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BIBLIOTECA

LUSO-BRASILEIRA

Série

Brasileira

MANUEL BANDEIRA

POESIA

E

PROSA

em

dois

volum es

V o l u m e

I

poesia

A CINZA DAS HORAS, CARNAVAL,

O RITMO

DISSOLUTO,

LIRA

ESTRÊLA DA

MANHA,

LIBERTINAGEM, DOS CINQOENTANOS,

BELO BELO, OPUS

10, ESTRÊLA DA TARDE,

MAFUA DO MALUNGO, POEMAS TRADUZIDOS,

POEMAS

MUSICADOS

V o l u m e

,

prosa

II

ITINERÁRIO DE PASÁRGADA,

CRÓNICAS DA

PROVÍNCIA

DO

BRASIL,

FLAUTA

DE

PAPEL,

GONÇALVES DIAS, GUIA DE OURO PRÊTO,

ENSAIOS LITERÁRIOS, DE POETAS E DE POESIA,

EDITÔRA

CRÍTICA

DE

JOSÉ A G V IL A R ,

ARTE, EPISTOLÁRIO

LTD A. RIO

DE JANEIRO,

D .F .,

1958

Sérgio

MANUEL

BANDEIRA

POESIA E PROSA

B uarque

de

Introdução geral por

e

H olanda

F rancisco

de

A ssis

2-*/^

i $

s r

B arbosà

O távio

T

A n t ó

VOLUME II

p

r

o

s â

x

Èotas preliminares aU1

X7

O*?' *-c

I

a n k h n

d

e ,

a r q u íito

n io

d e

C ânJm do ,

So usa,

O di^ d

O

t o

M ajibv

K lúfea.; R endes

osta

C a r pea u x ,

C

F il h o ,

EDITO RA JOSÉ AG U JLAR. LT D A .

RIO

D E JANEIRO ,

D-Fv

1958

CRÓNICAS

D A

PROVÍNCIA

D O

BRASIL

 

A

R od rig o

M.

F.

d e

A ndrade

A maioria dêstes artigos de jornal foram escritos às pressas

D iário N acional de São Paulo, e

para A Província do Recife,

O Estado de M inas de Belo

provinciano

Horizonte. Eram crónicas de um

Aliás

êste

mesm o

R io

de

Ja­

para

a província.

neiro de nós todos não guarda, até hoje, uma alma de provín­ cia? O Brasil todo é ainda província. D eus o conserve assim

por m uitos anos!

*

*

*

NOTA: Suprimiram-se nesta edição as crónicas “De Vila Rica de Albuquerque a Ouro Prêto dos estudantes”, “O Aleija- dinho” e “Carlos Drummond de Andrade”. O motivo da supressão é que a matéria delas foi aproveitada quase ipsis litteris em outras obras do autor.

BAHIA

N u n c a v i cidade tão caracteristicamente brasileira como a “boa terra”. Boa terra! É isso mesmo. A gente mal pisou na cidade baixa e já se sente tão em casa como se ali fôsse a grande sala de jantar do Brasil, recesso de intimidade fami­ liar de solar antigo com jacarandás pesados e nobres. Ali a gente se sente mais brasileiro. Em mim confesso que,

mais forte do

que nunca, estrem eceram aquelas fundas raízes

raciais que nos prendem ao passado extinto, ao presente mais remoto. Raízes em profundidade e em superfície. E fiquei co­ movidíssimo, querendo mais bem não somente aos baianos, com que ali m e irm anava, senão tam bém aos patrícios mais afastados ou mais esquivos — paulistas, acreanos, gaúchos,

matogrossenses. Comoção brasileira, como experimentei tam ­ bém vendo o côro de anjinhos mulatos de Tarsila do Amaral.

Um espírito amargo me foi logo advertindo à minha che­ gada:

péssima impressão

higiene,

Que bem m e im portava tudo isso! Estou farto de tanta uz crua voltaica. U m dia virá em que um governador bem nascido dará aos baianos todos êsses bens preciosos. Não es dê, porém, luz de mais, como fizeram a êste Rio de Ja- n?lro> lu e parece automóvel noturno de novo-rico. O <lue ^jnguém lhes poderia dar é aquêle aspecto tradicional, tão ' erente do das velhas cidades mineiras» porque na Bahia a tradição está viva, integrada no presente mais atual, domi- nando estupendamente o progressismo apressado, sovina e ta-

esgotos, sem

Vai ter

sem

um a

disto

aqui.

Cidade sem

água, sem

ilum inação.

peador que tem desfigurado as~ nossas cidades litorâneas, que

estragou

com pletam ente

o

m eu

Recife.

é

— arm ado. Pois eu estou pronto a sustentar para essas sensibili­ dades modernas, que os tais arranha-céus cariocas não passam de casarões passadistas de muitos andares, ao passo que os velhos sobradões de duas águas da Bahia, com três, quatro andares e sotéias, obedecem à estética despojada, linear, sin­

tética

avenida e arranha-céu.

cimento

H á

m uita

gente

ingénua "pára

quem

progresso

asfalto

e

urbano

M odernidade

dos

legítimos

arranha-céus.

O que surpreende nos arquitetos e construtores do período

colonial, do primeiro reinado e prim eira metade do segundo,

é essa adaptação ao ambiente, às necessidades arquitetônicas,

à natureza

solar

térreo

que

nada! Serviam-se de linhas simples e poucas, dispondo dos

do material.

que enfeitavam

de

dois

Êles

bem

ou

com

am or

nos

e

capricho

tais

um

pavimentos.

M as

sobradões,

claros com um a ciência

ou

intuição

admirável da

assimetria.

O

que

de

variedade

nas

fachadas

dos

oitões!

U m velho

quarteirão baiano

tores

lembra m uito as sínteses plásticas dos pin­

representam

um a

cidade.

modernistas quando

N ão se pense que não tenham feito tolices na Bahia. Tanto

a

administração pública como os particulares. A casa da C â­

m

ara

Municipal,

por

exemplo,

que

deve

ter

sido um bonito

edifício, está inteiramente desfigurada. O palácio do governo é monstruoso, e faz rir o espetáculo das lápides que assinalam

em

denou

de

obra que a executaram, dos engenheiros civis que serviram

inscrições bem

a

obra,

do

legíveis os

arquiteto

nomes

que

do

governador que

dos

mestres

o r­

a

planeou,

na

fiscalização. M as repito: o velho ambiente, pela abundân­

cia

e fôrça

de suas

formas,

abafa

o

mau

gôsto

das

constru­

ções recentes.

êsses em que andei

pelas praças, ruas e becos da Bahia na com panhia do guia mais inteligente e mais solícito que se me podia deparar: G o-

Foram

dias

de

tocante

contemplação

dofredo

Filho.

Foi

graças

a

Godofredo

Filho

que

pude

conhecer

muita

curiosidade escondida da boa terra.

H ão

rurus

comi,

como

os viajantes

da

Petisqueira,

pratarrazes

de

escala,

os

comerciais

vatapás

afinal

de

e

ca­

con­

tas. G odofredo

levou-me

com

m istério

à

cozinha modesta

onde

a

gorda

preta

Eva

preparava,

com

a

simplicidade

do

trivial mais fácil, as mais estupendas misturas de dendês e

pimentas queimadas que já provei na m inha vida. E ra passar

lá às 9 da m anhã e

vatapá, ou caruru, ou efô, ou galinha de ó-xin-xin. Quando se voltava ao meio-dia encontrava-se um prato cheiroso e compli­ cadíssimo que parecia exigir um mês ao menos de m anipu­

lação. E aparecendo de improviso era quase a mesma coisa.

encomendar:

peixada

de

muqueca,

ou

Mas

é tem po

que

eu

comece

a

falar

do

que

de

mais

belo

na

Bahia,

as

suas

igrejas.

E

em

prim eiro

lugar

da

mais rica

m aravilha

de

todo

o

Brasil:

a

igreja

de

S.

F ran­

cisco.

Os críticos

de arte europeus

não poupam

o estilo barroco,

considerado

por

êles

como

um a

degenerescência

do

renasci­

mento.

É a época da decoração pela decoração, diz Reinach, in­

tervindo em tôda a parte e a contra-senso, comprazendo-se

linhas atorm entadas e de relevos

imprevistos. E ntretanto, depois de dizer “que o gênio da Re­ nascença acabou por afundar naquela orgia decorativa”, acres­ centa: “não sem ter produzido, todavia, até ao fim do século XVIII, edifícios notáveis pela ousadia e elegância.”

dêsses

harmonioso. Por prodigioso

c' ue seja o trabalho de talha dourada, não deixando pedaço nu de parede, nunca a abundância e a riqueza da ornamenta- 5a° obscurecem o relêvo das grandes linhas, sem pre bem acusadas em tôda a sua fôrça e majestade. Em nossa terra exuberante, onde a natureza dá o modêlo 0 roais fantástico capricho de curvas, o barroco é o grande estilo religioso. Os nossos maiores sentiram isso. Agora e que eram para um gótico mofino, um gótico pobre, quase pro-

exemplos de barroco

numa visão quase

febril

de

O interior da igreja de S. Francisco

depurado

e

da

Bahia é um

testante, que destoa insipidamente no céu brasileiro. Pois essa gente não com preende que o ogival fo i uma coisa que aconte­ ceu na França e acabou-se? Todos êsses nossos góticos de meia tigela não valem a igrejinha pobre de M angaratiba ou outra qualquer capelinha caiada de arraial. A história da igreja e convento de S. Francisco está minu­ ciosamente contada no Orbe Seráfico, de Frei António de Santa M aria Jaboatão. Convidados por D. A ntónio Barreiros, bispo de S. Salvador, vieram os franciscanos à Bahia, onde levantaram no ano de

1587 um

pequeno convento e igreja no mesmo local do tem ­

plo de hoje. Um século mais tarde, convento e igreja já eram acanhados para o desenvolvimento da ordem e da cidade, razão pela qual se pensou em erguer casa mais vasta e mais rica.

1708

lançava-se a pedra fundam ental da

Livro

consta do

As obras do novo convento começaram em

dos

Guardiães:

igreja,

1686. Em

segundo

1.° de novembro de 1708 benzeu a primeira pedra o ilmo.

da Vide, arcebispo metropolitano dêste

Estado do Brasil, e a lançou no fundo a uma parte do Cruzeiro,

quer dizer, onde se cruzam os árcos da capela-mor e da nave trans­ versal, junto com o Sr. Luís César de Meneses, governador-geral. Esta memória se lançou neste livro para que se saiba a todo o tem­ po, e nos mostremos agradecidos a êste povo da Bahia, e seu Re­ côncavo; pois nos deram esmolas com que fizemos êste Convento,

e imos fazendo êste templo tão grandioso.

Sr. D . Sebastião Monteiro

A o

Era então guardião Frei Vicente das Chagas.

em

1713,

ainda longe de completado o templo,

rezava--

se nele a prim eira missa para celebrar a festa do Seráfico P a­ triarca.

A ssim

r e z a

o

c r o n is ta

d o

L ivro

dos

Guardiães:

A 8 de outubro de 1713, véspera de N .P .S . Francisco, de tarde,

benzeu a igreja dêste Convento o ilmo.

trópole D- Sebastião

pelas ruas

todo o povo. Levou o Santíssimo Sacramento o Sr. arcebispo,

Sr.

arcebispo

desta

me- ■

Monteiro da Vide, e se fêz uma procissão

aplauso

e contentamento universal de

o

da cidade com

qual, recolhida a procissão, o colocou na igreja, e ao outro

que foi de N .P .S . Francisco, celebrou a primeira

de

dia,

missa, dizendo-a

P o n tific a ],

o

d ito

senhor.

Os

trabalhos de construção propriam ente estavam concluí­

dos em 1723, mas a decoração interna se prolongou ainda por

muitos anos, só ficando

fá­

brica.

con­

servada pelo zêlo religioso e artístico dos irmãos de S. F ran­ cisco.

Tempo houve em que a mão do tempo exerceu o seu estra­

pronta

em

1750.

Levou, pois,

H á

mais

de

42

anos

o

acabam ento

anos

está

daquela

grandiosa

duzentos

ela, piedosamente

go. O decreto da Regência que restringia às ordens a faculda­

que

dos

conventos, cujos patrimónios artísticos entravam a arruinar- se por falta de zeladores.

Felizmente a República restaurou a liberdade de profissão

religiosa. D a Europa, sobretudo da A lem anha, nos vieram nu­ merosos religiosos de S. Francisco, e êstes puseram logo mãos

a obra de reparação

de de adm itir

de todo

noviços

(1834)

e

o

do

govêrno

o

imperial

a

retirava

(1 855),

causaram

despovoamento

da

majestosa casa.

Compõe-se o interior de um a vasta nave central, ladeada de duas outras mais baixas, abrindo-se para ela em quatro

arcos e com três

trans-

versal, em cujos extremos estão colocados os altares de Nossa

S ^h o ra da

Glória e do Sagrado Coração de Jesus, primiti-

vamente de S. Luís e mais tarde do Senhor Santo Cristo da ®°a Sentença, ambos talvez mais ricos do que o santuário.

central

capelas

cada

um a.

em

A nave

principal

é

cortada

cruz

por

uma

nave

As

balaustradas

que

separam

as

naves

laterais

da

oram

talhadas

em

jacarandá por

um

irm ão

da

ordem ,

Frei

!s de Jesus, mais conhecido por Frei Luís Torneiro.

Ve^ ra

aru í^

um

artista

as

habilíssimo,

mesas

côro

tudo

e

que,

os e a escadaria de jacarandá.

além

daquela

da

leva

talha

sacristia,

notá-

as

deixou

ricos

arm ários

que

6 es*antes do

convento,

ao primeiro

dar do

ca-

Os tetos são admiráveis. O da nave principal faz meia volta junto às paredes, sendo o mais corpo de esteira aquartelado com painéis de molduras douradas. Os das capelas laterais

são abobadados, com arcos de barretes de talha. A abóbada da capela-mor retém longamente a vista do observador pela en- genhosidade com que o artista obteve o forte e rico efeito de

com binação de hexágonos e octógo-

girândola pela simples nos.

Escreveu o

autor do Orbe Seráfico:

Depois do material das suas paredes, se cuidou logo no seu in­

terior ornato, mandando-se fazer retábulos, forros, douramentos, grades, sepulturas de mármore, e o mais na perfeição e grandeza

que se

e tudo a benefício e esmolas do povo em comum, e

de muitos benfeitores em particular para que assim seja melhor servido, e mais glorificado Deus em si, e nos seus santos, que é o

princípio e fim para que se

ordenam os

Entre êsses benfeitores a que se refere Frei António de San­

ta M aria Jaboatão, está em prim eiro lugar el-rei D . João V, que fêz vultosas doações ao convento. Foi êle que m andou revestir de painéis de azulejos o claustro do convento; que

António e a êste

santo conferiu o pôsto de capitão intertenido do forte de San­ to A ntónio da Barra. Também foram oferta real as duas belas pias de m árm ore português.

Doação magnífica foi a do Capitão António de Andrade Tôrres: a maravilhosa lâmpada da capela-mor, tôda de prata

maciça do Pôrto, medindo mais

sando oitenta quilos. Os irmãos franciscanos têm especial ufania em m ostrar aos visitantes, como a mais bela imagem do Brasil, a figura em madeira de S. Pedro de A lcântara, obra do escultor baiano Manuel Inácio da Costa. É realm ente um a escultura notável

pela expressão de sofrimento estampada no rosto e nas mãos.

tão

impressionado pela imagem do seu padroeiro que se propôs adquiri-la pela quantia de trinta contos. N ão o conseguiu.

custeou o douram ento do altar de Santo

de dois m etros de altura e pe­

Quando

d. Pedro

II

visitou

o

convento, em

1859,

ficou

da

Também de M anuel Inácio da Costa são as belas imagens

de

Virgem

da

Conceição,

da

Senhora

de

Sant’A na

e

Santo António. N o nicho em que se abriga êste últim o venera­

va-se antigam ente a m ilagrosa imagem de Santo A ntónio de Argiiim, festejado anualmente pela Câm ara e povo, por ter sido êle o protetor da cidade contra os invasores holandeses. A imagem de Nossa Senhora da Piedade, também notável, é obra de outro escultor baiano — António de Sousa Para- nhos.

dados

para êstes inform es, faz esta adm irada interrogação: Conside­ rando as condições do tempo e das circunstâncias em que foi planejada e executada obra tão grandiosa, como foi isso possí­ vel? Que homens eram êstes que, só duzentos anos depois do descobrimento, num meio apenas iniciado na civilização, lon­

ge dos elementos que na velha Europa favoreciam o desen­

volvimento das belas-artes,

vera de arte, exuberante e encantadora, de que o nosso tem ­ plo é testem unho magnífico e glória im orredoura? Anexado ao templo está o formidável edifício do convento, cujos fundos dom inam com quase centena e meia de janelas o casario da cidade baixa. As celas são pobres, segundo os votos da ordem. Além do claustro de azulejos, a que já nos referimos, delicioso retiro de contemplação; é digna de nota a sala da biblioteca, sem ri­ queza mas de harmoniosíssimo efeito nos seus azuis e rosados de tijolo.

Frei Matias Teves, de cuja m onografia colhemos os

provocaram no Brasil um a prim a­

Modesto

é

o

convento

dos

frades

carmelitas.

M odesto

em

comparação

com

o

de

S.

Francisco, pois se trata tam bém

de

uma

imponente

mole,

onde

outrora

vivia

um a

multidão

de

rades. Hoje são apenas cinco monges, insuficientes para ze-

abades, «s

adrões

a resta o que ver, e o guardião atual defende com solicitude

despojaram a casa de muitos primores. Contudo, ain"

ar pela grandeza

do

edifício.

O

tempo,

os

maus

0 património

restante.

N ão

se imagina

as

igrejas

pelos

o

que

é

antiquários!

por êsse

Quando

Brasil

afora a pilhagem

convento

visitamos

o

B a n d e ir a

-

n

-

5

do Carmo, ándava o abade às voltas com dois sujeitos que

havia um a

a

os capitães holandeses assinaram o tratado de entrega da

linda mobília joanina que gUarnece a sala histórica em que

sitiavam para com prar por bom preço

semana

o

cidade.

Pela

famosa cadeira de D. João V já houve quem ofere­

cesse trinta e cinco contos. Quando D. João regente passou pela Bahia, hospedou-se num solar (hoje desfigurado!), fron­

teiro ao convento. E fazia transportar à capela dos carmelitas

a poltrona de jacarandá e assento de couro furado, em que

rezava o ofício com os frades. Retirando-se para o Rio, fêz doação da cadeira ao convento. Está hoje na sacristia, exposta

como

N a igreja são dignos de nota os grandes tocheiros de prata maciça, tão pesados que os ladrões não lograram carregar quando de um a feita assaltaram o templo, o revestimento do altar-m or igualmente de prata todo êle, e a lápide singela que

cobre os despojos do

um a

jóia.

Conde

de Bagnuolo.

O convento de S.

Bento já

não

foi

obra

daqueles homens

de que se espantou Frei M atias Teves. A casa está tôda infil­ trada de m au gôsto e da mediocridade do estilo Sagrado Co­

ração.

O velho

côro

de

jacarandá,

removido

para

um a

sala

interior,

onde

assenta hoje

o cabido, cedeu

lugar

a

um

pau

amarelo

todo

requififeado.

 

N ada

que ver, senão

uns

belos

móveis

de jacarandá,

a

li­

vraria

e um a pequena

lápide

quadrada

no

chão

de

um a

sa­

leta de passagem com esta simples inscrição: A qui jaz uni

pecador. É a sepultura de Gabriel Soares, o do roteiro.

A

livraria

dos

beneditinos

é

que

é notável

pelos

exempla­

res raros e preciosos que encerra. Infelizmente os monges são poucos para cuidar convenientemente dos livros, muitos dos quais estão se esfarelando pela ação dos bichos. E ntre outras

obras

l.a edição da Enciclopédia Francesch

de

valia vi

la

a

em bom estado.

G o d o fre d o

Filho

levou-me

da Bahia, bisbilhotando

descobrir peças

nas

interessantes.

a

quase tôdas

as velhas

ig rejas

sacristias

desvãos

Algumas merecem

e

escusos para

que nos

de­

tenhamos um pouco. E para começar, a maciça, sombria Sé Velha, avó rija e venerável. Erguida no sítio onde se levantou

a Sé de Palha, prim eira igreja construída no Brasil, creio eu, a velha Sé ainda é dos tempos em que as casas de Deus deve­ riam servir eventualmente de fortalezas, e daí as suas paredes robustas de poucas e acanhadas abertas. A fachada principal, que dá para o mar, era tôda de pedra. Como o pêso ameaçava esbarrondar o m orro, foi ela demolida pelo governador-geral, pensando-se substituí-la por um a frente trabalhada em barro.

guardada

Coisa que nunca se

na pequena capela à esquerda do altar-mor.

fêz.

N o

interior, rica

prataria

A dois passos

da Sé Velha fica

a pequena

igreja da

Mise­

ricórdia, onde tantas vêzes pregou o padre Vieira, com claustro revestido de belos azulejos.

mais severo e inteiram ente construídas de pedra

são as duas igrejas da Conceição da Praia e Catedral. Esta tem a honra de guardar os restos de M em de Sá no centro da cruz em face da capela-mor e os de Vieira, que estão na primeira capela lateral à direita. N o altar-mor se vê o quadri-

nho histórico da Virgem, ao qual os jesuítas se abraçaram e encomendaram por ocasião do naufrágio de que se salvaram

O Colégio ainda

se conserva em parte como foi no tempo de Vieira, cuja

milagrosamente. E ra esta a casa dos jesuítas.

Em

estilo

cela era a últim a no fundo do corredor.

Outra maravilha, a sacristia da Catedral. Imaginem-se duas enormes cómodas de jacarandá de uns sete metros de com pri­

mento, ricam ente

cidas cada um a com oito pequenos painéis a óleo, cenas bíbli­

cas traçadas com forte ciência de composição e grande do- SUra de colorido. Essas pinturas suscitaram a cobiça de um nco arnericano, que ofereceu três contos por cada painel.

da

embutidas de tartaruga e m arfim , guarne­

Quanta igreja bonita, meu Deus!

S. Domingos,

ao

lado

a era que nasceu Gregório de M atos, S. Pedro dos Clérigos,

^Pequenina capela do Monte Serrat, a

reza^a ‘ ; • Esta foi m andada levantar pela Paraguaçu, segundo

de Nossa Senhora da

a a

inscrição tum ular: “Sepultura de D. Catarina Alvares

Paraguaçu, senhora que foi desta capitania da Bahia. A qual ela e seu m arido Diogo Álvares, natural de Viana, deram aos senhores reis de Portugal. Edificou esta capela de Nossa Se­ nhora da Graça e a deu com as terras anexas ao patriarca de S. Bento em o ano de 1589.” Tive a sorte de passar na Bahia por ocasião da festa do

Senhor

dos baianos com um pouco de carnaval carioca da Praça Onze de Junho, ternos e ranchos de pastorinhas, muito apêrto de

povo, namôro grosso, barraquinhas de vatapás, carurus e ou­

negras, isto m adrugada a dentro dias a fio.

Êste ano quebrou-se a tradição na cerimónia da lavagem do templo. Em vez de feita pelo potirão de fiéis, que parece dava lugar a cenas folionas por demais, foi ela confiada a meia dúzia de aguadeiros mercenários. Nesses dias tôda a popula­ ção da cidade se desloca para o adro da bonita igrejinha

iluminada. A mania do neocolonial está se apoderando de todo o Bra­

sil. Seria bom que nossos am adores de estilo dessem um pulo

à Bahia para sentirem e apreenderem a razão, a fôrça, a dig­

nidade daqueles velhos solares ou dos altos sobradões dos bair­ ros comerciais. Para ver Se dariam depois outro rum o a estas tentativas de arte brasileira, que, positivamente, enveredaram por caminho errado aqui no sul, fazendo bonitinho, engraça­ dinho, enfeitadinho, quando o espírito das velhas casas bra­ sileiras era bem o contrário disso, caracterizando-se antes pelo ar severo, recatado, verdadeiram ente senhoril.

Parece que hoje não se gosta mais disso, mesmo na Bahia.

Os velhos solares do bairro da Sé estão hoje reduzidos a cor­ tiços de gente pobre, e é mesmo um a impressão curiosa ver

o mais reles meretrício da cidade, o meretrício pretinho, abole­

tado

brasão de pedra ou

tras ardências

tradicional, a Penha

do Bonfim.

É

a

grande rom aria

em nobres casarões arruinados, com

azulej0 sôbre as portas

Mas foi talvez essa deserção da burguesia endinheirada que nos preservou os melhores bairros das restaurações em que tudo se abastarda.

de batentes almofadados.

es­

tadual algum zêlo, a fim de se lhes restituir o esplendor pas­

Dois

antigos

solares

pelo

menos

mereciam

do

govêrno

sado:

o

do

Saldanha

e o dos Aguiares,

aquêle no

centro

do

bairro

da

e êste

num

arrabalde.

O

Saldanha

foi

um

fidalgo

português

indicado

por

el-rei

para desposar um a m ulata espúria, filha de um riquíssimo

senhor de engenho do Recôncavo. O dote era um a fabulosa

fortuna. O Saldanha aceitou e parece que foi feliz com a bra­

sua m oradia ostenta um a da entrada é um a belíssi­

ma escultura em granito. Pude ver o interior, onde hoje está instalado o Liceu de Ofícios, que aluga o antigo salão no­ bre, de bonito teto apainelado, para sala de projeção de um cinema. E o saguão, que é um magnífico exemplo daquele forte e plácido estilo dos nossos antepassados, está agora cheio dos grandes carões coloridos dos filmes americanos.

Mais lastimável ainda é o estado de degradação do solar dos Aguiares. Reduzido a casa de cómodos. O pátio interno ameaçando ruir. Os lindos azulejos, que contam a história do Filho Pródigo, tão maltratados! N a própria capela duas ca­ mas de ferro miseráveis. Cozinhavam a lenha no aposento pegado, de sorte que tôda a fum aceira entrava para a capela, enegrecendo irremedíàvelmente a velha talha dourada do

sileira. A casa que fêz levantar para grande nobreza de linhas. O pórtico

FALA BRASILEIRA

q j PPosit o do livro do Prof. A ntenor Nascentes, intitulado exceip0? ^ ís/aciona^ escreveu o Prof. Sousa da Silveira um

art*g° de crítica no Jornal do Comércio do Rio. Dês- 'go destaco o seguinte período:

se art-

Um linguista como êle [Nascentes] o é, não podia absoluta­

mente usar daquela denominação [Idioma Nacional] para encobrir a realidade das coisas, nem entrar na corrente delirante dos que pretendem, pela simples resolução de adotar na língua escrita tô- das as licenças da língua falada, criar uma língua nova, uma lín­

gua que querem não seja portuguêsa,

com êsse processo, apenas conseguiriam (se veleidades humanas pudessem desviar o curso natural das coisas) escrever uma língua que seria a portuguêsa com alterações numerosas e talvez pro­ fundas, mas sempre e em substância a língua portuguêsa.

sem se lembrarem de que,

Nesse

período

empregou

Sousa da

Silveira

o

adjetivo

“de­

lirante” no sentido etimológico, para significar “o que sai do

sulco”, não tendo, portanto, a palavra nenhum a intenção me­ nos delicada para os adeptos daquela corrente. Não é menos visível, porém , que as expressões do sábio professor encerram

algum

direi injustiça? para os que ultim am ente se têm

aplicado a aproveitar artisticamente na prosa e na poesia brasileiras formas e dições da nossa gente, até agora condena­

das como incorretas. Que essa condenação

O

nosso grande João Ribeiro caçoou de Tobias Barreto nas Pá­

certa

ginas de

riqueza de idéia, mas grande miséria de gram ática” nos dois versos fam osos:

existia,

que

e existe

êsse

se

ainda,

é

exprim irá

um

“com

fato.

Estética,

dizendo

Ora', n ão

Das pedras tôdas que atiram-me Hei de fazer um altar!

miséria

há laí nenhum a

de

gram ática,

um

ouvido poftuguês.

salvo para

Lim a

Barreto,

um

m orto

de

ontem,

era

por

muitos

consi­

derado escuitor desleixado e incorreto pelo fato de se servir em, prosa Htarária de formas correntes na linguagem falada da boa sociedade. Isso, e inegável, só se explicava pela influência da tradição

portuguêsa, sensível até hoje em todos os escritores brasilei­ ros, mesmo naqueles que experim entaram a necessidade da in-

s u b m i s s ã o , como Alencar, furiosamente

ticos do tempo, Lim a Barreto e

Foi preciso que aparecesse um homem corajoso, apaixonado, sacrificado e da fôrça de M ário de Andrade para acabar com

atacado

pelos

gramá­

outros.

as meias medidas e em preender em literatura a adoção inte­ gral da boa fala brasileira. N ão cabe aqui discutir os erros, os excessos, as afetações da solução pessoal a que êle chegou. Nada disso tira o valor enorme da sua iniciativa, a segunda, e muito mais completa e eficiente que a prim eira de Alencar. Aqueles mesmos excessos, aquelas mesmas afetações contri­ buíram para ferir as atenções, para prom over reações e dis­ cussões, para focalizar o problem a em suma.

O ambiente hoje é mais favorável que no tempo de Alen­

car. A filologia fêz progressos enormes e os seus mestres atuais são entre nós os A ntenor Nascentes e os Sousa da Silveira, es­ píritos sem ranço de gramatiquices estreitas, e com os quais se pode conversar. N enhum dêles dará mais por incorretas as pobrezinhas das formas brasileiras, o que não acontecia nos anos em que se aprendia português pelas gramáticas de So-

tero, Júlio Ribeiro, Alfredo Gomes.

Mas em bora Sousa da Silveira adm ita nos outros as liber­ dades brasileiras, sente-se que a sua simpatia ainda está com a tradição literária escrita.

O período do seu artigo, transcrito atrás, im porta num ata­

que sem razão de ser. Porque — quem falou até hoje em “língua brasileira?” N ão me consta que jamais M ário de Andrade tenha pretendido criar língua nova. Nem ninguém pensa que o português falado pelos brasileiros seja língua nova.

a

publicação próxim a de um a Gramatiquinha da Fala Brasileira.

Notem bem:

Nos

seus

livros

publicados

o

poeta

paulista

anuncia

não diz língua brasileira, e sim fala brasileira.

O

que intenta

aquela corrente

a

que

aludiu

o

Prof.

Sousa

da Silveira é criar na linguagem escrita um a

tradição

mair*

Próxima da linguagem falada natural, correta mas sem afeta-

Çao literária,

gem e a tradição

ern Pais algum, inclusive o próprio Portugal. £ que a lingua­ gem literária entre nós divorciou-se da vida. Falamos com Slngeleza e escrevemos com afetação.

da

sociedade brasileira culta.

literária

existe um

abismo

Entre

como

esta lingua­

não

o

.

^um berto

de

Campos

repetiu

num

dos

seus

folhetins

li-

v-

arios^°

1 as

sôbre

caso

a

passado

correção

com gramatical de um

A natole

France

que,

tendo

período de

sua au­

dú-

toria,

ilustre.

recorrera

aos

bons

ofícios

de

Darm esteter,

o

filólogo

— “D e que terra

— “Então

é

o

sr.?”

“D e

Paris”, respondeu

é

ao

Sr.

que

me

France.

cabe esclarecer”, respondeu

o

mestre.

Darm esteter

entendia

que

o

francês

falado

por

um

pari­

francês. O mais é

literatura, e m á literatura.

A propósito da com binação dos pronom es oblíquos me, te, lhe, nos, vos com o, a, os, as, com binação sempre evitada na linguagem falada pelos brasileiros, cita o Prof. Sousa da Silvei­ ra um trecho de Alencar onde vem esta oração: “M artim lho arrebatou das mãos”. E comenta: “Suprimam dali o o ou substituam-no por “o vaso”, e vejam se a form a lapidar da­ quela frase não degenera em construção pobre e sem energia”.

siense culto não podia deixar de ser o bom

N ão passou pela cabeça do mestre a construção que acudi­

ria logo a M ário de A ndrade:

m ãos”. Bem sei a repugnância que tal construção pode causar

a quem

é confessar que não

leira. A dmito que tenha menor energia, menos concisão e ele­

gância.

bem entendido. O ra todos sabemos que o caráter é um a escola

de

tativa de aproveitamento artístico da fala brasileira. E dentro

da

m entar entre as que

tanto

pronom es en,

um filólogo da mais pura form ação clássica,

como o Prof. Nascentes, já considerar lusitanizantes certas

construções

clides, de um M onteiro Lobato, de um Lima Barreto é muito

Eu-

Os

lhe arrebatou êle das

“M artim

se educou na tradição clássica portuguêsa.

Tem

contudo

há outra

dentro

do gênio

da

mais

caráter,

do

nosso ponto

Mas fôrça

fala

brasi­

de vista,

H averá muito sacrifício que fazer nessa ten­

portuguêsa

não

se arcaizaram

e

tanta

coisa

para

la­

m orreram , sendo no en­

de

concisão

e

elegância?

tradição

clássica

admiráveis

de

instrumentos

endo por

exemplo.

O fato

correntes

na

prosa literária

brasileira de um

significativo. E o meu

da

Prof.

sentimento é que as form as brasileiras

o

linguagem

Nascentes

falada

serão

chamadas

de

a

substituir

com

as

que

es­

qualificou

lusitanizantes,

grande

cândalo do Prof. Sousa da Silveira.

UM

PURISTA

DO

ESTILO

COLONIAL

aqui

no Rio muitos comentários em conversa e artigos de jornais. Mais um a vez todos deploraram a falta de cultura artística e histórica mercê da qual vão desaparecendo as nossas relí­ quias coloniais mais significativas.

(filho), médico de gôsto que em vez de dar

para escrever castiço virou no mestre arquiteto Diogo de Mu- ribara, autor do Solar M onjope, teve mesmo um momento de mau hum or e despejou uns remoques da mais fina ironia so­

bre a literatura plangente e lírica dos tradicionalistas de Per­ nambuco, “que acabam de fundar um Museu para recolher

arquitetônicos que êles

não

Não tenho elementos para defender os tradicionalistas de Pernambuco que fundaram o tal Museu. Creio que êste é de formação oficial. Ignoro as relações entre os particulares e aquêle instituto. Já ouvi explicar o gesto lamentável do atual Proprietário de Megaípe do seguinte modo: o usineiro teria botado abaixo a velha casa para não entregá-la ao patrim ónio Publico. Quem m e contou êsse caso estava cheio de adm iração

Pela façanha cívica do senhor

a de não sei que herói da guerra dos holandeses incendiando

os sgus canaviais para não os abandonar nas mãos do invasor.

Não acreditei. O Sr. Júlio Belo afiançou que o Sr. João L o p e s

e Siqueira Santos é um homem bom , e um hom em bom não Procederia assim.

A

d e r r u b a d a

do antigo Solar de Megaípe

provocou

até

José M ariano

as

fotografias

puderam

dos

belos

monumentos

salvar”.

de engenho, que êle com parou

Tam bém não

“aquele feio

acredito, como o Sr. Júlio Belo,

caiba

à Usina.

Esta

Usina

que a culpa

grande

gesto

com

V

está aí como símbolo de modernidade sem entranhas, de ci­ vilização duram ente materialista, de dinamismo atropelante. Não me parece razoável tanta prevenção contra a usina. (Eu vejo a usina com u pequeno, isto é, um aparelham ento aper­ feiçoado, fornecendo maior rendimento e permitindo aos nos­ sos fabricantes de açúcar concorrerem com os produtores de

Java e da América Central. Êsses métodos de um a técnica in­

dustrial económica

das belas coisas e o culto da tradição aproveitável, como de resto sei que coexistem no próprio Sr. Júlio Belo). Se é preciso arranjar um a desculpa que nos tire o sentimento desagradável de indignação contra o Sr. Siqueira Santos, não há senão levar o seu ato à conta de indiferença ou ausência absoluta de senso artístico e histórico. Quase todo o mundo no Brasil é como o Sr. Siqueira Santos. Portanto o que se pode fazer é falar sempre que possível nessas coisas para for­ m ar ambiente. Quem dispõe de gôsto e fortuna, como José M ariano (filho) pode, além de falar, agir: desvalijar conven­ tos e solares em proveito nosso antes que judeus solertes o façam para o seu e o do estrangeiro. Mas quem não tem nada de seu, que há de fazer senão derram ar lágrimas líricas?

sarcasmo incompreensível

podem perfeitam ente co-existir com o amor

José

M ariano

(filho)

foi de

um

para com os pobres tradicionalistas pernambucanos, tanto mais quanto no fundo, bem no fundo, êle talvez tivesse ganas de espinafrar com o tal Solar de Megaípe, sôbre o qual acha

que a crítica tem dito coisas “nem sempre justas”. M ariano é, em arquitetura colonial, tradicionalista, ou que m elhor nome tenha, um purista. Quer a tradição portuguêsa, alentejana. M e­ gaípe não era para êle a casa-grande mais bela do Estado. Preferia a ela as casas dos engenhos Anjos e Noruega. N ão co­ nheço, infelizmente, nem um a nem outra. P or m im adorei

M e g a íp e . N ão sei de casa que ficasse melhor no quadro da

p a isa g e m pernambucana. Eram linhas do passado que além

o encanto de ela tinha

em comum com o arranha-céu o predomínio das geometrias retas.

de v e n e rá v e is por tão bonitas, possuíam também

condizer com

as novas formas dos nossos dias:

Tradicionalistas pobres de Pernambuco, de Pernam buco e

nós que não

dispomos, senão de lágrimas líricas. Depois da casa de M e­

1 O caso é

pior. N a Bahia m anda um hom em que conhece a im portân­ cia enorme de um m onumento como aquêle. Recebeu o gover­ no das mãos de outro homem cuja residência é um riquíssimo museu das mais lindas antiguidades que já se colecionaram no Brasil. São dois cavalheiros de grande cultura e fino gôsto. Como não fizeram nada para conservar e restaurar os belos monumentos coloniais de Salvador? Como deixam arrui- nar-se o Solar dos Aguiares?

gaípe chegará a vez da Sé Velha da B

de todo o Brasil, o mom ento é bem duro para

Certamente a ação dos governantes não basta. É preciso despertar a consciência do valor dessas relíquias na mentali­ dade dos detentores eventuais delas. Criar o ambiente tradi­

E, na frase de

cionalista. Chorar muitas lágrimas

Heine posta em epígrafe aos Manuscritos de Stênio, “esperar

cem anos”

AS CÂMARAS M UNICIPAIS NO BRASIL

A

° primeiro centenário da Carta de Lei que organizou as Câ­ maras Municipais no Império. Destacou-se o serviço do O Iornàl, com um a série de artigos assinados por especialistas e

1928

im p r e n s a

do Rio comemorou

em

1.° de outubro de

acompanhados de algumas ilustrações

Srafia da histórica igreja do Rosário dos pretos,

n °U o Senado da Câmara e de cujas sacadas foram a n u n c ia d a s

curiosas, como

a

foto-

onde func>°"

ao povo em 9 de janeiro de 1822 as alegres palavras do “fico” ; um desenho de Rugendas reproduzindo um aspecto da antiga Rua Direita; e outro de Debret, onde num bando solene da C âm ara M unicipal se pode ver a indum entária aparatosa de vereadores e almotacéis de casaca prêta, capa e volta, chapéu de dois bicos em plumado, e na m ão a vara simbólica.

A quem conhece um pouco da nossa história a lei de 1.°

de outubro

de 1828 se apresenta antes como um a diminuição

da autonomia e do espírito municipais em favor da centrali­ zação política que tem sido a tendência constante dos gover­ nos desde a independência até os nossos dias. O principal escopo daquela lei foi definir as atribuições m unicipais e re­

gular o jôgo das relações entre municipalidades e governos

provinciais e

deram aquêle prestígio com que tantas vêzes intervieram

centra). Desde êsse momento as Câm aras per­

na vida nacional em ocasiões decisivas.

D urante os séculos coloniais elas foram os núcleos de cris­ talização do nosso sentimento político. Em nome dêle sa­ biam falar com firm eza e às vêzes até com arrogância, como

o fêz

presidente da Câm ara de Olinda ao capitão-

general Sebastião de Castro Caldas. Sobretudo nas lutas e agitações que precederam e segui­

ram o Sete de Setembro a sua atuação foi precípua. Quando

em

1710 o

príncipe entrou em conflito com as Côrtes portuguêsas, cho­ viam no paço as mensagens, moções e representações dos Se­

o

nados das Câm aras insistindo com êle pela desobediência

ao

mandado de viagem. Foi o Senado da Câm ara carioca que

le­

vou ao príncipe a representação dos oito mil patriotas; foi ainda êle que dias depois, subjugada a divisão reacionária de

Avilez, ofereceu a D. Pedro o título de Defensor Perpétuo do

Brasil e insinuou a convocação

nacional

independente, tinha naturalm ente que arrebatar às Câm aras o

papel por

de um a assembléia constituinte.

a

organização

da

tanto

brilho

vida

até

a Indepen­

A evolução

política,

com

elas representado com

Or­

denações Filipinas, fonte de um a tradição liberal que a restau­

ração e o império

dência, principalmente a partir das franquias

amplas

das

respeitaram

em

linhas

gerais.

Essa im portância política das nossas Câmaras no longo período colonial deixou vestígio até hoje no ardor que carac­ teriza as nossas políticas municipais. O brasileiro ainda não tem educação política bastante para se interessar por um a eleição federal. Pouco se lhes dá aos mineiros, por exemplo, que vença êste ou aquêle num a cam panha presidencial. Mas para botar um homem na chefia de um a vereação, são capazes

de disputar a bala a vitória do seu candidato.

1834, que

A

lei

de

1828,

retocada

pelo A to

Adicional

de

restringiu

ainda

mais

a

esfera

da

influência

municipal,

pro­

longou-se até a

queda

da

monarquia.

 

É curioso confrontar o Rio de hoje, movimentado e m onu­

mental, com a cidadezinha descrita no alm anaque de TPlan-

cher. O desenvolvimento foi enorme. Em 1828 a cidade'con­ tava apenas 73 ruas, 23 becos, 6 praias, 1 caminho, 1 campo, 10 largos, 5 ladeiras, 10 travessas e o A rco do Teles, que até hoje escapou incólume às transformações de em tôrno.

A cidade ficava limitada pelo bairro da Glória de um lado,

pelo Saco do Alferes do outro. O Catete parecia tão afastado do centro, que era então apenas lugar para “passar as festas”

nas lindas chácaras que bordavam as faldas do m orro de Gua- ratiba. N ão havia ainda a m ania da consagração patriótica na nomenclatura das ruas. Elas traziam nomes ingénuos tirados

de um detalhe topográfico ou do ofício ou comércio dominan­

te. Era a R ua do Sabão, a R ua das Violas, a R ua dos Lato-

eiros, a Estrada de M

nagem nos romances de M achado de Assis. São hoje raras as

m au

costume antigo êsse de andar trocando o nome das ruas. Em

folhetins

do Jornal do Comércio terem crism ado — prosaicam ente, diz

ele em Rua das M arrecas a R ua das Belas N oites, que le- Vava às alamedas ensombradas do Passeio Público.

ruas que guardaram êsses nomes tradicionais. É aliás um

Esta quase um a perso­

1857

Francisco

Otaviano

lam entava

num

dos

seus

 

O

Rio de 1828 era um a cidade de seus 130.000 habitantes

c«m

um a receita orçada em 31:000$000.

,

« « o da capital começou com a instituição da Prefeitura,

°

° regime republicano. Os jornais recordam a figura de

Barata Ribeiro, o prefeito que desrespeitou o mandado judi- diciário com que se pretendeu em bargar o arrasam ento do cé­ lebre cortiço “Cabeça de Porco”. Desde Barata Ribeiro não tem faltado energia e dedicação aos adm inistradores da cida­ de. O que faltou a todos porém foi o senso do urbanismo. Sob êles a cidade cresceu desmedidamente, mas sempre à lei

do capricho com que ela veio ros às rechãs pantanosas.

descendo pelas vielas dos

m or­

VELHAS IGREJAS

Q u a n d o e m 1926 voltei a Pernam buco após um a ausência de trinta anos, era de preferência para Olinda que se voltava a m inha curiosidade. Para Olinda, cujo oiteiro nunca subi em menino e da qual não conservava senão a lembrança dos ba­ nhos de m ar e da viagem no trenzinho de m axambom ba que partia da esquina da Rua da União, da escura estação em cuja calçada fui tanta vez comer tapioca de côco nos tabulei­ ros das pretas, que ainda cobriam os ombros com vistosos xales de pano da Costa. Apesar de vir da Bahia, tão rica de monumentos e tradi­ ções do nosso passado, Olinda produziu em mim um a em o­ ção nunca dantes sentida. N a Bahia fica-se um pouco vexado

de parar no meio do tum ulto das ruas para contemplar a

te de algum velho sobrado. Em Olinda há o silêncio e a tran­

quilidade que favorecem os passos perdidos dos que se com­ prazem nessa contemplação do passado e dos seus vestígios impregnados de tão nobre melancolia. Mas chegado ao alto da colina, quebrou-se-me de súbito o doce encantamento que eu vinha tendo por aquelas ladeiras

fren­

velhinhas, quando m e vi em face da nova Sé. Tinham trans­

formado a velha capela barroca num detestável gótico de fancaria! Como havia sido possível desconhecer a tal ponto o significado da igreja primitiva? Contaram-me então que o

êrro

terior do templo fôra também despojado dos seus painéis de

azulejos, que por muito tem po

to como caliça imprestável, até que um am ador dessas coisas pediu e obteve o consentimento de reconstrui-los para si c levou-os.

não

se lim itara

a

aquela m onstruosa

adulteração:

o

in­

can­

ficaram am ontoados num

Tremo sempre que leio nos jornais a notícia de que algu­

ma das nossas velhas igrejas vai sofrer reparações. Se as obras se limitassem a um a simples consolidação e limpeza, à res­ tauração no estilo geral de detalhes que trabalhos anteriores

já desfiguraram, se deixassem como estão os seus ouros am or­

tecidos de pátina, não haveria decerto inconveniente. M as des­ graçadamente sabemos todos como essas coisas se fazem.

Mesmo quando existe confessa a intenção de poupar as li­

nhas e a decoração primitivas, o resultado é sempre desastroso.

O ouro de hoje é o ouro-banana. Quem não viu até dois anos

atrás o interior de S. Francisco na Bahia não poderá mais fa­

zer idéia do deslumbramento místico que instilava na alma

o brilho velho da antiga douradura. Hoje é

um am arelo estri­

dente. A capelinha de Nossa Senhora da Glória do Oiteiro no

Rio perdeu tam bém com a restauração a sua doce intimidade.1

cuidado em

aao sacrificar a feição tradicional. D iante dêsses exemplos, fi- Ça-se com mêdo de que toquem nas belas igrejas do passado, as utucas que dão, independente de qualquer crença, a vontade

de rezar, porque só elas suscitam pelo milagre artístico a emo-

Çao religiosa. Dos templos m odernos que conheço só um ins­ pira igual sentimento — a igreja de S. Bento em S. Paulo. To- os os outros são pobres de arte, pobres de ambiente, pobres e sombra. Por tôda a parte o m árm ore (quando não é a ioú-

No entanto

quer num

quer no

outro

caso houve

anc

^®uve Posteriormente nova reparação, dirigida pelo DPHAN, repos o interior da Capela no seu estilo primitivo.

tação do m árm ore), o cimento arm ado e o biscuit vão subs­ tituindo a madeira-de-Iei de talha caprichosa. Que procedam assim nas novas igrejas, vá, — que os tem ­ pos não são mais de bastante fé ou desprendimento para que os ricos católicos façam doações como a do lam padário de S. Francisco da Bahia, — com os seus oitenta quilos de prata

cinzelada

E os escultores quase que abandonaram a talha

direta pela fácil e espúria modelagem (não é atoa que a es­

cultura anda em tal decadência). Devemos contudo empregar

todos os esforços

nio insubstituível que nos legaram os nossos antepassados. Quando não fôr possível restaurar dignamente um velho mo­ numento, melhor será deixá-lo arruinar-se inteiramente. As ruínas apenas entristecem. U m a restauração inepta revolta,

para prolongar a conservação do patrim ó­

amargura,

ofende.

O

Q U E ERA

O PER N A M B U CO D E

1821

T e n h o

a m ig o cuja leitura favorita são os velhos livros

de viagem: um a doce mania que está ficando tão dispendio­

O meu

amigo distingue-se entre os amadores dessas coisas pelo amor

quase de nam orado que põe na procura e aquisição de cada

volume. N ão é para êle

uma pequena aventura, um a deliciosa aventura em que êle

um a com pra vulgar. Não. É sempre

sa quanto a das antiguidades de prata e

u m

emprega tanto pudor e delicadeza como na aproximação e

cêrco de um a mulher. Obtido o volume cobiçado, a sua lei­

tura tem

para êle o sabor

de um

idílio.

sua

ultima

conquista

foi

o

livro

de

M aria

G raham

Journal o f a Voyage to Brazil, exemplar velhinho ilustrado de

estampas amoráveis desenhadas pela autora, em um a das quais

tive o prazer de encontrar

“Evocação

que faziam

da

da Costa, o colar de contas, o bracelete, descaindo nos ombros magros.

de

Oliveira Lima sôbre o tempo de D. João VI. O alfarrabista contou-me ter vendido alguns dias antes ao Sr. Paulo Prado

um exemplar de bela encadernação por quatrocentos mil-réis. Meu amigo pagou pouco menos que isso pelo seu. O livro em

si

no

seu aspecto gráfico, como agradável ao espírito no interêsse

encanta como o próprio

e amenidade do texto. M aria nome.

Vou repetir um pouco do que èla escreveu sôbre o Recife.

É o único jeito de aliviar a m inha

Atravessava a minha província natal um período memorável.

que Luís do Rêgo,

da península, defendia

diz ela,

em nome da

a camisa muito alva

a

prêta das bananas da m inha

todos

os detalhes característicos

nas tardes

da Rua

do

o

Recife”, com

encanto

da minha meninice

U nião: o largo tabuleiro de pau, o xale vistoso de pano

M aria

G raham

está caríssima

agora depois

dos

estudos

é

um a

dessas

coisas

sem

preço,

G raham

tão

deleitoso

à

vista

paixão

anacrónica.

Os patriotas de G oiana sitiavam a cidade

soldado experimentado nas

causa realista.

campanhas

“É

um

hom em

severo”,

e especialmente entre os soldados

mais temido

do

que

am a­

do.” Precisamente

na

véspera

de

sua

chegada

o

governador

repelira o

ataque

dos rebeldes

ao

sul

de Afogados.

Longe de atemorizar-se, ficou ela encantada de desembar- car e observar a cidade em estado de cêrco, espetáculo intei­ ramente novo para ela. Os seus primeiros passos foram para Palácio, onde estêve com o governador, a senhora e as filhas.

M adame Luís do Rêgo era agradável, “rather pretty”, e fa-

do

Kjo Sêco, era irlandesa). “N ada mais afável e lisonjeiro que

as suas

m eninas”, um a das q u a is de

grande formosura.

ci-

ando

inglês com o um a inglêsa

m aneiras

e

as

de

suas

(sua

m ãe,

a

Viscondessa

Cum prindo

o dever de cortesia,

a

visitante p e r c o r r e u

a

ade, de que dá pormenores m uito curiosos. S u rp re e n d e u -a

grandemente o hábito de instalar a cozinha no andar superior,

com o que se m antinham em tem peratura fresca os andares inferiores. O pavimento térreo era ocupado pelas lojas, apo­ sento de escravos e cocheiras; no segundo ficavam os escri­ tórios e armazéns; a família residia no terceiro andar. Em cima de tudo, a cozinha. Impressionaram-na m uito as cenas da escravidão, o m er­

cado dos cativos — “cêrca de cinquenta criaturas moças, m o­ leques e raparigas com tôdas as aparências da doença e da fome, sentadas ou deitadas na rua no meio dos mais imundos animais.” D o balcão da casa do cônsul presenciou um a m u­ lher branca, um demónio, bater num a negrinha, torcendo-lhe

os braços cruelmente. Em Olinda,

perto do V aradouro, viu ao

pôr-do-sol um cão puxar da areia um braço de negro defunto

e

Como andavam

vestidas as recifenses daquele tempo? D en­

tro de casa usavam um a espécie de bata “que deixava o seio

ou m anta das côres

mais alegres, cadeias de ouro no pescoço e nos braços, brin­ cos de ouro. Ficou surpreendida com a extrema beleza de Olinda, “ou antes do que dela resta, porque está agora em melancólico estado de ruína.” Apesar da incerteza da hora, que era de expectativas graves e apreensões de luta iminente, o governador e a senhora não se descuidavam de obsequiar os hóspedes da fragata inglêsa, aos quais ofereceram um jantar em palácio. Jantava-se naqueles tempos às 4 1/2. A recepção foi m uito cordial. Fêz-se depois excelente música. M adame Luís do Rêgo tinha um a voz ad­ mirável, e houve além dela vários outros bons cantores e pia­ nistas. Aventura engraçada foi a que se passou com a roupa lava­ da de bordo. Os patriotas não a tinham querido deixar passar

muito exposto”. N a rua traziam um

xale

de volta, de sorte que lá foi um a comissão de inglêses enten- der-se com os revolucionários nos postos de vanguarda de

ocasião para

ver o que ela andava acesa em

Capibaribe acima. M aria G raham aproveitou a

curiosidade por olhar:

os

ar­

redores da cidade, de que registra um a encantadora descrição.

No

quartel-general dos

revolucionários, em

face dos mem­

bros da junta do governo provisório um homenzinho muito smart, que servia de intérprete em francês passável, começou,

a propósito daquela reclamação sôbre barreia de roupa, um

longo discurso de ataque à injustiça do governo português para com o Brasil em geral e para com os pernambucanos em particular. Os ingleses não pescavam quase nada mas M a­ ria Graham sentiu que a respeitável junta fazia a mais alta idéia do talento e da eloquência do orador. Depois do dis­ curso, a negociação sôbre a roupa foi rápida e os estrangei­ ros obtiveram não só o que pretendiam como outros grandes

favores e provas de cortesia. Em outubro, acertado um armistício entre os campos ad­

versários, pôde a inglesa observar a cidade, restituída à sua atividade normal. Chamou-lhe a atenção a grande preponde­ rância da população negra — em 70.000 pessoas (incluída Olinda) dois terços eram de pretos e mulatos, os mulatos mais ativos, mais industriosos, mais animados do que as ou­

tras classes.

mover a independência da pátria.” Já o negro fôrro, quando

tinha o bastante para com prar um a bonita fatiota prêta para

si e braceletes e colar para

de se c a n s a r Muitos, de qualquer côr, um a vez que podiam pagar-se o luxo de um escravo, não faziam mais nada. O prêto trabalhava ou mendigava para êles. Os europeus evitavam com horror o casamento de suas fi­ lhas com os brasileiros natos, preferindo dá-las, filhas e for­ tunas, ao caixeirinho da mais humilde extração européia.

“M uitos enriquecem e não ficam atrás em pro­

a m adam a, não

queria saber mais

família portuguêsa, curiosa que

estava de notar a diferença entre um

terior português. A disposição dos aposentos era a mesma. A sala de visitas diferia só em dispor de m elhor mobília, de

resto tudo artigo inglês, até o bonito piano

M aria G raham visitou um a

interior inglês e um

de

B r o a d w

in­

o o d ;

^

as

a

sala

de jantar

era inteiram ente

outra:

m uros cobertos

estampas

inglesas

e

pinturas

da

China;

na

parede

menor

a sala, um a grande mesa apresentando

sob redoma um pre­

sepe completo: anjos, os três reis magos, musgos, flôres ar­ tificiais, conchinhas e missangas, gazes salpicadas de ouro e prata, os santos António e Cristóvão, um à direita, outro à esquerda. Pendentes do teto, nove gaiolas de passarinhos e num a saleta de passagem um a porção de papagaios bem edu­ cados. Ao canto, as grandes talhas para refrescar a água, ma- nufatura baiana. O ar e maneiras da família, perfeitos, só que os homens em casa não usavam

casa de campo do cônsul inglês pareceu-lhe, como tôdas

as outras, comparável a um bangalô oriental: um só pavimento

esparramado,

seiras, coqueiros

deixou o Recife,

onde, salvo as cenas de escravos, tudo foi alegria pitoresca para os seus olhos. D o que presenciou das lutas entre os pa­

triotas e a gente de Luís do Rêgo levou a persuasão de que nunca mais aquela parte do Brasil se subm eteria a Portugal. A certou mais do que pensava. Ela mesma se dem orou no Brasil o bastante para verificar que todo o país sentia assim, quando um ano depois proclamou e defendeu de armas na mão

A

com

larga

varanda

em

volta

e

cercado

de

ro­

e mangueiras. saudades que M aria G raham

N ão foi sem

a

sua independência.

ããB&STA D E

N.

S.

D A

GLÓRIA DO

OITEIRO

falando da festa de Santa Cruz, no Recife, notava que onde o brasileiro mais sente nos olhos o gôsto do Brasil

é decerto quando fica parado num pátio de igreja em dia de

festa de Nossa Senhora. O cronista acentuava como aspecto dom inante nessas festas a democracia sincera da gente de

tôda côr que se m istura.

A

l

g

u

é m

,

Êsse prazer, que ainda subsiste forte no ambiente mais tra­ dicional das províncias, quase desapareceu na capital do país. São sempre as mesmas as festas de igrejas, mas sem aquele pitoresco popular que desenvolvia no adro o movimento rui­ doso das romarias. Hoje no Rio só há duas solenidades religiosas a sustentar a tradição da cidade: a festa da Penha e a festa da Glória. Nunca fui à festa da Penha. Parece que ela é cara sobretudo aos portugueses. N a m inha infância eu olhava com um a certa repugnância para os magotes de labregos que desde cedo acudiam de todos os pontos da cidade para o longínquo su­ búrbio da baixada, em prestando às ruas uns tons exóticos de aldeia lusa. Iam a pé ou em caminhões ou carros abertos. Levavam em evidência grandes garrafões de vinho verde ou virgem, o que fêz dizer a A rtur Azevedo “que pareciam mais amigos do virgem do que da Virgem”. A tiracolo traziam enormes fiadas de rôscas coloridas. Estas rôscas coloridas eram o complemento indispensável, o distintivo mais caracte­ rístico do folião da Penha.

De tudo aquilo me ficou uma recordação

de bródio

portu­

guês. Por isso a Penha nunca me interessou. Mais brasileira, mais tradicional, mais poética, incom parà- velmente, é a festa de Nossa Senhora da Glória. O pequeno oiteiro da Glória, com a sua capelinha duas vêzes secular, é urn dos sítios mais aprazíveis, mais ingênuam ente pitorescos

da cidade. As velhas casas da encosta cederam lugar a cons­ truções modernas. Entretanto a igrejinha tem tanto caráter na sua simplicidade, que ela só e mais um a meia dúzia de Palmeiras bastam a guardar a fisionomia tradicional da co­ lina. Embaixo a paisagem se renovou completamente. Lem ­ bro-me bem do Largo da Glória e da Praia da Lapa da mi­ nha meninice: um desenho de Debret. Desapareceu o casa­ rão do m ercado que servia de caserna e despertou o interêsse Publico quando abrigou por algum tempo as jagunças e os ja- Suncinhos trazidos de Canudos. O largo estendeu-se até à fal- a do oiteiro. O caminho da praia alargou-se em ampla aveni- a arborizada. O velho edifício onde no império estava ins­

talada a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, foi substituído pelo Palácio do Arcebispado. Tôdas essas mudanças vieram re­ alçar ainda mais a graça ingénua da igrejinha. Só um a coisa

O observador

a prejudicou:

que olha do m orro de Santa Teresa não vê mais o perfil da

capela recortado no fundo

da

poética ermida no dia de Nossa Senhora da Glória. Já na­

quele tem po, 1855, diz A lencar pela bôca do herói, era aquela

um a das poucas festas

mancista:

a mole pesada

do

das

Hotel

águas.

um

Glória.

O romance

Lucíola

começa por

encontro

no

adro

populares da Côrte. Descreve-a o ro­

Tôdas as raças, desde o caucasiano sem mescla até o africano puro; tôdas as posições, desde as ilustrações da política, da for­ tuna ou do talento, até o proletário humilde e desconhecido; tôdas as profissões, desde o banqueiro até o mendigo; finalmente, todos

os tipos gostosos da sociedade brasileira, desde

dade até a vil lisonja desfilaram

a arrogante nuli­

.

O cortejo de A lencar não está completo. Faltam a êle as

figuras principais que eram as dos soberanos. Os imperado­ res do Brasil, e antes dêles os vice-reis e governadores-gerais. com pareciam todos os anos à festa, prestigiando com a sua presença a tradicional soleriidade, e isso dava aos festejos um cunho de comunhão dem ocrática que singularizou entre tôdas as comemorações eclesiásticas o dia da Glória do Oiteiro. Era uma festa a um tem po popular e aristocrática. D. Pedro II,

acompanhados de numeroso séquito,

onde se viam os homens mais ilustres e as senhoras mais lin­

a Im peratriz, a Princesa,

das da Côrte, subiam a íngreme colina e de volta da soleni­ dade descansavam na Secretaria dos Estrangeiros. Com à queda da m onarquia os festejos perderam inteira­ mente o elemento aristocrático. O progresso da cidade rou-

caso, o dia de

bou-lhe muito da concorrência. Em todo o

Nossa Senhora da Glória ainda não decaiu à categoria de festa de bairro. Ainda é um a das raras festas populares da

cidade. Tive êste ano

que sabia que a irmandade

particular interesse em visitar a erm ida por­

levara

a efeito

grandes

obras in­

ternas de restauração. Entrei o pórtico receoso, em bora ti­ vesse lido nos jornais um a entrevista em que um dos membros daquela irm andade assegurava o respeito que presidira aos trabalhos de restauração. O meu receio infelizmente se con­ firmou. A pequenina nave, despojada dos seus ouros e das suas argamassas patinadas, perdeu o encanto que lhe vinha da idade. Tudo está novo ou renovado. Baixei os olhos e saí de­ pressa para guardar nos olhos a imagem das velhas capelinhas

e tribunas,

Fora, no adro, faziam o clássico leilão de prendas. Rapa­ zes e môças nam oravam. Isso ao menos não mudara! Só que

a concorrência amulatou-se bastante. A festa é hoje exclusi­ vamente do povo. As ladeiras de acesso ainda regurgitavam quando desci às onze da noite. N ão havia mais, como nos outros anos, as bandeirinhas e galhardetes enfeitando o Largo da Glória,

nem canela cheirosa espalhada no chão.

Olhei ainda um a vez

para o “cômoro octógeno” dos versos detestáveis de Pôrto

Alegre: a erm ida luzia docemente. N ão se viam as luzes, es­

tando

o tem plo ilum inado pela projeção de fortes focos elé-

tricos dissimulados na am urada do adro. O efeito é muito

bonito porque nada m ascara as linhas ingénuas da igreja. To­

davia não deixei de ter saudades da iluminação primitiva que

formava em tôrno da capelinha um como manto cintilante de Nossa Senhora.

como eu

as

vi até

o

ano

passado.

ARQUITETURA

BRASILElilfc

■ DE 1914 provocou em todo o m undo um a cotoo re-

'^escen cia do sentimento nacional, que andava adormecido r várias décadas de propaganda socialista ativa. As elites

sonhavam

com

um a

organização

política

e social mais

justa

num a humanidade sem fronteiras.

Mal, porém,

se declarou

o

conflito,

o espírito

feroz

de

pátria

apoderou-se

de todos,

in­

clusive

de

socialistas.

N as

nações

beligerantes

o

movimento

nacionalista assumiu naturalm ente as form as do

patriotism o

mais agressivo. Em países

mais

rem otam ente

interessados,

como

foi

o

caso

do

nosso,

o

sentimento

nativista

exprimiu-

se nas

artes

por

um a

volta

aos

assuntos

nacionais.

A música culta entrou a recolher sistemàticamente a música

popular desde o tem po da colónia. As artes plásticas tom aram um quê de primitivo, como que procurando im itar a ingenui­ dade de côr e desenho das promessas de Congonhas do Cam­

po

após um breve período

a sensibilidade dos poetas europeus de vanguarda, puseram-se

treino

e

Bom

Jesus

de

Pirapora.

de

Os

modernistas

técnico

em

da

que

literatura,

refletiram

de repente a considerar “em que m aneira a terra é graciosa”

E

que acom panhar tentando criar

foi

Foi

então um a verdadeira corrida para

êsse

m ovim ento

a

arquitetura

aproveitar tudo.

procurou

também

a casa brasileira. O fim do se­

gundo reinado assinalou a decadência do espírito tradicional na construção. N ão havia mais nem a lem brança daqueles sargentos de engenheiros que riscavam com mão forte e só­ bria os projetos de igrejas e de casas de câm ara e governo.

Os Calheiros e os Alpoins foram , à falta de arquitetos, suce­ didos pelo mestre-de-obras português, insigne introdutor do lambrequim, das compoteiras de platibanda e do m árm ore fin­ gido. Mas êste ainda fazia os casarões retangulares com, ao lado, a acolhedora varanda. O que veio depois era ainda pior:

tinha

pretensões a estilo. A

Avenida A tlântica, coleção de alei­

jões,

ilustra essa época, a mais detestável da arquitetura em

nosso1país.

O m au gôsto tom ou tais proporções, que as velhas casas

pesadonas do tempo da colónia e da m onarquia assumiram por contraste um ar distinto e raçado, um ar de nobreza para sempre extinta na república.

F o i dessa contemplação melancólica que nasceu, de uns

quinze

da

anos para

cá,

um

movimento

de

elite

em

favor

casa brasileira. Era preciso, aconselhava-se, construir a casa brasileira dentro da tradição secular que a afeiçoara segundo as necessidades do nosso clima, dos nossos costumes e das nossas necessidades.

O movimento pegou, — pegou demais. Fabricaram com de-

talhezinhos de ornato um estilo, deram-lhe um nome errado, e aí está, nas casinhas catitas de telhas curvas e azulejos en­ xeridos, em que deu o renascim ento da velha arquitetura b ra­ sileira começado a pregar em São Paulo pelo sr. Ricardo Se­

vero.

O

meu

amigo

José M ariano anda agora com um trabalho

danado para m ostrar que nada disso é “casa brasileira”, que não basta azulejo e telha curva para fazer arquitetura brasi­ leira, que os profiteurs da m oda (porque hoje é m oda ter o

seu “bangalô colonial” ) sacrificaram inteiram ente o espírito arquitetônico da renovação a exterioridades bonitinhas.

E é de fato o que está acontecendo. Os grupos escolares,

os edifícios de Câmaras municipais que se estão construindo dentro do estilo representam o que há de mais contrário ao caráter da construção em que soi-disant se inspiram. Fiquei horrorizado em Sabará quando vi a nova casa da Câmara, que apesar de todos os matadores neocoloniais não passa de um casebrezinho ridículo, ao passo que ao lado o antigo sobrado da Câm ara guarda um a linha de robusta dignidade, êsse ar de casa que não é enfeite urbano, mas na definição de Le Corbusier — m áquina de m orar. O caso da Câm ara de Sa­ bará é típico, porque põe um ao lado do outro o padrão ins- pirador e o pastiche desvirtuado, num contraste verdadeira­ mente grotesco.

É preciso repetir a essa gente as palavras de Lúcio Costa,

um dos poucos arquitetos novos que sentem o passado arqui­ tetônico da nossa terra: a nossa arquitetura é robusta, forte, maciça; a nossa arquitetura é de linhas calmas, tranquilas;

tudo nela é estável, severo, simples, —

E a êsse caráter de simplicidade austera e robusta que devem

brasileira

na

V)sar

nada pernóstico.

da

tradição

os que pretendem arquitetura.

retom ar

o

fia

CRÓNICA

D E

1880

A l e it u r a dos velhos almanaques proporciona muitas vêzes à

gente surpresas bem curiosas. Quem diria, vendo o pouco caso com que hoje tratam aqui um Vila-Lôbos, quem diria que esta cidade do Rio de Janeiro já vibrou durante dois dias inteiros de puro entusiasmo por um artista?

Pois foi lendo a “Folhinha contendo a com édia em um

assim como a crónica nacional de 1879 a 1880” , publicada

e à venda em casa de Eduardo & Henrique Laemmert, Rua

do Ouvidor 60, que tomei consciência da decadência artística em que andamos nesta República Nova, tôda voltada para a conquista dos bens materiais em detrimento das glórias espiri­

tuais que outrora alvorotavam a pátria de Carlos Gomes! Porque se trata de Carlos Gomes, precisamente. Naquele ano de 1880 o autor d’ O Guarani regressava ao Brasil, depois de um a longa ausência, durante a qual tanto elevara no es­ trangeiro o nome da sua terra. A nossa mocidade académica, bem diversa da de agora, que deserta os prédios intelectuais para correr aos encontros de box e jiu-jitsu, preparou-se com grande antecedência para honrar na pessoa do cisne de Cam ­ pinas o m aior gênio musical do Brasil. E eis como os fes­ tejos, que segundo o Jornal do Comércio, de 19 de julho, che­ garam à exaltação, “ao delírio mesmo”, se desenrolaram.

D ram ática para

o

ano

de

1881,

ato O Segredo de uma Fidalga

*

Às 5 horas da m anhã (acordava-se cedo!) estudantes das Escolas M ilitar, Politécnica e M arinha, das Academias de Medicina» de Direito de S. Paulo, das Belas-Artes, do Liceu

*

*

preparatórios, carregando os

respectivos estandartes escolares e mais os paulistas residen­

tes na Côrte e o Círculo Italiano Vítor M anuel transpunham a porta do Arsenal de M arinha para tom ar lugar a bordo do transporte Madeira e de numerosas lanchas de vapor (dizia- se, com mais vernaculidade, “de vapor”) que iriam ao en­ contro do paquete Guadiana. Acompanhavam-nos as bandas militares dos batalhões de engenheiros, do 7.° e 10.° de in­ fantaria e dos imperiais marinheiros. D urante o trajeto, por iniciativa “dos srs. estudantes Pa­

trocínio e Paula N ey” (os jornais escreviam sempre “os srs. estudantes” ), fêz-se a coleta improvisada de 100$700, que reu­

nida à de 430$000 anteriorm ente obtida, seria levada

ta da alforria do escravo Tito, avaliado em 800$000, e cuja carta deveria ser-lhe entregue pelo maestro na noite do seu benefício. O Guadiana entrou a barra às 8 horas. Às 9 os estudantes subiram às vergas do M adeira e acenaram com os lenços, sau­ dando Carlos Gomes, que apareceu no convés do paquête agradecendo com o lenço as aclamações entusiásticas dos ra­ pazes. Dezessete embarcações “de” vapor e inúmeros escale­ res escoltavam então o Guadiana. As girândolas espoucavam quer a bordo, quer em te

de A rtes e Ofícios, do curso de

à con­

*

*

*

As 10 horas, Carlos Gomes desembarcava no A rsenal e seguia para a casa do inspetor, onde almoçou. Por essa oca- Sla° foi-lhe oferecido “um chapéu de sêda com a respectiva dedicatória”. Vão tom ando nota. As 10 1 /2 o m aestro deixou o Arsenal. A sua passagem

Pelas ruas do centro foi um a apoteose. As do Ouvidor e Pri­

meiro de M arço estavam ornamentadas. As

bonitas

c o l c h a s

e damasco e brocado, que hoje não se vêem mais, bandeiras estões adornavam as sacadas, de onde as senhoras e me-

as

agitavam

lenços

e atiravam flôres sôbre a cabeça do

r

d’ O

Guarani.

A cada passo o cortejo parava para que se prestasse ao

maestro uma homenagem. Aqui era “uma distinta senhora”

que lhe oferecia dois ramalhetes. Ali era um a comissão de tipógrafos da casa dos srs. Leuzinger que lhe trazia um ram o de flôres de pena. Das redações dos jornais partiam idênti­ cas homenagens. E em frente à “Notre D am e” não só lhe foi

como lhe fizeram presente de um a rica com castão de ouro. Vão tom ando nota.

N o Largo de S. Francisco havia vistoso coreto. O m aestro

Mesquita empunhou a batuta, a orquestra executou a ou­

verture d’ O Guarani, o Sr. estudante Paula N ey soltou o verbo, entregando a carta de liberdade do alforriando Lino ao maes­ tro, que a passou ao escravo, abraçando-o com lágrimas nos olhos. Então as bandas militares tocaram o H ino Nacional.

recitada um a poesia, bengala de unicórnio

E o cortejo prosseguiu pela Rua do Teatro, Largo do Ro­

de vivas

ovações. A

N o Club M ozart o maestro recebeu as principais

sob form a de discursos das várias comissões. Só às 2 1 /2 é

que pôde êle se retirar para o Engenho Velho, hospedando- se em casa do Sr. Castelões. E à noite as principais ruas e

muitos estabelecimentos iluminaram-se festivamente. N o co­

homenagens,

cio e Rua Visconde do

Rio

Branco, sempre

debaixo

Secretaria do

Império

estava repleta de

senhoras.

reto do Largo de S. Francisco um a banda tocava. data nacional.

Parecia um a

*

*

*

dia

Comércio

N o

seguinte

que

continuaram

à

tarde

era

os festejos.

Diz

difícil

o

tráfego

o

Jornal

por

do

algumas

ruas,

especialmente pela

do

Ouvidor.

À

noite esta apresentava um tom “verdadeiram ente festi­

vo” (hoje os repórteres diriam “feérico” ): eram lanterninhas

chinesas, copinhos de côres e um a “enorm e profusão de bi­ cos de gás, uns em linha reta, outros form ando arcos e em­ b lem as” N a Rua dos Ourives, por baixo de cada arco de gás havia uma estrela, tendo no centro o nome de uma das óperas do maestro e em semicírculo o seu nome. Depois das 5 horas, várias bandas tocavam em diversos pontos da cida­

de. A Sociedade Euterpe Comercial Tenentes do Diabo (aí têm como começaram os Tenentes do D iabo) embandeirou e iluminou tôda a fachada, onde se via rico troféu de ins­ trumentos de música encimado pelo retrato do maestro.

E

o Club

dos

Democráticos? Tam bém

Sôbre o frontal

da

e entrada havia um a

embandeirou

ilu­

minou

rodeada de fôlhas de louro, tendo ao centro a inscrição: “A

gratidão é um dever.” Nessa noite a mocidade das escolas realizou pela cidade uma passeata. Levavam todos lanternas chinêsas, alguns ar­ cos com transparentes no centro, onde se liam os nomes das óperas do campineiro, e cada escola carregava o seu estan­

darte. A trás vinham as bandas de música. “Por tôda a parte

recebiam-nos corações

ção, porfiando todos em honrar o laureado m aestro.” Assim desfilaram finalm ente diante do Club M ozart, onde se en­ contrava Carlos Gomes em com panhia de seu filhinho. Às 10 horas da noite, o grande brasileiro saía do club, diri­ gindo-se à Rua do Ouvidor, que percorreu de ponta a ponta, seguido por mais de duas mil pessoas “de tôdas as gradações sociais.” D e instante em instante recitavam-se poesias, que eram calorosamente aplaudidas.

na casa

*

lira

a fachada.

expandidos

pela

mais

sincera

satisfa­

Cêrca de

quinhentas

pessoas

*

visitaram

*

o

maestro

Engenho Velho.

da

de unicór-

n'° com castão de ouro, nem chapéu de sêda com a respecti-

Va dedicatória. N enhum sr. estudante fêz discurso. Os seus

Como os

tempos

mudaram!

Quando

N ão

Vila-Lôbos

voltou

uropa não teve nada disso.

ganhou bengala

concertos

estiveram

às

moscas.

N o

entanto

êle

também

é

o

^ ° r

gênio

musical

de

nossa

te rra

 

0,m ara

Que Vila-Lôbos não

leia

esta

m inha

crónica:

tudo

0 e muito triste!

NA

CÂM ARA-ARDENTE

D E JOSÉ

PATROCÍNIO

FILH O

DO

A ig r e j a do Rosário dos Pretos tem aspecto despojado e pau­ pérrimo. É talvez a nave mais triste do Rio, porque com ser nua e modesta é bem grande e faz pensar na frase de Burton, a quem as igrejas brasileiras davam a impressão de huge barns, celeiros ou paióis enormes. Êle dizia isso a propósito das be­

las igrejas mineiras do Aleijadinho. N a igreja do

dos Pretos a impressão de Burton é justa. O templo não tem senão interêsse histórico: em suas dependências funcionou pro­ visoriamente o Senado da Câm ara da cidade: foi de lá que saiu o préstito levando ao Príncipe a moção assinada pelos oito mil patriotas, e foi de lá, de um a das sacadas laterais, que José Clemente Pereira, de volta do Paço, anunciou ao povo as palavras memoráveis do “Fico”. A velha igreja guar­ da ainda um jazigo ilustre, — o de mestre Valentim, segun­ do assinala um a placa de bronze à direita de quem entra.

do

Rosário

A lí estêve

exposto

em

câm ara-ardente o

corpo

de José

Patrocínio Filho, José Carlos do Patrocínio Filho, o Zeca Pa­ trocínio. Estive lá depois de meia-noite e demorei-me um a

hora vendo os círios arder e ouvindo a conversa de amigos que recordavam casos da vida agitada e boémia do extinto, j. B. Silva, o Sinhô dos sambas estupendos, (não arredara pé dali) me contava o fim de uma noitada em que o Zeca

uma

o intimou com um

navalhão

cheio

de

dentes

a

fazer

serenata sob

as janelas da atriz Lia Binatti.

Q u e m

tivesse encontrado um a

contar.

vez com

Eu

o

Zeca

uma

ultimamente,

Riachuelo.

tinha

história

numa

engraçada

farra

em

para

conheci-o

da

Rua

certa

casa

inconfessável

Ca-

tulo.

vam- Catulo estava impossível. Bebera cerveja demais e deu para declamar poemas. Nós queríamos que êle cantasse umas modinhas, bem bestas, bem pernósticas, como “A T ua Com a” ,

ou

estava em m aré de

zas

“Talento e Form osura”. M as o bardo

Estava lá o Vila-Lôbos, o Ovalle, o João

Pernam buco,

o

O violão passava

de

mão

em

mão, porque todos

toca­

“Célia, Adeus!” ou

venais:

grandeza

e dizia

muito

sério a duas bele­

todos

os grandes poemas de tôdas as literaturas; li todo o H om ero,

todo

contrei

recitar!”

lhes

— “M inhas senhoras,

o

Virgílio; li

nada

eu

tenho sessenta anos

e

Shakespeare, A riosto:

da

minha

lavra

li

nunca

Goethe,

en­

como êste poem a

que vou

Quando êle puxava o pigarro para começar e a versalhada

parecia

inevitável,

o

Zeca

salvava

a

situação:

Ó Catulo,

— Que

canta aquela modinha!

modinha?

— Aquela em que você com para um pé a um pensamento de Pascal.

E

como

Catulo estava por

conta da cerveja, esquecia a modinha pedida.

diatamente o poem a e cantava

ime­

Zeca era

mais

pequeno,

magro.

tez

M agro

baça

assim

e

magríssimo.

e tinha

quem

um

N unca

está

porte,

nin­

nas um a vivaci­

vi

guém

Mas o Zeca

dade de rapaz com perfeita saúde. Êsse contraste era coisa surpreendente. Ouvia-se falar de vez em quando que o Zeca

estava muito doente, coitado do Zeca, e de repente aparecia

0 Zeca de smoking na Avenida às 3

volto, loquaz, cheio de

assim,

últimas.

era m agro

1/2 da m adrugada, desen­

planos.

■ Volto pra Paris. O

Trólóló só me

dá uns três

contos e

eu com menos de seis não posso viver aqui. Prefiro m orar em

aixo de um a ponte em

Paris!

E

viveu

tôda

a

vida

assim,

do

Rio pra Paris e de Paris

d

ri

°

^ ' ° : depois da “sinistra aventura” passou aqui um aço mais duro, sobrecarregado de tanta tarefa jornahstica <jue teve de contratar “negros” para o ajudarem no seu ofício

excursões.

teve na Bahia, onde a horas m ortas andou beijando portões

e ^cronista.

Mas

isto

não

bastava.

Então

fêz

vulgares que na excitação do whisky tom ava como relíquias de arte tradicionais. G anhou contos de réis até em Ilhéus. G anhar dinheiro para Zeca Patrocínio parecia ser coisa tão fácil quanto respirar. O seu espírito, a sua graça vivaz, a sua capacidade de invenção, de improvização cativavam à pri­ meira vista e dir-se-ia que os amigos tinham prazer em lhe abrir a bôlsa. Zeca era um pardal que fazia gôsto sustentar, que fazia gôsto ver alegre, irrequieto. Tendo nascido poeta,

fêz versos no

tempo em

que

cursava

os preparatórios.

H á sujeitos de pouco talento e no entanto com tanta habi­

lidade para aproveitar êsse pouco talento que com meia dú­

zia de

ção literária ou científica, dominam a sociedade e chegam antes da m aturidade às Academias. Zeca Patrocínio era o tipo oposto, — dos que não tom am a sério o dom que trou­ xeram do berço, desperdiçam-no e morrem sem deixar atrás

de si vestígio da

Junto à essa ladeada pelos seus círios, as pretinhas de cabeça branca (como deviam ser velhas!) da Irm andade do Rosário

ajoelhavam de hora em hora para rezar o têrço em voz alta. H averá espíritos e o de Zeca veria naquele momento o es- petáculo tocante? pensava eu fitando o ataúde. N a m anhã dêsse dia foi o corpo inumado. 28 de setembro.

O filho de José do Patrocínio foi levado ao cemitério numa

data famosa da campanha que fêz a glória paterna.

lugares-comuns organizam em alguns anos um a reputa­

riqueza malbaratada.

 

O ENTÊRRO

D E SINHO

 

J.

B.

S il v a ,

o

popular

Sinhô dos

mais

deliciosos

sambas ca­

riocas, era

um

dêsses homens

que

ainda

m orrendo

da

morte

mais natural

deste

mundo

dão

a

todos

a

impressão

de

que

morreram de acidente. Zeca Patrocínio, que o adorava e com

quem êle tinha grandes afinidades de tem peram ento, era assim também: descarnado, lívido, frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um m oribundo galvani­ zado provisoriamente para um a farra. Que doença era a sua?

que Certamente o rim estava em pantanas. Fígado escangalhado. Ouvia-se de vez em quando que o Zeca estava morrendo. Ora em Paris, ora em Todos os Santos, subúrbio da Central. E de repente, na Avenida, a gente encontrava o Zeca às três da madrugada, de smoking, no auge da excitação e da verve. Assim me aconteceu um a vez, e o que o punha tão excitado naquela ocasião era precisamente a últim a m archa carnava­ lesca de Sinhô, o famoso

Parecia um tísico nas últimas. D iziam

tinha m uita sífilis.

que pra sustentar família foi bancar o

Me apresentaram a Sinhô na câm ara-ardente do Zeca. Foi na pobre nave da igreja dos pretos do Rosário. Sinhô tinha passado o dia ali, era mais de meia-noite, ia passar a noite

ali e não parava de evocar a figura do amigo extinto, contava aventuras comuns, espinafrava tudo quanto era músico e poeta, estava danado naquela época com o Vila e o Catulo, poeta era êle, músico era êle. Que língua desgraçada! Que vaidade! mas a gente não podia deixar de gostar dêle desde loS°, pelo menos os que são sensíveis ao sabor da qualidade carioca. O que há de mais povo e de mais carioca tinha em inhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais Profunda. De quando em quando, no meio de um a porção de toadas que tôdas eram camaradas e frescas como as manhãs os nossos subúrbiozinhos humildes, vinha de Sinhô um sarn- 3 definitivo, um Claudionor, um Jura, com um “beijo puro catedral do am or”, enfim um a dessas coisas incríveis 9ue Pareciam descer dos morros lendários da cidade, Favela, Sal- ^Udro, M angueira, São Carlos, fina-flôr extrema da malan-

ragem carioca mais inteligente e m ais

b

a n d e ir a

-

u

-

6

- Sinhô!

Êle era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artis­ tas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé

urbana.

quando levado a um salão. Vi-o pela últim a vez em casa de Álvaro M oreyra. Sinhô cantou, se acom panhando, o “Não posso mais, m eu bem, não

fascinação que despertava em tôda a gente

D aí

a

posso mais”, que havia composto na m adrugada daquele dia,

de volta de

um a farra. Estava quase inteiramente afônico. Tos­

sia muito e corrigia a tosse bebendo boas lambadas de M adeira R. Repetiu-se a toada umses-número de vêzes. Todos nós secundávamos em côro. Terán, que estava presente, ficou

encantado. N ão faz um a semana eu estava em casa de um amigo onde se esperava a chegada de Sinhô para cantar ao violão. Sinhô não veio. Devia estar na rua ou no fundo de alguma casa de música, cantando ou contando vantagem, ou então em al­

gum botequim. Em casa é que não estaria; em casa, de cama, é que não estaria. Sinhô tinha que m orrer como morreu, para

que

a sua m orte fôsse o que foi: um episódio de rua, como