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Camelôs x Camelos

Os dinossauros dominaram o planeta por milhares de anos. Segundo as


especulações mais convincentes da ciência, os dinos foram extintos pela queda de um
meteoro. A poeira que esse corpo astral levantou tampou a luz do sol, e tudo o que era vivo,
morreu. Com exceção das baratas.
Os camelôs dominaram as ruas por décadas. Esses estão entrando em extinção
devido aos insistentes ataques do leão. A receita federal resolveu cumprir a lei e acabar com
a farra do excesso de quota de importação de contrabando paraguaio, a polícia federal
começou a prender os falsificadores de discos e tênis. Tudo em nome da ordem pública.
Essa a nossa versão da caçada à cosa nostra: o camelô é a máfia tupiniquim?
É no mínimo curioso que nenhum chefe de estado brasileiro, exceto o imperador,
tivesse visitado os países árabes. O Brasil tem uma das maiores comunidades árabes do
mundo. E nem assim tínhamos ido lá ver o quê que os camelos têm.
Por aqui, nós sabemos que esse povo faz negócios como ninguém. Ele chegam sem
nada e, com muito trabalho, passam a dirigir grandes empresas em diversos segmentos.
Sobre a trajetória comercial desse povo, o que se sabe, é que, talvez devido à sua natureza
nômade, tenham melhor se adaptado, de início, às bancas de futilidades espalhadas pelas
ruas: inventaram os camelôs.
Se é curioso o fato de que Lula é praticamente o primeiro estadista brasileiro a pisar
em solos árabes, tão instigante quanto é o fato de que, enquanto se procura extinguir os
camelôs, procura-se fazer ou reatar uma amizade comercial com o povo dos camelos.
Tirante a piada do trocadilho, o que se ressalta é que, se, de um lado, tentamos nos
livrar, usando a força das leis, da presença ilegal de certos camelôs (note-se que nem todos
vendem produtos ilegais), por outro lado, o Estado brasileiro busca contato com os
ancestrais do comércio ambulante.
Fazemos isso, hoje, talvez porque tenhamos percebido que o povo árabe há muito
tempo deixou de vender quinquilharias pelas ruas, de casa em casa. Agora eles vendem
petróleo. Lá, dizem, constróem oásis no deserto com os petrodólares.
Nossos camelôs brasileiros é que estão ainda atrasados, vendendo bugigangas. Isso
é coisa do passado.
O Lula é que está certo. Melhor do que relógio imitação do rolex, é o próprio rolex.
Ou seja, melhor do que camelô brasileiro imitação do árabe, é o próprio árabe.
A questão é, os camelos, por quanto tempo dominarão, já que o petróleo está
acabando.
O meteoro acabou com os dinossauros. As leis estão acabando com os camelôs. A
escassez de petróleo ameaça acabar com a riqueza do povo dos camelos.
Nesse cenário, o que se acredita é que tudo não passa de uma conspiração histórica
das baratas.
Será que depois de tanto trabalho, tanta mesquinharia, tanto descaso do ser humano
consigo próprio, o planeta vai ficar mesmo é aos cuidados das baratas?