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DECIFRA-ME OU DEVORO-TE

Os ídolos dos nossos jovens são como sacos de papel cheios de ar. Quando acuados,
flutuam e escapam do nosso contato, quando pressionados, estouram fragilmente, fazendo
enorme alarde e revelando o vazio néscio das próprias entranhas.
Os jovens de minha geração – anos 70 - cresceram admirando, dentre outros, o artista
marcial e lutador Bruce Lee. Ele era de verdade, Era gente. Se alguns daqueles jovens que o
admiravam no passado, hoje são faixas pretas em algum tipo de luta marcial e, o mérito, em
parte, deve-se àquele arrebatamento. Outra fatia de responsabilidade deste resultado fica por
conta da natural fase de rebeldia pela qual normalmente passa o adolescente. O púbere
começa, assim - como fazem os jovens nos dias de hoje -, a substituir, num ritual psico-
dialético de negação e auto-afirmação, a autoridade do pai pela figura do super-heróiaté o
início da fase adulta. O herói de então – o pai, por exemplo -, tinha consistência, existia e
transcendia o ambiente de mera contemplação, atingindo o valor utilitário simbólico da
imitação por parte do jovem. Hoje, quando o jovem realiza o mesmo processo de substituição
e imitação, inevitavelmente encontra a frustração. Às vezes, o super-herói de hoje é menos
durável que a própria vigência do processo de transformação do menino em adulto. Esta
decepção se explica também na medida em que entendemos que a personalidade do super-
herói contemporâneo se sustenta sobre os pilares das leis de mercado e do consumo. O
detentor do direito de explorar o lucro manipula, através das técnicas de marketing, um perfil
de convencimento irresistível, que captura o jovem consumidor justamente naquele momento
de indefinição substitutivo-imitativo. Vincula-se o adolescente à estrutura de consumo da
ideologia do seu super-herói o tempo suficiente para que se atinja determinados patamares de
vendas.
Objetivos alcançados, o balão mágico do super-herói é estourado, e o jovem entra em
cena, atordoado com o estrondo invisível que o persegue. Os psicanalistas, segundo eu
mesmo, podem dizer que o que se ouve num momento de desencontro como esse, são os
rumores dos tratores mentais revolvendo os escombros do imago que está despencando
continuamente. Aos poucos, percebe-se se fazer em ruínas o castelo de sonhos e de
invencibilidade construído pela necessidade de sobrevivência da personalidade ainda em
construção. Disso resulta toda uma geração de adultos com processo de desenvolvimento
retardado de personalidade, andando pelas ruas armados com facas, revólveres, paus e pedras,
tentando encontrar em qualquer pessoa a personificação do assassino do seu super-herói.
Esse nosso último parágrafo parecerá, a princípio, incompreensível. Mas é assim que
procuramos ilustrar, metalingüsticamente, a natureza do desengano que vive nosso
adolescente ao deparar-se com ídolos de fuligem. Os semideuses que surgem todos os dias
prometem horrores e amores e, de repente, num piscar de olhos, desfazem-se como fumaça,
restando do binômio composto pelos vocábulos horrores e amores, apenas os horrores das
buscas aos dicionários, aos sábios e às enciclopédias, a fim de que possamos, com alguma
sorte, decifrar os mistérios do enigma psíquico e social que nos devora.

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