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Texto 1:

A REALIDADE SOBRE ADESTRAMENTO DE ATAQUE, DEFESA E


PROTEÇÃO

O negócio de treinamento de ataque, defesa e guarda é mais ou


menos assim:

Na primeira fase o cão aprende a defesa, ou seja, ele só irá


demonstrar sinais de agressividade quando ele ou seu dono forem
ameaçados. É quando o cão fica ao lado do dono, na guia, e o cobaia
(aquele cara corajoso que veste aquela roupa esquisita) ameaça
bater no cão ou no dono. Aí o dono incentiva o cachorro a atacar o
coitado do cobaia.

Segunda fase: treinamento de ataque.

O cão é incentivado a atacar, sob comando, mesmo que não haja


nenhuma ameaça aparente. Exatamente como os cães da policia
fazem quando não podem ver o suspeito e o policial manda o cão
mesmo assim. O cachorro acha o fugitivo, encurrala o fulano e se for
possível dá umas mordidinhas (os cachorros adoram dar essas
mordidinhas).

Fase três: treinamento de guarda. O cão vai atacar qualquer um que


tentar invadir a sua propriedade ou que tente chegar perto de um
objeto a ser guardado. Nesta fase o cão não precisa mais que o dono
esteja por perto ou que seja dado um comando para ele executar o
trabalho.

Qual é o mais indicado? Nenhum! Não acredito que qualquer cachorro


possa ser treinado para nenhuma destas funções. Não é qualquer
treinador que é bom o bastante para avaliar e treinar o cachorro
propriamente e, principalmente, não é qualquer dono que pode ter
um cão treinado para defesa, ataque ou guarda. Vale lembrar que
cães da polícia e cães de competição são treinados
PERMANENTEMENTE por profissionais.
Sempre que lemos as várias notícias trágicas de cachorros que
atacaram pessoas e crianças, com mortes e mutilações, não nos
ocorre que muitas pessoas que possuem cães para a guarda não
estão cientes da responsabilidade e do perigo que é ter um animal
destes em casa. Como treinadora profissional, tive a oportunidade de
observar vários tipos de cães. Alguns mansos, outros agressivos,
alguns neuróticos, outros inteligentes, alguns brincalhões, outros
sérios, e poucos realmente equilibrados. Também tive a grande sorte
de ter aprendido esta profissão num estado dos Estados Unidos onde
as leis sobre cachorros que atacam pessoas é rigorosíssima, e onde
estão os melhores cães policiais de todos os Estados Unidos. E a
maioria das pessoas quando pensa num cão de guarda, pensa logo
nos cães da polícia: cachorros muito bem treinados, precisos no
ataque de bandidos e sob controle total de seu dono.

Mas no Brasil, muitos daqueles que possuem "cães de guarda" nunca


procuraram um treinador profissional, nunca trabalharam com seus
cachorros, nunca socializaram estes animais. Poucos se preocuparam
com a índole do animal antes de comprá-lo e partem do pressuposto
de que cachorro de guarda tem que ser muito bravo. Acreditam que o
cão deve ficar preso o dia todo e só ser solto durante a noite que é
para não ficar amigo de estranhos.

Pode parecer estranho, mas os cachorros escolhidos para o


policiamento não são aqueles que apresentam propensão para a
agressividade. Muito pelo contrário. Os melhores cães para a polícia
são os que apresentam maior poder concentração e vontade de
brincar. Para estes cães, não existe motivo algum para temer ou odiar
pessoas estranhas. Para que sejam confiáveis e úteis na segurança da
população, eles, os cães da polícia, têm que ser dóceis e mansos
quando andando no meio das pessoas. Numa rua cheia, eles devem
se manter sempre do lado esquerdo de seus companheiros policiais e
aceitar com prazer os carinhos das crianças que nunca se cansam de
admirar tão belo animal.

O ataque para estes cachorros não é pessoal, ou seja, eles não são
treinados para ter raiva, ou perseguir nenhum grupo de pessoas
específico, nem tampouco para serem agressivos ou arredios com
estranhos. Estes cães são treinados para gostar de um jogo, uma
brincadeira muito excitante que é pegar o cara mau. Isso mesmo,
para o cachorro tudo não passa de uma brincadeira, que ele gosta
muito, de imobilizar e morder uma pessoa que seu dono mandou
pegar. O cão nunca vai iniciar uma perseguição ou um ataque sem
que ele tenha sido comandado. Claro que este comando não precisa
ser unicamente verbal. Um movimento brusco por parte da pessoa
que está sendo investigada, ou a tentativa de fuga desta pessoa pode
ser a "deixa" para uma imobilização.

A visão de uma arma, a agressão ao dono por parte do suspeito, ou


um discreto comando físico pode ser suficiente para o cão iniciar um
ataque. Os cães escolhidos para se tornar um cão de guarda devem
fazer parte da família deles. Conviver com as crianças, brincar no
quintal e ser companheiro inseparável de seus donos.

Qualquer pessoa que deseja ter um cão de guarda deveria ter os


mesmos cuidados que a polícia. Escolher a raça mais adequada.
Investigar o temperamento dos pais do filhote e evitar qualquer
animal que apresente sinais de agressividade excessiva ou medo e
desconfiança de pessoas estranhas. Socializar o filhote e educá-lo
com amor e paciência para que ele cresça confiante e tranqüilo. Fazer
com que este animal participe da vida da família, fortalecendo os
laços de amizade entre cão e humanos. Procurar um treinador
profissional competente e capaz e solicitar uma avaliação do animal,
aceitando se o parecer deste treinador for contrário ao treinamento
do cachorro para guarda. Participar ativamente das seções de
treinamento do cachorro. Prover alimentação e cuidados veterinários
adequados. E, principalmente, ser responsável pelo animal e pela
segurança das pessoas que trabalham ou visitam a sua residência.

Para evitar tantas tragédias como as que aparecem nos jornais todos
os anos é preciso lembrar que um cachorro não é capaz de distinguir
a diferença entre um atleta fazendo jogging ou um ladrão correndo
em disparada; entre um bandido escondido num beco ou uma criança
brincando de esconde-esconde; entre um ladrão atacando seu dono,
ou apenas um amigo mais espalhafatoso.

Em última análise, um bom cão de guarda só precisa dar o alarme,


latindo, na hora em que uma pessoa estranha se aproximar da casa
para que o dono possa tomar as medidas necessárias para a proteção
de seu patrimônio. Mesmo que o cachorro seja super-treinado, se um
ladrão resolver invadir uma residência quando o dono não estiver
presente, ele, o ladrão, vai invadir(por mais bravo que seja o cão, ele
fica indefeso a uma arma, uma barra de ferro ou uma tijolada na
cabeça).
A FALSA SEGURANÇA QUE AS PESSOAS SENTEM QUANDO POSSUEM
UM CACHORRO FEROZ EM CASA PODE SER FATAL PARA OS DONOS,
PARA PESSOAS DE BEM E PRINCIPALMENTE PARA CRIANÇAS
CURIOSAS E INDEFESAS DIANTE DE TAMANHA FÚRIA.

Fonte: Claudia Pizzolatto

Treinadora e Especialista em Comportamento Canino, diplomada em


Psicologia Canina e Treinamento de Cães pela NDTA – National Dog Trainers
Association dos Estados Unidos, e também classificada como “Professional
Dog Trainer” pela mesma NDTA, consultora em comportamento canino da
revista especializada Cães & Cia, com vários artigos publicados em jornais e
revistas, e várias palestras realizadas, é dona da Lord Cão – Treinamento de
Cães Ltda., empresa especializada em resolver problemas comportamentais
em cães, situada no Rio de Janeiro.

Texto 2:

VERDADES SOBRE O TREINAMENTO PARA A GUARDA

Revista Cães & Cia, n. 312, maio de 2005

Antes de treinar o seu cão para a guarda de propriedade ou pessoal,


veja estas considerações de Alexandre Rossi

O desejo do proprietário

Quase todo mundo quer um cão que seja ao mesmo tempo de


companhia – dócil e carinhoso com os familiares, amigos e
convidados – e protetor; sempre pronto para reprimir agressivamente
os ladrões. Melhor ainda se ele atacar sob comando.

O treino de defesa
Na busca por esse companheiro guardião, há quem treine o cão de
casa para o ataque (ou defesa, como é mais conhecido esse
adestramento hoje). O trabalho consiste em ensinar o cão a reagir
agressivamente ao receber determinados comandos do proprietário
ou quando houver uma pessoa se comportando de modo suspeito.
Nas aulas, geralmente, o ladrão ou agressor é simulado por uma
pessoa contratada, o “cobaia”. O treino consiste na reação agressiva
do cão; ele precisa perseguir o alvo até abocanhá-lo e só soltá-lo
quando receber ordem do proprietário.

O que ocorre com o cão treinado

Por melhores que sejam o cão, o proprietário e o treinador; quando se


trata se comportamento e de aprendizado não há como esperar que
funcionem como relógio suíço. O cão treinado para atacar pode
confundir uma criança, brincando de esconde-esconde em um
parque, com um “cobaia”, e atacá-la. Ou partir para o ataque por
interpretar erroneamente um movimento ou uma palavra. Há a
possibilidade, ainda, de não ser obedecido o comando de soltura. Tais
acidentes não são apenas hipóteses. São comuns com cães treinados
para defesa!
Treinar um cão para atacar não deve ser comparado à programação
de uma função no computador, daquelas que geram sempre a mesma
resposta quando ativadas. Condicionamentos precisam ser mantidos,
revisados e corrigidos. E o controle deve ser maior ainda quando se
lida com comportamentos perigosos.

Recomendações inadequadas de treino para ataque

Há quem receite o treinamento de ataque para corrigir o cão


medroso. A alegação é que ele irá se tornar mais confiante e, com o
tempo, mais corajoso. É verdade que com o treino muitos cães
medrosos passam a atacar. Mas isso não quer dizer que deixam de
ser medrosos. A maioria deles aprende a atacar por medo, e isso cria
uma situação especialmente perigosa e de difícil controle. Existe
também o mito de que, para obter controle total sobre um cão, é
necessário ensiná-lo a atacar e a interromper o ataque sob comando.
Acreditando nisso, alguns adestradores podem estimular o cliente a
treinar o cão para o ataque mesmo quando o objetivo é apenas o
melhor controle.

Cães costumam atacar mesmo sem treino


Muitos cães defendem o proprietário e a propriedade naturalmente,
sem terem sido treinados. Nesses casos, é importante conseguir
controlar e inibir a agressividade do animal para evitar acidentes.
Esse controle é obtido por meio da repreensão do cão quando ele se
mostrar agressivo diante de uma situação, a qual pode ser armada
especialmente para isso.

Pense com cuidado antes de estimular a agressividade

O cão pode ser excelente defensor da propriedade e da nossa vida.


Mas também pode machucar seriamente uma criança ou uma pessoa
inocente e até matá-la. Por isso, pense com cautela ou discuta com
um especialista em comportamento antes de estimular o seu cão a
ser agressivo com seres humanos.

Resumo

- O treinamento de defesa nunca é completamente seguro – precisa


ser mantido, revisado e corrigido.

- O cão treinado pode errar na identificação da presa e se confundir


com o comando dado pelo proprietário.

- Não é recomendado treinar para defesa um cão medroso.

- É um mito acreditar que alguém só terá controle sobre a


agressividade do cão se o treinar para o ataque.

- A agressividade pode surgir mesmo sem treino. Controlá-la é


importante para evitar acidentes.

- Cães podem machucar inocentes e até matá-los. Pense nisso antes


de estimular a agressividade do seu cão.