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Mértola parece ainda adormecida quando chego e a observo de longe, na margem oposta do

Guadiana. Apenas um pescador rasga as águas tranquilas do rio, vigiado de perto por duas
cegonhas que sobrevoam o casario apertado entre as muralhas. Nada, por enquanto, a
distingue de outras povoações alentejanas, igualmente alvas e pacatas. “Vila Museu”, indica a
placa de boas-vindas junto à estrada. Com alívio, sei à partida que não vou encontrar um
daqueles lugares, tão comuns em alguns países do Norte europeu, que servem de cenário a
recriações históricas, onde os sorrisos, tal como as lojas, têm horários de abertura. Desfaço as
dúvidas num pequeno café situado junto ao mercado, um animado local de encontro segundo
me parece. As respostas chegam prontas, ainda mal acabada a pergunta, interrompidas por
alguém que entra e dá a sua achega.

Cá fora, sob uma luz intensa reflectida nas paredes claras,


Mértola mostra-se semelhante a muitos locais do Alentejo, com
as ruas engalanadas de laranjeiras, pequenos comércios com
os produtos locais e trânsito lento. Mas, aos poucos, conforme
se entra na zona muralhada e se pisam as gastas lajes, uma
história grandiosa revela-se sob os nossos pés e olhos,
desmentindo a aparente pequenez do burgo.

Da Myrtilis romana à reconquista


Localizado na confluência do Guadiana com um pequeno afluente – a ribeira de Oeiras –,
sobre um promontório rochoso, o povoado já era mencionado por geógrafos da Antiguidade
que se referiam à imponência das suas fortificações. Na encruzilhada de vias terrestres e
fluviais – 70 quilómetros separam o Atlântico daquele que foi o porto mais setentrional do
grande rio do Sul –, este era, desde o período pré-romano, um importante entreposto
comercial. Fenícios e cartagineses andaram por aqui
fazendo trocas de produtos e trazendo notícias e influências
de outros mundos. Com a chegada dos romanos, a
povoação foi baptizada de Myrtilis, tornando-se uma das
quatro municipia da Lusitânia. Por aqui passava a importante
estrada que ligava Baesuris (Castro Marim) a Pax Julia
(Beja). Seguem-se os suevos, por volta do ano 400 d.C., e
os visigodos, durante os séculos VI e VII, altura em que a
região integra o reino de Toledo.
O castelo e o casario da vila
fotografados ao amanhecer
O ano de 712 assinala o aparecimento dos árabes. É o
começo de um longo período de prosperidade para a
Mirtolah muçulmana, que chega a ser capital de um reino
Taifa, tal como Silves e Faro. Resultado do
desmembramento do califado de Córdova, as diversas taifas
da península contribuíam para o desenvolvimento cultural e
artístico dos respectivos territórios.

A reconquista cristã chegou em 1238 com o exército de D.


Sancho II que, nesse mesmo ano, doou o burgo à Ordem
Militar de Santiago e Espada, para que fosse repovoado. A
primeira carta de foro foi outorgada por D. Afonso III em 1250 e
a segunda por D. Manuel II em 1512. Durante o século XV e o
início do XVI este seria ainda um ponto de abastecimento
cerealífero das tropas do Norte de África. Com a concorrência
dos portos marítimos a vila entrou numa suave letargia, de
que tem vindo a sair com o dinamismo de gente de fora que
escolheu o concelho para viver.

Uma viagem no tempo


Foi para tentar desvendar os segredos dos 550 anos do
Gharb Al-andalus (o Ocidente do Andalus) que Cláudio
Torres se instalou em Mértola em 1976, dando início à
primeira escavação contínua da arqueologia portuguesa. A parte nova de Mértola, com a Igreja
Matriz em primeiro plano, vista a partir
Desde então, muitos artefactos têm visto a luz do dia, do castelo
ajudando finalmente a perceber os contornos da história da ocupação árabe da península. A
maior parte dos trabalhos desenrola-se no bairro islâmico, mesmo ao lado do castelo
construído no século XIII sobre a antiga alcáçova. De uma dezena de habitações com algum
piso intacto, ao lado das quais se encontrava a oficina de um ourives de prata, saem “cacos”
com que os técnicos do Campo Arqueológico reconstituem objectos magníficos, em puzzles
intrincados que requerem muita paciência. Os historiadores, esses, vão lentamente juntando as
peças do fabuloso mosaico de uma cultura que deixou muitas marcas na nossa história.

Este é o sítio ideal para começar um passeio não só através das ruas da vila, mas também do
seu passado – longínquo ou mais recente –, visitando os seus inúmeros núcleos museológicos
e monumentos. Do topo da fortaleza avista-se uma paisagem já mais algarvia do que
alentejana. As planícies dão lugar a um relevo acidentado, onde se destacam as serras de
Alcaria, S. Barão e S. Brissos – o primeiro mertolense notável de que há registo, martirizado e
morto pelos romanos em 312. O olhar desce até ao rio, acompanhando os telhados das casas
com os seus pátios interiores recheados de limoeiros e canteiros de flores.

Uma cegonha ronda a Torre de Menagem, que alberga um conjunto de fragmentos


arquitectónicos da época pré-islâmica, recolhido na região. Desce-se depois até à Igreja Matriz,
erguida no lugar de uma mesquita do século XII. Dessa época, o belo interior de abóbadas
nervuradas conserva ainda quatro arcos em ferradura e o mihrab (nicho que indica a direcção
de Meca). De uma das vezes que lá passei a Bíblia do altar tinha por companhia o Corão. Cá
fora soavam tambores e ouvia-se o som de cantigas árabes. Em frente ao templo, uma tenda
com o chão forrado de tapetes deixava entrar quem quisesse ouvir histórias das Mil e Uma
Noites, enquanto os cuspidores de fogo se preparavam para o espectáculo nocturno.

Parecia que tinha acabado de viajar no tempo, embora esta


fosse apenas mais uma
edição do Festival Islâmico
que, a cada dois anos, dá à
vila a oportunidade de
reviver uma época áurea.
Algumas ruas transformam-
se num autêntico souk, com
bancas onde artigos vindos
do Norte de África convivem com os produtos locais. Os
restaurantes aderem à iniciativa servindo pratos como Músicos marroquinos durante o Festival
Islâmico
cuscuz e tajines e em vários lugares pode provar-se a
doçaria marroquina, acompanhada por chá de menta,
juntamente com os méis e queijos da região.

Rota museológica
Enquanto se aguarda pela próxima festa, em Maio de 2005,
seguimos para o Núcleo do Ferreiro, antiga forja recuperada de forma a mostrar os artefactos
da actividade. Continuamos junto à muralha, passando pela sede do Parque Natural do Vale do
Guadiana, onde nos poderão ser indicados alguns dos pontos mais interessantes da área
protegida como o Pulo do Lobo ou as Minas de S. Domingos. Perto dali, o Núcleo de Arte
Islâmica expõe o resultado de mais de duas décadas de trabalho arqueológico. São peças de
osso e metal, objectos de adorno e utensílios domésticos, vasos e jóias que formam a melhor
colecção do género de todo o País. O contíguo Núcleo de Arte
Sacra, instalado na antiga Igreja da Misericórdia, contém
imagens e alfaias litúrgicas recolhidas em igrejas do concelho.

Se, como já se referiu, grande parte dos achados tem sido o


resultado de longas investigações, outros acontecem por obra
do acaso. É o caso do incêndio ocorrido no edifício da câmara
municipal, que deixou à mostra vestígios de uma casa romana,
datada de 2000 a.C. O projecto de recuperação do edifício
acabou por integrar mais este espaço museológico, albergando outros objectos da mesma
época.
Estamos praticamente no fim de um percurso que, por coincidência ou não, segue sempre
junto ao pano de muralhas. Mas não se deve ir daqui sem nos deixarmos perder pelas vielas
do interior. Aí haverá sempre tempo para dois dedos de conversa num bar, para relaxar, e até
em algumas oficinas (como a de joalharia e a de cerâmica) que produzem objectos inspirados
nas técnicas e nas formas das coisas de outrora.

Terminado o passeio intramuros, é altura de regressar ao relativo bulício de uma vila em lento
crescimento. Também aí a terra guardou segredos. É o caso da basílica paleo-cristã, escondida
sob a fachada de um edifício anónimo, onde foram encontradas várias dezenas de lápides,
incluindo uma com inscrições em grego provando o carácter cosmopolita dos habitantes de
então. Quem por aqui andar durante a semana poderá ainda visitar a necrópole romana (século
II a.C.) e a ermida de S. Sebastião, de fundação medieval, que se encontram dentro do
perímetro da escola EB 2,3 de Mértola.

Para finalizar em beleza, nada melhor do que visitar o Convento de S. Francisco, situado na
margem direita da Ribeira de Oeiras, junto à estrada que segue para Sul. Entre 1612 e 1834 o
templo pertenceu à Ordem de S. Francisco, tendo vindo a degradar-se até ao estado ruinoso
em que se encontrava quando foi adquirido, em 1977, por um casal de artistas holandeses.
Apesar de ser propriedade particular, pode percorrer os seus jardins e descansar no espaço da
antiga capela, decorado com obras de Geraldine Zwanikken. É um local de muita paz, ideal
para uma despedida a Mértola.
Castelo construído no século XIII sobre a alcáçova muçulmana.
A A sala de armas da Torre de Menagem contém diversos fragmentos arquitectónicos dos séculos VI a IX
Erguida em terreno sagrado, onde existia um templo romano e paleo-cristão, a Igreja Matriz ainda conserva
B vestígios da antiga mesquita como um nicho de oração
Embora não existam datas precisas da sua construção, pensa-se que a Torre do Relógio tenha sido erguida no
C início do século XII, sobre um antigo torreão da muralha
Centro Arqueológico – O restauro de um vaso islâmico requer uma atenção de ourives. Quando estiver pronta, a
D peça poderá integrar a colecção do Museu Islâmico, a mais completa do País
Datado do século XVII, o Convento de S. Francisco, na margem direita da Ribeira de Oeiras, é hoje propriedade
E privada

Informações úteis
O Museu de Mértola divide-se por vários núcleos espalhados pela vila. Sendo assim, pode
optar por adquirir um bilhete inteiro (€5) que dá acesso a todos os espaços museológicos. O
bilhete para visitar um só núcleo custa €2. As entradas são gratuitas para menores de 12 anos,
maiores de 65 e naturais e residentes no concelho. Posto de Turismo de Mértola, tel. 286 610
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Actividades
O Posto de Turismo faculta uma brochura com a indicação de vários percursos na região que
podem ser feitos a pé ou de automóvel. Não deixe de visitar o Pulo do Lobo, a Norte de
Mértola, onde o Guadiana é apertado numa garganta rochosa tão estreita que pode ser
transposto por um só salto de lobo, segundo dizem. Conheça ainda as abandonadas Minas de
S. Domingos e o antigo porto de Pomarão. A terceira edição do Festival Islâmico realiza-se
entre os dias 19 e 22 de Maio de 2005.

Onde dormir
Além de várias pequenas pensões, a vila conta com duas unidades de turismo rural: a Casa
das Janelas Verdes (tel. 286 612 145), situada dentro do núcleo muralhado, tem um agradável
pátio florido onde frequentemente são servidos os pequenos-almoços. O preço do quarto duplo
é de €50. A Casa Rosmaninho (tel. 963 019 341) está localizada numa rua calma do centro.
Quartos duplos entre €35 e €45. No concelho, a cerca de uma dezena de quilómetros da vila,
existe ainda a Casa dos Loendros, em Alcaria Ruiva (tel. 286 998 187), com duplos a partir de
€45.

Onde comer
Não é difícil encontrar restaurantes que sirvam as especialidades locais: sopas de tomate e de
poejo, açorda de bacalhau, migas com carne de porco, ensopado de borrego e, na época
própria, espargos bravos com ovos mexidos. Entre as várias alternativas recomenda-se a
Adega da Casa Amarela (tel. 286 612 681) que, pela sua localização na margem esquerda do
Guadiana, oferece um excelente panorama da vila. O Migas (tel. 286 612 811) fica junto ao
mercado, sendo um dos mais tradicionais. O único problema é que, quando a afluência é muita,
o serviço deixa a desejar. Experimente também o Brasileiro (tel. 286 612 660), com uma boa
cozinha regional.

Texto: Ana Pedrosa Sá

Fotos: António Sá

In Rotas e Destinos

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