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SEXTA-FEIRA
ou a vida selvagem

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MICHEL TOURNIER

SEXTA-FEIRA
ou a vida selvagem

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quando o capitão Van Dayssel viu que uma rabanada de vento rebentara uma das velas como se fosse um balão. Robinson deixara em York a mulher e dois filhos. onde Robinson queria desembarcar. debaixo da tempestade. e rumava agora para Valparaíso. Estava-se em meados do século XVIII. mas de extraordinária estabilidade mesmo em circunstâncias de mau tempo. e tudo levava a crer que o Virgínia poderia navegar durante centenas de quilómetros. Por isso. Era uma galeota holandesa. portanto.iam radicar-se na América. mas o mapa não indicava nada do género. O único perigo a recear vinha dos recifes ou bancos de areia. enquanto o temporal rugia lá fora. deu ordens aos seus homens para arriarem as outras e se fecharem com ele no interior. na época em que muitos europeus – principalmente ingleses . Assim. a cerca de seiscentos quilómetros ao largo das costas do Chile. o Virgínia contornava o continente americano dobrando heroicamente o terrível cabo Horn. pesado e pouco rápido. à espera que a tempestade passasse.I Ao fim da tarde de 29 de Setembro de 1759. O Virginia. na mira de fazerem fortuna. Eram fogos de Santelmo. Algumas semanas antes. A tripulação do Virgínia reuniu-se no convés para ver as pequenas chamas que apareciam no cimo dos mastros e vergas do navio. o céu obscureceu-se de repente na região do arquipélago Juan Fernandez. o capitão jogava tranquilamente às cartas com Robinson. nem mesmo do mais violento temporal. com o objetivo de explorar a América do Sul e ver se conseguia organizar trocas comerciais proveitosas entre o seu país e o Chile. sem encontrar obstáculos. à noite. fenómeno devido à eletricidade atmosférica e que anuncia uma violenta tempestade. a bordo do qual viajava Robinson. 9 . nada tinha felizmente a temer. um barco de formas arredondadas e com mastros baixos.

— Como estais vendo — disse ele — a vantagem das tempestades está em que nos libertam de preocupações. Ao clarão difuso da lua cheia. e mergulhou nele o comprido cachimbo de porcelana. Voltou a fechar o pequeno barril e encostou-se preguiçosamente para trás. ao mesmo tempo que afagava um cálice de genebra. indo estilhaçar-se de encontro ao teto. Não há nada a fazer contra os elementos enfurecidos. 10 . Devia estar encalhado num banco de areia. aquele ficara completamente imóvel. nada fazemos. ou em cima de rochedos. mas chega-se quando Deus quer. O capitão olhou para ele com um sorrisinho irónico. Portanto. homens e material. respondeu-lhe ele depois de tirar uma fumaça do cachimbo. quando um choque formidável abalou todo o navio. a lanterna suspensa de uma corrente que iluminava a cabina descreveu um arco de círculo. enquanto baralhava as cartas. Logo a seguir. depois do constante balanço e vaivém do navio. — Quando se empreende uma viagem como esta que estais fazendo. com o objetivo de os ajudar. uma vaga gigantesca despenhou-se sobre o convés e varreu tudo o que nele se encontrava. O mais aterrador de tudo era que. parte-se quando se quer. Nesse mesmo momento. Tinha muito mais experiência que Robinson e troçava frequentemente da sua impaciência juvenil. Dirigia-se para junto deles. Antes de tudo mergulhar em completa escuridão. Uma forte corrente de ar fez-lhe compreender que já não havia porta. Robinson ainda teve tempo de ver o capitão deslizar de cabeça por cima da mesa. Levantouse e dirigiu-se para a porta.— Não vos parece que esta tempestade vai atrasar muito a nossa chegada ao Chile? — perguntou ele ao capitão. Entregamo-nos nas mãos do destino. sua bebida preferida. Tirou depois a tampa a um pequeno barril de madeira onde guardava o tabaco. — Desta maneira. fica protegido dos choques e impregna-se como odor adocicado do tabaco. que duravam havia vários dias. Robinson avistou no convés um grupo de homens esforçando-se por lançar à água um escaler de salvamento.

enrolando algumas das grandes folhas que cresciam junto à praia. Robinson apanhou um tronco mais grosso. Robinson ergueu a moca e vibrou com toda a força uma violenta pancada entre os chavelhos do bode. 11 . nem aparecia animal algum. A praia estava juncada de peixes mortos. demasiado leve. para ali lançadas pelas vagas. e frequentemente Robinson via-se obrigado a rastejar para poder avançar. do qual se serviu como bengala. Deitando fora a sua bengala. Os troncos das árvores caídas formavam. Robinson sentou-se com dificuldade e sentiu uma dor aguda no ombro esquerdo. a uma centena de passos. Robinson ficou. fez uma espécie de chapéu. parecia observálo. portanto. Como o sol começava a queimar. um emaranhado denso onde era difícil penetrar. Uma onda rolou pelo areal molhado e veio lamber-lhe os pés. a silhueta de um bode selvagem de pelo muito comprido que. conchas quebradas e algas negras. que poderia servir-lhe de cacete. Não se ouvia o menor ruído. Não estava ferido. O animal caiu de joelhos e. Quando chegou perto do bode. muito admirado quando viu. uma falésia rochosa entrava pelo mar dentro e prolongava-se numa série de recifes. Depois. Pensando que ia atacá-lo. deixou-se ficar de costas. de novo azul após a tempestade. Gaivotas negras e brancas volteavam no céu. tombou sobre o flanco. A ocidente. com a mata e as lianas que pendiam dos ramos mais altos. Girando sobre si. depois. Robinson levantou-se e deu alguns passos. apanhou um ramo. imóvel. e embrenhou-se na floresta. Aí se erguia a silhueta do Virgínia. o rosto na areia.II Quando Robinson voltou a si. o animal baixou a cabeça e bodejou num tom surdo. mas o ombro magoado continuava a doer-lhe. encontrava-se deitado. com os mastros arrancados e os cordames flutuando ao vento.

para abarcar com os olhos uma vasta extensão. Andando ao acaso em torno da base do enorme penhasco. Robinson chegou ao sopé de um maciço de rochedos amontoados irregularmente. de pé no cume do rochedo mais alto. Depois. Descobriu a entrada de uma gruta. Robinson sentia-se acabrunhado de tristeza e fadiga. onde não havia vestígios de qualquer habitação. Compreendeu então a imobilidade do bode que matara. deslizou para debaixo de uma pedra e adormeceu. descobriu uma espécie de ananás selvagem. porque era demasiado profunda para poder explorá-la nesse dia. Estava. porém. Os animais selvagens que nunca viram o homem não fogem à sua aproximação. Assim. à sombra de um cedro gigante. observam-no com curiosidade. só deu. pôde constatar que o mar rodeava por todos os lados a terra em que se encontrava. Pelo contrário.Após várias horas de penosa marcha. 12 . Preferiu escalar os rochedos. numa ilha deserta. que cortou com o seu canivete e comeu. alguns passos dentro dela. portanto.

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Robinson voltou a descer para a praia de onde partira na véspera. suspenso de três paus armados em tripé por cima de uma fogueira. a sua situação estava longe de ser desesperada. também. parecia bastante acolhedora. tanto mais que poderiam despertar-lhes a esperança de se apoderarem de ricos despojos. Em resumo. para economizar o isqueiro de pederneira e. cortou um pedaço de carne com a faca e pô-lo a assar. Robinson dispersou-os fazendo rodopiar o pau por cima da cabeça e os imponentes pássaros ergueram-se pesadamente nos ares. do cimo do qual se desfrutava um panorama magnífico que abarcava todo o horizonte. Saltava de rochedo em rochedo. no meio da vereda por onde seguira na véspera. uma grande floresta a ocidente e. porque se sentia fresco e bem-disposto. para chamar a atenção dos tripulantes de algum navio que passasse por acaso ao largo da ilha. para alertar os marinheiros. prados muito húmidos e certamente pantanosos a leste. Mas não era melhor do que estar cheia de canibais? Além disso. que continuava encalhado no recife. correndo sobre as patas tortas para ganharem balanço. depois de uma noite bem dormida. Resolveu manter a fogueira acesa. Carregou em seguida aos ombros o que restava do bode e prosseguiu mais lentamente o seu caminho para a praia. 14 . É verdade que bastariam os destroços do Virgínia. que conservava o cheiro do bode. Uma vez aí chegado. aquele maciço rochoso perfurado por uma gruta misteriosa. Uma dúzia de abutres de pescoço depenado e bico recurvo disputava já a carcaça entre si. Estava nesse ponto das suas reflexões quando deparou com o cadáver do bode. de declive em declive e tirava disso um certo prazer.III Despertado pelos primeiros raios de sol nascente. com a sua bela praia ao norte. É certo que aparentemente aquela ilha era deserta. A chama irrequieta reconfortou-o mais do que a carne dura. um após outro. de tronco em tronco. no centro.

Ao lado do fogo sempre aceso no areal. se lhes deitasse fogo. que já cheirava muito mal. raízes de plantas. transformariam toda a árvore numa imensa tocha. porque . Encheu o tronco com galhos e ervas secas. utensílios e provisões que se encontravam no porão do navio. Mas depressa se arrependeu porque os abutres. amontoou enormes quantidades de ramos e sargaços. Consagrava. de mariscos.não tardaria que um navio viesse buscá-lo. ovos de pássaros e de tartaruga. puxando uma liana amarrada à outra ponta da vara. Em caso de alerta. Teve depois a ideia de enterrar um mastro na areia. atirava-lhes pedras e paus. ao acaso. 15 . bagas. De vez em quando. espiando-o na esperança de novas dádivas. com os quais contava fazer grandes colunas de fumo mal uma vela aparecesse no horizonte. Alimentava-se.Robinson já pensara em salvar as armas. Robinson amarraria um molho de lenha a arder à extremidade da vara e fá-la-ia subir nos ares. antes que fossem levadas por outra tempestade. do cimo do qual pendesse uma vara. mas voltavam logo a seguir. que se regalaram com ela. cocos. fez uma descoberta ainda melhor: no alto da falésia erguia-se uma grande árvore morta. passaram a segui-lo constantemente. deitou fora a carcaça do bode. portanto. que. visível a muitos quilómetros de distância. Mas acalentava sempre a esperança de não ter necessidade disso.pensava ele . irritado com a sua presença. todos os seus esforços à instalação de sinais na praia e na falésia. As sinistras aves afastavam-se então preguiçosamente. um eucalipto cujo tronco estava oco. Mais tarde. Ao terceiro dia.

de que comeu o mais que pôde. certamente com receio de o assustar. assim. portanto. Robinson cansou-se daquela espera. Serviu-se de uma vara robusta para deslocar a jangada até aos primeiros rochedos. talvez ainda estivessem todos vivos. na falta de algo para beber. mas Robinson era abstémio nunca tendo provado uma bebida alcoólica. Se a tripulação tivesse ficado abrigada na entrecoberta. Atou com lianas uma dúzia de toros. necessitava de ferramentas. mercadoria de que o capitão nunca lhe falara. Reinava a mesma desordem nos porões. em vez de se expor no convés varrido pelas vagas. Resignou-se. e estava resolvido a manter essa regra. vigiando um horizonte sempre vazio. construindo uma espécie de jangada. Deu. a visitar os destroços do Virgínia. A grande surpresa do dia foi a descoberta. A parte visível do casco estava intacta e devia ter encalhado num recife escondido debaixo de água. na parte traseira do porão. pois durante metade do dia 16 . de quarenta barris de pólvora negra. vergas e cabos de tal modo emaranhados uns nos outros que era difícil abrir caminho entre eles. É certo que havia garrafões de vinho e licores. duas voltas aos destroços do navio. mas a água não penetrara neles e Robinson encontrou caixas cheias de biscoitos e carne seca. apoiou-se nos rochedos para prosseguir.IV Por fim. pois aí a profundidade era pequena pela maré baixa. Depois. O convés estava atravancado de mastros quebrados. Robinson demorou vários dias a transportar na sua jangada e a levar para terra todos aqueles explosivos. que embora instável poderia ser utilizada desde que não houvesse ondulação forte. embora de má vontade. Para isso. para de lá trazer o que pudesse ser-lhe útil. Decidiu começar a construção de um barco com envergadura suficiente para lhe permitir navegar até às costas do Chile.

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dois machados. uma pistola de dois canos. no camarote do imediato. que embrulhou num pedaço de vela. No camarote do capitão encontrou o famoso barril de tabaco. Aproveitava essas alturas para pôr os barris ao abrigo do sol e da chuva. sob uma cobertura de folhas de palmeira fixas com pedras. impedindo-o de manobrar com a ajuda da vara. uma pá. alguma estopa e uma peça de tecido de lã vermelha. intacto apesar da sua fragilidade. Carregou também na jangada uma grande quantidade de pranchas arrancadas ao convés e às divisórias do navio. bem fechado e contendo o grande cachimbo de porcelana. 18 . uma enxada. começou a construir uma embarcação que batizou com o nome de Evasão.a maré alta interrompia a sua atividade. que se destinava sem dúvida a eventuais trocas com os indígenas. um martelo. dois mosquetes de pederneira. uma Bíblia em bom estado. Logo no dia seguinte. Trouxe igualmente do navio duas caixas de biscoitos. um óculo. Por fim. de fraca qualidade. encontrou. para a proteger.

um caranguejo gigantesco que serrava. cuidadosamente. de modo a soldá-las melhor. nem sequer uma serra. Lembrou-se mesmo de endurecer à chama as extremidades das peças e de as molhar depois de as encaixar umas nas outras. Contava que a água. um belo tronco de murta. O que mais fazia falta a Robinson para estes trabalhos era a serra. a seis 19 . seco.V No meio de uma clareira perfeitamente plana. mas recomeçava sempre. Cem vezes a madeira rachou sob a ação ora da água. Robinson pôs a descoberto. pois continuava esperançado em que aparecesse algum navio. daria ao casco uma solidez e impermeabilidade suplementares. junto de uma palmeira. sem nunca sentir cansaço ou impaciência. procurando dar-lhe a forma de uma viga retangular. como se o serrador mudasse de toro. mas acabou por descobrir. Pôs-se imediatamente a trabalhar. que poderia constituir a peça-mestra do seu futuro barco. trabalhou-o com o machado. fazendo inchar a madeira. julgou sonhar ao ouvir um ruído que não podia ser senão o de alguém em plena ação de serrar. e recomeçava em seguida com uma regularidade monótona. ora da chama. com as pinças. Apesar de todas as suas buscas no Virgínia. nem parafusos. reunindo as peças do barco como um jogo de paciência. um coco preso entre as patas. ao despertar. Uma manhã.que é impossível fabricar com meios improvisados . são e bem desenvolvido. O ruído parava de vez em quando. sem deixar de vigiar o horizonte que podia avistar do seu estaleiro. A princípio nada viu. Trabalhava lentamente. Nos ramos da árvore. Robinson saiu de mansinho do buraco na rocha onde se habituara a dormir e encaminhou-se tão silenciosamente como um gato para o local de onde provinha o ruído. nem broca.ter-lhe-ia poupado meses de trabalho com o machado e a faca. não conseguira encontrar pregos. Depois de desbastar os ramos do tronco. libertando-o das ervas que o cobriam. Essa ferramenta .

Verificou logo que era incapaz de arrastar por cima das ervas e da areia até ao mar aquele casco que devia pesar mais de quinhentos quilos. durante muito tempo. Durante quarenta e cinco dias. Mas o barco não se moveu. A verdade é que tinha grande receio dessa experiência. Acabou por se decidir a lançar o Evasão ao mar.. a arca apenas tivera de esperar que a água chegasse até ela.metros de altura. Robinson cometera um erro fatal. Na falta de verniz ou mesmo de alcatrão para untar o casco. pelo casco da embarcação. mas interrompeu pouco depois essa tarefa. para ver como se comportava. Construída longe do mar. Ao cabo de três dias de esforços inúteis. Tentou então colocar toros arredondados por debaixo da quilha para a fazer rolar. Espalhou então esse líquido ainda a escaldar. e o resultado foi arrombar uma das pranchas do casco. até que. outro caranguejo serrava o pé dos cocos para os fazer cair. lembrando-se de que seria melhor começar por lançar o seu novo barco à água. em especial das páginas que falavam da Arca de Noé. ao não construir o Evasão diretamente na praia. e Robinson via-o afundar-se como uma pedra nas profundezas verdes. Robinson começou a juntar as provisões que levaria consigo. ao fazer força sobre ela com uma estaca colocada sobre um cepo e utilizada como alavanca. Os dois caranguejos não pareceram nada incomodados com a chegada de Robinson e continuaram tranquilamente o seu ruidoso trabalho. Pô-las depois a ferver num caldeirão. a pouco e pouco. o barco afundava-se a pique mal chegava à água. cortando-a em tiras. a 20 . sob a forma de chuvas e torrentes que desciam do alto das montanhas. Isso devia-se em parte ao facto de estar demasiado influenciado pela leitura da Bíblia. retirou dos arbustos a casca exterior e recolheu a de dentro.. que iria decidir do seu futuro. Teve para isso de arrasar quase na sua totalidade um pequeno bosque de azevinho que descobrira logo que começara a trabalhar. O Evasão estava concluído. esquecera-se completamente do problema do transporte do barco até à beira-mar. Na verdade. Como é que o Evasão se aguentaria no mar? Seria suficientemente estanque? Não iria virar-se à primeira onda? Nos seus piores pesadelos. se decompuseram num líquido espesso e viscoso. Robinson decidiu-se a fabricar uma espécie de cola.

21 . Teve então a ideia de cavar uma vala na falésia. o qual poderia então deslizar pela vala e atingir o nível da praia. Atirou-se vigorosamente ao trabalho. E renunciou.fadiga e a cólera obscureceram-lhe a razão. mas concluiu que esses aterros lhe levariam dezenas de anos até estarem completados. desde o mar até ao local onde se encontrava o barco.

porém. Ou então imaginava que era um bebé de berço. a leste.VI Nas horas mais quentes do Verão. Certo dia. costumam afundar o corpo em certos pântanos da floresta. Quando à noitinha saía da lama tépida. viu surgir uma vela branca no horizonte. Por vezes. Robinson tivera a oportunidade de seguir. dos nenúfares e dos ovos de rã. Era como que uma sinfonia do céu. ficando apenas com a cabeça de fora. pessoas adultas inclinadas para ele. onde as ferramentas estavam todas espalhadas. os pecaris. os javalis e os seus primos da América do Sul. a cabeça andava-lhe à roda. Passava dias inteiros assim deitado no meio das lentilhas-de-água. Precipitou-se logo para o estaleiro do Evasão. acendeu um molho de ramos secos e empurrou-o pela abertura existente no 22 . julgava-se ainda no meio da família. Correu em seguida para o eucalipto oco. e ouvia as vozes da mulher e dos filhos. Desencorajado pelo fracasso do Evasão. Deixara de se lavar e uma crosta de terra e lama seca cobria-o dos pés à cabeça. mantendo à superfície apenas o nariz. com vozes de anjos acompanhadas por acordes de harpa. Robinson pensou que estava morto e que aquilo que ouvia era a música do paraíso. e conseguiu encontrar o isqueiro. Já não conseguia deslocar-se senão com as mãos no chão. uma manada de pecaris. com o nariz na terra. pareceu-lhe ouvir música. como um porco. vendo-os deixara-se escorregar para a lama fresca. Ao levantar os olhos. e via nas árvores que o vento agitava por cima da sua cabeça. quando estava a roer um tufo de agriões. os olhos e a boca. em York. à beira de um charco. Agitam a água com as patas até se formar uma lama muito líquida e mergulham depois. mas ao abrigo do calor e dos mosquitos. Os gases que se evolavam da água estagnada perturbavamlhe o espírito. um dia. e comia fosse o que fosse.

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Correu depois para a praia. o ouro. através do Oceano. mas o lume parecia tardar em pegar. Era um desses galeões espanhóis que outrora transportavam.tronco. que acabou por encontrar debaixo do casco do Evasão. procurando desemaranhar a barba e os cabelos. De resto. levantou-se. Robinson atirou-se à água e nadou com todas as suas forças para o navio. Robinson seguia-o correndo na praia. Rindo como um louco. Gritava. Dentro em pouco lançaria a âncora perto da praia e dele partiria uma lancha. A água salgada entroulhe pela garganta e os seus olhos já só viam a água verde e uma pequena raia que fugia. Mas. Robinson distinguia no convés uma multidão colorida. Robinson estava certo de conhecer aquela jovem. Havia pares a dançar com elegância. à procura de umas calças e de uma camisa. Uma coluna de chamas arrancou-o ao desfalecimento. depois de ter virado de bordo. A música provinha de uma pequena orquestra e de um coro de crianças vestidas de branco. agrupadas no castelo da popa. Caiu. Que frio ele tinha! Lá no alto da falésia. Uma rapariguinha estava encostada a uma das janelas abertas na amurada e sorria-lhe tristemente. À medida que se aproximava. quem seria? Abriu a boca para a chamar. 24 . junto ao solo. para quê? O navio vinha direito à ilha. Ninguém parecia ver o náufrago. Robinson dirigiu-se a cambalear para aquela fonte de luz e calor. onde começava uma zona de dunas de areia. enquanto esgatanhava o rosto com as unhas.. do qual já só via o casco da popa.. em torno de uma mesa coberta por uma baixela de ouro e cristal. que pareciam a máscara de um animal. O galeão chegava agora ao fim da praia. caiu novamente. que atirava na direção do navio. recuando. nem sequer a costa ao longo da qual o navio seguia agora. O navio estava agora muito próximo e Robinson via-o distintamente. ataviado de brocados. Uma coluna de fumo acre começou a formar-se pouco depois. agitava os braços. Robinson corria em todas as direções. inclinando com graciosidade o velame para as vagas orladas de espuma. a prata e as pedras preciosas do México. parava para apanhar seixos. Parecia estar a desenrolar-se uma festa a bordo. o eucalipto ardia como uma tocha na noite.

Com os primeiros alvores da madrugada conseguiu. Voltou as costas ao mar. fascinando-o desde a sua chegada à ilha. Era necessário recuperar o domínio de si próprio. Lucy. trabalhar. aquele barco. e encaminhou-se para a floresta e o maciço rochoso. Portanto. e aproximando-se dele à medida que o calor diminuía. Tratava-se de uma alucinação produzida pelo seu cérebro doente. O galeão imaginário constituía um sério aviso.não existia.tipo de navio que. de resto. finalmente. que tanto mal lhe fizera. Robinson compreendeu finalmente que os banhos na lama e toda aquela vida de preguiça que levava estavam a enlouquecê-lo. 25 . identificar a jovem do galeão. o rosto voltado para o tronco incandescente. que morrera vários anos antes da sua partida. aquele galeão . tomar o destino nas mãos. Era a sua própria irmã. desaparecera dos mares havia mais de dois séculos .Passou o resto da noite encolhido nas ervas.

um cofre com moedas de ouro. enfim. Apressou-se a aparar uma pena de abutre e pôde assim. secando essas páginas brancas ao sol. desde que encontrasse um líquido que pudesse fazer de tinta. etc. Depois de ter depositado os quarenta barris de pólvora negra na parte mais funda da gruta. joias. Transportou para ali tudo o que pôde retirar dos destroços do navio. flutua de costas. com mandíbulas poderosas e picos venenosos a cobrirem-lhe o corpo. Os livros que encontrou nas cabinas do barco encalhado haviam sido de tal modo lavados pela água do mar e da chuva. ananases e rebentos de palmeiras. que o texto impresso desaparecera. Em caso de perigo. poderia utilizá-las para escrever o seu diário. o essencial dos principais factos que 26 . no livro. Mas Robinson pensou que. lupas. os melhores locais para a pesca. Robinson verificara que tudo o que lhe tocava no ventre adquiria uma cor vermelha brilhante que não saía facilmente e poderia servir-lhe de tinta. sem que essa posição pareça incomodá-lo. cinco sacos de cereais. esporas. e. espelhos.VII Durante as semanas seguintes. haviam resistido às tempestades dos meses anteriores. Trata-se de um animal terrível. parecendo uma bola. Foi então que resolveu registar diariamente. cabos. Fez da gruta que se abria no maciço rochoso do centro da ilha o seu armazém principal. várias caixas de objetos diversos . enche-se de ar e fica redondo. dois cestos de louça e pratas. roldanas. sem demora. o peixe-ouriço. Robinson explorou metodicamente a ilha e tratou de localizar as fontes e os abrigos naturais. uma mala com material de navegação. Como todo aquele ar se lhe acumula no ventre. os quais. Ao remexer com um pau num desses peixes que ficara na areia. os sítios onde havia cocos. lanternas. flutuadores. ali armazenou também três arcas com roupas. cartas marítimas. canivetes. escrever as primeiras palavras numa folha de papel. por sorte.candeeiros. prata e cobre. dados de jogar -. óculos. linhas. Esse líquido foi-lhe fornecido por um peixe que nessa altura abundava perto da falésia do levante.

em cima dos animais adormecidos. para lhes sugarem o sangue. Outra parte estava deteriorada pela água das chuvas e do mar. criando um rebanho doméstico e um campo cultivado. o que queria dizer esperança. Robinson começara a civilizar a sua ilha. até que os úberes inchados de leite começaram a provocar dores às cabras e estas se deixaram mungir com alívio. trigo.lhe fossem acontecendo. pois decidira nunca mais se deixar abater pelo desespero. que ali abundavam. de que não restava senão a casca misturada com dejetos. que com os seus gritos atraíram as mães. cujo sangue chupava. defendiam-se encarniçadamente quando tentava mungi-las. quando andava a apanhar conchas nas rochas meio cobertas de água. Mesmo assim. Entre os animais da ilha. uma manhã. Desenhou na primeira página o mapa geográfico da ilha e escreveu por cima o nome que acabava de lhe dar: Speranza. que previamente queimara e lavrara com uma placa de metal proveniente do Virgínia. Assim. provocou-lhe uma dolorosa deceção. Os ratos e o gorgulho haviam devorado uma parte. um longo e cansativo trabalho de paciência. de noite. Ora as cabrinhas. Robinson conseguiu semear alguns acres de pradaria. Foi necessário escolher cada cereal grão a grão. surpreendeu um vampiro agarrado a um cabrito. Foi nesse estado de espírito que. cevada e milho que salvara dos destroços do Virgínia. Fechou lá dentro cabritos muito jovens. embora não fugissem quando se aproximava. feita de paus colocados horizontalmente e atados em estacas. Robinson recebeu um jacto de água em cheio 27 . Noutra altura. Construiu então uma cerca. na qual fizera um orifício suficientemente grande para nele introduzir um cabo. O exame dos sacos de arroz. que depois revestiu de lianas entrelaçadas. mas a obra era ainda frágil e limitada. Os vampiros são morcegos gigantes que podem atingir setenta e cinco centímetros de envergadura e se deixam cair suavemente. se conseguisse domesticá-los. os mais úteis seriam sem dúvida as cabras e os cabritos. Robinson libertou depois as crias e aguardou vários dias. e sentia nitidamente que aquela continuava a ser uma terra hostil e selvagem.

um pequeno polvo cinzento que tinha a espantosa faculdade de expelir água pela boca com extraordinária pontaria. tirou as roupas e deixou-se escorregar para dentro da lama morna. que era vendedor de tecidos em York. com orgulho. ficou inutilizável. ao mesmo tempo que soltava rugidos de fúria. ao manejar aquela arma heroica. Poucas espigas se estragaram com este tratamento. O milho perdeu-se completamente e os terrenos onde Robinson o havia semeado foram novamente invadidos pelos cardos e urtigas. Quando chegou a altura da ceifa. vampiros e polvos. maleáveis e tenras. acima da qual voavam nuvens de mosquitos. e parecia-lhe ouvir as vozes dos pais. prosperaram e a primeira alegria que lhe deu Speranza foi acariciar as pequenas hastes. procurou qualquer coisa que pudesse servir-lhe de foice ou gadanha e acabou por encontrar um velho sabre de abordagem que decorava o camarote do comandante e trouxera juntamente com os outros despojos. Primeiro. Acabou por descobrir. A cevada e o trigo. que a sua 28 . Compreendeu então que os perigos da preguiça. Um tanto abalado pelo choque. porém. deu alguns passos. Porém. Esqueceu a ilha com os seus abutres. irmãos e irmãs. ao ar livre. atingido na cara por um segundo jacto. mas a palha partida. dispersa e espezinhada. do desencorajamento e do desespero continuavam a ameaçá-lo e que seria necessário trabalhar sem descanso para lhes escapar. mas viu-se obrigado a parar novamente. Num dia em que partira a enxada e deixara fugir a sua melhor cabra leiteira. num buraco da rocha. quis fazer o trabalho metodicamente. Ali chegado. e julgou-se de novo criança em casa do pai. como vira aos camponeses da sua terra.no rosto. joeirou o grão fazendo-o passar de uma cesta para outra. apoderou-se dele uma espécie de ardor belicoso e investiu fazendo-a rodopiar por cima da cabeça. Depois de ter extraído o grão das espigas batendo-as com um malho em cima de uma vela dobrada ao meio. Robinson entregou-se de novo ao desespero e retomou o caminho do lamaçal. Logo os vapores envenenados da água estagnada. No final verificou. num dia em que uma aragem viva arrebatava as cascas e as pequenas impurezas. o envolveram e lhe fizeram perder a noção do tempo.

no centro da ilha. ergueu paredes sobrepondo troncos de palmeiras. para não continuar a dormir a um canto da gruta. chapéu. para saber as horas. o cão do Virgínia. onde colocou uma camada de seixos que cobriu de areia branca.um tronco de árvore escavada e um ramo resistente com a extremidade arredondada . Foi então que tomou de repente a decisão de não fabricar pão com essa colheita. Na realidade. ou debaixo de uma árvore. reservando-a toda para a próxima sementeira das suas terras. depois de tirar das arcas do Virgínia as roupas nelas contidas . Mais tarde verificou que o sol só era visível do interior da habitação a certas horas do dia e que. fazendo uma grande festa por voltar a encontrar o antigo dono. Foi pouco depois desta primeira colheita que Robinson experimentou a enorme alegria de encontrar Tenn. Ao privar-se assim de pão. a louça e as lanternas retiradas do Virgínia.e o forno estava a postos para a primeira cozedura. pensava realizar um ato meritório e razoável.e algumas eram muito belas! -. o sabre e uma das espingardas pendurada na parede. nem por que razão não viera ter com ele mais cedo. E adquiriu até o hábito. A superfície exterior das paredes foi revestida com uma argamassa de argila. o óculo. Escolheu para a sua habitação um sítio ao pé do grande cedro. seria mais prático fabricar uma espé29 . A presença desse companheiro incitou-o a levar a cabo um projeto que havia muito tempo concebera: construir uma verdadeira casa. Começou por escavar um fosso retangular. estava apenas a obedecer a uma nova tendência. alguns móveis de vime. O animal saltou de uma moita a gemer e a contorcer-se de alegria. O teto fabricou-o com um entrançado de caniços revestido de folhas de árvoreda-borracha dispostas em escamas. de se vestir todas as noites para jantar com casaca. Para moer grão. preparara um almofariz e um pilão . que viria a fazer -lhe muito mal. Por cima do solo arenoso colocou um lajedo feito de pedras chatas e irregulares.colheita totalizava trinta galões de trigo e vinte de cevada. como ardósias. Robinson nunca soube como o cão passara todo aquele tempo na ilha. criaram uma atmosfera confortável e íntima de que há muito Robinson se encontrava privado. meias e sapatos. a avareza. Em cima destas fundações perfeitamente secas e permeáveis. calções justos e compridos. unidas de junco.

O garrafão levava vinte e quatro horas a esvaziar-se e Robinson fizera nas paredes vinte e quatro círculos paralelos. uma vez por mês um golpe mais profundo e. Um ano. Ergueu diante da casa um mastrocalendário: era um tronco sem casca. um relógio de água como os que existiam antigamente. Ao fim de algumas tentativas construiu uma coisa parecida com uma clepsidra. inscreveria um grande «1» relativo ao primeiro ano do seu calendário local. o mês e o número dos anos que iam decorrendo. cada um assinalado com um número. Precisava também de um calendário que lhe indicasse o dia da semana. 30 . O nível do líquido indicava assim as horas. a qualquer momento. talvez mais? Resolveu começar do zero. Perdera completamente a noção do tempo que passara desde a sua chegada à ilha. caindo numa gamela de cobre pousada no chão. ao fim do décimo segundo mês. Consistia simplesmente num garrafão de vidro transparente em cujo fundo fizera um pequeno orifício por onde a água se escoava gota a gota. dois anos. no qual fazia todos os dias um pequeno entalhe.cie de relógio que funcionasse dia e noite dentro de casa. isto é.

situada no Oceano Pacífico. como não tinha ninguém com quem falar. são-lhe conferidos todos os poderes para legislar no conjunto do território insular e das suas águas territoriais. nascido em York a 19 de Dezembro de 1737. Artigo 2º: Os habitantes da ilha são obrigados a pensar em voz alta. pôs-se diante de uma escrivaninha que concebera e construíra de modo a poder escrever de pé. e escreveu: CONSTITUIÇÃO DA ILHA SPERANZA INICIADA NO MILÉSIMO DIA DO CALENDÁRIO LOCAL Artigo 1º: Robinson Crusoe. que encontrara no Virgínia. a língua um pouco entaramelada. quando queria falar. Nessa qualidade. Ainda receava a perigosa tentação da lama que talvez o transformasse num animal. apagados pela água. abriu em seguida um dos mais belos livros. como se tivesse bebido um pouco de vinho a mais. Quando o calendário já tinha mil dias gravados. Robinson receava perder o uso da palavra. (Com efeito. é nomeado governador da ilha de Speranza. É muito difícil manter a nossa natureza humana quando ninguém está presente para nos ajudar! Os únicos remédios que ele conhecia contra esta perniciosa tendência eram o trabalho. Já começava a sentir. mas Robinson sentia cada vez maior necessidade de organizar mais eficazmente o emprego do seu tempo. Envergou um traje de cerimónia. a disciplina e a exploração de todos os recursos da ilha. entre as ilhas Juan Fernandez e a costa oriental do Chile. decidiu dar leis à ilha Speranza. A partir 31 .VIII A vida seguia o seu curso.

E.. Deu alguns passos em direção à porta. Ah. no entanto. com efeito. que abriu de par em par. No domingo de manhã às dez horas. as nuvens e também. reunirse-ão no templo para fazerem as suas orações. para os lados da praia grande. Seriam visitantes? Tirou da parede uma espingarda. uma bolsa de pólvora. Como a natureza era bela! A folhagem das árvores era como um mar verde agitado pelo vento e que se confundia ao longe com a linha azul do Oceano. estava certo de não ter deixado alguma fogueira acesa para aqueles lados.) Artigo 5º: Só o governador está autorizado a fumar cachimbo. (Ao estabelecer estas leis. fazer leis para um homem apenas. a reserva de tabaco contida no pequeno barril não duraria muito tempo e esforçava-se assim por fazê-la durar tanto quanto possível. mas apenas uma vez por semana. naturalmente. só o céu. Assobiou depois para chamar Tenn e embrenhou-se na 32 .. Infelizmente. não! Não era absolutamente azul! Robinson teve um sobressalto ao avistar. com as cabras e com Tenn. Artigo 4º: É proibido trabalhar ao domingo. em toda a ilha. no domingo à tarde depois do almoço. (Descobrira pouco antes a utilização e o prazer que lhe proporcionava o cachimbo de porcelana do capitão Van Deyssel. as pedras. absolutamente azul e sem nuvens. Todo o trabalho deve cessar às dezanove horas de sábado.) Concedeu a si próprio alguns momentos de reflexão antes de determinar as penas em que incorreriam aqueles que não respeitassem estas leis. Robinson não podia deixar de as redigir como se a ilha contasse numerosos habitantes. uma nuvem de fumo branco que se erguia no ar.desse momento. Parecia-lhe absurdo. obrigava-se a falar constantemente com as árvores. Mais para além. e os habitantes devem vestir os seus melhores trajes para jantar. imaginava que talvez um dia o acaso lhe trouxesse um ou vários companheiros. Além disso.) Artigo 3º: Sexta-feira é dia de jejum. outra de balas e o óculo.

33 .

nenhum homem branco por eles seria poupado. espesso e branco. cambaleando. com os olhos extraordinariamente afastados. Aproximava-se da fogueira. Pequenos. haviam sido puxadas para a areia seca. Robinson conhecia-os das frequentes viagens que fizera a Temuco. parecendo passá-los em revista. Teriam feito a longa travessia das costas do Chile até Speranza naquelas pirogas? Não era impossível. Este povo resistira aos invasores incas e infligira depois sangrentas derrotas aos conquistadores espanhóis. Três pirogas compridas. Mas era mais provável que tivessem colonizado uma ou outra das ilhas Juan Fernandez . Voltava depois para junto da fogueira e tudo recomeçava.e Robinson pensou logo que tivera sorte em não cair nas suas mãos. do tipo costinos. com flutuadores e balancins. pois tê-lo-iam certamente reduzido à condição de escravo. morte 34 . atirava para as chamas um punhado de pólvora e aspirava avidamente o pesado fumo branco que logo se evolava. parando ora diante de um. da qual se elevava uma coluna de fumo pesado. no meio do círculo formado pelos homens. entroncados. com a ajuda do óculo. tornava-se ainda mais estranho em virtude do costume que tinham de arrancar completamente as sobrancelhas. Robinson reconheceu. Tratava-se de uma feiticeira encarregada de descobrir entre os índios o causador de uma desgraça qualquer que atingira a tribo — doença. Uma velha. que sacudiam orgulhosamente a todo o momento. homem por homem. evitando o caminho que o levaria diretamente da gruta à praia. magra e despenteada. Uns quarenta homens estavam de pé. Sabia que se acaso tivesse estalado outro conflito com os espanhóis. formando um círculo ao redor de uma fogueira. Todos possuíam uma cabeleira negra muito comprida. os temíveis índios araucanos da costa do Chile. Voltava-se depois para os índios. ora diante de outro. adivinhava o significado da cerimónia que se desenrolava na praia naquele momento. dada a sua reputação de navegadores experimentados. ou talvez até o tivessem massacrado! Graças às narrações que ouvira na Araucanía.espessura do mato. que se mantinham imóveis. sua capital. ia e vinha. O rosto largo. usavam uma rudimentar tanga de couro.

os seis pedaços da vítima foram atirados ao fogo.. Fica subordinada ao comando do governador. Robinson aproximou-se da fogueira. Um dos outros dirigiu-se para ele. ao mesmo tempo que da sua boca muito aberta saíam maldições que Robinson não podia ouvir. Quando finalmente as pirogas desapareceram atrás das falésias. que transportavam aos pares. escolheu realmente a vítima. Felizmente. O índio designado pela feiticeira atirou-se para o chão. Artigo 6º: A ilha de Speranza é declarada praça-forte. onde os companheiros se haviam já instalado. Distinguiam-se ainda os restos do homem tão cruelmente sacrificado em consequência de ter sido declarado responsável por uma calamidade qualquer. Robinson escondeu-se rapidamente entre as árvores. sem perder de vista os homens que invadiram os seus domínios. um incêndio. cujo fumo imediatamente se tornou negro. Foi cheio de temor. Por fim. poderiam lançar-se em sua perseguição e dificilmente lhes escaparia. A feiticeira estava acocorada numa espécie de assento ornamentado. Seis deles tiraram de lá alguns odres e encaminharam-se para a floresta. Descarregou-o depois sobre ele a golpes regulares. O seu longo braço magro estendeu-se para um dos homens. Os índios desfizeram o círculo e dirigiram-se para as embarcações.e começou por atirar pelos ares a tanga do miserável. O recolher é obrigatório uma hora após o pôr do Sol. cortando-lhe a cabeça.. de arma e ferramenta .. 35 .inexplicável ou. desgosto e tristeza que Robinson voltou à sua habitação de governador e retomou a redação das leis de Speranza. Se descobrissem vestígios da sua presença na ilha. e dirigiram-se para as pirogas.uma grande lâmina que lhes serve.. uma tempestade. porém. simplesmente. sacudido por grandes estremeções de terror. de repente. instalado à ré de um dos barcos. E. simultaneamente. que assume a patente de general. pendurados de uma vara. em seguida os braços e as pernas. uma má colheita. de barriga para baixo. Ergueu o machado . Encheram os odres. a primeira nascente de água encontrava-se na orla da floresta e os índios não tiveram que penetrar muito no interior.

à luz de um candelabro feito de varinhas untadas de resina.Durante os meses seguintes. Em caso de ataque. 36 . coberto por tufos de erva assentes numa fina rede de juncos. pois espalhara armadilhas nas proximidades do fosso. manobrando-a de dentro da fortaleza.no parapeito das três seteiras centrais. Procedia-se depois ao encerramento da fortaleza. no fundo dos quais colocou um espeto afiado à chama. Por fim. sob o olhar entusiasta e atento de Tenn. Instalou primeiro uma série de poços em forma de funil e dispostos em xadrez. Robinson construiu à volta da casa e da entrada da gruta uma vedação com ameias cujo acesso era por sua vez defendido por um fosso com dois metros de largura e três de profundidade. Retirava a passadeira-ponte levadiça. onde logicamente se reuniriam os eventuais assaltantes antes de atacarem. que parecia ter compreendido o perigo que ameaçava Speranza e os seus habitantes. a barba aparada e vestindo o seu uniforme de general. Robinson preparava então o jantar. tornou móvel a pequena ponte pela qual se atravessava o fosso. Todos os dias ao entardecer. O sabre de abordagem e o machado também estavam ao alcance da mão. As duas espingardas e a pistola estavam a postos . acompanhado de Tenn. dois tonéis de pólvora que uma corda de estopa permitiria fazer explodir à distância. Finalmente. mas era pouco provável que viesse a verificar-se um corpo a corpo.e carregadas . todas as entradas eram barricadas e tocava-se a recolher. jantava lentamente. antes de tocar a recolher na sua trompa. Deslocavam-se blocos de pedra para lugares previamente calculados de modo a obrigar os eventuais assaltantes a dirigirem-se para as armadilhas. punha a mesa na sua bela casa e retirava-se para a gruta. perfumado. na orla da floresta. Voltava de lá alguns minutos depois. fazia a ronda. Enterrou depois no solo. Robinson podia fazer crer aos assaltantes que não era o único defensor da fortaleza. penteado. lavado.

Esta abundância de cereais em breve levantou o problema da luta contra os ratos.IX A este período de intensa atividade militar seguiram-se chuvas abundantes. Porém. parecia-se em todos os aspetos aos que se habitua37 . Foi tão abundante que se tornou necessário limpar e secar outra gruta. rolavam no solo soltando guinchos de raiva. redondo e pelado. o primeiro que comia desde a sua instalação na ilha. Comparando os dois cadáveres. com o qual embebeu alguns grãos de trigo. teriam sido necessários vários milhares. mergulhando-os nas águas da ribeira e assistir. Com efeito. Cegos e surdos para tudo o que os rodeava. muito negro. Robinson já não se privou da alegria de fazer pão. enquanto tivesse forças para isso. Desta vez. pois vários cabritos tinham morrido depois de os comerem misturados com a erva. Robinson extraiu deles um suco acastanhado. Acabaram por se estrangular um ao outro e morreram sem se desprenderem. Espalhou depois esses grãos envenenados pelos locais por onde os ratos passavam. teria de afogar os ratos apanhados nas ratoeiras. onde já não cabiam grãos. Certos cogumelos vermelhos com pintas amarelas deviam ser venenosos. os dois roedores. e como Robinson tencionava acumular colheita após colheita. nos caminhos e currais danificados pelas torrentes de água. Um. horrorizado. era-lhe necessário lutar contra os roedores. Foi necessário fazer muitas reparações na casa. os roedores pareciam multiplicar-se na mesma proporção em que aumentavam as provisões suscetíveis de os alimentar. Depois veio novamente a altura da colheita de cereais. perto da grande. Robinson presenciou um dia um duelo terrível entre dois ratos. Robinson apercebeu-se de que pertenciam a duas variedades diferentes. Mas estes regalaram-se com eles e nem sequer ficaram doentes. Além disso. Fabricou depois ratoeiras nas quais os animais caíam por um alçapão. à sua agonia. engalfinhados.

consideravam sua propriedade. Espalhou então dois sacos de cereal pela pradaria. Robinson compreendeu rapidamente que a primeira espécie provinha dos destroços do Virgínia e proliferara graças às reservas de cereais. habitava nos prados da ilha. Parecia que uma tempestade levantava por toda a parte pequenos jatos de areia. Ao cair da noite. Mas não foi. ao passo que a outra sempre vivera na ilha. já só restavam do rato tufos de pelos e pedaços de carne. Robinson verificou-o certa noite.ra a ver nos navios em que viajara. ao soltar na pradaria um rato preto que acabava de apanhar na gruta. Robinson viu jorrar areia na base de uma duna. Os cinzentos juntaram-se para repelirem essa súbita invasão. Os pares de combatentes rolavam como bolas vivas. As duas espécies pareciam dispor de territórios e recursos bem diferenciados. O resultado do combate era previsível. bastante parecido com os arganazes dos campos. Durante muito tempo. certamente. Quando lá chegou. Um animal que se bate no território do adversário sai quase sempre vencido. os pretos vieram em grande número recuperar os grãos que. ao mesmo tempo que uma chiadeira ensurdecedora subia do solo. apenas o ondular da erva indicava que se desenrolava uma caçada impiedosa. todos os ratos negros morreram. 38 . O outro. tendo primeiro traçado com os grãos um fino rasto que partia da gruta. Depois. A batalha desenrolou-se. Este pesado sacrifício corria o risco de se revelar inútil. mais alongado e com pelo mais espesso. a alguma distância. cinzento. Nesse dia.

Bem se esforçou. foi o seu ar sério. e deixara de saber fazê-lo: quando queria esboçar um sorriso. pôde voltar a ver o seu próprio rosto. Nessa altura sentiu um calafrio. Tenn continuava a sorrir-lhe à sua ma eira e Robinson olhava-o atentamente. Tinha a impressão de que o seu rosto era de madeira. inclinava comicamente a cabeça para um dos lados e os olhos cor de amêndoa franziam-se ironicamente. mas ninguém a quem sorrir. apesar de tudo. Tentou sorrir. Estaria Robinson a sonhar? O cão estava a sorrir-lhe! Num dos lados do focinho o lábio negro estava levantado. Ao mesmo tempo. Foi então que baixou os olhos para Tenn. os músculos não lhe obedeciam. pondo a descoberto uma dupla fila de colmilhos. No entanto. uma casa. Havia demasiado tempo que não tinha alguém a quem sorrir. acabou por compreender o que se passava. Apenas a barba estava mais comprida e muitas rugas novas lhe sulcavam agora a face. Assim. para responder a sorrir. não mudara muito. congelada numa expressão taciturna. ao tirar um espelho de um dos baús do Virgínia. uma cama para dormir. enquanto um impercetível tremor lhe agitava as comissuras dos lábios. tinha tudo de que necessitava naquela ilha: bebida e comida. Ao fim e ao cabo. e o seu rosto era como gelo. havia tanto tempo que isso não lhe acontecia que ficou muito surpreendido quando um dia. Continuou a olhar-se ao espelho com uma expressão dura e severa e o coração apertava-se-lhe de tristeza. Era por estar sozinho. Robinson agarrou com ambas as mãos a grande cabeça felpuda e as pálpebras humedeceram-se-lhe de emoção. ao dar-se conta de que não era capaz. uma máscara imóvel. 39 . uma espécie de tristeza que nunca o abandonava. Depois de muito refletir.X Robinson nunca fora vaidoso e não sentia prazer especial em se ver ao espelho. O que o inquietou. tentou a todo o custo franzir os olhos e levantar os cantos da boca. Impossível: já não sabia sorrir.

enquanto o rosto de Robinson recuperava a maleabilidade e se humanizava e. 40 . foi como que um jogo entre ambos. sorria. pouco a pouco. Robinson interrompia o trabalho. ou o passeio pela praia. De repente. ou a caçada. O cão sorria-lhe a seu modo. e fixava Tenn de certa maneira.A partir desse momento.

Devia fazer o recenseamento das tartarugas do mar. acabar a construção de uma choupana feita de fetos na orla da floresta que bordejava a baía. O trabalho da manhã começava com a ordenha das cabras e prosseguia com a visita à tapada artificial para coelhos. que Robinson arranjara numa clareira arenosa.XI Robinson não parava de organizar e civilizar a sua ilha e de dia para dia o trabalho crescia e maior era o número das suas obrigações. e constituiria um excelente posto de observação para vigiar o mar sem ser visto e. cada uma das quais tinha o seu número de matrícula. lebres com patas compridas. A seguir. Ali cultivava nabos silvestres. ao mesmo tempo. começava por se lavar e vestir. Era frequente Robinson fartar-se de todos estes trabalhos e de tantas obrigações. e para quem. Ao fim da manhã. dormia uma pequena sesta e vestia o grande uniforme de general para desempenhar as obrigações oficiais da parte da tarde. no qual içava a bandeira inglesa. luzerna e um canteiro de aveia. um retiro de sombra verde e fresca para as horas mais quentes do dia. onde se multiplicavam as trutas e as carpas. sem isso. depois lia algumas páginas da Bíblia. ia verificar o nível dos viveiros de água doce. procedia à abertura da fortaleza. Fazia oscilar a pequena ponte por cima do fosso e abria as saídas tapadas com rochas. inaugurar uma ponte de lianas audaciosamente lançada por cima de um barranco com cem pés de profundidade. em plena floresta tropical. em seguida punha-se em sentido diante do mastro. da lama dos pecaris 41 . comia rapidamente com Tenn. mas logo se lembrava dos perigos da ociosidade. Eram aquilo que se chama agutia. de maneira a reter uma família de lebres chilenas que. Perguntava a si próprio para que serviria tudo aquilo. muito grandes e com orelhas pequenas. viveriam dispersas pela ilha. De manhã. Um pouco mais tarde. por exemplo.

em que se arriscava a cair novamente. 42 . se cedesse à preguiça. e lançava mãos ao trabalho ativamente.

Só havia. e resolveu um dia meter-se por ela para ver onde iria ter. nunca empreendera a exploração do fundo da gruta. e esperou. a abertura da gruta estava situada de tal maneira que. que teriam bastado para fazer ir pelos ares toda a ilha. Por detrás dos barris de pólvora. mas a natureza da rocha tornava este projeto impraticável. avançou tão longe quanto lhe foi possível. mas avançar para o fundo da gruta com uma tocha na mão implicava correr o risco de provocar a explosão dos barris. tanto mais que deviam restar vestígios de pólvora no solo. o túnel continuava por uma espécie de galeria. À sua volta reinava a calma mais absoluta. Ora. mais ao fundo os baús com roupas. 43 . Não possuía senão tochas de madeira resinosa. as ferramentas. com a duração de um relâmpago. a pique. Sabia que o Sol estava a baixar no horizonte. que rapidamente tornaria o ar irrespirável. com uma provisão de bolos de milho e um púcaro de leite de cabra. na parte mais recuada os seus barris com pólvora negra. A exploração apresentava uma dificuldade principal. os raios do Sol poente ficavam exatamente no eixo do túnel. as armas. finalmente. e pensava por vezes nisso com certa curiosidade. Foi isso que realmente se verificou. portanto. mas dava-lhe satisfação ter toda aquela pólvora ao seu dispor: tranquilizava-o e dava-lhe uma sensação de superioridade. Por conseguinte. uma solução: aceitar a obscuridade e procurar habituar-se a ela. mesmo até ao fundo.XII Logo desde os primeiros dias. em dado momento. o ouro e. Havia ainda o problema do fumo. Por momentos teve a ideia de abrir uma chaminé de arejamento e iluminação no fundo da gruta. na falta de iluminação. as conservas de fruta e carne. No entanto. Robinson servira-se da gruta do centro da ilha para guardar o que tinha de mais precioso: as colheitas de cereais. Durante um segundo a gruta ficaria iluminada. Desde há muito que não tinha necessidade de caçar com a espingarda.

que nunca se zangava e adivinhava sempre a verdade. que não podia deixar de pensar na mãe. tinham sido como um sonho. O pai era um homem pequeno e pouco saudável. em vez de negrura! E a cavidade onde se encontrava assim acachapado era tão suave. que o embalava cantarolando. resolveu levantar-se e dirigir-se para o fundo da gruta. Não levou muito tempo a encontrar. As vinte e quatro horas seguintes passaram-se ainda mais rapidamente. Adormeceu. de repente. comeu um bolo. Fez imediatamente algumas tentativas para por ela escorregar. voltou a dormir. mas a mãe era uma mulher grande. as pernas cruzadas e as mãos apoiadas nos pés. Tinham decorrido vinte e quatro horas mas. bastando-lhe olhar para os filhos. tateando. Começava a perder a noção do tempo. estando o pai ausente. e o fogo propagou-se com uma velocidade terrível. Aí se instalou. forte e calma. Teve então a ideia de tirar a roupa toda e de esfregar o corpo com o leite coalhado que restava no fundo do púcaro. Chegou suavemente a uma espécie de nicho morno. e toda de madeira. cujo fundo tinha exatamente a forma do seu corpo agachado. As paredes da galeria eram lisas como carne. tão morna e branca.Mas foi o suficiente para que Robinson soubesse que o seu primeiro dia terminara. bebeu leite. Um dia em que ela estava no primeiro andar com todos eles. teve uma enorme surpresa: a obscuridade à sua volta tornara-se branca! Continuava a nada ver. enrolado sobre si próprio. mas o orifício era tão estreito que metade do seu corpo ficou lá preso. Mergulhou em seguida com a cabeça para a frente e. e Robinson já não sabia se estava a dormir ou continuava acordado. O pequeno vendedor de tecidos regressou a toda a pressa e pôs-se a lamen44 . mas passara a estar envolvido pelo branco. declarou-se o fogo no armazém do rés-do-chão. como uma rã pela goela da serpente. para Robinson. A casa era muito velha. com os joelhos puxados até ao queixo. o relâmpago surgiu novamente. escorregou lentamente mas com regularidade. Quando acordou. desta vez. Por fim. o que procurava: a abertura de uma chaminé vertical e muito estreita. Sentia-se tão bem assim que adormeceu logo a seguir. E.

Correu para casa. lembrava-se da noite do dia de Reis. Ou então. viu a esposa sair tranquilamente do meio de uma torrente de chamas e fumo. com os filhos todos aos ombros. às apalpadelas. enquanto via arder a casa com a mulher e os filhos lá dentro. de repente. Tenn saltitava à sua volta. Compreendeu que tinha de sair do seu buraco se não quisesse lá ficar para sempre. às costas. correndo na rua em todos os sentidos. Era a hora mais quente do dia. Amassava a farinha onde se escondia a fava que designaria o rei da festa no dia seguinte. procurou. uma de encontro à outra. De repente.tar. Estava inquieto. feliz por voltar a vê-lo. e agarrados ao avental. com a cara escondida nas mãos. parecia-lhe que toda a ilha de Speranza era um imenso bolo e que ele próprio era a pequena fava escondida no fundo da crosta. Era assim que Robinson a revia. no fundo do seu buraco. a luz do Sol lhe bateu em cheio no rosto. Teria ficado cego? Avançava a cambalear para a saída quando. ainda húmidas do leite coalhado. 45 . aquela em que até os lagartos procuram a sombra. Ergueu-se com dificuldade e içou-se pelo túnel. nos braços. sem perder tempo a vesti-la novamente. como se fosse uma árvore vergada sob o peso dos seus frutos. porque a obscuridade branca persistia à sua volta. Robinson. a roupa. A Robinson. que enrolou como uma bola debaixo do braço. tremia de frio e apertava as coxas. no entanto. mas desconcertado por o ver tão nu e tão fraco. Quando chegou à parte de trás da gruta.

para ali encontrar de novo a paz maravilhosa da sua infância. Assim. estivessem com ele. e coberto o arroz semeado com um lençol de água. A verdade é que sempre recuara perante o desmedido trabalho que acarreta a preparação de um arrozal. Mas a solidão tornava o seu esforço inútil. e perguntava-se se não seria a preguiça que o atraía. resolveu fazer uma cultura com os sacos de arroz que conservava desde o primeiro dia. voltou a descer ao fundo da gruta. com as lágrimas nos olhos. E ao cabo de dez meses. para inundar um prado.XIII Robinson desceu mais vezes à cavidade da gruta. terminado o arrozal. o arroz deve crescer debaixo de água. ou pelo menos um companheiro. e podendo ter morrido no fundo do seu buraco. Viu-se. saberia por que razão trabalhava. Se não estivesse sozinho. Robinson perguntou mais uma vez a si próprio com que objectivo se sobrecarregava com tanto esforço. e o nível desta tem de ser sempre controlado. a colheita e o descasque do arroz exigiriam muitos dias de trabalho aturado. Mas estava perturbado. obrigado a deter o curso de um ribeiro em dois locais: um a jusante. pois não havia horas nem maneira de ocupar o tempo no fundo da gruta.. se tudo corresse bem. conforme se desejasse. e outro a montante. se a mulher e os filhos. Com efeito. portanto. Mas também foi necessário construir diques e duas comportas. tal como outrora o levara a mergulhar no lamaçal. com uma derivação para poder suspender a chegada da água e proceder à secagem da pradaria. portanto. Então. que podiam estar abertas ou fechadas. Desta vez ficou lá dentro tanto tempo que por pouco não enfraqueceu demasiado para poder subir de novo. uma maneira de arranjar coragem para viver como um homem e levar por diante todo aquele trabalho que tanto o aborrecia. e por vezes modificado. Habituara-se a parar a clepsidra quando o fazia. Procurou. Para pensar noutra coisa.. 46 .

Lembrou-se de que o pai o mandava ler os Almanaques de Benjamin Franklin. e permitiriam ler o seguinte: «Se os malandros conhecessem todas as vantagens da virtude. Deu-se ainda um incidente um tanto ridículo que lhe pare47 . é difícil um saco vazio manter-se de pé. amaldiçoava a ideia que tivera. de tal maneira que. mas as inscrições que ele espalhara pela ilha não iriam agora permitir que os índios o descobrissem? Enquanto corria para a sua fortaleza seguido de Tenn. enfim. não voltaria a desencorajar-se e cederia com menos frequência à preguiça. de repente. Nesses almanaques. filósofo. Robinson pensou que se inscrevesse esses preceitos por toda a ilha. fazendo aparecer a máxima cujo teor era o seguinte: «Aquele que mata uma bácora aniquila todas as bácoras a que ela podia ter dado origem até à milésima geração. o primeiro é endividar-se. Benjamin Franklin dá preceitos morais que justificam os homens que trabalham e ganham dinheiro. Quem desperdiça uma única moeda de cinco xelins.e Robinson lembrara-se de tosquiar cada letra no dorso de uma cabra. assassina montões de moedas de ouro. teve um estremecimento de surpresa e medo: uma fina coluna de fumo branco erguia-se no céu azul! Vinha do mesmo local que da primeira vez.» Havia.» Robinson ia dar início a esta tarefa quando. se por acaso as cabras. pusessem as cento e quarenta e duas letras na devida ordem. pois a mentira monta a cavalo na dívida. sábio e homem de Estado americano daquele tempo. cortou tantas rodelas quantas as necessárias para desenhar na areia das dunas as letras que formavam a seguinte frase: «A pobreza priva o homem de toda a virtude. de maneira a tê-los sempre debaixo dos olhos.» Pequenos cavacos de pinho envoltos em estopa estavam dispostos num leito de pedras.» Na parede da gruta incrustara pequenas pedras que constituíam um mosaico onde se lia: «Se o segundo vício consiste em mentir. Por exemplo. prontos a serem inflamados. uma máxima mais comprida que as outras – com cento e quarenta e duas letras . deslocandose. tornar-seiam virtuosos por malandrice.

ceu ser um mau sinal: atemorizado por esta inesperada correria, um dos bodes mais mansos atacou-o brutalmente, de cabeça baixa. Robinson evitouo à justa, mas Tenn rolou sobre si próprio, a ganir, projetado como uma bola para um maciço de fetos. Logo que Robinson se fechou com Tenn na fortaleza, depois de colocar os blocos de rocha nos seus lugares e de retirar a ponte, começou a interrogarse sobre se a sua conduta seria razoável. Com efeito, se os índios tivessem dado pela sua presença e resolvido tomar a fortaleza de assalto, não só teriam a vantagem do número, como beneficiariam do efeito da surpresa. Em contrapartida, se não se preocupassem com ele, completamente absortos nos seus ritos assassinos, que alívio para Robinson!; quis tirar as coisas a limpo. Sempre seguido de Tenn, que coxeava, pegou numa das espingardas, pôs a pistola à cintura e caminhou sob as árvores em direção à praia. Viu-se forçado, no entanto, a voltar atrás por se ter esquecido do óculo, do qual poderia ter necessidade. Desta vez, eram três as pirogas alinhadas paralelamente na areia. O círculo de homens à volta da fogueira era, aliás, maior que da primeira vez e, examinando-os com o óculo, Robinson ficou com a impressão de que não se tratava do mesmo grupo. Já tinham cortado um infeliz aos bocados, à machadada, e dois guerreiros regressavam da fogueira, para a qual haviam atirado com os restos. Foi nessa altura que se deu um acontecimento extraordinário, certamente inesperado neste género de cerimónias. A feiticeira, que estava agachada no chão, levantou-se repentinamente, correu direita a um dos homens e estendeu para ele o seu braço abrindo muito a boca, da qual saía um jorro de maldições, que Robinson adivinhava sem poder ouvi-las. Haveria, portanto, uma segunda vítima nesse dia! Visivelmente, os homens hesitavam. Finalmente um deles, de machado na mão, dirigiu-se para o indigitado culpado, que dois outros já haviam levantado e atirado ao chão. O machado desceu uma primeira vez e a tanga de couro voou pelos ares. Um segundo golpe ia ser desferido no corpo nu quando o infeliz deu um salto e fugiu, a correr, em direção à floresta. No óculo de Robinson, parecia dar saltos sem sair do mesmo lugar, perseguido por dois índios. Na realidade, corria direito a Robin48

son com uma rapidez extraordinária. Não era mais alto do que eles mas muito mais esguio, e verdadeiramente feito para a corrida. A pele parecia mais escura, e assemelhava-se antes a um negro. Talvez fosse isso que levara a feiticeira a indicá-lo como culpado, pois em qualquer grupo de homens, aquele que não se assemelha aos outros é sempre detestado. Entretanto, ele ia-se aproximando, de segundo para segundo, e o seu avanço em relação aos dois perseguidores continuava a aumentar. Robinson tinha a certeza de não poder ser visto da praia, se não julgaria que o índio o avistara e vinha refugiar-se junto dele. Era necessário tomar uma decisão. Dentro de alguns instantes, os três índios encontrar-se-iam frente a frente com ele, e talvez se reconciliassem, passando Robinson a ocupar o lugar da vítima! Foi esse o momento que Tenn escolheu para ladrar furiosamente, na direção da praia. Maldito animal! Robinson precipitou-se para o cão e, rodeando-lhe o pescoço com o braço, apertou-lhe o focinho com a mão esquerda, ao mesmo tempo que encostava a espingarda ao ombro com a outra mão, da melhor maneira possível. Apontou para o meio do peito do primeiro perseguidor, que não estava a mais de trinta metros, e puxou o gatilho. No mesmo momento em que o tiro era disparado, Tenn fez um movimento brusco para se libertar. A espingarda desviou-se, com grande surpresa de Robinson, e foi o segundo perseguidor que deu um enorme salto e se estatelou na areia. O índio que o precedia parou, voltou para junto do corpo do companheiro, inclinou-se para ele, ergueu-o, inspecionou a primeira fila de árvores onde a praia acabava e, por fim, fugiu a toda a velocidade para o círculo dos outros índios. A alguns metros dali, num maciço de palmeiras anãs, o índio que escapara inclinava a fronte até ao chão e procurava, tateando, o pé de Robinson, para o colocar em cima da nuca, como sinal de submissão.

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XIV Robinson e o índio passaram a noite atrás das ameias da fortaleza com o ouvido atento a todos os ruídos noturnos da floresta. De duas em duas horas, Robinson mandava Tenn em missão de reconhecimento, com o encargo de ladrar se encontrasse alguma presença humana. Voltava sempre sem ter dado o alerta. O índio, que amarrara na cintura umas velhas calças de marinheiro que Robinson o obrigara a enfiar, estava abatido, sem energia, como que atordoado por causa da sua horrível aventura, bem como pela espantosa construção para a qual fora trazido. Não tocara no bolo de trigo que Robinson lhe dera e mascava constantemente favas selvagens, cuja proveniência Robinson ignorava completamente. Um pouco antes do nascer do dia adormeceu em cima de um monte de folhas secas, apertando contra si o cão, também adormecido. Robinson conhecia o hábito de certos índios do Chile de utilizarem um animal doméstico como cobertor vivo, para se protegerem do frio da noite. Surpreendeu-o, no entanto, a paciência de Tenn, de natureza habitualmente bastante arisca. Teriam os índios esperado pelo dia para atacar? Robinson, armado com a pistola, as duas espingardas e tantas balas e pólvora quanto podia transportar, deslizou para fora da muralha e dirigiu-se à beira-mar, fazendo um grande desvio pelas dunas. A praia estava deserta. As três pirogas e os seus ocupantes haviam desaparecido. O cadáver do índio morto na véspera com um tiro de espingarda fora levado. Não restava senão o círculo negro da fogueira mágica, onde os ossos se misturavam com ramos calcinados. Robinson pousou na areia as suas armas e munições com uma sensação de enorme alívio Em seguida, sacudiuo um grande ataque de riso, meio nervoso e meio louco, que nunca mais acabava. Quando parou para respirar, lembrou-se de que era a primeira vez que ria desde o naufrágio do Virgínia. Talvez tivesse reaprendido a rir por ter 50

sob o olhar atento de Robinson: tinha a mão cheia de uma serradura vermelha. Desatou a rir. Robinson. Ao aproximar-se da fortaleza. e não havia nada a fazer. Robinson viu-o desaparecer no porão. num impulso. saltou para a coberta. ergueu-se nos ares uma nuvem de poeira. Ficou zangado com a falta de pudor do selvagem e. a pequena embarcação devia lá continuar. por sua vez. O índio pousou a mão no rebordo do casco. certamente por causa da humidade. Depois de o ter obrigado a vestir novamente as calças. Depois. que ia à frente dos dois homens. deu algumas voltas ao barco. viu que a ponte caía aos bocados sempre que Tenn fazia uma tentativa para sair da sua prisão. Sempre evitara regressar ao local onde o construíra e onde sofrera tão grande deceção. com a amizade que parecia ter nascido entre ele e o cão. também. aguardando que uns braços suficientemente fortes a empurrassem para o mar! Talvez o índio pudesse ajudar Robinson a lançar o Evasão à água. As giestas haviam invadido tudo e o pequeno barco parecia flutuar num mar de flores amarelas. e o seu conhecimento das ilhas seria. O mastro caíra e algumas pranchas da coberta estavam parcialmente levantadas. com um latido de medo. desatou a correr. Tenn. ao mesmo tempo que um grande buraco se abria no flanco da embarcação. um companheiro? De repente. arrastou-o até ao Evasão. finalmente.encontrado. fechou-a e abriu-a novamente. As térmitas haviam roído completamente o Evasão. No entanto. 51 . deu um pequeno pontapé no barco. Robinson viu o índio completamente nu a brincar com o cão. lembrando-se do Evasão. demasiado grandes. que abateu imediatamente sob o seu peso. mas o casco parecia inteiro. depois. muito precioso. que o vento espalhou. Ao chegar junto do barco.

muito simplesmente. Era mau fumar cachimbo. Passados alguns meses. meio dia de repouso — não lhe era permitido comprar um dia 52 . sachar. Não queria dar-lhe um nome cristão enquanto não estivesse batizado. era mau comer mais do que a parte que Robinson lhe destinara. Assim. Resolveu. Tornara-se um servidor modelo. bater. colher. Meio soberano de ouro por mês. amassar e cozer pão. pedreiro quando construía. bem como passear completamente nu. finalmente. coser as roupas de Robinson e engraxar as botas. Sabia agora o que fazer com o ouro e as moedas que salvara dos destroços do Virgínia. dar-lhe o nome do dia em que o acolhera. Sexta-Feira sabia agora que tudo o que o amo lhe mandava fazer era bom. sacristão quando ele orava. Sexta-Feira aprendera inglês suficiente para compreender as ordens do amo. e tudo o que lhe proibia era mau. vestia uma libré de lacaio e servia o jantar ao governador. Sexta-Feira aprendera a ser soldado nas ocasiões em que o amo era general. Robinson tinha ainda razão para estar contente. Também sabia desbravar o terreno.XV Robinson interrogara-se durante muito tempo sobre o nome que deveria dar ao índio. moer. Por fim. Sabia fazer uma omeleta. pequenos objetos de uso corrente igualmente provenientes do Virgínia ou. por seu lado. À noite. lavrar. Foi assim que o segundo habitante da ilha passou a chamar-se Sexta-Feira. transplantar. estava muito contente por ter finalmente alguém a quem mandar trabalhar e a quem ensinar a civilização. batedor quando caçava e a abanar o mata-moscas quando ele dormia. comprava comida suplementar. Sexta-Feira. ceifar. ia estender-se numa liteira que encostava à porta de casa e que partilhava com Tenn. Com esse dinheiro. semear. Pagava a Sexta-Feira. transportador quando viajava. Robinson. Passava-lhe depois pelos lençóis uma caixa de ferro cheia de brasas. ou esconder-se para dormir quando havia trabalho a fazer.

53 .

e logo que o seu movimento é interrompido por um obstáculo. atados a cordões ligados em estrela. Por fim. provocava uma fumarada nauseabunda que empestava a casa e as roupas. Sexta-Feira teve a ideia de aproveitar a voracidade de uma colónia de grandes formigas vermelhas que descobrira perto de casa. Todos os restos depositados no meio do formigueiro eram devorados em menos de nada. que Sexta-Feira levava atrás de si. Sexta-Feira limpava e embelezava Speranza. ou matá-las. naturalmente. constituem uma arma formada por três seixos redondos. ordenhá-las. Os pequenos carnívoros desenterravam tudo o que ele enterrava e as marés voltavam a depositar na praia tudo o que atirava ao mar. abrigado sob um guarda-sol feito de pele de cabra. Mostrou depois a Robinson que também podiam servir para capturar cabritos e mesmo aves pernaltas. Sexta-Feira soubera despertar a benevolência do amo com várias boas ideias. Vinha depois o almoço. era o dia mais belo da semana. Arrancava as ervas dos caminhos. 54 . Sexta-Feira ensinou igualmente a Robinson a servir-se das bolas. caminhava majestosamente por toda a ilha. aparava árvores de ornamentação. se os queimava. De manhã. giram como estrelas de três pontas.inteiro. mais demorado e suculento que durante a semana. Depois. Da parte da tarde. Muito divulgadas na América do Sul. Lançados com perícia. O domingo. plantava flores defronte da casa. os rebanhos e as construções em curso. Felicitava ou censurava. os arrozais e os pomares. o servo do governador levava-lhe uma espécie de bengala que se assemelhava simultaneamente ao cetro de um rei e ao báculo de um bispo. fazia projetos para os anos futuros. Sexta-Feira atirava as bolas às pernas das cabras que queria imobilizar para tratar delas. e os ossos ficavam imediatamente descarnados e secos. Uma das grandes preocupações de Robinson era desembaraçar-se do lixo e detritos da cozinha e da oficina. E não sabia como fazê-lo. Fizera uma cama de rede que prendera entre duas árvores e onde passava todo o tempo livre. sem atrair os abutres e os ratos. dava ordens para a semana seguinte. inspecionando os campos. envolvem-no e amarram-no solidamente.

pela primeira vez. 55 . era suficientemente leve para Sexta-Feira poder erguê-la acima da cabeça à força de braços e foi assim. mas que implicava o risco de tudo comprometer se a árvore se incendiasse. processo que tinha a vantagem de apressar consideravelmente o trabalho. o tronco de um pinheiro de grande diâmetro e muito direito. Deram depois. Robinson. que desceu para a praia. acompanhados de longe por Tenn. ao longo da margem. Exercitaram-se durante muito tempo no mato. Quando. Quando a piroga ficou pronta. que corria. como se tivesse a cabeça enfiada num capucho de madeira. ficou-lhe grato por poder aumentar o seu arsenal com esta arma silenciosa. com Tenn a correr-lhe à volta das pernas e seguido de longe por um Robinson resmungão. utilizando como alvo um tronco de árvore com a grossura de um homem. ladrando. não se metia nisso. e contentava-se em ver trabalhar o companheiro. de resto. o índio teve a ideia de fabricar para os dois uma piroga semelhante às que existiam no seu país. Era um trabalho lento e paciente. a volta à ilha por mar. ainda vexado pelo seu fracasso. que continuava a temer um regresso ofensivo dos índios. no entanto. Por último.convenceu-o de que. o pequeno barco começou a dançar sobre as ondas. Começou a desbastar. fácil de substituir e. pôs de lado esse processo. poderia servir-se das bolas como de uma arma terrível. e executou a parte final do trabalho servindo-se de um simples canivete. mortífera. que em nada se assemelhava à pressa febril com que Robinson construíra o Evasão. Robinson viu-se forçado a renunciar à inveja. se utilizasse seixos maiores. tomou lugar atrás de Sexta-Feira e pegou num dos remos curtos e leves que o índio fizera com ramos de araucária. Robinson. capaz de arrombar o peito de um homem depois de quase o ter estrangulado. Depois. SextaFeira começara por fazer lume sob a parte do tronco que queria desbastar. com o machado. porém.

XVI Aparentemente. Sexta-Feira trabalhava arduamente. Assim. A ilha prosperava ao sol. Sexta-Feira era dócil por gratidão. bem via que Sexta-Feira. e Robinson reinava como um senhor. aqueles códigos. ora perpetrava. nenhum dos três era feliz. Impossível fazer com que Sexta-Feira o compreendesse! Ora dedicava a um animal qualquer uma amizade entusiasta e absurda. não aprovava aquela ilha demasiado bem administrada e que era a obra da sua vida. para se multiplicarem. Robinson. dormia sestas cada vez mais longas. Por exemplo. os pomares e as casas que iam sendo construídas de semana para semana. Queria agradar a Robinson. mas logo que tinha um momento livre só lhe dava para a asneira. que lhe salvara a vida. intimamente. tudo corria bem. Tenn. Não havia dúvida de que Sexta-Feira fazia o melhor que podia. que envelhecia. era necessário destruí-los da maneira mais expedita possível. Mas não compreendia nada de toda aquela organização. Os úteis deviam ser protegidos. Robinson bem lhe explicara que assim se procedia na Europa. sobre outros. que Sexta-Feira tomara sob sua proteção. Quanto aos prejudiciais. apanhou e começou a criar um casal de ratos! Até mesmo Tenn compreendeu que devia deixar em paz aqueles horríveis animais. os animais ou eram úteis. com as suas culturas. porém. dos animais domesticados e das casas. Robinson teve dificuldade em se desfa56 . mas Sexta-Feira não via por que razão se devia fazer a mesma coisa numa ilha deserta do Pacífico. nos países civilizados. atos de uma crueldade monstruosa. quer fosse útil ou prejudicial. um dia. por seu lado. Não via qualquer sentido em tudo aquilo. os rebanhos. aquelas cerimónias. Para Robinson. ou prejudiciais. e nem sequer a razão de ser dos campos cultivados. Na realidade. em relação aos animais comportava-se de maneira absolutamente incompreensível.

zer deles. os ratos não se atreveram a atirar-se à água para voltarem à ilha. Pôs os ratos em cima da tábua. mas o regulamento exigia que o governador fosse prevenido. A tartaruga não estava morta. De repente. Agarrados àquele barco improvisado. Uma vez. Como se Tenn lho tivesse contado! De outra vez. naturalmente. com a indicação da hora e local escolhidos. Os ratos voltaram à praia a nado e regressaram a casa. seguida de Tenn. a tartaruga rolou na areia. Mergulhou em seguida nas ondas. Isso destinava-se a evitar qualquer confusão com as fogueiras rituais dos índios. e agitava furiosamente as quatro patas no ar. Robinson insistiu. Não era proibido acender fogueiras na ilha. Robinson julgou mesmo ouvir uma tosse um pouco rouca. mas Robinson percebeu que ele sabia tudo. colocara uma grande tartaruga. mas desta vez utilizando uma artimanha que resultou plenamente. largando a carapaça. do lado da praia. que corria atrás dela a ladrar. que devia ser a sua maneira de gritar. que podiam voltar a qualquer momento. Apoiou-se nas suas quatro patas e correu para o mar. SextaFeira nada disse. e pousou-a na água. voltada de costas. despegar-se do corpo do animal. Entretanto. levou-os na piroga e atirou-os ao mar. Não compreendeu logo a estranha ocupação a que Sexta-Feira se entregava. levou também uma tábua bem seca. Sexta-Feira desapareceu durante várias horas. Sexta-Feira cortava com uma faca os bocados que ainda estavam colados ao interior da carapaça. Em cima de um tapete de cinzas ainda ao rubro. depois de ter assobiado a Tenn. Robinson preparava-se para partir à sua procura quando viu uma coluna de fumo erguerse por detrás das árvores. Robinson levantou-se. tornar-se quase chata e. era certamente porque o que ia fazer lhe desagradaria. suspirando e dirigiu-se para a praia. Fazer gritar uma tartaruga! Era preciso o índio ter o diabo no corpo! Quanto ao objetivo da horrível operação. 57 . só o compreendeu ao ver a carapaça da tartaruga ficar rígida. e a corrente levou-os para o largo. Além dos ratos. Se Sexta-Feira se esquecera de prevenir Robinson.

— Pássaro doente. sentiu o estômago contrair-se-lhe de nojo. que o animal engolia com avidez. Sexta-Feira começou por lhe dar pedaços de carne fresca. desta vez tratava-se de um pequeno abutre que os pais haviam abandonado. Sexta-Feira pôs então a apodrecer ao sol pedaços de tripas de cabra. a moela tornara-se saliente como uma bola dura. que fervilhavam na carne nauseabunda. sempre que alguém se aproximava dele. Mas pouco depois. — É um escudo. mastigar. Era necessário encontrar outra coisa. e até as bolas grandes são repelidas sem o partir! Robinson zangara-se muito com Sexta-Feira por causa da sua crueldade nesta questão do escudo. explicou ele a Robinson. Era um animal horrível. as patas pesadas e desajeitadas e o pequeno corpo pelado e torcido como o de um enfermo. Abria muito o enorme bico. — Vermes vivos demasiado frescos — explicou ele. deixou escorrer para o bico do pequeno abutre a pasta branca e espessa resultante da sua mastigação. larvas brancas e gordas. Por fim. que agora parecia um enorme prato um pouco encurvado. com a cabeça desproporcionada. Meteu-as em seguida na boca e mastigou-as demoradamente. piando. para os pássaros pequenos. Um pouco mais tarde. Robinson. Infelizmente. A verdade é que não conseguia digerir aquela carne demasiado fresca. o abutre começou a mostrar sinais de doença. Neles apareceram. Dormia o dia inteiro e sob a rala penugem. admirava os sacrifícios que SextaFeira era capaz de fazer quando resolvia ajudar um animal. estendia-o. amanhã será comida pelos caranguejos! Pôs-se depois a esfregar com areia a parte de dentro da carapaça. Mastigar sempre. porém. É assim que os fazemos na minha terra. Necessário mastigar. teve ocasião de verificar até que ponto Sexta-Feira podia ser bondoso e dedicado para com um animal que adotasse.— Ela faz mal — disse tranquilamente Sexta-Feira —. e fugiu para não vomitar. porém. Nenhuma flecha consegue atravessá-lo. os olhos exorbitados. 58 . que o observava. No fundo. pouco depois. Sexta-Feira apanhou-as com uma concha.

Sexta-Feira ficou muito surpreendido por não encontrar Robinson. Os seus olhos pousaram num cofre que estava debaixo da mesa de Robinson — fechado. Robinson gostaria que a noite nunca acabasse. havia as couves para regar. nem de governador. no cimo do cedro gigante. que as férias durassem sempre. abraçados diante da porta. mas não à chave — cujo conteúdo já tivera ocasião de explorar. dirigindo-se depois para a gruta. Mas como Robinson não estava lá. Era como se fossem férias. justamente. pareciam dormir. e Sexta-Feira só obedecia ao seu coração de índio. No dia seguinte de manhã. como era seu hábito. como era noite. Arrastou-o pelas lajes e pô-lo ao ombro. em resumo. Tinha esperança de que. 59 . Lá fora não havia um sopro de vento e as árvores completamente imóveis. tal como Sexta-Feira e Tenn. o trabalho e as cerimónias o distrairiam suficiente mente para não voltar a sentir necessidade daquela espécie de droga. nem de cerimónias. Robinson não voltara ao fundo da gruta. não havia necessidade de trabalhar. seguido de Tenn. todas as suas preocupações e obrigações. graças ao seu novo companheiro. ao pé da gruta. Saiu depois. a vida na ilha. abriu em seguida a porta e passou por cima dos corpos de Sexta-Feira e Tenn. a noite nunca acabava e o sono durava sempre. Mas sabia que o dia ia chegar e com ele. Robinson sentiu-se invadido por uma sensação de grande felicidade. todas essas obrigações de homem branco deixavam de existir. Ora uma noite acordou a meio do sono e não conseguiu voltar a adormecer. e sentia-se de muito bom humor. Levantou-se e foi parar a clepsidra. nem de general. Com efeito.XVII Desde que Sexta-Feira aparecera. Dormira duas horas a mais por que o amo não o acordara. ao fundo da qual. nem de uniformes. as cabras para ordenhar e uma pequena cabana de observação a acabar. Que fazer? Na verdade.

lá onde a grande pradaria acabava e começavam as areias. na sua variedade e simplicidade. caudas. desta vez para o mar. enquanto Tenn corria e latia alegremente à sua volta. que as grandes joias complicadas que pendurara nos cactos. aquela multidão de grandes damas. por fim. Durante mais de uma hora entreteve-se a vestir as insólitas plantas. chapinhava na água com as quatro patas e voltava para Sexta-Feira. trombas. Depois atirou. Chegaram assim perto do arrozal. e dirigiu-se para as dunas que o separavam da praia. xailes. As dobradiças da tampa saltaram e uma porção de tecidos preciosos e joias cintilantes espalhou-se em desordem junto aos catos. e encontrou até. colares. Sexta-Feira apanhou uma pedra achatada e lançou -a ao rés da água para fazer ricochete. bocados de madeira. Atirava-os a Tenn. que brilhava ao sol como um espelho líquido. brincos. como se fizessem vénias ou dançassem um bailado fantástico e imóvel. enfiou-lhes vestidos. sem 60 . Dir-se-ia um cortejo de manequins de cauchu verde. Ria muito e pôs-se a imitar aqueles homenzinhos e mulherzinhas absurdos. Como era belo. deixando-se arrastar pela rebentação. Sexta-Feira nunca teria pensado em vestir-se com aquelas roupas. com capas. raquetas. mas achou divertido enfiá-las nos catos. sombrinhas. prelados. Voltou depois as costas aos catos vestidos. do tamanho de homens.A noroeste da ilha. com que completou a ilusão. sozinho com o sol e o cão. e o cão deitava-se às ondas. que tinham todos formas vagamente humanas. eriçados de picos com bolas. cobriu-as com pulseiras. com liberdade para fazer o que lhe apetecesse. calças. Contemplou depois a sua obra. bastante mais bonitos. florescia uma plantação de catos e cactáceas que exibiam as formas e silhuetas mais bizarras. correndo na areia branca e pura da praia. chapéus. A pedra saltou sete vezes antes de desaparecer. longe do enfadonho Robinson! Apanhava seixos cor de malva. feliz. O tempo estava magnífico e Sexta-Feira cantava. diademas. Sexta-Feira atirou ao chão o cofre. azuis ou pintalgados. luvas e. que pareciam contorcer-se nos seus sumptuosos atavios. lornhões e leques. assim nu e feliz. mordomos e monstros estapafúrdios. que corria atrás deles a ladrar e lhos trazia de volta. que lhe magoava o ombro. gesticulando e saltitando. no fundo do cofre.

fazendo movimentos desesperados. Sexta-Feira deixou-o a sacudir-se da lama e dirigiu-se. Estava quase a afogar-se. Enfiou uma vara no primeiro furo da peça e serviu-se dela como uma alavanca. a dançar. 61 . Correu à comporta que servia para esvaziar a água. Logo a água começou a correr do outro lado da comporta. mas Tenn pôde chegar. e patinhava na lama. mas tornou a cair pesadamente e começou a debater-se. Deu meia volta e procurou regressar para junto do índio. Com um primeiro salto soltou-se da lama. ao pé do dique. a cultura de arroz estava a seco. O impulso atirou-o a uma vintena de metros. Alguns minutos depois. Sexta-Feira debruçou-se para a água suja e perigosa. mas já não conseguia sair dali. O que Sexta-Feira não previu foi que Tenn se lançasse à água para ir buscar a pedra. para a floresta. ao mesmo tempo que o nível do arrozal baixava rapidamente. A colheita estava perdida. Iria saltar para salvar Tenn? Teve outra ideia. com todas as suas forças. a água não era suficientemente profunda para que pudesse nadar.produzir salpicos. trepando.

XVIII Quando Robinson saiu da gruta. a bater a floresta virgem. fechou a comporta de evacuação da água do arrozal e abriu o canal de alimentação. e depois ao arrozal. numa pequena clareira. Tinha. remexia nos maciços de arbustos. nada daquilo teria acontecido. Pelo sim pelo não. via-se uma engraçada boneca de palha entrançada. não ficou muito surpreendido por não encontrar Sexta-Feira. portanto. onde permanecera cerca de trinta e seis horas. o que devia ser o acampamento secreto de Sexta-Feira. de quem se sente culpado. no meio das mais atrozes picadelas. onde a sementeira do ano secara ao sol. Foi assim que descobriu. que compreendera perfeitamente a necessidade de encontrar Sexta-Feira. uma rede de lianas forrada com uma almofada e um colchão de ervas secas. as roupas e as jóias. primeiro à plantação de catos e cactáceas. entre duas árvores. enfiava-se nos matagais. A verdade é que. Sexta-Feira fabricara uma namorada! Por fim Robinson viu. O cão. e foi ele que levou Robinson. com toda a evidência muito confortável. o pobre Tenn. Começou. onde se exibiam as mais belas roupas e todas as joias do Virgínia. e ladrava para avisar Robinson quando encontrava alguma coisa. com a ajuda de Tenn. um ar preocupado. seguindo pistas cujo cheiro evocava o do índio. com cabeça de madeira e longos cabelos de ráfia. de resto. resolveu partir à procura de Sexta-Feira. No dia seguinte. A sua cólera desvanecera-se e a ausência do companheiro inquietava-o. Só Tenn o aguardava fielmente à entrada da casa. Era uma cama suspensa. Havia. Talvez o arroz ainda voltasse a pegar? Depois passou todo o dia a tirar dos cactos. para não estar sozinho. Depois. pendurados perto da rede e à mão de quem 62 . o que de mais belo possuía na ilha. ou seja. Estava tanto mais furioso quanto ele se sentia um pouco culpado: se não tivesse descido à gruta. sentada numa espécie de cadeirão de ramos de árvores ligados uns aos outros. Robinson encheu-se de cólera.

com o nariz encostado a um dos troncos. inúmeros objectos. De repente. etc. e sempre a rir às gargalhadas. Assim. uma zarabatana. simultaneamente úteis e divertidos. peles de serpente secas. Este agitou-se. para se lavar nas ondas. Parou. Desenhara no corpo todo. O índio dissimulara a cabeça sob um capacete de folhas e flores. ao ver como Sexta-Feira parecia ser feliz e divertir-se sem ele! De que serviam então todos os trabalhos e todas as obrigações que impunha a si próprio dia após dia? Sexta-Feira não podia estar longe. por fim. havia uma flauta de cana. com as orelhas levantadas e o pescoço estendido. enrolando-se. uma espécie de pequena guitarra. Robinson ficou espantado e invejoso. e Sexta-Feira rebentou a rir. com suco de jenipapo — planta que deita tinta verde quando se parte uma haste —. pequenas flechas. cocares de penas como os que usam os Peles-Vermelhas da América do Norte. executou uma dança triunfal à volta de Robinson e depois fugiu direito ao mar. Tenn ficou imóvel perante um maciço de magnólias invadido pela hera. 63 . Assim disfarçado de homem-planta. ramos e folhas que se espalhavam pelas coxas e pelo dorso. e depois avançou pé ante pé.nela estivesse deitado. a toda a velocidade. com os quais o índio devia distrair-se durante as sestas.

Robinson pegou. melhor ou pior. Depois. que continua a segurar na mão? Atira-o com toda a força para o fundo da gruta. Prepara-se para tirar nova fumaça do cachimbo quando ouve ao longe gritos e latidos. por seu lado.XIX A vida retomou o seu curso. expulsa dos pulmões uma nuvem azul que se dilui na luz fraca que provém da entrada da gruta. Descobrira o esconderijo onde Robinson guardava o pequeno barril de tabaco e o comprido cachimbo do capitão Van Deyssel. ergue o chicote. Em seguida. tira longas fumaças do cachimbo. Se Robinson desse com ele. Robinson regressara mais cedo que o previsto. Sexta-Feira levanta-se e encaminha-se para o castigo que o espera. Sempre que tinha ocasião. Fumar era um prazer que Robinson já só muito raramente se permitia. Construíra aí uma espécie de canapé. certamente o puniria com severidade. Nesse dia. Sexta-Feira fingia que trabalhava arduamente para manter a civilização. De repente. onde se encontram os barris de pólvora. Robinson descera à beira-mar para inspecionar as redes colocadas no fundo e que a baixa-mar acabava de pôr a descoberto. porque já quase não tinha tabaco. Sexta-Feira pôs o pequeno barril debaixo do braço e foi instalar-se bem ao fundo da gruta. no chicote. Quando vê Sexta-Feira. corajosamente. Este está furioso. portanto. para: que fazer do cachimbo. Só Tenn não fingia que dormia a sesta durante todo o dia. Meio deitado para trás. ia fumar uma cachimbada na gruta. Ouve-se um estalido. vai ao encontro de Robinson. Tenn ladra. com tonéis cobertos de sacos. É nesse momento que os quarenta barris de pólvora explodem. arranjara um novo passatempo. e chamava por ele com voz ameaçadora. Com certeza que se apercebeu do desaparecimento do pequeno barril de tabaco. nas grandes ocasiões. Uma torrente 64 . Robinson continuava a fingir que era o governador e general da ilha. Sexta-Feira. À medida que envelhecia ficava cada vez mais gordo e lento.

como se fossem peças de um jogo de construções. ainda tem tempo para ver as enormes rochas do topo da gruta rolarem umas por cima das outras. arrastado. 65 . Robinson sente-se levantado no ar.de chamas vermelhas jorra da gruta. e antes de perder os sentidos.

haviam voado em estilhaços como resultado da explosão. mas estava sujo de lama. A muralha da floresta desmoronara-se no fosso que a bordejava. Este não tinha nenhum ferimento. Levantou-se e. que se encontrava no meio de vários objetos domésticos despedaçados. contorcendo-se um pouco. A seguir. por sua vez. O índio sorriu e levantou-se. Aterrorizadas com esta segunda explosão. o mastro-calendário . Robinson.XX Ao abrir os olhos. Desatou a rir e. Sob a espessa camada de lama. o banco. Apanhou depois um pedaço de espelho. ao vê-lo mexer-se. arrancou os farrapos carbonizados ainda agarrados ao seu corpo. apenas algumas contusões. pela barba e pelo peito. Logo uma parte da camisa e a perna esquerda das calças caíram por terra. depois de deitarem abaixo a cerca do curral. e a sua bela barba ruiva ficara meio queimada. como loucas. A entrada da gruta estava obstruída por um amontoado de rochedos. A casa ardia como uma tocha. outra terrível explosão os atirou novamente por terra. Fora um dos barris de pólvora que Robinson enterrara no caminho. as cabras precipitaram-se em molho na direção oposta. e a água escorria à volta da boca. Um deles formava como que um pico acima do caos e dele devia desfrutar-se uma vista extraordinária da ilha e do mar. mirou-se fazendo caretas e estendeu-o a Robinson. cerrava os dentes. porém. com o cordão de estopa que permitia fazê-lo detonar à distância. Galopavam agora em todos os sentidos. muito mais próxima. Robinson olhava à sua volta e apa66 . Todas as outras construções . o redil. a primeira coisa que Robinson viu foi um rosto inclinado para ele. Deu alguns passos. Iam dispersar-se pela ilha e regressar ao estado selvagem.o templo. uma chuva de calhaus e raízes redemoinhou à sua volta. esfarrapadas e sujas. desembaraçou-se do resto da roupa. Os dois homens contemplavam aquele panorama de desolação quando um montão de terra subiu para o céu a uma centena de metros e. no côncavo da mão direita. meio segundo depois. poeira e terra que o cobria. Sexta-Feira segurava-lhe a cabeça com a mão esquerda e tentava fazê-lo beber água fresca. dando nova gargalhada.

a seguir ao naufrágio. Assim. Abateu-se no meio da floresta. A noite caía e eles acabavam de encontrar um objeto intacto — o óculo — quando descobriram o cadáver de Tenn debaixo de uma árvore. o grande cedro não conseguira resistir ao vento noturno. todas as provisões que acumulara na gruta. Robinson e Sexta-Feira puseramse de pé num salto. e Robinson lembrou-se de que fora a primeira coisa que comera na ilha. 67 . Partilharam depois um ananás selvagem. Não era a Lua a mover-se. as culturas. estenderam-se junto do grande cedro. tão velho e tão fiel! Talvez a explosão o tivesse feito morrer de medo muito simplesmente! Levantou-se vento. mas não tivera coragem de a destruir. mas sim a árvore que desabava. cestos sem fundo. conduziria o jogo. Por fim. E.nhava maquinalmente os objetos que a gruta vomitara antes de se fechar: uma espingarda com o cano torcido. Sexta-Feira apalpou-o com atenção. Nesse mesmo momento. não tinha nada quebrado. esmagando dezenas de arbustos sob o seu peso. Aparentemente. as construções. Pobre Tenn. toda a obra realizada na ilha. estremeceu quando o viu espalhar às mãos-cheias o pouco trigo que ficara dentro de uma panela. não lhe queria mal. Minado pela explosão. mas em vez de. tentando dormir. ouviu-se um terrível ruído seco. como Robinson os arrumar junto do cedro. logo a seguir. Robinson sentia curiosidade sobre o que iria passar-se e compreendia que seria SextaFeira quem. de repente. tudo se perdera por culpa de Sexta-Feira. enquanto olhava a Lua por entre os ramos negros do cedro. Robinson deixou-o à vontade mas. eram ambos livres. SextaFeira imitava-o. apesar de tudo. daí em diante. Depois parou e. recomeçou a deslizar no céu negro. no entanto. a criação de animais. A verdade é que havia muito que se fartara daquela organização enfadonha e preocupante. e o solo estremeceu com o choque do enorme tronco. Continuava a olhar o céu e a refletir quando viu. acabava de os destruir. Agora. sacos rotos. Foram ambos lavar-se ao mar. e até parecia ter escapado ileso. Robinson refletia. a Lua deslizar muito depressa por detrás de um ramo e reaparecer do outro lado.

A princípio ficava todo encolhido. a lançar bolas. Faziam corridas na areia. certamente o método menos trabalhoso que existia. Assim. com Robinson. Quando tinha de se expor ao sol cobria-se dos pés à cabeça. separava-se depois desse ponto de apoio e partia. O seu corpo também se transformara. Depois descontraíra-se. o produto daquele género de caçada. à beira-mar. quase rapado. Tinha agora orgulho do seu peito desenvolvido e dos músculos salientes. como fazia o companheiro. Robinson também aprendera a andar apoiado nas mãos. como a de uma galinha depenada. Já não tinha nada da aparência de um governador. pesadão. quase irmão de Sexta-Feira. 68 . no salto em altura. nunca esquecia o grande guarda-sol de pele de cabra. Atirava-lhes então flechas com a zarabatana e à noite assava. que acabou por cobrir toda a cabeça de caracóis dourados. pelo contrário. desafiavam-se a nadar. a pele estava mais rija e adquirira um tom acobreado. Robinson. uma grande barba.XXI Sexta-Feira deu início à nova vida com um longo período de sestas. Começava por encostar os pés a um rochedo. tanto mais que era ruivo. além disso. por seu lado.e deixou crescer o cabelo. e ainda menos de general. e. já ficara bastante estragada com a explosão . De um momento para o outro parecia muito mais novo. Sempre receara as queimaduras do sol. de resto. que lhe dava o aspecto de avô. punha um chapéu e. Usara até aí o cabelo muito curto. Mexia-se tão pouco que os pássaros vinham pousar nas árvores mesmo ao pé dele. transformava-se completamente. Passava dias inteiros na rede de lianas entrançadas que amarrara entre duas palmeiras. começou a expor-se nu ao sol. encorajado pelos aplausos de Sexta-Feira. Cortou a barba – a qual. conservava a pele branca e fina. numa posição feia e envergonhada. Exercitava-se com Sexta-Feira em todo o género de jogos. Encorajado por Sexta-Feira.

Sexta-Feira. como a aveleira. pondo a haste a balouçar sobre a aresta de uma pedra. para as pontas não se servia de pedra ou metal. Pegou numa particularmente comprida . para o proteger. Robinson ficou a ver Sexta-Feira atirar as flechas em direcção ao Sol.ultrapassava dois metros . como gaivotas. aprendia como se deve viver numa ilha deserta do Pacífico. cuja elasticidade aumentava a da madeira. Em breve conseguia fazê-las com um metro e meio de comprimento. Robinson acabou por compreender que Sexta-Feira não procurava obter projéteis precisos e fortes. acima de tudo. a haste e as penas. Fixava a um arco simples lâminas de chifre de bode. O que ele queria. mas sim de ossos. era para poder atirar flechas cada vez mais compridas. apontando para cerca de quarenta e cinco graus na direcção da floresta. era que as suas flechas voassem o mais alto possível. realmente. Por outro lado. o amaranto. Fez primeiro arcos simples. o sândalo. ao afrouxar.mais potentes e duradoiros. Retesou depois o arco com todas as suas forças.Mas. Sexta-Feira colocava nas suas flechas tantas quantas podia. Cada flecha compõe-se de três partes: a ponta.com penas de albatroz ao longo de pelo menos cinquenta centímetros da haste. principalmente omoplatas de cabra. durante o máximo de tempo e atingindo a maior distância. Mas era sobretudo ao fabrico de flechas que dedicava a maior parte do seu trabalho. a copaíba. Não há nada mais importante para a eficácia de uma flecha que a relação entre o peso da ponta e o das penas da outra extremidade. mas sim pelo prazer de as ver planar no céu. A flecha subiu até 69 . roçou a braçadeira de couro em que ele envolvia o antebraço esquerdo. destinados a enterrarem-se no corpo das aves ou dos coelhos. Sexta-Feira passava horas a equilibrar estes três elementos. utilizando penas de aves ou folhas de palmeira. nas quais recortava as pontas em forma de pequenas asas. segundo a técnica chilena. Depois. pois se aumentava constantemente a força dos arcos. com as madeiras mais maleáveis. passava muitas horas a fabricar arcos e flechas. Um dia em que um vento forte provocava grande ondulação. A corda. via o que ele fazia e. fabricou arcos compostos – feitos de várias peças . Por exemplo. observava Sexta-Feira. Não disparava as flechas para matar. graças a ele.

em vez de descer sobre a praia. Ali pareceu hesitar mas. Ao desaparecer por detrás das primeiras árvores. foi arrastada pelo vento e dirigiu-se para a floresta. mas porque aquela não voltará a cair. com um sorriso feliz a iluminar-lhe o rosto. Sexta-Feira voltou-se para Robinson. 70 . — Ela vai cair em cima dos ramos e não vais encontrá-la — disse Robinson.pelo menos cem metros de altura. — Não vou encontrá-la — disse Sexta-Feira —.

conforme o tamanho. no princípio da sua estada na ilha. mas isto não era indispensável. Robinson mandava Sexta-Feira cozinhar tal como aprendera no seio da sua família. A camada de argila devia ter um a três centímetros de espessura. a maior parte das aves que agora comiam eram preparadas por Sexta-Feira na argila. pois eram necessárias muitas brasas. por exemplo.XXII Antes da explosão. Sexta-Feira esvaziava-a e metia-lhe depois sal no ventre. sobretudo. mas fosse onde fosse. prato preferido dos ingleses daquela época. naturalmente. Depois. preparava argila molhada — não demasiado mas o bastante para ser fácil amassá-la e modelá-la — e estendia-a. no meio das brasas. metia a bola de argila no buraco. Agora. Era a maneira mais simples e divertida de cozinhar uma galinha ou qualquer outra ave. o ideal era comer o melhor possível. inventava. sem necessidade de uma cozinha. porém. de modo a ficar homogénea e lisa. Quando a bola estava bem rija. em York. se vira obrigado a assar a carne sobre uma fogueira. e mesmo um pouco de recheio. enrolava esta massa à volta da ave. 71 . Sexta-Feira ensinava-lhe receitas características das tribos araucanas. Mantinha o fogo aceso durante uma hora ou duas. pimenta e ervas aromáticas à vontade. ou de utensílios especiais. Depois. Para Sexta-Feira. tirava-a do buraco e partia-a. muito simplesmente. Num buraco qualquer acendia uma fogueira com lenha bastante abundante. tenra e saborosa. encerrando-a bem na pasta e fazendo uma bola de argila semelhante a um grande ovo ou a uma bola de râguebi. A explosão destruíra os pratos e as caçarolas que havia na ilha. Não lhe arrancava as penas. e a qualquer hora. Assim. ou outras que. E. Quando o lume estava bem pegado. A argila secava e endurecia como um pote de barro. depressa se voltara para receitas que se aproximavam da carne de vaca cozida. As penas ficavam coladas à argila e a ave como se tivesse sido assada no forno. Se.

conforme desejava ovos quentes. Quanto aos ovos. Sexta-Feira ensinou-lhe que se podia dispensar a caçarola e a água. mas também carne. Furando-os de um lado ao outro com uma haste pontiaguda e fina. e é necessário que o cimo — de onde a seiva sai — seja colocado mais alto que a base. A carne recheada com marisco tinha um sabor delicioso. estas misturas são possíveis. Untava com ele frutos que assava no espeto. confecionou uma espécie de espetada de ovos que fazia girar acima do lume. antes de pôr uma fatia de pecari a grelhar.Mas o que mais agradava a Sexta-Feira nesta maneira de proceder. Sexta-Feira mostrou-lhe que às vezes. Quando se abate esta árvore e se cortam as folhas. ou seja. com forma de quilha. Sexta-Feira mostrou a Robinson que expondo ao lume este melaço. era que se partia sempre a bola de barro em que a ave era metida. por exemplo. e não havia. com a condição de se humedecer o corte com regularidade. portanto. durante mais ou menos tempo. porém. a seiva tem tendência para subir pelo tronco. mais grossa no meio do que na base e no cimo. que começam a escorrer. Robinson estava habituado a metê-los em água a ferver. sal com açúcar. pois os poros de onde sai têm tendência a fechar-se. e mesmo muito suculentas. visto que normalmente. louça para lavar e arrumar. É preferível que a árvore esteja exposta ao sol. Este açúcar líquido pode escorrer durante meses. ou recheava um coelho com ameixas. Mostrou-lhe uma espécie de palmeira barriguda. Acima de tudo. punha à volta do peixe rodelas de ananás. 72 . ensinou Robinson a fabricar açúcar. vêem-se imediatamente gotas de uma seiva espessa e açucarada. escalfados ou bem cozidos. o que não admira. Assim. abria com o canivete uma série de fendas profundas na carne e colocava em cada fenda uma ostra ou um mexilhão crus. ele se transformava em caramelo. e mesmo peixe. Para misturar o gosto açucarado com o do sal. Robinson sempre pensara que um bom cozinhado nunca devia misturar carne com peixe.

Foi o que aconteceu quando Sexta-Feira cozinhou numa grande concha rodelas de serpente com uma guarnição de gafanhotos.nunca podia haver discussões entre ambos. Sexta-Feira desenhara as feições do amigo.antes da explosão . que irritava Robinson. Antigamente . Apanhou depois a concha suja e vazia. de mistura com o conteúdo. E Sexta-Feira punha-lhe agora debaixo do nariz um fricassé de pitão com insetos! Robinson sentiu um vómito e. governador da ilha de Speranza — disse-lhe. Num dia em que Sexta-Feira cotnia grandes vermes de palmeira vivos. ou mesmo bater em Sexta-Feira. portanto. Este compreendeu a lição contida nesta estranha comédia. as pernas e os braços de hastes de bambu. porém. A cabeça era feita com um coco. zangar-se um com o outro. Na véspera Robinson tivera uma indigestão de filetes de tartaruga com mirtilos. furioso. estava vestido com velhas roupas de Robinson. Agora. Mas. Robinson viu-o voltar arrastando atrás de si sem cuidado nenhum. em cima do qual pusera um chapéu de marinheiro. e. Sexta-Feira era livre. foi a propósito de um cozinhado que Robinson e Sexta-Feira discutiram pela primeira vez. Robinson era o amo. A seguir. Nada é mais perigoso do que a irritação quando se é forçado a viver sozinho com outra pessoa. Iriam os dois amigos bater-se? Não! Sexta-Feira desapareceu. de resto. Igual a Robinson. Robinson podia repreender. — Apresento-te Robinson Crusoe. junto de Robinson. Havia vários dias. com um rugido. quebrou-a em cima do coco. enrolados com 73 . com um pontapé. No coco. Colocou o manequim de pé. como um espantalho para pardais. Podiam. Sexta-Feira não podia deixar de obedecer. atirou com a grande concha para a areia. no meio das hastes de bambu partidas. além disso. que ainda ali estava. uma espécie de manequim. Duas horas depois. Sexta-Feira desatou a rir e foi abraçar Robinson.XXIII No entanto. Sexta-Feira. apanhou-a e brandiu-a por cima da cabeça de Robinson. que caiu.

Mal Robinson tinha acabado a sua obra. Esculpiu na areia molhada uma espécie de estátua deitada de barriga para baixo e com utna cabeça cujos cabelos eram algas. mostrando a estátua de areia. o verdadeiro Sexta-Feira e a estátua de Sexta-Feira. Havia o verdadeiro Robinson e o boneco Robinson. foi até à praia. Robinson. Não se via o rosto. Arrancou depois um ramo de aveleira. A partir daí. mas o corpo escuro e nu assemelhava-se ao de Sexta-Feira. com a boca ainda cheia de vermes de palmeira. disse-lhe Robinson. que limpou de ramagens e folhas. apareceu o índio. que fabricara com esse objetivo. desesperado. e pôs-se a chicotear as costas e as nádegas do Sexta-Feira de areia. e todo o mal que os dois amigos podiam fazer um ao outro — as injúrias.ovos de formigas. as zangas — faziam-na à cópia do outro. escondido sob o braço dobrado. as pancadas. Entre si só trocavam amabilidades. passaram a ser quatro a viver na ilha. o comedor de serpentes e vermes —. 74 . — Apresento-te Sexta-Feira.

Robinson não tinha mais que tornar-se Sexta-Feira o antigo escravo Sexta-Feira. Fabricara um disfarce cujo significado Robinson não compreendeu imediatamente. acordou Robinson rudemente. — Sabes quem eu sou? — perguntou ele a Robinson. Tinha as pernas enfiadas em trapos. quem sou? . nem o cabelo cortado rente de antes da explosão. porém. — Sou Robinson Crusoe. que Sexta-Feira trazia no dia em que desembarcou na ilha. Se Sexta-Feira era Robinson. amo e senhor do selvagem Sexta-Feira! — E então eu. já não tinha a sua barba quadrada. Trazia um chapéu de palha. — Não. Certa tarde. Levantou-se e desapareceu na floresta. havia feito uma barba postiça. da cidade York. em Inglaterra. estupefacto. mas isso não o impedia de se abrigar sob um guarda-sol de folhas de palmeira. o Robinson de antigamente. atados como umas calças. amo do escravo Sexta-Feira. colando flocos de algodão nas faces.XXIV Sexta-Feira. Uma curta túnica pendia-lhe dos ombros. Contentou-se em esfregar o rosto e o corpo com suco de nozes para ficar mais escuro. Na realidade. quando este dormia a sesta debaixo de um eucalipto. Mas. — Adivinha! Robinson conhecia Sexta-Feira demasiado bem para não compreender por meias palavras o que ele pretendia. passeando-se majestosamente na sua frente. e parecia-se de tal maneira com Sexta-Feira que não precisava de fazer muito para desempenhar o seu papel.perguntou Robinson. inventou outro jogo ainda mais interessante e curioso que o das duas cópias. e atar à volta da cintura a tanga de couro dos araucanos. acima de tudo. Apresentou-se depois a Sexta-Feira e disse-lhe: 75 .

mas apenas episódios da sua vida passada. que queriam sacrificar-te às potências maléficas. Quando aparecia com o seu guarda-sol e a barba postiça. Este tinha percebido que essa cena fazia bem a Sexta-Feira porque lhe fazia esquecer a má recordação que conservava da sua vida de escravo. Nunca representavam. Por fim. Mas nenhuma agradava tanto a Sexta-Feira corno a do princípio. a do cachimbo fumado às escondidas ao pé da reserva de pólvora. Robinson sabia que tinha na sua frente Robinson. Mas também a ele lhe fazia bem. 76 . sou Sexta-Feira! Sexta-Feira esforçou-se então por construir frases imensas no seu melhor inglês. cenas inventadas. Representavam a cena dos cactos vestidos. E Robinson ajoelhou-se. porque nutria ainda alguns remorsos por ter sido um amo severo para Sexta-Feira. a do arrozal posto a seco. quando fugira dos araucânios que o queriam sacrificar e fora salvo por Robinson. e que ele próprio devia desempenhar o papel de Sexta-Feira. Era sempre Sexta-Feira quem dava o sinal. quando Sexta-Feira era um escravo amedrontado e Robinson um amo severo. — Salvei-te dos teus congéneres. pegando no pé de Sexta-Feira.— Aqui estou. de resto. Divertiram-se muitas vezes com este jogo. baixando a cabeça até ao solo e murmurando agradecimentos confusos. pousou-o na nuca. Robinson. disse Sexta-Feira. e Robinson respondia-lhe com as poucas palavras de araucano que aprendera no tempo em que Sexta-Feira não dizia uma só palavra de inglês.

inventaram outras maneiras de brincar com a pólvora. ao remexer na areia para apanhar um lagarto. o que permitiria fazê-los explodir à distância. Encheram um pequeno recipiente com resina de pinheiro. Obtiveram assim 77 . é bela e silenciosa. Convidou depois Robinson a atirar ele próprio para o fogo um punhado de pólvora. — Que vamos fazer com esta pólvora se. Em seguida meteu lá a mão e tirou um punhado de pólvora. como se quisesse dançar com ela.XXV Um dia. Fez-se apenas uma grande chama verde. Só um deles explodira pouco depois da catástrofe. já não temos espingarda? Como única resposta.a espingarda é a maneira mais feia de queimar a pólvora. que atirou para o lume. temendo uma explosão. Sexta-Feira introduziu a ponta da sua faca na fenda da tampa e abriu a barrica. Sexta-Feira acabava de encontrar o outro.explicou Sexta-Feira . — Estás a ver? . de tal modo que se formaram grandes cortinas de luzes verdes e saltitantes. Mais tarde. mas desta vez deu um salto ao mesmo tempo que a chama. ela grita e torna-se má. Robinson recuara. E fizeram o mesmo outra vez. e em cada uma delas a silhueta negra de Sexta-Feira aparecia numa posição diferente. Misturaram esta resina — que só por si arde muito bem — com a pólvora. Robinson ficou surpreendido ao vê-lo tão contente com o seu achado. como sabes. depois lembrou-se de que enterrara dois barris de pólvora e os ligara à fortaleza por meio de um cordão de estopa. que se ergueu como um sopro de tempestade e logo desapareceu. Mas esta não se deu. Quando a deixam em liberdade. Robinson refletiu demoradamente. Quando está fechada na câmara da carabina. Sexta-Feira voltou de um passeio carregando ao ombro um barril. e ainda outra. Encontrara-o perto da antiga fortaleza.

uma pasta negra. que se erguia à beira da falésia. À noite. Com ela cobriram o tronco e os ramos de uma árvore morta. Era a sua festa noturna e secreta. e ardeu até de manhã. 78 . como um enorme candelabro de fogo. pegajosa e terrivelmente inflamável. Deitaram-lhe fogo quando chegou a noite: toda a árvore se cobriu então de uma carapaça de ouro palpitante. Passaram vários dias a transformar toda a pólvora na pasta inflamável e a cobrir com ela todas as árvores mortas da ilha. quando estavam aborrecidos e sem sono. iam juntos acender uma árvore.

— Estás a ver . E Sexta-Feira repetia a seguir. O seu método era simples. e indicar pelos nomes adequados todos os objectos úteis que os rodeavam. é um malmequer. mal pronunciara estas palavras. Quando a catástrofe se deu. uma nascente. Sexta-Feira já de há muito sabia inglês bastante para compreender as ordens que Robinson lhe dava. Antes da catástrofe. um raio de sol. um papagaio. sol. lupa. E Robinson corrigia-lhe a pronúncia tantas vezes quantas as necessárias. Mostrava-lhe depois um cabrito. mostrava-lhe um malmequer e dizia-lhe: — Malmequer. um queijo. Robinson ter-se-ia zangado. E Sexta-Feira repetia: — Malmequer. o malmequer bateu as asas e pôs-se a voar. faca. queijo. mas sim uma borboleta. é um malmequer que voa. quando era o dono da ilha e de Sexta-Feira. Não era um malmequer. uma faca. papagaio. — Uma borboleta branca — retorquiu Sexta-Feira —. Porém. nascente. articulando lentamente: — Cabrito. — Sim — respondeu Robinson —. enganámo-nos.disse ele imediatamente -. Robinson esforçara-se por ensinar inglês a Sexta-Feira. uma lupa. Um dia. Sexta-Feira mostrou a Robinson uma mancha que palpitava na erva. e a destruição da ilha civilizada. Teria obrigado Sexta-Feira a reconhecer que uma flor é 79 . e disse-lhe: — Malmequer.XXVI Durante os anos que haviam precedido a explosão. durante tanto tempo quanto o necessário para cada palavra lhe sair corretamente pronunciada.

por exemplo: — Qual é a coisa.disse-lhe -. o disco branco da Lua ainda era visível a este. Ai!. mostrou a Robinson um pequeno seixo.podem assemelhar-se até ao ponto de se confundirem. um cozinheiro que põe sal na tua sopa. Ergueu então a mão para a Lua. As árvores choram. porém. Atirava o rosto para trás e deixava que a água lhe escorresse pelas faces. que produzia uma mancha redonda e branca na areia pura e limpa. Os dois amigos tinham-se abrigado debaixo de uma árvore. como se soubesse antecipadamente que Robinson não poderia responder a esta estranha pergunta. e que as palavras voam de uma coisa para outra. Mais tarde. a fazer brotar milhares de pequenos cogumelos à beira-mar e a escorrer pelos rochedos. Sexta-Feira e Robinson passeavam pela praia. Sexta-Feira. Agora. ai!. as lágrimas e a chuva . De repente. O céu estava azul. qual é ela. e eu choro com elas. sem nuvens. ai! A chuva é o grande desgosto da ilha e de todas as coisas. pouco a pouco. e disse-lhe: — Ouve: acaso a Lua é o seixo do céu. que apanhava conchas. que as coisas mais distanciadas umas das outras .como a Lua e um seixo. Houve depois um período de mau tempo. um grande animal que se zanga. as coisas estão tristes e choram. uma pele de serpente com mil escamas que brilham ao sol? 80 . as nuvens choram. Amontoaram-se nuvens negras por cima da ilha e pouco depois a chuva pôs-se a crepitar na folhagem. um exército de soldados que te faz prisioneiro. Entrou completamente no jogo quando Sexta-Feira lhe explicou as regras do Retrato araucano em cinco pinceladas. ou é este pequeno seixo que é a Lua da areia? E desatou a rir. Sexta-Feira dizia-lhe. e uma borboleta uma borboleta. calou-se e ficou pensativo.uma flor. mesmo que isso confunda um pouco as ideias. — Repara . mas como era de manhã muito cedo. ruge e se agita quando faz vento. Sexta-Feira saiu do abrigo e expôs-se à chuva. Aproximou-se depois de Robinson.. Admitia. Robinson começava a compreender. que é uma mão que te embala.. os rochedos choram.

onde dois homens se escondem como se fossem pulgas. que é uma sobrancelha que se franze por cima do grande olho do mar. por causa do uivo rouco. por causa da fidelidade com que ajuda a minha mão direita. que é um pouco de água doce no meio de muita água salgada. seria uma solha chilena. seriam duas avelãs. 81 . para mostrar que compreendera a regra do jogo. que é uma cabeleira gigante. Ao evocar. E. reconheci-o pelo pelo fulvo. porém. pela fidelidade. qual é ela. seria uma palmeira. que é um nada de verde em muito azul.respondeu Robinson triunfante. e um barco sempre imóvel e ancorado? — É a nossa ilha Speranza — exclamou Sexta-Feira e.— É o Oceano! . pelos colmilhos aguçados e pelos olhos castanhos. Se fosse um fruto. e uma estranha bola cresceu-lhe na garganta.respondeu Robinson -. Sexta-Feira deu-se conta. Se fosse um pássaro. por causa dos pelos fulvos que lhe cobrem o tronco. seria o corvo do Pacífico. seria a minha mão esquerda. por causa dos dentes afiados. formulou outra adivinha: — Se fosse uma árvore. por sua vez: — Qual é a coisa. a imagem do bom Tenn desaparecido. Robinson sentiu a tristeza invadi-lo. O que é? — É Tenn. Se fosse uma parte do meu corpo. interrogou Sexta-Feira. Se fosse um peixe. pelo ladrar. por causa dos pequenos olhos castanhos. o nosso cão . e arrependeu-se da sua falta de tato. impedindo-o de falar. por sua vez.

outros tantos ninhos de papagaios. e vêm com certeza de outra ilha. Nunca vi. Ninguém! E. na realidade. nunca vi. com Robinson. os ouvidos. que eram.XXVII Uma manhã. De repente. Sexta-Feira ia a abrir a boca para lhe responder quando foi interrompido pela cacofonia dos papagaios. o chamamento soou de novo! — Sexta-Feira! Sexta-Feira! Levantou-se e inspecionou a folhagem da pequena árvore. outra ilha. muito afastada.um tulipeiro . não muito afastada daqui. pousados no ramo mais próximo. Sexta-Feira acordou com a voz de Robinson. soltando uma espécie de risada. Voltou lá de tarde. 82 . outra ilha. que recomeçaram a falar todos ao mesmo tempo. mesmo por cima da sua cabeça. ao verem os dois amigos aproximarem-se. Soergueu-se e olhou em volta. gritava um. para pôr os ovos. debaixo da árvore. ao mesmo tempo que um bando inteiro de pássaros verdes. — Nunca vi papagaios na ilha — disse Robinson —. repetia outro chegar ao mesmo tempo. no entanto. nunca vi. que o chamava pelo nome. outra ilha. em direção a um pequeno bosque onde os dois amigos raramente penetravam. não sonhara. muito afastada. Viu então um pássaro verde e cinzento levantar voo. muito afastada. chegar ao mesmo tempo. mas calaram-se de repente. devem ter chegado todos ao mesmo tempo. Quis ter a certeza e dirigiu-se para esse ponto da ilha. e foi no meio de um profundo silêncio que SextaFeira e Robinson pararam. Não teve que procurar muito tempo: uma das árvores mais belas .parecia carregado de grandes frutos bizarros.. Os papagaios faziam uma enorme algazarra nos ramos do tulipeiro. lhes gritava. chegar ao mesmo tempo. vindo dos ramos do arbusto debaixo do qual adormecera. num golpe de asa. imitava um terceiro..

Na minha tribo. este gesto significava: 83 . lembrando-se dos seus longos anos de solidão. Nem sempre é bom falar.exclamou Robinson. saindo da uma moita ou arbusto próximos.Ensurdecidos com todo aquele barulho. os que mais sabem. — Barulho das vozes barulho das vozes barulho das vozes! — papagueou uma voz áspera. mas era frequente ver-se um deles levantar voo. Os animais mais tagarelas são os macacos. E não se deixou perturbar pela gritaria que logo se ouviu. Assim. onde as ondas se desfazem na areia molhada. Robinson e Sexta-Feira tiveram a maior dificuldade em trocar uma frase sem que logo uma voz trocista. menos respeitados somos. são os que menos falam. desde o meu naufrágio. Quanto mais falamos. Desesperado. que sou incomodado pelo barulho das vozes . soltando um grito que mais parecia uma risada trocista. — Na verdade — disse-lhe Sexta-Feira alguns dias depois — parece-me que esta é uma boa lição. entre os araucanos. A partir desse dia. viesse interrompê-los. mesmo ali ao lado. e entre os homens são as crianças pequenas e as mulheres velhas. Robinson já não se deslocava sem um pau. Ensinou a Robinson um certo número de gestos com as mãos que poderiam exprimir as coisas mais importantes. repetindo algumas palavras que tivessem dito. Nunca atingiu um papagaio. até à beira-mar. Falamos demasiado. nos ramos do pinheiro mais próximo. Foi necessário irem ainda para mais longe. — É realmente a primeira vez. repetindo: crianças pequenas crianças pequenas crianças pequenas. Sexta-Feira e Robinson fugiram até aos grandes pinheiros que bordejavam a praia. que atirava raivosamente na direção de onde vinha a voz.

: 84 .

Depois. os filhotes aprenderam a voar e um grande ajuntamento ruidoso teve lugar junto à margem. os ovos dos papagaios eclodiram. no momento em que o Sol nascia. no horizonte. porém. A experiência. de comum acordo. 85 . Robinson e Sexta-Feira mantiveram-se silenciosos durante várias semanas. Robinson e Sexta-Feira de novo puderam utilizar a boca para comunicar e sentiram-se muito felizes ao ouvirem novamente o som das próprias vozes. todas as aves levantaram voo dirigindo-se para o largo e. uma grande nuvem. para depois desaparecer. começou a diminuir. fora proveitosa e salutar e daí em diante acontecia que. redonda e verde como uma maçã. se calavam e só comunicavam com gestos das mãos. Certa manhã.Assim. de uma só vez.

como quase todos os animais que vivem em liberdade. Mas. branca. acabava sempre por se desembaraçar delas e punha-se a andar de lado. É que esses animais não conseguem suportar a prisão do gesso ou das talas que imobilizam os ossos fraturados. atava-lhes ao pescoço um pequeno colar de lianas. Era uma cabrinha muito nova. Mas a pequena cabra Anda . e mais razoável. este reunia-se – geralmente numa colina ou num rochedo .assim a batizara Sexta-Feira . se teria habituado a esse aparelho que a impedia de dobrar o joelho. Para marcar os vencidos. De resto. Aconteceu.nunca estava quieta.e todos os animais da primeira fila baixavam a cabeça e opunham ao inimigo uma barreira de chifres intransponível. Sexta-Feira fez-lhe umas talas com paus e atoulhas à volta do osso fraturado. mas que o entusiasmava. soltando gritos lancinantes. Quando um perigo ameaçava um rebanho. de uma envergadura e força terríveis. 86 . Tinha uma pata da frente partida. que durante uma dessas caçadas ao bode Sexta-Feira recolheu uma pequena cabra que encontrara ferida no recôncavo de um rochedo. Saltava como uma louca e tinha muitas dores quando caía sobre as talas.XXVIII As cabras que Robinson domesticara e encerrara em redis haviam regressado ao estado selvagem. que se chamava Andoar. Se fugiam. Em todos os países do mundo se abatem as cabras. Agarrava-os pelos cornos e obrigava-os a deitarem-se. Estes bodes-chefes obedeciam por sua vez a um boderei. A opinião de Robinson era que deviam abatê-la. porém. os carneiros e até os cavalos que partem uma perna. apanhava-os a correr. ainda sem chifres. tinham-se organizado em grupos comandados pelos bodes mais fortes e experientes. Lutava com os bodes que surpreendia isolados. Sexta-Feira inventara um divertimento perigoso. Com certeza que uma cabra mais velha.

tapava-se com a pelagem quente e viva de Anda. Anda nunca mais quis pastar sozinha! Bem podia pô-la no meio de um prado coberto de ervas e flores. Sexta-Feira entregou-se a essa tarefa com uma paciência incansável.dizia a Robinson . não se afastava de Sexta-Feira um metro que fosse. À noite. Anda debatia-se e balia a tal ponto que cortava o coração. Então. por que razão reténs Anda junto de ti? 87 . mas os músculos estavam destreinados. quando tiver leite. Cambaleava. porém. Foi necessário ensinar-lhe novamente a andar. e avançava passo a passo. Sexta-Feira e Anda eram inseparáveis. a um quadrado de madeira colocado no chão. o índio tivesse por vezes dificuldade em segui-la. Era delicioso ver a pequena Anda saltar de rochedo em rochedo.mais tarde. Ao princípio. disse-lhe ele. imobilizá-la-ia completamente! Amarrou-a. — Verás . ora atrás de Sexta-Feira ora precedendo-o. nem correr. não a ordenharei como fazíamos antigamente! Chupar-lhe-ei as tetas diretamente. no entanto. Aconteceu. Mas resignou-se e consentiu em comer a erva bem cheirosa e beber a água fresca que Sexta-Feira lhe levava duas vezes ao dia. à espera de que este lhe desse na mão as plantas que colhera para ela. voltava para SextaFeira. ou sob a folhagem tenra de um pequeno arbusto as cabras preferem as folhas às ervas -. pois bem. De dia. No entanto. obstinou-se em querer salvar Anda. deitada de lado. portanto. Já que ela não pode andar. lá conseguiria voltar a saltar e a correr. estendida em cima dele. entre as suas próprias pernas. Robinson escutava-o com alguma inveja. embora. como se tivesse bebido vinho. como se fosse uma pequena mamã! E ria de satisfação com esta ideia. pois sentia-se excluído da grande amizade que unia Sexta-Feira e a cabrinha. A cabrinha quis logo correr. neste último caso. Ao cabo de três semanas. Segurava-a pelos flancos.Sexta-Feira. — Depois da catástrofe. Sexta-Feira libertou-a. que embora tivesse reaprendido a correr. que ela balia. nem saltar. enquanto os pequenos cascos martelavam e tropeçavam desajeitadamente nos pedregulhos. quiseste que todos fossem livres em Speranza e que não houvesse mais animais domésticos.

No dia seguinte. Ia tocar no bode quando este avançou bruscamente um metro e investiu com os grandes cornos pela 88 . manteve-se sempre mais ou menos desperto. Sexta-Feira achou-lhe um ar esquisito. o rei dos bodes de Speranza. até o grande bode desaparecer. uma barbicha fina e sedosa fremia na ponta do queixo. havia realmente pouco espaço para dois! Mas o bode continuava imóvel. muito forte. mas ficou a pensar nisso todo o dia. Uns olhos oblongos e dourados brilhavam na espessura do pêlo. Anda estava nos seus braços como de costume. Na noite seguinte. não a impediria de o fazer! E corou de vergonha. pois debatia-se suavemente nos braços de Sexta-Feira. Lá no alto. à sua volta flutuava um cheiro. porém. apertou-a com mais força e não a deixou ir. um leve sopro de vento trazia até Sexta-Feira um terrível cheiro a suarda e almíscar. Seria necessário provocá-lo? Aproximouse. No dia em que quiser ir-se embora. a moita junto da qual repousava pareceu abrir-se como uma grande flor e nela viu aparecer. olhando-a bem de frente. em busca do seu adversário.—Anda não é um animal doméstico. para fazer um colar mais sólido e belo que os outros: o colar do rei Andoar. Trepou lentamente pela rocha. partiu para a montanha. apertando entre os dentes o colar de lianas de cores vivas que deveria assinalar a sua vitória sobre Andoar. segurando o colar na ponta do braço estendido. Sexta-Feira. Além disso. respondeu Sexta-Feira com dignidade. Embora nunca o tivesse visto. sob a pele escura. imóvel como uma grande estátua coberta de pelos. Viu-o no alto de um rochedo. E eis que à meia-noite. Depois. como se quisesse soltar-se dele sem o acordar. Ao mesmo tempo. entrançou cuidadosamente lianas de cores vivas. a mais bela cabeça de bode que jamais lhe fora dado ver. É livre. Sexta-Feira não sabia que fazer. Mas também Anda o vira certamente. No entanto. Fica comigo porque gosta de mim. Sexta-Feira reconheceu imediatamente Andoar. bem no meio. um cheiro a bode! Não disse nada. uns cornos grandes e anelados ornavam-lhe a fronte. Mas logo se lembrou do que dissera a Robinson: se Anda quisesse deixá-lo. não a impedirei! Ora certa manhã Sexta-Feira acordou com a sensação de que se passara qualquer coisa enquanto dormia.

89 .

Andoar não o atacara depois da sua queda do rochedo e não tentara feri-lo de morte. de nada servia. O bode virou depois a cabeça para o lado e Sexta-Feira. O índio ficou imobilizado. — Estás a ver . Andoar nunca fugia quando alguém se aproximava dele. Anda desaparecera. havia o cheiro que SextaFeira trazia agarrado à pele. Então Sexta-Feira jurou a si próprio que voltaria a encontrar Andoar. Felizmente. perdendo o equilíbrio. que queria encontrar de novo para obter a desforra. a brincadeira era realmente perigosa. A silhueta do grande macho destacava-se no meio de um grande ajuntamento de cabras e cabri90 . que não era tolo. podia ser pressentido a cem metros de distância. Não necessitou de muito tempo para o descobrir. Tudo o que Robinson pudesse dizer. caiu do alto do rochedo. Robinson tentou impedi-lo de procurar novamente o rei dos bodes para o desafiar. Uma noite. Quando ficou curado.direita e pela esquerda da cintura de Sexta-Feira. mas havia espinhos e azevinhos na base do rochedo. depois de lutar com bodes. riu-lhe na cara. Quando na manhã seguinte acordou. Em primeiro lugar.disse ele a Robinson . Andoar. como ficara provado com a sua queda do rochedo e os ferimentos que lhe provocara. muito tarde. para o que bastava o seu terrível cheiro. Partiu de novo certa manhã até aos rochedos. Sexta-Feira estava muito fraco.. que lhe dilaceravam profundamente a carne. mas como era um adversário leal. segundo ele. como pelas hastes de uma grande pinça. como teria feito qualquer outro bode. Robinson fazia-lhe aplicações de musgo húmido e Anda lambia-lhe os ferimentos. Falava constantemente de Andoar.ela quis ir-se embora e foi. à procura do seu adversário. Mas Robinson.. e aceitava alegremente todos os riscos. Sexta-Feira queria a desforra. não cessava de fazer elogios ao rei dos bodes. lhe enfiaria o colar de lianas no pescoço e recuperaria Anda. Além disso. esgotado. exceto quando apanhava ervas e ia buscar água para Anda. caiu num sono profundo. no entanto. Sexta-Feira viu-se forçado a ficar na cama de rede durante vários dias. a altura não era muito grande. Passava todo o tempo deitado.

A cabrinha pegava nelas com os dentes e abanava várias vezes a cabeça. De resto. a um lado. agitando no ar os cascos da frente e abanando os enormes chifres. Voou como uma flecha direito ao peito do índio. que fugiram em desordem quando Sexta-Feira se aproximou. Sexta-Feira sentiu-se mordido pelo ciúme. teria sido incapaz de evitar novo ataque. terminada por uma barbicha. abanando a barbicha. Estava no meio de uma espécie de círculo. O muro de pedra refletia a luz como um espelho. Sexta-Feira desatou o cordão que enrolava à volta do punho e agitou-o diante do focinho de Andoar. como se quisesse mostrar quanto era belo. mas o ombro dorido provocou-lhe uma dor tão forte que desfaleceu. por entre as pálpebras semicerradas. Uma violenta pancada no ombro direito fê-lo girar sobre si próprio. Sexta-Feira atirou-se para o lado. ela não pastava. Quando reabriu os olhos. dando um salto formidável na sua direção. debruçou-se sobre ele. como que a dizer obrigado. O animal já só estava a alguns passos dele quando investiu. conservando uma erva comprida entre os dentes. Só uma pequena cabra branca continuou fielmente junto do rei. Deu alguns passos em direção a Sexta-Feira. como um desafio. e ficou estatelado no solo. ergueu-se nas patas traseiras. não vendo. O animal parou de repente de mastigar. Era Andoar que o fazia para ela: arrancava um tufo de ervas e apresentava-o a Anda. mas falhou por um segundo. como se cumprimentasse uma multidão vinda para o admirar. Foi atirado brutalmente contra as pedras. com o focinho distorcido numa espécie de esgar trocista. Mofou. delimitado.tos. 91 . depois. a outro. por um precipício com uns trinta metros de altura. Sexta-Feira ficou estupefacto com esta pantomima grotesca. por um muro de pedras vertical e. Apoiou-se na mão esquerda e encolheu os pés debaixo de si. Se tivesse podido levantar-se imediatamente. Tentou fazer um movimento. e Sexta-Feira não pôde deixar de reconhecer Anda. senão um pedaço de céu azul. e uma cabeça felpuda. porém. O bode estava invisível. o Sol estava no zénite e envolvia-o num calor insuportável. Andoar não procurava fugir. Esse segundo de distração foi a sua perda. Este. Ficou portanto deitado de costas. obscureceu-se bruscamente.

enredando nela os dedos dos pés. a direito. Sexta-Feira acabou por perder o equilíbrio e caiu para cima do dorso do bode. Mas um embate ao nível da anca fê-lo tropeçar. As suas mãos desceram ao longo do crânio do animal e taparam-lhe os olhos. O ruído aproximava-se tão rapidamente que ele nem pensou em fazer-lhe frente. firmado nas suas quatro patas musculadas. Deu várias voltas ao monte de pedras onde encontrara Sexta-Feira. 92 . como se já não existissem obstáculos. Andoar parara de repente. e os dois corpos. com certeza que pararia. Se deixasse de ver. Agarrara-se com as mãos aos chifres. a seguir endireitou-se e voltou a partir a toda a velocidade. sem nunca tropeçar nas rochas. com os braços abertos. Cheio de dores no ombro. caíram no vazio. O índio tinha tantas dores que sentia vontade de vomitar e receava desmaiar novamente. Os seus cascos ressoaram sobre a laje de pedra que avançava para o precipício. O bode dava saltos fantásticos para se livrar daquele corpo nu que o incomodava.Levantou-se cambaleando e ia voltar-se quando ouviu atrás de si um ruído de cascos ecoando nas pedras. Mas não parou. Era necessário que Andoar parasse. rente ao crânio. o do ombro não atingido. sempre enlaçados. o índio não largava o animal. Corria em frente. e as pernas apertavam-lhe a pelagem dos flancos. la deixar-se cair sobre o lado esquerdo. Andoar vergou um pouco sob o peso.

Ergueu-se. O grande bode morreu salvando-me. Cheio de arranhões e com um ombro deitado abaixo. de pé. A noite já começava a cair quando descobriu o cadáver de Andoar. ouvindo rir atrás de si. mas parecendo feliz. 93 . no meio das escassas moitas que cresciam por entre as pedras.XXIX A dois quilómetros dali. Sexta-Feira ali estava. solidamente atado à volta do pescoço do animal. Anda estava a seu lado e lambia-lhe a mão. Conhecia suficientemente bem aquela parte da ilha e sabia que o fundo do precipício tinha acesso por um pequeno atalho que serpenteava ao longo da montanha. Robinson seguira com o óculo a luta e a queda dos dois adversários. debruçou-se sobre o grande corpo castanho e reconheceu logo o colar colorido. — O rei dos bodes estava debaixo de mim e protegeu-me quando caímos — explicou ele. Tapando o nariz. mas dentro em breve vou fazê-lo voar e cantar.

Andoar vai voar — repetia ele muito excitado. que colocou no meio de um formigueiro. Lavou-os com muita água e pô-los a secar nos ramos de uma árvore. esticou-a entre dois arcos de madeira. Decepou-lhe primeiro a cabeça. como uma pele de tambor. Finalmente. Tirou-lhe finalmente a pele e estendeu-a no solo.XXX Sexta-Feira recompunha-se da fadiga e dos ferimentos com uma rapidez que sempre espantava Robinson. Cortou depois a pele em volta das patas e a todo o comprido do peito e do ventre. 94 . para ficar impregnada de areia e sal. Raspou-a depois com conchas. Levou vários dias a fazer este trabalho. cantarolando e levando debaixo do braço a pesada e gordurosa pele de Andoar. Dirigiu-se em seguida para a beira-mar. recusando-se sempre a desvendar os seus projetos. — Andoar vai voar. Alguns dias depois voltou junto do cadáver de Andoar. para tirar todos os pelos. Depois de bem seca. Do corpo do animal apenas guardou os intestinos. poliu-a com pedra-pomes. Lavou-a nas ondas.

Sexta-Feira cumprira a sua misteriosa promessa: fazer voar Andoar. Depois de uma longa escalada por uma escada íngreme e estreita. vira-se bruscamente fora da sombra . todas as manhãs se esforçava por subir a uma árvore. Trepou depois os sucessivos andares de ramagens. Estava já próximo do cimo quando. achava importante livrar-se daquelas terríveis vertigens. Pôr -se de pé em cima de uma cadeira bastava para lhe provocar um certo mal-estar. Levantou os olhos. numa plataforma de onde se via toda a cidade. 95 . Agarrou-se ao ramo mais baixo e içou-se. com os seus habitantes do tamanho de formigas. Compreendeu por fim que devia olhar. Mas desde que vivia tomando Sexta-Feira como modelo. No céu azul. apoiando-se num joelho. pensando que gozaria o nascer do Sol um pouco mais cedo no topo da árvore. se viu suspenso no vazio. A vertigem começou a contrair-lhe o estômago. Certamente por efeito de um raio. e balouçar ao vento. em pleno céu. Nessa manhã escolhera uma araucária. com a cabeça tapada pela capa de estudante. um grande pássaro dourado em forma de losango balouçava ao sabor do vento. mas para cima. Não viu senão uma confusão de ramos afundando-se em espiral. não para baixo. para vencer o medo. em caracol. Gritou de medo e tiveram de o descer como um embrulho. À medida que subia. o tronco estava desprovido de ramos ao longo de dois metros. Cometeu então um erro que dificilmente se evita quando se teme a vertigem: olhou para baixo. Por isso. Um dia subira ao campanário da catedral da sua cidade natal. Em tempos teria achado este exercício ridículo e inútil. A angústia paralisou-o e agarrou-se ao tronco com os braços e as pernas. York. de repente. sentia a árvore vibrar cada vez mais. das paredes. uma das maiores árvores da ilha.XXXI Desde a mais tenra infância que Robinson tinha vertigens.

agachou-se no solo. para ir ter com ele. vibrando sob uma rajada e baixando depois. virando e cosendo os bordos sobre a tripa. Fizera depois um entalhe em cada uma das suas secções. enfiando neles uma tripa. o índio gritara de alegria no momento em que Andoar. Robinson descera rapidamente da sua árvore. voltou a cair. nas nuvens. Sexta-Feira trabalhava no seu papagaio desde os primeiros alvores da madrugada e o grande pássaro de pele. muito longe. imitou a dança aérea de Andoar. girou sobre si próprio. agitava-se ao vento. Encontrou-o deitado na areia. num ponto cuidadosamente calculado. pois daí dependia a inclinação da superfície ao vento. curvado como um arco. ao qual atara uma corda. com as mãos cruzadas sob a nuca e a cabrinha Anda enrolada a seus pés como uma bola. havia pouco terminado. Esticara de seguida sobre a estrutura leve e robusta assim obtida a pele de Andoar. como se estivesse impaciente por voar. As duas pontas da vara mais comprida estavam ligadas por um fio bastante frouxo. amarrara três varas de junco em forma de cruz. Tinha a corda do papagaio atada ao tornozelo. acompanhado pelos saltos de Anda. projetou a perna esquerda para o céu. Robinson estendeu-se ao pé dele e ambos observaram durante muito tempo o voo caprichoso de Andoar no meio das nuvens. o belo pássaro dourado. Sexta-Feira ergueu-se num salto e sem soltar a corda do papagaio. quando o vento diminuía. subira como um foguete. De repente. que mantinha amarrada ao tornozelo. depois saltou levantando os braços.XXII Primeiro. todo enrolado. ligado ao tornozelo de Sex96 . subindo e mergulhando. E lá no alto. arrastando consigo uma grinalda de penas brancas e negras. ainda preso às mãos do índio. Na praia. Rindo e cantando.

Andoar passou assim a noite aos pés do dono. apenas dormiu. o grande papagaio agitar-se como a bóia de uma cana de pesca quando o peixe morde. Sexta-Feira e Robinson viam então. 97 . Amarrou-o a um dos pimenteiros dos quais estava suspensa a sua rede de dormir. oscilando com as ondas. ao mesmo tempo que outra corda do mesmo comprimento partia da cauda do papagaio e acabava num anzol dissimulado por um tufo de plumas. No fundo do barco amontoavam-se os corpos brilhantes dos peixes muito redondos. Sexta-Feira não quis trazer Andoar para terra. de dorsos verdes e flancos prateados. o tufo de plumas cintilava. Por vezes. engolindo o anzol. no céu. A corda do papagaio foi atada à parte de trás da piroga. mergulhava.ta-Feira por trezentos metros de corda. porém. chegava pouco depois à extremidade da linha. saltava com ele. atrás da piroga. E acompanhou-o ainda durante todo o dia seguinte. tal como ainda é praticada nas ilhas do arquipélago de Salomão. Durante a segunda noite. um grande peixe atirava-se a esta isca e fechava a bocarra. Ao fim do dia. Pareceu então lembrar-se da cabeça do bode. Robinson remava lentamente contra o vento e a certa distância. acompanhava-o também na sua dança. remando no sentido do vento. A parte da tarde foi consagrada à pesca com o papagaio. Após várias tentativas infrutíferas. girava. Como um animal doméstico preso pela trela. Pareceu esquecê-lo e. que abandonara no meio de um formigueiro. durante oito dias. Sexta-Feira desistiu de o pôr novamente a voar. quase todos peixes-agulha. que Sexta-Feira apanhava. deixou de haver vento e foi necessário ir buscar o grande pássaro que pousara suavemente no meio de um campo de flores. Robinson dava meia volta e.

uniu as pontas dos dois chifres. a corda de lianas que atara ao pescoço de Andoar. Nada restava já dos longos pelos brancos e castanhos da barba e da carne. Mesmo a parte de dentro da cabeça fora completamente limpa. Sexta-Feira fixou de cada lado do crânio uma asa de abutre. Com a mais comprida. tal como se põe um laço no cabelo das meninas. Cortou primeiro duas tabuinhas de diferentes tamanhos. — Andoar vai cantar! . e cortou-as em pedaços iguais. e é necessário que sejam afinadas em uníssono ou em oitavas. entre as órbitas. Quando Sexta-Feira voltou para junto de Robinson. que o observava. sem dissonâncias. compreendeu que ele queria fabricar uma harpa eólica. por mais fraco que fosse. Quando Robinson o viu esticar. agitava na mão um soberbo crânio branco com dois magníficos chifres negros. A harpa eólica é um instrumento que se expõe ao ar livre ou numa corrente de ar. Tendo encontrado. nesse dia. Um pouco mais acima. e graças a dois orifícios feitos lateralmente nas extremidades. poder vibrar ao mesmo tempo. entre as duas tabuinhas e com a ajuda de cavilhas. a meio da cabeça. colocou uma pequena prancha de pinheiro. e é o vento que toca a música fazendo vibrar as cordas. A 98 . em madeira de sicômoro. portanto. os doze pedaços de tripa que passavam a guarnecer a testa de Andoar. pegou nas tripas de Andoar.XXXIII As pequenas formigas tinham trabalhado bem. que continuavam a balouçar-se nos ramos de uma árvore e que agora não eram mais que uma correia fina e seca curtida pelo sol. Todas devem. para canalizar para as cordas todo e qualquer sopro de vento. em cuja aresta superior havia uma dúzia de sulcos estreitos. A mais curta foi fixada paralelamente à primeira. anelados e em forma de lira. prendeu-a à base dos chifres. por acaso. Por fim.prometeu misteriosamente a Robinson. com cerca de um metro cada.

harpa eólica foi depois colocada entre os ramos de um cipreste morto, que erguia a sua esguia silhueta no meio dos rochedos, num local exposto a toda a espécie de ventos. De resto, mal foi instalada, emitiu logo um som flauteado, frágil e plangente, embora mal houvesse brisa. Sexta-Feira escutou durante muito tempo aquela música tão triste e doce que dava vontade de chorar. Por fim, fez uma careta de desprezo e levantou dois dedos em direção a Robinson. Queria dizer com aquele gesto que o vento era demasiado fraco e só fazia vibrar duas das doze cordas. Foi necessário esperar pela próxima tempestade, que apenas um mês depois teve lugar, para Andoar cantar na sua plenitude. Robinson acabara por instalar o seu domicílio nos ramos de uma araucária, onde construíra um abrigo com placas retiradas da casca. Certa noite, Sexta-Feira veio puxá-lo pelos pés. Levantara-se uma tempestade e no céu lívido via-se a Lua deslizar rapidamente, como um disco, por entre os farrapos de nuvens. Sexta-Feira arrastou Robinson para o cipreste. Muito antes de avistar a árvore, pareceulhe ouvir um concerto celeste, em que se misturavam flautas e violinos. O vento redobrara de violência quando os dois companheiros chegaram ao pé da árvore que cantava. Preso com uma corda curta ao ramo mais alto, o papagaio vibrava como uma pele de tambor, ora imóvel e fremente, ora arrastado por rajadas mais violentas. Sob a luz instável da Lua, as duas asas de abutre abriam-se e fechavam-se ao sabor da borrasca. Andoar-voador e Andoar-cantor pareciam assim reunidos na mesma festa lúgubre. E havia sobretudo aquela música grave e bela, tão pungente que se poderia tomá-la pelo lamento do grande bode, morto ao salvar Sexta-Feira. Abraçados os três sob um rochedo, Robinson, Sexta-Feira e a cabrinha Anda olhavam de olhos abertos para aquele espetáculo terrível e ouviam atentamente aquele canto que parecia, ao mesmo tempo, cair das estrelas e subir das profundezas da terra.

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XXXIV Sexta-Feira colhia flores por entre os rochedos junto da antiga gruta quando viu um ponto branco no horizonte, para leste. Desceu imediatamente e correu a prevenir Robinson, que acabava de se barbear. Talvez Robinson se tivesse emocionado, mas não o deixou transparecer. — Vamos ter visita - disse, simplesmente: Mais uma razão para acabar de me arranjar. Excitado ao máximo, Sexta-Feira subiu ao alto de uma árvore. Levou consigo o óculo que assestou para o navio agora visível com toda a nitidez. Era uma escuna com gávea, um veleiro elegante, talhado para navegar velozmente, com os seus dois altos mastros, dos quais o primeiro - o mastro de mezena - tinha uma vela quadrada, e o outro uma vela triangular. Deslocavase bem a dez ou doze nós de velocidade, e dirigia-se para a costa pantanosa da ilha. Sexta-Feira apressou-se a ir dar estas indicações a Robinson, que passava um pente grosso, de escamas, pela cabeleira vermelha. Voltou depois a subir ao seu observatório. O comandante devia ter-se apercebido de que a costa não era abordável daquele lado, pois virara de bordo. Diminuiu depois o velame e navegou devagar, ao longo da praia. Sexta-Feira foi prevenir Robinson de que o visitante passava as dunas e lançaria a âncora, muito provavelmente, na baía da Salvação. Importava, antes de mais, conhecer a sua nacionalidade. Robinson avançou até à última fila de árvores que bordejava a praia e apontou o óculo para o navio, que se imobilizara a quatrocentos metros da praia. Alguns instantes depois, ouviu-se tilintar a corrente da âncora, ao desenrolar-se. Robinson não conhecia aquele tipo de barco, que devia ser recente, mas reconheceu a Union Jack, a bandeira inglesa, que flutuava à popa. A tripulação lançara ao mar uma embarcação e já os remos cortavam as ondas. Robinson estava muito emocionado. Ignorava há quanto tempo se encontrava na ilha, mas tinha a impressão de nela ter passado a maior parte da sua vida. Diz-se que, quando um homem está prestes a morrer, é frequente rever todo o seu passado, desdobrar-se diante de si como um panorama. Era um 100

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O naufrágio do Virgínia dera-se a 30 de Setembro de 1759. a exploração frenética da ilha. E ele que graças à vida livre e feliz que levava em Speranza. — Sábado. Não podia crer que se encontrava há tanto tempo na ilha! Apesar de tudo o que se passara desde a sua chegada àquela terra deserta. Na parte de trás via-se de pé. um homem de botas e armado. dois meses e vinte e dois dias. preenchida por jogos violentos e sãos e pelas extraordinárias invenções de Sexta-Feira. O homem de barba negra estendeu a mão a Robinson e apresentou-se: — William Hunter. O cérebro de Robinson trabalhou a toda a velocidade.pouco o que estava a acontecer a Robinson. um período de mais de vinte e oito anos não parecia poder caber entre o naufrágio do Virgínia e a chegada do Whitebird. depois a chegada de Sexta-Feira. Iria tudo isso acabar? Na chalupa amontoavam-se pequenos tonéis destinados a renovar a provisão de água doce do navio. voltando-se para Robinson. como diziam os recém-vindos. Senhor. o comandante voltou-se para o homem que o seguia e que devia ser o imediato. que voltava a ver o naufrágio. toda uma longa vida feliz e calma. Os homens saltaram para a espuma das ondas e puxaram a chalupa para a areia. 22 de Dezembro de 1787 . a destruição de toda a sua obra e. o seu fracasso. em seguida. se realmente se estivesse no ano de 1787. 22 de Dezembro de 1787. certamente o comandante. — Em que dia estamos. a construção do Evasão. Tinham-se portanto. Admirado. a grande miséria da lama. E havia outra coisa ainda: calculava que. os trabalhos a que Robinson o obrigara. passado exatamente vinte e oito anos. Cinquenta anos! A idade de um velhote. Joseph? — É sábado. de Blackpool.repetiu o comandante. graças principalmente a 102 .perguntou-lhe Robinson. comandante da escuna Whitebird. A proa da embarcação roçou o fundo e ergueu-se antes de se imobilizar. a explosão. com o chapéu de palha descaído sobre a barba negra. ele teria agora exatamente cinquenta anos. em suma. — Em que dia estamos? . – respondeu aquele. de maneira a colocá-la fora do alcance da maré-cheia.

graças aos quais as tripulações evitam o escorbuto. brutais e cruéis. comandado por Pieter Van Deyssel. devendo estar apetrechado com os últimos aperfeiçoamentos da navegação à vela. com medo de que o tomassem por mentiroso. Ele próprio se via obrigado a confessar que ardia em desejos de visitar aquele elegante veleiro. Os homens subiam pelos troncos e cortavam com o sabre os palmitos. mas não queria ser egoísta para com os primeiros homens que via ao cabo de tantos anos. ao mesmo tempo que se ouviam as risadas dos que perseguiam os cabritos armados de cordas.Sexta-Feira. Robinson não sabia. Entretanto. e perguntava-se se conseguiria readquirir o hábito de viver com os seus semelhantes. que as colónias inglesas da América do Norte haviam combatido contra a Inglaterra para conquistarem a sua independência. Sofria ao ver aqueles brutos avinhados mutilarem as árvores e massacrarem os animais da sua ilha. do que resultara uma guerra que durara de 1775 a 1782. fez-me perder parcialmente a memória e nunca consegui lembrar-me da data em que ela ocorreu. Sou o único sobrevivente da catástrofe. se sentia cada vez mais jovem! De qualquer modo. Mas evitou fazer perguntas que denunciassem a sua ignorância. maravilhosamente construído para bater todos os máximos de velocidade. Entretanto. O choque. resolveu não revelar aos visitantes a verdadeira data do seu naufrágio. Começara a mostrar a Hunter os recursos da ilha em caça e alimentos frescos. o imediato Joseph e todos os homens que via afadigarem-se à sua volta pareciam-lhe feios. o comandante Hunter. infelizmente. No 103 . naturalmente. de Flessingue. Sexta-Feira ajudava os homens a descarregar os barris e guiava-os até a nascente mais próxima. em porto nenhum – observou Hunter — mas é verdade que a guerra com as Américas modificou todas as relações marítimas. Robinson compreendeu que o índio se mostrava tão prestável com os marinheiros na esperança de estes o levarem o mais cedo possível para bordo do Whitebird. — Fui atirado para esta costa quando viajava a bordo do galeão Virgínia. grosseiros. como os agriões e as beldroegas. — Nunca ouvi falar desse navio.

uma após outra duas moedas de ouro. E. Um marinheiro encontrou ali.local onde antigamente se erguia o banco da Speranza. Chamou logo. para facilitar a busca. Era um frete de regresso ideal. foi acolhido por um Sexta-Feira radiante. frequentemente sangrentas. Cada nova moeda encontrada servia de pretexto para outras tantas lutas. os companheiros e. Este descreveu-lhe imediatamente. legumes e caça. com um carregamento de frutos. Quis desviar a atenção daquele espetáculo pondo Joseph. no meio dos quais se debatiam alguns cabritos amarrados. Os negros eram raptados em África e levados para barcos especiais. — Espero que queirais dar-me a honra de almoçar comigo — disse ele a Robinson. com grandes gritos. o imediato. Quando Robinson saltou para o convés do Whitebird. de que maneira. A chalupa regressara já uma primeira vez ao Whitebird. Robinson não pôde deixar de pensar que aquele ouro lhe pertencia e que os animais iriam ficar privados. durante a guerra. depois de discussões violentas. o tráfico de negros com que abasteciam de mão-de-obra as plantações de algodão dos Estados do Sul da América. à facada ou com sabres empunhados. café e índigo. Robinson tinha a impressão de ter levantado uma pedra e estar a ver bichos-de-conta negros e vorazes. e voltassem para o transportar. resolveram deitar fogo a todo o prado. com entusiasmo. havia agora ervas altas que ondulavam ao vento com um murmúrio de seda. Os homens aguardavam ordens do comandante antes de efetuarem uma segunda viagem. que se escoava lucrativamente quando passavam pelos portos europeus. O índio fora 104 . Eram vendidos nos Estados Unidos e os barcos voltavam carregados de algodão. sem esperar resposta ordenou que levassem a água doce para bordo. e ao seu convidado. que a chalupa levara na viagem anterior. Todos se haviam afogado sob os seus olhos. a falar. Hunter tomou em seguida a palavra e contou. onde os amontoavam como mercadoria. afundara um transporte de tropas francesas enviadas como reforço aos insurretos americanos. açúcar. por causa do incêndio. a rir. da melhor pastagem de toda a ilha.

Lembrou-se então de que Sexta-Feira amava tudo o que se relacionava com o ar .a flecha. — Desamarra-o — disse o comandante ao imediato. Dera alguns passos no convés quando descobriu uma pequena forma humana. a harpa eólica e que aquele belo e esbelto veleiro. Era uma criança. Sentiu-se um pouco triste ao verificar quanto o índio parecia mais feliz do que ele com a chegada do Whitebird. balançando-se a quinze metros acima das ondas com um riso feliz. E a cabeça desapareceu tão repentinamente como surgira. Depois. E apanhará mais. – Esta manhã estragou-me um picado de galinha deitando-lhe sal três vezes. que podia ter uns doze anos. voltando-se para Joseph: — Que fez ele desta vez? Logo um rosto vermelhusco. surgiu à escotilha da despensa. o nosso grumete — disse-lhe o comandante. que devia estar a comer com a tripulação. mas os cabelos formavam um emaranhado vermelho que lhe caía sobre os ombros finos e semeados de sardas. Estava magra como um pássaro depenado e tinha as costas estriadas com marcas ensanguentadas. Não se lhe via a cara. meio nua. Perdera o hábito des105 . com um barrete de cozinheiro. Teve dificuldade em chegar ao fim das pastas e carnes com molhos violentamente condimentados de que lhe encheram várias vezes o prato. se não aprender a ter cuidado. era certamente o objecto aéreo mais maravilhoso que jamais vira. leve e branco.disse o cozinheiro. como um diabo que sai de uma caixa. Robinson viu-o atirar-se aos cordames.adotado pela tripulação e parecia conhecer o navio como se nele tivesse nascido. o papagaio. — Tem de nos servir à mesa. Robinson afrouxou o passo quando o viu. por distração. Não voltou a ouvir falar de Sexta-Feira. Robinson almoçou com o comandante e o imediato. Apanhou as suas doze correadas. içar-se até ao cesto da gávea e voltar a descer pelas escadas da verga. amarrada à base do mastro de mezena. — Não consigo fazer nada dele . — É Jean.

com os seus homens. com a condição de ficar em Speranza com Sexta-Feira. Enquanto escutava a demonstração entusiástica de Joseph. No fundo. Sentia-se jovem. Sem que o soubessem. finalmente. Não. de cabelos grisalhos. só Joseph manifestou surpresa. mas Jean estava tão concentrado. com eles. a extremidade do mastro da gávea descrevia círculos irregulares num céu perfeitamente azul. seria um homem velho. via Speranza. Voltando a cabeça. era o enviado de uma civilização à qual não queria voltar. pois há muito que só comia coisas leves. Joseph e Hunter haviam-lhe revelado que tinha cinquenta anos. Era Joseph quem mantinha a conversa. explicando a Robinson as últimas aquisições da técnica da navegação à vela e da ciência de cruzar os mares. Acima dele. Se partisse. Depois do almoço. porte digno. Este Whitebird. como fora seu hábito. depois um amontoado de verdes e. talvez se sentisse aliviado por não ter de levar a bordo dois passageiros suplementares. Queria mostrar-lhe um instrumento recentemente introduzido na navegação. que servia para medir a altura do Sol acima do horizonte. frescas e naturais. Hunter reagiu com um sorriso gelado. 106 . mas tornar-se-ia também estúpido e mau. Robinson acariciou com verdadeiro prazer aquele belo objeto de cobre. belo e forte. onde andava perdido um crescente de Lua translúcido. que parecia não o ver. num navio pequeno onde o espaço estava avaramente distribuído.tes alimentos pesados e indigestos. Robinson procurou-lhe o olhar sob a massa de cabelos fulvos. o sextante. Hunter retirou-se para a sua cabina e Joseph levou Robinson para a ponte de comando. Quando comunicou a sua decisão de ficar na ilha. Robinson foi depois estender-se no convés para dormir a sesta. Compreendeu então que nunca mais deixaria a ilha. quase completamente tapado por um enorme avental branco. continuaria fiel à nova vida que Sexta-Feira lhe ensinara. acaju e marfim que fora retirado de um cofre. Era o grumete Jean quem servia à mesa. uma faixa de areia alourada. pelo medo de fazer algum disparate. O comandante estava taciturno e silencioso. o aglomerado caótico dos rochedos.

quando a noite chegou. Mas que importância tinha isso? Aos primeiros alvores da madrugada. permiti-me que vos ofereça o nosso escaler de exploração.disse-lhe ele. O Whitebird e os seus homens haviam trazido a desordem e a destruição à ilha feliz onde levara uma vida ideal com SextaFeira.— Considero todos os géneros e o ouro que embarcámos como o resultado da vossa generosidade. Robinson dera a entender ao comandante não desejar que a existência e a posição da sua ilha no mapa fossem reveladas pela tripulação do Whitebird. que não nos faz falta. 107 . Logo que voltou a pôr o pé nas suas terras. Robinson e Sexta-Feira tinham ainda à sua frente belos e longos anos de solidão. cortesmente. O comandante prometera-lho. em tempo calmo. e Robinson sabia que respeitaria o compromisso. . Substituiria com vantagem a velha piroga de Sexta-Feira. Robinson experimentou uma enorme sensação de alívio. ideal para um ou dois homens. Era uma canoa leve e com grande estabilidade. por dispormos das nossas duas lanchas de salvamento regulamentares. o navio inglês levantaria ferro e retomaria o seu lugar no mundo civilizado. — Como recordação da nossa passagem por Speranza. Foi nesta embarcação que Robinson e o companheiro regressaram à ilha.

mas a presença dele confortá-lo-ia. flechas. tropeçando e gri108 . Por que razão faria a travessia noturna a nado? Robinson começou a percorrer toda a ilha. Robinson dormira mal. Quanto a Sexta-Feira. Mas o que mais o surpreendeu foi o desaparecimento dos pequenos objetos com que Sexta-Feira tornava as sestas mais agradáveis: espelhos. o Whitebird desaparecera. plumas. Não o acordaria. Deu alguns passos pela praia. Correu de uma praia a outra. das florestas aos pântanos. A cabrinha Anda também desaparecera. àqueles molhos e àquele vinho. chamando por Sexta-Feira. entrecortado de momentos em que acordava bruscamente e com pesadelos. bolas. Robinson resolveu ir ver Sexta-Feira. porém. Isso devera-se sem dúvida à refeição indigesta que comera a bordo do Whitebird. Um medo pânico invadiu-o de repente. Detestava as horas tristes e descoloridas que precedem o nascer do Sol. zarabatanas. etc. uma hora no máximo. Como esperava. A água estava cinzenta e o céu sem cor. Os pássaros conservavam-se num silêncio de morte. o Sol levantar-se-ia e devolveria a vida e a alegria a toda a ilha. Nessa noite. Entretanto. puxadas para a areia seca. dormia sempre até tarde. pequenas flautas. Robinson sentiu-se invadir por uma grande tristeza. Dentro de alguns minutos. e habituara-se a esperar pelos primeiros raios de Sol antes de se levantar. teria utilizado uma das duas embarcações e tê-la-ia abandonado no mar. ou içado para bordo.XXXV A madrugada ainda estava pálida quando Robinson desceu da sua araucária. das falésias às dunas. A rede estava vazia. que dormia na sua rede. àquelas carnes. que lhe haviam provocado um sono pesado. Se Sexta-Feira tivesse querido voltar para a escuna inglesa. E se Sexta-Feira tivesse partido no Whitebird? Correu para a praia: a canoa e a velha piroga lá estavam. cada vez mais desesperado. Um orvalho abundante vergava as plantas. do monte de pedras aos prados.

uma meia dúzia de abutres que o observavam com os seus pequenos olhos vermelhos e cruéis. a alguns metros de distância. dos horríveis pormenores que Joseph.. Robinson sentia-se esmagado pela dor. despedaçados pelos homens da escuna. muito acima das ondas. como uma passagem para gatos. Robinson queria morrer e os abutres tinham-no adivinhado. não queria que o seu corpo fosse despedaçado por aquelas aves necrófagas. 109 . Mas porquê? porquê? Lembrou-se então da admiração de Sexta-Feira pelo belo barco branco. Apesar de tudo. rindo. A explosão tapara. Encaminhou-se. a passos curtos. dormiria para sempre. Lembrou-se então do fundo da gruta. com a cabeça apoiada nos joelhos. lhe contara acerca do tráfico de negros entre África e as plantações de algodão da América. uma fenda entre dois blocos. Continuava as buscas. com efeito. mas sentia-se a tal ponto mirrado pelo desgosto que tinha a certeza de poder passar. de uma verga para outra. Robinson encostou então a cabeça ao tronco de um eucalipto e chorou todas as lágrimas que tinha no corpo. O ingénuo índio estava já com certeza no fundo do porão do Whitebird. a entrada da grande caverna. Quando ergueu a cabeça viu. para o amontoado de rochas que se erguia no local da gruta. suave e morno. os pés cruzados. uma abertura estreita. com efeito. Depois de muito procurar encontrou. agrilhoado às correntes dos escravos. mas sentia-se tão diminuído. e de como saltava. Era a coleira de Tenn. mas só encontrava recordações que lhe feriam ainda mais o coração: a harpa eólica e o papagaio. ao abrigo dos abutres e dos outros animais. muito feliz. portanto.. e esqueceria tudo. Desceria então ao fundo da cavidade. Pobre Sexta-Feira! Robinson lembrava-se. Era isso: Sexta-Feira fora seduzido por aquele novo brinquedo. cada vez mais convencido de que Sexta-Feira o traíra e abandonara. mais maravilhoso do que todos os que ele próprio construíra na ilha. com certeza. porém. o imediato. fraco e desgraçado que estava certo de encontrar uma passagem. onde passara horas tão boas.tando. roída pela humidade. De repente. sentiu uma coisa dura debaixo dos pés. agachar-se-ia.

insistiu Robinson. 110 . — Agora. Robinson tinha na sua frente uma criança. Pegou na mão do grumete e. que parecia estar à espera dele. mas com calos. provocados pelos duros trabalhos de bordo. – Queria fugir daquele barco. Uma pedra rolou e Robinson recuou. era tão infeliz. Muito longe. eu tinha conseguido atravessar o convés e ia atirar-me à água para tentar chegar à praia a nado. e fico a viver convosco! — Vem comigo — disse-lhe Robinson. quando vi um homem acostar com uma piroga. Era o vosso criado mestiço. aninhada na sua. Do alto do pico rochoso.Meteu a cabeça. Na praia. Entrou na cabina do imediato. Nadei então até à piroga e subi para dentro dela. via-se toda a ilha. Parou a meio caminho e olhou para o seu novo amigo. Abriu a mão e olhou a outra. para norte. com o braço direito dobrado sobre a testa. — Escondi-me no meio das rochas .perguntou-lhe. — Justamente! Esta noite. Remei depois até à praia. frágil. Resolvi esconder-me na ilha e ficar convosco.prosseguiu o paquete. — E Sexta-Feira? Viste Sexta-Feira? . Ontem. distinguia-se um ponto branco que desaparecia em direção ao horizonte: era o Whitebird. Era pequena. — É por isso que as duas embarcações estão lá! – exclamou Robinson. Um corpo obstruiu a fenda e passou por ela. apanhadas pelas ondas da maré enchente.respondeu o rapaz. depois. contornando os blocos de pedra. Robinson estava atónito. — Sou o grumete do Whitebird . haveis-me olhado com bondade. Ouvi-vos dizer. para tentar ver se a passagem conduzia realmente ao fundo da gruta. que não partiríeis. começou a trepar a encosta que levava ao cimo do pico rochoso que dominava o amontoado de pedras. para se proteger da luz ou receando uma bofetada. Nesse momento. Subiu a bordo com uma pequena cabra branca. — Quem és tu? Que fazes aqui? . ainda envolta na bruma. Percebi que ele ficava no navio. enquanto servia à mesa do comandante. ouviu uma coisa mexer-se lá dentro. a canoa e a piroga começavam a girar. o Whitebird foi-se embora sem mim. no alto mar. com algumas contorções. Um pálido sorriso iluminou o rosto magro semeado de sardas.

Nasci na Estónia — acrescentou ele. dos risos e dos jogos. — Como te chamas? — perguntou Robinson ao grumete.chamar-te-ás Domingo. Uma vida completamente nova ia começar. — De agora em diante . a seus pés. abriram as suas corolas. — Olha-o bem . novas aventuras. 111 . tão bela como a ilha que despertava na bruma. Robinson sentia que a vida e a alegria o penetravam novamente dando-lhe redobradas forças. Inventariam novos jogos.disse-lhe Robinson . levando um pequeno peixe no bico.talvez nunca mais voltes a ver nada de semelhante: um navio ao largo das costas de Speranza. batendo muito as asas. — Chamo-me Jean Neljapaev. Mas Robinson não estava só. serás sempre o filho do domingo. Tinha agora aquele irmãozinho. para mim. Uma gaivota desceu rente à água e de novo levantou voo. Sexta-Feira ensinara-lhe a vida selvagem e partira.disse ele . umas após outras. cujos cabelos . É o dia das festas. Por fim. O ponto apagava-se pouco a pouco. As flores.Robinson estendeu o braço nessa direção. novas vitórias.tão vermelhos como os seus – começavam a relampejar ao sol. desapareceu. Foi então que o Sol nasceu. como para se desculpar de ter um nome tão difícil. Uma cigarra começou a cantar. E.

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