ARRANCAR MASCARAS!

ABANDONAR PAPÉIS!
DO MESMO AUTOR
Aborto: o holocausto silencioso
As estações do coração Por que
não viver melhor Um estranho
em sua porta
JOHN POWEL, SJ
LORETA BRADY, MSW
Tradução
BÁRBARA THEOTO LAMBERT
ARRANCARMASCARAS!
ABANDONAR PAPÉIS!
Edições Loyola
ARRANCARMASCARAS!
ABANDONAR PAPÉIS!
Título original
Will the Real Me Please Stand up?
25 Guideline for Good Communication
C) John Powell, 1985
Edições Loyola
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ISBN: 85-15-00038-5
14' edição: março de 2006
© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 1998
SOBRE OS AUTORES E PRONOMES . . .
As ideias e expressões deste livro têm uma história progressiva.
Loretta Brady é psicoterapeuta com clínica particular e John Powell
ensina na Universidade Loyola de Chicago.
Reuniram neste livro seus pensamentos e experiências em acon-
selhamento e em sala de aula.
Também apresentaram juntos este material em seminários reali-
zados nos últimos anos.
A fim de proporcionar uma leitura corrente, não se faz distinção
entre os textos de Loretta e os de John. Quando houver exceções, serão
claramente identificadas.
OQUE É REAL?
"O que é REAL?", perguntou o Coelho um dia, quando
estavam deitados lado a lado, perto da grade do quarto das crianças,
antes de Naná vir arrumar o quarto. "Significa ter coisas que
murmuram dentro de você e uma alça do lado de fora?"
"Real não é a forma com que você é feito", respondeu o Cavalo
de Pele. "É uma coisa que acontece com você. Quando uma criança
gosta de você por muito, muito tempo, não somente para brincar,
mas gosta REALMENTE de você, aí você se torna Real."..
"Não acontece de repente", continuou o Cavalo de Pele.
"Você se transforma. Leva bastante tempo. É por isso que nem
sempre acontece para quem se quebra com facilidade ou tem bordas
ásperas ou precisa ser guardado com cuidado. Geralmente, até você
se tornar Real, a maior parte de seu pêlo já caiu de tanto carinho,
você já perdeu os olhos, está com as juntas moles e bastante gasto.
Mas essas coisas não têm a mínima importância, porque quando
você é Real, não pode ser feio, a não ser para quem não entende."
The Velveteen Rabbit,por Margery Williams
INTRODUÇÃO
A comunicação entre dois seres humanos é reconhecidamente
difícil. Quando nos comunicamos, partilhamos alguma coisa. Como
resultado, essa alguma coisa torna-se posse comum. Por exemplo, se
comunico uma piada ou uma receita, esse ato de partilhar tornará a
piada ou a receita nossa posse comum; possuiremos alguma coisa
juntos. Mas este partilhar um artigo ou uma coisa não é a comuni-
cação ou o partilhar sobre o qual desejamos escrever. Através da
comunicação relacional humana, o que obtemos como posse comum
somos nós mesmos. Através de nossos atos de partilhar ou comunicar,
conhecemos e somos conhecidos. Você partilha o dom de si mesmo
comigo e eu partilho o dom de mim mesmo consigo. É sobre essa
comunicação relacional humana que falaremos nestas páginas.
Parece óbvio que a comunicação humana é a alma e o impulso
vital de todo relacionamento. Também parece claro que o dom de si
mesmo, através do partilhar da auto-revelação, é o dom essencial do
amor. Todos os outros dons — jóias, águas-de-colônia, flores e
gravatas — são apenas símbolos. O verdadeiro dom de amor é o
dom de si.
De alguma forma, percebemos que aossas vidas parecem ter a
mesma qualidade dos nossos relacionamentos. Somos aproximada-
mente tão felizes quanto felizes são nossos relacionamentos. Um "ser
humano solitário" é uma contradição em termos. A existência de um
ser humano isolado dos outros é como uma planta tentando
sobreviver sem sol ou sem água. Nenhum novo crescimento pode
ocorrer e a vida que existe começa a murchar e lentamente morrerá.
Para nós, existir é existir com um outro ou outros. A qualidade de
nossa existência humana depende de nossos relacionamentos.
Apesar de tudo isso, a comunicação humana não tem um bom
registro de realizações. Muitas pessoas, até mesmo muitos casais,
parecem estar empenhados em se relacionar um com o outro sem
o conheci mento mútuo que resulta da boa comunicação. Muitos de
nós nos contentamos com uma trégua, uma acomodação em vez de
um verdadeiro relacionamento.
Quando acabei de assistir ao filme "Kramer versus Kramer",
senti um impulso de me levantar na platéia e protestar. Queria dizer
aos Kramer: "Na verdade vocês não precisam se divorciar. O que
precisam mesmo é se conhecer um ao outro. Precisam aprender a se
comunicar. Ambos são pessoas boas e decentes, mas parece que não
percebem nem reconhecem a bondade e as qualidades um do outro".
Dizem que "a arte imita a vida" e, infelizmente, há na vida real
muitas situações como a retratada em "Kramer". Muitos de nós se
angustiam com relacionamentos que chegam ao fim. "Breaking up is
hard to do" (Um rompimento é sempre difícil), diz a letra da canção.
Talvez nos deva preocupar o fato de nossos relacionamentos nunca
terem um verdadeiro começo nem experimentarem um verdadeiro
crescimento. Talvez estejamos prontos a nos contentar com uma
farsa, enquanto sonhamos com o que poderia ser.
Para dificultar ainda mais a consecução de relacionamentos reais,
existe o problema da fantasia ou imaginação. Imagine, se quiser, duas
pessoas tentando se comunicar uma com a outra. Se fôssemos
representar graficamente a comunicação, poderíamos fazê-lo com um
fio ou fios esticados entre as duas pessoas. O tráfego da comunicação
tem dois sentidos. Por isso o partilhar que passa pelos fios movimenta-
se de A para B e de B para A. Mas, em toda a extensão,
o material realmente transmi tido é exagerado pela fantasia ou ima-
ginação. Fantasiamos muito além da verdadeira comunicação. A
imaginação sempre impera onde termina a verdadeira comunicação.
Digo-lhe, por exemplo:
— Sabe, acho que esse tipo de cabelo não fica bem em você.
Suponhamos que eu tenha dito exatamente isso, nada mais que
isso. Mas você não consegue deixar de imaginar outras coisas que
suspeita estarem subentendidas em minha observação: "Acho que ele
não gosta de mim; não é só do meu penteado". Ou você poderia
imaginar: "Ele está se desforrando de mim, porque eu disse que
aquela cor de camisa não lhe caía bem". Estes são apenas exemplos
possíveis dos perigos da fantasia. O certo é que, onde cessa a comu-
nicação, a fantasia ou a imaginação tomam conta. Muitas vezes isso
nos causa grandes danos.
Outro exemplo: de alguma forma, estou certo de que todos com quem
você ou eu tivemos contato prolongado têm idéia bem-definida
de se gostamos ou não deles. É muito provável que nunca lhes
tenhamos dito explicitamente como nos sentimos verdadeiramente.
Mas, de alguma forma, a imaginação substituiu os fatos, quase sem-
pre distorcendo-os. Quando um homem está ajudando uma mulher a
vestir o casaco, sua mão pode roçar-lhe acidentalmente o rosto. Ela
pode imaginar que isso foi deliberado e envolver-se em um rela-
cionamento todo irreal (literalmente fantástico). "Ele me tocou! E
depois disso tudo mudou. Tenho certeza de que fez de propósito. É
um sinal evidente de que me ama." O pobre homem ficaria muito
surpreso ao saber de tudo isso, pois estava apenas ajudando-a a
vestir o casaco. (Até que ela lhe diz: "Sei que você me ama!")
Uma mulher sentada à mesma mesa que um homem pode
encostar acidentalmente seu pé no dele, sob a mesa. Ele pode
facilmente imaginar que foi intencional. Interpreta isso como um
sinal secreto, mas seguro, que afirma o que palavras jamais podem
dizer. "Ela acariciou meus pés! Acho que está apaixonada por mim."
Tais suposições podem nos levar a um mundo de ilusão. No final, o
choque é sempre doloroso.
Parece óbvio que quanto mais freqüentemente usarmos a comu-
nicação verbal exata, menos probabilidade haverá de mensagens
imaginárias e conseqüentes mal-entendidos. É quando mantemos nos-
sos verdadeiros pensamentos e sentimentos dissimulados — quando
somos insinceros, usamos máscaras e fingimos certos estados de
espírito —, que os outros têm de imaginar o que queremos dizer. O
resultado é sempre um mal-entendido, geralmente de desastrosas
conseqüências.
A clara comunicação verbal não apenas nos Poupa esse sofri-
mento desnecessário por causa de mal-entendidos. De modo mais
positivo, resulta em profundos e duradouros relacionamentos. E os
relacionamentos são a fonte de nosso crescimento como pessoas.
Paul Tournier, médico e escritor suíço, sabiamente sugeriu o que
muitos de nós acreditamos. Para uma pessoa alcançar pleno poten-
cial, é necessário haver pelo menos outra pessoa com quem seja
totalmente franca e, ao mesmo tempo, se sinta totalmente segura.
Somos seres sociais. Estamos nisso juntos. Para ser tudo o que
podemos ser, são necessários profundos e permanentes
relacionamentos. E, para conseguir esses relacionamentos, a
comunicação efetiva é absolutamente essencial.
já se disse que uma obra de arte é acima de tudo um trabalho.
Os relacionamentos trabalham para os que trabalham neles. Sem
dúvida, o principal trabalho de um relacionamento verdadeiro é a
comunicação. A comunicação gradualmente ocasiona
relacionamentos profundos e claramente definidos, mas só se
continuarmos a trabalhar para isso. Como muitas outras realizações
humanas, a comunicação é uma questão de prática contínua. Todas as
fórmulas verbais são inúteis, a menos que com a prática a arte da
comunicação se torne parte de nós. Não existe fórmula para o sucesso
que funcione se não trabalharmos para isso.
A maioria de nós aprendeu a falar durante os dois primeiros anos
de vida e, segundo os neonatologistas, começamos a ouvir antes
mesmo do nascimento. Infelizmente, muita gente pensa que, porque
aprendemos a falar e a ouvir, automaticamente aprendemos a nos
comunicar. É o mesmo que dizer que, porque posso tocar as teclas de
um piano, automaticamente consigo tocar música. Não se consegue a
boa comunicação automática ou facilmente. Pense em suas próprias
dificuldades para compreender e ser compreendido. Está comprovado
que nunca se alcança realmente uma boa comunicação antes que duas
pessoas se decidam a trabalhar para isso. Precisamos de estudo e
prática para aprender a difícil arte da comunicação. Precisamos
aprender a reconhecer e evitar as ciladas. (E, se você concorda com
isso, achamos que este livro lhe servirá!)
Nestas páginas, gostaríamos de comentar e interpretar simplifi-
cadamente as atitudes e práticas que parecem estimular o partilhar
humano. Algumas dessas atitudes e práticas poderão ter um imediato
reconhecimento e aceitação. Outras mostrar-se-ão mais desafiadoras.
Porém todas exigirão prática constante até se tornarem uma questão de
hábito.
Foi assim que aprendemos a tocar piano ou a andar de bicicleta.
O mesmo nos aconteceu com as regras da gramática. Tivemos de
praticar essas regras até se tornarem um hábito. Entretanto, assim que
a prática constante transformou as regras em "uma parte de nós",
pudemos conversar à vontade e com segurança. De alguma forma,
tenho certeza de que se praticarmos as regras básicas de boa comu-
nicação descritas neste livro, elas se tornarão uma questão de instinto
e de hábito. Então, seremos capazes de nos comunicar mais cor-
retamente e de nos relacionar com os outros mais à vontade e com
mais segurança. E isso é essencial, se quisermos conhecer a
felicidade de uma vida plena.
Freqüentemente ouvimos a queixa de que a psicologia se
preocupa com os doentes, sempre investigando as origens das doen-
ças mentais e emocionais. Mas recentemente tem havido uma nova
tendência para estudar as pessoas sadias e felizes e investigar as
fontes da felicidade e da saúde humanas. Minhas próprias experiên-
cias, observação e pesquisa levam-me a crer que a comunicação é a
mais importante de todas as fontes de saúde e felicidade. A comu-
nicação é a base essencial de nossa felicidade.
Quando as pessoas começam efetivamente a se comunicar, inicia-
se uma mudança total que afeta essencialmente todas as áreas da vida.
Os sentidos parecem reviver. O colorido nunca antes observado é
percebido de modo novo. A música nunca antes ouvida passa a ser um
acompanhamento da vida. A paz nunca antes sentida passa a morar no
coração humano. É claro que a única prova é experimental. Para saber
se isso tudo é verdade, você tem de experimentar. Como diz o velho
ditado: "Experimente. Pode ser que goste".
A falta de comunicação em um relacionamento traz um sofrimento
muito real e doloroso. Freqüentemente,' as linhas de comunicação em
nossos relacionamentos humanos são malconstruídas e caem
rapidamente durante a crise de uma tempestade. O resultado é a solidão,
o flagelo do espirito humano. Todavia, quando essas linhas são
restabelecidas, é como uma segunda primavera de amor e alegria. A
saúde e a alegria do espírito começam a florescer nessa primavera de
comunicação.
Recentemente, uma senhora do sul de Illinois fez-me a
excitante revelação de que eu salvara sua vida. Como nunca a vira
antes, naturalmente tive de fazer-lhe algumas perguntas. Explicou-
me que, alguns anos depois de casada e de ter alguns filhos, sofrera
um colapso nervoso e fora hospitalizada. Depois de repouso e
medicamentos, obteve alta e passou aos cuidados de um psiquiatra.
Sendo mulher simples, prontamente admitiu que não entendia o que
o médico estava tentando lhe dizer. Por isso, continuou à beira de
outro colapso. Então, acrescentou:
‰ Um dia o médico deu-me seu livro, Why Am 1 Afraid to Telt
You Who 1 Am? ("Por que receio dizer-lhe quem sou?"). Eu o li e
percebi que podia ter meus sentimentos, que podia e devia partilhar
meus sentimentos com os 'outros.
Continuou:
‰ Bem, de qualquer maneira, comecei a fazer isso. A princípio,
meu pobre marido não sabia o que acontecera. Eu recobrara a vida,
não era mais uma estátua. Mas, mais importante, comecei a me
sentir melhor. Logo não precisei mais de médico, nem de remédios.
Isso aconteceu há vários anos e agora crio meus filhos alegremente e
sou voluntária no hospital da cidade. Pela primeira vez na vida,
sinto-me realmente viva.
Mais recentemente, um homem contou-me a história de sua vida.
Compartilhou o trauma do divórcio dos pais quando tinha sete anos.
Quando suas constantes preces para a reconciliação dos pais
quedaram aparentemente sem resposta, decidiu "ser um diabo".
Embora houvesse evidências de uma profunda bondade, nunca per-
dida, insistiu que passara a vida indo para o mau caminho e levando
outros consigo. Finalmente se casou, mas depois de três filhos, enjoou
do casamento e da família e "quis dar o fora".
— Disse a minha mulher que queria o divórcio, que estava farto.
Quaisquer perguntas sobre meus motivos deixavam-me indignado.
Tudo o que eu sabia era que sentia uma dor interior.
Então alguém sugeriu um fim-de-semana de comunicação,
patrocinado pelo Movimento de Encontro de Casais. No escrever e
partilhar daquele fim-de-semana, extravasei trinta anos de dor e res-
sentimentos reprimidos. Como último partilhar, escrevi durante
uma hora e meia sem parar. Escrevi um pequeno tomo. Uma vez
que as comportas baixaram um pouquinho, não havia o que me
pudesse segurar. Depois do fim-de-semana, senti-me como se trinta
anos de história pessoal dolorosa tivessem sido tirados dos meus
ombros. Senti-me livre e inteiro novamente. Foi realmente o
primeiro dia de uma nova vida para mim.
Essas duas histórias são verdadeiras, mas são apenas duas entre
muitas dessas experiências. Os efeitos da comunicação são tão óbvios e
imediatos que passei a considerá-la como o início de toda mudança
verdadeira. É o alimento essencial da saúde humana e o único ingresso
para uma vida nova feliz.
Há ainda outro benefício muito valioso quando se aprende e se
pratica a arte da boa comunicação: a maturidade pessoal. Se
fielmente acreditarmos nas verdades e aceitarmos as atitudes que
fundamentam a comunicação franca e honesta, iniciaremos um con-
tato saudável com a realidade. Desistindo dos papéis que represen-
tamos e dos jogos que fazemos, logo estaremos lidando mais
eficientemente com nós mesmos como realmente somos e com os
outros como realmente são. Começaremos a ser autênticos e
verdadeiros, com nós mesmos e com os outros. O resultado óbvio de
tudo isso é a maturidade.
Ninguém (inclusive eu) gosta de ser imaturo, mas de fato o
somos. Somos seres em desenvolvimento e ainda não atingimos tudo
o que podemos ser. Condição absoluta para nosso crescimento
humano é o contato com a realidade. A comunicação franca e honesta
é o único caminho que nos leva ao mundo real. Sua contrapartida é
contentar-se com uma vida que é apenas uma representação, um fingimento
sem sentido,
A questão da comunicação talvez seja a mais importante que
você ou eu tenhamos analisado. Os capítulos que se seguem des-
crevem as teorias, atitudes e práticas que ajudam a efetiva comuni-
cação humana. Mas este livro exige mais que uma simples leitura.
Como as regras de gramática ou as técnicas de datilografia, as regras
da boa comunicação também exigem prática. Somente quando se
tornarem instintivas e habituais começaremos a gozar de relaciona-
mentos profundos e permanentes. Então, começaremos a crescer
como nunca, pois, urna vez que estejamos nesse caminho, a
felicidade não poderá estar muito longe.
PARTE 1
1
DEVEMOS NOS EMPENHAR NA COMUNICAÇÃO
O início de toda comunicação bem-sucedida é o desejo —
desejo de se comunicar. Esse desejo não pode ser vago e
transferível. Tem de ser um firme estado de espírito, uma resolução
interior, uma promessa concreta feita a nós mesmos e àqueles com
quem estamos tentando nos relacionar.
Estou disposto a trabalhar para isto, a dedicar-me ao
máximo. Este compromisso é incondicional: nenhum con-
trato bem-impresso, com "se" ou "mas" ou limites de prazo.
Trabalharei nisto quando for fácil e quando for difícil.
Tentarei revelar-lhe quem sou eu e ouvirei, para aprender,
quem é você. Farei isso quando estiver disposto e até
quando não estiver. Prometo continuar ali com você, mes-
mo quando a criança que existe em mim prefira fingir, ficar
amuada ou maltratá-lo. Prometo continuar ali, mesmo
quando estiver com vontade de desistir. Juntos nos esfor-
çaremos para partilhar, até que tenhamos construído fortes
linhas de comunicação. Somente então poderemos sentir a
realização pessoal que surge com a efetiva comunicação.
Tudo isso pode dar a impressão de que o compromisso da
comunicação exige uma vontade de ferro. A verdade é que não
existe essa coisa de vontade forte. O que é forte ou fraco em nós é
a motivação. Quando alguém está altamente motivado parece ter
vontade forte e determinada. Mas o segredo da força de vontade é
a força da motivação. Diga a uma pessoa que deve deixar de
fumar, do contrário morrerá e, de repente, a vontade parece ficar
impregnada de grande força. Na realidade, não é a vontade que
se fortaleceu. A vontade reage em proporção direta aos motivos
propostos e compreendidos.
Se uma pessoa realmente quer viver, a ameaça de morte pode
ser uma poderosa motivação. Podemos fazer coisas incríveis se esti-
vermos suficientemente motivados. Quase sempre o motivo toma a
forma de fuga ao sofrimento ou antecipação da recompensa. Quando
a presença de sofrimento torna nossas vidas seriamente desconfor-
táveis, somos movidos a mudar. Ou quando as recompensas pela
realização parecem bastante grandes, somos motivados a pagar o
preço e ganhar as recompensas.
É muito importante que você e eu nos perguntemos: quero
realmente me comunicar? Quais serão os sofrimentos e as desvan-
tagens se não o fizer? Quais serão as recompensas se o fizer? Essas
perguntas podem estar dentre as mais importantes que tenhamos feito
a nós mesmos.
A dificuldade de se propor motivação está em que diferentes
motivos interessam a diferentes pessoas. Algumas pessoas são muito
atraídas pela "fama", enquanto outras querem apenas ficar no anonimato.
Alguns de nós somos altamente motivados pela aparência pessoal.
Descansamos bastante e não comemos demais, porque queremos
"parecer bem". Outros pouco se importam com isso.
Entretanto, há algumas coisas que todos nós achamos muito
dolorosas, como, por exemplo, a solidão. A solidão é a prisão do
espírito humano. Quando estamos solitários, andamos para lá e para
cá, em pequenos mundos introvertidos. Cremos que ninguém nos
compreende e realmente não nos importamos muito em compreender
os outros. Do outro lado da moeda, a maioria de nós já sentiu, mesmo
que de maneira efêmera, a alegria de partilhar. Talvez tenhamos
ficado com outra pessoa na praia, apreciando um magnífico pôr-de-
sol. Significou tanto poder virar para o outro e dizer: "Não é lindo?"
Ou talvez tenhamos partilhado uma alegria ou dor secreta com outra
pessoa. Lembramo-nos da profunda consolação de nos sentir
compreendidos. Foi tão bom saber que alguém se importava, que não
estávamos sozinhos.
Em outras palavras, há um sistema de recompensa e um sistema
de sanção embutidos na natureza humana. Temos uma necessidade
interior de conhecer e ser conhecidos e a satisfação dessa
necessidade nos traz uma sensação de realização humana. Quando
construímos muros de separação entre nós e os outros, pode ser que
nossa reação interior imediata seja de segurança, mas o resultado
inevitável é a angústia espiritual, uma difusa sensação de solidão.
Construímos nossas próprias prisões. Não nos importamos com ninguém
e ninguém se importa conosco. Estamos sozinhos.
Contudo, a experiência humana é altamente pessoal. Cada um
de nós experimenta a intimidade e a solidão de forma única e muito
pessoal. Assim, cada um de nós deve, de algum modo, definir sua
motivação para se comunicar. Seria de grande auxilio neste ponto
fazer uma lista de nossos motivos: as necessidades, os desejos, os
impulsos, os sofrimentos e os prazeres. Lembre-se de que nossa
vontade é tão forte quanto nossa motivação. A probabilidade de
sucesso é tão grande quanto nossa compreensão das forças que nos
guiam para alcançar os objetivos desejados.
Entretanto, antes de fazer uma lista das forças motivadoras que
o levam à comunicação, seria de grande auxílio lembrar-se de outras
coisas nas quais esteve empenhado. Lembra-se da resolução de
perder peso, de deixar de fumar, de conseguir um diploma de curso
superior ou um emprego fixo? Lembre-se das forças propulsoras (a
motivação) que animavam e fortaleciam sua resolução. Talvez isto
seja óbvio demais para ser mencionado, mas as melhores razões para
se fazer alguma coisa podem não ser os motivos mais poderosos para
você ou para mim. Por exemplo, as melhores razões para deixar de
fumar ou perder peso podem ser relacionadas com a saúde. Mas
alguns de nós podemos ser mais poderosamente motivados pelo fato
de que fumar deixa cheiro em nossas roupas ou que a obesidade não
fica bem em uma roupa de banho.
Assim, depois desse preparo, aqui está a jogada: faça uma lista
das coisas que o estimulam à comunicação. Lembre-se de que as
melhores razões nem sempre são os melhores motivos. Lembre-se
também de que seus motivos determinam seu empenho. A menos
que estejamos realmente empenhados, haverá pouca comunicação
real. Haverá uma dolorosa solidão. Entretanto, se nos empenharmos
realmente, no final obteremos sucesso e encontraremos a plenitude
da vida.
Paul Tournier afirma que esse desejo interior, essa determinação,
está no centro de toda comunicação bem-sucedida. No livro To
Understand Each Other ("Para entender uns aos outros"), ele conta a
história de duas pessoas que queriam se comunicar, mas não falavam a
mesma língua. Por gestos, desenhos, sinais e outros meios criativos,
conseguiram completar uma troca bem-sucedida. Finalmente se
entenderam, mas só porque realmente queriam se comunicar.
Empenhar-se é claramente uma questão de prioridades. Todos
conhecemos a importância das prioridades, por experiência pessoal.
Se temos cinco coisas a fazer no mesmo dia, de alguma forma con-
seguimos realizar apenas aquelas às quais demos prioridade. Fazemos
aquilo que consideramos especialmente importante. Por isso é impor-
tante e sensato relacionar, ensaiar e refletir sobre nossos estímulos
pessoais. Se realmente desejarmos uma boa comunicação, dar-lhe-emos
alta prioridade. E se lhe dermos alta prioridade, alcançaremos sucesso.
Uma vez que nos tenhamos empenhado, o principal obstáculo à
perseverança é o fracasso. É experiência humana comum que o
fracasso obscurece e enfraquece uma decisão. Decidimos fazer re-
gime. É grande nossa determinação, nossa força de vontade é esti-
mulada por motivos óbvios e entusiasmo emocional. Aí
fracassamos. Comemos uma sobremesa de alto teor calórico. E, de
repente, nos encontramos comendo em demasia. A palpitante
sensação de empenho, a vibração dos estímulos, o entusiasmo
emocional, tudo parece um sonho vago e distante.
É importante lembrar que, para nós, o caminho do sucesso está
geralmente coberto de fracassos. Abraham Lincoln perdeu pelo me-
nos várias eleições antes de ser finalmente eleito presidente.
Thomas Edison fez experiências durante dois anos com muitos
materiais, antes de descobrir um filamento que servisse para a
lâmpada elétrica. Quando Marconi sugeriu a possibilidade da
transmissão do som sem fio (o rádio), foi internado em um
hospício. Mas pessoas como Lincoln, Edison e Marconi estavam
fortemente motivadas. Por isso não desistiram. De alguma forma,
sabiam que o único fracasso real é aquele do qual não tiramos lição
alguma. Pareciam prosseguir na suposição de que não há fracasso
maior do que o fracasso de não tentar e, por isso, continuaram a
tentar, mesmo em face de repetidos fracassos.
Existe uma definitiva "síndrome do fracasso" que pode se tornar
o câncer da comunicação. Planejamos partilhar, conhecer e ser
conhecidos. É claro, tendemos a fantasiar até certo ponto o processo
que dá origem à intimidade entre dois seres que a procuram. Então,
acontece um mal-entendido. De repente, os colaboradores da magní-
fica obra de comunicação tornam-se adversários na arena de uma luta
para ganhar ou perder. Em uma disputa para ver quem ganha, todos
perdem. E, tristemente, uma vez começada a luta, surge uma imediata
sensação de frustração emocional. Se não for reprimida, essa
frustração rapidamente se transforma em raiva e agressão. Então
surge a projeção da culpa, mesmo que não seja declarada. "É sua
culpa. Foi você quem começou." Não existe mais a sensação con-
fortável de partilhar, somente uma agitada sensação de hostilidade.
O desânimo de tais reveses parece afastar muitos de nós do
empenho de nos comunicar. Racionalizamos que é impossível a comu-
nicação com esse parceiro ou que um profundo partilhar só acontece
em romances, não na vida real.
Lou Holtz, o treinador de futebol americano da Universidade de
Minnesota, insistiu publicamente em que a chave do sucesso em
qualquer empreendimento é empenhar-se. Confessa que nos
primeiros anos de casamento estava procurando "dar o fora". Então
descobriu que o problema não estava em seu casamento, mas dentro
de si. Não estava profundamente empenhado em fazer o casamento
dar certo. E o casamento só dá certo para os que se empenham. Mais
tarde, experimentou ser treinador de futebol profissional (os Jets de
Nova Iorque). "Vamos ver como é", disse à família. Realmente viu
como era e esse homem honesto percebeu tardiamente que isso não
era o que realmente queria, que não estava realmente interessado.
Assim, voltou a ser treinador na universidade. Holtz insiste que
aprendeu esta verdade: todo sucesso humano é resultado de um
grande empenho.
Parece que a primeira coisa que devemos examinar em nós
mesmos é nosso entendimento e desejo de uma boa comunicação.
Devemos nos perguntar honestamente sobre nossas prioridades. A
comunicação é importante para mim? Se eu fosse relacionar as dez
prioridades mais importantes da minha vida atualmente, a comuni-
cação estaria incluída? Quero realmente conhecer e ser conhecido?
Existem falsos receios de que a comunicação termine tragicamente?
Se eu fosse me revelar honestamente a alguém, o que receio pudesse
acontecer? Alguém disse, brincando, que nove entre dez problemas
humanos resultam da má comunicação. O décimo resulta da boa
comunicação. Se eu tivesse de descrever meu "medo catastrófico" da
boa comunicação, qual seria a pior coisa que poderia acontecer? O
que considero o maior perigo na franqueza e honestidade totais?
Um grande amigo meu foi piloto da Força Aérea Naval durante a
Segunda Guerra Mundial. Contou-me que estudos revelam que os
pilotos mais bem-sucedidos eram reconhecidos antes mesmo de entra-
rem em um avião. Parece que os candidatos a piloto eram convidados
a responder um questionário. A pergunta (e resposta) mais importante
que infalivelmente predizia o sucesso (ou o fracasso) era esta:
— Você deseja muito ser piloto da Força Aérea Naval?
Obviamente, o desejo e a determinação são as raízes de todo
sucesso humano.
Por isso, queremos que você pense bem na próxima pergunta:
deseja muito se comunicar? Se você realmente o desej a e quer tra-
balhar para isso, o sucesso não está muito longe de você. E as
recompensas do sucesso são o crescimento pessoal, bons e efetivos
relacionamentos e, por fim, a vida feliz que todos procuramos.
A única maneira de saber o quanto você deseja
alguma coisa é experimentando. Depois de
começar a fazer alguma coisa a profundidade
de seu desejo ficará clara.
DEVEMOS NOS CONVENCER DE QUE SOMOS UM DOM A
SER FEITO E QUE, POR MEIO DE SUA AUTO-REVELAÇÃO, OS
OUTROS SÃO UMA DÁDIVA QUE NOS É OFERECIDA
Somerset Maugham escreveu em O fio da navalha:
Pois os homens e as mulheres não são somente eles mes-
mos. São a região onde nasceram, o apartamento da
cidade onde aprenderam a andar, as brincadeiras que brin-
caram na infância, as conversas fiadas que ouviram por
acaso, os alimentos que comeram, as escolas que freqüen-
taram, os esportes que praticaram, os poemas que leram e
o Deus em que creram.
Às vezes podemos achar que não, mas cada um de nós é um
mistério único. O mistério que é você e o mistério que sou eu nunca
existiram antes. Jamais existirá alguém exatamente como você ou
como eu. A combinação de qualidades e talento que é você é uma
embalagem que nunca antes foi feita. É tão singular quanto suas
impressões digitais. E só você pode partilhar seu mistério e talento
comigo. Também é verdade que assim como cada floco de neve e
cada grão de areia na praia têm uma estrutura singular, assim também
sou diferente de todos os seres humanos de toda a história humana. O
tesouro de minha singularidade é meu para doar ou recusar.
O poeta e . e. cummings escreveu certa vez:
e agora você é e agora eu sou e somos um
mistério que nunca acontecerá de novo.
Se você preferir recusar-me seu dom, serei privado de partilhar
do mistério e experiência singular que é você. Da mesma forma,
posso negar-lhe a experiência indireta de como é ser eu. Exatamente
como ficaremos privados para sempre por causa dessa mútua recusa,
o oposto também é verdadeiro. Podemos ficar para sempre enrique-
cidos por uma franqueza e um partilhar mútuos. A participação
indireta na existência humana singular de outra pessoa é sempre
enriquececlora. Essa é a grande dádiva da comunicação.
Quando me disser quem é você, quando partilhar sua singu-
laridade comigo, levar-me-á a um mundo diferente, a um tempo e
lugar diferentes, a uma família diferente. Você partilhará sua antiga
izinhança comigo e me contará as histórias que ouviu quando
criança. Levar-me-á a vales e a cumes de montanhas que nunca vi
antes. Você me conduzirá a arcas secretas de experiências que não
eram parte de minha vida. Apresentar-me-á as emoções, esperanças
e sonhos que nunca foram meus. E isso só poderá ampliar as dimen-
sões de minha mente e meu coração. Ficarei para sempre
enriquecido pelo nosso partilhar. Meu mundo de experiências ficará
para sempre ampliado, por causa de sua bondade para comigo.
A maioria das pessoas não se sente assim. Comumente se supõe
que "se eu desabafar com você, vou afligi-lo". Alguns dizem a mesma
coisa sob outro aspecto: "As pessoas não desejam me ouvir. Já têm
bastantes problemas". Existe verdade nisso?
A auto-revelação em si e por si nunca é um peso. É importante
perceber que em mim e por mim mesmo sou um dom. Se eu lhe fizer
esse dom como um ato de amor por meio de uma honesta auto-
revelação, ela não será um peso. Será o dom incondicional da
comunicação. Dádivas nunca são um peso, a não ser que imponham
condições. Ao partilhar, não lhe pedirei nada, apenas que escute com
empatia. Minha auto-revelação não lhe fará outras exigências,
apenas que acolha meu partilhar com delicadeza e agrado. Ao lhe
fazer o dom de mim, estou, na verdade, dando-me a você. É minha
dádiva mais preciosa, talvez minha única dádiva verdadeira.
Há algum tempo, deram-me um escrito anônimo denominado
"As pessoas são dádivas". Gostaria de desenvolver algumas partes
dele aqui.
As pessoas são dádivas de Deus para mim. Já vêm em-
brulhadas, algumas lindamente e outras de modo menos
atraente. Algumas foram danificadas no correio; outras
chegam por "entrega especial". Algumas estão desamar-
radas, outras hermeticamente fechadas.
Mas o invólucro não é a dádiva e essa é uma importante
descoberta. Ë tão fácil cometer um erro a esse respeito, julgar
.o conteúdo pela aparência.
Às vezes a dádiva é aberta com facilidade; às vezes é
preciso a ajuda de outros. Talvez porque tenham medo.
Talvez já tenham sido magoados antes e não queiram ser
magoados de novo. Pode ser que já tenham sido abertos e
depois jogados fora. Pode ser que agora se sintam mais
como "coisas" do que "pessoas humanas".
Sou uma pessoa; como todas as outras, também sou uma
dádiva. Deus encheu-me de uma bondade que é só minha. E
contudo, às vezes, tenho medo de olhar dentro de meu
invólucro. Talvez eu tenha medo de me desapontar. Talvez eu
não confie em meu próprio conteúdo. Ou pode ser que eu
nunca tenha realmente aceitado a dádiva que sou.
Todo encontro e partilhar de pessoas é uma troca de
dádivas. Minha dádiva sou eu; a sua é você. Somos dádivas
um para o outro.
Alguns meses atrás, um homem de aparência triste procurou-me
durante um encontro. Disse-me que já lera muitos dos meus livros, mas
admitiu continuar com uma dúvida.
‰ Por que deveria contar-lhe quem sou? De que adiantaria isso?
Apelei para o privilégio supostamente irlandês de responder a uma
pergunta fazendo outra:
— Você acha que eu ficaria enriquecido se você partilhasse sua
história comigo?
‰ Oh! — sacudiu a cabeça com tristeza. Nem imagino isso.
‰ Ah! — respondi, numa tentativa desajeitada de aplicar terapia de
choque — aí é que você se engana.
Às vezes receio que a maioria de nós somos como esse caro
senhor. Achamos que precisamos ter uma história estrelada como
uma noite junina para contar. Imaginamos que uma dádiva real
deveria ter o perfume das rosas e um bordado de ouro nas pontas. A
verdade é que toda história humana, se partilhada com outra pessoa
como um ato de amor, alarga a mente e aquece o coração dessa
pessoa.
Lembro-me de várias ocasiões em que pessoas de quem eu não
gostava (mas que procurava amar) abriram-se comigo e me deixaram
boquiaberto. Um senhor, com aparência de durão e modos empeder-
nidos, confiou-me que tudo que tentara terminara em fracasso.
Contou-me tintim por tintim um fracasso arrasador depois de outro.
Terminou admitindo:
— Tenho sido um tolo, não acha? Passei a atacar os outros, para
que não prestassem atenção à minha história de fracassos. Acho que
imaginei que a melhor defesa era uma boa ofensa.
Aprendi muito sobre o coração humano e o significado de um
espírito humano desalentado com ele. Sei que me tornei mais tole-
rante, menos ansioso para julgar ou rotular os outros, porque esse
bom homem uma vez partilhou seu dom "incerto" comigo.
As pessoas realmente são dádivas, não são?
Ao lhe fazer o dom de mim estou me dando a você.
É minha dádiva mais preciosa, talvez a única
verdadeira. Acolha-a com mãos de ternura.
DEVEMOS DECIDIR-NOS A SER HONESTOS COM
NOS MESMOS
O falecido Dag Hammarskjold, que foi secretário geral da
Organização das Nações Unidas, sugeriu que nos tornamos peritos
em explorar o espaço sideral, mas não desenvolvemos habilidades
semelhantes para explorar nossos próprios espaços interiores
pessoais. De fato, escreveu: "A mais longa viagem de alguém é a
viagem para dentro de si". E em "Hanilet", Ato I, Cena 3, o idoso
Polônio dá este conselho a seu filho Laerte:
Isto acima de tudo: sejas verdadeiro contigo
mesmo; e deverá suceder, como a noite ao dia, que
não poderás então ser falso com ninguém.
A princípio parece supérfluo o conselho para ser honesto comigo
mesmo. Pergunto: como posso mentir para mim mesmo? E, contudo,
os gurus da comunicação insistem em que o primeiro obstáculo à
comunicação com um outro não é um obstáculo entre mim e essa outra
pessoa. O primeiro obstáculo encontra-se dentro de mim mesmo. É
óbvio que, se não conto a verdade a mim mesmo, não posso contá-la a
você. Não posso contar-lhe o que não conto nem a mim mesmo. Se eu
não estiver em contato com os sentimentos e atitudes que estão dentro
de mim, ser-me-á impossível partilhá-los com você. Se eu estiver
enganando a mim mesmo, certamente o enganarei.
Logo no início de sua carreira como psiquiatra, Siginund Freud
descobriu que cada um de nós tem em realidade três planos na mente:
(1) o consciente (que inclui as percepções das quais estamos cônscios
de momento a momento); (2) o pré-consciente ou subconsciente (que
é o centro de armazenagem de materiais que podem ser lembrados
quando necessários); e (3) o inconsciente (o armazém para as memó-
rias, os impulsos e as emoções com as quais não podemos viver
comodamente). Freud achava que os planos do consciente e do pré-
consciente eram relativamente sem importância, porque o incons-
ciente exerce muito mais influência em nossas vidas. Um psiquiatra
meu amigo uma vez especulou que 90% de nossa motivação é tirada
do plano inconsciente.
Como se observou, a mente consciente obviamente contém
somente nossas percepções atuais. O plano subconsciente da mente é
o centro de armazenagem de materiais que podemos trazer ao
consciente quando necessários. Por exemplo, a maioria de nós pode
se lembrar das tabuadas de multiplicação se e quando necessário.
Mas o inconsciente é o armazém daquelas memórias, emoções e
motivos com os quais "simplesmente não podemos viver". O incons-
ciente é chamado de porão da mente, onde as coisas ofensivas ou
desagradáveis são guardadas. Estão enterradas bem no fundo de nós.
Infelizmente, estão enterradas vivas, não mortas. E, por isso, con-
tinuam a nos influenciar. O processo de sepultamento é chamado de
repressão. A repressão não é um processo consciente ou deliberado.
Enterramos nossos pertences indesejáveis sem nem ao menos
perceber isso e sem lembrá-los.
Não sei o porquê
De não gostar de você.
Mas sei muito bem que
Não gosto de você.
A repressão em nosso inconsciente sempre tende a nos fazer
perder o equilíbrio. Desenvolvemos preconceitos e intolerâncias. O
complexo de inferioridade é um desses preconceitos. É possível
que esse preconceito autodirigido tenha surgido na primeira
infância com a negligência dos pais, mas que o consciente não
esteja a par disso. Entretanto, nossa forma de ver as coisas, nossa
escolha de palavras, nossos "lapsos freudianos" e mesmo nossos
infortúnios podem todos ser resultado de coisas que não estamos
contando a nós mesmos.
Exemplo: um filho mais velho pode passar a vida ressentindo-se de
um irmão ou irmã mais novo porque "você tirou mamãe de mim. Antes
de você chegar eu tinha todo o carinho e atenção". Semelhante
ressentimento pode permanecer no inconsciente a vida toda, dando
motivo para mesquinhez vingativa e rancor que transbordarão em
momentos inusitados e por razões igualmente inusitadas. Nesse caso,
o filho mais velho nunca terá consciência da origem de sua aversão,
enquanto ela permanecer enterrada no inconsciente. À medida que
nos reprimimos, perdemos contato com nós mesmos.
Felizmente, as realidades que reprimimos no inconsciente
estão sempre tentando vir à tona para serem reconhecidas. São
como madeira mantida debaixo d'água. Entretanto, se acolhemos o
autoconhecimento, elas virão gradualmente à tona. O importante é
querer conhecer o que está em nós. Devemos cultivar o desejo de
ser honestos com nós mesmos.
A honestidade consigo mesmo é um hábito de autoconsciência
que deve ser praticado diariamente. E esta autoconsciência é mais
um processo do que um simples fato. Devemos habitualmente tentar
tornar-nos cônscios da forma altamente pessoal e individual em que
funcionamos para processar nossas sensações, percepções, emoções
e motivos. Devemos examinar com mais cuidado a forma como
chegamos a nossas decisões e por fim a nossas ações. Este é o pro-
cesso geral:
(1) Antes de tudo, nossos sentidos recebem milhões de
pedacinhos de dados (as coisas que vemos, ouvimos, tocamos,
provamos e cheiramos). Parte da autoconsciência é tornar-se mais
conscientemente a par dessas sensações.
(2) Então organizamos essas sensações em percepções mentais
ou idéias. Devemos tentar entender melhor nossa forma pessoal de
fazer isso.
(3) De nossas percepções resultam nossas emoções. Nosso
modo de pensar geralmente controla o modo como nos sentimos. Em
conseqüência, essas emoções ou sentimentos, nossas alegrias e
tristezas podem nos dizer muito sobre nosso modo de pensar e sobre
nós, se estivermos dispostos a aprender. Ê óbvio que os sentimentos
em si não são nem bons nem maus, mas são sintomáticos. Dizem-nos
muita coisa sobre nossa forma de organizar e interpretar os dados de
nossos sentidos em percepções.
(4) Então vem a questão de nossos motivos. Ê um truísmo
psicológico que fazemos tudo por uma razão, mas freqüentemente
essa razão está escondida de nós. Procurar e reconhecer esses mo-
tivos é parte essencial da autoconsciência.
(5) Qual o processo pelo qual chegamos a nossas decisões
interiores? Cada um de nós faz isso de forma diferente. Alguns são
mais controlados pelos sentimentos; outros pelas percepções e motivos
intelectuais. Alguns são mais influenciados pelo planejamento; outros
pelas experiências pessoais anteriores.
(6) E finalmente, como preferimos expressar em ações essas
decisões interiores? Por exemplo, pode ser que eu decida interiormente
continuar a nutrir rancor por você. Então opto por expressar essa
decisão interior recusando-me a falar com você. Por que optei por
representar meu rancor mostrando-me amuado?
A fim de ser honestos com nós mesmos, devemos continuamente
buscar uma percepção mais profunda da forma individual pela qual
procedemos nessas seis etapas. Somente assim obteremos uma per-
cepção cada vez maior de nossos processos pessoais e um controle
mais consciente sobre nossas ações e reações. Devemos, é claro, du-
rante todo esse processo, nos responsabilizar por nossas próprias
decisões e comportamento. Sabemos que são o resultado de alguma
coisa dentro de nós. Ao mesmo tempo, devemos prestar atenção e
procurar descobrir o que é essa alguma coisa. Devemos tentar apren-
der quem somos realmente, em vez de tentar dizer a nós mesmos
quem deveríamos ser.
Um bom começo poderia ser desenvolver uma intensa percepção
de meu "ato" ou "papel" escolhido. Por que decido usar esta minha
"máscara"? Porque cada um de nós escolhe o ato, o papel, a máscara
que escolhemos pode continuar para sempre um mistério. Entretanto,
deveríamos tentar localizar as raízes desta escolha. E embora esse ato
ou papel possa ter diversas variações e diferir durante vários períodos
da vida, há sempre um "fim" de alguma espécie. Meu ato ou papel
ajuda-me a enfrentar a realidade e obter seja o que for que busco.
Meu ato leva-me pela vida com um mínimo de dificuldade ou
vulnerabilidade pessoal.
Certa vez fiz uma lista jocosa de alguns dos atos ou papéis
mais comuns. Acho que os nomes dispensam explicação. Esta é a
minha lista (aposto que você é capaz de acrescentar alguns):
Agda Hortelã Agradável
Alcino Auxiliar
Bonifácio Bom Sujeito
Caio Capacho
Cândida Capaz
Cristiano Crânio
Élcio Incrível
Expedito Esperto
Filomena Figurino
Francelina Fraca
Francisco Frágil
Jacó Jocoso
Mário "Amigo de todo mundo" Mascote
Max Macho
Murilo Músculos
Patrícia Pateta
Porcina Porco-espinho
Plácida Pacífica
Salomé Sedutora
Sônia Sorrisos
Tânia Tímida
Tarsila Tagarela
Mesmo se você não se encontrou nessa lista, penso que podemos
com razão presumir que você e eu representamos também. Qualquer
que seja essa representação, geralmente ela se torna um obstáculo à
auto-honestidade e à boa comunicação. Como meu papel é ensaiado
todos os dias, gradualmente perco o contato com quem sou realmente.
Não percebo com facilidade onde termina minha representação e
começa meu verdadeiro eu.
No que diz respeito à comunicação, faço a revisão de minha
auto-revelação e reconheço apenas os pensamentos-sentimentos-
motivos que são compatíveis com minha representação. Por exemplo,
alguns de nós, como Francelina Fraca, escolhemos a fraqueza como
representação, a fim de que os outro
-
s

nos sustentem pela vida.
Patrícia Pateta nunca será sincera sobre sua força pessoal e sua
capacidade de tomar decisões e de assumir tarefas difíceis. Francisco
Frágil não vai comunicar nada sobre o cerne de agressividade que de
fato possui. Não quer ser provocado. Não revela sua força para que
nunca precise usá-la. Depois de algum tempo, até Francisco perderá o
contato com suas forças "ocultas".
* * *
Meu próprio ato (John) era ser um ajudante. Geralmente eu
tentava tornar isso claro desde o início em todo relacionamento. "Eu
sou o ajudante, você o ajudado." Eu também me desdobrava em
facilitar: fazendo coisas pelos outros, tomando decisões por eles,
possibilitando que permanecessem fracos. Eu não desafiava os que
vinham a mim para que desenvolvessem seus próprios músculos,
tomassem suas próprias decisões, agissem contra seus medos incapa-
citantes. Eu falava por eles, agia como substituto deles, dizia o que
faria se estivesse no lugar deles. É claro, o pagamento de um
"ajudante" é o consolo da gratidão expressa por toda a clientela
dependente. Ele realmente se sente bem sendo um ajudante. De fato,
o ajudante ajuda e favorece a dependência infantil, mas não tem de
enfrentar isso porque tanta gente está pronta a tecer-lhe elogios e
agradecer-lhe por seus esforços.
Quando se trata de comunicação, o "aj udante" é como todo
mundo que tem um "ato" em cena. Ele faz a revisão de sua comu-
nicação, nunca admitindo sua própria necessidade de aj uda. Ele se
passa por alguém que "tem tudo sob controle", porque, de outra
forma, alguém poderia tentar aj udá-lo e isso acabaria com seu dis-
farce. Algum dia gostaria de escrever um livro intitulado Confissões
de um antigo ajudante. Tal estado de espírito tem seus aspectos
exaustivos. Aqueles dentre nós que tentaram bancar o Messias
sabem que é difícil ter respostas para todas as perguntas, soluções
para todos os problemas. Visitas domiciliares e noturnas tornam-se
rotina. Entretanto, desistir do papel seria quase como perder a
identidade. A "clientela dependente" também insiste firmemente em
que o Messias continue no monte Olimpo. Têm a sensação de que
"Deus está ao meu lado", quando podem buscar conselhos e receber
orientação do autodesignado guru, o ajudante.
Caracterizado nesse ângulo, eu nunca podia admitir que estava
com medo ou que meus sentimentos estavam feridos. Nunca podia
confessar que estava tão intrigado com a situação quanto o consulente.
Sentimentos de fraqueza, insuficiência e falibilidade humana pareciam
muito ameaçadores. Eu não podia dizer "não" a nenhum pedido de
ajuda. Era "conserve o papel a qualquer custo".
A tragédia é que ninguém jamais chegava a conhecer meu
verdadeiro eu, nem mesmo eu próprio. Eu não podia ter um rela-
cionamento verdadeiro porque relacionamentos verdadeiros exigem
igualdade. O ajudante não pode permitir isso. Arruinaria tudo.
E eu (Loretta) escolhi o papel de possibilitadora. Assumia a
responsabilidade pessoal por todas as situações. Era eu, responsável,
digna de confiança, quem sempre fazia as coisas darem resultado,
quem se erguia acima da emotividade e do caos. Eu assumia a tarefa
de restaurar a ordem, a certeza e a paz a todas as situações em que
estas tivessem sido perdidas. E quando todos os meus esforços ainda
assim não produziam uma solução positiva, eu assumia a responsa-
bilidade por isso também, pensando: "Devo ter cometido um erro ou,
talvez, não me tenha esforçado o bastante".
Como possibilitadora, eu tinha de ter bastante resignação. Não
havia limites para os fardos que estava disposta a carregar. Tornei-me
o maior e mais forte cesto do mundo, para poder pegar e carregar
todos os problemas imagináveis. Eu achava que tinha uma resistência
ilimitada. É claro que quanto mais problemas eu assumia, mais a vida
se tornava um peso. Mas, acreditem se quiserem, era isso que me dei-
xava satisfeita comigo mesma. Eu estava "colhendo o que plantara".
Enquanto eu insistia em ser a possibilitadora, todo mundo de
fato se transformava em perdedor. Os outros perdiam a
oportunidade de carregar seus próprios fardos, desenvolver suas
próprias forças, tornar-se responsáveis por si mesmos e suas vidas.
É óbvio que eu também era uma perdedora. Tinha de aceitar a
aparente recompensa de ser considerada uma "pessoa muito
responsável". Manter essa posição me deixava tão preocupada que
era impossível cuidar de mim mesma adequadamente. Meu processo
de crescimento pessoal ficou "suspenso" para que eu pudesse
continuar a ser reconhecida a curto prazo como possibilitadora. Não
podia cuidar de mim mesma, não podia dar atenção a minhas
próprias necessidades e sentimentos. Tinha até de negar meus
verdadeiros sentimentos. Como resultado, fui lentamente perdendo
o contato comigo mesma. Não existia mais um verdadeiro eu para
ser ofertado aos outros como dom. Havia apenas o papel que eu
representava. O verdadeiro eu perdeu-se em alguma parte do papel.
Somente agora estou começando a reencontrá-lo.
* * *
Ser honesto consigo mesmo exige que se desista desses nossos
atos e papéis. Mas, antes da renúncia, deve haver o reconhecimento.
Qual é meu ato? Já se disse que todos nós levamos um letreiro a
nossa frente. Nós mesmos o construímos, ele nos anuncia. Somos
tratados de acordo. Se o letreiro diz "Pateta", os outros não nos
procuram para uma conversa séria. Se nosso letreiro diz "Capacho",
os outros tenderão a passar por cima de nós.
O curioso é que os outros conseguem ler nossos letreiros muito
claramente, embora muitas vezes nossa autopropaganda nos passe
despercebida. Essa, creio, é a razão de um dos receios mais comuns
que temos da intimidade. Se eu o deixar chegar perto de mim, você
verá através do meu ato, lerá meu próprio letreiro para mim. Exporá
minha charada, o que poderia fazer com que eu me sentisse com-
pletamente nu.
Assim, mais uma vez minha pergunta se volta para mim: creio
realmente que devo ser honesto comigo mesmo, a fim de ser
autêntico com você? Quero realmente ser honesto comigo mesmo?
Quero realmente ser honesto com você? Quero partilhar minha
verdadeira dádiva com você ou quero agir com cautela e mostrar-lhe
apenas minha charada? Meu ato é o preço que pago por minha
segurança e meus golpes. É a armadura que evita que eu seja ferido,
mas é também uma barreira dentro de mim, que interrompe meu
crescimento. Da mesma forma, é também um muro entre nós que o
impedirá de conhecer meu verdadeiro eu. Para desistir de meu ato
precisarei de muita coragem. Estarei correndo um risco real, saindo
de trás de meu muro. Terei de reescrever meu letreiro: "Este é meu
verdadeiro eu. O que você vê é o que você recebe". Seja paciente
comigo. Isso não será fácil. Acho que o velho Polônio sabia disso,
quando aconselhou Laerte: "Sejas verdadeiro contigo mesmo".
Entretanto, se eu estiver disposto a correr esse risco, minha
coragem colherá magníficas recompensas: a estátua ganhará vida; a
Bela Adormecida acordará. Ficarei conhecendo quem realmente
sou. Talvez pela primeira vez perceba onde termina o papel e
começa o verdadeiro eu. O verdadeiro eu sairá de trás da máscara,
da tapeação, do fingimento. Começarei a prosperar em meus
relacionamentos e a crescer como meu melhor possível eu. Os
gregos antigos sabiam tudo isso quando consideraram o "conhece-te
a ti mesmo" como o resumo de toda a sabedoria.
A viagem mais longa é a viagem para dentro de si. Boa viagem!
Devemos tentar aprender quem realmente somos
e não dizer quem deveríamos ser.
PARTE 2
AONOS REVELAR AOS OUTROS, DEVEMOS ASSUMIR
TOTAL RESPONSABILIDADE PORNOSSAS PRÓPRIAS AÇÕES
E REAÇÕES. EMCONSEQUÊNCIA, FAREMOS AFIRMAÇÕES
COMOPRONOME "EU", NÃO"VOCÊ"
A maioria de nós crescemos sendo "acusadores". Acusávamos os
outros de nos deixar zangados. Racionalizávamos muitas de nossas
reações, dizendo aos outros: "Você mereceu isso". Ou insistíamos
que haviam provocado nossa reação: "Não pude evitar". "Eu estaria
bem, se ela não tivesse começado." Para a maioria de nós é difícil
olhar para trás e reconhecer que nossas ações e reações não eram
causadas pelos outros, mas sim por algo dentro de nós. Contudo, a
verdade é sempre essa. Se eu conseguir apenas atravessar a linha que
separa os "acusadores" dos que aceitam a plena responsabilidade por
seu comportamento, essa será, provavelmente, a coisa mais ama-
durecida que já terei feito. No mínimo, isso me porá em contato
honesto com a realidade e essa é a única maneira de crescer e se
tornar um ser humano amadurecido.
Para ilustrar essa verdade da responsabilidade pessoal, freqüen-
temente sugiro uma situação hipotética em minhas aulas:
— Se alguém desta classe saísse de repente da sala, batendo
os pés, zangado e afirmando que nunca mais voltaria, nunca mais
me escutaria, como vocês acham que eu reagiria? O que acham
que eu faria? Como me sentiria?
Geralmente surge uma variedade de respostas:
‰ Você ficaria zangado. Anotaria o nome e o número dessa
pessoa e ameaçaria uma represália. Diria: "Você não vai escapar
impune".
Com freqüência outra pessoa sugere:
‰ Não, acho que você se sentiria magoado. Faria uma cara de
ofendido e perguntaria com ar de tristeza: "Como pôde fazer isso
comigo? Eu estava fazendo o melhor que podia".
Outro aluno freqüentemente retruca:
‰ Imagino que você reagiria sentindo-se culpado. Pensaria no que
teria feito para provocar reação tão hostil. Provavelmente perguntaria aos
outros alunos: "O que foi que eu fiz?" Ou correria atrás da pessoa e
pediria desculpas. Pedir-lhe-ia que voltasse, que lhe desse outra
oportunidade.
Sempre fico aliviado quando outro aluno insiste que eu sentiria
compaixão.
— Você sentiria dó dessa pessoa e provavelmente pensaria: "Ê uma
pena que esteja tão agitado. Provavelmente ainda não está pronto para
isto".
E assim por diante. Há um número quase infinito de reações
possíveis: "Rejeição ... depressão... ansiedade.. . compaixão ... medo .. .
sentir-se um fracasso" etc.
Sempre me alegra receber uma tão grande variedade de respostas,
porque isso me permite mencionar que qualquer uma das reações
sugeridas é possível. Porém, observe que a reação não será deter-
minada pela pessoa que abandonou a sala, mas sim por alguma coisa
dentro de mim. Também sei que outra pessoa em meu lugar pro-
vavelmente teria uma reação diferente. De fato, minhas reações
emocionais e de comportamento serão determinadas por minhas pró-
prias atitudes ou perspectiva pessoal. Se eu me considerar boa pessoa
e considerar importante a matéria que estou lecionando, provavelmen-
te reagirei com compaixão. Se me considerar um imbecil que sempre
mete os pés pelas mãos, provavelmente reagirei pedindo desculpas. Se
minhas atitudes e perspectiva forem paranóicas, terei certeza de que
"esse jovem está querendo me provocar".
Com muita freqüência, é difícil descobrir sob uma reação as
atitudes e perspectivas que a explicam. Entretanto, esse é um outro
problema, que não é diretamente pertinente à questão da respon-
sabilidade pessoal. O que é pertinente é a admissão íntima de que,
seja qual for a minha reação, ela não é causada pelo agente estimu-
lador, mas sim por alguma coisa dentro de mim. Talvez já tenham
ouvido falar do cartaz que Eleanor Roosevelt tinha na parede de seu
escritório: "Ninguém pode fazê-lo sentir-se inferior, a menos que
você lhe dê permissão". De fato, ninguém pode fazer-nos sentir ou
agir de determinada maneira. Alguma coisa dentro de nós sempre
permanece responsável por nossas reações emocionais e de compor-
tamento. Outras pessoas, circunstâncias ou situações podem
estimular uma reação, mas nós determinamos qual será essa reação.
O contrário do reconhecimento das próprias reações é a acusação
ou, para usar a palavra mais técnica, a projeção. A projeção é um
mecanismo de defesa comum e muito usado. Quando projeto, culpo
alguém ou alguma coisa por meus fracassos ou reações indesejáveis.
Não assumo a responsabilidade pessoal por minhas reações, mas
atribuo essa responsabilidade a outra pessoa. Obviamente a
comunicação torna-se apenas um jogo se não for honesta, e a projeção
simplesmente não é honesta.
Como dissemos, outra pessoa ou circunstância podem estimular
uma reação em mim. Mas a maneira específica pela qual reajo é
determinada por minhas próprias atitudes e perspectiva pessoal.
Estas, por sua vez, foram moldadas pelas mensagens gravadas em
minha mente e pelas experiências de minha vida. Atitudes são tão
pessoais quanto impressões digitais. Conseqüentemente, não existem
duas pessoas que vejam as coisas exatamente da mesma maneira e,
assim, não existem duas pessoas que reajam da mesma maneira. Pode
ser que você ache engraçada uma coisa que eu leve a sério. Pode ser
que você tenha uma reação compassiva a uma pessoa com quem eu
me zangue. Suponhamos que a mesmíssima coisa aconteça a nós
dois. É bem possível que você se sinta estimulado pelo desafio,
enquanto eu me sinta arrasado pela catástrofe.
Um acusador que projeta a responsabilidade por suas reações
nunca cresce realmente. A vida de tal pessoa é um perpétuo exercício
de projeção e racionalização. É uma vida de fingimento onde nunca
entra a realidade. Os acusadores insistem que outra pessoa os está
controlando. Assim, nunca chegam realmente a conhecer a realidade
interior de si mesmos. "Não é dos astros, caro Brutus, a culpa, mas de
nós mesmos, se nos rebaixamos ao papel de instrumentos" (Júlio
César, Ato 1, cena 2).
Se realmente nos compenetrarmos da verdade, tudo isso ficará
imediatamente aparente em nossa comunicação. Faremos afirmações
com o pronome "eu", não "você". Isso terá muito mais valor do que uma
simples escolha de palavras.
Suponhamos que eu reaja com raiva a alguma coisa que você
fez ou disse. Nesse caso posso falar-lhe sobre minha raiva de um
destes modos:
(1) "Você me deixou com raiva!" (Essa é uma afirmação com o
pronome "você".)
(2) Ou posso dizer: "Quando você contou o que fez, fiquei com
raiva". (Essa é uma afirmação com o pronome "eu").
A primeira expressão, afirmação com o pronome "você", nega
diretamente a verdade de tudo que dissemos sobre responsabilidade
pessoal por nossas próprias reações. Porém, mais do que isso, pas-
sa-lhe uma rasteira de culpa. É uma tentativa maldisfarçada de ma-
nipulação. Eu o estou empurrando para a posição de "sujeito mau".
Certo? Tal observação, se você for do tipo combativo, o convidará
a uma discussão acalorada para vencer ou perder. Certamente pro-
vocará mais calor do que luz.
Entretanto, se faço uma afirmação com o pronome "eu" "Fiquei
com raiva" —, assumo a responsabilidade pela minha reação.
Reconheço que outra pessoa em minha situação podia perfeitamente
ter uma reação diferente. Pode ser que eu não entenda com facilidade
ou presteza todas as atitudes e a perspectiva de que moldaram minha
reação. Mas sei que minha reação foi o resultado de alguma coisa
dentro de mim. Quando faço uma declaração com o pronome "eu",
admito isso a mim mesmo e a você.
De fato, observo que fico com raiva de algumas pessoas, en-
quanto outros sentem pena delas. Fico transtornado por algumas
circunstâncias, enquanto outros enfrentam-nas sem esforço. Considero
algumas situações "absolutamente horríveis", mas percebo que outros
consideram essas mesmas situações como "uma oportunidade para ser
criativo".
O importante efeito pessoal de tudo isso é que, se eu de fato
reconhecer minhas próprias reações e aceitar a responsabilidade por
elas, descobrirei meu verdadeiro eu. Aos poucos perceberei que tenho
algumas atitudes deformadas e inibidoras que devem ser revistas. E
essa espécie de honestidade mostrar-se-á uma irresistível iniciação à
maturidade. Direi coisas como:
— Ajo como criança quando as coisas não acontecem como quero.
Terei de ser honesto e lhe dizer:
— Quando você bocejou enquanto conversávamos, interpretei isso
como desinteresse e me senti triste e com pena de mim mesmo.
Se eu continuar com essa franqueza e honestidade de afirmações
com o pronome "eu", crescerei e estarei realmente me comunicando.
Pode ser que agora mesmo eu e você estejamos presos em uma
areia movediça de projeção e acusação. Pode ser que nunca tenhamos
realmente conhecido a nós mesmos porque sempre procuramos uma
compreensão de nossas pessoas e nossas reações fora de nós mesmos. Se
pudermos mudar esse modo de pensar, os resultados serão muito
compensadores:
Passaremos a nos conhecer como realmente
somos e nos veremos envolvidos em um partilhar
verdadeiro em vez de na decepção de acusar.
E dizem que a honestidade é a melhor política.
DEVEMOS FALAR APENAS POR NÓS ME
COMUNI CAR, DEVO TORNAR CLARO QUE ESTOU FA-
LANDO APENAS MI NHA VERDADE, NÃO A VERDADE
A maioria de nós somos tentados a generalizar nossa experiência
pessoal. Esquecemos que os outros são realmente outros, diferentes
de freqüência presumimos erroneamente que todos reagem
exatamente da mesma maneira que nós. Assim, ao descrever nossas
reações pessoais dizemos coisas como:
— Uma repórter me abordou na rua hoje. Perguntou-me o que
achava de nosso novo prefeito. Comecei a tagarelar sem pensar. Sabe
como é. Sabe, você fica muito ansioso e entusiasmado e então
dispara a falar antes de sua mente começar a funcionar. Então
percebe que meteu os pés pelas mãos. Sabe que conseguiu de novo.
Certo?
Errado! Embora eu pessoalmente possa me identificar com a
maior parte dessa experiência, há muitas pessoas mais espertas que
simplesmente não se • reconheceriam, ou a suas tendências, nessa
descrição. Há mesmo alguns tipos calados que nunca falam muito,
mesmo quando suas mentes estão zumbindo. Posso falar por mim
mesmo, mas certamente não por elas. De fato, só posso falar por mim
mesmo. Sou perito apenas a meu respeito. Quando projeto minhas
reações nos outros, freqüentemente a situação se torna difícil.
Imponho a meu ouvinte a responsabilidade embaraçosa de dizer:
— Oh! não, não reaj o assim, de j eito al gum.
nós. Com
MESMOS. COM
Ao que a pessoa que insiste em falar por todo mundo prova-
velmente sorrirá calmamente e dirá:
— Oh! você diz que não, mas, na verdade, se estivesse em minha
situação, reagiria da mesma maneira.
E é aí que muitas pessoas se perguntam: "Que posso dizer?"
A tentação de generalizar indica que descobri a "diversidade"
apenas de maneira imperfeita.
Ainda não percebi plenamente como cada um de nós é único e
individual. Por causa disso ainda sou tentado a projetar minhas
reações nos outros. Se alguma coisa me ofende ou aborrece, presumo
que ofende ou aborrece todo mundo. Se uma dada situação estimula
uma reação de preocupação em mim, presumo que todos ficariam
preocupados em tal situação. Um tal hábito de pensar e falar faz de
mim o modelo de toda a realidade humana. Lembra-se do per-
sonagem de desenho animado chamado General Bullmoose? Seu
lema era: "O que é bom para Bullmoose é bom para a nação". Ele era
um homem que pensava e falava por todo mundo.
Na verdade, nós temos muito em comum, mas nunca somos
menos que indivíduos. A maneira como reagimos às coisas, mesmo
coisas como beleza e humor, é diferente em cada um de nós. Em
outras palavras, posso contar-lhe apenas minha experiência, minha
reação. E você só pode contar-me a sua. Nenhum de nós pode
presumir que conhece as complexas atividades da mente e do
coração do outro. Muito menos podemos presumir que nossas mentes
e corações funcionam exatamente da mesma maneira.
A pessoa que percebeu nossa individualidade e singularidade
não somente falará mais cuidadosamente e somente por si, como
também perguntará antes de presumir. Lembro-me de certa vez ter
observado uma pessoa realizando uma tarefa de uma forma que na
minha opinião gastava muito tempo. Meu próprio modo de vida é
"construir melhores ratoeiras", planejar maneiras novas e criativas
de fazer as tarefas diárias.
‰ Gostaria de aprender uma forma mais fácil de fazer isso?
Presumindo que a resposta seria "sim" comecei a demonstrar. Meu
amigo assumiu uma atitude de resistência.
‰ Já lhe ocorreu que gosto deste método e não estou procurando
uma forma mais fácil de fazer isto?
Zás. Uma nova aplicação da lição de "diversidade".
Há uma séria conseqüência dessa individualidade humana, quan-
do discutimos o que é verdadeiro e o que é falso. Em nossos tribunais,
mandam que as testemunhas digam "somente a verdade, toda a
verdade e nada mais que a verdade". Mas as testemunhas são chama-
das a testemunhar somente o que viram e ouviram pessoalmente.
Presume-se que nenhuma testemunha conhece toda a verdade. Acho
que em teoria todos reconhecemos isso. Na prática esse reconheci-
mento é muito mais difícil, para a maioria de nós. Caímos na arma-
dilha de atribuir infalibilidade a nossas observações, interpretações, ao
modo como nos lembramos das coisas. Como resultado, caímos em
freqüentes erros de comunicação.
Dizemos coisas assim:
— Você disse isso. Disse. Lembro-me claramente.
Se eu estivesse falando minha verdade e não a verdade, prova-
velmente diria algo assim:
— Parece-me que você disse isso ou aquilo. Pelo menos é isso que
me lembro de ter ouvido. Você realmente disse isso ou minha memória
está me enganando?
Se falássemos dessa maneira, certamente facilitaríamos a boa
comunicação e promoveríamos uma agradável troca de palavras.
Freqüentemente nos envolvemos em uma diferença de opinião.
Seria falar apenas minha verdade e um atraente convite à comunicação,
se eu dissesse:
— Este é o modo como vejo as coisas ... Ou
poderíamos dizer:
— Sempre tive a impressão que...
As pessoas que pensam que são capazes de falar a verdade tendem
a pontificar:
— É desta maneira. Foi assim no início, é assim agora, e sempre
será assim.
Essa espécie de arrogância é, para a maioria de nós, um convite à
contradição, não à comunicação.
Nenhum ser humano na face da terra possui toda a verdade.
Cada um de nós tem só uma pequena parte; mas se estivermos
dispostos a partilhar nossas pequenas partes, nossos pedaços de ver-
dade, todos possuiremos uma realidade muito mais plena, um quinhão
muito maior da verdade total.
Vem à ment e o quadro de duas pessoas em lados opost os de
um sóli do muro. Um lado está pintado de marrom e o out ro de
verde. Se a pessoa do l ado verde fi car i nsi sti ndo:
‰ Este muro é verde, provocará contradição da pessoa que está do
outro lado do muro.
‰ Não, não é. É marrom.
Obviamente cada uma tem uma parte da verdade, exatamente
como todos temos, na maioria de nossas divergências. É difícil
imaginar que uma pessoa possa estar completamente errada a
respeito de qualquer questão complexa. Todos têm uma parte da
verdade para partilhar.
Faz sentido, não faz? Então onde é que erramos com tanta
freqüência? As vezes penso que as questões que discutimos e debate-
mos nunca estão isoladas de um contexto maior. Na maioria dos
relacionamentos humanos, existem "marcadores de pontos"
invisíveis. Uma mulher que está ansiosa por afeto ou afirmação pode
muito bem provocar um ponto de discórdia apenas para desabafar um
pouco. Um homem que acha que seu ego foi enfraquecido ou dimi-
nuído pode fazer o mesmo.
Alguém já disse sabiamente que a maioria de nós não discute as
questões reais: deslocamos nossos sentimentos e os ligamos a
supostas questões. Um marido queixa-se do quanto sua mulher gastou
em um par de sapatos novos e ela, por sua vez, lembra-lhe que não
consertou a porta como prometera. Mas o preço dos sapatos e a porta
não é o que realmente os aborrece. Em tais circunstâncias, um triunfo
pessoal parece mais desejável do que a verdade. Assim, acabamos por
corrigir o registro no marcador invisível. Conseguimos uma vitória
imaginária sobre uma insignificância e dizemos aos outros a verdade,
toda a verdade, nada mais que a verdade!
Que tolice a minha fingir que tenho toda a verdade,
quando, de fato, tenho apenas um pedacinho!
DEVEMOS PARTILHAR COM AQUELES COM QUEM
NOS RELACIONAMOS TODOS OS NOSSOS
SENTIMENTOS SIGNIFICATIVOS
Não somos simples. Existem em nós muitas partes complexas.
Temos percepções sensoriais que nossas mentes organizam em
idéias. Nossas vontades exercem o poder de escolha. E tanto a mente
como o corpo produzem nossas emoções. Naturalmente é verdade
que esses sentimentos ou emoções não são nossas partes mais
importantes. Eles vêm e vão, às vezes em direções opostas. São
afetados pela quantidade de sono que tivemos, pela hora do dia, pelo
"nível de açúcar" em nosso sangue e, às vezes, pelo barômetro. Mas
no ato de comunicação, ao nos revelar uns aos outros, são o âmago
da questão. Por quê?
Tenho certeza de que, quando você ou eu confiamos nossos
sentimentos a outrem, temos a sensação de estar realmente
partilhando nosso verdadeiro eu. Não temos muitos pensamentos
completamente originais. Eu, pelo menos, não me lembro de ter tido
nenhum. E não fazemos muitas escolhas originais. Mas ninguém na
história da humanidade já teve exatamente os mesmos sentimentos
que você. Ninguém já sentiu como eu sinto. Nossos sentimentos são
tão singulares e originais como nossas impressões digitais. Por
exemplo, uma pessoa pode resumir a si mesmo afirmando:
— Sou cristão e advogado, e minha família é minha vida.
Correto e conci so. Porém você não fica conhecendo a pessoa
individual por mei o de t ais afir mações sumári as. A mai oria das
pessoas identifica-se com o cristianismo e há muitos advogados entre
nós. Os devotados à família também são bastante comuns.
As pessoas que estão dispostas a partilhar conosco somente
seus pensamentos e opções, da mesma maneira, poderiam partilhar o
último livro que leram. Mas se uma pessoa confia e descreve seus
sentimentos — a solidão e a luta, os temores e as alegrias, a paz da
certeza e a dor da dúvida —, então teremos a sensação de que vamos
conhecer quem essa pessoa é realmente. Diga-me o que pensa e
poderei classificá-lo: diga-me o que sente e o conhecerei.
De certo modo, nossos sentimentos são as expressões sumárias
de toda nossa história pessoal. Não são apenas nossa reação altamente
personalizada a uma dada pessoa ou situação. Originam-se de nossas
mais remotas experiências humanas, as por assim dizer "influências
paternas" (mensagens recebidas no início da vida, dos pais e de outras
pessoas significativas). Também modelamos nossas reações emocio-
nais pelas de nossos pais, nossos irmãos e irmãs. Todavia, nossas
reações emocionais nunca são cópias exatas, porque são também a
expressão de nossas próprias experiências humanas únicas. Resumem
as vezes em que fomos intimidados ou humilhados por adversários
juvenis. Reúnem e comentam a segurança ou insegurança dos lares,
escolas e vizinhanças de nossa infância. De fato, resumem e expres-
sam todas as raízes de nossa existência humana altamente individual.
Consideradas apenas em um contexto de atualidade, nossas emo-
ções são as reações psicofísicas a nossas percepções. Se perceber que
você é meu amigo, sentir-me-ei seguro quando estiver com você. A
percepção surge primeiro. A emoção resulta da percepção. Histo-
ricamente, nossas percepções, a maneira como vemos ou percebemos
um dado objeto, foram amplamente moldadas por outras pessoas e
acontecimentos significativos em nossas vidas. Essas pessoas e acon-
tecimentos são como que mensagens gravadas que foram deixadas em
nossos mecanismos mentais.
Em conseqüência, ao contar-lhe meus sentimentos estou, de certa
forma, partilhando toda a minha vida com você: as pessoas que me
influenciaram, as experiências que me moldaram. É verdade que
meus sentimentos podem ser inclinados em uma ou outra direção
pelas quantidades de sono ou alimento recentes, pelo que deu certo
ou errado durante meu dia. Ainda assim, o partilhar de meus sen-
timentos é minha máxima auto-revelação. Ao lhe confiar meus sen-
timentos, posso estar dizendo que uma pessoa que teve meus pais e
minhas experiências reage dessa forma quando está cansada ou
com fome. Sempre lhe digo onde estive e quem sou quando partilho
meus sentimentos com você.
Em pleno ato de me revelar a você, não posso simplesmente jogar
minhas emoções a seus pés. Como seria desconcertante se eu
simplesmente lhe dissesse: "Estou furioso!" Se é para você entender,
devo oferecer-lhe um contexto de completa cer-
teza, isso presume que eu me dedique à auto-revelação, preste atenção
às coisas que se passam dentro de mim. O pleno contexto de auto-
revelação seria mais ou menos assim:
(1) Primeiro transmito-lhe os dados de minhas sensações: Vi e
o ouvi rindo enquanto eu fazia meu importante pronunciamento para os
participantes de nosso encontro.
(2) Depois transmito-lhe minha interpretação provisória desses
dados sensoriais. (Por favor, observe que essas interpretações devem
ser sempre apresentadas como provisórias. Interpretação provisória é a
maneira como, subjetiva e provisoriamente, interpreto o que vi e ouvi.)
Interpretei que você considerou tolas ou estúpidas as minhas idéias.
Pelo menos pensei que você não estava dando o apoio de ouvir com
seriedade. Pensava que você era meu amigo, mas lá estava você, rindo
de mim. Esses foram meus pensamentos interiores quando
o vi e ouvi rindo. É claro que eu poderia estar longe da verdade e
talvez estivesse me levando muito a sério, mas essa é minha inter-
pretação. Observe que uma interpretação provisória também lhe dá a
oportunidade de ajudar-me a rever minha interpretação, se ela
precisar ser revista. Entretanto, se não lhe contar minha
interpretação provisória, continuarei a pensar o pior e você nunca
saberá o que está me aborrecendo.
(3) Transmito-lhe os sentimentos que resultaram em mim de
minha interpretação.
— E fiquei com raiva de você.
Mas a raiva é apenas a primeira emoção, cobrindo camadas e
camadas de outros sentimentos. Da forma como entendo esses sen-
timentos, senti-me "abandonado" por você, meu bom amigo. "Et tu,
Brutus?" (Até tu, Brutus?) Foi o velho choque de Júlio César, que ficou
triste e surpreso ante a presença de seu amigo Brutus entre seus
atacantes. Verdadeiramente dramático, não?
(4) Finalmente, sempre que possível, acrescento um contexto
adicional pela minha reação.
— Sabe, foi a primeira vez que falei em um encontro. Foi minha
estréia como orador e por isso fiquei tão envolvido. Em vez de pensar
auto-revelação. Com
na platéia, só estava pensando em mim mesmo. Fiquei imaginando
como estaria me saindo. Também é verdade que eu estava tão
nervoso com aquele maldito discurso que não comia nem dormia
direito. Por favor, não pense que tem de concordar ou discordar ou
mesmo explicar alguma coisa. Não estou realmente tentando che-
gar a uma conclusão ou desafiá-lo. Só quero partilhar meu íntimo
com você. Espero que possa me aceitar. De qualquer forma, muito
obrigado por ouvir tudo isso.
Aliás, ao compartilhar todos os nossos sentimentos significativos,
é muito importante partilhar nossos sentimentos "positivos" ou "afir-
mativos" bem como nossos sentimentos "negativos". No diálogo
acima, o falante poderia ter dito:
— Quando olhei para a platéia e o vi e notei como prestava
atenção a tudo o que eu dizia, senti-me seguro e confiante. De fato,
cada vez que sentia o pânico de pensar: "O que estou fazendo aqui
em cima?", olhava para você. Muito obrigado mesmo, por ser um
bom amigo quando eu realmente precisava de um.
Mais que qualquer outra coisa, as pessoas precisam de nossas reações
emocionais afirmativas.
Já discutimos a motivação para a comunicação. O difícil em se
tratando de comunicação é que muitas vezes nossa motivação está
"
oculta". Às vezes tentamos disfarçar ou negar nossa verdadeira
motivação, não somente para os outros, mas até de nós mesmos.
Quase todos nós em alguma ocasião já passamos pela experiência
de alguém nos assegurar:
— Só estou lhe dizendo isso para seu próprio bem. Então só
faltaram nos lamber, porque supostamente era "para o nosso bem".
A questão aqui é esta: meu motivo pode ser desabafo, manipu-
lação ou comunicação. Se lhe conto meus sentimentos porque quero
desabafar, não estou me revelando como uma dádiva a ser oferecida,
mas estou usando-o como uma lata de lixo para meu refugo emo-
cional, para que possa me sentir melhor (e você muito provavelmente
se sentir pior). Se meu motivo é a manipulação, estou, consciente ou
inconscientemente, manobrando-o. Posso querer que você se sinta
responsável por mim e por minhas emoções, sinta-se culpado por
haver causado minhas emoções ou mesmo dê-me a solidariedade que
estou procurando. Mais uma vez, isso não é uma dádiva sendo ofere-
cida, mas apenas um estratagema. Embora possamos tentar disfarçar
ou negar tais motivos, no fim transparecerão e causarão sofrimento,
como os espinhos de uma roseira.
O único motivo aceitável para que eu compartilhe meus senti-
mentos é a comunicação. Conto-lhe meus sentimentos porque quero
que você conheça meu verdadeiro eu e quero ter um relacionamento
verdadeiro com você, não um "arranjo" erroneamente chamado de
"amizade". Sei por experiência pessoal que já senti o ímpeto de con-
tar aos outros meus sentimentos, a fim de ajustar contas, puni-los,
arrancar um pedido de desculpas. Todos esses motivos são inacei-
táveis. Não são justos. Tendem a destruir, não a construir um
relacionamento pessoal.
Em conseqüência, posso ter de incluir, no contexto mais pleno de
meu partilhar, a confissão de que esses sentimentos estão devaneando
dentro de mim, que sinto ímpetos de ajustar contas com você por
meus ressentimentos e mágoas reais ou imaginários, que desejo que
você peça desculpas por sua omissão. Junto com os outros materiais
que partilho, incluo uma explicação disso, tal como:
Espero que esse não seja o conteúdo oculto de meu par-
tilhar. Acredito que não seja um motivo disfarçado para
este partilhar.
Em ocasiões mais calmas de reflexão, percebi que a única
forma de alcançar um relacionamento verdadeiro e profundo
é contar-lhe todos os meus sentimentos significativos.
Realmente desejo isso. Embora emocionalmente eu esteja
entre sentimentos ambivalentes, acredito que meu motivo
real é de apreço e de revelação.
Essa, então, torna-se uma completa comunicação. É partilhar
plena franca e honestamente meu verdadeiro eu com você. Tudo
que posso desejar é que você ouça e receba meu partilhar com
mãos delicadas.
Partilhar ou não partilhar . . . alguns exemplos
Freqüentemente as pessoas se fazem passar por íntimas, mas nunca
realmente chegam a se conhecer mutuamente porque mantêm as
emoções ocultas sob os chavões da discussão.
Lembro-me de um casal que me procurou, ambos irritados e
afirmando que o divórcio era a única maneira de resolver seus pro-
blemas. Francamente, não queriam nem olhar um para o outro.
Parece que ele fora preso e ela se sentira tão humilhada que não
tolerava o pensamento de que isso pudesse acontecer de novo.
Convidei-os a se sentar e fazer uma experiência comigo.
— Quero que me contem seus sentimentos a respeito dessa in-
compatibilidade que estão sentindo. Agora só sentimentos. Nenhuma
acusação. Nenhuma narrativa de antigos fracassos. Apenas sen-
timentos.
Comecei com a mulher, porque já a encontrara uma vez antes e
achava que havia mais possibilidade de sucesso com ela.
Em resposta a meu convite, ela definiu sua emoção central como
"insegurança".
— Realmente não sei o que fazer ou para onde me voltar. Não
consigo entender a situação em que estamos, por isso não sei o
que fazer a respeito. Simplesmente quero fugir e deixar tudo para
trás. Mas isso significa divórcio e aí começo a me sentir
"culpada". Fui educada na crença de que o compromisso do
matrimônio é um sacramento. Lembro-me de dizer em meus votos
matrimoniais: i 4 . . . até que a morte nos separe".
Depois que descreveu sua sensação de culpa, parece que ela
descobriu em suas borbulhantes emoções outro tipo de sentimentos.
— Acho que me sinto "responsável' por ele. É como se eu fosse sua
mãe, além de esposa. Sinto-me compelida a instruí-lo, protegê-lo e
defendê-lo. Arrumo desculpas para ele e até já menti para poupá-lo.
Sempre que penso em meu papel de "sua protetora", tenho uma
sensação incômoda, como se estivesse carregando um peso nas costas.
A esposa se saiu bem. Mas parecia haver uma óbvia omissão e por
isso perguntei-lhe:
— Você não mencionou raiva e, contudo, quando entraram em meu
consultório parecia estar com raiva. Parecia que queria magoá-lo.
Estava se sentindo assim?
Oh, não — disse entre soluços. Ele já foi bastante magoado. Não,
não estou com raiva, apenas lamento realmente porque ele passou por
muita coisa.
A essas alturas, o pobre marido estava com os olhos arregalados.
Tenho certeza de que nem sonhava que esses eram os sentimentos não
revelados de sua esposa.
Então voltei-me para ele e ele se saiu quase tão bem quanto a
esposa. Seu sentimento central era "vergonha".
— Às vezes sinto-me como se devesse estar usando um letreiro
"perverso!" ou algo parecido. Às vezes imagino que toda a raça
humana está fazendo um piquenique e eu não fui convidado. Sinto-me
muito "solitário" e, às vezes, quando nossos filhos estão sentados em
meu colo, sou tomado pelo medo de que possa contaminá-los com.
minhas fraquezas e que eles tenham de passar pela mesma espécie de
inferno em que estou vivendo.
Com algum encorajamento, ele continuou por várias camadas de
sentimentos e terminou com esta surpresa:
— Explicar este último sentimento é difícil para mim. Porque sou
um homenzarrão e sempre quis parecer masculino, nunca pensei que
alguém jamais pudesse entender este sentimento. (Longa pausa...)
Sinto-me como um menininho que quer chorar, mas precisa de per-
missão. Preciso de alguém que me diga: "Pode chorar. Continuará
sendo homem".
Então sua esposa levantou-se e embalou a cabeça dele nos braços.
— Está bem, querido — sussurrou —, pode chorar, sempre o
amarei.
Depois de algumas lágrimas, ele se levantou e a abraçou.
— Obrigado, acho que precisava disso — disse com suavidade.
É verdade que condensei uma hora em alguns parágrafos, mas
acho que é um resumo exato. Sempre tive um desejo secreto de ter
e mostrar um videoteipe desse encontro. Exemplificaria claramente o
que uma troca verdadeira de sentimentos pode fazer por um rela-
cionamento. Aliás, não sei se meus amigos "viveram felizes para
sempre". Sei que ainda estão juntos "até que a morte os separe". E,
de certa forma, estou seguro de que estão realmente procurando se
conhecer mutuamente.
* * *
Eu (John) também tenho lembranças de minha família. Sempre
que discutíamos era como que um diálogo de surdos, uma série de
controvérsias para ganhar ou perder. Não havia troca de sentimentos
como um ato de partilha. Meu pai era um homem bom. Contudo era
totalmente relutante ou incapaz de partilhar seus sentimentos
interiores. Sempre tinha prontas defesas verbais: "Guardo meus se-
gredos!", "Não faz mal!", "Sempre digo, mantenha-se aberto por
dentro, mas com a boca fechada". E assim, morreu com todos os seus
segredos trancados dentro dee si e agora trancados para sempre em
seu caixão. Minha mãe e eu estávamos com ele quando morreu.
Depois de colocar gentilmente sua cabeça no travesseiro e fechar-lhe
os olhos, disse a minha mãe que a luta terminara, que papai estava
morto. Sua primeira reação foi dizer-me:
— John, ele tinha tanto orgulho de você. Ele o amava muito.
Fiquei imaginando por que ela dissera isso. Logo depois, entre-
tanto, enquanto procurava um médico pelos corredores do hospital,
para que ele confirmasse a morte de meu pai, entendi a razão de
suas palavras. Ela sabia que ele nunca dissera essas coisas. Meu pai
nunca me disse que tinha orgulho de mim ou que me amava.
Antes da morte de meu pai, eu não entendia nem reconhecia o valor
da franqueza emocional. Quando percebi que um relacionamento
humano profundo é impossível sem tal franqueza, resolvi procurar
conhecer minha mãe. Durante as longas horas de seus últimos anos,
passamos bastante tempo confidenciando mutuamente nossos
sentimentos. Quando ela morreu, foi muito diferente da morte de meu
pai. Tive uma sensação de plenitude em vez de um vazio. Minhas
lágrimas diziam:
— Ela era verdadeiramente uma pessoa maravilhosa. Alegro-me
por tê-la conhecido.
Entretanto, tenho a mágoa de que é muito possível que .,..tinha
mãe e meu pai nunca tenham chegado a se conhecer realmente.
Temo que se um anjo fosse escrever o epitáfio na única lápide que
marca sua última morada, escreveria:
Aqui fazem duas pessoas muito boas e decentes, que
nunca se conheceram realmente.
* * *
Também me lembro da ocasião em que um homem me contou que
seu filho morrera em um desastre de automóvel. Contou-me que
escrevera um bilhete na véspera do enterro do filho e o colocara
gentilmente sob o corpo do rapaz. O bilhete dizia:
Meu querido filho:
Nunca lhe disse quanto o amava. Nunca lhe disse que você
ocupava uma grande parte de meu coração. Nunca lhe disse
quão importante era o papel que você representava em
minha vida. Pensei que haveria uma ocasião propícia para
isso : quando se formasse, quando saísse de casa para viver
sozinho, quando se casasse. Mas agora você está morto e
nunca haverá uma ocasião propícia. Por isso escrevo este
bilhete desejando que Deus mande um de seus anjos lê-lo
para você. Quero que saiba de meu amor por você e de
minha tristeza por nunca ter-lhe falado desse amor.
Seu Pai
* * *
Eu (Loretta) descobri que a franqueza emocional é muito
difícil com relação à morte. Tive três grandes lutas com meus
sentimentos depois das mortes de meu pai, minha mãe e minha avó.
Quando eu tinha três anos e meio, meu pai, policial em Chicago, foi
morto em serviço. Minhas emoções de pesar ficaram bem
escondidas em meu coraçãozinho. Eu repetia para mim mesma:
— Não dói.
Segui o exemplo dos que estavam a meu redor sem perguntar
nada. Sem processar minha tristeza, raiva e pesar, aceitei a morte de
meu pai como um ato de Deus. De um ato de Deus somente boas
coisas poderiam surgir. Por dentro, entretanto, fui atormentada por
muitos pensamentos confusos e sentimentos ambivalentes, durante
muitos anos. Ainda posso citar algumas de minhas conversas inte-
riores daquela época:
‰ Por que ele tinha de ir para outro lugar para ser feliz? Ele
era feliz aqui comigo.
‰ Sei que ele não queria me deixar, mas sei por que ele
queria deixar mamãe. Ela é tão triste e tudo que faz é
trabalhar. Ela não é nem um pouco divertida.
‰ Por que t i nha de ser el e e não ela?
‰ Ele era o único que me entendia.
‰ Acho que nunca fiz nada de errado para fazê-lo ir... ou
fiz? Talvez eu seja realmente má, e, como todos dizem
estou sendo teimosa. Eu não seria tão teimosa e má se ele
voltasse.
Esses diálogos íntimos comigo mesma nunca eram partilhados. Até
mesmo negava em meu íntimo as emoções que os provocavam.
Nunca falava sobre meus sentimentos de rejeição, raiva,
ressentimento, medo, dor, tristeza, autopiedade, culpa e esperança.
À medida que fui ficando mais velha, também passei a amar e
admirar minha mãe. Ela morreu vinte e oito anos depois de meu pai.
Nessa ocasião eu já tinha idade bastante e aprendera o bastante para
respeitar a expressão livre e franca das emoções. Chorar a morte de
minha mãe foi uma dupla tristeza. Chorava por ela e também
por meu pai. Era uma tarefa gigantesca. Entretanto, com a ajuda de
alguns amigos cheios de paciência e empatia, "chorei" franca e
completamente. Como resultado, acho que cresci com a experiência.
Cinco anos mais tarde, minha avó morreu. Chorar a morte de
minha avó, uma segunda mãe para mim, foi muito diferente. Eu me
sentia à vontade com o processo. Conscientemente envolvi-me nele e
quase o acolhi com alegria. Este terceiro período de tristeza trouxe
benefícios adicionais. Partilhei meus sentimentos mais profundos com
minha avó, antes de sua morte. Quando ela morreu e depois, outros
membros da família e eu nos sentimos suficientemente à vontade para
compartilhar nossa tristeza. Eu aprendera com as experiências
anteriores que a franqueza emocional seria benéfica se eu simples-
mente a deixasse fluir. Tornei-me consciente de que as emoções repri-
midas não desaparecem e continuam a perseguir a pessoa até que
sejam reconhecidas e processadas. Aprendi que eu podia chegar a
conhecer a peculiaridade dos outros partilhando mutuamente nossos
sentimentos. Eu também conseguiria conhecer melhor a mim mesma e
cresceria como pessoa por meio do processo de chorar alguém.
Finalmente, gostaria de partilhar uma outra ocasião em minha vida
quando tive uma desavença pública (embora pacífica) com um homem
respeitável, muito mais velho e considerável do que eu. Ambos
havíamos falado em um encontro. Em minha palestra, eu incentivara a
total franqueza emocional em todos os relacionamentos íntimos. Meu
amigo viu-se forçado a discordar:
— Eu não poderia contar a minha mulher todos os meus senti-
mentos — declarou. Isso a arrasaria. Por isso, censuro meus sen-
timentos. O que lhe conto sobre meus sentimentos é sempre verdade.
Mas é claro que não lhe conto todos os meus sentimentos signi-
ficativos.
Pacificamente concordamos em discordar, deixar os membros da
platéia decidirem por si mesmos.
Vários anos mais tarde, meu amigo separou-se da esposa. Ela
escreveu no cartão de Natal que me enviou: "Ele decidiu abandonar
a mim e a nosso lar. Casar-se-á em breve com outra". Claro que sou
muito velho para pensar que tenho olhos de raios X e posso ver
através das pessoas. Ainda assim, freqüentemente imagino se não foi
o que ele não contou a sua esposa que destruiu seu amor por ela.
Em outro encontro que durou uma semana eu estava à mesa dos
palestristas com um homem chamado Charlie Shedd. Charlie ficava
repetindo aos participantes que "minha Marta chegará quarta-feira".
Quando sua esposa, Marta, chegou, ele a acompanhou
orgulhosamente à mesa. Lá ele apresentou e publicamente abraçou
sua noiva há quarenta anos. Fiquei murmurando para mim mesmo:
"O amor funciona. Veja. O amor realmente funciona". Em outra
reunião desse encontro, Charlie Shedd nos contou que quando ele e
Marta fizeram os tradicionais votos matrimoniais: "...na riqueza ou
na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe",
acrescentaram um pacto particular de dez promessas. Uma delas era
"total franqueza emocional dentro de quarenta e oito horas". Charlie
nos explicou:
— Acrescentamos o apêndice sobre quarenta e oito horas para o
caso de eu chegar em casa com uma emoção latejante e Marta estar
com uma latejante dor de cabeça. Nesse caso minha emoção poderia
esperar sua dor de cabeça passar.
"O amor funciona!", fiquei dizendo a mim mesma. Mas aparen-
temente o amor funciona só para aqueles que trabalham para isso. O
amor funciona para os que tomam a estrada menos utilizada e correm
os riscos da completa franqueza emocional. É certamente verdade
que meus sentimentos são singulares. Resumem e expressam a
experiência de toda a minha vida e minha pessoa única. Se a ver-
dadeira dádiva de amor é o dom de mim mesmo através da auto-reve-
lação, então preciso confiar meus sentimentos àqueles que amo.
E àqueles que amo:
por favor, recebam meus sentimentos com
mãos cuidadosas. E quando os segurarem,
lembrem-se que são uma parte muito importante
de mim. Obrigado.
DEVEMOS SER CORAJOSOS O BASTANTE PARA
PARTILHAR NOSSA VULNERABILIDADE PESSOAL
Existe uma teoria sobre os complexos de inferioridade que estou
disposto e pronto a aceitar. Essa teoria alega que todos temos com-
plexos de inferioridade. Esses complexos surgem quase como uma
parte herdada desde o nascimento e primeira infância. São firme-
mente estabelecidos durante os cinco primeiros anos de vida. Alguém que
conta essas coisas escreveu que a criança normal recebe, durante os
cinco primeiros anos de vida, 431 (I) mensagens negativas em um dia
comum: "Pare com esse barulho... Desça daí... O que está fazendo
com minha tesoura?. .. Não, você é muito pequeno... Olhe só a
confusão que você fez .. . Você está com os sapatos sujos e acabei de
limpar o chão da cozinha!" E assim por diante (X 431).
Como resultado dessas mensagens negativas, desenvolvemos
instintos de autoproteção. Tentamos cobrir ou acolchoar nossos egos
para evitar maiores danos. Os psicólogos chamam esses esforços
protetores de "mecanismos de defesa do ego". Os mais comuns são
os cinco descritos aqui.
(1) Através da compensação, inclinamo-nos para trás para evitar
cair de cara. Freud chama isso de reversão ou formação de reação.
Por exemplo, o sabe-tudo dogmático fica pontificando, a fim de
reprimir as dúvidas que possa ter e que abalarão a segurança de sua
certeza. O menininho "assobia no escuro" enquanto atravessa um
cemitério à noite. A garotinha teimosa insiste: "Não dói... Não dói!"
(2) Pela transferência, construímos um desvio psicológico, um
curso alternativo ou uma válvula de escape para os impulsos que não
podemos deixar escapar diretamente. Por exemplo, não posso
expressar minha hostilidade ao meu chefe que acho antipático,
porque ele poderia despedir-me. Por isso, vou a uma partida de
beisebol e grito:
— Morra o árbitro!
Ou dou murros nas paredes, depois de chutar o gato. Outra
espécie de transferência acontece quando expresso minhas
verdadeiras emoções, mas a respeito da questão errada. A mulher
que anseia por afeição pode não ser capaz de pedir ao marido que a
abrace, mas pode se queixar por ele estar sempre atrasado ou por não
ter levantado um dedo para ajudá-la a limpar o porão.
(3) Através do que é denominado projeção, habilmente renega-
mos as qualidades indesejáveis em nós mesmos, mas atribuímos
essas qualidades repugnantes a outra pessoa ou outra coisa. Na
projeção, como já foi mencionado, transferimos a responsabilidade
por nossas deficiências e fracassos, de nós mesmos a outra pessoa ou
certeza você se lembra que quando Deus confrontou
Adão no jardim do Éden, Adão pôs a culpa em Eva:
— A mulher que me destes tentou-me!
Quando Deus fez a pergunta a Eva, ela disse que a culpa toda era da
serpente:
— A serpente me enganou para que eu comesse do fruto proibido —
diz Eva.
Em outras projeções comuns, culpamos as ferramentas
inadequadas por nosso trabalho inferior. E algumas pessoas com
tendência à astrologia alegam que seu fracasso aconteceu porque "a
lua não estava em uma boa fase". Ou talvez, "o demônio me tentou".
(4) Outro método de defesa do ego é chamado introjeção.
Quando introjetamos, proclamamos como nossas as boas qualidades
ou os feitos dos outros, compartilhando indiretamente de suas reali-
zações e nos aquecendo com o brilho de sua glória. É também
possível introjetar uma sensação de perseguição ou de martírio pes-
soal. Imaginamo-nos como vítimas heróicas. Também é uma forma de
introjeção, quando identificamos nossas posses materiais com nossas
pessoas e nos inflamos de orgulho quando alguém admira nosso
casaco de vison ou nosso luxuoso iate. Há muitas formas de intro-
jeção. Podemos nos identificar com heróis ou heroínas da televisão
coisa. Com
ou dos esportes. Um psiquiatra de Manhattan, Dr. Louis Berg, proíbe
realmente seus pacientes de assistir a novelas, porque há poucas
pessoas felizes nelas. Esse médico teme que seus pacientes introjetem
o sentimento de tragédia dramática da maioria dos personagens.
(5) Finalmente, existe a racionalização. Acho que esta é a mais
predominante e amplamente usada nas defesas do ego. É um falso
exercício de autojustificação. A autodecepção pode ser exercida de
várias maneiras. Por exemplo, posso achar boas razões para me jus-
tificar por não fazer o que sei que devia. Ou posso achar justificativa
por fazer o que sei que é errado. Se deixo de cumprir uma promessa
que lhe fiz, racionalizo que você não pensou realmente que eu estava
falando sério. Ou, se encontro sua carteira, racionalizo que Robin
Hood tornou-se herói roubando dos ricos para dar aos pobres. Bem,
você é o rico e eu sou o pobre! As vezes, o auto-engano da raciona-
lização parece não ter limites.
Esses são os mais comuns disfarces ou mecanismos de defesa
do ego. Todos são impedimentos à boa comunicação porque, de
alguma forma, escondem nossa vulnerabilidade. O problema é que
não comunicamos realmente nosso verdadeiro eu quando estamos
ocupados com uma dessas defesas do ego. Não estamos sendo reais.
Conseqüentemente, não podemos atingir todo o nosso potencial.
Nunca amadureceremos plenamente enquanto nos entregarmos a
essas defesas autoprotetoras, pois elas são barreiras à autenticidade.
De um modo ou de outro, impedem nosso contato com a realidade.
Uma pessoa saudável e em crescimento aceita a condição
humana de fraqueza. "As pessoas cometem erros e sou uma delas. É
por isso que põem borrachas nos lápis, você sabe." Pessoas saudáveis
e em crescimento são também boas comunicadoras porque estão
prontas a partilhar franca e honestamente. Partilham não somente o
lado leve e brilhante de si mesmos, mas também o lado insustentável.
Desde a nossa primeira descoberta da linguagem, somos tentados
a usá-la, não para expressar e revelar nossa verdadeira personalidade,
mas para fingir e para manipular a realidade. Quando crianças, éramos
recompensados quando proclamávamos nossa própria bondade. "Fui
um bom menino durante o ano todo. Sinceramente, Papai Noel."
Também aprendemos a fazer uso das lágrimas para chamar a atenção.
Mais tarde, o mau uso da linguagem pode assumir proporções mais
sérias quando dizemos às pessoas que as amamos, a fim de usá-las. E
uma vez usadas, essas pessoas manipuladas tornam-se "troféus de
conquista" e tomam seus lugares em nosso estojo de troféus. E,
geralmente, a trapaça é planejada e executada apenas
para provar que não somos realmente inferiores. É apenas mais um
disfarce de nossa vulnerabilidade.
É óbvio que essas defesas de nossos egos feridos nos levam a
intermináveis e tenazes jogos de falsidade. Felizmente, existe um
antídoto positivo, criativo e saudável. É simplesmente aceitar-nos a
nós mesmos na condição humana de fraqueza e admitir o fato de
nossas limitações. Honestidade e franqueza neutralizam nossas ten-
dências doentias. Honestidade e franqueza, vontade de nos revelar
com imperfeições e tudo fazem-nos reais. Colocam-nos em um
contato com a realidade que nos permite crescer e nos tornar tudo o
que nos podemos tornar.
Tenho um amigo médico que uma vez me falou de um desejo
oculto. Disse que "gostaria de algum dia ficar em uma alta
sacada acima do mundo e anunciar a toda a raça humana: ESTE
SOU EU. ISTO É TUDO O QUE EXISTE DE MIM. NÃO HÁ
MAIS NEM MENOS. ACEITAM-ME COMO SOU OU NÃO?"
Disse-lhe que sabia o que ele queria dizer. Na maioria de nós
existe esse desejo de abandonar nosso fingimento, nossa falsidade,
nossa farsa. Todos gostaríamos de ser reais. A falsidade exige
tanto esforço! E uma vez que comecemos a observar as regras,
teremos de continuar observando-as. Gostaríamos de conseguir
colocar nosso verdadeiro eu à mostra (mesmo que não seja na
sacada), em vez de representar um ato no palco. Que alívio seria
contar as coisas como realmente são, sentirmo-nos a salvo e
seguros apenas sendo nós mesmos.
Essa honestidade nos desafiaria a nos expandir, a sair de nossa
comodidade. Contar nossa verdade francamente a todo mundo
parece muito assustador. As conseqüências da honestidade às vezes
parecem um preço alto demais. Mas não devemos nos preocupar.. De
acordo com os especialistas, levamos cerca de três semanas para nos
acostumar com um novo hábito, se o praticarmos todos os dias. A
franca admissão de nossas mágoas e fraquezas pode muito bem
parecer uma alta montanha até que comecemos a escalada. Sei, por
experiência própria, que a maioria de nós antecipa o pior: "O mundo
vai parar de girar no espaço. A luz do sol se apagará. É provável que
eu desmaie. Os outros vão ficar boquiabertos". E essas são nossas
previsões mais modestas. Nada disso, porém, acontece. De fato,
imediatamente sentimos e reconhecemos em nós mesmos uma nova
honestidade e realidade.
Ao mesmo tempo, os outros percebem e refletem de volta para nós
sua aceitação de nossa autenticidade. Nossos relacionamentos
se tornam reais, baseados em uma honesta auto-revelação. Percebe-
mos que a maioria de nossos receios são muitas vezes mais atormen-
tadores do que a experiência real. Sofremos mais a caminho do
dentista que em sua cadeira.
Mostrar meu lado fraco e magoado, meus medos e hábitos
imaturos, até mesmo minha falsidade e fingimento será um grande
alívio. Levá-lo a meus "compartimentos fechados" será para mim
uma experiência libertadora. E, na troca de tal comunicação, você
também ficará conhecendo minha verdadeira personalidade. Nossa
comunicação não lhe oferecerá apenas uma versão revista e conden-
sada da minha pessoa. Aquilo que você vir será o que receberá:
o único e exclusivo, o verdadeiro eu.
Você não terá medo de mim, nem será tentado a me elogiar
como se eu fosse muito seguro de mim mesmo. Saberá que cometo
erros e que sinto em mim a condição humana de fraqueza. Pessoal-
mente, gosto de dizer às pessoas com quem estou me relacionando:
— Se você um dia descobrir meu número, será com certeza só
uma fração. Parte de mim se sente segura, parte de mim duvida.
Parte de mim é dedicada, outra parte de mim é egoísta. Parte de mim
é confiante, parte de mim é insegura. Parte de mim é orgulhosa,
outra parte é humilde.
Aos poucos vou me contentando em ser essa pessoa ambivalente, que
parece estar cindida exatamente ao meio.
A paz que surge com essa auto-revelação é uma recompensa
imediata e inegável. As pessoas que estão dispostas a partilhar sua
vulnerabilidade não precisam agüentar o esforço exaustivo da repres-
são. Não precisam usar máscaras sobre o rosto. Não precisam passar
pelas contorções de compensação, projeção e racionalização. Realizam
o que Dag Hammarskjold chamou de "a mais longa viagem", a
viagem para dentro de si mesmo. O que vêem e ouvem nessa explo-
ração de seus espaços interiores gravam na fita impressora da comu-
nicação. "Este sou eu. Isto é tudo de mim, nem mais, nem menos. Se
puder vir festejar comigo, ótimo. Devo dizer-lhe isto: Não tenho de
agradá-lo. O que tenho de fazer é ser eu mesmo, eu de verdade."
Somente quando estamos dispostos a partilhar todo o nosso eu,
imperfeições e tudo, estamos realmente nos comunicando. Mas, mais
do que isso, minha franqueza terá um efeito definitivo nos outros. A
honestidade, como tudo o que é humano, é contagiante. O fato de eu
sair de trás de muros protetores para encontrá-lo frente a frente vai
inspirá-lo a fazer o mesmo. Quando somos verdadeiros e hones-
tos a respeito de nossa vulnerabilidade, os outros ficam imediata-
mente aliviados. Sabem que assumimos um risco ao expor nosso eu
"com imperfeições e tudo". São convidados e encorajados por nossa
honestidade a tirar as máscaras, a revelar seu próprio eu interior,
franca e honestamente. Obtêm a possibilidade de assumir o mesmo
risco e ter a mesma sensação de liberdade.
Há pouco tempo, um excelente homem veio visitar-me. Foi logo
admitindo com honestidade que é um "alcoólatra em recuperação".
Conservara-se sóbrio por vários anos e estava passando pelos famosos
"Doze Passos" dos Alcoólicos Anônimos. Contou-me que já dera o
Quarto Passo: "...minucioso e destemido inventário moral" de si
mesmo. Agora queria passar para o Quinto Passo: a admissão "da
natureza exata" de suas falhas.
Então, de maneira bem franca, confidenciou:
‰ Há alguma coisa, uma fraqueza dentro de mim, sobre a qual
nunca falei a ninguém. Esperava poder lhe contar.
Corajosamente, passou a abrir seu compartimento fechado e,
juntos, olhamos dentro dele. Na realidade, o que partilhou comigo
não me pareceu ser uma fraqueza incomum. Ao meu jeito prolixo,
expliquei-lhe tudo o que sabia sobre o assunto, esperando que esse
conhecimento básico lhe trouxesse consolo. Um pouco antes de ele
sair, perguntei-lhe se estava consolado e aliviado.
‰ Sim — respondeu. O que me contou ajudou muito. Mas a maior
sensação de alívio partiu de minha própria confissão, simplesmente
pondo tudo para fora.
Saiu do consultório e não sei se o tornarei a ver, mas uma coisa é
certa: nunca o esquecerei. Ele foi honesto e verdadeiro. As pessoas
honestas e verdadeiras nos fazem sentir assim.
Não gostaria de dar-lhe a impressão de que fazer uma confissão
geral de todos os nossos pecados é parte necessária da boa comuni-
cação. O Quinto Passo dos Alcoólicos Anônimos pede a seus par-
ticipantes que admitam "perante Deus, perante nós mesmos e perante
outro ser humano a natureza exata de nossas falhas". Pode ser que
haja erros tão graves cometidos por nós que prefiramos confiar so-
mente a um confessor ou a um amigo de total confiança. Todavia, a
espécie de vulnerabilidade sobre que estivemos falando aqui inclui
nossos medos, tendências à fraqueza, erros cotidianos, limitações,
ressentimentos, mágoas, constrangimentos, reações indesejáveis, difi-
culdades, deficiências e as presunções que se tornaram parte de nós.
E isso tudo seria parte de uma comunicação em andamento, se é para um
bom relacionamento ficar melhor.
Finalmente, outra pitada de sabedoria que recebi de um amigo
AA é esta: somos tão doentes quanto reservados. No outro lado da
moeda, está a expressão positiva da mesma verdade. Somos sau-
dáveis e perfeitos quanto mais formos francos e honestos com nós
mesmos e com os outros. Lembre-se: as três primeiras semanas são
as mais difíceis!
A falsidade exige um megaesforço. Grande alívio é
contar as coisas como realmente são, sentir-
nos a salvo e seguros sendo nós mesmos.
DEVEMOS EXPRESSAR GRATIDÃO A NOSSOS OUVINTES
A comunicação é uma livre troca de dádivas. O falante doa a
dádiva de si através da auto-revelação. O ouvinte recebe a dádiva
com mãos gentis e compreensivas. Essa reação do ouvinte j á é, em
si, uma dádiva. É, uma dádiva tão encorajadora e tranqüilizadora
que merece alguma expressão de gratidão.
Há uma teoria bastante comprovada, chamada "reforço positivo
da conduta". De acordo com esta teoria, se uma pessoa recebe, de
alguma forma, agradecimentos ou recompensas por um determinado
comportamento, tenderá a repetir esse comportamento. Infelizmente
ignoramos essa regra de conduta com muita freqüência. Aceitamos
as coisas com muita naturalidade, quase sempre. Considero natural
você ouvir enquanto eu falo. Afinal de contas, raciocino, é apenas
uma questão de educação. Assim, por que deveria agradecer expli-
citamente? Não era o mínimo que você podia fazer?
Creio que a questão não considera as implicações contidas na
dádiva de escutar. Analisemos esta dádiva do verdadeiro ouvinte.
Quando você me ouve, a primeira coisa que deve fazer é pôr sua
própria vida de lado, a fim de me dedicar o tempo de que preciso. Sei
por experiência que isso nem sempre é fácil. Por algum misterioso
impulso interior, estou sempre disposto a produzir. Como resultado
sempre tenho uma agenda diária, uma relação minuciosa do que
pretendo fazer em determinado dia. Quando alguém bate à porta, meu
primeiro impulso é pensar: "Quem é agora e quanto tempo vai se
demorar?" Minha mente está geralmente toda envolvida em algum
projeto e tenho de soltar meus tentáculos mentais um a um. Minha
vontade é quase sempre tentada a terminar o projeto em que estou
trabalhando. Geralmente meu entusiasmo é grande. Então, alguém
entra e pergunta se tenho um tempinho. O visitante diz que algo
o está aborrecendo e que gostaria de poder conversar sobre
relutância, embora de bom grado, ponho de lado minha agenda
e dedico minha mente, minha vontade e meu entusiasmo às preocupações
do outro, longe das minhas.
Talvez isso seja um pouco dramático, mas todo bom ouvinte
faz exatamente isso em prol do falante. O ouvinte põe de lado sua
própria vida e dá ao falante aquilo de que mais precisa: o incentivo
de alguém que se importa. Às vezes penso em termos de espaço
físico. O ouvinte desocupa um lugar em sua vida para o falante
ocupar, sentar-se e espalhar as peças de um quebra-cabeças
pessoal. O ouvinte tem de arrumar lugar para o falante.
Um bom ouvinte não é simplesmente um cordeiro sacrifical que busca
o auto-sacrifício. O bom ouvinte deseja realmente saber quem
o falante é. Muitas vezes nos queixamos:
— Ninguém quer realmente me escutar nem a meus problemas.
Ninguém se importa realmente.
Na verdade, os bons ouvintes importam-se o bastante para afas-
tarem-se de seus próprios interesses, ignorarem seus próprios prazos
e dirigirem toda a atenção a nós e nossos interesses. Importam-se o
bastante para querer saber quem somos e devemos ser explicitamente
gratos por isso. "Obrigado por desviar-se de suas próprias necessida-
des e interesses. Obrigado por querer saber quem sou realmente.
Partilhar com você meus espaços interiores sem dúvida facilitou muito
as coisas para mim."
Além dessa dádiva, um bom ouvinte me dá a liberdade de ser
quem eu sou. É-me quase penoso saber que você é diferente de mim.
Meus pensamentos não são os seus e os seus não são os meus. Meus
medos não são os seus. Minhas preocupações podem não encontrar
eco em você. As coisas que provocam raiva e ressentimento em mim
podem bem ser as coisas que você enfrenta sem dificuldade. E, con-
tudo, você me dá a liberdade de ser diferente: de temer o que você não
teme, de me preocupar com o que não lhe causaria preocupação e de
sentir ressentimento por pessoas das quais você apenas teria pena.
Um bom ouvinte nos oferece até mais do que essa aceitação
de nossas diferenças. O bom ouvinte procura sentir a nosso modo
sej a o que for que estejamos tentando partilhar. O bom ouvinte
isso. Com
esforça-se por entrar dentro de nós, ver com nossos olhos, sentir nossos
medos, reviver conosco nossas reações. O bom ouvinte diz apenas:
"Sim, é claro", ou "percebo" e imediatamente nos sentimos
compreendidos.
Tenho certeza de que você, como eu, já disse alguma vez a um
ouvinte:
— Oh! não espero nem preciso que você concorde comigo. Ape-
nas tente entender a mim e de onde venho.
O bom ouvinte nos oferece essa dádiva de empatia que nos
assegura que não estamos sós. Esta dádiva de sair de si e de alguma
forma permanecer conosco é uma dádiva muito preciosa. Seria um sério
descuido omitir uma expressão de gratidão.
Há outra coisa que uma expressão de gratidão consegue escla-
recer: quando lhe agradeço por ouvir-me, implicitamente esclareço
que isso era tudo o que eu estava pedindo. Eu não o estava con-
vidando a resolver meus problemas para mim. Isso seria imaturo de
minha parte. Eu não estava querendo manipulá-lo por meio de
alguma sutil acusação nem submetê-lo a julgamento. Nem mesmo
o estava desafiando para avaliar meu partilhar.
Estava somente lhe pedindo a grande dádiva de colocar de lado
sua vida e seu trabalho por algum tempo e partilhar comigo um
interesse pessoal. Estava lhe pedindo a dádiva de me deixar ser
diferente. Estava lhe pedindo a dádiva de aceitar-me na posição em
que estou agora. Uma simples palavra de gratidão diz tudo isso. Fá-
lo saber que agradeço as muitas dádivas envolvidas em sua dádiva
ao me ouvir. Ao mesmo tempo, minha gratidão faz-me lembrar que
você não é uma coisa a ser usada nem uma pessoa a ser persuadida.
Lembro-me de uma ocasião em minha vida quando sentia um
vago ressentimento em relação a minha mãe. Eu não sabia ao certo
sobre que era realmente o ressentimento, mas sabia que existia. Eu
me impacientava e criticava intimamente quase tudo o que ela dizia
ou fazia. Eu sabia que tinha de haver algum ressentimento latente e
mais profundo. Ao explorar as raízes ocultas de meus sentimentos,
finalmente descobri a origem de meu ressentimento. Assim,
perguntei a minha mãe se podíamos conversar.
— Ótimo — ela respondeu. Estou querendo ouvir tudo sobre o que
você anda fazendo. Ouvi dizer que seu nome saiu no jornal.
Quando nos acomodamos na cozinha, fiz-lhe um resumo de tudo o
que sabia sobre o problema de semântica. Nunca ouvimos com
plena acuidade o que outra pessoa está dizendo. Reforcei o ponto com
um par de exemplos:
— Posso dizer a uma mulher que ela é "doce" e ela considerar
isso um cumprimento e me agradecer. Posso dizer a outra mulher
que ela é "doce" e ela ouvir algo desagradável. Para ela "doce"
pode significar "pegajosa, melosa e piegas". Ela ficará arrepiada ao
ser chamada de "doce".
Um segundo exemplo:
— Posso dizer a uma criança que não brinque na rua, e ela per-
ceberá que me importo com ela. Mas, pode ser que, se eu disser a
seu irmão gêmeo exatamente a mesma coisa, ele terá certeza de que
não gosto dele ou não quero que ele se divirta. As pessoas nunca
ouvem exatamente o que dizemos. E o importante não é o que
dizemos, mas o que elas ouvem.
Mamãe disse que entendia tudo isso, mas estava curiosa em saber
onde eu queria chegar. Mas antes havia mais um passo preliminar a ser
dado:
— Então nunca posso lhe dizer: "Você disse isso!" Só posso dizer:
"Isso é o que ouvi você dizer". Certo?
Mamãe assentiu que compreendia e concordava.
Agora eu estava pronto a partilhar com ela algo que eu ouvira durante
toda a minha vida:
— Se me ama e quer agradar-me, seja um sucesso. Faça-me or-
gulhosa de você.
Salientei o fato de que podia ser que ela nunca pretendeu isso ou
mesmo deu a entender. Era apenas o que eu ouvira. E todo o
problema, admiti, podia bem ser uma questão de meu modo de ouvir.
Enfatizei que estava apenas partilhando isso com ela, a fim de não
dramatizar as coisas de maneira estúpida e imatura. Quando não
externamos nossos ressentimentos em uma comunicação clara, nós os
dramatizamos: olhamos friamente, batemos portas e fazemos beiço.
Finalmente adquirimos úlceras. Eu não queria que isso ocorresse com
minha mãe ou comigo.
Eu sabia que estava pisando em terreno perigoso. A comunicação
sempre tem um elemento de risco. Por isso, para tranqüilizá-la,
acrescentei que não exigia resposta. Certamente não estava levando
minha mãe a julgamento. Assegurei-lhe que me lembrava de mil atos de
amor e de mil sanduíches embrulhados em papel-manteiga e
colocados em maletas escolares marrons. Lembrava-me de mil meias
que ela cerzira e de outros mil momentos felizes sentado em seu
colo, enquanto ela lia para mim. Depois, também lhe agradeci clara
e efusivamente por deixar-me dizer o que eu dissera. Agradeci-lhe
por ter me deixado parecer ingrato e por deixar-me contar-lhe meus
sentimentos de ansiedade. Antes de terminar, assegurei-lhe que fora
uma boa ouvinte. Também lhe prometi que se algum dia ela tivesse
algo que quisesse partilhar comigo, eu viria correndo. Tentaria ouvir
com empatia. Receberia seu partilhar em minhas próprias mãos
gentis e gratas.
Não era apenas um truque para sair do terreno perigoso. Era
uma verdadeira expressão de gratidão. Quase no fim da vida de
mamãe, um pequeno incidente fez-me perceber que sem dúvida ela
desejava o sucesso mais para mim do que para si mesma. Mamãe
tinha mais de oitenta anos e já não enxergava bem. Ler e até assistir
televisão era difícil para ela. Contei-lhe sobre uma "correspon-
dência de admiradores" que estava recebendo e perguntei-lhe se
gostaria que trouxesse algumas dessas cartas em minha próxima
visita. Ofereci-me para lê-las para ela. Lembro-me claramente de
sua resposta fatigada:
— Está bem. Se você quiser, mas, por favor, não traga muitas.
Ri durante todo o caminho para casa. Sentia-me novamente
grato por ela ter um dia me deixado ser eu mesmo, por ter me
deixado ter meus pensamentos e sent imentos e por me ter aceito
como eu era nessa ocasião.
Com muita freqüência, quando estamos partilhando nossos, assim
chamados, sentimentos "negativos", sem querer podemos fazer parecer
como se fosse um julgamento, um desafio, um confronto. "Muito
obrigado por deixar-me ser eu mesmo e por deixar-me contar-lhe a
respeito!" no final põe as coisas em perspectiva. Também dá um
contexto a nosso partilhar que esclarece e classifica nossa auto-
revelação como uma dádiva de nós mesmos. Nossa expressão de
gratidão torna claro que esta "dádiva" não era uma maldisfarçada
acusação ou manipulação. Era apenas uma dádiva, sem nenhuma
condição.
Obrigado por escutar.
PARTE 3
DEVEMOS ESTAR "PRESENTES" E "DISPONÍVEIS" AOS
QUE SE OFERECEM PARA SE REVELAR A NÓS
Todos sabemos o que significa estar fisicamente presente a
outrem. Podemos estar distraídos ou sonhando, mas, enquanto esti-
vermos na mesma sala, estaremos fisicamente presentes. Todavia,
não estamos falando aqui de presença física, e sim de presença
pessoal. Esta presença pessoal significa muito mais do que ser
apenas um corpo simpático na mesma sala. Estou pessoalmente
presente para você quando lhe dou toda a minha atenção. Tudo o
mais está excluído por enquanto. As lentes de minha mente estão
focalizadas em você e naquilo que você está partilhando comigo.
Se criarmos coragem para nos revelar a outrem e desconfiarmos
que essa outra pessoa está pensando em outra coisa, provavelmente
perceberemos isso. Ou se a outra pessoa estiver aparentando tédio,
perderemos todo desejo de colocar nossa dádiva delicada em mãos
tão negligentes. É difícil para um ouvinte fingir uma presença ver-
dadeira. A intuição humana geralmente não se deixa enganar por
uma presença insincera. Se você estiver imaginando por quanto tem-
po vou continuar falando, de alguma forma perceberei isso. Se exis-
tem outras coisas que você preferiria estar fazendo em vez de me
ouvir, de alguma forma perceberei isso também.
Para a maioria de nós é difícil desenvolver honestidade e fran-
queza verdadeiras. Por causa disso, precisamos da atmosfera e do
apoio da presença verdadeira para tentar um profundo partilhar de
nós mesmos. Não quero correr os óbvios riscos da auto-revelação,
se você parece entediado ou distraído. Não quero colocar uma terna
e sensível parte de mim mesmo em suas mãos, somente para vê-lo
bocejar ou observar sua tentativa de mudar de assunto. Não quero
partilhar minha alegria ou meu sucesso com você, se você parece
estar preocupado demais para festejar comigo.
"Disponibilidade" é um conceito estreitamente relacionado.
Todos sabemos como é bater a uma porta e não obter resposta. Todos
sabemos como é discar um número de telefone com uma sensação de
urgência e só ouvir um sinal de ocupado. Há uma reação de
desapontamento semelhante na maioria de nós quando desejamos
verdadeiramente partilhar alguma parte profunda de nós mesmos só
para perceber que nosso suposto ouvinte parece não estar disponível.
Percebemos que essa outra pessoa preferiria não ser perturbada por
nós e nosso partilhar. Quando recebemos esse "sinal de ocupado",
quase sempre simplesmente desligamos. Somos tentados a desistir.
Em um domingo de manhã, 5 de agosto de 1962, Marilyn
Monroe foi encontrada morta. Mais tarde o legista declararia que
fora "suicídio". Quando a empregada de Marilyn descobriu seu
corpo sem vida naquela manhã de domingo, notou que o telefone ao
lado da cama estava fora do gancho. Obviamente Marilyn fizera
uma última tentativa de se comunicar com alguém. Quando sua
última tentativa fracassou, ela desistiu e morreu sozinha.
Clare Booth Luce escreveu um artigo muito comovente para a
revista Life intitulado: "What Really Killed Marilyn" (O que real-
mente matou Marilyn). O subtítulo dizia: "A 'Deusa do Amor' que
nunca encontrou amor nenhum". A autora sugere que o telefone
fora do gancho era um símbolo apropriado para toda a vida de
Marilyn. Durante muito tempo, ela tentou dizer que era uma pessoa,
mas pouca gente a levou a sério. Somente depois de sua morte em
uma noite de sábado, quando se supõe que todas as mulheres lindas
estejam muito bem acompanhadas, vieram a público muitos fatos
de sua vida.
A maioria dos contemporâneos de Marilyn Monroe em Hollywood
antipatizavam com ela. Ela era apelidada de "prima donna". Chegava
muitas vezes com horas de atraso para uma filmagem. Enquanto entrava
no estúdio aparentando indiferença, ninguém suspeitava que estivera
vomitando antes de sair de casa. Ela tinha um medo terrível das
câmeras. Sem dúvida suas reações emocionais eram o resultado de uma
infância triste e agitada. Seu pai, padeiro ambulante, abandonara a
família. Sua mãe era freqüentemente internada em hospitais
para doentes mentais. Marilyn foi violentada aos oito anos por um
pensionista em seu lar adotivo. Recebeu uma moeda para não contar.
Agora, aos trinta e cinco anos, o espelho lhe dizia que a única
coisa que os outros já haviam notado ou elogiado nela estava come-
çando a fenecer. Deve ter-se sentido como um artista que está per-
dendo a visão ou um músico cujas mãos estão com artrite. Marilyn
tivera uma infância dolorosa, casara-se várias vezes e fizera muitos
filmes, mas pouca gente jamais a levou a sério . .. até que ela morreu.
Então, a nação toda fez um ato nacional de contrição. Fizemos a
pergunta de Clare Booth Luce: o que realmente matou Marilyn? Talvez
o telefone fora do gancho diga tudo. Ninguém se importava
o bastante para estar presente e disponível. Talvez aquele telefone
derrubado em desespero seja o símbolo de uma trágica tentativa de ser
ouvida. Se o telefone simboliza a frustração de Marilyn Monroe, que
terminou em morte, talvez ela seja o próprio símbolo de incontáveis
seres humanos que querem ser ouvidos, mas que desistiram.
No livro The Power of Compassion ("O poder da compaixão"),
o Pe. Jim McNamara conta a história de um desses seres humanos
não-ouvidos que saiu a sós pela noite. Se me lembro corretamente, a
história que o Pe. McNamara conta sobre si mesmo aconteceu
quando ele era coadjutor em uma paróquia de uma cidade do leste
americano. A empregada avisou o Pe. McNamara de que na
secretaria da paróquia estava um jovem que queria falar com um padre.
Jim McNamara caminhou vagarosamente para a secretaria,
refletindo que não estava "de plantão" naquele dia e que era quase
hora do jantar. Aguardando na secretaria estava um jovem negro.
Suas roupas demonstravam que era pobre. Apresentou-se apenas
como "Jim". Ao começar sua história, Jim mencionou que estava
desempregado. O padre podia prever o que iria acontecer. Ele ia
pedir dinheiro. Em seu íntimo, desejava que a empregada
interrompesse, chamando-o para jantar. A triste história do jovem
se prolongava cansativamente. Então, a empregada bateu à porta da
secretaria e avisou o Pe. McNamara que alguém o chamava ao
telefone. Pediu licença e foi atender.
Quando voltou, Pe. McNamara descobriu que Jim fora embora. O
padre percebeu que seus modos haviam revelado sua preocupação
com outras coisas. Por isso, olhou para um lado e outro da rua, mas
não conseguiu ver seu fugaz visitante. Sentindo as crescentes
pontadas do remorso, pegou o carro e rodou pela vizinhança. Final-
mente localizou Jim e parou o carro junto à calçada. Quando chamou
o jovem, não obteve resposta. O pobre-diabo continuou
andando. O padre saiu do carro, correu pela calçada e parou em
frente ao jovem:
— Jim, lamento ter precisado sair. Quer voltar comigo e terminar
nossa conversa?
O jovem apenas sacudiu os ombros e murmurou:
‰ Você é exatamente como todo mundo. Ninguém quer ouvir. E
Jim desviou-se do padre e desapareceu na escuridão.
Estar presente e disponível para outro ser humano é sinal infa-
lível de amor e atenção. Cada um de nós que anda na face da terra
procura esse sinal, mas não ousa contar com ele. Estamos todos
preparados para os sinais de desinteresse. Quando os encontramos,
tristemente desaparecemos na escuridão da noite.
Talvez o obstáculo mais comum para doar essa presença e dis-
ponibilidade seja nossa fixação em nós mesmos e nossos próprios
interesses. Uma vez perguntei a um amigo pessoal, que é psiquiatra, por
que é tão difícil para nós sairmos de nós mesmos. Meu amigo sorriu e
perguntou:
‰ Já sentiu dor de dente?
Respondi que sim. Ele replicou:
‰ Em quem estava pensando enquanto seu dente doía?
Pensei apenas um momento e respondi:
‰ Em mim! Estava pensando em mim.
‰ É mesmo? E em mais alguém? De
novo, após só uma curta reflexão:
‰ Sim. No dentista. Qualquer dentista que pudesse aliviar minha
dor.
Meu amigo psiquiatra parecia pensar que toda a resposta à minha
pergunta estava contida em minhas reações à dor de dente. Chamou a
atenção para o fato de que todos estamos feridos e que a dor
consegue magnetizar nossa atenção para nós mesmos. Todos já sen-
timos, algumas vezes, dores físicas, como uma dor de dente, mas
quase continuamente temos sentimentos de incompetência, inferiori-
dade, ansiedade e culpa. Se deixarmos esses sentimentos atraírem
toda a nossa atenção, teremos pouco para oferecer aos outros. Tere-
mos um sinal luminoso em nossas testas cintilando: "Ocupado".
Na introdução a este livro mencionamos que não se adquire
nenhum hábito sem prática. Os hábitos de presença e disponibilidade
não são exceções. Um velho dito dos índios americanos faz-me lem-
brar que "para verdadeiramente entender outro ser humano, primeiro
precisamos caminhar dois quilômetros com seus mocassins". A isso
gostaríamos de acrescentar a sugestão de que não poderemos caminhar
nos mocassins de outra pessoa, sem antes tirar os nossos. Temos de
fazer um esforço real como ouvintes, para sair de nós mesmos, para
nos livrar de nossas preocupações pessoais e doar nossa presença e
disponibilidade aos outros.
A princípio isso será muito difícil, mas, como acontece com todo
empreendimento humano, ficará cada vez mais fácil até se tornar uni
hábito. Presença e disponibilidade são empreendimentos muito
valiosos e certamente valem o esforço de nossa repetição e prática. Os
outros que estão tentando nos contar sua história, as Marilyns e os
Jims, bem como nossos amigos e membros de nossa família, ficarão
eternamente gratos.
Por isso, vamos trocar de sapatos e caminhar dois
quilômetros juntos.
DEVEMOS ACEITAR OS OUTROS COMO SÃO
A vida em si é um processo e somos todos "seres em processo".
Nenhum de nós já chegou à plena maturidade, nenhum de nós já
chegou à perfeição. Somos todos frações a caminho de nos tornar
números inteiros. Lembro-me de uma vez ter lido no distintivo que
uma mulher estava usando: "Por favor, seja paciente. Deus ainda não
me terminou". Deus ainda não terminou nenhum de nós. Estamos
todos a caminho de nosso pleno crescimento e potencial pessoal. E,
certamente, todos precisamos de muita paciência durante o processo
— nossa própria paciência e a dos outros.
Em recente pesquisa sobre a morte e os moribundos, descobriu-se
que a pessoa que está à morte passa geralmente por cinco etapas a
caminho da aceitação pacífica da morte. Estas etapas poderiam ser
caracterizadas como:
1. Recusa (Não, eu não!)
2. Raiva (Maldição! Por que eu?) 3 .
Regateio (Sim, eu, mas e se.. . ?)
4. Resignação desanimada (Sim, vou morrer, mas me sinto muito
triste por deixar este mundo.)
5. Aceitação pacífica (Minha tarefa está terminada. Agora estou
pronto para atravessar as portas da morte.)
Pessoas que entram em contato com moribundos nos previnem que
esse movimento gradual em direção da aceitação pacífica da
morte é um processo. Avisam-nos que se tentarmos mover os mo-
ribundos da etapa em que na verdade estão para a etapa em que
gostaríamos que estivessem, provavelmente interromperemos todo o
processo. Deve-se deixar as pessoas atravessarem o processo de mor-
rer em seu próprio ritmo. A verdadeira aceitação de um moribundo
significa que também aceitamos o ritmo e os sentimentos dessa pessoa
em cada etapa.
Uma orientadora conta a história de uma mulher moribunda que
lhe perguntou:
‰ Este hospital tem uma sala onde se possa gritar? A
orientadora respondeu com calma:
‰ Não, mas há uma capela onde pode rezar. A
pessoa moribunda explodiu:
‰ Se eu quisesse rezar teria perguntado pela capela. Quero
gritar!
Obviamente ela estava na segunda etapa e a conselheira reco-
nheceu o erro de tentar afastá-la de sua raiva. A conselheira sentia-se
constrangida com a raiva e preferia a aceitação pacífica. Quando
tentamos acelerar o processo freqüentemente é porque erroneamente
pensamos que isso ajudará. Além disso, quando alguém está na etapa da
aceitação pacífica é de muito mais fácil tratamento.
O processo do desenvolvimento e do crescimento humanos é
muito parecido com esse processo de aceitação da morte. Temos de
nos mover em nosso ritmo e durante todo o processo precisamos ser
aceitos no ponto em que estivermos. Sabemos, por exemplo, que
não podemos exigir um comportamento consistentemente maduro
por parte de crianças. Devemos deixá-las serem crianças e devemos
aceitá-las como tais. Também sabemos que não podemos exigir um
conformismo rigoroso de adolescentes que estão tentando aprender
a pensar por si mesmos e a tornar-se pessoas independentes.
Em realidade, desde a concepção até a morte, cada um de nós está
envolvido em um processo de mudança e crescimento continuamente
espiralado: nascimento-morte-renascimento em todas as fases de nossa
personalidade. Cada etapa da vida tem em si algumas tarefas
evolucionárias. Para realizar cada tarefa e promover nosso
desenvolvimento pessoal, precisamos estar constantemente envolvidos
em mudança. Obviamente, mudar sempre envolve desistir de antigos
e confortáveis comportamentos, a fim de adotar novos comportamentos mais
amadurecidos.
Há morte e nascimento em toda mudança. E cada morte, seja
grande ou pequena, parece exigir que passemos pelas cinco etapas
do ato de morrer, antes de poder aceitar e sentir uma vida nova. Se
os que nos amam nos aceitarem "em processo", essa será sua maior
dádiva de amor para conosco. A viagem pela vida tem muitos vales
que não podemos simplesmente evitar e também muitas montanhas
a escalar; não podemos simplesmente pular por cima delas.
Também é verdade que precisamos de espaço e de liberdade para
cometer nossos próprios erros. Ensaio e erro parece ser a única
maneira de poder aprender a crescer. A vida é primeiramente um
processo. E, além do mais, esse processo é um ziguezague.
Conseqüentemente, não existem tiranos mais intoleráveis do que
os que exigem que marchemos em seu ritmo, que nos adaptemos às
idéias que têm para nós. As vezes esses guardiões da consciência
coletiva parecem estar dispostos a nos aceitar somente se estivermos
em um ponto designado por eles. Não parecem dispostos a nos
aceitar na condição humana de processo, que sempre envolve ensaio
e erro. Não têm paciência conosco, "cometedores de erros". Quais
instrutores militares, só aceitam "sim, senhor".
Todos temos idéia de como a auto-revelação pode ser assustadora.
As vezes, parece que estamos rastejando por trás de velhos muros que
nos esconderam e protegeram. É como se estivéssemos arrancando as
máscaras e abandonando os papéis, nossa única defesa. Estendemos
com mãos trêmulas a dádiva de nossa franqueza e honestidade.
Desejamos que nossa auto-revelação seja aceita com carinho e com-
preensão. É claro que tentamos não demonstrar nossa insegurança.
Enquanto esperamos os sinais de aceitação, podemos até afetar uma
indiferença casual do tipo "não me importo". Mas lá no fundo estamos
prendendo a respiração e cruzando os dedos.
Quando alguém se recusa a nos aceitar no ponto em que estamos
no grande processo da vida, é como se essa pessoa nos dissesse:
— Não o aceito, não quero o seu dom. Eu pretendia outra coisa,
algo diferente, algo melhor e mais adiantado do que você. Não posso,
de modo algum, aprová-lo ou aceitá-lo como você é.
É claro que não nos fazemos discursos como esse. Quando não
aceitamos um outro no ponto em que está, simplesmente demonstra-
mos impaciência e desapontamento. Então, irrompemos com conse-
lhos que não foram pedidos, geralmente sobrecarregados de sugestões
de mudança e melhora. É óbvio que aceitamos somente o que a
pessoa pode vir a ser, não o que ela já é realmente. Como o Minduim
se lamentou uma vez: "O maior fardo na vida é ter um grande
potencial".
Por que achamos tão difícil aceitar os outros no ponto em que
estão no processo da vida? Por que tentamos mudá-los para um
ponto onde preferiríamos encontrá-los? Estou certo de que pessoas
diferentes têm razões diferentes. Entretanto, o que provavelmente
motiva a maioria de nós é isto: tememos a autocomplacência nos
outros. Deduzimos que, ao aceitá-lo no ponto em que está, você
pode simplesmente querer estacionar ali. Ficará satisfeito consigo
mesmo. Não procurará se aperfeiçoar. De certa forma, essa tentação
parece fazer sentido lógico, mas a verdade psicológica humana é
muito diferente. A verdade humana é que, em face da não-aceitação
e da censura, é muito mais provável que você e eu fiquemos arraiga-
dos a um ponto, estagnados. Teremos pouca vontade ou força para
e aperfeiçoamento e o crescimento. De certo modo, perdemos
nossa força se os outros continuam a mostrar desapontamento e
constantemente nos dão dicas de mudança.
Talvez estejamos ignorando o fato de que cada pessoa tem uma
inerente tendência natural a crescer. O crescimento pessoal é pare-
cido com o crescimento físico. Quando olhamos para o corpo de
uma criança, sabemos que tudo o que a criança precisa é de tempo
e de nutrição apropriada. Em tempo o corpo da criança crescerá
até seu pleno desenvolvimento. Da mesma forma, quando encontra-
mos outro ser humano em algum ponto no decorrer de seu processo
e progresso pessoais, temos de ter fé em que com o tempo e a nutrição
apropriada essa pessoa alcançará a plena maturidade.
A nutrição apropriada ao crescimento pessoal é uma carinhosa
aceitação e o estímulo dos outros, não a rejeição e impacientes suges-
tões de melhora. Os humanos, como as plantas, crescem no solo da
aceitação, não na atmosfera da rejeição. Dissemos que o crescimento
pessoal se assemelha ao crescimento físico: todas as energias
e tendências estão ali. Porém, na maioria de nós, existe uma guerra civil
que atrapalha nosso crescimento pessoal. É nossa luta interior pela auto-
aceitação.
O barulho e o clamor, o jogo de empurra entre a auto-aceitação
e a auto-rej eição produzem os parasitas emocionais que esgotam
todas as nossas energias. Essas energias perdidas eram destinadas
a promover e a produzir o crescimento. Cada um de nós passa por
alguma luta i nterior com a ansiedade, a insegurança, os medos de
incompetência e os sentimentos de inferioridade e de culpa. Essas
forças negativas aumentam sua fúria quando somos criticados e
rejeitados pelos outros. E quanto mais fortes elas se tornam, mais
dolorosa se torna a guerra civil. A visão de nossos ideais fica
obscurecida pela poeira desse conflito interior. As energias
psíquicas que eram para ser dirigidas à busca de crescimento
murcham no calor da luta interior.
Todos somos afetados por essa condição humana de insegurança.
Sempre que tentamos nos abrir, não importa quão indiferentes quei-
ramos parecer a esse respeito, no fundo ficamos amedrontados. Cada
esforço para ser totalmente honesto e franco parece ter um preço
assustador. Precisamos mais que tudo de uma aceitação gentil e
tranqüilizadora. Precisamos de alguém que nos assegure que podemos
ser quem somos e estar no ponto em que estamos.
Quando percebemos sinais de que nosso ouvinte não nos está
dando atenção, quando percebemos sinais de impaciência e desapon-
tamento, a guerra civil de nossos medos interiores se inflama. Os
demônios da insegurança e da inferioridade que nos rondam começam
a se aproximar para nos abater. Cientes de nossa posição perigosa,
provavelmente acharemos que o melhor é ficar prevenido. Lentamente
nos arrastaremos para trás de nossos muros de proteção. Encontra-
remos as máscaras que havíamos jogado fora e decidiremos que é
mais seguro usá-las. Concluiremos que é melhor fingir do que correr
o risco de ser real.
Por outro lado, se você me aceitar no ponto em que estou,
mi nhas energi as e desej os de crescer serão li berados. Se você me
assegurar que está bem estar no ponto em que estou agora, t erei a
coragem de avançar mais adiante. Também começarei a aprender
que posso ser aut ênt ico em mi nha comuni cação sem ser punido
por mi nha franqueza ou rej eitado por mi nha honesti dade.
Leciono teologia em uma estrutura universitária. Não é de todo
incomum nesse ambiente que os estudantes questionem a validade
da fé religiosa. Durante anos, cedi à tentação de discutir, persuadir,
refutar e contrabalançar as dúvidas manifestadas pelos estudantes
com meu próprio sentimento de certeza. Quando finalmente tive a
intuição de que isso era uma forma de não-aceitação e contrária a
tudo em que verdadeiramente creio, mal podia esperar pela próxima
oportunidade. Quando aconteceu, as antigas e comuns objeções
pareceram brandas. Foram apresentadas de uma maneira que era um
tanto cômica em vez de amarga e beligerante. Um jovem alto e
simpático observou que não sentia Deus em sua vida, e duvidava
de outros que diziam sentir. Talvez sentissem, admitiu, mas talvez
apenas tivessem imaginações inflamadas.
Quase me atirei à oportunidade.
— Ei, Joe, isso foi muito honesto de sua parte. Obrigado por
se revelar tão francamente ao resto de nós. Você sabe onde estou,
Joe, aqui na frente, falando sempre sobre isso. Obviamente, você
não está onde estou e isso é bom. Não se espera que você esteja
onde estou. Mas eu gostaria de saber onde está, gostaria de ir até
seu lugar e caminhar um pouco com você.
E assim, lá mesmo na sala de aula, Joe contou toda a sua
história de dúvidas e certezas, então dúvidas sobre suas dúvidas
etc ... Quando concluiu sua história, agradeci-lhe mais uma vez.
Tentei dizer o mais claramente possível que achava que era bom
para ele estar na posição em que estava e que o aceitava ali.
Também mencionei que me lembrava de ter estado na mesma
posição quando tinha a idade dele.
— Você está fazendo perguntas sérias Joe, e isso é bom. Está
sendo honesto sobre suas dúvidas e isso também é bom. De fato,
você é um ótimo sujeito. Espero que saiba disso.
Este foi o começo de uma longa e muito apreciada amizade.
Durante nosso subseqüente partilhar mútuo, ambos avançamos
muito além de onde estávamos naquele dia na sala de aula. Acho
que parte de nosso progresso é devido ao fato de que ele sabe que
o aceito no ponto em que estiver, e por sua vez ele me deixa ser
eu mesmo.
Uma última palavra sobre o assunto. Estivemos discutindo a
importância de aceitar os outros no ponto em que estiverem. Nosso
contexto foi o da comunicação. É óbvio que há ocasiões em que os
pais terão de disciplinar seus filhos em crescimento. Terão de
proibir certos comportamentos prejudiciais. Terão de amar os filhos
com o chamado "amor inabalável". Também, no decorrer de amiza-
des amadurecidas, há ocasiões em que temos de desafiar nossos
amigos de maneira afetuosa. O desafio é, certamente, uma parte
válida do amor. Da mesma forma, há situações que exigem que
confrontemos aqueles que amamos. Por exemplo, se um amigo ou
membro da família está se tornando dependente de drogas, o
verdadeiro amor exige confrontação. Não podemos ficar assistindo
de camarote enquanto aqueles que amamos se autodestroem.
Mas a disciplina, o amor inabalável, o desafio e a confrontação,
todos sairão pela culatra se não forem construídos sobre o alicerce
da aceitação. Em todos os nossos relacionamentos, precisaremos
equilibrar uma ocasional não-aceitação de um comportamento com
uma clara e contínua aceitação da pessoa.
É sempre absolutamente essencial que aceitemos
a outra pessoa no ponto em que estiver no
grande processo de se tornar um ser
humano amadurecido.
Assim, seja você quem for e esteja no ponto em
que estiver em seu processo de vida:
nós o aceitamos e amamos!
ESCUTAR ATENTAMENTE PARA APREENDER A
"CONSISTÊNCIA INTERIOR" DOS OUTROS
Como a comunicação é um partilhar entre duas ou mais pessoas,
ela subentende um bom transmissor ou falante, mas também requer
um bom receptor ou ouvinte. Para nós é muito tranqüilizador nos
sentir ouvidos e compreendidos. Quem é realmente bom ouvinte, faz
mais do que simplesmente entender o "conteúdo" do que está sendo
partilhado. Também procura ouvir seu "contexto".
Com muita freqüência fracassamos nesse mais profundo ato de ouvir.
Por exemplo, pode ser que você me diga:
‰ Todo mundo está sempre me azucrinando. Eles me perse-
guem.
É mai s provável que eu ache que você está exagerando. Incli-
nar-me-ei a considerá-lo um tanto paranóico. Se eu acho que ouvir
apenas as palavras é escutar, pode ser que lhe repita o que ouvi:
‰ Então, eu o ouvi dizer que todo mundo está contra você,
certo?
Assi m, fi co achando que o escut ei. Entendi o cont eúdo, mas
não o contexto de seu par ti l har. Entender só o cont eúdo não é
o bastante.
Posso fazer algo muito mais importante. Posso continuar a ouvir
e encorajá-lo a partilhar mais até que eu obtenha o contexto que está
por trás de sua afirmação aparentemente exagerada. Posso andar
uns dois quilômetros em seus mocassins. Posso entrar em sua pele,
experimentar pensar à sua maneira, ver com seus olhos. Objetiva.
mente, é claro, você provavelmente está errado ao afirmar que todos o
perseguem. A maioria das pessoas nem está pensando em você, muito
menos o perseguindo. Entretanto, se eu fosse filho de seus pais e
educado por eles, se eu fosse membro de sua família e tivesse passado
pelas experiências de sua infância e crescido em sua vizinhança, se eu
tivesse visto tudo isso com seus olhos, então certamente eu
compreenderia por que você pensa e sente dessa maneira. Começaria
a entender a "consistência interior" de seus pensamentos e
sentimentos. Poderia mesmo concluir que, se eu fosse você, prova-
velmente pensaria e sentiria da mesma maneira.
Uma bda vontade para aprender deve ser acrescentada a uma boa
vontade para escutar. Isso é muito difícil para a maioria de nós. Exige
que eu saia do ponto em que estou e vá até o ponto em que você está.
Exige até que eu deixe de lado (não abandone) minhas próprias
convicções, a fim de sentir as suas. Sem dúvida, se eu lhe devolver
não somente minha empatia, mas também minha compreensão de sua
"consistência interior", você certamente ficará muito grato. Sentir-se-
á compreendido. E esse escutar, a fim de aprender, é uma dádiva
muito mais valiosa do que ouvir apenas o bastante para preparar
minhas respostas.
Carl Rogers, famoso psicólogo-orientador, comparou-nos a uma
pessoa que escorregou e caiu em um fundo poço seco. Descreve a
sensação de desespero que a pessoa presa sente, a agonia da frus-
tração de não poder sair do poço. A pessoa que está presa fica
batendo nas paredes do poço com punhos machucados e sangrando.
Toe. . toc... toe... Depois de algum tempo, tudo parece em vão.
Mas a única alternativa é morrer e ser encontrado algum dia
como um monte de ossos no fundo de um poço abandonado. Por
isso a vítima presa continua a bater. Até que, finalmente, há em
resposta uma batida do lado de fora do poço. Toc... toc... toc. Há
uma imediata explosão de alegria e uma enorme sensação de
alívio no pobre e exausto prisioneiro do poço. Pensa: "Alguém
sabe que estou aqui. Graças a Deus! alguém sabe que estou aqui".
Rogers é de opinião de que a maioria de nós somos muito pare-
cidos com essa pessoa presa no poço. Temos a mesma sensação de
solidão e inutilidade. Conhecemos o desespero, a frustração de estar
presos e sozinhos. Mas a única alternativa é morrer sós e desper-
cebidos. Por isso, continuamos tentando. Continuamos batendo nos-
sos punhos machucados e sangrando contra as paredes dos mundos isolados
que nos mantêm presos.
E, então, alguém realmente escuta. Este bom ouvinte não so-
mente ouve nosso pedido de socorro (nossa mensagem) como nos
assegura que somos compreendidos. O bom ouvinte não somente
entende o que dizemos, mas também por que pensamos e sentimos
dessa maneira. Quando percebemos isso, há uma explosão de alegria
e uma profunda sensação de alívio: "Finalmente, alguém sabe que
estou aqui. Alguém sabe o que tenho passado. Graças a Deus!
finalmente alguém sabe como é ser eu".
Como disse Somerset Maugham, cada um de nós é uma compo-
sição misteriosa de nossos lugares, influências e experiências pessoais.
Usando uma analogia tecnológica, somos algo como um computador.
Milhões de mensagens foram alimentadas e gravadas em nossos cére-
bros e sistemas nervosos. Cada músculo, fibra e célula nervosa de
nosso ser gravou e armazenou essas inúmeras mensagens. Para com-
plicar mais as coisas, temos uma "mente inconsciente", um armazém
de dados não-confirmados que nos influenciam constantemente. De
fato, se colocássemos um ser humano normal ao lado do computador
mais aprimorado, o ser humano se mostraria muito mais complexo e
complicado.
Às vezes penso nesse "ouvindo e aprendendo" sobre que
falamos como comparável à procura dos pedaços não encontrados
de um quebra-cabeça. Freqüentemente, a primeira parte da auto-
revelação de outrem sozinha não faz sentido. Um único pedaço de
um quebra-cabeça não faz muito sentido. Mas, então, virá outro
pedaço, se escuto com sensibilidade e com real empatia.
Lentamente, um a um, os pedaços vão aparecer e se encaixar. Aos
poucos, o quadro começa a ficar claro. Certamente, nunca
compreendemos totalmente ninguém, inclusive nós mesmos. Mas
podemos obter uma idéia real de como é ser "outro". Podemos
compreender algo da "consistência interior" dos pensamentos e
sentimentos de outro ser humano. Quando essa espécie de
consolação nos é oferecida é um momento culminante de consolo.
"Graças a Deus! finalmente alguém sabe como é ser eu." A pessoa
que foi realmente ouvida e compreendida ficará provavelmente para
sempre transformada por essa dádiva magnífica.
A maioria de nós, quando no papel de ouvintes, sentimo-nos
compelidos a ser falantes. Sentimos um impulso interior compulsivo
de interromper os outros logo que começam a se revelar. Sentimos
uma estranha obrigação de aconselhá-los e de corroborar nossos con-
selhos com alguns capítulos de nossas autobiografias. Precipitamo-nos
na primeira pausa e continuamos sem parar, a menos que estejamos
exaustos, e a outra pessoa, quase desesperada. Lamentavelmente, fiz
isso com os outros. Outros fizeram o mesmo comigo. Senti a tristeza de
não ser ouvido porque alguém não se importou o bastante para escutar
meu partilhar e aprender quem sou realmente.
Por exemplo, tentei partilhar com os outros um problema ulti-
mamente persistente em minha vida. É a sensação de ter "compro-
missos demais". Recebo cerca de vinte cartas por dia e quase o
mesmo tanto de chamadas telefônicas. A maioria traz um pedido ou
um convite. Às vezes penso que eu deveria ser gêmeo, mas como o
outro sujeito nunca apareceu, sou obrigado a fazer o máximo com o
que tenho, a saber, uma pessoa e um dia de vinte e quatro horas.
Tenho de dizer: "Não, sinto muito!" a muitas pessoas sinceras com
boas causas. Como esse problema é parte profunda da estrutura de
minha vida diária, tenho muitas vezes tentado partilhá-lo com os
outros. A maioria de meus ouvintes são bons, sinceros e bem-inten-
cionados. Entretanto, muitas de suas reações não me têm ajudado.
Concluí que um ouvinte realmente bom é, às vezes, difícil de ser
encontrado. Em minha experiência, há três tipos de não-ouvintes.
O primeiro tipo assegura-me que eu não tenho realmente um
problema. Lembram-me que seria muito mais doloroso levar uma
vida de abandono, ser indesejável e nunca convidado. Às vezes
penso nessa experiência desta forma: estou lhes contando que não
tenho sapatos e eles estão me respondendo que há outros que não
têm pés. Há problemas piores que os meus. É claro. Sei disso. Mas,
de certa forma, afasto-me desse primeiro tipo de não-ouvinte,
arrependido de ter trazido o assunto à baila. Essas pessoas são bem-
intencionadas, mas obviamente não me querem no ponto em que
estou. Dizem-me onde eu deveria estar, o que eu deveria pensar e
como eu me deveria sentir. (Conclusão deles: se eu tivesse a cabeça
no lugar, perceberia que não tenho problema.)
O segundo tipo (ao qual, infelizmente, inclino-me a pertencer,
quando estou no papel de ouvinte) fica ansioso por transformar o que o
falante está partilhando em um problema e depois solucioná-lo. Quando
menciono meu próprio dilema a este segundo tipo, eles sabem
imediatamente o que eu deveria fazer.
— Ouça, arrume uma secretária com mau hálito e a gentileza
de um metalúrgico. Quero dizer, alguém que tenha a diplomacia de
uma marreta. As pessoas, sabendo que terão de tratar com ela, aca-
barão por tirar a sorte para ver quem fará a solicitação.
Aqui também suponho que a simpatia é real e a intenção bondosa. Mas
quero protestar:
— Eu não queria que você solucionasse meu problema. Só que-
ria que o ouvisse. Queria que você me ouvisse.
Sei que as pessoas crescem quando solucionam seus próprios
problemas, não quando os submetem aos outros para que sejam
sugeridas soluções. À vezes não é nada fácil conseguir ser ouvido,
não é mesmo?
O terceiro tipo de não-ouvinte sintoniza apenas o tempo neces-
sário para preparar sua própria bomba. Então, transformam-se no
"Velho Multifaces", e contam suas próprias experiências,
começando no início do século (ou às vezes assim parece).
— Sim, é claro, lembro-me de ter tido exatamente esse problema.
Deixe-me ver agora, foi por volta de 1959...
A data é importante só porque o falante frustrado sabe que
agora agüentará um curso de estudos sobre a história pessoal do
ouvi nte que realmente não ouve.
Ao ouvir uma comunicação humana, não se recomenda que você
minimize o que estou partilhando e coloque as coisas em perspectiva
para mim. Também não seria de grande auxílio interromper meu
partilhar com um conselho bem colocado. E, por favor, saiba que eu
não pretendia que meu partilhar fosse uma introdução a sua história
pessoal. Porém, isto posso lhe assegurar: se escutar por bastante
tempo, finalmente conseguirá pedaços de meu quebra-cabeça
suficientes para me conhecer. Aprenderá como é ser eu. E serei
eternamente grato por esse favor. Sentirei uma explosão de alegria!
— Obrigado por seu tempo, sua paciência e sua perseverança.
Obrigado por querer saber quem eu sou realmente e como é ser
eu. Seu paciente ato de ouvir e sua percepção asseguraram-me que
fui encontrado. Saberei que não estou sozinho aqui no fundo deste
poço.
Assi m, por favor, procure ouvi r o cont eúdo e o
contexto de meu partilhar e agradecerei a Deus
por alguém saber como é ser eu!
PROCUREMOS NÃO ADIVINHAR PENSAMENTOS, JUL-
GANDO AS INTENÇÕES E OS MOTIVOS DOS OUTROS
Na introdução, sugerimos que a imaginação ou fantasia toma
conta onde a comunicação pára. Adivinhar os pensamentos e julgar
as intenções ocultas dos outros é um trabalho da imaginação. Geral-
mente é um trabalho destrutivo. Semelhante uso da imaginação
quase sempre nos engana, levando-nos a becos sem saída. Sei que
toda vez que tentei adivinhar o pensamento ou julgar as intenções de
outrem, errei. Às vezes por pouco, mas quase sempre fiquei muito
longe da verdade.
Fico corado de vergonha ao lembrar a primeira vez que eu estava
dando uma série de palestras do tipo inspirativo para jovens. Durante
minha primeira palestra, havia um jovem na segunda fila que gemia e
resmungava, ofegava e fazia caretas. Olhei severamente várias vezes
para ele, mas nada o intimidava. No fim da palestra, pedi a minha
jovem platéia que permanecesse na sala, a fim de refletir sobre o que
eu falara. Todos permaneceram, menos um. Sim, você está certo, o
jovem que demonstrara irritação passou por cima dos outros em sua
fila e me seguiu para fora da sala.
Durante algum tempo, receei estar emitindo raios letais e ele-
trocutando o rapaz.. Entã9 ele colocou a mão pesadamente em meu
ombro e fez com que eu me voltasse.
‰ O que é? — perguntei, dardejando-lhe meu olhar mais severo.
‰ Realmente sinto muito — disse —, mas vou vomitar.
‰ Oh!
Assim, fomos ao lugar adequado e ele vomitou. Em seguida,
acompanhei-o a seu quarto, para me assegurar de que estaria bem.
(Alguém me havia dito que a apendicite pode começar com náuseas,)
Era um jovem muito nervoso. Confessou que sempre "punha as
tripas para fora em momentos como esse." Perguntei-lhe se estava com
enjôo antes da palestra daquela noite. Contou-me que enjoara no ônibus,
à tarde.
‰ Por que veio à palestra? — perguntei com simpatia.
‰ Porque imaginei que fosse nos dar o tema para toda a série de
palestras e não queria perder.
‰ Esteve enjoado durante a palestra?
‰ Nossa! — disse, cobrindo o rosto com as mãos — Estava tão
enjoado que pensei que ia pôr tudo para fora lá no salão.
Arrependido, eu ainda tinha de satisfazer outra curiosidade:
‰ Se sentiu tanto enjôo durante a palestra, por que simplesmente
não se levantou e saiu?
Disse com um ar de perplexidade por eu não entender uma coisa tão
óbvia:
‰ Porque isso o teria perturbado.
Estava escuro no quarto e creio que ele não me viu corar.
Quando eu estava saindo, satisfeito por ver que ele ia passar bem
a noite, suas últimas palavras foram:
‰ Obrigado por ser tão bondoso.
Depois que fechei a porta e fiquei sozinho no corredor, mur-
murei:
‰ Se ele soubesse que bondoso...
Como já mencionamos, as pessoas são muito complicadas. São
tão "outras", tão diferentes de nós que não podemos projetar nelas
com segurança nossos pensamentos, sentimentos ou motivos. Não
podemos adivinhar seu interior, olhando para seu exterior. Uma vez,
nós (Loretta e John) demos um curso intensivo por um período de três
dias na Austrália. Sussurrávamos um para o outro a respeito do
"homem na quinta fila, mais ou menos no meio". Seu rosto era rígido
e sem expressão. Nem sequer sorria quando contávamos nossas
melhores piadas. Concordamos que ele não estava nem apreciando
nem aproveitando nossas palestras e exercícios. No final, entretanto,
ele veio até nós. Deu seu nome e profissão (era médico). Então
começou a chorar, enquanto nos assegurava que nossas palestras
tinham aberto muitas novas portas para ele. Esperava poder partilhar
um pouco dessa compreensão com aqueles que amava. Depois que
se voltou para sair, nos entreolhamos boquiabertos e de olhos
arregalados. "Não se pode julgar um livro pela capa, não é mesmo?"
Às vezes erramos por pouco, mas quase sempre ficamos muito longe
da verdade.
Já nos referimos à tristeza e ao suicídio de Marilyn Monroe. A
história toda de sua vida, conforme foi revelado depois de sua
morte, foi cheia de equívocos e julgamentos falsos. A maioria do
casting de Hollywood antipatizava com ela. Um diretor jurou
nunca mais querer saber dela, depois que fizeram um filme juntos.
Lamentou:
— Ela tem seios de granito e cérebro de queijo gorgonzola
Nenhuma dessas pessoas infelizes e críticas suspeitaram do vazio e
da dor que havia no coração da prima donna. Às vezes, fico imaginando
se muitas das pessoas fascinantes que sorriem para nossas câmeras
também estarão sorrindo por dentro.
Cometemos os mesmos tipos de erro a respeito dos que estão
próximos de nós, a respeito daqueles com quem moramos ou tra-
balhamos? Seria igualmente presunçoso e tolo adivinhar as intenções
ou motivos de alguém que conhecemos bem? Talvez seja surpreen.
dente, mas a resposta é um nítido "sim". Exatamente como Kramer
parecia não conhecer bem Kramer, assim a maioria de nós somos
realmente desconhecidos, mesmo para os que estão mais perto de nós.
Quanto supomos conhecê-los, esquecemos o elemento do mistério
humano. Após lermos a introdução, pensamos que conhecemos toda a
história. Mas há muitos outros capítulos, cujo conteúdo nem podemos
imaginar.
Quando estávamos revendo os mecanismos de defesa normais,
descrevemos o que é chamado de "formação de reação". É uma forma
de compensação pelos pensamentos, sentimentos e supostas fraquezas
que não queremos admitir. O menino que tem medo da escuridão da
noite "assobia no escuro". A maioria de nós não queremos usar nossas
fraquezas e limitações onde todos podem vê-las. Por isso as mantemos
reprimidas, assumindo ares enganosos. Quando não podemos viver
confortavelmente nas áreas cinzentas da dúvida, vemos tudo em
branco e preto. Se não podemos admitir nossas raivas
ocultas, tornamo-nos excessivamente doces. E, por favor, note que esses
procedimentos são inconscientes. Enganamos até a nós mesmos! Já que
todos fazemos isso, tentar adivinhar os pensamentos dos outros é uma
atitude extremamente tola e presunçosa.
Até certo ponto todos nós nos empenhamos em "formação de
reação". Por exemplo, a maioria dos homens provavelmente se
preocupam com o que interpretam como covardia em si mesmos. Por
isso, tentam parecer "machos" e fortes. Muitas mulheres são
programadas para não demonstrar inveja, por isso não se comprazem
em inveja. Simplesmente diminuem a concorrência com um tipo de
crítica condescendente. Mas esses são apenas exemplos isolados. A
maioria de nós não somos seguros o bastante para reconhecer e
expressar nossos medos e fraquezas. Nossos problemas interiores
resultam geralmente em compensações exteriores. Afetamos qualida-
des fingidas e adotamos um comportamento mordaz. A maioria das
pessoas nos deixa agir como queremos, mas de vez em quando algum
leitor voluntário do pensamento alheio se oferece para ver através de
nós. No fim, ficamos sabendo que eles estão tão errados a nosso
respeito quanto estamos a respeito dos outros, quando brincamos de
adivinhar seus pensamentos.
Espero que você consiga se lembrar de alguma ocasião em que
pensou que havia adivinhado corretamente os motivos e intenções de
outrem e depois descobriu que a realidade oculta era muito diferente.
Espero que tenha ficado chocado e surpreso, por exemplo, ao
descobrir, sob uma guirlanda de sorrisos, uma solidão vazia. Espero
que tenha descoberto por experiência pessoal exatamente como
podemos ser misteriosos. Uma só dessas descobertas já pode nos
fazer hesitar. Nossos julgamentos errôneos fazem-nos reavaliar nossa
habilidade de adivinhar pensamentos e julgar intenções.
Lembro-me de alguém que parecia confiante ao ponto de parecer
arrogante. Era invariavelmente antipatizado pela maioria das pessoas.
Então, um dia eu o ouvi confessar:
— Não espero sucesso quando faço alguma coisa. Só desejo que
meus fracassos não magoem outras pessoas.
Toda vez que sou tentado a enxergar através de alguém, recordo
minha surpresa ao ouvir essa confissão.
Também me lembro de uma bonita jovem dizendo-me que se
sentia feia porque quando era pequena tinha excesso de peso. As
outras crianças lhe punham apelidos e caçoavam dela. Mesmo
depois da adolescência ela ainda se identificava mentalmente com
a menininha obesa que era tão ridicularizada. É muito difícil desen-
ganchar-nos de nosso passado e lidar com nós mesmos da maneira como
somos agora, não é?
Esta é uma das razões pelas quais os membros de uma mesma
família não chegam a conhecer realmente uns aos outros. Todos
temos tendência a nos relacionar com os membros de nossa família
como eles eram no passado. Os filhos mais novos continuam sendo os
"bebês" da mamãe aos olhos dos outros membros da família. Ou os
filhos mais velhos simplesmente não querem admitir que um irmão ou
irmã mais jovem cresceu e agora é um igual. E, talvez a mais comum
de todas, esperamos que os outros membros da família façam as
mesmas escolhas de vida que fazemos. Inclinamo-nos a conseguir os
"números" das pessoas, bem cedo na vida e a colocá-los em
classificações concisas e nos recusamos a reclassificá-los. Não
conseguimos nos desenganchar de nossos passados e não deixamos os
outros se desengancharem das memórias que temos deles. E, é claro,
isso é especialmente verdade no caso daqueles que estão mais
próximos de nós.
Às vezes por pouco, mas quase sempre por muito, erro toda vez
que tento adivinhar pensamentos e julgar intenções. E, assim, cheguei
à conclusão de que a única maneira de saber o que alguém está
pensando ou pretendendo é simplesmente perguntar a essa pessoa.
Obviamente, somos todos um tanto enganados por nós mesmos e, assim, o
que outrem nos diria em resposta a nossas perguntas pode nem
sempre ser exato ou mesmo verídico. Mas com certeza bate nossas
melhores suposições. Além do mais, perguntar sempre provoca uma
troca de comunicações, exatamente como é certo que adivinhar
pensamentos e julgar tendem a interromper as linhas de comunicação
e separar as pessoas.
Assim, a próxima vez que acharmos que estamos certos, devemos
conferir nossas pressuposições. Os seres humanos são simplesmente
muito complicados e muito diversos para adivinhação. Se você acha que
alguém fez uma observação com sarcasmo, pergunte:
‰ Você realmente quer dizer isso?
Pode muito bem descobrir que foi apenas uma piada de mau
gosto. A próxima vez que tiver certeza de que alguém não gosta
de você, tome a liberdade de perguntar:
‰ Olhe, percebo que não se sente à vontade comigo. Estou
interpretando-o corretamente, ou é apenas imaginação?
Tenho certeza de que o esclarecimento envolverá alguns zi-
guezagues que você não tinha previsto. Lembro me de uma aluna
que não fazia segredo de sua antipatia por mim. Aí fui perguntar-lhe
a respeito.
‰ Embaracei-a ou tratei-a mal?
‰ Não — respondeu — É sua segurança e evidente alegria
que me incomodam. O senhor entra na sala e parece tão feliz e tão
cordial que não consigo suportar. Sou muito introvertida e preciso
fazer um esforço enorme só para dizer "olá" a alguém. Acho que o
detesto por fazer isso parecer tão fácil.
Fiquei parado, boquiaberto, até que consegui dizer:
‰ Ê mesmo?
As vezes por pouco, às vezes por muito,
mas há sempre uma surpresa nos esperando
na verdade interior de outrem! Tomara que
você goste de surpresas.
EXPRESSEMOS REAÇÕES EMPÁTICAS E TRANQUILIZADORAS
QUANDO OS OUTROS ESTÃO SE REVELANDO A NÓS
Em uma das cenas do filme "Rocky I", Adrian, a namorada do
"garanhão italiano", retira-se para trás de uma porta fechada. Rocky bate
várias vezes, sem obter resposta. Finalmente diz, naquele seu jeito
inigualável:
— Sabe, não estou acostumado a conversar com uma porta. Mas
continua sem resposta.
Às vezes, quando tento o doloroso processo de me abrir e não
obtenho uma reação tranqüilizadora, tenho vontade de usar as palavras
de Rocky. A sensação de estar falando com uma porta é sempre
desagradável e desanimadora. É uma verdadeira ducha fria. O que
realmente desejamos é uma reação empática, uma garantia de que fomos
ouvidos e de que o ouvinte juntou-se a nós em nossa experiência.
A empatia tem sido muitas vezes comparada com a simpatia e a
neutralidade. Pela simpatia, compartilhamos as reações emocionais de
outrem. Juntamo-nos a essa pessoa principalmente em seu sofrimento.
Há sempre o perigo, quando oferecemos nossa simpatia, de parecermos
superiores e condescendentes. Exprimimos nossa aversão por essa
simpatia condescendente quando insistimos que "não queremos que
tenham pena de nós". A neutralidade se parece com a porta fechada. A
neutralidade diz:
— Eu realmente não me importo.
Essa espécie de indiferença é muito dolorosa para a maioria
de nós.
Pela empatia, compartilhamos mais totalmente da experiência
de outrem: os pensamentos, sentimentos e atitudes daquela pessoa.
Pela empatia, colocamo-nos no lugar de outra pessoa. Pelo poder de
nossa mente e imaginação, pensamos o que essa pessoa pensa,
queremos o que ela busca, sentimos seja o que for que ela esteja
sentindo. Em resumo, passamos pelo que essa pessoa está passando.
Quando lemos uma história ou assistimos a um filme, geralmente
sentimos uma empatia instantânea. Identificamo-nos com os persona-
gens, passando indiretamente por suas experiências. Mesmo se a história
ou o filme é ficção, os personagens se tornam reais para nós.
Identificamo-nos intensamente com eles. Nosso coração bate mais forte,
nosso cabelo se eriça e percorremos com eles toda a gama de
pensamentos e sentimentos. Em certo sentido, assumimos suas iden-
tidades. De certa forma, nós nos transformamos neles através do
processo de empatia. Às vezes, até desejamos que os "maus elementos"
escapem porque nos identificamos com eles. Nós os consideramos
vítimas, embora estejam contra os "bons sujeitos" da história.
A empatia, como as outras práticas envolvidas na comunicação, é
uma habilidade que pode ser desenvolvida. As vezes, acho que o
principal obstáculo à empatia é nossa crença persistente de que todo
mundo é exatamente como nós. Insistimos em crer que todo mundo vê
as coisas de nosso modo. Achamos que todo mundo reage exatamente
como nós. Para desenvolver nossos poderes de empatia, temos de
reconhecer a diversidade única de todo ser humano. Devemos ser
capazes de abandonar nosso próprio sistema de coordenadas e nossos
próprios instintos e de assumir os de outrem. Em certo sentido, a
empatia é a arte fundamental do ouvinte no processo de comunicação.
Somos de opinião de que a empatia é difícil por causa de nossas
diferenças. É principalmente difícil quando alguém discorda de nós
ou realmente não gosta de nós ou de algo que estejamos fazendo. Sair
de nossa pele e nos colocar na deles em momentos como esse é a
perfeição da empatia. Não se consegue escalar essa montanha sem
bastante experiência anterior com colinas mais baixas. A empatia,
como a maioria das habilidades, é adquirida somente na prática
gradual.
Os orientadores sabem que freqüentemente a coisa menos impor-
tante na auto-revelação de outrem são as palavras que usam. Em um
esforço para desenvolver nossa empatia, devemos prestar atenção nas
mensagens verbais dos outros. Mas ainda mais importante são os
sinais não-verbais. Estes incluem expressões faciais, inflexão e tom
de voz, pausa e linguagem corporal em geral. Não é fácil andar dois
quilômetros com os mocassins de outrem. Entretanto, se realmente
queremos penetrar os pensamentos e atitudes de outrem e participar
de sua total experiência, somos capazes de consegui-lo. O primeiro
passo necessário é descalçar nossos próprios mocassins.
Às vezes, oferecemos a outrem apenas nossas cabeças. É
relativamente mais fácil escutar só com a cabeça. Cuidadosamente
examinamos os fatos apresentados e a lógica envolvida. O ouvinte
que está usando só a cabeça pode facilmente fazer com que aquele
que quer se auto-revelar se sinta um caso ou um problema. Entre-
tanto, ao ouvir somente os fatos, ouvimos só uma parte e perdemos
o todo. Geralmente o ouvinte que usa só a cabeça é desviado da
verdadeira empatia porque ouve só as palavras literais.
‰ Você disse exatamente isso — nos lembra.
Entretanto, raramente as palavras significam a mesma coisa para
pessoas diferentes. Oradores e professores são advertidos com
freqüência:
‰ Não ouça somente a pergunta, ouça quem a faz.
Outro obstáculo à empatia origina-se do fato de que nós geral-
mente pensamos muito mais depressa do que somos capazes de falar.
Conseqüentemente, um ouvinte tem de se esforçar para se concentrar
na pessoa que está se auto-revelando. Como pensamos mais depressa
do que a pessoa consegue falar, pequenos devaneios são uma verda-
deira tentação. Se sucumbirmos à tentação, o falante provavelmente
notará isso e poderá concluir que estamos entediados ou indiferentes.
O mais sério obstáculo à empatia, entretanto, é a fixação em nós
mesmos. Tendemos a relacionar o que estamos ouvindo a nossas
próprias experiências. Fazemos de nós e de nossas experiências a
norma para todo mundo. "É esquisito", refletimos quando ouvimos
algo que nunca experimentamos. "Talvez o elevador deste cara pre-
cise ser verificado, acho que não sobe até o último andar." Ou temos
uma agenda de "coisas por fazer" e imaginamos por quanto tempo
o falante vai continuar a nos atrasar para realizar o que planejamos.
De alguma maneira essa impaciência vai transparecer, apesar de nos-
so pretenso interesse. O falante lerá claramente nosso letreiro:
"Desculpe. Você não está classificado como uma Pessoa Muito
Importante".
Lembro-me da noite em que recebi um telefonema de um jovem
preocupado, cuja voz tremia ao me perguntar:
‰ Posso ir vê-lo esta noite?
Felizmente percebi a angústia e a ansiedade em sua voz e
imediatamente convidei-o a "vir já". Quando chegou a meu escri-
tório, não se sentou, e ficou andando nervosamente de um lado para
o outro. Contou-me sua extrema ansiedade enquanto discava meu
número tentando me encontrar. Disse que ficou repetindo a per-
gunta: "E se ele não estiver?" Como esse jovem tentara várias vezes
o suicídio, presumi que sentira a morte aproximando-se sorrateira-
mente, cercando-o. Precisava de ajuda, e agora. Eu sabia que a
origem de sua angústia era sua tendência homossexual.
Depois que descarregou um pouco de seu nervosismo inicial
andando pela sala, convidei-o a sentar-se e comecei:
‰ Frank, não sou homossexual e nunca ti ve vontade de me
suicidar. Mas imagino com freqüência como seria. Acho que é uma
experiência diferente para diferentes pessoas, mas desej o
real mente saber como você se sente. Como é ser você? Pode me
ajudar a compreender? Quando se levanta pela manhã e olha no
espelho, qual é sua reação ao que vê?
Não era um estratagema de aconselhamento. Eu realmente dese-
java saber quem meu jovem amigo era e o que estava passando. E,
aparentemente, as poucas perguntas que fiz era tudo de que pre-
cisava para começar. Com encorajamento ocasional de minha parte
em forma de outra pergunta, ele falou durante uma hora. Descreveu
vividamente sua solidão, seu penoso relacionamento com a família,
seu sentimento de abandono e isolamento. Falou sobre o ódio que
tinha de si mesmo e descreveu-me nitidamente um autodesprezo que
o estava roendo como se fosse um câncer. Em certo sentido, foi
como ler um romance fascinante ou assistir a um filme absorvente,
mas trágico. Consegui, pelo menos nessa ocasião, sair de onde eu
estava e penetrar o interior de uma pessoa muito angustiada, cujas
experiências foram muito diferentes das minhas. Devo ter
resmungado com empatia umas cem vezes.
Por fim, meu jovem amigo levantou-se e sorriu. Lembro-me de suas
palavras:
‰ Sabe, quando entrei aqui, sentia-me como Humpty Dumpty,
completa e irremediavelmente partido em mil pedaços. Disse a mim
mesmo: "Nem todo o poder do mundo pode me consertar". Mas,
sabe de uma coisa... sinto-me inteiro novamente. Realmente não
entendo, mas é bom sentir-me inteiro de novo.
Apertou minha mão calorosamente e saiu sorrindo.
Então me sentei, fechei os olhos e refleti sobre essa experiência.
Acho que aquela noite desci a vales e escalei montanhas onde nunca
estivera antes. E acho que aprendi bastante sobre o poder benéfico da
empatia. Já se disse que nunca saímos de casa e voltamos como a
mesma pessoa, porque somos modificados por nossas experiências.
Tenho certeza de que é igualmente verdade que nunca saímos de nós
mesmos para viver brevemente na pessoa e no mundo de outrem e
voltamos para nossas vidas como a mesma pessoa. A cura e a
transformação da empatia são sempre mútuas: cura e transforma tanto
quem recebe como quem dá.
Para mim, o convite à empatia começa com esta pergunta: como
é ser você? E se estou realmente fazendo essa pergunta ao me
relacionar com outrem, esse outro ouvirá minha pergunta como uma
declaração de interesse: "Eu me importo". Quer estejamos
lamentando ou festejando, achamos difícil ficar sozinhos. Uma
reação empática da parte de outrem consola e reanima. Diz-nos de
forma clara e evidente:
— Você não está sozinho. Estou com você porque me importo. É
certamente bem melhor do que conversar com uma porta.
Penso, às vezes, que o principal obstáculo à
empatia é nossa crença onisciente de que
todos são como nós.
ESCLAREÇAMOSAMENSAGEMQUESTÁSENDOTRANS-
MITIDA, TENTANDOSEMPREENTENDER
CORRETAMENTEOQUEOS OUTROSQUEREMDIZER
Quando peço a alguém que me escute, estou procurando estabe-
lecer uma ligação. Quero, de alguma forma, entrar em contato com
outro ser humano. Às vezes só desejo uma troca de amenidades. Em
outras situações, posso querer ocasionar uma espécie de troca.
Talvez eu queira persuadi-lo a fazer alguma coisa ou aceitar alguma
coisa. E existem ocasiões em que a ligação é para uma reflexão
partilhada, quando você e eu juntamos nossas idéias para explorar
algum assunto. Há muitas intenções que posso ter para entrar em
contato com você. Talvez as mais importantes dessas ligações de
comunicação sejam aquelas em que lhe peço apenas que me com-
preenda. Preciso que você me escute para que possa entrar em meu
mundo e conhecer quem eu sou realmente. Quando essa ligação é
realizada e percebo que você me compreendeu — que você sabe
como é ser eu — então não me sinto mais sozinho.
Vamos virar isso ao contrário e supor que eu o esteja escutando
de forma atenta e aquiescente. Resisto à tentação de adivinhar seus
pensamentos, tentando apenas imaginar como é ser você. Entretanto,
mesmo com essas boas intenções e esses esforços ainda não tenho
certeza de que estou entendendo. Não tenho certeza de que sei
realmente o que você está tentando partilhar. Não quero preencher
essa lacuna adivinhando ou presumindo que sei o que você quer dizer.
Isso poderia ser perigoso. Quero ter certeza de que realmente o
ent endo e entendo o que quer di zer. E quero que você se
assegure de que r eal ment e ent endo. Assi m, o que faço?
Nesse caso tenho de me esforçar para esclarecer sua mensagem.
Existem três tipos de esclarecimento. Cada um desses tipos trata de
um nível de compreensão diferente. O primeiro desses tipos é sim-
ples: pedir mais informações. Se a mensagem que estou recebendo
parece indireta ou incompleta, tenho de procurar localizar o que está
faltando. O segundo tipo de esclarecimento é: verificar o signi-
ficado das palavras. Pode ser uma questão de uso das palavras. Os
significados que você dá a suas palavras podem ser muito diferentes
dos que eu estou captando. Nesse caso, devo pedir a você que
partilhe suas definições comigo.
Finalmente, podemos chamar o terceiro tipo de esclarecimento
de: verificar minha compreensão de sua experiência. Nesse caso, o
conteúdo e o significado das palavras podem estar claros, mas, de
certa forma, não estou certo de ter realmente compreendido todo
o tom ou impacto emocional de sua experiência. Então, devolvo-lhe seu
partilhar como o entendi para assegurar que realmente apreendi
o impacto de sua experiência em você. Terei de pedir-lhe que me
ajude a compreender as dimensões da experiência que podem ter-me
escapado. Em cada um dos três tipos de esclarecimento, um bom
ouvinte está apenas tentando ter certeza de que o significado do falante
foi corretamente compreendido. É óbvio que isso é importante.
Vamos voltar a cada tipo de esclarecimento individualmente. O
primeiro tipo é: pedir mais informações. Pode ser que a mensagem
do falante tenha sido indireta ou incompleta. O falante pode ter dito
algo como:
— Estou realmente com raiva.
Nesse caso, é um tanto óbvio que não foi transmitida muita
informação. Não foram relatadas sensações nem pensamentos. Não
foram mencionadas motivações nem decisões. Como ouvinte, não
sei de quem ou de que você está com raiva. Está com raiva de mim?
De outra pessoa ou de alguma coisa? O que provocou sua raiva?
Como ouvinte que deseja compreendê-lo e a sua mensagem, sim-
plesmente preciso de mais informações. A única forma de consegui-
las é pedindo a você, e é o que faço.
A forma como peço é uma parte muito delicada e sensível do
processo. Devo buscar mais esclarecimentos usando o pronome "eu"
e ainda assim mantendo o foco em você. Por isso, digo-lhe por que
eu estou perguntando, mas dirigirei minhas observações a uma com-
preensão de você em vez de focalizar minha própria confusão. Por
exemplo:
— Estou confuso e quero entendê-lo mais claramente.
Por esse começo você fica sabendo o que está provocando minha
pergunta, a saber, minha confusão. Também fica sabendo por que
estou buscando mais informações e o que vou fazer com elas: entendê-
lo mais claramente. Se meu problema e minhas intenções não
estiverem claros para você, ficaremos ambos confusos e no escuro a
respeito um do outro. E, na busca de alguma luz, provavelmente
tropeçaremos em falsas pressuposições e concepções errôneas. E então
estaremos próximos da censura e de outras manobras de autodefesa.
Os dois diálogos seguintes são exemplos que demonstram esse
primeiro tipo de processo esclarecedor. Tenho certeza de que você
notará que um está organizado de forma destrutiva e o outro de
forma construtiva.
SALLY : Estou realmente com raiva!
JOE: Por quê? Calculei que estava agitada por algum mo-
tivo.
SALLY: Bem, obrigada por nada. O que você quer dizer
com esse por quê? Se você fosse eu, também estaria com
raiva.
JOE: Sim! Pode ser que lhe interesse saber que agora estou
começando a ficar com raiva também.
* * * * *
SALLY: Estou realmente com raiva!
JoE: Eu desejo saber o que realmente está se passando
com você. Percebo que está com raiva, mas não sei o que
aconteceu. Pode me esclarecer?
SALLY Sim, acho que posso. Tudo começou hoje de ma-
nhã...
Para esclarecer uma mensagem quando ela estiver incompleta,
precisarei fazer duas coisas. Devo decidir que informação não está
sendo transmitida: sensações, pensamentos, sentimentos, motivações,
decisões, ações, ou mesmo o acontecimento motivador. Depois devo
dizer-lhe por que preciso da informação adicional, o que preciso e o
que pretendo fazer com isso. Realmente é muito simples. Nossa
primeira preocupação deve ser manter tudo claro.
O segundo tipo de necessidade de informação, verificar o signi-
ficado das palavras, lida com os diferentes significados e usos das
palavras. Em várias partes deste livro, discutimos a singularidade dos
indivíduos. Essa singularidade reflete-se na "consistência interior" de
cada pessoa, bem como na "linguagem" e no "processo" caracte-
rísticos que cada pessoa usa. Essas diferenças dão à experiência
humana uma riqueza e uma diversidade reais. Também podem, entre-
tanto, dar origem a confusão no processo de comunicação. A confu-
são, é claro, surge do fato de que cada palavra que uso tem para mim
um significado definido que é provavelmente uma gradação ou duas
diferente do significado que você daria a essa palavra.
É uma tentação esperar que todo mundo entenda todos os nossos
significados e usos. É muito mais realista aceitar nossas diferenças
como um fato. Se eu começar com essa pressuposição, esperarei
sempre ter de esclarecer algumas palavras quando estou ouvindo os
outros. Por exemplo, li recentemente um artigo que discutia se as
personalidades sofrem mudança depois de certa idade. O autor con-
cluiu que tudo depende da definição que se der a personalidade e do
que se quiser dizer com a palavra mudança. Aqui estão alguns outros
exemplos:
MARK : Eles dizem que não vai demorar muito.
Arar: Estou tendo um pouco de dificuldade para entender
o que você disse. Não estou bem certa a quem você se refere
quando diz eles.
MARK: Aos sujeitos lá no serviço. Dois deles acabaram de
passar pela mesma coisa que estamos passando.
* * * * *
CAROL: Estou tão ansiosa para que chegue a quarta-feira.
TED: Não entendo. Quando diz que está ansiosa, você quer dizer
que está preocupada ou excitada?
SUE: Vai ser realmente um desafio para mim.
JOAN: Não estou certa do que você quer dizer. Para você
um desafio é algo que aguarda ansiosamente ou algo que
teme?
Imagine só o que teria acontecido à comunicação em cada um
desses diálogos se o ouvinte não tivesse esclarecido algumas palavras.
Tenho certeza que você já teve, como eu, conversas inteiras que
saíram completamente de seu curso. O falante foi em uma direção;
o ouvinte noutra. Então, um dos dois percebeu que a origem da
confusão era uma diferença na definição das palavras. Às vezes
essa descoberta é feita durante a troca de palavras. Outras vezes,
infelizmente, é feita só no dia seguinte, ou mesmo anos mais tarde.
Recentemente, vi uma frase anônima pendurada na parede de um
armazém. Parecia expressar a frustração ou talvez o ridículo de um
intercâmbio no qual a mensagem não se transmite claramente do falante
para o ouvinte.
Sei que você
crê que entendeu
o que pensa que eu disse,
mas não tenho certeza
se você percebe
que o que ouviu
não é o que eu quis dizer.
O terceiro e último tipo de esclarecimento é: verificar minha
compreensão de sua experiência. Essa abordagem é valiosa quando
as informações estão completas e os significados das palavras são
mutuamente entendidos, mas o "tom sensível" não foi percebido cla-
ramente. Não tenho certeza sobre que efeito as coisas que você está
partilhando estão tendo sobre você. Devo me lembrar de que meu
objetivo como ouvinte não é apenas entender o que você está
dizendo, mas também compreendê-lo. Desejo saber como é ser você.
Como você se percebe a si mesmo, às outras pessoas e à vida?
Como sente determinados acontecimentos? Para saber essas coisas
preciso entender claramente tudo o que você está tentando
expressar. Quero ter certeza de que a mensagem que está enviando é
a mensagem que estou recebendo (mensagem enviada = mensagem
recebida). Quero me assegurar de que realmente entendo todas as
dimensões de seu partilhar. Do contrário, poderíamos estar passando
como navios dentro da noite.
Neste terceiro tipo de situação, o ouvinte percebe que ouvinte e
falante não estão partilhando plenamente a experiência que está sendo
comunicada. Uma experiência partilhada mutuamente simplesmente
não está acontecendo. Nesse caso, ambas as pessoas precisam
pacientemente ir para trás e para diante, parte por parte e tentar "viver"
juntos a comunicação total. Em teoria, o processo seria assim:
1. O falante partilha a primeira parte da troca de palavras.
2. O ouvinte devolve o que foi ouvido e o que não foi, o que está
claro e o que não está.
3. O falante confirma a parte que foi ouvida corretamente e
repete de outra maneira o que não foi ouvido ou não está
claro.
4. O ouvinte devolve sua nova compreensão que resultou do
esclarecimento.
5. E assim por diante, até que tanto o falante como o ouvinte
estejam seguros de que ocorreu uma plena compreensão.
Por exemplo:
JERRY : Gostaria de conversar com você sobre como estou
me sentindo a respeito de meu emprego. Ultimamente tenho
estado bem incomodado.
PEGGY : Lamento muito ouvir isso. Você está com algum
problema? O que aconteceu?
JERRY : Não é sobre o problema que quero conversar. Eu
gostaria apenas de clarificar como me sinto.
PEGGY: Acho que entendo. Você prefere conversar sobre
seus sentimentos, é isso?
JERRY : Sim, acho que é isso. Detesto realmente meu
chefe e odeio o trabalho que estou fazendo. Estou tão
entediado que me sinto como se estivesse embalsamado. É
como estar num ramerrão. Não sinto nenhum entusiasmo.
PEGGY: Parece mesmo desanimado. Você se considera de-
primido ou essa é uma palavra muito forte?
JERRY : Odeio ter de admitir esse sentimento, mas acho que
estou realmente deprimido.
PEGGY : Acho que estou seguindo o que diz. Gostaria de
ouvir mais sobre isso.
Essa troca de palavras poderia continuar até que o falante
esteja seguro de que toda a mensagem a ser partilhada foi captada
pelo ouvinte. Acho que a maioria dos falantes tem uma idéia disso e
sabem quando foram claramente ouvidos. E é importante convencer
disso o ouvinte. Essa última abordagem, a fim de se obter clareza, é
geralmente reservada para assuntos muito importantes.
Algumas precauções devem ser acrescentadas sobre o uso desses
processos de esclarecimento. Nunca devemos, é claro, interromper o
falante no meio de uma sentença, apenas para esclarecer o significado
de uma palavra. É óbvio que devemos esperar até que o falante
termine seu partilhar. Ou, se há muito material, devemos esperar um
intervalo apropriado para interpor nossas perguntas de esclarecimento.
Qualquer desses três tipos pode ser usado em excesso.
O uso excessivo provavelmente parecerá mordaz e provocará a
inibição ou mesmo a irritação no falante. E reações como essas inter-
romperão, com toda a probabilidade, todo o processo de comunicação.
Nunca devemos esperar ou antecipar uma perfeita compreensão.
Isso é humanamente impossível. E se usarmos excessivamente essas
abordagens de esclarecimento, em um esforço de assegurar essa per-
feita compreensão, nosso falante ou desistirá ou nos classificará
entre os "críticos exagerados que devem ser evitados". Ao contrário,
enquanto escutamos outrem, podemos começar a ter uma sensação de
perplexidade e confusão. Podemos sentir a tentação de fazer uma
pressuposição arriscada. Todas essas reações interiores são provavel-
mente avisos para nós de que há necessidade de esclarecimento.
A prática desses processos de esclarecimento dos ouvintes pode
também nos ajudar como falantes. Quando estamos partilhando, é
importante dar os detalhes de que nosso ouvinte vai precisar, definir
nossos significados onde possam estar vagos e tentar dar um "tom
sensível" a nossa mensagem.
Ao procurar um esclarecimento em qualquer desses três níveis, a coisa
mais importante é que nossas intenções sejam claras ao falante. E nossas
intenções devem sempre provocar:
— interesse no falante;
— gentileza e paciência com o processo;
— e desejo de entender plenamente o partilhar
de outrem.
Passar como navios dentro da noite é uma
alternativa solitária e dolorosa.
OFEREÇAMOS SUGESTÕES, NUNCA INSTRUÇÕES
(N.B. : Esta regra não se aplica à educação de crianças. É óbvio
que as crianças precisam de instruções e de amorosa disciplina que
reforcem as instruções dos pais. Mas, à medida que vão crescendo,
devem ser ajudadas a se transformar, aos poucos, em adultos inde-
pendentes. Como adultos devemos assumir a responsabilidade
pessoal por nosso comportamento e por nossas vidas. Tal
responsabilidade deve ser passada gradualmente à criança, a fim de
que ela possa se tornar um adulto responsável. )
Crescemos e nos desenvolvemos de muitas maneiras. Entretanto,
nosso crescimento pessoal surge em grande parte pelo exercício de
nossos dois poderes especificamente humanos: a mente e a vontade.
Não podemos ser impedidos de ter nossos próprios pensamentos e de
fazer nossas próprias escolhas. E claro que isso significa claramente
que, às vezes, pensaremos de forma errada e faremos algumas
escolhas infelizes. "Errar é humano . . ." Em um sentido muito real, se
devemos amadurecer, precisamos do direito de errar. Ensaio e erro é a
história de nossas muito humanas vidas. É assim que crescemos.
O único meio seguro de não crescer é pedir e conseguir carona
na mente e na vontade de outra pessoa. Nunca amadureceremos se
deixarmos os outros pensarem por nós e fazerem nossas escolhas. A
conclusão é que dizer a outrem o que pensar, interpretando a
realidade para essa pessoa, é atrapalhar seu processo de amadureci-
mento. Da mesma forma, dizer a outrem o que fazer é ajudar e
incentivar a imaturidade e uma dependência infantil.
Mais concretamente: suponhamos que você me procure para
falar de uma outra pessoa que está sempre precisando de ajuda.
Depois de escutar o bastante para formar minha própria opinião
intransigente, interponho:
‰ Não percebe que ele simplesmente o está usando?
Mesmo que eu esteja correto em minha rapidíssima análise de seu
amigo, ainda assim estou lhe dizendo o que deve pensar. Estou
interpretando as pessoas e os acontecimentos por você.
Suponhamos ainda que você tenha de tomar uma decisão e venha
até mim e me pergunte:
‰ O que devo fazer?
Como me perguntou, respondo-lhe:
‰ Sem dúvida, você deve fazer isto, isso e aquilo. E, por favor,
avise-me como caminham as coisas. (Tradução: apresente-me um
relatório.)
Mais uma vez, pode ser que meu conselho tenha atingido o
alvo, mas, mesmo assim, estou lhe dando uma decisão "pronta".
Você não terá de tomá-la por si. Não terá de crescer.
Em qualquer dos casos, ambos sabemos o que fará da próxima
vez que surgir um problema em sua vida, não sabemos? Você vai
me procurar para que o tire da "enrascada" e, quanto mais o fizer,
mais dependerá disso. Tornar-se-á cada vez mais incapaz e depen-
dente de mim. Isso pode ser uma verdadeira tentação. Sentir-me-ei
muito necessário e me aquecerei ao brando sol de sua gratidão,
podendo mesmo me considerar muito virtuoso. Depois de algum
tempo, você e eu ficaremos presos aos papéis de "ajudante" e
"ajudado". Se eu fizer isso com muitos outros, logo estarei encora-
jando uma clientela de almas dependentes e extraviadas que neces-
sitarão de me procurar regularmente. Semelhante arranjo adiará o
amadurecimento de todos os envolvidos.
Minha própria tendência de fazer exatamente isso me foi revelada
de forma brutal durante um seminário de comunicação. Uma noite,
nós todos, os sessenta participantes, estávamos sentados ao longo das
paredes de uma grande sala quadrada. Disseram-nos para nos dirigir
ao centro da sala somente se tivéssemos vontade e quando a
tivéssemos e para "deixar a música movimentar nossos corpos". O
processo era claramente diferente da dança ("sem parceiros") e nos
disseram para mover apenas as partes do corpo ("cabeça ou
braços ou pernas") que respondessem à música tocada. Logo come-
çamos a ouvir música em estéreo. Mais ou menos na metade da
primeira canção, ninguém se levantara e se dirigira ao centro da
sala. Por isso decidi quebrar o gelo. Depois de algumas piruetas,
notei que todo mundo se juntara a mim no centro da sala e estava se
mexendo. Fiquei satisfeito comigo mesmo.
No dia seguinte, em nosso grupo de seis, a que era obviamente
o membro mais "frágil" de nosso grupo de repente se desfez em
lágrimas. Confessou ao grupo que, se estávamos desapontados com sua
participação, ela concordava com nosso desapontamento. Entre copiosas
lágrimas e soluços, assegurou-nos que, se tivesse um profundo segredo,
de boa vontade o arrancaria de seu coração e o partilharia conosco. Mas,
ai! Nem um segredo a pobre criatura tinha. Lembro-me de que
imediatamente me comovi com compaixão e lhe assegurei:
‰ Você está fazendo o melhor que pode e isso é tudo o que
podemos esperar.
Porém nossa facilitadora, que em geral rodeava o grupo furiosa-
mente, não concordou. Assim como às escondidas nós a chamávamos
de "O Dragão", ela também pusera apelidos em todos nós. Nossa
participante frágil era "Olhos Sedutores". Em altos brados, O Dragão
assegurou-nos que todos tínhamos "feito papel de bobos" e que Olhos
Sedutores nos enganara com sua falsa fraqueza. Também insistiu em que
Olhos Sedutores sabia muito bem como participar na interação do
grupo, mas estava "tirando o corpo fora". O Dragão continuou
especulando que este pretexto enganador era bem praticado.
‰ Aposto que ela vem agindo assim a vida toda, pois é realmente
boa nisso.
Instintiva e galantemente, portei-me à altura:
‰ Ei, não acha que está sendo um tanto dura com ela? -
perguntei.
A resposta foi breve e acabou comigo:
‰ Cale a boca, Barulhento! (Meu apelido, acredita?) Você é
o próximo.
Então passei a esgueirar-me na cadeira para tentar encontrar
o olhar de Olhos Sedutores. Quando consegui, meus olhos disseram:
"Estou a seu lado". Ela entendeu minha mensagem e respondeu
verbalmente:
‰ Sabe, ela tem razão. Venho fazendo isso a vida toda. Desco-
bri que quando digo: "Simplesmente não posso", os outros nunca
perguntam: "Por quê?" Simplesmente deixam-me escapar impune.
Então O Dragão voltou-se para o Barulhento, isto é, eu. Pergun-
tou-me a respeito da noite anterior e do exercício "A música movi-
menta seu corpo" e sobre "como a gente se sentia sendo o primeiro
no centro do palco". Sem me esquivar, contei a ela e ao grupo sobre
minhas intenções de quebrar o gelo e que estava satisfeito porque
"tinha dado certo". Então O Dragão se esquentou de verdade:
‰ Já pensou, ao menos por um momento, que se não tivesse se
levantado, alguém mais tímido e inibido que você poderia ter
conseguido uma valiosa vitória sobre si mesmo? Mas você impediu
essa pessoa de obter a vitória. Não, você tinha de consegui-la para
todo mundo!
"Um ponto para você", pensei. Mas O Dragão não esperou
resposta. De fato, nem parou para respirar:
‰ E quando eu estava criticando a atitude de Olhos Sedutores, não
teria sido maravilhoso se ela mesmo se tivesse defendido? Mas não, você
a defendeu, não foi?
"Dois pontos para ela!" Percebendo que estava atingindo o alvo, O
Dragão continuou:
‰ Aposto que você chega a interpretar para os outros e dizer-lhes
o que fazer, não?
Imediatamente me lembrei de mil vezes em que fizera exatamente
isso.
Assim sendo, reclinei-me e escutei um sermão sobre a estupidez
dessa atitude, como isso acostumava mal os outros e reprimia seu
crescimento pessoal. Era um acepipe para meu ego, sugeriu e con-
cordei. Eu devia ter percebido que esse seminário seria um pouco
difícil quando soube que levaria cinco dias e que só seriam aceitas
pessoas emocionalmente estáveis com idade entre 21 e 50 anos.
Entretanto, eu não previra o tamanho da dificuldade. Mas aprendi a
lição. Quando o seminário acabou, voltei para casa e imediatamente
desisti de bancar o messias.
Então o que dizer quando aparece alguém com o dedo levantado,
pedindo carona? As vezes tenho de me esforçar para reprimir meu
antigo impulso de me transformar em uma impressora, proferindo
toda espécie de interpretações e conselhos. Pessoalmente, dediquei-
me à técnica da pergunta bem-colocada. É mais ou menos assim:
‰ Puxa! Não sei o que deve fazer. O que acha? Em sua opinião,
quais são as possibilidades?
Às vezes, uma sugestão pode ser inserida com sucesso na conversa,
por meio de uma pergunta:
‰ Diga-me, já pensou em voltar a estudar e tirar um diploma?
‰ Acha que sua atitude com relação a quem representa autoridade
foi influenciada pelo relacionamento com seu pai?
É claro que existem ocasiões em que as pessoas estão apenas
procurando informações.
‰ Quais os créditos de que preciso para me formar?
Se tenho essa informação, fico feliz em poder partilhá-la com quem
está perguntando. Entretanto, quando chegam ao ponto de reunir toda a
informação e tomar uma decisão que afetará suas vidas, a
responsabilidade será só delas.
Um lembrete em meu banco de memória reforça minha deter-
minação de não pensar ou decidir pelos outros. Certa vez, encontrei
uma mulher de meia-idade que se sentia muito infeliz com a vida
que levava. Quando lhe perguntei como tudo acontecera, contou-me
que, quando jovem, asseguraram-lhe que essa era a vida que lhe
servia. Assim, abraçou esse tipo de vida, mas logo descobriu que
não o apreciava. Porém seu pai (não o autor do conselho) ordenou-lhe:
‰ Fez sua cama, agora deite-se nela.
Assim fez, com efeitos arrasadores. Acho muito triste para
qualquer um de nós estar vivendo a decisão que outrem tomou em
nosso lugar.
Recentemente, um jovem trouxe-me uma fita com a gravação
dele cantando. Era uma voz maravilhosa. Era, sem dúvida, um
jovem talentoso. Então me contou que pessoas qualificadas para dar
tais opiniões asseguraram-lhe que com prática ele poderia se tornar
um dos grandes da ópera de todos os tempos. Entretanto, tinha feito
um curso superior em um campo totalmente diferente e lhe prome-
teram um emprego relativamente lucrativo no comércio. Aí surgiu a
tentativa de pedir carona, disfarçada em indagações:
‰ O que acha que eu deveria fazer?
‰ Em meu lugar, o que faria?
‰ Em que tipo de vida acha que eu seria mais feliz?
Discutimos todas as questões, acho que com muito proveito,
mas ele ainda não faz idéia de tudo o que pensei. Assegurei-lhe que
seus valores não são os meus, que o que me faria feliz poderia não
fazê-lo feliz. Mas durante todo o tempo eu sabia que, se Deus me
tivesse dado sua voz e pessoas qualificadas me tivessem dado a
certeza que lhe tinham dado, eu imediatamente mergulharia na
carreira lírica. Mas sou velho e sensato o bastante para saber que não
posso pensar ou escolher por ninguém, exceto por mim. Sou perito
apenas em mim mesmo. Devo assumir a responsabilidade de pensar
por mim e fazer minhas próprias escolhas. Entretanto, não posso
fazer isso por mais ninguém.
Desejo brincar de ser O Grande Guru com uma cl ientela de
pessoas dependentes que precisam regularmente que eu as tire de
"enrascadas"? Obrigado, mas de jeito nenhum!
O único meio seguro de não crescer é pedir
e conseguir carona na mente e na
vontade de outra pessoa.
EVITEMOS TODOS OS BLOQUEIOS À COMUNICAÇÃO
Todos nós usamos, às vezes, bloqueios de uma espécie ou de
outra, para nos impedir de escutar realmente outra pessoa. Coloca-
mos barreiras entre nós e os outros. Obviamente, uma vez erguidos
esses bloqueios, os outros não podem receber nenhum apoio ou com-
preensão de nossa parte. Ao mesmo tempo, também nos impedimos
de receber a dádiva valiosa do partilhar de outrem. Esses bloqueios
prejudicam qualquer verdadeira comunicação. Em conseqüência, a
oportunidade de partilhar e crescer é negada a todos os envolvidos.
Fazemos isso por várias razões. Pode ser que eu esteja muito
preocupado com meu próprio programa de atividades. Receio que
se me concentrar em você deixarei de pensar em mi m. Ou talvez
receie que, se o rio de sua dor correr para o meu mundo, ficarei
alagado. O preço de escutar franca e verdadeiramente pode ser
caro. Abrir-me para receber outrem é sempre arriscado. Outro
motivo comum, embora inconsciente, para erguer bloqueios é nosso
medo de intimidade. Embora nossos corações anseiem por ela,
também tememos as possíveis conseqüências da intimidade
humana. Se eu deixar alguém se aproximar de mim, esse outro
poderá vislumbrar meu verdadeiro eu. Isso poderá estragar meu
disfarce. Não tenho certeza de estar pronto para isso.
Outras vezes, não quero escutar real mente porque estou muito
impaciente. Quero ver problemas resolvidos. Não quero ouvir um
recital de senti mentos. Isso parece que nunca resolve problemas.
Ou pode ser que eu bloqueie o processo de escutar porque "desejo
ser estimulado ou entretido e o considero maçante". Então vem a
famosa desculpa: "Não posso escutá-lo. Neste momento estou pen-
sando em muitas outras coisas mais importantes". Tenho certeza de
que você é capaz de pensar em muitos outros motivos para "bloquear".
Algumas de nossas razões são conscientes; outras podem bem ser
subconscientes. Mas tenho certeza de que todos bloqueamos nosso
verdadeiro ato de escutar em várias ocasiões e por vários motivos.
A fim de eliminar esses bloqueios, é-me útil lembrar que todo
ser humano é uma dádiva a ser oferecida. A comunicação é uma
dádiva. Imagine as coisas assim: quando ergo um bloqueio ao pro-
cesso do partilhar, recuso uma dádiva graciosamente oferecida por
outrem. É como se alguém me estivesse estendendo um presente
lindamente embrulhado. Quando o vejo, cruzo os braços rigidamente
para bloquear a dádiva. Então viro-me e vou embora. É uma verdade
dura de se encarar, mas é o que fazemos quando bloqueamos a
comunicação de outrem. É o mesmo que dizer: "Não me amole com
sua dádiva. Não a quero realmente". É óbvio que deveríamos dizer:
"Obrigado por confiar em mim o bastante para se revelar".
Aqui gostaríamos de fazer uma lista parcial dos bloqueios mais
comuns. Uma breve explicação de cada bloqueio está incluída junta-
mente com uma descrição de seu resultado comum. Alguns poderão
lhe parecer estranhos. Outros, reconhecerá imediatamente. Muitos
foram usados contra nós bem como por nós. Nossa esperança é que
esta revisão nos torne a todos mais conscientes das ocasiões em que
possamos estar erguendo estes bloqueios. Dessa maneira apren-
deremos mais sobre nossas limitações como ouvintes. Também con-
seguiremos erradicar gradualmente nossos maus hábitos e nos tornar
melhores ouvintes. Obviamente, se não estamos conscientes de um
hábito, não podemos mudá-lo. Por isso, a percepção tem de vir pri-
meiro. Se estamos empenhados na comunicação, certamente queremos
nos transformar em ouvintes que não bloqueiam o processo de comu-
nicação. Será útil a percepção de nossas forças e fraquezas.
* * *
Segue-se uma lista parcial de alguns bloqueios comuns à comu-
nicação.
CONSELHOS: "O que você devi a f azer é. . ."
Quando usamos "conselhos" como bloqueio, provavelmente
consideramos que escutar é apenas obter os fatos a respeito de um
problema. Uma vez que tenhamos os fatos, então poderemos resolver
o problema. Achamos que as pessoas nos contam coisas porque sabem
que somos minas inesgotáveis de bons conselhos. "Somente os fatos,
minha senhora." Se este bloqueio a realmente escutar é usado sempre,
dois resultados são mais prováveis. Algumas pessoas mais inde-
pendentes vão simplesmente parar de partilhar com uma pessoa cuja
resposta constante é dar conselhos. Em vez disso, procurarão uma
outra que ouça seus sentimentos e reaja com empatia. Outras, que
continuem a partilhar com o "conselheiro", tornar-se-ão cada vez mais
dependentes e imaturas à medida que o relacionamento evolui. No
final, ficarão privadas de toda responsabilidade pessoal para pensar
e decidir.
COMPETIÇÃO: "Tenho certeza de que pareço melhor do que..."
Se estou competindo enquanto escuto, então estou avaliando os
outros tomando-me por medida. Estou calculando sua competência,
saúde mental ou bondade. São maiores ou menores que as minhas?
Em realidade, procuro avaliar somente as qualidades sobre as quais
eu sairia ganhando. Enquanto toda essa medição mental está acon-
tecendo, tenho realmente muito pouco tempo para ouvir a outra
pessoa. Será que ela se sente ouvida? Posso ter-me tornado esperto
o bastante para simular algumas reações faciais e respostas verbais.
Entretanto, com o tempo o falante dar-se-á conta do que estou fa-
zendo. Assim, só posso fazer minhas comparações com as pessoas
que me conheceram há pouco. As pessoas que me conhecem há
mais tempo aprenderam que não sou bom ouvinte. Não desejo
conhecê-las realmente.
COMPUTAÇÃO: "Di zem que estudos demonst raram..."
Se sou do tipo computador, só dou retorno super-responsável e
completamente autorizado. Sempre mantenho a calma e forneço aná-
lises muito claras de todas as minhas comunicações. Dou generosas
explicações, quer tenham quer não tenham sido pedidas. A pessoa
que se está revelando a mim pode passar a me considerar um tera-
peuta. Entretanto, ao contrário dos terapeutas, nunca lido com sen-
timentos. Raramente chego a ouvi-los. Em uma sala escura, muitas'
vezes já fui confundido com um computador. Esta reação tipo
computador bloqueia a boa comunicação, criando dois problemas.
Um é que você nunca chega a me conhecer. O outro é que nunca
seremos iguais em nosso relacionamento. O crescimento que poderia
ocorrer com um partilhar honesto é reprimido. As pessoas que
passam bastante tempo em minha presença tendem a se sentir muito
solitárias.
DISTRAÇÃO DA ATENÇÃO: "Puxa! Este é um grande lugar. .. "
Quando uso o bloqueio da distração da comunicação, deixo o
outro falar só por algum tempo. Quando começo a me sentir cons-
trangido, mudo o foco da conversa. Essa mudança inesperada o
deixará perplexo e confuso. De repente estamos falando de uma coisa
radicalmente diferente. Se eu repetir essa manobra várias vezes, logo
você se sentirá confuso, zangado ou possivelmente desamparado.
Poderá também ficar com a impressão de que em nossa conversa há
na realidade cinco conversas. É muito provável que se sinta um tanto
atordoado e rejeitado.
SONHO: "O quê?. . . Cl aro. . . Ent endo".
Os sonhadores geralmente se consideram bem-intencionados. Só
que freqüentemente abandonam o eixo da conversa e vão divagar
sobre algum assunto periférico. A primeira coisa mencionada se liga
a outra coisa na mente do sonhador. Então o carrossel da livre
associação começa a girar. Um assunto move o sonhador animada-
mente para o seguinte. Se sou um sonhador, estou me divertindo a
valer mentalmente. Desculpe, porém, a festa é particular. De repente
sintonizo de novo em você e percebo que me afastei completamente
da conversa e depois voltei a ela. Espero que não tenha notado. Se
você estava falando só para ouvir a própria voz, pode não ter notado
que eu tinha tirado umas férias mentais. Entretanto, se estava
realmente contando com minha compreensão, provavelmente se
sentiu um pouco magoado por eu estar me ligando e desligando.
Suponho que em meu subconsciente eu estivesse procurando distra-
ções. O envolvimento pessoal de uma conversa verdadeira deixa-me
um pouco apreensivo.
FILTRO: "Outro bom dia no trabalho, hein?"
Ao usar este bloqueio, tenho de filtrar o que ouço você dizer,
porque quero lidar apenas com certas partes de você e de sua vida.
Antes de começar nossa conversa, já decidi o que escutarei e o que
eliminarei. Se você inicia um de seus boletins meteorológicos
pessoais, torno-me surdo. Se você chega a um assunto que de algum
modo me ameaça, tiro meu aparelho de surdez. Principalmente se
você desatar a falar sobre intimidade e compromisso, pode ser que
não saiba, mas ninguém está escutando. Aquele olhar vago em meu
rosto reflete perfeitamente meus pensamentos. Se você for um com-
pulsivo pobre-diabo em relacionamentos e conversas, provavelmente
dará ênfase até mesmo a minhas migalhas de atenção. É claro que
isto reforçará sua baixa opinião de si mesmo. Se, entretanto, você
tiver um forte senso positivo de personalidade, não aceitará esse
tratamento mesquinho. Terei de mudar, do contrário, você começará
a procurar alguém que realmente o escute.
SACO DE ANI AGEM: "Si m, mas você. . . "
Tenho este saco que carrego nas costas. Tenho-o sempre comigo.
Há muito tempo venho coletando queixas dentro dele. Durante todo o
nosso relacionamento tenho feito um arquivo cuidadoso de todos os
meus pensamentos e sentimentos negativos. Freqüentemente tomo
notas dos detalhes que os acompanham — data, hora, lugar e acon-
tecimento. A compilação deste material tem sido minha principal
atividade ao escutar. Quando meus nervos ficam em frangalhos ou
você me fez alguma desfeita, o saco de aniagem fica muito cheio e
pesado. Minha atitude de "coitadinho" se fortalece e, aí eu solto tudo.
Despejo por cima de você todo o lixo que cuidadosamente recolhi.
Quando isso acontece, você faz o que pode para manter alguma
distância entre nós. Pode ficar com raiva, começar uma discussão,
ficar amuada, ou apenas se retirar enojada. Realmente não tem
importância. Continuarei arquivando e armazenando minhas mágoas.
E você ouvirá esta também: não aceitou meu partilhar. E, assim, o
ciclo se repete. Poderia até ser classificado como comédia, exceto que
sempre acaba com a separação da gente.
IDENTIFI CAÇÃO: "Si m, é i gual à ocasi ão em que.. . "
Com este bloqueio no lugar, cordialmente me dispenso de
escutar com cuidado. Talvez eu consiga escapar sem realmente
escutar nada. Presto atenção a suas palavras somente até encontrar
nelas um trampolim para minhas próprias histórias. Parece que meu
único esforço real para escutar é temporário. Prefiro muito mais falar
de mim, por isso, na primeira oportunidade, desloco o foco para mim.
Torno-me o centro de toda conversa. Aos poucos você perceberá que
seu papel é ser o ouvinte. Não terá oportunidade de ser o falante. Se
continuar a se relacionar comigo, provavelmente será por piedade. Se
quiser "tempo igual", procurará alguém que escute. De qualquer
forma, este bloqueio impossibilita um relacionamento com igualdade.
DESCONSI DERAÇÃO: ". . . "
Mesmo quando estou "i gnorando", escuto. Nunca pode me
acusar por não escutar. Simplesmente nunca lido com nada do que
você fala. Apenas dei xo tudo que fala pairando no ar. Ou dei xo
entrar por um ouvido e sai r pelo outro. Nunca saberá realmente se
o ouvi ou não. Às vezes você terá vontade de dizer: "Toc, toc,
alguém em casa? Acho que não". Nunca saberá se estou contente ou
magoado, interessado ou entediado, de acordo ou em desacordo. Não
dou indício algum das minhas reações interiores ao que você diz.
Minha ausência de reação sugere que você e seu partilhar são
totalmente irrelevantes. Somente uma pessoa com uma auto-imagem
muito fraca se preocupará em conversar comigo. As pessoas que
procuram uma honesta troca de palavras sentir-se-ão frustradas por
meu rosto inexpressivo e minha voz calada. Certamente ninguém
jamais se sentirá compreendido por mim. Da mesma forma, ninguém
jamais chegará a me conhecer. Guardo meus próprios segredos. Vivo
em um mundo que só tem um habitante.
DENOMINAÇÃO (rotulagem): "Ora, vamos, você é mesmo para-
nóico".
A fim de ser realmente competente em rotulagem, primeiro tenho
de preparar o caminho por meio de algumas generalizações e esti-
mativas. Mas tenho bastante prática disso. Não importa o que você
tenha a dizer, sou capaz de reduzi-lo a uma categoria. Sabe, já dividi
a humanidade em determinados tipos. É muito útil. Torna as pessoas
transparentes e realmente simplifica os relacionamentos. Logo que
você diz o bastante para que eu possa classificá-lo, pronto, estou
preparado. Vê, tenho todo um conjunto de julgamentos que acom-
panham cada categoria. Depois de aprender alguns fatos, posso dizer-
lhe quem é você. Acrescento esta dedução: se você apenas mudar seu
rótulo, a vida e seus problemas ficarão fáceis para você.
Essa maravilhosa habilidade de rotular livra-me da
responsabilidade de escutar. Não tenho de imaginar: "Como é ser
você?" Como vê, conheço seu tipo. Não preciso andar dois
quilômetros em seus mocassins. Mocassins têm tamanhos e estilos
determinados. Já vi mocassins de sua espécie antes e eles não são
duráveis. Assim que eu lhe tenha dito quem você é, termina meu
envolvimento com você. Não tenho de me esforçar para
compreendê-lo. Sem dor e sem proveito, nunca vou crescer. Há
uma coisa esquisita: as pessoas me evitam. Somente as mais
dependentes dão-se ao trabalho de me escutar.
CONCI LI AÇÃO: "Oh, si m. É verdade. Hum! Você t em razão".
Se conciliar é o bloqueio que escolhi, é porque sei o que é
mais importante em um relacionamento. É ser estimado e ter paz a
qualquer preço. Vê, quero ser estimado, por isso sou sempre sim-
pático e constantemente agradável. Apóio e incentivo todo mundo.
Todas as boas qualidades, está bem? Não suporto divergências.
Emoções negativas deixam-me nervoso. Fico muito tenso mesmo com
uma leve desavença. Garanto que não tenho pensamentos ou senti-
mentos negativos. Na verdade, não me permito ouvi-los, seja em mim,
seja em outra pessoa. Para mim, escutar significa focalizar super-
ficialmente nas palavras e imediatamente concordar. Realmente nunca
escuto com atenção para aprender quem é você. Se você for alguém
que só quer confirmação e concordância, vai me adorar. Entretanto, se
estiver procurando uma pessoa com quem possa colidir, uma pessoa
que seja verdadeira com você, eu não sirvo. Não encontrará tal pessoa
em mim.
ENSAIO DE MINHA RESPOSTA: "Logo que ele acabar de falar, vou lhe
dizer exatamente..."
Ao "ensaiar" parece que estou escutando, mas não estou real-
mente sintonizado em você. Todo partilhar é para mim na verdade
um debate para ganhar ou perder. Estou semper fidelis, sempre pre-
parado para defender minha imagem ou meu ponto de vista. De fato,
tenho uma queda para transformar comunicações em debates.
Sempre que você está falando, estou preparando minha réplica "de
tempo igual". Claro que minhas afirmações têm de fazer as suas
parecerem triviais. Tenho de ficar por cima. Assim sendo, passo
todo meu tempo de "escutar" ensaiando meu momento de estar em
foco. Seja o que for que estiver dizendo, é apenas um ponto de
partida para meus comentários. Se você também bloquear seu ato de
escutar, ensaiando, você pode até gostar da competição que lhe
proporciono. Provavelmente conversaremos com freqüência.
Entretanto, nunca comunicaremos nosso verdadeiro eu. Somente
aqueles fantoches que gostam de me ouvir pontificar ficarão comigo.
Se você não gosta de jogar à minha maneira, abandonará o esporte
completamente. Irá procurar um ouvinte verdadeiro.
SARCASMO (cortar a carne): "Não se apresse, querida. Poderá perder a
fama de Srta. Azevim Tarde".
O sarcasmo me impede de lidar com as emoções verdadeiras e
de gozar a verdadeira intimidade. Se você fica apreensivo com
emoções e tem medo de intimidade, o sarcasmo lhe dará uma
barreira eficaz. Mas você terá de estar atento. Tantas pessoas querem
ser reais que, se você não ficar atento, poderá acontecer algo
perturbador: essas pessoas podem se aproximar de você. Não pode
deixar que isso aconteça, certo? Melhor afastar os outros. Todavia,
esteja preparado: terá de afastar até seu verdadeiro eu.
A forma mais eficaz para afastá-lo que conheço é magoá-lo.
Entretanto, não quero realmente parecer uma pessoa mesquinha. Lá
no fundo desejo que as pessoas gostem de mim... a uma distância
segura. Assim, combino minha língua afiada com minha mente tam-
bém afiada. Se você se aproximar demais de meu verdadeiro eu,
deixá-lo-ei chocado com uma observação sarcástica. Pode ser até que
você ria e me ache divertido, mas aprenderá a tomar cuidado comigo.
O sarcasmo sempre funciona! Pode ser que fique por perto para se
divertir, mas muitas vezes sentirá raiva, tristeza ou mágoa, quando
estiver comigo. O sarcasmo atormenta. Haverá ocasiões em que você
lamentará por eu não conseguir ser verdadeiro nem permitir
intimidade. Se o sarcasmo é minha principal reação aos outros, nunca
deixarei ninguém chegar perto o bastante para me conhecer. É muito
provável que eu também nunca conheça a mim mesmo.
* * *
É provável que você possa pensar em outras estratégias de
bloqueio. Qualquer comportamento que estabeleça uma barreira entre
o falante e o ouvinte é um bloqueio. Impedir-me-á de ouvir o que
você tem para partilhar. Nunca se sentirá ouvido. Nunca saberei
como é ser você. Entre nós haverá pouco verdadeiro partilhar. Nosso
relacionamento só pode ser superficial. Para evitar essa tristeza,
devemos examinar o modo como escutamos. Qual o bloqueio que uso
mais? Com quem? Quando? Por quê? Como posso trocar meu hábito
de construir barreiras por um novo hábito de escutar francamente?
Respostas francas a essas pergunt as podem acarretar grande
mudança a nossas vidas. Podem si gni fi car a di ferença entre a
est agnação e o cresci ment o. Um bloquei o é um bl oquei o é um
bloqueio é um.. .
Quando me fecho à comunicação, rechaço o dom
gratuito que o outro está a me oferecer.
AGRADEÇAMOS EXPLICITAMENTE AOS QUE
SE REVELAMA NÓS
Nossa segunda regra sugeriu que aprendêssemos a pensar em
nós mesmos como dádivas a serem feitas e a pensar nos outros como
dádivas oferecidas a nós. Como resultado, a regra número oito reco-
mendava que agradecêssemos explicitamente os que nos escutaram.
Escutar com empatia é sempre uma dádiva verdadeira. Assegura-nos
que alguém deseja ficar conosco, partilhar nossa experiência. É
doloroso estar só e ser malquisto.
Entretanto, parece ainda mais arriscado e assustador pôr nossas
mais sensíveis confidências nas mãos de outrem. E assim, quando
recebemos o partilhar de outrem, é muito importante ser explicita-
mente agradecido. Acabamos de receber uma dádiva importante e
valiosa: parte de outro ser humano e outra vida humana. Conseqüen-
temente, deVemos praticar o hábito de agradecer aos outros por sua
auto-revelação e por sua confiança em nós.
Quando a auto-revelação é um óbvio risco (confiar um segredo
íntimo e triste) a gratidão é mais fácil. Da mesma forma, é fácil e
agradável agradecer uma auto-revelação que afirma a nós e a nosso
valor. Fica um pouco mais difícil quando quem partilha oferece-se
para nos conduzir aos vales de sua tristeza ou depressão. Também é
difícil sentir gratidão quando os outros partilham conosco seus
problemas, labirintos pessoais que parecem não ter saída. É claro
que é importante não chamar a si a responsabilidade desses problemas
dos outros e fazê-los nossos. Contudo, é sempre difícil assistir de
camarote à luta de alguém pela própria vida.
Acho que a situação em que é mais difícil ser francamente agra-
decido é a criada por uma auto-revelação que nos critica direta ou
indiretamente. A maioria de nós é bastante experiente em ficar na
defensiva. É quase tão instintivo como piscar os olhos quando algu-
ma coisa roça nossos rostos. Se nos sentimos atacados, parece que
alguma coisa dentro de nós se levanta em nossa defesa. Suponho que
esse instinto pode ser atribuído a nossos proverbiais complexos de
inferioridade. A crítica é apenas mais um golpe em um lugar já
dolorido. Em geral, quanto mais sofremos de complexo de infe-
rioridade, mais na defensiva ficamos. Somente os autoconfiantes
parecem manter a compostura quando atacados.
E contudo sabemos como é difícil expressar nossas reações
negativas. Quando alguém traz à baila um assunto que subentende
alguma falha de nossa parte ou alguma reação negativa a nossa
pessoa, podemos estar certos que essa pessoa provavelmente teve
de reunir muita coragem para partilhar esses sentimentos de tipo
negativo. Por isso é muito importante ser explicitamente gratos por
esse partilhar.
Há muitos problemas e ciladas durante o crescimento de um
relacionamento humano. A maneira como lidamos com nossas reações
negativas é decisiva. É muito importante reagir com gratidão quando o
partilhar de outrem subentende uma falha de nossa parte ou alguma
reação negativa a nossa pessoa. Se os outros não puderem partilhar
conosco suas reações negativas e tiverem de contê-las dentro de si
mesmos, esta repressão vai acabar amargurando seus sentimentos para
conosco. No fim, acabará por desafiar o próprio compromisso de seu
amor. E se firmarmos o pé ou ficarmos indignados cada vez que os
outros tentarem externar tais pensamentos ou sentimentos, eles logo
desejarão desistir da comunicação conosco.
É claro que julgamentos negativos estão sempre "fora de questão"
em um relacionamento. Por exemplo, não direi a seu respeito, nem vou
admitir que diga a meu respeito:
— Você é muito orgulhoso e mesquinho. Nunca pensa nos outros.
E realmente não se importa comigo!
Isso não seria falar apenas sua verdade, seria uma pretensão de
falar a verdade. Seria muito diferente se eu dissesse:
— Há ocasiões em que me sinto abandonado; não percebo seu
interesse por mim.
Por semelhante honestidade e franqueza devo ser grato. Se eu
me colocasse na defensiva em vez de ser grato por essa última
afirmação, você acharia ainda mais difícil partilhar honesta e
francamente comigo daqui para a frente. Seria fortemente tentado
a guardar para si seus sentimentos negativos e isso seria o
começo do fim de nosso relacionamento. Sempre é.
Lembro-me de uma jovem que veio me ver em uma hora em que
não costumo estar disponível. Achei que estava "caminhando um
quilômetro a mais" por ela. Enquanto ouvia sua revelação muito franca
e honesta, eu, às vezes, dava sinais de entender como as coisas se
ajustavam com pequenos "unhuns" e "ahs!". Após uma hora, ela se
despediu amavelmente.
Voltou alguns minutos mais tarde e disse:
— Só queria acrescentar que senti que esta noite não fui ouvida.
Minha impressão foi que você escutou apenas o tempo suficiente para
me classificar. Senti raiva ao pensar que minha comunicação estava
sendo classificada e arquivada sob títulos definidos. Não sei se você
realmente não estava escutando ou se realmente estava me classifican-
do, mas, de qualquer forma, minha interpretação e reação foram essas.
O que acha? Essa foi uma boa comunicação? Ela não deveria ter
dito isso? Minha resposta foi:
— . . . Obrigado por ter a coragem de me dizer isso. Deve ter
sido difícil, mas você o disse bem. Realmente não sei se a estava
escutando da maneira certa. Minha primeira impressão é de que não
a estava simplesmente classificando. Entretanto, vou certamente
pensar nisso. Por enquanto só posso ser agradecido por sua honesti-
dade e por sua confiança em mim.
Acho que se ela não tivesse conseguido dizer essas coisas ou se eu
tivesse reagido de maneira defensiva, magoada ou zangada, o
relacionamento estaria ameaçado. As linhas de comunicação entre nós
poderiam ter sido interrompidas.
Se o considero uma dádiva a ser feita e considero o fato de se
revelar a mim como a entrega dessa dádiva, certamente desejarei
agradecer-lhe. Além do conteúdo de sua revelação, você também
me dá sua confiança. Confia-me uma honesta e franca revelação
de si mesmo. Obviamente está correndo o risco da vulnerabilidade
pessoal. Está ciente da possibilidade de que eu rejeite ou ridicularize
sua revelação. Eu poderia reagir mal, parecendo magoado ou zangado,
ou demonstrando estar desapontado com você. Poderia mesmo
recusar-me a ouvir seu partilhar. Contudo, ao se revelar, você oferece
sua dádiva com mãos trêmulas e inseguras. Obrigado, obrigado, mais
uma vez obrigado.
A ingratidão é mais afiada do que os dentes de uma serpente (Rei
Lear, ato I, cena 4).
É difícil ser grato aos que partilham conosco
seus problemas e labirintos pessoais.
É duro assistir à luta de alguém pela
própria vida.
PARTE 4
A BOA COMUNICAÇÃO EXIGE UM TEMPO ESPECIAL
OU DE QUALIDADE
Já tentou dizer alguma coisa importante a outra pessoa em uma
estação ferroviária quando tinha muito pouco tempo? Além da
escassez de tempo, o trem estava saindo da estação e alguns dos
passageiros estavam pedindo licença para passar. Outros estavam
empurrando e se acotovelando e alguns estavam mesmo tão
próximos a você que podiam ouvir o que queria dizer. Lembra-se de
uma ocasião como essa e de como se sentiu frustrado? Em caso
positivo, você sabe o que tempo "especial" e "de qualidade"
significa e por que é necessário para uma boa comunicação.
Tempo de qualidade significa que não há escassez de tempo
nem um mundo de gente em volta de você. Durante o tempo de
qualidade podemos buscar com segurança as palavras absolutamente
certas para exprimir nossos pensamentos e sentimentos. Estamos
livres para procurar e entrar em contato com as coisas que estão
enterradas dentro de nós. A maioria de nós acha difícil a auto-reve-
lação, mesmo quando não temos de nos preocupar com limites de
tempo e outros desvios da atenção.
É temeroso contar a outra pessoa as coisas que escondemos
por muito tempo. Por isso é útil encontrar uma ocasião e um lugar
onde não há pressa e a atenção não é desviada. É mais fácil entrar
em contato com nossos segredos íntimos e explorar nossos espaços
interiores quando temos tempo de qualidade. Somos melhores em
comunicação quando fazemos um grande passeio a pé ou de carro
no campo. E mais fácil localizar os pedaços ocultos de nosso que-
bra-cabeças enquanto estamos sentados juntos no fim do dia.
Nessa hora, a poeira da luta diária j á se assentou e as tarefas do
dia já foram cumpridas.
Também precisamos de um ouvinte que não esteja apressado e
distraído, alguém que possa nos dar "presença" e "disponibilidade".
E sempre muito mais fácil nos revelar quando sabemos que alguém
se importa o bastante para escutar. Em um sentido muito real, a
qualidade do tempo regula a qualidade do ato de escutar. E a quali-
dade do ato de escutar afeta diretamente a qualidade do partilhar.
Quase todos sabemos que geralmente conseguimos realizar
aquilo que realmente desejamos. Parece que sempre achamos tempo
para as coisas de que gostamos. Entretanto, geralmente achamos
desculpas para adiar as coisas pelas quais temos aversão. Um amigo
meu, ligado à educação, confessou-me francamente que a única parte
difícil de seu trabalho é o "balanço anual". Rimos quando me contou
suas tramas de fuga. Primeiro vai até a máquina de escrever. Aí
percebe que sua calculadora precisa de baterias novas. Vai até a loja
comprar novas baterias e perde tempo lá, procurando desculpas para
demorar a voltar ao desagradável balanço. De volta à máquina de
escrever, bate urna linha e percebe que a fita da máquina está gasta.
Porém, olha no relógio e decide que é muito tarde para voltar à loja.
E assim, o balanço é adiado por mais um dia. A maioria de nós pode
se reconhecer nesse exemplo.
Uma boa solução é fazer sempre um programa para o dia se-
guinte. Temos de reservar em nosso dia o tempo de qualidade para a
comunicação. Temos de dar-lhe prioridade e reservar-lhe um tempo
especial quando a boa comunicação possa acontecer. Do contrário,
iremos procurar baterias de calculadora e fitas de máquina. E no
fim, teremos perdido algo muito mais valioso que qualquer outra
coisa. Volta, persistente, a pergunta: desejamos realmente nos co-
municar?
Os participantes dos Encontros de Casais têm uma forma singular
de garantir esse tipo de tempo de qualidade para partilhar. Tiram dez
minutos do dia para escrever um ao outro um bilhete. Às vezes
combinam previamente o assunto como "o que sinto quando você me
toca?" Ou "qual a qualidade que mais admiro em você?" Então, no fim
do dia, durante o tempo de qualidade, trocam os bilhetes. Esses
bilhetes são um ótimo trampolim para a comunicação pessoal.
Um homem e uma mulher que estão unidos há muitos anos no
que considero um relacionamento matrimonial saudável partilha-
ram certa vez comigo um importante fator no sucesso de sua vida em
comum. No dia do casamento, reconheceram mutuamente a im-
portância do tempo de qualidade. Assim, acrescentaram a seus votos
a solene promessa mútua de que, a não ser que fosse absolutamente
impossível, passariam algum tempo juntos — só os dois — todos os
dias. Em uma descrição adicional deste tempo reservado de
qualidade, disseram-me:
‰ Nunca usamos esse tempo para discutir detalhes práticos, tais
como compras de supermercado. Restringimos nossas discussões a nós
mesmos e a nosso relacionamento.
Lembro-me de que também disseram:
‰ Às vezes, a vida ficava bem agitada. Mas o tempo reservado só
a nós dois era sempre o centro da tempestade, nosso esconderijo de paz
e de calma.
Senti pessoalmente a importância desse tempo de qualidade. Nos
últimos anos de vida, mamãe ficou quase que só confinada à cama.
Durante minhas visitas semanais, sentava-me ao lado de seu leito e
conversávamos sobre várias coisas. Não havia lugar para irmos e
nada para desviar nossa atenção. Somente nós mesmos. Geralmente
eu começava partilhando alguma parte de mim mesmo que às vezes
intrigava até a mim• minhas mudanças de humor, meu medo da
morte e assim por diante. Ela era uma boa ouvinte e dava-me tempo
para arrancar de mim mesmo muitos pensamentos e sentimentos
pessoais que eu não havia reconhecido antes. Tudo que é humano é
contagioso, por isso, então mamãe me falava de si, de sua pacífica
aceitação da morte, mas do medo que tinha da dor.
Mamãe não observava em si mesma nenhum medo de morrer
"desde que vocês cresceram", dizia. Partilhava comigo um constante e
quase mórbido medo da dor. Ela confidenciava: "Pedi a Deus que
quando vier me buscar, beije-me docemente enquanto eu estiver
dormindo. Assusta-me a idéia de uma morte sufocante e dolorosa".
Vinte e quatro horas antes de morrer, mamãe entrou em coma. O
médico nos disse que ela não sairia do coma e morreria durante o
sono. Pensei comigo mesmo: "Deus vai beijá-la docemente enquanto
estiver dormindo. Acho que ele não lhe podia recusar. nada". Quando
finalmente a morte veio, chorei as lágrimas que choramos quando
reconhecemos algo lindo: minha mãe e nosso relacionamento. Entre-
tanto, sei que grande parte desse valioso partilhar aconteceu em seu
quarto silencioso, ao lado de sua cama, durante nossos tempos "de
qualidade" juntos.
A confirmação dessa necessidade de tempo de qualidade acon-
teceu quando fui apresentado ao que é chamado de "aconselhamento de
reavaliação". Uma professora desse método, que é também minha
amiga, explicou-o para mim. Disse-me que duas pessoas relativamente
compatíveis podem reunir-se com regularidade e estabelecer tempos
iguais para partilhar. É importante que ambos tomem a mesma duração
de tempo, a fim de que um não se transforme em terapeuta e
o outro em paciente. É também importante que aconteça em uma ocasião e
lugar condizentes.
Então — minha amiga explicou —, cada um dos dois volta a
um tempo e uma experiência no passado quando não podia exprimir
as profundas emoções daquele momento. Por exemplo, podem par-
tilhar uma ocasião em que foram humilhados, ainda crianças, por um
professor tirano, mas não podiam exprimir seu medo ou ultraje. Uma
importante pressuposição deste aconselhamento de reavaliação é que
nossas cicatrizes psicológicas são devidas em grande parte a
emoções ou sentimentos inexpressos.
Mas o tempo de cura estará próximo se pudermos recriar a cena
em nossa revelação mútua e reviver a experiência. Só que desta vez
reavaliaremos a experiência de uma perspectiva mais adulta e daremos
plena expressão às emoções que tiveram de ser reprimidas por ocasião
da experiência original. Minha amiga explicou que é importante não
interromper nem tentar consolar um ao outro. Isso tenderia a reprimir
a expressão das emoções e assim minimizaria a purificação
e a cura das velhas feridas.
Convidou-me, então, a experimentar esse método com ela. Con-
cordei e decidimos que cada um teria meia hora. Primeiro minha
amiga contou-me algumas experiências quase inacreditáveis de sua
infância. Ao relatar e reviver partilhando os incidentes, derramou as
lágrimas que não pudera chorar quando criança. Tremia e cho-
ramingava enquanto revivia essas antigas e esquecidas experiências
e as expunha à luz da revelação. Devo confessar que me admirei
de que minha amiga pudesse ter passado por todas as experiências
que descreveu e ter-se tornado tão bem ajustada. Suponho que par-
tilhar o aconselhamento de reavaliação teve grande influência.
Quando terminou sua meia hora, senti-me vazio e de certa forma
insignificante. Não tinha nada tão traumático para partilhar. Senti-me
como se não tivesse lágrimas para chorar, nenhum tremor a liberar.
Por isso comecei a partilhar meus estereótipos. Entretanto, na pre-
sença de um bom ouvinte, logo descobri camadas e camadas de
emoções que nunca exprimira antes. Poderia nunca tê-las descoberto
se não soubesse que tinha de preencher a meia hora. Lembro-me de no
fim sentir uma grande sensação de alívio. Foi certamente uma hora
muito valiosa de minha vida. Mas acho que poderia não ter
acontecido, se não tivéssemos destinado aquela hora para um partilhar
ininterrupto. Não havia prazos a cumprir, decisões a tomar, tarefas a
realizar. Pode acontecer somente durante o tempo de qualidade,
destinado à importante troca de revelações pessoais. Dificilmente
pode acontecer em uma estação ferroviária quando a multidão está
empurrando, e o trem partindo.
O desejo e a determinação de separar esse tempo especial será
proporcional a nosso desejo de comunicação. Assim, cabe aqui certo
exame interior. Se essa idéia não me atrai, pode ser que eu realmente
não queira me comunicar. Pode ser que eu receie a verdadeira
intimidade. Pode ser que não entenda a necessidade de uma comu-
nicação profunda, a fim de ter um relacionamento agradável e uma
vida satisfatória. As respostas estão dentro de mim, esperando serem
descobertas.
Os tempos especiais podem ser os investimentos mais sensatos que
consigamos fazer.
No tempo de qualidade, não há escassez
de tempo e um mundo de gente em volta de você.
A qualidade do tempo regula a qualidade
do escutar. E a qualidade do escutar afeta
diretamente a do partilhar.
TOCAR-SE É UMA IMPORTANTE FORMA
DE COMUNICAÇÃO
Às vezes, o mais leve toque pode dizer algo, pode expressar um
calor que palavras não conseguem transmitir. Sem dúvida todos já
ouviram falar dos efeitos que a falta de afeição física tem em um
bebê. Os recém-nascidos que não recebem afeição física geralmente
adoecem e até morrem. É também fato que a privação de contato
pode resultar em alergias, eczemas, problemas de fala e de
aprendizagem. Obviamente, tocar-se é um dos meios mais poderosos
e primordiais da comunicação. E a chamada "fome da pele" é um
fato reconhecido da vida humana. Às vezes as crianças pedem para
coçar-lhes as costas ou esfregar-lhes os pés mais pela confirmação
do contato físico do que pelas razões alegadas. Os adultos, também,
freqüentemente pedem massagens nos ombros ou no couro cabeludo
só para ficarem seguros de que alguém se importa com eles. O toque
afetuoso oferece essa confirmação.
No livro The Stress-proof Child ("Criança à prova de tensão"),
Saunders e Remsberg garantem que é impossível exagerar a impor-
tante ligação entre tocar e uma sensação de segurança. Os autores
consideram a experiência de ser tocado como uma contribuição
essencial à segurança e auto-estima de uma pessoa.
Esta é uma antiga lição que está sendo redescoberta pelos
psicólogos modernos. Tocando é que as criancinhas apren-
dem a se sentir bem consigo mesmas. É um meio de os pais
dizerem aos filhos maiores: "Gosto realmente de você".
(Citado no Reader's Digest de julho de 1985, p. 156.)
Existem os que se sentem ameaçados pelo contato. Tais pessoas
consideram o ato de tocar como uma invasão do espaço e da pri-
vacidade pessoais. Obviamente cresceram em famílias não-
expansivas. Conseqüentemente, tendem a ficar desconcertados com
esse negócio de "tocar e sentir". "Não vamos começar com isso",
protestam. Em nossa sociedade encharcada de sexo, existe também a
suspeita de que o ato de tocar tem geralmente insinuações sexuais.
Em uma recente discussão da atual epidemia de violência sexual
contra crianças foi ressaltado um ponto importante. Não podemos
reagir com exagero, pensando que todo contato é prejudicial às
crianças. As crianças precisam se sentar no colo do vovô e ser
acariciadas por vovó. Precisam de abraços honestos e beijos
amorosos das pessoas que se importam com elas.
É óbvio que tocar unicamente para nossa própria satisfação
sexual, sem a dimensão pessoal de gostar, é apenas uma egoísta
exigência de serviço. É uma demonstração sem sutileza. É também
um abuso do contato. O contato egocêntrico não é realmente uma
comunicação. É muito parecido com a mentira, que é um abuso da
faculdade da fala. É uma mentira dizer "gosto de você" somente
como forma de manipulação para obter uma satisfação egoísta. A
mesma coisa seria verdade do contato que é apenas um estrata-
gema. É um abuso do contato da mesma forma que o seria um soco
no nariz.
Entretanto, tudo que é físico sempre foi suspeito. A literatura
nos assegurou que o corpo é a feia prisão da doce alma. As três
fontes da tentação humana são representadas como "o mundo, a
carne e o diabo". Contudo, pelo nosso jeito normal de conhecer, nada
consegue chegar à alma sem passar pelos canais do corpo e pelas
antenas dos sentidos físicos. Sem nossos sentidos, nunca poderíamos
ter idéias, pelo menos não do jeito normal do conhecimento humano.
O corpo e a alma constituem uma unidade e harmonia, não uma
dicotomia. Um é incompleto sem o outro.
É provável que sob todos os nossos medos reais ou imaginários
esteja o medo da verdadeira intimidade. O medo da intimidade está
sempre conosco. De alguma forma, sentimos que o contato pode ser
uma potente força de união. A união leva ao compromisso e também
resulta dele.
O compromisso decerto significa obrigação. E a obrigação do
compromisso assusta a maioria de nós. Por isso, percebemos e
tememos as conseqüências do contato afetuoso. Atores respeitáveis
sugerem que a verdadeira intimidade assusta tanto que costumamos
acenar aos outros ou aplaudi-los, em nervosa substituição do contato
real. O mesmo já foi dito sobre as lutas corpo a corpo e as brigas em
geral.
Aqueles que cresceram em famílias expansivas sabem que dar as
mãos, abraçar e demonstrar afeto fisicamente são importantes meios
de comunicação. Sabemos que tocar acrescenta toda uma nova di-
mensão à comunicação verbal. Somos seres humanos "corpóreos",
uma estreita combinação de corpo e alma que funcionam juntos em
íntima cooperação. Deveríamos pensar em nossos sentidos como
dádivas de Deus e antenas de aprendizagem. De fato, uma das leis de
aprendizagem diz que quanto mais sentidos estiverem envolvidos no
processo de aprendizagem, tanto mais profundamente as lições
penetrarão e por mais tempo serão lembradas. Por favor, pare um
instante e lembre-se das imagens sensoriais de sua própria infância:
sendo carregado para a cama e aconchegado, sendo beijado e con-
solado quando caía, andando nos ombros do papai, ou segurando
firme na mão da mamãe em uma loja cheia de gente. Imagens de
segurança e proteção.
Quando se trata de auto-estima e proteção, precisamos de todas
as evidências que pudermos conseguir. Por isso precisamos ouvir
palavras bondosas, ver sorrisos e sentir a ternura de toques
amorosos. Quando essas evidências sensoriais são negadas, sentimo-
nos inseguros e pouco à vontade. O juiz de um tribunal de menores
fez uma observação sobre o ato de tocar. Ele presidira ao mesmo
tribunal por mais de vinte anos. No dia de ser dada a "sentença",
relatou o juiz, os pais dos jovens infratores costumavam vir ao
tribunal. O juiz observou que em todos os seus anos de magistratura
não vira nem uma única vez os pais tocarem no filho que estava
sendo julgado. Confessou que imaginava se essa não poderia ser a
principal razão de o jovem estar no tribunal.
Conhecemos a necessidade de tocar e ser tocados dos chimpanzés
e macacos, que mais se nos assemelham em estrutura física. Quando
são privados do contato físico, tornam-se neuróticos, irascíveis e
incapazes de se relacionar. Esse fato foi claramente demonstrado em
repetidas experiências.
De certa forma, o ato de tocar transpõe nosso sentimento de
separação e solidão com mais eficácia do que palavras. Recentemente
foi feito um filme em uma biblioteca universitária, através de uma
câmera escondida. A funcionária foi instruída para tratar as dez
primeiras pessoas que viessem consultá-la de maneira eficiente e
polida. Entretanto, não devia tocá-las. As dez seguintes ela devia
dispensar a mesma eficiência e polidez, mas, de alguma forma,
estabelecer um ligeiro contato físico. A medida que devolviam ou
retiravam os livros, ela deveria resvalar a mão rapidamente sobre
a deles.
Do lado de fora, um entrevistador aguardava, para fazer esta
pergunta aos participantes da experiência:
‰ A funcionária foi amável?
Os dez primeiros, que não tinham tido nenhum contato físico,
declararam que ela fora eficiente e polida. Entretanto, disseram que não
poderiam considerá-la "amável". Os dez seguintes, que haviam sido
tratados exatamente da mesma maneira, com o acréscimo de um ligeiro
contato, depressa afirmaram:
‰ Sim, ela foi muito amável.
Freqüentemente penso que o contato é para a comunicação o que
a música é para as palavras. Cantar "Parabéns a você" tem um certo
calor e sensação de comemoração. Declamar "Parabéns a você" de
alguma forma não dá esse calor e essa sensação. Tentar se comu-
nicar a uma distância higienicamente segura, sem qualquer contato
físico, no fim pode parecer tão estéril quanto um "Parabéns a você"
recitado por rotina.
Alguma parte amedrontada dentro de nós
deseja evitar a proximidade pessoal da
intimidade humana. Tocar traz conseqüências e
percebemos que a união humana origina-se
quando tocamos e somos tocados. É uma forma
de comunicação muito importante. Alguma coisa
dentro de nós parece saber muito bem disso.
Estendamos as mãos e toquemos alguém.
PARA SER COMUNICADORES EFICIENTES, DEVEMOS
"NOS EXPANDIR" PARA ALÉMDE NOSSAS
"ZONAS DE CONFORTO"
Nesta regra, dois termos apresentam um uso altamente pessoal
e devem ser explicados. Os últimos serão os primeiros, por isso
vamos começar com "zonas de conforto". Já se disse que todos
vivemos em uma zona de conforto. Tente imaginar um círculo,
grande ou pequeno, que represente uma zona de conforto. Depois
coloque um ponto dentro do círculo. O ponto é você ou sou eu e
o círculo é nossa zona de conforto. Podemos nos mover à vontade
dentro do círculo e nos sentir confortáveis, mas, se sairmos do círculo,
entraremos em pânico. Fora dessa área, somos inseguros e nos sentimos
ameaçados.
As zonas de conforto abrangem a maneira como nos vestimos
e nossa aparência pessoal em geral. Determinam o que podemos e
o que não podemos fazer. Influenciam a maneira como lidamos com
as pessoas etc. Um neatnik (quem gosta de tudo sempre limpo e
arrumado), como Felix Unger em O Estranho Casal, não se sentiria
bem em uma roupa desleixada, mas os sapatos do companheiro Oscar
Madison ficariam imediatamente desconfortáveis, se ele os lustrasse.
Ao descrever a circunferência de nossas zonas de conforto, dizemos,
por exemplo: "Não consigo falar em público, de jeito algum", ou "a
idéia de entrar em uma sala cheia de estranhos me apavora", ou
"talvez outra pessoa possa fazer isso, mas eu não consigo". Faça,
algum dia, uma lista de coisas que simplesmente
"não consegue fazer". Isso lhe dará uma idéi a do tamanho de sua
zona de conforto. Fiquei surpreso com a mi nha l ista.
O problema é que nos aconchegamos completamente dentro
dessa zona de conforto e, se ela for pequena, ficaremos aprisionados
em um mundo pequeno. Porém, a maioria de nós prefere permanecer
em nossas prisões a pagar o preço do desconforto por se aventurar a
sair. Deixamo-nos ficar em um pequeno canto da vida. Nunca
descobrimos os limites de nossas habilidades, porque nunca os
exploramos. Não gozamos nossas plenas capacidades, porque nunca
as pomos realmente à prova. Já se disse que a pessoa normal usa
apenas 10% de suas habilidades. Os outros 90% ficam sepultados
pelo medo. Tememos o fracasso. Tememos fazer um papel ridículo.
Tememos a zombaria dos outros. Tememos as críticas. Por isso, nos
submetemos e nos acomodamos em nosso canto confortável e cada
dia começa a ficar muito parecido com ontem e com amanhã.
Usamos as mesmas roupas, dizemos as mesmas coisas, encontramos
as mesmas pessoas, seguimos a mesma rotina porque é assim que
nos sentimos confortáveis.
A princípio parece um pouco chocante dizer: "Devemos tentar
superar todas as nossas inibições". As vezes, as inibições são inter-
pretadas como cercas auspiciosas que nos mantêm presos aos caminhos
"retos e estreitos" da virtude. Mas não há virtude na inibição, sim-
plesmente porque não há liberdade. Por exemplo, digo algo como: "Eu
simplesmente nunca poderia dizer uma mentira. Estou certo de que
ficaria vermelho e que meu nariz cresceria". Sou inibido. Sou impedido
de mentir pelo medo de não ser um mentiroso bem-sucedido. Se esse
for o caso, não existe virtude no fato de dizer a verdade. Eu não poderia
agir diferente. A virtude presume e requer liberdade. "Poderia mentir,
mas escolho não fazê-lo. Quero ser merecedor de confiança." Essa seria
uma expressão de verdadeira virtude.
É claro que não queremos superar nossa inibição de mentir
mentindo. Isso realmente seria não deixar a mão esquerda saber o
que a mão direita está fazendo. Mas existem outras inibições que nos
afastam da liberdade e da virtude e essas devem ser atacadas
diretamente pelo que chamamos "expandir-se". Por exemplo, alguém
pode dizer:
— Simplesmente não consigo dizer às pessoas de quem gosto que
gosto delas. Assim, tento fazer coisas por elas, dar-lhes presentes.
Mas as palavras "Gosto de você" ficam presas na garganta.
O cami nho e o desafi o par a se expandi r est ão cl aros. "NÃO
DEI XE PARA AMANHÃ O QUE PODE FAZER HOJE!" Com
a prática constante desse ataque contra inibições indesejáveis, a pessoa
acaba se tornando muito mais livre e logo estará fazendo as coisas
porque "desejo fazê-las e não porque não poderia deixar de fazê-las".
Essa é uma pessoa plenamente humana e animada. Essa é uma pessoa
verdadeiramente emancipada e virtuosa.
"Expandir-se", como o termo é usado aqui, significa "sair de nossas
zonas de conforto". Significa sonhar o sonho impossível, tentar alcançar
o que antes era inatingível, experimentar o que ainda não foi
experimentado, arriscar-se a falhar, ousar ir a lugares onde nunca
estivemos antes. Obviamente, a pessoa tem de entender claramente
o sentido e as vantagens de se expandir. Isso é verdade principalmente
no começo, porque expandir-se exige um ato corajoso da mente
e da vontade. Muitas vezes imagino que nossas emoções são crianças
rodeando os pais, a mente e a vontade.
Crianças freqüentemente tentam fazer acrobacias em cima de altas
cercas, espiar por cima de penhascos e acariciar ursos pardos.
Esperneiam e choram e gritam quando são impedidas de acender
fogueiras perigosas ou atirar facas afiadas. Papai e mamãe, a mente
e a vontade, têm de ser firmes e determinados. Alguns pais garantem
que, de fato, a loucura é hereditária. A gente a pega dos filhos.
A primeira vez que uma pessoa tentar este desafio de se expan-
dir, de sair das antigas zonas de conforto e entrar em novas áreas, as
crianças (as emoções) certamente pintarão o sete. Começarão a
espernear e berrar, chorar e protestar. A imaginação (um sentido
interior) pintará feios quadros de embaraço e fracasso. Fará ruídos
assustadores. "O mundo terminará com um 'grande estrondo'. Haverá
no mínimo uma grande explosão. Alguém, provavelmente eu, des-
maiará com certeza. Mais uma vez prevalecerá a Lei de Murphy:*
`O que pode dar errado dará errado!' "
Mas, se mamãe e papai, a mente e a vontade, forem bastante
firmes, eles prevalecerão. E, acredite se quiser, o mundo não se
transformará em fumaça. Não haverá explosão alguma. Ninguém
desmaiará nem morrerá. E o velho "Murphy" nem ao menos apare-
cerá. Essas são apenas algumas das coisas que não acontecerão. O
que resultará do fato de nos expandir é que o mundo se ampliará
para nós e nossas vidas se tornarão mais plenas e mais satisfatórias.
Revelaremos talentos que nem sabíamos possuir. Lembra-se da pri-
— expressão usada nos Estados Uni dos, a parti r
de 1958, para i ndi car que o que tem de dar errado com certeza dará: o
que não tem remédi o remedi ado está.
meira vez que nadou sem ninguém segurá-lo à tona ou da primeira vez
que marcou um gol? "Eu consigo!" anunciou a si mesmo e ao mundo.
Não se afogou e não chutou para fora. Conseguiu! Uma nova
autoconfiança e um novo mundo foram criados para você naquele
momento. Sempre acontece quando nos expandimos.
O que isso tudo tem a ver com a comunicação? É óbvio que há
muitos riscos e desafios nesta área. Convidam-nos a nos expandir, a
sair do antigo e entrar no novo. Todo progresso no crescimento
humano sempre envolve algum ato de expansão. Eis aqui uma lista
parcial de desafios de comunicação que talvez o estejam
convidando, e a mim, para nos expandir. Alguns podem se aplicar a
você e a mim, outros não. Por favor, examine-os.
Pensar em mim mesmo como uma dádiva a ser feita; considerar os
outros como dádivas feitas a mim.
Dizer a alguém cara a cara: "Gosto de você".
Assumir plena responsabilidade pelas minhas próprias reações;
expressá-las através de afirmações com o pronome "eu" não "você".
Admitir que estava errado e pedir desculpas, pedir perdão.
Reconhecer e partilhar todos os meus sentimentos, negativos e
positivos.
Partilhar minha vulnerabilidade, falar aos outros de meus medos e
fraquezas, parar de mentir sobre minha solidão, admitir minha
insegurança e dizer "ai" quando for magoado, deixar correr as
lágrimas através de minha máscara protetora.
Esforçar-me por ser real, reconhecendo e rejeitando meu "papel",
recusando-me a deixar meu papel modificar a comunicação de meu
verdadeiro eu.
Examinar o melhor possível com toda a honestidade meus motivos;
assegurar-me de que minha comunicação é um ato de amor, não um
desabafo ou manipulação.
Agradecer aos outros por escutarem e/ou partilharem.
Escutar realmente: com a cabeça, o coração e a imaginação.
Imaginar: como é ser você?
Examinar as pressuposições em vez de atribuir precisão de raios X a
minha leitura de pensamento.
Recusar-me a dar conselhos; insistir para que os outros, que me
perguntam o que fazer, tomem suas próprias decisões.
Evitar o sarcasmo, a censura, o enfado e acessos de raiva com a
finalidade de punir e manipular os outros.
Estabelecer um programa que inclua "tempo de qualidade" para
aqueles com quem estou estreitamente relacionado.
Tocar e deixar que me toquem como um ato de solicitude e co-
municação.
Estar tão empenhado na comunicação a ponto de não permitir que
uma crise abale minha resolução.
É importante repetir que expandir-se é apropriado somente
quando a inibição nos impede de dizer, fazer ou ser o que é certo
razoável. Expandir-nos não requer que propositadamente pareçamos
tolos ou façamos coisas apenas para aparecer. Ser um "doido" não é a
mesma coisa que ser uma pessoa que amadurece.
Fico pensando em todos os grandes homens e mulheres de nossa
história. Imagine Joana D'Arc choramingando:
‰ Mas não posso cavalgar, muito menos guiar um exército! E se
Cristóvão Colombo tivesse dito:
‰ Não posso estar certo e toda essa gente errada. E se eu falhar e
me perder em alto-mar? O que os outros vão dizer de mim?
Suponha que Thomas Jefferson tivesse sucumbido ao medo:
‰ Escrever uma Declaração de Independência para um novo
país? Estão brincando. Nunca escrevi uma Declaração antes.
Pode ser que você reaja dizendo:
‰ Sim, mas eles eram pessoas famosas. Não sou nem grande nem
famoso.
Ao que sou tentado a responder:
‰ Certo, mas eles também não eram, antes de se expandir!
Em sua vida e na minha, há mil desafios de comunicação con-
vidando-nos a sair de nosso atual confinamento. Minha professora
do jardim de infância está viva, goza boa saúde e mora em Chicago.
Ela me conta que eu era o garoto "mais tímido e magricela" entre
todos os seus alunos durante trinta anos de magistério. É claro que
ela via só meu exterior. Eu estava dentro daquele garotinho, sofren-
do, olhando de soslaio, preocupado com o que os outros estavam
pensando, receando parecer mau, agindo com cautela e tentando
fingir ser o que realmente não era.
Felizmente fui influenciado por várias pessoas como essa pro-
fessora. Desafiaram-me amorosamente. Lembro-me que certa vez
perguntaram a Walter Cronkite:
‰ Qual foi a pessoa que mais o influenciou, fora de sua
família?
O famoso noticiarista pensou um pouco e respondeu:
‰ Acho que foi minha professora da quarta série.
Quanto a mim, sou mais grato a minha professora do jardim
de infância, Catherine Ford Barr. Também sou grato a todos
aqueles que, como ela, me disseram que eu era capaz e me
desafiaram a tentar.
Agora aquele garoto "mais tímido e magricela" freqüentemente
fala a grandes platéias, com tranqüila autoconfiança. Às vezes a
criança que foi pestaneja e pensa em tudo isso, mas os marcos das
ocasiões em que se expandiu fazem-na lembrar-se da "estrada menos
transitada" * que fez toda a diferença. Os primeiros discursos hesi-
tantes em assembléias estudantis, as mãos frias e a boca seca dos
debates e eventualmente a aprovação na prova de oratória do curso
colegial.
Quando os outros tentam racionalizar suas inibições e me dizem
que "simplesmente não conseguem", que "expandir-se é demais" para
eles, o garoto mais tímido e magricela do jardim de infância deseja
confrontá-los. Deseja desafiá-los amorosamente a se expandir, como ele
foi desafiado a fazer. Agora, aquele tímido garotinho tem mais
quilometragem na boca do que um automóvel antigo. Agora, quando se
levanta diante de grandes platéias, é como um cavalo de corrida na
cancela, pronto e ansioso para partir.
Mas sou assim só no que se refere a falar em público. Na área da
comunicação pessoa-a-pessoa, ainda sofro as cólicas de minha zona de
conforto. Por isso, todo dia tento fazer pelo menos um pequeno
exercício para me expandir. Sei que esse é o preço de minha liberdade
e de minha realidade como pessoa. Assim, tento admiti-lo quando não
sei, peço desculpas quando cometo erros, reconheço meus próprios
sentimentos, digo aos outros como são bons e talentosos.
* Em inglês, "less traveled road", referência do autor à "pessoali-
dade" do caminho de cada homem, via estreita que leva à definição e à
unicidade de cada ser: "...não há caminho, o caminho se faz ao
caminhar" (N. do R.).
Reconheço meus medos e mágoas francamente e esforço-me por
imaginar o que se passa com as pessoas que encontro.
Gradualmente vou melhorando como comunicador. Ainda não sou
um grande sucesso, mas conheço o caminho. Não há regras que
funcionem para o sucesso, a menos que trabalhemos para isso.
Portanto, todo dia temos de nos expandir um pouco, e todo dia
nosso desembaraço e nossa facilidade de comunicação crescerão.
Funciona mesmo. Quem o afirma é o garoto mais tímido e mais
magricela do jardim de infância.
Expandir-se é sair de nossas zonas de conforto,
sonhar o sonho impossível, ousar chegar a
lugares inexplorados.
APRENDAMOS A PEDIRDESCULPAS QUANDONECESSÁRIO
Admitir nossas falhas e pedir perdão é uma fórmula quase
mágica para remover os obstáculos à boa comunicação. Um sincero
pedido de desculpas instantaneamente desloca todas as técnicas
defensivas, que são a morte do diálogo. Um pedido de desculpas,
além disso, partilha, como nada mais pode fazê-lo, nossa
vulnerabilidade pessoal. Contudo, achamos muito difícil pedir
desculpas. Um medo, que dificulta a admissão honesta de nossos
erros, se esconde no íntimo da maioria.
Não é necessário dizer que esse medo é diferente em pessoas
diferentes. Todos somos infestados por diferentes demônios. Uma
pessoa pode ser incomodada pela idéia de "perder a dignidade". Outra
pode se sentir ameaçada pelo medo de que a outra pessoa abusará do
pedido de desculpas:
Se eu lhe pedir desculpas, você me passará isso na cara mais
tarde. Pode ser que use meu pedido de desculpas como vingança.
Não quero que meu pedido de desculpas se torne uma chibata em
suas mãos. Não quero ser lembrado de meus erros ou punido por
minha honestidade.
Tenho certeza de que para a maioria essa inabilidade para pedir
desculpas está diretamente relacionada com nossos sentimentos de
certeza você se lembra que Alfred Adler teorizou
que gastamos a maior parte de nossas energias e passamos a maior parte
de nossas vidas tentando provar que vamos bem.
inferioridade. Com
Tudo que sei é que algum medo vago parece inibir minha pró-
pria habilidade de dizer: "Errei, sinto muito". Quando tento me
lembrar das últimas vezes em que me desculpei com sinceridade,
tenho de voltar bastante. Meu pensamento sub-reptício é que a outra
pessoa envolvida nunca me pediu desculpas. Depois, repasso men-
talmente todas as vezes em que isso certamente teria sido oportuno.
Se não recebi os pedidos de desculpa que me eram devidos, por que
deveria fazer algum? É a velha decepção de ser reator em vez de
ator. É a imaturidade de deixar que o comportamento de outra pessoa
determine o meu próprio. De certa forma, deixo a falha de outra
pessoa em me pedir desculpas decidir como vou agir.
Certamente parte de nossa dificuldade em pedir desculpas é o
problema que temos com a honestidade interior. Para chegar ao
momento e ao ato de pedir desculpas, devo antes ser muito honesto
comigo mesmo sobre minhas falhas e limitações. Sem um sério
esforço de honestidade interior, só posso enganar a mim mesmo e a
você. Já discutimos o mecanismo de defesa do ego de racionalização.
Quando estamos racionalizando, não conseguimos considerar a ver-
dade objetivamente. Estamos muito ocupados arquitetando uma sín-
tese mental de autojustificação. "Você provocou isso. Fez o mesmo
comigo três semanas atrás. Estou apenas tratando-o como me tratou."
A maioria nos perdemos nos intermináveis círculos da racionalização.
Distorcemos a verdade, limpamos nossa linguagem e até deturpamos os
fatos. E toda essa mão-de-obra destina-se apenas a nos justificar
e a encobrir nossos erros. E, uma vez completada a racionalização, não
há mais necessidade de uma honesta admissão de erro ou de um pedido
de desculpas.
Para evitar a desonestidade do processo de racionalização, devo
perguntar a mim mesmo: aceito meu verdadeiro eu, o eu defeituoso
e imperfeito, que titubeia, o eu enfraquecido? Aceito-me realmente
como cometedor de erros? Aprendi a rir de mim mesmo e de minha
"falta de jeito"? Tenho de pensar seriamente sobre isso. A não ser
e até que eu me aceite assim, não posso ser verdadeiramente honesto
ou real. E, se eu não for real, minha vida se tornará uma charada
prolongada. Como diz a canção:
Quando interpretamos nossa charada
fizemos papel de criança,
simulando um jogo
fingindo sucesso,
inventando nossos papéis.
Gostaria de sugerir outra idéia sobre desculpa e perdão: estou
particularmente convicto de que uma falha em pedir desculpas e a
ausência de perdão estão envolvidas sempre que há problemas em
um relacionamento. Estou igualmente certo de que sempre que as
linhas da comunicação eficiente são derrubadas, essas mesmas
falhas — a falha em pedir desculpas e a falha em perdoar — só
servirão para prolongar a separação.
Há um ritual de família, usado pelos nativos havaianos,
chamado ho'oponopono. A própria palavra significa "acerto" ou
"correção". O ritual era destinado pelos antigos havaianos a
restabelecer e manter os bons relacionamentos entre os membros de
uma família. A reunião familiar especial para este ritual incluía
oração, discussão, confissão, restituição mútua e perdão. Uma vez por
ano, ou sempre que surgia um problema sério, os membros de uma
família eram convidados a participar do rito de ho'oponopono. Se o
indivíduo queria continuar sendo membro da família, comparecia ao
ritual. Nenhuma desculpa era considerada válida.
O rito começava com uma oração (pule) a Deus (ou aos
deuses). Os membros da família rezavam pela ajuda necessária para
serem honestos em seu exame de consciência. O rito todo supõe,
necessariamente, uma qualidade de veracidade e sinceridade
absolutas. Os havaianos chamavam isto de 'oia'i'o: o próprio
"espírito da verdade". Depois havia uma honesta confissão ou
admissão de cada pessoa de ultrajes, queixas, rancores e
ressentimentos. Se cabia uma restituição, esta deveria ser feita
imediatamente ou se faziam planos para que ela fosse feita em
breve. O perdão de tudo era pedido sinceramente e dado em um ato
explícito de perdão. Esse perdão era considerado um "alívio" de
culpas, rancores e tensões. Os havaianos que, em nossos dias, ainda
praticam esse ritual vêem o rito como voltado para: o pedido e a
concessão de perdão e o alívio de todos os envolvidos. Uma vez que
isso seja realizado, o assunto é encerrado e esquecido. Nunca mais
deve ser a razão de alguma coisa ou trazido à baila. Os havaianos
sempre souberam que a ajuda de Deus era necessária para se
conseguir isso e, assim, o ritual termina com uma oração pedindo
que o amor e a paz caracterize uma vez mais as relações da família.
Muitos dos aspectos desse antigo ritual havaiano parecem combinar
com nossa moderna experiência.
Precisamos de toda a ajuda que pudermos conseguir para poder ser
honestos com nós mesmos. O espírito da verdade precisa estar presente
em todos os sinceros pedidos de desculpa. Depois, devemos
nos esforçar para honestamente admitir nossas falhas aos que foram
magoados ou ofendidos por nossos erros.
— Eu estava errado. Sinto muito. Por favor, perdoe-me.
Acho que é muito raro o perdão ser negado quando alguém
sinceramente admite um erro e pede perdão. Quando procurado e
concedido, esse perdão se torna uma fonte de alívio. O livro de registros
foi apagado. A pessoa que foi perdoada não tem mais de carregar o
peso da culpa. A pessoa que perdoou não carrega mais o peso do
ressentimento.
Cabe também aqui a questão da autocompreensão e do autoper-
dão. A intuição disso me tem ajudado muito. Assim como devo
esforçar-me por ser gentil e magnânimo quando lido com os outros,
também devo estender a mim mesmo essa gentileza e magnanimidade.
Sou tão complicado que não consigo julgar-me corretamente nem ter
certeza da extensão de minha responsabilidade. Não estou sugerindo
que nos apeguemos a alguma projeção como: "O diabo me forçou a
isso". Tenho de estar disposto a aceitar a responsabilidade por meus
atos e os efeitos desses atos. Ainda assim, é difícil estar certo de
minhas intenções subjetivas. Sou uma fração e as raízes de minha
motivação estão todas emaranhadas.
Entretanto, posso encarar o fato de que meus atos foram desor-
denados e podem ter causado algum dano aos outros. A extensão de
minha responsabilidade subjetiva por esses atos permanecerá sempre um
mistério, mesmo para mim. Portanto, embora eu deva aceitar minha
responsabilidade, ao mesmo tempo devo continuar o esforço para
me compreender e me perdoar. Em todo caso é muito oportuno um
pedido de desculpas aos que magoei, por ato ou omissão.
Comecei a lecionar em uma escola masculina. É claro que os
principiantes recebiam aqueles conselhos dos veteranos:
‰ Não sorria antes do Natal.
‰ Não seja bonzinho. Eles abusarão de você.
‰ Esteja sempre no comando.
No primeiro dia de aula, eu estava um pouco amedrontado. E,
em retrospecto, acho que passei todo o primeiro ano imaginando
como estava me saindo. Eu tentava ensinar bem, ser justo, ser forte.
Mas tudo era planejado para estabelecer meu sucesso como
professor. De fato, acho que posso dizer com honestidade que usei
aqueles garotos para me tornar um sucesso. Não olhava para eles e
perguntava:
‰ Como estão se saindo?
Toda a minha preocupação durante aquele primeiro ano era:
"Como estou me saindo?".
Anos mais tarde esses jovens comemoraram o aniversário de
formatura e me convidaram. Quando me pediram para dizer algumas
palavras,- aceitei com prazer:
‰ Realmente preciso apenas de duas palavras para dizer o que há
muito tempo está em minha mente e meu coração: sinto muito.
Nesse ponto houve um murmúrio de risadas. Porém insisti:
‰ Estou sendo sincero. E se não me levarem a sério desta vez
terei de voltar a sua próxima comemoração e fazer o mesmo discurso.
Falei-lhes de meu remorso por não ter pensado mais neles e em
suas necessidades durante aqueles primeiros anos. Admiti que estivera
amedrontado e fora egoísta. Concluí meu pedido de desculpas:
‰ Sinto muito que eu não fosse melhor pessoa quando os
conheci.
Ao mesmo tempo, reconheço que sou um ser em processo, que
"Deus não me terminou ainda". Não estou prestes a me dissolver em
um mar de remorsos porque eu não era perfeito quando ingressei no
magistério. Tenho de ser gentil comigo mesmo, de evitar todo
julgamento severo. Ao mesmo tempo, precisava dizer o que disse
àqueles jovens. Tive uma sensação de "alívio" depois que falei e eles
aceitaram. Senti que o registro fora corrigido. Mais tarde um dos
"meus garotos" escreveu-me um bilhete. Falou-me dos sentimentos
bons e afetuosos que tinha em minha aula. Assegurou-me que
achava que estava falando por todos os outros. De certa forma o
assunto parecia encerrado. Acho que todos ficamos aliviados de
nossos pesos com meu desajeitado pedido de desculpas.
As vezes temos de nos expandir e esforçar para dizer "sinto
muito", mas o efeito quase miraculoso que terá na comunicação e
em nossos relacionamentos fará com que o esforço pareça ter
valido a pena.
E um feliz ho'oponopono para você e os seus.
EVITAR O ACÚMULO DE TENSÕES
Teste:
1 . Pequenas coisas o irritam?
2. Tem dificuldade para dormir?
3. Pela manhã acorda se sentindo cansado e mal-humorado?
4. Preocupa-se muito?
5. Acha que está sem saída?
6. Está sempre se lamentando?
7. É freqüentemente ríspido com os que estão mais ligados a você?
8. Sofre de constantes mal-estares (dores de cabeça, indigestão,
erupções de pele etc.)?
N.B.: Se respondeu "sim" ainda que só a uma das perguntas
acima, pode ser que esteja com um acúmulo de tensão. (Se confir-
mou isso, por favor, prossiga.)
Os participantes dos Alcoólicos Anônimos são alertados pela
palavra HALT (PARE) de que pode ser iminente o perigo de uma
recaída em bebedeiras destrutivas. HALT (hungry, angry, lonely,
tired) é uma acrossemia para faminto-zangado-solitário-cansado. A
fome, a zanga, a solidão e o cansaço podem nos desequilibrar facil-
mente. Podem ter um efeito inexorável em nossas reações emocionais
e comportamentais. Igualmente um acúmulo de tensão é também um
sinal vermelho. Pode ser um aviso de que o perigo está iminente.
Estamos em perigo de dizer ou fazer algo que pode facilmente ser
destrutivo. É capaz de derrubar nossas linhas de comunicação e até
destruir nossos relacionamentos mais preciosos. A palavra geral para
todas as pressões que podem nos desequilibrar é estresse.
Já assistiu a um acrobata andando sobre uma corda? Talvez
tenha observado que o artista carregava uma "barra de equilíbrio".
Com o máximo cuidado, ele movia a barra de um lado para o outro,
a fim de manter o equilíbrio. A vida é algo assim para nós. Você e
eu estamos atravessando os difíceis, embora diferentes, rumos de
nossas vidas. Vida significa ação e ação significa outras pessoas.
Outras pessoas significam que haverá algum atrito e esse atrito fre-
qüentemente resulta em estresse. Parte dele é útil e positivo. Parte
dele é negativo e prejudicial. Precisamos muito de nossas barras de
equilíbrio.
Muitos aprendemos a reconhecer os períodos de estresse apenas
por desagradáveis sintomas físicos ou por um comportamento difícil
de explicar. Tais sintomas anormais freqüentemente podem ser expli-
cados por um acúmulo de tensões ou estresse prejudicial. Clinica-
mente, o que chamamos de "estresse" é uma reação do corpo humano
a um estímulo. Quando a tensão ou estresse se acumula em nós e
continua por um longo período, temos a sensação desagradável de
que estamos "sob pressão". Tornamo-nos irritadiços. Rapidamente
entramos em discussões contraproducentes. Coisas que comumente
não nos incomodam começam a parecer "a gota d'água". Ficamos
inflamados quando as coisas não dão certo. Rangemos os dentes
quando o trem dá a partida justamente no momento em que chegamos à
estação. Xingamos o motorista que nos intercepta no trânsito
movimentado. Facilmente culpamos os outros por nossos próprios
erros.
O desgaste interior da tensão prolongada é humanamente des-
trutivo. Nossas emoções se tornam demasiadamente ativas. Nossos
nervos parecem estar em frangalhos. Sob tensão, nosso sistema de
imunização se desliga e ficamos doentes. O Dr. Hans Selye, autoridade
mundialmente conhecida em estresse, afirmava com certeza que ele
desempenha um papel no desenvolvimento de todas as doenças.
Aqui e agora, entretanto, estamos interessados no efeito do estresse na
comunicação. O fato relevante é que a tensão excessiva distorce a
realidade para nós. As vezes, quando uma pessoa bebeu muito,
comentamos:
— Acho que é a bebida que está falando, não ela.
Igualmente, quando uma pessoa sofre um acúmulo de tensão e a
realidade está distorcida, podemos da mesma forma concluir: "E' a
tensão que está falando, não a pessoa".
Muitos de nós tendemos a ignorar o acúmulo de tensão resul-
tante dos "estressores" em nossas vidas. Geralmente só prestamos
atenção à tensão quando um assim chamado "órgão-alvo" (a cabeça,
o estômago, a pele, as costas) envia-nos um sinal aflito.
Desenvolvemos uma dor de cabeça, um problema de estômago, uma
erupção, ou dores nas costas. O corpo está fazendo o que pode para
nos avisar que as pressões estão se acumulando. Ou podemos perder
o apetite, ou começar a comer vorazmente, dependendo de como
reagimos à tensão. Quase sempre tendemos a "reagir em demasia",
porque a realidade foi distorcida e perdemos nossa perspectiva. O
mais leve barulho torna-se insuportável. O mais inocente gracejo é
interpretado como perseguição. Os montículos da vida começam a
parecer montanhas. Inclinamo-nos a dizer coisas que não tenciona-
mos, a interpretar mal as intenções dos outros. Vemos tudo através
de uma lente de aumento. E enquanto estamos nesse estado, é difícil
para qualquer outra pessoa nos dissuadir de nossas interpretações e
reações. Tornamo-nos desarrazoados, mas temos certeza de estarmos
com a razão.
Há muitas sugestões disponíveis para controlar o estresse com
sucesso. Ter uma dieta balanceada, evitar o excesso de álcool e
nicotina, criar um intervalo diário para praticar relaxamento ou
meditação transcendental, dedicar algumas horas ao passatempo
favorito, livrar sua vida da pressa e da confusão. Já se sugeriu que
o controle da tensão deve ser holístico, deve afetar-nos por inteiro.
Portanto deve ser abordado:
Fisicamente — fazendo exercício físico e tendo uma dieta balan-
ceada.
Emocionalmente — expressando todos os nossos sentimentos signi-
ficativos na ocasião em que os experimentamos.
Socialmente — telefonando a um amigo, dando uma festa, reunindo-nos
com pessoas de quem gostamos.
Intelectualmente — alimentando a mente com leituras, resoluções de
palavras cruzadas, assistindo a conferências.
Espiritualmente — admirando a beleza do mundo, ouvindo música;
passando dez minutos por dia em meditação ou oração.
Tudo parece importante, mas eu gostaria de discutir aqui apenas as
duas primeiras recomendações. Acho que são as mais negligenciadas.
São (1) exercício físico e (2) franqueza emocional. Primeiro vamos
falar sobre os efeitos do exercício físico. A receita tradicional
para se conseguir tensão é "mente demasiadamente ativa e corpo
insuficientemente ativo". Quando queimamos o acúmulo de tensão
com uma caminhada diária, um animado jogging, uma suarenta
partida de tênis ou pingue-pongue, ou um vigoroso mergulho, elimi-
namos de nosso cérebro e de nossa corrente sangüínea os bioquímicos
da tensão. Ao mesmo tempo, desimpedimos os canais de comuni-
cação. Tornamo-nos muito mais capazes de uma calma reflexão.
Voltamos a ser "nós mesmos". Gozamos de uma restaurada sensação
de equilíbrio. Deixamos de ser ríspidos e começamos a dormir.
Começamos a aceitar as diferentes situações da vida com mais
tolerância e de maneira pacífica.
Outras recomendações comuns para o exercício físico são: subir
escadas em vez de andar de elevador ou escada rolante; estacionar a
um quilômetro do trabalho e andar o resto do caminho; caminhar na
hora do almoço; pular corda durante cinco minutos; fazer exercícios
de alongamento ou calistênicos. Um bem-sucedido executivo
confessa que se livra da tensão que precede uma reunião de diretoria
fazendo cinco minutos de alongamento no escritório.
Ao recomendar exercícios, os especialistas sempre nos aconse-
lham a seguir orientação médica. É um bom e necessário conselho.
Mas desejo incentivá-lo a fazer o que quer que possa com segurança.
Não ouça os encarnecedores sedentários nem os diretores de cadeira
de jardim. Movimente os músculos. E certifique-se de que o exer-
cício restaura sua perspectiva mental e emocional. Há mais de dez
anos, adotei o jogging. Fez uma enorme diferença em minha vida.
Um dia, antes de minha corrida matinal, falei com alguém ao
telefone. Depois da corrida pareceu-me claro que eu estivera irritado
e um tanto ríspido durante a conversa anterior à corrida. Por isso
telefonei novamente à mesma pessoa e perguntei-lhe se isso era ver-
dade e ela me confirmou. Eu agira exatamente como suspeitava. Mas,
depois de uma hora de exercício, eu era uma pessoa diferente. Sentia-
me mais "no comando" de minhas reações e de minha vida.
A segunda profilaxia que eu gostaria de salientar é a franqueza
emocional. Grande parte de nosso estresse provém de emoções repri-
midas ou refreadas. Às vezes penso no processo de reprimir nossos
sentimentos como comprimir uma mola emocional. Para fazer isso,
temos de ficar pressionando a mola, o que exige esforço prolongado.
Não é difícil imaginar que tal processo árduo resulte em tensão.
Quando finalmente a tensão se torna insuportável, nossas emoções
explodem de repente. A mola não é mais mantida abaixada. Os
espectadores de semelhante explosão emocional geralmente ficam
desconcertados. Ignoram totalmente o prolongado esforço de repres-
são anterior. Não notaram o crescent e esforço para segurar a mola.
Apenas se admiraram com a súbita e inesperada expl osão.
Muitas pessoas concordam que o corpo é um computador bioló-
gico gravando tudo o que se passa em nós. Quando empurramos nossos
sentimentos para o porão de nossas entranhas, podemos enganar os
outros, mas não enganamos nossos corpos. Nosso sistema nervoso e
nossos músculos sabem tudo sobre nossos ridículos esforços. O
sistema nervoso se torna agitado e os músculos ficam retesados e
tensos. Descarregamos em nossos pobres corpos tensos o que nos
recusamos a falar abertamente em comunicação franca.
A prática desta franqueza emocional que estamos propondo aqui
resultará em duas habilidades muito valiosas: aprenderemos a
identificar nossos estressores negativos e seremos capazes de reava-
liá-los. Como já foi mencionado, o estresse em si pode ser uma força
positiva ou negativa. É como a tensão em uma corda de violino ou
violão. Se estiver muito apertada, ela arrebentará. Se não houver
tensão, também não haverá música. E, assim, o estresse em si é
neutro. Entretanto nossas reações a ele, baseadas em nossas crenças
e valores pessoais, são o que dão a um estressor sobre nós um poder
positivo ou negativo. Freqüentemente, o computador biológico do
corpo ajuda-nos a diferenciar. Entretanto, se eu examinar minha vida
diária, ouvindo e aprendendo com a franca expressão de minhas
reações emocionais, aos poucos localizarei e aprenderei a identificar
os estressores negativos em minha vida.
Por exemplo, notarei fortes tensões quando estou em uma
situação de sucesso ou fracasso. Ou perceberei que toda espécie de
conflito com outra pessoa me dá dor de cabeça. Também já se disse
que ficamos zangados apenas quando nossas expectativas não se
realizam. Talvez eu descubra que estou depositando muitas expecta-
tivas impossíveis em mim mesmo e nos outros. Ou posso notar que
prazos de entrega de trabalhos sempre me preocupam. Artigo recente
em uma revista de psicologia sugere que nossa perspectiva de "tempo"
governa nossas vidai. Algumas pessoas vivem no passado, algumas no
presente e outras somente no futuro.
Ou, prestando atenção a minhas reações emocionais, talvez eu
descubra que estou sempre insistindo na perfeição pessoal ou, quem
sabe, constantemente querendo agradar a todos. Em outras palavras,
sob toda emoção existe uma atitude em relação ao sucesso, ao con-
flito, às expectativas, ao tempo, à perfeição, a agradar os outros, e
assim por diante. Entretanto, só poderei descobrir e explorar essas
atitudes se estiver disposto a experimentar e a expressar meus sen-
timentos. Tenho de acolher, reconhecer e expressar esses sentimentos antes
de conseguir aprender com eles.
Depois, vem a revisão ou reavaliação que pode converter um
estressor negativo em positivo. Posso reavaliar as qualidades
desagradáveis de outrem como "gritos de dor". Posso perceber que o
verdadeiro sucesso é agir da melhor maneira possível, sejam quais
forem os resultados. Posso reavaliar o conflito e perceber que é uma
oportunidade de aprender. Posso chegar à conclusão de que não
preciso agradar os outros. O que tenho de fazer é ser eu mesmo. Os
pais podem aprender a ver no não-conformismo ou mesmo na
rebeldia de um filho o esforço para se tornar independente. Este
processo de reavaliação é chamado a arte de ver uma promessa em
cada problema. Como o antigo filósofo romano Epiteto costumava
dizer: "Não são seus problemas que o estão deixando louco. É a
forma como olha para eles".
Assim, tenha seus sentimentos, reconheça-os e expresse-os. E,
sobretudo, aprenda com eles. Como Matthew Arnold disse:
"Resolva ser você mesmo e saiba que aquele que encontra a si
mesmo perde a tristeza".
O fato de evitar um acúmulo de tensão certamente
tornará muito mais fácil a comunicação. Torna
também muito mais fácil a vida!
EMTEMPOS DE CRISE, PRECISAREMOS USAR
ABORDAGENS ESPECIAIS
Neste ponto pode ser que você esteja se perguntando: — E
aquelas ocasiões em que nada parece dar certo?
E, verdadeiramente, há ocasiões em que todos os esforços para
nos comunicar parecem inúteis. Todos nós experimentamos, de vez
em quando, colapsos em comunicação. É, parte do relacionamento.
Dizer que isso nunca vai acontecer seria negar os fatos da vida.
Esses colapsos não indicam necessariamente o fim de um rela-
cionamento. São apenas crises em comunicação. São muito parecidos
com as crises situacionais, em que uma pessoa fica temporariamente
acabrunhada por um acontecimento. Nas crises relacionais de comu-
nicação, uma ou ambas as pessoas estão acabrunhadas. Posso estar
acabrunhado ou pela outra pessoa ou por minhas próprias reações
interiores. Por exemplo, a raiva demonstrada por outra pessoa pode me
parecer tão assustadora que fico incapaz de me comunicar. Não quero pôr
a cabeça na boca de um leão que está rugindo. Ou no processo de
comunicação, posso me sentir acabrunhado por meus próprios
sentimentos de incompetência.
Quando estamos acabrunhados — ou por situações, outras
pessoas -ou por alguma coisa em nós mesmos —, somos incapazes de
funcionar eficientemente. Às vezes somos incapazes de nos comu-
nicar eficientemente. Nossos métodos usuais de falar e escutar sim-
plesmente parecem não funcionar. Sentimo-nos frustrados, impoten-
tes e, às vezes, desesperançados. Dizemos coisas como: "Voltamos à
estaca zero . . . Não adianta . . . Nada funciona". Ou, talvez: "Não
sei o que fazer. Estamos indo para trás, não para a frente, em nosso
relacionamento". Ou podemos dizer a nós mesmos: "Nunca vai
melhorar. Estamos passando como navios dentro da noite. Simples-
mente estou cansado de tentar. Desisto". Algumas dessas afirmações
não parecem familiares?
Primeira e notadamente, minha atitude em relação a essas crises
influenciará consideravelmente a conseqüência das crises. Se penso
que não podem e não devem existir crises de comunicação, vou me
sentir com freqüência dolorosamente surpreendido e também
frustrado. É claro que isso acontece com todas as expectativas
improváveis. Se eu construo imaginárias e românticas versões da
realidade, ficarei sempre desapontado com a coisa como ela é.
Depois, meu desapontamento e minha frustração podem provocar
uma sensação de futilidade. As crises que ocorrem parecerão para
mim o fim da linha.
Muito desse desânimo ser-me-á poupado se eu ao menos
aprender a aceitar as crises como parte inevitável da comunicação.
Afinal, duas pessoas absolutamente originais estão tentando
partilhar suas visões de realidade muito diferentes e altamente
personalizadas. O fato de a comunicação freqüentemente funcionar é
quase mais surpreendente do que essas crises ocasionais.
Em segundo lugar, é muito importante não considerar como
fracassos essas crises inevitáveis, do contrário estaremos cavando
mais uma brecha de desapontamento para nós mesmos. Se eu achar
que uma crise é devida a uma falha de sua parte, porei a culpa em
você. Entretanto, se eu atribuir a falha a mim mesmo, provavelmente
me concentrarei em meu próprio espírito ferido, serei dominado pelo
sentimento de culpa e ficarei na defensiva. É muito mais saudável
considerar uma crise de comunicação como uma oportunidade para se
expandir, mudar e crescer. Se eu considerar as crises dessa forma,
todas as espécies de energia emocional positiva estarão à minha dis-
posição. Não gastarei minha energia em acusações ou auto-recrimi-
nações. Então poderei honestamente dizer a você e a mim mesmo:
"Isso é o que querem dizer os altos e baixos da vida. Bem, vou me
apegar a você e juntos conseguiremos!"
A fim de tirar vantagem das crises que atravessamos, é impor-
tante compreender quando e por que elas ocorrem. Às vezes são
apenas uma parte natural do processo de crescimento. As vidas
emocionais de todos os seres humanos movi mentam-se através de
ciclos de intimidade e distanciamento. Isso é normal e natural. Toda
a natureza evolui através de ciclos no processo de crescimento. Se
eu aceitar essa evolução cíclica, serei capaz de atuar dentro dela de
forma criativa. Considerarei as crises como marcos de crescimento.
Verei essas crises como oportunidades de ser criativo em vez de
catástrofes de destruição.
Nem todas as crises, entretanto, fazem parte do processo de
crescimento. Algumas ocorrem por causa da forma em que eu (ou
você, ou ambos) me comunico. Pode ser que eu não tenha dominado
uma ou outra das habilidades de comunicação que neste livro são
chamadas "regras". Há muitas formas de se afastar da boa
comunicação para uma crise. Uma das formas mais comuns é deixar
de fazer afirmações com o pronome "eu" e começar a fazê-las com
o pronome "você". Se eu cair nessa armadilha, logo o estarei
instruindo, rotulando, julgando ou culpando. Não mais estaremos no
mesmo plano, aproximando-nos um do outro. Estarei me dis-
tanciando de você.
Outra maneira garantida de criar uma crise instantânea é erguer
uma cortina de fumaça emocional, ficando amuado em vez de dizer
imediatamente: "Estou magoado". Também, os chamados "planos
ocultos" inevitavelmente são lenha na fogueira de uma crise. Digo-
lhe, por exemplo, que apenas quero partilhar meus pensamentos com
você. Entretanto meu plano oculto é: "Acerte as contas com ele. No
placar das lutas para ganhar ou perder, você está perdendo". Ou
posso alegar que apenas desejo uma oportunidade de expressar o que
sinto. Em vez disso, porém, ataco-o violentamente com minha fúria.
Obviamente, os planos ocultos provocam uma época de crise.
A crise é de outro tipo quando minhas emoções se tornam muito
intensas para que eu possa senti-las e expressá-las. Para proteger-me
do que eu interpreto como emoções "insuportáveis", porei uma más-
cara para esconder meus verdadeiros sentimentos. É claro que a
verdadeira comunicação será bruscamente interrompida aqui. Por
exemplo, alguma coisa que você está partilhando comigo faz-me
imaginar que talvez esteja pensando em me rejeitar. Se eu for extre-
mamente sensível à rejeição, agirei rapidamente para evitar isso. Em
vez de falar-lhe sobre meus temores, posso me apressar a colocar a
máscara de Agnes Agradável ou Dirce Distraída. Meu eu verdadeiro
terá de se esconder. Finalmente, algumas crises ocorrem quando um
ou ambos os parceiros da comunicação na verdade não estão
escutando o outro. Aconselhar, presumir, julgar ou qualquer dos
bloqueios comuns ao ato de escutar sempre resultam em uma crise
de comunicação.
Antes de sugerir meios para enfrentar com sucesso uma crise,
quero primeiro incentivar a identificação precoce de uma crise.
Quanto antes percebermos uma crise em comunicação, mais fácil será
lidar com ela. Lembre-se de que não estamos interessados em atribuir
a culpa a nenhum de nós. Apenas queremos identificar a crise. Então
podemos tentar atravessá-la juntos. Se a comunicação começa a
parecer forçada e tensa, devemos nos fazer estas perguntas a respeito
do processo:
1 . Estamos fazendo afirmações com o pronome "você"?
2. As emoções estão sendo representadas indiretamente em vez de
francamente expressas?
3. Estamos desabafando ou manipulando em vez de nos comu-
nicando?
4. Algum de nós se sente emocionalmente transtornado?
5. Parecemos estar na defensiva? Estamos agindo na defensiva?
6. Estamos marcando os pontos em um placar invisível?
7. Estamos em um padrão de acusação e contra-acusação?
8 . Estamos caindo nas armadilhas de aconselhar, presumir ou julgar um
ao outro?
9. Parece haver um bloqueio para o ato de escutar mútua e fran-
camente?
10. Sentimo-nos frustrados com nossas trocas?
Se respondermos "sim" a qualquer dessas perguntas, precisamos
fazer três coisas: (1) Ir mais devagar, (2) mudar o foco do assunto para
o processo e (3) analisar juntos o processo.
Por exemplo, pode-se dizer:
— Estou me sentindo confuso com este intercâmbio. Poderia ir um
pouco mais devagar? Gostaria de examinar com você o que está se
passando entre nós.
Observe as afirmações com o pronome "eu", a auto-revelação de
um sentimento e a ausência de acusação. O falante também está
demonstrando um senso de responsabilidade para fazer alguma coisa a
respeito da crise. É muito importante que se incluam todos esses
aspectos. Do contrário, pode haver uma interpretação errônea da
sugestão para se mudar o foco do assunto para o processo.
Quais as perguntas pertinentes à análise? Certamente devemos
perguntar: estamos ambos falando do mesmo assunto, ou estamos
falando de coisas diferentes? Estamos realmente empenhados em
comunicação sobre este assunto? Temos a motivação certa para a boa
comunicação? E
.
esta a ocasião oportuna para discutirmos o assunto?
Concordamos sobre a natureza e o processo de comunicação?
Estamos sendo honestos com nós mesmos e um com o outro? Apesar
do fato de haver muitas perguntas aqui, isso pode ser feito bem
rapidamente. O esforço destina-se principalmente a localizar o ponto
de estresse. Depois temos de concordar a respeito dos ajustamentos
necessários. Depois disso podemos retomar a boa comunicação.
A análise do processo geralmente consegue solucionar uma crise
de comunicação em seu início. Pode também ajudar a transformar uma
crise progressiva em uma experiência de crescimento. A análise nos
ajudará a identificar nossos padrões de comunicação, bem como os
desvios que tendemos a pegar. Seguramente podemos aprender
e crescer com esse conhecimento.
Entretanto, podemos não prever uma crise. Ou, quando se abater
sobre nós, podemos não ser capazes de ultrapassá-la. Ainda assim,
não é preciso entrar em pânico, se formos maleáveis e criativos. Se a
análise em câmara lenta não funcionar, há outras abordagens que
podem ser muito úteis. Antes de mais nada, podemos admitir
e concordar que não nos estamos comunicando muito bem. Depois,
só precisamos aceitar o fato de que estamos em algum ponto entre
aqui e lá na viagem de crescimento. Em outras palavras, estamos
G
'em processo". Podemos também arranjar um "intervalo", com uma
cláusula indicando continuação. Muitas vezes, o tempo e a distância
nos ajudam a alcançar nova perspectiva. Não há nenhuma lei que
diga que toda comunicação deve ser completada de uma só vez.
Outro estratagema para interromper uma crise que muita gente
acha eficaz é escrever cartas. O Movimento de Encontro de Casais
incentiva e ensina este método de escrever "cartas de amor" como
garantia de contínua comunicação. Mesmo se escrever cartas não fizer
parte da rotina, um ponto de crise pode ser uma excelente ocasião para
tentar. Como sempre, para a boa comunicação, as cartas devem ser
escritas só usando afirmações com o pronome "eu". Detalhes pessoais,
observações, pensamentos e sentimentos devem todos ser incluídos
em tais cartas. Essas cartas podem muito bem focalizar o próprio
assunto ou o impasse do processo de comunicação. Cartas usadas para
clarear as coisas devem tratar de comportamentos
e reações, sem um tom argumentativo ou crítico. É também bom
limitar o conteúdo dessas cartas ao tempo present e. Não devem
ressuscitar assuntos passados. Final mente, o tom deve sempre
expressar respeito e gratidão e, onde possível, afeição verdadeira.
Aqui está um exemplo que escrevemos:
Querido André,
Ainda estou transtornada porque nossa conversa de ontem
à noite terminou de forma tão negativa. Acho que fiquei
indignada quando pensei que você estava mudando o as-
sunto de nossa conversa. De fato, senti que estava ficando
irritada. Não expressei isso na hora porque a raiva me
assusta. Quando sou eu que estou com raiva, não sei como
expressá-la sem descarregá-la toda em você. Seja como
for, mostrei indiferença e me afastei. Gostaria de ter-lhe
dito tudo isso ontem à noite e sinto muito não tê-lo feito.
Talvez pudéssemos ter esclarecido as coisas
imediatamente. Eu gostaria realmente de tentar de novo e
resolver isso logo que você puder. Obrigada por estar aí,
mesmo que esteja afastado emocionalmente.
Com muito amor,
Maria
Nenhuma regra seria completa sem algumas admoestações bem-
colocadas. Devemos regularmente passar algum tempo com nossos
parceiros em comunicação. Entretanto não devemos exagerar. Em
outras palavras, devemos passar juntos um tempo partilhando, mas
maratonas são exaustivas. A conversa exagerada e sustentada
intensamente pode nos tornar tensos e constrangidos. E as pessoas do
tipo das que se preocupam seriamente demais geralmente não sabem
partilhar muito bem. Precisamos de equilíbrio em nossas vidas:
suficiente trabalho, suficiente divertimento, suficiente descanso e, é
claro, suficiente comunicação verdadeira. Temos de estar envolvidos
com todas as facetas de uma vida plena.
Da mesma forma, temos de tomar cuidado para não encerrar
um assunto nem muito cedo nem muit o tarde. Se o encerramos
cedo demai s, é geral ment e porque est amos constrangidos com o
assunto ou com as emoções que sent imos enquanto o discut imos.
Quando fazemos i sso, criamos "assuntos proibidos". Colocamos
avi sos de "Proibida a entrada". Dei xamos que o medo controle
nosso diálogo e nosso relacionamento. Tudo i sso limit ará nosso
rel acionamento e nosso cresci ment o pessoal.
Por outro lado, alguns de nós não sabemos quando parar com
um assunto. Continuamos a esgotar o assunto e a nós mesmos. Isso
quase sempre desencoraj ará a comunicação, tornando-a uma expe-
riência desagradável. Se há mais a ser dito, lembre-se de que há
sempre um outro dia.
Muitos de nós consideramos óbvia nossa comunicação. Falamos
e escutamos e, assim, presumimos que estamos realmente nos comu-
nicando. Não trabalhamos realmente por uma comunicação aperfei-
çoada. Então, ocorre uma crise na comunicação com a rapidez de um
raio e, aparentemente, saída do nada. Apanha-nos desprevenidos e
não temos recursos para enfrentar e sobreviver a uma tal crise. É
importante para todos nós considerar o processo de comunicação
exatamente tão essencial a uma vida plena quanto a alimentação e os
exercícios. Em relacionamentos é a comunicação que sustenta a vida
tão certamente quanto os alimentos e o descanso sustentam a vida
física. Tentamos comer alimentos nutritivos e repousar o suficiente,
a fim de ficarmos fortes e sadios. Também precisamos dar séria
atenção à comunicação e às habilidades que ela requer, a fim de que
nossos relacionamentos possam ser prósperos e sadios.
Talvez a melhor preparação para uma crise inesperada seja ter no
lugar certo um processo de comunicação crescente e estável. Isso deve
ser parte integrante de todo relacionamento. Onde isso acontece, todo
tipo de habilidades, procedimentos e atitudes são fontes de ajuda
disponíveis. Naturalmente, acreditamos que a melhor maneira de fazer
isso seria reler e praticar todas as vinte e cinco regras sugeridas aqui.
Se fizermos isso, finalmente as "possuiremos". Se e quando elas se
tornarem parte integral de nossa comunicação, estaremos, então, bem-
equipados para enfrentar e atravessar qualquer crise.
A palavra chinesa para crise tem dois caracteres.
O primeiro significa "perigo" e o segundo significa
"oportunidade". Fazemos votos de que todas
as suas crises não se mostrem perigosas para
a saúde de seu relacionamento, mas tornem-se,
em vez disso, oportunidades para crescimento.
AO FALAR OU OUVIR, O MOTIVO DA BOA
COMUNICAÇÃO DEVE SEMPRE SER O AMOR
Uma boa definição funcional do amor entre as pessoas é a do
psiquiatra Harry Stack Sullivan: "Quando a satisfação, a felicidade
e a segurança de outrem são tão reais para você quanto as suas
própri as, você ama verdadeiramente essa pessoa". Este desej o de
vê-lo sat isfeito, fel iz e seguro não é apenas um senti mento. Os
senti mentos são i nstantâneos, passageiros e ambi valentes. O amor
é antes uma deci são (vou amá-lo) e um compromi sso (direi, farei
e serei tudo o que você precisa para sua satisfação, felicidade e
segurança). Em outras pal avras, decido que vou amá-lo como amo
a mim mesmo. E vou proporcionar-lhe, da mel hor maneira
possível, sej a o que for que lhe traga a verdadeira felicidade.
Isso é o que o amor é. E esse é o amor que deve ser o motivo de
toda comunicação. Como muitas outras coisas, um motivo pode ser
reconhecido por suas conseqüências ou resultados. "Por seus frutos,
você os conhecerá." Se meu motivo é o amor, a primeira coisa que
farei será observá-lo, olhá-lo com os olhos supervidentes do amor. O
amor realmente não é cego. É supervidente. A pessoa amorosa vê em
outrem coisas que olhos sem amor jamais conseguem. Observo-o
dessa maneira, a fim de compreender seu temperamento
e interpretar suas necessidades. Em um dia você pode precisar de
mi m para que comemore com você um recente sucesso. Em outros,
pode ser que precise de mim para silenciosamente sentar a seu lado
em um quarto escuro de desgostos. Pode ser que, às vezes, você
precise de minha ternura. Outras vezes pode precisar de minha
resistência. Mas, quer precise de veludo, quer precise de aço, tentarei
proporcioná-lo.
Ao tentar amá-lo, posso até lhe oferecer uma dádiva de amor que
você não queira nem aprecie. Posso pensar que o amor requer que eu
o desafie ou enfrente. Isso pode não ser fácil para nenhum de nós.
Entretanto, se meu motivo for realmente o amor, tentarei dizer e fazer
e ser seja o que for que lhe traga satisfação, felicidade e segurança.
Mas, por favor, seja paciente. Haverá ocasiões em que estenderei
meu dom com mãos trêmulas. Peço-lhe para acreditar que lhe estou
oferecendo essa dádiva porque o amo e quero o que for melhor para
você. E, também, por favor, seja magnânimo. Sem dúvida, haverá
ocasiões em que meus próprios sofrimentos sobrepujarão minhas
melhores intenções, quando agirei com egoísmo, quando farei e direi
coisas ofensivas.
Mas o verdadeiro amor, se for corretamente compreendido e se for
minha força motivadora, oferecerá sempre estas duas dádivas:
1. A dádiva de mim mesmo, em honesta auto-revelação.
2. A dádiva de você mesmo, contribuindo para sua percepção,
de sua bondade e seu talento singulares. Essa é minha
contribuição para sua auto-estima.
Às vezes pode parecer que essas duas dádivas sejam incom-
patíveis. Se estou com raiva de você ou me sinto magoado por algo
que você fez, devo-lhe essa honesta auto-revelação. Se tentar mantê-
la presa dentro de mim, agirei de forma estúpida e imatura. Estarei
sempre alimentando um plano oculto. Por outro lado, se lhe contar
sobre minha raiva ou minha mágoa, mesmo que eu as reconheça e
assuma a responsabilidade pessoal por elas, essa revelação pode não
incentivar sua auto-estima.
Não há nenhuma resposta fácil para esse dilema. Certamente
ajudará se eu reconhecer e aceitar a responsabilidade por minhas
reações, quer sejam quer não sejam apropriadas. Da mesma forma
ajudará se eu deixar claro que isso não implica nenhum julgamento
de você ou de suas intenções. Entretanto, acho que o resto do
dilema deve ser resolvido por meio da confiança na intuição
humana. Se lhe falar de minha raiva ou mágoa — não a fim de fazê-
lo sentir-se mal ou de ajustar contas com você, mas somente porque
quero que você me conheça —, acho que você perceberá isso.
Intuitivamente, perceberá minha sincera e amorosa intenção.
Aquelas ocasiões em que um confronto parece oportuno também
apresentam uma situação difícil. Poderá haver ocasião em que o vejo
em um rumo autodestrutivo e sinto necessidade de confrontá-lo.
Obviamente, antes de fazer isso, devo avaliar honestamente meus
motivos. Se o estou confrontando e desafiando-o a mudar, a fim de
que me seja mais fácil lidar com você, isso não é amor. Isso é
manipulação. Se o estou confrontando e desafiando a mudar porque
acho que você se tornará muito mais feliz, isso é amor. Mas, assim
que conferir meus motivos, terei de confiar em sua intuição para
saber que meu confronto é uma dádiva de amor.
Em todo caso, sem dúvida é muito melhor para mim falar-lhe de
minha raiva ou mágoa e confrontá-lo ou desafiá-lo abertamente. Sei
que preferiria que você fosse franco comigo. Preferiria que sua raiva,
mágoa ou desafio fossem colocados às claras onde pudéssemos
resolver a questão. A única alternativa é deixar-me imaginando e
deixá-lo reprimindo seus pensamentos e sentimentos. Mais uma vez,
o que não falamos abertamente encenamos. Portanto, se você não
for franco comigo, seus pensamentos e sentimentos reprimidos pro-
vavelmente tomarão a forma de amuos, afastamentos ou construção
de barreiras. Tudo o que não é abertamente expresso em um rela-
cionamento torna-se uma insidiosa força de destruição.
Às vezes é difícil saber o que fazer, di zer ou ser com amor.
Cada um de nós é um profundo mi stério. Não é fácil perceber
o humor de outrem e reconhecer suas necessidades. Às vezes, estarei
agindo às cegas. Às vezes o amor é como o veludo — terno e gentil.
Às vezes, é como o aço — firme e resistente. Daí ser o amor uma
"arte", não uma "ciência". Não existem fórmulas científicas firmes
o seguras garantidas para produzir resultados definidos. O amor é
uma arte delicada que requer muitas decisões sensíveis. Às vezes,
o amor nos deixa cheios de dúvidas, em algum lugar entre uma
rocha e um rochedo. Imaginamos o que o amor gostaria que fizés-
semos, fôssemos ou disséssemos.
Há ocasi ões em que acho ser mui t o mai s f áci l saber o que
o amor rejeita, do que o que o amor requer. Entretanto, mais uma
vez, uma intenção amorosa é reconhecida pelo que faz. O motivo
do amor deve claramente excluir:
1. Magoá-lo ou puni-lo.
2. Revidar alguma coi sa que você fez.
3. Rebaixá-lo, pô-lo de volta em seu lugar.
4. Parar de me preocupar com você, ignorando-o.
5. Mantê-lo à distância.
6. Manipulá-lo para que sinta ou aja de um jeito que me agrade.
7. Desabafar, despejando meu "lixo emocional" sobre você.
8. Recusar-me a escutá-lo.
9. Construir barreiras entre nós.
10. Ridicularizar, castigar, julgar ou competir, a fim de superá-lo.
Na Primeira Epístola aos Coríntios, Paulo nos explica o que o
amor é e o que o amor não é, o que o amor faz e o que o amor não
faz. Sobre as dez coisas relacionadas acima, Paulo diria: "O amor
não é assim. O amor não faz essas coisas". "O amor", diz ele, "é
paciente e bondoso, não é ciumento ou invejoso, não se ostenta
nem se incha de orgulho. O amor não é arrogante, egoísta ou
grosseiro. O amor não insiste em fazer as coisas a sua maneira.
Não se irrita, não é rabugento. Não guarda rancor. O amor é leal:
permanece junto daquele que é amado. Procura o que é melhor e
fica firme na defesa da pessoa que é amada" (paráfrase nossa).
Finalmente, há um outro equívoco comum a respeito do signi-
ficado do amor. A maioria de nós receia que o compromisso ou
decisão do amor é como oferecer-se para "servir de capacho". Às
vezes parece que deve ser muito fácil para os outros tirar vantagem
de uma pessoa amorosa. A verdade é que amor não é sinônimo de
ingenuidade. Um dos principais mandamentos de Deus é: amar o
próximo como a nós mesmos. O devido amor-próprio sempre faz
parte da boa comunicação. E o amor-próprio jamais toleraria ser
usado nem abusado. Meu amor-próprio pede-me para afastar-me de
mim mesmo para perceber seu humor e reconhecer suas neces-
sidades, mas não me pede para deixá-lo se tornar um tirano domi-
nador ou um opressor emocional. Isso não ajudaria nem a sua
felicidade, nem a minha.
Se alguém começasse a ofender-me verbalmente, ou tentasse
manipular-me, tratar-me como se eu fosse um capacho ou um pateta,
sorrir docemente e voltar a proverbial "outra face" para mais punição
não seria nem amar a mim mesmo nem àquela pessoa. É verdade,
tenho certeza, que a única fórmula para a felicidade humana é tornar-
me uma pessoa amorável e fazer da própria vida um ato de amor.
Essa é a suprema e universal bem-aventurança. Mas isso não
significa que devamos rastejar por um longo túnel escuro com as
mãos e os joelhos sangrando. "A glória de Deus é uma pessoa que
está plenamente viva", segundo Sto. Irineu. Tornar-se um pobre-
diabo em um relacionamento humano, provocar ou aceitar um
tratamento desumano, tornar-se um objeto de conveniência para
outrem não é nem a plenitude da vida nem a forma do amor.
Os assuntos deste livro foram divididos em vinte e cinco
regras ou diretrizes para a boa comunicação. Em um sentido muito
real são também vinte e cinco regras ou diretrizes para amar-se a si
mesmo e aos outros. Citando mai s uma vez a palavra de Deus:
Se compreenderdes e praticardes o amor,
felizes sereis (Jo 13,17).
E uma vida feliz para você e todos aqueles que
você tocar com amor!
REZAR PARA OBTER A ILUMINAÇÃO E A CORAGEM
DE BEM NOS COMUNICAR
Deus é sempre generoso com a chamada "oração petitória".
Agosti nho considerou a oração petitória "nossa maior força e a
maior fraqueza de Deus". O Senhor nos afirma: "Pedi e recebereis;
batei e vos será aberto. Tudo o que pedires em meu nome vos será
concedido".
De fato, muitas vezes penso em Deus como sendo uma tomada
elétrica. Atrás de cada tomada está a força misteriosa da eletricidade.
Pode iluminar uma sala, aquecer uma casa, passar um filme etc.
Entretanto, a tomada é literalmente inútil a não ser que nos liguemos
a ela, ficando ligados à fonte de energia. A força de Deus, temos
certeza, está prestes a iluminar nossa escuridão, curar nosso
desânimo, preencher nosso vazio, revigorar nossa coragem, endireitar
nossos desvios e criar em nós corações cheios de amor. A ligação a
toda essa força é a oração. O salmista nos afirma: "O Senhor está
perto de todos os que o invocam" (Si 145,18).
Precisamos da ajuda de Deus de muitas formas, mas certamente
precisamos de sua ajuda especial para que possamos viver vidas de
amor. Paulo nos instrui a rezar por todas as dádivas de Deus, mas
para pedir principalmente a dádiva do amor (1Cor 12,31). Foi dito
sabiamente que o amor funciona para os que trabalham para isso. O
amor não cai do céu como uma dádiva pré-fabricada embrulhada em
papel celofane. O amor é um kit para você mesmo montar, que exige
esforço diário. E o principal esforço do amor é a comunicação. Em
um sentido real, amor é comunicação. Ambos nos convidam a
partilhar generosamente com os outros a bondade e o talento que
são nossos. Ambos nos convidam a receber com gratidão a bondade
revelada pelos outros. Para isso precisamos claramente da ajuda de
Deus.
Para resumir brevemente as exigências da comuni cação, por
favor, leia de novo os tí tulos das regras propostos nestas
páginas. A comunicação exige de nós:
1. Firme propósito de partilhar.
2. Atitude que nos considera e aos outros dádivas a serem feitas e
recebidas.
3. Inflexível honestidade para com nós mesmos.
4. Aceitação da responsabilidade pessoal por nossas ações, nossas
reações e nossas vidas.
5 . Humildade que sabe que só podemos dizer nossa verdade pessoal, que
não podemos alegar possuir a verdade.
6. Franqueza emocional: um partilhar honesto de todos os nossos
sentimentos significativos.
7. Disposição de partilhar nossa própria vulnerabilidade.
8. Coração que é grato aos outros por sua disposição de escutar.
9. Dádiva de presença e disponibilidade para os outros.
10. Aceitação dos outros no ponto em que estiverem.
11. Escut ar para aprender a consi stência i nt eri or dos outros.
12. Convicção de que não podemos j ulgar os outros.
13. Dádiva de reações empáticas para os que são diferentes de nós.
14. Esforço para entender não apenas as palavras, mas o significado dos
outros; escutar com a cabeça e com o coração.
15. Nossa dádiva de independência para os outros, nos recusando a dar-
lhes conselhos ou tomar decisões por eles.
16. Coragem sensível que supera todos os bloqueios à boa comu-
nicação.
17. Agradecimento explícito aos que confiaram em nós o bastante para se
revelarem a nós.
18. Constância para passar um tempo "de qualidade" ou "especial"
juntos.
19. Comunicação através do sent ido do tato.
20. Expandir-nos para fora de nossas zonas de conforto.
21. Admitir nossas falhas e pedir desculpas àqueles a quem ma-
goamos.
22. Evit ar um acúmulo de tensão e estresse negat ivo.
23. Lidar eficaz e corajosamente com nossas crises de comunicação.
24. Fal ar e escutar sempre e soment e por amor.
25. Constantemente pedir a Deus que nos dê a iluminação e a
coragem de que precisamos.
Pode parar de prender a respiração agora. Um desafio e tanto,
não? A maioria de nós terá de desaprender antigos hábitos des-
trutivos e adquirir novos hábitos vivificantes de partilhar. Teremos
de mudar, e mudar sempre assusta um pouco porque conhecemos
o que temos e não podemos estar seguros do que obteremos.
Os Alcoólicos Anônimos têm sido realmente o meio mais eficaz
de recobrar a sobriedade para milhões de homens e mulheres que se
tornaram viciados no álcool e em outras drogas. O programa é
baseado nos "Doze Passos". É irônico que apenas o Primeiro Passo
mencione o álcool. Os outros onze, direta ou indiretamente, referem-
se a um "Poder superior a nós mesmos" ou "Deus, na forma em que o
concebíamos". Acho que é presunção de minha parte, mas gostaria de
propor os Doze Passos como paradigma ou modelo para aqueles de
nós que quisermos ser francos e honestos em nossa comunicação.
(Por favor, seja paciente comigo, está bem? Obrigado.)
Os Doze Passos dos
Alcoólicos Anônimos
1. Admitimos que éramos impo-
tentes perante o álcool, que
tínhamos perdido o domínio
sobre nossas vidas.
2. Viemos a acreditar que um
Poder superior a nós mesmos
poderia devolver-nos à sani-
dade.
3. Decidimos entregar nossa von-
tade e nossa vida aos cuidados
de Deus, na forma em que
oconcebíamos.
4. Fizemos minucioso e destemi-
do inventário moral de nós
mesmos.
5. Admitimos perante Deus,
perante nós mesmos e perante
outro ser humano a natureza
exata de nossas falhas.
Os Doze Passos dos
não-comunicadores Anônimos
1. Admitimos que éramos im-
potentes e estávamos alheios
aos outros em nossas vidas.
Tínhamos perdido o domínio
sobre nossos relacionamen-
tos.
2. Viemos a acreditar que um
Poder superior a nós mesmos
poderia devolver-nos a boa
comunicação e os bons rela-
cionamentos.
3. Decidimos entregar nossa
vontade e nossa habilidade
de comunicação aos
cuidados de Deus na forma
em que
oconcebíamos.
4. Fizemos minucioso e honesto
inventário de nossos relacio-
namentos e compromisso com
a comunicação.
5 . Admitimos perante Deus, pe-
rante nós mesmos e perante
outro ser humano as
máscaras que usamos, os
papéis que representamos,
as mentiras que vivemos.
Prontificamo-nos inteiramen-
te a deixar que Deus remo-
vesse nossas máscaras e
papéis, devolvendo-nos à ho-
nestidade e franqueza em
nossa comunicação.
Humildemente rogamos a ele
que nos livrasse de nossos
obstáculos à comunicação.
Fizemos uma relação de to-
das as pessoas a quem tínha-
mos magoado, negando-lhes
um partilhar honesto e es-
cutá-las com amor, e nos
dispusemos a reparar as má-
goas a elas causadas.
9. Fizemos reparações diretas dos
danos causados a tais pessoas,
sempre que possível, salvo
quando fazê-lo significasse
prejudicá-las ou a outrem.
9. Fizemos reparações diretas das
mágoas causadas a tais
pessoas, sempre que possível,
desculpando-nos honestamente
e pedindo perdão.
10. Continuamos fazendo o in- 10.
ventário pessoal e, quando
estávamos errados, nós o ad-
mitíamos prontamente.
11 . Pr ocur amos, at r avés da pr ece
11. e da medi t ação, mel hor ar
nos so cont at o cons ci ent e com
Deus , na f or ma em que o con-
cebí amos, r ogando apenas o
conheci ment o de s ua vont ade
em r el ação a nós , e f or ças
par a r eal i zar ess a vont ade.
Continuamos a nos observar
durante o processo de comu-
nicação e, quando cometía-
mos algum erro, nós o admi-
tíamos prontamente.
Procuramos, através da prece e
da meditação, melhorar nosso
contato consciente com Deus,
na forma em que o
concebíamos, rogando apenas a
iluminação e a coragem de nos
comunicar franca e ho-
nestamente, para conhecer e
ser conhecidos.
12. Tendo experimentado um des-
pertar espiritual, graças a es-
tes passos, procuramos trans-
mitir esta mensagem aos
alcoólatras e praticar estes
princípios em todas as nossas
atividades.
12. Tendo experimentado um
despertar espiritual, graças a
estes passos, procuramos par-
tilhar com os outros o signi-
ficado e o valor da franca e
honesta comunicação e praticá-
la em todos os nossos
relacionamentos.
6. Pr ont i f i camo- nos i nt ei r ament e
6. a dei xar que Deus
r emovesse t odos esses def ei t os
de car át er .
7. Humildemente rogamos a ele 7.
que nos livrasse de nossas
imperfeições.
8. Fi zemos uma relação de t odas
8. as pessoas a quem tí nhamos
prejudicado e nos di spusemos a
reparar os danos a elas
causados.
Finalmente, gostaria de concluir nosso próprio partilhar neste
livro com um tipo de oração que me tem ajudado muito. Gostaria que
você a experimentasse. É necessário que você vá a um lugar calmo e
pratique o que souber das técnicas de relaxamento. Respirar
profundamente, imaginar buracos nas solas dos pés, com uma suave
brisa fresca passando por eles, dizer repetida e ritmicamente a
palavra relaxe como uma ordem à mente e ao corpo. Por favor, faça
aquilo que o ajudar mais.
Depois de cinco ou mais minutos de relaxamento, inicie o que
é chamado de "imaginação positiva". Na tela de sua imaginação
passe um filme feito em casa, estrelado por você mesmo, como
você gostaria de ser. Como tenho tendência a ser do "tipo A",
impetuoso e ativo, imagino uma pessoa calma que parece saber o
que é e o que não é importante. Como meu ato é ser um ajudante e
portanto "ter tudo organizado", gosto de imaginar meu eu ideal
como alguém que é totalmente honesto e consegue rir de si
mesmo. Como você sabe, um antigo provérbio chinês nos lembra
que: "Bem-aventurado aquele que consegue rir de si mesmo.
Nunca deixará de se divertir".
É claro que o meu eu ideal é uma encarnação das regras apre-
sentadas neste livro. É totalmente honesto e franco sobre si mesmo.
Diz as coisas como elas são. Assume a responsabilidade por todas as
suas emoções e por seu comportamento. Ouve com sensibilidade e
empada. É generoso ao partilhar sua dádiva e é grato pela dádiva
partilhada pelos outros. É expansivo e ousa caminhar além de suas
zonas de conforto. É, ao partilhar e ao escutar, um excelente
comunicador.
Faço isso com tanta freqüência que conheço-o de cor e o
reconheceria em qualquer parte. Às vezes, sinto-me como o meni-
ninho no conto de Nathaniel Hawthorne, "The Great Stone Face"
("O grande rosto de pedra"). Durante toda a infância esse menino
admira um rosto que vê gravado em pedra lá no alto, na encosta de
uma montanha. Quando cresce, descobre que o rosto é o seu.
Transformou-se em seu ideal. No fim de minha "imaginação posi-
tiva", exercício que deve ser repetido com regularidade, peço a
Deus que permita que eu me transforme em tudo o que eu posso ser
como comunicador. Peço ao Deus do entendimento para deixar meu
ideal transformar minha realidade. Quero partilhar generosamente
suas dádivas e receber com gratidão as dádivas e a bondade dos ou-
tros. "Meu Deus, criai em mim um coração amorável e atencioso."
Então, em várias ocasiões, quando estou me relacionando e
comunicando com os outros, observo-me em ação e pergunto: "É esta
a pessoa que eu gostaria de ser?" Sinceramente espero que isso o
ajude tanto quanto me tem ajudado. Para mim é quase como tomar
uma pílula do soro da verdade ou colocar um novo par de óculos
com a prescrição certa para uma boa visão. Considero a simples
pergunta: "E esta a pessoa que eu gostaria de ser?" uma pergunta
transformadora. E-me impossível fazer essa pergunta e continuar
aconchegado em minha zona de conforto, ser mesquinho ou ficar
amuado, exibir-me ou tentar passar por alguém que não sou.
Com essa pergunta, discretamente peço a Deus para ajudar-me
a me transformar em meu ideal. Peço-lhe que me permita praticar o
que prego, ajudar-me a ser real. Se eu não for real, não serei nada.
Minha vida será apenas uma charada. Assusta-me o pensamento de
que a morte venha a mim como o pano ao fim de um espetáculo.
Então removerei minha maquiagem, tirarei a fantasia, devolverei
minhas falas ao autor, enquanto a platéia continua a aplaudir-me
por ser alguém que nunca fui. Sei que quando eu morrer, Deus
procurará cicatrizes, não medalhas. Quando eu estiver morrendo,
quero me lembrar das ocasiões em que fui real e honesto, em que
partilhei a mim mesmo em uma franca auto-revelação como um ato
de amor. Quero lembrar as ocasiões em que dei aos que tinham
fome o alimento de meu partilhar, aos que tinham sede a bebida de
meu ato de escutar e de minha compreensão, aos que estavam
trancados dentro de si mesmo, as mãos estendidas que diziam:
"Saia, você estará seguro comigo". Quero lembrar as ocasiões em
que ofereci a dádiva benéfica de amor e carinho aos que estavam
angustiados.
Sem dúvida é melhor que uma charada.
Obrigado por nos deixar partilhar esses
pensamentos com você.
Possa sua vida ser plena e feliz.
E, por favor, lembre-se de que nós o amamos!
A incomunicação é tida como um dos grandes males
deste nosso tempo. A necessidade de estar ao lado
do outro em estado de partilha e integração é
aspiração quase sempre tolhida pelos ritmos e
determinações do estado de vida sob que as
condições socioeconômicas colocam a todos. Mas a
necessidade existe e é premente.
John Powell, em coloboração com Loretta Brady,
elaborou um quase-infalível processo de
comunicação interpessoal efetiva. Os 25 passos
aqui publicados ajudam a superar todos os riscos
e impasses que venham a pôr em perigo os
nossos esforços (sobre-humanos) de entender e
ser entendidos.
JOHN POWELL é autor de bem-sucedidos livros
de psicologia e espiritualidade para o homem do
final do século XX. É professor da Universidade
Loyola de Chicago, bem-conhecido conferencista
e homem de rádio e televisão.
LORETTA BRADY é psicoterapeuta, professora e
conselheira familiar.
ISBN 85-15-00038-5

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