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Texto 2 - Descartes Perceber julgar A imagem recebe o seu estatuto, no da semelhana que ela poder ter com a original,

, mas pelo contrrio, dos seus defeitos enquanto imagem, da sua no-semelhana e das suas deformaes: a imagem recebe assim uma definio funcional e o seu papel o de estimular o pensamento.

E se, para que nos distanciemos o menos possvel das opinies j recebidas, preferirmos admitir que os objetos que sentimos enviam verdadeiramente suas imagens at dentro de nosso crebro, preciso ao menos notar que no h quaisquer imagens que devam assemelhar-se em tudo aos objetos que elas representam; porque, de outra maneira, no haveria qualquer distino entre o objeto e sua imagem, mas basta que elas se lhes assemelhem em poucas coisas e at, muitas vezes, sua perfeio depende do fato de elas no se lhes assemelharem tanto quanto poderiam fazer . Como vedes que as gravuras, sendo feitas de um pouco de tinta colocada aqui e ali sobre o papel, representam-nos florestas, cidades, homens, e mesmo batalhas e tempestades, ainda que de uma infinidade de diferentes qualidades que elas nos fazem conceber nesses objetos, no h a apenas uma figura, com a qual elas tenham propriamente semelhana, mas, ainda assim, uma semelhana bem imperfeita, visto que sobre uma superfcie completamente plana, elas nos apresentam corpos com diversos relevos e profundidades e que, at mesmo, conforme as regras da perspectiva, frequentemente elas representam melhor os crculos por ovais do que por outros crculos, e os quadrados por losangos do que por outros quadrados, e assim para todas as outras figuras, de tal modo que comumente, para serem mais perfeitas na qualidade de imagens e representarem melhor um objeto, elas no devem assemelhar-se a eles.
Descartes, A Diptrica (1637)