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Bizâncio e Europa - Ilustrado & rev - Speros Vryonis

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Published by: Pe. João Manoel Sperandio on Oct 05, 2009
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Se a invasão dos Árabes, Eslavos e Lombardos redundou na crise do corpo

do império, a controvérsia iconoclasta poderá definir-se como a crise da alma do

império. A discussão sobre a admissibilidade de imagens na arte religiosa

irrompeu no século VIII. Na altura em que Leão III começou a atacar o uso das

imagens como acto de idolatria, a importância dos ícones na piedade e na arte de

Bizâncio era quase igual à reverência e dedicação dos greco-romanos pelas

estátuas religiosas. A luta entre os iconoclastas e os defensores dos ícones

tornou-se tão azeda que envenenou a sociedade durante mais de um século. A

admissão das imagens pela Igreja na arte religiosa durante os séculos III e IV foi

de grande importância pois, se a Igreja as não houvesse

49. Um iconoclasta borrando, a cal, uma imagem.

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50. Os iconoclastas trocaram as imagens por símbolos. Esta cruz, que substituiu
o mosaico da abside, pode ainda ver-se em Santa Irene,

permitido, as tradições artísticas greco-romanas ter-se-iam desvanecido e a arte

européia, provavelmente, tomado uma feição semelhante à islâmica. Mas, não

obstante a aceitação por parte da Igreja destas tradições, apareceu logo de início

no seu seio uma voz que condenava as imagens porque, dizia, se relacionavam

com práticas pagãs e porque o seu uso contrariava a proibição mosaica da

imagem esculpida. Apesar disso, tornou-se perceptível a intensificação do culto

dos ícones na última metade do século VI, quando a desintegração dos negócios

políticos levou o homem a acreditar em intervenções miraculosas, mágicas e

sobre-humanas. Como as mais antigas tendências dos Gregos e dos povos

helenizados para associar poderes mágicos a imagens físicas se afirmassem

novamente, os dirigentes nada fizeram para as suprimir. Antes promoveram o seu

desenvolvimento por actos oficiais, tais como o cânone 82 do concílio de 629

(ordenava que, a partir de então. Cristo não poderia continuar a ser representado

como um cordeiro mas somente como um ser humano) e a colocação da imagem

de Cristo nas moedas cunhadas no reinado de Justiniano II.

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A reacção contra os ícones atingiu o auge em 726 quando Leão III (sírio de

origem), a pedido de certos bispos e depois de uma erupção vulcânica que ele

pensou ser devido à ira de Deus, proibiu o seu uso, apontado como idolátrico. A

remoção e destruição dos ícones provocou violenta cólera contra Leão III em

muitos bairros. O Papado interrompeu as relações com o império, a theme de

Hélade revoltou-se e um sacerdote que vivia a salvo, nas terras distantes do

califado, escreveu uma série de tratados teológicos em defesa das imagens. João

de Damasco, argumentando que não há razões de natureza teológica que levem a

ortodoxia a pôr de lado os ícones, defende com sucesso o seu uso contra as

acusações de idolatria. Foi a Encarnação, dizia ele, que justificou a feitura de

imagens, pois assim podemos representar o aspecto humano de Cristo. Além

disso, o uso de imagens não podia ser condenado com o fundamento de que

também os pagãos haviam reproduzido o aspecto físico dos seus deuses, pois

semelhante argumento levar-nos-ia a condenar o exorcismo c outras práticas

cristãs. Finalmente, o ícone era o registo de acontecimentos passados, uma

imitação (tal como o homem fora feito à imagem de Deus) relacionada com o seu

protótipo de maneira neoplatónica. A própria atitude do contemplador do ícone

era

51. Teodora, com a qual terminou a dinastia Macedónica, restaura os ícones.

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52. Embora os territórios orientais nunca tenham sido totalmente helenizados,
as influências bizantinas são, por vezes, evidentes na sua arte, como, por exemplo, nas
feições da Virgem deste painel sírio, de marfim, do século VI.

de respeito e não de adoração segundo as acusações dos iconoclastas.

O programa dos iconoclastas atingiu a maior actividade durante o reinado

do vigoroso filho de Leão III. Constantino V, caluniosamente chamado

Coprónimo (Obsceno) pelos seus raivosos opositores, levou o ataque ao coração

da resistência, empreendendo guerra aberta aos estabelecimentos monásticos.

Confiscou as suas propriedades, martirizou certos monges, alis-

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tou alguns no exército e forçou muitos outros a casarem com freiras. Do ponto de

vista teológico, voltou aos argumentos iconoclásticos da natureza idolátrica e

levou a controvérsia cristológica ao seio do Concílio de Hiéria, em 753. Todos os

que pintavam ou adoravam imagens eram ou nestorianos ou mono-fisitas, visto

tanto uns como outros acreditarem que, em Cristo, a natureza humana estava

inseparavelmente unida à natureza divina. Todo o que pensava poder representar

Cristo em forma humana era nestoriano; se acreditava ser a forma divina, era não

só monofisita mas transgredia o princípio da incircunscribilidade de Deus. A

teologia de Constantino era, contudo, ligeiramente monofisita, visto unir tão

intimamente a natureza humana de Cristo à sua natureza divina que se tomava

impossível representá-lo pictoricamcnte. As posições básicas de ambos os lados

estavam postas nestes termos em meados do século VIII, mas o conflito

continuou após o segundo reinado de Constantino embora de maneira menos

violenta. O Concílio ecuménico de Niceia repôs, temporariamente, os ícones, em

787, mas a sua reintegração definitiva só teve lugar em 843. A controvérsia,

embora de signi-

53. A arabização das províncias perdidas por Bizâncio durante o século VII
exerceu efeito considerável na arte posterior. Mesmo os assuntos cristãos, como esta
cena da Natividade, de um Evangelho siríaco de cerca do ano 1216, mostram a
influência do Oriente (provavelmente persa) no tratamento das figuras e roupagens.

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ficado cristológico, tinha importância mais vasta, pois, ao assegurar a

continuidade da tradição greco-romana na arte bizantina, fazia com que o espírito

helénico vencesse as ideias judaicas, que teriam dado à sociedade bizantina um

colorido mais oriental. Bizâncio resistiu, pois, aos avanços militares e intelectuais

do Oriente.

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