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BREVE HISTÓRICO SOBRE A DEFICIÊNCIA1

ROCHA, M. S.

Para se ter a dimensão do entendimento que a sociedade tem sobre o

indivíduo deficiente precisamos nos reportar ao passado, e localizar nas

diferentes épocas, o retrato que se fixou, culturalmente, sobre a idéia das

diferenças individuais e que se converteu no atual modelo de atendimento a este

sujeito nas várias instituições, principalmente no sistema de ensino regular.

A compreensão da pessoa portadora de necessidades educativas

especiais sofreu transformações no decorrer do processo histórico que

repercutiram na sua conscientização e encaminhamento educacional.

Do ponto de vista da moral moderna, pode-se dizer que é possível

constatar avanços (lentos, mas graduais) na maneira como a sociedade encarou

e manejou a questão da deficiência.

Assim como a loucura, a deficiência na antigüidade oscilou entre dois polos

bastante contraditórios: ou um sinal da presença dos deuses ou dos demônios;

“ou algo da esfera do supra-humano ou do âmbito do infra-humano” como coloca

Amaral (1994, p. 14).

As interpretações místicas e sobrenaturais dos desvios persistiram muito

tempo depois de terem sido aceitas as explicações naturalistas dos eventos

comportamentais e seqüência de desenvolvimento mais comuns.

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Texto extraído de:
ROCHA, Márcia S. O Processo de Inclusão na Percepção do Docente do Ensino Regular e Especial.
Monografia apresentada como conclusão do curso de Pós-graduação em Educação Especial – Área de
Deficiência Mental, Universidade Estadual de Londrina. 2000, p. 3-10.
Mazzotta (1995), em sua análise histórica, interpreta que até o séc. XVIII as

noções a respeito de deficiência eram basicamente ligadas ao misticismo e

ocultismo, não havendo base científica para o desenvolvimento de noções

realísticas. Foi na Europa que se deram os movimentos pioneiros para o

atendimento do indivíduo deficiente, isto também na forma de uma prática

educacional.

Silva (1987) pontua que nas culturas primitivas, embora houvesse todo um

crédito sobre as forças sobrenaturais (animismo) e a feitiçaria, não havia, para

certas tribos, o relacionamento de defeitos físicos com algum tipo de magia.

Algumas tribos acreditavam que os maus espíritos habitavam essas pessoas e

nelas arquitetavam e se deliciavam, para tornar possível a todos os demais

membros a normalidade.

Historicamente, a trepanação praticada pelo homem pré-histórico, sugere

que ele aceitou uma concepção demoniológica da natureza e origem dos desvios

mentais, pois era realizada para permitir que os espíritos malignos escapassem

do corpo. Já os esquimós lançavam todos os deficientes e todos os idosos nas

áreas fronteiriças do Canadá, onde havia um alto fluxo de ursos brancos (que

eram tratados como sagrados) e, deste modo, eliminavam dois problemas: o da

fome destes animais e o da tribo, com a não presença do indivíduo indesejado em

seu meio (PLATT, 1999).

E assim, a crença do homem em espíritos benignos ou malignos como

causa do comportamento anormal tem sido evidente, desde o começo da história

documentada

. Nos povos antigos, como por exemplo, os hebreus, a presença da

deficiência, tanto nas pessoas como nos animais, era considerada como

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abominação, devido a associação reducionista da questão da “imagem e

semelhança a Deus”, marginalizando e segregando os que assim não se

identificassem.

Já os gregos e romanos se atinham aos mitos para segregar os opositores

políticos e manipular o povo, segundo os “obscuros e caprichosos desígnios dos

deuses” (PLATT, 1999, p. 6). Com base nesses mitos pode-se descrever o perfil

do cidadão perfeito, saudável, que dominaria os demais por seus dotes físicos e

mentais, com sagacidade e que não toleraria a fraqueza e a repugnância daquele

que se apresentasse “feio”.

Goffmann (1975, p. 11) pontua que os gregos criaram o termo estigma para

se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma

coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. “Os

sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um

escravo, um criminoso ou traidor – uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que

deveria ser evitada, principalmente em lugares públicos”.

Na Idade Média, a questão da bruxaria/feitiçaria emergiria de forma mais

contundente, haja visto o domínio absoluto da Igreja Católica nas questões da

sociedade sob um amplo aspecto, não mais sob a alegação da vontade dos

deuses, mas na presumida manifestação demoníaca em indivíduos que não se

moldassem às vontades da corte e do clero (PLATT, 1999).

Neste período, o deficiente estava inserido na idéia do indivíduo que já era,

por natureza, possesso por entidades malignas. A ignorância científica para

esclarecer as doenças (e as seqüelas subseqüentes) conduziam o povo,

independente de sua situação financeira, a crer que os males se davam de forma

obscura e misteriosa, como explicavam as heresias espirituais transmitidas pelos

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chefes religiosos da Igreja Católica, aferindo ao indivíduo com aspectos físicos

comprometidos, a associação simplista de crer estar sua mente em conformidade

ao corpo defeituoso, igualmente desvirtuada.

Se por um lado o corpo era visto como templo de Deus/alma, por outro, era

tachado de oficina do diabo. É essa concepção que relaciona a deficiência com o

pecado, que traz a compreensão dos horrores da segregação e da

estigmatização, principalmente das milhares de pessoas que foram eliminadas

através da fogueira da inquisição, onde a queima de um deficiente, de uma

pessoa supostamente possuída pelo demônio, não ocorria por maldade, mas

como forma de “purificar a alma” (CARMO apud PLATT, 1999).

Outra forma adotada pela igreja para explicar a existência de deficientes

era de que eles eram instrumentos de Deus para alertar os homens, para agraciar

as pessoas com a possibilidade de fazerem caridade. Assim, a desgraça de uns

proporcionava meios de salvação de outros.

Os mil anos de Idade Média foram um período de trevas para a ciência,

pois o sobrenaturalismo como a prática da magia e o intercurso com demônios

acabaram sendo dogmas aceitos. A atitude cristã primitiva para com o indivíduo

anormal era incoerente, algumas vezes considerando-os obra do demônio e

outras vezes interpretados como possessões divinas. No final da Idade Média,

essa atitude tornou-se ainda mais incoerente e vacilante. Alguns enfermos

mentais eram admitidos em hospitais para tratamento, enquanto que muitos

“possessos” eram queimados como bruxos. Surgiram algumas atitudes

benévolas, mas quando a psicopatia se tornou epidêmica, as correntes,

flagelações e tições incandescentes passaram a ser os instrumentos para lidar

com essa gente (TELFORD, 1984).

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O indivíduo anormal passou a ser temido e os terrores da Inquisição

fizeram com que as famílias e amigos dos pacientes mentais o repudiassem.

Deixavam-nos ficar vagueando pelos campos, se arranjando como pudessem.

Na Renascença, os fundamentos humanísticos exigiam que a postura

diante da pesquisa naturalista sobre os males físicos, de certa forma,

avançassem. Embora não houvesse manifestações de se retirar efetivamente os

deficientes da marginalização, existiram alterações diante do contexto entre as

relações dos ditos “normais” e dos ditos “deficientes” (PLATT, 1999).

Durante o Renascimento, alguns médicos levantaram objeções aos maus

tratos de que eram vítimas os “possessos”. Paracelso (1493-1541) tornou-se

famoso porque defendeu o uso da medicina no tratamento das aberrações

mentais, em vez de exorcismos.

Historicamente, os filósofos e os médicos têm sido os mais influentes na

promoção da transição da concepção sobre deficiência. Gradativamente, a partir

do século XVI, a questão da deficiência passa da órbita da igreja para tornar-se

objeto da medicina. A visão teológica da deficiência perde força, mas coloca

bases para uma interpretação organicista (TELFORD, 1984).

Vários estudiosos, tais como: Esquirol, Belhomme, Pinel, Fodéré, Morel,

entre outros, colaboraram para a afirmação da visão fatalista da deficiência, onde

o inatismo era utilizado como explicação aceitável e que pouco era possível fazer,

sendo que o remédio era segregá-los, já que os excepcionais eram vistos como

um perigo para si e para a sociedade. Estas idéias ultrapassaram os séculos,

dando origem a ideais como os do nazismo, que pregava a purificação da raça.

A transição do feudalismo para o capitalismo traz mudanças profundas,

repercutindo em todas as direções, já que o capitalismo surge como um processo

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civilizatório. A partir do século XVI, a burguesia, enquanto classe em processo de

hegemonia, vai permear e impregnar a si e tudo o que a cerca com o seu ideário

que foi batizado como liberalismo. O gradativo predomínio de uma produção

voltada para o mercado, a possibilidade de acumulação, o desenvolvimento de

uma ciência e tecnologia que garantirão um gradativo domínio do homem sobre a

natureza, diferencia-se da situação anterior em que os homens viviam

diuturnamente envolvidos com a produção para a subsistência, e vai possibilitar

que o homem passe do reino das necessidades para o reino da liberdade

(PLATT, 1999).

Em termos de forma de produção, a humanidade passou do artesanato

para a manufatura no séc. XVI e desta para a maquinofatura, a partir do séc.

XVIII. Na forma artesanal, o ritmo de produção é acoplado às necessidades de

consumo e às possibilidades e limites do corpo. Já na maquinaria, o ritmo passa a

ser ditado pela máquina, já que a produção é em série, única forma de suprir o

mercado, meio pelo qual a burguesia alcança o lucro, a acumulação. Com a

produção em série impõe-se o especialismo, exigindo de cada pessoa a eficiência

no desempenho de sua tarefa.

No séc. XX, com o extraordinário avanço tecnológico, liberta-se o homem

de todo o trabalho repetitivo, desumano, e isso vai repercutir na questão da

deficiência. Nesse contexto, a definição de deficiência perde o caráter oficial e

universal, passando a ser contingencial, colocando que alguém é deficiente

somente em um contexto temporal, espacial e socialmente determinado,

começando a compreender a necessidade de se especificar critérios segundo os

quais o indivíduo é deficiente (OMOTE, 1994; AMARAL, 1994).

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Os estudos começam a dar importância para noções como auto-conceito,

auto-imagem e auto-estima do deficiente, como sendo importantes elementos

com os quais se deve trabalhar no atendimento destinado a ele. Surgem teóricos

defendendo a postura da eliminação do termo deficiência, argumentando que este

possui uma história que evoca imagens negativas, e que não traz benefícios aos

indivíduos rotulados nesta condição.

Segundo Omote (1994), ao rever os vários conceitos de deficiência,

percebe-se a existência de duas tendências: de um lado, há a conceituação da

deficiência como um atributo inerente à pessoa deficiente, como algo que

caracteriza o seu organismo ou o seu comportamento; de outro, a delimitação do

objeto de conceituação tem sido baseada em áreas supostamente específicas de

comprometimento.

Percebe-se que as abordagens centradas na pessoa deficiente impedem

de se analisar o aspecto da construção social da deficiência. É necessário incluir

as reações de outras pessoas como parte integrante e crucial do fenômeno, pois

são essas reações que definem alguém como deficiente ou não-deficiente

(OMOTE, 1994).

As reações apresentadas por pessoas comuns face às deficientes ou às

deficiências não são determinadas necessariamente por características presentes

num dado quadro de deficiência, mas dependem da interpretação, fundamentada

em crenças, científicas ou não, que se faz desse quadro.

Por outro lado, numa tentativa de sistematizar conceituações e criar uma

terminologia passível de universalizar-se, a Organização Mundial da Saúde

(OMS), divulgou em 1980, após exaustivas discussões sobre o tema, sugestões

de padronização de termos e conceitos (AMARAL, 1994).

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Relacionado a conceitos, Amaral (1994) entende que a “Deficiência

Primária” engloba o impedimento, dano ou anormalidade de estrutura ou função,

é a deficiência propriamente dita – restrição/perda de atividades, seqüela: o não

ver, o não manipular, o não andar. Refere-se portanto, aos fatores intrínsecos, às

limitações em si.

Já a “Deficiência Secundária” estaria ligada ao conceito de incapacidade e,

em decorrência, de desvantagem. Ou seja, a condição da deficiência

caracterizando uma situação de desvantagem, o que, naturalmente só é possível,

num esquema comparativo: aquela pessoa em relação ao seu grupo.

Diferentemente da deficiência primária, incidem sobre ela também fatores

extrínsecos, ou seja, a deficiência é aquela não inerente necessariamente à

diferença em si, mas ligada também à leitura social que é feita dessa diferença.

Incluem-se aqui, portanto, as significações afetivas, emocionais, intelectuais que o

grupo atribui a dada diferença.

As atitudes frente ao portador de deficiência correspondem a um

posicionamento (quase corporal) frente a dado fenômeno. Exprimem um

sentimento e preparam, em princípio, uma ação. Referem-se, portanto, a uma

disposição psíquica ou afetiva em relação a determinado alvo: pessoa, grupo ou

fenômeno. Por ser anterior ao comportamento propriamente dito, elas são

inferíveis pelos atos e pelas crenças manifestadas (AMARAL, 1994)

É sempre importante sublinhar que o desconhecido é a matéria prima para

a perpetuação das atitudes preconceituosas e das leituras estereotipadas da

deficiência, seja esse desconhecimento relativo ao fato em si, às emoções

geradas ou às reações subseqüentes.

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REFERÊNCIAS

AMARAL, L. A. (1994) Pensar a Diferença/ Deficiência. Brasília: CORDE.

GOFFMANNN, E. (1975) Estigma. Rio de Janeiro:Zahar.

Mantoan, M. T. E. (1997) A Formação de Professores no âmbito da Integração

Escolar. Revista Integração. 7 (18), 34 -9.

MAZZOTA, M. J. S. (1995) Educação Especial no Brasil: histórias e políticas

públicas. São Paulo: Cortez.

PLATT, A. D. (1999) Revisitando a História Quanto à Produção da Deficiência.

Cadernos de Educação Especial, 13, 5-20.

SILVA, O. M. (1987) A Epopéia Ignorada: a pessoa deficiente na história do

mundo de ontem e de hoje. São Paulo: Cedas.

TELFORD, C. W. & SAWREY, J. M. (1984) O Indivíduo Excepcional. Rio de

Janeiro: Zahar.