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Mimese: Recriação da realidade , a partir dos preceitos platônicos, segundo os quais o artista, ao dar forma à matéria, imita o mundo das idéias.

Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1 ed. 2001.

Fórmula e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H. MIMESE

Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1 ed. 2001. Fórmula e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E.

Fórmula e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H. MIMESE

A revolução grega pode ter mudado a função e as formas da arte. Não pôde mudar a lógica da fabricação de imagens, pelo simples fato de que sem um meio expressivo e sem um esquema capaz de ser moldado e modificado nenhum artista pode imitar a realidade.

Sabemos que nome os antigos davam às suas, schematas; referiam-se a elas como o cânon, isto é, as relações básicas, geométricas que o artista tem de conhecer para a construção de uma figura plausível.

Mas o problema do cânon acabou suplantado na arte grega pela busca da verdade e da proporção, de modo que talvez devamos escolher outro ponto de partida à margem dos domínios da grande arte para continuar a nossa investigação da mimese.

Cariátides ( Erecteion - Acrópole, Atenas, séc. V a.C.)

grande arte para continuar a nossa investigação da mimese. Cariátides ( Erecteion - Acrópole, Atenas, séc.

Podemos encontrar esse ponto de partida numa tese de doutoramento sobre a psicologia do desenho em que o autor, F. C. Ayer sumariza da seguinte maneira as suas conclusões: "O artista profissional adquire uma grande quantidade de schemata com a qual produz rapidamente no papel o esquema de um animal, de uma flor, de uma casa.

Fórmula e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H. SCHEMATA

e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H. SCHEMATA A Virgem com o Menino e Santa

A Virgem com o Menino e Santa Anna (Óleo sobre tela, 168 x 130 cm, 1508)

A Virgem, o Menino, Santa Anna e S. J. Batista (Carvão sobre cartão, 141,5 x 104 cm, 1495)

Rafael – Madona di Campi (Têmpera s/madeira, 113 x 88 cm, 1506)

Batista (Carvão sobre cartão, 141,5 x 104 cm, 1495) Rafael – Madona di Campi (Têmpera s/madeira,
Batista (Carvão sobre cartão, 141,5 x 104 cm, 1495) Rafael – Madona di Campi (Têmpera s/madeira,

Esse esquema lhe serve de apoio para a representação de imagens da sua memória e ele modifica gradualmente o esquema, até que corresponda àquilo que deseja exprimir.

Muitos desenhistas deficientes em schemata que sabem copiar outro desenho não sabem copiar o objeto."

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e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H. SCHEMATA Leonardo da Vinci São João Batista (Óleo

Leonardo da Vinci São João Batista (Óleo sobre tela, séc XVI)

Leonardo da Vinci São João Batista (Óleo sobre tela, séc XVI) Leonardo da Vinci Baco (Óleo

Leonardo da Vinci Baco (Óleo sobre tela, séc XVI)

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Na verdade, aquilo que chamei de "patologia do retrato", os curiosos erros feitos por copistas e artistas topográficos, muitas vezes se deve à falta de um esquema.

Duvido, no entanto, que haja artistas hoje que gostariam de ser classificados entre os "desenhistas profissionais" que o psicólogo observou e descreveu.

que gostariam de ser classificados entre os "desenhistas profissionais" que o psicólogo observou e descreveu.

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Seu relato não deixa de lembrar aqueles manuais para amadores que prometem ensinar “como desenhar uma árvore", "como desenhar passarinhos", navios a vela, aeroplanos ou cavalos.

Onde há fumaça em geral há fogo. A quantidade de livros dessa espécie que as máquinas impressoras vomitam ano sim ano não deve ser tão grande quanto o sagrado horror do artista a esses "truques". Existem livros para os interessados mostrando como desenhar mãos, pés e olhos, bem como excelentes enciclopédias que ensinam tudo isso e muito mais em meia dúzia de lições. Mas todos esses livros partem do princípio que seria de esperar da fórmula "esquema e correção".

Ensinam o um cânon singelo e mostram como construir o requerido vocabulário com base em formas geométricas, fáceis de lembrar e fáceis de desenhar, como o pato que eu aprendi a fazer quando criança.

Entre os mais simples, devemos citar o ABC do desenho de Allen, Graphic Art in Easy Stages, mas o princípio é o mesmo em livros mais sérios, como How to Draw Birds, de R. Sheppard .

Art in Easy Stages , mas o princípio é o mesmo em livros mais sérios, como

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Essas lições para o artista principiante podem ser comparadas a certos “métodos de construção de imagens observados na arte primitiva. As civilizações antigas aprenderam a representar olhos classificando-os como conchas de caurim. O amador aprende hoje a classificar e ordenar as formas básicas das coisas em termos de algumas distinções geométricas. Só depois que aprendeu a construir a imagem de uma ave, ele deve sair e estudar as aves que deseja retratar; e só no fim deve registrar as características que identificam primeiro a espécie e depois a ave, individualmente.

Ora, todo o clima da arte do nosso tempo é hostil a tais processos. Pois não acabamos de nos livrar dos processos enfadonhos e lúgubres pelos quais os meninos do tempo da rainha Vitória aprendiam a desenhar o esquema de uma folha que mal tinham visto a distância e que, sem dúvida nenhuma, tinha aspecto totalmente diverso ? Haverá coisa mais fatal para a espontaneidade e a imaginação do que o aprendizado mecânico recomendado por esses métodos?

coisa mais fatal para a espontaneidade e a imaginação do que o aprendizado mecânico recomendado por

A volta ao ideal clássico da imagem "convincente" no Renascimento não mudou necessariamente a natureza do problema. Apenas criou padrões mais rigorosos para a representação de universais, fossem eles leões ou homens. Mas sob um aspecto nunca seria demais encarecer a importância desses novos modelos. Como na idade clássica, a narrativa deveria ser de novo apresentada ao observador como se ele fosse testemunha ocular de acontecimentos imaginários.

Alberti tirou a conclusão final dessa exigência renovadora ao descrever a moldura como a janela através da qual o observador contempla o mundo do quadro. Para satisfazer essa exigência, era preciso conhecer as modificações sofridas pelo esquema em virtude do ângulo de visão, ou, em outras palavras, era preciso conhecer aquele ramo da geometria projetiva conhecido como "perspectiva”.

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Vittore Carpaccio (São Jorge e o Dragão: 1507) A Trindade (Masaccio – Florença; Sta. Maria
Vittore Carpaccio
(São Jorge e o Dragão: 1507)
A Trindade
(Masaccio – Florença; Sta. Maria Novella
1428; afresco 6,67x3,17m)

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e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H. SCHEMATA Não bastava ter um manual com graciosos

Não bastava ter um manual com graciosos modelos de cães em disparada. Era preciso visualizar o modelo tridimensional do cão se o pintor quisesse que ele parecesse convincente quando visto em diversas posições, como em A caçada, de Uccello.

Com Paolo Uccello ainda percebemos o esquema. Ele pode muito bem ter construído primeiro um modelo em madeira e executado os escorços geometricamente. Mas o artista do Renascimento que quisesse povoar a sua cena livremente com todo tipo de coisas vivas não podia depender desses circunlóquios. Tinha de lutar por um conhecimento tão perfeito dos universais, conhecer tão a fundo a estrutura das coisas, que fosse capaz de visualizá-las em qualquer contexto espacial.

Fórmula e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H. ARTE & CIÊNCIA

O mais ilustre exemplo dessa união natural entre conhecimento e arte é, naturalmente, Leonardo da Vinci. Parece haver uma distância enorme entre os artifícios geométricos de Villard ou seu leão heráldico e a incessante busca por Leonardo da forma orgânica. E, no entanto, os dois se aparentam por estarem, ambos, orientados para o "universal". Um exemplo bastará. Leonardo estava obviamente insatisfeito com o método corrente de desenhar árvores. Sabia fazer melhor. "É preciso lembrar”, ensinou, "que, sempre que um galho se bifurca, seu diâmetro fica mais fino, de modo que, se desenharmos um círculo em torno da copa da árvore, as seções de cada ramificação devem dar, juntas, a grossura do tronco.“

Não sei se essa lei é boa. Na minha opinião, não é. Mas, como uma indicação de "como desenhar uma árvore”, a observação de Leonardo é inestimável. Ensinando aquilo que supunha ser a lei do crescimento das árvores, ele deu ao artista uma fórmula para construí-Ias – e pôde, com justiça, sentir-se ainda como o criador, "senhor e mestre de todas as coisas”, que conhece os segredos da Natureza e é capaz de "fazer" árvores - como esperava ser capaz de "fazer", um dia, um pássaro que voasse.

e é capaz de "fazer" árvores - como esperava ser capaz de "fazer", um dia, um

Fórmula e Experiência Arte e Ilusão GOMBRICH, E. H.

Acredito que aquilo que chamamos de preocupação dos artistas do Renascimento com a estrutura tem um fundamento muito prático na necessidade que eles sentiam de conhecer o esquema das coisas.

Porque, de certo modo, nosso conceito de “estrutura”, a idéia de algum esqueleto básico ou armadura que determina a "essência” das coisas reflete nossa necessidade de um esquema com o qual abranger a infinita variedade deste mundo de mudança.

Não admira que tais questões tenham ficado um tanto anuviadas pela bruma metafísica que se abateu sobre as discussões em torno da arte nos séculos XVI e XVII.

M. C. Escher Waterfall (1961)

metafísica que se abateu sobre as discussões em torno da arte nos séculos XVI e XVII.