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Nos dois textos seguintes, Espinosa mostra a tese segundo a qual existe uma atividade do corpo ou da alma, onde

os efeitos so conscientes mas as causas so inconscientes. Deste modo, a atividade do corpo e da alma no depende necessariamente da conscincia nem das suas leis.

Texto 1 () Toda a gente nasce ignorante das causas das coisas e que todos desejam alcanar o que lhes til e de que so cnscios. Com efeito, disto resulta: Em primeiro lugar, que os seres humanos tm a opinio de que so livres por estarem cnscios das suas volies* e das suas apetncias, e nem por sonhos lhe passa pela cabea a ideia das causas que os dispem a apetecer e a querer, visto que as ignoram.

*Volies aes comandadas pela nossa vontade

Texto 2 Ningum, na verdade, at ao presente, determinou o que pode o Corpo, isto , a experincia no ensinou a ningum, at ao presente, o que, considerado apenas como corporal pelas leis da Natureza, o Corpo pode fazer e o que no pode fazer, a no ser que seja determinado pela Alma. Efetivamente, ningum at ao presente conheceu to acuradamente a estrutura do Corpo que pudesse explicar todas as suas funes, para j no falar do que se observa frequentes vezes nos animais e que ultrapassa de longe a sagacidade humana, nem do que fazem muitas vezes os sonmbulos durante o sono, e que no ousariam fazer no estado de viglia. Isto mostra suficientemente que o Corpo, s pelas leis da natureza, pode muitas coisas que causam o espanto prpria Alma. Ningum sabe, alm disso, de que maneira ou por que meios, a Alma move o Corpo, nem que graus de movimento ela pode imprimir-lhe, nem com que rapidez ela o pode mover. De onde se segue que, quando os homens dizem que tal ou tal ao do Corpo produzida pela Alma, que sobre o Corpo exerce um imprio, no sabem o que dizem e no fazem mais que confessar, com palavras especiosas, que ignoram, sem disso se admirarem, a verdadeira causa dessa ao.

Espinosa, tica