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(*) UZIEL SANTANA

O PAN do Brasil e a TAM dos brasileiros:


o cinismo oficial e a tragédia anunciada.

“Meu Deus do céu, que tragédia! Como pode?” (Presidente Lula, em 17/07/2007)
“__________________” (Discurso do Presidente Lula na abertura do PAN)

A sociedade brasileira assiste, “deitada eternamente em berço esplêndido”, como se


numa confortável sala de cinema estivesse, com direito a pipoca de micro-ondas e Coca-
cola zero, dois grandes filmes da realidade nacional. Verdadeiros “blockbuster” (filme
de grande repercussão, na linguagem americana) que nada têm de irreal ou surreal. São
episódios da nossa República Federativa do Brasil como ela é e que mostra, claramente,
quem somos e por quem nos deixamos governar.

Um, programado, oficial, financiado com bilhões de reais – advindos, inclusive, do


bolso dos próprios brasileiros – e que apresenta um Brasil que não existe enquanto tal,
mas que existe enquanto paradoxo cínico: o PAN do Rio 2007. O outro, não
programado, mais anunciado; não oficial, mais advertido em “off” por autoridades
também oficiais; e financiado pelas mazelas, pela desídia, pela leniência, pela
pusilanimidade e pela irresponsabilidade do Poder Público: o acidente da TAM, em
Congonhas, São Paulo, que vitimou cerca de 200 vidas. Parodiando o artista global: “É,
É do Brasi!”, “Brasil silll silll silll”! Lamentável, tudo isso, mas esta é a nossa realidade
política e moral.

Se fôssemos estabelecer uma classificação “hollywoodiana” para esses dois eventos,


diríamos que, de um lado, o PAN do Brasil representa o cinismo oficial das autoridades
governamentais e, do outro, o acidente da TAM em Congonhas representa a tragédia
anunciada, conseqüência da irresponsabilidade e pusilanimidade dessas mesmas
autoridades. De tudo isso, a suma é: o PAN, como modelo de gestão do desporto e de
apresentação das belezas do país para o mundo e o “showbussiness”, é do Brasil e seus
donos que, certamente, repartirão os lucros da empreitada. A contrário senso, a conta
disso é do povo brasileiro que não terá, em quase nada, melhorado o seu padrão de vida.
Por sua vez, no caso da tragédia da TAM, em São Paulo, como exemplo de inoperância,
e de falta de cuidado e respeito com a vida humana, a conta paga, com sangue, suor,
lágrimas e mortes, também é dos brasileiros, sobretudo, dos que morreram. Tudo isso é
muito triste, repugnante e revoltante, mas é a nossa realidade e traduz bem a nossa
“brasilidade”. E enquanto a sociedade permanecer, letargicamente, “deitada
eternamente em berço esplêndido”, assim o será, por muitos e muitos anos.

Conta-nos a historiografia da filosolia que o cinismo era uma corrente de pensamento


fundada por um dos discípulos de Sócrates – Antístenes – e desenvolvida, por Diógenes
de Sínope, por volta de 400 a.C. Tal corrente filosófica pregava, essencialmente, o
desapego aos bens materiais e externos. Essa, etimológica e inicialmente, era a
semântica da palavra “cinismo”. Mas, modernamente – e ainda mais neste momento
pós-moderno em que vivemos – o termo tomou uma outra acepção, por certo, contrária
e negativa desta semântica inicial, que se coaduna, melhor, neste novo sentido, com a
nossa pan-realidade. Hoje, o cinismo representa um comportamento típico de pessoas
sem pudor e indiferentes ao sofrimento alheio. O cínico é um inconseqüente, um
inconveniente, um desidioso, um covarde e um inoportuno.
Ora, quando pensamos na realidade social, cultural, política e econômica do Brasil;
quando pensamos nas infinitas desigualdades sociais que escravizam o nosso Povo;
quando pensamos nos sérios problemas de violência social em que se encontram as
cidades brasileiras; quando pensamentos na falência do sistema prisional brasileiro;
quando pensamos na impunidade e na corrupção das instituições e autoridades públicas
deste país; quando pensamos na corrupção moral e dos bons costumes da nossa
sociedade, a qual é promovida, diariamente, pela mídia televisa; quando pensamos na
fome e na miséria que assolam milhões de pessoas neste país, a perguinta que nos
fazemos é: há espaço para a promoção de um evento que, além de gastar milhões - de
dinheiro público! - vende a imagem de um Estado que, de fato e realisticamente, não
existe? Não, não há espaço para isso. O PAN é do Brasil, mas não é dos brasileiros. E
mais: é de um Brasil no qual não vivemos. O PAN é o paradoxo cínico e oficial dos
nossos governantes.

Conta-nos, também, a historiografia da literatura grega que a tragédia era uma gênero
literário no qual, essencialmente, personagens viviam dramas da alma humana, ou da
sociedade, com o objetivo de purificar a vida da platéia. Tais dramas sempre se
caracterizavam pela seriedade, dignidade e morte dos envolvidos no conflito existencial,
moral ou social. Trata-se, em verdade, de uma produção do ser humano, calculada,
milimetricamente, com início, meio e fim.

Quando pensamos no acidente em Congonhas com o avião da TAM – um dos mais


movimentados do país, imerso no centro de São Paulo, com uma capacidade de
operação muito menor do que vem funcionando – e nos lembramos das afirmativas dos
especialistas sobre a pista do aeroporto, seus problemas de derrapagem e sua pequena
extensão, não há como não afirmar que se trata de uma tragédia produzida e anunciada,
exatamente, como no caso das tragédicas gregas. Só que no caso dessas, a catarse, como
efeito sobre os espectadores, era simbólica e pedagógica. No caso do acidente da TAM,
a catarse é real, triste, assombrosa e ceifou vidas, muitas vidas.

“Meu Deus do céu, que tragédia! Como pode?” Pode sim! E muito mais pode
acontecer, Exmo. Sr. Presidente! Vivemos sob a égide de uma sociedade cujos valores
morais fundantes foram negociados com a cultura pós-modernista – e os seus grupos
promotores – de modo que importa apenas viver pensando no “meu melhor”, no “meu
bem”, “no meu belo”, “na minha verdade”. Esse relativismo cultural, esse hedonismo
existencial e essa letargia social formam um importante pano de fundo para que
tenhamos governantes como esses que aí estão. Governantes que se preocupam, tão-
somente, em estabelecer projetos de poder e de dominação. Onde a vida humana e o
futuro da nação são apenas bandeiras midiáticas a serem apresentadas, porque, de fato, o
que estamos vendo, em episódios como esses, são mortes e políticas públicas
inconseqüentes e inoportunas.

Esse Pan-Tam nos demonstra bem quem é responsável pelos destinos da nossa nação.

“Feliz a nação cujo Deus é o Senhor” (Salmo 33:12)

(*) Advogado
Mestre em Direito – UFPE.
Professor da UFS – (ussant@ufs.br).

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