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A cruz de Cristo na Terra de Santa Cruz: a geopolítica dos descobrimentos e o domínio estratégico do Atlântico Sul

A cruz de Cristo na Terra de Santa Cruz: a geopolítica dos descobrimentos e o domínio estratégico do Atlântico Sul

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Esta tese tem como objetivo maior demonstrar que antes do “descobrimento” da América a Coroa de Portugal já possuía precisos conhecimentos de regimes de ventos e correntes marítimas do Atlântico Sul bem como de posicionamento geográfico, tanto da latitude como da longitude, de pontos no litoral brasileiro referenciais na navegação para o Oriente pela rota atlântica
Esta tese tem como objetivo maior demonstrar que antes do “descobrimento” da América a Coroa de Portugal já possuía precisos conhecimentos de regimes de ventos e correntes marítimas do Atlântico Sul bem como de posicionamento geográfico, tanto da latitude como da longitude, de pontos no litoral brasileiro referenciais na navegação para o Oriente pela rota atlântica

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RENATO PEREIRA BRANDÃO

A CRUZ DE CRISTO NA TERRA DE SANTA CRUZ: A Geopolítica dos Descobrimentos e o Domínio Estratégico do Atlântico Sul

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor em História na área de concentração em História Social.

Orientação: Profa. Dra. Lana Lage da Gama Lima

NITERÓI

MARÇO 1999

Brandão, Renato Pereira

A cruz de Cristo na Terra de Santa Cruz: A geopolítica dos descobrimentos e o domínio estratégico do Atlântico Sul / Renato Pereira

Brandão. Niterói, Universidade Federal Fluminense. Centro de Estudos Gerais/ICHF, 1999. 1v.

1. Descobrimentos ibéricos Cartografia quinhentista 3.

-

Rotas náuticas 2. Ordens monásticas

militares - do Templo, do Hospital e de Cristo 4. Índios 5. Brasil - História - Franceses no Rio de Janeiro, 1555-1567

Esta tese é dedicada a Marta, mulher e companheira, e aos nossos filhos d`áquem – Renato, Leonardo e Clarissa – e d`além mar – Vanessa, Natasha, Pablo e Luciene. A eles agradeço o afeto e paciência ao ouvir as constantes reclamações sobre aquele livro não encontrado onde pensava que havia posto ou sobre o velho computador que, freqüentemente, recusava-se a colaborar.

AGRADECIMENTOS

A realização desta pesquisa tornou-se possível graças ao apoio institucional do CNPq, através da concessão de Bolsa de Doutoramento, e da Universidade Estácio de Sá, através do Programa de Apoio à Qualificação Docente.

Temeroso de algum lapso, agradeço a todos –amigos, professores e alunos da UFF e UNESA, pesquisadores de outras instituições – que, direta ou indiretamente, colaboraram com este trabalho.

Agradeço de forma muito especial à Profa. Lana Lage da Gama Lima, mais do que orientadora amiga sempre preocupada em envolver as críticas mais contundentes em palavras de reconhecimento de mérito e incentivo, e aos Profs. Vânia Leite Fróes e Nelson Mello e Sousa, a quem devo imprescindível apoio na realização deste trabalho.

Sumário

Introdução______________________________________________________________1 O Tema Orientação Teórico-Metodológica

I-. A Cartografia Renascentista e a Expansão Ibérica : Conhecer o Céu Para Descobrir a Terra_________________________________26 1. A Cartografia e a Representação da esfera no Plano 2. Breve Histórico da Cartografia Renascentista 3. A Navegação dos Descobrimentos II- . Um Novo Continente na Rota Para o Oriente : As Coordenadas do Novo Mundo na Conquista do Índico__________________________________________________52 1. O Engano de Colombo na Procura do Oriente 2. Tordesilhas, o Mapa de Cantino e a Capitania de Sant’Ana 3. A Arte de Navegar no Atlântico Sul III. A Geopolítica dos Descobrimentos s os Cavaleiros do Templo_________________________________________________________________118 1. Os Tupi-Guarani e o Mito de Sumé 2. Os Monges Guerreiros do Templo de Salomão 3. As Ordens Monásticas Militares na Guanabara e o Controle Estratégico do Atlântico Sul

Considerações Finais___________________________________________________________________175 Referências Bibliográficas__________________________________________________197

Anexos I- Recursos Náutico nos Descobrimentos:__________________________________214 1 Instrumentos e Unidades de Medidas Náuticas dos Descobrimentos 2 Embarcações II Cartográfico________________________________________________________226 1 Os Regimes de Ventos e Correntes do Atlântico Setentrional 2 As Rotas de Navegação Utilizadas por Colombo 3 O Mapa de Cantino 4 Superposição do Mapa de Cantino a um Mapa Atual 5 Os Regimes de Ventos e Correntes do Atlântico Meridional 6 Limites das Capitanias Hereditárias, Conforme Definidos em Suas Cartas de Doação

Resumo Cronológico_____________________________________e______________234

RESUMO

Considerando os descobrimentos ibéricos portugueses como desdobramento do processo medievo cruzadístico de Reconquista ibérica, sustentada por dados cartográficos expressos no Mapa de Cantino e nas cartas de doação das Capitanias dos irmãos Martim Afonso e Pero Lopes de Sousa, esta tese propõe-se a demonstrar que, anterior ao feito descobridor de Colombo, a Coroa de Portugal já possuía precisos conhecimentos de regimes de ventos e correntes marítimas do Atlântico Sul bem como de posicionamentos, em latitude e longitude, de pontos referenciais do litoral brasileiro. Propõe-se, então, demonstrar que os descobrimentos portugueses não são frutos exclusivos dos ímpetos navegador e mercantilista, mas conseqüência de um projeto articulado entre a Coroa de Portugal e a Ordem de Cristo voltado para construção de uma nova ordem geopolítica ocidental, a partir do deslocamento do eixo comercial ÍndicoMediterrâneo para o Atlântico-Índico.

Por exigir a presença prolongada de astrólogos doutos, únicos então capazes de realizar as observações astronômicas, e cálculos, necessárias em tempos medievos, conclui-se que somente a uma ordem monástica é possível atribuir a responsabilidade por tais determinações de geoposicionamento. Relacionando o registro da presença destes astrólogos ao Sumé, personagem mitológica Tupi, discute-se então se esta responsabilidade cabe à Ordem de Cristo ou se esta herdou este conhecimento da Ordem dos Templários, da qual era legítima herdeira e sucessora.

ABSTRACT

Our work aims at demonstrating that before Columbus` discovering America, the Portuguese Crown was already aware of the course of the wind and maritime streams in South Atlantic as well as the latitudinal and longitudinal location of reference points on the Brazilian Coast. We have viewed the Portuguese ultramarine discoveries as a ramification of the Medieval Crusades aiming at the Iberian Reconquest supported by cartographic data presented in Cantinos`s Map and in the donations papers of Sao Vicente and Saint Amaro Capitanias, donated to the brothers Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa. Consequently we will attempt do demonstrate that the Portuguese maritime discoveries are not a mere result of the navigational and mercantilist impulse but rather a consequence of an articulated project between the Portuguese Crown and the Order of Christ interested in building a new western geopolitical order. As the extended presence of experts astrologists, the only ones who were able to perform astronomical observations and the necessary calculus in Medieval ages, it can be inferred that one can only attribute the responsibility to a monastic order, for such geodesic determinations. Relating the presence of these astrologists to Sumé, a mythical Tupi character, one can speculate if such responsibility is to be given to the Order of Christ or if this Order has inherited such knowledge form of the Order of Temple, from which it is the legitimate heir and successor.

1

INTRODUÇÃO

2

O TEMA: Esta tese tem como proposta discutir a geopolítica dos descobrimentos ibéricos tendo como objetivo demonstrar o processo expansionista de português do contextualizava-se mediterrânico e que num de

programa

maior

deslocamento

eixo

controle da rota

oriental a partir do domínio do Atlântico Sul.

Este programa apoiava-se em um plano estratégico elaborado em parceria com a Ordem de Cristo fundamentado nos conhecimentos, herdados da Ordem do Templo, de regimes de ventos e correntes marinhas do Atlântico meridional de pontos bem como de precisos da costa à

posicionamentos brasileira.

geodésicos a

referenciais

Considerando

invasão

francesa

quinhentista

Guanabara como decorrência dos conflitos que se seguiram ao deslocamento do eixo mediterrâneo, demonstraremos que esta

operação beligerante externava, mais do que uma disputa por interesses colonialistas entre Portugal e França, um conflito intestino da Igreja Católica entre duas importantes ordens

monásticas militares, de um lado a Ordem de Cristo, sucessora da Ordem do Templo, e de outro a Ordem São João de Jerusalém, ou Ordem de Malta.

Apesar de recentemente, por ocasião das comemorações de 500 anos do descobrimento do continente americano, ter havido uma profusão de pesquisas e trabalhos acadêmicos voltados para

3

os

descobrimentos

ibéricos,

permanecemos

ainda

na

obscuridão

para a

questão primeira e fundamental referente ao tema. Dentre

estas, conforme apontado pelo medievalista José Mattoso (1), destaca-se a questão demográfica: séculos XV e XVI possuía como pode Portugal, que nos um continente populacional

extremamente reduzido, sendo carente, portanto, de colonos e soldados, quase as empreender uma ação colonialista que se estendia por todas as regiões continentais? Decorrente desta

questão geral, perguntamos então como pode Portugal, ao mesmo tempo, conquistar e defender o imenso litoral brasileiro,

fazendo frente a diversas sublevações indígenas e tentativas de invasões poderosas explicar empreendidas do este que o por outras nações européias, Ou bem mais como

pequeno dos

reino

Lusitano? de

seja,

processo,

maiores

expansão

espacial

registrados pela história, empreendido sem uma representativa presença do elemento étnico conquistador.

O senso comum, inclusive entre os acadêmicos, considera que os portugueses foram que movidos notadamente pelo ímpeto

mercantilista, enquanto

os espanhóis pelo conquistador e

os colonos ingleses pelo desejo de fundar uma nova nação. A partir desta assertiva costuma-se tecer uma série de

considerações sobre os diferentes processos colonizadores e seus reflexos na formação dos países americanos (2). Contudo, se aos portugueses coube o papel de mercadores que viam o Brasil, a princípio, uma terra de passagem e de coleta predatória, deveria

4

a América portuguesa ter pouco se expandido em longitude. Se o ímpeto conquistador estava reservado ao América espanhola ter ultrapassado o espanhol, deveria meridiano divisório a de

Tordesilhas, se expandindo em direção ao Atlântico.

Se coube,

ao mesmo tempo, aos ingleses o espírito maior de colonização na América, deveria os Estados-Unidos ter tido a primazia na

construção do seu espaço como nação. Contudo, coube a América portuguesa conquistar grande parte da América dos

"conquistadores" espanhóis, como também coube a ela

definir a

amplitude de seu espaço bem antes que a colônia inglesa assim o fizesse.

A presente

tese,

fruto de quase uma década de pesquisa

direta e algumas de estudos e reflexões, tem nestas questões o seu eixo temático. Teve esta pesquisa início, ainda ao cursar o bacharelado em Arqueologia, quando a mim despertou especial

atenção a Tradição Tupi-Guarani, particularmente em relação `a expansão espacial desta Tradição que, considerado o espaço de tempo necessário para ocupar brasileira, é considerada quase toda a região litorâneo

a mais expressiva registrada pela

pré-história, para uma sociedade ceramista.

Ao ingressar no mestrado em História da Arte, área de concentração em Antropologia da Arte, apresentei como

projeto de dissertação

a análise do espaço tribal

Tupinambá

5

como expressão da estrutura social Tupi-Guarani. Exceção dentro do padrão de estruturas sociais clânicas e dicotomizadas,

características para as etnias aborígines americanas, tinha como proposta demonstrar que as construções do espaço nas aldeias

Tupinambás refletiriam seu particular universo social. Ao longo do curso esta pesquisa os limites adquiriu, da porém, uma nova ótica, no

ultrapassando

Pré-história,

inserindo-se

contexto histórico dos aldeamentos jesuíticos formados, em sua maioria, por indígenas Tupi-Guarani. Comungando com a visão então vigente, preocupava-me, denunciar a além política de analisar da sua Coroa

espacialidade,

genocida

portuguesa engendrada contra o contingente

aborígine. Contudo,

ao confrontar os dados demográficos, deparei-me com um contexto desconcertante. Observei que, se esta população nativa tivesse levando-se em

sido fisicamente exterminada conforme apregoado,

conta a expressiva transposição populacional de africanos para o Brasil e a total incapacidade da Coroa portuguesa em ocupar grandes espaços através de uma política migratória, a população brasileira portuguesa haveria um de ser essencialmente prolongamento negra e a América do

verdadeiro

pós-atlântico

continente africano.

Após analisar o potencial bélico do português seiscentista para um confronto com indígenas no ambiente de mata tropical conclui que dificilmente o resultado seria favorável

ao europeu. Passei então a considerar que a construção do nosso

6

espaço colonial apoiou-se numa

estratégia de cooptação da força

guerreira indígena, direcionada não só contra os “invasores” europeus, como também contra outros grupos tribais aborígines refratários e ao próprio negro escravizado. Assim, os

portugueses dependeram das alianças feitas com diversas “nações” Tupi-Guarani, extremamente adaptados às condições ambientais e herdeiros de uma forte tradição guerreira, para a concretização do seu projeto de conquista, estando esta estratégia

documentalmente Sousa.

expressa no Regimento do Governador Tomé de

Conclui o mestrado com a dissertação voltada para análise comparar da a espacialidade diferenciação da América missioneira na jesuítica, da optando

a por

construção em

espacialidade aos nossos

missioneira

espanhola

relação

aldeamentos, selecionando o aldeamento de São Lourenço como estudo de caso. dado da Apesar a de centrada de fortemente do este no discurso em ao

histórico, Antropologia

área

concentração aproximar

mestrado discurso

Arte,

procurei

enfoque etnológico, discutindo as conseqüências do projeto de conversão religiosos jesuítico na sociedade indígena e a

expressão espacial deste processo.

Procurando melhor entender a

dimensão social da consagração do título de Cavaleiro da Ordem de Cristo a Araribóia, “principal” deste aldeamento, me deparei com a questão do Padroado religioso, sob o poder institucional

7

desta ordem monástica. Passando, então, a estudar a origem desta Ordem, tomei conhecimento da a Ordem de Cristo sucedânea, Ordem dos Templários, da qual era cuja tradição exalta a capacidade

expressa nas Cruzadas de construção de alianças, muitas delas costuradas com forças islâmicas. Tomou-me então a suspeita de que esta Ordem monástica teria tido uma participação expressiva, ainda não revelada, nos descobrimentos portugueses.

Ao ingressar no proposta elaboração a da continuidade dissertação

curso de doutoramento, tendo como da de pesquisa mestrado, desenvolvida ao para a o

considerar

aldeamento como gerador de um contexto municipal, o projeto de tese apresentado volta-se não só para o aprofundamento do

histórico de São Lourenço e da Vila de São Domingos da Praia Grande como também na análise do contato interétnico e do

processo de aculturação decorrente da implantação, permanência e convivência deste aldeamento jesuítico com um novo núcleo urbano colonial, gestado em seu interior. Ao longo da pesquisa, ao

analisar a documentação primária sobre o patrimônio da Companhia de Jesus na Capitania do Rio de Janeiro, a fim de estudar a relação dos estabelecimentos jesuíticos aldeamento de São Lourenço, mais próximos com o com uma questão

deparei-me

desconcertante, ao observar que em algumas regiões instaurou-se o conflito administrativo entre o Governador da Capitania do Rio de Janeiro e o Capitão-mor de São Vicente, com a concessão de

8

diferentes sesmarias por estas autoridades para o mesmo local. Este questão levou-me a pesquisar sobre a origem da Capitania Real do Rio de Janeiro, importância controle novamente da da Baia de constatando que Guanabara para de como o se relacionava com a ponto estratégico Vi-me, e de

rota

marítima ao

Oriente.

assim, expansão

frente

processo

descobrimentos

ultramarina da Coroa portuguesa e a militares neste processo, tema

interferência das ordens

que me envolveu definitivamente.

Deste modo, esta tese

expressa todo um caminhar onde mas trazer

não temos a pretensão de “reescrever a História”, novas luzes sob um tema que,

apesar de prestes a completar 500 permanecem ainda na este processo contextualidade previamente

anos, muitas das suas principais questões

cercadas de dúvidas e incertezas. Ao considerar expansionista geopolítica e como elaborador de de uma uma nova

conseqüência

estratégia

arquitetada, esperamos os descobrimentos

despertar novas discussões não só sobre como também pela sobre de o processo Portugal de na

ibéricos

conquista América.

colonialista

adotada

Coroa

ORIENTAÇÃO

TEÓRICO-METODOLÓGICA:

Os

descobrimentos são

ibéricos,

assim

como

a

queda

de da

Constantinopla,

considerados

como

marcos

referenciais

9

eclosão da modernidade. O encontro de um Novo Mundo juntamente com o acesso direto às fontes produtoras e distribuidoras de especiarias no Oriente usualmente são apontadas como as razões principais que fazem dos descobrimentos marco referencial de um momento histórico. Morton é um dos poucos estudiosos que destaca o aspecto geopolítico deste momento de transformação, ao

ressaltar que a chagada da frota portuguesa no Índico resultou na destruição do poder das cidades comerciais italianas e a mudança do centro gravitacional da Europa, do Mediterrâneo para a costa Atlântica (3).

João Marinho dos Santos (4) considera que, neste processo expansionista, nem tudo fora obra do acaso como nem tudo fora “cientificamente” programada. Apesar de concordar com o eminente historiador português, pois é inegável a interferência da

casualidade no processo histórico (5), note-se que as pesquisas sobre os descobrimentos pouco se volta para o “cientificamente programado”, normalmente enfocado do ponto de vista dos avanços tecnológicos que permitiram esta aventura marítima. Consideramos aqui que uma ação de tamanha envergadura e conseqüência

geopolítica tenha sido fruto, primordialmente, de um projeto estratégico prévia e cerebralmente arquitetado.

Ao considerar a expansão marítima portuguesa, contudo, como conseqüência de um planejamento inserido em uma

processualidade histórica, e não dos designes divinos ou do

10

destino,

devemos

observar no ventre

que do

a

sua

gestação ibérico,

se mesmo

deu, que

obrigatoriamente, tardio.

medievo

O historiador mexicano Bosch Garcia dos descobrimentos ibéricos, a

destaca, no estudo de recordar-se o

necessidade

Medievo espanhol e a Reconquista, observando que enquanto na porção central da Península Ibérica a Reconquista apresentou-se como a implantação do sistema feudal tradicional, na Catalunha, Aragão e Navarra o feudalismo resultou numa mescla de valores

sociais desconhecido para o feudalismo europeu, com a absorção das populações árabes e judias e de uma superposição do mundo feudal com o moderno burguês. Apesar de ter tido problemas idênticos ao de Castela, observa ele que o processo de formação

do Reino português assemelha-se com o de Aragão (4). Contudo, a influência Estado da cultura tem islâmica sido na um formação ponto sóciopolítico discordante do na

português

historiografia portuguesa. Para Serrão, a ocupação moura legou uma forte herança cultural. Os Mouros constituem o elemento não hispânico que deixou influência mais perdurável nas instituições, na língua e nos costumes do País. Com a exepção da marca romana, não existe na formação do nosso povo contributo tão valioso para a definição regional que se obrou ao sul do Tejo e na sedimentação de largos estratos da vida e da mentalidade portuguesa. (...) Um convívio de cinco séculos, que se prolongou após a Reconquista, fez com que muitos vocábulos de origem árabe se introduzissem pela via directa ou hispânica no léxico nacional. Muito desses termos focam a administração e a justiça, o exército e a marinha, a vida social e privada, a natureza e a fauna, a agricultura e a moeda, a vida quotidiana e as profissões. (7)

11

Diferentemente,

Da

Silva

e

Hespanha

nega

esta

influência e credita à forte identidade católica o motivo da exclusão do mouro na formação portuguesa.

Negativamente, este sentimento de identidade promovia a recusa de tudo o que fosse estranho ou adverso à comunidade católica, desde os pagãos, ou infiéis, aos judeus ou aos hereges. Primeiro, pela força da idéia de limpeza de sangue, depois, pela idéia de cruzada, constitutiva de toda a mitologia da portugalidade e que se enraizava, justamente, na idéia de que os mouros (mais tarde, os infiéis em geral) eram o "outro". Reflexo dessa posição foi a recusa de integração da herança muçulmana, factor de ruptura no seio da identidade cristã, na construção de uma identidade portuguesa e/ou peninsular (hispânica). O domínio mouro foi invariavelmente descrito como factor de perturbação, inaugurador de tempos de destruição. (8)

Endossamos o ponto de vista de Serrão por considerar que o discurso de Da Silva e Hespanha encerrar contradições. Ao contrário do que denotam suas palavras, a ocupação islâmica antecede à formação da identidade portuguesa, que é construída no processo da Reconquista. Mais adiante, estes autores afirmam que os meios de produção da identidade católica eram muito mais eficazes e abrangentes do que os mecanismos de produção de uma identidade gentílica. Ora, se assim ocorreu, a cultura islâmica e a etnicidade berbere-arábica comunidades não deveria ao ser obstáculo à

incorporação

das

moçárabes

nascente

Reino

português. Observamos ainda que o conceito de pureza de sangue e a discriminação a mouros e judeus surgem mais tardiamente na história da formação deste Reino, não sendo sem motivo "que, para os estrangeiros (e, desde logo, para os Castelhanos), uma das marcas da identidade portuguesa era, justamente, a

mestiçagem e a contaminação judaica", conforme mesmo observam da Silva e Hespanha (9). Indo ainda mais longe, Cortesão destaca

12

a importância ao Reino pela

das comunidades islâmicas costeiras incorporadas reconquista na origem da tradição marítima

mercantil portuguesa.

Quanto à importância que atribuímos à parte dos moçárabes e muçulmanos nas origens marítimas de Portugal, diremos ainda que o simples bom-senso leva a pensar que a civilização comercial dos sarracenos não se perdera de todo em cidades flúvio-marítimas, como Santarém, Lisboa e Alcácer, tanto mais que os novos senhores tinham o maior interesse em conservá-la. (...) Do Algarve podemos afirmar que, após a reconquista, a maior parte da fruta da província continuou a ir para terra de mouros, donde vinha em retorno notável número de dobras de ouro, as "valedias" de Tunes. Em 1198 naufragou nas costas do Flandres um navio português, que ia com destino a Bruges, e entre os artigos da carga, cujo registro se conservou, figura em primeiro lugar o açúcar, especiaria então extremamente rara e que só poderia ser importada de terras de sarracenos, o que indica da mesma sorte continuidade de tráfico entre os dois povos de religião diferente. Porventura mais eloqüente é o que sucede com Santarém. Documentos relativos a esta cidade, dos séculos XII e XIV, mostram que então as suas relações comerciais eram principalmente com o Algarve e Sevilha, havia poucos libertos do jugo muçulmanos, e com a Berberia. Ainda em 1383, o rei D. Fernando determina que não exijam fiadores ao alcaide dos mouros de Santarém sempre que ele vá a além-mar, a terra de mouros, com mercadorias, para de lá trazer outras. (...) O facto de os negociantes portugueses se fixarem em Tão grande número em Franca, Flandres, Londres e Sevilha supõe não só uma organização comercial no país de origem e um serviço de comunicações certas e próprias, capazes de compensar as despesas e trabalhos da demorada expatriação, mas também uma educação mercantil, que seria ilógico, como dissemos, presumir nascida e formada depois da conquista de Lisboa. (10)

Assim, concordando com Bosch Garcia, julgamos que, apesar de não poder falar em uma cultura muçulmano-

lusitana,

conforme ocorreu na Catalunha (11), os processos de em

Reconquista nestas regiões extremas da Península Ibérica,

maior ou menor grau, assemelham-se. Fruto da superposição de uma estrutura feudal a um substrato judaico muçulmano, culturalmente mais avançado, será essa mescla que representará a modernidade portuguesa, permanecendo na sua essência até o século XVIII. De

13

forte

influência

feudal,

porém

profundamente

diferenciado

do

feudalismo castelhano e transpirinaico.

Ao comparar o Estado monárquico português, em relação às outras nações européias, vemos que, apesar da sua formalização precoce, a permanência de grande autonomia por parte das

câmaras municipais, o que dava a este Estado um caráter bem menos centralizador. Muita tinta tem se vertido na discussão de sua origem, se romana, visigótica ou mesmo islâmica. Contudo, numa perspectiva processualista, podemos dizer que a alternância do poder político não desemboca, necessariamente, em um processo de excludência cultural. Se não podemos negar a origem da

tradição municipalista com a implantação por Roma de seu sistema administrativo nas regiões incorporadas ao Império, igualmente não podemos negar que a conquista visigótica preservou muito das instituições romanas na Península, conforme demonstra o Código Visigótico, permeado de leis originalmente romanas. Ao mesmo tempo, lembramos que a implantação do sistema administrativa islâmico na Península dá-se sob a dinastia omíada originária de Damasco, cidade de tradição bizantina, ou seja, grego-romana. A

denominação de origem árabe para diversos cargos municipais alcaide, almotacés, almoxarife- não deixa dúvidas da permanência de parte da estrutura administrativa islâmica nas novas regiões incorporadas ao Reino português. processo de alternância de Assim, consideramos que nesse poder na faixa atlântica da

Península Ibérica, essas "linhagens" culturais contribuíram, se não de forma igual, certamente confluentemente, na

institucionalização da autonomia municipalista portuguesa.

14

Também na questão da propriedade da terra, o Estado português apresenta-se como peculiar em sua formação. Se, de um lado, a terra Lei das Sesmarias, ao privilegiar o direito à posse da seu cultivo, conflita-se com o de propriedade,

pelo

inquestionável no Estado moderno, de outro possibilita acesso à terra a colonos que no regime feudal tradicional estariam

relegados à servilidade (13).

Quanto à questão dos exércitos permanentes, a passagem do exercício da guerra feudal, atividade exclusiva da nobreza, aos exércitos "nacionais" dos Estados modernos no século XVIII foi intermediada, na Europa em geral, pela formação dos exércitos mercenários (14). Portugal, contudo, apesar do seu limitado

contingente populacional, prescinde da formação de um exército mercenário mobilização permanente, optando, desde os primórdios, pela

da população civil através das "ordenanças". Neste

aspecto, inicialmente Portugal apresenta-se como a vanguarda da modernidade européia. Contudo, no final do século XVIII, quando a maioria das noções européias procurava substituir seus

exércitos mercenários por tropas nacionais regulares formadas por recrutamento, as forças portuguesas eram, paradoxalmente, constituídas ainda, na sua maioria, pelas milícias de ordenanças convocadas pelos conselhos das câmaras. (15) Assim, frente a esta conjuntura político-social das híbrida que ao estar e, o mesmo, termo

sincrética,

precisamos

fugir

armadilhas

modernidade encerra, quando referido ao Estado português.

15

Deste modo, o Estado absolutista representa um modelo de Estado antigo e não o único modelo. Apesar da formação inicial

de um estado monárquico absolutista que evoluiria para um Estado burguês democrático ser um é modelo um referencial para a

historiografia universal. português

ocidental,

engano esta

considera-lo do

como Estado de

Martinière, em relação

observando ao modelo

diferença

absolutista,

denomina-o

“hierarquia descentralizada”, considerando a unidade territorial brasileira demonstrativo de sua eficácia administrativa (16).

Consideramos,

portanto

que

essa

"modernidade"

que

antecede D. João V, que é a nossa "matriz colonial", refere-se a um processo de formação de Estado antigo que se difere em gênero e não em grau das monarquias absolutista centro-européia, onde podemos identificar aspectos considerados tanto "retrógrados" como mais “avançados” ou progressistas” em relação a estes

Estados absolutistas. Assim, caso queiramos melhor conhecer a "modernidade" portuguesa, e portanto, a nossa "modernidade",

devemos deixar de lado os parâmetros históricos transpirinaicos, que associa todos os projetos coloniais à política absolutista, e procurar suas raízes fincadas no processo de formação do Estado português, para então analisar a maneira pela qual esta "modernidade" foi aqui transplantada, e suas conseqüências na formação da nossa sociedade colonial.

16

O descobrimentos

grande

entrave

nas

pesquisas sem

voltadas dúvidas,

para a

os

ibéricos

deve-se,

quase

inexistência de fontes documentais

dos séculos XIV e XV nos

arquivos portugueses referentes aos descobrimentos lusitanos. Cortesão (17) credita esta ausência à política do sigilo adotada pela Coroa, exemplificando com o minucioso testamento do Infante D. Henrique, considerado o responsável pelos grandes avanços nas ciências náuticas que permitiram a expansão marítima portuguesa, onde não se encontrou um sobre único os roteiro, carta náutica ou

informação

relevante

descobrimentos

portugueses.

Somente a partir do início do século XVI que passa a existir uma farta documentação sobre as frotas que se dirigiam à América,

África e Ásia, assim como dos acordos comerciais e da política externa da Coroa portuguesa. Até então, as informações advém, principalmente, dos relatos parciais e duvidosos de cronistas.

Apesar historiadores convincente

de

muito

contestada

pela

maior

parte

dos como

portugueses explicação

contemporâneos, para este

julgamos hiato

esta

documental.

Evidentemente, conspirações" desenrolar diabólicas,

não propomos resgatar a questionada "teoria das onde, desconsiderando é visto pela como a um dinâmica joguete e social, de o

histórico

mentes de

responsáveis

arquitetura

realização

mirabolantes planos e conspirações. Contudo, não devemos cometer o costumeiro erro de “jogar fora a suja criança junto com a água

da bacia” e assumir a postura ingênua de desconsiderar a negociações e articulações "subterrâneas",

possibilidade de

não registradas em fontes documentais acessíveis. O cotidiano

17

político está repleto de exemplos que demonstram a importância do segredo e das informações sigilosas no processo histórico (18).

Contudo,

julgamos

não

ser

a

pertinente

considerar, única.

conforme Cortesão, a razão de segredo de estado como

Conforme apontamos, a gênese da expansão ultramarina encontra-se no medievo, onde a transmissão e renovação dos conhecimentos davam-se também por outras vias além da acadêmica e livresca. Do mesmo modo que não se encontram os projetos e planos

construtivos dos aperfeiçoamentos arquitetônicos que permitiram a construção das catedrais góticas, também não se encontram registros sobre os avanços náuticos até a segunda metade do século XVI. Porém, nestas sabemos catedrais que eram os princípios construtivos sofisticados,

empregados

extremamente

exigindo profundos conhecimentos de, dentre outros, distribuição de forças e resistência de materiais, o que possibilitou a transferência do empuxo da cobertura diretamente para o solo,

através dos arcos botantes. Do mesmo modo as caravelas, cujo surgimento só foi possível graças a um elaborado aperfeiçoamento na arquitetura náutica que a permitia, seguindo um trajeto em zig-zag (navegar à bolina ou bordejar) contrários. vencer à ação dos ventos

Evidentemente, que após o aperfeiçoamento e expansão da imprensa, a e transmissão restrita. de conhecimento temos a tornou-se pretensão de menos nos

problemática

Contudo,

considerar herdeiro de todo o conhecimento adquirido, quando muito se perdeu ao longo do processo histórico. Julgamos que

18

esta

distorção do

deve-se,

em

grande

parte, e

a

concepção que tão

evolucionista

aperfeiçoamento

constante

linear

fortemente marcou o nosso pensamento historiográfico através do positivismo (19).

Deste

modo,

devemos

estar

atentos

que

tratar

dos

descobrimentos ibéricos nos coloca numa região fronteiriça onde encontramo-nos com um pé na modernidade e outro no medievo. Se a utilização de atentos espiões e documentos top secret revela um sofisticado jogo político caracteristicamente moderno, por outro lado, esta forma “subterrânea” de transmissão de conhecimentos revela um contexto caracteristicamente medieval.

Aos olhos de um grande número de historiadores, o fato de se procurar explicações para determinados acontecimentos

históricos sem estar alicerçado em fontes primárias demonstraria a falta de cientificidade, até mesmo seriedade, do pesquisador. Apresenta-nos, então, hipóteses não a seguinte questão: como trabalhar com por um número considerável de

respaldadas

fontes confiáveis,

preferencialmente primárias, sem cair no preocupação dentro do levou-nos à viés da

subjetivismo ou mesmo no delírio? Esta procura de caminhos alternativos

interdisciplinaridade.

Destacamos, referência suas do

assim, nosso

a

Cartografia

como

principal Utilizaremos cálculo atual de

discurso

interdisciplinar. referentes questionar o ao

informações,

principalmente para

coordenadas

geográficas,

modelo

interpretativo para a expansão ultramarina ibérica e procurar

19

demonstrar território

que

a

exploração,

por

parte muito

de

europeus, de

do seu não

brasileiro Assim,

iniciou-se o nosso

antes está

“descobrimento”.

discurso

apoiado

somente em relatos documentais como também em dados matemáticos.

Por outro lado, ao abordar o contato interétnico entre o europeu e o nosso aborígine litorâneo, devemos ressaltar,

inicialmente, que a barreira entre a História e a Pré-história é essencialmente conceptual. Uma concepção que define, a priori, meios metodológicos diversos de abordar o processo histórico e não a natureza deste. Se cabe à Arqueologia a análise dos momentos pré-históricos, numa perspectiva processual constata-se que inexiste a barreira entre a Pré-história e a História

Social. Ao ultrapassar suas verdadeiras dimensões operacionais, esta diferenciação do mostra-se como extremamente especialmente cruzam diversas danosa em na

reconstrução

processo colonial,

histórico, onde se

nossa

historiografia

etnias,

aborígines, européias e africanas, sendo, porém, somente uma delas produtora de fontes documentais escritas. O europeu ao

aqui chegar encontra uma sociedade ágrafa, porém agente de um processo histórico em curso. A presença do europeu representará uma variante, e não uma "origem", neste processo.

Finalmente

destacamos

que,

do

ponto

de

vista

metodológica, esta pesquisa é fruto do “pensar arqueológico”. Comparado por diversos autores a investigação detetivesca, onde, muitas vezes, a contextualização dos vestígios indiretos

20

reconstitui depoimentos

uma

cena

totalmente a

diversa

da

relatada

nos

testemunhais,

pesquisa

arqueológica

procura

primeiramente recuperar o complexo da cultura material, suporte básico para a reconstituição etnográfica e De maneira reflexão semelhante sobre o da processualidade o nosso e tema,

diacrônica. apoiando

abordamos

nossa

descobrimento

conquista

espacial da América portuguesa no cruzamento dos dados de cunho tecnológico instrumental náutico e cartográfico com

relatos documentais e informações etnográficas.

21

NOTAS

1- José Mattoso. Breve reflexões sobre o início dos descobrimentos portugueses. In Fragamentos de uma composição medieval. Lisboa, Estampa, 1987, pp. 296/7: Para explicar tal fenômeno, [os descobrimentos] os manuais de história limitam-se normalmente a enumerar um certo conjunto de acontecimentos que se podem considerar como antecedentes. Tais são os contactos históricos do Ocidente europeu com outras civilizações: as cruzadas, o estabelecimento da rede de comércio mediterrânico por mercadores italianos, catalães e andaluzes, as embaixadas enviadas aos mongóis, as viagens de missionários e aventureiros ao Oriente. Ou então, descrevem-se os inventos técnicos que permitiram desenvolver a navegação ao longo curso: a bússola, o leme, os portulanos, o aperfeiçoamento das velas. Em manuais mais detalhados pode-se mesmo falar da transmissão dos conhecimentos geográficos e astronômicos vindos da época clássica e desenvolvidos pelos muçulmanos. Limita-se geralmente a explicação do fenômeno à recolha deste conjunto de factos. (...) Tudo isto é importante, e pode-se considerar como matéria adquirida, mas não satisfaz plenamente. Em termos globais, pode-se perguntar, por exemplo, o seguinte: Se o Ocidente passava, desde meados do século XIV, por um período de crise demográfica e de recessão econômica, como se compreende esta tendência para a expansão ultramarina? Onde estão os excedentes populacionais que alimentam a constante sangria de gente? Se os Europeus se mantiveram durante tantos séculos encerrados dentro dos limites do continente, mesmo numa época de crescimento demográfico, como foi a dos séculos XI e XII, porque é que sentem agora a necessidade de conhecer novos mundos fora da sua área civilizacional? Se até então concebiam a relação com outras culturas de forma agressiva, inconciliável; donde vem agora a curiosidade por costumes diferentes, o ímpecto para comunicar com povos de língua desconhecida, a coragem de navegar através do oceano cheio de perigo? 2- Cf.Roberto da Matta, Jornal do Brasil. Rio de Janeiro. 18 de agosto de 1996. Caderno B, p.1. Nesta entrevista, o antropólogo Roberto da Matta, ao tecer considerações sobre a influência do processo colonizador na formação da cultura brasileira, exprime de forma precisa este verdadeiro paradigma histórico. 3- A. L, Morton. História do povo inglês. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1970, pp. 136/7. 4- João Marinho dos Santos - “A Expansão Pela Espada e Pela Cruz”. Palestra proferida no Seminário Brasil 500

22

anos Experiência e Destino, Ministério da Cultura FUNARTE / Divisão de Estudos e Pesquisa, 06/11/97.

-

5- A discussão da interferência da casualidade no escopo da ciência foi recentemente retomada pela teoria da complexidade que considera a história do universo como determinada tanto por leis fundamentais como por inconcebíveis seqüências de acidentes que surgem de várias maneiras e com várias probabilidades. Gell-Mann apresenta uma interessante e profunda discussão sobre esta polêmica teoria em O quaker e o jaguar. Rio de Janeiro, Rocco, 1997. 6- Carlos Bosch Garcia - La expansión marítima anterior al descubrimiento. In Ideas y presagios del descubrimiento da América. México, Inst. Panamericano de Geografia e História / Fondo de Cultura Económico, 1991, pp. 35/7/9/42: “En Cataluña coincidió el establecimiento del feudalismo y el comienzo de la economía monetaria y de ello resultó una mezcla de valores sociales, desconocidos para el feudalismo europeo. Así se absorbió la población árabe y también la esclava y todos juntos coadyuvaron el desarrollo de la economía, siendo los judíos uno de los grupos más activos en Cataluña, Aragón y Navarra. (...) En las ciudades catalanas se superpuso el mundo feudal con el moderno burgués y ello se reflejó en la economía urbana al reclamar las leyes de excensión que las convertiría en privilegiadas. (...) En la Meseta castellana en cambio, las órdenes militares no abandanaron el ámbito feudal y promovieron los grandes latifundios, sobre todo en las fronteras del sur. (...) Portugal tuvo, por su parte, idénticos problemas que Castilla, pero les opuso un atractivo programa de navegación expansiva que embebió las demandas de su aristocracia, menos rigida que la castellana; convitió Lisboa en lugar de apoyo para la navegación que iba del Mediterráneo al Atlántico y se proyectó a las aventuras de este océano aceptando la contribución de excelentes esfuerzos. De manera similar procedió la corona de Aragón, constituyéndose en vanguardia al principio del siglo XIV. 7- Joaquim Serrão - História de Portugal. Lisboa, Verbo, 1979, p.192, v. 1 8- Ana Cristina Nogueira Da Silva & António Manuel Hespanha A identidade portuguesa. In História de Portugal, Lisboa, Estampa, 1994, quarto volume. p.21 9- Ibdem, p.22 10- Jaime Cortesão - Os factores democráticos na formação de Portugal. Lisboa, Portugália, 1978, pp.78/9, 87 11- Carlos Bosch Garcia - Opus cit., p. 37: La vida cadémica de los centros importantes acogió a los aljames judíos en Barcelona, Tortosa y gerona. La cultura musulmano-catalana pudo concentrarse así en Tortosa donde se multiplicaron poetas, historiadores, eruditos, insignes en su mayoría, que recibieron a los musulmanes y a los judíos perseguidos por los almohades en el sur.

23

12- Cf. José Mattoso. Da comunidade primitiva ao município: o exemplo dos Alfaiates. In Fragmentos de uma composição medieval. Lisboa, Estampa, 1987, pp. 35/48. 13- Cf. Virgínia Rau. Sesmarias medievais portuguesas. Lisboa, Presença, 1982. 14- Perry Anderson - Linhagem do estado absolutista. São Paulo, Brasiliense, 1995, p.22: Do abismo de agudo caos e turbulência medievais das Guerras das Duas Rosas, da Guerra dos Cem Anos e da segunda Guerra Civil de Castela, as primeiras “novas” monarquias ergueram-se praticamente ao mesmo tempo, durante os reinados de Luís XI, na Franca, Fernando e Isabel, na Espanha, Henrique VII, na Inglaterra, e Maximiliano, na Áustria. 15- José Maria Moreira Guimarães - “Organização da força militar”. Revista do IHGB - Tomo especial consagrado ao Primeiro Congresso de História Nacional, Parte III, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1914, pp.434/5: “Mas é força reconhecer que ainda em 1792 as tropas portuguezas eram exercitos de linha e milicias provinciais (...) Isto é, exercito e milicia, tudo era milicia. Mais tarde, entretanto, desde a promulgação do D. de 7 de agosto de 1796, a palavra milicia indica tão somente a tropa de 2. linha, a qual, até então se achava organizada em terços auxiliares, tanto no Brasil como em Portugal. Em verdade, as milicias comprehendiam as forcas de 1., 2., 3. linhas. E eram milicias as ordenanças creadas nas diversas capitanias do Brasil, ordenanças que nada mais constituiam do que uma especie de “Landsturm”, ao que pensa o General Bardin, -tão certo é que não deviam ser obrigadas a ir a fronteira, excepto no caso de perigo mui notorio, alem dos recursos da propria tropa de linha. A instituição das chamadas ordenanças, “soldados ou gente de guerra dada, e paga pela camaras, e conselhos” - data dos primeiros tempos da Monarchia Portugueza. Nelles até a edade de 60 annos, servia todo portuguez. E em Portugal e no Brasil, eram formados de terços commandados por Capitães-Mores, na terra em que não havia Alcaides-mores, ou pelos mesmos Alcaides-mores nas suas terras; e constavam de companhias compostas de um Capitão, um Alferes, um Sargento, dez (10) cabos de Esquadra e duzentos e cincoenta (250) soldados . 16- Guy Martinière - “A implantação das estruturas de Portugal na América.” Nova história da expansão portuguesa, vol. VII - O Império Luso-Brasileiro 16201750 Editorial Estampa, Lisboa, 1991, pp. 171/2 : “ Convém , assim, pôr fim às comparações entre o modelo administrativo português no Brasil e os modelos espanhóis, franceses ou ... norte-americanos, com o objetivo de concluir pela sua “insuficiente lógica”. A eficácia da gestão administrativa de tal espaço, com fronteiras tão móveis, mede-se pela imensidade e pelo êxito da

24

conquista colonial de um território cuja transformação em território nacional aquando da independência, foi surpresa dos contemporâneos. Se o Império do 2, Brasil conseguiu manter esta unidade territorial de sete a oito milhões de Km não será de considerar que a luzitanização administrativa, nos séculos XVII e XVIII, algum papel teve nesta questão? Também a aplicação desta administração na conquista mostra a força da sua originalidade. Estudemos, portanto, a administração portuguesa na América em si mesma, sabendo que a análise do funcionamento das administrações centrais da Coroa, encarregada, em Portugal, de regulamentar o Império colonial, é proposta por outra via. E, principalmente, tentemos ver em que medida esta gestão colonial original poderia constituir um modelo que nações rivais teriam interesse em considerar. (...) De facto, as recentes contestações aos modelos das práticas administrativas “absolutistas”, e “jacobina” permitem conceber a eficácia de outros sistemas, por exemplo, o da “hierarquia descentralizada”, onde a imensidade do espaço a administrar não exclui, e mesmo implica a utilização simultânea ou complementar, pela metrópole, de vários subsistemas com dinamismo e até autonomia próprias. Tais sistemas “multipolares” não significa “crise do Estado”, colonial ou não, mas podem ser, pelo contrário, sinal de uma melhor adaptação às realidades...” 17- Jaime Cortesão - “Los Portugueses”. Historia da América y de los pueblos americanos. Barcelona, Savat,1947, pp. 541/2 TIII. 18Lembrando o caso Irãgate, todos os registros documentais que os historiadores do futuro teriam acesso mostrariam os Estados Unidos sob a administração de Reagan como o mentor e fiscalizador da política do boicote comercial contra o Irã propondo, inclusive, punições contra países que não respeitasse integralmente este boicote. Todavia, por não ter a secretária do Gal. Oliver North destruído toda a documentação devida, descobriu-se que, enquanto os Estados Unidos pregava o boicote, seus agentes secretos negociavam vendas de armas ao Irã. Evidentemente que seria muita ingenuidade considerar que a prática da destruição de documentos comprometedores inicia-se com a recente invenção da máquina de picotar papéis. Um outro interessante exemplo atual é o do "vazamento" da informação, divulgada "timidamente" pelos meios de comunicação, de que fora a CIA a responsável pela preparação e introdução nas comunidades negras nos Estados Unidos da droga crack, com intuito de desarticulá-las socialmente. Apesar do diretor da CIA ter afirmado que o caso seria investigado com todo rigor, evidentemente que a imprensa e o público em geral, assim como, provavelmente, os futuros historiadores, não terão acesso a estas "investigações". Apesar desta impossibilidade de constatar a veracidade desta informação, não é difícil conjeturar que forças poderosas, preocupadas com a consciência social que emanava de setores marginalizados, utilizaram-se de um braço do Estado para minar este segmento através da

25

introdução de uma droga de efeito instantâneo e destruidor, além de, antes de mais nada, de baixo custo, acessível aos marginalizados economicamente. Estaríamos assim frente a um processo social que sofre contraponto e interferência de interesses minoritários, porém poderosos. 19- A Antropologia Biológica incorpora, atualmente, uma nova dimensão conceitual de evolução que se diferencia daquele paradigma que nos remete a um processo axiomático irreversível e homogeneamente ascendente. Nesta nova perspectiva teórica, apesar de não negar a gênese de uma processualidade evolutiva, considera-se que alterações marcantes ocorrem tanto em um curto espaço de tempo, em resposta às profundas mudanças ambientais, conforme ocorrido na emergência bípede, como de forma lenta e progressivamente, como na passagem do estágio habilis para erectus. A noção genérica que até recentemente tínhamos para o processo evolutivo biológico humano era de um lento mas constante desenrolar onde bipedismo, tecnologia e evolução intelectual caminham lado a lado. Contudo, sabese agora que bipedismo não foi uma aquisição lenta e gradual mas sim fruto de uma fixação brusca de uma variante mutante em uma espécie de símio arborícola que, isolada por cataclismos geológicos em um ambiente hostil, estaria, a princípio, condenada ao extermínio. A partir do estudo comparativo do código genético humano com o do chimpanzé, bioquímicos calculam que a diferenciação entre estes é de somente 1,4 %, datando em apenas aproximadamente 5 milhões de anos o ponto de irradiação humana a partir de um ancestral comum. Para uma exposição destas novas descobertas e suas conseqüências sobre o pensamento antropológico veja Richard Leakey - A origem da espécie humana, Rio de Janeiro, Rocco, 1995.

26

I.

A Cartografia

Renascentista e a Expansão Ibérica :

Conhecer o Céu Para Descobrir a Terra

27

1 A CARTOGRAFIA E A REPRESENTAÇÃO DA ESFERA NO PLANO.

1.1 As Representações e Projeções Cartográficas

A objetivo terrestre.

Cartografia

e

a

Topografia parte porém, da

têm

como

representar Essa

graficamente tem,

superfície

representação representada é

características como de um

próprias. A área balão entre

vista de

cima,

estacionado, guardando as distâncias reais

uma relação constante de redução e as suas representações gráficas, predeterminada. do terreno Além disso, é representado

ou seja, dentro de uma escala preciso que cada forma ou

acidente

esteja posicionado

exatamente na

direção correspondente em

relação a outros pontos.

Contudo, Topografia

apesar

de na

objetivo maneira

comum, da

a

Cartografia de

e

a

diferem

elaboração

suas não a

representações. A superiores a 50

Topografia limita-se a reproduzir áreas km de raio do seu centro,

desprezando

esfericidade e

simplesmente considerando a Terra como plana. Cartografia, onde são representadas áreas (1). O

Contudo, no âmbito da

mais extensas, essa esfericidade não pode ser desprezada

produto final das representações cartográficas e topográficas são os mapas, cartas e plantas.

28

Mapas são as representações cartográficas de grandes áreas, sendo cartas as representações são de áreas menores. de Já as O

representações elemento

topográficas

denominadas representações

plantas. as

diferenciador

destas

são

suas

escalas. Assim, as

plantas topográficas são aquelas que possuem

escalas até 1:5 000. Já as cartas têm suas escalas variando de 1:10 000 a 1: 50 000. Representações com escalas menores são denominadas de mapas (2).

Como esfera no plano,

não

é ou

possível seja,

aplainar

de é

forma

contínua

a no

plano,

a esfera não

desenvolvível

a questão central da Cartografia é como representar Resolve-se seja,

parte da superfície esférica da Terra sobre o plano.

este problema lançando mão do artifício da projeção, ou projeta-se superfície ou sobre a rede de

meridianos e paralelos correspondentes à

a ser representada diretamente sobre o próprio plano o cilindro ou cone, representações geométricas

desenvolvíveis no plano.

Essa passagem do esférico para o plano traz, porém, necessariamente, deformações. Como os elementos básicos

medidos no local para que se possa parte da superfície terrestre são

representar graficamente distâncias horizontais e

direções, a partir dos quais se formam as áreas, a Cartografia procura, então, em suas representações, manter a

29

equivalência para função A da

um

desses elementos

básicos,

escolhido dois

em

finalidade

da carta, deformando os

outros.

partir de suas deformações, as representações cartográficas ser classificadas e deformam em eqüidistantes (mantém as

podem

distâncias

as direções e áreas), equivalentes as distâncias e e direções) as áreas ou e

(mantém as áreas conformes distâncias).

e deformam as

(mantém A

direções que não

deformam traz

projeção

nenhuma

destas

propriedades é denominada de arbitrária unicamente ilustrativo. Assim, em função terá sua a carta, é e selecionado a figura o

ou afilática, de valor da finalidade que

elemento

que preservará a a qual será

equivalência

geométrica

sobre

projetada a esfera (3).

Na são pequenas tangência do normal ficam

projeção

plana

ou

azimutal

as

distorções

somente nas áreas muito próximas ao ponto de plano sobre a esfera. Já na projeção cilíndrica ao equador) as pequenas distorções

(cilindro tangente limitadas

à faixa próxima ao equador, deformando à afasta de e aproxima-se dos pólos, que

medida que dele se não são possíveis

ser representados cônica, mantém do cone medida a

neste tipo de

projeção. Quanto à projeção na área próxima da

pequenas distorções esfera (área de

tangente

latitude média), aumentando à equador ou do pólo.

que

se aproxima do

30

Como ser cumulativo, como as

em é

navegação muito

o

erro

de

direção, distância, os

por e e a

mais grave que de apresentam

projeções como linhas

cilíndricas retas e

meridianos

paralelos

paralelas, o que facilita

determinação

das coordenadas de projeção é

geográficas e dos rumos a serem utilizada na confecção das

seguidos, o tipo cartas náuticas

a cilíndrica conforme.

1.2 As Coordenadas Geográficas e a Declinação Magnética

Os das

pontos

são

localizados nas cartas latitudes e

a

partir

coordenadas

geográficas,

longitudes

referenciadas aos é a distância em sobre

meridianos e paralelos projetados. A latitude graus de um determinado ponto ao equador,

contada

a meridiana local (a linha que passa por este pólo a pólo) variando de 0º a 90º, expressa em

local unindo

valores positivos para o hemisfério norte, ou seguido de N, e negativo para o hemisfério sul, ou seguido de S. A longitude a distância angular entre um meridiano de é

referência

(atualmente o de Greenwich) e a meridiana de um local, contada de 0º a 180º para leste (E) ou oeste (W).

Atualmente

as

coordenadas

geográficas

são

31

obtidas por observações astronômicas ou através emitidos por satélites (Global sistema e interpretados System).

de por

sinais aparelhos antes do o

denominados advento

GPS

Posicion apoiado

Assim,

deste

em

satélites

artificiais,

cálculo das representado obtidos

coordenadas

geográficas era

de um ponto ainda não a partir Deste de dados a

cartograficamente por observações

feito

astronômicas. esteve sempre

modo,

representação da esfera no

plano

associada ao

posicionamento dos astros em um

determinado momento na abóbada a Astronomia geocêntrico, de

celeste. É importante observar que até hoje Posição tem como referencial o modelo

pois,

apesar de incorreto,

permite a perfeita correlação da posição

dos astros com os pontos geográficos (4).

No campo

seu

movimento de rotação, a Terra cria cujos pólos estão próximos, mas

um não

magnético

coincidentes, imantada da para o

com os

pólos geográficos, de modo que a agulha não para o pólo geográfico, mas entre a

bússola aponta,

magnético. Declinação

magnética é o ângulo

direção apontada pela agulha da bússola (norte magnético) e a direção da meridiana Como a o local, pólo ou seja, a direção do pólo magnético migra em torno do varia com o norte pólo tempo

geográfico. geográfico,

declinação

magnética

(geralmente considera-se a variação

anual)

e com o local,

podendo ser para leste (E) ou para oeste (W).

32

Rumo

é o ângulo que uma determinada direção faz com a

meridiana local, contado a partir do norte ou sul, para leste ou oeste, do atingindo assim um valor máximo de 90º. Portanto, além angular, Os o rumo é também definido através pelo seu

valor

quadrante.

quadrantes

são expressos

das siglas

NE (nordeste), NW Deste o

(noroeste),

SE (sudeste), SW (sudoeste). não um

modo, o rumo indicado pela bússola é o magnético e ou verdadeiro. (em a linguagem partir Assim, para seguir-se uma é em

geográfico

determinado derrota)

rumo

náutica, da em

determinada necessário através da

calculado o rumo

carta, magnético

transformar

verdadeiro

declinação magnética local.

De elaboração

forma de

sucinta, podemos dizer que uma carta consiste em,

o

processo

de

inicialmente,

estabelecer graficamente a rede de meridianos e paralelos em função da projeção selecionada de e posicionar pontos de

referência a partir então é

suas coordenadas com as que

geográficas.

A carta dos modo, rumos

completada

informações consistem, a de

advindas grosso nível e

levantamentos na medição de

topográficos distâncias,

diferenças

33

que dimensionem, separem serem representados.

e posicionem os pontos e acidentes a

2.

BREVE

HISTÓRICO

DA

CARTOGRAFIA

E

TÉCNICAS

NÁUTICA

DOS

DESCOBRIMENTOS.

A função da

medição constante

topográfica necessidade

surge de

no

Egito

Antigo, e

em

medir,

definir

locar

áreas, devido às pelo Nilo e

enchentes à

periódicas

das terras produtivas perda dos limites

conseqüente

anteriormente em função da

estabelecidos. Conheciam altura meridiana do sol

o cálculo da latitude e da estrela polar,

importante para o Egito, que se norte-sul. (5)

estende praticamente na direção

o

sentido

de longitude

é

eminentemente

grego, tendo este termo origem, inclusive, na concepção que no século V a.C. tinham a respeito do mundo habitável

(Ecúmeno), no sentido

que consideravam

da forma de um cilindro alongado

leste-oeste. A idéia da esfericidade da Terra surge século IV a.C. que Um dos em 350 seus a.C.

na Grécia no início do principais defensores

foi Aristóteles

34

formulou

os

seis

argumentos

demonstrativos

da

esfericidade da Terra. universo, onde

Defendia ele a concepção geocêntrica de em seu centro, girando seu, Dicearco eixo

a Terra estaria imóvel redor.

os outros astros ao seu (350-290 A.C.),

Um discípulo o que

estabeleceu

"Diafragma",

correspondente ao paralelo + 36º

passava pela ilha de

Rodes, de onde partia um eixo perpendicular.

Contudo, na Antigüidade em Alexandria, egípcio permitiu Foi em

os

grandes durante fusão as pela

avanços o

da

Cartografia helenístico grego e

ocorreram onde a

período conhecimento

do

estabelecer que

bases da primeira

Cartografia vez se

atual.

Alexandria

dimensionou

corretamente A.C.),

a Terra. Esse mérito cabe a Erastóstenes (276-196 da Biblioteca de Alexandria, que calculou a

geógrafo

circunferência da

terra em 250 000 estádios (aprox. 45 000 km), a

ou seja, com uma precisão de + 14 % (6). Calculou também obliqüidade do eixo da Terra 27’ ) e afirmava contornando a África que se em 23º

e 51' (o correto é 23º e

podia navegar da Espanha à índia

Foi Hiparco de Nicéia (146-126 A.C.) que trouxe as mais importantes pois contribuições desenvolveu fixar a para o a Cartografia na

Antigüidade,

cálculo

trigonométrico, a partir as

inventou o método de de círculos de

posição

terrestre

latitude

e longitude,

estabeleceu

35

determinações astronômicas o uso das projeções

para nas

as coordenadas

geográficas

e

cartas geográficas. 600

Calculou anos. o

também tabelas de eclipses do sol e da lua por Interessante geocentrismo observar que foi ele

quem restabeleceu

aristotélico,

derrubando

as argumentações do

caldeu Seleuco a favor do heliocentrismo.

Porém,

foi

principalmente

através

das

obras

do

geógrafo Cláudio Ptolomeu (c.100-170) que o ocidente conhecimentos Alexandria. cartográficos Na Idade sistematizados Média, latinos, se fossem pela gregos

herdou os Escola e de

árabes

veneraram os livros de Ptolomeu como culto à obra de De Ptolomeu suas

sagrados. Este por todo é o a

permaneceu a mais

Renascimento.

obras,

famosa

Trigonometria que aparece unida a sua Astronomia. Este manual de princípios no século trigonométricos IX do qual pelos e astronômicos com o título foi de traduzido Tabrir al

árabes

magesthi, este livro

procede

Almagesto denominação com que

ficou conhecido no ocidente. Descreveu duas novas da projeção cônica e foi

projeções a partir de modificações defensor da

teoria geocêntrica. Traduzida no século XII do por Gerardo século XIV di as Cremona, da Escola de

árabe para o latim Toledo, (7) obra de eruditos

a partir do

versões latinas desta entre os no

Ptolomeu do

tiveram No

grande divulgação intuito

Ocidente.

de atualizá-la, de sua

início do século XVI foi editada uma

versão

Geografia

36

que incluía desenhos de países nórdicos original. novos As A partir de então, tornou-se

que

não constavam à inclusão

no de

comum obra

mapas nas diversas

edições

desta ser

de Ptolomeu. no século

obras de Ptolomeu continuaram a

editadas

XVI, com a inclusão do continente americano.

Segundo a maioria dos historiadores da Cartografia, foi Marino de Tiro (c. 100) o primeiro a elaborar uma carta de o

na projeção cilíndrica, formada por uma rede quadrática meridianos equador (8). e paralelos, onde com todos suas os meridianos e

estavam

representados

verdadeiras

dimensões

No

século

XIII

a

Escola

de

Toledo

recebe

do

rei

Afonso X, de Castela, a incumbência de traduzir as obras de astrônomos árabes desconhecidas na cristandade. Reunidos no

palácio de Galiana, cedido pelo mestre da Ordem de Calatrava, e sob a proteção deste rei que recebeu a alcunha de el Sabio,

muçulmanos e judeus se puseram em colaboração para verter estas obras, não mais para o latim, mas sim para o novo idioma

castelhano. Dentre diversas, destacam-se

os Libros alfosíes de

los estrumentos et de las huebras del saber de Astronomía, onde se trata da fabricação e emprego dos instrumentos astronômicos, como a esfera armilar, globo celeste, astrolábio e relógios; o

Libro de las tablas alfonsíes, calendário que reúne o resultado de milhares de observações; o Libro del Saber de Astronomia,

37

onde, no tomo III, se encontra o Livro do quadrante, ensinado com todos os detalhes a construir um quadrante de madeira; o regimento de la altura del polo a mediodía, onde se ensina a calcular a latitude pela altura do sol observada ao meio dia. Logo estas obras passaram e ser conhecidas em Portugal através de seu rei D. Dinis, neto de especial predileção do monarca castelhano e a quem cedeu o Algarve em 1268.

A ocidente com tenham segunda influência

Cartografia as

é

introduzida portulanas. por

na

navegação

do que

cartas

Acredita-se

sido desenvolvidas metade de do século

navegadores genoveses na XIII, provavelmente Até por

navegadores islâmicos. sob de a forma uma eram de

então, os guias Como as

náuticos eram elaborados não eram feitas a regiões próximas

manuscritos. somente

partir aos

projeção,

portos

bem representadas,

razão

pela qual são denominadas portulanas.

Estavam orientadas em desenhos da Como essas não rosa eram

relação ao norte magnético e apresentavam dos ventos e rumos a serem seguidos. que

projeções

conformes,

acredita-se

informações

seriam complementadas por documentos escritos (9).

Segundo Reino, autor da

Manuel "Arte de

de

Pimentel,

cosmógrafo das

mor Viagens

do e ao

Navegar e

Roteiro

Costas Marítimas",

publicada

em Lisboa em 1707, coube

38

Infante graus

D. Henrique iguais

o

invento

das cartas de marear

de

e meridianos paralelos (10)

correspondente à

projeção cilíndrica eqüidistante em que o equador é o paralelo principal. Assim, considerando-se Henrique na navegação as correta a informação pela já

de Pimentel, introdução que como sistema não

teria sido D. da Cartografia

o responsável do cartas ocidente,

podemos considerar

portulanas ausência de um

representações cartográficas, de projeção.

devido

à

Apesar das projeção latitudes, representou um retangulares na carta

grandes deformações provocadas médias na e

pela altas náutica

cilíndrica eqüidistante nas a sua utilização

Cartografia

grande avanço, pois o sistema de quadrículas

em muito facilitava o posicionamento da embarcação

através das coordenadas geográficas (11). Em certo que a utilização da projeção cilíndrica expressa uma é a mais visão "transatlântica", já para as regiões

sentido, podemos dizer nas cartas náuticas que esta projeção

adequada

equatoriais,

conforme

argumenta Pimentel.

O

toque

final na Cartografia náutica

foi

dado

pelo cartógrafo holandês

Gehard Kauffman (1512-1594), conhecido em 1569 publicou um mapa Mercartor ao obteve a

pelo nome latinizado de Mercartor, que mundi na essa projeção cilíndrica por

conforme.

conformidade

processo

gráfico

compensar

39

deformação da projeção cilíndrica eqüidistante no sentido E-W por proporcional alongamento projeção cilíndrica náutica, pois não só coordenadas na direção N-S. A aplicação da

conforme foi fundamental para a Cartografia permite obter diretamente na carta as

geográficas,

como também por representar por linha

reta a curva loxodrômica, ou seja, a curva que o navio descreve para ir de um ponto a outro da superfície terrestre, conservando sempre o mesmo rumo.

Posteriormente da projeção de cilíndrica

descobriu-se conforme,

a

fórmula

analítica

sendo este o

principal tipo

projeção adotada para as cartas náuticas até a atualidade Contudo, é importante as observar a que, não obstante cilíndrica sua de

(12).

importância

para

navegações,

projeção

Mercartor representa as áreas de médias e altas latitudes de forma mais distorcida do que a projeção cônica ptolomaica (13).

Assim, se desde o período helenístico os cartógrafos já dominavam os princípio que regem as projeções azimutais e cônicas e no século XVI a cilíndrica, por que então os mapas dos séculos XVII e XVIII apresentam, em geral, tamanhas quando comparados com mapas atuais de mesma deformações projeção? O

obstáculo maior estava na obtenção das coordenadas geográficas dos pontos atingidos pelos navegadores, principais informantes

40

dos cartógrafos, essenciais para a representação na rede de meridianos e paralelos.

destes pontos

3.

A NAVEGAÇÃO DOS DESCOBRIMENTOS

Como os primeiros

navegantes, à exceção dos nórdicos, posicionamento

praticavam, unicamente, a navegação costeira o da embarcação era obtido a partir de adotados como referências. Mesmo

pontos notáveis litorâneos com o desenvolvimento da

cartografia náutica e o surgimento das cartas portulanas, esta prática, contudo, permanecia limitada à navegação em regiões litorâneas ou em mares fechados, como no Mediterrâneo.

Posteriormente, com a necessidade de navegar em mares abertos, onde, muitas vezes, o regime de ventos e as correntes obrigavam

aos navegadores a afastarem-se da costa, conforme ocorria no regresso da Costa da Guiné a Lisboa, desenvolveu-se a navegação por estima, onde o posicionamento da embarcação é calculado em função das distâncias e direções percorridas a partir de um

ponto de referência, de coordenadas geográficas conhecidas. A direção em que se navega é obtida Para o cálculo da distância diretamente pela bússola. necessita-se saber a

percorrida

velocidade da embarcação e o tempo de percurso. Na época dos

41

descobrimentos, estes dados eram obtidos de forma pouco precisa, dado a precariedade dos instrumentos náuticos disponíveis e por ainda se desconhecer o cálculo da compensação da declinação Deste

magnética local para a correção da variação da bússola.

modo, a navegação por estima adotada pelos navegadores ibéricos era pouco precisa para as grandes singraduras, pois este

processo sofre e ventos.

constantes interferências das correntes marinhas

Assim, complementada, ou

a

navegação ajustada,

por

estima

necessitava posicionamento latitude

ser da não

pelo

periódico da

embarcação em mar alto. O constituía

cálculo aos norte,

grandes dificuldades no hemisfério

navegadores ibéricos, pois a observação da

principalmente altura da Estrela

Polar sobre o horizonte permite determinar a

latitude local. O processo é simples e direto: a altura da estrela polar medida em graus, na época pelo astrolábio,

indica diretamente o valor da latitude do ponto de medição (14).

Contudo,

ao

se

chegar

à

linha

do

equador,

os

portugueses logo observaram que, a partir de então, a Estrela Polar deixa de ser visível. A primeira solução pensada foi a de tentar encontrar um ponto fixo no firmamento austral que pudesse servir de referência. Constatou-se que a constelação que mais se

42

aproximava do eixo celeste era o Cruzeiro do Sul. Esta solução teve se ser abandonada, pois esta se encontra deslocado em

cerca de 14 graus do verdadeiro sul, o que conduzia a erros apreciáveis na determinação da latitude.

Assim, no hemisfério meridional ficou-se limitado ao cálculo da latitude a partir da altura meridiana do Sol ao

meio dia, não tão prático quanto o da observação da Estrela Polar já que, devido ao movimento de translação da Terra em relação ao Sol, este valor só representa a latitude ou seja, em 23 quando do

equinócio, destas

de setembro ou 21 de março. Fora

datas é necessário recorrer-se ao almanaque solar, onde

se encontra registrado a posição (altura) do sol quando este está no zênite (ponto mais alto) nas várias latitudes e para todos os dias do ano. Assim, sabendo-se o dia do ano e medida a altura solar calculava-se a latitude do ponto onde se

encontrava a embarcação. As primeiras cartas de declinação solar utilizadas judeu de pelos navegadores portugueses, compiladas pelo

Abraão Zacutto, datam de 1483. Posteriormente, em torno o matemático português Pedro Nunes inventou o

1530,

instrumento de sombras, destinado ao cálculo da latitude por duas alturas extra meridianas do sol. Como nesta época os

astrônomos já tinham tabulado a declinação de diversas estrelas, era também possível o cálculo da latitude através da altura meridiana de uma determinada estrela, cujo valor deve ser

43

somado ou subtraído de sua declinação, obtendo-se então esta coordenada. da latitude do Contudo, o processo mais utilizado para o cálculo pelos sol navegadores através continuo do sendo o ou da altura

meridiana (15).

tomada

astrolábio

balestilha

Já a longitude apresentava-se como um problema mais complexo e delicado para o qual navegadores dos descobrimentos. não havia solução para os Como a navegação da costa

africana setentrional fazia-se não foi um problema crucial

navegando junto ao litoral, este para os primeiros descobridores

portugueses. Contudo, com a aproximação ao equador os ventos contrários impeliam as caravelas a entrarem bem dentro de alto mar, surgindo assim necessidade da determinação da distância na

direção Este Oeste, ou seja, a longitude a um determinado ponto de referência. No início do século XVI, ao observarem que a variava em função da longitude,

declinação magnética da bússola

os portugueses pensaram ter descoberto um método prático para a determinação desta coordenada. No seu Livro de Marinharia,

datado de 1514, João de Lisboa afirma que a declinação magnética crescia para Leste ou Oeste proporcionalmente à diferença de longitude, indicando numericamente este relação. Coube, porém a outro português, D. João de Castro, provar, através de inúmeras observações ao longo das suas viagens, que João de Lisboa estava

44

errado. Todavia, o método veio ainda ser retomado por muitos outros, inclusive pelo o célebre Mercartor (16).

Somente mecânicos cálculo e

quando

se

pode meados

contar do

com século a

relógios XVIII, o

portáteis,

nos

da diferença de longitude em

relação

um meridiano

de referência, ficou reduzido ao cálculo da transformada em graus (17). Cada

diferença horária de diferença

hora

corresponde a 15 graus de longitude Este ou Oeste consoante a hora local for a mais ou a menos que a hora que o relógio de bordo marca. Porém, cálculo constituía aos navegadores, antes grande por que isso fosse possível, o seu

dificuldade, sendo impraticável

ser determinado, necessariamente por horária

“astrônomos doutos”, a partir do cálculo da diferença na observação de eclipses ou conjunções de astros (18).

45

NOTAS .

1-a verdadeira forma da Terra não é regular e recebe a denominação de geóide, que corresponde à superfície média dos mares, estendida em forma contínua através dos continentes. Para fins práticos a Cartografia considera a Terra como um elipsóide de revolução (devido o movimento de rotação) e, em mapas de menor precisão ou de grandes escalas, como uma esfera. Os valores aceitos para o elipsóide foram os estabelecidos por Hayford em 1909, que são os seguintes: Raio da Terra no Equador: 6 378,38 km Raio da Terra nos pólos: 6 359,90 km Circunferência equatorial: 40 102, 84 km. Circunferência meridiana: 40 035, 64 km. Elipsidade (achatamento) : 1/297 Utilizamos como referências básicas para este subcapítulo as obras de Erwin Raisz. Cartografia Geral. Rio de Janeiro, Ed. Científica, 1969 e Cêurio de Oliveira: Dicionário de Cartografia . Rio de Janeiro, Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1980.

2- Não podemos esquecer que quanto maior for o denominador de uma escala numérica maior será o seu fator de redução e, portanto, menor ela será. Deste modo, 1:100 é uma escala grande enquanto 1:100 000 é uma escala pequena. A fórmula da relação da escala entre a distância medida e sua representação gráfica é assim expressa: E =D/d, onde E é o denominador da escala, D a distância real (no terreno) e d esta mesma distância representada graficamente. Na prática, a equação variante mais utilizada é aquela que nos permite calcular distâncias reais a partir dos mapas - D = E x d. A utilização do escalímetro ou régua escala simplifica esta operação, já que a conversão é feita na própria leitura da régua. Muitos mapas e cartas apresentam uma escala gráfica que permite também uma leitura direta, trazendo porém o inconveniente de ser pouco precisa.

3Com o avanço da Cartografia surgiram diversas projeções desenvolvidas a partir das planas, cilíndricas e cônicas, como a projeção de Miller, que é cônica conforme oblíqua bipolar.

46

4Geraldo Luis Miranda de Barros - Navegação astronômica: fundamentos e prática. Rio de Janeiro, Brasileira, 1978, p.15: Para usarmos os astros (na navegação astronômica), entretanto, esqueçamos por enquanto, que existe o movimento de translação e, adotando uma visão pré-Copérnico, imaginemos que a Terra parada é o centro do universo". Com o avanço da eletrônica e da informática, atualmente as coordenadas na navegação são obtidas através da utilização de um aparelho denominado GPS, semelhante a uma calculadora portátil, que pode determinar com grande precisão o posicionamento de um ponto a partir de sinais enviados pelos vários satélites do sistema, este aparelho.

5. As informações sem referências neste subcapítulo deverão ser creditados a: Ballesteros y Bareta - “ Genesis del descubrimientos” e Jaime Cortesão - Los Portugueses. In Historia de America y de los pueblos americanos. BarceloBuenos Aires, Salvat Editores, 1947, T. III.

6-Considerando Siena ( atual Assuam) sobre o Trópico de Câncer, (observou que um poço neste local ficava sem sobra ao médio de 21 de junho, ou seja no solstício de verão) mediu o angulo de inclinação do sol ao meio-dia deste mesmo dia em Alexandria (norte de Siena), encontrando aprox. 7 g. Considerando este como o ângulo formado no centro da Terra pelo prolongamento das verticais desses lugares e sabendo que a distância entre Siena-Alexandria era de 5.000 estádios, calculou o raio da Terra como lados de um triângulo isósceles.

7- Abdurrahman Badawi - A escola de Toledo. O Correio da Unesco. Al-Andalus: a confluência de três mundos, Rio de Janeiro, ano 20, n. 2, p.34-34, fev. 1992. pp. 34/5: O membro mais importante desse colégio de tradutores (a escola de Toledo) foi sem dúvida Gerardo di Cremona (1114-1187). Graças a uma breve notícia deixada por seus alunos sobre sua vida e sua obra como tradutor, sabemos que Gerardo foi para Toledo, após terminar os estudos na Itália, para conhecer mais sobre o Almageste. Esse tratado de astronomia composto por Cláudio Ptolomeu, o célebre astrônomo, matemático e geógrafo grego (sic) do século II, era uma imensa obra que dispunha de uma versão em árabe. Antes a profusão de livros científicos em árabe que descobriu em Toledo, Cremona começou imediatamente a estudar árabe, a fim de lê-los e traduzi-los para o latim. Em seguida traduziu mais de 70 obras, entre elas o Almageste, cuja a tradução terminou em 1175. Suas traduções abrangem praticamente todo o campo científico daquela época: diversos livros de Aristóteles (Da física, Do céu e do mundo, Da geração e corrupção e Os meteoros), além de al-Kindi, Ptolomeu, Isaak Israeli, Ibn Sina, Galeno e muitos outros. 8- Max Justo Guedes- “A cartografia fazendo história.” Ciência

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Hoje : América Conquista e Civilização. Rio de Janeiro, SPBC, vol. 15, nº 86, nov. / dez. 1992, pp.92-99: Tudo o que se sabe sobre Marino de Tiro (c. 70-130 d. C.) foi deixado por Ptolomeu. Contudo, os especialistas divergem na interpretação da descrição que este fez da carta desenhada (ou imaginada) por Marino. Segundo uma corrente, foi ele o criador da projeção cilíndrica equidistante, usando graus sexagesimais cujo o precursor foi Hiparco de Nicéia (c. 160 a. C. - 125 a. C.). Para outros, Marino teria imaginado uma rede de quadrados - com o que a sua projeção continuaria ser cilíndrica - mas mescla entre equivalente e equidistante, permitindo que nos limites do Mediterrâneo servisse de carta náutica, porque conservava os ângulo9s em qualquer rumo navegado. 9- Luis Albuquerque discorda daqueles que relacionam as cartas portulanas assim como as de projeção cilíndricas (planas quadradas) como descendentes da projeção proposta por Marino de Tiro, acreditando, inclusive, que o advento da projeção cilíndrica relaciona-se com o desenvolvimento da navegação portuguesa. Luis Albuquerque - Ciência e experiência nos descobrimentos portugueses. Lisboa, Instituto de Cultura e Lingua Portuguesa, 1983, pp. 15/7: Muitos historiadores da cartografia, e entre nós com relevo especial para Armando Cortesão, consideraram que a cartaportulana fosse descendente direta da representação que teria sido proposta por Marino de Tiro. A exposição de Marino sobre o caso pode considerar-se irremediavelmente perdida, e só é conhecida através de vagas referências indirectas, entre as quais avulta a de Ptolomeu. Contudo, para os defensores de tal dependência, o conhecimento do texto do cartógrafo e geógrafo de Tiro teria chegado, por vias que nunca foram claramente explicadas, aos marinheiros do Mediterrâneo, supondo alguns que os árabes, e em especial al- Edrisi, fossem intermediários. (...) Em reforço da tese da influência de Marino na Cartografia náutica medieval, publicou recentemente o historiador Rolando Laguarda Trias um desenvolvido estudo em que sustenta existir uma carta portulano desenhada de acordo com os supostos princípios que teriam sido definidos por aquele geógrafo grego. (...) Em minha opinião, os dados estão aqui tomados de maneira inversa. De facto, a carta de Istambul aparenta estar coberta de uma quadrícula, o que a relacionará com Marino, quando se aceitar que este geógrafo imaginou o que abusivamente se chama a “carta plana quadrada”. Esta, de facto, nunca existiu, senão nas teorias de historiadores mais imaginativos, embora tenha uma razão de ser: de facto, em consequencia dos progressos que os Portugueses foram obrigados a introduzir an navegação, em início do século XVI, passaram a ser inseridas escalas de latitude nas cartas, a que correspodiam iguais valores para cada grau em toda a extensão do desenho; e, não muito depois, embora de modo arbitrário, passou também a inscrever-se a mesma graduação no equador. Daqui resulta que, traçando os paralelos e os meridianos, correspondentes às duas escalas, a carta ficaria coberta por uma rede quadricular, tal como se admitia que Marino tivesse feito, e tal como Laguarda Trias encontrou an carta de Istambul. 10- Manuel de Pimentel - A arte de navegar. Lisboa, Junta de Investigação do Ultramar, 1969 [1712], p.136 : (...) E ainda que Ptolomeu reprovou esta fábrica, não querendo que as cartas feitas por esta maneira possam servir das alturas próximas da equinocial, porquanto desviando-se para maior altura as proporções e medidas se alteram, contudo este grande príncipe julgou com bom fundamento que se podia remediar este inconveniente, e que esta espécie

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de carta tinha outras vantagens para o uso da navegação, e foi o primeiro que as introduziu. 11- Mucio Piragibe Ribeiro de Bakker- Cartografia: noções básicas. Rio de Janeiro, Marinha do Brasil -Deptº de Hidrografia e Navegação, 1965, pp. 173/4: A escala (da projeção cilíndrica equidistante) sobre o equador e sobre todos os meridianos é verdadeira; sobre os paralelos, ela é ampliada proporcionalmente a secante da latitude. O pólo é representado por uma linha reta de comprimento igual ao equador ou aos paralelos. Com o afastamento do equador as deformações sobre os paralelos vão se tornando acentuadamente exageradas; na latitude de 60º, por exemplo, a escala é duas vezes aumentada e as áreas ampliadas na mesma proporção. Consequentemente, a forma das áreas é também alterada. A projeção, portanto, só é apropriada para as representações de regiões situadas nas proximidades do equador, isto é, nas baixas latitudes. Essa projeção era muito empregada na navegação marítima, até que foi substituída pela projeção de Mercartor.

12- Idem, ibid., pp. 193/4: Na projeção de Mercartor as distâncias dos paralelos ao equador, portanto, são ajustadas, de maneira que a escala sobre os meridianos em qualquer ponto da projeção, seja igual a escala sobre os paralelos no mesmo ponto. A propriedade de conformidade é então obtida fazendo-se com que o inevitável alongamento na direção E-W, seja acompanhado por um igual alongamento na direçào N-S, em cada ponto da projeção, embora esses alongamentos variem de uma latitude para outra. Assim, os ângulos são conservados e as formas das áreas, em cada ponto, é preservada. (...) Mercartor não fez nenhum esclarecimento da maneira por que construiu a sua carta, apenas divulgou os resultados simplismente como “um novo arranjo dos meridianos com referência aos paralelos”. Porém, sob o ponto de vista da navegação, o sistema mercatoriano resolveu graficamente os problemas de estima com tal sucesso, que sua popularidade tornou-se inexcedível e seu emprego incomparável. 13- Deste modo, não podemos olhar também para a história da Cartografia através da perspectiva evolucionista linear, pois Mercartor não significa, em termos de representação de áreas, uma evolução frente a Ptolomeu conforme quer Soares, ao dizer: Os Descobrimentos trouxeram imediatamente a revisão do conteúdo de diversas áreas do saber, a começar pela Cartografia e pela Geografia, renovadas no século XV pela autoridade de Claudius Ptolomeu. Foram os mapas e os conhecimentos geográficos inspirados no grande mestre de Alexandria que serviram de inspiração para a grande aventura da expansão marítima européia. Mas, os resultados desta expansão vieram demolir os pressupostos da Cartografia e da Geografia Ptolomaica. Com o conhecimento mais direto das novas regiões descobertas, não só os seus aspectos físicos, econômicos, culturais, eram descritos, como também se verificou a possibilidade de uma representação cartográfica mais próxima da realidade. A construção desta representação foi um processo gradual, durante toda a primeira metade do século XVI, e possibilitou a grande revolução cartográfica empreendida por Gerardus Mercartor e Abrahan Ortelius na ségunda metade do século, que estabeleceu, com aquele primeiro, uma nova metodologia de projeção da grelha de latitude e longitude criada por

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Ptolomeu e, com este segundo, a introdução da coleção articulada de mapas que veio a ser chamada Atlas. Luis Carlos SOARES - Do Novo Mundo ao universo heliocêntrico: os descobrimentos e a revolução copernicana. Dissertação apresentada para o concurso público de Professor Titular na área de História Moderna e Contemporânea do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Niterói. GHT-ICHF-UFF. 1993, p. 222/3.

14- Na verdade, conforme vieram depois os portugueses a constatar, a estrela polar encontrava-se na época desviada de 4º do eixo polar da abóbada celeste, sendo atualmente este desvio inferior a 1º. Apesar da maioria dos autores sustentar que desde o século XIV os navegadores portugueses praticavam a navegação astronômica, i. e., determinavam a latitude a partir de observações da Estrela Polar ou do Sol, Luís de Albuquerque acredita que somente na segunda metade do século XIV esta técnica de posicionamento foi adotada pelos navegantes ibéricos. Cf. Luís Albuquerque Ciência e experiência nos descobrimentos portugueses. Lisboa, Instituto de Cultura e Lingua Portuguesa, 1983, pp. 16-19. 15- Idem, ibidem- pp.: 47, 51: Outras vias, porém, estavam abertas à determinação de latitudes nos textos tradicionais de Astronomia. Elas fundamentavamse em observações meridianas do Sol ou de Estrelas facilmente reconhecíveis; a altura do astro no trânsito meridiano e conhecimento da sua declinação permitiam obter aquela coordenada geográfica por simples adições ou subtracções. (...) Todavia, quando percorremos os diários de bordo portugues do final do século XVI e início do século XVII, verifica-se que se contam por centenas as vezes em que a latitude é registrada no texto, mas com excepção de uma meia dúzia de casos, sempre foi obtida pelo Sol. 16- Cf. António Estácio dos Reis & Raúl de Sousa Machado - “Os instrumentos náuticos dos descobrimentos”. Oceanos nº 10, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, Abril 1922, pp. 89

17- Só em 1761-62 e que o problema da longitude fica praticamente resolvido quando o Inglês John Harrison inventou um relógio com uma precisão de 1 segundo num mês, mesmo mantido dentro dum barco em movimento, ganhando assim o prêmio de 10.000 libras, que tinha sido proposto 30 anos antes. Este relógio era acertado com a hora do ponto de partida da embarcação e a longitude do ponto era calculada comparando a hora local,usualmente medida pela altura solar, com a hora que o relógio marca.

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18-Lancelot Hogben - O Homem e a ciência: o desenvolvimento científico em função das exigências sociais. Globo, Porto Alegre, 1952, p.74: A diferença de longitude é a diferença horária, isto é, de horas reduzidas a graus, entre as passagens do Sol pelos meridianos de dois lugares. Não obstante ser isto tão simples, constituiu grande dificuldade em tempos antigos. Enquanto não existiram relógios movidos por meios de engrenagens não se contou com dispositivos portáteis para comparar o tempo solar em dois lugares diferentes. (...) Não é difícil reconstruir a maneira pela qual êles fugiram a essa limitação, porque conhecemos os métodos que foram usados inicialmente para a determinação da longitude terrestre (...) O cuidado dispensado ao estudo dos eclipses e ocultações (de astros) sobreviveu à credulidade nos efeitos políticos e pessoais que lhes eram atribuídos. (...) O povo observava os citados fenômenos e era capaz de saber quando eles ocorreriam em determinado lugar. Qualquer pessoa de outro lugar, que possuísse uma ampulheta poderia esperar por eles e registrar o intervalo transcorrido entre o eclipse ou ocultação e o meio-dia precedente." Na verdade, o povo não seria capaz de prever os fenômenos de eclipses e conjunção de astros. Somente os astrônomos seriam capaz de preve-los e determinar a diferença horária entre as observações destes fenômenos em locais diferentes. Outra maneira conhecida para determinar aproximadamente a longitude era medir a posição da lua em relação as estrelas. A lua, movendo-se em torno da terra em cerca de 27 dias, é vista em diferentes posições do firmamento consoante a longitude do ponto de observação. As diferenças são muito pequenas, pelo que exige grande precisão nas medições (difíceis realizar a bordo dos navios). Mais importante ainda, não existiam, na época, almanaques lunares rigorosos. O alemão Regiomontanus foi o primeiro a publicar, em 1474, o primeiro almanaque lunar digno de confiança. No entanto, os erros na determinação da longitude podiam ser superiores a 10º. Dava Sobel - Longitude: a verdadeira história de um gênio solitátio que resolveu o maior problema cinetífico do século XVIII. Rio de Janeiro, Ediouro, 1997, pp. 20-21/27-29: Os capitães de longo curso dos séculos XV, XVI e XVII, que se lançavam ao mar com um misto de bravura e ganância, apoiavam-se nos cálculos por aproximação para medir a distância a que se encontravam a leste ou oeste do ponto de partida. (...) As longas viagens se tornavam mais longas devido à falta de conhecimento da longitude, e o tempo extra no mar condenava os marinheiros à temida doença de escorbuto. (...) Além desse potencial para o sofrimento humano, o desconhecimento global da longitude devastou a economia em grandes proporções, limitando os navios de oceano a algumas poucas rotas marítimas que prometiam passagem segura. Forçados a navegar exclusivamente com base na latitude, os navios baleeiros, os navios mercantes, os navios de guerra e os navios piratas se agrupavam ao longo das rotas de tráfego, onde se faziam presa um do outro. Em 1529, por exemplo, uma esquadra formada por seis navios de guerra ingleses na costa dos Açores armou uma emboscada para atacar navios mercantes espanhóis que voltavam do Caribe. O enorme galeão Madre de Deus, de bandeira portuguesa, navegando na sua volta da Índia, caiu em suas garras. (...) O Madre de Deus provou ser um prêmio no valor de meio milhão de libras esterlinas (cerca de US$ 300 milhões atuais) - ou aproximadamente a metade do valor depositado no English Exchequer (Tesouro da Inglaterra) naquela época.(...) Em 1610, decorrido quase um ano da proposta pouco modesta apresentada por Werner, Galileu Galilei descobriu, de sua varanda em Pádua, o que pensou ser o procurado relógio celeste.(...) Galileu não era navegador, porém tinha conhecimento do problema da longitude - como todo filósofo por natureza de sua época. (...) Os eclipses das luas de Júpiter, dizia ele, ocorrem mil vezes ao ano - e de forma previsível. Pode-se-ia ajustar o relógio por eles. Usou essas

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observações para criar tabelas relativas à aparição e desaparição de cada satélite no decurso de muitos meses e se permitiu ter sonhos de glória, prevendo o dia em que todas as marinhas navegariam com base nas suas tabelas de movimentos astronômicos, conhecidos por efemérides. (...) Galileu continuou com suas luas (agora corretamente denominadas satélites de Galileu) pelo resto de sua vida, seguindo-as fielmente até que ficou velho demais e excessivamente cego para enxergá-las. Quando o astrônomo morreu, em 1642, o interesse despertado pelos satélites de Júpiter se manteve. O método empregado por Galileu para encontrar a longitude acabou finalmente por ser aceito após 1650 - porém exclusivamente em terra. Topógrafos e cartógrafos empregaram a técnica de Galileu para redesenhar o mundo.

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II. Um Novo Continente na Rota Para o Oriente : As Coordenadas do Novo Mundo e a Estratégia de Conquista do Índico

52

53

1. O Delírio de Colombo na Procura do Oriente

O feito de Colombo é considerado como

definitivo

para a descoberta de todo o continente americano, ficando o mérito nas mãos exclusivas do navegador genovês e dos reis de Espanha. Contudo, passa despercebido o fato de que, europeus quinhentistas, a constatação da existência para os de um

Novo Mundo dá-se somente com a divulgação do feito de Cabral, já que em nenhum momento Colombo apregoou ter chegado a terras desconhecidas, mas sim ao continente asiático.

O crucial problema com que os historiadores deparam-se ao discutir a descoberta da América, é a escassez de fontes documentais primárias relacionadas a Colombo, e sua viagem descobridoras, dando margem, assim, para que ao longo do tempo surgissem genovês. diferentes versões para o feito do navegador

Passemos, então, a enfocar

o feito de Colombo

sob

a

perspectiva da tese atualmente aceita para a descoberta da América. O’Gorman assim a sintetiza: A tese é esta: que Colombo, ao chegar no dia 12 de outubro de 1492 a uma pequena ilha que acreditou pertencer a um arquipélago adjacente ao Japão, descobriu a América. (...) Não há necessidade de se preocupar com citações documentais porque ninguém ignora o que ocorreu: quando Colombo avistou terra, na noite entre os dias 11 e 12 de outubro de 1492,

53

54

teve a certeza de haver chegado à Ásia, ou mais precisamente dizendo, aos litorais do extremo oriente da Ilha da Terra. Tratava-se então, certamente, de apenas uma ilha pequenina, mas uma ilha, imagina, do farto arquipélago junto às costas do orbis terrarum, sobre o qual havia descrito Marco Polo, ilha à qual vinham, segundo se dizia, os servidores do Grande Kan, imperador da China, para adquirir escravos e, certamente, vizinha da celebérrima Cipango (Japão), rica em ouro e pedras preciosas. Colombo se propôs localizar esta última no dia seguinte ao da sua chegada. Em suma, sem necessidade de mais provas do que a de haver encontrado a ilha onde a encontrou e, o que é mais importante, com a circunstância de estar habitada, Colombo acreditou ter chegado à Ásia. (1) Mollat assim refere-se ao feito de Colombo,

exprimindo, com outras palavras, a mesma tese: Cristóbal Colón estaba convencido de haber llegado ao Japón (...). Todo hubiera sido más simples para Cristóbal Colón si, durante su primer viaje, no hubiera estado obsesionado por la búsqueda de la isla de Cipango (Japón), da tierra firme de Catay (China) e de las ciudades de Quinsay (Hangcheu) e de Zayton (Sinkiang). Creyó encontrar la primera en la isla llamada Cibao pelo los indios; identificó la segunda con Cuba e se creyó proximo a las terceras, convencido de haber reconocido ciertos lugares de acuerdo con las memorias de Marco Polo. (...) Tomando su deseo como realidad, la víspera de Navidad identifica a Cuba como Cipango, a la que sitúa a diez días del Ganges. Se sabe que conservó esta ilusión hasta la tumba, dando gracias al Señor Todopoderoso por haber descubierto la tierra firme de las Indias. (2) Apesar de atualmente ela só ter esta tese uma áurea de no

incontestabilidade, século passado com

adquiriu

maior

importância

a publicação por Navarrete de diversas

cartas de Colombo, sustentando a sua convicção de ter chegado ao Oriente (3). Reafirmada com a publicação, em 1942, da obra "Christopher americano Colombus, Mariner", de autoria que do Almirante a viagem

Samuel

Eliot

Morison,

refez

descobridora de Colombo, permaneceu como a tese "oficial" das recentes comemorações do quinto centenário da descoberta da

América. Analisemos então a validade desta tese, a partir, principalmente, dos discursos paradigmáticos de Heers
54

e

55

Mollat,

pesquisadores

referenciais

para

a

historiografia

atual (4).

Inicialmente,

constata-se

que

a

própria

origem

de

Colombo é desconhecida. A versão da origem genovesa e filho de um pacato tecelão têm sido aceita, não por haver documentos que a comprovem, mas por ser considerada a menos "fantasiosa" (5). Quanto às dúvidas levantadas sobre a possibilidade de, no século XV, o filho de um humilde tecelão tornar-se um

emérito navegador, Heers fundamenta-se numa visão

responde que este questionamento preconceituosa da sociedade

medieval, como compartimentada e sem possibilidade de ascensão social (6).

Apesar de reconhecer como

pertinente esta crítica,

julgamos que nada haveria de suspeito se Colombo fosse filho de um humilde pescador, contudo, considerando que na época os navegantes iniciada tinham quando uma ainda formação bastante essencialmente jovens, é prática, menos

pelo

surpreendente que uma pessoa criada entre fios de lã e teares tenha se tornado um experiente navegador. Para alguns historiadores, dentre os quais incluímonos, ele nunca fora um verdadeiro navegador, mas um

comerciante que aprendera os princípios básicos de navegação por observação em suas viagens de negócio (7). Esta hipótese encontra respaldo em uma das raras fontes primárias referidas

55

56

à Colombo antes do descobrimento, uma ata notarial, redigida em Gênova em 1478, tratando de uma negociação com açúcar na Madeira intermediada por Christoffarus Columbus. Este

documento não deixa dúvidas de que já nesta época Colombo era um bem sucedido mercador, possuidor de um capital

significativo (8).

Ao escassas

mesmo as

tempo,

e

principalmente, que tratam

são da

igualmente viagem

fontes

primárias

descobridora. É desconhecido o paradeiro daquela que seria a fonte documental principal, o diário de navegação de Colombo (9). A versão hoje conhecida é um resumo feito por Frei

Bartolomeu de Lãs Casas, que teria tido acesso a uma cópia dos originais (10). Contudo, não sabemos até que ponto o frei franciscano foi fidedigno ao original na sua elaboração deste sumário.

Fernando

Colombo,

filho

dileto

de

Cristóvão,

teria

possuído outra cópia deste diário, publicando-o

em parte na

sua obra Historie della vita e dei fatti dell’ammiranglio Don Cristoforo Colombo. Considerada a principal fonte para a

história de Colombo, a credibilidade das fontes documentais aí citadas tem sido posta em dúvidas (11).

A acidental

questão é

central

que

encerra

a

tese

da

descoberta Colombo

explicar o erro de navegação que levou

56

57

a confundir a ilha de Guanaani, atual São Salvador, com uma das ilhas do arquipélago do Japão (12). Baseando-se em

Morison, Mollat erros na

argumenta que o engano de Colombo deve-se a das latitudes, desculpáveis por não

determinação

estar acostumado ao céu tropical:

El almirante S. E. Morison, que tuvo el cuidado y el mérito de verificar en el proprio terreno el desarrollo de los viajes de Colón, haciendo otra vez los miesmos recorridos de isla en isla en el mar de las Antillas, explicó algunos errores, por ejemplo en cuanto a la determinación de la latitud, por una confusión de la estrella Polar con otra estrella, erros excusable en un explorador que todavía, nón estaba habituado al cielo tropical. (13) Conforme visto, por estar a estrela Polar numa

posição quase coincidente com o pólo norte, a determinação da latitude no hemisfério setentrional, inclusive na região

tropical, não trazia grandes dificuldades na época, mesmo a um navegador pouco experiente. Contraditoriamente, Mollat

ressalta que Colombo era um navegador altamente experiente.

Desde que Génova é Génova -escribe (Miguel de Cuneo, participante da segunda viagem)- nón ha visto el día ningún hombre que fuera tan experto en la arte de la navegación. En el mar, una sola mirada a una nube o, durante la noche, a una estrella, le permitían predicir el tiempo y la maniobra a efectuar. (14) Além disso, a ilha de Guanaani (San Salvador) situa-se acima do Trópico do Câncer, isto é, fora da zona tropical, não tendo Colombo, no percurso das Canárias a esta ilha, navegado em nenhum momento sob céus tropicais (ver mapa em anexo). Ou seja, é impossível creditar a Colombo um erro desta natureza.

57

58

Contudo, sentido

o

mais

significativo

é

que

não

tem

nenhum

aludir a tal erro, pois o que levou Colombo confundir

a América com o Japão não era erro de latitude, mas sim de longitude. Tomando-se referência relação: Longitude aproximada das Canárias - 20º W W para o as Ilhas das Canárias como ponto de da travessia, temos a seguinte

início

Longitude aproximada da Ilha de San Salvador - 75º Longitude média do Japão - 140º E

Distância em graus de longitude a ser percorrido das Canárias ao Japão, tomando-se a rota para oeste = 160 + 40 = 200 º. Distância em graus de longitude percorrido das Canárias a San Salvador - 55º para oeste (180-20) +( 180-140)

Deste modo, Colombo tinha percorrido pouco mais de 1/4 da distância uma que separa as Canárias que ao tinha Japão quando, ao ao seu

encontrar

ilha,

considerou

chegado

destino. Mollat, acertadamente, conforme vimos, destaca que a grande dificuldade da navegação na época era o cálculo da longitude (15). Contudo, o que não é absolutamente admissível é a dimensão do erro de Colombo.

Mollat argumenta que a razão deste erro deve-se por ter Colombo, baseado em Ptolomeu, se enganado sobre a verdadeira

dimensão da Terra, imaginando-a 25% menor:

58

59

Tolomeo reducía en aproximadamente 25 por ciento la longuitud de la circunferencia terrestre calculada por Eratóstenes, y concedía a las tierras emergidas la mitad de la superficie del globo, en lugar de las dos séptimas partes. A esos cálculos se añadia la garantía de Aristóteles, que escribió en el De Caelo: "Aquellos que creen que la región de las Columnas de Hércules es cercana a las Indias, no parecen admitir una cosa demasiado inverosímil". Así, fortalecido con las certidumbres de Aristótels e Tolomeu, Colón se creyó próximo a Europa y Catay, sin lo qual tal vez nunca hubiera partido. Estaríamos tentados, parodiando, a decir: afortunado error que nos permitió un descobrimiento tal! Así pues, Tolomeu indujo a error a los cartógrafos pero permitió la iniciativa de Colón. (16) Chamamos, errado ao porém, a atenção de que Colombo teria

reduzir a Terra a

aproximadamente 25% de sua

verdadeira dimensão, ou seja, existe uma inaceitável diferença de concepção entre um mundo reduzido em 1/4 à para um reduzido

quarta parte da sua verdadeira dimensão (17). No intuito de tal erro, Heers, sem nenhum apoio documental,

justificar

procura associar todas as deformações possíveis a partir de informações disponíveis na época, tanto quanto à dimensão da Terra como também à extensão do continente euro-asiático.

Como a conjunção dos erros de Ptolomeu não justificaria o engano de Colombo, Heers, de maneira absolutamente ficcional, considera que Colombo associou o diâmetro terrestre de

Ptolomeu à extensão do continente euro-asiático calculado por Marino de Tiro. Como, ainda assim, não se justificaria o erro

de Colombo, procura associar a esta já estranha conjunção todo o tipo de deformações reconhece possíveis. que sua Contudo, traindo-se pela em

sinceridade,

argumentação

sustenta-se

meras manipulações de dados:

59

60

Además, pensaba Cólon, Marín de Tyr empleó grados demasiados largos para medir la vía terrestre, de manera que la distancia podría redurcirse a 233 grados reales. Una manipulación más (ya que en eso estamos...): a los 233 grados de Marin de Tyr, Colón, en primer lugar, añadió 28, pues pensaba que el geógrafo griego no había conocido el punto extremo de Asia, descubierto en fecha relativamente reciente por los viajes de Marco Polo. Mas aún, calculó en 30º la distancia por Oriente entre Portugal y Japón. (18) Comungando ainda com esta versão, Pierre Chanu

associa diversas concepções para a dimensão do nosso planeta, concluindo finalmente que a dimensão da Terra para a menor jamais imaginada: Ptolomeu concedia 180º al conjunto Europa-Asia, y Marín de Tiro, corroborado por Marco Polo y Toscanelli, 225º Alentado por Toscanelli y empujado por su deseo, Colón eligió a Marín de Tiro contra Ptolomeu.(...) Ptolomeo valoraba el grado terrestre en 50 millas náuticas (60 en realidad): un error de 20% por defecto. Alfayran, geógrafo musulmán del siglo IX, había cometido un error de 10% por excesso (66 milla). Por una razón que se nos escapa, Colombo había leído mal a Alfayran, y le atribuía un grado corto de 45 millas, el mismo grado que eligió contra la evaluación tradicional de Ptolomeu; Colón imaginó, pues, la más pequeña de las tierras que jamás se habían propuesto. Todos estos errores acumulados le llevaron, tal como lo demuestra la carta, a convertir en 2400 millas (en lugar de 10 600) la distancia entre las Canarias y Japón. (19) Porém, todas as por mais boa vontade que tenhamos em aceitar de possíveis atualizado, das erros, através dos lembramos de seu que irmão de Colombo é

conjunções estava

Colombo

sempre

cartógrafo Portugal,

Bartolomeu, (20) onde

descobertas viveu

navegadores alguns

inclusive

durante

anos.

Sabemos igualmente que os portugueses, devido às constantes viagens exatidão Colombo ao a continente distância a africano, ao conheciam grau de com relativa Como o

referente Terra

latitude.

considerava

esférica,

obviamente

que

60

61

diâmetro equatorial não poderia ser diferente do polar, de cuja dimensão tinha ele, necessariamente, conhecimento

relativamente preciso. Ou seja, somente tendo uma concepção cilíndrica da Terra, Colombo poderia ter cometido um erro de tal magnitude (21).

Para Heers, foi na obra Polo, também conhecido como

Descrição do Mundo, de "Livro das Maravilhas", de

Marco que

Colombo,

motivado

pelas

riquezas

descritas

Cipango,

encontrou os dados e cálculos que o levou distorcida visão de proximidade entre a

a conceber esta

Espanha ao Japão.

Ahora bien, de toda esta bibliografía sobre viajes, Colón sólo conoció o retuvo an la memoria de "Descripcion" de Marco Polo. Este libro inspiró todos sus sueños; nutrió sus fantasías y sus esperanzas, e incluso lo guió a veces en sus decisiones. Lo cita constantemente en el "Diario" del primer viaje. Para la elaboración de su gran proyeto, el Almirante buscó en Marco Polo datos y cálculos que, como veremos, lo hicieron computar con excessivo optimismo la distancia que por mar y por el Occidente separa a España del Japón (Cipango). Esta adhesión casi visceral a la enseñanzas del veneciano, sirvieron tambien para siguiera Colón convencido de que había encontrado a las Indias en su camino, y fue lo que impidió que se diera cuenta del descubrimiento de un Nuevo Mundo (22)

Porém,

a

leitura

do

livro

de

Marco

Polo

não

possibilita inferir

nenhum cálculo de navegação oceânica.

Tendo a preocupação de descrever as riquezas do império do Kublai Khan, a quem serviu e por quem nutria grande admiração, Marco Polo é extremamente sucinto ao descrever a ilha de

Cipango, obsessão maior de Colombo, por não fazer parte do império (23).
61

62

Considerando

assim

como

absolutamente

inverossímil

a

versão do erro Colombo, ponto de vista

passemos a observar seu feito do oposto, destacando dados

diametralmente

reveladores do perfeito domínio que vencida.

tinha da rota a ser

Heers destaca que a viagem descobridora, sido a maior

apesar de ter

até então realizada a mar aberto, sem cartas nem

pontos de referências, lançando-se, assim, ao desconhecido, além da compreensível ansiedade da tripulação, transcorreu de forma tranqüila, não apresentando, em termos de navegação, nenhuma dificuldade para Colombo.

En resumen, la primera travesía fue fácil, sin más dificultad que unos cuantos días de calma chicha. La aventura, en fin de cuentas, fue un viaje muy reposado. En ningún momento escasearon los víveres y, sin la menor dilación, los marineros su surtieron en San Salvador de agua e algunas frutas. Por otra parte, la larga navegación solitaria a partir de las Canarias, en mar abierto, sin puntos de referencias, en una ruta completamente desconocida, más larga que cualquiera de las que antes se habían recorrido sin escala, los sometió a duras pruebas morales. (...) Una vez superada esa inquietud y esas angustias desaparecieron los problemas. La seguridad de contar en los sucesivos con agua y víveres, de poder reparar algunas averías, de encontrar con facilidad la ruta para el viaje de retorno navegando más hacia el Norte y con la certeza de que era imposible no dar con algunas de las islas atlánticas o tierras continentales europeas o africanas, calmaba a los ansiosos y satisfacía a los descontentos. En cuento al segundo viaje no habría ya problemas: se conocía perfectamente la ruta, y quedaba bien descrita en el Diario y marcada en los mapas (24) Realmente, é fez não só para surpreendente atingir a a navegação que como dela por Colombo retornar. sobre as

América

Absolutamente

tranqüila,

navegando

exatamente

62

63

rotas

definidas

pelos

regimes

de

ventos

e

correntes.

Após

atingir a América, navegando na rota dos alísios de nordeste, entre os paralelos 25 º e 28º exatamente correntes ao os paralelo trouxeram 40º em N N, onde ao retornar dirigiu-se ventos (25). de Além sudoeste de e

segurança

tudo,

Colombo, em sua escala nas Canárias, modificou a aparelhagem da única caravela, a Nina, trocando seus velais latinos por redondos que, conforme vimos, permitiriam obter mais

velocidade nos ventos favoráveis, mas que dificultariam, ou mesmo impossibilitariam, a navegação quando os ventos fossem contrários tripulação (26). em Assim, compreender-se-ia esta viagem ou a que em recusa seria da ao

prosseguir não por

desconhecido,

ignorância

crença

monstros

marinhos, mas por perceber que, navegando para o oeste sob ventos favoráveis seria e o constantes, retorno, difícil, ou por até não mesmo mais

impossível,

principalmente

contar com única embarcação capaz de navegar “à bolina”. No entanto, apesar da apreensão inicial, esta tripulação aceitou em prosseguir numa viagem aparentemente suicida.

Interessante observar que, ao procurar negar tamanhas contradições, perfil a historiografia paranóico um de atual para acabou Colombo. navegador, à temerosa por Por traçar um um

claramente como capaz

lado e a

apresenta-o equilibrado,

competente convencer

centrado tripulação

63

64

acompanhá-lo, capitaneando de forma segura e tranqüila uma viagem ao desconhecido, a primeira transoceânica. De outro

lado, Colombo é visto como um delirante, cuja obsessão pelo ouro de Cipango, decorrente de interpretações fantasiosas da leitura de Marco Polo, levou-o a uma imagem totalmente este perfil de Colombo por um

distorcida da Terra. O'Gorman compara

ao estado patológico de uma cega paixão, ilustrada caso de traição amorosa narrada por Stendhal.

Temos que concluir, portanto, que Colombo postulou sua hipótese, não propriamente como uma idéia, mas como uma crença e nisto consiste o verdadeiro decisivo de sua atitude. Não nos enganemos pensando que se trata de uma explicação desconexa, que nos obrigue a aceitar algo tão inusitado quanto extravagante. Todo e aquele que tenha estado apaixonado passou por uma situação semelhante porque, como todos sabem, principalmente as mulheres, o amor implica uma crença cega em tudo o que diz e o que faz a pessoa por quem se sente amor. Daí o profundo sentido que tem o episódio relatado por Stendhal daquela mulher que, surpreendida por seu amante com outro homem em situação sumamente comprometedora, se escusa, negando o fato. E como o amante não se deixa convencer em razão do que está presenciado, a mulher replica exaltada, dizendo em tom de agravo: "Bem se nota que já não me amas, pois preferes acreditar no que vês do que no que te digo" (27) Por outro lado, consideramos que essa mesma parábola aplica-se perfeitamente ao posicionamento da historiografia para acreditar

atual, ou seja, recusa-se a aceitar os fatos

na argumentação inverossímil com que Colombo, assim como a amante infiel, procura mascarar aquilo que é evidente.

Evidentemente, não somos os primeiros a questionar o descobrimento da América como conseqüência do “delírio” de um genovês sonhador. Para alguns, Colombo teria recebido as

64

65

informações necessárias para a sua viagem descobridora através dos diários e cartas náuticas pai de sua do navegador Filipa português (28). No

Bartolomeu

Perestrello,

mulher

entanto, sabe-se hoje que Perestrello nunca foi navegador, sendo, portanto, impossível ter Colombo recebido por

intermédio de sua sogra o acervo cartográfico traçar suas rotas (29).

que permitisse

No início deste século a tese da intencionalidade da descoberta da América foi defendida pelo historiador americano Henry Vignaud, causando intenso a rebuliço esta entre os após

historiadores

(30).

Chegando

conclusão

demonstrando que as correspondências de Toscanelli encontrados Biblioteca Colombina eram apócrifas, ao passar do tempo a

teoria de Vignaud caiu nos esquecimento, principalmente após a publicação atualmente Biblioteca da obra referida de que Morison as (31). Contudo, da a

tem-se

demonstrado foram

famosas

apostilas

Colombina

redigidas

posteriormente

primeira viagem de Colombo

à América (32), reforçando assim sido o próprio o seu

não só a hipótese de Vignaud como de ter Colombo o autor da “engano”.

fraude, na necessidade de provar

De onde partiram então as informações sobre as rotas a serem percorridas por Colombo? Sem dúvidas, todos os indícios levam a Portugal. É interessante observar que esta suspeita logo foi levantada por alguns cortesãos de Barcelona, assim do

65

66

retorno de Colombo (33).

O curioso processo movido pela Coroa

de Espanha contra os herdeiros de Colombo nos mostra que esta suspeita logo se estendeu à Castela. Neste processo, segundo

o testemunho de Fernando Valiente, em 1535, a empresa dos descobrimentos Pizon, que foi planejada as a por Colombo e da Martin Alonso e

receberam das la ilhas

informações

existência de

localização Vázques de

serem

descobertas

através

Pero teria

Frontera,

navegador

experiente

que

participado de um descobrimento com o Infante de Portugal, tendo a testemunha presenciado estas negociações (34). O fato de o descobrimento ser um negócio previamente acordado entre Colombo e Martin Alonso Pinzon, a partir das informações de Pero Vásquez de la Frontera, é confirmado pelo testemunho de Alonso Gallego (35). A partir destes testemunhos, o fiscal representante da Coroa espanhola alegou que as Índias

Ocidentais não foram descobertas só por Colombo e fez intervir no pleito Juan Martin Pinzon, filho legítimo e herdeiro de

Martin Alonso Pinzon, que recebeu a metade dos direitos dos herdeiros de Colombo, deles renunciando em favor da Coroa.

Mesmo conforme

manipulado

e

apesar

do do

testemunho obscuro

forjado, personagem

posteriormente

constatado,

Pedro Vásquez de la Frontera,

este processo é revelador ao

apontar para única possibilidade quanto o local de origem das informações obtidas por Colombo. Ao longo deste meio milênio,

66

67

a quase totalidade dos estudiosos que questionam a natureza da “descoberta” colombina, como Vignaud, continuou apontando

para Portugal (36).

Porém,

o

que

desejamos

ressaltar

neste

capítulo

reservado a Colombo

é o fato de esta navegação descobridora

demonstrar que ele tinha uma noção bastante precisa do tempo necessário para esta primeira travessia transoceânica. unicamente de antemão a existência sua da rota que o Saber levaria

seguramente a seu destino e tempo necessário a ser

latitude sem ter a noção do muito provavelmente

percorrida

transformaria esta viagem descobridora numa aventura suicida, por falta de víveres. Se, contrariando todos os fatos aqui expostos, Colombo, como quer as a versão vigente, que o fosse um

inconseqüente

lunático,

tripulações

acompanhavam

seguramente não eram. Se ele conseguiu enganar aos marinheiros registrando uma distância menor do que a realmente percorrida, certamente não estava a enganar os irmãos Pinzon, navegantes bem mais experientes que Colombo (37). Por outro lado, se os Pinzon acompanharam Colombo nesta aventura certamente sabiam que não era ele um delirante sonhador que se lançava quase às cegas ao ainda inexplorado.

Contudo,

dimensionar

tempo

numa

viagem

em

latitude

significar conhecer longitude, o que vimos, impossível de ser obtido por

seria então, conforme uma

um navegador. Assim,

67

68

questão

logo

ressalta.

Quais

foram

os

responsáveis

pelas

observações astronômicas que permitiram a Colombo ter acesso às informações destas rotas definidas pelas latitudes e

longitudes? Deixemo-nos por enquanto esta questão em aberto, enquanto analisamos alguns aspectos igualmente intrigantes

referentes ao descobrimento do Brasil.

68

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NOTAS 1- Edmundo O’Gorman - A invenção da América. São Paulo, UNESP, 1992, pp. 25, 104. 2- Michel Mollat - Los exploradores del siglo XIII al XVI: Primeiras miradas sobre nuevos mundos. México, Fondo de Cultura Económico, 1990 3- Edmundo O'Gorman - Opus Cit. pp. 40,55: (...) um erudito espanhol, Martín Fernández de Navarrete, divulgou numa coleção imprensa os principais documentos relativos às viagens de Colombo. (Colección de los viajes y descubrimientos, que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV, con varios documentos inéditos concernientes a la historia de la marina castellana y de los establecimientos españoles en Indias. Madri, 1825-37) (...) tornado-se patente não só que Colombo havia projetado ir à Ásia, mas também que nunca estivera convencido de não ter realizado esse desejo 4- Jacques Heers dedica toda uma obra, Cristóbal Cólon, à vida e ao feito do navegador genovês. Já Michel Mollat dedica a Colombo o capítulo IV, Hacia el descubrimiento de los océanos, do seu livro Los exploradores del siglo XIII al XVI. Quanto à obra de Morison, nossas referências remetem-se à edição portuguesa: Samuel Eliot Morinson Cristóvão Colombo: Almirante do mar oceano. Lisboa, Editorial Notícias, 1993. 5- Jacques Heers - Cristóbal Colón, México, Fondo de Cultura Económico, 1992, p.16: Así, Cristóbal Cólon ha sido a veces ligur o a veces simplemente genovés, corso, catalán, portugués y, por último, judío de origen catalán, desterrado, refugiado en Génova y converso. Otros lo hacen venir de Grecia o de algún remoto país oriental: otros, más tímidos, lo suponen francés o inglés, o sabio alemán, astrólogo y cartógrafo. La tesis genovesa llegó a impornerse. Se le puede considerar, si bien con muchas reservas, como la más verosímil, la menos "inventada" (...). Aún así, cualquiera otra interpretación suscinta todavía mayores dudas y se enfrenta, sin remedio, a cuestiones molestamente inverosímiles. Sea como fuere, la tradición genovesa es la primero se afianzó y fue considerada indiscutible durante muchas generaciones 6- Jacques Heers - Idem Ibid., p. 50: Algunos historiadores, siempre en busca de contradicciones, y otros, preconizandores de la idea de una sociedad “medieval” fraccionada en compartimientos e inmóvil, sin interprenetación de ninguna especie, se han asombrado de este paso tan fácil de la posición más ramplona y sedentaria, la del tejedor que trabaja en un rincón de un taller oscuro siempre son oscuros los talleres “medievales”- a una carrera de marino. La idea choca aun a hombres de hoy en día, historiadores o sociólogos y sobre todo a los teóricos, que siguen construyendo su universo del Medievo sobre esquemas

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70

prefabricados y en su mayoría erróneos. (...) A decir verdad, hasta un examen muy rápido de las realidades concretas de aquella época desmiente estos conceptos simplistas y perfectamente delineados 7- Hans Koning - Colombo: O mitos desvendado. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992, p. 19: Os biógrafos de Colombo sempre tiveram dificuldades para determinar o seu posto. Ele navegou como marinheiro comum e, se assim foi, quando e como se tornou um oficial ? De onde vinha seu dinheiro ? Como conseguiu, de acordo com o mostrado pelo seu casamento tardio, trnasformar-se de marinheiro em “cavalheiro” ? As peças não se encaixam. Foi o historiador e geógrafo britânico G. R. Crone quem resolveu este quebra-cabeça para mim. Colombo não sofreu revistas como marinheiro mas como comerciante. Ele viajava como caixeiro-viajante, primeiro trabalhando para terceiros, e depois para si mesmo. Somente assim naquele início de capitalismo no Mediterrânio era possível negociar em rápidas transações. Comerciante, fez ligações com a empresa bancária Spinola e Di Negri, que lhe seriam muito importantes mais tarde. Mas seu prematuro interesse em navegação e geografia fez dele um observador arguto que aprendia enquanto viajava. No tocante a sua últimas funções, era muito comum um comandante de uma expedição não ser ele mesmo um homem do mar 8- José Manuel Garcia “Colombo em Portugal”. Oceanos: Portugal e o Mar. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, abril 1992, nº 30, pp. 27-30: “O que se pode considerar seguro é que a principal actividade de Cristovão Colombo em Portugal se relacionou com o comércio de açúcar. Tal facto está bem comprovado pelo documento que tem mais interesse para testemunhar e exemplificar as suas ocupações durante o período em que esteve em Portugal. Ele encontra-se na acta do notário Gerolamo Ventimiglia, datada de 25 de Agosto de 1479. Neste precioso documento, descoberto em 1904 por Ugo Assereto, é possível recolher um conjunto de informações valiosas e suguras. A acta foi redigida em Génova, na rua de San Siro, na loja de Ludovico Centurione. Este, na presença do offici Mercantie espôs a questão que teve com Paolo e Casano Dinero (ou Di Nero) em 1478. (...) Paolo Dinero, por comissão de Ludovico, deveria mandar comprar na ilha da Madeira dois mil quatrocentos e mais arrobas de açucar. Para este efeito Ludovico enviou-lhe a quantia de mil duzentos e noventa ducados. Paolo, sendo agente estante em Lisboa de Ludovico, encarregou da operação Cristoffrus Columbus, o qual foi à Madeira efectuar a transacção referida. Cristovão Colombo, convocado em Génova como testemunha do negócio então realizado e tendo de partir em breve para uma viagem longínqua, prestou o seu depoimento, sob juramento, declarando-se cidadão de Génova (civis June). (...) Devido ao dinheiro que não era suficiente para adquirir o peso de açucar pretendido, Colombo teve que partir para Lisboa no dia seguinte pela manhã, que tinha cerca de 27 anos (annorum viginti septem vel circa) e que sua fortuna correspondia a mais de cem florins. Alberto Vieira Colombo e a Madeira. http://www.mandifo.pt/organismo/ceha/funchal, p.9: “Aqui terá aportado o navegador no Verão de 1478, quando a safra do açúcar havia terminado, para conduzir as mãos de Ludovico Centurione 2.400 arrobas de açúcar. O pedido fora feito em Lisboa por Paolo di Negro, representante da firma em causa.

70

71

Todavia o negócio não foi bem sucedido pelo que Colombo teve de testemunhar perante um notário genovês das razões do seu incumprimento. E é a partir daí que se sabe da primeira passagem do navegador pela ilha, na condição de mercador de açúcar. Note-se que o navegador no testamento feito em 1506 refere algumas dívidas aos descendentes de Baptista Lomelino, Paolo Dinegro e Luís Centurion, o que poderá ser consequência deste contrato não cumprido ou, então, de outros negócios em torno do açúcar de que não ficou testemunho.” 9- Segundo Mollat - Opus cit., pp. 58/9, é conhecido um único documento do próprio Colombo, atualmente depositado no "Archivo Nacional de Espanha", em Simanca, que trata do descobrimento, sendo este somente um resumo de uma carta destinada aos reis de Espanha onde fez ele um resumo do seu diário. 10- Jacques Heers - Opus cit., p. 14: Bartolomé de las Casas se impone por su cultura, por su determinación, su evidente buena información y su interés por el Nuevo Mundo. (...) Ahora bien, inició su Historia de las Indias en 1527, pero en realidad la escribió después de su regreso a España, entre 1550 y 1563, en su celda del convento de San Gregorio de Valladolid, repleta de manuscritos, mapas, relaciones y documentos de todo tipo. Esta Historia, con información forzosamente de segunda mano cuando habla de los primeros tiempos del descubrimientos y de la colonización, es a veces trabajo de mero copilador, y, lo que és más, obra de un ecleseástico deseoso de convencer: se trata de un libro de interés muy general, en el cual intervienen toda clase de reflexiones. 11- Ilaria Luzzana Caracci - “Colombo: metas e projectos”. Oceanos: Portugal e o Mar. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, abril, 1992, nº 30, pp. 38-41: “Atribuídas desde o início ao filho predilecto do Almirante, Fernando Colombo, as Historie tinham sido até então a biografia mais qualificada de Colombo e aquela a que tradicionalmente se fazia recurso em casos duvidosos. Como é sabido, foram publicadas pela primeira vez em 1571, em Veneza, na tradução italiana de Afonso de Ulloa, a mais de trinta anos de distância da morte de seu pressuposto autor. À medida que a historiografia colombina adquiriu maturidade, foi-se dando conta de que esta obra contém muitas informações inexatas. Hoje parece confirmado que, embora derivando de um manuscrito fernandino, as Historie tenham sido profundamente refeitas antes da imprensão. Por isso, perderam muito da sua credibilidade. 12- Christophe Colombo - La decourvert de l’America - II. Ralations de voyage 1493-1504. Paris, François Maspero, 1980, pp.45/6. lettre à Luis de Santagel [1493]: A la primière que jái rencontrée, jái donné le nom de San Salvador, en hommage à Sa Haute Majesté qui merveilleusemente má donné tout ceci. Les Indiens appellent cette île Guanahaani. Jái nommé la deuxième île Santa Maria de Concepcion, la troisième Fernandina, la quatrième Isabela, la cinquième Juana, et ainsi à chacune délles jái donné un nom nouveau. Quand j' arrivai à la Juana, j' en suivis la côte vers le ponant et la trouvai si grande que je pensai que c' était la terre ferme, la province de Catayo.

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13- Michel Mollat - Opus cit., p.58 14- Ibidem., p. 59 15- Ibidem., pp. 89/90: Las necesidades técnicas de la navegación suponían algunos conocimientos científicos y mucha intuición. Tras los cruceros de corta distancia y con frequencia próximos a las costas sobre rutas conocidas, las campañas de larga duración en pleno mar y por lugares desconocidos constituyeron la hazaña colectiva de muchas generaciones sucesivas de marinos. (...); los problemas principales eran determinar y mantener una ruta, lo que supone el conocimiento de su posición. (...) La posición de los barcos era calculada a partir de la observación de la altura del sol al meiodía, o por la de la estrella Polar o de la Cruz del Sur. Gracias a estos cálculos de las latitudes, la navegación, de acuerdo con el trazado de los paralelos, era posible en los recorridos transoceánicos hacia el oeste y vice-versa. La longitud, por el contrario, dio problemas hasta la invención del reloj marítimo en el siglo XVIII. 16- Ibidem., p.106 17- Segundo Antonio Ballesteros y Baretta - “Genesis del descubrimientos”. Historia da America y de los publos americanos, Barcelona, Savat, 1947, T. III, p. 15 - o erro de Ptolomeu seria para mais e não para menos e, apesar de confirmar o aumento da dimensão de terra emergida, este seria bem menos que a metade da superfície do globo, conforme afirma Mollat: "Otro manantial de extravíos es el estadio empleado por Tolomeo. Non es el olímpico de los griegos, ni el estadio egipcio de Eratóstenes. El estadio tolemaico es una medida facticia que procede de Posidonio y fué adoptado por Marino de Tiro. Está comprendido quinientas veces en el grado terrestre. (...) Para Tolomeu, la Tierra tiene 180.000 estadios de circunferencia, lo que equivale a 10.000 leguas, equivocándose por excesso en 1.000 leguas. Calculaba que la parte habitada del ecúmeno era de 72.000 estadios de longuitud y 40.000 de latitud. Agrega al Mediterráneo 300 leguas más de las tiene. No hay cifra que se aproxime a la realidad". Herrs - Opus cit., p. 114 - porém, afirma, assim como Mollat, que Ptolomeu reduziu a dimensão do globo terrestre: "Recordemos, en primer lugar, las cifras reales: 60 millas marinas de las actuales para cada grado, o sea 111.12 kilómetros (una milla = 1852), lo cual arroja un total de 21 600 millas o 40 000 kilómetros. (...) Una larga serie de experimentos serios llevados a cabo por la escuela de Alejandría, proporcionó datos divulgados sobre todo por el sabio Ptolomeu (90-168), autor de la célebre Geografía. Estos datos conservaron su autoridad durante mucho tiempo: 500 estadios de 185 m cada uno, o sea grados de 92.5 kim,y soló 33.000 km para la circunferencia terrestre. Assim, segundo os dados apresentados por Heers, a distorção de Ptolomeu seria de somente 17,5% a menos. 18- Jacques Heers, Opus cit., p.117 19-Pierre Chaunu - La expansión europea (siglos XIII al XV). Nueva Clio 26. Barcelona, Labor,1972, pp. 109/10

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20-Jacques Heers - Opus cit., p. 64. Todos los historiadores no lo descrieben (Bartolomeu) como proprietario de un estableciemento cartográfico, dibujante de mapas y mapamundis, coleccionista -por supuesto- de toda clase de datos e informaciones, consejero de patrones de navíos. 21- Posteriormente, Colombo observou acertadamente que a Terra não era uma esfera perfeita, imaginando-a, porém, com a forma de uma pera, mas nunca com a de um cilindro. 22- Jacques Heers, Opus cit. p. 98

23-- Marco Polo - O livro das maravilhas, Porto Alegre, L&PM, 1985, p. 188. Cipango é uma ilha do Levante, que está afastada da terra 1.500 milhas. É uma ilha muito grande. Os indígenas são brancos, de boas maneiras e formosos. São idólatras e livres, têm rei próprio, que não é tributário de nenhum outro. Têm ouro em abundância, mas o rei não deixa levar, e por essa razão há lá poucos mercadores e poucas vezes ali vão as naus. 24- Jacques Heers - Opus cit. pp. 174 25- Michel Mollat - Opus cit. p. 114 : En el Atlántico norte la experiencia de los vientos que llevan hacia el oeste que, en el siglo XIV, había permitido el reconocimiento de los archipiélagos atlánticos (Canarias, Madera, Azores), había aberto a Colón la ruta de los alisios por los 25º a 28º norte. La facilidad de los regresos navegando en latitud resultó de su experiencia, hacia el paralelo 40, del viento del oeste y de la corriente noratlántica, prolongación de la Corriente del Golfo; al norte Cabot, Verrazano (a su regreso) y Jacques Cartier, utilizaron los etinerarios impuestos por los grandes vientos variables de este para oeste en latitudes más elevadas. Jaime Cortesão - Opus cit. p.558: Mas para dar um ejemplo sobre las condiciones de geografía física que podían influir en el éxito de los descubrimientos marítimos, y para referirnos a uno de los casos más eloquentes, non nos olvidemos de que Colón, durante su primer viaje, pudo mantenerse a la ida casi constantemente en el paralelo 28 º de latitud N., gracias a los alisios del NE., y que a su regreso le empujaron los vientos del SO., que completan en el Atlántico Norte el movimiento de vaivén a que obedecen las corrientes aéreas y marítimas en las diferentes cuencas de este océano. Tales circunstancias permitieron que el viaje se realizase con relativa facilidad (..) 26- Jacques Heers, Opus cit. p. 169. Colón decidió conservar la Pinta y, en la Gran Canaria, mandó que se modificara el velamen de la Niña, difícil de maniobrar, "para que pueda seguir otras naves". Se suprimió la gran vela latina triangular del palo mayor para replazarla con velas cuadradas de diversos tipos y menores dimensiones, tanto en el palo mayor como en el mástil de proa. 27- Edmundo O'Gorman - Opus cit., p. 107

28-Pierre Chaunu - Opus cit. p.108.Colón se casaba a fines del otoño de 1479 con doña Felipa Perestrello e Moniz, la hija de Bartolomé Perestrello, fidalgo y héroe del descubrimiento de África, la nieta de Gil Moniz, compañero de

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Enrique el Navegante". (...) Através de su suegra, Colón había recibido sin duda comunicación del tesoro de mapas y observaciones acumuladas por dos grandes familias de la conquista portuguesa en cincuenta años de esfuerzos. Alberto Vieira, Opus cit., p. 8: “No regresso a Lisboa, em 1479, Colombo conheceu Filipa de Moniz. O encontro deu-se no Mosteiro de Santos em Lisboa, onde ela estava recolhida. O casamento ocorreu em data e local que desconhecemos. Os seus biógrafos falam de Lisboa, mas a tradição, ainda que recente, teima em reafirmar o Porto Santo ou Machico. O importante é que ele ocorreu, tendo favorecido o seu posicionamento na sociedade madeirense e possibilitando-lhe o convívio com os marinheiros solitários da gesta descobridora do Novo Mundo Ocidental. Como justificar este enlace. O que atrás foi dito para os compatrícios seus tem agora a sua razão de ser. Todavia não podemos esquecer algumas situações que corporizam uma resposta cabal a esta dúvida. Em primeiro lugar é necessário ter em conta que entre os Perestrelos e Colombos havia pois o navegador se anotam nos seus antecedentes uma origem remota em Piacenza, a terra de origem do pai do sogro. A família Perestrelo era italiana, sendo Bartolomeu Perestrelo filho de Filipo Palastrelli que em 1380 trocou Piacenza por Lisboa. Assim estamos perante mais um italiano a juntar-se à numerosa colónia existente em Lisboa e que privava com a Coroa e príncipes empenhados com o processo político do reino e da expansão. O casamento ocorreu no final de 1479, ou talvez já em 1480. Mas sobre isso pouco ou nada se sabe, pois não era ainda corrente lavrar o registo da cerimónia. De acordo com Frei Bartolomé de Las Casas, após isso, dizem os seus cronistas, foram viver para a Madeira e Porto Santo, onde nasceu Diogo, o único filho legitímo de Colombo. 29- Alberto Vieira - Colombo e a Madeira. Funchal, Centro de Estudo da História do Atlântico -CEHA, Email: albvieira@madinfo.pt, p.12: “A curta permanência de Colombo no Porto Santo e, depois, na Madeira possibilitou-lhe um conhecimento das técnicas de navegação usada pelos portugueses e abriu-lhe as portas aos segredos, guardados na memória dos marinheiros, sobre a existência de terra a Ocidente. Bartolomé de Las Casas e Fernando Colombo falam que o mesmo teria recebido das mãos da sogra "escritos e cartas de marear". Ambos os cronistas fazem do sogro um destacado navegador quatrocentista. Tudo isto não passa de criação para enfatizar a ligação de ambas as famílias. Na verdade Bartolomeu Perestrelo, ao contrario de muitos genoveses ou seus descendentes, não é referenciado nas crónicas portuguesas como navegador. Ele apenas é referenciado como capitão do donatário da ilha do Porto Santo, por carta de doação de um de Novembro de 1446, e na condição de povoador da ilha acompanhou Joâo Gonçalves Zarco e Tristão Vaz em 1419 . Mesmo assim em sua casa podia ser possível a presença de tais documentos. Mais importantes foram os elementos que lhe terão fornecido o seu cunhado Pedro Correia, capitão da ilha Graciosa (Açores). Daí ele dava conta de outras notícias das terras açoreanas, sem esquecer os estranhos despojos que aportavam com assiduidade às praias da ilha do Porto Santo. Manuel Lopez Flores Colón non descubrió América. Madrid, Editorial Clasica, 1964, pp. 143: En lo tocante a los papeles del suegro “prodigioso que hace mapas y en donde pinta nuevos Mundos”, dice que no entendió Perestrello jamás de mapas ni hizo navegación alguna, que Bartolomé Perestrello fue un pobre diablo de hidalgo portugués, confundido con otros de su apellido, pero que nunca fue marino ni cartógrafo.

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30- Carlos Malheiros Dias - “Introdução”. História da colonização portuguesa do Brasil. Porto, Litografia Nacional, 1921, V. I, p. LXIX: “A correspondêcia de Toscanelli constitui um dos capítulos de mais alto interêsse na questão colombina (...) Em 1871, o historiador americano Henri Harrisse encontrou, num incunábulo da Colombina, de Sevilha, a cópia, aparentemente escrita pelo próprio punho de Cristóvão Colombo, (ou por seu irmão Bartolomeu) da mesma carta de Toscanelli ao cónego Fernão Martins - mas, desta vez, em latim. Esta descoberta imprevista parecia dever concorrer para que se dissipasse quaisquer dúvidas, suscitada pela correspondencia toscaneliana. Atraíndo as atenções dos críticos, essa descoberta provocou os estudos dos membros da Sociedade dos Americanistas de Paris, Gonzalez de La Rosa e Henry Vignaud, o último dos quais, numa obra exaustiva, modêlo de erudição e método analítico, condenou a correspondência de Toscanelli como apócrifa, muito embora declarando-se, com probidade exemplar, detido na prova decisiva da sua hipótese, pela impossibilidade de encontrar a explicação cabal e justificação convincente da fraude. (...) A influência do plano toscaneliano sôbre o projeto de Colombo aparece-nos afirmada por múltiplo indícios. Vignaud, com inatacável probidade, não os nega; mas, na presença de documentos visivelmente truncados e deformados, prefere considerar apócrifa a correspodência do sábio florentino forjada à posteriore. Com que fim ? Para impor um caráter scientífico ao que não passava de uma aventura, ou, peor ainda, de uma expoliação ? Porém ,Colombo nunca aproveitou a fraude, e esta circunstância basta para fazer periclitar qualquer hipótese ( Em nota: Por este forte motivo, Vignaud supõe que a fraude é da autoria do irmão ou dos filhos de Colombo, contra a opinião de Gonzalez de la Rosa, que a atribui ao próprio Colombo). Manuel Lopes Flores - Opus cit. p. 144: “Así, despúes de algunos años de investigaciones, el sabio norteamericano (Henry Vignaud) corrobora definitivamente su afirmación, asentado en su obra, La carta y el mapa de Toscanelli. Pero este hecho, sin embargo, no ha transcedido a la generalidad de las gentes, no se ha vulgarizado aún, no ha llegado a hacerse popular. Hasta ahora se tenía la creencia de que la génesis del Descubrimiento se debió a la carta y el mapa de Toscanelli. En este mapa se habla del Nuevo Mundo, y con él descubre Colón el Nuevo Continente. Vignaud ha probado lo falso de los hecho. No era preciso demostrar que era imposible, que todo ello eran cartas apócrifas. Basta pensar en lo absurdo de la hipótesis. 31- Ilaria Luzzan Caracci - “Colombo: metas e projectos”. Oceanos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, abril, 1992, nº 30, pp. 38-41:“Como observou Samuel Eliot Morrison, até ao fim do século passado ninguém pôs em dúvida que o objectivo de Colombo fosse a Ásia oriental. Só no início do nosso século Henry Vignaud pôs a hipótese de que ele se tivesse proposto atingir não a Ásia, mas uma das muitas ilhas que, na Idade Média, se julgava estivessem espalhadas pelo oceano e para as quais já se tinham dirigido, antes de Colombo, vários navegadores da Península ibérica. De alguns deles, como António de Leme, Fernão Dulmo ou Vicente Dias, falam também as Historie della vita e dei fatti dell’ammiraglio Don Cristoforo Colombo provavelmente com base em apontamentos do próprio Colombo. A teoria de Viganud teve vasta ressonância e provocou polémica e discussões acaloradas; com o tempo, porém, perdeu consistência e provou-se que era insustentável. Todavia, teve o mérito de chamar a

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atenção para problemas que anteriormente tinham sido descurados e, em especial, para o das premissas históricas e da génese conceptual da descoberta do Novo Mundo. 32- Ibidem , pp. 38/9 : Num primeiro momento, julgou-se que se podia substituir ( a Histórie, escrita por seu filho Fernando) pelas chamadas apostilas, ou seja aquelas anotações que Colombo escreveu ou mandou escrever em alguns de seus livros que hoje estão na Biblioteca Colombina de Sevilha. De facto, as apostilas tratam essencialmente - mas não só - de problemas geográficos e cosmográficos e, por isso, podem dar indicações úteis sobre as idéias de Colombo sobre a forma e as dimensões do globo terrestre e das terras emersas e à possibilidade de navegar de leste para oeste para chegar às Ìndias. Depois de um primeiro período de entusiasmo na época em que foram publicadas por Cesare de Lollis na Raccolta di Documenti e Studi (Colectânea de Documentos e Estudos) de 1892, o estudo das apostilas colombinas voltou a estar - por assim dizer - na moda, por volta e a partir dos anos 60, quando ainda se julgava, como De Lollis, que a data de 1481 presente na apostila B 858c fosse a da sua redacção. (...) A génese conceptual do projeto de descoberta foi por isso relacionada antes de tudo com estas suas doutas leituras, como, de resto, queria a tradição das Historie, que, entre as “razões que teriam induzido Colombo a perspectiva a sua empresa , citavam precisamente a autoridade dos sábios da Antiguidade e do seu tempo”. Em seguida, demonstrou-se que a data de 1481 não se refere à época da redacção daquela apostila, mas que foi copiada, juntamente com o contexto em que está inserida, de um cálculo hebraico relativo à idade do mundo. (...) Foi posto à luz, de facto, uma estreita relação entre muitas desta anotações e os escritos de Colombo posteriores à segunda e à terceira viagem, uma relação tal, que torna lógica pôr a hipótese de uma redação quase contemporânea. (...) Enfim, tudo faz pensar que pelo menos uma grande parte das apostilas - e entre elas certamente as que contém dados de carácter geográfico ou cosmográfico - tenham sido escritas em época tardia. 33-Demetrio Ramos Pérez - “De Lisboa saiu a Lisboa voltou”. Oceanos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, abril, 1992, nº 30, pp. 32-35: Não deixa de ser curioso o facto de que tendo Cristovão Colombo abandonado a corte portuguesa em 1485, pela dificuldade que encontrou para a aceitação do seu projecto, mais tarde, quando finalmente o levou a cabo, tivesse que voltar a Portugal, para oferecer a D. João II as primeiras notícias do seu êxito, antes de aos próprios Reis Católicos. E ainda que o facto tenha sido causado pelas tempestades e por enganos na latitude, não deixou de levantar suspicácia mais tarde entre não poucos dos cortesãos em Barcelona. 34- Jaime Cortesão - “Los portugueses.” Historia da America e de los pueblos ibericos. Barcelona, Salvat, 1947, T III p.765 - Apendice Documental: Décima pregunta del mismo cuestionario (de 1535): "X. Si saben... quel dicho Martin Alonso Pinzon con el aviso y aparejo que tenia de lo susodicho juntó consigo al dicho D. Cristobal y le dio dinero con que fuese a la Corte a negociar con los Reyes Catholicos que estaban en Santa Fe de la vega de Granada para que capitulase con ellos sobre el dicho descubrimiento para el dicho Martin Alonso Pinzon y para el dicho Colon, e el cual dicho don Cristobal Colon dejo asentado y concertado con el dicho Martin Alonso Pinzon de le dar mitad

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de todo lo que los dichos Reyes Catholicos le prometiesen e diese por el dicho descubrimiento y que todo lo que ansi capitulase con los dichos Reys Catholocos fuese comun entre el dicho Cristobal Colon y el dicho Martin Alonso Pinzon, y que ansi es verdad..." A esta pregunta respondió Fernando Valiente:"Que lo que sabe desta pregunta es que el dicho D. Cristobal Colon antes que fuese a negociar con los Reys Catholicos sobre el dicho descubrimiento vino a esta villa de Palos a buscar favor e ayuda para ir al dicho viaje, e posó en el monasterio de la Rabida, y de allí venia algunas veces a esta villa e hablaba con un Pero Vazquez de la Frontera, que era hombre muy sabio en el arte de la mar, e habia ido una vez a hacer el duscubrimiento con el infante de Portugal; e este Pero Vazquez de la Frontera daba avisos al dicho Colon y a Martin Alonso Pinzon e animaba la gente e les dezia publicamente que todos fuesen aquel viaje, e habian de hallar tierra muy rica, e esto que lo sabe este testigo porque vió a dicho Colón e oyó decir lo que tiene dicho al dicho Pero Vazquez de la Frontera, e lo dezia publicamente por las plazas; y en este tiempo este testigo vio que el dicho Colon se partió e se dijo que iba a la corte a negociar con los Reys Catholicos que le diesen dineros a recabdo para encaminar el armada, e despues vino a esta villa se dijo que traia dineros para el armada e despues de venido de la corte el dicho Cristobal Colon vió este testigo quel dicho Martin Alonso Pinzon e Vicente Yañes su hermano entedían en comprar e veer las cosas necesarias para ir al viaje e asi fizieron e se fueron; e que de lo demas contenido en la pregunta so sabe otra cosa. 35- Ibidem, p. 765 : IX pregtunta del cuestionario de 1535. "IX. Item; si saben... quel dicho Martín Pinzón era hombre sabio y experto en el arte de navegar por el mar oceano y que tenia navios y cabdal y hermanos, parientes y amigos, y grande aparejo para haber el dicho descubrimiento de las dichas islas Y Indias del mar oceano y mucho mejor quel dicho Cristóbal Colón, porque el dicho Colón ninguna cabdal ni aparejo tenia ni credito, porque no lo conoscian, ni hallaran navios ni gente, ni cabdal para hacer el dicho descubrimiento si no lo pusiera, como lo puso, el dicho Martín Alonso Pinzón, y que los testigos lo saben ansi porque conoscian al uno y al otro, a si otra cosa fuera, los testigos lo supieran, viera y entendieran." A este pregunta respondió Alonso Gallego: "Que conosció muy bien al dicho Martín Alonso Pinzón, que era el mayor hombre e mas determinado por la mar que en aquel tiempo abia por esta tierra e hera hombre rico e muy aparentado y de los más principales de Palos, y tenia siempre navio de suyo y tenia aparejo para fazer qualquier cosa por la mar mucho mejor quel dicho Cristóbal Colón, porque este testigo lo conoscia y le vio harto pobre y necesitado sin ningun credito ni cabdal ni favor, y que si algun cabdal, credito o aparejo toviera no viniera a esta villa a buscar favor e ayuda para ir fazer el dicho descubrimiento, porque desde Portugal se fuera a facer el dicho descubrimiento en nombre del Rey de Portugal, porque este testigo oyo dezir a un Pero Vázquez de la Frontera como persona que habia sido criado del Rey de Portugal y tenia noticia de la tierra de las dichas Indias (...)” 36-. Devido à inevitável associação do navegador genovês com interesses de Portugal, o eminente historiador português Carlos Malheiros Dias critica esta posição por considerá-la movida por interesses nacionalistas ou panfletários: Recentemente, alguns historiadores e, mais propriamente, alguns polígrafos, téem reclamado para Portugal, como o sr. Faustino da Fonseca (Nota: A Descoberta do Brasil, por Faustino da Fonseca, Lisboa, 1900. História dos

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Descobrimentos Portugueses, deixada inédita pelo mesmo autor. Principiada a imprimir na Imprensa Nacional de Lisboa, em 1917 (...) sendo para lamentar que até hoje não tenha sido dada à publicidade), os direitos de prioridade no descobrimento da América. Essas reclamações assumiram quási todas o tom de um libelo contra Colombo e pretendiam fundar esta reivindicação no debate ocioso dos conhecimentos scientíficos do genovês (Nota: A falta de preparação scientifica de Colombo há muito está estabelecida. Já Humboldt, no Examen Critique e no Cosmos submeteu a sciência cosmográfica de Colombo a uma análise rigorosa, provando que a sua correção de cálculo do diâmetro terrestre não se baseou na observação astronómica, absolutamente fóra das suas capacidades ...) e na sua suposta apropriação de roteiros portugueses para à viagem às Antilhas: ponto inícial da integração da América na história da civilização. O desenvolvimento de tal tese, incapaz de anular o facto incontroverso da heróica viagem, encontrará forçosamente no caminho obstáculos intransponíveis. Os rigorosos métodos da crítica histórica não se lhe podem aplicar. Quaisquer trabalhos assim orientados terão de degenerar numa literatura panfletária ou numa altercação nacionalista, não podendo assumir a gravidade, a forte contextura de uma obra objectiva d imparcial, superior às paixões e às especulações patrióticas e dialécticas. Certamente, Colombo não era, - muito longe estava de ser - na acepção superior da palavra, um homem de sciência. Foi a fé que o inspirou e guiou. Foi mais o Êrro do que a Verdade que o conduziu às Antilhas.” Concordando que esta discussão usualmente peca por arroubos nacionalistas e apologéticos, apontamos a evidente contradição do discurso de Malheiros que, sob a reivindicação dos rigorosos métodos da crítica histórica, procura sustentar o “engano” de Colombo como conseqüência do erro movido pela fé. Diferentemente, reivindicamos os mesmos métodos para, apoiados em um discurso lógico e isento de sentimentos lusófilos, resgatar este questionamento desconsiderado pela historiografia atual, fundamental para a compreensão dos vetores históricos atuantes no descobrimentos cabralino. (Carlos Malheiros Dias - Opus cit., p. LVIII) 37- Parece-nos evidente que a presença destes nautas foi imprescindível para o êxito da travessia, pois dificilmente o desconhecido mercador genovês conseguiria angariar confiança de tripulantes para se lançarem às até então desconhecidas entranhas do Atlântico.

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2. Tordesilhas, o Mapa de Cantino

e a Capitania de Sant’Ana

Sem dúvidas, o Tratado de Tordesilhas é um dos episódios mais nebulosos Uma referente questão logo à geopolítica por que expansionista D. João II

portuguesa.

ressalta:

pugnou tão incisivamente para que a linha divisória entre os domínios de Portugal e Espanha estabelecida, logo após o

retorno de Colombo, a 100 léguas a oeste de Cabo Verde pelo papa espanhol Alexandre VI, avançasse mais 270 léguas para o

ocidente? Evidente que seu objetivo não era disputar as terras recém descobertas por Espanha, pois sabia, por informações

concedidas pelo próprio descobridor, que este acréscimo longe estaria para tal.

Por outro lado, sabemos que, dado a imprecisão dos termos do Tratado que não definia a extensão da légua a ser

usada, sua origem de contagem e se esta se daria pelo equador ou pelo paralelo de Cabo Verde, na verdade foi uma faixa o que, a princípio, foi estabelecido a (1). Dependendo, sobre a assim, dos do

referencias

adotados,

discussão

longitude

meridiano de Tordesilhas

variou do estabelecido pelos cálculos valor

dos cosmógrafos da Junta de Badajoz, que chegara ao

correspondente a aproximadamente 45º 30' a oeste de Greenwich,

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ao cálculo do cosmógrafo português Diego Ribeiro que chegou a longitude correspondente a 49º 45' oeste de Greenwich (2).

Considerando a ponta de Santo Antão como ponto referencial, por encontrar-se Verde, e no extremo os ocidental de 6 do arquipélago m. para de a Cabo légua

adotando

valores

600

(correspondente a 300 braças) e de 110 573 m para o comprimento de 1º de longitude no equador encontramos as longitudes Equador, e de

47º 25’ W, contando as 370 léguas sobre o W, contando-as referida (3).

48º 26’

sob o paralelo 17º 05’ N, latitude da ponta

Assim, divisório, em sua

segundo extensão

nossos

cálculos máxima,

o

meridiano passar

ocidental

após

próximo à atual cidade de Belém, interceptaria o nosso litoral sul na altura do porto de Paranaguá (long. 48º 17’W), então tangente seguindo

à costa brasileira, de onde se afasta, após na região entre a ponta onde

atravessar a Ilha de Santa Catarina,

de Imbituba (long. 48º 39’W) e Laguna, em Santa Catarina, o litoral flexiona para oeste.

Lembrando

que,

antes

de

tudo,

esta

era

uma

discussão entre cosmógrafos, a maioria dos estudiosos tende a considerar que D. João II, por ter suspeitas ou informações terras ainda um não valor descobertas aleatório, no mas hemisfério que de

austral, lhe

reivindicou

certamente

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reservaria discussão

parte para

deste

Novo

Mundo.

Postergava, dado à

assim,

esta ou

gerações

posteriores

dificuldade,

mesmo à impossibilidade, de, em sua época,

demarcar esta linha

divisória, por estar estabelecida em função da longitude.

Contudo, ao considerar esta como uma pergunta logo ressalta:

versão confiável, um

Por que reivindicar para

valor aproximado, quase aleatório, os exatos 370 e não o triplo ou quádruplo do valor centesimal inicialmente estabelecido por Surpreendentemente, ao

Alexandre VI na bula Inter Coetera?

analisar o regime de correntes no Atlântico sul encontramos razão deste exato valor dentro de uma estratégia geopolítica de controle do comércio marítimo com o Oriente.

Conforme vimos, os veleiros seguem, em suas viagens transoceânicas, sempre por rotas (derrotas, em linguagem

náutica) determinadas, condicionadas pelos regimes de ventos e correntes. No Atlântico sul as corrente das Canárias e Guiné percorrem o litoral ocidental africano no sentido norte-sul

somente até a região equatorial, sendo, a partir de então, dominante a corrente de Benguela, que corre no sentido

inverso. No outro lado,

a corrente do Brasil percorre o nosso até o encontro da corrente das

litoral no sentido norte-sul

Malvinas que, originária da Antártica, muda de direção para leste na altura do litoral sul do Brasil (ver Anexo

Cartográfico).

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Para

as

embarcações

à

vela,

os

pontos

referenciais

básicos da navegação atlântica para o Oriente é, de um lado, o Cabo de São Roque, a partir do qual a Corrente do Brasil

acompanha o nosso litoral e, de outro lado, e o ponto extremo meridional do continente africano, o Cabo da Boa Esperança. A perda da perfeita abordagem da Corrente do Brasil a partir da extremidade oriental do nosso litoral exigia o reinicio da

viagem, com o retorno aos Açores. Assim, a rota para as Índias acompanhava o nosso litoral até a altura de Santa Catarina, quando então se afastava progressivamente para leste, a fim de vencer o Cabo da Boa Esperança, com a ajuda das correntes das Malvinas. Deste modo, as naus portuguesas que se dirigiam às Índias acompanhavam a costa Rio Grande do Norte até brasileira desde a o litoral do

Santa Catarina, afastando-se da costa

coincidentemente no limite meridional determinado pela linha divisória de Tordesilhas (4).

Assim, a bula papal de Alexandre VI, ao estabelecer a linha divisória a 100 léguas de Cabo Verde, apesar de

preservar para Portugal todo o litoral africano, tirava-o do controle da rota marítima para o Oriente. como a todo meridiano corresponde um Em contra partida, contra meridiano, o

simples deslocamento para oeste do meridiano divisório, tendo em contra partida implicaria o deslocamento para Portugal para na leste perda do de contra ricos

meridiano,

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empórios orientais. A posterior

disputa pela posse das Molucas

não deixa dúvida de que a Coroa portuguesa esteve sempre atenta a esta questão. Assim, só interessaria a Portugal que este deslocamento fosse estendido somente a ponto de permitir o

controle da rota atlântica e não mais, o que corresponde às precisas 370 léguas a oeste de Cabo Verde.

Poderíamos, a princípio, conjeturar que, assim como para Colombo, a sorte foi benfazeja para D. João II. Ambos, conforme cita o dito popular, “atiraram no que viam e acertaram no que não viam”. Contudo, a mais antiga fonte cartográfica,

até o presente conhecida, divisória de Tordesilhas

que traz a representação da linha nos faz suspeitar desta estranha

confluência de sortes e acasos. Esta representação encontra-se no planisfério conhecido como Mapa de Cantino.

Para o historiador português Alfredo Marques (5) este mapa é seguramente o mais neste até hoje importante da história a da

Cartografia. representação

Encontra-se cartográfica

planisfério conhecida do

primeira continente

americano e do meridiano divisório de Tordesilhas. É um belo mapa quinhentista, na medindo 1,05m x 2,20m, em encontrando-se na Itália, do

atualmente havendo

Biblioteca reprodução

Estesense em

Módena, na

uma

fac-símile

Biblioteca

Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro.

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Encontrava-se este mapa, cuja história mais

parece

obra da imaginação fértil de um romancista, na biblioteca dos Estes em Módena, para lá transferido após a perda do ducado de

Ferrara pela Casa dos Estes. A sua origem era desconhecida, já que não traz nenhuma indicação do cartógrafo que o elaborou e do ano de sua execução. Em 1859 esta biblioteca foi saqueada, por conta de um levante Posteriormente, o popular, desaparecendo então o mapa.

diretor da Biblioteca Esteense, Sr. Giuseppe decorando a parede de uma salsicharia,

Boni, foi reencontrá-lo recuperando-o o historiador

e levando-o de volta à biblioteca. Pouco depois, americano H. Harrisse, através do estudo das

cartas de Hércules d'Este, duque de Ferrara no início do século XVI, descobriu a história deste mapa. Foi feito em princípio de 1502, secretamente, por um cartógrafo português que se

manteve no anonimato, por encomenda do

representante comercial

do duque em Lisboa, provavelmente seu espião, Alberto Cantino, a pedido possível espanhóis, novembro do do duque, que queria o mais completo mapa que fosse obter das recentes descobertas de portugueses e

tanto no Novo Mundo como no Velho Mundo. Em 19 de mesmo ano, o mapa chegou às mãos do duque de

Ferrara, que pagou por ele a

soma de doze ducados de ouro (6).

Nota-se que este planisfério foi feito a partir de uma composição de diferentes mapas já existentes, apresentado

a particularidade do continente americano estar representado na projeção cilíndrica, provavelmente até então reservada às

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cartas

náuticas

portuguesas.

Nele

o

continente

africano

encontra-se representado

com grande precisão. A

Índia, apesar

de estreitada na ponta, já apresenta sua verdadeira forma de península, bastante americano, e a configuração da da costa da Índia ao à China é

aproximada

verdadeira.

Quanto

continente

mostra um perfil das ilhas das Índias Ocidentais, a ainda parte da onze

costa das Guianas, da Venezuela e do Brasil e

costa oriental da América do Norte, inclusive a Flórida, anos antes de Ponce de Léon anunciar a sua descoberta.

A indicações das

costa

brasileira

representada

traz

as

seguintes toponímias: Cabo de São Jorge, São

Miguel, Rio de São Francisco, a baia de Todos os Santos, Porto Seguro, Rio de Brasil e Cabo de São Marco. Junto também do

litoral brasileiro, encontra-se o seguinte texto:

A vera cruz + chamada de per nome a qual achou pedralvares cabral fidalgo da cassa del Rey de Portugal a elle descobrio indo por capitamoor de quatorze naos que o dito Rey mandava a caliqut y en el caminho indo topou com esta terra a qual terra si cree ser terra firme em a qual a myta gente de descricam andam nuos omes e molheres como suas mais os pario sam mais brancos que bacos e teem os cabellos myntos corredios foi descoberta esta dita terra em a era de quinhentos.

Pereira destaca representadas de forma

que as latitudes destes pontos quase correta, como o ponto

foram extremo

oriental de nossa costa, nele identificado como Cabo de São Jorge, que apresenta no mapa a latitude de 6º 30’, quando a do

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Cabo Branco é de 7º 08’, e de Porto Seguro, representado na latitude (6). Conforme dissemos, através das cartas remetidas por de 16º 0’ quando a latitude correta é de 16º 20’

Cantino ao duque de Ferrara, ficou-se sabendo que a sua feitura deu-se ao longo do ano 1502, o que ensejou uma dúvida aos historiadores. Portugal com a Mesmo que tivesse sido a nau que retornou a notícia da descoberta do litoral, a responsável como pelo a

levantamento

cartográfico

explicar

identificação de alguns pontos assinalados

ao sul de Porto

Seguro, parte da costa desconhecida ainda pela frota de Cabral. Malheiro Dias credita a uma expedição clandestina comandada por Duarte Pacheco Pereira, em 1498, a fonte de tais informações (6). Hale Surpreendentemente, para o historiador fora Colombo que levara e à Espanha das inglês John R. as descrições terras,

impressionantemente

exatas

detalhadas

novas

inclusive do Brasil, que permitiram ao desconhecido cartógrafo fazer tal mapa (8).

Contudo, para a maioria dos estudiosos que se debruçaram sobre este problema, a a descoberta para a da história da do mapa de da

Cantino

trouxe

resposta

dúvida

existência

expedição exploradora do litoral brasileiro de 1501. Temos a informação Vespúcio, desta porém, expedição não através do relato de Américo de sua

existe

nenhuma

referência

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realização nos arquivos de Portugal, já minucioso para todas as frotas que de lá partiam, além de também não haver nenhuma

referência de que Vespúcio teria sido contratado como navegador pela Coroa portuguesa. Apoiado assim nos diversos estudos

feitos, Pereira (9) afirma que "o planisfério da Casa d' Este, de autor anônimo, constitui assim uma prova incontestável da vinda à Vera Cruz da Expedição de 1501." Discordando da

assertiva acima, julgamos que a existência deste planisfério não dê subsídio inconteste para afirmar a veracidade da

expedição de 1501,

por razões que passamos a apresentar.

Inicialmente, documento em que se

devemos tomou

considerar da

a

natureza

do

conhecimento

existência

desta

expedição. Foi através da publicação em Florença em 1505/6 da carta remetida por Américo Vespúcio a Pedro Soderini em 1504 onde narra esta viagem que teria tido início em Lisboa em março de 1501 e finalizando em setembro de 1502. Vespúcio conta que

veio fazer parte desta expedição a convite de D. Manuel, por ser emérito cosmógrafo, palavra que tinha um significado

equivalente ao de cartógrafo. Este documento já foi alvo de análise por parte como de diversos estudiosos que tendem porém, a que e

considerá-lo Portugal

relato na época

verídico. com os

Lembramos, melhores

contava

navegadores

cartógrafos, o próprio mapa em questão assim o comprova, não havendo nenhum sentido o rei D. Manuel necessitar recorrer aos

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préstimos

de

um

estrangeiro

cuja

única

referência

a

seu

respeito era ser agente comercial da casa dos Médicis.

É preciso também considerar

o silêncio sobre esta que

teria sido a primeira expedição a ser enviada à nova terra descoberta, não só nos arquivos portugueses como em todos os

cronistas que narraram a chegada às Índias (10). Observamos que nada explicaria a necessidade de sigilo, que teria feito

desaparecer todos os documentos referentes cronistas, Vespúcio, em pois relação neste não mesmo só ao episódio 1501,

e calar todos os como D. também a

ano

de

Manuel

tornou

pública a descoberta do Brasil, através de uma carta enviada aos Reis Católicos.

Todavia, considerando cosmógrafo informações

mesmo a

indo

contra de

estes

fatos,

e

verídica nesta

participação observamos e as

Vespúcio

como entre nosso

expedição, por

contradições contidas no

narradas

Vespúcio

referido mapa. A mais evidente é que teria ele retornado a Portugal trazendo as informações necessárias para a elaboração do mapa em setembro de 1502, ou seja, quando o mapa já estaria quase, se não além novas totalmente, do tempo pronto. necessário o tempo Precisamos para que o o também e

considerar, desenho das

cálculo

informações,

cartógrafo

anônimo levou para ser corrompido e meios ilícitos,

ter acesso, certamente por

às informações do cartógrafo da expedição,

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Vespúcio,

que,

segundo

suas

palavras,

era

depositário

das

maiores informações confinadas do rei. Lembramos ainda que a pena para o crime de traição era de morte, o que tornava a empresa arriscada. Julgamos pois absolutamente impossível que a negociação e execução do mapa curto espaço de tempo. tenham se concretizado em tão

Continuamos apontando as contradições: Vespúcio faz referências à descoberta de uma baía em 25 de Dezembro, que por isso recebeu o nome de Salvador. Porém, esta mesma baía está indicada no mapa de Cantino como de Todos os Santos. Partindo da baía de Salvador, Vespúcio só iria fazer posteriores

referências à Ilha Grande e Angra dos Reis (11), contudo o mapa assinala com precisão Porto Seguro, indica o Rio de Brasil, provavelmente a baía da Guanabara, e não faz nenhuma referência à Ilha Grande ou Angra dos Reis.

Referindo-se a esta primeira expedição na carta dirigida a Lorenzo di Medeci, Vespúcio faz as seguintes considerações, extremamente contradições: Em parte por ignorância do capitão e dos lugares, e em parte pelas tempestades e ventos que nos impediam seguir caminho recto, obrigavam a muitas singraduras; de modo que, a não ser os que entendíamos de cosmographia, não seria o nosso chefe que durante quinhentas leguas soubesse onde estávamos.. Andaríamos vagos e errantes, a não nos valermos dos nossos instrumentos de tomar a altura - o quadrante e o astrolabio - bem conhecidos. E assim, desde então, todos nos fizeram muita honra, e lhes provei que sem conhecimento da carta de navegar, não há disciplina que significativas dentro deste quadro de

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valha para a navegação a não ser pelos mares já pelos mesmos indivíduos muito navegados (12). Vespúcio observa a dificuldade de localização em função das constantes e alterações ventos. dos rumos então de seguidos conseguiram parte do devidas fazer litoral, as um se

tempestades levantamento

Como

razoavelmente

preciso

encontraram dificuldade na sua própria localização? Porém, o mais relevante, é que Vespúcio chama a atenção da importância de saber utilizar a carta de navegar em mares desconhecidos. Como então pode Vespúcio demonstrar essa sapiência se essa

viagem era a primeira exploração destes mares e que teria sido graças a ela que o primeiro mapa pode ser feito? Evidentemente que estes absurdos não passaram despercebidos a Lorenzo dei Medici, documento procura relatos, para quem Vespúcio Fragmento trabalhava Ridolfi (13). Através que do

denominado

nota-se

Vespúcio

defender-se de afirmando

suspeitas sobre a veracidade de seus feito observações de conjunções

ter

planetárias para o cálculo de longitude. (...) Para comprovar sucintamente o que afirmo e para me defender do que dizem os malévolos, digo tê-lo conhecido durante os eclipses e durante as conjunções da Lua com os planetas; e que perdi muitas noites de sono por querer coincidir com as asserções dos sábios que criaram os instrumentos e escreveram sobre movimentos, conjunções, manifestações e eclipses da duas luminárias e das estrelas errantes (...) é certo que eu me encontrei tanto ao ocidente, não desabitado mas povoadíssimo, distante 150º do meridiano de Alexandria, que são oito horas das horas equinociais. E se algum invejoso ou maligno não o acreditar, venha a mim, que o demonstrarei com a razão, com autoridade e com testemunho. E isto te baste quanto à longitude, que, se não estivesse como estou muito ocupado, te mandaria as declarações de tudo e de muitas conjunções que eu observei, mas não quero entrar em tão profunda matéria, porque isto me parecia dúvida de literato, porém não o

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era nenhuma daquelas que vós havíeis me dirigido. E isto seja suficiente. (14) Vespúcio comete nesta defesa um erro primário para um “astrônomo longitudes, douto”, pois capacitado 150º de para o complexo cálculo a das uma

longitude

corresponde

diferença de dez horas, e não oito, em relação ao meridiano de origem, atingido no tal caso de Alexandria além na de ser costa impossível pacífica ter do

longitude,

situada

continente americano (15). Resgatado como importante personagem histórica por Varnhagen no século passado, Vespúcio foi, por longo tempo, considerado como mentiroso ou mesmo falsário por diversos estudiosos não é dos nosso descobrimentos intuito ibéricos (16). tal

Evidentemente,

ressuscitar

aqui

polêmica. Nosso único objetivo é demonstrar não ter fundamentos considera-lo como o responsável pelas informações que

permitiram as representações de pontos da costa brasileira no Mapa de Cantino. Contudo, particularmente acreditamos que, após a leitura do referido suspeitas a respeito manuscrito por Lourenço dei Medici, suas da veracidade das informações do seu

agente sobre sua participação em tais viagens transformaram-se, sem dúvidas, em certezas.

Portanto, se as viagens referidas

por Vespúcio à costa

brasileira realmente existiram, certamente a sua participação não se fez como piloto ou cosmógrafo. Contudo, nos parece mais provável o

que tenha redigindo suas cartas a partir de

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informações

obtidas

diretamente

de

navegantes

portugueses.

Compreende-se assim seu temor diante das procedentes suspeitas levantadas sobre seus relatos.

Porém, o que de mais importante nos demonstra o Mapa de Cantino é que já em 1502 cartógrafos portugueses tinham o

conhecimento preciso das coordenadas, tanto

de latitude como

de longitude, do ponto extremo oriental do litoral brasileiro, identificado em Cantino como Cabo de São Jorge. A relação das

distâncias encontradas no mapa quinhentista entre o meridiano de Tordesilhas e o Cabo de São Jorge e deste à costa da África, é extremamente próxima a verificada em um planisfério atual, na projeção cilíndrica, posicionando-se o meridiano de Tordesilhas na sua extensão máxima para o ocidente (17).

Assim, é absolutamente referencial do litoral

surpreendente esteja

que este

ponto

brasileiro

perfeitamente em qualquer

plotado, principalmente em termos de longitude, mapa quinhentista, inexplicável

tratando-se de um planisfério

datado de 1502. Contudo, não é somente a partir do Mapa de Cantino que podemos constatar o conhecimento preciso, por parte da Coroa portuguesa, do posicionamento de pontos referenciais do litoral brasileiro em relação ao meridiano divisório

estabelecido em Tordesilhas.

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Outra fonte de natureza cartográfica que nos permite tal consideração é a carta de doação de capitanias a Pero Lopes de Sousa, que diz o seguinte:

Hey por bem, e me apraz de lhe fazer mercê, (...), de 80 legoas de terra na dita Costa do Brazil, repartidas desta maneira: 40 legoas de terra que começaram de 12 legoas ao sul da Ilha de Cananéia, e acabaram na terra de Santa Anna, que está em altura de 28 graos, e hum terço; e na dita altura se porá o Padram, e se lancará huma linha, que se correrá a Loeste: e de 10 legoas, que começaram do Rio de Curparê, e acabaram no Rio de S. Vicente; e no dito de Curparê da banda do Norte se porá Padram, e se lançará huma linha, pelo rumo de Noroeste athe altura de 25 graos, e desta dita altura cortará diretamente a Loeste; e as 30 legoas, que fallecem, começaram no rio, que cerca em redondo a Ilha de Itamaracá, ao qual rio eu ora puz nome, Rio da Santa Cruz, e acabaram na Bahya da traycam, que está em altura de 6 graos, e isto com tal declaraçam, que a 50 passos da Caza da Feitoria , que de principio fez Christovam Jacques (...) (18) Como, de todas as capitanias inicialmente doadas, esta carta refere-se àquela situada mais ao sul, este documento o paralelo de

tem a particular importância de identificar

28º 20’ S, na terra de Santa Anna, como o limite meridional da América portuguesa reconhecido então pela Coroa.

Surpreendentemente, este paralelo atinge a costa brasileira no litoral de Santa Catarina, entre a Ponta de Imbituba e

Laguna. Conforme vimos, é neste ponto que a linha divisória de Tordesilhas afasta-se definitivamente da costa brasileira (18). Desta maneira, o primeiro limite meridional coincide

reconhecido pela Coroa para a América portuguesa com o

limite estabelecido pelo meridiano de Tordesilhas,

tomando-o em sua extensão máxima para o oeste.

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Ao mesmo tempo, a carta de doação da capitania de São Vicente a Martim Afonso de Sousa, irmão de Pero Lopes, nos revela dados igualmente surpreendentes. No Translado da doação da Capitania de São Vicente assim encontra-se definidos os

limites desta Capitania. (...) segundo irá declarado de cem leguas, que começarão de treze leguas ao Norte de Cabo Frio, e acabarão no Rio de Curpare, e do dito Cabo Frio começarão as ditas treze leguas ao longo da Costa para a banda do Norte, e no cabo dellas se porá um padrão das minhas armas, e se lançará uma linha pelo rumo de Noroeste até altura de vinte e um graus, e desta dita altura se lançará outra linha que corra direitamente a Loeste, e se porá outro padrão da banda do Norte do dito Rio de Curpare, e se lançará uma linha pelo rumo de Noroeste até altura de vinte e tres graus e desta altura cortará a linha direitamente a Loeste, e as quarenta, e cinco leguas, que fallecem começarão do Rio de São Vicente, e acabarão doze leguas ao Sul da Ilha de Cananea. (20) Assim, os limites da porção setentrional da

Capitania de São Vicente, formadora da Capitania do Rio de Janeiro, encontravam-se, verdadeiramente, sobre os paralelos de 21º S e 23º S. Vale por notar que esta é de a única porção Ora, de o

capitania

definida

coordenadas

paralelos.

paralelo 21º S passa exatamente pela foz do rio Itapemirim, acidente estipulado, corretamente, como limite meridional da Capitania de Vasco Fernandes Coutinho. O simples fato de se encontrar, com uma pequena margem de erro, as duzentas léguas correspondentes às capitanias da Baía, Porto Seguro, Ilhéus e Espírito Santo entre os rios São Francisco e Itapemirim, já é, de fato, surpreendente (21). Mais surpreendente ainda está o fato do seu paralelo limite encontrar-se exatamente na foz do rio Itapemirim, limite, igualmente, das 200 léguas referentes

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às quatros capitanias. Importante observar que no roteiro do irmão de Martim Afonso, o também donatário Pero Lopes de Sousa (21), a foz do rio São Francisco está calculada com um erro de cerca de impediria 1º para sua latitude. Se correta, esta diferença que coubessem devidamente as quatros capitanias no

espaço previsto.

Ao podemos até

tomar

os que

casos

aqui

vistos e D.

isoladamente, João II foram

conjeturar

Colombo

bafejados pela sorte, o das capitanias de Pero

Mapa de Cantino e as cartas de doação Lopes e Martim Afonso de Sousa são

frutos do puro acaso ou mera coincidência. Porém, é preciso observar que estes fatos interligam-se solidamente, como elos de uma mesma corrente. Ao descobrimento de Colombo associa-se diretamente apresenta-se o Tratado pela de Tordesilhas vez em que, uma por sua vez,

primeira

representação o

cartográfica no Mapa de Cantino, sendo, ao mesmo tempo, limite oeste comum às capitanias hereditárias. de esta conjuntura ser fruto da

A probabilidade

profusão de sortes e acasos,

é, certamente, bastante reduzida. Esta possibilidade torna-se definitivamente nula ao inseri-la no contexto Coroa portuguesa. expansionista da

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NOTAS

1- Tratado de Tordesilhas, segundo o original em português, existente no Arquivo de Índia de Sevilha. In Jaime Cortesão (org). Paulicea Lusitana Monumenta Histórica. Lisboa, Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro, 1956, v 1 (1492-1600, pp. 3/21: “Dom Joham Per Graça de Deus Rey de purtugal e dos alguarves daquem e dalem mar em africa e Señor de guinee. [...] E em testemunho e fee do qual vos mandamos dar esta nosa carta firmada per nos e seelada de nosso seelo dada e nosa cidade de lixboa a biij [8] dias de março. Ruy de pina a fez. Anno do naçimento de noso Señor Jeshu christo de mjl quatrocentos noventa e quatro annos. El Rey. E Logo os ditos procuradores dos ditos Señores Rey e Raynha de castela, de liam, daragam, de cezilia, de grada e etc. E do dito Señor Rey de purtugal e dos algarves e etc. [...] A suas altezas praz e os ditos seos procuradores e seu nome e por virtude dos ditos seus poderes outorgarã e consentirã que se faça e asyne pollo dito mar oceano huma Raya ou linha direita de poolo a poolo, scilicet, do pollo artico ao pollo antartico que he de norte a sul. A qual Raya ou linha se aja de dar e dê direita, como dito he a trezentas e setenta legoas das ilhas do cabo verde pera a parte do ponente por graaos ou por outra maneira que nõ seiam mais E que todo o que the qui he achado e descuberto e daqui adiante se achar e descubrir por o dito Señor Rey de purtugal e por seos navios, asy ilhas como terra firme des a dita raya e levaãte dentro da dita raya aa parte do levãte ou do norte ou do sul della tanto que nõ seja atravesando a dita raya, que esto seja e fique e perteça ao dito Señor Rey de purtugual e a seus socessores pera sempre jamais”. 2- M. D’Oliveira Lima - O descobrimento do Brasil : suas primeiras explorações e negociações diplomáticas a que deu origem. Livro de Centenário (1500-1900). Rio de Janeiro, Associação do Quarto Centenário do Brasil/ Imprensa Nacional, 1900, pp. XV/XVII. 3-Longitude da ponta oeste de Santo Antão: 25º 20’ W Latitude : 17º 04' (Cortesão in opus cit. 1956:LXII) 1 légua = 300 braças = 6,6 Km 370 X 6,6 Km = 2442 km Compr. de 1º long. no Equador = 110,573 km (Raisz, 1972) 2442 / 110,573 = 22.0849 = 22º 05' 22º 05’ / cos 17º 04’ = 23º 06’ 25º 20' W + 22º 05’ = 47º 25' W 25º 20’ W + 23º 06’ = 48º 26’ W 4- Jaime Cortesão - Brasil: de los comiezos a 1799 . Historia de América y de los publos americanos. Barcelona, Salvat, 1965, pp. 8/9,18/19, T. 26 : “Grandpré, que escribía en el siglo XVII, cita el caso de una nave que empló
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once meses en el trayecto desde Francia a Angola, por haberse empenado en realizar el viaje navegando siempre a lo largo de la costa de Africa. (...) Tan grande eran los obstaculos que encontraban los portugueses al atravesar el golfo de Guinea, que, apenas creado el gobierno de Angola en 1575, inmediatamente las travesías de Lisboa hacia la India empezaron a efectuarse por el Sur. (...) Es lo que G. Schott, el especialista contemporáneo mas eminente en la materia, escribe: "Forzados por las condiciones naturales, los navios de vela se ven obligados, al entrar en el Atlántico del Sur, a mantenerse siempre en la proximidad de la costa americana; su objectivo, que es alcanzar el cabo de Buenas Esperanza, está muy desviado hacia el Sudeste y precisamente en la dirección donde soplan los alisios del Sudeste. Por esta razón es preciso atravesar de lado la zona de estos alisios, dejando al Este las pequenas islas de Martín Vaz y Trinidad; y nos es raro que, a causa de la dirección Sudeste del viento, el navío se vea obligado a permanecer en la parte americana del océano, en la latitud de la desembocadura del río de la Plata ..., y la nave debe virar al Este, uma vez se hayan alcanzado con seguridad los vientos del Oeste del hemisferio Sur". Yel mismo oeanógrafo observa que: "La corriente ecuatorial del Sur, situada entre 2º de latitud Norte y 10º de latitud Sur, empuja al velero hacia el Oeste, de tal suerte que es necesario tener mucho cuidado para no topar de muy cerca el cabo San Roque en la punta avanzada de la costa brasileña. Apesar de todas estas precauciones tomadas de un modo minucioso, todavía acontece con frecuenciaen nuestros días que el navio no puede evitar la costa brasileña 5- Alfredo Pinheiro MARQUES - Os exploradores do oceano. O Correio da Unesco. Mapas e cartógrafos, Rio de Janeiro, ano 19 n. 8. p. 22-24, agosto de 1991. 6- Moacyr Soares PEREIRA -A navegação de 1501 ao Brasil e Américo Vespúcio. Rio de Janeiro, ASA Artes Gráficas, 1984, pp. 36/7: No planisfério da Casa d' Este os topônimos primitivos do litoral de Vera Cruz estão colocados em suas latitudes quase corretas: o Cabo de São Jorge em 6º 30' (correspondente ao Cabo Branco a 7º 8'), a ínsula Quaresma em 9º (Ilha de Santo Aleixo a 8º 36'), Porto Seguro em 16º (contra 16º 20' verdadeiros). 7- Carlos Malheiros Dias - “Introdução”. História da colonização portuguesa no Brasil. Porto, Litografia Nacional, 1921, V. I, pp. LIV/V: De facto, a América só é descoberta na sua continuidade territorial - embora ainda com limites imprecisos - pela expedição clandestina de um dos consultores técnicos de Portugal em Tordesilhas, Duarte Pacheco Pereira, em 1498, e pelas viagens quási simultâneas de Pedro Álvares Cabral a Vera Cruz e de Gaspar CôrteReal à Terra Nova. É com a notícia destas últimas viagens, realizadas no último ano do século XV nas Américas setentrional e austral, e de outras misteriosas navegações portuguesas na América central, que o embaixador Alberto Cantino manda compor em Lisboa, em 1502, o planisfério iluminado, remetido ao duque de Ferrara, em cujo pergaminho aparecem traçadas a Groelândia e as terras do Lavrador e dos Bacaláos, prolongando-se até às regiões da América Austral, aonde acostara, na rota da Índia, por 16º 16’,

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aproximadamente, de Latitude S., a expedição de Cabral, como ao depois a de Afonso de Albuquerque, em 1503. (...) O primeiro mapa do novo continente é, pois, português e conseqüência das viagens simultâneas de Côrte-Real e Pedro Álvares, completada esta última por uma série de expedições clandestinas, realizadas entre os anos de 1500 a 1502 boreal e austral do continente americano”. Sobre o Mapa de Cantino, ver também Derby (1914: 335) e Pereira (1984: 33) 8- John R. HALE - Idade das explorações -. Rio de Janeiro, José Olympio, 1970, p. 65 9- Pereira - Opus cit., p. 35

10- Ibidem, idem, pp. 14-17:Surpreendentemente jamais se encontrou nos arquivos oficiais e particulares portugueses qualquer documento relacionado a esta navegação exploratória das costas brasileiras. É conhecida a carta do Visconde de Santarém a Fernadez de Navarrete, que a publicou a seu pedido, sobre as viagens de Américo Vespúcio por ordem da Corte de Lisboa, na qual ele refere a busca que efetuou nas chancelarias originais do Rei D. Manuel I, de 1495 a 1503 inclusive, em dezenas de milhares de documentos do corpo cronológico, do das gavetas, e nos "paquetes" das cartas missivas dos Reis e outros personagens, sem aparecer em nenhum desses documentos o nome de Vespúcio. Sua pesquisa, acrescenta, estende-se à coleção de manuscritos da Biblioteca Real de Paris, na parte relativa aos descobrimentos e viagens lusas, com resultados também negativos. (...) os cronistas portugueses de Quinhentos, em, sua quase totalidade, não escreveram uma só palavra sobre a primeira navegação manuelina ao Brasil. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros nada dizem a respeito do acontecimento: o mesmo ocorrendo com Damião de Góis, Jerônimo Osório e Pedro de Mariz, que apenas se referem à expedição de Gonçalo Coelho à Terra de Santa Cruz, composta de seis velas, das quais perdera quatro no curso da viagem - evidentemente a de 1503." Há uma evidente distorção quando Pereira refere-se a quase totalidade dos cronistas, pois não consegue citar um único que confirme a expedição narrada por Vespúcio. 11-A. Morales DE LOS RIOS -Subsídios para a historia da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro. Revista do IHGB. Tomo Especial Consagrado ao Primeiro Congresso de História Nacional v. I, p. 989-1350, Rio de Janeiro, 1915 1015: A partir do momento em que a flotilha de 1501, se faz de vela, partindo da Bahia do Salvador, as chrônicas, que eu saiba, nada revelam, até hoje, a respeito dos descobrimentos que ella continuou fazer pela costa, até que no dia 6 de Janeiro de 1502, essa chrônicas tornam a nos dizer que a flotilha lusitana surge defronte de uma ilha e de uma enseada, às quaes deu os nomes de Ilha Grande e Angra dos Reis. 12- Ibidem, idem - p. 1012

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13- Riccardo Fontana - O Brasil de Américo Vespúcio. Brasília, Ed. UNB, 1975, pp. 123/4: “De uma panorâmica histórico-literária, podemos deduzir que os únicos documentos autênticos, ou seja, verdadeiramente elaborados e remetidos por Vespúcio a Florenca, são assim chamado Fragmento Rodolfi documento importante e em certos aspectos revolucionário, que remonta a 1504 (...); descoberto e ilustrado pelo marquês Roberto Ridolfi em Florenca, no ano de 1937, esteve perdido posteriormente e, por fim, foi reencontrado pelo prof. Luciano Formisano em 1983, que o republicou com tal novidade na Itália. (...) O Framento Ridolfi faz parte do Códice Ginori-Conti, agora em Washington, Library of Congress, Hans Peter Kaus Collection of Hispanic American Manuscript, 118 (cc8v9r). Este raro manuscrito é uma resposta corajosa e ousada, de tom inusitadamente polêmico e ressentido, a uma carta de Lourenço di Piero Francesco dei Medici, na qual se referiam as objeções e as dúvidas que em Florença se colocavam à carta de Vespúcio sobre a viagem portuguesa”. Sobre os Medici, Soares nos diz o seguinte: “O surgimento do Humanismo Neoplatônico se deu na época da Signoria, o regime político tirânico e paternalista instaurado, em 1434, no Estado Toscano por Cosimo I de Medici (ou Cosimo, o Velho), que sufucou o clima de liberdade cívica existente naquela República, e baseou-se no poderio econômico de um “império”comercial e financeiro que tinha ramificações por toda a Europa Ocidental. Com os recursos deste poderio econômico, Cosimo I e depois Pietro, Lorenzo, o “Magnífico”, e outros representantes da dinastia de Medici, puderam se trnasformar em grandes “Mecenas”, protetores de literatos, artistas e filósofos. Cosimo I foi o patrocinador e grande admirador de Marsílio Ficino, que foi o fundador do Humanismo Neopaltônico florentino e se tornou um dos maiores “filósofos - magos”do Quattrocento italiano, como assinalou Eugenio Garin. 14- Américo Vespúcio - Fragmento Ridolfi [1504?] In Fontana, Opus cit. p. 145. 15-Como a Terra leva 24 h para girar em torno de seu eixo, cada hora corresponde a 15 graus. 16-Duarte Leite - “Os falsos precursores de Cabral”. História da colonização portuguesa do Brasil. Porto, Litografia Nacional, 1921, pp. 109/110 : Teve um patrono ilustre a versão que atribui ao castelhano Alonso de Hojeda e ao seu companheiro Américo Vespúcio a ventura de ter primeiro avistado em 1499 o nordeste do Brasil. Foi Francisco Adolfo de Varhagen que nos meados do século passado exumou do esquecimento e avigorou a pretensão de Vespúcio, o qual no relato da segunda navegação (Lettera di Amerigno Vespucci delle isole nuovamente trovare in quatro suoi viaggi, Florença, 1505 ou 1506) duas vezes assevera ter aproado, por 5º de latitude austral, ao continente depois baptizado com o seu nome. (...) Acolhida com frieza, a reivindicação do fervoroso paladino de Vespúcio não conseguiu o assentimento dos historiadores, a êsse tempo e ainda depois muito desconfiados dos méritos e proezas do enigmático florentino. (...) Os primitivos cronistas espanhois, impressos até o meio do século XVI, não se ocupam dêle, ressalvadas concisas alusões (...). O silêncio dos cronistas só se interrompeu com as acrimoniosas

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censuras que Las Casas, na sua Historia general de las Indias, lança em rosto a Vespúcio, taxando-o de falsário e usurpador das glórias de Colombo. (...) Debalde Bandini e Canovai, em 1745 e 1788, tentarem palavras de elogio e aberta defesa; meio século depois, o infantigável e erudito Navarrete, na esteira do seu predecessor Muñoz, trata Vespúcio muito duramente, e o Visconde de Santarém se encarniçou longamente contra êle, fundado no completo silêncio dos cronistas portugueses e dos arquivos da Tôrre do Tombo. (...) Pouco depois interveio Varnhagen, que tenazmente conduziu, por espaço de vinte e cinco anos, uma ardente campanha em prol de Vespúcio, cuja viagens proclamou verídicas, e a quem atribuia o mérito de haver afirmado, antes de qualquer outro, a continentalidade da chamada terra firme; o que não obstou a uma nova investida, na qual se salientaram o italiano Hughes e o inglês Markham. Com a celebração em 1892 do quarto centenário do descobrimento da América ganhou fôrça o movimento em favor do famigerado navegador; os americanos Harrisse, Fiske e por último Henry Vignaud deram-se mão forte para reabilitar o grande homem, tão discutido quanto caluniado. 17-Segundo nossos cálculos, esta diferença, em termos percentuais, é de aproximadamente 8%. Veja no Anexo Cartográfico a superposição do Mapa de Cantino sobre um mapa atual onde se encontra representado a linha divisória de Tordesilha situada na posição extrema ocidental. 18-“Translado da Carta de Confirmação de D. João V ao marquês de Caiscais”. In Frei Gaspar da Madre de Deus - Memórias para a História da Capitania de São Vicente; Belo Horizonte, Itatiaia / São Paulo, Edusp; 1975, pp. 152/3. 19- Há apenas uma diferença de aproximadamente 15’ em termos de longitude para que esta intercessão fosse perfeita. Esta proximidade demonstra que os responsáveis por estes cálculos trabalhavam com valores para o comprimento do grau de longitude muito próximos os atuais. 20-Documentos Históricos: 1677-1678 Patentes; 1534-1551 Foraes, Doações Regimentos e Mandados. Vol. XIII da série E XI dos documentos da Bibl. Nacional. Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1929, p.137 21- Através da escala numérica no Atlas do Brasil ao milionésimo, calculamos em aproximadamente 195 léguas a distância entre os estuários destes dois rios. 22“Naveguaçam q fez pº lopez de sousa no descobrimento da costa do brasil militamdo na capitania de mati aº de sousa seu irmão : na era de emcarnaçam de 1530”. In Jaime CORTESÃO, (org.)
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Pauliceae Lusitana Monumenta Historica. Lisboa, Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, 1956, V 1, p. 455: “ Sa fa xj do dito mes ao meo dia tomei o sol a em xj . g. e meo faziame de tr dez leguoas fazia o caminho do sudueste cõ ho veto sueste, em que se pondo o sol demos nuã aguaje do Rio de sã frco q fazia muj grãde escarçeo”.

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2.3-. A Arte de Navegar no Atlântico Sul

Luís de Albuquerque observa que existem duas correntes que procuram explicar a origem dos fundamentos científicos e técnicos dos aos advoga judeus a conhecimentos descobrimentos que que esta náuticos e cartográficos (1). Uma das nos como da

necessários correntes astrólogos médicos. Já

portugueses

fonte

encontrar-se-ia a corte aos real

freqüentavam corrente

outra

remete

sábios

Universidade portuguesa, reformada por D. Henrique com o propósito de transformá-la na formadora e depositária dos conhecimentos técnicos e científicos essenciais à expansão marítima.

Apesar

de

reconhecer

a

importância

dos

astrólogos judeus na elaboração das mais antigas tábuas solares náuticas e, talvez, do regimento das léguas,

Albuquerque destaca que estas contribuições parecem não ter ido muito além disso. Por outro lado, demonstra que a

Universidade não teve, igualmente, uma importância maior neste processo, pois apesar do Infante D. Henrique ter sido o responsável pela introdução das matérias de Aritmética,
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Geometria e Astrologia, esta reforma não visava atender às necessidades dos homens do mar. Além da Astrologia ser dirigida às práticas médicas e judiciárias, na relação dos docentes da Universidade de Lisboa no período de 1418 a 1460 consta um único frei como professor de matemática, em 1437. Ao mesmo tempo, não se conhece nenhum navegador descobrimentos universitária. que Somente teria a recebido do esta XVI dos

formação que os

partir

século

navegantes se aproximaram dos conhecimentos teóricos dos sábios, dentre os quais se destaca Pedro Nunes, nascido em 1502, então designado mestre do Infante D. Luís, acompanhado em suas lições por Martim Afonso de Sousa e D. João

de Castro (2). Contudo, mesmo já neste período após aos descobrimentos, a relação deste emérito matemático com os navegantes nem sempre foi de aceitação e reconhecimento por parte destes, conforme observa Albuquerque:

Pedro Nunes é justamente considerado como um dos primeiros ou o primeiro metemático peninsular do século XVI; e esta fama nem sequer é recente, pois já no último quartel de Quinhentos o seu nome era já freqüentemente referido com admiração que o tempo não diminui, e até porventura engrandece. Diversos cosmógrafos daquele tempo, mesmo entre os que discordavam de algumas das suas opiniões, em livros que escreveram, reconhecem expressamente ter sido muito valiosa a contribuição de Pedro Nunes para a náutica astronómica, ou confessamse abertamente seus discípulos neste recente capítulo de aplicações de astronomia. (...) Entre as contribuições mais valiosas dadas por Pedro Nunes à marinharia da época contam-se os processo que em 1537 apresentou para a determinação de latitude por alturas extrameridianas do Sol e para a determinação da declinação magnética, também por observações solares. (...) No entanto, Pedro Nunes também foi objecto de críticas bastante violentas. Os marinheiros, segundo ele mesmo diz, não lhe perdoavam que tivesse intervenção nos problemas das náutica sem nunca ter navegado e denegriam a sua acção; mas também alguns
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104

homens de formação teórica discordavam publicamente de várias das suas opiniões em matérias referentes à arte de navegar. (3) Se não foram de os astrólogos os judeus e os sábios da

Universidade subsídio dos

Lisboa

principais náuticos e

responsáveis cartográficos

pelo aos

fundamentos

descobridores portugueses, qual seria então a origem destes conhecimentos? Para o referido historiador português a

adoção da prática de determinação da latitude pela altura meridiana do sol -pesar o sol- pelos navegantes representa

o marco divisório da técnica de navegar. Antes então a navegação era uma arte, fruto exclusivo da prática e

experiência dos navegantes, acumulada ao longo do tempo (4).

Esta explicação é convincente e pertinente quando referente às práticas náuticas na porção africana do

Atlântico sul e do Índico. Realmente, sabemos, e temos este registro, que a conquista do litoral africano é mérito quase exclusivo do navegante português que, palmo a palmo, explorou a costa ocidental da África, observando os regimes de ventos e correntes ao sul do Bojador.

Quanto ao Índico, sabemos igualmente que a arte de navegar neste oceano foi aprendida pelos portugueses dos

pilotos mouros. João de Barros narra como Vasco da Gama dependeu destes para navegar por aquele oceano recém

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atingido

(5).

Sabemos, recebidos e

do pelos

mesmo

modo, das

que

os

conhecimentos, corrente

portugueses ventos do

rotas, fora

marítimas

regimes

de

Índico

resultado do acúmulo da experiência gerações de navegantes orientais.

e da arte de diversas

Por outro lado, a rota percorrida por Vasco da Gama no Atlântico, seguida logo após por para Cabral(6), navegar

evitando corretamente a costa africana

próximo ao litoral brasileiro, não deixa dúvidas, conforme observa Viterbo (7) que tenha ele partido conhecedor não costa da

só dos obstáculos que ofereciam à navegação a

Guiné como do percurso correto a ser seguido para vencer o Cabo da Boa Esperança, e também da difícil abordagem da

Corrente do Brasil no litoral nordestino que, quando não feita correta e precisamente, impedia o prosseguimento da viagem ao Índico, João de exigindo Barro, nos ou o retorno aos Açores cronista roteiro (8). dos ou

Contudo,

algum

outro

descobrimentos, informação de

não

legou

qualquer

como os portugueses aprenderam a arte de

navegar pela rota da corrente do Brasil no Atlântico sul (9).

Como, estranhamente, após Bartolomeu Dias vencer o Cabo da Boa Esperança esperou-se por quase uma década

para que os navios portugueses atingissem a costa oriental

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do continente africano, poderíamos entre as duas viagens

supor que

o intervalo

representaria

o período de tempo a explorarão do regimes de vento. um

necessário para, secretamente, proceder litoral Contudo, brasileiro, este lapso suas de correntes tempo é e

insuficiente

para

empreendimento de tal magnitude.

Considerando arte, teriam sido

a

navegação

de

então

ainda para

como os

necessárias

muitas

décadas

navegantes portugueses aprendessem a fazer corretamente a abordagem da Corrente do Brasil para só então, após

explorar o litoral brasileiro, de nordeste a sul, descobrir que a Corrente das Malvinas os levariam a transpor o africano, permitindo assim atingir o Índico.

continente

Contudo, conforme visto, esta questão extrapolar da arte de navegar para um enigma de ordem técnica, por tratar de cálculos de latitude e longitude de pontos referenciais da extensa costa brasílica, estava neste âmbito. quando a navegação ainda não

O desnudar desta questão traz em seu esteio outra problematização, não mais de ordem técnico-científica, mas geopolítica.

Temos conhecimento que até o século XVI o coração mercantil da Europa pulsava principalmente no Mediterrâneo,

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via

principal

das

rotas

mercantis,

dentre

as

quais

se

destacam, por sua importância, as rotas de abastecimento das especiarias orientais. A procura da rota atlântica para as Índias costuma ser vistos como conseqüência do bloqueio

mediterrânico imposto

pelos turcos, após a conquista de

Constantinopla. Deste modo, Portugal, após ter adquirido a experiência necessária em navegação na exploração do

continente africano, almejaria atingir diretamente os centros produtores, fugindo assim da custosa intermediação otomana que estaria praticamente impossibilitando o acesso as tão procuradas e necessárias especiarias. Restabelecendo assim o fluxo de especiarias para o ocidente, Portugal, contudo, logo perderia esta primazia para os negociantes dos Países

Baixos, mais bem organizados e empreendedores.

Sendo fiel a este ponto de vista resta-nos concluir que toda esta seqüência de fatos inusitados aqui expostos nada mais representa do que uma incrível conjunção das forças do destino e sucessão de bem aventuranças. Contudo, um

detalhe

até então despercebido, ou desconsiderado, impõe, a

nosso ver, uma mudança radical neste enfoque geopolítico.

Devemos inicialmente observar que o Mediterrâneo permaneceu como a via principal do comércio com o Oriente mesmo após a tomada de Constantinopla. Apesar da queda do Império Bizantino representar um duro golpe à cristandade

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ocidental, o tráfico de especiarias com o

Oriente permaneceu

inabalado, pois este passou a fluir pela Síria, abastecida pela rota do no Golfo Egito, Pérsico que a e, partir primordialmente, do século XI por ganha

Alexandria,

importância cada vez maior como entreposto de especiarias orientais. Por não ter sido sorvedouro do ouro africano, por

muitos passou despercebido o papel de Alexandria como um dos mais importantes entrepostos de especiarias. Godinho,

contudo,

demonstra que, dada exatamente a sua vitalidade, a

economia egípcia pode prescindir da necessidade do constante reabastecimento deste metal, já que as especiarias eram

negociadas principalmente em troca de cobre e prata (10). Assim, abastecida pela rota do Índico as e Mar Vermelho,

Alexandria acolhia

principalmente

frotas venezianas

que, após derrotar Gênova na batalha de Chioggia em 1380, passou a não deter o quase monopólio do tráfico mediterrânico,

interrompido pela queda de Constantinopla (11).

Por outro lado, verifica-se que inicialmente a ação da frota portuguesa no Oriente voltava-se para impedir o fluxo do Índico para o Mediterrâneo de especiarias, ao bloquear as entradas do Golfo Pérsico e Mar Vermelho (12). Passada

somente uma década após a descoberta do Brasil, Afonso de Albuquerque instala-se em Goa, após conquistar, em 1507, a cidade de Ormuz, estratégica para o controle do Golfo Pérsico e Francisco de Almeida ter derrota a frota do sultão do Cairo

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na batalha de Diu, em 1509. A conquista de Málaca, em 1511, sepulta definitivamente a hegemonia das potências

mediterrânicas na economia européia, abrindo uma nova página na História ocidental (13). Por conseguinte, após Godinho ter resgatado a importância do Egito na permanência do tráfico de especiarias para o Ocidente e considerando-se a ação das frotas portuguesas no Índico, verifica-se que Portugal atinge o Índico não para fugir do bloqueio ao Mediterrâneo, mas, contrariamente, para impor este bloqueio.

Levando-se em conta esta rotação de 180º no eixo da geopolítica dos descobrimentos, concluímos não ser plausível delegar a uma conjuntura de sortes e acasos a seqüência de

fatos inusitados aqui expostos.

Deste

modo, do

somos Brasil

levados foi

a

considerar não só

que

o

“descobrimento” presença de

antecedido

pela

navegantes pelas

como

também

cosmógrafos e

doutos,

responsáveis

explorações

marítimas

observações

astronômicas em terra, necessários para o conhecimento das rotas marítimas (derrotas) e determinações cartográficos do o domínio do Índico e o pelos portugueses já no

Atlântico sul, possibilitando assim estrangulamento do Mediterrâneo

alvorecer do século XVI.

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Porém, a presença recente de diversos doutos nas “Terras registro de na Pindorama” memória dos teria

cosmógrafos deixado, deste

necessariamente,

aborígines

contato interétnico (14). Todavia, nenhuma sociedade nativa trazia algum tipo de registro que pudéssemos remeter a um contato recente com europeus. Contudo, o universo mítico da etnia Tupi-guarani, primeira contatada, guarda a memória de uma fabulosa relação interétnica com uma personagem

intitulada sumé.

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NOTAS

1- Cf. Luís de Albuquerque - Náutica e Cartografia em Portugal nos séculos XV e XVI. A universidade e os descobrimentos: Colóquio promovido pela Universidade de Lisboa. Lisboa, CNCDP/ Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1993, pp. 91-102. 2- Cf. F. R. Dias Agudo - Ambiente sócio-cultural e criação da matemática - o exemplo de Portugal na época de quinhentos. A universidade e os descobrimentos: Colóquio promovido pela Universidade de Lisboa. Lisboa, CNCDP/ Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1993, pp. 103-118 3- Luís de Albuquerque - As navegações e suas projeções na ciência e na cultura. Lisboa, Gradiva, 1987, p. 57: 4Idem “Náutica e Cartografia em Portugal nos séculos XV e XVI”. A universidade e os descobrimentos: Colóquio promovido pela Universidade de Lisboa. Lisboa, CNCDP/ Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1993, pp. 94,97.: E a tudo isto se reduz o que de mais importante ( e bastante importante) se passou com a arte náutica na segunda metade do século XV; podem-se resumir a esses passos essenciais as transformações pelas quais então passou a navegação quando ela saltou da arte, que até então era, para o início de uma técnica; que passou a ser; e esse início foi a medição de uma coordenada geográfica a bordo: a latitude. Quando na solução destes problemas se procura mostrar que tivesse feito a sua intervenção a Universidade de Lisboa (ou qualquer outra Universidade, porque era o mesmo), parte-se do pressuposto de que se podiam pensar em terra, antes do arranque das viagens para o sul do Bojador, as soluções de todos os problemas que iam aparecer na exploração ao longo da costa atlântica. Desenganemo-nos, porque nada é mais falso! É indiscutivelmente falso porque nunca se podiam ter adivinhado os condicionalismos que os navegadores haviam de enfrentar! Por exemplo: como podiam o infante e os seus conselheiros saber que as correntes e os ventos para o sul do Bojador eram quase sempre contrários a uma torna-viagem? Outro exemplo: como podiam eles adivinhar que acabariam por encontrar a manobra adequada para evitarem umas e outros? Terceiro exemplo: como podiam eles saber que seria por operações astronómicas elementares que se solucionava o problema de saberem o lugar em que se encontravam em latitude em cada viagem de retorno, engolfado no Atlântico? Tudo isso para nós é evidente, porque conhecemos a Geografia física do Atlântico, mas seguramente o não
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era quando se iniciaram essas navegações, isto é, quando ainda nem sequer se sabia que havia de existir uma disciplina chamada Geofísica, para se ocupar de regime de ventos e correntes ou ao menos alguns dados metereológicos. (...) No entanto, não posso deixar de reflectir que D. Henrique não sabia em 1431, que se teria alguma vez de “pesar o Sol”, para se saber localizar um navio no mar; a operação só foi iniciada, o mais cedo possível, meio século depois; é conceder ao infante poderes divinatórios que ele de certeza não teve. 5João de BARROS - Décadas. Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1945. 2 vols.pp. 47/8 v.1: E se foram contentes dos nossos pelo gasalho que receberam e maneira de sua adoração, também êles ficaram satisfeitos do seu módo, parecendo-lhe ser aquela gente mostra de alguma Cristandade, que haveria na India no tempo de São Tomé, entre os quais vinham um mouro Guzarate de nação chamado Malémo Caná, o qual, assim pelo contentamento que teve de conversação dos nossos, como por comprazer a el-rei que buscava piloto para lhe dar, aceitou querer ir com êles. Do saber do qual, Vasco da Gama depois que praticou com êle ficou muito contente, principalmente quando lhe mostrou uma carta de tôda a costa da India arrumáda ao modo dos mouros, que era em meridianos e paralélos mui miudos sem outros rumos dos ventos. Porque, como o quadrado daqueles meridianos e paralélos era mui pequeno, ficava a costa por aqueles dois rumos de norte sul e leste oeste mui certa, sem ter aquela multiplicação de ventos, de agulha comum da nossa carta, que serve de raiz das outras. (...) Vasco da Gama, com esta e outras praticas que por vezes teve êste piloto, parecia-lhe ter nele um grão tesouro, e por o não perder, o mais em breve que pôde depois que meteu, por consentimento de el-rei, um padrão por nome Espirito Santo na povoação dizendo ser em testemunho da paz e amizade que com êle assentára se fez á vela caminho da India, a vinte quatro dias de Abril.

6- São Gabriel - Vasco da Gama. Lisboa, Associação Nacional de Cruzeiros, 1997 - anc@edifor.pt: A armada partiu da praia do Restelo, em 8 de Julho de 1497, após celebração em procissão na Ermida; sete dias depois chegam às Canárias, para partir daí a alguns dias; os navios perdem-se de vista e apenas se voltam a encontrar no arquipélago de Cabo Verde, onde a armada permaneceu de 27 de Julho a 3 de Agosto. Levantam ferro de S.Tiago em direcção a Oeste a fim de aproveitarem os ventos alíseos favoráveis do Atlântico, e navegaram 3 mêses sem avistar terra; fundearam finalmente em Novembro, numa baía a que deram nome de Sta.Helena, e aí fizeram a aguada. O Cabo da Boa Esperança é dobrado a 22 de Novembro, e alcançaram, em 25 do mesmo mês a Angra de S.Brás, onde foi destruída, como estava previsto, a nau de mantimentos. Retomaram a sua viagem e a 2 de Março chegaram a Moçambique, para proseguirem a Mombaça (7 de Abril), e a Melinde (13 de Abril), onde foram bem recebidos, contrastando com as recepções hostis em Moçambique e Mombaça cheias de episódios atribulados. É em Melinde que o sultão faculta o famoso e experimentado piloto do Índico Ahmed-Ibn-Madjid. Tendo partido de Melinde a 24 de Abril, avistam Calecute a 17 de Maio. Após uma estadia conturbada,

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partem para a ilha de Angediva onde iniciam os preparativos de regresso ao reino, viagem iniciada em 5 de Outubro de 1498. A nau S. Rafael após rombo no casco devido a uns baixios perto da ilha de Moçambique, é abandonada beneficiando assim a S. Gabriel da herança de algumas peças sobresselentes e ainda da imagem do Arcanjo de S. Rafael (santo protector da família de Gama), hoje exposto no Museu de Marinha. Após a sua tripulação distribuída pelos outros dois navios, S. Gabriel e Bérrio já depauperados em termos humanos pelas agruras da viagem, o regresso prossegue; o capitão Paulo da Gama, adoece gravemente vindo a falecer na Ilha Terceira após lenta agonia. Finalmente, no dia 18 de Agosto de 1499 as naus S. Gabriel e Bérrio e os sobreviventes da expedição desembarcam em Lisboa onde foram triunfalmente recebidos - Vasco da Gama nasceu em Sines, talvez em 1468, e veio a falecer na índia, em Dezembro de 1524, quando desempenhava há apenas três meses o cargo de vice-rei. Foi o segundo filho de Estevão da Gama; o primogénito era Paulo da Gama, que acompanhou o irmão na viagem de 1497-1499 e veio a falecer quase no final do regresso, na ilha Terceira. Rezam as crónicas que era Vasco da Gama de meia estatura, de génio cavaleiroso, ousado para qualquer grande feito, no mando áspero, e assáz para temer em qualquer paixão, sofredor de trabalho e mui inflexível no castigo de culpas em cumprimento da justiça. A audácia e a inflexibilidade do temperamento de Vasco da Gama e dos seus homens, que souberam lutar com as fúrias do céu, do mar e da terra, permitiram que se escrevesse uma nova página na História Mundial. Os seus restos mortais foram transportados do Oriente para o convento de Na. Sra das Relíquias, próximo da vila da Vidigueira, onde permaneceram durante três séculos. Em 1880, foram trasladados conjuntamente as ossadas de Vasco da Gama e do poeta Luís de Camões para o Mosteiro dos Jeronimos. Os seus túmulos, da autoria do escultor Costa Mota tio, encontram-se no sob-coro da igreja. 7-Francisco Marques de Sousa Viterbo - Trabalhos náuticos dos portugueses: séculos XVI e XVII - Parte I Marinharia. Lisboa, Typographia da Real Academia das Sciencias, 1898, p. 2: A viagem de Vasco da Gama pode-se portanto comparar a uma das modernas expedições, que levam seu fito feito e qaue só se desviam do seu rumo quando a isso as obriga alguma circumstancia imprevista. Não se lhe pode negar o caracter scientifico, embora n’aquella epocha a sciencia tivesse uma feição mais restricta. Tudo se combinou e preparou para que o resultado final correspondesse aos trabalhos preliminares, o que, em nosso entender, não diminue a responsabilidade de Vasco da Gama nem apouca a figura verdadeiramente homerica d’este heroico servidor da patria e da humanidade. 8José Pinto Peixoto - “Os descobrimentos e o alargamento do conhecimento do mundo físico". A universidade e os descobrimentos: Colóquio promovido pela Universidade de Lisboa. Lisboa, CNCDP/Imprensa Nacional, 1993, p. 84: Na rota do Brasil, ou na rota da Índia, havia que actuar de forma diferente (em relação à costa africana) na passagem do Equador. A derrota para o Sul tinha que ser feita mais cedo para a rota da Índia e a muito maior distância da costa de África, para a

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rota do Brasil. Mas, mesmo esta, tinha que ser feita na altura devida, porque senão as naus seriam desviadas pela corrente equatorial do norte que as levavas às Caraíbas “[...] Mas hás-de-saber que nesta travessia do Cabo de Santo Agostinho, para o Brasil, correm águas para as Antilhas e portanto não cures de fazer a volta, porque se a fizeres será retornar a caminho de Portugal [...]” (Roteiro da Navegação de Lisboa para a Índia, Diogo Afonso, 1535). 9-Suzanne Daveau - “Os geógrafos portugueses e os descobrimentos”. A universidade e os descobrimentos: Colóquio promovido pela Universidade de Lisboa. Lisboa, CNCDP/Imprensa Nacional, 1993, p. 60: A prática das derrotas directas de navegação transoceânica levou forçosamente os pilotos a um conhecimento empírico dos sistemas gerais de ventos e correntes marinhas. Já há muito que se mostrou que os caminhos de ida e volta da Índia implicavam o conhecimento seguro destes grandes sistemas. E existem realmente bastante testemunhos pontuais deste conhecimento. Em relação ao Oceano Índico ocidental, onde este saber parece ter sido herdado dos árabes, a exposição clara e coerente da alternância dos ventos e correntes ao longo do ano está incluída num dos roteiros reunidos pelo piloto Manuel Álvares, provavelmente cerca de 1545. Mas não se conhece nada de semelhante em relação ao Atlântico, quase com certeza por desaparecimento dos textos. (o grifo é nosso). 10- Vitorino Magalhães Godinho - Os descobrimentos e a economia mundial. Lisboa, Editorial Presença, 1981, v. 1, pp. 89/ 90/91: “Se as Casas da Moeda egípcias deixam de emitir espécies de ouro a partir de princípios do século XIII, não é que não possam obtê-la, seja em consequência da invasão hilaliana da Ifríquia, anterior de um século e meio, seja da queda de Ghana e sua substituição por Mali. Não será antes porque a economia egípcia já não sente a mesma necessidade dessas espécies? Esta conclusão, assás lógica, modifica completamente o problema. Há agora, com efeito, que responder à pergunta seguinte: por que é que a economia egípcia pode já não sentir a mesma necessidade de moedas de ouro? Do século XI ao século XIII não se afirma um progresso considerável de comércio das especiarias pela via do mar Roxo? Constatamos a ascensão do mercado egípcio e do mercado sírio. Ora, as especiarias são compradas nos portos do Malabar a troco de prata e nas ilhas da Malásia a troco de cobre, e não, em geral, de ouro. Uma hipótese ocorre desde logo para dar conta da curiosa evolução monetária do Egipto: se este estado passa a caracterizar-se por uma amoedação de prata e cobre, com exclusão do ouro, é provavelmente porque se torna escápula da pimenta, da canela, do gengibre, do cravo, cuja compra se faz precisamente com moedas brancas ou de cobre. (...) Uma carta portuguesa de 1511 documenta a chegada ao Egipto de cobre vindo de Veneza, e a sua reexportação, com as especiarias, panos da Índia e jóias e adornos, para o mundo do Níger. (...) Bautier foi o primeiro a trazer a terreiro as conquistas mongois a fim de explicar o contexto da economia egípcia que a conduziu do ouro à prata. Mas, além de só ter visto este nexo de forma confusa, ligou-o a um pretenso isolamento do Egipto que o teria cortado dos mercados de fornecimentos de

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especiarias. Na realidade, nada disso se deu: o Egipto continua a abastecer-se sempre regularmente pela via marítima do mar Roxo, que os Mongois jamais cortaram. 11-Fernand Braudel - Civilização material, economia e capitalismo : séculos XV-XVIII. São Paulo, Martins Fontes, 1996, pp. 102/3 : Em 1298, Gênova derrotara a frota veneziana, diante de Curzola. Oitenta anos mais tarde, em agosto de 1379, apoderava-se de Choggia, pequeno porto de pescadores que controla uma das saídas da laguna veneziana para o Adriático. A orgulhosa cidade de S. Marcos parecia perdida, mas, numa prodigiosa reação, inverteu a situação: Vettor Pisani, em junho de 1380, retomava Chioggia e destruía a frota genovesa. No ano seguinte, a paz, assinada em Turim, não dava a Veneza qualquer vantagem formal. No entanto, foi o princípio do recuo dos genoveses - não voltarão a aparecer no Adriático - e da afirmação, a partir daí indiscutível, da proeminência de Veneza. (...) E enquanto o Leste for a principal fonte de riqueza, Veneza, com a facilidade de seu caminho de ilhas para o Oriente, estará em vantagem. Quando a “rota mongol” se rompeu nos anos de 1340, foi ela a primeira a se apresentar, antecipando-se aos seus rivais, já em 1343, à porta da Síria e do Egito, e não a encontrou fechada. Fernand Braudel, apesar de reconhecer a importância de Alexandria no abastecimento da frota veneziana, não relaciona a interrupção deste fluxo a uma ação interventora portuguesa. Em sua alentada obra Civilização material e capitalismo séculos XV XVIII reserva umas poucas páginas à expansão portuguesa. Sugestivamente, o assunto é tratado em um subcapítulo intitulado A sorte inesperada de Portugal ou de Veneza a Antuérpia. Ou seja, entre a decadência de Veneza, e, por conseguinte, da rota mediterrânica, e ascensão da Antuérpia interpõe-se a chegada dos portugueses ao Oriente, fruto, antes de mais nada, de um inesperado golpe de sorte. Opus cit. pp. 122/126: Os historiadores estudaram mais de mil vezes a sorte de Portugal: o pequeno reino luzitano desempenha um dos principais papéis na enorme reviravolta cósmica introduzida pela expansão geográfica da Europa, no fim do século XV, e por sua explosão para o mundo. Portugal foi o detonador da explosão. Coube-lhe o papel principal. (...) Observe-se, enfim, que o esforço dos portugueses em direção ao oceano Índico custou-lhe simplismente a América. O trunfo esteve por um triz: Cristóvão Colombo propôs sua quimérica viagem a rei de Portugal e a seus conselheiros no momento em que Bartolomeu Dias, de regresso a Lisboa (1488), tinha trazido a certeza de uma ligação marítima entre o Atlântico e o Índico. Os portugueses preferiram a certeza (“científica”, afinal) à quimera. Quando, por sua vez, descobrem a América empurrando os seus pescadores e arpoadores de baleias até a Terra Nova por volta de 1497, desembarcando depois no Brasil em 1501 (sic), estão com anos de atraso. Mas quem poderia calcular o alcance desse erro quando, com o regresso de Vasco da Gama, em 1498, a batalha da pimenta já estava ganha, pronta para ser explorada imediatamente, e a Europa mercantil se apressava em instalar em Lisboa seus mais ativos

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representantes? Ao passo que Veneza, a rainha da véspera, parecia desamparada, golpeada em sua sorte. Em 1504, as galeras venezianas não encontraram um saco de pimenta em Alexandria do Egito. Mas não é Lisboa, por mais importante que seja, que se coloca então no centro do mundo. Tem na mão todos os trunfos, ao que parece. Ora, é outra cidade que ganha, que passa por cima dela: Antuérpia. 12- Fernando A. Novais – Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777- 1808). São Paulo, Hucitec, 1979, pp. 73/4: # 13- João Ameal - História de Portugal. Porto, Tavares Martins, 1974, pp. 257/9, 261: “Venezianos e Turcos, alarmados perante o crescente poderio português, firmam aliança para nos expulsar das águas orientais e das embocaduras do Mar Vermelho. (...) Já em 1516 saiu de Lisboa outra armada, com Tristão da Cunha por Capitão-Mor, a bordo da qual vai novo governador, secretamente nomeado: Afonso de Albuquerque. Mas só deve tomar posse em Dezembro de 1508, quando expire o mandato de D. Francisco de Almeida. O primeiro objectivo consiste em impedir a navegação muçulmana entre a Índia e o Mar Vermelho. Para isso toma Tristão da Cunha a fortaleza da Ilha de Socotorá. Tem de abandoná-la ao ver que é Aden a posição dominante; e não se afigura possível conquistar Aden. Afonso de Albuquerque escolhe outro alvo: Ormuz, capital comercial da Pérsia, que centraliza o intercâmbio de todo o Oriente para o norte da Ásia. (...)A eliminação total dos negociantes muçulmanos visa a assegurar-nos o monopólio do tráfico do Índico. A recusa de passaporte aos navios que demandam o Mar Vermelho representa o intuito de estrangular de vez o comércio veneziano e egípcio nessa zona.” 14- Apesar da inexistência deste registro, a carta de Caminha revela, a nosso ver, um comportamento não usual para indígenas que até então desconheciam aqueles estranhos visitantes. Segundo informação do indigianista José Américo Peret, todo o contato com indígenas é antecedido por um período de “namoro” onde, através de oferecimento de presentes, procurase conquistar a confiança aborígine, só após então se iniciando o contato direto. Apesar do tempo exigido para este “namoro” variar de grupo para grupo, inexiste na literatura etnográfica alguma referência sequer próxima à descrita por Caminha como contato inicial. O comportamento mais inverossímil é o de dois indígenas levados à nau capitânia que, após entrevista com Cabral, placidamente deitaram em sua presença e dormiram. Ora, se sabe que os indígenas nunca dormem na presença daqueles em que não se sentem totalmente seguros. Caminha assim narra este episódio: E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos a mandado do Capitão, por ser homem vivo e competente para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto por todas as partes; e tomou, então,

116

117

dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa jangada. Um deles trazia um arco e seis ou sete flechas; e na praia andavam muitos com seus arcos e flechas, porém deles não fizeram uso em nenhum momento. Imediatamente, e era já de noite, Afonso Lopez levou os dois mancebos até o Capitão, em cuja nau foram recebidos com muitos agrados e festas. (...) Quando eles vieram a bordo, o Capitão estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar muito grande no pescoço, e tendo aos pés, por estrado, um tapete. (...) E eles entraram sem qualquer sinal de cortesia ou de desejo de dirijir-se ao Capitão ou a qualquer outra pessoa presente, em especial. (...) Então deitaram-se na alcatifa, para dormir, sem nenhuma preocupação de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram circuncisadas; e as cabeleiras delas estava raspadas e feitas. O Capitão mandou pôr debaixo da cabeça de cada um deles um travesseiro; enquanto isso, aquele da cabeleira esforçava-se por não a desmanchar. Cobriram-nos com um manto e eles a isso consentiam. Quedaram-se e adormeceram. - Pero Vaz de Caminha - O descobrimento do Brasil A carta de Pero Vaz de Caminha Porto Alegre, L&PM, 1985 [1500], pp. :78/9

117

118

III. A Geopolítica dos Descobrimentos e os Cavaleiros de Cristo

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1- Os Tupi Guarani e o Mito de Sumé

Ao Santa

iniciar o

a

exploração

territorial logo

da

"Terra

de a

Cruz",

colonizador

português

observou

predominância de uma língua nativa, que, com certas variações, era falada por um número maior de aborígines (1). Os indígenas

falantes desta "língua geral", hoje conhecida como Tupi-Guarani e classificada como pertencente ao Tronco lingüístico Tupi,

ocupavam grande parte da bacia do Paraná -Paraguai-Uruguai e, de modo quase exclusivo e contínuo, praticamente todo o litoral brasileiro (2).

De modo geral, os indígenas falantes das línguas do Tronco Tupi, dentre elas o Tupi-Guarani, ocupavam as regiões de terras baixas e florestas tropicais, incluindo a região

amazônica. Evitavam, os Tupi em geral, as regiões planálticas e serranas, que eram ocupadas, principalmente, por indígenas

falantes das línguas pertencentes ao Tronco Macro-Gê. Portanto o colonizador quase que português encontrou por a região litorânea falantes habitada, do Tupi-

exclusivamente,

indígenas

Guarani, habitando os "Tapuia" (3) as regiões interioranas.

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Estudos

apontam

para

uma

origem

amazônica

do

tronco

lingüístico Tupi assim como da língua Tupi-Guarani (5). Logo após um grupo destes migrou em direção à bacia do Paraná-

Paraguai, de onde outro grupo partiu em direção ao litoral. Apesar de permanecer ainda dúvidas quanto às rotas migratórias

seguidas até atingirem a costa brasileira, sabe-se com certeza, porém, que após aí chegarem, em torno de 500 d.C., deu-se

início a um grande movimento de expansão, identificado pelos vestígios cerâmicos dos sítios arqueológicos (5). Quinhentos

anos antes da chegada de Cabral, os Tupi-Guarani já ocupavam o litoral brasileiro quase que totalmente, estando perfeitamente adaptados ao ambiente costeiro e a exploração dos recursos

marinhos (6).

Alguns arqueólogos, dentre os quais incluímo-nos,

consideram que este foi um dos mais expressivos processo de expansão espacial de povos ceramistas registrado em toda a préhistória(7).

Assim, apesar de não nômades, estes indígenas tinham uma grande mobilidade espacial. De tradição belicosa (8), quando a guerra lhes era desfavorável, a tendência era do deslocamento da aldeia para um outro ponto do litoral, ou próximo a este.

Devido a esta dinâmica étnica e espacial torna-se dificultoso delinear com precisão as fronteiras das diversas "nações".

Acrescenta-se também que termos de significados genéricos, como "Tupiniquim", "Tupinambá” e “Tabajara”, passaram a ser

utilizados, pelos europeus, como designativos dessas "nações",

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dando

margem

a

grandes denominar

equívocos, grupos

pois

um

mesmo assim

termo como

foi

utilizado

para

distintos,

casos

houve em que uma mesma "nação" recebeu mais de uma denominação. Baseando-nos então em Gabriel Cardim Soares de Sousa e Fernão de

identificamos as seguintes "nações"

Tupi-guarani como

as principais ocupantes do nosso litoral no séc. XVI, lembrando sempre a facilidade de mobilidade e de tomarem denominações

diversas, que tinham essas estruturas tribais: Pitiguar ou Potiguar - do Maranhão até o rio Paraíba. Caeté‚ - do rio Paraíba ao rio São Francisco. Tupinambá - do rio São Francisco ao sul da Bahia. Tupiniquim - do sul da Bahia ao Espírito Santo. Temiminó - Espírito Santo Tamoio ou Tupinambá - Rio de Janeiro Tupiniquim e/ou Tupi - São Paulo Carijó - do sul de São Paulo a ilha de Santa Catarina

Considerados como horticultores especializados, subsistência intermediário deveras esses característico entre os é das sociedades e

modo de tribais,

caçadores o número antes

coletores de do

agricultores, tropicais o que

impressionante

culturas contato

indígenas

conheciam,

com

europeu.

Soares de Sousa (8) cita as seguintes: Diversos tubérculos como a batata-doce e o cará, mas principalmente a mandioca, tanto a "braba" "doce", (tóxica), utilizada Milho, utilizada no fabrico para da o farinha, fabrico de quanto de à

principalmente pimenta,

bebida

alcoólica. várias

abóbora,

chamada

"gerumús,"

leguminosas, como feijões e amendoim, que, segundo este

cronista, (...) não se sabe haver senão no Brasil. Uma grande variedade de

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frutas como a mangaba, o ingá, o caju, o araçá, o jenipapo, a pitanga, o maracujá, o caju, a banana-da-terra (9) e o abacaxi, o fruto nativo que mais impressionou aos europeus, levando este autor a afirmar que o seu sabor é tão suave que nenhuma fruta da Espanha Além destas culturas de

lhe chega na formosura, no sabor e no cheiro.

subsistência, os Tupi-Guarani do litoral cultivavam o algodão e o tabaco.

Certamente, foi de

o

domínio

dessa

horticultura o sucesso

especializada do intenso

fundamental

importância

para

movimento expansionista Tupi-Guarani (10). Desconhecemos ainda, porém, se alguns destes processos de domesticação vegetal,

fruto de longa e acurada seleção fito genética, foram realizados exclusivamente pelos Tupi-Guarani ou se foi conseqüência de um

processo difusionista ainda desconhecido.

Contudo,

o

mais

significativo personagem Mair-Zumane, da

para

nós

é

que

os

tupi-

guarani atribuíam a um Humane, Maire-monan, do

mitológico denominado Meire Sumé ou Zomé, o papel de

transmissor Thevet

conhecimento

horticultura

especializada.

assim se refere a este personagem venerado por todos

Tupi litorâneos:

Após termos sido assim recepcionado, levou-nos o chefe a uma laje de cerca de 5 pés de comprimento, na qual se viam umas ranhuras que pareciam ter sido feitas por uma vara ou um bastão, e as marcas de dois pés, que os indígenas afirmam ser de seu grande Caraíba, ao qual reverenciam como os turcos a Mafoma, dizendo que foi ele quem lhes ensinou a fazer e a usar o fogo, e a como plantar raízes, a eles que antes viviam apenas de folhas e ervas, quais animais. (11)

123

Hans Staden também se refere a esta personagem mitológica, de aspecto monástico:

Fazem uma tonsura (os Tupinambá) no alto da cabeça e deixam ficar em torno uma corôa de cabelos, como um monge. Perguntei-lhes muitas vêzes de onde haviam tirado esse penteado, e responderam que seus antepassados o haviam visto em um homem que se chamava Meire Humane, e havia feito muitas maravilhas entre êles. Têm-no por um profeta ou apóstolo. (12)

Contudo,

estão

nas

cartas

e

crônicas

jesuíticas

as

principais referências a este mito aborígine. Segundo crença indígena, Sumé, ao partir inconformado com a relutância dos

nativos em abandonar a prática antropofágica, teria prometido retornar em tempos futuros. Ao perceberem a similaridade do

discurso do Sumé ao missionário católico, os missionários da Companhia de Jesus souberam, de forma perspicaz, apropriar-se deste mito, associando Sumé a São Tomé, que os teria precedido na missão da conversão católica. Retornavam, assim, os jesuítas para prosseguimento da obra de Sumé, ou melhor, São Tomé (13). Como este era um mito comum a todos Tupi-Guarani, em diversas

paragens da costa brasílica estes indígenas veneravam marcas em rochas que acreditavam serem gravações dos pés de Sumé. Alguns

destes locais receberam o topônimo de São Tomé, como o cabo situado no norte fluminense, próximo à cidade de Campos dos Goytacazes, incentivando os jesuítas a peregrinações a estes locais por considerá-los santificados (14).

124

O cronista jesuíta seiscentista Simão de Vasconcelos, assim como Thevet no século anterior, relata que além das marcas dos pés Sumé teria sido responsável pelas séries de sucos gravados em blocos de rochas afloradas no alto de um morro próximo ao canal de Itajuru, em Cabo Frio, Rio de Janeiro.

(...) Passado eu pela Cidade de Nossa Senhora da Assunção no Cabo Frio, distante da do Rio de Janeiro dezoito léguas em altura de vinte e três graus, e um sesto para o Sul; o Capitão que ali governava me foi mostrar uma paragem chamada Itajuru (nome dos índios) entre a cidade, e uma fonte extraordinária de águas vermelhas, medicinais, especialmente contra o mal de pedra. Nesta paragem me mostrou um penedo grande amoldado de várias bordoadas (devem de ser sete, ou oito para cima) tão impressas na pedra, como se o mesmo bordão dera com força em branda cera; porque todas as moças eram iguais. E a tradição dos índios é, que são do bordão de S. Tomé em ocasião, em que os índios resistiam à doutrina que ali lhes pregava; e lhes quis mostrar com este exemplo, que quando os penedos se deixavam penetrar da palavra de Deus, seus duros corações resistiam, mais obstinados que as duras penas. (15)

Por ser um cronista do século XVII, Simão de Vasconcelos tem o conhecimento de outros religiosos que também tiveram a informação sobre este ser mitológico em algumas partes da

América espanhola, concluindo, como prova definitiva, de que a presença européia no Novo Mundo fora antecedida pelo trabalho missioneiro de São Tomé:

Não só no Brasil, mas por toda essa Nova Espanha, ha notícias admiráveis: direi as de maior conta. Fr. Joaquim Brulio na Historia do Peru de sua Ordem de S. Agostinho liv. 1º cap. 5º refere, que no mar do Sul, em uma aldeia chamada Guatuleo, tinham aqueles índios seus naturais, não só por tradição aintiquíssima de seus antepassados, mais ainda por escrito em certas pinturas, de que usavam em lugar de letras; que uma Cruz que ali adoravam com suma veneração, fora dada por S. Tomé, cuja a imagem, e o próprio nome tinham esculpido em pedra viva em uma rocha, para memória perpétua de coisa tão santa. (...) Fr. Bartolomeu de las Casas, varão fidedigno, Bispo de Chiapa, depois de tirada grave informação do

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caso, afirma em uma das suas Apologias, que consta por antiquíssima tradição dos índios daquelas partes, que em tempos antigos foram anunciados a seus avós os Mistérios da Santíssima Trindade, do Parto da Virgem, e da Paixão de Cristo, por uns homens brancos, barbados, e vestidos até os artelhos. Condiz com o qua acima dissemos, qua andavam com o Santo Apóstolo Tomé outros discípulos de Cristo. (...) Finalmente, prova-se o assunto que pretendo, de que andou por estas partes o Santo Apóstolo Tomé, por testemunhos infinitos, de todos os Reinos da América, e de todas as gentes, e nações naturais do Brasil, do Paraguai, do Peru, especialmente de Cuzco, Quito, e México . (...) E porque faremos mais caso do que se imprime no papel , que do que se imprime nas memórias dos homens? Pelo que de todo o sobredito discurso tiro por cousa certa, que se deve das créditos à tradição, que afirma haver andado nestas partes o Apóstolo S. Tomé (16)

Concordando com Simão de Vasconcelos, observamos unicamente não ser este um registro comum a todas as etnias brasílicas, explicável ao saber que então o contato jesuítico na América portuguesa restringia-se praticamente aos Tupi-Guarani, e que a presença européia não fora antecedida por um único religiosos, mas diversos de uma mesma ordem, conforme denota o relato de Las Casas.

Assim, consideramos que Sumé seja a memória da passagem de “astrólogos doutos” responsáveis pelas observações astronômicas necessárias para os conhecimentos geodésicos pré-colombianos por nós demonstrados. A representação deste personagem como de

aspecto monástico revela uma relação evidente, pois considerando estar em momentos, mesmo que tardios, ainda medievos, somente uma ordem monástica possuiria cosmógrafos necessários para um trabalho de tamanha envergadura (17).

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NOTAS

1- Pe. Fernão Cardim - Tratado da terra e gente do Brasil. São Paulo, Ed. Nacional, 1939, p. 170: "Em toda esta província ha muitas e varias naçõees de differentes linguas, porém uma é a principal que compreende algumas dez nações de Indios: estes vivem na costa do mar, e em uma grande corda do sertão porém são todos estes de uma só lingua ainda que em algumas palavras discrepão (...)". 2Aryon D’allia Rodrigues. Línguas indígenas. In Enciclopédia Delta Larouse, 1970 p. 4034: "Das duas línguas documentadas no período colonial, o tupi-guarani foi registrado em duas variantes (dialetos), o tupinambá ou tupi antigo, falado nos sécs. XVI e XVII em considerável extensão do litoral brasileiro, de São Paulo ao Maranhão - o que levou os colonizadores portugueses a chama-lo língua geral do Brasil ou, simplesmente e por excelência, língua brasílica; e o guarani antigo, registrado na primeira metade do séc. XVII no Oeste do atual estado do Paraná, onde os jesuítas espanhóis estabeleceram suas famosas reduções de Guairá com índios guaranis, e, um século depois, bem mais ao sul, nas novas missões espanholas que então se estenderam, esquerda do rio Uruguai, no território do atual Est. do Rio Grande do Sul." A nosso ver, a utilização do termo tupinambá para designar, genericamente, os diversos grupos Tupi-Guarani litorâneos tem dado margens a diversos equívocos, pois além dos sentidos genérico e lingüístico, ele também é designativo de algumas "nações" específicas. "Tapuia" é um termo genérico, utilizado pelos falantes do Tupi-Guarani, e adotado pelos portugueses, para designar, pejorativamente, todo aquele indígena que não compartilhassem de sua língua/cultura. Os lingüistas acreditam que cada superfilo, unidade abrangente dos troncos lingüísticos, representa uma origem lingüística diferenciada. Na América são registrados cinco superfilos, representando uma leva migratória separada, e em tempos distintos, para o Novo Mundo, estando o tronco Tupi incluído no superfilo Andino-Equatorial. Estudos glotocronológicos sugerem que a diferenciação do Tronco Tupi do seu superfilo de origem se deu antes de 3.000 a.C. na Amazônia. Já o Proto-Tupi-Guarani teria surgido em torno de 500 a.C., tomando uma rota migratória na direção sul, acabando por fixar-se na bacia do Paraná -Paraguai-Uruguai, dando origem aos povos Guarani. Quanto aos Tupi-Guarani do litoral, tradicionalmente estão correlacionado a um ramo disperso dos Guarani que, tendo atingindo o litoral, passou a ocupá-lo no sentido sul-norte, expulsando para o interior as populações Macro-Gê, que os antecediam na ocupaço do litoral, até atingir a foz do Amazonas. A cerâmica feita por estes indígenas é identificadas arqueologicamente como da Tradição Tupiguarani (neste caso

3-

4-

5-

127

escrito junto), sendo dividida em duas subtradições: pintada e corrugada. A primeira (subtradição Pintada), originandose no alto Paraná, a partir de cerca de a.D. 500-700 teria seguido pela costa Atlântica no sentido sudoeste-nordeste, chegando pelo menos até o extremo nordeste do Brasil; a segunda (subtradição Corrugada) originária também do alto Paraná, a partir de cerca 1.300 teria descida pelo Uruguai, o Paraguai até o rio da Prata. Em função deste registro cerâmico o arqueólogo Alfredo Brochado - A expansão dos tupi e da cerâmica da tradição policrômica amazônica. In Dédalo, São Paulo, Ed. USP, (27), 1989, pp.65-82 - contesta o modelo de ocupação Tupi litorâneo acima referido por acreditar que, além da migração litorânea proveniente da bacia do Paraná Paraguai, que um outro ramo Tupi teria atingido diretamente o litoral pela desembocadura do Amazonas, tomando então o sentido inverso (norte-sul) da migração Guarani. Esses dois ramos migratórios teriam então se encontrado no sul, resultando na formação de uma fronteira ativa e hostil, em parte ao longo do Tietê. Contudo, de nossa parte, consideramos que as datações dos sítios tupiguarani litorâneos não apontam para uma ocupação linear e seqüencial, seja na direção sul-norte ou inversa. Por outro lado, Gabriel Soares de Sousa - Tratado descritivo do Brasil em 1587. São Paulo, Ed. nacional, 1938 - em nossa opinião o mais importante cronista quinhentista, nos informa que o primeiro grupo Tupi a atingir o litoral baiano foram os Tupiná, vindos diretamente do sertão, para onde expulsaram os Tapuia. Posteriormente, os Tupinambá dirigiram-se para o litoral vindos "d'além do rio São Francisco", fazendo então guerra aos Tupiná “até‚ que os lançaram fora das vizinhanças do mar". Segundo esse cronista, essas informações foram obtidas diretamente dos Tupinambá e Tupiná, "em cuja memória andam estas histórias de geração em geração". Assim, os Tupinambá teriam atingido o litoral baiano vindo diretamente do sertão e não do litoral norte. Desta maneira, acreditamos que os Tupi atingiram simultaneamente diversas partes do litoral, principalmente através de rios navegáveis, tomando então direção migratória tanto para o norte como para o sul. 6- A arqueóloga americana Betty Meggers - apud Maria Cristina M. Scatamacchia, Tentativa de caracterização da tradição Tupiguarani. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. São Paulo, Deptº de Ciências Sociais da USP, 1981, pp. 43/4 - considera que a ocorrência fora do comum desta ampla dispersão de estilos cerâmicos tem atraído pouco interesse, provavelmente por ser fácil perder o sentido de perspectiva em relação ao Brasil, e esquecer o fato de que não encontramos em parte alguma da América do Norte ou da Europa, exemplos de culturas ceramistas com grau semelhante de homogeneidade distribuídos por áreas de grandeza equivalente.

128

6-

Os cronistas são unânimes em afirmar o quanto eram, os Tupi litorâneos, excelentes nadadores e canoeiros. Segundo Jean de Léry - Viagem à terra do Brasil. São Paulo, Martins Ed., 1960, p. 147: Cabe observar que na América tanto os homens como as mulheres sabem nadar e são capazes de ir buscar a caça ou a pesca dentro d’agua como um cão. Também os meninos apenas começavam a caminhar já se metem pelos rios e pelas praias, mergulhando como patinhos. Thevet nos informa que os frutos do mar forneciam a alimentação básica desses aborígenes: O alimento mais comum desta pobre gente, mais consumido que a própria carne, são os peixes do mar, ostras ecoisas semelhantes. Os que moram loge do mar pescam nos rios. Os selvagens também dispõem da grande variedade de frutas que a natureza lhes proporciona. Nem por isso deixam de viver longamente, com saúde e boa disposição. André Thevet. Opus cit., p. 106. Maria C. Beltrão & Roque B. Laraia O método arqueológico e a interpretação etnológica. Revista do IPHAN, Rio de Janeiro, MEC, 17, 1971, pp.206/211 - confirmam a importância da coleta de moluscos na subsistência dos Tupi litorâneos: (...) normalmente, como era de esperar, os aldeamentos estão juntos a riachos e próximos a rios; as conchas (gênero Anomalocardia, Ostrea, e representantes da família Mytilidae) estão sempre presentes nos aldeamentos do litoral; (...) a existência de conchas nas aldeias e a localização dos acampamentos junto aos bancos de moluscos‚ uma confirmação, quase supérflua, da informação dos cronistas de que o marisco constituía uma parte importante da dieta alimentar dêsses indígenas.

7- Segundo Florestan Fernandes- A função social da guerra na sociedade tupinambá. São Paulo, Ed. Pioneira, 1970 a guerra teria uma finalidade definida na organização social, e ecológica, dos tupinambá, interferindo por isso nas condições de competição intercomunitária e no estabelecimento do equilíbrio biótico. Para Fernandes, a guerra tinha funções determinadas e específicas, no sentido de manter o equilíbrio social e biológico das comunidades Tupinambá. Independente destes aspectos sociais levantados por Fernandes, chamamos a atenção para o fato de que a estrutura de poder da sociedade Tupi litorânea propiciava esse constante estado de beligerância. Brochado (Opus cit.) observou, com muita procedência, que a expansão Tupi devese, mais do que as migrações, ao processo de "enxamamento" dessas sociedades, que se mantinham coesas só até um certo tamanho da população, quando então famílias extensas se afastavam para formar novos grupos locais. A nosso ver, esse processo de "enxamamento" era intenso e extenso, principalmente porque o poder político desses grupos Tupi era extremamente "fluido", podendo se "atomizar" com relativa facilidade. Ao que parece, a autoridade do "principal" sustentava-se, primordialmente, no seu prestígio pessoal. Uma simples questão familiar poderia ser suficiente para não só deflagrar um desmembramento do corpo social,

129

como também dar início a um processo guerreiro que tendia a se perpetuar, devido à prá tica do canibalismo ritual. Soares de Sousa (Opus cit. p. 362) relata que, assim que os Tupinambá atingiram o litoral baiano, expulsando os Tupinaˆ, dividiram-se "(...) em bandos por certas differenças que tiveram uns aos outros, e assentaram suas aldeias apartadas, com o que se inimizaram; (...) e faziamse cada dia cruel guerra, e comiam-se uns aos outros". Acreditamos que essas guerras, como a maioria das contendas tribais, não tomassem vulto de grandes massacres ou extermínios, pois o seu objetivo maior, a par da disputa por um determinado "nicho" costeiro, era o aprisionamento do "contrário" para que este fosse canibalizado. A nosso ver, a guerra, e o conseqüente sacrifício ritual, mais do que pelo expresso sentimento de vingança, era também motivador para a realização dos grandes festejos copiosamente regados a bebidas alcoólicas feitas a partir da fermentação do milho e da mandioca. Esses festejos, para os quais se dedicavam com grande antecedência, tinham como função social, segundo nos parece, reforçar a coesão social do corpo comunitário e as alianças guerreiras. 8- Gabriel Soares de Sousa, Opus cit. p. 226 9- Alguns estudiosos afirmam que os índios só vieram conhecer a banana após o contato com o europeu, por ter ela uma origem comprovadamente asiática. Contudo, Soares de Sousa (Opus cit. pp. 207/8/9 ) assim como outros cronistas, não deixa dúvidas a respeito de uma variedade nativa, a "pacoba". Informa ele que as bananeiras foram trazidas de S. Tomé: Pacoba ‚ uma fruta natural d'esta terra, a qual se dá em uma arvore muito molle e facil de cortar,(...) As bananeiras tem arvores, folhas e criação como as pacobeiras, e não ha nas arvores de umas ás outras nenhuma differença, as quaes foram ao Brazil de S. Thomé, aonde ao seu fruto chamam bananas e na India chamam a estes figos de horta as quais são mais curtas que as pacobas (...): e não são tão sadias como as pacobas. André Thevet - As singularidades da França Antártica. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1978, também reafirma a existência de uma espécie nativa de banana, p. 111: Quando voltava de Jerusalém vi, no Egito e em Damasco, uma árvore muito semelhante a esta, mas cujas folhas não alcançavam sequer a metade das dimensões citadas. Além do mais, os frutos de uma eram bastante diferentes dos da outra. Os da pacoveira têm cerca de um pé de comprimento, sendo bem maiores que seus congêneres asiáticos" 10- Acreditamos que a vantagem decorrente do domínio de técnicas horticultoras, no processo expansionista do Tupi litorâneo, não tenha sido de ordem nutricional, já que as populações litorâneas costumam apresentar um bom padrão alimentar e complexão física robusta. Sabemos que dois problema críticos a serem enfrentado em uma campanha militar, o deslocamento das tropas e o apoio logístico, principalmente quanto ao abastecimento de rações alimentares

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das tropas. Soares de Sousa (opus cit. p.194) nos relata que, ao saírem esses nossos indígenas em suas incursões guerreiras, levavam às costas, em uma espécie de mochila impermeável feita de folhas, uma porção de farinha de mandioca especialmente preparada, conhecida como "farinha de guerra". Ao mesmo tempo, a habilidade canoeira dos Tupi permitia um rápido deslocamento dos guerreiros ao longo do litoral. Thevet (opus cit. p.128) informa que os Tupinambá do litoral fluminense iam guerrear os que viviam no "Morpião", região litorânea compreendida entre sul do Est. de São Paulo ao norte de Santa Catarina. Desta maneira, esta "farinha de guerra", aliada a habilidade de canoeiros possibilitava o deslocamento de um grande número de guerreiros Tupi-Guarani a longas distâncias. Em nossa opinião, essa maior facilidade de deslocamento dos seus guerreiros, dava aos Tupi-Guarani uma grande vantagem, em relação a maioria dos grupos "tapuias, na disputa pelo litoral. O valor da "farinha de guerra" logo foi reconhecido pelos portugueses que passaram a adota-la na matalotagem dos seus navios que partiam para a Metrópole, conforme observa Soares de Sousa (opus cit. p.195). 11- André Thevet, opus cit., p. 90 12-Hans Staden - Duas viagens ao Brasil. Itatiaia, São Paulo, Edusp, 1974, p. 167 Belo Horizonte,

13- Carta do P. Manuel da Nóbrega ao P. Simão Rodrigues, Bahia, 15 de agosto de 1549. In Serafim Leite (org.) Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil, São Paulo, Comissão do quarto centenário da cidade de São Paulo, 1956, p. 117: Tambem me contou pessoa fidedigna que as raízes de que cá se faz ho pão, que S. Thomé as deu, porque cá nom tinhão pão nenhum. E isto se sabe da fama que anda entre elles, quia patres eorum nuntiaverunt eis. 14- Carta do P. Vicente Rodrigues da cidade de São Salvador aos 17 de setembro de 1552. In Cartas jesuíticas, v. 2: cartas avulsas/ Azpilcueta Navarro e outros. Belo Horizonte, Itatiaia ; São Paulo, Edusp, 1988, p. 161/2: Acho-me actualmente em uma terra de Gentios, cinco leguas distante desta cidade do Salvador, onde espero no Senhor, muito fructo se ha de colher. (...) Fizemos ainda uma cruz e a levamos em procissão até ás pegadas de S. Thomé, que estão perto d’aqui.. Simão de Vasconcelos - Crônica da Companhia de Jesus. Petrópoles, Vozes; Brasília, INL, [1663] 1977. p 123: Temos dito em geral quanto à Fé de Deus: quanto à Fé de Cristo em particular, é cousa digna de se saber, a que os índios apontaram em sua resposta acerca da vinda so Apóstolo São Tomé a esta terra, onde diziam, tinham por tradição lhes ensinara cousas da outra vida, mas que não foram recebidos de seus antepassados. Sobre esta dúvida curiosa para maior clareza, direi o que vi, e alcancei de pessoas fidedignas. Jaz naquela parte da praia que vem correndo ao Norte do porto da Vila de S. Vicente, não muito longe dele, um pedaço de arrecife, ou laje,

131

que o mar lava cobre, e descobre, com a variedade de suas ordinárias marés. No meio desta são vistas de todos os que àquela parte se chegam (além de outras menos principais) duas pegadas de um homem descalço, direita, e esquerda, ambas em proporção de quem passa para o mar(...) Destas pegadas pois (que foram sempre dos portugueses, desde sua primeira entrada no Brasil, havidas por cousa milagrosa, e respeitadas por cousa santa, até o tempo em que isto escrevemos) tirando informação aqueles primeiros que povoaram esta capitania, e depois deles alguns padres de nossa religião, acharam por tradição antiga de pais a filhos dos naturais da terra, que eram pegadas de um homem branco, barbado e vestido, que em tempos antiquíssimo andara naquelas partes, e tinha por nome Sumé em sua língua, que é o mesmo que na nossa Tomé; e ensinava cousas da outra vida (...) Sobre a verdade desta tradição dos índios, confesso que tive eu em tempos passados alguma dúvida; porém desta me foi livrando o mesmo tempo, e a experiência, de maneira que venho hoje a tê-la por certa. 15-Ibidem, p. 126. Para a maioria dos arqueólogos estes sucos são obras de populações pré-históricas, conseqüência do prolongado processo de polimentos de gumes de artefatos líticos sendo, por conseqüência, denominados “polidores líticos de Cabo Frio”. O arqueólogo Alfredo Mendonça de Sousa, porém, discorda desta interpretação ao demonstrar que o ato de polir gumes teria resultado em sulcos de perfil diferenciado dos côncavos ali presentes (16). Concordando com Mendonça de Sousa, realizamos uma série de observações locais que nos levaram a considerar que tais sucos, ou canaletas, foram feitos em função do percurso solar solstício-equinócio. Cf. Alfredo A. de Castro Mendonça de Sousa. Pré-história fluminense. Rio de Janeiro, INEPAC, 1982.

16- Simão de Vasconcelos, Opus cit. pp. 127/8 17- Data de 1660 a primeira observação astronômica geodésica feita no Brasil. Registrada por Harley (in Philos. Trans. 1683, p. 211) foi feita para determinar a declinação magnética em Cabo Frio, obtendo-se o valor de 13° 00´ E. Na década seguinte, padres jesuítas realizaram outras observações astronômicas também com a finalidade de determinar declinações magnéticas (cf. Horance E. Willians. Livro de campo contendo azimuth de circumpolares para 1929. São Paulo, L. Schmidt, 1929, p. 17). As primeiras observações geodésicas conhecidas historicamente em solo brasileiros foram realizadas, já no século XVIII, por padres matemáticos da Companhia de Jesus.

132

2.

Os Monges Guerreiros do

Templo de Salomão

Qual seria então esta ordem monástica que, antecedendo a eclosão dos tempos modernos, esteve em terras americanas difundindo entre aborígines a religiosidade cristã e

realizando observações astronômicas e cálculos geodésicos?

Segundo relato do cronista dos descobrimentos João de Barros, Vasco da Gama, quando incumbido por D. Manuel do

périplo africano em direção às Índias, dirige seu juramento de descobridor de mares e terras do Oriente a uma bandeira, com uma cruz no meio, identificada como da ordem da cavalaria de Cristo, da qual o monarca era governador e perpétuo

administrador. Tornada a casa ao silêncio que tinha antes deste acto de gratificação, assentou-se Vasco da Gama em giolhos ante el-rey, e foi trazida uma bandeira de seda com uma cruz no meio das da ordem da cavalaria de Cristo, de que el-rei era governador e perpetuo administrador, a qual, estendendo o escrivão da puridáde entre os braços em módo de menagem, disse Vasco da Gama em alta voz estas palavras: “- Eu, Vasco da Gama, que óra por mandado de vós, mui alto e muito poderoso rei, meu senhor, vou descobrir os máres e terras do oriente da Índia, juro em o sinal desta cruz, em que ponho as mãos que por serviço de Deos e vosso, eu a ponha astéada e não dobrada, ante a vista de mourosa, gentios, e de todo género de povo onde eu for, e que por todos os perigos de água, fogo e ferro, sempre a guarde e defenda até a morte. E assi juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu rei e senhor, me mandáes fazer, com toda fé, lealdade, vigia, e diligência eu vos sirva guardando e cumprindo vossos regimentos que para isso me forem dados, até tornar onde óra estou ante a presença de vossa real alteza, mediante a graça de Deos em cujo serviço me enviáes.(1)

133

O também cronista quinhentista Pero Magalhães Gandavo, ao tratar do descobrimento do Brasil, identifica o mestrado da mesma ordem como o herdeiro patrimonial destas novas terras.

E tornado a Pedralvarez, seu descobridor, passado alguns dias que ali esteve fazendo sua agoada e esperando por tempo que lhe servisse, antes se partir por deixar nome áquella Provincia, por elle novamente descoberta, mandou alçar huma cruz no mais alto lugar de uma arvore, onde foi arvorada com grande solenidade e benção de Sacerdotes que levava em sua companhia, dando á terra este nome de Santa Cruz: cuja festa celebrava naquelle mesmo dia a Santa Madre Egreja, que era aos tres de maio. O que nam parece carecer de Misterio, porque assi como nestes Reinos de Portugal trazem a cruz no peito por insignia da Ordem e Cavallaria de Chritus, assi prouve a elle que esta terra se descobrisse a tempo que tal nome lhe podesse ser dado neste Santo dia, pois havia de ser possuida de Portuguezes, e ficar por herança de patrimonio ao mestrado da mesma Ordem de Christus. (2)

Gustavo Barroso além de observar que esta mesma cruz estará presente nos primeiros marcos padrão implantado em solo brasileiro, identifica sua origem institucional: Êsse padrão (de São Vicente) encimado pela cruz templária da Ordem de Cristo, esguio e solitário, de pedra amorenada pelo sol e alisada pelo vento, projetando-se para o céu e refletindo nas águas assinala o terceiro passo da civilização luso-cristã nas terras brasileiras. O primeiro marco levanto-o Pedro Álvares Cabral nas areias de Porto Seguro; o segundo ergeu-o Cristóvão Jacques em Itamaracá; o terceiro cravou-o Martim Afonso de Sousa perto dum ilhéu rochoso e agreste do litoral paulista. (3) Deste modo, esta cruz da Ordem de Cristo, referida como templária, estampada igualmente nos velames das naus e caravelas portuguesas, tem sido vista como uma mera

simbologia do catolicismo

ocidental, que os desbravadores

ibéricos tinham como missão propagar entre pagãos e incrédulos (4). Contudo, traz também uma representatividade

institucional, até então pouco considerada. Para que possamos

134

entender a relação desta ordem com a Coroa de Portugal e seu processo expansionista, devemos voltar para as origens desta ordem monástica militar (5).

A

fim

de

proteger

os

caminhos

de

peregrinação

à

Cidade Santa, principalmente a estrada que ligava o porto de Jafa à Jerusalém, em 1118 nove cavaleiros francos, sob a égide de Balduíno II, a rei de Jerusalém, de formaram uma ordem de de

cavalaria

sob

denominação

"Soldados

Pobres

Jesus

Cristo". Liderados por Hugo de Payens, dentre estes cavaleiros estava André de Montbard, sobrinho do Frei Bernardo, abade do mosteiro cisterciense de Clairvaux, posteriormente santificado como São Bernardo (6).

Esses cavaleiros foram acomodados por Balduíno II nas ruínas do templo de Salomão, local até hoje conhecido como o "Monte do Templo". Passou então a Ordem a ser conhecida como dos Cavaleiros do Templo de Salomão, ou mais simplesmente

Cavaleiros Templários. Apesar do número reduzido de cavaleiros que inicialmente a formava, a Ordem dos Cavaleiros Templários logo se destacou dentre os exércitos Palestina. cristãos que lutavam na

Em 1127 Hugo de Payens viaja à Europa para, no ano seguinte, estar presente juntamente com o abade de Clairvaux no Concílio de Troyens. Neste Concílio, a Igreja, por

135

interferência

direta

do

ainda

abade

Bernardes,

aprova

os

Cavaleiros Pobres do Templo como ordem monástica, colocando-a sob as Regras beneditinas da reforma de Cister. Torna-se

assim a Ordem dos Cavaleiros Templários um braço militar da Igreja Católica, formada por monges guerreiros sob a direta autoridade papal.

Em 1139, a bula papal Omne Datum Optimum de Inocêncio II não só confirma ao seu a Ordem como os lhe dá o direito das do

incorporar

patrimônio

botins

advindo

lutas

contra os "infiéis".

A partir de então a Ordem dos Templários

teve uma ascensão meteórica, angariando um grande patrimônio formado por botins, terras e castelos não só na Palestina como também por doações de bens, terras e direitos feudais

por quase toda Europa. Contudo, apesar da existência na Europa de uma rede de a castelos maior templários do guarnecidos por monges nas freis

cavaleiros, comendas dedicados Ibérica

parte era e

contingente por

templário servos na e

européias à

constituída pecuária. Santa,

agricultura como na

Exceção os

Península estavam

onde,

Terra

templários

primordialmente envolvidos em ações militares.

Dos interesses

reinos

ibéricos, que

era os

com

Portugal,

devido

a

recíprocos,

templários

estavam

mais

visceralmente relacionados. O processo de formação desta Ordem e Reino é praticamente simultâneo e paralelo. A vitória de

136

Afonso Henriques em Ouriques dá-se no mesmo ano em que é promulgada a bula papal de confirmação Porém, antes mesmo de formalmente à Ordem do Templo. a Ordem já

reconhecida

estava presente no Reino ainda também em gestação. das primeiras doações Fonte recebidas na Europa foi

Assim, uma a Vila de

Arcada de Penafiel, doada pela Rainha Teresa em 1126.

Em 1128 fez ela também a doação do castelo de Soure e os territórios adjacentes na Estremadura, para que os templários cultivassem e povoassem a região, até então deserta, e

guardassem esta fronteira contra os mouros. Afonso Henrique, sabedor, não só de seu enfeudamento à Santa Sé, como também que o território do Condado Portucalense só poderia expandirse como reino na conquista do solo peninsular islâmico, teve na Ordem do Templo o exército aliado que tanto necessitava. Confirma não só a doação de Soure, importante ponto estratégico da defesa de Coimbra e da linha do Mondego, como todas outras recebidas (7).

O

primeiro

mestre

do

Templo

em

Portugal,

D.

Guilherme Ricardo, morreu lutando ao lado de Afonso Henriques, na batalha de Ouriques. Seu sucessor, D. Hugo Martins,

esteve também ao lado do fundador do Reino de Portugal nas tomadas de Santarém e de Lisboa. O 3º mestre templário, D.

Pedro Arnaldo, foi morto no ataque a Alcácer do Sal, em 1158. O 4º mestre a eleito sede da foi o célebre de Soure D. Gualdim Pais que onde

transferiu

Ordem

para

Tomar,

137

construiu o famoso castelo sede dos templários em Portugal (8). Fundou também o castelo de Pombal em 1160, dando foral a

vila estabelecida sob a proteção deste castelo em 1186. Morto em 1195, foi sepultado no panteão dos Templários na Igreja de

Santa Maria do Olival. Sediada em Tomar, a Ordem do Templo estende seus domínios, vindo então a controlar o coração de Portugal, a região entre o Douro e o Tejo (9.

Poucos anos antes dos

nove cavaleiros francos formarem a

Ordem dos Cavaleiros Pobres de Jesus Cristo, Pascoal II, em 1113, dava a aprovação papal para uma nova ordem

assistencialista

originária de uma confraria hospitalar sob

tutela beneditina -sacra domus hospitallis- fundada em cerca de 1080 em do Jerusalém, Egito. então sob o domínio de dos califas para

fatímidas

Erigida

por

mercadores

Amalfi

prestar assistência aos peregrinos, o hospício foi colocado sob a invocação de S. João Batista. Após aprovação papal a nova ordem assistencialista adotou como Regra de Santo Agostinho, sendo conhecida então uma variante da como Ordem do

Hospital de S. João de Jerusalém.

Provavelmente

seduzida

pelo

sucesso

da

primeira

ordem militar, esta ordem assistencialista, através de bula papal de Inocêncio II, em 1126 (10), assume também funções militares com o fim de proteger e defender os peregrinos e os Lugares Santos dos ataques dos muçulmanos. Conhecida como

138

Ordem do Hospital, esta

instituição monástica agora também

militar, passa a angariar, como a sua co-irmã, poder e riqueza não só na Palestina como também na Europa. Assim, a semelhança da Ordem dos Templários, esta Ordem logo adotou uma estrutura internacionalista a fim de melhor administrar o vasto

patrimônio que lhe ia sendo doado pelos monarcas do Ocidente e por particulares. Sendo estas ordens monásticas militares

potentados senhoriais, cabia-lhes exercer, em suas terras e feudos, os direitos inerentes, tanto cíveis como criminais.

Deste

modo,

a

Ordem

do

Hospital

logo

se

fez

igualmente presente na Península Ibérica, recebendo carta de couto e privilégio por Afonso Enriques em 1140. A chefia da Ordem em Portugal estava a cargo do Prior, sediado no castelo de Crato, erigido em proteção à vila de mesmo nome doada por Sancho II em 1232 (11). Contudo, apesar da efetiva presença hospitalaria no processo de repovoamento, não foi de grande relevância a participação desta ordem militar nos embates de conquista do solo português (12). Uma segunda ordem assistencialista sediada da Terra Santa, a Ordem dos Hospitalários de Santa Maria dos Alemães, originária negociantes intervenção militar, de de de a uma Bremen confraria e Lübeck, da hospitalária foi também como fundada reformada, ordem por por

Frederico regra

Suábia, de

monástica a dos

sob

beneditina

Cister,

como

Templários, ficando então conhecida como Ordem dos Cavaleiros

139

Teutônicos. Apesar de receber doações também na Europa, esta ordem germânica, porém, não se fez presente na Península

Ibérica, onde foram também fundadas outras ordens monásticas militares, a semelhança das sediadas na Terra Santa sem,

porém, seu caráter internacionalista (13). militares da Igreja pelas sediados das na

Estes três corpos diferenciavam-se nas suas dos

Palestina que

visualmente bandeiras e

cores

cruzes dos

traziam

hábitos:

vermelha

templários,

branca

hospitalários e preta dos cavaleiros teutônicos.

Apesar de unidas por um interesse maior comum, libertar a Terra Santa e a Península Ibérica do julgo islâmico, a aliança templária-hospitalária logo se rompeu, originando uma profunda hostilidade que, em não poucas vezes, degenerou-se em

derramamento de sangue cristão. disputa por botins, corpos militares

Mas, ao que parece, não só a

feudos e outros interesses separavam este monásticos. Diferenciavam-se também nas

regras de aceitação em seus quadros, no trato com os islâmicos e até mesmo do que representaria a essência da religiosidade católica. tradição Enquanto os hospitalários medieval, procuravam somente preservam aqueles a de

cavaleiresca

onde

ascendência nobiliárquica poderiam combater

em cavalo de sela

(14), os templários tinham em suas tropas o corpo de freis sargentos, formados por cavaleiros plebeus. Apesar de

impossibilitados de portar a túnica branca dos fatres milites, cavaleiros nobres, suas vestes negras apresentavam igualmente

140

a cruz rubra templária estampada no peito (15). Enquanto os hospitalários islâmicos, os procuravam templários manter sabiam distância com estes em relação aos

fazer

oportunas

alianças que, muitas vezes, resultavam no recrudescimento da hostilidade proximidade entre dos estas milícias com os monásticas muçulmanos (16). permitiu Esta aos

templários

hospitalários levantar suspeita de que o catolicismo templário estaria principalmente contaminado devido ao pela estreito religiosidade islâmica, desta

relacionamento

milícia cristã com a seita dos assassinos (17).

Em 1291 cai S. João Acre, última capital latina

na

Terra Santa, sendo as ordens monásticas militares compelidas a abandonar transfere a Palestina. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos

sua sede para Marienburg, no norte da Europa, a

partir de onde empreende um movimento de conquista e expansão territorial na Europa oriental. A Ordem do Hospital instala-se em Chipre, na cidade de Limasol, sob a proteção dos reis da dinastia de Lusignan. Em 1310, a Ordem adquire a ilha de Rodes tendo nela instalado a sua sede independente de qualquer

soberano, Quanto aos

tornado então um potentado naval no Mediterrâneo. templários, último após abandonarem a cair o Castelo na dos

Peregrinos,

reduto

cristão

Palestina,

transferem a sede da Ordem também

para a ilha de Chipre,

mantendo, porém, parte de sua tropa ocupando a ilha de Ruad, a duas milhas de Tortosa. O abandono deste bastião, em 1303, dá-

141

se

não

por

razões

militares,

mas,

ao

que

parece,

por

pressentirem a trama em preparo que resultou na extinção da então mais poderosa ordem monástica militar (18).

No ano seguinte, Felipe, o Belo, rei de França, após conflitos travados com o papa Bonifácio VIII (1294-1303) e seu sucessor Bento XI (1303-1304), (19), consegue impor ao trono papal o cardeal francês Bernard de Goth, que adota o nome de Clemente V, (20). transferindo a sede papal de Roma para Avignon

Em

1306, de

ao

mesmo os

tempo seus

em bens

que os

Felipe judeus

prendia de

e

expropriava

todos

França,

Clemente V convocava à França o grão-mestre templário e o hospitalário monásticas e Armênia e para tratar da união destas duas milícias

de uma nova cruzada em cooperação com os reis da A proposta de união tinha sido feita

Chipre.

anteriormente por outros papas, porém nunca concretizada, dada à profunda rivalidade que os separava. Apesar de o grão-mestre hospitalário manifestar seu pesar por não poder se deslocar naquele Jacques momento de para a Europa, então o grão-mestre templário, por uma

Molay,

deixa

Chipre,

acompanhado

pequena escolta.

Pouco após de Jacques de Molay ter demonstrado ao papa sua discordância da proposta de união entre templários e

142

hospitalários, no alvorecer de 13 de outubro de 1307, ele e todos os templários existentes em França foram presos por

ordens do

rei. Esta ação, sob o comando de Nogaret, agente de

confiança do rei Felipe, responsável também pelo seqüestro do papa Bonifácio VIII, extrapolava aos poderes do rei de

França, que não possuía autoridade sobre as ordens monásticas. Contudo, logo após, o papa Clemente V legitima a arbitrária atitude monárquica ao autorizar a instauração de um processo inquisitorial contra a Ordem, sendo então os templários

aprisionados interrogados sob a direção dos dominicanos.

Segundo relatos, logo na primeira semana trinta e seis templários morreram em conseqüência das torturas em que foram submetidos para confessar a veracidade das acusações, que eram as seguintes: considerar a Ordem e seus interesses mais importantes que os da Igreja Católica e a moral dela; tomar juramento secreto para defender e enriquecer a Ordem; manter correspondência com os muçulmanos em segredo; inclusão nos ritos de iniciação atos como cuspir e pisotear a cruz e a negação de Jesus Cristo; assassinar os templários que

revelarem segredos da Ordem; profanar os sacramentos; permitir a absolvição de pecados por laicos; cometer sodomia e outros atos homossexuais e adorar ídolos zoomorfos, como “Bafomet”.

Apesar da ação de Felipe, o Belo não ter encontrado a esperada receptividade por outras Coroas européias que

143

abrigavam em seus reinos contingentes e patrimônios templários (20), após um tumultuado e nebuloso processo eclesiástico, em 1312 Clemente V promulga a bula Vox in excelso determinando a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários. Contudo,

provavelmente devido a não adesão monástica a perseguição aos templários e por pressões internas da Igreja, decidiu o papa francês diversos Coroas, que o patrimônio fossem Ordem dos possuído pelos não ao templários as nos

reinos mas à

incorporados

respectivas contrário do

Hospitalários,

esperado pelo rei francês, certamente contando em as combalidas finanças de seu reino (22).

equilibrar

Dois anos depois de decretada a extinção da Ordem dos Templários, Jacques de Molay, ainda preso em França, é condenado à morte, juntamente com o preceptor da Normandia, Godofredo de Charney, sendo queimados vivos em 18 de março de 1314, numa pequena ilha do rio Sena, em frente aos jardins reais.

Neste execução

meio de

tempo,

entre

a

dissolução

da

Ordem

e

a e

seu

último

grão-mestre,

morre

estranha

inexplicavelmente Nogaret. Trinta de três dias após da morte de Jacques de Molay segue a do papa Clemente V. Em novembro do mesmo ano é chegada a vez do poderoso rei de França. Seu filho primogênito assume então o trono de França como Luís X. Reina somente por dois anos, vindo a falecer em 1316. Seu irmão é

144

também coroado como Felipe V, permanecendo no trono somente seis anos, vindo a falecer em 1322. O terceiro filho de

Felipe, o Belo, é então coroado como Carlos IV, permanecendo no trono somente seis anos, como seu irmão que o antecedeu. Assim, catorze anos após o falecimento de Felipe, o Belo, se encerra a dinastia dos Capetos, ocupante do trono francês por

mais de três séculos. O trono de França é então ocupado em 1328 por Felipe de Valois, dando início a uma nova dinastia. Contudo, Eduardo III, rei da Inglaterra, neto de Felipe, o Belo, se considerando legítimo herdeiro de seu avô, invade a França, dando início à Guerra dos Cem Anos, de graves

conseqüências para o reino de França, que por pouco não teve a coroa arrebatada pela monarquia inglesa (23). Dos reinos da Península Ibérica, era o de Portugal e o

de Aragão onde os templários se faziam mais presentes. Neste último foram eles, inclusive, responsáveis pela educação de um dos mais importantes reis, Jaime I, o Conquistador (1213das

1276), que os templários receberam, ainda quando criança,

mãos de seu pai, Pedro II de Aragão. Era D. Dinis rei de Portugal quando da extinção da Ordem do Templo sendo D. Vasco Fernandes o mestre principal neste reino. Unidos por um forte laço de amizade, D. Dinis havia doado o castelo de Penha Garcia à Ordem do Templo pouco antes de sua dissolução (24).

Apesar de ter recebido a determinação papal para dar início ao processo investigatório contra os templários em seu reino, D. Dinis não a cumpriu. Acorbetados por este rei, os templários

145

em

Portugal

aguardaram

pacificamente

o

desenrolar

dos

acontecimentos. Já em Aragão os templários, entrincheirados no castelo de Monzón, travaram intensos combates com as forças de Jaime II (25). Com a morte de Clemente V, em 1314, o seu sucessor, João XXII, cria duas novas ordens monásticas militares, herdeiras da Ordem do Templo, nestes dois reinos ibéricos. A Ordem de Montesa, em Aragão, e, através da bula Ad ea ex quibus, Ordem de Cristo, em Portugal foram (26). então A estas novas a

ordens todo o

monásticas

militares

incorporados

patrimônio material e humano templário de Aragão e Portugal (27).

A princípio, a Ordem de Cristo se encontrava sob a regra da Ordem de Calatrava, sendo designado para mestre o frei Gil Martins, mestre da Ordem de Avis, braço português da Ordem de Calatrava, sendo doado o castelo de Castro Marins para abrigar a sede da nova Ordem. Como esta era, a princípio, uma nova ordem monástica militar, a cruz rubra templária ganhou uma pequena cruz branca no interior, a fim de diferenciá-la do cruzeiro original. Assim, costuma-se dizer que em Portugal a Ordem dos Templários não foi extinta, mas simplesmente mudou de nome (28). Coincidentemente, D. Dinis inicia o processo de transformação de Portugal de reino agrário à potência

marítima, ao convidar o almirante genovês Pessanho a organizar

146

a marinha portuguesa e determinar o plantio dos pinhais de Leria (29). Durante a gestão de D. Nuno Rodrigues, sexto mestre da Ordem, foi transferida a sede da Ordem para o convento de Tomar, sede templária de Portugal. Com a morte de Nuno Rodrigues em 1372, o rei D. Fernando, último rei da dinastia de Borgonha, sugere à Santa Sé o nome de D. Lopo Dias de Sousa, sobrinho de sua mulher, D. Leonor, como substituto do mestre falecido.

Procurava assim D. Fernando associa o mestrado à Casa Real. Com o fim da dinastia de Borgonha, assume o trono português D. João, então mestre da também ordem monástica militar dos Avis. Com a morte de D. Lopo Dias de Sousa, em 1417, o Infante D. Henrique, depois conhecido como o Navegador, é nomeado pelo Papa Pio II governador da Ordem de Cristo (30).

Só a partir de então é reconhecida a participação desta ordem monástica no processo expansionista português. Ameal, assim como diversos historiadores, acredita que a participação da Ordem de Cristo limitou-se a fornecedora dos imensos

recursos despendidos pelo Infante D. Henrique com a preparação de navegantes e aperfeiçoamentos náuticos necessários para as explorações marítimas (31). Porém se equivocou ao considerar a Ordem de Cristo como poderosa e opulentíssima. Ora, assim fora a Ordem do Templo, da qual era a Ordem de Cristo herdeira de uma pequena parte do seu patrimônio. A menos que acreditemos em mirabolantes e fantásticas histórias sobre tesouros

147

templários desaparecidos, é evidente que a Ordem de Cristo, a partir unicamente dos rendimentos de suas comendas

portuguesas, não teria como arcar os custos deste megalômano projeto expansionista, pesadamente oneroso, inclusive para os cofres reais. Já Saraiva revela ser mais perspicaz ao observar que em Portugal os descobrimentos não foram o resultado de acções isoladas de mercadores menos desde ou 1432, aventureiros, num plano de mas cuja

inscreveram-se,

pelo

realização se considerou responsável a Coroa ou, antes dela, a Ordem de Cristo (32).

Portanto,

considerando

que

esta

ordem

monástica

tinha

unicamente a oferecer, para firmar-se com a Coroa de Portugal a bem sucedida aliança descobridora, senão saber náutico e conhecimentos de novas rotas marítimas, concluímos que somente à Ordem de Cristo, ou a sua antecessora, a Ordem do Templo, possamos remeter a a filiação monástica de Sumé (33), e

conseqüentemente,

responsabilidade

pelas

explorações

náuticas e determinações geodésicas de pontos referenciais da costa brasileira feitas no período pré-colonial,

imprescindíveis para o domínio da navegação no Atlântico sul.

148

NOTAS

1-. João de Barros, ao tratar do descobrimento de Cabral, Barros refere-se ao Brasil como uma terra por ele novamente achada.João de Barros. Décadas. Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1945, p. 8, v. 1. p.110: (...)Passados alguns dias, enquanto o tempo não servia, e fizeram sua aguáda, quando veio a três de Maio, que Pedro Alvares se quis partir, por dar nome áquela terra por êle novamente achada, mandou arvorar uma cruz mui grande no mais alto lugar de uma árvore e, ao pé dela, se disse missa 2- Pero de Magalhães GANDAVO.Tratado da terra do Brasil História da Província de Santa Cruz. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1980, p.80. Importante observar que, assim como João de Barros, Gandavo refere-se ao Brasil como província novamente achada por Cabral. 3- Gustavo Barroso. Segredos e revelações da História do Brasil. Rio de Janeiro, o Cruzeiro, 1961, p. 13 4Roberto Gambini -O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janerio, Espaço e Tempo, 1988, p. 75, ao tratar do processo missionário jesuítico, considera que esta cruz gravada no marco-padrão implantado por Cabral é, fundamentalmente, denotativa do componente ideológico que irá pautar a política colonial portuguesa, ao considerar que "psicologicamente a cruz já estava presente no nome dado à ilha e na atitude constelada no inconsciente coletivo”

5- Apesar de freqüentemente confundidas, é importante observar que as ordens monásticas militar diferem-se das de cavalaria. De caráter leigo, as ordens de cavalaria começaram a despontar na Europa no século XIV, inspiradas no ideal da cavalaria da Alta Idade Média. Visando distinguir o mérito ou serviços ao monarca ou ao Estado, a admissão nestas ordens era considerada uma mercê do monarca e constituíam requisitos essenciais - pelo menos, nos estados de confissão Católica - pertencer à nobreza e professar a religião católica apostólica romana. Já as ordens monásticas-militares eram verdadeiras ordens religiosas instituídas sob a iniciativa particular ou régia mas com a aprovação e reconhecimento da Santa Sé como ordem monástica. Os freires das ordens monásticas militar aliavam um modelo de vida evangélico simbolizados nos três votos de pobreza, castidade e obediência - com a defesa militante da fé cristã e da Igreja, combatendo os infiéis pelas armas. Distinguindo-se

149

assim das ordens de cavalaria, mais tardias e seculares, embora confessionais. Deste modo, as ordens monásticas militares, a partir do seu reconhecimento e confirmação pela Santa Sé, passavam a ter a natureza de verdadeiras instituições religiosos da Igreja Católica Romana. Portanto, estas ordens militares estavam diretamente subordinadas à Sé Apostólica, estando no espiritual isentas da jurisdição dos Bispos, à semelhança de Cluny e de Cister. Eram governadas por um Grão-Mestre, seguido hierarquicamente pelos Mestres provinciais, com a assistência do Capítulo Geral que congregava todos os cavaleiros. Os Mestres eram eleitos vitaliciamente, em Capítulo Geral da ordem. Basicamente, os membros destas ordens dividiam-se em três categorias: os freirescavaleiros, de origem nobre, segundo as regras da cavalaria, que após um período de noviciado recebiam ordens menores e professavam os citados votos; os freiresclérigos que tinham ordens maiores a quem competia assistir os cavaleiros no espiritual; e os irmãos serventes. A partir do século XVII as ordens monásticas e de cavalaria foram aos poucos se transformando em meras ordens honoríficas, constituindo, já no século, XIX, unicamente um galardão de recompensa do Estado ou da Igreja para cidadãos ou instituições considerados de importância relevante, quer no âmbito militar ou civil. Cf. José Vicente Pinheiro de Melo de Bragança. As ordens honoríficas portuguesas. Lisboa, http:// www.chivaricordens. org/vatican/, 1977

6-

As informações sobre os Templários sem referências deverão ser creditadas principalmente a Léon Gorny Croisés et templiers. Paris, André Bonne Ed., 1974- ou a Stephen Howarth -Os cavaleiros templários. Lisboa, Livros do Brasil, 1986. Fr. Bernardo da Costa. História da Militar Ordem de Christo dedicada a El-Rey, D. Joseph I. Coimbra, Officina de Pedro Ginicus, 1771, p.21, cap III: O Senhor Rey D. Affonso I nesta Escritura, dizendo que foi obrigado pelo Papa a fazer hum padrão de mercês a Ordem do Templo tão magnifica, : esta obrigação he huma reverente piedade á Igreja; he huma expressão catholica; que nunca lhe podia prejudicar a sua independente soberania; fez a graça a impulsos da sua magnificiencia, toda com a reverencia ao Vigario de Christo. Se não fosse assim, a suna vontade, que poder tinha força para sua obrigação. He tão ampla a doação, que nós lêmos em ella confirmada, não só o domínio da Ordem em as Villas, Fortalezas, Herdades, Igrejas, Rendas, etc., que á Ordem se tinhão feito não só pelo Rey, mas quantas lh tinhão feito os seus vassallos, e quantas elles liberalmente lhe quizessem fazer em todo o tempo.

7-

8- Ibidem, p.22, cap IV: Celebrando assim a Concordata ( com o Bispo de Lisboa sobre o Eclesiástico de Santarem), largarão os templarios O Convento, A Casa

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de Santarem, em que estavão estabelecidos em S. Maria de Alcaçava, e forão fundar em Ceras, de cujo citio se não agradarão, e passando ao de Thomar, alli fundou D. Gualdim o Castello, e fez convento e habitação aonde ultimamente se estabelecerão e viverão até sua fatal extinção. 9- Joaquim Veríssimo Serrão. História de Portugal. Lisboa, Verbo, 1979, pp. 167/8, v. I: A Ordem dos templários, assim chamada por ter como sede um edifício junto do Templo de Jerusalém, foi a primeira a fixar-se na Espanha. No período do Condado Portucalenese manifesta-se a sua existência, de maneira fraca, na região do Minho. Teve depois como ponto de partida o território do Mondego, e no ano de 1144 já o Castelo de Soure lhe fora confiado. Mostrando uma cautelosa penetração, numa faixa entre Montemor-o-Velho e Coimbra, os seus cavaleiros caminham para o sul com o alargamento do próprio Reino. Com o mestre Gualdim Pais inicia-se o povoamento de Pombal, Ega e Redinha; no ano de 1160 funda-se Tomar, que seria a cabeça da ordem, e povoam-se as terras de Cera e Asseiceiras. Nessa penetração para o sul, atinge-se em 1170 o Castelo de Almourol e fundam-se os lugares de Golegã e Casével. Os cavaleiros do Templo achavam-se, pois, na vizinhança do couto de Alcobaça, pelo que não podiam fixar-se nessa zona de recente exploração. Por tal motivo, a sua “marcha” inflecte para leste, passando sobre o termo de Belver e dominando a maior parte da linha do Tejo, na entrada deste rio em Portugal. Alpalhão, Nisa, Arês, Ródão, estavam na sua área de defesa e povoamento. Mas sendo a fronteira uma zona insegura, em virtude dos ataques mouros à Estremadura espanhola, já no reinado de D. Sancho I a acção Templária se alargara a Segura, Rosmaninhal, Salvaterra do Extremo, Idanha-a-Velha, Penha Garcia e Monsanto, indo mesmo até Ribacoa. 10- É controvertida a data em que a Ordem do Hospital teria obtido autorização papal para assumir também as funções militares. Segundo alguns esta aprovação teria sido concedida antes da recebida os templários no Concílio de Troyens e para outros teria ocorrido em data posterior, provavelmente em 1130. Porém, ao que tudo indica, a idealização de um exército própria da Igreja partiu do perspicaz abade de Clairvaux, patrono dos templários. 11- Joaquim Veríssimo Serrão. Opus cit. pp. 171/2: O seu papel (da Ordem do Hospital) foi apagado até Abril de 1157, quando D. Afonso I mandou renovar a carta de couto e privilégios que concedera à referida ordem em 30 de Março de 1140 e que englobava todos os bens que lhe viessem a pertencer. Nos fins do século XII ja se haviam instalado na zona da Beira Baixa, onde fundaram em 1194 o território de Guindintesta, que veio a ser a povoação de Amieira, porta de entrada da Beira central para o Alto Alentejo. Nessa zona se operou a sua acção de povoamento: Sertã, Oleiros, Pedrógão, foram os primeiros centros povoados. A linha de penetração desceu depois por Proença-a-Nova em direção a Tolosa, Crato e Gavião. Mas, para não vizinharem os domínios da Ordem de Avis, tomaram depois o caminho do Alentejo, onde no tempo de D. Dinis possuíam Moura, Serpa, Mourão e outras terras entre o Chança e o Guadiana, frente ao território mouro da Andaluzia. 12-. Ricardo da Costa. A guerra na Idade Média. Rio de Janeiro, Paratodos, 1988, pp. 128/9: O repovoamento foi um processo lento, que

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nas mãos das ordens militares transformou-se numa planificação geopolítica consciente. Elas seriam a partir de então as novas protagonistas deste novo tipo de ocupação territorial.(...) Em Portugal, este modelo re repovoamento gerou resultados imediatos. Os templários receberam a região de vila Pombal, Soure, Ega e Redinha (...) Quanto aos hospitalários, o castelode Belver já se encontrava povoado em 1210. Templários e hospitalários ainda ativaram a criação de gado – seu ordenamento senhorial pôs-se a serviço de uma pecuária transumante –pesca e comércio, ajudando assim o aquecimento do comércio com a implantação de um tipo de economia voltada para o mercado no período que compreende os anos 1210-1325. 13- Como exemplo temos a Ordens de Calatrava, fundada em 1158 para a defesa da praça de Calatrava por Sancho II rei de Leão e Castela e a de Santiago. O ramo português desta ordem foi fundado em 1175 em Évora, recebendo inicialmente a denominação de Milícia de Évora da Ordem de Calatrava. A partir de 1211 passou a ser conhecida como Ordem de Avis, por ter a sua sede naquela vila do alto Alentejo. 14- Michael PASTOUREAU. No tempo dos cavaleiros da Távola Redonda: França e Inglaterra nos séculos XII e XIII. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 42/3: A cavalaria é uma instiuição que se implantou no sistema feudal por volta do ano 1000 (...) A partir da metade doo século XII, os cavaleiros tendem a ser recrutados quase exclusivamente entre os filhos de cavaleiros, formando uma casta hereditária. Se não chegam a desaparecer de vez, a sagração de plebeus torna-se um fato excepcional. (...) Por volta de 1200, os cavaleiros são essencialmente os senhores e os filhos de senhores. Na França, o fenômeno se acentua ao longo do século XIII, a ponto de a condição de cavaleiro deixar aos poucos de ser considerada como individual para se tornar uma instituição hereditária reservada aos estratos superiores da aristocracia. Ocorre então a fusão entre cavalaria e nobreza. 15- Stephen Howarth. Os cavaleiros templários. Lisboa, Livros do Brasil, 1986, p. 58: Em geral ultrapassavam numericamente os cavaleiros na relação de cerca de nove para um, e se os cavaleiros eram a espinha da Ordem, os sergentes eram o seu corpo. Um sergente tinha um só cavalo, ao passo que um cavaleiro tinha três. Mas estavam ao alcance de um sergente certos privilégios a que um cavaleiro não podia aspirar. Por exemplo, o comandante do porto de Acra era sempre um sergente; os sergentes eram guarda-costas dos oficiais superiores; o porta estandarte também era um sergente. 16- Ibidem, pp. 214, 216: A perda de Jerusalém tinha sido meio esperada, pois segundo os termos do tratado de Frederico ninguém, a não ser ele, podia autorizar a sua refortificação, e -sabendo que os Templários seriam os primeiros a beneficiar- ele recusara repetidamente essa autorização. Assim que o tratado expirou, em 1239, o príncipe muçulmano de Kerak atacou a cidade indefesa e tomoua sem grande dificuldade, exactamente como os templários tinham previsto. Mas estes também sabiam ser diplomatas, como já haviam demonstrado muitas vezes; e a cedência damascena da Galileia Ocidental, deveu-se menos à intervenção divina do que à diplomacia dos Templários. Oportunistas como sempre, tinham abordado o

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sultão de Damasco com uma proposta de aliança contra o sucessor de al-Kamil no Cairo, e pela sua participação nas negociações receberam o forte castelo de Safed. (...) Desde de 1227 que existia entre Templários e Hospitalários uma aliança desconfortável, baseada na sua desconfiança comum do Imperador Frederico, que ainda tentava interferir no governo do Outremer. Mas a obtenção de Safed tornou-se insuportável aos Hospitalários. De súbito, a rivalidade tradicional entre as duas ordens descambou em guerra aberta.(...) Durante três anos, até essas querelas serem resolvidas, os dois grupos de cavaleiros santos lutaram um contra o outro tão selvaticamente como, em tempos normais, teriam lutado os muçulmanos: nas ruas da cidade, no campo, à volta dos castelos uns dos outros, em toda a parte, em suma. 17- Juan de Garten - Os templários: Soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém. São Paulo, Traço Ed., 1987, pp. 75/6/7: Os assassinos são ismaelitas, do grupo islâmico que toma seu nome a Ismael, filho do sexto Imã Djafar, quem primeiro o nomeou seu sucessor para depois se retratar, designando outro de seus filhos. (...) Hassan Sabah, vizir do sultão de Ispahan, e um dos homens mais cultos de seu tempo, afastou-se da ortodoxia, atraído pela doutrina ismaelita, o que lhe valeu o ódio e a perseguição por parte de seus antigos confrades. Ao final do século XII, com um grupo de entusiasmados seguidores, refugiou-se na montanha de Alamut, onde erigiu uma cidadela poderosamente defendida. Assim nasceram os Assassinos, uma Ordem religiosa e guerreira cuja similitude com a Templária salta a vista (...) As relações entre templários e os assassinos estão mais do que comprovadas historicamente. Em varias ocasiões, a Ordem atuou como intermediária nas relações entre senhores cristãos e o Sheik ou seus comandantes. Boa prova disso foi a decisiva intervenção do Templo na proposta de troca de Tiro por Damasco, convencendo assim ao rei Balduíno para que a realizasse. Houve também, e como poderia negar isso, o intercâmbio de idéias entre as suas Ordens, como prová-lo é outra história. Sabe-se, entretanto, que muitos templários visitaram a casa reitora dos ismaelitas, localizadas no Cairo e que tinha o sugestivo nome de “Casa da Sabedoria”(Dar ul Hikmet). Esse grande edifício, situado junto ao palácio real, abrigava o ensino da Álgebra, Geometria, Astronomia, entre outras matérias, ao mesmo tempo em que colocava em relevo as contradições existentes entre a ciência e a religião ortodoxa. 18Tem início aqui uma das páginas mais nebulosas e controvertidas não só da Igreja como da própria História Ocidental, já que a maior parte da documentação eclesiástica sobre os templários, relativas não só ao processo de extinção como a muito do que se diz a respeito da Ordem, encontra-se inacessível aos pesquisadores, trancafiadas nos arquivos da Santa Sé, como documentação secreta. Limitamo-nos aqui a reproduzir, concisamente, as informações de domínio comum, presente na maioria das obras que tratam deste delicado e controvertido assunto.

19-Peter Partner - O assassinato dos magos. Rio de Janeiro, Campus, 1991, pp. 59,60: A disputa entre Bonifácio VIII e Felipe, o Belo,

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de França envolveu muitos desentendimentos antigos entre a Igreja medieval e o Estado. Apesar de sua natureza tradicional, o conflito foi resolvido de uma maneira estranha, radical, inovadora, que só pode ser definida como de capa e espada. Em 1303 o governo francês enviou uma de suas figuras mais influentes, um alto funcionários chamado Guillaume de Nogaret, em missão secreta à Itália. Nogaret agiu com a orientação e a ajuda da exilada família Colonna, que na Itália recrutou um pequeno exército privado para ele, e permitiu-lhe atacar secretamente o papa, quando este se considerava seguro no centro de seus domínios. A 7 de setembro de 1303 Nogaret conseguiu entrar com suas forças pelas muralhas de Anagni, a pequena cidade pontificial onde estava o papa. A bandeira com os lírios franceses foi hasteada sobre essas muralhas, e o papa, depois de breve luta, sofreu ignominiosa prisão. A intenção era levá-lo de volta para França e submetê-lo a um julgamento por um concílio da Igreja, controlado pelos franceses, mas essa parte do plano fracassou. Bonifácio foi libertado, pouco dias depois, por um contra-ataque de seus partidários, para morrer algumas semanas depois, derrotado e infeliz (12 de outubros de 1303).

20- Ibidem, p. 81: O papa nascera dentro do reino francês. Depois de sua eleição, mostrou-se demasiado enfermo e tímido para percorrer o longo caminho da França até a cidade de Roma, da qual era bispo. Permaneceu no reino francês, ou perto dele, até sua morte, em 1314. Foi coroado nas cercanias do reino, em Lyon, promoveu um Concílio Geral da Igreja bem próximo da França, em Vienne, e fixou residência ocasional em Avignon, cidade fora da França mas que pertencia à dinastia francesa dos governantes de Nápoles desde 1308.

21- Stephen Howarth, Opus cit., p. 315: Só em Navarra e Nápoles, governadas por satélites do rei Felipe, e nos estados papais da Itália, a Ordem foi imediatamente considerada culpada; e só nesses países foi usada a tortura desde o princípio.

22- Ibidem, p. 320: Felipe obtivera claramente uma espécie de vitória, mas de pouco lhe serviu. A sua clara coacção sobre o papa e o seu despotismo fanático tinham-lhe enegrecido o nome em toda a Europa; e quanto ao seu sonho extravagante de governar um império cristão como o “Rei Guerreiro”, a decisão de Clemente de transferir os bens dos Templários para os Hospitalários impediu-o muito mais efizcamente do que de Molay alguma vez teria sido capaz. 23- John Ardagh e Colin Jones. França, uma civilização essencial. Madrid, Del Prado, 1977, p. 45: A guerra iniciou-se eeem 1337 com uma disputa feudal, quando Felipe IV (1328-1350), o primeiro monarca da Casa de Valois, se apoderou do ducado de Aquitânia que pertencia a Eduardo III da Inglaterra. Eduardo atravessou o canal, comandando o exército,, para defender os seus direitos e o título legal que, através da sua mãe, o tornava pretendente ao trono francês. (...) O poeta e humanista italiano Petrarca comparou a França daquela época a um “montão de ruínas”. Depois de Azincourt (1415), as fortunas francesas tinham voltado a decair e Carlos VI (1386-1422) viu-se obrigado a aceitar como herdeiro Henrique V.

154

24- Cf. André Jean Paraschi. História dos templários em Portugal: a fundação e os mestres da ordem. Lisboa, Sol Invictus, 1990, p. 58. Por ser atribuição exclusiva do grão-mestre templário a nomeação dos mestres provinciais, isenta, portanto, de interferência real, nem sempre eram amistosas as relações monárquicas com os mestres provinciais. 25-Cf. Francisco Castillon Cortada. Los templários de Monzon. Zurita, 39-40, Zaragosa, 1981. 26- Bulla Ioannis XXII. Fundationis Ordinis Iesu Christi. In Definições e estatvtos dos cavalleiros & freires da Ordem de N. S. Iesu Christi, com a historia da origem, e& principio della. Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1628, pp. 4-16.

27- A Ordem de Santa Maria de Montesa foi fundada por Jaime II de Aragão, em 1317, no reino de Valência após a extinção da Ordem dos Templários, num processo semelhante ao que conduziu em Portugal à criação da Ordem de Cristo. Contudo, diferentemente de sua co-irmã portuguesa, foi dotada não só dos bens da extinta Ordem dos Templários, como também com bens da Ordem do Hospital no reino de Valência. A partir de 1400, ao incorporar a Ordem de S. Jorge de Alfama ,de origem Catalã, assume o nome de Santa Maria de Montesa e de S. Jorge de Alfama.

28-João Ameal. História de Portugal.Porto, Tavares Martins, 1974, pp. 107/8: "O mesmo sentido das realidades, a mesma clarividência, o mesmo engenho revela o Monarca no longo e difícil problema dos Templários. Convertem-se estes numa espécie de banqueiros de Reis, de Príncipes e de Nobres dos maiores centros europeus. A Ordem, poderosa e rica, alarga assim a sua influência mas atrai igualmente formidáveis inimizades, entre as quais, no primeiro plano, a de Felipe, o Belo. Após sucessivos e agitados conflitos com os Papas Bonifácio VIII e Bento XI -em que desempenha papel de vulto o Chanceler Guilherme de Nogaret, testa do influente grupo dos legistas- o Rei de França consegue fazer subir ao sólio pontifício Beltrão de Goth, Arcebispo de Bordéus. Sob o nome de Clemente V, mostrase este inclinado a atender-lhe os desejos. A seu pedido dá como provadas as acusações de heresia, corrupção, desonestidade, usura- e decreta em 1312, pela Bula Vox in excelsis, a supressão da Ordem do Templo, cujos bens revertem à Ordem do Hospital. Não ignora Dom Dinis o que Portugal deve aos Templários. Não ignora também que por vezes cometeram abusos e os Reis se viram forçados a marcar-lhes o seu desagrado, a retirar-lhes a doações e privilégios. Interessa-lhe, porém, conservar no patrimônio nacional os valores de que a Ordem é possuidora. Embora institua contra ela o processo judicial indicado pelo Papa numa Bula de 1308, avisa os seus membros para que se furtem ao castigo; e todos partem a tempo para o estrangeiro. Os procuradores da Coroa apossam-se dos bens da Ordem. Dom Dinis entende-se

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com seu genro Fernando de Castela para que tais bens, aqui como no vizinho Reino, não sejam transferidos a senhorio estranhos. Adere a esse entendimento Jaime II de Aragão. Tudo isto se passa antes do decreto de 1312. Frente à aliança dos três Soberanos peninsulares, Clemente V abre excepção para os seus domínios. Os bens dos Templários, aqui, não serão dados aos Hospitalários mas seguirão destino a combinar entre os governantes e a Santa Sé. Ainda há uma tentativa, logo frustada, de entregar ao Cardeal Bertrand a povoação e o castelo de Tomar. Até que em 1319 João XXII, sucessor de Clemente V, cria uma nova Ordem em Portugal, intitulada de Cristo-Ordo Militiae Jesu Christi. Ressurreição velada da Ordem do Templo. Como na Ordem do Templo, o superior espiritual é o Abade de Alcobaça. O Grão-Mestre de Cristo, nomeado pelo Papa, é Gil Martins, Mestre da Ordem de Avis. Todas as possessões da Ordem extinta são adjudicadas à Ordem nova. A Coroa apressa-se a entregar-lhe aquilo de que tomou conta. E Dom Dinis pode legitimamente alegrar-se por ter garantido a manutenção no Reino das importantes riquezas de que esteves para ser desfalcado. 29-João Ameal. Idem, p. 110: Como Lavrador (D. Dinis), enfim alarma-se ante a ameaça suspensa sobre os férteis campos de Leria pelas deslocações de grandes massas arenosas que os ventos da costa impelem – e desenvolve a plantação dos imensos pinhais que hão-de fixar aquelas terras móveis e mais tarde fornecer a madeira para os barcos em que Portugal se lançarão à descoberta do Universo. Ao mesmo tempo, junta novas unidades à marinha de guerra e à frota comercial, que intensifica as suas relações com a Inglaterra, o norte da França, a Flandres, outros países europeus. Morto o almirante Nuno Fernandes Cogominho, contrata para o comando supremo das esquadras o afamado genovês Manuel Pesagno, ou Peçanha, de grande experiência e competência. 30- Cf. Definições e estatvtos dos cavalleiros & freires da Ordem de N. S. Iesu Christi, com a historia da origem, e& principio della. Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1628. TITVLO III. Dos Mestres que atè agora ouue nesta Ordem de Christo, pp. 60/6. 31 Ameal. Opus cit., p. 192: Então, Dom Henrique, instalado de novo na Pátria, investido, pelo falecimento do grão-mestre Lopo Dias de Sousa, na administração da poderosa e opulentíssima Ordem de Cristo, de cujos imensos recursos passa a dispor – ocupa-se em estabelecer o centro propulsor das navegações. Fixa residência em Sagres e faz construir a Vila do Infante, junto ao Cabo de São Vicente. 32- José Hermano Saraiva. História Europa-América, 1993, p. 138. de Portugal. Lisboa,

33- Interessante observar que os indígenas sempre descreviam Sumé como personagem de barba, quando não era este um costume nem entre os indígenas nem entre a maioria dos freires das ordens monásticas. Já os monges templários tinham em suas barbas uma tradição, sendo conhecidos por “freires barbudos”. Cf. Stephen Howard, opus cit., p. 51: Os cavaleiros templários eram diferentes de quaisquer outros cavaleiros que os

156

membros do concílio já tinham visto (...) Em vez de penteados longos e elegantes e barbas aparadas, o cabelo era cortado rigorosamente curto e as barbas cresciam densas e bastas.

157

3. AS Ordens Monásticas Militares na Guanabara e o Controle Estratégico do Atlântico Sul.

Apesar de apontá-los, Saraiva silencia-se a respeito do plano sob a a responsabilidade ação a da Coroa da de Ordem Portugal do de Cristo que teria

antecedido

nos

descobrimentos. historiador

Compreende-se

excessiva

cautela

eminente

português por ter a extinção da Ordem do Templo dado margem a uma série de especulações, algumas evidentemente absurdas, como relaciona-la à formação de um poder paralelo e conspiratório, presente apesar de por toda história contemporânea por um ocidental. de Porém, e

estar

envolvido

emaranhado

fábulas

fantasias, acreditamos ser possível desvendar o fio da meada que une o processo de extinção da Ordem do Templo aos

descobrimentos ibéricos na conjuntura política determinada pela situação adversa que tomou conta do Reino Latino na Terra

Santa, ainda n primeira metade do século XIII.

Segundo

Howarth,

a

partir

da

terceira

década

deste

século, os templários, ao perceberem não ser possível conter o avanço turco, passaram a planejar a reestruturação da Ordem, após o abandono da Terra Santa (1). Evidentemente, o passo inicial seria encontrar uma nova base territorial para a sede

158

da

ordem.

Contudo,

não

na

Palestina

o

quadro

político

mostrava-se adverso às ordens militares palestinas.

Neste momento, encontrava-se já em curso o processo que séculos poder após culminaria das no absolutismo, casas de centralização de

por

parte

principais

monárquicas

européias,

preocupadas em limitar a autonomia dos senhores feudais e das autoridades eclesiásticas. Excluindo a Península Ibérica, os contingentes palestinas, monásticos ou europeus das ordens militares em sua

hierosomilitanas,

constituíam-se,

maioria, por freires envolvidos em atividades de subsistência e comerciais, incômodas eram as presenças destas ordens às

cabeças coroadas, devido à autonomia que possuíam nas terras sob a sua tutela. Assim, sediar o grão mestrado de uma das três ordens hierosomilitanas significaria, aos olhos monárquicos,

agravar este problema ao abrigar também um forte e experiente exército monástico cruzadístico, formado por cavaleiros de

nacionalidades diversas e fora do direto controle monárquico.

Assim, Hospitalários,

ao por

abandonar sua vez,

a

Terra

Santa, trocar

a os

Ordem cavalos

dos por

preferiu

navios, dando continuidade à sua ação cruzadística combatendo as frotas sarracenas no Mediterrâneo. Sediada e ilhas,

inicialmente em Chipre e posteriormente em Rodes, sua presença marítima não constituiria ameaça às casas monárquicas européias

159

sendo,

por

outro

lado,

imprescindível

para

a

manutenção

do

tráfico comercial mediterrâneo.

A outra ordem co-irmã templária, a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, preferiu transferir sua sede para Marienburg, nas planícies pagãs da Europa Setentrional. Conseguiu, assim, ao

mesmo tempo, não só estar longe da presença direta dos tronos ocidentais centralizadores, como estar frente a um extenso

território a conquistar para seus aguerridos cavaleiros. Após consolidado seu expansionismo territorial, construíram os

Teutônicos uma importante frota comercial, de ação no (2).

Báltico

Não é possível em curto espaço de tempo uma instituição de cavalaria se transformar em potência naval, conforme ocorreu com a Ordem de Malta, pois uma longa distância separa pastos e estrebarias de estaleiros e portos. Também não é possível

posicionar a sede da Ordem exatamente em um ponto estratégico, permitindo dar início de imediato a um rápido processo

expansionista, conforme ocorreu com a Ordem dos Teutônicos ao transferir sua sede para Marienburg, sem uma prévia e acurada exploração precedidas territorial. por um longo Claro período está de que estas e ações foram

estudos

planejamentos

feitos de forma reservada ao âmbito superior destas ordens.

160

Acreditamos influente das

que

aquela

que

era

a

mais

poderosa

e

três tinha

ordens também ao da um

monásticas secreto

militares projeto pós seria

internacionalistas cruzadístico.

Semelhante

Ordem

Teutônica,

empreendido na América do Sul, com a instalação da sede do grão mestrado em algum ponto estratégico do litoral brasileiro. Nova terra, não só ainda desconhecida da cristandade ocidental como posicionada dentro de uma nova rota mercantil, esta costa

atendia a todos os requisitos necessários a um empreendimento, se diferenciando ao dos teutônicos somente quanto ao espaço a ser ocupado e na estratégia militar de conquista das etnias locais.

Assim, dentro então da arquitetura geopolítica desenhada, não é difícil concluir que, quando da sua extinção, a Ordem se programava para transformar-se também em um potentado naval, tendo, porém, como área de atuação o Atlântico Sul,controlado a partir do litoral brasileiro. Entende-se assim a necessidade das precisas determinações geodésicas desta costa, dados estes posteriormente utilizados pela Coroa portuguesa, sob a égide da herdeira e sucessora templária, a Ordem de Cristo.

Deste modo, acreditamos que não teria sido unicamente o fato de que a simples extinção dos templários acabaria por fortalecer, de forma ameaçadora, a posição do mestre

hospitalário em Portugal, o Prior do Crato, que teria levado D.

161

Dinis a não obedecer, de forma imediata, à determinação papal (3). Certamente, algum tipo de negociação houve entre o rei português e a Ordem, contando-se já com a alternância no trono papal, para, logo após a extinção da Ordem do Templo,

estabelecer uma aliança a fim de dar continuidade a um projeto comum.

Por outro lado, quais seriam as razões e motivos que levaram esta ordem com sua a monástica Coroa herdeira em e militar Portugal, a negociar a estes esta,

conhecimentos através de

aliando-se neste

sucessora

processo

expansionista? A principal, e explícita, razão se refere ao direito do padroado religiosos das terras a serem descobertas do Cabo Bojador às Índias, conforme concedido ao mestrado da Ordem de Cristo pelo papa Calisto III, pela bula Inter Coetera, em 13 de março de 1456 (4). Além do controle sobre os cargos eclesiásticos, o poder do padroado religioso dava a esta ordem o direito de recolher o dízimo eclesiástico das novas terras a serem conquistadas e colonizadas. Possibilitaria assim, mas só em tempos futuros, ser novamente uma instituição monástica

militar rica, poderosa e internacionalista.

A outra razão provável se encontra no fato de que o desvio do tráfico para da o marítimo mercantil com o Oriente, do os do

Mediterrâneo interesses

Atlântico, rival dos

atingiria templários

frontalmente – a Ordem

grande

162

Hospital, que tinha como principal função a guarda das rotas marítimas mediterrâneas. Assim, Henrique não ao assumir o governo da Ordem em de Cristo, um um D.

estaria

somente

pondo mas

curso

projeto plano

expansionista

personalístico,

intermediando

aliancista entre esta ordem e a Coroa de Portugal. Seu sucessor foi seu sobrinho o dileto, da o Infante de D. Fernando, já como a um quem bem

transferiu

governo

Ordem

Cristo,

hereditário. Sendo D. Fernando tio de D. João II, assumiu este rei a responsabilidade de realização do ambicioso projeto de monopolizar o abastecimento do mercado ocidental de

especiarias orientais. Finalizado no reinado de seu sucessor, D. Manuel, este projeto veio atingir duramente os interesses da Ordem do Hospital. Somando-se a isto, pouco depois, em 1552, Solimão atacou a sede desta ordem em Rodes, expulsando os

hospitalários desta estratégica ilha mediterrânea. A Ordem do Hospital se transfere para a ilha de Malta a qual, com as ilhas de Gozo e de Comino e a cidade de Trípoli, lhe havia sido concedida em feudo pelo imperador Carlos V em 1530, com a aprovação do papa Clemente VII (1523-1534). A partir de então, estes freires navegadores passam a ser também conhecidos como cavaleiros de Malta. Porém, na impossibilidade de defender a cidade de Trípole esta frente em ao avanço (5). turco, Assim, os ao hospitalários contrário do

abandonam

cidade,

1551

esperado com a extinção da Ordem do Templo, a Ordem do Hospital,

163

enquanto amargava sucessivas derrotas, via a cruz templária da Ordem de Cristo tremular de Ocidente a Oriente.

Pouco após do abandono hospitalário de Trípoli, de novembro de 1555, entrou na

em

10

baía da Guanabara uma esquadra de

naus francesas, ocupando uma ilhota próxima à sua barra. Era essa expedição militar comandada por Nicolas Durand de Villegaignon, que logo se transfere para uma outra ilha maior e melhor

abrigada, dando início a construção de uma fortificação. Essa ilha, denominada pelos índios de Serigipe, guarda até hoje o nome deste comandante francês, Ilha de Villegaignon.

Assim que chegou, Villegaignon estabeleceu uma aliança guerreira com a referida "nação" Tupinambá, que, após a expulsão dos Temiminó, dominavam inteiramente a baía da Guanabara (6). Em

1557 Villegaignon recebe reforços de uma frota de três navios comandada por seu sobrinho Bois-le-Comte (7).

A 30 de abril deste mesmo ano parte de Portugal Mém de Sá, 3º Governador Geral, nomeado em substituição a Duarte da Costa (8). Assim que chegou, Mém de Sá defrontou-se com a

eclosão de um grande levante indígena na Capitania do Espírito Santo. Depois de conseguir pacificar esta Capitania, preparou-

se para dar combate aos franceses na Guanabara, aonde chegou em 1560, acompanhado do jesuíta Provincial do Brasil, Pe. Manoel de Nóbrega. Villegaignon, porém, tinha partido pouco antes para

164

Europa, a fim de procurar apoio ao seu empreendimento, deixando o comando sob a responsabilidade de Bois-le-Comte. Após intensos combates o Governador expulsou os franceses de sua fortaleza, retirando-se aliados para São Vicente. Os nas franceses, matas, com ajuda dos a

Tamoios

refugiaram-se

reconstruindo

fortaleza, depois da partida de Mém de Sá.

Essa costuma ser

expedição, considerada

conhecida como um

como

"invasão

francesa", calvinismo

empreendimento

apoiado pelo rei Henrique II, de França, com finalidade de fundar uma nova colônia na América, a França Antártica (9). Já o

historiador inglês que fez do

Robert Southey

afirma desconhecer a lógica

Brasil alvo desta expedição. Observa ele que não

seria do interesse de Henrique II criar conflitos com Portugal (10). Além disso, o comandante da expedição não era protestante, mas sim católico, passando, inclusive, do a hostilizar forte que os

calvinistas,

expulsando-os

posteriormente

tinha

batizado com o nome de Coligny (11).

Contudo,

o

próprio

Southey

nos

oferece

a

chave

do

enigma por ele apresentado ao identificar o almirante francês como “cavaleiro de Malta”. Realmente, o padre jesuíta Herbert E. Wentzel, em tese defendida na Universidade Gregoriana de Roma, comprova que Villegaignon foi, sem momento algum de sua filiação monástica, um frei hospitalário, sobrinho do grão-mestre da

Ordem, Villiers de I'Isle Adam (12).

165

Em participarem

França, deste

Villegagnon

convidou conforme

os

jesuítas do

a

empreendimento,

carta

Padre

Nicolau Liétard, de 6 de março de 1560, ao Geral da Companhia (13). Em 1562, por motivos que nos são ainda desconhecidos, o Geral da Companhia de Jesus decidiu não aceitar o convite da aliança com os hospitalários não mais (14). Neste ao mesmo ano de 1562, com o do

Villegaignon, embaixador

que

voltou

Brasil, Dantas,

negociou a

português

em

Paris,

Pereira

renúncia

empreendimento hospitalário em solo americano, recebendo em troca uma indenização de 30.000 ducados. Contudo os soldados franceses, sob o comando de Bois-le-Comte, continuaram resistindo,

obrigando assim a continuidade da guerra.

A 1º de maio de 1563 chegou à Bahia, acompanhado de mais quatro jesuítas, Estácio de Sá, filho de Diogo de Sá, por

sua vez primo direto do pai do Governador Mém de Sá, o cônego Mendes de Sá (15). Veio ele com a incumbência de ajudar o

Governador a expulsar da Guanabara os invasores e ocupá-la, em definitivo, fundando uma povoação. Estácio de Sá partiu da Bahia Após organizar uma esquadra,

em direção ao Espírito Santo e

São Vicente a fim de receber reforços de índios e mamelucos (16). A 20 de janeiro de 1565 partiu ele de Bertioga para o Rio de Janeiro acompanhado dos jesuítas Gonçalo de Oliveira, capelão da expedição, e Anchieta, ainda coadjutor temporal. Acompanhava-o também uma tropa indígena comandada por Araribóia, "principal"

166

Temiminó

originário

do

aldeamento

jesuítico

de

São

João,

no

Espírito Santo, que, ao ser batizado, adotara o nome cristão de Martim Afonso de Sousa(17).

Ao

chegar

à

baía

da

Guanabara,

Estácio

de

estabeleceu-se próxima a sua barra, entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Iniciou-se então uma luta de escaramuças entre as tropas comandadas por Estácio de Sá e Bois-le-Comte, sem vitória decisiva para nenhum deles. Em maio de 1566, partiu do Tejo uma

armada de três galeões comandada por Cristóvão Cardoso de Barros, trazendo reforços ao e com e ordens expulsar expressas para Mém os de Sá ir

pessoalmente

Rio

definitivamente

franceses.

Trazia também o comandante da esquadra duas cartas dirigidas a um cavaleiro professo da Ordem de Cristo, não identificado, com

determinações para lançar o hábito de Frei cavaleiro da Ordem a Mem de Sá. A outra carta era dirigida ao já Frei Mém de Sá com (18).

instruções para impor o hábito de noviço a Estácio de Sá

Desta maneira, para fazer frente à invasão empreendida pelo frei hospitalário Villegaignon foi concedido o mesmo título monástico a Mém de Sá .

Em 18 de janeiro de 1567 iniciando logo o ataque às

Mém de Sá

chegou à Guanabara Em um desses

posições

francesas.

ataques o noviço Estácio de Sá foi atingido por uma flechada no rosto, vindo a falecer um mês depois. Contudo, as tropas

portuguesas, com o apoio decisivo de Araribóia e seus guerreiros,

167

conseguiram

tomar

todos

os

bastiões

franceses

(19),

fundando

então a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro na margem ocidental Guanabara, desta os estratégica franceses baía da Guanabara. então para Batidos na

dirigiram-se

Pernambuco

tomando posse de Recife, de onde foram novamente expulsos pelo comandante da praça de Olinda, então uma das mais importante e florescente vila do Brasil.

A fim de fixá-lo definitivamente na Guanabara, Mém de Sá concede a Araribóia uma sesmaria situada no lado oposto da

nascente cidade, para de lá proteger a entrada da barra. Este chefe indígena Temiminó, com que a aliança guerreira foi decisiva na expulsão dos franceses, é identificado no Auto de Posse desta sesmaria, datado de 22 de novembro de 1573, como cavaleiro da Ordem de Cristo (20).

168

NOTAS

1- Stephen Howarth. Os cavaleiros templários. Lisboa, Livros do Brasil, 1986, pp. 218, 219: A década dos trinta tinha sido difícil para os Templários do Oriente. Pedro de Montaigu morrera em 1232; em 1237, mais de uma centena de irmãos de Antioquia tinham sido mortos numa batalha; al-Kamil, o pacífico sultão egípcio morrera em 1238, e em 1239 Jerusalém voltara a ser perdida. [...] Em 1244 apareceram na Palestina homens do Oriente (...) Nem cristãos do Prestes João, nem sequer mongóis de Gêngis, eram turcos khwarismianos, uma tribo deslocada pelas conquistas dos Mongóis. Tinham-se tornado guerreiros errantes em busca de umaterra e estavam dispostos a vender a sua força a quem quisesse comprar. E encontraram comprador no sultão do Cairo. Em 11 de julho de 1244 – menos de um ano depois do profético aviso de Pergors – os khwarismianos atacaram Jerusalém. Só escaparam trezentas pessoas. Enquanto estas fugiam pela estrada de Jafa, a Cidade Santa e a Igreja do Santo Sepulcro ardiam atrás delas, e os ossos dos reis de Jerusalém eram tirados dos túmulos e espalhados. Nunca mais Jerusalém voltaria a brigar um exército templário (...) Os aliados começaram a marchar para sul em 4 de Outubro [de 1244]. Os khwarismianos, deixando Jerusalém a arder, tinham corrido para um encontro com o patrão, o Sultão do Cairo, e os exércitos unidos esperaram em Gaza. Em 17 de Outubro, as duas forças - os Francos e os muçulmanos do Norte, os Khwarismianos e os muçulmanos do Sul - encontraram-se na planície de la Forbie, alguns quilômetros a nordeste de Gaza. Passadas poucas horas, estava tudo terminado. Os aliados do Norte foram destruídos. Cinco mil francos e muçulmanos jaziam mortos lado a lado. Mais oitocentos foram levados como escravos para o Egipto. Dos trezentos templários, só escaparam trinta e três, que regressaram ao Castelo dos Peregrinos. O seu mestre, Armando de Perargors, jazia cego na areia de Gaza. Lenta e agonicamente, o reino de além-mar morria. Mas nos seus castelos e nas suas casas, nos seus campos e nas suas quintas, em Safed e Athlit e em todas as partes da Europa, os Cavaleiros do Templo estavam decididos a que pelo menos a sua Ordem sobrevivesse”. 2- Jean-Jacques Mourreau. Os Cavaleiros Teutônicos. In Corpos de elite do passado. Lisboa, Ulisseia, s/d, pp. 17/80. 3- Joaquim Veríssimo Serrão. Opus cit. p. 257, v. I: O processo da Reconquista podia considerar-se encerrado, mas a presença dos Templários em muitos pontos da fronteira garantia a defesa do Reino e o surto regional que ali se promovia. Os cavaleiros do Templo eram, pois, instrumentos da política de consolidação nacional que o monarca queria levar a efeito; e a acção militar constituía o melhor argumentoo em sua defesa. Pelo mesmo critério se afirmou a posição dos reis de Castela e Aragão que, juntamente com D. Dinis, fizeram diligências para evitar que os bens extintos fossem entregues à Ordem do Hospital. Essa decisão não era aceita pelo nosso monarca, porque seria engrandecer a referida Ordem em prejuízo da coroa, tanto mais que os Hospitalários dominavam a fronteira ao sul do Tejo, o que poderia dar origem a graves conflitos senhoriais. 4- In Hélio da Alcântara Avelar - Preliminares Européias; História administrativa do Brasil, v. I, t. I, Rio de Janeiro, D.A.S.P.- Serviço de Documentação, p. 173: Entretanto, com as sobreditas autoridade e ciência, para sempre decretamos,

169

determinamos e ordenamos que o espiritual e tôda jurisdição ordinária e domínio e poder nas coisas espirituais somente nas ilhas, vilas, portos, terra e lugares, adquiridos e por adquirir desde o cabo Bojador e Não até toda a Guiné, e além daquela plaga meridional até aos Indos, havidos e por haver (...) que digam respeito e pertençam no tempo futuro para sempre à supra mencionada Milícia e Ordem (de Cristo). Esta concessão de padroado foi posteriormente confirmada pela bula Aeterni Regis , de Sisto IV, em 21 de junho de 1481. 5- Cf. José Vicente Pinheiro de Melo e Bragança. As ordens honorificas portuguesas. Disponível em http://www.terravista.pt/Guincho/1147/index.htm.

6- No início do ano de 1555, os indígenas da "nação" Temiminó foram expulsos da baía da Guanabara por indígenas de outra "nação" Tupí-Guarani, sua inimiga, denominada de Tamoio pelos portugueses e Tupinambá pelos franceses. Eram os Temiminó liderados por Maracajá-guaçú, ou Gato Grande, aliado dos portugueses, que vieram em seu auxílio. Os Temiminó foram então deslocados para a Capitania do Espírito Santo onde foram abrigados em aldeamentos jesuíticos. O Pe. Luís da Grã, em carta datada de 24 de abril de 1555 do Espírito Santo, assim narra este feito. ( In P. Serafim Leite - Cartas dos primeiros jesuítas no Brasil. São Paulo, Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954, pp. 226/7 V. 1: "(...), chegou aqui hum principal que chamam Maracajagaçu, que quer dizer guato grande, que ee mui conhecido dos christãos e mui temido entre os gentios, e o mais aparentado entre elles. Este vivia no Rio de Janeiro e aa muitos annos que tem guerra com os Tamoios, e tendo dantes muitas vitorias delles, por derradeiro veirão-no pôr en tanto aperto con cercas que puserão sobre a sua aldea e dos seus, que foi constrangido a mandar hum filho seu a esta Capitania a pedir que lhe mandassem embarcação pera se vir pello aperto grande em que estava, porque elle e sua molher e seus filhos e os mais dos seus se queriam fazer christãos. (...) Tirou Vasco Fernandez Coutinho sobre isso testemunhas e mandou 4 navios pera que fossem seguros dos francezes, que sempre aa naquelle Rio, e que lhe dessem todo favor con artelharia e mantimento que levavão, mas que não os trouxessem se não estivessem em extrema necessidade. O Pe. Antonio Franco - A vida do Padre Manuel Nóbrega. In Manuel de Nóbrega. Cartas do Brasil, 1549-1560. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo:Edusp, 1988 [1719], p.49 informa que a razão da animosidade dos Tamoios de São Vicente contra os portugueses deveu-se ao fato destes terem auxiliado os Temiminós: Quando nós começamos a ter guerra com os Temiminós, gente do Gato Grande, os nossos confiados na multidão de nossos inimigos, que eram muito mais do que nós e juntamente inimigos vossos, que tinham mortos muitos de vós outros, se metteram com elles contra nós; mas Deus ajudou-nos e pudemos mais. Os Temiminó eram conhecidos também por "margaiá", "Margajás" ou "maracajás".

170

7- Acompanhando Bois-le-Comte, que tinha ido à Europa buscar reforços, estava o cronista protestante Jean de Léry. O outro cronista francês desta invasão ‚ o frade franciscano André Thevet, que veio acompanhando Villegaignon, mas que não mais se encontrava no Brasil quando da chegada de Léry. 8- Enquanto Mém de Sá dirigia-se ao Brasil, faleceu em Portugal, a 11 de junho de 1557 D. João III, primeiro soberano português a ostentar o título de Grão-Mestre da Ordem de Cristo. Com a morte de D. João III, assume D. Catarina a Regência do Trono português, devido à minoridade do sucessor, seu neto D. Sebastião. Durante o período final da vida deste soberano, a Companhia de Jesus consegue, por obra de Simão Rodrigues, torna-se poderosa em Portugal. Essa rápida acessão foi motivo de conflitos não só com outras instituições eclesiásticas, que não viam com bons olhos a acessão fulminante desta nova Ordem como também dentro da própria Companhia de Jesus. Em 1552, Inácio de Loyola afastou Simão Rodrigues da direção da Companhia em Portugal, substituindo-o pelo Padre espanhol Diogo Miram. Em 1562, D. Catarina abdicou da Regência em favor do Cardeal-Infante D. Henrique, estreitando este os lanços entre os jesuítas e a família real, sendo inclusive um Padre jesuíta, Luís Gonçalves da Câmara, designado como confessor de D. Sebastião (cf. T. Lino de Assumpção, História geral dos jesuítas, Lisboa, Morais Ed. 1982, pp. 437/8/9,455).

9-Carta de Nóbrega ao Cardeal D. Henrique, de São Vicente datado de 1º de junho de 1560, in Manuel de Nóbrega, opus cit. pp. 226/7.: (...) Estes Francezes seguiam as heresias da Allemanha, principalmente as de Calvino, que está em Genebra, e segundo soube delles mesmos e pelos livros que lhes acharam muitos, e vinham a esta terra a semear estas heresias pelo Gentio a aprendel-as ao mesmo Calvino e outras partes para depois serem mestres, e destes levou alguns a Villagalhão que era o que fizera aquella fortaleza, e se intitulara Rei do Brazil. Deste se conta que dizia que, quando El-Rei de Fran‡ç o não quizesse favorecer para poder ganhar esta terra, que se havia de ir confederar com os Turcos, promettendo-lhe de lhe dar por esta parte a conquista da India, e as naus dos Portuguezes que de lá viessem, porque poderia aqui fazer o Turco suas armadas com muita madeira da terra; mas o Senhor olhou do alto tanta maldade e houve misericordia da terra e de tanta perdição de almas, e mentita est inquitas sibi, e desfezlhe o ninho e deu sua fortaleza em mão dos Portuguezes, a qual se destruiu o que della se podia derrubar, por não ter o Governador gente para logo povoar e fortificar como convinha. Essa gente ficou entre os Indios, e esperam gente e socorro de França, maiormente que dizem que por El-Rei de França o mandar, estavam alli para descobrirem os metaes que hovessem na terra; assim ha muito Francezes espalhados por diversas partes, para melhor buscarem.

171

10- Robert Southey - História do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1981, p. 200, v.1: Desde os tempos da primeira descoberta haviam os franceses frequentado a costa do Brasil; agora tentavam-se estabelecer-se no Rio de Janeiro, capitaneados por Nicolas Durand de Villegagnon (sic), natural de Provença, e cavaleiro de Malta. Era este aventureiro um atrevido e experimentado marinheiro. Quando os escoceses resolveram mandar para França a sua jovem rainha Maria, e com razão se receava que os ingleses a aprisionassem, Villegagnon, que comandava uma esquadra de galés franceses em Leith, fingiu partir para a sua terra; em lugar disto porém deu volta … Escócia, navegação que para aqueles vasos se reputava impraticável, tomou a rainha na costa ocidental, e a salvo a pôs na Bretanha. Em muitas ocasiões dera provas de valor e habilidade, e para soldado daquelas eras tinha o raro mérito de possuir não pequenas dose de instrução. Este homem, por intermédio de Coligny, representou a Henrique II que era da honra e interesse da França empreender uma expedição … América, que tal tentativa distrairia a atenção e debilitaria a força dos espanhóis, que dali tiravam tão avultada parte de suas riquesas; que os naturais gemiam sob o intolerável jugo e que para eles seria um bem, e para o mundo uma glória libertá-los e abrir à Europa o comércio da América. Não sei por que lógica se podia isto aplicar ao Brasil, país que não era da Espanha, nem aos portugueses, povo que não estava em guerra com a França. Tal era contudo o pretexto público e Coligny deixou-se levar a prestar toda a sua influência a este projeto, por lhe prometer Villegagnon em segredo, que abriria na colônia um asilo aos protestantes.

11-Robert Southey, opus cit., p. 205: Mas Villegagnon era um vil, traidor, e enganara Coligny. O zelo que inculcava pela religião reformada, mentido era para apanhar ao almirante o seu dinheiros e o seu crédito; conseguindo isto, e parecendo-lhe de maior vantagem seguir a parcialidade oposta, ou comprado como se diz pelo cardeal Guise, tirou a máscara, desaveio-se com os ministros huguenotes, e com tanta tirania e intolerância se houve, que os que tinham emigrado para a França Antártica a gozar de liberdade de consciência, acharam-se sob um jugo mais ferrenhis do que na pátria os oprimia. 12- Hebert Ewaldo Wetzel. Mém de Sá, terceiro GovernadorGeral (1557-1572). Tese de Doutorado na Faculdade de História Eclesiástica da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Rio de Janeiro, Conselho Federal de Cultura, 1972 p: 70/78: Antes de chegar ao Brasil, Villegaignon já havia publicado dois livros, mas apesar de sua inclinação à vida intelectual, preferiu a carreira das armas, entrando na ordem militar de S. João de Jerusalém, também chamada Ordem Equestre de Malta. Por sua filiação a essa Ordem, Villegaignon passou a ser chamado por alguns "O cavaleiros de Malta". Ele era sobrinho de Villiers de I'Isle Adam, GrãoMestre da Ordem.(...) Villegaignon era cavaleiro da Ordem de S. João de Jerusalém (Hospitalário) aos quais pertencia a ilha de Rodes até 1522 quando os Turcos a tomaram. Os Hospitalários retiraram-se então para a ilha de Malta. Por isso Villegaignon ‚ chamado cavaleiro de Rodes ou também de Malta.

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13- Bibl. de Évora, cod. CVIII/2-2, f. 4v-5. 2§ tomo das Cartas da Europa: Quadrimestre de Paris, escrita a seis de março de 1560, por Nicolau Liatrão Paredense. Códice que pertenceu ao Colégio de Coimbra. In Herbert Wetzel, opus cit. pp. 77/8: Por muitas vias se nos vão acrescentando as esperanças de alevantarmos muito cedo Colégio, por meio de um cavaleiro principal de Rodes, homem assim nas letras gregas e latinas como em virtudes assinalado, o qual haver cinco anos que, por mandado do Cristianíssimo Rei, foi à Ilha América para conquistar. 40) E conquistando perto de duzentas léguas, parte com boas obras que fazia, parte à força de armas, haver três meses que chegou, não com outro intento senão buscar Bispo e sacerdotes para cultivar esta Ilha e reduzirem a nossa santa Fé. O Ilustríssimo Cardeal Lotarigiense, lhe prometeu que lhe daria alguma gente da nossa Companhia. 41) Com esta confiança veio este cavaleiro a Paris. (...). Em América há assaz grande lugar, e acomodado, para se exercitarem nossos ministérios. Há perto de duzentas léguas, onde há muitos infiéis, que se podem reduzir ao grêmio da igreja, nem faltam lá mancebos franceses, que entendem já a língua da terra, os quais nos podem servir, na obra do catecismo, de intérpretes, como tenho entendido de um deles que de lá veio. As naus se ficam aviando em um porto daqui perto. 42) O nome deste Cavaleiro é Nicolau Villegaignon. Rogue Vossa Reverência ao Senhor que mande operários para sua messe".Desta maneira não tem nenhum sentido afirmar que Villegaignon teria abraçado o protestantismo quando da invasão à Guanabara, voltando ao catolicismo posteriormente. Devemos observar ainda que quando da sua chegada a América, em 1555, estava não só acompanhado de um frade franciscano, Thevét, como de uma guarda pessoal de soldados escoceses (cf. nota de Milliet, in Lery, opus cit, p. 38) súditos da rainha católica Maria, salva por Villegaignon. Observa também Wetzel (idem, p.78), que o próprio Anchieta não desconhecia a condição de Cavaleiro católico do almirante francês, pois em uma das suas cartas informa que: "De Nicolau de Villegaignon afirmavam todos eles ser católico e muito douto e grande cavaleiro".

14- Herbert Wetzel, opus cit. p. 78: "A proposta de Villegaignon não foi aceita pelo Pe. Geral. Os fatos vieram a comprovar o acerto de sua decisão, pois a essa data já a armada de Mém de Sá ancorava na Guanabara e com ela o Pe. Nóbrega. De Roma escrevia o Geral Laynez ao Provincial de Portugal, a 18 de abril de 1561: "En lo de aquel cavallero de Rodas, y la empresa de América no hay más que tratar. Émonos consolado no poco con lo que scriven del Brasil acerca de aquella gente que tenia tomado la fortaleza ..." (Archivum Romanum Societatis Jesu, Roma, Hisp. 66, f. 169r". 15- Herbert Wetzel - Opus cit., p. 94. 16- Ibidem, p. 100. 17Há muitas controvérsias a respeito da origem de Araribóia. Diversos autores o considera como filho do

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chefe temiminó Maracajá-guassú, o Gato-grande, tendo nascido na atual Ilha do Governador por volta de 1523, sendo então batizado na cap. de São Vicente em 1530, tendo como padrinho o donatário desta capitania, Martins Affonso de Souza, de quem adotou o nome. Porém Serafim Leite (História da Companhia de Jesus no Brasil, 1945, p. 240 t. VI) contesta esta versão, observando que as fontes documentais são omissas em relação ao batismo de Araribóia, inclusive quanto a sua ida à Guanabara em 1560, acompanhando Mém de Sá, afirmando que: mas se estêve, foi como soldado anônimo, não como chefe. Concordamos somente com Serafim Leite somente em relação ao batismo. Porém, constatamos na primeira referência documental feita a Araribóia‚ a carta do Pe. Pedro da Costa, que era ele o chefe da aldeia de São João. Cf. in Azpicueta Navarro. Cartas avulsas. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1988, pp. 482/9), datada de de 27 de julho de 1565: (...); trouxe também o Padre (Braz Lourenço) por companheiros o padre Diogo Jacome e a mim, pera acudirmos as necessidades das almas destes Indios, entre os quaes havia já duas egrejas feitas, scilicet: na aldêa do Gato uma de Nossa Senhora da Conceição, e na aldêa de Arariboi outra de S. João. 18- Herbert Wetzel, opus cit. pp. 123/4: "A condecoração era dada por expressa vontade real, mesmo se o requerente (Mém de Sá ) talvez não preenchesse todas as exigências: "posto que o Governador não justificasse as calidades que lhe era necessário ter para ser recebido na dita Ordem, porquanto me está ora servindo nas ditas partes do Brasil" (Arq. Nac. da Torre do Tombo, Chancelaria da Ordem de Cristo, livro 1§, f. 16v; publ. por Sousa Viterbo in O Instituto 43, [1986] 342-343). A carta em favor de Estácio ‚ quase do mesmo teor e vem dirigida ao Governador Geral "Frei" Mém de Sá cavaleiro da dita Ordem para lhe impor o hábito de noviço da Ordem de Cristo, em nome do rei. (Arq. Nac. da Torre do Tombo, Chancelaria da Ordem de Cristo, livro 1§, f. 17; publ. por J. Veríssimo Serrão in O Rio de Janeiro II 54) Declara que o interessado não justificava os títulos e qualidades que requeria. Mas atendendo aos serviços prestados à Coroa, e aos que de futuro ainda viesse a prestar, era-lhe concedido a honrosa mercê". 19- Pero Rodrigues. Vida do Padre José de Anchieta da Companhia de Jesus. São Paulo, Loyola, 1978, p. 68: Sempre em guerras e batalhas, entre os soldados de nome e valor se acha algum mais assinalado e conhecida vantagem, e que mostra seu ânimo em algum feito de armas dificultoso, e alcançava a vitória não esperada. Tal foi um índio cristão em tôdas estas guerras, contra francêses e Tamoios, de cujo esfôrço confessaram os Capitães portuguêses ser tão levantado, que sem êle nunca se tomara o Rio de Janeiro, de modo que se pode chamar honra dos índios cristãos do Brasil. Chamava-se pelo nome português Martim Afonso de Souza, e pelo da terra Ararigboia. 20- Auto de posse da sesmaria de Martim Affonso de Souza. In Joaquim Norberto de Sousa e Silva. Memória histórica e documentada das aldêas de índios da Província do Rio de Janeiro. Rev. do IHGB. Rio de janeiro, 17 (15), 3º trim. 1854, pp. 307/8: Saibam quantos este publico instrumento de posse de terras de sesmaria dada por

174

mandado e autoridade de justiça virem, que no anno do nascimento de nosso senhor Jesus Christo de 1573 annos, aos vinte e dous dias d'este presente mez de Novembro d'esta presente éra da banda d'além d'esta cidade de S. Sebastião d'esta capitania e governação e bahia d'este Rio de Janeiro, terras do Brazil, no termo d'ellas, nas terras que dizem ser a escriptura e carta dada atraz, que o governador o general Mendonça a Martim Affonso de Souza, cavalheiro da ordem de Christo, e logo ahi, por este dito Martim Affonso, foi dito a mim publico tabellião e ao porteiro mestre Vasco, e perante as testemunhas, que ao todo foram presente, que o dito governador lhe deu de sesmaria para elle e para seus ascendentes e descendentes, ahi aonde estava uma legua de terras e duas para o sertão, a qual logo começaria das barreiras vermelhas que estão defronte d'esta dita cidade indo pelo rio e bahia correndo em comprimento da dita legua e duas para o sertão a dentro, conforme a doação e demarcação em elle conteúdo; pelo dito porteiro Mestre Vasco, e ante mim, deu posse da dita legua de terras de comprimento, e para o sertão duas leguas, conforme a dita carta, e que esta dita terra depois se demarcar com quem de direito deva fazer, porquanto o sr. governador capitão Christovam de Barros, que de presente está, manda metter de posse da dita terra conteúda com a dita carta. E logo o dito porteiro mestre Vasco, perante mim tabellião e governador e testemunhas ao diante nomeadas, metteu em a mão do dito Martim Affonso de Souza terra, pedras, arêa e ramos, e lhe deu posse pessoal, actual e realmente da dita legua de terras em comprimento ao longo do dito rio e bahia, e duas para o sertão conforme a dita carta atraz, dentro dos limites d'ella para elle e seus herdeiros ascendentes e descendentes sem contradicção de pessoa alguma que até ahi contradissesse conforme a dita carta actualmente, e o dito Martim Affonso acceitou a dita posse, e se ha por investido n'ella, tomando sobre suas mãos a terra, pedra, arêa e ramos que o dito porteiro deu, e depois de os ter andou passeando pela dita terra e com suas proprias mãos tomou por si a terra, pedras arêas e ramos, se houve por mettido de posse da dita terra conteuda na dita carta, e lhe foi dada a dita posse pacificamente, do que o dito Martim Affonso de Souza requereu a mim tabellião lhe mandasse passar instrumento de posse nas costas da dita carta e dada da dita terra para ele saber como assim lhe fôra dada a dita posse, o qual instrumento della passei para sua conservação e verdade da dita carta atraz de instrumento de dada atraz por verdade do despacho em ella atraz do dito sr. governador, porque manda que seja o dito Martim Affonso de Souza mettido de posse da dita terra. Testemunhas que ao dito foram presentes Miguel Barros Seabra, o dito governador e o reverendo padre Gonçalo de Oliveira, procurador do collegio d'esta cidade, aonde todos assignaram com o dito porteiro em esta dita cidade, aonde este dito instrumento passei aos 27 dias do mez de Outubro da sobredita éra por mandado do dito governador sem causa que duvida faça, e aqui assignei de meu publico signal que tal é, etc.

175

CONSIDERAÇÕES FINAIS

176 A partir da análise interdisciplinar de fontes diversas, demonstramos aqui o conhecimento, ainda em tempos medievos, por parte da Coroa de Portugal, não só do continente americano, como também do perfeito posicionamento de pontos do litoral brasileiros, referenciais para a navegação no Atlântico Sul. Do mesmo modo, demonstramos que estas determinações geográficas exigiram a presença de astrólogos doutos, únicos capacitados então, a realizar as observações astronômicas necessária.

Relacionado

à

memória

indígena

da

presença

destes

astrólogos ao Sumé, personagem mitológico Tupi, e considerando o histórico templário das a ordens monásticas por militares, tais reputamos e a monges

responsabilidade

observações

cálculos.

Recebedora destas informações através da Ordem de Cristo, a Coroa de Portugal pode então dominar a arte de navegar no Atlântico Sul, imprescindível para a conquista do Índico.

Assim, consideramos que o descobrimento do Brasil foi, na verdade, um ato de revelação do já há muito conhecido, feito em um momento preciso dentro de uma estratégia voltada para a construção de uma nova ordem geopolítica ocidental a partir do deslocamento do eixo marítimo mercantil Índico-Mediterrâneo para o Índico-Atlântico Sul.

177 Observando que a ação naval portuguesa no Índico dirigiase primordialmente para o bloqueio do Mediterrâneo, atingindo

diretamente os interesses de Veneza e da Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, ou Ordem de Malta, concluímos que a invasão francesa quinhentista à Guanabara foi uma tentativa frustrada do frei hospitalário Villegaignon de instalar uma base de operação naval da Ordem de Malta no Atlântico Sul. Assim, consideramos este embate entre portugueses e franceses na disputa da Guanabara como desdobramento do conflito iniciado em tempos cruzadísticos entre as duas mais importantes ordens monásticas militares, a Ordem do Templo, representada então por sua sucessora, a Ordem de Cristo, e a Ordem do Hospital.

Procuramos aqui, deste modo, fazer frente à questão do papel da Ordem de Cristo nos descobrimentos ibéricos. Apesar de sempre apontada, os historiadores, em geral, tem se esquivado ou abordado de forma superficial esta questão crucial (1). Por outro lado, sabemos que ao correlacionar a Ordem de Cristo como

detentora e transmissora

à Coroa do conhecimento pré quinhentista

do Novo Mundo estamos entrando em um terreno escorregadio, onde não é possível encontrar o seguro respaldo das fontes documentas primárias. Deste modo, apesar de julgar que a comprovação do

prévio conhecimento do Brasil esteja aqui solidamente demonstrada, reconhecemos que os modelos decorrentes desta hipótese central

178 apóiam se, principalmente, no contexto geopolítico que antecede aos descobrimentos ibéricos, o que os coloca, inevitavelmente mais vulnerável a críticas e revisões. Por outro lado, recordamos que o conhecimento positivistas acadêmico das não se mas apóia em uma mais nos princípios revisão de

certezas,

constante

pressupostos teóricos hipotéticos (2).

Assim, a contextualidade geopolítica aqui apontada nos leva ainda a algumas considerações sobre a obscura relação da Ordem de.

Cristo com a Coroa de Portugal. Inicialmente, acreditamos que, apesar de bem sucedida na aliança com a Coroa de Portugal no projeto da implantação de uma nova ordem geopolítica ocidental, a Ordem de Cristo, como instituição monástica militar, acabou por sucumbir, ainda no século XVI, frente às pressões do

crescente processo de centralismo da Coroa de Portugal, onde
havia importância espaço e para uma ordem militar ressurgir com tamanha

poderio

econômico.

Aos

poucos

esta

Coroa

foi

cerceando e podando a autonomia de origem templária da Ordem de Cristo, submetendo-a ao poderes monárquicos.
Conforme descobrimentos visto, a relação da Ordem de Cristo ao com os o

portugueses

tornar-se

explícita

assumir

Infante D. Henrique a administração desta ordem monástica que, a partir de então, passa a ser governada de forma hereditária pela

179 Casa Real. que os Contudo, permanece ainda obscuro o nível de gerência mestres teriam sobre a ordem. Para diversos

infantes

historiadores, como Joel Serrão, D. Henrique, por não ter sido monge, não assumiu o mestrado, mas sim o governo da Ordem de Cristo (3). Realmente, através da obra Definições e estatvtos dos cavalleiros & freires da Ordem de N. S. Iesu Christo, com a historia da origem, & principio della observa-se que, quando o Infante assume a administração da Ordem de Cristo, esta não tinha passado ainda por nenhuma reforma na sua estrutura monástica

original que permitisse a um leigo o controle total da ordem. Inegavelmente, a introdução da Família Real nesta ordem monástica dá-se de uma forma muita estranha e, para nós, ainda

inexplicável. Por outro lado, parece-nos que houve uma divisão, mesmo Ordem. que informal, da da do poder temporal do Infante e e espiritual seus dentro da na no

Apesar

introdução ordem, os

sucessores vinculados

administração

freires

estariam

religioso, não a estes mestres, Tomar.

mas ao prior do convento de

D. Henrique transfere a administração da Ordem de Cristo de forma hereditária a seu sobrinho dileto D. Fernando. Este, por sua

vez, era pai de D. Diogo, duque de Viseu, e de D. Manuel, duque de Beja. Com a morte de D. Fernando e com a menoridade D. Diogo assume interinamente o mestrado nada menos que sua mãe, D. Beatriz. Apesar de autorizada por bula papal, a administração feminina e leiga

180 desta ordem monástica demonstra claramente que este mestrado vinha sendo então exercido assume uma Diogo D. de forma o anômala mestrado D. (4). da João O Após Ordem II, atingir de seu a

maioridade, Envolvido cunhado, em D.

Diogo

Cristo. primo é e

conspiração é

contra pelo

assassinado

rei.

mestrado

então

transferido para D. Manuel, Duque de Beija, irmão do finado duque.

Apesar de ter assassinado seu primo D. Diogo, mestre da Ordem de Cristo, a nosso ver é no reinado de D. João II que a sucessora templária alcança sua importância maior na aliança com a Coroa. Mascarenha Barreto, acredita, inclusive, que a chegada de Colombo, segundo ele um judeu português, "às

índias"

foi

um

estratagema engendrado pela Ordem de Cristo e por D. João II, com intuito de enganar os reis de Espanha. Ao acreditar ter tido a primazia na chegado ao Oriente, o rei de Aragão, D. Fernando, na sofreguidão de obter do papa espanhol Alexandre VI, seu aliado, a concessão exclusiva do acesso ao Oriente pelo Ocidente, não se

apercebeu que era vítima apenas de um blefe na jogada real de D. João II (5). Ao considerar as incoerências por nós apontadas, que cercam a viagem descobridora de Colombo e a conjuntura política na segunda metade do quatrocento, vemos que a hipótese de Mascarenhas Barreto não é de toda improcedente.

O problema da concorrência castelhana estaria, a princípio, resolvido com a aliança matrimonial acordada em 1468 entre o rei de

181 Portugal, Afonso V, o Africano, e de Castela e Leão, Henrique VI. Na falta de um sucessor varão, pretendia o rei castelhano casar sua irmã, D. Isabel, com o rei português Afonso V e sua filha, D. Joana, a Beltraneja, com D. João, filho e sucessor de Afonso V, além de primo da princesa castelhana. Deste matrimônio nasceria o herdeiro do trono unido de Portugal, Castela e Leão. D.Isabel, contudo, casa secretamente com D. Fernão, herdeiro do trono de Aragão, e, após a morte de seu irmão, em 1474, reivindica o trono do maior reino da Península Ibérica. Contando com o apoio de Aragão e da nobreza castelhana, que acreditava ser D. Joana fruto de uma relação adulterina Isabel de sua rainha, as por sua vez irmã à do rei de com

Portugal,

derrota

pretensões

portuguesas

união

Castela ao assumir o trono deste reino em 1476, após combater as tropas de Afonso V na Batalha de Toro (6). Em 1479 D.Fernão assume o trono de Aragão, dando início ao processo formador do reino de Espanha, fruto da unificação dos reinos de Leão, Castela e Aragão.

Ainda neste mesmo ano de 1479, os reis espanhóis reconhecem, através do Tratado de Alcáçovas, o direito de Portugal à posse das terras a serem descobertas ao sul do Bojador, recebendo em troca as estratégicas Ilhas Canárias, então pertencentes ao reino de Afonso V. Satisfeitos com a obtenção das Canárias, aparentemente uma

grande vitória diplomática, os Reis Católicos não se aperceberam que ao Tratado de Alcáçovas se complementava a concessão papal à

182 Ordem de Cristo do padroado religioso das terras a serem

descobertas, também a partir do cabo Bojador, em 1456. Não se aperceberam ainda que nem o Tratado nem a bula Inter coetera

limitavam a extensão dos domínios ao sul do Bojador. Como a Terra tem forma esférica, entregava-se assim aos domínios, agora

associados, de Portugal e da Ordem de Cristo todas as terras e mares situados em latitudes mais meridionais do que a do Cabo Bojador. Seja para leste, seja para oeste. Como as navegações portuguesas estavam inicialmente

voltadas exclusivamente a exploração do continente africano, esta política expansionista, a princípio, não despertava maiores

temores àqueles

que detinham os interesses maiores do tráfico

mediterrâneo. Porém, qualquer suspeita sob a intenção de Portugal de estender suas conquistas adversa, para o Oriente traria, pelas como

conseqüência,

ações

engendradas

potências

interessadas na manutenção da rota tradicional.

Assim, D. João 11, após o ponto extremo meridional de o
continente africano ter sido atingido, em 1488, necessitou esperar por uma conjuntura política, mais favorável para a ultrapassagem este continente. Paralelamente colocou em curso

uma que

nova

política

de

aliança

matrimonial

com

Espanha,

deveria

resultar na união dos reinos ibéricos sob a égide de Portugal.

Negociou assim o casamento, ocorrido em 1490, de seu filho D.

183 Afonso, príncipe herdeiro, com D. Isabel, filha dos Reis Católicos e herdeira do trono de Espanha. Contudo, pouco mais de um ano após este enlace matrimonial, esta nova tentativa se mostrou

infrutífera devido à morte inesperada do príncipe D. Afonso, sem gerar herdeiro no ventre de sua jovem esposa, D. Isabel.

Dentro desta conjuntura política desfavorável a Portugal, o descobrimento de Colombo fez com que os reis de Espanha

acreditassem ter antecedido os portugueses na chegada ao que seria o Oriente, e, contando com um aliado também espanhol no trono papal, acreditavam igualmente que a Espanha dominaria o comércio de especiarias orientais, independente da rota usada, mediterrânea ou atlântica.

Após

tensas

e

intensas

negociações,

Portugal

torna-se

signatário do Tratado de Tordesilhas, onde Espanha, acreditando ter já Colombo atingido Cipango e sem atentar para a possibilidade de ultrapassagem do continente africano, concedia ao rival ibérico o monopólio do comércio com os principais centros de produção e

distribuição de especiarias orientais (7). Compreende-se, assim, a razão por que, para alguns de seus contemporâneos, o feito de Colombo encerrava-se numa atmosfera de dúvidas e suspeitas,

conforme expressa o sábio quinhentista Pedro Mártir de Angletería, em sua obra "Orbo Novo" (8). Assim, a hipótese de Mascarenhas

184 Barreto, independente de da discussão insere-se sobre a origem étnica dentro ou da

nacionalidade

Colombo,

perfeitamente

conjuntura por nós levantada. Por outro lado, não reconhecer a procedência desta hipótese implica em aceitar uma série de felizes coincidências. A primeira seria a descoberta, por parte de Colombo, das correntes que permitiriam a navegação de ida e retorno da América por mero acaso. Do mesmo modo, por acaso, D. João II, em conseqüência do descobrimento de Colombo, teria intuído um valor em longitude que permitiria o perfeito controle do Atlântico sul, ao mesmo tempo em que o engano de Colombo viria, também por acaso, facilitar o domínio do Índico, ao desviar a atenção da ação

portuguesa. Em 1495, pouco mais de um ano após da assinatura do Tratado de Tordesilhas, D. João II veio a falecer, deixando vago o trono de sucessor direto, devido à morte inesperada do Príncipe D. Afonso. Devido a uma série do de infortúnios português na linha então sucessória, sobre os a

responsabilidade

trono

caiu

ombros

daquele ao qual, a princípio, não estava reservado - D. Manuel, primo de D. João II, Duque de Beja o governador da Ordem de Cristo.

Aquele que seria conhecido posteriormente como o Venturoso põe em curso a estratégia de conquista do índico e, paralelamente, inicia um processo de descaracterização da Ordem de Cristo como instituição monástica. Assim, por sua intervenção, o papa Alexandre

185 VI, em 1496, transforma o voto de castidade dos comendadores e cavaleiros em voto de fidelidade conjugal. Ao mesmo tempo, D.

Manuel negocia com os Reis Católicos seu casamento com D. Isabel, viúva do malfadado príncipe D. Afonso e herdeira do trono de

Espanha, numa nova tentativa da união dos reinos ibéricos sob a égide de Portugal. No ano seguinte, em 8 de julho de 1497, partia de Lisboa uma pequena frota, sob o comando de Vasco da Gama. Após ter abordado corretamente as Correntes do Brasil e da Malvinas, em maio de 1498 chegava ao porto de Calicute, na verdadeira índia (9). Enquanto Vasco da Gama encontra-se a caminho do Oriente, D. Manuel casa com D. Isabel. Quando o navegante português encontrava-se ainda nas índias, a rainha de Portugal morre ao dar a luz ao herdeiro dos reinos ibéricos, D. Miguel. Somente com a "descoberta" do Brasil por Cabral, o Velho Mundo constata que Colombo teria chegado não ao Oriente mais sim a um Novo Mundo. Todavia, dois meses após Cabral ter aportado em Porto Seguro, o imponderável mais uma vez interfere

desfavoravelmente às pretensões portuguesas de unir a Península Ibérica sob sua Coroa, ao falecer em Granada o príncipe herdeiro, D. Miguel da Paz. D. Manuel ca5a então com sua cunhada, D. Maria, que concebe já o príncipe que os D. João, herdeiro somente do trono do de trono de

Portugal,

direitos

sucessórios

Espanha

passaram então para outra filha dos Reis Católicos, D. Joana, a

186 Louca, casada com Felipe I, Habsburgo, filho e sucessor de

Maximiliano, Imperador do Sacro Império Romano Germânico.

Apesar de ter conseguido em 1505, através de bula papal de Júlio II, que os freires, comendadores e cavaleiros pudessem testar os seus bens (10), D. Manuel sabia que estas reformas não seriam ainda suficientes para anular os poderes do prior de Tomar sobre os freires professos do e o Padroado D. Manuel das terras descoberta. ao papa Após Leão a X

conquista

Oriente,

procura

junto

limitar os poderes do Padroado da Ordem de Cristo. Em 1514 obtém finalmente, através da bula Pro excellenti praeminetia, a

instituição do Padroado Real, que retirava no ultramar o poder desta ordem sobre o eclesiástico, colocando-o sob a autoridade

monárquica. Contudo, para frustração do Venturoso, Leão X limitou o poder real sobre o eclesiástico somente às terras descobertas a partir de 1512. O Brasil, assim, permanecia sob o poder da Ordem de Cristo no eclesiástico (11).

Pouco após ascender ao trono, o filho e sucessor de D. Manuel, D. João III, é elevado ao cargo de Governador e Administrador da Ordem de Cristo através da bula Eximiae devotionis, datada de 14 de março de 1522. As duas outras ordens monásticas militares sediadas em Portugal, Santiago de Espada e Avis, estavam então unidas sob o mesmo mestrado. Com a morte de Frei Jorge, seu mestre, através da

187 bula Praeclara charissima in Christo, datada de 4 de janeiro de 1551, o papa Júlio III une os mestrado das ordens de Cristo, Avis e Santiago, transferindo ao monarca português o controle total das ordens militares portuguesas (12).

O filho d´ O Venturoso, D. João III, retoma a política de seus antecessores de alianças matrimoniais com a Coroa de Espanha. Acorda então casar com a irmã de seu primo, filho e sucessor de Felipe I. Carlos V, por sua vez, casa com a irmã do monarca

português. Dos nove filhos que teve com D. Joana, a irmã de Carlos V, nenhum estava ainda vivo quando D. João III morre em 1557. Um deles, porém, D.João, havia gerado o sucessor do trono português. Fruto de seu casamento com sua prima, filha de Carlos V, igualmente chamada Joana, nasce D.Sebastião, em 1554, dias após o falecimento de seu pai. Após a regência de D. Catarina e o Cardeal D. Henrique, D. Sebastião assume o trono em 1568, com 14 anos de idade.

Imbuído

por

um

anacrônico

espírito

cruzadístico,

D.

Sebastião

lança-se ao combate contra os infiéis no norte da Africa. AlcácerQuibir, em 1578, representa o fim desta aventura juvenil e da Dinastia de Avis, morrendo D. Sebastião sem deixar descendente. Reassume o trono então seu tio, o Cardeal D. Henrique, já bastante idoso. Abre-se assim um vácuo sucessório onde seis pretendentes alegam direitos à sucessão do trono de Portugal, dentre os quais o

188 rei de França, Henrique III, que reivindica o direito à Coroa pela ascendência de sua mãe, Catarina de Médici. Quando da morte do Cardeal-Rei, em 1580, a disputa sucessória estava restrita a D. Antonio, filho bastardo do Infante D. Luís, e Felipe 11, rei de Espanha. D.Antonio, freire-prior dos hospitalários em Portugal,

decide ocupar o trono pela força das armas. Felipe II respondeu invadindo Portugal. Após derrotar os exércitos de D. Antonio,

Felipe 11, em 1581, assume o trono de Portugal, consagrado rei pelas Cortes reunidas em Tomar, coração templário deste Reino(13). D. Antonio procura aliança em França, negociando com Catarina de Médici o apoio de uma esquadra, em troca da entrega do Brasil à Coroa de França. Contudo, a força naval francesa é derrotada nos Açores em 1582, pondo fim a mais esta associação franco

hospitalária de domínio do Brasil (14).

Ainda Ordem de

não

foram com o

desvendadas afastamento Portugal

as do

possíveis prior

implicações

da D. o

Cristo do

hospitalário,

Antonio,

trono

de

e,

conseqüentemente,

estabelecimento da União Ibérica.

Após

as

reformas

referidas,

a

Ordem

de

Cristo

é

descaracterizada como instituição monástica,

passando a abrigar na

só os freires como também leigo, que obtinham o título de cavaleiro como recompensa a serviços militares prestados à Coroa, conforme

189 ocorrido com o índio Araribóia. Contudo, mesmo descaracterizada como uma ordem exclusivamente monástica, durante a vigência do

padroado da Ordem de Cristo, a Ordem Dominicana se viu impedida de se estabelecer no Brasil. Certamente, devido ao fato dos

dominicanos

na França, sob as ordens de Nogaret, terem submetidos

os templários a terríveis torturas, a fim de obter as confissões de culpa necessárias para a abertura do processo de extinção da Ordem do Templo.

Com a independência do Brasil, o Padroado religioso desligase do mestrado da Ordem de Cristo, ficando sob a alçada direta do Imperador. Pouco depois, em 1834, a Ordem de Cristo é extinta em Portugal. A comenda da Ordem de Cristo é hoje, simplesmente, uma condecoração honorífica da República portuguesa.

Já a grande rival templária existe até o presente. Porém, não mais como Ordem de São João de Jerusalém, mas como Soberana e Militar Ordem de Malta (SMOM). Após ser expulsa da ilha de Malta por Napoleão,em 1798, instalou sua sede em Roma, no Palazzo Malta. Reconhecida como entidade juridicamente soberana não só pela Santa Sé como por diversos Estados e instituições internacionais, mantém representações médica e diplomáticas e em reconhecidas diversos atividades nas áreas

assistencialista

países.

Contudo,

algumas

190 organizações denunciam que estas atividades humanitárias encobrem atividade política ligada à extrema direita

Assim, apesar de não pretender aqui fazer ressurgir a"teoria conspiratória", processo registrado histórica consideramos como ingenuidade acreditar

que

o

histórico e

possa

ser
Em

recuperado diversas

pelo

explicitamente a pesquisa pequenos

documentado. a

ocasiões,

aproxima-se

investigação

detetivesca,

onde

indícios são fundamentais na reconstrução dos momentos onde impera o silêncio das fontes documentais.

Deste modo, não temos receio em afirmar de ser inconcebível delegar a uma sucessão de felizes acasos as razões que

possibilitaram ao pequeno reino de Portugal ter realizado não só a verdadeira epopéia dos descobrimentos como ter construído, em

poucas décadas, um dos maiores impérios coloniais. Se as razões aqui apresentadas não vierem de todo a satisfazer o arguto espírito crítico dos notórios historiadores especialistas no tema, que, pelo menos, seja-nos reconhecido o mérito da demonstração de não ser mais possível vislumbrar este ponto crucial da história focado na perspectiva do fortuito e do intuitivo.

191 NOTAS

1- A maioria das obras que aborda a relação dos templários com os descobrimentos portugueses segue uma linha mística. Acreditamos que esta forte associação com o esotérico seja uma das principais razões que tem afastado os pesquisadores acadêmico de tal tema. Como os arqueólogos estão normalmente mais acostumados a dividir um campo de estudo comum com os esotéricos, acreditamos que esta nossa formação acadêmica tenha nos ajudado a superar tal barreira. O livro de Antonio Telmo, História secreta de Portugal, Lisboa, Veja, s/d, é um exemplo de obra de cunho místico sobre este tema. 2-John Ziman. Conhecimento público. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1979 pp. 69: Para algumas pessoas, as palavras "científico" e "não-científico" acabaram por significar simplesmente "verdadeiro" e ''falso'' ou "racional" ou "irracional" (...) Para entendermos o conhecimento científico precisamos entender não apenas a ignorância científica como também o erro científico(...) Esse fenômeno, perfeitamente familiar aos cientistas que exercem a par da história da ciência, situa-se fora do escopo da metafísica positivista, cuja fragilidade fica, em conseqüência, exposta em toda a sua nudez. Deste modo, a apresentação de um modelo hipotético não implica em acreditar na sua inquestionalidade, mas exprimir a melhor construção teórica possível em função dos dados então disponíveis. Passível, portanto, de sucessivas revisões, a crítica a um modelo hipotético implica, por sua vez, na apresentação de um outro melhor construído, ou respaldado por dados mais consistentes. 3- Joel Serrão. Dicionário de História de Portugal. Porto, Livr. Figueirinha, 1981, v. 1, p. 236: É bem conhecida a actuação da Ordem de Cristo nos Descobrimentos e nas conquistas, sobretudo por influência do administrador (e não mestre, como se diz correntemente), o infante D. Henrique. 4- Definições e estatvtos dos cavalleiros & freires da Ordem de N. S. Iesu Christo, com a historia da origem, & principio della. Lisboa, Pedro Craesbeeck, impressor de Rey, 1628. TITVLO 111. Dos Mestres que ate agora ouue nesta Ordem de Christo, p. 62: O décimo foy o ditto dom Diogo, &por ser de pouca idade, gouemou por elle o Mestrado a lffanta dona Beatriz sua mãy por Bulla Appostolica, de consentimento de el Rey dom Alfonso o quinto. 5-Alfredo Mascarenhas Barreto. O português Cristóvão Colombo: agente secreto do rei D. João II. Lisboa, Referendo, 1988, pp. 80/1: Em 1484, declarou-se a guerra civil em Granada. Seria o momento asado (sic) para os Reis Católicos conquistarem todo o sul de Espanha. Dom João II de Portugal teve de tomar uma resolução definitiva: a sua escolha recaiu sobre um mancebo,

192 intimamente ligado à Ordem de Cristo e, resumivelmente, à família real; que já navegara da Mina e dos Açores para Ocidente e comparticipara na expedição marítima lusodinamarquesa; que tivera relações directas com os banqueiros de Génova; que se insinuaria genovês, mas sempre ocultando o nome da terra onde nascera e o dos próprios pais; que, usando um símbolo cabalístico, se assinaria com o seu próprio nome, mas transformado em Cristóbal Colón (...) Cristóbal Colón, maravilhoso actor, gritava aos sete ventos a teoria, atribuída a Toscanelli, de que existia uma passagem praticável, para o Japão e para a Índia e, até o fim da sua vida, mesmo depois de provada a intransponibilidade dessa barreira terrestre - o Panamá- , ainda insistiria, ameaçando de morte quem o contradissesse. (...) Ora, a Cristóbal Colón não faltava inteligência nem o conhecimento geográfico; não enfermava de demência, conquanto às vezes, quando lhe convinha, a simulasse por defesa: apenas se mantinha obstinadamente fiel, ao juramento feito, ao segredo do princípio templário - "Sigillum Militum Christi". O Rei Don Fernando, na sofreguidão de obter do Papa a concessão do acesso ao Oriente, pelo Ocidente, nem sequer se apercebeu de que a apregoada frota, armada em frente de Lisboa Jamais aparelhava para largar do Tejo. Apenas fora um "bluff" na jogada real de Dom João II 6-Cf. João Ameal, História de Portugal. Porto, Tavares Martins, 1974, pp. 217/21. 7- O que passou despercebido à Coroa de Espanha é que o tratado por ela estabelecido com Portugal definia um limite longitudinal não só no Atlântico como também no índico, pois, dada à esfericidade da Terra, a extensão da área de domínio de cada Coroa estaria assim definido pelo contra meridiano, o que colocava os principais centros distribuidores de especiarias, como as Molucas, nos domínio de Portugal. Assim, a sofreguidão de D. Fernando de querer preservar para Espanha a maior parte das "índias" descobertas por Colombo não o fez perceber que, na realidade, a maior parte da verdadeira Índia estava sendo entregues aos domínios de Portugal e ao padroado da Ordem de Cristo. 8- J. Herrs. Cristóbal Colón. México, Fondo de Cultura Económi co, 1992, P . 15 : . EI libro de Pedro Mártir de Anglería, italiano septentrional, humanista que sentía curiosidad por infinidad de temas, residente en Espaiía desde 1477, maestro de Ia Universidad de Salamanca a Ia vez que guerrero que luchó contra los moras en Granada, inspira bastante confianza: vivió siempre cerca de los soberenos y de todas Ias fuentes de información; trató íntimamente a grandes personajens de Ia nobleza; más tarde recibió Ias sagradas órdenes y diversos beneficios eclesiásticos, sobre todo en Valladolid Se encontraba en Barcelona, en Ia corte, cuando los monarcas recibieron a Colón, ya de regreso de su primer viaje. En 1494, por 10 tanto mucho antes que todos los demás, comezó a escribir una cuidadosa relación dei descubrimientos. Este "Orbo Novo", en todo caso su primera parte, se publicó en 1511 y fue traducido ai inglés en 1555. No obstante, por temperamento o por razones que no acabamos de comprender, el autor demuestra cierta reserva ante Ia figura dei Almirante, habla poco de él Y ni de lejos se esfuerza por colocarlo a plena luz.

193 9- Mais uma vez, reafirmamos a impossibilidade de Vasco da Gama ter realizado corretamente a "volta do Brasil" por mera intuição, seja deste navegador seja de Bartolomeu Dias, conforme acredita. Eduardo Bueno. In O descobrimento das Índias: o diário da viagem de Vasco da Gama. Rio de Janeiro, Objetiva, 1998, p. 26: Embora Vasco da Gama tenha passado à História como descobridor dessa tática genial - que consistia em se afastar do litoral africano, rumo ao oeste, para evitar as correntes contrárias e o calor insalubre do golfo da Guiné e, depois, guinar novamente para o sudeste, contornando o cabo que D. João II rebatizara da "Boa Esperança", a idéia, na verdade, parece de ter sido de Bartolomeu Dias. A obtenção desses direitos de navegação no Atlântico - fundamentais para a realização da "volta do mar" teria sido um dos principais motivos que levaram os negociadores lusos a exigir a imediata revisão do Tratado de Alcáçovas, que fora firmado em 1496, e que garantia a soberania de Portugal apenas sobre as terras e os mares localizados a 100 léguas (cerca de 700 Km) ao oeste dos Açores. Se a vitória em Tordesilhas foi tão festejada, o mais provável é que a "volta do mar” de fato tenha sido obra da admirável intuição de Bartolomeu Dias, embora coubesse a Vasco da Gama a glória de realizá-Ia pela primeira vez. Parece-nos realmente indubitável que o Tratado de Tordesilhas tinha como objetivo primeiro preservar sob o domínio de Portugal a "volta do Brasil", contudo é totalmente inconcebível delegar à intuição de Bartolomeu Dias a descoberta de uma manobra tal complexa onde se exigia não só preciso conhecimento do posicionamento do ponto extremo ocidental do litoral brasileiro, o Cabo de São Roque, e do Cabo de Santo Agostinho como também saber vencer a barreira dos Abrolhos, responsável por diversos naufrágios de naus que faziam a Carreira das Índias. Apesar do Diário de Navegação de Vasco da Gama omitir as dificuldades na realização desta “volta ao mar", ao apresentar, sugestivamente, um lapso de 22 de agosto a 27 de outubro (cf. Opus cit., p. 42), quando a frota estaria realizando o percurso ao longo do litoral brasileiro, os seguintes relatos quinhentistas demonstram claramente as dificuldades a serem enfrentadas pelos navegantes não experientes nesta carreira. Henrique Dias. Relação da viagem,e naufrágio da não S. Paulo que foy para a India no anno de 1560. In Bernardo Gomes de Brito (org.). História trágico marítima. Rio de Janeiro, Lacerda Ed./Contraponto, 1998, p.196: Por ser o nosso piloto novo nesta carreira e ser esta a primeira vez que vinha do Reino neste oficio, por sempre cá na Índia de roteiro e rumo, como cá dizem e todos navegam, receou tanto, e mais do que devera, o sulaventear desta nau, que por ficar, segundo ele dava por razão, bem a barlavento do Cabo de Santo Agostinho, terra do Brasil, por a nau já o ano passado o não pode dobrar e arribar dele ao Reino, meteu-se tanto na terra da costa da Guiné que estivemos muito perto de acabar aqui todos, por ser Inverno nesta paragem neste tempo e partimos tarde de Portugal, e virmos aqui ter na força dele, onde são tudo vento do mar, que co"em a te"a, sul, sudoeste e sul-sudeste, tão rijos e de tantas chuvas e trovoadas que andamos nesta paragem, bordo ao mar, bordo à te"a, bons

194 três meses, com nos adoecer toda a gente, com que passamos muitas e mui grandes enfermidades e enfadamentos. Manoel Godinho Cardozo. Relação do naufrágio da não Santiago no anno de 1585. In Opus cit. p.298: Passando a linha três ou quatro graus da banda do sul, lhe deram uns ventos, que os marinheiros chamam gerais porque cursam por ali geralmente quando as naus vão para a Índia, e costumado as mais vezes ser tão escassos que deitam as naus para a costa do Brasil, com grande perigo de se perderem em muitos baixos que ali há, a que chamam Abrolhos; mas livrando-os Deus deste perigo passaram por entre as ilhas de Martim Vaz, que é a melhor navegação que há, por estarem muito afastadas dos Abrolhos do Brasil. 10- Definições e estatvtos dos cavalleiros & freires da Ordem de N. s. Iesu Christo, com a historia da origem, & principio della. Lisboa, Pedro Craesbeeck, impressor deI Rey, 1628, p. 70, Titulo VII - Em que se declaraõ sobre votos substãciaes desta Ordem: J. Da Castidade. Posto que antigamente a Castidade, que se professaua nesta Ordem era pura, & absoluta, que impedia, & annulava o Matrimonio: com tudo, de algus annos a esta parte, por dispensação da santa See Apostolica podem os Commendadores, & Caualeiros del/a casar, & professaõ castidade conjugal, que hoje hé a da essencia desta Ordem; no que toca aos sobredittos. 2. Da Pobreza. O voto da Pobreza tambem foy puro, & absoluto da essencia desta s'!Jlcta Religião, & assi se guardou algum tempo: depois por justa causa se mudou este precepto per dispensação da santa See Apostolica; pel/o que hoje podem os Freyres, Commendadores, & Caualeiros dispor de seus bes, ass.i dos adquiridos por qualquer via que seja, como dos adquiridos das rendas dos Beneficios, Commendas & tenças, & quaisquer outros bens da Ordem, com tanto, que -dentro em dous annos paguem as tres quartas partes das rendas de hu anno dos Beneficios, Commendas, bes da Ordem, ou tenças que tiuerem com o habito, como adiante se declara. 11- Dom João Evangelista Martins Terra. A motivação religiosa dos descobrimentos. Xerocópia de original datilografado, s/d, p. 2: Foi Calisto III, pela bula Inter coetera de 13/3/1456, que concedeu à Ordem de Cristo a jurisdição espiritual nas conquistas portuguesas, a ser exercida pelo Vigário do convento de Tomar, que era nulius diocesis (Bul. Patron. I, pp 36-7)0 Convento de Santa Maria de Tomar, da Ordem de Cristo, sob a regra cisterciense, tinha jurisdição canônica por concessão pontifica sobre todas as terras descobertas e por descobrir até a ereção de bispados. O Brasil, por conseguinte, antes de 1514, esteve sob a jurisdição apostólica delegada do Vigário de Tomar. 12- Cf. Definições e estatvtos dos cavalleiros & freires da Ordem de N. S. Iesu Christo, com a historia da origem, & principio della. Lisboa, Pedro Craesbeeck, impressor deI Rey, 1628, pp. 60-66. 13- Cf. João Alfredo Libâneo Guedes & Joaquim Ribeiro. História administrativa do Brasil. Rio de Janeiro, Dasp, 1957, v. 111, pp. 36/7.

195 14- Joaquim Veríssimo Serrão. Do Brasil filipino ao Brasilde 1640. São Paulo, Comp. Ed. Nacional, 1968, p. 26: Um ponto talvez convenha destacar: se os fatos houvessem correspondido aos desejos da Rainha-mãe, com a desejada vitória dos Açores, a submissão da Madeira e de Cabo Verde e o domínio do Atlântico pela frota luso-francesa, talvez o rei D. Antonio sentisse o amargor de uma vitória que lhe teria custado demasiado caro. O almirante Strozzi terse-ia fixado no Brasil, para ali levando todo o pêso militar e os amplos recursos da Coroa francesa, realizando a tão sonhada França Antártica a sobrepor-se ao Brasil português. Tal não aconteceu então, e a Coroa filipina pôde lançar raízes no Brasil. Infelizmente, não foram desvendadas ainda as possíveis implicações da Ordem de Cristo com o afastamento do prior hospitalário D. Antonio do trono de Portugal e, conseqüentemente, o estabelecimento da União Ibérica. Parece-nos evidente, porém, que a Ordem de Cristo estava a apoiar, direta ou indiretamente, a coroação de Felipe II de Espanha como rei de Portugal.

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público.

Belo

Horizonte:

Itatiaia;

São

Paulo:

213

ANEXOS

Obs: os anexos estarão disponíveis em arquivo a parte.

234

III – RESUMO CRONOLÓGICO

235 Da Formação do Reino à União Ibérica

1090- Casamento da filha legítima da Afonso VI, D. Urraca, com D. Raimundo, de Borgonha. 1094- D. Raimundo recebe o governo da Galiza Casamento da filha bastarda de Afonso VI, D. Teresa, com Henrique de Borgonha, primo de D. Raimundo. 1095- Concílio de Clermont-Ferrand onde o papa Urbano VI prega a favor da cruzada D. Henrique recebe de Afonso VI o título de "Senhor de Coimbra", com poderes sobre a região da Galiza entre o Douro e o Minho. 1096- Primeira Cruzada. Os francos tomam a Síria e a Anatólia 1097- D. Henrique recebe o título de "Conde Portucalense" Nascimento de D. Sancho, filho de Afonso VI com Zaida, filha do rei mouro de Sevilha. Os cruzados conquistam Nicéia 1098- Balduíno conquista Edessa, fundando um principado. 1099- Libertação de Jerusalém e fundação do Reino Latino de Jerusalém tendo Godofredo de Bulhão como chefe Um mosteiro beneditino da cidade de Jerusalém torna-se a sede de uma nova Ordem assistencialista denominada São João de Jerusalém, conhecida como "Ordem do Hospital”. 1100- Morte de Godofredo. Balduíno é coroado rei de Jerusalém O filho mais novo do rei Guilherme assume o trono da Inglaterra como Henrique I 1107- Morte de D. Raimundo 1108- Morte do filho de Afonso VI e Zaida, D. Sancho. 1109- Morte de Afonso VI. D. Urraca assume o trono O império seljúcida fragmenta-se em diversos sultanatos 1110- Os almorávidas terminam a unificação dos emirados ibéricos, tomando Saragosa. 1111- O almorávida Emir Sir reconquista Évora, Lisboa e Santarém. 1113- A Ordem do Hospital é reconhecida pelo papa como uma nova ordem monástica. 1114- Morte de D. Henrique. D. Teresa, condessa portucalense, passa a intitular-se "Regina Tarasia de Portugal". 1115- Cúria Regia de Oviedo onde D. Teresa reconhece a autoridade de D. Urraca.

236 1118- Com aprovação de Arnouf, patriarca de Jerusalém, e liderados por Hugo de Payens, nove cavaleiros francos fundam a Ordem de cavalaria "Soldados Pobres de Jesus Cristo", com a finalidade de proteger os caminhos dos peregrinos. Balduíno II, rei de Jerusalém, abriga esta nova ordem nas ruínas do templo de Salomão, sendo então esta nova ordem conhecida como dos cavaleiros templários. . 1119- D. Urraca, viúva de D. Raimundo, casa com Afonso I de Aragão. 1125- O rei Balduíno II de Jerusalém reconhece essa nova Ordem de cavalaria, concedendo o título de mestre do Templo a Hugo de Payens. O Infante D. Afonso, filho de D. Henrique e D. Teresa, é armado cavaleiro a maneira dos reis. 1126- Anulação do casamento de D. Urraca e Afonso de Aragão. Afonso de Aragão morre sem deixar herdeiro, legando em testamentos seus reinos às ordens militares do Templo, do Santo Sepulcro e do Hospital. Contestação do testamento de D. Afonso, assumindo o trono do reino de Aragão seu irmão como Raimundo III. Morte de D. Urraca, subindo o trono de Castela Afonso Raimundo como Afonso VII. D. Teresa doa aos Templários a vila de Fonte Arcada de Penafiel. 1127- Afonso VII invade Portugal 1128- No Concílio de Troyens e por interferência de São Bernardo, a Igreja reconhece a Ordem dos Templários como uma ordem monástica. D. Teresa doa aos templários o castelo de Soure. Batalha de São Mamede onde o Infante D. Henrique derrota D. Teresa, sua mãe. 1130- A Ordem São João Jerusalém é restauradora como ordem militar. Início da dinastia almôada, berberes dos Montes Atlas, na Espanha. 1135- Cortes de Leão onde Afonso VII é aclamado Imperador Os almôadas controlam a Espanha muçulmana Morte de Henrique I. É sucedido no trono da Inglaterra por Estevão, Conde de Blois, esposo de sua irmã Matilde. 1137- Morte do rei de França Luís VI, é sucedido por seu filho Luís VII. 1139- A bula papal "Omne Datum Optimum" confirma a Ordem dos Templários, dando direito a incorporação dos butins ao patrimônio da Ordem. Vitória de Afonso Henriques na batalha de Ouriques contra os mouros. Afonso VII reconhece Portugal como reino 1143- Afonso Henriques afirma seu enfeudamento à Santa Sé 1147- Conquista de Santarém e Lisboa por D. Afonso Fim da dinastia almorávida na Espanha. Afonso VII, de Castela, doa o castelo de Calatrava aos templários para a defesa de Toledo.

237 1149- Através da bula "Milites Templis" os templários obtêm autonomia em relação às autoridades episcopais. Passam a ter suas própria igrejas e sacerdotes, o direito de recolher o dizimo eclesiástico nas terras de seu patrimônio. 1154- Morte de Estevão, Conde de Blois. É sucedido no trono da Inglaterra por Henrique II, Conde de Anjou, neto de Henrique I. 1157- Morte de Afonso VII, sendo o império dividido entre seus filhos: Leão para Fernando II e Castela para Sancho. Devido ao rumor de um cerco mouro, os templários abandonam o castelo de Calatrava. O abade Ramon Sierra com um grupo de monges ocupa o castelo, dando origem a Ordem de Calatrava. Luís VII repudia a sua esposa Leonor que casa com Henrique II, Plantageneta, da Inglaterra, que recebe a Aquitânia como dote. Os domínios do rei da Inglaterra em França são bem maiores do que os de Luís VII. 1158- Fernando II conquista Castela Conquista de Álcacer do Sal por Afonso Henriques 1159- Afonso Henriques doa o castelo de Cera, em Tomar, aos templários. 1164- Fernando II casa com a filha de Afonso Henriques 1166- Afonso Henriques conquista a Galiza 1169- Afonso Henriques é derrotado por Fernando II em Badajoz, sendo obrigado devolver a Galiza. 1170- A Ordem de S. Tiago de Espada é fundada por Afonso VIII para a proteção dos peregrinos que iam à tumba de São Tiago em Compostela 1171- Fim da dinastia Fatímida no Egito com a tomada do poder pelo curdo Salah al-Din (Saladino), iniciando a dinastia aiúbida. 1172- Afonso Henriques doa o castelo de Arruda à Ordem de S. Tiago de Espada 1174- Saladino anexa Damasco 1175- O califado de Bagdá reconhece Saladino como sultão do Egito e da Síria 1176- O papa Alexandre II reconhece os Caballeros de San Julian de Pereiro, de Leão, como ordem monástica militar, que passou a ser conhecida como Ordem de Alcântara. 1179- Bula "Manifestis probatum", onde o papa Alexandre II reconhece D. Afonso como rei. 1180- Morre Luís VII, de França, sendo substituído no trono por seu filho Felipe II, Augusto que adotada o título de rei de França ao invés de rei dos francos. 1183- Saladino conquista Alepo

238 1184- O papa Júlio III confirma a Ordem dos Hospitalários 1185- Morte de Afonso Henriques. Sobe ao trono de Portugal seu filho Sancho I 1187- Saladino toma Jerusalém aos cristãos 1189- Morte de Henrique II. É sucedido no trono da Inglaterra por seu filho Ricardo, Coração de Leão. 1190- Cerco ao castelo de Tomar pelo califa de Marrocos. Os templários resistem ao cerco. 1191- Os cruzados conquistam a cidade Acre. 1193- Morte de Saladino e divisão do império Aiúbida 1198- A Ordem Santa Maria dos Alemães é reformada como ordem militar com o nome de Cavaleiros da Cruz, passando a ser conhecida como dos Cavaleiros Teutônicos. 1199- Morte de Ricardo I, sendo substituído no trono por seu irmão, João, Sem Terra. 1202- Felipe II Augusto de França convoca rei João da Inglaterra para se apresentar frente a um tribunal de Paris como seu vassalo. Na recusa desse, o denuncia como traidor, iniciando uma guerra para incorporar os feudos franceses do rei inglês aos domínios da Coroa de França. 1204- Apoiados por Veneza, os cruzados conquistam Constantinopla, dando origem ao Império Latino. Balduíno, de Flandres, é coroado como Imperador. Felipe II conquista a Normandia, domínio do rei João da Inglaterra. 1205- Felipe II anexa os feudos da Coroa inglesa de Turene a Anjou ao reino de França 1206- O chefe mongol Temujin unifica as tribos mongóis, adotando o título de Gengiscan. 1211- Morte de Sancho I. Sobe ao trono de Portugal Afonso II. Cortes de Coimbra (1º documentada) Fundação da Ordem de Avis com a doação desta cidade a monges beneditinos 1212- Derrota dos almóadas da Espanha em Navas de Tolosa. 1214- O rei João, da Inglaterra, é derrotado por Felipe Augusto de França na batalha de Bouvines. A Normandia é incorporada aos domínios da Coroa de França. 1215- O rei João promulga a Magna Carta 1223- Morte de Afonso II. Sobe ao trono de Portugal Sancho II Morte de Felipe Augusto. Pela primeira vez os domínios do rei de França eram superiores aos de seus vassalos. Seu filho Luís VIII sobe ao trono de França. 1225- Nasce na Itália S. Tomás de Aquino

239 Os Cavaleiros Teutônicos obtém autorização do papa e do príncipe da Polônia de iniciar a conversão dos prussianos. 1226- Morte de Luís VIII de França. Sobe ao trono seu filho Luís IX, que será canonizado como São Luís. 1227- Morte de Gengiscan. Seu império da Pérsia a Coréia, incluindo a China. 1228- Início da dinastia hafisidas, com capital em Tunis. 1230- Fusão definitiva de Castela e Leão 1232- Sancho II doa a Ordem dos Hospitalários a vila de Crato, que passa a ser a sede do poder hospitalário em Portugal. 1233- A Ordem de Calatrava em Portugal transfere sua sede de Évora para Avis (Montemor-o-Novo) 1242- Os Seljúcidas da Anatólia são derrotados pelos mongóis do Irã, tornando-se seus vassalos. 1245- Sancho II é deposto pelo papa Inocêncio IV, que designa para o trono de Portugal seu irmão D. Afonso, o Bolonhês. 1248- Morte no exílio de Sancho II, assumindo seu irmão o título de Afonso III. 1250- Fim da dinastia aiúbida no Egito com a tomada do poder pelos Mamelucos Bahrí, militares de origem escrava vindos da Ásia Central e Cáucasos 1253- Paz com Afonso X, o Sábio, de Leão e Castela. Ajusta-se o casamento de Afonso III com D. Beatriz, filha de Afonso X. Afonso III estabelece a fixação de preços para os gêneros (lei da almotaçaria) 1254- Cortes de Leiria com a participação de representantes dos Conselhos 1258- Fim da dinastia abássida com a tomada de Bagdá pelos mongóis 1260- Os mamelucos derrotam os mongóis e passam a controlar a Síria 1261- Com apoio de Gênova, Miguel Paleólogo toma Constantinopla e restabelece o Império Bizantino. 1263- Nascimento de D. Dinis. Afonso X cede ao neto o domínio de Algarves 1269- Fim da dinastia almôada na Espanha 1270- Morte de Luís IX quando se dirigia em cruzada para a Terra Santa Sobe ao trono de França seu filho Felipe III. 1272- Morte de Henrique II da Inglaterra. Sobe ao trono seu filho Eduardo I

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1273- O Papa Gregório X tenta fundir as Ordens dos Templários e Hospitalários. Tratado de Badajoz, estabelecendo o rio Guadiana como fronteira meridional entre Portugal e Espanha Rodolfo, conde de Habsburgo, I é coroado Imperador do Sacro Império RomanoGermano como Rodolfo I. 1274- Morte de S. Tomás de Aquino 1275- Eduardo I convoca o primeiro parlamento composto por lordes, por direitos hereditários, e cavaleiros e burgueses, por eleição. 1279- Morte de Afonso III, o Bolonhês, subindo ao trono de Portugal seu filho D. Dinis. Kublai Khan completa a conquista da China ao destroçar a frota chinesa perto de Macau. A dinastia Sung é extinta. 1285- Felipe III, rei de França, morre na campanha de conquista da Catalunha. Seu filho Felipe IV, o Belo, sobe ao trono da França. 1288- Recém chegados das estepes asiáticas, os turcos otomanos tomam Bursa, na Ásia Menor, onde instalam a sede de seu sultanato. 1290- Fundação da universidade portuguesa por D. Dinis 1291- Os mamelucos tomam São João Acre. Os templários mudam a sede da Ordem para Chipre, os hospitalários para Rodes e os teutônicos para Marieburg. 1294- Bonifácio VIII assume o trono papal. 1303- Os templários evacuam a ilha de Ruad, na costa palestina. Felipe IV ataca o papa Bonifácio VIII, na cidade papal de Anagni, na Itália. Apesar de libertado por partidários, Bonifácio VIII morre pouco depois, sendo substituído por Bento XI. 1305- Apoiado por Felipe IV, sobe ao trono papal Clemente V, francês. 1306- Clemente V convoca à França os mestres do Templo e do Hospital para discutir sobre a união das duas Ordens 1307- É decretada por Nogaret, Procurador da Coroa, e a revelia do Papa, a prisão de todos os templários em França, inclusive do mestre Jacques de Molay. O papa Clemente V, através da bula papal "Pastoralis Praeminentiae" autoriza a abertura de um processo inquisitório contra os templários. 1309- Transferência da sede do papado para Avignoin 1310- 54 templários são queimados vivos na França Os hospitalários instalam-se em Rodes

241 1312- Através da bula Vox in Excelso, o Papa Clemente V decreta o fim da Ordem dos Templários, devendo todo o patrimônio da Ordem ser transferido para a Ordem do Hospital. 1314- Jacques de Molay é condenado a morte na fogueira, sendo executado em 18 de março. Morte de Clemente V em 20 de abril Morte de Felipe, o Belo em 29 de novembro. Assume o trono de França seu filho Luis X 1316- Morte de Luis X, sendo substituído no trono por irmão Felipe V. 1317- D. Dinis contrata o navegador genovês Pesagno para organizar a marinha portuguesa 1319- O Papa João XXII, sucessor de Clemente V, através da bula "Ad ea ex quibus", cria a Ordem de Cristo, transferindo para esta nova Ordem todo o patrimônio templário em Portugal. 1321- Fr. Gil Martins é nomeado o primeiro mestre da Ordem de Cristo, tendo como sede a fortaleza de Castro Marins. 1322- Morte de Felipe V de França, sendo substituído por seu irmão Carlos IV. 1325- Morte de D. Dinis, assumindo o trono seu filho Afonso IV. 1327- Eduardo II da Inglaterra abdica em favor de seu filho Eduardo III (jan.). Eduardo II é preso e assassinado (setembro) 1328- Morte de Carlos IV, encerrando a dinastia dos Capetos por ser o último filho sobrevivente de Felipe, o Belo. Assume o trono da França seu primo Felipe VI, primeiro da dinastia Valois. Eduardo III reconhece a independência da Escócia. 1337-Eduardo III reclama solenemente o trono francês. Felipe VI apodera-se do ducado de Aquitânia que pertencia ao rei da Inglaterra, dando início a Guerra dos Cem Anos. 1346- Batalha de Crécy, onde Eduardo III derrota as forças de Felipe IV. 1347- Eduardo III incorpora Calais aos seus domínios 1350- Morte de Felipe VI de França. Assume o trono seu filho João II, o Bom. 1354- Eduardo, o Príncipe Negro, filho de Eduardo III, invade a França. 1356- Eduardo derrota João II, levando-o prisioneiro para Londres. 1355- Execução de Inês de Castro, amante do príncipe Pedro, herdeiro do trono português. 1357- Morte de Afonso IV de Portugal, subindo ao trono seu filho Pedro I. 1360- Execução dos executores de Inês de Castro

242 Paz de Bretigny, onde Eduardo III abre mão de sua reivindicação ao trono francês em troca de grandes possessões feudais na França. João II volta para França 1361- Cortes de Elvas onde foi instituído o Beneplácito Régio 1364- Morte de João II, assumindo o trono francês seu filho Carlos V, o Astuto. 1367- Morte de D. Pedro I subindo ao trono Fernando I Lisboa torna-se um dos mais importantes portos da Europa 1369- Pedro, o Cruel, rei de Castela é assassinado por seu meio irmão que assume o trono como Henrique II, dando início a dinastia dos Trastámara. 1372- Casamento de Fernando I com Leonor Teles 1375- D. Fernando promulga a Lei das Sesmarias 1376- Morre Eduardo, o Príncipe Negro, herdeiro do trono da Inglaterra. 1377- A sede do papado retorna para Roma Morte de Eduardo III, rei da Inglaterra. É substituído no trono por seu neto Ricardo II 1378- Início do Cisma do Ocidente. O papado divide-se em dois, com sedes em Roma e Avignon 1380- Batalha naval de Chioggia, onde Veneza obtém o domínio do Mediterrâneo ao derrotar a frota de Genova. Morte de Carlos V, assumindo o trono francês seu filho Carlos VI. 1383- Morte de D. Fernando I, assumindo Leonor Teles a regência. A Infanta D. Beatriz casa com D. João I de Castela. Dessa união deveria nascer o sucessor do trono português 1384- Leonor de Teles transfere seus poderes para D. João I, rei de Castela, que invade Portugal 1385- Corte de Coimbra, onde D. João, mestre de Avis, é aclamado rei de Portugal. Batalha de Aljubarrota 1386- Tratado de Windsor entre Portugal e Inglaterra 1387- Casamento de D. João I de Portugal com D. Felipa, filha do duque de Lancaster, tio de Ricardo II. 1392- O rei francês Carlos VI enlouquece 1399- Abdicação do rei da Inglaterra Ricardo II. É substituído no trono por seu primo Henrique IV, filho do duque de Lancaster John de Gaunt, irmão de D. Felipa, rainha de Portugal. 1405- A Geografia de Ptolomeu é traduzida do árabe para o latim

243

1410- Os Cavaleiros Teutônicos são derrotados pelos poloneses na batalha de Grunwald 1411- Castela reconhece a independência de Portugal 1412- Fernando I, da dinastia Trastámara, assume o trono de Aragão. 1413- Morte do rei da Inglaterra Henrique IV. É substituído por seu filho Henrique V. 1415- Henrique V da Inglaterra invade a Normandia e derrota os franceses na batalha de Azincourt, estendendo o controle inglês na França até o vale do Loire. Os portugueses conquistam Ceuta, onde os Infantes, primos do rei Henrique V, D. Duarte, D. Henrique e D. Pedro são armados cavaleiros. 1417- Fim do cisma com a unificação do papado com sede em Roma. O cardeal romano Oton Colonne assume o trono papal como Martinho V. Morte de D. Lopo Dias de Sousa, mestre da Ordem de Cristo. 1418- Através da bula "Rex Regum", o Papa Martinho V ordena a pregação da Cruzada em Portugal. 1420- Através da bula In apostolica dignitutis specula, o Papa Martinho V concede a administração da Ordem de Cristo ao infante D. Henrique. Henrique V é reconhecido como herdeiro da Coroa francesa 1422- D. João I institui em Portugal a Era Cristã, em substituição a Era Hispânica ou de César, havendo uma diferença entre ambas de 38 anos. Morte dos reis de Inglaterra e França. Henrique V é substituído no trono inglês por seu filho Henrique VI Carlos VI é substituído no trono francês por seu filho Carlos VII 1427- Descobrimento dos Açores, por Diogo de Silves. 1430- Casamento da Infanta D. Isabel, filha de D. João I, com Felipe, o Bom, duque de Borgonha. Desta união nascerá o duque Carlos, o Temerário, último duque de Borgonha. 1431- Morte de Martinho V, assume o trono papal Eugênio IV. Reforma da Universidade de Portugal patrocinada por D. Henrique 1433- Morte de D. João I, assumindo o trono seu filho D.Duarte I. 1434- Gil Eanes passa o Cabo Bojador 1437- D. Henrique é derrotado em Tanger 1438- Morte de D. Duarte I em Tomar. O Infante D. Pedro assume, como regente, o trono de Portugal. 1439- Início do povoamento dos Açores

244 1442- O infante D. Pedro, então regente, doa a seu meio irmão D. Afonso, conde de Barcelos, a vila de Bragança e com ela o título de duque, constituindo-se a Casa Ducal de Bragança. 1443- Morre o infante D. Fernando, prisioneiro em Fez. Carta régia de 22 de outubro, do regente em nome de D. Afonso V, concedendo ao infante D. Henrique o monopólio da navegação, guerra e comércio das terras além do Bojador. 1444- O infante D. Henrique manda em caravelas Antão Gonçalves, Diogo Afonso e Gomes Pires ao Rio do Ouro. O navegador Dinis Dias descobre Cabo Verde 1446- Afonso V atinge a maioridade - 14 anos- e assume o trono de Portugal Publicação das Ordenações Afonsina 1447- Nicolau V assume o trono papal. 1449- Batalha de Alfarrobeiras, onde morre o infante D. Pedro. Sobe ao trono o último basileu, Constantino XI. 1451- Casamento da Infanta D. Leonor, filha de Afonso V, com Frederico III, imperador do Sacro Império. 1452- Provável descobrimento por Diogo de Teive da ilhas ocidentais dos Açores 1453- Fim da Guerra dos Cem Anos, depois de derrotados por Carlos VII na batalha Castillon, os ingleses entregam a Normandia, mantendo somente o domínio de Calais em solo francês. Após um mês e meio de cerco, o exército turco de Maomé II toma Constantinopla. 1455- O cardeal espanhol Afonso Bórgia assume o trono papal como Calisto III Casamento da Infanta Joana, irmã de Afonso V, com Henrique IV, Trastámara, rei de Castela. Desta união nascerá D. Isabel, a Beltroneja. 1456- Através da bula papal "Inter Coetera", a Ordem de Cristo recebe o Padroado religioso das terras a serem descobertas do Bojador às Índias. 1457- Gutenberg aperfeiçoa o processo de impressão por tipos móveis metálicos 1458- Pio II assume o trono papal 1460- Testamento do infante D.Henrique (28/10) onde transfere, como herança, para seu sobrinho D. Fernando os títulos de regedor e governador da Ordem de Cristo, duque de Viseu e senhor da Covilhã. D. Fernando passou assim a deter o maior senhorio de Portugal. (O filho de D. Fernando será rei de Portugal como D.Manuel I). Morte do infante D.Henrique (13/11). Afonso V doa a seu irmão D. Fernando as ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas e também as ilhas de S.Miguel e Santa Maria (Açores) que o Infante havia confirmado à Ordem de Cristo. 1461- Morte do rei Carlos VII. Sobe ao trono de França seu filho Luís XI

245 O trono da Inglaterra é ocupado por Eduardo IV, filho de Ricardo, duque de York. 1462- Nascimento de Afonso de Albuquerque A Inglaterra mergulha na guerra de sucessão (Guerra das Duas Rosas) 1464- Paulo II é eleito papa 1466- Paz de Torun onde os Cavaleiros Teutônicos reconhecem a susserania polonesa 1467- Revolta dos grandes senhores feudais em França encabeçada pelos duques da Normandia, Bretanha e Borgonha contra a política centralizadora de Luis XI. 1468- Luís XI é derrotado e feito prisioneiro por Carlos, duque de Borgonha. 1469- Nascimento de D. Manuel, filho do infante D. Fernando. D. Isabel, irmã de Henrique IV de Castela, casa secretamente com D. Fernando, herdeiro do trono de Aragão. 1471-Tomada de Arzila e ocupação de Tanger. Após então o rei de Portugal passa a intitular-se D. Afonso, por graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém-mar em África. Descobrimento das ilhas São Tomé e Príncipe. O conde Della Dovere assume o trono papal como Sisto IV Henrique VI é assassinado na Torre de Londres. 1473- Contrato matrimonial entre o herdeiro do trono de Portugal, D. João, e sua prima D. Leonor, filha de D. Fernando, irmã de D. Manuel e do duque de Viseu. 1475- Fernando Gomes atinge o Golfo da Guiné. 1476- Batalha de Toro, com a "vitória" de Isabel e Fernando de Aragão sobre Afonso V de Portugal e D. Joana, a Beltroneja. 1477- O Duque Carlos, o Temerário, da Borgonha morre na batalha de Nancy, sendo os seus domínios na França (Borgonha e Picardia) confiscados por Luis XI, ficando o restante das possessões borgonhesas com o Imperador Maximiliano do Sacro Império, casado com a filha de Carlos de Borgonha. 1479- Ascensão de Fernando II ao trono de Aragão, originado assim a Espanha pela união dos reinos de Castela, Leão e Aragão. Tratado de Alcáçovas, onde Portugal reconhece a posse das Canárias por Castela e esta reconhece a posse de Portugal das terras a serem descobertas ao sul do Cabo Bojador. 1481- Morte de Afonso V, assumindo o trono de Portugal seu filho D. João II. 1482- Descobrimento do Congo por Diogo Cão 1483- D. João II prende o Duque de Bragança, o nobre mais poderoso do Reino, condenando-o à morte por traição. Ricardo III assume o trono da Inglaterra

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1484- O cardeal genovês João Batista Cibo assume o trono papal como Inocêncio III D. João II assassina o Duque de Viseu, seu primo e irmão de D. Manuel. 1485- Henrique Tudor assassina Ricardo III e assume o trono da Inglaterra como Henrique VII, pondo fim a Guerra das Duas Rosas e dando início à dinastia Tudor. 1488- Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas. 1490- Casamento do herdeiro do trono de Portugal, D. Afonso, com D. Isabel, filha dos reis de Espanha. 1491- Nascimento de Inácio de Loyola Morte do príncipe herdeiro de Portugal, D. Afonso. 1492- Expulsão dos muçulmanos (Násridas) da Espanha com a tomada de Granada. O cardeal espanhol Rodrigo Bórgia assume o trono papal como Alexandre VI Chegada de Cristóvão Colombo à América. Expulsão dos judeus da Espanha 1493- Retorno de Colombo a Palos (15/03) Partida da 2º expedição de Colombo Bula "Inter Coetera", do papa Alexandre VI, estabelecendo o meridiano a 100 léguas de Cabo Verde como marco divisório entre os domínios de Portugal e Espanha. 1494- Tratado de Tordesilhas. 1496- O Papa Alexandre VI transforma o voto de castidade dos cavaleiros da Ordem de Cristo em fidelidade conjugal Morte de D. João II, assumindo o trono de Portugal D. Manuel, Duque de Beja, oitavo no direito de sucessão do trono português. O príncipe João, herdeiro do trono de Espanha, casa com Margaret, filha de Maximiliano I, do Sacro Império e Maria de Borgonha, herdeira dos Países Baixos. Sua irmã, a infanta Joana, casa com o Felipe, irmão de Margaret e herdeiro do Sacro Império e Países Baixos. 1497- Partida de Lisboa da armada de Vasco da Gama Morte do herdeiro do trono de Espanha, o príncipe D. João. D. Manuel casa com D. Isabel, viúva do príncipe D. Afonso e então herdeira do reino de Espanha. 1498- Chegada de Vasco da Gama a Calecute Nascimento de D. Miguel, herdeiro das Coroas de Portugal, Leão, Castela e Aragão. A princesa Isabel falece no parto. 24/08 1500- Descoberta do Brasil Falecimento de D. Miguel D. Manuel casa com sua cunhada, a infanta D. Maria. Nascimento do príncipe Carlos, futuro V, filho de Felipe I, príncipe do Sacro Império, e Joana, a Louca, Infanta de Espanha.

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1501- D. Manuel comunica a Fernando e Isabel a descoberta da "Terra de Santa Cruz". 28/08 1502- Partida da 4º expedição de Colombo. Um cartógrafo português anônimo desenha o "mapa de Cantino" 1503- Partida de Afonso de Albuquerque para as Índias Partida da expedição que teria participado Vespúcio (maio) Júlio III assume o trono papal 1504- Morte da rainha Isabel (26/11). Felipe I, herdeiro do Sacro Império, reclama a Coroa de Castela. Retorno de Colombo à Espanha (7/11) 1505- O Papa Júlio II aboliu o voto de pobreza para os cavaleiros da Ordem de Cristo. Lutero ingressa na Ordem Agostiniana Francisco de Almeida é nomeado primeiro Vice-rei das Índias 1506- A. de Albuquerque conquista a ilha de Socotorá, em posição estratégica na entrada do mar Vermelho. Morte de Colombo (20/5) Início da dinastia safávida no Irã Fernando de Aragão casa com Germaine de Foix, sobrinha do rei de França Luis XII. Morte de Felipe I. Fernando de Aragão assume a regência de Castela 1507- Afonso de Albuquerque ocupa Ormuz, entrada do Golfo Pérsico. Waldseemueller publica um planisfério onde denomina de América o novo continente 1509- Batalha naval de Diu, onde Francisco de Almeida derrota a frota do Sultão do Cairo. Casamento de Henrique, herdeiro do trono da Inglaterra, com Catarina, filha dos Reis Católicos e viúva do príncipe Artur, irmão de Henrique. Morte de Henrique VII da Inglaterra. Seu filho assume o trono como Henrique VIII. 1510- Afonso de Albuquerque conquista Goa, fazendo dela a capital do império no Oriente. 1511- Conquista de Málaca por Afonso de Albuquerque 1512- Fernando de Aragão reconquista a Navarra cispirinaica Jerônimo Marini, em seu mapa, designa por Brasil a terra descoberta por Cabral. 1513- Vasco Nunez de Balboa atravessa o istmo do Panamá Embaixada ao Papa Leão X, tendo como conseqüência a instituição do Padroado Real nas terras descobertas a partir de 1512. 1514- O Brasil passa a fazer parte da Diocese do Funchal Início da publicação das Ordenações Manuelinas 1515- D. Manuel destitui Afonso de Albuquerque do cargo de Governador das Índias, nomeando Lopo Soares, o seu maior inimigo. para sucede-lo. Morte de Afonso de Albuquerque

248 Morte de Luis XII, rei de França, sendo sucedido por seu sobrinho Francisco I casado com sua filha Claudia. 1516- Parte de Lisboa a esquadra comandada por Cristóvão Jacques, com intuito de fiscalizar a costa do Brasil. (06) Morte de Fernando de Aragão subindo ao trono de Espanha seu neto Carlos I, filho de Joana e de Felipe I, Habsburgo. 1517- Nasce em Portugal Manuel da Nóbrega 1518- D. Manuel, novamente viúvo, casa com a Infanta D. Leonor, irmã de Carlos V, a princípio destinada a ficar noiva de seu filho, o príncipe D. João. 1519- Fernão de Magalhães parte da Espanha para a conquista das Molucas. Lutero rompe com Roma Hernan Cortez chega ao Golfo do México e se dirige ao altiplano, acompanhado de 600 homens. Morte do imperador Maximiliano do Sacro Império Romano Germânico. Seu neto Carlos, rei de Espanha, o substitui como Carlos V, apesar do trono imperial ser também reivindicado por Francisco I, rei de França. 1520- Início do reinado de Solimão II, o Magnífico, apogeu do Império Otomano. Solimão inicia a invasão Europa. Francisco Pizarro chega ao Peru com 150 homens Fernando de Magalhães atinge o Pacífico Morre em Portugal Pedro Álvares Cabral 1521- Morte de D. Manuel, assume o trono D. João III. Inácio de Loyola é ferido no cerco de Pamplona Dieta de Worms: início da difusão do luteranismo Cortez aprisiona Montezuma e conquista o império Asteca Fundação das duas primeiras universidades na América: em Lima e no México Concluída a impressão das Ordenações Manuelinas 1522- Através da bula "Eximiae devotionis" é concedido o cargo de Governador e Administrador da Ordem de Cristo a D. João III Solimão II expulsa os hospitalários da estratégica ilha de Rodes Retorno à Sevilha da expedição de Magalhães 1524- Última viagem de Vasco da Gama às Índia. D.João III negocia a compra das Molucas 1525- D. João III casa com D. Catarina d` Áustria, sua prima e irmã do imperador Carlos V. Francisco I é derrotado por Carlos V na batalha de Pávia, na Itália. 1526- Carlos V casa com D. Isabel, irmã de D. João III. Fernando, irmão de Carlos V, ganha a sucessão da Boêmia e Hungria. Solimão I, o Magnífico, derrota as forças húngaras de Fernando Habsburgo em Mohács, ocupando grande parte do sudoeste da Europa.

249 O Grão Mestre dos Cavaleiros Teutônicos seculariza a Ordem, tomando o título de Duque da Prússia. 1529- Retorno a Portugal da expedição de Cristóvão Jacques Tratado de Saragoça onde a Espanha reconhece os direitos de Portugal sob as Molucas em troca de 350.000 ducados de ouro. 1530- Os hospitalários se estabelecem na ilha de Malta Parte de Portugal a expedição comandada por Martim Afonso de Souza, capitão-mor com jurisdição tanto civil como criminal. 1531- Pizarro aprisiona Ataualpa e conquista o império inca Martim A. de Sousa chega a baía de Todos os Santos onde encontra Caramuru (15/03) 1532- Instituída a Mesa de Consciência e Ordem, tribunal específico das Ordens de Cavalaria. 1533- Calvino adere a Reforma protestante Nasce Elisabeth, filha do rei da Inglaterra Henrique VIII e de sua 2º esposa Ana Bolena. 1534- Inácio de Loyola funda a Companhia de Jesus em Paris. Henrique VIII da Inglaterra rompe com Roma e funda a Igreja Anglicana 1535- Morte de Francisco Sforza II de Milão, último da Casa dos Sforza. O ducado é ocupado por Carlos V Henrique VIII assume o título de Chefe Supremo da Igreja Anglicana 1536- Acusada de adultério, Ana Bolena é decapitada. Henrique VIII casa com Jane Seymour Calvino se estabelece em Genebra 1537- Os portugueses se estabelecem em Macau 1540- Papa Paulo III publica a bula Regimi militantis Ecclesiae instituindo a Companhia de Jesus Os portugueses estabelecem uma feitoria em Nagasaki, Japão. 1541- Francisco Xavier embarca para as Índias Calvino estabelece um governo teocrático em Genebra Os turcos derrotam a frota de Carlos V em Argel 1543- Publicação da obra de Copérnico De Revolutionibus Orium Coeleste, onde propões o sistema heliocêntrico. 1544- Nóbrega ingressa na Companhia de Jesus. 1545- Francisco de Borja funda o 1º colégio jesuíta em Gandia Abertura do Concílio de Trento (dez.). 1547- Morte de Francisco I, sendo substituído no trono da França por seu filho Henrique II, casado com Catarina de Médicis.

250 Morte de Henrique VIII. É sucedido por Eduardo VI, seu filho com Jane Seymour. , 1549- Tomé de Souza chega ao Brasil, acompanhado dos primeiros jesuítas, chefiados por P. Manoel de Nóbrega. 1550- Fundação da cidade de Salvador O Papa Júlio III dá o Título de Grão Mestre da Ordem de Cristo a D. João III. Tem início da obras do claustro de D. João III no mosteiro de Tomar. Júlio III confirma a Companhia de Jesus através da bula Exposcit debitum 1551- Loyola funda o Colégio Romano Júlio III cria o Bispado do Brasil com sede em Salvador 1552- O príncipe herdeiro da Coroa de Portugal, D. João, casa com sua prima Joana, filha de Carlos V que, por outro lado, casa com a irmã de D.João. 1553- Morte de Eduardo VI, da Inglaterra. É sucedido no trono por Lady Jane Grey. 1554- Muhammada As-Sayh unifica o reino de Marrocos, iniciando a dinastia xafárida. Maria Tudor, irmã católica de Eduardo VI, assume o trono da Inglaterra. Lady Jane Grey, de apenas dezessete anos, é decapitada. Morte do Príncipe de Portugal D. João Manuel alguns dias após o nascimento de seu filho, D. Sebastião. 1555- Villegaignon invade a baía da Guanabara 1556- Morte de Loyola. Abdicação de Carlos V, internado-se no mosteiro de Yuste. Seu império dividido entre seu irmão Fernando (Sacro Império) e seu filho Felipe II (Castela, Aragão, Países Baixos e o Ducado de Milão). 1557- Morte de D. João III. A rainha D. Catarina d'Austria assume a regência de Portugal Chegada de Mém de Sá, 3º Governador Geral. 1558 Diogo Laínez é eleito Geral da Companhia Morte de Carlos V no mosteiro de Yuste Morte de Maria Tudor.Sua meia-irmã Elisabeth assume o trono da Inglaterra 1559- Morte de Henrique II de França, sendo substituído por seu filho Francisco II. 1560 Após da morte de seu irmão, Carlos IX assume o trono da França. 1561- Felipe II estabelece o governo permanente me Madri 1562- O cardeal D. Henrique substitui D. Catarina na regência de Portugal 1565- Estácio de Sá ocupa a entrada da baía da Guanabara, fundando aí a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro (março). Felipe II impede que a Ilha de Malta, sede dos hospitalários, fosse tomada pelos turcos.

251 1566- Morte de Solimão, o Magnífico. A Holanda se revolta contra o domínio espanhol 1567- Mém de Sá chega a Guanabara e derrota definitivamente os franceses (20/01) A rainha Maria da Escócia é forçada a abdicar em favor de seu filho James, ainda menor. O Duque de Alva chega à Holanda e inicia uma sangrenta repressão 1568- D. Sebastião assume o trono de Portugal, com a idade de quatorze anos. Revolta dos mouros na Espanha. Felipe II condena-os a escravidão 1569- Gerardus Mercartus publica seu primeiro mapa na projeção cilíndrica modificada 1570 D. Sebastião proíbe a remessa de índios escravizados para o Reino 1571- Solimão é derrotado na batalha naval de Lepanto pela Liga Santa, formada por Espanha, Veneza e a Santa Sé. Os protestantes franceses são massacrados na "Noite de São Bartolomeu" 1572- Henrique de Navarra casa com a irmã de Carlos IX, Margarida de Valois. Guilherme de Orange é eleito como governante de Holanda 1573- Acordo de paz entre os turcos e Veneza, que perde a ilha de Chipre. 1574- Morte de Carlos IX de França, sendo substituído por seu irmão Henrique III. 1578- Morre na batalha de Álcacer Quibir D. Sebastião, reassumindo o trono de Portugal seu tio, o cardeal D. Henrique (agosto). 1579- Tratado de Ultrecht, formando uma república federativa independente de Espanha pelas setes províncias calvinistas dos Países-Baixos, sendo Guilherme de Orange o seu governador. 1579- Falecimento do cardeal D. Henrique. 1580- Batalha de Alcântara, onde as forças espanholas comandadas pelo Duque de Alvas derrotam as forças de D. Antonio, Prior do Crato. 1581- Corte de Tomar, onde Felipe II de Espanha é proclamado rei de Portugal como Felipe I, formando assim a União Ibérica.

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