P. 1
SAMIZDAT22

SAMIZDAT22

5.0

|Views: 356|Likes:
Por que Samizdat? , Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Antonio Luiz M. C. Costa

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Carta a El Rei D. Manuel (excerto), Pero Vaz de Caminha

MICROCONTOS
Primeira Lição Colonial, Simone Santana

CONTOS
O Messias do Ocidente, Joaquim Bispo
Imagem de Barro, Wellington Souza
O Troféu, Volmar Camargo Junior
O Sorteio , Henry Alfred Bugalho
Relações Postais, José Guilherme Vereza
Ventanas (I), Sheyla Smanioto Macedo
A Sogra, Mariana Valle
12 de outubro sob ataque, Léo Borges
We’ll always have Paris, Barbara Duffles
Duetos Assassinos, Giselle Sato
Conspiração ZHAARP - Big Bang Microcósmico - Capítulo 4, Dênis Moura

TRADUÇÃO
Carta de Cristóvão Colombo anunciando o descobrimento da América

TEORIA LITERÁRIA
Caminhos para o autor independente, Henry Alfred Bugalho
Jogue sua Gramática no Lixo, Guilherme Augusto Rodrigues

CRÔNICA
Eu não gosto de ninguém da América do Sul, Léo Borges
Quem é você, quem sou eu?, Ju Blasina

POESIA
Laboratório Poético, Volmar Camargo Junior
Blavino, Ju Blasina
Poetrix, Ju Blasina
Sonata da Criação, Wellington Souza

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT
Por que Samizdat? , Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Antonio Luiz M. C. Costa

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Carta a El Rei D. Manuel (excerto), Pero Vaz de Caminha

MICROCONTOS
Primeira Lição Colonial, Simone Santana

CONTOS
O Messias do Ocidente, Joaquim Bispo
Imagem de Barro, Wellington Souza
O Troféu, Volmar Camargo Junior
O Sorteio , Henry Alfred Bugalho
Relações Postais, José Guilherme Vereza
Ventanas (I), Sheyla Smanioto Macedo
A Sogra, Mariana Valle
12 de outubro sob ataque, Léo Borges
We’ll always have Paris, Barbara Duffles
Duetos Assassinos, Giselle Sato
Conspiração ZHAARP - Big Bang Microcósmico - Capítulo 4, Dênis Moura

TRADUÇÃO
Carta de Cristóvão Colombo anunciando o descobrimento da América

TEORIA LITERÁRIA
Caminhos para o autor independente, Henry Alfred Bugalho
Jogue sua Gramática no Lixo, Guilherme Augusto Rodrigues

CRÔNICA
Eu não gosto de ninguém da América do Sul, Léo Borges
Quem é você, quem sou eu?, Ju Blasina

POESIA
Laboratório Poético, Volmar Camargo Junior
Blavino, Ju Blasina
Poetrix, Ju Blasina
Sonata da Criação, Wellington Souza

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

More info:

Published by: Henry Alfred Bugalho on Nov 02, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial No-derivs

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

05/18/2013

pdf

text

original

Sections

SAMIZDAT - O Brasil sem-
pre teve um papel secundá-
rio (ou terciário) no cenário
de Ficção Científca e Fanta-
sia mundial. A que se deve
este fenômeno?

ANTONIO LUIZ M.C. COS-
TA –
Bom, no que se refere à
FC contemporânea, fora EUA,
Canadá, Reino Unido, Japão,
Rússia e (mais recentemente)
China, todos os países são
secundários, salvo por um
ou outro autor isolado de
estatura internacional (como,
por exemplo, Stanislav Lem
na Polônia e Valerio Evan-

gelisti na Itália). Mas bem
que o Brasil podia ser menos
secundário do que é.

A literatura de fantasia, no
sentido mais geral do ter-
mo, tem uma difusão mais
ampla e nela não acho que
o Brasil esteja tão mal. Mas
vou deixar para falar disso
na pergunta seguinte e tratar
primeiro da FC.

Uma parte do problema é
antiga e estrutural – o cará-
ter agrário e dependente do
País até a primeira metade
do século XX, que criou uma

elite bacharelesca e conser-
vadora, míope em relação ao
futuro e que menosprezava a
ciência e tecnologia. Na era
JK começamos a superar essa
herança, a nos ver como o

“País do Futuro” e a produzir
alguma fcção científca de

razoável qualidade para a
época, a chamada Primeira
Onda, que incluiu escritores
respeitados nos meios literá-
rios.

Mas então veio o golpe mi-
litar e a ditadura envenenou
a cultura em vários aspectos,

inclusive a fcção científca.

Antonio Luiz Melo Coelho da
Costa, colunista e editor da revis-
ta CartaCapital, autor de dezenas
de contos de Fantasia e Ficção

Científca (um deles já publicado

aqui conosco, na SAMIZDAT 21 -

Mistério e Suspense), dono de várias
comunidades no orkut relacionadas
à chamada Ficção Especulativa

- Fantasia, FC, Horror, História
Alternativa, e, adicionalmente, idio-
mas imaginários... - concedeu-nos

esta excelente entrevista, falando

sobre um dentre tantos assuntos que
domina: a literatura.

http://1.bp.blogspot.com

/_4SBeCN

1D

H

AA/SkTR-y3H

UdI/AAAAAAAAApE/Tr1D

CIM

CP14/s320/lu%

C3%

AD

s+dill.jpg

8

SAMIZDAT novembro de 2009

9

www.revistasamizdat.com

De um lado, veio a ênfase
tecnocrática na formação

de profssionais científcos e

tecnológicos por atacado e a
toque de caixa, em colégios e
faculdades particulares com
pouco ou nenhum interesse
em formação humanista. De
outro, a censura do debate
político, a perseguição de

intelectuais e a desconfança

em relação às ciências huma-
nas, vistas como viveiro de
subversivos.

De um lado, se formaram en-
genheiros, cientistas e técni-
cos sem gosto por debate de
idéias nem por literatura, que

até curtem a fcção científca

como espetáculo, no cinema
e nos seriados de tevê, mas
não têm paciência para abrir
um livro nem para especular
sobre o futuro com serieda-
de. De outro, letrados, histo-
riadores e cientistas sociais
que desprezam a fcção cien-
tífca como fuga da realidade,

alienação em relação aos
problemas políticos e sociais
do Brasil e propaganda do
imperialismo. Até porque o
que mais se publicava e lia
no gênero eram os clássicos
da Golden Age estaduniden-

se, muitos dos quais (“Tropas
Estelares” é o exemplo mais

óbvio) de fato promoviam
valores militaristas e impe-

rialistas – enquanto a fcção
científca mais contestadora

da New Age, disposta a falar
de sexo, drogas, política e
outros tabus (Ursula K. Le
Guin, Philip K. Dick etc.) foi
pouco editada e conhecida.

O resultado foi uma longa

seca de edições de fcção
científca, tanto nacionais

quanto traduzidas, que se
prolongou por mais de uma
década após o fm da dita-

dura e até o início do novo
século. Quem gostava de ler
não gostava de FC e vice-
versa, salvo tais ou quais
exceções. Ora, a verdadeira
FC criativa – aquela que faz
valer mais a especulação
inovadora do que a ação e
efeitos especiais – vive da
intersecção e do diálogo das
duas culturas, a humanista

e a científca. O escritor e

o leitor precisam ser pesso-
as que gostam de literatu-
ra, interessadas no destino
humano e ao mesmo tempo
no progresso da ciência e em
suas possíveis conseqüên-
cias para o espírito e para a
sociedade.

Para que um público como
esse exista, é preciso uma
formação mais equilibrada e,
de preferência, democrática –
pois a democracia incentiva
o confronto de idéias, in-
clusive idéias estranhas. Por
mais que se reclame do ensi-
no no Brasil, me parece que
a educação dos anos 90 em
diante conseguiu abrir para
o diálogo entre culturas uma
parte da geração mais nova,
aquela que nasceu nos últi-
mos anos da ditadura e cres-
ceu na democracia, pois dela
vem vindo uma enxurrada
de textos novos, primeiro na
internet e depois também em
papel – e, mais recentemente,
também editoras. Como de
costume, grande parte é lixo,
mas muita coisa vai durar.

SAMIZDAT – E como você
percebe o papel da produção
atual no Brasil nestes gêne-
ros? Existem obras e autores
de destaque, comparáveis ao
que tem sido feito no exte-
rior?

ANTONIO LUIZ – Na fcção

científca, estamos recome-
çando depois de uma longa
crise, mas eu diria que há
autores que se comparam
bem ao que tem sido produ-
zido lá fora. Se houvesse um
público e um mercado que
lhes permitisse dedicar-se
em tempo integral à litera-
tura, como existe nos EUA e
Reino Unido, e se desenvol-
ver plenamente como escri-
tores, acredito que estariam
à altura da melhor produção
desses países. Com o risco
de cometer injustiças, cito
alguns exemplos: Gerson
Lodi-Ribeiro, Fábio Fernan-
des e Carlos Orsi, entre os
que começaram a carreira

ainda na “Idade das Trevas” e

Cristina Lasaitis, Osíris Reis
e Saint-Clair Stockler entre
os iniciantes.

Na fantasia, como eu ia
dizendo na pergunta ante-
rior, a história é outra. O
Brasil, como outros países
da América Latina, tem
uma forte tradição de temas
folclóricos e fantásticos na
literatura, presente na obra
de seus maiores escritores e
nunca totalmente interrompi-
da: podemos citar Machado
de Assis, Mário de Andrade,
Monteiro Lobato, Guimarães
Rosa, Jorge Amado, Murilo
Rubião e José J. Veiga, e há
outros menos conhecidos.
Assim como muitos grandes
escritores europeus e norte-
americanos oscilaram entre
a fantasia e o realismo e as

vezes fcaram mais para lá

do que para cá – Maupas-
sant, Gogol, Kafka, Stevenson,
Melville, Poe, Flaubert, Swift
e Shakespeare, só para citar
os primeiros que me ocor-
rem. É questão de reconhecer
a presença do fantástico em
nossa tradição, mais do que

9

www.revistasamizdat.com

http://1.bp.blogspot.com

/_4SBeCN

1D

H

AA/SkTR-y3H

UdI/AAAAAAAAApE/Tr1D

CIM

CP14/s320/lu%

C3%

AD

s+dill.jpg

10

SAMIZDAT novembro de 2009

de pedir por mais. Será que
na França tem algum grande
romance mais fantástico do
que Macunaíma? Pensando
em qualidade intrínseca e
ousadia, não em livros vendi-
dos ou grau de modernidade,
será Harry Potter superior ao
Sítio do Picapau Amarelo? Eu
não acho.

Temos também uma razoá-
vel produção no campo do
terror. Na minha opinião,
Martha Argel e Giulia Moon,

por exemplo, não fcam nada

a dever a Anne Rice.

O que o Brasil de fato não
tem é tradição em Alta Fan-
tasia, gênero que começou a
ser inventado na Inglaterra
vitoriana, mas permaneceu
mais ou menos na obscuri-
dade até os anos 60, quando
Tolkien virou moda nos
EUA e foi reinterpretado no
espírito da New Wave e da
New Age, originando um
novo respeito pelo mito e
pela construção de mundos
totalmente imaginários. Nes-
se campo, praticamente só
temos imitadores, a maioria
dos quais sequer compre-
endeu o que tenta imitar e
se limita a reciclar superf-
cialmente temas e clichês.
Ainda não há nada que
valha a pena ser mencionado
em termos de Alta Fantasia
nacional, nem surgiu alguém
disposto a imaginar o novo e
não apenas mais uma varian-
te do que já foi feito lá fora.

SAMIZDAT: Habitualmen-
te, os escritores de Fantasia
costumam se inspirar, quase
parasitariamente, nos autores
e na mitologia anglo-saxã.
Existe público para universos
de fantasia tipicamente brasi-
leiros, que traga elementos da

mitologia, da fauna, fora, da

História e dos comportamen-
tos nossos?

ANTONIO LUIZ – Existir,
claro que existe. O Rober-
to Causo, por exemplo, tem
escrito uma série de histó-
rias, A Saga de Tajarê, já com
duas novelas, em um mundo
de fantasia amazônico e a
Michelle Klautau fez um
crossover entre o mundo dos
mitos europeus e o do folclo-
re brasileiro em A Lendária
Hy-Brasil, uma ideia que
poderia ser mais explorada.
No gênero infanto-juvenil, há
montes de livros baseados no
folclore e na história do Bra-
sil, que continuam a tradição
de Monteiro Lobato e têm
boa aceitação.

Claro que quem faz fanta-

sia tolkieniana pode fcar

tranqüilo quanto a que, seu
trabalho, mesmo que seja
ruim, vai ser entendido por
quem joga D&D ou viu O
Senhor dos Anéis no cine-
ma. Mas, em termos de Alta
Fantasia, ninguém vai sair da
mediocridade enquanto não
tentar algo diferente de fazer
decalques da Terra Média.
É preciso arriscar mais e
descobrir maneiras novas de
apresentar um mundo dife-
rente do já visto.

Mas me entendam bem, acho
um passo importante os as-
pirantes a escritores de Alta
Fantasia brasileiros se livra-
rem da camisa-de-força do
modelo tolkieniano e de seus
reis, princesas, águias, lobos,
magos, elfos e orcs. Mas não
se trata de pedir-lhes que
escrevam sobre índios, escra-
vos negros, onças, uirapurus,
sacis, iaras e mulas-sem-ca-
beça. O importante é liberar

a imaginação. Que inventem
mundos baseados na imagi-
nação asteca, grega, japonesa,
indiana ou chinesa, se quise-
rem, mas que queiram criar
com sinceridade.

Agora, o que os imitadores

da fcção anglo-saxã não

conseguem evitar, querendo
ou não, é que os personagens
tenham comportamentos
“brasileiros”. É muito engra-
çado: seja em um palácio

real, uma aldeia élfca ou

uma escola de magos, os
personagens de qualquer
idade e meio social falam, se
comportam e reagem como
jovens brasileiros de clas-
se média em torno de uma
mesa de RPG do século XXI,
ou como personagens da
Globo. Há uma atração pelo

superfcialmente fantasioso

e exótico, mas também um
tremendo provincianismo
quanto às formas de pensar e
sentir. Eles não entendem que
a maneira dos integrantes de
uma família real medieval,
digamos, se relacionarem
entre si, tratarem com ou-
tras famílias e conduzir suas
rotinas era completamente
diferente das pessoas de hoje
e os põe a falar como a famí-
lia rica da novela das oito.

SAMIZDAT – Quais são os
temas que motivam a sua
escrita fccional? É importan-
te que a fcção defenda uma

tese?

ANTONIO LUIZ – Um dos
temas mais presentes em mi-
nhas histórias é a de trans-
formação coletiva. Frequen-
temente, minhas histórias se
situam um momento histo-

ricamente signifcativo para

seus cenários imaginários, o
momento de um progresso

10

SAMIZDAT novembro de 2009

11

www.revistasamizdat.com

11

www.revistasamizdat.com

importante ou de uma gran-
de reviravolta social, política
ou cultural. Os personagens
podem ter ou não consciên-
cia do que está acontecendo,
mas seus atos estão relacio-
nados a isso, como causa ou
como efeito. Outro tema co-
mum, que pode se combinar
ou não ao primeiro, é o do
sincretismo cultural, geral-
mente na forma de persona-
gens que conhecem outros
de uma cultura ou mesmo
espécie diferente com o qual
aprendem coisas novas ou
desenvolvem um relaciona-
mento próximo. Claro que

também fguram, por vezes,

casos de encontros destruti-
vos, mas acho os construtivos
bem mais interessantes de
explorar.

Quanto a “defender uma
tese”, a fcção sempre faz isso,

quer o autor saiba disso, quer
não. Quem pensa que está

fazendo uma fcção “neutra”

defende as ideias recebidas
e lugares-comuns de seu
tempo na medida em que os
reproduz sem críticas. Um
escritor de folhetins do sécu-
lo XIX, por exemplo, podia
pensar que estava apenas
ganhando seu pão, mas aos
nossos olhos é óbvio que es-
tava, por exemplo, defenden-
do a submissão feminina ao
descrever frágeis heroínas à
mercê da luta entre um vilão
repulsivo e um herói galante.

Um inconformista, por outro
lado, geralmente está cons-
ciente de que tem ideias
diferentes da maioria e de
sua vontade de propagá-las,
sejam elas conservadoras ou
progressistas – mas comete
um grande erro se faz isso
de maneira grosseira, pin-
tando como monstros ou

idiotas aqueles que pensam
de maneira diferente (como,
por exemplo, o reacionário
C. S. Lewis), ou subordina a
trama a pregações tediosas
na narrativa ou na boca dos

heróis. Em fcção, as ideias
são muito mais efcazes se

expressas de maneira sutil e
divertida.

SAMIZDAT – No mercado
editorial brasileiro, Fantasia
e FC ocupam um espaço
muito restrito. Isto se deve a
algum tipo de estreiteza de
horizontes das editoras, ou
o leitor brasileiro simples-
mente não está acostumado
a ler tais gêneros? Existe
alguma maneira para driblar
esta barreira e se consolidar
como autor neste segmento?

ANTONIO LUIZ – Há tanto
leitores que reclamam que
as editoras não lançam
coisas novas (eu sou um
deles) quanto editoras que
reclamam que esses gêne-
ros não vendem. Quem veio
primeiro, o ovo ou a gali-

nha? Desconfo que o ovo: é

difícil vender um lançamento
novo porque as editoras não
querem cultivar esse mer-
cado, embora briguem de
foice para publicar uma obra
estrangeiro de fantasia ou FC
depois que se torna best-
seller ou é adaptada para o
cinema (Michael Crichton, J.
K. Rowling, Tolkien, Philip
K. Dick etc.).

Por outro lado, já ouvi os
editores da Aleph se quei-
xarem de que os livros de
fcção científca mais “inova-
dores” que vêm publicando
– e “inovador” pode signifcar
da década de 80, como Valis

ou mesmo de 1969, como
A Mão Esquerda da Escu-

ridão! – estão encalhando,
enquanto a Fundação e O
Fim da Eternidade de Asimov
(anos 50) e Laranja Mecânica
de Burguess (1962) vendem
relativamente bem. É preciso
explicar o conservadoris-
mo também por parte dos
leitores. Talvez esse público,

que não lê fcção em inglês,

só conheça obras já antigas
que leram há muito tempo,
encontraram em sebos ou
foram recomendados pelos
mais velhos e por isso só
saibam falar, pessoalmente
ou na internet, sobre esses

“clássicos”. Quando alguma

editora arrisca lançar algo
mais novo, é bem possível
que deixem de comprar por
nunca ter ouvido falar e não
querer arriscar. Que na hora
de presentear um amigo, ou
mesmo de escolher algo para

ler, prefram mesm algo que

já ouviram falar que todo
mundo (do seu círculo) gosta.
Que faltem leitores ousados,
desbravadores do desconhe-
cido.

Mesmo assim, acho uma
aberração por parte da Ale-
ph priorizar o relançamento
do Asimov dos anos 50 e
deixar de publicar livros que

fzeram época nos anos 90 e

2000, como The Difference
Engine, Hyperion e Perdido
Street Station – ou mesmo
os últimos (e para mim
mais interessantes) livros de

Asimov, os dos anos 80. Será

que todo o público leitor da

fcção científca virou um

reduto conservador e saudo-
sista, apegado ao futuro que
seus avós imaginaram e com
medo de pensar coisas novas?
Não posso crer, deve ter algo
de errado nesse raciocínio. Se
for verdade, melhor esquecer
a FC e dedicar-se à fantasia

12

SAMIZDAT novembro de 2009

12

SAMIZDAT novembro de 2009

ou à literatura mainstream.

Prefro pensar que a Aleph

está escolhendo os livros er-
rados ou não sabe promovê-
los (por exemplo, as capas,
em geral, não sugerem que se
trata de FC).

Infelizmente, não tenho uma
receita mágica para driblar o
círculo vicioso. O mais que
posso é fazer minha parte,
dando preferência a resenhar
e recomendar as boas obras
novas que surgem no merca-
do.

SAMIZDAT – Na sua opi-

nião, fcção de gênero e

literatura mainstream são
realmente distintas? É possí-
vel, academicamente, encon-
trar valor literário em obras
enquadradas (por fãs, por
editor...) em algum gênero,
como Fantasia ou FC?

ANTONIO LUIZ – São
distintas na medida em que
têm prioridades diferentes.
O chamado mainstream (que

não é necessariamente fcção
“realista”) busca a expressão

criativa, a fantasia e a FC
enfatizam a especulação cria-
tiva. Em geral, quem julgar

a fcção especulativa pelos
critérios da fcção mainstre-
am vai achá-la aborrecida de
má qualidade, e vice-versa –
salvo umas poucas obras que
conseguem brilhar razoa-
velmente nos dois aspectos
como, digamos, Admirável
Mundo Novo. Claro que é
preciso um mínimo de téc-
nica e valor literário para se

escrever um livro de fcção

especulativa decente, mas ela
deve servir à especulação,
não o contrário. Então, mi-
nha resposta seria: é possível
encontrar valor nesses gêne-
ros, mas em geral não o mes-

mo que se busca na chamada
grande literatura. É preciso
outra maneira de os ler e
analisar que não o enfoque
do acadêmico tradicional,
estudante de letras, mas a
do estudioso da cultura e da
ideologia, algo mais próximo
daquilo que os anglo-saxões
chamam Cultural Studies.

SAMIZDAT – Na comuni-

dade do orkut “Escritores
- Teoria Literária”, foi criado

um tópico com a seguinte

pergunta: “HQ é Literatura?”.

A discussão foi acalorada,
mas manteve-se dentro do
aceitável. As coisas realmen-

te partiram para “um outro
nível de discussão” quando

alguém argumentou que
Watchmen consta em uma
lista da revista TIME, de
2005: “TIME critics Lev Gros-
sman and Richard Lacayo
100 best English-language

novels from 1923 to the
present”. (http://www.time.

com/time/2005/100books/
the_complete_list.html)

Para você, HQ pode ser
considerado literatura, ou,
como se diz, trata-se de uma
forma de arte autônoma - a
chamada Nona Arte? Qual é
o valor, como argumento, de
uma lista de “os cem melho-
res” como a que foi citada?

ANTONIO LUIZ - Watch-
men não devia estar nessa
lista. Não se pode avaliar o
texto de uma história em
quadrinhos com os critérios
com que se avalia um ro-
mance, nem pelos que ser-
vem para avaliar uma pintu-
ra ou gravura. Assim como
também não se pode avaliar
um roteiro de cinema por
quaisquer desses critérios. .
São formas de arte diferentes.

Assim como não se pode
avaliar uma canção dançante
de Gilberto Gil pelos crité-
rios com que se avalia uma
sinfonia de Villa-Lobos ou
um poema de Camões.

Se Watchmen fosse um dos
100 melhores romances em

inglês desde 1923, haveria de

ser a melhor obra de arte do
século XX, talvez de todos os
tempos... pois, em Watchmen,
o texto é apenas um ele-
mento da obra, que depende

mais da combinação efcaz

de texto e imagem do que
de qualquer desses aspectos
separados. Claro que não é
assim. Watchmen é uma das
melhores graphic novels já
feitas, mas o texto, separa-
do da imagem, é pobre em
relação a qualquer romance
mediano. Não comparemos
laranjas com bananas.

SAMIZDAT – Desde há

muito línguas artifciais são

pensadas. Algumas chegaram
a ganhar certa relevância,
como o Esperanto, enquanto

que outras fcam restritas aos

seus criadores ou pequenos
grupos de discussão. Qual
sua experiência pessoal com
o desenvolvimento de idio-
mas?

ANTONIO LUIZ – Eu inven-
tei um idioma de maneira

mais completa, o “senzar”,

e alguns outros de manei-
ra mais fragmentária como
parte do cenário de um ro-
mance de fantasia ainda não
publicado, sem a pretensão
de que o senzar ou qualquer
outro deles seja usado por
mais alguém. Meu princi-
pal objetivo era que nomes
de lugares e personagens
soassem diferentes de lín-
guas conhecidas, para criar

13

www.revistasamizdat.com

13

www.revistasamizdat.com

a sensação de um mundo
realmente exótico, mas sem
que os nomes parecessem
absurdos ou incoerentes. As-
sim, personagens da mesma
etnia têm nomes de estrutura
semelhante e característica,
diferente de personagens
de outras etnias. Ao mes-
mo tempo, à medida que eu
tinha de inventar palavras
e conceitos, me ajudou a ter
em mente que ideias e com-
portamentos não deviam ser
necessariamente semelhantes
a qualquer cultura conhecida,
mas deviam ter coerência
entre si.

É um recurso que exige
algum conhecimento de
linguística e muito gosto
pela coisa. Pessoalmente,
fquei satisfeito com o re-
sultado. Sempre achei um
tanto ridículo que nomes de
personagens de um mundo
imaginário inventado por
um brasileiro tenham nomes
anglo-americanos. Também
não me parece apropriado
que os personagens de um
mundo de fantasia tenham
nomes brasileiros, a menos
que o cenário um Brasil futu-
ro ou paralelo, que não era o
caso desse romance.

Claro, quem trabalha um
mundo baseado na Inglaterra
medieval deve usar nomes
ingleses. Mas quase nunca é
o caso – e mesmo que fosse,
nem todos os nomes usados
no inglês moderno serviriam.
Parece-me igualmente ruim
misturar ao acaso nomes de
diferentes origens e culturas
– isso só faz sentido em uma
grande cidade cosmopolita
ou em um cenário futurista.
Acho importante estar atento
a essas minúcias, pois, no

fm das contas, um mundo

literário é feito apenas de
palavras.

SAMIZDAT – Uma vez que
as línguas sejam fenômenos
sócio-culturais, é válida a
criação de novos idiomas
sem que esses estejam as-
sentados sobre um contexto
cultural previamente desen-
volvido?

ANTONIO LUIZ – Para uso

artístico ou fccional, bem

válido. Para uso prático, eu
não desencorajaria quem
queira tentar, mas é obvia-
mente difícil que um idioma
artifcial se torne amplamen-
te usado, a menos que isso
seja imposto por um Estado
– ou uma organização glo-
bal, no caso de um idioma
universal. Por uma questão
de justiça, eu preferiria ver
um governo mundial usar

um idioma artifcial neutro a

usar o mandarim, o inglês ou
o português.

SAMIZDAT – É possível
esperar que as línguas ar-
tifciais deixem de ser vis-
tas essencialmente como
passatempo ou ferramenta
auxiliar para a escrita de

fcção científca e passem a

ser reconhecidas formas de
expressão artística?

ANTONIO LUIZ – Não
acho que criar línguas para
expressão artística fora de
um contexto literário ou

cinematográfco tenha muito

futuro. Creio que Tolkien fez
mais ou menos isso, inventou

as línguas élfcas por puro

prazer estético. Mas se não
escrevesse um romance no
qual pudessem ser citadas, só
ele – e, talvez, um ou outro

colega flólogo – as teria

apreciado como arte. Claro
que há formas de arte ainda
mais estranhas e difíceis de
entender e que fazem sucesso
em bienais e galerias, mas eu
não apostaria nisso.

SAMIZDAT – Um pouco de
história alternativa: como
você imagina o Brasil, em
termos linguísticos, caso o
Marquês de Pombal não
tivesse proibido a utilização
da lingua geral?

ANTONIO LUIZ – Podería-
mos ter o nheengatu falado
nas ruas e aprendido nas
escolas ao lado do portu-
guês, assim como o Para-
guai usa e ensina o guarani
junto com o castelhano. Não
faria necessariamente muita
diferença em questões polí-
ticas e sociais – o Paraguai é
um país tão injusto quanto
o nosso – mas poderíamos
ter uma identidade nacional
mais marcada (justamente o
que Pombal queria evitar),
mais respeito pela cultura in-

dígena e mais afnidade com

outros países sul-americanos,
ou pelo menos com a Bolívia,
Paraguai e Argentina, onde
línguas da família tupi são
faladas.

Coordenação da entrevista:

Volmar Camargo Junior

Perguntas feitas por:

Caio de Oliveira
Carlos Alberto Barros
Henry Alfred Bugalho
Volmar Camargo Junior

14

SAMIZDAT novembro de 2009

autor em Língua Portuguesa

Carta de Pero Vaz de Caminha

a El rei d. manuel

(excerto)

http://www.tankonyvtar.hu/site/im

g/historia/1992_92-056_03_Rakoczi3_original.jpg

15

www.revistasamizdat.com

Carta de Pero Vaz de Caminha

a El rei d. manuel

(excerto)

Senhor,

posto que o Capitão-
mor desta Vossa frota, e
assim os outros capitães
escrevam a Vossa Alteza
a notícia do achamento
desta Vossa terra nova,
que se agora nesta nave-
gação achou, não deixarei
de também dar disso mi-
nha conta a Vossa Alteza,
assim como eu melhor
puder, ainda que — para
o bem contar e falar —
o saiba pior que todos
fazer!

Todavia tome Vossa
Alteza minha ignorância
por boa vontade, a qual
bem certo creia que, para
aformosentar nem afear,
aqui não há de pôr mais
do que aquilo que vi e
me pareceu.

Da marinhagem e das
singraduras do caminho
não darei aqui conta a
Vossa Alteza — porque
o não saberei fazer — e
os pilotos devem ter este
cuidado.

E portanto, Senhor, do
que hei de falar começo:

E digo quê:

A partida de Belém
foi, como Vossa Alteza
sabe, segunda-feira 9
de Março. E sábado, 14

do dito mês, entre as 8

e 9 horas, nos achamos
entre as Canárias, mais
perto da Grande Caná-
ria. E ali andamos todo
aquele dia em calma, à

vista delas, obra de três a
quatro léguas. E domingo,
22 do dito mês, às dez
horas mais ou menos,
houvemos vista das ilhas
de Cabo Verde, a saber
da ilha de São Nicolau,
segundo o dito de Pero
Escolar, piloto.

Na noite seguinte à
segunda-feira amanheceu,
se perdeu da frota Vasco
de Ataíde com a sua nau,
sem haver tempo forte ou
contrário para poder ser!

Fez o capitão suas
diligências para o achar,
em umas e outras partes.
Mas... não apareceu mais!

E assim seguimos
nosso caminho, por este
mar de longo, até que
terça-feira das Oitavas de
Páscoa, que foram 21 dias
de abril, topamos alguns
sinais de terra, estando
da dita Ilha — segundo
os pilotos diziam, obra de

660 ou 670 léguas — os

quais eram muita quan-
tidade de ervas compri-
das, a que os mareantes
chamam botelho, e assim
mesmo outras a que dão
o nome de rabo-de-asno.
E quarta-feira seguinte,
pela manhã, topamos
aves a que chamam fura-
buchos.

Neste mesmo dia, a
horas de véspera, hou-
vemos vista de terra! A
saber, primeiramente de
um grande monte, mui-
to alto e redondo; e de

outras serras mais baixas
ao sul dele; e de terra
chã, com grandes arvore-
dos; ao qual monte alto o
capitão pôs o nome de O
Monte Pascoal e à terra
A Terra de Vera Cruz!
Mandou lançar o prumo.
Acharam vinte e cinco
braças. E ao sol-posto
umas seis léguas da terra,
lançamos ancoras, em
dezenove braças — anco-

ragem limpa. Ali fcamo-

nos toda aquela noite. E
quinta-feira, pela manhã,

fzemos vela e seguimos

em direitura à terra,
indo os navios pequenos
diante — por dezessete,
dezesseis, quinze, catorze,
doze, nove braças — até
meia légua da terra, onde
todos lançamos ancoras,
em frente da boca de um
rio. E chegaríamos a esta
ancoragem às dez horas,
pouco mais ou menos.

E dali avistamos ho-
mens que andavam pela
praia, uns sete ou oito, se-
gundo disseram os navios
pequenos que chegaram
primeiro.

Então lançamos fora os
batéis e esquifes. E logo
vieram todos os capitães
das naus a esta nau do
Capitão-mor. E ali fala-
ram. E o Capitão mandou
em terra a Nicolau Co-
elho para ver aquele rio.
E tanto que ele começou
a ir-se para lá, acudiram
pela praia homens aos

16

SAMIZDAT novembro de 2009

dois e aos três, de ma-
neira que, quando o batel
chegou à boca do rio, já
lá estavam dezoito ou
vinte.

Pardos, nus, sem coisa
alguma que lhes cobrisse
suas vergonhas. Traziam
arcos nas mãos, e suas
setas. Vinham todos
rijamente em direção
ao batel. E Nicolau Co-
elho lhes fez sinal que
pousassem os arcos. E
eles os depuseram. Mas
não pôde deles haver
fala nem entendimento
que aproveitasse, por o
mar quebrar na costa.
Somente arremessou-lhe
um barrete vermelho e
uma carapuça de linho
que levava na cabeça, e
um sombreiro preto. E
um deles lhe arremessou
um sombreiro de penas
de ave, compridas, com
uma copazinha de penas
vermelhas e pardas, como
de papagaio. E outro lhe
deu um ramal grande de
continhas brancas, miú-
das que querem parecer
de aljôfar, as quais peças
creio que o Capitão man-
da a Vossa Alteza. E com
isto se volveu às naus por
ser tarde e não poder
haver deles mais fala, por
causa do mar.

À noite seguinte ven-
tou tanto sueste com
chuvaceiros que fez caçar
as naus. E especialmente
a Capitaina. E sexta pela
manhã, às oito horas,

pouco mais ou menos,
por conselho dos pilotos,
mandou o Capitão levan-
tar ancoras e fazer vela. E
fomos de longo da costa,
com os batéis e esquifes
amarrados na popa, em
direção norte, para ver
se achávamos alguma
abrigada e bom pouso,

onde nós fcássemos, para

tomar água e lenha. Não
por nos já minguar, mas
por nos prevenirmos

aqui. E quando fzemos

vela estariam já na praia
assentados perto do rio
obra de sessenta ou se-
tenta homens que se
haviam juntado ali aos
poucos. Fomos ao lon-
go, e mandou o Capitão
aos navios pequenos que
fossem mais chegados à
terra e, se achassem pou-
so seguro para as naus,
que amainassem.

E velejando nós pela
costa, na distância de
dez léguas do sítio onde
tínhamos levantado ferro,
acharam os ditos navios
pequenos um recife com
um porto dentro, muito
bom e muito seguro, com
uma mui larga entrada.
E meteram-se dentro e
amainaram. E as naus
foram-se chegando, atrás
deles. E um pouco antes
de sol-pôsto amainaram
também, talvez a uma
légua do recife, e ancora-
ram a onze braças.

E estando Afonso Lo-
pez, nosso piloto, em um

daqueles navios peque-
nos, foi, por mandado do
Capitão, por ser homem
vivo e destro para isso,
meter-se logo no esquife
a sondar o porto dentro.
E tomou dois daqueles
homens da terra que esta-
vam numa almadia: man-
cebos e de bons corpos.
Um deles trazia um arco,
e seis ou sete setas. E na
praia andavam muitos
com seus arcos e setas;
mas não os aproveitou.
Logo, já de noite, levou-os
à Capitaina, onde foram
recebidos com muito
prazer e festa.

A feição deles é serem
pardos, um tanto averme-
lhados, de bons rostos e
bons narizes, bem feitos.
Andam nus, sem cober-
tura alguma. Nem fazem
mais caso de encobrir ou
deixa de encobrir suas
vergonhas do que de
mostrar a cara. Acerca
disso são de grande ino-
cência. Ambos traziam o
beiço de baixo furado e
metido nele um osso ver-
dadeiro, de comprimento
de uma mão travessa, e
da grossura de um fuso
de algodão, agudo na
ponta como um furador.
Metem-nos pela parte
de dentro do beiço; e a
parte que lhes fca en-
tre o beiço e os dentes é
feita a modo de roque de
xadrez. E trazem-no ali
encaixado de sorte que
não os magoa, nem lhes

17

www.revistasamizdat.com

põe estorvo no falar, nem
no comer e beber.

Os cabelos deles são
corredios. E andavam
tosquiados, de tosquia
alta antes do que sobre-
pente, de boa grandeza,
rapados todavia por cima
das orelhas. E um deles
trazia por baixo da so-
lapa, de fonte a fonte, na
parte detrás, uma espécie
de cabeleira, de penas de
ave amarela, que seria do
comprimento de um coto,
mui basta e mui cerrada,
que lhe cobria o toutiço
e as orelhas. E andava
pegada aos cabelos, pena
por pena, com uma con-
feição branda como, de
maneira tal que a cabe-
leira era mui redonda e
mui basta, e mui igual,
e não fazia míngua mais
lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles
vieram, estava sentado
em uma cadeira, aos pés
uma alcatifa por estrado;
e bem vestido, com um
colar de ouro, mui gran-
de, ao pescoço. E Sancho
de Tovar, e Simão de
Miranda, e Nicolau Coe-
lho, e Aires Corrêa, e nós
outros que aqui na nau
com ele íamos, sentados
no chão, nessa alcatifa.
Acenderam-se tochas. E
eles entraram. Mas nem

sinal de cortesia fzeram,

nem de falar ao Capitão;
nem a alguém. Todavia

um deles ftou o colar

do Capitão, e começou a

fazer acenos com a mão
em direção à terra, e
depois para o colar, como
se quisesse dizer-nos que
havia ouro na terra. E
também olhou para um
castiçal de prata e assim
mesmo acenava para a
terra e novamente para o
castiçal, como se lá tam-
bém houvesse prata!

Mostraram-lhes um
papagaio pardo que o
Capitão traz consigo;
tomaram-no logo na mão
e acenaram para a terra,
como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um

carneiro; não fzeram

caso dele.

Mostraram-lhes uma
galinha; quase tiveram
medo dela, e não lhe que-
riam pôr a mão. Depois
lhe pegaram, mas como
espantados.

Deram-lhes ali de
comer: pão e peixe co-
zido, confeitos, fartéis,

mel, fgos passados. Não

quiseram comer daquilo
quase nada; e se prova-
vam alguma coisa, logo a
lançavam fora.

Trouxeram-lhes vi-
nho em uma taça; mal
lhe puseram a boca; não
gostaram dele nada, nem
quiseram mais.

Trouxeram-lhes água
em uma albarrada, pro-
varam cada um o seu
bochecho, mas não bebe-
ram; apenas lavaram as
bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas
contas de rosário, bran-
cas; fez sinal que lhas
dessem, e folgou muito
com elas, e lançou-as ao
pescoço; e depois tirou-as
e meteu-as em volta do
braço, e acenava para a
terra e novamente para as
contas e para o colar do
Capitão, como se dariam
ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós
nesse sentido, por assim
o desejarmos! Mas se ele
queria dizer que levaria
as contas e mais o colar,
isto não queríamos nós
entender, por que lho
não havíamos de dar! E
depois tornou as contas a
quem lhas dera. E então
estiraram-se de costas
na alcatifa, a dormir sem
procurarem maneiras de
encobrir suas vergonhas,
as quais não eram fana-
das; e as cabeleiras delas
estavam bem rapadas e
feitas.

O Capitão mandou pôr
por baixo da cabeça de
cada um seu coxim; e o
da cabeleira esforçava-
se por não a estragar. E
deitaram um manto por
cima deles; e consentindo,
aconchegaram-se e ador-
meceram.

(...)

18

SAMIZDAT novembro de 2009

18

SAMIZDAT novembro de 2009

19

Pero Vaz de Caminha

(Galaico-português: Pero

Uaaz de Camjnha; Porto, Por-

tugal, 1450 — Calecute, Índia,

15 de Dezembro de 1500), às

vezes popularmente chamado

de Pedro Vaz de Caminha,

foi um escritor português

que se notabilizou nas fun-

ções de escrivão da armada

de Pedro Álvares Cabral.

Era flho de Vasco Fernan-

des de Caminha, cavaleiro

do duque de Bragança. Seus

ancestrais seriam os antigos

povoadores de Neiva à época

do reinado de D. Fernando

(1367-1383).

Letrado, Pero Vaz foi cava-

leiro das casas de D. Afonso

V (1438-1481), de D. João II

(1481-1495) e de D. Manuel I

(1495-1521). Pai e flho, para

melhor desempenhar seus

cargos, precisavam exerci-

tar a prática e desenvolver

o conhecimento da escrita,

distinguindo-se a serviço dos

monarcas.

Teria participado da ba-

talha de Toro (2 de Março

de 1475). Em 1476 herdou

do pai o cargo de mestre da

Balança da Moeda, posição

de responsabilidade em sua

época. Em 1497 foi escolhido

para redigir, na qualidade de

Vereador, os Capítulos da Câ-

mara Municipal do Porto, a

serem apresentados às Cortes

de Lisboa. Afrma-se que D.

Manuel I, que o nomeou para

o cargo no Porto, lhe tinha

afeição.

Em 1500, foi nomeado

escrivão da feitoria a ser er-

guida em Calecute, na Índia,

razão pela qual se encontrava

na nau capitânia da armada

de Pedro Álvares Cabral em

Abril daquele mesmo ano,

quando a mesma descobriu o

Brasil. Caminha eternizou-se

como o autor da carta, data-

da de 1 de Maio, ao sobera-

no, um dos três únicos teste-

munhos desse achamento (os

outros dois são a Relação do

Piloto Anônimo e a Carta do

Mestre João Faras.

Mais conhecido dentre

os três, a Carta de Pero Vaz

de Caminha é considerada

a certidão de nascimento do

Brasil embora, dado o segre-

do com que Portugal sempre

envolveu relatos sobre sua

descoberta, só fosse publica-

da no século XIX, pelo Padre

Manuel Aires de Casal em

sua “Corografa Brasílica”, Im-

prensa Régia, Rio de Janeiro,

1817. O texto de Mestre João

demoraria mais ainda: veio à

luz em 1843 na Revista do

Instituto Histórico e Geográ-

fco Brasileiro e isso graças

aos esforços do historiador

Francisco Adolfo de Varnha-

gen.

Tradicionalmente se aceita

que Caminha pereceu em

combate durante o ataque

muçulmano à feitoria de

Calecute, em construção, no

fnal de 1500.

Caminha desposou D.

Catarina Vaz, com quem teve,

pelo menos, uma flha, Isabel.

http://guisalla.fles.wordpress.com

/2008/09/m

achado1.jpg

ficina

http://www.fickr.com

/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/

www.ofcinaeditora.org

O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

19

20

SAMIZDAT novembro de 2009

Quando os portugueses barbudos dos livros de história do
Brasil para o Brasil migraram, trouxeram a galinha, a cobiça,
e as armas de fogo, e o pequeno mameluco aprendeu a dan-
dar pra ganhar tentem.

microcontos

http://www.fickr.com

/photos/ilo_oli/165163626/sizes/o/

Primeira Lição colonial

Simone Santana

download

grátis

21

www.revistasamizdat.com

Primeira Lição colonial

http://www.fickr.com

/photos/erzs/1357413280/sizes/o/

nome de “O Canto da

Sereia de Bach”, já que a

bela melodia sempre se

mostrava como um fatal

e irresistível convite ao

além-túmulo.

Quase um ano após o

início das mortes, passava

pela região um viajante

austríaco, excepcional

estudante de música,

chamado Wolfgang Ama-

deus Mozart. Quando

soube da maldição, não

se alarmou, disse apenas

que gostaria de ouvir o

tal concerto fúnebre e de

conhecer o seu autor. Foi

alertado de que a história

era verdadeira, de que as

pessoas já não queriam

mais estudar música, e

ele poderia ser o próxi-

mo, e o dia fatal estava

se aproximando... Nada

disso o espantou.

Dia vinte e oito, “Toca-

ta e Fuga em Ré Menor”,

tudo como haviam dito,

e lá estava Mozart den-

tro do cemitério. Com os

olhos fechados, deixava-se

extasiar com as compo-

sições de Johann Sebas-

tian Bach, num estado

de euforia sobrenatural.

Subitamente, o som se

extinguiu. O jovem des-

pertou do transe e dirigiu

sua visão ao concertista.

Aquela mesma fgura ca-

davérica, que levara tan-

tos a sucumbir, apontava-

lhe seus terríveis olhos

ausentes. E como todos os

outros, também Mozart

paralisou-se. Junto à ima-

gem macabra, sentiu o

cheiro da putrefação. As

náuseas dominaram-no,

o que o fez libertar-se da

paralisia, caindo de joe-

lhos a largos vômitos. Em

meio a engasgos, tosses e

ânsias, ouviu a frase mor-

tal: “Termine a música”.

Confuso, desnorte-

ado, Mozart tentou se

levantar apoiando-se

no órgão, que sua mão

atravessou como se nada

ali estivesse. Caiu sobre

o vômito, começando a

recobrar a razão e ten-

tando afastar-se daquele

prenúncio da morte.

De bruços sobre a terra,

sentiu algo prendendo-o

pelo pé. Não teve cora-

gem de olhar para ver o

que era. E novamente a

voz suave suplicou: “Ter-

mine a música”. Fazendo

uma desesperada oração

mental, tateou o solo até

encontrar uma pedra

pontiaguda. Com ela,

começou a desenhar no

chão a partitura do fnal

de uma recente compo-

sição sua – a primeira a

lembrar que estava em

harmonia com a música

inacabada de Bach. Ter-

minando, viu que a perna

já estava livre. Correu o

mais rápido que pôde,

sem olhar para trás. O

som de sua composição

servia de trilha sonora

para a fuga, enquanto

ele pensava como, até o

momento, aquela música

nunca havia lhe parecido

tão viva e tão mórbida.

Prometeu não mais tocá-

la.

No dia seguinte, o

jovem Mozart já não se

encontrava pela cidade.

“Mais um levado pelo

Canto da Sereia de Bach”,

diziam. Contudo, soube-

se na hospedaria que ele

havia partido durante a

madrugada, são e salvo,

após o sinistro concerto.

No cemitério, ao invés do

esperado músico morto,

foi encontrada apenas

uma inscrição na terra,

parecida com o trecho de

alguma partitura. Desde

então, não se noticiou

mais vítimas do “Canto

da Sereia de Bach”.

http://www.lostseed.com

/extras/free-graphics/im

ages/jesus-pictures/jesus-crucifed.jpg

ficina

www.ofcinaeditora.com

Ele tnha diante de si
a mais difcil das missões:

cumprir a vontade de Deus

Henry Alfred BugAlHo

O Rei dos

Judeus

download

grátis

21

22

SAMIZDAT novembro de 2009

Contos

Joaquim Bispo

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->