Pelo Socialismo

Questões político-ideológicas com atualidade
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Publicado em: http://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1933/12/25.htm Tradução do inglês de PAT Colocado em linha em: 2014/01/27

Conversa com 0 Sr. Duranty – Correspondência do New York Times
I V Stálin
25 de dezembro de 1933

Duranty: Concordaria em enviar uma mensagem ao povo americano através do The New York Times ? Stálin: Não. Kalinin já enviou uma1, e eu não posso interferir no que é uma sua prerrogativa. Se é uma questão de relações entre os EUA e a URSS, estou, obviamente, satisfeito com a sua renovação, que é um ato de enorme significado: politicamente, porque aumenta as oportunidades de preservar a paz; economicamente, porque remove elementos estranhos e torna possível aos nossos dois países discutir questões de interesse para ambos, numa base negocial; por último, abre o caminho para uma cooperação mútua. Duranty: Qual será, na sua opinião, o possível volume de comércio soviéticoamericano ? Stálin: O que Litvinov disse na conferência2 económica de Londres ainda é válido. Nós somos o maior mercado do mundo e estamos prontos para encomendar e pagar
Isto refere-se à alocução, através de rádio, de M I Kalinin ao povo americano, em 20 de novembro de 1933, relacionada com o estabelecimento, em 16 de novembro de 1933, de relações diplomáticas entre a URSS e os EUA. 2 Realizou-se em Londres uma conferência económica mundial, de 12 de junho a 27 de julho de 1933. Os seus iniciadores – a Grã-Bretanha e outros países capitalistas – tentaram apresentá-la como um remédio soberano para pôr fim à crise económica e para a "reabilitação" do capitalismo. A conferência destinava-se a discutir os problemas da estabilização das moedas, da organização da produção e do comércio, abolindo barreiras alfandegárias e estabelecendo a paz económica entre todos os países capitalistas. Expressando o inalterável desejo da URSS de promover a causa da paz e fortalecer os laços comerciais, a delegação soviética na conferência apresentou uma proposta para a celebração de um pacto de não agressão económica e, por outro lado, declarou que a União Soviética estava preparada para fazer encomendas no exterior no valor de 1.000 milhões de dólares, na base de créditos a longo prazo e da criação de condições normais para as exportações soviéticas. As propostas da delegação soviética não foram apoiadas pela conferência. A conferência revelou a completa incapacidade do mundo capitalista para encontrar uma forma de sair da crise económica e da posterior intensificação das contradições entre os países capitalistas,
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uma grande quantidade de mercadorias. Mas precisamos de condições de crédito favoráveis e, além disso, podem ter a certeza de que teremos capacidade para pagar. Não podemos importar sem exportar, porque não queremos fazer encomendas sem ter a certeza da nossa capacidade de pagar atempadamente. Todo mundo está surpreendido por estarmos a pagar e sermos capazes de o fazer. Eu sei que, precisamente agora, não é moda pagar créditos. Mas nós fazemo-lo. Outros governos pararam os pagamentos, mas a URSS não o fez e não vai fazê-lo. Muitos acreditavam que não éramos capazes de pagar, que não tínhamos os meios para tal, mas estamos a mostrar-lhes que podemos pagar e eles tiveram de reconhecer isso. Duranty: E sobre a extração de ouro na URSS ? Stálin: Temos muitos distritos auríferos e estão a ser rapidamente desenvolvidos. A nossa extração já é o dobro da do período czarista e ascende agora a mais de uma centena de milhões de rublos por ano. Melhorámos os nossos métodos de prospeção, particularmente durante os últimos dois anos, e descobriram-se grandes depósitos. Mas as nossas indústrias ainda são jovens – não só a indústria do ouro, mas também as indústrias respeitantes ao ferro gusa, aço, cobre e toda a metalurgia – e, por enquanto, as nossas jovens indústrias não estão em posição de dar a assistência adequada à indústria do ouro. Os nossos índices de desenvolvimento são rápidos, mas o volume da extração ainda não é grande. Podíamos quadruplicar a produção de ouro dentro de um curto período de tempo, se tivéssemos mais dragas e outra maquinaria. Duranty: Qual é o endividamento soviético total em créditos estrangeiros? Stálin: Um pouco mais de 450 milhões de rublos. Durante os últimos anos, temos pago grandes somas – há dois anos, devíamos 1.400 milhões em contas de crédito. Pagámos tudo o que se venceu e continuaremos a pagar o que falta, até ao final de 1934 ou início de 1935, nas datas de vencimento. Duranty: Garantido que não há mais qualquer dúvida sobre a disposição soviética para pagar; mas quanto à capacidade soviética para pagar ? Stálin: Connosco, não há diferença entre a primeira questão e a segunda, porque nós não assumimos obrigações que não possamos liquidar. Olhe para as nossas relações económicas com a Alemanha. A Alemanha declarou uma moratória sobre uma parcela considerável das suas dívidas externas e poderíamos ter-nos aproveitado deste precedente e agir da mesma forma em relação a ela. Mas não estamos a fazer isso. E, aliás, não estamos agora tão dependentes como antes da indústria alemã. Nós mesmos podemos manufaturar o equipamento de que precisamos. Duranty: O que pensa da América ? Ouvi dizer que teve uma longa conversa com Bullitt. Qual é a sua opinião sobre ele ? Considera, como há três anos, que a nossa crise, como então me disse, não é a última crise do capitalismo ?

principalmente entre a Grã-Bretanha e os EUA e entre a Alemanha e os seus credores. Após discussões infrutíferas, a conferência terminou em fracasso, sem se resolver uma única das questões levantadas.

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Stálin: Bullitt deixou uma boa impressão em mim e nos meus camaradas. Nunca o tinha visto antes, mas tinha ouvido falar muito sobre ele a Lenine, que também gostava dele. O que me agrada nele é que não fala como o diplomata comum – é um homem íntegro e diz o que pensa. Em geral, produziu uma impressão muito boa aqui. Roosevelt, por todos os motivos, é um político determinado e corajoso. Há um sistema filosófico, o solipsismo, que sustenta que o mundo exterior não existe e que a única coisa que existe é o próprio eu. Durante muito tempo parecia que o governo americano subscrevia este sistema e não acreditava na existência da URSS. Mas Roosevelt, evidentemente, não é um apoiante desta estranha teoria. Ele é um realista e sabe que a realidade é como ele a vê. Quanto à crise económica, efetivamente, não é a última. A crise, naturalmente, afetou todos os negócios; mas parece que, ultimamente, os negócios começam a recuperar. É possível que o ponto mais baixo da recessão económica já tenha sido ultrapassado. Não penso que o nível de crescimento de 1929 será alcançado, mas uma transição da crise para a depressão e para um certo renascimento dos negócios no futuro próximo – na verdade, com algumas flutuações para cima e para baixo, dentro de certos limites – não só não é de afastar, como talvez seja mesmo provável. Duranty: E sobre o Japão? Stálin: Gostaríamos de manter boas relações com o Japão, mas, infelizmente, isso não depende só de nós. Se uma política sensata ganhar o poder no Japão, os nossos dois países podem viver em amizade. Mas temos receio de que elementos belicosos possam atirar borda fora uma política sensata. É aí que reside o perigo real e somos obrigados a preparar-nos contra ele. Nenhuma nação pode ter qualquer respeito pelo seu governo, se este vê o perigo de um ataque e não toma medidas de auto-defesa. Na minha opinião, o Japão agiria imprudentemente se atacasse a URSS. A sua condição económica não é particularmente boa, tem pontos fracos, tal como a Coréia, a Manchúria e a China, e, além disso, dificilmente pode contar com a obtenção de apoio de outros países nesta aventura. Infelizmente, bons especialistas militares não são sempre bons economistas e nem sempre conseguem distinguir entre a força das armas e a força das leis económicas. Duranty: E quanto à Grã-Bretanha? Stálin: Eu penso que um acordo comercial com a Grã-Bretanha será assinado e as relações económicas desenvolver-se-ão, uma vez que o Partido Conservador está à beira de reconhecer que não tem nada a ganhar em colocar obstáculos no caminho do comércio com a URSS. Mas duvido que, nas presentes condições, os dois países sejam capazes de retirar grandes vantagens desse comércio, como alguém poderia supor. Duranty: O que pensa da reforma da Liga das Nações, como propuseram os italianos ? Stálin: Não recebemos propostas sobre essa questão da Itália, apesar de o nosso representante ter discutido o assunto com os italianos.

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Duranty: É sempre totalmente negativa a sua atitude para com a Liga das Nações? Stálin: Não, nem sempre e nem em todas as circunstâncias. Talvez você não entenda completamente o nosso ponto de vista. Apesar da retirada da Alemanha e do Japão da Liga das Nações – ou, possivelmente, apenas por causa disso – a Liga pode tornar-se um fator de atraso do início de hostilidades ou preveni-las de todo. Se assim é, se a Liga conseguir ser parte de um obstáculo que, pelo menos, torne a guerra um tanto mais difícil e a paz, até certo ponto, mais fácil, então não seremos contra a Liga. Sim, se tal for o curso dos acontecimentos históricos, a possibilidade de apoiarmos a Liga das Nações não está excluída, apesar das suas deficiências colossais. Duranty: Qual é agora o mais importante problema de política interna da URSS ? Stálin: O desenvolvimento do comércio entre a cidade e o campo e a melhoria de todas as formas de transporte, principalmente as ferrovias. Resolver estes problemas não é fácil, mas é mais fácil do que os problemas que já resolvemos, e estou confiante de que vamos resolvê-los. O problema da indústria está resolvido. O problema da agricultura, dos camponeses e das fazendas coletivas – o mais difícil de todos – também já pode ser considerado resolvido. Agora, temos de resolver o problema do comércio e transporte.
Pravda n º 4, 4 de janeiro de 1934

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