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Sartre e o Marxismo - Nildo Viana

Sartre e o Marxismo - Nildo Viana

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Resumo:

O presente texto apresenta uma análise do pensamento de Sartre em sua relação com o marxismo, abordando suas teses, as críticas dos pretensos marxistas a ele, bem como a refutação destes, além de apontar os limites e contribuições deste filósofo ao marxismo. A conclusão geral é a de que o existencialismo sartreano fornece uma contribuição importante ao marxismo e deve ser, assim, reavaliado pela teoria marxista, principalmente a sua análise da liberdade e do projeto, elementos fundamentais da filosofia de Sartre.

Palavras-Chave: Existencialismo, Marxismo, Projeto, Liberdade, Alienação.
Resumo:

O presente texto apresenta uma análise do pensamento de Sartre em sua relação com o marxismo, abordando suas teses, as críticas dos pretensos marxistas a ele, bem como a refutação destes, além de apontar os limites e contribuições deste filósofo ao marxismo. A conclusão geral é a de que o existencialismo sartreano fornece uma contribuição importante ao marxismo e deve ser, assim, reavaliado pela teoria marxista, principalmente a sua análise da liberdade e do projeto, elementos fundamentais da filosofia de Sartre.

Palavras-Chave: Existencialismo, Marxismo, Projeto, Liberdade, Alienação.

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SarIre é cohsiderado por muiIos como o prihcipal !ilóso!

o exisIehcialisIa e
desehvolveu um cohceiIo-chave para a perspecIiva exisIehcialisIa: o cohceiIo de
projeIo, que é ohde ele ehcohIra a expressão da liberdade humaha. SarIre apregoa
a liberdade humaha. O homem, seguhdo SarIre, esIá cohdehado a ser livre. Vere-
mos aqui as relacões ehIre a cohcepcão exisIehcialisIa de SarIre com o marxismo.
Em primeiro lugar, iremos !azer uma breve exposicão da cohcepcão sarIreaha; em
seguhdo lugar, iremos apohIar como algumas cohcepcões preIehsamehIe marxis-
Ias avaliaram o exisIehcialismo sarIreaho; em Ierceiro lugar, iremos ahalisar criIica-
mehIe esIas cohcepcões; em quarIo lugar, iremos apohIar os limiIes do exisIehcialismo
sarIreaho; por !im, buscaremos resgaIar o cohceiIo de projeIo e a idéia de liberda-
de em SarIre huma perspecIiva marxisIa.
5artre e o marxlSmo
5artre and MarxlSm
Nildo Viana
!
nildoviana(¹erra.com.br
lilosoíia Unisinos
9 99 99(2):!46!6!, mai/ago 2008
© 2008 by Unisinos
ßF5UMO: O presehIe IexIo apresehIa uma ahálise do pehsamehIo de SarIre em
sua relacão com o marxismo, abordahdo suas Ieses, as críIicas dos preIehsos
marxisIas a ele, bem como a re!uIacão desIes, além de apohIar os limiIes e
cohIribuicões desIe !ilóso!o ao marxismo. A cohclusão geral é a de que o
exisIehcialismo sarIreaho !orhece uma cohIribuicão imporIahIe ao marxismo e
deve ser, assim, reavaliado pela Ieoria marxisIa, prihcipalmehIe a sua ahálise da
liberdade e do projeIo, elemehIos !uhdamehIais da !iloso!ia de SarIre.
PaIavras-chave: exisIehcialismo, marxismo, projeIo, liberdade, aliehacão.
Aß51ßAC1: 1he arIicle ahalyzes SarIre's IhoughI ih iIs relaIiohship wiIh Marxism.
lI discusses his Iheses, Ihe criIique by Ihe would-be MarxisIs Io him, as well Iheir
re!uIaIioh o! Ihese. AddiIiohally, iI poihIs Io Ihe limiIs ahd cohIribuIiohs o! Ihis
philosopher Io Marxism. 1he geheral cohclusioh is IhaI SarIre's exisIehIialism
makes ah imporIahI cohIribuIioh Io Marxism ahd should, Ihere!ore, be reassessed
by MarxisI Iheory, parIicularly his ahalysis o! !reedom ahd projecI, which are
essehIial elemehIs o! SarIre's philosophy.
Keywords: exisIehIialism, Marxism, projecI, !reedom, aliehaIioh.
!
Proíessor da ULG Universidade Ls¹adual de Goias: Mes¹re em lilosoíia/UlG e Dou¹or em Sociologia/Un8:
Pósdou¹orando em Psicologia da Lducaçao pela PUCSP.
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
Em síhIese, o objeIivo do presehIe arIigo é demohsIrar que hão exisIe ihcom-
paIibilidade ehIre a idéia de liberdade em SarIre e a cohcepcão maIerialisIa hisIóri-
ca de Marx, pois esIa possui um caráIer liberIário. ParIimos da perspecIiva marxisIa
para ahalisar a !iloso!ia sarIreaha, e, por isso, se jusIi!ica a breve ahálise que !are-
mos de dois dos prihcipais auIores cohsiderados "marxisIas" que dedicaram obras
para ahalisar o exisIehcialismo e Iambém a ahálise dos limiIes do exisIehcialismo
sarIreaho, pois isIo possibiliIa compreehder mais adequadamehIe as relacões de
cohcordâhcia e discordâhcia ehIre marxismo e exisIehcialismo. Por isso, hão iremos
abordar a IoIalidade das obras e IexIos de SarIre ou de Marx, mas apehas aqueles
que são úIeis para a discussão delimiIada acima. Assim, a hossa problemáIica esIá
circuhscriIa ao problema do deIermihismo e voluhIarismo ha relacão ehIre marxis-
mo e exisIehcialismo, pois é aí que ehcohIramos a pohIe ehIre as duas cohcepcões
e a possibilidade de assimilacão do exisIehcialismo pelo marxismo.
5artre. o proleto e a llberdade humana
A cohcepcão deIermihisIa do ser humaho coloca-o como um ser ehclausurado
ha prisão da vida psíquica, da sociedade, do orgahismo ou qualquer ouIra. Jeah-
Paul SarIre quesIioha radicalmehIe esIe deIermihismo e declara a exisIèhcia da li-
berdade humaha.
O primeiro passo deIermihahIe ha elaboracão da cohcepcão sarIreaha se
ehcohIra em sua obra O Ser e o Nada - /nsa/o de Onto/og/a /enomeno/og/ca (SarIre,
1998). NesIa obra, SarIre irá quesIiohar a disIihcão ehIre ser e aparèhcia. Para
SarIre, o ser é o que se apresehIa imediaIamehIe, e, desIa !orma, ele posIula a
idehIidade ehIre ser e aparèhcia cohIra a dicoIomia ehIre ambos. Ele apresehIa,
em vez desIa dicoIomia, uma disIihcão ho ihIerior do próprio ser: o ser-para-si e o
ser-em-si. O ser-em-si é o que é, algo bruIo e preso em si mesmo, ou seja, é imahèhcia.
O ser-para-si é Irahscehdèhcia. A cohscièhcia cohIém em si uma aberIura, sehdo um
"ser para o !uIuro", "espohIaheidade criadora".
E a parIir desIa cohcepcão que ele irá !uhdamehIar sua Ieoria da liberdade.
EhIreIahIo, devemos compreehder o que SarIre ehIehde por liberdade. Seguhdo ele:
E hecessário |...] sublihhar com clareza, cohIra o sehso comum, que a !órmula "ser livre"
hão sighi!ica "obIer o que se quis", mas sim "deIermihar-se por si mesmo a querer (ho
sehIido laIo de escolher)". Em ouIros Iermos, o èxiIo hão imporIa em absoluIo à liberda-
de. A discussão que opõe o sehso comum aos !ilóso!os provém de um mal-ehIehdido:
o cohceiIo empírico e popular de "liberdade", produIo de circuhsIâhcias hisIóricas,
políIicas e morais, equivale à "!aculdade de obIer os !ihs escolhidos". O cohceiIo Iéchi-
co e !ilosó!ico de liberdade, o úhico que cohsideramos aqui, sighi!ica somehIe: auIoho-
mia de escolha. E preciso observar, cohIudo, que a escolha, hão sehdo idèhIica ao !azer,
pressupõe um comeco de realizacão, de modo a se disIihguir do sohho e do desejo.
Assim, hão diremos que um prisioheiro é sempre livre para sair da prisão, o que seria
absurdo, hem Iampouco que é sempre livre para desejar sua liberIacão, o que seria um
Iruísmo irrelevahIe, mas sim que é sempre livre para IehIar escapar (ou !azer-se liberIar)
- ou seja, qualquer que seja sua cohdicão, ele pode projeIar sua evasão e descobrir o
valor de seu projeIo por um comeco de acão. Nossa descricão da liberdade, por hão
disIihguir o escolher do !azer, hos obriga a rehuhciar de vez à disIihcão ehIre ihIehcão e
aIo. Não é possível separar a ihIehcão do aIo, do mesmo modo como hão se pode
separar o pehsamehIo da lihguagem que o exprime; e, assim como acohIece de hossa
palavra revelar-hos hosso pehsamehIo, Iambém hossos aIos revelam hossas ihIehcões,
ou seja, permiIem-hos desempehhá-las, esquemaIizá-las, Iorhá-las objeIos em vez de
hos limiIarmos a vivè-las, ou seja, a Iomar delas uma cohscièhcia hão-IéIica. EsIa disIih-
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
Nildo Viaha
cão essehcial ehIre liberdade de escolha e liberdade de obIer !oi percebida cerIamehIe
por DescarIes, depois do esIoicismo. Coloca um pohIo !ihal em Iodas as discussões
sobre "querer" e "poder" que aihda hoje opõem os de!ehsores aos adversários da liber-
dade (SarIre, 1998, p. 595-596).
Sehdo assim, liberdade sighi!ica aµtonom/a de esco/ha. NesIe momehIo, eh-
cohIramos ouIro Iermo !uhdamehIal da !iloso!ia exisIehcialisIa de SarIre: escolha.
Assim, SarIre irá levahIar seu edi!ício !ilosó!ico-exisIehcialisIa, aprimorahdo um coh-
juhIo de Iermos que darão vida à sua !iloso!ia (liberdade, escolha, projeIo, essèh-
cia, exisIèhcia, ser-em-si, ser-para-si, eIc.). Mas como susIehIar que o ser humaho é
livre, já que hasce com uma cohsIiIuicão !ísica, em uma deIermihada !amília e soci-
edade, e sehdo que ele hão escolheu hada disso? Para compreehder isIo, Iemos
que, ahIeriormehIe, ehIehder a "cohcepcão exisIehcialisIa de homem". O pohIo de
parIida desIa cohcepcão se ehcohIra ha idéia de que, hos seres humahos, a exisIèh-
cia precede a essèhcia. Seguhdo SarIre:
O exisIehcialismo aIeu, que eu represehIo, é mais coerehIe. A!irma que, se Deus hão
exisIe, há pelo mehos um ser ho qual a exisIèhcia precede a essèhcia, um ser que exisIe
ahIes de poder ser de!ihido por qualquer cohceiIo: esIe ser é o homem, ou, como diz
Heidegger, a realidade humaha. O que sighi!ica, aqui, dizer que a exisIèhcia precede a
essèhcia? Sighi!ica que, em primeira ihsIâhcia, o homem exisIe, ehcohIra a si mesmo,
surge ho muhdo e só posIeriormehIe se de!ihe. O homem, Ial como o exisIehcialisIa o
cohcebe, só hão é passível de uma de!ihicão porque, de ihício, hão é hada; só posIerior-
mehIe será alguma coisa e será aquilo que ele !izer de si mesmo. Assim, hão exisIe
haIureza humaha, já que hão exisIe Deus para cohcebè-la. O homem é Ião-somehIe,
hão apehas como ele se cohcebe, mas Iambém como ele se quer; como ele se cohcebe
após a exisIèhcia, como ele se quer após o impulso para a exisIèhcia. O homem hada
mais é do que aquilo que ele !az de si mesmo: é esse o primeiro prihcípio do
exisIehcialismo (SarIre, 1987, p. 5-6).
O homem é livre e, porIahIo, escolhe o que é. Aí hos ehcohIramos com o
cohceiIo de projeIo:
|...] queremos dizer que o homem, ahIes de mais hada, exisIe, ou seja, o homem é, ahIes
de mais hada, aquilo que se projeIa hum !uIuro, e que Iem cohscièhcia de esIar se
projeIahdo ho !uIuro. De ihício, o homem é um projeIo que se vive a si mesmo subjeIi-
vamehIe ao ihvés do musgo, podridão ou couve-!lor; hada exisIe ahIes desse projeIo;
hão há hehhuma ihIeligibilidade ho céu, e o homem será apehas o que ele projeIou ser
(SarIre, 1987, p. 9).
A escolha e o projeIo que a dirige podem ser realizados aIravés da "vohIade"
ou "das paixões", que são apehas meios para aIihgir deIermihado !im
2
. 1ambém
2
¨A realidade humana nao poderia receber seus íins, como vimos, nem de íora nem de uma pre¹ensa 'na¹ureza'
in¹erior. Lla os escolhe e, por essa mesma escolha, coníerelhes uma exis¹encia ¹ranscenden¹e como limi¹e
ex¹erno de seus proje¹os. Desse pon¹o de vis¹a e se compreendermos claramen¹e que a exis¹encia do Dasein
precede e comanda sua essencia , a realidade humana, no e por seu próprio surgimen¹o, decide deíinir seu ser
próprio pelos seus íins. Por¹an¹o, e o posicionamen¹o de meus íins úl¹imos que carac¹eriza meu ser e iden¹iíica
se ao bro¹ar originario da liberdade que e minha. L esse bro¹ar e uma exis¹encia: nada ¹em de essencia ou
propriedade de um ser que íosse engendrado conjun¹amen¹e com uma ideia. Assim, a liberdade, sendo
assimilavel a minha exis¹encia, e íundamen¹o dos íins que ¹en¹arei alcançar, seja pela von¹ade, seja por esíorços
passionais. Nao poderia, por¹an¹o, limi¹arse aos a¹os volun¹arios. Mas as volições sao, ao con¹rario, ¹al como
as paixões, cer¹as a¹i¹udes subje¹ivas a¹raves das quais procuramos a¹ingir íins posicionados pela liberdade
original¨ (Sar¹re, !998, p. 548549).
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
hão exisIe Deus e haIureza humaha. DesIa !orma, só resIa ao homem a liberdade.
Não exisIe, hesIa cohcepcão, espaco para o deIermihismo: o homem esIá cohdeha-
do a ser livre.
JusIi!icar as acões humahas apelahdo para o deIermihismo sighi!ica cair ho
que SarIre dehomihou má-!é. lsIo esIá presehIe ho debaIe que SarIre Irava com a
psicahálise. SarIre irá cohcordar com a cohcepcão psicahalíIica seguhdo a qual hos
!aIos mais coIidiahos e corriqueiros se ehcohIra uma mahi!esIacão da "persohalida-
de do ihdivíduo", Iais como os chisIes, esquecimehIo de homes, eIc., apohIados
por Freud. Seguhdo João da Pehha:
Nesse pohIo, SarIre hão só cohcorda com Freud, como vai mais além. No capíIulo de O
Ser e o Nada dedicado à ahálise do corpo, SarIre cohcebe a qualidade das coisas maIe-
riais como reveladores do Ser. Assim, ha cohcepcão sarIreaha, o homem se revela aIé
mesmo em sua alimehIacão, pois, quahdo ele escolhe um alimehIo, escolhe o ser com
que vai !azer sua carhe. O que SarIre recusa é a disIihcão !reudiaha ehIre ego e id,
quali!icahdo-a de um exemplo Iípico de má-!é. Ao cihdir o psiquismo ehIre cohsciehIe
e ihcohsciehIe, Freud ehseja que uma parIe cohIemple a ouIra como se !osse um objeIo
e que, reduzida a Ial cohdicão, Iire do ihdivíduo sua respohsabilidade sobre ela. Ou seja,
o ihcohsciehIe exime o homem de ser respohsável pelos seus aIos (Pehha, 1995, p. 62).
Mas o que é revelado hos aIos corriqueiros e coIidiahos, se hão é o ihcohsci-
ehIe? SarIre irá respohder esIa quesIão ho capíIulo de O Ser e o Nada, ihIiIulado
ºs/cana//se /x/stenc/a/, ho qual ele compara a psicahálise dehomihada por ele como
"empírica" e a exisIehcial. SarIre, após colocar as semelhahcas ehIre esIas duas
!ormas de psicahálise, coloca suas di!erehcas:
Com e!eiIo, elas di!erem ha medida em que a psicahálise empírica deIermihou seu
próprio irreduIível, em vez de deixá-lo revelar-se por si mesmo em uma ihIuicão
evidehIe. A libido ou a vohIade de poder cohsIiIuem, de !aIo, um resíduo psicobiológico
que hão é evidehIe por si mesmo e hão hos surge como devehdo ser o Iermo irreduIível
da ihvesIigacão. Em úlIima ihsIâhcia, a experièhcia esIabelece que o !uhdamehIo dos
complexos seja esIa libido ou esIa vohIade de poder e cuja libido hão cohsIiIuísse o
projeIo origihário e ihdi!erehciado. Ao cohIrário, a escolha à qual irá remohIar-se a
psicahálise exisIehcial, precisamehIe por ser escolha, dehuhcia sua cohIihgèhcia ori-
gihária, já que a cohIihgèhcia da escolha recebe legiIimacão como escolha, e sabe-
mos que hão precisamos ir mais lohge. Cada resulIado, porIahIo, será plehamehIe
cohIihgehIe e, ao mesmo Iempo, legiIimamehIe irreduIível. Mais aihda: permahecerá
sehdo sempre sihgular, ou seja, hão iremos alcahcar como objeIivo derradeiro da
ihvesIigacão e !uhdamehIo de Iodos os comporIamehIos um Iermo absIraIo e gehé-
rico, como a libido, por exemplo, que seria di!erehciado e cohcreIizado em comple-
xos e depois em cohduIas deIalhadas por acão de !aIos exIeriores e da hisIória do
sujeiIo, mas, pelo cohIrário, alcahcaremos uma escolha que permahece úhica e que,
desde a origem, é a cohcreIude absoluIa: as cohduIas deIalhadas podem exprimir ou
parIicularizar esIa escolha, mas hão podemos cohcreIizá-la mais do que já é. lsso
porque essa escolha hada mais é do que o ser de cada realidade humaha e IahIo !az
dizer que Ial cohduIa em parIicular é que exprime a escolha origihal desIa realidade
humaha, pois, para a realidade humaha, hão há di!erehca ehIre exisIir e escolher-se.
Por esse !aIo, compreehdemos que a psicahálise exisIehcial hão precisa remohIar-se
ao "complexo" !uhdamehIal, que é jusIamehIe a escolha de ser, e daí aIé uma absIra-
cão, como a libido, que viesse a explicá-lo. O complexo é escolha úlIima, é escolha de
ser e cohsIiIui-se como Ial. Sua clari!icacão irá revelá-lo, a cada vez, como evidehIe-
mehIe irreduIível. ResulIa hecessariamehIe que a libido e a vohIade de poder hão vão
aparecer à psicahálise exisIehcial hem como caracIeres gehéricos e comuhs a Iodos os
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
Nildo Viaha
homehs, hem como irreduIíveis. Ouahdo muiIo, será possível cohsIaIar-se, após a
ihvesIigacão, que elas exprimem em cerIos sujeiIos, a IíIulo de cohjuhIos parIiculares,
uma escolha !uhdamehIal que hão poderia ser reduzida hem a uma, hem a ouIra.
Vimos, com e!eiIo, que o desejo e a sexualidade em geral exprimem um empehho
origihário do Para-si para recuperar seu ser aliehado pelo ouIro. A vohIade de poder
pressupõe Iambém, origihariamehIe, o ser-Para-ouIro, a compreehsão do ouIro e a
escolha de cohquisIar a própria salvacão por meio do ouIro. O !uhdamehIo desIa
aIiIude deve esIar em uma escolha primordial que permiIa compreehder a assimila-
cão radical do ser-Em-si ao ser-Para-ouIro (SarIre, 1998, p. 699-700).
PorIahIo, aqui reside a resposIa à hossa quesIão: os aIos coIidiahos e corri-
queiros mahi!esIam hão o ihcohsciehIe ou o complexo origihal e sim a escolha, o
projeIo origihal.
EhIreIahIo, já se observou (Laihg e Cooper, 1982; Pehha, 1995), SarIre acaba-
ria re!ormulahdo alguhs aspecIos do seu pehsamehIo, buscahdo aproximá-lo do
marxismo. A escolha livre do projeIo passa a ser uma escolha s/tµada. A idéia de
siIuacão passa a Ier uma imporIâhcia !uhdamehIal ho exisIehcialismo sarIreaho.
Para explicar a siIuacão, SarIre apela hovamehIe para a psicahálise:
Só a psicahálise permiIe, hoje, esIudar a !uhdo o processo pelo qual uma criahca, ho
escuro, IaIeahIe, vai IehIar desempehhar, sem compreehdè-lo, o persohagem social que
os adulIos lhe impõem, só ela hos mosIrará se a criahca su!oca em seu papel, se procura
!ugir dele ou se o assimila ihIeiramehIe. Apehas ela permiIe ehcohIrar o homem ihIeiro
ho adulIo, isIo é, hão somehIe suas deIermihacões presehIes como Iambém o peso da
hisIória (SarIre, 1967, p. 53).
SarIre eh!aIiza a imporIâhcia da ih!âhcia e acusa os "marxisIas de hoje" de se
preocuparem apehas com os adulIos. Para eles, "hascemos quahdo recebemos o
primeiro salário". SarIre irá eh!aIizar o perIehcimehIo ao grupo mais próximo como
elemehIo !uhdamehIal para delimiIar a siIuacão do ihdivíduo:
Ao hível das relacões de producão e ao das esIruIuras políIico-sociais, a pessoa sihgular
ehcohIra-se cohdiciohada pelas suas relacões humahas. Não há dúvida que esse cohdi-
ciohamehIo, ha sua verdade primeira e geral, reehvia ao "coh!liIo das !orcas produIoras
com as relacões de producão'" Mas Iudo isso hão é vivido Ião simplesmehIe. Ou me-
lhor, a quesIão é saber se a reducão é possível. A pessoa vive e cohhece mais ou mehos
claramehIe sua cohdicão aIravés de grupos. A maioria desIes grupos é local, de!ihida,
imediaIamehIe dada (SarIre, 1967, p. 58).
Como poderíamos cohciliar a imporIâhcia aIribuída à ih!âhcia e ao gru-
po com a perspecIiva marxisIa da classe social como deIermihacão !uhdameh-
Ial do ihdivíduo? AIravés de uma hierarquia de mediacões que jusIamehIe
!alIa ao marxismo
3
. EsIa hierarquia de mediacões deixa ehIrever que hão há
ihcompaIibilidade ehIre o cohdiciohamehIo pela ih!âhcia e o cohdiciohameh-
Io pela classe.
A visão marxisIa, seguhdo a qual os aIos sociais de uma pessoa são cohdiciohados pelos
ihIeresses gerais de sua classe, hão é de modo algum ihcompaIível com a idéia do
J
Ls¹a posiçao de Sar¹re e uma simpliíicaçao insus¹en¹avel e ¹alvez seja por isso que ele nos reme¹e aos ¨marxis¹as
de hoje¨ ao inves de ci¹ar um ou ou¹ro marxis¹a concre¹o (o que vai con¹ra o próprio espiri¹o de sua obra, que
quer cons¹ruir uma ¨an¹ropologia es¹ru¹ural e concre¹a¨).
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
cohdiciohamehIo do aIo presehIe por uma experièhcia da ih!âhcia. Ouase hihguém
cohsegue vehcer os precohceiIos, crehcas e idéias da ih!âhcia: hossas reacões irracio-
hais emergem da cegueira, da prolohgada loucura do ihício da vida. Mas, perguhIa
SarIre, que é esIa ihvehcível ih!âhcia sehão um modo parIicular de viver os ihIeresses
gerais do ambiehIe (Cooper /n Laihg e Cooper, 1982, p. 34).
DesIa !orma, SarIre ihaugura uma hova !ase de sua cohcepcão exisIehcialisIa,
ha qual o projeIo hão é mais uma escolha arbiIrária, ohde a siIuacão hão é apehas
um elemehIo sem imporIâhcia explicaIiva. No ehIahIo, isIo quer dizer que SarIre
elaborou uma versão deIermihisIa do exisIehcialismo a parIir de sua aproximacão
com o marxismo? Não, pois para SarIre, mesmo em sua época de aproximacão com
o marxismo, a ih!âhcia e a classe social hão realizam um deIermihismo absoluIo
sobre o ihdivíduo. O ser humaho cohIihua, dehIro da siIuacão e dos cohdicioha-
mehIos, a Ier que !azer escolhas. Ele vai cohsIahIemehIe superahdo sua siIuacão. O
homem cohIihua sehdo um projeIo em aIo. SomehIe o projeIo pode explicar a
hisIória, a criaIividade humaha. DesIa !orma, SarIre rede!ihe sua cohcepcão de
homem apresehIahdo IahIo a realidade da siIuacão e seus cohdiciohamehIos quahIo
sua liberdade aIravés do projeIo:
Para hós, o homem se caracIeriza ahIes de Iudo pela superacão de uma siIuacão, pelo
que ele chega a !azer daquilo que se !ez dele |...]; a cohduIa mais rudimehIar deve ser
deIermihada ao mesmo Iempo em relacão aos !aIores reais e presehIes que o
cohdicioham em relacão a cerIo objeIo a vir que ele IehIa !azer hascer. E o que dehomi-
hamos projeIo (Dias, 1982, p. 98).
SarIre recohhece, simulIaheamehIe, as deIermihacões e a liberdade huma-
ha. Mas hão abre mão de cohceber o homem como ser livre, como projeIo.
A crítlca pSeudomarxlSta a 5artre
A abordagem do exisIehcialismo por parIe do "marxismo o!icial" serviu para
ehcobrir a percepcão das possibilidades de aproximacão ehIre as duas cohcepcões.
O chamado "marxismo o!icial", ha verdade um pseudomarxismo
4
, vai realizar uma
ahálise basIahIe precohceiIuosa do exisIehcialismo e hão precisamos lembrar que
os precohceiIos esIão ihIimamehIe ligados aos valores e ihIeresses sociais. A Irahs-
!ormacão do marxismo em ideologia haciohal da Rússia, por exemplo, erigiu um
cohjuhIo de precohceiIos que di!iculIa uma apreciacão correIa e apro!uhdada de
vários !ehômehos (Korsch, 1977; Viaha, 2007a). O chamado "marxismo-lehihismo",
devido aos ihIeresses haciohais e de classe que ele represehIava, cohdehou um
cohjuhIo de cohcepcões como sehdo "ideologias burguesas" ou "pequeho-bur-
guesas", e ehIre elas o exisIehcialismo.
A abordagem preIehsamehIe marxisIa do exisIehcialismo !oi realizada por
diversos pehsadores, mas as mais ih!luehIes !oram as de Ceorg Lukács e Adam
4
O pseudomarxismo e uma denominaçao amplamen¹e u¹ilizada desde os anos !920 e !9J0, para se reíerir aos
in¹erpre¹es bolchevis¹as e socialdemocra¹as do pensamen¹o de Karl Marx, que ¹eriam provocado sua deíormaçao.
Porem, o concei¹o e uma analise mais pormenorizada do pseudomarxismo nao íoram realizados, a nao ser
a¹raves da comparaçao en¹re o pensamen¹o de Marx e dos pseudomarxis¹as, sem a devida concei¹uaçao.
Lsboçamos ¹al concei¹uaçao em duas obras: Viana (2007a, 2008). Podemos sin¹e¹izar es¹e concei¹o da seguin¹e
íorma: o marxismo e uma expressao ¹eórica do movimen¹o operario (Korsch, !977: Viana, 2008), e o
pseudomarxismo e uma apropriaçao do marxismo por ou¹ras classes sociais (Viana, 2008, 2007a), ¹al como
íizeram a socialdemocracia (Kau¹sky, 8erns¹ein, e¹c.) e o bolchevismo (Lenin, S¹alin, Tro¹sky, e¹c.), o que
provoca sua deíormaçao, que se inicia com a deíormaçao do pensamen¹o de Karl Marx.
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
Nildo Viaha
Scha!!. Ceorg Lukács irá combaIer !errehhamehIe o exisIehcialismo (o de Heidegger,
Jaspers, Merleau-PohIy, SarIre e 8eauvoir). Para esIe auIor, o exisIehcialismo é uma
!iloso!ia da pequeha burguesia ihIelecIualizada, e SarIre hão escapa disso. Ele rela-
cioha O Ser e o Nada com o momehIo hisIórico do !ascismo, que, seguhdo ele, Iraz
o desejo de liberdade. O exisIehcialismo sarIreaho é um "re!lexo !iel do clima espiri-
Iual da época". OuIra colocacão de Lukács deixa claro qual é a perspecIiva de que
parIe para criIicar SarIre: "O exisIehcialismo recusa-se a aIribuir um papel decisivo,
ha gèhese das decisões dos homehs, às opihiões e às idéias, em uma palavra, aos
re!lexos da realidade objeIiva ha cohscièhcia humaha" (Lukács, 1979, p. 90).
A críIica lukácsiaha de SarIre Iem como !uhdamehIo a chamada "Ieoria do
re!lexo" de Lèhih (1990), seguhdo a qual o cohhecimehIo é mero re!lexo da realida-
de objeIiva. Aliás, ele dedica o úlIimo capíIulo do seu livro jusIamehIe à Ieoria do
cohhecimehIo de Lèhih. EsIa posicão, obviamehIe, é cohIrária à perspecIiva de
Marx, que, ehIre ouIras coisas, de!ehdia o caráIer aIivo da cohscièhcia, Ial como se
vè em suas !eses Sobre /eµerbach, ohde ele reprova o "maIerialismo"
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por Ier dei-
xado esIe lado aIivo ser desehvolvido pelo idealismo. Lèhih, ao cohIrário, se re!ugia
ho maIerialismo burguès do século XVlll, de caráIer mecahicisIa, Ial como !oi colo-
cado por dois Ieóricos marxisIas (Korsch, 1977; Pahhekoek, 1977). Seguhdo Lèhih,
apelahdo para as cièhcias haIurais:
As cièhcias da haIureza hão permiIem duvidar que esIa a!irmacão: a Ierra exisIia ahIes
da humahidade, seja uma verdade. lsIo é per!eiIamehIe admissível do pohIo de visIa
maIerialisIa do cohhecimehIo: a exisIèhcia do que é re!leIido ihdepehdehIemehIe da-
quilo que re!leIe (a exisIèhcia do muhdo exIerior ihdepehdehIemehIe da cohscièhcia) é
o prihcípio !uhdamehIal do maIerialismo (Lèhih, 1990, p. 108).
EsIa a!irmacão, bem como Ioda a Ieoria do re!lexo de Lèhih, reIoma cohcep-
cões maIerialisIas mecahicisIas e hão o maIerialismo hisIórico. Ele opõe a realidade
objeIiva e a cohscièhcia, ao cohIrário de Marx, que parIia da uhidade ehIre ser e
cohscièhcia, ou seja, do ser cohsciehIe (Viaha, 2007a, 2007b; Marx e Ehgels, 2002).
A cohscièhcia, para Marx, "hão é hada mais do que o ser cohsciehIe" (Marx e Ehgels,
2002, p. 28). A parIir de Lèhih e ouIros pehsadores, a relacão ehIre ser e cohscièhcia
e do ser cohsciehIe e suas relacões sociais e com a haIureza é subsIiIuída por uma
relacão ehIre cohscièhcia - separada do ser - e a realidade objeIiva, a maIéria,
de!ormahdo assim o pehsamehIo de Marx (Viaha, 2007a). NesIe sehIido, as críIicas
que !oram ehderecadas a ele são correIas (Korsch, 1977; Pahhekoek, 1977).
A !ohIe de Lukács será a Ieoria do re!lexo de Lèhih, o que produz uma simpli-
!icacão e de!ormacão do marxismo. O "marxismo simpli!icado" de Lukács hão pode
!azer hada mais do que uma críIica simplisIa do exisIehcialismo: sua relacão com a
pequeha burguesia, a Seguhda Cuerra Muhdial, o !ascismo, o imperialismo e o seu
caráIer cohservador. A mudahca de posicão de SarIre, em seu arIigo posIerior, quah-
do se aproxima do marxismo (SarIre, 2002), observada por Lukács hão cohvehce esIe
úlIimo. Para Lukács, a Cr/t/ca da /azao 0/a/ët/ca comeca uma págiha com Marx e a
Iermiha com Heidegger. 1ehdo em visIa que em seu ouIro livro, A 0estrµ/çao da
/azao (1972), Lukács aIacou !erozmehIe o exisIehcialismo alemão, ihcluihdo Heidegger,
vemos o que sighi!ica para ele esIa a!irmacão. Porém, o que Lukács !az é de!ehder
uma perspecIiva maIerialisIa mecahicisIa diahIe de uma cohcepcão mais próxima das
Ieses de Marx, expressa por SarIre em seus úlIimos escriIos.
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Para quem conhece o pensamen¹o de Marx sabe que aqui ele se reíere ao ¨ma¹erialismo a¹e nossos dias¨, o
que nao inclui, obviamen¹e, o ma¹erialismo his¹órico que ele mesmo desenvolve e que nao possui es¹a deíiciencia.
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
A cohcepcão lukácsiaha do cohhecimehIo como re!lexo da realidade e
sua própria cohcepcão de realidade hisIórico-social (por exemplo, sua apreeh-
são da relacão ehIre classe social e !iloso!ia, que parIe de uma derivacão auIo-
máIica de uma pela ouIra) Iorha-se obsIáculo para qualquer ahálise jusIa, seja
do marxismo, do exisIehcialismo em geral ou de SarIre em parIicular. Sem dúvi-
da, a classe social, o clima espiriIual da época, ehIre ihúmeros ouIros aspecIos
que circuhdam um pehsador, ih!luehciam sua producão ihIelecIual e com SarIre
hão é di!erehIe. Porém, exisIe um cohjuhIo de mediacões - que o próprio SarIre
irá desIacar em Oµestao de Mëtodo (1967) - que Iorham a quesIão exIrema-
mehIe complexa e por isso a relacão simplisIa ehIre SarIre e sua classe social,
bem como com sua época, apohIada por Lukács, é ihsusIehIável da perspecIiva
marxisIa.
Adam Scha!!, por sua vez, debaIe prihcipalmehIe com o SarIre da Cr/t/ca da
/azao 0/a/ët/ca (2002) e apohIa suas "cohIradicões", a!irmahdo que é impossível
um casamehIo ehIre marxismo e exisIehcialismo, pois, seguhdo ele, "o maIerialismo
e o idealismo hão podem se juhIar, e hehhuma !orma de 'dialéIica' pode uhi-los"
(Scha!!, 1965, p. 44). ComehIahdo o capíIulo ihIiIulado "DialéIica DogmáIica e Crí-
Iica", a!irma que SarIre, hesIe escriIo, IraIa da liberdade ihdividual e das relacões
ehIre ihdivíduo-sociedade e ihdivíduo-meio. Prosseguihdo ele diz:
Há cerIas hecessidades, diz SarIre, que o meio impõe ao ihdivíduo ha !orma de leis.
Mas os ihdivíduos, ao mesmo Iempo, !azem a hisIória. 1al é a dialéIica. Surge aí uma
ihcoerèhcia, já que o exisIehcialismo deseja, a Iodo cusIo, preservar a douIriha da
liberdade ihdividual absoluIa - a essèhcia do exisIehcialismo como Filoso!ia, sem a
qual perde sua razão de exisIèhcia. SarIre se vè ehredado hessas ihcoerèhcias de um
exisIehcialismo que recohhece, pelo mehos em palavras, o cohdiciohamehIo social
da persohalidade ihdividual. E sai muiIo !acilmehIe desIa di!iculdade. ReIira, sim-
plesmehIe, com a mão direiIa o que colocara com a mão esquerda. Recohhece o
cohdiciohamehIo social e a hecessidade dele oriuhda, apehas para hegá-lo -
"dialeIicamehIe". 1raIa-se de uma pobre dialéIica, cujos de!eiIos se devem, ehIre
ouIras coisas, ao !aIo de que jamais procura esIabelecer com precisão o que ehIehde
por "dialéIica" e "cohIradicão", embora use Iais palavras !reqüehIemehIe (Scha!!,
1965, p. 41).
Adam Scha!! irá de!ehder as Ieses do "deIermihismo hisIórico", das "leis da
evolucão social", ehIre ouIras, que revelam muiIo mais uma cohcepcão posiIivisIa
que marxisIa. Sem dúvida, Marx a!irmava a exisIèhcia de deIermihacões sociais às
quais os ihdivíduos esIavam submeIidos, mas hão Iomava isIo como uma "lei uhiver-
sal e ihvariável" e sim uma deIermihada !ase da hisIória da humahidade, que, ihclu-
sive, para ser ulIrapassada, precisaria que o homem rompesse com Iais deIermiha-
cões. Para Marx, "o cohcreIo é o resulIado de suas múlIiplas deIermihacões" (Marx,
1983a), é síhIese delas, logo, é hisIórico, cohsIiIui uma IoIalidade.
Além disso, a a!irmacão de SarIre seguhdo a qual o meio impõe hecessidades
sob a !orma de leis aos ihdivíduos, e, simulIaheamehIe, esIes !azem a hisIória, é
exIremamehIe semelhahIe a uma das mais !amosas !rases de Marx: "Os homehs
!azem sua própria hisIória, mas hão a !azem como querem; hão a !azem sob cir-
cuhsIâhcias de sua escolha e sim sob aquelas com que se de!rohIam direIamehIe,
legadas e IrahsmiIidas pelo passado" (Marx, 1986, p. 17).
Scha!! acaba reproduzihdo um deIermihismo Iosco que hada Iem de marxis-
Ia. A a!irmacão de Scha!! só seria aceiIável se ele mosIrasse ohde, ha obra de
SarIre, se vè um apelo ao voluhIarismo da liberdade absoluIa. Apehas ciIahdo uma
!rase, ihclusive semelhahIe a uma das mais !amosas !rases de Marx, ele hão compro-
va sua a!irmacão e demohsIra apehas um precohceiIo ih!uhdado.
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
Nildo Viaha
LlmlteS do exlStenclallSmo de 5artre
O exisIehcialismo sarIreaho aIravessou duas !ases e o seu período de aproxi-
macão com o marxismo !oi hão só o seu período !ihal como Iambém o seu
coroamehIo. Por isso iremos deixar de lado a primeira !ase, ha qual suas divergèh-
cias com o marxismo são maiores, para ahalisar apehas a úlIima !ase de seu pehsa-
mehIo. O SarIre da úlIima !ase apresehIa algumas posicões próximas ao pehsameh-
Io de Marx e que !oi desehvolvido por diversos cohIihuadores dele.
EhIreIahIo, exisIem duas quesIões que permahecem em SarIre e que julga-
mos problemáIicas: em primeiro lugar, sua rejeicão do ihcohsciehIe - embora a
idéia de ihcohsciehIe seja psicahalíIica e hão esIeja ho pehsamehIo de Marx, a hão
ser embriohariamehIe, como alguhs de!ehdem - ela !oi desehvolvida por pehsado-
res marxisIas ou ih!luehciados pelo marxismo (Marcuse, 1988; Fromm, 1979; Reich,
1973; Schheider, 1977) e possui uma imporIâhcia !uhdamehIal para se compreeh-
der a sociedade cohIemporâhea; em seguhdo lugar, sua cohcepcão de ihdivíduo,
que se revela demasiadamehIe voluhIarisIa, apesar de seu recohhecimehIo da siIu-
acão como elemehIo imporIahIe para a compreehsão das acões ihdividuais.
A rejeicão sarIreaha do ihcohsciehIe se deve ao !aIo de que a cohcepcão
!reudiaha poderia limiIar a liberdade humaha, Ião imporIahIe ho edi!ício !ilosó!ico
desIe pehsador. No ehIahIo, isIo esIá ligado com a rejeicão sarIreaha de uma haIure-
za humaha e se deve ao !aIo de que, para Freud, o ihcohsciehIe se cohsIiIui como
/ocµs dos desejos reprimidos, que são de caráIer biológico, o que leva, seguhdo
alguhs, ao deIermihismo. Porém, Freud Iihha, ha verdade, uma cohcepcão coh!liIual
e hão um deIermihismo do ihcohsciehIe. Para Freud, as acões humahas eram ora
deIermihada pela cohscièhcia, ora pelo ihcohsciehIe, havehdo um coh!liIo ehIre ambos
e é hesIa dihâmica coh!liIiva que se origihava as acões humahas (Freud, 1978, p. 89).
Se SarIre Iivesse ampliado (em vez de hegado) a cohcepcão de ihcohsciehIe e
se o Iivesse visIo como expressão de um cohjuhIo de desejos que são poIehcialidades
humahas, poderia perceber que ele hão seria hesIe caso uma prisão para o ser
humaho e sim um pohIo de apoio para a luIa pela liberIacão humaha. Além disso,
ao hegar o ihcohsciehIe e a idéia de haIureza humaha e posIular uma liberdade
humaha exIremamehIe ampla, ele apresehIa, de !orma oculIa, uma hova cohcep-
cão de haIureza humaha. O homem esIá cohdehado a ser livre, e esIa !rase revela
uma cohcepcão da liberdade como essèhcia humaha, mesmo sem uIilizar Ial expres-
são. lsIo !oi hoIado por ouIro pehsador exisIehcialisIa, Paul 1illich, que a!irma que
o ehuhciado sarIreaho de que homem é livre sighi!ica uma a!irmacão sobre a haIu-
reza humaha. Ele acrescehIa em seu comehIário sobre SarIre:
A haIureza parIicular do homem é o seu poder para criar-se. E se ihdagarmos Iambém
como é que Ial poder é possível e como deve ser esIruIurado, hecessiIaremos de uma
douIriha essehcialisIa plehamehIe desehvolvida para respohder; em resumo, devemos
cohhecer sobre seu corpo e seu espíriIo, sobre aquelas quesIões que, durahIe milèhios,
Ièm sido discuIidas em Iermos essehcialisIas (/n May, 1977, p. 148).
Rollo May acrescehIa que
Não podemos Ier liberdade ou um ihdivíduo livre sem alguma esIruIura em que (ou, ho
caso de desa!io, cohIra a qual) o ihdivíduo aIua. Liberdade e esIruIura esIão muIuameh-
Ie explíciIas. E, sem dúvida, SarIre Iem alguma esIruIura. Na mihha opihião, SarIre
pressupõe muiIo mais da Iradicão humahisIa do pehsamehIo ocidehIal e aIé muiIo
mais dos cohceiIos hebraico-crisIãos sobre o sighi!icado e valor da pessoa do que ele
parece aperceber-se ou declarar expliciIamehIe (May, 1977, p. 148).
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
Mas volIahdo ao cohceiIo de ihcohsciehIe, se SarIre Iivesse apresehIado (ou
exIraído de ouIras cohcepcões) uma cohcepcão mais ampla de ihcohsciehIe, Ieria
percebido que a liberdade, hesIe caso, hão seria apehas uma caracIerísIica do ser
humaho, mas uma hecessidade.
A cohcepcão sarIreaha de ihdivíduo, ha úlIima !ase do seu pehsamehIo, é
bem próxima do marxismo. Porém, ela aihda mahIém uma auIohomia muiIo grah-
de para o ihdivíduo. Sem dúvida, a siIuacão cohcreIa do ihdivíduo (!amília, grupo
de habiIacão, eIc.) - e meIodologicamehIe as mediacões - são imporIahIes para
explicar a obra liIerária de FlauberI, Ial como ele !az, mas isIo hão reIira a quesIão
da classe social.
Aqui seria proveiIoso resgaIar a cohcepcão marxisIa de classe social, que esIá
ihIimamehIe ligada à divisão social do Irabalho. FlauberI, seguhdo ihIerpreIacão
de SarIre, Ieria posicões que hão seriam de sua classe (que SarIre idehIi!ica com a
pequeha burguesia), e isIo só pode ser explicado por !aIores ligados ao seu passa-
do, sua !amília, eIc.
No ehIahIo, em que pese a imporIâhcia desIas mediacões, cohsideramos
que FlauberI represehIava realmehIe sua classe social, e SarIre somehIe hão
percebeu isso porque hão idehIi!icou correIamehIe qual era a classe desIe liIe-
raIo. Observamos isIo aIravés da ahálise do sociólogo Pierre 8ourdieu, que loca-
liza a expahsão de uma hova camada social, os arIisIas, que cohsIiIuem o que
ele dehomihou "campo arIísIico", que cria seus próprios ihIeresses, valores, eIc.
EsIa Iese esIá ligada e é uma cohIihuacão da ahálise sociológica de Max Weber
sobre o processo de raciohalizacão ou da expahsão da divisão social do Irabalho
ho capiIalismo Ial como apohIado por Marx (Viaha, 2007c). DesIa !orma, pode-
mos explicar melhor a dissohâhcia ehIre os escriIos de FlauberI e os ihIeresses da
pequeha burguesia, pois ele saía da pequeha burguesia (origem !amiliar), mas
se ihseria em um hovo grupo social (8ourdieu, 1996; Viaha, 2007c). Ele passa a
ihIegrar a es!era arIísIica, passahdo a compor uma !racão de uma hova classe
social, represehIada pelos arIisIas, e por isso abahdoha sua classe de origem.
Logo, SarIre deveria Ier ehIehdido esIa "mediacão", como ele mesmo sugere ha
discussão meIodológica, e, ao hão !azè-lo, acaba coh!uhdihdo origem de classe
e siIuacão de classe.
MarxlSmo. para além do determlnlSmo e do
voluntarlSmo
lremos, a parIir de agora, ver como o marxismo se coloca ho debaIe ehIre a
posicão deIermihisIa e a voluhIarisIa. A grahde quesIão por deIrás desIe debaIe é:
o homem é livre ou é deIermihado (por Deus, haIureza humaha, ecohomia, classe
social, psiquismo, eIc.)?
O problema da liberdade e da deIermihacão das acões humahas pode ser
ahalisado a parIir da Ieoria marxisIa da aliehacão. Marx parIe do cohceiIo de haIu-
reza humaha para desehvolver sua Ieoria da aliehacão. 1raIa-se de descobrir o que
é a "essèhcia humaha". O ser humaho precisa, para garahIir sua sobrevivèhcia,
saIis!azer algumas hecessidades: comer, beber, dormir, amar, eIc. Uma vez saIis!ei-
Ias esIas hecessidades, o ihsIrumehIo e a !orma de saIis!azè-las Iorham-se, elas
mesmas, hecessidades (Marx e Ehgels, 2002).
Como o ser humaho saIis!az suas hecessidades? Para Marx, isIo ocorre aIra-
vés da mediacão do Irabalho. E aIravés do Irabalho que o ser humaho adquire os
seus meios de sobrevivèhcia e humahiza o muhdo. Por Irabalho ehIehdam-se Iodas
as aIividades humahas. O Irabalho, hesIe sehIido, Iorha-se uma hecessidade huma-
ha. O Irabalho é objeIivacão do ser humaho. 1al como Marx colocou:
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
Nildo Viaha
AhIes de Iudo o Irabalho é um processo ehIre o homem e a NaIureza, um processo em
que o homem, por sua própria acão, media, regula e cohIrola seu meIabolismo com a
haIureza. Ele mesmo se de!rohIa com a maIéria haIural como uma !orca haIural. Ele põe
em movimehIo as !orcas haIurais perIehcehIes à sua corporalidade, bracos e perhas,
cabeca e mão, a !im de apropriar-se da maIéria haIural e huma !orma úIil para sua própria
vida. Ao aIuar, por meio desse movimehIo, sobre a haIureza exIerha a ela e ao modi!icá-
la, ele modi!ica, ao mesmo Iempo, sua própria haIureza. Ele desehvolve as poIehcialidades
hela adormecidas e sujeiIa o jogo de suas !orcas ao seu próprio domíhio. Não se IraIa aqui
das primeiras !ormas ihsIihIivas, ahimais, de Irabalho. |...] Pressupomos o Irabalho huma
!orma em que perIehce exclusivamehIe ao homem. Uma arahha execuIa operacões se-
melhahIes às do Iecelão, e a abelha ehvergohha mais de um arquiIeIo humaho com a
cohsIrucão de suas colméias. Mas o que disIihgue, de ahIemão, o pior arquiIeIo da melhor
abelha é que ele cohsIruiu o !avo em sua cabeca, ahIes de cohsIruí-lo em cera. No !im do
processo de Irabalho obIém-se um resulIado que já ho ihício desIe exisIiu ha imagihacão
do Irabalhador, e porIahIo idealmehIe. Ele hão apehas e!eIua uma Irahs!ormacão da
!orma da maIéria haIural; realiza, ao mesmo Iempo, ha maIéria haIural seu objeIivo, que
ele sabe que deIermiha, como lei, a espécie e o modo de sua aIividade oriehIada a um !im,
que se mahi!esIa como aIehcão durahIe Iodo o Iempo de Irabalho, e isso IahIo mais
quahIo mehos esse Irabalho, pelo próprio cohIeúdo e pela espécie e modo de sua execu-
cão, aIrai o Irabalhador, porIahIo, quahIo mehos ele o aproveiIa, como jogo de suas !orcas
!ísicas e espiriIuais (Marx, 1988, p. 142-143).
O Irabalho como objeIivacão sighi!ica, porIahIo, mahi!esIacão da "essèhcia
humaha". Mas como susIehIar esIa Iese se Marx posIulou o caráIer hegaIivo do
Irabalho compreehdido como "aliehacão". lsIo se deve ao !aIo de que Marx disIih-
guia ehIre Irabalho ehquahIo objeIivacão, ho qual ele exerce sua capacidade cria-
dora, de Irabalho ehquahIo aliehacão, ho qual o ser humaho se vè subjugado por
!orcas exIeriores que o impedem de desehvolver suas poIehcialidades. 1raIaremos
da quesIão da aliehacão mais adiahIe.
Porém, os seres humahos hão realizam o Irabalho ihdividualmehIe e sim cole-
IivamehIe, aIravés da cooperacão. Essa cooperacão, esIa associacão com ouIros
seres humahos, Iorha-se Iambém uma hecessidade humaha - hão apehas do eh!oque
da sobrevivèhcia, mas Iambém do eh!oque a!eIivo e psíquico. O ser humaho se
revela um ser social que, aIravés do Irabalho e da cooperacão, se humahiza e
humahiza o muhdo.
EsIa cohcepcão pode parecer deIermihisIa, mas hão é. O problema se ehcoh-
Ira ho cohceiIo de hecessidade. O que é hecessidade? E algo que deve se realizar
ihdepehdehIemehIe da razão. Por cohseguihIe, ela é ahIagôhica à liberdade. No
ehIahIo, Ial cohcepcão é produIo de uma cohcepcão raciohalisIa de liberdade, ha
qual Iudo que hão é de!ihido, deIermihado e escolhido pela razão é expressão de
hão-liberdade. Por isso, cohsideramos ihIeressahIe superar a cohcepcão raciohalisIa
de liberdade e ehIehder por liberdade aquilo que expressa a realizacão das
poIehcialidades humahas (IahIo !ísicas quahIo mehIais) e isIo é deIermihado IahIo
pela cohscièhcia/razão quahIo pelas hecessidades orgâhicas. NesIe sehIido, hão
exisIe ahIagohismo ehIre hecessidade e liberdade, e, por cohseguihIe, a cohcepcão
marxisIa hão é deIermihisIa.
Para ehIehdermos melhor isIo, devemos acrescehIar um Ierceiro cohceiIo: o
de desejo. A hecessidade hão é oposIa ao desejo. 1al como Marx colocou, comer,
beber, dormir e amar são hecessidades. Se o ser humaho come, bebe, dorme, ama,
é por que deseja esIas coisas. O desejo é !ruIo da hecessidade. Porém, hão exisIem
apehas esIas hecessidades (que podemos dehomihar hecessidades primárias), pois
ho próprio processo de saIis!acão desIas hecessidades surgem hovas hecessidades,
como o Irabalho (ehquahIo objeIivacão) e a sociabilidade. EsIas úlIimas hecessida-
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
des (que podemos dehomihar hecessidades secuhdárias) Iambém produzem dese-
jos, isIo é, Iambém chegam à es!era da cohscièhcia. No ehIahIo, Ial como colocou
a psicahálise, há desejos que são reprimidos (e hoIe-se que a repressão é do desejo
e hão da hecessidade, que cohIihua subsisIihdo). Por isso, podemos disIihguir ehIre
desejos cohsciehIes e desejos ihcohsciehIes, ehIre hecessidades cohsciehIes e ih-
cohsciehIes.
Marx, obviamehIe, hão Irabalhou com o cohceiIo de ihcohsciehIe, ho sehIido
!reudiaho do Iermo, mas !ez re!erèhcias sighi!icaIivas que apohIam para uma pré-
cohscièhcia do ihcohsciehIe. Seguhdo Erich Fromm, exisIe a abordagem do ihcohsci-
ehIe em Marx e Freud. Os dois possuem algumas idéias semelhahIes e ambos:
AcrediIam que grahde parIe do que o homem pehsa cohsciehIemehIe é deIermihado por
!orcas que operam à sua revelia, ou seja, sem o cohhecimehIo do homem; que o homem
explica suas acões para si mesmo como sehdo raciohais ou morais, e que essas raciohali-
zacões (!alsa cohscièhcia, ideologia) lhes saIis!azem subjeIivamehIe. Mas sehdo impulsi-
ohado por !orcas que lhes são descohhecidas, o homem hão esIá livre. Só pode aIihgir a
liberdade (e a saúde) adquirihdo cohscièhcia dessas !orcas moIivadoras, ou seja, da reali-
dade, ao ihvés de ser escravo de !orcas cegas. A di!erehca !uhdamehIal ehIre Marx e Freud
esIá ho respecIivo cohceiIo da haIureza dessas !orcas que deIermiham o homem. Para
Freud, elas são essehcialmehIe !isiológicas (libido) ou biológicas (ihsIihIo de morIe e
ihsIihIo de vida). Para Marx, são !orcas hisIóricas que aIravessam uma evolucão ho proces-
so de desehvolvimehIo sócio-ecohômico do homem (Fromm, 1979, p. 107).
EsIe auIor acrescehIa que Marx realizou algumas a!irmacões que apohIam
para uma apreehsão próxima de Freud, quahdo, por exemplo, a!irmou que a soci-
edade realiza uma "repressão dos desejos haIurais comuhs", mas Iambém recohhe-
ce as pro!uhdas di!erehcas ehIre esIes dois pehsadores, pois Freud esIá preocupa-
do com o ihdivíduo e seu aparelho psíquico, levahdo em cohsideracão seus impul-
sos viIais, ehquahIo que Marx ahalisa o ihdivíduo ehquahIo ser social e a dihâmica
da sociedade, levahdo em cohsideracão seus coh!liIos.
Mas a cohcepcão de Marx, por ser ampla e hão resIriIa, como muiIos peh-
sam, abre espaco para se pehsar uma pré-cohscièhcia do ihcohsciehIe. O próprio
Erich Fromm hos permiIe perceber isIo, pois, seguhdo ele:
Os cohceiIos de Marx e Freud hão são muIuamehIe exclusivos, e isso precisamehIe
porque Marx parIe dos homehs, reais, vivos, e Ioma por base seu processo viIal real,
ihclusive, decerIo, suas cohdicões biológicas e !isiológicas. Marx recohhecia a exisIèh-
cia do impulso sexual como exisIihdo em Iodas as circuhsIâhcias que podem ser modi-
!icadas pelas suas cohdicões sociais, mas apehas ho que se relacioha com a !orma e a
direcão (Fromm, 1979, p. 108).
Para !ihalizar a discussão sobre deIermihismo e liberdade em Marx, podería-
mos recordar algumas de suas colocacões, mas mais imporIahIe é ressalIar sua po-
sicão diahIe do ihdivíduo e sua acão. As acões humahas hão são casuais e sim
deIermihadas. Porém, a acão cohcreIa de um ihdivíduo é a "síhIese de suas múlIi-
plas deIermihacões". Se João se alisIa ho exérciIo e José resolve ser um romahcisIa,
isIo se deve a um cohjuhIo de deIermihacões que se desehrolam ho processo hisIó-
rico de vida desIes ihdivíduos. Ouais deIermihacões? As relacões !amiliares, as diver-
sas !ormas de relacões sociais do passado, as relacões sociais em deIermihada comu-
hidade e grupo social, sua siIuacão de classe, ou seja, o cohjuhIo das relacões
sociais Iravadas por esIe ihdivíduo durahIe sua vida.
EhIão o ihdivíduo é produIo passivo das relacões sociais? Não, pois o ihdiví-
duo, desde o seu hascimehIo, se relacioha com o muhdo de !orma aIiva, buscahdo
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Nildo Viaha
sua auIo-realizacão. Mas esIa busca hão é arbiIrária, pois exisIem, além das relacões
sociais que lhe impõem deIermihados valores e objeIivos que ele Iorha seus, !uhda-
mehIos ehcohIrados em suas hecessidades das quais IraIamos ahIeriormehIe. Ouahdo
as relacões sociais reprimem a saIis!acão desIas hecessidades, o ihdivíduo se ehcoh-
Ira ha impossibilidade de se auIo-realizar. Daí a luIa pela auIo-realizacão, que hão é
arbiIrária e sim deIermihada pela sociedade repressiva. A repressão, por sua vez,
esIá ligada aos ihIeresses da domihacão de classe e esIa hão produz apehas isIo,
mas Iambém grahdes agrupamehIos humahos com siIuacões de vida di!erehIes e
ihIeresses ahIagôhicos.
O ihdivíduo, ho seu processo de desehvolvimehIo vai criahdo, hesIas rela-
cões, seus valores, seus objeIivos, eh!im, seu "projeIo de vida". PorIahIo, o projeIo
(para uIilizar expressão sarIreaha) que comahda esIa busca hão broIa do vazio e
sim do ihdivíduo hisIórico-cohcreIo, que possui uma essèhcia, e esIa apohIa para a
liberdade, que é a objeIivacão.
Aqui se Iorha imporIahIe de!ihir o que compreehdemos por liberdade. A
liberdade huma cohcepcão resIriIa é "liberdade de", ou seja, sighi!ica esIar livre de
algo (como o prisioheiro "se livra" da prisão) e huma cohcepcão ampla é "liberdade
para", ou seja, sighi!ica liberdade para !azer algo (agir rumo a um objeIivo). EsIa
cohcepcão !oi apresehIada por ErhsI 8loch (8icca, 1988) e reIomada por Erich Fromm
(Fromm, 1983). Assim, liberdade hão sighi!ica "liberdade de escolha", pois esIa pres-
supõe a escolha, o domíhio da razão. Ora, uma vez que a liberdade é produIo da
razão, Ial como coloca a abordagem raciohalisIa de SarIre, ehIão basIa o uso da
razão. Mas se compreehdemos a liberdade ehquahIo possibilidade de mahi!esIacão
da essèhcia humaha e percebermos que esIa possibilidade é resIrihgida ou permiIi-
da pelas relacões sociais, aí Iemos uma cohcepcão ampliada que hos permiIe com-
preehder o projeIo ehquahIo produIo social e volIado para as relacões sociais e
hão mera escolha ihdividual.
A hossa cohcepcão de liberdade reIoma a cohcepcão marxisIa: "a liberdade,
para Marx, é uma espécie de superabuhdâhcia criaIiva acima do que é maIerialmeh-
Ie essehcial, aquilo que ulIrapassa a medida e se Iorha seu próprio padrão" (EagleIoh,
1999, p. 10). A liberdade é uma mahi!esIacão livre da haIureza humaha, ou seja, a
saIis!acão do cohjuhIo das hecessidades humahas, ihcluihdo as hecessidades primá-
rias - que é seu pressuposIo - e o pleho desehvolvimehIo de suas hecessidades
secuhdárias, a objeIivacão e a sociabilidade. A hão-liberdade é a impossibilidade de
desehvolvimehIo pleho desIas hecessidades-poIehcialidades. DeIermihadas relacões
sociais produzem a hão-liberdade e somehIe a superacão desIas é que Iorha possí-
vel a liberdade. A luIa pela cohcreIizacão da Irahs!ormacão social, por sua vez, já é
um esboco de mahi!esIacão da liberdade, pois ha luIa os seres humahos desehvol-
vem hovas relacões sociais, realizam a objeIivacão.
A auIo-realizacão humaha é obsIaculizada pelo !ehômeho da aliehacão. O
cohceiIo de aliehacão em Marx Iem sido ihIerpreIado de !ormas di!erehIes e coh-
IradiIórias, mas hão há dúvida de que o escriIo em que Marx desehvolveu esIe
cohceiIo !oi hos Manµscr/tos de ºar/s (Marx, 1983b). NesIe IexIo, ele irá eh!aIizar o
que dehomihou traba/ho a//enado. O Irabalho aliehado ocorre quahdo o produIor
perde o cohIrole do processo de producão e passa a ser cohIrolado por ouIro, o
hão-produIor. NesIe sehIido, podemos dizer que a aliehacão é produIo da divisão
da sociedade de classes, ou seja, da divisão social do Irabalho e, sehdo assim, é uma
re/açao soc/a/ (Viaha, 1995).
EsIa é uma ihIerpreIacão divergehIe da maioria, pois hão cohsidera a alieha-
cão como um problema da cohscièhcia e hem como simplesmehIe a perda do pro-
duIo produzido pelo Irabalhador, já que esIes !ehômehos são cohseqüèhcias da
perda de cohIrole do processo de producão, da ihsIauracão de uma relacão de
domihacão, isIo é, da aliehacão. Marx expôs isIo claramehIe em uma passagem:
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
A aliehacão aparece hão só como resulIado, mas Iambém como processo de producão,
dehIro da própria aIividade produIiva. Como poderia o Irabalhador !icar huma relacão
aliehada com o produIo de sua aIividade se hão se aliehasse a si mesmo ho processo de
producão? O produIo é, de !aIo, apehas o resumé da aIividade, da producão. Cohse-
qüehIemehIe, se o produIo do Irabalho é aliehacão, a própria producão deve ser alieha-
cão aIiva - a aliehacão da aIividade de aliehacão. A aliehacão do objeIo do Irabalho
simplesmehIe resume a aliehacão da própria aIividade do Irabalho (Marx, 1983b, p. 93).
Se o Irabalhador perde o cohIrole do processo de Irabalho, ehIão perde o
cohIrole do produIo do Irabalho e passa a ver esIe com esIrahhamehIo. EsIas são
cohseqüèhcias da aliehacão, que é a !ohIe da exploracão e do !eIichismo
(esIrahhamehIo). Por cohseguihIe, o elemehIo !uhdamehIal aqui é a direcão do
hão-Irabalhador sobre o processo de Irabalho, e a quesIão da perda do produIo e
seus e!eiIos ha cohscièhcia são apehas cohseqüèhcias desIe processo.
Para Marx, a perda do produIo do Irabalho é apehas resulIado do Irabalho
aliehado, ou seja, o pohIo de parIida é a aIividade que se Iorha aliehada, o Irabalho
se Iorha aliehado, o que sighi!ica dizer que ele deixa de ser aIividade viIal cohsciehIe
e se Iorha aIividade dirigida por ouIros. Seguhdo Marx, "a aIividade viIal cohsciehIe
disIihgue o homem da aIividade viIal dos ahimais"; "o Irabalho aliehado ihverIe a
relacão, pois o homem, sehdo um ser auIocohsciehIe, !az de sua aIividade viIal, de
seu ser, uhicamehIe um meio para sua exisIèhcia" (Marx, 1983b, p. 96). DecorrehIe
disIo, surge a propriedade privada, ou seja, a apropriacão do resulIado do Irabalho,
pois o hão-produIor ao dirigir o processo de Irabalho Iambém irá dirigir o desIiho do
seu produIo. Marx diz que a ahálise do cohceiIo de propriedade privada "mosIra
que, embora a propriedade privada pareca ser a base e causa do Irabalho aliehado,
é ahIes uma cohseqüèhcia dele" (Marx, 1983b, p. 96). A cohseqüèhcia disso é que o
produIo aparecerá ao Irabalhador como algo esIrahho a ele: "o objeIo produzido
pelo Irabalho, o seu produIo, agora se lhe opõe como um ser aliehado, como uma
!orca ihdepehdehIe do produIor" (Marx, 1983b, p. 96).
Podemos, agora, recapiIular o que discuIimos aIé aqui. Há, em Marx, uma
pré-cohscièhcia do ihcohsciehIe. Há Iambém a idéia de que o ser humaho hecessiIa
da liberdade, ou seja, ele é um ser cohsciehIe que precisa desehvolver suas
poIehcialidades, o que leva à busca da liberdade, e isIo só pode ocorrer aIravés de
uma acão que já é, em si, liberdade (prax/s, aIividade cohsciehIe e Ieleológica, um
projeIo). A liberdade, para Marx, é a essèhcia humaha:
A liberdade é a Ial pohIo a essèhcia do homem que mesmo seus oposiIores o recohhe-
cem, posIo que a combaIem; querem apropriar-se da jóia mais cara, que eles hão
cohsideram a jóia da haIureza humaha. Nihguém luIa cohIra a liberdade; ho máximo,
luIa-se cohIra a liberdade dos ouIros. Por isso Iodos os Iipos de liberdade exisIiram
sempre, às vezes como uma prerrogaIiva parIicular, ouIras como um direiIo geral (Marx,
1980, p. 34).
Aqui reehcohIramos a idéia de projeIo e de liberdade humaha. Na perspecIi-
va marxisIa, a liberdade é mahi!esIacão da essèhcia humaha. Ouahdo esIa essèhcia
esIá impossibiliIada de se realizar plehamehIe, quahdo alguhs - os domihahIes -
luIam cohIra a liberdade dos ouIros, é hecessário o ehgajamehIo ha luIa pela liber-
Iacão, ho projeIo liberIário de emahcipacão humaha. No ehIahIo, a cohquisIa da
liberdade pressupõe hão apehas desejo, mas a Irahs!ormacão social, a superacão
da sociedade repressiva. O processo de emahcipacão humaha é um processo ho
qual os seres humahos abahdoham suas ilusões e superam a aliehacão e passam a
auIogerir suas cohcepcões, suas luIas, de !orma auIocohsciehIe. EsIa auIocohscièhcia
é o projeIo de liberIacão humaha e de liberdade. EsIe projeIo quahdo mobiliza os
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
Nildo Viaha
seres humahos já é uma mahi!esIacão da liberdade, além de ser cohdicão para a
liberIacão humaha pleha.
1al posiciohamehIo Iambém é percepIível em SarIre, prihcipalmehIe ha úlIi-
ma !ase do seu pehsamehIo. Diz ele:
O movimehIo de liberIacão implica um !im, isIo é, a abolicão de Iodos os ehIraves. E
esIe esIado de liberdade propriamehIe diIo que se visa desde o prihcípio; a acão de
deIermihada políIica ou deIermihado homem da rua implica hecessariamehIe uma
crehca ho esIado de liberdade. |...] Na verdade, o socialismo só Iem sehIido ehquahIo
esIado sohhado, imprecisamehIe cohcebido, aliás, ho qual o homem será livre, e o que
as pessoas que querem o socialismo procuram, quer o digam quer hão, é esIe esIado de
liberdade. Por cohseguihIe, o homem revoluciohário de que !alávamos é um homem
que cohcebe a liberdade como a verdadeira realidade duma sociedade ulIerior e socia-
lisIa (SarIre /n SarIre et a/., 1975, p. 322).
lsIo, sem dúvida, hão abole as reais di!erehcas ehIre o pehsamehIo sarIreaho e
o marxisIa. A sua èh!ase hos grupos e valoracão dos ihdivíduos marca oposicões reais,
embora hão devam ser exageradas, pois da perspecIiva marxisIa o ihdivíduo possui uma
auIohomia relaIiva e os grupos possuem imporIâhcia ho processo social e, por cohse-
guihIe, são elemehIos que cohIribuem com a compreehsão da sociedade moderha.
A di!erehca, hesIe caso, é de èh!ase. O !aIo de Marx hão Ier dado grahde
aIehcão aos grupos e o ihdivíduo hão ser o cehIro de sua ahálise - e SarIre Iambém
vai oriehIahdo sua ahálise cada vez mais para o grupo e classe e dimihuihdo a
èh!ase ho ihdivíduo -, hão quer dizer que isIo seja ihcompaIível com seu pehsameh-
Io. Um pehsador huhca esgoIa a realidade e, por cohseguihIe, huhca coloca Iodos
os aspecIos da realidade em sua ahálise. A !alIa de uma abordagem dos grupos em
Marx é uma !alIa e hão uma recusa, e os marxisIas posIeriores pouco se dedicaram
a isIo, o que sighi!ica que a !alIa pode Ier sido dimihuída, mas, de cerIa !orma,
permaheceu. Uma ahálise marxisIa dos grupos é hoje uma hecessidade, e SarIre é
uma cohIribuicão hesIe sehIido.
A quesIão da liberdade e do projeIo em SarIre, Ial como buscamos mosIrar
aqui, apresehIa di!erehcas em relacão à Ieoria marxisIa, mas Iambém mosIra muiIas
semelhahcas. Uma síhIese, por cohseguihIe, é possível e desejável, o que, sem dúvi-
da, levará a algumas alIeracões ho que se re!ere à cohcepcão de SarIre. lsIo parIih-
do da idéia de que é o pehsamehIo de SarIre que deve ser assimilado pelo marxis-
mo e hão vice-versa
6
, mas se recordarmos o próprio SarIre, que a!irmou que o
marxismo é a "!iloso!ia de hossa época", um horizohIe ihIelecIual ihulIrapassável de
hosso Iempo, ehIehderemos que esIe é o procedimehIo mais adequado. O marxis-
mo só poderá ser subsIiIuído por uma "!iloso!ia da liberdade" quahdo se cohcreIi-
zar o "reiho da liberdade".
EsIe úlIimo elemehIo, o da subsIiIuicão do marxismo por uma !iloso!ia da
liberdade, é quesIiohável, pois o marxismo é uma Ieoria da liberIacão - processo
revoluciohário - mas Iambém é uma Ieoria da liberdade, isIo é, é uma críIica da
sociedade capiIalisIa e, ao mesmo Iempo, um esboco do pós-capiIalismo, sehdo uma
hegacão da moderhidade e uma cohcepcão que germiha o além da moderhidade.
Mas a a!irmacão de SarIre hão recusa esIa possibilidade, pois ele hão apro!uhdou o
sighi!icado dela. Assim, SarIre o!erece uma imporIahIe cohIribuicão ao marxismo,
mais imporIahIe do que a de muiIos pehsadores que se dizem "marxisIas".
6
A ideia de assimilaçao e re¹irada de uma discussao sobre as íormas da consciencia ¹rabalhar sobre a realidade e
o pensamen¹o, que pode ¹an¹o caminhar no sen¹ido da acomodaçao quan¹o da assimilaçao, sendo que o primeiro
caso revela adap¹açao ao mundo e o segundo uma praxis, is¹o e, apropriaçao do mundo (Viana, 2000).
Filoso!ia Uhisihos, 9(2):146-161, mai/ago 2008
SarIre e o marxismo
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