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O PROFESSOR DE DESEJO

POR PHILIP ROTH

A primeira vez que senti a presença da tentação foi na pessoa de Herbie Bratasky, diretor social, maestro, cantor, cômico e chefe da recepção do hotel de turismo de meus pais, na serra. Quando não está metido na malha de atleta, que usa para dar aulas de rumba à beira da piscina, seu traje mais comum consta de um paletó de malandro, creme e vermelho, e calças amarelo-canário que vão afilando até acima dos sapatos brancos pontudos.

No bolso, sempre ao alcance da mão, um pedaço de chiclete que ele guarda enquanto masca petulantemente o outro, com uns modos que minha mãe chama com desprezo de "ganidos". Abaixo da cinta de crocodilo, bem estreita de acordo com a moda, e da corrente dourada, seu joelho vai se movimentando por dentro da calça, para marcar o compasso ao som de tambores que só ele ouve naquela África que é o seu cérebro. Nosso folheto (composto por mim em colaboração com o dono) apresenta Herbie como "nosso Cugat judeu, nosso Krupa judeu — os dois em um!" Mais adiante compara-o a "um segundo Danny Kaye" e conclui que todos devem compreender que setenta quilos e vinte anos não são para qualquer um e que o Hungarian Royale, dos Kepesh, não está exatamente aqui como "um outro Tony Martin".

Tanto quanto eu, nossos hóspedes parecem fascinados pela desinibição de Herbie. Um recém-chegado nem bem se instala na cadeira de balanço da varanda, e logo vai sendo apresentado às maravilhas de nossa tribo por um veterano que chegou na semana anterior fugindo ao calor da cidade: "Precisa ver o bronzeado daquele garoto! Ele tem um tipo de pele que nunca se queima, só bronzeia. E isso, logo no primeiro dia de sol. Uma pele que vem dos tempos bíblicos".

Em virtude de um defeito no tímpano, nosso "cartão de visitas" -

como Herbie gosta de se apresentar, a despeito da desaprovação de minha mãe — fica conosco durante toda a Segunda Guerra Mundial. Um comentário muito comum entre os freqüentadores das cadeiras de balanço é se essa incapacidade seria congênita ou teria sido provocada pelo próprio. A insinuação de não ter sido somente a Mãe Natureza a causadora da impossibilidade de Herbie combater Tojo, Mussolini e Hitler — bem, me deixa indignado, pessoalmente mortificado só em pensar nela. Entretanto, a gente fica tentada a imaginar Herbie pegando um grampo de chapéu ou um palito com as próprias mãos — ou um furador de gelo! — para mutilar-se de propósito a fim de enganar a seção de recrutamento.

— Acho que ele é bem capaz disso — diz o hóspede A-owitz. — Acho que ele é capaz de tudo, aquele patife!

— Não diga isso, ele não faria tal coisa. Aquele menino é patriota como qualquer um de nós.

— Vou lhe dizer como foi que ele ficou meio surdo, e depois pergunte ao doutor aqui se não estou certo: foi de tanto tocar aqueles tambores diz o hóspede B-owitz.

— Oh, aquele garoto tocando tambores! — diz C-owitz. — Poderia agora mesmo apresentar-se no palco do Roxy. E só não vai porque, como diz você, ele não ouve muito bem os próprios tambores.

— Mesmo assim — diz D-owitz —, ele não afirma totalmente se provocou ou não a surdez com algum instrumento ou coisa parecida.

— Mas isso é a sua característica de artista, deixar você em constante suspense. Seu grande talento é ser suficientemente louco para fazer qualquer coisa, aí está toda a sua representação.

— Contudo, andar por aí brincando com isso não me parece correto. O povo judeu já tem muita coisa contra ele.

— Por favor, um garoto que se veste como ele, até a corrente da chave, com uma constituição daquelas, trabalhando dia e noite, além dos tambores, vocês pensam que ele ia mutilar-se gravemente só para escapar da guerra?

— Concordo cem por cento. A propósito, quero gim.

— Oh, você me pegou de surpresa, seu f.d.p., só porque estou com esses copos na mão. Sabe o que é difícil de encontrar? É um garoto bonito como esse, e ainda por cima engraçado. Ter aquele tipo especial, ser engraçado e deixar-se arrebatar daquela forma pelo rufar dos tambores, na minha opinião é coisa rara na história do espetáculo.

— E o que me diz da piscina? E do trampolim? Se Billy Rose visse suas acrobacias dentro da água, no dia seguinte ele estaria no Aquacade.

— E a voz dele?

— Se ele não levasse tudo na brincadeira, se pelo menos cantasse a sério.

— Se aquele garoto cantasse a sério, poderia estar no Metropolitan Opera!

— Se ele cantasse com seriedade, poderia ser solista no coro da sinagoga sem nenhum problema. E emocionaria a todos profundamente.

Imagine como ficaria dentro de um talit branco, com aquela pele bronzeada!

Durante essa conversa, eu estava no fim da varanda, ocupado com um modelo de Spitfire da RAF.

— Ei, Kepesh, venha cá, você gosta de ficar ouvindo as conversas.

Quem gostaria de ser quando crescer? Preste atenção. Pare um pouco de trabalhar nessas coisas. Quem é o seu herói, Kepaleh?

Sem pensar duas vezes, ou mesmo sem pensar, respondi: — Herbie — provocando a risada dos homens e uma certa consternação nas mulheres.

— É isso mesmo, minhas senhoras, e quem poderia ser? Quem é capaz de arremedar a pronúncia de Cugie, ao som do shofar,

e, a meu pedido, imitar um avião de combate mergulhando sobre Berchtesgaden — com o Führer louco lá embaixo? Herbie faz essas coisas com tal entusiasmo e virtuosismo que meu pai às vezes o aconselha a guardar para si algumas imitações, por mais incríveis que sejam. — Mas protesta Herbie — minha imitação de peido é perfeita. Pode ser — responde o patrão —, mas não diante de gente estranha. — Mas estou treinando esse número há meses.

Ouça! — Oh, por favor, Bratasky, não quero ouvir. Não é isso que os caros hóspedes desejam ouvir depois do jantar. Compreende ou não? Às vezes, não sei onde você está com a cabeça. Não vê que essas pessoas respeitam o Kosher? Não compreende que isso não é coisa que se apresente a senhoras e crianças? Meu amigo, a coisa é clara: o shofar é para os Dias Santos, e a outra coisa é para a privada. Ponto final, Herbie. Não se fala mais nisso.

Então, ele vem fazer só para mim, seu tímido discípulo, as imitações de trombetadas e tamboriladas que meu pai, invocando a lei mosaica, lhe proibira de apresentar em público. Mas o fato é que ele é capaz de imitar toda a escala de sons, que vai do mais leve sussurro de verão até a salva de vinte e um tiros com que a humanidade expele seus gases, e ainda encenar uma diarréia.

Não aquelas simples dores de barriga dos tempos do colégio, enfatiza ele, mas as explosões fecais wagnerianas do Sturm und Drang.

— Eu podia figurar no "Acredite se Quiser" de Ripley — diz-me. — Você conhece, não? Então, observe e julgue você

mesmo! — Ouço o ruído de um zíper que se abre. Depois, o de um abundante fluxo, que se espalha ao redor do vaso esmaltado. Em seguida, o da descarga, acompanhado do gorgolejar sincopado da válvula, que lentamente vai escoando a água. Tudo isso Herbie executa com a própria boca.

Sou capaz de ajoelhar-me a seus pés e adorá-lo.

— Agora, adivinhe esta! — Eram duas mãos se ensaboando, porém, evidentemente, Herbie fazia o barulho com a boca. — Todo inverno, eu ia ao banheiro do Automat e ficava sentado lá escutando.

— Você ia?

— Ia, sim. E até escuto a mim mesmo todas as vezes que vou ao vaso.

— Ah, você também faz isso?

— Mas a questão é que o seu velho é quem manda e para ele isso não passa de indecência! E ponto final! — acrescentou Herbie, com uma voz idêntica à do meu velho!

Ele leva a sério tudo o que diz. Mas, como é, pergunto-me admirado, como é que Herbie sabe tanta coisa e é capaz de registrar até o tintinar do vaso? E por que aqueles filisteus, totalmente surdos para a música como meu pai, não lhe dão valor?

Assim se passa o verão, e eu sob o fascínio do seu tamborilar.

Depois, vem o Yom Kippur, Bratasky vai embora, e de que me valeu aprender o que alguém como ele tem para ensinar a um garoto? Da noite para o dia, os nossos -witzes, -bergs e –steins dispersam-se para regiões tão remotas para mim quanto a Babilônia — jardins suspensos chamados Pelham e Queens e Hackensack — e o local volta para os nativos que cultivam os campos, ordenham as vacas, administram as lojas e durante todo o ano trabalham para o país e para o Estado. Sou uma das duas crianças judias que freqüentam uma classe de vinte e cinco alunos, e sinto os padrões e preferências da sociedade (tão enraizados em mim como a suscetibilidade nos exaltados e brilhantes) me dizerem que, a despeito de toda a minha tentação para acender as espoletas e mostrar àqueles tabaréus alguns dos fogos de artifício de Herbie, não me diferencio em coisa alguma de meus colegas, a não ser nas notas.

Compreendo que proceder de forma diferente — sem precisar que meu pai venha me lembrar — não me conduzirá a parte alguma. E

parte alguma não é o lugar a que pretendo chegar.

De maneira que, tal qual aquele menino que aparece no calendário ilustrado, caminho penosamente dois quilômetros no meio de montes de neve que redemoinham e desço pelo caminho da montanha em direção à escola, onde passo o inverno sobressaindo-me, enquanto lá longe ao sul, nas grandes cidades, onde tudo acontece, Herbie (que durante o dia vende linóleo para um tio e nos fins de semana toca num conjunto latino-americano) se esforça para aperfeiçoar a última das suas demonstrações de banheiro.

Escreve-me relatando seus progressos em cartas que guardo bem escondidas no bolso de trás de minhas calças, para reler sempre que posso.

Além dos telegramas de aniversários e dos cartões de reembolso postal, essas cartas são a única correspondência que recebo. É lógico que me apavoro só de pensar que posso afogar-me um dia, quando estiver patinando no gelo, ou quebrar o pescoço num passeio de trenó, e que o envelope com o timbre "Brooklyn, NY" seja encontrado por meus colegas. Já os vejo ao redor do meu corpo, tapando os narizes. Isso será uma eterna vergonha para meus pais. O

Hungarian Royale Hotel perderá a boa reputação e abrirá falência.

Provavelmente não permitirão que eu seja enterrado dentro dos muros do cemitério, ao lado dos outros judeus. Tudo isso por causa do que Herbie ousa escrever em um pedaço de papel e enviar pelo correio a uma criança de nove anos que todos pensam (e ele também) ser pura. Será que Bratasky realmente não compreende o que as pessoas decentes pensam dessas coisas? Será que ele não compreende que, enviando uma carta como essa, estará provavelmente infringindo a lei e fazendo de mim um cúmplice? Se assim é, por que insisto em andar com esse documento acusador todo o dia?

Está no meu bolso até mesmo enquanto luto para obter o primeiro lugar na competição ortográfica que se realiza toda semana, tendo como opositor outra finalista, minha correligionária de cabelos ondulados e futura pianista de concertos, a brilhante Madeline Levine.

À noite, trago-o no bolso do pijama, para lê-lo à luz da lanterna, por baixo dos cobertores, e depois dormir com ele, bem junto ao coração.

"Estou chegando à perfeição de imitar o som do papel quando é puxado do rolo, o que me dá um grande prazer, rapaz. Herbert L. Bratasky e ninguém mais no mundo pode agora fazer pipi e cocô, gemer de cólicas e depois desenrolar o papel higiênico. E o trabalho que dá para limpar, que mão-de-obra!”

Aos dezoito anos, calouro em Siracusa, meu pendor para a mímica é quase igual ao do meu mestre, só que, ao invés de fazer imitações à moda de Bratasky, eu imito o próprio Bratasky, os hóspedes e as demais personagens.

Sou a própria personificação do nosso maltre romeno, que envergava um traje a rigor e com toda a pose, na sala de jantar,

dizia: "Por aqui, por favor, Monsieur Kornfeld

no mais grosseiro ídiche, estrangular o chefe que estava bêbado. Personifico nossos amigos cristãos, o desajeitado servente Jorge, observando timidamente as aulas de rumba das senhoras à beira da piscina, e Big Bud, nosso musculoso salva-vidas, já meio idoso, que, às vezes, também serve de acompanhante para as mães de família em férias e também, quando pode, para suas herdeiras casadouras, mais empenhadas em bronzear ao sol o narizinho. Chego até a encenar um longo diálogo

Madame, mais um pouco de kishke?" Depois, de volta à cozinha, ameaçava,

(tragicômico-histórico-pastoral) dos meus pais, exaustos, despindo-se para dormir, ao término da estação. Verificar que os eventos mais sem importância de minha vida passada são considerados tão divertidos pelos outros é algo que me deixa um tanto admirado e espantado, sobretudo por descobrir que nem todo mundo teve seus anos de formação tão densamente povoados de tipos tão vividos. Tampouco tinha me dado conta de ser também uma personalidade tão viva.

Nos primeiros semestres da faculdade, desempenhei papéis importantes nas representações de peças de Giraudoux, Sófocles e Congreve.

Participei de uma comédia musical, cantando e até dançando, à minha moda. Parece que não há nada que eu não possa fazer no palco, e nada que possa me botar fora do palco. No início do meu segundo ano de estudos, meus pais vieram à faculdade para ver-me representar Tirésias — mais velho, segundo minha interpretação da personagem, do que os dois juntos — e depois, na festa de estréia, observaram contrafeitos minha imitação, a pedido do elenco, do magnífico rabino, com a perfeita dicção que "vem vem de tão longe", de Poughkeepsie, oficiando o culto divino dos Dias Santos, no cassino do hotel. Na manhã seguinte, mostrei-lhes todo o campus. Quando nos dirigíamos à biblioteca, vários estudantes me deram parabéns pela minha espantosa interpretação da velhice, na noite anterior. Impressionada mas lembrando-me também, com a ironia que lhe é peculiar, que não há muito tempo era ela quem mudava e lavava os trajes das artistas de teatro — minha mãe diz:

— Todo mundo o conhece, você já é famoso —, enquanto meu pai, procurando com dificuldade ocultar seu desapontamento, pergunta mais uma vez:

— E o curso de medicina? Não se fala mais nisso?

— Foi então que eu lhe disse, pela décima vez: — Eu quero ser ator! — e sempre acreditei nisso, até aquele dia em que, de

repente, a profissão de ator pareceu-me a mais sem sentido, efêmera e pateticamente auto-enaltecedora das profissões. Com raiva, volto-me contra mim mesmo por permitir que todos me conheçam, que vislumbrem a vã e profunda vaidade que a repressão, familiar e a severidade dos castigos me impediram de exibir até mesmo a mim próprio. Estou de tal modo humilhado pela nudez a que me expus, que penso em transferir-me para outra escola, onde poderei recomeçar tudo, onde ninguém ainda conheça esse anseio egocêntrico pelos aplausos e pelos refletores do teatro.

Os meses se passam, no decurso dos quais me imponho, uma semana sim outra não, um novo objetivo. Vou seguir medicina,

ou

Li Eu e tu, e as narrativas hassídicas

e, em casa, nas férias, indago a meus pais sobre a história da família no velho país. Porém, como já faz mais de cinqüenta anos que meus avós emigraram para a América, estando já mortos, e como seus filhos, de um modo geral, não têm nenhum interesse,

a não ser o interesse sentimental, pelas nossas origens na Europa Central, resolvo em tempo interromper os interrogatórios e com eles a fantasia rabínica. Todavia, não é sem esforço que me agarro às coisas substanciais. É ainda com a maior auto- repulsa que me recordo da minha decrepitude em Édipo Rei, do meu malicioso charme em Finian's rainbow - já estou farto de todas essas representações! Basta de frivolidade e dessa mania de me mostrar!

estudar para me tornar cirurgião. Mas como psiquiatra talvez possa ser mais útil à humanidade. Não, serei

Ou, por que não, rabino, um rabino estudioso, contemplativo,

Aos vinte anos preciso deixar de personificar pessoas para Tornar-me Eu Mesmo, ou pelo menos personificar aquele que agora penso que devo ser.

Ele — o outro eu — transforma-se no jovem sóbrio, solitário e culto, afeiçoado à literatura e às línguas européias. Os atores, meus companheiros, acham graça na maneira como abandono o palco e me retiro para morar num quarto alugado, levando como companhia os grandes escritores, os quais resolvo chamar, na qualidade de aspirante ao grau de bacharel, "os arquitetos da minha mente". "É, David abandonou o mundo", comenta-se que meu parceiro no elenco teria dito, "para tornar-se um homem do clero." Bem, tenho minhas atitudes e o poder, assim parece, de dramatizar a mim e às minhas escolhas, mas, acima de tudo, o fato é que sou absolutista, um jovem absolutista, e não conheço outra maneira de mudar de pele senão pegando o bisturi e cortando-me de cima a baixo. Ou sou uma coisa ou outra. Assim, aos vinte anos, pretendo desfazer contradições e transpor incertezas.

Nos últimos anos de faculdade, vivo mais ou menos como vivi durante os invernos da minha infância, quando o hotel estava fechado e eu lia centenas de livros da biblioteca, enquanto centenas de tempestades de neve caíam lá fora. Os consertos e reparos continuam diariamente por todos os meses gelados. Ouço o ruído das correntes dos carros chanfrando as estradas aradas, ouço as pranchas caindo na neve da carroçaria da caminhonete, e os singelos, sugestivos ruídos do martelo e do

serrote. Pelo peitoril duro de gelo da janela, vejo Jorge que, de carro, desce junto com Big Bud para arrumar as cabanas do

lado da piscina coberta. Aceno com a mão, Jorge toca a

E, então, parece-me que os Kepesh são agora três animais

confortavelmente protegidos em hibernação, Papai, Mamãe e o Bebê, bem aconchegadinhos no Paraíso Familiar.

Ao invés dos próprios hóspedes, durante o inverno temos suas cartas, lidas em voz alta pelo meu pai à mesa do jantar, sem qualquer deficiência na entonação ou volume de voz. Vender a si próprio é a especialidade desse homem, da forma como ele a vê; assim como proporcionar a todos momentos bem agradáveis e, a despeito da falta de educação que possam demonstrar, tratá-los como seres humanos.

Entretanto, fora da estação, a balança do poder pende um pouco, e dessa vez é a clientela nostálgica do repolho recheado, do riso e da luz do sol que se despoja de sua exigência arrogante.

— "Eles assinam o registro", diz minha mãe, "e qualquer carroceiro e sua sebenta mulher transformam-se de repente no Duque e na Duquesa de Windsor" — e passam a tratar meu pai como se também ele fosse um membro pagante da espécie, ao invés de ser o alvo do descontentamento deles e o homem certo para suas ridículas rotinas reais. Quando a neve é mais intensa, começam a chegar umas quatro ou cinco cartas por semana, trazendo notícias. Ora é um programa em Jackson Heights, ora uma

Ah, como ele gosta de

mudança para Miami, por razões de saúde, ou a abertura de uma segunda loja em White

receber notícias das coisas boas ou más que lhes acontecem. O fato vem provar-lhe o que o Hungarian Royale significa para

as pessoas. De fato, isso vem provar tudo, e não apenas o significado de seu hotel.

Após ler as cartas, arranja um lugar na extremidade da mesa e, diante de um prato cheio de rugalech feito por minha mãe, principia a escrever as respostas na sua letra esparramada. Vou corrigindo a ortografia e pontuando onde ele traçou um travessão separando um único parágrafo ininterrupto, com trechos longos e irregulares e cheios de filosofia, reminiscências, perspicácia, análise política e condolências. Depois, minha mãe datilografa cada uma dessas cartas no papel do Hungarian Royale, abaixo dos seguintes dizeres impressos: "Hospitalidade da velha pátria, paisagem de belas montanhas, estrita observação aos preceitos dietéticos.

Seus proprietários, Abe e Belle Kepesh", e ainda um P.S. pedindo confirmação das reservas para o próximo verão e solicitando um pequeno depósito.

Antes de encontrar meu pai durante umas férias naquelas mesmas montanhas — ele tinha então vinte e um anos, sem profissão, também passando ali o verão em que se ocupava com o preparo de pratos ligeiros — ela trabalhava há três anos como secretária num escritório, desde que saíra do ginásio. Segundo consta, minha mãe era uma moça ordeira, escrupulosa, extraordinariamente competente, que vivia apenas para servir os aristocráticos advogados da Wall Street que a haviam contratado, homens a cuja envergadura, moral e física, ela se referira respeitosamente até a morte. O

caro Doutor Clark, neto do fundador do escritório em que trabalhava, continua a enviar-lhe telegramas de felicitações por ocasião do seu aniversário, mesmo depois de partir para o Arizona, e todos os anos, com o telegrama na mão, ela exclama, sonhadora, para meu pai que já vai ficando calvo e para mim, então pequenino: "Oh, que homem ele era, alto e belo, e tão distinto. Ainda me lembro dele, de pé, junto à mesa de trabalho, quando entrei no seu escritório para ser entrevistada a fim de obter emprego. Jamais esquecerei aquela pose que ele tinha". Na verdade, o que aconteceu foi que um homem troncudo e cabeludo, de tórax forte, proeminente como uma pipa, com bíceps de Popeye e nenhuma credencial de classe, a viu encostada ao piano cantando Amapola, juntamente com um grupo de veranistas da cidade, e logo disse consigo mesmo: "É com aquela moça que vou me casar". Seus cabelos e olhos eram tão pretos, as pernas e o busto tão bem torneados que, a princípio, pensou que ela fosse espanhola. E a mania de perfeição que tanto cativou o Doutor Clark Júnior foi precisamente o que a tornou ainda mais atraente aos olhos do jovem vigoroso e furão, que nada tinha de feitor de escravos naquela sua alma abatida e escravizada.

Lamentavelmente, depois de casada, as qualidades que haviam feito dela o tesouro do chefe, cristão e austero, quase a levaram a um colapso nervoso no fim do verão, porque até mesmo num pequeno hotel familiar como o nosso sempre há

reclamações a serem atendidas, empregados a vigiar, roupa para contar, comida para provar, contas para

num crescendo tal que ela acaba fazendo o trabalho de todo mundo, porque sempre acha que não está sendo feito direito. Somente no inverno, quando meu pai e eu assumimos o inverossímil papel de Clark père e fils, e ela senta-se na correta postura da datilógrafa diante da grande e negra Remington Silenciosa, batendo as respostas tagarelas de meu pai, é que tenho um vislumbre da pudica e feliz señorita por quem ele se apaixonara à primeira vista.

E isso

Às vezes, após o jantar, ela chega a propor-me, a mim, um menino de escola, que banque o executivo e lhe dite uma carta, para que ela possa mostrar-me a magia de sua estenografia. "Você é o dono de uma companhia de navegação", diz-me ela, a mim que na verdade só há muito pouco tempo tive permissão para comprar meu primeiro canivete. "Vamos, continue."

Sempre que pode, lembra-me a diferença entre uma secretária de escritório comum e o que ela foi, isto é, uma secretária de escritório de advocacia. Meu pai, com orgulho, confirma que ela foi, na verdade, a mais impecável secretária que jamais trabalhou para a firma, segundo declaração do próprio Doutor Clark em carta de felicitações por ocasião do noivado deles. Então, em um desses invernos, quando lhe pareceu que eu já tinha idade para isso, ensinou-me a bater à máquina. Ninguém, antes ou depois, jamais me ensinou alguma coisa com tamanha candura e convicção.

Mas isso é no inverno, estação solitária. No verão, rodeada de gente, os olhos pretos fuzilam furiosos, e seus gritos agudos parecem latidos de cães pastores, cuja sobrevivência depende de conduzir o rebanho indisciplinado ao mercado. Um insignificante cordeirinho que se desgarre a uma distância de alguns metros faz com que vá a todo o vapor pela descida Mas um “bé-é" vindo de qualquer outra parte já a atrai na direção oposta. E isso não pára até que os Dias Santos

tenham terminado, e, mesmo assim, nem bem partiu o último hóspede e já tem de começar o

É

preciso! Agora mesmo! Tem-se que fazer um levantamento do que foi quebrado, rasgado, manchado, lascado, amassado, vergado, rachado, surrupiado, e daquilo que precisa ser consertado, substituído, pintado de novo, ou jogado fora, como "prejuízo total". A essa pequenina mulher simples e metódica, cujo maior prazer neste mundo é ver uma cópia de carbono perfeita, sem nenhum amassado, cabe a tarefa desse inventário, quarto por quarto, para avaliar a extensão da violência descarregada sobre nossa fortaleza nas montanhas pelas hordas de vândalos que meu pai persiste em defender — apesar dos veementes protestos dela — como simples seres humanos.

Precisamente como os violentos invernos de Catskill nos transformam a todos novamente nos Kepesh mais suaves, normais, inocentes e sentimentais, assim também eu no meu quarto, influenciado pela solidão de Siracusa, sinto que, aos poucos, o joão-ninguém, o exibicionista, vai, com a graça de Deus, me abandonando. Não que eu, com as minhas numerosas leituras e anotações, tenha me tornado desprendido, desinteressado.

Um dito atribuído ao não menos insigne e egotista Lorde Byron impressiona-me pela sua sabedoria melíflua e resolve em apenas seis palavras o que estava principiando a me parecer um dilema de proporções morais insuperáveis. Com uma certa estratégia audaciosa principio a repetir a citação em voz alta para minhas colegas, que resistem, dizendo que sou muito inteligente para essas coisas. "Estudioso de dia", digo-lhes, "dissoluto à noite."

Contudo, creio ser melhor substituir "dissoluto" por "desejoso". Afinal, não estou num palazzo de Veneza, mas no interior do Estado de Nova York, em um campus da universidade, e não posso me dar ao luxo de perturbar essas meninas, mais do que já o faço com o meu "vocabulário" e a minha crescente reputação de "solitário". Estudando Macaulay para a prova de inglês, leio uma descrição de Steele, o colaborador de Addison, e — eureca! — descubro outro ponto de extraordinária justificativa para as minhas notas altas e meus desejos baixos: "Um libertino entre eruditos, um erudito entre libertinos".

Perfeito! Tomo nota, juntamente com o pensamento de Byron, bem acima dos nomes das moças que tenciono seduzir, palavra essa cujas ressonâncias mais profundas vêm-me, não através da pornografia ou de revista sensacionalista, mas de uma leitura exaustiva do Ou isto ou aquilo, de Kierkegaard.

Só tenho um amigo, que vejo regularmente; um homem nervoso, desajeitado e simples, cursando filosofia, cujo nome é Louis Jelinek, e que, de fato, é o meu mentor sobre Kierkegaard. Como eu, Louis aluga um quarto em casa de família, na cidade, ao invés de viver no alojamento da universidade, com rapazes cujos rituais de camaradagem ele também considera desprezíveis. Vai conseguindo cursar a universidade, graças a um emprego numa lanchonete (prefere isso a aceitar dinheiro dos Scarsdale, seus pais, que despreza), e carrega consigo, por toda parte, um cheiro de hambúrguer.

Quando toco nele, por descuido ou simplesmente por alegria ou camaradagem, dá um salto como se tivesse receio de contaminar suas roupas fedorentas. "Tire a mão", grunhe, "o que é que você quer Kepesh, está procurando alguém para foder?" Será que estou? Essa idéia não me havia ocorrido. Com quem? O estranho é que tudo o que Louis possa dizer-me, com raiva ou por gozação, parece-me importante para o solene trabalho que denomino "compreender a mim mesmo".

Porque ele não está preocupado, pelo que pude perceber, em agradar a quem quer que seja, família, faculdade, senhorio, dono de loja e, certamente, os mais ínfimos de todos, aqueles "bárbaros burgueses", nossos colegas, e mesmo assim acho que ele está mais em contato com a realidade do que eu. Sou um desses rapazes altos, cabelos ondulados, covinha no queixo, que desenvolveu maneiras cativantes no ginásio e agora não pode livrar-se delas por mais que se esforce. Ao lado de Louis, principalmente, sinto-me lamentavelmente banal: tão bem-arrumado, tão limpo, tão encantador quando preciso e, embora afirme o contrário, ainda não tão indiferente a aparências e reputações. Por que não posso parecer-me mais com Jelinek, tresandando a cebola frita e olhando de cima para o mundo inteiro? Olhem só a lata de lixo onde ele mora! Cheia de caroços,

cascas e papéis — uma perfeita bagunça! Vejam só o bolo de lenços de papel ao lado da cama desmantelada, pregado nas chinelas de corda. Um minuto após o orgasmo, até mesmo no recesso do meu quarto fechado, automaticamente arremesso no cesto de papéis o produto da masturbação, enquanto Jelinek — o excêntrico, insolente, desagregado, inexpugnável Jelinek — parece não se importar com nada do que o mundo saiba ou pense de suas copiosas ejaculações.

Fiquei aturdido, sem compreender, e mesmo sem poder acreditar, quando um estudante do curso de filosofia disse, com o ar mais natural do mundo, que "obviamente" meu amigo era homossexual "ativo". Meu amigo?

Não pode ser. É claro, conheço bem as bichas. Todo verão, invariavelmente, chegavam ao nosso hotel algumas famosas, judeuzinhos ricos em férias, para os quais Herbie me chamou a atenção pela primeira

Eu os observava fascinado quando se dirigiam para longe dos raios do sol, a fim de ficarem à sombra, ou quando sorviam chocolate quente, usando dois canudinhos, enquanto tinham as frontes e faces limpas e secas pelos escravos das galés, Vovó, Mamãe e Titia. E, no colégio, havia também alguns desafortunados, nascidos com os braços aparafusados como os das meninas, que não conseguiam atirar uma bola, a despeito de muitas aulas particulares de paciente instrução que lhes eram ministradas.

Mas, e o que dizer sobre a prática do homossexualismo? Nunca, nunca, em todo o decurso dos meus dezenove anos. Exceto, naturalmente, aquele dia, logo depois de meu bar mitzvah, quando tomei um ônibus sozinho para ir a uma exposição de selos em Albany e no terminal, quando estava sozinho no mictório, um homem de meia-idade, bem-vestido, acercou-se de mim, sussurrando-me ao ouvido: — Ei, garoto, quer que eu lhe dê uma chupada? Não, não, obrigado — respondi, e o mais depressa possível (e esperando não ofendê-lo) saiu do banheiro dos homens, para longe do terminal, e encaminhei-me para uma loja, onde podia misturar-me à multidão de compradores heterossexuais. Mas com o passar dos anos, nenhum homossexual tornou a falar comigo, pelo menos que eu saiba.

Até encontrar Louis.

Oh, meu Deus, será que é por isso que me disseram para ficar com as mãos junto ao corpo quando as mangas de nossas camisas roçassem uma na outra? Será que, para ele, um mero contato casual com outro rapaz acarreta sérias implicações? Mas, se era essa a razão, por que uma pessoa tão positiva e sem cerimônias como Jelinek não me esclareceu logo tudo, diretamente, francamente? Ou será que, enquanto o meu vergonhoso segredo com Louis é o fato de eu ser absolutamente normal e respeitável, um verdadeiro Joe College, o dele em relação a mim é que ele é bicha? Como se quisesse provar o quanto sou normal, nunca pergunto. Ao invés disso, espero com medo que qualquer dia Jelinek revele sem querer a verdade a seu respeito. Ou a sua verdade tem estado comigo todo o tempo?

Naturalmente! Aqueles montes de lenços de papel espalhados pelo quarto, como uma porção de buquês de flores, não estão ali para efeito publicitário?

Será tão improvável assim que uma dessas noites essa criatura inteligente, de nariz adunco, cabelos já

rareando, e que, por princípio, despreza o uso do desodorante nas axilas, se precipite desajeitado por detrás da mesa onde faz suas preleções sobre Dostoievski e tente agarrar-me em seus braços? Será que vai dizer que me ama e meter a língua em minha boca? E a resposta que vou dar será exatamente igual à que as inocentes e tentadoras meninas me dão? "Não, não, por favor, não faça isso! Oh! Louis, você é espirituoso demais para fazer tal coisa! Por que não podemos apenas conversar sobre livros?”

Como um convite?

Mas, precisamente porque a idéia me apavora, porque tenho medo de vir a ser o "tabaréu" e o "matuto", como ele gosta de chamar-me quando discordamos sobre o profundo sentido de qualquer obra-prima, continuo a visitá-lo em seu aromático quarto, sentando-me bem afastado, do outro lado do catre, conversando horas a fio sobre as mais enlouquecedoras e vexatórias idéias e, rezando para que ele não pretenda consumar o que deseja.

Antes que o faça, Louis é expulso da universidade, primeiro por não comparecer a uma única aula no decurso de um semestre inteiro, e segundo por nem se dignar a tomar conhecimento das notificações de seu professor orientador, que lhe pedira para procurá-lo a fim de conversarem sobre o problema. Bruscamente Louis exclama indignado, sardônico, enojado: "Que problema?", movimentando e espichando o pescoço com rapidez, como se o "problema" devesse estar em algum lugar no ar, acima de nós. Posto que a opinião fosse unânime sobre a capacidade intelectual de Louis, foi-lhe negada matrícula no segundo semestre do penúltimo ano. Da noite para o dia, desaparece de Siracusa (sem despedir-se, é escusado dizer) e quase imediatamente é convocado. Só soube de tudo quando um agente do FBI, de olhar penetrante, veio interrogar-me depois que Louis desertou do treinamento básico para escapar à Guerra da Coréia e (assim imagino) escondeu-se em um cortiço qualquer,

levando seu Kierkegaard e a caixa de lenços de papel.

O agente McCormack pergunta: — Que me diz de sua fama de homossexual? — Corando, respondo: — Não sei nada sobre isso. — Diz McCormack: — Mas eles disseram que você era o amigo mais íntimo dele. — Eles? Eles, quem?

— Os garotos, lá no campus.

— Isso é um comentário maldoso. Não é verdade, de jeito nenhum.

— Que você era camarada dele?

— Não, senhor, o que eu quero de homossexual.

— e novamente o rubor me volta às faces — é que não é verdade que ele tivesse fama

Dizem essas coisas porque ele não era uma pessoa fácil de lidar. Era um tipo pouco comum, particularmente para as pessoas que andam por aqui.

— Mas você se dava bem com ele, não é?

— Dava—me. E por que não?

— Ninguém está dizendo que você não devia. Ouça me contaram que você é um perfeito Casanova.

— Ah, é?

— Sim. Que você vai mesmo é atrás das meninas. É verdade?

— Creio que sim — respondi, evitando o olhar dele, e da insinuação, conforme percebi pelo tom como falou, de que as meninas são apenas para tapear.

— Entretanto, não se pode dizer o mesmo de Louis — diz ele, ambíguo.

— O que quer dizer com isso?

— Dave, diga—me uma coisa. Seja franco comigo. Onde acha que ele está?

— Não sei.

— Então, vai me avisar quando souber, tenho certeza disso.

— Sim, senhor.

— Muito bem. Aqui está meu cartão, caso você descubra.

— Sim, senhor. — Quando ele se retira, apavoro-me com a maneira pela qual me comportei. Meu horror à prisão, minhas maneiras à Lorde Fauntleroy, meus instintos colaboracionistas, e a vergonha que sinto de tudo isso.

As meninas atrás das quais tenho

Em geral, seleciono-as, ou as levo ao salão de leitura da biblioteca, lugar comparável à passagem de emergência de uma casa de striptease (ou teatro de revista), pela propriedade que tem de me estimular e concentrar o desejo. O que quer que fique mal disfarçado naquelas meninas bem-vestidas, bem-educadas, da classe média americana, patenteia-se logo (ou, na maioria das vezes, pode-se logo imaginar) nessa atmosfera impregnada de respeitabilidade acadêmica. Olho, extasiado, a moça que brinca com as pontas dos cabelos, enquanto ostensivamente continua estudando a lição de história — enquanto eu, também ostensivamente, estudo a minha. Outra menina que, no dia anterior, estava docemente aconchegada na cadeira da sala de aula começa a balançar a perna debaixo da mesa da biblioteca sobre a qual está a revista Look que ela folheia calmamente, e os meus desejos não conhecem limites. Entrementes, uma terceira inclina-se sobre seu caderno de notas e eu, reprimindo um gemido, como o de um supliciado, observo-lhe os seios sob a blusa, eretos entre os braços cruzados. Como desejaria ser aqueles braços! Sim, não é preciso nada para que me aproxime de uma moça totalmente desconhecida, exceto saber se,

enquanto ela toma notas na enciclopédia com a mão direita, não pode deixar de delinear o círculo dos lábios com a mão esquerda. Recuso-me — por mera incapacidade que erigi em princípio — a resistir ao que quer que seja que ache irresistível, sem levar em conta quão insubstancial e singular, ou infantil e perversa possa a origem dessa atração parecer a qualquer outra pessoa.

Naturalmente, isso me leva a procurar moças que, de outra forma, eu acharia vulgares ou bobas ou chatas; mas, como estou convencido de que a chatice nada tem a ver com o que possam dar, meu desejo é realmente desejo e não pode ser diminuído ou desprezado.

— Por favor — suplicam —, por que você não pode apenas conversar e ser agradável? Quando você quer, você é tão simpático. — É

assim que elas me falam.

— Mas vocês não vêem que é apenas o meu corpo? Não desejo relacionar-me com vocês em outro nível.

— Você está sem sorte. Não posso fazer nada.

— Seu corpo é sensacional.

— Oh, não diga isso novamente.

— Sua bunda é sensacional.

— Por favor, não seja grosseiro. Na aula, você não fala assim. Gosto de ouvi-lo, mas não quando me insulta assim.

— Insulto? Isso é um grande elogio. Sua bunda é maravilhosa.

Perfeita. Você deve orgulhar-se de ter uma assim.

— David, isto para mim é apenas meu assento.

— O cacete! Pergunte a uma garota que não tem uma dessas se não gostaria de trocar. Só assim você vai entender.

— Por favor, deixe de gozação e de ser sarcástico, por favor.

— Não estou gozando. Estou falando sério, tão sério como ninguém jamais lhe falou em sua vida. Sua bunda é uma obra- prima.

Não admira que no último ano da faculdade eu já tivesse adquirido a reputação de "terrível" para a irmandade feminina cujas participantes tentara seduzir com minha agressiva candura. A julgar pela fama, qualquer um pensaria que já transformara uma centena de universitárias em prostitutas, quando na realidade, num período de quatro anos, só consegui comer mesmo duas, e cheguei perto disso com outras duas. Na maioria das vezes, em vez de se excitarem, elas se deixam esfriar pela lógica (ou falta de lógica).

Argumento o quanto posso que jamais tentei enganar ninguém sobre meus desejos ou sobre seus dotes e, em vez de "conquistador", sou apenas uma das poucas pessoas honestas que andam por aí. Num arroubo de sinceridade calculada — que se tornou mal calculada — disse a uma daquelas meninas que, ao ver seus seios colados aos braços, me deu vontade de ser aqueles braços. E pergunto se isso é muito diferente do perseverante charme de Romeu, sob o balcão de Julieta, murmurando:

"Oh! fora eu a luva naquela mão / Para poder tocar aquela face". Parece que é muito diferente. No meu último ano de universidade, havia ocasiões em que o fone ficava totalmente mudo do outro lado, depois de eu dizer quem estava falando, e as poucas meninas bem-comportadas que concordavam em arriscar-se a sair sozinhas comigo eram, conforme elas mesmas me disseram, consideradas suicidas.

Continuo a ser brindado com o divertido desprezo dos meus amigos altamente inteligentes do grupo de teatro. Agora, os que dentre eles têm a veia satírica dizem que eu abandonei a carreira eclesiástica para entrar na turma dos animadores de diversões, o que, sem dúvida, fica bem longe da interpretação da angústia sexual de Strindberg e O'Neill. Bem, deixá-los pensar.

Na verdade, existe apenas uma animadora na minha vida capaz de despertar em mim agonias não corrompidas de uma suprema frustração e que torna ridículos os meus sonhos licenciosos: uma certa Marcella "Sedosa"

Walsh, de Plattsburg, Nova York. Uns desejos já enterrados ressurgiram quando, certa noite, eu assistia a uma partida de

basquete unicamente para vê-la pular, já a tendo encontrado naquela tarde, na fila do restaurante da universidade, e vislumbrado de perto aquele abundante, generoso colchão, e o mais irresistível dos bombons, seu lábio inferior. Ouvem-se vivas quando as meninas das equipes colocam a mão nos quadris e com a outra levantada no ar vão batendo o compasso, enquanto arqueiam o corpo cada vez mais para trás, a partir da cintura. Quanto às outras sete moças, de simples saias brancas plissadas e largos suéteres também brancos, a seqüência dos movimentos parece apenas uma dinâmica demonstração de ginástica executada com grande dispêndio de energia e que toca as raias da comicidade. Mas, na barriga de Marcella Walsh, que ondula vagarosamente, há a ardente sugestão (iniludível, para mim) de um oferecimento, um convite, uma volúpia impaciente e inconsciente, que me parece bem clara, suplicando para ser satisfeita. Sim, somente ela parece (para mim, para mim) sentir que a veemência comportada e atrelada àqueles insípidos vivas não é senão um leve disfarce da rude melopéia que será declamada enquanto o pênis penetra, até o êxtase, a sua pelve protuberante. Oh, meu Deus, como é que o meu desejo daquela pelve pode mostrar-se tão provocadoramente através dos berros da multidão ululante, como podem aquelas mãos que me falam da mais agradável de todas as pressões, como é que podem aquelas pernas compridas e fortes como as de um rapaz

e que estremecem ligeiramente quando se curvam, e seus cabelos sedosos (de onde provém seu apelido), que se arrastam pela

quadra, como pode a cobiça das menores pulsações do seu ser parecer "sem sentido", "trivial" ou "indigna" para mim ou para ela, e a minha torcida para que Siracusa vença o campeonato de basquete do NCAA ter sentido?

Essa é a linha de raciocínio que terei com a própria "Sedosa" e que, com o tempo (oh, o tempo, às horas de persuasão que poderiam ser passadas dando-nos vivas um ao outro em orgasmos oceânicos!), espero utilizar no meu caminho para esses penetrantes prazeres eróticos que ainda tenho de aprender. Em vez disso, tenho de botar de lado lógica, argúcia, candura, sim,

e erudição literária, botar de lado toda tentativa razoável de persuasão — e, afinal, a própria dignidade também —; tenho de me tornar tão deplorável e pusilânime como um animal faminto aos olhos de "Sedosa", que, provavelmente jamais tendo visto alguém tão miserável, permitirá que eu faça cair uma chuva de beijos sobre seu diafragma desnudo. Sendo ela, realmente, a mais doce e bem-intencionada das moças, muito pouco cruel ou não suficientemente fria para reduzir mesmo um Romeu de mente suja, um Barba-Azul, um infantil Dom Giovanni ou um Johannes, o Sedutor, a um desprezível suplicante, posso beijar- lhe o ventre sobre o qual falei tão "obsessivamente", e nada mais.

— Nem mais acima, nem mais abaixo, murmura "Sedosa" enquanto me aproximo dela, 'quando se inclina junto ao tanque da lavanderia, escura como breu, do porão do alojamento. David, nada de descer mais baixo — e eu digo: — Como pode pensar que eu faria uma coisa dessas?

Assim, entre os anseios e a infinidade de objetos do desejo, o meu mundo se interpõe a seus argumentos e limitações. Meu pai não me compreende, o FBI não me compreende, "Sedosa" Walsh não me compreende, nem a irmandade feminina ou os boêmios me compreendem, nem mesmo Louis Jelinek jamais me compreendeu e, por incrível que pareça, apenas esse suposto homossexual (procurado pela polícia) foi meu amigo mais íntimo. Não, ninguém me compreende, nem mesmo eu próprio.

Chego a Londres para iniciar um ano de estudos, com uma bolsa de literatura, após seis dias de navio, uma viagem de trem a partir de Southampton, e um longo passeio de metrô que me leva a um bairro denominado Tooting Bec. Aqui, numa rua infindável, de pretensas casas da época dos Tudor, e não em Bloomsbury, como eu havia pedido, o departamento de alojamentos do King's College arranjou-me acomodação em casa particular. Conduzido ao meu minúsculo e sombrio quarto no sótão pelo capitão reformado do Exército e sua mulher, aos quais pertence essa casa de muita arrumação e pouco arejamento, em cuja companhia, conforme fui informado, deverei jantar, olho para a cama em que terei de passar trezentas noites, ou mais ou menos isso, e naquele mesmo instante me vejo sem a animação com que atravessei o Atlântico, a pura alegria ressentida ao abandonar todos os rígidos rituais da vida de estudante, e os cansativos cuidados de minha mãe e do meu pai, os quais, presumo, já deixaram de me sustentar. Mas, e Tooting Bec? E esse minúsculo quarto? As refeições com o capitão à minha frente, do lado oposto da mesa, e seu finíssimo bigode? Tudo isso para quê? Para estudar as lendas do Rei Artur e as sagas islandesas? Por que todo esse castigo pelo único motivo de ser inteligente?

Meu tormento é verdadeiro e colossal. Na minha maleta tenho o número do telefone de um professor de paleografia do King's, que me foi dado por um amigo, um dos meus professores de Siracusa. Mas como posso telefonar para esse alinhado intelectual e dizer-lhe, mal faz uma hora que cheguei, que desejo renunciar à minha bolsa da Fulbright e voltar para o meu país? "Escolheram o candidato errado, não sou tão abnegado para sofrer assim!" Na presença do robusto capitão e de sua gentil mulher — que, convencida pela cor de minha pele de que sou armênio, murmura durante todo o tempo algo sobre novos tapetes para a sala —, encontro o telefone no vestíbulo e disco. Quase chorando (realmente, estou quase fazendo uma ligação a

pagar, para os Catskill), com medo e infeliz pela minha situação, vejo que tenho ainda mais medo de confessar que estou com medo e infeliz, e assim desligo o telefone.

Quatro ou cinco horas mais tarde — já tendo a noite caído sobre a Europa Ocidental, e já tendo eu quase digerido minha primeira refeição inglesa de espaguete fino sobre um pedaço de torrada —, dirijo-me a uma praça de Londres, sobre a qual ouvira falar durante a travessia. Chama-se Shepherd Market fornece-me uma experiência que vem alterar completamente minha atitude em relação a ser estudante da Fulbright. É verdade, mesmo antes de assistir às minhas primeiras aulas sobre o épico e o romance, começo a compreender que, para um rapaz desconhecido, viajar para um país também desconhecido não é, afinal das contas, um grande erro. Naturalmente, fico aterrado com a idéia de morrer como Maupassant.

Não obstante, alguns minutos após espreitar timidamente essa notória praça, tive em minha companhia uma prostituta — a primeira prostituta da minha vida e, o que é mais importante, até então, a primeira das minhas parceiras de cama que nasceu fora dos Estados Unidos (fora do Estado de Nova York, para ser mais exato) e em data anterior ao meu próprio nascimento. Realmente, quando ela está montada em mim e de repente larga todo seu peso para fazer o que quer, percebo, com um estranho frêmito um tanto repulsivo, que aquela mulher cujos seios se chocam acima da minha cabeça como caldeirões, e que escolhi entre suas competidoras na base desses seios de paquiderme e bunda não menos ampla — provavelmente nasceu antes da

Porém, enquanto procuro

deflagração da Primeira Guerra Mundial, imaginem só, antes da publicação de Ulisses,

situá-la neste século, descubro que, bem mais rápido do que havíamos planejado — como se, na verdade, um de nós estivesse

correndo para pegar um trem —, estou sendo acelerado para o meu grande final com o auxílio espontâneo de uma mão segura, rápida e profissional.

Descubro o Soho por mim mesmo, na noite seguinte. Descubro, também, na Columbia Encyclopedia que carreguei comigo

através do oceano, juntamente com a Literary history of England, de Baugh, e os três volumes em brochura de Trevelyan, que

as últimas fases de sua doença venérea acabaram com Maupassant na idade de quarenta e três anos. Não obstante, não consigo

pensar em outro lugar para estar, após meu jantar com o capitão e sua mulher, do que no quarto de uma prostituta que faça tudo quanto eu desejo — não, não depois de ter sonhado em pagar por tal privilégio desde a idade de doze anos, quando ganhava uma semanada de um dólar para fazer o que bem entendesse. Naturalmente, se escolho putas cuja aparência não seja tão devassa, meu risco de morrer de gonorréia e não de velhice deve ser menor. Mas qual o sentido de uma puta que não pareça e fale como as putas? Afinal, ainda não ando à cata de namoradinha, certamente ainda não. E quando estiver pronto para uma, não será ao Soho que irei, mas a um almoço de arenque, num restaurante perto do Harrods, chamado Sol da Meia-Noite.

O mito da moça sueca e de sua liberdade sexual está, durante esses anos, em seus primeiros fulgores e, apesar do natural

ceticismo despertado em mim pelas histórias dos insaciáveis apetites e estranhas predisposições que ouvi contar na universidade, faço habilmente gazeta nos dias das aulas sobre a Escandinávia antiga, a fim de procurar por mim mesmo a possível verdade sobre essas excitantes especulações de menino de escola.

Partamos, pois, para o Sol da Meia-Noite, onde as garçonetes são conhecidas como jovens deusas escandinavas maníaco- sexuais, sapatos pintados, de salto de madeira, que mostram prodigamente as lindas pernas douradas e os corpetes de camponesas cruzados na frente, pondo à vista o sedutor volume dos seios.

É aqui que encontro Elisabeth Elverskog — e ela também me encontra. Elisabeth tirou uma licença de um ano na Universidade de Lund, a fim de melhorar o inglês, e mora com outra sueca, filha de amigos da família, que deixou a Universidade de

Uppsala dois anos mais cedo para melhorar seu inglês, e ainda não atingiu esse objetivo para que possa voltar. Birgitta, que entrou na Inglaterra na condição de estudante e parece estudar na Universidade de Londres, trabalha em Green Park, juntando dinheiro para alugar uma espreguiçadeira e, sem que a família de Elisabeth saiba, topa todo e qualquer programa que lhe passe pelo caminho. Elisabeth partilha com Birgitta uma vaga no andar térreo de uma casa de cômodos na Earl's Court Road, habitada sobretudo por estudantes, muitos dos quais têm a pele muito mais escura do que a das moças. Elisabeth confidencia- me não gostar muito do lugar onde mora — os indianos, contra os quais ela não nutre nenhum preconceito racial, a incomodam cozinhando pratos com caril no quarto, a qualquer hora da noite, e os africanos, contra os quais, igualmente, não tem nenhum preconceito, às vezes se aproximam dela para lhe pegar os cabelos, na passagem pelo corredor, e, embora ela perceba a razão

e compreenda que eles não têm nenhuma intenção má, ainda se assusta quando isso acontece. Entretanto, com gênio

complacente e bem-aclimatado, Elisabeth resolve aceitar as agressões insignificantes do vestíbulo, assim como a sórdida

vizinhança, como parte da aventura de viver no estrangeiro, até junho, época em que voltará para passar o verão com a família

na casa de férias que possuem no arquipélago de Estocolmo.

Descrevo a Elisabeth minhas acomodações monásticas, imitando o capitão e sua mulher quando esses me declaram não permitirem coabitação no prédio, nem mesmo entre eles, o que a diverte enormemente. E quando arremedo o inglês arrastado e

monótono da mulher do capitão ela ri ainda mais.

Nas primeiras semanas, a pequena Birgitta, morena, cabelos pretos, dentucinha e (na minha opinião) atraente, finge que dorme quando Elisabeth e eu chegamos ao seu quarto do rés-do-chão e fazemos de conta que não estamos trepando. Não creio que minha excitação, a partir do dia em que deixamos de fingir, seja maior do que no tempo em que retínhamos a respiração e fazíamos de conta que não estava acontecendo nada. Sinto-me de tal forma entusiasmado e inebriado com a mudança que se operou na minha vida, desde que resolvi almoçar no Sol da Meia-Noite — na verdade, desde que venci meus temores e entrei no Shepherd Market para procurar a mais puta das putas —, e estou num estado de tamanho frenesi egoísta sobre essa coisa improvável que está me acontecendo, não com apenas uma, mas com duas suecas (ou se quiserem, européias), que nem me apercebo de que Elisabeth está lentamente se desagregando pelo esforço de participar integral e pecaminosamente do nosso ménage intercontinental, metade do que pode muito bem ser denominada meu harém.

Talvez não me aperceba disso porque também ela está em grande exaltação — uma exaltação transbordante, um debater-se desesperado, a fim de manter-se à tona — e o resultado é que parece estar sempre se divertindo demais, isto é, eu considero essa exaltação uma exaltação agradável, e certamente assim é quando nós três fazemos piquenique e jogamos tênis, ou quando passamos o domingo em Hampstead Heath.

— Eu lhes ensino as "bases da corrida” — e pode existir alguém mais encantado do que Elisabeth ao ser alcançada na corrida que eu e Birgitta damos, hilariantes e aos gritos? E elas ensinam-me bránnboll e algumas noções de fly-catcherup e stickball, que é uma combinação de um jogo que elas jogavam no colégio, em Estocolmo. Quando chove, jogamos cartas, gin ou canastra. O velho Rei Gustavo V era apaixonado pelo gin-rummy, assim me disseram, como também a mãe, o pai, o irmão e a irmã de Birgitta. Elisabeth, cujos amigos perdem centenas de tardes jogando canastra, pega logo o gin-rummy depois de observar por apenas meia hora algumas partidas entre mim e Birgitta. Durante o jogo, delicia-se com meu jargão e logo procura empregá-lo — da mesma forma que eu, quando tínhamos oito anos mais ou menos, e aprendi tudo com Klotzer, o Rei da Água Tônica (considerado por minha mãe o hóspede mais importante da história do Hungarian Royale — ao vê-lo deixar cair as pesadas nádegas na cadeira de vime, ela precisava desviar os olhos — e que era o que mais sofria e resmungava na mesa de jogo). Elisabeth diz com tristeza, enquanto embaralha e torna a embaralhar as cartas distribuídas por Birgitta: "Meu jogo está um futebol" e, quando baixa, triunfante, o jogo na mesa, adora perguntar (e eu adoro ouvi-la perguntando) à sua adversária: "Que jogo é esse, parceira?" Ah, eu quase morro de prazer quando na canastra ela chama o curinga de "mele". Por que cargas-d'água ela está se desestruturando? Eu não estou! E o que dizer de nossas acaloradas discussões sobre a Segunda Guerra Mundial, quando procuro explicar — e nem sempre com a devida calma — a essas duas orgulhosas neutralistas o que acontecia na Europa na época em que nós ainda éramos crianças? Não é Elisabeth quem insiste com mais veemência (e inocência também) do que Birgitta, até mesmo quando eu ameaço botar algum juízo naquela cabeça à força, que a guerra foi "culpa de todo o mundo". Como posso então dizer-lhe que ela não só vai ficar em pedaços como também vai pensar da manhã à noite, em como se refazer?

Depois do "acidente", conforme resolvemos denominar no telegrama a seus pais o braço quebrado e os pequenos ferimentos de Elisabeth ao atravessar diante de um caminhão, dezesseis dias após minha mudança de Tooting Bec para os aposentos das duas moças, continuo a pendurar meu paletó no armário de Elisabeth e dormir, ou tentar dormir, em sua cama.

E, na verdade, acredito que estou ficando lá porque, no meu estado de choque, eu simplesmente não consigo me mudar agora. Noite após noite, diante de Birgitta, escrevo cartas para Elisabeth nas quais tento me explicar, ou antes, sento-me diante da máquina de escrever para fazer a dissertação que devo brevemente entregar ao término do curso de saga islandesa sobre o declínio da poesia escandinava como resultado do emprego exagerado de imagens poéticas, terminando por dizer a Elisabeth que eu não havia percebido que ela só estava tentando agradar-me e, no entanto, com a maior inocência, "totalmente imperdoável", acreditava que, como Birgitta e eu próprio, estava acima de tudo fazendo o que lhe agradava. Por diversas

vezes — no metrô, no bar, durante a leitura — pego a sua primeira carta, escrita do seu quarto, no dia em que ela voltou para sua terra, desamasso-a para reler essas primeiras frases de escola primária, que todas as vezes me impressionam como o caso Sacco e Vanzetti que idiota eu fui, como fui insensível, como fui cego! “Alskade David!" principia, e depois, no inglês dela, começa a explicar como se apaixonou por mim, não por Gittan, e que foi para a cama com os dois somente porque eu queria

E, acrescenta com uma letra quase

que ela o fizesse, e que teria feito qualquer coisa que eu desejasse que ela imperceptível, receia dizer que o faria novamente, caso voltasse para

"Não sou uma moça forte como Gittan. Sou apenas uma fraca Bettan, e não posso fazer nada contra isso. Foi como estar no inferno. Amava alguém e o que fiz nada tinha a ver com o amor. Era como se eu não fosse mais uma criatura humana. Sou tão imbecil, e o meu inglês é estranho quando escrevo, desculpe-me. Sei, entretanto, que jamais deverei fazer de novo o que nós três fizemos, por mais que viva, de modo que a moça tola aprendeu alguma coisa.

Din Bettan”

Depois, abaixo do nome, o perdão de uma reflexão amadurecida: "Tusen pussar och kramar", mil beijos e abraços.

Nas minhas cartas, confesso-lhe repetidas vezes que estava cego sobre a natureza de seus sentimentos por mim, e cego quanto à profundidade dos meus sentimentos para com ela!

Considero isso também imperdoável, e "triste", e "estranho" e, ao considerar essa minha ignorância, chego quase às lágrimas, acho tudo "aterrorizador” e falo sério. Por outro lado, o fato leva-me a fazer uma tentativa para nos dar a ambos um pouco de esperança, ao dizer-lhe que encontrei um quarto para ficar sozinho (pretendo daqui a dois dias procurar o referido quarto) na sede de uma organização da universidade, e que, para o futuro, ela deve remeter suas cartas para lá — caso ainda queira

escrever-me — ao invés do antigo endereço, aos cuidados de

E, ao formular essas fervorosas desculpas e pedidos

de perdão, sinto-me invadido pelas mais desenfreadas e contraditórias emoções, uma sensação de indignidade, repulsa, vergonha genuína, remorso, e simultaneamente, de forma igualmente intensa, a sensação de que não sou culpado de coisa alguma, que a culpa é tanto daqueles indianos que cozinham arroz ao caril às duas da manhã como da inocente e indefesa Elisabeth ter atravessado na frente daquele caminhão.

E o que dizer de Birgitta, a suposta protetora de Elisabeth, que agora está deitada na cama no quarto defronte ao meu, estudando sua gramática inglesa, totalmente indiferente — ou fingindo estar — ao meu drama de auto-repulsa? Como se, tendo Elisabeth quebrado o braço e não o pescoço, ela se sentisse totalmente sem responsabilidade. Como se o comportamento de

Elisabeth para conosco só competisse à consciência de Elisabeth avaliar

certamente, Birgitta não é menos culpada do que eu em abusar da natureza maleável de Elisabeth. Ou será que é? Não era para Birgitta, em vez de para mim, que Elisabeth corria instintivamente para receber carinho quando mais precisava? Quando, esgotados, nós três nos deixávamos ficar no tapete — porque era o chão, e não a cama que usávamos, na maior parte das vezes, para o altar de nosso sacrifício —, quando ali estávamos deitados, os membros inertes entre as peças de roupa, fracos, saciados e confusos, era invariavelmente Birgitta quem segurava a cabeça de Elisabeth, acariciando-lhe o rosto docemente, murmurando-lhe palavras das cantigas de ninar como a mãe mais devotada.

E não à minha. Contudo, certamente,

E não à dela

Naquele ponto, meus braços, mãos ou palavras não tinham nenhuma utilidade para ninguém. Quando em funcionamento, meus braços, mãos e palavras significam tudo — até que eu gozava, e então as duas moças aconchegavam-se como companheiras de folguedos dentro de uma casa no alto da árvore, ou numa barraca, onde não há lugar para mais ninguém.

Deixando a carta por terminar, vou flanando rua afora, atravessando uma parte de Londres (geralmente em direção ao Soho), para ficar calmo. Tento, nessas estadas provisórias, à maneira de Raskólhnikov (um verdadeiro Raskólhnikov, como agora está sendo interpretado por Pudd'nhead Wilson), "pensar as coisas a fundo", isto é, gostaria, se pudesse, de ser capaz de encarar essa inesperada virada nos acontecimentos como Birgitta. E, uma vez que não consigo espontaneamente chegar a esse estado de calma, ou disciplinar essa força, se é que tal força existe — o que dizer de tentar raciocinar à minha maneira em sua cabeça? Sim, usar minha inteligência de bolsista da Fulbright, que deve valer para alguma coisa! Pense nisso, que diabo! Não é tão difícil assim. Você não se meteu com essas duas moças para aparecer nesse negócio como um santinho. Longe disso! Vocês não inventaram todas as coisas que fizeram apenas para agradar aos velhos em nossas respectivas pátrias. Ou volte e se entretenha fazendo um amor agarradinho com "Sedosa" Walsh, ou fique onde está e saiba querer o que lhe convém! Birgitta também é humana, você sabe disso! A pessoa forte e realista também é humana (quando forte e realista é um ser humano) e a choradeira não assenta bem depois dos quatro anos de idade! Nem tampouco a dentada de menino malcriado! Elisabeth está absolutamente certa: Gittan é Gittan, Bettan é Bettan, e agora chegou a hora de você ser você!

Bem, estive "pensando a fundo sobre tudo isso" dessa forma, e eis-me a rememorar aquela noite em que Birgitta e eu começamos a perguntar insistentemente a Elisabeth sobre o que ela intimamente mais desejava — já nos havendo examinado sobre o assunto, reciprocamente —, o que ela apenas ousara pensar sobre ela própria e jamais em sua vida tivera coragem de fazer ou deixar que lhe fizessem? "O que é que você nunca pôde confessar a quem quer que seja, Elisabeth, nem a você mesma?" Agarrando com as duas mãos a manta que ela puxou de cima da cama para nos cobrir a todos, no chão, Elisabeth começou a chorar baixinho e, naquele seu inglês encantador e musical, confessou que desejava ser possuída por trás, debruçada sobre uma cadeira.

Não julguei satisfatória a resposta. Só depois de pressioná-la ainda mais, somente após perguntar: "Mas o que mais, o que mais? Isso não é nada!", só então ela capitulou, "confessando" que desejava que eu fizesse isso com ela de pés e mãos atados. E, talvez ela quisesse, talvez

Passando por Piccadilly, vem-me ainda um outro trecho de reflexão moral destinada à última carta, com o fim de educar minha vítima

E a mim. Na verdade, procuro, com a minha sabedoria, com os recursos da prosa e dos modelos literários de que disponho, compreender se, de fato, fui aquilo que os cristãos chamam cruel e o que eu chamaria desumano. "E

mesmo que se você realmente tenha desejado o que nos disse que desejava, que lei estabelece que todo e qualquer desejo "

íntimo a solicitar satisfação por uma pessoa deve ser imediatamente satisfeito?

cordão da mochila de Birgitta para atar Elisabeth numa cadeira de espaldar alto. Mais uma vez, as lágrimas lhe corriam pelo rosto, o que levou Birgitta a lhe tocar na face, dizendo: "Bettan, você quer que a gente pare agora mesmo?" Mas as longas

mechas de cabelos que pendiam molemente, aqueles cabelos de criança, cor de âmbar, balançaram-se em suas costas nuas, tal era a veemência com que sacudiu a cabeça em desafio.

Usamos a cinta das minhas calças e um

Desafiando quem? Eu me pergunto. E o quê? Por quê? Eu ainda não sei nada sobre ela! "Não", murmura Elisabeth. Essa foi à única palavra pronunciada por ela do princípio ao fim. "Não, o quê? Não parar?", perguntei. "Ou não continuar? Elisabeth, você me compreende? Pergunte a ela em sueco, pergunte." Mas a única coisa que ela dizia era "não", e "não", e novamente "não". De modo que eu continuei da forma que achei que ela queria. Elisabeth chora, Birgitta observa e, de repente, eu fico de tal maneira excitado por tudo aquilo — pela respiração ofegante, pelos ganidos iguais aos dos cães que nós três deixávamos escapar, por aquilo que estávamos fazendo — que toda a relutância desaparece, e sei que poderia fazer qualquer coisa, e que desejo fazê-la e que a farei! Por que não quatro moças, por que não cinco?

"Quem, senão os malvados, sustenta que devemos satisfazer imediatamente todos os desejos que nos pedem para satisfazer? No entanto, minha queridíssima, dulcíssima, e minha mais preciosa das criaturas, parece-me que aquela era a própria lei do pacto segundo o qual nós três havíamos resolvido — havíamos concordado em — viver!” A essas horas, já estou numa arcada na Greek Street, onde finalmente acabo de pensar o que mais vou escrever a Elisabeth sobre o insondável assunto da minha iniqüidade, pensando, também, naquela insondável Birgitta. Será que ela não tem remorsos?

Não tem vergonha, não tem lealdade, nenhum limite? Que já deve ter lido a carta inacabada que deixei na minha Olivetti, no meu quarto (e que vai impressioná-la, ao constatar como sou um sultão profundo).

No pequeno quarto, em cima da lavanderia chinesa, tento a sorte com uma prostituta de trinta xelins, uma cockney já passada, empregada em fábrica de laticínios, denominada Terry, a Prostituta, que me acha um "bastardo muito sensual", cuja resoluta lascívia produzia, naquela época, um extraordinário efeito na expulsão do meu esperma. No entanto, no momento, as habilidades de Terry fracassaram. Ela me apresenta sua extraordinária coleção de gravuras eróticas, descreve, com uma imaginação não inferior à da poetisa Elisabeth Barret Browning, na sua famosa carta ao marido, as maneiras pelas quais ela vai me amar, põe nas nuvens a grossura e o comprimento do meu pênis, assim como a profundidade de sua penetração, na última vez em que o viu em ereção. Contudo, os quinze minutos consagrados a incessantes esforços em cima daquela massa inerte não produzem resultados positivos. Consolado pela maneira carinhosa com que Terry se comporta em relação ao incidente, "desculpe, ianque, mas parece que você está com sono hoje", volto, atravessando Londres, para o nosso porão, dando por findas, no decurso da caminhada, as indagações daquele dia sobre o mal que eu possa ou não ter causado.

De qualquer forma, para mim teria sido melhor dedicar toda essa concentração ao estudo do excessivo emprego de imagens poéticas na última metade do século XII na Islândia. Com o tempo, eu poderia transformar esse assunto em algo com sentido. Ao contrário, parece que me aproximo mais da verdade, ou então, principio a pressentir a verdade nas cartas prolixas que envio a Estocolmo regularmente, enquanto, tendo finalmente lido o meu erudito ensaio perante o supervisor do meu grupo, ele me pede para passar em seu gabinete depois das aulas e, mandando-me sentar, pergunta-me com um leve tom de sarcasmo:

"Diga-me, Mister Kepesh, o senhor tem certeza de estar falando sério sobre a poesia islandesa?”

Um professor chamando-me à ordem, censurando-me! Tão inacreditável como os meus dezesseis dias num quarto com duas moças! E

como a tentativa de suicídio de Elisabeth Elverskog! Sinto-me de tal forma petrificado e humilhado com esse castigo (principalmente no despertar da acusação que eu honestamente estava fazendo a mim próprio como um advogado da família de Elisabeth) que não tenho mais coragem de voltar ao curso. Como Louis Jelinek, nem respondo aos bilhetes que me pedem para ir falar com o diretor do curso sobre o meu desaparecimento. Isso é possível?

Estou a caminho de perder um curso. Em nome de Deus, o que virá depois?

Isto.

Uma noite, Birgitta diz-me que, enquanto eu ficara melancolicamente deitado na cama de Elisabeth, vivendo o meu papel de "sacerdote pecador", ela fizera uma coisa "um tanto errada". Já há algum tempo, quando chegara a Londres, há dois anos, foi

procurar um médico para consultar-se sobre um problema digestivo. O médico lhe disse que, para fazer o diagnóstico, necessitava colher a secreção vaginal. Pediu-lhe que tirasse a roupa, se preparasse na mesa ginecológica e depois, com a mão ou com um instrumento — estava tão espantada, na ocasião, que nem teve certeza —, ele principiou a fazer massagens entre suas pernas. "Por favor, o que é isso que o senhor está fazendo?", perguntou ela. E, segundo Birgitta, ele teve a audácia de responder: "Olhe, você pensa que tenho prazer nisso? Sofro de dores nas costas, minha cara, e esta posição não me faz nada bem. Entretanto, preciso obter o material e esse é o único meio de consegui-lo". Como é que eu ia lhe pedir para parar? Chegara a Londres há apenas três dias. Fiquei um pouco assustada, você sabe, e não tinha certeza de ter entendido o que ele dizia em inglês. E, além disso, ele me olhava como um médico. Alto, bonito, delicado, muito bem-vestido. Pensei que aqui eles costumavam fazer isso. E ele sempre repetia: "Está com câimbras, minha cara?" No princípio, não compreendi o

significado daquilo, depois, peguei minhas roupas, vesti-me e saí. Havia gente na sala de espera, e uma foi de dois guinéus.

A conta

— Ele fez isso? E você pagou? — perguntei.

— Não.

— Então? — perguntei, hesitando entre a incredulidade e a excitação.

— O mês passado — diz Birgitta, pronunciando o inglês deliberadamente com maior segurança do que antes — voltei lá de novo.

Comecei a pensar o tempo todo sobre aquilo. É nisso que penso quando você escreve a Bettan. — E me pergunto: "Será que isso é verdade, que alguma coisa seja verdade?"

— E? — pergunto.

— Agora, eu vou ao consultório dele uma vez por semana. Na minha hora de almoço.

— E ele masturba você? Você deixa que ele a masturbe?

— Deixo.

— Isso é verdade, Gittan?

— Fecho os olhos e ele faz aquilo comigo, com a mão.

— Então?

— Visto-me e volto para o parque.

Estou doido para ouvir mais, algo ainda mais Será que isso é verdade? Então, essas coisas acontecem?

Porém não há mais nada. Ele a masturba, depois a deixa partir.

— Como é que ele se chama? Onde é seu consultório? — Fico surpreso quando Birgitta, sem qualquer hesitação, me diz.

Algumas horas mais tarde, não tendo conseguido compreender um único parágrafo do Arthurian tradition and Chrétien de Troyes (uma fonte inigualável, segundo me afirmam, para o ensaio do meu segundo período do curso), corro à cabine

telefônica no fim da rua onde moramos, procuro o nome do médico na

E o encontro, no endereço de Brompton Road!

Para lhe dizer (talvez com sotaque sueco): "Doutor

Leigh, o senhor tem de acautelar-se e tirar as mãos de cima de meninas estrangeiras, ou o senhor vai se ver em grandes apuros". Entretanto, parece que minha intenção não é tanto corrigir o lascivo doutor como descobrir (tanto quanto puder) se a história de Birgitta é verdadeira. Não que eu ainda tenha certeza de querer que seja verdade ou não. Será que ia adiantar muito se não fosse?

Amanhã, pela manhã, a primeira coisa que farei será

De volta ao apartamento, dispo-a, e ela se submete. Com que autodomínio ela se carne.

Ela e a submissão são unha e

Arquejantes, estamos extenuados. Estou vestido, ela nua. Chamo-a de putinha. Ela me pede para lhe puxar os cabelos. Se quer que puxe com muita força, não sei, pois ninguém jamais me pediu tal coisa.

Meu Deus, tanta coisa tem acontecido desde que beijei o umbigo da "Sedosa" no dormitório ao lado da lavanderia, ainda na primavera passada !

— Quero sentir que você está aqui — grita ela. Faça mais!

— Assim?

— Sim!

— Assim, minha puta? Minha sacana Birgitta, minha puta!

— Ah, sim, ah, sim, sim!

Há apenas uma hora, tive medo de que levasse anos para me tornar potente de novo, medo de que meu castigo, se é que houve castigo, pudesse durar para sempre. Agora, passo a noite dominado por uma paixão cujos terríveis ardores eu jamais havia experimentado, ou talvez seja porque jamais conheci uma moça mais ou menos da minha idade para a qual tais excessos não puderam deixar de ser ultrajantes. Sempre estive tão empenhado em persuadir, seduzir, suplicar, para trilhar o caminho do prazer, que não sabia o que era realmente ser alvo de tal assédio por parte de outra pessoa, ou que eu, por minha vez, desejava ser assediado e investido.

Atracando sua cabeça entre minhas pernas, enfiei o membro na sua boca, como se ele fosse, ao mesmo tempo, a corda de salva-vidas que a impediria de sufocar-se e a arma de seu estrangulamento. E, como minha posição em relação a ela fosse a de uma sela, ela se colocou em cima do meu rosto e principiou a cavalgar cavalgar, cavalgar. "Diga-me coisas!", exclama Birgitta.

"Gosto que me contem coisas! Conte—me todo tipo de coisas!" Na manhã seguinte, não há nenhum complexo de culpa por qualquer coisa dita ou praticada, longe disso.

— Creio que somos os dois da mesma espécie — digo.

Ela ri e responde:

— Sei disso há muito tempo.

— Esta é a razão por que fiquei com você, ouviu?

— Ouvi, sim — replica. — Sei disso.

Contudo, continuo escrevendo a Elisabeth (não mais na presença de Birgitta). Aos cuidados de uma casa de estudantes na universidade — um amigo deu um jeito de receber a minha correspondência em sua caixa postal, remetendo-a em seguida para mim. — Elisabeth manda uma fotografia para mostrar que seu braço não está mais no aparelho. No verso do retrato, ela

escreve: "Eu". Imediatamente lhe escrevo para agradecer o envio do retrato, ela já curada e com saúde. Conto-lhe que estou fazendo progressos na minha gramática sueca, que toda semana apanho um Svenska Dagbladet na Charing Cross Road e tento, pelo menos, ler as histórias da primeira página, com o auxílio do dicionário de bolso inglês-sueco que ela me deu. E, embora seja o jornal de Birgitta que eu realmente me mortifico traduzindo — durante o tempo anteriormente reservado para suar em cima da literatura islandesa —, escrevo a Elisabeth, e acredito que o estou fazendo para ela, para o nosso futuro, para que eu possa casar com ela e fixar-me em seu país, eventualmente para lecionar literatura americana. Sim, creio que ainda poderia

Na verdade, penso que já

apaixonar-me por essa moça que usa ao redor do pescoço um medalhão com o retrato do

estou apaixonado. Seu rosto, sozinho, é tão adorável! "Olhe para isto", falo comigo mesmo, "olhe, seu idiota!" Os dentes que não poderiam ser mais brancos, as curvas roscas de suas faces, os enormes olhos azuis, os cabelos âmbar-avermelhados sobre os quais uma vez lhe disse — isso foi na noite em que recebi o dicionário com a dedicatória "De mim para você" — que, em

inglês, poderiam ser melhor descritos como "tranças", uma palavra poética dos livros de fadas.

— "Comum" diz-me após olhar no dicionário — é a palavra que melhor designa meu tipo de nariz. Um nariz de moça da roça é igual àquela raiz que se planta no jardim para que nasçam tulipas.

— Não exatamente.

— Como é que se diz? — Bulbo de tulipa?

— É isso mesmo. Quando eu tiver quarenta anos vou ficar horrível por causa desse nariz de bulbo de tulipa. — O nariz dela é exatamente igual ao de milhões e milhões de pessoas, mas em Elisabeth é comovedor, na sua absoluta ausência de orgulho ou pretensão. Oh, que doces feições, tão cheias das venturas de sua infância! A leveza de seu riso! De seu inocente coração!

Essa moça derrotou-me quando disse: "Minha mão parece um pé!" Oh, como é incrivelmente emocionante uma pessoa inocente! Como aquele olhar desprotegido e confiante me põe sem defesa!

Entretanto, por mais que me esforce quando olho para o retrato, é com a esbelta e pequenina Birgitta, uma moça muito menos inocente e vulnerável — uma moça que enfrenta o mundo com seu rostinho ladino, nariz delicadamente arrebitado e um lábio superior sempre ligeiramente saliente, uma boca pronta, quando necessário, para responder a uma acusação ou articular um desafio —, é com ela que continuo a levar a vida de bolsista estrangeiro, num erotismo doido.

É óbvio que, ao perambular pelos locais de Green Park onde se alugam espreguiçadeiras para os transeuntes, Birgitta recebe quase diariamente convites de turistas em visita a Londres ou de homens que vagueiam à procura de algo, ou que estão a caminho de casa onde encontrarão a mulher e os filhos. Por causa das oportunidades de prazer e excitação que tais encontros propiciam, ela resolveu não retornar a Uppsala, após os anos de licença, abandonando também os cursos em Londres. "Acho que assim como estou terei uma melhor educação inglesa", diz Birgitta.

Uma tarde de março, quando o sol de repente aparece no azul do céu e se espalha sobre a triste cidade de Londres, tomo o metrô que vai dar no parque e, sentado sob uma árvore, observo-a, a alguns metros de distância, em conversa com um senhor quase três vezes mais velho que ela, confortavelmente reclinado em uma das espreguiçadeiras. A conversa dura quase uma hora e, ao terminar, o senhor levanta-se, cumprimenta-a inclinando-se formalmente, e parte. Seria algum conhecido? Algum compatriota? Seria o Doutor Leigh, da Brompton Road? Sem lhe dizer nada, durante quase a semana inteira, todas as tardes dirijo-me ao parque, escondendo-me na sombra das árvores, espionando o que ela faz.

Surpreendo-me, no início, ao ver-me horrivelmente excitado todas as vezes que avisto Birgitta, de pé, em frente a uma das

espreguiçadeiras onde se senta um homem. Naturalmente, nada fazem além de conversar. É tudo quanto posso ver. Nunca vejo, sequer uma vez, um homem tocando Birgitta ou Birgitta tocando num homem. E tenho certeza de que ela não marca encontro, assim como não vai com nenhum deles depois do trabalho. No entanto, o que me excita é que ela teria liberdade de ir, ela

poderia

E que, se eu lhe propusesse semelhante coisa, ela provavelmente o teria feito.

"Que dia hoje!", exclama ela certa tarde. "A Marinha portuguesa em peso está aqui. Upa! que homens!" E se eu apenas lhe

Poucas semanas depois, ela me surpreende quando me diz, à noite: — Sabe quem me veio ver hoje? Mister Elverskog.

— Quem?

— O pai de Bettan.

— Ponho-me a pensar: "Encontraram minhas cartas! Oh, por que fui escrever a tal história de amarrar as mãos de Elisabeth na cadeira? Estão é atrás de mim, as duas famílias!" — Veio vê-la aqui?

— Ele sabe onde eu trabalho — diz Birgitta. — Então veio.

— Será que Birgitta está mentindo, fazendo novamente uma "pequena maldade"? Mas como pode saber que, durante todo esse

tempo, tenho estado aterrorizado pensando que Elisabeth pode fraquejar e nos denunciar, 0 e que o pai está vindo atrás de

mim, com um detetive da Scotland Yard, ou com um

— O que está ele fazendo em Londres, Gittan?

— Oh, negócios, não sei. Apenas foi até o parque para me ver. — "E você foi para o quarto do hotel onde ele se hospeda,

Gittan? Você gostaria de fazer amor com o pai de Elisabeth? Aquele senhor alto, distinto, que ao se despedir inclinou-se

diante de você, naquele ensolarado dia de março, era ele? Era ele o velho a cujas palavras viram você prestando tanta atenção, muitos meses atrás? Ou era aquele que gosta de fazer de médico com você no consultório? Que lhe propunha aquele homem para prender sua atenção daquela forma?”

Não sei o que pensar, de modo que penso em tudo.

À noite, quando ela me pede para excitá-la, ouvindo-me dizer "todo tipo de coisas", chego quase a perguntar: "Você faria isso

com Mister Elverskog? E com um marinheiro, também, se eu dissesse a você para fazer?

Você faria isso por dinheiro?" No entanto, abstenho-me de perguntar, não pelo mero receio de que ela diga sim (como certamente diria, só pela sensação de dizê-lo), mas porque eu poderia responder: "Então, vá e faça sua prostitutazinha".

No fim do período letivo, Birgitta e eu fizemos uma viagem ao continente, pedindo carona, olhando museus e catedrais durante

o dia e, à noite, andando nos cafés, nas caves e tabernas, a fim de observar as moças que circulavam por lá. Ao levar Birgitta

novamente para esse caminho, não tenho escrúpulos como tive em Londres, quando desejei induzi-la a visitar Mister Elverskog no hotel. "Uma outra moça" constituía uma dessas "coisas" com que despertávamos as nossas sensações continuamente, durante meses, após a partida de Elisabeth. Encontrar outras moças foi, na verdade, um dos motivos por que nos proporcionamos essas férias. Certamente, sozinhos, nem Birgitta nem eu somos tão astutos ou corajosos, mas, juntos, creio que reforçamos imensamente a nossa obstinação e, à medida que vamos freqüentando esses lugares noturnos, adquirimos maior habilidade para seduzir pessoas totalmente estranhas. No entanto, apesar da nossa habilidade e profissionalismo como grupo, ainda me sinto um tanto confuso e vacilante quando parece que conseguimos, realmente, encontrar um parceiro voluntário, e nos levantamos os três a fim de procurar um lugar mais calmo para conversar.

Birgitta deixa transparecer idênticos sintomas, embora, já na rua, ela conquiste a minha admiração por ser suficientemente afoita para afastar os cabelos do rosto da jovem estudante, que, por seu lado, tem coragem para aguardar os acontecimentos posteriores. Sim, vendo a minha parceira tão decidida e confiante, recobro as minhas qualidades — e o meu equilíbrio —, dando o braço a cada uma das moças e, então, sem a menor hesitação na voz, com a minha experiência do mundo, digo num misto de ironia e credulidade: "Vamos, caras amigas, vamos!" E, durante todo o tempo, vem-me à cabeça o pensamento que

não me larga há muitos meses: "Será que isso está acontecendo? Isso também?" Porque, na minha maleta, junto ao retrato de Elisabeth, há uma fotografia da casa à beira-mar, de sua família, enviada logo que acabei de receber meu deplorável diploma

e tomei com Birgitta a barca de conexão com o trem. Recebi um convite para visitá-la na minúscula Trangholmen e

permanecer na ilha o tempo que desejasse. E por que não vou? E me caso com ela? Seu pai não sabe de nada e jamais saberá. O chicote, o detetive, as cenas de raiva assassina e vingativa, o plano secreto para fazer-me pagar pelo que fiz à filha, tudo

isso não passa de minha louca imaginação. E por que não lhe dou um outro rumo? Por que não imaginar Elisabeth comigo, remando ao longo da praia pedregosa e dos altos pinheiros, por toda a extensão da ilha até onde a barca de Waxholms atraca diariamente? Por que não imaginar a família dela toda sorrisos, fazendo-nos sinais com as mãos quando voltamos no barco com o leite e a correspondência? Por que não imaginar a doce Elisabeth na soleira da nossa bonita casa vermelha, grávida do nosso primeiro filho judeu-sueco? Sim, eis o amor insondável e maravilhoso de Elisabeth, e eis também a insondável e maravilhosa audácia de Birgitta e qualquer uma que eu queira posso ter. Ah, não é isso imperscrutável! Ou a fornalha, ou a lareira! Ah, deve ser isso que denominam as possibilidades da juventude.

Mais possibilidades da juventude. Em Paris, em um bar não muito distante da Bastilha, onde o infame marquês foi castigado pelos seus crimes vis e audaciosos, uma prostituta senta-se a um canto conosco e, enquanto pilhéria comigo, em francês, sobre meu cabelo de marinheiro, vai acariciando Birgitta, sob a mesa.

Em meio à nossa grande excitação, porque eu também tenho a mão ocupada sob a mesa, um homem surge, vituperando-me pelas indignidades a que estou submetendo minha jovem esposa. Levanto-me, com o coração aos pulos, para explicar-lhe que nós não somos marido e mulher, que somos estudantes, e que o que estamos fazendo é assunto nosso, mas, não obstante minha excelente pronúncia e construções gramaticais corretíssimas, ele puxa um martelo do macacão, brandindo no ar. "Salaud!", ele grita. "Espèce de con!" De mãos dadas com Birgitta, e pela primeira vez, fujo para salvar minha vida.

Não fazemos comentários sobre o que vai acontecer quando o mês chegar ao fim. Ao contrário, cada um pensa: considerando

o que aconteceu, o que mais poderia acontecer?

Quer dizer, eu suponho que voltarei para a América para continuar minha educação, desta vez seriamente, e Birgitta acha que, quando eu partir, pega seu saco de viagem e vem comigo. Os pais de Birgitta já foram informados de que ela pensa em estudar na América por um ano e, aparentemente, acham que está bem. Mesmo que assim não fosse, provavelmente Birgitta continuaria

fazendo o que tem vontade de fazer.

Quando ensaio a difícil conversa que mais cedo ou mais tarde deve efetivar-se, sinto que vou ficando realmente vacilante e lamuriento. Nada do que eu digo parece certo, nada do que ela possa dizer me soa errado e, no entanto, sou eu, naturalmente, que invento o diálogo. — vou para Stanford.

Volto para me formar.

— Então?

— Tenho sonhos terríveis com o colégio, Gittan. Nunca me aconteceu nada disso, antes. Estou fodido com minha bolsa da Fulbright, mas deixa para lá.

— E então?

— Quanto a nós

— Sim? Bem, eu acho que a gente não tem nenhum futuro.

— Você acha?

— O que eu quero dizer é que jamais poderíamos voltar a praticar um ato sexual normal. Isso para nós não ultrapassamos demasiadamente os limites. Fomos longe demais para voltar.

— Fomos?

— Penso que sim.

— Mas você bem sabe que a idéia não foi só minha.

Não estou dizendo que foi.

— Então, agora vamos deixar de ir longe demais.

— Mas nós não podemos. Você sabe muito bem disso.

— Mas eu faço qualquer coisa que você queira.

Nós

— Não é mais possível. Ou será que você quer dizer que eu a dominei todo o tempo, que você é uma segunda Elisabeth que eu corrompi?

— Ela me olha com aquele seu atraente sorriso que descobre os dentes compridos.

— Quem, então, é a segunda Elisabeth? — pergunta.

— Você? Ah, mas não é isso.

— Você mesmo é quem diz. Por natureza, você é um professor de sacanagem, você é um polígamo nato, há em você até o estuprador, você

— Bem, talvez eu tenha mudado de opinião sobre essas coisas, talvez seja tolice minha tocar no assunto.

— Mas como é que você pode mudar de opinião sobre aquilo que é a sua própria natureza?

Na verdade, ter de voltar para o meu país, a fim de retomar seriamente meus estudos, não exige que eu exponha pontos de vista, um tanto débil e levianamente, contra uma avalanche de objeções lisonjeiras.

Não, não há necessidade de nenhum debate provocador sobre a minha "natureza" para eu me livrar dela e da nossa vida fantástica de prazeres sensacionais; não há nenhuma necessidade, pelo menos em face das circunstâncias. Estávamos nos despindo para deitar no quarto que alugamos por uma noite em uma cidade do vale do Sena, aproximadamente a trinta

quilômetros de Rouen, que eu tencionava visitar, no dia seguinte, o lugar onde nasceu Flaubert, quando Birgitta fala de suas reminiscências de sonhos infantis que a assaltavam na adolescência. Califórnia, carros conversíveis, milionários, James Dean. Eu interrompo. "vou para a Califórnia sozinha. vou só, completamente só.”

Em poucos minutos ela se veste, a mochila pronta para a viagem.

Santo Deus! É mais corajosa do que imaginei! Quantas moças há no mundo como ela? Ousa tudo e, no entanto, é tão normal quanto eu. Normal, inteligente, corajosa, senhora de si, e de uma lascívia louca! Exatamente o que sempre desejei. Então, por que estou fugindo? Em nome de quê? De mais lendas do tempo do Rei Artur e sagas islandesas? Vejamos, se eu esvaziasse os

bolsos das cartas de Elisabeth, e dos retratos de

totalmente àquilo que tenho, à pessoa com quem estou, ao que, talvez, seja realmente a minha

digo. "Onde vai encontrar um quarto a essa hora? Oh, com os diabos, Gittan, tenho que ir para a Califórnia sozinho! Tenho que voltar para a escola!”

Se eu me entregasse "Não seja ridícula",

Tirasse da cabeça o pai de Elisabeth

Em resposta, nem lágrimas, nem raiva e, para falar a verdade, nenhum sarcasmo, não obstante nenhuma admiração demasiada por mim, como força carnal e impudica. Já na porta, diz: "Por que será que eu gosto tanto de você? Você é tão criança!" E é

isso tudo o que tem a dizer sobre o meu caráter, pelo menos tudo o que sua dignidade lhe exige ou permite. Não mais o jovem poderoso, mestre das amantes e prostitutas, não mais o precoce dramaturgo do satírico e do lascivo, com um pouco do

inexperiente estuprador também

ser uma moça que brada quando lhe puxam os cabelos, e grita pedindo mais, sob o domínio das sensações pungentes em sua carne, a despeito de sua confiança amazônica diante das situações mais tenebrosas, e dos nervos de aço demonstrados nesse mundo incerto dos caronas, botando de lado o surpreendente senso do direito alienável com que faz tudo quanto lhe apraz, e de uma total imunidade ao remorso ou à dúvida sobre si própria, que me fascinam mais do que qualquer outra coisa, ela é também cortês, respeitadora e afável, a filha muito bem-educada de um médico sueco e de sua mulher), fecha a porta ao sair para não acordar a família que nos alugou o quarto. Sim, foi assim tão facilmente que a jovem Birgitta Svanstrõm e o também jovem David Kepesh se viram livres um do outro. Livrar-se do que ele é, por natureza, talvez seja tarefa mais difícil, uma vez que o jovem Kepesh não parece estar bem certo, por enquanto, do que a sua natureza é exatamente. Ficou acordado toda a noite pensando o que faria se Birgitta entrasse sub-repticiamente no quarto antes do amanhecer. Fica em dúvida se não deveria levantar-se e trancar a porta.

Não, "apenas uma criança". Depois, de mansinho, muito de mansinho (porque, a despeito de

Depois, ao nascer do dia, quando desponta a manhã e não a encontra em parte alguma, nem na cidade de Lês Andelys, nem em Rouen, na Grosse Horloge, na Catedral, no local onde nasceu Flaubert ou onde Joana d'Arc foi queimada, pergunta a si mesmo se algum dia encontraria alguém igual a ela e viveria semelhante aventura novamente.

Helen Baird aparece alguns anos mais tarde, quando entro na reta final dos meus estudos de literatura comparada, sentindo-me triunfante pela determinação, que consegui manter, de completar a tarefa.

Por fastio, inquietação, impaciência e crescente embaraço, que me apoquenta e me diz que já sou muito velho para ainda estar sentado numa carteira e fazer testes sobre o que já sei, todos os semestres penso em abandonar o curso. Mas agora, com o fim à vista, elogio-me em voz alta, ao findar o dia, debaixo do chuveiro, exaltando-me com estas simples declarações: "Eu fiz" e "Eu consegui", como se tivesse de escalar o Matterhorn para me classificar na prova oral. Depois daquele ano com Birgitta, cheguei à conclusão de que, para realizar qualquer coisa duradoura, teria de restringir uma faceta de mim próprio, fortemente suscetível a mais desnorteadora e enfraquecedora espécie de tentação, a qual desde aquela noite de Rouen eu já reconhecia prejudicial aos meus interesses. Porque, tendo ido muito longe com Birgitta, eu sabia como seria fácil ter ido ainda mais Mais de uma vez, lembro-me da sensação que tive só de imaginar Birgitta com outros homens, recebendo dinheiro, trazendo-o para casa, para o meu

. Mas, será possível que eu chegasse a tal ponto com tanta facilidade? Tornar-me cafetão de Birgitta? Bem, qualquer que tenha

sido o meu talento para essa profissão, a universidade não encorajou absolutamente o seu batalha parece ganha, sinto-me realmente bem por ter utilizado meu bom senso em favor de uma vocação

sensibilizado com a minha virtude. Então, aparece Helen para dizer-me, com exemplos e muitas frases, que estou

redondamente iludido e equivocado. Será que é para que nunca me esqueça de que me casei com ela?

Sim, quando a E não menos

Seu heroísmo é de uma marca diferente do meu, ou do que, naquela época, eu presumia ser o meu. Na verdade, é a sua própria antítese.

Um ano de use aos dezoito anos e, depois, foi-se com um jornalista que tinha o dobro de sua idade para Hong Kong, onde ele

já vivia com a mulher e três filhos. De surpreendente formosura, um porte admirável, temperamento fortemente romântico, abandonou os deveres escolares e, sem qualquer justificativa ou explicação à família aturdida e mortificada (que durante uma semana julgou que ela tivesse sido seqüestrada ou morta), partiu atraída por um destino mais alegre do que o segundo ano de universidade no grêmio estudantil feminino. Um destino que encontrou e só recentemente abandonou.

Há apenas seis meses, segundo ouvi dizer, já abriu mão de todos e de tudo o que procurara há oito anos, dos prazeres e do entusiasmo de perambular entre antigüidades, absorvendo o exotismo dos sítios deslumbrantes, sedutores e desconhecidos, para retornar à Califórnia e começar vida nova. "Espero jamais passar o que passei nesse último ano", foi a primeira coisa que me disse na noite em que nos conhecemos, numa festa oferecida pelos jovens patrocinadores de uma nova revista de San Francisco, "que fazem parte do grupo das artes". Creio Helen pronta para contar sua história sem o menor sinal de timidez, mas àquela altura também eu não sentia nenhum constrangimento, depois de sermos apresentados, em esquivar-me da moça com quem estava, para procurá-la insistentemente entre as centenas de pessoas que andavam de um lado para o outro na casa da municipalidade.

— Por quê? - pergunto-lhe, o primeiro dos porquês, dos quandos e comos que ela será obrigada a me responder.

— Como é que foi esse ano para você? O que aconteceu de errado? Bem, para início de conversa, nunca passei em nenhum lugar seis meses consecutivos, desde os meus tempos de universidade.

— Então, por que voltou?

— Nem homens, nem amor, nada disso.

— Logo, predisponho-me a atribuir sua "candura" à mentalidade das revistas populares, ou tendência à promiscuidade, pura e

simples. E eu penso: "Ó Deus, tão bela e tão restrita! Pelas histórias que me conta, parece que já teve cinqüenta casos de amor, a bordo de cinqüenta escunas, navegando pelos mares da China com homens que lhe ofertam jóias antigas e são casados com outras mulheres".

— Olhe aqui — diz ela, compreendendo de que forma eu interpretava as verdadeiras proporções de sua existência. — Mas,

afinal, por que é contra a paixão? Por que motivo esse desinteresse dissimulado, Mister Kepesh? O senhor quer saber quem eu

Bem, eu estou lhe dizendo.

— Trata-se de uma completa saga — digo, e ela responde sorrindo: — E por que não? Melhor que seja uma "saga" do que

uma quantidade de outras coisas que estou pensando. Vamos, diga-me, o que tem contra a paixão? Que mal esse sentimento já lhe fez? Ou, em outras palavras, que bem lhe fez? — A questão agora é o que a paixão fez ou não fez a você.

Coisas boas. Coisas maravilhosas. Nada, Deus é testemunha, de que me posso envergonhar.

— Então, por que você está aqui e não lá, se está tão apaixonada?

— Porquê — Helen responde, sem valer-se da ironia para proteger-se, o que também me faz abandonar o tom irônico para ver

que ela não só é de uma beleza admirável, mas ainda real, aqui, em minha companhia e, quem sabe, até seria minha se eu a

quisesse —, porque já estou ficando coroa.

Aos vinte e seis anos, acha que está ficando velha. E a moça de vinte e quatro anos, candidata ao grau de doutora em filosofia, meu par daquela noite, que talvez tenha saído ofendida daquela festa sem mim, naquela mesma tarde, na biblioteca, arrumando seu fichário, disse que gostaria de saber quando sua vida iria tomar um rumo.

Pergunto a Helen como se sente por ter voltado. Saímos da festa e, a essa altura, já estamos sentados em um bar, um defronte

Mas será

que a quero? Será que devo? Ouçamos primeiro as sensações de quem volta após desaparecer. Para mim, naturalmente, predominou a sensação de alívio sobre a de decepção, e eu estivera à deriva durante apenas um ano.

do outro. Menos naturalmente do que eu, ela fugiu do companheiro com o qual principiara a noite. Se eu a

— Ah, assinei um armistício com a minha pobre mãe, tendo atrás de mim as minhas irmãs menores que me acompanhavam

como a uma estrela de cinema. O resto da família estava boquiaberto. Moças republicanas distintas não faziam o que eu fiz.

Para falar a verdade, parece que essas foram às únicas que encontrei do Nepal a Cingapura. Eu até diria que metade das moças que voam de Rangum naquele calhambeque que vai para Mandalay são, em geral, de Shaker Heights. É, agora, o que faz você?

— Bem, primeiro tenho de descobrir um modo de parar de chorar.

Nos primeiros meses da minha volta eu chorava todos os dias. Agora, parece que aquela fase acabou, mas, a julgar pelo que sinto quando acordo pela manhã, é a mesma coisa que estar chorando. O fato é que tudo aquilo era tão bonito. Viver rodeada

Era irresistível. Eu vivia em constante entusiasmo. Em todos os meses de primavera ia para Angkor e, na

Tailândia, voávamos de Bangkok até Chiang Mai, com um príncipe que tinha elefantes. Era um prazer vê-lo com todos os seus elefantes. Um homenzinho idoso, cor de noz, movendo-se como uma aranha em meio àquela manada de animais enormes. Era possível enrolá-lo duas vezes em uma única orelha daqueles elefantes, os animais gritavam,, mas ele andava no meio deles, imperturbável. Você, olhando para aquilo, provavelmente diria: "Bem, é apenas isso". Mas eu não pensei assim. O meu pensamento era: "Isso é que é". Eu costumava sair de barco à vela em Hong Kong, para buscar o meu amigo que saía do trabalho no fim do dia. Ele ia com o rapaz que conduzia o barco para o trabalho todas as manhãs e, à noite, voltávamos juntos para casa, e lá íamos entre aqueles barcos chineses, chamados juncos, e os contra torpedeiros dos Estados Unidos. A ótima vida nas colônias. Não é à toa que eles odeiam ter de entregar aqueles impérios.

daquelas

Mas eu continuo a não compreender exatamente por que você abandonou o seu.

E nas semanas seguintes, continuo custando a acreditar — a despeito dos pequenos budas de marfim, dos entalhes de jade e da

fileira de pesos em formato de galo, para ópio, arrumados na mesa ao lado de sua cama — que esse tipo de vida realmente foi

o seu. Chiang Mai, Rangum, Cingapura,

existência desses lugares longínquos que vejo no mapa Rand McNally, em que traço o caminho de suas aventuras (como outrora eu seguia as aventuras de Birgitta na lista telefônica de Londres), e nos romances de Conrad, onde pela primeira vez

os encontrei, e, então, é claro que sei que as "fortes personalidades" são aquelas que vivem e se conservam vivas para traçar

os seus destinos nas cidades exóticas do

O que falta, então, para que me persuada de que a Helen que aqui está

vivendo e respirando é uma delas? O fato de estar com ela? Será a inacreditável Helen, com os seus brincos cravejados de

brilhantes, ou o zeloso auxiliar de ensino com seu terno de algodão indiano?

Por que não Júpiter, por que não Marte? Não há dúvida de que sei da

Chego até a criticar e desconfiar de sua serena e feminil beleza, ou, antes, da consideração que ela parece ter por seus olhos, nariz, colo, seios, quadris, pernas, pois para ela até seus pés parecem ter glórias encantadoras a serem exploradas. De qualquer forma, como é que ela conseguiu chegar a essa regia ostentação, esse aristocrático senso de sua própria pessoa, que parece emanar quase totalmente da maciez de sua pele, dos membros longilíneos, do hálito de sua boca, de seus olhos penetrantes e do franzir da ponta do nariz, que ela denomina, sem a menor oscilação de suas pálpebras (levemente sombreadas de verde), de seu nariz "flamengo"?

Não estou de forma alguma habituado com alguém que ostente sua beleza com tal senso de realização e auto-valorização. Minha experiência — a começar pelas estudantes da Universidade de Siracusa, que não quiseram "relacionar-se" comigo "ao nível" de Birgitta Svanstrõm, para quem o elemento carnal devia ser pesquisado até as últimas sensações — foi com moças que não têm preocupação exagerada com os predicados físicos, ou que pensam que não fica bem demonstrar essa preocupação. É verdade que Birgitta sabia muito bem que o seu cabelo muito curto, com um corte natural, salientava favoravelmente seu ar dissimulado, mas, fora disso, como devia emoldurar o seu rosto sem pintura não constituía assunto que desse para pensar de uma a outra manhã. E Elisabeth, cujos cabelos abundantes não eram menos louváveis do que os de Helen, apenas os escovava pelas costas abaixo, deixando-os ficar ali ondulando como sempre fizera desde a idade de seis anos. Entretanto, para Helen, toda essa profusão de cabelos maravilhosos — cuja cor ficava bem perto da do setter irlandês — devia constituir uma coroa por sua própria natureza, ou uma torre, uma auréola não apenas para embelezar ou adornar, mas para expressar, para simbolizar. Talvez seja apenas para constatar o quanto a minha vida se tornou estreita e enclausurada, ou talvez seja, de fato, a verdadeira dimensão de uma espécie de fidalguia que emana da sensação que Helen tem de ser um objeto idolatrado, que poderia muito bem ter sido esculpido em cem libras de jade — mas quando ela prende os cabelos no alto, em um nó atrás da cabeça, e traça uma linha escura sobre as pálpebras que encimam os olhos nem maiores, nem mais azuis do que os de Elisabeth; quando ela põe uma dúzia de braceletes e enlaça uma echarpe de seda franjada em volta dos quadris, como Carmem, para sair, a fim de comprar laranjas para o café da manhã, os efeitos sobre mim não se fazem esperar. Bem longe disso. Sempre fui sensível à beleza física das mulheres, mas, com Helen, não fico apenas intrigado e estimulado:

sinto-me também alarmado e profundamente incerto, completamente subjugado pela autoridade com que ela faz jus à sua beleza, tornando-a singular, e, ainda mais, fico profundamente desconfiado das prerrogativas do lugar que ela se confere na sua própria imaginação. A sua concepção da pessoa humana e da experiência parece-me por vezes muito banal e, assim mesmo, tão envolvente e fascinante.

Até onde posso ver, acho que talvez ela tenha razão.

— Como é que você — pergunto, interrogando ainda, na expectativa de esclarecer aquilo que é ficção nesse fabuloso tipo que

ela se faz e no romance asiático que ela denomina o seu passado —, como é que você abandonou a bela vida colonial, Helen?

— Fui obrigada.

— Porque o dinheiro da herança a fez independente?

— São seis mil desprezíveis dólares por ano, David. Porque, creio eu, até os ascéticos professores universitários ganham isso.

— Eu apenas quis dizer que você poderia ter achado que mocidade e beleza não vão ampará-la indefinidamente.

— Olhe aqui, eu era uma garota e o colégio para mim não valia nada, e minha família era como a de todo mundo, isto é,

encantadora, chata e respeitável, vivendo todos esses anos debaixo de um lençol de gelo na Fern Hill Manor Road, 1. A única alteração era na hora das refeições. Todas as noites, quando chegava a sobremesa, meu pai dizia: "E é isso?" Minha mãe irrompia em lágrimas. Então, com dezoito anos, encontrei um homem feito, belo e que sabia expressar-se, que podia ensinar- me muita coisa, que compreendeu tudo o que eu era, o que ninguém parecia ter compreendido até então, e que tinha maneiras elegantes, maravilhosas e não era realmente um tirano brutal, segundo a concepção de tirano. Apaixonei-me por ele — sim, em duas semanas; isso acontece, e não é só com meninas de colégio — e ele disse: "Por que você não vem comigo?" Eu respondi

que sim

E fui. — Em um avião calhambeque?

— Dessa vez, não. Um patê, enquanto sobrevoávamos o Pacífico, a felação no banheiro da primeira classe. Deixe-me contar,

os primeiros seis meses não foram nenhum piquenique. Não tenho saudade deles. Como vê, era apenas uma garota bem- educada de Pasadena, de saia escocesa, e mocassins. Os filhos do meu namorado eram quase da minha idade, embora tão neuróticos quanto eu. Nem consegui comer com pausinhos, tinha tanto medo. Lembro-me de uma noite, minha primeira festa em que se tomava ópio, e que me afundei em uma limusine com quatro bichas doidíssimas, inglesas, vestidas de mulher e de sandálias douradas. Eu não parava de rir, dizendo: "Isso é surrealista", e repetia sempre "é surrealista". Até que o mais gordo dos quatro baixou seu lornhão para mim e disse: "Naturalmente que é surrealista, minha cara, você tem dezenove anos".

— Mas você voltou por quê?

— Isso eu não posso contar.

— Quem era o homem?

— Ah, você está se tornando um aplicado estudante da vida real, David.

— Errado. Aprendi tudo isso com Tolstói. Dou-lhe Ana Karênina para ler. Ela diz:

— Nada mal; só que não foi um Vronski, graças a Deus. Os Vronskis, meu amigo, não valem nada e te chateiam mortalmente.

Era um homem realmente muito parecido com Karênin. E, devo dizer, nada enternecedor. — Isso me emudece por um instante:

que maneira original de ver o famoso triângulo. Um outro marido — digo —, apenas a metade do triângulo.

— Parece misterioso, como um grande drama. Talvez fosse bom você escrever isso.

— E talvez fosse bom você deixar de ler tudo o que escrevemos.

— E fazer o quê, com o tempo que me sobra?

— Tomar pé na situação novamente.

— Há um livro sobre isso, sabe? Chama-se Os embaixadores. — E eu penso: "Há também um livro sobre você que se chama

O sol também se levanta. A moça se chama Brett e é também muito superficial, tal como seu grupo todo, e me parece que é o

seu caso também".

— Aposto que há um livro sobre isso — Helen diz, levantando-se alegremente com um sorriso confiante. — Aposto como há milhares de livros sobre isso. Eu costumava vê-los arrumados em ordem alfabética na biblioteca.

Olhe, para que não haja confusão, deixe-me exagerar levemente o caso.

Odeio bibliotecas, odeio livros e odeio escolas. Pelo que posso me lembrar, as escolas tendem a transformar a vida em

alguma coisa ligeiramente diferente da

Na melhor das hipóteses, a alteram "ligeiramente". São aqueles pobres

inocentes teóricos, os "ratos de biblioteca", os professores, que transformam tudo no pior. Pensando bem, é uma coisa

horrível.

— Então, o que você vê em mim?

— Oh, você também os detesta. Pelo que lhe fizeram.

— E o que foi?

— Transformaram você em

— Horrível? — pergunto, rindo (porque esse pequeno duelo se travou, entre nós, debaixo dos lençóis da cama e ao lado dos pesos de bronze onde se guarda o ópio).

— Não, não exatamente. Transformaram você em algo um pouco diferente, ligeiramente

Tudo em você é um pouquinho

muito tempo. É como botar a mão dentro de uma panela escaldante.

Errado.

exceto os seus olhos. Esses ainda são você. Nem posso olhar fixamente para eles por

Ligeiramente

— Você fala das coisas com muita vivacidade. É uma criatura intensa. Seus olhos também me chamaram a atenção.

— Você está se desvalorizando, David. Está intensamente empenhado em ser aquilo que não é. Sinto que está caminhando

para uma queda muito séria. Seu primeiro erro foi desistir daquela corajosa sueca de mochila. Ela parece um pouco com um

Pela foto, parece-me que tem a boca como a de um esquilo, mas, afinal, era uma companhia

divertida. Mas, naturalmente, essa é uma palavra que você despreza, certo? A mesma coisa que dizer "calhambeque" em relação a um avião muito velho. Todas as vezes que falo em "divertido" vejo você realmente estremecer, como se quase sentisse uma dor. Meu Deus, como conseguiram condicionar você. Você é horrivelmente presunçoso, e, no entanto, acho que, no íntimo, sabe que perdeu a energia.

garoto e

Para ser

— Oh, não comece a me simplificar demais. E não romantize a minha "energia" me divertir. A propósito, divirto-me dormindo com você.

Certo? De vez em quando, gosto de

— A propósito, você faz mais do que se divertir, quando dorme comigo. É o melhor tempo que já passou com alguém. E, meu caro amigo — acrescenta —, também não procure me simplificar.

"Oh, Deus", diz Helen, espreguiçando-se languidamente pela manhã, "trepar é uma coisa maravilhosa.”

É verdade, verdade, verdade, verdade, verdade. Trata-se de paixão arrebatadora, inesgotável e, dentro da minha experiência, renovadora. Fazendo um retrospecto do meu caso com Birgitta, parece—me, do ponto de vista da minha nova oportunidade, que com a idade de vinte anos estávamos tornando um ao outro corruptos, cada um escravo do outro e seu senhor, cada um incendiário e incendiado. Exercendo tanto poder sexual um sobre o outro, e contra pessoas totalmente estranhas, havíamos criado uma forte atmosfera hipnótica, mas que influenciava, sobretudo a inexperiência da mente. Sentia-me intrigado e estimulado tanto pela idéia daquilo que fazíamos como pelas sensações, pelo que senti, pelo que vi com Helen, não era assim. Claro que preciso primeiro acostumar-me no auge do meu ceticismo, com seu jeito teatral, mas logo, à medida que vou compreendendo melhor, que vai aumentando minha familiaridade, e com ela o sentimento, começo a abrir mão de algumas suspeitas, deixo de fazer perguntas e passo a considerar essas cenas apaixonadas como a emanação do próprio destemer que tanto me atrai em Helen, daquele abandono decidido com o qual ela se entrega a quem quer que a procure com insistência, sem se importar se no final aquilo lhe vai trazer dor ou prazer. Estava completamente enganado, tentando descartá-la por achar sua mentalidade tacanha e banal, condicionada por fotonovelas, ao invés de admitir que ela não tem fantasia, que não há lugar para fantasia, tão absolutas são a determinação e a candura com que proclama seu desejo. Agora, depois do orgasmo, estou comovido pela gratidão e pelos sentimentos mais profundos de auto-rendição. Sou o menos protegido, se não o mais solitário organismo sobre a terra. Nem mesmo sei o que responder em determinados momentos.

No entanto, Helen sabe. Sim, existem coisas que essa moça sabe, e muito bem. "Eu o amo", ela me diz. Bem, se alguma coisa deve ser dita, o que poderia ter mais sentido? Assim, começamos a dizer um para o outro que somos amantes, já que nos amamos, embora esteja convencido, pelo teor de nossas conversas, de que trilhamos caminhos bem diferentes. Desejando convencer-me de que uma afinidade rara e inestimável constitui o fundamento e o incentivo de nossas apaixonadas relações,

não desejo, todavia, ver desaparecer a inquietação que Helen continua a despertar em mim. Por que, então, não podemos por que não posso — parar de tergiversar e de fazer contínuas perguntas?

Finalmente, ela concordou em me contar por que motivo abandonara tudo o que tinha no Extremo Oriente. Contou-me, quer para responder diretamente às minhas suspeitas, quer para adornar a mística a que não consigo resistir.

O amante, o último de seus Karênins, principiou com uma conversa de arranjar para que sua mulher fosse morta em um

"acidente". — Quem era ele? — Um homem muito conhecido e importante — eis tudo quanto ela se dignou responder. Engulo

a resposta da melhor maneira e lhe pergunto; — Onde é que ele está agora? — Ainda lá. — Ele não tentou ver você? —

Esteve aqui há uma semana. — E você dormiu com ele? — Naturalmente. Como poderia resistir? Mas, depois, mandei-o

embora. Quase morri.

Foi horrível vê-lo partir para sempre. — Bem, talvez continue com a idéia e mande matar a mulher, de qualquer maneira, só

para cumprir o que

humano quanto você? — Helen, há vários meios de se livrar de uma pessoa que viva com você, sem ser pelo homicídio. Um deles é sair porta afora. — Você consegue agir assim com tanta simplicidade?

— Por que tem de caçoar dele? É tão difícil assim, para você, compreender que ele é tão

É assim que fazem no departamento de literatura comparada? Eu me pergunto o que acontece quando vocês não conseguem o

que desejam.

— Terei de arrebentar os miolos de alguém para conseguir? Terei de empurrar alguém no poço do elevador?

Porque não podia suportar a idéia, nem mesmo falar

nela. Fiquei aterrorizada pensando que ele pudesse ter tal idéia. Ou talvez a idéia fosse tão excruciantemente tentadora que

resolvi sair correndo. Essa foi a razão.

— O que acha? Olhe, eu sou uma que abandonou tudo e quase

Porque eu só tinha de dizer sim. Ele só estava esperando isso. Estava desesperado, David, e falava seriamente. E você sabe como teria sido fácil dizer o que ele queria ouvir. É só uma palavra, que toma exatamente uma fração de segundo: "sim". — Só que ele talvez tenha pedido porque tinha certeza absoluta de que você diria não. — Não podia ter certeza, pois nem eu a tinha.

— Mas um homem tão conhecido e importante certamente podia ter tomado uma resolução e feito a coisa por sua própria

iniciativa. Será que não podia, sem que se soubesse que ele era o autor? Certamente um homem tão conhecido e importante tinha todos os meios à sua disposição para afastar do caminho uma mulher desagradável: desastres de automóveis, lanchas que afundam, aviões que explodem no ar. Se tivesse agido sem consultá-la, você nem ia pensar no problema. Se pediu a sua opinião, talvez fosse para ouvir um não.

— Ah, muito interessante. Continue. Eu digo não, e o que é que ele ganha? — O que ele tem: a mulher e você. Obtém tudo e ainda faz uma bela figura em todo esse negócio.

Bem,

ele provavelmente não imaginou tal atitude por parte de uma americana bela, aventureira, que fugiu de casa. — Muito inteligente, na verdade. Nota máxima, principalmente na parte das "conseqüências morais".

O fato de você fugir, o fato de ter encarado toda a história já como realidade, teve conseqüências morais para

O que está errado é que você não tem a mínima compreensão do que havia entre nós. Só porque se trata de um homem

poderoso, pensa que ele não tem sentimentos. Mas há quem tenha uma coisa e outra.

Durante dois anos nós nos encontramos duas vezes por semana. Às vezes

de ser perfeito.

Nunca menos. Nunca mudou. Nunca deixou

Você não acredita que tais coisas aconteçam, não é? Ou, se acredita, pensa que não têm importância. Mas isso aconteceu, e tanto para mim como para ele, valia mais do que qualquer coisa. — Mas também aconteceu à volta dele. E mandá-lo embora aconteceu também, assim como aconteceram ainda o terror e a repulsa que você sentiu. As maquinações desse camarada não vêm ao caso. Tinham importância para você, Helen, porque você atingiu o limite.

— Talvez eu estivesse errada e fosse apenas um grande sentimentalismo da minha parte. Ou talvez uma espécie de esperança infantil.

Quem sabe eu devesse ter ficado, ultrapassado os meus limites — Você não podia e não fez.

Oh, e agora, quem é o sentimental?

E ver, afinal de contas, que não estava muito além de mim.

Parece, então, que a capacidade de renúncia amargurada, aliada à aptidão para o abandono sensual, é que torna sua atração iniludível. O fato de nós nunca nos entendermos totalmente, de eu nunca estar completamente seguro, de lhe faltar certa profundidade, de sua vaidade ser enorme, bem, tudo isso não é nada — não é? — ao lado da estima que vim a ter por essa bela e dramática heroína, que arriscou e venceu, e de novo perdeu muito, ao botar à prova corajosamente o seu desejo. E, depois, há a beleza em si. Não é ela a singular criatura mais desejável que já conheci?

Com uma mulher tão fisicamente cativante, uma mulher de quem não consigo tirar os olhos mesmo quando está apenas tomando café ou discando o telefone, cujos mínimos movimentos do corpo têm uma tão poderosa e sensual influência sobre mim, quase que não preciso preocupar-me de novo com as tentações imaginárias de renovadas aventuras vis e estonteantes. Não é Helen a

mulher sedutora que eu já procurava na universidade, quando o lábio inferior de Walsh, a "Sedosa", me perturbava a ponto de

persegui-la no café, no ginásio, até no

Essa criatura é para mim tão bela que sobre ela, somente sobre ela, posso

concentrar todo o meu desejo, toda a minha adoração, minha curiosidade, e minha volúpia?

Se não for Helen, quem, então? Quem poderá despertar meu interesse a esse ponto? E, ai de mim, há tanta coisa ainda para despertar meu interesse.

E se nós nos

vez maior, a certeza de sua permanência, eliminar qualquer impulso que ainda reste, de ambos os lados, de presunção e autodefesa? Naturalmente não seria um jogo tão arriscado se Helen fosse apenas um pouco mais de um jeito, um pouco menos de outro. Mas, como me apresso a lembrar a mim mesmo — na hipótese de já ser mesmo um homem amadurecido —, não é isso que destinamos um ao outro a essa altura dos nossos sonhos. Além disso, aquilo que chamo de "falta de profundidade" e "vaidade" é justamente o que a torna tão interessante! De modo que só posso esperar que uma mera diferença de "opiniões" (fato que me apressa a admitir, se é que isso ajuda, que sou eu sempre o primeiro a salientar qualquer coisa e a dramatizá-la) terminará por estar absolutamente fora do problema da minha apaixonada fixação, que até então permaneceu inalterável, apesar dos nossos diálogos inflamados e um tanto evangélicos. Posso apenas almejar que, assim como me enganei quanto às suas razões anteriores, eu novamente me engane quando suspeito que o que ela secretamente espera obter no casamento é o fim de sua ligação amorosa com aquele antipático Karênin de Hong Kong.

Bem, o lado litigioso da questão simplesmente se consumirá ou não quando uma intimidade cada

Resta-me apenas almejar que ela se case realmente comigo e não com a barreira que a minha pessoa representa em relação ao passado, cuja perda quase a destruiu. Posso apenas esperar (porque nunca se pode saber) que é comigo que ela vai para a cama, e não com as recordações da boca, das mãos e do membro do mais perfeito de todos os amantes, ele, que mataria sua mulher a fim de tornar sua a própria amante.

Então, entre dúvidas e esperanças, desejos e temores (antegozando num instante o mais agradável e vivido de todos os futuros,

e o pior, no instante seguinte), caso-me com Helen Baird, depois de quase três anos completos de dúvidas, esperanças,

desejos e temores. Há homens, como meu pai, que bastam ver uma mulher de pé, ao lado do piano, cantando Amapola para imediatamente se decidirem: "Lá está a minha mulher" e outros que dizem, num suspiro:

"Sim, lá está ela" somente depois de um interminável drama de hesitações que os levam à inelutável conclusão de que jamais

deverão tornar a ver aquela mulher. Caso-me com Helen quando o peso da experiência necessária para chegar à decisão monumental de deixá-la de uma vez por todas parece-me tão grande e comovedor que não me é possível imaginar a vida sem ela. Só quando finalmente tenho certeza de que isso deve terminar agora é que descubro quão profundamente casado eu já estou realmente pelos mil dias de indecisão, de avaliações escrutinadoras das possibilidades que, de certo modo, fizeram uma ligação de três anos parecer tão cheia de acontecimentos como um casamento de meio século. Assim sendo, caso-me com

Helen

passam anos e anos e anos em combinações delimitadas e confusas, que implicam apartamentos separados e férias conjuntas, pressupostos de abnegação e noites deliberadamente isoladas, ligações terminadas com alívio de seis em seis meses e já esquecidas no decurso de setenta e duas horas ou, mais tarde, reatadas com um delicioso e, possivelmente, fervoroso arrebatamento sexual, após um encontro um tanto fortuito no supermercado do bairro, ou reiniciado após um telefonema à noite, com intuito apenas de avisar o companheiro abandonado da reprise de um importante documentário às dez horas na televisão, ou no compare cimento a um jantar com o qual os dois já se haviam comprometido há tanto tempo que não ficaria bem não ir e, juntos, cumprirem esse dever social. É óbvio que um dos dois poderia cumprir sozinho a obrigação, mas, então,

No momento exato de impasse e exaustão que deve finalmente apossar-se de todos aqueles que

E ela se casa comigo

aquele que estivesse só não teria, do outro lado da mesa, um aliado com quem trocar olhares de tédio ou satisfação, nem depois, no regresso a casa, haveria alguém com disposições idênticas junto ao qual pudesse o outro fazer um retrospecto do charme ou da insipidez de certos convidados, nem ao se preparar para dormir encontraria o amigo ávido e sorridente, deitando-se despido ali a seu lado, a quem declararia que a única pessoa verdadeiramente insinuante presente no jantar vinha a ser o companheiro anteriormente manque, subestimado.

Casamo-nos e, como eu deveria saber, ou não poderia saber, ou provavelmente sempre o soube, as mútuas críticas e censuras continuam a envenenar nossas vidas, prova não apenas da profunda desigualdade de temperamentos que sempre existiu desde o princípio, como também da impressão persistente de que um outro homem é ainda merecedor de sua mais profunda ternura, e que, por mais que ela tente ocultar o fato melancólico e se dedique a mim ou à nossa vida, sabe tão bem quanto eu que só é minha mulher por não haver outro meio, a não ser o homicídio, para que pudesse tornar-se a mulher daquele seu amante importante e conhecido.

Nos nossos melhores momentos, nos nossos mais admiráveis, razoáveis e afetuosos momentos, tentamos, com todas as nossas forças, odiar aquilo que nos separa, ao invés de nos odiar mutuamente.

Se, de qualquer modo, um de nós pudesse

esquecê-lo! Se eu pudesse eliminar essa falta de confiança que ainda existe entre nós! Ou ignorá-la! Deixar isso para trás! Nos nossos melhores momentos, tomamos resoluções, pedimos desculpas, penitenciamo-nos, fazemos amor. Porém, nos nossos

maus

Se ao menos esse seu passado não fosse tão vivido, tão grandioso ou

Bem, os nossos piores momentos são tão ruins como os de qualquer um, assim o creio.

Quais os nossos maiores motivos de altercação? No princípio — é fácil para qualquer um imaginar quem, depois de três anos de procrastinação, atirou—se impetuosamente e quase convencido nas chamas do matrimônio —, no princípio, discutíamos por causa das torradas. Por que, pergunto, não botamos o pão no forno enquanto cozinhamos os ovos, e não depois? Dessa forma comeremos as torradas mornas ao invés de frias.

— Não concordo com essa discussão — diz ela. A vida não é fazer torradas! — acaba gritando.

— É, sim, senhora! — ouço-me mantendo o meu ponto de vista.

Quando você se senta para comer torradas, a vida reduz-se a fazer torradas, e quando você carrega o lixo, a vida é carregar o lixo. Você não pode deixá-lo no meio da escada, Helen. O seu lugar é na lata que se encontra na área, e tampado.

— Eu me esqueci.

— Como é possível esquecer quando já está na sua mão?

— Talvez seja querido, por se tratar de

Afinal, que diferença faz?

Ela se esquece de assinar os cheques que faz e de selar as cartas que envia, enquanto as minhas cartas que lhe peço para botar no correio e as contas da casa, para pagar, surgem com certa regularidade nos bolsos de sua capa de chuva e das calças, muitos meses depois de ela sair para depositá-las na caixa do correio. Onde é que você está com a cabeça, Helen? O que a faz tão esquecida? Saudades de Mandalay.

Lembranças do "calhambeque", das lagoas, dos elefantes, da alvorada irrompendo como trovão

— Não posso ficar pensando o tempo todo no diabo de suas cartas, a cada passo que dou.

— Mas, para começar, o que é que você pensa que vai fazer, ao sair com as cartas na mão?

— vou tomar um pouco de ar, aí está! Ver o céu! Vou respirar! — Mas, logo, ao invés de apontar seus enganos e descuidos, ou

voltar sobre seus passos, ou apanhar os objetos e conter-me (para em seguida trancar-me no banheiro, invectivando contra ela), torro o pão, cozinho os ovos, levo o lixo, pago as contas e ponho as cartas no correio. Mesmo quando ela diz, gentilmente (tentando, por seu lado, remediar a horrível incompreensão que nos separa):

— vou fazer compras, você quer que eu ponha

obrigado. — No dia em que ela perdeu a bolsa, depois de fazer uma retirada no banco, eu assumi as transações no banco. No dia em que deixou o peixe apodrecer debaixo do assento dianteiro do carro, enquanto saía, pela manhã, para comprar os filés

A experiência, se não a prudência, faz-me dizer: —

Não,

de salmão para o jantar, eu resolvi fazer as compras. No dia em que, por engano, mandou lavar normalmente o suéter de lã que devia ser lavado a seco, resolvi tomar a meu cargo levar a roupa para a lavanderia. O resultado é que ainda não se passara um ano e eu já trabalhava — com satisfação — cerca de dezesseis horas por dia, lecionando para minhas turmas e reescrevendo minha tese, para publicação, sobre a desilusão romântica na obra de Anton Tchékhov (assunto escolhido muito antes de conhecer minha mulher), enquanto Helen bebe sem parar e toma drogas.

Seu dia começa com um banho de águas perfumadas com jasmim. Com óleo de oliva nos cabelos, para torná-los sedosos depois de lavados, e o rosto untado com cremes de vitaminas, ela diariamente se deita vinte minutos na banheira, os olhos fechados, o precioso crânio pousado em um pequeno travesseiro cheio de ar. Movimenta-se apenas para retirar a calosidade dos pés com pedra-pomes. Três vezes por semana, ao banho segue-se a sauna facial: em seu quimono de seda azul-escuro, com papoulas bordadas em vermelho-pálido e com pássaros amarelos nunca vistos em terra ou mar, 0 ela senta-se na mesa da minúscula kitchenette, a cabeça envolta num turbante e inclinada sobre um pote de água que exala vapor, dentro do qual foram espargidos alecrim, sabugueiro e flores de camomila. Depois desse tratamento, pintada e penteada, ela está pronta para se vestir a fim de ir à aula de ginástica - ou a qualquer outro lugar, enquanto estou na universidade: — um vestido à moda chinesa, muito justo, de gola alta, fendido até a coxa, os brincos cravejados de diamantes, os braceletes de jade e ouro, o anel de jade, sandálias, bolsa de palha.

Quando, bem mais tarde, ela volta — depois da ioga —, declara estar decidida a ir a San Francisco, para "dar uma olhada".

Fala (tem falado nisso há anos) em planos de abrir lá um antiquário de coisas do Extremo hora do jantar, são toda sorrisos: inconsciente, tenra, distorcida.

Já está um tanto alta e, à

— A vida é uma torrada — observa, enquanto toma aos golinhos quatro dedos de rum, e eu tempero as costeletas de carneiro.

— A vida são os restos. A vida são as solas de couro e os saltos de borracha. A vida é o transporte do saldo para o novo

talão de cheques. A vida é fazer, nos canhotos dos talões de cheques, um assentamento correto da quantia a ser paga. E o dia

certo, mês e ano.

— Tudo isso é verdade — digo.

— Ah — diz ela, observando-me andar de um lado para o outro, para botar a mesa: — Se pelo menos sua mulher não se

esquecesse nunca do assado no forno, deixando tudo queimar; se pelo menos sua mulher se lembrasse de que, nos jantares de

David, em Arcadia, sua mãe punha sempre o garfo à esquerda e a colher à direita, nunca, nunca, do mesmo lado; oh, se sua mulher soubesse ao menos lhe fazer batatas assadas com manteiga, da maneira que mamãe fazia durante o inverno.

Ao passarmos dos trinta anos, nossas antipatias estão de tal modo exacerbadas que cada um de nós ficou reduzido precisamente àquilo de que o outro tanto desconfiava no princípio, à "afetação" dogmática e à "meticulosidade" em virtude das quais Helen me detesta com todas as suas forças.

— Você agora é realmente assim,

menos evidentes do que a "negligência” de Helen, a "idiota dissipação", os "devaneios de adolescente", etc. Contudo, não consigo nunca deixá-la, nem ela a mim, isto é, até que um desastre total torne simplesmente ridículo continuar esperando que um milagre nos converta. Tanto para espanto nosso como dos outros, estamos casados há quase tanto tempo quanto fomos amantes, talvez pela oportunidade que esse casamento nos propicia de investir de frente contra o que cada um de nós pensa ser o seu demônio (e, no princípio, parecia a nossa salvação!). Passam-se dois meses e continuamos juntos, pensando se por

Ou uma

joalheria

acaso um filho não iria de certo modo resolver esse impasse louco

Ou uma psicoterapia para nós dois. Mais de uma vez ouvimo-nos descritos como um casal extraordinariamente

"atraente": bem-vestidos, inteligentes, viajados, mundanos (principalmente tratando-se de um jovem casal universitário), a

combinação de um orçamento de doze mil dólares por

E a vida está horrivelmente cara. O pouco espírito que ainda me

resta, durante os últimos meses de casamento, só é visível durante as aulas. Afora isso, sinto-me tão inerte e distraído que

corre um boato entre o pessoal do penúltimo ano da faculdade de que estou "sob efeito de tranqüilizantes".

Um jovem caturra totalmente inexperiente — cujos defeitos, entretanto, não são

Ou uma loja de objetos antigos só para Helen

Desde a aprovação da minha tese, tenho lecionado, juntamente com o curso dos calouros, "Introdução à ficção", duas divisões da pesquisa sobre literatura "geral", para os alunos do segundo ano. Nas semanas que precedem o término do trimestre, quando estudamos os contos de Tchékhov, enquanto leio em voz alta alguns trechos que faço questão de que meus alunos tomem nota, descubro que cada um dos períodos parece, acima de tudo, aludir à minha própria situação, como se, agora, a mínima sílaba pensada ou articulada fizesse parte dos meus dissabores. Depois, vêm os meus devaneios em classe,

subitamente tão numerosos quanto irreprimíveis, e tão obviamente inspirados por anseios de salvação

Um

retorno às vidas há muito tempo perdidas para mim, reencarnação como um ser totalmente diverso daquele que sou

Que

chego algumas vezes até a ficar agradecido de estar deprimido e destituído de qualquer força de vontade para pôr em ação a mais leve das fantasias.

"Compreendi que, quando amamos, devemos, ao pensar sobre esse amor, partir do que é mais elevado, mais importante do que felicidade ou infelicidade, pecado ou virtude, dentro de seu significado usual, ou então não pensar em coisa alguma.”

Pergunto aos alunos o que essa frase quer dizer e, enquanto respondem, noto que, num distante ângulo da sala, a moça de

Assim como a mais arrogante e

entediada, está terminando de comer um pedaço de doce, com uma Coca, a guisa de almoço. "Oh, não coma porcaria", digo- lhe em silêncio, vendo-nos no terraço do Gritti, andando por entre as luzes tremeluzentes do Grande Canal, para chegar à

personalidade e voz suave, que é a mais inteligente das minhas alunas, a mais

fachada de cor ocre do pequeno e belo palazzo onde reservamos um quarto de persianas

meio-dia, uma pasta cremosa, acompanhada de tenras fatias de vitela temperada com limão

e eu, arrogantes, jovens, nervosos, não muito mais velhos do que aqueles rapazes e moças que ali estavam diante de mim, sentamo-nos para comer, naquela tarde em que havíamos juntado nossa fortuna para celebrar nossa chegada à Itália de

Depois, eis-nos almoçando, ao Na mesma mesa em que Birgitta

Entrementes, meu outro aluno muito inteligente explica o que o proprietário rural Aliócha quer dizer no fim de "Sobre o amor", quando fala “do que é mais elevado”.

Do que felicidade ou infelicidade, pecado ou virtude, dentro de seu significado usual". O rapaz diz: — Ele arrepende-se de não ter cedido a seus sentimentos, fugindo com a mulher por quem se apaixonou. Agora, que ela vai embora, ele está desconsolado por ter permitido que a consciência e os escrúpulos, assim como sua própria timidez, o houvessem impedido de confessar o seu amor só porque ela era casada e mãe. Faço, com a cabeça, um gesto de assentimento, mas claramente sem compreender, e o aluno inteligente fica desapontado. — Será que estou errado? — pergunta, muito vermelho. — Não, não — digo, mas todo esse tempo estou pensando: "O que está fazendo, Miss Rodgers, jantando chocolate com amendoim? Nós "

devíamos estar degustando vinho branco

E, então, ocorre-me que, no último ano de faculdade na use, Helen provavelmente

teria parecido com minha chateada Miss Rodgers, nos meses que antecederam o dia em que aquele homem mais velho — da minha idade! a arrancou da sala de aula para uma vida de aventuras românticas

Mais tarde, quase no fim da aula, afastei os olhos do livro A dama do cachorrinho, que eu lia em voz alta, para colocá-los fixamente no olhar inocente e ainda não corrompido da moça judia, gorda, séria, compassiva, de Beverly Hills, que se sentara

na fila da frente, durante todo o período, anotando tudo quanto eu digo. Li para toda a classe o último parágrafo do conto, em que o casal adúltero, abalado ao constatar o quanto se amava, procura em vão "compreender por que ele devia ter uma mulher

e ela um marido". "Parecia-lhes, então, que em apenas alguns minutos mais encontrariam uma solução, e que uma vida nova e bela ia começar.

Entretanto, ambos sabiam muito bem que o fim ainda estava muito, muito longe, e que a parte mais complicada e difícil estava apenas principiando."

Ouço a minha voz falando da enternecedora transparência do final — nada de falsos mistérios, apenas os fatos rígida e diretamente apresentados. Falo da proporção de história humana que Tchekhov consegue incorporar em quinze páginas, de que maneira o ridículo e a ironia gradativamente cedem lugar, mesmo em tempo tão curto, à tristeza e ao patético, de seu sentimento pelo momento da desilusão e por aqueles processos em que o momento presente aparentemente se apodera até das nossas mais inocentes ilusões, não falando dos grandes sonhos de realizações e aventuras. Falo de seu pessimismo e daquilo que ele denomina "esse negócio de felicidade pessoal", e durante todo o tempo desejo perguntar à roliça garota da primeira fila, que rapidamente passa para o seu caderno tudo quanto eu digo, se ela quer ser minha filha. Desejo pagar suas roupas e as contas do médico e, quando estiver se sentindo triste ou só, que venha e passe os braços ao redor do meu pescoço. Se apenas tivéssemos sido Helen e eu que a houvéssemos criado assim tão meiga! Mas como poderíamos nós dois criar alguma coisa?

E, mais tarde, naquele mesmo dia, quando, ocasionalmente, esbarro com ela andando em minha direção no campus, continuo a sentir-me impelido para uma pessoa que provavelmente tem apenas dez ou doze anos menos do que eu e dizer-lhe que desejo adotá-la, que esqueça seus pais, sobre quem nada sei, deixando-me ser seu pai e protegê-la. — Alô, Mister Kepesh —, ela diz, com um aceno de mão, e esse gesto afetuoso aparentemente desperta a minha emoção. Sinto-me ficar cada vez mais leve, mais leve, com a presença de uma emoção que vem em minha direção, se apossa de mim, me vira e me deposita não sei onde.

Será que vou ter um colapso nervoso aqui nesta calçada em frente à biblioteca? Tenho nas minhas as mãos de minha

E vou dizer, com a garganta embargada pelo sentimento: — Você é uma boa moça, Kátia. — Ela abaixa a cabeça, a fronte

enrubescida. — Bem — diz —, alegro-me em saber que alguém aqui gosta de mim. — Você é uma moça muito boa — repito,

deixando ir a mão macia que prendo entre as minhas, e caminho em direção a casa para verificar se Helen, que não teve filhos, está suficientemente sóbria para preparar jantar para dois.

Por essa época recebemos a visita de um inglês, um banqueiro de investimentos, chamado Donald Garland, o primeiro dos amigos que Helen fez em Hong Kong a ser convidado para jantar conosco em nosso apartamento. É

óbvio que ela teve oportunidade de fazer-se espetacularmente bela quando foi a San Francisco para almoçar com um ou outro do paraíso perdido, mas nunca anteriormente eu a vi preparar-se para o encontro nessa atitude de antecipação feliz, quase infantil. Na verdade, houve tempos em que, tendo gasto horas vestindo-se e preparando-se para ir a um almoço a que fora convidada, teria saído do banheiro com um roupão desmantelado, declarando-se incapaz de sair de casa, ou ver quem quer que fosse.

— Estou horrorosa.

— Não, absolutamente, você não está horrorosa.

— Estou sim — e com isso voltou para a cama, onde passou o dia todo.

Ela me diz, agora, que Donald Garland é "o homem mais gentil que ela já viu".

— Na minha primeira semana de Hong Kong, levaram-me para almoçar em sua casa. Ficamos logo nos adorando. O centro da

mesa estava coberto de orquídeas que ele apanhara no jardim, em minha honra, e o pátio onde comemos dava para a entrada da Repulse Bay. Eu tinha dezoito anos.

Ele devia ter cinqüenta e cinco. Santo Deus! É possível que Donald tenha setenta anos! Jamais pensaria que ele tivesse mais de quarenta. Era sempre tão feliz, tão jovem, tão entusiasmado com qualquer coisa. Ele vivia com o mais camarada e bem- humorado dos rapazes americanos. Naquela época, Chip devia ter mais ou menos vinte e cinco ou vinte e sete anos. Esta

. Certo dia faz dois meses, Chips morreu de um aneurisma,

manhã, pelo telefone, Donald deu-me a mais terrível das notícias na hora do café da manhã; caiu logo morto.

Donald levou o corpo para Wilmington, Delaware, enterrando-o, e depois não conseguia se afastar de lá. Começou fazendo reservas nos aviões e logo as cancelando. Agora, finalmente está voltando para casa.

Chips, Donald, Edgar, Brian,

longe, parecesse simpatia, curiosidade, ou interesse. Há muito que ouço tudo quanto me é possível suportar sobre as atividades do abastado círculo de homossexuais que a "adoraram". De maneira grosseira expresso minha surpresa ao saber que vou participar dessa reunião tão especial. Ela fecha os olhos com força, como se precisasse fazer-me desaparecer de sua vista apenas para poder sobreviver.

Nenhuma reação da minha parte, nem interrogatórios ou reinquirições, nada que, de

"Não fale comigo desse modo, com esse tom terrível. Ele era o meu mais querido amigo. Salvou-me a vida centenas de vezes." E por que você a arriscou centenas de vezes? Mas o interrogatório acusador, e o terrível tom que o acompanha, eu os desejo reprimir, porque, agora, sei que estou sendo diminuído muito mais pelo rancor de tudo quanto ela faz ou fez do que por aquelas suas maneiras às quais eu deveria ter aprendido a não ligar, ou que deveria aceitar com certa benignidade, há muito,

muito

reminiscências, eu me pergunto se ela o convidou ao nosso apartamento para que eu pudesse saber em primeira mão o quanto ela caiu do alto do pináculo ao ter levianamente unido o seu destino com o de um fóssil. Se esse é ou não o seu intento, o resultado o é. Na companhia deles eu não sou o simples e afável Chips, mas um professor absolutamente vitoriano, cujo coração palpita apenas ao som do chicote ou ao brandir da bengala. Numa vã tentativa de despir de minha pele esse piedoso, rabugento, reprovador pedante, esforço-me para acreditar que Helen está mostrando a esse homem que tanto significou para ela e foi tão bom para ela, e que, por sua vez, também sofreu um golpe terrível, que agora tudo está bem em sua vida, que ela e seu marido não estão vivendo confortável e amigavelmente, e que seu protetor não precisa mais se preocupar com ela. É, Helen está representando, exatamente como o faria uma filha devotada, que desejasse ocultar ao pai extremoso uma verdade Em resumo: simples como poderia parecer a qualquer um, a presença de Garland escapa completamente à minha compreensão, como se, agora que a vida com Helen deixou de ter o menor sentido, eu não pudesse descobrir a verdade sobre coisa alguma.

Só que, à medida que aquela noite vai passando, e Garland torna-se cada vez mais animado em suas

Aos setenta anos de idade, o delicado e delgado Garland ainda possui uma espécie de charme juvenil e uma maneira de ser a um tempo mundana e de menino. Sua testa é tão frágil que parece poder quebrar-se com uma leve batida de colher e suas faces

são pequenas, redondas e lustrosas, como as de um cupido de alabastro. Acima da camisa aberta, um lenço de seda de cor pálida envolve-lhe o pescoço, quase escondendo totalmente as rugas, único indício da idade.

Naquele rosto singularmente jovem, só se evidencia a tristeza nos olhos suaves, castanhos, intensamente melancólicos, mesmo quando o tom de voz incisivo se recusa a denunciar o menor indício de amargura.

— O pobre Derek foi morto, você sabe. — Helen não sabia. Tapou a boca com a mão. — Mas como? Derek disse ela,

dirigindo-se a mim — era sócio da firma de Donald. Às vezes, ele era muito bobo, muito desnorteado, etc., mas, na realidade,

era um homem tão

— Ante a minha expressão inerte, Helen volta-se rápida para Garland.

— Sim — disse ele —, era uma pessoa muito boa, e eu me dedicava a ele. Ah, sim, costumava falar sem parar, mas bastava

que você lhe dissesse "Derek, por hoje, basta" e logo se calava. Bem, dois rapazes chineses, julgando que ele não lhes havia dado bastante dinheiro, empurraram-no escada abaixo. Derek quebrou o pescoço.

— Que horror, que coisa medonha. Pobre homem. E o que — pergunta Helen aconteceu com os bichos que ele criava?

— Os pássaros morreram. Uma espécie de vírus acabou com eles uma semana após a morte do dono. O resto, Madge adotou. Madge adotou-os e Patrícia toma conta deles. De outro modo, aquelas duas nada terão a ver uma com a outra.

— De novo?

— Ah, sim. Quando ela quer, aquela Madge é uma boa puta. Há um ano, Chip fez toda a casa para ela. Ela botou o pobre rapaz quase doido com o banheiro no andar de cima. — Helen tenta mais uma vez fazer-me voltar a terra, explicando que Madge e Patrícia são proprietárias das casas que ficam ao longo da baía em frente à casa de Donald e foram estrelas do cinema inglês na década de 1940. Donald enumera, rapidamente, os filmes que fizeram.

Eu balanço a cabeça e torno a balançar como uma pessoa bem-educada, mas a intenção do sorriso que me esforço por fazer nem sequer transparece o mesmo não acontecendo, no entanto, com o olhar que Helen me lança.

— E, fisicamente, como é que Madge está? Helen pergunta.

— Bem, quando se maquila, ainda fica maravilhosa. Naturalmente, não deve usar biquíni.

— Por quê? — pergunto, mas ninguém parece ter-me ouvido. A noite termina com Garland, já um tanto embriagado, segurando

na mão de Helen e fazendo-me a descrição da famosa festa à fantasia realizada em uma clareira da selva na pequenina ilha do golfo de Sião, de propriedade de seu amigo tailandês, meia milha ao sul da Tailândia. Chip, que desenhou o vestido de Helen, botou-a toda de branco, como o Príncipe Ivan, no Pássaro de jogo.

"Estava arrebatadora. Uma blusa de cossaco, de seda, e calças de seda muito largas metidas dentro de botas finas de couro prateado, e um turbante prateado preso com um broche de diamante. Ao redor da cintura um cinto, que parecia uma jóia, de esmeraldas." Esmeraldas? Compradas por quem?

Obviamente por Karênin. Onde está agora o cinto, eu me pergunto? O que você tem de devolver, e o que você pode guardar? Certamente que o que você pode guardar é as recordações, não há dúvida quanto a isso. Uma princesinha tailandesa começou a chorar quando a contemplou. Pobrezinha.

Ela botou de tudo em cima dela, exceto o fogão da cozinha, e pensava que todo mundo ia desmaiar. Mas quem parecia uma personalidade real naquela noite era esta querida amiga que aqui está. Oh, foi um total alvoroço. Helen nunca lhe mostrou as fotografias? Você não tem as fotografias, querida? — Não — disse Helen. — Não as tenho mais. — Oh, gostaria de ter trazido as minhas. Mas nunca pensei encontrá-la. Mas eu nem tinha consciência de quem eu era quando saí de casa. Lembra-se dos meninos? Depois de tomar um grande gole de conhaque. — Chip, naturalmente, tirou toda a roupa dos meninos nativos, deixando apenas uma casca de coco amarrada ao sexo e pequenas lâmpadas de Natal piscando em seus pescoços. Quando ventava, o espetáculo era impagável! Bem, o barco atracou, e todos aqueles meninos vinham dar as boas-vindas aos convidados, conduzindo-nos por um atalho cheio de lanternas até a clareira onde seria servido o banquete. Oh, Deus, é verdade, Madge apareceu com o vestido que Derek usou na festa de aniversário, quando fez quarenta anos. Nunca gastava dinheiro quando podia evitá-lo. Estava sempre aborrecida com algo, mas, na maioria das vezes, era com o dinheiro que todos lhe queriam roubar. Ela me disse: "Só se pode ir a esses lugares quando se tem algo maravilhoso para usar". Então, eu lhe disse, brincando apenas, preste bem atenção: "Por que você não vai com o vestido de Derek? É de gaze branca coberta de

Diamante, e uma longa cauda.

Muito decotado nas costas. Você ficará linda dentro dele, minha querida". E Madge disse: "Como é que pode ser muito decotado nas costas, Donald?

Como é que Derek pode usar aquilo? E aquele cabelo caindo-lhe nas costas, e todas aquelas bobagens repugnantes?” Eu disse:

"Oh, querida, ele só corta os cabelos e faz a barba uma vez em cada três anos”. Você sabe — Garland me diz —, Derek era

mais o tipo dos oficiais da Guarda

Ah, existe uma fotografia de Helen que você precisa ver David. Preciso mandá-la para você. É aquela onde Helen está sendo transportada do barco para a terra pelos pequeninos nativos cobertos de enfeites brilhantes. Com aquelas pernas longilíneas e

Seu rosto, naquela fotografia, é clássico.

Preciso mandá-la para você, você precisa ter aquela foto. Era a mais arrebatadora das criaturas. Patrícia disse-me que a primeira vez que lhe deitou os olhos (foi durante um almoço em minha casa, e a pobre moça ainda vestia as roupas mais comuns possíveis), mas Patrícia disse que ela tinha o jeito das estrelas, e que sem nenhuma dúvida poderia tornar-se atriz de cinema. E poderia ter sido.

toda aquela seda colada ao corpo, oh, ela era a própria perfeição. E o seu

Esbelto, elegante, a cútis muito rosada, a mais extraordinária pessoa totalmente imberbe.

Ela ainda tem esse jeito. Sempre o terá.

— Eu sei — responde o mestre-escola, fazendo vibrar a bengala silenciosamente.

Quando ele sai, Helen diz: — Bem, não há necessidade de perguntar o que você pensa dele, há? — É exatamente como você disse, ele adora você. — Realmente, que direito lhe assiste de transformar-me em juiz das paixões alheias? Você não ouviu? Este mundo é muito, muito grande, e há lugar para todo mundo fazer aquilo que lhe agrada.

Até você, David, um dia fez o que gostava. É o que dizem. — Eu não me arvoro em juiz de ninguém. O que me arvoro em julgar você não acreditaria.

— Ah, a você próprio. Severíssimo com você. Por um momento, eu havia me esquecido. — Fiquei sentado, Helen, e ouvi, e

não me lembro de ter dito coisa alguma sobre as paixões ou as preferências ou as partes íntimas de quem quer que seja daqui ou do Nepal. — Donald Garland talvez seja o melhor homem vivo. — Foi muito simpático comigo. — Ele sempre aparecia quando eu precisava de alguém. Houve um tempo em que passei semanas em sua casa. Ele me protegia contra certas pessoas horríveis. Por que você não se protegeu conservando-se longe dessa gente? — Muito bem — eu disse —, você teve sorte, e aquela época foi ótima. — Ele gosta de tagarelice, de contar casos e não há dúvida de que esta noite ele esteve um tanto Mas basta ver o que ele tem passado. Acontece, porém, que ele sempre sabe o que as pessoas são, se valem

muito, se valem

E

dedica-se a seus amigos, até aos doidos. A lealdade dessa espécie de homens é absolutamente maravilhosa e não deve ser depreciada por ninguém. E não se engane: quando ele tem seus sentimentos, pode ser rijo como ferro. Inflexível, e maravilhoso. — Tenho certeza de que foi um maravilhoso amigo para você. Ainda é!— Olhe aqui, o que você está tentando me dizer? Esse último dia não está captando o âmago das coisas.

Há rumores de que meus alunos vão dar-me o exame final, para ver se conseguiram reter algo do meu cérebro. De que estamos falando agora? — Estamos falando que eu ainda sou uma criatura de responsabilidade para muitas pessoas, mesmo que para você, seu sábio professore e suas dinâmicas e deselegantes mulherzinhas, eu esteja abaixo da crítica. É verdade que não sou bastante inteligente para fazer as tortas de banana e de cenoura, ou para cult

ivar minhas mudas de vagem e "cursar" seminários na qualidade de ouvinte, assim como "encabeçar" reuniões e estigmatizar a guerra em todos os tempos, mas as pessoas ainda olham para mim, David, aonde quer que eu vá.

Poderia ter-me casado com um desses homens que governam o mundo! E não teria precisado olhar para muito longe. Odeio ter de dizer coisas assim tão vulgares e desprezíveis sobre a minha pessoa, mas é o que você tem de dizer a quem o julgue tão repulsivo. — Eu não a acho repulsiva. Ainda estou surpreso por você ter-me escolhido em primeiro lugar, ao invés do presidente da ITT.

Como é que uma pessoa incapaz até de terminar um pequeno folheto sobre Anton Tchékhov pode sentir outra coisa além de gratidão por estar vivendo com a segunda colocada para o título de Rainha do Tibete?

Sinto-me honrado por ser o escolhido para seu tormento. — É discutível quem, aqui, é o tormento. Eu lhe causo repugnância.

— Helen, eu nem gostei nem desgostei daquele homem. Com os diabos, eu

E Donald também é repugnante para você

verdadeiramente me esforcei. Olhe aqui, o meu melhor amigo, há anos, na universidade, era o único homossexual que havia lá.

Em 1950, quando esse tipo de gente quase não existia, eu tive um amigo bicha! Ainda nem sabia o que era isso, e tive um

amigo assim. Não ligo para quem usa a roupa de

Oh, com os diabos, me esqueça, vou-me embora!

Então, num sábado, pela manhã, já no fim da primavera, quando eu acabara de sentar-me à minha mesa de trabalho para fixar

as datas dos exames, ouço a porta da frente do nosso apartamento abrir, fechar

. Dias horríveis, que

acarretaram duas visitas ao necrotério de San Francisco, um deles com a mãe de Helen, hesitante e perplexa, que insistiu em vir de Pasadena de avião e em acompanhar-me corajosamente na busca do corpo sem vida de uma mulher "caucasiana" de

trinta a trinta e cinco anos, que se

casamento irremediável e desigual havia principiado. Helen partiu. Vários dias se passaram

E, finalmente, a dissolução daquele

Até onde eu tenho conhecimento de seu paradeiro.

O

Departamento de Estado. O segundo é de Garland, que acrescenta alguns detalhes sombrios e esclarecedores: do aeroporto de

Hong Kong, ela foi diretamente, de táxi, para a mansão de seu renomado ex-amante, em Kowloon. Segundo me disseram, é ele

o Onassis inglês, filho e herdeiro do fundador da Linha MacDonald-Metcalf, e ainda o rei dos cargueiros que vão do cabo da

Boa Esperança para a baía de Manila. Na casa de Jimmy Metcalf, nem a deixaram transpor a porta onde se encontrava o criado, principalmente depois de seu nome ser anunciado à mulher de Metcalf. E, algumas horas mais tarde, quando ela deixou

o hotel para relatar à polícia um plano feito alguns anos atrás, pelo presidente da MacDonald-Metcalf, para fazer com que sua mulher fosse atropelada por um automóvel, policial que estava a serviço ali no posto deu um telefonema e imediatamente um pacote de cocaína foi encontrado dentro de sua bolsa.

primeiro

Informando-me de que minha companheira está numa prisão de Hong

Vem do

— E o que está acontecendo agora? — pergunto-lhe.

— Pelo amor de Deus, Donald, agora como é que vai ser?

— Eu a tiro de lá — diz Garland.

— Pode conseguir?

— Posso.

— Como?

— Como é que você pensa que vai ser?

— Dinheiro? Chantagem? Moças? Rapazes? Eu não sei, tanto faz, não perguntarei mais. O que quer que seja que dê resultado, faça-o.

— A questão é — diz Garland: — o que vai acontecer quando Helen for solta? Naturalmente posso mantê-la muito bem aqui.

Posso proporcionar-lhe tudo quanto precisa para recobrar-se de novo e continuar sua vida. Desejo saber o que você acha

melhor. Entrementes, ela não pode se expor a ser presa novamente.

— Entrementes, o quê? Donald, tudo isso está um tanto confuso.

Francamente, não posso saber o que é melhor. Diga-me, por favor, por que ela não foi logo procurá-lo ao chegar aí?

— Porque ela se convenceu de que tinha de ver Jimmy. Sabia que, se me procurasse em primeiro lugar, eu jamais teria deixado que se aproximasse dele. Conheço o homem melhor do que ela.

— E você sabia que ela ia chegar?

— Sim, naturalmente que sabia.

— Naquela noite em que você veio jantar aqui.

— Não, não, meu caro, soube apenas há uma semana atrás. Mas ela devia ter telegrafado para mim. Teria ido esperá-la no aeroporto. Ela, porém, fez tudo à sua maneira.

— Não devia ter feito — eu disse, com voz baixa.

— A questão é a seguinte: ela volta para você ou fica comigo?

Gostaria de que você me dissesse o que acha melhor.

— Você tem certeza de que ela vai sair da prisão, de que o processo será

— Eu não telefonaria para dizer outra coisa senão a que estou dizendo.

— Então, o que

Isto é, terei de falar com ela.

Bem, Helen é quem decide, não é?

— Mas você não pode. Fico satisfeito de ter podido. Ainda tivemos muita sorte de ela já não estar a ferros, a meio caminho da

Malásia. Nosso chefe de polícia não é o mais caridoso dos homens, exceto em seu próprio benefício, e seu rival não é Albert Schweitzer.

— Isso é evidente.

— Ela costumava dizer-me: "É tão difícil fazer compras com Jimmy.

Quando vejo algo que me agrada, ele me compra doze". Ela sempre dizia a ele: "Mas, Jimmy, eu só posso usar esses objetos um de cada vez". Entretanto, Jimmy nunca compreendeu Mister Kepesh. Ele faz tudo por atacado.

— Ah, é, creio que sim.

Nunca — diz Garland. — Preciso saber qual é, exatamente, a

situação de Helen, preciso saber agora. Ela tem passado anos infernais. Era uma criatura maravilhosa, deslumbrante, e a vida

a tem maltratado pavorosamente. Não permitirei que nenhum de vocês dois a torture de novo.

— Não quero que mais nada de mal aconteça a

Mas não lhe posso dizer qual é a situação de

preciso comunicar-me com a família de Helen, para acalmar os seus temores. Depois ele terá notícias minhas.

Em primeiro lugar, nem sei qual é a minha situação. Primeiro, digo,

— Ele terá? Por quê? Com o mesmo tom em que ela responderia se eu lhe informasse que a filha tinha ido a uma reunião do grêmio da escola, a mãe de Helen perguntou delicadamente: — E quando voltará?

— Não sei.

Entretanto, a resposta não parece perturbar a mãe da aventureira.

— Espero que me mantenha sempre informada — disse, animada.

— Prometo.

— Bem, obrigada pelo telefonema, David.

O que mais poderá fazer a mãe de uma aventureira, senão agradecer os telefonemas e pedir que a mantenha informada?

E o que faz o marido de uma aventureira enquanto sua mulher está na prisão lá no Extremo Oriente? Bem, na hora do jantar,

preparo uma omelete, completando-a cuidadosamente, na temperatura certa, juntamente com salsa picadinha, um copo de vinho

e uma fatia de torrada com manteiga. Em seguida, tomo um banho de chuveiro quente e demorado.

Ele não quer que eu a torture. Muito bem, não a

resolvo botar o pijama e fazer na cama a minha leitura noturna, sozinho. Nenhuma mulher, ainda não.

Mas, o que é muito melhor, não vou me torturar. Depois do banho,

Isso virá, docemente, em seu devido tempo, como tudo o mais. Será possível?

Voltei para onde estava há seis anos atrás, naquela noite em que abandonei a moça que viera à festa comigo, levando para

minha casa a Helen de Hong Kong. A diferença é que, agora, tenho o meu emprego, um livro para terminar, e creio ter, só para mim, este apartamento confortável, decorado com tanto encanto, com tanto gosto. Como é a frase de Mauriac? "Deleitar-se nos prazeres do leito não compartilhado.”

Por algumas horas, minha felicidade é completa. Será que já ouvi ou li sobre algo semelhante acontecer, uma pessoa ser lançada diretamente do próprio tormento para a alegria total? O bom senso comum diz o contrário.

No entanto, estou aqui para dizer também que em raras ocasiões isso acontece dessa forma. Meu Deus, como me sinto bem. Não mais a torturarei, nem a mim, nunca mais. Tudo está bem comigo.

Duzentos e quarenta minutos disso, mais ou menos, com um empréstimo de Arthur Schonbrunn, um colega que havia sido orientador da minha tese, compro uma passagem de ida e volta e vôo para a Ásia, no dia seguinte.

(No banco, descobri que todo o saldo da nossa conta corrente havia sido retirado por Helen na semana anterior, para pagar a passagem e iniciar uma nova vida.) No avião, o tempo dá para pensar, e pensar, e pensar.

Pode ser que eu a queira de volta, que não possa passar sem ela, que ainda esteja apaixonado por ela, quer o saiba, quer não, e que ela seja meu destino.

.

.

Nem uma palavra de tudo isso me convence. Em sua maioria, são palavras que acho desprezíveis: palavras do tipo que Helen usa, que Helen pensa: eu não posso viver sem isso, ele não pode viver sem aquilo, minha mulher, meu homem, meu Coisa de criança! Matéria para cinema!

Roteiro de filme!

Contudo, se essa mulher não é a minha mulher, o que estou fazendo aqui? Se ela não é o meu destino, por que fiquei ao telefone das duas às cinco da manhã? É apenas o meu orgulho que não me permite abdicar em favor de seu protetor homossexual? Não, não foi isso que me fez agir assim.

Nem tampouco estou agindo por responsabilidade, ou por vergonha, ou masoquismo, ou prazer de vingança

.

Então, resta apenas o amor. Amor! A esta hora tardia! •Amor!

Depois de tudo que foi feito para destruí-lo! Mais amor e, de repente, foi um amor como jamais senti durante todo esse tempo.

O resto das horas que passei acordado, naquele avião, foi lembrando cada uma das palavras encantadoras, doces, sedutoras que ela pronunciou.

Acompanhando Garland — severo, cortês, agora impecavelmente banqueiro e homem de negócios —, um detetive da polícia de Hong Kong e um rapaz do consulado americano, muito bem escanhoado, que ali veio também para esperar o avião, fui conduzido à cadeia para ver minha mulher.

Quando deixamos o aeroporto para tomar o automóvel, digo a Garland: — Pensei que, a esta hora, ela já estivesse solta.

— As negociações — responde ele — parecem acarretar maiores interesses do que imaginávamos. — Hong Kong o jovem

secretário consular me informa ironicamente — é o berço da barganha coletiva. — Todo mundo, no carro, parece saber o preço, exceto eu.

Depois de me revistarem, obtenho permissão para sentar-me com ela num minúsculo cubículo cuja porta foi dramaticamente

fechada sobre nós. O som do virar da fechadura fez com que ela agarrasse desesperadamente a minha mão. Seu rosto está todo

marcado, os lábios inchados, os olhos

cheira mal. E, por tudo isso que eu sinto no ar, bem, simplesmente não posso obrigar-me a amá-la ali no chão. Nunca antes fiz amor com ela assim, no chão, e não é agora que vou fazê-lo dentro de uma prisão. Não sou tão idiota assim. O que talvez faça

de mim um idiota de outra espécie

. Os olhos, não os posso olhar sem que minhas entranhas se convulsionem. E Helen

. Mas isso terá de resolver-se mais tarde.

— Eles puseram a cocaína em mim. — Eu sei. — Ele não pode continuar com isso — ela diz. — Ele não vai. Donald vai botar você fora daqui.

— Ele tem que fazer isso!

— E ele vai, ele está tratando disso, de modo que você não precisa se inquietar. Você sairá muito cedo. — Tenho que lhe

E eles

fizeram. Riram de mim. Me bolinaram. Helen, diga-me a verdade, agora, tenho de saber. Todos nós temos de saber. Quando você sair daqui, você quer ficar com Donald, na casa dele? Ele disse que olhará por você,

dizer algo terrível. Todo o nosso dinheiro se foi. A polícia roubou-o; ele lhes disse o que tinham de fazer

— Mas, eu não posso! Não! Oh, não me deixe aqui, por favor! Jimmy me matará!

Na volta, no avião, Helen bebe tanto que a aeromoça declara que não pode servir-lhe mais uma dose. "Aposto que você até me foi fiel", ela diz, de súbito, estranhamente loquaz. "É, sim, garanto que foi", diz, serena, um tanto apática, agora que o uísque de certo modo diminuiu os horrores do encarceramento e que ela se sente livre do pesadelo da vingança de Jimmy Metcalf. Não me preocupo em responder nem a uma, nem a outra coisa.

Sobre as duas cópulas sem importância do ano passado não há nada a dizer.

Ela apenas riria, se eu lhe dissesse quais foram as suas rivais. Nem eu poderia esperar muita compreensão se fosse lhe explicar quão insatisfatório havia sido enganá-la com mulheres que não me seduziam nem com a centésima parte da atração

que tinha por ela — que não tinham a centésima parte de sua personalidade, sem falar de sua beleza —, e no rosto das quais eu podia ter cuspido quando compreendi o quanto a satisfação delas provinha de colocar Helen Kepesh em seu lugar. Muito Ou quase muito rapidamente, vi que enganar uma esposa tão pouco querida pelas outras mulheres, como Helen o era, não iria ser possível sem que me humilhasse com isso. Não tinha eu a facilidade de um Jimmy Metcalf para voltar friamente atrás e desfechar o grande golpe fatal em meu inimigo. Não, o estilo dele era a vingança, e o meu, a melancolia

controversa

mudou de roupa e teve oportunidade de retocar o rosto, pretende ter comigo uma conversa, a primeira em muitos e muitos dias. Ela agora deseja reassumir o seu lugar no mundo, não como uma pessoa vencida, mas como ela mesma. — Bem — diz —,

você não tinha que ser um rapaz tão bom assim, sabe disso? Você podia ter tido seus casos, se isso o fizesse mais feliz. Eu aceitaria isso.

As palavras de Helen estão bastante turvadas pela bebida e o cansaço, mas, agora que tomou um banho, comeu,

— É bom saber — digo.

— Seria você, David, que não poderia sobreviver intato. Sabe de uma coisa, tenho sido fiel a você, acredite ou não. O único homem a quem fui fiel na minha vida.

— Acredito nisso? Posso acreditar? E se eu devesse? Aonde me leva isso? Nada digo.

— Você ainda não sabe aonde eu costumava ir depois da minha aula de ginástica.

— Não, não sei.

— Você não sabe por que eu saía de manhã com o vestido de que eu mais gostava.

— Tenho minhas suposições.

— Eram erradas. Eu não tinha nenhum amante. Nunca, nunca, enquanto estivesse com você, porque teria sido horrível demais.

Você não

mesmo. Teria saído por aí, angustiado para sempre.

Então, eu não fiz. Você teria ficado aniquilado, teria me perdoado, e nunca mais voltaria a ser você

— De qualquer jeito, eu andei por aí angustiado. Nós dois andamos por aí angustiados. Aonde você ia toda bem-vestida?

— Ia para o aeroporto. E?

— Sentava-me na sala de espera da Panam com o passaporte na bolsa. E minhas jóias. Ficava ali sentada lendo o jornal até que alguém me perguntasse se eu queria beber alguma coisa na sala de primeira classe.

— E eu aposto que alguém sempre perguntava.

— Isso é verdade. Eu ia e tomava a bebida.

E depois perguntavam se eu queria partir com eles. Para a América do Sul, para a África, por toda parte. Um homem até me convidou a partir com ele numa viagem de negócios a Hong Kong. Nunca aceitei. Nunca.

Ao invés disso, voltava para casa e você começava a ficar em cima de mim a respeito dos canhotos dos talões de cheques.

— Quantas vezes você fez isso?

— Muitas vezes — responde.

— Muitas para quê? Para ver se ainda tinha poder?

— Não, seu idiota, para ver se você ainda tinha poder. — Ela começa a soluçar. — Você vai se admirar — pergunta — se eu disser que acho que deveríamos ter tido aquela criança?

— Eu não o teria arriscado, com você, não. — Minhas palavras a põem sem fôlego, se é que ainda lhe resta algum.

— Oh, você, seu merda, isso era desnecessário, há maneiras menos cruéis quando ele queria fazê-lo! — ela grita.

— Fique calma, Helen.

— diz. Oh, por que eu não deixei Jimmy matá-la

— Você precisava vê-la,

Ela ficou lá, de pé, a alguns metros do vestíbulo, olhando fixamente para mim. Você devia

Ela parece uma baleia! Aquele belo homem vai para a cama com uma baleia.

— Eu já disse a você para se acalmar.

— Ele mandou que botassem cocaína em

meu dinheiro! E como eu amava aquele homem! Só o deixei para impedir que cometesse um assassinato! E agora me detesta por ser decente demais, e você me despreza por ser indecente, e a verdade de tudo isso é que eu sou melhor, mais forte e mais

E eu era assim quando tinha apenas vinte anos! Você não se arriscaria

corajosa do que vocês dois. Pelo menos eu era

Em mim, a quem ele ama! Deixou que eles tirassem minha bolsa e roubassem

a ter um filho comigo?

E com alguém como você? Já lhe ocorreu que eu poderia ter tido um filho com outro homem? Não? Sim? Responda-me! Oh,

estou ansiosa para ver a pombinha com quem você arriscaria. Se você pelo menos tivesse admitido isso há muitos anos, há

muito

No princípio, eu não teria nada a dizer!

Helen, você está exausta, embriagada, e não sabe o que está falando. Como se você se importasse muito com isso de ter um filho.

— Eu quis muito, seu idiota, seu viciado! Oh, por que eu vim naquele avião com você! Podia ter ficado com Donald! Ele tem

tanta necessidade de alguém como eu. Devia ter ficado na casa dele, e dizer a você para voltar para sua casa. Oh! Por que

perdi a coragem, naquela prisão! Você a perdeu por causa de seu Jimmy. Você pensou que ele ia matá-la ao sair dali. — Mas

ele não ia

Seria uma loucura! Ele só fez aquilo pelo grande amor que me tem, e eu o amava! Oh, eu esperei, esperei, esperei.

Esperei por você seis anos! Por que você não me levou para o seu mundo como um homem?

— Talvez você queira dizer por que não a tirei do seu mundo. Eu não podia. A única maneira de tirar você desse mundo é a

mesma que pôs você dentro dele. Certo, eu sei que estou falando de um modo horrível e tenho consciência do meu olhar sarcástico, mas nunca ataco uma pessoa que está por baixo, você bem sabe. A próxima vez em que você quiser livrar-se de um tirano, procure um outro tirano para essa tarefa. Confesso-me derrotado. - Oh, Deus, oh, Jesus, meu Deus, por que razão eles sempre têm de ser ou uns brutos ou uns meninos de coro de igreja? Aeromoça — diz ela, agarrando o braço da moça que passava entre a fila de cadeiras. — Eu não quero bebida, já bebi bastante. Desejo, apenas, fazer-lhe uma pergunta. Não se assuste. Por que razão eles são ou brutos ou meninos de coro, você sabe? — Quem, minha senhora? — Você ainda não descobriu, em suas viagens de um a outro continente?

Eles têm medo até de uma criaturinha doce como você. É por isso que vocês têm que andar de um lado para o outro sorrindo

constantemente sem motivo. É só olhar os bastardos bem dentro de seus olhos que eles já estão ou a seus pés ou agarrando-lhe

o pescoço.

Quando, finalmente, Helen adormece

principio no ponto em que os deixei para embarcar, há duzentas horas atrás aproximadamente. Sim, trouxe comigo o meu

trabalho escolar

— e vejo-me estrangulando Helen com as tranças de

seu cabelo, que lhe caíam até a cintura. Isso não aconteceu com alguém, em qualquer trecho de Browning?

ainda faltavam sem me agarrar a esses papéis de exame. — Sem

E isso foi muito bom. Não posso compreender como conseguiria passar os milhões de horas de vôo que

A cabeça bamboleando no meu

Tiro da minha pasta os exames finais e

Oh, que importa!

"A busca da intimidade, não porque forçosamente traga felicidade, mas, por ser necessária, é um dos constantes temas de Tchékhov.”

A dissertação que escolhi para

margem, ao lado da frase inicial. Em seguida, releio e, depois da palavra "necessária", faço uma marca de intercalação e escrevo: "à sobrevivência (?)". E, durante todo o tempo, fico pensando. "Milhas abaixo estão as praias da Polinésia. Bem, querida, deslumbrante criatura, como isso nos faz bem! Hong Kong! O diabo dessa coisa toda podia ter acontecido em Cincinnati! Um quarto de hotel, um posto policial, um aeroporto. Um megalomaníaco vingativo e alguns policiais desonestos!

E uma falsa Cleópatra! Todas as nossas economias se foram com essa desprezível novela sensacional classe B! Oh, esta

viagem é o próprio casamento

Para recomeçar, é de Kathie Steiner, a moça que sonhei adotar. "bom", escrevo à

atravessar quatro mil milhas do globo exótico, sem razão nenhuma!

Esforçando-me para fixar a atenção mais uma vez na tarefa que preciso cumprir — e não sobre se Helen e eu deveríamos ter

tido um filho, ou sobre quem tem a culpa de não o termos; recusando-me, mais uma vez, a responsabilizar-me por tudo o que poderia ter feito e não fiz, tudo o que fiz e não deveria ter feito — volto ao exame final de Kathie Steiner. As instruções de Jimmy Metcalf à polícia são desta ordem: "Dêem-lhe pontapés na bunda, vão fazer bem àquela puta", enquanto domino minha emoção, lendo cuidadosamente cada uma das páginas escritas por Kathie, emendando a mínima incorreção de vírgulas, chamando-lhe a atenção para sua dificuldade em usar os particípios, e enchendo a margem conscienciosamente com perguntas

e comentários. Eu e os meus "exames finais", a caneta com que dou as notas, e meus clipes. Como o Imperador Metcalf iria

deleitar-se com o

tenho de me rir um pouco, mas, como sou professor de literatura e não um policial, como sou um homem que há muito tempo extraiu o pouco do tirano que já tive em mim — e, a julgar pelo que me foi dado ver, talvez o tenha extraído até um pouco demais —, ao invés de rir de tudo isso, chego à frase final da dissertação de Kathie, sentindo-me uma criatura arrasada. O controle que exerci sobre mim, desde o desaparecimento de Helen, dissipou-se num instante e eu, então, senti necessidade de virar o rosto, pressionando-o contra a janela obscurecida da sussurrante aeronave, que nos está levando de volta à pátria, a fim de completarmos, legal e ordenadamente, o desmembramento das nossas vidas destroçadas. Choro por mim mesmo, choro por Helen e, finalmente, choro mais ainda ao compreender que ainda não foi destruída a última coisa e que, apesar da minha absorvente obsessão com a infelicidade matrimonial e o desejo romântico de chamar meus jovens alunos para virem em meu

Da mesma forma Donald Garland e seu impiedoso chefe de polícia. Suponho que eu, também,

auxílio, de certo modo tenho de fazer com que essa filha de Beverly Hills, doce, roliça, incólume e ainda sem temores, termine

o segundo ano da universidade com a composição de um soturno e belo lamento, que sintetiza o que ela chama "a global

filosofia de vida de Anton Tchékhov". Mas será que o Professor Kepesh lhe ensinou isso? Como? Como? Estou começando a aprendê-lo neste vôo!

"Nascemos inocentes", a moça escreve, "sofremos terríveis desilusões antes de ganharmos experiência e, depois, tememos a

morte

e nos são concedidos apenas fragmentos de felicidade para compensar o sofrimento.”

Finalmente, sou arrancado dos percalços do meu divórcio por um oferecimento de emprego, por parte de Arthur Schonbrunn, que deixou Stanford para tornar-se titular do curso de literatura comparada da Universidade de Nova York, em Long Island. Já comecei a freqüentar um psicanalista em San Francisco — logo depois de constituir advogado — e foi o primeiro que me recomendou que, ao voltar para leste, a fim de iniciar as minhas aulas, continuasse a minha terapia com o Doutor Frederick Klinger, a quem conhece e pode recomendar como uma pessoa que não tem medo de falar com seus clientes, "um homem sólido, sensato", "um profissional de bom senso". Mas será de sensatez e bom senso que eu necessito? Alguns diriam que botei as coisas a perder exatamente por uma observância muito rígida desses atributos.

Não há dúvida de que Frederick é sólido: um camarada cordial, de cara redonda, cheio de vida e que, com a minha aquiescência, fuma charutos durante todo o tempo das sessões. Não gosto muito do aroma, mas permito-o porquê o fumo parece acentuar ainda mais a perspicácia com que Klinger acompanha meu desespero. Não muito mais velho do que eu, e tendo menos cabelos grisalhos do que me têm aparecido ultimamente, transpira a satisfação e segurança do homem de meia- idade bem-sucedido.

Pelos telefonemas, que, para meu desespero, ele recebe durante a minha hora, depreendo que é uma figura-chave nos meios psicanalíticos, membro dos conselhos administrativos das universidades, publicações e institutos de pesquisa, além de fonte de esperança para um número infinito de almas desesperadas.

Às vezes, fico um tanto contrafeito pelo verdadeiro deleite com que o doutor parece devorar as suas responsabilidades —

para ser franco, fico sem jeito com quase tudo ao seu redor: o terno de listas brancas, trespassado, e o laço frouxo da gravata,

o casaco Chesterfield puído, apertado sobre o estômago já um pouco saliente, as duas pastas arrebentando dentro do porta-

documentos, as fotografias de crianças sorridentes e sadias na mesa abarrotada de livros, a raquete de tênis no porta-guarda- chuva — fico embaraçado com a sacola escolar jogada para baixo da enorme cadeira Eames já gasta, da qual, charuto em

punho, ele fala dos meus sentimentos confusos. Será possível que esse lesto, dinâmico conquistador possa compreender que há manhãs em que, ao caminhar da minha cama para a escova de dentes, tenho de lutar para não me deixar cair em pleno chão da sala de estar e ali ficar encolhido?

Eu mesmo não compreendo a extensão desse mergulho. Tendo falhado na minha qualidade de marido — tendo falhado em compreender como fazer de Helen uma esposa —, parece-me que preferiria dormir agora toda a minha vida, ao invés de vivê- la. Como é que consegui ficar nessa situação terrível quanto à sensualidade? — Você — pergunta ele —, que se casou com uma femme fatale? — Mas foi apenas para desfatalizá-la, tirar-lhe o veneno, com o decorrer do tempo. Toda aquela atormentação em cima dela, de Helen, a propósito do lixo, da lavanderia e da torrada. Minha mãe não poderia fazer melhor. Eram os mínimos detalhes, não eram? — Escute aqui, ela não é a Helena nascida de Leda e Zeus, você sabe. Ela é deste mundo, Kepesh; uma moça cristã, de classe média, natural de Pasadena, Califórnia, bastante bonita para conseguir uma viagem gratuita para Ancara todos os anos, mas não passa disso no que se refere a realizações extraordinárias. E torrada fria é torrada fria, não levando em conta a quantidade de jóias que possa ter acumulado no decurso de todos esses anos, ofertas de homens ricos e casados, com predileção por mulheres jovens.

— Eu tinha medo dela. — Naturalmente que tinha. — O telefone toca. Não, é possível que ele não possa estar no hospital antes do meio-dia. Ah, sim, ele viu o marido. Não, não parece disposto a cooperar. É verdade, isso é lamentável.

E depois, voltando-se para o cliente que também não está muito disposto a cooperar, continua: — Claro que tinha medo, não

podia confiar nela. — Eu não confiava nela, e ela me era fiel.

Acredito que era. — Ela não era desonesta, nem aqui nem lá.

Estava apenas fazendo um jogo consigo mesma. Que valor poderia isso ter se vocês não tinham nada a ver um com o outro? Pelo jeito, acho que a única coisa que vocês dois fizeram totalmente sem caráter foi terem-se casado. — Eu também tive medo de Birgitta. — Meu Deus, quem não teria? — Olhe aqui, ou eu não estou me expressando claramente, ou o senhor não quer me

E liberdade. Não

compreender. Estou dizendo que eram criaturas especiais, extremamente cheias de curiosidade, audácia eram moças comuns.

Compreendo. — O senhor compreende? Às vezes penso que preferiria classificá-las como pessoas vulgares. Mas o que as torna especiais é justamente o fato de não serem vulgares, nem uma nem outra, pelo menos para mim. Eram ambas excepcionais. — Concordo. — O telefone toca. Sim, o que é que há? Sim, estou em sessão agora. Não, não, pode continuar. Sim, sim. Naturalmente que ele compreende. Não, não, está fingindo que não presta atenção. Muito bem, aumente a dose para quatro vezes ao dia. Mas não passe daí. E telefone-me se continuar chorando. De qualquer forma, me telefone. Até logo. — Concordo — continua —, mas o que pensava em fazer, casando-se com uma dessas "criaturas especiais"? Passar os dias e as noites acariciando seus seios perfeitos? Associar-se à sua fuga pelo ópio? Outro dia, você me disse que a única coisa que aprendeu em seus seis anos com Helen foi como enrolar um cigarro de maconha. Penso que dizer isso é o que se chama cortejar o analista. Aprendi muito com ela. — O fato permanece. Você tinha seu trabalho para fazer. — O trabalho é só uma questão de hábito — digo, sem deixar de mostrar minha irritação por sua obstinada "desmistificação". — Talvez — sugiro desanimado — ler livros seja o ópio do intelectual. — Ah, é? Está pensando em tornar-se uma flor de estufa? — diz ele, acendendo outro charuto. — Certa vez, Helen e eu estávamos nus, tomando banho de sol numa praia em Oregon. Estávamos de férias, e percorríamos de carro os locais ao norte. Depois de algum tempo, distinguimos um camarada que nos observava de um matagal não muito distante.

Corremos para nos cobrir, mas assim mesmo ele veio ao nosso encontro e perguntou se éramos nudistas. Respondemos negativamente, e ele nos deu um exemplar de um jornal para nudistas, para o caso de querermos fazer uma assinatura. — Klinger ri estrepitosamente. — Helen disse que fora Deus quem o mandara, pois já fazia seguramente noventa minutos que eu não lia nada. — Novamente Klinger ri com gosto. — Olhe digo, — o senhor não imagina o que eu era, quando a encontrei pela

primeira vez. Não era para ficar tão por baixo. O senhor não sabe como é que eu era, nem Imaginar-me desse jeito. Mas era um rapaz destemido, aos vinte e poucos anos.

Nem eu

Mais audacioso do que a maioria dos rapazes, principalmente considerando a época reprimida de então. Na realidade, eu realizava o que os mais exaltados masturbadores sonhavam realizar. Ao voltar, quando comecei a viver por mim mesmo, era

se assim me posso expressar uma espécie de prodígio em matéria de sexo. — E quer continuar a sê-lo, com seus trinta e tantos anos? Nem me dou ao trabalho de responder, tão estreito e equivocado me parece o senso comum no qual quer me enquadrar.

— Por que permitir que Helen — continua Klinger —, que se desfigurou tanto no esforço frenético de ser a grande sacerdotisa

de Eros, que esteve prestes a destruí-lo com suas afirmações e insinuações, por que permitir que o julgamento dela ainda tenha

poder sobre você? Quanto tempo ainda pretende aceitar a censura dela sobre os pontos em que se sente mais fraco?

Quanto tempo pretende continuar a se sentir fraco perante essa loucura total?

Qual era essa tal pesquisa "audaciosa" dela?

Sim, posso ouvi-la muito bem. Como está

Madri? O quê? Bem, naturalmente ele desconfia, o que é que você esperava? Diga-lhe apenas que está se portando estupidamente, e depois esqueça. Não, naturalmente você não pretende brigar. Compreendo. Diga apenas isso, depois procure ter um pouco de coragem. Você pode enfrentá-lo. Volte ao quarto e diga-lhe. O

— O telefone toca. — com licença — diz. — Sim, é ele. Sim, continue.

que é isso, você sabe muito bem que pode. Muito bem. Boa sorte. Divirta-se.

Saia e divirta-se. Adeus. O que era essa busca por parte dela — diz ele — senão uma evasão, uma fuga infantil dos projetos reais e atingíveis da vida?

— Então, por outro lado — digo —, talvez "os projetos" sejam, quando muito, uma evasão da busca. — Por favor, você gosta

de ler e escrever coisas sobre livros. Isso, como você mesmo acaba de dizer, lhe dá enorme satisfação, pelo menos deu, e

continuará a dar, eu lhe garanto.

No momento presente, quer mandar tudo às favas, mas gosta de lecionar, não é? E pelo que depreendo, tem suficientes predicados para isso.

Ainda não sei quais são as suas alternativas. Quer mudar-se para os mares do sul e ensinar as obras-primas da literatura às moças de sarongue na Universidade do Taiti? O senhor pretende ainda fazer outra incursão por um harém? Ser um destemido

prodígio e brincar de Jack e Jill com a sua afoita sueca pelos bares proletários de Paris? Quer levar uma martelada na cabeça outra vez, mas de modo que esse segundo golpe não erre o alvo? — Caricaturar o que falo não me ajuda em nada, saiba disso.

O que me passa pela cabeça, agora, é que decididamente não voltarei para Birgitta. Isto é ir para diante, e eu não posso ir para

diante. — Talvez for para diante, nesse caminho, seja de qualquer forma um embuste. — Doutor Klinger, eu lhe garanto que estou muito imbuído da influência de Tchékhov para suspeitar disso, também. Em O duelo e outras histórias eu soube tudo o que havia para se saber a respeito dos que se entregam à idéia errônea do prazer sexual.

Também li e estudei a grande ciência ocidental sobre o assunto, ensinando-a até, e tendo-o também praticado. Mas, se me permite como Tchékhov também teve o bom senso de escrever, nos assuntos psicológicos: "Deus nos preserve de fazer generalizações". — Muito obrigado pela lição de literatura.

Diga-me uma coisa, Kepesh, está realmente deprimido pelo que aconteceu com ela, pelo que parece pensar ter feito a ela, ou está apenas tentando provar que é um homem de sentimentos e de consciência? Se for isso, não exagere. Porque esta Helen estava fadada, cedo ou tarde, a passar uma noite na prisão. Destinada há isso muito antes de conhecê-lo. Ao que me parece, foi assim que ela chegou até você, na esperança de salvar-se do xadrez e de outras humilhações inevitáveis. E isso, você sabe tão bem quanto eu.

Entretanto, tudo o que ele possa dizer, por mais que me atormente, caçoe, ou até procure diminuir os fatos, ou induzir-me a colocar o casamento e o divórcio em segundo plano, nada disso, ele creia ou não, consegue evitar meu sentimento de culpa quando sei dos contratempos que estão transformando a antiga princesa oriental numa amarga megera. Sei que ela contraiu uma rinite que não cede a nenhum medicamento e que a obriga a viver constantemente limpando o nariz — aquelas narinas aflautadas e frementes, que pareciam querer absorver o ar, ao terminar de fazer amor.

Ouço falar de extensas erupções de pele naqueles dedos delicados "Você gosta deste?

dele!" e também nos seus polpudos e belos lábios. "O que você primeiro vê num rosto? Os olhos ou a boca? Eu gostaria que você tivesse primeiro percebido a minha boca."

deste

oh, meu querido, você gosta

Contudo, a carne de Helen não é há única que pouco a pouco se vai vingando ou se penitenciando, ou perdendo a coragem, ou se retirando da luta. Não comendo quase nada, cheguei a um peso de esqueleto, desde o divórcio, e, pela segunda vez em minha vida, me vejo impotente, mesmo para um passatempo tão pouco ambicioso como a masturbação. — Jamais devia ter voltado da Europa digo a Klinger que, a pedido meu, receitou-me antidepressivos que me tiram da cama pela manhã, mas me deixam o resto do dia com uma vaga sensação de enclausuramento sobrenatural, de vastas extensões intransponíveis entre mim e a multidão. — Eu devia ter ido até o fim, tornando-me cafetão de Birgitta. Tornar-me-ia um membro mais feliz, mais saudável da sociedade. Outro qualquer poderia ensinar as obras-primas da desilusão e da renúncia. — Ah, é? Preferia ser cafetão a professor adjunto? — É uma maneira de dizer. — Então, diga-o de sua própria maneira. — Existe qualquer coisa em mim contra a qual me rebelei — disse num acesso de desesperança antes mesmo que a houvesse compreendido, ou a deixasse

viver

. Estrangulei-a até morrer

Matei-a, praticamente da noite para o dia. E

por quê? Por que razão era necessário um assassinato?

Nas semanas subseqüentes, entre um telefonema e outro, tento descrever e contar a história disso que, no meu estado de fraqueza e desespero, continuo a ver como um "assassinato". Volto a imaginação até Louis Jelinek, até mesmo Herbie Bratasky, falo de tudo quanto eles representam para mim, de que forma cada um me excitava e me inquietava, e de como cada um era tratado, à minha moda. — Sua galeria de patifes — é como Klinger os classificou um dia, na vigésima ou trigésima semana de nossos debates. — A delinqüência moral — observa — exerce certa fascinação sobre você.

— E também — digo — sobre os autores de Macbeth e Crime e castigo. Peço-lhe desculpas por ter mencionado o nome de duas obras de arte, doutor.

— Está bem. Aqui, ouço toda sorte de coisas. Já estou habituado. — Começo a ter a impressão de que é um tanto contra os regulamentos da casa estar valendo-me das minhas reservas literárias nessas nossas escaramuças, mas o único ponto que estou tentando salientar é que já há muito tempo a "delinqüência moral" tem estado na mente de pessoas sérias. E, afinal, por que "delinqüente"? Não poderia ser "espíritos independentes"? Não seria menos exato. — A minha intenção era apenas chamar a atenção de que não se trata de tipos totalmente inofensivos. — Tipos totalmente inofensivos provavelmente levam uma vida um tanto restrita, o senhor não acha? — Por outro lado, não devemos subestimar o sofrimento, a incerteza,, o isolamento e todas as coisas desagradáveis que porventura acompanhem a "independência" dessa espécie. Veja Helen, agora. — Por favor, olhe para mim agora. — Estou olhando. Olho, e desconfio que ela esteja muito pior. Você pelo menos não arriscou tudo numa só jogada. — Doutor Klinger, eu não posso manter uma ereção. Não posso sustentar um sorriso, por causa disso. — Naquele instante, o telefone tocou.

Preso a ninguém e a nada, flutuando, flutuando sem rumo, às vezes assustadoramente submergindo, e com o doutor inexorável, inteligente, e de bom senso, brigando, disputando, debatendo, argumentando mais uma vez sobre o assunto que foi a origem de tanta amargura matrimonial — só quando fico indolente é que defendo Helen, enquanto ele se retesa na cadeira para tomar meu partido.

Sempre que chega o inverno, meus pais vêm à Nova York para passar três ou quatro dias, em visita à família, aos amigos e aos hóspedes prediletos. Em tempos idos, todos nós costumávamos ficar na West End Avenue com o irmão mais moço de meu pai, Larry, um próspero fornecedor de provisões kosber, e sua mulher, Sylvia, a rainha da'torta e, na infância, minha tia preferida. Até a idade de catorze anos, com grande espanto e deleite de minha parte, dormiam todos no mesmo quarto de minha prima Lorraine. Dormir ao lado da cama onde está uma menina em carne e osso — uma menina "que está ficando mocinha", ainda por cima —, que vai jantar no Moskowitz e no Lupowitz (comida considerada por meu pai quase tão boa quanto a do Hungarian Royale), esperar em temperatura geladíssima para ver os Rokettes, tomar chocolate aos pequenos goles entre as espessas fazendas para estofados e a imponente mobília das lojas dos atacadistas em fazendas e roupas para homens ou dos negociantes de produtos agrícolas, os quais eu conhecera vestidos só com suas volumosas camisas de mangas curtas e em roupas de banho escorridas, e que são denominados por meu pai o "Rei das Maçãs", o "Rei dos Arenques" e o "Rei dos Pijamas" tudo sobre essas visitas a Nova York encerra para mim uma emoção secreta e, invariavelmente, devido à” superexcitação", na viagem de volta a casa, ataca-me uma "séria inflamação de garganta" que, uma vez no alto de nossa montanha, me obriga a ficar de cama pelo menos dois ou três dias, para recuperar-me. — Não visitamos Herbie — digo mal— humorado, ao faltar apenas segundos para partirmos, ao que minha mãe sempre responde: — Um verão inteiro com ele não basta? Será que temos de ir ao Brooklyn em viagem especial?

— Belle, ele quer é apoquentar você — diz meu pai, mas, sorrateiramente, sacode o punho em minha direção, como se quisesse mostrar que o mínimo que eu merecia era uns bons cascudos, por mencionar o "Rei do Peido" a minha mãe.

Agora, que estou novamente de volta ao leste e que meus tios vivem em Cedarhurst, em Long Island, respondo por telefone a uma carta de meu pai e os convido para ficarem em meu apartamento, ao invés de num hotel, na visita anual do inverno. Os dois quartos da West Seventy-Fifth Street não me pertencem realmente, mas, por intermédio de anúncio no Times, subloquei- os mobiliados de um jovem ator que foi tentar a sorte em Hollywood.

As paredes do quarto de dormir são adamascadas de vermelho, enfileiram-se perfumes na prateleira do banheiro e, nas caixas que descubro no fundo do armário de parede, meia dúzia de perucas. Na noite em que as encontro, dou vazão à minha curiosidade e experimento duas. Fico parecido com a irmã da minha mãe.

Logo que vim morar no apartamento, o telefone toca à noite e um homem me pergunta: — Onde está Mark? Está na Califórnia. Vai ficar dois anos lá. — Ah, está bem.

Diga-lhe apenas que Wally está aqui na cidade. — Mas ele não está aqui. Eu tenho o endereço dele lá. — Principio a repetir o endereço, mas a voz, que se tornou áspera e agitada, interrompe. — Então, quem é você? — Inquilino dele.

— É assim que eles chamam isso no teatro?

Como é que você é, belezinha? Você também tem olhos azuis muito grandes? — Os telefonemas continuaram, e eu mandei mudar o número do telefone, mas então é pelo interfone, que liga o apartamento ao vestíbulo da entrada, que as gracinhas continuam. — Queria dizer a seu

— Mark está na Califórnia, você pode encontrá-lo lá. — Ah,

Esta é boa.

Como é que você se chama, benzinho? Venha até a entrada, e então veremos se eu posso encontrar você. Olhe aqui, Wally, deixe-me em paz. Ele partiu. Vá embora.

— Você também gosta do material forte? — Oh, deixe dessas coisas, sim? — O que é que você quer que eu deixe, queridinho? O que você quer que eu tire? — E as graças continuam nesse tom.

Nas noites em que me sinto a mais solitária das criaturas, quando principio a falar comigo mesmo e com as pessoas ausentes, tenho às vezes ímpetos de pedir socorro pelo interfone. Não o faço não porque ache que isso não teria sentido, mas, ao contrário, com medo de que um dos meus vizinhos ou, o que é pior, o Persistente Wally, não esteja na entrada justamente no

Se não for o meu admirador

momento em que meu grito se fizesse ouvir. Meu medo é da espécie de ajuda que vou

homossexual, será o carro da polícia de Bellevue. Vou ao banheiro, fecho a porta e, inclinando-me para ver no espelho meu rosto desfigurado, grito: "Quero alguém! quero alguém! quero alguém!" Às vezes, consigo continuar gritando assim sem parar,

por alguns minutos, na esperança de chegar a uma crise de choro que me deixe fraco e, pelo menos por algum tempo, livre da ânsia de ter alguém junto de mim.

Naturalmente, não estou assim tão doido para acreditar que gritando bem alto dentro do banheiro fechado vou fazer aparecer

quem desejo que apareça. Além disso, quem é essa pessoa? Se eu soubesse, não iria gritar diante do

Escreveria ou

telefonaria. "Eu quero alguém",

E são meus pais que chegam.

Levo as malas deles para cima, enquanto meu pai agarra o isopor dentro do qual estão arrumados meia dúzia de recipientes redondos e de plástico, com sopa de repolho, sopa de pedaços de matzo, kugeu e flanken, tudo gelado e cuidadosamente rotulado. Chegando ao apartamento, minha mãe tira um envelope da bolsa — DAVID — datilografado exatamente no centro e sublinhado em vermelho.

O envelope contém instruções destinadas a mim, datilografadas no papel do hotel. Tempo necessário para degelar e aquecer cada um dos pratos, detalhes sobre o tempero. — Leia — diz ela e veja se tem alguma pergunta a fazer. — Meu pai diz: E se ele deixasse para ler depois de você tirar o casaco e sentar-se? — Estou me sentindo muito bem. — Você está cansada. — David, você tem bastante lugar no seu congelador? Eu não sabia o tamanho do seu congelador. — Mamãe, há lugar de sobra

— digo despreocupadamente. Mas, quando ela abre a geladeira, geme como se lhe tivessem retalhado a garganta. — Uma coisa aqui, outra lá, e é tudo? — exclama.

— Olhe o limão, parece mais velho do que eu. Como é que você come?

— Quase sempre fora.

— E seu pai me disse que eu estava trabalhando demais.

— Você tem estado cansada — responde ele —, estava trabalhando demais.

— Eu sabia que ele não estava se cuidando — geme ela.

— Você é quem deve cuidar-se — responde meu pai.

— O que é que está acontecendo? — pergunto.

— O que é que você tem, mamãe?

— Eu tive uma pleurisia e seu pai está fazendo um drama. Sinto uma dorzinha quando faço tricô por muito tempo. É o resultado de todo o dinheiro jogado fora com doutores e exames.

Ela não sabe, nem eu, até que meu pai, saindo em minha companhia, a fim de comprar o jornal e coisas para o café, foi caminhando comigo, com um ar muito sério, justamente no ponto onde Larry e Sylvia costumavam receber—nos na West End Avenue, e disse que ela está morrendo de um câncer que, partindo do pâncreas, se espalhou pelo corpo todo. Isso, então, é a "

E também explica o desejo de visitar

explicação do teor de sua carta: "Se nós pudéssemos ficar com você por esta vez

lugares que ela não vê há muitos anos? Chego a acreditar que talvez ela saiba o que está acontecendo e que essa demonstração de exuberância é para poupar a ele saber o que ela sabe. Cada um protegendo o outro da horrível verdade.

Meus pais como duas crianças corajosas e

E eu, o que posso fazer?

— Mas, não consegue responder.

Quando? — pergunto-lhe quando os dois voltamos ao apartamento, em lágrimas. Por muito tempo, ele

— Isso é o pior de tudo — pode, finalmente, articular. — Cinco semanas, cinco meses, cinco anos médico me diz uma coisa diferente!

Cinco minutos. Cada

E, ao voltarmos ao apartamento, ela me diz novamente: — Você pode levar-nos a Greenwich Village? Pode levar-nos ao Metropolitan Museum of Art? Quando eu trabalhava para o Doutor Clark, uma das moças costumava comer o mais delicioso talharim verde, num restaurante italiano de Greenwich Village. Gostaria de me lembrar do nome. Acho que não era Tony's, será que era, Abe?

— Honeybunch — meu pai diz a voz já com uns laivos de amargura.

— Nem deve mais estar lá, depois de tanto tempo.

— Podemos

gostava do Metropolitan Museum! Todos os sábados, quando os filhos já estavam maiores, ele os levava lá para ver as pinturas.

E se estivesse — ela diz, virando-se para o meu lado, muito excitada. — Oh, David, como o Doutor Clark

Eu os acompanho por toda a parte, para ver os famosos Rembrandts no Metropolitan, para ver se ainda existe um Tony's que serve talharim verde, para visitar os seus amigos mais antigos e mais queridos, alguns dos quais não vejo há mais de quinze anos, mas que me beijam e abraçam como se eu ainda fosse criança, e depois, porque sou professor, me fazem perguntas sérias sobre a situação mundial. Vamos, como antigamente, ao Jardim Zoológico, ao Planetário e, finalmente, a uma peregrinação ao edifício onde ela foi secretária de um escritório de advocacia. Depois de almoçar no Bairro Chinês, vemo-nos na esquina das ruas Broad e Wall, por uma tarde gélida de sábado, e, como sempre, com uma total inocência, ela rememora o tempo em que trabalhou na firma. Fico pensando como teria sido diferente

se ela continuasse toda a vida a ser uma das moças que trabalham para o Doutor Clark, uma dessas virgens solteironas que

adoram o chefe paternal e tomam conta de seus filhos durante as férias. Sem os intermináveis trabalhos na direção de um hotel familiar de férias, ela poderia ter tido mais calma, vivendo mais de acordo com os seus gostos simples de asseio e de ordem,

Nós nunca teríamos existido. Se

ao menos, se ao

ao invés de ser dominada por eles. Por outro lado, ela jamais teria conhecido meu pai e eu

Se ao menos o quê? Ela está com câncer.

Eles dormem na cama de casal, enquanto fico acordado, debaixo dos lençóis, no sofá da sala de estar. Minha mãe vai

desaparecer

. É isso que vai acontecer. E a última lembrança que vai levar de seu único filho vai ser a sua existência estéril,

desarraigada

Sua última lembrança será a daquele limão que encontrou na geladeira e que permanece comigo! Oh, com que repugnância e remorso me lembram da série de erros — de erros, não, de um único e constante erro — que fez desses dois quartos o meu lar. Ao invés de sermos inimigos, de fornecer um ao outro o inimigo ideal, por que Helen e eu não despendemos todo esse esforço em nos oferecer mutuamente uma vida sólida e dedicada? Será que agir assim era difícil demais para duas pessoas tão voluntariosas? Dever-me-ia ter dito logo no princípio: "Olhe aqui, nós vamos ter um filho"? Deitado ali, ouvindo a respiração de minha mãe, que muito breve se extinguira, procura infundir-me uma nova resolução. Eu preciso, eu vou acabar com esta

inútil,

braço partido já curado? Com que doçura, com que hospitalidade ela receberia o meu pai viúvo!

Nos meus pensamentos, quem haveria de surgir senão Elisabeth com o medalhão no pescoço e o

Quanto tempo ele poderá sobreviver sozinho? Oh, por que, numa extremidade da vida, precisam estar Helen e Birgitta e, na outra, apenas um limão por companhia?

À medida que se vão passando os minutos em claro ou por outra, enquanto absolutamente não passam — todos os pensamentos que podem atormentar-me parece fundirem-se numa inidentificável e absurda palavra que não me larga. A fim de livrar-me dessa insípida escravidão, começo a debater-me, com raiva, de um lado para o outro do sofá. Sinto como se estivesse meio acordado, meio adormecido, numa anestesia

Outra vez imerso nas agonias da claustrofobia da sala de operação, que vi pela última vez com a idade de doze anos — após uma operação de apendicite —, até que a palavra se reduz a nada mais que uma fileira de teclas, lidas da esquerda para a direita, nas quais minha mãe me ensinou a pousar a ponta dos dedos, quando aprendi datilografia com ela na Remington Silenciosa do hotel. Mas, agora, que sei o sentido desse banal amontoado de letras, é muito pior do que antes. Afinal de contas, é como se fosse uma palavra, e que mantém no âmago de suas sílabas inexprimíveis toda a dor de suas baldadas energias e de sua vida frenética. E o sofrimento da minha própria vida. De súbito, vejo-me discutindo com meu pai a respeito do epitáfio de minha mãe, nós dois nos arremessando contra enormes blocos de lajes, enquanto insisto com o mestre de cantaria para gravar as letras ASDFGHJKL no seu túmulo, abaixo do nome.

Não consigo dormir. Fico pensando se será possível que eu consiga dormir um dia. Todos os meus pensamentos são ou simples ou doidos e, após certo tempo, não distingo uma coisa da outra. Desejo ir ao quarto deles e deitar-me na cama. Em pensamento, ensaio como o farei. A fim de deixá-los à vontade, tendo em vista a timidez inicial, simplesmente me sentarei primeiro no beirado da cama e, calmamente, falarei com eles dos melhores momentos do nosso passado. Olhando para aquelas fisionomias queridas, lado a lado nos travesseiros novos, para os dois rostos que me espreitam por debaixo do lençol, que puxam até o queixo, tentarei lembrar-lhes como vai longe o dia em que, pela última vez, nós três nos aconchegamos sob um único cobertor. Não foi na cabine de turistas, para além de Lake Placid? Lembram-se daquele quartinho minúsculo?

Isso foi em 1940 ou 1941? E, se não me engano, papai pagou um dólar pela noite. Mamãe achava que, durante as férias da Páscoa, seria bom que eu conhecesse as Mil Ilhas e as cataratas do Niágara. Foi para lá que seguimos no Dodge. Lembra-se de que você nos contava que o Doutor Clark levava seus dois meninos para conhecer a Europa?

Lembra-se de todas essas coisas que você me contava e que eu nunca ouvira antes? Meu Deus, lembram-se de mim e de vocês

dois, de volta, no pequeno

antes de ela morrer, nós vamos ficar juntos por uma última noite, até de manhã.

Antes da guerra e, depois, enquanto eles sorriam, eu me metia entre os dois, na cama. E,

Ninguém vai saber, exceto Klinger, e que me importa o que ele, ou quem quer que seja, pense disso?

Já era quase meia-noite quando a campainha da porta tocou. Na kitchenette, pelo interfone, pergunto:

— Quem é?

— É o bombeiro, queridinho. E a goteira, ainda não mandou consertar?

Não respondo. Meu pai apareceu na sala, de roupão. Algum conhecido seu? A estas horas?

— Deve ser algum palhaço — digo, enquanto a campainha torna a tocar desta vez ao som de uma música caricata.

— Quem é? — minha mãe pergunta do quarto.

— Não é nada, mamãe, vá dormir.

Resolvo falar no interfone mais uma vez.

— Acabe com isso, ou vou chamar a polícia.

— Chame. Nada do que eu estou fazendo é motivo para ação judicial, garotão. Por que você não me deixa subir? Não sou meio mal. Sou totalmente mau.

Meu pai, que já estava com o ouvido junto ao meu ombro, empalideceu.

— Papai — digo —, vá dormir. Essas coisas acontecem em Nova York. Não é nada.

— Ele conhece você?

— Não.

— Então, como é que ele sabe vir aqui? Por que fala desse jeito?

Uma pausa, e a campainha continua a tocar.

Já irritadíssimo, digo:

— Porque o camarada de quem subloco este apartamento é

— Esse camarada é judeu?

— O camarada de quem aluguei o apartamento? É.

E pelo que me parece, este é amigo dele.

— Jesus — retruca meu pai —, que diabo há com um sujeito como ele?

— Creio que tenho de ir lá embaixo.

— Sozinho?

— Não há perigo.

— Não seja

Dois é melhor. Vou com você.

— Papai, não é necessário.

Do quarto, minha mãe pergunta:

— O que há, agora?

— Nada — diz meu pai —, a campainha prendeu. Vamos lá embaixo para consertá-la.

— A esta hora? — exclama ela.

— Voltamos já — meu pai responde. — Fique na cama. — E, baixinho, dirige-se a mim. — Você tem uma bengala, um bastão, ou qualquer outra coisa?

— Não,

— E se ele estiver armado? Você tem um guarda-chuva, pelo menos?

Entrementes, a campainha parou de tocar. — Talvez tenha ido embora — digo. Meu pai escuta.

— Foi embora — eu falo. — Saiu.

Entretanto, meu pai absolutamente não se dispõe a voltar ao quarto para dormir. Fechando a porta que dá para o quarto de — Psiu — dirige-se à minha mãe, bem baixinho —, está tudo bem. Durma. — E

vem sentar-se em frente ao sofá. Percebo sua respiração opressa, enquanto se prepara para falar. Eu, por meu lado, também absolutamente não relaxei.

Encostado rigidamente no travesseiro, espero, a qualquer momento, que a campainha recomece a tocar.

— Você não está

— Não seja tolo.

— ele pigarreia — com algo que queira me

— É que você saiu de casa, Davey, quando tinha dezessete anos e, desde então, não interferimos em quaisquer influências em que tenha se envolvido.

— Papai, não estou sofrendo "influência" de ninguém.

— Desejo fazer-lhe uma pergunta, agora mesmo.

— Diga.

— Não é a respeito de Helen. Nunca falei com você sobre este assunto, e não é agora que vou começar. Sempre a tratei como minha nora.

Não é verdade? Não a tratei, sua mãe não a tratou sempre com respeito?

— Sempre, sem dúvida.

— Preferi não falar. Não queria que ela ficasse nos querendo mal.

Até hoje, ela não pode queixar-se de nada contra nós. À vista das circunstâncias, penso que agimos otimamente. Sou uma

pessoa liberal, meu

de Nova York, e foi a primeira vez que votei? E, em 194, votei em Henry

um erro, mas a questão é que, provavelmente, eu tenha sido o único dono de hotel em todo o país a votar em alguém que era

por todos considerado comunista, o que ele não

jamais. Você sabe — e se não sabe, devia saber, nunca me preocupei pelo fato de ela não ser judia. Isso é um acidente na vida, e elas não vão se afastar só porque os pais, que são judeus, gostariam de uma moça também judia. E por que têm de querer? Acredito na possibilidade de todas as raças e religiões viverem juntas e em harmonia, e o fato de você ter se casado

com uma cristã nunca nos preocupou, nem à sua mãe, nem a mim.

Mas o que pretendo dizer é que jamais tive mentalidade estreita,

E na política ainda mais. Você sabe que, em 1924, eu votei em Norman Thomas para governador

O que talvez não tivesse sentido e fosse

Creio que nos portamos muito bem nesse particular.

Mas isso não quer dizer que pudesse suportar outros fatos sobre sua pessoa e sobre suas atitudes. A verdade é que, se deseja saber, nos três anos que você esteve casado, eu nunca dormi tranqüilo.

— Eu também não.

— Verdade? Então por que não caiu fora, sem hesitações? E, para início de conversa, por que se meteu naquela trapalhada?

— Você quer que eu entre nesse assunto, não é?

— Não, não, você tem razão, com os diabos com essa história. Pela parte que me toca, quanto menos ouvir o nome dela, melhor. Eu me importo é com você.

— O que é que você quer perguntar?

— David, o que é Tofrinal, que eu vi na caixa dos remédios, um vidro cheio?

— É um antidepressivo, Tofranil.

Deu um assobio, de repugnância, frustração, descrença, desprezo.

Eu devo tê-lo ouvido emitir aquele som pela primeira vez cem anos atrás, quando se viu compelido a despedir um garçom que havia molhado a cama, deixando o sótão onde dormia o criado impregnado de mau cheiro.

— E por que você precisa disso? Quem lhe disse para tomar semelhante coisa e metê-la no seu sangue?

— Um psicanalista.

— Você faz análise?

— Faço.

— Por quê? — gritou.

Confidencialmente— E por que não

uma esposa com quem conversar? É o papel da esposa! Quero dizer, desta vez, uma mulher de verdade e não alguém que lhe

deve ter custado um salário inteiro da universidade só para pagar os salões de beleza. Tudo isso está muito errado, meu filho.

Isso não é maneira de viver! Um psicanalista, e tomando drogas muito fortes, e gente que aparece a qualquer que nem é

Gente

— Para não afundar de vez. Para compreender as coisas. Para ter com quem

— Não há nada que deva

— Há tudo para eu me preocupar.

— Não, não — digo, abaixando a voz. — Papai, há apenas mamãe

Ele cobre os olhos com a mão e começa a chorar baixinho, com a outra mão, estendida em minha direção, o punho cerrado. — Isso é que tive que ser toda a minha vida! Sem psiquiatras, sem pílulas! Sou um homem que nunca se deu por vencido!

E, mais uma vez, a campainha lá embaixo.

— Esqueça. Deixe tocar, papai, ele acabará indo embora.

— Para depois voltar? Racho-lhe a cabeça pelo meio, e assim ele vai embora para sempre!

A essa altura, abre-se a porta do quarto e minha mãe aparece, vestida no seu roupão. — A cabeça de quem você vai arrebentar?

— De uma bruxa nojenta e malcheirosa que não o quer deixar em paz!

Novamente, a campainha: dois toques rápidos, um longo, dois rápidos, um longo. Wally está bêbado.

Agora, seus olhos lacrimejantes, minha pequenina mãe diz: — E, quantas vezes isso acontece?

— Não muitas.

— Por que você não dá queixa?

— Porque, quando a polícia chegar, ele já foi. Não se precisa de polícia para coisas como essas.

— E você me jura — diz meu pai — que não é ninguém que você conhece?

— Juro.

Minha mãe entra na sala e vem sentar-se a meu lado. Me pega na mão e a aperta. Nós três ficamos atentos à pai e filho.

Mãe,

— Você sabe o que ia fazer esse filho da puta parar de uma vez por todas? — diz meu pai. — Água fervendo.

— Abe! — exclama minha mãe.

— Mas ía ensinar-lhe a não se meter onde não é chamado!

— Papai, o senhor não deve se importar tanto com isso.

— E você não se importa tampouco? Por que se mete com gente dessa espécie?

— Mas eu não me meto.

— Então, por que vive num lugar como este, onde eles aparecem e aborrecem você? Você ainda quer se aborrecer ainda mais?

— Calma, calma, por favor — diz minha mãe. — A culpa não é dele se pessoas doidas tocam à sua porta. Estamos em Nova York, ele já disse. Essas coisas acontecem aqui.

— Isso não quer dizer que você se deixe ficar desprotegido, Belle! — Pulando da cadeira, ele corre para o interfone. — Ei,

você aí — grita. — Acabe com isso! Aqui quem fala é o pai de

.!

Pegando no braço de minha mãe, já esquelética, murmuro: — Está tudo bem, de qualquer forma ele não está sabendo usar o

aparelho. Não se preocupe, mamãe, por

Aquele camarada não pode ouvi-lo.

— Se você quer queimaduras de terceiro grau, nós lhe daremos!

Faça o que deseja fazer em alguma sarjeta, por aí, mas se tem amor à pele, não se aproxime de meu filho!

Dois meses depois, minha mãe morre, num hospital em Kingston.

Após o enterro, quando os hóspedes se retiram, meu pai insiste para que eu coma a comida que ela botou para congelar, há um mês apenas, a última que ela cozinhou nesta terra. Eu lhe digo: — E você, o que vai comer? — Eu sempre comi pouco, antes de você nascer. Leve-a. Leve o que ela fez para você. — Papai, como é que você vai viver aqui sozinho? Como é que você vai se houver durante a estação? Por que você enxotou todo mundo? Não seja tão corajoso. Você não pode ficar aqui em cima sozinho. — Posso me cuidar muito bem. A morte dela não foi assim tão inesperada. Por favor, leve a comida, leve tudo, ela queria que você levasse. Ela disse que sempre que se lembrava de sua geladeira, ficava furiosa. Ela cozinhou para você — a voz dele tremia — e depois se foi embora. — Começa a soluçar. Enlaço-o nos meus braços. — Ninguém a compreendeu — diz.

— Os hóspedes, nunca, nunca. Ela era uma boa alma, Davey.

Quando era jovem, tudo a emocionava, até as menores coisas. Só ficava nervosa no verão quando tudo era ardente e descontrolado. De modo que faziam troça dela. Mas você se lembra do inverno? Como reinavam a paz e a calma? Como nós nos divertíamos? Lembra-se das cartas, à noite? — Suas palavras fizeram com que, pela primeira vez desde a morte de minha mãe, na manhã seguinte, eu me sentisse sucumbir totalmente. — Eu me lembro claro que me lembro. — Oh, meu filho, nessa ocasião ela era ela mesma, mas quem sabia disso?

— Nós sabíamos — digo-lhe, porém ele repete raivoso, entre soluços: — E quem sabia disso?

Ele leva a comida congelada, dentro de um saco de compras, até o meu carro. E assim, volto à Nova York com a meia dúzia de vasilhas, todas com o mesmo rótulo à máquina: "Língua, com o famoso molho de passas da vovó: duas porções".

Dentro de uma semana, eis-me de volta ao campo, dessa vez com meu tio Larry, a fim de levar meu pai para Cedarhurst, onde ficará com o irmão e a cunhada, apenas temporariamente, como ele declara enquanto colocamos sua valise no carro, até recuperar-se do choque. Tem certeza que, em poucos dias, será ele novamente. Terá que ser, não há outro remédio. — Trabalho desde a idade de catorze anos. A gente não se entrega a essas coisas — diz. — A gente se apruma, e continua. — Além disso, é inverno, e sempre há perigo de incêndio. Sim, o caseiro e a mulher estarão morando no local, porém o fato não constitui garantia contra a possibilidade de o hotel pegar fogo em sua ausência.

Naturalmente, é verdade que misteriosos incêndios têm ocorrido, às dúzias, em hotéis abandonados e pensões, a partir do tempo em que a região começou a sair de moda como lugar de veraneio dos judeus, aproximadamente na época em que fui para a escola superior, mas, como ele e minha mãe conseguiram, mesmo recentemente, conservar os remanescentes da sua clientela que ia envelhecendo, mantendo a casa principal aberta e o local com um bom aspecto, os incendiários jamais constituíram reais ameaça. Mas, agora, a caminho de Thruluay, ele não pensa em outra coisa. Enumera, para meu tio e para mim, os desordeiros da

Homens de trinta a quarenta anos, de quem sempre suspeitou como causadores dos incêndios. — Não, não — responde ao oferecimento de meu tio de fazer uma análise em profundidade da origem das desordens —, nem mesmo são anti-semitas. São

muito estúpidos para isso! Simples inúteis, idiotas, cujo lugar é o hospício. Apenas gente que gosta de ver fogo! E quando tudo

se reduz a cinzas, vocês sabem quem eles acusam? Tenho visto isso dezenas de vezes: a mim! Que provoquei o incêndio para receber o prêmio do seguro, porque minha mulher morreu e eu quero sair dali! A culpa recairá sobre o meu bom nome!

E sabem quem eu às vezes acho que são os culpados? Os próprios bombeiros voluntários. É

para cima e para baixo, no meio da noite, nos carros de bombeiro, equipados de capacetes e botas.

Então eles correm

Mesmo depois de confortavelmente instalado no quarto que foi de Lorraine, não há meio de acalmar-lhe os cuidados pelo império construído com suor e sangue. Todas as noites falo com ele pelo telefone e me diz que não pode dormir preocupado com o incêndio. Agora, tem também outras coisas com as quais se preocupar. — Aquele bruxo nunca mais voltou? — Não — digo, sabendo que é melhor mentir. Como vê, valeu a pena ameaçá-lo.

Lamentavelmente, há pessoas que só respeitam a força — diz meu pai, que nunca na vida bateu em alguém. — E como estão o tio Larry e a tia Sylvia? — pergunto. — Maravilhosamente. Não podem ser mais gentis. Estão sempre repetindo "Fique". — Bem, isso me parece tranqüilizador — digo. Mas não, ele me diz que mais uns dez dias, e o pior da dor de ficar sem ela terá passado.

Tem de ser. É preciso voltar para lá, enquanto o diabo daquela propriedade ainda está inteira!

E seguem-se mais cinco dias, e mais outros cinco, até que, afinal, num domingo, após um melancólico passeio de carro,

concorda em pôr à venda o Hungarian Royale. Diz, com o rosto entre as mãos: — Mas eu jamais me dei por vencido na vida. — Não há nenhuma vergonha nisso, papai, apenas as coisas mudaram. — Mas eu nunca desisto — exclama. — Ninguém vai tomar sua resolução como desistência — digo, e levo-o de volta para a casa do irmão.

E, durante esse tempo, quase não se passa uma única noite sem que eu pense na moça que conheci durante dois meses apenas, quando era um prodígio de sexo, aos vinte e dois anos, a moça que usava um medalhão no pescoço com o retrato do pai. Chego a pensar em escrever-lhe, aos cuidados dos pais. Levanto-me da cama e procuro, no meio de meus papéis, o endereço de Estocolmo. Mas a essa altura Elisabeth já deve estar casada e mãe de dois ou três filhos, e certamente não pensa em mim com amor, certamente nenhuma mulher viva pensa em mim.

Embora Arthur Schonbrunn, chefe do meu departamento, seja um homem de meia-idade, belo, bem-vestido, dotado de persistente charme e sensibilidade — uma personalidade que se destaca na sociedade da maneira mais fina e atraente que jamais vi —, sua mulher, Deborah, é uma pessoa por quem nunca pude ter muito entusiasmo, mesmo no tempo em que fazia meu curso de extensão universitária e era o aluno predileto de Arthur, e ela a mais delicada e hospitaleira das anfitrioas. Naqueles primeiros anos de Stanford, ficava muito tempo pensando, na verdade tentando compreender o que é que prendia um homem tão escrupuloso em relação a vantagens, tão incansavelmente preocupado em opor seus mais elevados princípios às crescentes interferências políticas no currículo da universidade — o que é que unia um homem de tal envergadura àquela mulher, cuja maior e mais ambicionada meta se resumia em fazer o papel da senhora cujo charme sedutor se encontra todo numa petulante "candura"? Desde a primeira noite que jantei com o casal, a convite de Arthur, lembro-me das minhas conjeturas, no fim daquela noite, sobre as conversas que tivemos na ocasião, e que em sua maioria se resumiam na "ultrajante" e dengosa tagarelice de Deborah.

"Este certamente é o homem mais solitário que existe." Como fiquei triste e desiludido, aos vinte e três anos, ao me dar conta

da vida doméstica do meu paternal

observação" de sua mulher, e do seu "dom" de "chegar ao âmago do problema". E, na mesma linha desses acontecimentos, lembro-me de uma outra noite, muitos anos depois, quando Arthur e eu trabalhávamos em nossos escritórios até tarde da noite.

Isto é, Arthur trabalhando e eu, imóvel diante de minha mesa, desesperançado como sempre pelo impasse a que Helen e eu havíamos chegado, e não nos sentíamos com força ou coragem para resolver. Quando Arthur me viu com um ar mais

Quando Arthur, no dia seguinte, me falou do "maravilhoso poder de

acabrunhado do que nunca, sentou-se ao meu lado e até as três horas da manhã fez tudo para dissuadir-me das soluções insensatas que costumam irromper no cérebro dos maridos infelizes, os que não conseguem voltar para casa. Por mais de uma vez, relembrou-me o primoroso trabalho que fora a minha tese. Agora, o mais importante era revisá-la para publicação. Na verdade, muito do que Arthur me disse naquela noite assemelha-se bastante ao que ouviria mais tarde da boca do Doutor Klinger, em relação à minha pessoa, ao meu trabalho e a Helen. Eu, por minha vez, descarreguei meus ressentimentos e, a certa altura, inclinei a cabeça sobre a mesa e chorei.

"Já imaginava que a coisa fosse grave", disse Arthur. "Nós imaginamos, mas, por mais que gostássemos de você, não tínhamos

o direito de nos meter. Àquela altura, já tínhamos bastante experiência para saber que, mais cedo ou mais tarde, aquilo sempre acontece entre amigos. Mas havia dias que dava vontade de dar-lhe uma sacudidela por ser tão ingênuo. Você não sabe quantas vezes falei com Debbie sobre o que poderíamos fazer para salvá-lo de tamanha infelicidade. Nada nos entristecia mais do que lembrar como você era quando chegou aqui e depois ver o que estava lhe acontecendo por causa dela. Mas não

podia fazer nada, David, a menos que você me procurasse vai até certo ponto com as pessoas, e dali não passa. O

e você não costuma procurar ninguém. Você é uma criatura que só

resultado é que fica mais sozinho consigo próprio do que qualquer um. Eu também sou assim, de certa forma.”

Quase no fim daquela vigília — e pela primeira vez Arthur falou de sua própria vida, como se fôssemos homens da mesma idade e posição. Aos vinte e poucos anos, quando era auxiliar de ensino em Minnesota, também se metera com uma mulher "loucamente neurótica e destruidora". Brigas escandalosas em público, dois abortos dolorosos, um desespero tal que ele chegou a ponto de pensar no suicídio como único meio de escapar de tais confusões e sofrimentos. Mostrou-me uma pequena

cicatriz na mão, no lugar onde a cruel bibliotecariazinha — a quem ele não podia suportar, e da qual também não conseguia se

afastar — o ferira com um garfo durante o café da manhã

E enquanto Arthur tentava ajudar-me e orientar-me, associando seu

infortúnio da mocidade, e subseqüente libertação, com o que eu estava sofrendo, só tive vontade de dizer-lhe: "Mas, como é

que você ousa? E o que acha do seu casamento atual? Debbie é tão vulgar; sua espontaneidade é postiça e artificial, sua

candura, uma exibição canhestra, que a sociedade diria caprichosa, papai chamaria diabólica apenas um comportamento audacioso e sem importância. Enquanto Helen

Arthur, isso não vale nada, é

meu Deus, Helen é cem vezes, Helen é mil vezes

palavras tão insensatas sobre a falsidade e superficialidade de sua mulher em comparação com a integridade, inteligência, charme, beleza, e coragem da

Mas é claro que não cheguei a tais limites de indignação, não pronunciei

"

Afinal de contas, ele adora a esposa, enquanto eu, pelo menos naquela noite, só tinha em relação à minhas idéias homicidas.

Esse cavalheirismo de Arthur deve causar piedade ou inveja? É o meu antigo orientador e atual benfeitor um pouco mentiroso, meio masoquista, ou muito apaixonado? Ou será que Debbie, com seu jeito meio brincalhão e sua beleza vagamente desleixada, representa a dose de desordem necessária a tornar suportável uma vida que, do contrário, será sufocante?

Nosso poeta residente, Ralph Baumgarten, criou uma palavra — "abobolhado" — para definir o tipo de marido como Arthur Schonbrunn. Seu neologismo é uma espécie de aliteração com as palavras “bobas” e "bolha", e designa os que se curvam servilmente aos padrões de respeitabilidade e decoro que, segundo Baumgarten foi imposto por gerações de mulheres a fim de desarmar e domesticar os homens, esquema em que absolutamente não se enquadra nosso poeta. Baumgarten tem razão em achar que seu contrato com a universidade não será renovado devido principalmente à forma como trata o sexo oposto, sem preconceitos ou falsas delicadezas. Suas atitudes provocam o desprezo de alguns dos nossos colegas e suas castas esposas, mas nem por isso ele deixa de agir abertamente em relação às mulheres.

"Peguei uma garota no Modern Museum e, quando íamos saindo, encontramos o casal, Kepesh. Debbie imediatamente agarrou

a moça e levou-a ao toalete para dizer-lhe todas as verdades sobre mim. Arthur, no meio de uma conversa amistosa,

perguntou-me há quanto tempo Rita e eu nos conhecíamos. Respondi que há apenas uma hora e meia e que já íamos saindo porque no museu não havia lugar apropriado para aprofundarmos nossas relações. Quis saber o que Arthur achara dos quadris da moça. Bem, não quis me dizer. Em vez disso, fez-me uma preleção sobre a indulgência.”

Não há dúvida de que Baumgarten atira uma rede muito grande para pescar pequenos peixes. Quando nós dois andamos pelas ruas de Manhattan, não há uma única mulher abaixo dos cinqüenta anos ou moça acima dos quinze que ele não aborde para pedir informações, com um ar preocupado.

— Hum, que belo casaco! — diz, dirigindo-se com um sorriso largo a uma jovem de casaco surrado que empurra um carrinho de criança. — Oh, muito obrigada. — De que é feito?

Que pele de animal é essa? Nunca vi um casaco igual.

— Este? É uma imitação. — É mesmo? — Em poucos minutos, já está pasmado (e sem fingimento) com o fato de a moça do

casaco de imitação já ser divorciada e mãe de três criancinhas, e que abandonou o curso, na universidade de faz-de-conta.

Afasto-me discretamente, mas ele me chama.

— Você ouviu essa, Dave? Esta é Alice, a Alice que nasceu em Montana

empurrando um carrinho de bebê. — E, não menos que Baumgarten, a jovem mãe parece também admirada de ter percorrido tal distância em apenas vinte e quatro anos.

E, no entanto, ei-la aqui em Nova York,

Baumgarten ensina-me que o sucesso com moças que você não conhece está em nunca lhes fazer uma pergunta que não possam responder sem hesitar, e depois, prestar muita atenção à resposta, por mais banal que seja. "Lembre-se de James, Kepesh. 'Dramatize, dramatize. ' Faça com que sintam que o que são, de onde vêm e o que vestem é interessante. É até muito interessante. É uma questão de caridade. Por favor, não seja irônico. O

problema é que você as afugenta com sua extraordinária tendência para complicar tudo. Segundo minha experiência, a mulher comum, que anda na rua, realmente não gosta de ironia. Na verdade, ela corre a léguas da ironia.

Quer atenção, ser bem tratada. Certamente não deseja competir com você no terreno intelectual. Guarde essas sutilezas para seus artigos de crítica. Lá fora, na rua, abra-se. As ruas foram feitas para isso.”

Nos meus primeiros meses de universidade, percebi que todas as vezes que se falava no nome de Baumgarten nas reuniões da faculdade, havia sempre alguém que não o suportava, e estava ansioso para dizer por quê. Debbie Schonbrunn diz que o "abominável residente" seria cômico se não fosse "destruidor", palavra muito usada por ela e Arthur. Naturalmente, não falo

nada. Apenas tomo meu café e volto para Nova York. — Oh, ele não é tão ruim assim — digo a ela. Na verdade até gosto dele. — E o que há nele para gostar tanto? — Vá para casa, Kepesh. Você pertence é àquele apartamento vazio. Entre essa discussão profética e aquele apartamento decadente, não há dúvida de qual é o seu lugar. — E o que há para desgostar tanto?

— respondo. — Por onde começarei? — pergunta Deborah. — Primeiro, seu desprezo pelas mulheres.

É um misógino, um bárbaro, sem consciência.

Odeia as mulheres. — Parece-me que, ao contrário, até gosta muito delas. — David, você está querendo me contradizer e está sendo insincero, e um tanto agressivo, não sei por quê. Ralph Baumgarten é abominável e a sua poesia também. Nunca li nada mais desumanizado na minha vida. Leia o primeiro livro dele e julgue por você mesmo se gosta de mulher. — Bem, ainda não

li nada escrito por ele (uma mentira), mas já almoçamos juntos muitas vezes. Pelo que me foi dado observar, não é tão

criticável assim. Pode ser Deborah, que a poesia não corresponda exatamente ao homem.

— Mas é ele: mesquinho e enfatuado, arrogante e realmente muito bronco. E o que me diz do homem? Aquele andar gingado, aquelas roupas de militar, aquele rosto, bem, nem chega a ser realmente um rosto, não é?

Apenas aqueles olhos mesquinhos, à flor da pele, e aquele sorriso irônico. É um mistério o fato de haver moças que cheguem perto dele. Bem, ele deve ter alguma coisa. — Ou falta alguma coisa nelas. Realmente, você tem uma elegância inata e ele

parece um urubu em cima da carniça. Eu me pergunto por que você anda com ele encolhendo os ombros, acabo meu drinque e vou para casa.

— Dou-me bem com ele — digo,

Logo chegaram aos meus ouvidos rumores do que o poder de observação de Deborah havia ocultado em nossa conversa. É o

que deveria ter esperado, e sem dúvida é o que mereço. Realmente, o que há para admirar é a minha surpresa minha vulnerabilidade.

Só isso, e a

“ Parece que, durante um jantar em casa dos Schonbrunn, a anfitrioa anunciou aos presentes que Baumgarten se tornara o “alter ego” de David Kepesh e que os dois” se entregavam a fantasias agressivas contra as mulheres”, sendo que, de minha parte, tal atitude vinha em conseqüência de meu casamento desastrado e seu desfecho humilhante em Hong Kong: a cocaína, a polícia,

as negociações. Os pormenores picarescos do início foram também narrados para gáudio de todos. Esses detalhes me foram

fornecidos por um homem muito bem-educado, que também foi ao jantar, mas que não tinha nada a ver com a história, e pensou estar me prestando um serviço.

Inicia-se assim uma correspondência, principiada por mim e, ai!, perpetuada por mim também.

"Cara Debbie, Chegaram até mim rumores de que, a semana passada, num jantar em sua casa, você andou falando um tanto levianamente de minha vida particular, isto é, do meu casamento, de minhas 'humilhações' e, segundo me contaram, daquilo que você descreve como 'minhas fantasias agressivas contra as mulheres'. O que é que você sabe de minhas fantasias, posso perguntar? E por que Helen e eu fomos assunto de conversa, durante um jantar onde havia gente que, na sua maioria, eu jamais encontrei? Em consideração à amizade com Arthur, que data de bastante tempo e que tivemos novamente oportunidade de reencetar, espero que no futuro você se abstenha de discutir com pessoas totalmente estranhas as minhas fantasias agressivas e minha vida.

De outra forma, será muito difícil para mim continuar o mesmo com Arthur e, evidentemente, com você.

Sinceramente David.”

"Caro David, Peço desculpas pela tagarelice com pessoas que você não conhece e prometo não fazer mais isso. Daria tudo para que me dissesse quem foi o f.d.p. que fez essa fofoca para que nunca mais ponha os pés na minha casa.

A fim de não ferir suas suscetibilidades, desejo primeiro dizer que seu nome veio à baila apenas por alguns instantes — ai de você, que não deu para ser assunto de uma noite inteira. Creio que está plenamente justificado seu ressentimento com Helen. Realmente não é vergonha nenhuma que seu rancor por ela tenha se transformado agora em amizade por um jovem que trata as mulheres como carniça. Contudo, se você considera sua amizade por ele sob um prisma e eu sob outro, é um direito que me assiste — como creio ser também o seu.

Finalmente, se eu falei de Helen irrefletidamente talvez tenha sido porque, em Stanford, ela tenha se mostrado muito pretensiosa, como você bem sabe, tornando-se por conseguinte o principal assunto de conversa em qualquer grupo, inclusive entre seus próprios amigos. E você mesmo também falava dela conosco, sempre que vinha à nossa casa em companhia de Arthur.

Todavia, meu caro David, quanto menos falarmos nesse assunto, melhor. Você quer vir jantar conosco, digamos, sexta-feira? Venha, sozinho ou com alguém que queira trazer, desde que não seja o Bárbaro. Se for uma jovem, prometo não dizer nada sobre a sua misoginia enquanto estiver aqui.

Com a amizade de Debbie.

P.S.: Daria tudo para saber o nome do cafajeste que me denunciou.”

"Cara Debbie, Não achei sua resposta satisfatória. Você parece não compreender quanto é indiscreta em relação ao que sabe e pensa saber a meu respeito. O fato de eu ter feito certas confidências a Arthur, que as contou a você, não melhora nada. Compreende por quê? Tampouco consigo entender como você ainda não se deu conta de que meu casamento continua sendo motivo de sofrimento para mim, que certamente não diminui quando sei que está sendo comentado como qualquer opereta, por pessoas com as quais desabafei sobre alguns de meus infortúnios.

O som de sua carta veio apenas piorar a situação para mim, e, assim sendo, não vejo como aceitar seu convite.

David”

"Caro David, Sinto muito que tenha achado minha carta insatisfatória. Na verdade, foi propositalmente que lhe dei aquele tom superficial. Pensei que se ajustava melhor ao que você acha um crime de minha parte.

Considera-me realmente uma megera, que quer a todo custo manchar sua imaculada reputação ou invadir sua intimidade com insinuações malévolas? É óbvio que considera, e isso naturalmente é monstruoso, mas, pelo simples fato de acreditar que é, não quer dizer que seja.

Penitencio-me por falar levianamente de sua pessoa com estranhos, porque sei que o faço algumas vezes. Presumo que o que lhe chegou aos ouvidos foi isso — insensatez e leviandade. Sei que nada disse de tão horrível que o pudesse fazer sofrer. Rememorando a opinião que você tinha de si próprio, em relação às mulheres — histórias de seu tempo de estudante, lembra- se? —, jamais sonhei que se julgasse acima de qualquer censura.

Admito que nunca o julguei um perfeito anjo no que se refere às mulheres, mas também nunca pensei que isso o definisse como pessoa. Eu o apreciava e gostava de você como amigo.

Devo dizer-lhe que para mim seria motivo de tristeza se ouvisse dizer que se afastou de seus amigos da Califórnia apenas porque foram indiscretos e mencionaram seu nome no decorrer de uma conversa, não por indelicadeza, depravação ou malícia, mas tão-somente por saberem de tudo por que você havia passado.

Receio que sua carta tenha revelado mais sobre a sua pessoa do que eu gostaria de saber.

Debbie”

"Caro David, Debbie está respondendo à sua última carta, mas agora sinto-me também na obrigação de envolver-me no assunto.

Parece-me que Debbie se esforçou, quase chegando a humilhar-se, em pedir-lhe desculpas pelo que julgou uma justa queixa, deixando ao mesmo tempo transparecer, através de um tom de troça, que o que havia feito não era tão grave como você julgava. Segundo o que me foi dado saber da situação, concordo com ela e penso que sua última carta, com aquele teor agressivo, exasperado e autopiedoso, é muito mais ofensivo do que qualquer erro por parte de Deborah. Não tenho a mínima idéia, por assim dizer, do que Deborah possa ter falado a seu respeito (uma pequena documentação auxiliaria), mas posso afiançar-lhe que não passou de conversa de mesa, durante um jantar, e que durou uns poucos minutos, sem qualquer desabono à sua pessoa. Tenho minhas suspeitas de que você falou muito mais de Deborah em conversa (provavelmente, não diante de estranhos). Parece-me que os amigos devem ter mais boa vontade e perdoarem-se mutuamente as eventuais fraquezas.

Sinceramente Arthur.”

"Caro Arthur, Você não pode misturar as duas hipóteses: a de que Debbie falou 'em tom de troça', ou, como ela mesma diz, num tom 'propositalmente superficial' porque expressava melhor a sua atitude perante o que estava me aborrecendo, e a de que 'ela se esforçou quase chegando a humilhar-se'.

Naturalmente, a indiscrição de Debbie é perdoável e eu o disse na minha primeira carta. Entretanto, o fato de continuar a ser, não apenas tão obtusa, porém tão displicente em relação a tudo isso, leva-me a considerar seu lapso como algo mais do que um exemplo de 'eventual fraqueza' demonstrada por um amigo. David”

"Caro David, Hesitei sobre a resposta que daria à sua última carta, porque ela me deixou com muito pouco a dizer. Acho inacreditável que pudesse imaginar por um só instante que Deborah tenha querido prejudicá-lo.

É também inacreditável que não perceba que sua explosão de mau gênio a respeito dessa situação vem corroborar muito bem a verdade da observação de Deborah sobre a natureza agressiva de sua atitude em relação às mulheres, nesses últimos tempos. Ao invés de reforçar suas agressões, por que não faz uma pausa para refletir sobre sua falta de tato em recusar as desculpas de Deborah, preferindo, ao invés, prejudicar nossa amizade e aniquilá-la pela sua conduta?

Não sei o que fazer para satisfazê-lo, a não ser divorciar-me de Deborah ou abandoná-la na rua e restabelecer as relações de amizade entre nós. Agradeceria quaisquer sugestões.

Sinceramente, Arthur.”

Coube a Klinger pronunciar misericordiosamente a fórmula mágica que pôs fim à situação. Conto-lhe o que pretendo dizer na minha próxima carta a Arthur - já com o segundo rascunho pronto e datilografado — a respeito do vínculo freudiano ao qual quer me prender. E ainda estou meio irritado com sua sugestão, duas cartas atrás (feita entre parênteses), de "uma pequena documentação". O que está ele pensando que nós somos? Ainda estudante e professor, candidato à pós-graduação e orientador de tese?

Aquelas cartas não foram enviadas para ele corrigir e dar nota. Não me importa que julguem que lhe devo favores - não quero que digam que sou aquilo que não sou!

Não quero ser denegrido e menosprezado pela calúnia arrogante e neurótica de Deborah! Nem permitirei que Helen seja caluniada também!

"Fantasias agressivas"! Tudo isso significa que eu não a suporto! E por que diabos ele não a abandona na rua em frangalhos? Que idéia maravilhosa! Eu o respeitaria se fizesse isso! Toda a universidade o respeitaria!

Quando terminei minhas invectivas daquele dia, Klinger disse: "Então, ela faz fofocas a seu respeito sofre com isso?”

e, com os diabos, quem

Apenas algumas palavras e, imediatamente, sinto-me mortificado e vejo como sou um bobo neurótico. E ainda tão convencido!

Tão sem

cheias de ira contra o Extremoso Casal constituem toda a minha crítica, desde que voltei ao leste. Toda a perseverança,

concentração e sabedoria que pude armazenar para botar no papel. Por que passo noites inteiras retocando-as para conseguir

concisão e

Doutor creio que não encaro as coisas de maneira muito normal. Evitar Wally, brigar com Debbie e pendurar-me aos cordões

de seu avental para salvaguardar esta adorada

nada, ao invés de considerá-la tudo o que tenho e tudo o que faço?

Oh, como poderei transformar essa trivialidade em verdadeiramente

Sem um único amigo! E só fazendo inimigos! Minhas cartas

Sem concentração, sem

Enquanto meu Tchekhov fica de lado.

Rascunhos e mais rascunhos, e para quê? Nada!

É estranho que minha contenda com os Schonbrunn tenha servido para reavivar uma amizade com Baumgarten que, na verdade, nunca fora grande. Mas, por outro lado, não é tão estranho assim, tendo em vista a ânsia acumulada de poder opinar sobre minha nova existência, apenas iniciada.

Seguindo o que considero "ordens do médico", abandono a correspondência com os Schonbrunn — embora fique esta manhã toda pensando em respostas indignadas e argumentos definitivos enquanto sigo pela estrada a caminho da escola —, até que um dia, já no fim da tarde, movido por um impulso que julguei inofensivo naquela ocasião, paro à porta do gabinete de Baumgarten e o convido para o café. No domingo à noite, ao voltar de uma visita ao meu pai, chego à conclusão de que naquele apartamento estou me tornando um lobo solitário.

Apago o fogo da sopa que estava aquecendo na panelinha de solteirão e telefono a Baumgarten, para convidá-lo a compartilhar da última porção de comida preparada por minha mãe.

Logo passamos a nos encontrar uma vez por semana, num pequeno restaurante húngaro, no fim da Broadway, bem perto de

onde morávamos. Baumgarten não é exatamente a pessoa por quem eu chorava defronte do espelho do banheiro, nos primeiros meses de luto, em Nova York (o luto que precedeu àquele pelo único de nós que realmente morreu). Mas, então, esse alguém

Porque, na verdade, já o fez. Estava aqui, era minha, e se perdeu, destruída Desafiar até a morte, o que cheguei a pensar que era o que mais

queria. Sim, tenho saudade de Helen! De repente, quero Helen! Como todas aquelas brigas parecem-me agora ridículas e sem sentido! Que criatura deslumbrante, viva, ardente!

tão desejado pode muito bem jamais por um terrível mecanismo que me faz desafiar,

Inteligente, graciosa, misteriosa

encontrarei outra mulher como ela, se é que existe?!

E desaparecida. Oh, por que, meu Deus, agi assim? Poderia ter sido tão diferente! E quando

Assim, com pouco mais de uma década de vida adulta, já sinto que perdi todas as oportunidades. Na verdade, ao meditar sobre meu passado, olhando para aquela caçarola esmaltada que fora nossa, sinto que não foi só minha experiência com o casamento que foi mau, mas também todas as outras com o sexo feminino, e que meu temperamento me impede de viver em paz com qualquer mulher.

Enquanto comíamos salada de pepinos e repolho recheado (nada mau, porém incomparável ao do Hungarian Royale no seu apogeu, digo a Baumgarten, com um tom não muito diferente do de meu pai), mostro-lhe uma antiga fotografia de Helen, certamente a mais atraente e sedutora que jamais passou na alfândega. Retirei-a de sua carteira internacional de motorista, que encontrei um dia desses — cada um com suas discordâncias e incoerências — numa caixa com os papéis de Stanford, entre minhas anotações de aula sobre François Mauriac. Trago a fotografia de Helen para jantar comigo e fico em dúvida se devo tirá-la da carteira, e me pergunto por que devo fazê-lo.

Dez dias antes, eu havia levado a fotografia para o consultório de Klinger, a fim de provar-lhe que, embora parecendo cego para certas conseqüências extremas, não o era para tudo.

"Uma verdadeira beleza", diz Baumgarten quando, com a ansiedade de um estudante que passa de ano na base da cola, eu lhe entrego por cima da mesa o retrato de Helen! "Uma verdadeira abelha mestra", diz. "Sim, senhor, e vigiada pelos zangões." Fica muito tempo admirando o retrato. Por um tempo demasiadamente longo. "Chego a ter inveja", declarou, e não por amabilidade.

Bem, creio que pelo menos ele não vai depreciá-la, nem a

Contudo, agora hesito em prosseguir e tento compreender tudo que diga respeito a minha pessoa estimulado pela presença de Baumgarten, embora saiba que qualquer desafio seu à perspectiva aberta por Klinger — e a vontade que sinto agora de entregar-me a ela — possa realmente desestruturar-me e fazer-me voltar ao estado caótico em que me encontrava quando iniciei o tratamento. Naturalmente não é agradável sentir-me tão vulnerável à perplexidade ou tão desprotegido em relação à terapia, ou verificar que há um lado meu que compartilha da opinião negativa de Debbie Schonbrunn sobre Baumgarten. A verdade é que espero com ansiedade a hora de sairmos juntos à noite e ouço com interesse suas histórias, que, como as de Helen, são as de uma pessoa que se relaciona bem com suas emoções e que combate com confiança e bom humor as condições adversas.

Contudo, também é verdade que minha ligação com Baumgarten é cada vez mais marcada pela incerteza, que às vezes chega a transformar-se em dúvida, à medida que a nossa amizade se estreita.

A história da família de Baumgarten é um longo desfiar de amarguras. O pai, padeiro, morreu recentemente, indigente e abandonado, na enfermaria de um hospital — abandonara a família quando Baumgarten era ainda adolescente (antes tarde do que cedo) — e só depois de muitos anos de sofrimentos que transformaram a vida da família num vale de lágrimas. A mãe de Baumgarten trabalhou trinta anos cosendo luvas numa pequena loja perto da Penn Station, com medo do patrão, do caixeiro, da plataforma do metrô e do trilho eletrificado. Ao chegar em casa, tinha medo das escadas do porão, do forno a gás, da caixa de fusíveis e até de um martelo e dos pregos. Um dia, quando Ralph estava na escola, teve uma trombose que a deixou inválida, e desde então passa os dias a olhar para as paredes de um asilo judaico, em Woodside. Todos os domingos, pela manhã, quando o filho mais novo vai visitá-la — com seu sorriso sardônico, o Sunday News debaixo do braço, e na mão um pequeno pacote com um doce —, a enfermeira entra antes no quarto e exclama, para despertar aquela frágil e pequenina mulher, sentada como um saco na cadeira, livre finalmente da agressividade humana: "Adivinhe quem está aqui, Mildred, com um doce para você! Seu professor!”

Além das despesas com a manutenção da mãe, que não são cobertas pelo governo e que Baumgarten paga com o que recebe da universidade, couberam-lhe ainda responsabilidades paternais para com a irmã mais velha, que vive em Nova Jersey com três filhos e o marido, infeliz dono de uma lavanderia. Os três garotos, segundo o tio Baumgarten, são uns "palermas", a irmã uma "derrotada", criada desde a infância entre os terrores maternos e as depressões paternais, e que, agora quase com minha idade, não reage a nada exceto a um sem-número de superstições, as quais, segundo Baumgarten, passou invulneráveis desde o shtetl. Devido à sua aparência, suas roupas, e as coisas estranhas que diz aos colegas dos filhos, no conjunto residencial onde a família mora, é conhecida como "a cigana".

Ao ouvir as histórias desse clã, implacavelmente derrotado, contadas por seu indestrutível sobrevivente, surpreende-me que Baumgarten não tenha que eu saiba escrita uma única palavra sobre as circunstâncias que tornaram sua família diferente de qualquer outra, ou por que razão não pode ignorar sua destruição, a despeito da repulsa que lhe causa a lembrança de sua infância naquela casa de mortos. Nem uma só palavra a esse respeito em seus dois livros de poesias, o primeiro, escrito aos vinte e quatro anos, com o título petulante de A anatomia de Baumgarten, e o outro, mais recente, denominado, segundo um verso do poema erótico de Donne: Atrás, na frente, no meio e embaixo. Devo confessar a mim próprio — se não a Schonbrunn — que, após ter Baumgarten como livro de cabeceira, os interesses que venho a muito mantendo sobre a adaptabilidade e constância do sexo oposto ficou saciada. Entretanto, por menos que o assunto me mobilize — ou, por outra, os recursos empregados para explorá-lo —, encontro no amálgama da erotomania, aberta, no fetichismo microscópico, e na extraordinária arrogância, um caráter cujo abandono às próprias necessidades não pode deixar de suscitar curiosidade. Contudo, no princípio, até seu jeito de servir-se ao jantar desperta minha curiosidade, e, às vezes, é tão difícil olhar quanto desviar os olhos. Será realmente o animal indômito dentro dele que o faz despedaçar a carne com os dentes com uma força muscular prodigiosa, ou ele não mastiga o alimento com delicadeza só para não fazer o que todo mundo faz? Uma noite, depois de ver Baumgarten separar com os incisivos a carne do osso duma costeleta de vitela, ao chegar a casa, procura em minhas estantes à coleção de contos de Kafka e releio o último parágrafo de Um artista faminto, no qual há a descrição de uma pequena pantera que foi colocada na jaula para substituir o faquir que morrerá de inanição. "A comida predileta do animal foi imediatamente trazida pelos empregados. Ela nem parecia sentir a falta de liberdade. Seu nobre corpo, repleto de tudo quanto necessitava, ”

parecia carregar consigo também a liberdade. Em algum lugar de suas mandíbulas parecia ocultar-se

Sim, e o que se esconde naquelas fortes mandíbulas? A liberdade, também? Ou a capacidade daquele que um dia quase foi enterrado vivo?

São as suas mandíbulas as da nobre pantera ou as do rato faminto?

Pergunto-lhe: — Por que você nunca escreveu sobre a sua família, Ralph? — Eles? — diz, lançando—me um olhar indulgente.

— Eles — respondo — e você. — Por quê? Para que eu o leia, com a casa cheia, na Associação Hebraica de Moços? Oh,

Kepesh — ele é cinco anos mais jovens do que eu, e não obstante gosta de falar-me como se eu fosse um menino e, ainda por cima, um irremediável quadrado —, poupe-me o assunto da família judia e suas lutas. Será que ainda há interesse em contar a

história de mais um filho e mais uma filha, e mais uma mãe e mais um pai atirando pedras um no outro?

Todo aquele amor, todo aquele ódio, todas aquelas refeições. E não se esqueça do Menschlickkeit. E aquela frustrante procura da dignidade. Oh, e a bondade. Não se pode escrever sobre essa droga sem falar na bondade.

Ouvi dizer que alguém acaba de publicar um livro a respeito da nossa literatura judaica sobre a bondade.

Espero a qualquer momento ler que um crítico irlandês publicou um livro sobre a jovialidade em Joyce, Yeats e Synge. Ou um artigo de algum bom velhinho de Vanderbilt sobre a hospitalidade no romance sulista: "Sinta-se em casa. O tema da hospitalidade no conto de Faulkner Uma rosa para Emily".

— Eu apenas me perguntava se não iria despertar outros sentimentos.

Ele ri. — Deixo aos outros a tarefa de despertar sentimentos, OK? Eles estão habituados a isso. Eles gostam de tê-los. Mas a virtude não é o meu forte.

É muito chato. Eis uma palavra favorita de Baumgarten. — Olhe — diz ele —, não suporto isso nem em Tchekhov, que é o máximo dos máximos. Por que ele está sempre metido nessa merda? Você é autoridade para dizer. Por que o animal nunca é Anton, mas sempre outro palerma?

— É uma maneira estranha de abordar Tchekhov, você sabe, esperando Celine. Ou Genet. Ou você. Talvez o palerma também

não seja sempre Baumgarten. Pelo menos não tenho essa impressão quando você me conta aquelas visitas a Paramus, ou ao

asilo. Na verdade, a impressão é mais de estar lendo Tchekhov. O escravo da

E

refeito? É preciso que eu escreva meu nome no Muro das Lamentações? Para mim, o livro só tem valor — inclusive os meus

— quando o escritor se acusa. Senão, para que se dar ao trabalho? Para acusar outra pessoa? É melhor deixar isso para os

nossos superiores, você não acha, e para aquela encenação ídiche que eles criaram, chamada crítica literária. Oh, esses nobres

filhos de Israel, com seus rituais de rebelião e expiação! Você nunca os leu na primeira página do Times dos domingos? Todos aqueles caçadores de xoxota nas privadas posando em Tolstói. Toda essa simpatia pelos humildes da terra, toda essa preservação da chama sagrada, que, entretanto não lhes custa um único miserável tostão.

— Não tenha tanta certeza. Além disso, por que razão vou me dar ao trabalho de escrever esse troço? Isso já não foi

Veja, todos esses judeus sofridos defensores da cultura judaica precisam de um judeu decadente e burro para expiarem seus Então, por que não os meus? Assim, mantêm suas mulheres na penumbra, dão às namoradas a oportunidade de chuparem alguém sensível ao sofrimento, e contribuem largamente para o Brandeis Kollege of Musical Knowledge. Todos os anos, leio nos jornais que alguns figurões estão lhe pregando condecorações na lapela.

Virtude, virtude, quem tem virtude? O maior explorador judeu desde Meyer Lansky no seu apogeu.

Agora ele está a todo o vapor, sem se importar com o tom da voz nem com a gesticulação, e — não sem prazer com a torrente de sua bile — continua a decantar a lascívia (conhecidíssima por toda Manhattan, segundo afirma) do "estilo professor" que arrasou seu livro de poemas numa crítica literária do Times. "Nenhuma 'cultura', nenhum 'sentimento', e, o que é pior, nenhuma 'perspectiva histórica'. Como se o estimado professor tivesse perspectiva histórica quando está enfiando em algum assistente de pós-graduação! Não, eles não ficam satisfeitos quando você vai e se esconde só por causa do aspecto dúbio de seu rosto. Não, se você é um verdadeiro homem de letras da tradição humanística, você só tem perspectiva histórica quando está trabalhando.”

Só quando acabamos de tomar nosso chá e comer a torta foi que ele terminou (por aquela noite) o relato das hipocrisias, religiosidades e chatices em geral do mundo literário e da tradição humanística, principalmente quando se manifestam através de críticas aos seus livros e aos membros de seu departamento, e principia a falar, com uma outra espécie de prazer bem diferente, de outro setor de seu conhecimento. O que ele conta, ao terminar os últimos bocados da sobremesa, assemelha-se bastante com as minhas próprias recordações, tal como várias das histórias sobre as agradáveis surpresas que surgem daquelas buscas. Para dizer a verdade, há ocasiões em que, ao ouvi-lo relatar com tanto despudor a infinidade de seus

prazeres, sinto-me assistindo à paródia da minha própria pessoa. Uma

veja do mesmo modo, e isso explica a curiosidade que temos um pelo outro. Sou um Baumgarten trancado na casa-grande,

uma possibilidade. Talvez Baumgarten me

preso no canil, um Baumgarten Klingerizado e Schonbrunnizado até a

Com a boca espumando, a grande língua rolando, a corrente solta, a correr desvairadamente!

Enquanto ele é Kepesh, ah, e que Kepesh!

Por que razão está aqui com ele? Passando o tempo? Mas o que se passa dentro e fora de mim? Na presença desses Baumgarten tão sensual, será que pretendo expor-me, impunemente, à sua virulenta influência e assim imunizar-me para sempre? Ou será que tenho esperanças de ser reinfectado?

Será que tenho nas mãos a minha própria cura, ou já terei passado do estágio da convalescença e estou pronto a principiar a conspirar contra o médico ou contra suas chatas advertências?

"Certa noite, no inverno passado", diz, enquanto deita olhares para as roliças nádegas da gorda copeira húngara que vai rápida com suas sandálias deslizando pelo tapete em direção à cozinha para pedir mais um pouco de chá para nós, "estava jantando

no Marlboro's

",

e imediatamente vejo-o jantando, pois já presenciei o fato uma dúzia de vezes no mínimo.

BAUMGARTEN: — Hardy? A MOÇA: —

aí? A MOÇA (olhando para a capa do livro): — É isso mesmo, é o

simpática, de faces rosadas, que me contou que acabara de chegar de uma visita à família em Westchester. No trem, sentado um pouco adiante dela, ia um camarada de terno, gravata e sobretudo, que se virava constantemente e a olhava por cima do ombro, enquanto se masturbava por baixo do casaco. Perguntei-lhe o que ela fez e ela me respondeu: 'O que é que você acha? Olhei-o bem dentro dos olhos e quando chegamos à Estação Central dirigi-me a ele e disse: Ei! Gostaria muito de conhecê-lo melhor'. Bem, ele afastou-se e começou a correr para fora da estação, mas a moça foi atrás, procurando explicar-lhe que falava sério, que gostava do seu físico, admirava-lhe a coragem, estava profundamente lisonjeada com o que ele havia feito, mas o camarada desapareceu dentro de um táxi antes que ela pudesse convencê-lo de que estava tudo bem. Como você pode imaginar, acabamos a conversa e fomos para o apartamento dela, do outro lado do East River, num daqueles bairros decadentes. Quando lá chegamos, ela mostrou-me a vista do rio e a cozinha com todos os livros de receitas.

Sim. BAUMGARTEN: — Tess of the d'Ubervilles, não é o que você tem

., "e eu principiei a conversar com aquela moça

Depois, pediu-me para tirar-lhe toda a roupa e amarrá-la na cama. Bem, eu não pego numa corda desde os meus tempos na Tropa , mas consegui. Tive que usar fio dental, Kepesh, eram metros e mais metros de fio. Como ela pediu, amarrei-a com os braços e as pernas abertos. Levei quarenta e cinco minutos trabalhando. Você precisava ouvir os ruídos que ela fazia e ver sua fisionomia excitada.

Uma imagem verdadeiramente perturbadora. Você fica compreendendo melhor os anormais. De qualquer forma, ela pediu-me para tirar os pacotes de maconha da caixa de remédios. Não havia nenhum, todos haviam desaparecido. Parece que uma de suas amigas os havia roubado.

Disse-lhe que tinha cocaína em casa, e perguntei se queria que eu fosse buscar. 'Vá, traga-a, traga-a', disse. Então fui, mas quando desci do meu apartamento para me dirigir ao dela, dei-me conta de que não sabia seu nome nem qual era seu apartamento. Kepesh, eu estava bloqueado", disse, e, esticando o braço por cima da mesa para pegar os pedaços de torta que eu deixara no prato, entornou o copo em cima de mim com a manga do casaco. Por razões ignoradas, Baumgarten sempre come de paletó. Talvez Jesse James o fizesse também. "Opa", exclama ao ver o copo cair, mas naturalmente não é a primeira vez.

Certamente "opa" é a palavra de três letras que com mais freqüência lhe sai dos lábios, principalmente quando inverte as situações. — Desculpe — diz —, não se molhou muito? — Seca logo — digo —, sempre seca. Continue. O que você fez? — O que poderia fazer? Nada. Comecei a vagar de um edifício a outro, olhando para os nomes nos quadros. Seu primeiro nome era Jane, pelo menos foi esse que ela deu, de modo que, sempre que eu via um J, tocava a campainha. Naturalmente não podia achá-la, embora encetasse conversas para chegar a uma conclusão. De repente, apareceu um guarda que me perguntou o que eu estava procurando. Respondi-lhe que devia estar no edifício errado. Quando saí, ele me seguiu até a entrada principal, de modo que fiquei por ali alguns minutos, olhando para o alto, a admirar a lua. Depois fui para casa. Após esse episódio, quando eu ia todos os dias a caminho da universidade, comprava o Daily News. Procurava sempre o jornal para ver se a polícia tinha encontrado um esqueleto amarrado a uma cama com fio dental, naquele decadente East Side. Finalmente, deixei de procurar. Este verão, quando saía de um cinema na Eighth Street, via-a na fila para a próxima sessão. A própria Jane. E

sabe o que ela me disse? Reconheceu-me, e com um sorriso a iluminar-lhe a fisionomia, disse: "Você demorou muito, rapaz". Cético, porém rindo, respondeu: "Isso acontece, não é?”

— Dave, é só andar pelas ruas e dizer alô para as pessoas. Tudo acontece.

Depois, Baumgarten perguntou à empregada nova no restaurante — cuja idade e descendência camponesa ele resolvera

pesquisar — se podia recomendar alguém para dar-lhe aula de húngaro. E, depois de anotar o nome e o número, pergunta:

"Você mora sozinha, Eva?", e, pedindo licença, vai para o fundo do restaurante, onde há um telefone.

A fim de escrever o número do telefone de Eva, tirou do bolso do casaco um punhado de papéis e envelopes, onde pude ver que já havia tomado nota dos nomes e endereços de outras mulheres que haviam cruzado o seu caminho durante o dia. Levou para o telefone o número daquela com quem está falando agora, deixando o monte de papéis, para que eu possa olhar à vontade aqueles papéis e as vidas que eles encerram com a ponta da unha posso descobrir o último parágrafo de uma carta muito bem batida à máquina em papel creme.

" Consegui sua garota de quinze anos (dezoito para ser precisa, porém, a julgar pelo corpo, juro que jamais notará a

diferença e, de qualquer forma, quinze anos dá cadeia), uma roliça segundanista de universidade, não apenas jovem, mas uma verdadeira beleza, meiga e experiente, de modo que, à vista desses requisitos, não sei o que poderia desejar mais. Eu mesma procurei-a para você. Chama-se Rona, e como vamos almoçar juntas a semana que vem, caso queira mesmo (admitindo que ainda se lembre dessa fantasia), apresentarei as condições nessa ocasião. Acho que vai dar pé.

Peço-lhe expressar suas intenções por meio de sinais quando for para o trabalho, um piscar de olhos para dizer sim, dois, para não. Agora vou lhe dizer a minha parte nessas transações, em troca de estar procurando para você o que tanto deseja: por favor, ponha-me em contato com os orgiásticos. Penso que a única razão plausível para um não é: (a) você mesmo está envolvido e nesse caso, se preferir, posso simplesmente desistir desses encontros, ou (b) você tem medo de se comprometer por alguém do Kremlin, e assim sendo, é só me dar o nome e eu digo que ouvi de outra pessoa que não você. Quanto mais, por que não dar uma sacudidela na sua faculdade (um tanto atrofiada) de solidariedade humana (que li, não sei onde, 9 ser a principal qualidade do poeta), já que isso não lhe custará nada e levará um raio de sol à pálida vida de uma solteirona que vai (rapidamente) se estiolando.

Sua camarada, T.”

E eu me pergunto quem é "T", no "Kremlin"? Alguma diretora ou supervisora do Centro de Saúde? E quem é "L", num outro pedaço de papel?

O que ela

deseja do poeta cujo coração está um tanto atrofiado? Será que a voz suplicante que Baumgarten ouve com tanta paciência na

cabine telefônica é a de "L"? Ou a de "M", "N", "O" ou

passada, a menos que você explique de maneira aceitável o que há de mal em desejar vê-lo. Pensei que pelo menos pudesse ficar no mesmo quarto com um homem que não tentasse forçar-me ou convencer-me, ou confundir-me, alguém de que eu

gostasse e que respeitasse, com quem me aproximasse mais de algo dentro de mim que valesse a pena e fosse real. Tinha a impressão de que você não vivia num mundo de sonhos, e depois do bebê, muitas vezes duvido se também vivo. Não queria fazer amor. Às vezes, parece que você só tem capacidade para remover gavetas de senhoras. Não mais farei visitas espontâneas depois das dez da noite. Foi apenas uma vontade, a necessidade de falar com alguém, com quem não estivesse envolvido, que me fez escolher você, embora de certa forma deseje envolver-me, pois há um lado meu que deseja estar em

distância. Parece que

seus braços, enquanto o outro insiste em que o que eu quero realmente é sua amizade, seus conselhos e

não quero admitir claramente que você me perturba, mas isso não quer dizer que eu não pense que você tem alguma coisa de louco

? "Ralph, recuso-me a desculpar-me pelo que aconteceu a noite

Em todas as linhas, as palavras são riscadas e novamente escritas, com uma caneta esferográfica quase branca

Dentro da cabine telefônica, Baumgarten desliga, de modo que interrompo a leitura da correspondência das fãs. Pagamos a Eva, Baumgarten arrecada seus pertences e juntos, pois acho melhor deixar sua "camarada" do telefone sozinha por esta noite, rumamos para a livraria mais próxima, onde, como de costume, um de nós paga cinco dólares por cinco livros da sessão de saldos, que certamente nenhum terá tempo de ler. "Inebriado de xoxotas e letras!", exclama meu parceiro secreto, ao citar certo trecho de sua lavra: atrás, na frente, em cima, no meio, embaixo.

Levei duas semanas inteiras, seis sessões, para me sentir em condições de contar ao psicanalista, a quem supostamente devo dizer tudo, que naquela noite encontramo-nos com uma ginasiana, que estava comprando uma brochura para a aula de inglês. (BAUMGARTEN: — Emily ou Charlotte? A MOÇA: — Charlotte. BAUMGARTEN: — Villette ou Jane Eyre? A MOÇA: — Nunca ouvi falar do primeiro. Jane Eyre.) Buliçosa mas comportada e um tanto apavorada, acompanhou-nos ao único quarto de Baumgarten e, uma vez lá, no seu tapete mexicano, e entre os poemas eróticos de seu habitante, foi consultada se gostaria de fazer um teste para um emprego de modelo para a nova revista erótica ilustrada, inaugurada na costa ocidental por nossos patrões, os Schonbrunn. A revista se chamaria "Boceta". "Os Schonbrunn", exclamou ele, "estão enjoados e cansados de fazer força.”

Esbelta, rosada como um morango, a moça foi logo nos dizendo, ainda na livraria, que não teria nenhum acanhamento em tirar

a roupa diante de um fotógrafo. Então, no quarto de Baumgarten, este lhe deu uma de suas revistas dinamarquesas para ver e inspirar-se.

— Você podia fazer isto, Wendy? — pergunta muito sério, enquanto ela, sentada no sofá, vai passando as páginas das revistas

com uma das mãos e, com a outra, segura a casquinha de sorvete da Baskin-Robbins que Baumgarten (o impecável cenógrafo) não pôde deixar de comprar-lhe quando voltávamos para casa ("Qual o sabor que você prefere Wendy? Por favor, vá, tire duas porções, e a calda, tire tudo. E você, David, quer também um sorvete de chocolate?"). Pigarreando, ela fecha as revistas que estavam no seu colo, dá uma dentada no remanescente da casquinha e diz simplesmente: — Isto é demais para mim. — E o

que não é demais para você?

— pergunta. — Diga-me o que não é. — Talvez, algo mais na linha da Playboy — ela responde.

Então, nós dois juntos, como jogadores que se esforçam para colocar a bola no meio do campo, contra uma defesa cerrada, ou iguais a dois metódicos trabalhadores diaristas que fixam um poste no chão com pancadas alternadas de seus macetes — algo semelhante à Birgitta e eu, na Europa, durante a Idade da Exploração —, conseguimos, por uma série de posturas provocantes,

à medida que a íamos despindo, deitá-la de barriga para cima, só de calcinhas e botas. Isso diz-nos a estudante de dezessete

anos, aluna do segundo ciclo do Washington Irving High, um tanto trêmula diante dos nossos quatro olhos dirigidos para baixo, isso é até onde ela pode ir.

E depois, o que aconteceu? Baumgarten e eu compreendemos, sem quaisquer explanações, que o limite dela seria respeitado.

Disse-o bem claramente a Klinger — e ainda ressaltei que nenhuma lágrima foi derramada, nenhuma força empregada, e nem

sequer sua carne foi tocada com a ponta dos dedos.

— Isso aconteceu quando? — Klinger perguntou-me.

— Há duas semanas — digo, e levanto-me do sofá para pegar o paletó.

E saio. Retive a confissão por duas semanas inteiras e, mesmo então, quase até o fim da minha hora. Assim sendo, posso ir

embora sem ter que acrescentar — e jamais o farei — que não foi à vergonha da reincidência a razão que me impediu de contar antes o ocorrido, mas o pequeno retrato colorido da filha adolescente de Klinger, em jeans e blusa de malha, tirado numa praia qualquer e colocado em cima de sua mesa, numa moldura de três faces, entre as fotos de seus dois filhos.

E depois, no verão, logo ao voltar ao leste, encontro uma moça totalmente diferente daquele pequeno bando de consoladoras,

conselheiras, tentadoras e provocadoras — as "influências", como diria meu pai —, longe das quais minha entorpecida e assexuada carcaça vai se reconstituindo, desde que me tornei um homem intrinsecamente sem mulher, sem prazer, sem paixão.

Convidado por um casal d a faculdade, que conheci recentemente, para passar um fim de semana em Cape Cod, lá sou apresentado a Claire Ovington, a jovem vizinha que alugou, para ela e seu cão de caça de pêlo dourado, um pequeno bangalô revestido de seixos, em terreno de rosas silvestres, nas proximidades da praia de Orleans.

Mais ou menos dez dias depois daquela manhã que passamos juntos conversando na praia, após ter-lhe enviado, de Nova York, uma carta constrangedoramente afetuosa e de haver consultado Klinger tensamente por duas horas, valho-me de toda a coragem e volto a Orleans, onde me instalo no hotel local. O que primeiro me atraiu foi o mesmo olhar de suave voluptuosidade, que tinha contribuído tanto (contra quaisquer reservas supostamente razoáveis) para aproximar-me de Helen e que fez surgir, pela primeira vez em um ano, aquela onda espontânea de ternura. De volta a Nova York, após a breve visita do fim de semana, só tive pensamentos para ela. Será a sensação da renovação do desejo, da confiança, da capacidade? Ainda não. Na semana que passo no hotel, não consigo deixar de portar-me como uma criança excessivamente atenta na aula de dança, incapaz de passar por uma porta ou de pegar num garfo sem a mais estrita demonstração de boa educação.

E depois da auto-ostentação daquela carta, da corajosa demonstração de inteligência e segurança! Por que dei ouvidos a

Klinger? "Naturalmente, vá

o que é que você pode perder?" Mas, ele, o que ele vai perder se eu falhar?

Onde está a sua visão dramática da vida, diabos a levem! A impotência não é brinquedo, é um flagelo! Há gente que se mata!

E só, na minha cama de hotel, após mais uma noite em que me distanciei de Claire, posso compreender por quê? Na manhã que

devo voltar a Nova York, um pouco antes de partir, chego ao bangalô bem cedo, para tomar o café da manhã com ela, e, nos intervalos das panquecas de amora, tento redimir-me um pouco, admitindo sentir-me envergonhado. Não sei como sair dessa,

pelo menos com um pouco de amor-próprio intato, se bem que não possa compreender por que razão ainda me preocupo com

amor-próprio. — Parece que vim de tão longe, até aqui, depois de escrever a você naqueles termos e chegar, assim,

Desapareci. — Então foi-se apoderando de mim,

envolvendo-me totalmente, até chegar à raiz dos cabelos, a vergonha que eu devo ter imaginado poder evitar desaparecendo.

— Eu devo ter parecido estranho a você. A essa altura, eu mesmo me acho estranho. Já faz tempo que eu me acho estranho. O

que estou tentando dizer é que nada que você tenha dito ou feito foi motivo do meu comportamento tão frio. — Mas — ela diz, antes que eu comece mais outra explicação sobre a "esquisitice" que eu sou — foi tão agradável. De certa forma, foi a coisa mais deliciosa que me aconteceu.

repentinamente, depois de tanto alarido, parece que surgi em cena

— Foi? — digo, com medo de ser humilhado de maneira imprevisível. — O que é que foi tão agradável? — Ver alguém

acanhado, para variar. É bom saber que isso ainda existe neste mundo de total desamparo. Meu Deus, tão meiga no íntimo como na aparência! Que habilidade! Que calma! Que sensatez!

Para mim, tão sedutora quanto

tudo isso ordenado em favor de algo mais do que uma aventura sibarita. Com vinte e quatro anos graduou-se pela Universidade de Cornell, em psicologia experimental, e licenciou-se em pedagogia pela Universidade de Columbia, fazendo ainda parte do corpo docente de um colégio particular, em Manhattan, onde leciona para alunos de onze a doze anos, devendo no próximo semestre dirigir a comissão encarregada do exame dos currículos.

Mas nesse ponto cessa a semelhança. Atitude, segurança e decisão, porém, em Claire,

No entanto, para uma pessoa que emana nas suas atribuições, uma aura de recato, de presença plácida, serena e inexpugnável, ela é surpreendentemente inocente e franca sobre o lado pessoal de sua vida e em relação aos seus amigos, suas plantas, seu jardim, seu cão, sua arte culinária, sua irmã Olivia, que veraneia na ilha de Martha's Vineyard, com os três filhos.

Ela é tão reservada como uma robusta menina de dez anos. Em resumo, essa fina associação de uma sóbria segurança social, entusiasmos familiares e suscetibilidades juvenis é simplesmente irresistíveis. O que quero dizer é que nenhuma resistência é necessária. Uma espécie de tentação à qual posso finalmente sucumbir.

E agora, sinto uma pancada no estômago ao pensar que escrevi a Claire aquela carta inteligente e galanteadora e depois estive quase deixando o assunto morrer. Cheguei a dizer a Klinger que o fato de eu ter escrito subitamente à voluptuosa mulher com quem falara incidentalmente por duas horas, na praia, era uma prova do quanto haviam se tornado sem esperanças as minhas perspectivas. Estive quase resolvido a não aparecer para o café naquela minha última manhã em Cape Cod, tal era o medo do que um desejo em vias de recuperação me reservaria se eu tentasse, já com a maleta numa das mãos e a passagem aérea na outra, submeter-me a um teste de última hora. Como é que consegui fazê-lo passar por cima do meu vergonhoso segredo? Devo-o à pura sorte, ao exuberante e otimista Klinger, ou devo tudo que agora tenho àqueles seios de Claire dentro da roupa de banho? Se essa é a razão, mil vezes louvado seja cada um de seus seios!

Porque agora, agora estou positivamente exultante, vibrante,

Grato a tudo quanto a rodeia, tanto em relação à presteza com que ela ordena sua vida, quanto à paciência quando fazemos amor, assim como quanto àquela habilidade de perceber quanto de pura sensualidade ou de terna solicitude é necessário para mitigar a tenacidade da minha angústia ou renovar a confiança no ato de fazer amor e em tudo que poderá advir de seu ressurgimento. Toda a proficiência pedagógica aplicada nos seus alunos do sexto ano é agora consagrada a mim, após as aulas, e que professora gentil e discreta vem todos os dias ao meu apartamento, e, com ela, sempre a mesma mulher ardente! E aqueles seios, macios e vulneráveis, cada um pesando como um úbere sobre meu rosto, tão morno e cheio em minha mão como um animalzinho polpudo, em sonho profundo. Oh, o olhar daquela moça robusta acima de mim, quando está ainda meio despida! E note-se, muito ordeira, também! Sim, ela faz o histórico de cada dia que passa em agendas que remontam aos tempos de universidade, assim como fotografias de sua vida particular, no princípio com uma Brownie e depois com o melhor equipamento japonês. E as listas! Aquelas extraordinárias listas, tão bem organizadas! Eu também escrevo no bloco amarelo meus planos de cada dia, porém na hora de dormir não encontro nunca o consolador sinal confirmando que a carta foi posta no correio, o dinheiro retirado do banco, o artigo xerocado, o telefonema feito. Apesar de minha forte tendência para a ordem, que me foi transmitida pelos cromossomos maternos, há dias em que nem consigo localizar as listas feitas na noite anterior e, em geral, o que não me apraz fazer um dia eu transfiro para o seguinte sem que isso me cause preocupações. O

mesmo não acontece com Mrs. Ovington — toda atenção é dispensada a qualquer tarefa que se lhe apresente, quer seja difícil ou árida, e cada uma por seu turno é acompanhada com afinco até a conclusão. Para grande sorte minha, a reconstituição de minha vida é uma dessas tarefas. É como se ela houvesse escrito o meu nome no alto de um de seus blocos amarelos e, embaixo, com sua letra arredondada, as instruções a serem observadas a seguir: “Proporcionar a DK:

1.

Extremosa afeição”.

2. Abraços ardentes.

3. Ambientes sadios".

E, dentro de um ano, a tarefa é concluída, cada um dos itens salvadores convenientemente chegado. Abandonei os antidepressivos, e não vejo nenhum abismo abrindo-se a meus pés. Subloco o apartamento sublocado e, sem saudades dos belos tapetes, mesas, pratos e cadeiras, que antes pertenciam a Helen e a mim e agora só a ela, arranjo uma outra moradia, só para mim. Chego até a aceitar o convite para um jantar em casa dos Schonbrunn e no fim da noite delicadamente dou um beijo na face de Debbie enquanto Arthur paternalmente beija Claire. Tão fácil. Tão simples. Na saída, enquanto Arthur e Claire terminam uma conversa principiada durante o jantar (sobre o currículo que Claire está planejando para os ciclos superiores), Debbie e eu conversamos um instante. Por qualquer razão (penso que, de ambos os lados, ingestão de bebidas alcoólicas), estamos de mãos dadas!

— Mais uma de suas louras — diz Debbie —, mas parece muito mais simpática. Nós dois achamos que é encantadora. E muito inteligente. Onde vocês se conheceram?

— Num bordel de Marrakesh. Escute aqui, Debbie, você não acha que já é tempo de me deixar em paz? O que você quer dizer com "as minhas louras"? — Trata-se da verdade.

— Não, nem isso é verdade. Os cabelos de Helen eram castanhos.

Mas, supondo que fossem exatamente iguais aos de Claire, o fato é que a expressão "louras" nesse contexto e nesse tom, como você mesma deve saber, é um termo depreciativo, usado para diminuir as mulheres bonitas. E acredito que o termo está repleto de conotações desagradáveis quando dirigido a homens com a minha origem e cor de pele. Eu me lembro como, em Stanford, você gostava de chamar a atenção dos outros sobre a anomalia de um literato como eu descender do "Cinturão do Borscht". Isso também, na época, parecia dito para me diminuir. — Oh, você se leva muito a sério. Por que não admitir que você tem uma queda por louras altas e pronto? Não tem nada de que você possa se envergonhar. Elas ficam lindas nos esquis aquáticos, com os cabelos escorrendo água.

—Aposto que são lindas em qualquer lugar.

— Debbie, vamos fazer um acordo: eu não me meto na sua vida e você não se mete na minha. Tenho certeza de que tem uma personalidade e uma vida interior maravilhosas, da qual nada sei.

— Feito — diz ela.

— Isto é o que importa. É pegar ou largar.

— Nós dois começamos a rir. Eu falo: — Diga-me, o que é que Arthur vê em você? Este é um dos mistérios da vida. O que é que você tem que eu não vejo?

— Tudo — responde. Já no carro, faço um resumo da conversa.

— Aquela mulher é uma aberração digo.

— Oh, não — responde Claire —, apenas boba, nada mais.

— Ela enganou você, Clarissa. Boba na aparência, no fundo uma fera.

— Ah, querido — diz Claire —, foi a você que ela enganou.

No que toca à minha reabilitação e volta à sociedade é só. Quanto a meu pai e sua terrível solidão, bem, agora ele toma o trem em Cedarhurst para jantar em Manhattan, uma vez por mês. Não é possível persuadi-lo a vir mais vezes, mas na verdade, antes do novo apartamento e Claire para ajudar na conversa e no preparo da comida, eu não me esforçava muito em convencê-lo a

Até que ele um dia

vir, para evitar ficarmos sentados olhando um para o outro sem dizer nada, dois órfãos no Bairro disse, enquanto comia as nozes: "E aquele cara, não voltou mais para apoquentá-lo?”

E, sem dúvida, afastei-me um pouco daquele redemoinho que é Baumgarten. Ainda almoçamos juntos algumas vezes, porém os

grandes festins eu o deixo partilhar sozinho, e não o apresento a Claire.

Meu Deus, como a vida é fácil quando corre sem embaraços, e como é árdua quando não corre!

Uma noite, depois de jantar no meu apartamento, enquanto Claire prepara a aula do dia seguinte, na mesa de jantar já limpa, eu finalmente tomo coragem, ou não mais preciso de "coragem" para reler o que escrevi sobre meu Tchekhov, na estante por mais de dois anos. Em meio à laboriosa e imensa competência desses fragmentos de capítulos destinados a focalizar a questão da desilusão romântica, encontro cinco páginas dignas de serem lidas — reflexões extraídas do pequeno conto de Tchekhov, O homem dentro da casca, sobre a ascensão e queda do déspota. — "Confesso", diz o bondoso narrador depois do enterro do tirano, "que é um grande prazer enterrar gente como Belikov" —, a ascensão e a queda de um funcionário do ginásio de província cujo amor das proibições e ódio a qualquer afastamento das normas consegue manter uma cidade inteira de "gente circunspecta e decente" sob o seu domínio, por quinze anos. Começo a reler o conto, e em seguida leio novamente Groselhas e Sobre o amor, uma seqüência do primeiro, formando uma série de ponderações anedóticas a respeito dos vários sofrimentos causados pela repressão espiritual — despotismo mesquinho, habitual complacência humana e, finalmente, inibições relativas

a sentimentos necessários para apoiar o sentido de decência de um homem escrupuloso. No mês seguinte, com um caderno de

anotações nos joelhos e algumas observações na mente, volto todas as noites à ficção de Tchekhov, ouvindo o grito de angústia da criatura social, cerceada e desditosa, as esposas bem-educadas, que durante o jantar, em companhia das visitas,

pensam: "Por que estou sorrindo e mentindo?", e os maridos, aparentemente estabelecidos e seguros de si, "que estão impregnados de verdade e dissimulação convencionais". Ao mesmo tempo, observo de que modo Tchekhov, com simplicidade

e clareza, embora não tão impiedosamente quanto Flaubert, revela as humilhações e os fracassos — e o que é pior, o poder

demolidor daqueles que procuram a maneira de sair da casca de restrições e convenções, fora do tédio envolvente e do desespero asfixiante, fora da penosa situação matrimonial e da endêmica falsidade social para entrar naquilo que pensam ser

uma existência vibrante e atraente.

Em Infortúnio, há a jovem esposa que procura "um pouco de emoção" para contrapor-se a uma parte de sua própria enfadada respeitabilidade. Em Ariadne, um proprietário rural confessa com desânimo "herzogiano" sua romântica desventura com uma vagabunda que, aos poucos, o vai transformando num desamparado misógino, mas a quem, não obstante, está irremediavelmente amarrado. Em Uma história sem graça, há a jovem atriz, cujo ardente e esperançoso entusiasmo pela vida

do palco e pela vida entre os homens se transforma em amargura, com as primeiras experiências no teatro e com os homens,

assim como com a sua falta de talento. "Vejam, eu não tenho talento

semana, todas as noites (com Claire a dois passos de mim), relêem a obra-prima de Tchekhov sobre Laievski, o irresponsável, relaxado, inteligente, o sedutor literário Laievski, imerso em sua mentira e na sua autocomiseração, e o seu opositor, cuja

consciência implacavelmente punitiva por pouco não o mata, o loquaz cientista Van Koren. Pelo menos, esta é a interpretação que dou à história: Van Koren, na figura do promotor ferozmente racionalista e impiedoso, surge para fazer um desafio ao sentimento de vergonha e culpa a que foi totalmente reduzido Laievski, e do qual, ai dele, não pode fugir. Foi esse mergulho em O duelo que finalmente induziu-me a transformar, em quatro meses, as cinco páginas extraídas da velha e inacabada síntese

de minha tese sobre a desilusão romântica, em quarenta mil palavras, com o título de O homem dentro da casca: ensaio sobre a

licenciosidade e a repressão no mundo tchekhoviano — desejos realizados, prazeres proibidos e sofrimento decorrente de ambos. Um estudo essencialmente daquilo que constitui o difuso pessimismo de Tchekhov sobre os métodos — escrupulosos, odiosos, nobres e dúbios pelos quais os homens e as mulheres de seu tempo tentam, em vão, realizar "esse sentido de liberdade pessoal” a que o próprio Tchekhov é tão sensível. Meu primeiro livro! Com a seguinte dedicatória: "Para C.O.”

só presunção." E há ainda O duelo. No decurso de uma

— Enquanto ela é calma — digo a Klinger (e a Kepesh, que nunca, nunca poderá esquecê-lo) —, Helen era impetuosa. Enquanto ela é sensata, Birgitta era indiscreta.

Nunca vi tanta dedicação aos afazeres da vida de todos os dias. É

realmente espantosa a maneira pela qual ela encara cada dia, a atenção que presta a cada minuto.

Nisso tudo não se intromete nenhum devaneio, trata-se apenas de viver com dedicação e firmeza. Confio nela, e essa é a questão. E o que resultou daí — declaro triunfante — foi a "confiança".

A tudo isso, Klinger finalmente responde: — Então, adeus e felicidades. — Naquela tarde de primavera, à porta de seu

consultório, fico pensando se é verdade que não precisarei mais armar-me de coragem, conter-me, ouvir conselhos, encorajamentos, consentimento, consolo, aplauso e oposição — em suma, doses profissionais de comportamento maternal, paternal e amigável, durante uma hora, três vezes por semana. Será possível que eu consegui vencer? Só assim? Só por causa

de Claire? E se amanhã, ao despertar, eu me vir novamente como um homem com uma cratera em lugar do coração, mais uma vez sem capacidade, atividade, força e discernimento de um homem, sem o menor domínio sobre seu corpo, inteligência e

— Fique sempre em contato comigo — diz Klinger, apertando-me a mão. Não pude olhar fixamente para ele. Da mesma forma

que naquele dia deixei de mencionar o impacto causado pelo retrato de sua filha sobre minha consciência como se, afastando aquele fato, pudesse eximir-me de seu julgamento ou do meu próprio —, não posso deixar que nossos olhares se encontrem no momento da despedida. Mas agora vejo que foi porque preferi não expressar minha alegria e gratidão num surto de lágrimas.

Escondendo toda a emoção no nariz que fungava, e firmemente suprimindo qualquer emoção, disse: — Esperemos que não precise — mas, uma vez na rua, sozinho, repito alto as palavras inacreditáveis, só agora com a emoção adequada: "Consegui vencer!”

No mês de junho, no fim do ano letivo para nós dois, Claire e eu voamos para o norte da Itália, 0 a primeira vez que volto à Europa desde o tempo em que por lá andei vagueando com Birgitta, há uma década. Em Veneza, passamos cinco dias numa tranqüila pensione, nas proximidades da Accademia. Todas as manhãs tomamos café no jardim aromático da pensione e depois, com sapatos apropriados, andamos para baixo e para cima, através das pontes e vielas que conduzem aos pontos que Claire marcou no mapa para visitarmos naquele dia. Enquanto ela tira fotografias dos palazzos, piazzas, igrejas e fontes, eu me distancio e fico vagando, sempre olhando para trás para registrar sua beleza simples.

Todas as noites, depois do jantar, sob as árvores do jardim, costumamos fazer um passeio de gôndola. Com Claire ao meu lado, em cadeiras que Mann descreve como "o assento mais macio, voluptuoso e repousante do mundo", pergunto-me mais uma vez se essa serenidade existe realmente, se esse contentamento, essa harmonia, é real.

Terá o pior passado? Não mais cometerei terríveis erros? E não mais terei que pagar pelos outros? Aquilo tudo foi apenas um princípio de vida, uma mocidade longa e mal-orientada que já ultrapassei? — Tem certeza de que não morremos — pergunto

— e fomos para o céu? — Não sei — responde ela —, pergunte ao gondoleiro.

Na nossa última manhã, resolvi gastar dinheiro e fomos almoçar no Gritti. No terraço, dou uma gorjeta ao garçom e escolho a mesma mesa que sonhara ocupar na companhia da bonita aluna que costumava almoçar amendoim, na minha sala de aulas. Pedi exatamente a mesma coisa que comemos aquele dia em Palo Alto quando estudávamos os contos de Tchékhov sobre o amor e, então, senti-me às portas de um colapso nervoso

Só que, desta vez, não estou imaginando esse almoço delicioso na companhia da minha companheira viçosa e sem artifícios, dessa vez nós dois somos reais e eu estou bem. Sentado confortavelmente — eu com um copo de vinho gelado, Claire com a sua acqua minerale, como uma digna filha de pais que beberam demais —, olho para as águas tremeluzentes dessa cidade indescritivelmente bela e pergunto: — Você acha que Veneza está realmente afundando? Tudo parece estar na mesma posição desde a última vez que aqui estive.

— Quem estava com você naquela ocasião? Sua mulher?

— Não. Foi no ano da Fundação Fulbright. Eu estava com uma moça.

— Quem era ela?

Ah, como se sentiria confusa e ameaçada, se me arriscasse a recordar, se tivesse coragem e contasse tudo. Oh, como estou dramatizando as coisas! Esse "tudo" consiste em quê? Nada mais, realmente, do que aquilo que um jovem marinheiro procura encontrar ao saltar no seu primeiro porto no exterior. Um paladar de marinheiro para as coisas um tanto sombrias, mas, depois do que aconteceu, nem estômago nem força de

Entretanto, para uma pessoa tão ponderada e metódica, para quem canalizou toda a extraordinária energia para tornar normal e comum aquilo que tinha sido tão dolorosamente irregular no seu lar, na infância, penso que é melhor responder: "Oh, realmente, uma pessoa sem importância", e deixo morrer o assunto.

Alguém que nada tem sido em minha vida por mais de dez anos é tudo em que posso pensar. Naquele estilo de Tchékhov, o malcasado marido recordara-se de dias melhores no terraço do Gritti, o ileso, audacioso jovem Kepesh ainda errando pela Europa gratuitamente. Agora, no terraço do Gritti, aonde vim para celebrar o princípio de uma vida agradável e estável, para celebrar a extraordinária renovação de uma vida e de uma felicidade, recordo-me das primeiras e mais impetuosas horas de

meu papel de homem irresistível, à noite em nosso apartamento térreo de Londres, quando perguntei a Birgitta qual a coisa que ela mais desejava. O que eu mais desejava elas duas já me deram. O que Elisabeth mais desejava deixamos para o fim — ela

não

Birgitta tem desejos, dos quais não teme falar e que nós principiamos a satisfazer. Sim, sentado em frente à Claire, que me diz que a sensação do meu sêmen a encher-lhe a boca faz com que tenha a impressão de estar se afogando, e que isso é uma coisa que ela não gosta de fazer, recordo-me de Birgitta ajoelhada defronte a mim, o rosto levantado para receber os jorros de sêmen que fluíam, caindo-lhe pelos cabelos, pela testa, pelo nariz. "Hãr!", gritava "bar!"', enquanto Elisabeth, de roupão de lã rosa, inclinada sobre a cama, olhava com glacial fascinação a nudez de seu masturbador e sua semivestida suplicante.

Porque, no seu íntimo, como íamos descobrir quando o caminhão a atropelou, não queria nada daquilo. Porém,

Como se isto tivesse importância! Como se Claire estivesse retendo algo que importasse! Contudo, por mais que eu me repreenda por amnésia, estupidez, ingratidão, insensibilidade pela perda lunática e suicida de qualquer perspectiva, a onda de volúpia que me envolve não é para esta bela jovem, com quem recentemente principiei uma vida que promete a mais profunda das realizações. Não, mas sim para a pequena camarada dentucinha que vi pela última vez saindo do meu quarto, à meia-noite, a uns trinta quilômetros de Rouen, há dez anos. Sinto desejo pela minha lasciva e desaparecida camarada espiritual, que, muito antes que minha sensação de permissividade principiasse seu íntimo colapso, era bem-vinda tão fervorosa e alegremente como eu recebia o ato incomum e o pensamento estranho. Oh, Birgitta, vá embora! Mas, naquele tempo, estávamos em nosso quarto bem aqui, em Veneza, num hotel, numa rua estreita, ao longo do Zattere, não muito distante da pequena ponte onde Claire tirou meu retrato naquele mesmo dia.

Amarro-lhe um lenço ao redor dos olhos, atando-o firmemente atrás, e depois vejo-me de pé diante da moça com os olhos vendados; a seguir, muito levemente para principiar, começo a fustigá-la entre as pernas abertas.

Observo que movimenta os quadris, para cima, a fim de que cada vergastada do meu cinto a atinja entre as dobras do sexo. Observo aquilo como jamais observei coisa alguma na vida. "Diga aquelas coisas", murmura Birgitta, e eu digo, em voz baixa, contida, rosnada, como jamais disse antes para qualquer pessoa ou a qualquer coisa.

Então, através de Birgitta — que agora prefiro afastar como "uma mocidade longa e desorientada" —, ressurge uma sensação

de lascivo

E através de Claire, desta minha salvadora verdadeiramente apaixonada e extremosa, surge rancor,

desilusão,

Desprezo por tudo quanto ela faz tão maravilhosamente, ressentimento pelas pequenas coisas que ela não

se digna fazer. Vejo como seria fácil eu não valer nada para ela.

Os instantâneos. As listas. A boca que não beberá o meu líquido. A comissão de revisão dos currículos. Tudo.

Retenho o impulso de precipitar—me da mesa e telefonar ao Doutor Klinger. Não serei um daqueles clientes histéricos, que fazem ligações internacionais. Não, isso não.

Como a refeição que me foi trazida e na hora de pedir a sobremesa, o desejo de Birgitta suplicando-me, de Birgitta debaixo de mim, de Birgitta em cima de mim, todos esses desejos principiaram a desaparecer, como se entregues a eles próprios. E o rancor dissipa-se também, para ser substituído por uma tristeza repleta de vergonha. Se Claire pressente o fluxo e o refluxo desse desespero — e por que não? De que outra forma compreender minha tristeza silenciosa e gélida? —, resolve fingir ignorância, falar de seus planos para a comissão de revisão dos currículos, até que simplesmente passe aquilo que nos afastou.

De Veneza, alugamos um carro e fomos a Pádua para ver os Giotto.

Claire tira outras fotografias. Ela as mandará revelar quando chegarmos à nossa terra e depois, sentada no chão com as pernas cruzadas — a postura da tranqüilidade, da concentração, a postura de uma menina muito bem-comportada —, vai colá-las no álbum, segundo uma seqüência cronológica.

Agora, o norte da Itália ficará nos álbuns ao pé da cama onde estão guardados seus volumes de fotografias, e agora o norte da Itália será para sempre seu, juntamente com Schenectady, onde ela nasceu e foi criada, Ithaca, onde foi para o colégio, e Nova York, onde mora e trabalha, e ultimamente, apaixonou-se. E eu ficarei ali ao pé da cama, junto com seus lugares, sua família e seus amigos.

Embora parte de seus vinte e cinco anos tenha sido frustrada pelas brigas de seus pais, agravadas pelo excessivo número de garrafas de uísque — ela acha que vale a pena registrar o passado, relembrando-o, pelo menos para saber que sobreviveu à tristeza e à desordem, para organizar uma vida decente. Como gosta de dizer, trata-se do único passado que tem para relembrar, por mais duro que tenha sido quando os conflitos estouravam ao seu redor e ela procurava sair intata daquilo tudo. Não seria pelo fato de Mister e Mrs. Ovington empregarem todos os seus esforços para serem inimigos ao invés de

companheiros de seus filhos, que ela precisaria negar a si própria os prazeres normais de uma família normal (se é que existe tal coisa) e além disso gozar esses prazeres como legítimos. Tanto Claire como sua irmã mais velha cumprem com entusiasmo as agradáveis amenidades da vida familiar — troca de fotografias, de presentes, comemoração de aniversários, telefonemas regulares —, como se, na verdade, ela e Olivia fossem os pais pressurosos, e seus pais os filhos inexperientes.

Hospedamo-nos em um hotelzinho numa cidade montanhosa onde encontramos um quarto, cama, e um terraço do qual avistamos um panorama arcádico, e de lá rumamos para Verona e Vicenza por um dia.

Retratos, retratos, retratos. Qual é o contrário do ruído de um prego batido num caixão? Bem, é o que ouço com os cliques da máquina fotográfica de Claire. Mais uma vez, tenho a impressão de ter sido guardado e selado dentro de algo maravilhoso. Um dia, caminhamos através de pastagens com nosso farnel para o almoço, entre os campos floridos, uma infinidade de pequeninas flores azuis, nacarados botões de ouro e papoulas irreais. Posso caminhar com Claire por horas a fio, em silêncio. Satisfeito, reclino-me no chão, apoiado num braço, observando-a colher flores silvestres que leva para o nosso quarto, arranja no copo de água e coloca à minha cabeceira. Não sinto necessidade de nada mais. A palavra "mais" não tem sentido. Nem "Birgitta" parece significar mais nada, como se” Birgitta" e "mais" fossem maneiras diferentes de dizer a mesma coisa. Depois da proeza do Gritti, ela já não aparece tão sensacionalmente. Nas noites seguintes, sempre surge para visitar-me, sobretudo quando Claire e eu fazemos amor — põe-se de joelhos, sempre de joelhos, suplicando para obter aquilo que mais a estimula, mas depois vai embora e eu fico verdadeiramente em cima da mulher com a qual faço amor, e tudo isso, apenas isso faz com que eu partilhe de todo o "mais" que poderia desejar ou querer desejar. Sim, apego—me firmemente a Claire, e a indesejada visitante desaparece, deixando—me gozar mais uma vez a minha grande ventura.

Na nossa última tarde, carregamos o almoço para o alto de um campo, que descortina elevadas montanhas até os altos cumes dos Dolomitas. Sento—me e Claire deita—se ao meu lado, seu corpo musculoso levemente subindo e descendo em compasso com a sua respiração. Olhando atentamente para esta grande mulher, de olhos verdes, em seu fino vestido de verão, para seu rosto pálido, pequeno, oval e intato, para sua beleza limpa, espiritual — a beleza, compreendo agora, de uma jovem da seita amish ou shaker —, então digo a mim mesmo: "Claire é o suficiente". Sim, "Claire" e "suficiente" são também uma só palavra.

De Veneza, voamos para Viena — e a casa de Sigmund Freud — e, depois, para Praga. No ano passado, dei um curso sobre Kafka, na universidade — e o trabalho que vou apresentar dentro de poucos dias, em Bruges, aborda a preocupação de Kafka com a carência espiritual e sua substância, mas ainda não vi a cidade onde nasceu Kafka, a não ser em livros e fotografias. Um pouco antes de partirmos, corrigi as provas do último exame escrito, do qual participaram meus quinze alunos, que haviam lido toda a obra de ficção, a biografia de Max Brod, e os diários de Kafka, assim como suas cartas a Milena e ao pai. Uma das questões que formulei no exame foi à seguinte:

"Em seu livro Carta o meu pai, Kafka diz: 'Tudo quanto escrevo é sobre o senhor. Afinal, tudo o que disse foi para lamentar aquilo que não podia chorar em seu peito. Trata-se verdadeiramente de um grande afastamento, uma despedida entre nós, e, "

embora o senhor tenha forçado essa decisão, ela seguiu seu curso na direção determinada por mim

quando, ao falar ao pai, diz 'Tudo quanto escrevo é sobre o senhor' e ao acrescentar 'ela seguiu seu curso na direção determinada por mim'? Se quiser imagine-se no lugar de Max Brod e escreva você mesmo uma carta ao pai de Kafka, “

explicando o que estava na mente do

O que Kafka quer dizer

Fiquei satisfeito ao verificar o número de estudantes que acolheram minha sugestão, resolvendo tomar o lugar do melhor amigo e biógrafo do escritor e que, ao descrever as íntimas expansões de um filho mais que excepcional ao mais convencional dos pais, demonstrou uma sensibilidade amadurecida em relação ao isolamento moral em que se encontrava Kafka, suas peculiaridades de perspectiva e de temperamento, e os processos de imaginação pelos quais um fantasista tão rebuscado em sua vida diária quanto Kafka transforma em fábula suas lutas cotidianas. Oh, estou satisfeitíssimo com o seminário de Kafka e com a minha atuação. Mas o que não constitui um manancial de prazeres durante os meses que passei na companhia de Claire?

Antes de partirmos, deram-me o nome e o telefone de um professor americano que já está há um ano em Praga dando um curso e, felizmente (mas o que é que não sai bem nesses dias?), ele e um seu amigo tcheco, também professor de literatura, têm a tarde livre, de modo que podem mostrar-nos a cidade de Praga. Sentados no banco da Praça da Cidade Velha, olhamos do lado oposto para o palacete onde Franz Kafka freqüentou o ginásio. À direita, vê-se, no andar térreo, a casa comercial de Hermann Kafka. — Nem no colégio ele conseguiu fugir do pai — digo. — Pior para ele — diz o professor tcheco •— e

melhor para o mundo da ficção. — Na imponente igreja gótica ali perto, em uma das paredes da nave destaca-se, bem no alto, uma pequena janela que dá para um apartamento contíguo onde, informam-me eles, viveu a família de Kafka. De modo que,

digo, Kafka podia ter-se sentado ali furtivamente a olhar os pecadores se confessando e os fiéis rezando

igreja deve ter fornecido se não todos os detalhes, pelo menos a atmosfera da catedral em O processo. E essas ruas abruptas e

E o interior dessa

angulares do outro lado do rio que vai seguindo o seu curso tortuoso até chegar ao acachapado Castelo Habsburgo, tudo isso,

com certeza, deve ter sido motivo de inspiração para

pequeno castelo de aldeia ao norte da Boêmia, que Kafka conheceu quando visitava seu avô, tenha sido o principal modelo para a topografia de O castelo. Depois, a pequena aldeia onde sua irmã ficou um ano dirigindo uma propriedade agrícola e onde Kafka ficou em sua companhia durante um surto de doença.

Talvez, responde o professor tcheco, mas acredita-se que um

Se tivéssemos tempo, diz o professor tcheco, devíamos, Claire e eu, aproveitar para pernoitar no campo. "Visitem uma dessas cidadezinhas xenófobas, com suas tavernas enfumaçadas, com suas garçonetes viçosas, e verão quão profundamente realista era Kafka.”

Pela primeira vez, tenho a sensação de haver muito mais naquele acadêmico pequeno e de óculos do que uma simples cordialidade — pressinto algo que essa cordialidade procura ocultar.

Nas proximidades das muralhas do castelo, na Rua do Alquimista, calçada de pedras arredondadas — que parece, segundo a discrição dos livros infantis, a adequada habitação de um gnomo ou duende —, vê-se a pequena casa que a irmã mais moça de Kafka havia alugado durante o inverno para ele morar, no intuito, mais uma vez, de ajudar o irmão solteiro a afastar-se do pai e da família.

A pequena casa é atualmente uma loja de souvenirs. Ali são vendidos cartões-postais e lembranças de Praga, no mesmo local em que Kafka meticulosamente escrevera e repetira dez vezes variações do mesmo parágrafo em seu diário, e onde traçara as sardônicas figuras sensaborronas de si próprio, os "ideogramas secretos" que ele escondia, junto com praticamente tudo o mais, na gaveta. Claire tira o retrato dos três professores de literatura diante da câmara de tortura do escritor perfeccionista. Muito breve essa fotografia estará em um dos álbuns, no seu devido lugar, ao lado de sua cama.

Enquanto Claire vai com o professor americano, levando consigo a máquina, para dar uma volta pelos arredores do castelo, fico tomando chá com o Professor Soska, nosso guia tcheco. Quando os russos invadiram a Tchecoslováquia e deram fim ao movimento revolucionário denominado Primavera de Praga, Soska foi exonerado de seu posto na universidade e, com a idade de trinta e nove anos, "aposentado" com uma diminuta pensão. Sua mulher, cientista e pesquisadora, foi também despedida de suas funções por razões políticas e, a fim de sustentar uma família de quatro pessoas, está trabalhando, há um ano, numa fábrica de carne enlatada, como datilógrafa.

Eu me pergunto de que forma esse professor aposentado conseguiu manter a serenidade. Seu terno é impecável, o passo rápido, a fala animada e precisa — como é que ele consegue isso? O que é que faz com que ele se levante pela manhã e durma durante a noite? Como é que ele consegue prosseguir todos os dias?

— Mais uma vez Kafka — diz ele, novamente com o mesmo sorriso.

— Sim, é verdade, muitos dentre nós sobrevivem unicamente em Kafka, inclusive o povo, que jamais leu uma palavra escrita

por ele. Entreolham-se quando acontece algo e dizem: "É Kafka", o que quer dizer: "Agora é assim que acontecem as coisas

aqui", o que se reduz a: "O que mais você esperava?”

— E o rancor? Também diminui quando vocês sacodem os ombros e dizem: "É Kafka"?— Nos primeiros seis meses da

chegada dos russos, minha agitação era constante. Todas as noites freqüentava reuniões secretas em companhia de amigos. Quase todo dia eu fazia circular um abaixo-assinado clandestino. E no tempo que me restava, escrevia, na mais precisa e lúcida das prosas, com as frases mais refinadas e circunspectas, enciclopédicas análises da situação, as quais circulavam em

samizdat entre meus colegas.

Entretanto, um dia não agüentei e fui parar no hospital, com uma úlcera perfurada. No princípio pensei: "Muito bem, ficarei

bem, e depois o quê? O que vou fazer quando minha

úlcera deixar de sangrar? Continuar a representar o papel de K. para o Castelo e a Corte deles? Isso pode continuar indefinidamente, como Kafka e seus leitores sabem muito bem". Aqueles seus patéticos e esperançosos Ks. Subindo e descendo as escadas como doidos, febrilmente à cata de uma solução, atravessando a cidade ansiosamente à procura de novos acontecimentos que conduzirão, acima de tudo, ao sucesso. Começos, meios, fins e, o mais fantástico de tudo, os fins, isto é, como, segundo eles, os acontecimentos vão se desenrolar.

deitado aqui por um mês, tomarei os remédios e os caldos, e depois

— Contudo, botando de lado Kafka e seus leitores, os fatos poderão mudar se não houver oposição? Com um sorriso que

disfarçava só Deus sabe que espécie de expressão, que ele gostaria de mostrar ao mundo, diz: Senhor deixei clara minha

posição. Todo o país deu a conhecer sua posição. A maneira como vivemos atualmente não é a que imaginávamos. De minha

parte, não posso queimar o que ainda resta do meu aparelho digestivo, para continuar a tornar bem claro esse fato às autoridades do meu país durante os sete dias da semana.

— Em lugar disso, então, o que faz?

— Traduzo Moby Dick para o tcheco. Na verdade, já existe uma tradução muito boa, muito boa mesmo. Não há nenhuma

necessidade de outra. Mas trata-se de uma coisa sobre a qual sempre pensei, e agora, que não há nada urgente para fazer, por que não?

— E por que este livro? Por que Melville? — pergunto-lhe.

— Na década de 0 vivi um ano em Nova York, num programa de intercâmbio. Andando pelas ruas, parecia-me que elas

pululavam daquela tripulação do navio de Ahab. E, ao leme de tudo, grande ou pequeno, eu via ainda um outro Ahab esbravejante. A energia para botar as coisas em seus devidos lugares, subir ao topo, ser considerado "o campeão". E tudo isso, não à força de energia apenas, mas em virtude de uma raiva enorme.

— É isso, a raiva, é que eu gostaria de traduzir em

Se é que isso pode ser traduzido em tcheco.

"Agora, como o senhor pode imaginar, esse ambicioso projeto, quando terminado, será totalmente inútil por duas razões. Primeiro não há necessidade de outra tradução, que será provavelmente inferior à ótima tradução que já temos. Segundo, nenhuma tradução de minha lavra poderá ser publicada nesse país. Dessa forma, como vê, estou fazendo uma coisa que, se não fossem as circunstâncias, não ousaria fazer sem me preocupar se devia ou não fazê-lo. Na verdade, quando trabalho até tarde, parece-me que a inutilidade do que estou fazendo constitui a minha mais profunda fonte de prazer. Talvez isso para o senhor não signifique senão uma pretensiosa forma de capitulação, de auto-escárnio. Em certas ocasiões, também assim me parece. Não obstante, continua a ser a coisa mais importante que tenho para fazer na minha aposentadoria. E o senhor", pergunta inteligentemente, "o que o atrai tanto em Kafka?”

— Trata-se, também, de uma longa história.

— Que se refere a quê?

— Não é uma questão de desesperança política.

— Acredito que não.

— Trata-se — digo — em grande parte de desespero sexual, com votos de castidade que parecem ter sido feitos sem que eu

soubesse, com os quais vivi contra minha vontade. Ou eu me rebelava contra a minha carne, ou ela se rebelava contra mim, ainda não sei como situar a questão.

— A julgar pelas aparências, o senhor não parece ter suprimido totalmente seus impulsos. Essa moça com a qual está viajando é muito atraente.

— Bem, o pior passou. Deve ter passado. Pelo menos, no momento, passou. Mas enquanto durou, enquanto não pude ser o que eu sempre quisera ser, bem, nada se assemelhava ao que eu conhecera anteriormente.

Naturalmente, o senhor é o único de nós dois que conhece de perto o totalitarismo, mas, se me permite, só posso comparar a total parcialidade do corpo e a frígida indiferença e absoluto desprezo pelo bem-estar do espírito a determinados regimes autoritários inflexíveis. E podem-se fazer todas as petições desejadas, dirigir apelos os mais sentidos, dignos e lógicos, sem obter nenhuma resposta.

0 Quando muito, uma risada. Submeti minhas petições a um psicanalista. Ia a seu consultório dia sim, dia não, para ver se conseguia a restauração de uma possante libido. E posso lhe afiançar que empreguei argumentos e perorações não menos intrincados e tediosos, argutos e ininteligíveis do que as situações que se encontram em O castelo. O senhor pensa que K. Sou inteligente, eu queria que o senhor me visse procurando esconder minha impotência.

— Posso imaginar. Não se trata de uma situação agradável.

— Naturalmente, comparada com a que o

— Por favor, não precisa dizer essas coisas. Não é uma situação agradável, e o direito ao voto não fornece, nesse particular, nenhuma compensação.

— Isso é verdade. Votei durante esse período, e vi que o fato não me fazia mais feliz. Quando principiei a falar sobre Kafka, sobre a leitura de Kafka, aquelas histórias que constituíam um impedimento, um obstáculo para os Ks. Que desejavam bater

com a cabeça nas suas paredes invisíveis, bem

.

De repente elas tiveram uma perturbadora e nova ressonância para mim.

Repentinamente, tudo ficou menos vago do que o Kafka que eu lera no colégio. O senhor compreende que, o meu modo, principiei a ter a sensação de ter sido intimado, ou imaginei que fora intimado a um apelo que se tornara superior a mim, e, no entanto, em face de toda conseqüência comprometedora ou ridícula, tornei-me incapaz de lutar, de procurar atingir um resultado. Como vê, vivi algum tempo como se o sexo fosse uma zona sagrada.

— Então, para ser

— Muito desagradável.

— disse com atitude de solidariedade.

— Às vezes, eu me pergunto se O castelo não está, de fato, ligado ao bloqueio erótico de Kafka: um livro vigoroso em todos os níveis sem atingir um clímax.

Ele ri da minha teoria, mas gentilmente como dantes e com uma infatigável amabilidade. Assim é que o professor está profundamente comprometido, preso, como dentro de uma engrenagem, entre a consciência e o regime — e entre a consciência

e a aguda dor de estômago. — Bem — disse ele, pousando a mão no meu braço de maneira terna e paternal. — Todo cidadão reprimido tem seu próprio Kafka.

— E cada homem zangado, seu próprio Melville — respondo.

— Mas, então, os que gostam de livros nada têm a ver com as grandes obras que lêem.

— mas ferram-lhes os dentes. Exatamente. Nos livros, e não nas mãos daqueles que os reprimem.

Mais tarde, naquele dia, pegamos o bonde cujo número o Professor Soska escrevera a lápis no pacote de cartões-postais que cerimoniosamente presenteou a Claire, à porta do nosso hotel. Os cartões, ilustrados, trazem fotografias de Kafka, sua família,

e os lugares na cidade de Praga ligados à sua vida e à sua obra. A bela coleção não está mais à venda, explica Soska, após a ocupação da Tchecoslováquia pelos russos, pois Kafka é um escritor proscrito, o escritor proscrito. — Mas o senhor tem outra coleção, espero — disse Claire —, para o senhor? — M