, e a coloração menos intensa.
Quando se aquece a solução de amido, a estrutura helicoidal se
desfaz, conseqüentemente, não é mais possível a formação do complexo
entre o amido e o iodeto. Ao resfriar a solução, o amido recupera a sua
forma helicoidal.
Como a ptialina converte as moléculas de amido em moléculas de maltose,
o complexo que foi formado anteriormente é desfeito e isso é observado
pelo desaparecimento da cor do mesmo.

II.A.1. pH
A maioria das enzimas apresenta um pH característico em que a sua
atividade é máxima, denominado pH ótimo, Acima ou abaixo desse pH, a
atividade se reduz. Ainda que os perfis de atividade em função do pH de
muitas
enzimas
tenham
a
forma
em
sino,
eles
podem
variar
consideravelmente em forma.
A inter-relação da atividade enzimática com o pH para qualquer
enzima depende do comportamento ácido-básico da enzima e do substrato,
bem
como
de
outros
fatores
que
são
difíceis
de
analisar
quantitativamente. Sabe-se que o pH afeta o estado de ionização dos
resíduos
de
aminoácidos
das
proteínas,
levando
a
alterações
na
distribuição de cargas elétricas e grupamentos químicos da molécula da
enzima,
em
especial
do
sítio
catalítico
e também
na
conformação
tridimensional da proteína. Essas alterações podem prejudicar a interação
entre o sítio ativo e o substrato, diminuindo a velocidade de atuação da
enzima. Em valores extremos de pH, há ainda a possibilidade de ocorrer
desnaturação da enzima.
O pH ótimo de uma enzima não é necessariamente idêntico ao pH de
seu meio intracelular normal, que pode estar situado na parte ascendente
ou descendente do seu perfil de atividade em função do pH. Isso sugere
que a inter-relação pH-atividade enzimática pode ser um fator de controle
intracelular da atividade enzimática.
II.A.2. Temperatura
Tal como ocorre para a maioria das reações químicas, a velocidade
das reações catalisadas por enzimas aumenta geralmente com a
temperatura,
dentro de certa faixa de temperatura na qual a enzima é estável e mantém
atividade integral, até que se atinja a temperatura ótima. A partir dessa
temperatura, a atividade enzimática diminui à medida que a temperatura é
elevada, uma vez que as enzimas são desnaturadas pelo calor. Entretanto,
uma vez que a desnaturação é um processo dependente do tempo, o
formato
do gráfico de atividade enzimática X temperatura dependerá da quantidade
de tempo que a enzima foi mantida em determinada temperatura.
II.A.3. Concentração de substrato
A formação e ruptura de ligações químicas por uma enzima são
precedidas pela formação de um complexo enzima-substrato. Em
concentração
constante da enzima, a velocidade de reação aumenta com o aumento da
concentração de substrato até que a velocidade máxima é alcançada. Em
concentração de substrato suficientemente alta, os centros catalíticos
estão cheios e assim a velocidade da reação alcança um máximo.

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II.A.4. Concentração de enzima
Dentro de limites bastante amplos, a velocidade de uma reação
enzimática é proporcional à concentração de enzima. Este princípio pode
ser aplicado a uma grande variedade de enzimas, desde que não haja
interferentes na reação e a concentração de substrato seja mantida
constante.
II.A.5. Presença dos cofatores e/ou coenzimas
Algumas enzimas não requerem nenhum grupo químico, além de seus
resíduos de aminoácidos para sua ação outras requerem um componente
químico adicional chamado de cofator, os quais são íons inorgânicos como:
Fe
2+
, Mg
2+
, Mn
2+
ou Zn
2+
, Cl
-
; chamado de coenzima se for uma molécula
orgânica complexa ou uma molécula metalorgânica. Algumas enzimas
requerem
ambos a coenzima e o cofator para sua atividade.
Quadro 1. Exemplos da influência de diferentes fatores na atividade da
amilase salivar. A: pH. B: temperatura. C: concentração de substrato. D:
concentração de enzima. E: presença do cofator

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O saturnismo, ou plumbismo é o nome dado à intoxicação pelo chumbo. Ela afeta


milhões de pessoas em todo o mundo como resultado da poluição ambiental, além de
outras espécies, como as aves aquáticas. Em humanos, as principais fontes de
intoxicação são as tintas que contém chumbo, baterias de automóveis, pilhas, soldas, e
emissões industriais. Em outras espécies, somam-se o chumbo usado em projéteis para
caçada (que também são uma causa de saturnismo em humanos com projéteis alojados)
e como peso para linhas de pesca, que são ingeridos por peixes, por sua vez ingeridos
pelas aves.
Em humanos, a intoxicação pode levar a quadro clínico evidente ou a alterações
bioquímicas mais sutis. Os sintomas mais comuns são dores abdominais severas, úlceras
orais, constipação, parestesias de mãos e pés e a sensação de gosto metálico. O exame
físico pode demonstrar a presença de uma linha de depósito de chumbo na gengiva e
neuropatia periférica. Outras alterações incluem anemia (por porfiria secundária e
inibição da medula óssea), disfunção renal, hepatite e encefalopatia (com alterações de
comportamento, redução no QI).

http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/5231 ( site mt bom de chumbo)


http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/5232 (parte 2
Casos de saturnismo

O SATURNISMO objetivo geral é somar ponto de partida para a


EM BAURU forças na formação
Ricardo Cordeiro • luta no sentido de eliminar de uma consciência crítica
' O Capitão não tem a as con- a res-
menor consideração com dições insalubres dos peito da relação entre a
a vida do processos de saúde e o
trabalhador, a não ser trabalho, promovendo a trabalho.
quando a sociedade o melhoria O segundo pressuposto é
compele a da saúde do trabalhador. que o
respeitá-la." (Karl Marx, Para atingir este objetivo o sujeito capaz de modificar
O Capital, livro 1 - vol. 1 Pro- a orga-
- cap. 8) grama busca trabalhar nização do trabalho,
O Programa Municipal de tendo como adequando-a
Saúde princípio dois ao homem e não ao lucro,
do Trabalhador de Bauru pressupostos básicos. é o tra-
(noroeste O primeiro é que o balhador organizado.
do estado de São Paulo), trabalhador Os objetivos específicos
foi criado acumula um do Pro-
em agosto de 1985 pela conhecimento sobre o grama Municipal de
Secretaria processo de trabalho que Saúde do Tra-
Municipal de Higiene e deve ser o balhador (PMST) são
Saúde. Seu prestar aten-
dimento especializado em avaliar a incidência de grama, na medida em que
saúde doenças íamos
ocupacional, fazer profissionais e acidentes diagnosticando casos e
vigilância epi- de traba- casos de
demiológica dos lho na região foi um saturnismo, a impressão
ambientes insalu-- levantamento que tínha-
bres de trabalho e realizar feito, junto a INPS, das mos era a da descoberta
ativida- Comunica- da ponta
des educativas junto aos ções de Acidente de de um imenso iceberg.
trabalha- Trabalho emi- Hoje esse iceberg está
dores nas questões tidas no segundo semestre todo
referentes à re- de 1984. emerso. A grande
lação saúde-trabalho. A partir do conhecimento contribuição do
• Médico neurologista da dos ti- Programa Municipal de
Secretaria pos de indústrias Saúde do
Municipal de Saúde existentes no mu- Trabalhador tem sido
Pública de Cambé, nicípio e do levantamento evidenciar e
estado do Paraná. das Co- equacionar o problema do
Trabalhou no municações de Acidentes satur-
Programa Municipal de do Tra- nismo em Bauru. Hoje,
Saúde do balho, além da impressão após 3 anos
Trabalhador, onde foi seu de vários de funcionamento, o
vice-coordenador técnico. sindicalistas sobre os tipos Programa
A PONTA DO de pa- acumula a maior
ICEBERG tologias mais encontradas causística da
Uma preocupação da nas suas doença no país. São mais
equipe do categorias profissionais, de 800
PMST, durante sua fase foi se casos laboratorialmente
de im- constituindo um quadro de confirma-
plantação, era o exe- dos de intoxicação
desconhecimento pectativas que se mostrou profissional
do quadro de doenças bem pró- pelo chumbo
ocupacionais ximo do real, exceto por diagnosticados.
existente no município. uma A CIRANDA PERVESA
Quase ne- questão. E de onde vinham esses
nhuma documentação Fomos constatando que o traba-
existia a res- satur- lhadores?
peito dos tipos, gravidade, nismo (intoxicação Bauru hoje é um polo
incidên- profissional produtor
cia e prevalência das pelo chumbo) em Bauru de baterias. Concentra
chamadas era, até algumas in-
doenças do trabalho. De então, extremamente dústrias dé acumuladores
antemão, subdiagnosti- elétricos.
tínhamos uma ideia do cado. Para se ter uma ideia E sabido que o chumbo é
quadro no- do pro- a matéria
sológico a partir do blema, o número médio de prima fundamental na
conhecimento Comu- composição
do parque industrial do nicações de Acidentes de da bateria elétrica. Na
município. Trabalho linha de
Prevíamos, a partir do tipo por saturnismo em Bauru produção o trabalhador
e porte passou de dessas in-
das indústrias existentes, 8 para 300 por ano após a dústrias entra em contato
que tipos implan- direto
de patologia seriam tação do Programa. Nos com o metal em diversas
encontradas. primeiros fases do
Outra forma encontrada meses de funcionamento processo.
para se do Pro-
Em visitas às fábricas de atingir 100 vezes o limite CONCENTRAÇÃO DE
baterias máximo Pb COMENTÁRIO
constatamos o que já era permitido por lei nos seleção de placas
esperado. países capita- 3,14
Um encadeamento de listas da Europa. A sala de trança
fornos, solu- temperatura 0,59
ções químicas, máquinas e atingia 40OC. sala de montagem
homens. Em janeiro de 1986, a 4,25
Tudo misturado numa pedido do corte da ebonite
ciranda per- Programa, a Fundacentro 2,62
versa, obstinada pelo realizou serra da bateria
aumento da uma avaliação ambiental 9,26
produção. em seções moinho
Uma das experiências de outra indústria local 0,81
mais mar- (Acumula- fundição de grades
cantes que a equipe do dores Ajax S.A., a maior 0,11
Programa indústria 31.4 vezes superior ao
viveu durante os primeiros de baterias do município, limite máximo recomen-
meses com cer- dado
de trabalho foi uma visita ca de 700 operários) e 5,9 vezes superior ao
feita a encaminhou- limite máximo
uma das indústrias de nos os seguintes dados: 42.5 vezes superior ao
bateria local na para o processamento limite máximo
(Baterias Crai Ltda., com de tais 26,2 vezes superior ao
cerca de modificações limite máximo
300 operários). Lá existe inviabilizariam eco- 92.6 vezes superior ao
uma se- nomicamente as empresas. limite máximo
ção, o moinho, cují» Ven- 8,1 vezes superior ao
função é trans- diam a idéia de que para a limite máximo
formar lingotes de cidade 1,1 vez superior ao
chumbo em pó era melhor ter as empresas limite máximo
de chumbo. Na ocasião o do jeito A concentração i expressa
processo que eram, com uma ou em miligramas de chumbo
era quase inteiramente outra modi- por m3 de ar o limite
manual. Du- ficação, do que serem máxuno recomendado
rante 8 horas por dia o obrigados a pela Fundacentro é 0,1
trabalhador fecharem as portas e mg Pb /J
carregava os lingotes e dispensarem Fonte: Fundacentro São
jogava-se trabalhadores em massa. Paulo, janeiro de 1986
numa máquina que os ia Começou então a ganhar O SATURNISMO SAI
triturando. espaço DAS
O ruído era ensurdecedor. na imprensa local FABRICAS E
Pouca denúncias sobre CONTAGIA A
luz e muita umidade. Do a situação dessas OPINIÃO PUBLICA
outro lado empresas, a po- A estratégia do Programa
da máquina o trabalhador luição ambiental por elas foi de-
recolhia provoca- senvolver ações que
SAÚDE EM DEBATE - das e o crescente número pressionassem
OuL/68 de traba- os empresários locais a
Tabe,a ' "H^"? promove-
Page 2 á°c,Urt"a.t.ÍVa de chumbo rem modificações na linha
SZD na "«"»"» Acumula- de pro-
o pó. A concentração dores Ajax S.A., dução de suas fábricas
atmosférica realizada em janeiro de visando o
de chumbo nesta seção 1986 saneamento ambiental. Do
chegava a SETOR ponto de
vista técnico, tais Teorias de Marx" dores afastados por
modificações são (Caingangues saturnismo e
hoje perfeitamente eram índios que estabilidade de 3 meses
possíveis. Os habitavam a região para tra-
donos das indústrias e foram expulsos quando balhadores intoxicados
argumentavam da forma- pelo chum-
que a inversão de capitais ção de Bauru, bo quando recebem alta e
necessá- possivelmente pelos voltam à
SAÚDE EM DEBATE - pais dos que nos produção.
ouL/88 acusavam). Co- A nível instituicional, o
lhadores intoxicados que meçou a se arrecadar uma PMST,
estavam "caixi- jutamente com o Inamps,
sendo diagnosticados. nha" entre o empresariado INPS,
A partir da morte de um local pa- Secretaria de Relações do
traba- ra financiar uma Trabalho
lhador de uma das campanha contra a e Delegacia Regional do
indústrias en- administração municipal, Trabalho,
volvidas, tendo como que sus- formou uma comissão que
causa asso- tentava política e estabele-
ciada o saturnismo, economicamente ceu um cronograma de
constitui-se o a proposta do PMST. Um obras de
"Núcleo José Rodrigues", dos engenharia ambiental a
ligado à membros do Programa serem reali-
Pastoral Operária. Uma teve sua zadas pelas indústrias
das ativi- credencial de fiscal da manipulado-
dades deste núcleo foi a Secretaria ras de chumbo. Este
panfleta- das Relações do Trabalho cronograma
gem realizada às portas cassada está em andamento na
das fábricas quando, no estrito maior indús-
do distrito industrial, que cumprimento da tria de baterias local. Seus
se repetia lei, multou uma das pro-
periodicamente, empresas que prietários estão tendo que
denunciando a vinha se negando a investir
questão, informando aos apresentar os uma parte do lucro
trabalha- laudos toxicológicos extraído em
dores o que é o periódicos de melhorias tecnológicas. Já
saturnismo, pro- seus empregados. Os se ob-
pondo formas de empregados
mobilização. passaram a ser demitidos Page 3
O empresariado contra- quando ESTUDOS
ataca. retomavam ao trabalho servam objetivamente
Em célebre matéria em apds terem os resultados
um dos jor- sido afastados para dessa ação.
nais locais, em manchete tratamento pelo na cidade. Emitiram-se
de is pá- ambulatório do Programa. Comunica-
gina, o Programa de O Sindicato dos ções de Acidentes de
Saúde do Tra- Metalúgicos de Trabalho para
balhador é chamado de "O Bauru mobiliza a Tabela H - Avaliação
Maior categoria e con- quantitativa de
Entrave ao segue conquistas chumbo na indústria
Desenvolvimento da importantes em Acumula- aores Ajax
Iniciativa Privada na dissídio coletivo, tais S.A., realizada em
Cidade", e como reajus- janeiro de 1987
seus membros chamados tes salariais equivalentes SETOR
de "Cain- para tra- seleção de placas
gangues Mal Informados balhadores da produção e sala de trança
Sobre as trabalha- sala de montagem
corte da ebonite para trabalhadores e tratamento dos
serra da bateria um laboratório intoxicados.
moinho de toxicologia de O SEGUNDO E O
fundição de grades abrangência re- BOXEADOR
CONCENTRAÇÃO DE gional. Do ponto de vista da
Pb COMENTÁRIO Recentemente, o jornal saúde do
0,96 de maior trabalhador, as medidas
0,12 circulação local fundamen-
0,21 estampou em sua tais no controle do
0,30 primeira página uma saturnismo são
0,18 foto com ope- as de saneamento do
0,06 rários trabalhando com ambiente de
0,05 britadeiras trabalho. Muitas vezes,
3,27 vezes menor que a no meio fio de uma quando re-
concentração há 1 ano movimentada cebemos os
4,91 vezes menor que a avenida da cidade e, trabalhadores intoxica-
concentração ha 1 ano em baixo, a dos em nosso
20,23 vezes menor que legenda: "onde está o ambulatório, ao ins-
a Programa do tituirmos o tratamento
concentração há 1 ano Trabalhador que não vê médico, nos
8,73 vezes menor que a a situação sentimos como
concentração há 1 ano dessa gente?" repositores da força
51,44 vezes menor que O iceberg descoberto de trabalho
a em 1985 circunstancialmente
concentração há 1 ano está hoje totalmente avariada, cumprindo um
8,1 vezes menor que a emerso. In- ciclo que
concentração há 1 ano dentificou-se o interessa sobremaneira
2,20 vez menor que a saturnismo como ao capital.
concentração há 1 ano um importante Essa situação foi
A concentração é problema de saúde comparada por
expressa em cerca de 800 Giovanni Berlinguer
miligramas de chumbo trabalhadores intoxi- com a do "se-
por m3 de ar cados. A consciência gundo" do ringue:
Fonte: Fundacentro sanitária da "assiste o bo-
São Paulo, janeiro de população em gera], e xeador, passa uma
1987 dos traba- esponja entre
ONDE ESTÁ O lhadores das indústrias um round e outro, e o
PROGRAMA envolvidas manda para
DO TRABALHADOR? em particular, avançou ser de novo golpeado"
Hoje, 3 anos depois, o a respeito (A Saúde
Programa do processo saúde- nas Fábricas, Cebes-
Municipal de Saúde do doença e de sua Hicitec 1983).
Trabalhador implicação com o Essa situação é
começa a ser um trabalho. Medi- angustiante para a
referencial na ci- das saneadoras equipe do PMST, que
dade. De duas salas começam a ser to- nesses 3
funcionando madas e a surtirem anos de trabalho tem
em período notumo em efeitos. A inci- assistido inú-
um prédio dência do saturnismo meros casos de
cedido está partindo começa a di- trabalhadores que
para a cons- minuir. se reintoxicaram ao
trução de uma sede Uma questão, no voltarem para
própria, com entanto, ainda as suas fábricas após
anfiteatro para permanece de diffcil um período de '
palestras e cursos resolução: o afastamento e
tratamento da mesma
moléstia. de Higiene e Saúde, o determinação da Norma
Temos noção de que o "1= Simpósio Regula-
trata- Estadual sobre o mentadora n^ 7 (NR-7),
mento médico Saturnismo", que do Ministé-
tradicional do satur- contou com a rio do Trabalho, é
nismo é paliativo e partipação de pro- considerado
impotente frente gramas de saúde do portador de intoxicação
ao controle da trabalhador de profissio-
intoxicação profis- várias regiões do nal pelo chumbo todo
sional pelo chumbo em estado. Naquela trabalhador
nosso meio, época não de industria manipuladora
porém, nao menos dispúnhamos ainda das deste
necessário. condições materiais metal que apresente
Tradicionalmente, o necessárias pa- concentração
tratamento ra o tratamento de chumbo no sangue
se baseia em 2 ações: hospitalar do satur- periférico
I") afastamento nismo (quêlação com (Pb-S) maior ou igual a 60
imediato da EDTA). Uma micro-
fonte de exposição ao das questões que mais gramas por 100 ml ou
chumbo. preocupava concentração
2") avaliação e a equipe do Programa urinária do ácido delta-
acompanhamento era o número amino-levu-
ambulatorial dos casos, crescente de línico (ALA-U) maior ou
com abor- trabalhadores com igual a 15
dagem sintomática e SAÚDE EM DEBATE - mg/l.
prevenção de out/88 O tempo de exposição ao
complicações. Dessa chum-
avaliação, la- Page 4 bo, que equivale a dizer
vando-se em conta tE'sjnjDcTs7] tempo de
dados como Comunicação de Acidente trabalho em indústrias de
sintomatologia clínica, de Tra- bateria,
tempo de balho emitida por variava de 3 meses a 18
exposição, chumbo de saturnismo que anos entre
depósito, vinham sendo tratados os trabalhadores
evolução laboratorial, ambulato- afastados. Eram
etc., vai de- rialmente e que não tristemente notáveis casos
pender a indicação de apresentavam de tra-
tratamento evolução satisfatória no balhadores com apenas 3
específico com sentido da meses de
medicação quelante desintoxicação do metal. exposição, que foram
de chumbo, em Tal situação foi relatada e afastados
ambiente hospita- dis- pelo ambulatório do
lar. O uso de quelantes cutida no referido Programa com
endoveno- simpósio com elevados índices de Pb-S e
samente não é isento base em dados colhidos ALA-U
de efeitos co- em junho e expressivo quadro
laterais e sua utilização de 1987. Na ocasião, o clinico.
deve ser PMST Na análise da tabela III
criteriosamente acompanhava 124 chama a
ponderada. trabalhadores atenção o longo período
CONTRA A NR-7 com diagnóstico de de trata-
Em 03/08/87 realizou- saturnismo. O mento ambulatorial do
se em critério diagnóstico saturnismo
Bauru, por iniciativa da utilizado era em nossa experiência. Na
exclusivamente ocasião,
Secretaria
laboratorial. Por cerca de 35% da
população dê
afastados por intoxicação dica ao Ambulatório, tamento, em junho de
profis- mesmo tendo 1987
sional pelo chumbo estava consciência de estarem TEMPO DE
há, no ainda into- AFASTAMENTO NS DE
mínimo, um semestre xicados e apresentando TRABALHADORES
longe do tra- sintomato- 0 a 3 meses
balho. O longo período de logia da doença. Após um 4 a 6 meses
afasta- ano de 7 a 12 meses
mento traz repercussões afastamento, o trabalhador Mais que 12 meses
psicológi- recebe Total
cas negativas para o um pouco mais que a FONTE: PMST, 1987
trabalhador, metade do 35
que se sente salário' de seus colegas 46
marginalizado e inca- que estão na 29
pacitado para o trabalho, e produção. Só esse dado já 14
discri- justifica 124
minado socialmente por o uso de medicação Tabela IV .
causa dis- quelante do Trabalhadores com
so. Mas a maior chumbo no tratamento de saturnismo segundo a
repercussão é eco- intoxica- concentração de
nómica mesmo. Os dos com grande depósito chumbo no sangue (Pb-S)
trabalhadores orgânica e a presença de sinais e
das indústrias de do metal, abreviando sintomas
acumuladores, signifivati- da doença, em junho de
apesar de razoavelmente mente o tempo de 1987
especiali- tratamento. Ob- Pb-S'
zados, recebem baixos servamos que quanto SINTOMA- ASS1NTO-
salários. maior foi o TICOS % MÁTICOS
Cerca de 5 salários tempo de exposição ao % TOTAL
mínimos por chumbo menor que 40
mês. Quando afastados do maior tende a ser o tempo entre 41 e 60
trabalho necessá- maior que 61
SAÚDE EM DEBATE - rio para o tratamento total
out/88 ambulatorial. 7 5,6
via emissão de Os trabalhadores que 50 40,3
Comunicação de estão afasta- 17 13,7
Acidente de Trabalho são dos a mais tempo são 74 59,7
penaliza- justamente os 9
dos com uma defasagem que têm história 26
salarial ocupacional com- 15
violenta em relação aos patível com saturnismo 50
colegas que mais longa. 7,2
permanecem na produção, A experiência clínica 20,9
em vir- adquirida 12,0
tude da legislação no acompanhamento de 40,3
previdenciária mais de 16
do INPS. Este é um 800 casos de saturnismo 76
grande fator de em Bauru 32
pressão que a Previdência nos autoriza a afirmar que 124
exerce a ten- 12,8
sobre os trabalhadores. dência dos trabalhadores 61,2
Estes mui- afastados 25,7
tas vezes não suportam o na ausência de 100
achata- sintomatologia clf- (') expresso em
mento salarial solicitando Tabela III - Trabalhadores microgramas / lOOml
alta mé- com saturnismo segundo FONTE: PMST, 1987
o tempo de afas- 28,2
37,1 dados. Dentre os sensibilidade próprio
23,4 afastados que em para o chum-
11,3 junho de 1987 tinham bo, que depende de
100 plumbemia fatores indivi-
maior que 60 duais, como a reserva
Page 5 microgramas por 1011 enzimática
ESTUDOS ml, 53,1% eram de cada passagem
nica, apenas baseado sintomáticos e metabólica e a
em dados la- 46,9% assintomáticos. reserva funcional de
boratoriais, é de seguir No intervalo órgão alvo,
o trata- de plumbemia entre 41 muitos desses fatores
mento e 60 micro- ainda pouco
assintomaticamente até gramas por 100 ml, conhecidos.
a 65,7% eram 84
compieta sintomáticos e 34,5% AO INVÉS DE
desintoxicação. Depen- assintomáti- PROTEGER O
dendo o tempo de cos. TRABALHADOR
tratamento do Entretanto, o CONTRA O
chumbo corpóreo de acompanhamento SATURNISMO, A NR-7
depósito, que temporal de cada
trabalhador, PROTEGE O
tem relação com o
tempo de expo- afastado ou não, nos EMPRESÁRIO
sição ocupacional ao aponta que CONTRA O
metal. Já a para cada caso TRABALHADOR
parcela da população específico existe um DOENTE
que é afasta- faixa crítica de Baseado no exposto
da na vigência de um plumbemia a partir até aqui,
quadro clini- da qual passam a crítico enfaticamente o
camente compatível ocorrer sintomas critério es-
com a doença, em caso de ascenção, - tabelecido pelo
que é a maioria, tende ou deixam Ministério do Tra-
a seguir o eles de ocorrer em balho, através de sua
tratamento abrandando caso de descen- Norma Re-
sua sinto- so. Não é raro gulamentadora N- 7
matologia até, num acompanharmos tra- (NR-7), que
dado momento balhadores que vêm caracteriza como
particular para cada declinando sua portador de satur-
trabalhador plumbemia até, num nismo todo trabalhador
envolvido, com a certo momen- exposto ao
diminuição do to, tornaram-se PB que apresente Pb-S
chumbo corpóreo, assintomáticos. maior ou
passar a ser as- Posteriormente, quer igual a 60
sintomática. Na por reintoxi- microgramas/100 ml ou
composição da ta- cação, infecção, stress, ALA-U maior ou igual a
bela IV fez-se um corte tornam a 15 mg/I.
no tempo elevar sua plumbemia e Em primeiro lugar, por
(junho de 1987), a partir do que 60
tomando-se estati- mesmo patamar de microgramas/100 ml se
camente os dados de virada tornam-se o intervalo
plumbemia e novamente internacionalmente
— -presença de sintomáticos. aceito como
sintomatologia clínica Conclui-se que cada normal para plumbemia
dos trabalhadores trabalhador é de zero a
afastados. Não intoxicado apresenta 40 microgramas/100
há correlação positiva um limiar de ml? A partir
entre esses
daí já começa a haver doras de acumuladores dos pelo chumbo. A
quantificação começam a amplitude dos
objetiva de sinais da apresentar sintomas limites de tolerância cm
doença, como insidiosos da doenças do
por exemplo diminuição doença paralelamente à trabalho varia
da veloci- elevação da historicamente (o
dade de condução do plumbemia. Pb-S de 45, benzenismo é um
impulso ner- 50, 55 exemplo disso).
voso em nervos H.g/100 ml. Depende do grau de
motores, observada Deterioração física dos conhecimento
à eletromiografia. Por ^■>>.?;h«/:ra- c- científico de uma
trás dessa escente. Ora, até os determinada épo-
norma bois que pastam ao ca e da correlação de
subdiagnosticadora lado das fábri- forças entre o
está o cas sabem que o Capital e o Trabalho.
caráter classista do trabalhador está Em segundo lugar, por
Ministério do doente! Assim como que ba-
Trabalho, que legaliza a sabem também sear na prática o
super ex- que, mantendo-sc as diagnóstico do
ploração da mão de condições am- saturnismo
obra. Apenas bientais das fábricas exclusivamente sobre
quando os inalteradas, parâmetros
trabalhadores estiverem ele vai ficar cada vez laboratoriais, desvalori-
bastante combalidos, mais doente. zando-se a avaliação
pouco ren- E apenas uma questão clínica do tra-
dendo na Unha de de tempo balhador? Ao
produção, por atingir os 60 (xg/100 ml. trabalhador interessa,
uma problemática de e ter di- e muito, seu quadro
saúde que a reito a ver sua situação clínico. Na
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1. Histórico:

A população da cidade de Santo Amaro da Purificação (BA), distante cerca de 100 km de Salvador, vem sofrendo ao
longo dos últimos 32 anos, com as conseqüências da poluição e a contaminação pelo chumbo (Pb) e cádmio (Cd),
em nível endêmico.

Neste período foram produzidas e comercializadas cerca de 900 mil toneladas de liga de chumbo, gerando um passivo
ambiental de milhões de toneladas de rejeito e cerca de 500 mil toneladas de escória com 3% de concentração de
chumbo. Pelos valores atuais do chumbo no mercado mundial, o empreendimento instalado naquela cidade baiana,
durante sua vida útil, faturou cerca de US$450 milhões.

A empresa francesa PENARROYA Oxide SA que, atualmente, é líder mundial na produção de óxidos de chumbo
destinados à fabricação de baterias, cristais, plásticos e tubos de televisão, criou em 1958, para atuar no Brasil, a
subsidiária COBRAC - Companhia Brasileira de Chumbo. A Companhia Brasileira de Chumbo (COBRAC) começou a
operar em Santo Amaro da Purificação-Bahia, no ano de 1960, na forma de uma usina para produzir lingotes de
chumbo. Em 1989, a COBRAC foi vendida e incorporada à empresa Plumbum Mineração e Metalurgia Ltda,
pertencente ao Grupo Trevo. A PENARROYA, desde 1994, faz parte do Grupo METALEUROP que, atualmente, detém
60% do mercado europeu e 25% do mercado mundial em seu segmento de atividades.

A Usina Plumbum se localiza à noroeste da zona urbana de Santo Amaro, a 300 metros da margem do rio Subaé,
principal rio da bacia Hidrográfica do rio Subaé, no Recôncavo do Estado da Bahia.

O beneficiamento a que se propunha, destinava-se ao minério de chumbo extraído de mina subterrânea localizada no
Município de Boquira, na Chapada Diamantina, BA. A sua implantação provocou, pouco tempo depois, uma série de
reclamações de residentes locais, em relação à morte de gado bovino e eqüino e à perda de produção de hortas.
Processo judicial solicitou o fechamento da fundição por poluir o Rio Subaé. A indústria resolveu o impasse adquirindo
dos fazendeiros as terras mais próximas à fábrica. As atividades de fundição foram paralisadas em 1993, após 33 anos
em operação.

No dia 2 de maio último, o Deputado Fernando Gabeira, membro da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio
Ambiente e Minorias da Câmara dos Deputados e relator do Grupo de Trabalho (GT) que levantou os problemas da
contaminação por chumbo na região de Santo Amaro da Purificação, na Bahia – ingressou com Representação à
Procuradoria da República no Distrito Federal, pedindo ao Ministério Público Federal, na figura de seu Procurador
ALEXANDRE CAMANHO DE ASSIS a adoção de providências cabíveis para o assunto.

A despeito do GT ter indicado a possibilidade de responsabilizar os proprietários da PLUMBUM e do grupo francês


Penarroya/Métaleurop, pelos impactos sócio-ambientais negativos na região de Santo Amaro da Purificação, bem
como os Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente, o Procurador da República considerou ser necessária a
constatação do conteúdo da Representação e a atualização da situação de Santo Amaro da Purificação. Para tanto,
dispôs-se o Instituto para o Desenvolvimento Ambiental - IDA, organização não-governamental sem fins lucrativos,
sediada em Brasília, a fazer este diagnóstico para pautar a atuação do Ministério Público Federal.

Entre 18 e 21 de junho do corrente ano, equipe do IDA composta de LUIZ ERNESTO BORGES DE MOURÃO SÁ,
Presidente da Instituição, RAUL MINAS CUIUMJIAN, Geólogo com doutorado em GEOQUÍMICA, Professor Titular e
coordenador do curso de Pós-graduação do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB) e PATRÍCIA
MAZZONI, pós-graduada em Gestão Ambiental pela UnB, dirigiu-se a Santo Amaro da Purificação, acompanhada do
Consultor indicado pela da Câmara dos Deputados, JOÃO SEBASTIÃO RIBEIRO SALLES

2. Os Fatos Constatados:

Para melhor compreensão do problema da contaminação pelo chumbo na cidade de Santo Amaro da Purificação,
dividir-se-á sua história em três períodos: (i) de 1960 até 1975 - representado pelo início das atividades da COBRAC
até o indeferimento do pedido de expansão da indústria; (ii) de 1975 a 1993 - representado pelo início das pesquisas
desenvolvidas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), até o abandono da fábrica pela PLUMBUM Mineração e
Metalurgia Ltda – Grupo Trevo; (iii) de 1993 até o presente momento - representado pelas pesquisas realizadas na
Universidade de São Paulo, até o encapsulamento da escória determinado pela Justiça de Santo Amaro, pela
Audiência Pública em Santo Amaro da Purificação, realizada pela Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente
e Minorias da Câmara dos Deputados (CDCMAM) através de Grupo de Trabalho por ela instituído, tendo como Relator
o Deputado Fernando Gabeira, culminando com a visita técnica do IDA ao local.

(i) 1960-1975 – Em termos de preservação da qualidade do meio ambiente, a escolha de localização da fábrica foi
muito pouco favorável: os corpos receptores tinham pouca capacidade de diluição e dispersão dos poluentes. A fábrica
foi construída num vale do terreno, suavemente acidentado, a 290 metros das margens do Rio Subaé. Os efluentes
líquidos eram lançados no rio, o qual apresenta baixo volume de água, sem nenhum tratamento. A partir de 1975
vários estudos e pesquisas foram efetuados enfocando os níveis de contaminação por Pb (chumbo) e Cd (cádmio) no
ecossistema local e município.

A COBRAC produzia ligas de chumbo, a partir do minério de chumbo das minas de Boquira, utilizando processo
metalúrgico que resultou no lançamento na atmosfera de subprodutos indesejáveis, além de gerar e dispor no solo, ao
longo de três décadas, cerca de 500.000 (quinhentas mil) toneladas de escória. Segundo ensaios realizados conforme
a NBR10.004, da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT, nesta escória predominam os metais pesados
chumbo (Pb) e cádmio (Cd), considerados resíduos sólidos perigosos e altamente tóxicos.

De forma mais explícita, o processo metalúrgico adotado na indústria da COBRAC, realmente provocou a
contaminação ambiental em Santo Amaro da Purificação, devido à utilização de tecnologias que não previam o
controle seguro sobre os efluentes líquidos e gasosos, destacando-se: (i) o material particulado emitido pela chaminé
da fábrica, que poluiu a atmosfera da região; (ii) os efluentes lançados in natura no rio Subaé, que contaminaram suas
águas; (iii) a lixiviação das águas de drenagem da escória que, ao se inflitrarem e percolarem no solo, contaminaram o
lençol freático na área da fábrica; e (iv) a escória depositada criminosamente a céu aberto, sem nenhum tratamento,
que motivou sua utilização pela população e pela Prefeitura, nos jardins e pátios das escolas e na pavimentação de
ruas. Os filtros instalados na chaminé da fábrica após embargo das instalações pelo Governo do Estado, apesar de
conter materiais particulados de alta toxicidade, eram removidos e dispostos de forma inadequada permitindo que
funcionários e transeuntes os levassem para dentro das residências e os utilizassem na forma de tapetes e colchões
de dormir. Em suma, o impacto ambiental negativo das atividades da fábrica sobre o meio ambiente, se deu no ar, na
água, no solo, na vegetação natural e nas atividades econômicas da região - em especial na produção
hortifrutigranjeira, além da morte de animais nas áreas adjacentes ao empreendimento e, sobretudo, no
comprometimento da saúde da população, conforme se pode observar no anexo “Pequeno Histórico Ilustrado da
Poluição por Metais Pesados em Santo Amaro da Purificação, Bahia” retirado de trabalho do Professor Fernando
Martins Carvalho, Professor Titular do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal da Bahia
(UFBA) que lá efetuou inúmeras pesquisas.

Em 1975, a COBRAC apresentou projeto, que foi indeferido pelo Governo do Estado da Bahia, para ampliar suas
instalações industriais e aumentar a produção anual de chumbo de 30.000 (trinta mil) toneladas para 45.000 (quarenta
cinco mil) toneladas.

(ii) de 1975 a 1993 - O segundo período da história da contaminação por chumbo em Santo Amaro da Purificação,
inicia-se após a proibição da ampliação da produção industrial. Neste período, se intensificaram as pesquisas
toxicológicas e epidemiológicas na população santamarense, realizadas pelo Departamento de Medicina Preventiva,
da Universidade Federal da Bahia. Com relação à plumbemia, constatou-se que a população está contaminada com
concentrações de Pb e Cd no sangue, acima dos índices permitidos pela OMS - Organização Mundial de Saúde. A
maioria das crianças residentes no raio de 900 metros, a partir da chaminé, tinha concentração de cádmio no sangue
acima do valor normal de referência. O nível de Pb e de Cd no cabelo da população amostrada, aumentava
proporcionalmente ao aumento das concentrações desses metais pesados no solo, demonstrando inequivocamente o
elevado grau de contaminação ambiental na região de Santo Amaro da Purificação.
Neste período foram realizados outros estudos representativos, dentre eles, o epidemiológico de Fernando Martins
Carvalho e equipe do Departamento de Medicina Preventiva da UFBA e o outro por José Ângelo Sebastião Araújo dos
Anjos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo de 1998, bem como da Empresa Teuba –Arquitetura e
urbanismo s/c ltda, todos desenvolvidos na Bacia do Rio Subaé e por eles pode-se identificar que a contaminação
provocada pela metalúrgica era decorrente:

• Da instalação da metalurgia na área onde predominavam ventos de baixa velocidade e constante inversão térmica,

dificultando a dispersão e favorecendo a precipitação dos particulados na área urbana;

• Da proximidade da metalurgia do leito em áreas de inundação do rio Subaé;

• Da disposição inadequada da escória em aterros e seu reuso para construção de estradas e áreas residências,

aumentando significativamente a contaminação d solo, águas superficiais, subterrâneas e das populações residentes

por todos o município;

• Da alta concentração dos metais nos manguezais do estuário do rio Subaé contaminando moluscos que servem como

base alimentar da região;

• Dos particulados expelidos pela chaminé da metalurgia, contaminando vegetais comestíveis, solo, águas superficiais e

a população do município;

• De a indústria considerar a escória inócua, depositá-la sem critérios técnicos e disponibilizá-la para diversos usos;

• Do transbordamento da bacia de rejeito do período de altos índices pluviométricos na baixa vazão do rio Subaé,

dificultando sua diluição e dispersão dos efluentes líquidos, que eram lançados sem tratamento;

(iii) De 1993 até o presente momento - Em decorrência dos comportamentos anteriores foram constatados diversos
impactos negativos gerados pela atividade os quais são de ordem da saúde pública, da segurança e bem estar da
população; das atividades sociais e econômicas, da destruição da biota, das condições estéticas e sanitárias do meio
ambiente e da qualidade dos recursos ambientais.

Com relação aos principais impactos destacam-se:

• A disposição inadequada da escória nas ruas, como forma de aterro, que tem proporcionado a principal forma de

exposição à contaminação, em razão do contato direto das crianças com a escória pelo mecanismo da geofagia (hábito

de comer terra); (Todas as crianças examinadas em 1998, 5 anos após o abandona da empresa de suas atividades,

ainda apresentavam índices elevados de contaminação por chumbo no sangue);

• A utilização da água proveniente da lixiviação e /ou solubilização da escória e da vegetação pelos animais que pastam

no local provocam o processo de bioacumulação e posteriormente migra na cadeia alimentar persistindo no homem;

• A disposição inadequada da escória em épocas distintas produz o desenvolvimento de processos pedogenéticos, por

reações ou mecanismo de caráter químico e físico no perfil do solo pela ação de processo que levam a degradação do

solo pela alteração de suas características em relação aos seus diversos usos possíveis;

• A utilização da escória como aterro em lavra aluvionar de areia do Rio Subaé, provocando a migração dos

contaminantes diretamente para o rio;

• Desvalorização econômica dos terrenos em torno da metalurgia e a impossibilidade de utilização da área para outros

empreendimentos;
• Impacto negativo no vetor de crescimento urbano da cidade de Santo Amaro, dentre outros motivos, em função da

metalurgia ter comprado a maioria das terras do seu entorno;

• Com o abandono das suas atividades, a metalurgia causou o desemprego de seus funcionários os quais não eram

aceitos em outras empresas, devido à possibilidade de ter que arcar com passivos trabalhistas que poderiam lhe ser

imputados, sofrendo os ex-trabalhadores a discriminação da contaminação, que ocasionou em vários níveis o

desequilíbrio psicológico dos funcionários e suas famílias;

• Elevadas concentrações de chumbo e cádmio em sedimentos e moluscos de todo ecossistema ao norte da Baía de

Todos os Santos;

• O aparecimento acentuado, nas pessoas envolvidas no processo, de sintomas associados à contaminação, tais como:

problemas auditivos, indisposições, sonolência, cansaço, dores articulares, problemas respiratórios, complicações

pulmonares, renais, cardiovasculares, músculo-esqueléticas, do sistema nervoso, perda de memória e dificuldade de

aprendizagem por perda do desenvolvimento neurocognitivo.

• As amostras de solos superficiais nas imediações da Plumbum revelaram concentrações de chumbo que representam

o mais alto valor encontrado em terrenos de indústrias de processamento de metais além de valores muito elevados de

cádmio. Estas concentrações estão dezenas de vezes acima dos valores estabelecidos para o cenário industrial

. CONCLUSÃO:

SOBRE A CONTAMINAÇÃO POR PB E CD EM SANTO AMARO

O complexo minero-metalúrgico para produção de ligas de chumbo (Pb) na Bahia era composto da lavra e
beneficiamento do minério de chumbo no Município de Boquira, sudoeste do estado, e produção de ligas de chumbo
pela usina metalúrgica em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Durante o período de produção de ligas
de chumbo e escórias (1960-1993), o processo metalúrgico empregado (sinterização e redução do sinter) resultou em
forte contaminação no meio ambiente por meio de material particulado expelido pela chaminé, efluentes líquidos
despejados diretamente no rio Subaé e transbordamento da bacia de rejeito, águas de drenagem da área de
estocagem da escória.

O agente poluidor mais devastador em Santo Amaro foi, muito provavelmente, a emissão pelas chaminés nas
instalações da fundição.

Dados obtidos por pesquisadores da USP e UFBA, observações, depoimentos e dados analíticos obtidos
recentemente pela equipe do IDA e mais especificamente pelo Prof. Raul Minas Kuyumjian (IDA/UnB) são sumarizados
a seguir:

a) a escória deixada no local contém até 21% de Cd e até 3% de Pb.

b) a contaminação atmosférica por Pb devido ao material particulado expelido pela chaminé foi, provavelmente, a mais
intensa e devastadora.

c) a escória amontoada (490000 toneladas contendo 35 g/t de Cd e até 3% de Pb) nas dependências da fábrica, em
local com declive topográfico em direção ao curso do rio Subaé, distante 290 metros das instalações da fundição foi,
pelo menos por um bom tempo, transportada, por gravidade e/ou lençol freático, para o curso do rio.

d) A água circulante (contaminada) no processo de fundição era lançada no rio Subaé.

e) estudos efetuados no solo da área da metalurgia revelaram elevadas concentrações de Pb e Cd nos níveis mais
superficiais do mesmo, indicando forte adsorção dos metais pelo solo superficial (até 30 cm), decorrente de altas
concentrações de matéria orgânica, alta capacidade de troca catiônica (CTC) e presença da argila montmorillonita.
Esta retenção dos metais pelo solo superficial não impediu mas atenuou a migração dos poluentes às águas de
subsuperfície.

f) os estudos e avaliações efetuados ao longo dos últimos 25 anos demonstram a diminuição, mas não a eliminação,
dos níveis de contaminação por Pb e Cd em Santo Amaro da Purificação.
g) As medidas e procedimentos implementados no sentido de remediar a contaminação foram aplicados de forma
tecnicamente incorreta e/ou restaram parcialmente ineficazes.

h) O encapsulamento da escória foi efetuado de forma incorreta posto que na superfície do material de recobrimento
observa-se grande quantidade de fragmentos da escória, que obviamente são submetidos ao transporte para baixo e
lateralmente por água pluviais. O material de recobrimento da escória apresenta várias fendas devido a acomodações
e ação de água pluviométrica, e é intenso o transporte, pelas formigas, de fragmentos da escória em profundidade para
a superfície.

i) a base do calçamento de várias ruas da cidade é constituída de uma camada de alguns centímetros de areia e,
abaixo desta, escória (a escória está a 30-40 cm abaixo do calçamento). A escória está presente em rebocos de
construções civis e recobrimentos em jardins públicos e pátios de escolas (em São Brás-Cachoeira da Vitória houve
distribuição sem controle da escória para a população).

j) estudos efetuados em 1977 evidenciaram elevados níveis de contaminação por Pb e Cd nas águas do rio Subaé,
cujo curso atravessa a cidade de Santo Amaro, quando então é utilizado para atividade de pesca e deleite das
crianças.

k) em Caieira e Destilaria (periferia de Santo Amaro da Purificação) ocorre a pesca de mariscos, comprovadamente
contaminados por Pb e Cd, no estuário do rio Subaé na Baia de Todos os Santos, situado a 10 km da metalurgia.

l) a contaminação por Pb afetou a produção agrícola e pecuária local, consumida, pelo menos em parte, pela
população local.

m) toxicologia em crianças e adultos tem revelado níveis significativos de Pb e Cd em cabelo e sangue, principalmente
em crianças.

n) Os principais efeitos da contaminação (contato, inalação e ingestão) por chumbo em Santo Amaro da Purificação
são os seguintes: problemas respiratórios, renais e hepáticos, anemia e perda parcial da memória. Leucemia é
mencionada. Portanto, a contaminação atingiu todo o ecossistema da área de Santo Amaro: solo, água, flora, fauna e
saúde humana, principalmente crianças.

o) Os órgãos públicos municipais, estaduais e federais, além dos empreendedores, obviamente, não adotaram as
providências cabíveis, não proporcionaram os recursos financeiros necessários e nem mesmo condições médico-
hospitalares para o tratamento da população já contaminada.

p) Muitos dos operários que trabalharam na fundição ainda lutam por aposentadoria e/ou indenização. Muitos
morreram por doenças relativas à contaminação, porém não reconhecidas como tal. Os operários que exerceram
atividades na fundição foram e são rejeitados por outras indústrias, quando da oferta de empregos por medo da
possibilidade de lhes ser imputado o passivo trabalhista da COBRAC/PLUMBUM. A questão social das famílias dos
trabalhadores da metalurgia é grave.

q) A cidade ficou sendo apresentada como “uma das mais poluídas do mundo” na literatura internacional sobre
contaminação ambiental por chumbo, tendo perdido todo seu potencial turístico proveniente de sua arquitetura colonial
e de sua perspectiva histórica.

SOBRE A IMPLEMENTAÇÃO DA REMEDIAÇÃO

As zonas alagadiças e diques de retenção já estabelecidos no âmbito das instalações da metalurgia apenas limitam a
migração lateral dos poluentes, principalmente em direção ao rio Subaé.

Embora a natureza argilosa e orgânica do solo no local contribua fortemente para a retenção dos poluentes, a
migração de Pb e Cd para baixo, em direção ao lençol freático, certamente ocorre.

Portanto, as medidas remediadoras concretizadas até o presente e a natureza do solo no âmbito do sítio da metalurgia,
somente são eficientes no sentido de limitar, mas são incapazes de eliminar ou anular os processos que promovem a
contaminação.

O encapsulamento da área de escória foi efetuado de forma tecnicamente inadequada e incorreta. Embora o mesmo
possa ser refeito adequadamente, a medida mais recomendável, definitiva, é a remoção da escória existente no sítio
da metalurgia, depositando-a em local apropriado.
O longo tempo de residência do Pb no ecossistema e a natureza cumulativa da contaminação por Pb e Cd justificam a
remoção da escória, não somente daquela existente no sítio da fundição, mas também daquela em aterros e
calçamentos realizados pela Prefeitura de Santo Amaro.

No entanto, no caso dos calçamentos, deve-se proceder a monitoramento da contaminação (por meio de poços para o
estudo do perfil de solo e água do lençol freático), sendo que a remoção da escória deverá ser efetuada dependendo
dos níveis de contaminação. Há técnicas apropriadas para conter o processo de contaminação no caso de níveis de
contaminação não elevados.

O sítio de localização da Indústria Metalúrgica deve ser descontaminado, sendo a planta industrial, que se encontra
semidestruída, removida devendo receber destinação adequada, possibilitando a utilização segura da área para outros
empreendimentos.

A Mina de Boquira, atualmente desativada, deve sofrer um procedimento de “retorno a seu estado natural”
assegurando-se que ela não represente um perigo para a população do município e de seus vizinhos e para o meio
ambiente. Isto significaria, no mínimo, fechar definitivamente os muitos acessos às galerias e poços, assegurar a
estabilidade do terreno de modo a evitar riscos de desabamento, remover as construções civis existentes na superfície
e checar, bem como tratar, se for o caso, a água dos “pits” da mina antes de devolvê-la ao meio ambiente, garantindo
que não apresente nenhum risco ambiental.

Deve ser efetuado, também, na região de Boquira, o monitoramento da qualidade da água nos rios da bacia
hidrográfica local e feita a desmontagem dos “pit-head” antes dos procedimentos de recuperação da área degradada,
que englobaria, inclusive, a recomposição da vegetação original, se possível, tudo através de um Plano de
Recuperação de Área Degradada – PRADE, aprovado pelos órgãos ambientais competentes.

A implantação de um Plano de Gestão Sócio-Ambiental para Santo Amaro da Purificação é essencial no sentido de
reduzir ou mesmo eliminar os níveis de contaminação existentes em solos e águas locais, promover condições para a
qualificação da saúde pública e atender aos diversos problemas sociais gerados pelo empreendimento.

Segundo o apurado pode-se concluir que o caso da Plumbum apresenta-se como um exemplo clássico de um sítio
negligenciado pelo empreendedor, apresentando um grande passivo sócio-ambiental ainda não quantificado e com
ações desenvolvidas pelos órgãos públicos meramente de forma paliativa, não sendo apresentadas nenhum tipo de
proposta de solução definitiva do problema.

SUGESTÕES:

i. A criação, em uma primeira fase, de um Grupo Operativo coordenado por instituição ambiental sem injunções
políticas locais, composto dos especialistas que estudaram o assunto, representantes da Sociedade Civil atingida, do
governo em suas várias esferas e das empresas envolvidas, para em prazo máximo de três meses, propor, na forma
de um Plano de Gestão Sócio-Ambiental, soluções técnicas e medidas sócio-ambientais cabíveis e aceitáveis pela
população, no sentido de remediar o passivo deixado pelo empreendedor. O grupo deveria propor, também, um
PRADE para a região de BOQUIRA.

ii. A implementação, em uma segunda fase, do Plano de Gestão Sócio-Ambiental e do PRADE produzido na primeira
fase.

iii. A adoção, pelo órgãos federais, estaduais e municipais competentes, de medidas normativas/legais que tornem
obrigatória nos Estudos de Impacto Ambiental e/ou Relatórios (EIA/RIMA) bem como no Licenciamento Ambiental, a
disponibilização prévia dos recursos necessários, sob forma de compensação ambiental (já prevista em Lei), para os
procedimentos destinados à desativação segura das instalações e retorno do meio ambiente afetado às condições
originais existentes antes do empreendimento.

Brasília, em 08 de julho de 2002.

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