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CAPA E PROJETO GRÁFICO Nik FOTOS DA CAPA Marina Camargo EDIÇÃO DE FOTOGRAFIAS Guilherme Imhoff Suporte técnico: Índice Fotojornalismo EQUIPE DE PRODUÇÃO Sarah Bernardes Goulart Daniele Alves Pedro Marques do Nascimento Marcelo Esperança Xavier Sergio Deboni Francisco Bretanha Juliano Meira Guilherme Behs Angelo Kirst Adami Talitha Freitas Tiago Lobennwein Lazeri CRÉDITO DAS FOTOS André Furtado Assis Hoffmann Carlos Gerbase Carlos Tatsch Clóvis Dariano Denise Gadelha Dulce Helfer Eurico Salis Everton Ballardin Fernanda Chemale Fernando Seixas

Giovanna Tonello Joselito Araújo Juliana Morais Manuel Acosta Junior Marcelo Nunes Paulo Ricardo Rafael Chaves Ruy de Campos Tamires Kopp Talitha Freitas Vinicius Silva E arquivos pessoais dos entrevistados CRÉDITO DA SEÇÃO: AINDA IRREDUTÍVEIS Concepção: Daniela Ribeiro Projeto Gráfico: Juliano Medina ATIVAÇÃO DIGITAL Agência Preza facebook.com/gaulesesirredutiveis twitter.com/gauleses CRÉDITO DA SEÇÃO: RETRATOS CLÁSSICOS DO ROCK GAÚCHO Fernanda Chemale facebook.com/Fernanda.Chemale

NOTA DOS AUTORES As falas deste livro, obtidas através de entrevistas exclusivas, foram editadas a fim de proporcionar maior clareza ao leitor

br . Eduardo. Cristiano Bastos e Eduardo Müller Editor: Rafael Martins Trombetta Produção eletrônica: Maurício Blum Livro Eletrônico: novembro 2012. . Bastos. II Müller.buqui. Cristiano. Formato: ePub Requisitos do Sistema: Adobe Digital Editions 1.História I.Rio Grande do Sul .Porto Alegre : Editora Buqui Inclui imagens Tamanho: 22. Cristiano Bastos. Título. III. 01-5084 CDD-781. Músicos de rock .© 2012 de Alisson Avila.História 2.com.Rio Grande do Sul . Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Avila. Eduardo Müller.70 MB.66098165 www. Alisson Gauleses Irredutíveis: causos e atitúdes do rock gaúcho / Alisson Avila. Rock .

Punk. Rajneesh Brinquedinhos Barulhentos Simplesmente Fã Um Lugar do Caralho CAPÍTULO 7 O Dia Que Fui Contaminado Décadafonias Gauleses e Romanos INDEX! LISTA SENHOR F .SUMÁRIO PREFÁCIO APRESENTAÇÃO CAPÍTULO 1 Big-Bang! Modulando a Frequencia CAPÍTULO 2 Entrando Na Raia Toca Aquela Tipologias Descrições Deu Pra Ti Anos 80 CAPÍTULO 3 Minha Vida É Um Palco Iluminado Jailhouse Rock CAPÍTULO 4 Continuous Play A Grande Engrenagem CAPÍTULO 5 Morte Por Tesão Estupefações CAPÍTULO 6 Sentimento Rock Hippie.

CADERNO DE FOTOS Ainda Irredutíveis Retratos Clássicos do Rock Gaúcho .

em respeito à alma de Sid Vicious. Não espere documentação acima de qualquer suspeita. Edu K. Mas não pensem que eu acuso o livro de fabricar mitos ou criar fantasias. A leitura destes “causos e atitudes do rock gaúcho” merece uma talagada de bourbon. o que certamente ajudará a compreender as mágicas executadas nas páginas a seguir. que está rolando neste momento. que eu avalie racionalmente o que significam para a cultura do Rio Grande do Sul os gauleses irredutíveis retratados neste livro. Este livro também tem algumas verdades sobre a nostalgia. eu não nego que o sentimento dos anos 70 é bonito. Acredito que tudo o que está escrito é verdade. Ninguém ouve rock com o cérebro. É preciso mais que abrir os ouvidos pra compreender esses instantes mágicos: é preciso abrir a garganta para um gole generoso de Jack Daniel’s e escancarar o coração para a dor e o prazer da única música que sobreviverá ao final dos tempos. entre suas fontes principais. sob a responsabilidade de quatro guris que massacram seus instrumentos e os microfones com a raiva que só os absolutos desconhecidos conseguem transmitir. imitando Johnny Rotten nos clips dos Sex . Isso seria um sacrilégio contra o rock. Isso sem falar da trans-substanciação da erva mate numa erva galhuda. enquanto houver uma banda de rock tocando num bar de Porto Alegre para meia dúzia de bêbados solitários. nomes como Gordo Miranda. de origem misteriosa e efeito um pouco diferente do chimarrão. que destilaram essa poesia do pó da estrada. Os autores de “Gauleses irredutíveis” fizeram a coisa certa: ouviram todos os malucos que encontraram. porque ela acompanha seus fiéis até o túmulo. que incluem a transformação de bumbos legueros em baterias pinguim. Como Raul Seixas.aprendeu a ser punk em duas semanas. gaitas-ponto em guitarras elétricas e cavalos crioulos em bestas de quatro rodas. mas toda poesia dos 80 e começo dos 90 onde é que fica? Fica registrada nos depoimentos antológicos que o Alisson. ordenação cronológica rigorosa e respeitabilidade acadêmica. e Júpiter Maçã? Esses caras não inspiram respeito nem no bar da esquina. Acredito que Wander Wildner – até 1983 fã de Ednardo e Alceu Valença . o Cristiano e o Eduardo conseguiram extrair dos músicos. capazes de ficar de pé – é muito mais interessante que qualquer verdade. pagaram algumas cervejas (o que sempre facilita o bom trabalho jornalístico) e fizeram de conta que estavam acreditando nas histórias que surgiam. E não me peça. É claro que uma mentira confirmada por três fontes de confiança – isto é. Acredito que Syd Barret não morreu. Para medir o que fizeram essas bandas – capturadas neste livro com precisão e honestidade incomuns – sugiro a mesma atitude de quem entra num bar quase vazio para assistir ao show mais importante da história do rock’n’roll. com um alambique suspeito importado do Paraguai. se mudou pra Porto Alegre e hoje atende pela alcunha de Plato Dvorak. por favor. O que esperar de um livro que tem.PREFÁCIO Não me mate.

vai vomitar no colo da fã mucra demais. 25 de outubro de 2006 . porque – ao contrário de Londres. mas quem se importa? E agora falando sério: Porto Alegre é um lugar do caralho pra se fazer rock. aqui estão as histórias. ser enganado por empresários calhordas. Carlos Gerbase Porto Alegre. brigar com programadores de rádio que só tocam jabá. Divirtam-se. Nova Iorque e outros lugares chinelos. escapar de fininho de muitos atraques da polícia e. Acredito que hoje o Gordo Miranda é júri de calouros num programa de TV chamado “Ídolos”. Acredito que o fantasma de Syd Vicious estava presente no primeiro show dos Replicantes. vai tocar em amplificadores queimados. vai descobrir que não ganhou nada além de divertimento e histórias para contar depois. em que músicos podem ficar famosos e milionários da noite pro dia . assim como a alma de John Lennon possuiu o corpo de Flávio Basso no primeiro show dos Cascavelettes e não largou o osso até hoje. O resto pode ser mentira. vai entrar num monte de roubadas. finalmente. Graças aos gauleses irredutíveis.aqui o sujeito vai ralar a vida inteira.Pistols.

versões e visões diversas sobre os mesmos assuntos. a relação com a estética do rock. das tralhas enciclopédicas e das verdades absolutistas. agitadores e agregados em geral sempre tiveram este viés: mais do que explicar. Resolvemos reunir algumas dessas situações e informações. entendemos seu conteúdo como um tributo àquilo que julgamos ser o mais importante neste estilo de fazer música e de viver: a diversão. Nos concentramos em reunir histórias e impressões sobre a música jovem do Rio Grande do Sul. muito mais que explicar. imprensa. As 167 entrevistas que realizamos com músicos. Até porque tudo o que realmente interessa é a experiência pessoal com a música. de bandas e músicas. Se o Rock Gaúcho é efetivamente “diferente” ou “melhor”. discos. queremos sugerir – e talvez aí esteja nossa única pretensão – que os “gauleses” não precisam de uma única verdade. mais do que explicar “a grande verdade” sobre o rock gaúcho. . Acreditamos que o rock se traduz nas pequenas coisas. Estamos. também não estamos aqui para provar. sobretudo. obviamente a muitos apreciadores.APRESENTAÇÃO Estimado leitor. É esse status quo que estamos propondo. Antes de ter virado “arte”. produtores. fazendo uma referência a todo o imaginário que circunda esse universo. E é a experiência dessas pessoas que fizeram o Rock Gaúcho que estamos levando até você. Assim.. espalhados por todos os cantos. shows. o que você vai encontrar são relatos e versões sobre a origem de cena. pelo lúdico e o juvenil. Essas premissas nos levaram a montar o livro como uma compilação temática de cutups do universo rock. por vezes árduos. mas sobretudo divertidos meses de labuta jornalística. Todos têm incontáveis histórias para contar. Optamos em não nos colocarmos no papel de avaliadores de qualquer incidente que possa ser lido nesse volume. às quais o Rock Gaúcho é bastante prolífico em oferecer. o rock para nós não é nada além de uma atitude transformadora. jornalistas. mercado fonográfico. no melhor sentido que possa ser atribuído a estas palavras. Os causos e atitudes que descrevemos aqui são consequência dessa faceta original da cultura rock que tanto interessa a nós e.. estamos propondo uma grande fotografia.. ao invés de tentarmos explicar esta música. e transformá-las numa boa leitura. a busca pelo inusitado. não emitindo julgamentos de cunho pessoal nem moral sobre os fatos narrados. sexo e drogas. Antes ainda da montoeira de estilos e conceitos. Talvez porque. o que reunimos é um apanhado de impressões. peça de museu ou até mesmo enciclopédia. “Gauleses Irredutíveis” é consequência direta de alguns frenéticos.. E. e não nos grandes conceitos. uma reunião de instantâneos que permitam ao leitor construir seu imaginário sobre o rock e assemelhados na música produzida no Rio Grande do Sul.

Os Autores. .

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guitarrista dos Cleans.BIG-BANG! Glênio Reis: Meu programa na rádio já estava no ar desde os anos 50.. Eu tocava bateria. Adaptei minha linguagem pra televisão. Eu ouvia em ondas curtas o “Hoje é Dia de Rock”. por influência dos meus professores. Tocava tudo. quando me mascarava pra ficar parecido com os criadores das músicas de sucesso. estava acontecendo o primeiro disco de rock: o 78 rotações do Bill Halley. E era um grupo que não se vestia de gaudério: usavam as roupas do povoeiro mesmo. Sempre: rock. mestres. Eram todos coroas. jazzistas. Sempre fui apaixonado pelo trompete. Luís Wagner: A onda que pegava era a de bandas instrumentais. como a gente não . Era transmitido em preto-e-branco.. Eles foram os criadores. estilo Ventures. violino. Mas as primeiras músicas que aprendi eram rock. Acho que os anos 60 já estavam começando. O cenário simulava uma lojinha de discos. onde me comunicava muito com o pessoal universitário. A primeira vez foi em 58. Zé do Trompete : Eu comecei no rock. Eu os acompanhei porque eram os únicos caras que poderiam me dar algumas dicas de instrumentos de sopro. No final dos anos 50. E daí peguei o trompete. os intérpretes da primeira gravação de “Homens de Preto”. Isso foi lá por 60. junto a isso. E o Enquanto Roda o Disco. A parada do rádio ainda era de música popular. Depois foi percussão. acordeão. nome do meu programa na TV Piratini. uma coisa meio Ed Sullivan. Os Gaudérios já tinham uma coisa mais projetada. E deu pra minha vida. Ele foi o primeiro apresentador que reuniu bandas musicais jovens em Porto Alegre. jazz.. Mutuca: Eu tinha nove anos quando vi as pessoas mais velhas dançarem “Rock Around the Clock” na minha casa. violão e violino. Era o que todo mundo tinha. Os Rockets. em rádio e televisão. Foram os anos das bandas instrumentais de guitarra.. 61 com o Zé Roberto.. pude entrevistar bandas como Os Gaudérios. Todas as bandas tocavam ao vivo.. lá por 57. um grupo com cantor... tocando piano. Mas o rock’n’roll começou por aqui quando o pessoal aprendeu a tocar guitarra.. Lá. Depois é que veio o jazz.. Porque. no programa do Glênio Reis. mas. Julio Furst: Me apresentei com a minha banda.. e ele era o sucesso. foi uma consequência do rádio.. fazendo um bloco musical dentro de um programa de variedades. Ele foi o primeiro guitarrista profissional da cidade. o que fazia sucesso era o disco “Tutti Frutti” com o Elvis Presley. Só eu dublava.

Então. E eu tinha que fazer uma coisa diferente nele. Até que estouraram os Beatles – e tudo começou a mudar.. O nome da banda também era GR Show.. Mutuca: Eram mais de duzentas bandas em bailes e reuniões dançantes. Flamboyant. Também tinha o Liverpool. seis grupos tocando. De 60 pra 64. E eles começaram a fazer os arranjos: o Hermes era base e o Cláudio fazia a guitarra solo.. Juntava guitarra. Todas eram bandas de reuniões dançantes. baixo e bateria com um trombone. Tocamos na Sogipa. Os Minis. Depois. Também fazia parte desse momento gente como Renato e Seu Conjunto. no tempo em que a sede social era na Alberto Bins. Na realidade. A partir daí..cantava em inglês. as pessoas queriam ouvir coisas mais pesadas. na TV Piratini.. Faziam parte o Beto e o Vítor Meines. Os Jetsons. . E os Rockets tinham percussão. participamos de um programa da época. Flamingo. Handsomes. Norberto Baudaulf. Claudio Levitan: A minha história com a música começou em 65. A minha se chamava Alphagroup. Elvis e rocks românticos. o Juarez Verba e o Marco Aurélio... teclado.. um sax tenor e um trompete – pra dar o peso. Nesse ano tive uma banda de rock que se chamava The Bachfools. Julio Furst: Nosso conjunto tocava coisas como Bill Halley. mas acabou virando atração. Botei os dois a cantar – porque na banda todo mundo cantava. Julio Furst: Os conjuntos melódicos eram moda no começo dos anos 60. Glênio Reis: Já o GR Show foi um programa transmitido pela TV Gaúcha. Bandas como Os Incendiários. depois do surgimento da Bossa Nova. montei o primeiro conjunto daqui a tocar rock misturado com instrumentos de sopro. era aquela coisa: tirava mais ou menos as letras e mandava ver. vibrafone. Tocávamos em bailes. com cinco. guitarra e piano. porque não tínhamos muito domínio. Mutuca: Já a Jovem Guarda mudou a febre do instrumental pelo cantado: cantar falando de rock. Bulls. Thunderballs. Stardust. Os Morcegos. Melódico Mocambo.. A banda começou servindo de apoio ao programa. Foi quando começaram a surgir mais adolescentes fazendo música.. Os Monges. o conjunto só ficou realmente como eu desejava quando eu consegui trazer o Hermes Aquino e o Cláudio Vera Cruz. Hooligans. aconteceu a passagem pra Beatlemania.

Boinas Azuis. de gravação com todo mundo. Ainda não tinha pintado Jimi Hendrix. A gente chegou meio puro demais. já com um contrato com um produtor. conseguiam alguma coisa. que eram as bandas preferidas.. Luís Wagner: Nos Brasas aconteceu uma coisa interessante. a gente se tornou uma banda contratada por uma emissora de televisão! Logo depois nos tornamos um grupo de estúdio. Não tínhamos conhecimento de quase nada. A Jovem Guarda foi quase uma resposta bem comportada ao rock internacional. Tínhamos saído do Rio Grande do Sul.. Os conjuntos de Jovem Guarda acabaram virando bandas de baile. nessa época. que o Ronnie V on cantava na época. éramos um tanto relapsos e relaxados pra com o nosso próprio trabalho.. Chegamos em 66 em São Paulo. Gilmar Eitelvein: O rock no Rio Grande do Sul se formou por via direta. Claudio Levitan: A gente tocava músicas próprias e covers dos Beatles. só aquelas que fossem até São Paulo.. Mas. Eu me lembro de algumas canções: “Go”... “Bamba La Bamba”. Beatles influenciaram mais o nosso rock do que outras manifestações.. que era visto como uma coisa marginal e rebelde. chegado em São Paulo e tudo era muito simples. quatro meses. The Old Stoned. Sempre buscavam tocar de forma mais radical. Sem uma malícia de como lidar com as coisas. E. Kinks. Uma série de bandas como Rolling Stones. . Depois foram Os Brasas e Os Jetsons.. Mutuca: Como aqui não tinha uma indústria fonográfica que atendesse a novidade dessas bandas.. Foi o rock inglês que pesou muito aqui.. dos Beatles. Janis Joplin e todos eles. sem noção de nada. passados três. E os roqueiros gaúchos dos anos 60 nunca foram com a cara da Jovem Guarda.. Tudo de Beatles e Rolling Stones.. Quem fez isso foram Os Cleans: eles tiraram primeiro lugar num concurso de Jovem Guarda.

animador de auditório. tocou muito no meu programa. . O seu Luís nos ajudou a comprar os primeiros instrumentos. Quando vi que a movimentação da gurizada estava aumentando e eu assumia um compromisso tão grande. a cada noite. Começaram a aparecer muitas bandas nos anos 60 – e eles não tinham empresários. o Tom Gomes.. foi uma das personalidades mais importantes pro início do rock gaúcho no início da década de 60 Diego Medina: Os Brasas eram os músicos que acompanhavam o Ronnie V on.Glênio Reis. o Luís Ernani. que era dos Brasas.. Glênio Reis: O Luís Wagner. Os clubes contratavam os conjuntos de rock por hora de apresentação: botavam uns sete ou oito conjuntos. uma garagem mesmo.. me tornei empresário da gurizada. Ele é pai do guitarrista dos Jetsons. final dos 60. Músicos dos anos 60 e poucos. Luís Wagner: A gente se reunia todos os finais de tarde pra fazer som na casa do seu Luis Carlos Guimarães. radialista e apresentador de TV voltado à cultura musical em Porto Alegre. Tem o Luís Wagner. no disco que ele gravou “Sílvia 20 horas Domingo”. Era uma oficina. Foi isso que me despertou a curiosidade pelo rock. Eu nunca vi tanta gente na minha vida..

Nem sabiam o que era um DJ.. Gravataí. Um lance de rock de garagem: ninguém conhecia música – muito menos rock’ n’roll. fui ser DJ. no centro de Porto Alegre.. Claudinho Pereira: Eu morava na Thomaz Flores na década de 60. Nem nós conhecíamos direito! Copiamos o disco todo. Não tinha essas molezas de instrumento importado que tem hoje. 68. . Claudinho Pereira: Operei som de muita banda na noite em Porto Alegre. Foi o primeiro lugar a começar às duas da madrugada e seguir aberto até às dez da manhã.. Mutuca: O primeiro show internacional que eu assisti em Porto Alegre foi os Herman’s Hermits. começamos a Byzzarro. o que acontecia? Alguém tinha que cuidar do som – mas ninguém queria! Aí. Eu tinha 15 anos quando fui ver Woodstock no cinema. melhorando. As informações que chegavam eram as que um amigo nosso havia trazido da Inglaterra. na Independência. Histórias londrinas de 67. Tínhamos uma banda chamada Bestial Project. Outra casa era o Encouraçado Butikin. Tocávamos na periferia: Cachoeirinha. guitarrista era marginal. Os equipamentos eram todos primitivos.. Por causa disso. E fizemos uma coisa diferente pra época: a banda Prosexo. com uns amigos de lá.. Ele tocava à moda diabo. o Whisky a Go-Go. porque eles tinham lançado só um disco. Eram cinco ou seis lugares diferentes numa noite só. Eu. e cada vez mais elas iam se apurando.. num sábado. Já existia uma turma de rock’n’roll na rua Duque de Caxias.Chaminé: Em 67. quando rolavam umas festas de garagem. Então. coisa de vileiro cabeludo.. Chamavam de discotecário. com catorze anos. um lance pancada começava naquele momento. influenciados pelo Jimi Hendrix. Montei minha primeira banda. de covers dos Rolling Stones.. Uma foi o Herman’s Hermits. Era uma casa pra esses caras que trabalham na noite.. no Baltimore. quando só tinham bandas de baile. E também tinha. o Carlinhos e o Mário Monteiro... em 1967. Os caras faziam as reuniões dançantes em casa... Fernando Pezão: Eu comecei em 68. nacionais. Já em 70. que tocava umas versões de The Who – mas ninguém conhecia Who. Gelson Schneider: Comecei em 67. no bar Locomotiva. E nosso guitarrista era o Beto. na mesma rua.. Era um berreiro dos infernos.

. em 1969 – porque ganhamos o Festival Universitário na reitoria da UFRGS. com quem eu fui pro meio da rapaziada. E eles vieram falar comigo pra trabalhar. Eu era um cara mais da vila.. eu botava rock pauleira mesmo. Mas sou mesmo é do IAPI – me criei em Porto Alegre. Mas. o Marcos Lessa. e só voltem quando os arranjos estiverem prontos pra eu ouvir”. fazendo música.. uma música linda. mas o básico era esse time aí. Beatles.Fughetti Luz: Nasci em São Francisco de Paula. se apresentar na TV . Muitos passaram pela banda.” Dei o disco do Led I pra eles e marquei umas faixas. Depois de analisá-los. Glênio Reis: A grande força do rock em Porto Alegre começou nos anos 60. . ordenei: “olha. a gente dormia nos quartos e acordava tocando... Na época que isso aconteceu. Assim como toda a galera que armou o Liverpool: o Mimi. direto do bairro Sarandi pro Maracanãzinho! A gente tinha uma casa no Sarandi pra ensaiar e fazíamos muita festa lá: os instrumentos ficavam na sala. minha faixa de rock passava por Led Zeppelin.. Umas faixas de seis. Crosby Stills Nash and Young. Fughetti Luz: O Liverpool foi parar no Rio de Janeiro – uma banda de rock de Porto Alegre.. o Edinho Espíndola. Aquelas coisas água-com-açúcar que tocavam não batiam muito comigo. a Prosexo.. Era tri louco! Muita buceta. sete minutos. Gilberto Gil. Tocamos “Por Favor Sucesso”. Sucesso nacional. Jorge Ben. comparadas com as faixas de dois minutos e meio que todos estavam acostumados a tocar. Umas coisas enormes. Mais tarde. conheci o Carlinhos Tatsch. eles ainda estão tocando. só tenho uma coisa pra vocês fazerem.. mesmo. na semana seguinte... Steppenwolf. Falei: “vocês copiem integralmente o que está tocado aqui. como vencemos. Gelson Schneider: Tinha o programa do Julio Rosemberg no Canal 10.. Enquanto as outras rádios entravam com tangos e boleros. Assim como eu. do Carlinhos Hartlieb: ele que tinha pedido pra gente defender a música. Quem tirasse o primeiro lugar iria participar do Festival Internacional da Canção.. Ele foi o primeiro a dar uma chance pra minha banda. entramos no Maracanãzinho: nós.. eles foram no escritório dizer que estavam prontos – e fui ver o trabalho.. muito legal. E. participando do festival.. que rolava no Rio. Passou algum tempo. no outro dia já estávamos pegando o avião. também tiramos o décimo primeiro lugar com “Olhai os Lírios do Campo”. No mesmo festival. Glênio Reis: Conheci uns caras e gostei muito da qualidade deles. desde os seis anos.

Claudio Levitan: Porto Alegre tinha uma forte escola de tropicalismo. um cara da banda pegou o contrabaixo e bateu com as chaves da afinação na cabeça do Geraldo Flach! E eu fui o pivô dessa briga. dizendo que estava ouvindo o meu programa.. Foi um escarcéu dos diabos. os músicos da Ospa se levantaram e disseram que não iam mais tocar. Chaminé: Acabou dando a maior pauleira. excelentes. vieram a Porto Alegre bem no começo da carreira... em 1970. Mas eram muito bons: eles tinham duas baterias. Batizei a banda de Mao Mao.. porque a esposa do Geraldo meio que não gostou do que eu estava fazendo.. que estava por lá na mesma noite. acabamos indo. tudo acontecendo. Mas não fui eu quem bati nele! Enquanto isso.. Eles foram o primeiro e mais moderno grupo que apareceu por aqui. de penico na cabeça. na rádio Gaúcha. Cascalho: Comecei o programa Biershow na rádio Continental. E ele parou no Pronto Socorro. Glênio Reis: Quem descobriu o Cascalho fui eu.. demos um banho de talco na Orquestra Sinfônica da Ospa. Criei esse estilo observando algumas coisas americanas. No meio do bafafá. na reitoria da UFRGS.. Chaminé: No Festival Universitário de 69. o Cláudio Vera Cruz.. Mas também levamos galinhas pro palco. Então. Eu era um apresentador totalmente anarquista. Até que um dia eu pedi pra ele dar uma chegadinha lá na rádio. toda a banda. ou de uma música moderna brasileira ligada à linguagem modernista.. E levamos a guitarra elétrica pro meio dos violões. Por exemplo: lembro de um grupo que o Chaminé participou em que eles cantaram uma música e jogaram talco na plateia e na orquestra também.Dava pena ver os guris tocando: uma chiadera. um ronco. da Argentina e do Rio de Janeiro. Pelo meu feeling. com o Mutuca. Ele me telefonava. num momento em que só tinham emissoras AM. inclusive Os Mutantes e Tom Zé. e nós usando ceroula. Vários grupos. Ainda não existia a irreverência dos comunicadores de hoje. . aconteceu uma espécie de pulo do gato pra essa história de guitarristas tirados pra marginais. Eu tocava no Succo..... selecionava as músicas e fazia daquele horário um espetáculo. pra polícia – e o delegado era o irmão do Geraldo! Mas ele foi um cara gente fina: nos liberou. Tinha gente de longo preto e smoking na plateia. Claudio Levitan: Lembro que alguns grupos faziam umas coisas muito loucas.

. Alemão Ronaldo: Tinham várias bandas de baile nos anos 70. mais no início dos anos 70. Grupos que surgiam com a ideia de shows multimídia. Não havia uma produção musical popular no Rio Grande do Sul. ou às seis da tarde”.. um pouco na linha do Hair. Jethro Tull. porque tu não lança um programa igual ao meu?”. me perguntando: “ô Glênio. Cabeça. eu estava com vinte e dois anos. Havia em Porto Alegre uma cena com aquele clima pós-Woodstock. Dois dias se passaram e ele voltou. em que horas tu lançaria um programa desses?”. que foi uma banda premiada. Muita pauleira no som! Kledir: A ideia dos Almôndegas surgiu no início dos anos 70. Corpo e Membros é que os guitarristas deixaram mesmo de ser bandidos. com o patrocínio de um refrigerante famoso. Estávamos muito fora do que acontecia no Brasil e no mundo em termos musicais. Cabeça. começamos a montar o Em Palpos de Aranha – que vai do final de 74 até 76. Eram shows grandes. resolvi dizer pra ele o seguinte: “vem cá. na maioria dos casos. Os dois foram espetáculos que aca-baram virando bandas.. Outra deu origem ao Sul Bossa Jazz. Foi assim que as guitarras foram pros teatros. Toquei com diversas bandas. e que trouxe um momento de mudança de comportamento e postura no mundo. de baile. Cascalho: “Hello! Crazy people!” e “Hello! Tô chegando! Isso é uma loucura!” Eu fazia essas frases de efeito. O Caravelle. Chaminé: Depois daquela participação do Succo na UFRGS e de shows como o Amelita. Eu disse: “ou à noite.. Kledir: Fomos até Santa Catarina em 71 pra participarmos do chamado Fucaca. Corpo e Membros. um festival . Zé do Trompete : Em 70. Tínhamos poucos artistas: eram pessoas com músicas selecionadas em festivais aqui e ali..Como eu já era um homem de muito mais idade pra falar o linguajar da garotada.. A minha era o Supersound. Algo importante. Claudio Levitan: Depois do espetáculo Amelita.. Pouco tempo depois surgiu ele.. chinelas pra caralho! Toquei com bandas covers. O forte da cena brasileira era a Tropicália e o pessoal dos festivais – que hoje são os grandes medalhões da nossa música. Tocávamos Led Zepellin.

Ele era o cara que mais tinha o espírito pra organização daquela loucura toda.. tanto de sexo quanto de drogas. de música ou uma vida nova mesmo. E a ideia dessa mostra ia bem ao encontro daquilo que queríamos: algo que não tivesse caráter de competição entre os grupos. Quando voltei pra Porto Alegre. Só eu que não estava junto.. que entrou no primeiro disco dos Almôndegas.. que era uma banda mais rock’n’roll. Estes festivais foram as sementes pro surgimento dos Almôndegas.. uma coisa meio hippie. que era a vida em comunidades: nas repúblicas. a Trilha do Sol. Muitas pessoas se juntaram à ideia: o Zé Flávio.. Havia uma característica muito forte. nesse início de década de 70. Ao mesmo tempo que gritávamos contra o regime militar violento. o tempo todo. estávamos na universidade. também o Cláudio Vera Cruz e o Peko Santana. . Todas estas coisas fervilhavam na nossa cabeça. voltamos ao festival e ficamos em segundo lugar. que fazia parte da nossa turma. fiz a Laranja Mecânica.. Aquela coisa de coletividade. Kledir: A 1ª Mostra de Música de Porto Alegre aconteceu em 72. com a música “Vento Negro”.universitário que acontecia por lá – e ganhamos. na Europa. Já faziam parte. o Kiko Castro Neves e o Peri Souza. com seus grupos de amigos. e o início do Bixo da Seda. criar um mundo novo. diferente.. havia 24 pessoas no palco.. Nessa época. As pessoas iam apenas pra se apresentar. que depois gravou quatro discos. com um grupo bem anterior ao Saracura. com paz e amor. paz e amor. Até então. Os pais da Liane Klein.. o Edinho. Nossa vida era uma grande celebração. Mas o Bixo da Seda já estava rolando – e com o mesmo time do Liverpool: o Mimi. éramos uma turma. em 73. Vivíamos numa grande turma em Porto Alegre.. Na realidade. E depois uma banda chamada Bobo da Corte. Fughetti Luz: Aconteceram várias coisas entre o fim do Liverpool. Em 72. Uma coisa basicamente organizada pelo Fogaça. além de mim e do Kleiton. Foram três grandes grupos que se conheceram e se reuniram.. quando fizemos esta outra apresentação no Fucaca. Ser parecido com Woodstock era fundamental. a ideia de um festival sem competição era tudo que queríamos. Fiquei um ano e dois meses fora. Um tempo de pensar em solidariedade. depois do Liverpool. Um tempo de experimentação de tudo. o Fernando Ribeiro... eram muito receptivos e estávamos sempre na casa dela.. Foi a partir disso tudo que vislumbramos a possibilidade de fazermos música de uma maneira séria.... uma amiga nossa. nos encontrávamos todas as noites. Só faltava o Gilnei pra acontecer a primeira formação da banda. Foi sintomático estarmos em cima de um palco com tanta gente em 72..

Me deu um brilho: “eu. Todas as sextas-feiras. e esse trabalho magnífico aqui?!” Eram músicos como o Nelson Coelho de Castro. Me vestia com calça de vaqueiro. E aquilo foi a gota d’água pra mim. Eu saí com aquele troço de mudar o estilo do programa na cabeça. às dez da noite.. um ano depois. Até que. Mas. Paul and Mary. na rádio Continental. com um espaço de uma hora no rádio. E pensei que o segundo passo . Um roteiro de soul e funk que estava começando a entrar no início dos anos setenta. A ideia deles era fazer algo específico pra Lee.Juarez Fonseca: Quando comecei a escrever sobre música.. uma rearticulação do Liverpool.. A partir daí as coisas começaram a crescer. As coisas começam a surgir no ano seguinte. Um piloto da Varig me trazia os discos importados – aquelas bolachinhas de quarenta e cinco rotações. E as coisas eram emboladas mesmo: todo mundo tocava junto. Julio Furst: O meu programa virou pra música local porque fui convidado pra fazer parte do festival da PUC.. Ele teve coragem de rodar música gaúcha na década de 70. em primeiro de abril de 75. A primeira roda foi com o Bixo da Seda. Lee. eu era acompanhado por cinco garotas black power – as Juliettes. As Rodas de Som marcaram época. logo depois que o “Mr. entrou no ar o programa “Mr. um DJ especializado em música negra.. Tinha os Almôndegas. e criei o Mr. no Teatro de Arena. Julio Furst: Meu programa na rádio Continental ia ao ar todos os dias. houve a oportunidade de um patrocínio da Lee norte-americana. em termos de rádio. bota e chapéu. porque aqui só havia contrabando e imitação da Lee.. Vi coisas incríveis no palco. Eu me identificava como Julius Brown. Lee In Concert”. o Musipuc. O Bixo da Seda fez uma apresentação que estourou mesmo. O programa começou com música country. pra um programa jovem de rádio. E. com as Rodas de Som. à meia noite. o João Antônio e a Ângela: uma espécie de Peter. Era uma coisa da cidade se descobrindo. Tinham três ou quatro bandas de rock e o Hermes Aquino. são dezesseis horas”. que era pop. Lee In Concert” começou. Superlotava. Era a intenção da empresa mostrar que estavam chegando no Brasil. Sem medo. foi gravar um disco em São Paulo. em 73. não havia quase nada em Porto Alegre. Nas festas do clube Floresta Aurora. através da Renner. Hermes Aquino. Eles sugeriram que eu criasse um personagem. formada pelo Alexandre Vieira. o Fernando Ribeiro e o Inconsciente Coletivo. E dizia: “na Porto Alegre de Mário Quintana. em 1975. uma banda de folk. Nelson Coelho de Castro: Mas o Julio Furst foi um divisor de águas da música popular gaúcha.

O Fogaça conseguiu liberar o estúdio da própria rádio. está contigo. As pessoas começaram a ligar.. porque não havia mixagem. a primeira versão registrada de “Vento Negro” e “Rock no Quintal”. o Cálculo 4 e o Inconsciente . do Gelson Schneider – uma das bandas mais pesadas da época.. Fizemos tudo com apenas um microfone – não havia nenhum estúdio especializado pra este tipo de coisa.. O Júlio gostava de música regional e queria apostar nesse segmento jovem. com locutores como o Cascalho.. começou a tocar as nossas músicas: “uma fita de gente da cidade!”. e assim íamos completando a gravação. Julio Furst: Então eu passei a produzir alguns concertos patrocinados pela Lee no Rio Grande do Sul. de Porto Alegre. Fizemos uma reunião. fizemos doze concertos. A Brigada Militar teve que fechar a Benjamin Constant pra desviar o trânsito. que se chamavam “Vivendo a Vida de Lee”.. com os meios de comunicação usando a arte pra vender coisas. independente da colocação da música. Alguns me traziam sua produção artesanal.” Eles responderam: “tudo bem. Quando isso aconteceu. Durante três anos. Mas. a gente envenenava um pouquinho. e que apareceu com a primeira guitarra de dois braços da cidade. entre outras coisas.. Tínhamos que gravar tudo numa tacada só. as músicas viraram sucessos.. do Zé Vicente Brizola. quando a banda era de rock. Era algo artesanal – mas as coisas se facilitavam porque a maioria das músicas eram acústicas. a rádio quente de Porto Alegre e que toda a garotada ouvia.seria convencer o patrocinador. O primeiro foi no dia treze de agosto de 75. Foi uma loucura. Julio Furst: O estúdio tinha um gravador Ampex de dois canais e apenas um microfone. O que a gente fazia era colocar o vocal mais pra frente do microfone. acaba o patrocínio!” E deu certo. Tocaram no “Vivendo a Vida de Lee” o Bobo da Corte. se não der certo. Kledir: O Fogaça era comentarista da Rádio Continental – o grande barato da cidade. Tinham três mil pessoas – sendo que a capacidade era pra mil e quinhentas. Eliminávamos um dos canais da mesa pra colocar outro microfone.. E foi a partir dele que gravamos a primeira fita dos Almôndegas.. Tinha também os Em Palpos de Aranha. o Byzzarro. e atrás a percussão.... as violas mais ao lado. E a Continental. como o Musipuc – e punha no ar. em 74. no teatro Presidente. de estúdio. Claro que. outros gravavam na Continental mesmo.. Nelson Coelho de Castro: Ainda não existiam várias indústrias. Isso foi um pouco antes. Em um take só gravamos. A Continental gravava esses shows – de festivais.. Eu saía pra noite e conversava com os caras. e eu disse: “o negócio é a música local. de ser gaúcha ou não.

salpicava sangue nas peles.. O Hermes Aquino lançou “Nuvem Passageira” naquela noite. porque não tinha van. Viajamos pra um monte de lugares. Quando fazia o rolo na bateria. errava o prato com a baqueta. Aliás. que eu vou me grudar nele quando ele sair do camarim!” . E o cara estava muito louco durante o show deles. o Hermes e o Laurinho. E uma música de sucesso da época foi “Nuvem Passageira” – foi quando a Continental estava mudando de AM pra FM. junto com o Utopia e Inconsciente Coletivo. E abrimos o show do Bill Halley em Porto Alegre. O Chaminé. Lee. E armou um esquema com um fotógrafo: “tu fica com a máquina na mão. Chegamos a fazer turnê por causa disso. eu saí do Bobo da Corte.. batia com a mão. Van foi feita pra levar japonês em aeroporto! Fughetti Luz: O Bobo da Corte acabou abrindo um show do Bixo da Seda.. Mas não ia deixar os caras na mão. E nós cagamos a pau pra cima do Bixo da Seda. O Schneider dizia que nunca mais ia lavar a bateria! Cláudio Vera Cruz: Bill Halley em Porto Alegre era a vinda do ícone branco do rock! Gelson Schneider: Também foi nesse show que o Cláudio Vera Cruz tirou uma foto meio que à força com o Bill. Mitch Marini: O Cláudio queria tirar uma foto junto com ele. Gelson Schneider: Em 74. Luzinha!” Ele me chamava de Luzinha. Um monte de gente passou pelo Bobo da Corte. Ficou um time montado pra eles continuarem.. Aí... onde muita gente apareceu. Ele começou a bater com a mão no prato. Tempos de Kombi. Era eu. eu tocava bateria na Byzzarro. A gente cagou tanto a pau que o Mimi Lessa chegou pra mim e disse: “Vamos pra estrada com a gente de novo. o Celso.. E não adianta: a gente era foda mesmo. Mitch Marini: O baterista do Bill Halley tocou com a bateria do Schneider... eu prefiro Kombi do que van. na Assembleia Legislativa. Chaminé: Tinha o programa do Mr. E ele tinha feito a música dois dias antes..Coletivo. Dois violões e uma espécie de bateria.

postado na porta. Ambos andavam procurando alguma coisa.Na hora que o Bill Halley saiu.. Afinal. o Cláudio se avançou no pescoço dele. pro Nico Nicolaiewski. Tudo foi muito rápido.. Era o momento forte da repressão.. com o Bixo e depois com a Bandaliera. Ele passou a ser uma figura fundamental na nossa história. O Bixo fez uns shows do caralho: no Circo Voador. Quando o velho Bill saiu. no teatro Teresa Rachel. mas posso tentar adaptar algumas coisas. Foi o que provocou o surgimento do Saracura. Claudio Levitan: Em 76. começou a construir e criar equipamentos de som pra espetáculos. Mas nunca mais localizei essa foto. Viajei com o Liverpool. Fomos tocar no Encouraçado Butikin e resolvemos procurar equipamento na lista telefônica. na rua Ramiro Barcelos.. O cara pensou que estava sendo assaltado. Chegamos lá e conhecemos o Egon Alsher. tinham bandas de rock – um movimento acontecendo. E a única empresa que encontramos foi a Cotempo – que era especializada em colocar som em igrejas.. Kledir: Não existiam condições técnicas de nada. e pulou pra trás! Cláudio Vera Cruz: O fotógrafo era uma pessoa que volta e meia encontrávamos nos shows.. pai do Renato Alsher. esperaria o Bill Halley sair do camarim.. . mais ou menos em 77. Uma confusão. Era um clube de esquerda. caixa de som.. Programamos tudo: ele ficaria com a câmera engatilhada e eu. onde.. Fughetti Luz: Foi com o Bixo da Seda que pegamos o estradão todo de novo. Não havia estúdios – muito menos a aparelhagem necessária pra fazer um show. participei de um movimento no Clube de Cultura.. lá estava eu – um garoto irresponsável que poderia ser espancado pelos seguranças. vivíamos em uma ditadura. Cláudio Levitan: Foi mais ou menos quando o Em Palpos acabou que eu apresentei o Chaminé. Uma história que foi até 80. que tocava comigo. que era um dos donos da empresa. Acho que ele teve o primeiro equipamento de som para locação de Porto Alegre. no Rio.. aí sim. porque achava maravilhosa a ideia de um grupo querer montar show na cidade: “eu coloco som em igreja. não havia microfone em Porto Alegre.. em um estádio de futebol lotado. Quando os Almôndegas começaram a tocar e apareceram oportunidades de apresentação.” Como ele era um cara muito motivado.

. os caras do IAPI. Então havia a intenção de pegar as raízes e fazer da música do Rio Grande do Sul algo que pudesse soar como a música pop internacional. isso começou a morrer.. que formamos no final de 1979.. Depois. Perdi o melhor namorado que eu já tive. com baixo. E. andava alterando um pouco mais o foco: uma coisa mais pra cima.. O Alaska. são quase dez anos de rock obscuros em Porto Alegre. Cida Pimentel: Até que um dia surgiu o Cau Hafner. as coisas estavam acabando por si mesmas. Mudou um pouco o nosso interesse na noite – não era mais uma coisa tão política e cultural como antes. E também porque estávamos morando no Rio de Janeiro. também se passou pra dupla Kleiton & Kledir. Estava terminando a ditadura. e ele era amigo do Alemão Ronaldo.. Curtíamos o pop e o rock internacional e. Sempre houve a busca por este equilíbrio. entre 77 e 78. ao mesmo tempo. todos tinham uma formação gaúcha.. A mãe dele tinha uma loja de calça Lee importada de Nova Iorque. guitarra e bateria. porque o Alemão Ronaldo ficava me cantando músicas. Os caras violentos do Petrópolis.Kledir: Os Almôndegas tiveram diversas fases em função da troca dos componentes. Um espírito que. 78. que era perto da faculdade. Fiapo Barth: A vida noturna que a gente frequentava era mais relacionada à vida estudantil no Bom Fim. A característica da banda mudou de uma estrutura acústica e de vocal pra algo bem mais roqueiro. de certa forma. principalmente o pessoal com que eu me envolvia. Cida Pimentel: Tinham vários núcleos de loucos pela cidade em meados dos anos 70. em 1977. de música do interior. Quem fez essa ponte entre o rock dos anos 70 com o dos anos 80 foram esses dois. . mais divertida. Dessa época até os anos oitenta.

Rock progressivo na praia do Leste. .Byzzarro: O baterista Gelson Schneider (com chifres) e o baixista M ario M onteiro. em 75. Paraná.

Claudinho Pereira: Na época.. com três kilowatts. o Hermes Aquino e o Bixo da Seda. Pagou uma fortuna pro cara pela rádio – que se transformou e trouxe pra Porto Alegre esse sistema de locutor meio jogador de futebol.. com uma sonoridade diferente. que foi a primeira FM porrada: tocava Pink Floyd. um resquício dos anos 70. Led Zeppelin.E comecei com um programa só de rock na Cultura Pop. Violeta Parra... Era mais uma coisa bicho-grilo mesmo. Só que veio o Jornal do Brasil – que era dono da rádio Cidade – e comprou a emissora. e o dono da empresa até ia comprar transmissores pra aumentar a potência. Ela vinha da Continental – a primeira e a melhor rádio alternativa: uma emissora jovem em ondas médias. O Cascalho era um dos comunicadores.. cheio de vinhetas. um programa que fazia as festas jovens e depois começou a levar as bandas pros bailes. da extrema-direita: a gente tinha chamado a medalha que um militar ia receber de tampinha.. que veio de São Paulo com a missão de montar a rádio em Porto Alegre. Mercedes Sosa... Também tinha a Beth Portugal na locução. quando lançou os Almôndegas. som latino-americano. Foi a primeira emissora a tocar talentos locais. enquanto que as outras rádios tinham trinta.MODULANDO A FREQUÊNCIA Ricardo Barão: O Cascalho me levou pra trabalhar na Cultura Pop. Chegamos a sofrer ameaça de bomba. e o Megatom era o diretor de programação. Donna Summer. cinquenta kilowatts. Gilberto Travi. Tocava-se Egberto Gismonti. O problema é que a rádio tinha uma potência pequena: durou um ano.. E o que era uma rádio diferente na época? A que tocasse as faixas mais alternativas dos discos de vinil. na verdade.. junto com o Júlio Furst e o Beto Roncaferro. A Continental tinha um contexto tremendamente político... Nilton Fernando: A rádio Bandeirantes FM começou em Porto Alegre no comecinho de 80... Assim começou a ter o que a gente chama de festa-show. Era uma rádio de esquerda: ela foi invadida várias vezes pela Polícia do Exército – a gente estava em plena ditadura. Foi vendida numa época de discoteca. não era uma coisa tão rock’n’roll ainda. e um envolvimento em torno das bandas também. Estávamos tendo audiência. Ele era o diretor da rádio. tinha o Pedrinho Sirotsky com o Transasom. Ricardo Barão: A Bandeirantes FM tinha sido feita pelo Mauro e o Nilton. . O que.

Nei Lisboa: A Ipanema começou como Bandeirantes FM em uma casa na José Bonifácio. Enfim. conceitos de rádio. que tinha o estúdio ali na José Bonifácio. a Difusora FM foi transformada em Ipanema FM. de Porto Alegre... o pessoal da cena urbana. O Isaías Porto e a Mary Mezzari estavam desde aquela época. A Rede Bandeirantes de São Paulo tinha adquirido a Difusora. O Barão sempre foi o cara que apoiava as coisas. meio que coringando pra pegar uma boquinha pra fazer alguma coisa.. com a gravação de “Pra Viajar no Cosmos não Precisa Gasolina” – . uma emissora que marcou época: rodava Hermes Aquino. o Johnny Saad. Já há algum tempo nenhuma rádio tocava música local.. Havia os shows no teatro Presidente. vinda de São Paulo. Mary Mezzari: Nos tempos da casinha da Bandeirantes na José Bonifácio. as pessoas paravam suas bicicletas na janela e gritavam pro locutor: “toca aquela!” Era uma interação que não existia daquela maneira. com três malucos de Cachoeira do Sul.. Levamos o cara pro estúdio e o Mauro Borba colocou ele pra tocar no ar. Mauro Borba: A Bandeirantes e depois a Ipanema FM foram fundamentais pra lançar as bandas gaúchas.Carlos Eduardo Miranda: Eu ouvia sempre o programa do Barão na Bandeirantes FM. E toda aquela equipe de malucos foi pra uma rádio nova. não lembro se já era o Brique. Um estúdio bem pequeno. uma das FMs mais antigas de Porto Alegre que tinha acabado de ser vendida.. Mas aí pintou o Nei Lisboa. E me lembro do dia em que o Mauro Borba chegou pra trabalhar na Bandeirantes. por uma questão comercial da nova diretoria. Nilton Fernando: Essa rádio foi o tubo de ensaio pro que viria depois – a Ipanema FM. Eles abriram a rádio pra gente daqui. Eu já era um pentelho dentro da rádio: ficava por ali.. Veio o presidente da Bandeirantes. Teve um sábado ou domingo em que estava acontecendo uma feirinha na rua. Eles foram autorizados a começar uma rádio com perfil diferenciado e ninguém imaginou que pudesse tomar o corpo que tomou. O parâmetro que a gente tinha ainda era a Continental AM. E. e disse que teríamos que trocar de rádio: sair da Bandeirantes.... E eu pensava: “bah! Um dia eu vou bater aí e vou dar ‘oi’ pra esse cara!” Dito e feito: passei e deixei uma fita do Taranatiriça com ele. Na realidade.. música urbana.. E tinha um cara tocando um instrumento boliviano bem na frente da rádio. eles acharam tudo bem em ter uma rádio alternativa por aqui – que seria mais tarde a “rádio dos loucos”. Assim.

simplesmente. “Vamos homenagear o poeta”. Nasceu uma cultura com o músico local em Porto Alegre que antes não existia. que surgiu em 83. Depois apareceu o Bebeto Alves. Mas aí os executivos de São Paulo acharam que a piração já era grande demais. E o Replicantes foi a primeira banda a aparecer na rádio com uma gravação: “Nicotina”. com “Segurança”. Não tinha nada a ver com a tal proposta alternativa. A gente tocava a música deles e criavam-se locais. um nome de butique carioca pra uma rádio feita por paulistas em Porto Alegre! Daí. Esse era o lance do caralho.. os músicos começaram a ganhar público. Junto com mais todo o pessoal.. Pensei então em homenagear uma coisa que fosse a cara de Porto Alegre: o Mário Quintana. Ricardo Barão: Eu. como gravadoras e estúdios. A Ipanema rodava as músicas das bandas até que elas fizessem sucesso – e passassem a rodar também nas outras rádios. por exemplo. Só que. no seu auge.... pra eles poderem tocar guitarra direito.. Nós mostramos isso pros empresários. Ricardo Barão: O nome da Ipanema surgiu do cara que era o contato comercial da rádio. a essa altura... ouvir os Cascavelletes falando da mina menstruada. o Nilton Fernando e a Mary Mezzari – esse foi o quarteto que bolou a Ipanema FM. expectativas. todos puderam escutar as coisas que eram nossas.. os nossos códigos: as gírias. Era. Até porque a gente tinha esse estigma de que o nome Bandeirantes era muito paulista – embora a Bandeirantes fosse a cara do Bom Fim.. com as luvas de lã cortadas na ponta dos dedos pelas mães dos guris. o Mauro Borba. Nos . o Saracura. queríamos criar um nome mais moderno. Fui pra casa. Nilton Fernando: Ipanema FM era um nome amaldiçoado.. Assim. que ainda estava vivo na época. porque foi São Paulo que escolheu. fiz todo um plano do que seria. E depois que foi pintando gente interessada.. que eu estava vendendo um peixe muito lindo. criamos uma situação em que dávamos a maior força pros músicos e pros barzinhos que botavam música ao vivo. a maneira de tocar rock no inverno. Acho que o primeiro caso desse tipo foram os Engenheiros. músicos e de todos os loucos que queriam curtir rock – era uma coisa legal.o primeiro som de músico gaúcho transmitido pela Bandeirantes. É por isso que essa filosofia de tocar os músicos daqui já existia quando nos mudamos pra Ipanema. O pessoal queria. Então achei assim.. No momento em que fizemos isso e botamos na roda. o rock já tinha chegado pra valer. Isso quer dizer que o nosso trabalho – dos produtores..

. Ele não tinha morrido. no dia seguinte. As transmissões ao vivo que a Ipanema fazia eram uma delícia. E um ouvinte. E ficou. TV a cabo no estúdio ou coisas assim.. Hoje. tinha de tudo.. num certo sentido.. Logo em seguida. soubemos que nada daquilo era verdade. na Argentina. baixa em estéreo.. falando super sério. Em compensação. Mary Mezzari: As informações que a gente passava pros ouvintes chegavam na Ipanema por telex ou rádio-escuta – numa época em que ainda não tinha internet. Esse era o problema de tu fazer um programa alternativo. de levar de alguma maneira uma informação que estava . A gente se reunia no Alaska. mas eu não estava ligando pro nome. E dei a notícia no ar. e começaram a homenagear o “morto”.. se caminhava na contramão – mas essa contramão já virou meio que mainstream. O logotipo era um garoto com um windsurfe. e a polícia nos botava na parede. e ele veio com essa ideia.reunimos.. Estava mais preocupado era em tocar rock! Na época.. Katia Suman: Entrei na rádio com um programa de música brasileira. e já tinha ouvido falar que o Freddie Mercury estava muito doente. Foi nessa pilha dele que eu descobri o rock. outras emissoras entraram na onda. pega música de todas as partes do mundo. até porque todo mundo agora é rádio rock. os discos foram todos mandados pra Porto Alegre via Buenos Aires.... se tu ia a Buenos Aires. ainda. que era aids e tal. Foi quando tocou o telefone do estúdio. e tal.. tu senta no computador.. já providenciando um bloquinho com músicas do Queen.. As pessoas adoravam. Realmente. Hoje eu ainda acho bacana – mas de longe. Era uma atitude absolutamente porra louca. A rádio tocava muito. era uma coisa muito rebelde. me disse que tinha visto em uma TV mexicana que o Freddie Mercury tinha morrido! A-cre-di-tei no moço. passa pra CD e roda direto! Katia Suman: A rádio promoveu um show do Camisa de Vênus que lotou o Gigantinho. com outras opções: tinha que buscar material na Europa. Mas. Quando a Ipanema surgiu. Eu estava no ar. logo no início da carreira dos caras – e ninguém tinha ouvido falar deles direito. Mergulhei nessa e chegou uma hora que eu parecia ser a rainha dos metaleiros.. E o Ricardo Barão era o cara que botava a pilha do rock’n’roll na Ipanema... Eu achei idiota na época. Um baita mico: um King Kong! Ricardo Barão: Dificilmente as gravadoras lançavam algo mais importante no Brasil. numa daquelas tardes.. E nosso público era bem a fim daquilo. Trouxe vários grupos pra cá. A gente transmitia por linha telefônica os shows mais absurdos. discutimos o nome. Todo mundo faz o que a Ipanema fazia.

. É coisa de garoto. como se poderia pensar.. novo. Até que um uma senhora me ligou. Nilton Fernando: O conceito de alternativo é uma coisa muito desgastada atualmente. Transmitimos de Luís Melodia a Deep Purple. Mary Mezzari: Sempre rolaram algumas situações meio absurdas nas transmissões da Ipanema.. The Doors.. mas meu filho é. notícias faladas. É que ele abre a janela do quarto dele e começa a gritar: ‘me levem. não fica pedindo pros ETs te levarem.. Mas não havia nenhuma.. a Katia. quando a Ipanema começou. Essas posturas musicais do Jimi Hendrix. Por ser a mesma frequência.. O fato é que a Ipanema não era tão louquinha de pedra e inconsequente assim. Nem sempre pode ser legal.. Eram pessoas que falavam normalmente.. minha senhora.acontecendo naquele momento mesmo. E eu gostaria muito que tu falasses com ele.. Mauro Borba: Muita gente achava que tínhamos nos inspirado na Fluminense FM. Um ano depois é que ficamos sabendo da tal rádio rock do Rio. como de criar uma geração de roqueiros...9 no dial. Mas... acontecia muito. nós nem sabíamos da existência da Fluminense.. eles podem fazer experiências.. por favor!’ Diz aí no ar. me levem. Raul Seixas.” Aí eu disse: “não. . A rádio tinha uma contribuição: não só de divulgar e tornar popular o rock. Claro que ele não quer ser levado!” E a senhora: “mas quando o meu filho briga comigo.. isso era algo interessante. do Rio de Janeiro. falei no ar: “Fulano. Não era simplesmente rodar. Nilton Fernando: A linguagem da rádio também era inovadora: uma coisa mais leve. listão. por favor.. o Jimi Joe. na linguagem da rádio: o Mauro. que não é bem assim ser levado pelos extraterrestres. Uma.... Estavam mais pra colunistas e cronistas. ele vai pra janela e grita pros ETs levarem ele!” Então.. Muito pelo contrário: a rádio era bem consequente em termos de postura literária – além da política. E vivia falando isso no ar.” Dediquei depois a música do Arquivo X pro guri. pra fazermos a Ipanema – o que não é a realidade. que também marcava 94. Tanto é que os comunicadores da Ipanema e da Bandeirantes não eram os típicos locutores.... Quando a Ipanema entrou no ar.. mais recente. Essa coisa de CVV acontece. dizendo assim: “eu não sou ouvinte da Ipanema.. Pudemos fazer na Ipanema algo totalmente diferente do que o mercado vinha fazendo: “as dez mais”. muita gente achava que havia alguma ligação. isso tudo a gente passava através da palavra.. foi a seguinte: eu sou muito fã de programas tipo Arquivo X.

ENTRANDO NA RAIA
Kledir: A gente já estava no Rio de Janeiro desde 77 com os Almôndegas. Depois que a banda acabou, eu viajei pela América Latina e acabei indo pra Nova Iorque um tempo. Então voltei pro Rio, de onde não saí mais. A música “Deu pra ti” foi criada em 81 e gravada em 82. Ela remete a uma situação de exílio: eu morando fora e vendo Porto Alegre de longe. Essa música consegue tocar os gaúchos, principalmente aqueles que vivem fora. As pessoas que querem matar a saudade de Porto Alegre cantam “Deu pra ti”, e se emocionam. Ela virou uma música emblemática por esse caráter de exílio, e porque canta as coisas legais que aconteciam em Porto Alegre na época. Nesse momento foi quando muitos compositores e músicos de Porto Alegre foram viver no Rio. O Brasil estava num processo de abertura e descobrindo que o Rio Grande do Sul também podia fazer música popular. Júlio Reny: Quando saí do hospital psiquiátrico, meados dos anos 70, falei pros velhos o seguinte: “bah, quero tocar. Montar uma banda de rock. Aí está a solução de todos os problemas”. Eles perguntaram: “tu tem os caras pra tocar?” E eu respondi: “isso aí a gente arranja”. Ganhei uma guitarra bem baratinha, tudo bem varzeano, e comecei. Julio Furst: O Discocuecas foi um grupo de humor, sátiras musicais, que fizemos em 77: eu, o João Antônio, o Beto Roncaferro e o Gilberto Travi – que depois, inclusive, montou a banda Cálculo 4. O nome era por causa do ódio às cadeiras de cálculo na faculdade... Da cintura pra cima, era tudo formal nos Discocuecas. Mas da cintura pra baixo, era só de cuecão. Nós também fizemos dance music, porque era a época da discoteca. Careca da Silva: Trabalhei com o João Antônio, dos Discocuecas, o Toninho Badaró... A gente montou a banda Kafka Bar, e ele era o guitarrista. Depois, eles montaram o Sgt. Peppers, e eu também toquei um tempinho bateria. Nos Irmãos Brothers, eu também tocava bateria. Depois disso vieram os Totais. Isso foi em 84. Paulo Audi: Eu fui produtor do Raiz de Pedra, comecei em 1979. Nós formamos o grupo na mesma época do Cheiro de Vida e o Nei Lisboa, que também estava iniciando. Foi o início de muita coisa, de muita efervescência, de shows no Araújo Vianna, todos lotados. Nós mesmos colávamos os

cartazes nas ruas. Fazíamos todo um trabalho de base. Carlos Eduardo Miranda: Teve um festival no Anchieta, ainda nos 70, que o Cau Hafner me convidou pra tocar junto com ele. O Cau: “porra! A gente precisa tocar nesse festival”. E eu, meio assim, pensava: “pô, mas esse cara é de outra turma...” Juntamos mais uns amigos e fomos fazer loucuradas no festival. Nem lembro qual música tocamos, esqueci completamente porque estava muito bêbado naquele dia. Eu devia ter uns quatorze anos, e fiquei bebendo um garrafão de vinho com uns moleques... Paulo Mello: O Taranatiriça começou em 79, mas eu não tocava com eles nessa época. Então, depois de ficarem um tempo sem tocar, decidiram ser power trio – aí eu entrei e começamos a cantar, em 83. Foi o Cau Hafner quem me chamou pra tocar baixo. E no final de 83, o Alemão Ronaldo entrou. Carlos Eduardo Miranda: E então o Cau começou a armar altos shows: no Americano, Sevigné. Projetava slides, soltava balão, fazia efeitos de fumaça. Já no primeiro show do Taranatiriça, que foi junto com Raiz de Pedra e Cheiro de Vida, o Marcelo Truda inventou de trazer um pó daqueles de preto velho, com dois pregos e um bombril numa tábua, pra fazer uns efeitos especiais. Fomos detonar aquela coisa na hora do show e só sei que queimou o amplificador, explodiu! Acabei tocando sem microfonação, sem nada no piano. Depois todo mundo veio me elogiar, dizendo que eu tinha tocado pra caralho... Mas ninguém ouviu porra nenhuma! Eu tocava com os pés, com a cabeça em cima do piano, e fazia uma cena do caralho. E o show era todo era assim, enfumaçado. Era pirotécnico. Pra época, era o máximo. Era coisa que o Cau gostava, ele adorava essa firula. Curtia pra caralho. Ele sempre tinha um recurso novo, óculos com luz, e coisas do tipo. Flávio Santos: A ideia do Taranatiriça era fazer coisas mais pra atingir os amigos, nossa turma. Logo que entrei na banda, montamos um show no colégio Americano. Fizemos uns cartazinhos que não eram nem A4 – eram umas coisas vagabundas, mimeografadas. Mas que adiantaram: lotou o colégio. E o som, era instrumental. Só pra ver como as pessoas queriam escutar coisas diferentes: porque rolava muita MPB, violãozinho, protesto e engajamento. Mas aquele engajamento já pobre, meio cansado. E nós não reclamávamos de nada, mas fazíamos barulho. Pra nós era perfeito.

Ivo Eduardo: No início do meu envolvimento com a música, fiquei amigo de um colega do meu irmão, o Augusto Maurer, e tocávamos lá em casa: guitarra e bateria. Quando fomos num show do Hálito de Funcho, conhecemos o Bolão, guitarrista, que em seguida trouxe um flautista. O Augusto passou a tocar baixo. Éramos então um quarteto de bossa e jazz. Já na Escola da Ospa, conheci três caras que tinham uma banda sem baterista: o Adolfo Almeida Jr, o Edson Michels e o Rogério. Os três também cantavam e compunham. Formamos o Bosque das Bruxas, com um repertório que incluía desde rock leve a pesado, baião, qualquer coisa. Eu inventava uma levada diferente pra cada música. E todas as letras falavam de criaturas ou acontecimentos em um bosque encantado. Kledir: Não havia a intenção explícita de formarmos a dupla Kleiton & Kledir. Mas o sucesso que “Maria Fumaça” acabou fazendo, depois de termos participado com ela de um festival no final de 1979 em São Paulo, nos levou a uma assinatura com a Ariola – que estava entrando com força no Brasil e contratando muitos artistas. Júlio Reny: Gravei “Cine Marabá”, e a música estourou de uma maneira insólita. Eu larguei a fita pro Mauro Borba tocar na rádio, mas não tocou. Depois ele me disse que havia perdido a fita. Mas eu tinha outra cópia, e entreguei pra ele de novo. A música estourou, mas ao mesmo tempo, a banda começou a se desmanchar. Eu pensei em gravar uma fita-cassete, e o meu projeto era fazer uma gravadora de fitas. Era 1980, e a minha mulher na época, a Elvira Machado, montou com uns amigos uma loja de artigos alternativos de música, a Armação – bem na frente do que depois veio a ser o Garagem Hermética. Consegui lançar a fita, mas vendi só meia-dúzia de cópias. No final de 83, eu acabei quebrado: tinha imposto de tudo, todo mundo me cobrando, e eu fiquei à deriva. Eu tinha mandado a fita pra umas rádios do Rio de Janeiro, e fiquei sabendo que a música estava tocando muito por lá, junto com uma banda chamada Paralamas do Sucesso!

"A ideia do Taranatiriça era fazer coisas mais para atingir os amigos." A banda na sua formação de 81: M arcelo Truda, Cau Hafner, Carlos Eduardo M iranda, Flávio Santos e Rodrigo Correa

Mauro Borba: Quando o Júlio Reny gravou “Cine Marabá”, a Bandeirantes FM tinha o estúdio na José Bonifácio e o Júlio morava na Santana, bem pertinho. Ele foi lá e me deixou a fita, achei bem interessante. Aí rodei a música e comentei no ar que tinha achado muito legal, que gostaria de ter um contato com o autor. E dez minutos depois o Júlio Reny chegou, porque ele morava ali na esquina. Ficamos amigos. Bebeco Garcia: Eu toquei com Bixo da Seda, Liverpool, mas vim um pouquinho depois deles. Quando cheguei na parada, eles já estavam, já eram os caras. Toquei com todos eles, mas num esquema tipo “o garotão que está chegando”. Aquele lance: “pô, legal, vamos convidá-lo pra tocar com a gente!”, coisas assim. Carlo Pianta: No início dos anos 80, Porto Alegre ficou sem nenhuma referência musical. Tipo música popular gaúcha: Jerônimo Jardim, os Almôndegas também tinham baixado a poeira... A sensação geral do país era de que nada dava em nada. Um ostracismo absurdo.

Então, teve um novo projeto, o Explode 80, em que tocou o Bixo da Seda, o Mutuca, bandas instrumentais que ainda estão em atividade... A banda Semente, o Cezinha Eutanásia, que depois virou Joe Eutanásia e fez parceria com a Neuzinha Brizola com a música “Mintchura”. Outra coisa que testemunhei foi o show Deu pra ti anos 70, do Nei Lisboa, no Teatro Renascença, em 81, 82... King Jim: Algumas bandas gaúchas fizeram sucesso no Rio de Janeiro nos anos 80. Os Garotos da Rua, o TNT, os Engenheiros, o De Falla e os Replicantes fizeram um show no Canecão. Mas os caras resolveram dar apenas meia hora pra cada uma das bandas. Quando o pessoal começava a se empolgar, os caras desligavam o equipamento no meio da música! Uma coisa horrível. Carlos Branco: Fiz um trabalho com o Jimi Joe em 81, 82, chamado Quem tem QI vai. Um espetáculo com a participação do Paulo Leminski e com a montagem do Luiz Carlos Retamoso. Teve uma vez que nós distribuímos lanternas pras pessoas na entrada – então o público fazia a iluminação. O show estreou no IAB, e foi pro teatro Presidente, onde o Nei Lisboa participava. Carlos Eduardo Miranda: Tocamos no Araújo Vianna em 1982, num concurso de halterofilismo: eu no sintetizador e o Marcelo Truda na guitarra. O King Jim estava junto nessa, também. O King sempre foi parceiro das aventuras. Teve um momento em que as pessoas começaram a ir embora do show. No meio da plateia só ficaram os loucos. Entre eles o Jimi Joe – que tinha um negócio chamado Quem tem QI vai. Ivo Eduardo: Logo que abri meu estúdio, as bandas cediam equipamentos em troca de períodos de ensaios, até que eu pudesse comprar o meu próprio equipamento. Alguns desses parceiros foram o Renato Mujeiko, o Saracura e o Garotos da Rua. Peguei o começo de Garotos da Rua, Os Eles, Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes, TNT, Nenhum de Nós. Trabalhava direto com algumas bandas, fazendo shows ocasionais com outras. Alemão Ronaldo: Em 82 encontrei o João Guedes, meu parceiro dos tempos de baile. E de brincadeira a gente começou a Bandaliera. Naquele fatídico três a dois pra Itália, que eliminou o Brasil na Copa do Mundo de 82. O Marcinho Ramos entrou na banda um ano depois. Paulo Mello: A Bandaliera já existia, tocava num bar, e o Alemão Ronaldo era o baterista. Mas era a fim de cantar. E viu que estávamos sem cantor, e começou a botar umas músicas do Fughetti na roda. Nós tirávamos elas juntos e, dali um pouco, a gente já estava tocando “Rockinho”. O Alemão

o João Guedes e o Otavinho andavam sempre juntos. Conheci um pessoal. Eles nos acompanhavam desde guris. Eu entrei na banda. Caímos na estrada: abríamos os shows juntos e depois eu deixava eles na raia. Começamos a tocar na minha casa: eu. ela virou o hino da outra geração. no Rocket 88. Bebeco Garcia: Os Garotos da Rua começaram como um trio. Ele era o baterista. dando um bico nos ensaios dos caras. Mitch Marini: Eu montei os Garotos da Rua. Compus um monte de músicas. que veio pra cá e aconteceu aqui também. Fiquei meio de bobeira e então montei o Câmbio Negro. . porque também era do IAPI. como movimento. viemos morar em Porto Alegre. Eu estava sempre ali. Ele tocava muito! E aí montei um time pra jogar. mesmo que influenciada pelo rock internacional. E a Bandaliera ficou forte quando eu encontrei eles tocando num bar na Protásio Alves. que ele conhecia. “Campo minado” é uma delas. e formamos uma banda que se chamava Nó na Traqueia. Até a década de 80. durante todo o inverno de 83. Juarez Fonseca: As coisas mudaram em 83. Tipo. Foi a partida do estouro do rock nacional. Em 82. Foi quando eu conheci o KCláudio. do Taranatiriça. Fughetti Luz: O Alemão Ronaldo. a música brasileira era meio paradona. Era eu. O Rio Grande do Sul teve sorte por ter acontecido o festival Rock Unificado. Então eu fui. Toquei um ano com eles e fui convidado pra entrar no El Dragón. e aprendi a tocar bateria. No fim. Existe uma gravação em que eu toco no violão uma música chamada “Rollzinho”. Não era um festival. eram nossos fãs no IAPI: começaram a ouvir rock’n’roll pelo Bixo da Seda. O rock. o bar que era do Mutuca. Eles já tinham esse nome. e a banda ainda nem tinha nome. o Mitch e o Edinho. e me disseram: “estamos precisando de um baixista pra tocar numa banda e fazer um show lá no IPA”. o Bebeco e o Edinho Galhardi. Então o rock entrou com uma linguagem brasileira. uma banda de Buenos Aires. de Blitz. Até que um dia uns caras me ligaram. Depois de “Rockinho”. como uma coisa coletiva. perto do Teatro Presidente. O Marcinho Ramos estava junto.contava umas histórias do Bixo da Seda. com o disco Rock Garagem. que passou a se chamar Prize. Solon Fishbone: Tenho dois irmãos mais velhos que sempre fizeram um som em casa. “Rockinho” do Taranatiriça. quando eu ainda morava em Caxias. apenas um show. Meu papel era mais compor e levar os guris pra tocar em lugares: cantar algumas músicas com eles. se apresentando. não consegui nada e a banda faliu.

O Cau estava indo pra um lado. Ele gostava da gente. mas a banda era mais rock. Era o Miranda. querendo fazer rock’n’ roll. fizemos um show lá na garagem da minha casa na Santana. “Onde você quer morar. hard rock. Carlos Eduardo Miranda: Na verdade.. E disse: “V ou comprar umas roupas pra vocês!”. enlouquecendo – chegava com presentes. O Edu estava tocando na Fluxo. E foi internado. O cara dizia: “a partir de agora tu não precisa te preocupar com mais nada: eu vou cuidar da tua vida. porque a Polícia o tinha pego com drogas. o Paulo Mello e o Jimi Joe. cocaína pra cheirar. Depois. sempre gastando muito. Fomos tocar no Ocidente e tivemos o azar de que.. eu. vou te arrumar um apartamento.. O cara era endinheirado. Me deu um cheque em branco uma vez. que adotou a banda. no mesmo dia. os shows eram no bar do Mutuca. casa pra morar. Foi quando começamos a perceber que ele estava esquisito. queria construir um prédio pra toda banda morar junto... e estava vazio o bar. e eu disse: “isso não é muito a minha praia!”. mulher pra comer. meu filho!”. Só que durante esse período ele foi se transformando. plantador de arroz. King Jim: No início do Garotos. Quer dinheiro? Toma! Esse dinheiro é teu. Fizemos um primeiro ensaio.. Invadiu com o carro adentro! Ele prometia: “eu sou Deus. O Truda. “Levaram Ele” foi feita pra esse cara. Carlos Branco: Eu participei de algumas coisas interessantes.. estava com . e nos ligou pedindo socorro. e entrou na nossa banda. é sobre esse cara: ele foi preso. eu vou te dar tudo. A música “Levaram Ele”.” Ninguém levava aquilo a sério. eu fui meio que expulso do Tara. vou te dar dinheiro. Júlio Reny: Montei uma banda chamada Os Topetes. O cara era louco. que está na coletânea Rock Garagem. abrimos a casa e lotou de galera. E tinha um cara do interior. e tudo que tu precisar eu vou te dar!” E assim foi. era o aniversário da Biba. o Rocket 88.. Parece que hoje ele está plantando arroz por aí. como um bom guitarrista disso. Eu estava querendo fazer algo diferente.. maluco.. Eu sou seu pai.Bebeco Garcia: Tinha um cara que ia todas as noites no Rocket 88 ver os Garotos. Foi nos fundos. Precisávamos de um guitarrista e chamamos o Edu K. como o Atahualpa y us Pânques. Lotou. E foi pro Iguatemi – e invadiu o shopping de carro. mas mandava toda grana pro espaço. Bebeco Garcia: Ele tinha grana – a família tinha. Numa tarde nós estávamos ensaiando e ele passou no ensaio.

Era um lance malucão. Aí a gente resolveu montar o Urubu Rei. Não estávamos acostumados com atitudes como aquela e ficamos muito apavoradas. Carlos Eduardo Miranda: O Urubu Rei estreou num show na Assembleia. tentavam destruir todas as nossas entradas. a Patsy e a Lila. Depois formamos o Fluxo. O cara que estava fazendo a dança começou a tomar ovo e tomate. . no outro era o guichê. a roleta era uma mulher que abria e fechava as pernas. Flávio Santos: Eu também toquei na Athaualpa y us Pânques. querendo fazer um som mais louco. Na época se formou o Urubu Rei. a verdadeira faceta punk burguesa. O guris eram estudantes do Anchieta. fez um show na Assembleia Legislativa. Nos convidaram pra participar. Era assim.. e o Miranda cantava. Nessa burocracia da entrada. E a sacanagem máxima: começávamos a tocar com as portas fechadas. Só que eu não contei desse pessoal pro Balaio de Gatos. Numa dessas performances. tocando ovo e tomate na banda. chamamos o Grupo plateia pra participar: eram uns amigos meus que ficavam sentados. Mas o Miranda nos pediu desculpas. vamos dizer. filhinhos de papai. E passava um vampiro de patins tomando sangue. a Lila Viera e a Luciene Adami pra participar da Urubu Rei como vocalistas. Biba Meira: Eu namorava o Miranda e com ele comecei a ter contato com músicos. numa primeira formação.. a banda começou sem mim. Tinha o Paulo Mello no baixo. o Flávio Santos. e também cantávamos em um grupo chamado Balaio de Gatos. A primeira gravação do Urubu foi “Nêga. o Miranda e o Castor. o Rodrigo. o Gastão. muito improviso e gritaria. cheio de performances. O show era assim: as pessoas tinham que comprar ingresso num lugar. eu na bateria e as meninas: a Luciene.. Entrei nessa banda e comecei a tocar guitarra. que era o Miranda. Algo que existia e eu. não conhecia. o Jimi Joe. Patsy Cecato: O Urubu Rei. e ficou irado. Éramos totalmente performáticos. e do Fluxo veio o De Falla. depois baixo. que era eu. A gente criou uma burocracia pro cara conseguir chegar no teatro. “Não vou ficar preso ao rock”. até então. e fez os caras nos pedirem desculpas. Além disso. o Rodrigo e o Castor na batera. Na verdade. Patsy Cecato: Fazíamos interferências teatrais. vamos pra Boston”.. E eu querendo inventar encrenca.ele. riquinhos. junto com o Balaio de Gatos. disse que não ia acontecer de novo e convidou eu. dois caras começaram a jogar ovos na gente: vaiavam. o Flávio Santos. Foi tudo numa mesma época. Foi aí que conheci.

“Só vai funcionar se a gente se organizar como um grupo. cara?” E ele: “eu e tu”.Carlos Eduardo Miranda: Era 83 ou 84. o batera. com show do Robertinho de Recife no Araújo Vianna. Mas precisava ter mais bandas. o Urubu Rei. de São Paulo. Já tinha os Replicantes. Carlo Pianta: O que sempre teve foram aqueles momentos da voz e do violão.. Então. Nesse mesmo período. antiga Estação Zero: foi a primeira vez que vi um cara tocar blues na harmônica. um esquema fixo.. acho que era por 84. quando o Jimi Joe me ligou: “ô Miranda. teve o Contrasenso. Esqueci o nome dele. Antes ainda. Aí pegamos o Edu K e fizemos a Fanzine. umas músicas que a gente nem chegou a fazer show direito. Fiquei de arrumar os músicos. tinha a Prize. Chamei o Paulo Mello e outro cara. rolou um movimento meio anti bicho-grilo. era uma coisa impressionante. . o Fluxo. Porque antes de oitenta e poucos era tipo: “ó. um cara que eu conheci no Instituto de Educação. em 84. Humberto Petinelli: Conheci o Moreirinha na danceteria 433.. Carlos Eduardo Miranda: Em 84. com shows constantes e marcando presença na imprensa”. chegamos a montar banda que não existia só pra ter número.. uma coisa maior. Tocava com o Marcelo Birck e o Tchê. Chico Padilha: Comecei a tocar na banda A Chave do Sol. O Robertinho apareceu enlouquecido. um grupo meio instrumental. vamos fazer um show no Taj Mahal?”. na Silva Jardim.. Foi quando começou a bombar mesmo o movimento do rock em Porto Alegre. Também tinha o TNT. teve o festival Metal Mania. com o Flavio. A gente não fez nada visando o país: foi mais visando a cidade mesmo. o Atahualpa.. tocando Black Sabbath.. com que banda. eu falei: “show do quê. ali está passando um roqueiro”. Depois eu vim para cá: ia ser vocalista do Taranatiriça no lugar do Alemão. ensaiar e tocar”. E nunca ninguém tinha visto aquilo. E era o Atahualpa y us Pânques. entre 84 e 85. mas não rolou. o Jimi falou. Aí eu falei: “mas como uma banda só eu e tu?” “A gente tem três semanas pra fazer as músicas.. Frank Jorge: Antes dos Cascavelletes eu toquei na Prisão de Ventre.

. A formação era o Duarte. antes das cabeças raspadas. O Tchê também estudava no Instituto. Fizemos uma banda. Só que um dia ela ficou uma banda mais séria. No que ficou ainda mais séria. Conheci o Charles Master no Colégio Israelita e ele meteu a pilha: “se tu comprar um baixo tu entra na nossa banda”. E na outra tinha o Nei Van Soria e o Frank Jorge. Era o líder. Era brincadeira de adolescente. o Frank Jorge e eu. Flavio Basso: Houve um dia que foi decisivo pro surgimento do TNT. pai dele. E eu o persuadi a vender sua motocicleta pra comprar uma guitarra. O Charles gostava muito de motocicletas. o Birck. Pra fazer a bateria. porque nós poderíamos formar um bom grupo.. Eu fiz um ou dois shows e saí. porque a família dele tinha uma chácara em Belém Novo. Eu e o Charles Master éramos .Alexandre Ograndi: A gente tinha uma banda que se chamava Prisão de Ventre. de certa forma. que já tinha o Flávio Basso. eu comecei com isso tudo. Márcio Petracco: Eu queria comprar uma guitarra. no início do TNT. aquelas Mobiletes. o Felipão. E voltando lá atrás.. Luís Henrique Tchê Gomes: O Márcio Petracco acabou centralizando o início do TNT. dava uma coordenada. Zé Natálio: Era no Instituto de Educação. Fazia a galera se puxar. o Márcio Petracco e eu. dos seus very. o Tchê – Luís Henrique –. Eram cinco violões e uma bateria roubada da banda marcial do colégio. Eu estava tendo aula de violão e perguntei pra ele se não queria ter também. Tanto quanto o que me diz respeito. na estética do TNT. very early years... mas não era meu colega de aula. na oitava série. Comprei um baixo e fui tocar com os caras. dezesseis anos. que cravávamos no chão. Frank Jorge: Eu estudava no Instituto de Educação e o Marcelo Birck no Piratini. O Marcelo foi outro caso: a gente era vizinho mesmo e nos conhecemos na Thomaz Flores. Não sei de onde que eu arranjei a grana: foi de alguma falcatrua. E o Fúlvio Petracco. O Tchê. Minha ideia original era de que fôssemos maiores que os Beatles. muito jovens. numa turma.. Surgiu um movimento pra fazer uma banda. Nos conhecemos na recuperação de matemática ou de português. coisa e tal. Quinze. e logo depois surgiu o Prisão de Ventre. pegávamos uma caixa de tarol roubada do colégio e montávamos um pedestal de taquara. Eu descolei uma nota de cem cruzeiros. alguma aposta. teve aquela coisa de franjinha.

A banda era Ânsia de Vômito. com o Gerbase cantando. fevereiro de 84. mas um antigo colega do exército.. e era amigo do Gerbase. Ele disse que estava de saco cheio do Rio. e convivia com músicos bons. Um estilo único. A gente convidou: “bah. Carlos Gerbase: Logo no início dos Replicantes. Nessa fita estão praticamente todas as músicas que entraram no primeiro LP dos Replicantes. veio a ideia de chamar o Wander. e o Wander já tinha trabalhado nos filmes do Gerbase. Ivo Eduardo: Quando comecei a dar aulas de bateria.parceiros. Ele iluminava shows importantes. Eu nem me lembro o que ele queria. O Gerbase era inimitável na bateria. Já com o Gerbase foi o seguinte: éramos colegas no Anchieta. pra trabalhar como iluminador. Paulo Arcari: Eu comecei a tocar quando aquela cena punk explodiu em Porto Alegre — e foi uma coisa muito legal. de todo . “Por que o Wander?” – porque eu achava que era a pessoa que combinaria com a banda. o Ocidente. e imediatamente se integrou. ele era o mais velho. estava começando uma banda chamada Urubu Rei. Então. amigos de infância – e apesar de ser o mais baixinho. começando a tocar e a fazer parte de uma banda punk com um cara. O Wander trabalhava com iluminação no Rio. punk. vimos que era muito difícil eu tocar bateria e cantar ao mesmo tempo. O irônico é que hoje o vocalista dos Replicantes é o Gerbase.. Heron Heinz: Começamos a tocar na garagem da casa onde morávamos. Ele morava no Rio de Janeiro e telefonou dizendo que estava de saco cheio. Por volta de janeiro. Nem era Replicantes ainda – a banda se chamava Vórtex. o Carlos Eduardo Miranda. Foi aí que começou os Replicantes mesmo. Tinham feito quartel juntos. eu estava ali no meio. Sei que eu disse: “Wander. gravamos uma fita. não aguentava mais trabalhar como iluminador de shows. quando começou a Oswaldo Aranha. vem pra Porto Alegre que estamos fazendo uma banda!”. que já tinha o Taranatiriça. o Bacana. e desses ensaios. Paulo Mello: O Wander foi pro Rio com uma produtora gaúcha que se firmou por lá. Então dei aulas pra namorada dele – a Biba Meira. e já tinha uma música chamada “O futuro é vórtex”. do que ele estava fazendo lá e tal. tu não quer cantar na nossa banda? Precisamos de alguém pra cantar!” No outro dia o Wander já estava em Porto Alegre. e quase caí pra trás quando ele me disse que tinha a intenção de formar uma banda punk! Também dei aulas de bateria pra ele. E surgiram então Os Replicantes. na medida em que não era cantor nem instrumentista. Porque até esse momento ainda se chamava Vórtex. Ele veio. Aquele negócio de rock.

eu enxergava um disco que gostava e ficava cego! Quando encostei no disco. mas era a melhor fase da banda. Fui na Free Discos. Porque. Logo depois também foi do caralho. Juventude era isso. É Os Replicantes”. Olho pro lado. Só que eu não conhecia eles. pra fazer uma banda com esses caras?!”. Passado o furor. e me apareceu um punk. ou se era nativista – ou os dois juntos. Ele ligava tudo num só amplificador! Nenhum deles sabia tocar porra nenhuma. um cabeludo?! Não é possível. mas naquela época. um disco do Madness. A primeira vez que ele trabalhou com música foi num desses meus primeiros shows dos tempos da faculdade. Eu insisti com o Wander: “tu vai aprender um monte com o Gilberto Gil. Perguntei qual era a dele. que ninguém conhecia na época – e esse moleque também queria o disco. e disse pra ele: “cara. Fui abrir. um disco de ska – na época. ou se era hippie. começamos a ver que éramos um pouco diferentes. quando alguém bateu a campainha. lá na Borges. E ele: “é verdade. E eu: “o quê? O Gerbase?! O maior hippie! E também o Wander. o disco é meu e vão à puta que o pariu! Vamos fazer o seguinte: me dêem seus telefones que eu gravo pra vocês”. Então voltou pra Porto Alegre pensando em formar uma banda com o Gerbase e o Heron. o Alceu Valença.o Brasil. devia ter uns 15 anos. vestido numa jaqueta de couro. Chegamos num ponto em que os três falaram que tinham banda. Nessa mesma hora tinha um moleque na loja com um visual muito fora de tudo que rolava. tu não te lembra?”. melhor era impossível. vocês vão tocar?! Mas vocês nunca tocaram porra nenhuma na vida!”. o Djavan. Carlos Eduardo Miranda: Nessas aí eu tinha ouvido falar que o Gerbase e o Wander tinham montado uma banda de punk. e está o Miranda e o Gerbase. Eu dizia: “vem cá. Perguntei quem era. E cada um conheceu a banda do outro. tô montando uma banda punk. Edu K: Entro na loja e vejo o One Step Beyond. que negócio é esse?”. Isso é lorota!”. e um visual gringo. Mas eu não o via desde os tempo do . e ele respondeu: “eu sou o Wanderlei. Eu queria um disco do Madness. vieram mais duas mãos. todo espetado. O disco ficou comigo. Acabei de chegar de Foz do Iguaçu”. Perguntei se ele tinha banda: “toco violão e tem um amigo meu que canta”. Júlio Reny: Um dia eu estava dormindo em casa. e tu volta pra cá. Disse: “eu olhei primeiro. Era o Edu K. E eu falei: “é mesmo? Pinta lá em casa”. Eles decidiram fazer uma banda punk. E ele: “fui eu quem viu primeiro!” E depois: “eu me chamo Edu. nem eles se conheciam. e encontrei o Gerbase. Fui um dos poucos que conheci o Replicantes dos tempos da garagem do Gerbase.

Frank Solari: Começei a tocar em 85. Eu não tinha objetivo de ganhar dinheiro com a música. E ele: “Os Replicantes poderiam tocar na tua garagem?” Ele também queria que eu botasse som pra eles no Ocidente. junto com a banda de uns caras que também estudavam na faculdade de arquitetura. Na época era raro: de bombacha e tênis. como jogar botão. Nos juntamos.. ele disse que tinha umas coisas pra me mostrar. Tivemos umas aulas coletivas de filosofia da arte.. Então o Wander falou: “temos uma propos ta pra te fazer”. Carlo Pianta: O Marcelo Pitz entrou na faculdade de música no mesmo ano que eu. os que escreviam poemas. que o Pitz tocava baixo e que eu tocava violão. Em 89 criei meu próprio grupo. Meio envergonhado. que nem guri de colégio. Quis saber qual era.filme Deu pra Ti. Toco violão desde os seis anos de idade. e sim realizar algo em que acreditasse. O show de lançamento do primeiro compacto dos Replicantes foi na Reitoria da UFRGS. Nos juntaram em dezembro pra essa parada. . o pessoal nos juntou.. Era o Wander Wildner. Fomos escutar e eu disse pra ele que tinha gostado – ele não acreditou. Mas eu nunca tinha tocado em público até esse show que fizemos. Estava envergonhado. na arquitetura.. Ele era excolega do Humberto Gessinger e do Carlos Maltz. Aquilo acabou definitivamente com a ideia da viagem. biscoito Sem Parar. A maior parte do show eram jingles: coisas escrachadas como “Abrace o Elefante”.. Estava rolando uma greve na UFRGS e as aulas iam entrar janeiro adentro – e não tinha nada pra fazer no calor de Porto Alegre. Fomos conversar. Os primeiros anos foram de formação musical pra mim.. com “Nicotina”. Humberto Gessinger: O primeiro show dos Engenheiros do Hawaii foi em 85. Na realidade. achava que eu iria malhar aquele som. E ele foi ser baixista do Engenheiros do Hawaii. E aquele encontro me fez desistir da viagem que eu tinha programado pro Rio de Janeiro. E então eu compus umas músicas. E uns colegas em comum sabiam que o Maltz tocava bateria. Nós estávamos vestidos iguais e usávamos brinco também. tudo parecido. Heron Heinz: Fazer som era uma distração. Eles continuaram na arquitetura e o Pitz passou pra música. a banda foi montada pra fazer esse show.. com abertura do TNT. da Mônica. Começaram a ser organizados uns happenings: o pessoal que pintava uns quadros. Era a primeira demo dos Replicantes. A partir de 90 comecei a contar com o apoio da imprensa local. ou melhor..

Fiquei seis meses na Europa e não aguentava mais. Ao mesmo tempo. Depois chamamos umas gurias bonitinhas pra tocar. que era uma banda instrumental. montamos a Urubu Rei. Eles começaram a fazer aquelas primeiras músicas. teatro. Músicas que nunca entraram em disco nenhum. meio que pegando o lance da Blitz. Conseguimos um patrocínio e fizemos esse compacto. e outras de uma banda que a gente teve juntos. minhas e do Castor. Mais tarde ele chamou eu e o Castor pra tocar. O Fluxo lançou um compacto independente.. Flávio Santos: Toda a minha história no De Falla rolou. que fazia parte da Justa Causa. e colocamos no repertório. Quando voltei.. leva todo esse tempo. e o Leandro. Também resgatamos umas coisas do De Falla da época em que o Carlo Pianta era o baixista. Pra chegar até o De Falla. era o máximo. A Biba e o Edu saíram dessa banda e continuaram o X. por causa do meu encontro com o Miranda no Taranatiriça. Eu era empresário de uma banda chamada Fluxo. nós já estávamos enchendo o saco da banda: o Truda e o Cau chamaram o Alemão Ronaldo e eu fui viajar. que foi chegando. Gustavo X Aguirre : Eu comecei tocando. O baterista tocava num balde e nem sabíamos afinar os instrumentos. queria tocar. no começo de 85. E começamos a . junto com o Edu K. Isso instigava na gente a falar sobre assuntos ligados à vida.. Uma delas era o Edu K. de nossa parte ligada à cultura. eu continuava com o De Falla. Fizemos a banda Fluxo de Energia. que tinham mais influência de bandas inglesas. É uma referência a um nome de um compositor clássico espanhol. Flávio Santos: No início do De Falla a gente pegou umas músicas do Urubu Rei que não tinham sido gravadas. Foi aí que comecei a tocar com meu amigo X. Existia uma postura. uma das primeiras de new wave em Porto Alegre. cinema. namorou a Biba. Sady Homrich: O Nenhum de Nós se juntou bem na época do Rock In Rio I. que conheci lá. Ele tinha nove anos e eu onze. podese dizer intelectual. com uma guitarra bem velha. nenhuma brincadeira nem coisa nenhuma. Tocávamos de qualquer jeito. mas a gente se divertia. Minha mãe sofria pra caralho. vídeo. Lá pelas tantas. E foram se agregando algumas pessoas. que surgiu da Fluxo.. Manuel De Falla.Tonho Meira: O De Falla começou em 85. na real. mas morava em Foz do Iguaçu. A gente começou a fazer banda no quintal da minha casa. o que envolvia música. O nome veio mesmo sem nenhuma sonoridade. a Miguel e Almas. que depois veio a ser a banda Fluxo. Edu K: Eu sou gaúcho.

Frank Jorge: Os Cascavelletes surgiram em 86. É o tipo de convite que a gente nunca vai. encontrei o Teddy numa lotação. Eu já tinha tocado com os Engenheiros. teve a coletânea lançada pela SBK. por aí. Um ano depois. que era barman do Ocidente. Então. Isso era 87. Mas um dia. a levar influências de um punk rock mais trabalhado pra sonoridade da banda – se é que se pode dizer isso de punk rock. O Ratão queria ser cantor de rock e estava recém formando a Justa Causa. Eu era quem tinha um pouquinho mais de noção sobre o instrumento. e entrei. Lá por 86. Júlio Reny. Nós estamos com uma banda e ela não tem nome ainda”. não tão exigente. O Barea era o único que eu conhecia da rua. Carlos Maltz: O Nenhum nasceu bem na época do lançamento do disco Rock Grande do Sul. Em 86. Dante Longo: A gente era colega de colégio. Garotos da Rua e De Falla. No começo foi diletantismo mesmo – acho que é assim com qualquer banda. não nos desgrudamos mais. quando ele me disse: “tchê. E muitas outras bandas estavam se criando no cenário. com caras que eu conhecia de vista de um show do TNT no IPA. e a coisa foi andando mais ou menos por este lado. A primeira formação durou um ano e meio. Algumas bandas. estavam conseguindo sucesso e projeção nacional. Eu fiz meio que um teste. juntando as garrafas. faziam uma banda aqui. Por isso nos reunimos pra também tentar. vai lá no ensaio. O De Falla já existia. saindo da PUC fui no ensaio deles no estúdio Bangaló. Apartheid e Cascavelletes. Humberto Petinelli: O Ratão era porteiro do Ocidente e o Edu K também trabalhava lá. Então começamos a mudar algumas coisas. com o Flavio Basso e o Van Soria na época. até que eu e o Dolls – que é o batera até hoje – entramos na banda. coisa de faculdade. em 1975. Partiu muito do Barea. . O Teddy entrou em 74 e eu em 75. Os caras viram que eu estava de banda e precisavam de mais um pro grupo. Eles tocavam em festivais. outra ali.trabalhar essa temática na forma de música. que era na rótula da Carlos Gomes. a Rio Grande do Rock: com Prize. com o X e o Dolls. desde 1970. meio hardcore. falávamos de um disco do U2. Justa Causa. Gustavo X Aguirre : O início da Justa Causa foi como uma banda de punk rock. como Replicantes. O Carlão e o Sady já estudavam no Colégio Nossa Senhora das Dores. porque parecia uma alternativa interessante.

e ele enlouqueceu. como sempre. se chapando totalmente. totalmente emboletado. Não quisemos nem saber e saímos pra fazer os Cascavelletes. tomando vinho de garrafão. E eu já havia misturado Melhoral. dizendo que já tinha produção. Pela metade de 88. ele disse: “bah. Mostrei. Tocando violão e fazendo letra a tarde toda. E ele vinha com aquela bomba. Então. que estava na primeira demo. e foi bastante pirateada. Flavio Basso: Crianças misturam Melhoral com Coca-Cola. que nem era na Eduardo Chartier. chamada Pesadelo. vamos fazer uma outra banda. E elas saíam tipo duas. No quarto. já estava tudo marcado pro primeiro disco. o Charles Master e o Felipe Jotz. E o Tchê. que tinha aquela versão dos Ramones para “Surfin’ Bird”. mas queria saber o que a gente ia tocar. Depois do almoço.Humberto Petinelli: Fui com o KCláudio na primeira gravação do Cascavelletes no antigo estúdio da Isaec. saiu uma versão. A gente ia nas loucuras que batiam na nossa cabeça. nós começamos com músicas próprias. no Teatro Presidente. que depois viria a ser guitarrista. “Pombo Surfista”. Um dia estou dormindo em casa. na bateria. Sacudia a cabça. o Nei largou também!” Eu já tocava numa de heavy metal. dos Trashmen. Nessa sessão de gravação encontrei o Nei Van Soria. show. Foi a primeira música que a gente decidiu ser do repertório da banda. saí da banda. Eu era o roadie. A minha mãe chamou: “o Flavio quer falar contigo”. de tudo o que podia se encontrar. dizendo que tinha escapado do quartel. a gente se encontrava e não parava mais. Ele estava careca – o que não era muito comum naquele tempo. Deu uma cabeçada e quase desmaiou. O KCláudio tinha alugado a bateria pro Barea fazer a primeira demo do Cascavelletes. Nei Van Soria: Os Cascavelletes são fruto da separação do TNT. Eu apareci na casa do Brea bem cedinho. naquele mesmo ano. todo virado.. três por ensaio. Também estava o Silvinho. aquele clima . Eu puxei o “Rocket to Russia”. de manhã. era o operador de som do TNT.. completamente inconsequentes. Totalmente Febem. o Nei Van Soria. com os olhos esbugalhados. tudo. eu reencontrei o Nei no Ocidente – e ele me convidou pra participar do lançamento do primeiro disco dos Cascavelletes. e entra o Flavio no meu quarto. que hoje é o operador de áudio do Roberto Carlos. Ele. A partir dali. 85 o Flavio Basso tocava com o TNT. onde eles gravaram “Surfin’ Bird” numa versão em português – “Pombo Surfista”. disco novo. O TNT estava com contrato assinado. Aceitei. Se bolava muita coisa em casa. Alexandre Barea: Em 84. Depois.

. chamava-se Sigma.. Marcelo Birck: Minha mãe resolveu botar fora um monte de roupas demodé – e eu e o Frank Jorge resolvemos usálas. ia ficar só Graforreia. o Moisés e mais outro cara que eu não lembro. A formação era eu. porque meu irmão tinha me ligado precisando de um baterista. E desmaiei. E comecei a dançar a música.. entrar no lugar em termos. e xilarmônica é um instrumento musical. uma espécie de xilofone. só que com outro nome.. Foi quando nós falamos a sério sobre montar uma nova banda.. Fui escolhido pra entrar no lugar do Frank Jorge. já que eu havia saído do TNT. Cada uma teve dois votos. Eu era meio punkabilly.... em Capão. Fomos o embrião dos Cascavelletes. Era uma banda que estava ressurgindo do Prisão de Ventre. Tinham uns modelos absurdos: umas ceroulas listradas de amarelo. A segunda era uma coisa anos 80. uma banda de heavy metal baseada nos personagens do Muppet Show. Frank Jorge: E a Graforreia surgiu naturalmente. Nesse meio tempo.Mutantes. nesse período. Acordei bem mais tarde. Frank Jorge: Vimos aquela pilha de roupas ridículas na casa do Birck. Cada um tinha que escolher uma palavra no dicionário. e já tinha influência de Echo & The Bunnymen e New Order. Eu ainda não tocava com eles. numas partes da 24 de Outubro. mas tinha uma suíça. No início. e se fez um sorteio. nos olhamos e dissemos: “vamos montar uma banda com isso!”. Então começamos a fazer uns passeios com as roupas. o Zé Natálio. a gente precisava definir o nome da banda. Graforreia é uma doença mental que tu fica escrevendo sem parar qualquer coisa. o Birck. As duas palavras mais votadas foram graforreia e xilarmônica.. Luciano Albo: Eu passei por umas outras bandas que não vingaram.. bati a cabeça na parede. Gritei: “estou fora!” Ele pegou o disco dos Ramones e disse: “então. Uma delas tinha o nome de Porcos do Espaço. Eu fiz um teste pra entrar no Cascavelletes. Graforreia e xilarmônica não querem dizer nada juntas. mas que foram importantes. Daí. porque o Frank Jorge era membro da banda e eu entrei como contratado.. mas não foi uma coisa romântica. . quando o nome Graforreia foi inventado.. em 87. Alexandre Ograndi: Cheguei em Porto Alegre e fui tocar no Palcão. vou tocar esse ‘Surfin’ bird’ pra você!” E eu era meio skinhead. vermelho e verde.

Depois eu já tinha tocado numas quatro bandas. de uns anos pra cá. de Caxias do Sul. de bandas de sucesso como Biquini Cavadão. Eu sempre encontrava o Flávio Santos e o Miranda circulando por aí. Eu também adorava outro nome: Frumelo e os Sete Belos. O ambiente da faculdade fazia sentido com o nome: “pô. no Recreio Cruzeiro. E escolhemos Engenheiros do Hawaii por isso. E não tinha nada que irritasse mais a galera da arquitetura do que esse lance de surfista. Havaí. a exemplo de Legião Urbana e Capital Inicial. O nome da banda também surgiu pelo espírito da época. digamos assim. Mas. é um nome muito fino. A banda. eu estava voltando pra Porto Alegre e tentando me adaptar às coisas daqui. Um desses foi abrindo pros Cascavelletes em 88. lá vêm os Engenheiros do Hawaii!”. Tu pode ler no nome este espírito da época. uma coisa new wave autoirônica. Eu gostava das duas posições.. Fiz uma lista de nomes. em 88. A arquitetura está completamente morta e datada pra mim. Surf e engenharia eram dois ícones que nos irritavam. eu comecei a gostar de novo do nome Engenheiros do Hawaii. chega mais!”. então fica uma lembrança.. Algo bem parecido com a ideia de “Surfista Calhorda”.. Jacques Maciel: Foi um fato bem curioso quando a Rosa Tattooada começou. Já era um autêntico portoalegrense curtindo rock’n’roll e o que pintasse. A explicação que dou agora é essa. um colega da galera no colégio Das Dores. Uma delas era os Asteróides Anabolizantes. aquela coisa. Mas Engenheiros do Hawaii nos tirava do sério. que são o contrário de nomes mais heroicos. do rock ao jazz. na verdade.Humberto Gessinger: O nome Engenheiros do Hawaii era uma brincadeira local. Já havia na cena uma posição entre.. Pra uma banda de massa como virou o Engenheiros. e os que mais nos irritavam foram esses dois. Mas eu tinha uma raiz psicodélica que já estava em pleno vôo. as referências deles eram um pouco mais antigas – um rock heroico. já tinha um cara.. Em Brasília... com esses surfistas de Porto Alegre que acham que pegam onda. em 89.. me oferecendo: “e aí?! Vem. Os Jaquetas foi o meu primeiro grupo. Ele foi o primeiro vocalista: fez um ou dois shows. mas tendo a ver com o ambiente da arquitetura e com nossos colegas de curso. o Roberto Muñoz. sem muito sentido. e que se consolidou quando montamos a Père Lachaise. Plato Divorak: Em 88. muito menos imaginado ser vocalista. os dois sempre com uma cervejinha. os acadêmicos e os experimentalistas. Indo do pop ao erudito. Eu nunca tinha sido cantor. . daquelas balas.

O Darma Lóvers é uma continuidade da Barata. Daí a gurizada chegou pra mim com aquele papo: “enquanto procuramos um vocalista. Dei a letra de “O inferno vai ter que esperar”. mas ninguém gostou. fazer uma visita pro cara. na versão dele. Rapidamente eles fizeram a música. chamada Benedyct Eskine. Eu era só guitarrista antes. pra lançar a banda. A letra não repete. Sentei no meu quarto. na mesma tarde. Durante um ano e quatro meses. em forma de cassete mesmo. e deixamos a letra guardada. já tinha pintado a gravadora Nova Trilha. E os caras diziam: “porra. O Nenhum de Nós não quis gravála. mas que no fim não mata: o cara sorriu e disse adeus. Ele veio com uma folha de caderno e disse: “Jacques. Estava diariamente entre as mais pedidas! Foi uma doideira total. fui na casa do Thedy.. de um cara com a ideia de cometer um assassinato. E eu: “me dá. essa banda já existia: . com seis músicas. Uma foi de 89 até 92. do Nenhum de Nós.. A partir do momento em que encontramos o dharma. Se chamava “Tardes de Outono”. Era uma história trágica.” Thedy Corrêa: Eu estava dando apoio pra Rosa Tattooada. E toca até hoje. “Tu não quer pra ti?”. Nisso. E numa bela tarde. e depois até 95. né. e virou um clássico do rock gaúcho.. a música foi a mais tocada da rádio.. ele ofereceu. mudamos pra “O inferno vai ter que esperar”.. e eles queriam uma música. Jacques Maciel: Levei pra casa. saber o que era a liberdade e onde ela se encontrava. mostrou pros caras da banda. Gaby Benedyct: Baixei direto na Oswaldo Aranha no final dos 80. já tinha “O inferno vai ter que esperar”. e é só uma história. morreria no inferno. tu quer uma letra que eu compus?” O nome da canção era “O inferno pode esperar”. quem são esses que não têm gravadora e já estão na programação?!”.Mas logo a seguir. pra não parar de ensaiar. mas concluiu que se matasse. Depois. E comecei a namorar um carinha que fez uma banda comigo. o Roberto deixou a banda. Acabei ficando na posição e curtindo a história. fizemos os Darma Lóvers. no ensaio do Nenhum. mas as questões continuam. Houve uma clareza muito maior a esse respeito: do que é a liberdade e de onde a gente a encontra. musiquei aquela letra. e convidamos o Thedy pra produzir nosso primeiro disco. E foi um estouro – porque depois outra música também emplacou. Nenung: A Barata Oriental teve duas fases. tu vai cantando nos ensaios”. Ele disse que. E chegou na Atlântida. Estourou na programação.. peguei o violão e. Na realidade. Tínhamos uma coisa de inquietação constante e as letras procuravam questionar o mundo. Mudou a abordagem. A fita demo que a Rosa Tattooada gravou pouco depois. não tem refrão.

. eu e o Pedro começamos a ouvir metal. A primeira foi em inglês: tinha um monte de frases meio desconexas. o Flávio Miguel. Também o Pablo. tive uma experiência muito legal com a Urro. Mas estava ainda nos resquícios do rock dos anos 80. Se divertir com a música mesmo... chamei a Carlinha e decidimos mudar o nome pra Ninfrodizíakas. O primeiro ensaio da Ultramen. Frank Jorge: Na época que a Graforreia não estava rolando muito. Minha participação não durou muito. Mas a parceria e a frequência de shows foi parando em função de mil direcionamentos. mas ter entrado na banda foi a oportunidade pra conhecer o Plato. ficar amigo dele e começar a compor algumas músicas em parceria com ele. como a Space Rave. e eu dizia que eram de minha autoria. uma banda que rolou num esquema de fundo de quintal. Mais tarde. Susi Doll: Eu namorava o Silvinho.. Pedro Porto: A ideia de ter uma banda como a Ultramen era uma coisa totalmente descompromissada. Nessa época.antes de eu entrar. formamos a banda Dama da Noite – por causa do chá. skatista. quem cantava era a Cacá. O nome da banda ainda era Os Benditos da Esquina. e o Daniel Leão. pensando em se divertir. que era a banda do Plato Divorak. ele a letra. a resposta sempre era: “é latim!” Zé do Trompete : Nos 80. Rolaram outras bandas também.. O Plato não toca instrumentos. O César. que no início dos anos 90 estava ficando muito forte. que o Pedro marcou. E saiu um “Beneditini di Isquinini”. e nosso repertório eram apenas duas músicas. o Felipe. não se importando muito com o dinheiro.. Começamos a ensaiar no estúdio Live. Uma turma muito legal. O Alexandre Ograndi era o baterista. Ele me passou algumas músicas. da Quadrilha de Morte. Lançamos fitas demo que se divulgaram bastante no cenário underground brasileiro. que agora é do De Falla.. e o Rafael Ferretti – um grande líder de banda. A ideia era fazer letras surreais. a partir de 98. Convidei a Mariana e. lá por 92. com a qual toquei durante um tempo e foi uma ótima experiência. toquei com várias bandas. de bobeira. Quando nos perguntavam a origem do nome. Aí adaptamos pra Benedyct Eskine. juntas. estavam o Zé Darci e o Z. e começou com esses papos de língua do “i”.. Eu fiz a música. Mas mudamos porque a Cacá entrou numas... escritor. em imitar os ídolos da juventude e pelo lance da fama com a galera. . 93. Foi por incentivo dele que entrei no rock. eu entrei na Père Lachaise. Um deles foi ter começado a tocar com os com os Cowboys Espirituais. de viagem. então eu tocava as músicas e ele trazia as letras prontas. Júlio Porto: A Ultramen nasceu assim: o Pedro conheceu o Zé Darci na Faculdade de Biologia. Depois.

é uma nomenclatura que eles usam pra designar dois: “dimetil”. conheci a Mariana Kircher num show da Benedyct Eskine com a Molly Guppy no Fim de Século – a banda que eu tinha montado junto com o Itapa. “dipropeno”. já como Jupiter Apple. “Di”... um pedaço de pau com peças Sound e alguns parafusos. As pessoas iam nos shows e curtiam as músicas pra caralho. Eu e o Gross voltamos pro Rio Grande do Sul. Isso era 1993. comecei a ter umas aulas de violão e conheci uns caras bem doidos que tinham uma banda chamada Molly Guppy. e ele resolveu ficar morando em São Paulo. Mutantes. de novo: dois. peguei meu nome e dividi Diego nas sílabas: “Diego”. mim”. Eduardo Normann: Em 93. A banda ensaiava no clássico estúdio de garagem do Vilson Picco. de Diego: “ego é igual a eu”. e o instrumento que eu mais tocava era baixo.. a Márcia e o Cristiano. dividi meu sobrenome em sílabas: “Medina”. concluí. o que que é? É o artigo “em” mais a preposição “a”. a partir da ideia de instrumentos artesanais baratos. guitarreiras e vocais loucos. eu e o Edu montamos outra banda.. Saiu o nome: Doiseu Mimdoisema. eu e a Mariana acabamos formando outra banda chamada Space Rave. começamos a preparar algumas músicas pro disco que seria o próximo do Júpiter. logo depois. E “ego”. Em .”.. “Na”. Ainda me lembro do tocadiscos da minha casa e dos vários disquinhos dos meus pais: Beatles.Mariana Kircher: Cresci amando música. Então “di” virou “dois”. um pouco mais pop. mas mesmo assim barulhenta: a Space Rave. Então. em química. Eduardo Normann: Olegário Mariano foi uma banda que fiz com o Itapa. Acabou ficando. Fiz o mesmo com o Medina. Então. O “di”.. que foi apresentado pelo Brasil afora. No mesmo ano.. Fizemos um som juntos e. Nesse meio tempo. Na verdade. Aí tive uma ideia. Muito barulho. feitos pelo Itapa e a Márcia Vasconcelos. Diego Medina: Eu não queria que a fita em que eu gravei “Epilético” fosse simplesmente: “Diego Medina interpreta. Logo ela veio tocar conosco. Nos revezávamos nos instrumentos. e batizamos o novo trabalho de Hip Horse. Júlio Cascaes: Eu e o Marcelo Gross entramos na banda do Júpiter e começamos a ensaiar o show do A Sétima Efervescência. a terceira sílaba de Medina. o Guilherme “Smog Fog” Figueiredo e o Cristiano Fleck. O resultado foi “Doiseu”. mim. E o “na”. o Plastic Soda. O “Me” é um troço que tu usa. O primeiro show foi no Garagem Hermética junto com a Walverdes e os Crushers. de Medina: “Me. Hendrix. “Em” mais “a”: “ema”..

Acabou uma coisa meio virtuosa. Duda Calvin: A Tequila Baby se conheceu na Oswaldo. O James também tinha uns amigos que ensaiavam no colégio. eu. e deu uma puta dissidência – uma dissidência bacana.. fizemos a outra banda. aí comecei a ir na casa dele. O Iuri Freiberg. . fizemos uma fórmula. A gente tocava todo o ano no Fica. Tati: A Narciso surgiu no início dos anos 90. e dos Hipnóticos. estilo: ‘whisky’. então programamos a bateria eletrônica do Iuri pra substituir. legal. a Cachorro Grande. Por incrível que pareça. Walverdes. que já tinha acabado. Os caras gostaram e acabou ficando o nome. a Borboleta Negra. Léo Felipe: Os 90 foram uma época em que as pessoas estavam sedentas pra ver shows! Não tinha lugares pra ver bandas em Porto Alegre. o final da Molly Guppy. Fredi Endres: A Comunidade Nin-Jitsu é uma piada interna que se espalhou. Dellips.Porto Alegre formamos Os Hipnóticos. Falei que tinha o nome de uma banda que eu tocava antes: era Tequila Baby. em frente ao placo. eu tenho um amigo que toca umas músicas deles”. o nome Tequila é mais um lance de quando se é garoto e vê filme de western na sessão da tarde. Eu fui o último a entrar na banda. Sem querer. que era o festival do Anchieta. porque a coisa se ramificou: do trabalho do Júpiter se formou a Hipnóticos. em 94.. Qualquer bandinha conseguia botar uns cento e poucos pagantes. O Plato também tinha a Père Lachaise.. Um cara estava falando de Ramones. Éramos meninas cansadas de ficar nos bastidores do rock e de esperar a velha palheta ou baqueta cair nas nossas mãos. que era a banda do Betão. ‘tequila baby’. Botávamos as guitarras e íamos confeccionando as músicas. Montamos a banda com ele. as pessoas estavam sedentas. o Fredi e o Pancho tínhamos uma banda instrumental chamada XYZ. Nando Endres: No fim dos anos 80. da Tom Bloch. o Didi e mais um pessoal. de tomar um tragão.. Com o passar do tempo. Não tinha como gravar as baterias. e eu me intrometi: “ah. Naquela coisa de beberragem. levou o seu porta-estúdio e gravamos. Tinha a Space Rave. Nossa primeira demo foi gravada na casa da minha vó. Ricardo Kudla: Pegamos bem o começo de uma cena que estava acontecendo nos anos 90. um funk progressivo. ‘spaguetti’.

e ainda por cima é louco da cabeça. em qualquer gênero. e no lugar dele entrou o Caveira. e durante os quatro primeiros anos funcionou assim. legal. mas não porque a gente ouvia hardcore. Aí saiu nosso baterista. E onde foi parar essa gente toda? Muito pessoal bom desistiu.Mini: A Walverdes começou em 93. de mais substancioso por aqui. . que era o Vinícius Tavares. cantando?!” Ele foge a todo o tipo de heroi: é gordo. Aí outras coisas começaram a acontecer. Rafael Rossatto: O Carlinhos me convidou pra fazer uma banda. Foi meio cão. Mas pensei: “o Carlinhos. Nos juntamos pra continuar bebendo e tocando bastante. Carlinhos Carneiro: A Bidê ou Balde surgiu de uma porção de bebedeiras e reações orgânicas inesperadas. mas só de brincadeira. não é um cara bonito. Porque temos um celeiro musical com coisas boas na cidade. e sim porque a gente não sabia tocar.. Eu adorava ele. e fiquei meio assim: “esse gordo é louco!” Eu já conhecia o Carlinhos: ele ia nos shows da Jkbak e ficava pulando e berrando. porque quem baixava aqui pra peneirar as bandas só pegava as que estavam prontas pro mercado paulista. Mesmo assim. E grupos com essa característica não era o que tínhamos de mais inteligente. O que teve no início da banda foi álcool e vontade de tocar. e nós: “pô. está indo legal”.” Foram três ensaios. Gaby Benedyct: Muita coisa aconteceu em Porto Alegre nos anos 90.. respondi: “beleza. vamos fazer uma banda. Todo o início foi de repetições dos primeiros ensaios: um monte de amigos bebendo e tocando hardcore muito alto. depois de tanta batalha.

Fiquei meio impressionado. mais Jovem Guarda. e pensando em uma coisa assim: “ela disse onde está o meu amor. Alguém que falava que queria comer a mina menstruada naquele dia. Porque eu estava fazendo vestibular. mas a guria não queria dar. eu queria pirar na dos homens! Dias depois me deu um tilt. ela surgiu. Com a letra na mão. Eu mal conhecia o Flavio Basso e a gente já combinou de se encontrar na casa dele pra compor. os caras que estavam tocando na banda dele! – e todo mundo se atirava no chão. criar. e eram umas minas tocando. eu disse hoje sim. O núcleo criativo da banda era meio centrado no Nei e no Flavio. minha intuição dizia: “vai na caixa de correio!” Era um domingo à tarde.” Ele que deu a ideia de colocar “meu tesão” e “por que não”. da geração 80. Eu já sou bem mais fake. Daí pintou . olha o que tu fez! Essa música é muito boa. batia no público. Um ato de loucura e raiva. a única composição que realmente está vinculada ao meu nome de uma maneira legal e conhecida é “Menstruada”. sobre o universo delas.TOCA AQUELA! Júlio Reny: Já estava rolando o boom do rock no meio da década de 80. Na verdade. Mas não foi trazendo uma ideia de casa. grava ela pra não perder!” Edu K: “Amor e Morte” tem uma guitarra de heavy metal numa música que não é nada heavy metal no sentido estrito da palavra. Frank Jorge: Muito cedo já foi positivo o lance de eu gostar de compor. que morava na Bahia. Alexandre Barea: O Frank e o Flavio vieram com a melodia de “Menstruada”. Eu queria mudar a estética da coisa — queria fazer algo com que as meninas se identificassem. E no fundo ele era aquilo de verdade. Pedi que me fizesse umas letras. Pensei: “as mulheres estão cantando letras que falam sobre os homens?!” Então liguei pra minha mulher. e lá estava o poema: “Amor e Morte”. girava seu baixo no ar e vinha na direção das nossas cabeças. leu aquilo. Ele estava meio maluco nessa época: quebrava tudo nos show. E fui assistir a um show no Parque Marinha do Brasil. Dessa primeira sessão saiu “Menstruada”. a música veio em dois minutos. abri a caixa. e disse: “cara. O Flavio tinha essa coisa mais rock de deixar a música maliciosa e eu tinha uma noção mais romântica. e escrevia umas poesias legais. Cheguei lá. cantando uns refrões tri adoidados. por favor. com a pasta do cursinho ali. O meu percussionista chegou.

O cara estava de mal com a vida e foi super grosseiro. Quando fomos gravá-la. A música estava indo muito bem. Hoje. Tem registro em jornal dizendo: “que horroroso!” A mesma coisa diziam sobre o nome Graforreia Xilarmônica. O Thedy olhou pra um daqueles jornais e avistou o nome “Camila”.aquela introdução bizarra.. o namorado dela tinha sido estúpido com ela. durante um fim de semana. duas. Camila” surgiu de um caso verídico. damos risadas. já não importa o nosso bafo”. começamos a moldar a história de “Camila. a essa altura da manhã.. “Amigo Punk” ganhou como melhor música! E o argumento foi de que a música tinha tocado muito no ano anterior. Carlos Maltz: A ideia de “Camila. Camila”. Mas não foi só o lance do refrão.. estávamos no estúdio – era um dia chuvoso – e tinham uns jornais espalhados pelo chão pra não molhar o carpete. e pirava naquela introdução. não tinha fim. três. . “vamos repetir uma vez – não. Menstruada. Trouxemos isso pra um contexto urbano: é o gaudério com uma levada rock esquisita. do tipo: “reage. amanhecer bebendo. Surgiu tal ideia. a gente era escorraçado. escuta esse meu desabafo. a introdução era ainda maior: “Menstruada. Eu fiquei repetindo milhões de vezes – e não tem cabimento. que na verdade era o nome de um filme argentino em cartaz na época. repetir aquilo um monte de vezes sem nexo algum. Frank Jorge: Vivíamos esse negócio punk da Oswaldo Aranha. No Prêmio Açorianos de 2000. propiciou à Graforreia ter um repertório grande de canções do Frank Jorge e Marcelo Birck como parceria. Quando tocavam no rádio. Aquele achado completou o que faltava. Soou como uma sacudidela. Daí ele dava uma deslanchada na letra. A gente ria. porque uma mulher inteligente e bonita se submete a esse tipo de coisa?” Em cima dessa indignação. mais!”. Um de nós tinha uma amiga e. Menstruada!”. de voltar tarde pra casa. isso era muito comum de acontecer na Graforreia. O fato de várias músicas terem sido feitas desse jeito. e sim a forma como ele era cantado. E foi um estouro: entrou na Ipanema e explodiu – e isso que não tínhamos feito nenhum show. talvez eu já tivesse trazido a primeira estrofe pronta: “amigo punk. e ficava aquela merda! E nas apresentações. Então ficamos nos indagando: “pô.. amiga!” Marcelo Birck: As músicas “Eu” e “Amigo Punk” já têm 15 anos. O Marcelo ouvia aquilo e achava legal: “quem sabe a gente faz outra parte assim”. “Amigo Punk” tem um pouco desse lance autobiográfico – mas também tem muito a ver com uma caricatura das músicas nativistas. mas faltava um detalhe.

Nunca vim à tona com isso: tenho alguns registros. e daí um chegou pro outro e disse: “ó. Carlos Eduardo Miranda: Quando a gente voltou com o Urubu Rei em 84. falei: “velho. Colagens de concretismo com surrealismo.. Por causa das camisetas amarelinhas: eram todas meninas do IPA. do Anchieta. E acho que rolou uma identificação dos porto-alegrenses com a música. e até mesmo gírias existenciais. Tomávamos aqueles remédios pra emagrecer – algumas usam até hoje. o que eu quero agora é sestear no meu pelego. Onde a gente não toque porra nenhuma! Onde um monte de gente que não canta possa cantar”. Em função do Bob Dylan. bem criadas. Tinham as ideias. O “Amigo Punk” é um música standard. E houve um período depois disso. Tínhamos catorze. com o nome de Woody Aple – de Woody Guthrie. Susi Doll: A música “Screw You” começou a partir da história do De Falla e um grupo de amigas. cantando tudo desafinado.” Essa é uma música assim: um fez um pedaço e o outro fez outro. Este foi um período em que aprendi a elaborar bem minhas letras. quinze . que é aquela primeira parte da música “Amigo Punk”. a música é boa porque é simples. iam tocando e cantando e o Alemão esperando. faz o resto”. Daí veio “Nêga vamos pra Boston”. A ideia era tirar o maior sarro das pessoas. Nós éramos um grupo de dez garotas. e todas perdidas emboletadas. Algo que talvez só eu sabia. eu acabei misturando estas coisas. Se cagando de rir e fazendo a música.. Uma música de imagens.. vamos fazer uma música de uma nota só. Edu K: Tinha umas garotas que andavam com a nossa turma que chamávamos de As Amarelas. E aí foi o resto: “não importa se não tem lata de cola. fez uma milonga. daqui a pouco estava pronto – era incrível mesmo. porque ninguém ia notar que elas estavam cantando desafinado mesmo: só iam ficar cuidando as pernas delas! Jupiter Apple: Trabalhei como Flávio Basso até metade de 95. todas louras. Parece fácil de fazer. em que fui absolutamente obscuro. Botamos umas gurias de mini-saia na frente. Como “Pictures and paintings”. mas é algo muito meu. de sacanagem. arrumadas.Carlo Pianta: Um deles. um lance bem direto. Elas depois vieram a se tornar As Raiovacs. sete meses. não sei se o Frank ou o Birck. durante uns seis. e também do sobrenome de uma avó minha. mas com um super complexo de hippie. mas lindas. Eram umas ripongas. Fui cantor folk.. maravilhosas. rindo de sair lágrimas. Já têm outras músicas que eu vi eles fazendo ao mesmo tempo.

. eu não sei por quê. Acabou sendo censurada. Eu conheci a Susi quando eu ainda morava na baia da Oswaldo. e íamos pra Oswaldo de segunda a segunda. Também acontece de me encontrarem na rua pra falar: “pô. Fiz uma música em homenagem a ela. uma mulher nova. e o público não ia saber que isso tinha sido . apesar do comentário que rola por aí dizer que a situação é de verdade. eu odiava! Edu K: Legal que a Susi. junto com a turma das amarelas. deixamos ficar assim mesmo. talvez pelo fato da boneca Susie. E. só pra consumo interno. Pensei em silicone na ideia de prótese. Viajamos pra caralho de carona com as Amarelas.. Ela era maravilhosa. Não conseguimos pegar nenhuma carona. mas eu a tratei muito friamente. Dá pra dizer que a música representa a geração dela.. No lançamento dessas primeiras músicas. A gente virou só amigo. Sei que compus “Sociedades Humanóides Fantásticas” ouvindo o primeiro The Who. participou da viagem pra Guarda que destruiu o nosso cérebro. uma amiga! Se ouve tanta mentira que. e aquela música. sim – mais do que isso. E quando eu vi ela entrando no táxi. Humberto Gessinger: Existem muitas mentiras sobre os Engenheiros da Hawaii. as outras estavam acabadas. A gente chorava na estrada. é difícil de acreditar. uma menina disse que tinha sido minha colega.anos. como se usa hoje em dia. no aeroporto.U. Júpiter Maçã: As circunstâncias que geram certas canções provocam lembranças eternas. lá pelas tantas. Mas eu não sou uma pessoa muito saudosista. elas invadiriam o palco pra tentar nos agarrar. Um dia. Aliás. Aí.” e “Silicone”.. não lembra de mim?”. Eu e o Careca fomos tentar viajar de carona sozinhos. como as pessoas se excitavam mais com essa ideia. Eram “As Taradas Reprimidas” – como se intitulavam. caminhando. fui teu colega na medicina. me deu um flashback: ela tinha sido minha colega. E a gente se fudeu: tivemos que caminhar de Floripa até Bombinhas. E nenhum dos nossos pais sabia de alguma dessas coisas. o Edu intitulou essa turma. fizemos um happening na faculdade de medicina. Mas não tem nada a ver uma coisa com a outra! Não sei de onde veio. Não é uma história real. Mas eu nunca fiz medicina! Tu entra num clima de ficar de pé atrás com as pessoas. Convidamos um grupo de gurias que eram nossas ditas fãs. Uma delas é sobre “Infinita Highway”. Foi do caralho. Mas a música foi vista como uma coisa de travesti. Leandro Branchtein: As duas músicas que Os Eles gravaram primeiro foram “R. quando uma coisa é de verdade.. pra fazer uma performance. eu tinha horror dessa música.. Ficou combinado que.

Na carta manuscrita que ele mandou dizia também: “desejo sucesso à turma jovem que abre caminho através da música!” Leandro Branchtein: Quem acabou musicando o poema do Drummond foi o Hélio.. Tudo isso criou um clima de excitação e. Na segunda ligação. Quando o turista árabe me acertou com o chumbinho. minha roupa rasgou e fiquei sangrando de verdade. que o irmão dele. O público enxerga muito isso. mas de uma maneira mais neutra. Fomos atrás da Editora Record. na verdade. Até pensamos que ele poderia autorizar. e junto a nossa pretensão: com a fita. tinham uns pregos pra fora... Estávamos super emocionados. Mandamos uma fita gravada no estúdio de ensaios do Ivo Eduardo. musicou. Ficou super real: elas foram arrastadas pra fora. consegui falar direto com o Drummond: “manda pra cá”. irmão do Leo. O Drummond ainda era vivo. eu caí. que ficava envaidecido pela homenagem e autorizava colocar no disco! Claro que não esperávamos por isso. esse clima foi se propagando. Ele gostava muito de ler Carlos Drummond de Andrade. Expliquei a situação. com uma espingarda de chumbinho.armado. Consegui o telefone da casa dele. Ele gostou mesmo. não ficariam sabendo dessa outra intervenção. pra pedir autorização. ele disse. sem saber nada do que estava acontecendo. explicando que éramos um grupo de universitários querendo gravar uma obra dele. O fato é que o Drummond escreveu a resposta de próprio punho e foi uma surpresa pra nós. e falei com a sua esposa. e perto do palco. de alguma maneira. e trouxe pra banda um poema chamado “A Corrente”. Ainda combinamos pra que um amigo nosso fosse fantasiado como turista árabe e. que detinha o direito sobre a obra do Drummond. Quando fomos mostrar o som pros caras da gravadora foi muito engraçado. tipo: “olha que música fizemos!” . enviamos uma carta. aquela coisa juvenil. mas não conseguimos. Thedy Corrêa: A canção “Jornais” é muito emblemática e importante pra trajetória do Nenhum de Nós. numas tábuas. atirasse em mim e me “matasse” no meio do show. Os Eles passaram a tocar aquela versão. porque tinha caído bem onde estavam os pregos.. Também pedimos pra que alguns amigos nossos as impedissem de fazer isso – só que elas. E o Drummond nos respondeu! Escrevendo que tinha gostado da versão. e decidiram incluir a canção também no disco que iriam gravar. Ilton Carangacci: O Leo Henkin sempre foi um cara ligado às letras. o Hélio. O pior é que o bar estava em reforma.

beber ou pagar ingresso. e eu vivia desse jeito. E representa uma busca. quando recém tinha chegado em São Paulo. mas o som deles era meio incompreendido pela massa. Thedy. que curtia e me identificava. Como eu não tinha chave. Reinaldo Barriga: Eu tinha que pôr o De Falla nas rádios. Eu queria escrever uma canção tipo Roberto Carlos. Humberto Petinelli: Em 91. Naquele tempo eu já estava tocando mais pelo amor ao blues. logo que os Cascavelletes gravaram o segundo disco. bati um papo com o Flavio Basso no ônibus. e eu na poltrona. voltando de Santa Catarina. Então. Eu estava morando na sala da casa do Gugu. Tu nunca amou ninguém?!” Porra. e disse: “eu também quero ter o meu som do Robertão!” Mas eu não estava pensando em lyrics ainda. E sabia que o Frank adorava Roberto – ele e o Marcelo Birck.Terminaram de ouvir. sair de casa. e pra não fazer muito esparro. Aí. Eu fiquei impressionado. e não conhecia ninguém. essa coisa utópica que tinha se tornado realidade. A parte da letra surgiu porque eu estava andando na rua. a gravadora do Raul Seixas liberou a nossa versão – que levou o De Falla pras rádios. o que uma coisa tem a ver com a outra? Júpiter Maçã: “Lugar do Caralho” é uma ideia absurdamente literal.. Ela deve ter surgido numa questão de três noites. Ele tinha essa coisa de encarar o rock como uma verdade. E com isso. veio a era Collor.. das vozes femininas da música original cantando “quem não tem colírio usa óculos escuros”. da Aristhóteles e de projetos afins do Marcelo Birck. E começou a definhar o processo dos Cascavelletes. da Justa Causa. e disseram pra mim: “escuta. porque eu estava inspirado pelo Frank Jorge. Um dia. e de viver essa coisa de verdade. repetindo a linha da bateria eletrônica. Já não era tanto com interesses comerciais e .. Houve grandes concertos da Graforreia. O Ratão dormia no sofá. do Raul Seixas. Isso já era em 90. meio que os enganamos: botamos um outro coro em cima da parte sampleada. Mas a gravadora não queria liberar o original do Raul. surgiu a ideia da gravação de “Como V ovó já Dizia”.. E eu tinha um amor pelo blues.. pra não ficar tão na cara. Foi a primeira vez que fiz um sampler. batia na janela do Ratão e ele abria pra mim – e eu pulava pra dentro com o dia amanhecendo.. que eram meus ídolos naquela época. Veio uma época meio deprê. Foi uma época em que as pessoas não tinham dinheiro pra fazer festa. antes de “Sob um Céu de Blues”. Fiz a levada da música com uma espécie de looping da época. junto com o Ratão.

E olhando pela janela. E nesse papo.. sem grana de novo. quando a Ultramen já estava fazendo shows em São Paulo e no Rio de Janeiro. Tipo: “eu vou bater e quebrar a tua janela”. os outros músicos nos perguntavam por que o gaúcho tinha um pouco de resistência. quando não tínhamos nada pra fazer. íamos pra lá. Falei que estava sem grana. correndo o risco de ele não me abrir. Sempre procuramos isso. Toda segunda-feira. onde a cerveja era um real. na verdade. No ensaio seguinte dos Cascavelletes. A gente brincava com discos do Cézar Passarinho. Eu andava pensando em milongas. Com relação à “Sob um Céu de Blues“. e não sei o quê.. Por que os gaúchos eram tão gauleses? E a gente conseguiu fazer uma coisa. voltando de uma miniturnê – ou grande turnê –. na época áurea da Barros Cassal. A letra fala sobre as gírias gaúchas e tem a participação de vários MCs. Então ficou engraçado. Pedi pro motorista do ônibus pra parar em Torres e desci. com intervalos de quarta. não lembro. mas. que talvez pudesse ter ficado meio forçada. O mais curioso foi que. por exemplo. cheguei em Porto e tinha um ensaio.. Nos conhecemos do colégio e da praia.. já estava pintando o riff do que viria a ser “Sob um Céu de Blues”: meio Keith Richards.. Era um lugar muito legal.. ia chegar em Porto Alegre e teria que bater na janela do Ratão. o céu estava carregado. mais ou menos assim.. o Bob Dylan lançou um disco chamado Under a Red Sky. o sol começa a nascer. Eu tinha um apê na praia. pra não ter que chegar duro em Porto. Então começou a surgir: fazer esse paralelo de música gaúcha com o rap. Mas ele atribuía os mesmos valores pra aquele ‘red sky’ em relação ao nosso ‘blue sky’. . eu tenho essa lembrança — se é que foi isso.. e algumas pessoas já estão acordadas dentro do ônibus. Todos nós temos o mesmo jeito alegre de ver a vida pra buscar a felicidade. tudo que eu tinha passado pra conseguir estar ali naquele momento. contando coisas da minha vida. eu fui com a letra. mas azul.outros interesses. Sabe. O Flavio seguiu de bus. a gente não tinha a canção ainda. Mano Changes: Somos muito amigos. E se fez essa analogia sobre o céu azul. alguns meses depois. enfim. e pá. Bati um papo tri louco com o Flavio. O Seven From Hell. Na semana seguinte. quando cada um tem uma garrafa na mão. O Flavio apareceu com a letra pra mim: “essa eu fiz em tua homenagem porque tu é o cara que vive sob um céu de blues”. Acho que foi num ônibus. o Nei com os acordes e o Luciano Albo com uma evolução de modulações. Flavio Basso: Nós vínhamos conversando. Essas coisas de bar. e o tempo da milonga poderia entrar junto com o ritmo da bateria de rap. Tonho Crocco: A música “Peleia” surgiu porque. era o papo da janela do apê do Gugu.

e a cerveja muito barata: um real. Foi pra casa e deixou a barraca uns dois dias montada. Achei que seria legal se eu viesse por fora do prédio me dependurando. . Mano Changes: Estávamos no carnaval. à noite. Era uma coisa totalmente peculiar. Os Acústicos e a Ultramen. me agarrando numas gradezinhas. mas na época nunca pensávamos em expressar isso em termos de música. no cemitério São Miguel e Almas. e apelidamos ela de Corbari. num camping que tinha várias cabanas e lugar pra um monte de barracas. vou montar a minha barraca”. também participaram muito dessa chinelagem da Barros. que eram bandas que já existiam. bem séria. com umas gatinhas bem novinhas. é sobre uma amiga nossa. e não sabíamos se as pessoas iam se identificar. fazendo festa. Foi uma fonte de inspiração pra Comunidade Nin-Jitsu. Mas o clipe dos Garotos era o seguinte: eles foram na rodoviária e levaram todas as putas de lá pra minha casa! King Jim: A primeira parte do clip. E o Ravengar. Polaca: Os Replicantes foram gravar o clipe da “Festa Punk” num terraço e eu entrei numas. ele mudou de ideia: “ah. Depois. Ia sair quatro pila por pessoa pra ficar na casa. quente pra burro. na Felipe Camarão. Sentado no bar. nos divertíamos muito e falávamos coisas engraçadas. é que fomos gravar na V oluntários. Mas. V ou pra lá também”. gravamos ao meiodia. um amigo nosso. que loucura!” Fiquei pendurada uns segundos e voltei. e dois reais pra ficar na barraca. muitas vezes sem ninguém. Podia ter morrido. Depois é que a piada interna foi se espalhando. está todo mundo na casa. Fredi Endres: O sachê de Corbari. Vamos botar a corvina lá dentro!” Ela ficou apodrecendo na barraca dele o carnaval inteiro. Eu achei que ia ficar legal e fui mesmo. E todo mundo: “bah. que fala em “Merda de Bar”. Não que ela tivesse algo a ver com a guria. No outro dia encontramos a corvina e dissemos: “bah. Achamos uma corvina morta na praia. no meio de tudo. Me pendurei num prédio de seis andares. e pra mim foi tri normal. a barraca do Ravengar está armada.onde víamos um monte de personagens e um monte de coisas. Todos fantasiados de drácula. É a letra de “Merda de Bar”: “estava em frente ao Seven From Hell vendo o Carlos Castañeda levar um tombo”. disse: “não. mas porque o nome era parecido. Chaminé: Um dia eu cheguei em casa e os Garotos da Rua estavam gravando um videoclipe. Então.

Quando a gente dobrou a esquina.. e os gigolôs mais ainda. vem cá. Quando abriu a porta. o cafetão achou que éramos da RBS. Estavam o Edinho e o Bebeco gravando a parte deles. ô puto mentiroso!” E nós: “somos dos Garotos da Rua.. e disseram que ele estava no quarto.. mas fã”. e eu e o King Jim fomos num bar da V oluntários. Nos levaram pra um cubículo e gritavam: “O que vocês estão pensando? Estão degradando nossa imagem! O que vocês estão querendo?” Explicamos que era só um vídeoclipe. E uns caras nos chamaram: “vem cá magrão. Eles achavam que a gente estava querendo levar as minas deles de graça e só depois fomos descobrir que uma dessas minas que contracenaram.” Mas um dos cafetões nos reconheceu.. pensando que a gente era da RBS. E quando a gente chegou pra filmar. King Jim: O Justino fez uma cena de sexo. vestindo colete.. pro mesmo clipe. pra dar todo um clima. uns cinco. no sábado. A coisa acalmou.. E os cafetões nos deram um chega-pra-lá. Tudo isso pro mesmo clipe! O passo seguinte do clipe foi sermos cafetões. No apartamento em que eu e o Chaminé morávamos. umas cenas muito bagaceiras... Fomos parar num sótão daqueles prédios da V oluntários.. umas cenas e. O problema é que uma semana antes a Zero Hora estava fazendo uma daquelas campanhas falando do flagelo da prostituição. e os dois pelados lá.. Mas eles não nos chamaram na frente de todo mundo.. O Justino e a produtora do clipe – uma gostosa. aquela coisa: “e aí putinha.. Com umas atrizes fazendo uns “ais” e “uis”. na minha cama. Ela perguntou por ele. mas a gente não estava exatamente como é o comum dos jornalistas: estávamos usando umas botonas.... fomos tomar umas cervejinhas na esquina.” Isso.” E eles: “claro que sim.. Enfim: jornalista não tem cara. As putas de verdade começaram a nos olhar com uma cara estranha.. .Fizeram umas tomadas. não. mas continuamos a gravar. Começaram a falar: “vocês são jornalistas..” Pensamos que de repente era fã: “é bagaceiro. abraçados. a história de quem veio do interior pra Porto Alegre. E eram os cafetões mesmo. eles nos pegaram no braço e disseram: “vem cá filho duma puta que tu vai ver o que vai te acontecer”. batem na porta e vão ver quem é. A ideia foi fingir que éramos amigos de umas putas. Justino Vasconcelos: Era a gravação do clipe da música “Tô de Saco Cheio”. dali a pouco. era um travesti! Saímos nos cagando. depois que já tínhamos ido em cemitérios fingir que tocávamos em cima de uns túmulos.. têm que matar tudo!” “Não somos.. na verdade. Estavam todos armados. vem aqui fora. deu de cara com a cena. De repente. Era a noiva do Justino. Os caras molharam a cama.

E ele dizia: “do lado da minha casa tem um terreiro de umbanda. pediu por mim. o teor que ele dá à coisa. Então o velho falou que nas férias sempre trabalhava na padaria do Farol. . pra ficar com cara de suor. Eu e uma mina. que fala sobre a ideia dele de ter uma filha. A ideia surgiu quando estava ouvindo Richard Hell e lendo a letra ao mesmo tempo. também fomos pra casa do Chaminé e do King gravar. Convidar a garota certa pra que juntos eles tenham uma filha.. no Farol de Santa Marta. me aposentei e vim morar aqui no Farol”. esse pensamento machista é bacana. Eu enchi o pé de ouriço. Minha namorada apareceu por lá. “E por que não?” é a filha bastarda dessa música: uma remendada que eu dei em cima da hora de gravar – porque a minha mãe não podia nem ouvir eu cantando aquilo. Esse negócio de amar a filha e têla como uma amante perfeita.. criar a amante perfeita. Mano Changes: A história de fritar um sonhinho em “Detetive” é verídica. O que no fundo era uma coisa bacana. Ela teve um ataque! Como no outro dia a banda estava indo de muda pro Rio de Janeiro.. acho que frita um sonhinho”. Nisso. Nos molharam com água. Criar essa filha com o intuito de têla como a amante perfeita.Justino Vasconcelos : No mesmo clipe. Tem uma música “The Plan”. ele está no quarto!”. acabou o namoro. e foi essa que eu escrevi. um velho meio babão começou a puxar papo comigo. Eu era de Canoas. e falei pros caras: “vão indo na frente pra fazer o rango. Ela abriu a porta do quarto e só dava pra ver a cama em que eu estava contracenando – não dava pra ver a produção do clipe. Havia uma cena em que ficávamos sem a parte de cima da roupa. e a única coisa de que ele não gostava de fazer era fritar um sonhinho. A gente estava na praia do Cardoso. Colocamos isso na letra de “Detetive”: “teu pai. que eu vou caminhando na boa”. na boa. Carlinhos Carneiro: Eu não escrevi “E Por Que Não?” A primeira letra se chamava “Minha Filhinha”. A ficção.. E eu tinha uma namorada tri ciumenta. e o sacana do King Jim disse: “ah. e fomos tomar banho nas piscinas naturais da Cigana.

Solava a guitarra com os dentes. Mas ele atravessou a rua comigo e viu que tinha um aleijado na banda. Os Brasas. que me disse: “Branca. quando vi que estava rolando um muxixo na praça e pedi pra ele me deixar ver um pouco. Mas. Fiapo Barth: Valter Scalp foi o maior criador de estilo em Porto Alegre. Foi quando apareceu um cara chamado Gustavo Brum. Doidão. Smith. que surgiu junto com a new wave. E do punk. E se mexia pra caramba no palco. . pra ele. Isso foi a primeira coisa que chamou a atenção: um guri muito bonito estava cantando. De repente. com sua trajetória específica. alcoolizado. Aconteceram shows memoráveis. Lembro de estar saindo do colégio com meu pai. como no Araújo Vianna. e ele tinha um problema nas pernas: era o Fughetti. nos lugares mais insólitos – como no cinema Castelo. Foi o rei da vida noturna na capital. Duca Leindecker: Os caras da Bandaliera me convidaram pra gravar o primeiro disco. Quando o Marcinho adoeceu. que foi memorável. e que depois virou Dr. Grandes festas. que se chamava “Nosso lado animal” e tinha quatro faixas. o visual da new wave. não existia. Frank Jorge: Olhando pro passado. Bixo da Seda. e de toda a modernidade. eles me chamaram de volta pra banda. tu encontra uma banda ou outra em Porto Alegre: Liverpool. cada uma. Ele fez o visual do Urubu Rei. em 92. resolvi fazer uma banda na qual pudesse pôr essa agressividade nas letras. do punk de butique.TIPOLOGIAS E DESCRIÇÕES Fernando Pezão: Eu era fã do Chaminé. Uma delas foi num lugar que se chamava Dragão Verde. vamos fazer uma banda punk?” Nos reunimos e formamos o Pupilas Dilatadas. Ele já era uma lenda em 70. em que a gente começou a tocar em cima da concha do teatro. Fizemos centenas de shows e depois eu saí. Branca: Eu tocava completamente doidaço. Era uma pessoa culturalmente muito atuante. Fiquei na banda e ainda gravei o disco “Ao vivo”. Meu pai era grosso barbaridade! Rock. Cida Pimentel: Eu tinha onze anos quando assisti o show do Liverpool na praça Júlio de Castilhos.

O Tara foi a grande banda da geração que veio depois do Fughetti. lembro que tinha um cara. E morreu fazendo o que gostava. o Saracura ainda existia. Duca Leindecker: Cau Hafner foi um dos caras mais importantes pro rock gaúcho. com certeza. que durante os shows dos Pistols cuspia e levava cusparadas também. o Cachaça. A formação Alemão Ronaldo. no meio dos 80. Dante Longo: Lembro de ter visto um show dos Replicantes no B-52. E na época tinham pessoas que levavam esse negócio bem à sério. Pra nós. por exemplo. Ele foi o primeiro de Porto Alegre a ter um equipamento de som decente. Eram a banda punk de Porto Alegre. Acho que é uma das bandas mais esquecidas daquela época. Eles estavam no início. foi o primeiro referencial de uma banda porto-alegrense que não tocava MPB. como se o Wander fosse o Johnny Rotten.Quando nossa turma começou a tocar. Paulo Mello e Cau Hafner não tem palavras. Marcelo Truda. Ele cuspia um lance verde no Wander. que ficava na frente do palco. levando o lado retardado do ideal punk às últimas consequências. Eles tinham uma linguagem rock. . Nesse show do B-52. E ainda fez shows antológicos com o Taranatiriça.

"Com toda a manha do timbre": M arcinho Ramos com a Lory F. em 1993 (Rock. velocidade) Heron Heinz: Na verdade o Replicantes nunca foi punk. o que é ser punk? O cara pode . Band no show Sinal de Alerta. Embora. luz.

João Vicenti: Eu não diria que há uma sonoridade pop-gaudéria nos discos do Nenhum de Nós.. No início. E no meio do ônibus. mas não tinha noção de o quanto ele era foda. católico. E era um cara divertido. pra tocar guitarra bem. mas eles não são punks. Juarez Fonseca: Os Replicantes eram e continuam sendo uma banda rock. engraçado. fazem . quando a gente tocava em outros Estados. Nesse esquema. Duca Leindecker: O Marcinho Ramos era um guitarrista genial. com os Garotos da Rua e os Replicantes. punks. A música é punk.ser um baita de um bundão reacionário. Mesmo porque. o som é derivado do punk. Eu me enquadrava num padrão hard rock. Não era um virtuose: ele tinha sentimento. nós: sem entender nada e sem conhecer ninguém. os Garotos. E o Marcinho era muito mais do que isso. nunca foram. Ele foi o primeiro cara que eu vi destruir uma guitarra de tanto tocar! Foi quando percebi que. É uma banda tipo hobby. Tu enxerga a gaita. não era preciso ser nem americano nem uma espécie de Jimi Hendrix. acabam pecando pelo exagero. que agora serve como uma identificação do som. é como o Angeli diz: com mais de 18 anos não se pode ser punk. muita poluição sonora. antes de tocar guitarra na Bandaliera. mas no show isso fica mais evidente. de guitarristas virtuosos. e visualmente. Eu admirava ele. Que sabia tirar o som da guitarra. pro interior de São Paulo. quando vão misturar o pop com alguma coisa folclórica. seja no Rio Grande do Sul ou em outro Estado. os Replicantes. Humberto Gessinger: Uma viagem emblemática do início dos Engenheiros foi a que fizemos de ônibus. pode não dizer coisa alguma. literalmente rock’n’roll. cristão e andar com as calças rasgadas e com um moicano – mas isso. Paulo Mello: O Marcinho viajou muitas vezes como operador do Taranatiriça. havia um certo estranhamento nesse sentido. com aquela conversa niilista: “o negócio é não tocar porra nenhuma!” No fundo. e fubango pra caralho – um cara totalmente. Na frente. Veco Marques: Muitas bandas. por exemplo. Quando. Tinha toda a manha do timbre. fizemos juntos várias cidades do interior de São Paulo. Mas achamos que isso já está tão inserido na sonoridade da banda. uns caras mais positivistas. Mas eles não são punks. Muito por causa da gaita.. Viajando e sentindo o clima de duas visões extremamente diferentes sobre o rock. já identifica o elemento regional. na verdade.

E o Duca Leindecker tinha quinze anos. Sady Homrich: Isso não é uma bandeira. caricata. A gente sabia que a fusão do pop com a música regional era possível. Porra! Ele botava equipamento a fudê na roda pra galera e sempre acabava com tudo detonado. ele tem um geniozinho que de vez em quando irrita. colocam guitarras pesadas. Se tinha uma música que não estava acabada.. Mas ele tem bom coração! Marcelo Birck: A Graforreia era isso: Jovem Guarda fora de controle. .. outra é colocar elementos da música tradicionalista no rock. Daí fica uma coisa falsa. O som do Nenhum. no final das contas. então foi natural encaixar essa sonoridade com as guitarras.. mas ele fez. diferentes andamentos e rupturas. e juntava as duas ou três numa só. Isso ninguém pode negar. porque se vestiam todos de preto. tem acordeões e violões. nada a ver. Tudo bem. usava aparelho nos dentes e tocava pra caralho. que merece todo o nosso reconhecimento. Como fez em “Patê”. Carlos Maltz: Uma coisa é fazer a transição do regional pro pop.. por tudo que levou nas costas. Fui pra lá com a Bandalieira e os Replicantes. Foi o que pensamos: “vamos ver que elementos podemos usar pra identificar de onde somos”. Ela existe pra nós mesmos.. O problema é que ele tinha uma língua muito foda e as pessoas ficavam de cara com ele. fizeram um festival de rock por lá – tudo por causa do Rock Grande do Sul e do Rock Unificado. Em 86. desde o primeiro disco.. Cida Pimentel: Santo Ângelo é uma cidade que promove muitos shows coletivos. é o Egisto. Frank Jorge: O Marcelo era muito bom em juntar uma música na outra. que começa meio baião e depois tem uma terceira parte. Os Replicantes eram punks e o Alemão Ronaldo os chamava de darks. Porque na verdade nenhum de nós vai deixar o seu emprego por causa da banda: ela já tem um espaço fixo na nossa vida. Heron Heinz: Nunca nos iludimos e nem vivemos o sonho do rock. E foram cinco horas de viagem – as mais engraçadas do rock gaúcho. Gaby Benedyct: Um dos melhores produtores culturais em Porto Alegre. Esse lance da Graforreia ter três ou quatro partes por música. Os elementos que fazem parte da nossa cultura musical estão todos dentro do nosso trabalho. O Birck era campeão nisso. ele vinha com uma outra.uma milonga pop. É a busca de uma sonoridade própria.

Na banda todo mundo se divertia fazendo aquilo. E uma garrafa de vodka – isso às dez da manhã! Misteriosamente. Já o Nei Van Soria teria acrescentado uma parte . a gente nunca falava diretamente. Não é exagero dizer que a Graforreia foi a primeira banda a falar de Jovem Guarda em Porto Alegre. e começou a se tornar uma coisa natural pra Graforreia: fazer disso o nosso som. o ensaio era sempre nesse horário. e ficava. Me disseram que o nosso som era igual ao que se faz hoje. eu e o Barea estávamos voltados pro punkabilly.está muito vinculado a ele. O critério era esse: se a música fosse engraçada. chamada Prisão de Ventre.. Depois de algum tempo. adequando-a ao nosso estilo. a banda formou um público em função da Vórtex. o que a Graforreia fez foi colocar uma postura agressiva que percebíamos na Jovem Guarda. Frank Jorge: Tocávamos Roberto Carlos nos shows com muita naturalidade. o que era a ideia principal do Marcelo se tornava natural pra todos. no funk carioca. Marcelo Birck: Uma pessoa muito importante no meio de tudo isso e que deve ser citada é o Leandro Blessamann. surgiu toda uma gama melódica.. Na hora de tocar. como eu tinha uma escola de iêiêiê não apenas brasileira. Num show no Araújo Vianna. Utilizando essa referência. Lá estavam o Luís Henrique Tchê Gomes. o Marcelo Birck e o Frank Jorge. o público não gostou e retribuiu tocando moedas na gente. mas de Beatles – na veia – e também Stones. Marcelo Birck: Na década de 80. As letras falando cada vez mais de besteira. já cedo da manhã. mas eu discordo. Alexandre Barea: Os Cascavelletes tomavam muita boleta nos ensaios. compositor amador e criador da gravadora Benga Music. Ivo Eduardo: Tinha uma banda esquisita. mesmo que fosse apenas puro deboche. Choveram moedas. passávamos na farmácia e comprávamos umas bolas. Bandas como TNT e Cascavelletes mostravam uma influência mais de rock’n’roll mesmo: Stones. Tinham as receitas básicas: do caminho de casa pro ensaio. Mas. Era uma bobagem do tipo “Banana Split”. Flavio Basso: Quando começamos os Cascavelletes. tocamos uma música do Roberto Carlos. já estávamos enlouquecendo: rockabilly. todo mundo caía na gargalhada. que tocava música brega. punk – o que a gente sabia. Ele chegou a fazer gravações da Graforreia Xilarmônica. a Jovem Guarda era pra ser esquecida mesmo. o Felipão. Porque. Daqui a pouco. Beatles.

country. E o Frank Jorge, a coisa meio brega – mas não seria essa a palavra... – e o iêiêiê, também. Talvez os Cascavelletes estivessem uns dez anos à frente na combinação da poesia e sonoridade... Nei Van Soria: Os Cascavelletes tinham uma coisa forte de libido que talvez estivesse à frente do seu tempo... Quando o TNT começou, antes de sairmos da banda, a galera ainda era muito nova. Por isso não entrávamos muito nesses assuntos. Paola Oliveira: Os Cascavelletes sempre estavam rodeados de mulheres. Comprovei isso numa viagem que fiz com eles em 88. Era uma banda que, por onde passasse, a mulherada, as tietes iam atrás. Eles eram glitter. Uma banda erótica, e isso era o grande sucesso. Acho que foi isso que fez com que ela acabasse, porque foi uma banda muito oito ou oitenta. Astronauta Pinguim: Eu e o Plato fomos tocar em São Paulo. Agosto de 97. E eu nunca tinha ido tocar lá. Fomos de ônibus – dezoito horas de viagem. Entramos no ônibus e tinham dois religiosos perto da gente, que iam a viagem toda rezando. Preces, coisas assim, em voz baixa. E o Plato tem aquele costume dele, de andar com umas fotos de putaria pra cima e pra baixo. Aí o Plato entrou numas, não sei a troco de quê, de que ele estava sendo perseguido pelos religiosos. Uma hora eu fui chamar o Plato, e ele: “pshhh! Não me chama de Plato, me chama de Celso, porque eles não podem saber que eu estou aqui, eles estão me perseguindo!” Numa das paradas no meio do caminho, sentamos numa mesa de quatro lugares. E os religiosos sentaram nela também, porque não tinha outro lugar. A primeira coisa que o Plato fez quando eles sentaram foi pegar as fotos e colocálas em cima da mesa. E, com aquele jeitão peculiar, falou pra eles: “dêem uma olhada nessas fotinhos que eu tenho aqui... Safadeeeeza!” E os caras, apavorados: “não, não, muito obrigado!” Flávio Santos: O Plato já entra no rol dos bizarros. Mas é uma figura extremamente inteligente. Ele tem todo esse lado louco, que produz pra caralho, mas que sofre com isso. Coisa que o Edu K também tem: de ter muita produção, muita ideia, sem ter o respaldo merecido. Zé do Trompete: Foi o Plato quem inventou o nome Zé do Trompete. Colocou o nome num cartaz de show, sem eu saber. O Plato é muito louco! Eu tocava com a Urro, vi o cartaz colado numa parede e pensei: “não sei quem é esse tal de Zé do Trompete, mas ele toca trompete também... V ou lá ver”. Fiquei curioso.

Quando cheguei no show, o tal Zé do Trompete era eu mesmo! Tive que fazer um som! Também tive a oportunidade de tocar com a Lovecraft, uma banda maravilhosa que o Plato teve. João Gordo: Um exemplo bem clássico de gaúcho é o Edu K. O cara é um mutante. Toda a hora é uma coisa diferente: uma hora ele é Paulo Ricardo, outra hora ele é Chili Peppers, outra hora ele é metaleiro, outra hora ele é punk, outra hora ele é produtor de hip hop, tiazinha, mulher. Ele e o Miranda são os exemplos clássicos de gaúcho. Juarez Fonseca: O Edu lançou aquele negócio de cabelo moicano por aqui. Por causa do cabelo dele, levei o Edu pra Célia Ribeiro, pra fazer um ensaio fotográfico. Ele foi lá, e achou ótimo. Se dependurava nas grades de luz da Zero Hora, fazia poses, não sei como não botou tudo abaixo. Zé Natálio: O Edu usava unhas pintadas, batom, glitter. Eu olhei e disse: “uau, o que que é isso, cara?” O lance dele é pegar uma coisa raiz e transformála numa excentricidade. Tonho Meira: O Edu andava pelas ruas de saia. Parava o trânsito. Eu nunca caminhava junto com ele, porque eu ficava vendo a reação das pessoas e ficava me divertindo pacas. Parecia aquelas pegadinhas, era de filmar a reação. O cara de meia calça, saia, o cabelo empinado pra cima, reto. Aquele corte punk, careca dos dois lados e só um filete de cabelos pra cima. Thedy Corrêa: O De Falla teve uma importância muito grande em termos de atitude. Poucas vezes vi no Brasil uma banda com a atitude como a que o De Falla tinha. Pude ver isso num show antológico que eles fizeram no Aeroanta, em São Paulo. Era no tempo em que o Edu estava naquela de misturar música negra com Doors... Ele subia ao palco de terno e gravata... E, no decorrer do show, ia se despindo. Quando a apresentação terminava, ele estava somente de cinta-liga e sutiã preto! Preta Pereira: Eu e o Claudinho morávamos lá rua da República, no número 138. Da minha cozinha eu enxergava a porta da frente, que tinham dois vidros de abrir, pra ver quem entrava. Bateram na porta, e eu olhei. Meu pai estava comigo na cozinha. Eu disse: “pai, vai abrir a porta pra mim, é o Edu K”. E ele foi abrir. Quando abriu a porta e deu espaço pro Edu passar, meu pai ficou besta, olhando. O Edu com a perna cabeluda, com um coturno todo furado, uma saia da mãe dele, um top e uma camiseta por cima. E com aquele cabelo escova que ele usava.

Meu pai ficou besta, porque nunca tinha visto ninguém assim na vida. E gritou lá do fundo: “o que é isso!?” E eu: “pai, esse é o Edu”. E o meu pai: “não, pra mim isso é puto!” Depois, os dois terminaram amigos. Flávio Santos: A fase que eu considero banda mesmo no De Falla, em que as composições eram feitas entre todos, é a do primeiro e segundo disco. O Edu pirando sempre na dele, enlouquecido. A partir do terceiro, ele tomou conta da banda, e praticamente todas as músicas eram dele. Ele nos creditava as músicas, mas na verdade ele chegava já com a ideia toda pronta, e nós tocávamos da nossa maneira. É claro que o arranjo acabava ficando diferente do que ele pensava; se ele tocasse todos os instrumentos, o resultado final provavelmente seria outro. Edu K: É um processo que eu adotei no tempo da Biba, de ser o ditador filho da puta. Hoje em dia eu sou um velho gagá, mas antes eu era muito porra louca. Flávio Santos: O lance do Edu é que ele queria divertir e passar diversão. Mas claro que ele sempre teve aquela maneira, grosseira talvez, que às vezes assustava as pessoas. Hoje todo mundo dá risada, mas na época chocava um pouco: como no lance de ficar pelado no Hollywood Rock pra milhares de pessoas. Ninguém sabia que ele iria fazer aquilo, nem nós e nem ele mesmo. Não foi uma coisa planejada: ele decidiu na hora. Biba Meira: Várias pessoas ficavam chocadas com o Edu. Até nós, que éramos da banda, ficávamos chocados algumas vezes. Ele saía na rua com os vestidos da mãe dele, com uma bolsa de verniz que também era da mãe dele, de coturno... De vez em quando ele colocava um maiô... Uma vez, num festival em Serafina Corrêa, uma gauderiada se indignou com ele. Tivemos que sai correndo: queriam dar uma tunda nele, chamavam ele de veadão, e os neguinhos de facão, ameaçando o Edu. Carlos Eduardo Miranda: A viagem musical do Urubu Rei era uma viagem dadaísta. Era uma justificativa teórica de verdade, só que a gente não podia falar pras pessoas. Mas, entre nós, estávamos cientes disso – conceitualmente. E as pessoas começaram a gostar... A partir daí fizemos um monte de músicas e shows. As gurias nos vocais, todas fantasiadas, e nós tocando uma música horrivelmente tosca. Desafinação total, e o público achando aquilo do caralho. Com o tempo, a gente começou a levar aquilo a sério, também. Começamos a achar que éramos

uma banda de verdade! Edu K: O Miranda tinha um humor negro, nos escorraçava, porque éramos todos uns piás de merda. Mas a gente adorava aquilo: porque o Miranda virou uma espécie de ídolo nosso. Patsy Cecato: Nos anos 80, a tendência era de colocar elementos cênicos na música, a tendência artística mundial era o fragmento, era a pós-modernidade. E o que era a pós-modernidade? Nesse ponto eu acho que o Miranda estava bem no tempo dele, é uma coisa que não se pode negar. A pós-modernidade era a obra construída a partir de vários fragmentos e tendências. Não havia uma preocupação com a coisa inteira, nem com uma narrativa tradicional – de começo, meio e fim. A ordem cronológica era alterada: os espetáculos eram formados por quadros, a criação era coletiva e as histórias não eram mais contadas num único fio condutor. Flávio Santos: Na verdade, a biblioteca musical de Porto Alegre, até ele ir embora daqui, sempre foi o Miranda. Era o cara que comprava os discos, ia atrás das coisas novas, dos importados... Marcelo Birck: Uma das coisas com mais atitude que vi o Miranda fazer num show, foi comer bolacha e devolvê-las pro público cuspindo! Aquilo me chocou de verdade. E era, no mínimo, engraçado. Outra coisa importante foi ter usado, pela primeira vez em Porto Alegre, um teclado programado – num show do Taranatiriça. César: Uma das bandas mais inovadoras que apareceram na cidade foi a Mequetrefes Suplicantes, a banda do Jackson. Uns caras que mereciam ter se dado bem. O Jackson era o baixista, um cara muito louco, que usava roupas de palhaço. Numa apresentação deles, no Porto de Elis, eles fizeram o show usando uniformes do DMLU. Rolava um bolo assim: o Edu K imitava o Jackson, e o Marcelo, um cara que frequentava o Garagem, imitava o Edu K. Paulo Arcari: Pô, o Flavio, o Júpiter Maçã, o Jupiter Apple – ou seja lá quem for – é um cara que dispensa comentários. Grande compositor. Um nível lisérgico bem elevado, que muito contribui pra uma banda de rock. Bia Werther: O Júpiter Maçã foi esquecido dentro do Megazine uma noite. Ficou até às duas da tarde no bar, sozinho... Rolavam umas loucuras... No andar de cima era a nossa produtora e um

brechozinho. Então os vips iam pra cima fazer coisas erradas durante a noite, e alguns adormeciam. O baixista do Planet Hemp também ficou esquecido lá dentro uma vez. Márcio Petracco: Entrávamos na gravadora cabeludos, vestidos de preto, botas de cowboy. E os caras, acostumados com Balão Mágico e José Augusto, nos tiravam pra metaleiro, diziam que não íamos vender discos. Quando chegávamos nas bocas punks de São Paulo, nos olhavam e diziam: “esses caras a gente viu no Gugu. São umas bichinhas da gravadora!” Os alternativos nos tiravam pra putinhos e os putinhos nos tiravam pra alternativos. Egisto: Colarinhos Caóticos é uma banda renegada. Acredito piamente que daqui a vinte anos vai ser uma das mais procuradas e regravadas do rock gaúcho. Não tanto pelo valor musical, mas pela experiência. Procurar novas opções pra testar aquela vida que o sistema te deu – é o que dizem, em geral, todas as letras da banda. Ricardo Barão: Teve um tempo em que o Câmbio Negro tinha uma formação só pra fazer briga de rua. O Mitch era faixa-preta de caratê, e o outro guitarrista, lutador de aikidô. Arthur de Faria: Quando a Pop Rock ainda se chamava Felusp, promovemos um show no Opinião com participações bem esquisitas – comoventes. Entre elas, um cara de Pelotas, o Luciano Mello, que tinha um hit na rádio: “Célio Borges, o Gaudério Lunático” – uma milonga tecno. Eu, na época, estava com a banda Complexo de Épico. A gente fazia um show só de músicas do Roberto Carlos, que se chamava “Olha o que nós fizemos na canção que você fez” – subvertendo as canções do Rei. Outra banda era a do Diego Medina, a Doiseu Mimdoisema, que pela primeira vez estava subindo num palco. O Diego ficou muito emocionado por estar ali e nos beijou tanto, o pessoal da rádio – ele estava numa felicidade absurda! Devia ter uns dezoito anos, e sua euforia era incontida. De cara, não tinha bebido nada, não tinha feito nada. Não era nem deslumbre: era a mais profunda felicidade. A Doiseu tinha feito um show muito legal – e a gente fugia dele pelos corredores do Opinião, porque todo mundo que de alguma forma estava ligado a essa explosão de felicidade era atacado! Márcio Petracco: O TNT ia fazer um show com o Prisão de Ventre no colégio. E os caras, então, chegaram num ônibus de linha, fantasiados. Um visual assim: os instrumentos pendurados na correia, os cabos plugados nas guitarras... Eles andavam assim na rua!

Claudinho Pereira: O Renato Russo – ele era fã de gnomos e duendes – um dia foi me visitar em casa. Tinha um show do Legião no Gigantinho. Aí fomos pro sítio do Moreirinha, ele tinha um estúdio lá. Chegamos e o Renato começou a cantar uns blues maravilhosamente. Foi quando apareceu o Moreirinha – que não estava quando a gente chegou – detonando: “quem é esse cara mexendo na minha aparelhagem!? Tirem ele daqui!” E nós: “mas, esse cara é o...” E ele: “não quero saber quem é!” No outro dia, o Moreirinha chorava... Porque o ídolo dele era o Renato Russo, e tinha feito aquela grosseria toda com ele. Mini: Os shows da Ultramen no Porto de Elis, em 92, tinham muito rock, hardcore e punk rock. A Walverdes tinham vontade de causar nas pessoas o mesmo efeito que a Ultramen nos causava quando víamos aquelas apresentações. O show deles era impressionante, muito do caralho. E não foi somente nós, não: muita gente que assistiu àqueles shows também acabou montando uma banda. O troço era brutal! Produziu o espírito. Mas não tinha muito a ver com o som deles hoje – era um som mais de garagem. Humberto Gessinger: Quando o Augusto Licks chegou em Porto Alegre pra gente ensaiar, fui buscar ele no aeroporto. Uma coisa que nunca vou me esquecer. Ele estava com uma camisa Us Top xadrez, e falou assim: “cara, tudo bem, eu faço tudo, só não gasto grana com roupa. O dinheiro que eu gasto é com equipamento, não quero saber de imagem”. E eu pensei: “caralho, esse é o cara que eu quero pro Engenheiros!”. Seis meses depois de fazer aquela afirmação, o Licks tinha adotado um visual: oclinhos, camisa branca – ele tinha criado um personagem. E foi do caralho! Porque, tipo assim, ninguém que entrou na banda teve a mesma sacada que ele. E logo ele, que parecia não se importar com isso! Edu K: Tinha um cara na RCA que respondia pelo nome de Barriga. Ele era um cara muito foda – um produtor dos melhores. O Barriga era músico de estúdio, um cara pioneiro na exploração de efeitos: cry baby, fuzz, distorção... Heron Heinz: O Barriga nunca quis mudar o som dos Replicantes. Ele entendia a proposta: viu que o negócio era energia – e não técnica.

e o Moreira veio com um papo de querer mudar o nome da banda.. ele disse. vangloria o demônio. nos apresentava instrumentos e nos dava barbada sobre timbres. Acabou que ninguém queria mudar por causa de uma coisa dessas. num panfleto tipo esses flyers: “Os Argonautas” – e um tracinho embaixo de cada letra. Mini: A gente tinha mania de andar com amigos e ficar bebendo somente entre nós. Não éramos antipáticos. Ninguém entendeu o motivo. Rafael Malenotti: O Tom Belmonte conta muitas histórias. tivemos uma reunião pra gravação de um disco: acertar detalhes. Edu K: O cara era cara pioneiro na exploração de efeitos. E disse: “olha isso. E ele respondeu que. ficamos com a fama de antipáticos. Olhem pra isso!” Ele me mostrou: estava escrito num papel. se lê satanás. Então. Ele nos dava as manhas. Porque o que acontece é que o cara não monta uma banda pra ser o nerd. já que o primeiro disco tinha sido gravado com aquele nome. Eu tô fora”.. Ele topava todas! Régis Sam: A saída do Moreira dos Argonautas foi uma coisa meio escabrosa.” E banda acabou... e eu não posso tocar numa banda que. ele pegou um papel e escreveu o nome “Argonautas” ao inverso: “esse é o motivo pelo qual eu quero sair da banda”. A gente estava começando a gravar o segundo disco. ele monta uma banda pra ser o fortão. perguntei o porquê. até hoje a Walverdes é vista como uma banda séria. E eu: “tá. Mas ninguém entendeu. ele sairia. Então nos reunimos. se não mudássemos. Uma delas é que era sobrinho de um . ver datas. de alguma forma. Tu não tá vendo que quer dizer satanás?” É que se tu ler Os Argonautas de trás pra frente e tirar cinco ou seis letras. Toda ordem. Não ficávamos batendo um papo social. Aí. Por causa disso. e aí?” E ele: “não vou tocar numa banda com esse nome. eu não tô afim de mudar o nome. e sim de canto..Luís Henrique Tchê Gomes : O Reinaldo Barriga é um nome básico pra cena que rolou em Porto Alegre nos 80. Vamos mudar!” Eu disse: “olha cara. O Moreira chegou e falou: “nem vamos começar a reunião.. Ele explicou: “tem satanás no nome. Astronauta Pinguim: Os Argonautas estavam conseguindo coisas que uma banda instrumental dificilmente consegue.

Mano Changes: O Tom Belmonte tinha um tio que ele dizia ser um lobisomem. Segundo eles. o Tom dizia que já tinha morado em mais de dez cidades. seria o lance individual... de não fazer parte de nenhuma panela. Em noite de lua cheia ele dava umas uivadas: “aúúú.lobisomem. É por isso que ele é o sobrinho. . Os mergulhadores foram verificar a existência do Minhocão e foram percorrendo um túnel. muitas pessoas tinham visto a cabeça de um monstro no rio da cidade: o Minhocão. E apareciam bichos mortos na fazenda. em Itaqui. É por isso que na música “Merda de Bar”. Acho que é assim que se infiltra o muro. O tio dele era muito selvagem.. Parece que rolavam pratos de comida por baixo da porta. Nós não entedíamos como.”.... tem uma parte que diz assim: “Borboleta eu também curto. fomos tocar nessa região de Itaqui e uns malucos que vieram pedir autógrafos confirmaram a lenda do Minhocão. Mas não por arrogância: por necessidade artística mesmo.”. marcas nas coisas. o sobrinho tem boa voz. Fredi Endres: Com vinte e poucos anos. o cara que confirmou a existência do monstro é o mesmo que viu o motoboy assassino antes de ele ser pego! Humberto Gessinger: Se fosse pra entender alguma coisa da história dos Engenheiros. Ele contou que. Está na letra de “Merda de Bar”. não era invenção. A lenda dizia que o monstro comia os pecadores! No fim de 2000. e esse túnel foi parar embaixo da igreja.. Inclusive.. da Comunidade. principalmente quando canta.

Então. sogra. cigarros. Uma coisa mais de caipiragem americana. Novas pesquisas. E eu havia passado a viver intensamente a boemia. E acabei me identificando com outros caras. Um sempre tinha um certo antagonismo com o outro: era mulher. a essa altura. iam comprar roupas e discos... empresário. papagaio. E o Nei. com dezenove anos. fumaça.. Eu também fazia isso. Conseguimos passar essa fase. com muita diversão. copos. Agora: o Frank Jorge era a nossa liga artística.. aquela coisa cafés.. um instrumento ali. a banda faz sucesso aqui. o exercício de composição estava começando a se mover pra um outro lado. Os garotos pegavam a grana deles. Ou a gente ganhava uma grana e cada um alugava um apartamento pra si. eu ganhei uma grana. eu estava mais identificado com essa nova turma de rapazes.. foi muito bom... é difícil que uma banda consiga isso. tilintares. e o Barea. Essa turma tinha mais a ver comigo do que a anterior. ou a banda acabava.. e apesar de todos os gastos com orgias. Uma vida vivida intensamente.DEU PRA TI ANOS 80 Flavio Basso: Quando eu saí do TNT pra formar os Cascavelletes.. Basso-Master. mais metaleiramente. O la bohéme.. burburinhos. Mas acho que eu já tinha uma ligação mais pra estética do underground. barulhos. O Barea era um deles – mas ele era heavy metal. eu ainda conseguia ganhar uma certa grana. E eu ia dormir na casa de outra pessoa. não tão boêmio... Os Cascavelletes ficaram mais Stones e o TNT mais Beatles...... baladas roqueiras. mas não consegue fazer sucesso no centro do país. como . Hoje. E graças a Deus. Luís Henrique Tchê Gomes : A separação do TNT não foi muito amistosa.. chegou e completou tudo. mas. Eu gostava da parceria Master-Basso. mais decadentemente. Hoje. O Flavio Basso ficou com o lado mais psicodélico e sexy da coisa.. foi um grande teste. Um imóvel aqui. Foi um longo período em que os garotos no TNT iam dormir mais cedo. E a gente tinha essa coisa de grupos de pessoas. Eu submergia. e foi cada um por si.. fora de Porto Alegre. eu fui com tudo. Os Cascavelletes eram um pouco mais pesados.. Chegou numa hora em que houve uma intersecção: eu vivia a coisa mais poeticamente.. King Jim: O fato dos Garotos da Rua morarem todos no mesmo apartamento. mais de vinte pessoas num apartamento.. apesar de eu não deixar de gostar da musicalidade do TNT.

. Uma maravilha. trago liberado. Gente da banda que chegava dizendo: “vocês são burros. O Petracco foi o último a dizer que a banda tinha acabado. e a gravadora te coloca num apartamento. A fama veio antes de a gente saber tocar. Globo de Ouro. e daqui a pouco. Os músicos preferem ficar aqui. Eram muitos shows. Susi Doll: Tinha um baita folclore em cima das Ninfrodizíakas – uma banda só de garotas. pensar em direcionar as canções ao gosto do público. da minha maneira de enxergar as coisas e o mundo.. Foi uma coisa que tentou se arrastar em busca de uma identidade que não podia mais ser resgatada. foi o início da decadência da banda. Nós achávamos tudo aquilo ótimo. lógico. Márcio Petracco: Se casamento de dois já é foda. Existe essa visão de fazer sucesso no Brasil inteiro. que a gente não sabia nem como lidar. Gostei para caramba de fazer parte. Tanto musical quanto psicológica. Depois nós tentamos ajeitar a nossa carreira. Frank Jorge: No decorrer da trajetória dos Cascavelletes. Uma energia pura. Isto decretou a decadência total.. dezenas de artistas... grandes viagens. A gente foi se enturmando. a banda vai se desmanchando. Muitas tiveram esse fim. já sabíamos melhor por onde buscar as coisas. se vai pra RioSão Paulo. tocando com caras estranhos ou com umas ideias muito diferente das minhas. Luís Henrique Tchê Gomes : Quando o TNT gravou o segundo disco. Mas eu sei que muita mulher junto não iria dar certo.. Aí. imagina de uma banda! . e não tinha aquela energia bruta do início – o que mais nos empurrava. gerou um conflito. os espíritos. é assim que se faz” – e vinha com um popzão brabo.. eu simplesmente fui ficando. Milk Shake. A gente não estava mais se divertindo. porque o mercado daqui é melhor. Alexandre Barea: A fase em que os Cascavelletes teve música em novela. Juba & Lula.acontecia na década de 80.. Pra mim. e te permite curtir as coisas por aqui. Mas foi bem legal. acertar as músicas. Mas. programas de TV: Chacrinha. Mara. os Cascavelletes de verdade eram os primeiros quatro anos – o resto foi um arremedo. “Nega Bombom”. Não se ganha dinheiro da gravadora: elas não te pagam um salário. Viagens pro interior. a gravadora apertando. no terceiro disco as coisas mudaram: o repertório. mas eu sempre tive uma noção de que estava na banda errada. Tu chega lá. Então eu sentia um certo desconforto. por ser um cara dos Cascavelletes e não ter espaço pra botar muito da minha percepção – muito das coisas que me influenciavam. Perdidos na Noite.

Edu K: A decadência faz parte da minha vida constantemente. Mas. 94. enquanto eu pensava que tudo poderia ser muito transitório. Esse negócio de todo mundo tocar nossas músicas. Pra mim. o De Falla morreu nos shows que a gente fez na época do Hollywood Rock. com o Tonho cantando – sem o Edu. vejo que acabei provocando a minha saída pra poder me desenvolver em outra direção. Coisa que eu não poderia ter feito se continuasse dentro dos Engenheiros. O que vai ser da minha vida? Gosto disso. e a questionar muito esse negócio de estar numa banda. na realidade. Hoje reconheço que foi algo que eu mesmo provoquei pra que eu pudesse seguir a minha vida da maneira que eu precisava seguir. Ele era bem mais inteligente e meio que tomava conta. Marcelo Birck: A Graforreia não tem esse negócio de voltar. Então as coisas caminharam numa direção que resultou num conflito entre os Engenheiros. comecei a me ligar em outras coisas. em termos de visual. Ele foi até o disco Top Hits. o que vou fazer?” Pensava que teria de largar a música. A partir desse dia a banda morreu e renasceu das cinzas como uma entidade. Então eu disse: “esse vai ser o show máximo em termos de repertório. pintou essa dúvida na minha cabeça. como astrologia. e nós sermos os únicos a não capitalizar por isso. faz tu te sentir um otário. abandonou.Flávio Santos: Eu pensava sobre o De Falla: “toco numa banda que não dá dinheiro. foi pra Maceió. Meu negócio é ir até o fundo do poço e voltar cuspindo merda. Hoje. quando recebo aquela fichinha de hotel perguntando a ocupação. porque vai ser um dos últimos shows da banda”.. foi quando o Carlos Maltz saiu dos Engenheiros. Mesmo assim. Eu sabia que ia morrer ali. é como se eu fosse um artista solo. O De Falla virou uma marca. porque seria uma jogada de marketing se voltasse. Em vários momentos. . Não me passa pela cabeça que ser músico seja uma profissão. a consciência de que estava vivendo de música. Olhando pra trás. mas e daí.. Acho que ele ficava com a parte mais chata de ter uma banda. nem ocupação. Naquele show eu quis fazer o epitáfio da banda. Humberto Gessinger: O momento em que realmente me caiu a ficha. e depois uma entidade. com certeza. o engraçado é que mal tinha acabado e já havia uma aura nostálgica de quando voltaria. O Castor foi um cara muito importante. O Castor foi um que largou. Eu me sentiria muito mais à vontade na condição de um ex-estudante de arquitetura respondendo aquilo ali. partir pra outra. Carlos Maltz: Por volta de 93. e nunca mais quis saber. a caneta ainda pesa muito.

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Como eu morava na frente da Ospa. chegando lá. Nem houve show. que se chamava teatro Leopoldina e era do pai de uma amiga minha. Kledir: Os Almôndegas fizeram uma temporada de shows no teatro Vila Velha durante o verão de Salvador. E todos os caras da banda caindo na gargalhada. Fernando Pezão: O Saracura fez shows em tudo que era buraco. de Santa Vitória do Palmar. em 1975. mais pra lá do que pra cá. Uma dessas freiras ficava pra lá e pra cá.. O Morongo. Até hoje o Álvaro vai nos espetáculos e. Eu não podia sair de noite. no São Pedro.. botando faixas nas paredes. Nessa época. grita: “ó. porque começávamos a nos apresentar pela meia noite. Eu participava da banda como guitarrista convidado. E era mais divertido: ou tu ia no Juvenil.. Só que nunca tínhamos estado na Bahia: ninguém conhecia os Almôndegas. Nossa temporada era meio underground. Era um grande acontecimento: os artistas baianos também estavam tocando. Leo Henkin: A última excursão do Saracura pelo interior do Estado foi em 1984: um show em Uruguaiana. . ficou embaixo da escada olhando as calcinhas dela e fazendo o sinal da cruz. que estava passando férias em Salvador: o Álvaro.. E quem comprou foi um gaúcho. decorando.MINHA VIDA É UM PALCO ILUMINADO Marcelo Birck: Algumas vezes tu sabe que o show vai ser uma indiada. dono da Mormaii. Na nossa estreia somente um ingresso foi vendido. e eram as freiras mesmas que tinham produzido tudo. lá pelas tantas. Cida Pimentel: O primeiro show que eu vi foi uma ópera rock. meu pai me deixava ir ao teatro. um cara de quem ficamos amigos. é mil vezes pior. que eu tinha conhecido. A freirinha subiu numa escada monstruosa e o Chaminé. mas ele acabou ganhando o apelido de Cadeira Cativa. colavam os cartazes e até mesmo organizavam o palco. Mas. Foi a primeira banda que fez grandes excursões. Mas fui até lá por causa de um carinha chamado Pepéko. A gente namorou todo o rock dos anos 70. organizado por umas freiras da cidade. no trago. Não existia um circuito ainda.. Ainda nem tínhamos gravado disco. comecei a conhecer toda a turma do rock. o Cadeira Cativa está aqui!”. Divulgavam. porque prometemos entradas grátis pra ele nas nossas apresentações pelo resto da vida. ou no bar Alaska.. A apresentação foi num ginásio. Nem todas as gurias podiam sair. tocava teclado numa banda que se chamava Marihuana Man. em 1974.

82. duas. . e a gurizada andava muito louca: muita cachaça e comprimido. E. anoiteceu. tem show no Araújo Vianna”. por 81. e eu: “estou nessa!”. E eu estou tocando. Levou mais de uma década pra sumir a onda hippie. Mas eu sempre vinha pra Porto Alegre. el Magnífico: Eu estava assistindo esse show e via garrafões passando no palco.. em uma dessas vindas. e de repente só vi uma garrafa estourar do meu lado. Eu estava por fora do que estava rolando em Porto Alegre. Era fim de tarde. O que me chamou a atenção foi o Zé Flávio. O Chaminé se escondeu atrás da aparelhagem. Foi o pior show que eu fiz na minha vida. chegaram os caras do Saracura e me convidaram: “vamos tocar. perguntando se a banda ia parar ou continuar. que tocou com um lenço na cabeça. E dali um pouco.Zé Flávio: Eu morava com o Kleiton e o Kledir no Rio de Janeiro: mais lá do que aqui.. Sidito.

. Não era o caso dessa. uma portinha num porão.. rolando soul direto. é um clube. Uma boate black. Era uma boate meio afastada do centro. tomada de gente. um salão grande. às vezes. E eu tocava um . Boate cinco por sete.M oreirinha e Seus Suspiram Blues: o primeiro grupo de blues gaúcho em frente e verso num show lotado no Escaler Nei Lisboa: Fiz um show numa boate em Bagé – mas boate no interior.

. Deu a volta na parede e veio me guindar! Eu só queria pagar a janta da gurizada: nessa hora. Foi uma baixaria. sou o Nei Lisboa!” E ele: “tá”. em que toquei com o Schneider e o Mitch. Mas depois dessa ainda fiz também o Três Almas Perdidas.. E a Califórnia era completamente radical. Os caras foram bem simpáticos: nos trouxeram umas garrafas de Jack Daniel’s. Essa foi a penúltima banda que eu fiz em Porto Alegre. nunca tinha havido uma banda tocando música regional com bateria. O que não adiantou de nada: levamos uma puta vaia! Uma coisa com a qual eu já estava acostumado desde os tempos de Atahualpa y us Pânques. King Jim: A banda Swing. Carlos Eduardo Miranda: O Urubu Rei – na fase que o Júlio Reny estava na banda e ela estava boa de verdade – fez um show no Gigantinho. e me vi procurando em volta onde eu ia tocar. eu ainda montei a Vingança de Montezuma. Uma pressão brutal dos concorrentes nos camarins. com a Biba de volta na bateria. e na noite. nos mandaram uns champanhes. não vai tocar não”. Éramos o diabo no meio da história. fizemos um show de enterro do Urubu Rei no Ocidente. E fui tocar lá no fundo. “Eu vim pra tocar!”. O cara ficou puto da cara: “porra! Tá pensando o quê?”. Posteriormente. Depois do show. com um microfone de aparelho três em um. Quase apanhamos. onde tinha um pedestal. Eu não vi que o fio estava arrebentado: peguei o microfone pensando que tinha o cabo um pouco mais longo e soltei os plugs lá de trás. o DJ – que na terceira tentativa me atendeu. o resto eram nossas. Apontou pra um canto. “Isso não pode”.. estava vindo o resto do pessoal e seguraram o cara. nos recolhemos à nossa insignificância: ficávamos olhando aquela batera Pinguim do Schneider na frente da batera do cara do Van Halen. que era eu. Tocamos e ganhamos. Depois disso. o Edu K e o Claudinho – que era um puta psicopata do ritmo. e o cara: “não. Fui atravessando por aquela trupe dançando soul. foi escolhida pra abrir o show do Van Halen em Porto Alegre. nos anos 80. e coisa e tal.. Não enxergava nada parecido com um palco. até então. Foi dia 10 de fevereiro de 83. Sabíamos das proporções entre as duas bandas – mas foi muito bom. mais gótica. Cheio de arranjos. Metade das nossas músicas eram dos Beatles. coisa e tal. Até que consegui gritar pra um cara. Perguntei pelo microfone e ele disse pra esperar. Cheguei na frente. O Saracura foi junto com o Mário Barbará defender uma música pra linha chamada Projeção Folclórica – onde. . Fernando Pezão: O Saracura foi convidado a defender uma música na Califórnia da Canção. que era uma nave. “Fui contratado! Vim tocar.violão que a caixa era um sarcófago. um troço enorme.

Paramos pra mijar e. uma das bandas em que toquei. e todo mundo: “caralho!” Fomos pro carro e saímos fincado. Daí já juntou outro cara. eram uns shows irados. só vejo vindo um vulto branco meio que flutuando.. e ela veio perguntando: “¿qué es esto?¿Son búzios?” Eu disse: “não. Muito furiosos! Também tocaram a Prisão de Ventre.. Só tinha argentino! De dia eu era marinheiro e de noite tocava com o Flávio Medina em bar. E ela: “si. Quando caiu. derrubavam as coisas. É claro que tinha um monte de turistas vendo que era brincadeira – e a interpretação era a mais óbvia! Teve uma guria que foi incrível. si. Então comecei a conhecer músicos que tocavam rock. Éramos só violão e bateria: um caça-níquel. o Edu e o X. uma bandeja de samambaia – que estava com uns caramujos grandes.. Um dos shows da Bosque das Bruxas. em um belo portunhol.Ivo Eduardo: Tentei tocar nos Festivais do Colégio Anchieta. Tínhamos dois shows: um em Atlântida e outro em Torres. Tinha fila pra me consultar. Sidito. No dia.. Eles achavam tudo mais do que realmente era. uma argentina já olhou achando que eu estava jogando búzios ou alguma coisa. foi no salão paroquial da igreja Auxiliadora. junto com a Pôta. Carlo Pianta: A inauguração da Terreira da Tribo foi um clássico. são caramujos. e o Miranda já estava torto de tanto trago quando chegou a vez deles subirem ao palco. surgiram bandas de rock como A Pôta... E aí começou a história. E eles adoravam. em Canasvieiras. É óbvio que alguém quer alguma coisa importante na vida! Daí continuava: “tu já teve uma decepção”.. daqui a pouco. Nunca ficamos sabendo que porra era aquela. Mas os argentinos vinham e achavam tudo demais. Eu peguei a planta e deixei cair no chão.. com os bichos junto.”. O Urubu Rei também ia tocar. que tinha como integrante o Hique Gomes. . deu uma paradinha e aquela porqueada! Subiu no palco com uma bonequinha e uma bandeira do Brasil. e eu dava passe durante um pas seio de seis horas. tocaram o Júlio Reny. pra pendurar no barco. Eu falei: “caralho velho! Olha aquilo Ali!”. a Graforreia. a Km-0 e outras bandas: os caras pulavam. caça-dólar. os Replicantes e a Fluxo – uma banda com a qual eu toquei com a Biba. Carlos Eduardo Miranda: O Atahualpa estava viajando num Dodge que era do Flávio Santos.. Eu leio caramujos”.. Ele foi subir uma escadinha que tinha pra chegar ao palco. E meu primo comprou. el Magnífico: Eu trabalhei de marinheiro na escuna de um primo meu em Santa Catarina. Mas as músicas de meus comparsas nunca passavam na seleção. e por aí vai. Eu olhei pra ela e disse: “tu está querendo uma coisa muito importante na tua vida”. Naquele contexto.

a gente não ouvia o que estava tocando lá na frente.. o amplificador foi pro pau. um gole de vinho. Cada música. com o Alemão Ronaldo. Ele foi pegar o casaco. e o pessoal adorou o show. E só bebendo. ele bebeu o Sangue de. Botei a guitarra direto na mesa. não leva a mal. O Marcelo já estava tri goleado. Não acreditávamos. com aquele jeitão: “não. E. e compraram a apresentação. e ele teve que ligar a guitarra direto na mesa. explicando que estava tudo certo. Eu continuei tocando – até que estourou o meu. Marcelo Truda: Foi o primeiro show do Taranatiriça no interior. Foi um lance paradoxal: a inauguração do reduto do bicho-grilo pelas bandas mais anti bicho-grilo da época! Paulo Mello: Um cara de Santa Maria veio pra ver uma apresentação do Taranatiriça no Taj Mahal. que era do Truda. não leva a mal... Nos levaram pra comer num lugar que tinha uns vinhos feitos lá mesmo. quando fomos ver.. era um troço ridículo. Bom. Três garrafas!”. Chegamos de manhã cedo. sem retorno. estamos fudidos. . Eu. e nos contratou pra fazer o show lá. Liguei direto na mesa também. o baixo foi pro pau também. Mas o equipamento.. e dissemos: “bah.. e o Alemão Ronaldo falou então pro padre. Ele veio me cumprimentar. Então a caixa de som dele estourou. Na segunda música. Teve uns caras de Santa Maria que assistiram. e o produtor veio nos buscar pra ficar na casa dele.. num colégio de padres. Equipamento pra tocar em lugares pequenos – só que os caras já tinham vendido quase três mil ingressos! Nos entreolhamos. A galera toda espremida nos cantos. enrolando a língua. Direto na mesa. pra falar conosco. e eu não balbuciava nada. O Ronaldo chegou e disse: “padre.” – o Alemão não conseguia lembrar o nome do vinho: “. O cara era fanático por rock. e o Cau Hafner na bateria.Tocou uma ou duas músicas e pegou um extintor de incêndio. E.... fiquem tomando vinho aí e relaxem. que estava indo embora. Fui de ônibus de linha com o Marcelo Truda. Fizemos lançamento em Porto Alegre.. É que ele tomou. que vai dar tudo certo!” Começamos a beber até a apresentação – tomando vinho. A gente não sabia bem sobre a parte do equipamento e o que eles teriam pra nos oferecer. já previa o que ia rolar: o Miranda pegou aquele extintor e detonou em toda plateia. Chegou na hora de tocar e o Marcelo dava umas erradas que ele nunca dava. dizendo que alguém tinha esquecido um casaco.. mas fomos pra lá mesmo assim.. Ele tomou o sangue de Cristo. Cena dantesca. Na hora de ir embora. o que vamos fazer agora?” Então o cara que nos contratou foi contemporizar. Pegou um garrafão de vinho Sangue de Boi e disse: “ó. Aí veio o padre no camarim. Detonamos o Sangue de Boi. o padre nos chamou.. não leva a mal.. e começaram a largar muito vinho. no primeiro acorde. E vinho. E a gente não conseguia nem falar. o Sangue de Cristo!”. Fomos pro palco. padre.. o Paulo Mello. de tão bêbado.

estava tudo escuro. Era uma boate que só tocava reggae. Uma língua estranha. e tudo. Com crença ninguém mexe. dormindo em qualquer canto. Os shows tinham pirotecnias. onde fiquei matando tempo. Eu nem tinha dormido ainda. O Cau mandou fazer um mecanismo que era uma rosca que se juntava a um cano.. e com os olhos virados. A bateria ficava sobre rodinhas – ia pra frente. Cheguei já amanhecendo e vi um cara mancando. num colégio de padres.. Ninguém tocava reggae. A gente chegou lá e nos meteram dentro de um caminhão baú pra nos levar até a praia do Cassino. Entrou um padre no camarim. Fui dormir e a mina começou a andar pela sala. Eu precisava achar um lugar pra dormir. Fui parar numa padaria. Na primeira música tu não via ninguém. Eu por mim ficava por ali mesmo. fazendo uns cânticos muito bizarros. mas numa versão reggae. Fomos pra Rio Grande e só tinha dois lugares no ônibus pra voltar a Porto Alegre. Entramos no ônibus e todos os carinhas com o rádio ligado no futebol. E junto com ele estava a mina. Carlos Eduardo Miranda: Teve um show do Tara em que fomos pra Rio Grande. que ficava longe. Depois fomos pro clube. Naquela época era um troço incrível.. Peguei o rádio do Truda e meti numa rádio com um pastor rezando a todo volume.. Uma mina deixou que eu ficasse na casa dela. Acabou o show e fomos circular com umas galeras. Parecia que não havia ninguém na plateia. O único rock que tocou foi Led Zepellin. efeitos de explosões. e fui pra praia. A galera toda estava no fundo do salão. Saímos do camarim e entramos no palco pra tocar.Alemão Ronaldo: Todos estavam bêbados no show do Tara em Santa Maria. que comprávamos nessas lojas de umbanda. com dois pólos. Não me lembro quem da equipe foi na padaria buscar uns negócios. Chegamos na casa e ela disse: “tu vai dormir aqui”. Depois ouvi um som. Aí eu fugi da casa e sai na madruga. Todo mundo encostado no bar e eu gritei: “bah! Cheguem mais”. E o velho fez que não viu. Eu falei pro Truda que ia embora nesse ônibus mesmo. Eu e o Truda já estávamos apavorados. Ele botava . ia pra trás. Um monte de gente foi pro hotel. e são um pouco mais novos do que nós. onde tinha um fio desencapado. Uma sala beleza. Tudo manual! As explosões eram feitas com pólvora. Era na estrada. Aí eu disse: “bah! Me leva embora”. e eu falei: “é sangue de Cristo padre!” Nós com um vinho. Descemos na beira da praia e tinha uns caras fazendo macumba. certamente foram nas apresentações do Taranatiriça no Teatro Presidente. Frizei correndo. Paulo Mello: Acho que quase todos os caras que tocam em bandas. Ele tirava o cano e ali tinha dois buraquinhos. Acabou a música e se ouvia um monte de palmas. em 83.

Eu e o Truda fizemos umas bombas de fumaça com um pó de preto velho que compramos numa loja de batuque.. Detonou o piano. no Rock Unificado. O resultado é que caía a luz de todo o teatro. Os caras vieram cobrar depois. Aconteceu também que uma amiga nossa. Mas acabou o show e todo mundo veio dizer que toquei pra caralho. Eu tive que assumir o vocal e peguei uma pedreira de cara. dizendo: “esperamos que o fato lamentável de atirar latas e garrafas na plateia não se repita!” Muito foda. . e nós: “vão à merda!” Justino Vasconcelos: Depois do Rock Unificado. na hora das explosões. com o Raiz de Pedra e o Cheiro de vida. Foi o seguinte: eu fiquei jogando garrafa na plateia e os caras do Unificado me mandaram uma carta agradecendo minha participação. entrando de graça nos lugares. Tudo em segundos. Eu toquei piano sem amplificação. e era dia de Gre-Nal. que lotou o Gigantinho. Tocava o teclado com o pé. Só fazendo teatro.. teve um show chamado MPG no parque Marinha do Brasil. o bagulho queimou todos amplificadores. E dava tiros em série – cinco. alguém pegava aquele fio e. E a galera começou a jogar coisas nela. Um esquema bem tosco. Em frente ao Beira-Rio. Esses dois eventos foram importantes pro Taranatiriça.. a notícia do jornal era de que havia quarenta mil pessoas no estádio e quarenta e uma mil pessoas no show. resolveu tocar com um botijão de gás e uma corrente.pólvora dentro e fechava. Teve uma vez em que a Urubu Rei. Poderíamos ter incendiado o Presidente. Nesse show eu toquei o tempo todo com o teclado no chão e a guitarra na mão. seis. Carlos Eduardo Miranda: Ganhei diploma de bagaceiro num show do Atahualpa y us Pânques em pleno Gigantinho. Só que o nosso vocalista havia sido internado em uma clínica de drogados dois dias antes. Depois. Quando fomos testar. e depois voltava. A Tânia ficou irada: subiu no piano de calda que tinha no palco e encheu ele de correntadas. foi vaiada pra caralho. Paulo Mello: Os quatro shows do Atlântida Rock Sul Concert foram em 85.. o som sumia. que reuniu 15 mil pessoas no Gigantinho. a Prize tocou depois do Tara. Solon Fishbone: A Prize foi ficando mais conhecida e começamos a nos tornar confirmados. No outro dia. a Tânia.. Só não sei como eles contaram a diferença. ligava numa tomada. E o Taranatiriça sempre abria os festivais Rock Unificado – era a estratégia. a banda do Gordo Miranda. Depois tocava o TNT e o Curto Circuito. O show rolou só com o monitor de palco. um ano antes do Rock Unificado. Ela passou o show inteiro dando paulada no botijão de gás com aquela corrente. Carlos Eduardo Miranda: O primeiro show do Taranatiriça foi no IPA.. Quando teve o Rock Unificado I.

e fizemos show até de mágico. Heron Heinz: Na verdade. Eles já tinham feito outra apresentação em Gramado.. Nem assisti ao show do Egberto. Fiapo Barth: Foi no Ocidente o primeiro show dos Replicantes. E o bar estava com uma das mesas de luz em curto. um amigo nosso. outros dias era pra gay. Eu passava o som de um jeito. Tudo era novidade. Qualquer coisa que aparecesse era muito.Carlos Eduardo Miranda: Na passagem de som de um show na Sociedade Amigos da Vila Assunção. o show do Ocidente foi o segundo dos Replicantes. na época do lançamento do filme Verdes Anos. no Ocidente. V oei com os instrumentos dentro e com um monte de tralha. jantar e tomar um banho. Fui cair dentro do Veleiros. os Replicantes alugaram a minha aparelhagem. coloridas. com gel. Esse show foi uma loucura! Lembro que fiquei a madrugada inteira catando casca de ovo. Tudo escuro e a plateia deitada no chão.. O cara tinha uma banda. Depois. não tinha amplificação. A gente via shows que ninguém levava a sério. Relaxei e fiquei tomando várias cevas com os caras da banda. As gatinhas. O primeiro grande show punk por aqui. que estava tocando no Parque Marinha do Brasil. com medo de que aquela lâmpada estivesse realmente ligada: e o Wander repetiu aquilo o tempo inteiro. tinha que ser punk. Mas fui pro nosso show. era uma coisa punk. eu quase bati num poste. Havia uma cantora chamada Rosa. Um horror! A partir dali. Pelo que me lembro. cenografamos ela. Quando eu subi e vi o carro. foi uma doença. Eu queria ver o show do Egberto Gismonti. Júlio Reny: O primeiro show dos Replicantes. e ficava. A ideia era fazer o palco girar enquanto ela cantasse. Já estava tocando “Nicotina” nas rádios nessa época. A partir daí. Não vou citar nomes. a cada três dias estreava uma coisa nova. Num determinado momento. aí eu pensei: “puta! Vai ser mais um daqueles shows que ninguém vai ouvir porra nenhuma do que eu tocar!”. Tinha dia que era new wave. virei a direção e o carro rodopiou. Só me restou ir pra casa. Botei eles pra tocar no bar B-52. estava tocando Pink Floyd. viajando. que ganhava a vida na Europa. não sei quem não tocou ali. Quando cheguei. O primeiro foi na casa do Daniel. antes de ir pro show na SAV A. Eu fiz esses filmes todos com o Carlos Gerbase. o Wander Wildner desatarrachou uma lâmpada da iluminação de palco e fez uma performance que era enfiar a língua no soquete. Os Cobaias. Xingavam as bandas. mas eu sei quem atirou aqueles ovos. Produzimos a Rosa. naquela ocasião o Atahualpa y us Pânques. e tocava baixo com eles no fundo da casa dele. fui voando pra casa tomar um banho. Passando pelo Veleiros. Foi um pânico. durante a passagem de som. Foi gente que nos achava uns escrotos porque falávamos mal do . V oaram ovos por todos os lados. gelei: “bah! Que merda que eu fiz!”. O carro rachou ao meio. numa época.

. E nós: “como? Parece que está sob controle?” O pessoal estava se matando lá nos pavilhões de trás. Eu vou pedir que vocês evacuem o auditório. guardamos as coisas e já estávamos saindo. Foi quando. um atrás do outro. mas parece que está tudo sob controle”. essa foi a história que nos contaram. Um ovo acertou na guitarra. já morreram dois. uma pecinha de teatro. E foi a RCA que cortou. a programação era variada: um coral. e ainda por cima estava cheio de crianças. lotadaço.. o liberaram por bom comportamento. quando eu ainda era o baterista e o Wander estava no vocal. Gente que não admitia isso. 88. nenhum chegou a nos acertar em cheio. A gente só soube disso quando o disco saiu: que a frase “Quero que o Caetano vá pra puta que pariu” tinha sido cortada. Dissemos que queríamos ir embora: “está todo mundo indo. resolvemos perguntar pro Zico o motivo do nosso cicerone. Isso aconteceu no Dia das Mães de 89. teve um zum zum zum – e vem o regente do coral falar: “estamos com um pequeno problema. Em função da data. numa boa. Assim como a grande maioria do primeiro disco.. “O que estava acontecendo”. E o pessoal todo sentadinho. um show de rock. que não disseram nada. Isso foi por 87. nós no primeiro pavilhão. com as famílias dos presos esperando pelas apresentações. matou a outra esposa a machadadas! Com o sucesso dos shows no presídio de Jacuí. Porque não gostavam da banda. mas estava tudo bem.” Os caras começaram a se mandar rapidinho.. feito pros presos de bom comportamento. nos contou que tinham feito uma enquete com os presos pra saber qual a banda de rock que eles gostariam de assistir. Nós estávamos lá dentro.. Carlos Gerbase: O Zico. Basta dizer que a música saiu com a frase cortada sem nos avisarem. ele casou de novo e. Gente de rádio. A música estava censurada. os Replicantes foram convidados pra tocar no Presídio Central. Mas. teve uma revolta ali no pavilhão cinco ou seis. Depois dele ter cumprido boa parte da pena. .. olhando como se fosse uma espécie de show de teatro. foi muito bom. Os caras levaram os ovos por querer. que tomou as dores de quem falávamos mal. O Zico nos contou que o sujeito cumpria pena por ter matado a sua mulher a machadadas. amigo nosso que trabalhava na Susepe.Caetano e do Chico. Gostaria que os presos da primeira fila. estar ali. A pecinha de teatro foi rápida. O show. alguma coisa assim.. foram tão cagões. junto com os presos de bom comportamento. Terminou o show. Fomos pro presídio do Jacuí numa camionete da Susepe. não foi censura federal. um cara tão legal. o outro acertou na bateria do Gerbase. pela segunda vez. Ficamos atrás do palco. Passamos por todos aqueles portões e fomos apresentados a um preso que seria uma espécie de anfitrião nosso – e o cara nos atendeu super bem. não é nada de mais. Mas. Quando ia começar o tal do coral dos presos. saíssem rapidamente. depois disso. esperando a nossa vez. E quem ganhou foram os Replicantes – pelo menos. Os espetáculos aconteciam todos no auditório do primeiro pavilhão do presídio. na saída do presídio.. perguntamos pra um preso? E ele nos contou: “não. em Porto Alegre. lá de baixo.

. né. ele deve ter comprado alguma por aí e esqueceu de me avisar”. Eis que chega: “seja bem vindo à Wanderlândia”. Mas o Cau Hafner. e nós: “vimos o que?” Tinha pintado uma parada voadora não identificada e não vimos nada – achamos que estávamos impressionando os caras. E passava nas ruas falando o nome. e nós: “pô. A gente estava tocando e a plateia toda: “óóóh!”. Um dia nós estávamos na Belém-Brasília. e nós tocando e olhando pro chão: “porra cara. Estávamos todos da banda viajando. Carlos Eduardo Miranda: Num show do Atahualpa nos Eucaliptos aconteceram uns lances de cinema. A plateia começou a olhar pra cima. dois presos haviam morrido por causa da briga entre duas gangues durante as apresentações do Dia das Mães no presídio. quatrocentos quilômetros de estrada pela frente.. bonita. sempre que a gente chegava numa cidade diferente. tudo bem. ele encheu o saco. meu! Era do meu tio”. Era o que ele dizia. saímos correndo e fomos ouvir o rádio: realmente.queremos ir também!” E o cara: “vocês têm que ficar aqui esperando”. Solon Fishbone: Por um triz a Prize quase ficou sem receber o cachê depois de ter tocado em Taquari. Não dava mole pros picaretas. que lugar afudê. chegamos em Wanderlândia – havia uma placa gigantesca indicando a cidade. fomos pra uma funerária na frente do clube. Ele sempre repetia essa história. nós estamos abafando!”. insistíamos. todos entraram no presídio. Quando nos liberaram. determinado. Vendeu pro meu pai. depois que ficamos sozinhos no palco com alguns presos de bom comportamento. Polícia de Choque. “Do teu tio?!”. Decidimos que tínhamos que passar por lá! Era uns trezentos. Cacete! Aí chegou um cara: “fiquem tranquilos. Cau Gomes: O Wander. mas deve ter alguma. meu pai deu pra um primo dele e agora eu nem sei quem é o dono”. no meio da selva Amazônica. todo mundo loucão. E ele continuava: “é. Mas.. “Pô Wander. E ele tirou uma . os monitores desapareceram e vimos chegarem os caminhões: Corpo de Bombeiros. foi arrancar a grana dele. perguntávamos. E o Wander respondia: “é. saímos com o carro do contratante como pagamento. parece que está tudo sob controle. O Cau era ruim de negócio. Brigada Militar. O cara que nos contratou não tinha grana pra nos pagar. O teu pai nunca te deu uma cidade?” E ele: “o pai já me deu várias cidades”. Saiu todo mundo e nós ficamos esperando. tu vê. Uns cem quilômetros depois. daqui a pouco vocês saem”. No final das contas. Enquanto tinha um monte de gente lá. Enquanto o Cau fazia o cara assinar promissórias. estamos mesmo abafando!” Quando acabou o show vieram uns caras: “bah! V ocês viram?”. inventava umas histórias e era muito engraçado.. contava uma história do tipo: “bah. “Mas nunca colocou teu nome né?”.

Fomos lá. Parece que ele resgatou o relógio. eu fiquei vendo a apresentação dos caras. eu estava chegando com o De Falla em Tramandaí e tinha uma faixa que dizia: “De Falla na Sapi – abertura: Nenhum de Nós”.. Nós passamos o som. Eu cumprimentei o Thedy e dei meu cartão dizendo que tinha uma reunião com o pessoal da BMG no Rio de Janeiro e que. Carlos Maltz: O Nenhum de Nós estava com show marcado na Sapi. passa som primeiro. Os caras eram super malandros. botar na Kombi. Biba Meira: O De Falla estava indo de ônibus pro interior de São Paulo. Na época. Valia a pena arriscar. venderam uns cocares caríssimos. E a Biba. Tinha futuro. Dante Longo: Fizemos um show na Sociedade Amigos da Praia do Imbé.foto. bem de índio. aquelas patentes onde a merda ia caindo e era o maior fedor. Porque eu era o responsável por guardar os instrumentos. Aí fiquei dando uma olhada na passagem de som pra ver se o Sady era cavalo demais. A gente ria muito: era noite e todo mundo nos olhava. achei a pegada dele até meio sutil. apareceu uma pessoa da Sapi dizendo que o Nenhum de Nós não tinha aparecido. Fiquei ao lado da plateia observando o show. Nem a Biba e nem o Edu se importaram. Mas não. Um tempo depois. fizemos a nossa parte. Que já tinha público e estava na hora.. Nos atrasamos e chegamos lá num horário absurdo. Como a bateria era da Biba. uma vilinha vermelha. em Imbé. eu levaria uma fita deles sem o menor problema. Tonho Meira: Em 86. Foi o menor lugar. Foi quando o Nenhum . Então. que era perto da Sapi. tomar banho e trocar de roupa. o De Falla estava fazendo seu trabalho normalmente. O Castor foi cagar de madrugada e deixou cair o relógio dele naquela caixa de merda. que era pequeninha. arco-e-flecha e quase perdemos o vôo por causa disso. e já estávamos saindo do salão quando entraram os três caras do Nenhum de Nós. Era um baterista de uma banda chamada Nenhum de Nós. Nos enrolaram. A cena era pequena e eu conhecia muitos grupos da época. em fevereiro de 87. Aí os guris começaram a fazer brincadeiras na Kombi e gargalhadas e tal. Foi quando tocou o telefone do meu escritório. os ônibus tinham uma espécie de cagódromos. Íamos abrir pro De Falla. e fomos pra casa de um amigo. e me chamou a atenção: uma concepção de letra mais elaborada e algumas frases de guitarra do Carlão muito interessantes. Isso foi em 1987. e fomos jantar. Voltamos pra casa da minha família. O De Falla deu o seu show e os caras do Nenhum de Nós apareceram. Nós chegamos primeiro: quem toca por último. e fomos embora. enxergou e disse: “é esse cara que vai tocar com a minha bateria?” E eu ia imaginar que o cara era porrada e gordo. na praia de Atlântida. mas nunca tinha ouvido falar desse. se eles quisessem. Tivemos que tocar primeiro.

ele nos escolheu pra tocar.. gostou. Não tinha ingresso. tudo ensaiadinho. Tivemos que tocar de verdade e ganhar as velhinhas. o Antônio Meira. das duas. Acho que jogaram um dado pra cima e caiu nosso número. O contrato foi com o selo Plug. Mas na terceira. Carlos Maltz: A parada era a seguinte: eles pegavam os convites e distribuíam nas cooperativas. O Tonho viu o show.de Nós conheceu o seu empresário. e levou o mesmo buquê pro mesmo cara.. os milicos . Fizemos uma tradução de “Terra de Gigantes” pra distribuir pro público e foi muito engraçado. Pegavam a cooperativa das senhoras idosas não sei da onde e simplesmente davam os ingressos.. No segundo show.. uns carinhas filhotes do Ritchie Blackmore. Um negócio meio neoclássico. Mas o legal mesmo foram as coisas sensoriais. um monte de milicos fardados. Humberto Gessinger: A plateia de um dos shows era só de soldados: o teatro inteiro. Eram sessões de cinco apresentações diárias num teatro. mídia ou propaganda – não tinha porra nenhuma! Os caras nem sabiam o que estavam fazendo. veio um monte de gatinhas de dezesseis aninhos. era um monte de velhinhas assistindo. em português. que estava lá na ocasião.” Carlos Maltz: Foi inacreditável. todas lindas e maravilhosas. A gente ia abrir o show de uma banda local com um nome que. “Deus me mandou tocar aqui. Camila”. Aí não entendemos mais porra nenhuma. na mesma música. um lugar pra umas duas ou três mil pessoas com as cabeças raspadas. E na primeira sessão. A gente. Na segunda.. vamos fazer uma história”. seria algo como Café Preto.. tocava muito mais alto que os caras da banda de heavy metal! Eles eram bem mais Bibi Ferreira. E os Engenheiros não chegavam a ser uma atração internacional.. Veio um cara lá da Rússia e organizou uma feira do Brasil em Moscou. “De que adianta fazer isso. se aqui não tem juventude.. Então ele levou uma demo de quatro músicas pra gravadora no Rio de Janeiro. não tem refrigerante?” Não adianta traduzir as palavras. sei lá por quê. Era mais uma coisa romântica. lançou várias bandas gaúchas. Uma banda de heavy metal. músicos bons pra caramba. veio a mesma mulher.. Tipo assim: sessão da uma. Umas trezentas e cinquenta velhinhas. uma função social. e deu o cartão dele pra contato: “pô. do Jimi Hendrix tocar fogo na guitarra. Não tinha essa cultura autodestrutiva da música pop ocidental. Nossa gravadora apresentou os Engenheiros pra esse cara e. Humberto Gessinger: O Engenheiros tocou em Moscou no tempo em que estava caindo o muro de Berlim. Uma delas era “Camila. das quatro e meia.. um trio. que na época. Uma mulher entregou flores pro cantor da Café Preto na metade do primeiro show.

Na época. uma maquiagem!” Era uma coisa assim: enquanto eu tocava. nós queríamos ser profissionais. a luz e os cartazes. invadiu o palco. completamente torto. num esquema mambembe. Atrás do carro ia um reboque que levava o som. bem faceiros. Então resolvi tocar uma do repertório gauchesco – de vez em quando eu tocava a “Milonga do cu”: “uh. O cara saiu e fomos pro camarim. rodeada de fios de cabelo. Fazíamos o show numa cidade e. Daqui um pouco. Tentou pegar o pedestal do microfone pra fazer de taco e aí vieram os brigadianos: tinha uns cinco ou seis em cima dele. que às vezes nos acompanhava nessas viagens. oclinhos new wave e me maquiava de leve. tive de ir embora. tinha capacete de brigadiano voando pra tudo que é lado e o cara vindo pra cima de mim. Ele caiu. e o negócio partiu ao meio. O Falcão era completamente escrachado e eu tocava com uma blusa bordô. Toquei a “Milonga do cu” e. quando terminei. num belinão setenta e poucos. em Porto Alegre. que encarna a Maria Bethânia num show de transformismo. . no dia seguinte tocávamos na cidade ao lado. Diz que o tio dos gauderiozinhos gritava lá de trás: “quem é o veado de calça justa?!” Leo Henkin: Os Eles estavam fazendo um show num ginásio de Sobradinho e voltaram ao palco pra dar um bis. tipo: “que história é essa de calça Lee? Vamos botar uma roupa. violãozinho e voz. o equipamento. um teste de fogo que nos trouxe uma convicção muito forte. Saíamos eu. Deu até tiro. porteira redonda. basta limpar com uma macega. A galera reclamou e. Seguidamente também pagávamos a janta dando uma canjinha de três. por onde passa o sinuelo das tropas que vêm do bucho. o cara que botava luz veio de trás do palco e deu uma voadora no bebum. Eu. quatro músicas em algum restaurante. Aí um magrão muito forte. Pra limpá-lo bem não é preciso ter luxo. E nós fomos embora. se quisessem. Vieram os velhos do CTG. Mas foi uma experiência do caralho. Nei Lisboa: Houve uma temporada de dois anos em que eu fiz muitos shows. E eu estava estreando uma guitarra. no velho estilo gaúcho!” Aí chamei os guris da banda: “vocês me acompanham numa milonga?” Eles. Lá no fundo estava o tio dos nativistas – fazendo sinal de desaprovação. em plena new wave. com o dedão pra baixo. Mas essa canjinha. todo mundo comia. A banda da casa eram uns gauderiozinhos novos. era sempre uma baita encrenca. o Falcão e o nosso operador de luz. Derrubaram o cara no chão – e nós esperando. toparam.bebuns e os cubanos – porque num dos dias era um público só de cubanos. e o Antonio Carlos Falcão. Uma dessas roubadas foi num CTG. na verdade. de repente. pra pagar a janta da nossa equipe. bem bonzinhos. Eles tinham acabado e eu fui tocar as minhas. o Antônio Corazza. Achava que isso era importante. e ficou possesso. Não comi o carreteiro e tivemos que sair correndo – fechou o tempo. O motora era o nosso produtor.

tivemos que fazer duas vezes. só que ele era um monstro de forte e acabou passando por cima dos seguranças.Leandro Branchtein: Sei que o cara tinha mais de dois metros de altura. pra que ela não sofresse nada. Diz que o cara tinha levado um tiro e estava no hospital. Ilton Carangacci: Os Eles estavam tocando num ginásio lotado. né?” E o Dannie: “pois é. tipo assim. e só permitir que entrasse quem tivesse ingresso. A Biba também: “saí da banda. Tinham dois PMs de um lado do ginásio e dois do outro.. mas salvou a guitarra. A galera uivava pra ele. e era outra coisa. E o produtor. Entramos no ônibus pra ir embora e duas vans com caras da cidade ficaram nos seguindo. E a gente se jogava no chão. Depois que fomos pro camarim. Aquele cara tem mais é que tomar tiro mesmo!” Num momento de tensão. E era aquela coisa: uma guitarra. Queriam ver uma coisa e o De Falla estava tocando outra. O locutor da rádio falou: ”que coisa chata isso que aconteceu. Ele teve uma lesão. O tumulto foi tamanho que algumas pessoas que tinham ingresso não conseguiram entrar. quinhentas. que começou a sentir que estava tendo público e não quis sair dali de jeito nenhum. Dedé: O lançamento do segundo disco do De Falla foi no teatro Presidente. um cara gigantesco subiu no palco e começou a fazer performance. soubemos que o show estava sendo transmitido pras rádios da região. e eu saí em 89. pra ver o show. só aqui acontece isso!”. Tonho Meira: O De Falla começou em 85. no Teatro Presidente. um violão e uns berros. o Dannie. Os caras que não conseguiram ingresso arrebentaram o portão lateral e entraram.. Eu comecei a gesticular com os caras: “porra! V ocês não vão fazer nada?” Então. O Presidente lotado. Leo Henkin: Veio um repórter de uma rádio local perguntando: “o que vocês acham disso que aconteceu?” E o Dannie disse: “nunca mais a gente vem nessa cidade de merda. O último show. No final do show. estava bêbado.”. seiscentas pessoas. o cara disse a coisa errada. Os seguranças tentaram impedir. disse na hora: “não sou mais o produtor da banda”. e resolveu subir no palco. Eu tive que chamar a Brigada Militar pra fechar a porta do hall de entrada. os PMs subiram no palco pra pegar o cara. foi tremendamente infeliz. As pessoas chegaram lá. passavam pelo ônibus e nos ameaçavam com revólveres. Até hoje o Dannie diz que não era aquilo o que queria dizer. Um dos integrantes dos Eles. . que era o Tonho. Foi quando ele se enroscou todo no Leo – que tinha acabado de comprar uma guitarra e preferiu cair de costas.

. uma coisa que o Edu puxava: ao mesmo tempo em que ele queria atingir um monte de gente e vender discos. Edu K: A piada é que ela saiu da banda por causa disso e acabou indo tocar numa banda de hard rock. “Natividade. Chega uma hora que tu não sabe onde está? Só vai recebendo a agenda. Flávio Santos: “It’s Fucking Boring” tocava muito na Ipanema. Saímos de manhã do Rio e chegamos no final da tarde na cidade. muito segredo: “os caras vêm ai nos pegar”. Era pra tocar outra. não posso negar. Por exemplo: ter que modificar. em algumas músicas. na época em que nós já estávamos tocando hard rock. Não aguentou. lá na puta que pariu – não tinham nos falado. eu não estava obtendo com o De Falla um retorno financeiro que poderia obter com outros grupos mais competitivos. que produzia o De Falla.. Biba Meira: Eles queriam que eu tocasse numa outra batida. Pegamos ônibus. E também. trezentos quilômetros do Rio. também abandonou o barco na mesma noite. . pagaram setenta. ele mudava tudo: de um show pro outro já era outra coisa.. Fomos direto pro nosso hotel. Eles pintaram lá. A gente meio assim. Eu achava a minha do caralho e fim de papo.Biba Meira: Foi naquele show do Presidente que abandonei o De Falla. Até o Antônio Meira estava junto. E hiperlotou o teatro.. Tonho Meira: Eu saí do De Falla porque achei que já tinha esgotado o meu objetivo enquanto empresário deles.. O Tonho. o empresário vai fechando e o produtor vai checando. algumas batidas que eu tinha inventado – e que gostava muito de tocar da maneira original. Nem motorista nem o produtor falavam nada: “estamos chegando? estamos chegando?” Olhamos o mapa e era fronteira com Minas. E a gente já estava tocando outra fase. Então marcamos um show no Teatro Presidente. não estava mais aguentando um monte de coisas. mais hardcore. mais porrada. Eu não poderia ir além daquilo que eu estava conseguindo apresentar pra banda. Fomos numa cidade chamada Natividade. oitenta por cento antecipado. Cau Gomes: O Nenhum de Nós fez show onde ninguém nem imagina. Só que as pessoas foram querendo ver aquilo que ouviam na rádio. fazemos o show num dia e voltamos”. a Quinto dos Infernos. as primeiras fases.. ônibusão e tudo. Eu fiquei muito puta também. Mas tudo muito estranho. Isso rolou muito durante toda a história do De Falla. As pessoas que foram no Presidente ficaram assustadas.

o segurança sou eu! E ele chegou assim pra mim: – Olha aqui moreno. E a galera tremendo: “vamos fazer. E eles: – Vocês vão fazer o show. E eles: – Vocês vão fazer. já estão pagos. – Então não vamos tocar. Eu. Resolvemos mentir pra eles – pra depois irmos fazer o show e pedir proteção. que tinham nos contratado. – Não vamos fazer. querendo falar com a gente. não vamos fazer”. nós já anunciamos vocês. esse cara é ladrão”. Eu já morto de medo. que era nosso iluminador. Olhamos lá: “vote pra prefeito”.. porque aqui mandamos até na polícia.Chegamos no lugar do show. isso é problema de vocês.. o primeiro a morrer. Nisso. assim. Vimos que o palco era um palanque. E meio que nos cercaram – cangaceiros. E o cara: – Bom. Chamamos os caras da situação. se vocês não tocarem não garantimos nada. E nós não sabíamos pra onde. macho pra caramba. Acabou que conseguimos negociar com a oposição. Tu tá vendo esses rapazes aqui? É só eu estalar o dedo que eles te matam agora e ninguém fica sabendo. que veio tocar no comício do coronel? Mas nós somos da oposição. – Ó. Bah. – E os caras lá com o nosso empresário? – Bom. E outra: se vocês inventarem de sair da cidade. porque tinha me identificado como segurança da banda. te acalma. Rolou uma pressão. E levou o Antônio Meira. o cara vai ser o prefeito. eu mando tirar a ponte. porque não é a nossa ideologia. Se vocês tocarem. roadie metido: – Que que é. e o Wander. Pensamos que os . Tudo muito segredo. se não nosso candidato perde. cara! Não vem gritando que já teve outro fazendo isso e o seguinte. armados. O Antônio Meira foi falar pros caras. que estava com o Antônio Meira. Os caras da oposição resolveram oferecer proteção – desde que o show não saísse: “vocês não podem fazer isso. o lugar era uma feira – iam fazer um showmício pra político. tem que ser. aqui ó. Chegamos lá pra ver e os tais caras eram bem diferentes daqueles que a gente tinha falado até então. tudo bom? V ocês são da banda famosa. pra nos defender. não saem da cidade. E mais: vou levar o empresário de vocês junto pra ter a garantia. capangas. Eu sou um cara muito poderoso aqui. tentou ir ver o equipamento – mas os caras não deixaram. veio o motorista dizer que tinham uns caras. Não vamos fazer política – ainda mais pra um partido do governo na época.

onde tinham quinze. E só deu tempo de atirar os instrumentos pra dentro do ônibus. fazendo muitos shows dentro de um esquema de produção bem razoável pros padrões de hoje. dizendo que a gente não ia sair dali. E no meio disso aparecem uns caras da oposição embaixo do palco – com uns pedaços de pau. pra ver se estava tudo certo. Lembro que foi um aperto. tudo improvisado. Eu disse que daquele jeito não haveria show. Descemos os equipamentos.. o Dante nos deixou no ônibus e foi tentar contornar os problemas. No meio da confusão.. vamos embora pra não correr riscos”. Carlos Maltz: Estávamos exaustos.. E chamaram o prefeito. Saiu o motorista meio que batendo em tudo. Qualquer um poderia acessar a parte de trás do palco. Se a gente não tocar. com aquelas condições. ou seja. Essa questão da incompatibilidade política gera da outra parte.. Era numa cidade no interior do Rio de Janeiro. O resto do dinheiro eu não sei se veio ou não veio.. dez mil pessoas. ninguém reclamou até hoje. Sady Homrich: Foi em 89. Correria. e dissemos a eles que. Ficamos meio assim: “vamos ficar prontos. Eu não sei se estava encaminhando o cancelamento da apresentação por alguma questão financeira ou técnica. Também foi uma situação difícil pelo tipo de público presente. 90. Então. eles começaram a me fazer ameaças. Tonho Meira: O Nenhum de Nós tinha um show pra fazer numa feira agropecuária em Natividade. no Espírito Santo. Uma terra de . Me seguraram dentro da feira. A produção era nula. no interior do Rio de Janeiro. Eu sei que nunca mais voltamos à Natividade. Sei que na quinta música rolou o tiroteio. e eu: “toca. Se ficou equipamento. uns gritando. uns quase chorando. e que não tínhamos outra opção senão tocar.. Então. sem segurança pro evento. esperando que o pessoal faça a montagem.. e fomos pra feira. cutucando os pés dos músicos. Fomos embora e nunca mais. toca”.. fizemos o show já passando o som. Ficamos completamente reféns. O palco era um coreto. um fato notável.caras tinham ido embora achando que a gente não ia fazer o show. Dante Longo: A gente estava em Natividade. não ia dar pra cumprir as obrigações. os caras foram pra frente do nosso ônibus e não nos deixavam manobrar. Na verdade foi uma trapalhada minha marcar um show numa cidade tão distante e sem referência nenhuma. Nos comunicaram que ia haver público. Uma situação operacional extremamente contrária a usual. Os caras meio que me trancaram. Uns quatrocentos quilômetros depois de Natividade nós conseguimos levantar. Geralmente o produtor vai ao local do show e a banda fica no hotel. não tinha nem lugar pra botar luz. da oposição. organizada pela prefeitura. uma atitude meio vigarista. Uma coisa bem mambembe. Fomos negociar com os contratantes. uma feira.

Aí os caras não tiveram dúvida: estacionaram dois carros na frente do ônibus e um atrás. Foi daí que surgiu toda a confusão. Um dos roadies tentou tirar um maluco do palco. Sady Homrich: Pra completar. Bom.. desligar um pedal. Ele ficou rondando. O cara acabou dando o chapéu pro Teddy. Não era nenhuma coisa horrível demais. Eu voltei pra dentro do ônibus.. Thedy Corrêa: No meio da bagunça. No sentido de se preservar fisicamente mesmo. Depois. Foi uma situação desconfortável. Então resolvemos fazer o show. mas o roadie o empurrou – era o prefeito da cidade. mas o clima era ruim. Saímos de manhã. um cara tentou subir no palco. mas não sai da cidade. . Foi bem essa a relação. com o espírito de sair fora. Eles achavam que. dentro do ônibus. Nisso chegou um cara com um chapéu de cowboy. ou tu põe o pé na jaca ou te preserva fisicamente. e que estava todo mamado. eis que aparece uma vassoura por baixo de um espaço de tábuas do palco. Não faz o show. podiam tudo.. o prefeito tomou um fogo e quis subir no palco. e pra felicidade do cara. O objetivo era fazer o cara cair. na frente do hotel onde a gente estava. Ele gritou: “mas eu sou o prefeito!” E o roadie respondeu: “prefeito nada! Prefeito não fica bêbado desse jeito!” Tonho Meira: Ficavam mexendo nas tábuas. prefeito ou filho de prefeito. ou mesmo derrubar o microfone. tudo que lembro era o Sady. que diplomaticamente. Saímos de lá apavorados. botou na cabeça. abanando da janelinha pra desfazer o mal-estar. Mas. e não tínhamos o menor controle sobre a situação. Os caras da organização queriam resolver a coisa no grito. Era um show pra um político. A situação era apavorante. E o homem respondeu: “então vou te matar!”. E ainda mandaram mais um grupo pra ponte de saída da cidade. como estavam pagando. Só então vimos que ele era o prefeito. eram quatro horas de viagem e chegamos meio queimados. Digamos que a gente estava descontente com o formato ideal exigido pra banda. e os caras: “olha lá aquele gordo! Tá gozando da nossa cara! Desce daí!” Tonho Meira: A gente estava no Rio de Janeiro numa atividade relacionada à divulgação ou gravação. e disse: “eu vim entregar esse chapéu pro vocalista e quero cantar com ele!” O cara do staff disse: “você não pode subir”. mas visivelmente contrariados. Os caras queriam subir no palco. Fui resolver um assunto operacional e pedi pra uma pessoa do staff que não deixasse ninguém subir no palco. Sua intenção era pacífica. Pra garantir que a gente não fugisse.ninguém..

Foi um fracasso total. umas cinco mil pessoas. o show dos Garotos acabou e já estávamos fora do palco quando chegou um cara entregando uma bala de 38 pra mim e pro King. O público não estava muito a fim da nossa música. num show pelo interior. Imagina se ninguém queria avacalhar em São Paulo: viajar bebendo e se chapando. com as unhas pintadas. Se eu gosto. acho que vou pro hotel”. Hoje em dia. Tocamos pra cinco pessoas – e uma delas era o João Gordo. o João veio nos dizer: “cara. Chegamos lá e a casa era na realidade um barraco na periferia.. eu dou a bala pros músicos. E o Charles Master só comia Elma Chips. nos convidou um amigo que andava com o TNT. do caralho. não é um souvenir muito comum de se dar a alguém. uma comunidade gay – mas uns caras bagaceiros. João Gordo: Foram uns putas shows. em São Paulo.Justino Vasconcelos: Em Santa Maria. “Toma!”. Muito tempo depois. que era bem underground.. ele disse. Achamos que era apenas uma maneira de dizer. Naquele tempo.. de cabelo espetado. bairro São Retiro. Então o cara levantou a camisa e mostrou o berro. Estava lotado. que eu fiquei fã dos Cascavelletes. “Eu sempre trago bala pra show. E a bicha: “está cansado? Deita na minha cama ali!” – a emenda foi pior que o soneto. porque era meio medroso pra comer. e o Flávio falava muita porcaria no show. e eram uns três caras de terno e o Flávio Basso. Bom. parado num canto. o Brasil inteiro conhece “Dotadão”. estava fazendo um risotão. Foi no Madame Satã. e o Flávio não se conformou. Assisti o show. Alexandre Barea: Os Cascavelletes abriram pro Capital Inicial no Petropole Tênis Clube. mas não tinha carro – não tinha toda aquela parafernália que ditava o fato de ser burguês. num dia de semana no Madame Satã.. corrente no pescoço. disse: “tô sem fome. Quando ele viu aquela bicha velha fazendo o risoto então. porque a gente até usava terninho punk. e aquele rock’n’roll da porra! Fiquei tão fã que aprendi a cantar todas as músicas e o Ratos de Porão regravou o “Dotadão”. Alexandre Barea: Fomos de ônibus de linha no primeiro show que os Cascavelletes fizeram junto com a Expresso Oriente. coisa que não se fazia muito. emboletados e enlouquecendo a viagem inteira! O hotel era um espelunca desgraçada no Bexiga. Chegou uma hora em que ele disse: “vamos agitar essa porra. eu entrego a bala pela arma!” Márcio Petracco: “Vamos fazer um rango na casa de uns veados amigos meus”. vocês eram os Beatles punk!” Era a definição perfeita. Tínhamos marcado apenas uma apresentação sem cachê. Uma “senhora”. havia aquela gurizada que estudava em colégio particular. Se não. porque a gente também gosta de buceta burguesa!” .

Um ano depois. Ele demorou muito. uma chuva de grana no palco.. Depois esse momento bebedeira passou. Isso foi lá por 88. drincado. e decidimos: “vamos lá sabotar a apresentação!” . Carlo Pianta: Eu era conhecido na Graforreia por abrir os cotovelos depois dos shows. quando a banda já estava totalmente estourada. que terminou o show. bem antes. um negócio bem delinquente. ele resolveu fazer alguns shows com a Graforreia. Vi o pessoal da Graforreia passar. Teve uma vez. em Santo Antônio da Patrulha. e nós o deixamos lá. olhando – e eu abanava pra eles. que resistiu por algum tempo. ele veio pra nós e disse: “olha aqui: vão se fuder. e nós naquela.. Fui pegar o ônibus e eles já tinham ido embora à horas. Daí eu achei um magro que vinha para Porto Alegre e peguei uma carona de volta. ele já tinha a Graforreia Xilarmônica. como a Hard Working Band. Quando começamos com o Frank Jorge. mas super numa boa. e a banda estava mandando ver. um grupo que aprontava todas o dia inteiro – algo bem rebelde. Estava o Zé Flávio e o Edinho Espídola tocando junto. E o Edinho gritava: “chuta aí. Eu morava com o Flavio Basso na época. Mas depois. Peguei uma garrafa de cachaça e fiquei bebendo com um pessoal. no mesmo ônibus com outras bandas. em Santo Antônio da Patrulha. adolescente. Eu era a mala sem alça a ser carregada no fim dos shows. Eu perdi a noção do tempo e do espaço. vão à merda. A coisa aconteceu durante um certo tempo. sempre tinha shows à tarde. Frank Jorge: A Graforreia estava voltando do festival de rock Loucos de Cara. Depois. O cara começou a atirar dinheiro. chovendo grana. A gente o proibiu de fazer isso. Estva do caralho! Na plateia tinha um maluco yuppie.. domingo de tarde. mantendo as aparências. era uma vítima pre-destinada. O cara gritou: “essa banda é do caralho!” E tirou dois maços de dinheiro do bolso. Ele estava emocionado. mas continuou rolando a festa. nem existia onda yuppie ainda. Notas de 50 dólares! E a gente meio que disfarçando. uma baba de grana! Era dólar e a nossa moeda da época. sei lá. eu estou a fim e já tocava com os caras!” Não sabíamos o que fazer – e eles tinham uma apresentação marcada no Ocidente. e o Carlo saiu pra descolar uma cachaça. Me deixaram em Santo Antônio da Patrulha. Alexandre Barea: A ideia de sabotarmos o show da Graforreia foi a seguinte: eu e o Flavio Basso encarávamos os Cascavelletes como se fosse uma banda fechada. Eu sempre alugava alguém. A grana não chegava lá atrás na bateria. lotado. segura aí!” Caiu uma nota de 50 dólares na partitura.Careca da Silva: Uma noite no bar Kafka. mas o cara já era um. Alguém que não sabia. O grupo já era um sucesso desde as primeiras apresentações. eu já estava meio em alfa e fiquei ajoelhado na grama.. de bêbado. Veio com aquele projeto e entrou de cabeça. Só que ele parou pra que tudo desse certo desde o começo entre a gente.

na José do Patrocínio – os dois correndo. Uma fidelidade musical. gritando algumas coisas. bem frequentados – e tínhamos que atravessar a Cidade Baixa e a Redenção até chegar no Bom Fim. cada um tomava uns dois martelinhos. Isso era uma coisa que incomodava todos nós. Só que. o Flavio e o Barea saíram com suas namoradas pra beber antes – e com a intenção de ficar berrando e detonando com o show. Eu e o Flavio cumpríamos isso à risca. O Flavio e o Barea respeitavam a fidelidade da banda. no meio da galera. E isso demorou a passar: eu não sei por que isso acontecia. A gente chegou cambaleando. nos famosos treme-tremes – aliás. Nei Van Soria : Nós achávamos que ninguém da banda podia tocar com outras pessoas ou em outras bandas. o Marcelo Birck. Saímos pro Ocidente da nossa casa. Mais do que isso: um professional style. mas quando começassem a ficar mais velhas – que as barbas crescessem primeiro! E o Frank disse que tocaria com outro cara. como uma espécie de lifestyle..Frank Jorge: Tudo bem que eu era dos Cascavelletes. Mas eu era jovem. e não conseguia controlar essa coisa de levar a sério a questão dos grupos. eu e o Flavio compramos uma garrafa de Velho Barreiro e fizemos um caipirinha gigante – e matamos tudo no gut-gut. Atravessamos a Redenção lotada de coroas e crianças já muito loucos: berrando e pulando os bancos. Aconteceu que eles chegaram bêbados. Daí aconteceu. Achava que as bandas deviam se misturar. Flavio Basso: O fato é que eu e o Barea morávamos num apartamento. Flavio Basso: Eu era realmente doentio com essa coisa de beatlemania. Eu tinha toda uma visão inglesa sessentista da coisa. Alexandre Barea: Uma hora antes do começo do show no Ocidente. quando teve o show da Graforreia no Ocidente. meus amigos de infância da Thomaz Flores? Não tínhamos contrato de exclusividade. Não sei. Alexandre pára com isso!” . em cada botequim que aparecia na frente. Meio a meio. na corrida! Só que o troço bateu de uma forma absurda. Só que estavam tão bêbados que não conseguiram tornar plena a sabotagem. pedindo: “pára. deviam ter convidados. Flávio. O Frank não.. Saímos lúcidos e sóbrios pra assistir a um concerto de rock – mas um tanto quanto magoados. empurrando todo mundo.. a Raquel e a Márcia. Ele tinha a Graforreia e várias outras bandas. Frank Jorge: O que aconteceu é que. mas qual era o problema de tocar com o Marcelo e o Alexandre. Tem um vídeo onde aparecem as namoradas deles. o Barea também..

porque viramos dois joões bobos dentro do bar.. Ele pagou muito mico. um tanto quanto arriscada pra saúde. Mas tudo acabou bem. o Barea. não teve maiores desdobramentos na real. Mas aí morreu nisso. mas o Flavio ficou lá em cima. chegaram a mulher dele e a cunhada. Beberam demais e não conseguiam nem ficar de pé. Os caras chegaram berrando. Não conseguíamos mais parar de pé. o que dirá sabotar um show. Nisso. Só que eles se passaram na tentativa de sabotagem. Dali a pouco. Puxaram ele pra fora. O próprio Flavio já nos pediu desculpas. Me sentei na calçada. A gente não sabia que os dois tinham ido no show pra nos sabotar. Quem disse isso foi o Flavio. pendurada nas árvores. Então. O Frank não sabia se ria ou se chutava a nossa cara. No meio do vídeo. e o Frank continuou tocando com eles. inclusive. Teve que sair do show carregando o cara de tão bêbado que estava. Fomos pra avacalhar o show e demos o maior mico. e tentaram derrubar os pedestais do microfone. gritando pro motorista .. se retirou porque estava passando muito mal. mal por eles até. E ela nos adorava. Isso tem filmado em vídeo. No fim. atravessou a João Telles e entrou no meio da sala da Funerária João XXIII – e ficou se fingindo de morto. e dava pra ouvir os gritos dele. aparece a mina do Flavio carregando ele. Eu desci. não sei como. se deitou em cima de uns pedais. Tiveram que puxar o Flavio pelas pernas. Acabaram nos colocando num carro. E todo o público nos jogando de um lado pro outro. Elas estavam se sentindo no maior mico fazendo aquilo. eu já estava empurrando todo mundo e todo mundo me empurrando. Nei Van Soria: Os Cascavelletes estavam viajando de ônibus com a Bandaliera. Todo mundo que foi na apresentação passou o ano comentando aquela cena.Alexandre Ograndi: Tinha muita gente: do lado de fora. e chamaram: “Flavio! Flavio!” E ele. Uma coisa. Nunca passou na nossa cabeça que eles tivessem ido pra sacanear o show. Elas ouviram os gritos. no segundo ou terceiro número. não houve aquela intenção da sabotagem. muito tempo depois que os Cascavelletes acabaram. Frank Jorge: Eu era amigo delas. as pessoas também caindo. E a gente berrava e xingava – vaiava.. Eu cheguei em casa ileso. O Flavio subiu no palco. pulando no palco. vomitei. que tinham uma produtora muito bicho-grilo. ele começa a gritar feito um alucinado. Então ela sai do fundo do ônibus. Quando o Flavio fica louco.. o show deles foi o maior sucesso. desceu as escadas do Ocidente. muito maluca. Alexandre Barea: Começou a apresentação da Graforreia. Antes tivesse acontecido comigo! Caí sobre as coisas. berrando e correndo. Flavio Basso: Moral da história: depois que chegamos.

. nos disse: “bah. E o Julião enlouquecendo: uivava. A gente usava microfonia. Phillip Ness: Os Pupilas Dilatadas tocaram num monte de lugares. Phillip Ness: Os Pupilas foram parar num festival de teatro e música em Itajaí. porque no outro dia ia ter show numa outra cidade. Pensamos que era ele mesmo quem roubava os ossos. Era uma época de muitos marinheiros em Porto Alegre. Mas não fui ver mais de perto o que era. seguinte: tenho um pico.. e o cara ficava gritando: “Bebeto. o Gustavo Brum. E os caras começaram a explorar o lugar. Não é linda!”. nosso guitarrista. umas putas peladas dançando. e acabou pisando nos canos de água. Se os metaleiros começassem a vaiar. Disse que viu o demônio. baixista do Pupilas. Começou a cair um temporal daqueles que parece filme de terror. O Gustavo era o mais visionário de todos.. Tocamos três músicas e fechou a pauleira. fomos ver o que era o fantasma. Bebeto! Toca ‘De um bando’. E eu: “legal!” Segui tocando – e o sujeito continuou pedindo: “toca ‘De um . Tinha gente de todos os lugares. Ficamos no escuro. No outro dia. molhando os fusíveis. Eu subi. Tinham umas vinte e três pessoas na casa. O Marcelo. roubava um extintor de incêndio de um edifício. Tinham uns bancos de madeira. ele esvaziava o extintor em cima de todo mundo. Os porteiros eram um anão e um gordo careca. Chegamos e tinha um cara loucão. Só que um heroi quis ver. A primeira coisa que ele fez foi nos mostrar um jornal com a notícia: “Vândalos assaltam cemitério”.. Viram um vulto se mexendo. Daqui a pouco. ficou pirado. Quando entrei no palco. os caras subiram no sótão e viram um fantasma. O albergue já tinha sido um manicômio e um hospital. e era um vulto mesmo. Branca: Era um cabaré muito antigo. Se só tivesse metaleiro. Começou a comer a comida dos cachorros. No final do show à noite. Começaram a cheirar e tomar aquele negócio. gritava. Estávamos lançando o disco Danço Só. super viajandona. Uma casa tri velha. mas pirou total. velho!” É uma música do meu primeiro disco. vou levar vocês lá pra tocar”. em 88. o negrão Manoel. Era a imagem de uma santa. ela desceu e voltou com uma flor na mão: “olha só. Um amigo meu. todo mundo foi pro albergue. O cara estava possuído. o Julião. Bebeto Alves:: Eu e minha banda fomos contratados pra fazer o encerramento de um motocross em Gramado. Arrumaram um albergue em cima do morro pra banda ficar. Todo mundo: “o que houve? Algum Problema?” O motorista encostou o ônibus. Agora ele saiu da igreja. Acharam uma sala onde os loucos tomavam eletrochoque. Tocava tomate nos caras. tinha um casal bem na frente. na cidade.parar. Acharam uma outra onde só tinha vidros de remédio. Largou a banda e entrou numa igreja de crente. E o Julião começou a loquear.

senti alguma coisa. Chegamos lá tudo tatuadas. A bateria era toda remendada. cara!” Os músicos não entenderam nada do que estava acontecendo. me joguei no chão com a guitarra e quando eu vi. então a gente tira a roupa!” Carlos Maltz: Considero a abertura que o Engenheiros fez pro Nirvana uma coisa muito marcante na nossa história. Me pegou pelo pescoço e berrou: “toca ‘De um bando’. Estava bebendo. ela quebrou! Antes de se estilhaçar no chão. e nos expulsaram do clube. Botávamos um tapete no palco. Tínhamos um miserê de repertório. a igreja e o restaurante – que é pizzaria e casa noturna juntas. Nos levaram pra um lugar com umas piscinas. a praça. Nenung: A Barata Oriental estava participando de um festival com os Cascavelletes no estádio do São José.bando’!” Então ele começou a ficar bravo. Um lance bem teatral. Foi um gesto woodstockiano fora de contexto. Terminei o show com um puta rock’ n’roll. pensaram que eu estava tendo um troço e alguém estava tentando me ajudar. as gurias inventaram de cheirar cola. Também foi um teste de fogo. As Ninfrodizíakas chegaram lá. uma coisa meio evidente da palhaçada. E nós: “pô. Aí. o clube. que tinha o sonho de quebrar uma guitarra no palco. O que o Nirvana estava vendendo era morte. E ele foi fazer isso lá. Tinha que puxar por alguma coisa: já que não tocávamos porra nenhuma. Depois do show. Sei que nós enlouquecemos. e existe o hotel da cidade. dei uma entrevista pra MTV . onde falei: “esse negócio é morte!” Isso foi uns dois meses antes do cara se matar. lenços na cabeça. e tudo era totalmente liberado pra nós. aquelas coisas. no primeiro puxão que deu. A gente mais fazia performance do que tocava. O cara tinha subido no palco. E a cada pouco ele voltava: “porra! Toca ‘De um bando’. meu!” E foi desse jeito até o fim. Ele ficou olhando sem reação pra ela. Susi Doll: Faxinal do Soturno. Fomos fazer um show pro público do restaurante. Mas pegou uma guitarra tão velha que. o bumbo sem fundo. . Nós éramos escoltadas. umas cordas segurando. com uma latinha na mão. Queriam nos botar pra rua porque não podia entrar na água trajado daquela maneira. e eles pediram que repetíssemos o show pra fazerem uma filmagem. Yang Zam: Rock no Viaduto! Nenung: Eu tinha a estranha mania de beber conhaque pra caramba nos shows. Ele não suportou a ideia de eu não ter tocado “De um bando”. e ficava meio bobo. Nosso guitarrista era o Escobar. e nós: “vamos tomar banho”. Foi bate-lata do primeiro ao último acorde do show. performance tinha que ter.

fizemos um show bacana. O Nenhum de Nós subiu pra tocar. eu tinha que subir ao palco na hora que entrava a parte do acordeom. São Paulo. . Em 91. se os caras já estão tocando há horas?!” Daí eu falei pro cara: “mas é que eu entro agora!” Derrubei o segurança e corri pro palco. no Hollywood Rock. Kako Kanidia: Na época em que a Maria do Relento estava começando o contrato com o selo Banguela. E ele disse: “como vai tocar. Passava gente pelada. filho da puta!”. apavorado. em cima de uma pedra. respondi. Em cada barraca. Era o Mountain Rock Festival: várias bandas da Argentina. fomos dormir. O dia estava amanhe-cendo e aquela fumaça.. O camarim ficava embaixo do palco. Foi uma transição.. Uruguai. só que tem que ir de barraca”. João Vicenti: Sou do interior. Tudo que é droga possível circulava dentro daquilo. querendo saber: “onde é que tu vai?!” “V ou tocar”. tocando. Quando subi as escadas. achando que ele vinha atrás de mim. quando chegou perto da minha parte. Orgias. Mas. grosso barbaridade. mas nunca me passou pela cabeça mudar a noite da apresentação. ganhamos passagens e o direito de botar a barraca lá. A banda estava legal. Eu sabia que o público não era o nosso.. Nino Lee: Eram umas seis da manhã. Como banda do evento. O único espaço disponível era atrás do palco. me dirigi ao palco. sexo e rock’n’roll. Quando chegamos. Ou seja: a gente estava dormindo tudo torto. enquanto eu fiquei ali. todo mundo estava liberado pra fazer o que quisesse. Em São Paulo foi um caos. Luciano Loira: Não conseguiram hotel pra banda.Humberto Gessinger: A apresentação dos Engenheiros antes do Nirvana. mas o público jogou lata na gente o tempo inteiro. fizemos um show em Santa Catarina. um som e uma tribo. Rio. Não tinha público assistindo o show – mas a banda estava lá. veio o segurança. Eles faziam uma versão death metal do Midnight Oil. no Largo Glênio Peres. teve muito a ver com uma discussão sobre ditadura do aplauso. na gravação do clipe da música de “Tente Outra Vez”. Era meio como um jogo de xadrez. Acabou a música e escutamos lá de longe: “vai dormir. todos os lugares já estavam ocupados. Então. Muita barraca e só loucos.. Era um momento da história em que se devia dizer: “tô presente”. beirando o astral. “Querem ir? Vai ter cachê e tudo. bem tranquilo. por todo o gramado. Só que nisso começou a tocar uma banda de death metal da Argentina. E não havia policiamento. Então. E muito som. tomando uma cervejinha.

pra finalizar.. que era nosso baixista. como é que é esse troço de pirulito?” Mano Sonho: Os Acústicos & Valculados tocaram na festa de aniversário da Tanara e da Dani. estou com o meu pau – e mole. na Dr. E me lembro bem da . foi horrível: os instrumentos desafinados. Mandamos o disco pra um amigo de Livramento. E eu cantei “Epilético” inteira.. com várias bandas gaúchas. com o pau mole pra fora. No final. e a Doiseu Mimdoisema estava no meio da história. entrei. Era o campeão de cair da bateria. queria me esconder. estava de samba-canção. de robe. chorando e falando assim: “aquela guria entrou na minha vida. de repente. E saí correndo. tudo uma merda total. E ficamos no Hotel Jandaia. e estava o Moreira escorado atrás da porta. que largou nas rádios – e elas começaram a rodar. eu sou um bluesman. que era tipo o líder de uma seita apocalíptica e detonou um metrô de Tóquio. do Black Sabbath. Fui entrar no banheiro e.” O Moreira primeiro tocava bateria. Aí peguei uma caixa de pizza. depois que ele começou a tocar guitarra. Nossa música “Jungle Rock” ficou umas três semanas entre as mais pedidas. na parte pubiana do ser. na hora do show. tocamos uma música onde a gente misturava “War Pigs”. mas que acabou se estendendo a toda a raça.. Nós estávamos tocando e. o pessoal está achando engraçado!” Quando eu olho. E a Comunidade fez uma participação – acho que era a primeira vez da banda com esse nome. quando tentei abrir a porta. Terminou o show. patrocínio do Ballantine’s. e cantei o resto da música com a embalagem na frente. eu sou um bluesman. Mas era na melhor boate de Livramento. Tirei o robe e fiquei só de cueca. eu estava tocando “Epilético”.. O palco se abriu enquanto ele estava tocando. aquele cara gordão. A Katia Suman veio: “não. e nosso camarim era o banheiro.Gonow: O Barba Ruiva e os Corsários saiu naquele vinil Assim na Terra como no Céu. não. de barba. Mas eu: “ah.. ainda – pra fora. junto com Sangue Sujo e mais aquela cambada toda. Daí. O que eu não me liguei é que a samba-canção tinha aquela abertura ali. O Gustavo Steffens. Eu fiquei muito impressionado com aquilo: a gente tinha meio que um preconceito contra os amarelos – contra os chineses em especial –. sumiu o Moreira. Aí. não. Timóteo. o mesmo que a seleção ficou na Copa América.. toda banda perdida. E. cantando e me sacudindo feliz e todo mundo rindo. no meio da música. e tirou uma onda: “e aí Diego. ele despencou no chão! Diego Medina: A Ipanema bolou um troço com a MTV de fazer um mega show no Opinião. estava fazendo o primeiro show da vida dele. tudo televisionado pela MTV . com uma letra que eu fiz em prol do Shoko Asahara. fomos pra lá. Eu forcei. Mas não foi uma participação muito comprida. que estava dentro do camarim. tu não vai fugir” – com o microfone aberto. no meio da música. no Barbatana Rock. estava trancada.

às custas de uns trocados que consegui emprestado de um amigo. A música era “Empregada”. mas o pessoal muito camarada. o Eric Thomas. Santa Catarina. no nosso caso. a gente toca.. e ele disse: “só que tem uma coisa cara. a gente vai tocando pro pessoal poder cantar”. gravada no estúdio Live da Vicente da Fontoura. rápidos e toscos. de simplicidade. Chegamos lá: o lugar era uma toca de cobra. E visualizo uma amarela. Monga: Nessa época a Pietà se apresentou em Assunção. tirando a saia. Mas. por se acharem mais importantes do que são. Eu não sabia o que dizer pros sudacas e apenas ri. Isso aconteceu em Chapecó. a banda voltou”. Essa época foi marcada pelas apresentações no Fim de Século e Porto de Elis. A demo daquele ano era a Metropolis Bases. tipo assim: “se vocês querem que a gente continue tocando. da banda Emilio e Moura. o Orelha assoou o nariz com uma folha da alface da salada. uma banda que fica aberta às pessoas. O Soneca era o baterista. Normalmente os caras se isolam ou têm aquele papo meio besta. Formaram uma fila. Orelha: Éramos pesados. e tinha umas oitenta pessoas. no Paraguai. Um deles ligou pro Alemão pedindo um show. mas daí vocês façam uma fila e venham um por vez cantar aqui”. meio distanciado. Alguns artistas são naturalmente reclusos em função da sua loucura. Nos levaram para tomar umas cañas e comer algumas especiarias locais. todos tinham muito esse perfil. não sei de que origem.gente no palco. Acabou tendo um clima de celebração. Mas umas sessenta sabiam todas as nossas músicas. Foi um show coletivo: tocou a Repolho. E o cara: “aahhh!” E o Alemão falou também: “e tem outra coisa. de festa. A Graforreia sempre teve esse caráter de interação. Carlo Pianta: Existe um núcleo de fãs da Graforreia. o pessoal da banda Repolho. Nos consideravam os estranhos no ninho. . Foi uma coisa legal. E esses caras nos acharam. eu usando uma saia. De abertura. a banda terminou”. E os caras: “êêêêê!” Daí a gente fez o show. Outros são assim por estilo. pulando e curtindo muito aquele bolo! Frank Jorge: O Alexandre gostava de pegar o microfone e dar uma letra sobre alguma coisa durante os shows da Graforreia. E todo mundo queria cantar. Fughetti Luz: Um grande show do Bixo da Seda foi a reabertura do auditório Araújo Vianna. Monga: No ano de 93 o Orelha voltou a tocar na Pietà e proporcionou os casos mais medonhos.. do jeito de ser. E dissemos: “enquanto tiver gente que saiba cantar a letra. Tem gravado na fita de vídeo “Pietà Live in Paraguay”. de Chapecó – pessoas que gostam bastante de rock gaúcho. O show foi especial.

pela Vasco da Gama. Fomos direto pro café – que não tinha nada pra comer. que a mãe do meu namorado usava. Sempre mesmo! Desde o primeiro. já eram cinco da manhã. subi toda a Independência até o Fim de Século. . lá na frente. Fui falar qualquer coisa pro público: “e aí.. Só que o meu número era 46. sozinha. e eu só gritava. que não aceitou e deu um socão na cara dele. com aquela roupa apertada. O Mimi fez uns arranjos de sopros. Mas eu disse: “o que é isso? E a minha reputação?” Dizem que eu já fiz strip em show.. que era o baterista.. Fizemos o show e. sempre choveu. O cara que cuidava desse hotel era famoso na cidade pelo seu temperamento: o Vaca Louca. tocando junto com a banda marcial do colégio Santa Catarina.. Mas quando ia ser a finaleira. E aquela gurizada tocando pra caralho! E tinha umas gurias da banda marcial dançando junto comigo no palco. que tinha um dia classificatório e a final no dia seguinte. Gaby Benedyct: Toda a vida.. Foi uma coisa muito louca. e o João. vi aqueles cartazes. o baixista que tinha feito os cartazes. de Cachoeirinha. e as duas bandas entraram juntas no som.em Porto Alegre. No segundo show. grandes arranjos! Cléo de Paris: Teve um show da Acretinice me Atray.. E saí andando por toda a Oswaldo Aranha. o que é que eu vou fazer aqui em cima?” Cheguei e disse o seguinte: “e aí. em todos os meus shows como Benedyct. E arranquei todos os cartazes! O Márcio. número 42. Queríamos que todos odiassem o show.. ficaram putos comigo. Então fiquei com uns peitos desse tamanho! Chegamos no palco e a guitarra não ligava. Os caras nos explusaram do palco porque só queríamos fazer barulho. Minha roupa era um espartilho branco. A mulher que atendia botou meia dúzia de biscoitos na mesa e não voltou mais! Então o produtor da banda foi reclamar. galera!” E todo mundo: “puta! Vagabunda!” Eu pensei: “meu Deus. O Frank Solari se apresentou primeiro e depois entramos. caiu um toró que tirou as telhas do negócio e inundou o palco. os guris inventaram um cartaz que estava escrito o seguinte: “Benedyct Eskine no show ‘Prostituta Venerada como Santa’” Eu cheguei em Porto Alegre – morava em São Leopoldo –.. meu primo. quando voltamos pro hotel. Todo mundo me amou! E é claro que nós fomos pra final no outro dia. Resultado: todo mundo ganhou o festival. lá por 96. e ficamos num hotel. Foi clássico. no Estação Zero. Cada um tocava uma coisa. mas eu não fiz! Mas eles ficaram tão brabos que fizeram outro cartaz e tive que colar tudo de novo. Paulo Arcari: O TNT foi tocar em Erechim. vocês querem leite?”. num concurso de bandas no IPA. e justamente pro Vaca Louca. onde era o show. inclusive pra música “Bixo da Seda”.

Eu pensei: “bah. e disse: “quem é que vai descer?” Decidimos: “vai o roadie!” O cara desceu. O roadie puxou o Júlio morro acima. um frio horrível. pra tocar com a gente num show no Garagem Hermética – tínhamos uma banda chamada The Clones. que eu quero mijar!” O motorista parou perto de um barranco. e uma voz respondeu. Pra todo mundo! Acabou não rolando som nenhum. descobrimos que o equipamento eram aparelhos três em um. junto com o artista plástico Nelson Magalhães. Festa Preza. Tu não conhece esse cara!” Luís Henrique Tchê Gomes: O TNT viajou um dia inteiro pra tocar em Itaqui. vocês me salvaram. uma estrutura de papelão e madeira que transformou o teclado num piano de parede. Eu tocava guitarra e piano e a Mariana. pessoas se degladiaram em frente ao teatro pra tentar entrar. Na verdade. e encontrou o Reny grudado numa árvore que dava pra um abismo de vinte metros – era a árvore e o penhasco. pelo menos pra quem estava vendo de longe e no escuro. enquanto mandávamos um jazzinho do Tom Waits. Até uma capa de Playboy esteve lá. e nada.V oltei correndo e chamei a rapaziada: “seguinte: nosso produtor tomou um soco na cara agora. o Flavio Basso e sua então namorada. nós tínhamos um teclado. Nós gritávamos por ele. Entre outras coisas que aconteceram durante aquela fatídica noite. então vou lá!” Desci. Ele desceu barranco abaixo. berramos: “Júliooooooo!”. No final do show. baixo e piano. de baixo: “tô aqui!” A gente se entreolhou. vocês me salvaram!” Francis: A Jkbak promoveu uma festa junto com a finada revista ZE no teatro Nilton Filho. e a gente: “cadê o Júlio? Sumiu!” Isso no meio do mato. em 97. Nossa vocalista. em 97. e tinha um camburão. a Mariana montou. enquanto outros lá dentro enlouqueciam com os “docinhos” da confeitaria Tosca’s. e não um piano. O cara da recepção me olhou e ainda disse: “tu vai ver é quando o homem voltar e meter a mão na arma. no ápice do show. no meio do nada e em plena madrugada. e o Júlio Reny disse: “pára. chegaram até nós: “bah! Que do caralho! Como que vocês subiram as escadas do Garagem com aquele piano nas costas?” Régis Sam: Os Cowboys Espirituais estavam voltando de um show em Caxias. Era um piano. e ele pedindo desculpas: “me perdoem. Eduardo Normann: Convidamos o Zé do Trompete. Quando chegamos. e foi barrada. com o Vaca Louca e o cara da nossa banda indo pra delegacia. Depois. era o nome. pra ficar bonito... lá na recepção!” Ninguém acreditou. Carlinhos Carneiro: O primeiro show da Bidê ou Balde aconteceu no dia 10 de dezembro de . a Magra Mariana. Mas. ainda fez um strip tease super cool.

uma gurizada subiu no palco e começou a fuçar nos instrumentos. o Rossatto e o Cavera. Passamos o som e a banda toda saiu pra jantar antes do show. Carlinhos Carneiro: A Bidê estava voltando de um show em Gramado numa van. João Vicenti: O Nenhum de Nós estava se apresentando no sul de Minas Gerais. ele terminou cortando a mão. do apoio oficial. Seria na base da cooperativa: os custos do evento seriam rachados entre as bandas e. vestido de camisa com gravata e calça social. encarregado de cuidar os instrumentos. na hora que deu a porrada na mesa com a garrafa. duro de bêbado. Tudo em clima de irmandade e descontração: sem toques. enquanto ele ria nervoso. Sempre viveu à margem de tudo: da mídia. Luís Motta: A partir de uma visita do Paulo Brody. ficou lá.. a ex-vocalista da banda. E eu lá na frente. Quando voltamos pra buscá-lo. Acho que foi uma das iniciativas mais verdadeiras e descompromissadas com qualquer grupo ou grupos que essa cidade já teve em termos de rock. o Cau pegou uma garrafa de refri e quebrou na mesa – só pra dar um susto neles. seria a anfitriã de todas. o André. acharam o momento certo pra criticamente rir do tamanho e do estado físico do membro do rapaz. com o nome de “Projeto 10000 e Uma Noites”. Aconteceu que. Bem. Os shows começaram a acontecer no Teatro de Arena. Lá pelas tantas o Rossatto.. A coordenação passou a ser feita pela Suely e o projeto sobreviveu por quatro anos.. E sucumbiu porque não havia mais como sustentá-lo. . Que esperteza!. tentando acalmar o motorista: “é foda! Os cara são sempre assim!”. porque a guitarra.. resolveu que era a hora certa pra abaixar as calças. O Cau dizia pra eles: “tirem a mão daí!” Mas eles respondiam: “nós somos os filhos do prefeito!” Ele insistiu: “vocês não podem tocar nos instrumentos!” Os guris insistiam: “mas não. muita mesmo. nosso roadie. surgiu a ideia de criar um projeto onde as bandas se apresentassem sem critério de seleção algum. depois que saímos.” Então. meio apreensivos: “o que aconteceu... Foi uma pena. Então o Cau consertou: “estão vendo?! Se eu faço isso comigo.1998. sequer metafísicos. a Katia. Mas o Cau. no bar Virtual. imagina o que eu posso fazer com vocês!” E os piás fugiram. A Kátia e a Gisele. porque muitas bandas que estavam começando suas carreiras deveram isso ao 10000 e Uma Noites. Cau?” Ele nos contou que.. Nós perguntamos. ex-vocalista da 10KPNR. a coisa cresceu tanto que nós acabamos deixando de ser os anfitriões – mesmo porque tinha muita banda. Éramos cinco: Eu. ele estava lavando um corte enorme que tinha feito na mão. E eu estava muito bêbado.. a então chamada 10.000PnR. rapidinho. Só que eu estava tão bêbado que não consegui dar o nó na gravata. que era rotineiramente um ponto de cocaína.

Os Malvados Azuis estavam começando.Luis Motta: A 10KPNR foi convidada pra abrir um show de uma importante banda gaúcha em Novo Hamburgo. mas desde às oito eu já estava bêbado. que se podia ouvir um alfinete caindo no chão. Alugamos uma van. Tínhamos um esquema bem armado: camisetas. os pseudo-artistas. que era o vocalista. o melhor é assistir o show da plateia mesmo. e tivemos que esperar uma hora até vir outro transporte. Na hora de irmos só estávamos nós. . Ficamos hiper faceiros. por estar em cima do bumbo. A gente tocava no chão e levava choque dos microfones. poderíamos ser convidados pra abrir outros shows deles. Rafael Rossatto: Na primeira vez que a Bidê ou Balde foi pra São Paulo. Carlinhos Carneiro: Esse show foi um dos mais legais. Beto Bruno: Era época de Natal. um cuspe. o Bidê e o Balde?” A própria gravadora não tinha noção de quantos éramos. O show era pra iniciar à meia noite. Era onde o dono do bar dormia. a grava-dora mandou uma van buscar a banda no aeroporto. umas pessoas me cederam algumas doses de cocaína também.. Os caras acharam que eu era poser. A banda chegou às seis da tarde no bar pra passar o som e. lista de músicas bem escolhidas.. Chegou uma towner – que não cabia todo mundo. Enfim: entrar pra uma seleta panela de mega stars! Os caras chegaram.. Ele morava no bar também e de lá só saíram pra passar o som e pra ir ao show. que se alojou no botão de volume da minha guitarra. Um pouco antes de começar o som – eu estava desanimado de tanto trago que tinha tomado –.. nesse meio tempo. A Katia tocava espremida e o Rossatto estava numa situação terrível: tocava a guitarra de lado. Aprendemos que quanto mais famoso for o artis-ta principal. Não era público de rock. Tomamos por que pagamos a van sozinhos. O cara perguntou: “mas não é uma dupla. e os Malvados Azuis tinham um show marcado num barzinho de quinta categoria em Soledade. afinal era uma grande chance! Estávamos esperançosos. E começamos a tocar pra um público muito popular. Na hora do show.. fui presenteado com uma substância orgânica verde. começamos tocando a primeira música e o entusiasmo do público era tal. Porque. Não tinha palco e o chão tinha três centímetros de água. Eu tive que subir em cima do bumbo pra conseguir cantar.. Sete pessoas mais o motora: oito. se os caras gostassem de nós. Eu. e se dirigiram pra um pseudo-camarim. queimamos muito fumo. que iria ser rachada com os integrantes da banda e uns poucos amigos que também queriam ver o show.

encontrei o velho num elevador. Na quarta. as bebidas também. Porque disseram a ele que esse era o canal. Lucio Dorfman: O nome do Bar era Frida’s. porque eu não tenho mais nada. se abraçava na gente.. Comprou um ultraleve novo. Alguns não comeram. Nunca tinham visto pessoas tão arrogantes dormindo ao lado do menino Jesus. o Rossato chegou dizendo que tinha marcado um show num bar na praia de Atlântida Sul. Estava completamente bêbado. E o dono. E nós caímos lá pra tocar no dia da inauguração. passando pela praça principal da cidade. e o cara já com uma arma em cima da mesa. ficou com o bar e se deu tri bem.. eu já não conseguia cantar mais nada. recebemos a informação: “devido ao show que fizeram. Fomos então tocar no Eletrosfera. Tínhamos comido as gurias nesse intervalo na rua. mas não sabia nem o que fazer. Quando Soledade acordou. Bebemos muito e tocamos pra ninguém. Então fomos pra um segundo hotel. que se chamava Frida. Mas ficaram uns maluquetes da cidade nos dando força pra continuar. inclusive. Acabou que a polícia ficou sem vontade nenhuma de nos prender e nos manter naquele distrito. o cara fez o pé-de-meia dele – e ele chorava. Ele vendeu o tal do ultraleve e mais um monte de coisas pra abrir o bar.Estava legal a primeira. vocês não podem entrar aqui”.. Passou um cara de carro. Alguns meses depois. O bar era mais ou menos assim: duas geladeiras tipo frigidaire cheias de ceva mexicana.. a polícia invadiu o lugar. Imediatamente respondi: “provavelmente da Amway”. Tudo que tenho está dentro desse bar!” E nós: “bah! Que roubada! Chegamos aqui sem saber de nada e o cara pronto pra acabar com tudo”. o papo já estava chato. E nos levou pro trevo da cidade. Foi quando. Tomamos toda as cevas e fugimos depois do show. no presépio.. Terminou que nenhum hotel nos queria. Mas demos um pé quente: lotou o bar. Quando fomos levá-las pro hotel. Também não nos quiseram. E barrou o show. tinha um ultraleve. talvez uma ou duas pessoas. Acabamos nos encrespando com umas gurias – de péssima reputação. Respondemos: “então vão pra puta que pariu! Vamos pro próximo hotel nessa cidade de merda”. Já estávamos conhecidíssimos na cidade. também não. Ele falava que o bar era afudê e tal. . parou na frente e pediu Cascavelletes. Ele perguntou se me conhecia. Lá pela oitava música. Nossas drogas acabaram. o Eletrosfera. a terceira música. E ele: “se isso der errado eu me mato. O cara montou o bar. vimos um presépio em tamanho natural – e resolvemos dormir por ali. e um velho que era o dono. a segunda. Francis: Em um ensaio da Jkbak. Chegamos. Ele disse pra gente anotar o que bebesse.. um globinho no teto feito com uma bola de isopor e um motor de batedeira. Em um terceiro. tamanha a obscenidade das letras que eu já estava inventando. as pessoas que passavam na frente da praça se deparavam com toda banda dormindo junta.

a Black Master. Tentamos chamar a polícia. Kako Kanidia: Um cara quis patrocinar um show da Maria do Relento em Soledade. resolvemos fazer o mesmo.. que também era o dono do bar e policial. Eu não vou entrar nessa roubada. E disse que a polícia não ia. todo mundo encharcado e o carro de som nos xingando. O motora amarelou de primeira e disse: “tirem tudo de dentro. Estava anoitecendo e resolvemos botar tudo dentro do ônibus e sair por trás – mas eles descobriram e cercaram o hotel.. O show foi horrível. E digo uma coisa: se eu fosse vocês. Desmaiei na bateria dele. Com o meu ônibus vocês não saem”.. eu e o Zé Darci. E depois viu o show e achou legal! Tonho Crocco: No terceiro ou quarto show da Ultramen. O mais engraçado é que a banda que foi tocar com a gente.. Só me lembro o cara dando um tapão na cara do Peru. Ligamos pra cidade vizinha.. Nosso ônibus arrancou e o velho saiu correndo atrás com o facão: “meu transformador! Meu transformador!” Marcito: O Peru é um saxofonista.Lucio Dorfman: O produtor foi conferir o local de um show dos Engenheiros no interior e disse que não havia a menor condição de rolar. que nunca ninguém ia querer roubar. Acabou o show na terceira música. desce pra conversar!” E os caras já embalados na cachaça. O Peru saiu pra rua. Já estávamos dentro do ônibus quando chegou o velho açougueiro e perguntou sobre um transformador: “cadê o meu transformador?! Alguém deve ter pego!” Um transformador de geladeira.. Fomos tocar em Gramado junto com a Comunidade Nin-Jitsu. porque eu não garanto a estrada”. que estava desde o começo da Ultramen. velho. nosso batera.. E agora? O dono do hotel queria nos expulsar. Era uma dificuldade achar um banheiro na boate. nós vamos tocar de qualquer jeito. porque eu já estou indo embora. Os caras já falando de arma. Grande merda!” Aí. fazia o show.. não vão devolver?” O velho foi pra dentro e voltou com um facão. mas o delegado era justamente o pai do cara que tinha nos contratado. viu. estava num espírito assim: “claro. e disse: “bah! V ou mijar nesse buggy”. viu um buggy. Só tinha um sujeito cuidando do som: usava uma camiseta curta e a barriga saía pra fora.. tomamos umas cachaças... no verão. Mas o dono do carro. Mas a sonorização era muito podre. e o delegado disse: “ó.. Ele fez o Peru limpar o carro com o moletom. no fim da história. E o hotel cercado de malucos. Aí. porque estava com medo que destruíssem o patrimônio dele. Mas ele não desistia: “ah. Júlio Porto: Teve um show da Ultramen no Fim de Século – só que era uma noite do rock. eu só posso escoltar vocês da saída da cidade em diante. O . os caras que nos contrataram chegaram na frente do hotel com um carro de som e abriram o microfone: “Engenheiros! V ocês não vão sair daqui hoje! Vai ter show nem que vocês não queiram! Ô Humberto. Apelidamos ele de açougueiro.

Os caras começaram a dar mosh. Fomos pro camarim. e estava todo mundo feliz. na beira do Guaíba. Tanto que a gente fez uma música em homenagem a isso.. passava pra terceira parte e acabava antes de todo mundo. Pedro Porto: O meu baixo quebrou.. e não conseguiram fazer o show. Pedro Porto: O primeiro show da Ultramen foi num palco em Ipanema. no show da Ultramen na beira do Guaíba. E nisso chega um dos roadies: ele tinha dado uma garrafada na cabeça de um cara que tinha mexido com a mina dele. Uma coisa até meio engraçada... ou de um amigo dele. impecável”. Eu desci do palco e um cara.. O Tonho tomou um litro de cachaça e caiu em cima do baixo novo do Pedro – que quebrou. e disse: “como sempre. A partir disso tiveram shows antológicos no Porto de Elis. Ver o que a nossa música estava fazendo com os outros. Borboleta Negra. Começou uma briga. chegou pra mim. Júlio Porto: Foi uma coisa emblemática. A primeira vez que eu vi um cara fazendo isso na minha frente entendi o que era a música. Deu um baita bolo. completamente alucinado. Tivemos que sair escoltados de São Leopoldo. Uma churrascaria toda . Pra se ter uma ideia. com a banda sendo culpada pelo ocorrido. perguntou meu nome. o que era o troço. Tonho Crocco: Rolou um show tranquilo da Ultramen no Expresso 356.Tonho e o Zé Darci tomaram umas cachaças. que tocava guitarra numa banda. Malásia: Os caras queriam dar um pau na gente de qualquer maneira.. em 92. O cara se espiou – ele não sabia o que era mosh. Os donos do som se apavoraram com aquilo – e desligaram tudo na segunda música. Dava pra ver do palco os caras jantando. O Zé começava a música. Van Gogh.. porque pensavam que tínhamos mandado o roadie dar a garrafada no parceiro deles. Quando tu via tinha 20 carinhas da turma querendo nos pegar. Mini: Uma das maiores furadas em que os Walverdes se meteram foi num lugar dos mais insólitos: uma churrascaria de Santa Cruz. Pertenciam a esse time também a LORDS. Um amigo nosso já queria bater nos caras do som. Pedro Porto: O cara era meio que campeão de jiu-jitsu. que estava cheirado.. Começamos a tocar e o público subia no palco pra se jogar. Tinha gente armada. O promotor do show. chegou lá e desligou o som. O Tonho caiu em cima.. Acabou. tinha um time de futebol de salão almoçando na nossa frente.. que é “Mosh It Up”.

não entendi nada. mas ele não entendeu. Lá pelas tantas. fazia muita bagunça. foi num show em Santa Maria. Pepe Perurena: O momento mais estranho da Winston até hoje. umas três vezes. de jeito nenhum.. O cara só avacalhava: me abraçava. e então logo depois tivemos que voltar. “Mr. nosso guitarrista. quando percebo que tinha um neguinho tocando junto.. dos The Platters. a là Bon Scott. na frente do palco improvisado onde nós tocávamos. Saí.iluminada. meio sem motivo aparente. Tivemos que parar o show por causa da luta. o nosso roadie ergueu o cara do chão – e ele partiu para cima de mim. O curioso é que ninguém fez nada e prosseguimos até o fim da música. Minha impressão é que alguém tinha agredido o cara nessas brigas de bêbado. o deixei tocando e assisti até o fim do show da plateia. No final. Postman”. depois do nosso produtor ter dito que não éramos uma banda cover. Tinha um monte de gente rindo. Depois ele disse que queria tocar. na minha batera. Isso. um cara empurra outro contra a parede e começa a empilhar socos até o coitado cair estatelado no chão. Que durou tri pouco. Depois ele ainda veio pra cima do Dudu. alucinadamente. Fiquei sem reação alguma. engrossou com a gente pra tocarmos de novo. pra tocarmos Beatles. Peter Francis: Estava tocando bateria num show do caralho em Canoas. repetido umas quatro vezes. gritava. perplexos. no meio da canção. junto com meus colegas de banda – outros caras tinham feito a . Mas fomos pra rodoviária esperar o ônibus – dormimos lá. até que um cara totalmente bebum apareceu. com a cara ensanguentada. Não tinha muita gente – e ainda por cima ainda estava passando a luta do Mike Tyson naquela noite. No início. Mas o bizarro foi que isso tudo aconteceu no meio de uma música chamada “Uma Pessoa que eu Possa Machucar”. e caiu em cima de mim e do microfone. o dono do bar queria que dormíssemos na casa dele. e tocar mais uma hora e tanto. Não queríamos. Nosso roadie veio dar uma ajuda pro bêbado. Ele achou que eu teria agredido ele! A turma do deixa disso segurou o cara e impediu que mais uma cena de pancadaria acontecesse. Quando acabou. A gente tocava pra um público meio apático. tocamos umas cinco. E o dono do bar.. Dudu Magalhães: O refrão era apenas o título da música. que recém tinha saído da cadeia por assalto a banco.. ficar na casa do assaltante. Já tínhamos tocado uma hora e pouco. Uma coisa horrível! Os caras vinham na beira do palco e ficavam pedindo: “toca Paralamas! Legião!” Tocamos uma versão rápida de “The Great Pretender”. Pensou que o roadie queria bater nele. Até hoje não sei ao certo o que aconteceu. Me senti um dos Stones tocando “Simpathy for the Devil” enquanto os Hell’s Angels espancavam a plateia.

Um dos organizadores disse que ia buscar. num show em que o palco nada mais era que o terreno de uma floricultura. Quando chegou às onze da noite. até não aguentarem mais. teve que tocar com o Kiko. O Kiko ficou o show inteiro segurando o cabo da sua guitarra. próximo à Florianópolis. Uma coisa afudê.. O público invadiu o palco. Chegamos às seis da tarde pra passar o som e os neguinhos não tinham nem transformadores. E nós ficamos ali. Não aguentávamos mais ficar naquele ônibus. dirigindo o meu carro.. engessada. fomos convidadas pela revista Rock Brigade pra representar o Rio Grande do Sul num festival em Massaranduba. Repetimos umas oito vezes o refrão de “C’mon Everybody”.. “Vamos lá. esperando e esperando. Foi aí o primeiro show dos Acústicos & Valvulados. cantar ‘Jesus Cristo vai voltar’!”. com o Heron. Estávamos apavorados. Foi uma experiência punk. C’mon Everybody!” Todas as 150 cabeças. cantava junto: “Uuuuuuh. por causa de um casamento que estava acontecendo no clube: “vocês só vão jantar depois que eles se divorciarem”.. A gente montou todo palco e nada de chegar os transformadores. embora eu já tivesse tocado sax antes com os Replicantes também. resolvemos desmontar o palco. cheio de brita. Um nervosismo. Uma delas foi em Sapucaia. Aí fui. Ficaram tirando onda da nossa cara. Eu estava acidentado. Saímos de Porto Alegre na sexta.. incluindo a gasolina.. nossa guitarrista. Então os caras falaram assim: “oh. O equipamento falhou e a Rosane.mesma coisa com eles! Rafael Malenotti: Sociedade Itálica.. quando só faltava o bumbo. mas sobrevivemos. foi a nossa resposta.. Depois disso. Rafael Malenotti: Uma das aventuras mais insólitas que os Acústicos tiveram foi em Carlos Barbosa. Eles responderam que iria demorar. muito afudê. às sete da noite. perguntaram. Tinha uma piscina com quinhentas garrafas de cerveja pra cento e cinquenta pessoas. eles insistiram. “Nós estamos indo embora dessa merda!”. e fomos perguntar sobre a janta.. baixista dos Replicantes. Os caras só se deram conta que estávamos desmontando tudo.. Ficamos com fome. peguei as muletas e fazia o solo das músicas com elas. e a galera fissurada em rockabilly. . mas fui. que show chalaça! E uma chuva! Lá pelas tantas. ajoelhado ao lado da Rosane. “Aonde vocês vão?”. King Jim: Os caras da Sangue Sujo ligaram me convidando pra fazer uma farra num show em Osório. e chegamos lá às seis da manhã de sábado.. mas não pode! Agora vai começar a chegar gente pra ver o show!” E nós: “então manda todo mundo pro casamento currar a noiva!” Tati: A Narciso já passou por umas boas. O cachê era de duzentos reais. vocalista da Tarcisio Meira’s Band. E bah. A perna toda fodida. todo mundo bêbado. no Bom Fim..

Chamávamos outro cara. do tamanho do Garagem Hermética. Quando ele retornou. O Flávio pegou. um lugar muito grande. o Pablo. nem pessoas. Nós éramos requisitadas pra tirar fotos em várias barracas. mas pelo trabalho de divulgação da nossa guitarrista. e arranjava uns locais legais pra gente tocar.. No outro dia. ganhei uns quatro pares de baquetas. E as pessoas olhando pra ele. tocava um pouquinho e saía. transformado. e os caras colocavam perto dos produtos com um cartaz dizendo: “A Narciso veio aqui!”... Quando chegamos não havia muitas bandas. que parecia Woodstock.. A Urro. Pra essa segunda noite. Uma tietagem sem tamanho. Fomos dormir. Tiramos muitas fotos nos stands. Uma hora. o Daniel e o Zé do Trompete – nosso Alceu Valença do jazz. então o bar lotou. Em troca de alguns autógrafos e fotos. fizemos um ótimo show.. o Rafael. tipo baile. botou óleo e limpou o trompete. naquele dia. todos já sabiam que a Narciso era a atração do local. Flávio Miguel!” Ele subiu no palco. e: “nhhheeeeep-ehhhhh-nheeeeeeeepppp!” Foi uma coisa horrível. No sábado à noite. mas tem umas batidas eletrônicas. Então nos convidaram pra tocar numa rave. dávamos autógrafos. No domingo pela manhã. Abrimos o espaço pro pessoal da cidade tocar. nessa época. Teve muita festa com as bandas dos outros estados – e éramos a única só de gurias. A única banda que tocava fora do circuito Independência-Oswaldo Aranha. o Rafa.. Não só pelo som. e a gente tocando “Taj Mahal” numa versão de baile. era eu. Marcelo Guimarães: A Fu Wang Foo é bem rock. que eu chamo pai. Sei que o solo dele acabou com o show. César: A Urro era legal.. o cara pediu pra que tocássemos de novo. e quando acordamos. e as pessoas se recusaram a pagar o couvert porque acharam o show uma merda. a Alexandra. Mas. Então de repente vi o Flávio. ele fazendo um solo que parecia um elefante tomando um supositório em formato de abacaxi no rabo. Então eu anunciei: “e no trompete. estava com uma cara muito de sem-vergonha. em cima do palco. resolvemos tocar sem as batidas. o Felipe. ele dava uma canja e saía. Resumindo: os músicos de Caxias foram embora. Foi um domingo de verdadeiro glamour. na verdade uma fábrica. Numa dessas ele conseguiu um show num bar. íamos convidar uns músicos. o que era deserto virou um amontoado de barracas. O Flu também . O Flávio ficava de stand by. Algo fora do comum. Fizemos o nosso show pra umas cinquenta pessoas – o que pra Urro já era legal. porque acharam aquilo uma afronta. e a coisa ia virar uma jam session. tinha um primo que era de Caxias. Mas o dono do bar colocou um monte de biombos e fez o pico ficar tri pequenininho.. músico. pra aproximadamente cinco mil pessoas. abrindo uma maletinha e tirando de dentro um trompete.Uma Kombi da prefeitura foi nos buscar na rodoviária pra nos levar até o local. o Flávio sumiu da festa. Isso foi foda. Um dos caras.

Numa rave.estava tocando. saiu no jornal que a Fu Wang Foo era um ET no meio da galera – e ainda vieram com heresias desse tipo: “o rock não morreu”. na Ramiro Barcelos. Mas nosso amigo Cristiano fez um rótulo a fudê: um caipira loucão. Acredito que alguma criança tenha sido gerada aquela noite. Inventamos um tônico afrodisíaco. antigo Gotham City. No meio. e o distribuímos num show no Bartman. Quando entramos. e que começou o show. chamado Lollypop. que botou todo mundo pra correr. com chapéu de palha e macacão – alucinado. As pessoas ganhavam um copo do tônico e entravam em transe. . Na verdade. foi uma debandada geral. o tônico era um vinho branco seco produzido em Garibaldi. Eduardo Normann: Fazíamos questão de sermos diferentes na Molly Guppy: sempre rolava alguma performance absurda. dissemos pra aquele pingo de gente que tinha sobrado: “a gente veio tocar aqui porque o rock não morreu!” Dias depois.

Tinha uns nove dentro da viatura. O empresário era uma bicha de Porto Alegre – e não íamos dar comissão pra ele. Era 85. fui lá transar com uma guriazinha. Tudo rato da delegacia de tóxicos. Tinha uma salinha tipo camarim pro show. Ele era metido a galo. Tive que chutar e quebrar. finaleira da ditadura. Quando terminou. Fui em cana por excesso de documentos. A bicha ligou pra . Tinham um lugar lá que se chamava a “sala do limo”. Gelson Schneider: O Mitch foi preso em Santa Catarina simplesmente porque estava com uma menina. Escutava a noite inteira os caras berrar num pau de arara. eu e a Lory ficamos três dias presos no Palácio da Polícia. sem camisa. eu faço coleção”. e lá fomos nós pro Palácio da Polícia. Mitch Marini: Nós fomos expulsos de Timbó. como é que tu vai me prender?” E ele respondeu: “eu tenho pavor de gaúcho!” Gelson Schneider: Foi em Lages. e daí sujou. Veio o delegado e já queria me prender. Me chavearam lá dentro: eu batia na porta. Fomos fumar um “cigarro pra asma” no hotel. Esqueceram da gente. Víamos uma Kombi e nos escondíamos – era um sinal de que a polícia estava pintando. O rato abriu a carteira e disse: “pô. Então ele: “entra naquele fusca ali”. A Lory foi levada porque tinha um colomy dentro da bolsa. Os caras da lei pegavam uma raquete e dele raquetadas nos caras pelados! Mataram um monte de gente. Ele foi dar uns amassos no camarim. Uma sala inclinada e limosa. falei meio irônico. Basicamente. Uma cela meio eclética. mas é o seguinte rapaz: eu sou gaúcho. E os caras que estavam indo pro pau ficavam na outra cela. Os caras eram barra. Santa Catarina. tinha músico e travesti. mas ninguém escutava.JAILHOUSE ROCK Chaminé: Nos anos 70 tínhamos ojeriza à Kombi. E eu dizia: “pô. Fiquei três dias lá. Ficamos na cela do meio. no interior de Santa Catarina. foi uma tragédia. Quando saí. Os caras do clube acharam que eu estava louco. Estávamos num bar tomando uma cerveja e entraram os caras: “os documentos todo mundo!” Eu tinha uma carteira cheia de documentos. eu sou da fronteira. suadão e de mão com a guria. Uma vez. Os caras da cidade se invocaram – eles não gostam que o pessoal forasteiro transe com as gurias deles. Pra segurar o Mitch não era mole. tá bem de documento!” E eu: “é.

olha. Os caras fecharam toda a Barros Cassal – um tumulto. Um cara poderia estar armado lá dentro. polícia!”. Só que não acharam nada lá. Podia ter um cara com um saco de drogas que não teríamos como saber. A única coisa com que eles poderiam implicar era com os menores que frequentavam o bar. O papel da polícia em relação ao tráfico é nulo. polícia secreta da Brigada. E chegaram os homens. a polícia bateu com mandado.. Ele entra. Eu falei: “cara. A P2. nem é o show. O vocalista estava com a bandeira do Brasil. isso nem é música. E fugi. estava presente num show do Pupilas Dilatadas na zona norte. Mas com uma postura diferente. Ela esteve aqui depois da reabertura do Ocidente. numa quartafeira. atrás de outras coisas: foi o maior stress. Foi a primeira vez que a ordem dos músicos entrou no bar. faz revista. Fiapo Barth: A polícia vem. divulgavam na noite. e nem cobrou nada. Muita gente jogando coisas pela janela. Apareceu um cara e disse: “tu é o baterista?” Eu disse que sim. era besteira. Ricardo Kudla: A segunda vez que a polícia entrou no Garagem foi o seguinte: era show do Colarinhos Caóticos. Tinham uns fanzines. uma loucurada. Eles estavam com tudo: faziam os fanzinezinhos. prenderam pessoas. nem te preocupa.. Aquele gordinho clássico da OMB entrou no Garagem durante a passagem de som. naquelas: “vê se te liga. na noite. é só uma dublagem!” Aconteceu que ele acreditou.delegacia. Ninguém nunca era revistado na entrada.” O cara da ordem olhou e não entendeu nada. aceitável. leva um traficante. conscientização. . Mas. a Gaby Benedyct estava filmando. Ricardo Kudla: O declínio do Garagem começou com as batidas da polícia. Branca: Fui preso e intimado pela Polícia Federal. Foi por causa da música “Patente Universal”. Eu gostaria inclusive de mais policiamento. acabou o show e recolheram a fita da Gaby. Léo Felipe: O primeiro atraque do Garagem foi numa festa hip hop que o Piá fez. o bar estava atrolhado.. Cheguei lá e estavam o Mitch e o Jaime vestidos de Beatles numa cela. Eu sou totalmente favorável ao trabalho da polícia. polícia.. A gente não sabia quem estava lá. mas depois ele sempre aparece de novo. às oito da noite. E ele: “tá em cana”. cachorro pra todo lado. Tivemos que dar um troco a eles pra nos liberarem. Mas não deu em nada. tinha uma menina e dois caras. Desceram o cacete na rapaziada. os cachorros: “polícia. Fechou o bar. também.

Moa: Em Imbú. nós nos abaixamos. Estava frio. e não queriam saber quem tinha arrumado bolo. E pela ordem da apresentação das bandas. Começaram a bater na lataria. Cercaram o ônibus. O local era um ginásio pra cinco mil pessoas. E em alguns lugares o ônibus não conseguia fazer a curva. Só sei que paramos na frente da delegacia. uma cidade acidentada.” Carlos Gerbase: Foi um dos piores momentos da minha vida. O motorista engatou a primeira e arrancou. mas tinha um público razoável. e pegou o relógio de volta.. Então era complicado. uma cidade na montanha. que queriam a cabeça do cara. Isso gerou uma ira coletiva dos caras da cidade que conheciam o rapaz. Moa: O 365 tinha um baixista chamado Mingau. Pessoal do artesanato. Quebraram a janela do ônibus. O cara juntou o pessoal da banda. Só que ela tinha um namorado e o cara era enciumado. Chegamos na delegacia e os caras diziam: “olha. quando lançaram o primeiro tijolo e o vidro da frente se estraçalhou. na Serra Negra. tocou primeiro o 365. Ele mostrou a arma e os caras meio que se abriram. As três bandas estavam no mesmo ônibus. fizemos um show coletivo: Cólera. O motora ficou irado e tocou por cima deles. Os caras não deixavam a gente sair. E vai explicar pra trezentas pessoas em volta do ônibus. porque lá nós vamos estar seguros”. os Replicantes e depois o Cólera. Roubaram o relógio dele. Heron Heinz: A gente ficou sabendo o seguinte: que um dos caras do 365 estava namorando. pra esperar a hora de entrar em cena.. Tinha um monte de coisas pra você ficar fazendo. na frente do ginásio e com o Cólera tocando: não podíamos ir embora porque nós tínhamos que esperá-los. O clímax foi quando a gente estava no ônibus. Não estava lotado. Vamos enfiar vocês todos dentro da cadeia e chavear. E não deu outra: partiram pra . próxima a São Paulo. cercando. E vieram dois ou três guris e assaltaram o cara. Alguém teve a genial ideia de dizer assim: “vamos pra delegacia de polícia. montanhas. que encontrou o guri. não podemos fazer nada contra essa turma. ladeiras. Pra eles. arrebentando vidro. que estava no playground dando uns beijos numa menina. Eles partiram pra briga. deu um laço nele. E. O pessoal do 365 estava todo dentro do ônibus – menos o filho da puta que armou o negócio e foi embora de táxi. O ônibus estava praticamente cheio.. Ruas bem apertadas. Quase atropelou alguns: irresponsável total.. Assim pelo menos os caras não entram. Era cara se espalhando pra tudo quanto é lado e voando pedra. todo mundo era a mesma coisa.. Replicantes e 365. portanto. Olhei pra frente e o motorista tinha pegado uma arma. que estava toda a banda ali – menos o culpado! Eles foram cercando. Era uma cidade hippie..

quando terminou. não lembro quem era. Estacionamos o ônibus na frente. voltou pra se vingar. toda essa cultura do punk. A gente saindo do lugar e um cara de uma banda. conseguiu fazer uma transmissão pra Rota. trancou a porta. Era muita gente. por conta do Mingau. de repente. até porque era muita gente e eles estavam muito irados. E. O sistema de comunicação era uma coisa do século dezenove. que só tinha um policial – com uma arma estragada. Polaca: Eu me lembro muito do show dos Replicantes em São Paulo. Meteram uma bala no párabrisa do ônibus. Estava com a namoradinha numa praça que não conhecia. Irados mesmo. Porque lá tinha uma punkaiada legal. . Era um monte de bandas punk pedindo socorro numa delegacia militar paulista. e então a realidade brasileira se revelou completa e total. escura. Eu acho que foi um dos dias em que mais me senti perto da morte. ao mesmo tempo. Não sei como saímos daquela. que tinha levado umas bimbas do Mingau. E o pau comeu lá fora. E o Mingau atirado lá no chão. porque não vai dar pra explicar. Mas em seguida chegou o Cólera. E nesse show do Cólera – na cidade das artes em São Paulo. O Cólera estava no palco e a gente não podia sair fora. a gente não tinha como sair. A essa altura já estava um clima terrível. Aí o policial pegou a arma. Nós já estávamos indo em direção ao ônibus quando ouvi um grito: “são eles!” O produtor. Em seguida. Foi ligeiro. A gente quis se refugiar e na delegacia disseram: “nanã. pouco acima da cabeça do motorista. um estampido. A gente entrou e descobriu que o motivo da ira deles havia sido trocado: o problema era o Mingau. Demorou trinta minutos. E os caras atrás. pedindo reforço. A pancadaria era iminente. Imbú – pensei que fôssemos morrer. eles entraram pra fazer o show. um senhor japonês. E. E a ordem era: “parem de encrenca. Mas um vai morrer”. Os Replicantes e toda equipe foram ver o show do 365. Eles atacaram o nosso ônibus e jogaram uma garrafa na janela da frente. E fez! Simplesmente cercaram o nosso ônibus. não vamos nos meter”. Fechou tudo e botou a arma bem na janela: “que venham. Passou muito perto de mim. nós não podíamos nos meter. Talvez tenha sido a primeira vez que os punks. Que era o Mingau. o namorado daquela guria. foi assaltado na praça. Moa: Aí. que tinha conhecimentos de artes marciais. Houve uma perseguição. fiquei apavorada. O resultado disso foi fantástico. Foi o bastante pra ele ligar o ônibus e sair fora. Muito afudê. e foi assaltado.porrada. entrem no ônibus e vão embora. Roubaram o relógio dele e ele quis fazer um bolo. chegaram duas viaturas da Rota que nos escoltaram até São Paulo. E um monte de punks dentro do ônibus tomando todas. Eu convenci o motorista a nos levar pra delegacia mais próxima. Não deu tempo do cara contar o que tinha acontecido. com esses malandros aí. Eles querem um cadáver”. protegido por esse japonês e mais um corpo de seguranças. terrível. foram protegidos pela polícia militar – a que mais mata no Brasil. Quebrou o vidro e a garrafa caiu pelo corredor. nos protegeu e botou todo mundo pra dentro.

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que acabei vendo no cinema Cacique. chegou um momento em que começamos a preparar um excepcional disco. pela gravadora Continental. com aquelas janelas dos apartamentos do IAPI. Glênio Reis: Eu escrevi o texto da contracapa do disco do Liverpool. Luís Wagner: Éramos uns meninos. no Rio de Janeiro. o produtor cometeu uma irresponsabilidade fatal: ele perdeu a fita master da banda com todas as gravações originais! Foi por isso que Os Brasas não lançaram seu LP próprio nos anos 60.. foram os que inventaram a capa do LP do Bixo da Seda. Gilmar Eitelvein: Se for feito um levantamento dos primeiros registros do rock gaúcho – fora o que se chama de MPG –. nos anos 60 e 70. apesar de já estarmos em São Paulo. Era 1976. no centro de Porto Alegre. pela gravadora Equipe. Sem contar o compacto da trilha sonora do filme “Marcelo Zona Sul”.. o que fazíamos até então era acompanhar milhares de artistas. Fomos contratados por causa da alta execução das nossas músicas em Porto Alegre. sem nunca termos visto um estúdio completo antes. Chegamos em São Paulo e gravamos tudo em quatro dias. Gravamos o Por Favor Sucesso em 1969.. Depois. tempos da . Kledir: Os Almôndegas gravaram o primeiro disco em 1975. vai direto pros 80. Porque. Entramos em estúdio e criamos um trabalho. Nós e o técnico de som – porque o produtor escalado pela gravadora nunca apareceu nas sessões de gravação! Fughetti Luz: O Marquinhos Pilar mais o Raulzinho. Por isso. Mas.. o Por Favor Sucesso. nos desenvolvendo.CONTINUOUS PLAY O Cara das Fitas: Oi! Vocês querem dar uma olhada na minha lista de Fitas e CDs? Fughetti Luz: O Liverpool lançou o único disco de rock do Rio Grande do Sul nos anos 60. Assim estavam Os Brasas nos anos 60. o que existe é Liverpool e Bixo da Seda. amigos nossos. quando finalizamos tudo. Existem poucos registros fonográficos do início do rock por aqui. desenvolvemos músicas. que ia ser o ponto de partida da própria banda. Também lançamos dois compactos: um simples e um duplo. Gravamos coisas.

ou ir embora. A gente não sabia tocar nada. Exemplos disso foram a Cor Do Som.. E foi o que muitos passaram a fazer. o Cheiro de Vida. Marcelo Birck: A primeira gravação da nossa turma de amigos foi em 1980. Não deu tempo de substituir ninguém. Uma juventude de altíssima qualidade musical. fazíamos a música em cima disso. já que ninguém dava bola pro rock’n’roll. Ricardo Barão: Eu estava produzindo o Rock Garagem II. Fico orgulhoso pelo que aconteceu – não por ter feito o primeiro. Ou melhor. porque os valores de signo que estão na capa – a fotografia de um cara magro e de cabelo comprido – não estão dentro: no disco tem vários sambas. Claudinho Pereira: O Ricardo Barão era muito meu amigo.. o Jorge aparecia assim: “aprendi um dedilhado novo”. Então.. O estereótipo de roqueiro na realidade não era rock. vêm uns caras jovens. que iria sair com dez bandas. Um incentivo pra que eles fizessem os seus. como o Caetano Veloso e os Novos Baianos. De vez em quando.. Eles vieram e atropelaram nossos sonhos . Nelson Coelho de Castro: Fiz o primeiro disco independente gaúcho. Nelson Coelho de Castro: Já o meu disco de 83 tem uma capa bem semiótica. saiu com apenas oito: a RCA levou os Engenheiros e o TNT. com TNT. Câmbio Negro.. Recolhíamos qualquer coisa que fizesse som: gaita. com a proposta do disco Rock Grande do Sul. Era difícil pras pessoas da geração acima da minha suportarem que se podia fazer samba: “como o magrão pode fazer samba. O Barão foi o cara responsável pela produção de dois discos importantes pra cena das novas bandas de rock da cidade: o Rock Garagem e o Rock Garagem II. o Frank Jorge e outro camarada nosso que não era músico. Engenheiros. era uma atitude rock.. lançados em 84 e 85. o Raiz de Pedra e um grupo de Santa Maria. E o nosso disco. e ser jovem?” Um pouco antes disso.gravadora Continental – que não nos deu muita luz. Foi quando apareceu a RCA em Porto Alegre. em 1981. Assim como eu. o Eliseu. mas com estereótipo do roqueiro. foi inesperado. Era isso. uma tentativa de fazer música com o que a gente sabia. o Hálito de Funcho. A formação era eu. ele também foi DJ em Porto Alegre no início de toda a jogada. cabeludos e fazendo samba. sino. mas por ter demonstrado aos demais artistas que este caminho era possível. E eu quis fazer aqui mesmo. Mas o cara que está na capa pode muito bem ser um roqueiro.

ainda era uma gravadora nativista. ano que o Rock Garagem II foi lançado. e nem chegava a escutar! Claudinho Pereira: O Ricardo Barão estava fazendo o Rock Garagem II bem no momento em que estava acontecendo o fenômeno do rock nos anos 80 no Brasil. O rock de Brasília. E produzi esse disco junto com o Ricardo Barão ele que me contratou. Ronaldo Bastos. Também falei com o João Carlos..de fazer uma gravadora – porque a ACIT. eu só olhava pra lata da banda.. "A verdadeira terra do rock é o Rio Grande do Sul" Mitch Marini: Tocava na banda Câmbio Negro em 85. Eu disse pro Valério: “já estourou o rock do Rio. Claudinho Pereira e Paulinho Jobim. Mas nem chegávamos a escutar todas: em alguns casos. Liguei pro Tadeu Valério. que era divulgador e estava mudando de emprego junto com o Valério. Tempos de Rock Grande do Sul: Tadeu Valério. ou da fita. de Brasília e de São Paulo. que lançou os dois Rock Garagem.. do Rio e de São Paulo.. mas a verdadeira . Mais de quinhentas bandas nos mandaram fitas. Estavam todos estourando. Bruno. Mas o nosso objetivo foi alcançado: as coisas aconteceram e fiquei feliz em ver as bandas estourando na mídia. capista da EMIOdeon que estava indo trabalhar na RCA.

E ele chamou cinco bandas pra fazer o disco Rock Grande do . já tinha as suas bandas novas. apareceu um problema: a Sony queria o Maluly com exclusividade. E hoje é impossível imaginar um festival de bandas novas lotando o Gigantinho. Reinaldo Barriga: A RCA estava desenvolvendo o projeto de um selo de rock. matutando as coisas: “tem que ter uma gravadora. concorrente. onde só seguiriam em frente na gravadora as bandas que se destacassem. conforme fossem estourando. uma gravadora do Brasil só de rock’n’roll. hoje BMG. na primeira formação: o Pitz.. resolveram contratar as bandas pra compor uma coletânea de rock pra RCA. Todas as bandas também produziriam discos individuais. E o disco foi um grande sucesso. O Tadeu gostou de cara dos Engenheiros. Márcio Petracco: O TNT foi convidado pra tocar no Rock Unificado. Na tarde em que o Rock Unificado ia acontecer. É aí que surgiu o selo Plug.terra de rock é o Rio Grande do Sul”. acabei assumindo parte da coisa. Foi em função disso que o Maluly me convidou pra participar da nova empreitada. Mas as que não fizessem tanto sucesso ficariam pra trás na ordem de lançamento. E ele: “o que tem aí?” Respondi: “tem o Rock Unificado. que era pra ser parceiro do projeto. e o nome será Plug. chegamos no Gigantinho e estavam ensaiando os Engenheiros do Hawaii. cheirando. o Carlos e o Humberto na guitarra. Edu K: A primeira coisa que vem à cabeça pra falar de Rock Grande do Sul e a projeção das bandas é o Rock Unificado. que lota o Gigantinho. e é um painel de tudo que é banda de rock daqui”. Esses artistas estavam sendo conduzidos pelo Luís Carlos Maluly – que foi convidado pela RCA pra fazer alguma coisa parecida. E eu. Quando eles assistiram a um festival de rock patrocinado por um curso pré-universitário.” Reinaldo Barriga: É impossível falar do projeto do disco Rock Grande do Sul sem mencionar os nomes de duas pessoas: Claudinho Pereira e Tadeu Valério. Claudinho Pereira: Chegamos à conclusão de que o Rock Grande do Sul não podia ser um disco pau-de-sebo. Eles acabaram vindo e ficaram quinze dias hospedados lá em casa. E eu tinha acabado de sair da produção de um disco do Camisa de Vênus. como o RPM e a Metrô. A Sony.. na rua da República. Sabíamos que tinha vindo um olheiro da RCA pra sacar a banda. Mas. e disse: “vamos fazer um selo de rock na RCA!” Depois nós ficávamos fumando.

Decidimos gravar quatro músicas: “Surfista Calhorda”. E os Engenheiros do Hawaii eram tipo o The Police. os Replicantes gravaram um disco direto. De Falla. O TNT era meio psycho. E saiu a coletânea Rock Grande do Sul. também. Enquanto todas as bandas gravaram duas músicas.. que estourou no Rio de Janeiro. Heron Heinz: A contratação dos Replicantes pela RCA chegou a causar estranheza: “por que eles contraram esses caras. o Rock Grande do Sul seria como um disco pau-de-sebo: as bandas que se dessem bem. Ambas eram mais ligadas ao blues. Mas. com um material grande. e estouraram com “Sopa de Letrinhas” e .. Já o De Falla tinha todo um discurso. seguiriam em frente. Claudinho Pereira: Os Garotos tinham uma música que estava despontando. minha esposa. Foi a que mais me impressionou: a mais diferente. “Rock Star”. “Tô de Saco Cheio”... era lucro. Fomos pro estúdio da Isaec. Foi o Tadeu Valério quem escolheu esse nome. mesmo na pressão. que também já tinham lançado um disquinho. da rádio União na época. que saiu em 84. ainda antes do Rock Grande do Sul – assim como os Replicantes. que nem tocam direito?” Claudinho Pereira: E tinha uma banda que eu amava – e a Preta. acabou acontecendo o seguinte: todas as faixas fizeram sucesso – e o movimento dessas bandas gaúchas durou quase uma década. lá em casa –. delinquente. Tu mostrava pros caras. Replicantes e depois os Garotos. Os Garotos da Rua tinham um rock mais maduro – “Tô de Saco Cheio” emplacou nas rádios do Brasil todo. Então. TNT. Carlos Gerbase: O x da questão pros Replicantes foi a nossa ideia de gravar um compacto. e que segurava um show inteiro. Aí fechamos assim: Engenheiros do Hawaii – os primeiros a assinarem. “Nicotina” e “O Futuro é Vórtex”. e eles: “o que é isso!? Que horror!” Era o De Falla. Reinaldo Barriga: Os Replicantes era a banda mais organizada de todas as que participaram da coletânea Rock Grande do Sul. King Jim: Os Garotos da Rua começaram com um compacto pela Acit. como o Barão Vermelho.Sul – que era um pau-de-sebo: se uma banda desse grana pra eles. Eles foram os primeiros a entrar em estúdio. Reinaldo Barriga: A RCA viu que já existia um movimento em Porto Alegre – mas não era possível lançar de cara tudo que tinha por ali.

ao invés de fazer um clone.. com um vaso de flores. Era uma briga..“Segurança”. Chegou lá e disse: “a banda quer uns morey boogies!” Quando chegamos. . transformava aquilo. já encomendamos os moreys. que produziu os primeiros discos de todas as bandas do Rock Grande do Sul. Na realidade. que era o produtor do disco.” Luís Henrique Tchê Gomes: Foram os produtores do TNT que tiveram a ideia de colocar aquela pintura. mas diplomática. E os caras querendo saber das nossas exigências. porque só sobravam as manhãs pra gente gravar. Justino Vasconcelos: Fomos até o Rio de Janeiro pra gravação do primeiro disco dos Garotos.. Gravávamos nossa parte nos horários em que os Garotos da Rua não estavam no estúdio. Luís Henrique Tchê Gomes : Mas não era aquela chupação descarada! Era algo mais subjetivo. Eles disseram que ia ser muito louco. na capa do nosso primeiro disco. O resultado é que a minha voz ficou como a de quem recém acordou o tempo inteiro. Falamos pro nosso produtor que queríamos uma mesa boogie: “sem ela. Humberto Gessinger: O Engenheiros do Hawaii entrou no Rock Grande do Sul meio na rabeira. Flávio Santos: Fomos gravar o primeiro disco do De Falla bem malvadinhos: “vamos fazer o que bem entendermos e é isso aí!” E pegamos um produtor muito bom. Ele ia atrás do que a banda queria. o Barriga.. A galera ia chupar uma música gringa e ele. que tinha lançado um disco com capa parecida.. não gravamos!” E ele foi falar pro Guti. o Guti já foi explicando: ”olha. Reinaldo Barriga: Cada banda tinha seu turno no estúdio pra gravação do Rock Grande do Sul. era uma disputa por espaço na gravadora.. E todas se sacaneavam e ficavam inventando coisas umas pras outras. pela RCA. porque ninguém entenderia – e todo mundo ia ficar curioso pra saber que banda era aquela. daqui a pouco eles chegam.. Márcio Petracco: Era uma puta gozação com o Barriga durante a produção dos discos – inclusive o do TNT.. Essas três últimas bandas eram um pouco mais pop. Era meio uma influência do New Order. Ele pegava e direcionava as coisas.

. A festa acabou quando a RCA disse que o ‘suco de laranja’ também estava sendo proibido no bar do hotel. me irrita muito. Já os mais chatos. fujo dessas pessoas. Sady Homrich: Demos sorte porque “Camila. na época. Camila” estourou pelo país durante a gravação do nosso segundo disco. Thedy Corrêa: O pessoal da MTV nunca tinha nos convidado pra fazer um disco acústico. Mas em seguida a música já era a oitava mais pedida no Brasil inteiro. quando resolvemos fazer o nosso – isso. Aí eu falei pra eles: “então o disco é ‘acústico ao vivo no Theatro São Pedro’. Reinaldo Barriga: O desfecho do trabalho da Plug no Rio Grande do Sul.. Os caras ficavam jogando coisas uns nos outros. E eles reclamaram que a gente não podia fazer um disco assim. Eu não gosto muito de andar com gente do meio. eram as mais chinelonas. estava em primeiro lugar. nem com o pessoal da época do Rock Grande do Sul. e com a promessa de fazer sucesso e ser famoso. E. ao lado da sede da RCA.. mesmo que goste delas. Se posso. nem nos preocupamos em detalhes de contrato ou coisas assim. faço de conta que não as vejo. tu quer esquecer que é músico. por quê?” E eles responderam que não podia usar o nome “acústico”. se não me engano. de prestar atenção em rankings. no verão carioca de 1988.. Eu disse: “ué. já nos anos 90. Com a idade que tínhamos.. Tá bom?” . De repente. como a Fluminense. Talvez esteja no lance do comodismo... Márcio Petracco: Quando o TNT foi assinar com a RCA.. Como a gravadora não pagava as bebidas alcoólicas dos músicos enquanto eles estivessem hospedados. era comum as bandas terem em suas contas do bar uns trezentos mil ‘sucos de laranja’. no Rio de Janeiro. a gente não estava nem aí! Humberto Gessinger: Não mantenho muitas relações com gente do meio. é até um erro não se aproximar. Eles chamavam o hotel de Gandaia! Era o preferido da baixaria. Camila”. Ela já tinha tocado bem em algumas rádios alternativas. em três semanas. É tão intenso esse lance de trabalhar com música que. se deu com o Nenhum de Nós.Reinaldo Barriga: As bandas que ficavam no hotel Jandaia. as fuleiras. com a música “Camila.. de repente. Depois é que eles vieram com o hit “Astronauta de Mármore”. extintores de incêndio. ficavam no Lord. Pra não entrar numas de músico profissional..

também. Frank Jorge: O pessoal dos Replicantes já estava no segundo disco quando resolveu inventar a Vórtex. o rock no Brasil já estava michando. era o cara por lá. lançamos o K7 Com Amor Muito Carinho. Nessa época. Na verdade. Humberto Petinelli: Os Cascavelletes foram contratados pela SBK. 86 estava melando – não estava se renovando. a Rio Grande do Rock: com Apartheid. produziu o nosso LP Rock’ A’Ula. pra gravar o disco que virou o “Rock’A’Ula”. no baixo. E. ele também lançou uma coletânea de rock gaúcho pela SBK.. Marcelo Birck: A Graforreia lançou uma fita cassete pela Vórtex. era uma casa na Protásio Alves. Júlio Reny. uma gravadora holandesa que tinha sede no Rio de Janeiro. que era uma espécie de gravadora independente. o máximo de tecnologia que se podia dispor eram fitas cassete. Com Amor Muito Carinho. Cascavelletes. que havia participado da organização do Rock Grande do Sul. . Foi logo depois desse disco que o Gugu entrou no lugar do Adriano. Estavam ficando só os medalhões. E o Tadeu Valério. Logo depois. foi uma coletânea. Essa é a mesma gravadora que.. da Graforreia Xilarmônica. mandavam pra Santa Catarina. onde também vendiam fitas demo. Prize. Foi disso que surgiu a relação que criamos com bandas como a Repolho.. Apartheid. Uma ponte feita pelo Dé. que era baixista do Barão Vermelho.Carlos Eduardo Miranda: O primeiro lançamento da Vórtex. Uma produção baratíssima. depois. Luciano Albo: Os Cascavelletes tinham sido contratados por uma gravadora pequena. em 88. Aquele boom astral de 84. 85. São Paulo e Curitiba. em 89. Cascavelletes e Justa Causa. chamada SBK Songs. gravada em quatro canais. com um estúdio de ensaio. Na época. um selo que fiz junto com os guris dos Replicantes. Outras coletâneas que a Vórtex lançou foram a Zona Mortal e A Invasão dos Nodros. que é de Chapecó. Gustavo X Aguirre: As primeiras coisas que a Justa Causa gravou foram umas músicas pro disco Rio Grande do Rock. Então. Humberto Petinelli: Só que essa gravadora foi comprada pela EmiOdeon – que foi a responsável por lançar os Cascavelletes na novela com “Nêga Bombom”. através de uma mala direta.. uma coletânea onde também estavam a Prize.

os caras da EMI viram nossa banda – e eles estavam procurando coisas pra trilha da novela.... chamou a atenção da Sony – que nos comprou da Nova Trilha por dezessete mil dólares. Batalhamos patrocínio. vamos cantar Lupicínio. arte da capa. Jacques Maciel: O sucesso do disco do Rosa Tattooada. Gravar “Era um Garoto. Adventure. tudo. depois de uma outra fita. Coccix.. de Novo Hamburgo. Plato Divorak: A Krakatoa Records começou em 1991. O disco falava sobre isso. E que teve um sucesso animal.” em O Papa é Pop foi uma provocação por parte dos Engenheiros. Fizemos mil cópias e quatro músicas estouraram na rádio.” Ricardo Barão: Uma gravadora chamada Free Music. me convidou pra organizar um selo. Se tinha a ilusão de que o rock estava começando por aqui naquele momento. chamada Shalala Soundtrack. eu comecei a colocar bandas de fora daqui. Do tipo: “não vem me encher o saco com esse papo intelectualoide de música pop!” Talvez seja nosso disco mais conceitual.Luciano Albo: Olhando o casting da SBK. Ficavam dizendo: “minha banda é uma merda!” Não que isso fosse uma coisa blasé: eles ficavam fazendo outras coisas além de música. A mais clássica pra mim é A Fita dos Mil Disfarces. O cara escutou “Nêga Bombom” e ela fechou com um personagem da “Top Model”: um garoto que se masturbava. mas ninguém falava em Jovem Guarda. Então. Sem carimbo de qualidade: “ai. A Sony queria que nós gravássemos as mesmas músicas.. Os caras ficaram rindo até as orelhas. que tinha a rádio Alegria. essa coisa de sacralização.. com o K7 Absolute Harmony: era um resgate de bandas dos anos 80 de Porto Alegre: Das Kriime.. com Os Billy. Gustavo X Aguirre: A Justa Causa resolveu gravar nosso primeiro disco – independente. só que com uma qualidade melhor e com outra capa. em 1999: Guru Psychosis. por ser independente e com gravadora pequena.. E a gente foi pro Rio regravar esse disco. Então chamei o Mutuca e toda aquela gurizada do . A última coletânea saiu em CD. Smog Fog.. Porque. virou o tema dele na novela.. bandas de fora de Porto Alegre e outras do Rio Grande do Sul. Vulgo Valentim.. com o tempo. Humberto Gessinger: Desde criança.. eu amava aquela música: “Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”. Porque somos gaúchos – mas gaúcho estilo pé-sujo. todo mundo conhecia. Carniça. Lançamos umas oito coletâneas. A ideia surgiu porque o pessoal era meio molengo. Nos anos 80. Père Lachaise.

o que equivale a um baldinho com seis cervejas?” O resultado foi que. início dos anos 90. Feito pra Durar Menos de . Essa foi a última atividade que fiz com rock.momento. dizendo: “não temos dinheiro pra lançar o CD.. em 93. Ficamos dois meses em cima disso pra depois os caras chegarem pra mim.. pá.. Descartável. pra dar de presente pra um amigo no final de semana. Começou a entrar pra programação da Felusp. pra regravarmos nosso primeiro disco.. Mas eu não tinha noção se aquilo era bom ou ruim. por conta da gravadora! Eles bancavam tudo: diárias. A gente costumava fazer essas coisas. e entrou pra Ipanema. Acho que as rádios acharam tão ruim aquele troço. numa mesa de quatro canais. janta. falando com o mâitre. Fui gravando. Nem uma cervejinha! Aí. Se não fosse “Epilético”. como os Animais.. chamei o filho da empregada pra participar. eu literalmente mandei tudo à merda. depois dos quarenta dias. Então. O nome do disco era: Transgênico. mas depois achei um desaforo.. assim meio “pá. almoço. dos Cascavelletes. ele chegou e nos deu a seguinte ideia: “por que vocês não fazem igual aos outros artistas que vêm aqui.” E eu indaguei: “mas já levamos dois meses pra fazer o álbum!” Eles quiseram me botar numas de fazer um projeto pra conseguir patrocínio pra pagar o andamento do disco! Eu até tentei.. gravava um cachorro latindo no pátio. de nenhuma espécie. os Acústicos.” Eu tinha passado uma semana gravando uma demo de músicas próprias. tínhamos consumido centenas de porções de frango com legumes e suco de laranja! E os caras da gravadora ficavam dizendo: “porra.. a Borboleta Negra – que depois virou a Comunidade – e o Branco Oliveira. Jacques Maciel: A Sony levou o Rosa Tattooada pro Rio de Janeiro. E saiu a demo da Doiseu Mimdoisema com essa música. Mas é claro que também não bancavam os drinques. tão mal feita. Eu na voz e minha irmã fazendo backing vocal. em Copababana. que de tão ruim ficou bom. e pedem pra marcar as bebidas como se fossem porções de frango com legumes e suco de laranja. eu tinha levado uns CD’s da Space Rave pra vender. E que talvez ficasse esquecido pro resto da vida. seria “Menstruada”. Era só uma batidinha de teclado. E ficamos quarenta dias hospedados no Hotel Atlântico.. mas esses gaúchos comem pra caralho!” Diego Medina: “Epilético” era uma música tão mal gravada. pá. Nino Lee: Tivemos a ideia de gravar “Epilético” pra buscar algo que estivesse esquecido no baú do rock gaúcho. Era muita gente conhecida.. Eduardo Normann: Numa festa no ateliê da Cláudia Barbisan.

“Golden Net”. pensamos o seguinte: “já que estamos numa gravadora grande. com o repertório pra gravadora ouvir.. do Richard Edmunds. no Rio e em São Paulo. Como na época estava rolando a finalização do filme Tolerância. também. Ela foi rebatizada de “Moviola”. e tal. e a mesma coisa: a fita trancava. quatro vezes.. quando ele veio gravar no 155. E participamos de várias coletâneas. Marcito: Antes dos dois discos da Ultramen. Tinha uma música. Diego Medina: A Video Hits estava acabando de gravar um CD demo. Aí. O mais incrível de tudo é que.. e o Richard resolveu deixar aquela música pro outro dia. foi parar nas mãos do Dado Villa-Lobos. que é dele. e . com quatro músicas. o Rompendo em Luz. Uma semana depois a Luciana ligou. o DAT desgravava tudo – sempre! Ele tentou umas quatro. como uma cueca suja. colocamos “Sílvia 20 horas domingo”. Já era final de sessão. Muito mulambeiro! Encontrei o casal Carlos Gerbase e Luciana Tomasi e vendi um disco pra eles. acontecia a mesma coisa – tudo de novo! Umas três.. Nesse repertório.. no Estúdio 155. embaixo da pia. Ele gravou no início da tarde e o Ronnie Von no final da tarde. Gonow: Eu e o Buda trabalhamos na gravação de um disco de Natal.um Mês. resolvi passar no banheiro e dar uma mijada. quem sabe também não conseguimos o Ronnie V on?” Pedimos pra entrar em contato e conseguiram – e o cara topou. pedi que ela escutasse e mostrasse pro Gerbase a primeira música. Optamos em lançar pela Rock It!. Quando eu estava quase indo embora da festa.. convidando a Space Rave pra botar aquela música na trilha do filme. por ser uma gravadora pequena. E no meio da gravação. e trancava. que quando chegava num certo ponto. A gravadora gostou. e tem um monte de coisas que o pessoal consegue pra gente. ele já tinha ido num outro estúdio de gravação de Porto Alegre. Uma delas. E eis que vejo no chão. cinco vezes. a banda já tinha feito duas demos. E foi lindo! Nesse mesmo dia também gravou o Gérson King Combo. Ele falou que viria com umas meninas da igreja dele pro estúdio: “vou trazer água benta”. A primeira demo foi aquela que tem um diabo sentado na capa. pensei melhor e entreguei aos cuidados do Gerbase. Antes de vir gravar conosco. o CD que eu havia vendido pra Luciana! Não acreditei. A segunda se chama Sem Piedade. Peguei do chão e pensei: “vou vendê-lo novamente”. Depois de sete anos de banda é que fomos registrar nossas músicas num disco: preparamos várias fitas K7 e divulgamos aqui. um cantor que define seu trabalho como “música de louvor”. chamada “Os Santos”.

Hoje. as pessoas cantavam a nossa versão! Sady Homrich: Esperamos por quatro meses até chegar a aprovação do Bowie pra “Astronauta de Mármore”. na imprensa brasileira. O crítico tinha que dizer assim: “está acontecendo tais shows em tais e tais lugares”. Veco Marques: O disco do Nenhum de Nós mais malhado pela crítica foi o que tem “Astronauta de Mármore”.. não tem problema algum”. O foda é o jornalismo de release. Flávio Santos: O reconhecimento da imprensa era uma coisa que mantinha o De Falla. a versão da música do David Bowie. Crítica é preciso. uma versão de “Starman”. Isso não é crítica. Porque a . Aí começamos a gravar – e não aconteceu mais nada. e aí virou critico. e as pessoas confundem as coisas.. Heron Heinz: Crítico é o cara que foi incompetente pra fazer qualquer coisa.. nos shows. E o engraçado é que. pra que falem deles. Quando o David Bowie esteve no Brasil. Ou então. Cada um quer dizer alguma coisa pra chamar a atenção. Carlinhos Carneiro: Não posso detonar a crítica. Eu disse: “não cara. Carlos Maltz: “Astronauta de Mármore” foi uma das músicas mais tocadas no Brasil em 89. Acontece que. só malham. São raros os que tu guardas o nome. Na maioria das vezes o cara não tem nada pra dizer e só fala bobagem. São ondas: os críticos de jornais desaparecem tão rápido quanto as bandas que chegam. Uma crítica bem feita pode até ser melhor que o disco. até porque eu sou jornalista e consigo enxergar qual o papel dela. Depois ele veio com as gurias. E não se pode confundir crítica com resenha idiota: três linhas sobre um show. Juarez Fonseca: O crítico de música no Brasil ficou muito estiloso. O trabalho de um crítico sério é fundamental. tem muito pouco espaço pra isso. isso seria o equivalente a uns dois milhões de discos.perguntou se não nos importaríamos se ele benzesse o estúdio. Carlos Gerbase: Acho uma das maiores bobagens que existe é dizer que o crítico é um artista frustrado. água benta. Fechou a porta. rezaram um terço. dizendo que o som estava ruim. O Nenhum de Nós estava em todos os playlists da época e o disco vendeu uma enormidade: em torno de duzentos e dez mil cópias. no começo da década de noventa.. essa é a música que mais desperta a reação do público.

violentas. Carlos Maltz: Tinha a época em que eu olhava os discos do ano da revista Bizz e pensava o seguinte: “esses caras devem odiar música!” Eles só votavam em baixarias. tem que fazer arte mesmo. o bom regionalismo. porque era um cara da turma. Mas nos considerávamos parte de uma coisa só.. E quem está aí pra julgar.. Quem está fazendo arte. Cada um escrevia sobre o que achava bom. Várias vezes chegaram pra mim e perguntaram: “é sério isso?” E eu respondia: “É e não é”. outro técnico de som. e foda-se. São caras que têm que ouvir quatrocentos e cinquenta discos por obrigação. mais irritante e mais nojento. coisas absolutamente terríveis. Não havia essa coisa de divisão: um escreve sobre rock e outro sobre MPB. só que no jornal. Juarez Fonseca: É muito difícil ver jornalistas que vão aos ensaios ou que sentam numa mesa e fazem uma entrevista. É um jogo de dados viciados. eu era o jornalista. E aí. Então. Não que os críticos não tivessem razão sobre algumas coisas que escreviam sobre os Engenheiros. como moda e estilo. Edu K: A manipulação da imprensa é uma coisa incrível. mais barulhento. .. Escrevi muito sobre regionalismo também.gente não tinha grana. fazendo cobertura de festivais nativistas. Eu ia porque estava junto. do que eles vão gostar? Daquilo que for mais tétrico. tínhamos que ter alguma coisa pra fazer subir nosso ego! Gilmar Eitelvein: Eu sempre tive duas linhas na minha formação musical e jornalística: a MPB tradicional e o rock’n’roll com suas variáveis. A tradição brasileira atrai pela qualidade e o rock pela forma com que se comporta. Tinha um que era músico. que julgue. agressivas..

Se ela não vira. E o relatório que vão te passar vai ser unilateral. ou não. no mês seguinte. não é legal. Eles dão um mesinho pra tua música virar hit no verão. pras bandas.A GRANDE ENGRENAGEM Vini: Um diretor artístico da EMI veio pra mim e disse: “Vini. Porque assinar com uma gravadora. Frank Jorge: O trabalho vai ser ouvido. não vale a pena em hipótese alguma. Tu nunca vai saber se o quanto que eles estão prensando é o mesmo que eles estão te mostrando. Uma frase que ficou marcada. O que mudou. E a pessoa da banda. eles puxam o freio-de-mão e. Mas. Nós temos três ou quatros grandes gravadoras em Porto Alegre e poucas trabalham direito. na verdade. Mutuca: No começo era simples: todo mundo sabia que tinha que ser contratado por uma gravadora pra poder ser um artista popular e tocar no rádio. Bebeto Alves:: Tu pode te segmentar no mercado. foi a postura do artista em relação ao sistema. Frank Franklin: Gravadoras inteligentes só apostam em artistas. Tu pode sobreviver dentro de uma realidade de mercado fonográfico perfeitamente. independente de qualquer merda que alguém . o que eles querem? Ganhar dinheiro. E nem todas são capazes de fazer isso. Uma coisa é a indústria.. se tu gravar um disco independente. Flávio Santos: É claro que tem que se pensar mal das gravadoras: gravadora é uma merda. o que ela quer? Fazer música e ganhar dinheiro. E assim eles lidam com o artista. tu já não é mais a possibilidade de virar o hit do verão carioca.. Fernando Nazer: O disco independente é a saída de qualquer músico. ‘Nêga Bombom’ vai ser o hit do verão carioca”. Não é o que a gravadora quer! Fernando Noronha: As gravadoras só te dão quatro por cento do que tu vende. Agora não é preciso estar no rádio pra fazer música. O relacionamento com as gravadoras é fogo de palha. da maneira como elas querem. outra é fazer música. qualquer gravadora é uma merda! Os donos delas. Talvez pro Roberto Carlos.

vai dar stop na segunda ou terceira faixa.. se tu gravar dez músicas meio a pau e corda. e não sabíamos. se alguns ganharam mais dinheiro com isso. e o cara da gravadora chegar a ouvir. Acho que éramos uma espécie de neo-punks. Júlio Becker: Perguntei à pláteia numa apresentação da Fashion Guru no Araújo Vianna em 1999 se havia algum produtor de shows presente. e aí. É por isso que os Acústicos se puxaram mais e já chegaram dizendo: “está aqui a nossa demo!” Raul Albornoz: É evidente que os Paralamas vão vender pra caralho. Alguns levantaram o dedo. eles não colocam esses discos à venda em quantidade. por se tratar de uma compra no escuro. Instantes depois disso... o quinto e o sexto do Acústicos. eles vão pra uma major e explodem. Vamos ver o sétimo e o oitavo disco da Bidê ou Balde. de repente. o produto encarece.. Não comprando em quantidade.. então vou distribuir de graça!” Rafael Malenotti: Sempre pensamos que.. de raiva. A função da gravadora é uma promessa.. O Nirvana. unindo aquele tipo de rock com letras e poesias eminentemente sexuais. Eles têm doze discos. por exemplo. A questão é: foi preciso que dez anos se passassem até que alguns grupos investissem de uma forma capitalista . Era tudo em fita cassete. Mandei eles se fuderem pelo fato de nunca terem nos proposto uma parceria! Estava revoltado naquele dia. e lotaram o Gigantinho dois dias. outros não. No caso dos lojistas que vendem essas bandas. Mas a banda nunca fez nada de capitalista em cima da sua estética. E depois. Não é esse o mérito. teve um disco gravado com menos de mil dólares de orçamento. essas pessoas não têm como saber se o som que estão comprando é bom ou ruim. Mas. peguei algumas cópias do nosso disco e comecei a jogar pro público. Fernando Nazer: O lado positivo de um selo é que as pessoas podem comprar discos de bandas que não estão em gravadoras.. Flavio Basso: As coisas aconteceram da noite pro dia com os Cascavelletes. em 85. e também era do caralho rodar nas rádios com fita cassete.possa escrever a teu respeito. Os independentes disponibilizam muita coisa nesse formato. Em contrapartida. Tu vê bandas independentes norteamericanas que estouraram quando já tinham cinco ou seis discos independentes. Tu entrega tudo pros caras em troca dessa promessa. aos gritos: “vocês não compraram o nosso CD. o sétimo e o oitavo dos Papas. tem muita coisa que pode ser baixada por MP3. no sétimo.

Fredi Endres: Essa coisa das bandas se ajudarem depois que estão numa gravadora é um chavão que não é muito real. da tua música. Na realidade. Ele nos propiciou acessar todo um panorama dessa história de vida profissional ligada à música. um musical.. A gente já tem emprego. mas a pessoas do centro do país. não havia empresários de grupos.nessa estética – obviamente.. porque assinou o contrato com o Bixo .. O que tu pode fazer? Pegar o single do cara e jogar goela abaixo do radialista. As coisas aconteciam mais em função da sua qualidade. O Roberto passou a ser nosso empresário: assim como não havia equipamento.. fizemos coisas que eram o máximo pra época – até porque o sucesso do primeiro disco foi restrito ao sul. só porque tu indicou? Zé Natálio: Eu já recebi um extrato de gravadora declarando uma venda de vinte por cento da prensagem real. principalmente a tecnologia pra se gravar. Não havia esse falso profissionalismo – isto é: jabaculê. e depois gravamos um clipe pro Fantástico. faz aquilo”. E não me refiro só a Porto Alegre. que era o nome dado aos clipes nos anos 70. Não que agora os artistas não tenham qualidade. Mini: Se chegar um cara de uma gravadora dizendo: “faz isso. Tonho Crocco: Sempre vai ser difícil tu fazer uma banda e viver dela. conhecemos um empresário baiano chamado Roberto Santana. Têm alguns caras que nos citam em entrevistas. lançado no final de 1975. não basta somente isso: tem que ter qualidade e grana. Nossa música “Canção da meia-noite” entrou na trilha de uma novela da Globo em 76. Não vai sair tão bom. Carlos Maltz: O mercado era mais incipiente nos anos 80. A partir do nosso segundo disco. Ele tinha sido empresário do Gil e do Caetano no início de suas carreiras. Mas hoje... a vontade de tocar já não será tão grande. Mas as coisas vão melhorando. mas ninguém sabe o que é Cascavelletes dentro desse contexto.. Fughetti Luz: A gravadora vacilou com o Bixo da Seda. E não precisamos de mais um chefe na música. tem um chefe.. e se encantou com o Almôndegas numa visita a Porto Alegre. sem nos dizer nem sequer “oi”. E isso é uma facada! Kledir: No final de 74. Ele também produziu discos.

se ganha dinheiro é pra viver! Y ang Zam: A gravadora faz muita pressão. Ninguém pensava nisso: era tocar por tocar mesmo. Carlos Maltz: Quando o Engenheiros surgiu. no sentido da resistência cultural gaúcha.. na realidade. E eu mesmo já vendi esse peixe na vida.. Precisa de dinheiro pro cenário do show.. joga contigo: “grava isso. classe média.pra dois discos e não cumpriu. ele sabia que a vida dele dentro da EMI ia ficar complicada. com uma capa simples. E quando se pensa que está fazendo arte. fazer barulho. Era uma música já escolhida pra ser tema da novela das sete – e era a única proposta que eu havia tido pra ter uma música de novela! Mas meu público básico era todo daqui: dez. Não basta ter capital pra abrir as portas – no caso. Então esse papo cínico de que o rock’n’roll é comércio. é que comercialmente aquela teria sido uma chance muito legal. e ainda por cima sem nos pagar nada de direitos autorais.. O negócio da música.. te dou mais dinheiro pra gravar um disco. pra equipe. Enquanto as rádios do resto do Brasil estão desencavando “Stairway to Heaven” do fundo das trevas.. que dão cada vez mais apoio à produção local. não levamos a sério.. pra gravar um CD ou uma fita. teve a cara de pau de relançar em CD. Carlinhos Carneiro: Hoje. Foi por isso que fizemos discos tão bons. Nei Lisboa: V ou dizer como vejo esse episódio da gravação de “Hey Jude”. Muita gente falou sobre o assunto como sendo uma coisa heroica. pra mim na verdade é covardia. Até porque nossa cultura já está voltada pra esperar por esse merchandising todo. porque a gravadora tinha lá o seu lado filho da puta. do mundo em geral. Quando baixaram as gravadoras. Gaby Benedyct: Montar uma banda de rock é como uma empresa. Naquele momento foi importante dizer não. do cinema. Mas a única coisa heroica. as gaúchas estão apostando no que aparentemente há de legal no seu Estado. que no próximo disco eu te dou mais dinheiro pra promoção. anos depois. Não existia a possibilidade de se fazer discos. é isso mesmo que se está fazendo.” Quando o Nei Lisboa se recusou a gravar “Hey Jude”. Parecia um cavalo amarrado num obelisco. hoje. por exemplo. . vinte mil pessoas. o mercado do rock no Rio Grande do Sul está organizado em função das rádios.. nem existiam gravadoras. Porque a gente pensava que estava fazendo arte. Tu tem que ter um marqueteiro junto. universitários. ficou um pé no saco porque botaram o carro na frente dos bois... E. Não se vive pra ganhar dinheiro.

Ia jogar minha carreira pelo ralo. Não foi um gesto de: “isso é ruim. não vai! Nei Lisboa: A princípio. e fomos pra lá no mesmo ônibus em que estava o Kiko Zambianchi – depois que ele tinha gravado “Hey Jude”. e me deu a possibilidade de gravar “Hey Jude” como bote de salvação. Passei um dia inteiro negociando – e o Robertinho: “esse gaúcho que vá se fuder. lá do tempo da jovem guarda.que não aceitariam de jeito nenhum me ouvir cantar uma bosta daquelas. com um bilhetinho: “Nei Lisboa conheço seu trabalho. Paola Oliveira: É importante dizer não pras gravadoras. gosto muito. Então. Depois.. Não tem nada a ver com dinheiro.. Ele estava na produção. Deixei um pedaço em inglês.. Nei Van Soria: Os Cascavelletes tocaram num show no Petropole Tênis Clube. tinham decidido que a versão da letra não ia ser a minha: ia ser uma feita pelo Rossini Pinto. eu não quero cantar”. chamem outro cara!” Quem acabou gravando foi o Kiko Zambianchi... Como é que eu ia ter outro disco depois e encaixar aquilo no meio? Yang Zam: Essa história aconteceu depois que o Nei fez a gravação do Carecas da Jamaica. Cheguei pra gravar e já tinha um arranjo pronto. e com todo resto que queria fazer. Tomei um chá de banco. Lembro da cena: todo mundo indo pra festa e o Kiko. fiquei horas esperando enquanto decidiam. e larguei. em Porto Alegre. Era pegar ou largar. Aí não rola. mas sim um gesto de: “isso é ruim e vai fuder com a minha carreira”. Que todo mundo seja feliz. não tinha nada ver com o trabalho dele. E quase peguei. Cantar em si não ia me doer tanto. se quiser mexer na letra pode mexer”. parecendo meio deprê pelo que estava rolando com ele. É o grande lance da música gaúcha: as bandas. ele disse que não ia fazer a versão: porque não gostava. Ninguém vai se vender pros caras. no fundo do ônibus. O fato é que alguém lá dentro da EmiOdeon gostava de mim. E mexi um monte. Queriam transformar o Nei Lisboa num “Hey Jude” da vida. se não fosse a letra.. feito pelo Robertinho de Recife. Me veio uma versão do Ronaldo Bastos. que encomendou essa versão de “Hey Jude” e chamou o Nei pra cantar. Ele era contratado da Emi-Odeon. até topei a merda. Mas não tinha nada a ver com todo o resto que eu havia feito. . os músicos sempre souberam dizer não pra esses caras que estão querendo comprá-los.

Heron Heinz: Os Replicantes não fazem playback. estrada de chão batido. Humberto Gessinger: As pessoas falam muito no lance de vender a alma ao diabo... Sou completamente adepto dessa cultura. todo mundo entrava num trenzinho.. Eu é que sou o The Great Rock’ n’roll Swindle – e não os Sex Pistols! Este é um mundo consumista e eu não tenho escrúpulo contra isso.Tudo de bom. e o mal está ligado àqueles que querem ganhar dinheiro em cima da arte.. com os instrumentos na mão! Sem contar que.. Se não me deixarem fazer isso. Márcio Petracco: Os caras das gravadoras queriam que a gente fizesse playback quando estávamos no Rio ou em São Paulo. Fizemos mais de cento e cinquenta playbacks. E a gente se questionou um pouco quando tomou essa decisão: sabíamos que estávamos perdendo muito espaço. tri bem. quatro desses shows por noite. A gente chegava. Andávamos de rádiotaxi com seguranças armados.. em locais distantes. e não eram. O que eu vou fazer? Virar uma boy band? Gravar os sucessos da Jovem Guarda? Também não consigo. Achávamos uma merda. Mas tem que ter um puta dom pra vender a alma ao diabo.. Íamos com os seguranças até um corredor e fazíamos o som do disco. Eles lá. O meu trabalho é completamente autoral.. Não vou num lugar pra fingir. nem tem porque eu participar de alguma coisa. mas vamos lutar contra o mal. Mas é a nossa postura. Na verdade.. subir no palco e tocar que é um troço legal. e nós fazendo sopão com resto de feira. Isso é um talento. E tem que respeitar essas pessoas que fazem músicas como se fossem jingles. . eles nos botavam numa cozinha fétida. Edu K: Tudo o que eu faço é uma grande trapaça.. vão se fuder! King Jim: As turnês de playback dos Garotos da Rua pelo interior do Rio de Janeiro eram muito legais. com um engradado de cerveja quente. Ela matou muitas coisas que eu curti minha vida inteira. Eram. tínhamos que ficar pedindo pelo amor de Deus pra que a gravadora nos desse uma diária de alimentação. com a cara lambuzada de xis.. Eu vivo das ideias que tenho. mas foda-se! Faço qualquer coisa por dinheiro. No programa da Mara. cheirando a mijo.. porque as festas aconteciam em uns barracões de funk pra quinze mil pessoas... A gente tinha que fazer três. Era um rodízio de artistas em playback. Eu não conseguiria. O LP pulando. quando a gente ia pra lá.

o cachê é mais baixo. Acendemos uma fogueira e depois disseram que tínhamos queimado o cenário. o Chacrinha mandou parar a gravação – e nos expulsou de lá. E foi do caralho! Saímos tri contentes. Mas.... Com essa.. O pior é que depois ele nos perdoou! Justino Vasconcelos: Não adianta vir com papo de amor à arte: todo mundo já fez playback... O TNT gostaria de ter ido ao Chacrinha – não só pelas chacretes. No meio do programa Perdidos na Noite.. na real. E a gente nem tinha se dado conta disso! Ficavam todos os jurados nos olhando com umas caras. E o pessoal ficava muito parado. fizemos um show e deixamos nosso tapete embaixo do equipamento.” Sim. como a gente estava bem de dinheiro naquela época. Daltro Cavalheiro.. Chegamos. era muito humilhante. mas o que ele queria que acontecesse? É que até ele estava acostumado: nesses shows com playback.. o som estava um pouco diferente do disco.. Também tinha o Viva a Gorda: fomos tocar lá e botamos o horror. Fomos os pioneiros no sul e no interior do Rio não tinha som ao vivo! Decidimos: “bom.. Marcelo Birck: Em Porto Alegre rolavam uns programas de auditório: Sérgio Abraão. que era ao vivo. Ou não tocou! No interior do Rio de Janeiro tem muito isso. Lá só tinha playback... Dava umas microfonias. nesse formato. Até porque..eo Geraldo andava num mal humor. Mas. não. King Jim: O Jessé era o nosso roadie e segurança. e parava muito entre as músicas. Ele disse: “olha.. King Jim: O nosso baixista mandou o Chacrinha socar no cu aquela cenoura que ele usava durante as apresentações do programa. ele arranjava mais confusão do que qualquer outra coisa. resolvemos bancar um show ao vivo.. e ficamos de cara. .Luís Henrique Tchê Gomes: O Chacrinha tinha um negócio de brasilidade e irreverência do caralho. E já estávamos na rua quando nos lembramos disso – e lá foi o Jessé buscar. Os dois eram uma chinelagem engraçadíssima. vamos ser pioneiros aqui também e mostrar pra que existe um show!” O contratante disse que não era possível fazer um show de verdade. Mas o cara que nos contratou. o cara do som usava dois vinis da banda pra colocar uma música em cima da outra. A gente já tinha feito mais de vinte programas de TV . mas pelo inusitado de ir no Chacrinha.

.. e ia na gravadora com o uniforme do colégio.. todo quebrado. Acabavam os shows e vinham perguntar se ele não ia tirar a fantasia. com ele desse jeito. Achavam que era patifaria. seus filhos da puta!” King Jim: O cara parecia uma múmia. devia ter uns catorze anos. A gente via aquilo e ia correndo pro quarto punhetiar! . tudo. ficamos no camarim esperando. Eu também usava um topete de um palmo de altura. entra a Patrícia Marques – e ela era um tesão. puxou o tapete e foi tudo abaixo! Caiu bateria. Já o Castor tinha se acidentado de carro e estava todo engessado. Chegamos lá. e ele não teve dúvida: no meio da apresentação dos caras.. se quebrou todo! Edu K: “Eu dirijo. porque todo mundo tocava fantasiado na banda. E o programa era engraçado: o auditório inteiro era só de velhas. O Faustão.O programa estava no ar. Era olhar pra ela que todo mundo se borrava nas calças! Ela era muito novinha. Isso era a banda. tudo ao vivo!” E a essa altura o Jessé já estava no meio das minas.. A Biba de vestidinho pequeninho e eu de bermuda. Carlos Eduardo Miranda: O Castor virou um robocop mesmo. E a resposta: “isso não é fantasia. no motel – ligou a noiva dele dizendo: “eu te vi! Tu estava com aquelas minas na TV! Quero desmanchar o noivado!” Flávio Santos: O De Falla foi tocar no Programa do Bolinha na época do primeiro disco. Tinha uma estampa absurda.... chinelão. Pegou o carro e saiu fincado. cor de rosa baby. que apresentava o programa. dos pés à cabeça.... E logo antes de nós. Eu tô todo quebrado. Ele destruiu altas carangas. Dali a pouco – e eu fiquei sabendo disso depois. Ele estava parado numa rua perto da Vasco da Gama. com farol vermelho. com os Originais do Samba tocando em cima do tapete. Fizemos um show no Canecão. Edu K: Mas o maiô que eu fui nesse programa do Bolinha era tipo anos 50. A galera achava que o Castor estava fantasiado. Virou a rua e atravessou a Vasco sem olhar. E depois apareceu o Castor. e que na TV ficava muito parecido com os maiôs das boletes. tempos de “Não Me Mande Flores”. Era um robocop. eu sei dirigir” – foi isso que ele falou antes de bater. a polícia chegou e ele entrou numas que era treta. disse: “que loucura. no Rio. com um colete e um capacete.. Só que o Edu K estava vestido de maiô – que era muito parecido com o das boletes.

quando era pra ser o De Falla. Ninguém falava nada. dançando com elas. esperando pra ver se aparecíamos – e não rolou também. seco. e nada de resposta das pessoas! Saímos.. como sempre. Antes de começar... Pra nós. Flávio Santos: Depois disso também fizemos um programa de TV playback em Salvador. E a gravação nunca foi pro ar.. E. foi lá. Reza a lenda que o Castor ouviu o Bolinha dizer depois: “tocou a banda De Falla... Edu K: Nos reunimos pra ver o programa na semana seguinte.. Passei quase o tempo todo com as minas. uma barbaridade” – e a gente não apareceu. . eles nos disseram: “tem uma bateria montada ali. e nós de bermuda.. Era o segundo disco. dançou com as boletes. Edu K: As velhas adoraram. o Bolinha entrou no palco e ficou horas olhando pra baixo. só tinha aquela batera normal de playback: caixa e prato. os caras nos buscaram umas calças de palhaço – e tocamos com elas. tivemos que nos atirar no chão: “caminha por cima da gente! Somos teus fãs!” Flávio Santos: Aconteceu que na hora da apresentação o Edu pulou no cenário. indo de um lado pra outro em cima da mesa.. No que terminou. ficou a mesma coisa do show do Bolinha: aquele silêncio. cortaram! E me aparece o Bolinha falando: “e agora com vocês o verdadeiro sucesso da juventude. O apresentador se virou pro público e disse: “vamos continuar com o nosso axé!” Passamos o domingo seguinte inteiro vendo aquele programa de merda. Uma palhaçada geral. Flávio Santos: Parou a música. Começamos a tocar e o Castor foi pra bateria acústica. que não é como algumas coisas que às vezes aparecem aqui no programa.. Mas essa não é uma banda pro meu povão ver!”. Pra remediar a história. Um calor do caralho. E os baianos só olhando. Terminou a música e aí que fomos prestar atenção no público do Bolinha: só as velhinhas. o Edu pulou em cima dos jurados.Quando fomos aparecer na TV . Fomos cortados do programa. Puta que pariu! Todos os playbacks que a gente fazia não rolavam na TV! Não éramos uma banda de playback. Mas não podia entrar de bermuda: “só de calça”. com ela saindo do palco. quando lançamos “Repelente”. chegaram a se levantar batendo palmas! E tinha uma escadaria atrás do Bolinha onde as boletes dançavam. mas não toquem nela: é pra uma banda que vai tocar depois”.

Aí pintou TV para nos entrevistar. O artista não era o entrevistado. Mutuca: No fim da década de 80. os grandes nomes da cidade. porque poucos sabiam das coisas mesmo. eram as pessoas da mídia. mas sim o cara que estava entrevistando. É preciso estar em sintonia consigo mesmo. Daí falamos: “ah! Vamos botar que é música regionalista!”. a cidade estava assim: a gente fazendo música e a mídia divulgando. uma semana antes. O cara escreve. porque ninguém assina o que faz. na verdade. lotou a Reitoria da UFGRS. os mais vivos de todos. não liam nada. Ainda mais que futebol tem muito espaço na mídia. Tu já sai com a matéria pronta. teve o Sambasul – que tinha lotado o mesmo ginásio durante três dias! E não escreveram nem uma vírgula sobre isso. Mas. E onde está a História Oficial? Houve um momento em que o The Cure veio pra Porto Alegre e lotou o Gigantinho. Carlos Maltz: A mídia nivela por baixo porque é uma espécie de senso comum do inconsciente coletivo. As pessoas que sobrevivem são as que têm individualidade – os artistas de verdade. . A História Oficial não contou porque não existe História Oficial pra este tipo de evento. tem que estar contra a opinião coletiva média.Humberto Gessinger: A solução é tu falar cada vez menos na imprensa diária: ficar um bundamole.. Se não constantemente.. A música está ficando meio assim.. Carlos Eduardo Miranda: Mentimos pra toda a imprensa em um show do Urubu Rei. Nelson Coelho de Castro: E aí tem a História Oficial. Pelo menos em alguns momentos.. em início de temporada. Mas eu ligava a televisão e o rádio e comecei a perceber que os artistas. Então.. dizendo que fazíamos música regionalista. e os caras se repetindo. sem nenhum assunto.. Isso é a garantia de sobrevivência da obra. pra estar nessa sintonia. Rádio AM. porque os caras falam sempre a mesma coisa. Agora eu entendo jogador de futebol: eu sempre caía na cabeça deles. em algum momento este artista vai levar bastante “chumbo” da mídia.. A gente se ligou que os jornalistas não ouviam. são metralhados. também. invariavelmente. Mas tem que ser assim. Mas é o contrário: eles são é uns baita vivos. E... não os artistas. pro chefe dele. Que. estar cem por cento ao agrado da mídia é uma coisa muito perigosa: é uma indicação de que a vida dele não será muito longa. O artista tem a obrigação de estar contra o inconsciente coletivo – que é a mídia. E isso é uma merda..

Uma vez a Barba Ruiva foi fazer uma entrevista em uma rádio e os caras abriram o jogo. mas não vai rodar porque não é a ideia da rádio. O resto é consequência. e sim um outro tipo de diversão. ou não. Hoje. Esse trabalho ajuda o mercado do Rio Grande do Sul a não ser tão filho da puta. Não se pode confundir coisas! Eduardo Santos: Quem sempre promoveu as bandas sem gravadoras... mudou todo o cenário... A melhor propaganda de uma banda não é a foto na revista. estamos saindo na imprensa. de uma música só. Pelo menos ele foi honesto. fulano nos deu o computador. A melhor propaganda é o show e o CD. desde os anos 80. Não é aquela coisa tipo eixo Rio-São Paulo. Não tem ninguém que morra de amores por nós. Não vamos ficar mandando release de sei lá o quê. Todo ano eu passo minhas férias no Nordeste às custas das gravadoras”. nem o texto que sai na internet. os espaços pra arte e a cultura são raros. Duda Calvin: A Tequila Baby conseguiu espaço sem se preocupar muito com a mídia.. ou não. O que é vendido não é mais música. O rock foi contestador até os anos 60. sem pensamento. Porque ali ele já não era mais contestador.. É uma coisa muito mais na boa.” Um cara deu a real: “tu pode até deixar o material aí. ele por si vai gerar a falação. . Quando sair nosso disco. Entre mortos e feridos. Bandas locais. Mini: Divulgamos os Walverdes do nosso jeito: tudo baseado na música. de fácil aceitação. Quando as bandas chegaram. Frank Solari: O artista precisa do apoio dos veículos de comunicação numa primeira fase. Tanto é que estamos numa cidade muito menor do que o Rio de Janeiro. tipo: “fulano nos deu a mesa.Claudinho Pereira: As rádios tocavam noventa por cento de músicas estrangeiras e menos de cinco por cento de música nacionais até o estouro do rock no Brasil. onde as pintas querem se matar. Mano Changes: Existe uma competição saudável entre as rádios gaúchas. mas também não tem ninguém que não nos respeite. por exemplo. e tem muito mais rádios tocando. foi a Ipanema. Buda: Os caras das rádios eram mais próximos das bandas nos anos 80 e no início dos 90.

músico de carnaval. E nenhuma de nós sabia tocar um ovo. E se o cara está muito bem com a vida. E não existe crítica imparcial.. “Somos quem podemos ser”. E que obrigava a classificar: você tinha que ser músico erudito. Se ele não acordou bem naquele dia. da classificação como uma ordem vinda da mídia..” Eu vou falar de amor e de liberdade. Mini: Agora as bandas tocam e acontecem na internet. Quando na verdade tudo é música! . nós há anos na estrada. não somos tão irredutíveis assim. Humberto Gessinger: O Motörhead estava tocando em São Paulo e o Lemmy foi na rádio 89 dar uma entrevista. Mano Changes: A história de uma banda é muito mais árdua do que botar uma música numa rádio. Chegou. Não influencia em nada que eu faça. De capa. já acha qualquer porcaria legal. pagodeiro. Então. e estava rodando um som nosso. mas não vai ser um público que dure muito. não nas rádios.Tu pode ganhar um certo público aparecendo no jornal. Não vou chegar lá e dizer: “olha. tomou uma guampa da namorada. É a opinião pessoal de um cara que ouviu o teu disco. nesse sentido. Até porque.. hoje não existe mais isso. A única questão importante da imprensa é a venda de discos. já na década de 80. está na moda gostar de rock. em que havia uma moda mundial de taxionomia. Ele ficou apaixonado pela música e pediu o disco! Os caras de São Paulo ficaram malucos! Y ang Zam: Se me abrirem espaço na grande mídia. eu vou. Os músicos ficaram iradíssimos: “pô. já não tem mais tanto espaço... No rádio. e me botam essas minas que não sabem tocar porra nenhuma em capa de jornal!” Nei Van Soria: A imprensa pra mim nunca foi uma coisa importante. Era tudo programado. o que ele diz é quase aleatório.. Porque vou usar esse espaço pra falar de coisas legais. Nelson Coelho de Castro: Porto Alegre chegou num momento. ultimamente. Susi Doll: Um jornalista da Zero Hora nos encontrou e fez uma mega reportagem das Ninfrodizíakas. eu sou maravilhosa. eu sou linda. Nós íamos fazer um show no Opinião. As fitas demos mais podres tocavam na Ipanema.

Mostramos “Menstruada”. dizendo: “ou vocês param de tocar isso aí ou tiramos a rádio do ar”. além dos adultos maluquinhos. Teve gente que ligou. Katia Suman: Houve alguma coisa. que foi bombástica. que era a nossa favorita. bem empolgados.. Ajudou . Mas pra nós foi um estouro. E era uma putaria atrás da outra: “Minissaia sem Calcinha”. na verdade. E tinha censura na época – deu o maior rolo. e não passou: foi censurada mesmo. “Banana Split”. tocando todas as músicas da demo – eram umas vinte. Ela foi fechada e autuada. É uma música que. Isso aconteceu depois de uma temporada no Ocidente. Na realidade não podiam fechar a rádio.. “Dotadão Deve Morrer”. chamaram a Bandeirantes pra discutir o problema: a rádio ter rodado uma música que trazia problemas aos bons costumes. Mas apresentamos uma defesa e. Era uma demo nossa. que eles tinham gostado. Mas os adolescentes. contando que iam ter de parar de tocar nossas músicas porque a gente tinha que submetê-la à censura. que mandaram umas pessoas na Ipanema no outro dia – querendo fechar a emissora. ficaram alucinados! E mandaram cartas dizendo que aquilo não era certo. e tiveram que pagar uma multa do cacete só por causa desse nosso especial.. A Kátia adorou e tocou toda a fita. Então fomos na rádio fazer um especial.. “Morte por Tesão”. Jupiter Apple: A rádio Ipanema fez um especial dos Cascavelletes. ficou por isso mesmo. Não me lembro se foi algo do tipo a Liga das Senhoras Católicas. Foi o que fez o Dentel ligar. Mas gravamos a fita dos Cascavelletes e levamos direto na Ipanema. algum motivo de comoção. Mauro Borba: Através de um comunicado oficial. Todo mundo queria ouvir o que tinha na tal da fita.. muita violência. “Eu Quero Estudar”. Daí nos ligaram.Alexandre Barea: “Menstruada” tocava umas vinte vezes por dia na Ipanema.. no fim. Muita gente ligou pros órgãos da censura. Nei Van Soria: “Menstruada” foi um fato isolado e que teve uma repercussão fantástica. Vini: As músicas tinham de ser submetidas à censura federal. Não teve maiores desdobramentos. Mas causou comoção – e isso até serviu como um marketing pra banda. Os ouvintes ficaram horrorizados com as letras. Não só “Menstruada”.. “Minissaia sem Calcinha” e outras coisas do gênero foram ao ar.. como “Banana Split”. eu acho. mas rolou meio que um escândalo doméstico. tocou muito pouco em rádio.

. Os anunciantes também: achavam que a rádio era muito “vermelha”. o diretor superintendente me chamou já no outro dia. E o Jimi pegou e leu! “Estamos recebendo a carta do Fulano de Tal. A questão da censura.. E. Critério não existia.. pros caras analisarem. querendo saber o que aconteceu.. É claro que. Nilton Fernando: Essa censura na rádio já tinha acontecido antes com o Nei Lisboa. as lendas se criam em torno de ações como essa. era copiada. com todos os palavrões que estavam nela. com “Mônica Tricomônica”. muito legal. Mas é claro que.. mandei a música pra Brasília. Ela lançava moda.. dizendo que nunca tinha escutado ninguém falando palavrão na Ipanema. O locutor leu uma carta pra provar que não tinha mais censura... muito educado... não dê bola.. Em 84. Era aquela doença sexualmente transmissível que o Nei fez uma alusão na música. mas não foi ele que escreveu. Tinha um assessor dele escutando a rádio e um louco estava chamando o Dentel de tudo quanto é coisa no ar. Na real.” Esse povo ficava meio apavorado. Que nunca tinham xingado a censura. Mauro Borba: Esse espírito de romper barreiras foi muito usado pela Ipanema. inclusive. Nei Lisboa: Tinham mil letras com sentido binário. Como eu era o coordenador da rádio.. o Dentel. a gente passou a notar que isso também era um marketing. depois de um tempo. que fazia mil e uma coisas.. que o Dentel era isso e aquilo.a formar a fama da banda de sacanagem. não. E ele não sabe o porquê isso aconteceu. bobagem. a secretaria da saúde do Rio Grande do Sul me pediu pra usar a música em uma campanha de combate a doenças venéreas! Eu tive várias censuradas: “Chimarrão Crioulo” foi outra delas... pequena. me ligou um cara. E disse: “escuta.. Nilton Fernando: Essa rebeldia da rádio até que era aceita. isso aí é tudo uma gurizada louca. ao mesmo tempo em que eu levei um não de lá. às vezes. “Mônica Tricomônica” é sobre uma doença venérea leve. a gente ficava um pouco assustado. O cara dizia no texto que queria ouvir dizer essas e essas palavras. onde se pode falar tudo!” E aí um ouvinte mandou uma carta. dizendo tal e tal. No Programa de Índio – essa foi a mais forte – o Jimi Joe dizia: “esse é um programa livre. a uma das rádios mais influentes da cidade..” Leu a carta inteira. A rádio passou de uma coisa alternativa.. .” Mandamos uma resposta pro cara da censura: “não.

Ficamos bons em produzir metáforas. Luís Motta: O Jazz do Zé Galinha é o nome de uma tosca fita demo que gravamos em 95. se fala besteira do início ao fim e as pessoas acham engraçado. E.Julio Furst: Queria fazer do “Vivendo a Vida de Lee”... O fato é que em 95 era muito mais fácil ter acesso às rádios. me apavorando todo. não iríamos a lugar algum. Falava o contrário do que pareceu pra muita gente: “seu delegado. 76. Eles estavam na tomada de som. Fiz uma música que se chamava “Os Marcianos Invadem a Terra em 2815”. era uma grande coisa. início dos 80. Como se fosse uma agressão. O protagonista da música estava contando porque tinha sido preso. Mas depois apareceram outras piores. E a gente ainda tocava mal. Tocávamos as músicas censuradas e isso dava mais ibope. Mas tinha censura.” foi composta gozando isso. que hoje toca mais do que nunca na rádio. tinham de ser convidados pros ensaios. A Graforreia demorou tanto pra ser aceita. um miniWoodstock. na realidade. Marcelo Birck: As pessoas tomavam como uma ofensa pessoal as besteiras que a Aristóteles de Ananias Jr. que dizia: “tutelaram tudo”. com esse nome. não tenho nada a ver com isso. passarinho. Nos demos conta de que. Não tínhamos um ranço político.000 Pau na Racha... eles iam também. a história de um travesti... Essa música foi completamente vetada pela censura. gravada em . diante de um delegado: ele namorava uma guria que era da Libelu – Liberdade e Luta – nome de um movimento dos mais radicais. A música “R. Agora se chega numa rádio.. E é um absurdo pensar que isso foi absurdo! Leandro Branchtein: Algumas músicas dos Eles foram censuradas – o que naquela época... e a Graforreia ficavam falando nas entrevistas de rádio.. como é hoje. borboleta fora da gaiola. pra ser sincero até gosto do fascismo”. nos concertos. As pessoas interpretavam muito ao pé da letra. de patrulhamento ideológico. A fita correu as lojas e ficamos com a fama de pior banda da cidade.. era totalmente irônica. A banda era então chamada de 10. Falava-se de pomba.. Nelson Coelho de Castro: A censura fez com que a gente falasse pelas entrelinhas.U. Feita pelo Chaminé “Alfredo”... Fui chamado mais de quatro vezes na censura. em 1975. Fernando Pezão: O Saracura teve música censurada. e não 10KPNR. Um ensaio. Seja nas nossas versões ou especialmente em covers... Tanto que essa fita.

com um nome tosco.... a Katia Suman. teve sua música “Resposta ao Pensador” executada em horário nobre pela então DJ da noite na Ipanema. Tenta levar hoje uma fita tosca. ...um estúdio tosco. Imagino o desconforto que ela teve ao anunciar o nome “Dez Mil Pau na Racha”. em qualquer rádio rock do Estado pra ver onde ela vai parar.. Isso ficou nos anais do rock gaúcho.

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E após uma caminhada.. Foi uma coisa meio doentia. No fim do show. puxei ela e iniciamos um affair em cima de um morrinho. No outro dia só ouvi os relatos. e eu não pude suportar! Perguntei se ela se picava. E uma garota loira. tomei um banho quente e desabei.MORTE POR TESÃO Plato Divorak: Como estudar o cérebro de uma garota? O que será que ela está pensando na hora H? Toquei três anos atrás em Santo Antônio da Patrulha. goza”. porque não tinha visto nada: a moça saiu do ar e a galera começou a se servir dela. Luciano Albo: Os Cascavelletes fizeram um show bem peculiar em Santo Ângelo. E não pude aguentar aquela sereia nadando ao meu redor.. a fim de curtir um show pesado. Dei um grito e todo mundo levantou seus skates. Pela manhã. Ela me levou pra sua casa. Ela chegou pertinho e eu fiquei de pau duro no ato. de já estar meio fora do ar. me colocou em um belo quarto. Ficamos juntos por uns dois anos. Sempre tinha um quê de quebra-quebra nos hotéis.. E foi pro hotel junto com todo mundo. berrando. ela disse. “Goza na minha boca. Foi fantástico! Me deram cachaça vermelha e azul – do Grêmio e do Inter – e tomei as duas. passou a mão num sanduíche duro que tinha na cabeceira do lado . dentro da água. fazia gestos pra mim. Então eu cansei e desisti. rolou aquela coisa de groupies. Dizem que ela acordou de manhã. fofinha. Eu convidei ela pra subir e dançar uma música dos Mutantes. A guri zada que passava se divertia: “lá está o safado do vocalista fazendo uma suruba!” Fodemos como loucos na praça em frente à casa que a garota morava. Eu sei de baquetas que fizeram penetrações. a água está boa! Venha mergulhar na nossa piscina!” Fui de cueca cinza mesmo. Não chegaram a transar – só fizeram experimentos. Trocentos homens pra uma mulher”. Fizemos um show acústico e eles gostaram porque eu disse bastante palavrão. Uma arena. E ela: “não. Pensei: “daqui não vai sair nada. Fodemos ali mesmo. O pessoal estava irado. já me acordou toda molhada de água da piscina: “vem Plato. na ida pro hotel. e coisas do gênero. gozei bem nas tetonas dela. um troço muito bonito – e estava cheia. meio grogue. vandalismo. acho que era “Sr. que também é uma cidade peculiar.. Ela já estava trocando as pernas. Lá pelas tantas. sob as folhas secas daquele outono. tinha tomado umas boletas.. ela começou a fazer um striptease.. Um show muito gozado: estava chovendo e. Os roadies voltaram pro ônibus com uma loira enorme. F”. né seu besta!” Algo nos unia. Acredito que num cinema.

e vi uma mina muito deprê... Carlinhos Carneiro: Eu estava voltando pro hotel com o pessoal da Bidê. trouxe pra casa da vó e ainda disse pro taxista – puto – que não ia pagar a corrida.da cama. sentada num sofá no hall de entrada. e o Dolls tinha sumido. quebrado. Minha vó dizia assim pra elas: “mas. por que vocês fazem isso? Ele ainda é um senhor bom.. Festival da Doença Venérea.. mandou o sanduba a seco e foi embora. reclamavam. e disse pra minha mãe que tinha deixado duas putinhas lá na vó”.. Algo havia acontecido. Perguntei: “o que houve. No fim. e ao mesmo tempo. E todas as minas eram vagabundas e todos os caras filhos da puta. todo ensanguentado. meninas. Edu K: Porto Alegre era uma Babilônia. Só que o taxista foi atrás dele pra cobrar a viagem. Sei que ele pegou duas putas. Então. Só aí me dei conta que a mina que estava com o Rossatto era aquela. queriam receber a grana delas! “Ele nos trouxe aqui e a gente quer o nosso dinheiro!”.. ele entra com uma fila de minas atrás dele. estava parando na casa da minha vó. E. com cara de deprê. Nos anos 80 não se falava em aids. todo mundo pegava. Daqui a pouco. coisas assim. todo mundo acabou ficando com alguém: roadie. ele chegou em casa. eu e os outros caras da banda entramos podres no ônibus.. todo mundo comia todo mundo. Em Atlântida. É que ele pega os táxis e começa a tirar uma onda dos taxistas: “bah! Tu é veado?”. Rossatto?” E ele: “a mina estava aqui. O cara deu uma bomba nele! Meu tio subiu pro apê mesmo assim. era uma fudeção generalizada. Alexandre Ograndi: O meu tio. São as mulheres mais lindas do mundo. Ela não quis me dar e então mandei ela embora do quarto”. já pelas seis horas da manhã... operador. com a minha vó – e assim como o cara.. chupou o meu pau. Umas quinze! E rolou uma festa. E rolavam várias histórias na praia. Imagina se vocês pegam um velho tarado!” Gustavo X Aguirre: A Justa Causa tinha dois fã clubes – um deles. Hoje em dia não tem mais essa moleza. Carlos Eduardo Miranda: Uma coisa que mudou bastante em Porto Alegre é a putaria descarada.. só de minas. Ela mora no mesmo prédio da minha mãe. Entrei no quarto e o Rossatto estava dormindo. E desceu. as mais vagabundas. E as duas minas também estavam lá. motorista do ônibus. O pior . depois do festival de rock Goiânia Noise. Quando um pegava gonorreia.. o Peréio.

Por exemplo: tem um amigo meu que é médico. por dois reais. indignado. Todas as enfermeiras.” O cara me viu. dei de cara com um travesti com os seios de fora. E ele. me acalmei porque passou um carango dos guardinhas. Depois. têm as que vão em shows de rock. respondeu: “eu não comi. Têm as que vão em jogo de futebol. Não conseguia parar de pensar no bafo de cachaça do sujeito.é que um cara de outra banda comeu ela depois! Os caras do hotel quiseram cobrar do Rossatto a diária da mina. Carlo Pianta: Acho que tem muito mais histórias de orgias sexuais na advocacia do que na música. ela dizia. Cobrem de quem comeu!” Plato Divorak: Estava na Redenção. tinha fechado tudo comigo pelo telefone. Eu já estava levantando a calça. Achei uma loucura! Ela. e de repente aparece um negrão. no escuro. olhando as estrelas e as estranhas esferas. conseguiu ter uma visão de mim! Saí correndo em disparada. no hospital. não vou pagar. têm as que estudam medicina. apenas rebolava bastante: “goza gostosão!”. chorando. E eu consegui. O sujeito que nos contratou. Na correria. e aí vai.. na Argentina. dizendo: “seu gato. tem um pessoal aqui que quer conhecer vocês. Cheguei pra tocar na casa dele. me masturbando. Poderiam entrar no camarim?” . e o gozo veio forte demais. dei um tiro na minha muié. e ele disse: “ó. Colocou a cabeça no meu ombro e começou a se lamuriar. topou que eu fizesse mais uma punhetinha. suando frio. Ela mostrava aquela bunda maravilhosa e rebolava. e ele disse que teve que parar de comer as minas que queriam dar pra ele.. as residentes dão pros médicos. Branca: A M16 foi tocar num pueblo chamado San Javier. não sei de onde. todo mundo dá pros médicos! As que estão no curso de medicina dão pros residentes.

ela me encontrou e veio falar comigo.. Então nós. e outra. recebíamos muitas cartas de tietes. pra depois ir no show. e deixei o porteiro avisado de que umas gurias iriam chegar. É que o brasileiro tem fama de foder legal. Então eu falei pra ela: “ah. se quiser. se confessando: “tenho dezesseis anos e estou apaixonada. o cara telefonou pro meu quarto: “as gatas . os comunicadores. Uma menina de Caxias me mandava cartas. Alexandre Barea e Frank Jorge Quando abri a porta.” Passei o som com a banda e voltei pro hotel. Subimos pra Caxias. Os Cascavelletes nos bastidores de um show no teatro Renascença. ela me mandou uma foto: a mina era um bombonzinho! Uma italianinha princesa! Até que pintou uma apresentação lá. Antes do show. pra me dar.. e avisei pra ela do hotel onde eu estaria. tu pode levar uma amiguinha também... V olta e meia. em 87: Flávio Basso. Elas eram da sociedade do pueblo. com show da Bandaliera – e ela disse que queria me conhecer. Quando elas pintaram...Rock sexual e juvenil. Ricardo Barão: A rádio Ipanema entrava a mil em Caxias do Sul. era uma mulherada! Uma mulherada sem calcinha. Nei Van Soria. a gente pegava uma banda e fazia uma festashow na cidade. Eu estava tomando uma bebida cubana e uma mina sentou no meu colo – e daí já veio outra. e marcamos de jantar.” Numa dessas cartas.

estava no quarto com uma garota. Eu cheguei nela. no meio da confusão. E o Gugu. peladão. levou. ele deu com a cabeça no batente da porta. Estava um frio de matar! Me levantei. Já estava há meia hora no quarto. o batera. quando eu vejo.. Quando eu estou voltando pro meu quarto. Só que as mulheres não estavam dando bola pra gente.. Devem ter trancado a mina em casa. na berraria. Depois. Ficou todo mundo olhando: “puta. Gustavo X Aguirre: Chegamos no hotel depois de um show da Justa Causa.estão aí!” Eu tinha tomado banho. botei as calças e saí. Foi quando deu o maior bolo na entrada do hotel. Comi a mina ali rapidinho. o Jacques e o Marcinho. a acompanhante da mina era a mãe dela! A coroa tinha ido junto! Me desculpei. ouço uma gritaria no fim do corredor. porque ela estava demorando muito pra descer. E o meu irmão lá fora. louco pra juntar minhas coisas.” A mulher saiu dando cascudo na guria! E terminou com o meu sonho. a senhora me perdoe. e pensei: “pra que botar roupa? Vou é ficar pelado mesmo!” Elas bateram na porta e eu abri. mas achei que fosse o pessoal da banda.. Eu olho pro lado: está a loirinha pelada e apagada. e me fudi. Barea! Vem cá!” O Flávio tinha uns lances de hipocondríaco e. Foi toda a banda e os roadies – que depois viriam a ser do pessoal do Rosa Tattooada: o meu irmão. Uma gostosinha toda enlouquecida. Rasgou. E eu não resisti: baixei as calças e pá. e achava que ia morrer. E eu trancado lá dentro. A gente se olhou e disse: “bah. Alexandre Barea: Os Cascavelletes tocaram em Cruz Alta e depois seguiram pra mais uma festa em outro clube. Rolou meio que uma correria pra dispensar a mina. . Isso. fiquei tomando uma cerveja e foi a vez do meu irmão. totalmente bêbada. que merda!” Ele arrastou a mina e foi pro hotel. fiz um carinho nela e a mina acordou. pegar o ônibus e ir embora. Nós estamos todos tomando banho. bater na porta e avisar o Gugu que estava pintando sujeira. Cheguei no meio da confusão. Só deu tempo de eu subir correndo. O cara saía com cara de bunda e voltava pro hotel.. maravilhosa. Quando eu parei na frente do quarto. Estava o Flávio Basso gritando e pulando: “Barea. dançando sozinha no meio do salão. às cinco da manhã. Tinha um loirinha linda. sem jeito: “bah. Mas. e agora?” Deitei. Chegamos lá tentando descolar uma mina no fim da noite. melada... Os caras berravam: “tu foi o oitavo. Chegamos pra ver o que era: a amiga dessa mina tinha chamado a polícia. naquela situação: “sei lá. dei a minha melhor rasgada. Não a vi no show. me empurraram pra dentro e trancaram a porta. é essa!” Fomos chegando um por um nela pra rasgar e a mina dispensava.

A delegacia era do lado da casa. Tinha um black. Essa foi punk. Nós estávamos pegando essa mina e ela negou. As línguas delas entrelaçadas numa só me deixaram louco e estático. numa casa de dois andares. Plato Divorak: Durante os shows da Père Lachaise em 90 e 91. berrava feito uma cadela. entrou duas vezes na fila!” Solon Fishbone : Uma mina estava muito louca. em São Paulo. que montava a luz dos shows. quando estávamos indo embora pra Porto Alegre.. E os porcos ali do lado. e começamos a ser mais ousados. Já a Prize. Deixamos ela pendurada nas grades – nós chicoteando e ela gritando. como toda americana. Sentados à beira-mar. no final.. eu dei um bilhetinho a ela. a mão de Elizabeth Shaler veio conferir a dureza do meu pênis. o ex-vocalista da Justa Causa.. Ela fazia coisas do tipo: abaixar as calcinhas. e entreguei o bilhetinho com o meu endereço. vagina americana. poesias e corações! Em dois meses ela já estava na minha casa. com barraca. Carícias.. Outras vez eles vieram bater na porta pra saber o que estava acontecendo. meu primeiro menáge a trois. mijar na frente do porteiro e rir de tudo. Foi a coisa mais canalha que eu já fiz na minha vida. eu tive uma namorada americana: ela gostou de mim e de todos os caras da banda. e eu só fiz assim. e os seios enormes. em nossa barraca Yanes azul e amarela. Mas. e ele já estava em cima dela. Quando fodiam ela. Tirei toda a minha roupa naquele frio. e aconteceu: no dia seguinte. no espaço Retrô. com umas grades nas janelas. vimos uma garota passeando entre as ondas. e aprendeu português na Bahia – num mês só. Todos os integrantes da banda queriam ela. Fizemos ela sair pela janela. A simples visão daquele clitóris enorme e americano. .Barea! O negão Bozó. A praia era Pântano do Sul. da Iluminação. línguas na xoxota e na piroca. fiquei vidrado! Logo.... incrível! Ela pegava as minhas gírias no ato. com a mão de lado.. A mina estava desmaiada. com o sol a pino. Ela nos olhou. Nesse tipo de palhaçada os Cascavelletes eram imbatíveis. Eram três magrões em cima dela tirando sua roupa. o Bozó. e os porcos todos os dias ouviam aquela mina berrando: ela gritava como se a estivessem matando – e os caras ficavam apavorados. E nós: “ah é? Então tá”. em matéria de drugs era osso duro de roer. Fazia brownies e pizzas New York style. num movimento meio destinado. Tinha tomado e bebido tudo e resolveu ir pro hotel com os caras dos Cascavelletes. Ela tinha uma banda chamada Church of Betty. Edu K: Levamos uma mina pra casa do Ratão. Dormimos juntinhos os três. Levei-a pra Floripa.

fazendo horrores. Paulo Alexandre Paixão de Oliveira. não esse vagabundo que você é”. Kako Kanidia: Uma garota estava em um show da Maria do Relento no Paraná. mas como eu nunca tenho dinheiro. ser um bom trabalhador. se vestiu e foi embora com ele. tirando. Humberto Gessinger: O auge da nossa energia não é essa coisa de groupies. Ela deu para todo mundo – e deixou filmar. mas não contaria nada. Então o técnico deu vinte pro cara. Quando fomos pro hotel dormir. De manhã. não posso ir. V ocê pode trabalhar aqui Paulo. estávamos saindo fora. veria toda a cena. . que era a uma quadra da casa dela. tirou tudo. eu poderia trabalhar na casa de licores Oliveira. Foi tirando. Estaria grávida? No próximo ano ela voltaria. Se desse mais um passo. ela me manda cartas pedindo pra eu ir pra Nova York. Tu pode ser Paulo Coelho.. usando uma camiseta do AC/DC.” E ela na TV. quando de repente entrou a mulher: “eu queria me despedir de vocês.. Numa terça-feira. O que aconteceu mesmo foi que todos os anos. eu vi uma lágrima. Engenheiros do Hawaii. que ficou dormindo: “olha o que rolou ontem de noite!” Estávamos mostrando tudo. Solon Fishbone : A Galera ia no Ocidente pra ouvir som e tomar cerveja. até hoje.. Como eu era Oliveira. Espero que voltem.. Nino Lee: A mina.. Ela me mandou uma carta dizendo: “Liquors Oliveira House. Ela pegou a roupa. é fã da personalidade. e saiu com a mulher. Tem fã que não é fã da banda. tinha ido acompanhada pro show e nosso técnico perguntou na maior cara dura pro sujeito que estava com ela: “quanto é que tu gastou com essa mulher aí?” Ele: “gastei quinze pila com a vagabunda”. todo mundo já estava bêbado. E uma mulher começou a fazer strip-tease no mezanino. apareceu o cara da técnica dizendo: “lembra daquela gatinha que estava na frente do palco? Dá uma olhada. Nunca teve muito essa energia sexual. Ela está dentro do banheiro”. bêbado e subiu querendo agarrar a mina. Eles desceram a escada rolando: a mina pelada e ele agarrado nela. qualquer coisa... e fomos mostrar o vídeo pro nosso empresário.. tirando. O Flavio Basso estava muito louco. jogador de futebol.Quando a Liz – eu chamava ela de Liz – foi embora de Porto pra Sampa. dentro do ônibus. que era puta. As meninas são aquelas de oclinhos e roupa larga – mais ou menos o que a gente projeta no som. Ela passou a mão sobre a lágrima no canto do seu olho.

uma tal de Marcinha: diziam que ela ia com todo mundo. Rafael Rossatto: A Bidê estava em São Paulo num hotel chique pra caralho. No que eu chego lá. Até que alguém atacou primeiro e agarrou a mina. comeu ela no ato. e foi pro quarto. No dia seguinte.. peladinha.” Ficou umas três horas no telefone com a galera.. Carlinhos Carneiro: Uma garota ligou pro Rossatto em São Paulo. Tinham falado de um mina. Ela respondeu: “então eu vou aí!” A mina entrou no ônibus.. me ligou uma guria: “gostaria de falar com o Rossato. Tomou o banho de piscina. E nós: “vem aí amanhã... o Alexandre. como estava todo mundo bêbado. em cima da cama. Pedi pra entrar e me deparei com a cena: todo o pessoal da banda e da equipe. ela se contentou em conhecer os roadies. e nós todos em volta: “vamos lá. E tinha um quarto fechado. Só que ninguém conseguiu comer.. e desde o início tinha uma loirinha maravilhosa me mostrando a chave de casa. Vem tomar um banho de piscina com a galera!” E a guria apareceu. cinco estrelas. que era uma casa. E ela: “tudo bom? Eu sou muito tua fã. . tomando todas com tudo pago. E depois veio outro.Marcelo Truda: A gente tinha fã-clube. de fato. e a chinelagem rolava. ninguém chegou perto. da Bidê ou Balde”. e ele já saiu contando vantagem dizendo que uma suposta groupie iria nos visitar. quero a equipe toda”. mas a Bidê não estava: então. vamos lá!” Jacques Maciel: A Rosa Tattooada estava fazendo um show no Cassino. Expliquei que íamos sair da emissora e pegar o ônibus pra jantar. Então.. Respondi: “É ele”. porque estava todo mundo bêbado e brochado. fez um strip-tease... Chegamos em Rio Grande depois dos Garotos da Rua terem tocado lá. aí ela caiu de boca. ela revelou uma queda pela prática do groupismo. já estava um festerê: um mulherio. e o operador de som da época. A gente foi dar uma entrevista na rádio – e logo depois ela ligou. Eu sempre fico ali no palco pra falar com a molecada.. Foi uma menina bem democrática nesse sentido: “não quero só as estrelas. balançando a chave. ela voltou pro hotel. E. Fingindo que estava cantando a música “MercedesBenz” com um microfone na mão! Mas. Todo mundo em volta da cama – vendo a loirinha que estava no show. muita gurizada que estava no show. Acabou o show e demorei pra ir no camarim.

Na . com uma maletinha na mão.. Eu realmente não conseguia manter contato com a morena... Era uma loira de cabelo liso e comprido. Viajei sentado atrás do carro. não... Porque ela tinha o corpo escultural. casado com duas mulheres que não sabiam uma da outra. Então tivemos quinze minutos pra pausa. que é isso?! – Não. cara. Se tu acha ela feia fecha os olhos. Um lugar tipicamente peonístico. ela vem até mim – a loira – e me beija: – Tu tá tão suado querido. parecia uma deusa. porque ambas me traíam com outros homens. eu tenho que me concentrar. Começa a rolar uma transa entre eu e ela – terminou que aconteceram tomadas realmente carnais. isso foi lá por 87. singelos. e tetas muito caídas... linguinha no cuzinho. É o típico filme brasileiro! Um filme sem classe. pensa nela. faz que tá acariciando... tinha um cabelo preto. E o diretor chegava pra mim: – Toma um banhozinho.. E uma das minhas mulheres atendia: – Quem é? – Sou eu amor. Me achava um safado – mas na realidade elas seriam as safadas... ao lado de uma loira bonita e de uma morena feia – mas com uns peitões bonitos. Era assim que aconteciam as coisas nesse filme. Com o negão safado já ali. daqueles que parece que não são lavados... que devia ter seus trinta e cinco anos. Foi aí que os caras me advertiram: – Pô! E esse pau mole. que era do meu tamanho.. cansado. abre! – Tá aberta! Quando eu abro. eu sentia que essa atriz era o tipo de loira burra: tu não podia conversar muito tempo com ela. E eu – Plato. apesar de linda. Fizemos um filme pornô chamado “De Marte às peladas: na boca da trixa”.. Estive em São Paulo há uns três ou quatro anos e vi o filme novamente: fiquei horrorizado. e batia na porta. aqueles carrões tipo anos 50. Então eu chupava aqueles seios com sofreguidão. Pegamos um carro. E ela começa a tirar a minha roupa. canastrão. A história do filme é completamente ridícula! Era um executivo. Já a outra. e fomos pro interior gravar. e não dava certo. fora do filme. dá aquela reboladinha pro lado. eu estava querendo isso. Perguntava no filme se ela tinha gostado do último filme do Chico Buarque. filmando.. da mais absoluta carnacidade: sessenta e nove. E ela não correspondia.. Meu nome artístico era Erik Fantazy. O problema era que. Tínhamos todo o espaço pra improvisar. não o Erik Fantazy – queria me casar com ela! No fundo mesmo.Plato Divorak: A história rolou em São Paulo. Eu chegava em casa. mete com todo o carinho do mundo. 88.

e ela metia umas porradas na cara do velho. Tinha outro cliente que recebia a puta na sua casa já ajoelhado. a história do diretor. A resposta da mina foi a seguinte: “é que eu tenho um piá morto na barriga!” Essa putaça chegava com uma sacola cheia de piças. A puta andava de metrô com aquela sacola cheia de piças. que tinha vários clientes.. uns japoneses executivos. Usava um casacão cor-de-rosa. Sem roupa. “De Marte às peladas: na boca da trixa”. de três ou quatro dias dividindo o apartamento com elas. todo mundo deitado no chão. Olhamos pra dentro do banheiro e as gurias estavam cheirando cueca. e a cozinha já dava pro banheiro. E as duas sempre conversavam sobre os clientes. E nós lá: os quatro e mais todo o equipamento. aparecem nossas fotos posando como super herois. Foram uns dias do caralho. Ela andava de corpete. guri!” – pra fingir que era a mãe dele! Mas ele só gozava mesmo quando ela pegava a faca e o ameaçava de morte. o Jacques me chamou pra mostrar uma coisa: subimos no fogão e demos uma espiada pela basculante. teve um período de transição. cheia de caralhos de borracha de tudo quanto é tamanho e formato e aquelas bolas que as putas enfiam na bunda.. Um dia. . e com um X no sexo. Uma das minas era de um clube de dominação.. na volta do serviço. E um dos clientes pedia pra ela levar uma panela.capa. quando fui visitá-los. Chaminé: Aquele apê dos caras do Rosa Tattooada em Sampa era brincadeira. e a gente ia ficar morando lá. Elas estavam se mudando. E as camas ficavam uma do lado da outra. tinha partido da Boca do Lixo. Uma alemoa acabada de Santa Catarina. Cobrava cento e cinquenta dólares dos velhos pra dar porrada neles. uma colher de pau e uma faca ao encontro. O auge do velho era quando a puta começava a bater com a colher na frigideira e dizia: “vem comer. Jacques Maciel: Moravam uma conhecida nossa e uma outra mina em um apê em São Paulo. Era um apê assim: a entrada era a cozinha. Mas este nome não tem nada a ver com bicha! Era só pra dizer que tudo aquilo. A loira contava que um velho pedia pra levar uma frigideira. Parecia um presídio. Essa mina tinha uns fregueses.. essas roupas de putaça – uma mina tri escrota. Por isso. Uma delas tinha a metade da cabeça raspada e a outra metade toda tatuada. Essa mina loira tinha uma barriga tão escrota que tivemos que dizer que ela era uma relaxada. Eles não faziam porra nenhuma: tocavam uma vez em cada três meses e eram as gurias quem faziam o rancho. A guria também dava no cara de chicote.

começamos a cantar as músicas inteiras. no hotel Jandaia. um dos músicos chegou na gente e começou a falar de outro cara da banda: “porque esse cara é bom de foda.. se não te maminha. não acreditaram nisso. é comedor mesmo. E os caras. viajávamos e ficávamos cantando todas as músicas do disco dos caras.. a gente encara qualquer negócio. O negócio é comer carne! Se não tem chuleta. tocamos numa banda chamada tal. É mais pau dentro do que fora. Então.. E um amigo nosso. claro. era grossura mesmo – de meter em qualquer buraco! Pra completar.. que era do grupo Raiz de Pedra. são de onde?” Eles falaram: “ah. olhando pra trás e fazendo um sinal de chuchu beleza. machão: “pois é. A gente tirava muita onda. Chacrinha e tudo o mais.Justino Vasconcelos: Os Garotos da Rua estavam no auge. tem maminha. aids é invenção de padre!” Os gaudérios davam muita risada da nossa conversa.. os Garotos!” E nós dissemos: “isso aí.. Não acreditamos. na nossa frente! Na mesma hora. porque tá na hora de trabalhar!” E saiu andando. tem picanha!” Estava cada vez pior.” King Jim: Conversávamos com todos os artistas... meu amigo. Então perguntamos: “e vocês não têm medo de aids?” E a resposta deles: “ah. deu um sorrisinho de “oi” e disse.. Eles nos pararam: “bah...” Ficamos perplexos. A banda que a gente ti rava muita onda estava ali. aí vem ele!” E o tal comedor chegou hotel Jandaia adentro. “Os Garotos conhecem as nossas músicas!” E ficou aquele clima. Mete em tudo quanto é buraco.. de braço dado com o sujeito. estávamos no Rio.. ó. Um dos caras da banda de gaudérios nos disse assim: “ah. Só tinha dado umas três vezes. somos do Rio Grande do Sul. e cruzamos com uns caras no hotel... de pau. Numa dessas de Chacrinha. né.. Daqui a pouco ele chega aí.... que chamávamos Gandaia.. isso é frescura. Porque não era homossexualismo. o cara que entregou o comedor contou outra dele. homem é homem e mulher é mulher!” E ele: “bah.. Não tem esse negócio de só mulher gostosa!” . e vocês. Mas daí não era gay: era puro mesmo.. como que pra se redimir: “esse aí há pouco comeu outro homem. Mas bah. de braço dado com um daqueles cantores de TV veados que imitavam a Gretchen! Parou na nossa frente. Mas me dêem licença. Dissemos: “mas. nos presenteou com um vinil de uma banda de baile gaúcha super conhecida nas antigas. como se fôssemos tri amigos. E aí esse cantor veado andava por todo o hotel. tamos aí.

.. Largávamos o carro no meio da estrada e entrávamos mato adentro – o Rosa também.. Solon Fishbone : O Luciano. E falei pros meus pais! Eu era uma criança. pra rir. Meus pais eram os mais brabos. Tudo começou às sete da noite e foi até o outro dia de manhã – isso.. eu não sabia se era canhoto ou destro. eu sou profissional: sóbria.. ao meio dia... E a gente tinha ido comprar jornal. no Joe’s. O lance é que. Cida Pimentel: Eu tomei meu primeiro ácido aos quinze anos. Sempre tinha o porre. até esqueceram que essa festa aconteceu. na Ramiro Barcelos.. mas tudo o que eu fazia era de dia. O troço era muito forte – tanto que. Porque. que organizamos.. participaram da festa.. não tinha nem como chegar. Sagrado assim. Os caras beberam tanto e se drogaram tanto que. Aí bateu o ácido. que devia ter uns três andares. na .. Porque pra nós.. depois do riso. intocável! Mas. Então. A festa acabou segunda-feira. não era como hoje em dia. Ele disse pra mim: “abre a boca”. e comecei a ver umas luzes saírem do espelho. Tinha ido comprar jornal pro meu pai! Eu e uma amiga encontramos o Moreirinha. dentro da nossa boca – e fomos pra casa.. de ficar grudada na parede.. Acho que todos os moradores do prédio. acho que mais ou menos em 87. pro público normal da festa. antes do show. Basta ser gaúcho. de repente. Tinha um espelho enorme de cristal na minha casa. na frente do Joe’s. E ele resolveu fazer uma festa de arromba. Quando íamos pra lá. de domingo a quinta. coisas assim. Ele comprou umas quinhentas garrafas de cerveja.ESTUPEFAÇÕES João Gordo: Não precisa nem ser drogado. tomar uns ácidos e cantar. duas meiotas. ele botou dois papeizinhos. no bauru do Trianon. Não era um negócio porrada tipo MC5. Então tinha essa de fumar um. cidadã. morava num apartamento térreo.. Gaby Benedyct: Sempre gostei de tomar uns porres de sexta-feira. sempre tem aquela parte chocha. que era vocalista da Prize. litros e litros de whisky. no patiozinho dos fundos. Chaminé: Nós inventamos Garopaba. durou até segunda-feira! Tínhamos um show da Prize no domingo e tomamos uns ácidos que vinham da USP. brincava de Suzie. na sexta. vendo o show de cantinho..

disse que tinha umas receitas azuis. e ficamos sem saber o que fazer.. que me deu uma batida muito violenta... eu notei que tocava – e não saía som! Olhei pro Solon.. Tomamos. estávamos numa loucura preta. As pessoas ficavam como se não estivessem sentindo nada. quando a Prize ia fazer um show. O oxigênio é a maior droga do Universo. dentista. Dali. Mequalon era a droga da época.. O ácido chegou na hora da passagem de som. E eram uns ácidos fortes pra caramba: a gente não estava acostumado. Eu diria a essa juventude pra que apenas aprenda a respirar direito. Eu comecei a tocar e a batera parecia estar flutuando. que se virou pra mim com uma cara de apavorado. Mas teve um. Só sei que foi o último. Nós estávamos perdidos. Biba Meira: A gente tomava ácido antes de alguns shows. porque tomar. Estávamos em um shopping.. a Groove James é adepta do zen budismo... Christian: Na real. Eu não me lembro o que aconteceu. em vez de fazer as notas. Então. com umas cervejinhas. Ele segurou as seis cordas juntas e. tá viajando?” E ele: “eu acho que sou canhoto!” Tocamos duas músicas e nos mandamos embora. apertadas no braço da guitarra. Aí. KCláudio: Sei que tinham chegado uns ácidos de São Paulo. que tomei no interior. só ficou segurando elas. Ele era muito emboletado – sempre tomava uma garrafa de conhaque Dreher com as boletas que tivesse. Almoçamos. . sem sair som nenhum. Na hora do show. Eu disse pra ele: “o que foi meu. como se fossem confetes. um amigo nosso. veio a apresentação do Hair pra Porto Alegre – e virou uma drogaria a cidade. Cida Pimentel: Um dia. fomos tocar.Protásio Alves. Plato Divorak: Não usávamos drogas nos ensaios da Lovecraft: só maconha e haxixe. íamos pra um outro show em São Paulo. Rafael Malenotti: Os Acústicos estavam almoçando em Curitiba. e a rodoviária ficava do outro lado. Então a gente não precisa de intermediários: atingimos um estágio onde a respiração é a nossa própria droga.. Ninguém sabia qual era o efeito. Acabamos tomando vários HPs. E de repente começou a bater..

Fernandão. tinham uns pescadores na praia berrando pra gente: “filha da puta! Filha da puta! Nós vamos matar vocês!”. a Magra Mariana. Marcelo Gross: Estava um calor do caralho no final de 96 na Guarda do Embaú.. em Santa Catarina. viu uma porcaria em cima da televisão.. Mas. durante uns quinze minutos. quando eu olho pra cima da TV . Entrei numa loja que tinha uns anéis rockers e saí que parecia um cangaceiro: eu tinha anéis em todos os dez dedos. A galera estava enlouquecida e o resto dos passageiros nos xingou muito até São Paulo. sem ideia das horas.. olha só! Têm caveiras. sob o efeito das boletas. saiu uma nuvem de fumaça na cara deles. Estávamos naquela polvorosa: tomando ácido todo dia.A travessia do shopping foi um lance muito louco. Enlouquecendo! Num dos dias. Foi foda! Jupiter Apple : A gente achava que o barco era o Yellow Submarine. Um dia.. Júlio.. Era uma pinta que tinha um problema psicológico muito sério.. ouvindo L. Entramos doidos num barco dos nativos... Quando vi. essa mina estava totalmente dura.. porque ela estava falando com aqueles hippies.A. coisa e tal. Ela entrou. não deu nada: só pediram pra abaixar o som porque eram três da manhã. Blues... Júpiter. E falou: “será que podemos usufruir dessa maravilha?” Acabei saindo com o carro dela. por causa do meu colega de casa – quando chega essa patrícia. todo os lances mais rockers!”.. dos Stooges. Depois entramos no ônibus – que ficou minúsculo pro estado em que estávamos. César: Teve um tempo em que eu estava saindo com uma patrícia. deixamos as roupas na beira do mar. porque tinha passado pela mão de cretinos de todos os tipos... Quando voltei. quando fomos pra tocar com o Júpiter Maçã nuns botecos da praia. “Aaahhh! Bah. e o Cabeça vai atender a porta de vestido.. nesse dia. Quando ele abriu a porta. tinha só um . Todo mundo flutuando dentro do apartamento. Só que chegou uma hora em que todos caíram de cima do barco! Edu K: Estávamos na casa do Cabeça.. pra comprar umas cervejas. com aquele papo zen. tomamos um doce e fomos pro mar: eu. falando com os hippies! E eu odeio hippies. E não era mais uma casa: era só uma fumaceira. na Oswaldo Aranha. Era um porco e um civil. estou no meu apartamento – que andava cheio de hippies. Resolvemos ficar por onde estávamos até baixar a pressão.. E. Dali a pouco toca a campainha. Uma galera. saí falando. águias. Que já estavam entrando na mente dela. Estávamos todos retardados.. e todos queriam ser o comandante. Já cheguei não gostando muito.

.. podre. acusaram o Truda de ser o dono – o único dali que não fumava! Sendo que um dos avôs dele estava entre os fundadores do Juvenil! Nos expulsaram do clube: nos colocaram pra rua! E os caras ainda descontaram do nosso cachê o cristal do lustre em que o Castor tinha jogado a baqueta. é pra vocês!” Flávio Santos: Essa coisa de drogas sempre foi muito mais uma imagem do que propriamente o consumo delas. os hippies foram pro retiro espiritual deles. o Castor arremessou a baqueta dele – que foi bater logo no lustre do tal Salão Imperatriz. mas.. Tá certo que nenhum de nós era maconheiro do tipo que não podia viver sem. Depois do show. Uma festa jovem – e. E entraram os seguranças do Juvenil. E ficava bufando. não vai ser no meu quarto que tu vai fazer isso!” Peguei a mina. Gibson Les Paul. me dá essa tesoura aqui! Se tu quer te matar. querendo cortar os pulsos! Eu levantei correndo: “porra.. joguei no quarto dos hippies e disse: “ó. E foi reto! Ficou parecendo o homemelefante. E fumar um baseado. Hoje. naquele dia.. ele saiu e achou que o muro era uma rua. Na segunda dose de álcool não tem nada que eu crie e leve a sério. Nei Lisboa: Já fiz muita coisa. além de tudo. Pode despertar alguma coisa tomando uma cerveja... atrás das caixas de som. Acharam a paranga do guri e. Terminou o show. Márcio Petracco: Tinha um roadie do TNT que tomava nos canos pra trabalhar. em posição de partida.” Olhei pro lado e ela estava segurando uma tesoura. Ainda por cima. Carlos Eduardo Miranda: Era o show do Atahualpa y us Pânquis na Terreira da Tribo. Sob . no final do show. Mas a gente nunca tocava: o tipo de show que vínhamos fazendo na época. no Salão Imperatriz. todo o público queria ouvir as canções do primeiro e do segundo disco. Aquela coisa bem Slash. E a mina entrou no meu quarto. final dos 80. A gente ficava com medo que ele entrasse numas de que alguma coisa estivesse errada e saísse voando palco afora – arrastando todos os cabos dos instrumentos e desligando tudo. enquanto dava uma cochilada. Quando acordei. ao som de uma cover do Mötley Crue. rock’n’roll alto. só escutei ela dizendo: “eles estavam certos. pra variar.plástico lambido! Tomei todas as cevas. era escroto. Foi uma coisa fora de qualquer contexto. fumando um baseado. o momento do processo criativo não envolve nem droga nem álcool. dando atraque.. O Flu estava no bar e deram umas porcarias pra ele tomar... Ficou sentada do meu lado. fomos pro camarim e um fã veio nos visitar. mas construir a partir disso é muito difícil. Por exemplo: rolou um show muito escroto do De Falla no Leopoldina Juvenil.

” Mas já era ele mesmo. Aí.. A banda foi tão atacada. não bateu.. Tive duas fases na vida de consumo intenso de cocaína. Agora.. Um amigo me deu um Artane pra tomar – e eu não sabia que era um Artane. Se eu quiser pular de páraquedas pra ficar loucão. Era como se fôssemos os caras mais junkies do mundo numa sociedade de caretas: uma situação inversa! Totalmente preconceituosa.. Quando eu acordei. . Ácido pouco. Duca Leindecker: Na real.. Mas a sociedade é assim. pro Dado Bier. O Eric Burdon estava sentado numa mesa e fomos conversar com ele.. e nada: “bah. numa casa na Nilo Peçanha – onde hoje é a Trópico. depois. eu vou pular de páraquedas. peguei o carro. a Cidadão Quem passou por esse estigma de banda de guriazinha. E que. Fomos lá assistir. Dei de cara no muro. terminou o show. Eu não posso achar que tu é cagão porque tu não salta de páraquedas. A gente faz a loucura que a gente quiser fazer. Resolvemos perguntar: “o que você acha dessa história de drogas?” E ele respondeu: “o que tu não pode fazer. A arte tem que ser de espontaneidade. Arte não tem nada a ver com isso..efeito fica difícil de trabalhar.. não pode ser imposta. Tu pode olhar depois e. Flávio Santos: Participei de um show maluco na Terreira da Tribo. Foram muitas noites perdidas com personagens que tu não queria ver na frente – mas que estavam ali pelo envolvimento da cocaína. Eu tinha seguido de carro e entrado dormindo. sem cinto de segurança. eu o Júpiter e o Júlio – e. ouvimos aquela voz. muito baseado.. quebrado o pé. passei pelo Ocidente. E essa foi a última imagem que tive... mas foi a droga que me deixou a pior impressão. dentro da tua visão de mundo. Tomei.. Eu tenho que usar o que eu quiser usar. graças a Deus – ou à má qualidade das cocaínas do Bom Fim – eu larguei. Eu experimentei quase todas as drogas da minha época.. é deixar que elas afetem o teu pau”.. Da rua... Marcelo Gross: O Júlio Cascaes tinha acabado de entrar na banda do Júpiter Maçã quando teve um show do Eric Burdon no Opinião.. Só que eu tinha quebrado o fêmur ao meio. tentei me levantar. Uma coisa do tipo: “obrigatório uma banda de rock morrer de overdose”. porque o cara estaria por lá. Jupiter Apple: Fomos assistir ao Eric Burdon no Opinião e chegamos um número atrasado. falando verdades supremas daquela hora. eu não posso te obrigar a saltar de páraquedas. englobar aquela experiência... e comentamos: “é disco né? A voz tá perfeita. a experiência vai se refletir no teu trabalho. Acabei no HPS.” Resolvi tomar outro..

curtindo. Estávamos na beira da praia. Era da turma dos guris! E o Renatão – aquela coisa de amiguinho pra cá. No fim das contas.. nós pedimos os drinques. King Jim: A Polícia Federal entrou no Quinta Estação. Em drogas.. onde já se viu isso! Agora tem que pagar pra tomar sol!” Flávio Santos: Isso é uma coisa certa: a maconha te leva ao rock’n’roll. onde também íamos tocar.cantando “Don’t Let Me Be Misunderstood”. E aí o negãozinho Sassá pegou. às sete da manhã. Era normal ficar até de manhã cedo na rua. Tri atleta! E eu passo bebunzassa.. isso aqui não pode ser o que vocês estão pensando! Eu sou um homem doente!” No fim... tá! Agora ele é o dono do sol do Rosa. E ele nos descontou um pouco.. nos renderam. invadiram o camarim. e todos foram marcados no cartão dele. Biba Meira: Eu também não era santa. toda de preto. Porque te leva.. Tudo bem. cabelo arrepiado. perguntou se o pai da Lica tinha dado mesmo a grana da gasol. cheirando.. mas tinha dado um pouco a menos de cachê porque a galera tinha tomado muita Sol. bebendo. eles não analisaram nada: aquilo não era bem o que eles queriam.. E o Sassá. Deu boas lições. Carregava um monte de ervinhas e remedinhos estranhos. tinha que mixar a última música do A Sétima Eferfescência naquela noite.. a vocalista da Groove James. meio brabo: “ah. levantou e disse. argumentando que tínhamos bebido muita cerveja Sol. Mas fui ao Dado Bier porque me disseram que ele estaria lá.. Quarenta e nove potinhos! E é claro que eles ficaram desconfiados. nos convidou pra fazer um show no bar 100 Comentários. E fizemos um folclore preza: a combinação era de que o pai dela nos daria uma grana pra gasolina como cachê. Nós respondemos que sim.. Chico Bretanha: O pai da Lica. que estava meio bêbado. amiguinho pra lá... Um garçom apareceu quando estávamos por perto. No outro dia a gente estava na Guarda do Embaú. em Caxias do Sul.. na praia do Rosa. aquela mexicana. onde os Garotos estavam tocando. Mas eles entraram no palco de metralhadora. ele deu uma grana a menos. eram zero. Leo Henkin: Os Eles eram discriminados lá por 84 porque eram muito caretas. na . Ele me pagou um chope enquanto tomava seu blend.. – estava correndo no Parcão.. E conversamos com o Burdon. Respondi pra eles: “Não. E eu faço tratamento com medicina chinesa. Estavam atrás de pó na cidade. Eu. nosso percussionista....

aquela coisa do dark.. que estava armando um show nosso em Santiago. com o cabelo encaracolado. antes. Basicamente. até que um roadie foi me resgatar. loucas. no descampado do morro Ferrabrás.. A coisa era forte mesmo. Até que uma hora eu resolvi pular do palco e fazer um solo de joelhos na grama – só que o palco tinha mais de um metro. Plato Divorak: Em 84. Fernando Noronha: No segundo ano da banda. Pegava o copo e ainda batia um papo com a estátua: “Pô estátua. em Sapiranga. nos ofereceu uma cartela com uns oito ácidos lisérgicos.. Tinha uma estátua do lado do palco. E ganhamos um cheque em branco do dono da festa: “podem ir pra cidade.. queria ficar lá. inventando a letra na hora.. Bebi um pouco mais que a conta. e comer o que quiserem”. O motorista da viagem. Depois. O Arcádia. Foi uma piração total pra mim. no melhor restaurante... não teve jeito. e caí bem numa poça d’água. eu queimo o meu filme!” Aprendi que depois do show dá pra beber quanto quiser. não queria voltar.. onde elas estavam. Um castelo mesmo. Fomos – e comecei a beber. entrada hollywoodiana.verdade.. Todo mundo delirando. durante quatro anos.. Silmara e Simone. a fazer coisas subversivas.. É que eu já tinha alguma experiência com psicodelia – principalmente.. beber. nunca tinha visto um ao vivo. E um barbudo. como se eu estivesse em outro lugar.. Uma das coisas que me disseram foi que eu resolvi cantar em português. quando ainda nos chamávamos Black Soul. E andava com três meninas lindas: Michele. achando que não dava nada. Onde fiquei solando.. O palco tinha umas estátuas. Num desses encontros. Mas. Só que chegou num ponto em que lembro apenas do que me contaram. indo ao encontro dessas pessoas em Novo Hamburgo. O queixo tremia como nunca. se acontece uma coisa dessas em Santiago. nos deparamos com várias pessoas de Sampa. do punk.. Eu era um enfant terrible curtindo uma com um bando de hippies. Passamos o som. fomos pra Caxias fazer um show em um castelo. Chegamos lá. enorme. Sei que perdi o chapéu. A gente não estava acostumado. Pelo que me disseram. chegou nos dizendo depois: “olha. Fiquei uns vinte minutos ajoelhado tocando. com música nesse estágio. . os caras nos tratando como reis. pra voltar pro palco. Os meus reflexos eram fantasmas coloridos. houve momentos bons e momentos patéticos. Mas. Mas estava meio que chovendo. eu não curtia as bandas daqui. qual é o teu problema? Só fica parada aí. tem que manter a calma. E a gente sempre canta em inglês..” E falava um monte de bobagem.. sentadas em círculo. e eu deixava meu copo em cima dela.. não posso me comprometer. passei todos os finais de semana... beber.

Tanto que enchi o saco de fumar maconha: comecei a ficar paranóico. Às cinco horas da manhã. Eu não te daria alta agora. Só que a coisa se transformou numa borracheira fenomenal. Aliás. peraí. nos anos 60. E enchi a cara de bola. Cocaína quando tu quer parar. às seis da tarde. comecei a tomar bola... ela saía pra lecionar. trabalhava na Farrapos. E durante nosso show. Quando eu saí da clínica. ela voltava pra casa. muitas vezes. Caiu no fosso. Tu não aguenta a tensão e a ansiedade. Ela tomava uns remédios pra emagrecer – mas não essa porqueira que tem por aí agora. Entrei pra dentro da garrafa. pra que ele se acalmasse. Estávamos gravando a versão demo de “Melissa”. não conseguia olhar pra mais ninguém.. onde as gurias estavam colocando os vocais. Estávamos muito bêbados. Invadimos a casa do produtor. ele se lançou em um mosh no concreto. e o André.” Até que alguém me deu o toque: tinha um monte de caixas de anfetamina.. nosso baixista. o Charles di Pinto.. Minha primeira internação foi em 84. Dizíamos: “tá bom. E daí tem os dois lados da coisa: dependendo do tipo de show.. É uma batida: tu acaba achando que é tudo muito normal – mas não é tão normal. já está gravado!” Colocávamos a música e ele achava que estava gravando altos vocais.. aprendi com a minha mãe. o médico que estava cuidando de mim disse: “tu tá saindo porque tu pediu alta.. a noite estava fria. Aí.. Ficar só detonado faz mal. Botava um pano na cabeça e ia limpar parede! Eu pensava: “ah. eu era maconheiro pra cacete. de fazer shows meio detonados. nem fumava. E eu me lembro que eu tinha a maior bronca de bebum. deu. Mas o Orelha já estava etilicamente aquecido antes mesmos da Pietà começar a tocar. Carlo Pianta: Em boa parte da carreira do De Falla a gente não tocava bêbado. Não é legal. Depois teve uma época. num ato de disfunção do órgão cerebral. Chaminé: No começo. . Sete da noite.. Larguei a anfetamina e comecei a beber. perto do Mercado Público. Quando tu sair vai começar a beber”. porque tínhamos ensaio às nove da noite. E combinamos de nos encontrar no Mercado. Tem a gurizada que se passa. e o André falando: “eu quero gravar! Eu quero gravar!” Tivemos que fingir que estávamos gravando. tu pára. Beber mesmo. alguma coisa tem nessa história. A gente começou a tomar umas cervejas. Comecei a beber com 25 anos. que alguns arrastam pro resto da vida. O difícil foi largar a anfetamina. Monga: O Araújo Vianna estava com um terço de sua capacidade. tu acaba fazendo uma cagada feia.Carlinhos Carneiro: Eu trabalhava na Polícia Rodoviária Federal.

Toda a operação teve de ser repetida para o processo de remoção. Uma garrafa de três litros. mas a gente tinha os crachás.destroncou os dois pés. o Matt Sorum. Ele é um baita de um cachaceiro! Renato Rodrigues: A gente estava em um bar em Arroio do Sal em 83: eu. queimando fumo. nessa apresentação. Uma hora. quando é que vai ter show?” Uma vez... “Faz . ele olhou pra dentro do balcão. Ele tirou uma calcinha azul do colete de couro e falou que era da garota da noite passada.. faltando quinze minutos para acabar. o Ivo chega para mim: “estou passando mal”. Orelha: Quando saí do elevador do HPS... só com bandas pesadas. Ele mostrou uma ponta enorme na mão e disse assim: “é teu isso aqui?” Ele nem esperou a minha resposta pra continuar: “mas não precisa te apavorar. Porque. o Orelha se anestesiou de novo – e destroncou os dois pés de novo.. tomando um whisky JB. participamos do Segunda Sen Ley Mike Tyson. Eu só estou perguntando pelo seguinte: façam o favor de não deixarem isso à vista. E. Edu K: A casa do Ratão ficava ao lado da casa da polícia. e apontou. A gente não queria incomodar os caras. Monga: Quatro dias depois desse show no Araújo. gritando socorro! O meu irmão e o Monga tiveram que me levar de táxi pra casa. quando abrimos pra eles no Rio e em São Paulo. cruzamos com o batera deles. a minha cadeira de rodas trancou. tomando ácido. Na véspera do show. E a gente ali. Chegou num ponto em que eles já nos conheciam: “e aí. E caí de cabeça pra baixo. A guria pegou a cartola e ele abaixou a cabeça pra ela colocar. E todo mundo fez: “ooooh!” E o Slash também estava no balcão – sem chapéu. nós vamos ter que entrar e prender vocês. cheirando pó. porque não podia colocar os pés no chão.. dos que ficavam no posto ao lado da casa do Ratão. e foi embora. Me deu a ponta. E tivemos que levá-lo ao Pronto Socorro. porque já estava bêbado mesmo.. no american bar do hotel. A gente sabe que vocês fumam”. me carregar.. E o banheiro deles dava pro nosso corredor.. bateram na porta e desci de cueca pra atender: era um porco. A princípio não podia entrar ninguém.. Era a cartola dele que tinha caído atrás do balcão. cheio de mina pelada na casa o tempo inteiro. o Ivo Eduardo. onde estava a garçonete. Jacques Maciel: O Rosa Tattooada ficou no mesmo hotel dos Guns’n’Roses. mas o batera nos chamou.. se vocês deixarem à vista. o Alex e o Flávio. E o Alex sempre tomava um conhaque – tinha que segurar cinco horas de bar! Em um belo dia.

eu me levantei e comecei a bater no Rossatto e na guitarra dele. eu sou mais pequeninha. muito careta.. Carlinhos Carneiro: Depois de uma festa na casa da Kátia. um tira-manchas. toca umas três musicas com o pessoal e vai pra casa”. Era mais da birita. Louco até não de drogas. Quando fui desmontar a bateria. Fiquei num cantinho. Ele foi. rolou um show da Jkbak no Garagem Hermética. vomitou. Quebraram os instrumentos e tudo! Carlinhos Carneiro: Lá pelas tantas. Cau Gomes: Quando comecei a trabalhar como roadie. O vocalista foi tocar a bateria e nós ficamos só berrando. O problema é que a festa da Kátia era um esquema queijos e vinhos: tipo paga pouco e bebe muito.. com duas garrafas de vinho e um microfone. Essa foi a minha primeira participação verdadeira em um show de rock. Estava na fila. Ou só ficava batendo com as garrafas uma contra a outra. mesmo. caía uma garoinha. Ele não tinha a mínima condição de tocar! Ficou dormindo. que foi baterista da Jkbak e da Bidê. Também tinha cocaína por outros lugares da cidade – mas eram os caras mais velhos que cheiravam. Quando chegamos no Garagem. ele vomitou todo o lugar. que estava sendo construído. Rafael Rossatto: Na hora em que chegamos lá. vi um copão em cima do amplificador... e saí. mas nunca imagina o que é a loucura do meio. Afinal de contas. não tocou. mas de cabeça mesmo: de cara.. . Ele botava um copinho pro Alex e enchia o dele. Cida Pimentel: Eu fugi de casa pra poder ver os Mutantes em Porto Alegre. a primeira vez que subi num palco pra isso. nosso baterista caiu. tecladista da Bidê.. E era moda ir nas obras do parque Moinhos de Vento. no fundo da sala onde a banda ficava tocando. Às vezes eu largava uns grunhidos. E eu acabei subindo no palco. pra se cheirar Semorin. se passou no vinho – uma coisa rara.. O cara é louco na sua infância. Eu fingi que ia dormir.o seguinte. cheirava desodorante Moderato. Biba Meira: Eu não seguia o ritmo alucinado dos guris do De Falla. todo mundo era muito louco – e eu.. E o Caveira. porque sempre se usava alguma porcaria: tomava remédio da mãe. Todo mundo drogado. juventude. As pessoas nem sabiam o que estavam fazendo.

E aí rolou uma alucinação tremenda.. a uns quatrocentos quilômetros de Santo Ângelo. deu uma vomitada violenta no palco! E tivemos que tocar em cima da porquêra do cara. o clima era todo muito estranho. Tiramos palitinho pra ver a ordem das bandas – e ficamos pro final. O moleton ia nos pés. Flávio Santos: Mandaram umas passagens de bus pro De Falla tocar em Juiz de Fora. antes de sairmos dali.. Tínhamos um outro show pra fazer na sequência.. que era o roadie: “eu quero meu dinheiro de volta! Essa porcaria não está batendo!” Mas. o Pinguim – pra variar – tomou um trago. e via a cara dele se transformar num pergaminho. Gustavo X Aguirre : No dia da inauguração da casa da Bidê ou Balde em São Paulo. Não era um pós-show normal. Ele tomava tudo. ele se levantava e mandava ver bem pra caralho! Mas. mas todo mundo estava sentado. em Tramandaí. atirado no chão do estúdio. com toda aquela galinhagem... Pegamos as cervejas dele. Alguém tinha roubado umas trinta latas de cerveja de um freezer. No outro dia. se analisando. Luciano Albo: Uma pessoa que se envolvia com a equipe técnica dos Cascavelletes tinha ácidos pra vender quando fizemos um show em Santo Ângelo. baixista deles. depois do show. .... Eu me lembro de ver um cobertor se transformando em um boi dentro do ônibus. na rádio Brasil 2000.. ele ainda estava levando escondido no moleton umas vinte latinhas. a Justa Causa tinha um programa ao vivo. As mulheres entravam no camarim e ninguém dava muita bola. Uma puta audiência! E o Pinguim estava muito baleado..Flávio Soares: A Leviaethan sempre tocava junto com a Valhala. Vai saber qual é a batida daquilo! E gritava pro Márcio.. e o deixamos só com umas duas. Ninguém estava percebendo. Estava no palco ansioso pra saber se ia bater ou não. E eu rachei uma figurinha com o desenho do Woodstock com o Flavio Basso. com uma barba gigantesca e o cabelo todo sujo. E fiquei com medo de me tapar com o cobertor porque ele era um boi! Ficava olhando pra cara do Solon. E fomos tocar em um show heavy. A gente ficava dando a entrevista e ele ali.. Na hora de tocar. Foi quando a porcaria começou a bater.. Umas dez pessoas tomaram.. Umas trinta latas de cerveja. No final da festa. caía no chão morto. muito insólito. em Minas Gerais – mais um pessoal que esperava que tocássemos as músicas do primeiro e do segundo disco. no total... quando dava o intervalo. Quando a Valhala estava tocando. que era nosso operador de áudio. o Pedro. Rolando o maior trago.

Eu me envolvi com um procedimento psicodélico... nosso amigo. não tinha nada: “cadê o baterista?” Aí esse pessoal foi atrás dele pra que ele voltasse a tocar. dos sons. um acendeu a luz. a saturação da forma. Começamos uma sessão de piadas. César: Depois de um show da Urro em Caxias do Sul. Ele tinha um vidro de cachaça enorme misturada com umas frutinhas típicas da região. Nós e uma guria que tinha ficado com um cara da banda. Mas. umas vinte pessoas. Tomamos toda a garrafa.. E guardava num tubinho... e enlouquecido de LSD. E é claro que a mina. não parava! Dali a pouco. Ela tinha feito há pouco uma cirurgia pra diminuir os peitos – e os pontos estouraram de tanto que ela riu! Jupiter Apple : Todo mundo sabe que os adolescentes são malucões.” Ficou um silêncio só. Antes dele vender os ACs – malandro! –.. no escuro. O Castor se irritou com isso.. Eu fui assim – num estágio um pouco mais avançado. O que importa é a visão. eu só ouvi um: “ai!” E depois só ouço o nosso camarada que estava com ela dizer um: “puuutz... e saiu fora! Quando olhamos pra trás. da idade ou de sacação. pra mim? A saturação da forma e da imagem. em que era uma pior que a outra. No público.. Diria que eu já tive uma simpatia por cogumelos mágicos.. antes desse show. Um acampamento... ele tirava umas lasquinhas. Acabou que. Então. com um equipamento muito chinelo. Nos levantamos. dividimos as várias lasquinhas entre nós quatro – mas ninguém sabia direito a quantidade que tinha ali. dentro do seu limite de conhecimento – . “O que que houve?” A mina ficou branca: tinha uma mancha na camiseta. o Edu K e o Castor. vendia ácido. como a casa não era grande. dormimos todos juntos em um mesmo quarto: sete neguinho e uma mina. Começou a rir muito.. Mas fomos: eu. no trago. Sei que a gente só se deu conta de onde estava quando bateu: num lugar horrível. em cima da barriga. subiu no palco. em que ninguém quis nos pagar o couvert por causa do solo de sax absurdo do Flávio. Eles foram meus companheiros por um período. são as transformações de uma informação. estava virada pra parede! Mas tanto homem junto ia dar merda.. E todos começaram a subir.E já estávamos na época do disco Kicking Ass. E o que era a psicodelia. E o Kenny. Não sei se estavam igual a nós.. E acabamos parando por lá mesmo. dentro da sua classificação pessoal. Mas uma mina tirou a roupa. E lá pelas tantas a mina teve um acesso de riso. demais. Ou seja: você está lidando com o seu ego. nos reunimos na casa do primo do Rafael... até então conectada apenas ao seu ego. o nosso baixista.

assim eu vejo a psicodelia. . Otto Guerra: Eu bebo e esqueço tudo.

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nos convidou pra tomar umas cervejas. Não se sabia como rotular as coisas. e não conseguiu. compram guitarras Fender. Estão morrendo de encher a cara de drogas.SENTIMENTO ROCK Zé do Trompete: O rock e o jazz são coisas iguais: são sentimentos.. porque o rock é sempre o cara solto. pela sua natureza. antes dos Almôndegas. de aniversário e integrante da Condenados. Nas bandas atuais. alma. comer uns quitutes e tostar uns .. é a origem do rock. Meu camarada Júlio. Esse negócio de ficar gritando contra o mundo é muito fácil. que não deixou de existir. de arte. Jaguar e acham que estão fazendo psicodelismo. Porque. quando as pessoas estavam fazendo essas mesmas coisas nos anos 60. O problema é que o rock hoje. havia conteúdo. É uma coisa à toa – a cultura do à toa. Mas o mundo somos nós mesmos. Mas o blues quase chegou lá. falta de concernimento. V ocê liga a TV e há uma overdose de tudo.. Mas nem todo mundo ri da mesma piada por muito tempo: elas não são infalíveis. e isso estraga muito. sempre vai continuar existindo. Kledir: Chamavam o nosso grupo de amigos. usam cabelinhos. seria considerado um revivalista. Por exemplo: se hoje eu fosse um pintor cubista. Carlos Maltz: Rock hoje em dia é peça de museu. de batom: estávamos em todas as bocas! Era uma espécie de piada interna. ou elitiza. É como o jazz. fumam um baseadinho. William Caveman: Catorze de setembro de 1998. O resultado disso nós podemos ver: as pessoas estão morrendo de depressão. no início dos anos 70. Agora. Não quer dizer nada. meados dos anos 80. mas não é mais a irradiação que foi um dia. É uma bobajada. O rock ficou mauricinho. tudo é pop. Justamente o que está faltando agora: alma. o pessoal está mais interessado é nas roupas que vão usar. Só que tem gente que separa. Mas o rock vai falar sobre o quê? Não faz mais sentido usar o rock pra reclamar. Aí existe uma elitização das artes. E delas mesmas. precisa de pressão pra se desenvolver. aenima. Mas o jazz também é rebelde. Chaminé: O rock tentou me matar. rebelde. Botam uns óclinhos anos 60. Porque elas estão de saco cheio da vida. vida.. Reinaldo Barriga: Rock e pop era a designação genérica de um período.

o Krüger. Inclusive nos colchões de casal que estavam nas paredes – e eram inúteis à exaltação e propagação do som que fazíamos no morro da Bom Jesus. o cara perguntou: “punk rock? Isso é de comer?” Acho que foi a coisa mais séria que eu já ouvi. e eu berrava sons como “Sonic Reducer”. João Gordo: Eu conheço a molecada gaúcha. fazia a música “I Wanna Be Your Dog” soar como uma turbina de avião. Ninguém se suicida.. verticalmente uma abaixo da outra.. Não fiquei fazendo rock’n’roll de gringo. na vila Bom Jesus. Acho que no Rio Grande do Sul inteiro tem punk. encimado por quatro grandes autofalantes. Duda Calvin: A Tequila Baby foi tocar em Goiânia. Aí. o João Carteiro. Respondi que tocávamos punk rock. Nelson Coelho de Castro: Têm pessoas que estão distraídas com a estética da hora. nesse caso. depois de batalhar pra trazer o rock pro nosso idioma. ‘There’s Gonna be a Showdown”. que assistia atônito à zoeira proto-punk. Nós moramos no Brasil. como muitos caras fazem. Fughetti Luz: Foi um aprendizado de composição quando o Liverpool gravou o Por Favor Sucesso: a gente recém estava começando. Mas. vomitando estridentemente Dead Boys. E elas não são sacudidas pra ver alguma outra coisa interessante. Vibrators. E era como se estivéssemos decolando. na batera. Maior barato os moleques. Ou cantando em inglês. afundava as peles da bateria do cara da RBS. temos que nos comunicar com o povo no nosso idioma – a juventude merece um . tocava contrabaixo. Com sua guitarra modelo SG vermelho sangue. por escolha. o negão Mandela se estriquinava em cima de uma das caixas de som. De uma caixa amplificada com três grandes autofalantes. aquela não é a composição que eu tenho hoje. Escrever do jeito que eu escrevo agora é muito diferente: eu aprendi a compor em brasileiro. os punks de Alegrete.. Stooges. A Bom Jesus pulava. Seus pais sabiam duas coisas: que era o aniversário do Júlio e que ele é o cara mais rocker da cidade. Enquanto isso. com certeza.. Heartbreakers e algo mais. conversando com o cara que nos atendia.bacons no estúdio que ele tinha montado em casa. mesmo. É muito importante fazer um resgate – mas sem a ideia de quem está submerso fez isso porque escolheu. Chegamos em um xis e. da Unidos pelo Ódio. E o Casca vomitava por tudo. New York Dolls. da Sem Chance. ele perguntou o que fazíamos. “Baby Baby Baby” e “No Fun”. A situação era a seguinte: um cabeçote Marshall valvulado.

Nem . Rock faz o que quiser! Alexandre Barea: Os Cascavelletes não tinham nenhuma preocupação em agradar alguém. Nenung: Nos grandes centros. puxar saco. pra beber. Até porque os gringos estão cagando pra nós. tu tem que ser meio maluco pra conseguir ir além do que já está acontecendo. Pra que quando tu chegar. No Brasil. Rock é pra se drogar. Eu vi uma fita da Comunidade Nin-Jitsu no Radar. e eles estão com um visual que parece new wave! Heron Heinz: Os Replicantes botaram música na rádio antes das demais bandas da época porque não tínhamos muita preocupação com qualidade e estética.. hoje em dia. ficar refletindo sobre cultura é uma coisa muito lenta.. tem que ter muito culhão pra fazer isso. ela se encaixe com a necessidade de quem te assiste naquele momento. as pessoas refletem demais a respeito do que acontece no momento – enquanto que. de 98. Rafael Rossatto: Rock não foi feito pra ser bonitinho. no interior.pouco de respeito. Marcelo Birck: A grande tragédia da arte em geral é o fato dela ser feita em público. Os caras vão te atirar um tomate... fazer show com a roupa do dia é no mínimo uma coisa a menos pra ti pensar. então eu escrevo rock’n’roll em brasileiro – não em português. E fazemos isso até hoje. era inadmissível tu usar num show uma roupa qualquer. onde no Brasil estava rolando uma new wave tardia. Na verdade. Quero ver se alguém vai cantar em brasileiro lá em Nova Iorque. Nos anos oitenta.. duas coisas básicas: drogas e sexo. Eles não tiveram acesso.. Leonardo Machado: Estão faltando no rock. Estando no interior.. E os outros caras tinham. Solon Fishbone: Os negros não fazem blues em nenhum lugar do Brasil. Pra se chegar ao ponto de outras pessoas te reconhecerem. pra fazer fiasco. Aí é que está a nossa relação com o movimento punk. É um fenômeno que realmente não aconteceu por aqui. blues é coisa de classe média-alta. Hoje. ninguém vai te dar bola! Quero mais é cantar no nosso idioma. isso não está rolando nas bandas. mostrando a tua música.. tu tem que ter dado alguns passos fora do limite. Então é meio que um jogo. Ultimamente. Frank Jorge: Cada geração diz uma coisa a respeito de visual.

... Plato Divorak: Eu queria que a juventude gaúcha fosse mais doidona e freakout. O negócio era ficar avacalhando e destruindo – éramos uns marginais. Uma explosão de momento. Como uma existência. pisar em cima de carros pela madrugada adentro. nas viagens. da verdadeira arte.de contestar... como às vezes as pessoas não têm nada pra dizer. besteirol e bobajada é uma covardia diante da vida. isso subiu um pouco mais de tom. já de saída. E a gente não parou mais de avacalhar. Mas.. Humberto Gessinger: Esse negócio de rock’n’roll.. pra gente. uns vândalos. Jupiter Apple: Hoje. O Engenheiros nunca assumiu essa postura. ele também tem um compromisso diante de Deus. esvaziar o extintor de incêndio dentro da Lancheria do Parque. eu acho que essa coisa de ser rebelde. Ele leva o que faz a um nível de excelência. Rebelde por quê? Eu escrevi uma série de canções assim nos Cascavelletes. tinham coisas com o Frank Jorge. Já a nossa música traduzia a mesma ideia. E. E. também deixamos claro que estávamos carregando junto as nossas incoerências e dúvidas. Carlos Maltz: O artista é um profissional. E também foi um sucesso total. É por isso que as coisas estão do jeito que estão no mundo. Isso é uma ilusão. música de massa. que mistura grana e jetset. Acredito que continuamos assim. Era uma idiotice total.. Esse papo de bubblegum. puxávamos as pessoas pelo braço. E nunca tivemos um discurso heróico – apesar de nos acusarem um pouco disso. Ninguém é obrigado a vender a alma ao diabo pra sustentar a família.. quando a banda começou a acontecer.. um sentimento. Nós consumíamos drogas na rua e não estávamos nem aí se alguém estava olhando ou não! Interpelávamos qualquer um. Enchíamos o saco de todo mundo. elas vêm com essa conversa. desde o início. na rua. Era isso! E os rapazes adoravam: tinham parcerias com o Nei Van Soria. é muito perigoso. Não tinha nenhum compromisso político-social. mas porque era exatamente o que eu queria ali. aquilo é que era cool: era a forma mais do caralho de viver. o artista é mais do que isso: além de ser um profissional e ter que sustentar sua família. Isso é fundamental na coisa da música: sempre fomos autoirônicos. também. É a essência da arte. Na verdade. A ideia era se chapar o dia todo e depois roubar extintor de incêndio de prédio. quebrar vitrines na Oswaldo Aranha. Sempre tivemos nossas opiniões – mas. porra louca . uma fuga.

Eram as bandas que iam estourar.. Dessas. A mãe de santo falou que tinham me aplicado dois feitiços: estavam me pegando pelos dois lados. e largou os búzios. E já vi qua trocentas bandas acabarem. E me chamou pra ver o que era. E a gente anunciou pra galera que ia acontecer uma festa na minha casa. O resto é segundo ou terceiro.... vai ser cobrado”. Eu estava superando a minha tragédia pessoal. sempre houve controle de minha parte. Saber que o bizzarro e o psicodelismo são coisas psicológicas. Júlio Reny: A RCA levou todas as bandas de Porto Alegre pra fora da garagem com o Rock Grande do Sul. quando ela fez isso. E só não me matei por causa da minha filha. quinze eram a bola da vez – e ninguém se lembra delas. eu entendi tudo.. Todos sumiram.. Disse pra mim mesmo quando tive aquele sonho: “o que é deles. então são muitos anos como músico e produtor. Rio. em sua maioria. Não é questão de ser bom ou ruim. quando um amigo meu notou alguma coisa diferente ali no meio. . Isso é Porto Alegre. Disse do esquema violento que tinha acontecido pra mim e depois passou um galo na minha volta – um galo. Eles respeitam muito as tradições e são muito caretas. Um anjo me dizia: “o que é do diabo. Isso é muito problemático.mesmo. derrota total. Trabalho desde 87 nisso. ser um músico. é de Deus”. Claro. Tínhamos ficado de fora dessa história. A jogada era eu morrer. o dia todo. Mas alguns acham que sou apenas um personagem de fim de semana. É tudo muito certinho. Uma coisa é tu querer ser roqueiro. uma cena de horror. E eu comecei a ter premonições nessa época. o galo morreu. A gente estava olhando pra um mato alto. Mas o clima era de uma depressão terrível. Egisto: Em Porto Alegre todo mundo é o melhor do mundo.. e até imortais. quase caí pra trás: era um feitiço! Uma serpente! Na hora.. é do diabo. Foi indescritível. Humberto Petinelli: Sou de Caxias do Sul. Consegui me controlar em algumas vezes. é que é o canal. no pátio ao lado da casa. São Paulo. Então. Depois.. E.... Cadê essas bandas? Ninguém quer se lembrar.. outra coisa é tu evoluir. era final de ano. o que é de Deus. Sempre fui um cara meio doidão e taradão. Ela conversou comigo. É estar na mídia ou alguém te dizer que tu é bacana. Porque o músico toca o que ele quer. E imaginava que o primeiro passo pra chegar em Nova Iorque fosse chegar em Porto Alegre. fui numa mãe de santo.. Na hora em que cheguei perto.

Eu gosto de errar as notas às vezes.” Como música é matemática também. Eu fico horas e horas rindo.. tudo pode acontecer num showzinho. mas aí eu já estava com uma gelada na mão e nem sentia a tal pessoa. É um fluxo de energia meio sem bordas. de levar as pessoas a viajarem pra um . abstrato. e tu fica aí fora recebendo a galera”. o pessoal gostou. o poder do amor. tu errou aquela parte!” E eu respondo: “foi calculado. Quando eu vi. Viaja mais rápido. Carlos Gerbase: Os Replicantes tinham a preocupação: “vamos falar mal do Caetano. porque o padre alugava peças pros músicos. e comentamos: “não vai vir ninguém. É muito estranho. do Gil.Aí. Os caras lá são muito racistas. o baterista dessa banda era de Lisboa. porque a música vale tudo na minha vida. Gosto de tudo que é torto.. Casualmente. a casa lotou: o festerê foi até as seis da manhã. A anarquia. puta que pariu”. E eu lá na frente. E depois vejo os Replicantes chegando. E falar sobre criação é uma coisa que me irrita muito. Chegamos a ensaiar numa igreja em que os Kinks ensaiavam.. A gente está tocando aqui. todo mundo que passava me dava um trago. Coisas quebradas. fiquem calmos. Já houve quem reclamasse. um charuto.. São coisas muito estranhas. eis que aparece um louco: era o Miranda. E combinamos de fazer mais festas a partir daí. E os músicos ficam me olhando: “pô cara. mas ela pode ser ouvida em qualquer lugar. já virado num baita de um trago. Nós estávamos duros.. esse tipo de coisa. vamos falar mal do capitalismo. em shows.. no sentido prático da coisa: de realmente dizer o que se queria naquele momento e com liberdade quase absoluta. do Chico. eu fico aqui dentro. do comunismo. cães mordendo a própria perna.. Eu me indignei e xinguei todo mundo: “ah seus filhos da puta. desengonçado. fizemos uma festinha... Ela está na frente de tudo. um cigarro. Entendeu o filho da puta e achou muito simpático – então eu comecei a tocar com eles. Plato Divorak: Sou o típico cara que adora errar calculado.. Meu amigo me disse: “bah. capitalismo e socialismo também”. Consigo rir até de um ladrilho quebrado.. Humberto Gessinger: O pessoal que está de fora não sabe como é maluco o processo de criação. feio. Como é frágil. Mitch Marini: Consegui entrar na minha primeira banda em Londres graças a um “puta que pariu”. A música tem um poder de cura.. só dá desgraça nesta casa. Fughetti Luz: Eu estou chapado de música.” Mas.

A música é a mãe das artes. Mas tem um lado negativo: o teu suprimento de oxigênio é um pouco menor do que deveria ser. porque eu o uso. houve um inchamento da função do músico popular. o que tu quer dizer. é difícil. porque meio que se banalizou. A gente faz sexo com plágio o tempo inteiro. O que determina é a música. O cara que entende de dedo da mão esquerda. Não consigo entender isso. Com a ditadura. desde os anos sessenta. Katia Suman: O rock é uma coisa louca. O inusitado acaba se perdendo um pouco.. ninguém falava. pelo discurso andar direto na direção do pessoal que te ouve. Ele não funde. ninguém funde... a atitude. Humberto Gessinger: Nosso ofício é muito pequeno. Rafael Rossatto: Eu vivo plagiando e não acho isso ruim. não entende da mão direita.mundo melhor. Agora as gavetas já estão assim.. todas as músicas da Bidê ou Balde são cópias de outras coisas. faz só rock. A grande sorte da minha geração foi ter sido a última a pegar o período pré TV a cabo.. que é rítmica pra caramba. e isso é um fato.. mas ele não determina nada pra mim. mandar foguetes pra lua. Não há nada de transgressor. O pessoal que faz rock. Não é operar cego. em rebeldia. em estar outsider e se mantendo. eu espero que a música leve a cura e o amor pra todo esse universo. Todo mundo deveria admitir isso – é comum. Então. O problema é que. Principalmente no Brasil. o rock passou a ser cultura. onde a música cumpre a função de biblioteca. Humberto Gessinger: A música está se especializando muito: está ficando que nem medicina. Por exemplo: com a falange negra. é o plagiofilismo. O homem está com a cabeça numa ruim.. insignificante. separadas. Isso tem o lado positivo. Pelo menos eu plagio o que eu gosto. Claudinho Pereira: Dos anos 80 pra cá. Hoje a MPG supera o rock em atitude. Carlinhos Carneiro: Na verdade. Bebeto Alves:: Estou cagando e andando pro rock. Esta deformação fez com que se tenha muito . Luís Wagner: A turma gaúcha não mistura as coisas. hoje é uma coisa totalmente adaptada ao universo familiar. então os músicos ficavam lá.. Não contesta mais porra nenhuma! O hip-hop contesta muito mais que o rock. Se um dia empunhar uma guitarra foi uma contestação contra um modo de vida.

e outros que irão te odiar. fazer projetos. Isso não me interessa. Um cara dizia que mulher tem duas funções no rock: uma é dar pros músicos. Então a vivência de uma banda de rock’n’roll na estrada é muito essa. não têm nenhum sentido positivo além da tua auto-satisfação. Tu pode ser músico. Nenung: Na hora em que tu sobe no palco.. A retórica é pra quem escreve livro. Mulher em banda ou é muito boa. Não adianta.. bem ou mal. E na hora em que tu se despreocupa com o resultado das tuas atitudes. na verdade. que se apaixonar. Hoje existem novos interesses. “Vamos aproveitar tudo o que dá.artista melhor de entrevista do que de som.. Y ang Zam: O rock’n’roll combina com o tipo de postura juvenil. Jupiter Apple: Eu troquei um olhar conspirador com o Sean Lennon.. E os caras ficam sacralizando. A garotada que está começando agora deve pensar algo semelhante a isso. Mas não sou fissurado por aquela Fender pendurada. Porque. a minha calça justa e a minha botinha. porque agora a gente está no momento”. Zé do Trompete: O coração está sempre acima da razão. A razão coordena. Rock é uma coisa pra tocar de pau duro. mas se o cara só tem a razão. Sem nenhuma consciência ou preocupação com os outros. um olhar bonito. Mas as minhas paixões hoje são outras. e isso também não é um pular fora. acreditar em histórias de arte acaba sendo meio ingrata. sem nem mesmo te conhecer. e carrega o namorado mala que é musico. Mas tudo é coração. Gaby Benedyct: Muitas vezes essa história de trabalhar pelos outros. É por isso que.. além do rock. às vezes. drogas e rock’n’roll – e muito álcool. conceituado. queira ou não queira... a outra é carregar equipamento. ou é uma merda. Pode estar dando uma abertura pra atitudes que.. não tem o sentimento. Cida Pimentel: Eu nunca toquei nenhum instrumento. eu vejo uns caras falando e me dá um arrepio. . E isso é importante pra mim. se tu fica muito tempo dentro desse negócio vai ter gente que irá te adorar. Eu não me vejo mais como o roqueiro. carregada pelo guitarrista que é ótimo. Sexo. O rock não chegou a ser tudo pra mim um dia: era alguma coisa que eu encontrava pra me preencher. pode gerar um problema. Porque eu tinha a nítida impressão de que ele queria reviver Beatles. não sei por quê. tu passa a ser uma referência pras outras pessoas. artista não tem que ser articulado. Tu tem que gritar.

. Mas se tu perde uma pessoa já não é mais banda: se dá outro nome. como? No palco eu quebrava o disco do Caetano. quando se tinha quinze anos. no início da banda.. ele desenvolveu uma técnica . tocassem comigo – mas. Mas.. temos um problema com ‘Adúltera’. Chico Buarque. do Chico. Eu já estava liberto disso desde aquela época: banda é cabide. Porque não queria e não quero mais essa coisa pra mim. fantasiados.. Levava os discos e o público já esperava o momento de quebrar. dizendo: “ah. pesquisava. Mas eu tinha certeza de uma coisa: não seria tão fácil – nosso objetivo principal era ser maior do que os Beatles. Quando estávamos indo pra lá assistir os caras. Eles vieram fazer um show no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS.. Quando é Rolling Stones até dá certo.. Isso era em 85 e 86 – quando tinha os punks que se diziam de verdade. sem certas noções – e acho que a melhor coisa era exatamente isso. Humberto Gessinger: Não tem nenhuma frase de letras de músicas que eu me arrependa de ter dito. o Quase Lindo. Isso pesava mais.Fughetti Luz: Eu montei banda pros outros do início dos anos 80 pra cá. o Felipe Jotz. chegamos à conclusão de que isso era perigoso. que era o melhor de nós todos – em dois anos. era uma porta de carro.. Os primeiros discos que eu quebrei foram Simone. É o astral da música que faz com que eu fique muito tempo sem tocar uma ou outra. Eu tinha toda a coleção deles. Carlos Gerbase: Os dois primeiros discos dos Replicantes tiveram uma série de cortes. vamos tirar do disco”. Se saíssemos naquele momento. teve aquele baterista fantástico. Então. Era a banda que eu mais gostava quando garoto: eles e os Stones. ou então: “vamos pegar essa letra e fazer outra coisa”. Depois. com muito orgulho. Flavio Basso: Eu era um garoto muito novo quando o TNT começou. seria mais legal se eles tivessem aquela franjinha beatle. Quebrei um monte de porcarias que eu tinha em casa – o que significa que eu comprei esses discos antes. E eu queria que os outros rapazes. Frank Jorge: A capa do segundo disco do Premeditando o Breque. de repente. A gente muda. que incorporamos ao nosso visual! Nós sempre pirateávamos esses shows com um gravadorzinho.. o Charles. e depois o Nei. encontramos uma porta de carro no caminho. porque as lascas dos discos ficam afiadas. E nós nos lixando pra qual era o juízo ideológico ou estético das pessoas. Ou: “vamos dizer que o Caetano é um cara legal”. fica um pendurado no outro. tu quebrar o disco e jogar pro público era que nem dar uma arma pra eles. porque desde criança eles estão juntos.

Aconteceu alguma coisa contigo depois disso? Não. porque é uma punhetagem cultural: as pessoas vão se enganando. nada. E o que eu acho legal é o enfrentamento. saber compor uma canção legal. Flávio Santos: Têm uns caras legais que usam as bandas cover pra aprender a tocar. Daniel Fontoura: Uma rádio estava fazendo um programa especial sobre as bandas gaúchas. isso era importante. O mal está na burrice do neguinho em ficar fazendo só isso. É lixo. O problema não é a banda de cover. Tu sai de noite.. Tenho medo que. E resolvi ligar pra menina da rádio pra perguntar se ela não ia falar das bandas cover. Mas não dá pra julgar. daqui a pouco. uma tremenda aparição em termos de produto. Ela respondeu: “as bandas que fazem cover são decadentes”.. Depois. Isso é uma merda.. Frank Franklin: Banda cover é uma série de coisas. um refúgio para quem gosta de tocar e não quer compor. e não fazer mais nada.. Acho que houve meio que uma antecipação estética com quinze anos. por 1995. experiência pra botar suas músicas pra fora..fantástica –.. no fundo.. têm vergonha de compor ou precisam ganhar uma grana. Então devia ter ficado em casa escutando o disco! Carlos Eduardo Miranda: Cada um na sua.. tudo comece a ficar aceitável: tu já está há tempo na estrada e acaba virando uma banda cover de si mesmo. Humberto Gessinger: Tem muita gente falando que começou a tocar baixo por minha causa.... e isso me deixa triste. Não vejo mal nisso. São caras que. Mutuca: O cara não tem que dizer que toca cover. não tinha os seus vinte oito anos – nós éramos garotos. até porque a banda de cover é um bom laboratório pros caras aprenderem a tocar: aprender a tocar música pop. Rafael Rossatto: Banda cover não é rock. vieram os Oasis e os irmãos Gallagher. mas não tinha aquela franjinha! Na época.. É uma escola de música... vê uma banda cover e vai pra casa. Mas tem outras bandas que são cover de carteirinha – o que significa a mesma coisa que trabalhar em banco. pegar pique de palco... O que o cara está tocando é música! Qual é o problema? O único problema é saber se tu toca bem ou mal.. . Acho que o TNT foi bem mais radical: não vinha da Inglaterra. da Dama da Noite..

É fundamental pra tua formação de músico saber tocar de tudo. no Lami.. mas tu tinha um espaço. Sempre vão existir esses altos e baixos. em 92. Chegamos lá e ninguém tinha a chave. Daniel Fontoura: As bandas cover foram importantes pra formar a infraestrutura dos bares do interior em geral – onde. antigamente. encurtou de vez – de uma forma que ficou meio assim: “quem entrou. Pedalamos a porta do estúdio – só pra tocar. rock e fusion.. Jazz. Quem não experimentou um baile não sabe a manha. novas interpretações. Já fiquei quinze dias tocando sem parar na minha casa. . Lucio Dorfman: A vantagem do cover é que ele possibilita não ter um emprego fixo. saio com o trompete debaixo do braço.. É uma coisa mágica. Já não era fácil antes. No caso do Rio Grande do Sul. O pensamento dos caras era: “vai do jeito que for!” Isso permitiu que outros espetáculos fossem levados pra essas cidades. Depois.Chico Padilha: Tocar música dos outros foi resultado do pouco espaço que tínhamos nas rádios. Nem eu entendo. O baile é uma tremenda escola pra versões. Zé do Trompete: Quando bate a hora de tocar... Passado o boom das bandas gaúchas e nacionais. vinte e quatro horas. Pessoas que cantam músicas dos outros nunca vão deixar de existir.. a atenção está muito voltada pra outro tipo de artista. mas sim uma grana contínua que te permite realizar outros projetos. Mas às vezes tu não vê.. entrou. 70 e 80. Já arrombei porta pra tocar: pintou uma galera de músicos e fomos pro estúdio de noite.. O cover pra mim é uma escola. E é claro que isso não parou nos anos 90: sempre existiram bandas com trabalho próprio... tu era chamado de estrela se pedisse uma iluminação decente. uma loucura. King Jim: Eu trato esse estilo de uma maneira totalmente livre. É uma baita escola. Tonho Crocco: Sempre vão ter bandas cover. só pirando.. elas não acontecem. Às vezes o mercado está em baixa.. teve todo esse momento de música dos anos 60. Sozinho. Trompete e sax. Ficamos uns três dias tocando. Sempre. o espaço nas emissoras ficou reduzido. Enchia as prateleirinhas com negócios de comer – e só tocando.. Acordo de madrugada.. tocando. quem não entrou. não toca mais”.

quando estou meio no desespero. mas não gosto. Porque fiquei dez.. Sei tocar com partitura.. ensino. Chegava pra minha mãe e prometia: “mãe. quinze anos da minha vida investindo em cultura. Às vezes.. só mais cinco anos e depois eu faço um concurso público. Não gosto de partitura. mas não estou. mas as pessoas tendem a olhar e dizer: “bah. tu é uma incompetente.Eu nunca fui muito aceito nas escolas de música que existem por aí. que merda!” Mas não vou negar minha raça: eu faria tudo de novo.” A verdade é que aconteceu muita coisa afudê. porque tu não ganha um bom salário”. Gaby Benedyct: Eu poderia estar ganhando um salário muito melhor.. . eu penso assim: “bah. As escolas certinhas.

desde os anos 80. RAJNEESH Branca: Eu só tinha uma roupa: minha jaqueta de couro e minhas botas de bico fino.. minha puta!” Até minha mãe queria me bater! Gaby Benedyct: Os metaleiros continuam no mesmo astral e modelito até hoje.. Era uma loucura.. E. Tudo está aí até hoje. Umas coisas lindas. Imagina. Os psychos também. eram bem legais.. porque não comia nada. mesmo. afudê! Tu tinha que transformar muita roupa pra vestir depois. com quem eu andava. E andar vestido assim chocava os caras.HIPPIE. fui até a loja onde tinha essa calça e disse que queria trabalhar ali. PUNK. com exceção da Biba no De Falla. na Oswaldo Aranha. Quem era psicodélico ontem continua sendo psicodélico hoje. Teve uma época em que eu estava morando na Protásio Alves. E os punks da minha época. Egisto: Eu usava vestido nos shows. Edu K: Eu andava de maiô na rua. Mas.. O point era o Lola.. Tu bebia até cair.. Não dava pra gastar com isso: eu tinha que me sustentar. vinha a polícia. Minha mãe tinha várias saias e outras peças de roupa comidas pelos ratos.. O mais afudê daquilo tudo era a atitude de política punk. e descia um monte de caras sedentos dizendo: “vem cá. biquíni. mas era uma atitude feminista. eu era uma burguesinha de merda! Tinha babá e motorista.. E aí é que vinha a chapação! Tu não bebia pra curtir o gosto do trago – tu bebia pra ficar chapadão.. E ainda era magro. Não tinham bandas com mulheres no final dos anos 80. só que de outro jeito. Era uma turma grande. às vezes. Polaca: Vestia coisas rasgadas direto. como eu era punk. junto com o Ratão da Justa Causa . Cida Pimentel: Meu pai não queria me dar uma calça furada de jeito nenhum: “imagina. também saía pra dar porrada nos caras do Cacimba’s. a gente fazia várias paradas bacanas.. pra resolver o caso. ou parava um caminhão. que usava inverno e verão. Edu K: Eu botava peruca. Trabalhei um mês pra comprar a minha calça Levi’s. Tu era maldito. comprar lixo!” Então..

. Nei Van Soria : Nos anos oitenta estava pegando uma onda rock glitter: cabelos enfeitados. quando os Replicantes foram pra São Paulo. maquiagem. Polaca: Na viagem pra Imbu. O Flavio. e o Barea se vestia como um metaleiro. um amigo nosso. um restaurante da zona. tá ali de punk e acaba entrando num bolo de graça – e pior é que eu só tinha aquelas roupas.. tenho horror – mas é uma falta de identidade! Coletividade é coisa de veado. Mutuca: Foi usando brim Coringa que eu me senti adulto. Nos Cascavelletes. Minha bagagem era um pouco maior do que a maletinha da Barbie! Frank Jorge: O Carlo Pianta era uma diversão à parte: ele usava uns colãs nas fotos. e íamos caminhar na frente do Donirella. De repente tu não tem nada a ver com a história.. Então nós pegávamos um chiclé. então ficava aquela barriga peluda pra fora... numa época. . e não tinha rango nenhum. são perfumadas. E agora só têm hippies de butique: chinelinho e chapeuzinho de couro.. cabelo curto pra cima. E eu só tinha roupa rasgadinha. vamos criar uma comunidade de chatos nos pentelhos”. Isso é ridículo. preta. se depilam. Cada um tinha seu estilo.. Não que eu goste de pernas cabeludas – pelo contrário. Então era só colocar um capacete nele e botá-lo dentro de um canhão.e o Kenny. E as minas usam sutiã. se vestia num modelito de homem-bala: uma calça boca de sino com umas estrelas na ponta e uma camisa curta. típico homem-bala... A gente ficava sentindo o cheiro da comida e mascando chiclé – e isso era nosso almoço. que era a única coisa disponível pra comer. roupas. Botando calça de brim e alpargatas Sete Vidas! César: Eu odeio hippies. li na manchete do avião que um punk tinha matado não sei quem.. E ele é cabeludo.. um lance meio Village People. ríamos de nós mesmos. Eu usava umas roupas meio cowboy.. nos shows. tipo: “não vamos tomar banho. Me deu um medinho também. Em Porto Alegre esse negócio de movimento hippie é o mesmo que o movimento hip hop: não existe.

. a caixa de som. mesmo: levanta o volume. Era um sonho. fazer mil sons. uma guitarra Fender. E a gente queria descobrir.BRINQUEDINHOS BARULHENTOS Luís Wagner: Fiquei impressionado. Na realidade. Meu sonho era ter uma Fender. já vinha e ficava encostado na perna! Marcelo Birck: Se um neguinho aparecesse com uma palheta Fender.. do braço da guitarra: tinha medo de levar um atraque de um fiscal e que o cara levasse o instrumento dele! Luís Wagner: Era aquela coisa da guitarra. se arranjava guitarra contrabandeada: todo mundo no Brasil tinha instrumento de contrabando. apaixonado. daqui a pouquinho.. O aparelho. Mutuca: Ficou mais fácil de conseguir instrumentos a partir dos anos 70. Hendrix. Aquilo liga na luz e faz um barulho que é uma beleza! Zé Flávio: Eu dormia com a foto de uma Fender do meu lado.. E não dava pra levantar o volume. enlouquecido. saía do lugar de tanto volume – não aguentava! Começava lá atrás e.. el Magnífico: Um amigo comprou uma Fender quando começaram as primeiras ondas de importações. Santiago Neto: O primeiro instrumento importado que eu vi foi a Gibson do Chaminé. . porque os velhinhos iam brigar contigo. também! Sidito. quando vi uma guitarra pela primeira vez. se tu visse um instrumento estrangeiro. aí você fica louco! E comecei a enlouquecer quando descobri.. Leo Henkin: Fiquei impressionado quando vi uma Fender importada pela primeira vez – um modelo Telecaster... tu ajoelhava na frente. Estavam começando a tocar as bandas de rock de garagem: só ouvia Led Zeppelin. Santana. era um talismã! Solon Fishbone: Naquela época. E um amplificador Ampeg. o nome. E ele raspou a marca.

e o que compra sete Fenders..” E aí comecei a entender. chapado. e disse pra mim: “é assim que se faz. depois cursei Engenharia Eletrônica na UFRGS. que se limitam a . Foi quando apareceu o fantasma do Jimi Hendrix. eu olhava na TV o Jimi Hendrix tocando e não entendia direito o que estava acontecendo. Disseram que era roubado..Ivo Eduardo: Fiz um curso profissionalizante de eletrônica no colégio.. E o Zé Natálio comprou o baixo. não conseguimos equalizar o som. Mariana Kircher: Fomos ao programa Estúdio B.. Humberto Gessinger: Têm dois tipos de guitarrista: o que compra uma Fender.. porque não tinha experiência ainda. Ficamos horas explicando o que tinha acontecido... que trabalhava no térreo do prédio do bar.. Mas acabei recuperando meu Rickenbaker. Algumas horas antes. A notícia se espalhou: também comecei a consertar equipamentos e. uma Les Paul. No meio do ensaio.. logo.. passei a ter uma clientela bem variada. E já estávamos super atrasados. e o troquei por um teclado Arbon – que comecei a tocar com outra banda: a Cellophanes. Tive que ir pra delegacia e veio o dono do brique onde eu tinha comprado. E tínhamos que levar nossos instrumentos. Eu sou mais destes.. Brigamos no ar. Só que ele acabou ficando na delegacia. aproveitamos a curiosidade do André e do Carlos Martau pra inventar todo tipo de ligação de captadores. E daí eu ficava sozinho na garagem. Chegamos na Felusp no correrio e a apresentação foi terrível: uma merda. que milhões de baixistas teriam semelhantes depois. Edu K: Às vezes. Eles levaram meu contrabaixo.. fomos interrompidos por dois policiais e um barbeiro. da antiga rádio Felusp e que hoje é a Pop Rock. Saímos atrás de outro baixo pra poder tocar no programa. um semiacústico antigo Rickenbaker. tocando. Não tínhamos grandes pretensões: só lazer e diversão. mas eu não tinha nada que ver com aquilo. Quando conheci o grupo Cheiro de Vida. Frank Jorge: Comprei uma guitarra que meu professor tinha pra vender: uma Giannini Supersonic. fomos ensaiar num estúdio que tinha dentro do Garagem Hermética. até que a Bia Werther conseguiu um outro substituto.. Então comecei a construir pedais de efeito pra guitarra.. O instrumento era roubado mesmo. onde as bandas tocavam ao vivo por uma hora. que tinha comprado num brique. na busca de novas sonoridades. uma semiacústica e um violão. um Giannini 04 cor de vinho.

são aquelas notas gordas que o cara ouve!” Ele não sabia o que era o baixo.. no tempo em que comecei no TNT. Aí... bater nos instrumentos. Sem nenhum planejamento de que aquilo um dia fosse virar alguma coisa séria. ia cortar meus naipes. Depois.. Não sabia como era a relação do manuseio do instrumento com o som que eu ouvia. pro pátio da vizinha. E fomos atrás dos instrumentos. Quando resolvemos fazer os Replicantes. na visão dela. vivíamos um período de descobertas. Também compramos o amplificador mais barato e fomos tocar... eu disse: “uau! Soa como nos discos!” Humberto Petinelli: Eu não tinha um parâmetro. Depois é que acabei comprando uma bateria Pinguim. Já a minha mãe.. já que tocar sem instrumentos é meio difícil. que ele não tocava nunca. junto com o Cláudio e o Heron. irmão do Giba Assis Brasil – eu fazia cinema com ele na época. quando toquei o baixo direitinho. eu jogava o baixo por cima do muro. não sabiam que baixo tinha quatro e guitarra seis cordas. depois de catar o baixo na vizinha... passava na frente dele e dizia: “aí pai. “Por Que Não”. quando o Márcio Petracco apareceu no ensaio do TNT. Márcio Petracco: A gente estava tocando um rock. Depois. e o Cláudio nunca tocou coisa nenhuma. Decidiram ali o que cada um tocaria.. Na verdade. Então. Carlos Gerbase: O Heron tinha um violão.. do TNT. mas o Flávio Basso não sabia o que faltava no som – apesar dele já ter uma manha violenta. véio! Isso fica que nem nos discos! Então o baixo é isso. Se eu passasse com aquele troço na frente dele. decidimos experimentar. Márcio Petracco: Meu pai não sabia que eu tinha um baixo. fui na loja Mil Sons. éramos um teenage group.. eu meio que comprei. ele parou e disse: “bah. se não me engano. porque primeiro pedi emprestado. De . e tocou um contrabaixo de rockabilly. do Plínio. até mais!” E ia tocar com os caras. E compramos a guitarra e o baixo mais baratos – da marca Rei. Nunca tinha visto alguém tocar um rock na guitarra. E fui o último a ficar mais ligado nos instrumentos. Na verdade. cinematográfico. Então. Fizemos “Nicotina”. No início das bandas. Os dois realmente não sabiam a diferença entre guitarra e baixo. achava que aquilo que eu tocava era uma guitarra.procurar a pequena diferença na mesma coisa. Flavio Basso: Sempre fui mais poético. Eu comprei uma bateria. que foi a primeira música. Mas eu sabia que havia alguma guitarra estranha nos discos – e era o baixo.

Graças a esse episódio.. Eu sou um não-músico. no dia seguinte. começamos a perceber que essa ideia de “se não for num amplificador Marshall ou numa guitarra Gibson. Rafael Malenotti: Uma das coisas mais afudê das primeiras viagens dos Acústicos & Valvulados era levar o contrabaixo acústico de casa pro palco. era tipo taxista. Marshall. Como não sabiam afinar o baixo. vou deixar de fazer? Eu valorizo isso pra caralho. Se o treco soasse. Ele simplesmente andou em todos os carros possíveis! O Roberto. me proporcionou a maior segurança. queriam vender de barbada. do tipo: “meus pais me deram esse baixo ontem e ele já estragou. tinha um fusca branco que ele chamava de Egg. a gente tocava.. eu dizia uns números falsos. Ah. Pra todo mundo que pedia a OMB. eu ouvia no disco um som. também. e são pessoas como qualquer uma de nós que estão tocando por aí. se fuder que eu vou ficar fazendo esses negócios! Marcelo Birck: Não interessava como a gente ia tocar. me diziam que eu ia ser despejado de casa por tocar guitarra. Na época da explosão do rock brasileiro. Se era numa guitarra ou num amplificador importado.. eu dou um jeito de fazer música.. Mesmo que eu não saiba como é que são as notas daquele instrumento ali. eu. no final das contas. .. Então. Mas arrebentou uma corda. Os caras tinham aqueles Marshalls porrada mesmo. Justino Vasconcelos: Apareceu uma barbada. E daí fomos tocar rock de três acordes. Luís Henrique Tchê Gomes: Na minha adolescência. mas não tinha uma noção de como os dedos estavam se mexendo no instrumento pra sair aquilo. E o cara foi embora chorando. Eles não tinham noção. a que tenho hoje. Porque ainda há muita a coisa a ser feita. Tive uma carteira de músico falsa. eu não toco” era babaca. Márcio Petracco: O Ivan Muller ganhou o primeiro baixo dele de Natal – e..repente.. Mas isso. já ouvi falar. Eu toco qualquer instrumento mal.”. que sabia afinar baixo. E nunca deu merda. sempre do lado... tipo geladeira! Passavam da nossa cabeça. As pessoas estavam mal começando e essa ideia já existia. E o baixo ia ali. de uns músicos muito grossos de São Paulo. levou pra galera ver. Carlos Eduardo Miranda: Eu não sou instrumentista. Não tinha o banco do lado.” O cara não sabia nem que tinha corda pra vender. não-instrumentista. que é o baixista.. fizeram igual à guitarra. A gente enlouqueceu: “ah. afinei.

que ligada no plug dá toda aquela microfonia! E era impossível imaginar o King tocando sax com um Marshall gigante atrás do microfone dele. E o cara: “não.. eu tenho que ter esse instrumento!” E. no final de exatos um ano e oito meses. eu coloquei os olhos e vi: “é a mesma guitarra da capa da Tropicália!” Uma Regvlvs. No horário seguinte.. e comecei a tocar.. outra em Ribeirão Preto e uma ficou com o próprio Sérgio. é ele! Pedi pra ver a guitarra. eu te dou o ampli que tu precisa. o Cláudio! E se tem algum gênio envolvido com os Mutantes. modelo Raphael. que era pra não ficar na cara que o negócio valia a pena pra nós.. Estou precisando muito do ampli. O sax não pode estar num ampli desses! Moral da história: como ia ser impossível um sax tocar num Marshall daquele tamanho – e o King Jim não tirou essa história da cabeça. a guitarra vale muito mais do que isso!” Um ano e meio depois. em Novo Hamburgo. Os Eles gravavam das nove da noite às três da madrugada. guitarra elétrica. Ele disse: “então eu também vou comprar um amplificador desses..” Acontece que o Marshall fez fama com a guitarra. Mas o King Jim ficou de cara com isso.. Como era perto do meio-dia. Fiz uma proposta pro cara: “pô. até o fim –. “Ó. acabou que ninguém comprou amplificador nenhum. quem é que está gravando antes de mim?” Aí o Marcelo sentiu: “por quê. estava dando uma banda pelo estúdio quando vi um piano gigante. Eu fui tocar agora de manhã e ele não . Além da minha. Num desses turnos. por essa guitarra”.. Uma guitarra fabricada pelo irmão do Sérgio. e é um troço muito caro.. porque ele sempre achava que a gente tocava alto demais – e a gente tocava. o dono da guitarra voltou na loja onde eu trabalhava.. conversa vem.. porque vocês fazem som alto e eu fico só no sax. fomos nós três almoçar. eu ainda pensava: “pô. Já estávamos saindo dali na hora em que o Tom comentou: “Marcelo. quando fui falar com o Marcelo Castelo Branco no estúdio. com as duas caixas. Ilton Carangacci: O estúdio da Polygram se revezava em três turnos. Encontrei com o Tom Jobim por acaso no outro dia.respondíamos.” O Cláudio fez umas trinta guitarras. todas pro Sérgio Dias – e ele detonou quase todas.. Sobraram uma em Curitiba. era o Tom Jobim.. Conversa vai. e vi que ele era das antigas. Mas eu não toco piano. Tom?” E ele: “porque um filho da puta tocou no meu piano. Astronauta Pinguim: Conversei com um cara – um cidadão carequinha – numa loja de instrumentos em que eu trabalhava.. mesmo.. Quando ele chegou com aquilo na loja. cara: resolvi fazer negócio. e ele falou que tinha uma guitarra que tinha sido do Sérgio Dias.

estava legal!” .

A gente fez um show em Dois Irmãos com um público de 15. procurei um papel qualquer pra que o tecladista dos caras. em agosto de 91. tu descer e depois voltar. E os caras foram me levando: eu fui até o fundo do bar. com umas quatrocentas pessoas dentro. uma galera que não tinha nem nascido quando gravamos nosso primeiro compacto. Me levantei. Só havia uma última folha no talão. E era um espaço muito compacto. Foi no salão do Petrópole. já na hora de passar o som. Mas uma coisa é tu te jogar em cima dos caras.SIMPLESMENTE FÃ Claudio Vera Cruz: Fui até o camarim do Deep Purple quando terminou o show deles em Porto Alegre. volta!” E não toquei no chão: quando cheguei na beira do palco – e eles não sabiam como me colocar lá em cima –. durante os shows dos Replicantes.. Outra foi o que aconteceu em Goiânia.. 16 anos.. botar os pés no chão e depois voltar pro palco.. e todos muito loucos! Pulei e fiquei em cima deles. . pudesse me deixar seu autógrafo. Heron Heinz: O público jovem é o grande forte dos Replicantes. A gente não sabia bem como era o público.. E era bem na hora do solo do “Surfista Calhorda”. notamos que todo mundo conhecia a banda. uns vinte metros! Estava mais ou menos no meio do solo quando comecei a gritar pros caras: “volta. O Lord acabou assinando o cheque como se fosse eu.. eles te pegarem. fui fazer o mosh de sempre: pular. Só que o público estava muito compacto... É é claro que resolvi usá-la.. Depois de rápidas considerações a respeito do show. Então. Mas.. Daí fomos conversando e combinamos. tu não faria um show na formatura da minha turma?” Ele estava se formando em engenharia química na PUC e queria que a Graforreia tocasse. Uma sincronicidade digna de Pink Floyd: levantei e peguei o microfone exatamente no momento. o John Lord. no lugar certo – mas não sem antes me perguntar se o cheque tinha fundos! Carlos Gerbase: Eu passei a me jogar no público quase que invariavelmente. Frank Jorge: Um cara que vivia no supermercado do meu bairro chegou pra mim e disse: “escuta. e era o momento exato pra voltar a cantar a música. O cara foi se empolgando. soltei os braços e caí do lado do microfone. Procurei pelos bolsos e a única coisa que encontrei foi meu talão de cheques.

Ele era fã da banda – mas isso não queria dizer que os outros formandos também fossem... Daí o show foi clássico: a gente fez aquele repertório mesclando Graforreia, Ramones, Roberto Carlos, Beatles... Fizemos o primeiro bloco e não sei se chegamos a fazer o segundo. Só lembro que veio um sujeito da outra turma nos pedindo pra tocar Lulu Santos, Barão, se a gente não podia tocar que nem outra banda cover... O nosso fã já estava constrangidíssimo, de cara, quase chorando. Quer dizer, morrendo abraçado com a gente, na ideia do nosso show! Rafael Malenotti: Se chega uma fã chorando no camarim, dependendo de como ela demonstra isso, eu aproveito e já me abraço e choro junto... Eu me emociono porque já fui fã de muita gente. Então fico pensando em todas as vezes que eu saí e busquei falar com as pessoas que admirava. Humberto Gessinger: Existe um cara que é super parecido comigo: tem uma banda cover, com instrumento igual, usa as mesmas roupas que eu... E numa dessas, esse sujeito chegou antes de mim na Globo. Fomos participar de um programa do Chitãozinho e Xororó. O cara armou o maior escarcéu no meu lugar. Disse que tinha que mudar o camarim, fazer não sei o quê, mandou pedir fruta... Quando chegamos, todo mundo estava meio de cara com a gente. Daí que descobrimos esse moleque de São Paulo. Eu até achava legal, mas depois dessa... O pessoal já conhece: sabem que tem um Doisberto na parada. Carlos Maltz: Recebia muitas fitas de pessoas querendo ser músicos quando estava no Engenheiros. A cada fim-de-semana, eu voltava pra casa com um saco de supermercado cheio de fitas cassete. Mas eu não tinha condições de ouvir tudo aquilo: primeiro, porque era muita quantidade; depois, porque a maioria das coisas era de uma qualidade muito ruim mesmo. As pessoas me ligavam pra saber se eu tinha escutado aquelas gravações – muitas vezes era a mãe da pessoa que tinha me entregado a fita –, e eu respondia que não. Tentava explicar pra aquelas mães que, se o garoto quisesse ser músico, ele tinha que começar pensando que não era um deles! Aí elas me perguntavam: “mas e você, não é músico?” Eu respondia que não, de novo... Falava que, no fundo, não queria ser músico de verdade. Eu acabei sendo... Humberto Gessinger: O fã que nos acompanha de perto está ligado e é parceiro. Por causa disso, se ele vê os caras batendo nos Engenheiros, ele fica ainda mais fã.

Foi o que aconteceu levianamente tempos atrás em um programa de TV . Passou uma matéria sobre artistas que mantêm pactos com o diabo. Eram a Xuxa, nós e o Roberto Carlos! Acontece que o vinil do O Papa é Pop tem um lance gravado ao contrário que, se tu for ouvir, brinca com essa coisa de alguma poesia gravada ao contrário. Aparece assim: “o que tu está procurando aí?” O padre que estava lá no programa ouviu aquilo e começou: “está provado que é satânico...” Não pela mensagem, mas pelo fato de ter uma coisa gravada ao contrário! Era algo anedótico, mas é mais ou menos isso o que acontece no nível mais alto da crítica levada a sério. O cara que é teu fã vê aquela bobagem toda e pensa: “pelo amor de Deus, estão sacaneando os caras!” João Vicenti: O Nenhum de Nós já está na fase em que as fãs vêm e pedem: “tio, me dá um autógrafo!”

UM LUGAR DO CARALHO
Júlio Leite: O Bar João existe desde 1946 na Oswaldo Aranha, mais ou menos. E eu o comprei do primeiro dono mesmo, o próprio seu João, em 1979. O ponto original, que tinha dois andares, ficava algumas casas ao lado de onde o bar está agora, um espaço que eu inaugurei em 1992. Mas desde aquela época as mesas de sinuca já estavam por aqui. O Bar João, pra mim, é uma espécie de clube, como aqueles que conheci no interior. É mais do que um bar. Aqui sempre houve uma troca de sentimentos... Não é aquele lance distante e frio de conhecer no máximo quem te atende. As pessoas vêm, continuam vindo, e no dia-a-dia acabam conhecendo várias e várias cabeças. Cida Pimentel: A Independência com a Ramiro Barcelos se chamava A quadra, porque era o lugar mais moderno da cidade. Era uma elite de grana: todos guris, de dezoito anos, que tinham ido pra Londres, tinham calça Lee, iam pra Índia... As butiques mais legais de roupas ficavam na quadra. Tinha uma loja de discos na Independência que se chamava Flying Saucer, que só vendia disco importado. Márcio Petracco: E a Lixos era uma loja que só vendia coisas do Vietnã. Jaqueta manchada de sangue... Um tio meu comprou uma jaqueta dessas na Lixos – e a família execrou ele. Carlos Eduardo Miranda: A baia do Júlio Reny, na Santana, era muito clássica. Ali, rolavam uns fantasmas. Eu me cagava de medo de ir lá. A casa era meio estranha... Júlio Reny: Era uma meia-dúzia de amigos da Cidade Baixa que iam na minha casa da Santana... A gente tocava até mesmo de noite. E nunca nos incomodamos por causa do barulho. Edu K: Na casa do Júlio Reny tinha uma sala onde ficava o pessoal – e a garagem. Todo mundo tocava: era uma chance de todo mundo tocar com todo mundo. Eu olhei a banda do Júlio Reny tocando... E disse: “cara, não quero nem saber. Eu vou tocar nessa banda”. Eu me convidei e me infiltrei na banda. Me chapava, e ia pra garagem tocar guitarra.

Fiapo Barth: Acho que, de todos daquela minha turma do início dos anos 80, eu era o que tinha maior envolvimento com a noite dançante. E a gente estava frequentando um bar ali na Oswaldo Aranha, defronte ao Instituto de Educação, chamado Rotação. Íamos sempre lá. Tinha umas lâmpadas fluorescentes... Um formato que tinha tudo pra ser uma casa de shows. Sempre ia um monte de gente. Era uma bar muito mais liberal do que os bares do Bom Fim de hoje, principalmente porque os donos do local eram um casal de mais idade – e estavam vindo de uma experiência de um bar gay na rua Santo Antônio. Não sei se era inicialmente um bar desse tipo, mas a verdade é que eles tinham um comportamento de liberalidade diferente dos demais bares da avenida. Toleravam todo o tipo de comportamento porque já estavam acostumados. E eu e mais dois amigos tivemos a ideia de abrir um bar onde houvesse eventos, onde as pessoas pudessem contar cronologias das suas memórias da noite... O bar tinha que ser no Bom Fim. No princípio, pensamos em comprar o ponto onde era o Rotação – mas eles não estavam dispostos a passá-lo adiante. Também vimos outro na Barros Cassal, muito interessante. Mas, da mesma maneira, o cara não quis alugar pra ser um bar. Já estávamos quase desistindo de procurar algum local no Bom Fim – e a essa altura já éramos seis sócios – quando vimos o imóvel onde hoje é o Ocidente. Mas ele estava em ruínas: não tinha telhado, metade do piso de madeira estava caindo... A casa estava pra ser desmanchada. Só tinha reboco por fora. Os tijolos e o reboco por dentro eram de barro: quando começava a chover pra dentro, o barro se dissolvia. É um prédio histórico, de cento e vinte anos. Entramos ali, e me vi tirando todas as paredes, fazendo a casa velha toda com janelas, imaginando que ia ficar muito interessante... E o preço era muito barato: a gente podia fazer o que quisesse. A casa estava caindo. Qualquer coisa era lucro pros donos. Ficamos três meses reformando – era dezembro de 80. E depois abrimos, inicialmente apenas como bar. E a ideia não era se dirigir à música. A concepção era ligar mais com o teatro.

"Uma espécie de clube". Antiga fachada do Bar João na Oswaldo Aranha, inaugurado em 46: cachaça, sinuca e boemia rocker

Humberto Petinelli: A melhor noite era no Ocidente, o bar estava no auge: só tinha gente interessante. Era muito legal, bem chique. O Edu K era sempre o cara mais chinfroso. Ele usava altas roupas, altos visuais. Vinha com a patente pendurada no pescoço. E rolava maquiagem direto... Era tendência, um lance normal. Não sei se a mulherada gostava porque eu nunca perguntei. Mas era a época que o rock californiano todo se maquiava, o rock inglês também. Fiapo Barth: Nossa primeira ligação com a música foi em função de uma apresentação do Nei Lisboa, que estourou com o show “Verde” no Israelita, ao lado do Ocidente. Ele precisava de mesas e cadeiras pro espetáculo, que não tinham no Israelita, e nós já tínhamos comprado as coisas do bar. Não nos conhecíamos, mas emprestamos o material através do Giba Assis Brasil – ele era o encarregado da gravação. Era o primeiro show do Nei. O panfleto da apresentação era uma folhinha de Colomy com um carimbo – eis o panfleto... Não era tão subversivo pra um show que se intitulava “Verde”! Depois, apareceram por lá o Hermes Aquino e o Cláudio Vera Cruz. Eles vieram e se apaixonaram pelo bar. Disseram que a nova banda deles tinha que estrear no Ocidente. Era a banda Eureka – os dois, mais o Zé Vicente Brizola e o Carlos Magno. Fizeram a préestreia e nos meses seguintes começou a temporada. Essas coisas do Ocidente foram um sucesso, porque não tinha daquilo em Porto Alegre: bar com música pop ao vivo. Na sequência do Eureka, vieram formações do Léo Ferlauto, Os Irmãos Brothers, o Mutuca, a Anie Perec... Os Brothers começaram aqui. Ivo Eduardo: Tive um estúdio de ensaios junto com meu irmão que esteve no centro das atividades do rock gaúcho na década de 80. Uma casa velha, verde, com anõezinhos de jardim em frente. Nunca gostei deles, mas deixei pra ser um ponto de referência. Parece que alguém gostava, porque chegaram a roubar os anões! O primeiro cliente do estúdio foi o Nei Lisboa. Não se podia comprar tanto equipamento importado nas lojas. Então, o máximo que se tinha eram mesas e caixas Staner, Giannini ou Voxman, e microfones LeSon. Gaby Benedyct: Sou uma viúva do Porto de Elis e da Segunda Sen Ley. Aquelas noites de segunda, aqueles camarins... Tinha mais gente no camarim do que no público, às vezes. Fora dali eles se odiavam: “ah, o fulano errou na guitarra, na bateria...” Mas, quando estavam se preparando pra tocar, sinceramente, era demais!

Dragões do Éden. Valhala. Kleiton & Kledir. que eram passados por monitores pra quem estivesse no bar. Fróide Explica. Urubu Rei. em 86. Vagabanda. Léo Ferlauto. no número doze da rua José do Patrocínio. Muitas! Nei Lisboa. Raiz de Pedra. Talvez o único lugar onde as coisas começaram pra valer. que foi o bar da década de 80. do Ricardo Severo.Mutuca: O Rocket 88 foi uma casa que eu montei em 83. Mas. De Falla. Garotos da Rua. Tokeloko.. Paulo Gaiger. Ali tocaram todas as bandas que surgiam na cidade no momento. Existiam muitas bandas na cidade. um antigo vendedor de discos usados. Geraldo Freitas. Durou de 86 a 87. Nascente. Leviaethan.. Luciana Costa. Zezé. Também construí e consertei instrumentos e equipamentos pra quase todo mundo por aqui. Engenheiros do Hawaii. o Rocket foi o que impulsionou. coisas como Zappa ou Almann Brothers. Ali começou o negócio da Boca do Disco. Espírito da Coisa. Os Replicantes. a princípio. Prize. com o Déio Escobar. Letiéris Leite. Vitor Ramil. Cóccix. A mais famosa era os Garotos da Rua. Swing. mas não tinham tantos lugares pra tocar. No nosso caso. E aí já tinha o bar. E virou um showensaio. Só comerciais. Totonho Villeroy. do grande agitador Jottagá. os discos em geral. E ela me ofereceu uma lojinha – que na realidade era uma casa –. A gente inventou um negócio assim: os ensaios eram filmados por um de nós. Atahualpa y us Pânques. E surgiram algumas. Lá eu conheci a mãe do Francisco. Status 4. Susana Maris. era pra ser o nosso estúdio. Naquele tempo. que revelou o KCláudio. Getúlio Costa: Eu comecei vendendo discos no Brique da Redenção. Nexo Implícito. A Graforreia extrapolou isso. Tumulto. Os Eles. Saracura. V-2. uma lojinha que vendia fita cassete e essas coisinhas pra consumo. Ivo Eduardo: Trabalhei muito como baterista e operador de som. Bebeto Alves – comigo na bateria –. Lotou de não poder se mexer. Wilson . Banda de Banda. Heron Heinz: O Vórtex. O Brasil não recebia coisas criativas. Durante o período que tive o estúdio. Câmbio Negro. com o tempo. Fluxo. Bebeco Garcia: As coisas rolavam mesmo era no Rocket 88. Dama da Noite. Brick. Vórtex. na Protásio Alves. e fez um show na frente da casa. do Mitch Marini. a gente alugou pra outras bandas também. muita gente ensaiou por lá. também. eram raridades. Armageddon. Alguns foram antológicos. no sentido de raridades. Anie Perec. Ricardo Crespo. Prisão de Ventre. Atraque. Cheiro de Vida.

poderíamos ficar tocando horas.. Charly Garcia. Se quiséssemos. O TNT ia gravar a primeira demo e o Garotos da Rua estava preparando seus primeiros singles. O estúdio surgiu no verão de 1990. Chico Bretanha: A Groove James fez uns ensaios históricos no Bafo de Bira – duas músicas o ensaio inteiro. Rafael Malenotti: Quando resolvi fazer o Bafo de Bira.. E o quarto que estava sendo construído pra nossa empregada ia bailar. E todo mundo bêbado. dava pra fazer uma sopa no fim. que foi produzido pelo Ricardo Barão. juntamos as tralhas e passamos a não gastar mais grana nenhuma.. Chico Ferretti. Lao: O Carlinhos disse: “foi a pior experiência da minha vida!” Rafael Malenotti: A prioridade número um pra fazer um estúdio em casa era arranjar o lugar. a essa altura.. já tinham acabado. O baterista do Raiz de Pedra dava aula de bateria. tomate – todos os hortifrutigranjeiros.. mas a nossa filosofia é outra: basta ter com o que ensaiar que está bom.. estava consciente de que a minha vida ia ser música pra sempre. Humberto Petinelli: A escola do Zezé era o Clube do Guitarrista Gaúcho. Dava pra fazer uma feira! Não era um grande movimento de gente.. As bandas estavam começando. Guerrilheiro AntiNuclear. Ele levou váaarias cevas. Prole. Gélson Oliveira. Doi-Codi.Sá Brito. Nos primeiros ensaios no Bafo. Mas o Gordo. Canto Livre... TNT. As cevas. porque os vizinhos incomodados tocavam cenoura. Mauro Kwitko. Couro Cordas e Cantos. Um dia estávamos ensaiando no Blast e ele levou várias latinhas de ceva – era aniversário dele. Kadafi. A Cor do Som.. mas ainda não tinha esse nome. Ele foi batizado em 91. BandAbsurda. Duca Leindecker. Então. o Gordo.. bem belo. Frutos da Crise. E estava pra sair o Rock Garagem I. A gente sempre ensaiava bêbado depois da faculdade. e o Zezé de guitarra. Tem gente que diz que até hoje o estúdio não tem estrutura. cebola. já saí propondo o seguinte: a . Renato Borghetti. que ficava na Barros Cassal. O único que ia nos curtir era o Carlinhos Carneiro. Pensávamos o seguinte: o lance mais foda pras bandas que estão começando é grana pra ensaiar. Conheci o Charles Master e o Justino ali. Colombo Cruz. Muita gente se encontrava pra trocar um ideia. das onze da noite à uma da manhã. pegou aquela lata e engoliu tudo. Nélson Coelho de Castro. Vende-se Sonhos. mas era um lance meio cultural mesmo. Glória Oliveira. pensando que ainda tinha algum líquido dentro. Cascavelletes.. E tinha um cemitério – um cinzeiro pra colocar bitucas de crivo e beck que fazíamos com uma latinha vazia.

Léo Felipe: Não tinha muito o que fazer. Bia Werther: O Megazine começou por 95 e durou até 97. eu parti pra outra.. A real é que.. antes do Toninho e da Cecília. enormes.” No que o quarto da empregada ficou pronto. o produtor já vinha com um: “desse jeito eu não faço”. Comecei a frequentar o Elo Perdido – aí sim. Isso foi por 92. Arredávamos a mesa e ficávamos dançando.gente coloca o armário e a cama da empregada de um lado do quarto e. Elas faziam pôsteres pros nossos shows. No tempo do Renatão e da Carla. mesmo. punks ou rasgadas. que ficavam atrás do palco. Eu pensei assim: “não vou falar nada. Tínhamos a banda Academias Chiquérrimas. Então eu levava uns discos pro Elo e fazíamos umas festinhas.. não tinha preocupação.. e vivíamos no meio das outras bandas. Quando a gente tocava no Instituto de Artes ou num outro ambiente. O meu coroa acabou fazendo uma baia na Restinga pra ela. enquanto a empregada trabalhava. A minha calça era meio caída – só depois da Père Lachaise eu comecei a usar aquele tipo de calça. Era um espaço grande pra ela: íamos dar um final de vida digno pra uma pessoa que batalhou tanto pra gente. O que eu usava mesmo era roupa largada. Frank Jorge: Pegamos uma época em que se tu dizia num estúdio: “faz assim”. Ricardo Kudla: O Elo Perdido era o lugar onde nós íamos quando começamos a sair na noite... aquelas coisas que . Plato Divorak: No começo dos anos 90. Os alternativos iam no Elo. não dava certo.. eu ficava no quartinho dela tocando. sempre tinha um artista plástico na história. Fazíamos vídeo. 92. eu estava mais elegante. Somente a partir do estúdio do Thomas Dreher que essa situação começou a mudar mesmo. a gente acabou com a cama e com o armário dela em dois toques. como todo mundo usa. de qualquer tipo. Marcelo Birck: Os estúdios de Porto Alegre eram pavorosos até chegar o estúdio Dreher. as coisas do estúdio. Esqueci aquelas roupas hippies. do outro. fanzine. Conheci o pessoal das artes plásticas – basicamente mulheres. mais pra cima. Exatamente por 91. 92 . numa velocidade brutal. já levei o meu Martins Sons pra dentro dele e. Só que esse final digno cruzou com a minha necessidade indigna do rock. porque naquela época o Ocidente era mais de um público homossexual: tinha duas pistas. em casa. por 91..

eu também tocava numa banda chamada Brigitte Bardot. E os donos do lugar ficaram tão abismados com a quantidade de pessoas que podiam colocar lá dentro que aquilo virou o Taj Mahal – um lugar onde rolaram muitas festas shows nos anos 80. A Ultramen tocou lá: um monte de gente. Quando as pessoas chegavam no bar pela primeira vez. Uma noite era Urubu Rei com Prisão de Ventre. quando abriu. da cultura e a gurizada que. como nós. outra era Atahualpa com Fluxo... tomando cachaça a noite toda. num palco minúsculo. eu me desliguei do trabalho.. outra era Replicantes com TNT. Beleza! Montamos o bar. Carlos Eduardo Miranda: Toda terça-feira tinha um show coletivo no B-52. Era 92. mas ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. também rolavam umas festas na antiga locadora do Fabiano. . amigo nosso. ficava por ali zanzando de um lado pro outro. porque não havia restrição nenhuma.. que era a nossa produção de comerciais de rádios pro bar – imagina a baixaria! E reunimos umas TVs velhas pra passar as coisas que a gente fazia lá dentro. devia ter umas cem pessoas. Antes.. E queríamos um lugar que tivesse isso tudo e mais as bandas tocando. Logo depois. Que todo mundo se encontrasse. A Tequila Baby fez uma adaptação de uma música dizendo que “dois por dois mede o palco do Megazine”. Pra nós era muita gente. Um circuito interno pra mostrarmos nosso trabalho. Fiapo Barth: O Valter Scalp fez uma festa num motel de garotos de programa.. na Independência.todo mundo fazia.. era um bordel. Não acredito que estou aqui dentro!” E olhavam pro palco: “pô... Léo Felipe: Geograficamente.. Na primeira festa. na rua. gente da música. Domingos. na Farrapos. e convidei o Léo pra fazer sociedade no Garagem. mas eu posso tocar nessa merda também!” Logo os caras já formavam uma banda e estavam lá tocando mesmo. Sempre com um público legal – não com um bom público! Ricardo Kudla: Na mesma época do Elo Perdido. Ricardo Kudla: E a Oswaldo Aranha era aquele lugar onde se misturavam marginais. Nasceu de lá o descontentamento pelas coisas em que a gente estava trabalhando. o Garagem tinha um aproveitamento bem menor de espaço. O pessoal ficava na boa. Tínhamos o jornal Mega Folha. O lugar abriu por causa da festa do Valter. se socavam umas trezentas e tantas pessoas no bar. ficavam mais um pouco e diziam: “mas que coisa louca. bebesse e mostrasse as coisas. o Mega Fone. a reação imediata era: “que coisa horrorosa! Não acredito que estou aqui dentro!” Daí.

que parecem com você. uma banda que fazia covers do Red Hot Chilli Peppers.” E eu: “aonde?” Me disseram: “por ali. a subir no palco. que os caras subiam no palco novamente. as paredes eram todas decoradas com histórias em quadrinhos. Nesse mesmo dia em que eu conheci o Garagem estava rolando um show da Sex Machine. Me disseram: “vai lá.. Eu. com letras de expansividades cósmicas. eu estava tocando violão e gaitinhas. Então o Ricardo veio no meu ouvido e gritou: “ô meu. e era o auge desse lance funk metal.” Cheguei e era aquilo mesmo. e uma estética eletrificada. E assim me eletrifiquei novamente: eu já havia largado a guitarra. Na outra semana.... E qual é a cena? O Garagem Hermética. tocou a primeira banda: Graforreia Xilarmônica. 95. vamos premiar essa chinelagem toda!” E aí criamos o Garagito. Eu me lembro de ver o Carlo tocando guitarra no palco.. E quando eu digo da cena. você vai ter que subir e descer. que era o Oscar da música. da sub cultura. Estava tocando “Anyway. e a letra . Anywhere”. Afudê era que.Léo Felipe: Abrimos num sábado. um suposto happening: eu sempre digo que Porto Alegre tem uma tendência meio happening. que estava transitando entre o canto folk rock. na entrada. com umas garotas de cabelo curto. Uma pessoas me cataram e formamos uma nova banda. Então eu vou encontrar a cena de novo. Ricardo Kudla: Ainda era a primeira fase do Garagem quando a gente teve uma ideia: “cara. com aquela janela aberta. vamos nessa!” Júpiter Maçã: V oltei pra cena em 94. com uma banheira dentro... E tinha um banheiro só. um dos donos do Garagem.. dançando. Mas era só dar o primeiro acorde de guitarra. parados lá. um pouco mais radical. em dezembro de 92 – sem show.. Era eu e o Marco Murruga... disse: “esse é o berço!” Mergulhei com tudo. Eu disse: “oh. As pessoas iam lá e voltavam.. vamos criar um prêmio.. do The Who. é aquela coisa. de fato. E a banda começou a ficar nervosa: parou o show e pediu pro pessoal se acalmar. não quer trabalhar aqui!?” Eu respondi: “é isso aí. tem umas pessoas esquisitas.. Eu ainda era um adolescente.. curtindo o show bem perto do palco. César: Conheci o Garagem num dia de março de 94 – e era literalmente uma garagem. Então comecei a me meter: “sai prá lá!” Tirava as pintas e ficava ali. Estava rolando o som e a galera começou a se empolgar. navalhado. uma sexta. my God! It can’t be happening now!” E me empolguei com a cena de novo.. Anyhow.

Quando eu estava no bar comendo. The Charts de São Paulo. Era só ficar parado e vinha aquele enxame de seres psicodélicos. como a Joyce e a Fernanda.... Um espaço realmente jóia. uma banda argentina chamada El Secreto. Era engraçado: quando vendia meio freezer já tinha que começar a gelar de novo.. o envolvimento com a cena.. abri o bar e entrou uma galera. Como era fácil ficar ali.era o que havia de mais ácido na minha música... não haveria uma cavalaria em cima de ti. conversar com as meninas. Plato Divorak: Os festivais Montehey Pop Stock aconteceram no Garagem Hermética. O primeiro pra mim foi o melhor.. tomava uma garrafa de vinho e ia pra rua – já calibrada. Era um bar de romantismo.. com Júpiter. Plato Divorak: Se podia paquerar uma garota entre as colunas do Garagem. Ricardo Kudla: O Garagem tinha um lado de fantástica fábrica de chocolates pros drogados: tinha de tudo. que agora está maior e mais abrangente também. Independente da roupa. Gaby Benedyct: Muita coisa aconteceu no Garagem Hermética.. só vi uma ambulância passando. em 97 e 98. Então. Mas. Foi mágico.... a guitarra elétrica voltou. Algumas meio pesadas. Saía do trabalho.. Eu nunca fui tão jovem quanto naqueles anos. eu tô com muita fome! Dá pra comer um rango agora?” Acabei saindo naquela hora mesmo pra comer. Lovecraft. Eu não era tão jovem assim no Ocidente. E também se podia entrar sem ser importunado. então a cerveja nunca estava gelada. . Mais tarde. a coisa toda. garotas com cultura na cabeça também. Pensei: “deu merda em algum lugar”.. como Woody Aple foi pro Garagem – luzes. quando ainda estava longe do horário em que eu saía pra comer alguma coisa. mas isso só acontecia nas sextasfeiras! Léo Felipe: Tinha um freezer só. chegava em casa.. César: Aconteceu uma coisa muito xarope uma vez. Cheguei. Mas era bom. Era possível ficar até de manhã no bar sem ninguém encher teu saco. As misses fatais.. me arrumava. cheguei pro Ricardo e disse: “bah cara... com os Cascavelletes.. porque eu tinha uns amores impossíveis. meia-noite no Garagem eu já estava pronta. Walverdes.

vi uma poça de sangue na frente do Garagem. quando vem um cara de chinelo de dedo – e enfia o dedo na minha cara: “minha mãe está morrendo. quando davam aquelas batidas gigantescas da polícia no bar. completamente bêbado.. o Circus da Garibaldi.. e que qualquer um poderia fazer parecido.. Fernando Nazer: Hoje. ele continuava patifando. eu venho aqui e.. o Garagem Hermética é um lugar mais aberto. Eventualmente. Não era eu quem estava filmando coisas pra Benedyct Visuales aquela noite – mas era a minha câmera que estava ligada. um espaço pra todos.. Acho até que isso aconteceu num show do Egisto. parecia um clube. César: O pior é que eu tinha avisado aquele débil mental pra não se encostar ali. sem teto. Ricardo Kudla: Aquilo foi Nelson Rodrigues. E a câmera ficou aberta. com os policiais entrando no camarim. Antes. E alguém deixou rolar a gravação. Quer dizer: o pessoal percebia que aquilo lá era realmente um antro chinelo...” O cara me ameaçou! Ricardo Kudla: Lá por 93. Gaby Benedyct: Parece que foi em uma noite de show no Garagem que um cara caiu da escada e se quebrou todo.. Tentou se segurar.. porque era apenas pra algumas pessoas. Mas a ambulância não chegava nunca. Assim surgiu o Megazine.. Pelas quatro. Tu só vê os pés das pessoas! Léo Felipe: Depois a gente abriu um estúdio na sala dos fundos. porque o cara ficou com a cabeça rachada. 94. depois o Sabotage. ela está doente e não aguenta mais vocês fazendo barulho aqui até às cinco horas da manhã! Se a minha mãe morrer. Ele entrou no bar – que até nem estava muito cheio –. E era uma coisa assim: chão fino. às dez da manhã. Isso pela uma da manhã. outras podiam . Como é que nós íamos tirá-lo de lá? Tiramos par ou ímpar – e eu perdi: levei o cara pro Pronto Socorro. Não era um estúdio – era uma caixa acústica. filmando. deu sua deixa e começou a patifar. O cara se escorou na gradezinha da escada que dá pra porta do Garagem e caiu pra trás – caiu de cara. Ricardo Kudla: Aí chamamos a ambulância.Na hora em que eu voltei. E eu estava lá. Foi uma coisa muito deprê. mas nessas virou o corpo e caiu de cabeça. Bateu no balcão. mas chegou de um jeito animal. começaram a surgir os subprodutos do Garagem.

Paola Oliveira: Ser excitante e dramático. A gente não sabia onde ele estava. Daí que pintou a ideia de fazer o Elétrika Live. É a coisa do tipo: “por que não fazer isso lá?” As bandas têm a necessidade de mostrar seu trabalho na Capital. Na véspera. ela se vestia de preto. . o de Porto Alegre não. coisa e tal. Buda: Nós nos reuníamos uma quarta de cada mês no Alternativo – e só dava tope-tudo naquele troço. no Moinhos de Vento. a gente ficou sabendo que o bar estava precisando de uma atração musical. era seguidora dessas coisas. foi importante que surgissem novas bandas. em detrimento dos conjuntos que estão começando. Mano Sonho: Eu não me lembro se nesse show a gente já tinha botado o nome Comunidade.participar. Então. também vieram dois ônibus cheios de pessoas pra assistir aos shows. Isso é a poção mágica do sucesso. no Opinião. pra continuar isso. E num o Flávio sumiu.. A Help era do mesmo proprietário da Panda&Mônio. que acontecia nas segundas. toda essa coisa maluca. o cara ia pra diversão. Marcelo Gross: A Fun House é uma casa que tem uma energia boa. capaz de se deslocar do interior pra prestigiá-los. Todo mundo faz a merda que quiser. Com elas. Fernando Nazer: Seis bandas de Bagé vieram tocar no Garagem: viajaram mais de trezentos quilômetros pra tocar em Porto Alegre. mas por outro lado. E a dona era uma bruxa. A Katia Suman cansou de ir lá. Tocamos por cerveja – e ficamos a noite inteira tomando ceva de graça. Os bares em geral sustentam apenas as bandas conhecidas. Humberto Petinelli: O último show da Prize foi no Help. Fredi Endres: O primeiro show da Comunidade Nin-Jitsu foi num bar chamado Alcaholic. era legal. E também há uma situação assim: o pessoal do interior quer ver os músicos de Porto Alegre. a gente fez uns shows históricos do Júpiter no Garagem.. O Garagem não se restringe somente à música: são milhares de coisas acontecendo. em Imbé. uma lanchonete no fundo da galeria Quinta Avenida. e com isso mostrar que têm um público fiel. o Capeta... Foi uma coisa que funcionava. A filosofia do bar é a mesma – e. Ele só apareceu uma hora depois. Já existiam algumas músicas da banda na época.

da marinha mercante. Mano Changes: “Detetive” nem estava pronta ainda.. uma antiga peixaria.. Abrimos em 24 de outubro de 82. Mas eu já tinha ido umas poucas vezes no Alaska. mas uns disquinhos marcharam. coisas do Led.. E os caras da banda se emocionaram com os discos piratas..... ele ficou o tempo inteiro cantando “hari hou”. porque era perigoso. Que a gente já tinha estourado. o Solon Fishbone. do Black Sabbath.. e nos domingos com show do Escaler V oador.. E nunca tinha visto nada de mais. O problema é que os garçons começaram a encrespar porque tinha um limite pra esse cachê. Nando Endres: Tocamos “Bois don’t Cry”. Mas não deu nada: tocamos e bebemos até o final do show. tomando litrão de PepsiCola com aguardente pura. Eu até tenho uma camiseta autografada que eles me deram... Getúlio Costa: O episódio dos Toy Dolls em 95.. só que ele não sabia a letra. quinhentos quilos de sabão na cabeça. o mar é muito bom! Pra quem é livre de espírito.. foi muito criativo.. Ele dizia: “mas nem em escaler tu deve descer... de lugares. Continuou podre – mas não ficou mais abandonado! E ninguém nunca reuniu tantas pessoas no Bom Fim quanto o Escaler. Toninho do Escaler: O primeiro show do Escaler aconteceu no mesmo ano em que o bar inaugurou. O Bebeto foi o maior show que o Escaler já teve.” . José Ivo Salton: No início da Lancheria do Parque – por 82... o lugar era um troço abandonado e podre.. Botamos seguranças. tinha uns amigos que estudavam na UFRGS. Então.. Lancei o Serginho Moah. de dia frio ou quente.. acho que ainda não tínhamos “Merda de Bar”. Quando cheguei pra cuidar do ponto. fazendo sessão de autógrafos na loja..Nosso cachê era em cerveja.. Tinha gente com cabelo empinado igual a uma serra... E foi o comandante que me sugeriu. Mano Sonho: Não sei. 83 – as pessoas me diziam que eu não poderia trabalhar de noite na Oswaldo Aranha. O Fredi cantou “Iron Man”. Ficamos inventando o que tocar até que a cerveja acabasse. A Boca do Disco ficou virada num Woodstock: o pessoal na frente da loja fumando bomba atômica. O nome Escaler não é à toa: eu era marinheiro. achava que não era bem assim. o Bebeto Alves..

Um dia eles vieram pro nosso lado e deram nuns punks. Foi quando todo mundo se armou com tacos e pedaços de pedra e quebramos o Pinga todo. Prendemos os caras lá dentro. aqueles punks pegaram a caranga dele e viraram de cabeça pra baixo! E ainda conseguiram arrastar de volta. Fiquei embarcado direto. guerra de pedras e o caralho. Se juntavam no bar do Pinga.. olhar o filme do Pink Floyd. tênis. o carro estava de cabeça para baixo. que desilusão. reclamando dos punks. No palco tinha de tudo: chinelo. cheios de correntes. O Brique da Redenção também estava se formando. Quando abri o Escaler. e com aquele espaço em frente. Toninho do Escaler: Quando decidi abrir o Escaler naquela ponta da Redenção. em que tocamos com um baixista quebra galho. Eles iam pra lá – era o quartel general deles. comida e roupa lavada. Lá por 86. Depois. Acabei indo pro cinema São João. e não tinha ninguém: ai. fiz mais ou menos como o Tio Patinhas: guardei todo o dinheiro que recebia como marinheiro – e ainda tinha casa. João Gordo: Aquele quebra-quebra na Oswaldo Aranha. tipo o João. é que entrei direto na Oswaldo Aranha: Lola.. passava o verão no bar e continuava embarcado entre abril e outubro. pro mesmo lugar em que ele estacionou – virado! Quando o cara chegou... Gaby Benedyct: A primeira vez que eu cheguei no Bom Fim foi antes de morar em Porto Alegre.. Ocidente. Ele olhou e se fez.. foi do caralho! Tocamos duas vezes lá. Minha maior emoção foi matar o cursinho e ir pra Oswaldo Aranha de tarde – porque tinham me dito que os punks e os darks ficavam ali! Só que eu cheguei de tarde na Oswaldo. uma galera invadiu o Araújo! Teve briga com seguranças. Jogaram muita coisa.. que tinha deixado o seu Corcel II na esquina do Ocidente.. morando em Porto Alegre... Na segunda. tomando uma cachaça.. cartucheira de bala . na noite em que fizemos o show do Araújo Vianna em 91. Paulo Arcari: Eu e o Bacana estávamos sentados no João.Pra abrir o bar. seringa. 87. No que ele subiu pro Ocidente. entre a Ramiro e a Oswaldo. quando chegou um cara bem mauricinho. Uma era de metaleiros. 92.. Phillip Ness: Tinham umas gangues perto do Ocidente.. de 75 a 82.. Ele não acreditava no que via! A Oswaldo Aranha era um movimento forte. A gente quebrou tudo. Um bar cheio de cachaça. eu já enxergava tudo que poderia ser feito ali.

Então teve muita pressão por parte dos moradores do Bom Fim pra acabar com a esquina do bar. a gente sofria muita batida da polícia. devido à falta de policiamento. sapatões pro outro”. eles decidiram que o casaco era do proprietário. gaúcho tudo doido. Mas. foi preso na noite que gerou esta manifestação e o show no Araújo Vianna. quem reclamou. Nei Lisboa. Fizeram uma fila de meia quadra na João Telles com todo mundo encostado na parede. Descemos na frente do Lola e vimos que os caras já estavam fazendo uma blitz. teve o show no Araújo Vianna onde devem ter tocado umas dez bandas – Replicantes. Como todos calaram. Chegou uma época em que eram tão folclóricas as batidas que ninguém fazia nada: apenas puxava a identidade. cara! Todos os carros que passavam pela Oswaldo Aranha eram chutados. ficharam. E mandaram todo mundo deitar no chão: “bichas pra um lado. Um dos sócios do bar. numa sexta-feira. Foi numa dessas noites que ele foi preso. E a cada batida. E o levaram. por mil razões. o Carlos. E não se sabe quem fez queixa.. Fiapo Barth: O Bom Fim Pequim teve uma coisa ligada com o Ocidente. Chegaram na sala e perguntaram de quem era o casaco: ninguém se manifestou. Cascavelletes. mandando todo mundo pôr as mãos na cabeça. . havia um tijolinho de maconha dentro de um.. Foi o manifesto pra que acabassem com a arbitrariedade da polícia.de revólver. tipo assim. Isso aconteceu em função de uma noite em que a polícia invadiu o Ocidente. Humberto Petinelli: Os policiais tiraram todo mundo de dentro do Ocidente. um rapaz levou um tiro. E foram até a cozinha também. Humberto Petinelli: Um show importante do Cascavelletes foi o do Bom Fim Pequim – um dos lances mais relevantes em termos de atitude. Depois de uma semana. colocaram num ônibus e levaram. Solon Fishbone: Eu e a Mari estávamos chegando na Oswaldo. eles levavam. Isso valeu pra gente ficar uns cinco anos sem voltar pra Porto Alegre. Pô. Eles iam revistando. Era assim: nos primeiros anos. que nós usávamos como chapelaria. Baixaram várias viaturas da Brigada Militar e da Polícia Civil.. mais gente vinha pro bar.. porque nos negaram a segurança.. Quem não tinha documento ou era menor. Justa Causa. na noite em que a polícia invadiu o Ocidente. Baixaram todo mundo que estava dentro do bar. quem mandou que a polícia fosse ali. nesses termos. TNT.. Eles pegaram todos os casacos lá de dentro e. O auditório estava lotado. segundo eles. Os policiais chegaram grosseiramente.

. sempre vai ter gente vindo aqui. Hoje em dia já não tem onde fazer isso lá: é todo mundo mais bundão. sábado e domingo sem sair fisicamente da Oswaldo. sujinhas. mesmo assim. Acaba juntando as coisas.. Essas coisas que rolam na Oswaldo Aranha serviram como um grande agitador. falando com gente. A gente praticamente vivia ali. misturados com marginais. As pessoas se assustam mais é com os novos punks.. intelectuais. porque é meio comunitário. Humberto Petinelli: O Bom Fim era bem devagar se comparado com hoje em dia. tocando música pop – e estão os caras do drum’n’bass e os do rock também. Aí tu vai numa outra festa. mas voltava pra lá. Pode até ser sem dinheiro. quando vinham pro Brasil comer as índias e nasciam os mamelucos. Mas. não fazem nada. Existe um ciclo de poder masculino e um feminino: a gente está no feminino de novo. tomava uns picos.. Todo mundo se conhecia: era como uma cidade do interior. esticava uma carreira. Fiapo Barth: O Bom Fim sempre foi assustador pras pessoas.. é diminuta em relação ao que era antigamente. . está lá o pessoal do drum’n’bass. eles assustam as pessoas. Antes ninguém saía do Bom Fim sábado e domingo. Acaba bebendo de graça. dentro de um certo molde. mas não é um bairro perigoso. Não é algo solitário – é solidário. Isso era o começo de um processo de revolução sexual que está começando a rolar agora. Era uma coisa como os portugueses. Não tinha essa de “tu não é da minha turma”. Sempre teve essa história boêmia. no Ocidente. rock’n’roll. de músicos. Era um lugar onde se juntavam patricinhas. Flávio Santos: As pessoas não conseguem nem se dividir em turmas em Porto Alegre. Por exemplo: tu vai numa festa drum’n’bass. A postura deles é mais hippie do que punk. Mas eles são inofensivos. góticas. Se ia na casa de um. universitários. Edu K: A Oswaldo era do caralho porque ficava ao ar livre: uma vagabundagem. punks. uma comunidade gigantesca. hoje..Lao: Qual é o outro lugar do mundo que tem uma rua que nem a Oswaldo Aranha? Edu K: Na Oswaldo as minas comiam os caras. fumava um. Júlio Leite: Mesmo pensando que a noite da Oswaldo Aranha. Todo mundo acaba se encontrando nos mesmos lugares. Eu ficava sexta.

Este bairro não morre nunca. . ao mesmo tempo que tem uma história e tradição de reacionarismo. também tem toda uma história oposta de loucura.Toninho do Escaler: As gerações passam e vão continuar aproveitando o Bom Fim. Porto Alegre precisa de um lugar de encontro: o bairro.

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na paralela. essas coisas mais românticas. Sempre amei aquilo – até o ponto em que o rock começou a me transformar. abri um livro sobre o Miles Davis. Eu não tinha técnica pra fazer os temas que ia improvisar. essas coisas. que me acompanhou 22 anos como professor. Estava me achando muito aquém da coisa. casualmente. Schumann. Foi o que me fez subir no alambrado da casa do meu vizinho e cantar “Tutti Frutti” sem saber inglês – e enfrentando o público! Júlio Reny: O meu lance com a música começou de um jeito tri problemático: eu tinha mania de combates de rua. . John Coltrane é outro grande iluminado que às vezes volta.. pensei: “tenho que me concentrar em alguma coisa”.. então essa coisa já estava no meu sangue... certas instruções. Eu tinha que fazer um recital de jazz no Theatro São Pedro. Ela ouvia Chucky Berry.. E cada um cantava de uma vez. senti uma energia. era campeã de dança de rock. Quando eu tinha seis anos.. O Araújo Vianna era na Praça da Matriz. E era na página que falava o dia 18 de Julho – a passagem que John Coltrane desencarnou.. ela tocava piano. Carl Perkins. Acabaram me internando num hospital psiquiátrico – foram quase duas semanas de inferno. E eu ficava ouvindo. num vizinho. vendo tudo. Zé do Trompete: Meu grande mestre foi o Macedinho. Todos eles já desencarnaram. Então. garotinho.. Os outros batiam palmas – era como no rádio. Teve uma vez que me deixarem estirado no chão. Depois.. Mutuca: Esse ouvir Elvis e a sensação de cantar pro público aconteceu pela primeira vez comigo num aniversário de criança. E eu não sacava direito. no final dos anos 50. tentando aprender a tocar o piano em casa. Isso era o nosso conceito de música. a minha casa já era assim. E aí pintaram umas técnicas rápidas – senti que a transformação era muito forte. E a minha mãe ainda tinha 26 – e ouvia rock. E. E o meu pai era piloto de carro de corrida. e eu via as apresentações dos artistas com os meus pais. Chopin. Todo mundo estava na frente da casa. mas não estava preparado. escutando doidão.. Estava meio duro. Então.O DIA QUE FUI CONTAMINADO Carlos Eduardo Miranda: Minha mãe. Quando eu saí dali. Então foi meio que um elo. espontaneamente. Meus irmãos dançavam rock’n’roll na sala e eu ficava ali.. Fughetti Luz : O meu irmão levava discos do Elvis Presley pra dentro da baia. Era um apanhae-ganha diário. umas primas da minha mãe tinham 16..

Humberto Gessinger: Desde o início. Pobres dos vizinhos. free jazz. eu já sabia o que queria e o que podia fazer com música. Passei por todas as fases e estilos: de Dixieland e New Orleans a Chicago. Eu emprestei o meu e eles acabaram pedindo pra eu ir junto. Humilhei totalmente os inimigos. em 1975.. sem obrigações comerciais. Tem uma coisa que me dá vantagem: eu sempre gostei de limites em tudo na vida. Aprendi que. e ainda tinha aquela coisa da rua. tarol. eles iam a outros bares e participavam das jam sessions. como os discos de rock estavam juntos por ali.. . Eu era muito impulsivo. Assim podiam tocar livremente. e me atualizava roubando.Uma das coisas em que me envolvi. Eu tinha de tudo. mas sabia o que fazia. Além de ouvir. depois dos bailes. quando falei em bateria.. E. e criavam novas formas de expressão. E era lá que eu tocava. no bairro Auxiliadora. um disco do Gene Krupa.. meu interesse por música foi aumentando a ponto de querer tocar algum instrumento. Eles já tinham um baixista – mas que não tinha baixo. Eu roubava discos de rock. bumbo. de pegar. encarar os inimigos e sair dando porrada. Tinha um monte de Santana.. E toquei pífaro no Campeonato Brasileiro de Bandas Marciais em São Paulo. Foi um marco na minha vida. li muito sobre músicos de jazz. e passava revista nos magazines a manhã inteira. paralelepípedos. numa daquela cabines de audição. Led e Black Sabbath – mais de duzentos vinis. tocava tambor. Tinha estudado trompete. minha mãe me levou até a King’s Discos. que tinha um apartamento sobre a garagem. em 79. também fui ver sobre o que se tratava. Flávio Santos: Meu irmão tinha um baixo. Humberto Petinelli: Quando eu era criança já tocava na banda do colégio.... Nessa fase eles ainda eram instrumentais. fusion. Pegava de faca. além de brigas. Eu era pequeno. Foi quando começou a surgir: primeiro pintou o Taranatiriça. mas então ele engravatou.. big bands. caixa. E me mostrou. swing.. Achava tri bom o lance de tocar em trio. foi a piração com o rock. grupos. Ivo Eduardo: Com catorze ou quinze anos de idade. Comecei a ouvir jazz alucinadamente. be bop. Eu dizia que ia fazer um trabalho na biblioteca. fui tocar bateria. Então. E. Foram muito legais aturando um baterista iniciante. Foi estudar economia. E eu herdei o baixo e o amplificador. solistas. Morávamos em uma casa.

E eu: “que coisa horrível! O cara com aquela roupa colorida!”. A Bandeirantes. Antes de mais nada. praticamente desconhecidos. O Miranda é quem tinha os discos e conhecia tudo. Eu. a galera já estava de saco cheio daquelas bandas muito hippies. O Gerbase e eu morávamos juntos numa casa que tinha uma garagem e tal. o Cláudio não tinha tocado coisa nenhuma na vida dele.. e acabamos tendo esta ideia de fazer música. “Vamos tocar o quê?” E o Gerbase escolheu a bateria antes de mim. lá na loja. Não se identificavam com movimento nenhum. Encarei os caras – e fizemos. Ele tinha dezessete anos na época.. Aí eu me apavorei. rock astral. o Cláudio e eu fomos numa loja pra comprar um baixo e uma guitarra. o Heron e o Claúdio. os ecos do movimento aqui em Porto Alegre eram inexistentes. Mas me disseram que Os Miguel estavam criando uma banda. Apesar de o punk rock ser de 76. a única rádio que tinha. vendo aqueles programas de clips na TV . Assim como eu e o Gerbase. 77.. Eu tinha uma parceria com o Marcelo. E quando ele descobria uma coisa nova. a minha zona. Pink Floyd. Eram turmas diferentes. Frank Jorge: O cara pra quem eu mostrei meus primeiros acordes foi o Marcelo Birck. de amizade. eu e alguns amigos estávamos ouvindo muito punk rock. um disco legal. Já desci do apartamento com o cabelo raspado e de coturno! E já tinha uma turma empenhada lá no Cristo Redentor. Bah! No verão em Porto Alegre não tinha nada pra fazer: “vamos fazer uma banda? Vamos chamar alguém?” Então chamamos o Cláudio. jamais tocaria aquele tipo de som – porque rolava basicamente rock progressivo. Nós não tínhamos mensagem nenhuma pra dar. Escolhemos na hora. em 83. o rock progressivo. Daqui a pouco. Heron Heinz: Os Replicantes não queriam absolutamente nada quando começaram. A minha intenção era tocar bateria. Isso acabou se refletindo muito cedo nessa noção. . E as bandas nacionais já estavam enchendo o saco. Começamos a ler algumas coisas sobre música também. sempre mostrava pra mim.. Carlos Gerbase: Em 1983.. Então. Não queríamos dizer nada. Ninguém gostava deles: eram tri agressivos. Mas depois passou um clip dos Sex Pistols: “God Save the Queen”.Phillip Ness: Em 82.. Eram Os Miguel. A banda surgiu quando estava começando o verão em Porto Alegre. que é meu irmão. que achávamos em revistas. baseados principalmente em discos que se conseguiam em São Paulo. esse tipo de coisas. passou um clip do Van Halen. e da mesma maneira tinha um vínculo de divulgar as coisas da música com amigos da rua e do colégio. Tudo começou quando eu estava em casa.

Conhecia o instrumento. na real. meio bandida... E aqui no Rio Grande do Sul está acontecendo isso: o público tem seus ídolos em casa. Toda essa coisa fascina o cara. Foi tudo atrapalhado. Eu só sabia carregar. e nessa época só vai à praia quem conhece bem o gado e a planície.. com a galera em volta. Achei perfeito. Lá em São Borja. onde eu morava. Susi Doll: Eu comecei a curtir o rock no Petropole Tênis Clube. todo pilchado. E. não precisa saber nada. os Stones e os Beatles. e no outro dia de manhã.. Ali.. A maneira de viver do rock’n’roll cativa o cara quando ele é adolescente. o Fabrício. Eu era gurizinho e vi o cara chegar em um Mustang vermelho. eu arrumei minha primeira transa! Eduardo Normann: A primeira vez que fui tocado pela mão do deus Jimi Hendrix. Foi horrível. através daquele sonho. e pensei: “é isso que eu quero fazer!” Cau Gomes: O meu primeiro show como roadie da Bandaliera também foi o último. input. Eu fui – e foi um horror. gravar e viajar. Tinha aquela lenda do roadie: “ele carrega o instrumento. As minas olhando pra ele e tal. Santiago Neto: O primeiro artista que eu vi na minha frente foi o Pedro Ortaça. tu acaba te aprofundando na música... Festa. vou ser roadie da Bandaliera!” Imagina. mas nunca tinha ligado. levou uma dúzia de pedais.. Não sabia nada. Aquilo era o que eu queria ser: lá nas Missões esses caras eram ídolos. e coisas assim. Eu e mais três amigos começamos a fazer o chá pelas cinco da tarde. Não sabia o que era um output.” Então eu fui. Gustavo X Aguirre: É aquela coisa de tu ouvir as primeiras bandas que te tocam muito. todas as velhas. como era bom. Era julho. A possibilidade de fazer barulho foi fascinante. no tipo: “bah. tempos do Sunday da Cidade. Ai. Cagavam. . eu estava numa casa em Arroio do Sal. O ídolo começa no seu lugar. Aquela coisa meio marginal. E um de meus amigos. eles riram muito.Luís Henrique Tchê Gomes: Me lembro de um recreio no Instituto de Educação em que vi o Márcio Petracco tocando um cavaquinho. Ali têm uns sitiozinhos cheios de zebus. Pra mim.

a primeira música que eu aprendi foi o “Flight of Icarus”. Aí. 84. uma guitarra”. Uma vez ele pediu “We Are the Champions”.Diego Medina: O Júlio Reny é meio que meu tio. tá. Meu pai comprou uma guitarra pra mim. dos Stray Cats. Eu não me lembro se foi em 83. se tu gosta mesmo de TNT e Cascavelletes eu vou te emprestar um vinil”. te vira aí. Comecei a ter aula de guitarra com o Júlio Reny. uma coletânea que tem a música com o mesmo nome. E eu estava alucinado. com dez anos de idade. entregava assim: “tá. te vira”. em 90. Mas um dia o Moreira chegou e falou assim: “bah veio. Júlio Reny: Eu dei aula de guitarra pro Diego Medina. E era tudo Iron Maiden... O que eu vou fazer? Saí do colégio em 89 e. Ele era sobrinho da minha mulher. Tinha que primeiro aprender a tocar violão. o porquê de não poder começar tocando um baixo. do Iron Maiden. em casa. tudo uns troço assim. Me enrolei todo pra tirar. querendo tocar: “quero ser o Gene Simmons!” A minha mãe falou com o Júlio: “que tu acha?” E o Júlio falou: “não. Ele vinha com umas revistinhas daquelas cifradas. que o Kiss veio fazer um show no Brasil. ele me emprestou o Built For Speed. Me lembro. do disco Piece of Mind. Foi então que descobri. Com solo e tudo. Eu tinha uma banda com uma amigos do IPA que tocava só os rockabilly. Sei que no fim das contas eu ouvi o Built For Speed e falei assim: “ahhh! Parem as máquinas! Agora eu tô entendendo! Agora eu sei o que é a coisa mais afudê do mundo!” . um teclado. então tinha aquele burburinho. é melhor o guri começar com um violão. Os Nelso. Rafael Malenotti: O lance que aconteceu comigo foi o seguinte: eu decidi ser músico.. fiquei tocando muito.. do Queen. focalizando tudo naquele quarto onde depois virou o estúdio Bafo de Bira.

Mas. Os caras abriram o caminho carregando os instrumentos nas costas: não tinha nem roadie. E ao mesmo tempo.. Me lembro que tinha o Raiz de Pedra. eu ia atrás. O mercado começa a se consolidar nos anos 80 com o lançamento do Rock Garagem e do Rock Grande do Sul. ou não come em casa!” Emprego. o HalaiHalai. Zé do Trompete: Os músicos da era do rock nos anos 60. não: a gente era uma banda de countryrock. mais progressivo. Nem amarrando o cabelo! Gilmar Eitelvein: Não havia mercado musical em 60. . Houve também. que era meio tipo o America. Todo mundo passeando com uma guitarra pendurada. a partir dos 90. 70. e várias bandas com uma sonoridade folkgauchesca. a abertura de emissoras de rádio que tocam a música local. era aquela história com os coroas: “ou corta o cabelo. que eram aqueles Vivendo a Vida de Mr. era uma das poucas bandas de rock que existia. Depois teve aquele sucesso todo do Hermes Aquino com “Nuvem Passageira”. Lee. Depois que veio a história de baixar o pau nos intelectuais – e aí é que foi foda. que era mais jazz. ninguém dava. Eu ia nos shows do Bixo da Seda. anos 70. Júlio Reny: A gente fazia no máximo um show por ano. em 1978. foram maravilhosos. Foi com o Nei Lisboa. o Kleiton e o Kledir saíram dos Almôndegas. de bandas que não teriam chance de mostrar seu trabalho. o Júlio Reny e o programa do Ricardo Barão que se iniciou a retomada do rock no Estado. o Inconsciente Coletivo. Mas teve um movimento de música que me deu vontade de tocar. Onde a banda ia. isso em 83.DÉCADAFONIAS Gelson Schneider: Nos anos 60. Atualmente há uma aposta no sentido de que aqui é possível ter um mercado permanente pra música.. Isso ainda é muito recente. O futuro dos Cowboys Espirituais estava ali. Tinha o Fernando Ribeiro. toda aquela onda terminou: o Bixo da Seda foi uma espécie de ressaca total. Eu estava mais a fim de curtir os caras daqui do que ouvir America. Quando eu surgi no cenário em 79 com Uma Canção Nas Trevas. Uma galera. Fernando Pezão: Hoje esse negócio de tribos está completamente fragmentado: tudo é tudo. O rock estava em baixa.

Isso em 83. Woodstock. Ninguém ouvia Roberto Carlos. tinha o movimento hippie. Estava vindo um pouco do Cio da Terra. Nelson Coelho de Castro: Nós tínhamos um movimento cultural no Rio Grande do Sul que abarcava todas as praias musicais. de Borghettinho ao pessoal do rock. . E fez. Grupo Semente. Mas naquele momento era bem nítido isso: a contracultura. O estilo de vida torrava muita grana. A gente se atentava muito ao estilo de vida. Significativo porque compreendia todos os músicos. De repente acontece. Com uma foto minha de moicano segurando uma cuia. A primeira matéria nacional. Tonho Meira: Em 82. sem preconceito e boçalidade. Hoje a revolução não está em nenhum lugar. os cabeludos. Se expressar de qualquer maneira. Nos anos 80. Nos anos 70 tivemos o que chamavam de MPG. É uma coisa que hoje as pessoas já não fazem.nada é nada. Humberto Gessinger: Existe muita coisa represada na cultura gaúcha. que não queria nem saber: só fazer baderna. A cena era forte. marginais. Elas se revestem com um pouco de preconceito pra ir num show. E todas valiam. loucos. instrumentistas. me aparece o Edu K. Nos anos 60 e nos 70. mas não era roqueira. todos juntos. um grupo de música instrumental progressiva. Tudo é negócio. uma música de muita qualidade mas que não teve vasão. Agora não tem mais revolução.. Marcelo Birck: Porto Alegre tinha uma tradição hippie que a gente renegava desde o início. mas naquele momento era um conflito. Edu K: Todo mundo era muito nativista. Enfim. Terminou aprendendo a tocar. Éramos contra o que havia sido feito até então. Teve um show importante desse momento em Porto Alegre.. E uma certa angústia começa a se criar quando isso acontece. Tu tinha que saber tocar. O mundo foi se compreendendo ao longo da história. A gente sacava uma banda de MPG. eu trabalhava com o Raiz de Pedra. Isso era no início dos anos 80. que foi o “Explode 80”. Chaminé: Chegou nos anos 70 e a coisa ficou meio perdida. Frank Jorge: Éramos ávidos em conhecer coisas novas. misturando o rock dos anos 70 com nativismo. Do Luizinho Santos a Fernando Corona. qualquer coisa. tinha assim: “Gaúchos modernos que tomam chimarrão”. o movimento hippie – e a sociedade do outro lado. então tu via uns caras mistos de hippie com guasca. Mas a gente curtia. que saiu da gente na revista Veja. e íamos lá ver o que era. mas não estamos sacando que é a revolução. as pessoas detestavam.

até continua sendo. Assubék. Arthur de Faria: Na verdade o rock dos anos 80. tanto o brasileiro quanto o gaúcho. mais originais. clonou muitos modelos estrangeiros. O Plato tinha um monte de bandas. Tinha trabalho pra todo mundo. Nesse sentido. Em parte. que me perguntou: “o que tu acha legal fazer?” E eu: “vamos fazer um disco da Bandaliera!” Ficaram de cara quando ele deu dinheiro pra produzir uma banda de rock. Aristhóteles de Ananias Jr. Humberto Petinelli: O rock era quase um buraco negro no meio do nada nos anos 80. Isso ajudou as bandas a tocarem no interior. que de uma certa forma trabalhavam entre si. Tinha a Graforreia. Eu recém tinha me formado e fui procurar emprego com ele. Foi isso que detonou rock gaúcho. Mas no final da década de 80 e começo da década de 90. Lorenzo y la Nota Falsa. Aquela coisa natural de segunda geração. mais bacanas. As primeiras bandas aliavam muito o visual com o som.. Botavam vinte mil pessoas.. pelo menos eu penso assim – e muitas pessoas também. Cida Pimentel: Uma coisa que não têm hoje são empresas com vontade de fazer grandes eventos. A língua portuguesa é um pouco complicada pra sonoridade rock’n’roll. Então o que acontecia eram cópias baratas. houveuma coisa muito interessante no som gaúcho: uma vontade de fazer coisas novas. Gustavo X Aguirre: O rock gaúcho sempre teve muito estilo. o Pedrinho Sirotsky foi uma pessoa importante pro rock gaúcho.Nilton Fernando: Na verdade o rock brasileiro não tinha letra. o mesmo que aconteceu no rock brasileiro: os anos 90 são infinitamente mais criativos. .. Père Lachaise. era um horror. principalmente.

era tocar na rádio Ipanema. Já as bandas que estouraram no rock gaúcho nos últimos três ou quatro anos chegaram no rádio com muito respaldo popular. E aqui quero deixar claro que não tenho nada contra isso! Se fazia necessário. As bandas. já tinham logotipo. E por isso a cena é forte. empresário e já visavam mercados. quando começamos os Engenheiros do Hawaii. não tem duas bandas fazendo a mesma coisa. É só saber levar. . Carlos Maltz: Nosso objetivo. Beto Bruno e M arcelo Gross. É sedimentado.Dos M alvados Azuis. Mas. Jerônimo Bocudo. O que pra mim é uma coisa muito chata. O nível está ficando cada vez mais baixo. Outra prova disso é a peculiaridade de cada uma. O lastro está pronto. antes de estar fazendo o show. E as pretensões eram artísticas – o que é altamente saudável que o jovens tenham. Júpiter M açã e Hipnóticos surgiu a Cachorro Grande. e porque poucas bandas estão aprofundadas nisso. Todo mundo virou publicitário. todos começaram a ficar muito espertinhos. Tem o referendo na base. O processo era inverso: as rádios faziam o sucesso. de repente. Thadeu Malta: Nos anos 80 houve um movimento orquestrado por uma grande gravadora no Rio Grande do Sul. Humberto Gessinger: Ainda tem muita gente que se liga nos Engenheiros por causa das letras. uma representante da nova geração de bandas de Porto Alegre: Gabriel Azambuja.

E isso é apenas a gorjeta do total. Ainda está bem longe do ideal se comparar com o movimento das gravadoras independentes na Europa. o Astaroth. mas não tinha uma noção de como os dedos estavam se mexendo no instrumento pra sair aquilo. como um monte de coisas também estavam começando. Ao mesmo tempo. O custo de um disco independente era astronômico. porque não existia rock em Porto Alegre. Luís Henrique Tchê Gomes: Não só a gente. lá por 83. Humberto Petinelli: No início dos 80 a gente não tinha um parâmetro. da cultura. o Valhala... não sabia como era a relação do manuseio do instrumento com o som que eu ouvia. 86 – o rock nunca ultrapassou os 15% do mercado de discos no Brasil. mas era só uma meia dúzia de loucos. A coisa era underground mesmo. de qualquer forma. Tocávamos nos shows cheios de apetrechos. lojas de discos e shows. porque as rádios tocam e tem um mercado de rock muito grande no interior. Nós estávamos iniciando junto com toda essa estrutura. De repente eu ouvia no disco uma música. andávamos de preto. Cada um escreve da sua maneira e o que quiser. Eu nunca tinha visto alguém tocar um rock na guitarra.. que saiu em 1984. Marcelo Birck: Não existiam muitas opções nos anos 80. Thedy Corrêa: Quando houve o primeiro estouro – em 85. A distribuição também não era como hoje. Flávio Santos: O que nós queríamos fazer era rock. Rádios.. Quem fazia som pesado em Porto Alegre era a Leviaethan. King Jim:: A cena era devastadora pro nosso som.Mas eu não acho isso uma coisa ruim: não é feio não ler. de gravar e distribuir pra quem quisesse sem dar satisfação pra ninguém. Já tinha o Taranatiriça. O . os moleques destas bandas que não lêem estão vivendo. Flávio Soares: Nos anos 80 ninguém fazia heavy metal. não sou um baluarte. eu não sou um fetichista do livro. não era tão profissional. que tu bota o disco na internet e está feito. Pensávamos em termos independentes. Gustavo X Aguirre: O mercado na década de 80 era um pouco menor.. Claro que a maneira de verbalizar vai ser diferente e isso aparece nas bandas. Montamos a Leviaethan em 1983 e participamos do Rock Garagem. O sul se mantém. Mas eu não entro nessas brigas..

Que faziam uns shows numas bodegas e ia tri pouca gente. era o Júlio Reny. Eles até nos davam um certo medo: “será que vamos acabar que nem esses caras.. os cabeludos. Todo o dia tinha uma coisa acontecendo: era Urubu Rei. cada etapa era curtida com mais intensidade. e depois as bandas cover tomaram conta. éramos um tanto quanto ingênuos. perdedores?” Justino Vasconcelos: Ao mesmo tempo em que a gente começava a se desentender nos Garotos. Juarez Fonseca: Tinham muitas bandas querendo gravar quando o rock gaúcho estourou. Produtoras e gravadoras lotavam o Gigantinho. demorava mais pra se formatar.que existia eram os caras da antiga. As bandas conseguem sobreviver de música hoje. gravava a música no estúdio. Era mais lento e trabalhado. pra conseguirem gravadora e aparecerem no jornal. Os Garotos da Rua já eram um rock’n’roll mais ou menos tradicional e o Engenheiros também. E as gravadoras andavam viradas: os lançamentos estavam vendendo um monte e dando muito dinheiro. montam pra dar certo. Frank Jorge: Antigamente a coisa era mais suada. e o mercado ainda estava sendo moldado.. Tonho Meira: Cada banda fazia a sua história. Naquela época. que eram meio considerados os bandidos. era só ficar na área que cada um que ia no bar voltava trazendo cerveja pra todo mundo. Tu fazia a composição. lotavam com os caras daqui e os caras de fora. o TNT tinha aquela coisa de rock’n’roll balada.. Carlos Maltz: O mais legal é que as bandas hoje parecem estar mais qualificadas. mais batalhada. os maconheiros. Mas. Não é nem o caso de dizer o que é melhor ou pior: hoje é diferente. Não sabíamos nem que roupa vestir. levava pra rádio. Engenheiros. pois a rádio Ipanema estava tocando. Katia Suman: O mercado se consolidou a partir dos anos 80. aumentavam cada vez mais as festas com locutores de rádios. que discurso fazer. Mas se fosse só os daqui também lotaria. Márcio Petracco: Se tu fosse no Ocidente sem grana nessa época.. bicho-grilo e tal. Eu acho que a coisa antes era mais artística. Estávamos de peito aberto pras coisas. e nos anos 80 ninguém conseguia. extremamente adolescente. a maior parte dessas bandas ficaram com um disco só. a sonoridade. Replicantes. as coisas passaram a apertar pro lado do rock no Brasil. As pessoas têm um outro tipo de noção. Não fazem banda hoje porque gostam de tocar com os amigos. Os Replicantes mandavam ver no barulho. Aqui no Sul. Hoje em dia é mais mecânico. e pudemos constatar .

isso morreu. aquelas drogas. que contratou a Ultramem. tem um selo que é o Rock It!. fazendo shows. cada uma vai interpretar uma coisa diferente de ti. Está todo mundo no caminho certo. Carlo Pianta: Hoje em dia. No dia em que eles decidiram ir embora. mais ciente das coisas. Nos anos 80. Humberto Gessinger: No boom do rock. roqueiros. logo à noite já se fazia um show. e o show foi transmitido de uma maneira muito tosca pelo rádio. que contratou a Comunidade e o Nenhum de Nós. Não significa que temos que se adequar ao mercado de ninguém. Agora as bandas se conhecem mais. numa boa. Hoje em dia não rola aquelas putarias que rolavam em camarim antes. Todo mundo se profissionalizou. Porque hoje. Ter uma banda. como a Sony.mais tarde que isso jogou um pouco contra nós. são poucos que se drogam muito. se prestigiam mais e cada uma tem o seu jeito de fazer música. É importante ter esse tipo de percepção. Aconteceu assim em Rio Grande: lotou o ginásio local. Rafael Rossatto: Os anos 80 eram uma gurizada de quinze. apesar da participação de companhias grandes. as bandas novas já surgem todas com uma imagem pronta. Os artistas entenderam que precisavam fazer música pro . só tinha a multinacional. As bandas de agora são de pessoas mais velhas na maioria. a primeira coisa que conta é personalidade. gurizada de faculdade. Mano Changes: Nos anos 80 a sonoridade das bandas era mais parecida. Hoje. A maioria das bandas novas não são drogadas. Se tu deixar que as pessoas interpretem cada cabeça. pra que a música tocasse na programação. Olhei pro lado e o repórter estava com um microfone grudado no meu amplificador! A rádio transmitiu uma hora e vinte só de guitarra – num cubo Giannini! Raul Albornoz: Existe uma grande diferença entre o boom dos anos 80 e o de agora. Na hora de compor. na década de 80. Isso é muito importante. É difícil. e tem espaço pra todo mundo. tocar rock. A maioria não tinha faculdade. Se tu chegava com a fita demo na rádio de uma cidade do interior à tarde. as bandas são muito mais de tocar de cara. e elas não tinham um relacionamento tão bom quanto hoje. dezesseis anos quando começaram. Eram músicos mesmo. se drogar muito – muita droga – e não viver essa história de cabecismo. E enchia. quando tudo ainda era uma geleia geral. as pessoas pareciam mais a fim de ouvir e conhecer bandas. Tem a Abril que contratou a Video Hits.

Rosa Tattooada e Cascavelletes. Pelo menos em Porto Alegre têm alguns locais razoáveis pra se tocar e um público que comparece a shows de bandas novas. todo o marketing. Ricardo Kudla: Na real. Frank Franklin: As bandas novas aprenderam olhando as bandas velhas. porque já existe a opção do livrar-se da chinelagem. quando entramos no mercado. ter uma banda de rock me parece significativamente mais livre de traumas do que em décadas passadas. Tiago Ribeiro: Atualmente. . considero que a vida do cara que monta uma banda de rock está melhor. Carlinhos Carneiro: A impressão que tenho é que além dos grandes eventos. o Garagem tocava o que a gente queria e todo mundo gostava de tudo. de consumo de cocaína desenfreado. hoje tem que ser. Tem que ser organizadamente roqueiro. Mauro Borba: Hoje em dia as bandas novas nem são mais tratadas como bandas gaúchas. Agora o procedimento é o mesmo de quando sai um CD do Ira ou do Barão – não tem diferença.mercado. Rafael Rossatto: O Garagem é um lugar que marcou o rock dos anos 90. O que até é compreensível. Uma época meio pobre e que veio acompanhada de uma decadência. Porque. encontramos uma barreira de entidades que criaram algumas dificuldades pra nós. enquanto aqui os próprios caras iam nas rádios entregar uma fita. Hoje é diferente. Copiam em termos de som. os caras da década de 80 tocavam muito na chinelagem. Antes tinham as de fora.. quando existia o estigma de que roqueiro é vagabundo e coisas do tipo. de tocar mal tocado. Léo Felipe: As pessoas eram mais abertas pra dançar. Thedy Corrêa: Houve uma evolução na mentalidade das bandas novas do rock gaúcho. porque elas nunca tinham ouvido falar da banda. Eles é que fuderam com o rock dos 90 em Porto Alegre. mas não copiam o comportamento de bandas como TNT. Em todos esses aspectos. A primeira vez em que se cogitou fechar o bar.. porque deram espaço pra aquela cena que não interessa. Léo Felipe: Quando o rock dominou no Garagem Hermética foi um período negro. Isso sem contar toda a evolução tecnológica. que vinham com aquela coisa da gravadora.

. de querer ir atrás do grande money. que a gravadora teria feito pra ser um novo “sei lá o quê”. de estourar. gravar e registrar um trabalho era uma atitude de heroísmo. é do caralho. tinha uma mobilização enorme. Veio com uma conversa do tipo: “bom... como o cara era conhecido nosso. mais segmentado. A mentalidade da maioria das bandas que está aí. Percebo que está voltando esse negócio de tocar por tocar. É uma guitarra elétrica. liga na tomada e deu. A música. ligada em uma tomada! Hoje. Acho que falta um pouco de despreocupação. Tudo era grana. Carlos Maltz: Vejo uma banda como a união de pessoas que não têm nenhum outro interesse a não ser tocar. existe o .. Inclusive. E as rádios começaram a tocar. Todos se defendem. principalmente a Ipanema. É um sindicato onde todos se apoiam. Fomos os primeiros a fazer shows no interior. Isso meio que motivava os grupos. era mais uma parte da gurizada que ouvia. Porque sempre que alguém começa a fazer um som. ganhar dinheiro. Existia muita gente fazendo pouca coisa – e achando que fazia muito. É algo que acontece numa determinada idade e que não se faz pensando em ganhar dinheiro ou esse tipo de coisa. é como uma batedeira. e nada! Nenhum equipamento! O cara não tinha nenhuma noção. Hoje tem um mercado de rock. Lugares onde nunca teve nada parecido. Na verdade ele conhece as condições necessárias pra se fazer um show.” Como se a guitarra fizesse o som sozinha. Antes. atrás do sucesso. por acharem que éramos uma armação. E cada vez menos brilhante. Virou um negócio – um negócio altamente lucrativo e chato. Elas se respeitam muito. um ferro elétrico. Antes os caras nem sabiam o que era. Mas ao mesmo tempo vejo que todos estão indo por aquele caminho.. Qualquer guri num quarto faz uma fita demo. Antes. Chegamos lá. Katia Suman: É evidente que hoje é muito mais fácil viver de rock. Flávio Santos: Eu acho do caralho o que está acontecendo com a cena nova. Nós abrimos o mercado a facão.. está menos interessante. nem nos preocupamos. sozinho. se um contratante não te dá no mínimo isso é porque ele é um sacana. Teve um show dos Garotos da Rua no interior que.Mas a pancadaria grosseira começou aqui. O ambiente não era de uma convivência muito legal. O cara que tinha uma fita K7 era um desbravador. de uns tempos pra cá. genial e expressiva. Justino Vasconcelos: Hoje a cena está muito melhor estruturada.

É marqueteiro! Nenung: A referência em geral das pessoas pelo interior afora é muito antiga ainda. formam a banda e o repertório rapidamente. Não foi por causa da mídia. no interior funciona. adesivo. Christian: A Groove James nem pensava em fazer som e já assistia o show dos caras que já estão há dez. outro vai fazer a Ospa. outro um disco independente. Mary Mezzari: Está acontecendo uma pequena inversão.sonho de que a coisa dê certo. As bandas estavam lançando discos. Marcito: Essa movimentação de bandas que começou a acontecer no final dos 90 no Rio Grande do Sul foi meio que uma revolução da galera – mesmo. mulheres. Tudo uma grande chalaça. tocavam na garagem de alguém aos sábados.. começavam a fazer o seu público. faziam sucesso e acontecia a banda. gravam e chegam nas rádios com CD... o público tanto do interior como da capital. O que acontece hoje? O cara pega uma grana. com . já com um nome estudado e tudo. As bandas de hoje são bem inferiores às dos 70. Egisto: O momento atual é bom.. E foi juntando um público grande. a lotarem os shows e irem pro interior do Estado. As pessoas fazem show de rock’n’roll como se fazia dez anos atrás. bottom. Tocavam aqui e ali... e a galera percebeu isso.. aquela reação tipo: “nós somos putas velhas e vocês não”. reúne uns amigos. celebração. e isso não se encaixa.. surgia a oportunidade de gravar um disco. De repente.. E funciona. 80 e até dos anos 90. Mas as bandas baixaram o nível bastante pra tocar nas rádios. Nelson Coelho de Castro: Cada geração vai ter a sorte de produzir músicos e artistas que irão fazer a crônica ou a trilha sonora do seu tempo. Os caras já nascem prontos pra matar! Eles gravam seus discos no quarto. Moleques de uns doze anos vêm me entregar o CD demo das suas bandas.. camiseta. que vá se viver de música. iam formando repertório. Tocamos com eles e foi do caralho. doze anos na estrada. Tem um glamour. tudo pronto. Ficam horas num estúdio. Vai haver o cara que vai fundar a Feira do Livro.. release. uns até mais. Tentando repetir TNT. Humberto Gessinger: Parece que todo mundo já nasceu com curso de propaganda e marketing hoje em dia. estava pedindo a música dos grupos locais nas rádios e pedindo pra que as bandas tocassem na sua cidade. um certo deslumbramento com toda aquela história de viagens. Quando se foi ver. trabalhando na cena.. Então iam pras rádios. Mas tu vem pra Porto Alegre. eram amigos. Antigamente os caras se reuniam.

porque a música chegou a tal ponto em Porto Alegre. mas foi nos 90 que eu mais pude observar isso. artística e comercialmente. O Júpiter Maçã entrou na cena um pouco depois. a onda já não é mais aquela. os Replicantes estavam na geladeira. Peter Francis: Sempre ouvi histórias das loucuras e da força musical dos anos 80. Essa influência não partiu de bandas anteriores. Luís Henrique Tchê Gomes: Hoje o desafio da gurizada é bem maior. E foi a pior década. Apenas sabia que existiam bandas diferentes das que tocavam no rádio porque sempre morei perto da Oswaldo. e pronto – e foda-se. e de repente. sem preconceito. Mas. Muitas deixaram de ser irredutíveis pra facilitar as coisas. na capital. Então eles têm que surfar numa nova onda. mas o CD saiu só em 96. Fernando Nazer: Muitos pensam que a sonoridade das bandas do interior é datada. Qual o motivo que faz com que Cascavelletes e TNT toquem ainda hoje e influenciem uma geração que veio quinze. Todas aquelas bandas do começo dos 90 estavam acabando. o rock gaúcho. Mas. a Lovecraft tinha muitos fãs. Beto Nickhorn: Em 93. Mini: Teve uma época durante a década de 90. Pepe Perurena: Tive pouco contato com shows de rock nos 80. vinte anos depois? Isso fica no ar. isso também ocorre. Só agora as pessoas estão voltando a consumir. sempre com show de alguma banda pra se ver. e os cartazes me chamavam a atenção. A Sangue Sujo tinha acabado. a questão é o seguinte: isso é real ou não? E é preciso fazer a coisa real! Antes. Existem bandas que mudam radicalmente do primeiro pro segundo disco. Solon Fishbone: As novas bandas do Rio Grande do Sul abriram mão de muitas convicções que tínhamos nos anos oitenta. que tinham shows toda hora e pra todo tipo de público.. como Bixo da Seda e Liverpool. A influência maior partiu do rock . Na Barros Cassal estava sempre fumando de gente.uma capa bonita e tal. Em Brasília. Tu ia lá e tinha que fazer o show. Isso é muito perigoso. que dificilmente se conseguirá fazer algo diferente. A Lovecraft começou com essa onda psicodélica.. o rock estava meio em baixa em Porto Alegre. tu chegava num lugar do interior e niguém queria saber se tu era o primeiro cara da cidade a ter o disco dos Sex Pistols.

Carlos Maltz: Não estou muito por dentro das coisas mais novas. cobrar cachê. Quando antes tinha que se fazer cartazes grudando letrinhas com cola. . Como não sou. três releases. Hoje em dia só escuto música new age. Na Madhouse é parecido: tem épocas que vende menos... A internet. mesmo com falta de grana. porque estou por fora. Mas quem gosta. Por causa disso. meios de convívio.. Tudo virou música pra maconheiro. A loja enche. Antes tinha que ter mais culhão. Tem banda que começa e já tem página na internet. essas coisas. perdi o interesse.. pedir patrocínio pro cara do xerox. flyer. Também era outra geração. Ficou um negócio meio retardado mental. Márcio Petracco: É mais fácil pra gurizada fazer as coisas agora: comprar instrumentos. Mini: A cena era completamente diferente de hoje nos anos 90. Quando começou a entrar muito na onda do besteirol. Pegamos um período de mudança. Me cansei um pouco disso.. mudou a história do underground. Mandar só dois.. por exemplo – quando o vinil estava sumindo. Gaby Benedyct: Hoje tu senta no teu computador pessoal e espalha a tua música pela internet. hoje temos em Porto Alegre publicações que nada mais são do que a evolução dos fanzines neste mercado.. E faz cartaz. é liberado com os coroas. Mas com certeza devem ter coisas muito boas no Rio Grande do Sul que eu não conheço. por exemplo.dos anos 80. gosta.. não consigo acompanhar o que os caras estão falando. educação. Flávio Soares: O heavy metal por aqui teve altos e baixos. com outras expectativas. A Leviaethan teve o azar de gravar um disco no início dos anos 90.

. na bruxaria. é que a gente nunca quis seguir uma linha só pra emplacar em rádios ou seguir as regras das gravadora.. Que o estilo dela seja não agredir ninguém. estão sempre à frente e sempre com muito mais culhão.GAULESES E ROMANOS Egisto: O Rock Gaúcho não existe. trashers.. Por causa disso.. Porto Alegre tem muita gente de classe média. que se acha uma cidade moderna. Ficam nesses guetos de som. além da empatia mútua. Qualquer banda que agrida alguém não dá certo aqui. Porto Alegre é um atraso. mal-humorado e incomodando os outros. É um pessoal que acaba indo pra música porque todo mundo foi colega de colégio. que gosta de rock mesmo e que não está tão bitolado pela mídia como em Porto Alegre. Rock Gaúcho é uma mentira. então. punks. rockers. Fernanda Takai: O que mais me chama atenção no Rio Grande do Sul. As bandas de rock gaúcho estão sempre dando a letra. Moderna um caralho! Porto Alegre é um atraso de vida..” As coisas em Porto Alegre ainda funcionam meio na camaradagem. tem uma espécie de medo de não funcionar fora do Rio Grande do Sul.. Flávio Santos: O grande diferencial do De Falla. É como se a gente fosse os gauleses e o resto do mundo fosse os romanos. que amarramos os cavalos no obelisco. por ser gaulês. Porto Alegre só aceita uma banda que não tenha estilo. O público do interior.. O gaúcho. Ou a gente pára de ficar sofrendo e se lamentando quando não pode viajar. tipo: “o Fulano jantou com o Ciclano. Aqui no sul. sempre foi. Sempre tivemos uma cultura própria muito forte. .. Mini: O Brasil vai demorar pra ser do jeito que queremos que seja pra banda de rock. e que tem muito a ver com o Rock Gaúcho. ou a gente curte e fica fazendo shows dos Walverdes quando pinta a possibilidade. este tipo de coisa acontece direto: a cidade e a cena são pequenas. mas fomos nós que começamos isso. acaba tendo espaço grande pras coisas que não são muito de verdade. Edu K: A arrogância dos gaúchos já nos delegou ao separatismo. E depois acabam virando rappers.. sim: é um púbico sério. Se eu não curtir e me divertir vou ficar deprimido. Se reclama que os cariocas e os paulistas são preconceituosos. Humberto Gessinger: Vi muita gente apadrinhada que não durou na cena musical brasileira..

Charlie Brown Jr. tive oportunidade de incluir bandas de punk rock e oi!punk rock tipo Chulé de Coturno e ContraAtaque nas coletâneas que editamos. boas performances ao vivo. que tinha aquele Rock Unificado. nenhuma banda daqui lota o Gigantinho. Só as bandas gaúchas conseguem tocar”.. Humberto Gessinger: Não é a função dos músicos criar uma escola. Frequentei o gibi Mega e a revista COBRA.” Glauco Mattoso: Minha primeira atenção ao Rock Gaúcho foi voltada pra uma banda chamada Garotos da Rua numa coletânea. Uma banda tipo Raimundos. pensávamos que todo mundo gostava da gente. conceitos visuais. vende mais aqui do que qualquer banda local.é o cuidado com a produção: som. Naquele momento tinha esse fenômeno.. o mercado paulista que é fechado. A banda de rock gaúcha que mais vende. Como produtor associado ao selo independente Rotten Records. Hoje.. Katia Suman: Existe um certo mito de que o público gaúcho é o máximo. não tem essa de o público daqui dar uma força especial pro nosso rock. Aqui temos alta vendagem de CDs de bandas nacionais e de shows. estou convidando representantes veteranos e emergentes pra que musiquem meus poemas. a Rock Grande do Sul. Isso é um mito. Pelo menos no sul todo mundo sabe quem vai com a cara de quem. Alemão Ronaldo: O negócio está aqui. Depois. Tinha que surgir mais gravadoras pra coisa mudar. É uma palhaçada querer sair daqui. como já fizeram Humberto Gessinger e Wander Wildner. Isso é uma grande mentira porque. Justino Vasconcelos: No tempo em que os Garotos da Rua moravam no Rio de Janeiro. E vinte mil não é nada. veio o impacto dos Engenheiros no LP Ouça o Que eu Digo. Mas simpatia é bem diferente de honestidade. deve vender umas vinte mil cópias. não é o Gigantinho lotado. Por isso nunca quisemos carregar a bandeira do gauchismo. por aí. na verdade. cego e sonetista. ainda no tempo do vinil. o grupo tal. Acabamos cansando. É muito babaca essa noção de “a escola impressionista. só com bandas gaúchas e lotava o Gigantinho. o que me colocou em contato e intercâmbio com os punks locais.. . Marcito: Os paulistas têm aquela coisa assim: “o Rio Grande do Sul é meio bairrista. Então. Pra mim não resta dúvida que o pé dos garotos gaúchos é o que melhor calça a bota surrada do rock mais courocru. Teve um momento nos anos 80. Agora. nada entra. Eu não acho que seja. distante da tropicalidade que diluiu e fundiu estilos acima do Capricórnio..

E um pouco longe. na boa. gravamos Diversão no Fim do Mundo pela RGE. pois era uma banda do caralho. Vini: São Paulo é meio mítica. ia pra São Paulo e voltava dizendo que tinha sido demais. o som é feito pra tocar no seu Estado. Mesmo as bandas sendo de estilos diferentes. Era um disco pra vender 30 mil e vendeu 10 mil. Raros são os lugares que consigo frequentar hoje em dia pra ouvir o que gosto. Só que a gravadora não quis fazer nada pra divulgar. . Rio de Janeiro e quebraram a cara. É muito fácil chegar e dizer que tocou em São Paulo pra mil pessoas. Parece que é uma praga. quando na verdade não foi ninguém no show. Ou a tua banda é enorme ou tua banda não existe. Havia um grupo pequeno de pessoas em Porto Alegre. Nós não: tínhamos acesso às informações alienígenas daqui. Raul Albornoz: Hoje. que foi um sucesso.Carlos Eduardo Miranda: Quantas bandas tentaram várias coisas por São Paulo. Não é só no Rio Grande do Sul: todos os lugares têm seus astros. Quando o nível das bandas e do público for baixo o músico medíocre será considerado normal ou até bom. Não tem lugar pra tocar em São Paulo. pro dance etc. pro blues. Até existe a cena underground. nenhuma deu certo.. Eu não chamaria mais o que está acontecendo aqui de underground. De Falla. Eu observava que os caras de São Paulo se sentiam como um centro de captação de informações – e tinham o direito de jogar essas pirações pras pessoas. das bandas legais.. Replicantes.. No segundo momento era pros Cascavelletes fazerem muito sucesso. todo mundo tinha um intercâmbio que gerou sons diferentes. mas é outra coisa. por exemplo.. Frank Solari: As coisas são cíclicas. pra São Paulo. Hoje parece que o rock gaúcho foi para o mainstream – não o mainstream da grande mídia. Carlo Pianta: O que eu posso dizer dos anos 80 é que. A gente tinha uma expectativa bem maior. Gustavo X Aguirre: Ir pra São Paulo foi necessário e bom pra Justa Causa. Depois do primeiro disco independente. Existe o momento pro rock. Nei Van Soria: A gente fazia isso. só os Replicantes. enquanto tinham ido doze pessoas. pro samba. não existe como transportar a nossa cena. Quem apresentar um trabalho diferente e original irá se destacar naturalmente. Lá acontece o contrário daqui. que tinha contato entre si. Tem banda que.

Bebeto Alves: : Essa mítica de que o público gaúcho é mais preparado. que consome nosso trabalho. Thadeu Malta: Os jornais do centro do país descobriram as bandas de rock e pop do Rio Grande do Sul.. tem que botar guitarra”. rechaço qualquer colocação desse . cada vez mais profissional. Aquele modismo básico. um mercado pra toda essa produção.Sidito. o que já implicaria em algo organizado. O potencial de público que temos aqui é muito grande..”. O que é um pouco difícil de entender em outros Estados: “esses gaúchos são tão arrogantes. pra mim é uma balela. com data pra acabar. somos super humildes. E. é mais politizado.. então a porto-alegrense vai demorar mais um pouco. Mas essa percepção nem tem a ver com uma questão estrutural ou conceitual: nos acham arrogantes por uma maneira de falar.. e acabou. é assim que eles entendem. nada a ver. A maioria do pessoal tem um pouco da cara do interior. com tudo.. muito pequeno e seletivo. Não é nenhum boom ou movimento da música. definitivamente. por uma espécie de filigrana formal. Mas o que eu não aguento são os títulos do tipo: “O boom do sul”.. Boom é algo que já nasce morto. “O movimento que vem do sul” e coisas do gênero. não é o que temos aqui hoje em dia. Nós somos o Estado mais de esquerda do Brasil. Naturalmente. Nunca se fez tanta matéria com bandas do sul como hoje em dia. também. Buenos Aires – que são capitais grandes. pô. e têm a ver com o tipo de som que fazemos. principalmente. E aí. mas ele está afeito as peripécias da mídia.. tu começa a sentir que está faltando alguma coisa: “tá faltando guitarra. Flávio Santos: Tem essa história de o rock do Rio Grande do Sul ser muito forte. A atmosfera que respiramos é algo permanente.. nisso. Porém. vai botando guitarra. temos um público alternativo. Portanto. do dia a dia. Não sei o que é. Os caras não se dão ao trabalho de pesquisar um pouquinho. E se já é difícil eles aceitarem a gaúcha. Essa é uma coisa que temos na veia. tem trabalho de base. Não tem nada a ver com cultura gaúcha. Há uma cultura e. el Magnífico: Nós chegamos à conclusão que o tempo gasto pra chegar no Rio e São Paulo é o mesmo que se a gente trabalhar pra Montevidéu.. com a arte. Ou de tentar ser diferente. A cena hoje é consistente... A própria Porto Alegre de vinte anos atrás era diferente: a cidade tinha o Bom Fim.. Tão achando que aqui se faz música em série também. É que nós temos isso. Humberto Gessinger: Temos um lance diferente na maneira de lidar com o humor.

essas coisas.tipo. Temos aqui um problema de autoestima que não conseguimos entender. e a gente no meio. Num caso mais recente. Existem músicos até sem habilidade. Vavá. Eu respondi pro cara: “quando uma banda gaúcha sai daqui eu fico feliz. Agora. O mercado daqui não é tão permeável quanto o do resto do Brasil. Reinaldo Barriga: Porto Alegre é uma cidade avançada em matéria de rock e pop. pois não é uma coisa pré-fabricada. Os caras como Herbert Vianna. E lá não tem os shows pra sobreviver. tipo: “isso aqui é o Rock Gaúcho”. Renato Russo. Raul Albornoz: Nossa cena é construída de forma concreta. É Daniel. Porque não tem de ficar aturando as merdas que vêm lá de cima. é só gandaia mesmo. é forte. começam a falar. ao fazer música específica pra um segmento de público. automaticamente você regionalizou. em todos os lugares do Estado. esteve pra estourar – e não estourou. Lá. Aquela coisa de cadeia evolutiva: o fato de a música gaúcha não emplacar é uma coisa que acontece com toda música que tem mais qualidade. O que. E ela é posta num plano: “mas por que não é brasileiro?” O Rio . O pessoal do Kiss que é legal.” Bebeco Garcia: Quando você coloca coisas. vendida. É um fenômeno que só encontra equivalente na Bahia. é difícil prever se realmente vamos conseguir uma explosão no resto do Brasil. É óbvio que. Rafael Rossatto: Um jornalista falou que a Bidê ou Balde é uma banda da Abril. Acho que. onde os modismos colam mais. E achamos que isso só ocorre conosco. O movimento mangue beat. Terão que ficar três anos lá pra alcançar o sucesso que eles têm aqui. mandar mensagens pra gerações. Thedy Corrêa: Não estamos mais isolados dos romanos. não tem essa de: “ah. é bom. Por exemplo: as bandas vão ter que morar em São Paulo. mas com intelecto muito bom – mais voluntariosos do que técnicos. Carlos Maltz: O Nenhum de Nós faz shows direto. pra mim. tocando em todas as rádios. por que não estoura!?” Carlo Pianta: Algumas bandas parecem fadadas a se tornarem novas levas de Caetanos Velosos. por isso as críticas são boas. fazendo show pra quatro mil pessoas. porém. nisso. ridículo. A distância geográfica é uma coisa muito difícil. há um paralelo. vendendo vinte mil cópias. com o axé. por exemplo. eles não têm nada disso. Ou tu larga tudo e começa do zero ou tu continua aqui fazendo o teu som. a música do Nenhum de Nós “Amanhã ou Depois” ficou brigando entre as trinta mais tocadas do Brasil num sanduíche de popularzão.

O rock gaúcho é um rock feito no sul. Isso é o que dificulta. Humberto Gessinger: Não vai ser com um manifesto das bandas que essa ressabiação com a música gaúcha vai se romper. porque não tinha essa história de sacar.. de não olharem pro resto do mundo. Na real. aí já é uma questão. burro quem diz que não existe. O rock feito no Brasil: rock brasileiro. de identidade. eu discotequei em festas pra ganhar uma grana. No Rio Grande do Sul rola uma cobrança. o Movimento do Rock Gaúcho. como é que chama: rock paulista.. Beto Bruno: Eu acho Porto Alegre mais distante do centro do país e mais perto do centro do mundo. Estrategicamente e mercadologicamente. Vai muita gente e as pessoas são mais relax também. Mas aos quarenta e quatro do segundo tempo. é tudo uma canção. Flávio Santos: Nos anos 80. no Garagem é que que era bom. Como é o nome disso: rock gaúcho. Carlos Eduardo Miranda: Isso é até uma coisa que as pessoas se equivocam. Agora. Porque as pessoas não têm nenhuma autoestima e nenhuma identificação com as coisas que são feitas a partir de uma ideia regional. São uns baitas de uns preconceituosos”. chega a ser meio chato. O rock feito em São Paulo. Tocamos num bar tri famoso do meio underground chamado Curupira. Ele fica num sitiozinho no alto do morro e rolam os shows num galpão de madeira. de autoestima. eu acho que preconceituosos são eles. Marcelo Birck: Chapecó é a cidade onde mais se ouve rock gaúcho. A gente é sempre bem recebido por lá. Por exemplo. ser amigo. é uma banda que vai sobressair e outros vão tomar no cu. Todo mundo se pogueava.. É débil o cara achar que não existe rock gaúcho. a galera daqui é muito exigente. em Guaramirim. muita gente acha: “aí vocês ficam tocando roquezinhos em inglês. Não rola diversão. Mini: Santa Catarina que é afudê. Se não falar que é um movimento do rock gaúcho.Grande do Sul se coloca em situação de desvantagem – e no entanto não está. Muitas bandas são montadas tendo como referência as bandas de Porto Alegre. Tocávamos o que . ao mesmo tempo. No começo dos anos 90.. eu vou dizer que mais de uma vez eu já lutei por isso e apliquei esse nome. De pensarem que o rock’n’roll só existe em Porto Alegre. É legal se reunir. Bebeto Alves: O que acontece no Rio Grande do Sul é um problema interno. Mas. na verdade.

por exemplo. ir pro Rio. E esperam. Frank Solari: Existe espaço pra todos. como acontecia na década de 80.. Era um contexto brutalmente diferente. respeito. E os músicos preferem ficar aqui: o mercado é melhor e tu curte isso. antes rolava um preconceito. Hoje é uma coisa mais aberta. Não existia nem mesmo democracia no Brasil. Mas estava bem perto: se a gente botava som. jazz etc.. o Miranda. drogas. é a pura realidade. mas cada um faz de um jeito.. se comparado ao de hoje: não tinha FM. Dire Straits. Mas é uma banda respeitada em São Paulo. Raul Seixas. Chegam lá. em outros países. num relatório da cultura gaúcha. A gente não fez sucesso nem vendeu muito disco. No meu caso tenho muitas influências. Até porque temos um histórico de entradas muito pequeno nesta indústria. dezenas de artistas. Flávio Santos: Porque que o Recife se deu bem? Porque com o mangue beat eles conseguiram se juntar. mas não consegue fazer sucesso no centro do país. isso desmancha a banda. a gravadora os colocam num apartamento. Todo mundo faz uma coisa diferente da outra. O que importa realmente é passar uma mensagem legal.. O nosso som regional é uma coisa que pra Porto Alegre não rola. fazer um som que é uma coisa deles. salário.. não tinha MTV . Quando a gente estava bem no início conseguimos destaque. King Jim:: Hoje a banda faz sucesso aqui. no Rio – ou seja. São Paulo. Pode chamar de rock. Não interessa se tu toca rock com três acordes ou música erudita. Daqui a pouco.. Mas não é um estandarte: não se deve compor uma música pensando nisso. Mas. E nós. nem sabíamos direito o que estava acontecendo no país. tinha um arquivo com coisas que ninguém conhecia. Trago junto fãs do rock. Edu K: Tu não pode esperar que os romanos sejam que nem os gauleses.estava rolando na época: BTO. não tinha porra nenhuma. Mas é um som que nunca me bateu – seria mentiroso se eu dissesse que gaudério é afudê. E em Porto Alegre nunca teve uma turma que fizesse a mesma coisa. embora nenhum de nós surfasse. fazer o que se gosta. Nosso público era bem perto do surfista. . Ainda estava na época de muito experimentalismo – álcool. sem dinheiro da gravadora. A música “Longe demais das capitais” fala um pouco sobre esse afastamento da indústria cultural. Eric Clapton. Muitas tiveram esse fim. Rita Lee. Ficar com a visão de fazer sucesso no Brasil inteiro.. blues.. heavy metal. Humberto Gessinger: As pessoas acham os gaúchos arrogantes porque optamos por não levar a indústria cultural muito a sério. sem show. Isso não é bairrismo. como éramos todos de classe médiaalta. os surfistas iam nas festas. ninguém é como a gente.

Sejam gauleses ou gaudérios. nem se fala.. “Porto Alegre é a capital nacional da esquisitice”. Então. . de bom humor e sem passar nenhuma mensagem.. Não há problema algum em um povo ter uma imagem positiva de si mesmo. Têm vários exemplos de bandas que fazem isso: cantam letras engraçadas. o verbo ousar vem antes de usar”. hospitalidade. o compositor Armando Albuquerque criou uma obra indispensável. então. Na segunda metade dos anos 90. Pedro Porto: Não acho que seja fundamental uma banda falar coisas sérias... exaltam as festanças. A gente ficou conhecido em todo o Brasil como uma banda de bons músicos. na maioria das músicas que circulam nas rádios gaudérias. por exemplo. não vem ao caso: o essencial está no irredutível. eles acabam classificando como se fosse uma coisa só. A música pode ser boa tanto se tu passar uma mensagem construtiva quanto se tu falar uma coisa que não tenha nenhum valor didático. naturalmente. A satisfação de proclamá-la abertamente. este vazio fértil já foi percebido. uma outra atitude musical acaba se impondo. Frank Jorge: Teve um momento muito sério da imprensa do resto do país. “as bandas do sul estão pouco se lixando se o seu som está fora de tom ou se encaixa no estilo do momento na indústria fonográfica nacional”. algo como um vazio fértil. A Comunidade Nin-Jitsu faz um trabalho que tem a ver com humor. Neste vácuo entre pólos antagônicos. desde o início do século passado: enquanto o país era tomado por discussões inflamadas entre dodecafônicos e nacionalistas. à margem de ambos os grupos. Foi nessa época que eu e outras pessoas entramos nessa comparação com os gauleses.. Seja como for. Mas.. O gaúcho não faz apenas questão de proclamar sua autonomia: ele considera este direito inalienável – e pense o que bem entender quem enxergar nisso qualquer presunção ou jactância. a temática fala de alegria. neste processo. Mas a Graforreia. de antipatizar com o rock gaúcho catalogando de engraçadinho. principalmente de São Paulo. companheirismo. E isso existe. se caracterizou por ter uma sonoridade esquisita – não por ser uma banda engraçada. por exemplo. mas tem mais a ver com uma sacanagem! O nome da banda também é esquisito. Mas estão levando uma coisa legal pra quem está ouvindo – pois a pessoa está se divertindo enquanto ouve. há um fato curioso a ser percebido: as tradições e práticas gauchescas são coisas tão familiares quanto distantes pra boa parte dos habitantes do Rio Grande do Sul – aqueles que vivem dentro dos centros urbanos. celebram a felicidade do amor. a imprensa nacional disse coisas do tipo: “na cartilha do rock gaúcho.Marcelo Birck: Não é nada difícil perceber que.

É um negócio que não tem em nenhum lugar do mundo. Posso estar enganado. De repente. E é música gaúcha. Têm umas manchas negras e autoirônicas no humor gaúcho muito difíceis de serem traduzidas pro resto do país. Carlos Branco: Se tu for analisar pela imprensa de São Paulo. Tonho Crocco: O importante é passar o que tu é.. até nas ironias. a Graforreia tinha aquela coisa de não dar bola pra moda. Isso tem muito a ver com o que o Caetano Veloso diz na música dele. Tem tudo a ver com essa cena roqueira. cuja nossa matriz é a Jovem Guarda – e qualquer lugar do mundo vai ter a sua Jovem Guarda –.. Ficou sério demais. mas isso não existe em outros lugares do mundo. a indústria rotula tudo porque é mais fácil de vender. Entra no campo da especulação. com diversas bandas surgidas desses conceitos. tentamos nos distanciar do politicamente correto. politonalismo. parece que aqui não é Brasil! Arthur de Faria: Sempre generalizam: o De Falla tinha aquela coisa de antecipar a próxima moda.. Talvez por ter se tornado sério demais. E pra uma banda ser engraçadinha. acabamos sem ter muito essa noção. Diego Medina: Eu acho é que está acontecendo um surto no exterior. Uma mistura de rock dos anos 60. igual a uma dança de bugio. diatonalismo. Como a gente está convivendo com isso. um monte de coisas. . misturado com música aleatória. de música deprimida.. Eles criaram uma coisa deles.Humberto Gessinger: O Rio Grande do Sul é sério demais. É muito maluco pensar que tem uma tradição de. treze anos. que o Rio Grande do Sul é a verdadeira Bahia. mesmo.. Ao mesmo tempo. Aí vêm as bandas divertidas e elas acabam sendo detonadas. não sei. ela precisa ser completamente engraçadinha! Juarez Fonseca: Da metade dos anos 90 pra cá o rock brasileiro perdeu o espaço que tinha.. E a Ultramen é meio séria.. E a partir daí seguiu. de ruído. Na verdade.. Eu senti isso quando os Engenheiros começaram a sair daqui: a dificuldade de traduzir um certo humor que é super peculiar do Estado. E a gente sabe que não é isso: têm bandas de vários tipos. Principalmente em querer passar uma apologia ou força política: não temos essa pretensão de sermos os donos da verdade. sei lá. só no Rio Grande do Sul. eles vão dizer que todo o rock gaúcho é engraçadinho.

porque não sabia tocar porra nenhuma.. Eu não posso chegar e dizer: “não. Nino Lee: Sempre teve bom humor na história do rock. E não lembro de nada gaúcho que se assemelhe àquela bosta! O lance é que a galera que faz rock de verdade. isso não dá pra negar.. Nosso rock tem humor. E nós éramos muito anteriores a eles! O problema é que. Malásia: Ficar pregando pros outros: “façam isso. parando pra pensar. É uma coisa que tem dois lados. E a diversão é bem mais ácida. essa é uma tradição do rock nacional: ser irônico. vinculado à época em que era feito. Flávio Santos: As bandas daqui não são engraçadinhas: são divertidas. Marcelo Birck: Sobrevivemos a muitas coisas. Inclusive ao tipo de estética em moda na época do Mamonas Assassinas.. O De Falla podia não ter bom humor nas letras. devo ter emputecido muitos músicos da geração anterior. o . mas tinha no visual.. pela nossa imagem nas fotos. Não ser engraçadinho. com vontade e referência.. Não temos que dizer pros outros o que fazer. Era do it yourself. Quantas bandas dos anos 60 nos Estados Unidos eram bem-humoradas? Ser bem-humorado é positivo na música. Então. porra! Palhaçada eram os Mamonas Assassinas.Música deprê. tem essa infeliz tendência por divertir-se enquanto faz isso. A Aristóteles de Ananias Jr. Ninguém na Bidê ou Balde é palhaço de ninguém. filosofia punk rock mesmo... essa coisa estava presente desde os Almôndegas. o rock nacional sempre foi algo divertido. subia no palco e as pessoas berravam pedindo Mamonas. Carlinhos Carneiro: Rótulo de rock engraçadinho é uma merda.. Pedro Porto: Engraçadinho eram os Mamonas Assassinas! É ridículo dizer que rock gaúcho se caracteriza assim. ser palhaço.” é uma coisa muito chata mesmo. E aqui no Rio Grande do Sul. o trabalho da Video Hits é sério!” Márcio Petracco: Comecei com mais sorte do que juízo. Com isso. ninguém na Graforreia era palhaço. Mas. A Tarcísio Meira’s Band era uma banda legal! E os gaúchos não achavam aquelas bandas engraçadas.. O que tu tem é uma coisa positiva pra falar. porque bom humor na música é algo que tem valor. Mas quem disse que as pessoas querem músicas sérias? Ser um bom palhaço é uma arte. façam aquilo..

engraçadinho é o cu da velha! Eu sou é maluco!”. Porque não sabiam o motivo pelo qual fizeram sucesso! Se tu sabe. neste momento. Os gaúchos são foda. A produção nunca cessou.. Várias bandas em Porto Alegre lançaram disco. muitos fatores estão colaborando pra injetar um novo ânimo nas pessoas e motivá-las a criar. Uma coisa é certa: a noção que as pessoas têm de ti enquanto músico é a seguinte: se tu não ganha nada com som. fizeram sucesso e. demoraram três anos pra lançar outro. De repente. tu está trabalhando! Arthur de Faria: A música popular gaúcha. No nosso próximo disco vamos mandar eles pra puta que pariu. chamada MPG – e que felizmente largou este rótulo – estava muito bem no início dos anos 80. Não somos nós que dizemos. não vão nem ver os shows. E a MPB.. Eles não entendem que a gente é mesmo é louco. não citam. muito ruim. E.. Agora.. E a gente é que nem os gauleses.. tu é um vadio... Mas também. ninguém tem culhão pra responder isso pros caras! “Velho. se tu ganha muita grana. Todo mundo nos considera uns puta de uns loucos.. depois. Eu acho um saco essa história de rock engraçadinho com o Replicantes.. só cita as bandas dos amigos.. Carlos Eduardo Miranda: As pessoas em São Paulo olham pro rock gaúcho e acham que essas coisas são engraçadinhas.. Eles têm medo que aquele cara pegue o lugar deles. lança logo o outro! Raul Albornoz: Ninguém está vendendo a sétima maravilha do mundo. Egisto: O gaúcho sobe muito nas tamancas e não agrada.. Eron Felipe: Não param de pipocar bandas e trabalhos na cena local. Acho que também tem um pouco disso: as pessoas não se assumem como são. E que não acontece em nenhum outro lugar. Gonow: Esse negócio de ralar pra música é antigo...pessoal associava uma banda a outra. gravar e lançar novas bandas. não dá pra negar. é quase mal-humorado. Heron Heinz: Os caras não entendem é nada. Quando pedem pra que ele cite uma banda gaúcha.. que a gente tem uma coisa especial aqui.. E o humor gaúcho é um humor diferente. Aqui tinha um monte de gente . É cáustico pra caralho. Uma banda que é legal mesmo. Algo de especial está acontecendo com a nossa música jovem aqui no sul. como fazíamos com o Caetano Veloso.

Tu vai subindo todos os degraus. a mídia acabou se virando pras bandas de rock. tu tem que fazer uma história de ficar lá tocando. e muito bem posicionado pro consumo.. iam melhorando. Humberto Gessinger: Até hoje eu não sei falar entre as músicas no show – e isso me deixa completamente arrasado. porque tu fica sabendo como as coisas acontecem pra banda. logo depois. até engrenar. o Vitor Ramil. Zé do Trompete: Nunca dei muita bola pra nome. Não critico. Porque atrapalha muito o artista. Tudo é muito suado. lá vem o cara pegar as nossas minas!” É a mesma coisa. Desse jeito. pelo simples fato de ser sincero. lançam seus CDs de qualquer jeito e obtém algum retorno. Até pouco tempo. Eles param a música e falam: “o nosso CD está à venda ali embaixo. No Rio Grande do Sul aconteceu a mesma coisa: o rock emplacou e meio que soterrou a MPG. Bem que poderia voltar aquela época inocente de fazer música. o Nelson Coelho de Castro. tipo marionete. porque vimos grandes caras do som brasileiro da década de 70 tentando seguir esse bonde do rock. por exemplo.. Tem que começar do zero. aos poucos. Me sinto o maior amador. E.. Os artistas da música eletrônica. as bandas cresciam e faziam seu primeiro trabalho de um jeito ruim. Se a tua banda chegar botando banca. nossa camiseta também!” Sou um otário por não conseguir fazer isso em dezesseis anos na estrada! Estou me assumindo como um babaca: não acho que os caras estejam errados por venderem camisetas. Foi injusto. E foi ridículo. pra cair da escada é mais difícil. Renegou caras que são muito talentosos.... Duda Calvin: Um cara me fez uma comparação mais ou menos assim: sabe quando tu está na escola e chega um garoto novo.. Eu não sou chegado. Plato Divorak: Este papo entre mainstream e underground é um troço ingênuo e fake. e me dá uma inveja. Eu vejo os caras que são super bandidos.. não vai conseguir nada. mas não gosto. E.. o Bebeto Alves... perfeito musicalmente. que era um negócio muito mais bem feito do que a MPB da época. Sid Poffo: É muito melhor quando se vai passo a passo. Até porque nada vem de mão beijada. Peter Francis: O futuro vai ser da banda mais marqueteira.. . de repente. Hoje tu tem que estar prontinho.fazendo coisas legais: o Nei Lisboa. de agradar a toda a massa funkeira. Só que. pra essa porra de fama. metidos a underground fazendo isso. de outra cidade? O pensamento é: “bah.

Thadeu Malta: Sem dúvida que existe hoje um trabalho focado nas rádios que tocam o rock e o pop mais rock. e isto é fruto de um amadurecimento nas relações. porque estão sendo felizes em captar necessidades numa atmosfera cansada de mesmices. tem a banda que surgiu no momento certo e está acontecendo. O rock está com execução de rádio pop. porque descobriram que é impossível agradar gregos e baianos. Jacques Maciel: Quem acha que vai durar para sempre está fudido. E. Não é um levante. por mais audiência que queiram. E o mercado alternativo também está crescendo muito – mas não vai alcançar nem vinte por cento do total.. Não é uma previsão pessimista da coisa. tem um selo que lança.. ... E esse papo de estouro do rock gaúcho eu ouço desde que comecei em rádio.. As rádios estão tocando.. Carlos Branco: O Rio Grande do Sul tem um mercado super forte. Da parte das bandas. São estilos que têm um espaço e uma importância diferente do alternativo. Eu acho que é um conjunto de fatores que age favoravelmente. Todo mundo que chega se surpreende com isso. Tem um monte de gente que vive de música aqui. Mas não é um movimento organizado. Daqui a pouco podem não ter mais as rádios. Ou seja: tem a visibilidade de uma mercadoria exposta – e eu acredito que isso seja vital.. É o momento que favorece. Não pode ter muito essa preocupação de: “será que agora vai dar?” O mercado pop não está muito legal mesmo. assim como o contrário. mas pode acontecer.. sem prejuízo.. A música popular brasileira está voltando a ter um bom espaço na mídia. das rádios..Mauro Borba: As pessoas dizem: “está na hora do rock gaúcho”. Têm umas bandas que nem conhecem as outras.

Baterista de Marcelo Birck. Dellips e da banda de apoio de Wander Wildner. Bebeto Alves: Músico. Alexandre Ograndi: Músico. Bebeco Garcia: Músico. Tecladista. Biba Meira: Baterista. Tecladista da Astronauta Pinguim e os Baleados. Ex-integrante da Supersound. Astronauta Pinguim: Músico. Músico. De Falla. Comunicador da rádio Pop Rock. Bixo da Seda. Akt1. Aristóteles de Ananias Jr.INDEX! (original de 2001) Alemão Ronaldo: Músico. Os Arnaldos e Justa Causa. V ocalista. Ex-integrante da Lovecraft. Guitarrista. Beto Bruno: Músico. V ocalista. Ex-integrante do Urubu Rei. Bebeto Nunes Alves e Bebeto Alves Group. Baterista. Arthur de Faria: Jornalista. Ex-integrante dos Argonautas e Fashion Guru. Compositor. Taranatiriça e Sound Company.. Guitarrista e vocalista da Bebeco Garcia e Bando dos Ciganos. Baterista. Edgard Scandurra. Artista solo e compositor. Participou dos grupos de Carlinhos Hartlieb e Mutuca. Graforreia Xilarmônica e De Falla. Produtor e compositor do Arthur de Faria & Seu Conjunto. Ex-integrante dos Malvados Azuis. Guitarrista. Ex-integrante das bandas Utopia. V ocalista. Baterista da Radiofonia. V ocalista da Cachorro Grande. Guitarrista. V ocalista. Alexandre Barea: Músico. Solon Fishbone y los Cobras e J. Pesadelo. Bia Werther: Cineasta. Ex-integrante das bandas Cascavelletes. She’s Ok e Eletrosônicos. Fluxo. Guitarrista dos Hipnóticos. Vocalista fundador da Bandaliera. Ex-integrante da Prisão de Ventre. Beto Nickhorn: Músico. Ex-integrante dos Garotos da Rua.J & CO. ex-proprietária do bar Megazine e ex-integrante da banda Academias Chiquérrimas. .

Ex-integrante das bandas Os Totais. Integrante. A Vingança de Montezuma. Careca da Silva: Ator. Guitarrista e vocalista da M16. Vocalista dos Replicantes. Ex-integrante do Pupilas Dilatadas. Ex-executivo dos selos Banguela e Excelente. Carlos Maltz: Músico. Carlos Stein: Músico. Ex-guitarrista da Graforreia Xilarmônica. Guitarrista do Nenhum de Nós. Carlos Eduardo Miranda: “Não-Músico”. Jornalista. Carlinhos Carneiro: Músico. . Fabulosos Irmãos Brothers (Os Irmãos Brothers) e Academia de Dança. Carlos Branco: Empresário cultural. Urubu Rei. Ex-integrante das bandas Grou. Diretor da Branco Produções e do selo musical Barulinho. Três Almas Perdidas e Atahualpa y us Pânques. Cineasta.Ceres e Quintos do Inferno. Baterista da Dolly. Produtor e executivo da gravadora Trama. Ex-baterista. Guitarrista. Carlo Pianta: Músico. Carlos Gerbase: Músico. Bossa. Ex-integrante dos Engenheiros do Hawaii. Ex-integrante dos Monges. Ex-integrante das bandas Taranatiriça. Os Caspudos e Efebia Ateniense. do início dos Engenheiros do Hawaii. Ex-vocalista da banda Banda (ou banda Idem). Membro do grupo Os Ascensoristas. Astrólogo. por alguns shows. Sigma e Água de Pedra. Buda: Músico. Expresso Oriente e De Falla. Guitarrista. V ocalista da Bidê ou Balde. Cascalho (Antônio Carlos Contursi): Radialista. Ex-baixista da Fluxo. Músico. Jornalista. Branca: Músico. Baixista da Barba Ruiva & os Corsários. Jornalista. Artista solo. Agitador da cena. Membro do movimento anti-revolucionário Vive Le Flesh Nouveau! “Modeloator”. Ceres e B. Baixista.

DJ. Guitarrista da Groove James. Kook’s e Dama da Noite. Trabalhou como roadie para B. Cláudio Levitan: Músico. Violonista e guitarrista. Dante Longo: Road Manager do Nenhum de Nós. Ex-integrante da O Espírito da Coisa. Cabeça. Christian Ferreira Jung. Baterista da Groove James. Ex-vocalista da banda Acretinice me Atray. Bobo da Corte. Em Palpos de Aranha. Guitarrista. Cléo de Paris: Atriz. Solon Fishbone y los Cobras. Ex-integrante da O Espírito da Coisa. Artista solo. Co-autor dos espetáculos Amelita. Cida Pimentel: Produtora musical. Gilberto Gil. Vitor Ramil. Ex-integrante da Chave do Sol. Nei Lisboa. Corpo e Membros e Em Palpos de Aranha. Reverendo Cesar. Claudio Vera Cruz: Músico. Chico Padilha: Músico. Eureka e Os Totais. Compositor. o Tião: Músico. Garotos da Rua. Vocalista da banda Os Filhos de Jorge. Saracura e J. King e Iron Maiden nos shows em Porto Alegre.Cau Gomes: Diretor de palco. . Havoc e Bebeco Garcia e O Bando de Ciganos. Chaminé: Músico. “O primeiro DJ de Porto Alegre”. & Co. Baixista. Chico Bretanha: Músico. Ex-integrante dos The Bachfools. Cesar: Músico.B. Ex-baixista de Hermes Aquino e das bandas Succo. Liverpool. Ex-roadie das bandas Nenhum de Nós. Claudinho Pereira: Radialista. Produtor Cultural. Da Guedes. Bixo da Seda.J. Diretor de TV . Vocalista da Lanterna Mágica. Ex-percussionista das bandas Urro. Ex-integrante das bandas Som 4. Compositor.

Proprietário do selo Gens Cooperativa de Músicos e da loja Magazine Records. Duda Calvin: Músico. Diego Medina: Músico. . Egisto: Músico. Baterista. Dudu Magalhães: Músico. Baterista da Dama da Noite. Guitarrista e vocalista. Ex-integrante da banda Apartheid. Fernanda Takai: Vocalista do Pato Fu. Elektra. A Vingança de Montezuma. Fernando Nazer: Empresário. Compositor.Daniel Fontoura: Músico. Artista solo. De Falla. Fluxo. Apresentador da TV Bandeirantes RS. Escritor. Ex-integrante das bandas Ponto de Vista. Dedé: Músico. Ex-integrante das bandas Los Bassetas. Compositor de trilhas sonoras para cinema. Egisto 2 e Egisto Dal Santo. Vocalista. V ocalista e guitarrista. Guitarrista e tecladista dos The Clones. Guitarrista. Ex-integrante das bandas Fanzine. Diretor de programação da rádio Ipanema FM. Artista solo. Artista solo como Egisto Ophodge. Eduardo Normann: Músico. Novo proprietário do Garagem Hermética. Duca Leindecker: Músico. Acretinice me Atray. Doiseu Mimdoisema e Grupo Musical Jerusalém. Guitarrista e vocalista da Cidadão Quem. Guitarrista da Space Rave e da Musical Spectro. Ex-baixista dos Cellophanes. Colarinhos Caóticos. “O maior golpista da Gália”. Coverboys e 2 Stupidogz. Edu K: Músico. Eduardo Santos: Radialista da rádio Ipanema FM. Benedyct Eskine. Groo Brothers. KM-0. Vocalista da Tequila Baby. Guitarrista e vocalista da Video Hits. Produtor. Ex-comunicador da rede Atlântida de rádio. Ex-integrante das bandas Prize e Bandaliera. Guitarrista da winston. Saltin Mantra. Produtor. Compositor. Eron Felipe: Radialista.

Ex-integrante do Leviaethan. Baterista dos Papas da Língua. Flávio Santos: Músico. Artista solo como Flu. Compositor.Fernando Noronha: Guitarrista da banda Fernando Noronha e Black Soul. Compositor. Almôndegas e Saracura. Francis Oliveira: Músico. Artista solo como Júpiter Maçã e Jupiter Apple. Fredi Endres: Músico. Miguel e Almas. Baixista. Frank Franklin: Jornalista. Guitarrista da Comunidade Nin-Jitsu. Frank Jorge: Músico. “Trabalhando com cinema”. Urubu Rei. Violão e voz na dupla Frank & Plato. Ex-baixista das bandas Jkbak e Os Dedicados Seguidores da Moda. Proprietário da loja de discos Madhouse. Proprietário do bar Ocidente. Suelen. Ex-guitarrista e vocalista dos Cascavelletes. Guitarrista. Baixista. Guitarrista. Compositor. Produtor. Ex-integrante das bandas Mantra. Ex-guitarrista da Lovecraft. Ex-guitarrista da banda Syd Barreto. Escritor. Athaualpa y us Pânques. Baterista. Tecladista e baixista dos Cowboys Espirituais. Frank Solari: Músico. Ex-guitarrista e vocalista na primeira fase do TNT. Borboleta Negra e Funkstein. Júlio Reny e Expresso Oriente. Ex-baixista do Taranatiriça. Flávio Soares: Músico. Ex-vocalista das bandas . Ex-baixista da Graforreia Xilarmônica e da Expresso Oriente. Diretor de Arte. Flávio Basso (Jupiter Apple): Compositor. Fiapo Barth: Empresário. Multiinstrumentista. Ex-baixista e guitarrista da Prisão de Ventre e dos Cascavalletes. Fernando Pezão: Músico. Artista solo. Extecladista da Black Master. De Falla. Ex-integrante da XYZ. Cidadão emérito de Porto Alegre. Produtor. Fughetti Luz: Músico.

Liverpool, Laranja Mecânica, Trilha do Sol, Bobo da Corte, Bixo da Seda e Taquicardia. Incentivador e compositor da Bandaliera, Guerrillheiro Anti-Nuclear e Montanha Azul. Artista solo. Gaby Benedyct: “Cidadã artística”. Gelson Schneider: Músico. Baterista. Ex-integrante das bandas Prosexo, Byzzarro, Swing, Câmbio Negro e Acretinice me Atray. Baterista da Beatles Fun Club Band. Getúlio Costa: Proprietário da loja Boca do Disco. Gilmar Eitelvein: Jornalista. Escritor. Produtor. Glauco Mattoso: Poeta. Escritor. Proprietário do selo Rotten Records, de São Paulo. “Podosmófilo”. Glênio Reis: Animador de auditório. Radialista. “Apresentador de TV voltado para a cultura musical”. Gonow: Músico. Vocalista e guitarrista da Barba Ruiva & os Corsários. Gustavo X Aguirre: Músico. Guitarrista. Ex-integrante das bandas Fluxo e AL40. Guitarrista da Justa Causa e Devotos de Nossa Senhora Aparecida. Heron Heinz: “Não-músico”. Baixista dos Replicantes e She’s OK. Humberto Petinelli: Músico. Tecladista. Ex-integrante das bandas Prize, Transe, Cascavelletes e Mariana & Beto Blue. Humberto Gessinger: Músico. Compositor. Vocalista, guitarrista e baixista dos Engenheiros do Hawaii. Ilton Carangacci: Empresário. Ex-produtor do Os Eles. Produtor das bandas Papas da Língua, Video Hits, Off The Wall e Hard Working. Ivo Eduardo: Músico. Baterista. Técnico de som.

Jacques Maciel: Músico. Guitarrista e vocalista da Rosa Tattooada. Ex-integrante da Kyss My Ass. João Gordo: Vocalista dos Ratos de Porão. Apresentador de TV. João Vicenti: Músico. Acordeonista do Nenhum de Nós. José Ivo Salton: Proprietário da Lancheria do Parque. Juarez Fonseca: Jornalista. Julio Furst: Radialista. Músico. Publicitário. Ex-integrante das bandas Os Rockets e Discocuecas. Júlio Becker: Músico. Guitarrista. V ocalista. Ex-integrante da banda Fashion Guru. Guitarrista e vocalista da Clap. Júlio Cascaes: Músico. Ex-guitarrista das bandas Anos Blues e da Blues Brothers. Ex-baixista de Júpiter Maçã e Jupiter Apple. Baixista dos Hipnóticos. Júlio Leite: Proprietário do Bar João. Júlio Reny: Músico. Compositor. Guitarrista. Artistas solo. Ex-integrante das bandas Uma Canção nas Trevas, Os Topetes, KM-0, Júlio Reny e Expresso Oriente e Júlio Reny Guitar Band. Participações nos grupos Urubu Rei e Os Daltons. Vocalista e violonista dos Cowboys Espirituais. Júlio Porto: Músico. Guitarrista. Ex-integrante das bandas Ultramen e da Black Master. Justino Vasconcelos : Músico. Guitarrista. Ex-integrante das bandas Garotos da Rua e Stoned Immaculate. Kako Kanidia: Músico. Baixista da Maria do Relento.

KCláudio: Músico. Baterista. Ex-integrante das bandas Prize, Neon, Colarinhos Caóticos, Mutuca & Bric Brothers, Lory F. Band, The Hookers e Felipe Franco & Sindicato do Blues. Katia Suman: Radialista. Ex-comunicadora da rádio Ipanema FM. Comunicadora das rádios FM Cultura e 107 Pop Rock. King Jim: Músico. Saxofonista. Ex-integrante das bandas Garotos da Rua, Bandaliera, Coverboys, Cactus Jack e Lory F. Band. Ex-integrante de grupos como TNT, Replicantes e Cascavelletes. Kledir: Músico, compositor e vocalista da dupla Kleiton e Kledir. Ex-integrante dos Almôndegas. Lao: Vocalista da Groove James. Leandro Branchtein: Músico. Ex-vocalista do Os Eles. Léo Felipe: Ex-proprietário do Garagem Hermética. Ex-integrante das bandas Moses. V ocalista da Minimaus. Jornalista. Leo Henkin: Músico. Guitarrista. Ex-integrante das bandas Dzahgury, Saracura e Os Eles. Guitarrista dos Papas da língua. Leonardo Machado: Ator. Músico. Guitarrista. Ex-integrante da banda Acretinice me Atray. Guitarrista da Lanterna Mágica. Luciano Albo: Músico. Baixista. Ex-integrante dos Cascavelletes, Pura Sangre. Artista solo. Luciano Loira: Músico. Guitarrista. Ex-integrante da banda NSU. Guitarrista da banda Maria do Relento. Lucio Dorfman: Músico. Tecladista. Ex-integrante das bandas Cálculo Renal, Kook’s, Engenheiros do Hawaii, Harmadilha, Dedé Moreno, Silvana Cruz, General Lee, Iguana, Richard Powell, K30 e Juli Manzi, entre outros. Tecladista da Massa Crítica.

Luís Henrique Tchê Gomes: Músico. Guitarrista. Ex-integrante das bandas Prisão de Ventre, TNT, Nei Lisboa, Hillbilly Blues, Pura Sangre e Vitória Sou. Guitarrista da Sombrero Luminoso. Luis Motta: Ex-guitarrista da banda Raubvögel. Guitarrista da 10KPNR. Colaborador do projeto 10.000 e Uma Noites. Luis Wagner: Músico. Compositor. Ex-integrante das bandas Os Jetsons e Os Brasas, nos anos 60. Sua banda, a partir de São Paulo, acompanhou inúmeros artistas de projeção nacional em São Paulo nos anos 60. “Guitarreiro”. Malásia: Músico. Percussionista. Ex-integrante da banda Corporação Brand. Percurssionista da Ultramen. Mano Changes: Vocalista da Comunidade Nin-Jitsu. Mano Sonho: Músico. Ex-vocalista da Comunidade Nin-Jitsu. Vocalista da Gramophones. Marcelo Birck: Músico. Compositor. Guitarrista e vocalista da primeira fase da Graforreia Xilarmônica. Ex-integrante dos grupos Prisão de Ventre, Aristóteles de Ananias Jr. e Os Atonais. Artista solo. Produtor. Marcelo Gross: Músico. Ex-baterista de Júpiter Maçã, Jupiter Apple, Bluesmakers, Malvados Azuis e Hipnóticos. Guitarrista e compositor da Cachorro Grande. Marcelo Guimarães: Músico. Ex-integrante da banda Sacanagem Explícita. V ocalista da Fu Wang Foo. Marcelo Truda: Músico. Guitarrista. Ex-integrante do Taranatiriça, De Falla, Geraldo Flach, Cidadão Quem, Fughetti Luz, Os Clássicos e Quintos do Inferno. Guitarrista da Fu Wang Foo. Márcio Petracco: Músico. Guitarrista e baixista. Ex-integrante das bandas TNT (como Márcio Petralha), Bluesmakers e Hillbilly Blues. Guitarrista dos Cowboys Espirituais.

Marcito: Músico. Percussionista. Ex-integrante das bandas Space Rave, Cactus Jack e Kook’s. Percussionista da Ultramen. Mariana Kircher: Baixista e vocalista da banda Space Rave. Clarinetista da Musical Spectro. Baixista e pianista da The Clones. Guitarrista da Cellophanes. Compositora de trilhas para cinema. Mary Mezzari: Radialista e jornalista. Mauro Borba: Jornalista e radialista. Mini: V ocalista e guitarrista da banda Walverdes. Ex-guitarrista da Tom Bloch. Baterista da Wafers. Mitch Marini: Músico. Contrabaixista. Ex-integrante das bandas Grave Diggers, The Pusher, Prosexo, Byzzarro, Swing, Garotos da Rua, Mutuca & Os Animais, El Dragon, Câmbio Negro, Non Prophit. Músico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Baixista da Beatles Fun Club Band. Moa: Ex-produtor das bandas Os Replicantes, Fluxo, Expresso Oriente e KM-0. Jornalista. Monga: Guitarrista. Ex-guitarrista das bandas Pietà, Panic e Dr. Gore. Guitarrista do projeto Clima. Mutuca: Músico. Radialista. Ex-integrante das bandas Alphagroup, Succo; Amelita, Cabeça, Corpo e Membros; A Barra do Porto, Mutuca e Banda, Óculos Escuros 2, Mutuca & Amigos, Os Irmãos Brothers (Os Fabulosos Irmãos Brothers), Bric Brothers, Mutuca e os Animais. Integrante da Mutuca Rock’n’Roll Band. Nando Endres: Músico. Baixista. Ex-integrante das bandas XYZ, Borboleta Negra, Funkstein, Castiço e Rastamanos. Baixista da Comunidade Nin-Jitsu. Nei Lisboa: Músico. Compositor. Artista solo. Nei Van Soria: Músico. Guitarrista. Ex-integrante das bandas TNT e Cascavelletes. Artista solo.

Nenung: Ex-vocalista da Barata Oriental. Compositor. Vocalista e violonista dos Os The Darma Lóvers. Nelson Coelho de Castro: Músico. Compositor. Artista solo. Nilton Fernando: Radialista. Jornalista. Ex-comunicador das rádios Bandeirantes e Ipanema FM. Comunicador da rádio 102 FM. Nino Lee: Músico. Vocalista. Ex-integrante da banda Qual?. Vocalista da Maria do Relento. O Cara das Fitas: Vendedor ambulante de fitas gravadas e Cd’s em Porto Alegre. Otto Guerra: Cineasta. Orelha: Ex-baixista da Pietà. Baixista da Manga Rosa. Paola Oliveira: Produtora musical. Paulo Arcari: Músico. Baterista. Ex-integrante das bandas Ânsia de Vômito, TNT e Frank Solari. Baterista dos Cowboys Espirituais. Patsy Cecato: Atriz. Diretora de teatro. Dramaturga. Ex-vocalista da primeira formação do Urubu Rei. Paulo Audi: Ex-produtor do Raiz de Pedra. Paulo Mello: Músico. Baixista. Ex-integrante das bandas Taranatiriça, Atahualpa y us Pânques, Prize e Bluesmakers. Baixista dos Cowboys Espirituais. Pedro Porto: Músico. Baixista. Ex-integrante da Aristóteles de Ananias Jr. Baixista da Ultramen. Pepe Perurena: Músico. Baixista da banda winston.

Neto Fagundes. Produtor cultural. Plato & Os Shazams e da dupla Plato & Frank. Tom Bloch e Bidê ou Balde. Reinaldo Barriga: Músico. Exintegrante da banda Os Nelso. Baixista da Sombrero Luminoso. Wander e Cowboys Espirituais. Plato Divorak: Compositor. entre eles a coletânea Rock Grande do Sul. Renato Rodrigues: Músico. Baixista. Baterista das bandas winston e da Porc’s Cutlet. Baixista. Frank Jorge. Régis Sam: Músico. Baixista da Fu Wang Foo. Ex-comunicador das rádios Cultura Pop e Bandeirantes. Rafael Rossatto: Ex-guitarrista das bandas Motherfuckers. Produtor. . Phillip Ness: Músico. Ex-integrante das bandas de Nei Lisboa. Raul Albornoz: Diretor artístico do selo Antídoto. Integrante dos grupos Momento 68. Preta Pereira: Produtora cultural. Polaca: Iluminadora dos Replicantes. Ex-guitarrista da Pupilas Dilatadas. como “Édrange”. Ator e roteirista de filmes experimentais nos anos 80. V ocalista. Bebeto Alves. Guitarrista e vocalista dos Acústicos e Valvulados. Comunicador da rádio Ipanema FM. Proprietário do estúdio Bafo de Bira. Guitarrista. Ex-vocalista das bandas Père Lachaise e Lovecraft. Renato Borguetti e Oswaldir e Carlos Magrão. Arranjador e compositor. Baixista das bandas Os Quadros e Astronauta Pinguim e os Baleados. Produtor dos discos Rock Garagem e Rock Garagem ll.Peter Francis: Músico. Ricardo Barão: Radialista. Pepeu Gomes e Baby Consuelo. Ex-integrante das bandas Lovecraft. Produtor de diversos discos do rock gaúcho nos anos 80. Jkbak. Dedé e os Ajudantes. Ex-baixista da Krimi e da Universo Colorido. Rafael Malenotti: Músico. Colarinhos Caóticos.

Santiago Neto: Músico. Diretor da Lado Inverso Empreendimento Culturais. Compositor e vocalista da banda Nenhum de Nós. V ocalista. Ator. Compositor. Baterista do Nenhum de Nós. Tati: Ex-baterista da banda Narciso. Crushers e Space Rave. Thadeu Malta: Radialista. Susi Doll: Ex-baixista da banda Ninfrodizíakas. Compositor. Baterista.Ricardo Kudla: Ex-proprietário do bar Garagem Hermética. el Magnífico: Músico. Ex-violonista e arranjador da cantora Luciana Pestano. Ex-integrante da Black Master e D. Tiago Ribeiro: Guitarrista e vocalista da banda winston. Violonista e vocalista da banda Sombrero Luminoso. Empresário da banda Nenhum de Nós e Nei Lisboa. Guitarrista e artista solo como Solon Fishbone y los Cobras. Ex-baixista da banda Prize. Sidito. Cactus Jack. Gelson Oliveira. Os The Sempre e Os Totais. Ex-guitarrista das bandas Nó na Traqueia. Baterista da Sombrero Luminoso. Tonho Meira: Produtor. Solon Fishbone: Músico. Tonho Crocco: Músico. Sid Poffo: Músico. Fhala no disco Top Hits. Comunicador da rádio Atlântida FM. Ex-guitarrista das bandas Brigitte Bardot. Vocalista da Ultramen. Sady Homrich: Músico. Ex-integrante da Dzahguri. Toninho do Escaler: Ex-proprietário do bar Cais e promotor de shows no Circo Escaler . Publicitário. Ex-tecladista da Rastamanos. Violonista. Undercover e Bluesmakers. Thedy Corrêa: Músico. Tecladista da Comunidade Nin-Jitsu. Baixista da Minimaus.

Cascavelletes. . Maria do Relento. Space Rave. Fughetti Luz e Taquicardia. Ninfrodizíakas e Plastic Dream. Anárvores Planetarium. Almondêgas. Bebeto Alves. Plato Divorak. Violonista e guitarrista. V ocalista da banda Os Dedicados Seguidores da Moda. Júlio Reny. Ex-integrante das bandas Urro. Veco Marques: Músico. Os Replicantes. Kleiton e Kledir. Acompanha a cantora Muni. Proprietário do bar Escaler. Zé do Trompete: Músico. Trompetista. Zé Flávio: Músico. Mantra Jazzrock Bauretes Circu’s. Yang Zam: Cantora da banda Os The Darma Lóvers. Bilirrubina. Produtor de Nei Van Soria e os Invertebrados. Os Totais. Lovecraft e Sul Bossa Jazz. Zé Natálio: Músico. Los Bassetas. Ex-integrante das bandas Produto Urbano. Baixista da banda Papas da Língua. Totonho Villeroy e Itamar Assumpção. Baixista. Willian Caveman: Fanzineiro. Guitarrista da banda Nenhum de Nós. Dedé e os Ajudantes. Ex-violonista de Renato Borguetti.Voador. Vôo do Tucano. Vini: Ex-produtor das bandas TNT. Juli Manzi. Elba Ramalho e Frenéticas. Acompanhou Nei Lisboa. Ex-integrante das bandas Em Palpos de Aranha. “Um cara que anda pelas ruas”.

1975) Os Argonautas . Só o Rock Sobre Amor (CD. disforme e persistente. Bixo da Seda . (CD. jornalista e produtor 1. 2000) 9. por isso. outras listas surjam.Almôndegas (LP. Almôndegas . 1967) 11. Por outro lado. Os Cascavelletes .Os Argonautas (CD. . inclusões óbvias mas. Bidê ou Balde . 5. 2000) 13. Cachorro Grande . 1968) 12. com correções e inclusões. 2000) Bebeto Alves . tem citações “justiceiras”.Lutamos Para Viver/Piange Com Me (Compacto. 6. s/d) Barata Oriental .Risco no Céu (LP. imprescindíveis. Os Brasas .Bixo da Seda (LP/CD. 1986) . 1983/1988) 14. a partir deste ponto de partida. A construção da lista no entanto. opções pautadas pelo gosto pessoal e. 1988) 15. 2000) Bandaliera .Se Sexo é o Que Importa.Demo (Cassete. Os Brasas .Aristhóteles de Ananias Jr. Carlinhos Hartlieb . Esperamos que. Aristhóteles de Ananias Jr. 7.Estação de Pedro (CD. 1995) 4. Os Atonais . 1976/2004) 10. claro.Os Cascavelletes (Mini LP.Cachorro Grande (CD. rico.Em Amplitude Modulada (CD-demo.Os Brasas (LP. 2. pautou-se pela busca de ajudar a construir a memória do rock gaúcho.Notícia Urgente (LP. Os Cascavelletes . 1983) 8. 1999) 3.Barata Oriental (LP/CD. Fernando Rosa.100 DISCOS DO ROCK GAÚCHO A lista dos ‘100 Discos do Rock Gaúcho’ não pretende ser mais do que apenas uma memória do que foi lançado desde os anos 50 no Rio Grande do Sul.

s/data. coletânea.Garage Laboratorium (CD. com Kadafi.) 22.. A Música de Porto Alegre . Atraque) 21.Cowboys Espirituais (CD. 1968) 35.Vários (CD. 1999) 17.Vários. Graforreia Xilarmônica . .Coletânea (Cassete. 1996) . 1988) 18. 1995. Hipnóticos . . c/clássicos dos 60/90) 37. Fughetti Luz . Rebeldes .. 1995) 29.Irmãos Rocha! (CD...Chapinhas de Ouro (CD. Graforreia Xilarmônica . 1999) 28. Acústicos & Valvulados .ORTN.Cheiro de Vida (CD.Coletânea (GX. DeFalla .Os The Darma Lóvers (CD. Julio Reny .DeFalla (Não Mande Flores) (CD.Nova Geração/Depois De Uma Tormenta (Compacto. Danças de Guerra ..Último Verão (com 'Cine Marabá') (CD. Graforreia Xilarmônica .Coisa de Louco II (CD. Cheiro de Vida .) 27.) 34. Justa Causa. A Grande Sacanagem . Garotos da Rua .Garotos da Rua (LP . Os Cleans .) 36.. Cowboys Espirituais . 1969) 33. 1978) 24.. Frank Jorge .) 32. 1988) 30. Fernando Ribeiro .God Bless Your Ass (CD. c/Hermes Aquino e Laís Marques (LP. Irmãos Rocha! .Carteira Nacional de Apaixonado (CD.16. IV Festival Internacional da Canção Popular . cd.O Coro dos Perdidos (LP.Com Amor Muito Carinho (Cassete. 1999) 31. Urubu Rei. 2000) 25. Doiseu Mimdoisema . 1997) 26.. 2000) 20. .) (Cassete. Os The Dárma Darma Lóvers . ..Nunca Mais Vai Passar o Que Eu Quero Ver (Cassete..Fughetti Luz (CD + Livro. Colarinhos Caóticos . 1994) 23.... 1998) 19.Introdução (LP.

) 46. Astronauta Pinguim .Assim Rolam as Cabeças (Cassete. Marcelo Birck . 1976) 56.Por Favor.Através do Arquivo Púrpura (CD.. Julio Reny & Expresso Oriente .Hey Menina/Fale (Compacto...Música Pra Gente Grande (CD. Sucesso (LP.A Sétima Efervescência (CD. 1988) . Lovecraft . 1999) 54. Apocalypse .Pra Viajar No Cosmos Não Precisa Gasolina (LP/CD. Lory F. cd) 59.) 49.Petiscos: Sabor Churrasco 42.Kleiton & Kledir (LP.ST (CD.Bang Bang/Society em Brasa (Compacto. Band . Maritza Fabiani .Luiz Wagner (LP. Laranja Freak . Júpiter Maçã & Os Pereiras Azuis . Nei Lisboa . .38. 1980) 48. 1969) 50.Justa Causa (LP. . 1998) 45. 1966) 58.. Júpiter Maçã . Kadafi . 1989) 43.. Liverpool . Nei Lisboa .Carecas da Jamaica (LP/CD.Apocalypse (LP.. Nei Lisboa .Julio Reny & Expresso Oriente (LP/CD. 1971) 51. 1997) 41.Hein?! (LP/CD. Mutuca e Os Animais . 1970) 52. Assim Na Terra Como no Céu . . 1991) 39.Marcelo Zona Sul (Compacto.. CD) 55.Demos/95 & 96 (CDr) 44. Arthur de Faria .) 61.) 53. 2000) 57. Justa Causa . Luiz Wagner . Lovecraft . . Liverpool .Lovecraft (1997. 1987) 60.Vários (LP) 40.. Liverpool Sound .Brasas Lisérgicas (CD. Band (CD.Lory F.Hot Club (1999. .) 47. Kleiton & Kledir .

..Vários (Bandaliera. Rio Grande do Rock . Claudio Vera Cruz..) .Saracura (LP.. Pére Lachaise .1988) 79. 1998) 63. Alegre Rock . Raiz de Pedra ...) 65. Nenhum de Nós .62. com Carlinhos Hartlieb. Cascavelettes..Smog Fog (Cassete. Rock Garagem II . Atahualpa Y Os Panques .Ao Vivo (LP. 1992) 64. Os Replicantes .) 68.Vários (c/Raiz de Pedra. Obsolethos . Urubú Rei .Ao Vivo na Vórtex (Cassete. coletânea. .Histórias de Sexo & Violência (LP.) 70. ..) (LP/CD.. Rock Garagem I .Nenhum de Nós (CD.) 76.. s/d) 71. 1983) 72. Saracura . P. Nelson Coelho de Castro . 1985) 66. Portinho e Sua Orquestra ..Nicotina/Rockstar/O Futuro é órtex/Surfista Calhorda (Compacto.Vários (c/Os Eles.. Nei Van Soria . 1984) 80. Kim Ribeiro . Prize . Paralelo 30 . .O Futuro é Vortex (LP. Smog Fog .) (LP. s/d) 69.. Papas da Língua . 1987) 77. Os Rebeldes .. Pupilas Dilatadas ..Obsolethos (Cassete.Platosaurus Erectus (CD.Papas da Língua (CD.Coletânea (Júlio Reny. Plato Divorak . ..) 67.Vários (c/Taranatiriça.. Os Replicantes .Bléin (Fita. Os Replicantes . Garotos da Rua. 1987) 74.) 73. 1985) 81.Festa de Brotos (LP.Jardim Inglês (CD. s/d) 75.) (LP..(1978. . .) (LP.(Cassete/Vórtex.. 1982) 82. Cao Trein. 1985) 78... Porto Alegre 83 . Pupilas Dilatadas .. lp.) (LP/CD.

.A Paixão de V Segundo Ele Próprio (LP/CD. Superguidis .Blues From Southlands (Cassete. Cascavelletes.Coletânea (Júlio Reny & Km 0.Superguidis 99. TNT .. s/d) 91. 1987) 88.. 1985) 86. 1998) 90.Baladas Sangrentas (CD.Totalmente Rock (LP. 1994) 87. Verdruss . Refrescos e Tratamentos Dentários (demo-cdr/2000) 92.Ingênuos Malditos (LP. lp) 94.Tom Bloch (CD. 1999) 89. Tequila Baby . Vôo Livre . Solon Fishbone Y Los Cobras .Doces.Vôo Livre (1981. Tambo do Bando . s/d) 97. Wander Wildner . * 100 . 1998) 96. . Zona Mortal . Sombrero Y Rock 'n' Roll (Cassete/CD. 1984) 93.) 84. .TNT (LP... Vitor Ramil . Vídeo Hits .. Ultramen . Walverdes . Topetes .Pata de Elefante 98.Walverdes 90 (CD. 1998) 95. 1990) 85. Pata de Elefante .Fiesta. * * Espaço reservado para os discos que ainda estão por vir.83.Ultramen (CD. Tom Bloch . Taranatiriça .) (Cassete.No Escuro da Cidade (Cassete..

.

Careca da Silva e Mutuca: "chovia dóllar no palco" .Os Irmãos Brothers Chaminé. Léo Ferlauto.

Julio Furst e participantes do concerto Vivendo a Vida de Lee. em Caxias do Sul: "um divisor de águas" na cena local .

um dos donos do bar vestindo a camiseta do movimento Bom Fim . na zona norte de Porto Alegre: Nenung e a Barata Oriental diante da massa .Pequim 2 .1 . Fughetti Luz e Edinho Espíndola 3 . no começo dos anos 70: Peko Santana. Marcos Lessa.O Liverpool em um show no Sindicato dos Metalúrgicos.Agressão policial no Ocidente Fiapo Barth.Rock no Viaduto III. Mimi Lessa.

em 74 em um festival em Palhoça.Sonho Freak: Byzzarro com a banda Khaos. Santa Catarina: Monteiro (ao centro) e Gelson Schneider (no canto direito) .

e noites .Embalo de todos os dias .na ponta do parque Farroupilha: o antigo Escaler .

Sorriso nas orelhas: Humberto Gessinger. Carlos Maltz e Marcelo Pitz assinando o primeiro contrato dos Engenheiros do Hawaii pela RCA. na casa de Claudinho Pereira .

"Quando o Amor Bater na Porta".A banda que perdeu seu disco. Os Brasas. de Luis Wagner.. em um compacto com as músicas "Pancho Lopes". "Beija-me Agora" e "Um Dia Falaremos de Amor" ..Os Eles e sua metalinguagem rock: o primeiro grupo a se promover usando um outdoor em Porto Alegre.1 . nos anos 80 2 .

Léo Henkin. Leandro Branchtein (atrás) Régis Dubin e Darwin Gerszon com amigos (ao fundo) .Confraternização: Os Eles assinando na antiga sede da PolyGram. no Rio de Janeiro. Dannie Dubin. em 87.

Sorriso nas orelhas: Humberto Gessinger. Carlos Maltz e Marcelo Pitz assinando o primeiro contrato dos Engenheiros do Hawaii pela RCA. na casa de Claudinho Pereira .

assinado em 1985 em um hotel no centro de Porto Alegre: Carlos Gerbase.sem cabelos .do TNT .Wander Wildner. Guti diretor artístico da RCA . Felipe Jotz.O primeiro contrato dos Replicantes. Heron Heinz e Cláudio Heinz Skinheads adolescentes: Flábio Basso. Charles Master e Nei Van SOria em uma fase inicial .

Charles master.Clima roqueiro na sessão de fotos do TNT Paulo Arcari. Luis Henrique Tchê Gomes e Márcio Petracco .

depois da fase power trio e instrmental. Flavio Basso e Humberto Petinelli (à direita)Taranatiriça em 84. com um novo integrante: Alemão Ronaldo ao lado de marcelo Truda. Luciano Albo. Alexandre Barea. X.(acima) Do hardcore ao glam com a justa Causa: Ratão. Cau hafner e Paulo Mello . Gugu e Duda (no alto à direta) Cascavelettes sob um céu de blus em 1991 nei Van Soria.

King Jim e Lory Finocchiaro . Band: Marcelo Fornazier.Lory F. Edinho Galhardi.

com a banda Expresso Oriente .Júlio Reny no Ocidente.

Não se prendendo ao rock: uma das formações do Urubu Rei com Júlio Reny. "As garotas vocalistas ainda não tinham chegado" . Castor. Biba Meira. Carlos Eduardo Miranda e Flávio Santos.

Invasão britânica em Porto Alegre: Herman's Hermits no bar Locomotiva. em 1967 .

Blues eletrificado: Fernando Noronha .Bebeto Alves: "o maior show que o Escaler já teve" 2 .1 .

a reunião do Bando de Ciganos: Egisto Dal Santo. Bebeco Garcia e Fábio Muslinho .Depois de muitas bandas.

Carlos Pianta. Frank Jorge e Bolada. Destaque para o colã em PETIT-POIS de Pianta .Júlio Reny Guitar Band: Júlio Reny.

em 99 .Gravata sem nó e cabelos compridos: Carlinhos e André no primeiro show da Bidê ou Balde no Bar Virtual.

Frank Jorge. em plena descontração: Carlos Pianta. Alexandre Ograndi e o exroadie Z .Os colorados da Graforreia Xilarmônica.

Serginho Moah e Zé Natalio são os Papas da Língua .Leo Henkin. Luciano Kurban(produtor dos discos Xá-la-lá e Babybum). Fernando Pezão.

Malásia. Alexandre Brasil e Rafael Mallenotti . Júlio Porto. Chico Ferretti. Tonho Crocco. Moica.Muita chalaça no estúdio Bafo de Bira: Peru.

Ultramen: Marcito. Peru (de costas) e Júlio Porto . Tonho Crocco. Zé Darci.

Rafael Malenotti.Acústicos & Valvulados e sua turma comemorando a chegada do primeiro disco da banda: Alexandre Brasil(estúdio Bafo de Bira). Roberto Abreu. Sérgio Tressemea(Os Nelso) e Fábio Musklinho(Bandaliera) . Paper Lee(Black Soul). Alemão Roanldo(Bandaliera).

Mano Sonho e Mano Changes .Depois de XYZ e Borboleta Negra. Pancho de Cara. a primeira formação da Comunidade Nin-Jitsu: os irmãos Fredi e Nano Endres.

Rafael Malenotti.Terceiro Show dos Acústicos &amp. Paulo James e Roberto Abreu . Valvulados na UFRGS. em setembro de 1991: Alexandre Moica.

Edu K. o mutante: "faço qualquer coisa por dinheiro" .

no clima do Primeiro show de Jupiter maçã com Júlio Cascaes e Marcelo Gross .Praia da Ferrugem(SC). em 96.

A banda Km-0: Paulo Renato. Edu K e Fred Lamacchia O nome era condizente com as condições do rock nacional no início dos 80 . Júlio Reny.

Karta Ruzick."A turma das amarelas": no início dos anos 90: Susi Dol. Giovana Escobar e Neca Gadret eram as Ninfrodiziakas . mariana Pieta.

Gilnei. Kledir e Kleiton .Depois das 24 pessoas em cima do palco. um momento pós-Woodstock com os Almôndegas: João Baptista.

Muito rock'n'roll no ar com uma escalação clássica de locutores da rádio Ipanema FM. Eduardo Santos. Vitor Hugo. Nara Sarmento e Júlio Reny . Cláudio Cunha. em 95: o então mascote Bruno Suman. Alexandre Brasil. Katia Suman.

1 . KCláudio e Solon Fishbone 2 . Luisinho Louie.Banda Urro no Estação Zero: César. presente na cena de 83 a 89: Luciano Bortoluzzi. Rafael Ferreti e Daniel Leão .Uma das formações da banda Prize. paulo Mello.

Júlio Reny.Ricardo Barão: mais que o produtor dos discos Rock Garagem I e II. em 1998 2 .1 . um dos idealizadores da rádio Ipanema FM. Mary Mezzari e o recém chegado Nilton Fernando . ao lado de Mauro Borba. Marcos Petracco e Frank Jorge na gravação dos clipes dos Cowboys Espirituais.

em 1998 .Júpiter Maçã: bucolismo entre gnomos.

com Aragão. Beltrão.Colarinhos Caóticos. Egisto e Álvaro: "uma banda renegada" .

em 79 2 .Plato Divorak: "no rol dos bizarros" .1 .Uma Canção nas Trevas: o street fighter man Júlio Reny.

Branca. os Pupilas Dilatadas.Som porrada: Duda Boeckel. da Pieta . em 1984 2 .Paulera Experimental: Orelha. Philip Ness e Gustavo Brum.1 . Monga e Soneca.

Senhor do Bom Fim: Nei Lisboa na reforma do bar João. em 92 .

Ricardo Kuda. em meio a algumas cervejas no Garagem Hermética .Durante a madrugada: César. Drégus e Léo Felipe.

da banda Os Eles .Rock brasileiro em início de carreira. nos camarins do Atlântida Rock Sul Concert: João Barone. Paula Toller. Leo Jaime. Herbert Vianna. Paulo Ricardo e Leandro Branchtein.

em frente ao Garagem: Marcos Rocha. Paola Oliveira.Noite forte na rua Barros Cassal. Mariana Kircher. Júpiter Maçã e Luciano Menezes . Marcelo. Eduardo Normann. Vanessa Carla. Tisco.

Auto-contraste para os integrantes do espetáculo Amelita. No fundo. Claudio Levitan e Lauro Nei . Celso Loureiro Chaves e Wnaderley Falkemberg: na frente. Patota. Mutuca. Chaminé. Corpo e Membros. no inicio dos anos 70. Cabeça.

mariana e Edu com a Space Rave. em Porto Alegre . na Usina do Gasômetro.Barulho em janeiro de 96: Guilherme.

"a mais visceral".1 . Djair e King Jim 2 .Swing. em sua segunda fase . em 1983: Mitch Marini.Pére Lachaise em 90. Gelson Scheneider. Beta. a banda que abriu o show do Van Halen em Porto Alegre. segundo Plato Divorak: Flávio Passos. Plato Divorak e Luki Flores . Sérgio Rodrigues.

Sassá. Carlos Gerbase. Fruet: A galera sangue bom da Groove James . Christian Jung. Mano Lao. Chico Bretanha. "fazer som era como jogar botão": Cláudio Henz. Chaves. Wander Wildner e Heron Heinz.1 .Para Os Replicantes. Luciana Tomazi. Jaisson.Lica. em uma segunda formação antes da saída de Wander 2 .

Garotos da Rua em 1988: Geraldo Freitas. Justino Vasconcelos. . Bebeco Garcia. Ricardo King Jim e Edinho Gahardi. uma formação que duraria até o ano seguinte.

Marcinho Ramos e Duda Leindecker .1 .Bandaliera na hora do solo de guitarra: Alemão Roabnldo ."Uma piada interna que se espalhou": Comunidade Nin-Jitsu alegrando multidões em um aniversário da rádio Farroupilha 2 .

Diego Medina de pizza na mão: a banda Dolseu Mimdoisema cantando "Epilético". em evento da MTV .Maria do Relento 2000: o vocalista Pepe Joe em um show em Marau 2 .1 . no Opinião.

A Tequila Baby em ação no bar Opinião. .Punk e punch em 97: James. Duda Calvin e Didi. no troféu Folharada da Ipanema FM.

Fughetti Luz em ação: "componho rock em brasileiro. não em português" .

1 .Nelson Coelho de Castro: "o primeiro músico a lançar um disco independente no Rio Grande do Sul" 2 .Hermes Aquino: o grande hit "Nuvem Passageira" foi composto dois dias antes de sua apresentação no concerto Vivendo a Vida de Lee .

Cau Hafner Duca e Luciano Leindecker .Baladas em portunhol:Sidito El MagníficoRenato RodriguesSantiago Neto e Luís Henrique Tchê Gomes formam o Sombrero Luminoso 2 .Cidadão Quem antes do primeiro disco. em 1990: Cau Neto.1 .

Silvio Marques.A música e o teatro do Saracura: Chaminé. Nico Nicolaiewski e Fernando Pezão .

Alexandre Barea.Os Cascavelletes: Nei Van Soria. Frank Jorge e Flávio Basso: "Ter fidelidade às bandas era fundamental" .

no Rio de Janeiro: Castor. e Edu K . "engessado como um Robocop".De Falla ao vivo no Canecão.

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INTRODUÇÃO Passaram-se onze anos desde que Gauleses Irredutíveis foi lançado. dezenas de bandas do rock gaúcho que. que é completamente diferente de sete anos atrás. . Senhoras e cavalheiros. ele é ligeiro. O que mudou? O protagonismo. não há nada de imparcial nisso. Através de imagens. honesto e bravo. não é um tipo de roupa. se me quiserdes perdoar. Essa sessão nasceu para contarmos um pouco do que aconteceu na década do século XXI. assim. Pros desanimados. Não importou fama. Liberto. esse álbum é produto disso. por aqueles que colecionaram os flyers. logo. não é uma imagem. Não fui eu quem escolheu todas essas fotos. não vos mostreis zombeteiros. Mal consigo associar o dia de hoje com três anos atrás. E mesmo assim. vereis que Puck não mente. azado plano sugiro: é pensar que estivestes a sonhar. Através de imagens. ainda estamos em pé! Ainda irredutíveis. A internet possibilita outro tipo de relacionamento entre as bandas e o mundo. dinheiro ou reputação. Daniela Ribeiro Se vos causamos enfado por sermos sombras. só se agrupam sob esse termo por serem geograficamente afins. pelos fotógrafos infalíveis. se eu puder fugir do agravo da língua má da serpente. O tempo. melhor coisa hei de vos dar. Puck eu sou. queremos mostrar que o rock gaúcho não é um som. esse álbum é pra dizer: Hey! Nós ainda acreditamos. eu digo boa noite a todos. foi tudo mera visão no correr desta sessão. ele não tem nada a ver com o que se faz no resto do Brasil. e em definitivo. dos apodos. Mas não se enganem! Foram os gauleses e eu quem as trouxemos até vocês. na essência. a maioria foi enviada pelas próprias bandas.