P. 1
Novo Testamento - Versão King James

Novo Testamento - Versão King James

|Views: 14.696|Likes:
Publicado porMarcello Cunha

More info:

Published by: Marcello Cunha on Sep 24, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/13/2013

pdf

text

original

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO – KING JAMES

A Bíblia é o livro do Caminho
No livro The Uncommon Reader (O Leitor Incomum), uma obra de
ficção de Alan Bennet, o autor imagina a rainha da Inglaterra
tornando-se repentinamente, no fim da vida, uma leitora assídua. Em
uma época como a nossa, em que os livros impressos parecem perder
certo terreno e interesse diante das forças de entretenimento dos
MySpace, You Tube e American Idol da vida, a idéia de uma pessoa - de
uma hora para outra - começar a se interessar por leitura e tornar-se
um leitor, parece mesmo um romance.

Em todo caso, ler é um toque divino na alma humana. De repente, você
está lendo algo que lhe chamou a atenção e quando percebe não pode
parar, não quer parar e não pára mais. Um livro puxa outro, um autor
sugere outro, e o mundo se abre: e eu que pensava que o sol fosse
uma estrela muito especial e a Via Láctea imensurável, descubro que o
Universo possui mais de 350 milhões de galáxias com bilhões de
sistemas solares semelhantes ao nosso.

E aí vem a pergunta: Qual o maior livro de todos? Qual obra de
literatura não pode faltar em minha biblioteca, ao meu lado, no meu
laptop ou celular? A number one é a Bíblia. Desde Gutenberg o
best-seller mundial. Mais de 50 milhões de exemplares da Bíblia são
vendidos todos os anos. Mas se você é daqueles, como eu, que não
gosta muito de ler o que todo mundo está lendo, que não repara nas
listas de best-sellers (a maior parte delas tendenciosa e forjada de
alguma maneira e por algum interesse menor que a pura estatística),
pode ler a Bíblia por sua qualidade e fidedignidade. Por sua qualidade
profética e poética e por sua infalibilidade enquanto Palavra de Deus,
pra hoje e eternamente. Nenhuma obra do gênio humano se compara
à Bíblia. Ela é simplesmente indispensável. Só não sabe disso quem não
a leu, e é uma pena constatar que muita gente ainda não a leu.
Curiosamente, tem mais gente que possui a Bíblia – às vezes, mais de
um exemplar em casa – do que pessoas que já a leram de capa a capa.
E nessa triste estatística nem pastores ou padres escapam: cerca de
52% dos líderes cristãos ainda não leram a Bíblia completa, ao menos
uma vez, de Gênesis a Apocalipse. Como eles pregam o Evangelho?
Sto. Agostinho e o grande precursor da computação, Blaise Pascal, se
converteram ao cristianismo lendo apenas alguns trechos das cartas do
apóstolo Paulo. A Bíblia é mesmo extraordinária.

Bem, na verdade fui convidado para escrever algumas linhas
introdutórias sobre a bela tradução da Bíblia que levou o nome de seu
principal patrocinador: o rei James I, ou King James, como passou para
a história.

No entanto, não poderia falar algo sobre a King James sem antes ser
categórico quanto a prevalência e importância fundamental da leitura
da Bíblia na vida de todos nós. Por isso, aqui fica meu apelo mais
eloqüente e sincero: comece hoje mesmo a ler sua Bíblia com devoção!
Comece pelos Evangelhos, depois leia o Novo Testamento todo e antes
de iniciar o livro do Apocalipse leia o Antigo Testamento, depois
encerre sua primeira leitura total da Bíblia com o livro da Revelação (o
Apocalipse). Não se preocupe, não há nada de cabalístico nisto, é só
uma sugestão de ordem prática e que vai lhe ajudar a compreender
melhor ainda todo o texto bíblico.

Foi o Rev. Caio Fábio quem definiu a Bíblia King James como "a mais
shakespeariana" das traduções modernas das Escrituras. E, de fato, o
rei James I foi contemporâneo de William Shakespeare quando, em
1607, aceitando a sugestão de vários líderes eclesiásticos liderados por
John Reynolds, teólogo puritano e reitor da Universidade de Corpus
Christi em Oxford, deu início aos trabalhos de revisão e tradução da
conhecida Bíblia de João Calvino, para a língua inglesa.

James I, escocês, cristão e biblísta, havia assumido o trono da
Inglaterra logo após a morte da rainha Mary Católica, que dizimou
centenas de cristãos em seu reinado simplesmente por defenderem a
fé protestante e o livre exame das Sagradas Escrituras.



Muitos dizem que a sucessão do trono ter recaído sobre James I foi o
cumprimento de uma profecia que William Tyndale (o primeiro
tradutor das Escrituras, das línguas originais para o inglês), fez
momentos antes de sua execução por estrangulamento e queima em
fogueira no centro de Londres pelo carrasco do império: "Meu Deus!
Abra os olhos do rei da Inglaterra!"
King James, ouvindo a opinião da maioria dos líderes eclesiásticos do
reino inglês, teólogos que criticavam a tradução da Bíblia de Genebra,
por seus excessos calvinistas, formou e coordenou pessoalmente um
comitê com cerca de 50 eruditos de Oxford, a fim de realizar uma
revisão minuciosa nesta tradução do notável teólogo francês, com
base nos melhores manuscritos dos textos Receptus e Massorético
disponíveis na época.

Em 1611, sob a expressa "autorização do rei" (Authorized Version) era
publicada a Bíblia King James, que se tornaria a mais lida e apreciada
tradução das Escrituras em toda a Europa e nos Estados Unidos até
nossos dias.

Desde o ano 2000, a Sociedade Bíblica Ibero-Americana e a Abba Press
do Brasil assumiram a responsabilidade pela tradução da Bíblia King
James para a língua portuguesa. Um comitê formado por cristãos de
diversas denominações, especialistas em várias áreas do conhecimento
teológico, lingüístico e literário, e residentes em vários países do
mundo, teve acesso às mais recentes descobertas arqueológicas, como
os chamados Rolos do Mar Morto (a maior descoberta arqueológica do
séc. XX), os melhores e mais antigos manuscritos que formam a Bíblia
Hebraica Stuttgartensia, e estudos crítico-textuais, como os valorosos
trabalhos de Nestle-Aland, autores das muitas edições do conhecido
Novum Testamentum Graece além dos manuscritos do respeitável
Textus Receptus e demais obras textuais relevantes nas línguas
originais (hebraico, aramaico e grego).
Da King James em inglês de 1611, o comitê de tradução para a língua
portuguesa procurou apropriar-se do estilo: majestoso, clássico e
reverente; sem contudo, prejudicar a comunicação clara e
compreensível ao leitor lusófono que vive hoje em todos os países
deste nosso mundo globalizado.


Jesus Cristo é o Caminho (Evangelho Segundo João, capítulo 14,
versículo 6), e a Bíblia o seu Livro. A obra que trata sobre sua história e
missão na terra e no porvir; a história do amor de Deus por sua Criação
e por seu filho: o homem, a humanidade. Desconhecer a Bíblia é viver
um eterno e absoluto non sense.
Acabo de reler "O Anticristo" de Friedrich Nietzsche, nascido em uma
família luterana muito religiosa e conservadora, com uma vasta
linhagem de pastores protestantes; o próprio pai, Karl Ludwig,
responsável pela paróquia de Röcken.
Seu maior sonho era o de ser um pastor como seu pai, por isso
dedicou-se intensamente ao estudo da teologia, mas deixou de abrir
seu coração para a ministração sobrenatural que a Palavra de Deus
exerce em nossa alma mediante o Espírito Santo, preferindo
aprofundar-se na filologia a crer na simplicidade do amor, justiça e
soberania de Deus.

Portanto, agora que você encontrou a Água da Vida (Jo 4.10-14),
permita que sua alma beba a vontade e seja saciada pelo Espírito de
Deus. Há muitas coisas que eu e você vamos nos arrepender ao longo
da vida; mas jamais nos arrependeremos de todas as vezes que lemos e
nos alimentamos da Palavra de Deus. Experimente e comprove!

Boa leitura!


Oswaldo Paião
Diretor editorial
SBIA e Abba Press
Autoria
Desde o segundo século da era cristã, a tradição da Igreja atribui ao apóstolo Mateus a autoria do
Evangelho que aparece em primeiro lugar nas várias edições da Bíblia (Mt 9.9 e 10.3).
Eusébio, em sua obra História Eclesiástica, no início do século IV, já trazia citações de Papias, bispo
do século II, de Irineu, bispo de Leão e de Orígenes, grande pensador cristão do século III. Todos os
“pais da Igreja” (como ficaram conhecidos os notáveis discípulos de Cristo e teólogos dos primeiros
séculos), concordam em afirmar que este Evangelho foi escrito (ou narrado a um amanuense, pes-
soa habilidosa com a escrita), primeiramente em aramaico (hebraico falado por Cristo e pelos jovens
judeus palestinos de sua época) e depois, traduzido para o grego. Apesar das muitas evidências
sobre a existência do original em aramaico, todas as buscas e pesquisas arqueológicas somente en-
contraram fragmentos e cópias em grego. Entretanto, os principais estudiosos e teólogos do mundo
não duvidam que o texto grego que dispomos hoje em dia é o mesmo que circulou entre as igrejas
a partir da segunda metade do século I d.C.
Ainda que não apresentando explicitamente o nome do autor, o Evangelho Segundo Mateus,
fornece pelo menos uma grande evidência interna que confirma sua autoria defendida pelos pais da
Igreja. A história da narrativa de um banquete ao qual Jesus compareceu em companhia de grande
número de publicanos e pecadores (pagãos e judeus que não guardavam a Lei e as determinações
dos líderes religiosos da época) é descrita na passagem que começa com as seguintes palavras em
grego original transliterado: kai egeneto autou anakeimeou em te(i) oikia(i). Ou seja: “E aconteceu
que, estando Jesus em casa,...” (Mt 9.10). Considerando que os últimos três vocábulos significam
“em casa”, o trecho sugere que o banquete fosse oferecido “na casa” de Jesus. Contudo, a
passagem paralela em Mc 2.15 revela que essa festa aconteceu “na casa” de Levi, isto é, Mateus
Levi. O texto em Marcos aparece assim transliterado: en te(i) oikia(i) autou, “na casa dele”. O sentido
alternativo de Mt 9.10 esclarece que “em casa” quer dizer “na minha casa”, ou seja, “na casa” do
autor, e isto concorda perfeitamente com Marcos e com os fatos apresentados em todos os Quatro
Evangelhos.
Mateus, que tinha por sobrenome Levi (Mc 2.14), e cujo nome significa “dádiva do Senhor”, era um
cobrador de impostos a serviço de Roma, mas que abandonou uma vida de avareza e desonestidade
para seguir Jesus, o Messias (Mt 9.9-13). Em Marcos e Lucas é chamado por seu outro nome, Levi.
Propósitos
O principal objetivo do Evangelho Segundo Mateus é relatar seu testemunho pessoal sobre o fato de
Jesus Cristo ser o Messias prometido no Antigo Testamento, cuja missão messiânica era trazer o Reino
de Deus até a humanidade. Esses dois grandes temas: o caráter messiânico de Jesus e a presença
do Reino de Deus são indissociáveis e devem ser analisados sempre como um todo harmônico. Cada
qual representa um “mistério” – uma nova revelação do plano remidor de Deus (Rm 16.25-26).
Antes do grande evento da vinda do Messias, como o Filho de Deus (também chamado no AT e
pelo próprio Jesus de “o Filho do homem”), em triunfo e grande glória entre as nuvens do céu, a fim
de estabelecer Seu Reino sobre o planeta todo, terá em primeiro lugar, de vir sob a mais absoluta
humildade entre os homens na qualidade de Servo Sofredor, cônscio de que sua missão será dedi-
car a própria vida em sacrifício voluntário a favor da humanidade, especialmente dos que, crendo em
Seu Nome, se arrependerem dos seus pecados, nascendo para uma nova vida (Jo 1.12; 3.16). Esse
é o mistério da missão messiânica. Era um ensino completamente desconhecido para os judeus
do primeiro século da nossa era. Hoje, a maior parte dos cristãos que lêem o capítulo 53 de Isaías
não sentem qualquer dificuldade em identificar a pessoa de Jesus Cristo com o Messias prometido.
Entretanto, os judeus não observaram com cuidado a descrição do Servo Sofredor e deram mais
atenção às promessas de um Messias que viria com grande poder e glória, o que realmente está
registrado no contexto dessa passagem (Is 48.20; 49.3).
Por esse motivo, os judeus do primeiro século esperavam ansiosamente pelo Filho de Davi, um Rei
divino (uma vez que os reis humanos já haviam provado sua incompetência e limitação). O Filho de
INTRODUÇÃO
O EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS
MT_B.indd 14/8/2007, 14:05 1
Deus e Rei governará o Reino messiânico (Is 9 e 11 com Jr 33). Nesse Dia, todo pecado e mal serão
extirpados da terra; e a paz e a justiça prevalecerão. O Filho do homem é um ser celestial a Quem
está entregue o governo de todas as nações e reinos da terra.
O mistério do Reino é semelhante e está intimamente ligado ao mistério messiânico. No segundo
capítulo do livro do profeta Daniel temos a descrição da vinda do Reino de Deus em pinceladas
vigorosas e impressionantes. Todo poder que fizer resistência à vontade do Senhor será aniquilado.
O Reino virá todo, completo, de uma só vez, varrendo da sua frente todas as hostes do mal e todo
império contrário a Jesus Cristo. A terra será toda transformada e uma nova ordem, universal e
perfeita será instaurada.
Portanto, tanto a mensagem de Cristo como a Sua pessoa foram totalmente incompreendidas
pelos Seus compatriotas e contemporâneos em geral, incluindo os próprios discípulos. Todavia, a
nova revelação sobre o propósito de Deus é que o Reino deveria vir em humildade e doação: poder
espiritual, antes de vir em plena glória triunfante.
Mateus deixa claro que deseja apresentar, em ordem histórica, o nascimento, ministério, paixão e
ressurreição de Jesus Cristo. Para tanto, ele reúne os fatos em cinco grandes discursos proferidos
pelo Senhor: o chamado, Sermão da Montanha (Mt 5.1 a 7.27); a comissão aos apóstolos (Mt 10.5-
42); as parábolas (Mt 13.1-53); o ensino sobre humildade e perdão (Mt 18.1-35), e a palavra profética
(Mt 24.1 a 25.46). Mateus cita várias passagens e profecias extraídas do Antigo Testamento e, de
fato, interpreta essas profecias como tendo absoluto e certeiro cumprimento em Jesus Cristo; tudo
é escrito e ensinado de um modo que seria para o judeu do século I prova irrefutável, a qual a Igreja
cristã adota até nossos dias.
Data da primeira publicação
Embora alguns estudiosos considerem a forte possibilidade de o Evangelho Segundo Mateus ter
sido escrito na Antioquia da Síria, as evidentes características judaicas do texto original apontam sua
geração para alguma parte da antiga Palestina.
Considerando o fato de a terrível destruição de Jerusalém, ocorrida por volta do ano 70 d.C., ser
ainda considerada um acontecimento futuro (Mt 24.2), e que Mateus, assim como Lucas, terem sido
beneficiados pela leitura dos escritos de Marcos, podemos entender que as primeiras cópias do livro
de Mateus circularam entre os irmãos da recém igreja cristã (chamada de igreja primitiva), quando a
Igreja era em grande parte judaica e o Evangelho pregado quase que exclusivamente aos judeus (At
11.19), por volta dos anos 50 e 60 da nossa era.
Esboço Geral de Mateus
1. Nascimento e infância do Cristo, o Messias (caps. 1,2)
A. A genealogia de Jesus (1.1-17).
B. O anúncio do seu nascimento (1.18 – 25)
C. A adoração ao bebê, filho do Homem, o Salvador (2.1-12)
D. A permanência de Jesus no Egito (2.13-23)
2. Prelúdio do ministério de Jesus Cristo (caps. 3.1 – 4.25)
A. João Batista e seu ministério preparatório para Jesus (3.1-12)
B. O batismo de Jesus Cristo (3.13-17)
C. A grande tentação de Jesus (4.1-11)
D. A investidura do Senhor (4.12-25)
3. O ensino do Rei Jesus Cristo (caps. 5.1 – 7.29)
A. A proposta da Vida no Reino (5.1-16)
B. Os princípios espirituais para se viver no Reino (5.17-48)
C. A Torá e a Lei de Moisés (5.17-20)
D. A lei sobre o assassinato (5.21, 22)
E. A lei sobre o adultério (5.27-30)
F. A lei sobre o divórcio (5.31, 32)
G. A lei sobre os votos (5.33-37)
H. A lei da não resistência (5.38-42)
I. A lei do amor (5.43-48)
4. Aspectos práticos da vida no Reino (caps. 6.1 – 7.12)
A. Sobre as esmolas e ajudas (6.1-4)
B. Sobre a oração (6.5-15)
MT_B.indd 14/8/2007, 14:05 2
C. Sobre a disciplina espiritual do jejum (6.16-18)
D. Sobre o dinheiro (6.19-24)
E. Sobre a ansiedade e preocupações (6.25-34)
F. Sobre o Juízo (7.1-5)
G. Sobre a prudência (7.6)
H. Sobre a oração (7.7-11)
I. Sobre o trato com outras pessoas (7.12)
J. Sobre o caminho estreito do Reino (7.13-29)
5. Demonstrações da soberania de Jesus (caps. 8.1 – 9.38)
A. Poder sobre a impureza (8.1-4)
B. Poder sobre a distância (8.5-13)
C. Poder sobre as enfermidades (8.14-17)
D. Poder sobre os discípulos (8.18-22)
E. Poder sobre a natureza (8.23-27)
F. Poder para perdoar pecados (9.1-13)
G. Poder sobre a lei e as doutrinas (9.14-17)
H. Poder sobre a morte (9.18-26)
I. Poder sobre as trevas (9.27-31)
J. Poder sobre os demônios (9.32-34)
K. Poder sobre doenças da alma e do corpo (9.35-38)
6. A grande missão do Rei Jesus (10.1 – 16.12)
A. A missão é anunciada (10.1 – 11.1)
B. A missão é comprovada (11.2 – 12.50)
C. O consolo aos discípulos de João (11.2-19)
D. A condenação das cidades infiéis (11.20-24)
E. A convocação dos discípulos para Si (11.25-30)
F. As controvérsias sobre o uso do sábado (12.1-13)
G. O pecado imperdoável da incredulidade (12.14-37)
H. Alguns sinais extraordinários (12.38-45)
I. Relacionamentos transformados (12.46-50)
7. A missão tem seu objetivo ampliado (13.1-52)
A. A parábola do semeador (13.1-23)
B. A parábola do trigo e o joio (13.24-30)
C. A parábola do grão de mostarda (13.31, 32)
D. A parábola do fermento (13.33)
E. A parábola do trigo e do joio é explicada (13.34-43)
F. A parábola do tesouro escondido (13.44)
G. A parábola da pérola de grande valor (13.45, 46)
H. A parábola da rede (13.47-50)
I. A parábola do pai de família (13.51, 52)
8. A missão sofre fortes ataques (caps. 13.53 – 16.12)
A. Pelos conterrâneos do Rei (13.53-58)
B. Por Herodes – seguido de milagres (14.1-36)
C. Pelos escribas e fariseus – seguido de milagres (15.1-39)
D. Pelos fariseus e saduceus (16.1-12)
9. A teologia prática de Jesus, o Messias (caps.16.13 – 20.28)
A. Quanto à Sua Igreja (16.13-20)
B. Quanto à Sua morte (16.21-28)
C. Quanto à Sua glória (17.1-21)
D. Quanto à Sua traição (17.22, 23)
E. Quanto a impostos (17.24-27)
F. Quanto à humildade (18.1-35)
G. Alimentar uma fé pura e simples (18.1-6)
H. Sincera preocupação com os perdidos (18.7-14)
I. Disciplina e restauração entre os crentes (18.15-20)
J. Disposição para perdoar tudo e sempre (18.21-35)
K. Quanto aos dramas humanos (19.1-26)
MT_B.indd 14/8/2007, 14:05 3
L. Problemas físicos (19.1, 2)
M. Divórcio e novo casamento (19.3-12)
N. Quanto às crianças e os pequenos na fé (19.13-15)
O. Quanto ao acúmulo de riquezas (19.16-26)
P. Quanto ao Reino (caps.19.27 – 20.28)
Q. Recompensas no Reino (19.27-30)
R. Reconhecimento no Reino (20.1-16)
S. Graduação e promoções no Reino (20.17-28)
10. A proclamação do Rei Jesus (caps. 20.29 – 23.39)
A. O poder do Rei Jesus (20.29-34)
B. A aclamação do Rei Jesus (21.1-11)
C. A purificação realizada pelo Rei Jesus (21.12-17)
D. A maldição da figueira (21.18-22)
E. O desafio ao Rei Jesus (21.23-27)
F. As parábolas do Rei Jesus (21.28 – 22.14)
G. Quanto à rebeldia de Israel (21.28-32)
H. A retribuição a Israel (21.33-46)
I. A rejeição de Israel (22.1-14)
J. Os pronunciamentos do Rei Jesus (caps. 22.15 – 23.39)
K. Em resposta aos herodianos (22.15-22)
L. Em resposta aos saduceus (22.23-33)
M. Em resposta aos fariseus (22.34-40)
N. Questionando os fariseus (22.41-46)
O. Contra os doutores da lei e fariseus (23.1-36)
P. Contra a cidade santa: Jerusalém (23.37-39)
11. As terríveis profecias do Rei Jesus (caps. 24.1 – 25.46)
A. A destruição do Templo (24.1, 2)
B. As indagações dos discípulos (24.3)
C. Os grandes sinais sobre o final dos tempos (24.4-28)
D. O sinal do glorioso retorno de Jesus (24.29-31)
E. Parábolas ilustrando as profecias (24.32 – 25.46)
F. A figueira (24.32-35)
G. Os dias de Noé (24.36-39)
H. Os companheiros (24.40, 41)
I. O pai de família atento (24.42-44)
J. O servo leal (24.45-51)
K. As dez virgens (25.1-13)
L. Os talentos (25.14-30)
M. O grande julgamento dos gentios (25.31-46)
12. O sacrifício do Rei Jesus por nossa Salvação (caps. 26.1 – 27.66)
A. A preparação da Paixão (26.1-16)
B. A Páscoa da Paixão (26.17-30)
C. A traição predita (26.31-56)
D. Os interrogatórios e julgamentos (26.57 – 27.26)
E. Diante do sumo sacerdote (26.57-75)
F. Perante o Sinédrio (27.1-10)
G. Respondendo a Pilatos (27.11-26)
H. A crucificação (27.27-66)
I. Martírio e humilhação (27.27-44)
J. Jesus entrega sua vida (27.45-56)
K. O sepultamento (27.57-66)
13. A ressurreição e a comissão do Rei Jesus (28.1-20)
A. O triunfo de Jesus sobre a morte (28.1-10)
B. A conspiração alegada (28.11-15)
C. A grande comissão dos discípulos (28.16-20)
MT_B.indd 14/8/2007, 14:05 4
O EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS
A linhagem real de Cristo
(Lc 3.23-28)
1
Livro da genealogia de Jesus Cristo,
Filho de Davi, Filho de Abraão:
2
Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó,
Jacó gerou Judá e seus irmãos,
3
Judá gerou Perez e Zera, de Tamar; Pe-
rez gerou Esrom; Esrom gerou Arão.
4
Arão gerou Aminadabe; Aminadabe ge-
rou Naassom; Naassom gerou Salmom,
5
Salmom gerou Boaz, de Raabe, e Boaz ge-
rou Obede, de Rute; Obede gerou a Jessé.
6
Jessé gerou o rei Davi, e o rei Davi ge-
rou a Salomão, daquela que foi mulher
de

Urias
1
;
7
Salomão gerou Roboão; Roboão gerou
Abias; Abias gerou Asa,
8
Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão;
Jorão gerou Uzias;
9
Uzias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz;
Acaz gerou Ezequias;
10
Ezequias gerou Manassés; Manassés
gerou Amom; Amom gerou Josias;
11
Josias gerou Jeconias e a seus irmãos
no tempo em que foram levados cativos
para a Babilônia.
12
Depois do exílio na Babilônia, Je-
conias gerou Salatiel; Salatiel gerou
Zorobabel;
13
Zorobabel gerou Abiúde; Abiúde ge-
rou Eliaquim, e Eliaquim gerou Azor;
14
Azor gerou Sadoque; Sadoque gerou
Aquim; Aquim gerou Eliúde,
15
Eliúde gerou Eleazar; Eleazar gerou
Matã, Matã gerou Jacó;
16
Jacó gerou José, marido de Maria, da qual
nasceu JESUS, denominado o Cristo.
2


17
Portanto, o total das gerações é: de
Abraão até Davi, quatorze gerações; de
Davi até o exílio na Babilônia, quatorze
gerações; e do exílio na Babilônia até
Cristo, quatorze gerações.
A linhagem divina de Cristo
(Lc 2.1-7)
18
O nascimento de Jesus Cristo ocorreu
da seguinte maneira: Estando Maria, sua
mãe, prometida em casamento a José,
antes que coabitassem, achou-se grávida
pelo Espírito Santo.
19
Então, José, seu esposo
3
, sendo um
homem justo e não querendo expô-la à
desonra pública, planejou deixá-la sem
que ninguém soubesse a razão.
20
Mas, enquanto meditava sobre isso,
eis que, em sonho, lhe apareceu um anjo
do SENHOR, dizendo: “José, flho de Davi,
não temas receber a Maria como sua
mulher, pois o que nela está gerado é do
Espírito Santo.
21
Ela dará à luz um flho, e lhe porás o
nome de Jesus, porque Ele salvará o seu
povo dos seus pecados”.
4
22
Tudo isso aconteceu para que se cum-
prisse o que o SENHOR havia dito através
do profeta:
1
A expressão “daquela que foi mulher” não se encontra nos originais em grego; entretanto, desde 1611, a Bíblia King James
traz, junto ao texto bíblico, essa explicação rabínica, cujo emprego passou a se observar na maioria das traduções e versões
posteriores, em diversas línguas.
2
A expressão grega christos é o adjetivo verbal semita, equivalente a Messias, que, em hebraico, significa “o Ungido”. No AT,
essa forma designava o rei de Israel (o ungido do Senhor, como em 1 Sm 16.6), o sumo sacerdote (o sacerdote ungido – Lv 4.3).
No plural, essa expressão se refere aos patriarcas em seu ministério de profetas (“meus ungidos” – Sl 105.15). Jesus cumpriu a
profecia messiânica, desempenhando essas três funções.
3
O noivado judaico da época era um compromisso tão solene, que os noivos passavam a se tratar como marido e mulher. A
Lei, contudo, proibia qualquer relação sexual antes do casamento formal. O noivado só poderia ser desfeito por infidelidade, que
era punida com repúdio público e apedrejamento (Gn 29.21; Dt 22.13-30; Os 2.2).
4
Jesus (em hebraico Yehoshú’a) significa Yahweh Salva ou “O SENHOR é a Salvação”. Yahweh é o nome judaico impronunciável,
sagrado e sublime de Deus, na maioria das vezes traduzido por: SENHOR. Em hebraico: (Êx 6.3; Is 41.4). Em grego Egô Eimi.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:05 5
6 MATEUS 1, 2
23
“Eis que a virgem conceberá e dará à
luz um flho, e Ele será chamado de Ema-
nuel”, que signifca “Deus conosco”.
5
24
José, ao despertar do sonho, fez o que
o Anjo do SENHOR lhe tinha ordenado e
recebeu Maria como sua mulher.
25
Contudo, não coabitou com ela en-
quanto ela não deu à luz o flho primogê-
nito. E José lhe colocou o nome de Jesus.
A visita dos sábios do Oriente
2
Após o nascimento de Jesus

em Belém
da Judéia, nos dias do rei Herodes, eis
que alguns sábios vindos do Oriente che-
garam a Jerusalém.
1
2
E, indagavam: “Onde está aquele que é
nascido rei dos judeus? Pois do Oriente
vimos a sua estrela e viemos adorá-lo”.
2

3
Quando o rei Herodes ouviu isso, fcou
perturbado e toda a Jerusalém com ele.
4
Tendo reunido todos os príncipes
dos sacerdotes e os escribas do povo,
perguntou-lhes onde havia de nascer
o Cristo.
3

5
E eles lhe responderam: “Em Belém da
Judéia, pois assim escreveu o profeta:
4

6
‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de
modo algum és a menor entre as prin-
cipais cidades de Judá; pois de ti sairá o
Guia, que como pastor, conduzirá Israel,
o meu povo’”.
5
7
Então Herodes, chamando secretamen-
te os sábios, interrogou-os exatamente
acerca do tempo em que a estrela lhes
aparecera.
8
Mandou-os a Belém e disse: “Ide, e
perguntai diligentemente pelo menino, e
quando o achardes, comunicai-me, para
que também eu vá e o adore”.
9
Após terem ouvido o rei, seguiram
o seu caminho, e a estrela que tinham
visto no Oriente foi adiante deles, até
que fnalmente parou sobre o lugar onde
estava o menino.
5
Mateus demonstra de forma clara e inquestionável que Jesus Cristo é o Messias prometido nas diversas profecias do AT,
como nesse texto de Is 7.14. (Mt 2.15-23; 8.17; 12.17; 13.25; 21.4; 26.54-56; 27.9; cf. 3.3; 11.10; 13.14, etc.) O próprio Jesus usa
as Escrituras para comprovar sua identidade e ministério (Mt 11.4-6; Lc 4.21; 18.31; 24.44; Jo 5.39; 8.56; 17.12, etc.)
Capítulo 2
1
O primeiro calendário foi elaborado por Dionísio Exíguo, de Roma (no século VI) e adotado em todo o mundo predominan-
temente cristão. Com o surgimento de novas e mais precisas tecnologias para a medição do tempo, constatou-se que Dionísio
errou em pelo menos 4 anos em relação ao mais antigo calendário romano.
Herodes, chamado “O Grande”, recebeu, do Senado romano, o título de “rei da Judéia” e, por isso, ficou conhecido como “rei
dos judeus”. Durante seu reinado (de 39 a.C. a 4 a.C.) mandou matar todas as crianças de Belém, de até 2 anos de idade. Nessa
época Jesus estaria em seu segundo ano de vida. E os cálculos demonstram que teria nascido quase 5 anos antes do “Anno
Domini” (ano oficial do nascimento do Senhor).
Quanto à expressão “sábios”, como traduzida pela Bíblia King James, refere-se a um grupo de sacerdotes babilônios, gentios,
reconhecidos entre os povos medo-persas como mestres, cientistas, astrônomos, e que se dedicavam ao estudo da medicina e
da astrologia. Algumas versões trazem a expressão “magos”, mas em nossos dias essa palavra tem uma conotação estritamente
mística e ocultista. A tradição das igrejas cristãs acrescenta que eles eram três reis, devido aos três presentes de alto valor mone-
tário oferecidos a Jesus, mas isso não tem comprovação bíblica.
2
Séculos mais tarde, o astrônomo Kepler calculou que essa imagem de estrela reluzente se tratava da conjunção de Júpiter e
Saturno na constelação de Peixes, em 7 a.C. Na China, o mesmo fenômeno foi observado no ano 4 a.C. e interpretado como o
aparecimento de uma estrela variável, com surgimento e desaparecimento periódicos.
3
Herodes convoca os responsáveis pela vida religiosa e moral da nação judaica. Os sumos sacerdotes eram os membros das
grandes famílias sacerdotais de Jerusalém. Os escribas geralmente pertenciam ao partido político dos fariseus; eram também
doutores da Lei e estudantes profissionais, pagos para estudar e ensinar, ao povo, a Lei e as tradições rabínicas. Também fun-
cionavam como advogados públicos, sendo-lhes confiada à administração da lei e da ordem, como juízes no Sinédrio (22.35).
Esses dois grupos se unem contra Jesus, em 21.15. Mateus associa com mais freqüência os sumos sacerdotes aos anciãos do
povo (26.3,47; 27.1). O sentido em ambos os casos é o mesmo: os principais responsáveis pelo drama de um povo são seus
líderes e chefes.
4
A palavra “profeta” deriva do grego “pro” que significa “para adiante” ou “à frente” e “phemi” que quer dizer “o que fala”.
O profeta é aquele que traz a mensagem de Deus, o servo que anuncia prioritariamente, antes de tudo, a Palavra do Senhor.
Esse ministério pode incluir a previsão de futuros eventos. Deus continua a falar através de seus profetas nas igrejas de hoje.
Os arautos de Deus nos orientam e ensinam a ouvir o Espírito Santo e a obedecer à Palavra. Entretanto, a Bíblia também nos
adverte quanto aos “falsos profetas”, pessoas que são lideradas por um espírito diferente do Espírito Santo e causam confusão à
comunidade e grande dano a si próprios (Jr 7.4, Jr 14.14, Lm 2.4, Ez 13.6, Mt 7.15, Mt 24.11-24, 2Pe 2.1, Ap 19.20).
5
Mq 5.2; Jo 7.42; Ap 2.27
MT_B.indd 14/8/2007, 14:05 6
7 MATEUS 2, 3
10
E vendo eles a estrela, alegraram-se
com grande e intenso júbilo.
11
Ao entrarem na casa, encontraram o
menino com Maria, sua mãe, e prostran-
do-se o adoraram. Então abriram seus
tesouros e lhe ofertaram presentes: ouro,
incenso e mirra.
6
12
E, sendo por divina revelação avisados
em sonhos para que não voltassem para
junto de Herodes, retornaram para a sua
terra, por outro caminho.
A fuga para o Egito
13
Depois que partiram, eis que um anjo
do SENHOR apareceu a José em sonho e
lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e
sua mãe, e foge para o Egito. Permanece
lá até que eu te diga, pois Herodes há de
procurar o menino para o matar”.
14
José se levantou, tomou o menino e sua
mãe, durante a noite, e partiu para o Egito.
15
E esteve lá até a morte de Herodes. E
assim se cumpriu o que o SENHOR tinha
dito através do profeta: “Do Egito cha-
mei o meu flho”.
7
16
Quando Herodes percebeu que havia
sido iludido pelos sábios, irou-se ter-
rivelmente e mandou matar todos os
meninos de dois anos para baixo, em
Belém e em todas as circunvizinhanças,
de acordo com as informações que havia
obtido dos sábios.
17
Então se cumpriu o que fora dito pelo
profeta Jeremias:
18
“Ouviu-se uma voz em Ramá, pranto
e grande lamentação; é Raquel que chora
por seus flhos e recusa ser consolada,
pois já não existem”.
8
O retorno para Israel
19
Após a morte de Herodes, eis que um
anjo do SENHOR apareceu em sonho a
José, no Egito, e disse-lhe:
20
“Dispõe-te, toma o menino e sua mãe,
e vai para a terra de Israel; porque já
estão mortos os que procuravam tirar a
vida do menino”.
21
Então, José se levantou, tomou o meni-
no e sua mãe, e foi para a terra de Israel.
22
Mas, ao ouvir que Arquelau estava
reinando na Judéia, em lugar de seu pai
Herodes, teve medo de ir para lá. Con-
tudo, tendo sido avisado em sonho por
divina revelação, seguiu para as regiões
da Galiléia.
23
Ao chegar, foi viver numa cidade
chamada Nazaré. Cumpriu-se assim o
que fora dito pelos profetas: “Ele será
chamado Nazareno”.
9
João Batista prepara o caminho
(Mc 1.2-8; Lc 3.1-18; Jo 1.6-8,19-36)
3
Naqueles dias surgiu João Batista pre-
gando no deserto da Judéia; e dizia:
2
“Arrependei-vos, porque o Reino dos
céus está próximo”.
1
3
Este é aquele que foi anunciado pelo
profeta Isaías: “Voz do que clama no
deserto: Preparai o caminho do SENHOR,
endireitai as suas veredas”.
4
João tinha suas roupas feitas de pêlos
de camelo e usava um cinto de couro na
cintura. Alimentava-se com gafanhotos e
mel silvestre.
5
A ele vinha gente de Jerusalém, de toda
a Judéia e de toda a província adjacente
ao Jordão.
6
Sl 72.10-11; Is 60.6
7
Os 11.1
8
Jr 31.15
9
A expressão hebraica traduzida por “nazareno” significa: desprezível ou desprezado. Nazaré era o lugar mais improvável para
o surgimento ou a residência do Messias, o Ungido de Deus e libertador do povo de Israel (Sl 22.6; Is 11.1; Is 53.3; Mc 1.24).
Capítulo 3
1
João começa seu ministério no deserto da Judéia, uma região árida e estéril, ao longo da margem ocidental do mar Morto.
O Reino dos céus sinaliza o domínio do céu e dos seus valores sobre a terra e o sistema econômico, político, social e religioso
mundial. O povo judeu da época de Cristo esperava esse Reino messiânico (ou davídico) e seu estabelecimento. Foi exatamente
esse o Reino que João anunciou como “próximo”. A rejeição de Cristo pelo povo adiou sua plena concretização até a segunda e
iminente vinda de Cristo (Mt 25.31). O caráter atual do Reino está descrito na série de parábolas (histórias com objetivo didático)
contadas por Jesus em Mt 13.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 7
8 MATEUS 3, 4
6
Confessando os seus pecados, eram
batizados por João no rio Jordão.
7
E, vendo ele muitos dos fariseus e dos
saduceus que vinham ao seu batismo,
dizia-lhes: “Raça de víboras, quem vos
ensinou a fugir da ira futura?
2
8
Produzi, sim, frutos que mostrem vosso
arrependimento!
9
Não presumais de vós mesmos, dizen-
do: ‘Temos por pai a Abraão’; porque eu
vos digo que mesmo destas pedras Deus
pode gerar flhos a Abraão.
10
O machado já está posto à raiz das
árvores, e toda árvore, pois, que não
produz bom fruto é cortada e lançada
no fogo.
11
Eu, em verdade, vos batizo com água,
para arrependimento; mas depois de
mim vem alguém mais poderoso do que
eu, tanto que não sou digno nem de levar
as suas sandálias. Ele vos batizará com o
Espírito Santo e com fogo.
12
Ele traz a pá em sua mão e separará
o trigo da palha.
3
Recolherá no celeiro o
seu trigo e queimará a palha no fogo que
jamais se apaga”.
O batismo de Jesus
(Mc 1.9-11; Lc 3.21,22; Jo 1.32-34)
13
Então Jesus veio da Galiléia ao Jordão
para ser batizado por João.
14
Mas João se recusava, justifcando:
“Sou eu quem precisa ser batizado por ti,
e vens tu a mim?”
15
Jesus, entretanto, declarou: “Deixe
assim, por enquanto; pois assim convém
que façamos, para cumprir toda a justiça”.
E João concordou.
16
E, sendo Jesus batizado, saiu logo da
água, e eis que se abriram os céus, e viu o
Espírito de Deus descendo como pomba
e vindo sobre Ele.
17
Em seguida, uma voz dos céus disse:
“Este é meu Filho amado, em quem mui-
to me agrado”.
Jesus é tentado pelo Diabo
(Mc 1.12,13; Lc 4.1-13)
4
Jesus foi então conduzido pelo Espí-
rito, ao deserto, para ser tentado pelo
Diabo.
2
Depois de jejuar quarenta dias e qua-
renta noites, teve fome.
3
O tentador aproximou-se então dele e
disse: “Se tu és o Filho de Deus, manda
que estas pedras se tornem em pães”.
4
Jesus, porém, afrmou-lhe: “Está es-
crito: ‘Nem só de pão viverá o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de
Deus’”.
1
5
Então o Diabo o conduziu à Cidade
Santa, e colocou-o sobre a parte mais
alta do templo e desafou-lhe:
6
“Se tu és o Filho de Deus, joga-te daqui
para baixo. Pois está escrito: ‘Aos seus
anjos dará ordens a teu respeito, e com
as mãos eles te susterão, para que jamais
tropeces em alguma pedra’”.
2
2
Os fariseus eram a mais influente das seitas do judaísmo no tempo de Cristo. Embora apegados às doutrinas e à ortodoxia,
seu zelo, sem o entendimento espiritual da Lei de Moisés levara-os, ao longo dos séculos, a uma observância estrita das normas e
regras da Lei e das tradições rabínicas. Eram justos aos próprios olhos e inimigos implacáveis de Jesus Cristo (Mt 9.14; 23.2; 23.15;
Mc 12.40; Lc 18.9). Os saduceus, que pertenciam à elite econômica e às famílias sacerdotais, eram anti-sobrenaturalistas (não criam
em milagres e no poder sobrenatural de Deus). Opunham-se às tradições dos ensinos e interpretações dos fariseus e colaboravam
abertamente com os governantes romanos. Uniram-se aos fariseus apenas em suas perseguições a Cristo (Mt 16.1-4,6).
3
Algumas versões trazem a expressão: “...e limpará a sua eira”. A Bíblia King James optou por uma tradução mais clara dessa
frase, a partir do original grego; pois a “pá”, que Jesus traz em sua mão, tem a ver com uma pá de madeira usada para lançar
o cereal triturado ao ar, de modo que a palha, mais leve, fosse carregada pelo vento, e os grãos se amontoassem no solo. Isso
significa “limpar a eira” e reforça o cumprimento da profecia de Malaquias (Ml 3.1-6 e 4.1).
Capítulo 4
1
O objetivo do Diabo era levar Cristo, o Ungido, Filho de Deus, a pecar. Apenas um pecado seria o suficiente, desqualificando o
Salvador, frustrando assim, o plano de Deus para a redenção humana. O objetivo de Deus foi provar que seu Filho – perfeitamente
divino e perfeitamente humano – viveu, contudo, isento de qualquer pecado; sendo, portanto, um Salvador perfeitamente digno
e suficiente (2Co 5.21; Hb 4.15, Rm 8.3; 1Jo 2.16; Tg 1.13). Jesus escolhe uma passagem das Sagradas Escrituras (Dt 8.3) para
responder ao tentador e a todos quantos têm seus valores invertidos por ganância, egoísmo e inveja.
2
O orgulho, arrogância e empáfia do Diabo não lhe permitiram compreender, muito menos aceitar, a resposta que Cristo lhe
dera. O Diabo tenta, então, replicar, usando também uma passagem bíblica (Sl 91.11-12), mas omitindo parte do texto sagrado
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 8
9 MATEUS 4, 5
7
Contestou-lhe Jesus: “Também está
escrito: ‘Não tentarás o SENHOR teu
Deus’”.
3
8
Tornou o Diabo a levá-lo, agora para
um monte muito alto. E mostrou-lhe
todos os reinos do mundo em todo o seu
esplendor.
9
E propôs a Jesus: “Tudo isso te darei se,
prostrado, me adorares.
10
Ordenou-lhe então Jesus: “Vai-te, Sata-
nás, porque está escrito: ‘Ao SENHOR, teu
Deus, adorarás e só a Ele servirás’”.
4
11
Assim, o Diabo o deixou; e eis que
vieram anjos, e o serviram.
Jesus inicia seu ministério
(Mc 1.14-20; Lc 4.14-32; 5.1-11)
12
Jesus, entretanto, ouvindo que João
estava preso, voltou para a Galiléia.
13
E, deixando Nazaré,
5
foi habitar em
Cafarnaum, situada à beira-mar, nos
confns de Zebulom e Naftali.
14
Assim cumprindo-se o que fora dito
pelo profeta Isaías:
15
“Terra de Zebulom e terra de Naftali,
caminho do mar, além do Jordão, Gali-
léia dos gentios!
6
16
O povo que jazia nas trevas viu uma
grande luz; e aos que estavam detidos
na região e sombra da morte, a luz
raiou”.
17
Daquele momento em diante Jesus
passou a pregar e dizer: “Arrependei-vos,
porque é chegado o Reino dos céus!”.
18
E, caminhando junto ao mar da
Galiléia, viu Jesus dois irmãos: Simão,
chamado Pedro e André que lançavam a
rede ao mar, pois eram pescadores.
19
Então, disse-lhes Jesus: “Vinde após mim,
e Eu vos farei pescadores de homens”.
20
Eles, imediatamente deixaram suas
redes e seguiram Jesus.
21
Seguindo adiante, viu Jesus outros
dois irmãos: Tiago, flho de Zebedeu e
João, seu irmão, que estavam no barco
com Zebedeu, seu pai, consertando as
redes; e chamou-os.
22
Eles imediatamente deixaram o barco
e seu pai para seguirem a Jesus.
23
E percorria Jesus toda a Galiléia,
ensinando nas sinagogas, pregando o
evangelho do Reino e curando todas as
enfermidades e males entre o povo.
24
E sua fama correu por toda a Síria; e
trouxeram-lhe, então, todos aqueles que
sofriam, acometidos de várias enfermi-
dades e tormentos, os endemoninhados,
os lunáticos e os paralíticos. E Jesus os
curava.
25
E uma grande multidão da Galiléia,
Decápolis, Jerusalém, Judéia e de além
do Jordão seguia a Jesus.
O sermão do monte
(Lc 6.20-29)
5
Jesus, vendo as multidões, subiu a
um monte e, assentando-se, os seus
discípulos aproximaram-se dele.
2
E Jesus, abrindo a boca, os ensinava,
dizendo:
que não se ajustava a seus intentos. Esse mesmo método de interpretação inescrupulosa da Bíblia tem-se repetido ao longo dos
séculos, na criação e desenvolvimento de diversas seitas heréticas em todo o mundo.
3
Veja Dt 6.16
4
Somente uma análise profunda e detalhada dos diálogos aqui travados entre Satanás e Jesus pode revelar a magnitude dessa
batalha espiritual vencida por Cristo por meio da Palavra de Deus (Dt 6.13; 10.20), bem como a astúcia e o poder do Diabo para
iludir seus oponentes. Satanás, como príncipe do sistema econômico, político e social do nosso planeta (em grego, Kosmos,
que significa: mundo), estava em seu direito ao ofertar a Jesus as glórias de todos os reinos da terra, pois de fato estes lhe foram
entregues por algum tempo (Jo 12.31; 1 Jo 2.15; 5.19; Jo 3.19; Tg 1.27; 4.4). Jesus manteve-se, porém, íntegro e fiel, resistindo
e vencendo a tentação e o tentador.
5
Conforme Lc 4.16-30, Jesus foi expulso de Nazaré, terra onde fora criado, por ter se apresentado ao povo (em um sábado,
na sinagoga) como sendo o Filho de Deus e aquele que veio cumprir as profecias sobre a vinda do Messias, registradas no AT
(Is 61.1-2

a. Veja também Is 9.1-2 e 42.6-7).
6
Os melhores originais em grego trazem a palavra “gentios” (todos aqueles que não são judeus) em vez de “nações” como
consta em várias versões em português.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 9
10 MATEUS 5
3
“Bem-aventurados
1
os pobres
2
em espí-
rito, pois deles é o Reino dos Céus.
4
Bem-aventurados os que choram, por-
que serão consolados.
5
Bem-aventurados os humildes, porque
herdarão a terra.
3
6
Bem-aventurados os que têm fome e
sede de justiça, porque serão fartos.
7
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
8
Bem-aventurados os limpos de cora-
ção, porque verão a Deus.
9
Bem-aventurados os pacifcadores,
porque serão chamados flhos de Deus.
10
Bem-aventurados os que sofrem per-
seguição por causa da justiça, porque
deles é o Reino dos Céus.
11
Bem-aventurados sois vós quando vos
insultarem, e perseguirem e, mentindo,
disserem todo o mal contra vós, por
minha causa.
12
Exultai e alegrai-vos sobremaneira,
pois é esplêndida a vossa recompensa
nos céus; porque assim perseguiram os
profetas que viveram antes de vós.
O cristão deve ser sal e luz
13
Vós sois o sal da terra. Mas se o sal per-
der o seu sabor, com o que se há de tem-
perar? Para nada mais presta, senão para
se lançar fora e ser pisado pelos homens.
14
Vós sois a luz do mundo. Uma cidade
edifcada sobre um monte não pode ser
escondida.
15
Igualmente não se acende uma candeia
para colocá-la debaixo de um cesto. Ao
contrário, coloca-se no velador e, assim,
ilumina a todos os que estão na casa.
16
Assim deixai a vossa luz resplandecer
diante dos homens, para que vejam as
vossas boas obras e glorifquem o vosso
Pai que está nos céus.
1
A KJ de 1611 traz a expressão inglesa blessed (abençoado, bendito, muito feliz) que foi adotada pela maioria das traduções
em todo o mundo, inclusive pelas mais modernas. “Bem-aventurados” transmite melhor a idéia do original grego makarios refe-
rindo-se a uma felicidade que excede às circunstâncias, que tem a ver com o profundo sentimento de paz e alegria que todos os
que foram “abençoados” com a Salvação em Cristo e Seu Reino devem sentir e desfrutar, mesmo em meio às aflições cotidianas.
Esse discurso, conhecido como Sermão do Monte, é o primeiro dos cinco grandes temas tratados por Jesus (Mt 5 a 7; Mt 10;
13; 18 e em Mt 24 e 25). São ensinos primeiramente dirigidos aos discípulos (convertidos, que desejam proclamar ao mundo
sua fé em Jesus Cristo).
A expressão original: “abre a boca”, significa que Jesus passou a falar mais alto para que pudesse ser ouvido pelas demais
pessoas ao redor. A proclamação do “Reino dos Céus” é o ponto central da pregação de Jesus. Essa expressão vem do hebraico
malekhüth shãmayim. A KJ traduz como “Reino do Céu” mas tanto a palavra grega ouranos como a hebraica shãmayim estão no
plural (céus) e têm o mesmo sentido de “Reino de Deus”. Os judeus, por respeito, não mencionavam o nome de Deus e por isso,
Mateus, sensível a esse dado cultural, chamou o Reino de Deus de Reino dos Céus. O ser humano não tem em si mesmo força
moral e ética para viver como Deus ordena. Por isso Jesus Cristo, que viveu essa plenitude de vida espiritual na terra e venceu o
mundo, vem na forma do Espírito Santo habitar na alma humana para ajudar-nos a viver uma nova vida, com uma nova mentalida-
de, como cidadãos do Seu Reino, dirigidos por Deus.A plenitude dessa vida espiritual se dará no futuro (Ap 21.1-4).
2
A primeira estocada de Jesus atinge diretamente o coração arrogante e presunçoso. Jesus conhecia bem os ensinos dos
escribas e fariseus: “Quem cumpre toda a Lei com exatidão é rico no Altíssimo. Quem, além disso, observa literalmente a Halachá
(série de tradições judaicas transmitidas pelos pais de geração a geração) será ainda mais rico”. Jesus não estava dizendo que
não há bênção em obedecer a Lei, mas sim que um coração soberbo e orgulhoso por cumprir ordenanças e preceitos, não pode-
rá “entrar” (viver com amor, paz, alegria e liberdade) no Reino de Deus. Assim, “pobres em espírito” não é uma contradição nem
se refere a pessoas tímidas ou sem poder econômico. Significa sim, que o discípulo (seguidor) de Jesus, aquele que ama a Deus
sobre todas as coisas, conhece suas limitações e fraquezas e reconhece que sem a graça do Senhor é impossível viver a vida
cristã e que por isso não tem qualquer motivo para se orgulhar, pois o Reino dos Céus é também uma dádiva aos quebrantados,
humildes e arrependidos (Jo 3), e não pode ser alcançado através de qualquer esforço, barganha ou talento humano. Reino dos
Céus é o domínio de Deus sobre toda a criação, as pessoas e o mundo; tanto no presente como no futuro (Mt 5.3; 12.28 e Rm
14.17). Às vezes refere-se também a um lugar e uma vida futura com Deus (2 Tm 4.18).
3
A KJ traz aqui a palavra inglesa meek que pode ser traduzida como: pacífico, gentil, brando, suave, amável, manso, dócil,
submisso, resignado. Entretanto, a palavra: “humilde” é mais fiel ao sentido original do termo em grego e comunica melhor, em
português, a idéia dessa qualidade cristã: defender a justiça com paciência e sem amargura, entregando lutas e desafios ao
Senhor que tudo julga retamente. Esse caráter cristão, moldado pelo Espírito Santo, nos capacita a perseverar na fé em Cristo
ainda que em meio às injustiças, ofensas e falta de reconhecimento neste mundo. A promessa é nada menos do que a terra por
herança. Aqueles que aceitam perder algumas coisas nesta terra e neste tempo, mantendo uma fé serena no Senhor, serão os
reis de toda a terra no futuro (Ap 5.9-14), pois já vivem no presente como cidadãos do Reino. Seres humanos esses cujas vidas
estão sendo transformadas pelo Espírito Santo e cujos frutos de caráter lhes conferem a bênção de serem conhecidos como
“bem-aventurados” (muito felizes).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 10
11 MATEUS 5
A Lei se cumpre em Cristo
17
Não penseis que vim destruir a Lei ou
os Profetas. Eu não vim para anular, mas
para cumprir.
18
Com toda a certeza vos afrmo que, até
que os céus e a terra passem, nem um i
4

ou o mínimo traço se omitirá da Lei até
que tudo se cumpra.
19
Qualquer, pois, que violar um destes
menores mandamentos e assim ensinar
aos homens será chamado o menor no
Reino dos Céus; aquele, porém, que os
cumprir e ensinar será chamado grande
no Reino dos Céus.
20
Porque vos digo que, se a vossa justiça
não exceder a dos escribas e fariseus, de
modo nenhum entrareis no Reino dos
Céus.
21
Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não
matarás; mas quem assassinar estará su-
jeito a juízo”.
5

22
Eu, porém, vos digo que qualquer que
se irar contra seu irmão estará sujeito a
juízo. Também qualquer que disser a seu
irmão: Racá, será levado ao tribunal. E
qualquer que o chamar de idiota estará
sujeito ao fogo do inferno.
6
23
Assim sendo, se trouxeres a tua oferta
ao altar e te lembrares de que teu irmão
tem alguma coisa contra ti,
24
deixa ali mesmo diante do altar a tua
oferta, e primeiro vai reconciliar-te com
teu irmão, e depois volta e apresenta a
tua oferta.
25
Entra em acordo depressa com teu ad-
versário, enquanto estás com ele a caminho
do tribunal, para que não aconteça que o
adversário te entregue ao juiz, o juiz te en-
tregue ao carcereiro, e te joguem na cadeia.
26
Com toda a certeza afrmo que de ma-
neira alguma sairás dali, enquanto não
pagares o último centavo.
7
4
A Lei e os Profetas representavam a totalidade do AT, que incluía os Escritos (Sl 78.12-16 é um exemplo desses Escritos e se
refere a Êx 7-12 e Nm 13.22, que fazem parte da terceira seção da Bíblia Hebraica). Jesus é o cumprimento das profecias sobre
a vinda do Messias e Seu Reino. Ao mesmo tempo, Ele foi o único ser humano a cumprir de maneira plena e fiel a essência da
vontade de Deus, não se limitando a uma obediência apenas religiosa, formal e exterior. Jesus levou seu amor pelo Pai e pela
humanidade às últimas conseqüências e enfatizou que toda a Palavra de Deus se cumprirá. Nem a menor letra do alfabeto
hebraico: (yod); em grego: i(iôta) que corresponde à letra “i” em português; nem mesmo o menor sinal gráfico (pequeno traço)
que serve para distinguir certas letras hebraicas, e que pode alterar o sentido de uma expressão, serão suprimidos das Sagradas
Escrituras. Jesus usa essa bem elaborada hipérbole para evidenciar a veracidade e autoridade da Palavra de Deus até o final
dos tempos. As próprias Escrituras testemunham acerca de Jesus de Nazaré como Filho de Deus, Messias (Cristo), Rei dos Reis,
Senhor do Universo, nosso Salvador para toda a eternidade (Mc 14.49; Lc 24.27; Jo 10.35; At 18.24; 2Tm 3.16, 2Pe 1.20-21). Jesus
desejava que os doutores da Lei observassem essa verdade nas Escrituras, uma vez que o povo já estava aceitando que Jesus
Cristo era o Messias, pelas obras que realizava e o poder de suas palavras.
5
Jesus toma como exemplo a situação mais drástica da Lei: a morte (Êx 20.13; Dt 5.17) para demonstrar o que significa
compreender e obedecer ao espírito da Lei e não apenas à letra. Ou seja, uma vida no sentido mais amplo e saudável dos man-
damentos de Deus, em vez da interpretação meramente externa e restrita feita pela tradição rabínica. A KJ traz a palavra murder
(assassinar), pois os verbos em hebraico e grego usados nesse texto e em Êx 20.13 têm especificamente esse sentido claro.
6
Jesus demonstra como entender o sentido mais abrangente da Lei, ao relacionar o pecado de tirar a vida de alguém
(assassinato) com erros, aparentemente menos graves, como irar-se contra um irmão ou insultar alguém. A KJ e as versões de
Almeida acrescentam “sem motivo se irar”. Entretanto, os mais antigos e melhores originais gregos não trazem essa expressão.
Jesus revela que a ofensa verbal está no mesmo nível de um assassinato. Racá era uma antiga expressão aramaica rêqâ’ que
originou a palavra hebraica rêquïm usada no tempo dos juízes (Jz 11.3) para indicar pessoas de mau caráter, levianas e traidoras.
De maneira curiosa, essa era uma expressão freqüentemente usada na tradição rabínica, associada ao vocábulo nãbhãl (néscio),
para se referir aos insensatos e sem sabedoria. Já a palavra grega more, traduzida, em algumas versões, como “louco”, tem sua
origem na expressão hebraica moreh (desgraçado), alguém que por não crer em Deus merecia o inferno. O cerne do ensino de
Jesus está em que o pecado que leva alguém a ofender outra pessoa é o mesmo que motiva o assassinato. O vocábulo grego
synedrio cujo correspondente hebraico é sanhedrïn refere-se ao mais alto tribunal dos judeus, que se reunia em Jerusalém. A KJ
traduziu o termo para o inglês council (conselho), por se tratar da reunião dos sábios que julgavam as causas do povo. Synedrion
deu origem à expressão grega presbyterion que significa “corpo de anciãos” (Lc 22.66; At 22.5) e gerousia “senado” (At 5.21).
A expressão “fogo do inferno” tem a ver com o vale de Hinom em hebraico ge’hinnom que deu origem ao nome grego do lugar:
geena. Durante o reinado dos perversos Acaz e Manassés, sacrifícios humanos ao deus amonita Moloque foram realizados em
geena. Josias profanou o vale por causa das oferendas pagãs que realizou naquele lugar (2Rs 23.10; Jr 7.31,32; 19.6). Com o
passar do tempo, esse vale se transformou num grande depósito de lixo, constantemente em chamas, o que fez a palavra geena
significar o lugar dos perdidos, imprestáveis e destinados ao fogo que nunca se apaga.
7
Graças a Jesus temos a bênção do perdão à nossa disposição. Não fosse essa graça seríamos todos consumidos pela Lei.
Os cristãos devem, então, perdoar tudo e a todos, pedir perdão e procurar a paz com todos aqueles que se sentirem ofendidos
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 11
12 MATEUS 5
Adultério no coração
27
Ouvistes o que foi dito: ‘Não comete-
rás adultério’.
28
Eu, porém, vos digo, que qualquer que
olhar para uma mulher com intenção
impura, em seu coração, já cometeu
adultério com ela.
29
Se o teu olho direito te leva a pecar,
arranca-o e lança-o fora de ti; pois te
é mais proveitoso perder um dos teus
membros do que todo o teu corpo ser
lançado no inferno.
30
E, se tua mão direita te fzer pecar,
corta-a e atira-a para longe de ti; pois te
é melhor que um dos teus membros se
perca do que todo o teu corpo seja lança-
do no inferno.
O casamento é sagrado
31
Foi dito também: ‘Aquele que se divor-
ciar de sua esposa deverá dar a ela uma
certidão de divórcio’.
32
Eu, porém, vos digo: Qualquer que se
divorciar da sua esposa, exceto por imo-
ralidade sexual, faz com que ela se torne
adúltera, e quem se casar com a mulher
divorciada estará cometendo adultério.
Votos e juramentos
33
Também ouvistes o que foi dito aos an-
tigos: ‘Não jurarás falso, mas cumprirás ri-
gorosamente teus juramentos ao Senhor’.
34
Entretanto, Eu vos afrmo: Não jureis
de forma alguma; nem pelos céus, que
são o trono de Deus;
35
nem pela terra, por ser o estrado onde
repousam seus pés; nem por Jerusalém,
porque é a cidade do grande Rei.
36
E não jures por tua cabeça, pois não
tens o poder de tornar um fo de cabelo
branco ou preto.
37
Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu
não, não! O que passar disso vem do
Maligno.
8
Jamais use a vingança
38
Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho
e dente por dente”.
39
Eu, porém, vos digo: Não resistais ao
perverso; mas se alguém te ofender com
um tapa na face direita, volta-lhe tam-
bém a outra.
40
E se alguém quiser processar-te e ti-
rar-te a túnica, deixa que leve também
a capa.
41
Assim, se alguém te forçar a andar uma
milha, vai com ele duas.
42
Dá a quem te pedir e não te desvies de
quem deseja que lhe emprestes algo.
9
Ame os que o odeiam
43
Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu
próximo e odiarás o teu inimigo’.
44
Eu, porém, vos digo: Amai os vossos
com alguma de suas atitudes. Jesus não entra no mérito se o cristão está certo ou não, apenas ordena que a reconciliação seja
promovida o mais rápido possível e que a iniciativa seja sempre da parte daquele que crê em Deus. Jesus usa o exemplo do judeu
religioso e temente ao Senhor em um de seus atos mais sublimes — o sacrifício oferecido a Deus de acordo com a lei mosaica,
para ensinar que não pode haver culto, oração ou oferta maior do que um coração limpo, sincero, humilde, perdoador e em paz
com Deus e com os semelhantes. Em seguida, por meio de uma parábola, Jesus exorta os cristãos que estão em demanda com
alguém a que se apressem a negociar um acordo e estabeleçam a paz, antes que a questão se prolongue demais e acabe na
justiça onde não há misericórdia, apenas a lei.
8
No AT juramentos em nome do Senhor eram obrigatórios em determinadas ocasiões: quando a palavra necessitava de um
fiador idôneo ou mesmo diante de um voto. A quebra da palavra empenhada era um ato sujeito às penas da Lei (Êx 20.7; Lv 19.12;
Dt 19.10-19). Deus era (e é) o juiz onisciente de toda a falsidade. “...tão certo como o Senhor vive” (1Sm 14.39). Essa ênfase na
santidade dos votos ocorria devido à falsidade costumeira entre as pessoas em seus acordos cotidianos. Jesus ensina que o
verdadeiro cristão deve ser autêntico e sincero em suas afirmações; afastando-se de toda a ambigüidade e falsidade comuns
neste mundo controlado pelas forças do Diabo.
9
Jesus trabalha as questões universais do direito. De fato toda a humanidade participa de um grande julgamento, envolvendo
todos os povos de todos os tempos, no qual Cristo é nosso Advogado e garantia absoluta. Jesus começa citando a antiga Lei da
Retaliação (Lv 24.20). Entre os judeus, na época de Jesus, o ato de bater na face direita de alguém, com as costas da mão, era
um insulto e uma provocação; não exatamente uma agressão. O insultado poderia revidar ou ir ao tribunal pleitear uma punição,
em dinheiro, pela ofensa. Jesus exorta seus discípulos a oferecer a outra face, em sinal de paz e disposição para um acordo. A
próxima ilustração tem a ver com as leis dos fariseus: um credor tinha o direito de exigir a túnica do devedor por uma dívida não
paga. Quando não a recebia por bem, tinha o direito de exigi-la por meio de um processo jurídico. Mas, de acordo com Dt 24.10-
13, deveria ceder a roupa ao dono, conforme suas necessidades diárias de uso. Diante dessas questões jurídicas mesquinhas,
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 12
13 MATEUS 5, 6
inimigos e orai pelos que vos perse-
guem;
45
para que vos torneis flhos do vosso Pai
que está nos céus, pois que Ele faz raiar
o seu sol sobre maus e bons e derrama
chuva sobre justos e injustos.
46
Porque se amardes os que vos amam,
que recompensa tendes? Não fazem os
publicanos igualmente assim?
10
47
E, se saudardes somente os vossos ir-
mãos, que fazeis de notável? Não agem os
gentios também dessa maneira?
48
Assim sendo, sede vós perfeitos como
perfeito é o vosso Pai que está nos céus.
Como viver no Reino
6
Guardai-vos de fazer a vossa caridade
e obras de justiça diante dos homens,
com o fm de serem vistos por eles; caso
contrário, não tereis qualquer recom-
pensa do vosso Pai que está nos céus.
2
Por essa razão, quando deres um do-
nativo, não toques trombeta diante de ti,
como fazem os hipócritas, nas sinagogas
e nas ruas, para serem glorifcados pelos
homens. Com toda a certeza vos afrmo
que eles já receberam o seu galardão.
3
Tu, porém, quando deres uma esmola
ou ajuda, não deixes tua mão esquerda
saber o que faz a direita.
4
Para que a tua obra de caridade fque
em secreto: e teu Pai, que vê em secreto,
te recompensará.
A oração modelo
5
E, quando orardes, não sejais como
os hipócritas, pois que apreciam orar
em pé nas sinagogas e nas esquinas das
ruas, para serem admirados pelos outros.
Com toda a certeza vos afrmo que eles já
receberam o seu galardão.
6
Tu, porém, quando orares, vai para teu
quarto e, após ter fechado a porta, orarás
a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai,
que vê em secreto, te recompensará ple-
namente.
7
E, quando orardes, não useis de vãs
repetições, como fazem os pagãos; pois
imaginam que devido ao seu muito falar
serão ouvidos.
8
Portanto, não vos assemelheis a eles;
porque Deus, o vosso Pai, sabe tudo de
que tendes necessidade, antes mesmo
que lho peçais.
9
Por essa razão, vós orareis:
Pai nosso, que estás nos céus!
Santifcado seja o teu Nome.
10
Venha o teu Reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
Jesus exorta os discípulos a serem altruístas. Se credores, a desistir do penhor; se devedores, a dar além do devido, entregando
também a capa que era vestida sobre a túnica. Para o discípulo de Jesus, o direito jurídico já foi abolido na Cruz, a nova ordem é
a Lei do Amor em Cristo. Outra metáfora de Jesus reforça essa idéia. Tem a ver com o costume judaico de se pedir a companhia
de alguém numa viagem pelas perigosas estradas da época. Quando alguém se negava, e acontecia um crime, essa pessoa
era responsabilizada pela sua comunidade local, por não ter atendido ao pedido do viajante. O verbo grego traduzido aqui por
“forçar” advém de uma antiga palavra persa que significa “recrutar à força”. Curiosamente, é a mesma palavra que aparece no
final deste livro, em Mt 27.32, quando os soldados romanos “recrutam à força” Simão, para ajudar Jesus a carregar sua cruz. Os
fariseus haviam imposto uma lei: “devemos acompanhar somente a outro fariseu, não devemos caminhar com os incrédulos”.
Jesus, entretanto, vai além, e ensina que seus discípulos, ao serem solicitados por qualquer viajante a andar 1.609 metros (uma
milha), devem graciosamente estar prontos para caminhar em sua companhia por mais de três quilômetros (duas milhas). Ou
seja, exceder em amor, graça e misericórdia ao que pede a Lei.
10
O termo publicano (palavra latina com origem no grego telõnês) denominava um coletor de impostos a serviço do império
romano. Esses homens eram odiados por causa da impiedade com que exploravam o povo. Para os judeus, o publicano era
imundo, pois estava sempre em contato com os gentios. A palavra “publicano” tornou-se sinônimo de egoísmo, desonestidade,
falsidade, impiedade e incredulidade. Gentios (em hebraico gôyïm e do grego ethnikoi ou Hellênes traduzido pela Vulgata, em
latim, como gentiles) era um termo geral para significar “nações”. Entretanto, na época de Jesus, esse termo era usado pelos
judeus para se referir, em tom discriminatório e preconceituoso, a todas as pessoas que não fossem israelenses. Para os mestres
e doutores da Lei, os “gentios” eram idólatras, imorais e pecadores. Um judeu chamado de gentio significava um publicano; ou
seja, uma pessoa impura, incrédula, mau-caráter, inescrupulosa, impiedosa e digna de todo o desprezo. Jesus resgata o valor
real dos “gentios” (das nações) e convida a todos para Seu Reino (Rm 1.16; Cl 3.11; Gl 2.14; Ap 21.24; 22.2). Jesus conclui essa
parte do seu ensino revelando o segredo da ética cristã: o amor deve fazer muito mais do que a obrigação. Este foi o testemunho
de Cristo e este deve ser o objetivo maior dos cristãos: buscar o amor perfeito do Pai e agir assim, como filhos amados de Deus,
para que outros vejam a luz de Cristo e sejam libertos das trevas deste mundo.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 13
14 MATEUS 6
11
Dá-nos hoje o nosso pão diário.
12
Perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como perdoamos aos
nossos devedores.
13
E não nos conduzas à tentação,
mas livra-nos do Maligno.
1
Porque teu é o Reino, o poder
e a glória para sempre. Amém.
14
Pois, se perdoardes aos homens as suas
ofensas, assim também vosso Pai celeste
vos perdoará.
15
Entretanto, se não perdoardes aos ho-
mens, tampouco vosso Pai vos perdoará
as vossas ofensas.
Jejuar é adorar a Deus
16
Quando jejuardes, não vos mostreis
com aspecto sombrio como os hipócritas;
pois desfguram o rosto com a intenção de
mostrar às pessoas que estão jejuando.
17
Tu, porém, quando jejuares, unge tua
cabeça e lava o rosto.
18
Pois, assim, não parecerá aos outros que
jejuas; e, sim, ao teu Pai em secreto; e teu
Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Investir os recursos no céu
19
Não acumuleis para vós outros tesouros
na terra, onde a traça e a ferrugem destro-
em, e onde ladrões arrombam para roubar.
20
Mas ajuntai para vós outros tesouros
no céu, onde a traça nem a ferrugem
podem destruir, e onde os ladrões não
arrombam e roubam.
21
Porque, onde estiver o teu tesouro, aí
também estará o teu coração.
Um corpo iluminado
22
Os olhos são a lâmpada do corpo.
Portanto, se teus olhos forem bons, teu
corpo será pleno de luz.
23
Porém, se teus olhos forem maus, todo
o teu corpo estará em absoluta escuridão.
Por isso, se a luz que está em ti são trevas,
quão tremendas são essas trevas!SSE
Servir somente a Deus
24
Ninguém pode servir a dois senhores;
pois odiará um e amará o outro, ou será
leal a um e desprezará o outro. Não po-
deis servir a Deus e a Mâmon.
2

1
Jesus ensina a seus seguidores o caminho da verdadeira adoração e comunicação com Deus. O primeiro passo é a
humildade, em contraste com o estilo dos fariseus, escribas, publicanos e gentios, que viviam uma religiosidade apenas de
aparência, formal e estéril. Os discípulos deveriam também evitar as “vãs repetições”, pois essa era a maneira como os pagãos
(aqueles que não passaram pelo batismo, também chamados de “gentios”) tentavam sensibilizar seus deuses para obter favores.
Nessa época, os adoradores de Baal (1Rs 18.26-28) estavam cativando até judeus fiéis com suas hipocrisias (encenações
teatrais, do grego hupokrites, ator). Por isso Jesus oferece um modelo de oração: O nascimento espiritual dá ao cristão o direito
de ser filho de Deus (Jo 3) e, portanto, pode orar a Deus como quem conversa com seu pai amado (em aramaico: Abba, Mc
14.36; Rm 8.15, Gl 4.6). Devemos desejar e trabalhar pelo estabelecimento do Reino de Deus, em nossas vidas e comunidades,
ao receber pessoalmente o Espírito Santo, que traz salvação, paz, alegria, e a justiça de Cristo. Reino esse que será estabelecido
de forma plena no futuro iminente, quando Jesus voltar, e o último Inimigo for vencido definitivamente (2Ts 2.8; 1Co 15.23-28).
Assim a terra usufruirá a mesma glória de Deus que há nos céus (2Pe 3.13). O cristão reconhece que é o Senhor quem supre
diariamente todas as nossas necessidades, e é grato por isso. A fome, as guerras e outros sofrimentos sociais não ocorrem por
indiferença da parte de Deus, mas pelos pecados dos indivíduos (malignidade) e das nações. Devemos nos lembrar de perdoar
as pessoas que nos devem (bens materiais ou justiça) com a mesma misericórdia e generosidade com que Deus nos perdoa
sempre (1Jo 1.5-9). Observemos como Jesus ressalta a importância do perdão no Reino de Deus (6.14,15). O servo do Senhor é o
alvo favorito dos ataques e artimanhas do Diabo. Mas Deus tem o poder de nos livrar de todo o mal e levar-nos, para lugar seguro,
longe do alcance dos demônios. Não há amargura, decepção, fraqueza, vício, perda ou dor maiores do que o amor e o poder
de Deus (Tg 1.13; 1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22). A maioria das versões da Bíblia em português inclui a frase: “...e não
nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal...”. A KJ apresenta a expressão inglesa: “...and do not lead us into temptation...”
(...e não nos induzas à tentação...). Os melhores originais gregos nos permitem traduzir: “...e não nos conduzas à tentação...”. A
palavra grega peirasmos aqui significa “tentação”, podendo significar também: “teste ou provação” em outros trechos. Assim, a
tentação, que do ponto de vista do Diabo é sempre uma cilada para nos destruir, do ponto de vista de Deus é uma oportunidade
para fortalecimento da fé e crescimento espiritual (Lc 22.32). Deus controla o universo visível e invisível, incluindo o Maligno e seu
reino; por isso, é ao Senhor que devemos pedir livramento das tentações e forças para vencer as provações (1Co 10.13). Jesus
deixa bem claro em sua oração-modelo, que o cristão somente consegue a vitória, vigiando e orando. O próprio Jesus venceu
sua grande batalha contra Satanás, com jejum (4.2), e recomendou que seus discípulos também usassem essa arma ao lado das
orações, e do contínuo louvor a Deus, contra os desígnios do Inimigo (9.15; 17.21).
2
Jesus escolhe uma palavra aramaica Mâmon para personificar um dos mais poderosos deuses pagãos de todos os tempos:
o Dinheiro. O adjetivo Mâmon, deriva do verbo aramaico amân (sustentar) e significa amor às riquezas e dedicação avarenta aos
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 14
15 MATEUS 6, 7
Descanso na providência divina
25
Portanto, vos afrmo: não andeis preo-
cupados com a vossa própria vida, quanto
ao que haveis de comer ou beber; nem
pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de
vestir. Não é a vida mais do que o alimen-
to, e o corpo mais do que as roupas?
26
Contemplai as aves do céu: não se-
meiam, não colhem, nem armazenam
em celeiros; contudo, vosso Pai celestial
as sustenta. Não tendes vós muito mais
valor do que as aves?
27
Qual de vós, por mais que se preocupe,
pode acrescentar algum tempo à jornada
da sua vida?
3
28
E por que andais preocupados quanto ao
que vestir? Observai como crescem os lírios
do campo. Eles não trabalham nem tecem.
29
Eu, contudo, vos asseguro que nem
Salomão, em todo o esplendor de sua
glória, vestiu-se como um deles.
30
Então, se Deus veste assim a erva do
campo, que hoje existe e amanhã é lan-
çada ao fogo, quanto mais a vós outros,
homens de pequena fé?
31
Portanto, não vos preocupeis, dizendo:
Que iremos comer? Que iremos beber?
Ou ainda: Com que nos vestiremos?
32
Pois são os pagãos que tratam de obter
tudo isso; mas vosso Pai celestial sabe
que necessitais de todas essas coisas.
33
Buscai, assim, em primeiro lugar, o
Reino de Deus e a sua justiça, e todas
essas coisas vos serão acrescentadas.
34
Portanto, não vos preocupeis com o
dia de amanhã, pois o amanhã trará suas
próprias preocupações. É sufciente o
mal que cada dia traz em si mesmo.
Amar mais e julgar menos
7
Não julgueis, para que não sejais
julgados.
1
2
Pois com o critério com que julgardes,
sereis julgados; e com a medida que
usardes para medir a outros, igualmente
medirão a vós.
3
Por que reparas tu o cisco no olho de
teu irmão, mas não percebes a viga que
está no teu próprio olho?
4
E como podes dizer a teu irmão: Per-
mite-me remover o cisco do teu olho,
quando há uma viga no teu?
5
Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu
olho, e então poderás ver com clareza
para tirar o cisco do olho de teu irmão.
2
6
Não deis o que é sagrado aos cães, nem
interesses mundanos. Jesus orienta seus seguidores a investir suas vidas na conquista de bens espirituais agradáveis ao Senhor
e adverte para a impossibilidade de se servir com lealdade a Deus e ao mesmo tempo amar o deus Dinheiro. Isso não quer dizer
que Jesus seja contra os ricos e prósperos, mas, sim, que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (Gn 13.2; Ec 3.13; 5.10-
19; 10.19; 1Tm 6.10). O dinheiro é para ser usado e as pessoas, amadas. A inversão desses valores tem sido a razão de muitas
desgraças (Is 52.3; 55.1; Rm 4.4; 1Tm 5.18).
3
A palavra grega psyche (alma) significa: “vida”, pois nas Escrituras, “alma” tem um sentido de algo diferente do atual, derivado
da filosofia grega, especialmente a partir de Platão. Na Bíblia, a palavra “alma” vem da expressão hebraica nephesh que significa
“personalidade” e indica o centro das emoções e apetites. Por isso, em toda a Bíblia, o comer e o beber são considerados como
funções da alma. Algumas vezes pode também se referir à vida natural em contraste com a vida espiritual (Hb 4.12). Jesus usa uma
figura de linguagem para ensinar duas verdades: “Deus existe, e você não é Ele”. As preocupações tentam minimizar o poder de
Deus e colocar um peso insuportável sobre nossas costas. A versão de Almeida traduz a expressão grega helikia por “estatura”; po-
rém, melhores originais e estudos mais acurados, mostram que o termo se refere a tempo e idade. Em certo sentido, essa expressão
de Jesus poderia ser traduzida assim: “Ninguém ultrapassa, nem por meio metro, o ponto final da sua existência na terra”. Por isso,
Jesus recomenda um estudo (análise, consideração filosófica) sobre a maneira cuidadosa, generosa e particular com que Deus trata
cada um dos seres mais simples da terra, e os reveste de grande glória (1Rs 1-11; 1Cr 28; 2Cr 9; 1Rs 10.4-7). Concluindo: temos uma
visão distorcida da vida e de nossas prioridades. Somente a busca do Reino de Deus vai nos colocar em harmonia com o Criador, e,
assim, descobriremos a tão almejada paz, justiça e real felicidade (Jo 6.52-59; Jo 10.10, Rm 3.21-31 e 14.17-18).
Capítulo 7
1
Jesus mostra que é possível ajudar nosso semelhante com conselhos e críticas (v. 5 e 23.13-39), bem como devemos estar
sempre dispostos a aprender, avaliar e ensinar (Rm 2.1; 1Co 5.9; 2Co 11.14; Fp 3.2; 1Jo 4.1; 1Ts 5.21).Entretanto, como cristãos,
nosso dever é amar antes de julgar. Um coração repleto do amor de Deus não será acusador, mesquinho, invejoso, crítico con-
tumaz ou difamador. A marca do cristão deveria ser seu amor irrestrito e altruísta pelo próximo, em especial por seus irmãos em
Cristo (Jo 13.5; Jo 14.15; Rm 12.10; 1Pe 1.22).
2
Jesus usou muitas histórias (parábolas) e figuras de linguagem para ensinar. Em 19.24, por exemplo, Ele fala de um camelo
passando pelo fundo de uma agulha. Nesta outra hipérbole, Ele compara uma partícula de serragem ou pedaço de qualquer
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 15
16 MATEUS 7
jogueis aos porcos as vossas pérolas, para
que não as pisoteiem e, voltando-se, vos
façam em pedaços.
Perseverança na oração
7
Pedi, e vos será concedido; buscai, e
encontrareis; batei, e a porta será aberta
para vós.
8
Pois todo o que pede recebe; o que bus-
ca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá.
9
Ou qual dentre vós é o homem que,
se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma
pedra?
10
Ou se lhe pedir peixe, lhe entregará
uma cobra?
11
Assim, se vós, sendo maus, sabeis dar
bons presentes aos vossos flhos, quanto
mais vosso Pai que está nos céus dará o
que é bom aos que lhe pedirem!
3
12
Portanto, tudo quanto quereis que
as pessoas vos façam, assim fazei-o
vós também a elas, pois esta é a Lei e os
Profetas.
4
Os dois únicos caminhos
13
Entrai pela porta estreita, pois larga é
a porta e amplo o caminho que levam à
perdição, e muitos são os que entram por
esse caminho.
14
Porque estreita é a porta e difícil o ca-
minho que conduzem à vida, apenas uns
poucos encontram esse caminho!
5
Pelo fruto se conhece a árvore
15
Acautelai-vos quanto aos falsos profe-
tas. Eles se aproximam de vós disfarçados
de ovelhas, mas no seu íntimo são como
lobos devoradores.
16
Pelos seus frutos os conhecereis. É
possível alguém colher uvas de um espi-
nheiro ou fgos das ervas daninhas?
17
Assim sendo, toda árvore boa produz
bons frutos, mas a árvore ruim dá frutos
ruins.
18
A árvore boa não pode dar frutos ruins,
nem a árvore ruim produzir bons frutos.
19
Toda árvore que não produz bons fru-
tos é cortada e atirada ao fogo.
20
Portanto, pelos seus frutos os conhe-
cereis.
21
Nem todo aquele que diz a mim: ‘Se-
nhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus,
mas somente o que faz a vontade de meu
Pai, que está nos céus.
22
Muitos dirão a mim naquele dia:
‘Senhor, Senhor! Não temos nós profe-
tizado em teu nome? Em teu nome não
expulsamos demônios? E, em teu nome,
não realizamos muitos milagres?’
23
Então lhes declararei: Nunca os co-
nheci. Afastai-vos da minha presença,
vós que praticais o mal.
O sábio e o insensato
24
Assim, todo aquele que ouve estas
material com uma grande trave (viga) de madeira usada na estrutura de construções, para destacar a humildade, carinho e sen-
sibilidade que devemos ter para com nosso semelhante, quando tivermos de emitir um juízo, criticar ou aconselhar. Pois somos
sujeitos a erros, fraquezas e dificuldades iguais ou maiores que os de qualquer pessoa.
3
Jesus explica que o bem e o mal têm, às vezes, certa semelhança inicial, podendo enganar alguém ingênuo ou desinformado.
A pedra a que Jesus se refere era parecida com os pães orientais da época: redondos, achatados e endurecidos (por isso o pão
suportava longas viagens e era quebrado para ser servido). A cobra peçonhenta é semelhante às enguias comestíveis, apreciadas
pela culinária da época. O Senhor é Pai bondoso e fica feliz em dar os presentes (dádivas) que seus filhos lhe pedem, mas só Ele
sabe o que é realmente bom para cada um de nós.
4
Este versículo é conhecido em todos os continentes como “A Regra de Ouro”, a manifestação prática do amor cristão.
Orienta-nos Jesus aqui quanto ao procedimento diário: o amor, sem egoísmos, deve ser a força motriz das nossas ações (1Co
13.4-8), concedendo ao próximo o que buscamos para nosso próprio bem. Devemos chegar ao ponto máximo do amor e da fé
em Deus, que é retribuir com o bem a qualquer pessoa que, por algum motivo, nos ferir ou fizer qualquer mal. Foi assim que Deus
respondeu à rebelião e indiferença da humanidade, oferecendo-se em sacrifício, para nos salvar pela Graça (Ef 2.8-9). A “Lei e os
Profetas” é uma referência a toda a Escritura Sagrada, tanto em sua letra como em seu pleno conteúdo (Rm 13.8-10; Mt 5.17).
5
Jesus denomina o caminho para o céu de “porta estreita” ou “caminho difícil”, em algumas versões “caminho apertado”.
Não porque Deus tenha diminuído sua generosidade, graça e desejo de salvar a todos (2Pe 3.9), ao contrário, estamos vivendo
a “Época da Graça” onde todos – mais do que nunca – são bem-vindos ao Reino de Deus. Entretanto, poucos permanecerão
no Caminho, porque jamais foram dele realmente, e não suportam o negar-se a si mesmo, as renúncias do “Eu” nem os apelos
de uma sociedade cada vez mais hedonista e materialista. A idéia e a figura dos dois caminhos é muito anterior a Cristo, data de
400 a.C e foi difundida através do trabalho filosófico de Sócrates. O mesmo pensamento reaparece em duas grandes obras do
primeiro século depois de Cristo: Didaquê e Epístola de Barnabé.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 16
17 MATEUS 7, 8
minhas palavras e as pratica será compa-
rado a um homem sábio, que construiu a
sua casa sobre a rocha.
25
E caiu a chuva, vieram as enchentes,
sopraram os ventos e bateram com vio-
lência contra aquela casa, mas ela não
caiu, pois tinha seus alicerces na rocha.
26
Pois, todo aquele que ouve estas mi-
nhas palavras e não as pratica é como
um insensato que construiu a sua casa
sobre a areia.
27
E caiu a chuva, vieram as enchentes,
sopraram os ventos e bateram com vio-
lência contra aquela casa, e ela desabou.
E grande foi a sua ruína”.
28
Quando Jesus acabou de pronunciar
estas palavras, estavam as multidões atô-
nitas com o seu ensino.
29
Porque Ele as ensinava como quem
tem autoridade, e não como os mestres
da lei.
6
Jesus purifca o imundo
8
Quando Ele desceu do monte, gran-
des multidões o seguiram.
2
E eis que um leproso, tendo-se apro-
ximado, adorou-o de joelhos e clamou:
“Senhor, se é da tua vontade podes pu-
rifcar-me!”
3
Então, Jesus, estendendo a mão, to-
cou-lhe, dizendo: “Eu quero. Sê limpo!”
E no mesmo instante ele fcou purifca-
do da lepra.
4
Em seguida, disse-lhe Jesus: “Veja que
não digas isto a ninguém, mas segue,
mostra teu corpo ao sacerdote, e faze a
oferta que Moisés ordenou, para que sirva
de testemunho.”
1

Um comandante romano crente
5
Entrando Jesus em Cafarnaum, dirigiu-
se a ele um centurião, suplicando:
2
6
“Senhor, meu servo está em casa, para-
lítico e sofrendo horrível tormento”.
7
Então, Jesus lhe disse: “Eu irei curá-lo”.
8
Ao que respondeu o centurião: “Se-
nhor, não sou digno de receber-te sob o
meu teto. Mas dize apenas uma palavra,
e o meu servo será curado.
9
Porque eu também sou homem de-
baixo de autoridade e tenho soldados às
minhas ordens. Digo a um: Vai, e ele vai;
e a outro: Vem, e ele vem. Ordeno a meu
servo: Faze isto, e ele o faz”.
10
Ao ouvir isto, Jesus maravilhou-se, e
disse aos que o seguiam: “Com toda a cer-
teza vos afrmo que nem mesmo em Israel
encontrei alguém com tão grande fé.
11
Digo-vos que muitos virão do Oriente e
do Ocidente e tomarão lugares à mesa com
Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus.
12
Entretanto, os herdeiros do Reino se-
rão lançados para fora, nas trevas, onde
haverá choro e ranger de dentes”.
3
13
Então disse Jesus ao centurião: “Vai-te,
e da maneira como creste, assim te su-
6
Os doutores da lei (em grego grammateis, nomikoi) e os mestres da lei (em grego nomodidaskaloi) eram técnicos no estudo
da lei de Moisés (Torah). Em princípio era uma função reservada aos sacerdotes. Esdras, um homem de Deus, acumulou as fun-
ções de sacerdote e escriba (em hebraico sôpherïm). Veja Ne 8.9. Com o passar do tempo, os escribas se tornaram extremamente
formais e espiritualmente estéreis. Além disso, muitos se envolveram com o partido político dos fariseus e deixaram de ser impar-
ciais em relação ao ensino da lei. Jesus, entretanto, ensinava com “exousia”, em grego, “poder sobrenatural” que a todos deixava
maravilhados, pasmos, atônitos (1Co 2.4-5). Isso despertou a inveja e o ódio de muitos “líderes religiosos” contra Jesus Cristo.
Capítulo 8
1
A lei de Moisés (Lv 13,14) ordenava que em casos de doenças de pele, especialmente a lepra, somente um sacerdote ou seu
filho poderia realizar a cerimônia de purificação. O conceito de quarentena (para isolamento e tratamento de doenças infecciosas)
teve início naquela época. Para os judeus, a çãra’ath, palavra hebraica para um dos tipos de hanseníase, simbolizava o pecado,
por ser nojento, contagioso e incurável. Além disso, o sacerdote que tocava no leproso tornava-se cerimonialmente imundo. Je-
sus ao curar um homem da mais terrível doença de sua época, revela ao mundo parte de sua natureza e ministério. As instruções
mosaicas para o cerimonial de purificação dos imundos tipificam a nossa redenção em Cristo (Lv 14.2-32).
2
A centúria era uma divisão do exército romano, formada por cem homens e comandada por um centurião. Cornélio, um outro
centurião gentio, convertido, foi notável exemplo de cristão (At 10).
3
A tradição rabínica considerava o judaísmo como uma garantia herdada e absoluta de entrada no Reino de Deus, e por isso
também se dizia: “filhos do reino” (Is 41.8). Embora, os judeus sejam de fato o povo escolhido, Jesus está comemorando a entrada
dos gentios (todos os que não são judeus) no Reino do Pai, como verdadeiros filhos (Sl 107.3; Is 49.12; 59.19; Ml 1.11). Jesus
demonstra seu lado humano ao ficar admirado (surpreso) com a fé e a compreensão que aquele homem, não-judeu, demonstrou
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 17
18 MATEUS 8
cederá!” E naquela mesma hora o servo
foi curado.
Jesus salva, cura e liberta
14
Tendo Jesus chegado à casa de Pedro,
viu a sogra deste acamada, enferma e
com febre.
15
Então, Jesus tocou a mão dela e a febre
a deixou. Em seguida, levantou-se ela e
passou a servi-lo.
16
No início da noite, trouxeram-lhe mui-
tos endemoninhados; e Ele, com apenas
uma palavra, expulsou os espíritos e
curou todos os que estavam doentes.
17
Assim se cumpriu o que fora dito por
intermédio do profeta Isaías: “Ele tomou
sobre si as nossas enfermidades e pesso-
almente levou as nossas doenças”.
4
A prioridade do discipulado
18
Quando Jesus viu que uma multidão o
rodeava, ordenou que atravessassem para
o outro lado do mar.
19
Então, aproximando-se dele um escri-
ba, disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para
onde quer que fores”.
20
Jesus lhe respondeu: “As raposas têm
suas tocas e as aves do céu têm seus ni-
nhos, mas o Filho do homem não tem
onde repousar a cabeça”.
21
Outro de seus discípulos lhe disse: “Se-
nhor, permite-me ir primeiro sepultar
meu pai”.
22
Ao que Jesus lhe respondeu: “Segue-
me e deixa que os mortos sepultem os
seus próprios mortos”.
Jesus domina as circunstâncias
23
Entrando Jesus no barco, seus discípu-
los o seguiram.
24
De repente, sobreveio no mar uma
violenta tempestade, de tal maneira que
as ondas encobriam o barco. Ele, contu-
do, dormia.
25
Então, seus discípulos vieram des-
pertá-lo, clamando: “Senhor, salva-nos!
Vamos todos perecer!”
26
Mas Jesus disse a eles: “Por que estais
com tanto medo, homens de pequena fé?
E, levantando-se, repreendeu os ventos e
o mar, e houve plena calmaria.
27
Então, os homens maravilhados, excla-
maram: “Quem é este que até os ventos e
o mar lhe obedecem?”.
ter acerca do seu poder e autoridade divina. Aproveita o evento para proclamar a salvação para todos os povos e raças (22.1-14;
Lc 14.15-24), ao mesmo tempo em que adverte duramente aos judeus quanto ao fato de que a herança da vida eterna e do Reino
está em crer em Deus e na aceitação de Seu Filho que veio ao mundo para salvar todos os seus. De agora em diante a humanidade
não seria mais dividida entre judeus e gentios (os próximos e os distantes de Deus); mas, sim, entre crentes e descrentes. O padrão
de reconhecimento da herança não repousa mais sobre a nacionalidade ou linhagem judaica, mas numa fé sincera e absoluta no
Senhor (Sl 147.13,20; Mt 4.17; 9.28; Mc 4.40; 11.22; Lc 5.20; Jo 5.37-47; 8.45; At 14.16). Por isso acontecerá que do oriente e do
ocidente (de todo o mundo) virão gentios para o Reino (Is 49.12) e terão o direito de se assentar ao lado dos grandes pais da fé, pois
aceitaram a Graça da Salvação (Ef 2.8). Jesus conclui duramente, que muitos judeus, “herdeiros do Reino” (sacerdotes ou filhos do
reino) tornaram-se “filhos da desobediência” (piores dos que os pagãos e gentios), razão pela qual serão expulsos para o “reino dos
mortos” (sheol, em hebraico e hades, em grego), onde haverá tanto remorso e tristeza que se ouvirá o som do bater dos queixos
das pessoas aterrorizadas. Nesse estado intermediário entre a morte e a ressurreição (sheol ou hades), os salvos gozarão de paz e
descanso, enquanto os incrédulos estarão na escuridão (um lugar chamado: inferno) e sob tormentos. Na ressurreição, os salvos
habitarão plenamente o Reino, e os incrédulos (judeus ou não) sofrerão a segunda morte e serão banidos para o lugar de punição e
fogo eterno ou lago de fogo (em grego ten geennan tou pyros). Onde até mesmo o inferno será lançado (Ap 20).
4
Ao contrário do que alguns céticos e críticos afirmam, Jesus não andava com o AT nas mãos procurando cumprir profecias.
Mas, a cada instante, um evento admirável ocorria e seus discípulos, e todos os que conheciam a Lei e os Profetas testemunhavam,
na pessoa de Jesus o cumprimento de várias profecias messiânicas do AT. Tudo isso diante dos olhos atônitos de todos. Algumas
dessas profecias haviam sido escritas há mais de 1.000 anos antes que Jesus começasse a andar pelas terras da Palestina pregando
a Nova Aliança, como é o caso do Salmo 22 e outros (Sl 2,8,16,40,41,45,68,69,89,102,109,110 e 118). A profecia de Isaías 53.4 (cerca
de 750 a.C segundo os melhores estudos sobre os Papiros do Mar Morto) nos revela que Jesus, o Messias (Palavra hebraica que sig-
nifica: Rei Ungido, e que foi traduzida para o grego como: Cristo), refere-se ao ministério de cura e libertação de Jesus, cuja obra lhe
custou caro fisicamente (Mc 5.30, Lc 8.46). Os cristãos, hoje em dia, podem ter uma idéia desse desgaste físico e emocional quando
participam ativamente de qualquer dos ministérios da Igreja: exposição da Palavra, evangelização, louvor, adoração, missões, cura,
libertação, aconselhamento, administração, contribuição, ação social e outros, pois a verdadeira obra cristã requer do Espírito Santo
(que é o próprio Jesus habitando na vida de cada indivíduo que crê) o mesmo poder demandado da pessoa de Jesus Cristo.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 18
19 MATEUS 8, 9
Jesus domina as forças do mal
28
Quando Ele chegou ao outro lado, à
província dos gadarenos, foram ao seu
encontro dois endemoninhados, saindo
dentre os sepulcros. Eram tão agressivos
que ninguém podia passar por aquele
caminho.
29
E, de repente gritaram: “Que temos
nós contigo, ó Filho de Deus? Vieste aqui
para nos atormentar antes do devido
tempo?”
30
Não muito longe deles estava pastando
uma grande manada de porcos.
31
Então, os demônios imploravam a Ele:
“Se nos expulsas, permite-nos entrar
naquela manada de porcos!”
32
E Jesus lhes disse: “Ide!” Assim que
saíram entraram nos porcos. De repen-
te, toda a manada correu em disparada
e atirou-se violentamente precipício
abaixo, em direção ao mar, e nas águas
pereceram.
33
Aqueles que cuidavam dos porcos fu-
giram, foram para a cidade e contaram
tudo, inclusive o que ocorrera com os
endemoninhados.
34
Então toda a cidade saiu ao encontro
de Jesus; e assim que o viram, suplica-
ram-lhe que se retirasse da sua região.
Jesus perdoa e cura
9
E, entrando Jesus num barco, atraves-
sou o mar e foi para a sua cidade.
2
E eis que lhe trouxeram um paralítico
deitado em sua maca. Observando-lhes
a fé, disse Jesus ao paralítico: “Tem bom
ânimo, flho; os teus pecados estão per-
doados”.
3
Diante disso, alguns escribas diziam
consigo mesmos: “Este homem blasfe-
ma!”
4
Mas Jesus, conhecendo-lhes os pensa-
mentos, questiona: “Por que cogitai o
mal em vossos corações?”
5
Pois o que é mais fácil dizer: ‘Os teus
pecados estão perdoados
1
’, ou: ‘Levanta-
te e anda?’
6
Entretanto, para que saibais que o Filho
do homem
1
tem na terra autoridade para
perdoar pecados – disse então ao paralí-
tico: “Levanta-te, toma a tua maca, e vai
para tua casa”.
7
Levantando-se, o homem partiu para
sua casa.
8
Ao ver isso, a multidão se encheu de
temor e glorifcava a Deus, pois dera aos
homens tamanha autoridade.
Jesus veio para os necessitados
9
Saindo, viu Jesus um homem chamado
Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe:
“Segue-me!” Ele se levantou e o seguiu.
10
E aconteceu que, estando Jesus em
casa, à mesa, muitos publicanos e peca-
dores vieram para cear com Ele e seus
discípulos.
2
11
Quando os fariseus viram isso, per-
guntaram aos discípulos dele: “Por que
1
Freqüentemente Jesus refere-se a si mesmo como Filho do Homem (Mc 8.38; 13.26, 14.62; Lc 17.24; 21.27). Ele usou essa
expressão do AT para descrever seu caráter e missão em termos da visão de Daniel (Dn 7.13). O Filho do Homem se humilhou
como verdadeiro ser humano, sendo ao mesmo tempo, o Eterno Vitorioso (Mt 24.30). Além disso, Jesus revestiu essa expressão
com a necessidade e o profundo significado dos seus sofrimentos, morte e ressurreição expiatória (Mc 8.31; 9.31; 10.33; 14.21-
41; Lc 18.31-33; 19.10; Mt 20.18-28; 26.45; Lc 21.25-28; 22.29-30; Mc 13.26-27; 14.24-25,62; Jo 13.31-32).
2
Cafarnaum foi a cidade onde Jesus permaneceu mais vezes e por mais tempo, por isso era chamada de a “cidade de Jesus”
(Mt 4.12,13; 9.9; Mc 2.1; Lc 4.13, 23, 31, 38). Mas, apesar de Cafarnaum ter sido um grande centro comercial, presenciado mais
sinais e recebido mais da presença e da Palavra de Cristo do que qualquer outra localidade, Jesus encontrou ali apenas uns
poucos seguidores. Por isso o Senhor exclama seu “ai” sobre a cidade (Mt 11.23). Hoje Cafarnaum é um campo de entulhos,
chamado Tel Hum. Mateus era um cobrador de impostos a serviço de Roma. Os judeus se referiam a eles como “publicanos
e pecadores”, pois os consideravam “amaldiçoados” como os gentios (Jo 7.49). Jesus viu, porém, em Mateus, um discípulo e
o autor deste Evangelho o chamou, em aramaico akolutheo (Segue-me!), que é uma expressão que significa: “ir atrás de”. Na
época, essa expressão era um convite de honra. O aluno do profeta, em sinal de respeito, passaria a caminhar atrás do seu mestre
(rabino) e, por dois anos, aprenderia as leis do judaísmo. Mateus (Matias, em hebraico), deixa tudo e começa uma nova vida com
Cristo (Lc 5.28). Oferece uma ceia, em sua casa (Lc 5.27), para Jesus, os discípulos e seus muitos amigos pecadores. No Oriente
e naquela época, convidar alguém para cear em casa era uma grande demonstração de amizade e intimidade e por isso recebia
o nome de: “comunhão de mesa”. Isso foi o suficiente para provocar a ira de um grupo de fariseus (hassïdïns – leais a Deus - em
hebraico; eram os sacerdotes e doutores da Lei, temidos por seu rigor e poder político).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 19
20 MATEUS 9
ceia o vosso mestre com publicanos e
pecadores?”
12
Mas Jesus, ouvindo, responde: “Os
sãos não necessitam de médico, mas sim,
os doentes.
13
Portanto, ide aprender o que signifca
isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifí-
cios’. Pois não vim resgatar justos e sim
pecadores’”.
3
O novo e defnitivo vinho
14
Então, chegaram os discípulos de João
e lhe perguntaram: “Por que jejuamos
nós, e os fariseus, muitas vezes, e os teus
discípulos não jejuam?”
15
Respondeu-lhes Jesus: “É possível que
os amigos do noivo fquem de luto en-
quanto o noivo ainda está com eles? Dias
virão, quando o noivo lhes será tirado;
então jejuarão.
16
Ninguém coloca remendo novo em
roupa velha; porque o remendo força o
tecido da roupa e o rasgo aumenta.
17
Nem se põe vinho novo em odres
velhos; se o fzer, os odres rebentarão, o
vinho derramará e os odres se estragarão.
Mas, põe-se vinho novo em odres novos,
e assim ambos fcam conservados”.
4
Jesus tem poder sobre a morte
18
Enquanto, Ele estava falando, um dos
dirigentes da sinagoga aproximou-se e,
ajoelhando-se diante dele, rogou: “Mi-
nha flha acaba de morrer; mas vem,
impõe a tua mão sobre ela, e viverá”.
19
Jesus então levantou-se e seguiu com
ele, e seus discípulos os acompanharam.
20
De repente, uma mulher que há doze
anos vinha sofrendo de hemorragia, al-
cançou-o por trás e tocou na borda do
seu manto.
21
Pois dizia essa mulher consigo mesma:
“Se eu conseguir apenas lhe tocar as ves-
tes, serei curada”.
22
Então Jesus voltou-se e assim que viu
a mulher lhe disse: “Anime-se grande-
mente, flha, a tua fé te salvou!” E, desde
aquele momento, a mulher fcou sã.
5
23
Quando Jesus chegou à casa do diri-
gente da sinagoga e viu os fautistas fúne-
bres e a multidão em alvoroço, ordenou:
24
“Retirai-vos daqui! Esta menina não
está morta, mas adormecida”. E todos
zombavam dele.
25
Assim que a multidão foi retirada,
Jesus entrou, tomou a menina pela mão
e ela se levantou.
3
O maior e mais agradável sacrifício (holocausto) para Deus é o nosso amor sincero, sem restrições e em plena fé. A
enfermidade da qual todos padecemos, inclusive muitos religiosos e líderes cristãos, é a distância do mais verdadeiro e puro
amor (em grego: agape) ao Senhor (1Jo 4.16) e aos nossos semelhantes. Jesus pede que os doutores em teologia, filosofia,
direito e ética da época, voltem às Escrituras, leiam atentamente Oséias 6.6, especialmente na edição grega do AT, a Septuaginta
(cerca de 260 a.C.), e entendam que Ele não estava pactuando com o pecado, mas salvando todos aqueles que reconhecerem
nele o Messias, o Filho de Deus.
4
Segundo a lei mosaica, apenas o jejum do Dia da Expiação era obrigatório (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7). Após o exílio na
Babilônia, outros quatro jejuns deveriam ser feitos durante o ano (Zc 7.5; 8.19). Na época de Jesus, os fariseus jejuavam duas
vezes por semana (Lc 18.12). Os casamentos judaicos eram grandes celebrações familiares, cujas festas chegavam a durar
uma semana e, nessas ocasiões, os convidados eram dispensados da obrigação do jejum, uma vez que esse ato era sempre
associado à tristeza. Jesus então faz uma analogia entre as festividades das bodas e seu relacionamento com seus discípulos (os
amigos do noivo), dispensando-os do jejum enquanto o noivo (Ele) estiver presente. Jesus jejuava em particular, mas rejeitava a
observação da Lei de forma legalista e para autoglorificação (Is 58.3-11). O jejum seria praticado por seus discípulos, após sua
ascensão, voluntariamente e para edificação pessoal (Mt 4.2; 6.16-18). Jesus veio estabelecer uma nova ordem para o relaciona-
mento das pessoas com Deus. A lei deve ceder lugar à graça (o novo vinho, a nova aliança). Os odres eram bolsas feitas de pele
de cabra, onde se conservava o vinho (Gn 27.28; Êx 29.40; Lv 10.9; Sl 104.15; Ec 10.19; 1Tm 5.23; 1Tm 3.8; Tt 2.3; Rm 13.13;
Rm 14.21). À medida que o suco de uvas frescas fermentava, o vinho se expandia. Os odres novos tinham maior resistência e
flexibilidade, e se esticavam. Mas os odres usados e envelhecidos não suportavam a pressão e estouravam, colocando o vinho a
perder. Jesus usa essa metáfora para revelar que seu novo, puro e poderoso ensino não pode ser recebido pelas antigas formas
do judaísmo, nem pelo legalismo religioso.
5
Jesus se agrada da nossa fé e está sempre pronto para nos socorrer em qualquer necessidade. Basta que o procuremos
com sinceridade. O verbo grego sõzein significa “salvar e curar”. A mulher pensou em salvar-se, livrar-se de uma doença horrível
e antiga. Mas Jesus deu-lhe a cura integral, da alma e do corpo, quando a abençoou com a tradicional bênção dos rabinos da
época: “a tua fé te salvou”. Jesus demonstrou que essa não era apenas uma frase religiosa, mas a indicação de que o Reino de
Deus havia chegado para todos aqueles que nele cressem, pois que as palavras de Jesus são acompanhadas de poder.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 20
21 MATEUS 9, 10
26
Então a notícia desse acontecimento
espalhou-se por toda aquela região.
Os cegos passam a ver
27
Partindo Jesus dali, dois homens
cegos o seguiram, clamando: “Filho de
Davi, tem misericórdia de nós!”
28
Entrando Ele em casa, aproximaram-
se os cegos, e Jesus lhes perguntou: “Cre-
des que Eu seja capaz de fazer isto?” E,
responderam-lhe: “Sim, Senhor!”
29
Então, lhes tocou os olhos, dizendo:
“Seja-vos feito conforme a vossa fé”.
30
E os olhos deles foram abertos. Jesus
os advertiu, então, severamente: “Cuidai
para que ninguém saiba disto”.
31
Contudo, ao partirem, propagaram os
feitos de Jesus por toda aquela região.
Os endemoninhados são libertos
32
Após terem se retirado, algumas pes-
soas trouxeram a Jesus um homem, mu-
do e possuído por um demônio.
33
Assim que o demônio foi expulso,
o mudo passou a falar; e as multidões
admiradas exclamavam: “Jamais se
viu algo assim em Israel!”.
34
Por outro lado, os fariseus maldiziam:
“Ele expulsa os demônios pelo príncipe
dos demônios”.
Todos os enfermos são curados
35
E Jesus ia passando por todas as cidades
e povoados, ensinando nas sinagogas, pre-
gando as boas novas do Reino e curando
todas as enfermidades e doenças.
Jesus pede mais discípulos
36
Ao ver as multidões, Jesus sentiu gran-
de compaixão pelas pessoas, pois que
estavam afitas e desamparadas como
ovelhas que não têm pastor.
37
Então, falou aos seus discípulos: “De
fato a colheita é abundante, mas os tra-
balhadores são poucos.
38
Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi
que Ele mande mais trabalhadores para a
sua colheita”.
Jesus envia seus apóstolos
10
Jesus, tendo chamado seus doze
discípulos, deu-lhes poder para
expulsar espíritos imundos e curar todas
as doenças e males.
2
E são estes os nomes dos doze apósto-
los: primeiro, Simão, chamado Pedro, e
André, seu irmão; Tiago, flho de Zebe-
deu, e João, seu irmão;
3
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus,
o publicano; Tiago, flho de Alfeu, e
Tadeu;
4
Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, o
mesmo que traiu a Jesus.
5
Assim, a esses doze homens, enviou Jesus
com as seguintes recomendações: “Não
vos encaminheis aos gentios, nem entreis
em cidade alguma dos samaritanos.
6
Antes, porém, buscai as ovelhas perdi-
das da casa de Israel.
7
E, à medida que seguirdes, pregai esta
mensagem: O Reino dos Céus está a
vosso alcance!
8
Curai enfermos, purifcai leprosos, res-
suscitai mortos, expulsai demônios. Gra-
ciosamente recebestes, graciosamente dai.
9
Não vos provereis de ouro, nem prata
ou cobre em vossos cinturões.
10
Não leveis sacolas de viagem, nem
uma túnica a mais, segundo par de
sandálias ou um cajado; pois digno é o
trabalhador do seu sustento.
11
Em qualquer cidade ou povoado em
que entrardes, procurai alguém digno
de vos receber; fcai nesta casa até vos
retirardes.
12
E, quando entrardes na casa, saudai-a.
13
Se a casa for digna, que a vossa paz
repouse sobre ela; se, todavia, não for
digna, que a paz retorne para vós.
14
Porém, se alguém não vos receber, nem
der ouvidos às vossas palavras, assim que
sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a
poeira dos vossos pés.
15
Com toda a certeza vos afrmo que
haverá mais tolerância para Sodoma e
Gomorra, no dia do juízo, do que para
aquelas pessoas.
16
Observai! Eu vos envio como ovelhas
entre os lobos. Sede, portanto, astutos
como as serpentes e inofensivos como
as pombas.
17
E, acautelai-vos dos homens; pois que
vos entregarão aos tribunais e vos açoita-
rão nas suas sinagogas.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 21
22 MATEUS 10
18
Sereis levados à presença de governa-
dores e reis por minha causa, para teste-
munhardes a eles e aos gentios.
19
Todavia, quando vos prenderem, não
vos preocupeis em como, ou o que deveis
falar, pois que, naquela hora, vos será mi-
nistrado o que haveis de dizer.
20
Isso porque, não sois vós que estareis
falando, mas o Espírito de vosso Pai é
quem se expressará através de vós.
21
Um irmão entregará à morte seu irmão,
e o pai ao flho, e os flhos se rebelarão
contra seus pais e lhes causarão a morte.
22
E, por causa do meu Nome, sereis
odiados de todos. Contudo, aquele que
permanecer frme até o fm será salvo.
23
Quando, porém, vos perseguirem num
lugar, fugi para outro; pois com toda a
certeza vos asseguro que não tereis pas-
sado por todas as cidades de Israel antes
que venha o Filho do homem.
24
O pupilo não está acima do seu men-
tor, nem o escravo acima do seu amo.
25
Basta ao discípulo ser como seu mestre,
e ao servo ser como seu senhor. Se chama-
ram de Belzebu ao cabeça da Casa, quanto
mais aos membros da sua família!
26
Entretanto, não os temais! Nada há
escondido que não venha a ser revelado,
nem oculto que não venha a se tornar
conhecido.
A entrega do temor a Deus
27
O que vos digo na escuridão, dizei-o à
luz do dia; e o que se vos diz ao ouvido,
proclamai-o do alto dos telhados.
28
E, não temais os que matam o corpo,
mas não têm poder para matar a alma.
Temei antes, aquele que pode destruir no
inferno tanto a alma como o corpo.
29
Não se vendem dois pardais por uma
moedinha de cobre? Mesmo assim,
nenhum deles cairá sobre a terra sem a
permissão de vosso Pai.
30
E quanto aos muitos cabelos da vossa
cabeça? Estão todos contados.
31
Por isso, não temais! Bem mais valeis
vós do que muitos passarinhos.
32
Assim sendo, todo aquele que me decla-
rar diante das pessoas, também eu o decla-
rarei diante de meu Pai que está nos céus.
33
Entretanto, qualquer que me negar
diante das pessoas, também Eu o negarei
diante de meu Pai que está nos céus.
34
Não penseis que vim trazer paz à terra;
não vim trazer paz, mas espada.
35
Pois Eu vim para ser motivo de discór-
dia entre o homem e seu pai; entre a f-
lha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.


36
Assim os inimigos do homem serão os
da sua própria família.
1
37
Quem ama seu pai ou sua mãe mais do
que a mim não é digno de mim; e quem
ama o flho ou a flha mais do que a mim
não é digno de mim.
38
E aquele que não toma a sua cruz e não
me segue, também não é digno de mim.
39
Quem encontra a sua vida a perderá.
1
Jesus não veio trazer a paz no sentido de uma religiosidade cômoda e inconseqüente. O verdadeiro cristianismo é uma mudança
radical de vida com implicações conflituosas, inadequações e até perseguições cruéis. Algumas vezes na própria família (Mq 7.6)
e, com certeza, neste mundo secularizado, materialista e agnóstico. A paz do cristão está em sua plena comunhão com Deus (Jo
14.27) e a terra só verá paz completa na volta do Rei Jesus (Is 2.4). Uma das ofensas que mais feriram o coração de Cristo foi ouvir
dos teólogos da época (seu povo e família) que realizava milagres e sinais no poder de Belzebu (9.34; 12.24-29; Mc 3.22; Lc 11.15-
19; Jo 8.52). Chamar o Filho de Deus – o cabeça da raça humana – de Diabo, foi uma das maiores blasfêmias já ditas na história do
mundo. Belzebu é a forma grega da expressão hebraica Baal-Zebub que se refere a Satanás, o “príncipe dos demônios” e significa:
“senhor das moscas” (2Rs 1.2). Por isso, é preciso muito cuidado ao julgar e expressar publicamente opiniões dessa natureza con-
tra qualquer pessoa ou movimento cristão. Em 10.38, pela primeira vez em Mateus, aparece a palavra “cruz”. Os cristãos não devem
buscar o sofrimento, nem se desesperar diante dele, mas ter a atitude de Jesus: enfrentar as circunstâncias com fé, humildade e
coragem. O império romano obrigava seus condenados à morte a caminhar com a trave de suas cruzes nas costas até o local da
execução. Os discípulos já haviam visto milhares de judeus serem crucificados, por isso essa ilustração (metáfora) de Jesus foi tão
significativa. O crente, salvo por Cristo, deve carregar consigo a mesma cruz: renunciar a si mesmo, para servir com total dedicação
ao Senhor Jesus, como mortos para as demandas do sistema mundial e do nosso “eu” (Gl 2.20). Por isso, quem busca frenetica-
mente se dar bem nesta vida, acabará perdendo as bênçãos inerentes à condição dos salvos, agora e eternamente (2Co 5.17). Em
10.42, Jesus conclui esse trecho bíblico fazendo menção notável de recompensa a todos aqueles que ajudam e cooperam com os
servos do Senhor no estabelecimento da nova ordem: o Reino de Deus (1Co 15.58; Gl 6.9; Mt 25.35-36).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 22
23 MATEUS 10, 11
Mas quem perde a vida por minha causa
a achará.
40
Quem vos recebe, a mim mesmo rece-
be; e quem recebe a minha pessoa, recebe
aquele que me enviou.
41
Quem recebe um profeta por reconhe-
cê-lo como profeta, receberá a recom-
pensa de profeta; e quem recebe um justo
por suas qualidades de justiça, receberá a
recompensa de justo.
42
E quem der, mesmo que seja apenas
um copo de água fria a um destes peque-
ninos, por ser este meu discípulo, com
toda a certeza vos afrmo que de modo
algum perderá a sua recompensa”.
João. O arauto de Jesus
11
Havendo, pois, terminado de ins-
truir seus doze discípulos, partiu
Jesus dali para ensinar e pregar nas cida-
des da Galiléia.
2
Assim que, no cárcere, João ouviu falar
sobre o que Cristo estava realizando,
enviou dois dos seus discípulos para lhe
perguntarem:
3
“És tu Aquele que haveria de vir ou
devemos aguardar outro?”
4
Jesus, respondendo, disse-lhes: “Ide e con-
tai a João o que estais ouvindo e vendo:
5
Os cegos enxergam, os mancos cami-
nham, os leprosos são purifcados, os
surdos ouvem, os mortos são ressuscita-
dos, e as Boas Novas estão sendo prega-
das aos pobres.
6
E, abençoado é aquele que não se es-
candaliza por minha causa”.
7
Enquanto saíam os discípulos de João,
começou Jesus a falar às multidões a res-
peito de João: O que fostes ver no deser-
to? Um caniço agitado pelo vento?
8
E então? O que fostes ver no deserto?
Um homem vestido com roupas fnas?
De fato, os que usam roupas fnas estão
nos palácios reais.
9
Mas, afnal, o que fostes ver? Um pro-
feta? Sim, Eu vos afrmo. E mais do que
um profeta!
10
Este é aquele a respeito de quem está
escrito: “Eis que Eu enviarei o meu men-
sageiro à frente da tua face, o qual prepa-
rará o teu caminho diante de Ti”.
1
11
Com toda a certeza vos afrmo: Entre
os nascidos de mulher não se levantou
ninguém maior do que João, o Batista;
entretanto, o menor no Reino dos céus é
maior do que ele.
12
Desde os dias de João Batista até agora,
o Reino dos céus é tomado à força, e os
que usam de violência se apoderam dele.
13
Porque todos os Profetas e a Lei profe-
tizaram até João.
14
E, se desejarem aceitar, este é o Elias
que havia de vir.
15
Aquele que tem ouvidos para ouvir, que
ouça!
16
Mas, a quem hei de comparar esta ge-
ração? São como crianças que, sentadas
nas praças do mercado, fcam gritando
uma às outras:
17
‘Nós vos tocamos músicas de casa-
mento, mas vós não dançastes; entoamos
lamentos fúnebres e não pranteastes!’
18
Assim, veio João, que jejua e não bebe
vinho, e dizem: ‘Este tem demônio’.
1
João Batista foi o último dos profetas do AT e o precursor de Cristo. O mensageiro do Rei (arauto) que veio anunciar a che-
gada do Filho de Deus à terra (Ml 3.1; 4.5-6). João estava preso em Maqueros, uma fortaleza inóspita, nas proximidades do mar
Morto (14.3-12; Lc 7.18-35) e desejava confirmar se Jesus era mesmo o Messias profetizado no AT. Jesus manda sua resposta
de maneira inequívoca, assim João poderia descansar e se alegrar no Senhor, pois sua missão estava cumprida: “os cegos
enxergam” e os demais milagres profetizados por Isaías (730 a.C.) sobre as obras que o Messias realizaria quando chegasse (Is
35.5; 61.1). Quem saiu para ver algo tão comum e simples como um pé de cana balançando ao vento, viu e ouviu o maior dos
profetas do AT, parente e amigo amado do Senhor (Lc 1.36; Jo 3.29). Entretanto, aqueles que têm o privilégio de ouvir o Filho de
Deus foram contemplados com bênção ainda maior que João (Ef 5.25-32). Jesus ainda registra o comportamento infantil dos
seres humanos em relação à vinda dos profetas de Deus - são como crianças: se ouvem uma música alegre, tocada com flautas,
nos casamentos (da época), não ficam contentes. Se ouvem uma melodia mais triste, como as executadas nos enterros, não se
emocionam. Ou seja, para muitos, infelizmente, não há como comunicar o Evangelho de modo a que este seja bem compreendi-
do. Por isso, muito felizes (bem-aventurados) são os que ouvem e aceitam a Palavra de Deus. A KJ de 1611 traz a expressão: “a
sabedoria é justificada por seus filhos” e significa que os frutos (obras) do ensino de João e Jesus são visíveis, palpáveis, práticos
e têm a ver com uma nova e abençoada maneira de viver.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 23
24 MATEUS 11, 12
19
Então chega o Filho do homem, comen-
do e bebendo, e dizem: ‘Eis aí um glutão e
bebedor de vinho, amigo de publicanos e
pecadores!’ Todavia, a sabedoria é compro-
vada pelas obras que são seus frutos”.
Ai dos povos incrédulos
20
Então, começou Jesus a admoestar se-
veramente as cidades nas quais realizara
numerosos feitos prodigiosos, porque
não se arrependeram:
21
“Ai de ti Corazim! Ai de ti Betsaida!
Porque se os milagres que entre vós
foram realizados tivessem sido feitos em
Tiro e Sidom, há muito que elas se teriam
arrependido, vestindo roupas de saco e
cobrindo-se de cinzas.
22
Entretanto, Eu vos afrmo que no dia
do juízo haverá menos rigor para Tiro e
Sidom, do que para vós outros.
23
E tu, Cafarnaum, te arrogas subir até os
céus? Pois serás lançada no inferno. Por-
que se as maravilhas que foram realizadas
em ti houvessem sido feitas em Sodoma,
teria ela permanecido até o dia de hoje.
24
Eu, contudo, vos afrmo que haverá
mais tolerância para com o povo de So-
doma no dia do julgamento, do que para
contigo”.
Vinde a Cristo, os cansados
25
Naquela ocasião, em resposta, Jesus
proclamou: “Graças te dou, ó Pai, Senhor
dos céus e da terra, pois escondeste estas
coisas dos sábios e cultos, e as revelaste
aos pequeninos.
26
Amém, ó Pai, pois assim foi do teu
agrado!
27
Todas as coisas me foram entregues
por meu Pai. Ninguém conhece o Filho
senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a
não ser o Filho, e aquele a quem o Filho
o desejar revelar.
28
Vinde a mim todos os que estais cansa-
dos de carregar suas pesadas cargas, e Eu
vos darei descanso.
29
Tomai vosso lugar em minha canga
e aprendei de mim, porque sou amável
e humilde de coração, e assim achareis
descanso para as vossas almas.
30
Pois meu jugo é bom e minha carga
é leve”.
2

O Senhor do sábado
12
Naquela época, Jesus passou pe-
las lavouras de cereal, em dia de
sábado. Seus discípulos estavam com
fome e começaram a colher espigas e
comê-las.
2
Assim que os fariseus viram aquilo,
disseram-lhe: “Vê! Teus discípulos estão
fazendo o que não é lícito em dia de
sábado!”
3
Mas Jesus lhes respondeu: “Não lestes
o que fez Davi quando ele e seus compa-
nheiros estavam com fome?
2
Corazim, mencionada apenas duas vezes nas Escrituras (aqui e em Lc 10.13) distava cerca de quatro quilômetros ao norte de
Cafarnaum. Betsaida ficava na extremidade ao norte do mar da Galiléia. Tiro e Sidom eram cidades pagãs da Fenícia. Jesus con-
clui esse trecho bíblico com uma “resposta” emocionada às graves circunstâncias descritas anteriormente. A expressão: “Graças
te dou” (em grego exomologoumai), significa: “reconheço”. A expressão: “Amém” (em hebraico transliterado amen) vem de uma
raiz que significa “digno de fé” ou “verdade” (Is 65.16), por isso a palavra grega é mera transliteração do hebraico, usada por
algumas versões na forma poética: “em verdade, em verdade”. No AT era, também, uma expressão de concordância (assim seja)
com uma doxologia ou bênção (1Cr 16.36; Sl 41.13). Jesus fez uso dessa expressão com autoridade messiânica, algo incomum
aos rabinos e mestres de sua época (2Co 1.20). Em certo sentido, Jesus pode ser chamado de “o Amém de Deus” (Is 65.16; Ap
3.14). Muitas sinagogas usaram essa expressão, que passou para as primeiras igrejas cristãs (1Co 14.16).
Nos versos 28 a 30 Jesus faz menção às Escrituras (Jr 6.16) e usa mais uma notável ilustração para mostrar como o cristão
pode encontrar descanso para as suas aflições: Jesus aponta para a canga dos bois. Uma trave de madeira robusta, quase
sempre ocupada por dois animais, colocados lado a lado, presos pelo pescoço e ligados ao arado ou carro que deveriam puxar.
Jesus considerou sua cruz (canga), útil e boa (no original grego chrestos). Algumas versões usam a palavra: “suave”. Jesus
considerou seu “fardo” leve, não pesado ou difícil de transportar até seu destino. Para alcançar o pleno descanso devemos
ocupar nosso lugar ao lado de Jesus e partilhar da sua canga; que não era um instrumento de tormento para os animais, mas
um meio útil e cômodo de levar mais carga com menos esforço, evitando os sofrimentos das antigas cordas amarradas pelo
corpo. Jesus quer partilhar sua força conosco. Além disso, bondade, paciência, mansidão, humildade são qualidades que nos
possibilitam trabalhar e descansar com fé no amor e na soberania do Senhor. Uma pessoa assim será querida e amável, e isso a
ajudará a vencer muitos problemas e descansar diariamente em paz.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 24
25 MATEUS 12
4
Como entrou na casa de Deus, e come-
ram os pães da Presença, os quais a lei
não lhes permitia comer, nem a ele nem
aos que com ele estavam, mas exclusiva-
mente aos sacerdotes?
1
5
Ou não lestes na Lei que, aos sábados,
os sacerdotes no templo violam o sábado
e, contudo, são desculpados?
6
Pois Eu vos afrmo que aqui está quem
é maior do que o templo.
7
Entretanto, se vós soubésseis o que
signifcam estas palavras: ‘Misericórdia
quero, e não holocaustos’, não teríeis
condenado os que não têm culpa.
8
Pois o Filho do homem é o Senhor do
sábado!”.
Jesus cura no sábado
9
Tendo Jesus saído daquele lugar, foi
para a sinagoga deles.
10
Encontrava-se ali um homem que
tinha uma das mãos atrofada. Mas, pro-
curando um motivo para acusar Jesus,
eles o questionaram: “É lícito curar no
sábado?”
11
Ao que Jesus lhes propôs: “Qual de vós
será o homem que, tendo uma ovelha, e,
num sábado, esta cair em um buraco, não
fará todo o esforço para retirá-la de lá?
12
Assim sendo, quanto mais vale uma
pessoa do que uma ovelha! Por isso, é
lícito fazer o bem no sábado”.
13
Então, dirigiu-se ao homem e disse:
“Estende a tua mão”. Ele a estendeu e ela
foi restaurada, fcando sã como a outra.
14
Diante disso, saíram os fariseus e co-
meçaram a conspirar sobre como pode-
riam matar Jesus.
Eis meu Servo amado!
15
Mas, Jesus, sabendo disto, afastou-se
daquele lugar. Uma multidão o seguiu e
a todos Ele curou.
16
Contudo, os advertiu para que não
divulgassem suas obras.
17
Ao acontecer isso, cumpriu-se o que
fora dito pelo profeta Isaías:
18
“Eis o meu Servo, que escolhi, o meu
amado, em quem tenho alegria. Farei
repousar sobre Ele o meu Espírito, e Ele
anunciará justiça às nações.
19
Não contenderá nem gritará; nem se
ouvirá nas ruas a sua voz.
20
Não esmagará a cana rachada, nem
apagará o pavio que fumega, até que faça
vencer a justiça.
21
E em seu Nome os gentios colocarão
sua esperança”.
O pecado imperdoável
22
Depois disso, aconteceu que lhe trouxe-
ram um endemoninhado, cego e mudo; Ele
o curou, de modo que pôde falar e ver.
23
Então, toda a multidão fcou atônita
e exclamava: “É este, porventura, o Filho
de Davi?”
1
O sábado (em hebraico shabbãth) é estabelecido nas Escrituras como princípio: um em cada sete dias deveria ser separado
(santificado) para o descanso. A raiz hebraica da palavra “sábado” é shãbhath, que significa “cessar”. Na Criação, o próprio
Deus legou à humanidade o exemplo da santificação do sábado (Gn 2.2; Êx 20.8-11). Em Êx 16.21-30 há uma menção explícita
sobre o sábado em relação à provisão do maná. O sábado (dia do descanso em homenagem ao Criador) nesse contexto, é
representado como um dom de Deus, visando o repouso e o benefício do povo. Não era necessário trabalhar no sábado (juntar
o maná), pois dupla porção era provida no sexto dia da semana. Os fariseus, no entanto, haviam acrescentado à Lei e ao sábado
uma série imensa de minuciosas regras e observâncias não prescritas por Moisés. Ao entrar pelos campos de trigo, Jesus e seus
discípulos estavam usufruindo um direito concedido pela Lei a todo viajante: comer para satisfazer a fome, sem levar nada (Dt
23.25), mas os fariseus implicaram com o ato de debulhar no sábado (Lc 6.1). Jesus então faz referência a 1Sm 21.1-6, lembrando
que em caso de necessidade, alguns detalhes da lei cerimonial podiam ser suprimidos. Os pães da Presença ou Proposição,
como em algumas versões, referem-se à presença do próprio Deus (Êx 33.14,15; Is 63.9). Os doze pães (cada um simbolizando
uma tribo) representavam uma oferta perpétua, de pão, ao Senhor, mediante a qual Israel declarava consagrar a Deus os frutos
do seu trabalho que, por sua vez, era uma bênção do Senhor (Lv 24.5,9). Esses pães eram colocados na mesa do lugar santo
do tabernáculo, todos os sábados, e depois da cerimônia podiam ser comidos pelo sacerdote e sua família. Ocorre que os
sacerdotes preparavam os pães e os sacrifícios no sábado, mesmo sob a proibição geral do trabalho nesse dia. Jesus então
argumenta que se as necessidades do culto no templo permitiam que o sacerdote profanasse o sábado, com muito mais razão a
missão de Cristo (o Messias) merece a mesma liberdade. Jesus ensina que a ética é mais importante que o ritual, e o espírito da
Lei maior que as letras e os mandamentos. Jesus declara que Ele é Deus, ao afirmar que é Senhor do sábado (Jo 5.17) e enfatiza
que o sábado foi dado à humanidade para o seu bem e não como uma obrigação prejudicial.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 25
26 MATEUS 12
24
Mas os fariseus, ao ouvirem isso, mur-
muraram: “Este homem não expulsa
demônios senão pelo poder de Belzebu, o
príncipe dos demônios”.
25
Entretanto, Jesus compreendia os pen-
samentos deles, e lhes afrmou: “Todo
reino dividido contra si mesmo será
arruinado, e toda cidade ou casa dividida
contra si mesma não resistirá.
26
Se Satanás expulsa Satanás, está divi-
dido contra ele próprio. Como poderá
então subsistir o seu reino?
27
E se Eu expulso demônios por Belze-
bu, por quem os expulsam vossos flhos?
E, por isso, eles mesmos serão os vossos
juízes.
28
Mas, se é pelo Espírito de Deus que
Eu expulso demônios, então, verdadei-
ramente, é chegado o Reino de Deus
sobre vós!
29
Ou ainda, como pode alguém entrar
na casa do homem forte e roubar-lhe
todos os bens sem primeiro amarrá-lo?
Só depois disso será possível saquear a
sua casa.
30
Quem não está comigo, está contra
mim; e aquele que comigo não colhe,
espalha.
31
Portanto, Eu vos assevero: Todos os
pecados e blasfêmias serão perdoados
às pessoas; a blasfêmia contra o Espírito
Santo não será, porém, perdoada!
32
Qualquer pessoa que disser uma pa-
lavra contra o Filho do homem, isso lhe
será perdoado; porém, se alguém falar
contra o Espírito Santo, não lhe será
isso perdoado, nem nesta época, nem no
tempo futuro.
33
Ou fazei a árvore boa e o seu fruto
bom, ou a árvore má e o seu fruto mau;
pois uma árvore é conhecida pelo seu
fruto.
34
Raça de víboras! Como podeis falar
coisas boas, sendo maus? Pois a boca
fala do que está cheio o coração.
35
Uma boa pessoa tira do seu bom te-
souro coisas boas; mas a pessoa má, tira
do seu tesouro mau, coisas más.
36
Por isso, vos afrmo que de toda a pa-
lavra fútil que as pessoas disserem, dela
deverão prestar conta no Dia do Juízo.
37
Porque pelas tuas palavras serás ab-
solvido e pelas tuas palavras serás con-
denado”.
2
O sinal da ressurreição
38
Então alguns dos mestres da lei e fari-
seus lhe pediram: “Mestre, queremos ver
de tua parte algum milagre”.
39
Ao que Jesus respondeu: “Uma gera-
ção perversa e adúltera pede um sinal
miraculoso! Todavia, nenhum sinal lhe
será dado, exceto o sinal miraculoso do
profeta Jonas.
3
2
Filho de Davi era um título exclusivo do Messias (Mc 3.22-30; Lc 11.14-22). A vinda e a vida de Jesus eram o evidente cumpri-
mento das profecias, especialmente de Isaías 42.1-4. Deus, assumindo a forma humana em Jesus, tratou os seres humanos com
misericórdia e delicadeza: como caniços (varas de pesca) que podem ser quebrados ou esmagados com facilidade; ou ainda
como pequenas chamas que podem ser apagadas com um simples movimento. Jesus percebeu, compreendeu (no original gre-
go eidôs) o que de fato os fariseus estavam tramando. Os judeus já praticavam o exorcismo (At 19.13-16) e Jesus os questionou
sob qual autoridade exerciam essa prática. Jesus já havia vencido Satanás em seus quarenta dias no deserto (4.1-11) e agora
estava invadindo o reino do Maligno (1Jo 3.8), para tirar das trevas as almas de todos aqueles que nele cressem, e para destruir a
“casa do homem forte” (Is 49.24-26; Lc 11.21). Por isso não pode haver neutralidade no Reino de Deus: quem não serve a Cristo
está servindo ao Diabo que é o diretor-geral do sistema (econômico, político, social e religioso) deste mundo. O único pecado
sem perdão é a rejeição consciente e sistemática da salvação graciosa em Cristo e a alegação de que Jesus e o Diabo são a
mesma pessoa ou as duas faces da verdade (o bem e o mal), como pensam algumas correntes filosóficas (Hb 6.4-6; 10.26-31).
Jesus acrescenta que o caráter de uma pessoa será sempre revelado por meio de suas palavras (Tg 3.2) e que essas palavras
pesam na balança da terra e do céu (Pv 18.21). Há três palavras gregas para designar milagres: 1) teras – algo portentoso; 2) du-
namis – poder maravilhoso; 3) semeion – uma prova ou sinal sobrenatural. No passado, muitos líderes de Israel haviam concedido
ao povo provas de sua missão por parte de Deus. Assim, para autenticar a obra de Moisés, o Senhor enviou o maná; para Josué,
o Senhor fez parar o Sol e a Lua; para Samuel, enviou o Senhor, trovões, de um céu claro e limpo, sem tempestades; para Elias,
mandou Deus, fogo do céu; para Isaías, fez recuar a sombra do relógio (da época) do Sol. Mas, para confirmar a obra de Jesus
Cristo, o Messias, seria realizado o maior milagre de todos: Deus ressuscitaria a Seu Filho Jesus da sepultura e esse seria um sinal
ainda maior do que aquele realizado para a conversão de toda a antiga cidade de Nínive (39-41).
3
O AT usa freqüentemente a metáfora: “adúltera” para significar “infiel a Deus”. Os três dias e três noites de Jonas e de Jesus
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 26
27 MATEUS 12, 13
40
Portanto, assim como esteve Jonas
três dias e três noites no ventre de um
grande peixe, assim o Filho do homem
estará três dias e três noites no coração
da terra.
41
O povo de Nínive se levantará no Dia
do Juízo com esta geração, e a condenará;
pois eles se arrependeram com a prega-
ção de Jonas. E eis que aqui está quem é
maior do que Jonas.
42
A rainha do Sul se levantará no Juízo
com esta geração e a condenará, pois ela
veio dos confns da terra para conhecer
os sábios ensinamentos de Salomão. E
eis que aqui está quem é maior do que
Salomão.
43
Quando um espírito imundo sai de
uma pessoa, passa por lugares áridos
procurando descanso, mas não encontra
onde repousar.
44
Então diz: ‘Voltarei para a minha casa
de onde saí’. E, retornando, encontra a
casa desocupada, varrida e arrumada.
45
Diante disso, vai e leva consigo outros
sete espíritos, piores do que ele, e, en-
trando, passam a morar ali. E o estado
fnal daquela pessoa torna-se pior que o
primeiro. Assim também ocorrerá com
esta geração má!”.
A mãe e os irmãos de Jesus
46
Enquanto, Jesus estava pregando à
grande multidão, do lado de fora, sua
mãe e seus irmãos procuravam falar
com Ele.
47
Então alguém o avisou: “Tua mãe e
teus irmãos estão lá fora e desejam fa-
lar-te”.
48
Jesus, entretanto, respondeu ao que lhe
trouxera a informação: “Quem é minha
mãe e quem são os meus irmãos?”
4
49
E, estendendo a mão na direção dos
discípulos, afrmou: “Eis minha mãe e
meus irmãos.
50
Pois todo aquele que faz a vontade de
meu Pai que está nos céus, este é meu
irmão, minha irmã e minha mãe”.
A parábola do semeador
(Mc 4.1-20; Lc 8.1-15)
13
Naquele mesmo dia Jesus saiu de
casa e foi assentar-se à beira-mar.
2
Uma grande multidão reuniu-se ao seu
redor e, por esse motivo, entrou num
barco e assentou-se. E todo o povo esta-
va em pé na praia.
3
Jesus ensinou-lhes então muitas coisas
por meio de parábolas, como esta: “Eis
que um semeador saiu a semear.
1
(Jn 1.17) referem-se ao período que vai da sexta-feira à tarde até o domingo de manhã. A expressão hebraica traduzida por
algumas versões como “baleia”, significa no original: “grande monstro marinho”. A rainha do Sul (também chamada de rainha do
meio-dia) é a mesma rainha de Sabá (1Rs 10) cujo reino ficava a sudoeste da Arábia, onde é hoje o Iêmen. Jesus recorre à história
de Israel para fazer referência ao processo de purificação da idolatria, entre os judeus, durante o cativeiro babilônico, mas cujo
estado atual – de incredulidade e dureza de coração – era muito pior que antes do exílio (Lc 11.24-26).
4
Jesus tinha quatro irmãos (mencionados os seus nomes em Mc 6.3) e mais um número de irmãs não especificado nas
Escrituras. Alguns teólogos defendem a idéia de que esses seriam primos de Jesus, filhos de Alfeu com a irmã da mãe de Jesus
que também se chamava Maria. Mas, Jo 7.5 e At 1.14 os distinguem claramente dos filhos de Alfeu. Jesus aproveita o que seria
uma interrupção do seu discurso para ilustrar a verdadeira fraternidade: uma nova família espiritual à qual todos os cristãos
pertencem e a quem devem amar como à própria mãe e aos irmãos. Em nenhum momento Jesus tem a intenção de divinizar sua
mãe, muito menos de tratá-la sem o devido carinho e respeito.
Capítulo 13
1
Jesus saiu da casa de Simão e André, em Cafarnaum (8.14), e dirigiu-se às margens do “mar da Galiléia”, chamado também de
“o grande lago”. Os hebreus não tinham apreço pelo mar, pois as antigas crenças semíticas diziam que a profundidade (abismo)
personificava o poder do mal que combatia contra Deus. Para Israel, entretanto, Deus era o criador do mar e seu controlador,
fazendo que o mar coopere para o bem da humanidade (Gn 1.9; Gn 49.25; Êx 14,15; Dt 33.13; Sl 104.7-9; Sl 148.7; Mt 14.25-33;
At 4.24). O triunfo final de Deus será acompanhado pelo desaparecimento total do mar (Ap 21.1). A expressão “parábola” vem
do original grego paraboles, que significa, colocar coisas semelhantes, lado a lado, para estabelecer comparação, estudo e tirar
um ensinamento. Em nossa língua, a parábola é uma figura de linguagem em que uma verdade moral ou espiritual é ilustrada
por uma analogia derivada da experiência cotidiana. Com essa parábola, conhecida como “do semeador” Jesus inicia o primeiro
grupo de histórias didáticas sobre o Reino de Deus, registradas em Mateus. Os evangelhos sinóticos contêm cerca de trinta
parábolas. O evangelho segundo João não apresenta parábolas, mas emprega outras figuras de linguagem.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 27
28 MATEUS 13
4
Enquanto realizava a semeadura, parte
dela caiu à beira do caminho e, vindo as
aves, a devoraram.
5
Outra parte caiu em terreno rochoso,
onde havia uma fna camada de terra,
e logo brotou, pois o solo não era pro-
fundo.
6
Porém, quando veio o sol, as plantas
se queimaram; e por não terem raiz,
secaram.
7
Outra parte caiu entre os espinhos. Es-
tes, ao crescer, sufocaram as plantas.
8
Contudo, uma parte caiu em boa terra,
produzindo generosa colheita, a cem,
sessenta e trinta por um.
9
Aquele que tem ouvidos para ouvir,
que ouça!”.
O propósito das parábolas
10
Então, os discípulos se aproximaram
dele e perguntaram: “Por que lhes falas
por meio de parábolas?”
11
Ao que Ele respondeu: “Porque a vós
outros foi dado o conhecimento dos
mistérios do Reino dos céus, mas a eles
isso não lhes foi concedido.
2
12
Pois a quem tem, mais se lhe dará, e
terá em abundância; mas, ao que quase
não tem, até o que tem lhe será tirado.
13
Por isso lhes falo por meio de pará-
bolas; porque, vendo, não enxergam; e
escutando, não ouvem, muito menos
compreendem.
14
Neles se cumpre a profecia de Isaías:
‘Ainda que continuamente estejais ouvin-
do, jamais entendereis; mesmo que sem-
pre estejais vendo, nunca percebereis.
15
Posto que o coração deste povo está
petrifcado; de má vontade escutaram
com seus ouvidos, e fecharam os seus
olhos; para evitar que enxerguem com os
olhos, ouçam com os ouvidos, compre-
endam com o coração, convertam-se, e
sejam por mim curados’.
16
Mas abençoados são os vossos olhos,
porque enxergam; e os vossos ouvidos,
porque ouvem.
17
Pois com certeza vos afrmo que mui-
tos profetas e justos desejaram ver o que
vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e
não ouviram.
Jesus explica essa parábola
18
Portanto, atentai para o que signifca a
parábola do semeador:
19
Quando uma pessoa escuta a mensa-
gem do Reino, mas não a compreende,
vem o Maligno e arranca o que foi
semeado em seu coração. Estas são as
sementes que foram semeadas à beira
do caminho.
20
O que foi semeado em terreno rocho-
so, esse é o que ouve a Palavra e logo a
aceita com alegria.
21
Contudo, visto que não tem raiz em
si mesmo, resiste por pouco tempo. E,
quando por causa da Palavra chegam os
problemas e as perseguições, logo perde
o ânimo.
22
Quanto ao que foi semeado entre os
espinhos, este é aquele que ouve a Pala-
vra, mas as preocupações desta vida e a
sedução das riquezas sufocam a mensa-
gem, tornando-a infrutífera.
23
Mas, enfm, o que foi semeado em
boa terra é aquele que ouve a Palavra e
a entende; este frutifca e produz grande
colheita: alguns, cem; outros, sessenta; e
ainda outros trinta vezes mais do que foi
semeado”.
2
A expressão original grega, aqui traduzida por “mistérios”, refere-se a revelações especiais a que somente os devotos (cren-
tes, consagrados) a Jesus Cristo têm acesso. O v.12 anuncia um princípio básico do mundo espiritual: quem aceita a Palavra de
Deus, com humildade e reverência, receberá muitas outras bênçãos do Senhor, mas aos arrogantes e incrédulos, até a parcela
de fé e bênçãos que lhes foi concedida será retirada. Veja os exemplos do “filho pródigo” (Lc 15.17-24) e o que aconteceu com
o Faraó do Egito depois de ter feito pouco caso do aviso de Moisés (Êx 8.1-32; 9.1-12). As coisas de Deus não fazem sentido
para aqueles dotados apenas de crítica racional. Precisam ser iluminados em sua compreensão espiritual e isso é dom de Deus
(Rm 5.15,16; 1Co 2.14-16; Ef 2.8). Os versos 14 e 15 são copiados, palavra por palavra, da Septuaginta (Is 6.9,10), que descreve
o chamado do profeta Isaías, a mensagem que deveria pregar e o estado de calamidade espiritual do povo. Como no tempo de
Isaías, assim também na época de Cristo, os judeus fecharam os olhos à verdade (Mc 4.12). Jesus e Sua Igreja são as últimas
grandes luzes a brilhar neste mundo para todo aquele que quiser abrir os olhos (Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 28
29 MATEUS 13
O trigo e o joio
24
Jesus lhes contou outra parábola: “O
Reino dos céus é semelhante a um ho-
mem que semeou boa semente em seu
campo.
25
Entretanto, quando todos dormiam,
chegou o inimigo dele, lançou o joio
no meio do trigo, e seguiu o seu ca-
minho.
3
26
Assim, quando o trigo brotou e for-
mou espigas, o joio também apareceu.
27
Os servos do dono da plantação fo-
ram até ele e perguntaram: ‘Senhor, não
semeaste boa semente no teu campo?
Então, de onde vem o joio?’.
28
Ele, porém, lhes respondeu: ‘Um
inimigo fez isso’. Então os servos lhe
propuseram:‘Senhor, queres que vamos
e arranquemos o joio?’
29
Ao que o senhor respondeu: ‘Não, pois
ao tirar o joio, podereis arrancar junta-
mente com ele o trigo.
30
Deixai-os, pois, crescer juntos até à
safra, e, no tempo da colheita, direi aos
ceifeiros: ‘Primeiro ajuntai o joio e amar-
rai-o em feixes para ser queimado; mas o
trigo, recolhei-o no meu celeiro’”.
O grão de mostarda
31
Outra parábola ainda lhes propôs Je-
sus, dizendo: “O Reino dos céus é como
um grão de mostarda, que um homem
tomou e plantou em seu campo.
32
Embora seja a menor dentre todas as
sementes, quando cresce chega a ser a
maior das plantas, e se torna uma árvore,
de maneira que as aves do céu vêm ani-
nhar-se em seus ramos”.
O fermento
33
E contou-lhes mais outra parábola: “O
Reino dos céus é semelhante ao fermento
que uma mulher pegou e misturou em
três medidas de farinha, até que toda a
massa fcou levedada”.
34
Todas essas coisas falou Jesus à mul-
3
O propósito desta parábola é revelar o método por meio do qual Deus está agindo no mundo durante a era (tempo) do
Evangelho (das Boas Novas de Cristo). Jesus raramente interpretava suas histórias enigmáticas (parábolas). Isso porque sabia
que todas as pessoas que verdadeiramente amavam a Deus entenderiam sua mensagem. Mas, para que nada faltasse aos
discípulos, ele explica algumas delas (18-23; 36-43). O joio é uma erva daninha, também chamada de cizânia ou centeio falso,
que enquanto está crescendo é muito semelhante ao trigo. Apenas quando as espigas se formam é que é possível fazer uma
distinção correta. A farinha de trigo feita com a mistura desse centeio falso é venenosa. A semente de mostarda era a menor
semente que os agricultores da Palestina, na época de Cristo, costumavam semear. Em condições favoráveis, essas “plantas” (no
original grego lachanôn) podiam alcançar cerca de três metros de altura. Jesus aproveita essa ilustração da árvore para lembrar
as Escrituras (Ez 17.23, 31.5; Sl 104.12; Dn 4.12,21). Em Ez 17, por exemplo, a “árvore” é o “Novo Israel”, mas em Ez 41 e Dn 4,
a árvore representa os impérios dos gentios: Assíria e Babilônia (região onde hoje se situa o Iraque). Dessa maneira, a parábola
antecipa o desenvolvimento da Igreja de Cristo. Entretanto, as aves (v.19), como figura do Maligno, completam o quadro da Igreja
visível (na terra) em sua apostasia (tempo de frieza espiritual da Igreja) e revelam aos discípulos que o Reino de Deus, tendo um
início tão humilde quanto a menor das sementes, se expandiria até atingir domínio mundial, envolvendo pessoas de todas as
nações (Dn 2.35-45; 7.27; Ap 11.15). Nas Escrituras, o fermento quase sempre é um símbolo de algo perverso ou impuro. Nesta
parábola, entretanto, significa: crescimento, progresso. A expressão “uma medida” vem do hebraico seah (no original grego: sata)
e corresponde a cerca de seis litros. Ou seja, assim como o bom fermento se alastra pela massa, dessa mesma maneira, o Reino
de Deus envolve a alma da pessoa que recebe o Espírito Santo, e vai moldando seu caráter à imagem de Cristo (2Co 4.1-15). No
v.35, a citação bíblica vem do Sl 78.2-3, sendo que a primeira parte é tirada da Septuaginta (tradução grega do AT) e a segunda
parte, do hebraico. Mateus interpreta esse texto como mais uma profecia sobre Jesus Cristo. A palavra “filhos” neste contexto
e no original significa: “aqueles que pertencem”. No v.41 há uma alusão ao texto hebraico de Sf 1.3, sendo que a palavra grega
anomian, traduzida algumas vezes por “iniqüidade”, e aqui por “mal”, também significa: “ilegalidade”. A expressão “consumação
do século” como aparece em algumas versões, aqui traduzida por “final desta era”, como base a tradução dos melhores origi-
nais; nos quais, a palavra grega, éon, significa mais propriamente: um período de tempo marcante na história da humanidade,
ou seja, uma era. Literalmente: “finalização do éon” ou do período que vai do nascimento de Cristo à sua volta triunfante (Mt
24; 25; Mc 13). A expressão: “fornalha ardente”, mencionada muitas vezes nos textos apocalípticos (Ap 19.20; 20.14), ocorre
mais cinco vezes em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e em nenhuma outra parte do NT. Não compete à Igreja de Jesus
Cristo arrogar-se o direito de julgar e condenar pessoas antes do Dia do Juízo (a grande colheita). Essa parábola não se aplica
às questões da disciplina comunitária que é tratada em Mt 18; mas, sim, da necessária e inevitável convivência que deve haver
entre cristãos e descrentes enquanto estivermos neste mundo, até a segunda vinda do Senhor (1Co 4.5; 2Co 10.4). Não devemos
nos preocupar em destruir o joio, mas em levar a todos a Palavra da graça salvadora de Jesus Cristo e assim brilharemos por
toda a eternidade (Dn 12.3).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 29
30 MATEUS 13
tidão por meio de parábolas e nada lhes
dizia sem usar palavras enigmáticas.
35
E assim cumpriu-se o que fora dito por
meio do profeta: “Abrirei em parábolas a
minha boca; proclamarei coisas ocultas
desde a fundação do mundo”.
Jesus explica a parábola do joio
36
Então, Jesus se despediu da multidão e
foi para casa. Seus discípulos aproxima-
ram-se dele e pediram: “Explica-nos a
parábola do joio na plantação”.
37
E Jesus explicou: “Aquele que semeou a
boa semente é o Filho do homem.
38
O campo é o mundo, e a boa semente
são os flhos do Reino. O joio representa
os que pertencem ao Maligno.
39
O inimigo que semeou o joio é o Diabo.
A colheita é o fnal desta era, e os ceifeiros
são os anjos.
40
Da mesma maneira que o joio é colhi-
do e jogado ao fogo, assim será no fm
desta era.
41
O Filho do homem mandará os seus
anjos, e eles ceifarão do seu Reino tudo
o que causa tropeço e todos os que pra-
ticam o mal.
42
Eles os lançarão na fornalha ardente e
ali haverá pranto e ranger de dentes.
43
Então os justos reluzirão como o sol
no Reino de seu Pai. Aquele que tem ou-
vidos para ouvir, que ouça!
O tesouro escondido
44
O Reino dos céus assemelha-se a um
tesouro escondido no campo. Certo ho-
mem, tendo-o encontrado, escondeu-o
novamente. Então, transbordando de ale-
gria, vai, vende tudo o que tem, e compra
aquele terreno.
A pérola de grande valor
45
Da mesma forma, o Reino dos céus é
como um negociante que procura péro-
las preciosas.
46
E, assim que encontrou uma pérola va-
liosíssima, foi, vendeu tudo o que tinha e
a comprou.
Os bons e os maus peixes
47
O Reino dos céus é ainda semelhante
a uma rede que, lançada ao mar, recolhe
peixes de toda espécie.
48
E, quando está repleta, os pescadores
a puxam para a praia. Então se assentam
e juntam os bons em cestos, mas jogam
fora os ruins.
49
Assim também ocorrerá no fnal desta
era. Chegarão os anjos e irão separar os
maus dentre os justos.
50
E lançarão os maus na fornalha arden-
te; e ali haverá grande lamento e ranger
de dentes”.
O mestre é um pai de família
51
Então lhes perguntou Jesus: “Enten-
destes todas estas parábolas?” Ao que eles
responderam: “Sim, Senhor”.
52
E Jesus lhes disse: “Portanto, todo
mestre da lei, bem esclarecido quanto ao
Reino dos céus, é semelhante a um pai
de família que sabe tirar do seu tesouro
coisas novas e coisas velhas”.
4
O profeta não é honrado pelos seus
53
Havendo terminado de contar essas
parábolas, retirou-se Jesus dali.
54
Chegando à sua cidade, começou
a ensinar o povo na sinagoga, de tal
maneira que as pessoas se admiravam,
e exclamavam: “De onde lhe vem tanta
4
Depois que os judeus blasfemaram contra o Espírito Santo (12.24-30) e começaram a tramar seu assassinato (12.14), Jesus
passa a revelar aspectos mais profundos sobre o Reino de Deus, apenas aos seus discípulos, preparando-os para continuar
sua obra. O termo grego grammateus (escriba), significa “escrivão” ou “letrado”. Poucos sabiam ler e escrever naquela época e
lugar. Os escribas eram responsáveis por copiar e arquivar as leis e tradições judaicas, e assim se tornaram mestres, doutores e
advogados (Lc 5.21), pois não havia distinção entre a lei de Deus e a dos homens. A sinagoga era a principal instituição religiosa
judaica daqueles dias e podia ser estabelecida em qualquer cidade com mais de dez judeus casados. Teve origem no exílio e
servia de local onde os judeus podiam estudar as Escrituras e adorar a Deus. Jesus, como também Paulo (At 13.15; 14.1; 17.2;
18.4), aproveitou o costume judaico de convidar mestres visitantes para pregar nas sinagogas locais e lhes anunciou a chegada
do Reino de Deus: O Evangelho de Cristo. No original grego, a palavra aqui traduzida por “carpinteiro” é a mesma usada para
identificar o trabalho do “pedreiro”. Jesus, como filho mais velho da família, era o principal ajudante do pai nos trabalhos com
madeira e alvenaria, ofício que desempenhou para cooperar com o sustento da família, após a morte de José (Mc 6.3; Lc 8.19).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 30
31 MATEUS 13, 14
sabedoria e estes poderes para realizar
milagres?
55
Ora, não é este o flho do carpinteiro?
O nome de sua mãe não é Maria, e o de
seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas?
56
Não vivem entre nós todas as suas
irmãs? Portanto, de onde obteve todos
esses poderes?”.
57
E fcavam escandalizados por causa
dele. Entretanto, Jesus lhes afrmou:
“Não há profeta sem honra, a não ser em
sua própria terra, e em sua própria casa”.
58
E Jesus não realizou ali muitos mila-
gres, por causa da falta de fé daquelas
pessoas.
5

João Batista é decapitado
14
Por aquele tempo Herodes, o
tetrarca, ouviu os relatos sobre os
feitos de Jesus.
2
E disse aos seus servos: “Este é João
Batista; ele ressuscitou dos mortos e,
por isso, nele operam poderes para fazer
milagres.
3
Porque Herodes tinha mandado pren-
der João, amarrar suas mãos e jogá-lo
na prisão. Isso por causa de Herodias,
mulher de Filipe, seu irmão.
4
Pois João o havia advertido, dizendo:
“Não te é lícito esposá-la”.
5
Herodes, portanto, queria matá-lo, mas
temia o povo, pois este o considerava
profeta.
6
Mas, tendo chegado o dia da celebração
do aniversário de Herodes, a flha de He-
rodias dançou diante de todos, e muito
agradou a Herodes.
7
Por conta disso, ele lhe prometeu, sob
juramento, conceder qualquer pedido
que ela desejasse fazer.
8
Foi então que ela, infuenciada por sua
mãe, pediu: “Dá-me aqui, num prato, a
cabeça de João Batista”.
1
9
O rei fcou angustiado; contudo, por
causa do juramento e da presença dos
convidados, ordenou que lhe fosse dado
o que ela pedira.
10
Então mandou decapitar João na prisão.
11
Sua cabeça foi levada num prato e en-
tregue à jovem, que a entregou à mãe.
12
Os discípulos de João vieram, levaram
seu corpo e o sepultaram. E foram contar
a Jesus o que havia acontecido.
A multiplicação dos pães
13
Assim que Jesus ouviu essas coisas, re-
tirou-se de barco, em particular, para um
lugar deserto. As multidões, entretanto,
ao saberem disso, saíram das cidades e o
seguiram a pé.
14
Quando Jesus deixou o barco, viu
numerosa multidão; sentiu-se movido
de grande compaixão pelo povo, e curou
os seus doentes.
15
Ao fnal do dia, os discípulos se apro-
ximaram de Jesus e disseram: “Este é um
lugar deserto, e já está entardecendo.
Manda embora, pois, as multidões, para
5
Existe uma clara correlação entre a fé e a realização dos milagres de Jesus em Mateus (8.10,13; 9.2,22,28,29). A arrogância dos
teólogos e líderes religiosos e a presunção dos que pensavam conhecer a Jesus desde criança, fizeram com que eles perdessem a
maravilhosa oportunidade de receber as preciosas revelações e bênçãos do Messias, o Filho de Deus em pessoa: Jesus Cristo.
Capítulo 14
1
Herodes Antipas, que reinou de 4 a.C. a 39 a.D., era o tetrarca (em grego tetrarches), ou seja, “aquele que rege uma quarta
parte do império”, no caso, a quarta parte da Palestina, mais a Galiléia e a Peréia, que foi herança de seu pai Herodes, o
Grande (Mt 2.1,22), quando dividiu seu reino entre quatro de seus muitos filhos. Depois das maravilhosas viagens de Jesus pela
Galiléia, muito cresceu sua fama em todas as regiões vizinhas, originando muitas idéias sobre sua pessoa e missão (16.13-14).
A consciência pagã, supersticiosa, culpada e amedrontada de Herodes, o fez criar a teoria de que Jesus seria a encarnação do
espírito de João Batista que ele mandara decapitar (Mc 6.16). Herodias era ex-esposa do meio irmão de Herodes, Filipe, tio de
Herodias. Ela fora persuadida a abandonar o marido para casar-se com Herodes Antipas, cometendo assim, incesto (Lv 18.16;
20.21). João Batista falou francamente com o tetrarca e o chamou ao arrependimento; e Herodes sabia que João era homem de
Deus e estava certo em sua denúncia (Mc 6.20). Salomé, filha de Herodias, tinha cerca de 20 anos e dançou de forma lasciva
diante de muitas autoridades, agradando a todos, em especial a Herodes. O grande historiador judeu Flávio Josefo, que viveu
entre os séculos I e II, conta que Salomé veio a se casar com um tio-avô, também chamado Filipe (filho de Herodes, o Grande),
que reinou sobre as terras do norte (Lc 3.1). O prato (v.11), no qual a cabeça de João é apresentada, era uma peça de madeira
onde serviam as carnes nas festas. João permanecera por mais de um ano no cativeiro, devido à indecisão de Herodes, que além
de permitir a visita dos discípulos de João, também gostava de ouvir o profeta (11.2).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 31
32 MATEUS 14
que possam ir aos povoados comprar
comida”.
16
Jesus, porém, lhes respondeu: “O povo
não precisa ir embora; dai-lhes vós mes-
mos algo para comer”.
17
Ao que eles replicaram: “Tudo o que
temos aqui são cinco pequenos pães e
dois peixes!”
18
Mas Jesus lhes disse: “Tragam-nos aqui
para mim”.
19
E mandou que as multidões se assen-
tassem sobre o gramado. Tomou, então,
os cinco pães e os dois peixes e, olhando
para o céu, os abençoou. Em seguida,
tendo partido os pães, deu-os aos discí-
pulos, e estes serviram às multidões.
2
20
Todos comeram até fcar satisfeitos,
e os discípulos recolheram doze cestas
cheias de pedaços que sobraram.
21
Os que se alimentaram foram cerca de
cinco mil homens, sem contar as mulhe-
res e as crianças.
Jesus anda sobre o mar
22
Imediatamente após, Jesus insistiu com
os discípulos para que entrassem no bar-
co e fossem adiante dele para o outro lado,
enquanto Ele despedia as multidões.
23
Assim que mandou o povo embora,
subiu sozinho a um monte para orar. Ao
chegar da noite, lá estava Ele, só.
24
Todavia, o barco já estava longe, no
meio do mar, sendo fustigado pelas on-
das; pois o vento era contrário.
25
Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter
com eles, andando por sobre o mar.
3
26
Quando os discípulos o viram andan-
do sobre as águas, fcaram aterrorizados
e exclamaram: “É um fantasma!” E gri-
tavam de medo.
27
Mas, imediatamente, Jesus lhes disse:
“Tende bom ânimo! Sou Eu. Não temais!”.
28
Ao que Pedro exclamou: “Senhor! Se
és tu, manda-me ir ao teu encontro por
sobre as águas”.
2
Jesus, triste pela morte do grande amigo João, e não querendo ser confundido com o líder militar que muitos esperavam que
fosse, busca a solitude, um tempo a sós para orar e refletir. Atravessa o mar da Galiléia, deixando Cafarnaum e os territórios de
Herodes Antipas, e segue em direção a Betsaida Júlia. A multidão, entretanto, o vê partir só e caminha cerca de 8 km por uma
região deserta até se encontrar com Cristo nos planaltos do território de Felipe. Era alta primavera na Palestina (que começa no
meio de fevereiro), os campos estavam cobertos de relva e a Páscoa dos judeus estava próxima (Jo 6.4). Jesus se coloca entre a
multidão como o pai no meio de sua família. Esse é o único milagre de Jesus, registrado por todos os evangelistas (Mc 6.30-46; Lc
9.10-17; Jo 6.1-15). Mateus, entretanto, não tem uma preocupação cronológica em relação aos fatos, narra a história no passado
(vv. 1,2,13), pois deseja apresentá-la de modo que as pessoas a gravem na memória. De acordo com a tradição judaica, o chefe
da família proferia, no início de cada refeição, sobre o pão que ele partia, uma “oração de agradecimento” que era chamada de
“bênção” e, por isso, na KJ de 1611, esse termo aparece como blessed (abençoou). Jesus estava revelando ao povo que, assim
como o Pai libertou seu povo do Egito e os alimentou no deserto, Ele estava novamente no meio do seu povo para os salvar,
curar e alimentar. A palavra grega original kophinous, traduzida no vv.20 como “cestas” refere-se a uma pequena cesta de vime ou
folhas de palma, usada para compras domésticas. A “bênção” não acontece por ser costume, mas porque por meio de Jesus, a
fórmula é preenchida com um novo conteúdo: a presença do Cristo, que abre o acesso ao Pai (Jo 1.51). O povo e especialmente
os discípulos viram que a ação de graças de Jesus produziu milagres, e aprenderam que um método milagroso que traz bênçãos
é agradecer pelo pouco que temos, e dividi-lo com o próximo.
3
Jesus “insistiu” para que os discípulos saíssem depressa. A palavra grega usada aqui é enfática e significa “compeliu”,
sugerindo uma forte transição. João registra que depois do milagre dos pães e peixes, as multidões pretendiam proclamar Jesus
rei dos judeus, à força (Jo 6.15), o que indicava uma compreensão totalmente errada da missão de Cristo; nesse momento os
discípulos também haviam sido influenciados por essas idéias e Jesus precisou ser enérgico com eles e enviá-los para o outro
lado do mar. O dia judaico, isto é, o intervalo entre a aurora e o crepúsculo, era dividido em três partes: manhã, meio-dia e tarde
(Sl 55.17). Os judeus distinguiam duas tardes no dia: a primeira começava por volta das três horas, e a segunda ao pôr-do-sol (Êx
12.6, literalmente: entre as tardes). Portanto, os judeus contavam apenas três vigílias. No v. 13, trata-se da primeira tarde; no v. 23
refere-se à segunda. Mateus faz registro de Jesus orando apenas aqui e no Getsêmani (26.36-46). Para os romanos, entretanto, a
noite era dividida em quatro vigílias: 1) das 18 às 21h. 2) das 21h à meia noite. 3) da meia noite às 3h e 4) das 3h às 6h. O estádio
(em grego stadion), termo que aparece em algumas versões, equivalia a 1/8 de milha romana, ou cerca de 185 metros.
Durante a madrugada, Jesus se aproxima do barco sobre o mar revolto e lhes pede para ter bom ânimo (na KJ de 1611 Be of
good cheer!). Literalmente: “tenham coragem”. E, em seguida, revela a razão de se ter ânimo (coragem) e esperança no meio
das aflições: Sou Eu, mas que no original vem grafado: Eu Sou (em grego egô eimi), o nome e o caráter de Deus (Êx 3.14). A
proximidade do Senhor lança fora todo temor, destrói o mal e enche a alma de paz, alegria e vontade renovada de viver. Por isso,
no Reino de Deus, ser é mais importante que ter.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 32
33 MATEUS 14, 15
29
Então Jesus lhe responde: “Vem!” E Pe-
dro, deixando o barco, andou por sobre
as águas e foi na direção de Jesus.
30
Todavia, reparando na força do vento,
teve medo, e começando a afundar, gri-
tou: “Senhor! Salva-me!”
31
Jesus estendeu imediatamente a mão,
segurou-o e lhe disse: “Homem de pe-
quena fé, por que duvidaste?”.
32
Assim que ambos entraram no barco,
cessou o vento.
33
Então os que estavam no barco adora-
ram-no, exclamando: “Verdadeiramente
Tu és o Filho de Deus”.
4

34
Depois de atravessarem o mar, chega-
ram a Genesaré.
Jesus curou a todos que o tocaram
35
Quando os homens daquele lugar re-
conheceram Jesus, divulgaram a notícia
em toda aquela região e lhe trouxeram
todos os enfermos.
36
Suplicavam então a Ele que ao menos
pudessem tocar na borda do seu manto.
E todos os que nele tocaram fcaram
plenamente sãos.
Jesus, as tradições e a Lei
(Mc 7.1-23)
15
Então alguns fariseus e escribas,
vindos de Jerusalém, foram até
Jesus e questionaram:
2
“Por que os seus discípulos transgridem
a tradição dos anciãos? Visto que eles
não lavam as mãos antes de comer!”.
3
Ponderou-lhes Jesus: “E porque trans-
gredis vós também o mandamento de
Deus, por causa da vossa tradição?
4
Pois Deus ordenou: ‘Honra a teu pai e a
tua mãe’, e ainda, ‘Quem amaldiçoar seu
pai ou sua mãe seja punido com a morte’.
5
Contudo, vós dizeis que se alguém disser
a seu pai ou a sua mãe: ‘Oferta é ao Senhor
a ajuda que de mim devias receber’;
6
esse jamais estará obrigado a honrar
seu pai ou sua mãe com seus bens. E
assim invalidastes a Palavra de Deus, por
causa da vossa tradição.
1
7
Hipócritas! Bem profetizou Isaías sobre
vós, denunciando:
8
‘Este povo me honra com os lábios, mas
seu coração está longe de mim.
9
Em vão me adoram; pois ensinam dou-
4
Apenas Mateus registra esse episódio na vida de Pedro. A expressão em aramaico, usada pelos discípulos para concluir
tudo o que se passou naquela madrugada no meio do mar da Galiléia, aqui traduzida como Verdadeiramente Tu és o Filho de
Deus, significa que aqueles homens haviam reconhecido, sem sombra de dúvida, que Jesus de Nazaré e Deus (Yahweh) são a
mesma pessoa. Genesaré, também conhecida como Planície Estreita, ficava do lado ocidental do mar da Galiléia, ao norte de
Magdala. Essa planície era um grande jardim na Palestina, fértil e todo irrigado, com cerca 6,5 km de extensão e 3 km de largura.
As pessoas receberam a Jesus com grande fé, e muitas maravilhas Ele realizou ali (Mc 5.28; At 19.12).
Capítulo 15
1
Os escribas e fariseus chegaram de Jerusalém para reforçar o grupo dos inimigos de Jesus, que já estava se estruturando, como
no caso dos fariseus com os herodianos (Mc 3.6). Mais tarde, até os saduceus, tradicionalmente rivais dos fariseus, se juntariam aos
perseguidores do Senhor (Mt 16.6). A “tradição dos anciãos” era a interpretação oral e escrita da Lei de Moisés, mas com muitas
outras doutrinas e preceitos que foram sendo adicionados com o tempo; e que tinha autoridade quase igual a da própria Lei, entre
os fariseus (5.43). Todas essas orientações deram origem, mais tarde (200 a.D.) à Mishná, a parte mais importante do Talmude,
que é a fonte da lei judaica. O legalismo e o volume de pequenos preceitos haviam crescido tanto que a simples tradição, por
motivos higiênicos, de se lavar as mãos antes das refeições, tornou-se um ritual de purificação para afastar a mínima possibilidade
de um judeu ter sido contaminado pela poeira vinda de algum pagão (10.14). A ocupação romana intensificou esse estado de
“guerra contra a impureza” mediante o cumprimento de inúmeras doutrinas e obrigações religiosas. A intenção por traz dessas
práticas, entretanto, era conseguir o favor de Deus para a expulsão dos pagãos (romanos). Jesus passa a citar os mandamentos
(Êx 20.12; Dt 5.16; Êx 21.17; Lv 20.9), mostrando como a tradição dos judeus e muitas interpretações e práticas religiosas estavam
em desacordo com a própria Lei e, portanto, se constituíam em maior pecado contra Deus. Por exemplo, se alguém desejava
livrar-se da responsabilidade judaica de cuidar dos pais idosos, era só fazer uma declaração falsa de que havia doado seus bens ao
templo (em hebraico korban, quer dizer, oferta). Assim, os bens dessa pessoa seriam registrados em nome do templo como uma
oferta ao Senhor, até a morte dos pais, quando então se “negociaria” com os escribas, um valor a ser pago para reavê-los. Jesus
censura esse tipo de amor às regras, maior do que o amor devido a Deus e às pessoas (Is 29.13). Adverte que a comida que não foi
preparada segundo as tradições dos antigos mestres não prejudica o corpo ou traz pecado sobre a alma (At 10.10-15). Jesus usa
um vocábulo raro (em grego aphedrôna), que significa: esgoto, privada, latrina. O que profana (em grego koinein), ou seja, torna
uma pessoa comum, impura e, portanto, sem direito a participar do culto público ou, sequer, aproximar-se de Deus em oração, é o
mal concentrado no íntimo do ser humano e que é expresso por meio das palavras da boca (Tg 3.6-12).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 33
34 MATEUS 15
trinas que não passam de regras criadas
por homens’”.
10
Então, Jesus conclamou a multidão a
aproximar-se e pregou: “Ouvi e entendei!
11
Não é o que entra pela boca o que tor-
na uma pessoa impura, mas o que sai da
boca, isto sim, corrompe a pessoa”.
12
Então, aproximando-se dele os discí-
pulos, avisaram: “Sabes que os fariseus
se ofenderam quando ouviram essas tuas
palavras?”.
13
Mas Ele respondeu: “Toda planta que
meu Pai celestial não plantou será arran-
cada.
14
Deixai-os! Eles são guias cegos guian-
do cegos. Se um cego conduzir outro
cego, ambos cairão no buraco”.
15
Então, pediu-lhe Pedro: “Explica-nos a
outra parábola?”.
16
Ao que Jesus replicou: “Também vós
não compreendeis até agora?
17
Não entendeis ainda que tudo o que
entra pela boca desce para o estômago, e
mais tarde é lançado no esgoto?
18
Entretanto, as coisas que saem da boca
vêm do coração e são essas que tornam
uma pessoa impura.
19
Porque do coração é que procedem os
maus intentos, homicídios, adultérios,
imoralidades, roubos, falsos testemu-
nhos, calúnias, blasfêmias.
20
Essas coisas corrompem o indivíduo,
mas o comer sem lavar as mãos não o
torna impuro”.
Jesus atende ao clamor dos gentios
(Mc 7.24-30)
21
Deixando aquele lugar, Jesus retirou-
se para a região de Tiro e de Sidom.
22
E eis que uma mulher cananéia, natural
daquelas regiões, veio a Ele, clamando:
“Senhor! Filho de Davi, tem compaixão
de mim! Minha flha está horrivelmente
tomada pelo demônio”.
23
Ele, porém, não lhe respondeu qual-
quer palavra. Então, os seus discípulos,
aproximando-se, pediram-lhe: “Manda
essa mulher embora, pois vem gritando
atrás de nós”.
24
Ao que Jesus replicou: “Eu não fui en-
viado, senão às ovelhas perdidas da casa
de Israel”.
2
25
Chegou então a mulher e o adorou de
joelhos, suplicando: “Senhor, ajuda-me!”
26
Ao que Jesus lhe respondeu: “Não é
justo tirar o pão dos próprios flhos para
alimentar os cães de estimação”.
27
Ela, porém, replicou: “Sim, Senhor, mas
até os cães de estimação, comem das miga-
lhas que caem das mesas de seus donos”.
28
Então Jesus exclamou: “Ó mulher,
grande é a tua fé! Seja feito a ti conforme
queres”. E naquele exato momento sua
flha fcou sã.
Outra multiplicação de pães
(Mc 8.1-10)
29
Partiu Jesus dali e foi para a orla do
mar da Galiléia; e, subindo a um monte,
assentou-se ali.
3
30
Então, multidões dirigiram-se a Ele,
levando consigo mancos, aleijados, cegos,
mudos e muitos outros doentes, e os colo-
caram aos pés de Jesus; e Ele os curou.
31
O povo fcou atônito quando viu os
mudos falando, os aleijados curados, os
mancos andando e os cegos enxergando.
E louvaram o Deus de Israel.
2
A expressão “cananéia” ocorre muitas vezes no AT, mas no NT, apenas aqui. Tem a ver com os descendentes dos cananeus
que Josué expulsou de Canaã, a Terra Prometida, cuja civilização ficou estabelecida na cidade de Tiro. Marcos chamava essa
senhora de “grega” (gentia), quer dizer, helênica, por causa de sua origem sírio-fenícia (Mc 7.26). A palavra “cães de estimação”
ou “cachorrinhos”, como em algumas versões, vem do grego original kunarion, que significa: pequenos cães de colo. Jesus
precisava deixar claro que a prioridade máxima de sua missão era salvar os judeus. Por algum motivo, aquela senhora grega e
gentia compreendeu perfeitamente a mensagem de Jesus, e reverentemente, usou a própria metáfora do Senhor para reivindicar
seu espaço no coração compassivo de Cristo. A fé daquela mulher humilde mostrou-se maior, mais verdadeira e pura que a fé de-
monstrada pelos mestres e líderes religiosos que haviam contestado a santidade (pureza religiosa) de Jesus e seus discípulos.
3
O monte era uma subida para a planície atrás de Cafarnaum, no sentido de quem sobe do mar da Galiléia. Nesse lugar Jesus
costumava pregar, ensinar e curar as muitas pessoas que sempre o procuravam; o mesmo local onde pregou o Sermão do Monte
(5.1). Ao contrário do que pensam alguns teólogos, esse milagre não é apenas outra versão do mesmo fato ocorrido em 14.15-21.
O próprio Jesus destaca claramente os dois acontecimentos (16.9 e10), além do que, essa segunda multiplicação ocorreu em
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 34
35 MATEUS 15, 16
32
Chamou Jesus os seus discípulos para
dizer-lhes: “Tenho compaixão destas mui-
tas pessoas, pois há três dias permanecem
comigo e não têm o que comer. Não que-
ro mandá-las embora em jejum, porque
podem desfalecer no caminho”.
33
Mas os discípulos lhe disseram: “Onde
poderíamos, encontrar, neste lugar deser-
to, pães sufcientes para alimentar tantas
pessoas?”
34
Perguntou-lhes Jesus: “Quantos pães
tendes?” Ao que eles responderam: “Sete,
e mais uns pequenos peixes”.
35
Ele mandou, então, que o povo se as-
sentasse no chão.
36
Tomou os sete pães e os pequenos pei-
xes e deu graças. Em seguida os partiu e
os entregou aos discípulos, e estes distri-
buíram à multidão.
37
Todas as pessoas comeram até se far-
tarem. E foram recolhidos sete grandes
cestos, cheios de pedaços que haviam
sobrado.
38
E assim, os que comeram eram quatro
mil homens, sem contar as mulheres e as
crianças.
39
A seguir, Jesus se despediu da multi-
dão, entrou no barco e foi para a região
de Magadã.
Religiosos pedem um sinal
(Mc 8.11-13)
16
Os fariseus e os saduceus apro-
ximaram-se de Jesus e, para o
provar, pediram que lhes mostrasse um
sinal vindo do céu.
2
Então Ele lhes ponderou: “Quando
começa a entardecer, dizeis: ‘Haverá bom
tempo, pois o céu está avermelhado’.
3
Ou, pela manhã, dizeis: ‘Hoje haverá
tempestade, porque o céu está de um
vermelho nublado’. Sabeis, com certe-
za, discernir os aspectos do céu, mas
não podeis interpretar os sinais dos
tempos?
4
Esta geração perversa e infel pede um
sinal; mas nenhum sinal lhe será conce-
dido, a não ser o sinal de Jonas”. Jesus se
afastou, então, deles e partiu dali.
O fermento dos religiosos
(Mc 8.14-21)
5
Indo os discípulos para o outro lado do
mar, esqueceram-se de levar pães.
6
E Jesus lhes falou: “Estejais alerta, e
acautelai-vos do fermento dos fariseus
e saduceus”.
7
Entretanto, eles discutiam entre si, di-
zendo: “É porque não trouxemos pães”.
8
Percebendo a desavença, Jesus indagou:
“Por que discordais entre vós, homens de
pequena fé, sobre o não terdes pães?
9
Não compreendeis até agora? Nem
sequer lembrais dos cinco pães para
cinco mil homens e de quantas cestas
recolhestes?
10
Nem dos sete pães para aqueles outros
quatro mil e de quantos cestos recolhestes?
11
Como não entendeis que não vos fala-
va a respeito de pães? E, sim: tende, pois,
cuidado com o fermento dos fariseus e
saduceus”.
12
Compreenderam, então, que não lhes
dissera que se guardassem do fermento
dos pães, mas que se acautelassem da
doutrina dos fariseus e saduceus.
Deus revela Jesus Cristo a Pedro
(Mc 8.27-30; Lc 9.18-21)
13
Quando Jesus chegou à região de Ce-
saréia de Filipe, consultou seus discípu-
los: “Quem as pessoas dizem que o Filho
do homem é?”
1
14
E eles responderam: “Alguns dizem que
é João Batista; outros Elias; e ainda há
quem diga, Jeremias ou um dos profetas”.
outro lugar (Decápolis, Mc 7.31), com um número diferente de pães e peixes, uma multidão menor, menos sobras recolhidas,
os “cestos” (no original grego spyridas), mencionados aqui eram usados nos mercados da época e maiores do que as alcofas,
pequenas “cestas” de vime ou folhas de palma, usadas na primeira multiplicação (14.20). Jesus toma um rumo diferente, após a
segunda multiplicação, desta vez segue com seus discípulos para Magadã, também conhecida como Magdala e Dalmanuta (Mc
8.10), a cidade de Maria Madalena, que ficava entre Tiberíades e Cafarnaum.
Capítulo 16
1
A cidade de Cesaréia de Filipe ficava ao norte do mar da Galiléia, perto das encostas do monte Hermom. Seu nome antigo era
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 35
36 MATEUS 16
15
Então Jesus interpelou: “Mas vós,
quem dizeis que Eu sou?”.
16
E, Simão Pedro respondeu: “Tu és o
Cristo, o Filho do Deus vivo”.
2
17
Ao que Jesus lhe afrmou: “Abençoado
és tu, Simão, flho de Jonas! Pois isso não
foi revelado a ti por carne ou sangue, mas
pelo meu Pai que está nos céus.
18
Da mesma maneira Eu te digo que tu
és Pedro, e sobre esta pedra edifcarei a
minha igreja, e as portas do Hades não
prevalecerão contra ela.
3
19
Eu darei a ti as chaves do Reino dos
céus; o que ligares na terra haverá sido li-
gado nos céus, e o que desligares na terra,
haverá sido desligado nos céus”.
4
20
E, então, ordenou aos discípulos que a
ninguém dissessem ser Ele o Cristo.
Jesus prediz seu sacrifício
(Mc 8.31-9.1; Lc 9.22-27)
21
A partir daquele momento Jesus co-
meçou a explicar aos seus discípulos que
era necessário que Ele fosse para Jerusa-
Panéias (em homenagem ao deus grego Pan). O filho de Herodes, Filipe, reconstruiu essa cidade, como parte de sua tetrarquia, e
lhe deu um novo nome, em homenagem a Tibério César e a si mesmo. Essa era, portanto, uma região extremamente pagã. Jesus
costumava se intitular de “o Filho do homem”, expressão que aparece mais de 80 vezes no NT, jamais se referindo a qualquer
outra pessoa. No AT, em Dn 7.13,14, esse título é usado para retratar a personalidade celestial a quem, no final dos tempos, Deus
confiou toda a sua glória, honra e poder (soberania divina).
2
Havia muitas lendas e superstições nessa época e lugar. O próprio Herodes cria na reencarnação de João Batista, que foi
um profeta muito estimado pelo povo e até pelo rei. A volta de Elias foi profetizada em Ml 4.5 e muitos judeus ligavam o nome
de Jeremias ao profeta prometido em Dt 18.15. Contudo, em meio a tantas idéias e correntes religiosas, Pedro (Bar-Jonas ou,
melhor traduzido, filho de Jonas), que falou em nome dos discípulos (v. 20), é agraciado com a maior das revelações que uma
pessoa pode receber de Deus: a compreensão de que Jesus de Nazaré (o Jesus histórico) é o Filho Unigênito de Deus, o Cristo
prometido (Messias, em hebraico), que significa,Ungido. Palavra que, no original hebraico, transmite a idéia de uma pessoa
escolhida por Deus, separada (consagrada, santificada), e revestida de poder para a realização de uma missão divina e específica
na terra (Êx 29.7,21; 1Sm 10.1,6; 16.13; 2Sm 1.14,16). No final do AT, essa palavra passou a ter uma conotação particular: referia-
se a um rei ideal, ungido e capacitado por Deus para libertar os judeus dos inimigos pagãos e estabelecer um reino de justiça e
paz (Dn 9.25,26). Por isso, na época de Cristo, o título Messias tendia a uma compreensão política, nacionalista, revolucionária e
militar e isso fez que Jesus evitasse usar o termo em relação à sua pessoa e missão (Mc 8.27-30; 14.61-63). Pedro obteve de Deus
a revelação de que Jesus é o Messias prometido desde a antiguidade, o Cristo. Essa é a pedra (o alicerce) sobre a qual a Igreja
seria construída e nada poderia deter o seu avanço e o cumprimento da sua missão até o Dia do Senhor.
3
Jesus comemora a bênção da revelação de Deus a Simão (nome comum em Israel, com origem no AT) conferindo-lhe um sobre-
nome marcante. Jesus conviveu com várias pessoas com o nome de Simão: um dos filhos de José e Maria, seu irmão (Mt 13.55; Mc
6.3), um amigo leproso, na casa do qual foi ungido (Mt 26.6; Mc 14.3), um homem de Cirene, compelido a ajudá-lo a levar sua cruz
e que, mais tarde, tornou-se cristão (Mc 15.21; At 13.1), um fariseu em cuja casa os pés de Jesus foram ungidos (Lc 7.40), Simão
Iscariotes, pai de Judas (Jo 6.71; 12.4; 13.2). Na época dos apóstolos, houve um outro Simão, samaritano, ilusionista, feiticeiro e
enganador, que misturava elementos de magia com ensinos helenísticos e judaicos. Foi o criador da doutrina gnóstica e alegava
ser o principal representante de Deus na terra. Dizia-se convertido ao cristianismo, mas desejou comprar o poder dos apóstolos e
recebeu enérgica repreensão de Simão Pedro (At 8.9-24). Em Pedro, temos o exemplo de que Jesus nos concede um novo nome, a
marca espiritual da salvação e da bravura cristã. O nome Pedro (em grego Petros) significa “pedra separada” ou “homem-pedra”. Na
frase seguinte, Cristo usou a palavra grega petra (“sobre esta rocha”), que significa “leito de rocha resistente” e que não era um nome
próprio. Jesus utilizou a arte dos significados das palavras para ampliar o poder do que desejava comunicar aos seus discípulos,
e não apenas para aqueles dias. Ele não disse “sobre ti, Pedro” ou “sobre teus sucessores”, mas sim “sobre esta rocha” – sobre
esta revelação de Deus e sobre este seu testemunho de fé em Jesus. O uso do tempo futuro do verbo demonstra que a formação
da Igreja ainda estava por acontecer. E, de fato, a Igreja – como a conhecemos hoje – teve início no dia de Pentecostes (At 2). Nos
Evangelhos a palavra Igreja (em grego ekkesia ou ekklesia; e em latim ecclesia) é usada somente por Mateus, aqui e duas vezes em
18.17. Na Septuaginta (o AT em grego), é usada para identificar a congregação (sinagoga) de Israel. Entre os gregos, nos tempos
de Jesus, significava a assembléia dos cidadãos livres e votantes da cidade (At 19.32,39,41). Hades (em grego haidês, e no hebraico
Sheol) é a palavra grega que consta nos originais das Escrituras neste texto e significa o lugar onde estão os espíritos dos que
morreram. Onde, também, os salvos desfrutam de paz e os descrentes de aflições. Todos, no entanto, aguardam a volta de Jesus,
quando os cristãos desfrutarão plenamente das bênçãos da vida eterna e os incrédulos (os que, na terra, rejeitaram a salvação) o
Juízo e a pena da segunda morte: o afastamento eterno de Deus (Gn 37.35; Jó 17.16). Assim sendo, “as portas do Hades” significam
“os poderes da morte” e todas as forças opostas a Cristo. Algumas versões usam a palavra “inferno” (em grego geena que deriva
do hebraico gê’ hinnõm, e significa: lugar de punição para pecadores), como sinônimo de Hades.
4
A partir daquele momento, Jesus estava concedendo a Pedro e aos demais discípulos, poder e autoridade para abrir as portas
da cristandade aos judeus, prosélitos e mais tarde a todos os gentios e pagãos em todo o mundo. Pedro usou essas chaves com
os judeus no dia de Pentecostes (At 2) e para os gentios na casa de Cornélio (At 10). Deus, e não os apóstolos ou discípulos, é
quem inicia o “ligar” e o “desligar” nos céus. Os apóstolos devem proclamar tais fatos (At 5.3,9). Em Jo 20.22-23 Jesus fala de
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 36
37 MATEUS 16, 17
lém e sofresse muitas injustiças nas mãos
dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e
dos escribas, para então ser morto e res-
suscitar ao terceiro dia.
22
Pedro, porém, chamando-o à parte,
começou a admoestá-lo, dizendo: “Deus
seja gracioso contigo, Senhor! De modo
algum isso jamais te acontecerá”.
23
E virando-se Jesus repreendeu a Pedro:
“Para trás de mim, Satanás! Tu és uma
pedra de tropeço, uma cilada para mim,
pois tua atitude não refete a Deus, mas,
sim, os homens”.
5
24
Então Jesus declarou aos seus dis-
cípulos: “Se alguém deseja seguir-me,
negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e
me acompanhe.
25
Porquanto quem quiser salvar a sua
vida, a perderá, mas quem perder a sua
vida por minha causa, encontrará a
verdadeira vida.
26
Pois que lucro terá uma pessoa se
ganhar o mundo inteiro, mas perder a
sua alma? Ou, o que poderá dar o ser
humano em troca da sua alma?
27
Mas o Filho do homem virá na glória
de seu Pai, com os seus anjos, e então
recompensará a cada um de acordo com
suas obras.
28
Com toda a certeza vos afrmo que
alguns dos que aqui se encontram não
experimentarão a morte até que vejam o
Filho do homem vindo em seu Reino”.
6
A transfguração de Jesus
17
Passados seis dias, Jesus tomou
consigo Pedro, Tiago e João, ir-
mão de Tiago, e os levou, em particular, a
um alto monte.
1
2
Ali Ele foi transfgurado na presença deles.
Sua face resplandeceu como o sol, e suas
vestes tornaram-se brancas como a luz.
3
De repente, surgiram à sua frente Moi-
sés e Elias, conversando com Jesus.
4
Expressando-se Pedro, disse a Jesus:
“Senhor, é bom estarmos aqui. Se dese-
jares, farei aqui três tendas: uma para ti,
uma para Moisés e outra para Elias”.
5
Enquanto ele ainda estava falando, uma
nuvem resplandecente os envolveu, e
pecados; aqui ele está falando de práticas. Veja um exemplo dessas práticas determinativas em At 15.20. Jesus pede aos discí-
pulos sigilo quanto à confissão pública de Pedro. Isso porque uma multidão dos seus seguidores queria proclamá-lo libertador
nacional e iniciar logo uma revolução contra Roma. Crescia a inveja dos doutores da lei e líderes religiosos, contra Jesus, e já
planejavam sua morte. O Senhor queria completar sua missão, mas o entusiasmo de Pedro e dos apóstolos poderia precipitar os
acontecimentos (9.30; 12.16; Mc 1.44; 5.43; 7.36; 8.4; Lc 8.56).
5
O Senhor reconheceu nas palavras de Pedro a influência de Satanás; a mesma artimanha que o Inimigo usou no deserto para
tentar persuadi-lo a ter compaixão de si mesmo e trocar o alto custo da sua missão pela glória e os prazeres deste mundo. Jesus
usa a palavra aramaica Enganador, não para dizer que Pedro estava endemoninhado, mas para alertar a todos que é muito fácil
cairmos na ilusão do Diabo e começarmos a pensar com os valores, conceitos e argumentos do pai da mentira. Jesus recorre
à força da linguagem (palavra) e usa a metáfora: “pedra de tropeço”, que no original significa: “rocha de ofensa” ou “motivo de
escândalo” (Rm 9.33), para admoestar Pedro quanto à sua recente revelação, nova posição no Reino de Deus e missão. Assim
como a palavra hebraica traduzida por “Satanás”, a palavra grega “Diabo” significa “Acusador” ou “Caluniador”. Em Jó, essa
expressão (Jo 1.6), no original hebraico, vem sempre acompanhada do artigo definido (o Acusador, o Caluniador, ou ainda, o
Enganador), mas com o passar do tempo essa palavra virou o nome próprio do Inimigo (1Cr 21.1 com 2Sm 24.1; 1Sm 16.14 com
2Sm 24.16; 1Co 5.5; 2Co 12.7; Hb 2.14; Ap 2.9).
6
Uma semana depois desses acontecimentos, Pedro, Tiago e João presenciam o cumprimento dessa profecia na experiência
da transfiguração de Cristo (17.1-8), que foi também uma antevisão da plenitude do Reino, com o Senhor aparecendo em glória
(Dn 7.9-14). A passagem bíblica de 16.13 a 17.8 trata do ministério do discipulado cristão. Os versículos de 13-20 falam da obra
do Messias; de 21-23 tratam da expiação; 24-26 advertem para o custo da missão; 27-17.8 dizem respeito à escatologia com suas
recompensas. Juntos, esses textos, tratam das verdades fundamentais da teologia bíblica do NT.
Capítulo 17
1
Lucas fala em “cerca de oito dias” em seu texto paralelo (Lc 9.28), pois indica os seis dias de intervalo mais o dia em que Jesus
falou e o dia em que a transfiguração aconteceu em algum ponto do monte Hermom (com cerca de 3000 metros de altura), a 20
km de Cesaréia de Filipe. Como prometera, Jesus oferece a alguns discípulos (mais íntimos), uma antevisão da exaltação futura
do Senhor e do pleno estabelecimento do seu Reino. Jesus foi visto em sua forma glorificada. Moisés comparece representando a
antiga aliança e a promessa da salvação (que dentro em breve seria cumprida no sacrifício de Jesus). Elias representa os profetas
e o cumprimento da Palavra de Deus. Lucas acrescenta que conversavam a respeito da iminente morte de Cristo (Lc 9.31). Jesus
é revelado como a realidade gloriosa à qual a totalidade do AT apresenta como o cumprimento de toda a história da redenção
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 37
38 MATEUS 17
dela emanou uma voz dizendo: “Este é o
meu Filho amado em quem me regozijo:
a Ele atendei!”.
6
Ao ouvirem isso, os discípulos prostra-
ram-se com o rosto em terra e fcaram
atemorizados.
7
Então Jesus, aproximando-se deles,
tocou-os e disse: “Levantai-vos, e não temais!”.
8
Ao erguer os olhos, a ninguém mais
viram, senão somente a Jesus.
9
Enquanto desciam do monte, Jesus lhes
ordenou: “A ninguém conteis a visão que
tivestes, até que o Filho do homem res-
suscite dentre os mortos”.
10
E os discípulos lhe perguntaram: “En-
tão, por que os escribas ensinam que é
preciso que Elias venha primeiro?”.
11
Ao que Jesus lhes respondeu: “Elias, com
certeza, vem e restaurará todas as coisas.
2
12
Eu, todavia, vos afrmo: Elias já veio,
mas eles não o reconheceram e fzeram
com ele tudo quanto desejaram. Da mes-
ma forma, o Filho do homem irá sofrer
nas mãos deles”.
13
Os discípulos entenderam, então, que
era a respeito de João Batista que Ele
havia falado.
A cura do menino possesso
14
Ao chegarem onde se reunia a multi-
dão, um homem aproximou-se de Jesus,
ajoelhou-se diante dele e clamou:
15
“Senhor, compadece-te do meu flho,
pois tem sofrido horrivelmente com ata-
ques epiléticos. Muitas vezes cai no fogo,
e outras tantas, na água.
3
16
Apresentei-o aos teus discípulos, mas
eles não conseguiram curá-lo”.
17
Então Jesus exclamou: “Ó geração sem
fé e perversa! Até quando estarei convos-
co? Até quando vos terei de suportar?
Trazei-me aqui o menino”.
18
E Jesus repreendeu o demônio; este
saiu do menino, que daquele momento
em diante fcou são.
19
Então os discípulos chegaram-se a
Jesus e, em particular, lhe perguntaram:
“Por qual motivo não nos foi possível
expulsá-lo?”.
20
E Ele respondeu: “Por causa da peque-
nez da vossa fé. Pois com toda a certeza
vos afrmo que, se tiverdes fé do tama-
nho de um grão de mostarda, direis a
este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele
passará. E nada vos será impossível!
21
Contudo, essa espécie só se expele por
meio de oração e jejum”.
Jesus prediz novamente seu martírio
22
Ao se reunirem na Galiléia, compar-
tilhou com eles, dizendo: “O Filho do
homem está prestes a ser entregue nas
mãos dos homens.
23
Eles o matarão, mas no terceiro dia
Ele será ressuscitado”. Então, profunda
tristeza abalou os discípulos.
Jesus paga o imposto secular
24
Quando Jesus e seus discípulos che-
garam a Cafarnaum, os cobradores do
imposto de duas dracmas abordaram a
Pedro e questionaram: “O vosso mestre
não paga o imposto das duas dracmas,
ao templo?”.
25
“Sim, paga”, respondeu Pedro. Mas
quando ele entrou em casa, Jesus se
humana, desde o dia em que Abraão foi chamado para obedecer a Deus e abandonou tudo o que tinha, para receber a herança
prometida (Gn 12.2,3; 15.4,5).
Na experiência da transformação de Jesus, Deus Pai intervém na história para consolar o Filho, que já estava a caminho da
crucificação (22-23 com 16-21), e também aos discípulos, a fim de darem toda a atenção às palavras de Jesus e continuarem
firmes na fé após sua morte e ascensão. Bem mais tarde, Pedro vai citar esse evento em suas pregações, como uma das provas
irrefutáveis da divindade de Jesus, o Messias (2Pe 1.16-18).
2
Os mestres da lei (escribas) defendiam, com base em Ml 4.5-6, que Elias deveria reaparecer em Israel para anunciar a vinda
do Messias. Contudo, Jesus demonstrou que foi João, o Batista, a pessoa que cumpriu essa missão profética, pois até suas
vestes, maneira de viver e personalidade revelavam o caráter de um Elias, e esse era o sentido da profecia.
3
A expressão grega original, em algumas versões traduzida por “lunático”, significa: “epilético”. Evidentemente nem todo
ataque epilético tem a ver com possessão demoníaca; mas, neste caso, o menino estava mesmo possuído por um demônio
muito poderoso. Todavia, qualquer discípulo que tivesse fé e comunhão com Deus (jejum e oração) poderia expulsá-lo e curar
o menino.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 38
39 MATEUS 17, 18
antecipou e perguntou-lhe primeiro:
“Simão, qual a tua opinião? De quem
cobram os reis da terra impostos e
tributos? Dos seus flhos ou dos estranhos?”.
26
“Dos estranhos”, respondeu Pedro.
Ao que Jesus concluiu: “Logo, estão, os
flhos, livres dessa obrigação”.
4
27
Entretanto, para que não os escan-
dalizemos, vai ao mar, lança o anzol,
e o primeiro peixe que fsgar, tira-o,
e, abrindo-lhe a boca, acharás um es-
táter. Retira aquela moeda e entregue a
eles para pagar o meu imposto e o teu
também.
Quem é o maior no Reino?
(Mc 9.33-37,42-26; Lc 9.46-48)
18
Naquele momento os discípulos
aproximaram-se de Jesus e per-
guntaram: “Quem é o maior no Reino
dos céus?”.
1
2
E Jesus, chamando uma criança, colo-
cou-a no meio deles.
3
E disse: “Com toda a certeza vos afrmo
que, se não vos converterdes e não vos
tornardes como crianças, de modo al-
gum entrareis no Reino dos céus.
2
4
Portanto, todo aquele que se tornar hu-
milde, como esta criança, esse é o maior
no Reino dos céus.
5
E quem recebe uma destas crianças, em
meu nome, a mim me recebe.
Jesus adverte sobre as ciladas
6
Entretanto, se alguém fzer tropeçar um
destes pequeninos que crêem em mim,
melhor lhe seria amarrar uma pedra
de moinho no pescoço e se afogar nas
profundezas do mar.
7
Ai do mundo, por causa das suas cila-
das! É inevitável que tais ofensas ocor-
ram, mas infeliz da pessoa por meio da
qual elas acontecem!
8
Sendo assim, se a tua mão ou o teu pé te
fzerem cair em pecado, corta-os e lança-
os fora de ti; pois melhor é entrares na
vida, mutilado ou aleijado, do que, tendo
as duas mãos ou os dois pés, seres atirado
no fogo eterno.
9
Se um dos teus olhos te faz pecar, ar-
ranca-o, e lança-o fora de ti, pois melhor
é entrares na vida com um olho só, do
que, tendo os dois, seres lançado no fogo
do inferno.
A parábola da ovelha perdida
(Lc 15.3-7)
10
Tende todo cuidado para que não des-
prezeis a qualquer destes pequeninos;
pois Eu vos asseguro que seus anjos nos
céus vêem continuamente a face de meu
Pai celestial.
3
11
Porque o Filho do homem veio para
salvar o que se havia perdido.
12
Que opinião tendes? Se um homem
tiver cem ovelhas, e uma delas se desgar-
rar, não deixará ele as noventa e nove nos
montes, indo procurar a que se perdeu?
13
E se conseguir encontrá-la, com toda a
certeza vos afrmo que maior contenta-
mento sentirá por causa desta do que pelas
noventa e nove que não se extraviaram.
4
O imposto das duas dracmas era cobrado anualmente de todos os homens de 20 anos para cima, sendo destinado à manuten-
ção do templo. Havia cobradores para outros valores e tipos de impostos (Êx 30.13; 2Cr 24.9; Ne 10.32). Valia meio estáter ou siclo,
por pessoa (valor que correspondia a dois dracmas ou dois dias de trabalho braçal). Jesus se antecipa à confusão mental de Pedro,
ao demonstrar que os membros da família real ficam isentos de pagar os impostos do Reino. Assim, Jesus, o Filho de Deus (dono
do templo) não estaria pessoalmente obrigado a arcar com parte do sustento da casa do seu Pai (Lc 2.49). Como Pedro ainda não
tinha entendido a amplitude desse conceito e, além disso, já havia se comprometido com o pagamento, Jesus ilustra para ele, e para
nós, mais esse ensino sobre a Sua pessoa, Reino e Missão, além dos nossos deveres civis e religiosos (Rm 13.7).
Capítulo 18
1
Este é o último grande discurso de Jesus antes de ir para Jerusalém (Mc 9.33 com 17.25). Estavam todos reunidos na casa de
Pedro e Jesus notou que havia se manifestado entre seus discípulos o mal do ciúme, da inveja e da competição por proeminência
no ministério.
2
A expressão grega straphete significa “virar”, “mudar completamente” e está relacionada a uma nova vida voltada
(consagrada) para Deus e não apenas a adoção de certa religiosidade formal. Ser como as crianças, é admitir um novo começo
e dispor-se humildemente a aprender a viver como cidadão do Reino.
3
A referência aos pequeninos pode ser tanto às crianças quanto ao novos (neófitos) na fé cristã. O escândalo e o desprezo
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 39
40 MATEUS 18
14
Da mesma maneira, vosso Pai, que está
nos céus, não deseja que qualquer desses
pequeninos se perca.
4
Como tratar o pecado de um irmão
15
Se teu irmão pecar contra ti, vai e, em
particular com ele, conversem sobre a
falta que cometeu. Se ele te der ouvidos,
ganhaste a teu irmão.
16
Porém, se ele não te der atenção, leva
contigo mais uma ou duas pessoas, para
que pelo depoimento de duas ou três
testemunhas, qualquer acusação seja
confrmada.
5
17
Contudo, se ele se recusar a considerá-
los, dizei-o à igreja; então, se ele se negar
também a ouvir a igreja, trata-o como
pagão ou publicano.
18
Com toda a certeza vos asseguro que
tudo o que ligardes na terra terá sido li-
gado no céu, e tudo o que desligardes na
terra terá sido desligado no céu.
19
Uma vez mais vos asseguro que, se
dois dentre vós concordarem na terra em
qualquer assunto sobre o qual pedirem,
isso lhes será feito por meu Pai que está
nos céus.
20
Porquanto, onde se reunirem dois ou
três em meu Nome, ali Eu estarei no meio
deles”.
6
Quantas vezes se deve perdoar
(Lc 17.3-4)
21
Então, Pedro chegou perto de Jesus e
lhe perguntou: “Senhor, até quantas ve-
zes meu irmão pecará contra mim, que
eu tenha de perdoá-lo? Até sete vezes?”.
22
E Jesus lhe respondeu: “Não te direi
até sete vezes; mas, sim, até setenta vezes
sete”.
7
A parábola do servo que não perdoou
23
“Portanto, o Reino dos céus pode ser
comparado a certo rei, que decidiu acer-
tar contas com seus servos.
24
Quando teve início o acerto, foi trazi-
por essas pessoas teriam o efeito de uma cilada (uma armadilha provocada pelo Diabo), afastando-as da verdadeira vida em
Cristo. O provocador de escândalos receberá o mais severo julgamento de Deus. Quanto aos anjos, são seres criados por Deus
para Sua adoração e serviço. Há várias classes de anjos com diversas especialidades. Aqui, Jesus se refere aos anjos guardiões,
destacados pelo Senhor para cuidar das crianças e do povo de Deus em geral (Sl 34.7; 91.11; At 12.15; Hb 1.14).
4
A história da ovelha perdida também se acha em Lc 15.3-7. Ali é aplicada aos incrédulos, mas aqui aos cristãos. O v.14 não
exclui a possibilidade da perdição, mas ressalta que a vontade de Deus é que todos sejam salvos. A pessoa que vai para o inferno,
desde já recusa a salvação e aceita – direta ou indiretamente – a condição de perdido, não porque Deus queira (25.41;1Tm 2.4).
Jesus usou a mesma parábola para ensinar verdades diferentes em situações específicas.
5
Jesus orienta seus discípulos quanto aos passos que devem ser observados para resolver os problemas de relacionamento
interpessoal, pecados evidentes, e casos de excomunhão da igreja (congregação local): 1) Como primeiro passo (muitas vezes
ignorado), o crente que se sente vítima de alguma ofensa ou que descobre um pecado em seu irmão de fé, deve convidá-lo para
uma conversa a sós (ninguém mais deve saber desse assunto) e tentar estabelecer um diálogo honesto, sincero e cordial com
o ofensor, a fim de “ganhar o seu irmão”; ou seja, que haja acertos e reparações (se necessário) para que os dois obtenham
paz e alegria, e sigam servindo ao Senhor, dando bom exemplo ao mundo. 2) No caso da recusa ou indiferença do ofensor, a
pessoa ofendida deve convidar um ou mais irmãos maduros na fé, que chamarão o ofensor para uma conversa em grupo, onde
se buscará o Conselho de Deus, as reparações necessárias e a celebração da paz em Cristo (Gl 6.1-5). Jesus cita o texto de Dt
19.15, da Septuaginta (o AT em grego), incorporando esse justo e sábio princípio da lei mosaica para benefício da Igreja Cristã. 3)
No caso de total indiferença ou falta de arrependimento por parte do ofensor, os líderes espirituais da igreja devem ser informados
pelo grupo que tentou trazer o irmão faltoso ao bom senso e à perfeita comunhão em Cristo. Os líderes devem fazer o possível
para “não perder” o irmão faltoso. No caso de claro desrespeito à Palavra de Deus e à liderança da igreja, então esse pecador
obstinado deve ser afastado da comunhão cristã, ao menos até que recobre a sensatez, reconheça suas faltas e se disponha
sinceramente a viver de acordo com os princípios da Palavra de Deus (1Co 5.4-5; 1Tm 1.20).
6
Essas são promessas dirigidas a todos os discípulos de Cristo (cristãos totalmente consagrados ao Senhor), pois saberão
agir com sabedoria celestial. O v.19 é uma das grandes promessas do Evangelho, em relação à oração. Entretanto, é preciso
observar a conexão desse versículo com o seu contexto imediato e o conteúdo do capítulo. Ou seja, a promessa é dada aos
discípulos reunidos, tendo Jesus Cristo em seu meio (v. 20), com o objetivo de restaurar um irmão que esteja vivendo no erro (pe-
cado – v. 17). Jesus confirma a autoridade dos discípulos para o exercício dessa função (v. 18 e 16.19), e a promessa é cumprida
porque agem da parte do Pai, em nome do Filho (v. 20). O verdadeiro entendimento e unidade entre os seres humanos é algo
raro, mesmo entre os cristãos. Deus só exige um acordo entre as pessoas: que Jesus Cristo, seu Filho, seja a grande paixão da
humanidade e o ponto comum e central da fé. Jesus é o fator básico da unidade (Jo 17.19-21). É possível discordar e viver em
comunhão, respeito e cooperação no Reino.
7
Os rabis e mestres judaicos ordenavam perdoar até três vezes. Pedro sugeriu um salto espiritual: sete vezes! O número
MT_B.indd 14/8/2007, 14:06 40
41 MATEUS 18, 19
do à sua presença um que lhe devia dez
mil talentos.
8
25
Porém, não tendo o devedor como
saldar tal importância, ordenou o seu se-
nhor que fosse vendido ele, sua mulher,
seus flhos e tudo quanto possuía, para
que a dívida fosse paga.
26
O servo, então, com toda a reverência,
prostrou-se diante do rei e lhe implorou:
‘Sê paciente comigo e tudo te pagarei!’
27
E o senhor daquele servo, teve compai-
xão dele, perdoou-lhe a dívida e o deixou
ir embora livre.
28
Entretanto, saindo aquele servo, en-
controu um dos seus conservos, que lhe
estava devendo cem denários. Agarrou-o
e começou a sufocá-lo, esbravejando:
‘Paga-me o que me deves!’
29
Então, o seu conservo, caindo-lhe aos
pés, lhe suplicava: ‘Sê paciente comigo e
tudo te pagarei’.
30
Mas, ele não queria acordo. Ao con-
trário, foi e mandou lançar seu conservo
devedor na prisão, até que toda a dívida
fosse saldada.
31
Quando os demais conservos, compa-
nheiros dele, viram o que havia ocorrido,
fcaram indignados, e foram contar ao
rei tudo o que acontecera.
32
Então o rei, chamando aquele servo lhe
disse: ‘Servo perverso, perdoei-te de toda
aquela dívida atendendo às tuas súplicas.
33
Não devias tu, da mesma maneira, com-
padecer-te do teu conservo, assim como
eu me compadeci de ti?’
34
E, sentindo-se insultado, o rei entre-
gou aquele servo impiedoso aos carras-
cos, até que lhe pagasse toda a dívida.
35
Assim também o meu Pai celestial vos
fará, a cada um, se de todo o coração não
perdoardes cada um a seu irmão”.
Casamento e Divórcio
(Mc 10.1-12)
19
E aconteceu que, concluindo Jesus
essas palavras, partiu da Galiléia e
dirigiu-se para a região da Judéia, no ou-
tro lado do Jordão.
2
Grandes multidões o seguiam e a todos
curava ali.
1
3
Alguns fariseus também chegaram até
Ele e, para prová-lo, questionaram-lhe:
“É lícito o marido se divorciar da sua
esposa por qualquer motivo?”.
2
4
E Jesus lhes explicou: “Não tendes lido
que, no princípio, o Criador ‘os fez ho-
mem e mulher’,
5
e os instruiu: ‘Por este motivo, o homem
deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher,
e os dois se tornarão uma só carne’?
6
Sendo assim, eles já não são dois, mas
sim uma só carne. E, portanto, o que Deus
uniu, não o separe o ser humano”.
3
7
Replicaram-lhe: “Então por qual razão
mandou Moisés dar uma certidão de
divórcio à mulher e abandoná-la?”.
perfeito, completo. Mas, Jesus lhe respondeu com uma expressão matemática e filosófica que tende ao infinito. Ou seja: sempre!
O cristão, por sua fé no Senhor, deve perdoar todas as vezes que o ofensor arrependido lhe pedir perdão. Só assim será possível
ao crente compartilhar do amor, misericórdia e generosidade de Deus.
8
Jesus ilustra por que devemos perdoar sem limites. O perdão que Deus nos concedeu, ao nos abençoar com o dom da salva-
ção, é tão grandioso, que qualquer ofensa que outro ser humano venha a praticar contra nós torna-se irrisória, embora possa nos
fazer sofrer por algum tempo. Perdoar sempre dará mais espaço à plenitude divina em nossa alma. O “talento” era uma medida de
peso, usada para pesar ouro e prata, equivalente, a cerca de 35 quilos. Cada talento valia cerca de 6.000 denários. O “denário” era
uma moeda de prata que equivalia a um dia de trabalho braçal. Deus, finalmente, julgará a todos conforme seu amor longânimo
e justiça severa; e espera de nós o mesmo senso de misericórdia (Tg 2.13).
Capítulo 19
1
Jesus entrou na região da Peréia, em direção a Jerusalém, onde hoje se situa a Jordânia. Na época fazia parte das terras (tetrar-
quia) de Herodes Antipas, ficava a leste do rio Jordão, estendendo-se do mar da Galiléia até próximo ao mar Morto (Lc 13.22).
2
Mateus escreveu com o propósito de evangelizar os judeus, por isso, usa a expressão “Reino dos céus” significando “Reino de
Deus”, respeitando o cuidado extremo que os judeus tinham ao pronunciar o nome de Deus. Assim também, Mateus adiciona a frase
“por qualquer motivo” a esse versículo, que não consta do texto paralelo escrito por Marcos (Mc 10.2). Isso, para esclarecer ao leitor
quanto ao ensino de duas escolas rabínicas: Hillel, que permitia ao marido repudiar (rejeitar, mandar embora, abandonar, divorciar),
sua esposa por qualquer motivo que o desgostasse, até mesmo pelo sabor ou preparo de uma refeição. E a escola Shammai, a qual
pregava que o único motivo suficiente para um homem divorciar-se de sua esposa era a infidelidade conjugal comprovada.
3
Mais uma vez os doutores da Lei procuram desmoralizar Jesus, pois o assunto estava dividido, há muitos anos, entre duas
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 41
42 MATEUS 19
8
Ao que Jesus declarou: “Moisés, por cau-
sa da dureza dos vossos corações, vos con-
cedeu separar-se de vossas mulheres. Mas
não tem sido assim desde o princípio”.
9
Eu, porém, vos afrmo: “Todo aquele
que se divorciar da sua esposa, a não
ser por imoralidade sexual, e se casar
com outra mulher, estará cometendo
adultério”.
4
10
Então os discípulos consideraram: “Se
estes são os termos para o marido e sua
esposa, não é vantagem casar!”.
11
Mas Jesus ponderou-lhes: “Nem todos
conseguem aceitar essa palavra; somente
aqueles a quem tal capacidade é dada.
12
Pois há alguns eunucos que nasceram
assim do ventre de suas mães; outros
foram privados de seus órgãos reprodu-
tores pelos homens; e há outros ainda
que a si mesmos se fzeram celibatários,
por causa do Reino dos céus. Quem for
capaz de aceitar esse conceito, que o
receba”.
5
Jesus abençoa as crianças
(Mc 10.13-16; Lc 18.15-17)
13
Então, trouxeram-lhe algumas crian-
ças, para que lhes impusesse as mãos e
orasse por elas. Os discípulos, contudo,
os repreendiam.
14
Mas Jesus lhes ordenou: “Deixai vir a
mim as crianças, não as impeçais, pois o
Reino dos céus pertence aos que se tor-
nam semelhantes a elas”.
15
E, depois de ter-lhes imposto as mãos,
partiu dali.
6

Difcilmente os ricos serão salvos
(Mc 10.17-31; Lc 18.18-30)
16
Eis que alguém chegou perto de Jesus
e consultou-o: “Mestre, que poderei fazer
de bom para ganhar a vida eterna?”.
7
grandes e respeitadas correntes de pensamento. Mas Jesus apela, novamente, para o espírito da Lei e não apenas para a letra.
Jesus leva sua audiência para o princípio da criação e para o pensamento originário de Deus – O Criador – e cita a Septuaginta
(AT em grego), defendendo assim a doutrina da inspiração das Escrituras (Gn 1.27; 2.23-24). Portanto, o propósito divino na
criação é de que marido e esposa se unam de forma a se tornarem a mesma carne, sendo os corpos (o sangue) o meio para
a unidade indissolúvel do parentesco e comunhão, fazendo, assim, do casamento, a mais profunda forma de unidade física e
espiritual. Esse conceito vital deve ser ensinado às pessoas na época do namoro. Elas precisam aprender a namorar (se conhecer
bem) segundo a vontade de Deus. Isso evitaria muitos problemas no casamento.
4
A intenção dos fariseus não era compreender a verdade, mas achar um pretexto para destruir Jesus. Eles recorrem, assim,
à lei de Moisés (Dt 24.1). Mas Jesus demonstra que certas concessões, na história, não foram feitas por serem o plano original
de Deus para a humanidade, mas em atenção aos pedidos insistentes da sociedade; da alma dos homens, dos seus corações
arrogantes, vaidosos e egoístas. Características que acompanharam o ser humano após a sua Queda e que se relacionam com
a influência do Diabo na terra (Gn 3.8-13; 22-24).
5
A palavra “eunuco” (em hebraico sãrïs) é derivada de um termo assírio que significa “aquele que é cabeça” ou “o braço direito”.
No NT, o vocábulo grego eunouchos, é uma derivação de eunen echõ, que pode significar “conservar o leito” ou “manter a padrão”.
Nos escritos de Heródoto aprendemos que nos países orientais os eunucos eram contratados especialmente para tomar conta dos
haréns dos monarcas, sendo, entretanto, reputados como dignos de confiança em todos os sentidos. Em todos os casos, a palavra
refere-se a pessoas da mais alta confiança do rei e pode ser usada no sentido de: “oficial da corte” ou “castrado”. Em At 8.27 ambos
os sentidos estão em foco. Aqui, porém, a expressão original é clara e refere-se ao homem castrado. O judaísmo conhecia apenas
duas categorias de eunucos: Os “feitos pelo homem” (em hebraico sãrïs ’ãdhãm), e aqueles que nasceram congenitamente incapazes
ou sem libido (instinto e desejos sexuais) chamados de “natural” ou “eunuco do sol” (em hebraico sãrïs hammâ). Jesus usou uma
metáfora para mostrar o radicalismo do amor: na união com Deus e com o próximo, na aliança do matrimônio e no ministério cristão.
Jesus surpreende seus inquiridores com uma terceira classe de eunucos: os celibatários, aqueles que, de forma livre e espontânea,
sacrificaram seus desejos naturais e legítimos por amor ao Senhor e para melhor e maior dedicação ao Reino de Deus. Em nenhum
momento Jesus defendeu o asceticismo (doutrina dos primeiros séculos que exigia dos líderes cristãos a total abstinência sexual e
punia severamente os pensamentos impuros). Jesus e Paulo (dois celibatários) deixam claro que não é necessário que um homem
ou uma mulher se privem do casamento para serem bons obreiros ou líderes espirituais da Igreja de Cristo, isso é dom de Deus; e,
portanto, é graça e não maldição. Pessoas com esse dom devem ser orientadas a dedicar-se exclusivamente ao Senhor e à Igreja;
caso contrário, Satanás poderá se aproveitar disso e tentar recrutá-las para servir ao reino do mal (1Co 7.7,8,26,32-35). Orígenes, um
dos pais da Igreja do século II, interpretando erradamente essa palavra de Jesus, entendendo-a de forma literal, mutilou a si mesmo.
6
Era costume dos judeus levar as crianças para serem abençoadas por um rabino que fosse mestre comprovado da Lei. Ao
ouvirem o ensino de Jesus, as pessoas não tiveram dúvidas em enviar seus filhos para receberem a dádiva real (Gn 27). Entretan-
to, Jesus aproveitou o evento para pregar sobre a chegada e a disponibilidade do Reino de Deus para todos que o recebessem
com a humildade, sinceridade, fé e alegria das crianças (Mt 6.9; Rm 8.14).
7
Os judeus, no tempo de Cristo, criam que a realização de um grande e único ato digno podia garantir-lhes um lugar
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 42
43 MATEUS 19
17
Questionou-o Jesus: “Por que me per-
guntas a respeito do que é bom? Há so-
mente um que é bom. Se queres entrar na
vida eterna, obedeça aos mandamentos”.
18
Ao que ele perguntou: “Quais?”. E
Jesus lhe respondeu: “Não matarás, não
adulterarás, não furtarás, não darás falso
testemunho,
19
honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o
teu próximo como a ti mesmo”.
20
Replicou-lhe o jovem: “A tudo isso
tenho obedecido. O que ainda me falta?”.
21
Jesus disse a ele: “Se queres ser perfeito,
vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos
pobres, e terás um tesouro no céu. De-
pois, vem e segue-me”.
22
Ao ouvir essa palavra, o jovem afas-
tou-se pesaroso, pois era dono de muitas
riquezas.
8
23
Então disse Jesus aos seus discípulos:
“Com toda a certeza vos afrmo que
difcilmente um rico entrará no Reino
dos céus.
24
E lhes digo mais: É mais fácil passar
um camelo pelo fundo de uma agulha do
que um rico entrar no Reino dos céus”.
9

25
Ouvindo isso, os discípulos fcaram
atônitos e exclamaram: “Sendo assim,
quem pode ser salvo?”.
26
Mas Jesus, fxando o olhar neles, re-
velou-lhes: “Isso é impossível aos seres
humanos, mas para Deus todas as coisas
são possíveis”.
As recompensas no Reino
27
Então Pedro manifestou-se dizendo:
“Veja! Nós deixamos tudo e te seguimos;
o que será, pois, de nós?”.
28
Jesus lhes respondeu: “Com toda a
certeza vos afrmo que vós, os que me
seguistes, quando ocorrer a regeneração
de todas as coisas, e o Filho do homem se
assentar no trono da sua glória, também
vos assentareis em doze tronos, para jul-
gar as doze tribos de Israel.
10
29
Também todos aqueles que tiverem
deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe,
flhos ou terras, por causa do meu Nome,
receberão cem vezes mais e herdarão a
vida eterna.
privilegiado no céu. Outros acreditavam que a completa e restrita observância da Lei os levaria ao Reino de Deus. Lucas revela
que esse jovem ocupava posição de grande prestígio (Lc 18.18). Marcos salienta que, ao aproximar-se de Jesus, correu e
ajoelhou-se (Mc 10.17). O jovem possuía tudo o que alguém pode desejar, mas lhe faltava a certeza da vida eterna. Entretanto, ele
não pensou na incompatibilidade que existe entre o mundanismo e o Reino de Deus (6.33). A riqueza gera soberba e arrogância,
provocando rejeição à simplicidade e humildade que existe na fé em Cristo. Após a Queda, o ser humano perdeu a capacidade
de ser bom e fazer o bem (continuamente). Por isso, Deus fez da Salvação um presente (dádiva), não podemos adquiri-lo, só
nos é possível aceitá-lo (Ef 2.8).
8
Jesus mostra que o jovem em questão (assim como algumas pessoas) imaginava obedecer a todos os mandamentos da Lei:
ele não matava, não roubava e não era um mau filho. Acontece que a própria Escritura garante que ninguém é capaz de cumprir
a Lei e, por isso, precisamos desesperadamente da Graça do Senhor. O rapaz tinha tudo, e queria também ser perfeito (em
grego teleios, aperfeiçoado, tendo alcançado a meta). Jesus, contudo, ao relacionar os mandamentos (Êx 20.12-16; Dt 5.16-20;
Lv 19.18) omitiu “não cobiçarás”. Esse era, pois, justamente, o grande obstáculo para que o rapaz recebesse, de graça, a tão
almejada vida eterna. Jesus não está ensinando que todo cristão deva ser pobre, muito menos que todo pobre vai para o céu.
Ele estava provando o coração daquele homem para revelar a ele (e a nós) a necessidade de arrependimento e conversão dos
pecados que, muitas vezes, pensamos que não temos.
9
Jesus recorre a outra metáfora: o maior animal na Palestina em contraste com a menor passagem conhecida pelo povo na
época: o buraco de uma agulha. A expressão também se refere, curiosamente, a uma pequena entrada, situada ao lado da porta
principal da cidade de Jerusalém, por onde (por motivos de segurança) um camelo não podia passar carregado e, mesmo assim,
somente conseguia atravessá-la de joelhos (Mc 10.25). A salvação não é possível pelo esforço humano. É um ato sobrenatural
de Deus, que busca corações humanos onde receba amor incondicional e tenha prioridade absoluta. Ele acrescentará todas as
demais coisas necessárias (6.33-34). O amor ao dinheiro e às riquezas pode escravizar uma pessoa, exacerbando seu egoísmo
e desviando-a do Reino (1Tm 6.9-10). Jesus faz ainda uma alusão ao AT e reafirma que para Deus nada é impossível (Gn 18.14;
Jó 42.2; Zc 8.6-7).
10
A expressão grega palingenesia, aqui traduzida por “regeneração” refere-se ao mundo renovado do futuro (o novo céu e a
nova terra de Ap 21.1). As doze tribos, com as dez tribos do norte (Israel), perdidas séculos antes de Cristo (pela mistura com po-
vos gentios), serão restauradas para o julgamento (25.31; At 3.20-21; Ap 7.4-8). O outro único uso da palavra “regeneração” tem
a ver com a renovação espiritual das pessoas (Tt 3.5). Jesus ensina que o Reino de Deus não é uma competição, como em quase
tudo nas sociedades humanas. Jesus tranqüiliza Pedro e promete que todos os que tomarem parte em sua batalha, comparti-
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 43
44 MATEUS 19, 20
30
Entretanto, muitos primeiros serão
últimos, e muitos últimos serão primei-
ros”.
A parábola dos pagamentos
20
“Portanto, o Reino dos céus é se-
melhante a um proprietário que
saiu ao raiar do dia para contratar traba-
lhadores para a sua vinha.
1
2
Depois de combinar com cada traba-
lhador o pagamento de um denário pelo
dia, os enviou ao campo das videiras.
2
3
Por volta das nove horas da manhã, ao
sair, viu na praça do mercado, outros que
estavam parados, sem ocupação.
3
4
Então lhes disse: ‘Ide vós também tra-
balhar na vinha, e Eu vos pagarei o que
for justo’. E eles foram.
5
Tendo saído outras vezes, próximo do
meio dia e das três horas da tarde, agiu
da mesma maneira.
6
Ao sair novamente, agora em torno das
cinco horas da tarde, encontrou outros
que estavam sem trabalho, e indagou
deles: ‘Por qual motivo estivestes aqui
desocupados o dia todo?’
7
E lhe informaram: ‘Porque não houve
alguém que nos contratasse’. Então lhes
falou: ‘Ide igualmente vós para o campo
das videiras’.
8
Ao pôr-do-sol, o senhor da vinha or-
denou ao seu administrador: ‘Chama
os trabalhadores e paga-lhes o salário,
começando pelos últimos contratados e
terminando nos primeiros’.
4
9
Chegaram os que haviam sido contra-
tados em torno das cinco horas da tarde,
e cada um deles recebeu um denário.
10
Quando vieram os que haviam sido
contratados primeiro, deduziram que
receberiam mais; contudo, também estes
receberam um denário cada um.
11
No entanto, assim que o receberam,
começaram a se queixar do proprietário
da vinha,
12
dizendo-lhe: ‘Estes últimos homens
trabalharam apenas uma hora; apesar
disso o senhor os igualou a nós que su-
portamos o peso do trabalho e o calor
do dia’.
13
Mas o dono da vinha, explicando,
falou a um deles: ‘Amigo, não estou
sendo injusto contigo. Não combina-
mos que te pagaria um denário pelo dia
trabalhado?
14
Sendo assim, toma o que é teu, e vai-te;
pois é meu desejo dar a este último tanto
quanto dei a ti.
15
Porventura não me é permitido fazer o
que quero do que é meu? Ou manifestas
tua inveja porque eu sou generoso?’
5
16
Portanto, os últimos serão primeiros, e
os primeiros serão últimos. Pois muitos
serão chamados, mas poucos escolhidos”.
6
lharão igualmente das bênçãos de sua vitória completa e eterna. Entretanto, em 20.1-16, Ele adverte os seus seguidores sobre o
perigo de julgar o assunto das recompensas divinas por um padrão meramente político, econômico e financeiro (terreno).
Capítulo 20
1
A declaração de Jesus feita em 10.30, é explicada por meio desta história e repetida em 20.16, enfatizando a soberana gene-
rosidade de Deus Pai. Essa parábola foi registrada apenas em Mateus.
2
O denário ou dinheiro (em latim denarius) era uma moeda romana, de prata. Tinha o mesmo valor de um dracma (em grego
drachma), ou meio shekel judaico. Correspondia a um dia de trabalho de um soldado romano na época de Jesus. Um escrivão
de documentos altamente qualificado, na Palestina daquele tempo, ganhava dois denários por dia.
3
A contagem das horas começava às 6h da manhã. Portanto, a terceira hora correspondia às 9h da manhã e assim por
diante. Nos originais gregos, assim como na tradução KJ de 1611 constam as expressões: “da hora terceira; sexta; nona e da
décima primeira hora”. Entretanto, o Comitê Internacional de Tradução da Bíblia King James decidiu, para melhor compreensão
dessa parábola, pelo uso do atual sistema de divisão do dia natural em 24 horas. Tempo que a Terra leva para fazer uma rotação
completa sobre si mesma.
4
A Lei de Moisés garantia aos trabalhadores pobres (que ganhavam salário mínimo, ou um denário por dia) que fossem
pagos por seus contratadores até o fim do dia ou até que o brilho das primeiras estrelas pudesse ser observado no céu (Lv
19.13; Dt 24.14,15).
5
A parte final deste versículo no original grego é: “...ou o olho teu mau é porque eu bom sou?” Essa expressão está relacionada
ao suposto poder de amaldiçoar que existe nos olhos de uma pessoa que inveja (não apenas do invejoso compulsivo). Desde o
AT (1Sm 18.6-16), havia uma associação entre o olhar perverso e a inveja (daí a expressão popular: mau-olhado).
6
Esta parábola está repleta de ensino e sabedoria. Não é possível um comentário extenso aqui, mas é importante dizer que
Jesus usou uma história bem conhecida dos judeus para esclarecer um pouco mais sobre como é a vida no Reino de Deus.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 44
45 MATEUS 20
Outra vez Jesus prediz seu sacrifício
(Mc 10.32-34; Lc 18.31-34)
17
Jesus estava, então, pronto para subir a
Jerusalém, quando chamou à parte seus
doze discípulos e lhes falou:
18
“Agora estamos subindo para Jerusa-
lém, e o Filho do homem será entregue
aos chefes dos sacerdotes e aos escribas.
Eles o condenarão à morte.
19
E o entregarão aos gentios para ser
zombado, torturado e crucifcado; mas
ao terceiro dia Ele será ressuscitado!”.
7
É preciso sabedoria para pedir
(Mc 10.35-45)
20
Naquele momento, aproximou-se de
Jesus a esposa de Zebedeu, com seus flhos
e, prostrando-se, fez um pedido a Ele.
8
21
“O que desejas?” - perguntou Jesus. Ela
respondeu: “Ordena que no teu Reino
estes meus dois flhos se assentem um à
tua direita, e o outro à tua esquerda”.
22
“Não sabeis o que pedis!”, contestou-
lhes Jesus. “Podeis vós beber o cálice que
Eu estou prestes a beber e ser batizados
com o batismo com o qual estou sendo
batizado?”. E eles afrmaram: “Podemos!”.
23
Então Jesus lhes declarou: “Certamen-
te bebereis do meu cálice; mas quanto ao
assentar-se à minha direita ou à minha
esquerda, não cabe a mim outorgá-lo.
Esses lugares pertencem àqueles a quem
foram reservados por meu Pai”.
9
24
Ao ouvirem isso, os outros dez fcaram
injuriados contra os dois irmãos.
25
Então Jesus os chamou e explicou:
Desde o AT, muitos mestres e rabinos usavam parábolas para comunicar seus ensinos. Acontece que essa história, em várias
versões, era contada para realçar a doutrina das recompensas divinas, e seguia a mesma linha moral da conhecida fábula de La
Fontaine: “A Cigarra e a Formiga”. A história rabínica, em síntese, era assim: “Um rei recrutou muitos trabalhadores, mas um deles
trabalhou muitos dias para o reino. No dia do pagamento, o rei pagou pouco aos que tinham trabalhado pouco e recompensou
regiamente ao que fora fiel o tempo todo”. Ou seja: muito trabalho, muita recompensa; nenhum trabalho, punição ou nenhuma
recompensa. Jesus, porém, dá um desfecho novo, inusitado e ameaçador ao recontar essa parábola tradicional. Jesus declarou
que Deus dá recompensas aos seus filhos (Mt 5.12,46; 6.1; 5.16; 10.41). Mas, da mesma maneira inequívoca, ensinou que todos
os que servem a Deus com a principal intenção de com isso “merecer” bênçãos e favores, perderão a verdadeira felicidade, aqui
e na eternidade. Quem realiza boas obras contando com as recompensas, vai se aborrecer com a misericórdia e a bondade de
Deus. É por isso que os judeus, especialmente os que mais se esforçavam (escribas e fariseus), começaram a odiar a Jesus. Eles
tinham um lema na época: “A Torá (a Lei) foi dada a Israel para mostrar como adquirir méritos”. É até compreensível que eles se
irritassem com o novo ensino e com a generosidade de Deus; e que muitos deles, como na parábola, de “primeiros” se tornaram
“últimos”, ou como o irmão mais velho, que na história do “filho pródigo” irou-se e excluiu-se da alegria de reaver o irmão perdido
(Lc 15.11-32). Jesus ensina também, através dessa parábola, que os judeus, os primeiros a receber a gloriosa chamada divina,
não serão os primeiros a receber o galardão final (recompensa, prêmio), pois a Salvação não vem da herança racial, nem do
legalismo religioso, mas da generosidade e graça divinas. Assim também, a Salvação é a maior gratificação que um ser humano
pode receber em toda a sua vida e vale por toda a eternidade. Portanto, não existem “salvos de segunda classe”. Uma vez salvo;
salvo de primeira classe e para sempre. Deus é soberano e, absolutamente tudo depende dele. O ser humano não pode fazer
nada para salvar-se, a não ser aceitar humildemente a vontade do Senhor e andar segundo a Palavra. Entretanto, a graça de Deus
pode transformar qualquer fariseu em um dos “primeiros” (novamente), como aconteceu com Saulo de Tarso, nosso irmão Paulo
(At 9.1-31). A frase: “Pois, muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”, não consta de alguns manuscritos gregos, embora
faça referência às palavras de Jesus em 19.23-26 e refíra-se a parte de todas as revisões da KJ desde 1611 até hoje.
7
Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Teve início na cidade de Efraim (Jo 11.54), passando pela Galiléia (Lc 17.11),
seguindo mais para o sul, chegando a Jericó, passando pela Peréia (Lc 18.35), por Betânia (Lc 19.29), até chegar a Jerusalém (Lc
19.41). Jesus desejou muito celebrar sua última Páscoa com seus discípulos; uma multidão de peregrinos os acompanhava. Jesus
seria o Cordeiro Pascal da humanidade; mas nem seus discípulos mais chegados conseguiam entender por que o Messias haveria
de ser humilhado e morto se as profecias apontavam para um grande libertador, maior que Moisés. Nesta terceira predição sobre o
seu sacrifício, Jesus acrescenta que Ele não seria executado pelos judeus, que o apedrejariam, mas pelos gentios (romanos). Todos
esses detalhes proféticos só fariam sentido na mente dos discípulos após a morte e ressurreição de Jesus (28.6).
8
Marcos nos revela que esses filhos de Zebedeu e Salomé (irmã de Maria, mãe de Jesus) eram os primos do Senhor: Tiago e
João. O pedido foi feito numa reunião com Jesus, solicitada pela mãe dos dois apóstolos (27.56; Mc 10.35; 15.40; Jo 19.25). Tanto
o pedido como a indignação dos outros discípulos revela que todas aquelas pessoas aguardavam para breve o estabelecimento
do poderoso reino do Messias na terra, apesar da clara profecia sobre a Paixão do Senhor.
9
Jesus usa uma metáfora bastante conhecida dos judeus, especialmente no AT (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7),
quase sempre associada ao juízo e à ira de Deus contra o pecado. A expressão hebraica: beber o cálice significava compartilhar do
destino de alguém. Assim, o cálice refere-se ao castigo divino que Jesus teria de receber em lugar de cada ser humano. O batismo é
outra figura de linguagem que, assim como o cálice, explica o sentido do sofrimento e morte do Senhor (Lc 12.50; Rm 6.3,4). Jesus
demonstra mais uma vez sua absoluta divindade ao revelar que conhecia o destino dos discípulos, mas que não podia usurpar a
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 45
46 MATEUS 20, 21
“Sabeis que os governadores dos po-
vos os dominam e que são as pessoas
importantes que exercem poder sobre
as nações.
26
Não será assim entre vós. Ao contrário,
quem desejar ser importante entre vós
será esse o que deva servir aos demais.
27
E quem quiser ser o primeiro entre vós
que se torne vosso escravo.
28
Assim como o Filho do homem, que
não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida como único resgate por
muitos”.
10
Os cegos recuperam a visão
(Mc 10.46-52; Lc 18.35-43)
29
Ao saírem de Jericó, uma grande mul-
tidão acompanhava Jesus.
30
De repente, dois cegos, que estavam
assentados à beira do caminho, tendo
ouvido que Jesus passava, puseram-se a
gritar: “Senhor! Filho de Davi, tem mise-
ricórdia de nós”.
31
Entretanto, a multidão os repreendeu
para que se calassem, mas eles clamavam
ainda mais: “Senhor! Filho de Davi! Tem
misericórdia de nós!”.
32
Jesus, parando, chamou-os e lhes
perguntou: “O que quereis que Eu vos
faça?”.
11
33
“Senhor! Que se abram os nossos
olhos”, responderam eles.
34
Jesus sentiu compaixão e tocou nos
olhos deles. No mesmo instante os cegos
recuperaram a visão e o seguiram.
Jesus é aclamado pelas multidões
(Mc 11.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19)
21
Ao se aproximarem de Jerusalém,
chegaram a Betfagé, no monte
das Oliveiras. Então, Jesus enviou dois
discípulos,
1
2
e recomendou-lhes: “Ide ao povoado
que está adiante de vós e logo encon-
trareis uma jumenta amarrada, com seu
burrico ao lado. Desamarrai-os e trazei-
os para mim.
2

3
Se alguém vos questionar algo, deveis
dizer que o Senhor necessita deles e
sem demora os devolverá”.
4
No entanto, isso ocorreu para que se
cumprisse o que fora dito por meio do
profeta:
5
“Dizei à flha de Sião: ‘Eis que o teu rei
chega a ti, humilde e montado num bur-
rico, um potro, cria de jumenta’”.
autoridade do Pai. Assim, Tiago foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado (At 12.2). A última parte da pergunta de Jesus não
consta de alguns originais gregos, mas é clara em Mc 10.38 e consta de todas as revisões textuais da KJ desde 1611.
10
Não é aconselhável rejeitar a ajuda e o serviço dos nossos companheiros, mas “ser servidos” não deve ser a nossa ambição.
Devemos seguir o exemplo de Jesus que, sendo Deus, entregou “a sua vida” ou “a sua alma” (em grego ten psychen autou) para
pagar toda a punição imposta à humanidade pela quebra da ordem (Lei) de Deus no Éden: a morte eterna. Todo pecado demanda
indenização, expiação e pagamento. A Lei de Deus jamais ordenou sacrifícios humanos; mas, em relação ao pecado original, era
necessário que um ser humano sem pecado fosse imolado. Jesus se ofereceu para pagar nosso “resgate” (em grego lytron), palavra
derivada do verbo grego luo que significa “libertar” e usada na época ao se tratar da alforria de escravos. Jesus usou outra forte me-
táfora para comparar seu sacrifício ao ato de pagar o preço pedido pela venda de um escravo muito caro, comprado, todavia, para
ganhar a liberdade. Por isso, os cristãos estão livres, de uma vez por todas, do poder e da escravidão do pecado (do erro) e da pena
da morte eterna. Essa frase de Cristo é uma das poucas ocasiões em que a doutrina da redenção vicária é citada nos Evangelhos
sinóticos (1Tm 2.6). A salvação é oferecida de graça a todos, mas apenas os “muitos” a recebem em seus corações (1Jo 1.12-14).
11
Mateus cita dois cegos, enquanto os demais sinóticos destacam apenas um (Mc 10.46-52; Lc 18.35-43). Realmente eram
dois cegos, ocorre que Bartimeu, devido à sua personalidade, ganhou proeminência. A cura ocorreu durante a saída da Velha
Jericó para a Nova Jericó.
Capítulo 21
1
Betfagé, em hebraico significa “Casa dos Figos” (Lc 19.29). Segundo o Talmude, era uma pequena vila situada a cerca de
um quilômetro a leste de Jerusalém, na encosta sul do monte das Oliveiras. Aqui tem início a última semana da vida humana
de Jesus Cristo.
2
Jesus decide entrar em Jerusalém, desta vez, montado em um jumentinho (Jo 12.15). E isso, sob as homenagens das multi-
dões, para demonstrar claramente que Ele era o Messias prometido há séculos (Zc 9.9). O Filho de Davi, escolhido para ocupar
seu trono (1Rs 1.33,44). Os potros ou burricos (crias de jumenta), antes de serem submetidos a qualquer trabalho secular, eram
especialmente considerados para trabalhos religiosos (Nm 19.2; Dt 21.3; Sm 6.7), e simbolizavam humildade, paz, e a majestade
de Davi. Mateus revela o cuidado de Jesus em não apartar o jumentinho de sua mãe e levar ambos consigo para sua procissão
triunfal como Rei de Israel.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 46
47 MATEUS 21
6
Então os discípulos foram e fzeram o
que Jesus lhes havia mandado.
3
7
Trouxeram-lhe a jumenta com o
jumentinho, os selaram com mantas
para cavalgar, e sobre as mantas Jesus
montou.
8
Então, uma grande multidão estendia
suas capas pelo caminho, muitos outros
cortavam ramos de árvores e os espalha-
vam pela estrada.
9
E as multidões, tanto as que iam adi-
ante dele, quanto as que o seguiam, pro-
clamavam: “Hosana ao Filho de Davi!
‘Bendito seja Ele que vem em o Nome do
Senhor!’ Hosana nas alturas!”
4
10
Assim que Jesus entrou em Jerusalém,
toda a cidade fcou alvoroçada, e comen-
tavam: “Quem é este?”
11
Então as multidões exclamavam: “Este
é o profeta Jesus, vindo de Nazaré da Galiléia!”.
O templo é casa de oração!
(Mc 11.15-19; Lc 19.45-48)
12
Tendo Jesus entrado no pátio do tem-
plo, expulsou todos os que ali estavam
comprando e vendendo; também tom-
bou as mesas dos cambistas e as cadeiras
dos comerciantes de pombas.
13
E repreendeu-os: “Está escrito: ‘A mi-
nha casa será chamada casa de oração’;
vós, ao contrário, estais fazendo dela um
‘covil de salteadores’”.
5
14
Então levaram a Jesus, no templo, ce-
gos e aleijados, e Ele os curou.
15
Entretanto, quando os chefes dos
sacerdotes e os escribas viram as mara-
vilhas realizadas por Jesus, e as crianças
exclamando no templo: “Hosana ao Fi-
lho de Davi!”, revoltaram-se e indagaram
dele:
16
“Não ouves o que estas crianças estão
proclamando?”. Ao que Jesus lhes res-
pondeu: “Sim. E vós, nunca lestes: ‘Dos
lábios das crianças e dos recém-nascidos
suscitaste louvor’”.
17
E, deixando-os, saiu da cidade em di-
reção a Betânia, onde passou a noite.
6
A fgueira que não deu fruto
(Mc 11.12-14; 20-25)
18
Ao amanhecer, quando retornava para
a cidade, Jesus teve fome.
19
Avistando uma fgueira à beira da
estrada, aproximou-se dela, porém nada
encontrou, a não ser folhas. Então decre-
tou-lhe: “Nunca mais se produza fruto
3
O próprio Jesus usa a expressão: “Senhor” (Senhor de Israel) como seu título divino (16.18). Mateus usou as profecias regis-
tradas na Septuaginta (AT em grego), em Is 62.11 e Zc 9.9 para mostrar que a maioria do povo havia compreendido que Jesus
era mesmo o Rei-Messias prometido.
4
Hosana é uma expressão grega (hõsanna), que significa “Salva-nos!” e vem do hebraico transliterado (hôshi´â nã´), que quer
dizer: “Salva, Senhor, por misericórdia!” Mateus revela que expressões de júbilo emanavam da multidão, e não que fosse uma
frase só a ser repetida indefinidamente. Essa aclamação do povo é baseada em 2Sm 14.4, Sl 118.25-27 e Sl 148.1-2, cantada
na Festa dos Tabernáculos e, em Mateus, aplicada a Jesus. Como um ato de homenagem régia, o povo pavimentou, com seus
próprios mantos (capas), o caminho por onde passou o Senhor. Com o passar do tempo, a palavra “hosana” tornou-se uma
exclamação de louvor e alegria espiritual.
5
O termo grego original (to hieron), que significa “o templo”, indica toda a área sobre o monte Moriá, ocupada pelos diversos re-
cintos e a corte do templo. No domingo, após a entrada triunfal, Jesus continua sua obra de purificação da Casa do Senhor, iniciada
três anos antes (Jo 2.14). Uma atitude para demonstrar o quanto os judeus haviam ofendido ao Senhor, permitindo que seus cora-
ções fossem corrompidos pela ganância, dominados pelo pecado, e faltos de amor sincero para com Deus e com seu próximo. Isso
ocorre infelizmente ainda hoje em alguns templos cristãos, e entre seus membros. Jesus citou as Sagradas Escrituras, usando, da
versão Septuaginta (AT em grego), os textos de Is 56.7 com Jr 7.11. As ofertas, taxas e compras de animais para sacrifícios no templo
só podiam ser pagas com moeda hebraica (siclo hebreu), pois as demais moedas eram cunhadas com a imagem de divindades
pagãs ou do imperador, considerado pelos romanos e outros gentios como um deus. Entretanto, esse serviço de troca de moedas
(câmbio), compra e venda de animais, e produtos para os sacrifícios, deveria ser realizado com dignidade, no “grande átrio exterior
dos gentios”, um espaço reservado para essas atividades com mais de 50.000 m
2
. Todavia, os cambistas estavam explorando os
romeiros que vinham de muito longe e com dinheiro gentio para ofertar e sacrificar no templo. Além disso, a venda dos animais cul-
tualmente aceitáveis transformara-se apenas em lucrativo comércio, tanto que a área antes reservada já não comportava os estandes
de vendas e haviam invadido até o recinto sagrado. Vários sacerdotes lideravam a corrupção institucionalizada no templo, posto que
ao receberem os animais para holocausto, em vez de efetuarem o ritual do sacrifício, matavam apenas alguns deles, e repassavam
todos os demais para comerciantes fraudulentos, que os revendiam sucessivas vezes.
6
Os líderes dos sacerdotes e os doutores da lei viram os milagres de Cristo e temeram por suas vidas e negócios. Tentaram
enredar o Senhor num sofisma, ao alegar que um mestre tão zeloso como Jesus, não deveria deixar que crianças o adorassem
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 47
48 MATEUS 21
em ti!”. E, no mesmo instante, a fgueira
fcou completamente seca.
20
E quando viram o que ocorrera, muito
se admiraram os discípulos e exclamaram:
“Como foi possível esta fgueira secar tão
depressa?”.
21
Então Jesus explicou-lhes: “Com
certeza vos asseguro que, se tiverdes fé
e não duvidardes, podereis fazer não
apenas o que foi feito à fgueira, mas da
mesma forma ordenardes a este monte:
‘Ergue-te daqui e lança-te no mar’, e
assim acontecerá.
22
E tudo o que pedirdes em oração, se
crerdes, recebereis”.
7
Líderes religiosos duvidam de Jesus
(Mc 11.27-33; Lc 20.1-8)
23
Tendo Jesus chegado ao templo, en-
quanto ensinava, acercaram-se dele os
chefes dos sacerdotes e os anciãos do
povo e o questionaram: “Com que auto-
ridade fazes estas coisas aqui? E quem te
deu essa autorização?”.
8
24
Jesus, porém, replicou-lhes: “Eu igual-
mente vos lançarei uma questão. Se me
responderdes, também Eu vos direi com
que autoridade faço o que faço.
25
De onde era o batismo de João? Divino
ou humano?”. E eles discutiam entre si,
avaliando: “Se respondermos: divino, Ele
nos indagará: ‘Sendo assim, por que não
acreditastes nele?’
26
Porém, se alegarmos: humano, teme-
mos o povo, pois todos consideram João
como profeta”.
27
Por isso disseram a Jesus: “Não sa-
bemos!”. Ao que Jesus afrmou-lhes:
“Nem Eu vos direi com que autoridade
procedo.
9
A parábola do pai e dois flhos
28
Agora, qual a vossa opinião? Um ho-
mem tinha dois flhos. Aproximando-se
do primeiro, pediu: ‘Filho, vai trabalhar
hoje na vinha’.
29
Mas este flho lhe disse: ‘Não quero ir’.
Todavia, mais tarde, arrependido, foi.
30
Então chegou o pai até o segundo flho
e fez o mesmo pedido. Então este lhe res-
pondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi.
31
Qual dos dois fez a vontade do pai?”.
Ao que eles responderam: “O primeiro”.
Então Jesus lhes revelou: “Com toda a
certeza vos afrmo que os publicanos e
as prostitutas estão ingressando antes de
vós no Reino de Deus.
32
Porquanto João veio para vos mos-
trar o caminho da justiça, mas vós não
acreditastes nele; em compensação, os
cobradores de impostos e as meretrizes
creram.Vós, entretanto, mesmo depois
como se fosse Deus. Entretanto, Jesus citou novamente as Escrituras e revelou que mais uma profecia acerca dele se cumpria
naquele momento (Sl 8.2). Jesus foi, então, para a casa dos seus queridos amigos Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria, que ficava
em Betânia, uma aldeia no declive oriental do monte das Oliveiras, uns dois quilômetros a leste de Jerusalém.
7
Mateus condensava suas narrativas, em contraste com o texto dos demais autores sinóticos (Marcos e Lucas). Marcos situa a
maldição da figueira na manhã de segunda-feira, mas na terça-feira pela manhã foi que os discípulos, passando por ela outra vez,
a observam completamente aniquilada (Mc 11.12-14, 20-25). Mateus, mais tarde, ao escrever seu Evangelho (testemunho ocular
da vida, mensagem e sinais de Jesus), segundo a inspiração do Espírito Santo, enfatiza o caráter imediato do Juízo de Deus.
Diversas podem ser as inferências teológicas acerca dessa passagem, especialmente em relação a Israel (Os 9.10; Na 3.12). Con-
tudo, a única aplicação que o próprio Senhor Jesus faz, tem a ver com a eficácia da oração que não duvida do poder de Deus.
8
Aqui começa a terça-feira da chamada “Semana Santa”. O Sinédrio (supremo juiz da corte de Israel) decide apelar para
o legalismo e pede credenciais autorizadas a Jesus por estar realizando um ato oficial no templo. Eles já haviam usado essa
estratégia com João Batista (Jo 1.19-25) e, em outra ocasião, com o próprio Jesus (Jo 2.18-22). Os líderes religiosos sentiam
em Jesus uma forte ameaça à sua posição, privilégios e lucros financeiros ilícitos. Por isso, procuravam apresentá-lo como um
revolucionário, fora da lei, e inimigo de Roma.
9
Grandes oradores e conhecedores do poder da palavra, os líderes religiosos procuram comprometer a Jesus por meio de um
questionamento ardiloso. Jesus é levado a declarar publicamente que era o Messias (como o povo aclamava). Assim poderiam
prendê-lo e entregá-lo aos romanos. A outra opção seria negar sua autoridade divina, passando então a ser totalmente desacre-
ditado pela multidão que o acompanhava. Jesus apelou para o testemunho de João Batista acerca dele e lhes propôs também
uma questão (Jo 1.32-34).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 48
49 MATEUS 21
de presenciardes a tudo isso, não vos arre-
pendestes para acreditardes nele.
10
A parábola dos vinicultores maus
(Mc 12.1-12; Lc 20.9-19)
33
E mais, atentai a esta parábola: Havia
um certo proprietário de terras, que
plantou um campo de videiras. Ergueu
uma cerca ao redor delas, construiu um
tanque para prensar as uvas e edifcou
uma torre. Finalmente, arrendou essa
vinha para alguns vinicultores e foi
viajar.
11
34
Chegando a época da safra, enviou
seus servos até aqueles lavradores, para
receber os seus dividendos.
35
Porém os lavradores atacaram seus
servos; a um espancaram, a outro mata-
ram, e apedrejaram o terceiro.
36
Então lhes mandou outros servos, em
maior número do que da primeira vez,
mas os lavradores os trataram da mesma
maneira.
37
Por fm, decidiu enviar-lhes seu pró-
prio flho, considerando: ‘Eles respeita-
rão o meu flho’.
38
Contudo, assim que os lavradores
viram o flho, tramaram entre si: ‘Este
é o herdeiro! Então vamos, nos unamos
para matá-lo e apoderemo-nos da sua
herança’.
39
E assim, eles o agarraram, jogaram-no
para fora da plantação de videiras e o
assassinaram.
12
40
Sendo assim, quando vier o dono da
vinha, o que fará com aqueles lavradores?”.
41
Diante disso, responderam-lhe: “Ele
destruirá esses perversos de forma ter-
rível e arrendará seu campo de videiras
para outros cultivadores que lhe enviem
a sua parte no devido tempo das colhei-
tas”.
13
42
Então Jesus lhes inquiriu: “Nunca
lestes isto nas Escrituras? ‘A pedra que
os construtores rejeitaram, tornou-se
a pedra angular; e isso procede do
Senhor, sendo portanto, maravilhoso
para nós’.
43
Por isso, Eu vos declaro que o Reino
de Deus será retirado de vós para ser
entregue a um povo que produza frutos
dignos do Reino.
44
Todo aquele que cair sobre esta pedra
se arrebentará em pedaços; e aquele sobre
quem ela cair fcará reduzido a pó!”.
14
45
Depois que os chefes dos sacerdotes e
os fariseus ouviram as parábolas que Je-
sus lhes havia contado, compreenderam
que era sobre eles próprios que Jesus
estava falando.
46
E por causa disso procuravam um
motivo para prendê-lo; mas tinham
receio das multidões, porquanto elas o
consideravam profeta.
10
As versões de Almeida invertem a posição dos versículos 29 e 30. Entretanto, a Bíblia King James e a NVI seguem a mesma
ordem original. Jesus resolve o debate com os sacerdotes, propondo duas histórias (as respostas parabólicas de Jesus). A
autoridade maior vem da obediência amorosa e sincera a Deus; não de uma liderança autoritária, maquiavélica e despótica, que
depende apenas de títulos e diplomas e, ainda mais, corrompida pela falta de dignidade. Como podem os eleitos para cuidar da
Casa do Senhor (autoridades eclesiásticas), rejeitar o dono da Casa e o Evangelho do Reino?
11
Segundo a tradição rabínica, uma “torre” deveria ser construída na vinha, para abrigar o responsável pelo campo, que vigiava
a plantação, especialmente quando chegava o tempo da colheita e as uvas ficavam maduras. Era, normalmente, uma plataforma
elevada feita de madeira, com cerca de 5m de altura por 2m de lado.
12
Assim como seria um absurdo que os agricultores de um campo arrendado pudessem herdar essa terra ao assassinar seu
dono, maior loucura foi os líderes espirituais e teólogos da época imaginarem que a incriminação e a crucificação de Jesus Cristo,
o Filho de Deus, lhes garantiria a herança e o domínio de Israel.
13
Ao se escandalizarem com o erro dos outros, sem atentarem para seus pecados, e julgarem severamente os lavradores da
parábola de Jesus, os sacerdotes estavam decretando sua própria punição: os judeus que não aceitassem a verdadeira men-
sagem de Deus em Cristo ficariam sem a herança espiritual. No ano 70 d.C. o Templo e toda a cidade de Jerusalém sofreram a
mais arrasadora destruição até hoje registrada em sua história. Uma vez que o Evangelho foi rejeitado pelos judeus, Deus dirige
sua graça salvadora aos gentios, salva e convoca Paulo para ser seu apóstolo (em grego apostellõ, enviado por Deus com uma
missão específica). Já no segundo século da era cristã, a Igreja era composta, quase que totalmente, por não judeus (gentios).
14
Jesus é o alicerce seguro, a pedra fundamental, para todos aqueles que confessam o seu nome e edificam suas vidas nele,
passando assim a fazer parte do grande edifício de Cristo, como pedras vivas (16.18; 1Pe 2.4-5). Entretanto, para os que rejeitam
o Senhor, recusando-se a crer em Jesus, o Cristo (o Messias prometido), Ele se torna em pedra de tropeço e de condenação
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 49
50 MATEUS 21, 22
A parábola do banquete nupcial
(Lc 14.15-24)
22
Jesus continuou a pregar-lhes por
meio de parábolas, dizendo:
2
“O Reino dos céus é semelhante a um
rei que mandou realizar um banquete
nupcial para seu flho.
1

3
E, por isso, enviou seus servos a concla-
mar os convidados para as bodas do f-
lho; mas estes rejeitaram o chamamento.
4
Uma vez mais, mandou outros servos,
com esta ordem: ‘Dizei aos que foram
convidados que lhes preparei meu ban-
quete; os meus bois e meus novilhos
gordos foram abatidos, e tudo está pre-
parado. Vinde todos os convidados para
as bodas do meu flho!’
2
5
Mas os convidados nem deram atenção
ao chamado dos servos e se afastaram:
um para o seu campo, outro para os seus
negócios.
6
E outros ainda, atacando os servos,
maltrataram-nos e os assassinaram.
7
O rei indignou-se sobremaneira e, en-
viando seu exército, aniquilou aqueles
criminosos e incendiou-lhes a cidade.
3
8
Então, disse o rei a seus servos: ‘O ban-
quete de casamento está posto, contudo
os meus convidados não eram dignos.
9
Ide, pois, às esquinas das ruas e convi-
dai para as bodas todas as pessoas que
encontrardes.
10
E, assim, os servos saíram pelas estra-
das e reuniram todos quantos puderam
encontrar, gente boa e pessoas más, e a
sala do banquete das bodas fcou repleta
de convidados.
11
Entretanto, quando o rei entrou para
saudar os convidados que estavam à
mesa, percebeu que um homem não
trajava as vestes nupciais.
12
E indagou-lhe: ‘Amigo, como aden-
traste este recinto sem as suas vestes
próprias para as bodas?’ Mas o homem
não teve resposta.
13
Então, ordenou o rei aos seus servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-
o para fora, às trevas; ali haverá grande
lamento e ranger de dentes’.
4
14
Portanto, muitos são chamados, mas
poucos, escolhidos!”.
Dai a César o que é de César
(Mc 12.13-17; Lc 20.20-26)
15
E, assim, se afastaram os fariseus, tra-
mando entre si como fariam para enre-
dar a Jesus em suas próprias afrmações.
16
Então, mandaram-lhe seus seguidores
juntamente com alguns herodianos, que
lhe questionaram: “Mestre, sabemos que
és íntegro e que ensinas o caminho de
Deus, de acordo com a verdade, sem te
deixares induzir por quem quer que seja,
pois não te seduzes pela aparência das
pessoas.
17
Sendo assim, dize-nos: que te pareces?
É correto pagar impostos a César ou não?”.
5
18
Contudo, Jesus percebeu a má inten-
eterna (Is 8.14-15; Lc 20.17; Rm 9.32; 1Pe 2.6-8). Assim como um vaso de barro se despedaça ao ser arremessado contra uma
rocha, ou é esmagado ao ser atingido por uma enorme pedra, da mesma forma virá a destruição sobre todos aqueles que rejei-
tarem o senhorio de Cristo (Is 8.14; Dn 2.34,35,44; Lc 2.34). É importante notar que, mais tarde, o apóstolo Pedro fez questão de
salientar que Jesus era a sua Pedra, Rocha Principal, seu Sustentador, e que cada indivíduo deve aceitar a Pedra (Jesus), para
ser salvo e ganhar a vida eterna (At 4.8-12).
Capítulo 22
1
Jesus apresenta o Reino dos céus em outras parábolas, veja no capítulo 13.
2
A proclamação do Evangelho é o doce e insistente convite do Rei do Universo a todo ser humano, para tomar parte em seu
maravilhoso banquete de núpcias. Ainda assim, muitas pessoas estão de tal forma iludidas com suas exigências presentes e
materiais que se recusam a dar atenção à generosidade divina.
3
Todos aqueles que se apresentam como inimigos declarados do Evangelho, assim como os falsos cristãos, serão destruídos.
Da mesma forma como a cidade de Jerusalém foi completamente arrasada e queimada pelos romanos, no ano 70 d.C.
4
Era costume, naquela época e região, o anfitrião fornecer roupas adequadas ao casamento, para os convidados que não
pudessem comprá-las. Como esse grupo de pessoas veio diretamente das ruas, todos ganharam suas roupas cerimoniais.
Entretanto, um daqueles novos convidados, rejeitou também a hospitalidade e a generosidade do rei. A veste nupcial simboliza a
justificação com a qual Cristo veste todas as pessoas que aceitam o dom gratuito da Salvação (Rm 13.14; Ap 19.8).
5
Os fariseus, como nacionalistas radicais, eram contra o domínio romano. Os herodianos, entretanto, como a própria denomi-
nação revela, apoiavam o império romano de Herodes. Mas, diante de uma ameaça maior, fariseus e herodianos se unem numa
cilada dialética contra Jesus. Os maus se juntam no ataque ao Sumo Bem. Se a resposta de Jesus fosse “Não”, os herodianos
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 50
51 MATEUS 22
ção deles e replicou-lhes: “Por que me
tentais, hipócritas?
19
Deixai-me ver a moeda com a qual se
pagais os tributos”. E eles lhe mostraram
um denário.
20
Então lhes indagou: “De quem é esta
fgura e esta inscrição?”.
21
Responderam-lhe: “De César!”. Então,
lhes afrmou: “Portanto, dai a César o que
é de César, e a Deus o que é de Deus!”.
22
Ao ouvirem tal resposta, fcaram per-
plexos e, afastando-se dele, se retiraram.
6
Os saduceus e a ressurreição
(Mc 12.18-27; Lc 20.27-40)
23
Naquele mesmo dia, os saduceus, que
pregam a inexistência da ressurreição,
aproximaram-se de Jesus com uma
questão:
7
24
“Mestre, Moisés ensinou que se um
homem morrer sem deixar flhos, seu
irmão deverá casar-se com a viúva e dar-
lhe descendência.
25
Entre nós havia sete irmãos. O primei-
ro casou-se e morreu. Como não teve
flhos, deixou a mulher para seu irmão.
26
Da mesma maneira ocorreu com o
segundo, com o terceiro, até chegar ao
sétimo.
27
Finalmente, após a morte de todos, a
mulher também faleceu.
28
Sendo assim, na ressurreição, de qual
dos sete ela será esposa, considerando
que todos foram casados com ela?”
29
Então Jesus lhes esclareceu: “Vós estais
equivocados por não conhecerdes as Es-
crituras nem o poder de Deus!
30
Na ressurreição, as pessoas não se ca-
sam nem são dadas em matrimônio; são,
todavia, como os anjos do céu.
31
E, com relação à ressurreição dos mortos,
não tendes lido o que Deus vos declarou:
32
‘Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó’? Por isso, Ele
não é Deus de mortos, mas sim, dos que
vivem!”.
8
33
Ao ouvir tudo isso, as multidões fca-
ram estupefatas com o ensino de Jesus.
O maior dos mandamentos
(Mc 12.28-34)
34
Assim que os fariseus ouviram que
Jesus havia deixado os saduceus sem pa-
lavras, reuniram-se em conselho.
35
E um deles, juiz perito na Lei, formulou
uma questão para submeter Jesus à prova:
36
“Mestre, qual é o maior mandamento
da Lei?”
9
o delatariam ao governador romano, que teria o direito de executá-lo por traição. Se respondesse “Sim”, então os fariseus o
denunciariam diante do povo judeu, por deslealdade a Israel e ao judaísmo.
6
O dinheiro usado no império romano para pagar os impostos chamava-se “denário”. Uma moeda romana, cujo valor corres-
pondia a um dia de trabalho braçal, criada no governo de Tibério, e que trazia, em um dos lados, o retrato do imperador, e do
outro, a inscrição em latim: “Tibério César Augusto, filho do divino Augusto”. Jesus explana sua tese de forma magistral e deixa
todos atônitos diante de sua devoção ao Pai, sabedoria, simplicidade e coerência. Foi Deus quem deu a César poder e autoridade
(Rm 13.1-7). Todos os governos deste mundo, em todas as épocas, vivem de tributos recolhidos do povo. Entretanto, o governo
espiritual tem sua moeda própria e eterna: fé, amor, bondade, compaixão, misericórdia (Lc 20.20-25; Gl 5.22-26). O Reino de Deus
não é deste mundo. Seu modus vivendi (estilo de vida) é espiritual e visa o benefício de todos os seres e não a exploração do ho-
mem pelo homem. Jesus reconheceu a distinção entre responsabilidades políticas e espirituais. Ao governo devemos impostos e
obediência, política justa. No tributo às autoridades cívicas, apenas retribuímos parte daquilo que oferecem. Para Deus, devemos
nossa adoração, louvor, gratidão, obediência, serviço e a dedicação de todo o nosso ser.
7
Os “saduceus” formavam um partido aristocrático que dominava a vida política dos judeus, inclusive a posição do sumo sa-
cerdote. Não acreditavam na ressurreição, nem na existência dos anjos e, muito menos, na imortalidade da alma. Para eles, a vida
era apenas um “aqui e agora” e nada mais. Esse era um dos aspectos que mais lhes causava divergências com os fariseus.
8
Os saduceus apresentaram uma questão fechada para Jesus. Eles aceitavam apenas os primeiros cinco livros da Bíblia como
autoridade divina, e há séculos estudavam o assunto sobre o qual interrogaram Jesus. Reivindicaram a lei do levirato (do latim levir,
cunhado), promulgada a fim de proteger as viúvas, garantir as propriedades e a continuidade da linhagem familiar (Dt 25.5,6; Gn 38.8),
para zombar da doutrina da ressurreição defendida por Cristo e com isso desmoralizá-lo. Entretanto, Jesus usou o próprio Pentateuco
para mostrar que eles não estudavam as Escrituras com o devido amor a Deus e por isso erravam. Nos céus não há casamentos e re-
ceberemos novos corpos, como os de anjos, entre os quais não há macho ou fêmea. Portanto, debater esse assunto não faz sentido.
Além disso, os crentes ressuscitados viverão eternamente, uma verdade firmada no caráter de Deus (Êx 3.6; Lc 20.28).
9
Os fariseus eram muito legalistas, tanto que se emaranhavam em suas próprias leis e decretos. Discutiam sempre sobre
quais, dentre suas muitas ordenanças, eram prioritárias para que um judeu alcançasse o Reino dos céus e o Shabbãth (o grande
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 51
52 MATEUS 22, 23
37
Asseverou-lhe Jesus:

“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o
teu coração, de toda a tua alma e com
toda a tua inteligência.
10
38
Este é o primeiro e maior dos manda-
mentos.
39
O segundo, semelhante a este, é:
‘Amarás o teu próximo como a ti
mesmo’.
40
A estes dois mandamentos estão sujei-
tos toda a Lei e os Profetas”.
Jesus é o Senhor de Davi
(Mc 12.35-37; Lc 20.41-44)
41
Estando reunidos os fariseus, Jesus
lhes indagou:
42
“Qual a vossa opinião acerca do Mes-
sias? De quem Ele é flho?”. Ao que eles
lhe afrmaram: “É flho de Davi”.
43
Contestou-lhes Jesus: “Então, como se
explica que Davi, falando pelo Espírito, o
trata de ‘Senhor’? Pois ele afrma:
44
‘O Senhor disse ao meu Senhor: Assen-
ta-te à minha direita, até que Eu ponha
os teus inimigos debaixo dos teus pés’.
45
Considerando que Davi o chama
‘Senhor’, como pode ser Ele seu flho?”.
11
46
E ninguém foi capaz de oferecer-lhe
uma só palavra em resposta à questão;
tampouco ousou alguém mais, a partir
daquele dia, dirigir-lhe qualquer outra
pergunta.
Os doutores da Lei falam, mas não agem
(Mc 12.38-40; Lc 11.37-52; 20.45-47)
23
Então, Jesus pregou às multidões
e aos seus discípulos:
2
“Os escribas e os fariseus se assentam
na cadeira de Moisés.
1
3
Fazei e obedecei, portanto, a tudo
quanto eles vos disserem. Contudo, não
façais o que eles fazem, porquanto não
praticam o que ensinam.
4
Eles atam fardos pesados e os colocam
sobre os ombros dos homens. No entan-
to, eles próprios não se dispõem a levan-
tar um só dedo para movê-los.
5
Tudo o que realizam tem como alvo
serem observados pelas pessoas. Por isso,
fazem seus flactérios bem largos e as
franjas de suas vestes mais longas.
2
6
Amam o lugar de honra nos banquetes
e os primeiros assentos nas sinagogas.
7
Gostam de ser cumprimentados nas
Sábado, ou o descanso eterno). Eles haviam interpretado e abstraído do AT um total de 248 preceitos afirmativos. E mais 365
negativos, que acreditavam ser da vontade de Deus, pois o número coincidia com o número de dias do ano. Além disso, o total
desses mandamentos: 613, era o mesmo que o número de letras contidas no Decálogo.
10
Jesus mais uma vez aproveita a oportunidade para mostrar àqueles líderes religiosos e a seus muitos discípulos ao redor, res-
ponsáveis pela continuação do ensino das Escrituras ao povo, que a mentalidade divina e o modo espiritual de raciocinar dife-riam em
muito da limitada e egoísta dialética humana. Jesus então cita Dt 6.5, uma parte do Shema, orações e reflexões diárias dos judeus. Na
Septuaginta (o AT em grego) a palavra aqui traduzida por “inteligência” é, literalmente, “mente” (Mc 12.30). O verbo grego traduzido
aqui por “amarás” não é phileõ, como em algumas versões, que significa uma afeição entre amigos; mas, sim, o verbo agapaõ: uma
obrigação de dedicação absoluta a alguém, determinada pela vontade (Mq 6.8; Am 5.4; Is 33.15; Hc 2.4). Jesus foi o primeiro líder
espiritual judeu a combinar os dois mandamentos de amor, para formar o mais sintético resumo da Lei (Lv 19.18), revelando aos
fariseus, e a todos nós, que não são os muitos regulamentos e leis que tornam uma pessoa santa; mas, sim, seu genuíno e sincero
amor a Deus e a seu próximo mais achegado (familiares), e a seus próximos e vizinhos (comunidade, sociedade).
11
Finalmente, é Jesus quem questiona. Os fariseus eram profundos estudiosos sobre o Messias e sua vinda, como Libertador
de Israel. Entretanto, há séculos interpretavam erroneamente a pessoa e a obra do Messias. Imaginavam um rei, pleno de poderes
divinos, que viria como guerreiro invencível, para libertar Israel do império gentio e conceder saúde, paz e riqueza ao povo judeu.
Conheciam o Messias como Filho de Davi, mas não como o Senhor de Davi (Sl 110.1), tampouco seu domínio espiritual em
amor e humildade (Lc 20.42-44). Jesus desejava que os seus compreendessem que ele era o Messias prometido: o descendente
humano de Davi e o seu divino Senhor.
Capítulo 23
1
Os escribas, doutores e mestres da Lei, bem como os fariseus, partido político religioso que defendia a observância literal
da Torah (Lei) e mais uma série de ordenanças e preceitos por eles criados para situações não diretamente cobertas pela Torah.
Convencidos de que possuíam a correta interpretação da vontade de Deus, afirmavam que a tradição dos anciãos, a lei oral (tôrâ
shebe‘al peh) vinha de Moisés e desde o monte Sinai. Fariseus e escribas eram, portanto, os sucessores autorizados da tradição
de Moisés como mestres da Lei.
2
Os filactérios ou tefilins eram pequenos rolos ou caixinhas de couro que os judeus religiosos usavam presos à testa, perto
do coração, e no braço esquerdo. Essas pequenas cápsulas continham quatro passagens da Torah: Êx 13.1-10 e 11-16; Dt
6.4-9 e 11.13-21. Com o passar do tempo, os judeus começaram a respeitar e honrar esses pequenos recipientes, tanto quanto
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 52
53 MATEUS 23
praças e de serem, pelas pessoas, chama-
dos: ‘Rabi, Rabi!’.
3
8
Vós, todavia, não sereis tratados de
‘Rabis’; pois um só é vosso Mestre, e vós
todos sois irmãos.
9
E a ninguém sobre a terra tratai de vos-
so Pai; porquanto só um é o vosso Pai,
aquele que está nos céus.
10
Também não sereis chamados de líde-
res, pois um só é o vosso Líder, o Cristo.
4
11
Porém o maior dentre vós seja vosso
servo.
12
Portanto, todo aquele que a si mesmo se
exaltar será humilhado, e todo aquele que
a si mesmo se humilhar será exaltado.
13
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque fechais o reino dos
céus diante dos homens. Porquanto vós
mesmos não entrais, nem tampouco dei-
xais entrar os que estão a caminho!
5
14
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque devorais as casas das
viúvas e, para disfarçar, encenais longas
orações. E, por isso, recebereis castigo
ainda mais severo!
15
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque viajais por mares e
terras para fazer de alguém um prosé-
lito. No entanto, uma vez convertido, o
tornais duas vezes mais flho do inferno
do que vós!
16
Ai de vós, guias cegos! Porque ensinais:
‘Se uma pessoa jurar pelo santuário, isso
não tem signifcado; porém, se alguém
jurar pelo ouro do santuário, fca obriga-
do a cumprir o que prometeu’.
17
Tolos e cegos! Pois o que é mais impor-
tante: o ouro ou o santuário que santifca
o ouro?
18
E mais, dizeis: ‘Se uma pessoa jurar pelo
altar, isso nada signifca; mas, se alguém
jurar pela oferta que está sobre ele, fca,
assim, comprometido ao seu juramento’.
19
Embotados! O que é mais importante:
a oferta, ou o altar que santifca a oferta?
20
Portanto, a pessoa que jurar em nome
do altar, jura pelo altar e por tudo o que
está sobre ele.
21
E quem jurar pelo santuário, jura pelo
santuário e em nome daquele que nele
habita.
22
E aquele que jurar pelos céus, jura pelo
trono de Deus e em nome daquele que
nele está assentado.
6
as Escrituras, e seu tamanho era considerado um sinal de zelo espiritual de quem os ostentava. Os fariseus acreditavam que o
próprio Deus usava filactérios. Por isso, eram considerados como amuletos de boa sorte e proteção contra o mal. As “franjas”
eram as borlas descritas em Nm 15.37-41 que todo judeu deveria usar. Jesus também as usava nas quatro pontas de seu manto
(em Mt 9.20 são chamadas de “orla”), essas borlas eram um tipo de madeixas de lã, branca e azul, e tinham a singela função
de declarar o amor de quem as usava a Yahweh (o Senhor) e a vontade do seu coração de cumprir a Torah (ou Torá, a Lei) da
maneira mais fiel possível. As borlas tinham o tamanho médio de até 10 cm; entretanto, os fariseus as alongavam muito mais em
sinal de maior espiritualidade. O que Deus criou para ser apenas um lembrete de fé e marca de devoção, tornou-se objeto de
adoração e ostentação (fetiche).
3
Os mestres da Lei e os fariseus gostavam de ocupar os melhores e mais importantes assentos na sinagoga, aqueles que ficam
defronte à representação da arca e que continha os rolos das Escrituras Sagradas. Além disso, os que se assentavam ali podiam
ser facilmente vistos por toda a congregação. Eles também apreciavam muito ouvir as pessoas os chamarem, insistentemente,
aos gritos e em público (nas praças do mercado) de Rabbei (em grego), que significa literalmente em hebraico: “meu professor,
meu mestre!”
4
A expressão “pai” ou “padre” (em hebraico ’abh) não deve ser usada como título de qualquer autoridade religiosa. Jesus faz uma
séria advertência quanto à busca desenfreada por reconhecimento e prestígio, coisas que alimentam a soberba humana. Entretanto,
devemos ter cautela com possíveis aplicações de literalismo insensato dessas passagens. Jesus está ensinando princípios de vida
espiritual a quem só conseguia enxergar regras exatas de comportamento religioso. Os cristãos, líderes (em grego kathegetai, guias
ou dirigentes) ou não, devem ser conhecidos por um espírito e atitudes diaconais (em grego diakonos, servo).
5
“Ai” é uma expressão de profunda tristeza e indignação da parte de Deus, expressa através dos lábios do seu Filho contra
a falsidade (hipocrisia) dos maiores conhecedores das Sagradas Escrituras da época e líderes religiosos dos judeus, o povo do
Cristo (Messias). Essa atitude apenas legalista, arrogante, soberba e desprovida de sincero amor a Deus e às pessoas, fazia que os
“prosélitos” (pagãos e gentios que se convertiam ao judaísmo) se tornassem ainda piores que seus mestres e não tivessem verda-
deira comunhão com Deus, o Pai (em aramaico: abba). Esses líderes religiosos e juízes de direito, eram tão dissimulados que chega-
vam a usar suas posições como juristas para processar viúvas ricas ou para fazer que elas lhes legassem suas propriedades.
6
Com relação aos juramentos, Jesus argumenta com os mestres fariseus, com seus próprios pressupostos em relação à Lei,
para lhes revelar o verdadeiro espírito da Lei e a vontade de Deus (5.33-37).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 53
54 MATEUS 23
23
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque dais o dízimo da hor-
telã, do endro e do cominho, mas tendes
descuidado dos preceitos mais impor-
tantes da Lei: a justiça, a misericórdia e
a fé. Deveis, sim, praticar estes preceitos,
sem omitir aqueles!
7
24
Líderes insensíveis! Pois coais o peque-
no mosquito, mas engolis um camelo!
8
25
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque limpais o exterior do
copo e do prato, mas por dentro, estes
estão repletos de avareza e cobiça.
26
Fariseu que não enxerga! Limpa, an-
tes de tudo, o interior do copo e do pra-
to, para que da mesma forma, o exterior
fque limpo!
27
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque sois parecidos aos
túmulos caiados: com bela aparência
por fora, mas por dentro estão cheios
de ossos de mortos e toda espécie de
imundície!
9
28
Assim também sois vós: exterior-
mente pareceis justos ao povo, mas
vosso interior está repleto de falsidade
e perversidade.
29
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus,
hipócritas! Porque construís os sepul-
cros dos profetas, adornais os túmulos
dos justos.
30
E declarais: ‘Se tivéssemos vivido na
época dos nossos antepassados, não tería-
mos tomado parte com eles no assassina-
to dos profetas!’
31
Dessa forma, porém, testemunhais
contra vós mesmos que sois flhos dos
que mataram os profetas.
32
Acabai, pois, de encher a medida do
pecado de vossos pais!
33
Cobras venenosas, ninho de víboras!
Como escapareis da condenação do
inferno?
34
Por isso, eis que Eu vos envio profe-
tas, sábios e mestres. A uns assassinareis
e crucifcareis; a outros açoitareis nas
vossas sinagogas e perseguireis de cida-
de em cidade.
35
E, dessa maneira, sobre vós recairá todo
o sangue justo derramado na terra, desde
o sangue do justo Abel, até o sangue de
Zacarias, flho de Baraquias, a quem ma-
tastes entre o santuário e o altar.
10

36
Com toda a certeza vos asseguro, que
tudo isso ocorrerá a esta geração”.
O lamento sobre Jerusalém
(Lc 13.34-35)
37
“Ó Jerusalém, Jerusalém, que assassi-
nas os profetas e apedrejas os que te são
enviados! Quantas vezes Eu quis reunir
os teus flhos, como a galinha acolhe os
7
Oferecer ao Senhor a décima parte (o dízimo) de diversas ervas era uma prática religiosa baseada em Lv 27.30. Embora
o dízimo dos grãos, frutos, vinho e azeite fosse o exigido, dos judeus, pela Lei (Nm 18.12; Dt 14.22-23), os escribas e fariseus
haviam ampliado a lista dos itens especificados na Lei, para incluir o dízimo das menores e mais simples hortaliças. A hortelã
era usada como tempero e para adornar o chão das casas e sinagogas. O endro era usado como medicamento e para perfumar
ambientes. O cominho, que são as sementes de erva-doce, tinha vários usos culinários. Entretanto, o valor comercial dessas
ervas era mínimo; mas os fariseus desejavam mostrar ao povo um zelo religioso que, na verdade, não fazia parte de suas vidas
com Deus e com seus próximos.
8
Os escribas e fariseus coavam com muito cuidado toda água que bebiam através de um pano branco, bem tecido, para ter
certeza de não engolir nenhum pequeno mosquito; considerado pelos religiosos como o menor ser vivo impuro. Entretanto,
figuradamente, engoliam um camelo inteiro, um dos maiores animais impuros para os judeus, ao praticarem uma série de fraudes,
atrocidades e pecados.
9
Por ocasião da celebração da Páscoa, época em que os peregrinos de várias partes da Palestina iam a Jerusalém, e momento
no qual Jesus está falando, era costume pintar, várias vezes, toda a parte exterior dos sepulcros (túmulos) com cal. Isso para que
os túmulos pudessem ser vistos inclusive à noite, uma vez que, pela Lei, se alguém pisasse sobre um túmulo ou área de sepultura
tornava-se instantaneamente impuro (Nm 19.16). Por isso, todos pareciam iguais, limpos, belos e puros; mas em seu interior jazia
a morte, o mau cheiro e a podridão.
10
Os líderes religiosos judaicos no tempo de Jesus estavam acrescentando pecados sobre pecados à longa lista de seus pais
(antepassados) históricos. Jesus também seria um dos profetas martirizados. Seus apóstolos não seriam igualmente aceitos
(10.17,23). E Jesus resume a história dos martírios no AT citando o assassinato de Abel (Gn 4.8; Hb 11.4) e o martírio do profeta
Zacarias registrado no livro de Crônicas. Na Bíblia Hebraica, o último livro do AT (2Cr 24.20-22).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 54
55 MATEUS 23, 24
seus pintinhos debaixo das suas asas, mas
vós não o aceitastes!
11
38
Eis que a vossa casa fcará abandona-
da!
12
39
Pois eu vos declaro que, a partir de
agora, de modo algum me vereis,
até que venhais a dizer: ‘Bendito é o que
vem em o Nome do Senhor!’”
13

Jesus prediz o fnal dos tempos
(Mc 13.1-2; Lc 21.5-6)
24
Então, Jesus saiu do templo e, ao
caminhar, seus discípulos chega-
ram mais perto dele para lhe apontar as
construções do templo.
2 Ele, entretanto, lhes observou: “Estais
vendo todas estas coisas? Com toda a
certeza Eu vos afrmo que não fcará aqui
pedra sobre pedra, pois que serão todas
derrubadas”.
1
O princípio das dores
(Mc 13.3-13; Lc 21.7-19)
3
Tendo Jesus se assentado no monte das
Oliveiras, os discípulos chegaram até Ele
em particular e lhe pediram: “Dize-nos
11
O próprio Jesus reconhece que os seus próprios irmãos não o receberam. Deus tem feito tudo para seu povo, mas a rejeição
de Israel ilustra o coração empedernido da raça humana, em relação ao seu Criador (Jo 1.11).
12
Jesus faz referência a 1Rs 9.7-8; Jr 12.7, 22.5 e adverte seu povo. No ano 70 d.C. toda a nação de Israel e, em especial, a
cidade de Jerusalém, foram assoladas e profanadas pelos exércitos pagãos de Roma.
13
Jesus se despede de Jerusalém e do seu povo, declarando que não os ensinaria mais em público até sua volta em glória
no final dos tempos, quando Israel o receberá como o Messias que fora rejeitado (Zc 12.10). De agora em diante a salvação dos
judeus, como de qualquer outra pessoa sobre a face da terra, do mais alto líder religioso ou político ao mais simples ser humano,
só tem uma única possibilidade: a confissão do Senhor Jesus Cristo, como Salvador, Senhor e Filho de Deus (21.9, Sl 118.26).
Capítulo 24
1
O primeiro Templo foi idealizado por Davi (2Sm 7.2; 1Cr 22.8,3; 2Sm 24.18-25). Entretanto, coube a Salomão (em hebraico
transliterado shelômõh, homem de paz), seu filho com Bate-Seba (2Sm 12.24), a honra da sua construção, que teve início no
quarto ano do seu reinado e foi concluída sete anos mais tarde. Mas o filho de Salomão, Reoboão, não deu a mesma atenção ao
Templo e sucessivas pilhagens ocorreram desde Sisaque, do Egito (1Rs 14.26), até a invasão de Nabucodonosor em 587 a.C.
(2Rs 25.9,13-17). Mesmo depois de sua destruição, alguns fiéis ainda iam oferecer sacrifícios entre suas ruínas (Jr 41.5). Hoje
em dia não há qualquer estrutura do antigo Templo de Salomão acima do nível do chão. Porém, curiosamente, sobre os seus
escombros foi construída a mesquita mulçumana, conhecida como “Cúpula da Rocha”, destaque na maioria dos cartões postais
de Israel (2Cr 3.1; 2Sm 24.24). O segundo Templo foi erguido por ocasião do retorno dos exilados da Babilônia, cerca de 537 a.C,
conforme autorização e ajuda de Ciro, rei da Pérsia, e do ministério de Neemias e Esdras (Nm 2.11-20). Toda a área teve de ser
limpa do entulho do primeiro Templo destruído (Ed 1; 3.2-10). A arca havia desaparecido no tempo do exílio e jamais foi encontra-
da. No lugar do candelabro de Salomão, com dez lâmpadas, foi colocado um novo, com sete hastes, juntamente com uma mesa
de ouro para os pães da proposição e o altar do incenso. Esses e outros objetos sagrados foram tomados como despojos pelo
rei da Síria, Antíoco IV Epifânio (entre 175 e 163 a.C.), o qual colocou um altar e uma estátua pagã no lugar santo, no dia 15 de
dezembro de 167 a.C. Os macabeus venceram os sírios e purificaram o Templo (1Macabeus 1.54; 4.35-59), substituindo todos os
seus móveis e transformando o Templo numa fortaleza que lhes permitiu resistir durante três meses ao cerco de Pompeu (63 a.C.)
quando foi, então, destruído (os livros dos Macabeus, com alguns outros, não são considerados canônicos, por isso não fazem
parte da maioria das Bíblias evangélicas em língua portuguesa, entretanto, muitos de seus relatos históricos são dignos de crédi-
to). A terceira construção, chamada de Templo de Herodes, começou no ano 19 a.C., mas seu motivo principal não foi glorificar
a Deus, e, sim, reconciliar os judeus com o seu rei gentio (idumeu). Mesmo assim, o rei teve grande cuidado com a reverência
ao Templo, convocou mil sacerdotes que foram treinados como pedreiros para conduzir a edificação do santuário, e procuraram
construir uma cópia do Templo de Salomão. Em uma área com mais de 144.000 m
2
, ergueu-se uma magnífica estrutura de
pedras creme, adornadas de ouro. Um muro feito com blocos de pedras com 60 cm de largura por até 5 metros de comprimento
circundava o Templo. Contudo, alguns anos após o término da construção, exatamente 40 anos depois da profecia de Jesus,
durante as celebrações da Páscoa judaica, as tropas do comandante romano Tito tomaram posição de combate, às portas de
Jerusalém. A cidade estava em festa e repleta de judeus de todas as partes. Os dois mais poderosos partidos judaicos, que deve-
riam estar atentos à defesa da cidade contra Roma, achavam-se em violenta guerra interna, a ponto de incendiarem os estoques
de alimentos um do outro. Somente quando os enormes aríetes dos romanos arrebentaram o primeiro portão de Jerusalém foi
que os políticos decidiram se unir contra o invasor. Tarde demais. Tito incendiou tudo, e até as pedras foram separadas para
colher o ouro derretido que se infiltrara nas junções. O comandante romano deixou apenas um resto da muralha, como símbolo
do aniquilamento de Israel, conhecido em nossos dias como ‘Muro das Lamentações’. Mais de um milhão de judeus morreram
naquela época. Todas as estradas que passavam por Jerusalém estavam tomadas por judeus crucificados. Os sobreviventes fo-
ram vendidos ou negociados como escravos. Israel desapareceu como nação e os judeus foram espalhados pelo mundo inteiro,
sob a maior humilhação já sofrida por um povo até nossos dias. Em homenagem à marcha triunfal de Tito, foi construído o arco
do triunfo, o “Arco de Tito”. Esse monumento persiste em Roma até hoje e mostra, em seus trabalhos de escultura, cenas das
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 55
56 MATEUS 24
quando ocorrerão estas coisas?
2
E qual
será o sinal da tua vinda e do fnal dos
tempos?”.
4
Então Jesus lhes revelou: “Cuidado, que
ninguém vos seduza.
5
Pois muitos são os que virão em meu
nome, proclamando: ‘Eu sou o Cristo!’, e
desencaminharão muitas pessoas.
6
E vós ouvireis falar de guerras e rumo-
res de guerras, todavia não vos deses-
pereis, porque é preciso que tais coisas
ocorram, mas ainda não será o fm.
7
Porquanto, nação se levantará contra
nação, e reino contra reino. Haverá fo-
mes e terremotos em vários lugares.
8
Contudo, esses acontecimentos serão ape-
nas como as primeiras dores de um parto.
9
Então eles vos entregarão para serem
afigidos e condenados à morte. E sereis
odiados por todas as nações por serem
meus seguidores.
10
Nessa época, muitos fcarão escandali-
zados, trairão uns aos outros e se odiarão
mutuamente.
11
Então, numerosos falsos profetas sur-
girão e enganarão a muitos.
12
E, por causa da multiplicação da mal-
dade, o amor da maioria das pessoas se
esfriará.
13
Aquele, porém, que continuar frme
até o fnal será salvo.
14
E este evangelho do Reino será pre-
gado em todo o mundo habitado, como
testemunho a todas as nações, e então
chegará o fm.
A grande tribulação
(Mc 13.14-23; Lc 21.7-19)
15
E, assim, quando virdes a profanação
horrível da qual falou o profeta Daniel, no
Lugar Santo (ao ler o profeta entendereis
isso),
3
16
então, os que estiverem na Judéia fu-
jam para os montes.
4
17
Quem estiver sobre o telhado de sua casa,
não desça para retirar dela coisa alguma.
legiões romanas carregando os objetos sagrados e valiosos do Templo, e os mais valorosos guerreiros judeus algemados. Tito
profanou o Templo, entrando no santo lugar, despojando todo o tesouro e utensílios preciosos, tais como o grande candelabro
de ouro maciço, uma réplica dourada da arca com os preciosos rolos sagrados da Lei, a mesa de ouro e muitos outros objetos
preciosos. Finalmente, o imperador Vespasiano, pai de Tito, declarou toda a nação de Israel como sua propriedade particular e
doou grandes propriedades a seus amigos e colaboradores, entre eles o conhecido historiador judeu e fariseu, Flávio Josefo, cujo
carisma e poder intelectual haviam conquistado a amizade do rei e a cidadania romana.
2
Jesus se retira do Templo e sobe com os discípulos em direção ao monte das Oliveiras - uma cordilheira, a leste de Jerusalém,
do outro lado do vale Cedrom, com quase dois quilômetros de extensão e cerca de 70 metros acima do nível da cidade (Mc
11.1). De agora em diante, nunca mais entrará no Templo. Tudo é parte da grande visão profética de Ezequiel, que viu a glória do
Senhor abandonar a cidade de Jerusalém e o Templo, mais precisamente em direção ao monte das Oliveiras (Ez 8.4-6). Naquele
momento estava se cumprindo a Palavra do Senhor que veio a Ezequiel em 592 a.C. Ao chegar ao alto do monte, Jesus lança
um último olhar sobre a cidade amada que o rejeitou. Ao pôr-do-sol, senta-se com seus discípulos e ficam observando a noite
chegar sobre o Templo e o povo de Jerusalém. Jesus não revela quando sucederão essas coisas, mas responde, em forma de
profecia, às demais questões: O fim dos tempos entre os versículos 4-14; a destruição de Jerusalém entre 15-22 (Lc 21.20), e o
glorioso retorno de Jesus Cristo entre 23-31.
3
A expressão grega, aqui transliterada por bdelugma tes eremoses vem do hebraico shiqquçe shõmem e significa: “a
profanação horrível”, “o sacrilégio terrível”, ou ainda, como em versões antigas: “o abominável da desolação”. Essas são formas
de traduzir o significado literal da frase original: “a coisa abominável que causa horror e repulsa” (Dn 9.27; 11.31; 12.11). Jesus
ressalta que os leitores do livro escrito pelo profeta Daniel poderão compreender melhor o que ele está dizendo. Jesus faz
referência a um tipo de idolatria tão perversa e antagônica a todos quantos crêem no Pai de Cristo, como ocorreu no ano 168 a.C.,
quando o rei Antíoco Epifânio erigiu um altar a Zeus no lugar do altar de Jeová (em hebraico  transliterado por Yahweh –
1Macabeus 1.54-59; 6.7; 2Macabeus 6.1-5). Assim também aconteceu no ano 70 d.C., quando os romanos ofereceram sacrifícios
pagãos em Jerusalém, no lugar sagrado, ao proclamar Tito imperador supremo (2Ts 2.4; Ap 13.14-15). A história registra que
muitos cristãos e judeus, pouco antes do ano 70 d.C., lembraram-se das palavras de Jesus, cumpriram à risca as orientações
proféticas e tiveram suas vidas salvas daquelas catástrofes e perseguições. O Grande Retorno de Jesus, em glória, marca o final
da ordem mundana, na qual vivemos. Porém, antes disso, surgirão muitos enganadores, falsos messias (cristos), o tema guerra
e terrorismo dominará a mídia mundial, tribulações, terremotos, vulcões, tempestades, alterações na atmosfera, no clima, falsos
profetas por toda parte, multiplicação da iniqüidade (maldade) e da arrogância cientifica, lascívia, bestialidades, esfriamento do
amor e das virtudes morais e éticas. Todos esses são apenas sinais que criam o ambiente para a manifestação do maior dos
sinais: a pregação do Evangelho até os confins da terra (28.18-20). Então virá o fim.
4
A história registra que muitos cristãos, pouco antes do ano 70 d.C., fugiram de Jerusalém e se refugiaram nas montanhas
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 56
57 MATEUS 24
18
E aquele que estiver no campo, não
volte para pegar sua túnica.
19
Serão dias terríveis para as mulheres
grávidas e para as que estiverem ama-
mentando.
20
E orai para que a vossa fuga não ocorra
durante o inverno nem no sábado.
5
21
Porquanto haverá nessa época grande
tribulação, como jamais aconteceu desde
o início do mundo até agora, nem nunca
mais haverá.
6
22
E, se aqueles dias não tivessem sido
abreviados, nenhuma carne seria salva.
Mas, por causa dos eleitos, aquele tempo
será encurtado.
7
23
Então, se alguém vos anunciar: ‘Vede,
aqui está o Cristo!’ ou ‘Ei-lo ali!’ Não
acrediteis.
24
Pois se levantarão falsos cristos e falsos
profetas e apresentarão grandes milagres
e prodígios para, se possível, iludir até
mesmo os eleitos.
8
25
Vede que Eu o preanunciei a vós!
26
Portanto, se vos disserem: ‘Eis que Ele
está no deserto!’- não saiais. Ou ainda:
‘Ele está ali mesmo, nos cômodos de
uma casa!’- não acrediteis.
27
Pois, da mesma maneira como o re-
lâmpago parte do oriente e brilha até no
ocidente, assim também se dará a vinda
do Filho do homem.
9
28
Onde houver um cadáver, aí se reuni-
rão os abutres.
O retorno de Cristo em glória
(Mc 13.24-27; Lc 21.25-28)
29
Imediatamente após o tormento da-
queles dias, o sol escurecerá e a lua não
dará a sua luz; e as estrelas cairão do céu,
e os poderes celestes serão estremecidos.
30
Então surgirá no céu o sinal do Filho
do homem, e todos os povos da terra
prantearão e verão o Filho do homem
chegando nas nuvens do céu com poder
e majestosa glória.
10
31
Ele enviará os seus anjos, com podero-
so som de trombeta, e estes reunirão os
seus eleitos dos quatro ventos, de uma a
outra extremidade dos céus.
A lição da fgueira: o Dia do Senhor
(Mc 13.28-37; Lc 21.29-36)
32
Portanto, aprendei com a parábola da
fgueira: quando, pois, os seus ramos se
renovam e suas folhas começam a brotar,
sabeis que está próximo o verão.
33
Da mesma forma vós: quando virdes
todos esses acontecimentos, sabei que
Ele está muito próximo, às portas.
11
34
Com toda a certeza Eu vos afrmo, que
não passará esta geração até que todos
esses eventos se realizem.
da Transjordânia, onde se localizavam as terras de Pella. Fuga semelhante haverá num período futuro de tribulação conhecido
como a 70
a
Semana de Daniel (Dn 9.27). Entretanto, aquelas pessoas que verdadeiramente crêem no Senhor (os salvos, a Igreja),
serão arrebatadas da terra no exato momento em que Cristo cruzar a atmosfera da terra. Os cristãos não precisarão fugir, apenas
devem perseverar até o Dia do Senhor.
5
Gestantes, idosos e pessoas com deficiência física terão maior dificuldade naqueles dias de tribulação e perseguição. Mateus,
como escreve principalmente aos judeus, observa os detalhes do inverno e do sábado, dia em que os judeus somente podiam
caminhar 800 metros.
6
O historiador judeu-romano Flávio Josefo foi testemunha ocular desta terrível tribulação e narra o episódio com palavras pareci-
das às de Jesus. Entretanto, aquela grande tribulação foi apenas mais um sinal da maior das tribulações ainda por vir (Dn 12.1).
7
Este último e terrível tempo de aflição será abreviado em relação ao que já havia sido pré-determinado nas profecias (como
a 70
a
Semana de Daniel – Dn 9.27, ou os 42 meses mencionados em Ap 11.2; 13.5). Os eleitos são o povo de Deus em todo o
mundo, a Igreja de Jesus Cristo.
8
Compare esta descrição com a pessoa do anticristo revelada em 2Ts 2.9-10.
9
Que ninguém se iluda. A segunda e definitiva volta de Jesus Cristo será um evento portentoso. Em segundos, a glória e o
brilho da sua presença varrerão o planeta, e os salvos (sua Igreja) serão arrebatados, sumindo instantaneamente de toda a terra.
(27, 31, 1Co 15.12; 1Ts 4.16,17). Jesus cita um antigo provérbio para explicar que seu glorioso retorno será tão certo quanto o es-
voaçar dos urubus (abutres: aves falconiformes e vulturídeas comuns no Oriente e Europa) sobre um cadáver. Ou seja, o mundo
está moribundo e os urubus já sobrevoam aqueles que morrerão e lhes servirão de banquete (Lc 17.37).
10
Fenômenos cósmicos acompanharão a volta triunfal do Filho do homem (Mc 8.31, Ap 1.7). O brilho, como um relâmpago,
que o mundo inteiro verá, é a Shekinah: a glória do Senhor (Is 13.10; 24.21-23; 34.4; Ez 32.7-8; Jl 2.10,31; 3.15; Am 8.9, 2Ts
1.6-10; Ap 19.11-16).
11
No Oriente as figueiras anunciam o início do verão, quando renovam seus ramos e novas folhas brotam. Esse evento é tão
certo e esperado quanto o será a volta de Cristo, e por isso todos os cristãos devem estar preparados para não serem apanhados
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 57
58 MATEUS 24
35
O céu e a terra passarão, mas as minhas
palavras jamais passarão.
Só Deus sabe o dia e a hora exatos
(Mc 13.32-37)
36
Entretanto, a respeito daquele dia e
hora ninguém sabe, nem os anjos dos
céus, nem o Filho, senão exclusivamente
o Pai.
12
37
Como aconteceu nos dias de Noé,
assim também se dará por ocasião da
chegada do Filho do homem.
38
Porque nos dias que antecederam ao
Dilúvio, o povo levava a vida comendo
e bebendo, casando-se e oferecendo-se
em matrimônio, até o dia em que Noé
entrou na arca,
39
e as pessoas nem notaram, até que
chegou o Dilúvio e levou a todos. Assim
ocorrerá na vinda do Filho do homem.
40
Dois homens estarão na lavoura: um
será arrebatado, mas o outro deixado.
41
Duas mulheres estarão trabalhando
num moinho: uma será arrebatada, a
outra fcará pra trás.
42
Por isso, vigiai, porquanto não sabeis
em que dia virá o vosso Senhor.
13
43
Contudo, entendei isto: se o proprie-
tário de uma casa soubesse a que hora
viria o ladrão, se colocaria em sentinela
e não permitiria que a sua residência
fosse violada.
44
Portanto, fcai igualmente vós alertas;
pois o Filho do homem virá no momento
em que menos esperais.
14
O destino do bom e do mau servo
(Lc 12.42-46)
45
Sendo assim, quem é o servo fel e
sábio, a quem o senhor confou os de
sua casa para dar-lhes alimento no seu
devido tempo?
46
Feliz aquele servo a quem o seu senhor,
quando voltar, o encontrar agindo dessa
maneira.
47
Com certeza vos afrmo que o senhor
confará a seu servo todos os seus bens.
48
Entretanto, supondo que esse servo,
sendo mau, diga a si mesmo: ‘Meu se-
nhor está demorando muito’,
49
e, por isso, passe a agredir os seus
conservos e a comer e beber com be-
berrões.
50
O senhor daquele servo virá num dia
inesperado e numa hora que o servo
desconhece.
51
E o senhor o punirá com toda a seve-
ridade e lhe dará um lugar ao lado dos
hipócritas, onde haverá grande lamento
e ranger de dentes.
15

As virgens sábias e as tolas
25
Portanto, o Reino dos céus será
semelhante a dez virgens que pe-
de surpresa, como acontecerá com o mundo descrente. Jesus ainda afirma que a geração que presenciar o início dos sinais
também verá sua volta triunfal. A expressão “geração” (em grego antigo genea), também podia significar “raça” ou “família” e, por
certo, Jesus fez referência à profecia de que o povo judeu não seria exterminado da terra por mais que seus muitos inimigos, em
todas as épocas, tenham se empenhado nesse objetivo (Mc 13.30; Lc 21.32). As palavras de Jesus são todas mais verdadeiras
e duradouras que o Universo.
12
O Dia do Senhor é uma expressão que se refere ao AT como o dia em que Jesus voltará em glória para levar seu povo (a
Igreja) para a Nova Jerusalém (Am 8.3,9,13; 9.11; Mq 4.6; 5.10; 7.11). Mas o dia exato desse evento a ninguém foi revelado, e
Jesus, enquanto esteve na terra, também não pretendeu saber, pois decidiu em tudo obedecer ao Pai e viver pela fé como todo
ser humano deveria.
13
Jesus dedica seis parábolas para enfatizar a extrema necessidade da vigilância, enquanto estamos vivos na terra e ele não
retorna: O porteiro (Mc 13.35-37). O pai de família (Mt 24.43-44). O servo fiel (24.45-51). As dez virgens (25.1-13). Os talentos
(25.14-30). As ovelhas e os bodes (25.31-46). A vida passa, e passa muito rápido. É preciso estar com a consciência tranqüila de
que amamos ao Senhor e buscamos praticar sua vontade em todas as áreas de nossa vida íntima e relacional.
14
Jesus nos adverte de que perto da sua volta, o mundo estará descrente, religioso talvez, mas sem a convicção da salvação
nem da militância evangélica. O poder do sistema mundial forçará muitos religiosos a se afastarem de Deus e de sua Palavra.
Intérpretes de um “evangelho” que não é o de Cristo conduzirão milhões de pessoas à perdição. Até os cristãos fiéis correrão o
risco de ser enganados por um estilo de vida massificado pelo sistema (globalização do pensamento humanista, cético e hedonis-
ta) e serão apanhados de surpresa pela iminente volta do Senhor. Não é sábio tentar calcular a data do retorno de Jesus. É mais
errôneo, porém, negligenciar esse evento fatal. A expectativa da volta de Cristo confere senso de urgência e dinâmica à missão
evangélica em toda a terra. A parábola do “bom e mau servos” ensina como o filho de Deus deve viver sua vida cristã (45-51).
15
O contexto revela que “hipócrita” é aquele cuja vida prática não corresponde à sua alegada fidelidade a Cristo. A expressão
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 58
59 MATEUS 24, 25
garam suas candeias e saíram para encon-
trar-se com o noivo.
1
2
Cinco delas eram sábias, mas outras
cinco eram inconseqüentes.
3
As que eram inconseqüentes, ao pega-
rem suas candeias, não levaram óleo de
reserva consigo.
4
Entretanto, as prudentes, levaram óleo
em vasilhas, junto com suas candeias.
2
5
O noivo demorou a chegar, e todas fca-
ram com sono e adormeceram.
6
À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘Eis
que vem o noivo! Saí ao seu encontro!’
7
Então, todas as virgens acordaram e
foram preparar suas candeias.
3

8
As insensatas recorreram às sábias: ‘Dai-
nos um pouco do vosso azeite, porque as
nossas candeias estão se apagando’.
9
Porém as sábias responderam: ‘Não po-
demos, pois assim faltará tanto para nós
quanto para vós outras! Ide, portanto,
aos que o vendem e comprai-o’.
10
Mas, saindo elas para comprar, chegou
o noivo. As virgens que estavam prepara-
das entraram com ele para o banquete de
núpcias. E a porta foi fechada.
11
Mais tarde, todavia, chegaram as vir-
gens imprudentes e clamaram: ‘Senhor!
Senhor! Abre a porta para nós!’
12
Contudo ele lhes respondeu: ‘Com
certeza vos afrmo que não vos conheço’.
13
Portanto, vigiai, pois não sabeis o dia,
tampouco a hora em que o Filho do
homem chegará.
4
O investimento dos talentos
14
Digo também que o Reino será como
um senhor que, ao sair de viagem, con-
vocou seus servos e confou-lhes os seus
bens.
15
A um deu cinco talentos, a outro, dois
e a outro, um talento; a cada um con-
forme a sua capacidade pessoal. E, em
seguida, partiu de viagem.
5
16
O que havia recebido cinco talentos
saiu imediatamente, investiu-os, e ga-
nhou mais cinco.
17
Da mesma forma, o que recebera dois
talentos ganhou outros dois.
18
Entretanto, o que tinha recebido um
talento afastou-se, cavou um buraco na
terra e escondeu o dinheiro que o seu se-
nhor havia confado aos seus cuidados.
19
Após um longo tempo, retornou o se-
nhor daqueles servos e foi acertar contas
com eles.
20
Então, o servo que recebera cinco ta-
lentos se aproximou do seu senhor e lhe
“ranger de dentes” só é usada em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e tem a ver com o profundo, doloroso e eterno arre-
pendimento que os incrédulos e os falsos cristãos (hipócritas) sentirão a partir do Dia do Senhor.
Capítulo 25
1
Havia duas fases nos casamentos judaicos típicos da época de Cristo. Na primeira, o noivo ia à casa da noiva e participava da
cerimônia de entrega da noiva. Na outra fase, o noivo voltava e a levava para um grande banquete em sua casa. As virgens eram
damas-de-honra e tinham o dever cerimonial de preparar a noiva para o encontro com o noivo.
2
Essas candeias eram grandes tochas, capazes de permanecer acesas ao ar livre, feitas com longas varas, com trapos
enrolados numa das pontas, embebidos em azeite de oliva. Pequenas candeias de barro eram comumente usadas no interior
das residências.
3
Quando o azeite era consumido pelo fogo cortavam-se as pontas chamuscadas dos trapos e adicionava-se mais óleo para
um novo período médio de iluminação de 15 minutos.
4
Essa parábola é continuação da mensagem de Jesus sobre a necessidade do cristão estar sempre preparado e vigilante, pois
a volta do Senhor é certa, repentina e iminente. Essa expectativa quanto ao glorioso retorno de Jesus confere ética, dinamismo e
senso de urgência à evangelização e ao estilo de vida cristão. A mensagem de Cristo é também um forte apelo aos israelitas em
todo o mundo, para que coloquem sua esperança no Noivo Eterno: O Senhor Jesus. Ele é o Messias prometido. A parábola das
dez virgens, como é conhecido este trecho das Escrituras, não está ensinando que Cristo arrebatará os atentos e preparados es-
piritualmente e deixará para trás “crentes” distraídos ou negligentes. Se cinco virgens ficaram sem óleo (o Espírito) é porque nun-
ca creram verdadeiramente no Senhor, pois todo o que crê – recebe o Espírito Santo – e será salvo (24.13; Jo 1.12; Hb 3.13-14).
5
Um talento correspondia à cerca de 35 quilos de prata pura, o equivalente a 6.000 denários (o denário, como já vimos, era uma
moeda de prata e valia um dia de trabalho de um soldado romano). Deus concede, aos cristãos, fé e capacidades espirituais para,
em primeiro lugar, compreenderem a pessoa e a obra do Seu Filho Jesus, e, em seguida, para servirem no Reino: testemunhando,
anunciando a Salvação e cooperando com o Corpo de Cristo, a Igreja. Curiosamente, o uso atual da expressão portuguesa
“talento”, significando o conjunto de dons, capacidades e habilidades de uma pessoa, originou-se com base nessa parábola
(Lc 19.13). Jesus não está ensinando que o julgamento das pessoas em geral e dos cristãos em particular tem algo a ver com
o esforço pessoal e o pleno uso dos dons e capacidades, pois o caminho da Salvação é bem diferente. O uso dos talentos é
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 59
60 MATEUS 25
entregou mais cinco talentos, informan-
do: ‘O senhor me confou cinco talentos;
eis aqui mais cinco talentos que ganhei’.
21
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem,
servo bom e fel! Foste fel no pouco,
muito confarei em tuas mãos para ad-
ministrar. Entra e participa da alegria do
teu senhor!’.
22
Assim também, aproximou-se o que
recebera dois talentos e relatou: ‘Senhor,
dois talentos me confaste; trago-lhe
mais dois talentos que ganhei’.
23
O senhor lhe disse: ‘Muito bem, servo
bom e fel! Foste fel no pouco, muito con-
farei em tuas mãos para administrar. En-
tra e participa da alegria do teu senhor!’.
24
Chegando, fnalmente, o que tinha
recebido apenas um talento, explicou:
‘Senhor, eu te conheço, sei que és um ho-
mem severo, que colhe onde não plantou
e ajunta onde não semeou.
25
Por isso, tive receio e escondi no chão
o teu talento. Aqui está, toma de volta o
que te pertence’.
26
Sentenciou-lhe, porém, o senhor:
‘Servo mau e negligente! Sabias que co-
lho onde não plantei e ajunto onde não
semeei?
27
Então, por isso, ao menos devíeis ter
investido meu talento com os banquei-
ros, para que quando eu retornasse, o
recebesse de volta, mais os juros.
6
28
Sendo assim, tirai dele o talento que
lhe confei e dai-o ao servo que agora está
com dez talentos.
29
Pois a quem tem, mais lhe será con-
fado, e possuirá em abundância. Mas a
quem não tem, até o que tem lhe será
tirado.
30
Quanto ao servo inútil, lançai-o para
fora, às trevas. Ali haverá muito pranto e
ranger de dentes’.
7

O juízo fnal
31
Quando o Filho do homem vier em
sua glória, com todos os anjos, então,
se assentará em seu trono na glória nos
céus.
32
Todas as nações serão reunidas diante
dele, e Ele irá separar umas das outras,
como o pastor separa os bodes das ove-
lhas.
33
E posicionará as ovelhas à sua direita e
os bodes à sua esquerda.
34
Então, dirá o Rei a todos que estiverem
à sua direita:‘Vinde, abençoados de meu
Pai! Recebei como herança o Reino, o
qual vos foi preparado desde a fundação
do mundo.
35
Pois tive fome, e me destes de comer,
tive sede, e me destes de beber; fui es-
trangeiro, e vós me acolhestes.
36
Quando necessitei de roupas, vós me
vestistes; estive enfermo, e vós me cui-
dastes; estive preso, e fostes visitar-me’.
37
Então, os justos desejarão saber: ‘Mas,
Senhor! Quando foi que te encontramos
com fome e te demos de comer? Ou com
sede e te saciamos?
38
E quando te recebemos como estran-
geiro e te hospedamos? Ou necessitado
de roupas e te vestimos?
39
Ou ainda, quando estiveste doente ou
encarcerado e fomos ver-te?’.
apenas uma conseqüência natural na vida diária de quem já foi contemplado, abraçou a fé em Jesus e agora vive a alegria da
Salvação, mesmo em meio aos sofrimentos deste mundo. É um julgamento semelhante àquele pronunciado contra o convidado
que comparece à festa eterna sem vestir-se da justificação (salvação) em Cristo (22.12-14).
6
A palavra “banqueiro” vem do grego trapeza (mesa), e ainda hoje é comum ver essa palavra nas fachadas das instituições
financeiras na Grécia. Na época de Jesus, os “banqueiros” eram pessoas que ficavam sentadas atrás de pequenas mesas e
trocavam dinheiro (21.12). Outra palavra interessante é “juro”, que tinha o sentido de “prole”, ou seja, os juros eram considerados
“filhotes” do principal emprestado ou investido.
7
Os escravos foram libertos e elevados à posição de servos (mordomos), aos quais aquele senhor confiou todos os seus bens.
O servo que não fez uso do talento concedido, agiu assim porque não gostava do seu senhor e desconfiava dele. Não queria
trabalhar e se arriscar apenas para tornar o senhor mais rico. Preferiu a conveniência e a tranqüilidade de uma aparente isenção
de responsabilidade. Os dons e talentos de Deus multiplicam-se quando os utilizamos, pois transformam nossas vidas e ficamos
preparados para receber ainda mais da plenitude do Espírito Santo. O amor de Cristo em nós gera mais amor, a fé mais fé, o
caráter mais caráter de Deus nos crentes, e a obediência à Palavra do Senhor produz uma fonte de virtudes que influencia todo
o ambiente (2Pe 1.3-7).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 60
61 MATEUS 25, 26
40
Então o Rei, esclarecendo-lhes respon-
derá: ‘Com toda a certeza vos asseguro
que, sempre que o fzestes para algum
destes meus irmãos, mesmo que ao me-
nor deles, a mim o fzestes’.
8
41
Mas o Rei ordenará aos que estiverem
à sua esquerda: ‘Malditos! Apartai-vos de
mim. Ide para o fogo eterno, preparado
para o Diabo e os seus anjos.
42
Porquanto tive fome, e não me destes
de comer; tive sede, e nada me destes de
beber.
43
Sendo estrangeiro, não me hospedas-
tes; estando necessitado de roupas, não
me vestistes; encontrando-me enfermo e
aprisionado, não fostes visitar-me’.
44
E eles também perguntarão: ‘Mas Se-
nhor! Quando foi que te vimos com fome,
sedento, estrangeiro, necessitado de rou-
pas, doente ou preso e não te auxiliamos?’
45
Então o Rei lhes sentenciará: ‘Com
toda a certeza vos asseguro que, sempre
que o deixastes de fazer para algum des-
tes meus irmãos, mesmo que ao menor
deles, a mim o deixastes de fazer’.
46
Sendo assim, estes irão para o sofri-
mento eterno, porém os justos, para a
vida eterna”.
A trama para matar Jesus
(Mc 14.3-9; Lc 22.1-2; Jo 11.45-53)
26
Tendo Jesus concluído esses en-
sinamentos, declarou aos seus
discípulos:
2
“Como sabeis, daqui a dois dias, a Pás-
coa será celebrada; e o Filho do homem
será entregue para ser crucifcado”.
1
3
Enquanto isso, os chefes dos sacerdo-
tes e os anciãos do povo se reuniram no
palácio do sumo sacerdote, cujo nome
era Caifás.
2
4
E fzeram um acordo para prender Je-
sus por meio de traição e matá-lo.
5
Porém recomendaram: “Que isso não
seja feito durante a festa, para que não
ocorra grande alvoroço entre o povo”.
Jesus é ungido para o sacrifício
(Mc 14.3-9; Jo 12.1-8)
6
E aconteceu que, estando Jesus em Be-
tânia, na casa de Simão, o leproso,
7
chegou próximo dele uma mulher
portando um frasco de alabastro, repleto
de perfume caríssimo, e lhe derramou
sobre a cabeça, enquanto ele estava
reclinado à mesa.
8
Diante daquela cena, os discípulos se
8
Jesus ensina que o grande pecado do ser humano é a falta do exercício do amor verdadeiro: primeiro em relação ao seu
Criador e depois para com seu semelhante e próximo (Tg 4.1-17). Há duas interpretações escatológicas mais aceitas, sobre
esse aspecto do Julgamento: 1) Vai acontecer no início de um reino milenar na terra e definirá quem terá o direito de fazer parte
do Reino (vv.31,34), com base no tratamento dispensado ao povo israelense (“meus irmãos, mesmo que ao menor deles”
– vv.40-46) no período anterior à Grande Tribulação (vv.35-40, 42-45). 2) Para muitos estudiosos, o Julgamento ocorrerá diante
do Trono Branco no final dos tempos (Ap 20.11-15). Seu objetivo será identificar as pessoas de todas as épocas, culturas,
povos e nações que poderão ingressar no reino eterno dos salvos e aqueles que serão condenados a viver em punição eterna
no inferno (vv.34,36). A base desse julgamento definitivo será a atitude de amor com a qual, aqueles que afirmam crer em Deus,
trataram seus irmãos e semelhantes (1Jo 3.11-24).
Capítulo 26
1
Jesus deixou o templo para nunca mais voltar a ele (24.1). Com a saída de Jesus o templo perdeu sua característica de
habitação de Deus. Em frente ao templo, contemplando Jerusalém, Jesus prediz o futuro e seu glorioso retorno. Depois de um
período de grande atividade, chega o momento do silêncio e do sacrifício maior. Os Evangelhos não relatam quase nada sobre
a juventude de Jesus. Entretanto, narram a história do martírio e do holocausto do Salvador, praticamente, hora a hora. A Paixão
(o sacrifício) e a ressurreição, que inicialmente eram fatos enigmáticos e incompreensíveis para os apóstolos, tornam-se agora
o significado absoluto de suas vidas e obras. A Paixão de Cristo corresponde à Páscoa dos judeus (em hebraico Pêssach que
significa “passar por cima” ou “passar ao lado”): celebração do livramento do povo hebreu do jugo egípcio ocorrido há mais de
35 séculos (Êx 12.13,23,27). Os cordeiros (simbolização de Jesus Cristo) e os cabritos eram sacrificados, em penitência (arrepen-
dimento) pelos pecados cometidos, no dia 14 de Nisã (mês judaico por volta de março e abril). A refeição da Páscoa era comida
no fim dessa mesma tarde. Como o dia judaico começava após o pôr-do-sol do dia anterior, a Festa da Páscoa foi celebrada no
dia 15 de Nisã, uma quarta-feira. Em seguida ocorria a Festa dos Pães sem Fermento (ou Pães Asmos), durava mais sete dias, e
fazia parte das comemorações da Páscoa (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8).
2
Os chefes dos sacerdotes, chamados de “principais” e os anciãos (sábios e líderes religiosos do povo), reuniram-se como
Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) no palácio de Caifás, saduceu, eleito sumo sacerdote (de 18 a 36 d.C), genro e sucessor
de Anás (Jo 18.13), que ocupou o cargo entre os anos de 6 a 15 d.C.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 61
62 MATEUS 26
indignaram e comentaram: “Por que este
desperdício?
9
Porquanto esse perfume poderia ser
vendido por alto preço e o dinheiro dado
aos pobres!”.
10
Percebendo isso, Jesus repreendeu-os:
“Por que molestais esta mulher? Ela pra-
ticou uma boa ação para comigo.
11
Pois, quanto aos pobres, sempre os
tendes convosco, mas a mim nem sem-
pre me tereis.
12
Ao derramar sobre o meu corpo esse
bálsamo, ela o fez como que preparando-
me para o sepultamento.
3
13
Com toda a certeza vos afrmo: Em
todos os lugares do mundo, onde este
evangelho for pregado, igualmente será
contado o que essa mulher realizou,
como um memorial a ela”.
O pacto da traição
(Mc 14.10-11; Lc 22.3-6)
14
E aconteceu que um dos Doze, chama-
do Judas Iscariotes, foi ao encontro dos
chefes dos sacerdotes e lhes propôs:
15
“O que me dareis caso eu vo-lo entre-
gue?”. E lhe pagaram o preço: trinta moe-
das de prata.
16
E, desse momento em diante, procu-
rava Judas uma ocasião apropriada para
entregar Jesus.
A Ceia do Senhor
(Mc 14.12-26; Lc 22.7-23; Jo 13.18-30)
17
No primeiro dia da festa dos Pães
Asmos, os discípulos aproximaram-se de
Jesus e o consultaram: “Onde desejas que
preparemos a refeição da Páscoa?”.
18
Ao que Jesus os orientou: “Ide à
cidade, procurai um certo homem e
falai a ele: ‘O Mestre manda dizer-te: É
chegada a minha hora. Desejo celebrar
a Páscoa em tua casa, juntamente com
meus discípulos.’”
19
Os discípulos fzeram como Jesus
lhes havia instruído e prepararam a
Páscoa.
4

Jesus revela o traidor
(Mc 14.17-21; Lc 22.21-23; Jo 13.21-30)
20
Ao pôr-do-sol, estava Jesus reclinado,
próximo à mesa, com os Doze.
5
3
Era costume, no antigo Oriente, ungir a cabeça dos convidados em dias festivos, que praticamente deitavam-se sobre um tipo
de almofada ou divã, ao redor de uma mesa bem mais baixa do que as nossas. Com o braço esquerdo se apoiavam sobre as al-
mofadas e com o direito se serviam dos alimentos. Davi escreve um poema em louvor a Yahweh (O nome impronunciável de Deus,
em hebraico: ), no qual descreve a felicidade que há na comunhão com Deus usando a metáfora de uma ceia preparada
pelo Senhor (Sl 23.5). Jesus foi visitar alguns amigos em Betânia, uma aldeia que distava cerca de 3 km de Jerusalém. O anfitrião,
Simão, fora curado de lepra por Jesus (Mc 14.3). Lázaro estava presente, Marta servia e Maria, irmã de Lázaro e Marta, assume a
responsabilidade da hospitalidade amorosa e reverente (Lc 7.46), mas realiza o ato tradicional à sua maneira. Um escravo ungiria
a cabeça do hóspede do seu senhor com óleo e lavaria seus pés com água. Maria ofereceu a mais preciosa e cara essência de
plantas (nardo, palavra persa nard que em sânscrito nalàdá significa “óleo perfumado”) importada da Índia (em grego Myrón).
Marcos (Mc 14.5) informa que o valor daquele alabastro (frasco de mármore lacrado e com gargalo longo, o qual era quebrado no
instante do uso, e cujo conteúdo devia ser todo consumido em uma só aplicação para não perder suas propriedades químicas e
aromáticas) era de 300 denários, o que correspondia ao salário anual de um trabalhador ou soldado romano (20.2; Jo 6.7). Maria
ungiu a cabeça e os pés de Jesus (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8) realizando a cerimônia completa de honra e hospitalidade com a qual os
judeus deveriam acolher seus irmãos e amigos, numa demonstração de temor a Deus, humildade e amor ao próximo, princípios
básicos da Torá (os primeiros cinco livros da Bíblia, a Lei de Deus) e dos ensinos de Jesus (Lc 7.44; Jo 13.1-17). Considerando
que Judas traiu Jesus por cerca de 120 denários, é fácil imaginar sua irritação ao ver a atitude de Maria em relação unicamente à
pessoa de Cristo (Jo 12.4-5). Na época da Páscoa era um costume judaico presentear os pobres. Jesus aproveita para esclarecer
os discípulos e amigos quanto à proximidade do seu martírio, salientando que Maria havia compreendido verdadeiramente quem
é Deus, qual o sentido da adoração (que é consagrar a Deus os nossos mais caros afetos), e que estava cuidando da preparação
(somente os nobres tinham seu corpo embalsamado ou mumificado) do seu corpo para o sepultamento. Jesus ainda faz uma
alusão à Lei e afirma que a ajuda e o acolhimento aos mais necessitados é tarefa contínua do povo de Deus todos os dias do ano
(Dt 15.11). Jesus ergue um memorial a Maria, uma pessoa desconhecida na história, mas cujo ato inspira gerações e gerações
em todo o mundo, a ter uma visão correta e prática do que significa amar a Deus.
4
Os discípulos prepararam a Ceia conforme a orientação de Jesus e as prescrições da Lei (Êx 12.1-11) e tiveram de imolar o
cordeiro pascal. Jesus celebrou sua última Páscoa judaica com seus discípulos na véspera da data oficial, pois no dia do feriado
religioso e nacional que marca a Páscoa, Ele mesmo estaria sendo retirado, morto, da Cruz. O Cordeiro Pascal Imolado para a
Salvação de todo aquele que nele crer (Jo 1.12).
5
É interessante notar a ordem dos acontecimentos daquela noite: a refeição pascal; o ato de lavar os pés dos discípulos (Jo
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 62
63 MATEUS 26
21
E, durante a refeição, Jesus revelou:
“Com toda a certeza vos afrmo que um
dentre vós me trairá”.
22
Essa declaração consternou a todos e
começaram a indagar, um após outro:
“Senhor! Porventura, serei eu?”.
23
Indicou-lhes Jesus: “Aquele que comeu
juntamente comigo, do mesmo prato,
este é o que vai me trair.
24
O Filho do homem vai, como de fato
está escrito a respeito dele. Mas ai daque-
le que trai o Filho do homem! Melhor
lhe seria jamais haver nascido”.
25
Então Judas, que haveria de consumar
a traição, disse: “Acaso, seria eu, meu
Mestre?”. E Jesus afrmou-lhe: “Sim, tu o
declaraste!”.
6
A Ceia do Senhor
(Mc 14.22-26; Lc 22.14-20; 1Co 11.23-25)
26
Enquanto comiam, Jesus pegou um
pão, deu graças, quebrou-o, e o deu aos
seus discípulos, recomendando: “Tomai,
comei; isto é o meu corpo”.
27
Em seguida tomou um cálice, deu graças
e o entregou aos seus discípulos, procla-
mando: “Bebei dele todos vós.
28
Pois isto é o meu sangue da aliança,
derramado em benefício de muitos, para
remissão de pecados.
29
E vos afrmo que, de agora em diante,
não mais tomarei deste fruto da videira
até aquele dia em que beberei o novo
vinho, convosco, no Reino de meu Pai”.
30
E assim, após terem cantado um hino
de louvor, saíram para o monte das Oli-
veiras.
7
Jesus prediz a traição de Pedro
(Mc 14.27-31; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38)
31
Então Jesus lhes revelou: “Ainda esta
noite, todos vós me abandonareis. Pois
assim está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as
ovelhas do rebanho serão afugentadas’.
8
32
Todavia, depois de ressuscitar, seguirei
adiante de vós rumo à Galiléia”.
33
Respondeu-lhe Pedro: “Ainda que
venhas a ser motivo de escândalo para
todos, eu jamais te abandonarei!”.
34
Replicou-lhe Jesus: “Com certeza te asse-
guro que, ainda nesta noite, antes mesmo
que o galo cante, três vezes tu me negarás”.
35
Então Pedro lhe declarou: “Mesmo que
seja necessário que eu morra junto a ti, de
modo algum te negarei!”. E todos os discí-
pulos fzeram a mesma afrmação.
Jesus ora no Getsêmani
(Mc 14.32-42; Lc 22.39-46)
36
Seguiu Jesus com seus discípulos e
13.1-20); a revelação de Judas como o traidor (Mt 26.21-25); a deserção de Judas (Jo 13.30); a instituição da Ceia do Senhor (Mt
26.26-29); os discursos no Cenáculo e a caminho do Getsêmani (Jo 14, 15 e 16); a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17); a angústia
de Cristo no Getsêmani (Mt 26.36-46); o desfecho da traição e a prisão de Jesus (Mt 26.47-56).
6
Jesus não foi vítima involuntária das artimanhas do Diabo nem da inveja ou da avareza dos homens. Jesus não foi surpre-
endido pelos ardis do inferno nem pelas fraquezas da humanidade. Ele, por sua livre e espontânea vontade, se ofereceu em
obediência ao Pai e em sacrifício (holocausto) para resgate de todo o mundo. Jesus respondeu, decerto, a Judas em voz baixa,
para que os demais discípulos não ouvissem e viessem a impedir o intento do traidor.
7
O NT apresenta quatro relatos sobre a Ceia do Senhor (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19,20 e em 1 Co 11.23-25). Lucas
e Paulo registraram a ordem de Jesus para que a Igreja continuasse a celebrar a Ceia, como um memorial, até a Sua volta
iminente. Jesus escolheu o pão sem fermento e o vinho comum para serem apenas símbolos (metáforas físicas) do que Ele é
para os crentes (todos os que crêem em Cristo) e do seu ato de sacrifício, para pagar o preço do pecado de todo ser humano.
Por isso, todos os seguidores de Jesus (discípulos) são convidados e devem participar da Ceia do Senhor todas as vezes em
que for celebrada, comendo do pão e tomando do vinho; com consciência pura diante de Deus (1 Co 11.28), louvor e esperança
no coração. A palavra “eucaristia” vem de um termo grego que significa “dar graças”. A primeira “Aliança” foi estabelecida pela
aspersão do sangue de animais sacrificados (Êx 24.8; Jr 31.31; Zc 9.11; Hb 9.19-28). A nova e derradeira “Aliança” foi instaurada
pelo próprio sangue do Filho de Deus, vertido sobre a verga e umbral da Cruz (Hb 8.7-13). Depois de cearem, Jesus e seus
discípulos cantaram um hino tradicional de louvor a Deus, baseado nos salmos 115 a 118, chamado em hebraico Hallel (Louvor)
da Páscoa. Em seguida partiram para o Getsêmani (nome que significa em hebraico “prensa de azeite”), espécie de grande pomar
localizado na encosta inferior do monte das Oliveiras, também chamado de “Jardim das Oliveiras”, um dos locais preferidos de
Jesus para oração e meditação (Lc 22.39; Jo 18.2) e onde se esmagava o fruto das oliveiras para a produção de azeite.
8
Todos os seguidores de Jesus, inclusive os discípulos mais chegados, abandonariam o Senhor antes do final daquela noite
(verso 56) conforme já havia sido profetizado (Zc 13.7).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 63
64 MATEUS 26
chegando a um lugar chamado Getsê-
mani disse-lhes: “Assentai-vos por aqui,
enquanto vou ali para orar”.
37
Levou consigo a Pedro e aos dois flhos
de Zebedeu, e começando a entristecer-
se fcou profundamente angustiado.
38
Então compartilhou com eles dizendo:
“A minha alma está sofrendo dor extre-
ma, uma tristeza mortal. Permanecei
aqui e vigiai junto a mim”.
39
Seguindo um pouco mais adiante,
prostrou-se com o rosto em terra e orou:
“Ó meu Pai, se possível for, passa de mim
este cálice! Contudo, não seja como Eu
desejo, mas sim como Tu queres”.
40
Mas, ao retornar à presença dos seus
discípulos os encontrou dormindo e
questionou a Pedro: “E então? Não pudes-
tes vigiar comigo durante uma só hora?
41
Vigiai e orai, para não cairdes em tenta-
ção. O espírito, com certeza, está prepara-
do, mas a carne é fraca”.
9

42
E afastando-se uma vez mais, orou
dizendo: “Ó meu Pai, se este cálice não
puder passar de mim sem que eu o beba,
seja feita a tua vontade”.
43
Quando voltou, entretanto, surpre-
endeu novamente seus discípulos dor-
mindo, pois não suportaram os olhos
pesados de sono.
44
Então, retirou-se novamente, e foi orar
pela terceira vez, proferindo as mesmas
palavras.
45
Passado algum tempo, voltou aos
discípulos e indagou: “Ainda dormis e
descansais? Eis que a hora é chegada!
Agora o Filho do homem está sendo
entregue nas mãos de pecadores.
46
Levantai-vos e sigamos! Eis que meu
traidor está se aproximando”.
10
Jesus é traído e preso
(Mc 14.43-50; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)
47
E, estando Ele ainda a falar, eis que
chegou Judas, um dos Doze, e trazia
consigo uma grande multidão armada
de espadas e porretes, vinda da parte
dos chefes dos sacerdotes e dos líderes
religiosos do povo.
11
48
Mas o traidor havia combinado um
sinal com eles, informando-lhes: “Aquele
a quem eu saudar com um beijo, esse é
quem procurais, prendei-o!”.
49
Então, aproximando-se rapidamente
de Jesus, disse-lhe Judas: “Eu te saúdo, ó
Mestre!”. E lhe deu um beijo.
50
Jesus, contudo, lhe perguntou: “Amigo,
para que vieste?”. os homens avaçaram
sobre Jesust?”. No mesmo instante sobre
Jesus e o prenderam.
12

9
Este é um dos trechos bíblicos onde a completa humanidade de Jesus é retratada com mais evidência (Hb 5.7). Jesus demons-
tra que o verdadeiro caráter de uma pessoa se revela nos momentos mais difíceis e dramáticos. Aprendemos também a aceitar
que haverá ocasiões em nossa vida em que teremos de enfrentar o sofrimento sem o apoio, conforto ou companhia dos amigos. O
Senhor, porém, estará sempre presente. Por isso Jesus pede que os discípulos vigiem com Ele. Não apenas para seu consolo, posto
que se afasta dos discípulos à distância de um arremesso de pedra (como se relata nos originais), mas para que eles pudessem se
preparar espiritualmente para a grande batalha. Jesus clama por seu Abba (em aramaico “pai querido”). Experimenta a fraqueza
humana ao extremo, mas sem pecar. Cita Sl 43.5. Busca a orientação e o consolo do Pai. Sente quão terrível é ficar sem o amparo
de Deus, ainda que por instantes, e assume sobre si todo o pecado que a raça humana deveria pagar por sua infidelidade para com
Deus, desde os primórdios (Gn 2.15-17; 3.22-24; 4.1-8). O ato de obediência amorosa e aceitação espontânea de Jesus no Getsê-
mani corresponde à tentação no deserto, quando Jesus rejeitou governar o mundo sem Deus. Agora Ele concorda em morrer por
nós com Deus. Por isso, sua morte e ressurreição foram ainda mais relevantes que sua vida de testemunho e milagres, ao contrário
de todos os líderes que a terra já conheceu (1Co 2.2). Contudo, o Pai não responde. O Filho, em agonia, insiste por três vezes (Lc
22.44). Deus fica em silêncio na imensidão da noite; os amigos dormem. Jesus compreende que a resposta às suas aflições já havia
sido dada (Hb 5.8; 12.2). O Pai tinha de permitir o cumprimento da história. Jesus se levanta da batalha, liberto dos seus temores e
aflições; consciente do alto preço a pagar, mas resoluto quanto à sua missão (Lc 22.22; Hb 9.14).
10
A frase de Jesus, nos melhores originais, indica não que ele tenha procurado fugir, mas, sim, que partiu e convocou seus
discípulos para se encontrarem com os oficiais que o procuravam.
11
Judas organiza sua emboscada contra Jesus acompanhado dos mais importantes sacerdotes, mestres da Lei e líderes religio-
sos do povo. E cerca de 500 policiais armados e serventes do Sinédrio (Tribunal), destinados a manter a ordem pública; soldados
especiais da corte romana (Jo 18.3), vindos da fortaleza de Antônia, equipados com armas e lanternas (apesar da forte lua cheia da
época), pois conheciam e temiam os poderes sobrenaturais de Jesus, embora Ele nunca os tenha usado em benefício próprio.
12
A palavra grega usada para descrever o beijo de Judas é kataphilein, o mesmo tipo de saudação calorosa com que o pai
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 64
65 MATEUS 26
51
Eis que um dos que estavam com Je-
sus, estendendo a mão, puxou a espada
e ferindo o servo do sumo sacerdote,
decepou-lhe uma das orelhas.
52
Mas Jesus lhe ordenou: “Embainha
a tua espada; pois todos os que lançam
mão da espada pela espada morrerão!
53
Ou imaginas tu que Eu, neste momen-
to, não poderia orar ao meu Pai e Ele co-
locaria à minha disposição mais de doze
legiões de anjos?
54
Entretanto, como então se cumpririam
as Escrituras, que afrmam que tudo deve
acontecer desta maneira?”.
55
E naquele mesmo instante Jesus se dirige
às multidões indagando-lhes: “Lidero Eu
algum tipo de rebelião, para que venham
contra mim com espadas e porretes e me
prendam? Pois todos os dias estive ensinan-
do no templo e vós não me prendestes!
56
Todavia, esses fatos todos ocorreram
em cumprimento às Escrituras dos
profetas”. E assim, todos os discípulos
abandonaram a Jesus e fugiram.
13
Jesus diante do tribunal
(Mc 14.53-65; Lc 22.63-71; Jo 18.12-14, 19-24)
57
Então, os que prenderam Jesus o con-
duziram à presença de Caifás, o sumo
sacerdote, em cuja residência estavam
reunidos os mestres da lei e os anciãos.
58
Contudo Pedro seguiu a Jesus de longe
até o pátio do sumo sacerdote, entrou e
sentou-se junto aos guardas, para sondar
qual seria o fm daquela ocorrência.
59
Mas os líderes dos sacerdotes e todo
o Sinédrio estavam tentando suscitar
um falso testemunho contra Jesus, para
que tivessem o direito de condená-lo à
morte.
14
60
Todavia, nada encontraram, apesar
de se terem apresentado vários depoi-
mentos inverídicos. Ao fnal, entretanto,
compareceram duas testemunhas que
alegaram:
61
“Este homem afrmou: ‘Tenho poder
para destruir o santuário de Deus e re-
construí-lo em três dias’”.
15
62
Então o sumo sacerdote levantou-se e
interrogou a Jesus: “Não tens o que res-
ponder a estes que depõem contra ti?”.
63
Mas Jesus manteve-se em silêncio.
Diante do que o sumo sacerdote lhe inti-
mou: “Eu te coloco sob juramento diante
do Deus vivo e exijo que nos digas se tu
és o Cristo, o Filho de Deus!”.
16
64
“Tu mesmo o declaraste”, afrmou-
lhe Jesus. “Contudo, Eu revelo a todos
vós: Chegará o dia em que vereis o
Filho do homem assentado à direita do
Todo-Poderoso, vindo sobre as nuvens
do céu!”.
recebeu o filho pródigo (Lc 15.20). Apesar de Judas estar cometendo uma ofensa terrível, Jesus consegue ver na pessoa de
Judas a figura do ser humano distante de Deus: avarento, invejoso, arrogante, iludido, tresloucado e perdido; mas, ainda assim,
alguém a quem Jesus amava e considerava como membro da sua família de discípulos. Da mesma maneira o Senhor amou os
seus próprios algozes (Lc 23.34) e pela salvação de todos nós se entregou (Lc 15.1-2; Jo 3.16).
13
O discípulo amado, João, escrevendo seu Evangelho, após a morte dos protagonistas, esclarece que foi Pedro quem, num
golpe de espada, cortou fora a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote (Jo 18.10). Jesus declara que poderia receber
de Deus uma ajuda imediata, com mais de 72.000 anjos (considerando que, naquela época, uma legião era formada por até 6.000
soldados). Lembremos que apenas um anjo foi suficiente para ferir todo o Egito (Êx 12.23-27) e libertar o povo de Israel do cativei-
ro. Jesus estava consciente de que a vontade do Pai deveria ser cumprida em todos os detalhes (Zc 13.7). Aceitou tomar o cálice
do sacrifício histórico e servir de holocausto para a libertação do crente (toda pessoa que crê em Sua obra vicária e Palavra).
14
O julgamento de Jesus foi injusto e ilícito por vários motivos, especialmente por ter ocorrido durante a noite e com
testemunhas e acusações forjadas, contrariando as leis judaicas (Dt 19.15) e romanas da época. Jesus foi levado primeiro para
uma audiência perante Anás, ex-sumo sacerdote (Jo 18.12-14, 19.23); depois para julgamento diante de Caifás, sumo sacerdote
em exercício e genro de Anás, e do Supremo Concílio Judaico, chamado de Sinédrio (26.57-68; 27.1). Em seguida, levado ao
julgamento romano, diante de Pilatos (Mc 15.2-5), depois levado à presença de Herodes Antipas (Lc 23.6-12), retornando à
presença de Pilatos (Mc 15.6-15) para conclusão e condenação final.
15
Obrigar um réu a declarar algo sob juramento diante de Deus era uma atitude ilícita, claramente expressa na jurisprudência
israelita, que não tolerava qualquer tipo de tortura ou coação moral e religiosa.
16
Jesus jamais fez tal afirmação. As falsas testemunhas distorceram as palavras de Jesus (Jo 2.19), para forjar uma acusação
de blasfêmia, cuja pena era a morte.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:07 65
66 MATEUS 26, 27
65
Diante disso, o sumo sacerdote rasgou
as suas vestes denunciando: “Ele blasfe-
mou! Por que necessitamos de outras
testemunhas? Eis que acabais de ouvir tal
blasfêmia!”.
17
66
“Que vos parece?”. Responderam eles:
“Culpado e merecedor de morte é!”.
67
Neste momento, alguns cuspiram em
seu rosto e o esmurravam, enquanto ou-
tros lhe desferiam tapas, vociferando:
68
“Profetiza-nos, pois, ó Cristo, quem é
que te bateu?”.
18
Quando Pedro negou a Jesus
(Mc 14.66-72; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27)
69
Pedro encontrava-se assentado do lado
de fora da casa, no pátio, quando uma
criada, aproximando-se dele, afrmou:
“Tu também estavas com Jesus, o galileu!”.
70
Ele, entretanto, negou a Jesus perante
todos os presentes, declarando: “Não sei
do que falas.”.
71
E, saindo em direção à entrada do
pátio, foi ele reconhecido por outra
criada, a qual o denunciou a todos que ali
se achavam, exclamando: “Este homem
estava com Jesus, o Nazareno!”.
72
Mas Pedro, sob juramento, o negou
uma vez mais, afrmando: “Não conheço
tal indivíduo”..
73
Algum tempo mais tarde, os que esta-
vam ao redor aproximaram-se de Pedro
e o acusaram: “Com toda a certeza és
igualmente um deles, porquanto o teu
modo de falar o denuncia”.
19

74
Então, ele começou a jurar e a pedir
a Deus que o amaldiçoasse caso não es-
tivesse dizendo a verdade, e exclamou:
“Não conheço esse homem!”. No mes-
mo instante um galo cantou.
75
E naquele momento, Pedro se lembrou
da palavra de Jesus que lhe advertira:
“Antes que o galo cante, tu me negarás
três vezes.” E, deixando aquele lugar,
chorou amargamente.
20

Jesus é levado a Pilatos
(Mc 15.1; Lc 23.1-2; Jo 18.28-32)
27
Assim que o dia amanheceu, to-
dos os chefes dos sacerdotes, e os
líderes religiosos, anciãos do povo, cons-
piraram para condenar Jesus à morte.
1
2
Então, amarrando-o, levaram-no e o
entregaram a Pilatos, o governador.
2
Judas com remorso suicida-se!
3
E sucedeu que Judas, seu traidor, ao ver
que Jesus havia sido condenado, sentiu
terrível remorso e procurou devolver
aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos as
trinta moedas de prata.
4
E declarou: “Pequei, pois traí sangue
inocente”. Mas eles alegaram: “O que
temos a ver com isso? Esta é tua ques-
tão!”.
5
Judas atirou então as moedas de prata
dentro do templo e, abandonando aque-
le lugar, foi e enforcou-se.

6
Entretanto, os chefes dos sacerdotes
ajuntaram as moedas e comentaram: “É
17
O sumo sacerdote era proibido pela lei de agir dessa maneira e com tamanha força emocional (Lv 10.6); mas, para caracterizar
seu horror diante do suposto pecado de infâmia e jogar o público presente contra Jesus, ele se permitiu o chamado “ato extremo”.
18
Marcos informa que vendaram os olhos de Jesus (Mc 14.65), o que explica a provocação em tom de zombaria.
19
Pedro, como Jesus, tinha um sotaque indiscutivelmente galileu, facilmente identificado pelos naturais de Jerusalém.
20
A seqüência de erros cometidos por Pedro tem muito a nos ensinar: 1) Demasiada autoconfiança e falta de humildade (v.33).
2) Desobediência ao pedido de Jesus para dedicar-se à vigilância e oração (vv.40-44). Esquecimento quanto às advertências e
conselhos de Jesus (v.75; conforme v.34). Conclusão: grandes quedas na vida cristã são conseqüência da prática de pequenos
erros despercebidos ou tratados com displicência.
Capítulo 27
1
Como a Lei não permitia que o Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) tivesse reuniões juridicamente válidas, durante a noite, for-
mou-se um outro conselho logo ao nascer do dia com o propósito de oficializar a acusação de “traição” perante a autoridade civil (Lc
23.1-14), mais incriminadora para os romanos do que “blasfêmia” para os juízes judeus; e assim, levar Jesus à sentença de morte.
2
O Sinédrio tinha sido destituído pelo governo romano do seu poder de condenar qualquer cidadão à pena de morte. Por
esse motivo, Jesus só poderia ser executado por ordem expressa de Pilatos, o governador romano da Judéia (26 a 36 d.C.). Sua
residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Quando visitava Jerusalém, especialmente nas festas nacionais,
para garantir a ordem e ostentar o domínio de Roma, hospedava-se no deslumbrante palácio erguido por Herodes, o Grande,
localizado a oeste do Templo, onde presidiu o julgamento romano de Jesus.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:08 66
67 MATEUS 27
contra a lei depositarmos este dinheiro
no cofre das ofertas, pois foi obtido a
preço de sangue”.
7
Mas concordaram em usar aquelas
moedas de prata para comprar o Campo
do Oleiro, e formar um cemitério para
estrangeiros.
8
Por esse motivo ele se chama Campo de
Sangue até estes dias.
9
E assim se cumpriu o que fora anuncia-
do pelo profeta Jeremias: “Então eles to-
maram as trinta moedas de prata, o valor
que lhe atribuíram os flhos de Israel.
3
10
E as usaram para comprar o Campo
do Oleiro, assim como o Senhor me ha-
via indicado”.
Pilatos lava as mãos
(Mc 15.1-15; Lc 23.1-5, 13-25; Jo 18.33-19.16)
11
Jesus foi conduzido à presença do go-
vernador; e este o interrogou: “És tu o
rei dos judeus?”. Afrmou-lhe Jesus: “Tu
o dizes”.
4
12
Então, passou a ser acusado pelos che-
fes dos sacerdotes e pelos anciãos, mas
Ele nada respondeu.
13
Foi quando lhe questionou Pilatos:
“Não ouves a acusação que todos levan-
tam contra Ti?”
14
Jesus, entretanto, mantinha-se em ab-
soluto silêncio; e, por isso, fcou o gover-
nador fortemente impressionado.
15
Contudo, por ocasião da festa, era cos-
tume do governador dar liberdade a um
prisioneiro escolhido pelo povo.
16
Detinham eles, naqueles dias, um
criminoso muito conhecido de todos,
chamado Barrabás.
17
Então, Pilatos dirigiu-se à multidão
que ali se havia reunido e lhes propôs:
“A quem desejais que eu vos solte, a Bar-
rabás ou a este Jesus, que é chamado de
Messias?”.
18
Isso porque tinha conhecimento de
que o haviam entregado por inveja.
19
E aconteceu que estando Pilatos senta-
do no trono do tribunal, sua esposa lhe
enviou a seguinte mensagem: “Não faças
nada contra este homem inocente; pois
hoje, em sonho, muitas coisas sofri por
causa dele”.
5
20
Todavia, os chefes dos sacerdotes e os
anciãos infuenciaram a multidão para
exigir o livramento de Barrabás e a exe-
cução de Jesus.
21
Então, o governador entregou à mul-
tidão o dilema: “Qual dos dois homens
quereis que eu vos deixe livre?” Exclama-
ram eles: “Barrabás!”.
22
Pilatos ainda questionou-lhes: “Se assim
é, que farei de Jesus, que é chamado de
Messias?” Bradaram todos: “Crucifca-o!”.
23
Outra vez insta Pilatos: “Por quê? Que
crime cometeu este homem?”. Apesar de
tudo, a multidão esbravejava ainda mais
furiosa: “Crucifca-o!”.
3
Lucas (At 1.18) informa que Judas comprou um terreno argiloso (Campo de Sangue ou Vale da Matança de Jr 19.1-13 com
Zc 11.12,13 e Jr 18.2-12 com Jr 32.6-9), pois pela lei judaica considerava-se a aquisição em nome da pessoa da qual provinha
o dinheiro, mesmo no caso de falecimento. Enforcou-se e foi empalado (suplício persa usado algumas vezes pelos exércitos
israelenses, Gn 40.19; Et 2.23, e que consistia em espetar o condenado em uma estaca, pelo ânus, deixando-o assim até morrer).
Quando seu corpo caiu apodrecido sobre a terra, partiu-se ao meio. Mateus faz alusão a dois textos do AT para revelar o cumpri-
mento desta terrível profecia (Jr 32.6-9 e Zc 11.12-13). Era comum citar-se o profeta maior quando se combinavam seus escritos
com profetas menores (assim como Marcos 1,2,3 cita Ml 3.1 e Is 40.3, mas atribui todo o texto a Isaías). Judas sempre teve olhos
somente para si mesmo e seus interesses. Por isso, em vez de chorar e se arrepender como Pedro, não consegue tirar os olhos
de si mesmo e do seu pecado e só viu a morte como solução. Exatamente o que o Diabo espera que todo ser humano faça.
4
Flávio Josefo, historiador judeu que viveu em Roma entre os séculos I e II d.C.; narra vários atos de impiedade e falta de
sabedoria de Pilatos, cujo principal registro na história está ligado exclusivamente à sua atuação na condenação de Jesus. Pilatos
desviava fundos do templo, massacrou alguns samaritanos sem um julgamento justo, foi deposto pelos romanos e suicidou-se
entre os anos 31 e 41d.C.
5
Pilatos era muito supersticioso e pesou-lhe o sonho de sua esposa pagã. Além disso, o nome “Barrabás” em aramaico
significa “filho do pai” e Jesus era conhecido como “Filho do Pai” em relação a Deus. Pilatos percebeu a divindade de Jesus
(Jo 19.11-12). Tentou aproveitar a tradição do indulto de Páscoa para influenciar a multidão a pedir a libertação de Jesus. Mas
o povo, atiçado pelos sacerdotes e anciãos, sedento pela volta do bandido zelote (Mc 15.7,27; Jo 18.40) às suas atividades
MT_B.indd 14/8/2007, 14:08 67
68 MATEUS 27
24
Percebendo Pilatos que não conseguia
demover o povo, mas, ao contrário, um
princípio de tumulto já era visível, or-
denou que lhe trouxessem água, lavou
as mãos diante da multidão e exclamou:
“Estou inocente do sangue deste homem
justo. Esta é uma questão vossa!”.
25
E todo o povo respondeu: “Caia sobre
nossas cabeças o seu sangue, e sobre nos-
sos flhos!”.”
6
26
Diante disso, Pilatos soltou-lhes Bar-
rabás, mandou que Jesus fosse fagelado
e o entregou para ser crucifcado.
7
Jesus é humilhado e agredido
(Mc 15.16-20)
27
E sucedeu que os soldados do gover-
nador conduziram Jesus ao Pretório e
agruparam toda a tropa ao redor dele.
8

28
Despojaram-no de suas vestes e o co-
briram com um manto vermelho vivo.
29
Trançaram uma coroa de espinhos e a
forçaram sobre sua cabeça. Puseram em
sua mão direita um caniço e, ajoelhando-
se diante dele, escarneciam exclamando:
“Salve! Salve! Ó Rei dos Judeus!”.
30
Cuspiram nele e, tirando o caniço de sua
mão, espancavam-lhe com ele a cabeça.
31
Depois de haverem zombado dele,
despiram-lhe o manto e o vestiram com
suas próprias roupas. Em seguida, o leva-
ram para ser crucifcado.
A crucifcação do Rei
(Mc 15.22-32; Lc 23.32; Jo 19.17-24)
32
Assim que saíram, encontraram um
homem da cidade de Cirene, chamado
Simão, e o obrigaram a carregar a cruz.
9
subversivas contra Roma, rejeita o “Filho de Deus” e aclama o “filho do homem pecador”. A humanidade, narcisista e hedonista,
tende a ignorar o verdadeiro Deus e seus profetas e se entrega nas mãos de sua própria imagem e caráter, de um seu semelhante
induzido pelo Diabo.
6
Pilatos, de sua cátedra (trono, cadeira, estrado) de juiz, evoca uma tradição judaica de obediência à Lei de Moisés (Dt 21.1-9),
numa tentativa de esquivar-se da responsabilidade de condenar um justo à pena de morte, ainda mais sendo o “Filho de Deus”.
Entretanto, uma pequena multidão ensandecida tomou para si e para seus descendentes todo o ônus daquele julgamento injusto.
Alguns líderes justos se manifestaram contra, mas não foram ouvidos (Lc 23.51). Cerca de 40 anos mais tarde, mesmo antes do
cerco a Jerusalém, o sangue dos judeus jorrava por todo país. Ao final do ano 66 foram trucidados mais de 20.000 judeus em
Cesaréia, por seus próprios concidadãos gentios. Em Citópolis os sírios massacraram 13.000 judeus. Em Alexandria, mais de
50.000 judeus foram chacinados por cidadãos gregos e soldados romanos, e suas casas, reduzidas a cinzas. O massacre em Je-
rusalém não poupou nem os bebês. O próprio pátio do templo virou um lago de sangue. Durante o sítio, os poucos sobreviventes
esfomeados eram forçados a roer as próprias sandálias e cintos de couro. Diariamente mais de 500 judeus morriam crucificados,
até que não houvesse mais madeira para confeccionar cruzes. Segundo o historiador Flávio Josefo, mais de um milhão de judeus
foram mortos durante todo o período do sítio romano. Cerca de 97.000 homens jovens que sobreviveram foram vendidos como
escravos, transformados em gladiadores ou morreram na arena do anfiteatro, lutando contra animais ferozes.
7
Pilatos tenta evitar a morte “do divino”, como teria se referido ao Senhor mais tarde, e saciar a sede sanguinária da multidão,
submetendo Jesus a uma terrível sessão de açoites. Esse tipo de castigo era tão cruel que fora proibido aos cidadãos romanos, sob
qualquer motivo. Apenas escravos e provincianos eram chicoteados como preparação para a crucificação. Os chicotes eram feitos
de finas tiras de couro duro, trançadas com pedaços de osso, chumbo e espinhos agudos e venenosos. O martírio de Policarpo, por
exemplo, é descrito nos documentos da comunidade de Esmirna como: “dilacerado pelos açoites, a ponto de ser possível ver os
vasos sanguíneos interiores e a estrutura do seu corpo”. Eusébio relata sobre o flagelo do cristão Doroteu, sob Diocleciano: “até seus
ossos ficaram expostos”. Por isso, eram comuns os flagelados morrerem antes da crucificação. Mas Jesus suportou tudo em silêncio
(Is 53). Muito sacrifício foi oferecido para que os discípulos de hoje possam servir a Cristo com liberdade e alegria.
8
O Pretório era a fortaleza de Antônia, residência de Pilatos quando estava em Jerusalém. Dizia-se que uma “tropa” ou “coorte”
era composta de um décimo dos soldados que formavam uma “legião”, algo entre 360 e 600 homens.
9
Tem início a via crucis ou via-sacra, o caminho da cruz. O Talmude relata que era costume oferecer ao condenado, antes
da crucificação, uma bebida anestesiante, que algumas mulheres piedosas de Jerusalém mandavam preparar às suas custas.
Entretanto (v.34), Jesus nega-se a aceitar esse tipo de alívio (Sl 69.19-21; Pv 31.6; Mc 15.23). A cruz era composta de duas peças
de madeira, uma viga vertical staticulum e outra horizontal antenna. Na primeira, mais ou menos no centro, era fixado um pino de
madeira, chamado de cornu chifre, sobre o qual o crucificado ficava montado. Os crucificados viviam em média cerca de doze
horas. A febre que logo se manifestava causava um tipo de sede ardente. A crescente inflamação das feridas nas costas, mãos
e pés, o ataque dos insetos e aves carniceiras que se aproximavam devido ao odor de sangue e dos excrementos, assim como
a pressão do fluxo sanguíneo contra a cabeça, o pulmão e o coração, e o inchaço de todas as veias provocavam a mais horrível
agonia e dor. Cícero dizia: “A crucificação é o mais cruel e terrível dos castigos”. A execução tinha de ocorrer fora da cidade (Lv
MT_B.indd 14/8/2007, 14:08 68
69 MATEUS 27
33
Chegaram a um lugar conhecido como
Gólgota, que signifca Lugar da Caveira.
10
34
Deram-lhe para beber uma mistura
de vinho com absinto; mas ele, depois de
prová-la, negou-se a beber.
35
E aconteceu que após sua crucifcação,
dividiram entre si as roupas que lhe per-
tenciam, jogando sortes.
36
E se acomodaram ali, para o vigiar.
37
Acima de sua cabeça fxaram por es-
crito a acusação forjada contra ele: “ESTE
É JESUS, O REI DOS JUDEUS”.
38
Dois ladrões foram crucifcados com ele,
um à sua direita e outro à sua esquerda.
39
As pessoas que passavam lançavam-
lhe impropérios, balançando a cabeça.
40
E exclamavam: “Ó tu que destróis o
templo e em três dias o reconstróis! Ago-
ra salva-te a ti mesmo. Desce desta cruz,
se és o Filho de Deus!”.
41
Do mesmo modo, os chefes dos sa-
cerdotes, os mestres da lei e os anciãos
zombavam dele, vociferando:
42
“Salvou a muitos, mas a si mesmo não
pode salvar-se. É o Rei de Israel! Desça
agora da cruz, e passaremos a crer nele.
43
Pregou sua confança em Deus. Então
que Deus o salve neste instante, se ver-
dadeiramente por ele tem piedade, pois
afrmou: ‘Sou Filho de Deus!’”.
44
Igualmente o ultrajavam os ladrões
que ao seu lado haviam sido também
crucifcados.
11
A morte de Jesus na cruz
(Mc 15.33-41; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30)
45
Então, profundas trevas caíram por
sobre toda a terra, do meio-dia às três
horas da tarde daquele dia.
12
46
E, por volta das três horas da tarde, Jesus
clamou com voz forte: “Eloí, Eloí, lamá
sabactâni?”, que signifca “Meu Deus, Meu
Deus! Por que me abandonaste?”.
47
Mas alguns dos que ali estavam, ao
ouvirem isso, comentaram: “Ele chama
por Elias”.
13
48
Sem demora, um deles correu em
busca de uma esponja, embebeu-a em
vinagre, colocou-a na ponta de um
caniço, ergueu-a até Jesus e deu-lhe a
beber.
49
Entretanto, os outros o censuraram:
“Deixa! Vejamos se Elias vem livrá-lo”.
50
Então Jesus exclamou, uma vez mais,
em alta voz e entregou o espírito.
14
51
No mesmo instante, o véu do santu-
24.14), como um sinal da exclusão da sociedade humana (Hb 13.12). João relata que Jesus saiu da cidade (Jo 19.17) e, segundo
o costume (Mt 10.38), carregou pessoalmente sua cruz. Um seu discípulo africano, chamado Simão, de Cirene (região localizada
na Líbia, onde viviam muitos judeus), foi constrangido (em grego, engareusan – palavra que tem a ver com o costume militar
romano de obrigar os civis a entregar cartas) a seguir o caminho do Calvário, carregando a cruz de Jesus. Mais tarde, Simão e
sua família serviram à comunidade cristã que se formava (Mc 15.21; At 6.9; Rm 16.13).
10
A palavra Gólgota é a tradução latina do nome em aramaico da nossa palavra Calvário. Um monte fora dos muros de Jeru-
salém, que, visto de longe, se assemelha a uma caveira humana.
11
Jesus, Deus encarnado, foi cravado e erguido numa cruz entre o céu e a terra, fora da sua cidade amada, como sinal de
vergonha e horror, com uma acusação escrita nas três principais línguas da sua época. Posto entre dois criminosos, foi escar-
necido principalmente pelos mais religiosos e conhecedores das Escrituras. Cumpriram-se todas as profecias sobre o Messias,
notadamente as descritas por Davi no Salmo 22 (mil anos antes do nascimento de Jesus). Cristo morreu pelos nossos pecados
(1Co 15.3-4). Felizes são os que, humildemente, reconhecem esse fato.
12
Jesus foi crucificado às 9 horas da manhã (a terceira hora dos judeus da época, contada desde o raiar do sol). Ao meio dia (12
horas), densas trevas cobriram a terra. Às três da tarde Jesus expirou. As sete frases que Jesus pronunciou durante essas seis horas
de martírio, estão registradas na seguinte ordem: Lc 23.34; Jo 19.26-27; Lc 23.43; Mt 27.46; Jo 19.28; Jo 19.30 e em Lc 23.46.
13
Jesus, num último fôlego, brada em seu dialeto de família, aramaico nazareno, o início do Salmo 22. Chegamos ao mais
profundo do mistério da redenção. O Filho de Deus e Filho do homem experimenta a terrível e momentânea separação do Pai,
para que seu sacrifício pudesse ser aceito e consumado em resgate de todos os que nele cressem em todas as eras (2Co 5.21).
Os circunstantes não compreenderam bem essas palavras e deduziram que Jesus chamava por Elias.
14
Cristo não foi morto diretamente por alguém ou vencido por qualquer infecção (comum aos crucificados na época). Ele, vo-
luntariamente, e no auge do seu poder espiritual entregou a sua vida humana (Jo 19.31-37). Depois do seu brado de vitória, Jesus
explode seu próprio coração. Especialistas afirmam que foi por isso que, ao perfurarem seu lado com uma lança, imediatamente
verteu uma mistura de sangue coagulado e soro (este tem aparência de água). Esse quadro clínico ocorre nos casos de ruptura
MT_B.indd 14/8/2007, 14:08 69
70 MATEUS 27
ário rasgou-se em duas partes, de alto a
baixo. A terra estremeceu, e fenderam-se
as rochas.
15

52
Os sepulcros se abriram, e os corpos
de muitos santos que haviam morrido
foram ressuscitados.
53
E, deixando as sepulturas, logo após a
ressurreição de Jesus, entraram na cidade
santa e apareceram para muitas pessoas.
54
E aconteceu que o centurião e os que
com ele vigiavam a Jesus, vendo o terremo-
to e tudo o que se passava, foram tomados
de grande pavor e gritaram: “É verdade! É
verdade! Este era o Filho de Deus!”.
55
Estavam presentes várias mulheres,
observando de longe; eram discípulas,
que vinham seguindo Jesus desde a Ga-
liléia, para o servirem.
16

56
Entre as quais estavam Maria Mada-
lena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a
mãe dos flhos de Zebedeu.
O sepultamento do corpo de Jesus
(Mc 15.42-47; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42)
57
Ao pôr-do-sol chegou um homem rico,
de Arimatéia, por nome José, o qual havia
se tornado discípulo de Jesus.
58
Teve ele uma audiência com Pilatos
para pedir-lhe o corpo de Jesus, e Pilatos
ordenou que lhe fosse entregue.
59
Então, José tomou o corpo e o envol-
veu com um lençol limpo de linho.
60
E o colocou em um sepulcro novo, o
qual ele próprio havia mandado cavar na
rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra
sobre a entrada do sepulcro, retirou-se.
61
Estavam ali, assentadas em frente ao se-
pulcro, Maria Madalena e a outra Maria.
Pilatos manda vigiar o sepulcro
62
No dia seguinte, isto é, no sábado,
reuniram-se os principais sacerdotes e
os fariseus e foram até Pilatos e argu-
mentaram:
63
“Senhor, recordamo-nos de que aque-
le enganador, enquanto vivia, prometeu:
‘Passados três dias ressuscitarei’.
64
Manda, portanto, que o sepulcro dele
seja guardado até o terceiro dia, para que
não venham seus discípulos e, raptando
o corpo, proclamem ao povo que ele
ressuscitou dentre os mortos. E esta der-
radeira fraude cause mais dano do que a
primeira”.
65
Ao que ordenou Pilatos: “Levai con-
vosco um destacamento! Ide e guardai o
sepulcro como melhor vos parecer”.
66
Seguindo eles, organizaram um siste-
ma de segurança ao redor do sepulcro. E
além de manterem um destacamento em
plena vigilância, lacraram a pedra.
17

Jesus foi ressuscitado!
(Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9)
28
Tendo passado o sábado, ao raiar
do primeiro dia da semana, Maria
do pericárdio (o tecido celular que reveste o exterior do coração). Esse episódio anula uma teoria surgida no século XIX, a qual
tentando explicar a ressurreição, alegava que Jesus desmaiou nesse momento, para então despertar no túmulo.
15
Desde Moisés sempre houve, no santuário, uma cortina (véu) de tecido que separava o ambiente do Santo dos Santos (Êx
26.37; 38.18; Hb 9.3). Lugar sagrado onde ninguém podia entrar a não ser o sumo sacerdote, e este apenas no Dia da Expiação.
Este acontecimento foi trágico para os judeus, mas um grande sinal para os cristãos de todos os povos, culturas e épocas: Em
Cristo ficou abolida toda e qualquer separação entre o pecador arrependido (adorador) e Deus, nosso Pai (Jo 14.6). O fato de o
véu ter-se partido de alto a baixo, sem contato humano, demonstra que o próprio Senhor abriu um novo e vivo caminho para Sua
Santa presença (Hb 10.20; Ef 2.11-22). E muitos vieram a ser reconciliados para sempre com Deus (At 6.7).
16
Jesus sempre tratou as mulheres com o respeito e a dignidade que Deus requer, diferentemente da forma como os homens
as tratavam em sua época. Era proibido às mulheres aproximarem-se do crucificado. Aquela cena foi um escândalo. Várias dis-
cípulas seguiram o Senhor desde o início do seu ministério, na Galiléia, e permaneceram servindo até sua morte e novo começo
(28.1; Jo 20.11-18). O perfeito amor lança fora o medo (1Jo 4.18).
17
Dois juízes e membros do Sinédrio, que não compactuaram com a condenação de Jesus, José, da cidade de Arimatéia
(uma próspera aldeia montanhosa a cerca de 32 km ao noroeste de Jerusalém) e Nicodemos (Jo 19.38-39), cuidaram do sepul-
tamento de Cristo. Trataram das formalidades civis, das despesas, e proveram um túmulo novo (Is 53.9), nunca antes usado, que
pertencia a José de Arimatéia e localizava-se no monte do Calvário (Jo 19.41). Os líderes civis e religiosos, para evitar qualquer
tentativa de remoção do corpo e possível versão sobre a ressurreição do Mestre, violaram o sábado de Páscoa para tomar todas
as providências necessárias e vigiar a área do túmulo.
MT_B.indd 14/8/2007, 14:08 70
71 MATEUS 27, 28
Madalena e a outra Maria foram visitar
o túmulo.
1
2
E eis que aconteceu um forte terremoto,
pois um anjo do Senhor desceu dos céus
e, chegando ao túmulo, rolou a pedra da
entrada e assentou-se sobre ela.
3
O anjo tinha o aspecto de um relâm-
pago, e suas vestes eram alvas como a
neve.
2
4
Os guardas foram tomados de grande
pavor e fcaram paralisados de medo,
como mortos.
5
Contudo, o anjo dirigiu-se às mulheres
e lhes anunciou: “Não temais vós! Sei que
viestes ver a Jesus, que foi crucifcado.
6
Mas aqui Ele não está. Foi ressuscitado,
como havia dito. Vinde e vede vós onde
Ele jazia.
7
Ide caminhando depressa e anunciai
aos seus discípulos: Ele ressuscitou den-
tre os mortos e está seguindo adiante de
vós rumo à Galiléia. Lá o vereis. Atentai
para o que vos disse!”.
8
As mulheres abandonaram o túmu-
lo correndo, amedrontadas, mas com
grande júbilo, e foram imediatamente
anunciá-lo aos seus discípulos.
9
De repente, Jesus veio ao encontro delas
e as saudou: “Alegrai-vos!” Elas se apro-
ximaram dele, jogaram-se aos seus pés
abraçando-os, e o adoraram.
10
Então Jesus lhes declarou: “Não te-
mais! Ide e dizei aos meus irmãos que
sigam para a Galiléia, lá eles me verão”.
Os sacerdotes subornam os guardas
11
E sucedeu que enquanto as mulheres
estavam a caminho, alguns dos guar-
das foram à cidade e contaram aos
chefes dos sacerdotes tudo o que havia
ocorrido.
12
Então, os chefes dos sacerdotes reu-
niram-se em conselho com os anciãos
e tramaram outro plano. Deram aos sol-
dados vultosa quantia em dinheiro.
13
E lhes recomendaram que declaras-
sem a todos: “Os discípulos dele vieram
durante a noite e raptaram o corpo, en-
quanto cochilávamos.
14
Se isso chegar ao conhecimento do
governador, nós o persuadiremos a vosso
favor e vos livraremos de qualquer repri-
menda”.
3
15
Os soldados receberam o dinheiro e
fzeram como haviam sido orientados.
E, por isso, essa versão dos aconteci-
mentos se conta entre os judeus até o
dia de hoje.
A Grande Comissão
16
Os onze discípulos rumaram para a
Galiléia, em direção ao monte que Jesus
lhes determinara.
17
Assim que o viram, prostraram-se
e o adoraram, mas alguns ficaram em
dúvida.
18
Então, Jesus aproximando-se deles
lhes assegurou: “Toda a autoridade me
foi dada no céu e na terra.
1
Conforme o horário judaico, o domingo começava logo após o pôr-do-sol do sábado. Lucas nos informa que Maria Madalena
e Maria, mulher de Clopas (Lc 24.1; Jo 19.25) saíram de madrugada, ainda escuro (Jo 20.12), para visitar o corpo de Jesus,
lamentar e ungi-lo com mais especiarias. Chegaram ao túmulo com os primeiros raios da aurora na esperança de que lhes fosse
autorizada a entrada para a continuação do ritual fúnebre (período de luto) judaico da época (Mt 28.1; Mc 16.2-3).
2
Deus manda seus anjos anunciarem o nascimento e a ressurreição de Jesus. Ele é concebido e ressuscitado pelo poder do
Altíssimo (Lc 1.35; Rm 6.4; Ef 1.20). Essas mensagens são comunicadas em primeiro lugar a mulheres devotas e humildes e que
receberam um nome simples, mas conhecido em todo o mundo: Maria (forma helenizada do nome hebraico Miriã, que foi derivado
de um antigo vocábulo egípcio Marye, e que significa: princesa, amada, mulher de esperança). O anjo não rolou a pedra para que
Jesus saísse do sepulcro, a pedra foi rolada para que as mulheres e, mais tarde, outras pessoas, entrassem e verificassem o túmulo
vazio, o selo (lacre estatal feito com cordas que envolviam a pedra e eram atadas ao sepulcro com as marcas de Roma e do Sinédrio)
rompido e nenhum outro sinal ou dano. Séculos mais tarde, expedições arqueológicas, como as organizadas pelo General Christian
Gordon, localizaram esse túmulo e confirmaram algumas alterações para acomodar um corpo maior do que o de José de Arimatéia
(segundo a tradição de baixa estatura). Contudo, análises físicas e químicas jamais atestaram qualquer vestígio de restos mortais na
sepultura. O túmulo era novo quando foi oferecido para sepultar o corpo do Senhor e continuou novo após sua ressurreição.
3
Agostinho (354-430 d.C.) observou: “Se acordados, por que permitiram a alguém raptar o corpo de Jesus? E, se dormindo,
como podiam declarar que foram os discípulos?” De qualquer modo seriam todos condenados à morte, não fosse o interesse dos
MT_B.indd 14/8/2007, 14:08 71
72 MATEUS 28
19
Portanto, ide e fazei com que todos os
povos da terra se tornem discípulos, ba-
tizando-os em nome do Pai, e do Filho, e
do Espírito Santo;
20
ensinando-os a obedecer a tudo quanto
vos tenho ordenado. E assim, Eu estarei
permanentemente convosco, até o fm
dos tempos”.
4
líderes religiosos judaicos em divulgar uma falsa versão sobre o desaparecimento do corpo de Cristo e levar a população a não
crer na intervenção divina, presenciada por soldados e discípulos, nas primeiras horas daquele domingo no monte Calvário.
4
Jesus recebeu todo o poder de Deus (em grego .cuc.c) e do Senhor Ressuscitado parte a ordem plenipotenciária: Ide! (lite-
ralmente “indo”, em grego vc.u)...~). Agora esse “envio” não é provisório, limitado e transitório como em Mt 10, mas definitivo,
ilimitado e permanente. Rompeu-se o estreitamento étnico das sinagogas e abriu-se a Salvação (comunhão com Deus) para
todos os povos, raças e culturas. A comunidade de Jesus que abrange o mundo inteiro substituiu a “velha aliança” pela “nova
aliança”, que congrega toda e qualquer pessoa cujo coração creia no Senhor para ser convertido em discípulo. Jesus ensinou e
demonstrou com a sua própria vida o que significa ser um discípulo do Senhor (obediência a Deus). A tríplice ordem missionária
(discipular, batizar e ensinar a discipular) é emoldurada pela garantia da onipresença de Jesus na alma daquele que crê (o crente).
A essência da Igreja de Jesus é que o Ressuscitado continua vivo e atuante no indivíduo e na comunidade. Ao orarmos, não é
mais necessário buscarmos a Deus nos céus, mas, sim, em nossos corações. A promessa da presença contínua de Deus é a
chave de ouro com a qual vários livros da Bíblia são concluídos (Êx 40.38; Ez 48.35; Ap 22.20).
Jesus, após ressuscitar, apareceu a várias pessoas em diversas ocasiões: a Madalena (Jo 20.11-18), a algumas discípulas
(28.9-10), aos discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.13-33), a Pedro (Jo 21.15-19; Lc 24.34-35), a dez discípulos no Cenáculo (Jo
20.19), aos onze discípulos (Jo 20.24-29), a sete discípulos na Galiléia (Jo 21.24-29), aos onze no monte, na Galiléia (Mt 28.16-17),
a Tiago e a todos os apóstolos (1Co 15.7), a uma multidão no monte das Oliveiras (Lc 24.44-49), ao apóstolo Paulo (At 9.3-8).
MT_B.indd 14/8/2007, 14:08 72
Autoria
Desde os primeiros séculos a Igreja Cristã atribui a autoria do segundo evangelho do Novo Tes-
tamento a João Marcos, filho de Maria, uma mulher de posses e muito prestígio em Jerusalém (At
12.12). Marcos era primo de Barnabé, amigo e companheiro de ministério dos apóstolos Paulo e Pe-
dro. A igreja primitiva também nos informa que Pedro teve participação decisiva na evangelização e
no discipulado de João Marcos, e que ambos desen-volveram laços de profunda amizade e respeito
mútuo. Pedro se referia a Marcos como “meu filho Marcos” (1Pe 5.13).
É de aceitação geral que Marcos recebeu de Pedro grande parte das informações contidas no
( )
Evangelho que leva seu nome. Com a autoridade apostólica de Pedro subjazendo este livro sagrado,
ele jamais sofreu qualquer contestação à sua inclusão no cânon das Escrituras. Isso em muito coo-
perou para o rápido reconhecimento deste livro sagrado, bem como sua extraordinária disseminação
por toda a Itália e regiões do império romano. Segundo Papias (por volta do ano 140 d.C.), citando
uma fonte ainda mais antiga, Marcos foi grande cooperador de Pedro e seu amigo íntimo, de quem
ouviu sobre os ensinos e realizações de Jesus Cristo. O comitê de tradução da Bíblia King James
acredita que o Evangelho Segundo Marcos consiste, basicamente, na pregação e no ensino do
apóstolo Pedro, ordenada e interpretada por João Marcos (At 10.37).
Ainda muito jovem João Marcos teve o privilégio de acompanhar Paulo e Barnabé em sua primeira
viagem missionária. Depois viajou com Barnabé para Chipre, pregando a Palavra do Senhor (At
15.38-40). Cerca de doze anos mais tarde, é convidado por Paulo para acompanhá-lo (Cl 4.10; Fm
24). Pouco antes de ser executado pelo império romano, Paulo manda chamar João Marcos (2Tm
4.11) para seguir anunciando o Evangelho a todos os povos.
Propósitos
Enquanto Mateus teve como principal propósito levar o Evangelho aos judeus, Marcos escreveu
objetivando evangelizar e discipular os gentios, particularmente, ensinar os cristãos da Igreja de
Roma. Por isso Marcos se preocupa em explicar alguns dos costumes judaicos (Mc 7.2-4; 15.42),
traduz palavras aramaicas, idioma falado na Palestina na época de Jesus e muito diferente do he-
braico antigo (Mc 3.17; 5.41; 7.11-34; 15.22) e dá ênfase à perseguição e ao martírio dos crentes
ocorrida por volta dos anos 64 e 67 d.C. O grande incêndio de Roma, um plano diabólico do próprio
imperador romano Nero, para acentuar a adoração do seu povo à sua pessoa, lançando a culpa
sobre os cristãos e justificar uma perseguição que condenou sumariamente milhares de pessoas ao
martírio e à morte.
Marcos, antevendo essa chacina, procurou preparar os cristãos – de forma explícita e velada – du-
rante todo o seu texto do Evangelho (Mc 1.12,13; 3.22,30; 8.34-38; 10.30,33-45; 13.8-13).
Data da primeira publicação
Os primeiros estudiosos das Sagradas Escrituras acreditavam que o Evangelho Segundo Mateus
tinha sido escrito e publicado antes da obra de Marcos. Entretanto, atualmente, muitos teólogos e
biblistas são unânimes em afirmar que o Evangelho Segundo Marcos foi o primeiro dos Evangelhos
a chegar ao grande público leitor. Isso por volta do final da década de 50 d.C.
Devido ao fato de Marcos ter sido o intérprete do apóstolo Pedro, havendo preparado sua obra
sobre o Evangelho em estreita sintonia com os ensinos e orientações do seu querido mestre, tanto
Mateus quanto Lucas utilizaram os textos de Marcos como principal fonte documentária na produção
dos seus relatos sobre a vida e a obra de Jesus Cristo em seus Evangelhos.
De acordo com alguns pais da Igreja, como Irineu e Clemente de Alexandria, o Evangelho Segundo
Marcos foi escrito nas regiões da Itália, mais precisamente, em Roma. Pesquisas históricas indicam
que Pedro e Marcos estavam em Roma, pouco antes do martírio de Pedro que se deu na mesma
cidade e no qual o apóstolo teria solicitado que sua crucificação se desse de cabeça para baixo, pois
acreditava não ser digno do mesmo tipo de martírio e morte que foram impostos ao Senhor Jesus.
INTRODUÇÃO A
O EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS
MC.indd 1 31/7/2007, 14:32:53
No final de sua primeira carta, Pedro indica claramente que está com Marcos, em Roma, criptogra-
fando (codificando) a palavra “Roma” por “Babilônia” (1Pe 5.13) a fim de proteger a Igreja que se
reunia naquela cidade das perseguições do império.
Esboço Geral de Marcos
1. O ministério do Servo (1.1 –10.52)
A. A preparação para o ministério de Jesus (1.1-13)
B. Por meio da vida e obra de João Batista (1.1-8)
C. Por meio do seu próprio batismo (1.9-11)
D. Por meio da vitória sobre a tentação (1.12, 13)
2. Seu ensino e poder (1.14 – 3.12)
A. Sobre uma espécie de demônio (1.21-28)
B. Sobre a doença (1.29-39)
C. Sobre a impureza e a lepra (1.40-45)
D. Sobre toda a paralisia (2.1-12)
E. Sobre a corrupção (2.13-20)
F. Sobre doutrinas equivocadas (2.21, 22)
G. Sobre o uso do sábado (2.23-28)
H. Sobre as deformidades (3.1-6)
I. Sobre os demônios (3.7-12)
3. Ministério posterior na Galiléia (3.13-6.29)
A. Escolha e convocação dos Doze (3.13-21)
B. Condenação dos rejeitadores (3.22-30)
C. A família espiritual de Jesus (3.31-35)
4. As parábolas de Jesus (4.1-34)
A. O semeador (4.1-34)
B. A candeia (4.21-25)
C. O desenvolvimento do grão (4.26-29)
D. A semente de mostarda (4.30-34)
5. As virtudes do Senhor Jesus (4.35 – 9.1)
A. Sobre as tempestades (4.35-41)
B. Sobre os demônios (5.1-20)
C. Sobre a doença e a morte (5.21-43)
D. Ao comissionar os apóstolos (6.7-13)
E. Afetando o assassino Herodes (6.14-29)
F. Ao alimentar 5.000 homens (6.30-44)
G. Ao caminhar sobre as águas (6.45-52)
H. Sobre as enfermidades (6.53-56)
I. Sobre as tradições religiosas (7.1-23)
J. Para com uma mulher gentia (7.24-30)
K. Para com um homem surdo (7.31-37)
L. Ao alimentar mais 4.000 homens (8.1-9)
M. Ao condenar os fariseus (8.10-13)
N. Em seu ensino sobre o fermento (8.14-21)
O. Sobre a falta de visão (8.22-26)
P. Sobre a vida do apóstolo Pedro (8.27-33)
Q. Sobre todos os discípulos (8.34 – 9.1)
6. Suas profecias (9.2-50)
A. Quanto a Sua glória (9.2-29)
B. Quanto a Sua morte (9.30-32)
C. Quanto às recompensas (9.33-41)
D. Quanto ao inferno (9.42-50)
7. Seus ensinos na região da Peréia (10.1-52)
A. Sobre o divórcio (10.1-12)
B. Sobre os pequeninos (10.13-16)
C. Sobre a vida eterna (10.17-31)
D. Sobre Sua morte e ressurreição (10.32-34)
MC.indd 2 31/7/2007, 14:33:01
E. Sobre a ambição humana (10.35-45)
F. Quando da cura do cego Bartimeu (10.46-52)
8. A Paixão de Cristo (11.1 – 15.47)
A. Domingo: A entrada triunfal (11.1-11)
B. Segunda-feira: Purificação (11.12-19)
C. Terça-feira: Ensinos (11.20 – 13.37)
D. Sobre a fé (11.20-26)
E. Sobre Israel (12.1-12)
F. Sobre os deveres cívicos (12.13-17)
G. Sobre a ressurreição (12.18-27)
H. Sobre o maior dos mandamentos (12.28-34)
I. Sobre a divindade de Jesus (12.35-37)
J. Sobre a questão da arrogância (12.38-40)
K. Sobre as ofertas e ajudas (12.41-44)
L. Sobre o futuro (13.1-37)
M. Quarta-feira: A unção e a traição (14.1-11)
N. Quinta-feira: A ceia e a traição (14.12-52)
O. Preparativos para a ceia (14.12-16)
P. A última Páscoa com Jesus (14.17-21)
Q. Rumo ao Getsêmani (14.26-31)
R. Oração e pranto no Getsêmani (14.32-42)
S. Traição e prisão no Getsêmani (14.43-52)
T. Sexta-feira: Juízo e execução (14.53 – 15.47)
U. Cristo julgado por Caifás (14.53-65)
V. Pedro nega a Jesus (14.66-72)
W. Cristo julgado por Pilatos (15.1-15)
X. O martírio de Cristo (15.16-20)
9. Crucificação, morte e ressurreição (15.21 – 16.20)
A. A crucificação do Senhor Jesus (15.21-32)
B. A morte de Jesus Cristo (15.33-41)
C. O sepultamento e o Sábado (15.42-47)
D. Domingo: A ressurreição de Jesus! (16.1-8)
E. Jesus prova que está vivo (16.9-18)
F. Jesus ascende ao Céu de onde voltará (16.19, 20)
Observação
O Evangelho Segundo Marcos também pode ser sumarizado a partir dos deslocamentos geográfi-
ç
cos feitos por Jesus Cristo durante sua peregrinação na terra:
1. Os preparativos para a vinda de Deus encarnado (1.1-13)
2. A pregação do Filho de Deus na Galiléia (1.14 – 9.50)
3. A pregação de Jesus, o Cristo na Peréia (10.1-52)
4. A Paixão do Filho do homem em Jerusalém (11.1 – 16.20).
MC.indd 3 31/7/2007, 14:33:02
O EVANGELHO SEGUNDO
MARCOS
João Batista revela o caminho
(Mt 3.1-12; Lc 3.1-18, Jo 1.19-28)
1
Princípio do Evangelho de Jesus Cris-
to, o Filho de Deus.
1
2
Conforme está escrito no livro do
profeta Isaías: “Eis que Eu envio o meu
mensageiro diante de ti, a fim de prepa-
rar o teu caminho; voz do que clama no
deserto:
3
‘Preparai o caminho do Senhor, tornai
retas as suas veredas’”.
2
4
E foi assim que chegou João, batizando
no deserto e pregando um batismo de ar-
rependimento para perdão dos pecados.
3
5
Vinham encontrar-se com ele pessoas
de toda a região da Judéia e todo o povo
de Jerusalém, e eram batizados por ele no
rio Jordão, confessando seus pecados.
6
João vestia roupas tecidas com pêlos
de camelo, usava ao redor da cintura um
cinto de couro e se alimentava de gafa-
nhotos e mel silvestre.
4
A mensagem de João
(Mt 3.11-12; Lc 3.15-17; Jo 1.19-28)
7
E esta era a pregação de João: “Depois
de mim vem aquele que é mais poderoso
do que eu, do qual não sou digno sequer
de curvar-me para desamarrar as cor-
reias das suas sandálias.
8
Eu vos batizei com água; Ele, entretan-
to, vos batizará com o Espírito Santo”.
5
Jesus é batizado
(Mt 3.13-17; Lc 3.21-22; Jo 1.32-34)
9
Aconteceu, naqueles dias, que chegou
Jesus, vindo de Nazaré da Galiléia, e foi
batizado por João no rio Jordão.
1
A expressão “Evangelho” no grego mais antigo significa “um prêmio conferido a quem levava boas notícias”. Com o tempo,
essa palavra passou a significar “boas novas”. Cristo é em si a “boa notícia” para a humanidade e, ao mesmo tempo, é portador
das “boas novas” de Salvação (cada indivíduo precisa ser salvo, liberto, do poder do pecado original, do sistema mundial dirigido
por Satanás e do inferno eterno). A palavra “princípio” indica a introdução do Evangelho. O livro de Marcos teria sido o primeiro
a ser escrito, servindo como base para Mateus e Lucas, sendo os três, conhecidos como os “Sinóticos” (termo de origem grega
que significa: “análise dos fatos a partir de um determinado ponto de vista” ou “estudo comparativo”). A palavra “Cristo” é um
adjetivo de origem grega que significa “Ungido” (em hebraico, Messias). No AT, reis, sacerdotes e profetas foram “ungidos”, o que
confirmava sua escolha divina. “Filho de Deus” tem um sentido amplo no NT, mas quando aplicado a Jesus salienta sua Deidade
(Sl 2.7; Jo 10.38; 14.10; Hb 1.2) e sua Missão (10.45).
2
“Está escrito”, frase muito usada para lembrar ou citar passagens do AT. Marcos faz alusão às profecias de Is 40.3; Ml 3.1.
Conforme a tradição entre os mestres judaicos, citava-se apenas o nome do “profeta maior” ou mais antigo. Fica claro, no contex-
to, que o Senhor (Jeová ou Javé) do AT é plenamente identificado com Jesus Cristo no NT (Rm 10.9-13).
3
João é a forma simplificada do nome hebraico Johanen, que significa “dom de Jeová”. Era parente de Jesus, porquanto suas
mães eram primas (Lc 1.36). Seu ministério público teve início por volta do ano 27 a.C., proclamando a vinda iminente do Messias
e Seu Reino. João insistia na urgência do “arrependimento” (em grego, metanoia, quer dizer: “mudança radical de pensamento e
volta ao juízo”) devido à aproximação da vinda do Senhor. A mesma necessidade impreterível dos nossos dias. O ato simbólico
de João “mergulhar” (palavra derivada da expressão grega baptizô) as pessoas nas águas, após confissão pública e oral dos
pecados, entrou para a história da Igreja.
4
As roupas e o tipo de alimentação de João revelam sua austeridade e desprendimento dos interesses materiais deste mundo.
Seu jeito de vestir-se era típico dos profetas e lembrava Elias (2 Rs 1.8; Zc 13.4), a quem João muito se assemelha (9.13). Alimen-
tar-se de gafanhotos era uma prática comum entre as comunidades pobres (Lv 11.22), especialmente as que viviam a oeste do
mar Morto, entre cujos habitantes (a seita dos essênios) estão os que escreveram e preservaram os Rolos do mar Morto (a mais
importante descoberta arqueológica do século XX e que muito ajudou nesta tradução da Bíblia King James). Alguns grupos de
beduínos ainda hoje comem gafanhotos tostados ou salgados.
5
João batiza apenas com água, simbolizando a purificação dos pecados reconhecidos e renunciados. Entretanto, Jesus Cristo
oferecerá o dom do Espírito e com Ele a filiação adotiva e perene de Deus (em hebraico Yahweh), nosso Pai (em aramaico, Abba,
que significa: pai querido), conforme Jo 3.3-6. O batismo cristão é muito mais importante que o batismo judaico de prosélitos, dos
essênios (que batizavam os judeus que entravam para sua seita) e o praticado por João. Isso porque somente no batismo cristão
está implícito o ato simbólico de identificação do pecador restaurado com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.
MC.indd 4 31/7/2007, 14:33:02
5
10
E, imediatamente após deixar a água,
viu os céus rasgando-se e o Espírito des-
cendo até Ele na forma de uma pomba.
11
Então houve uma voz vinda dos céus:
“Tu és o meu Filho amado; em ti muito
me agrado”.
6
Jesus é tentado
(Mt 4.1-11; Lc 4.1-13)
12
Logo em seguida, o Espírito o dirigiu
para o deserto.
13
Ali esteve Ele por quarenta dias sendo
tentado por Satanás; viveu entre as feras
selvagens, e os anjos o serviram.
7
Jesus convoca seus discípulos
(Mt 4.12-22; Lc 4.14,15; 5.1-11; Jo 1.35-42)
14
E depois que João foi levado à prisão,
Jesus partiu para a Galiléia, pregando a
todos as boas novas de Deus:
8
15
“Cumpriu-se o tempo e está chegando
o Reino de Deus; arrependei-vos e crede
no Evangelho”.
9
16
Caminhando pela praia do mar da
Galiléia, viu Jesus a Simão e seu irmão
André lançando suas redes ao mar, pois
eram pescadores.
17
Então, dirigiu-se a eles Jesus dizendo:
“Vinde em minha companhia, e Eu vos
tornarei pescadores de pessoas”.
18
Naquele mesmo momento, eles aban-
donaram as suas redes e seguiram Jesus.
19
Andando um pouco mais adiante,
Jesus avistou Tiago, filho de Zebedeu, e
seu irmão João. Eles estavam num barco
consertando as redes.
20
Sem demora os chamou. E eles,
deixando o pai, Zebedeu, com os em-
pregados no barco, partiram seguindo
a Jesus.
10
Jesus ensina na sinagoga
(Lc 4.31-37)
21
Dirigiram-se para Carfanaum e, assim
que chegou o sábado, tendo entrado na
sinagoga, Jesus passou a ensinar.
11
6
Jesus insistiu em ser batizado para endossar a autoridade de João; identificar-se com os pecadores que sinceramente busca-
vam o perdão de Deus (2 Co 5.21); anunciar e confirmar publicamente seu ministério; permitir que João o apresentasse ao mundo
como o Messias prometido (Jo 1.53) e que ele (Jesus) recebesse a plena unção do Espírito de Deus (Lc 3.22). A forma de pomba
era real e visível e não apenas uma analogia espiritualizada para descrever romanticamente o fenômeno, pois Lucas ainda é mais
preciso, usando a expressão “em forma corpórea” (Lc 3.22). Esse mesmo fenômeno ocorreu também por ocasião da Criação (Gn
1.2). O próprio Deus fala sobre o amor e a alegria que sente por Jesus, Seu Filho (Jo 12.28), e Suas palavras relembram Gn 22.2;
Sl 2.7 e Is 42.1. Temos aqui uma visão clara da Trindade, doutrina cristã que só pode ser bem aceita após o verdadeiro encontro
com a pessoa de Cristo, o Filho de Deus.
7
Sem dúvida foi o próprio Jesus quem relatou aos seus discípulos os detalhes desta batalha histórica (Mt 4.1-11; Lc 4.1-14).
7
Todos os sinóticos dão ênfase à relação existente entre o “batismo” e a “tentação” de Cristo. Jesus, dirigido (ou impelido) pelo
Espírito, foi ativo no Seu batismo e passivo na tentação. Por meio do batismo Ele cumpriu toda a justiça, e pela tentação Sua
justiça foi provada. Antes de iniciar seu ministério de destruir o poder de Satanás nas vidas dos seres humanos, foi necessário
que Ele vencesse o Inimigo no campo de batalha da sua própria vida na terra (Hb 2.18; 4.15). A magnitude de toda essa batalha
se observa no fato de que anjos vieram servi-lo (Mt 4.11, Lc 22.43). Em menor grau, cada discípulo que é chamado a uma missão
desafiadora no Reino e impactante no mundo deve estar preparado para semelhante conflito e vitória.
8
Entre a tentação de Jesus e a execução de João Batista ocorreram os eventos registrados em Jo 1.19 – 4.54. Os fatos que
levaram à prisão estão narrados em Mc 6.17-20.
9
A palavra grega metanoia (que significa mudar de mentalidade e voltar ao juízo correto) reflete a expressão hebraica shub
que freqüentemente (cerca de 120 vezes) ocorre no AT com a conotação espiritual de “retornar” a Deus. No contexto da
conversão cristã, aponta para uma mudança radical de vida, em conseqüência da fé depositada na pessoa e obra de Jesus
Cristo (At 3.19; 26.20; 1Ts 1.9).
10
Marcos emprega (cerca de 50 vezes) em seus escritos, como parte do seu estilo, uma palavra grega traduzida de várias
maneiras: “sem demora, logo, então, assim, em seguida, rapidamente” e outras semelhantes, que revelam seu senso de urgência
em comunicar o Evangelho ao mundo (especialmente aos gentios). Jesus ensina que a vocação do discípulo missionário implica:
no discipulado (“vinde em minha companhia” ou “após mim”); em ser capacitado por Cristo (“Eu vos tornarei”); num esforço
pessoal para explicar as boas novas às pessoas (“pescadores”) e na disposição de colocar as ambições e os interesses seculares
em segundo plano (“abandonaram as suas redes”).
11
A sinagoga sempre teve uma importância vital para as comunidades judaicas em todo o mundo desde sua fundação, na
época do exílio, até nossos dias. Uma sinagoga podia ser estabelecida em qualquer cidade ou povoado onde houvesse ao menos
dez homens judeus casados, e seu propósito maior era ensinar as Escrituras e adorar a Deus. Era costume entre os líderes das
sinagogas, convidar os mestres visitantes a participarem da adoração e ministrarem a Palavra na reunião do sábado (em hebraico
MARCOS 1
MC.indd 5 31/7/2007, 14:33:03
6 MARCOS 1
22
E todos ficavam maravilhados com o
seu ensino, pois lhes ministrava como al-
guém que possui autoridade e não como
os mestres da lei.
12
23
Mas, naquele exato momento, levan-
tou-se na sinagoga um homem possuído
de um espírito imundo, que vociferava:
24
“O que queres de nós, Jesus Nazareno?
Vieste para nossa destruição? Conheço a
ti, sei quem tu és: o Santo de Deus!”
25
Mas Jesus o repreendeu severamente:
“Fica quieto e sai dele!”
13
26
Então, o espírito imundo, sacudindo
aquele homem violentamente e gritando
com poderosa voz, saiu dele.
27
Todos ficaram atônitos e assustados per-
guntavam uns aos outros: “O que é isto?
Novo ensinamento, e vejam quanta autori-
dade! Aos espíritos imundos Ele dá ordens,
e eles prontamente lhe obedecem!”
28
Assim, rapidamente as notícias sobre a
sua pessoa se espalharam em várias dire-
ções e por toda a região da Galiléia.
O poder de Jesus sobre doenças
e demônios
(Mt 8.14-15; Lc 4.38-39)
29
E assim que saíram da sinagoga, diri-
giram-se para a casa de Simão e André,
juntamente com Tiago e João.
14
30
A sogra de Simão estava deitada, com
muita febre, e logo falaram com Jesus a
respeito dela.
31
Então, aproximando-se, Ele a tomou
pela mão e a levantou. A febre imediata-
mente a deixou e ela se pôs a serví-los.
32
Ao final da tarde, logo após o pôr-do-
sol, o povo levou até Jesus todos os que
estavam passando mal e os dominados
por demônios.
33
E, assim, a cidade inteira se aglomerou
à porta da casa.
34
Jesus curou a muitos de várias enfer-
midades, bem como expulsou diversos
demônios. Entretanto, não permitia que
os demônios falassem, pois eles sabiam
quem era Ele.
15
Jesus retira-se para orar
(Lc 4.42-44)
35
De madrugada, em meio a escuridão,
Jesus levantou-se, saiu da casa e retirou-
se para um lugar deserto, onde ficou
orando.
16
36
Simão e seus amigos saíram para pro-
curá-lo.
37
Então, quando o acharam, informa-
ram: “Todos estão te procurando!”
38
E Jesus os instruiu: “Vamos seguir para
outros lugares, às aldeias vizinhas, a fim
de que Eu pregue ali também. Pois foi
para isso que vim”.
shabbãth que significa: o dia do descanso). Jesus, assim como Paulo mais tarde (At 13.15; 14.1; 17.2; 18.4), aproveitou essa opor-
tunidade cultural para anunciar as novas e boas notícias do Reino de Deus (o Evangelho). Jesus escolheu Carfanaum, importante
centro de comércio e distribuição de peixes, como sede do seu ministério após a rejeição que sofreu em sua terra natal, Nazaré
(Lc 4.16-31). Os romanos mantinham um centurião na cidade (8.5) e uma coletoria de impostos (Mt 9.9).
12
Marcos dedica boa parte dos seus escritos a salientar o quanto os ensinos e as atitudes de Jesus tocavam os corações das
pessoas e as deixavam impressionadas (2.12; 5.20,42; 6.2,51; 7.37; 10.26; 11.26; 11.18; 15.5). Sua autoridade provinha direta e
absolutamente de Deus e por isso não citava os grandes mestres da Lei como era costume dos rabinos.
13
Com exceção do texto correspondente de Lc 4.34, o título “O Santo de Deus” foi usado apenas em Jo 6.69 e se refere à
origem divina de Jesus, mais do que ao seu messianato (Lc 1.35). Esse título foi usado pelos demônios com base na crença do
ocultismo de que o uso exato do nome de uma pessoa permitia certo controle sobre ela. O homem estava possesso de mais
de um demônio, mas apenas o líder deles gritou e falou. Entretanto, Jesus, em plena autoridade divina, ordena que o demônio
“fique impedido de expressar-se”, literalmente em grego que significa “seja amordaçado!” ou “fique imobilizado e
com a boca amarrada”.
14
Jesus e seus discípulos certamente foram almoçar com a família de Pedro (1Co 9.5), pois a refeição principal do sábado era
tradicionalmente servida logo após o encerramento do culto matinal das sinagogas.
15
O povo aguarda o final do pôr-do-sol e, conseqüentemente, o encerramento do sábado, para carregar seus enfermos e
possessos (Jr 17.21,22) e os levar à presença de Cristo a fim de serem curados e libertos. Marcos retrata com clareza a perfeita
humanidade e divindade de Jesus. Ele sentiu compaixão pelo povo (6.34) e os curou, mas sabia da Sua prioridade: anunciar
o Reino e a Salvação (1.15). Soube evitar a publicidade e não permitiu que pessoas nem o Inimigo o enganassem com falsa
adoração ou lisonja (1.24,34; 3.11; 5.7).
16
A expressão grega transliterada proi indica a última vigília da noite, das três às seis horas da manhã. Jesus reage ao crescen- i
te aumento de sua popularidade e se retira para um lugar tranqüilo e isolado onde possa conversar a sós com o Pai.
MC.indd 6 31/7/2007, 14:33:04
7 MARCOS 1, 2
39
E aconteceu que Ele percorreu toda a
Galiléia, pregando nas sinagogas e expe-
lindo os demônios.
A cura do leproso que creu
(Mt 8.1-4; Lc 5.12-16)
40
Certo leproso aproxima-se de Jesus
e suplica-lhe de joelhos: “Se for da tua
vontade, tens o poder de purificar-me!”
41
Movido de grande compaixão, Jesus
estendeu a mão e, tocando nele, excla-
mou: “Eu quero. Sê purificado!”
42
No mesmo instante toda a doença de-
sapareceu da pele daquele homem, e ele
foi purificado.
17
43
Em seguida Jesus se despede dele com
forte recomendação:
44
“Atenta, não digas nada a ninguém;
contudo vai, mostra-te ao sacerdote e
oferece pela tua purificação os sacrifícios
que Moisés prescreveu, para que sirvam
de testemunho”.
18
45
Contudo, assim que o homem saiu,
começou a proclamar o que acontecera
e a divulgar ainda muitas outras coisas,
de modo que Jesus não mais conseguia
entrar publicamente numa cidade, mas
via-se obrigado a ficar fora, em lugares
desabitados. Mesmo assim, pessoas de
todas as partes iam ter com Ele.
19
Jesus perdoa e cura
(Mt 9.1-8; Lc 5.17-26)
2
Chegando de novo em Cafarnaum,
depois de alguns dias, o povo ficou
sabendo que ele estava em casa.
1
2
E foram tantos os que se aglomeraram
ali, que já não havia lugar nem à porta; e
Ele lhes pregava a Palavra.
2
3
Vieram trazer-lhe um paralítico, carre-
gado por quatro homens.
4
Não conseguindo levá-lo até Jesus, por
causa da multidão, removeram parte
da cobertura sobre o lugar onde estava
Jesus e, por essa abertura no teto, baixa-
ram a maca na qual se achava deitado o
paralítico.
3
5
Observando a fé que eles demonstra-
vam, declarou Jesus ao paralítico: “Filho!
Estão perdoados de ti os pecados”.
6
Entretanto, alguns dos mestres da lei
que por ali estavam sentados, julgaram
em seu íntimo:
7
“Como pode esse homem falar desse
modo? Está blasfemando! Quem afinal
pode perdoar pecados, a não ser exclusi-
vamente Deus?”
4
8
Jesus imediatamente percebeu em seu
espírito que era isso o que eles estavam
urdindo e lhes questionou: “Por que co-
gitais desta maneira em vossos corações?
17
O termo grego usado no original não se refere apenas e especificamente à lepra ou hanseníase (como se conhece hoje), mas
a vários tipos de doenças e cânceres de pele. Todavia, como implicou em imundícia, segundo o AT (Lv 13 e 14), era natural que
se tornasse um símbolo do pecado: ambos são repugnantes; espalham-se pelo corpo e são contagiosos; são incuráveis, a não
ser pela misericórdia de Deus; só Cristo pode oferecer plena solução, e isso por causa do seu compadecimento, do seu poder
que vem de Deus (Jo 3.2) e porque foi para cumprir essa missão que Ele veio ao mundo (10.45).
18
Os sacrifícios serviam de comprovação diante dos sacerdotes e para o povo de que a cura era genuína (e que Jesus respei-
tava a Lei). A cura era um testemunho concreto e visível do poder divino de Jesus, pois os judeus acreditavam que somente Deus
podia curar uma doença de pele como a lepra (2Rs 5.1-4).
19
A inevitável popularidade de Jesus Cristo (1.28; 3.7,8; Lc 7.17) e a inveja e oposição cada vez mais intensa dos líderes
religiosos (2.6,7,16,23,24; 3.2,6,22) forçaram Jesus a se retirar da sua amada Galiléia e peregrinar pelos territórios circunvizinhos.
No entanto, o povo, sedento, viajava de todas as partes para receber a bênção da Sua Palavra e Poder.
Capítulo 2
1
Pedro e sua família (1Co 9.5) faziam questão de hospedar Jesus sempre que ele estava em Cafarnaum, e Jesus se sentia
em casa (1.21,29).
2
A Palavra é o Evangelho: Cristo e as boas novas da Salvação eterna (1.15). As multidões estavam à espera do Senhor e o
receberam com o mesmo entusiasmo de antes (1.32,33,37).
3
Uma casa típica da Palestina daqueles tempos tinha o telhado plano, onde se podia chegar por uma escada externa. O
telhado era geralmente coberto com uma camada de barro apoiada por esteiras feitas de ramos de palmeiras e sustentadas por
vigas de madeira.
4
Na teologia judaica, nem mesmo o Messias teria poder para perdoar pecados, somente e exclusivamente o Altíssimo (Deus,
em hebraico Yahweh). Jesus, de forma simples e natural, age como perfeito ser humano (compassivo e solidário em relação ao
próximo), e perfeitamente como Deus (oferecendo solução à mais profunda e dramática necessidade humana: o perdão). Essa
demonstração prática, pública e visual da deidade de Jesus foi considerada pelos teólogos locais (escribas ou mestres da lei)
como uma grave e escandalosa blasfêmia.
MC.indd 7 31/7/2007, 14:33:05
8 MARCOS 2
9
O que é mais fácil dizer ao paralítico:
‘Estão perdoados de ti os pecados’, ou
falar: ‘Levanta-te, toma a tua maca e sai
andando’?
5
10
Todavia, para que saibais que o Filho
do homem tem na terra autoridade
para perdoar pecados...” – dirigiu-se ao
paralítico –
11
“Eu te ordeno: Levanta-te, toma tua
maca e vai para tua casa”.
12
Então, ele se levantou e, no mesmo
instante, tomando sua maca saiu andan-
do à frente de todos, que, estupefatos,
glorificaram a Deus, exclamando: “Nun-
ca vimos nada semelhante a isto!”
6
Jesus convoca Mateus
(Mt 9.9-13; Lc 5.27-32)
13
Uma vez mais, saiu Jesus e foi cami-
nhar na praia, e toda a multidão vinha ao
seu encontro, e Ele os ensinava.
14
Enquanto andava, viu a Levi, filho
de Alfeu, sentado à mesa da coletoria,
e o chamou: “Segue-me!” Ao que ele se
levantou e o seguiu.
7
Jesus à mesa com pecadores
(Mt 9.10-13; Lc 5.29-32)
15
Aconteceu que, em casa de Levi, pu-
blicanos e pessoas de má fama, que eram
numerosas e seguiam Jesus, estavam à
mesa com Ele e seus discípulos.
8
16
Quando os mestres da lei que eram
fariseus o viram comendo com os pu-
blicanos e outras pessoas mal afamadas,
perguntaram aos discípulos de Jesus:
“Por que Ele se ali-menta na companhia
de publicanos e pecadores?”
17
Ao ouvir tal juízo, Jesus lhes ponderou:
“Não são os que têm saúde que necessi-
tam de médico, mas, sim, os enfermos.
Eu não vim para convocar justos, mas
sim pecadores”.
9
Jesus explica o jejum
(Mt 9.14-17; Lc 5.33-39)
18
Os discípulos de João e os fariseus estavam
jejuando. Algumas pessoas vieram ter com
Jesus e inquiriram: “Por que os discípulos de
João e os discípulos dos fariseus jejuam, mas
os teus discípulos não jejuam?”
10
5
Para Jesus seria mais fácil apenas curar o paralítico e chamar a atenção do público para sua pessoa. Mas perdoar tinha a ver
com a glória de Deus e lhe custaria uma vida de sacrifício e seu próprio holocausto na cruz (10.45). E para os mestres? O que
seria mais fácil? Curar ou perdoar? A expressão de Jesus: “Estão perdoados de ti os pecados”, é a tradução literal dos melhores
originais, em grego .
6
Jesus intitulou a si mesmo de “Filho do homem” por cerca de 80 vezes nos evangelhos. Segundo o profeta Daniel (Dn
7.13,14), o filho de um ser humano é retratado como personagem celestial a quem, no final dos tempos, Deus confiou plena
autoridade, glória máxima e poder soberano. Fica claro que um dos propósitos dos muitos milagres, sinais e prodígios realizados
por Jesus era apresentar provas indiscutíveis da sua divindade (Jo 2.11; 20.30,31). Com certeza o paralítico e a multidão presente
compreenderam claramente quem era Jesus e sua atitude, pois glorificaram a Deus.
7
Levi era o nome de infância de Mateus e nome apostólico que significa “dádiva do Senhor” (Mt 9.9; 10.3). Levi era publicano e
7
cobrador de impostos (Lc 5.27), sujeito às ordens de Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia. A coletoria era quase sempre uma es-
pécie de bilheteria onde eram cobrados pedágios para aqueles que transitassem pela estrada internacional que ligava Damasco
ao litoral do Mediterrâneo e ao Egito, passando por Cafarnaum. A maioria dos publicanos cobrava impostos além da lei e prestava
falsos relatórios ao governo de Roma. Eram odiados pelo povo; para os fariseus eram iguais aos pecadores (literalmente: gente
de má fama) que desprezavam a Lei. Em vista de viverem na companhia dos gentios eram excluídos da sinagoga.
8
Na cultura oriental e especialmente na judaica, fazer uma refeição na casa de alguém era um grande sinal de amizade entre os
participantes. O termo “pecadores” era em geral uma maneira de se referir aos cobradores de impostos, mentirosos, enganado-
res, adúlteros, assaltantes, criminosos, e pessoas de má reputação. Jesus e seus discípulos eram os convidados de honra de um
grupo com essas qualificações gerais. Jesus compartilha as bênçãos de sua mesa com os pecadores remidos (Ap 3.20).
9
Os fariseus eram um grupo de religiosos e sucessores dos hassidins, judeus piedosos que juntaram suas forças às dos
macabeus durante a guerra pela liberdade da Síria (166 a 142 a.C). Os fariseus surgiram no reinado de João Hircano, entre 135 e
105 a.C. Embora alguns realmente fossem homens de Deus, a maioria dos que conflitaram com Jesus eram hipócritas, invejosos,
formalistas e envenenados por sórdidos interesses políticos. Segundo o farisaísmo, a graça de Deus era oferecida somente para
aqueles que cumprissem a Lei.
10
Os discípulos de João jejuaram porque seu mestre estava preso, por estarem em oração pela redenção proclamada por
João e por causa da doutrina (ascetismo) de purificação e arrependimento pregada por João como preparação para a vinda de
Cristo. Entretanto, a Lei de Moisés prescrevia apenas um jejum obrigatório: no Dia da Expiação (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7).
Após o Exílio na Babilônia, quatro outros jejuns anuais eram observados (Zc 7.5; 8.9). Na época de Jesus os fariseus tinham o
costume de jejuar duas vezes por semana (Lc 18.12).
MC.indd 8 31/7/2007, 14:33:05
9 MARCOS 2, 3
19
Explicou-lhes Jesus: “Como podem os
convidados do noivo jejuar enquanto o
têm consigo?
11
20
Contudo, virão dias quando o noivo
lhes será arrancado; e então, nessa oca-
sião, jejuarão.
21
Ninguém costura remendo de pano
novo em roupa velha, porquanto o
remendo novo forçará o tecido velho
e o rasgará ainda mais, aumentando a
ruptura.
22
Assim como não há pessoa que depo-
site vinho novo em recipiente de couro
velho; caso o faça, o vinho arrebentará o
recipiente, e dessa forma, tanto o vinho
novo quanto o recipiente se estragarão.
Ao contrário, põe-se o vinho novo em
um recipiente de couro novo”.
12
Jesus é Senhor do Sábado
(Mt 12.1-14; Lc 6.1-11)
23
E aconteceu que, passava Jesus num dia
de sábado pelas plantações de cereal. Os
seus discípulos, enquanto caminhavam,
começaram a colher algumas espigas.
24
Então os fariseus advertiram-no: “Vê!
Por que teus discípulos fazem o que não
é permitido aos sábados?”
13
25
Mas Ele esclareceu: “Nunca lestes como
agiu Davi e seus companheiros, quando
sofreram necessidade e tiveram fome?
26
Na época do sumo sacerdote Abiatar,
Davi entrou na casa de Deus e se ali-
mentou dos pães dedicados à oferta da
Presença, que somente aos sacerdotes era
permitido comer, e os ofereceu também
aos seus companheiros”.
14
27
E então concluiu: “O sábado foi criado
por causa do ser humano, e não o ser
humano por causa do sábado.
28
Assim sendo, o Filho do homem é Se-
nhor inclusive do sábado”.
15
Jesus cura as deformidades
(Mt 12.9-14; Lc 6.6-11)
3
Em outra ocasião, Jesus entrou na
sinagoga e encontrou ali um homem
que tinha atrofiada uma das mãos.
2
Alguns dos fariseus estavam procuran-
do uma razão para acusar Jesus; por isso
o observavam com toda a atenção, a fim
de constatar se Ele iria curá-lo em pleno
sábado.
3
Então convidou Jesus ao homem da
mão atrofiada: “Levanta-te e vem aqui
para o meio”.
11
A expressão “noivo” refere-se a Cristo (Ef 5.23-32). No AT, o “noivo” é Deus (Os 1.1-11; Is 54.5; 62.45; Jr 2.2). Os casamentos
judaicos eram uma ocasião para alegria geral e a sua celebração chegava a durar uma semana. Não fazia o menor sentido pensar
em jejum durante essas festividades. O jejum sempre esteve relacionado a momentos de dificuldade, grandes desafios e tristeza.
Enquanto o “noivo” estava na festa era tempo de regozijo, o tempo triste e amargo chegaria, quando Jesus seria “tirado com
violência” (literalmente em grego aparthç) çç , e naqueles dias, sim, os discípulos jejuariam. Certamente que a analogia de Jesus foi
bem compreendida pelos inquiridores.
12
Estas duas parábolas (Mt 9.16,17; Lc 5.36) ensinam claramente sobre a impossibilidade de se misturar o velho ritualismo da Lei (o
Judaísmo em todas as suas formas e ramificações) com a Nova Aliança da graça e da liberdade em Cristo: o Evangelho (Gl 5.1,13).
13
A lei mosaica permitia a todo viajante colher espigas de trigo ao longo das estradas com o objetivo específico de comê-
las, na hora, para matar a fome (Dt 23.25). Os fariseus não estão criticando essa prática, mas, sim, o fazer isso no sábado. É
impressionante a calma e a segurança de Jesus diante das sucessivas investidas dos seus inquiridores, pois segundo o Talmude
judaico, a ofensa de trabalhar (colher) no sábado incorria em pena de morte por apedrejamento, desde que o acusado fosse
advertido e sua falta ficasse comprovada pelo testemunho de duas ou três autoridades religiosas, por isso o “Vê!” dos fariseus,
tem o sentido de: “Atenção! Foste pego em flagrante delito”.
14
Jesus busca em sua defesa um episódio ocorrido com o venerado (pelos judeus fariseus especialmente) rei Davi (1Sm 21.1-
6). A relação entre os acontecimentos está no fato de homens de Deus terem feito algo proibido pela Lei. Como no direito judaico
é sempre permitido praticar o bem e salvar vidas (ainda que seja no sábado), tanto Davi quanto os discípulos estavam dentro
do chamado “espírito da lei” (Is 58.6,7; Lc 6.6-11; 13.10-17; 17.1-6). Havia, portanto, uma jurisprudência formada e os fariseus
tiveram de aceitar a argumentação pública de Jesus. De acordo com 1 Sm 21.1-9, Aimeleque, pai de Abiatar, era sumo sacerdote
na ocasião (2Sm 8.17; Mt 12.4).
15
A tradição judaica havia criado tantas restrições e normas sobre a guarda do dia do sábado, que a maioria das pessoas
sentia-se culpada por não conseguir cumprir rigorosamente todas as ordenanças estabelecidas. Jesus enfatiza o propósito que
Deus tem para o sábado: um dia para descanso; restauração espiritual, mental e física. Jesus conclui sua alusão à história judaica,
mostrando que se a lei do sábado não tinha aplicação no caso do servo do templo, muito menos teria qualquer restrição sobre
Cristo, o Senhor do Templo. Somente no evangelho de Marcos encontramos a importante definição “O Filho do homem é Senhor
inclusive do sábado”, um dia especial consagrado a Deus.
MC.indd 9 31/7/2007, 14:33:06
10 MARCOS 3
4
Em seguida Jesus indaga deles: “O que
nos é permitido fazer no sábado: o bem
ou o mal? Salvar vidas ou matar as pesso-
as?” No entanto, eles ficaram calados.
1
5
Indignado, olhou para os que estavam
ao seu redor e, profundamente entriste-
cido com a dureza do coração deles, or-
denou ao homem: “Estende a tua mão”.
Ele a estendeu, e eis que sua mão fora
restaurada.
6
Diante disso, retiraram-se os fariseus
e iniciaram, em acordo com os hero-
dianos, uma conspiração contra Jesus,
e tramavam um meio de condená-lo à
morte.
2
Jesus cura multidões na praia
7
Jesus retirou-se com seus discípulos e
foi na direção do mar, e uma numerosa
multidão vinda da Galiléia o seguia.
8
E assim que ouviram a respeito de
tudo o que Ele estava realizando, grande
quantidade de pessoas provenientes da
Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, das
regiões do outro lado do Jordão e das
cercanias das cidades de Tiro e Sidom,
veio ter com Jesus.
3
9
Então, por causa das multidões, Ele
pede aos discípulos que passem a manter
um pequeno barco à sua disposição, para
evitar que a massa de pessoas o apertasse,
tirando-lhe os movimentos.
10
Pois Ele havia curado grande multi-
dão, de modo que todos os que padeciam
de alguma enfermidade se acotovelavam
na tentativa de vê-lo e tocá-lo.
11
E acontecia que todas as vezes que as
pessoas com espíritos imundos o viam,
atiravam-se aos seus pés e berravam: “Tu
és o Filho de Deus!”
12
Todavia, Jesus repreendia tais espíritos
severamente, ordenando que não reve-
lassem quem era Ele.
Jesus convoca os Doze
(Mt 10.1-4; Lc 6.12-16)
13
Jesus subiu a um monte e convocou
para si aqueles a quem ele queria. E eles
foram para junto dele.
14
E escolheu doze, qualificando-os como
apóstolos, para que convivessem com ele
e os pudesse enviar a proclamar.
15
E tivessem autoridade para expulsar
demônios.
4
16
Ele constituiu, pois, os Doze: Simão, a
quem atribuiu o nome de Pedro.
17
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu
irmão, aos quais deu o nome de Boaner-
ges, que quer dizer, “filhos do trovão”.
18
E depois, André; Filipe; Bartolomeu;
1
O argumento de Jesus é claro: ser capaz de fazer o bem e preferir fazer o mal é pecado (em aramaico o sentido geral da
palavra “pecar” é “errar”), pois há pouca diferença entre fazer o mal e deixar de fazer o bem (Tg 4.17). Os mestres judaicos
pregavam que o sábado era um dia dedicado ao descanso, amor e misericórdia, por isso, o socorro a quem estivesse em perigo
era permitido. Entretanto, Jesus os confronta com suas próprias e cruéis intenções, uma vez que estavam usando o sábado para
tramar o seu assassinato.
2
A partir desta controvérsia, os mestres e as autoridades eclesiásticas judaicas foram tomados por terrível ódio contra Jesus,
a ponto de se juntarem com os herodianos, um partido político nacionalista muito influente que apoiava Herodes e sua dinastia
contra Roma (Mt 22.16). Os fariseus (que significa “os separados”) formavam um partido do povo, com pessoas de classe baixa,
e se opunham aos herodianos e aos saduceus, ricos e aristocratas (12.18-23). Entretanto, para matar Jesus todo conchavo foi
aceito entre eles.
3
A popularidade de Jesus crescia assustadoramente. Essa rápida lista de Marcos mostra que as multidões vinham não apenas
das áreas adjacentes a Cafarnaum, mas também de longas distâncias. As regiões mencionadas incluem praticamente a totalida-
de das principais regiões de Israel e países vizinhos. Iduméia (forma grega da palavra hebraica Edom) aqui se refere a uma grande
área da Palestina ocidental ao sul da Judéia, e não ao antigo território edomita de Edom.
4
O próprio Jesus discipulou os Doze por meio do ensino constante e de estreita convivência, por isso foram designados
apóstolos (em grego appostellç forma verbal de “apóstolo”, ou seja “comissionado”, “designado para uma missão”). Além dos
discípulos esse termo se aplica à pessoa de Jesus (Hb 3.1), a Barnabé (At 14.14), a Paulo e a Matias (At 1.16-26), a Tiago, irmão
do Senhor (Gl 1.19), e a alguns outros discípulos (Rm 16.7). No NT essa palavra é usada muitas vezes com um sentido mais
genérico (Jo 13.16), sendo traduzida por “mensageiro”. O apostolado foi o dom principal concedido pelo Espírito Santo para
estabelecer a Igreja de Cristo. Era necessário que o apóstolo fosse testemunha ocular da ressurreição ou comissionado por Jesus
(1Co 1.1). Nem as Escrituras (AT e NT), nem a tradição da Igreja, desde os primórdios, apóiam a hierarquia eclesiástica com a
instituição de um papa soberano e infalível no comando de apóstolos, bispos e ministros paroquianos.
MC.indd 10 31/7/2007, 14:33:07
11 MARCOS 3, 4
Mateus; Tomé; Tiago, filho de Alfeu;
Tadeu; Simão, o zelote;
19
e Judas Iscariotes, que o traiu.
O pecado sem perdão
(Mt 12.22-32; Lc 11.14-23)
20
Foi então Jesus para casa. E uma vez
mais grande multidão se apinhou, de tal
maneira que Ele e os seus discípulos não
conseguiam nem ao menos comer pão.
21
Quando os familiares de Jesus to-
maram conhecimento do que estava
acontecendo, partiram para forçá-lo a
voltar, pois comentavam: “Ele perdeu
o juízo!”
5
22
Mas os mestres da lei, que haviam des-
cido de Jerusalém exclamavam: “Ele está
possuído por Belzebu!”, e mais: “É pelo
príncipe dos demônios que ele expulsa
os demônios”.
23
Foi então que Jesus os chamou mais
para perto e lhes admoestou por pará-
bolas: “Como é possível Satanás expulsar
Satanás?
24
Se um reino estiver dividido contra si
mesmo, não poderá subsistir.
25
Se uma casa se dividir contra si mes-
ma, igualmente não conseguirá manter-
se firme.
26
Portanto, se Satanás se atira contra si
próprio e se divide, não poderá subsistir,
mas se destruirá.
27
De fato, ninguém pode entrar na casa
do homem forte e furtar dali os seus
bens, sem que primeiro o amarre. Só
depois conseguirá saquear a casa dele.
28
Com toda a certeza Eu vos asseguro
que todos os pecados e blasfêmias dos
homens lhes serão perdoados.
29
Todavia, quem blasfemar contra o Es-
pírito Santo jamais receberá perdão. Pelo
contrário, é culpado de pecado eterno”.
30
Jesus explicou isso porque eles esta-
vam exclamando: “Ele está possesso de
um espírito imundo”.
6
Jesus, sua mãe e seus irmãos
(Mt 12.46-50; Lc 8.19-21)
31
Foi quando chegaram a mãe e os ir-
mãos de Jesus. E ficando do lado de fora,
mandaram alguém chamá-lo.
32
E havia grande número de pessoas
sentadas em torno dele; e lhe avisaram:
“Olha! Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs
estão lá fora e buscam por ti”.
33
Então, Ele lhes respondeu com uma
questão: “Quem é minha mãe, ou meus
irmãos?”
34
E, repassando com o olhar a todos
que estavam sentados ao seu redor de-
clarou: “Aqui estão minha mãe e meus
irmãos!
35
Pois qualquer pessoa que fizer a von-
tade de Deus, esse é meu irmão, irmã e
mãe”.
7
A parábola do semeador
(Mt 13.1-9; Lc 8.4-8)
4
Retornou Jesus à beira-mar para en-
sinar. E a multidão que se juntou ao
seu redor era tão numerosa que o forçou
a entrar num barco, onde assentou-se. O
5
Um grupo de parentes e amigos de Jesus parte de Nazaré (terra natal de Jesus e sua parentela) e viaja cerca de 48 km para
tentar levá-lo à força de volta para a casa de seus pais e irmãos (José já havia morrido nessa época), pois se preocupavam muito
com a maneira como ele se entregava ao ministério de servir às multidões (Mt 1.25; Mt 12.46-50; Lc 2.7; Lc 8.19). Em hebraico,
a maneira como Jesus responde não é agressiva, mas enaltece os laços espirituais que devem unir a família de Deus para que
sejam ainda mais seguros, leais e duradouros, pois devem ter como princípio a obediência à Palavra. Esse foi o conceito-base
que originou a Igreja.
6
Belzebu é uma antiga expressão hebraica (Baal-zebude significa “senhor das moscas”, 2Rs 1.2,16) ligada ao líder máximo
dos demônios. A declaração de Jesus sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo é das mais solenes. Entretanto, o pecado
imperdoável não é um pensamento, ato ou palavra isolada, mas sim a persistente atitude de arrogância, oposição intencional e
rejeição explícita a Jesus Cristo e Sua Palavra. Essa é a maneira de ser de todos aqueles que amam mais as trevas do que a Luz
(Jo 3.19). Jesus não declarou que os mestres e líderes religiosos haviam efetivamente cometido esse pecado, mas que estavam
em iminente perigo.
7
Os parentes de Jesus ainda não acreditavam na Sua pessoa como Filho de Deus e Senhor dos Senhores (Jo 7.5). Não há
razão para concluir que os irmãos e irmãs de Jesus pudessem ser primos, filhos de José antes de seu casamento com Maria.
Assim como não há base bíblica e histórica para se aceitar a doutrina da virgindade perpétua de Maria, mãe de Jesus, dogma
católico instituído pelo Papa Pio IX em 1854.
MC.indd 11 31/7/2007, 14:33:07
12 MARCOS 4
barco estava no mar e todo o povo agru-
pava-se na praia.
1
2
E, assim, Ele lhes transmitia muitos en-
sinamentos por parábolas, e enfatizava
ao ministrar:
2
3
“Escutai! Eis que o semeador saiu a
semear.
4
Enquanto lançava a semente, parte dela
caiu à beira do caminho, e chegaram as
aves e a devoraram.
5
Outra parte caiu em solo pedregoso
e, não havendo terra suficiente, nasceu
rapidamente, pois a terra não era pro-
funda.
6
Contudo, ao raiar do sol, as plantas se
queimaram; e porque não tinham raiz,
secaram.
7
Outra parte ainda caiu entre os espi-
nhos; estes espinhos cresceram e sufo-
caram as plantas, e por isso não pôde
dar frutos.
8
Finalmente, outras partes caíram em
terra boa, germinaram, cresceram e
ofereceram grande colheita, a trinta,
sessenta e até cem por um”.
3
9
E alertou: “Aquele que tem ouvidos
para ouvir, ouça!”
Jesus explica a parábola
(Mt 13.10-23; Lc 8.9-15)
10
Quando se afastaram das multidões,
os Doze e alguns outros que o seguiam
lhe pediram para elucidar as parábolas.
11
Então, lhes revelou: “A vós foi conce-
dido o mistério do Reino de Deus; aos
de fora, entretanto, tudo é pregado por
parábolas,
4
12
com o propósito de que: ‘mesmo que
vejam, não percebam; ainda que ouçam,
não compreendam, e isso para que não
se convertam e sejam perdoados’”.
5
13
Então Jesus os questionou: “Se não
compreendeis essa parábola, como po-
dereis entender todas as outras?
14
O semeador semeia a Palavra.
15
Algumas pessoas são como a semente à
beira do caminho, onde a Palavra foi se-
meada. Mas assim que a ouvem, Satanás
vem e toma a Palavra nelas semeada.
16
Assim também ocorre com a que foi
semeada em solo pedregoso: são as pes-
soas que, ao ouvirem a Palavra, logo a
recebem com alegria.
17
Entretanto, visto que não têm raízes
em si mesmas, são de pouca perseve-
1
Jesus posicionou-se de forma a facilitar a transmissão do ensino para um grande número de pessoas de uma só vez. Preci-
sava evitar também o assédio das massas que literalmente o sufocavam na busca exclusiva da cura física. Jesus deseja ensinar
seu povo a viver em plena comunhão com Deus, e esse era um desafio maior do que curar as enfermidades do corpo. Sentar-se
era a postura tradicional dos mestres judeus da época (Mt 5.1; Lc 5.3; Jo 8.2).
2
As parábolas eram histórias tiradas da vida diária e usadas para ilustrar verdades espirituais e morais (Mt 13.3). Muitas vezes
na forma de comparações, analogias ou ditos proverbiais. Essas histórias eram um valioso recurso didático usado pelos grandes
mestres (2Sm 12.1-7 e Talmude). Conquistavam a atenção, prendiam o interesse, tornavam concretas idéias abstratas, levavam
o ouvinte a uma decisão correta, e, no caso de Jesus, guardavam em sigilo o mistério do Reino para os desprovidos de interesse
em adorar sinceramente a Deus e desenvolver uma sociedade justa (Mt 4.11-12; Lc 4.23, 15.3).
3
As sementes eram lançadas com o auxílio das mãos naquela época, e isso para que caíssem exatamente nas covas prepa-
radas para o plantio. Entretanto, algumas caíam em terreno improdutivo. Todavia, Jesus anuncia uma colheita excepcional (Gn
26.12), chegando a render 100 plantas produtivas por semente plantada. A colheita sempre foi uma figura (símbolo) da consuma-
ção dos tempos e do Reino de Deus (Jl 3.13; Ap 14.14-20).
4
Em grego, a expressão “mistério” tem o sentido de “oculto”, “insondável”, “secreto”. No NT refere-se ao conhecimento do
verdadeiro Deus. Verdade essa, outrora oculta, mas agora revelada na pessoa e obra de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Porém,
esse mistério não é acessível exclusivamente à razão humana; mas, sim, ao mais profundo dos sentimentos humanos (simboliza-
do no ocidente pelo coração, por ser um órgão vital, além do cérebro). A vontade de buscar a Deus e submeter-se à Sua Palavra,
ilumina o coração do crente. O principal mistério é a revelação de Deus e Seus propósitos na pessoa de Cristo (Mt 16.17). Por
isso, todos nós que fomos contemplados com essa revelação, devemos sentir grande júbilo e comemorar a Salvação todos os
dias, agindo para com Deus e na sociedade como cidadãos do Reino: com amor e reverência, graça e justiça. Compreende-
se o “Reino” em dois momentos: o presente reino reconhecido pelos cristãos sinceros e que reside nos mesmos, os quais se
submetem à vontade de seu Rei, Jesus Cristo, e o chamado “Reino Milenar”, que será inaugurado por ocasião da segunda (e
iminente) volta de Cristo (Ap 20.2).
5
O estilo de pregação e ensino de Jesus se assemelha ao ministério de Isaías, o qual conquistou muitos discípulos (Is 8.16),
mas igualmente desmascarou a falsidade e a dureza de muitos corações incrédulos face aos inúmeros apelos de Deus.
MC.indd 12 31/7/2007, 14:33:08
13 MARCOS 4
rança. Ao surgir alguma tribulação ou
perseguição por causa da Palavra, rapi-
damente sucumbem.
18
Outras ainda, como a semente lançada
entre os espinhos, escutam a Palavra,
19
porém, quando chegam as preocupa-
ções da vida diária, a sedução da riqueza
e todas as demais ambições, agridem e
sufocam a Palavra, tornando-a infrutí-
fera.
6
20
Todavia, outras pessoas são como as
que foram semeadas em terra boa: estas
ouvem a Palavra, acolhem-na e oferecem
farta colheita: a trinta, sessenta e até cem
por um”.
A parábola da luz encoberta
(Lc 8.16-18)
21
E lhes propôs: “Quem, porventura,
traz uma candeia para colocá-la sob uma
vasilha ou debaixo de uma cama? Ao
invés, não a traz para ser depositada no
candelabro?
22
Pois nada há de oculto que não venha
a ser revelado, e nada em segredo que
não seja trazido à luz do dia.
23
Se alguém tem ouvidos para ouvir,
ouça!”
24
E seguiu ensinando: “Ponderai aten-
tamente o que tendes ouvido! Pois com
a medida com que tiverdes medido vos
medirão igualmente a vós; e ainda mais
vos será acrescentado!
25
Porquanto, ao que tem mais se lhe
dará; de quem não tem, até o que tem lhe
será retirado”.
7
A parábola do Reino
(Mt 13.31-35; Lc 13.18-21)
26
Então contou-lhes que: “O Reino de
Deus é semelhante a um homem que
lançou a semente sobre a terra.
27
Enquanto ele dorme e acorda, durante
noites e dias, a semente germina e cres-
ce, embora ele desconheça como isso
acontece.
28
A terra por si mesma produz o fruto:
primeiro surge a planta, depois a espiga,
e, mais tarde, os grãos que enchem a
espiga.
29
Assim que as espigas amadurecem, o
homem imediatamente lhes passa a foi-
ce, pois é chegado o tempo da colheita”.
8
A parábola do grão de mostarda
(Mt 13.31-35; Lc 13.18-21)
30
E contou-lhes mais: “Com o que com-
pararemos o Reino de Deus? Que pará-
bola buscaremos para representá-lo?
31
É como um grão de mostarda, que é
p p
a menor das sementes que se planta na
terra.
32
Porém, uma vez semeada, cresce e se
transforma na maior das hortaliças, com
ramos tão grandes, a ponto de as aves
do céu poderem abrigar-se sob a sua
sombra”.
9
O ensino parabólico de Jesus
(Mt 13.34-35)
33
Assim, por meio de muitas parábolas
semelhantes Jesus lhes comunicava a Pa-
lavra, conforme a medida das possibili-
6
A prosperidade, a cultura e a boa formação acadêmica podem oferecer uma falsa e temporária sensação de auto-suficiência
e segurança (10.17-25; Dt 8.17,18; 32.15; Ec 2.4-11; Tg 5.1-6). Por outro lado, a pobreza, as perdas e os sofrimentos, podem
produzir rancor e mágoas injustas contra Deus (Ec 7.29; Rm 8.28).
7
Aqui temos uma exortação para não ficarmos reclamando do que nos falta, mas juntarmos tudo o que temos – no sentido
de condições humanas e recursos vários – e investirmos em nosso crescimento espiritual e humano no Reino de Deus. Deus co-
nhece bem todas as nossas limitações e não espera que venhamos a ser perfeitos, ou consigamos isso ou aquilo, para vivermos
plenamente (Jo 10.10). Quanto mais nos apropriamos da Verdade (a Palavra) agora, tanto mais recebe-remos no futuro. Se não
valorizarmos e correspondermos ao pouco de revelação que temos recebido, aqui e agora, nem isso nos adiantará no futuro.
8
Esta parábola foi registrada apenas no livro de Marcos. Enquanto a história do semeador revela a importância de um solo
fértil para receber a boa semente (a Palavra); aqui se evidencia o poder misterioso da própria semente: com o passar do tempo,
vai realizando seu trabalho de fazer germinar, crescer e dar frutos (1Pe 1.23-25). Devemos, portanto, semear sempre e em todos
os corações humanos sobre a face da terra.
9
Embora possua uma das menores sementes dentre as hortaliças, a mostarda palestina pode crescer até uma altura de 4 me-
tros. A parábola ilustra a expansão poderosa e impressionante do Cristianismo em todo o mundo, apesar do seu humilde início:
um pobre mestre vindo de uma inexpressiva família e cidade da Galiléia que, seguido por um pequeno grupo de homens – quase
todos incultos – pregou durante alguns anos sobre a chegada do Reino, afirmando ser Deus encarnado.
MC.indd 13 31/7/2007, 14:33:09
14 MARCOS 4, 5
dades de compreensão de seus ouvintes.
34
E nada lhes transmitia sem usar algu-
ma parábola. Entretanto, quando estava
em particular com os seus discípulos,
explicava-lhes tudo clara-mente.
A tempestade se submete a Jesus
(Mt 8.23-27; Lc 8.22-25)
35
Naquele mesmo dia, ao cair da tarde,
pediu aos seus discípulos: “Passemos
para a outra margem”.
10
36
Eles, então, despedindo-se da mul-
tidão, o levaram no barco, assim como
estava. E outros barcos o seguiam.
37
Aconteceu que levantou-se um tre-
mendo vendaval, e as grandes ondas
se jogavam para dentro do barco, de
maneira que este foi se enchendo de
água.
11
38
Jesus estava na popa, dormindo com a
cabeça sobre um travesseiro. Os discípu-
los o despertaram e suplicaram: “Mestre!
Não te importas que pereçamos?”
12
39
Então, Ele se levantou, repreendeu o
vento e ordenou ao mar: “Aquieta-te!
Silencia-te!” E logo o vento serenou, e
houve completa bonança.
40
E indagou aos seus discípulos: “Por
que sois covardes? Ainda não tendes fé?”
41
Os discípulos, contudo, estavam toma-
dos de terrível pavor e comentavam uns
com os outros: “Quem é este que até o
vento e o mar lhe obedecem?”
13
A libertação de um possesso
(Mt 8.28-34; Lc 8.26-39)
5
E assim, atravessaram o mar e foram
para a região dos gerasenos.
1
2
Logo que Jesus desceu do barco, veio
dos sepulcros, caminhando ao seu en-
contro, um homem possuído por um
espírito imundo.
3
Esse homem vivia em meio aos sepul-
cros e não havia quem conseguisse do-
miná-lo, nem mesmo com correntes.
4
Muitas vezes já haviam acorrentado
seus pés e mãos, mas ele arrebentava os
grilhões e estraçalhava algemas e corren-
tes. Ninguém tinha força para detê-lo.
5
E, noite e dia, sem repouso, perambula-
10
Jesus partiu do território da Galiléia com o objetivo de ir até a margem leste do mar da Galiléia; a região dos gerasenos (5.1).
11
O mar (ou grande lago) da Galiléia, localizado numa bacia cercada por montanhas, onde se destaca o monte Hermon, ainda
hoje é sujeito a grandes tempestades, que descem às vezes dos altos montes e atingem com violência o lago de Quinerete (ou
Tiberíades), que fica 200 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo.
12
A impetuosidade e o temor dos discípulos ilustram claramente o comportamento humano diante das várias situações ad-
versas da vida. Temos a tendência de perguntar: Por quê? Ou de instigar a Deus como se Ele fosse nosso segurança pessoal:
O Senhor não está vendo? Em contraste, temos a segurança tranqüila de Jesus ao nosso lado (Lc 8.23). Mais tarde, a Igreja
Primitiva veria nesta experiência um grande consolo, diante das terríveis perseguições que sofreria por amor a Cristo e à evange-
lização dos povos. Por isso, desde os primórdios, a figura do barco passou a ser identificada como um dos símbolos da Igreja,
na arte cristã. É compreensível que sintamos medo e insegurança. Todavia, Jesus não admite que seus filhos sejam covardes
(literalmente em grego , pessoas que perdem o ânimo, a vontade de lutar, e se desesperam; tímidos - no sentido de
medrosos – pois não confiam em um amigo que os possa ajudar). Nossa fé deve ir além da certeza de que Jesus está conosco e
pode sanar qualquer dificuldade; devemos crer que – haja o que houver – Ele nos ajudará a atravessar os problemas e a chegar
em terra firme (Sl 23).
13
Esta é a grande e angustiante pergunta da humanidade. Todas as pessoas, um dia, terão de dar uma resposta objetiva a
essa questão. Se respondermos a ela como fez Marcos (1.1), devemos seguir a Jesus como Nosso Rei e Filho de Deus. Se nossa
resposta for qualquer coisa diferente disso, devemos assumir as conseqüências da incredulidade (3.28-29). Deus demonstrou Sua
presença em Cristo, e não apenas o Seu poder (Sl 65.7; 107.25-30; Pv 30.4). Jesus ainda investiria muito tempo e energia em ensino
e discipulado; realizaria também muitos outros milagres e sinais até que seus seguidores se dessem conta da Sua plena divindade;
de que eram pessoas salvas e cidadãos do Reino, e da missão para a qual foram escolhidos e chamados como discípulos.
Capítulo 5
1
Gerasa ficava cerca de 60 km a sudeste do mar da Galiléia e chegou a possuir terras no litoral leste do mar, dando seu nome
à pequena aldeia onde Jesus e seus discípulos aportaram. Hoje é conhecida como Khersa. Próximo dali, menos de 2 km ao sul,
há um precipício íngreme, e não distante encontram-se ruínas de cavernas que abrigaram antigos túmulos. Algumas pessoas,
especialmente gentios (não judeus), doentes e sem família costumavam viver nessas cavernas em meio aos sepulcros. Alguns
manuscritos gregos de Mateus (Mt 8.28-34), denominam os habitantes desse território de “gadarenos”, outros originais dizem
“gergesenos”. A maioria da população dessa região era formada por gentios, como revela a grande criação de porcos. Animais
considerados impuros pelos judeus e, portanto, proibidos de servirem como alimento ou sequer serem tocados.
MC.indd 14 31/7/2007, 14:33:09
15 MARCOS 5
va por entre os sepulcros e pelas colinas,
gritando e cortando-se com lascas de
rocha.
2
6
Ao avistar Jesus, ainda de longe, correu
e atirou-se aos seus pés.
7
E clamou aos berros: “Que queres de
mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?
Suplico-te por Deus que não me ator-
mentes!”
3
8
Pois Jesus já lhe havia ordenado: “Sai
deste homem, espírito imundo!”
9
Todavia, Jesus o interrogou: “Qual é o
teu nome?” Respondeu ele: “Meu nome é
Legião, porque somos muitos”.
4
10
E implorava insistentemente para que
Jesus não os mandasse para fora daquela
região.
5
11
Enquanto isso, perto dali, numa colina
vizinha, uma grande manada de porcos
estava pastando.
12
Foi então que os demônios rogaram a
Jesus: “Manda-nos para os porcos, para
que entremos neles”.
13
E Jesus lhes deu permissão, e os es-
píritos imundos deixaram o homem e
entraram nos porcos. E a manada com
cerca de dois mil porcos atirou-se pre-
cipício abaixo, em direção ao mar, e nele
se afogaram.
14
As pessoas que apascentavam os por-
cos fugiram e relataram esses fatos na ci-
dade e nos campos, e todo o povo correu
para ver o que se havia passado.
15
Quando chegaram próximo de Jesus,
observaram ali o homem que fora toma-
do por uma legião de demônios, assenta-
do, vestido e em perfeito juízo. E ficaram
assustados.
16
Os que presenciaram os fatos narra-
ram ao povo o que havia ocorrido com
o endemoninhado, e contaram também
sobre os porcos.
17
Então o povo começou a implorar a
Jesus que se afastasse daquela região que
lhes pertencia.
18
E, quando Jesus estava entrando no
barco, o homem que fora possuído pelos
espíritos imundos, rogava-lhe que o dei-
xasse seguir com Ele.
19
Jesus não consentiu; entretanto, orien-
tou-o: “Vai para tua casa, para a tua fa-
mília e anuncia a eles tudo quanto Deus
tem realizado a teu favor, e como teve
misericórdia de ti”.
6
2
A descrição do estado deste homem, invadido e dominado por um exército de demônios, representa em detalhes a situação
da humanidade em todas as partes do mundo. O propósito e a força de Satanás e seus espíritos fica igualmente bem evidente
(Jo 10.10). O ser humano é a mais preciosa obra de Deus; no qual projetou Sua própria imagem (em grego eikõn cujo significado
é “semelhança derivada, que implica num arquétipo” – Gn 1.27; 9.6). Os demônios têm a missão de atormentar e destruir a
semelhança divina (em latim imago Dei) nos seres humanos.
3
O sentido original da frase em hebraico traz a idéia de “O que temos a ver um com o outro?” Expressões semelhantes são
encontradas no AT (2Sm 16.10; 19.22), e que podem significar: “Cuide dos seus assuntos!” Ao perceber que seria castigado
severamente, o líder dos demônios ironizou um apelo, reconhecendo com precisão a majestade da pessoa de Cristo. A expressão
“Altíssimo” era um vocábulo muito especial, usado principalmente por gentios, para se referir à soberania de Deus. Em grego
transliterado Hupistos e, em hebraico Elyon (Gn 14.18-22; Nm 24.16; Is 14.14; Dn 3.26; 4.2).
4
A expressão latina “legião” era muito conhecida na época, pois representava uma força militar romana composta de até 6.000
soldados. O termo indica que o homem estava possuído por grande quantidade de demônios. Era comum entre os mestres em
exorcismo, procurar conhecer o nome individual dos espíritos que haviam tomado o corpo de determinada pessoa. Eles acredi-
tavam que só assim podiam dominar totalmente cada um desses demônios e expulsá-los. Jesus demonstrou que incorporava
em si o poder de Deus, expulsando milhares de espíritos sem lhes pedir qualquer identificação. Apenas mencionando o nome do
líder, que estava absolutamente fragilizado e apavorado com a simples presença de Jesus.
5
Satanás e seus demônios são estrategistas sagazes, podem se organizar em exércitos para tentar o domínio de territórios e
regiões (o termo grego chõran, foi traduzido em algumas versões da Bíblia como “país”, entretanto, sua tradução mais apropriada
é “região”). Porém, o grande temor desses espíritos é serem mandados para o castigo eterno. Ou seja, “para o abismo”, lugar de
confinamento destinado aos espíritos malignos e ao próprio Satanás (Ap 9.1-11).
6
Jesus envia o homem gentio, agora salvo, como missionário (Mt 28.19), para pregar aos seus. Entre os gentios pagãos não
havia necessidade de guardar temporariamente o segredo messiânico que tantas vezes Jesus pediu aos seus irmãos judeus (Mt
8.4; Mc 1.34,44; 3.12). A palavra “Senhor” (Lc 8.39), em hebraico e no dialeto aramaico, refere-se a “Deus” (nome que os judeus
não pronunciam em sinal de respeito, e quando o escrevem em português o fazem com um hífen no lugar da letra “e”, ou seja:
“D-us”, tendo em mente o tetragrama hebraico impronunciável do AT ).
MC.indd 15 31/7/2007, 14:33:10
16 MARCOS 5
20
Então, partiu aquele homem, e come-
çou a pregar por toda a Decápolis as coi-
sas que Jesus havia feito por ele. E todos
ficavam maravilhados.
7
Jesus vence a doença e a morte
(Mt 9.18-26; Lc 8.40-56)
21
E retornando Jesus de barco para a
outra margem, numerosa multidão,
uma vez mais, se formou ao seu redor,
enquanto estava na praia.
22
Foi quando chegou ali um dos dirigen-
tes da sinagoga local, chamado Jairo. Ao
ver Jesus, prostrou-se aos seus pés.
8
23
E lhe pediu aos prantos e com insis-
tência: “Minha filha pequena está à beira
da morte! Vem, impõe tuas mãos sobre
ela, para que seja curada e viva”.
24
Então Jesus foi com ele. E uma enorme
multidão o acompanhava, apertando-o
de todos os lados.
25
E estava por ali certa mulher que,
havia doze anos, vinha padecendo de
hemorragia.
26
Ela já tinha sofrido demasiado sob os
cuidados de vários médicos e gastara
tudo o que possuía; porém, em vez de
melhorar, ia de mal a pior.
9
27
Tendo ouvido falar a respeito de Jesus,
passou pelo aglomerado de pessoas e
conseguiu tocar em seu manto.
28
Pois dizia consigo mesma: “Se eu pu-
der ao menos tocar as suas vestes, ficarei
curada”.
10
29
E, naquele instante, se lhe estancou a
hemorragia, e a mulher sentiu em seu
corpo que estava liberta do seu sofri-
mento.
30
No mesmo momento, ao sentir que do
seu interior fora liberado poder, Jesus vi-
rando-se em meio à multidão, inquiriu:
“Quem tocou em meu manto?”
11
31
Ao que os discípulos alegaram-lhe:
“Vês a multidão que te comprime de
todos os lados e perguntas: ‘Quem me
tocou?’”
32
No entanto, Jesus continuou olhando
ao seu redor, esperando ver quem havia
feito aquilo.
33
Então, a mulher, assustada e trêmula,
sabendo o que lhe tinha sucedido, apro-
ximou-se e prostrando-se aos seus pés
declarou-lhe toda a verdade.
34
E Jesus afirmou-lhe: “Minha filha, a
tua fé te salvou! Vai-te em paz e estejas
liberta do teu sofrimento”.
35
Enquanto Jesus ainda estava falando,
chegaram algumas pessoas vindas da casa
de Jairo, o dirigente da sinagoga, a quem
informaram: “Tua filha já está morta! Não
adianta mais incomodar o Mestre”.
36
Mas Jesus não deu atenção àquelas
notícias, e voltando-se para o dirigente
da sinagoga o encorajou: “Não temas,
tão somente continue crendo!”
12
37
E ordenou que ninguém o acompa-
nhasse a não ser Pedro, Tiago e João,
irmão de Tiago.
13
7
Decápolis era uma confederação formada por dez cidades gregas, localizadas ao nordeste da Palestina, e incluía a famosa
7
cidade de Damasco.
8
O dirigente de uma sinagoga, ou numa forma arcaica: “o principal”, era comumente um leigo com habilidades e responsabi-
lidades administrativas, entre elas: zelar pelo patrimônio, atender às necessidades legais e sociais exigidas e cooperar para que
os rabinos pudessem dedicar-se completamente ao ministério pastoral e do ensino. Em grandes sinagogas podia haver até uma
equipe de “administradores” (At 13.15).
9
Além do sofrimento físico crônico, a mulher ainda sofria o desprezo da sociedade da época por ser considerada impura. Pela lei
qualquer pessoa que se aproximasse dela ficaria igualmente impura (Lv 15.25-33). O Talmude (interpretação e aplicação da Lei de Moi-
sés ao contexto da vida diária dos judeus) registrava uma série de remédios e tratamentos receitados para doenças de vários tipos.
10
Mateus especifica que o toque ocorreu “na orla” do manto (Mt 23.5).
11
A palavra grega aqui traduzida como “poder” é dunamis, o termo mais usado para designar “milagre” e significa o poder
sobrenatural e pessoal de Deus. Curiosamente, o termo grego, usado por Jesus, está no feminino, indicando assim que o Senhor
tinha conhecimento de “quem” o tocara, porém, desejava que a mulher testemunhasse e solidificasse sua fé em Deus. Embora a
cura tivesse sido importante (como sempre é), Jesus fez uso de um jogo de palavras para revelar claramente ao coração daquela
mulher que ainda mais importante do que a saúde física é a salvação eterna da alma, e por isso escolheu a palavra “salvou”
(vs.34), no original em grego .
12
Os tempos verbais no original grego formam a seguinte frase literal: “Pára de temer; continua crendo”.
13
Pedro, Tiago e João tinham um relacionamento especial, mais chegado com Jesus (At 3.1). Jesus permitiu a presença de
MC.indd 16 31/7/2007, 14:33:11
17 MARCOS 5, 6
38
Assim que chegaram à casa do di-
rigente da sinagoga, Jesus observou
grande agitação, com muitas pessoas
consternadas, chorando e se lamentando
em alta voz.
39
Ao entrar na casa lhes questionou: “Por
que estais em alvoroço e pranteais? A
criança não morreu, mas está dormindo!”
40
E todos ali menosprezaram o juízo fei-
to por Jesus. Ele, contudo, mandou que
saíssem, chamou para perto de si o pai
e a mãe da criança, bem como os discí-
pulos que estavam em sua companhia, e
adentrou o recinto onde jazia a criança.
41
Então, pegando na mão da menina,
ordenou em aramaico: “Talitha koum!”,
que significa “Filhinha! Eu te ordeno,
levanta-te!”
14
42
E no mesmo instante, a menina que
tinha doze anos de idade, ergueu-se do
leito e começou a andar. Diante disso,
todos ficaram assombrados.
43
Então Jesus lhes recomendou expres-
samente para que nenhuma outra pessoa
viesse a saber do que haviam presencia-
do. E mandou que dessem algo de comer
à menina.
Jesus é rejeitado pelos seus
(Mt 13.53-58; Lc 4.16-30)
6
Então, partiu Jesus dali e foi para sua
terra natal, na companhia dos seus
discípulos.
2
Com a chegada do sábado, começou a
ensinar na sinagoga local, e muitos dos
que o escutavam ficavam admirados e
exclamavam: “De onde lhe vem tudo
isto? E que sabedoria é esta que lhe foi
outorgada?
3
Não é este o carpinteiro, filho de Maria
e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E
não convivem conosco suas irmãs?” E fi-
caram escandalizados por causa dele.
1
4
Contudo Jesus lhes afirmou: “Somente
em sua própria terra, junto aos seus pa-
rentes e em sua própria casa, é que um
profeta não é devidamente honrado”.
2
5
E, por isso, não podia realizar ali ne-
nhum milagre, com exceção feita a alguns
doentes, que ao impor de suas mãos fo-
ram curados.
6
E perplexo com a falta de fé por parte
dos seus, passou a percorrer os povoados
vizinhos e os ensinava.
Jesus envia os Doze em Missão
(Mt 10.5-15; Lc 9.1-6)
7
Convocou então os Doze para junto
de si e os enviou de dois em dois, conce-
dendo-lhes autoridade sobre os espíritos
imundos.
3
8
E determinou que nada levassem pelo
caminho, a não ser um cajado somente;
nem pão, nem mochila de viagem, nem
dinheiro em seus cintos.
9
Que andassem calçados com sandálias,
apenas cinco testemunhas, na ocasião deste milagre. Isso para evitar uma divulgação imediata e incontrolável da notícia. Era de vital
importância, para sua Missão, que Jesus não fosse alvo da atenção das autoridades religiosas judaicas, especialmente na Judéia.
14
Marcos é o único dos Evangelhos que, nesse caso, conserva a expressão original em aramaico, dialeto hebraico falado mais
precisamente na cidade de Nazaré, por Jesus, seus familiares e discípulos. A expressão transliterada Talitha koum! (pronuncia-se
“Talita cumi!”), e significa literalmente “Cordeirinha, levante-se!”
Capítulo 6
1
Mateus apresenta Jesus como “o filho do carpinteiro” (Mt 13.55), Marcos informa que ele também foi carpinteiro. A palavra
grega usada por Marcos descreve o trabalho de um artesão, análise que leva à conclusão de que Jesus poderia igualmente ter
trabalhado como escultor, ferreiro ou marceneiro, juntamente com seus familiares. O termo “escândalo” foi literalmente usado
nos originais em grego para descrever a reação de alguns parentes e conhecidos de Jesus, que sabendo
que ele era um trabalhador braçal (como a maioria deles), nascido em uma família humilde, não conseguiam compreender, nem
aceitar, como Jesus podia pregar com tanta unção e sabedoria. Justino Mártir (por volta de 160 d.C.) relata em seus escritos que
em sua época era comum às pessoas procurarem artigos de madeira feitos por Jesus.
2
Jesus revelou várias profecias antigas que anteviam sua chegada e ministério messiânico, uma delas é sobre o Profeta de
Dt 18.15,18. O primeiro dos grandes sermões de Pedro, em Atos, mostra claramente que Jesus é o sucessor maior de Moisés
e Davi (At 3.22).
3
Os discípulos saíram para ministrar em duplas, isso reforçaria a credibilidade dos testemunhos, conforme a lei (Dt 17.6), além
de oferecer encorajamento mútuo durante o tempo de ministério no campo missionário. Eles receberam autoridade da mesma
fonte que abastecia Jesus (Jo 17.2), a qual Ele concede aos seus discípulos ainda hoje (Lc 9.1; Jo 20.21-23).
MC.indd 17 31/7/2007, 14:33:12
18 MARCOS 6
mas não carregassem duas túnicas.
4
10
E recomendou-lhes: “Sempre que en-
trardes em uma casa, nela permanecei
até vos retirardes de lá.
11
Contudo, se alguma aldeia não vos re-
ceber nem vos quiser ouvir, ao partirdes
desse lugar, sacudi a poeira de debaixo
de vossos pés como testemunho contra
eles”.
5
12
Eles partiram e pregavam que todos se
arrependessem.
13
E expulsavam muitos demônios; un-
giam com óleo a inúmeros doentes e os
curavam.
6
João Batista é executado
(Mt 14.1-12; Lc 9.7-9)
14
E essas notícias chegaram aos ouvidos
do rei Herodes, porquanto o nome de
Jesus já havia se tornado célebre. Algu-
mas pessoas estavam comentando: “João
Batista ressuscitou dos mortos! Essa deve
ser a razão pela qual através dele se ope-
ram poderes milagrosos”.
15
Entretanto, outros alegavam: “Ele é
Elias!”. E ainda outros declaravam: “Ele
é profeta, como um daqueles profetas
do passado”.
7
16
Mas quando Herodes tomou conheci-
mento do que se comentava, exclamou:
“João, a quem mandei decapitar, ressus-
citou dos mortos!”.
17
Porque o próprio Herodes havia ex-
pedido as ordens para que prendessem
João e o acorrentassem no cárcere por
influência de Herodias, esposa de Filipe,
seu irmão, com a qual viera a se casar.
18
Pois, na ocasião, João havia admoesta-
do a Herodes: “Não te é lícito viver com a
mulher do teu irmão!”.
8
19
E por esse motivo Herodias o odiava e
tencionava matá-lo. Contudo não conse-
guia realizar seu intento.
20
Porquanto Herodes temia a João, e
sabedor de que era um homem justo e
santo, o protegia. E quando o ouvia fi-
cava admirado, e o escutava com prazer.
9
21
Finalmente Herodias teve a ocasião
oportuna que ansiava. No dia do aniver-
sário dela, Herodes ofereceu um banque-
te aos seus líderes mais destacados, aos
comandantes militares e às principais
personalidades da Galiléia.
22
E aconteceu que a filha de Herodias se
apresentou dançando e muito agradou a
Herodes e aos convidados. Então, o rei
brindou a jovem: “Pede-me o que dese-
jares, e eu te darei!”.
4
Ganhar a vida comunicando mensagens de otimismo e legalismo, sem uma sólida base bíblico-teológica não é uma invenção
do capitalismo, nem apenas prática comum nos dias de hoje. Na época de Cristo já havia muitos mestres que cobravam altos
cachês para pregar mensagens meramente humanas, mas apresentadas como divinas (2Co 2.17). Uma característica desses fal-
sos mestres era a preocupação exagerada com o próprio suprimento financeiro. Por isso, Jesus mandou que seus discípulos se
preocupassem exclusivamente em servir a Deus proclamando o Evangelho, e descansassem absolutamente na provisão divina
quanto à totalidade das suas demais necessidades (Mt 10.10; 1Co 9.7-11; Gl 6.6). Dependeriam da sua fé no Senhor, que tocaria
o coração dos seus ouvintes para suprí-los do pão, das vestes e do alojamento de cada dia. Uma túnica, extra, poderia servir de
cobertor durante as frias noites no deserto, mas Jesus prometeu-lhes uma família para compartilhar as Boas Novas, e uma casa
onde se alimentar e repousar. Não ficariam ao relento e sem amparo, como muitos falsos mestres.
5
Os pagãos eram tão repugnantes para os judeus, que até o pó de suas sandálias era motivo de rejeição. Jesus usa essa
metáfora para ilustrar o mal que a rejeição ao Evangelho e aos verdadeiros ministros do Evangelho pode causar. Recusar as Boas
Novas reduz qualquer pessoa, inclusive um judeu, ao nível do mais asqueroso dos pagãos. E essa é uma advertência igualmente
válida para os nossos dias. Isso aumenta a responsabilidade do povo de Deus de não dar motivos para que os que ainda não
crêem rejeitem a mensagem das Boas Novas.
6
Jesus curou inúmeras pessoas e multidões sem jamais ter usado óleo, mas recomendou aos discípulos que assim o fizessem,
pois era uma prática antiga dos judeus, e esse deveria ser mais um sinal de dependência do Senhor (Is 1.6; Lc 10.34; Tg 5.14).
7
João passou a vida pregando e preparando o coração das pessoas para a vinda de Jesus (Ml 4.5-6), sem nunca ter realizado
7
um milagre (Jo 10.41), mas havia o temor de que, se ele viesse a ressuscitar, todos os milagres lhe seriam possíveis (Mt 12.39-40).
Marcos usou o título popular de Herodes, uma vez que ele não era rei de fato, mas o tetrarca da região.
8
Flávio Josefo relata em seus escritos que João ficou encarcerado em Maquero, uma fortaleza localizada na Peréia, a leste
do mar Morto. Herodias era neta de Herodes, o grande, e Marianne; sobrinha de Herodes. Enquanto o irmão de Herodes vivia,
este último não podia se casar com sua cunhada ainda que divorciada do marido; visto que, pela lei, isso é considerado adultério
(Lv 18.16; 20.21).
MC.indd 18 31/7/2007, 14:33:13
19 MARCOS 6
23
E sob juramento lhe assegurou: “Se
pedires, ainda que seja a metade do meu
reino, eu te darei!”.
10
24
Diante disso, saiu a moça e consultou
sua mãe: “O que devo pedir?”. Ao que ela
recomendou: “A cabeça de João Batista!”.
25
Sem demora, retornando imediata-
mente à presença do rei, formalizou seu
pedido: “Quero que me dês agora mesmo
a cabeça de João Batista sobre um prato!”
26
Então, grande angústia sobreveio ao
rei, mas devido ao juramento que fize-
ra e aos convivas que se reclinavam ao
redor da sua mesa, não quis deixar de
atendê-la.
27
Mandou, portanto, imediatamente um
carrasco com ordens para trazer a cabeça
de João. O executor foi e decapitou João
na prisão.
28
E, trazendo a cabeça de João sobre um
prato, a entregou à jovem, e esta, em se-
guida, a ofereceu à sua mãe.
29
Assim que souberam do fato, os discí-
pulos de João foram até lá, resgataram o
corpo e o depositaram em um sepulcro.
Jesus multiplica o pão
(Mt 14.13-21; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15)
30
Retornaram os apóstolos e reuniram-
se com Jesus para lhe relatar tudo quanto
haviam realizado e ensinado.
31
Então convidou-lhes Jesus: “Vinde
somente vós comigo, para um lugar
deserto, e descansai um pouco”. Pois, a
multidão dos que chegavam e partiam
era tão grande que eles sequer tinham
tempo para comer.
32
E saindo de barco foram para um local
despovoado.
33
Entretanto, muitos dos que os viram
retirar-se, tendo-os reconhecido, saíram
correndo a pé de todas as cidades e che-
garam lá antes deles.
34
Quando Jesus desceu do barco e ob-
servou aquele enorme ajuntamento de
pessoas, sentiu compaixão por elas, por-
quanto eram como ovelhas sem pastor.
E, sem demora, passou a ministrar-lhes
muitas orientações.
11
35
Com o passar das horas, o final da
tarde estava chegando, e por isso, os
discípulos se aproximaram de Jesus e
avisaram: “Este lugar é deserto e a hora
já muito avançada!
12
36
Despede, pois, a multidão para que
possam ir aos campos e povoados vizi-
nhos comprar para si o que comer”.
37
Jesus porém os instruiu: “Provede-lhes
vós mesmos de comer”. Ao que lhe repli-
caram: “Devemos ir e comprar cerca de
duzentos denários de pão para dar-lhes
de comer?”
13
38 Mas Jesus lhes indaga: “Quantos pães
tendes? Ide verificar!”. E tendo-se infor-
mado, comunicaram: “Cinco pães e dois
peixes”.
39
Então Jesus determinou-lhes que
fizessem com que todo o povo se acomo-
dasse em grupos, reclinados sobre a relva
verde do campo.
14
9
Herodes gostava de ouvir a mensagem de João e chegava a ficar confuso em relação à sua vida e à proposta do Reino. Entretan-
to, como infelizmente ocorre com muitas pessoas, seu coração não se arrependia e, portanto, não podia haver conversão (At 26.28).
Gostar dos princípios bíblicos ou acreditar que a vida cristã é um bom caminho não é o suficiente para salvar qualquer pessoa.
10
Oferecer metade do reino era uma força de expressão antiga e típica dos monarcas que durante celebrações especiais
gostavam de demonstrar sua generosidade com a finalidade de bem impressionar seus convidados (Et 5.3,6). Herodes não era
rei, embora apreciasse ser considerado assim, segundo os escritos de Josefo. Meio embriagado, prometeu a Salomé, filha de
Herodias, o que não podia dar, pois era vassalo de Roma.
11
Jesus viu as pessoas como ovelhas sem pastor (Sl 23.1,2), pois: 1) Carecem de alimento espiritual e da água da vida (Jo 6.35).
2) Necessitam de direção para encontrar o aprisco eterno (Jo 10.16) e 3) Precisam de proteção contra o Inimigo (Jo 10.28).
12
O vocábulo “deserto”, embora signifique apenas um lugar não habitado, e que se situava a nordeste do grande lago (chamado
de mar) da Galiléia, liga o milagre de Jesus à provisão de Deus para seu povo no deserto, quando lhes enviou o maná (Êx 16).
13
Um dia de trabalho braçal correspondia, em geral, a um denário (Mt 20.2). Os discípulos estavam calculando um valor
equivalente a cerca de oito meses de trabalho de uma pessoa.
14
Ao redor da Galiléia é comum a grama ficar bem verde nos finais de inverno. Jesus usou a expressão “reclinar”, que era a
maneira típica como os povos orientais da época se postavam às refeições. Era como se os discípulos estivessem avisando que
o almoço seria servido em breve.
MC.indd 19 31/7/2007, 14:33:13
20 MARCOS 6
40
E assim o fizeram, assentando-se em
grupos de cem em cem e de cinqüenta
em cinqüenta.
15
41
E, tomando Ele os cinco pães e os dois
peixes, elevou os olhos ao céu, rendeu
graças e partiu os pães. A seguir, os en-
tregou aos seus discípulos para que os
servissem ao povo. Da mesma maneira
repartiu os dois peixes entre toda a mul-
tidão ali reunida.
42
Todas as pessoas comeram à vontade e
ficaram satisfeitas.
16
43
Os discípulos ainda recolheram doze
cestos repletos de pedaços de pão e de
peixe.
44
E foram alimentados cinco mil ho-
mens naquele dia.
Jesus caminha sobre as águas
(Mt 14.22-36; Jo 6.16-24)
45
Logo em seguida, insistiu com os
discípulos para que entrassem no barco
e seguissem adiante dele para Betsaida,
enquanto Ele se despedia do povo.
17
46
Tendo-o despedido, subiu a um monte
para orar.
47
Chegando a noite, o barco estava no
meio do mar, e Jesus encontrava-se sozi-
nho em terra.
48
Ele notou que os discípulos remavam
com dificuldade, pois o vento soprava
contra eles. Em plena madrugada, Jesus
vinha na direção deles, andando sobre o
mar; e já estava prestes a passar por eles.
18
49
Assim que o viram caminhando sobre
as águas, logo pensaram se tratar de um
fantasma. E por isso gritaram.
19
50
Pois todos o tinham visto e ficaram
apavorados. Contudo, Jesus lhes anun-
ciou: “Tende coragem! Sou Eu! Não
tenhais medo!”.
51
Então logo subiu no barco para junto
deles, e o vento se acalmou; e eles ficaram
pasmos.
52
Afinal, eles nem tinham entendido o
milagre dos pães, porquanto seus cora-
ções se mantinham endurecidos.
20
Muitos creram e foram curados
(Mc 14.34-36)
53
Depois de atravessarem o mar, chega-
ram a Genesaré e ali aportaram.
21
15
Essa formação relembra a ordem do acampamento mosaico no deserto (Êx 18.21). A palavra “grupos” (em grego,
) significa: “canteiros de jardim”.
16
O antigo ato de graças judaico pelo pão era baseado na Torá: “Louvado sejas Tu, ó Senhor, nosso Deus, Rei do mundo, que
tiras pão da terra” (Lv 19.24). Os pães e os peixes passaram a representar a ceia do Senhor nas obras de arte da igreja primitiva,
e muitas delas foram encontradas nas catacumbas de Roma. Alguns historiadores e teólogos tentam diminuir o impacto deste
milagre de Jesus alegando que ele teria repartido seu almoço com os discípulos, e esses orientado os grupos para, da mesma
forma, dividir entre si o alimento que cada pessoa teria trazido. Entretanto é sugestivo que o próprio Jesus tenha pedido aos discí-
pulos para verificarem quantos pães e peixes havia entre eles (v.38); e foi a partir da multiplicação dessas poucas unidades que se
produziu o suficiente para fartar 5.000 homens (na época não se contavam as mulheres e crianças) a ponto de sobrar doze cestos
cheios de pedaços que, conforme a tradição judaica, deveriam ser recolhidos do chão (Mt 15.37). Além disso, havia profecias por
meio das quais Deus prometera que com a chegada do verdadeiro Pastor, o deserto se tornaria em pastagens verdejantes onde
as ovelhas seriam acolhidas e alimentadas (Ez 34.23-31), e aqui o Messias celebra um banquete com seus seguidores no deserto
(Is 25.6-9). Considerando que as cidades vizinhas, Cafarnaum e Betsaida, tinham uma população de cerca de 2500 pessoas cada,
a multidão que se reuniu com Jesus veio de vários lugares e representou um ajuntamento significativo para os padrões da época.
E essas notícias abalaram os líderes judaicos e romanos.
17
João informa que o povo estava disposto a levar Jesus à força, e coroá-lo rei dos judeus (Jo 6.14,15), por isso, ele mandou
seus discípulos para o outro lado do lago enquanto, sem ser notado, subia o monte para orar só.
18
A expressão “por volta da quarta vigília da noite”, como consta dos originais, significa um período de tempo que vai
das três às seis horas da manhã (Mt 14.25). Ao andar sobre as águas, Jesus demonstra uma vez mais o poder majestoso e
transcendente do Senhor, que reina sobre o mar (grande motivo de temor dos judeus) e todas as demais forças da natureza
(Sl 89.9; Is 51.10,15; Jr 31.35).
19
As lendas e superstições alimentadas entre a população judaica afirmavam que a visão de um fantasma perambulando durante
a noite, era sinal de grande desgraça iminente. Somado ao medo natural que os judeus tinham do mar, é certo que os discípulos
ficaram aterrorizados com a impressão de que estavam sendo atacados por um terrível espírito das profundezas das águas.
20
Para Deus é mais fácil dominar as forças da natureza e do cosmo, do que fazer o coração humano acreditar em Jesus com fé
e obediência amáveis. Como os israelitas no deserto, os discípulos presenciaram muitos milagres portentosos; mesmo assim, em
seu íntimo, eram incrédulos; seus corações estavam empedernidos, à semelhança dos opositores de Jesus (8.17-21; Êx 4.21).
21
Genesaré era uma planície muito fértil, localizada a sudoeste de Cafarnaum. Uma analogia à fertilidade da fé que as
MC.indd 20 31/7/2007, 14:33:15
21 MARCOS 6, 7
54
Logo que desembarcaram o povo re-
conheceu Jesus.
55
Multidões viajavam por toda aquela
região, levando seus enfermos em macas,
para onde ouviam que Ele estava.
56
E onde quer que Ele fosse ministrar,
povoados, cidades ou campos, a popu-
lação trazia os doentes para as praças. E
imploravam-lhe que pudessem ao menos
tocar na borda do seu manto; e todos os
que nele tocavam eram curados.
Jesus e os mestres da lei
(Mt 15.1-20)
7
E ocorreu que alguns mestres da lei e
fariseus, vindos de Jerusalém, reuni-
ram-se em volta de Jesus.
1
2
Observaram que alguns dos seus dis-
cípulos comiam os pães com as mãos
impuras, isto é, sem lavá-las.
2
3
Pois os fariseus e todos os judeus não se
alimentam sem lavar as mãos de forma
cerimonial, preservando a tradição dos
antigos.
4
Quando chegam da rua, não tocam
nos alimentos sem antes se banharem.
Além disso há muitos outros costumes
que guardam, tais como o lavar de copos,
jarros e vasilhas de metal.
3
5
Então os fariseus e os mestres da lei
questionaram a Jesus: “Por qual razão os
seus discípulos não andam em confor-
midade com a tradição dos anciãos, mas
tomam o pão com mãos impuras?”
6
Ele, entretanto, lhes afirmou: “Bem
profetizou Isaías a respeito de vós, hipó-
critas; pois assim está escrito: ‘Este povo
me honra com os lábios, mas seu coração
está longe de mim.
7
Em vão me adoram; as doutrinas que
ensinam não passam de ordenanças
humanas’.
4
8
E assim abandonais o mandamento
de Deus, apegando-vos às tradições dos
homens”.
5
9
E acrescentou-lhes: “Sabeis sempre
encontrar um meio de negligenciar os
mandamentos de Deus, com o propó-
sito de estabelecerdes a vossa própria
tradição!
10
Porquanto Moisés afirmou: ‘Honra
a teu pai e a tua mãe’. E mais: ‘Quem
amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe será
condenado à pena de morte’.
11
Contudo, vós afirmais: ‘Se uma pessoa
disser a seu pai ou a sua mãe: ‘Os bens
com os quais eu vos poderia ajudar são
Corbã’, isto é, uma oferta dedicada ao
Senhor,
pessoas daquela região demonstraram em Jesus. Tanto que, ao tocar na borda do manto do Senhor, eram imediatamente
salvas de suas enfermidades.
Capítulo 7
1
Os líderes religiosos dos judeus na época, movidos principalmente por inveja e motivos políticos escusos, mandaram uma de-
legação de mestres da lei (fariseus) para fazer uma espécie de auditoria teológica e devassa no comportamento social e privado de
Jesus, com o objetivo de encontrar ou forjar um motivo pelo qual Jesus pudesse ser condenado à pena de morte (Mt 2.4; 15.1-11).
2
A visão dos judeus, notadamente os líderes religiosos, sobre a pureza espiritual era extremamente cerimonial. Portanto,
facilmente perdiam de vista o espírito da lei (o principal propósito) e restringiam-se ao cumprimento de ritos e procedimentos.
Assim, para eles, todo contato com pagãos (inclusive respirar muito próximo o mesmo ar), ou mesmo com outros judeus que não
guardavam as leis cerimoniais, se constituía numa imundícia (ou contaminação) espiritual; e, por isso, se fazia necessário passar
pelos ritos cerimoniais de lavar as mãos e os braços até os cotovelos, derramando sobre eles água pura e fresca (v.4). Portanto,
era comum nas festas prolongadas e com muitos hóspedes, reservarem-se grandes recipientes com água.
3
O cerimonial de purificação, realizado todas as vezes que um judeu retornava para casa, era repleto de detalhes ritualísticos.
Algumas versões da Bíblia trazem a expressão “se aspergirem” em vez de “se banharem”, cujo significado literal é “se batizarem”,
ou seja, observar um ritual de imersão.
4
A hipocrisia, ao lado da arrogância, é um dos mais perversos e sutis dos pecados; e ataca especialmente aos líderes reli-
giosos. Quanto maior expressão um líder granjeia, mais vulnerável se torna. Hipócrita é toda pessoa falsa e dissimulada, cujas
palavras de apologia à moral e ao cumprimento rígido das leis, normas, convenções e rituais (especialmente religiosos) não têm
qualquer respaldo ou correspondência direta com suas atitudes públicas e vida íntima. Isaías denunciou severamente os líderes
religiosos de sua época (Is 29.13). Malaquias, embora muitos pensem que seu principal tema fosse o dízimo, na verdade, era a
corrupção e a hipocrisia generalizada do povo de Israel, a começar por seus líderes e mestres (sacerdotes) religiosos.
5
Os mandamentos de Deus estão todos registrados na Bíblia e são obrigatórios. As tradições, normas de conduta e estatutos
dos antigos mestres, não são bíblicos e, portanto, não são autorizados, muito menos, obrigatórios. Os anciãos (líderes da religião
MC.indd 21 31/7/2007, 14:33:16
22 MARCOS 7
12
vós o desobrigais do dever de prestar
qualquer ajuda de que seu pai ou sua
mãe necessite.
6
13
Assim, conseguis anular a eficácia da
Palavra de Deus, por intermédio da tra-
dição que vós próprios tendes transmi-
tido. E, dessa mesma maneira, procedeis
em relação a vários outros assuntos”.
7
14
Jesus conclamou novamente a mul-
tidão para junto de si e lhes anunciou:
“Ouvi-me, todos, e entendei!
15
Nada existe fora da pessoa humana
que, entrando nela, a possa tornar impu-
ra. Ao contrário, o que sai do ser humano
é que o faz impuro.
16
Se alguém tem ouvidos para ouvir,
ouça!”.
17
Então, após haver deixado a multidão
e entrado em casa, os discípulos lhe
pediram uma explanação sobre aquela
parábola.
8
18
Ao que Ele lhes declarou: “Ora, pois
nem vós tendes tal entendimento? Não
conseguis compreender que nada que
entre no homem tem o poder de torná-
lo impuro?
19
Porque efetivamente não entra em seu
coração, mas sim em seu estômago, sen-
do digerido e depois expelido”. Ao fazer
essa afirmação, Jesus proclamava puros
todos os alimentos.
9
20
E disse mais: “O que sai do ser humano
é o que o torna impuro”.
21
Pois é de dentro do coração dos
homens que procedem aos maus pen-
samentos, as imoralidades sexuais, os
furtos, os homicídios, os adultérios,
22
as ambições desmedidas, as maldades,
o engano, a devassidão, a inveja, a difa-
mação, a arrogância e a insensatez.
23
Ora, todos esses males procedem do
interior, contaminam a pessoa humana
e a tornam impura.
10
Uma gentia manisfesta sua fé
(Mt 15.21-28)
24
Então, partiu Jesus daquele lugar e foi
para os arredores de Tiro e de Sidom.
judaica) se ocupavam da interpretação e exposição da Lei de Moisés, mais tarde codificada num manual chamado de Mishná,
que por sua vez, deu origem ao Talmude, que é um comentário extenso e detalhado da Mishná.
6
“Corbã” é a transliteração de uma palavra hebraica que significa “oferta”. Muitos judeus religiosos estavam afirmando que
haviam feito “Corbã” com seus bens, ou seja, doado o dinheiro da aposentadoria dos pais para Deus (mais propriamente para
os sacerdotes do Templo) e, por isso, não tinham como ajudá-los. Ocorre que a Lei não prescrevia que todo o dinheiro devia ser
doado. Além disso, muitos jovens judeus estabeleciam um acordo com os sacerdotes e recebiam parte da “oferta” de volta.
7
A mente humana é facilmente enredada por falsos juízos em função de suas muitas ambições. Por isso devemos agir sempre
como os cristãos bereanos (At 17.11). Os fariseus estavam recorrendo a um texto isolado da Lei (Nm 30.1,2) para defender o voto
do “Corbã”. Jesus aproveita para ensinar uma regra básica de interpretação bíblica: a obediência a um mandamento específico
das Escrituras jamais pode anular os outros mandamentos gerais de Deus. A conclusão tirada pelos anciãos sobre Nm 30.1,2
satisfazia a letra do texto bíblico, mas era contrário ao sentido (espírito) global da Lei.
8
Em hebraico, mashal, o termo traduzido aqui por “parábola”, significa “ilustração, figura, imagem” e tem o sentido de uma
expressão proverbial ou história de moral, que acompanha a vida de uma pessoa como um sinal luminoso. Este acende sempre
que necessário, para avisar de algum perigo iminente ou trazer à memória uma maneira sábia de agir.
9
Marcos, primo de Barnabé e grande amigo dos apóstolos Pedro e Paulo, preocupa-se em fazer comentários sobre a Lei, usos
e costumes dos judeus. Seu objetivo era esclarecer sua principal audiência: os gentios, mais precisamente, o número elevado
de romanos que estavam sendo convertidos pelo Espírito Santo (entre 50 e 70 d.C.). Os discípulos tiveram de aprender com
Jesus sobre a desobrigação de os cristãos guardarem as leis e cerimônias do AT referentes às comidas puras e impuras (Lv 11;
Dt 14; At 10.15).
10
Jesus ensina e adverte que a fonte do pecado humano é o coração (centro das emoções e da razão), e não o estômago. O
coração tem para o mundo ocidental o mesmo significado que “as entranhas” ou “os intestinos” têm no mundo oriental. Ou seja, re-
presentam o centro da personalidade, incluindo o intelecto, a volição, e todas as emoções e desejos humanos. Por isso, a comunhão
(amizade reverente) com Deus não pode ser interrompida por causa de mãos ou alimentos com impurezas, mas, sim, pelo pecado
consciente, intencional e renitente. Mais do que lavar as mãos, é necessário limpar (lavar, purificar) a mente, pois Deus não faz distin-
ção entre pecados elaborados e alimentados nos pensamentos, e os consumados por ação. Segue-se uma lista, como exemplo, de
alguns pecados comuns, mas que não deveriam fazer parte da vida diária de um cristão pleno do Espírito Santo. A palavra “inveja”
no original grego é: “olho mau”, cujo sentido não é apenas o desejo ardente pelas posses de outrem, mas igualmente a falta de
generosidade, literalmente, o ser “pão duro”. A palavra “insensatez”, traduzida em algumas versões por “loucura”, não tem o sentido
de uma enfermidade mental, mas sim, de total negligência do pecador (aquele que aprecia seu estilo de vida mundano) em relação
às suas responsabilidades para com Deus, com seu próximo e com a sociedade (religião e ética).
MC.indd 22 31/7/2007, 14:33:17
23 MARCOS 7, 8
Entrou em uma casa e desejava que nin-
guém o soubesse; porém, não foi possível
manter sua presença em segredo.
11
25
De fato, assim que ouviu falar sobre
Ele, certa mulher, cuja filha pequena
estava com um espírito imundo, chegou
e atirou-se aos seus pés.
26
A mulher era grega, de origem siro-fe-
nícia, e implorava a Jesus que expulsasse
o demônio de sua filha.
12
27
Mas Jesus lhe explicou: “Deixa primei-
ro que os filhos se alimentem até ficarem
satisfeitos; pois não é justo tirar o pão
dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.
13
28
Ao que replicou-lhe a mulher: “Sim,
Senhor, mas até os filhotes dos cães, de-
baixo da mesa, comem das migalhas das
crianças!”
14
29
Então Ele lhe declarou: “Por causa
dessa tua resposta, podes ir em paz; o
demônio já saiu de tua filhinha”.
30
Ao retornar ela para sua casa encon-
trou a criança jogada sobre a cama, pois
o demônio a havia abandonado.
A cura de um surdo-gago
31
Outra vez, saindo Jesus das terras de
Tiro, seguiu em direção ao mar da Gali-
léia, passando por Sidom e atravessando
a região de Decápolis.
32
Então, algumas pessoas lhe apresenta-
ram um homem que era surdo e mal po-
dia falar, e lhe suplicaram que impusesse
sua mão sobre ele.
33
Jesus conduziu o homem, a sós, para
longe da multidão, e colocou os dedos
nas orelhas dele. Em seguida, cuspiu e
tocou na língua daquele homem.
34
Depois, levantando os olhos para o
céu e, com um profundo suspiro, orde-
nou: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!”
15
35
Imediatamente, os ouvidos do homem
se abriram, sua língua desprendeu-se e
ele começou a falar fluentemente.
16
36
Entretanto, Jesus ordenou-lhes que
não dissessem a ninguém o que ali se
passara. Contudo, quanto mais Ele reco-
mendava, tanto mais eles o divulgavam.
37
As multidões ficavam sobremodo ma-
ravilhadas e proclamavam: “Ele faz tudo
de forma esplêndida! Faz tanto os surdos
ouvirem como os mudos falarem”.
17
Nova multiplicação dos pães
(Mt 15.32-39)
8
Naqueles dias, uma grande multidão
novamente se ajuntou, e não tendo as
pessoas com o que se alimentar, chamou
Jesus os discípulos e lhes compartilhou:
1
2
“Tenho compaixão desta multidão; já
11
Tiro era uma cidade povoada por gentios. Localizada na Fenícia, onde hoje é o Líbano, fazia fronteira com a Galiléia, a no-
roeste. Jesus viajou cerca de 50 km de Cafarnaum até os arredores de Tiro. Desde o milagre da multiplicação dos pães e peixes
(6.30-44), Jesus e seus discípulos passaram a evitar os grandes centros e a ministrar nas periferias da Galiléia. Jesus procurava
evitar os confrontos infrutíferos com os fariseus e escribas, e dedicar-se cada vez mais ao discipulado dos Doze (9.30,31). A
palavra grega koinos, aqui traduzida por “contaminam”, significa “comum”, e seu sentido tem a ver com o fato de os pecados
poderem assumir a condição de parte integrante do ser humano, caso não haja arrependimento, confissão e perdão. O Espírito
Santo é o grande aliado dos cristãos na tarefa de manter suas mentes sensíveis e purificadas (Jo 14.16-27).
12
A mulher apresentada por Marcos falava grego e vivia numa cultura grega, mas era de nacionalidade siro-fenícia, uma vez
que naquele tempo a Fenícia pertencia administrativamente à Síria.
13
Jesus se refere aos israelitas que, pela primeira aliança eram os filhos prediletos de Deus (Êx 4.22; Dt 14.1). Jesus segue a
q p p
missão designada ao Servo (Is 49.6), trazendo, em primeiro lugar, Salvação aos judeus (Rm 15.8).
14
Essa é a única ocasião, no evangelho segundo Marcos, em que Jesus é chamado “Senhor”.
15
Jesus usa uma palavra do seu dialeto hebraico, o aramaico Efatá, que o próprio Marcos logo traduz em benefício da com-
preensão dos seus leitores gentios.
16
Jesus estava realizando, na prática, o que Deus prometera há muitos séculos por meio das profecias (Is 35.5,6). Ele procura-
va, porém, manter seu ministério, especialmente o de curas e sinais, longe da propaganda de massa, a fim de não atrair tão cedo
a perseguição dos líderes religiosos e políticos da época (Mt 8.4; 16,20; Mc 1.44; 5.19,43).
17
Tanto o Pai, quanto o Filho, fazem tudo muito bem (maravilhosamente perfeito – Gn 1.31; Jo 5.17). Um dia toda a terra reco-
7
nhecerá esse fato. É importante lembrar que Deus criou a terra e o ser humano, mas o Diabo criou este mundo caótico no qual
q ( p )
vivemos. Hoje, pela fé, os cristãos devem assumir sua condição de embaixadores do Rei, cuja missão é proclamar a Salvação e
os valores do Reino de Deus por toda a terra.
Capítulo 8
1
O próprio Senhor nos afirma (vv.18-20) que este relato (8.1-10) é distinto do ocorrido anteriormente (6.34-44), muito embora
sejam notáveis as semelhanças dos fatos.
MC.indd 23 31/7/2007, 14:33:18
24 MARCOS 8
se passaram três dias que estão comigo e
não têm o que comer.
2
3
Se Eu os enviar de volta às suas casas,
em jejum, vão desfalecer pelo caminho,
pois alguns deles vieram de longe”.
4
Entretanto, os discípulos alegaram:
“Onde, neste lugar desabitado, seria
possível alguém conseguir pão suficiente
para alimentar a todos?”
5
Indagou-lhes Jesus: “Quantos pães ten-
des?” Ao que afirmaram eles: “Sete”.
6
Então Ele orientou o povo a reclinar-se
sobre o chão. E, após tomar os sete pães
e dar graças, partiu-os e os entregou aos
seus discípulos, para que estes servissem
à multidão; e assim foi repartido entre
todas as pessoas.
7
Havia também alguns peixes pequenos;
da mesma forma Ele deu graças e orde-
nou aos discípulos que os distribuíssem.
8
Todas as pessoas ali reunidas comeram
até se saciar; e ainda recolheram sete cestos
grandes, cheios de pedaços que sobraram.
9
Na multidão havia cerca de quatro mil
homens. Então, Jesus despediu-se do povo.
10
Logo depois, entrou no barco com
seus discípulos e dirigiu-se para a região
de Dalmanuta.
3
Os fariseus querem um sinal
(Mt 16.1-4)
11
Os fariseus se aproximaram e começa-
ram a questionar Jesus. Então o tentaram
e, para prová-lo, pediram que lhes apre-
sentasse um sinal miraculoso do céu.
4
12
No entanto, Jesus suspirou profunda-
mente e lhes afirmou: “Por que pede esta
geração um sinal dos céus? Com certeza
vos asseguro que para esta geração não
haverá sinal algum”.
13 E, deixando-os, voltou a embarcar e
rumou para o outro lado.
O perigo das más influências
(Mt 16.5-12)
14
Aconteceu que os discípulos se esque-
ceram de levar pães e, no barco, tinham
consigo apenas um único pão.
15
E Jesus passou a recomendar a eles:
“Cuidado! Guardai-vos do fermento dos
fariseus e do fermento de Herodes”.
5
16
Eles, porém, especulavam entre si, ar-
gumentando: “É por que não trouxemos
p p
pão!”
17
Ao notar a discussão, Jesus questio-
nou: “Por que discorreis sobre o não
terdes pão? Até agora não considerastes,
nem ainda compreendestes? Permane-
ceis com o coração petrificado?
18
Tendo olhos, não vedes? E, possuindo
ouvidos, não escutais? Não vos recor-
dais?
19
Quando dividi os cinco pães para os
cinco mil homens, de quantos cestos
cheios de pedaços que sobraram reco-
lhestes? E, afirmaram-lhe: ‘Doze!’
2
Como este episódio aconteceu na Decápolis (7.31), certamente havia um grande número de gentios na multidão. Jesus se
compadece (em grego: agapç) do povo que demonstrava grande fome da Palavra, pois há três dias o seguia e ouvia seus ensinos
sem se alimentar. Um grande exemplo para os cristãos atuais.
3
Dalmanuta ficava ao sul da Planície de Genesaré, local em que Jesus desembarcou. Mateus chama a região de Magadã ou
Magdala (Mt 15.39). Da mesma maneira como agiu na primeira multiplicação dos pães (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Lc 9.10-17; Jo
6.1-15), Jesus usa uma expressão original (vs.6 – em grego: , “a reclinar-se”), que tem a ver com a atitude cultural
dos judeus daquela época de quase deitarem sobre almofadas diante de mesas baixas, um ao lado do outro, em círculos, para
fazerem suas refeições cotidianas. Ao solicitar que as pessoas “reclinassem sobre o chão” (se assentassem), Jesus estava
comunicando a todos que o desjejum seria servido em seguida.
4
O pedido dos fariseus brotava da incredulidade. Tentaram fazer com que Jesus provasse ser um profeta maior do que Elias
(1Rs 18.20-40). Queriam apenas ver um show cosmológico, mas Jesus apontou para o povo e sua longa história de fome espiritu-
al e de justiça; assim como ocorreu no deserto com Moisés. O pão partido e multiplicado era o maior sinal para aquela “geração”
(maneira de se referir a um tipo de gente mesquinha e hipócrita).
5
Os judeus, por causa dos mandamentos de Deus (Êx 13.7) evitam o uso de qualquer tipo de levedo (agentes de fermentação
empregados na preparação de algumas bebidas alcoólicas não destiladas, tipo cervejas, e na panificação) na semana imedia-
tamente após a Páscoa. Na época de Cristo a levedura era um símbolo comumente usado pelos mestres para se referir à má
inclinação humana. Jesus faz uso desta metáfora para mostrar a procedência maligna dos pedidos dos fariseus e de Herodes
Antipas (Lc 23.8) por um sinal espetacular nos céus para comprovação da sua divindade. Jesus enfatiza que o grande sinal estava
na terra, junto à vida das pessoas a quem Deus amava.
MC.indd 24 31/7/2007, 14:33:19
25 MARCOS 8
20
E quando Eu parti sete pães para aque-
les quatro mil, quantos cestos grandes,
repletos de sobras recolhestes do chão?”
Responderam eles: ‘Sete!’
6
21
Ao que lhes concluiu Jesus: “E então,
ainda não compreendeis?”
Um cego em Betsaida é curado
22
E, chegando a Betsaida, algumas pes-
soas trouxeram um cego à presença de
Jesus e rogavam-lhe que o tocasse.
7
23
Então, Ele tomou o cego pela mão e
o conduziu para fora da aldeia. Em se-
guida, cuspiu nos olhos daquele homem
e lhe impôs as mãos. E indagou: “Vês
alguma coisa?”
24
O homem levanta os olhos e afirma:
“Vejo pessoas; mas elas se parecem com
árvores caminhando”.
25
Mais uma vez, Jesus colocou suas mãos
sobre os olhos do homem. E, no mesmo
instante, tendo sido completamente res-
taurado, via com clareza, e podia discer-
nir todas as coisas.
26
Então Jesus enviou aquele homem
para casa, recomendando-lhe: “Nem
sequer no povoado entres!”
Pedro confessa Jesus como Messias
(Mt 16.13-20; Lc 9.18-21)
27
Jesus e seus discípulos partiram para
os povoados nas cercanias de Cesaréia
de Filipe. No caminho, Ele lhes inquiriu:
“Quem dizem as pessoas que Eu Sou?”
8
28
Ao que eles informaram: “Alguns
comentam que és João Batista, outros,
Elias; e ainda há quem afirme que és um
dos profetas”.
29
Então lhes questionou: “Mas vós,
quem dizeis que Eu Sou?” E, asseverando
Pedro, declarou: “Tu és o Cristo!”
30
Jesus, por sua vez, lhes recomendou
que nada divulgassem a seu respeito.
Jesus anuncia sua Paixão
(Mt 16.21-23; Lc 9.22)
31
Então, passou Jesus a ensinar-lhes que
era imperioso que o Filho do homem
fosse vítima de muitos sofrimentos, vies-
se a ser rejeitado pelos líderes religiosos,
pelos chefes dos sacerdotes e pelos mes-
tres da lei; então fosse assassinado, para
depois de três dias ressuscitar.
9
32
E Jesus falou sobre esse assunto de
maneira clara. Mas Pedro, chamando-
o em particular, começou a censurá-lo
energicamente.
33
Entretanto, Jesus voltou-se, olhou para
seus discípulos e repreendeu severamen-
te a Pedro, exclamando: “Para trás de
mim, Satanás! Pois não estais pensando
na obra de Deus, mas sim nas ambições
humanas”.
10
34
Em seguida, convocou Jesus a mul-
6
Mais uma prova de que Jesus fala de dois eventos parecidos, mas distintos é que no primeiro a palavra grega usada para
“cestos” indica um pequeno cesto da época, feito de junco; e no segundo, a palavra grega usada para “cestos”
refere-se a um tipo de cesto grande, feito de tecido e capaz de suportar o peso de uma pessoa, como foi o caso
ocorrido com o apóstolo Paulo (At 9.25).
7
Betsaida significa “casa de pesca” e se localizava numa planície ao norte do mar da Galiléia. Era a cidade natal de Pedro,
André e Filipe (Jo 1.44).
8
Com a confissão de Pedro tem início a segunda metade de Marcos. A partir de agora Jesus muda a direção principal dos
seus ensinos, deixa as grandes multidões e concentra-se no discipulado dos Doze. Ao grupo dos discípulos passa a revelar mais
e mais sobre sua missão, morte e ressurreição.
9
A necessidade do sofrimento expiatório de Jesus é claramente apresentada no AT (Sl 22, 69, 118; Is 50.4, 52.13-53.12;
Zc 13.7). Jesus costumava se referir a si mesmo como “Filho do homem” (81 vezes nos evangelhos). Título jamais usado por
qualquer outra pessoa. Em Daniel (Dn 7.13,14), o filho de um homem é retratado profeticamente como personagem celestial a
quem, no final dos tempos, Deus confiou autoridade, glória e poder soberano. O próprio Jesus passa a reforçar esse título junto
aos seus discípulos. Pedro compreendeu que Jesus era o Messias prometido pelo uso que faz do termo grego “Cristo” (Messias,
em hebraico). Os líderes religiosos eram os membros leigos (anciãos) do Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus), os chefes
dos sacerdotes (Mt 2.4), entre eles o sumo sacerdote em exercício, Caifás; o sumo sacerdote anterior, Anás, e as respectivas
famílias sacerdotais.
10
O sofrimento e a humilhação não correspondiam ao “Messias” que estava na mente de Pedro: o Libertador de Israel. Ao
tentar persuadir Jesus a ter compaixão de si mesmo para não se entregar ao martírio e à morte, Pedro incorreu no mesmo dis-
curso usado por Satanás no início do ministério do Senhor (Mt 4.8-10), e por isso Jesus precisou mostrar a todos os discípulos
MC.indd 25 31/7/2007, 14:33:19
26 MARCOS 8, 9
tidão e os discípulos, e os desafiou: “Se
alguém deseja seguir-me, negue-se a si
mesmo, tome a sua cruz e venha após
mim.
11
35
Quem quiser, pois, salvar a sua vida
perdê-la-á; mas quem perder a sua vida
por minha causa e pelo Evangelho salva-
la-á!
36
Portanto, de que adianta uma pessoa
ganhar o mundo inteiro e perder a sua
alma?
37
Ou ainda, o que uma pessoa pode-ria
dar em troca de sua alma?
38
Assim sendo, numa época como esta,
de incredulidade e perversidade, se al-
guém tiver vergonha de mim e dos meus
ensinamentos, então o Filho do homem,
quando voltar na glória do seu Pai, jun-
tamente com os santos anjos, também a
essa pessoa não oferecerá honra”.
12
A transfiguração de Jesus
(Mt 17.1-8; Lc 9.28-36)
9
Então lhes falou Jesus: “Com toda a
certeza vos asseguro que alguns dos
que aqui estão de modo algum passarão
pela morte, até que vejam o Reino de
Deus chegando com poder”.
2
Passados seis dias, tomou Jesus consigo
a Pedro, Tiago e João e os conduziu a
um lugar retirado, no alto de um monte,
onde puderam ficar a sós. E ali Ele foi
transfigurado diante deles.
1
3
Suas vestes tornaram-se alvas, de um
branco reluzente, como nenhum la-
vandeiro em toda a terra seria capaz de
alvejá-las.
4
Então, apareceu à sua frente Elias com
Moisés, e estavam conversando com
Jesus.
5
E Pedro, tomando a palavra, sugeriu:
“Rabi, é muito bom estarmos aqui! Va-
mos erguer três tabernáculos: um será
teu, um para Moisés e um para Elias”.
2
6
Pedro não sabia o que falar, pois eles
haviam ficado aterrorizados.
7
Em seguida, surgiu uma nuvem que
os envolveu, e dela soou uma voz, que
declarou: “Este é o Meu Filho amado, a
Ele dai ouvidos!”
3
que tentar se desviar da vontade de Deus – não importa a razão – é cair nas artimanhas de Satanás e “errar o alvo” (expressão
que em hebraico significa: pecado).
11
Jesus faz um convite não apenas aos Doze, mas a todas as pessoas. Devemos permitir que o Espírito Santo assuma o
controle total das nossas vidas, antes dirigida pelo “eu” ou “ego” (fonte das nossas vontades, quase sempre contrárias à vontade
de Deus). Tomar a cruz é a disposição de começar a seguir ao Senhor do jeito que somos e com aquilo que temos; e depois,
aceitarmos a glória de vivermos e morrermos por Ele. Ao concluir, conclamando todos a segui-lo, Jesus estava dizendo que
mostraria pessoalmente o caminho da verdadeira entrega a Deus, do sofrimento, do martírio, da morte e da ressurreição para
uma vida eterna de comunhão com o Pai (Sl 49.8, Hb 9.27, Ap 21.8).
12
O mundo é um sistema globalizado de valores e princípios (filosóficos, políticos, econômicos e sociais) que, a cada geração,
se afasta mais e mais da Palavra de Deus. Por isso, desde a Queda (Gn 3), Deus tem procurado corrigir a rota dessa humanidade
perdida (Hb 1.1-2). Quem preferir se ajustar à sua geração (aos ditames do mundo de sua época) mais do que seguir a Cristo e
aos princípios da Sua Palavra não poderá fazer parte do Reino de Deus, tanto aqui e agora, como na Nova Jerusalém, na eternida-
de futura e iminente (Ap 21.1-4). Ter “vergonha” de Jesus é muito mais que um simples ato externo de usos e costumes, timidez ou
inabilidade de expressão. Esta palavra, em seu sentido original, tem a ver com a “honra de cultivar um caráter idôneo e amoroso
em relação a Deus e ao próximo em todas as atitudes pessoais”. Ou seja, envergonhar-se do Evangelho é não aceitar o compro-
misso com o discipulado de Cristo e preferir levar a vida conforme a ordem mundial impõe às pessoas de todas as culturas (Rm
1.16, 12.1). Entretanto, na volta triunfal de Cristo, todos aqueles que creram no Senhor o suficiente para enfrentar o mundo com
um estilo de vida verdadeiramente cristão, serão honrados por Jesus e participarão da Sua glória eterna (1Ts 1.6-10).
Capítulo 9
1
No NT, a palavra grega metamorphothe foi usada apenas em Mt 17.2, Rm 12.2 e 2Co 3.18, sempre com o sentido de transfor-
mação radical de um ser em outro ser. Em relação à vida diária dos cristãos, significa uma mudança total de caráter, abandonando
os costumes mundanos e adotando um estilo de vida próprio dos cidadãos do céu. O objetivo da transfiguração foi manifestar,
ainda que brevemente, aos discípulos mais chegados, a glória de Jesus encoberta por causa de sua encarnação. Jesus anteci-
pou a visão da sua ressurreição e do seu glorioso retorno.
2
Rabi ou i Rabbi é a palavra hebraica comumente traduzida por “Mestre”. Pedro se prontificou, ainda que estarrecido, a recriar o i
antigo ponto de encontro de Deus com seu povo (conhecido como tenda, cabana ou tabernáculo – Êx 29.42; Lv 23.42).
p p p q
3
O sentido mais amplo da expressão: “a Ele dai ouvidos”, ou simplesmente, “a ele ouvi”, como aparece em algumas versões,
está relacionado à profecia de Dt 18.15, onde o termo “ouvir”, nos originais hebraicos significa “ouvir e obedecer”. Quando se
trata da voz de Deus a única maneira correta de ouvir é obedecendo (Tg 1.22-25).
MC.indd 26 31/7/2007, 14:33:20
27 MARCOS 9
8
E, de repente, quando olharam ao redor,
a ninguém mais viram, a não ser Jesus.
9
Durante a caminhada, descendo o
monte, Jesus lhes ordenou que a nin-
guém revelassem o que haviam presen-
ciado, até que o Filho do homem tivesse
ressuscitado dos mortos.
10
Eles mantiveram esse assunto exclusi-
vamente entre si, mas comentavam sobre
qual o significado da expressão “ressusci-
tado dos mortos”.
11
Então questionaram-lhe: “Por que os
mestres da lei afirmam que é preciso que
Elias venha primeiro?”
12
E Jesus lhes esclareceu: “Realmente,
Elias vindo primeiro, restaura todas as
coisas. Agora, por que está escrito tam-
bém que é necessário que o Filho do ho-
mem sofra penosamente e seja rejeitado
com desprezo?
13
Pois Eu lhes digo: Elias também já veio,
e fizeram contra ele tudo o que deseja-
ram, como está escrito a respeito dele”.
4
Jesus cura um menino possesso
(Mt 17.14-23; Lc 9.37-45)
14
Assim que chegaram onde estavam os
demais discípulos, observaram um gran-
de aglomerado de pessoas ao redor deles
e os mestres da lei discutindo com eles.
15
Logo que a multidão percebeu Jesus,
tomada de surpresa correu para Ele e o
saudava.
16
Então, Jesus dirigiu a palavra aos escri-
bas e os inquiriu: “O que discutíeis com
eles?”
17
Contudo, um homem, no meio da
multidão, replicou: “Mestre! Trouxe-te
o meu filho, que está tomado por um
demônio que o impede de falar.
5
18
Onde quer que este o toma, joga-o no
chão. Então ele espuma pela boca, range
os dentes e fica todo enrijecido. Roguei
aos teus discípulos que expulsassem o tal
espírito, mas eles não conseguiram”.
19
Admoestou-lhes Jesus: “Ó geração
p g
sem fé, até quando estarei Eu junto a
vós? Até quando vos supor-tarei? Trazei-
o a mim!”
20
E logo o trouxeram. Assim que o espí-
rito viu Jesus, no mesmo instante provo-
cou uma convulsão no menino. Este caiu
no chão e começou a rolar, espumando
pela boca.
21
Então Jesus indagou ao pai do me-
nino: “Há quanto tempo isto lhe está
acontecendo?” E o pai declarou: “Desde
a infância.
22
Muitas vezes esse demônio o tem
jogado no fogo e na água, para matá-
lo. Todavia, se Tu podes fazer algo, tem
compaixão de nós e, de alguma maneira,
ajuda-nos!”
23
“Se podes?”, contestou-lhe Jesus: “Tudo
é possível para aquele que crê!”
6
24
Imediatamente o pai do menino as-
severou: “Creio! Ajuda-me a vencer a
minha falta de fé”.
4
Jesus faz referência à vinda de João Batista (Mt 17.10-13). João, assim como Elias, sofreu a oposição de um rei inseguro,
influenciado por uma rainha pagã e perversa. Elias realizou a obra de restauração do culto a Deus, especialmente no monte
Carmelo, e foi uma prefiguração de João, que veio iniciar (preparar o caminho) a restauração total do ser humano. Obra essa
concluída por Jesus (Ef 1.7-10). As ameaças de Jezabel em relação a Elias concretizaram-se na vida e no ministério de João e
preanunciaram a chegada do Messias (1Rs 19.1-10).
5
Possessão demoníaca é a ação de demônios (seres espirituais, anjos caídos, comandados por Satanás, e absolutamente
malévolos), que invadem e dominam o sistema nervoso, a consciência sensorial, a sede da vontade humana; e que, enfim,
tomam posse do corpo físico de uma pessoa, na qual ainda não habita o Espírito Santo, controlando suas ações e, por vezes,
submetendo esse corpo humano a todo tipo de humilhações e sofrimentos.
6
Os discípulos, que já haviam expelido vários espíritos malignos, não puderam expulsar aquele demônio por absoluta incre-
dulidade (Mt 17.14-21). Jesus adverte para o fato de que há graduação de poderes nas trevas, e que certa espécie de inimigos
espirituais só podem ser expulsos por meio de profunda comunhão com Deus em oração e persistente devoção, que inclui o
jejum. Apesar de a palavra “jejum” não aparecer em muitos originais gregos, é certo que Jesus e a Igreja primitiva praticavam o
jejum como disciplina espiritual. Jesus aproveita aquele momento tenso e constrangedor para evidenciar que todas as coisas são
realizáveis mediante a fé, e que a grande questão do ser humano é exatamente esta: a falta de fé. Deus pode tudo e a qualquer
momento, mas as pessoas costumam “crer duvidando” e, por isso, o Senhor não pode honrar uma “fé falsa” ou “incompleta”. A
verdadeira fé elimina todas as barreiras espirituais na vida (Tg 1.5-8).
MC.indd 27 31/7/2007, 14:33:21
28 MARCOS 9
25
Percebendo que o povo estava se ajun-
tando, repreendeu o espírito imundo,
determinando: “Espírito mudo e surdo,
Eu te ordeno: Deixa este jovem e jamais
o tomes novamente!”
26
Então o demônio berrou, agitou o
jovem violentamente e o abandonou.
O menino ficou desfalecido, a ponto de
todos afirmarem: “Ele morreu!”
27
Entretanto Jesus, pegando a mão do
menino, o levantou, e ele ficou em pé.
28
Mais tarde, quando Jesus estava em
casa, seus discípulos o consultaram em
particular: “Por que razão não fomos
capazes de expulsá-lo?”
29
E Jesus lhes advertiu: “Essa espécie
de demônios só é expelida com oração
e jejum”.
O segundo anúncio da Paixão
(Mt 17.22-23; Lc 9.43-45)
30
Eles partiram daquele lugar e atraves-
saram a Galiléia. E Jesus evitava que qual-
quer pessoa soubesse onde se achavam.
7
31
Pois estava dedicado ao ensino dos
seus discípulos e lhes revelava: “O Filho
do homem está prestes a ser entregue nas
mãos dos homens. Eles o matarão, mas
três dias depois ressuscitará”.
32
Todavia, eles não conseguiam entender
o que Ele desejava comunicar, mas tinham
receio de inquiri-lo a este respeito.
Quem é o maior no Reino?
(Mt 18.1-5; Lc 9.46-48)
33
Então chegaram a Cafarnaum. Quan-
do já estavam em casa, indagou-lhes:
“Sobre o que discorríeis pelo caminho?”
34
Eles, porém, ficaram em silêncio; por-
que no caminho haviam discutido sobre
quem era o maior.
35
Assentando-se, Jesus reuniu os Doze
e lhes orientou: “Se alguém deseja ser
o primeiro, será o último, e servo de
todos”.
36
E, conduzindo uma criança, colocou-
a no meio deles e, tomando-a nos braços,
revelou-lhes:
37
“Quem recebe uma destas crianças,
por ser meu seguidor, do mesmo modo
estará a mim recebendo; e qualquer que
me recebe, não está apenas me rece-
bendo, mas igual-mente àquele que me
enviou”.
8
Quem não é contra, está a favor
(Lc 9.49,50)
38
Contou-lhe João: “Mestre, vimos
um homem que, em teu nome, estava
expulsando demônios e procuramos
impedi-lo; pois, afinal, ele não era um
dos nossos”.
39
“Não o impeçais!”- ponderou Jesus.
“Ninguém que realize um milagre em
meu nome, é capaz de falar mal de mim
logo em seguida.
40
Portanto, quem não é contra nós, está
a nosso favor.
9
41
Com toda a certeza vos asseguro, qual-
quer pessoa que vos der de beber um
copo de água, pelo fato de pertencerdes a
Cristo, de maneira alguma perderá a sua
recompensa”.
Evitar o pecado a todo custo
(Mt 18.6-9)
42
“Se alguém fizer tropeçar um destes pe-
queninos que crêem em mim, seria me-
7
Jesus havia completado seu período de ministério às grandes massas na Galiléia e regiões vizinhas. Agora estava a caminho
do seu próprio holocausto em Jerusalém (10.32-34). Jesus passou então a concentrar, ainda mais, seus ensinos e discipulado na
vida dos seus Doze seguidores mais próximos.
8
Dúvidas sobre a posição hierárquica no Reino ocupavam a mente dos discípulos. A posição social sempre foi uma grande
ambição humana, especialmente na cultura judaica daquela época e em função da possibilidade da instauração de um novo “rei-
no” (sistema político-religioso). Entretanto, Jesus esclarece que a honra e o poder no Reino de Deus são conquistados por amor,
humildade, generosidade e serviço ao próximo. Como os bons pais cuidam de seus filhos pequenos (Lc 9.47). Por “pequeninos”
pode-se entender: as crianças, os novos convertidos e os cristãos em fase de amadurecimento espiritual (Rm 14; 1Co 8 e 9).
9
Jesus desaprova o sectarismo (partidarismo ferrenho das doutrinas e preceitos de uma seita) e o proselitismo (ação ostensiva
visando mover pessoas de uma seita para outra). Devemos manter comunhão com todos os cristãos que foram regenerados
pelo Espírito de Deus, isto é, com todos os Salvos, independentemente do seu grupo doutrinário. Por outro lado, é inadmissível
MC.indd 28 31/7/2007, 14:33:21
29 MARCOS 9, 10
lhor que fosse lançado no mar com uma
pedra de asno amarrada ao pescoço.
10
43
E, se a tua mão te fizer tropeçar, corta-
a, pois é melhor entrares para a Vida mu-
tilado do que, possuindo as duas mãos,
ires para o inferno, onde o fogo que arde
jamais arrefece.
11
44
Naquele lugar, os teus vermes devora-
dores não morrem, e as chamas nunca se
apagam.
45
E, se o teu pé te fizer tropeçar, corta-
o, pois é melhor entrares para a Vida
aleijado do que, tendo os dois pés, seres
lançado no inferno.
46
Onde o teu verme não morre, e o fogo
é inextinguível.
47
E ainda, se um dos teus olhos te levar
a pecar, arranca-o. É melhor entrares no
Reino de Deus com um dos teus olhos
do que, possuindo os dois olhos, seres
atirado no inferno.
48
Naquele lugar, os teus vermes devora-
dores não morrem, e as chamas nunca se
apagam.
Os cristãos são o sal da terra
(Mt 5.13; Lc 14.34-35)
49
Pois todos serão salgados com fogo.
12
50
O sal é bom; mas se o sal perder o seu
sabor, como restaurar as suas proprieda-
des? Tende o bom sal em vós mesmos e
vivei em paz uns com os outros”.
13
Casamento e Separação
(Mt 19.1-12)
10
Partindo dali, foi Jesus para a re-
gião da Judéia e para o outro lado
do Jordão. E, outra vez, grande multidão
chegou-se a Ele e, como era seu costume,
passou a ensinar as pessoas ali reunidas.
1
2
Alguns fariseus se aproximaram de Je-
sus e, para colocá-lo à prova questiona-
ram: “É permitido ao homem separar-se
p p q p
de sua esposa?”
3
Inquiriu-lhes Jesus: “O que lhes orde-
nou Moisés?”
4
E eles replicaram: “Moisés permitiu que
o homem desse à sua mulher uma certi-
dão de divórcio e a mandasse embora”.
5
Esclareceu-lhes Jesus: “Moisés vos dei-
xou escrita essa lei por causa da dureza
dos vossos corações!”
2
6
Entretanto, no princípio da criação
Deus ‘os fez homem e mulher’.
7
‘Por esta razão, o homem deixará pai e
mãe e se unirá à sua esposa,
que um cristão verdadeiro seja neutro em relação ao senhorio de Cristo. Ou se é, ou não se é cristão. Para Jesus não existe o
“cristão nominal”, ou seja, aquela pessoa que crê em Deus, mas não procura viver uma vida em comunhão com o Espírito Santo.
A unidade da Igreja nem sempre será obtida por meio de uma unanimidade teológica; porém, muitas vezes, no serviço humilde,
generoso e compreensível do amor fraternal em Cristo (Mt 25.34-46 conforme Mt 18.1-10 e Lc 17.1).
10
O amor de Deus por seus filhos é tão grande que o suicídio seria a melhor solução para alguém que deliberadamente
tentasse desviá-los do verdadeiro Caminho. Jesus usa literalmente o termo “pedra de asno”, para referir-se a uma grande placa
de pedra, comumente girada por jumentos, para moer grãos e cereais.
11
Jesus usa uma hipérbole (figura de linguagem que transmite um ensino por meio do exagero das afirmações ou compara-
ções) para ressaltar a necessidade de uma ação drástica. Muitas vezes o pecado ou um mau hábito só poderá ser vencido por
uma “cirurgia espiritual radical”. A palavra grega geenna é traduzida por “inferno” e aparece apenas nos Evangelhos e em Tg 3.6.
Seu sentido original corresponde a um “grande depósito de lixo”. Jesus cita a última palavra de advertência proferida por Isaías
em relação ao perigo da condenação eterna daqueles que teimam em viver rebeldes ao Espírito de Deus (Is 66.24). Num “grande
depósito de lixo” há sempre vermes se revolvendo (Mt 5.22).
12
No AT era exigido que se colocasse sal sobre o sacrifício (Lv 2.13 com Ez 43.24). Todo cristão deve ser um sacrifício para
Deus (Rm 12.1). Na vida cristã, o sal é representado, por provas, purificação pelo fogo da justiça divina, perseguições do Inimigo
e deste mundo (1Co 3.13; 1Pe 1.7; 4.12).
13
Na época de Jesus o sal era vital para temperar, dar sabor e conservar os alimentos, especialmente as carnes vermelhas e os
peixes. Ele se compara, portanto, à firme convicção do cristão que vive corajosa e intensamente o Evangelho (8.35-38).
Capítulo 10
1
Os capítulos de 1 a 9 relatam o ministério de Jesus na Galiléia. De 10 a 15 focalizam a outra parte da missão do Senhor, já
na Judéia.
2
O ser humano, por causa de sua pecaminosidade inata, tem a forte tendência de se ater mais ao teor da Lei do que ao seu
espírito. Tanto Jesus como todo judeu convicto reconhecem a plena autoridade da Bíblia. Cristo não nega o ensino registrado em
Dt 24.1, mas revela que a separação ou divórcio, jamais foi plano de Deus para os matrimônios. Os fariseus não estavam conse-
guindo discernir entre a vontade absoluta de Deus e Sua permissão, levando em conta a fraqueza humana diante do pecado. A
MC.indd 29 31/7/2007, 14:33:22
30 MARCOS 10
8
e os dois se tornarão uma só carne’.
Dessa forma, eles já não são dois, mas
sim uma só carne.
3
9
Portanto, o que Deus uniu, não o sepa-
re o ser humano!”
10
Mais tarde, quando estavam em casa,
uma vez mais os discípulos indagaram
Jesus sobre o mesmo assunto.
11
Então Ele lhes explicou: “Todo homem
que se separar de sua esposa e se unir a
outra mulher, estará cometendo adulté-
rio contra a sua esposa.
12
Da mesma maneira, se uma mulher se
divorciar de seu marido e se casar com
outro homem, estará igual-mente caindo
em adultério”.
4
Jesus abençoa as crianças
(Mt 19.13-15; Lc 18.15-17)
13
E aconteceu que as pessoas traziam
crianças para que Jesus lhes impusesse
a mão, mas os discípulos repreendiam
o povo.
14
Todavia, quando Jesus notou o que se
passava, ficou indignado e lhes adver-
tiu: “Deixai vir a mim os pequeninos.
Não os impeçais, pois deles é o Reino
de Deus.
15
Com toda a certeza vos asseguro:
aquele que não receber o Reino de
Deus como uma criança, jamais terá
acesso a ele”.
16
Em seguida, abraçou as crianças, im-
pôs-lhes as mãos e as abençoou.
5
O homem que deseja possuir tudo
(Mt 19.16-30; Lc 18.18-30)
17
E, colocando-se Jesus a caminho,
correu um homem ao seu encontro e,
ajoelhando-se, indagou-lhe: “Bom Mes-
tre! O que devo fazer para herdar a vida
eterna?”
18
Replicou-lhe Jesus: “Por que me cha-
mas bom? Ninguém é bom, a não ser
um, que é Deus!
6
19
Tu conheces os mandamentos: ‘Não
matarás, não adulterarás, não furtarás,
não dirás falso testemunho, não engana-
rás ninguém, honra a teu pai e tua mãe’”.
7
20
Ao que o homem declarou: “Mestre,
tudo isso tenho obedecido desde minha
adolescência”.
21
Então Jesus o olhou com compaixão e
lhe revelou: “Contudo, te falta algo mais
importante. Vai, vende tudo o que tens,
entrega-o e receberás um tesouro no céu;
então, vem e segue-me!”
8
22
Diante disso, o homem abateu-se
profundamente e retirou-se entristecido,
pois possuía muitos bens.
separação entre marido e mulher nunca contou com a aprovação de Deus, a não ser como o menor entre dois males. O termo
grego “sklerokardia”, sempre usado no sentido espiritual para denotar um tipo de “coração inflexível e arrogante”, traduz um estilo
de vida permanentemente em rebelião contra Deus e Sua Palavra.
3
O casamento cria um novo tipo de relação familiar (Gn 29.14), onde o amor e a vida conjugal são exclusivos (Ef 5.30). A
santidade no casamento faz parte do plano original de Deus para o homem e a mulher.
4
Jesus usa sua autoridade para invalidar a doutrina rabínica da época que não considerava o adultério do homem contra sua
esposa. Na prática judaica, o marido podia mandar sua mulher embora de casa, por qualquer motivo e sem qualquer direito ou
mediação jurídica. Por isso, Jesus salienta que Deus, nosso Juiz, é quem promove a união das pessoas. O homem, ao separar-se
de sua esposa, coloca-se igualmente sob condenação divina.
5
Só aquele que aceitar o Reino de Deus com o coração receptivo e puro de uma criança, como um dom gracioso do Senhor,
poderá desfrutar plenamente de todos os seus privilégios (Ef 2.8,9).
6
Jesus procura ajudar o homem a refletir sobre a soberania de Deus. Só Ele é bom no sentido absoluto. Assim, referir-se a Je-
sus como “bom” seria o mesmo que chamá-lo de Deus. Ele é o único caminho para todo ser humano, independentemente do seu
grau de instrução, nacionalidade, cultura ou poder econômico, político e financeiro. Lucas (18.18,19) informa que este homem era
“importante”, e a expressão no original nos leva a pensar em um membro do concílio ou do tribunal oficial dos judeus. Mateus diz
que era um “jovem rico” (Mt 19.20). Religioso, cheio de planos e vontade de acertar, pronto a pagar pelo que desejava adquirir.
7
Os judeus e cristãos são proibidos de cometer fraudes. Este mandamento tem a ver com a cobiça. Nesse trecho Jesus decidiu
mencionar seis ordenanças contra atitudes erradas em relação ao próximo (Êx 20.12-16; Dt 5.16-21).
8
Jesus não está interessado em que o homem se torne pobre, mas, sim, que humildemente se lembre de que a ordenança
mais importante é amar a Deus sobre todas as coisas. Exatamente o primeiro mandamento da Lei (Dt 6.4,5). O jovem tinha a idéia
de um tipo de obediência exterior (Fp 3.6), normalmente ensinada nas sinagogas aos meninos, a partir dos 13 anos, idade em
que passavam a assumir a responsabilidade de cumprir os mandamentos da Lei.
MC.indd 30 31/7/2007, 14:33:22
31 MARCOS 10
Com Deus tudo é possível
(Mt 19.23-30; Lc 18.24-30)
23
Então, Jesus, observando ao redor, de-
clarou aos seus discípulos: “Quão difícil
é para aqueles que possuem muitos bens
ingressar no Reino de Deus!”
24
Os discípulos ficaram perplexos diante
de tais palavras; no entanto, Jesus insistiu
em lhes afirmar: “Filhos, entrar no Reino
de Deus é, de fato, muito difícil!
25
É mais fácil passar um camelo pelo
fundo de uma agulha do que um rico
entrar no Reino de Deus”.
26
Os discípulos ficaram muito assusta-
dos e comentavam uns com os outros:
“Sendo assim, quem conseguirá se sal-
var?”
9
27
E Jesus, fixando neles o olhar lhes re-
velou: “Para o homem isso é impossível;
todavia, não para o Senhor. Pois para
Deus tudo é possível!”
28
Então Pedro começou a declarar para
Jesus: “Eis que nós tudo abandonamos
para te seguir”.
29
Garantiu-lhes Jesus: “Com toda a cer-
teza vos asseguro que ninguém há que
tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe,
pai, filhos ou bens, por causa de mim e
do Evangelho,
30
que não receba, já no presente, cem
vezes mais, em casas, irmãos, irmãs,
mães, filhos e propriedades, e com eles
perseguições; mas no mundo futuro, a
vida eterna.
31
Todavia, muitos primeiros serão úl-
timos; e muitos últimos serão primei-
ros”.
10
Jesus outra vez prediz sua Paixão
(Mt 20.17-19; Lc 18.31-34)
32
E sucedeu que estavam no caminho,
subindo para Jerusalém. Jesus à frente
os conduzia. Os discípulos estavam ad-
mirados, enquanto os demais seguidores
sentiam medo. Uma vez mais Ele reuniu
à parte os Doze e compartilhou o que lhe
aconteceria:
11
33
“Eis que subimos para Jerusalém, e o
filho do Homem será entregue nas mãos
dos chefes dos sacerdotes e dos mestres
da lei. Eles o condenarão à morte e o
entregarão aos gentios,
34
que zombarão dele, lhe cuspirão, tor-
turarão e finalmente o matarão. Contu-
do, após três dias Ele ressucitará”.
No Reino o servo é o mais poderoso
(Mt 20.20-28)
35
Foi então que Tiago e João, filhos de
Zebedeu, chegaram mais perto dele e lhe
solicitaram: “Mestre, desejamos que nos
concedas o que vamos te pedir”.
36
E lhes indagou Jesus: “Que quereis que
Eu vos faça?”
37
Ao que rogaram: “Permite-nos que,
na tua glória, nos assentemos um à tua
direita e o outro à tua esquerda”.
38
Ponderou-lhes Jesus: “Não sabeis o
que estais pedindo. Podeis vós beber do
cálice que Eu vou beber e ser batizados
9
Para alguns arqueólogos havia nos muros de Jerusalém uma porta muito pequena, chamada de “agulha”, através da qual um
camelo só conseguia passar de joelhos. Por outro lado, é evidente que Jesus procura mostrar o contraste que havia entre o maior
animal da Palestina, na época, e a abertura diminuta de uma agulha comum, usada na confecção das redes e roupas. Isso para
mostrar que não há obra ou habilidade humana que possa granjear mérito suficiente para que alguém tenha acesso ao Reino.
Isso só é possível a Deus, que, por sua vez, oferece esse dom graciosamente aos Seus (Jó 42.2; Zc 8.6; Jo 3.3-6).
10
Nenhuma obra ou ministério tem valor a menos que esse trabalho seja movido pelo amor a Deus e ao próximo (1Co 13.1-3).
A fraternidade produzida pelo Evangelho faz dos cristãos uma grande família (At 2.44-47; 4.32-35; Rm 16.13). Juntamente com as
imensas e deliciosas bênçãos, virão as provas, perseguições e o sofrimento, a fim de moldar o caráter do discípulo à imagem de
Cristo. O julgamento final trará muitas surpresas. É preciso ficarmos alertas em relação ao pecado da arrogância e do orgulho.
Lembremo-nos dos destinos finais de Judas Iscariotes, (que fora escolhido por Jesus como um dos seus Doze apóstolos), e
Paulo, anteriormente um perseguidor de cristãos, e que trocaram de posição no Reino, mesmo nesta vida. O importante não é
começar bem, mas terminar bem.
11
Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Iniciada na cidade de Efraim (Jo 11.54), indo para a Galiléia (Lc 17.11), mais
ao sul a Jericó, passando pela região da Peréia (Lc 18.35), depois até Betânia (Lc 19.29), chegando a Jerusalém (Lc 19.41). Jesus
estava sendo seguido por uma multidão de romeiros a caminho das celebrações da Páscoa em Jerusalém.
Comparando-se mais essa predição da Paixão de Cristo com as demais, encontramos vários detalhes proféticos, todos cum-
pridos nos últimos dias e horas do ministério de Jesus na terra.
MC.indd 31 31/7/2007, 14:33:23
32 MARCOS 10, 11
com o batismo com que estou sendo
batizado?”
12
39
“Podemos!” Replicaram eles. Então
Jesus lhes revelou: “Sim, bebereis o cálice
que Eu bebo e, de fato, recebereis o batis-
mo com que Eu sou batizado;
40
todavia, o assentar-se à minha direita
ou à minha esquerda não cabe a mim
conceder. Esses lugares pertencem àque-
les para quem foram preparados”.
41
Assim que os outros dez ouviram esse
assunto, ficaram indignados contra Tia-
go e João.
42
Jesus, por sua vez, os convocou e
orientou: “Sabeis que aqueles que são
considerados governantes das nações as
dominam e as pessoas importantes exer-
cem poder sobre elas.
43
Contudo, não é assim que ocorre entre
vós. Ao contrário, quem desejar tornar-
se importante entre vós deverá ser servo;
44
e quem ambicionar ser o primeiro
entre vós que se disponha a ser o escravo
de todos.
45
Porquanto, nem mesmo o Filho do
homem veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por
muitos”.
13
A cura do cego Bartimeu
(Mt 20.29-34; Lc 18.35-43)
46
Chegaram pois a Jericó. Quando Jesus
e seus discípulos, e mais uma grande
multidão, estavam deixando a cidade,
o filho de Timeu, chamado Bartimeu,
que era cego, estava assentado à beira do
caminho, pedindo esmolas.
47
Assim que ouviu que era Jesus de Na-
zaré, começou a gritar: “Jesus! Filho de
Davi, tem misericórdia de mim!”
48
Muitos o advertiam severamente para
que se calasse, contudo ele gritava ainda
mais: “Filho de Davi! Tem compaixão de
mim!”
14
49
Foi então que Jesus parou e pediu:
“Chamai-o!” E assim foram chamar o
cego: “Ânimo, homem! Levanta-te, Ele
te chama”.
50
Jogando sua capa para o lado, de um
só salto colocou-se em pé e foi ao encon-
tro de Jesus.
51
Indagou-lhe Jesus: “Que queres que Eu
te faça?” Rogou-lhe o cego: “Raboni, que
eu volte a enxergar!”
15
52
E Jesus lhe ordenou: “Vai em frente,
a tua fé te salvou!” No mesmo instante
o homem recuperou a visão e passou a
seguir a Jesus pelo caminho.
A entrada triunfal de Jesus
(Mt 21.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19)
11
Quando estavam se aproximando
de Jerusalém, chegando a Betfagé
e Betânia, perto do monte das Oliveiras,
enviou então Jesus dois dos seus discí-
pulos,
1
12
A expressão usada originalmente por Jesus, aqui traduzida por “beber do cálice”, significa em hebraico “compartilhar o mes-
mo destino de alguém”. No AT o cálice de vinho era sempre usado como uma metáfora em relação à ira de Deus contra o pecado
e, especialmente, contra a rebelião deliberada do ser humano (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7). Portanto, o cálice
que Jesus tinha de beber diz respeito ao castigo divino dos pecados que Ele mesmo suportou no lugar de toda a humanidade
condenada. Jesus usa a palavra “batismo”, cujo significado tem a ver com “mergulho na água”, para enfatizar seu “mergulho” no
mais profundo dos sofrimentos para nos salvar da pena do afastamento eterno do Pai (Lc 12.50; Rm 6.3,4).
13
Esse é considerado por muitos teólogos e exegetas como o versículo-chave de Marcos: Jesus veio ao mundo como o Único
Servo (só Ele é bom, Ele é a síntese do bem), que viveria e entregaria sua vida à morte para a redenção de todo ser humano
que nele crer; como profetizou claramente Isaías (Is 52.13 – 53.12). A palavra “resgate” em seu sentido original traz o significado
do preço total pago pela libertação de um escravo. No original grego, a palavra diakonos é usada para demonstrar essa atitude
de Jesus, bem como o serviço voluntário, movido por amor, de um cristão em ajuda ao seu próximo. A expressão grega doulos
significa o serviço obrigatório do “escravo” e tem a ver com nosso procedimento dentro da comunidade cristã.
14
Essa é a única passagem em Marcos em que o título messiânico é dirigido a Jesus de Nazaré como forma de tratamento (Is
11.1-3; Jr 23.5,6; Ez 34.23,24; Mt 1.1; 9.27).
15
Bartimeu, falando em aramaico, a língua familiar de Jesus, o chama de raboni ou i rabbúni, que significa: meu mestre.
Capítulo 11
1
Aqui tem início a etapa derradeira do ministério de Jesus, que acontecerá dentro dos limites de Jerusalém, chamada de
Cidade Sagrada. O monte das Oliveiras fica a leste de Jerusalém, chega a uma altura de 823 metros, um pouco mais alto do que
o monte Sião. Do seu cume é possível ter uma linda visão panorâmica da cidade, especialmente do templo.
MC.indd 32 31/7/2007, 14:33:23
33 MARCOS 11
2
e lhes recomendou: “Ide ao povoado
que está logo adiante de vós e, assim
que entrardes, achareis um jumentinho
amarrado, sobre o qual ninguém ainda
montou. Soltai-o e trazei-o aqui.
2
3
Se alguém vos inquirir: ‘Por que fazeis
isso?’ Replicai: ‘O Senhor precisa dele e
sem demora o enviará de volta para aqui’.
4
Eles partiram e logo encontraram um
jumentinho na rua, amarrado a um por-
tão, e o desprenderam.
5
E alguns dos que ali estavam censu-
raram-lhes: “Que fazeis, soltando o
jumentinho?”
6
Eles, todavia, justificaram-se conforme
Jesus os orientara; diante do que lhes
permitiram seguir.
7
E, assim, trouxeram o jumentinho até
onde estava Jesus, selaram-no com seus
mantos, e Jesus o montou.
8
Então, muitas pessoas estendiam seus
mantos pelo caminho, outras espalhavam
ramos que tinham cortado nos campos.
3
9
Tanto os que caminhavam adiante dele,
como os que seguiam após, proclama-
vam: “Hosana! Bendito é o que vem em
nome do Senhor!
10
Bendito seja o Reino vindouro de nos-
so pai Davi! Hosana nos mais elevados
céus!”
4
11
Então, Jesus entrou em Jerusalém e
dirigiu-se ao templo. Observou tudo à
sua volta e, como já era tarde, partiu para
Betânia com os Doze.
Jesus purifica o templo
(Mt 21.12-17; Lc 19.45-48)
12
No dia seguinte, enquanto estavam
saindo de Betânia, Jesus teve fome.
13
E, avistando ao longe uma figueira
com folhas, foi verificar se encontraria
nela algum fruto. Chegando perto dela,
nada encontrou, a não ser folhas, porque
não era a época de figos.
14
Então a repreendeu: “Nunca mais, em
tempo algum, coma alguém fruto de ti!”
E os discípulos escutaram quando pro-
feriu isso.
5
15
Assim que chegou a Jerusalém, Jesus
entrou no templo e começou a expulsar
os que ali estavam apenas comprando e
vendendo. Derrubou as mesas dos cam-
bistas e as cadeiras dos que comercializa-
vam pombas.
6
2
A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, evento assim conhecido pela maneira efusiva com que as multidões aclamaram
essa chegada de Jesus Cristo à Cidade Santa, abre a Semana da Paixão, lembrada dessa forma para marcar os dias em que
Jesus entregou sua própria vida em holocausto, por causa da sua paixão pela humanidade, e para resgatar todo aquele que nele
crer da sentença perpétua do abandono de Deus. Mais uma vez as profecias se cumprem até nos detalhes (Zc 9.9; Mt 21.5; Jo
12.15), como foi o caso de Jesus solicitar um jumentinho sobre o qual ninguém ainda houvesse montado, numa demonstração
do uso santificado dos elementos para o ritual do sacrifício (Nm 19.2; Dt 21.3). Esse foi um ato messiânico deliberado, de Jesus,
revelando-se claramente ao povo como o Messias prometido, e permitindo que os líderes religiosos e políticos que viviam tentan-
do surpreendê-lo em alguma falta, agora passassem a ter um pretexto.
3
Parte das vestes de Jesus foi colocada sobre o lombo do jumentinho. Os profetas do AT foram dirigidos por Deus para minis-
trarem ao povo por meio de atitudes de grande efeito visual e dramático (Jr 19; Ez 4.1-3). A entrada triunfal, como a purificação do
templo, a maldição da figueira, e a ceia do Senhor foram ações dessa natureza. Jesus se apresenta como o Messias. Entretanto,
diferentemente de como imaginavam muitos judeus, sem armas ou exércitos, nem mesmo a natural arrogância dos monarcas e
grandes líderes. Jesus foi o Messias da Paz (Lc 19.38-40).
4
A expressão hebraica hosana já era de uso comum (e por isso Marcos não a traduz para o grego) e proferida na aclamação
de reis e governadores. O verso 10 indica que o povo reconheceu plenamente em Jesus a pessoa do Messias. O vocábulo tem
origem na antigüidade judaica e foi usado por Davi em seus salmos de Hallel (Louvor). A passagem do Sl 118.25,26 era cantada l
na ocasião da celebração da Páscoa e como expressão de boas-vindas proferida pelos sacerdotes aos peregrinos de todas as
partes que chegavam a Jerusalém. Portanto, muito adequada para aquele momento. Hosana tornou-se um grito de júbilo e louvor
a Deus por seus feitos maravilhosos.
5
As figueiras da região de Jerusalém costumam brotar folhas novas no final de março, mas só produzem frutos quando toda
folhagem está completa, por volta de junho. Essa figueira – como Israel – era uma exceção, já estava coberta de folhas muito an-
tes do tempo, na Páscoa, mas sem oferecer nenhum fruto. O episódio serviu de grande recurso didático para que Jesus revelasse
especialmente aos discípulos mais uma parábola sobre o Juízo, com a figueira servindo de perfeita ilustração (Os 9.10; Na 3.12).
O acontecimento no templo e o evento com a figueira explicam-se mutuamente.
6
Jesus dirigiu-se ao “átrio dos gentios”, a única parte do templo em que os gentios tinham acesso permitido para adorar a Deus
e reunir-se para as orações. Os romeiros que vinham de todas as partes da Palestina, para as celebrações da Páscoa, tinham de
MC.indd 33 31/7/2007, 14:33:24
34 MARCOS 11
16
Também não permitia que ninguém
transportasse mercadorias pelo templo.
17
E os admoestava exclamando: “Não
está escrito: ‘A minha casa será chamada
casa de oração para todos os povos’? Vós,
contudo, a tendes transformado em ‘co-
vil de ladrões’”.
18
Os chefes dos sacerdotes e os mestres
da lei escutaram essas críticas e começa-
ram a tramar um meio para assassiná-lo,
pois o temiam, haja vista que todo o
povo estava maravilhado com o seu sa-
ber e ministração.
7
19
E, ao pôr-do-sol, eles saíram da cidade.
O poder da oração de fé
(Mt 21.18-22)
20
E, caminhando eles pela manhã, viram
que a figueira secara desde as raízes.
8
21
Pedro, recordando-se do ocorrido, in-
formou a Jesus: “Rabbi! Eis que a figueira
que amaldiçoaste secou!”
22
Observou-lhes Jesus: “Tende fé em
Deus!
9
23
E, com toda a certeza eu vos asseguro,
que se qualquer pessoa ordenar a este
monte: ‘Levanta-te e lança-te no mar, e
não houver dúvida em seu coração, mas
crer que se realizará o que pede, assim
lhe será feito’.
24
Portanto, vos afirmo: Tudo quanto em
oração pedirdes, tenhais fé que já o rece-
bestes, e assim vos sucederá.
25
Mas, quando estiverdes orando, se
tiverdes algum ressentimento contra al-
guma pessoa, perdoai-a, para que, igual-
mente, vosso Pai celestial vos perdoe as
vossas ofensas.
26
Entretanto, se não perdoardes, vosso
Pai que está nos céus também não vos
perdoará os vossos pecados”.
A autoridade de Jesus é divina
(Mt 21.23-27; Lc 20.1-8)
27
Mais tarde, chegaram outra vez a Jeru-
salém. E Jesus, ao caminhar pelo templo,
foi abordado pelos chefes dos sacerdotes,
os mestres da lei e os líderes religiosos,
que lhe questionaram:
28
“Com que autoridade ages como vens
agindo? Ou quem te outorgou tal autori-
dade para fazeres o que fazes?
10
29
Jesus lhes replicou: “Eu também vos
proporei uma questão; respondei-me,
e Eu vos revelarei com que autoridade
tenho ministrado.
30
O batismo de João provinha do céu ou
dos seres humanos? Replicai-me pois!”
31
E aconteceu que eles passaram a discu-
tir entre si: “Se afirmarmos: Do céu, ele
nos indagará: ‘Então, por qual razão não
acreditastes nele?’
comprar animais que satisfizessem as exigências rituais. Os sacerdotes mantinham um acordo com os vendedores e somente os
animais comprados (a preços exorbitantes) dentro dessa área do templo recebiam uma espécie de visto de aprovação sacerdotal:
“sem defeito” e, portanto eram aceitos na hora do sacrifício. Ao lado dos abrigos dos animais, os vendedores montavam mesas
para troca (câmbio) do dinheiro estrangeiro pela moeda local. As pombas eram oferecidas para a purificação das mulheres (Lv
12.6; Lc 2.22-24) e para determinadas doenças de pele (Lv 14.22), além de outros fins específicos (Lv 15.14,29). Havia também as
ofertas que deviam ser entregues pelos pobres (Lv 5.7), e vários outros tipos de sacrifícios. Jesus entrou no templo naquele dia
como o verdadeiro Sumo Sacerdote (Ml 3.1) e agiu como responsável que é sobre o Templo do Espírito de Deus.
7
A indignação dos líderes religiosos é compreensível. Afinal eram os sacerdotes e seus chefes, Anás e Caifás, que embolsavam
7
o lucro ilícito do comércio geral no templo.
8
Esta era a manhã de terça-feira da Paixão. O detalhe salientado por Marcos, informando que a figueira estava seca desde as
raízes, foi uma admoestação ao grave estado de corrupção do povo de Israel a partir dos seus líderes religiosos máximos, e o
aviso de que a destruição seria absoluta (Jo 18.16). Além disso, ninguém mais, em futuro algum, seria beneficiado pelos frutos
espirituais de Israel. Uma vívida ilustração do terrível juízo que ocorreria no ano 70 d.C. (Mt 24.2).
9
Pedro observa que a figueira secou completamente, de um dia para o outro, e se dirige a Jesus em hebraico usando a
expressão: Rabbi, que significa: “meu mestre”. Jesus ensina que a nossa fé (que em hebraico tem o sentido de depositar toda
a confiança), deve ser dedicada de forma pura e absoluta a Deus, o Pai. Mesmo a fé em Jesus é fé em Deus, que o enviou e o
declarou Seu Filho pleno em poder (Jo 5.24; Rm 1.4; Fl 2.9). Era comum entre os mestres judaicos da época o uso da expressão
“remover montes” em relação à solução de problemas muito complicados de interpretação e aplicação prática da Lei. Do alto do
monte das Oliveiras era possível avistar o mar Morto. Quem ora com verdadeira fé em Deus não enfrenta dificuldades insolúveis
nem insuportáveis; é vital não duvidar e não guardar rancor (Tg 1.6; 2.4).
10
O Sinédrio perguntava ao Senhor por que ele estava realizando um ato oficial sem reter cargo formal (Lc 20.2).
MC.indd 34 31/7/2007, 14:33:25
35 MARCOS 11, 12
32
Se, por outro lado, declararmos: Dos
seres humanos...” Neste caso, temiam as
multidões, pois todos realmente consi-
deravam João um profeta.
33
Finalmente responderam a Jesus: “Não
sabemos!” E, Jesus, por sua vez, concluiu-
lhes: “Ora, nem Eu tampouco vos revela-
rei com que autoridade estou realizando
estas obras!”
11
Parábola dos vinicultores maus
(Mt 21.33-46; Lc 20.9-19)
12
Jesus então passou a ministrar-
lhes por meio de parábolas: “Cer-
to homem plantou uma vinha, ergueu
uma cerca ao redor dela, cavou um tanque
para esmagar as uvas e construiu uma tor-
re de vigia. Depois arrendou a vinha para
alguns lavradores e partiu de viagem.
1
2
Chegando a época da colheita, enviou um
servo aos lavradores, com o objetivo de re-
ceber deles sua parte do fruto da vinha.
2
3
No entanto, eles o agarraram, o espan-
caram e o mandaram embora de mãos
vazias.
4
Então lhes enviou um outro servo; e
também lhe bateram na cabeça e o hu-
milharam.
5
E enviou outro ainda, o qual assassina-
ram. Então enviou muitos outros; mas a
alguns agrediram e a outros mataram.
6
Finalmente, restava-lhe enviar seu
próprio e amado filho; a este lhes enviou
com a seguinte intenção: ‘A meu filho
respeitarão’.
3
7
Todavia, aqueles lavradores combina-
ram entre si: ‘Este é o herdeiro! Ora, ve-
nham, vamos matá-lo, e assim a herança
será toda nossa’.
4
8
Então o agarraram, assassinaram e o
jogaram para fora da vinha.
9
Diante disso o que fará o proprietá-
rio da vinha? Virá, destruirá aqueles
lavradores e outorgará a vinha a outros
vinicultores.
10
Ainda não lestes esta passagem nas
Escrituras? ‘A pedra que os construtores
rejeitaram, essa veio a ser a pedra princi-
pal, angular;
11
isto procede do Senhor, e é obra de
grande maravilha para todos nós’”.
5
12
Por isso começaram a tramar um jeito de
prendê-lo, pois perceberam que Ele havia
narrado aquela história com o propósito
de acusá-los. Contudo, tinham receio da
multidão; e acharam melhor se afastarem.
Adorar a Deus e honrar o Estado
(Mt 22.15-22; Lc 20.19-26)
13
Mais tarde enviaram a Jesus alguns dos
fariseus e herodianos para tentar conde-
ná-lo em alguma palavra que proferisse.
6
11
Os judeus usavam a expressão “céu” ou “céus”, muitas vezes em substituição ao vocábulo divino “Deus” (ou como muitos
judeus grafam ainda hoje: “D-us”), procurando evitar, assim, um possível mau uso do nome de Deus (Êx 20.7). Com sua pergunta
j p ç (
Jesus deu a entender que sua autoridade provinha de Deus, da mesma maneira que o batismo de João.
Capítulo 12
1
Jesus continua a falar com os mesmos líderes religiosos de 11.27. Esta história ilustrativa e repleta de ensinamentos (pará-
bola) fala dos homens que desconfiam da autoridade divina de Jesus. As expressões hebraicas: “plantou uma vinha”, “cerca ao
redor”, “cavou um tanque”, “torre de vigia” vêm citadas na versão grega de Isaías 5.1,2, na tradução das Escrituras chamada
Septuaginta ou, simplesmente “LXX”.
2
A palavra “servo” aqui usada é doulos (em grego: escravo). Neste caso indica uma das grandes características do Profeta de
Jeová, do AT: “obediente e submisso a Deus” (Jr 7.25; Am 3.7; Zc 1.4).
3
A derradeira possibilidade de reconciliação dos seres humanos com o Criador está na intermediação de Cristo, o Filho
amado. A ênfase de todo o NT está na incomparabilidade de Jesus Cristo (Hb 1.1,2). Quem rejeitar o Filho fica sem qualquer
esperança de aceitação da parte de Deus, o Pai.
4
Pela lei judaica, em vigor na época, qualquer propriedade não reclamada por seu herdeiro legal passava a ser declarada
“terra sem dono”, e poderia ser outorgada propriedade da primeira pessoa que se identificasse como dono dessas terras. Os
vinicultores, embriagados pela avareza e cobiça, logo perceberam que assassinando o filho do dono poderiam tornar-se os novos
e ricos proprietários das terras.
5
Esta passagem é composta integralmente com expressões extraídas da tradução grega Septuaginta (LXX) do Salmo
118.22,23. A pedra principal ou angular era a pedra que unia e completava as grandes construções da época (At 4.11; 1Pe 2.7,8).
Deus permitiu o assassinato de seu Filho único, apenas para, em seguida, exaltá-lo como Senhor supremo e Juiz dos pecadores
inveterados (Fp 2.6-11).
6
Este episódio ocorreu na terça-feira da Paixão, em um dos átrios do templo. Os herodianos eram partidários de Herodes
MC.indd 35 31/7/2007, 14:33:25
36 MARCOS 12
14
E, ao se aproximarem, lhe questiona-
ram: “Mestre, sabemos que és verdadei-
ro e que não te deixas influenciar por
ninguém, pois não te impressionas com
a aparência exterior das pessoas, mas
ensinas o caminho de Deus em confor-
midade com a mais pura verdade. Assim
sendo, diga-nos, é lícito pagar imposto a
César ou não?
15
Devemos pagar ou podemos nos recu-
sar?”. Jesus, porém, conhecendo o quão
hipócritas estavam sendo, lhes inquiriu:
“Por que me tentais? Trazei-me um de-
nário para que Eu o veja!”
16
E eles lhe trouxeram a moeda, ao que
Ele lhes indagou: “De quem é esta ima-
gem e esta inscrição?”
17
“Ora, de César”, replicaram eles.
18
Então Jesus lhes asseverou: “Dai a Cé-
sar o que é de César e a Deus o que é de
Deus!” E todos ficaram pasmos com Ele.
7
A ressurreição de todos os mortos
(Mt 22.23-33; Lc 20.27-40)
18
Depois chegaram os saduceus, que
pregam não haver qualquer ressurreição,
com a seguinte questão:
8
19
“Mestre, Moisés nos deixou escrito que,
se um homem morrer e deixar sua esposa
sem filhos, seu irmão deverá se casar com
a viúva e gerar filhos para seu irmão.
20
Ora, havia sete irmãos. O primeiro
casou-se e faleceu sem deixar filhos.
21
Então o segundo desposou a viúva,
mas também morreu sem deixar des-
cendentes. O mesmo ocorreu com o
terceiro.
22
E, dessa forma, nenhum dos sete ir-
mãos deixou filhos. Finalmente, faleceu
também a mulher.
23
Na ressurreição, de quem essa mulher
será esposa, haja vista que os sete irmãos
foram casados com ela?”.
24
Então Jesus os admoestou: “Não é
sem motivo que errais tanto, pois não
compreendeis as Escrituras nem o poder
de Deus!
9
25
Quando os mortos ressuscitam não
se casam mais, nem são dados em ca-
samento. Pois se tornam como os anjos
nos céus.
26
A respeito da ressurreição dos mortos,
ainda não tendes lido no livro de Moisés,
no texto referente à sarça, como Deus lhe
declarou: ‘Eu Sou o Deus de Abraão, o
Deus de Isaque e o Deus de Jacó?’
27
Ora, Ele não é Deus de mortos, e sim
o Deus dos vivos!’. Estais absolutamente
enganados!”
10
O principal dos mandamentos
(Mt 22.34-40; Lc 10.25-28)
28
Um dos mestres da lei achegou-se e os
ouviu argumentando. Observando como
Antipas, rei da Galiléia. O plano para matar Jesus, tramado logo depois do início do seu ministério na Galiléia, estava agora
amadurecendo rapidamente e ganhava força nos meios religiosos e políticos de Jerusalém.
7
O NT apresenta alguns princípios básicos referentes à nossa obediência ao Estado: 1) O Estado não é maior nem mais
poderoso que o Senhor. Deve, portanto, ser submisso à vontade expressa de Deus (Rm 13.1). 2) O Estado tem deveres e direitos
para com seu povo que, por sua vez, também deve cumprir com suas responsabilidades cívicas. Existem obrigações para com
o Estado que não entram em choque com nossas obrigações prioritárias para com Deus (Rm 13.1-7; 1Tm 2.1-6; Tt 3.1,2; 1Pe
2.13-17). 3) O limite dessas responsabilidades para com o Estado não deve ultrapassar a vontade de Deus, claramente expressa
pelo Espírito Santo aos cristãos e escrita em Sua Palavra (At 4.19).
8
Os saduceus representavam o partido judaico aristocrata dos sacerdotes e das classes ricas, na época subordinado aos
romanos. Estabelecidos principalmente em Jerusalém, fizeram do templo e de sua administração seu interesse principal. Embora
pequeno em número, na época de Jesus, esse grupo exerceu poderosa e decisiva influência política e religiosa em Israel, e até
em Roma. Negavam a ressurreição dos mortos, aceitavam somente a autoridade divina dos primeiros cinco livros de Moisés
(o Pentateuco ou a Torá), e rejeitavam totalmente a tradição oral dos judeus. Essas doutrinas geravam grande conflito entre os
saduceus, os fariseus e a fé comum judaica.
9
As doutrinas e pressuposições teológicas dos saduceus os incapacitavam de entender coerentemente (conhecer) o AT como
um todo e não apenas o Pentateuco.
10
Era comum os mestres judeus referirem-se ao evento da “sarça” ao falar do maravilhoso encontro de Deus com Moisés
no deserto ou para lembrar o texto bíblico de Êx 3.1-6 (ver Rm 11.2, em que “Elias” se refere a 1Rs 19.1-10). Nesta passagem,
Jesus confirma a inspiração e a historicidade do texto de Êx 3. Os planos do Criador e Fonte da vida não serão vencidos pela
MC.indd 36 31/7/2007, 14:33:26
37 MARCOS 12
Jesus lhes houvera respondido esplendida-
mente, perguntou-lhe: “De todos os man-
damentos, qual é o mais importante?”
11
29
Esclareceu-lhe Jesus: “O mais impor-
tante de todos os mandamentos é este:
‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus é
o único Senhor.
30
Amarás, portanto, o Senhor, teu Deus,
de todo o teu coração, de toda a tua alma,
de todo o teu entendimento e de toda a
tua força’.
12
31
E o segundo é: ‘Amarás o teu próximo
como a ti mesmo’. Não existe qualquer
outro mandamento maior do que estes”.
32
Então o escriba exaltou Jesus: “Muito
bem, Mestre! Estás absolutamente certo
ao afirmares que Deus é único e que não
existe outro que se compare a Ele.
33
E que amar a Deus de todo o coração e
de todo o entendimento, e com todas as
forças, bem como amar ao próximo como
a si mesmo é muito mais importante do
que todos os sacrifícios e ofertas juntos”.
34
Jesus, por sua vez, vendo que o ho-
mem havia respondido com sabedoria,
revelou-lhe: “Não estás distante do Rei-
no de Deus!” E, a partir disto, não havia
mais alguém que ousasse lhe questionar
coisa alguma.
Cristo é o Senhor de Davi
(Mt 22.41-46; Lc 20.41-44)
35
Mais tarde, Jesus estava ensinando no
templo, quando levantou uma questão:
“Como podem os mestres da lei pregar
que o Cristo é filho de Davi?
36
Sendo que o próprio Davi, expressan-
do-se pelo Espírito, afirmou: ‘O Senhor
disse ao meu Senhor: Senta-te à minha
direita, até que Eu ponha os teus inimi-
gos debaixo de teus pés’.
13
37
Se o próprio Davi o chama de ‘Se-
nhor’. Como é possível, então, ser Ele
seu filho?” E numeroso ajuntamento de
pessoas o ouvia com grande deleite!
Jesus condena os escribas
(Mt 23.1-7,14; Lc 20.45-47)
38
E, continuando seu ensino, advertia
Jesus: “Acautelai-vos dos escribas. Pois
eles fazem questão de andar com roupas
especiais e de receber saudações em pra-
ças públicas,
14
39
de sentar nos lugares de maior des-
taque nas sinagogas, e ainda de ocupar
as posições mais honrosas à mesa dos
grandes banquetes.
15
40
Eles devoram as casas das viúvas e,
para dissimular, fazem longas orações.
morte, nem pelo pecado (Sl 73.23). Deus é Senhor dos vivos, pois ainda que morramos, seremos ressuscitados e estaremos
vivos para sempre.
11
Os antigos rabinos judeus contavam 613 ordenanças da Lei e procuravam diferenciar entre mandamentos “pesados” ou
“mais importantes” (graves), e aqueles considerados “leves” ou “menos importantes”. Os escribas eram fariseus, teólogos e
eruditos da lei, criadores e transmissores da interpretação tradicional dos mandamentos de Deus.
12
Jesus recita o Shema, em razão de ser a primeira palavra hebraica de Dt 6.4, que significa “Ouve” (preste atenção para
praticar). Citar este trecho das Escrituras tornou-se uma espécie de confissão de fé judaica, recitada por judeus piedosos e con-
sagrados, todas as manhãs e ao pôr-do-sol. Até hoje é usada para iniciar os cultos nas sinagogas em todo o mundo. No entanto,
especialmente na vida dos líderes religiosos que combatiam Jesus, o Shema havia se tornado apenas uma “reza” ou “oráculo”,
repetição meramente ritualística de palavras, as quais se imagina que possam tocar a divindade. Jesus resgatou o verdadeiro
sentido do Shema e acrescentou-lhe o mandamento de Lv 19.18, para demonstrar que é impossível amar a Deus sem honrar ao
próximo com o mesmo sentimento de cuidado que devotamos a nós mesmos. O amor a Deus tem como expressão natural o
amor aos irmãos de raça e à terra em geral. O primeiro e o segundo mandamentos são inseparáveis (1Jo 4.20). Agostinho pro-
clamou: “Ama a Deus e faze o que queres”, pois o amor sincero a Deus purifica todas as nossas intenções. A ênfase na unidade
absoluta do Deus único é usada para negar qualquer idéia de politeísmo, comum a todos os povos não judeus da antigüidade.
13
Jesus usa habilmente as Sagradas Escrituras para mostrar que o Cristo (o Messias) era mais que descendente de Davi. Era
o Senhor de Davi (Sl 110.1).
14
Os escribas (mestres da lei) gostavam de usar túnicas compridas de linho branco com franjas que quase tocavam o chão.
Colocavam boa parte de sua respeitabilidade na aparência exterior.
15
Os lugares mais destacados e importantes nas sinagogas ficavam em frente a uma réplica da “Arca” que era usada para
guardar os rolos sagrados (cópias manuscritas dos originais). Aqueles que tinham o privilégio de sentar-se ali podiam ser vistos
na sinagoga por toda a congregação.
MC.indd 37 31/7/2007, 14:33:26
38 MARCOS 12, 13
Estes, certamente, receberão condenação
ainda mais severa!”
16
A valiosa oferta da viúva pobre
(Lc 21.1-4)
41
E Jesus foi sentar-se em frente ao local
onde eram depositadas as contribuições
financeiras e observava a multidão colo-
cando o dinheiro nas caixas de coleta de
ofertas. Muitos ricos lançavam ali gran-
des quantias.
17
42
Foi então que uma viúva pobre se
aproximou e depositou duas moedas
bem pequenas, de cobre e, portanto, de
bem pouco valor.
18
43
E chamando para perto de si os seus
discípulos, Jesus lhes declarou: “Com toda
a certeza vos afirmo que esta viúva pobre
depositou no gazofilácio mais do que o
fizeram todos os demais ofertantes.
44
Porquanto, todos eles ofertaram do
que lhes sobrava; aquela senhora, entre-
tanto, da sua penúria deu tudo quanto
possuía, todo o seu sustento”.
Os sinais do final dos tempos
(Mt 24.1-35; Lc 21.5-37)
13
E ocorreu que ao sair Jesus do
templo, observou-lhe um de seus
discípulos: “Olhai Mestre! Que pedras
enormes. Que construções magníficas!”
1
2
Entretanto Jesus lhe revelou: “Vês estas
suntuosas construções? Pois aqui não
restará pedra sobre pedra; serão todas
derrubadas!”
3
Então, havendo Jesus se assentado no
monte das Oliveiras, de frente para o
templo, Pedro, Tiago, João e André o
consultaram em particular:
4
“Dize-nos quando acontecerão estes
eventos, e que sinal haverá quando todos
eles estiverem prestes a cumprir-se?”
5
E Jesus passou a preveni-los: “Vede que
pessoa alguma vos induza ao erro.
2
6
Pois serão muitos os que virão em meu
nome, afirmando: ‘Sou eu’; e iludirão
multidões.
7
No entanto, assim que ouvirem notí-
cias sobre guerras e rumores de guerras,
16
Os mestres da lei não recebiam um salário fixo e regular. Dependiam de ofertas voluntárias dos irmãos judeus. As senhoras
viúvas eram, em geral, as mais generosas e muitas vezes vítimas de exploração.
17
Os gazofilácios ou caixas de ofertas ficavam no átrio das mulheres. Nele se achavam treze receptáculos em forma de trombe-
7
ta para receber as contribuições trazidas pelos adoradores. De maneira curiosa, os homens tinham permissão para entrar nesse
recinto, mas as mulheres não podiam ir a qualquer outra parte do templo.
18
As moedas de cobre (em grego, lepta, “finas”) eram as menores em circulação em toda a Palestina e correspondiam ao
mínimo valor monetário, valiam apenas 1/6 de um denário. Todavia Jesus observou o desprendimento da pobre senhora que
ofereceu ao Senhor tudo o que tinha (2Co 8.12).
Capítulo 13
1
Este capítulo é conhecido por muitos teólogos como “O Sermão Profético”, é também chamado de “Pequeno Apocalipse”.
Marcos consegue sintetizar as grandes e dramáticas verdades em relação aos sinais que surgirão na terra prenunciando o
iminente e glorioso retorno de Cristo, o final dos tempos e o início de uma nova era (Mt 24; Lc 21 e todo o Apocalipse). O
propósito de Marcos não é esclarecer os seus leitores sobre os eventos futuros, mas sim encorajar os cristãos a resistir ao mal;
permanecer firmes na fé em Jesus, não importa o quanto às circunstâncias possam ser adversas; manter sempre a Esperança
e estar pronto, a todo o momento, para o magnífico encontro com Cristo em glória. O Templo era uma construção suntuosa e
exemplar. Refletia o poder e a capacidade do gênio humano. Herodes, o Grande, começou sua reconstrução no século 19 a.C.,
tornando-a uma das maravilhas do mundo antigo. O historiador judeu Flavio Josefo dizia que as pedras talhadas e usadas na
construção eram brancas e muitas mediam até 11,5m de comprimento, 3,7m de altura e 5,5m de largura. Contudo, no ano 70
d.C., antes mesmo da sua conclusão (14.58; 15.29; Jo 2.19, Mt 23.38), o Templo foi completamente destruído, a ponto de não
ficar uma só pedra sobre outra. Jerusalém foi toda queimada, as praças públicas tornaram-se lagos de sangue e os soldados
romanos cobriram, com sal, os cadáveres e todo o chão da cidade. Esse foi o grande sinal do início dos eventos que marcarão
o final dos tempos e da humanidade como a conhecemos hoje. Portanto, a volta triunfal de Cristo pode ocorrer a qualquer
momento em nossos dias.
2
Um dos principais propósitos deste sermão é alertar os discípulos quanto ao perigo dos ataques místicos de enganadores
e falsos profetas. Durante séculos essas pessoas têm surgido em toda a terra, iludindo e destruindo inúmeras vidas humanas. À
medida que o final dos tempos se aproxima, mais defraudadores da verdade arrebanharão multidões de incautos. Por isso Jesus
enfatiza o cuidado e o zelo, usando expressões como “ficai vós alertas”, “estai vigilantes” e “vigiai” (9, 23, 33, 35, 37).
MC.indd 38 31/7/2007, 14:33:27
39 MARCOS 13
não vos assusteis; é necessário que assim
ocorra, contudo, ainda não é o fim.
3
8
Porquanto nação se levantará contra
nação, e reino contra reino. Sucederão
terremotos em vários lugares e muita
fome por toda parte. Esses acontecimen-
tos são o início das dores!
9
Ficai vós alertas, pois vos denuncia-
rão aos tribunais e sereis açoitados nas
sinagogas. Por minha causa vos farão
comparecer à presença de governadores
e reis, e isso se constituirá em testemu-
nho para eles.
4
10
Contudo, é indispensável que pri-
meiro o Evangelho seja anunciado para
todas as nações.
5
11
Todas as vezes que fordes presos e le-
vados a julgamento, não vos preocupeis
com o que haveis de declarar, porém, o
que vos for concedido naquele momen-
to, isso proclamai; porque não sois vós os
que falais, mas, sim, o Espírito Santo!
12
E sucederá que um irmão trairá seu
próprio irmão, entregando-o à morte, e
dessa mesma maneira agirá o pai para
com seu filho. Filhos haverá que se re-
voltarão contra seus próprios pais e os
assassinarão.
13
Sereis odiados de todos por minha
causa, todavia, aquele que permanecer
firme até o seu fim receberá a glória da
salvação.
A grande tribulação
(Mt 24.15-28; Lc 21-24)
14
Então, quando virdes o sacrilégio
horrível posicionado no lugar onde não
deve estar (aquele que lê as Escrituras
entenderá), os que estiverem na Judéia
fujam para os montes.
15
Quem estiver sobre a laje que cobre as
vossas casas, não desça nem entre para
retirar dela qualquer de vossos perten-
ces.
6
16
Quem estiver no campo não retorne
para apanhar seu manto.
17
Como serão terríveis aqueles dias,
principalmente para as grávidas e para as
mães que estiverem amamentando!
18
Orem para que estes eventos não ve-
nham a ocorrer no inverno.
19
Pois aqueles serão dias de tamanho
sofrimento, como jamais houve desde
que Deus criou o mundo até agora, nem
nunca mais haverá.
20
Portanto, se o Senhor não tivesse re-
duzido aquele período, nenhum ser de
carne e osso sobreviveria. Contudo, por
causa dos eleitos por Ele escolhidos, tais
dias foram abreviados pelo Senhor.
7
21
Se, todavia, alguém lhes anunciar: ‘Eis
aqui o Cristo!’ Ou ainda: ‘Ei-lo logo ali!’
Não deis qualquer crédito a isso!
22
Pois surgirão falsos cristos e falsos
profetas, realizando sinais e maravilhas,
3
Jesus se refere ao final da História da Criação e encoraja os cristãos a não se desesperarem, pois assim deve prosseguir a
História (Rm 8.22; Hb 12.26). Os falsos mestres e a própria perversão do sistema político, religioso, econômico e social mundial
apressarão a volta do Senhor. Entretanto, o cristão, por estar salvo, não deve pensar de forma egoísta: “quanto pior, melhor”. Mas,
sim, em tornar-se um canal de bênçãos para a salvação do maior número de pessoas possível.
4
Perseguições e incompreensões aguardam todos aqueles que se lançam ao desafio da proclamação do Evangelho em todo
o mundo. Os tribunais religiosos eram dirigidos pelos anciãos (administradores) das sinagogas. As infrações dos regulamentos e
estatutos judaicos eram sujeitos a uma punição de até 39 açoites (At 8.1; 9.1; 2Co 11.23,24). Contudo, governadores, reis e grandes
autoridades (judeus e gentios) terão a oportunidade de receber o Evangelho do Senhor por meio do testemunho dos cristãos.
5
Jesus prediz que o Evangelho será pregado em todas as nações (em grego: ethnç, a mesma palavra para “gentios”). Todos
os gentios sobre a face da terra terão ao menos uma oportunidade de ouvir e receber o Evangelho, e não apenas os judeus (Ap
7). Infelizmente, isso não quer dizer que o mundo se tornará melhor e mais cristão com o passar do tempo, mas que é missão
da Igreja ir e proclamar.
6
Aquele que perseverar será salvo do Juízo final, não das perseguições temporais em virtude da sua fé em Jesus Cristo. A
expressão aqui traduzida por “laje” tem a ver com um tipo especial de cobertura plana das casas judaicas na época de Cristo,
muito diferente dos tradicionais telhados brasileiros e europeus (Mt 24.17; Mc 2.4; Lc 17.31).
7
O Senhor toma o cuidado de não ser muito claro em suas profecias para que apenas aqueles fiéis, que se dedicam à oração
7
e ao estudo da Palavra, possam compreender o verdadeiro sentido das predições. Especialmente as dos versos 14 a 20, para as
quais, muitos anos mais tarde, Lucas nos legaria sua interpretação (Lc 21), tendo em vista os acontecimentos que culminaram
com a destruição de Jerusalém, entre os anos 66 e 70 d.C., de cujos fatos ele foi testemunha ocular. Os ídolos do imperador e as
atitudes bárbaras dos soldados romanos, absolutamente tomados pelo ódio, profanaram o Templo em 70 d.C. (Dn 9.27; 11.31;
MC.indd 39 31/7/2007, 14:33:27
40 MARCOS 13, 14
com o objetivo de enganar, se possível, os
próprios eleitos.
8
23
Desse modo estai vigilantes, pois sobre
tudo isso vos avisei com antecedência!
O glorioso retorno de Jesus
(Mt 24.29-31; Lc 21.25-28)
24
Porém, naqueles dias, depois do referi-
do período de tribulação, ‘o sol escurece-
rá e a lua não dará a sua luz;
9
25
as estrelas cairão do céu e os poderes
celestes serão abalados’.
26
Então o Filho do homem será visto
chegando nas nuvens, com grande poder
e glória.
27
Ele enviará os seus anjos e reunirá
os seus eleitos dos quatro ventos, das
extremidades da terra até os confins
do céu.
A parábola da boa figueira
(Mt 24.32-44; Lc 21.29-36)
28
Portanto, aprendei com o ensino da fi-
gueira: Quando seus ramos se renovam e
suas folhas começam a brotar, sabeis que
o verão vem chegando.
29
Dessa mesma maneira, assim que ob-
servardes esses eventos ocorrendo, sabei
que o tempo está próximo, já às portas.
30
Com toda a certeza vos afirmo que não
passará esta geração até que todos esses
eventos ocorram.
10
31
Os céus e a terra passarão, contudo as
minhas palavras nunca passarão.
Só Deus sabe o dia e a hora. Vigiai!
(Mt 24.36-51)
32
Todavia, a respeito daquele dia ou hora
ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem
o Filho do homem, senão apenas o Pai.
33
Estai, pois, atentos e vigiai! Porquanto
não cabe a vós saber quando será este
tempo.
34
É como um homem que viaja para ou-
p
tro país e, deixando a sua casa, encarrega
cada um de seus servos das suas tarefas e
ordena ao porteiro que vigie.
11
35
Vigiai, pois, uma vez que não sabeis
quando regressará o dono da casa: se à
tarde, à meia-noite, ao cantar do galo ou
mesmo ao raiar do dia.
36
E, em vindo repentinamente, que não
vos surpreenda dormindo.
37
O que vos tenho dito, proclamo a to-
dos: Vigiai!”
12
Trama para matar Jesus
(Mt 26.1-5; Lc 22.1-2)
14
Restavam somente dois dias para
a Páscoa e para a festa dos pães
12.11) e tornaram-se uma advertência explícita, quanto ao que, no futuro, o anticristo poderá fazer contra os cristãos e a Igreja, o
Templo de Deus na atualidade (2Ts 2.4; 1Pe 2.5).
8
Satanás é o pai da mentira, do engano e do ódio. Seu plano é, antes do final do seu domínio sobre o mundo, enganar e iludir
o maior número de seres humanos que puder. Com especial empenho em relação àqueles que foram chamados pelo Senhor
para a Salvação e uma nova vida em Cristo (Jo 8.44; 1Jo 2.26,27).
9
O foco dessa passagem está sobre o glorioso retorno de Jesus Cristo (Dn 7.13). As profecias anteriores são indicativos do
grande evento do fim. Os fenômenos astronômicos e climáticos são registrados sempre do ponto de vista do observador leigo
e sem preocupação científica. Pois era vital apresentar aos povos de todas as épocas, culturas e línguas as grandes pistas da
volta triunfal de Cristo, o final das eras, o Juízo e o estabelecimento de uma nova ordem na terra sob o governo de Jesus, o Rei
do Universo (Is 13.10; 24.4; Am 8.9; Dn 7.13; Ap 1.7; 21.1-4). Deus realizará seu sonho de reunir todo o seu povo disperso (seus
eleitos e amados), de todas as partes e épocas, em torno de si, em espírito de adoração e fraternidade absoluta (Gn 16.7; Ap
14.14-16 com Dt 30.3,4; Is 43.6; Jr 32.37; Ez 34.13; 36.24).
10
O cumprimento das profecias referentes à destruição total de Jerusalém foi visto pela geração contemporânea de Jesus
Cristo, inclusive por alguns dos seus discípulos. Além disso, o Senhor é o Deus dos vivos; e, portanto, aqueles que nele crêem
não morrem (no sentido de serem destruídos ou deixarem de existir), mas – como adormecidos – aguardam seguros o grande dia
da volta de Cristo e a ressurreição dos justos para a glória eterna (os ímpios, para o Juízo e a condenação sem fim).
11
Os verdadeiros cristãos recebem os dons do Espírito para capacitá-los a servir ao Senhor, aos irmãos e ao mundo perdido
(1Co 12; Rm 12; 1Pe 4.10). O termo “porteiro” tem o mesmo sentido do “mordomo” de Lc 12.42, e refere-se principal-mente aos
líderes espirituais da Igreja.
12
Jesus consegue resumir numa única e simples expressão: Vigiai, todas as principais obrigações que qualquer pessoa – que
o siga como discípulo (com fé e devoção) – deva cumprir até o seu glorioso retorno.
MC.indd 40 31/7/2007, 14:33:28
41 MARCOS 14
sem fermento. Os chefes dos sacerdotes
e os mestres da lei buscavam um meio
de surpreender Jesus em qualquer erro e
assim poder condená-lo à morte.
1
2
Entretanto, comentavam: “Que não
seja durante as festividades, para que o
povo não se tumultue”.
Jesus é ungido em Betânia
(Mt 26.6-13; Jo 12.1-8)
3
E estando Jesus em Betânia, reclinado à
mesa na casa de certo homem conhecido
como Pedro, o leproso, achegou-se dele
uma mulher portando um frasco de ala-
bastro contendo valioso perfume, feito
de nardo puro; e, quebrando o alabastro,
derramou todo o bálsamo sobre a cabeça
de Jesus.
2
4
Diante disso, indignaram-se alguns dos
presentes, e a criticavam entre si: “Para que
este desperdício de tão valioso perfume?
5
Um bálsamo como este poderia ser
vendido por trezentos denários, e o di-
nheiro ser doado aos pobres”. E a censu-
ravam severamente.
3
6
“Deixai-a em paz!”- ordenou-lhes Je-
sus. “Por que causais problemas a esta
mulher? Ela realizou uma boa ministra-
ção para comigo”.
7
Quanto aos pobres, sempre os tendes
ao vosso lado, e os podeis ajudar todas
as vezes que o desejardes, todavia a mim
nem sempre me tereis.
8
A mulher fez tudo que estava ao seu al-
cance. Derramou o bálsamo sobre mim,
antecipando a preparação do meu corpo
para o sepultamento.
4
9
Com toda a certeza Eu vos asseguro:
onde quer que o Evangelho for pregado,
por todo o mundo, será também procla-
mada a obra que esta mulher realizou, e
isso para que ela seja sempre lembrada”.
10
E, depois disso, Judas Iscariotes, um
dos Doze, foi encontrar-se com os chefes
dos sacerdotes com o propósito de lhes
entregar Jesus.
11
Ao ouvirem a proposta, eles ficaram
muito satisfeitos e se comprometeram
a lhe pagar algum dinheiro. E, por isso,
ele procurava uma oportunidade para
entregá-lo.
A Ceia do Senhor
(Mt 26.17-30: Lc 22.7-23; Jo 13.18-30)
12
E, no primeiro dia da festa dos pães
sem fermento, quando tradicionalmente
se sacrificava o cordeiro pascal, os dis-
cípulos de Jesus o consultaram: “Onde
desejas que vamos e façamos os prepara-
tivos para ceares a Páscoa?”
5
13
Então Ele enviou dois de seus discípu-
los instruindo-lhes: “Ide à cidade, e certo
1
As celebrações da Páscoa (Êx 12.13,23,27) em Jerusalém reuniam até três milhões de pessoas. Considerando que a popu-
lação média da cidade era de apenas 50 mil habitantes, é compreensível a grande preocupação das autoridades israelenses e
romanas com possíveis tumultos e revoluções. A conhecida Festa dos Pães Asmos ou Festa dos Pães sem Fermento ocorria logo
após a Páscoa e durava sete dias (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8).
2
A mulher era Maria, irmã de Marta e Lázaro. No evangelho de João, este evento ocorreu antes de começar a Semana
da Paixão (Jo 12.1-3). Mateus e Marcos enfatizam o contraste entre o ódio dos líderes religiosos, a covardia dos discípulos e
a traição de Judas Iscariotes, e o amor, coragem de se expor e desprendimento material de Maria. O alabastro era um frasco
lacrado, de gargalo longo, que continha valioso perfume, normalmente usado na unção de personalidades notáveis da época
ou no preparo mortuário de monarcas e pessoas ricas (Sl 23.5; Lc 7.46). Ao narrar este episódio, Marcos se refere a “alguns
dos presentes”, Mateus concentra-se nos “discípulos” (Mt 26.8) e João destaca a participação objetiva e comprometedora de
“Judas Iscariotes” (Jo 12.4,5).
3
Trezentos denários correspondiam a quase um ano de trabalho de um soldado romano. Jesus prevê que, até o seu retorno,
haverá muitas pessoas que dependerão da ajuda de seus semelhantes. Jesus sempre teve um coração compassivo em relação
aos pobres (Mt 6.2-4; Lc 4.18; 6.20; 14.13.21; 18.22; Jo 13.29).
4
Era costume judaico ungir um corpo com óleos aromáticos para o sepultamento (16.1). Entretanto, os corpos de pessoas
condenadas por crimes não mereciam tal atenção, cuidado e honra. A “antecipação” de Maria revela que Jesus percebeu que ela
tinha compreendido o propósito da vinda do Cristo (o Messias) ao mundo como Servo sofredor (Is 53).
5
Os cordeiros eram tradicionalmente sacrificados no dia anterior ao primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento (Êx 12.6),
ou seja, no dia 14 de Nisã (mês que corresponde a abril, quando celebramos nossa Páscoa). O cordeiro tinha de ser sacrificado
à tarde (por volta das 15h) e comido em grupos de pelo menos dez pessoas, entre o pôr-do-sol e a meia-noite.
MC.indd 41 31/7/2007, 14:33:29
42 MARCOS 14
homem carregando um cântaro de água
virá ao vosso encontro.
6
14
Segui-o e dizei ao proprietário da casa
onde ele entrar que o Mestre deseja saber:
‘Onde está a minha sala de jantar onde ce-
arei a Páscoa com os meus discípulos?’
7
15
E aquele homem vos mostrará um
amplo cenáculo todo mobiliado e pron-
to; ali fazei os preparativos”.
16
Partiram, pois, os discípulos e che-
garam na entrada da cidade onde en-
contraram tudo como Jesus lhes havia
predito. E ali prepararam a Páscoa.
8
17
Ao pôr-do-sol chegou Jesus com seus
Doze.
18
E quando estavam ceando, reclinados
à mesa, Jesus lhes revelou: “Com toda a
certeza vos afirmo que um dentre vós,
este que come comigo, me trairá”.
9
19
Eles ficaram consternados e lhe afir-
mavam: “É certo que não serei eu!”
20
Mas, asseverou-lhes Jesus: “É um dos
q
Doze, aquele que come comigo do mes-
mo prato.
10
21
O Filho do homem vai, conforme está
escrito a respeito dele. No entanto, infeliz
daquele que trai o Filho do homem! Me-
lhor lhe fora jamais haver nascido!”
O ato de partilhar o pão e o cálice
(Mt 26.26-30; Lc 22.19-23; 1Co 11.23-25)
22
E, enquanto ceavam, tomou Jesus um
pão e, tendo dado graças, o partiu, e o
serviu aos seus discípulos, declarando:
“Tomai, isto é o meu corpo”.
11
23
Em seguida, tomou Jesus um cálice,
deu graças e o entregou aos discípulos, e
todos beberam dele.
24
Então lhes revelou: “Isto é o meu san-
gue da Aliança, o qual é derramado para
o bem de muitos.
12
25
Com toda a certeza vos afirmo que não
voltarei a beber do fruto da videira, até
aquele dia em que beberei o vinho novo
no Reino de Deus”.
13
26
E, depois de haverem cantado um
salmo, partiram para o monte das Oli-
veiras.
Jesus prediz a traição de Pedro
(Mt 26.31-35; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38)
27
Então, Jesus lhes advertiu: “Todos vós
6
Um homem carregando um pote de água poderia ser facilmente reconhecido na cidade; pois, naquela época e região, apenas as
mulheres transportavam água dessa maneira. Pedro e João foram encarregados por Jesus para ir ao encontro previsto (Lc 22.8).
7
Outro costume judaico na época da Páscoa em Jerusalém era o de ceder uma grande sala (salão de hóspedes ou cenáculo),
7
disponível, mediante solicitação prévia, aos peregrinos, para que pudessem cear a Páscoa com seu grupo.
8
Uma grande casa judaica sempre tinha seus cenáculos, amplas e bem ventiladas salas no primeiro andar, cujo acesso se
dava por meio de uma escada externa. Em geral os preparativos para a ceia de Páscoa incluíam: O cordeiro pascal, lembrando
o sangue que protegeu os filhos de Israel do anjo da morte no Egito (Êx 12.2); os pães asmos, isto é, sem levedura (fermento),
como sinal de urgência e rapidez na saída do Egito; água salgada, uma recordação do pranto derramado no Egito e das águas
do mar Vermelho; ervas amargas, em memória das amarguras passadas na escravidão; uma sopa de frutas, como lembrança da
obrigação de produzir tijolos; quatro copos de vinho, recordando as quatro promessas de Êx 6.6,7.
9
No AT, a Páscoa era comida em pé (Êx 12.11), mas nos tempos de Jesus o costume havia mudado e os judeus, mesmo os
mais pobres, faziam suas refeições reclinados sobre almofadas, ao redor de uma mesa baixa, em sinal do direito à liberdade do
povo judeu.
10
Jesus se refere à sopa de frutas (em hebraico, charosheth) que ambos estavam degustando do mesmo prato, conforme o
costume judaico. Judas foi advertido por Jesus sem que os demais discípulos notassem.
11
A Ceia do Senhor é uma celebração dramática do evento do sacrifício do Senhor para nossa total e completa redenção (Jr
27.28; 10,11; Ez 4.1-8), da mesma maneira que a Páscoa judaica. São quatro os relatos da Ceia no NT (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24;
Lc 22.19,20 e 1Co 11.23-25). A expressão “dado graças”, deriva da palavra eucaristia em grego.
12
A velha Aliança dependia dos israelitas (e dos gentios) guardarem a Lei (Êx 24.3-8). A nova Aliança, em Cristo, não está alicer-
çada na dependência das obras da lei, mas no sacrifício vicário de Jesus Cristo (Rm 4.23-31). Assim, todos aqueles que aceitam
e recebem pela fé, e para si, esse sacrifício expiatório do Filho de Deus, herdam o Reino e deveriam viver como cidadãos da Nova
Jerusalém. O cálice com o sumo do fruto da videira (as uvas são ricas em açúcares e por isso fermentam com rapidez, gerando o vi-
nho), representa o sangue de Jesus que significa sua vida derramada pela nossa salvação. As promessas de Deus ao povo da Nova
Aliança só podem ser válidas mediante a morte expiatória de Cristo (Jr 31.31-34; Hb 8.8-12; Lc 22.20 com Êx 24.6,8 e Rm 5.15).
13
Jesus entrega-se à morte por seu voto de nazireu (Nm 6.1-21), enquanto antevê sua ressurreição, após o que se reunirá com
seus discípulos em outras épocas festivas e ceará com eles (At 1.4; 10.41). A partir desses eventos, teve início a Ceia do Senhor.
Na igreja primitiva era costume a realização de uma grande ceia com muita comida para todos. Com o passar do tempo essa
MC.indd 42 31/7/2007, 14:33:29
43 MARCOS 14
me abandonareis. Pois está escrito: ‘Feri-
rei o pastor, e as ovelhas serão dispersas’.
28
Contudo, depois da minha ressur-
reição, partirei adiante de vós rumo à
Galiléia”.
29
Pedro exclamou: “Mesmo que todos te
abandonem, eu nunca te deixarei!”
30
Replicou-lhe Jesus: “Com toda a cer-
teza te asseguro que ainda hoje, nesta
noite, antes que por duas vezes cante o
galo, tu me negarás três vezes”.
31
Entretanto, Pedro insistia com elo-
qüência: “Ainda que seja preciso que eu
morra ao teu lado, jamais te negarei!” E
da mesma maneira responderam todos
os demais.
Jesus Cristo no Getsêmani
(Mt 26.36-46; Lc 22.39-46)
32
Então caminharam para um lugar
chamado Getsêmani e, tendo chegado,
solicitou Jesus aos seus discípulos: “As-
sentai-vos aqui, enquanto Eu vou orar”.
14
33
E levou consigo a Pedro, Tiago e João,
e começou a sentir grande temor e pro-
funda angústia.
34
E compartilhou com eles: “Minha
alma está extremamente triste até à mor-
te; ficai pois aqui e vigiai”.
35
Caminhou um pouco mais adiante e,
prostrando-se, orava para que, se possí-
vel, àquela hora fosse afastada dele.
36
E rogava: “Abba, Pai, todas as coisas
são possíveis para ti, afasta de mim este
cálice; todavia, não seja o que Eu desejo,
mas sim o que Tu queres”.
15
37
Ao voltar para seus discípulos, os sur-
preendeu dormindo: “Simão!”- chamou
Ele a Pedro. “Estais dormindo? Não con-
seguistes vigiar nem por uma hora?
38
Vigiai e orai, para não cairdes em ten-
tação, pois, de um lado, o espírito está
pronto, mas, por outro lado, a carne é
fraca”.
39
E, uma vez mais, Ele se afastou e orou,
repetindo as mesmas expressões.
16
40
Ao regressar, novamente os encontrou
dormindo, porque seus olhos estavam
pesados, mas não sabiam como justifi-
car-se.
41
Voltando ainda uma terceira vez, Ele
lhes admoestou: “Ainda dormis e des-
cansais? Basta! Eis que a hora é chegada!
O filho do Homem está sendo entregue
nas mãos dos pecadores.
42
Levantai-vos, pois, e vamos! Eis que
chegou aquele que me está traindo!”
Jesus é traído e preso
(Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)
43
Jesus ainda não havia terminado de
falar, quando surgiu Judas, um dos Doze.
celebração restringiu-se mais ao seu simbolismo principal, o qual devemos preservar até a volta de Cristo. Antes das orações
finais da Páscoa, Jesus e seus discípulos cantaram trechos dos salmos 114, 118 e 136.
14
Um dos significados da expressão hebraica getsêmani é “prensa de azeite”, e refere-se a um belo jardim, com pomar, situado i
na encosta inferior do monte das Oliveiras. Um dos locais preferidos por Jesus para oração e meditação. Jesus sabia que Judas
iria para lá e foi ao encontro do seu destino. Jesus levou alguns dos seus discípulos mais chegados para que compartilhassem
de sua luta espiritual. Anos mais tarde esses discípulos testemunhariam ao mundo sobre esses fatos. Jesus previu claramente a
agonia espiritual e física que teria de suportar. Uma nova e decisiva batalha contra o príncipe deste mundo (Jo 12.31; 14.30), no
fim da qual, ainda teria de suportar, (sustentar sobre as costas), o castigo pelos pecados de toda a humanidade (Is 53.10).
15
A oração alerta, persistente e relevante é o único caminho para vencer as tentações (1Pe 5.8). Abba, que significa, “papai”
ou “meu pai querido”, é uma expressão aramaica, a língua natural de Jesus, e que denota um relacionamento fraterno, íntimo
e especialmente amigo, de pai para filho e vice-versa. A morte não horrorizava tanto Jesus quanto o motivo e o modo de sua
morte: como um criminoso, peçonhento e rejeitado por todos (Rm 8.15; Gl 4.6). Jesus jamais duvidou do amor de Seu Pai, nem
mesmo no Getsêmani.
16
Jesus previne os discípulos sobre o perigo de serem desleais, refere-se especialmente a Pedro que havia demonstrado certa
arrogância inconseqüente (vv. 29-31). Quando a parte espiritual do ser humano está em perfeita sintonia com o Espírito de Deus,
luta contra a carne, ou seja, contra as tendências egocêntricas e pervertidas das fomes (vontades) humanas. Essa expressão é
tirada do Sl 51.12. A solução é “vigiar” e para isso é necessário: que se conheça o inimigo e suas artimanhas (2Co 2.11); que nos
revistamos de toda a armadura de Deus (Ef 6.11-18); que permaneçamos acordados espiritualmente (Ef 5.14-16; 1Ts 5.6-10). Da
mesma forma, é vital “orar”, e isso requer: uma fé inabalável, com toda a confiança depositada em Deus (1Jo 5.14-15); certeza
dos propósitos de Deus comunicados a nós pelo Seu Espírito e Palavra (Rm 8.16; Ef 6.18; Jd 20).
MC.indd 43 31/7/2007, 14:33:30
44 MARCOS 14
E com ele chegou uma multidão armada
de espadas e cassetetes, vinda da parte
dos chefes dos sacerdotes, mestres da lei
e líderes religiosos.
17
44
Ora, o traidor tinha combinado um
sinal com eles: “Aquele a quem eu saudar
com um beijo, é Ele: prendei-o e levai-o
sob forte segurança”.
45
Então, assim que chegou, dirigiu-se
imediatamente para Jesus e o saudou:
“Rabbi!” E o beijou.
18
46
Em seguida, os homens agarraram
Jesus e o prenderam.
47
Nesse momento, um dos que estavam
bem próximos puxou da espada e feriu o
servo do sumo sacerdote, decepando-lhe
a orelha.
19
48
Exclamou-lhes Jesus: “Acaso estou Eu
liderando alguma rebelião, para virdes
me prender com espadas e cassetetes?
49
Pois diariamente tenho estado con-
vosco no templo, vos ensinando, e não
me prendestes. Contudo, é para que se
cumpram as Escrituras”.
50
Logo em seguida, todos fugiram e o
abandonaram.
20
51
Certo jovem, vestindo apenas um
lençol de linho, estava seguindo Jesus,
quando também tentaram prendê-lo.
52
Mas ele, largando o lençol, fugiu des-
nudo.
21
Jesus perante o Sinédrio
(Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)
53
Levaram Jesus ao sumo sacerdote; e
então se reuniram todos os chefes dos
sacerdotes, os líderes religiosos e os mes-
tres da lei.
22
54
Pedro o seguiu de longe até o pátio do
sumo sacerdote. E permaneceu assenta-
do entre os criados, aquecendo-se junto
ao fogo.
55
Os chefes dos sacerdotes e todo o Siné-
drio estavam buscando denúncias contra
Jesus, todavia não conseguiam encontrar
nenhuma.
56
Várias pessoas também testemunha-
ram falsamente contra Ele, contudo,
suas declarações não se mostraram co-
erentes.
23
57
Então, outros se levantaram para teste-
munhar inverdades contra Ele:
58
Nós o ouvimos exclamar: “Eu des-
truirei este templo construído por mãos
humanas e em três dias edificarei outro,
não erguido por mãos de homens”.
59
Entretanto, nem mesmo quanto a
essa acusação o testemunho deles era
congruente.
60
Então o sumo sacerdote levantou-se
diante de todos e interrogou a Jesus:
“Nada contestas à denúncia que estes
levantam contra ti?”
17
Um bando (ou turba) formado de guardas do templo, com ordens expressas do Tribunal Supremo dos Judeus (Sinédrio),
7
para prender a Jesus e manter a ordem pública; os escravos a serviço do sumo sacerdote, e mais alguns soldados romanos,
como nos informa João (18.3).
18
A expressão hebraica Rabbi, que significa “Meu Mestre”, juntamente com um ou mais beijos em cada lado do rosto era um
sinal de respeito e gratidão manifestados pelos discípulos judaicos em relação aos seus mestres (Lc 22.47).
19
João nos revela que era Pedro quem estava junto a Jesus e que ele decepou a orelha do servo, que se chamava Malco (Jo
18.10; Lc 22.51). Jesus protesta pela maneira como vieram prendê-lo, uma vez que apenas os revolucionários e criminosos eram
agredidos e presos com aquela brutalidade. Aos mestres era destinado um tratamento menos violento e mais respeitoso.
20
O ministério de Jesus em Jerusalém foi bem mais amplo do que Marcos apresenta. Entretanto, João nos oferece uma visão
mais completa e detalhada sobre a atividade ministerial do Senhor, na Judéia. Jesus faz uma referência a partes das Escrituras
que revelam os acontecimentos da sua missão e sacrifício (Is 53 com Zc 13.7).
21
Historiadores e outros estudiosos bíblicos crêem que este jovem de família rica seja o próprio autor deste evangelho, por-
tanto, João Marcos (At 12.12,25; 13.13; 15.37-39; Cl 4.10; 2Tm 4.11).Em geral, a roupa exterior era de lã, porém, Marcos não teve
tempo para vestir-se completamente.
22
O sumo sacerdote chamava-se Caifás e permaneceu nesse ofício desde o ano 18 até 36 d.C. O Supremo Tribunal Judaico
(Sinédrio), na época do NT, era composto por 71 membros, divididos em três categorias: os chefes (principais) dos sacerdotes,
líderes religiosos (anciãos) e os mestres da lei (escribas). Sob jurisdição do império romano, o Sinédrio tinha grande poder.
Entretanto, lhes era vedado o direito de decretar a pena de morte (Jo 18.31 com Mt 27.2).
23
No processo jurídico dos judeus da época, as testemunhas agiam como promotores de acusação. De acordo com a lei (Nm
25.30; Dt 17.6; 19.15), uma pessoa não podia ser jamais condenada à pena de morte a não ser mediante dois ou mais testemu-
nhos. Contudo, esses depoimentos precisavam ter total coerência entre si, sem contradições. O testemunho contra Jesus tinha
base falsa, apoiado em uma compreensão distorcida da profecia de Jesus em 15.29 e Jo 2.19.
MC.indd 44 31/7/2007, 14:33:30
45 MARCOS 14, 15
61
Ele, contudo, permaneceu em silêncio
e nada replicou. Mas o sumo sacerdote
voltou a indagá-lo: “És tu o Messias, o
p
Filho do Deus Bendito?”
24
62
Jesus asseverou: “Eu Sou! E vereis o
Filho do homem assentado à direita do
Poderoso e chegando com as nuvens do
céu”.
25
63
Diante disto, o sumo sacerdote rasgou
suas vestes e esbravejou: “Por que ainda
necessitamos de outras testemunhas?”
64
“Ouvistes a blasfêmia! Que vos pare-
ce?” E todos o julgaram merecedor da
pena de morte.
26
65
E assim alguns começaram a cuspir
nele; encapuzaram-no, vendando seus
olhos e, esmurrando-o, exclamavam:
“Profetiza!” E os guardas o levaram de-
baixo de bofetadas.
27
Pedro nega a Jesus
(Mt 26.69-75; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27)
66
Continuando Pedro na parte de baixo,
no pátio, uma das criadas do sumo sacer-
dote passou por ali.
28
67
E, vendo a Pedro se aquecendo, fixou
bem seus olhos nele e afirmou: “Tu tam-
bém estavas com Jesus, o Nazareno!”
68
Todavia, ele o negou, assegurando:
“Não o conheço, nem ao menos sei do
que estás falando”. Então foi para fora,
em direção ao pórtico. E um galo can-
tou.
69
Quando a criada o viu lá, começou no-
vamente a falar às pessoas que estavam
em derredor: “Este é um deles!”
70
Porém, uma vez mais, ele o negou. E,
pouco tempo mais tarde, os que estavam
sentados ali perto identificaram Pedro:
“Com toda a certeza, tu és um deles, pois
és galileu também!”
71
Pedro começou a amaldiçoar-se e a
jurar: “Não conheço esse homem de
quem falais!”
29
72
E, em seguida, o galo cantou pela se-
gunda vez. Então Pedro se lembrou da
palavra que Jesus lhe dissera: “Antes que
duas vezes cante o galo, tu me negarás
três vezes”. E, percebendo o que fizera,
caiu em profundo pranto.
Jesus impressiona Pilatos
(Mt 27.1-2.11-26; Lc 23.1-7.13-25; Jo 18.28-19.16)
15
Ao raiar do dia, entraram em as-
sembléia os chefes dos sacerdotes
com os líderes religiosos, os mestres da lei
24
O sumo sacerdote usa a palavra “Messias” (Cristo, em grego) para fazer com que Jesus se autocondenasse, uma vez que a
maioria dos judeus não acreditava que o Messias seria divino e Jesus reivindicava sua plena divindade (v.62). “Bendito”, era uma
das maneiras de os judeus se referirem à excelsa pessoa de Deus, sem precisar mencionar o seu nome.
25
O Filho do homem, que estava sendo julgado e condenado por homens ímpios e pecadores, voltará um dia, após Seu
reinado à destra de Deus, para julgar definitivamente todos os incrédulos (Dn 7.13 com Sl 110.1 e At 2.34-36).
26
Um antigo costume dos reis e profetas judeus era rasgar as vestes, numa demonstração dramática de horror, escândalo ou
ultraje (Gn 37.29; 2Rs 18.37; 19.1). O Sinédrio tinha poder para condenar alguém à pena de morte por apedrejamento(At 7.59),
em especial nos casos de cunho religioso. Todavia, ainda assim, precisava de um “referendo” (palavra latina para “autorização”)
das autoridades romanas. O crime de blasfêmia incluía não somente a difamação do nome precioso de Deus (Lv 24.10-16), mas
também qualquer ofensa à sua majestade ou poder (Mc 2.7; 3.28,29; Jo 5.18; 10.33). Ao ouvir a declaração de Jesus, a multidão
presente foi incitada por Caifás para condená-lo à morte. Para Caifás, o fato de Jesus afirmar que era o Messias prometido e que
possuía os mesmos atributos de Deus eram razões mais que suficientes para sujeitar Jesus à penalidade estipulada na lei de
Moisés: a morte por apedrejamento (Lv 24.16).
27
Uma antiga interpretação judaica dos textos de Isaías (11.2-4) dizia que o Messias seria capaz de conhecer as pessoas e
julgá-las ainda que de olhos vendados, apenas pelo olfato. Por isso a zombaria de alguns mais exacerbados (Nm 12.14; Dt 25.9;
Jó 30.10; Is 50.6).
28
Enquanto Jesus estava sendo torturado num dos cômodos superiores da casa de Caifás, no pátio, na parte baixa da casa,
Pedro procurava não se afastar demais do seu amigo e Messias. A história da negação de Pedro é contada em todos os evange-
lhos para evidenciar a graça perdoadora e restauradora do Senhor desprezado.
29
Os galileus, como Jesus, eram facilmente identificáveis pelo dialeto marcante que falavam (aramaico). Sua presença no átrio
(alpendre) entre os cidadãos de Judá era mais uma evidência de que era um seguidor de Jesus de Nazaré. Essa parte do texto de
Marcos foi fornecida diretamente pelo próprio Pedro. As expressões gregas: anathematizein kai amnynai, não sugerem palavras
profanas, mas sim que ele teria invocado uma maldição divina sobre si mesmo, caso estivesse mentindo, e retirando-se chorou
amargamente (em grego: kai epibalon eklaien. É importante lembrar que essa maldição foi quebrada pelo próprio Jesus em um
ç
dos seus aparecimentos após a ressurreição (Jo 21.15-19).
MC.indd 45 31/7/2007, 14:33:31
46 MARCOS 15
e todo o Supremo Tribunal dos Judeus e
tomaram uma decisão: amarraram Jesus,
levaram-no e o entregaram a Pilatos.
1
2
Então Pilatos o interrogou: “És tu o rei
g
dos judeus?” Ao que Jesus lhe replicou:
“Tu o dizes”.
3
E os chefes dos sacerdotes passaram a
levantar várias outras acusações contra
Ele.
4
Por isso Pilatos indagou uma vez mais:
“Nada respondes? Vê quantas acusações
te fazem!”
5
Mas Jesus não respondeu uma só
palavra, a ponto de Pilatos ficar muito
impressionado.
2
6
Ora, por ocasião da festa, fazia parte
da tradição libertar um prisioneiro por
aclamação popular.
7
Um homem conhecido por Barrabás
estava na prisão junto a rebeldes que
haviam cometido assassinato durante
uma rebelião.
3
8
Concentrando-se a multidão, clama-
ram a Pilatos que lhes outorgasse o direi-
to de costume nessas ocasiões.
9
E Pilatos lhes ofereceu: “Quereis que eu
vos liberte o rei dos judeus?”
10
Porquanto ele bem sabia que fora por
inveja que os chefes dos sacerdotes lhe
haviam entregado Jesus.
11
Então os chefes dos sacerdotes instiga-
ram a multidão a rogar a Pilatos que, ao
contrário, soltasse Barrabás.
12
Contudo Pilatos lhes questionou:
“Assim sendo, que farei com este a quem
chamais o rei dos judeus?”
13
Mas eles gritavam: “Crucifica-o!”
14
“Por quê? Que mal fez este homem?”
Inquiriu Pilatos. Todavia, eles clamavam
ainda mais decididos: “Crucifica-o!”
15
Então, Pilatos, para satisfazer a todo
aquele povo reunido, soltou-lhes Barra-
bás; ordenou que Jesus fosse açoitado e
depois o sentenciou à crucificação.
Jesus é humilhado pelos soldados
(Mt 27.27-31)
16
Em seguida, os soldados agarraram
Jesus e o conduziram para dentro do
palácio, isto é, ao Pretório, e agruparam
toda a tropa.
17
Vestiram-no com um manto de cor
púrpura real, depois teceram uma co-
roa de espinhos e a cravaram sobre sua
cabeça.
18
E começaram a saudá-lo: “Salve! Ó rei
ç
dos judeus!”
4
19
Espancavam-lhe a cabeça com uma
vara e cuspiam sobre ele. Ajoelhavam-se
e lhe rendiam adoração.
20
Depois de haverem zombado dele,
despiram-lhe o manto de cor púrpura
e o vestiram com suas próprias roupas.
Então o levaram para fora, a fim de cru-
cificá-lo.
O ato da crucificação
(Mt 27.32-44; Lc 23.26-43; Jo 19.16-27)
21
E ocorreu que certo homem de Cirene,
chamado Simão, pai de Alexandre e de
1
A primeira reunião do Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) ocorreu informalmente durante a noite, envolvendo apenas
alguns integrantes pactuados com a idéia de eliminar Jesus. Logo ao amanhecer, quando começava o dia de trabalho de um
oficial romano, foi necessário formalizar, por escrito, a decisão de entregá-lo a Pilatos perante a maioria do Sinédrio reunido. Era
sexta-feira (da Paixão, como viria a ser conhecida até hoje) e o sumo sacerdote e alguns outros membros do Sinédrio resolveram
denunciar Jesus, a Pilatos, por traição e blasfêmia (Lc 23.1-14). Pilatos era o governador romano da Judéia (de 26 a.C. a 36 d.C.).
Sua residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Todos os anos, quando visitava Jerusalém, costumava hos-
pedar-se no suntuoso palácio construído por Herodes, o Grande, localizado próximo do Templo. Em uma das salas do palácio,
chamada Pretório, ocorreu o julgamento romano de Jesus sob a autoridade civil de Pilatos.
2
Conforme profetizado em Is 52.15 e Is 53.7.
3
Barrabás era membro dos zelotes, um grupo judaico revolucionário. Sob o governo dos prefeitos romanos, ações de insur-
gência e tumulto eram freqüentes, especialmente nos grandes ajuntamentos e festas nacionais como a Páscoa (Lc 13.1). Curio-
samente, alguns manuscritos de Mt 27.16 revelam que o outro nome de Barrabás era Jesus, o mesmo nome humano do Senhor.
Marcos fala sobre a insurreição liderada por Barrabás como sendo um fato histórico, bem conhecido dos judeus da época.
4
Os oficiais romanos vestiam uma capa, cuja cor, vermelho vivo, representava a realeza e o poder do império romano sobre
o mundo. Para zombar da majestade de Jesus, o vestiram com uma velha capa e sobre sua cabeça forçaram uma coroa feita
de uma planta (em grego significa “abrolhos”) venenosa e espinhosa comum na Palestina. E para completar a humilhação lhe
dirigiam uma paródia da tradicional saudação de reverência a César: “Salve, César!”
MC.indd 46 31/7/2007, 14:33:32
47 MARCOS 15
Rufo, passava por ali, vindo do campo.
Eles o forçaram a carregar a cruz.
5
22
Levaram Jesus para um lugar deno-
minado Gólgota, que significa local da
Caveira.
23
E lhe deram vinho misturado com
mirra, mas Ele não o bebeu.
6
24
Então o crucificaram. Dividindo suas
vestes, jogaram sortes para saber com
que parte cada um iria ficar.
25
Eram nove horas da manhã quando o
crucificaram.
7
26
E assim ficou escrito na acusação con-
tra Ele: O REI DOS JUDEUS.
27
Junto a Jesus crucificaram dois cri-
minosos, um à sua direita e outro à sua
esquerda.
8
28
Cumpriu-se assim a Escritura que diz:
“Ele foi contado entre os malfeitores”.
29
Os transeuntes lançavam-lhe impro-
périos, gesticulando a cabeça e excla-
mando: “Ah! Tu que destróis o templo e,
em três dias, o reconstróis!
30
Agora desce da cruz e salva-te a ti mes-
mo!”
31
Da mesma maneira os chefes dos sa-
cerdotes e os mestres da lei zombavam
dele entre si, exclamando: “Salvou a tan-
tos, mas a si mesmo não pode salvar-se!
32
Que o Cristo, o Rei de Israel, desça
agora da cruz, para que o vejamos e
creiamos!” E, de igual modo, os que com
Ele foram crucificados o insultavam.
9
Jesus brada em sua morte
(Mt 27.45-56; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30)
33
E aconteceu que toda a terra foi cober-
ta pelas trevas, desde o meio-dia até às
três horas da tarde.
10
34
Então, por volta das três horas da tar-
de, Jesus bradou em alta voz: “Elohi, Elo-
hi! Lemá sabachtháni?”- que traduzido,
quer dizer: “Meu Deus, meu Deus! Por
que me abandonaste?”
11
35
Alguns dos que presenciavam o que
estava ocorrendo, ouvindo isso, comen-
tavam: “Vede, Ele clama por Elias!”
12
36
Então, um deles correu e ensopou uma
esponja em vinagre, colocou-a na ponta
de uma vara e a estendeu até Jesus para
5
Este Simão foi o pai do mesmo Rufo de Rm 16.13. Era natural de Cirene, importante cidade da Líbia, na África do norte (At
13.1), onde vivia uma grande população judaica. Era conhecido como “Níger” (negro).
6
Era um costume judaico amenizar a dor do martírio, oferecendo ao crucificado uma mistura de entorpecentes com vinho
(Pv 31.6). A mirra é uma especiaria extraída de plantas nativas dos desertos da Arábia e de partes da África (Gn 37.25). Jesus,
j p
entretanto, preferiu suportar todo o sofrimento completamente lúcido, pois ninguém estava lhe tirando a vida. Em submissão
voluntária ao Pai, Ele a estava ofertando como holocausto pela remissão do pecado de todos aqueles que crêem no seu sacrifício
vicário (Zc 13.1; Mc 10.45; Rm 5.8).
7
Em algumas versões da Bíblia aparece a forma judaica usada na época para marcar as horas (traduzido do grego como:
“a hora terceira”), e que corresponde às nove horas da manhã (Lc 23.44; Jo 19.14). João, por sua vez, usa a maneira romana
(“a hora sexta” ou próximo ao “meio-dia”). Conforme o costume, escrevia-se a acusação numa tábua de madeira, que seguia à
frente do sentenciado até o local da execução, quando era então pregada na cruz logo acima da sua cabeça. Marcos sumariza a
inscrição, mas João percebe na frase acusatória um relevante dado teológico e profético (Jo 19.19-22).
8
Algumas versões trazem a expressão “ladrões”, todavia o termo grego: evoca o sentido de que aqueles homens
eram culpados por crimes de alta traição (insurgência), contra o império romano e por banditismo. O crime de latrocínio não era
considerado um delito capital, a não ser quando seguido de morte.
9
Sem perceber, o próprio sumo sacerdote e os principais teólogos da época, estavam afirmando com clareza o poder e a
missão do Cristo (o Messias) sobre todo o Israel, ou seja, todo o povo de Deus (Gl 6.16). A verdadeira fé salvadora não se apóia
em sinais e maravilhas visíveis, mas na firme convicção criada no coração de cada pessoa pelo próprio Espírito Santo (Jo 20.29).
E este é um milagre envolto em grande mistério, graça e maravilha.
10
Algumas versões preservam a maneira grego-judaica de contar as horas: “da hora sexta até a hora nona”.
11
Jesus falou no seu dialeto de família, uma mistura de aramaico com hebraico. Suas palavras, traduzidas aqui por Marcos,
continham as expressões proféticas do Salmo 22.1. Ao se identificar com nossos pecados e assumir os erros de cada ser humano
(2Co 5.21; Gl 3.13), Jesus, por um momento, teve de sentir a dor da separação do Pai. Enquanto o sacrifício vicário ia sendo
aceito por Deus, a humanidade era salva e restaurada. A separação do Pai é o maior sofrimento destinado àqueles que preferem
viver em pecado. Deus não pode ter qualquer comunhão com o pecado (o mal), embora ame o pecador e lhe ofereça a salvação
pela graça da fé em Cristo, Seu Filho.
12
Algumas pessoas compreenderam mal as palavras de Jesus e pensaram tê-lo ouvido dizer: “Eli, Eli!”, ou seja, “Elias, Elias”.
Os judeus, em momentos de grande necessidade, costumavam clamar por “Elias”, pois se cria que Elias, por haver sido arrebata-
do à presença de Deus, viria em socorro dos justos e inocentes, sempre que estes passassem por grandes aflições.
MC.indd 47 31/7/2007, 14:33:32
48 MARCOS 15, 16
que sorvesse. E explicou: “Deixai! Veja-
mos se Elias vem para tirá-lo daí”.
37
Todavia, Jesus, com um forte brado,
expirou.
13
38
Então, o véu do Lugar Santíssimo ras-
gou-se em duas partes, de alto a baixo.
14
39
E, quando o centurião, que estava bem
em frente de Jesus, ouviu o seu brado e
viu a maneira como expirou, exclamou:
“Verdadeiramente, este homem era o
Filho de Deus!”
15
40
Algumas mulheres acompanhavam
tudo de longe. Entre elas estavam Maria
Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tia-
go, o mais jovem, e de José.
41
Na Galiléia elas tinham seguido e ser-
vido a Jesus. Muitas outras mulheres ha-
viam subido com Ele para Jerusalém e,
de igual modo, estavam ali presentes.
16
O sepultamento de Jesus
(Mt 27.57-61; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42)
42
Este era o Dia da Preparação, isto é, a
véspera do sábado.
17
43
E José de Arimatéia, membro honrado
do Supremo Tribunal dos Judeus, que
também aguardava o Reino de Deus,
dirigiu-se corajosamente a Pilatos e so-
licitou o corpo de Jesus.
18
44
Pilatos recebeu com espanto a notícia
de que Jesus já havia falecido. E, chaman-
do o centurião, perguntou-lhe se fazia
muito tempo que morrera.
45
Sendo informado pelo centurião, con-
sentiu em ceder o corpo a José.
46
Então José comprou um lençol de
linho, desceu o corpo da cruz, en-
volveu-o no lençol e o colocou num
sepulcro cavado na rocha. Depois, fez
rolar uma pedra sobre a entrada do
sepulcro.
19
47
Ora, Maria Madalena e Maria, mãe de
José, viram onde Ele fora depositado.
Jesus é ressuscitado
(Mt 28.1-10; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9)
16
Ao encerrar-se o sábado, Maria
Madalena, Salomé e Maria, mãe
13
João nos revela que o grito de triunfo de Jesus foi: “assim está”, que em grego significa: “consumado” (Jo 19.30). O brado
de Jesus é mais uma demonstração de que Ele entregou sua vida e não foi consumido pela morte. Os crucificados passavam, em
geral, por longos períodos de intensa agonia, exaustão e perda dos sentidos até que a morte os vencesse.
14
O véu do santuário ou do Lugar Santíssimo (Hb 6.19; 9.3; 10.20) era a cortina que separava o Lugar Santo do Santo dos
Santos (Êx 26.31-33). O partir desse véu tem profundo significado para toda a humanidade. Cristo entra e abre as portas do céu,
a fim de que todo cristão sincero tenha acesso à presença de Deus Pai (Hb 9.8-10,12; 10.19,20). Os sacerdotes estavam no
templo para a liturgia das tardes.
15
Um centurião era um militar romano que respondia pelo comando de pelo menos cem soldados. O original grego indica que
este homem reconheceu Jesus como “O” Filho de Deus, e não apenas “um” filho de Deus (Mt 27.54; Lc 23.47). Seu testemunho
de espanto diante do poder de Jesus passou para a história da Igreja de muitas maneiras.
16
Por causa da compaixão e da dignidade com que Jesus tratava as mulheres (marginalizadas pela cultura do seu povo e
época), muitas foram salvas, tornaram-se discípulas e seguiram o Senhor. Em 16.9 e Lc 8.2, somos informados de que Jesus
expulsou sete demônios de Maria Madalena. Havia também Maria, mãe de Tiago, o mais jovem, e de José (de quem não se sabe
mais nada). Salomé era mãe de João e Tiago, mulher de Zebedeu (Mt 27.56).
17
Jesus morreu na sexta-feira (dia em que os judeus se preparam para o sábado), às três horas da tarde (v.34). Restavam
7
apenas três horas para o início do Shabbãth, sábado judaico, no qual todo trabalho era proibido. Por isso a urgência em retirar o
corpo da cruz e prepará-lo para o sepultamento. Mais uma forte alusão à urgência com que os judeus tiveram de comer a Páscoa
antes de saírem para a terra prometida, e a urgência que temos de nos prepararmos para a segunda vinda do Senhor e do Grande
Dia (Mt 22.1-14; 24.32-44; 25.1-13).
18
Muitos historiadores e teólogos afirmam que as informações sobre o julgamento forjado pelo Sinédrio contra Jesus chega-
ram a Marcos por intermédio de José. Um justo e eminente juiz, da cidade de Arimatéia (Ramataim, Sm 1.1), que ficava cerca de
30 km a noroeste de Jerusalém. José era também um discípulo de Jesus, que manteve sua fé em sigilo até este ato de grande
coragem (Mt 27.57; Lc 23.52). Os corpos dos crucificados por crimes de traição não eram liberados para os ritos judaicos de
sepultamento nem mesmo aos familiares mais próximos.
19
José ofereceu o próprio túmulo da família, nunca antes usado, cravado na rocha (Mt 27.60). Esse túmulo ficava num jardim,
próximo ao local da crucificação (Jo 19.41). No primeiro século esse lugar se transformou-se num cemitério, onde hoje está
situada a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. O sepulcro era fechado por uma grande pedra em forma de disco que girava
sobre um sulco e, no caso de Jesus, lacrada com o selo imperial romano.
MC.indd 48 31/7/2007, 14:33:33
49 MARCOS 16
de Tiago, compraram especiarias aromá-
ticas para ungir o corpo de Jesus.
1
2
Ao raiar do primeiro dia da semana,
elas caminharam até o sepulcro.
3
E questionavam umas às outras: “Quem
poderá remover para nós a grande pedra
que fecha a entrada do sepulcro?”
2
4
Contudo, ao se aproximarem do local,
viram que aquela enorme pedra, havia
sido removida da entrada.
5
E, entrando no sepulcro, viram um jo-
vem vestido de túnica branca, assentado
à direita, e ficaram muito assustadas.
3
6
“Não vos amedronteis”, disse ele. “Vós
buscais a Jesus, o Nazareno, que morreu
na cruz. Pois Ele foi ressuscitado! Não
está mais aqui. Vede o lugar onde o ha-
viam depositado.
4
7
Agora ide, dizei aos discípulos dele e a
Pedro que Ele está seguindo adiante de
vós para a Galiléia. Lá vós o vereis, assim
como Ele vos predisse”.
5
8
Apavoradas e trêmulas, as mulheres
saíram e fugiram do sepulcro. E não in-
formaram nada a ninguém, pois estavam
assombradas e com medo.
Jesus aparece primeiro a Madalena
(Jo 20.11-18)
9
Quando Jesus ressuscitou, ao alvorecer
do primeiro dia da semana, apareceu
primeiramente a Maria Madalena, de
quem havia expulsado sete demônios.
6
10
Então, ela foi e comunicou aos que
com Ele tinham estado. Eles, porém,
estavam desolados e em prantos.
11
Quando receberam a notícia de que
Jesus estava vivo e fora visto por ela, não
conseguiram acreditar.
Jesus aparece a outros dois discípulos
(Lc 24.13-35)
12
Depois Jesus apareceu, em uma outra
forma, a outros dois seguidores que esta-
vam a caminho do interior.
7
13
Então, eles retornaram e informaram
tudo isso aos demais. Contudo, também
no depoimento deles não creram.
Jesus aparece e ordena aos discípulos
14
Mais tarde Jesus apareceu aos Onze,
enquanto estavam reclinados, ceando.
Repreendeu-lhes a falta de fé e a dureza
dos corações, porque não acreditaram
no testemunho daqueles que o tinham
visto depois de ressurreto.
15
E lhes ordenou: “Enquanto estiverdes
indo pelo mundo inteiro proclamai o
Evangelho a toda criatura.
16
Aquele que crer e for batizado será
1
Os judeus não tinham o costume de embalsamar (como aparece em algumas versões) os corpos de seus mortos. Logo após as
18 horas, ao encerrar o Shabbãth (período do sábado judaico), as mulheres foram comprar especiarias para ungir o corpo de Jesus
como mais um ato de devoção, amor e luto. Entretanto, não havia entre elas qualquer expectativa da ressurreição de Jesus.
2
Rolar aquele tipo de pedra em forma de disco para fechar a entrada do sepulcro era uma ação relativamente fácil. Todavia,
depois que a grande pedra era encaixada no sulco cortado na rocha maciça, em frente da entrada, ficava muito difícil e pesado
qualquer deslocamento, ainda que mínimo.
3
Os sepulcros dos nobres da época eram espaçosos. Dentro da grande entrada, na frente do sepulcro, havia uma antecâmara
e, no fundo desta, uma abertura baixa e retangular que conduzia à câmara da sepultura. Mateus nos informa que um anjo, com a
aparência de um jovem humano, estava postado junto ao túmulo vazio do Senhor (Mt 28.2-5).
4
Nos originais gregos o verbo está na voz passiva “foi ressuscitado”, uma ênfase ao poder soberano de Deus Pai (At 3.15; Rm
4.24). O ponto alto da teologia de Marcos é a ressurreição de Jesus, sem a qual todo o trabalho e morte de Jesus teriam sido
inúteis à salvação de todos que nele crêem. Por causa da ressurreição, Jesus é declarado Filho de Deus (Rm 1.4).
5
Como já havia revelado, Jesus rumou para a Galiléia, com o propósito de manifestar-se o mais breve possível a muitos dos Seus
discípulos (14.28; Mt 28.9,16; 1Co 15.6). Jesus sabia que, apesar dos erros, Pedro o amava com sinceridade. E, por isso, estava
desanimado e necessitado de uma cura interior que somente o Senhor, com seu amor e perdão, poderia realizar (Jo 21.15-19).
6
Jesus apareceu em primeiro lugar a Maria Madalena que, juntamente com outras discípulas, foi demonstrar sua devoção e
consagrá-lo a Deus, conforme os rituais fúnebres judaicos, logo ao romper da manhã do domingo (Jo 20.11-18). Depois Jesus apa-
receu às demais mulheres que o seguiam (Mt 28.8-10); em seguida a Pedro (Lc 24.34; 1Co 15.5); aos dois discípulos no caminho de
Emaús (Lc 24.13-32); aos discípulos reunidos, mas sem Tomé (Lc 24.36-43; Jo 20.19-25); no domingo seguinte, com a presença de
Tomé (Jo 20.26-31); a sete discípulos, no mar da Galiléia (Jo 21); aos apóstolos e a mais de 500 seguidores (Mt 28.16-20; 1Co 15.6);
a Tiago, irmão de Jesus (1Co 15.7); e antes da ascensão aos céus, a um grupo de seguidores e discípulos (Lc 24.44-53; At 1.3-12).
7
Jesus assumiu a forma humana de um simples peregrino da época, mas o conteúdo de suas palavras foi revelando Sua pes-
soa e reanimando Seus desconsolados discípulos, no caminho de Emaús (Lc 24.16). Também a Maria Madalena, sua discípula,
surgiu como um humilde jardineiro, mas, ao falar, revelou-se o Cristo amado e poderoso (Jo 20.11-18).
MC.indd 49 31/7/2007, 14:33:34
50 MARCOS 16
salvo. Todavia, quem não crer será con-
denado!
17
E estes sinais acompanharão aos que
crerem: em meu nome expulsarão de-
mônios; em línguas novas falarão.
8
18
Pegarão serpentes com as mãos; e, se
algo mortífero beberem, de modo ne-
nhum a eles fará mal, sobre os enfermos
imporão as mãos e eles serão curados!”
9
Jesus sobe à direita do Pai
(Lc 24.50-53; At 1.6-11)
19
Concluindo, depois de lhes ter orien-
tado, o Senhor Jesus foi elevado aos céus
e assentou-se à direita de Deus.
10
20
Então, os discípulos saíram e prega-
ram por toda parte; e o Senhor coopera-
va com eles, confirmando-lhes a Palavra
com os sinais que a acompanhavam.
8
Novas línguas e outros sinais chegaram para marcar uma nova época histórica. O tempo da Igreja de Cristo e a nova vida
dos salvos (2Co 5.17).
9
Jesus volta, na forma do Espírito Santo, para habitar com poder no corpo dos seus discípulos e apóstolos. E realiza muitas
maravilhas por meio deles ao estabelecer Sua Igreja em muitas partes do mundo, até os confins da terra (At 1.8; At 2.42-43;
At 28.3-6).
10
Como afirmou Calvino: “Assentar-se à direita do Pai, não se refere à posição do corpo físico de Jesus em algum lugar
específico do céu, mas sim à sua posição de majestade e poder como imperador do Universo ao lado de Deus, Seu Pai”, em
conformidade com o Sl 110.1 e a palavra profética de Jesus Cristo em Mc 14.62.
MC.indd 50 31/7/2007, 14:33:34
Autoria
Desde os primeiros cânones das Sagradas Escrituras, como o Cânon muratório, o terceiro
evangelho do Novo Testamento é reconhecido como de autoria de Lucas, o médico de homens e de
almas; o médico amado, como ficou conhecido (Cl 4.14). Irineu, um dos pais da Igreja, já citava o
Evangelho Segundo Lucas em suas obras, por volta do ano 180 d.C.
Lucas, grande amigo e companheiro de ministério do apóstolo Paulo (2Tm 4.11; Fm 24), é o único
autor gentio do Novo Testamento. Embora não tenha sido testemunha ocular da vida de Jesus Cristo,
andou com Deus, cheio do Espírito Santo, o qual o inspirou a escrever este Evangelho e o livro de
Atos e a servir como missionário até sua morte.
Lucas nos informa que seu trabalho foi beneficiado pela obra de outros (Lc 1.1), que ele consultou
várias testemunhas oculares (Lc 1.2), e que selecionou e dispôs as informações com extremo cui-
dado, sob a direção do Espírito Santo (Lc 1.3), a fim de instruir Teófilo quanto à fidedignidade da fé
em Jesus Cristo (Lc 1.4).
Propósitos
O Evangelho Segundo Lucas é especificamente endereçado a Teófilo, cujo nome significa “aquele
que ama a Deus”. Entretanto, o Espírito Santo ampliou em muito o alcance dessa obra, destinando-a
a todos aqueles que amam a Deus e desejam saber a verdade sobre Jesus Cristo, Seu Filho, nosso
Salvador. Lucas trata Teófilo por “excelentíssimo” o que reforça a idéia de que esse livro tinha como
principal objetivo um leitor em especial: Teófilo, um alto oficial do império romano que, segundo
historiadores renomados, desejoso de conhecer a verdade, patrocinou Lucas nesse projeto e inves-
tigação acurada de todos os fatos concernentes à vida e obra de Jesus Cristo; cujo ensino já invadia
Roma, convertendo multidões. Na mesma época surgiam vários relatórios falsos sobre Jesus e,
tanto Teófilo, quanto o próprio discípulo Lucas, tinham grande interesse em produzir um documento
histórico claro e verdadeiro sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré, o Cristo.
Embora particularmente destinado a Teófilo, o Evangelho Segundo Lucas se inclina para todos
os gentios. O autor revela interesse especial por detalhes médicos (Lc 4.38; 7.15; 8.55; 14.2; 18.35;
22.50). Há grande ênfase nos acontecimentos relacionados ao nascimento de Cristo. Curiosamente,
somente Lucas registra a anunciação a Zacarias e Maria, os cânticos de Isabel e Maria, o nascimento
e a infância de João Batista, o nascimento de Jesus, a visita dos pastores, a circuncisão de Jesus e
Sua apresentação no Templo, detalhes da infância de Jesus e até alguns dos pensamentos íntimos
de Maria, mãe de Jesus. Lucas demonstra grande interesse por fatos que se deram com indivíduos:
os relatos de Zaqueu (Lc 19.1-10); do ladrão que se arrepende (23.39-43), e nas parábolas do filho
perdulário (15.11-32) e do publicano arrependido (18.9-14). É Lucas quem nos relata a história
q ( ); q p ( ), p
sobre o bom samaritano (10.29-37) e do ex-leproso agradecido (17.11-19). Lucas ainda dá especial
atenção à disciplina espiritual da oração: falar com Deus (Lc 3.21; 5.16; 6.12; 9.18, 28-29; 10.21; 11.1;
22.39-46; 23.34, 46). O Evangelho Segundo Lucas dá grande destaque às mulheres, algo incomum
na época (Veja os capítulos: 1, 2, 7.11-17, 36-50; 8.1-3; 10.38-42, 21.1-4; 23.27-31, 49). O livro
apresenta quatro belos cânticos, conhecidos como: o Magnificat de Maria (Lc1.46-55), o t Benedictus
de Zacarias (Lc1.67-79), o Gloria in Excelsis Deo dos anjos (Lc 2.14) e o Nunc Dimitris de Simeão
(2.29-32). Lucas ainda reflete sobre o contraste da pobreza em relação à riqueza (1.52-53; 4.16-22;
6.20, 24-25; 12.13-21; 14.12-13; 16.19-31).
Este é o Evangelho do misericordioso Filho de Deus que oferece Salvação a toda humanidade
(19.10).
Data da primeira publicação
Considerando que os últimos capítulos do livro de Atos mostram Paulo em Roma, e que o Evan-
ç
gelho Segundo Lucas foi publicado antes de Atos (At 1.1), podemos concluir que este Evangelho foi
escrito entre os anos 59 e 64 d.C., em Cesaréia, durante os dois anos em que Paulo esteve preso ali
por pregar a Palavra de Deus (At 24.27).
INTRODUÇÃO
O EVANGELHO SEGUNDO
LUCAS
LC_B.indd 1 16/8/2007, 13:17:37
Lucas tinha completo domínio da língua grega da época. Seu vocabulário é amplo e rico, e seu
estilo, algumas vezes se aproxima do grego clássico, como ocorre logo no prefácio (Lc 1.1-40),
ao passo que em outras ocasiões assume um tom bem semítico (1.5 – 2.52), assemelhando-se
à Septuaginta (tradução do Antigo Testamento para a língua grega). Seu vocabulário é sensível à
cultura e geografia de cada lugar sobre o qual narra fatos passados. Por exemplo, quando Lucas se
refere a Pedro num contexto judaico, emprega uma linguagem mais semítica que nos momentos em
que descreve Paulo, num contexto helenístico (grego).
Esboço geral de Lucas
1. Prefácio e objetivos da obra (1.1-4)
2. O Filho de Deus e a humanidade (1.5 – 4.13)
A. O nascimento de João Batista (1.5-25)
B. O nascimento do Filho do homem (1.26-56)
C. O advento de João Batista (1.57-80)
D. O advento do Filho de Deus (2.1-20)
E. Adoração ao bebê Jesus (2.21-38)
F. A infância de Jesus (2.39-52)
G. O batismo de Jesus (3.1-22)
H. A genealogia de Jesus (3.23-38)
I. A tentação do Filho de Deus (4.1-13)
3. O ministério do Filho de Deus (4.14 – 9.50)
A. O anúncio do Seu ministério (4.14-30)
B. A autoridade da Sua obra (4.31 – 6.11)
C. Sobre todos os demônios (4.31-37)
D. Sobre todas as doenças (4.38-44)
E. Sobre todos os discípulos (5.1-11)
F. Sobre toda a impureza (5.12-16)
G. Sobre todas as limitações (5.17-26)
H. Sobre todos os desprezados (5.27-39)
I. Sobre todas as deformidades (6.6-11)
4. Os colaboradores de Seu ministério (6.12-49)
A. A convocação dos discípulos (6.12-16)
B. O perfil dos discípulos (6.17-49)
5. As realizações do Seu ministério (7.1 – 9.50)
A. Ministração na doença (7.1-10)
B. Ministração na morte (7.11-17)
C. Ministração aos pecadores (7.36-50)
D. Ministração sustentada (8.1-3)
E. Ministração por parábolas (8.4-21)
F. Ministração nas tempestades (8.22-25)
G. Ministração sobre demônios (8.26-39)
H. Ministração no desespero (8.40-56)
I. Ministração pelos discípulos (9.1-9)
J. Ministração às necessidades (9.10-17)
K. Ministração de predições (9.18-50)
6. O Filho de Deus é rejeitado pelos homens (9.51 – 19.27)
A. Rejeição pelos samaritanos (9.51-56)
B. Rejeição das pessoas mundanas (9.57-62)
C. A comissão dos setenta e dois (10.1-24)
D. Rejeição de um teólogo (10.25-37)
E. Recepção em Betânia (10.38-42)
F. Ensino sobre a oração (11.1-13)
G. Rejeição por Israel (11.14-36)
H. Rejeição pelos fariseus e doutores (11.37-54)
I. Ensinos diante da rejeição (12.1 – 19.27)
J. Sobre a hipocrisia (12.1-12)
K. Sobre a avareza e cobiça (12.13-34)
LC_B.indd 2 16/8/2007, 13:17:38
L. Sobre a fidelidade (12.35-48)
M. Sobre discórdias e sinais (12.49-59)
N. Sobre o arrependimento (13.1-9)
O. Sobre a falsidade (13.10-17)
P. Sobre o Reino de Deus (13.18-35)
7. Pregações para os corações endurecidos (14.1-6)
A. Sobre os que são convidados (14.12-14)
B. Sobre os que são indiferentes (14.15-24)
C. Sobre os que são indulgentes (14.25-35)
D. Sobre o amor de Deus (15.1-32)
E. Sobre a riqueza (16.1-31)
F. Sobre a necessidade do perdão (17.1-6)
G. Sobre a importância do serviço (17.7-10)
H. Sobre a gratidão (17.11-19)
I. Sobre o estabelecimento do Reino (17.20-37)
J. Sobre a oração (18.1-14)
K. Sobre o ingresso no Reino (18.15-30)
L. Sobre a Sua morte (18.31-34)
M. Sobre a Salvação (18.35 – 19.10)
N. Sobre fidelidade (19.11-27)
8. A Paixão do Filho de Deus (19.28 – 23.56)
A. Domingo (19.28-44)
B. Segunda-feira (19.45-48)
C. Terça-feira (20.1 – 21.38)
D. Autoridade contestada (20.1-8)
E. Autoridade revelada (20.9-18)
F. Autoridade resistida (20.19-40)
G. Autoridade demonstrada (20.41 – 21.4)
H. Discurso apocalíptico (21.5-38)
I. Quarta-feira (22.1-6)
J. Quinta-feira (22.7-53)
K. A Ceia do Senhor (22.7-38)
L. O jardim do Getsêmani (22.39-46)
M. Jesus é traído e preso (22.47-53)
N. Sexta-feira (22.54 – 23.55)
O. Jesus é negado por Pedro (22.54-62)
P. Jesus é ridicularizado (22.63-65)
Q. Jesus é levado ao Sinédrio (22.66-71)
R. Jesus é levado a Pilatos (23.1-5)
S. Jesus é levado a Herodes (23.6-12)
T. Jesus novamente diante de Pilatos (23.13-25)
U. A condenação e crucificação (23.26-49)
V. O sepultamento (23.50-55)
W. Sábado (23.56)
9. A vindicação do Filho de Deus diante dos homens (24.1-53)
A. Domingo: a vitória sobre a morte (24.1-12)
B. Jesus cumpre suas profecias (24.13-35)
C. O padrão da vida ressurreta (24.36-43)
D. O Senhor da Igreja (24.44-48)
E. O doador do Espírito Santo (24.49)
F. O Senhor exaltado eternamente (24.50-53).
LC_B.indd 3 16/8/2007, 13:17:39
O EVANGELHO SEGUNDO
LUCAS
Prefácio e dedicatória a Teófilo
1
Tendo em vista que muitos já se
empenharam em elaborar uma nar-
rativa histórica sobre os eventos que se
cumpriram entre nós,
2
conforme nos transmitiram os que des-
de o princípio foram testemunhas ocula-
res dos fatos e servos dedicados à Palavra,
3
eu, pessoalmente, investiguei tudo em
minúcias, a partir da origem e decidi
escrever-te um relato ordenado, ó exce-
lentíssimo Teófilo.
1
4
E isso, para que tenhas plena certeza das
verdades que a ti foram ministradas.
Gabriel anuncia o nascimento de João
5
Na época de Herodes, rei da Judéia,
havia um certo sacerdote chamado Zaca-
rias, que fazia parte do grupo sacerdotal
de Abias. E Isabel, sua esposa, também
era uma das descendentes de Arão.
2
6
Os dois andavam em justiça aos olhos
de Deus e obedeciam de forma irrepre-
ensível a todos os mandamentos e dou-
trinas do Senhor.
3
7
Contudo, eles não tinham filhos, porque
Isabel era estéril, e ambos eram avançados
em idade.
8
Em certa ocasião, quando seu grupo
estava de serviço, Zacarias ministrava
como sacerdote diante de Deus.
9
Ele foi escolhido por sorteio, de acordo
com a tradição do sacerdócio, para ter
acesso ao altar do Santo dos Santos e ali
oferecer a queima do incenso.
4
10
E, chegando o momento da oferta do
incenso, uma multidão de pessoas estava
orando do lado de fora.
11
Foi então que um anjo do Senhor
apareceu a Zacarias, à direita do altar do
incenso.
12
Assim que Zacarias o viu, ficou per-
plexo e um grande temor o dominou
completamente.
13
Entretanto, o anjo lhe assegurou: “Não
tenhas medo, Zacarias; eis que a tua
súplica foi ouvida. Isabel, tua esposa, te
dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome
de João.
5
14
Ele te será motivo de grande felicidade
e regozijo. E muitos se alegrarão com o
seu nascimento.
1
A palavra grega anothen, traduzida por “origem”, quer dizer: “de cima”, “dos altos céus” (Jo 3.31; Tg 1.17), e se refere também
a uma análise criteriosa de “alto a baixo”, “do começo ao fim”. Teófilo, que em latim e grego significa “querido por Deus” ou
“aquele que ama a Deus”, foi um militar de alta patente do exército romano que, convertido ao Senhor, patrocinou a pesquisa e a
publicação deste relatório fiel sobre a vida e a obra de Jesus, livro que veio a tornar-se parte do cânon bíblico (livros inspirados por
Deus) do NT e cujo propósito, assim como João (Jo 20.31), é proporcionar a seus leitores plena certeza quanto aos tremendos
fatos relacionados à história de Cristo e à nossa salvação eterna.
2
Herodes, o Grande, reinou de 37 a 4 a.C. por toda a Samaria, Galiléia e grande parte da Peréia e da Celo-Síria (Mt 2.1). O tem-
po referido pelo texto situa-se entre os anos 7 e 6 a.C. Zacarias e Isabel eram ambos de ascendência sacerdotal, da linhagem de
Arão, grupo sacerdotal de Abias. Tradicionalmente, desde os tempos de Davi, os sacerdotes foram organizados em 24 grandes
divisões, sendo Abias um dos líderes das famílias dos sacerdotes (Ne 12.12; 1Cr 24.10).
3
Zacarias e Isabel não eram impecáveis, mas amavam ao Senhor de coração, e Deus observava essa “adoração interior” em
seus servos, a qual se refletia “exteriormente” no cumprimento irrepreensível dos preceitos religiosos (Fp 3.6) e, especialmente, no
relacionamento com as pessoas. Um grande contraste em relação às atitudes apenas “cosméticas” dos fariseus (Mt 5.20; 23.2-5).
4
Uma das grandes responsabilidades do sacerdote era manter o incenso queimando em louvor a Deus, no altar diante do
Santo dos Santos. Ele colocava ali incenso novo todas as manhãs, antes do sacrifício matinal, e, outra vez, logo após o sacrifício
vespertino (Êx 30.6-8). Era raro que um sacerdote tivesse o privilégio de ministrar ao Senhor no Santo dos Santos, pois eles eram
muitos e a determinação dessa tarefa se fazia por lançamento de sortes. Além disso, essa era uma experiência única na vida
de muitos sacerdotes (2Sm 6.7) que, por não estarem vivendo de acordo com a vontade de Deus, eram fulminados pela ira do
Senhor em pleno ato de ministração (Ne 11.1; Pv 16.33; Jo 1.7; At 1.26).
5
A expressão usada pelo anjo, traduzida por “não tenhas medo”, no hebraico tem o sentido de “não perder a confiança em
LC_B.indd 4 16/8/2007, 13:17:39
5
15
Pois ele será grande aos olhos do Se-
nhor, jamais beberá vinho nem qualquer
outra bebida fermentada, e será pleno
do Espírito Santo desde antes do seu
nascimento.
16
E conduzirá muitos dos filhos de Israel
à conversão ao Senhor, seu Deus.
6
17
Ele avançará na presença do Senhor,
no mesmo espírito e poder de Elias, com
o propósito de fazer voltar o coração dos
pais a seus filhos e os desobedientes à
sabedoria dos justos, deixando um povo
preparado para o Senhor”.
7
18
Então, Zacarias indagou do anjo:
“Como poderei certificar-me disso? Pois
já sou idoso, e minha esposa igualmente
de idade avançada”.
8
19
Ao que o anjo lhe replicou: “Sou Ga-
briel, aquele que está permanentemente
na presença de Deus e fui encarregado
de vir para falar e transmitir-te estas
boas notícias.
9
20
Porém, eis que permanecerás em si-
lêncio, pois não conseguirás falar até o
dia em que venha a ocorrer tudo quanto
te revelei, porquanto não acreditaste nas
minhas palavras, as quais, no seu devido
tempo, se cumprirão”.
21
Enquanto isso, o povo estava aguar-
dando Zacarias e preocupava-se com o
fato de que demorasse tanto no santuá-
rio do Senhor.
10
22
Mas, ao sair, nenhuma palavra conse-
guia pronunciar; as pessoas perceberam
que ele tivera uma visão no santuário.
Zacarias tentava comunicar-se através de
sinais, permanecendo todavia mudo.
23
Ao completar seus dias dedicados ao
serviço, ele regressou para casa.
24
E, passado esse tempo, Isabel, sua espo-
sa, engravidou, mas durante cinco meses
ocultou-se das pessoas não saindo de casa.
25
E ela dizia a si mesma: “Isto é dádiva
do Senhor para mim! Eis que seus olhos
me contemplaram, para retirar de sobre
mim a grande humilhação que sentia
diante de todos”.
11
Gabriel anuncia o nascimento de Jesus
26
Então, no sexto mês, Deus enviou o
anjo Gabriel para Nazaré, uma cidade
da Galiléia,
Deus”, sendo uma palavra de encorajamento muito usada em toda a Bíblia (no verso 30 e em 2.10; 5.10; 8.50; 12.7,32; Gn 15.1;
21.17; 26.24; Dt 1.21; Js 8.1). O nome João deriva do hebraico antigo e significa: “O Senhor é bom e misericordioso”.
6
A grandeza de João seria reconhecida pelas qualidades de profeta precursor do Senhor, nazireu (Nm 6.3) e sacerdote. O per-
manente estado de plenitude e dependência do Espírito Santo capacitaria João a proclamar a Palavra de tal maneira que muitos
seriam convertidos de seus caminhos mundanos e formariam um povo de coração preparado para a vinda de Jesus Cristo e do
Reino de Deus (At 19.4). João cumpriu as profecias de Ml 3.1; 4.5,6 e as registradas em Is 40.3,4 (veja Lc 7.24-35). João também
se submeteu ao voto nazireu de abstinência de bebidas alcoólicas (Nm 6.1-4). Em seu caso, desde o ventre de sua mãe, como
Sansão (Jz 13.4-7) e Samuel (1Sm 1.11).
7
Não há qualquer possibilidade de Elias ter voltado na pessoa de João (Jo 1.21). A Bíblia não oferece nenhuma base textual
7
para as teorias da reencarnação ou mediunidade. Entretanto, João foi Elias na semelhança do seu amor e fidelidade ao Senhor
(Mt 11.14). Na sua mensagem poderosa e destemida, convocando os seres humanos ao mais sincero e absoluto arrependimento
de seu deliberado e contínuo afastamento de Deus.
8
À semelhança de Abraão (Gn 15.8), de Gideão (Jz 6.17) e de Ezequias (2Rs 20.8), Zacarias pediu um sinal (1Co 1.22), talvez
não da melhor maneira, mas o anjo o atendeu e nos deixou uma lição sobre jamais duvidar da Palavra do Senhor. Um estudo
comparativo de Abraão e Sara em relação a Zacarias e Isabel, focalizando especialmente Isaque e João, será de grande valor
(Gn 15 a 18).
9
O nome Gabriel em hebraico antigo significa: “o poderoso homem de Deus”. Apenas dois anjos têm seus nomes identificados
nas Sagradas Escrituras: Gabriel (Dn 8.16; 9.21) e Miguel (Dn 10.13,21; Jd 9; Ap 12.7).
10
A multidão estava aguardando com apreensão e ansiedade que o sacerdote (Zacarias) saísse do Santo dos Santos para
proferir a tradicional bênção arônica (Nm 6.24-26). Entretanto, ele saiu mudo. Todo sacerdote tinha a obrigação de trabalhar
durante uma semana nas dependências do templo, uma vez a cada seis meses (vs. 23, 39).
11
Especialmente no AT, a ausência de filhos ou o empobrecimento eram considerados sinais do desfavor divino, ou de sérios
pecados ocultos, o que sujeitaria as pessoas ao castigo de Deus. No caso da infertilidade, toda a responsabilidade pela falta de
filhos e, portanto, pelo descontentamento divino, recaía sobre a mulher, a qual era vítima das mais variadas e deprimentes formas
de julgamento e rejeição por parte da comunidade e, muitas vezes, do próprio marido. Jesus e seus discípulos jamais aprovaram
esse tipo de teologia simplista e distante dos propósitos gerais de Deus para a humanidade (Gn 16.2; 25.21; 30.23; 1Sm 1.1-18;
Lv 20.20,21; Sl 128.3; Jr 22.30).
LUCAS 1
LC_B.indd 5 16/8/2007, 13:17:40
6 LUCAS 1
27
a uma virgem prometida em casamen-
to a certo homem chamado José, descen-
dente de Davi. E o nome da virgem era
Maria.
12
28
O anjo chegou ao lugar onde ela
estava e ao se aproximar lhe declarou:
“Alegra-te, mui agraciada! O Senhor está
contigo!”.
13
29
Diante de tais palavras, Maria ficou
intrigada, imaginando qual poderia ser o
motivo daquele tipo de saudação.
30
Mas o anjo lhe revelou: “Maria, não
temas; pois recebeste grande graça da
parte de Deus.
31
Eis que engravidarás e darás à luz um
filho, a quem chamarás pelo nome de
Jesus.
14
32
Ele será Grande, e será chamado Filho
do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o
trono de seu pai Davi,
15
33
e Ele reinará para sempre sobre o povo
de Jacó, e seu Reino nunca terá fim”.
16
34
Então, perguntou Maria ao anjo:
“Como acontecerá isso, pois jamais tive
relação sexual com homem algum?”.
17
35
Então o anjo lhe esclareceu: “O Espíri-
to Santo virá sobre ti, e o poder do Altís-
simo te cobrirá com a sua sombra. E por
esse motivo, o ser que nascerá de ti será
chamado Santo, Filho de Deus.
18
36
Saiba também que Isabel, tua parenta,
dará à luz a um filho mesmo em idade
avançada, sendo que este já é o sexto mês
de gestação para aquela a quem julgavam
estéril.
37
Porquanto para Deus não existe nada
que lhe seja impossível!”.
38
Diante disso, declarou Maria: “Eis aqui
a serva do Senhor; que se realize em mim
tudo conforme a tua palavra!”. Em segui-
da o anjo partiu.
O encontro de Maria com Isabel
39
Durante aqueles dias, Maria prepa-
rou-se e saiu rapidamente em viagem
para uma cidade da região montanhosa
da Judéia.
40
Chegou à casa de Zacarias e foi saudar
Isabel.
41
Assim que Isabel ouviu a saudação de
12
Lucas trata o assunto da concepção virginal de Jesus de forma clara e objetiva (observe os versos 27, 34 e 35 e Mt 1.18-25).
A fecundação foi obra do Espírito Santo que, ao cobrir Maria, na forma de uma sombra, gerou em seu ventre o embrião que
seria Jesus, a eterna segunda pessoa da Trindade. Jesus jamais deixou de ser Deus, mas Deus assumiu completamente corpo
e alma humanas, possibilitando que Jesus fosse plenamente homem e plenamente Deus a um só tempo (Jo 1.14). Maria havia
sido desposada, o que significa no judaísmo da época, uma espécie de noivado definitivo. Um compromisso de casamento sem
possibilidade de arrependimento. Qualquer infidelidade por parte da mulher a partir desse pacto matrimonial, era punida com a
pena de morte por apedrejamento para a virgem que cometera adultério e para o homem que a tivesse seduzido (Dt 22.23,24).
Maria e José eram descendentes diretos de Davi (vs.32,69 e 2.4).
13
Em algumas versões traduzidas a partir da Vulgata latina, conservou-se a palavra “Ave” (de onde teve origem a frase: “Ave
Maria”) uma expressão comum de saudação em latim, e que significa: “Salve!” ou “Seja Feliz!”, mais propriamente traduzida aqui
por “Alegra-te!”. Outra expressão que aparece em algumas versões da Bíblia é: “cheia de graça”, numa referência ao favor de
Deus para com sua serva. A tradução e o sentido mais literal dessa frase nos originais gregos são: “tu que foste e permaneces
repleta do favor divino”.
14
O nome próprio “Jesus” deriva do hebraico antigo (cwSy - Yeshua) e significa: “Josué”, que quer dizer: “Yahweh Salva” ou
“Jeová é o Salvador” (Mt 1.21).
15
“Grande” era um título de destaque dado a personalidades notáveis, especialmente aos imperadores da época. O anjo
comunica que o Reino de Cristo é imenso e jamais terá fim. A expressão hebraica traduzida por “Altíssimo” é igualmente um
título honroso, muitas vezes usado no AT e no NT em referência à pessoa de Deus (nos versos 35,76; 6.35; 8.28; Gn 14.19; 2Sm
22.14; Sl 7.10), e tem dois sentidos. Refere-se ao divino Filho de Deus e ao Messias (o Cristo, em grego). O messianato de Jesus
é claramente abordado nos versos 32b e 33. Quanto ao trono de Davi, que significa o comando do mundo, foi profetizado no AT
que seria entregue por Deus ao Messias, da descendência de Davi (2Sm 7.13,16; Sl 2.6,7; 89.26,27; Is 9.6,7).
16
A missão de Cristo como mediador um dia se encerrará (1Co 14.24-28) e dará lugar ao Reino unificado do Pai e do Filho que
durará eternamente (Sl 45.6; Rm 1.3,4; Fp 2.9-11; Hb 1.8; Ap 11.15).
17
Maria não se assusta tanto com o anjo quanto com as palavras dele. Entretanto, mesmo sendo uma jovem simples de
7
pequena aldeia do interior da Galiléia, não duvida da revelação divina que recebe, como ocorreu com o experiente teólogo e
dedicado sacerdote Zacarias. Maria apenas – compreensivelmente – desejava saber “como” tal evento se daria. Muito embora as
revelações comunicadas a Maria tenham sido ainda mais extraordinárias do que as anunciadas a Zacarias, a serva do Senhor não
precisou de provas ou sinais para aceitar, com alegria submissa, a missão que o Senhor lhe confiara.
18
Alguns séculos depois da ressurreição do Senhor, surgiram certos escritos seculares questionando o período da primeira
LC_B.indd 6 16/8/2007, 13:17:40
7 LUCAS 1
Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e
Isabel ficou plena do Espírito Santo.
19
42
E, com um forte grito, exclamou:
“Bendita és tu entre todas as mulheres, e
bendito é o fruto de teu ventre!
43
Mas, qual o motivo desta graça mara-
vilhosa, que me venha visitar a mãe do
meu Senhor?
44
Pois, no mesmo instante em que a
tua voz de saudação chegou aos meus
ouvidos, o bebê que está em meu ventre
agitou-se de alegria.
45
Bem-aventurada é aquela que acredi-
tou que o Senhor cumprirá tudo quanto
lhe foi revelado!”.
Magnificat, o cântico de Maria
46
Então declarou Maria:
20
“Engrandece
minha alma ao Senhor,
47
e o meu espírito se regozija em Deus,
meu Salvador,
48
pois contemplou a insignificância da
sua serva. Mas, de hoje em diante, todas
as gerações me chamarão bem-aventu-
rada,
49
porque o Poderoso realizou maravilhas
a meu favor; Santo é o seu Nome!
50
A sua misericórdia estende-se aos que
o temem, de geração em geração.
51
Ele operou poderosos feitos com seu
braço; dispersou aqueles cujos sentimen-
tos mais íntimos são soberbos.
52
Derrubou governantes dos seus tro-
nos, mas exaltou os humildes.
53
Supriu abundantemente os famintos,
mas expulsou de mãos vazias os que se
achavam ricos.
21
54
Ajudou a seu servo Israel, recordando-
se da sua misericórdia infinda
55
a favor de Abraão e sua descendência,
para sempre, assim como prometera aos
nossos antepassados”.
22
56
E Maria permaneceu com Isabel por
cerca de três meses, quando então retor-
nou à sua casa.
23
Nasce João Batista
57
Ao se completar o tempo de Isabel dar
à luz, nasceu-lhe um filho.
58
Todos os seus vizinhos e parentes ou-
viram falar da grande misericórdia com
a qual o Senhor a havia contemplado e
muito se alegraram com ela.
59
No oitavo dia levaram o menino para
ser circuncidado, e desejavam dar-lhe o
nome do pai, Zacarias.
60
No entanto sua mãe tomou a palavra
e afirmou: “Não! O nome dele deverá ser
João”.
61
Ponderaram-lhe: “Mas ninguém há en-
juventude de Jesus, sobre o qual a Bíblia nada fala. Foram sugeridas várias hipóteses e uma delas levanta a possibilidade de
Jesus ter passado por uma fase em que teria cometido alguns pecados para se assemelhar ainda mais aos seres humanos. As
Sagradas Escrituras, entretanto, são claras em afirmar que Jesus nasceu Santo (a expressão hebraica original significa: separado
para habitação de Deus) e jamais cometeu um só pecado (2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1Pe 2.22; 1Jo 3.5). Não foi o nascimento
virginal de Jesus que o fez “Santo”, e muito menos, “Filho de Deus”. Esse foi o meio pelo qual o Filho, preexistente (que sempre
existiu), revelou Sua Deidade (Jo 1.1,14; Fp 2.6).
19
Lucas dá grande ênfase à ação do Espírito Santo, não apenas no evangelho, mas, especialmente no livro de Atos. Algumas
versões trazem a expressão “possuída” para descrever o quanto Isabel ficou cheia (em plenitude) do Espírito. Foi pelo Espírito
que Isabel reconheceu Maria como mãe do Redentor (v.43) e é só pelo Espírito Santo que o pecador pode conhecer a Cristo
como seu único, suficiente e eterno Salvador e Senhor (Jo 16.8,9).
20
Maria (e não Isabel como sugerem algumas versões), na plenitude do Espírito Santo, a exemplo de Ana (1Sm 2.1-10), louva
ao Senhor por sua graça e misericórdia para com todos, especialmente para com os humildes e desprotegidos. A tradição da
Igreja transformou esse cântico (salmo) num hino conhecido como Magnificat, pois na tradução desse texto em latim, na Vulgata,
a primeira palavra é “Magnificat”, que significa: “Engrandece”.
21
Maria, usando uma forma de expressão profética, refere-se às maravilhas que a vinda do Cristo (o Messias) produziria (Tg
5.1-6). Deus supre os “famintos” de bênçãos espirituais e bens materiais (de pão e justiça – Ef 1.3 com 1Sm 2.5), especialmente
quando eles aprendem o que é “temer ao Senhor” (viver em harmonia e respeito à vontade revelada de Deus na sua Palavra).
22
A expressão “seu servo”, em grego transliterado é paidos, e significa: “servo filho”. “Filhos de Deus” é uma expressão que,
em grego, se refere a outras duas palavras: tekna ou huioi. Além do servo Israel, também Davi e Cristo são como “servos” de Deus
(v.69; conforme At 3.13,26; 4.25,27,30). Israel, como o Servo de Yahweh (Jeová), tendo cumprido sua missão, cede seu lugar
ao Messias (Jesus Cristo) nas maravilhosas profecias sobre o “Meu Servo” (Is 41.8,9; 42.1; 44.1,2,21; 45.4). O cântico termina
garantindo que Deus será fiel às promessas que fez a Seu povo (Gn 22.16-18).
23
Maria ficou com Isabel, sua parenta e amiga querida, até o nascimento de João Batista, quando retornou para casa, em Nazaré.
LC_B.indd 7 16/8/2007, 13:17:41
8 LUCAS 1
tre teus parentes que se chame assim”.
62
Então, através de sinais, consultaram
o pai do menino que nome queria que
lhe dessem.
63
Ele pediu uma tabuinha e, para surpresa
de todos, escreveu: “O nome dele é João”.
24
64
No mesmo instante sua boca se abriu,
sua língua se soltou e ele começou a falar,
louvando a Deus.
65
Toda a vizinhança foi tomada de gran-
de temor e por toda a região montanhosa
da Judéia se comentavam esses fatos.
66
E aconteceu que todos quantos ouviam
falar dessas ocorrências ficavam imagi-
nando: “O que virá a ser este menino?”.
Pois a boa mão do Senhor estava com ele.
Benedictus, o cântico de Zacarias
67
Então, seu pai Zacarias foi cheio do
Espírito Santo e profetizou:
25
68
“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel,
pois que visitou e redimiu o seu povo.
69
Ele concedeu poderosa salvação na
casa de Davi, seu servo.
26
70
Assim como prometera por meio dos
seus santos profetas desde a antigüidade.
71
Salvando-nos dos nossos inimigos e
das mãos de todos os que nos odeiam,
72
para demonstrar sua misericórdia aos
nossos antepassados e recordar sua santa
aliança,
73
o juramento que prestou ao nosso pai
Abraão.
74
Que nos resgataria da mão de todos
os nossos inimigos, a fim de o servirmos
livres do medo,
75
em santidade e justiça na sua presença,
durante todos os dias de nossas vidas.
76
Tu, menino, serás chamado profeta do
Altíssimo, pois marcharás à frente do Se-
nhor, para lhe preparar o caminho.
27
77
Para proclamar ao seu povo o conhe-
cimento da salvação, mediante o perdão
dos seus pecados.
78
E isso, por causa das profundas miseri-
córdias de nosso Deus, através das quais
dos céus nos visitará o sol nascente,
28
79
para iluminar aqueles que estão viven-
do em meio às trevas, e guiar nossos pés
no caminho da paz”.
29
80
E o menino crescia e se robustecia em
espírito; e viveu no deserto até o dia em
24
Na antigüidade judaica era usado um pedacinho de madeira coberto com cera e um buril (um pequeno instrumento de metal
usado para gravar textos e imagens em madeira), como uma espécie de livro de anotações. A importância dos nomes atribuídos
às pessoas é algo notável em toda a Bíblia. No início da Nova Dispensação, temos Zacarias – “Deus se recorda de Sua aliança”
(v.54); Isabel – “Deus é fiel”; João – “Deus é bom e misericordioso” (Mt 3.1); Maria – “aquela que guarda em seu coração”, e o
próprio Jesus – “Deus é o Salvador” (v.31; Mt 1.21).
25
A exemplo de Maria, com seu salmo, Zacarias também expressa sua alegria espiritual e louvor (agora com a voz livre do
sinal punitivo do anjo, devido ao cumprimento da promessa), por meio de um hino profético. Esse cântico ficou conhecido pela
Igreja como Benedictus, que em latim significa “Bendito” ou “Louvado seja”, pois se trata da palavra que inicia este hino na
Vulgata latina.
26
A salvação de Deus para Israel não se limitará à redenção nacional (v.71), mas, principalmente, à salvação espiritual
(vs.75,77). A expressão hebraica, aqui interpretada por “poderosa” se traduz literalmente por “chifre de boi”, numa alusão à força
e ao poder (conforme Dt 33.17; Sl 18.1-3; 22.21; 92.10,11; 132.17,18; Mq 4.13). Jesus – o Messias da Casa de Davi – tem poder
para salvar e libertar seu povo de todo tipo de opressão e escravidão.
27
João foi chamado profeta do Altíssimo, enquanto Jesus foi reconhecido como Filho do Altíssimo (v.32). O principal ministério
7
de João foi testificar de Cristo (Jo 1.7,29,32-36). O maior ministério do cristão é também ser testemunha de Jesus Cristo (At 1.8).
João recebeu a missão de preparar os caminhos do Senhor para sua primeira vinda, enquanto nós devemos apressar o glorioso
retorno de Cristo por meio do nosso testemunho e da evangelização de todos os povos (2Pe 3.11,12).
28
Assim como o sol nascente desvanece as trevas, Cristo aniquilou o poder e a culpa do pecado. Veja figuras de linguagem
semelhantes em: Nm 24.17; Is 9.2; 60.1. Ele conquistou o império que estava nas mãos de Satanás e destruiu o poder da morte
(Rm 5.12-21). O sacerdote Zacarias, não apenas exaltou seu filho, o profeta João, mas louvou o Messias Jesus que chegaria em
breve (vs.78,79).
29
Os que vivem nas trevas são os que estão perdidos, a caminho da morte (separação de Deus) eterna (Is 9.1,2; Mt 4.16).
A humanidade busca desesperadamente por paz, entretanto o que se vê é o aumento constante da violência e da brutalidade
entre pessoas e nações. O vocábulo “paz” no original grego (transliterado: irene), significa: “estado de descanso, tranqüilidade
e segurança, devido a um harmonioso relacionamento entre Deus e a pessoa humana”. Jesus Cristo é o Príncipe da Paz e todos
os seus discípulos já podem desfrutar dessa Paz que será completa e mundial, quando o Senhor estabelecer seu Reino de forma
plena e definitiva na terra renovada (Ap 21.1).
LC_B.indd 8 16/8/2007, 13:17:41
9 LUCAS 1, 2
que havia de revelar-se publicamente a
Israel.
30
Nasce Jesus de Nazaré, o Cristo
(Mt 1.18-25)
2
Naquela época, César Augusto pu-
blicou um decreto, convocando para
um recenseamento, todos os moradores
das terras dominadas por seu império.
1
2
Este foi o primeiro cadastramento da
população de todo o império romano,
quando Quirino era governador da Síria.
2
3
E todos seguiam para as cidades onde ha-
viam nascido, a fim de serem arrolados.
4
Por isso, José também viajou da cidade
de Nazaré da Galiléia para a Judéia, até
Belém, cidade de Davi, porque pertencia
à casa e à descendência de Davi.
3
5
E partiu com o propósito de alistar-se,
juntamente com Maria, sua esposa pro-
metida, que estava grávida.
4
6
Enquanto estavam em Belém, chegou o
momento de nascer o bebê,
7
e ela deu à luz o seu primogênito. En-
volveu-o com tiras de pano e o colocou
sobre uma manjedoura, pois não havia
lugar para eles na hospedaria.
5
“Gloria in Exelsis Deo!”
8
Nas proximidades havia pastores que
estavam nos campos e que durante a
noite cuidavam dos seus rebanhos.
9
E aconteceu que um anjo do Senhor
apareceu a eles e a glória do Senhor
reluzindo os envolveu; e todos ficaram
apavorados.
10
Todavia o anjo lhes revelou: “Não
temais; eis que vos trago boas notícias
de grande alegria, e que são para todas
as pessoas:
11
Hoje, na cidade de Davi, vos nasceu o
Salvador, que é o Messias, o Senhor!
6
12
Isto vos servirá de sinal: encontrareis
um recém-nascido envolto em panos e
deitado sobre uma manjedoura”.
13
E no mesmo instante, surgiu uma
30
Zacarias e Isabel, já idosos quando João nasceu; morreram quando ele era ainda muito jovem. Segundo historiadores e
arqueólogos, João teria sido levado para o deserto da Judéia, onde viveu cerca de trinta anos e muito aprendeu com os essênios
da região de Qunram. A semelhança de terminologia da sua pregação com os chamados Rolos do Mar Morto é notável. João
Batista começou seu ministério público com cerca de trinta anos, idade em que os profetas tinham, em geral, sua maioridade e
maturidade espiritual reconhecidas pelos conselhos de rabinos.
Capítulo 2
1
Lucas procura sempre relacionar sua narrativa aos grandes fatos históricos de seu tempo. César Augusto (30 a.C. a 14 d.C)
foi o primeiro e o maior dos imperadores romanos. Estabeleceu a chamada “Pax Romana”, trocou o sistema republicano por uma
forma imperial de governo, conquistou todo o mundo civilizado do Mediterrâneo e estabeleceu a idade áurea das artes, arquite-
tura e literatura romanas. No ano 27 a.C. o senado romano lhe concedeu o título de “augusto”, que em latim significa: “exaltado”
ou “digno de toda a reverência”. Embora os judeus estivessem isentos do serviço militar romano, e por isso não eram obrigados
a atender às convocações militares, não estavam livres de pagar os impostos, e esse recenseamento ou cadastramento visava
exatamente alistar todos os cidadãos e moradores sob o domínio romano, especialmente para recolhimento de impostos. Deus
usou o decreto de um imperador pagão para cumprir a profecia de Mq 5.2.
2
Quirino foi um oficial romano que coincidentemente trabalhou neste censo e em um segundo alistamento geral que ocorreu
de 6 a 9 d.C., registrado por Lucas em At 5.37, no qual Judas se levantou contra o governo romano da época, alegando que Deus
era o único e legítimo Rei de Israel, sendo, portanto, ilícito (um pecado) pagar impostos a qualquer outra autoridade.
3
Belém é a mesma cidade onde nasceu o rei Davi cerca de 1000 anos antes destes eventos (1Sm 17.12; 20.6) e se localizava
a uma distância aproximada de 10 km ao sul de Jerusalém. Naquela época, uma viagem de pelo menos três dias até Nazaré.
“Judéia”, era a maneira greco-romana de chamar a parte sul da Palestina, no passado abrangida pelo reino de Judá.
4
Na Síria, província romana na qual se localizava a Palestina, as mulheres acima de 12 anos deviam pagar um imposto indivi-
dual ao governo, e para isso tinham de ser cadastradas (recenseadas). Maria também pertencia à casa de Davi.
5
No ocidente e por motivos não históricos nos acostumamos a celebrar o natal (nascimento de Jesus Cristo) em dezembro.
Entretanto, segundo muitos historiadores e arqueólogos de prestígio, a data mais provável deve ter sido na primavera palestina
(entre maio e junho). Era costume entre as mães judias envolver os filhos recém-nascidos com tiras de tecido para que ficassem
bem agasalhados e protegidos. A cidade estava lotada com pessoas de todas as partes vindas para ser arroladas no censo. Maria
sentia as dores de parto e a única solução foi se acomodarem em um estábulo. Ao nascer, Jesus foi posto em uma manjedoura,
uma espécie de cocho onde se colocava o alimento dos animais.
6
Os líderes religiosos e o povo judeu estavam divididos em suas expectativas quanto à obra do Messias prometido. Uns
esperavam que ele fosse um grande líder militar e os livrasse do domínio romano. Outros desejavam cura para as enfermidades
e os muitos sofrimentos físicos. E, outros ainda, ambicionavam um Messias que os livrasse da fome e da pobreza. Contudo, a
LC_B.indd 9 16/8/2007, 13:17:42
10 LUCAS 2
grande multidão do exército celestial
que se juntou ao anjo e louvavam a Deus
entoando:
14
“Glória a Deus nos mais altos céus, e
paz na terra às pessoas que recebem a
sua graça!”.
7
15
Quando os anjos partiram e foram
para os céus, os pastores combinaram
entre si: “Vamos até Belém, e vejamos
este acontecimento que o Senhor nos
deu a saber”.
16
Então correram até o local e chegando,
encontraram Maria e José, e o recém-
nascido deitado numa manjedoura.
17
E depois de o contemplarem, comuni-
caram a todos o que lhes fora revelado a
respeito daquele menino,
18
Ao ouvirem o que os pastores relata-
vam ficaram sobremodo assustados.
19
Maria, contudo, observava silenciosa
todos os acontecimentos, e refletia sobre
eles em seu coração.
20
Os pastores retornaram glorificando
e louvando a Deus por tudo quanto
tinham visto e ouvido, assim como lhes
fora predito.
Jesus é apresentado no templo
21
Completando-se os oito dias para o
ritual de circuncisão do menino, foi-lhe
dado o nome de Jesus, o qual já havia
sido outorgado pelo anjo antes de Ele
nascer.
8
22
De igual modo, ao completar-se o
tempo da purificação deles, de acordo
com a Lei de Moisés, José e Maria le-
varam o bebê Jesus até Jerusalém para
apresentá-lo a Deus no templo.
9
23
Assim como está escrito na Lei do
Senhor: “Todo primogênito nascido do
sexo masculino deverá ser dedicado ao
Senhor”.
24
Também um sacrifício deveria ser ofe-
recido, como proclama a Lei do Senhor:
“duas rolinhas ou dois pombinhos”.
10
“Nunc Dimittis”
25
Entrementes, havia um homem em
Jerusalém chamado Simeão, homem
justo e piedoso e que almejava a conso-
lação de Israel; e o Espírito Santo estava
sobre Ele.
11
26
O Espírito Santo lhe havia revelado
missão prioritária do Cristo, anunciada pelos anjos, é que Ele viria resgatar a humanidade, pagando o preço pelo pecado: a morte
(Mt 1.21; Jo 4.42). A pessoa e a obra de Cristo neste mundo significam: maior glorificação de Deus Pai nos céus (17.4,5) e paz
divina eterna para todos os habitantes da terra que receberem seu Espírito com amor e sinceridade (v.14; Rm 5.1,2). A expressão
hebraica: “Senhor”, até a vinda de Cristo, era usada exclusivamente para se referir a Deus (At 2.36; Fp 2.11).
7
Um grande coral de anjos entoou um cântico de louvor a Deus. As primeiras palavras deste pequeno hino, registrado em
7
latim na Vulgata, são: Gloria in exelsis Deo! Os anjos exaltam a majestade de Deus em todo o universo, nos céus, onde Deus
habita (Mt 6.9). O mundo da época vivia sob a Pax romana, uma paz exterior e temporária, imposta por um imperador humano. Os
anjos anunciam a “Paz de Deus”, eterna e absoluta, garantida a todos quantos se agradam (recebem com gratidão, sinceridade
e lealdade) a graça de Deus (Lucas usa a palavra “agrado” em vários momentos 3.22; 10.21; 12.32). A “Paz de Deus” só pode
ser recebida por quem crer que Ele é o Único doador e Salvador. Em resumo: é um ato de fé (Rm 5.1). O Messias davídico era
) g ç ( p g ) p
chamado de “Príncipe da Paz” (Is 9.6). De outro lado, embora Cristo tenha prometido essa Paz aos seus discípulos (Jo 14.27),
Ele deixou bem claro que haveria lutas, aflições e tensões (Mt 10.34-36; Lc 12.49; Jo 16.33), pois manter a paz com Deus significa
viver em oposição diária a Satanás e seus ardis (Tg 4.4).
8
Jesus, o Filho de Deus, relacionou-se de perto com a Lei e a Velha Aliança. Nasceu, cresceu e foi educado sob a Lei para
resgatar todos os que estavam sob a Lei e suas conseqüências. Obedeceu a Lei e foi além, para nos ensinar a viver sob o espírito
da lei; ou seja, livres da formalidade da letra, mas conduzidos pelo Espírito de Deus, nosso Advogado e Orientador quanto ao que
devemos fazer para agradar ao Pai Celestial (Jo 14.25-27; Gl 4.4-5). Lucas usa muitas vezes a expressão “louvando ao Senhor”
(1.64; 2.13,28; 5.25,26; 7.16; 13.13; 17.15,18; 18.43; 19.37; 23.47; 24.53).
9
Depois de dar à luz a um filho, a mãe judia, precisava aguardar 40 dias (resguardo), para dirigir-se ao templo e oferecer os
sacrifícios chamados de “purificação”. Se fosse pobre e não pudesse comprar um cordeiro e uma rolinha (espécie de pombo
pequeno), como ocorreu com José e Maria, eram aceitáveis dois pombinhos (Lv 12.2-8; 5.11).
10
Belém distava de Jerusalém cerca de 10 km. Todos os primogênitos dos seres humanos e dos animais deviam, pela Lei,
serem consagrados (dedicados) ao Senhor (Êx 13.12-13). Os animais eram sacrificados, pois somente o sangue e a morte dos
p g p
inocentes podia pagar o preço dos pecados humanos. Cristo tomou sobre si esta penalidade (Is 53.6; 2Co 5.21) e se deu em
sacrifício único, suficiente e perpétuo. Os primogênitos humanos eram simbolicamente oferecidos aos cuidados do Senhor (Rm
8.29), e seus pais se obrigavam a educá-los para adorar e servir a Deus. Os filhos deviam seguir a fé dos pais durante toda a vida,
mas eram os levitas quem, de fato, dedicavam suas vidas inteiras ao serviço religioso diário, como ministros, representando a
adoração de todos os primogênitos masculinos de Israel (Nm 3.11-13; 8.17,18).
11
A consolação que os judeus piedosos (fiéis e adoradores sinceros de Deus) aguardavam era a vinda do Messias (Cristo,
LC_B.indd 10 16/8/2007, 13:17:43
11 LUCAS 2
que não morreria sem ter a oportunida-
de de ver o Cristo de Deus.
27
Movido pelo Espírito Santo, ele di-
rigiu-se ao templo. Assim que os pais
trouxeram o menino Jesus para reali-
zarem com Ele o ritual de consagração
exigido pela tradição da Lei,
28
Simeão o tomou em seus braços e lou-
vou a Deus, exclamando:
29
“Ó Soberano! Como prometeste, po-
des agora despedir em paz o teu servo.
30
Porquanto os meus olhos já contem-
plaram a tua Salvação,
12
31
a qual preparaste à vista de todos os
povos:
32
luz para revelação aos gentios, e para
glória do teu povo de Israel”.
33
O pai e a mãe do menino ficaram
admirados com a proclamação feita a
respeito dele.
34
Então Simeão os abençoou e revelou
a Maria, mãe de Jesus: “Eis que este
menino está destinado a ser o respon-
sável pela queda e pelo soerguimento de
multidões em Israel, e a ser um sinal de
contradição,
35
de maneira que a intimidade dos
pensamentos de muitos corações será re-
velada. Quanto a ti, todavia, uma espada
traspassará a tua alma”.
13
As profecias de Ana
36
Estava também presente a profetiza
Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
Era uma senhora de idade avançada; ti-
nha vivido com seu marido durante sete
anos depois de se casar,
14
37
e desde então permanecera viúva até
a idade de oitenta e quatro anos. Jamais
deixava o templo: adorava a Deus, jeju-
ando e orando dia e noite.
38
Havendo chegado ali, naquele exato
momento, deu graças a Deus e proclama-
va acerca do bebê Jesus para todos os que
anelavam pela redenção de Jerusalém”.
15
39
Depois de terem cumprido tudo
quanto era requerido pela Lei do Senhor,
retornaram para a sua própria cidade,
Nazaré, na Galiléia.
40
E o menino crescia e se fortalecia, tor-
nando-se pleno em sabedoria; e a graça
de Deus permanecia sobre Ele.
16
O menino Jesus no templo
41
Todos os anos seus pais viajavam até
Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa.
em grego) e a implantação de um Reino de justiça, paz e felicidade (vs. 26,38; 23.51; 24.21; Is 40.1,2; Mt 5.4). O Espírito Santo,
antes do evento de Pentecostes, vinha “sobre” as pessoas e as agraciava com sua presença por algum tempo. Após a ascensão
de Cristo, o Espírito vem “habitar”, ou, como no sentido original do AT, “tabernacular” permanentemente na vida do crente (Jo
14.16-18). Lucas dá grande atenção em seus textos à pessoa e ao tríplice ministério do Espírito Santo: Primeiro como condutor
da graça preveniente e sensibilizadora que leva o ser humano a buscar a Deus (Jo 16.8), em seguida, revelando a Cristo e
iniciando a obra salvadora do Senhor (Jo 3.5; Rm 8.9), e santificando a vida do crente e o preparando para herdar a vida eterna
com Cristo (Rm 8.14).
12
Todo aquele que tem uma fé viva e verdadeira na pessoa e na obra de Cristo pode, com toda a certeza e tranqüilidade, morrer
em plena paz (1Jo 1.1 em relação a Gn 15.15). Simeão declama um salmo que se tornaria um hino da Igreja conhecido como:
Nunc dimittis, que são as primeiras palavras deste cântico em latim, como aparece na Vulgata, e significam: “Agora despede”.
Lucas, não sendo judeu, teve o cuidado de ressaltar a verdade de que a Salvação é uma graça disponível também aos gentios e
não apenas aos judeus (v.32; Mt 24.14; Mc 13.10; Ap 7.9).
13
Cristo veio para reabilitar o caído, consolar os que sofrem e restaurar os que se consideram perdidos. Aos que não se
acham necessitados, Cristo veio para, literalmente, “derrubar a casa” (em grego, ptõsis), pois Jesus é pedra de tropeço para os
incrédulos (20.17-18; 1Co 1.23; 1Pe 2.6-8). Jesus causa divisão entre o que prefere viver nas trevas e aqueles que atendem ao
apelo do seu amor (Jo 3.19), e entre o criminoso arrependido e o blasfemo (Lc 23.39-43). Lucas, pela primeira vez, fala sobre os
sofrimentos e o martírio de Cristo, salientando que sua mãe sofreria tanto quanto Ele, como se uma espada varasse seu coração.
No entanto não se tem notícia de que Maria tivesse ficado amargurada, ressentida com Deus ou amaldiçoasse seu destino.
14
A Bíblia apresenta outras profetizas: Miriã (Êx 15.20), Débora (Jz 4.4), Hulda (2 Rs 22.14) e as filhas de Filipe (At 21.9). Curio-
samente, essa Ana do NT louvou a Deus pelo menino Jesus, assim como, a Ana do AT exaltou ao Senhor pelo menino Samuel.
Ambas foram divinamente inspiradas para revelar a Palavra de Deus. O nome “Ana” significa em hebraico antigo: “misericordiosa”
(1Sm 2.1-10).
15
Jerusalém é a cidade santa do povo escolhido de Deus (Is 40.2; 52.9). Neste texto representa a nação de Israel como um todo.
16
Lucas não menciona a vinda dos magos (astrônomos), o perigo da parte de Herodes, nem ainda a fuga para o Egito e a
viagem de retorno de lá (Mt 2.1-23).
LC_B.indd 11 16/8/2007, 13:17:43
12 LUCAS 2, 3
42
Assim sendo, no ano em que Ele com-
pletou doze anos de idade, eles subiram à
festa, de acordo com a tradição.
17
43
Encerradas as comemorações, vol-
tando seus pais para casa, o menino
Jesus ficou em Jerusalém, sem que eles
notassem.
44
Imaginando que Ele estivesse entre os
muitos companheiros de viagem, cami-
nharam por um dia inteiro. Então come-
çaram a buscá-lo entre os seus parentes e
conhecidos.
45
Como não conseguiam encontrá-lo,
retornaram a Jerusalém para procurá-lo.
46
Após três dias o acharam no templo,
sentado na companhia dos mestres, ou-
vindo-os e propondo-lhes questões.
47
Todos os que o ouviam ficavam mara-
vilhados com a sua capacidade intelectual
e com a maneira como comunicava suas
conclusões.
18
48
Assim que seus pais o avistaram,
ficaram perplexos. Então sua mãe o
inquiriu: “Filho, por que agiste assim
conosco? Teu pai e eu nos angustiamos
muito à tua procura!”.
49
Então Ele lhes perguntou: “Por que
me procuráveis? Como não sabíeis
que era meu dever tratar de assuntos
concernentes ao meu Pai?”.
50
Mas eles não compreenderam bem o
que lhes explicara.
19
51
Contudo, Ele seguiu com eles para
Nazaré, pois lhes era obediente. Sua mãe,
entretanto, meditava silenciosamente em
seu coração sobre todos estes aconteci-
mentos.
52
E Jesus se desenvolvia em sabedoria,
estatura e graça na presença de Deus e de
todas as pessoas.
20
João Batista proclama a Palavra
(Mt 3.1-12; Mc 1.2-8)
3
No décimo quinto ano do reinado de
Tibério César, época em que Pôncio
Pilatos foi governador da Judéia; Hero-
des, tetrarca da Galiléia; seu irmão Filipe,
tetrarca da Ituréia e Traconites; e Lisânias,
tetrarca de Abilene, e
1
2
Anás e Caifás exerciam o ofício de
sumo sacerdotes. Foi nesse mesmo ano
que João, filho de Zacarias, recebeu
17
José e Maria tinham o zelo de cumprir tudo quanto a Lei requeria, e assim educavam o menino Jesus. Aos doze anos, a
7
tradição judaica considerava o jovem menino como “filho da lei”, e seu dever era aprender os preceitos mais amplos da Lei, para
no ano seguinte começar a cumprir as exigências cerimoniais relacionadas às festas, jejuns, orações e estudos teológicos. Jesus
estava certo de que seus pais sabiam da necessidade que ele tinha – no ano em que completava doze anos – de dedicar-se a
esse aprendizado e aprofundamento na cultura judaica junto aos rabinos e mestres da Lei do seu tempo.
18
Na época de Jesus as aulas eram gravadas na memória e no coração dos alunos, não havia as facilidades modernas dos
muitos livros, cadernos e computadores. As respostas orais dos alunos às seguidas perguntas dos mestres demonstravam
o quanto do ensino havia sido retido e compreendido. Jesus assombrou até os doutores de seu tempo com seu saber e
carisma pessoal.
19
Jesus tentou gentilmente lembrar seus pais terrenos sobre seu compromisso de obediência ainda maior a Seu Pai celeste,
e por isso contrapôs a expressão: “teu pai”, usada por Maria, com a frase: “meu Pai”. Ao doze anos Jesus já tinha grande com-
preensão sobre quem Ele era e qual sua missão na terra. Sua mãe, entretanto, procurou compreender o que havia se passado
ponderando tudo silenciosamente em seu coração, e assim agiria durante toda a vida de seu filho na terra. Lucas faz questão de
frisar que Jesus foi obediente aos seus pais e os seguiu para casa. Na época em que Lucas estava escrevendo seu Evangelho
(entre 60 e 70 d.C.), muitas lendas sobre a adolescência e a primeira juventude de Jesus circulavam por todo o império romano.
Uma delas dizia que Jesus passou por uma fase de rebeldia contra seus pais, bem como transformava pequenas peças de barro
em pássaros apenas para demonstrar seu poder. O problema, como sempre, é que muitos acreditaram mais na ficção do que
na realidade.
20
Lucas afirma a perfeita e completa humanidade pela qual Deus passou ao encarnar-se em Jesus de Nazaré, seu Filho. Como
qualquer pessoa, Cristo passou pelas diversas fases do desenvolvimento humano, porém sempre de forma brilhante, perfeito e
sem pecado. José, o pai terreno de Jesus, morreu quando Ele era ainda muito jovem, deixando para Ele toda a responsabilidade
de cuidar de Maria, sua mãe, e dos demais irmãos. E Jesus ajudou a sustentar sua família por muito tempo, trabalhando como
carpinteiro e pedreiro (Mc 6.3).
Capítulo 3
1
Tibério passou a ter autoridade sobre as províncias romanas por volta de 11 d.C, e Pilatos exerceu a suprema autoridade de
Roma na Judéia, entre os anos de 26 e 36 d.C, enquanto Herodes Antipas (filho de Herodes, o Grande) a exerceu na Galiléia e
Peréia, de 4 a.C. até 39 d.C. O “décimo quinto ano”, citado por Lucas, refere-se ao ano 25 ou 26 d.C.
LC_B.indd 12 16/8/2007, 13:17:44
13 LUCAS 3
uma palavra convocatória do Senhor,
no deserto.
2
3
Então ele percorreu toda a região
próxima ao Jordão, proclamando um
batismo de arrependimento para perdão
dos pecados.
3
4
Assim como está escrito no livro das
palavras do profeta Isaías: “Voz do que
clama no deserto: ‘Preparai o caminho
do Senhor, tornai retas as suas veredas.
5
Pois que todo o vale será aterrado e todas
as montanhas e colinas, niveladas. As estra-
das tortuosas se transformarão em retas e
os caminhos acidentados serão aplanados.
6
E todos os seres viventes contemplarão
a salvação que Deus oferece’”.
7
João repreendia as multidões que vi-
nham para ser batizadas por ele: “Raça
de víboras! Quem lhes persuadiu a fugir
da ira vindoura?
4
8
Produzi, então, frutos que demonstrem
arrependimento. E não comeceis a cogi-
tar em vossos corações: ‘Abraão é nosso
pai!’. Pois eu vos asseguro que destas
pedras Deus pode fazer surgir filhos a
Abraão.
5
9
O machado já está posto à raiz das árvo-
res, e toda árvore que não der bom fruto
será cortada e jogada ao fogo”.
10
E as multidões lhe rogavam: “O que
devemos fazer então?”.
11
Diante do que João as exortava: “Quem
tiver duas túnicas dê uma a quem não
tem nenhuma; e quem possui o que co-
mer, da mesma maneira reparta”.
12
Chegaram inclusive alguns publicanos
para ser batizados. E indagavam: “Mes-
tre, como devemos proceder?”.
13
E João lhes respondeu: “Não deveis exi-
gir nada além do que vos foi prescrito”.
6
14
Então um grupo de soldados lhe in-
quiriu: “E quanto a nós, o que devemos
fazer?”. E ele os orientou: “A ninguém
molesteis com extorsões, nem denun-
2
Embora Roma tivesse substituído o sumo sacerdote Anás, sucedido por seu filho Eleazar no ano 15 d.C., os judeus continuavam
a reconhecer sua autoridade (Jo 18.13; At 4.6), e por isso Lucas incluiu o nome dele junto com Caifás, a quem os romanos tinham
nomeado. Depois de 400 anos sem um profeta oficial, o Senhor convoca (chama) João para ser Sua voz e anunciar a vinda do
Messias. João foi o último dos profetas da Antiga Aliança, por isso seu estilo característico, um tanto diferente dos profetas do NT. O
chamado de Deus veio a João da mesma maneira como vinha aos profetas do AT (Jr 1.2; Ez 1.3; Os 1.1; Jl 1.1). A palavra “deserto”
nos originais, nem sempre se refere a uma região seca e arenosa, mas principalmente a um lugar desolado e desabitado.
3
João foi chamado por Deus para pregar arrependimento ao povo. Somente um coração contrito e quebrantado é caminho
pavimentado para a vinda de Jesus e a habitação do Espírito Santo. O batismo de João era um ato simbólico, no qual as pessoas
demonstravam publicamente sua compreensão e tristeza pelos erros e pecados cometidos, e a sincera disposição de buscar uma
vida em plena harmonia com a vontade de Deus. A morte do homem interior é a única maneira de revelar o caráter de Deus: a
Imago Dei (Imagem de Deus). Quanto mais parecidos com Deus, mais verdadeiramente humanos nos tornamos. A remissão total i
dos pecados viria na Salvação de Deus: Jesus Cristo (v.6), que seria oferecida a todas as pessoas da terra e, por fim, virá a eterna
condenação dos rebeldes (v.7). Somente Jesus Cristo tem o poder de perdoar todos os nossos pecados e cancelar (pagando
por nós), a pena de condenação já decretada contra nós (Rm 8.1).
4
Deus mandou que João quebrasse a arrogância daqueles que imaginavam a salvação apenas como uma promessa heredi-
tária e mais nada. João lhes fala da única maneira capaz de os fazer acordar para a realidade. Advertindo-os severamente para o
fato de que estavam sendo enganados pela “mãe das víboras”: o Diabo. Eram, portanto, uma geração de serpentes venenosas
(Jo 8.44). Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que amam a Deus e aos seus semelhantes (Rm 8.44). A ira de Deus
manifestou-se no ano 70 d.C. quando toda Jerusalém foi destruída (21.20-23); e o será de maneira global, por ocasião do Juízo
final (Jo 3.36). Os arrogantes, os ímpios e todos aqueles que vivem longe de um arrependimento genuíno, e de uma vida cristã
sincera, estão diariamente sujeitos ao Juízo de Deus (v.9; Mt 7.19; 13.40-42).
5
Os frutos que surgem em função de um verdadeiro arrependimento diante de Deus são: O reconhecimento da responsabilida-
de pessoal e social. A disposição para evitar o mal. A prática espontânea de boas obras. A partilha amorosa e voluntária dos bens
pessoais com aqueles que mais necessitam. Um caráter honesto e justo em todos os relacionamentos e assuntos. Uma atitude
paciente em todas as situações. A prática da verdade. Um espírito alegre e otimista mesmo em meio às grandes dificuldades da
vida, compreendendo que a esperança não vem das pessoas, nem das coisas, mas de Deus, nosso Pai (1Tm 6.6). João usa um
trocadilho em hebraico, facilmente compreendido naquela época por seus conterrâneos. A palavra aramaica transliterada: “filhos”
banim, muito se assemelha à palavra “pedras” abanim, significando que Deus pode dar aos que carecem de dignidade humana,
a mais alta posição com Seu Filho.
6
Os publicanos eram agentes judeus contratados pelo império romano para receberem os impostos cobrados pelo governo.
Eram detestados pelo povo judeu por várias razões, entre as quais por colaborarem com o conquistador romano pagão e, por
muitas vezes fraudarem e oprimirem seus próprios irmãos (Lc 19.2,8). Entretanto, os publicanos que se arrependiam, passavam
a ter um comportamento honesto e justo.
LC_B.indd 13 16/8/2007, 13:17:44
14 LUCAS 3
cieis falsamente. Contentai-vos com o
vosso próprio salário”.
7
João exalta a Jesus: o Caminho
(Mt 3.11-12; Mc 1.7-8; Jo 1.19-17)
15
A esta altura as pessoas estavam em
grande expectativa, imaginando em seus
corações se porventura João não seria o
Cristo.
16
Então João esclareceu a todos: “Eu, de
fato, vos batizo com água. Entretanto,
chegará alguém mais poderoso do que
eu, tanto que não sou digno sequer de
desamarrar as correias das suas sandá-
lias. Ele sim, vos batizará com o Espírito
Santo e com fogo.
8
17
Ele traz uma pá em suas mãos, a fim de
limpar a sua eira e juntar o trigo em seu
celeiro; todavia queimará a palha com o
fogo que jamais se apaga”.
9
18
E com muitas outras palavras João en-
tusiasmava as multidões e lhes pregava as
Boas Novas.
19
Contudo, quando João admoestou He-
rodes, o tetrarca, por causa de Herodias,
mulher do próprio irmão de Herodes, e
devido a muitas outras obras perversas
que havia praticado,
20
Herodes acrescentou a todas essas mal-
dades a de mandar João para a prisão.
10
O batismo e a ascendência de Jesus
(Mt 1.1-17; 3.13; Mc 1.9-11)
21
E ocorreu que, quando todo o povo
estava sendo batizado, da mesma manei-
ra Jesus o foi; e no momento em que Ele
estava orando, o céu se abriu
11
22
e o Espírito Santo desceu sobre Ele em
forma corporal, como uma pomba. E do
céu surgiu uma voz: “Tu és o meu Filho
amado; e em ti me agrado sobremaneira”.
23
Jesus tinha cerca de trinta anos de idade
quando iniciou seu ministério. Ele era,
como se dizia, filho de José; filho de Eli,
12
24
filho de Matate, filho de Levi, filho de
Melqui, filho de Janai, filho de José,
7
Os publicanos contavam com a cooperação de uma escolta romana para realizar o trabalho de coletar impostos. Era comum
7
os publicanos se juntarem aos soldados e armarem situações para defraudarem os judeus que deviam impostos ao governo. A
orientação clara de João é que, uma vez arrependido e comprometido com o Reino, o comportamento deve ser digno e ético.
Uma autoridade que teme a Deus jamais deveria usar seu cargo ou posição para intimidar com o propósito de extorquir, ou acusar
(denunciar) com objetivos escusos.
8
João tinha o ministério do arauto. Na cultura oriental da época, um proclamador adiantava-se à caravana do monarca com
o objetivo de anunciar a chegada de tão importante personalidade, a fim de que o povo se preparasse adequadamente para
recebê-lo. Normalmente as pessoas se vestiam com roupas de gala, arrumavam suas casas e decoravam a cidade de forma
festiva. Em termos espirituais, o arrependimento era a grande preparação para a vinda do Messias (o Cristo) e a inauguração
de um novo tempo, no qual Jesus concederia o Seu Espírito aos que nele cressem (Jo 3.3,5), o que veio a ocorrer a partir do
Pentecostes (At 1.5; 2.4,38). A expressão “fogo”, nos originais, está ligada ao Juízo (v.17; 12.49-53), ao Pentecostes (At 2.3) e às
provações (1Co 3.13).
9
A palha representa os infiéis e impenitentes (Rt 1.22), e o trigo, os justos e fiéis. Deus, em relação às pessoas, sempre faz
separação entre os que humildemente desejam Sua Graça e os arrogantes e rebeldes, que preferem uma vida de pecado, e,
conseqüentemente, seu salário. O vocábulo grego transliterado: “asbestõ”, significa uma qualidade do fogo que, devido à sua
fúria e poder de combustão, não pode ser apagado. Muitos judeus imaginavam que na vinda do Messias somente os pagãos
seriam julgados e condenados ao fogo eterno. Entretanto, João deixa bem claro que o Juízo vem para todos quantos não se
arrependem, inclusive os judeus de nascimento.
10
Esse foi Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande, que mandou matar todas as crianças judias de Belém. Conforme
os escritos de Josefo, historiador judeu, João foi encarcerado em Maquero, a leste do mar Morto (Jo 3.22-24). Lucas antecipa a
narração deste fato para encerrar a seção sobre o ministério de João e iniciar sua descrição do ministério de Jesus (Mt 4.12; Mc
1.14), mais tarde faz breve menção à morte de João (9.7-9).
11
Lucas chama atenção para o fato de que Jesus estava em oração por ocasião do seu batismo, assim como o faz em muitos
momentos (5.16; 6.12; 9.18-29; 11.1; 22.32,41; 23.34,46), oferecendo aos seus discípulos um grande exemplo e demonstrando
sua total humanidade e dependência do Pai (Hb 4.15; 5.7). O Espírito assumiu uma forma corpórea (uma espécie de pombo),
para que os presentes pudessem reconhecer a Jesus como o Messias (Is 11.2,3; 42.1; Sl 2.7; Hb 1.5) e para sinalizar o início de
um tempo em que seus discípulos poderiam viver plenos do Espírito do Pai (4.1,14). Este evento demonstra que a Trindade está
presente no batismo e na vida do cristão sincero (Mt 28.19).
12
Lucas segue a linhagem de Maria, mãe natural de Jesus, e seu parentesco consangüíneo; enquanto Mateus destaca a
ascendência de José (o pai jurídico de Jesus). Tanto José, quanto Maria, pertenciam à Casa de Davi. Mateus preocupa-se em
demonstrar o parentesco de Jesus com Abraão, enquanto Lucas ressalta a importância de Maria na genealogia de Jesus e sua
LC_B.indd 14 16/8/2007, 13:17:45
15 LUCAS 3, 4
25
filho de Matatias, filho de Amós, filho
de Naum, filho de Esli, filho de Nagai,
26
filho de Máate, filho de Matatias, filho
de Semei, filho de José, filho de Jodá,
27
filho de Joanã, filho de Resa, filho
de Zorobabel, filho de Salatiel, filho de
Neri,
28
filho de Melqui, filho de Adi, filho de
Cosã, filho de Elmadã, filho de Er,
29
filho de Josué, filho de Eliézer, filho de
Jorim, filho de Matate, filho de Levi,
30
filho de Simeão, filho de Judá, filho de
José, filho de Jonã, filho de Eliaquim,
31
filho de Meleá, filho de Mená, filho de
Matatá, filho de Natã, filho de Davi,
32
filho de Jessé, filho de Obede, filho de
Boaz, filho de Salá, filho de Naassom,
33
filho de Aminadabe, filho de Admim,
filho de Arni, filho de Esrom, filho de
Peres, filho de Judá,
34
filho de Jacó, filho de Isaque, filho de
Abraão, filho de Terá, filho de Naor,
35
filho de Serugue, filho de Ragaú, filho
de Faleque, filho de Éber, filho de Salá,
g g
36
filho de Cainã, filho de Arfaxade, filho
de Sem, filho de Noé, filho de Lameque,
37
filho de Matusalém, filho de Enoque,
filho de Jarede, filho de Maalaleel, filho
de Cainã,
38
filho de Enos, filho de Sete, filho de
Adão, filho de Deus.
Jesus vence o ataque satânico
(Mt 4.1-11; Mc 1.12,13)
4
Pleno do Espírito Santo, retornou
Jesus do Jordão e foi conduzido pelo
Espírito ao deserto,
1
2
onde enfrentou as tentações do Diabo
por quarenta dias. Durante todos esses
dias não comeu nada e, ao fim desse
período, estava faminto.
3
Indagou-lhe, então, o Diabo: “Se tu és o
Filho de Deus, ordena que esta pedra se
transforme em pão”.
2
4
Mas Jesus lhe contestou: “Está escrito:
‘Nem só de pão viverá o ser humano’”.
5
Então o Diabo o levou a um lugar mui-
to alto e lhe mostrou, em uma fração de
tempo, todos os reinos do mundo.
6
E lhe propôs: “Eu te darei todo o poder
sobre eles e toda a glória destes reinos,
porque me foram entregues e tenho
autoridade para doá-los a quem bem
entender.
solidariedade com toda a humanidade em Adão. Não era nada comum descrever uma árvore genealógica pelo lado materno.
Todavia, Lucas se propusera a fazer uma narrativa o mais lógica e ordenada possível dos acontecimentos. Como já havia sido
muito franco e direto ao explicar a geração virginal de Jesus (1.34,35), fato ainda mais inusitado, não podia omitir a maneira como
a paternidade de Jesus ocorrera: de um lado, José, “como se dizia” ou “como se imaginava” (v.23; 4.22), ou seja, o pai juridica-
mente responsável por Jesus; e o Espírito de Deus que o gerou. Aos trinta anos de idade Jesus inicia seu ministério, assim como
era costume entre os levitas (Nm 4.47), quando um servo judeu era considerado maduro para os variados serviços religiosos.
Jesus cumpriu toda a Lei, e foi além.
Capítulo 4
1
Lucas é inspirado por Deus (aqui e no livro de Atos) para dar especial destaque à ação da terceira pessoa da Trindade – o
Espírito Santo – no mover do coração do Senhor e de seus discípulos para fazerem a vontade do Pai (1.35; 41.7; 2.25-27; 3.16,22;
4.14,18; 10.21; 11.13; 12.10,12). Durante toda a sua vida na terra, Jesus suportou fortes e complexas tentações, em algumas delas
a Bíblia não nos revela os detalhes. Todavia, esse embate mereceu especial destaque, pois esteve em questão todo o futuro dos
seres humanos. Os ataques do Diabo foram contra o Messias (o Ungido de Deus, Seu Filho), o cabeça da Nova Humanidade (Cl
2.15). Jesus foi tentado de forma extremamente sutil, ardilosa e não menos poderosa. Contudo, venceu por nós. Em contraste
com Adão (em hebraico: homem – Gn 2.20, enquanto Eva, significa: humanidade), que se tornou o cabeça da Velha Humani-
dade, pois não conseguiu obedecer ao Criador, embora vivendo em condições ideais; e caiu, cometendo o primeiro pecado da
humanidade, com conseqüências mortais, o qual acompanhará o gene de cada indivíduo humano, de geração em geração, até o
final dos tempos. O Segundo Adão (Jesus – o Novo Homem), venceu o Diabo em total fraqueza da carne. Adão havia inaugurado
a humanidade com toda a autoridade e glória do mundo (Gn 1.28-30), enquanto Jesus foi glorificado através do sofrimento, da
humilhação e da morte (Rm 1.4; Fp 2.9-11). O primeiro Adão não aceitou cumprir a vontade de Deus e fez prevalecer os seus
próprios desejos, rebelando-se contra a única restrição imposta a ele por Deus. O Segundo Adão, o Filho de Deus, aceitou, de
livre vontade, cumprir todos os desejos do Pai (Gl 4.4; Fp 2.6-8).
2
Após 40 dias em absoluto jejum, os originais hebraicos e gregos revelam que Jesus não apenas estava com “fome” (como
consta em algumas versões), mas sim que ele estava sôfrego de fome (esfomeado). O Diabo nem sempre é horrível e violento,
pois pode travestir-se de luz e justiça. Sua estratégia foi induzir Jesus a abdicar de sua condição humana, usar de seus poderes
divinos, e deixar o caminho do sofrimento inevitável. O Diabo sempre fará as tentações parecerem irresistivelmente atraentes.
LC_B.indd 15 16/8/2007, 13:17:46
16 LUCAS 4
7
Portanto, se prostrado me adorares, tu-
do isso será teu!”.
3
8
Contudo Jesus lhe afirmou: “Está escri-
to: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a
Ele darás culto’”.
9
Em seguida o Diabo o levou para Jeru-
salém, e o colocou sobre a parte mais alta
do templo e o desafiou: “Se tu és o Filho
de Deus, lança-te daqui para baixo.
10
Pois, como está escrito: ‘Aos seus an-
jos ordenará a teu respeito, para que te
protejam;
11
eles te sustentarão sobre suas mãos
para que não batas com teu pé contra
alguma pedra’”.
4
12
Repreendeu-lhe Jesus: “Dito está! ‘Não
tentarás o Senhor teu Deus’”.
13
E assim, tendo concluído todo o tipo
de tentação, o Diabo afastou-se dele até
o tempo oportuno.
Jesus volta pleno do Espírito
(Mt 4.12-17; Mc 1.14-15)
14
Então, Jesus retornou para a Galiléia,
no poder do Espírito, e por toda aquela
região se espalhou sua fama.
15
Ensinava nas sinagogas e, de todos,
recebia manifestações de grande apre-
ciação.
Jesus é rejeitado pelos seus
(Mt 13.54-58; Mc 6.1-4)
16
Jesus viajou para Nazaré, onde havia
sido criado e conforme seu costume, num
dia de sábado, entrou na sinagoga. E posi-
cionou-se em pé para fazer a leitura.
17
Foi-lhe entregue o livro do profeta Isa-
ías. Desenrolando-o achou o lugar onde
está escrito:
5
18
“O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para pregar o Evan-
gelho aos pobres. Ele me enviou para
proclamar a libertação dos aprisionados
e a recuperação da vista aos cegos; para
restituir a liberdade aos oprimidos,
19
e promulgar a época da graça do Se-
nhor”.
20
Em seguida, enrolou novamente o li-
vro, devolveu-o ao assistente e assentou-
se. E na sinagoga todos estavam com os
olhos fixos em sua pessoa.
21
Então Ele começou a pregar-lhes:
“Hoje se cumpriu a Escritura que aca-
bais de ouvir”.
6
22
E todos exclamavam maravilhas sobre
Ele, e estavam admirados com as palavras
de graça que saíam dos seus lábios. Mas
questionavam entre si: “Não é este o filho
de José?”.
Entretanto, Jesus – o Novo Homem - apegou-se à Palavra de Deus e, citando a Torá (Lei), mais precisamente, passagens em
Deuteronômio (8.3; 6.13-16), enfatiza que o pão e a fartura material nada valem sem a bênção de Deus. Jesus não diz que não
podia fazer o que o Diabo lhe sugeria, mas sim que sua vontade maior era agradar ao Pai.
3
Uma tentação aparentemente inteligente, considerando que Jesus veio para dominar sobre todos os reinos da terra. Depois
deste lugar, Jesus foi conduzido ao canto sudeste da colunata do templo, o seu ponto mais alto (ou pináculo do templo), um
declive de cerca de 30 metros para o vale do Cedrom. Todavia, o ardil de Satanás estava no fato de tentar fazer com que Jesus
evitasse os sofrimentos do caminho da cruz, os quais veio especificamente suportar como única maneira, divinamente legal, de
libertar a humanidade do estigma do pecado (Mc 10.45), herança do Velho Homem. Pecado esse que somente poderia ser pago
(resgatado), com a morte (sacrifício) de um homem inocente (sem pecados). Uma vez que o Diabo não conseguiu iludir Jesus
apelando para as suas necessidades físicas, tenta seduzi-lo com toda a glória e poder que este mundo pode oferecer e que estão
(temporariamente) sob seu domínio, mas é novamente rechaçado (1Jo 5.19).
4
Satanás questiona a filiação de Jesus a Deus, cita as Escrituras corretamente (Sl 91.11-12), porém aplica o ensino de forma
tendenciosa e errônea, como fizera em Gn 3.1, e tenta fazer com que Jesus teste a fidelidade do seu Pai e chame a atenção do
público sobre sua pessoa de forma espetacular. O príncipe do mal é afastado quando Jesus reafirma sua total humanidade ao
usar a Palavra para confirmar que não cabe ao homem testar a Deus; e sua total divindade ao chamar a atenção de Satanás para
o fato de que ele não deveria estar provocando a Deus. Entretanto, o Diabo continuou tentando ao Senhor (o arrogante é surdo)
durante todo o seu ministério (Mc 8.33), até culminar com a prova maior, no Getsêmani (Jo 14.30; Lc 22.53).
5
Jesus foi para Nazaré cerca de um ano depois do início do seu ministério. Os acontecimentos narrados por João, de Jo 1.19
até 4.42, foram sintetizados por Lucas em Lc 4.13-14. Jesus voltou para sua terra natal apenas duas vezes (Mt 13.53-58 e 6.1-6).
Em ambos os casos se destaca a falta de fé daqueles que mais conviveram com Ele, mas o conheciam apenas como um jovem
e bom judeu do interior, que ajudava seu pai José a manter a família como carpinteiro e construtor (pedreiro). Os livros do AT
eram escritos em rolos de couro, guardados em lugar especial e honroso na sinagoga (como ainda ocorre em nossos dias), e
oferecidos, por um funcionário, ao pregador do dia ou a um mestre visitante (no caso de Jesus naquele dia). Jesus leu o texto de
Is 61.1,2 em hebraico e o pregou em aramaico, sua língua materna e de seus conterrâneos.
6
O texto do AT lido por Jesus descreve o ministério do Messias, na emancipação dos pobres, através da riqueza que há no
LC_B.indd 16 16/8/2007, 13:17:46
17 LUCAS 4
23
No entanto, Jesus lhes replicou: “Com
toda a certeza citareis a mim o conhecido
provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo!
Faze aqui em tua terra o que soubemos
que fizeste em Cafarnaum’”.
7
24
E continuou a falar Jesus: “Realmente
vos afirmo: Nenhum profeta é bem rece-
bido em sua própria terra.
25
No tempo de Elias, posso lhes afirmar
com certeza, que havia muitas viúvas em
Israel, quando o céu foi fechado por três
anos e meio, e grande fome ocorreu em
toda a terra.
26
Contudo, Elias não foi mandado a
nenhuma delas, senão somente a uma
viúva de Sarepta, na região de Sidom.
8
27
Assim também, no tempo do profeta
Eliseu, havia muitos leprosos em Israel,
mas nenhum deles foi purificado, a não
ser Naamã, o sírio”.
28
Então, todos os que estavam na sina-
goga foram tomados de grande raiva ao
ouvirem tais palavras.
9
29
E, levantando-se, expulsaram a Jesus
da cidade, levando-o até o topo da colina
sobre a qual a cidade havia sido edifi-
cada, com o propósito de jogá-lo de lá,
precipício abaixo.
30
Todavia, Jesus passou por entre eles, e
seguiu seu caminho.
10
O poder da Palavra de Jesus
(Mc 1.21-28)
31
Então Jesus desceu para Cafarnaum,
cidade da Galiléia, e, noutro sábado,
começou a ensinar o povo.
32
E todos ficavam deslumbrados com
o seu ensino, pois que sua palavra era
ministrada com autoridade.
33
Entrementes, na sinagoga, havia um
homem possesso de demônio, ou seja,
de um espírito imundo, que berrou com
toda a força:
11
34
“Ah! Que tu queres conosco, Jesus de
Nazaré? Vieste destruir a nós? Sei bem
quem tu és: o Santo de Deus!”.
35
Mas Jesus o repreendeu, ordenando:
“Fica quieto e sai deste homem!”. Ime-
diatamente o demônio jogou o homem
no chão, perante todos, e saiu dele sem
o ferir.
36
Todas as pessoas ficaram maravilhadas
e diziam umas às outras: “Que Palavra é
esta? Pois até aos espíritos demoníacos
Ele dá ordens com autoridade e poder,
e eles se vão?”.
Evangelho (em grego: Boas Novas, Ef 1.3); dos cativos, através da libertação da Graça abundante (Gl 5.1,13); dos deficientes
visuais (em todos os sentidos), através do seu jugo, pois Ele toma para si o nosso fardo (Mt 11.28-30; 1Pe 5.7). Durante todo o
Evangelho, Lucas demonstra que Jesus, o Cristo (o Messias) foi Ungido (escolhido, separado), não apenas por um ritual da tradi-
ção judaica (Êx 30.22-31), mas pelo próprio Espírito de Deus. Sua missão foi proclamar um novo tempo da graça de Deus, no qual
as pessoas de toda a terra alcançariam a salvação (vida eterna) ao receberem a Palavra de Jesus Cristo em seus corações com
fé, amor e sinceridade (2Co 6.2). Jesus interrompe sua leitura antes de citar “o dia da vingança”, que ocorrerá com sua segunda
vinda no futuro iminente. A expressão grega, transliterada por: dektos (que significa: “aceitável”, “bem recebido”), refere-se não a
um ano civil de doze meses, mas a um período, a chamada Era Messiânica.
7
Embora Jesus tenha nascido em Belém, foi criado e passou toda a adolescência em Nazaré, na Galiléia (1.26; 2.39,51; Mt 2.23).
8
Sidom foi uma das mais antigas e importantes cidades da Fenícia, e localizava-se a cerca de 32 km ao norte de Tiro.
9
Jesus descreve a si como um dos profetas de Deus, que também haviam sido rejeitados pelos seus próprios e amados
concidadãos. Lucas faz ainda questão de observar a referência feita por Jesus à graça dispensada por Deus a uma mulher e a um
homem, ambos gentios, ou seja, que não eram judeus (1Rs 17.1-15; 2Rs 5.1-14). O que mais enfureceu os nazarenos, membros
da sinagoga, foi o fato de Jesus dizer que, quando Israel rejeitou o mensageiro da redenção, especialmente mandado por Deus,
este o enviou aos gentios, e que isso aconteceria uma vez mais, caso eles se recusassem a aceitar o ensino e a graça de Jesus
(10.13-15; At 14.46 Rm 9 e 11).
10
Lucas nos deixa em suspense quanto aos detalhes dessa saída de Jesus das garras de seus oponentes. Os originais revelam
que Jesus “saiu andando e seguiu para onde devia ir”. Algumas versões apenas traduzem por “...passando por eles, retirou-se.”
De qualquer forma, a grande lição deste evento é que o tempo de Jesus ainda não havia chegado, prova de que ele tinha plena
consciência e controle do momento exato no qual ofereceria sua vida em prol da humanidade, ninguém seria capaz de tirar a vida
do Senhor, ele, espontaneamente, a daria.
11
Para os povos pagãos a expressão “demônio”, significava apenas “um ser sobrenatural”, que podia ser “bom” ou “mau”.
Lucas, quis que os gentios o compreendessem corretamente e deixa claro que esse era mesmo um espírito maligno. Esses
demônios, ao se incorporarem a uma pessoa, podiam provocar distúrbios mentais (Jo 10.20), atitudes violentas (Lc 8.26-29),
doenças e enfermidades físicas diversas (13.11,16) e a própria rebelião contra Deus (Ap 16.14).
LC_B.indd 17 16/8/2007, 13:17:47
18 LUCAS 4, 5
37
E as notícias a respeito de Jesus se es-
palhavam por todas as regiões vizinhas.
O poder de Jesus sobre todo o mal
(Mt 8.14-17; Mc 1.29-34)
38
Saindo da sinagoga dirigiu-se Jesus à
casa de Simão. A sogra de Simão estava
atormentada, ardendo em febre, e rogaram
a Jesus que a ajudasse de alguma forma.
12
39
Estando Ele em pé próximo a ela,
inclinou-se e repreendeu aquela febre,
que no mesmo instante a deixou. Ela
rapidamente se levantou e passou a
servi-los.
40
Ao cair da tarde, o povo trouxe à presen-
ça de Jesus todos os que tinham diversos
tipos de doenças e Ele os curou, impondo
suas mãos sobre cada um deles.
41
Além disso, de várias pessoas saíam de-
mônios gritando: “Tu és o Filho de Deus!”.
Ele, contudo, os repreendia e não permitia
que se expressassem, pois sabiam que Ele
era o Cristo.
Jesus ora em solitude ao amanhecer
(Mc 1.35-39)
42
Ao raiar do dia, Jesus foi para um lugar
solitário. De outro lado, as multidões o
procuravam, e assim que conseguiram
chegar ao local onde Ele estava, suplica-
ram para que não as deixasse.
43
Contudo, Ele ponderou: “É necessário
que Eu anuncie também as Boas Novas
do Reino de Deus em outras cidades, pois
precisamente para isso fui enviado”.
13
44
E assim, prosseguia pregando pelas
sinagogas da Palestina.
14
Jesus convoca seus discípulos
(Mt 4.18-22; Mc 1.16-20; Jo 1.35-42)
5
E aconteceu que, num determinado
dia, Jesus estava próximo ao lago de
Genesaré, e uma multidão o espremia
de todos os lados para ouvir a Palavra
de Deus.
1
2
Ele observou junto à beira do lago dois
barcos, deixados ali pelos pescadores,
que havendo desembarcado, cuidavam
de lavar suas redes.
3
Então, entrou num dos barcos, o que
pertencia a Simão, e lhe solicitou que o
afastasse um pouco da praia. E, assentan-
do-se, do barco ensinava o povo.
2
4
Assim que acabou de ministrar, dirigiu-
se a Simão e aos demais, e lhes pediu: “Ide
para onde as águas são mais profundas e
lançai as vossas redes para a pesca!”.
5
Ao que lhe replicou Simão: “Mestre,
tendo trabalhado durante a noite toda,
não pegamos nada. Todavia, confiando
em tua Palavra, lançarei as redes.
3
6
Assim procederam e pegaram enorme
12
Ao contrário do que muitos teólogos pregam para defender especialmente a teoria do celibato, Pedro foi casado (1Co
9.5). Os três evangelhos sinóticos discorrem sobre esse milagre, mas apenas Lucas, por ser médico, acrescenta expressões
tipicamente técnicas, como: “com muita febre” ou “febre alta”.
13
Ao pôr-do-sol encerrava-se o Shabbãth (em hebraico: o sábado judaico), isso se dava por volta das 18h. Antes dessa hora,
conforme a tradição dos anciãos, os judeus eram proibidos de viajar mais que um quilômetro de distância, ou sequer carregar
um fardo. Somente a partir do entardecer do sábado as multidões podiam levar seus enfermos a Jesus, o que faziam ansiosa e
confiantemente em Cafarnaum, sendo por isso abençoadas por Jesus, com curas e outros milagres em profusão. Entretanto, a
missão do Senhor deveria continuar e sua graça ser estendida aos limites da terra. Os originais deixam transparecer o coração
compassivo de Jesus em sua despedida.
14
Algumas versões, utilizando manuscritos historicamente mais recentes, e os relatos paralelos de Mt 4.23; Mc 1.39, informam
que Jesus se dirigiu para a Galiléia. Entretanto, originais mais antigos, trazem “Judéia”, no sentido de toda a região da Palestina,
que inclui a Galiléia (Jo 2.13 – 4.3), e por isso o Comitê de Tradução da Bíblia King James optou por essa designação mais
abrangente e fiel aos melhores originais.
Capítulo 5
1
Lucas é o único dos evangelistas que se refere ao grande lago da Galiléia, que fica a 220m abaixo do nível do mar e mede 21
km de comprimento por 12 km de largura, chamando-o, de forma tecnicamente correta, de lago. Os demais escritores o chamam
de “mar da Galiléia”, e João o denomina por duas vezes de “mar de Tiberíades” (Jo 6.1; 21.1).
2
O barco de Pedro foi posicionado de forma estratégica de modo que Jesus pudesse ser visto e ouvido por toda a multidão.
Além disso, era costume judaico que um mestre ao ensinar, deveria fazê-lo assentado, bem como seus ouvintes, para que a
comunicação se desse da maneira mais confortável possível.
3
A palavra “Mestre”, em grego transliterado: epistata, só aparece em Lucas, e significa: “aquele que tem o direito de mandar”.
Quando todos os indicativos apontavam para um novo insucesso: o melhor horário para a pesca era durante a noite e não em
LC_B.indd 18 16/8/2007, 13:17:47
19 LUCAS 5
quantidade de peixes, tanto que as redes
começaram a se romper.
7
Por esse motivo acenaram aos seus
amigos no outro barco, para que vies-
sem ajudá-los. Eles chegaram e lotaram
ambos os barcos, a ponto de começarem
a afundar.
4
8
Diante de tamanho evento, Simão se
prostrou aos pés de Jesus e declarou:
“Afasta-te de mim, Senhor, pois sou
homem pecador!”.
9
Porquanto, ele e seus companheiros
estavam maravilhados com a pesca que
haviam realizado,
5
10
assim como de Tiago e João, os filhos
de Zebedeu, que eram sócios de Simão.
Todavia, Jesus revela a Simão: “Não te-
nhas medo; a partir deste momento tu
serás um pescador de vidas humanas”.
6
11
Então, eles arrastaram seus barcos
para a praia, renunciaram a todas as
coisas e seguiram a Jesus.
7
Jesus cura um homem leproso
(Mt 8.1-4; Mc 1.40-45)
12
Estando Jesus em uma das cidades, eis
que um homem coberto de lepra veio
em sua direção. Assim que contemplou
a Jesus, ajoelhou-se e colocando o rosto
rente ao chão, suplicou-lhe: “Senhor! Se
for da tua vontade, sei que podes me
purificar”.
8
13
Jesus estendeu a mão, tocou nele e
proferiu: “Quero. Sê purificado!”. E, no
mesmo instante a lepra se retirou daque-
le homem.
14
Em seguida, Jesus lhe ordenou:“Não
fales sobre este acontecimento a ninguém;
porém, vai, mostra-te ao sacerdote e ofe-
rece pela tua purificação os sacrifícios que
Moisés determinou, para servir de teste-
munho ao povo.
9
15
Contudo, as notícias a respeito de
Jesus se espalhavam ainda mais, de ma-
neira que multidões convergiam para
pleno dia; a experiência profissional de Pedro e de seus companheiros contra a inexperiência de Jesus no ramo, pois era um
carpinteiro ligado às artes e letras; o fato de terem trabalhado arduamente durante toda aquela noite e terem apenas sujado as
redes, Pedro decide obedecer à Palavra de Jesus. Preparou e lançou sua rede com esperança.
4
Curiosamente a expressão grega transliterada: buthizesthai (que significa: afundar), usada por Lucas, traduzida em algumas i
versões por irem a pique e aqui por começarem a afundar, tem a ver com a mesma expressão usada em 1Tm 6.9, onde descreve
o mergulho para a perdição daqueles que ambicionam exclusivamente as riquezas materiais.
5
Pedro assombrou-se mais com sua falta de fé e indignidade do que com o evento em si. Ele tinha confiança em Jesus, mas
não tinha certeza absoluta de que o milagre se daria, ainda mais naquelas proporções. A reação de Pedro revela a atitude normal
de todas as pessoas ao chegarem sinceramente à conclusão de que são pecadores e indignos de permanecerem na presença
santa de Deus; portanto carentes e dependentes absolutamente da graça do Senhor (Ap 6.16). Desta mesma maneira se sentiram
os grandes líderes espirituais da antiguidade. Entre eles: Abraão (Gn 18.27); Jó (42.6) e Isaías (6.5).
6
É digno de nota o fato de Jesus haver escolhido seus discípulos entre homens que estavam dedicados a um trabalho árduo,
não entre líderes religiosos preguiçosos e desocupados. Contudo Pedro foi convocado duas vezes para servir a Cristo após duas
pescarias milagrosas. Primeiro para o discipulado e algum tempo mais tarde, para o apostolado (Jo 21.1-18), quando – uma vez
mais – achava-se indigno para o ministério.
7
Jesus já conhecia esses homens aos quais agora faz uma convocação formal (Jo 1.40-42; 2.1,2). Os originais e outras pas-
7
sagens dão a entender que eles não abandonaram tudo de forma irresponsável e tresloucada; mas sim que renunciaram a seus
lucros – especialmente os dessa última pescaria – e entregaram a administração da empresa a Zebedeu, pai de João e Tiago, ou
a outros membros da família (Mt 4.18-22).
8
A expressão original grega, muito usada em escritos médicos da época, e aqui traduzida como “lepra”, refere-se a uma
série de doenças e cânceres de pele. Os evangelhos sinóticos registram esse acontecimento de forma diferente: Mateus o
cita como parte de uma galeria de milagres (Mt 8.1-4). Marcos e Lucas o colocam como um dos primeiros sinais maravilhosos
realizados por Jesus no início de sua peregrinação pela Galiléia. O homem doente e transfigurado por uma doença que o excluía
socialmente, contrariando a Lei (Lv 13), busca a Jesus com todas as suas forças como única solução para seu grave problema.
Ele se aproxima do Senhor com fé, humildade e vontade de obedecer ao que Jesus lhe mandasse fazer; exatamente como todo
pecador arrependido deve agir. O perdão assim como a cura se materializam instantaneamente ao toque do Senhor, e o homem
renasce, livre do pecado e da enfermidade que o escravizavam.
9
Jesus tentava evitar que o povo interpretasse mal sua pessoa e ministério, pois muitos o aclamavam como grande curandeiro,
milagreiro e líder nacionalista revolucionário, que era a visão simplista que alimentavam quanto ao Messias prometido. Além
disso, suas atitudes começavam a irritar os líderes religiosos e provocavam neles enorme inveja e medo de perderem o poder
sobre o povo. Jesus manda que o homem vá apresentar-se ao sacerdote de plantão; e com isso, o estimula a guardar a Lei,
apresentar todas as provas de sua cura e receber a certidão ritual de purificação para que pudesse ser reintegrado à sociedade
(Mt 8.4; 16.20; Mc 1.44).
LC_B.indd 19 16/8/2007, 13:17:48
20 LUCAS 5
ouvi-lo e para serem curadas de suas
enfermidades.
16
Todavia, Jesus procurava manter-se
afastado, indo para lugares solitários,
onde ficava orando.
Jesus cura um homem paralítico
(Mt 9.1-8; Mc 2.1-12)
17
Num outro dia, quando Jesus mi-
nistrava, estavam sentados ali fariseus
e professores da Lei, vindos de todos
os povoados da Galiléia, da Judéia e de
Jerusalém; e Ele tinha o poder de Deus
para realizar curas.
10
18
Chegaram, então, uns homens trazen-
do um paralítico numa maca e tentaram
fazê-lo entrar na casa, a fim de apresen-
tá-lo perante Jesus.
19
Não tendo sucesso nessa tentativa,
devido à grande multidão aglomerada,
subiram ao terraço e o baixaram em sua
maca, através de uma abertura no teto,
até o meio da multidão, bem diante de
Jesus.
11
20
Observando a fé que aqueles homens
demonstravam, Jesus declarou: “Ho-
mem! Os teus pecados estão perdoa-
dos”.
12
21
Diante disto, os escribas e os fariseus
começaram a cogitar: “Quem é este que
profere blasfêmias? Quem tem poder
para perdoar pecados, a não ser somente
Deus?”.
13
22
Jesus, entretanto, tendo pleno dis-
cernimento do que estavam pensando,
questionou-lhes: “Que censurais em
vossos corações?
23
Que é mais fácil declarar: ‘Os teus
pecados estão perdoados’, ou ‘Levanta-te
e anda’?
14
24
Todavia, para que vos certifiqueis de
que o Filho do homem tem na terra
autoridade para perdoar pecados” – di-
rigindo-se ao paralítico declarou – “Eu
te ordeno: Levanta-te! Pega a tua maca e
vai para casa”.
25
Então, naquele mesmo instante, o
homem se levantou diante de todos os
presentes, pegou a maca em que estivera
prostrado e correu para casa louvando e
bendizendo a Deus.
15
26
E todos ficaram estupefatos e glorifi-
10
Os fariseus (em hebraico original: separados), citados aqui por Lucas pela primeira vez, mas que já haviam questionado
o ministério e a pessoa de Jesus anteriormente, eram mestres autoritários e muito respeitados nas sinagogas. Formavam uma
confraria e um partido político, com mais de seis mil membros, espalhados por toda a Palestina. Eles se autodenominavam
“guardiões da Lei”. Pregavam que suas tradições e interpretações teológicas eram tão importantes quanto as Escrituras Sagradas
(Mc 7.8-13). Jesus já havia confrontado alguns líderes judaicos em Jerusalém (Jo 5.16-18). Agora o seguiram até uma casa em
Cafarnaum, com o objetivo de analisar suas palavras e vigiar seus movimentos. Os “escribas” (v.21) eram estudiosos com grande
habilidade para a escrita (arte rara na época, permitida apenas aos homens, e de muito prestígio). Eles eram responsáveis pelo
estudo, interpretação e ensino da Lei (escrita e oral) e das tradições judaicas. A maioria dos “escribas” pertencia ao partido
(popular) dos fariseus e os demais eram vinculados ao partido aristocrático dos saduceus.
11
O estilo palestinense de construção já havia incorporado a maneira greco-romana de cobrir as casas com uma espécie de
laje pré-moldada em ladrilhos de barro cozido (Mc 2.4).
12
A grande causa das doenças no mundo reside no pecado: nos cometidos por cada um de nós em função de nossas vonta-
des perversas (Jo 9.3), e naqueles praticados pela humanidade como um todo desde a Queda (Gn 3). O homem paralítico, pela
fé, reconhece o pecado como a raiz do seu problema e, por isso, obedece à ordem de Cristo. Os amigos revelam igualmente
grande fé em Jesus e amor ao amigo incapacitado, e não desistem ao primeiro obstáculo, pelo que também são abençoados.
Esse episódio nos leva a concluir que a oração e o esforço dos amigos e parentes em levar seus “atrofiados pelo pecado” ao
Senhor, serão eficazes e galardoados com alegrias espirituais.
13
Para os fariseus e os escribas (doutores da Lei), a blasfêmia (palavra que ultraja a Deus ou a religião), era o pecado mais
grave e terrível que alguém poderia cometer, sendo sujeito à pena de morte (Mc 14.64).
14
Aqui temos mais uma evidência da divindade de Jesus, pois ele conhece plenamente os pensamentos e os mais profundos
sentimentos de cada ser humano (Mc 2.8). Os corações das pessoas, quando não entregues ao Senhor, são levados a condenar
tudo o que se refere a Deus e à verdade. A cura para Deus é um ato muito mais fácil do que levar o homem a reconhecer seus
pecados e decidir por uma vida de adoração espontânea ao Criador. A restauração de um doente pode ser comprovada num
instante, mas a restauração da alma pode levar algum tempo, e somente Deus é capaz de atestar esse milagre (Mc 2.9-10).
15
A autoridade de Jesus não era humana, nem fora outorgada por líderes religiosos, mas sim de Deus. O vocábulo grego
transliterado: exousia, que significa: “proveniente de Deus” (Mt 28.18), enfatiza este atributo de Jesus. Seu título: “Filho do
homem”, bem como sua plena divindade, são prerrogativas exclusivas do Messias (o Cristo) prometido (Dn 7.13,14). A operação
de milagres e maravilhas é uma prova da presença do Rei e do Reino entre nós (10.9).
LC_B.indd 20 16/8/2007, 13:17:49
21 LUCAS 5
cavam a Deus; e, tomados de grande te-
mor, exclamavam: “Hoje vimos grandes
prodígios!”.
Jesus torna um publicano em discípulo
(Mt 9.9-13; Mc 2.13-17)
27
Passados estes eventos, saindo Jesus,
encontrou-se com um publicano, cha-
mado Levi, sentado à mesa da coletoria,
e o convocou: “Segue-me!”.
28
Levi levantou-se, abandonou tudo e
seguiu a Jesus.
16
Jesus num banquete com pecadores
(Mt 9.10-13; Mc 2.15-17)
29
Então Levi ofereceu a Jesus uma gran-
de festa em sua casa; e uma multidão de
publicanos e de outras pessoas estava à
mesa comendo com eles.
30
Os fariseus e seus escribas reclama-
ram dos discípulos de Jesus: “Por que
comeis e bebeis com os publicanos e
pecadores?”.
31
Ao que Jesus lhes ponderou: “Os que
têm saúde não precisam de médico, mas
sim os enfermos.
32
Eu não vim para convocar os justos,
mas sim, para chamar os pecadores ao
arrependimento!”.
17
Jesus é questionado quanto ao jejum
(Mt 9.14-17; Mc 2.18-22)
33
Em seguida eles lhe observaram: “Os
discípulos de João jejuam e oram com
grande freqüência, assim como os dis-
cípulos dos fariseus; no entanto, os teus
vivem comendo e bebendo”.
18
34
Jesus então lhes propôs: “Podeis fazer
jejuar os convidados para o casamento,
enquanto está com eles o próprio noivo?
35
Contudo, dias virão, em que lhes será
tirado o noivo; naqueles dias, verdadei-
ramente, jejuarão”.
19
36
E lhes acrescentou esta parábola para
pensar: “Ninguém tira um remendo de
roupa nova e o costura sobre roupa velha;
16
Levi era o nome de família de Mateus (3.12; Mc 2.14), o apóstolo rico do colegiado de Jesus (Mt 10.3; At 1.13). Como “publica-
no”, chefe dos fiscais da coletoria de impostos para o governo romano, a serviço do tetrarca Herodes (Mt 9.9), era odiado pelo povo
judeu, pois os publicanos eram, em geral, desonestos e maldosos. Jesus havia ministrado em Cafarnaum durante algum tempo,
quando conheceu Levi e se tornaram amigos. Alguns discípulos de Jesus, que eram pescadores, voltaram a trabalhar em seu ramo
em certas ocasiões. Mateus tomou uma decisão só de ida. Sabia que o preço de seguir a Jesus implicaria em mudança total de vida
sem direito a volta, ainda que momentânea. Entretanto, Levi o fez com grande alegria de alma. E ao invés de o fazer em surdina, deu
uma grande festa “evangelística”, convidando todos os seus amigos para verem e conhecerem o Messias que lhe confiara a gloriosa
missão de proclamar Seu Reino e libertar a todos das ilusões e das amarras do pecado. Conta-se ainda que, após a ressurreição de
Jesus, Mateus foi um valoroso missionário em muitos lugares da Palestina e em terras distantes, onde morreu.
17
Os publicanos se davam bem com os “pecadores”. Enquanto os primeiros extorquiam e roubavam seus próprios irmãos
7
judeus; os outros, tratavam com desleixo os diversos preceitos cerimoniais exigidos pelos fariseus e escribas. Contudo, os dois
grupos não tinham paz nem desfrutavam de alegria real em seus corações. Enquanto os líderes religiosos e mestres da época
procuravam a salvação por meio da segregação, ou seja, “seleção natural dos mais dedicados no cumprimento formal das
inúmeras leis judaicas”, Jesus chegava com Seu Reino oferecendo a Graça de Deus aos que, de coração sincero, desejassem
simplesmente amar a Deus de verdade e viver este ato de adoração no dia-a-dia. Esta proposta de Deus tocou as almas espiritual-
mente famintas dos publicanos e pecadores, que não tiveram muita dificuldade para enxergar seus muitos erros, e arrependidos,
sentiram-se bem-vindos ao banquete de Jesus. Já os fariseus e escribas tinham grande dificuldade para reconhecer qualquer
pecado em si mesmos; e, por isso, ficaram fora da festa. Um dos principais temas das parábolas de Jesus sobre a salvação eterna
é: os que se julgam justos, separam-se da Graça Salvadora de Cristo (18.9-14; Mc 2.17).
18
João Batista não era o Filho de Deus. Porém, veio com uma missão poderosa e específica: preparar o coração da humanida-
de para a chegada de Cristo e a implantação do Reino de Deus. João foi criado e educado no deserto, junto a um grupo de judeus
teologicamente muito restritos e sérios em relação a Deus. Aprendeu a sobreviver com uma dieta limitada e austera, própria do
lugar que habitava, composta de uma espécie de gafanhotos (que até hoje são torrados e degustados pelo povo da região) e mel
silvestre. Seu ministério foi marcado por uma mensagem urgente, grave, forte e direta quanto ao arrependimento dos pecados,
mediante testemunho público e um ritual de passagem pelas águas, repleto de simbolismos ligados à implementação do Reino,
que se completaria com o batismo trazido por Jesus Cristo: o Filho de Deus. Os fariseus também pregavam um modo de vida
rigoroso (18.12). Mas Jesus aceitava convites para casamentos, banquetes e festas, pois tinha interesse em estar onde mais se
precisava dele: no coração daqueles que se reconhecem perdidos e necessitados da direção e do amor de Deus. Embora Jesus
rejeitasse todo o tipo de atitude apenas legalista e exterior, com finalidade de autoglorificação (Is 58.3-11), é fato que ele próprio
jejuava e orava muito em particular e defendia o jejum voluntário para benefício espiritual (Mt 4.2; 6.16-18).
19
Neste trecho, Jesus faz a primeira referência à sua morte. A tristeza e a vontade de estar com o Senhor levaria seus discípulos
LC_B.indd 21 16/8/2007, 13:17:49
22 LUCAS 5, 6
se o fizer, certamente estragará a roupa
nova; e, além disso, o remendo novo ja-
mais se ajustará à velha roupa.
37
Da mesma maneira, não há alguém
que coloque vinho novo em recipiente de
couro velho. Ora, se o fizer, o vinho novo,
ao fermentar, arrebentará o recipiente, se
derramará e danificará o recipiente onde
fora colocado.
38
Ao contrário! O vinho novo deve ser
posto em um recipiente de couro novo.
39
Pois, pessoa alguma, depois de beber o
vinho velho, prefere o novo; porquanto
se diz: ‘O vinho velho é bom o suficien-
te!’”.
20
Jesus é Senhor do Sábado
(Mt 12.1-14; Mc 2.23-28)
6
Em um certo dia de sábado, enquan-
to Jesus caminhava pelos campos,
onde se plantavam cereais, seus discí-
pulos começaram a colher e a debulhar
espigas com as mãos, e se alimentavam
dos grãos.
1
2
Foi quando alguns dos fariseus os
inquiriram: “Por que fazeis o que não
é permitido durante o sábado?”.
3
Então Jesus os questionou: “Nem ao
menos tendes lido o que fez Davi, quando
teve fome, ele e os seus companheiros?
4
Pois ele entrou na casa de Deus e, to-
mando os pães da Presença, alimentou-se
do que apenas aos sacerdotes era permi-
tido comer, e os entregou de igual modo
aos seus amigos”.
5
E Jesus lhes asseverou: “O Filho do
homem é Senhor do sábado!”.
2
O homem da mão atrofiada
(Mt 12.9-14; Mc 3.1-6)
6
Num outro sábado, Ele entrou na si-
nagoga e iniciou o seu ensino; e estava
ali um homem cuja mão direita era
atrofiada.
7
Os doutores da Lei e os fariseus esta-
vam ávidos para achar algum motivo
pelo qual pudessem acusar Jesus; e por
isso o observavam com toda a atenção, a
fim de perceber se Ele o haveria de curar
durante o sábado.
8
Todavia, Jesus tinha conhecimento do
que eles pensavam, mesmo assim pediu
ao homem da mão atrofiada: “Levan-
ta-te, vem à frente e permanece em pé
aqui no meio”. E o homem se levantou e
atendeu a Ele.
3
9
Jesus então dirigiu-se a eles: “Eu vos
apresento uma questão: O que é permi-
tido realizar no sábado: o bem ou o mal?
Salvar uma vida ou destruí-la?”.
ao jejum e à oração até o seu glorioso retorno e o final dos tempos (Mt 28.20). A Igreja primitiva ensinou e praticou o jejum com
orações, especialmente nas épocas de provação e dificuldades (At 9.9; 13.2,3; 14.23).
20
Assim como seria tolice estragar uma veste nova para remendar outra roupa, o novo Caminho oferecido graciosamente por
Jesus, não pode ser remendado e estragado com os antigos rituais e obrigações cerimoniais, exclusivamente legalistas e exa-
gerados do judaísmo (como o fato de não mencionar o nome de Deus, apenas para evitar pronunciá-lo em vão). Ainda que o AT
esteja intimamente relacionado ao NT, que é o cumprimento das promessas registradas nas Sagradas Escrituras do AT, é preciso
cuidado para não se confundir profecias com o seu cumprimento, nem as sombras com a realidade (Gl 5.1-6). Somos livres em
Cristo, para adorar a Deus com toda a sinceridade de nossos corações, na beleza da santidade do Senhor (Rm 3.28).
Capítulo 6
1
Jesus e seus discípulos estavam em jornada de ministério, e passando por uma plantação de cereais, como era permitido
pela Lei (Dt 23.25), colheram algumas espigas para delas se alimentarem. Mas, as autoridades judaicas os censuraram por esta-
rem agindo assim durante o shabbãth (sábado judaico, que significa no hebraico original: tempo de paz, misericórdia, adoração
ao Criador, gozo espiritual e descanso), Jesus então vai lhes explicar que perante a Lei, atos de misericórdia (como este e os que
se seguirão), não apenas são permitidos, mas obrigatórios e prioritários sobre qualquer outra lei (Jo 7.23-24; ver Mc 2.14).
2
Nem Deus nem os doutores e intérpretes da Mishna (tratado das interpretações das leis sagradas judaicas), condenaram a
Davi por esta transgressão (Mt 12.4-8; Mc 2.23-25). Davi foi orientado por Deus para agir daquela maneira, a fim de preservar sua
vida e a de seus companheiros para servir ao Senhor. O mesmo Deus do Shabbãth (sábado judaico), tem o direito, como Autor do
mandamento, de interpretar suas exceções, não sendo engessado pela Lei, mas tendo-a sob o controle absoluto da Sua vontade.
Essa é a flexibilidade divina que se move em função da misericórdia e do amor.
3
Num claro gesto de contraste em relação aos líderes religiosos, que sorrateiramente foram espionar seus procedimentos,
Jesus age abertamente e sem receio. Pede para o homem sair do seu lugar e vir para o centro do salão de cultos da sinagoga,
onde todos poderiam ver e ouvir claramente o que se passava. Aquele que segue a Cristo deve ser sincero, franco e corajoso
(Mt 5.34-37; Tg 5.12).
LC_B.indd 22 16/8/2007, 13:17:50
23 LUCAS 6
10
E Jesus olha atentamente para cada
um dos que estão à sua volta e ordena ao
homem: “Estende a tua mão!”. O homem
a estendeu, e ela foi instantaneamente
restaurada.
11
Contudo, eles ficaram enraivecidos e
começaram a tramar entre si sobre que
fim dariam a Jesus.
4
Jesus escolhe seus doze apóstolos
(Mc 3.13-19)
12
E ocorreu naquela ocasião que Jesus
se retirou para um monte a fim de orar,
e atravessou toda a noite em oração a
Deus.
5
13
Logo ao nascer do dia, convocou seus
discípulos e escolheu dentre eles, doze,
a quem também designou como após-
tolos:
6
14
Simão, a quem deu o nome de Pedro;
seu irmão André; Tiago; João; Filipe;
Bartolomeu;
15
Marcos; Tomé; Tiago, filho de Alfeu;
Simão, conhecido como Zelote;
16
Judas, filho de Tiago; e Judas Iscario-
tes, que se tornou traidor.
7
Jesus cura e liberta multidões
(Mc 4.23-25)
17
Então, desceu Jesus com os apóstolos
e parou num lugar plano. Estavam ali
reunidos muitos dos seus discípulos, e
uma enorme multidão vinda de toda a
Judéia, de Jerusalém e do litoral de Tiro
e de Sidom,
8
18
pessoas que vieram para serem ensi-
nadas por Ele e curadas de suas doenças.
Aqueles que eram atormentados por
espíritos impuros foram curados,
19
e cada pessoa da multidão procurava
4
Jesus já havia suportado muitos ataques e provocações dos fariseus, escribas e líderes religiosos (todos também líderes
políticos). Então Ele inverte as posições e passa a questionar seus oponentes e a todos na sinagoga (Mc 3.4). As autoridades
judaicas ficaram furiosas, pois não conseguiram resistir ao raciocínio brilhante, simples e cheio de compaixão do Senhor. E por
isso, começaram a planejar um meio de eliminá-lo (Jo 5.18; ver Mc 3.6). Os líderes religiosos precisam ter cuidado, pois a religião,
muitas vezes, transforma a justiça em transgressão, e o ilícito (planejar a morte ou a exclusão de um inocente), num ato legal
perante a lei (os estatutos).
5
Para o próprio Filho de Deus encarnado, a oração era a perfeita comunhão com o Pai. Por isso, Jesus, freqüentemente se
dedicava a longos períodos de oração, muitas vezes em jejum, especialmente quando precisava tomar uma decisão importante.
O fato de Jesus dar tanta atenção a esse diálogo com Deus, deve nos servir de inspiração. Jesus passou aquela noite inteira
em oração e ao raiar do dia saiu para escolher, segundo a vontade soberana do Pai, aqueles discípulos que – cada qual com a
sua contribuição – seriam responsáveis pelos alicerces da Igreja (Ef 2.20), tarefa que desde o início foi distribuída a um grupo de
cristãos e não exclusivamente a uma pessoa.
6
A expressão em aramaico (o dialeto hebraico que Jesus falava), aqui transliterada por Shaliah, quer dizer “apóstolos” (em
grego: c vc `u:), e se refere a alguém que recebeu comissão e autoridade explícitas daquele que o enviou, todavia sem
o poder para transferir seus atributos para outra pessoa. Ou seja, “enviados com uma missão específica” (Mc 6.30; 1Co 1.1;
Hb 3.1). Entre a multidão que veio ouvir ao Senhor naquele dia, havia um grupo que o seguia regularmente e se dedicava aos
seus ensinos, havia ao todo cerca de 72 homens, considerando que esse fora o número de missionários que Jesus enviou em
missão evangelística (10.1,17). Mais tarde, logo após sua ascensão aos céus, cerca de 120 cristãos o aguardavam e adoravam
em Jerusalém (At 1.15).
7
Bartolomeu é o outro nome de Natanael (Jo 1.45). Judas, filho de Tiago (At 1.13), é chamado de Tadeu por Mateus e
Marcos. Todas as três listas citam Pedro em primeiro lugar e Judas Iscariotes no fim. O nome Iscariotes quer dizer: “homem
de Queriote”, sua cidade natal. Judas foi o único não galileu entre os Doze. Todos os evangelistas mencionam o ato de traição
de Judas. Somente Lucas ressalva que ele “se tornou traidor”, mostrando que alguém pode começar bem, mas terminar mal.
Contudo, enquanto há vida, há tempo para o arrependimento, como ocorreu com Pedro, que também traiu ao Senhor mas se
arrependeu e recebeu o pleno perdão de Deus (Mt 26.71-45; Jo 21.15-19).
8
É importante notar que Jesus teve um tempo particular com seus discípulos, no alto da montanha (Mt 5.1) e, em seguida,
desce para o planalto (ou planura), onde exorta a todos os fiéis na multidão, e aos discípulos em particular, a terem uma
vida na terra verdadeiramente à imagem de Deus (imago Dei), testemunhando ao mundo caído o projeto original de Deus
para a humanidade. Jesus proferiu naquele dia uma de suas mais profundas mensagens em relação ao comportamento
do verdadeiro filho de Deus: aquela pessoa que crê e é dirigida pelo Espírito do Senhor. O chamado Sermão do Planalto,
registrado resumidamente, sob a ótica de Lucas, é o mesmo e conhecido Sermão do Monte ou da Montanha (Mt 5 a 7).
Curiosamente, partes do sermão descrito por Mateus, podem ser encontradas em várias passagens de Lucas (11.2-4; 12.22-
31, 33, 34), o que demonstra o esforço de Jesus em fazer com que os crentes (da sua época e do futuro) compreendessem,
com clareza, o âmago do Evangelho e da vida com Deus.
LC_B.indd 23 16/8/2007, 13:17:50
24 LUCAS 6
tocar nele, pois dele emanava poder que
curava a todos.
As bem-aventuranças
(Mt 5.1-12)
20
Então, dirigindo o olhar para os seus
discípulos, Jesus lhes declarou:
9
“Bem-aventurados vós, os pobres,
porquanto a vós pertence o Reino de
Deus.
10
21
Bem-aventurados vós, que agora ten-
des fome, porque sereis saciados.
Bem-aventurados vós, que neste mo-
mento estais chorando, pois haveis de
sorrir.
22
Bem-aventurados sois, quando as
pessoas vos odiarem, vos expulsarem do
convívio delas, vos insultarem, e excluí-
rem vosso nome, julgando-o execrável,
por causa do Filho do homem.
23
Regozijai-vos nesse dia e saltai de alegria,
porquanto imensa é a vossa recompensa
no céu. Pois, desta mesma maneira, os seus
antepassados agiram contra os profetas.
11
Os pesares de Jesus
24
Porém, ai de vós, os ricos! Pois já ga-
nharam toda a vossa consolação.
25
Ai de vós, que viveis agora em fartura,
porque vireis a passar fome.
12
Ai de vós,
que agora rides, pois haveis de muito
lamentar e prantear.
26
Ai de vós, quando todos vos louva-
rem! Porquanto, foi assim também que
agiram os vossos antepassados com os
falsos profetas.
Jesus ensina a amar aos inimigos
(Mt 5.38-48)
27
Contudo, tenho a declarar a vós outros
que me estais ouvindo: amai os vossos ini-
migos, fazei o bem aos que vos odeiam;
9
As beatitudes, bem-aventuranças ou ainda bênçãos de felicidade, não se restringem à pobreza material (v.20) e à fome física
(v.21). A narrativa de Mateus revela que Jesus referiu-se à pobreza “em espírito” (Mt 5.3) e à fome “de justiça” (Mt 5.6). A arrogância
e a utilização de quaisquer meios para se atingir a um fim almejado, parecem ser características demoníacas incorporadas pela
humanidade desde a Queda (Gn 3). Nos versículos seguintes Jesus apresenta o verdadeiro mapa da felicidade: A humildade
que troca os bens deste mundo pela herança incorruptível de Cristo (Fp 3.7,8; 1Pe 1.3-9); a fome que privilegia o Pão do Céu
em relação ao alimento físico (4.4; Jo 6.35); o arrependimento que lamenta profundamente o pecado a ponto de abandoná-lo
(2Tm 2.19); a piedade que se espelha no exemplo de Cristo, provoca – nos mundanos e falsos religiosos – o mesmo ódio que o
crucificou (2Tm 3.12). Em suma: Todo sacrifício por causa de Jesus Cristo e sua Igreja terá sua recompensa (prêmio, galardão)
aqui mesmo na terra, assim como no céu. O verbo no original grego indica que a ação se passa no presente e se estende por
todo o futuro: “vosso é o Reino” (no original grego: uu..cc .c.. n 3cc.`..c).
10
Jesus não está falando da pobreza em si, pois ela pode ser tanto uma maldição quanto uma bênção. Jesus está se referindo
à pessoa dos discípulos. Devem ser mesmo pobres (humildes), conscientes de que não têm recursos e que dependem de Deus
para realizar absolutamente tudo. Esse é o sentido que o AT dá a esta expressão, muitas vezes equivalente a “piedosos” (Sl 40.17;
72.2,4). Mateus ressalta o significado de “pobres de (ou em) espírito”. Os arrogantes, aqueles que se acham “ricos” e, portanto,
confiam sua estabilidade aos recursos financeiros e materiais que possuem, desenvolvem freqüentemente uma auto-estima além
do normal (complexo de superioridade), menosprezando e usando as pessoas das quais se aproximam. Como se habituam a
comprar e conseguir tudo o que desejam, não conseguem receber a Graça do Reino, da qual os pobres e humildes tomam posse
com grande alegria e louvor a Deus.
11
Nesta passagem, Jesus não está ensinando sobre a questão do sofrimento universal, mas refere-se a um tipo de sofrimento
específico: “por causa do Filho do homem”. Ou seja, o preço da humilhação, perdas e dor, que o discípulo de Cristo paga por
desejar viver uma vida digna do Senhor, num mundo comandado pelas forças de Satanás, que influenciam o sistema geral de
valores e a moda (o estilo de vida) de todos os povos e culturas do planeta. Contudo, aqueles que sofrem por esse motivo devem
muito se alegrar, pois já são considerados por Deus como: bem-aventurados (no original grego: benditos, felizes). Pois foram
escolhidos, assim como os profetas do AT, para testemunho vivo da ignorância e da perdição humana em contraste com o amor
e a sabedoria de Deus.
12
Somente Lucas cita os “ais” de Jesus em relação à rebeldia instalada na alma dos seres humanos, inclusive nos religiosos.
A expressão original no grego é: uc., e indica profundo lamento por uma desgraça que poderia ser evitada. Jesus se refere aos
“ricos” (pessoas presunçosas e arrogantes, que depositam sua fé nos bens financeiros e materiais que são capazes de conquistar
a qualquer preço), e lhes garante que já receberam toda a recompensa que merecem. Jesus usa um verbo freqüentemente
empregado, em sua época, em recibos de pagamento, significando: “Integralmente Pago!” Quando tudo quanto uma pessoa tem
é a sua riqueza mundana, estamos diante de um ser humano muito pobre mesmo. Jamais devemos confundir conforto material
com bem-aventurança (felicidade).
LC_B.indd 24 16/8/2007, 13:17:51
25 LUCAS 6
28
abençoai aos que vos amaldiçoam, orai
pelos que vos acusam falsamente.
13
29
Ao que te bate numa face, oferece-lhe
igualmente a outra; e, ao que tirar a tua
capa, não o impeças de tirar-te também
a túnica.
14
30
Dá sempre a todo aquele que te pede;
e, se alguém levar o que te pertence, não
lhe exijas que o devolva.
31
Como quereis que as pessoas vos tratem,
assim fazei a elas da mesma maneira.
32
Pois se amais os que vos amam, que
galardão pode haver nisso? Porquanto,
até mesmo os ímpios amam aqueles que
os amam.
33
E se fizerdes o bem aos que vos fazem o
bem, qual é o vosso mérito? Até os infiéis
agem deste mesmo modo.
34
E ainda, se emprestais àqueles de
quem esperais receber de volta, qual é a
vossa recompensa? Também os incrédu-
los emprestam aos incrédulos, a fim de
receberem seu retorno desejado
.15
35
Concluindo, amai os vossos inimigos,
fazei o bem e emprestai, sem se desesperar
por receber de volta. Então, sendo assim,
grande será o vosso prêmio, e sereis filhos
do Altíssimo. Porquanto Ele é bondoso até
mesmo para com os ingratos e ímpios.
36
Sede misericordiosos para com os
13
O principal objetivo de Jesus, especialmente neste sermão, é conscientizar seus discípulos de que eles são filhos do Amor
e devem ter amor incondicional. Essa é a essência de Deus e do homem, todavia a alma dos seres humanos está ferida de
morte desde a Queda (Gn 3), e tornou-se arrogante, revoltada contra Deus, egoísta, ímpia, amargurada, insegura e desesperada.
Quando o Espírito Santo é recebido em nossos corações, uma transformação radical se inicia (conversão), o homem sai de
si mesmo, e, neste sentido, da influência escravizadora de Satanás, volta à comunhão (amizade) com o Pai – de onde jamais
deveria ter saído – e ganha paz, liberdade, poder, verdadeira compreensão do que é amar e ser amado, e a vida eterna por
herança com todos os seus tesouros. Em grego havia várias palavras para “amor”. Jesus não está pedindo que sintamos storge,
“afeição natural”, nem philia, “amor amizade”, nem muito menos eros, “amor romântico, erótico, sensual”. A expressão usada
por Jesus foi agape, que significa o amor perdão, misericórdia, graça, compreensão, paciência, sacrifício. O amor que Deus tem
pela humanidade e que Jesus demonstrou diante dos seus oponentes, carrascos e executores. Um amor justo, mas compassivo,
que não é atraído pelo mérito da pessoa amada, mas sim pelo fato de que o cristão recebe poder espiritual para “ser uma pessoa
amorosa, misericordiosa”; e, portanto, pode suportar e perdoar os demais seres humanos e suas ofensas. Mateus mostra que as
pessoas têm disposição natural para amar seu amigo e odiar seu inimigo (Mt 5.43), não é de admirar tantas guerras, terrorismos
e violência assolando o mundo em nosso século assim como o foi na antigüidade. Jesus, entretanto, vai além, para o cerne da
vontade de Deus, e revela que seu discípulo não pode ser seletivo quanto ao amor agape, mas deve amar inclusive o seu mais
odioso e repugnante inimigo. E não basta refrear os atos hostis ou vingativos, é preciso “fazer o bem aos que vos odeiam”. Não
é difícil imaginar a expressão no rosto daqueles discípulos, judeus nacionalistas e guerreiros, ao ouvir seu mestre dizendo que
deveriam ser pacíficos e cordiais com o dominador romano. E Jesus ainda acrescenta: abençoem os que os amaldiçoam; e orem
(só orem) por aqueles que falam mal a seu respeito, espalhando mentiras e calúnias.
14
A expressão grega original transliterada siagon, aqui e em várias versões traduzida por “face”, mais propriamente se refere
ao queixo. Portanto, Jesus está falando de levar um soco no lado do queixo. A reação natural diante de um ataque como esse, é
ferir o agressor da mesma maneira, aliás, como era previsto pela Lei (Êx 21.12-35). Jesus está se referindo à atitude; ou seja, ao
sermos decepcionados, traídos ou mesmo agredidos, não devemos guardar amargura contra a humanidade e generalizar uma
prevenção odiosa contra todas as pessoas; mas, sim, abrir-nos para novos relacionamentos (dar a outra face, mudar de lado).
Contudo, oferecer – literalmente – o rosto para um outro golpe nem sempre será a melhor maneira de cumprir esse mandamento.
Afinal, o próprio Senhor nos deu um exemplo ao ser golpeado no rosto (Jo 18.22-23). Quanto à capa (em grego: himation), que
era a roupa externa usual, e a túnica (em grego: chiton), normalmente a veste interna, elas representam alguns de nossos mais
importantes e necessários bens materiais. No entanto, Jesus nos ensina que – seremos felizes (benditos) – quando o amor agape
nos controlar, a ponto de não reagirmos com ódio, ou qualquer tipo de retaliação, quando alguém – por qualquer motivo – nos
privar ou roubar qualquer de nossos pertences, ainda que mais caros. Esse é um ótimo conselho diante do crescente número de
furtos e assaltos em nossos dias.
15
Mais uma vez é importante observar o “espírito do ensino” de Jesus, e não querer ser mais real do que o Rei, literalizando
as figuras de linguagem do mestre. Se os cristãos tivessem que agir, com total literalidade neste caso, haveria uma classe
de “santos indigentes” perambulando pelas cidades do mundo inteiro, e outra classe de “incrédulos e prósperos ladrões”. O
que Jesus está enfatizando é que seu discípulo, por amor, jamais deve perder o sentimento de colaboração, ajuda e graça. O
cristão deve estar sempre pronto a dar e a contribuir com todas as suas posses se for necessário. Entretanto, esse não é um ato
meramente automático e sem reflexão, pois em muitos casos, dar não seria a melhor forma de amar. O verdadeiro amor – aquele
que se preocupa com a real felicidade da outra pessoa – deve ser o juiz que decidirá se devemos dar ou reter em cada uma das
situações da vida, e não a estima que temos por nossos bens. O verbo “dar” no grego original está num tempo contínuo, o que
reforça a idéia de que este não é um ato ou impulso de generosidade ocasional, mas sim uma atitude habitual. Um estilo de vida.
Jesus resume com sua regra de ouro: faça aos outros o que gostaria que as pessoas lhe fizessem. Esse é um princípio judaico
LC_B.indd 25 16/8/2007, 13:17:52
26 LUCAS 6
outros, assim como vosso Pai é miseri-
cordioso para convosco.
16
Não cabe ao discípulo julgar o próximo
(Mt 7.1-5)
37
Não julgueis e não sereis julgados; não
condeneis e não sereis condenados; per-
doai e sereis perdoados.
38
Dai sempre, e recebereis sobre o vosso
colo uma boa medida, calcada, sacudida,
transbordante; generosamente vos da-
rão. Portanto, à medida que usares para
medir o teu próximo, essa mesma será
usada para vos medir.
17
Parábola do cego que conduz outro cego
39
Então, Jesus lhes propôs também uma
parábola: “É possível um cego guiar
p p
outro cego? Não acontecerá que ambos
venham a cair em algum buraco?
18
40
O discípulo não pode estar acima do
seu mestre e; entretanto, todo aquele que
completar condignamente seu aprendi-
zado, será como seu mestre.
41
Por que reparas no cisco que está no
olho do teu irmão e não percebes o tron-
co que está no teu próprio olho?
42
Como poderás advertir a teu irmão
dizendo: ‘Irmão! Permita que eu tire
ensinado desde muito antes do nascimento de Cristo. Entretanto, sempre fora pregado pelos sábios em sua forma negativa: “O
que é odioso a ti, não faz ao teu próximo: isto é a Torá inteira, o restante é comentário disto” (Hillel em Shabbãth 31.a). Jesus
foi o primeiro a dar um sentido totalmente positivo a este ensino áureo: não basta ao discípulo evitar atos que não gostaria que
alguém praticasse contra ele. Os cristãos devem ser pró-ativos na prática do bem. Jesus ilustra sua exortação para que os cristãos
sejam mais humanos (refletissem mais a imago Dei – imagem de Deus) do que os pagãos. Pois, até mesmo, pessoas que não i
professam qualquer religiosidade ou fé em Deus, praticam certas virtudes. Amam aos que as amam, retribuem o bem que lhes
é feito e emprestam, especialmente se podem ter certeza de recebê-los de volta. O verbo original usado neste trecho indica um
“emprestar sob juros”. Se os cristãos assim procederem, não estão fazendo mais do que o mundo faz.
16
Em resumo, Jesus nos orienta a tomar seus mandamentos pelo lado positivo e de forma pró-ativa: “amai aos vossos
inimigos, fazei o bem e emprestai”. Como cristãos sempre devemos nos antecipar na prática e defesa do bem. O verbo grego
original, aqui transliterado por alpelpizo, é usado no sentido de “não desesperar-se”, e não com o significado de “sem esperar
nenhuma paga”, como aparece em várias versões bíblicas. Os cristãos devem emprestar, de forma justa, como um ato de louvor e
serviço a Deus e ao próximo, sem nunca se desesperarem por nada e por ninguém. O Senhor nos conclama a nunca servir, tendo
em vista uma recompensa – ainda que seja um galardão no céu – pois, se assim agirmos, estaremos simplesmente trocando o
egoísmo e a vaidade material pelo espiritual. Deus é benigno e misericordioso até para com os ímpios, pois lhes proporciona suas
boas dádivas, tais como o sol, a chuva, o solo fértil e a boa colheita, na expectativa de que essas almas – um dia – percebam seu
amor e salvação. O sonho de Deus é que todos os seus filhos fossem como Jesus é em relação ao seu Pai. A perfeição de Deus
deve ser nosso grande exemplo de vida (Mt 5.9,48).
17
O cristão não deve censurar, muito menos se entregar aos comentários sobre a vida de qualquer pessoa, com o propósito
de destruir sua reputação e levar ao desprezo o seu caráter. O julgamento dos motivos íntimos de alguém, bem como qualquer
vingança ou pena a serem aplicadas, pertencem ao Senhor (Rm 12.19). Entretanto, não estamos isentos da responsabilidade
de desenvolvermos senso crítico sobre tudo e todos, bem como discernirmos quanto ao certo e o errado (vs. 43-45). Afinal, foi
essa a escolha feita pela humanidade no jardim do Éden (Gn 3). Contudo, Jesus nos exorta a não agirmos com hipocrisia, como
é próprio dos incrédulos. O perdão, em vez de condenação, revela o verdadeiro amor cristão em exercício. Jesus salienta que
a pessoa perdoada e salva tem um coração aberto e generoso. Esse estilo de vida sensibilizará a Deus e aos homens, e uma
correspondência de bênçãos será inevitável. E não apenas na mesma proporção, mas tão abundante que transbordará. Jesus
tira essa metáfora a partir da maneira usada pela multidão que estava à sua volta naquele momento, para quantificar e qualificar
os grãos colhidos. A expressão grega aplicada aqui e transliterada por kolpon, tem a ver com as expressões: “boa medida” e
“generosamente”, referindo-se a uma espécie de bolsa, que se fazia ao dobrar parte da veste externa ou com uma peça de roupa
gasta, que ficava pendurada sobre o cinto, e era usada para guardar uma medida de trigo. Jesus relembra o antigo dito dos
sábios judeus: “Há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20.35).
18
Jesus faz uso de mais uma série de metáforas para ressaltar a importância de seus discípulos viverem acima da mediocridade
dos religiosos formais. Este trecho adverte a todos nós sobre o perigo de condenarmos alguém, esquecendo-nos de que também
somos réus de crimes semelhantes. Entretanto, a advertência maior é em relação aos líderes espirituais (Tg 3.1). Em primeiro
lugar, somente aquele que anda na luz e pode ver com nitidez (Jo 8.12; 1Jo 1.7) consegue evitar os perigos do caminho e
conduzir outros em segurança. Os jovens líderes devem ter paciência e humildade para esperar o devido tempo, quando serão
– se aprovados por Deus e pela vida – semelhantes aos seus mestres. Da mesma maneira, o discípulo de Jesus deve estabelecer,
como seu alvo pessoal, o ser semelhante a Ele. A expressão “bem instruído” (como aparece em algumas versões), vem do grego:
katartizo, que tem um significado mais amplo: “tornar digno” ou “completo”. É um termo normalmente usado para consertar algo
que foi quebrado (Mc 1.19), ou no sentido de “suprir plenamente” (como quando o mundo foi “plenamente formado” – Hb 11.3).
O discípulo de Jesus, tenha a experiência e a formação acadêmica que tiver, não pode relegar o mandamento do amor a segundo
plano, acreditando que – de alguma forma – está acima do nível de servo que deve seu amor a Deus e ao próximo.
LC_B.indd 26 16/8/2007, 13:17:52
27 LUCAS 6, 7
o cisco do teu olho’, se tu mesmo nem
sequer notas o tronco que repousa no teu
olho? Hipócrita! Retira, antes de tudo, a
trave do teu olho e, só assim, verás com
nitidez para tirar o cisco que está no olho
de teu irmão.
19
Parábola da árvore e seu fruto
(Mt 7.24-27)
43
Não existe árvore boa produzindo
mau fruto; nem inversamente, uma ár-
vore má produzindo bom fruto.
44
Pois cada árvore é conhecida pelos seus
próprios frutos. Não é possível colher-se
figos de espinheiros, nem tampouco,
uvas de ervas daninhas.
45
Uma pessoa boa produz do bom
tesouro do seu coração o bem, assim
como a pessoa má, produz toda a sorte
de coisas ruins a partir do mal que está
em seu íntimo, pois a boca fala do que
está repleto o coração.
20
A parábola do sábio e do insensato
(Mt 7.24-27)
46
E por que me chamais: ‘Senhor, Senhor’,
e não praticais o que Eu vos ensino?
47
Eu vos revelarei com quem se compara
àquela pessoa que vem a mim, ouve as
minhas palavras e as pratica.
48
É como se fosse um homem que, ao
p p
construir sua casa, cavou fundo e firmou
os alicerces sobre a rocha. E sobrevindo
grande enchente, o rio transbordou e as
muitas águas avançaram sobre aquela
casa, mas a casa não se abalou, por ter
sido solidamente edificada.
49
Entretanto, aquele que ouve as minhas
palavras e não as pratica, é como um ho-
mem que construiu sua casa sobre a ter-
ra, sem alicerces. No momento em que as
muitas águas chocaram-se contra ela, a
casa caiu, e a sua destruição foi total”.
21
Um centurião revela sua fé em Jesus
(Mt 8.5-13)
7
Havendo concluído suas instruções
aos discípulos e ao povo, Jesus entrou
em Cafarnaum.
2
E o servo de um centurião, a quem este
muito estimava, estava doente e à beira
da morte.
1
3
O centurião havia ouvido falar de Je-
sus e, por isso, lhe enviou alguns líderes
19
Jesus retoma outro antigo ensino dos rabinos judeus, com certo toque de humor, uma vez que usa a paródia para evidenciar
seu ponto de vista. Retrata o hipócrita com um enorme tronco (trave ou viga) projetando-se do seu olho, enquanto busca, cui-
dadosamente, tirar uma partícula do olho do seu irmão. Freqüentemente as atitudes egoístas, arrogantes e preconceituosas dos
seres humanos chegam a ser hilariantes, devido ao evidente contra-senso por elas transmitido. Contudo, a lição apresentada por
Jesus é muito séria: a leve imperfeição ou erro de outras pessoas é freqüentemente mais notado por nós, do que um grande defei-
to ou pecado em nós mesmos. O verbo “reparar” vem do original grego blepeis que significa: atenção e observação prolongadas.
Jesus nos exorta a um rígido auto-exame antes de nos lançarmos ao julgamento de qualquer um de nossos semelhantes.
20
Jesus frisa que o caráter de uma pessoa não pode ser alterado apenas por força de vontade ou pelas circunstâncias.
Somente o novo nascimento, que é a invocação e a habitação do Espírito de Deus em nossa alma (Jo 3.5; 15.5,16), pode
transformar a essência das pessoas e desenvolver um ser humano celestial (cidadão do Reino). Jesus nos faz lembrar do ensino
do profeta Jeremias, sobre a maldade que reside no coração do homem (Jr 17.9), acerca da qual Paulo também nos adverte (Rm
3.23), para nos legar um princípio fundamental ao conhecimento da pessoa humana: “a boca fala do que está repleto o coração”.
Ou seja, nossas palavras revelam quem somos na realidade, em nosso íntimo. Por isso, mais do que um cuidado com a língua,
precisamos avaliar corretamente o centro das nossas emoções e sentimentos (para os ocidentais modernos: o coração, mas no
oriente antigo: os intestinos). Portanto, no amor e nos negócios é bom ouvir muito, e bem, antes de celebrar sociedade.
21
Alguns discípulos já mostravam sinais de falsidade e deslealdade, pois o chamavam formalmente de “Senhor” (em grego:
kurios), que significa “mestre a quem se deve seguir com lealdade absoluta”, mas não praticavam o que Ele lhes ensinava. É
possível que Jesus tenha repetido este sermão em outra ocasião, porém com o mesmo sentido, pois em Mateus a diferença entre
os dois homens da parábola, é que escolheram terrenos diferentes para construir (Mt 7.24-27), e aqui, diferem quanto à maneira
de edificar sobre os terrenos. Embora Jesus esteja advertindo que um bom alicerce é vital nas horas de provação e dificuldades
proporcionadas pela vida, seu principal objetivo é alertar para o teste supremo, no Juízo final, quando somente sobreviverão
aqueles que estiverem firmados na Rocha, que é o Filho de Deus (1Co 3.11).
Capítulo 7
1
Um centurião era um oficial militar romano, em geral, responsável por um grupamento igual ou superior a 100 soldados. O
NT cita alguns centuriões notáveis, como esse homem de fé apresentado por Lucas (At 10.2; 23.17,18; 27.43). Embora gentio, os
próprios líderes judeus admiravam sua honradez, cooperação e sensibilidade (vs. 5,6).
LC_B.indd 27 16/8/2007, 13:17:53
28 LUCAS 7
religiosos dos judeus, pedindo que fosse
curar seu servo.
4
Então, aproximando-se de Jesus, apela-
ram-lhe com muitas súplicas: “Este é um
homem que merece que lhe concedas
esse favor,
5
pois trata nosso povo com elevada con-
sideração, e ele mesmo construiu nossa
sinagoga”.
6
Então Jesus seguiu com eles. Mas, ao
chegarem nas proximidades da resi-
dência, o centurião enviou-lhe alguns
amigos para lhe entregarem a seguinte
notícia: “Senhor, não te incomodes, por-
que sei que não sou digno de receber-te
sob o teto da minha casa.
7
Por isso, nem mesmo me considerei
merecedor de ir ao teu encontro. Mas
ordena, com uma só palavra, e o meu
servo será curado.
8
Pois eu também sou homem sujeito à
autoridade, e tenho soldados sob o meu
comando. Mando a um: vai, e ele vai; e
a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo:
faze isto, e ele o faz.
2
9
Ao ouvir esta declaração, Jesus muito se
admirou dele e, voltando-se para a mul-
tidão que o acompanhava, exclamou:
“Asseguro-vos que nem mesmo em Israel
encontrei uma fé como esta”.
10
E aconteceu que os homens que ha-
viam sido enviados, retornaram para
a casa do centurião, e ao chegarem lá,
encontraram o servo dele totalmente
curado.
3
Jesus ressuscita um jovem na multidão
11
No dia seguinte, partiu Jesus para uma
cidade chamada Naim, e com ele cami-
nhavam seus discípulos e uma grande
multidão.
4
12
Ao se aproximar da porta da cidade,
estava saindo o enterro do filho único de
uma viúva; e grande multidão da cidade
a acompanhava.
13
Ao observá-la, o Senhor se compadeceu
dela e a encorajou: “Não chores!”.
5
14
E aproximando-se, tocou no esquife.
Então, os que o carregavam pararam. E
Jesus exclamou: “Jovem! Eu te ordeno:
levanta-te!”.
15
No mesmo instante, o jovem que esti-
vera morto se pôs sentado, e começou a
conversar, e assim Jesus restituiu o jovem
à sua mãe.
6
16
Todos foram tomados de grande
temor e louvavam a Deus proclamando:
“Grande profeta foi levantado entre
nós!” e “Deus veio salvar o seu povo!”.
17
Estas notícias a respeito de Jesus
circularam por toda a Judéia e regiões
circunvizinhas.
7
2
A fé que opera milagres, como a demonstrada por esse oficial romano, tem os seguintes componentes básicos: parte de um
coração profundamente humilde, consciente da sua insignificância e pecado, da santidade e do poder de Deus. É uma fé pura,
que não precisa da presença física de Jesus nem, muito menos, de outros elementos, mas apenas da sua Palavra (Tg 5.15-18).
Também não se restringe a qualquer nacionalidade, cor ou raça. Lucas nos revela que a fé do gentio foi não apenas aceitável,
mas elogiada pelo Senhor.
3
Em apenas duas ocasiões o NT registra que Jesus se admirou: nesta passagem - devido à fé que observou em um gentio - e,
em Nazaré, por causa da incredulidade de muitos dos seus amigos e parentes judeus (Mc 6.6).
4
Naim localizava-se a cerca de três quilômetros, o oeste de En-Dot, aproximadamente a um dia de viagem, a pé, de Cafarnaum.
5
O vocábulo grego usado aqui para se referir ao Senhor é kurios. O único com poder para extinguir toda a tristeza e dor dos
nossos corações, e expulsar a morte de nossas almas (1Co 15.55-57). O Senhor é movido pelo amor e por sua compaixão em
relação à morte do ser humano. Jesus sabia que o ente humano fora criado para viver eternamente em harmonia com Deus; e,
por isso, várias vezes, demonstra sua dor e indignação em relação à morte.
6
Conforme a tradição judaica, o jovem morto estava sendo conduzido num tipo de caixão aberto. Essa é a primeira de três oca-
siões citadas nos evangelhos em que Jesus ressuscitou alguém, as demais são: a filha de Jairo (8.40-56), e seu amigo Lázaro (Jo
11.38-44). Quadrato, pensador e historiador, que viveu no ano 125 d.C, em suas cartas a Adriano, relata o fato de que algumas das
pessoas curadas e ressuscitadas por Jesus ainda viviam em seu tempo e davam testemunho do Senhor. Curiosamente, vários
milagres de ressurreição de mortos narrados na Bíblia, ocorreram devido à participação de mulheres de fé, humildes, corajosas
e piedosas (1Rs 17.23; 2Rs 4.36; Jo 11.22,32; At 9.41; Hb 11.35).
7
Por mais de 400 anos o povo de Israel esperou pelo Messias prometido. João surge, vindo das regiões desérticas, com poder
7
e unção de Deus para anunciar a chegada do Messias. Diante dos inúmeros milagres de Jesus por toda a Palestina, e de sua
palavra e autoridade espiritual, as multidões começam a aclamá-lo como o Ungido (o Cristo), reconhecendo a presença de Deus
em Israel após gerações e gerações de silêncio.
LC_B.indd 28 16/8/2007, 13:17:54
29 LUCAS 7
João manda saber quem é Jesus
(Mt 11.2-6)
18
Então, os discípulos de João lhe relata-
ram todos esses acontecimentos. E João,
chamando dois deles,
19
enviou-os ao Senhor para lhe pergun-
tar: “És Tu aquele que estava para chegar
p p g
ou havemos de esperar outro?”.
8
20
Assim que os discípulos de João se
aproximaram de Jesus lhe explicaram:
“João Batista mandou-nos para vos
indagar: ‘És Tu aquele que estava para
p
chegar ou havemos de esperar outro?’”.
21
E naquela mesma hora Jesus curou
muitos de doenças e todos os tipos de
sofrimento, bem como de espíritos ma-
lignos, e concedeu visão a muitos que
eram cegos.
22
E, depois disto, declarou aos men-
sageiros: “Ide e relatai a João tudo o
que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os
aleijados andam, os leprosos são purifi-
cados, os surdos ouvem, os mortos são
ressuscitados e o Evangelho é pregado
aos pobres.
23
E mais, bem-aventurado é aquele que
não se escandalizar por minha causa!”.
9
Jesus confere honras a João
(Mt 11.7-19)
24
Havendo partido os mensageiros de João,
passou Jesus a testemunhar às multidões
acerca da pessoa e da obra de João: “Que
saístes a ver no deserto? Um caniço movido
de um lado para o outro pelo vento?
25
Que saístes a contemplar? Um cavalheiro
vestido de roupas finas? Ora, os que vestem
roupas suntuosas se entregam ao luxo e
vivem em delícias estão nos palácios.
26
Afinal, que fostes observar? Um pro-
feta? Eu vos asseguro que sim, e muito
mais do que um profeta.
27
Este é aquele a respeito de quem está
escrito: ‘Eis que enviarei o meu mensa-
geiro à tua frente; pois ele preparará o teu
caminho diante de Ti’.
28
Eu vos afirmo que dentre os nascidos
de mulher não há um ser humano maior
do que João. Todavia, o menor no Reino
de Deus é maior do que ele”.
10
29
E todo o povo, inclusive os publica-
nos, ao ouvirem as palavras de Jesus,
reconheceram que o caminho de Deus
era justo, e se submeteram ao batismo
de João.
11
8
João estava no cárcere por ter colocado sua lealdade ao Senhor e sinceridade quanto à sua missão muito acima da
subserviência aos poderosos desta terra. Estava preocupado e ansioso para ver o Messias, a quem anunciara durante toda a sua
vida, e continuaria a fazer através dos seus discípulos, libertar Israel e estabelecer seu Reino.
9
Jesus respondeu para seu querido amigo João de maneira que ele, como profeta, entenderia bem e não teria qualquer dúvida:
através dos sinais e maravilhas que os profetas do AT haviam dito que acompanhariam o Messias (Is 29.18-21; 35.5,6; 61.1 e
Lc 4.18). Em nossos dias, essa confirmação é obra da fé, e entra em nossa alma com o Espírito Santo, quando – humildemente
– aceitamos a Palavra de Deus e recebemos a Cristo em nossos corações sem restrições. Jesus exorta a João e aos discípulos
dele a não duvidarem e com isso se “escandalizarem” (nos originais gregos: skandalizõ). O sentido original desta palavra tem a
ver com a ação das gaiolas para caçar passarinhos, “skandalon” é exatamente o mecanismo que dispara o alçapão e prende o
pássaro. Jesus receava que o tempo e a distância pudessem servir de “laço” skandalon para que seus amados amigos caíssem
na terrível e fatal armadilha da dúvida e do desânimo.
10
Jesus explica aos seus discípulos e à multidão quem era João, pois muitos o achavam apenas um pregador excêntrico.
Mas, Jesus faz isso de maneira muito especial. Começa perguntando o que as multidões tinham ido fazer no deserto. O povo
tinha ido ouvir a palavra de João e, muitos, arrependidos, já haviam passado pelo batismo. Jesus informa que ele era autêntico e
corajoso, como os maiores profetas de Deus. Não era uma vareta que se move ao sabor do vento das vontades de ninguém (Mt
14.3-5), nem tampouco um lacaio dos aristocratas; era um homem simples, talhado pela vida dura do deserto, onde havia se dis-
ciplinado ao extremo, e ensinava a todos quantos estavam afastados da santidade de Deus e necessitavam desesperadamente
de arrependimento e salvação. Jesus conclui declarando que João era aquele a quem Malaquias anunciara há mais de 400 anos
(Ml 3.1). Mais que um profeta, pois foi o precursor imediato de Cristo. Pregou sobre Ele e sua vinda e O revelou ao mundo. Jesus,
entretanto, salienta que os nascidos de novo (Jo 3.1-21), gozam do direito de serem Filhos de Deus (Jo 1.12). E isso faz com que,
o menor deles, seja maior do que qualquer membro da Antiga Aliança, da qual João foi o último e magnífico profeta.
11
A palavra de Jesus produziu em todas as pessoas e, particularmente, nos coletores de impostos, o reconhecimento dos seus
erros e, ao mesmo tempo, da Graça Salvadora de Deus. Havendo sido justificados, se submeteram de bom grado aos princípios
da Palavra e ao ensino de João.
LC_B.indd 29 16/8/2007, 13:17:54
30 LUCAS 7
30
Entretanto, os fariseus e os doutores
da lei rejeitaram o conselho de Deus
para eles próprios, e não se dispuseram
a ser batizados por ele.
12
31
“Sendo assim, a que compararei as
pessoas da presente geração?”, prosseguiu
Jesus, “Com que se assemelham?”.
32
“Ora, são como crianças que ficam
sentadas na praça e gritam umas às ou-
tras: ‘Nós vos tocamos flauta, e vós não
dançastes; entoamos lamentações e vós
não chorastes’.
33
Assim tendes agido, pois veio João Ba-
tista, que não come pão e não bebe vinho,
e julgais: ‘Este está com demônio!’.
34
Então chegou o Filho do homem,
comendo pão e bebendo vinho, e conde-
nais: ‘Eis aí um glutão e beberrão, amigo de
publicanos e pecadores!’.
35
Todavia, os filhos da Sabedoria reco-
nhecem e acolhem as suas obras”.
13
Uma pecadora unge a Jesus
36
Tendo sido convidado por um dos
fariseus para jantar, Jesus foi à casa dele
e reclinou-se, como era o costume, junto
à mesa.
14
37
Assim que tomou conhecimento que
Jesus estava reunido à mesa, na casa do
fariseu, certa mulher daquela cidade,
uma pecadora, trouxe um frasco de ala-
bastro cheio de perfume.
38
E, posicionando-se atrás de Jesus, pros-
trou-se a seus pés e começou a chorar.
Suas lágrimas molharam os pés de Jesus,
mas ela, em seguida os enxugou com os
próprios cabelos, beijou-os e os ungiu
com o perfume.
39
Diante de tal cena, o fariseu que o havia
convidado falou consigo mesmo: “Se este
homem fora de fato profeta, bem saberia
quem nele está tocando e que espécie de
mulher ela é: uma pecadora!”.
15
40
Então, voltou-se Jesus para o fariseu
e lhe propôs: “Simão, tenho algo para
dizer-te”. Ao que ele aquiesceu: “Sim,
Mestre, dize-me”.
41
“Dois homens deviam a certo credor.
Um lhe devia quinhentos denários e o
outro, cinqüenta.
12
“Doutores ou peritos” da lei foi a maneira como Lucas se referiu aos escribas e mestres da lei, que muitas vezes também
pertenciam ao partido dos fariseus (5.17; 10.35,37: 11.45,52; 14.3 e em Mt 22.35). Esses teólogos e juristas judeus, que tiveram
o privilégio de ouvir esse sermão diretamente dos lábios de Jesus, não conseguiram perceber que aquela Palavra de Deus era
dirigida a eles, e demonstraram que o livre arbítrio capacita o homem a anular o propósito divino de conceder-lhe a salvação.
13
Em geral, as pessoas demonstram um comportamento infantil em relação à decisão de se consagrarem a Deus e à verdade.
Elas agem como aquelas crianças da época de Jesus: se lhes era apresentado algo alegre, elas não se alegravam; se melancó-
lico, não se sensibilizavam. Não haviam se associado a João com seu conservadorismo e rigidez ascética em relação à Lei e à
devoção ao Senhor; nem tampouco aceitaram o convite de Jesus para um novo tempo de Graça, liberdade e plenitude espiritual
como membros do Reino. Preferiram acusar João e a Jesus de falsos e endemoninhados (Jo 7.20; 8.48; 10.20) e seguiram seus
próprios e danosos caminhos. Entretanto, Jesus deixa claro que os que são de Deus (Sabedoria), reconhecem as suas grandes
obras e maravilhas e atendem ao seu chamado (Jo 10.1-18).
14
Para os judeus, uma refeição era um convite de alto valor social, representava um selo de amizade e reconhecimento entre os
convidados. Como as mesas eram baixas, e ao redor havia uma série de divãs e almofadas, os convidados se reclinavam sobre
eles, com os pés pra trás, a fim de degustarem as iguarias que eram trazidas por escravos ou empregados. Estes, além de servi-
rem à mesa, cuidavam da recepção aos convivas, que incluía ungir com óleos e perfumes, lavar e enxugar os pés, especialmente
dos mestres da Torá (Lei). Alguns senhores ou patrões, dispensavam seus criados da cerimônia de recepção e a realizavam eles
próprios, numa atitude de elevada estima e consideração por seus amigos. Assim, a sala de refeição ficava, em geral, repleta de
pessoas; umas comendo e descansando, outras, entrando e saindo para servir aos comensais. É neste contexto que uma mulher,
desejosa de abandonar sua vida de prostituição e encontrar a paz (Jo 8.11), entra na sala em busca do Senhor, trazendo o melhor
que possuía: amor no coração, fé no Filho de Deus, arrependimento, desejo de mudar e adoração (um frasco caríssimo de óleos
aromáticos). Jesus estava reclinado, com os pés estendidos e distantes da mesa central. A mulher, não querendo se interpor entre
Jesus e o fariseu anfitrião, preferiu, humildemente, ungir os pés de Jesus à sua maneira, mas com especial e genuína devoção.
O frasco era feito de alabastro (uma rocha branca e fácil de moldar). Uma garrafa globular, com gargalo comprido, contendo
ungüento (óleo) perfumado, cujo valor correspondia à cerca de 300 dias de trabalho braçal. O frasco (vaso) precisava ter seu
gargalo quebrado, e usava-se todo o conteúdo numa única aplicação. Ato semelhante foi realizado por Maria de Betânia, poucos
dias antes da crucificação (Jo 12.3).
15
Jesus é realmente o Salvador dos pecadores. A contradição é quase sempre marcante: para o fariseu, Jesus era um profeta
e deveria agir com o rigor e o legalismo que ele (fariseu) esperava de um profeta. Para a mulher, prostituta e pecadora, carente
de amor, perdão e consideração, Jesus era Deus encarnado, Senhor de misericórdias e da salvação; o único que tinha poderes
LC_B.indd 30 16/8/2007, 13:17:55
31 LUCAS 7, 8
42
Nenhum dos dois tinha com que pa-
gar, por isso o credor decidiu perdoar
a dívida de ambos. Qual deles o amará
mais?”.
43
Replicou-lhe Simão: “Imagino que
aquele a quem foi perdoada a dívida
maior”. Ao que Jesus o congratulou: “Jul-
gaste acertadamente!”.
44
Então, virou-se em direção à mulher
e declarou a Simão: “Vês esta mulher?
Entrei em tua casa, e não me trouxeste
água para lavar os pés, como é o costu-
me. Esta, porém, molhou os meus pés
com suas lágrimas e os enxugou com os
próprios cabelos.
45
Da mesma maneira, tu não me sau-
daste com um beijo na face, como é tra-
dicional; ela, todavia, desde que cheguei
não cessa de me beijar os pés.
46
E mais, tu não me ungiste a cabeça
com óleo, como era de se esperar, mas
esta mulher, com puro bálsamo, ungiu
os meus pés.
47
Por tudo isso, te asseguro: o grande
amor por ela demonstrado prova que
seus muitos pecados já foram todos
perdoados. Mas onde há necessidade de
pouco perdão, pouco amor é revelado.
48
Em seguida, Jesus afirmou à mulher:
“Perdoados estão todos os teus peca-
dos!”.
49
Então, os demais convidados começa-
ram a comentar: “Quem é este que pod e
até perdoar pecados?”.
50
E Jesus revela à mulher: “A tua fé te
salvou; vai-te em permanente paz”.
16
As muitas discípulas de Jesus
8
Havendo passado esses aconteci-
mentos, caminhava Jesus por todos
os povoados e cidades proclamando as
boas novas do Reino de Deus, e os Doze
estavam com Ele.
1
2
E também algumas mulheres que
haviam sido curadas de espíritos malig-
nos e doenças: Maria, conhecida como
Madalena, de quem haviam saído sete
demônios;
3
Joana, esposa de Cuza, administrador
da casa de Herodes; Susana e muitas
outras. Essas mulheres cooperavam no
sustento deles com seus bens.
2
A parábola do semeador
(Mt 13.1-9; Mc 4.1-9)
4
E ocorreu que uma grande multidão
se reuniu, e pessoas de todas as cidades
vieram ouvir a Jesus. Foi quando Ele lhes
propôs a seguinte parábola:
3
5
“Eis que um semeador saiu a semear.
Enquanto lançava a semente, parte dela
caiu à beira do caminho; foi pisoteada, e
as aves do céu a devoraram.
6
Outra parte caiu sobre as rochas e,
para perdoá-la e purificar sua vida. E Jesus olhou para a alma daquele ser humano e além do seu pecado, viu uma filha de Deus,
uma irmã e herdeira do seu Reino (Tg 2.1-5).
16
Jesus dá toda atenção à pobre mulher e a abençoa com paz. Nos originais, o verbo desta frase está no tempo presente
do indicativo, o que descreve um estado de “constante paz interior com Deus”. Literalmente: vai para dentro da paz. Os antigos
rabinos costumavam dizer: vai em paz aos mortos e z vai para dentro da paz aos vivos. É importante notar, que o amor da mulher z
não foi a causa da sua salvação, mas sim a conseqüência. O fruto de uma vida salva e consagrada ao Senhor. Só a fé em Jesus
nos salva do Diabo, do mundo e de nós mesmos.
Capítulo 8
1
Jesus havia concentrado seu ministério nas sinagogas em Cafarnaum. Mas agora voltava ao interior da Galiléia, ministrando
em todas as cidades ao longo deste segundo percurso. Quanto à primeira viagem missionária ver: 4.43,44; Mt 4.23-25; Mc
1.38,39. Em relação à terceira viagem veja: 9.1-6.
2
Lucas salienta a importância das mulheres no ministério de Jesus, como discípulas e cooperadoras financeiras daquele que
se fez pobre para nos fazer ricos (2Co 8.9). Maria Madalena, da cidade de Magdala, é normalmente confundida com a mulher
pecadora do cap.7, e com Maria de Betânia (Jo 11.1).
3
Jesus passa a dirigir seu ensino mais aos realmente interessados em se tornarem filhos de Deus e, como discípulos (não
apenas os Doze, mas todos – Mc 4.10), fazerem parte do seu Reino. Por isso, Jesus escolhe as metáforas e as parábolas para
comunicar as grandes e surpreendentes verdades sobre o estilo de vida dos cidadãos do Reino (Mt 13.3; Mc 4.2). Embora as
parábolas fossem histórias com fundos espirituais e morais fáceis de compreender, havia alguns elementos enigmáticos que
careciam de esclarecimento. Essa era a maneira como Jesus filtrava e atraía para si apenas os mais interessados, aquelas pes-
soas que continuavam a segui-lo não apenas pelas curas milagrosas, mas para entender melhor sua mensagem, com todos os
LC_B.indd 31 16/8/2007, 13:17:55
32 LUCAS 8
quando germinou, as plantas secaram,
pois não havia umidade suficiente.
7
Outra parte ainda, caiu entre os espi-
nhos, que com ela cresceram e sufoca-
ram suas plantas.
8
Todavia, uma outra parte, caiu em boa
terra. Germinou, cresceu e produziu
grande colheita, a cem por um”. Tendo
concluído esta parábola, exclamou:
“Aquele que tem ouvidos para ouvir,
ouça!”.
4
Jesus explica a parábola
(Mt 13.10-23; Mc 4.10-20)
9
Seus discípulos lhe perguntaram o
que Ele queria comunicar com aquela
parábola.
10
Ao que Ele lhes replicou: “A vós outros
é concedido saber os mistérios do Reino
de Deus; aos demais, contudo, anuncio
através de parábolas, para que ‘vendo,
não vejam; e ouvindo, não compreen-
dam’.
5
11
Eis, portanto, o esclarecimento desta
parábola: A semente é a Palavra de Deus.
12
As que caíram à beira do caminho
representam todos os que ouvem, mas
então chega o Diabo e tira a Palavra do
coração deles, para que não venham a
crer e não sejam salvos.
13
As que caíram sobre as rochas sim-
bolizam os que recebem a Palavra com
alegria assim que a ouvem, contudo não
possuem raiz. Crêem por um período,
mas desistem no tempo da provação.
6
14
As que caíram entre os espinhos,
significam os que ouvem; todavia, ao se-
guirem seu caminho, são sufocados pelas
muitas ansiedades, pelas riquezas e pelos
prazeres desta vida, e não conseguem
amadurecer.
15
No entanto, as que caíram em boa ter-
ra, são os que, de bom coração e com sin-
ceridade, ouvem a Palavra, a entesouram,
e com perseverança, frutificam.
7
A parábola da luz manifesta
(Mc 4.21-25)
16
Não há ninguém que, depois de acen-
der uma candeia, a esconda debaixo de
um jarro ou a coloque sob a cama. Ao
contrário, coloca-a num lugar apropria-
do, de maneira que todos aqueles que
entram, vejam o resplandecer da luz.
8
detalhes sobre como viver sob a plena direção de Deus. Nas parábolas, os inimigos de Jesus não conseguiram achar declarações
claras e diretas para usar contra ele. A conhecida “parábola do semeador”, é uma das três histórias enigmáticas registradas em
todos os evangelhos sinóticos (Mt 13.1-23; Mc 4.1-20). As outras são: “a do grão de mostarda” (13.19; Mt 13.31,32; Mc 4.30-32)
e da “vinha” (20.9-19; Mt 21.33-46; Mc 12.1-12).
4
A narração de Lucas é mais sucinta que a de Mateus (13.8), e a de Marcos (4.8). Entretanto, a lição central é a mesma: a quan-
tidade da colheita depende da qualidade do terreno. Jesus exorta a todos que receberam capacidade espiritual para ouvir a voz de
Deus, abram completamente seu entendimento e vivam como cidadãos do Reino, ainda que neste mundo materialista e injusto.
5
Muitos ensinos e conceitos de vida transmitidos por Deus aos seres humanos são considerados – especialmente pelos incrédulos
– como grandes enigmas e mistérios. Dependemos das misericórdias do Senhor para recebermos a correta e clara revelação da
verdade (Mc 4.11; Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12). A citação de Isaías (Is 6.9), não quer dizer que há uma disposição divina de vetar o acesso ao
conhecimento da verdade para algumas pessoas. Mas essa é simplesmente uma triste constatação: todos aqueles que não estiverem
dispostos a receber e incorporar a mensagem de Jesus perceberão o quanto a verdade (o caminho da paz e da plena felicidade) es-
capou ao seu entendimento. E seu destino final fica subentendido na citação complementar de Mt 13.14,15 (veja também Mc 4.12).
6
Denomina-se “Palavra de Deus” toda a mensagem proveniente diretamente do Senhor. O principal objetivo do Diabo, até o
final dos tempos, será provar que Deus falhou em seus juízos e que a humanidade não quer nem precisa de Deus. O Diabo é o
pai da mentira e da arrogância (uma forma de mentira), e por isso, embora saiba do seu final no lago do fogo eterno, juntamente
com todos os seus correligionários, simpatizantes e “inocentes úteis” (aquelas pessoas que dizem que não se envolvem em
religião, pois não matam, não roubam, e ajudam o próximo quando possível; consideram a si mesmas tão boas que não precisam
de arrependimento, muito menos da salvação), não pode admitir que isso venha realmente a acontecer. O soberbo é também,
espiritualmente, surdo e cego. Mas existe um outro tipo de pessoa, cujo coração (terreno para o plantio da Palavra) se anima
com a mensagem de Jesus e com a amizade dos cristãos, e por algum tempo vive como crente. Entretanto sua fé é superficial e,
portanto, não própria do salvo. É semelhante a fé que Tiago chama de “morta” (2.17,26) e “inútil” (2.20).
7
Há um coração e uma alma comparáveis à terra fértil e irrigada. O Senhor ressalta que só a perseverança na fé – mesmo em
meio às lutas, derrotas e vitórias – é a marca do cristão, a prova da fé salvadora, que garante a vida eterna e proporciona os mais
belos frutos em palavras e, sobretudo, em ações concretas (1Co 16.13-14).
8
Jesus estimula seus discípulos a proclamarem a verdade em todas as partes (11.33; 12.2; Mt 5.15). A luz corresponde à
LC_B.indd 32 16/8/2007, 13:17:56
33 LUCAS 8
17
Porquanto não há nada oculto que
não venha a ser revelado, e nada escon-
dido que não venha a ser conhecido e
trazido à luz.
18
Assim sendo, vede, pois, como ouvis;
porque ao que tiver, mais se lhe con-ce-
derá; e ao que não tiver, até mesmo aqui-
lo que imagina possuir lhe será tirado”.
9
Os fiéis formam a família de Jesus
(Mt 12.46-50; Mc 3.31-35)
19
Então a mãe e os irmãos de Jesus
vieram para falar com Ele, entretanto,
não conseguiam aproximar-se dele, pois
grande era a multidão à sua frente.
10
20
Certa pessoa comunicou a Jesus: “Tua
mãe e teus irmãos estão lá fora e desejam
ver-te”.
21
Contudo, Ele lhe replicou: “Minha mãe
e meus irmãos são aqueles que ouvem a
Palavra de Deus e a praticam!”.
A tempestade é neutralizada por Jesus
(Mt 8.23-27; Mc 4.35-41)
22
E aconteceu que, em um daqueles dias,
ao entrar no barco, pediu Jesus aos seus
discípulos: “Passemos para a outra mar-
gem do lago”, e partiram.
23
Enquanto navegavam, Ele adormeceu.
E abateu-se sobre o lago uma grande
tempestade com fortes ventos, de modo
que o barco estava sendo inundado, e
eles corriam o risco de naufragar.
24
Então os discípulos correram para
acordá-lo, exclamando: “Mestre! Mestre,
estamos a ponto de morrer!”. Ele se le-
vantou e repreendeu a tempestade e a vio-
lência das águas. Tudo então se acalmou e
houve perfeita paz.
25
Jesus, no entanto, dirigiu-se aos seus
discípulos e indagou: “Onde está a vossa
fé?”. Mas eles, amedrontados e maravi-
lhados, interrogavam uns aos outros:
“Quem é este que até aos ventos e às on-
das dá ordens, e eles lhe obedecem?”.
11
A libertação de um endemoninhado
(Mt 8.28-34; Mc 5.1-20)
26
Zarparam então, para a região dos ge-
rasenos, que se localiza do outro lado do
lago, na fronteira da Galiléia.
27
Assim que Jesus desembarcou, foi
ao encontro dele um homem daquela
cidade, possesso de demônio que, fazia
muito tempo, não usava roupas, nem
habitava em casa alguma, mas vivia nos
sepulcros.
12
28
Ao contemplar Jesus, berrou, prostrou-
se aos seus pés e exclamou com voz forte:
“Que desejas comigo, Jesus, Filho do
semente (11), que é a Palavra de Deus. A pessoa que irradia a luz do Evangelho – através de uma conduta exemplar e pela
comunicação dos princípios bíblicos – cumpre bem seu propósito. Entretanto, para manter uma vida reluzente é fundamental:
ouvir e obedecer (41).
9
A verdade (semente) não assimilada, e, portanto, não colocada em prática no dia-a-dia será perdida. E mais, tudo quanto foi
conquistado, porém sem a compreensão da verdade, igualmente se perderá (19.26). Os discípulos deveriam dar toda a atenção
à prática da Palavra de Deus, não apenas para si próprios, mas especialmente por causa daqueles que estão perdidos e precisam
da graça do maravilhoso conhecimento do Senhor em suas vidas (Mc 4.24; Tg 1.19-22).
10
Alguns estudiosos questionam o fato de Jesus haver tido irmãos consangüíneos, filhos de Maria, sua mãe. Contudo as
provas são incontestes neste caso (Mc 6.3). Entretanto, nem o mais estreito parentesco humano é maior e mais importante do que
a filiação de uma pessoa a Deus e seus relacionamentos dentro da família de Cristo. Por isso, os cristãos costumam se chamar
de “irmãos” (Mc 3.21,31,32; Jo 7.5).
11
Jesus notou a participação das forças malignas naquela tempestade inusitada, exatamente quando ele e seus discípulos
rumavam para a terra dos gerasenos (gadarenos ou ainda gergesenos). Um povo gentio, que vivia isolado, e que tinha como fonte
de renda a criação de porcos, animal considerado impuro pelos judeus em todos os sentidos. Com esse milagre, Jesus confirma
mais uma vez, seu poder sobre todas as forças impessoais. Ele as criou e as controla (Jo 1.3; Cl 1.17). “Onde está a vossa fé?”
Se estiver depositada em uma capacidade ou criação humana, como um bom barco com navegadores experientes, por exemplo,
poderá afundar. Se estiver na dedicação e nas obras morais e beneficentes, com certeza, as forças contrárias serão maiores.
Entretanto, se estiver firmada em Cristo: tranqüilize-se e comece a desfrutar da bonança (Ef 2.8,9).
12
Mateus faz referência a dois endemoninhados (Mt 8.28). Entretanto, Marcos e Lucas ressaltam a ação daquele que se adian-
tou para interagir com Jesus (Mc 5.2). Esses homens, vítimas do domínio absoluto do demônio, foram ao encontro de Jesus para
maltratá-lo, no entanto, ao se aproximarem do Filho de Deus, prostraram-se diante do poder do Altíssimo e lhe suplicaram por mi-
sericórdia. Essas pessoas atormentadas viviam ainda mais isoladas, em lugares desolados que serviam de cemitérios (Mc 5.3).
LC_B.indd 33 16/8/2007, 13:17:56
34 LUCAS 8
Deus Altíssimo? Imploro a Ti, não me
castigues!”
29
Porquanto Jesus ordenara ao espírito
imundo que abandonasse o corpo da-
quele homem. Diversas vezes o demônio
havia se apoderado dele. Mesmo com os
pés e as mãos acorrentados, e vigiado por
guardas, arrebentava as cadeias e os gri-
lhões, e era impelido pelo demônio para
lugares desolados.
30
Jesus lhe inquiriu: “Qual é o teu
nome?”. Ao que ele replicou: “Legião!”,
pois eram muitos os demônios que ti-
nham invadido aquele homem.
13
31
E suplicavam a Jesus que não os man-
dasse para o Abismo.
32
Entrementes, uma grande manada de
porcos estava pastando naquela colina.
Os demônios imploraram que Jesus lhes
permitisse entrar nos porcos. E Jesus
consentiu.
33
Então, saindo do homem, os demô-
nios invadiram os porcos, e a manada
jogou-se precipício abaixo em direção
ao grande lago e todos os porcos se
afogaram.
34
Ao observar tudo o que acontecera,
as pessoas responsáveis pelo cuidado
dos porcos fugiram e foram contar esses
fatos na cidade e pelos campos.
14
Um homem geraseno se torna discípulo
(Mt 8.34; Mc 5.14-20)
35
E ocorreu que o povo saiu para ver o
que tinha sucedido. Quando se aproxi-
maram de Jesus, viram aquele homem
de quem os demônios haviam saído,
assentado aos pés de Jesus, vestido e
em perfeito juízo, e todos ficaram apa-
vorados.
36
As pessoas que haviam testemunhado
todos os fatos, contaram também como
fora liberto aquele homem dos muitos
demônios que o haviam tomado.
15
37
Então, todo o povo da região dos
gerasenos rogou a Jesus para que se
retirasse de suas terras, pois estavam
aterrorizados.
38
Contudo, o homem de quem haviam
sido expulsos os demônios, implorava-
lhe que o deixasse ir com Ele; mas Jesus
despediu-se, recomendando-lhe:
39
“Volta para tua casa e compartilha
tudo quanto Deus fez por ti!”. E assim
o homem partiu, e anunciou na cidade
inteira todas as obras que Jesus havia
realizado em sua vida.
16
A súplica do dirigente da sinagoga
(Mt 9.18-19; Mc 5.21-24)
40
Assim que Jesus regressou, a multidão
13
Os gentios, em geral, se referiam ao Senhor como “Deus Altíssimo” (1.24,32; 4.34; Gn 14.19; At 16.17). O reino de Satanás
não tem absolutamente nada em comum com o Reino de Deus (11.14-22), por isso o questionamento dos demônios, haja vista
que eles dominavam aquela região e, mais especificamente, aqueles homens. Jesus pergunta o nome do homem com quem
está falando, mas quem responde é “Legião” (palavra usada para identificar uma corporação romana com até 6000 soldados), o
chefe de uma multidão de demônios que havia tomado o corpo daquela pessoa; numa demonstração clara de posse e comando
daquela vida, cuja própria identidade havia sido confiscada.
14
O Abismo (lugar de confinamento de Satanás e dos espíritos malignos), sempre será o destino final dos demônios e das
almas incrédulas (Ap 9.1; 20.3). O desejo invejoso de Satanás é controlar a vida dos seres humanos, e isso ele buscará de todas
as maneiras até o final dos tempos. A criação de porcos era uma atividade econômica expressamente proibida pela Lei de Deus
em todo o território israelense (Lv 11.7-8). Entretanto, essa região, pertencia a Decápolis, território predominantemente gentílico.
Os demônios e a população do lugar perceberam que Jesus e suas palavras e maravilhas poderiam alterar todo o modus vivendi
(modo de vida) da cidade. Contudo, não foi Jesus quem matou os porcos, mas sim os próprios demônios, que no ímpeto de se
afastarem da santidade de Deus, para dominar e destruir desvairadamente, voltaram para o abismo e se afogaram no lago. Uma
clara ilustração do Juízo final.
15
O termo grego original: esõthe, é muito rico em significados paralelos, podendo ser traduzido como: “salvar”; “curar”;
“resgatar” e “libertar”. É a mesma expressão usada várias vezes no NT para descrever o novo relacionamento de ser humano
“resgatado” por Deus. No verso 48 temos um sentido duplo: salvação em relação à morte física e espiritual.
16
Contraste entre o pedido dos gerasenos e do homem liberto. A população valorizou os bens materiais acima dos espiri-
tuais. Ficaram com medo de perder sua fonte de renda, segurança e da destruição que Jesus poderia promover na cidade. E
preferiram permanecer oprimidos pelas forças malignas. O geraseno, salvo e curado, reconheceu em Jesus o Filho de Deus e
a fonte da vida; valorizou sua salvação acima de todos os bens, e teve pavor de voltar à vida antiga. Em seu coração, disposto
LC_B.indd 34 16/8/2007, 13:17:57
35 LUCAS 8
o recebeu com grande júbilo, pois todos
o estavam aguardando com ansiedade.
41
Eis que se aproximou de Jesus um
homem chamado Jairo, que era dirigente
da sinagoga local, e, prostrando-se aos
pés de Jesus, lhe implorou que fosse até
a sua casa.
42
Pois tinha uma filha única com cer-
ca de doze anos, que estava à beira da
morte. E, enquanto Ele caminhava, as
multidões o comprimiam.
A cura de uma mulher no caminho
(Mt 9.20-22; Mc 5.24-34)
43
Nas proximidades estava certa mulher
que, havia doze anos, vinha sofrendo de
hemorragia e já tinha gasto tudo o que
podia com os médicos, mas ninguém
fora capaz de curá-la.
44
Ela conseguiu se aproximar de Jesus,
por trás, e tocou na borda de seu manto,
quando no mesmo instante se lhe cessou
completamente a hemorragia.
45
Ao que Jesus indagou: “Quem tocou
em mim?” Como todos negassem, Pedro
pondera: “Mestre, a multidão se aglome-
ra e te espreme. E, ainda assim, desejas
saber quem te tocou?
46
Contudo, Jesus insistiu: “Certamente
alguém me tocou, pois senti que de mim
emanou poder!”.
47
Então a mulher, compreendendo que
não haveria de passar despercebida, apro-
ximou-se tremendo e prostrou-se aos pés
de Jesus. E, diante de todo o povo, decla-
rou o motivo pelo qual o tocara daquela
maneira, e como naquele mesmo momen-
to fora totalmente curada.
48
Ao que Jesus lhe afirmou: “Filha! A tua
fé te curou; vai-te em perfeita paz”.
17
Jesus ressuscita a filha de Jairo
(Mt 9.23-25; Mc 5.35-43)
49
Falava Ele ainda, quando chegou
uma pessoa da casa do dirigente da si-
nagoga, informando: “Tua filha já está
morta. Não adianta mais incomodar o
Mestre”.
18
50
Ao ouvir tais notícias, Jesus declarou a
Jairo: “Não temas, tão-somente crê, e ela
será salva!”.
51
Assim que chegou à casa de Jairo, não
permitiu que ninguém entrasse com Ele,
a não ser Pedro, João, Tiago, bem como, o
pai e a mãe da menina.
52
Enquanto isso, grande comoção atin-
giu a multidão, e todos choravam e se
lamentavam por ela. Diante disto Jesus
os encorajou: “Não pranteeis! Ela não
está morta, mas dorme”.
19
53
E muitos zombavam dele, pois tinham
certeza de que ela estava morta.
a seguir e servir a Deus, aceitou com alegria a orientação missionária de Jesus e, a caminho de casa, pregou o evangelho em
várias cidades por toda Decápolis (liga das cidades livres, localizadas além do rio Jordão, caracterizadas pelo alto nível de cultura
grega, portanto, gentios).
17
Uma hemorragia crônica (fluxo de sangue) havia tirado a saúde e excluído aquela mulher da sociedade (tornando-a
impura segundo a Lei – Lv 15.19-30), por doze anos (Mt 5.26). Jesus sente e abençoa a fé demonstrada por ela, curando sua
enfermidade, e a restituindo ao convívio familiar e social através do testemunho público. Para uma pessoa que passou tanto
tempo sendo desprezada e humilhada, Jesus reserva uma palavra especial: “filha”, expressão de ternura que não aparece em
nenhuma outra citação de Jesus nos evangelhos. É a confiança na esperança (Jesus) que produz a ação (17.19), e uma paz
que independe das circunstâncias (7.50).
18
Jairo (nome que significa em hebraico: “Deus dará luz”), era responsável pela sinagoga local e um homem piedoso. Aparen-
temente o atraso de Jesus em socorrer a filha de Jairo cooperou para sua morte. Incidente semelhante ocorreu com Lázaro, um
grande amigo de Jesus (Jo 11.5,6). Esses são dois grandes temores humanos: o tempo e a morte. Para Deus, entretanto, estes
aspectos limitantes da vida não existem. A razão nos encoraja a crer no possível; a experiência afirma que ninguém voltou do
lugar dos mortos revelando detalhes sobre esse caminho (Lc 16.30); as emoções nos fazem sentir preocupados e assustados em
relação à morte (Sl 55.4). Mas Jesus nos afirma que confiando (confiança é a palavra hebraica para fé) nele, como nossa única e
suficiente esperança, testemunharemos que o finis da morte (o final de tudo) se transforma no prelúdio da vida verdadeira: plena
e eterna (Jo 11.25).
19
Jesus faz uma grande diferença entre a morte eterna e o estado de descanso temporário da alma, fora do corpo, enquanto
aguarda a volta de Cristo, e o final da era humana como a conhecemos hoje. A morte para Jesus é o estado de eterno banimento
da comunhão e das misericórdias de Deus. Destino este reservado para Satanás, seus anjos e todos aqueles que rejeitarem a gra-
ça salvadora do Senhor durante suas vidas. Sendo assim, Jesus adverte a Jairo de que sua filha não estava (permanentemente)
LC_B.indd 35 16/8/2007, 13:17:57
36 LUCAS 8, 9
54
Entretanto, Ele a tomou pela mão e,
em voz alta, lhe ordenou: “Menina, le-
vanta-te!”.
55
Imediatamente o espírito dela re-
tornou, e no mesmo momento ela se
levantou, e Ele mandou que lhe dessem
algo para comer.
56
Os pais da menina ficaram mara-
vilhados, contudo Jesus lhes ordenou
que não contassem a ninguém o que se
passara ali.
20
Jesus envia os Doze em missão
(Mt 10.1-15; Mc 6.7-13)
9
Havendo Jesus convocado os Doze,
concedeu-lhes poder e completa auto-
ridade para expulsar todos os demônios,
assim como para realizarem curas.
1
2
Igualmente os enviou para proclamar o
Reino de Deus e curar os doentes.
3
E lhes orientou: “Nada leveis convosco
pelo caminho: nem bordão, nem mochi-
la de viagem, nem pão, nem dinheiro e
nem mesmo uma túnica extra.
4
Na casa em que entrardes, ali perma-
necei até que chegue a hora da vossa
saída.
2
5
Porém, se não vos receberem, sacudi o
pó das vossas sandálias assim que sairdes
daquela cidade, como testemunho con-
tra aquela gente”.
3
6
E assim, partiram os Doze e percor-
reram todos os povoados, pregando o
evangelho e realizando curas por toda
a parte.
4
Herodes tenta encontrar Jesus
(Mt 14.1-12; Mc 6.14-29)
7
O tetrarca Herodes ouviu comentários
sobre o que estava ocorrendo e ficou
assustado, pois algumas pessoas divul-
gavam que João havia ressuscitado dos
mortos.
8
Outros, alegavam que Elias tinha ressur-
gido; e outros ainda falavam que um dos
profetas do passado havia voltado à vida.
9
Herodes, entretanto, afirmava: “Eu man-
dei decapitar a João; quem é, pois, este a
respeito do qual tenho ouvido tais coisas?”.
E se empenhava por conhecê-lo.
5
morta. Mas, como ocorre com “os mortos no Senhor”, estava “adormecida” ou “descansando” (1Ts 4.13), na expectativa da res-
surreição. Jesus demonstra a veracidade das suas palavras, despertando a menina da morte, concedendo-lhe uma ressurreição
antes da ressurreição definitiva, e comprovando, uma vez mais, que para Deus não há impossíveis (Mt 5.38; Jo 11.11-14).
20
Jesus sempre se preocupou com a maneira como as pessoas o estavam recebendo, bem como a sua mensagem. Ele não
queria que o povo o seguisse de forma utilitarista, ou seja, somente a troco dos benefícios físicos que Ele proporcionava aos que
nele criam: saúde física e emocional, libertação dos demônios, segurança, alimentação (Jo 6.26) e até ressurreição. Pois todos
querem ir para o céu, mas ninguém deseja morrer (Lc 9.24). Desde a Criação no Éden, o plano de Deus é que o ser humano lhe
fosse um amigo leal, adorando-o como seu Criador e Pai. Uma comunhão que resulta em glória a Deus (Jo 5.44; Fp 3.11).
Capítulo 9
1
O Cristo (forma grega de: o Messias, em hebraico), Soberano do Novo Reino, compartilha seu “poder” (em grego: dunamis),
e sua “autoridade” (em grego: exousia), com seus “apóstolos”, termo que em grego significa: “enviados em lugar daquele que os
comissionou”, ou seja “embaixadores”. Essa é uma nova fase do ministério de Jesus, quando envia seus plenos representantes
para colocarem em prática o estilo de vida, proclamação, curas e maravilhas que haviam visto diariamente em sua pessoa (Mt
9.35). Essa foi também a terceira viagem pelas terras da Galiléia realizada por Jesus e seus discípulos (8.1).
2
A estratégia espiritual de Jesus para vencer o Diabo e o mundo – e que durante muito tempo foi seguida pela Igreja primitiva
– consistia em: sair em missão de proclamação do Evangelho por todo o mundo (Mt 28.16-20); manter um estilo de vida simples
sem preocupações materiais (Mc 6.8); confiar na generosidade da provisão divina; ter senso de urgência, remindo o tempo e
aproveitando bem todas as oportunidades para apresentar a Salvação em Cristo (1Co 7.29); fixar a base do seu ministério numa
casa hospitaleira – e não mudar de casa, buscando melhores acomodações. Jesus deu grande ênfase ao ministério da “Igreja
nas casas” (Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 2).
3
Sacudir a poeira das sandálias era um ato simbólico praticado pelos judeus piedosos, ao retornarem à Palestina, e que neste
contexto significa uma expressão de relações cortadas, responsabilidade cessada, e um eloqüente e derradeiro apelo ao arrepen-
dimento. Esse passou a ser um sinal de total repúdio pela rejeição da mensagem de Deus (10.11; Mt 10.14; At 13.51).
4
O objetivo principal de Jesus é trazer todos os seres humanos para o Seu Reino, visto que a humanidade está afastada de
Deus, perdida e condenada à morte eterna (Rm 3.23), e essa missão deve ser realizada levando em conta todas as necessidades
básicas das pessoas. O amor não separa o bem-estar espiritual e eterno do material e presente (1Jo 3.17).
5
Lucas não informa os detalhes sobre a morte de João Batista (Mt 14.1-12; Mc 6.17-29), que ocorreu naquela época. En-
tretanto, Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande (Mt 2.1-19), perturbado pelo medo e remorso, ansiava ver se Jesus era
LC_B.indd 36 16/8/2007, 13:17:58
37 LUCAS 9
A primeira multiplicação dos pães
(Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-15)
10
Entrementes, ao regressarem os após-
tolos, relataram a Jesus tudo quanto
tinham realizado. Então Ele os levou
consigo, e retiraram-se para uma cidade
chamada Betsaida.
11
Contudo, as multidões ficaram sa-
bendo, e o seguiram. Ele as acolheu, e
ensinava-lhes acerca do Reino de Deus, e
atendia a todos que tinham necessidade
de qualquer cura.
12
Ao cair da tarde, os Doze se aproxima-
ram de Jesus e lhe sugeriram: “Despede a
multidão para que possam ir aos campos
vizinhos e aos povoados, e encontrem
alimento e pousada, pois aqui estamos
em lugar desabitado”.
13
No entanto, Ele lhes ordenou: “Dai-
lhes vós algo com que possam se alimen-
tar”. Mas eles replicaram: “Não temos
nada além de cinco pães e dois peixes,
a não ser que compremos comida para
todo esse povo”.
14
Pois estavam ali reunidos cerca de
cinco mil homens. Ele, então, orientou
aos seus discípulos: “Fazei-os sentar em
grupos de cinqüenta pessoas”.
15
E assim procederam os discípulos, e
todos se assentaram.
16
Então, tomando os cinco pães e os dois
peixes, e erguendo o olhar em direção ao
céu, deu graças e os partiu. Em seguida,
entregou-os aos discípulos para que os
servissem para toda a multidão.
17
E aconteceu que todas as pessoas se
alimentaram até ficarem plenamente sa-
tisfeitas, e os discípulos recolheram doze
cestos repletos de pedaços que haviam
sobrado.
6
Pedro confessa que Jesus é o Cristo
(Mt 16.13-20; Mc 8.27-30)
18
Certa ocasião, estava Jesus orando em
particular, e com Ele estavam seus dis-
cípulos; então lhes indagou: “Quem as
multidões afirmam que sou Eu?”.
7
19
Ao que eles replicaram: “Alguns co-
mentam que és João Batista; outros, Elias;
e ainda outros afirmam que és um dos
profetas do passado que ressuscitou”.
20
“Mas vós”, inquiriu Jesus, “quem dizeis
que Eu Sou?”. Então Pedro tomou a pala-
vra e declarou: “És o Cristo de Deus!”.
q p
8
Jesus prediz sua morte e ressurreição
(Mt 17.1-8; Mc 9.2-8)
21
Então Jesus os preveniu veemente-
mente e ordenou que a ninguém revelas-
sem esse fato.
22
E acrescentou: “Pois é necessário que o
Filho do homem passe por muitos sofri-
mentos e venha a ser rejeitado pelos líde-
res religiosos, pelos chefes dos sacerdotes
e pelos mestres da lei; seja assassinado e,
ao terceiro dia, ressuscite”.
9
João Batista, que ele assassinara (13.31; 23.8). Entretanto seu desejo de ver a Cristo só se concretizou no julgamento de Jesus
(23.8-12). Somente as pessoas que recebem a Cristo em seu coração, por meio de fé pura e sincera, ganham a capacidade de
vê-lo (9.27; 13.35; Jo 11.40). O “crer” sempre precede o “ver” no Reino de Deus. Tanto Herodes, quanto os judeus e qualquer
outra pessoa que procure um sinal de Deus, são exortados – antes de tudo – ao arrependimento sincero e à entrega da alma aos
cuidados do Senhor (Mt 12.38-42).
6
A multiplicação dos pães e peixes, além da ressurreição de Jesus, é o único milagre narrado nos quatro evangelhos (Mt
14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-15). Esse evento marca o clímax do ministério do Senhor na Galiléia. Lembrava os judeus sobre o
milagre do maná no deserto. Identificava a Jesus como sendo o cumprimento da profecia de Moisés (Dt 18.18; Jo 6). Por isso, a
Igreja primitiva reconheceu neste milagre um paralelo com a última Ceia (22.19; Jo 6.48-58), fazendo com que os discípulos de
Cristo sejam o Novo Povo de Deus que, pela Páscoa e o Êxodo (saída do mundo pecaminoso), são conduzidos para a eterna
Terra Celestial (Hb 3 e 4).
7
Lucas dá especial atenção ao relato de Jesus em oração (conversando com o Pai): Antes do batismo; da escolha dos Doze;
da confissão de Pedro; da transfiguração e da traição.
8
Pedro era o porta-voz natural dos Doze. Há séculos, o Messias era aguardado com ansiedade (Cristo é a tradução grega
do termo hebraico: Mashiah), que significa: “o Ungido”. Expressão que na antiguidade se referiu ao Sumo Sacerdote (como na
Septuaginta – Lv 4.5), e depois designou o Rei (1Sm 2.10,35; Sl 2.2; Dn 9.25), e foi interpretado pelos doutores e mestres judaicos
– ao tempo de Jesus – como o Salvador e Libertador prometido, cuja vinda era considerada iminente.
9
O povo judeu nutria há séculos uma falsa expectativa em relação à figura do Messias. Esperavam um revolucionário, guerreiro
LC_B.indd 37 16/8/2007, 13:17:59
38 LUCAS 9
Tome a sua cruz e siga a Jesus
(Mt 16.24-28; Mc 8.34 – 9.1)
23
E Jesus proclamava às multidões: “Se
alguém deseja seguir-me, negue-se a si
mesmo, tome a sua cruz dia após dia, e
caminhe após mim.
24
Pois quem quiser salvar a sua vida, a
perderá; mas quem perder a sua vida por
minha causa, este a salvará.
25
Porquanto, de que adianta ao ser
humano ganhar o mundo inteiro, mas
perder-se ou destruir a si mesmo?
10
26
Se alguém se envergonhar de mim e
das minhas palavras, o Filho do homem,
igualmente, se envergonhará dele, quan-
do voltar em sua glória e sob as honrarias
do Pai e dos santos anjos.
27
Com certeza vos asseguro que alguns
que aqui se encontram, de modo algum
passarão pela morte antes de verem o
Reino de Deus”.
11
Alguns vêem a glória de Jesus
(Mt 17.1-13; Mc 9.2-13)
28
Passados quase oito dias após o pro-
nunciamento destas palavras, Jesus tomou
consigo a Pedro, João e Tiago e subiu a um
monte para orar.
29
Enquanto orava, a aparência do seu
rosto foi se transformando e suas roupas
ficaram alvas e resplandeceram como o
brilho de um relâmpago.
30
Então, surgiram dois homens que co-
meçaram a conversar com Jesus. Eram
Moisés e Elias.
31
Apareceram em glorioso esplendor
e falavam sobre a partida de Jesus, que
estava para se cumprir em Jerusalém.
32
Pedro e seus amigos estavam dormin-
do profundamente, mas despertaram de
súbito, e viram a fulgurante glória de Je-
sus e os dois homens que permaneciam
com Ele.
33
Quando estes iam se afastando de
Jesus, Pedro sugeriu: “Mestre, como é
bom que estejamos aqui! Vamos erguer
três tabernáculos: um será teu, outro
para Moisés, e outro, de Elias”. Mas
Pedro não sabia, ao certo, o que estava
propondo.
34
Entretanto, enquanto ele ainda falava,
uma nuvem surgiu e os encobriu, e gran-
de foi o temor que sentiram os discípulos
ao verem aqueles homens desaparecerem
dentro da espessa nuvem.
35
Então, dela propagou-se uma voz,
afirmando: “Este é o meu Filho, o Esco-
lhido; a Ele dai toda atenção!”
36
Passado o som daquela voz, Jesus
ficou só. Os discípulos, então, guarda-
ram o que viram e ouviram somente
para si; durante aquele tempo não
compartilharam com ninguém o que
acontecera.
12
e estrategista militar, que libertaria Israel do império romano e instalaria seu reino de glória e poder a exemplo de Davi. Portanto,
em primeiro lugar, Jesus se revelou aos Doze e esforçou-se para que eles compreendessem bem quem Ele era e qual a sua
missão na terra. O próximo passo era comunicar essa revelação ao seu povo antes de Jesus se identificar publicamente (Mt 8.4;
16.20; Mc 1.34). Jesus gostava de se apresentar como “o Filho do homem”, pois essa expressão no original é uma clara indicação
do Messias profetizado em Daniel 7.13. A figura do Servo Sofredor (Is 53), é sobreposta à imagem do Messias (Mt 8.20) para
retratar adequadamente a pessoa e a obra de Jesus.
10
Seguir a Jesus exige sacrifício do ser humano: consagração, abnegação, dedicação, disciplina e absoluta obediência volun-
tária à Palavra de Deus. Lucas ainda dá ênfase ao aspecto da continuidade, ou seja, viver assim “dia após dia”, haja o que houver.
A imagem da crucificação era comum e clara para todos os discípulos. Era a maneira como o império romano executava os
traidores, criminosos e revolucionários da época. Contudo, Jesus assegura ao fiel, que ainda que lhe seja necessário dar a própria
vida em holocausto por amor a Deus, uma nova vida de paz e felicidade lhe será outorgada. Pessoas que aceitam o convite do
Senhor e decidem abandonar uma vida mundana (morrer para o mundo), passando a dedicar-se à obra de Cristo, são grandes
testemunhas desse milagre (viver para Cristo – Gl 2.19-20; Fp 1.21). Nenhuma outra declaração de Jesus recebeu tanto destaque
por parte dos quatro evangelistas (Mt 10.38,39; 16.24,25; Mc 8.34,35; Lc 14.26,27; 17.33; Jo 12.25).
11
A palavra grega heos (morte antes...), indica que Jesus não se refere aqui à sua segunda e gloriosa vinda (pois não haverá mor-
te depois – 1Ts 4.17). Jesus está falando da manifestação do início de um novo tempo do Reino: na ressurreição de Cristo e no dia
do Pentecostes. Alguns dos que ali estavam veriam o Rei ressurreto (1Co 15.5-6), enquanto os incrédulos só o verão em seu retorno
triunfal para o Juízo (Mc 14.62). Pedro, João e Tiago tiveram uma antecipação desta visão gloriosa cerca de uma semana depois.
12
Conforme estudos de respeitáveis arqueólogos e historiadores cristãos, o lugar onde ocorre o milagre da transfiguração é
o monte Hermom, cujo cume coberto de neve, acima de 2.740 metros de altura (Mc 9.2), pode ser avistado de muitas partes da
LC_B.indd 38 16/8/2007, 13:17:59
39 LUCAS 9
A cura de um menino possesso
(Mt 17.14-23; Mc 9.14-32)
37
No dia seguinte, assim que desceram
do monte, uma grande multidão veio ao
encontro de Jesus.
13
38
De repente, um homem surgiu do meio
da multidão clamando em alta voz : “Mes-
tre! Suplico-te que socorras meu filho, o
meu único filho!
39
Um espírito se apodera dele; e no
mesmo instante faz o menino berrar,
joga-o no chão, provoca-lhe convulsões
até espumar pela boca, jamais o deixa
por muito tempo, e por meio de muitos
ferimentos o está destruindo.
40
Roguei aos teus discípulos que expul-
sassem o espírito maligno, mas eles não
conseguiram”.
41
Então, declarou Jesus: “Ó geração sem
g
fé e perversa! Até quando estarei convos-
co e sofrerei com vossa incredulidade?
Trazei-me aqui o teu filho”.
14
42
Enquanto o menino caminhava em
sua direção, o demônio o lançou por ter-
ra, em convulsão. Porém Jesus repreen-
deu o espírito imundo, curou o menino
e o entregou de volta a seu pai.
43
Diante disto, todos ficaram pasmos pe-
rante o poder majestoso de Deus.
15
Jesus prediz a sua morte outra vez
(Mt 17.22-23; Mc 9.33-37)
E, enquanto todas as pessoas estavam
maravilhadas com seus feitos, todos
prodigiosos, Ele comunicou aos seus
discípulos:
44
“Dai toda a vossa atenção às pala-
vras que vos passo a revelar: o Filho do
homem está prestes a ser entregue nas
mãos dos homens”.
45
Todavia, eles não conseguiam entender
o significado de tais palavras, pois foi-lhes
vedado esse entendimento, a fim de que
não as compreendessem. E tinham receio
de pedir mais explicações a Jesus a este
respeito.
Quem é o maior no Reino?
(Mt 18.1-5; Mc 9.33-41)
46
Emergiu entre os discípulos uma
discussão sobre quem, dentre eles, seria
o maior.
47
Mas, Jesus, conhecendo os seus anseios
mais íntimos, tomou uma criança e a co-
locou em pé, ao seu lado.
48
Então afirmou: “Quem recebe esta
criança em meu Nome, recebe a minha
própria pessoa; e quem me recebe, está
recebendo Aquele que me enviou. Por-
Palestina, brilhando como ouro polido à luz do sol. Moisés e Elias, os grandes representantes da Lei e dos Profetas, aparecem em
glória, porém não como espíritos imateriais, e sim em forma corpórea como Jesus estava. Elias havia sido trasladado corporeamente
para o céu (2Rs 2.11), e o testemunho de Judas (Jd 9) dá a entender que Moisés fora ressuscitado da morte. A obra de Moisés havia
sido completada por seu discípulo Josué, assim como a de Elias por seu discípulo Eliseu (uma variação do nome Josué). Agora
estavam conversando com Jesus (nome grego correspondente a Josué, que em hebraico significa: “Deus Salvador” ou “Jeová é
Salvação”), e Lucas nos informa que o assunto era o exodon (em grego: a partida) de Jesus (2Pe 1.15): a obra redentora de Cristo
na cruz (sua morte) e, conseqüentemente, a sua ressurreição, ascensão e glória final. Esse encontro extraordinário, presenciado por
três apóstolos do Senhor, indica o momento exato do cumprimento de tudo quanto o AT prenuncia. A tipologia do Êxodo fornece o
( ) q ç g p p p
pano de fundo; Jesus supera a Moisés na formação e no governo do Novo Israel de Deus, por ser o Filho (v.35; Hb 2.9,10). O título
“Escolhido” aparece nos rolos do mar Morto, ecoando Is 42.1; 23.35. O termo “Escolhido” corresponde à expressão “Amado” (Mt
17.5; 2Pe 1.17). Jesus, mediante o seu “êxodo” livrou o seu povo (seus seguidores) da escravidão do pecado que domina o nosso
sistema mundial, levando a bom termo a obra tanto de Moisés quanto de Elias (1Rs 19.16).
13
O milagre da transfiguração ocorreu à noite. No outro dia, após o grande êxtase no monte, Jesus e os discípulos descem
para o vale e reencontram a vida normal, cotidiana, com suas aflições, inquietações e necessidades básicas. Toda essa seqüência
de acontecimentos demonstra a necessidade do serviço cristão ser uma extensão do culto. A permanência no monte, na contem-
plação ou busca de experiências, sem o esforço prático para melhorar a vida das pessoas no vale, e vice-versa, resulta em falta
de poder e autoridade. A possessão demoníaca afeta suas vítimas de maneiras diversas (Mt 17.15; Mc 9.17; 4.33; 8.28; 13.11,16).
Na vida deste jovem, o espírito maligno catalisou os efeitos nocivos da epilepsia amedrontando e confundindo as pessoas, e os
próprios discípulos de Jesus que haviam ficado no vale.
14
As pessoas estavam vendo os milagres de Jesus como maravilhas e oportunidades de se livrarem de situações incuráveis
ou insolúveis, mas não conseguiam ver nos prodígios das palavras e das realizações de Jesus os sinais da presença de Deus na
terra, entre seu povo. O lamento de Jesus é contra a incredulidade de todas as pessoas que se aproximam de Deus apenas para
testar seu poder, para assistir a um exemplo da ação extraordinária e especial do Criador. Esquecidas de que precisam de arre-
pendimento, buscam apenas uma solução rápida, prática e a baixo custo para seus problemas imediatos (Dt 32.5; Nm 14.27).
15
Jesus refletia de maneira tão clara a imagem de Deus (imago Dei), que as multidões admiravam nele a sublimidade e a
LC_B.indd 39 16/8/2007, 13:18:00
40 LUCAS 9
tanto, aquele que entre vós for o menor,
este sim, é grandioso”.
16
Jesus não aprova o sectarismo
(Mc 9.38-40)
49
Então replicou João: “Mestre, vimos
um homem expulsando demônios em
teu nome e nos dispusemos a tentar
impedi-lo, pois afinal, ele não caminha
conosco.
50
Jesus, entretanto, lhes advertiu: “Não
o proibais! Pois quem não é contra vós
outros, está a vosso favor”.
17
Jesus não é aceito pelos samaritanos
51
E ocorreu que, ao se cumprirem os dias
em que seria elevado aos céus, Jesus mani-
festou em seu semblante a firme resolução
de ir em direção a Jerusalém.
18
52
E, por isso, enviou mensageiros à sua
frente. Indo estes, chegaram a um po-
voado samaritano a fim de lhe preparar
pousada.
53
Contudo, o povo daquela aldeia não o
recebeu por notar que Ele estava priori-
tariamente a caminho de Jerusalém.
54
Diante de tal situação, os discípulos
Tiago e João, propuseram: “Senhor, que-
res que mandemos descer fogo do céu
para que sejam aniquilados?”.
55
Mas Jesus, mirando-os, admoestou-
lhes severamente: “Não sabeis vós de que
espécie de espírito sois?
56
Ora, o Filho do homem não veio com
o objetivo de destruir a vida dos seres hu-
manos, mas sim para salvá-los!”. E assim,
rumaram para um outro povoado.
19
O alto custo do discipulado
(Mt 8.19-22)
57
Quando estavam andando pelo cami-
nho, uma pessoa declarou a Jesus: “Eu te
seguirei por onde quer que andares”.
58
Mas Jesus lhe replicou: “As raposas
têm suas tocas e as aves do céu têm seus
ninhos, mas o Filho do homem não tem
onde repousar a cabeça”.
20
59
Entretanto, a outro homem fez um
realeza do Senhor (2Pe 1.16). Contudo, Jesus não se deixava envolver pelos louvores e bajulações do povo, e procurava sempre
lembrá-los de que rumava resoluto para entregar sua vida como holocausto para a salvação da humanidade, a quem sempre
muito amou (Jo 3.16).
16
A grandeza no Reino de Deus é proporcional ao serviço humilde, sincero e totalmente em louvor ao Senhor. É o próprio
significado da cruz (44,45; Fp 2.7,8). Essa polêmica surgiu algumas vezes entre os discípulos (22.24; Mc 10.35-45). O verdadeiro
e desinteressado amor é provado por sua operação em favor daqueles que são considerados pela sociedade como os mais
insignificantes. Esse amor será exaltado e premiado por Deus.
17
João responde (literalmente no original grego: “respondendo”) ao esclarecimento do Senhor sobre a grandeza de servir com
humildade no Reino, com mais uma questão: como pode alguém estranho ao seu grupo expelir demônios em nome de Jesus
(especialmente quando alguns discípulos não conseguiram)? Não é a posição oficial que mede a grandeza de uma pessoa,
mas sim a qualidade do seu propósito. Para os discípulos, preocupados, naquele momento, com a hierarquia e o fluxograma do
ministério, não bastava que aquela pessoa, possivelmente conhecida de Jesus (50), estivesse realizando prodígios em nome do
Senhor, era fundamental que fosse membro do grupo e se comportasse segundo “os estatutos” e a doutrina comuns. Esse tem
sido, há séculos, o erro de muitos cristãos. Jesus não diz que o homem era contra Ele, mas adverte que se aquela pessoa não
os estava prejudicando, certamente havia cooperado com eles de alguma forma, pois trabalhava pela mesma causa. Não pode
haver neutralidade na guerra contra o mal. Todo o homem que se opõe aos demônios e às suas influências, em nome de Jesus,
deve ser bem recebido, e não alvo de inveja e oposição.
18
Começa neste ponto a seção central do livro de Lucas que é concluída em 19.44 e focaliza especialmente o ensino de Jesus.
Lucas usa literalmente a expressão: “firmou o rosto para ir para Jerusalém”, numa alusão a Is 50.7, ressaltando a determinação
inabalável de Jesus em cumprir sua missão até o fim (13.22). Essa viagem a Jerusalém não é a mesma onde ocorreu a crucifica-
ção, porém marca o início de um período de ministério na Judéia, cuja cidade principal era Jerusalém.
19
Tiago e João eram conhecidos como “filhos do trovão” (Mc 3.17). À semelhança de Elias desejaram mais do que apenas
“sacudir o pó de suas sandálias” (2Rs 1.9-16). Entretanto, Jesus os alerta para o fato de pertencerem a outro espírito e demonstra
o tipo de amor que estava ensinando aos seus discípulos (Mt 5.44). Para alguns estudiosos, partes dos versos 55 e 56 foram intro-
duzidos por copistas ao longo dos primeiros séculos. No entanto, o Comitê de Tradução da KJ decidiu manter o texto inalterado
como vem sendo publicado originalmente desde 1611 e sobre os quais as novas descobertas nada apresentam em contrário.
20
Quais são as pessoas que não podem seguir a Jesus? As que valorizam a segurança e o conforto acima do Senhor. As que
dão total preeminência à família e aos amigos, muito acima do Salvador. As que permanecem contemplando o que deixam para
trás (a velha vida) enquanto caminham (Gn 19.26; Ef 5.17-24).
LC_B.indd 40 16/8/2007, 13:18:00
41 LUCAS 9, 10
convite: “Segue-me!” Ele, contudo, argu-
mentou: “Senhor, permite-me ir primei-
ramente sepultar meu pai”.
60
Todavia, insistiu Jesus: “Deixa os mortos
sepultarem os seus próprios mortos. Tu,
porém, vai e proclama o Reino de Deus”.
21
61
Outro ainda lhe prometeu: “Senhor, eu
te acompanharei, mas deixa-me primei-
ro despedir-me dos meus familiares”.
62
Ao que Jesus lhe asseverou: “Ninguém
que coloca a mão no arado, e fica con-
templando as coisas que deixou para
trás, é apto para o Reino de Deus”.
22
Jesus envia setenta e dois discípulos
10
Havendo passado estes aconteci-
mentos, o Senhor nomeou outros
setenta e dois; e os enviou de dois em
dois, adiante dele, a todas as cidades e
lugares que Ele estava prestes a visitar.
1
2
E lhes recomendou: “A seara é grande,
mas os trabalhadores são poucos. Rogai,
pois, ao Senhor da plantação que mande
obreiros para fazerem a colheita.
2
3
Portanto, ide! Eis que Eu vos envio
como cordeiros para o meio dos lobos.
3
4
Não leveis bolsa, nem mochila de via-
gem, nem sandálias; e a ninguém saudeis
longamente pelo caminho.
5
Assim que entrardes numa casa, dizei
em primeiro lugar: ‘Paz seja para esta
casa!’
4
6
Se morar ali um filho da paz, a vossa
bênção de paz repousará sobre ele; caso
não haja, ela voltará para vós.
7
Permanecei naquele domicílio. Comei e
bebei do que vos for oferecido, pois dig-
no é o trabalhador do seu salário. Não
andeis a mudar de casa em casa.
5
8
Quando entrardes em uma cidade e ali
21
Conforme as tradições e rituais fúnebres observados no judaísmo, se o pai daquele homem já estivesse morto, ele não po-
deria estar ali no meio do caminho, deveria estar se ocupando de todos os detalhes e cerimônias que envolviam um sepultamento
judaico naqueles dias. O que o homem pede na verdade, é um tempo para ficar em casa até que seu pai morra, para depois,
mais maduro e livre de certas obrigações, poder avaliar com calma as vantagens e desvantagens de aceitar o convite de Cristo.
Mas Jesus e o Reino têm urgência e necessitam de pessoas dispostas e resolutas. Jesus usa um jogo de palavras (em grego,
logioni, aplica-se duplamente ao sentido, físico e espiritual, da palavra: “morto”), para chocar aquele homem com a verdade de
que restarão muitas pessoas no mundo que não atenderão ao chamado de Deus para a vida eterna, e que, portanto, aos mortos
espirituais caberá cuidar dos rituais de um mundo que perece (Ef 2.1).
22
Esse trecho bíblico (9.57-62) se passa justamente “ao longo do caminho”. Enquanto Jesus viajava, Lucas nos conta alguns
dos muitos casos de pessoas que se apresentaram ou foram convidadas a seguir Jesus e fazer parte do Reino de Deus. Nos três
exemplos narrados por Lucas, todas as pessoas tinham uma razão para adiar ou recusar esse compromisso. Claramente tiveram
boas intenções, mas não haviam percebido a natureza das exigências que a nova vida e o Reino faz aos seres humanos que
habitarão a Nova Jerusalém. A missão de Cristo é mais urgente do que aquela que Elias estabeleceu para Eliseu (1Rs 19.20). Todo
trecho mostra que Jesus não exige aquilo que Ele mesmo – enquanto ser humano – não praticou ou suportou. Assemelhar-se ao
Mestre é o grande alvo e o preço do discipulado (6.40).
Capítulo 10
1
Os melhores e mais antigos manuscritos gregos de Lucas, nos informam que Jesus enviou 72 de seus discípulos (uma alusão
a Nm 11.16-17), em duplas (9.1-6; Mc 6.7; At 13.2; 15.27,39,40; 17.14; 19.22), com a missão de proclamar o Reino de Deus e fazer
novos arautos do Senhor (discípulos). Lucas salienta a universalidade do Evangelho (16 vezes), para os pecadores de todos os
povos e raças, tanto samaritanos como gentios e os próprios judeus (24.47). O número de discípulos demonstra que Jesus tinha
um grupo de seguidores fiéis de tempo integral muito maior do que os Doze mais próximos, e uma agenda repleta. Orientações
semelhantes foram dadas por Jesus aos Doze (Mt 9.37,38; 10.7-16; Mc 6.7-11; conforme Lc 9.3-5).
2
O campo (a seara) é enorme e a grande missão é fazer discípulos de Cristo em todas as nações, pois o Dia do Juízo se
aproxima (Mt 13.39, Jo 4.35; Ap 14.15). Esse é o desafio missionário: a grandeza da plantação e a urgência da missão. A oração
contínua para que Deus mande servos dedicados à obra. O “Ide” de Jesus é um apelo para todos os discípulos, cada qual com
seu dom e campo de ação (Rm 10.15; Rm 12).
3
A estratégia de Cristo é completamente diferente de qualquer outro imperador. Seus discípulos devem ser totalmente depen-
dentes do Onipotente Pastor na conquista pacífica do território de posse do inimigo.
4
Os discípulos não deveriam se preocupar com o sustento, muito menos com o acúmulo de bens. Não levariam sacos de
viagem (alforjes), nem um par extra de sandálias. Sua manutenção viria de Deus, através de pessoas generosas, que cuidariam
plenamente de suas necessidades. As saudações orientais tradicionais eram (e ainda o são em muitos lugares) prolongadas,
consumindo horas de conversa. Jesus adverte a todo cristão sobre o sentido de urgência e otimização do tempo. O tradicional
shalom, saudação hebraica que significa “paz e bem-estar”, passa a ter um sentido ampliado e mais profundo: reconciliação do
pecador com Deus (Rm 5.1,10; Ef 2.16; Cl 1.21,22).
5
Ordem de Jesus citada em 1Tm 5.18 como Escritura, numa indicação clara de que o livro de Lucas já era considerado inspi-
LC_B.indd 41 16/8/2007, 13:18:01
42 LUCAS 10
fordes bem recebidos, alimentai-vos do
que for colocado diante de vós.
9
Curai os doentes que houver na cidade
e proclamai-lhes: O Reino de Deus está à
vossa disposição!
10
No entanto, quando entrardes numa
cidade e não fordes bem recebidos, saí
por suas ruas e exclamai a todos:
11
‘Até a poeira da vossa cidade, que se
nos pegou às sandálias, sacudimos con-
tra vós outros!’. Apesar disto, sabei que o
Reino de Deus está próximo.
12
Eu vos asseguro que, naquele Dia, ha-
verá mais tolerância para Sodoma do que
para aquela cidade.
6
Ai daqueles que não se arrependem
(Mt 11.20-24)
13
Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!
Porque se as maravilhas que foram re-
alizadas entre vós o fossem em Tiro e
Sidom, há muito tempo elas teriam se
arrependido, vestindo roupas de saco e
cobrindo-se de cinzas.
14
Contudo, no Juízo haverá menor ri-
gor para Tiro e Sidom do que para vós
outras.
15
E tu, Cafarnaum: serás, porventura,
elevada até ao céu? Não! Serás derrubada
até o Hades.
7
16
Portanto, qualquer pessoa que vos der
ouvidos, a mim está dando ouvidos; mas
aquele que vos rejeitar, estará rejeitando
a mim mesmo; e quem me rejeitar, rejei-
ta Aquele que me enviou”.
Os setenta e dois regressam felizes
17
Então, os setenta e dois discípulos
retornaram muito felizes e relataram:
“Senhor! Até os demônios se submetem
ao nosso comando, em teu Nome”.
18
Ao que Jesus lhes revelou: “Eu vi Sata-
nás caindo do céu como relâmpago.
19
Atentai! Eu vos tenho dado autoridade
para pisardes serpentes e escorpiões, as-
sim como sobre todo o poder do inimigo,
e nada nem ninguém vos fará qualquer
mal.
20
Contudo, regozijai-vos, não apenas
porque os espíritos vos obedecem, mas
sim porque os vossos nomes estão ins-
critos nos céus”.
8
A grande alegria de Jesus no Espírito
(Mt 11.25-27)
21
Naquele mesmo momento, Jesus exul-
tando no Espírito Santo exclamou: “Ó
q
Pai, Senhor do céu e da terra! Louvo a ti,
pois ocultaste estas verdades dos sábios
e cultos e as revelaste aos pequeninos.
rado (canônico). Os líderes cristãos devem receber justo sustento de todas as suas necessidades. Entretanto, não devem mudar
de casas (igrejas ou comunidades) apenas por interesses materiais ou melhor remuneração.
6
A proximidade do Reino tinha a ver com a pessoa de Cristo e de seus arautos (missionários), não em relação ao tempo (Mc
12.34). Apesar de Sodoma ter sido tão pecaminosa que Deus precisou destruí-la (Gn 19.24-28; Jd 7), o povo que ali estava tendo
o privilégio de ver e ouvir a Jesus, e os seus discípulos, estava contraindo culpa ainda maior, devido à sua incredulidade, a ser
cobrada no Dia do Juízo final. Tiro e Sidom, cidades gentílicas da Fenícia, ainda não haviam tido a oportunidade de receber a
mensagem de Cristo e observar seus milagres, oportunidade dada à maior parte da população da Galiléia. Privilégios maiores
sempre resultam em maior responsabilidade.
7
Cafarnaum foi o centro do ministério de Jesus na fronteira norte da Galiléia (Mt 4.13). Seus habitantes tiveram todas as
7
chances para verem e ouvirem a Jesus e, a maioria, não se arrependeu. Portanto, maior será sua condenação. A palavra “inferno”
vem do grego transliterado haidou ou “hades”, que corresponde à expressão hebraica do AT sheol, a qual significa: lugar dos
mortos ou sepulcro.
8
Os discípulos receberam poder e autoridade do Espírito de Deus, pela Palavra de Jesus, para expulsar demônios de todos
os tipos e derrotar a Satanás e seus terríveis ataques. Esse momento histórico, contemplado pelo Senhor (v.18), representou um
marco no ministério de Jesus com seus discípulos em relação ao estabelecimento do Reino de Deus. Jesus aproveita a euforia
dos discípulos para lhes advertir sobre o grande perigo da arrogância, soberba e orgulho, que acomete a todos aqueles que se
deixam inebriar pelas glórias do sucesso. Assim se deu a queda de Lúcifer, nome original do Diabo, em hebraico transliterado:
helel, que significa: “glorioso”, “luzente”; vocábulo que a Vulgata latina traduziu pela expressão: “estrela da manhã”. Evento este,
de tremendo impacto no universo e testemunhado por Jesus Cristo no céu (Is 14.12). Jesus previne aos seus discípulos para
manterem a humildade e o louvor a Deus por suas virtudes e realizações. Caso contrário, correm o risco de terem o mesmo
destino do império babilônico, rebaixado ao nível do pó, depois de ter sido exaltado como o mais poderoso entre os poderosos
reinos da terra. O próprio rei da Babilônia (região onde hoje se localiza o Iraque) foi usado pelos profetas do Senhor como
LC_B.indd 42 16/8/2007, 13:18:01
43 LUCAS 10
Amém, ó Pai, porque Tu tiveste a alegria
de proceder assim.
9
22
Tudo me foi entregue por meu Pai.
Ninguém sabe quem é o Filho, a não
ser o Pai; e nenhuma pessoa sabe quem
é o Pai, senão o Filho e aqueles a quem o
Filho o desejar revelar”.
10
23
Então, mirando os seus discípulos,
declarou-lhes em particular: “Bem-aven-
turados são os olhos de quem vê as revela-
ções que vós vedes.
11
24
Pois vos asseguro que muitos profetas
e reis almejaram ver o que estais vendo,
mas não viram; e ouvir o que ouvis e não
ouviram”.
A parábola do bom samaritano
25
Certa vez, um advogado da Lei levan-
tou-se com o propósito de submeter
Jesus à prova e lhe indagou: “Mestre,
o que preciso fazer para herdar a vida
eterna?”.
12
26
Ao que Jesus lhe propôs: “O que está
escrito na Lei? Como tu a interpretas?”.
27
E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu
Deus, de todo o teu coração, de toda a
tua alma, de todas as tuas forças e com
toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Ama-
rás o teu próximo como a ti mesmo’”.
28
Então, Jesus lhe afirmou: “Respondes-
te corretamente; faze isto e viverás”.
13
29
Ele, no entanto, insistindo em justifi-
car-se, questionou a Jesus: “Mas, quem é
o meu próximo?”.
14
30
Diante do que Jesus lhe responde as-
sim: “Certo homem descia de Jerusalém
para Jericó, quando veio a cair nas mãos
de alguns assaltantes, os quais, depois de
lhe roubarem tudo e o espancarem, fugi-
ram, abandonando-o quase morto.
31
Coincidentemente, descia um sacerdo-
te pela mesma estrada. Assim que viu o
homem, passou pelo outro lado.
32
Do mesmo modo agiu um levita; quan-
prefiguração da “besta”, que se reerguerá e comandará a Babilônia dos últimos dias (Ap 13.4; 17.3; segundo a descrição do
dirigente de Tiro em Ez 28). O próprio Satanás, ao admirar e exaltar seus atributos pessoais – deixando de considerar que todos
lhe foram concedidos por Deus, e para Sua glória – cogitou ser semelhante a Deus e por isso foi execrado da presença do Senhor,
banido dos céus e rebaixado às regiões do inferno com a violência e a velocidade de um raio. Portanto, a Salvação do ser humano
é mais importante que o poder para realizar maravilhas e vencer o Diabo. A Salvação nos mantém humildes diante dos grandes
feitos, e nos encoraja quando erramos e caímos. Ela registra o nosso nome no céu (Sl 69.28; Dn 12.1; Fp 4.3; Hb 12.23; Ap 3.5).
9
Uma das principais características do evangelho escrito por Lucas é mencionar a alegria e felicidade por mais de 20 vezes, o
cântico e a glorificação de Deus (1.64; 2.13; 2.28; 5.25; 7.16; 13.13; 17.15; 19.37; 24.53). Nossa maior alegria não deve estar nas
coisas nem nas pessoas, mas no fato de termos sido eleitos para a Salvação pelo amor onisciente de Deus, condição privilegiada,
que jamais será anulada (Ef 1.4), a qual devemos honrar. Jesus demonstra seu grande júbilo (em grego: agalliaõ, que significa:
“exultação”, “demonstração pública de gozo profundo”). O motivo de tamanho contentamento de Jesus foi testemunhar a re-
velação da justiça e bondade de Deus para com os humildes em detrimento dos arrogantes e soberbos. A alegria da redenção
(1.14,47; At 2.26; 1Pe 4.13), da qual o Espírito Santo é o agente do gozo espiritual (Gl 5.22 e Fp 4.4).
10
Deus entregou a Seu Filho, Jesus, a chave da reconciliação definitiva entre o Criador e a humanidade: o Evangelho (1Co
15.1-3). Essa revelação não vem dos pais (tradição judaica), mas do Pai em Cristo (Jo 14.6-11).
11
A fé abre a visão para a verdade, a realidade de Jesus, o Cristo (Messias), e o Reino. Enquanto, o pecado, cega a humani-
dade (Jo 9.39-41).
12
A palavra grega transliterada nomikos, significa originalmente: “advogado”, como consta da Bíblia King James desde 1611.
As versões posteriores usaram expressões como “intérprete”, ou ainda “perito na lei”. Tratava-se de um teólogo judeu, autoridade
na Lei (a Torá) de Deus (11.45) e que nesta passagem procura submeter Jesus à prova (Mt 4.7; Tg 1.3), mas é provado pelo
Senhor através de seus próprios argumentos legalistas.
13
Em outra situação Jesus agrupa os mandamentos formando um só (Mt 22.35-40; Mc 12.28-32 com base em Dt 6.5; Lv 19.18).
Se considerarmos que o amor tem quatro aspectos (coração, alma, forças e entendimento ou inteligência – como aqui e em Mc
12.30), ou apenas três (Dt 6.5; Mt 22.37; Mc 12.33), o princípio maior a ser observado é a ampla e irrestrita dedicação do nosso
ser a Deus. Esses dois mandamentos resumem toda a Lei (Rm 13.9). Como – após a Queda (Gn 3) – tornou-se impossível ao ser
humano, cujo pecado habita no coração, atingir esse padrão; Cristo o fez por nós: a dupla Lei do Amor (1Jo 4.7-19).
14
O advogado busca demonstrar o valor de sua questão. No entanto, oferece ainda mais elementos para que Jesus destrua
os argumentos da Lei e revele a verdade da Graça. A autojustificação ambicionada pelo mais rigoroso fariseu (18.9-14; Fp 3.6)
é negada na parábola do Bom Samaritano. A justiça do sacerdote, que representa a suprema autoridade religiosa, e a do levita
(que trabalhavam em parceria no templo a serviço de Deus) ainda que zelosos no cumprimento da Lei, omitem o verdadeiro
“amor de Deus” (11.42) e passam “de largo” (pelo outro lado da estrada) para evitar um contato frontal com aquele ser humano
(semelhante e próximo) mortalmente ferido.
LC_B.indd 43 16/8/2007, 13:18:02
44 LUCAS 10, 11
do chegou ao lugar, observando aquele
homem, passou de largo.
33
Mas um samaritano, estando de via-
gem, chegou onde se encontrava o ho-
mem e, assim que o viu, teve misericórdia
dele.
15
34
Então, aproximou-se, enfaixou-lhe as
feridas, derramando nelas vinho e óleo.
Em seguida, colocou-o sobre seu próprio
animal, levou-o para uma hospedaria e
cuidou dele.
35
No dia seguinte, deu dois denários ao
hospedeiro e lhe recomendou: ‘Cuida
deste homem, e, se alguma despesa tiver-
des a mais, eu reembolsarei a ti quando
voltar’.
36
Qual destes três te parece ter sido o
próximo do homem que caiu nas mãos
dos assaltantes?
37
Declarou-lhe o advogado da Lei: “O
que teve misericórdia para com ele!”. Ao
que Jesus lhe exortou: “Vai e procede tu
de maneira semelhante”.
A adoração de Marta e Maria
38
Caminhando Jesus e os seus discípu-
los, chegaram a um povoado, onde certa
mulher chamada Marta o recebeu em
sua casa.
16
39
Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés
do Senhor, ouvindo o que Ele ensinava.
40
Marta estava inquieta, ocupada com os
muitos afazeres. E, aproximando-se de Je-
sus inquiriu-lhe: “Senhor, não te importas
de que minha irmã tenha me deixado só
com todo o serviço? Peça-lhe, portanto,
que venha ajudar-me!”.
41
Orientou-lhe o Senhor: “Marta! Mar-
ta! Andas ansiosa e te afliges por muitas
razões.
42
Todavia, uma só causa é necessária.
Maria, pois, escolheu a melhor de todas,
e esta não lhe será tirada”.
O ensino de Jesus sobre a oração
(Mt 6.5-15; 7.7-12)
11
Certa ocasião, Jesus estava orando
em um determinado lugar; quan-
do concluiu, um dos seus discípulos lhe
solicitou: “Senhor, ensina-nos orar, assim
como João ensinou aos discípulos dele”.
1
2
Então, Ele passou a ensiná-los: “Quando
orardes, dizei: Pai! Santificado seja o teu
Nome; venha o teu Reino;
2
3
o pão nosso de cada dia, continua nos
dando hoje e sempre.
4
Perdoa-nos os nossos pecados, pois assim
também devemos perdoar a todos que er-
15
Jesus usa de certa ironia ao eleger como o benfeitor da história um samaritano. Considerado pelos judeus da época como
o mais asqueroso dos hereges, excluído do direito de ser “próximo” do judeu, um pecador tanto em relação à doutrina como à
prática da religião (Jo 4.20); mesmo assim, era capaz de compadecer-se e ter misericórdia de um inimigo necessitado, sacrifican-
do-se e pagando alto preço para salvá-lo. Dois denários de prata correspondiam a dois dias de trabalho e eram suficientes para
custear cerca de dois meses numa hospedaria. Uma ilustração clara da obra de Cristo por nós (Rm 5.8).
16
Maria e Marta eram irmãs de Lázaro (Jo 11; 12.1-3), grandes amigos de Jesus. Viviam em Betânia, um povoado que ficava a
uma distância de quatro quilômetros de Jerusalém. Jesus ensina a Marta, e a nós, que freqüentemente aplicamos nossas forças
e preocupações na performance (realizar, conquistar). Quando o correto, mais sábio e proveitoso é empenhar nossos sentidos a
ouvir e adorar o Senhor, assim como fez Maria. Esse princípio oferece o equilíbrio ideal em relação ao estímulo para o serviço que
aprendemos com a parábola do Bom Samaritano. Em vez da preocupação e ansiedade pelo servir um banquete digno do Senhor,
um prato seria suficiente; e Maria preferiu o banquete espiritual aos pés de Cristo: a melhor causa (At 6.2,4; Mc 10.45; Jo 4.32-34).
Capítulo 11
1
Jesus conversava (orava) com Deus costumeiramente (5.16; Mt 14.23; Mc 1.35) e, mais ainda em ocasiões especiais, como
em seu batismo (3.21), na escolha dos seus apóstolos (6.12), no Getsêmani (22.41). Os discípulos observaram essa prática
devocional e disciplina espiritual de Jesus e quiseram aprender como estabelecer esse nível de comunicação com Deus. Diante
desse desejo manifestado pelos discípulos, Jesus nos ensina um modelo de oração e não um mantra ou reza repetitiva. Por isso
temos uma sugestão em Mateus (Mt 6.9-13) no Sermão no Monte, e outra, de forma resumida, aqui.
2
Jesus ensina que devemos iniciar nossas orações expressando a mesma intimidade, carinho e respeito que uma criança
amorosa e obediente tem por seu pai. Mais uma vez Jesus faz um jogo com as palavras para demonstrar o quanto é fácil con-
fundir “religião formal” com “adoração sincera”. Jesus afirma que devemos nos dirigir a Deus como Abba (em aramaico, papai
ou paizinho querido – Mc 14.36; Rm 8.15. Gl 4.6), denotando assim o verdadeiro sentimento que há no coração de Deus para
com seus filhos. Sentimento este que deveria igualmente inundar nossa alma e que nos ajudaria a compreender melhor a pessoa
do Senhor e seu modo de agir na história. Os líderes religiosos judeus costumavam iniciar suas preces com a palavra hebraica
transliterada Abinu com o acréscimo de alguma expressão que significasse que Deus estava no céu. Este tipo de formalismo e
LC_B.indd 44 16/8/2007, 13:18:03
45 LUCAS 11
ram contra nós. E não nos deixes sucumbir
à tentação, mas livra-nos do Maligno”.
3
A parábola do amigo insistente
5
E acrescentou-lhes Jesus: “Imaginai que
um de vós tenha um amigo e que precise
recorrer a ele à meia-noite e lhe peça:
‘Amigo, empresta-me três pães,
6
porque um amigo meu acaba de chegar
de viagem, e não tenho nada para lhe
oferecer’.
7
E o que estiver dentro da casa lhe res-
ponda: ‘Não me incomodes. A porta já
está fechada, e eu e meus filhos já esta-
mos deitados. Não posso me levantar e
dar-te o que me pedes’.
8
Eu vos afirmo que, embora ele não se
levante para dar-lhe o pão por ser seu
amigo, por causa da insistência se levan-
tará e lhe dará tudo o que precisar.
Jesus ensina perseverança na oração
(Mt 7.7-11)
9
Portanto, vos asseguro: Pedi, e vos será
concedido; buscai e encontrareis; batei e
a porta será aberta para vós.
10
Pois todo o que pede recebe; o que bus-
ca encontra; e a quem bate se lhe abrirá.
11
Qual pai, dentre vós, se o filho lhe
pedir um peixe, em lugar disso lhe dará
uma cobra?
12
Ou se pedir um ovo, lhe dará um es-
corpião?
13
Ora, se vós, apesar de serdes maus,
sabeis dar o que é bom aos vossos filhos,
quanto mais o Pai que está nos céus
dará o Espírito Santo àqueles que lho
pedirem!”.
4
Uma casa dividida não prospera
(Mt 12.22-32; Mc 3.20-30)
14
De outra feita, Jesus expulsou um
demônio que estava mudo. Assim que o
demônio saiu, o homem falou, e a multi-
dão ficou maravilhada.
15
Entretanto, alguns deles O censuraram:
“Ora, ele expulsa os demônios pelo poder
de Belzebu, o príncipe dos demônios!”.
protocolo – jamais requerido por Deus – tendia a colocar o ser humano numa posição de quase inacessibilidade a Deus. Um
tipo de relacionamento parecido com o que os pagãos tinham com seus deuses, e por isso precisavam lhes oferecer sacrifícios,
autoflagelos e mantras infindáveis a fim de obter um pouco da atenção e graça divinas.
3
Depois de certificar-se de que pode chamar a Deus de Pai (Jo 1.12), o discípulo deve exaltar o nome do Senhor. Os nomes
na antiguidade judaica tinham um significado intrínseco muito maior do que nos dias de hoje que resumia a totalidade do caráter
de uma pessoa. Por isso, Jesus mudou o nome de algumas pessoas quando foram convertidas, pois suas filosofias de vida (a
maneira de pensar e viver) haviam sido completamente alteradas ao se tornarem seguidoras de Cristo. Deus é Pai, que significa o
Criador: Aquele que dá origem ao ser humano. É nosso “paizinho” mas também é nosso Senhor, esse é o caráter de Deus (amor
e justiça) e merece toda a nossa reverência (de alma). Expressamos o Deus que vive em nós através de nossas atitudes (1Pe
1.14-21; 3.15). Logo em seguida, enquanto ora, o discípulo deve almejar a implantação do Reino de Deus na terra. Esse alvo de
Jesus deve ser a missão dos seus discípulos: que todos os povos, raças e culturas, sejam contemplados com a Salvação e que
um sistema global de amor e justiça permeie toda a terra (Mt 28.18-20). Devemos orar, pois essa missão cumpre-se parcialmente
quando uma pessoa aceita a Jesus como seu Salvador e Senhor pessoal, mas ainda esperamos pela total e perpétua remissão
de toda terra, quando Cristo voltar em glória. A oração continua, e agora o discípulo está pronto para, reconhecendo que Deus
é quem provê o sustento diário e eterno (em grego epiousion, que significa, “dia a dia”, “cotidiano”, “para amanhã e depois”),
suplicar agradecido pela provisão de amanhã enquanto coloca mãos à obra. Seu trabalho não visa apenas ganhar o sustento,
mas sim prestar glória ao Senhor e dar testemunho ao mundo (Jo 6.35 e 4.32 com Pv 30.8 e Ap 19.9). Esta perspectiva cristã do
trabalho faz toda a diferença. O pecado é considerado como uma dívida que precisa ser paga. Deus é o Criador de toda a terra e
da humanidade, portanto, tudo o que somos e temos pertence a Deus. Quando desobedecemos ao Senhor, estamos roubando
os direitos de Deus e ficamos em pecado (em dívida). Assim como o Senhor provê diariamente recursos para nosso sustento,
também nos oferece seu perdão em Jesus Cristo. Da mesma maneira, devemos estar dispostos a perdoar nossos semelhantes
todos os dias. Viver a vida cristã dentro desse padrão é correr o risco de ser tentado (em grego peirasmos que também significa
um tipo de “teste” ou “prova”) a todo o momento. Deus não “tenta” a ninguém, mas “prova” a todos os seus filhos (Mt 9.1; 6.9-15;
Dt 8.1-5; Tg 1.13; Hb 2.17); Jesus está nos ensinando a ficar alertas e fugir das inúmeras ciladas do Inimigo, que tem o objetivo
de nos persuadir a viver abaixo do padrão moral de Deus para nos condenar (1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22) e com isso,
neutralizar nossa missão de testemunharmos e implementarmos o Reino de Deus no mundo.
4
Lucas é o evangelho da oração e nos revela o apelo de Jesus para que sejamos ousados e perseverantes na oração (vs. 5-8),
nos oferecendo total garantia de que Deus responde às nossas súplicas (vs. 9-13). O argumento é que se nós que estamos sob a
influência do pecado universal (13.1-9), ainda assim, somos amorosos para com nossos filhos, quanto mais o Pai da humanidade
LC_B.indd 45 16/8/2007, 13:18:03
46 LUCAS 11
16
E outros ainda, apenas para prová-lo,
pediam dele um sinal do céu.
5
17
Mas, conhecendo Ele o que se lhes
passava pela mente, afirmou-lhes: “Todo
reino dividido contra si mesmo será ar-
ruinado; da mesma forma que uma casa
dividida contra si mesma ruirá.
18
Ora, se assim também Satanás estiver
dividido contra si mesmo, como é possí-
vel que seu reino subsista? Expresso-me
desta forma pois dizeis que Eu expulso
demônios por Belzebu.
19
Sendo assim, se Eu expulso demônios
por Belzebu, por quem os expulsam vos-
sos filhos? Por isso, eles mesmos serão os
vossos juízes.
20
Todavia, se é pelo dedo de Deus que
Eu expulso os demônios, então, com
toda certeza, é chegado o Reino de Deus
sobre vós.
21
Quando um homem forte, bem ar-
mado, guarda sua casa, seus bens estão
seguros.
6
22
Mas, quando alguém mais forte o ataca
e o vence, tira-lhe a armadura em que con-
fiava e divide os bens que lhe restaram.
23
Toda pessoa que não está comigo, con-
tra mim está, e aquele que comigo não
ajunta, espalha.
7
A maneira de agir de Satanás
(Mt 12.43-45)
24
Quando um espírito sai de uma pes-
soa, passa por lugares áridos procurando
refrigério, mas não o encontrando, então
cogita: ‘Voltarei para a casa de onde saí’.
25
Assim que chega, encontra a casa var-
rida e em ordem.
26
Então vai e traz outros sete espíritos
piores do que ele, e entrando passam a
viver ali. E a situação final daquela pes-
soa torna-se pior do que a primeira”.
8
Felizes os que recebem a Palavra
27
Entrementes, enquanto Jesus comunicava
esses ensinos, uma mulher da multidão
exclamou: “Bem-aventurada aquela que te
deu à luz, e os seios que te amamentaram!”.
28
Ele, porém, afirmou: “Antes disso,
mais felizes são todos aqueles que ouvem
a Palavra de Deus e lhe obedecem”.
9
O sinal de Jonas
(Mt 12.38-42)
29
Enquanto as multidões convergiam em
sua direção, Jesus passou a admoestar-lhes:
“Esta é uma geração perversa! Pede um si-
nal miraculoso, mas nenhum sinal lhe será
concedido, a não ser o sinal de Jonas.
10
fica feliz em presentear seus filhos com os dons espirituais, sendo o primeiro e maior deles o dom da Salvação (1Co 12.13). Todo
crente em Jesus tem o Espírito Santo (At 1.8; Gl 5.22), mas quando pedimos para que o Espírito dirija nossas vidas abrimos a
alma para sua maravilhosa e completa ação (Ef 4.30 com 1Ts 5.19).
5
O sinal que tanto buscavam estava diante deles. Jesus acabara de expulsar o Mal e curar aquele homem cego, surdo e mudo
(Mt 2.22-30; Mc 3.20-27). Mas, os olhos dos legalistas, obscurecidos pelo pecado, não podiam enxergar as maravilhas realizadas
por Jesus em palavras e atitudes. Ao afirmar que Jesus exorcizava sob o poder do inferno (Mt 12.24), não compreendiam que
aquele esconjuro era a maior prova que Jesus agia pelo poder de Deus, pois que o reino do mal não está dividido. Os demônios
não lutam entre si, somente os homens agem assim. A expulsão do demônio evidencia a chegada do Reino de Deus e a derrota
do príncipe deste mundo.
6
O Reino de Deus havia chegado no sentido de o Rei estar presente na pessoa de Cristo (4.43) e de os poderes do mal estarem
sendo vencidos. O Diabo (também chamado de “valente” ou “homem forte”) prende e escraviza a todos que consegue dominar,
mas somente até a chegada de Jesus, que tem plena autoridade e poder para destruí-lo; bem como aos seus exércitos e resgatar
a humanidade (Cl 1.13; 2.15; Hb 2.14).
7
A neutralidade no Reino de Deus é inaceitável e impossível. Quem não apóia sinceramente a Jesus, seus ensinos e Igreja,
opõem-se ao Senhor. Entretanto é preciso cuidado para não censurar os que estão do lado de Cristo como se não estivessem.
Aquele obreiro citado em 9.50 não era membro do grupo dos Doze, nem dos setenta e dois, mas fazia a obra em nome de Jesus
e o Senhor não o condenou (Mc 9.38-39).
8
O ministério dos exorcistas judeus era ineficaz (v.19), pois afugentavam os demônios por algum tempo, mas não aceitavam o
Reino de Deus em seus corações (Mt 12.43-45). Quando uma pessoa é liberta da opressão do mal deve abrir seu coração para
que seja cheio do Espírito Santo de Deus: a única maneira de viver livre do controle do Diabo. Uma vida reformada, mas sem a
presença do Espírito Santo fica sujeita a ser novamente tomada pelo mal.
9
Maior privilégio do que ser a própria mãe de Jesus e compartilhar da humanidade de Deus é compreender e aceitar a men-
sagem salvadora de Jesus Cristo e participar do seu corpo espiritual (Tg 1.22).
10
O profeta Jonas ficou três dias “sepultado” no interior de um grande peixe e depois voltou à terra de Israel. Desta mesma
forma, Jesus seria ressuscitado depois de três dias do seu sepultamento (Mt 12.40; Jo 14.11; Jn 3.4).
LC_B.indd 46 16/8/2007, 13:18:04
47 LUCAS 11
30
Porquanto, assim como Jonas foi sinal
para os ninivitas, o Filho do homem o
será para esta geração.
31
A rainha do Sul se levantará, no dia do
Juízo, juntamente com os homens desta
geração e os condenará, pois ela veio dos
confins da terra para ouvir a sabedoria
de Salomão.
32
A população de Nínive se levantará, no
dia do Juízo, com esta geração e a con-
denará; pois eles se arrependeram com a
pregação de Jonas. Contudo, agora aqui
está quem é maior do que Jonas.
11
A parábola da candeia
(Mt 6.22-23)
33
Ninguém acende uma candeia e a coloca
em lugar onde fique escondida, nem de-
baixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-
a num local apropriado, para que os que
entram na casa possam ver seu luminar.
34
São os teus olhos a luz do teu corpo;
se teus olhos forem humildes, todo o teu
corpo será cheio de luz. Porém se teus
olhos forem malignos, todo o teu corpo
estará tomado pelas trevas.
12
35
Certifica-te, pois, que o fulgor que há
no teu interior não sejam trevas.
36
Portanto, se todo o teu corpo estiver
pleno de luz, sem ter nenhuma parte
dele em trevas, então ele estará verdadei-
ramente iluminado, assim como quando
a luz de uma forte candeia resplandece
sobre vós”.
Jesus condena a hipocrisia religiosa
37
Ao concluir essas palavras, um fariseu
o convidou para comer em sua compa-
nhia. Jesus, aceitando, foi e reclinou-se
junto à mesa conforme o costume.
13
38
Entretanto, o fariseu, notando que Je-
sus não se lavara de acordo com a tradi-
ção cerimonial que antecede às refeições,
ficou surpreso.
39
Então o Senhor lhe declarou: “Vós, fa-
riseus, purificais o exterior do corpo e do
prato; mas vosso interior está entulhado
de avareza e perversidade.
40
Insensatos! Aquele que criou o exterior
não criou igualmente o interior?
14
41
Portanto, dai ao necessitado do que
está dentro do prato, e vereis que tudo
vos será purificado.
15
42
Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o
dízimo da hortelã, da arruda e de todas
as hortaliças e desprezais a justiça e o
amor de Deus; devíeis, contudo, praticar
essas virtudes, sem deixar de proceder
daquela forma.
43
Ai de vós, fariseus! Pois amais os luga-
res de honra nas sinagogas e as saudações
em público!
11
Gentios, como a rainha de Sabá (1Rs 10.1-10) e os ninivitas, testemunharão, no juízo, contra os incrédulos judeus; porque, ao
perceberem um pouco da glória de Deus, não endureceram ainda mais seus corações e se arrependeram de seus pecados. Entre-
tanto, os judeus estavam diante do fulgor da luz divina irradiada de Jesus Cristo e não conseguiam ver o Reino e a glória de Deus.
Todos têm alguma luz; todavia, a responsabilidade aumenta, conforme a intensidade da luz do evangelho (Jo 1.9; Rm 1.20; 2.5).
12
As pessoas que pedem sinais não precisam de mais luz e sim de ampliar sua percepção, a capacidade de ver e analisar
com olhos espirituais. A candeia tem o poder de iluminar todos aqueles que se aproximam dela, tanto mais quanto mais perto
estiverem. A luz de Cristo e de Sua Igreja jamais será apagada, mas continuará brilhando até os confins da terra, oferecendo a
oportunidade da Salvação a todos os povos, raças e culturas; atraindo para Si todos os que têm “olhos bons” (abençoados por
Deus), fazendo-os ingressarem no Reino e participarem da fulgurante luz de Cristo.
13
A expressão “fariseus” significa em hebraico “os separados”, e era usada para identificar uma seita político-religiosa que
lutava pela segregação da cultura judaica. Eles aguardavam a vinda de um Messias político, que obrigasse o povo a seguir todas
as leis e ordenanças da tradição rabínica e legalista criada por eles para explicar o AT. O ato cerimonial de se lavar (verbo grego:
baptizõ) várias vezes antes das refeições, não era ordenado na Lei, mas fora acrescentado pelos fariseus (Mt 7.3; Mt 15.9).
14
A mais perigosa insensatez é pensar que Deus se preocupa mais com as cerimônias exteriores do que com o sentimento
sincero da alma humana (Is 1.10-17). Jesus nos adverte para que não tentemos ser mais reais do que o Rei em nossos proce-
dimentos e relacionamentos. Os fariseus estavam dando muito mais atenção a formas rígidas de comportamento do que a uma
vida moral limpa e generosa para com Deus e os nossos semelhantes (Mc 7.20-23).
15
O amor sincero ao próximo, que se reflete em atitudes práticas e concretas de respeito, solidariedade e cooperação, é um
dos mais significativos atos de purificação espiritual e adoração a Deus. Os líderes religiosos e políticos devem ter muito cuidado
com a demagogia, pois é comum falarem do que não fazem. Exortam o povo às atitudes humanitárias e projetos sociais; contudo,
eles próprios não se desprendem de seus bens materiais, amor ao poder, egoísmo e vaidades (19.8).
LC_B.indd 47 16/8/2007, 13:18:04
48 LUCAS 11
44
Ai de vós, porque sois como sepulturas
que não são vistas, por sobre as quais os
homens andam sem o saber!”.
16
Ai dos doutores da Lei!
45
Então, um dos advogados da Lei
advertiu a Jesus: “Mestre, quando dizes
essas palavras, também nos ofendes a
nós outros!”.
46
Todavia, Ele afirmou: “Ai de vós tam-
bém, advogados da Lei! Porque sobrecar-
regais as pessoas com fardos que dificil-
mente podem carregar; no entanto, vós
mesmos não levantais um só dedo para
ajudá-las.
17
47
Ai de vós! Porque edificais os túmulos
dos profetas, sendo que foram os vossos
próprios antepassados que os assassi-
naram.
48
Assim, sois testemunhas e aprovais
com cumplicidade essas obras dos vossos
antepassados; porquanto eles mataram os
profetas, e vós lhes edificais os túmulos.
49
Por isso, também, Deus advertiu em
sua sabedoria: ‘Eu vos enviarei profetas e
apóstolos, dos quais assassinarão alguns,
e a outros perseguirão’.
50
Pelo que, esta geração será considera-
da responsável pelo sangue de todos os
profetas, derramado desde o início do
mundo:
18
51
desde o sangue de Abel até o sangue de
Zacarias, que foi morto entre o altar e o
santuário. Sim, Eu vos asseguro, contas de
tudo isso deverão ser prestadas por esta
geração!
19
52
Ai de vós, advogados da Lei! Porque vos
apropriastes da chave do conhecimento.
Contudo, vós mesmos não entrastes nem
permitistes que entrassem aqueles que
estavam prestes a entrar”.
20
A trama para matar Jesus tem início
53
Enquanto Jesus se afastava dali, come-
çaram os fariseus e os mestres da Lei a
criticá-lo com veemência, buscando con-
fundi-lo acerca de muitos assuntos.
54
Tudo isso para tentar extrair de suas
16
Os judeus costumavam pintar seus túmulos com cal para que ninguém por acidente tropeçasse ou tocasse neles e, dessa
forma, ficasse contaminado ou “imundo cerimonialmente” por sete dias (Nm 19.16; Mt 23.27). Assim como tocar em um túmulo
resultava em “impureza”, Jesus afirma que associar-se aos “fariseus” (aos legalistas) podia levar à “impureza moral” e proclama
três maldições contra isso: Aqueles que colocam as normas e estatutos religiosos acima do amor a Deus (1Co 16.22) e da justiça
(Fp 3.9); aqueles que valorizam a honra e os elogios das pessoas acima da glória de Deus (Jo 12.43); e aqueles que contaminam
seus semelhantes ao invés de conduzi-los a Jesus Cristo e, portanto, à Salvação (Hb 12.15 com Tg 5.20).
17
Os advogados da Lei (peritos e intérpretes da Lei) sobrecarregavam o povo com regras e regulamentos acrescentados à Lei
original de Moisés (Mt 15.2), sem nada fazer para ajudar as pessoas a guardar essas leis (Mt 23.4). De outro lado, eles estavam
criando atalhos legais e normas especiais para se safarem incólumes da necessidade de eles próprios terem que cumprir tais
leis. Esses “homens da lei” eram demagogos. Honravam a memória dos profetas construindo ou reformando seus túmulos e
monumentos; porém, no íntimo e na prática, rejeitavam a Cristo e a proclamação dos ensinos dos profetas, da mesma maneira
como acontecera com seus antepassados.
18
O genocídio ocorrido em Israel entre os anos 66 e 70 d.C. foi o cumprimento dessa terrível advertência profética. Os exércitos
romanos dizimaram impiedosamente quase toda a nação judaica (21.20-24). Esse é um dos eventos históricos que demonstra a
implacável justiça de Deus contra aqueles que rejeitam seu conselho e mandamentos. Pior ainda será o castigo contra aqueles
que rejeitarem o Filho de Deus (20.14).
19
Os judeus suplicaram por profetas de Deus, mas quando eles chegaram – a exemplo de Jesus – foram perseguidos,
injuriados e assassinados. O sangue inocente de cada um desses homens de Deus será requerido pelo Senhor dessa geração
incrédula e perversa. Abel foi o primeiro servo do Senhor martirizado (Gn 4.8), considerado por Jesus como profeta. A morte de
Zacarias foi a última morte de um profeta do AT, levando em conta a seqüência dos livros na ordem hebraica tradicional, começan-
do com o Gênesis e terminando em 2 Crônicas (2Cr 24.21-22). Jesus está afirmando que o sangue de todos aqueles que sofreram
e foram mortos por sua fidelidade a Deus seria requerido. As contas desses atos criminosos seriam prestadas pela geração que
compartilhou plenamente das atitudes que levaram a efeito a morte dos profetas (incluindo o próprio Filho de Deus).
20
O “Ai” final de Jesus vai para os escribas (advogados e intérpretes da Lei) e teólogos. Aqueles que dominam o conhecimento
e têm a responsabilidade de comunicar o saber à sociedade e apontar o Caminho de Deus ao povo. Tomaram posse da chave
da ciência que destrava o significado mais profundo das Escrituras. Mas, ao invés de tornar simples e prático o viver com Deus,
angustiavam o povo com a imposição de ordenanças e mitos teológicos. Por fim, esses próprios doutores da Lei, transformaram
a Bíblia num livro de obscuridades e foram enredados por suas próprias teorias místicas. Não conseguiam perceber a Graça, a
amplitude e o poder da Palavra de Jesus nem mesmo deixavam prosseguir no Caminho aqueles que se aproximavam da Verdade
(Jo 14.6) e do Reino de Deus.
LC_B.indd 48 16/8/2007, 13:18:05
49 LUCAS 11, 12
próprias palavras algum motivo para o
acusarem formalmente.
Os fiéis devem evitar a hipocrisia
12
Enquanto isso, uma multidão de
milhares de pessoas, aglomera-
va-se, a ponto de pisotearem uma às ou-
tras. Foi quando Jesus começou a ensinar
primeiramente aos discípulos, prevenin-
do-os: “Acautelai-vos com o fermento
dos fariseus, que é a hipocrisia.
1
2
Pois não existe nada escondido que não
venha a ser revelado, ou oculto que não
venha a ser conhecido.
3
Porque tudo o que dissestes nas trevas
será ouvido em plena luz, e o que sus-
surrastes ao pé do ouvido, no interior de
quartos fechados, será proclamado do
alto das casas.
2
Jesus ensina o temor do Senhor
4
Eu vos afirmo, meus amigos: não temais
os que podem matar o corpo; todavia,
além disso, nada mais conseguem fazer.
5
Contudo, Eu vos revelarei a quem
deveis temer: temei Aquele que, depois
de matar o corpo, tem poder para lançar
a alma no inferno. Sim, Eu vos afirmo, a
esse deveis temer.
3
6
Não se costuma vender cinco pardais
por duas pequenas moedas? Entretanto,
nenhum deles deixa de receber o cuida-
do de Deus.
7
Portanto, até os fios de cabelo da vossa
cabeça estão todos contados. Não te-
mais! Valeis muito mais do que milhares
de pardais.
4
Testemunhe sua fé ao mundo
8
Digo-vos mais: todo aquele que me
confessar diante das pessoas, também o
Filho do homem o confessará diante dos
anjos de Deus.
9
No entanto, o que me negar diante dos
homens será negado diante dos anjos de
Deus.
10
Todo aquele que disser uma palavra
contra o Filho do homem será perdoado,
mas quem blasfemar contra o Espírito
Santo jamais receberá perdão.
5
11
Quando vos levarem forçados às sina-
gogas e perante governantes e autorida-
des, não vos preocupeis quanto à manei-
ra que deveis responder, nem tampouco
quanto ao que tiverdes de falar.
12
Porquanto, naquele momento, o Espí-
rito Santo vos ministrará tudo o que for
necessário dizer”.
6
1
Somente Lucas usa a expressão “multidão de milhares” (miríades) de pessoas, que deriva da palavra grega murias (dez
mil). Em Atos 19.19, “cinco miríades” correspondem a 50.000 denários. Entretanto, o termo é freqüentemente usado de modo
indefinido, referindo-se às grandes multidões que seguiam Jesus à toda parte. O fermento é a influência que corrompe (1Co 5.6).
O perigo da hipocrisia e arrogância não se limita aos fariseus e líderes religiosos, mas aos crentes em geral.
2
Nesse contexto, o sentido é que nada há escondido pela hipocrisia e arrogância que não venha a ser, de fato, transparecido ou
dado a conhecer pela convivência e ao longo do tempo. Assim também, como a Palavra de Deus traz à luz os segredos e as verdadei-
ras motivações da alma (Hb 4.12), o juízo final revelará tudo o que não for objeto de confissão, arrependimento e perdão (1Jo 1.9).
3
Durante os tempos de provação e perseguição, a fé dependerá da consciência clara em relação à infinita diferença que há
entre a simples morte física e a morte eterna da alma. Tememos ao Senhor por sua justiça implacável (Tg 4.12), mas nele confia-
mos, pois Ele é amor e governa sobre tudo e todos (Rm 8.28-39). Somente Deus tem em suas mãos o poder da vida e da morte.
Os versos 6 e 7 apresentam os fundamentos da nossa confiança. A palavra grega traduzida aqui por inferno é geenna, e não deve
ser confundida com outra expressão grega hades, que se refere ao nome genérico do lugar dos mortos (Mt 5.22). É importante
notar, que no NT, inferno é usado somente em Mateus, Marcos, nessa passagem de Lucas e em Tiago 3.6.
4
Deus dedica grande cuidado às pequenas criaturas, mesmo àquelas que, em geral, os seres humanos atribuem pouco
interesse e valor. Na época, os pardais faziam parte da alimentação dos pobres. Existem três palavras que denotam moedas
romanas: denarius (Mt 18.28), assarion (Mt 10.29) e kodrantes (ou centavo - Mt 5.26). O lepton era uma moedinha que valia
apenas metade de um centavo.
5
Aqui essa expressão tem uma aplicação mais ampla do que em Mt 12.31 e Mc 3.28,29. Desde os pensadores cristãos dos
primeiros séculos da Igreja (também chamados de “pais da Igreja”), essa passagem é compreendida como sendo uma adver-
tência à imperdoável apostasia daqueles que assumiram um compromisso de fé ao lado de Cristo e da Igreja (Hb 6.4-8), em
comparação com a palavra de rejeição a Cristo, própria daqueles que não têm fé, e, portanto, passível de perdão pela Salvação
ainda disponível a eles.
6
Não existe melhor advogado do que o Espírito Santo, nem melhor defesa do que um coração completamente controlado
pelo Senhor (1Pe 3.15).
LC_B.indd 49 16/8/2007, 13:18:05
50 LUCAS 12
Jesus condena a avareza
13
E aconteceu que, nesse ponto, um ho-
mem que estava no meio da multidão lhe
requereu: “Mestre, ordena a meu irmão
que divida comigo a herança”.
14
Porém Jesus lhe replicou: “Homem,
quem me designou juiz ou negociador
entre vós?”.
7
15
Em seguida lhes advertiu: “Tende
cautela e guardai-vos de toda e qualquer
avareza; porquanto a vida de uma pessoa
não se constitui do acúmulo de bens que
possa conseguir”.
8
A parábola do rico insensato
16
E lhes propôs uma parábola: “As terras
de certo homem rico produziram com
abundância.
17
E ele começou a pensar consigo
mesmo: ‘Que farei agora, pois não tenho
onde armazenar toda a minha colheita?’.
18
Então lhe veio à mente: ‘Já sei! Derru-
barei os meus celeiros e construirei ou-
tros ainda maiores, e ali guardarei toda a
minha safra e todos os meus bens.
19
E assim direi à minha alma: tens gran-
de quantidade de bens, depositados para
muitos anos; agora tranqüiliza-te, come,
bebe e diverte-te!
20
Contudo, Deus lhe afirmou: ‘Tolo!
Esta mesma noite arrebatarei a tua alma.
E todos os bens que tens entesourado
para quem ficarão?’.
21
Isso também acontece com quem pou-
pa riquezas para si mesmo, mas não é rico
para com Deus”.
9
Os fiéis não devem viver ansiosos
(Mt 6.25-34)
22
Então, dirigindo-se aos seus discí-
pulos, Jesus os exortou: “Portanto, vos
afirmo: não andeis preocupados com a
vossa própria vida, quanto ao que haveis
de comer, nem muito menos com o vos-
so corpo, quanto ao que haveis de vestir.
23
Porquanto a vida é mais preciosa do
que o alimento, e o corpo, mais impor-
tante do que as roupas.
10
24
Observai os corvos, os quais não
semeiam, nem ceifam, não possuem
armazéns nem celeiros; contudo, Deus
os alimenta. Quanto mais valeis vós do
que as aves!
25
Quem de vós, por mais ansioso que
possa estar, é capaz de prolongar, por um
pouco que seja, a duração da sua vida?
26
Considerando que vós não podeis
fazer nada em relação às pequenas coisas
da vida, por que vos preocupais com to-
das as outras?
11
27
Olhai as flores do campo; elas não fiam,
nem tecem. Eu, todavia, vos asseguro que
nem mesmo Salomão, em todo o seu es-
plendor, pôde se vestir como uma delas.
28
Ora, se Deus veste assim uma simples
erva do campo, que hoje vive e amanhã é
lançada ao fogo, muito mais dará a vós, ves-
tindo-vos de glória, homens fracos na fé!
7
Jesus não pode mediar um coração dominado pela avareza, para isso já existe a Lei (Dt 21.17), que promulgou a regra geral
7
de que um filho mais velho receberia o dobro da porção de um filho mais jovem. Essas eram questões comumente ajuizadas
pelos rabinos que, em muitos casos, recebiam uma porcentagem dos acertos firmados. Entretanto, esse homem estava comple-
tamente tomado pelo egoísmo e materialismo e precisava, portanto, em primeiro lugar, arrepender-se para entender as grandes
prioridades do Reino e poder aceitar de bom grado as orientações de Jesus.
8
A vida é muito mais do que possuir. O rico era louco porque não compreendia que as suas posses eram apenas emprestadas
(1Tm 6.17). Ninguém consegue poupar (guardar) as bênçãos de Deus apenas em benefício próprio (1Tm 6.18). A vida terrena
não tem mais valor do que a vida eterna. Conclusão: A única riqueza duradoura é receber o Espírito Santo, guardá-lo no coração
e investir seus dons em benefício do próximo e da sociedade (v.21 e Jo 17.3).
9
Tolo (insensato ou louco) é uma expressão de grande impacto em sua forma original, e procura demonstrar o disparate que há
em buscar segurança nos bens e riquezas deste mundo em detrimento da presença e bênçãos eternas de Deus (11.40 e Ef 5.17).
10
Jesus passa agora a ensinar àqueles que o amam e o seguem a maneira sábia de viver, em contraste com a visão
tresloucada do egoísta e avarento da parábola anterior. Embora nossa visão do futuro deva concentrar-se no Reino de Deus (v.32)
e na vida eterna, a vida terrena é decisiva para determinar nossa condição eterna (Mc 8.35-37).
11
A cada dia os seres humanos se preocupam mais e mais com a manutenção da boa saúde e o prolongamento da vida (Mt
6.27). O medo da morte é inversamente proporcional à certeza da salvação. Contudo, somente o Senhor é capaz de nos fazer
crescer, ainda que alguns centímetros, ou aumentar nossos dias de vida na terra (Is 38.1-8).
LC_B.indd 50 16/8/2007, 13:18:06
51
12
A expressão grega zeteite significa muito mais do que “indagar” como aparece em algumas versões. Seu sentido tem a ver
com uma busca obstinada e concentrada: “buscai”. Jesus explica que podemos aplicar todos os nossos esforços em ganhar
o mundo (títulos, bens, poder), ou o Reino de Deus. Aquele, entretanto, que “busca” o reino receberá tanto um quanto outro,
conforme a sua necessidade e o propósito do Pai para cada um dos seus filhos.
13
Desde a Criação o grande desejo do Pai é partilhar seu Reino com seus filhos, por isso, é com muita alegria e satisfação que,
agora, em Cristo, o Senhor pode realizar plenamente sua vontade. Jesus adverte que, nesse sentido, “temor” e “ansiedade” são
características dos incrédulos (verdadeiros “gentios” v.30), mas não dos “filhos” de Deus (minoria fiel). O Reino de Deus começa pela
soberania do Senhor sobre a vida dos seus súditos (Rm 14.17). Para nós, não acostumados aos regimes monárquicos, e com um
sistema político carente de verdadeiros homens e mulheres de Deus, fica um tanto difícil compreender esse tipo de nobre metáfora.
14
Lucas é o evangelista que mais enfatiza a ação social cristã, com vistas a oferecer aos pobres as mesmas condições medianas
da sociedade (3.11; 6.30; 11.41; 14.13,14; 16.9; 18.22; 19.8). Os bens e a riqueza que estiverem impedindo o cristão de buscar e
adentrar o reino devem ser doados aos mais necessitados (Mc 10.21-27; 1Tm 6.9,18). É fácil notar onde está depositado nosso
verdadeiro ideal de vida e paixão: onde nosso coração mais se dedica, cuida e zela.
15
Esse versículo é um resumo da parábola das dez virgens (Mt 25). Algumas versões trazem a frase “cingido esteja o vosso corpo”,
optando, nesse caso, por uma tradução mais literal do original. Essa expressão tem a ver com o antigo costume oriental de amarrar as
longas vestes à altura da cintura, a fim de possibilitar, em caso de necessidade, uma movimentação mais livre e acelerada. Jesus, por
certo, fez uma alusão ao fato dos cristãos deverem estar sempre prontos para servir, livres de qualquer embaraço (1Pe 1.13).
16
O Senhor continuará a ser o grande provedor dos seus servos (filhos e amigos) que se mantiverem “vigilantes”, “despertos”,
“preparados”, “prontos”, em contraste com os que estão “dormindo (mortos) em pecados” (Ef 5.14; 1 Ts 5.10). A morte (v.20) e o
glorioso retorno estão sempre iminentes (vv 36-40). As exigências do reino (atenção, prontidão e vigilância) são relevantes tanto
para os que morrem antes do Juízo como para os que estarão vivos naquele grande dia.
17
O “assaltante” é aquele que vem de sobressalto, repentinamente e surpreendendo a todos. Não há tempo para se preparar, é
7
preciso viver em condição de prontidão, pois a qualquer momento se dará o “assalto”. Esse era um meio de comunicar o estado
de alerta espiritual aos judeus cristãos, haja vista que o povo judeu sempre viveu – e vive – em estado de contínua atenção e
vigilância em relação aos ataques inimigos (21.34; 1Ts 5.2; 2Pe 3.10; Ap 3.3; 16.15).
18
Tanto as honrarias quanto os castigos, segundo o mérito pelo procedimento de cada um, não aguardam somente os após-
tolos; mas, a todos os servos do Senhor que viverem no intervalo histórico entre a ascensão e o glorioso retorno de Jesus Cristo.
Quanto maiores os privilégios, mais severa será a punição dos infiéis e incrédulos (Rm 2.12-16).
29
Não procurareis, pois, ansiosamente,
o que haveis de comer ou beber; não
empenhareis o vosso coração nessas
preocupações.
12
30
Porquanto o mundo pagão é que pele-
ja por essas coisas; entretanto, o vosso Pai
sabe perfeitamente que as necessitais.
31
Buscai, pois, em primeiro lugar, o Rei-
no de Deus, e todas as demais coisas vos
serão providenciadas.
32
Nada temais, pequeno rebanho, pois
de bom grado o Pai vos concedeu o seu
Reino.
13
33
Vendei os vossos bens e ajudai os que não
têm recursos; fazei para vós outros bolsos
que não se gastem com o passar do tempo,
tesouro acumulado nos céus que jamais se
acaba, onde ladrão algum se aproxima, e
nenhuma traça o poderá corroer.
34
Por isso, onde estiverem os vossos bens
mais preciosos, certamente aí também
estará o vosso coração.
14
A parábola do servo leal e do infiel
35
Estejais prontos para servir, e conser-
vai acesas as vossas candeias.
15
36
Sede vós semelhantes aos servos, quan-
do esperam seu senhor voltar de um ban-
quete de casamento; para que, assim que
chegar e anunciar-se, possais abrir-lhe a
porta sem demora.
37
Felizes aqueles servos a quem o Se-
nhor, quando vier, os encontre vigilantes;
com toda a certeza vos asseguro que Ele
se vestirá para os servir, fará que se re-
clinem ao redor da mesa, e pessoalmente
irá ao encontro deles para servi-los.
16
38
Ainda que Ele chegue durante a alta
noite ou ao raiar do dia, bem-aventu-
rados os servos que o senhor encontrar
preparados.
39
Compreendei, entretanto isto: se o pai
de família soubesse a que hora havia de
vir o assaltante, não permitiria que a sua
casa fosse invadida.
17
40
Ficai também vós alertas, pois o Filho
do homem virá no momento em que
menos o esperais”.
41
Então, Pedro indagou: “Senhor, estás
propondo esta parábola para nós ou para
todas as pessoas?”.
18
42
Ao que o Senhor lhe asseverou: “Quem
LUCAS 12
LC_B.indd 51 16/8/2007, 13:18:06
52
19
O galardão pela fidelidade em cumprir a vontade do Senhor será “honra” e “responsabilidade” ainda maiores. Os crentes e
líderes cristãos que levam uma vida sem disciplina no presente, enfrentarão a ira de Deus (Mt 7.15-27).
20
Jesus estabelece um contraste entre os líderes irresponsáveis (vv 45-47), e os demais cristãos, mal instruídos que se permi-
tem viver sob a direção do egoísmo, da arrogância e que duvidam das promessas gloriosas; todos receberão o justo castigo no
tribunal de Cristo (2Co 5.10). Certamente haverá um castigo para aqueles que deixam de cumprir seu dever. A responsabilidade
recai sobre aqueles que muito receberam (Am 3.2). As pessoas não serão castigadas apenas pelo mal que praticaram, mas
também pelo bem que deixaram de fazer (Tg 4.17). O fato de não conhecer a Palavra ou a ignorância não podem ser usados
como desculpa para evitar a punição futura, pois não existe ignorância moral absoluta (Rm 1.20; 2.14,15), e nossa ignorância faz
parte de nosso pecado.
21
Aqui o “fogo” é uma metáfora do Juízo que começou a “arder” na crucificação de Jesus Cristo. Jesus afirma também que
suportará o julgamento de Deus no lugar dos crentes, e estabelece um forte vínculo entre “batismo” e “morte” (Mc 10.38-39 e
1Jo 5.6-8). Jesus contemplava com horror o momento da cruz, mas com submissão total e resoluta à sua inevitável missão de
salvar a humanidade. Por isso, seu Espírito foi derramado com poder sobre todos os crentes (At 1.8; 2.1). Entretanto, aqueles que
rejeitarem o seu sacrifício e apelo serão condenados ao juízo do fogo eterno (3.16; Mt 25.46).
22
O poente ficava na direção do mar Mediterrâneo (1Rs 18.44). Os ventos do sul sopravam do deserto do Neguebe e tra-
ziam muito calor. Embora as pessoas, desde a antiguidade, soubessem compreender e usar esses indicadores atmosféricos
para prever climas, estações e tempos, não conseguiam perceber a gravidade da sua incredulidade e dos próprios pecados,
é, portanto, o administrador fiel, que age
com bom senso, a quem seu senhor en-
carrega dos seus servos, para ministrar-
lhes sua porção de alimento no tempo
devido?
43
Feliz o servo a quem o seu senhor sur-
preender agindo dessa maneira quando
voltar.
44
Asseguro-vos que Ele o encarregará de
todos os seus bens.
45
Todavia, imaginai que esse servo pense
consigo mesmo: ‘Meu senhor tarda de-
mais a voltar’, e por isso comece a agredir
os demais servos e servas, entregando-se
à glutonaria e à embriaguez.
46
Entretanto, o senhor daquele servo
voltará no dia em que ele menos espera e
num momento totalmente imprevisível
e o punirá com todo o rigor e lhe conde-
nará ao lugar dos infiéis.
19
47
Aquele servo que conhece a vontade de
seu senhor e não prepara o que ele dese-
ja, nem age para agradá-lo, será castigado
com extrema severidade.
48
Contudo, aquele que não conhece a
vontade do seu senhor, mas praticou o
que era sujeito a castigo, receberá poucos
açoites. A quem muito foi dado, muito
será exigido; e a quem muito foi confia-
do, muito mais ainda será requerido.
20
Jesus veio trazer fogo à terra
49
Eu vim para trazer fogo sobre a terra
e como gostaria que já estivesse em cha-
mas!
21
50
Tenho, porém, que passar por um ba-
tismo; e muito me angustio até que ele
se consuma!
51
Pensai que Eu vim para trazer paz à
terra? Não, Eu vo-lo asseguro. Ao contrá-
rio, vim trazer separação!
52
De agora em diante haverá cinco em
uma família, todos divididos uns contra
os outros: três contra dois e dois contra
três.
53
Estarão em litígio pai contra filho e
filho contra pai, mãe contra filha e filha
contra mãe, sogra contra nora e nora
contra sogra”.
Discernindo o final dos tempos
54
Então admoestava Ele à multidão:
“Quando vedes surgir uma nuvem na
direção do pôr-do-sol, logo dizeis que é
sinal de chuva, e, de fato, assim ocorre.
55
Também, quando sentis soprar o vento
sul, proclamais: ‘Haverá calor!’, e aconte-
ce como previstes.
56
Hipócritas! Sabeis muito bem inter-
pretar os sinais da terra e do céu. Como
não conseguis discernir os sinais do tem-
po presente?
22
Buscar a paz enquanto há tempo
57
E por que não julgais também por vós
mesmos o que é justo?
58
Quando um de vós estiver caminhan-
do com seu adversário em direção ao
magistrado, fazei tudo o que estiver ao
vosso alcance para se reconciliar com
LUCAS 12
LC_B.indd 52 16/8/2007, 13:18:07
53
a importância histórica daqueles momentos em que Deus andou sobre a terra na pessoa de Cristo, a chegada do Reino de
Deus, e muito menos, o terrível julgamento que se avizinhava com o massacre do povo judeu pelos exércitos de Roma e suas
conseqüências eternas.
23
Jesus nos ensina que acima das tradições religiosas e dos sistemas de leis de um povo, está a Palavra de Deus. Os sinais
dos tempos eram nítidos (como o são hoje) e uma decisão radical e urgente de arrependimento e volta à Palavra se fazia neces-
sária, mas as pessoas não conseguiam ver o terrível furacão do juízo tomando forma. É preciso acertar as contas antes que seja
tarde demais. A expressão grega lepton foi traduzida como “último centavo” e representava uma pequena moeda de cobre ou
bronze cujo valor correspondia à metade da kodrantes (um centavo).
Capítulo 13
1
Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, contemporâneo dos apóstolos de Cristo, em sua obra “Antiguidades”, os galileus
eram conhecidos como insurgentes, e Pilatos, por sua crueldade ilimitada.
2
Na antiguidade, especialmente no AT, acreditava-se que grandes desgraças aconteciam aos crentes que cometiam grandes
pecados. Esse, por exemplo, foi o argumento de alguns dos amigos de Jó (Elifaz em Jó 4.7; 22.5). Jesus, porém, adverte aos que
se acham “justos” sobre o pecado da arrogância espiritual e da auto-suficiência (18.9-14), pois não percebem a sua necessidade
de arrependimento diário. O pecado é inerente ao ser humano desde a Queda (Gn 3); contudo, Deus não usa o castigo conforme
a lógica humana (Jo 9.1,2).
3
Somente Lucas, em toda a Bíblia, cita esse acontecimento, observado por Jesus para lembrar a doutrina do pecado original
e a necessidade que todos temos de arrependimento.
4
Essa parábola tem um sentido muito amplo, pode referir-se a Israel como também a cada um de nós (Mc 11.14).
5
Os três anos citados por Jesus nessa parábola representam um período de vários séculos de graça e oportunidade que Deus
garantiu a Israel por ocasião da Aliança e que culminaram com a chegada e a proclamação do Evangelho (Cristo).
6
Deus exige frutos e não simplesmente folhas; vida e não somente palavras e promessas (Mt 7.21-27). A aparente demora no
juízo não significa indiferença ou inoperância, pelo contrário, é Deus usando de sua incomensurável paciência e bondade, na
esperança do fruto de arrependimento (3.8 com 2Pe 3.4-10). Todavia, mais cedo ou mais tarde a lâmina do machado da justiça
punitiva de Deus cairá com severidade sobre toda raiz de vida inútil, a qual não aceitou o enxerto da nova vida em Jesus (Mt 7.16;
ele; isso para que ele não vos conduza
ao juiz, e o juiz vos entregue ao oficial
de justiça, e o oficial de justiça vos jogue
no cárcere.
59
Eu vos asseguro que não saireis da
prisão enquanto não pagardes o último
centavo devido”.
23
Os impenitentes perecerão
13
Naquela mesma época, alguns
dos que estavam presentes foram
dizer a Jesus que Pilatos havia misturado
o sangue de alguns galileus com os pró-
prios sacrifícios que ofereciam.
1
2
Ao que Jesus lhes advertiu: “Julgais que
esses galileus fossem mais pecadores do
que todos os demais galileus, por have-
rem sofrido dessa forma?
3
Pois Eu vos asseguro que não! Todavia,
se não vos arrependerdes, todos vós, se-
melhantemente perecereis.
2
4
Ou pensais vós, que aquelas dezoito
pessoas, sobre as quais desabou a torre de
Siloé e as matou eram mais culpadas que
todos os outros habitantes de Jerusalém?
5
Com certeza não eram, Eu vo-lo afirmo.
Porém, se não vos arrependerdes, todos
vós, da mesma maneira perecereis.
3
A parábola da figueira estéril
6
Em seguida, Jesus lhes propôs a seguin-
te parábola: “Certo homem possuía uma
figueira cultivada em meio a uma grande
plantação de videiras; contudo, vindo
procurar fruto nela, não encontrou nem
ao menos um.
4
7
E, por isso, recomendou ao vinicultor:
‘Este é o terceiro ano que venho buscar
os frutos desta figueira e não acho.
Sendo assim, podes cortá-la! Para que
está ela ainda ocupando inutilmente a
boa terra?’.
5
8
O vinicultor, porém, lhe rogou: ‘Se-
nhor, deixa-a ainda por mais um ano, e
eu cuidarei dela, cavando ao seu redor e
a adubando.
9
Se vier a dar fruto no próximo ano,
muito bem; caso contrário, mandarás
cortá-la!’”.
6
Uma mulher é curada no sábado
10
Aconteceu em certo sábado, quando
Jesus estava ensinando numa das sina-
gogas,
11
que se aproximou uma mulher pos-
suída há dezoito anos por um espírito
de enfermidade que a mantinha doente.
LUCAS 12, 13
LC_B.indd 53 16/8/2007, 13:18:08
54
Rm 11.16-24; Cl 1.6,10). O juízo deveria ter caído sobre Israel imediatamente após a crucificação do Filho de Deus, entretanto, o
Senhor concedeu – a pedido do Vinicultor – uma derradeira oportunidade especial que ocorreu entre o Pentecostes e a destruição
completa de Jerusalém (66-70 d.C.).
7
O chefe da congregação dos judeus (sinagoga) preocupou-se mais com sua tarefa de pôr ordem no serviço religioso
(culto) do que com a salvação (cura) de um ser humano (Êx 20.9,10). Passagens anteriores que relatam a dificuldade que
mestres e líderes judaicos tinham em compreender o significado do sábado, revelam a autoridade de Jesus Cristo sobre esse
dia (6.1-11; 14.1-6; Mt 12.1-8,11,12; Jo 5.1-18). Aqui se evidencia o significado do dia do descanso. Desde o princípio, o sábado
(em hebraico transliterado shabbãth – descanso no mais amplo e absoluto sentido da palavra), era profético, relembrando a
reconsagração da Criação à sua finalidade original, o que só se realizará de maneira completa por meio da derrota final de
Satanás (v.16). Essa vitória total é prevista na libertação da mulher de quem foi expulso o espírito de enfermidade (v.11,12),
cuja tradução literal e original da frase de Jesus seria: “foste libertada para permanecerdes livre”. Jesus usou o exemplo vivo
daquela mulher para deixar seu último ensino e a maravilha das suas ações de poder na congregação dos judeus. Jesus jamais
voltaria a uma sinagoga.
8
Jesus exalta o valor da mulher, ressaltando que ela, como todos os homens, é herdeira nacional e espiritual do Pai dos fiéis
(1Pe 3.6) e que, pela fé, viu sua busca de muito anos ser agraciada com o chamado (Jesus a viu e a chamou ao centro da congre-
gação) e o toque salvador (curador) do Senhor (v.12). Os líderes religiosos estavam dando mais valor e respeito aos animais de
carga do que aos seus semelhantes; e, por isso, Jesus afirmou que eram hipócritas, pois fingiam ter zelo pela Lei, mas tramavam
desmoralizá-lo e matá-lo.
9
Tanto nas plantações quanto na cozinha (onde a alimentação é preparada), como no mundo e nas almas humanas, a implan-
tação e o desenvolvimento da nova natureza do reino não podem permanecer ocultos ou tímidos. A vida do Espírito de Deus se
manifestará em todo indivíduo que aceitar a salvação de Jesus, depois se refletirá na congregação dos justificados pelo sangue
do Cordeiro (a Igreja) e, como conseqüência, afetará e influenciará o mundo todo (Ap 5.9). Em geral, árvores e aves simbolizam
nações, nessa passagem, Israel (Ez 17.23; 31.6; Dn 4.12,21) e os gentios salvos que – em Cristo – terão livre acesso ao Evangelho
e à mesma assembléia dos filhos de Deus (Ef 3.6).
10
No original, a expressão grega três satos significa uma grande quantidade de farinha (pouco mais de 10 quilos). A mesma
quantidade usada por Sara em Gn 18.6. No primeiro século da Igreja, a ignorância dos pagãos (gentios) em relação ao Reino de
Deus em Cristo era quase total. Entretanto, com o passar dos séculos, o Cristianismo se tornou a maior das religiões da terra.
Ela caminhava encurvada, sem condição
alguma de se endireitar.
12
Ao observá-la, Jesus pediu que viesse à
frente e lhe afirmou: “Mulher, estás livre
da tua enfermidade”.
13
Em seguida, lhe impôs as mãos; e na-
quele mesmo instante ela se endireitou, e
passou a glorificar a Deus.
14
Entretanto, o dirigente da sinagoga,
indignado ao ver Jesus curando no sá-
bado, admoestou a multidão: “Há seis
dias em que se deve trabalhar; vinde,
portanto, nesses dias para serdes curados
e não no sábado!”.
7
15
Então o Senhor exclamou: “Hipó-
critas! Porventura, cada um de vós não
desamarra, no sábado, o seu boi ou
jumento do estábulo e o leva dali para
servir-lhe água?
16
Sendo assim, por qual motivo não se
deveria libertar, em dia de sábado, esta
mulher, uma filha de Abraão, a quem
Satanás escravizava por dezoito anos?”
8
17
Havendo Jesus pronunciado estas
palavras, todos os seus oponentes se
envergonharam. De outro lado, o povo
muito se alegrava diante de todos os
sinais miraculosos que estavam sendo
realizados por Jesus.
A parábola do grão de mostarda
(Mt 13.31-32; Mc 4.30-32)
18
Então Jesus os questionou: “Com o
que se assemelha o Reino de Deus? Com
o que o compararei?
19
É parecido com o germinar do grão
q p
de mostarda que uma pessoa semeou
em sua horta. O grão cresceu e se tornou
uma árvore, e as aves do céu armaram
ninhos sobre seus ramos”.
9
A parábola do fermento
(Mt 13.33)
20
Novamente Jesus levanta a questão: “A
que assemelharei o Reino de Deus?
21
É comparável ao trabalho do fermen-
to, que uma mulher misturou com três
medidas de farinha, e toda a massa ficou
levedada!”.
10
Estreita é a porta do Reino
22
Mais tarde, seguiu Jesus a percorrer
LUCAS 13
LC_B.indd 54 16/8/2007, 13:18:08
55
11
Em algum momento entre os acontecimentos registrados em 11.1 e 13.21, Jesus partiu da Judéia para iniciar sua ministração
aos povos da Peréia e terras vizinhas (Mt 19.1; Mc 10 e Jo 10.40-42). Embora realizasse grande obra na Peréia e em muitas outras
terras, onde repetiu vários de seus ensinos e prodígios, seus olhos e coração estavam voltados para a Cidade Santa (terra das
profecias), para onde caminhava resoluto, ao encontro do seu destino final nesta terra em benefício da humanidade.
12
No verso 22 começa uma seção que vai até 16.13, com o objetivo de responder a duas questões especiais, que muito
preocupavam os teólogos da época de Jesus e de hoje: “Quem entrará no Reino de Deus?” e “Serão poucos ou muitos os que
terão esse acesso privilegiado?”. Apesar das multidões que vinham à procura de curas e outras bênçãos, Jesus não é claro sobre
o número dos salvos, mas adverte que muitos tentariam buscar a salvação (entrar no Reino) depois de ser tarde demais (portas
fechadas). O verdadeiro salvo não é necessariamente o religioso e bem instruído, mas sim aquela pessoa que, arrependida
de sua condição mundana e pecadora, sente o desejo inesgotável de, em Cristo, lutar (no original grego transliterado agõnizõ
– concentrar toda a atenção e força), pois a porta é estreita e não permite que passemos carregando nosso “Eu” nem o “mundo”
(v.24). Além disso, devemos passar com urgência – sem deixar essa decisão para amanhã – pois poderá não haver mais tempo
(2Co 6.2). Imbuídos de toda a santificação, sem a qual não é possível ver o Senhor (Hb 12.14), e cheios do Espírito Santo (Rm
8.4). A mesa no Reino se refere ao grande banquete messiânico (Mt 22.2; Ap 19.9) onde, para surpresa dos judeus ortodoxos e
outros legalistas, muitos gentios cristãos estarão presentes (Rm 11.11-25).
13
Herodes Antipas não admitia qualquer perturbação ou revolta nas suas terras, e Jesus estava na Transjordânia, que junta-
mente com a Galiléia, fazia parte da sua jurisdição.
14
Jesus refere-se a Herodes como a um animal sanguinário, astuto e traiçoeiro. A expressão “hoje e amanhã” era de uso
corrente entre os líderes semíticos e significava um período indefinido de tempo, mas determinado exclusivamente por quem
expressava a frase (4.43; 9.22). Jesus faz uma referência clara à conclusão da sua obra redentora na terra.
15
Jesus contemplava a parte final da sua vida de sacrifícios e tinha horror do que via, mas estava resoluto. Sua hora ainda não
havia chegado, e ele controlava cada momento que antecedia o seu próprio holocausto. Todavia ninguém o sangraria como a
qualquer cordeiro, ele daria sua vida no lugar de cada ser humano que aceitasse o seu sacrifício diante de Deus e se arrepen-
desse de seus pecados (Jo 1.12). Morreria em Jerusalém, como os grandes profetas de Deus que pregaram e foram mortos na
Cidade Santa antes dele (2.38; Jo 7.30; 8.20; de acordo com Jo 8.59; 10.39; 11.54).
16
Jesus lamenta-se profundamente por Jerusalém e pela nação israelense não haverem dado o devido valor aos muitos e
muitas outras cidades e povoados, en-
sinando e caminhando em direção a
Jerusalém.
11
23
Foi quando alguém lhe indagou:
“Senhor, haverão de ser poucos os salvos?”.
24
E Ele lhes exortou: “Esforçai-vos por
adentrar pela porta estreita, pois Eu vos
asseguro que muitas pessoas procurarão
entrar e não conseguirão.
25
Quando o proprietário da Casa tiver
levantado e fechado a porta, e vós, do
lado de fora, começardes a bater, excla-
mando: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele,
contudo, vos responderá: ‘Não vos co-
nheço, nem sei de onde sois vós!’.
26
E vós insistireis: ‘Comíamos e bebía-
mos reclinados ao redor da Tua mesa, e
pregavas em nossas ruas’.
27
No entanto, Ele vos afirmará: ‘Não vos
conheço, tampouco sei de onde sois. Re-
tirai-vos para longe de mim, vós todos os
que viveis a praticar o mal!’
28
Ali haverá grande lamento e ranger
de dentes, quando virdes Abraão, Isaque
e Jacó, bem como todos os profetas no
Reino de Deus, mas vós, porém, absolu-
tamente excluídos.
29
Pessoas virão do oriente e do ocidente,
do norte e do sul, e ocuparão seus lugares
à grande mesa no Reino de Deus.
30
Com toda a certeza, existem últimos
que virão a ser primeiros, e primeiros
que serão os últimos”.
12
O lamento profético de Jesus
(Mt 23.37-39)
31
Naquele mesmo momento, alguns fari-
seus aproximaram-se de Jesus e lhe avisa-
ram: “Parte agora mesmo e vai-te daqui,
pois Herodes intenta matar-te!”.
13
32
Ele, entretanto, lhes ordenou: “Ide
anunciar a essa raposa que, hoje e ama-
nhã, expulso demônios e curo enfermos e,
no terceiro dia estarei pronto.
14
33
Contudo, prosseguirei meu caminho
hoje, amanhã e depois de amanhã. Afi-
nal, nenhum profeta deve morrer fora de
Jerusalém!
15
34
Jerusalém, Jerusalém, que matas os
profetas e apedrejas os que te foram en-
viados! Quantas vezes Eu quis reunir os
teus filhos como a galinha reúne os seus
pintinhos debaixo das suas asas, mas vós
não o aceitastes!
16
LUCAS 13
LC_B.indd 55 16/8/2007, 13:18:09
56
grandes privilégios concedidos por Deus aos judeus (2Pe 3.9). Muitas foram às vezes em que Jesus esteve pregando sobre o
Reino em Jerusalém (Jo 2.13; 4.45; 5.1; 7.10; 10.22). Essa mesma exclamação de dor e lamento foi proferida na terça-feira da
Semana da Paixão (Mt 23.37,38).
17
Jesus faz um anúncio tremendo! Após sua morte e ressurreição o Espírito de Deus será retirado da Casa de Deus – o Templo
7
de Jerusalém – e será transferido para um outro templo, não feito de pedras ou por mãos humanas, composto dos salvos, os
crentes em Cristo (2Co 6.16; 1Pe 2.5). Deus abandonaria o seu Templo e sua Cidade (21.20,24; Jr 12.7; 22.5 de acordo com Zc
12.10; Ap 1.7; Is 45.23; Rm 14.11; Fp 2.10,11), e só seria novamente visto por Jerusalém no dia do seu glorioso retorno.
Capítulo 14
1
Os evangelhos registram sete milagres realizados por Jesus em dias de sábado, sendo que cinco deles aparecem em Lucas
e os outros dois são narrados por João (Jo 5.10; 9.14). Todas as refeições que os judeus fariseus comiam no sábado eram
preparadas no dia anterior conforme as normas da Lei por eles interpretadas.
2
Lucas chama a doença que o homem apresentava pelo nome médico em grego hidropisia, que se refere ao acúmulo de
líquidos e fluidos; afetava outras partes do corpo e provocava inchaço generalizado.
3
Manuscritos antigos e fiéis, assim como a KJ de 1611 trazem a expressão “jumento” ao invés de “filho” como aparece em al-
gumas versões. O Comitê de Tradução da KJ entende que essa variante combina melhor com a expressão “boi” que acompanha
a frase, e com o contexto mais amplo do ensino de Jesus (13.10-17). Em Dt 5.14 a Lei é determinada tanto para seres humanos
quanto para os animais. A ação de Jesus não seria permitida pela lei rabínica dos mestres judaicos, mas sim conforme a Lei
mosaica. A letra da Lei, para a pessoa legalista, nega o espírito da própria Lei (Rm 7.6), enquanto a autoridade do Espírito no
coração produz a verdadeira justiça da Lei (Rm 8.4). Esse era o ponto de vista que Jesus queria ensinar aos líderes religiosos de
sua época: a vida, o amor e a justiça são mais importantes do que milhares de regulamentos e decretos de lei.
4
Jesus já antevia as discussões insensatas por posições e poder na comunidade dos cristãos (22.24) e recomenda que o servo
entregue esse assunto ao Pai e aguarde sua promoção em paz, serviço e humildade.
5
Jesus não está falando apenas de boas maneiras, mas da vida espiritual, na qual a humildade é o primeiro requisito para a
exaltação, especialmente no Juízo final.
6
Deus não honrará os seus filhos segundo a prática mundana de exaltar aos que têm influência nesta vida, mas conforme o
testemunho de Cristo que se doou completamente, revelando uma atitude de total abnegação (Fp 2.6 de acordo com Tg 2.2-4).
35
Eis que a vossa Casa vos ficará
desabitada! E, com toda a certeza vos
asseguro, que não mais me vereis até
que venhais a proclamar: ‘Bendito o
que vem em nome do Senhor!”.
17
Jesus cura um hidrópico no sábado
14
Certo sábado, chegando Jesus
para comer na casa de um impor-
tante fariseu, todos o observavam com
atenção.
1
2
E aconteceu que à frente dele estava
um homem doente, com o corpo todo
inchado.
2
3
Jesus indagou aos fariseus e aos mestres
na Lei: “É permitido ou não curar no
g
sábado?”.
4
Eles, todavia, ficaram em silêncio. Jesus,
por sua vez, tomando o homem pela
mão o curou e despediu-se dele.
5
Em seguida, lhes questionou: “Qual
de vós, se o seu jumento ou boi cair
num poço, não o salvará rapidamente,
ainda que seja dia de sábado?”.
3
6
Diante disto, eles ficaram sem palavras
para responder.
Os humildes serão exaltados
7
Observando como os convidados es-
colhiam os lugares de maior destaque
ao redor da mesa, Jesus lhes propôs uma
parábola:
4
8
“Quando por alguém fores convidado
para um banquete de casamento, não
busques o lugar de honra; pois é possível
que tenha sido convidada também outra
pessoa, ainda mais digna do que tu.
9
Sendo assim, o anfitrião que aos dois
convidou, se aproximará e te pedirá:
‘Dá o lugar onde estás a este’. Então, sob
grande humilhação, irás ocupar o último
lugar.
5
10
Por esse motivo, quando fores convi-
dado, dá preferência aos lugares menos
importantes, de forma que, quando
passar o anfitrião do banquete, te saú-
de exaltando: ‘Amigo! Vem, assume um
lugar mais importante’. E assim serás
honrado na presença de todos os con-
vidados.
11
Portanto, todo o que se promove será
envergonhado; mas o que a si mesmo se
humilha receberá exaltação”.
6
LUCAS 13, 14
LC_B.indd 56 16/8/2007, 13:18:09
57
7
Todas as nossas intenções e ações têm sua recompensa. Por isso, o cristão sábio é aquele que age de maneira a agradar a
7
Deus e obter sua aprovação na ressurreição dos justos. Há doutrinas que separam a ressurreição dos justos (1Co 15.23; 1Ts 4.16;
Ap 20.4-6) da ressurreição geral (1Co 15.12,21; Hb 6.2; Ap 20.11-15). Todavia, todos serão ressuscitados (Dn 12.2; Jo 5.28,29;
At 24.15). Os “justos” são os que forem justificados por Deus por causa do sacrifício expiatório de Jesus Cristo e que tiveram
comprovado sua fé mediante as suas ações na terra (Mt 25.34-40).
8
Era comum aos estudiosos das Escrituras associarem o reino futuro de Deus a um grande banquete (13.29; Is 25.6; Mt 8.11;
25.1-10; 26.29; ap 19.9). Jesus aproveita a manifestação deste homem para adverti-los, em forma de parábola, sobre o fato de
que nem todos entrariam no Reino de Deus.
9
Os homens deram uma série de desculpas falsas, uma vez que ninguém compra terras e propriedades sem ver, ou bois de
arado sem experimentá-los. Nem mesmo a rigidez das cerimônias matrimoniais dos antigos judeus privaria o jovem marido de
levar sua esposa ao banquete e atender ao convite do seu senhor.
10
A parábola do maravilhoso banquete (grande Ceia) nos ensina: Deus convida a humanidade para entrar em Seu Reino e cear
com Ele e seus amigos. Obviamente não há desculpas para não aceitar tal honra, e qualquer recusa será entendida como uma
afronta. O evangelho é ministrado de graça e tudo já está preparado para o grande evento. Os homens procuram eximir-se da
responsabilidade de atender ao convite do Senhor, pois preferem cuidar de suas propriedades terrenas a fazer parte do Reino (Jo
3.3,5); preferem trabalhar, ganhar, comprar e vender seus bens temporais a receber o Reino eterno de graça (Ef 2.8,9); preferem
seus relacionamentos no mundo, como o casamento, às bodas no céu. Assim que a Casa estiver com sua lotação preenchida,
virá o fim dos séculos e a completa implantação do Reino de Deus (Rm 11.25).
11
Jesus apreciava o uso das figuras de linguagem a fim de dar maior significado e amplitude aos seus ensinos. Aqui, ele
12
Então Jesus dirige-se ao que o havia
convidado e lhe exorta: “Quando deres
um banquete ou um jantar, não convides
os teus amigos, irmãos, ou parentes, nem
teus vizinhos ricos; se assim procederes,
eles poderão, da mesma maneira, convi-
dar-te, e desta forma sempre serás re-
compensado.
13
Pelo contrário, ao dares uma grande ceia,
convida os pobres, os deficientes físicos, os
mutilados e os que não podem ver.
14
Feliz serás tu, porque estes não têm como
te pagar. Entretanto, receberás tua régia re-
compensa na ressurreição dos justos”.
7
A parábola do grande banquetee
(Mt 22.1-14)
15
Ora, ao ouvir tais ensinos, um dos que
estavam reclinados ao redor da mesa,
enunciou: “Feliz será aquele que partilhar
do pão no banquete do Reino de Deus!”.
8
16
Jesus, contudo, declarou: “Certo ho-
mem estava preparando um notável ban-
quete e convidou muitas pessoas.
17
Próximo à hora do início da ceia,
enviou seu servo para anunciar aos que
haviam sido convidados: ‘Vinde! Eis que
tudo está preparado para vós’.
18
Contudo, um por um, começaram
a declinar com desculpas. O primeiro
alegou: ‘Acabei de adquirir uma grande
propriedade, e preciso ir vê-la. Por favor,
queiras desculpar-me!’.
19
Outro conviva explicou-se: ‘Acabei de
comprar cinco juntas de bois e preciso ir
experimentá-las. Rogo-te que me tenhas
por perdoado!’.
20
E outro ainda argumentou: ‘Acabo de
me casar, e por esse motivo, não posso ir’.
9
21
Diante disso, voltou o servo e tudo
relatou ao seu senhor. Então, o dono da
casa irou-se sobremaneira e ordenou ao
seu servo: ‘Sai agora mesmo para as ruas
e becos da cidade e traze para aqui os po-
bres, os aleijados, os cegos e os coxos’.
22
Mais tarde lhe relatou o servo: ‘Tudo o
que o senhor mandou está feito confor-
me a tua vontade, mas ainda há lugar!’.
23
Então ordenou o senhor ao seu servo:
‘Ide por vários caminhos e atalhos e os
que encontrar obriga-os a entrar, para
que a minha casa fique repleta.
24
Porquanto vos asseguro que nenhum
daqueles que previamente foram convi-
dados provará da minha ceia’”.
10
O custo de ser discípulo de Cristo
25
Milhares de pessoas acompanhavam
Jesus; então, dirigindo-se à multidão lhes
declarou:
26
“Se alguém deseja seguir-me e ama a
seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos,
seus irmãos e irmãs, e até mesmo a sua
própria vida mais do que a mim, não
pode ser meu discípulo.
11
27
Da mesma forma, todo aquele que não
LUCAS 14
LC_B.indd 57 16/8/2007, 13:18:10
58
se vale de uma hipérbole vívida (exagero) para revelar que o ser humano deve amar a Deus (Cristo) de forma mais completa e
abnegada, que a si próprio e à sua família imediata (Mt 10.37). A expressão “aborrece” como aparece em algumas versões, tem
o sentido de “amar menos...” e significa submeter tudo, de forma absoluta, inclusive a própria pessoa, a um compromisso total
com Cristo (16.13).
12
A expressão grega original carregar a sua cruz aparece em algumas versões como z tomar a sua cruz, mas tem o mesmo
sentido de seguir o exemplo de Cristo, consagrar-se absolutamente a Deus, não exatamente numa rebelião política ou militar
contra Roma, mas na causa do Reino, até o martírio. Em contraste com a vinda de Cristo para a salvação (Mt 11.28), devemos
segui-lo em todos os momentos, dia após dia, como discípulos fiéis. O custo do discipulado é a nossa rendição total ao Espírito
Santo em amor. Essa consagração deve ser maior e mais íntima do que todas as nossas afeições familiares (v.26), maior do que
todas as nossas vontades pessoais de carreira e sucesso (v.27), e maior do que nossa estima ao dinheiro, bens e poder (33).
Paulo compreendeu e pregava esse mistério (Fp 3.8).
13
Jesus é bem claro em nos advertir quanto à importância de não aceitarmos o compromisso do discipulado sem pensar bem
sobre seu alto custo e implicações eternas. Por isso não é correto pregarmos somente sobre as bênçãos de andarmos com Cristo;
devemos igualmente explicar a todos sobre a grande responsabilidade assumida com Deus por meio dessa decisão pessoal. O
perigo de uma decisão irresponsável e insincera é duplo: a zombaria pelo fracasso nesta vida, e a perda total na outra (Hb 2.1-3).
14
Jesus usa mais duas parábolas para frisar o custo de viver como cidadão do Reino na terra, bem como o preço que será
pago por todos aqueles que não aceitarem o convite do Senhor para o notável banquete. O ser humano sábio é como o rei cons-
ciencioso, que ao perceber o poder do Reino que se avizinha, não espera o confronto final, mas se rende e busca a paz.
15
Cristo compara o crente morno, espiritual e moralmente irresponsável, que não reflete sobre a importância da sua decisão de
seguir o Evangelho, com um tipo de sal que havia na Palestina no século I, o qual era tão impuro que perdia o pouco cloreto de
sódio que abrigava. Não servia para fertilizar o solo, nem mesmo para decompor-se de modo útil em meio ao esterco (Ap 3.16).
Capítulo 15
1
Os fariseus e os escribas (mestres da Lei) eram visceralmente contra os coletores de impostos (publicanos) e contra toda pes-
soa que não cumprisse rigorosamente as suas doutrinas e normas religiosas de comportamento. Referiam-se a essas pessoas
como “pecadores” (pessoas de má reputação). Cristo não apenas recebe o “pecador” como oferece a ele a Salvação (represen-
tada na partilha do pão). É importante lembrar que Jesus jamais participou do pecado, mas sempre amou aos pecadores e para
libertá-los das garras do pecado foi que Ele veio e entregou sua vida (3.12, vs. 4,8; Mc 2.15; At 11.3; 1Co 5.11; Gl 2.12).
2
Jesus responde ao questionamento dos legalistas com histórias de fundo teológico, filosófico e moral que contrapunham
o amor longânime de Deus ao exclusivismo dos fariseus, escribas e líderes religiosos. As três parábolas que se seguem: a do
carrega a sua própria cruz e segue após
mim não pode ser meu discípulo.
12
28
Porquanto, qual de vós, desejando
construir uma torre, primeiro não se
assenta e calcula o custo do empreendi-
mento, e avalia se tem os recursos neces-
sários para edificá-la?
29
Para não acontecer que, havendo pro-
videnciado os alicerces, mas não poden-
do concluir a obra, todas as pessoas que a
contemplarem inacabada zombem dele,
30
proclamando: ‘Este homem começou
grande construção, mas não foi capaz de
terminá-la!’
13
31
Ou ainda, qual é o rei que, pretenden-
do partir para guerrear contra outro rei,
não se assenta primeiro para analisar
se com dez mil soldados poderá vencer
aquele que vem enfrentá-lo com vinte
mil?
32
Se chegar à conclusão de que não po-
derá vencer, enviará uma delegação, es-
tando o inimigo ainda longe, e solicitará
suas condições de paz.
33
Assim, portanto, todo aquele dentre
vós que não renunciar a tudo quanto de
mais estimado possui não pode ser meu
discípulo.
14
34
Portanto, bom é o sal, mas ainda ele, se
perder o sabor, como restaurá-lo?
35
Não serve nem para o solo nem mes-
mo para adubo; será apenas lançado
fora. Aquele que tem ouvidos para ouvir,
ouça!”.
15
Jesus come com os pecadores
15
E aconteceu que todos os peca-
dores, como os coletores de im-
postos e pessoas de má fama estavam se
reunindo para ouvir a Jesus.
2
Entretanto, os fariseus e os mestres da
Lei o censuravam murmurando: “Este
saúda e se mistura a pessoas desqualifi-
cadas e ainda partilha do pão com elas”.
1
A parábola da ovelha perdida
(Mt 18.10-14)
3
Foi então que Jesus lhes propôs a se-
guinte parábola:
2
4
“Qual, dentre vós, é homem que, pos-
LUCAS 14, 15
LC_B.indd 58 16/8/2007, 13:18:10
59
pastor que busca; a da mulher que sofre com a perda; e do pai que jamais deixa de amar e perdoa, ensinam o significado do
arrependimento (12.54). A volta dos que se extraviaram produz um enorme regozijo no coração de Deus.
3
Referências ao pastor e o pastoreio eram comuns durante toda a história do povo judeu. Grandes líderes nacionais e profetas
apreciavam esse tema (Sl 23; Is 40.11; Ez 34.11-16). Algumas versões trazem a expressão “deserto”, todavia não tem a ver
com dunas de areia, mas com campos de pasto não cultivados (Jo 6.10). Jesus nos exorta, como cristãos, a “ir em busca” dos
perdidos – como maior estratégia de evangelização – e não simplesmente adotarmos uma postura insensível, crítica e punitiva
(14.21,23). Deus em Cristo é nosso maior exemplo de evangelista. Seu amor e persistência em procurar salvar a humanidade
ultrapassam a gravidade do pecado humano e a sua própria soberania intocável (Ez 34.6,11 em relação a Gn 3.9,10).
4
Jesus, em algumas ocasiões, valia-se da ironia para destacar o pecado e completa miopia espiritual daqueles que deveriam
ser homens de Deus perante seu povo. Os que se consideram justos não sentem a necessidade de se arrepender dos seus
pequenos delitos, e acabam pecando por sua arrogância, orgulho e insensibilidade.
5
Lucas faz referência a uma moeda grega (dracma) e não romana (denário). O valor monetário dessas moedas era próximo e
equivalia a um dia de trabalho (Mt 20.2). As casas da Palestina, na época de Jesus, não tinham janelas, e o chão era de barro, o
que tornava ainda mais difícil a localização de uma pequena moeda.
6
Um pai judeu podia dividir sua herança entre os filhos quando desejasse (garantindo ao filho mais velho o dobro de todos os
bens da família, conforme Dt 21.17 e outros textos da Torá), retendo para si, entretanto, as respectivas rendas que obtinha com
a pr