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Nick Shadow - Biblioteca Da Meia-Noite 3 - Fim de Jogo

Nick Shadow - Biblioteca Da Meia-Noite 3 - Fim de Jogo

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Nick Shadow

Tradução Rita Sussekind

Título original: The Midnight Library - End game Série criada por Working Partners Limited Ilustração de capa: David Wyatt Direção editorial Soraia Luana Reis Editora Luciana Paixão Editor assistente Thiago Miaker Assistência editorial Elisa Martins Revisão Vanessa Rodrigues e Luciana Garcia Criação e produção gráfica Thiago Sousa Assistente de criação Marcos Gubiotti

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

S537f Shadow, Nick Fim de jogo / Nick Shadow; tradução Rita Sussekind. São Paulo: Prumo, 2009. (Biblioteca da meia-noite) Tradução de: End game ISBN 978-85-61618-91-9 1. Ficção infanto-juvenil inglesa. I. Sussekind, Rita. II. Título. III. Série.

CDD: 028.5 09-0663. 087.5

CDU:

Bem-vindo, leitor.
Meu nome é Nick Shadow, curador desta instituição secreta: a Biblioteca da Meianoite. Onde fica a Biblioteca da Meia-noite?, você pergunta. Por que você nunca ouviu falar dela? Para sua própria segurança, é melhor que essas perguntas permaneçam sem resposta. Contudo... desde que você prometa não revelar onde descobriu o que vem a seguir (não importa quem ou o quê exija isso de você), eu revelarei o que mantenho nos cofres antigos. Após muitos anos de pesquisa, reuni a mais assustadora coleção de histórias já apresentada ao homem. Elas irão aterrorizá-lo, e fazer com que a carne de seu jovem esqueleto estremeça. Talvez você devesse tomar coragem e virar a página. Afinal de contas, qual a pior coisa que poderia acontecer?...

Volume 3 Histórias de Ben Jeapes Fim de jogo A outra irmã Tem alguém aí?

Fim de jogo
O interior do carro era à prova de som, e uma parede de vidro separava os bancos da frente dos de trás. O único barulho na parte traseira vinha do jogo de Simon: o bip-bipbip enquanto apertava os botões, a leve comemoração triunfante quando outro dragão caía no chão. Ele não ouviu as rodas crepitarem sobre a terra enquanto o carro pegava a estrada para casa. Seus olhos estavam fixos na pequena tela LCD do computador portátil. Estava jogando havia muito tempo, mas se lembrava da dica do site: o herói deveria descer do cavalo antes de passar pelo portão, para que o dragão errasse o alvo quando atacasse; porém, se descesse rápido demais, a ponte desabaria e ele cairia para a morte, então o movimento tinha de ser perfeitamente calculado. O motorista abriu a porta, e uma brisa gelada atingiu sua face. — Estamos em casa, sr. Simon — disse o homem. Simon Down olhou para ele, depois para a tela, no momento em que o corpo decapitado do herói sucumbia ao chão. Fora distraído no momento errado. O dragão

voava pelos ares, com a cabeça presa em suas garras, formando uma trilha de sangue pelo caminho. — Você está despedido! — gritou Simon. — Se é o que diz, sr. Simon — respondeu o homem. — O jantar será servido às sete. É evidente, pensou Simon enquanto adentrava a casa, que não tinha autoridade para despedir ninguém. Não era algo que um menino de doze anos pudesse fazer. Mas era uma sensação agradável a de poder controlar o mundo real da mesma maneira como fazia em seus joguinhos. Parou na porta da frente e virou-se a fim de olhar para trás. A casa ficava acima do bosque, e de lá se via toda a cidade. Lá embaixo, pensava Simon, havia outras pessoas. Mordeu o lábio. Seus colegas de colégio estavam lá embaixo. Pessoas vivas. Umas próximas das outras. Era um pensamento solitário, mas Simon aprendera a transformar pensamentos solitários em coisas negativas. Sim, aquelas pessoas tinham umas às outras, ele disse a si mesmo, mas viviam espremidas. Constantemente se esbarrando. Constantemente no caminho umas das outras.

Ele, por outro lado, era livre aqui em cima, acima de todos eles, olhando-os do alto. Uma vez tentou convidar algumas pessoas para vir com ele até sua casa. Idéia de sua mãe. Provavelmente alguma coisa que lera em um livro de psicologia infantil: incentive seu filho a fazer amizades. Ninguém veio, mesmo com a descrição de Simon de sua enorme televisão e de sua vasta coleção de jogos e DVDs. Ele até exagerou um pouquinho: não tinha realmente uma sala particular com TVs de tela plana espalhadas pelas paredes mostrando dezenas de canais ao mesmo tempo. Mas não; ninguém se interessou em vir. Bem, fiquem longe, concluiu ao voltar para dentro de casa. Simon não se permitia invejá-los. Ele tinha uma coisa muito melhor do que quaisquer coisas que os outros pudessem ter. Uma coisa que era, em todos os sentidos, muito melhor que a realidade. Olá, SIMON. Bem-vindo ao Mundo dos jogos melhores que a realidade [Se não for SIMON, clique aqui]. As palavras passeavam pela tela enquanto Simon carregava o servidor e se ajeitava na frente do computador. Programou o site Mundo dos jogos melhores que a realidade para ser sua página inicial, e

a casa em que morava tinha a conexão de banda larga mais veloz que existia. Bastava ligar o computador, e lá estava. O brilho do monitor era a única luz no quarto de Simon. Os verdes, vermelhos e amarelos brilhantes iluminaram seu rosto, e ele sorriu. O site era mais confiável que qualquer amigo, caloroso e receptivo, e estava à sua disposição o tempo todo. Foi uma noite típica: dever de casa, jogos, jantar, mais jogos. Tudo supervisionado pelo mordomo, Templeton, e pela sra. Solomon, a governanta. Papai ainda estava no banco, e mamãe estava fora, fazendo trabalho voluntário. Depois, às nove e meia em ponto, hora de dormir. Os empregados não reclamariam se ele ficasse acordado, mas seus pais, sim, se chegassem em casa. Eles se lembravam de ter ouvido falar sobre hora de dormir uma vez. Como se fossem bons pais ou algo do tipo. Mas o Mundo dos jogos melhores que a realidade era a maneira como Simon sempre encerrava seus dias. Esses jogos eram definitivamente melhores que a realidade — aliás, melhores do que qualquer outra coisa na vida. Jogos que o faziam pensar, jogos pelos quais você não poderia simplesmente passar. Jogos que nunca se repetiam. Como sempre, a setinha do mouse estava sobre o link dos “jogos

personalizados”. Ele já havia clicado ali uma vez, mas uma olhada nos preços fez com que mudasse de idéia. Se ao menos houvesse uma amostra grátis ou uma demonstração, mas não; depois que passasse pelos preços, era preciso informar os detalhes de seu cartão de crédito. Ele não tinha cartão de crédito e sabia, por experiência própria, que pagaria caro se usasse o da mãe ou o do pai. Essa seria uma maneira garantida de chamar a atenção, mas teria algumas desvantagens, como ficar sem computador por uma semana. Ele suspirou, e alguém bateu à porta. Uma fresta se abriu e um rosto feminino apareceu. Ela tinha longos cabelos castanhos e olhos cor de mel separados, como os de Simon. Simon se levantou. — Mãe! — Oi, querido. Ainda acordado? — A sra. Down não entrou no quarto. — Não tenho visto você ultimamente, não é mesmo? Vá dormir agora, e nos vemos amanhã de manhã. Boa noite! A porta se fechou antes que Simon pudesse dizer alguma coisa. Ele voltou novamente a atenção para o computador e saiu da página. — Amanhã de manhã — ele sussurrou para si mesmo. Claro! Só que, até que ele

acordasse, ela já teria tido alguma emergência para resolver e já teria ido para o escritório. Seu trabalho voluntário cuidava de crises pelo mundo. Qualquer coisa, desde golfinhos doentes a órfãos da Guatemala. Qualquer coisa que não fosse ele. Desligou o monitor, e o quarto ficou inteiramente escuro. Alguma coisa brilhava através das pálpebras de Simon. Ele abriu os olhos e olhou o quarto, sonolento. O monitor estava ligado, e as conhecidas cores brilhantes do Mundo dos jogos melhores que a realidade se espalhavam pelo ambiente. Simon franziu o rosto. Tinha certeza de que havia desligado tudo. Enrolou-se como um caracol e puxou a coberta por cima da cabeça. De algum jeito a luz continuava entrando, e ele não conseguia mais dormir. Afastou a coberta, irritado. Teria de desligar o computador em definitivo, e dessa vez tiraria o plugue da tomada, só para ter certeza. Mas, ao se aproximar do computador, o que viu não foi a tela de boas-vindas que sempre aparecia. Olá, SIMON. Como você é um de nossos melhores jogadores, gostaríamos de lhe oferecer um JOGO PERSONALIZADO GRATUITO. Preencha os campos abaixo e

seu JOGO PERSONALIZADO GRATUITO será postado diretamente para você. — Gratuito, hein? — murmurou Simon. Uma coisa que havia aprendido há muito tempo era que nenhuma empresa bemsucedida oferecia nada realmente gratuito. Mas ele jogaria até descobrir qual era a pegadinha; depois, desligaria. Então, sentou-se na cadeira e colocou a mão sobre o mouse. Primeiro vinham as informações demográficas: idade, sexo, ocupação — em outras palavras, informações que iriam diretamente para o departamento de marketing, para mandarem spams pelo resto da vida. Ele se declarou um viúvo de oitenta anos, que trabalhava como neurocirurgião e ganhava um milhão de libras por ano. Depois, os itens mais importantes apareceram. SEU JOGO: Você gostaria que seu jogo fosse suave ou perigoso? Ora, é óbvio, pensou Simon. Ele selecionou “perigoso” sem pensar a respeito. Você gostaria que seu jogo se passasse em sua cidade, em uma cidade qualquer ou em um mundo de fantasia?

A setinha passeou sobre a opção “mundo de fantasia”. Programar um jogo em sua própria cidade? Até parece! Simon deu um sorriso zombeteiro. Sua cidade era... Pensando bem, sua cidade era exatamente o tipo do lugar que precisaria ser o cenário de um jogo para melhorar um pouco. Então, clicou na opção “sua cidade”. Você gostaria que seu jogo fosse apenas baseado na realidade ou que fosse tão real quanto a vida? Simon franziu o rosto. Qual era a diferença? Então, lembrou-se daqueles jogos entediantes de lan houses em que você controla um skatista ao longo de zooms em um cenário fantasioso, ou aqueles em que um atirador que não se vê ataca ladrões e aliens em um labirinto sem fim. Esses são baseados na realidade, e a pessoa logo descobre as manhas, ao perceber que são todos iguais e repetitivos. Por outro lado, uma coisa certa a respeito da vida real é que hoje pode ser completamente diferente de ontem. Então, Simon escolheu a opção “tão real quanto a vida” e clicou. Acordou com um engasgo. Os raios de sol penetravam pela cortina, e os pássaros cantavam lá fora. A tela vazia do computador o encarava, impassível, do outro lado do quarto.

Franziu o rosto. Tela vazia? Ele desligara tudo antes de se deitar, mas o computador não havia ligado sozinho e ele não havia...? Sacudiu a cabeça para clarear os pensamentos. Claro, Simon! Seu computador lhe ofereceu um jogo gratuito! Fala sério! Em seguida, olhou para o relógio de cabeceira e saltou da cama com um grito. Dormira quase uma hora a mais! Simon tomou banho, vestiu-se e jogou os livros na mochila com uma velocidade impressionante. Teria de sair sem tomar café da manhã. O carro o levaria até a escola em River Park, mas seria tão implacável quanto o ônibus escolar. Sairia na hora exata, estivesse ele pronto ou não — além de levar Simon à escola, teria de pegar seu pai em sua reunião diária da hora do café. Se não estivesse no carro na hora de sair, Simon estaria muito encrencado. Mas havia um ritual que ele precisava cumprir, independentemente da hora ou de quão atrasado estivesse. Ligou o computador para ver se havia recebido alguma mensagem. Olá, SIMON. Seu jogo personalizado já foi postado. Simon levou um susto. Então ele realmente havia recebido uma oferta de

jogo gratuito na noite anterior! Mas era estranho ele não se lembrar de ter voltado à cama depois. Não tinha tempo para pensar nisso agora. Ouvia o carro se aproximar do portão. Correu para fora do quarto, deixando-o bagunçado e a cama, desfeita. Os empregados arrumariam tudo enquanto estivesse fora. Quando chegou em casa naquela noite, a colcha estava lavada e passada. Sobre ela havia um pacote pardo. Simon largou a mochila e pegou o pacote. Girou-o nas mãos. Era pequeno e quadrado, com o peso e o tamanho de uma caixa de DVD. Seu nome e seu endereço estavam anotados em letras perfeitamente manuscritas. Não havia endereço para retorno, e também não havia selo de postagem. Quem poderia ter entregado um pacote em mãos?, pensou. Desceu até o primeiro andar. Templeton atravessava a sala quando Simon o chamou. — Quando chegou isto? O mordomo olhou para cima, surpreso. — Quando chegou o quê, sr. Simon? Simon levantou o pacote. — Isto. Para mim. Templeton ergueu as sobrancelhas. — Que eu saiba, não chegou nada hoje para o senhor. Simon ficou desconfiado.

Poderia jurar que seu mordomo possuía um certificado de garantia de ausência de qualquer senso de humor. Será que Templeton estava brincando com ele? — Alguém entrou no meu quarto hoje? — perguntou Simon. — A governanta fez a sua cama, sr. Simon — respondeu o mordomo. — Mas, fora isso, não; ninguém, senhor. Simon voltou para o quarto e examinou o pacote. Não poderia ter simplesmente aparecido, poderia? Alguém tinha de tê-lo colocado lá. Será que alguém poderia ter subido sem que os empregados notassem? Ou seria coisa da governanta, tentando brincar com a cabeça de Simon? — Ei, acalme-se! — disse a si mesmo. Não adiantaria nada ficar paranóico. O que era inegável era o fato de que o pacote estava ali, agora. Rasgou o papel e pegou o DVD na caixa de plástico. Não havia etiqueta na caixa nem no disco — apenas o nome “Simon” com tinta preta permanente. Será que a governanta poderia estar deixando DVDs para ele? Levou meio segundo para concluir que não, ela não deixaria DVDs para ele. Precisava de ajuda até mesmo para ligar o DVD player — jamais gravaria discos nas

horas vagas. Com o coração acelerado, Simon ligou o computador e inseriu o DVD na bandeja. O disco começou a funcionar, e a tela ficou branca. Uma mensagem apareceu em letras brancas sobre um fundo preto. Parecia um texto de computador muito antigo, daqueles que ainda tinham o sistema DOS. Bem-vindo ao jogo, Simon. Até agora, nada de mais. Ele já tinha visto designs melhores em jogos de fliperama dos anos 80. A mensagem não passava de um texto básico de computador aparecendo na tela. A mensagem de boas-vindas desapareceu e foi substituída por um texto um pouco mais longo. Você controla as ações de um criminoso perigoso. O objetivo do jogo é causar a máxima devastação possível à cidade. Em seguida, veio a explicação sobre o uso dos comandos, que até dormindo ele teria sido capaz de desvendar. Era tão básico quanto a primeira tela. Simon bocejou enquanto pegava o controle ligado à torre de seu computador. Depois a tela clareou e ele ficou ali, espantado, enquanto o realismo parecia invadir o quarto através da tela.

— Uau! — suspirou. Estava olhando para a rua principal de sua cidade. Era como se houvesse uma câmera lá, fornecendo imagens ao vivo diretamente para a tela de seu computador. A resolução não era fraca como a de uma webcam, e a imagem não era em preto e branco como a de uma central de vigilância. Sua tela estava cheia de imagens coloridas e em alta resolução. Seu ponto de vista parecia ser de cerca de cinco metros acima do chão, olhando para baixo e ao longo da rua. Era a hora do rush do fim do dia. A rua estava congestionada, e as calçadas, lotadas. Os sons que invadiam seu quarto eram os da rua principal no final da tarde. A única garantia de que não se tratava de uma imagem ao vivo e real era o homem em pé no meio da rua, de costas para Simon. Ele simplesmente ficou lá, ignorando o trânsito que se acumulava em ambos os lados. Usava tênis velhos, jeans gastos e camiseta. Não era possível ver seu rosto; só a parte de trás de seu cabelo, que era bem curto. Em função de seus ombros largos e dos braços grossos, era exatamente o tipo de figura que faria Simon atravessar a rua para evitá-lo. Simon mexeu seu controle para a frente, e o homem deu alguns passos adiante. Esquerda, e o homem virou à

esquerda. Todo o cenário girava com ele, para que o homem permanecesse sempre de costas. Agora estava de frente para as lojas. Impossível, pensou Simon. Impossível terem digitalizado toda a cidade em apenas algumas horas! Afinal, tinha sido esse o tempo decorrido desde que Simon registrara seu pedido: apenas algumas horas. Por acaso tinham modelos de diferentes cidades? Ou, pelo menos, das cidades do banco de dados de seus clientes? Mas ali, na tela do computador, logo à esquerda, estava a igreja com o andaime na frente. Simon passava por ali todo dia, a caminho da escola, e sabia que o andaime só estava instalado havia dois dias. Provavelmente atualizavam o banco de dados regularmente. Talvez houvesse alguma transmissão via satélite. Fosse o que fosse, ele resolveu que testaria a simulação até o esgotamento. Haviam se esforçado tanto para que o jogo parecesse extremamente real... Ele tinha a obrigação de provar o contrário. Fez o personagem correr calma e tranqüilamente pela calçada. As pessoas logo saíam de seu caminho, de um lado e do outro. Às vezes se pareciam com pessoas que Simon conhecia — a bibliotecária da escola, alguém que trabalhava para seu pai —, mas todas

desapareciam de vista à medida que o homem corria. Utilizando o controle, Simon virou o sujeito para a esquerda, deixando a rua principal, e passeou pelo parque, pelo rio e, em seguida, por uma rota fluvial de volta ao centro da cidade. O homem respondia instantaneamente a cada um de seus comandos, e não havia quebra entre os cenários. Era como se tudo estivesse realmente acontecendo na cidade. O homem chegou a uma bifurcação, e Simon largou o controle. Já havia tentado fazer o sujeito passear pela cidade; talvez devesse desenvolver alguma estratégia. Mas qual? Na tela do computador, o homem havia parado e esperava pelo próximo comando. De repente, uma mensagem surgiu na tela. Era a mesma letra antiga, preta, sobre fundo cinza. Lembre-se, JOGADOR, você está controlando um CRIMINOSO PERIGOSO. Então, faça algo PERIGOSO. — Ora, desculpe-me por viver no mundo real — disse Simon. — Você tem alguma sugestão... Uau! — Como se respondesse a Simon, outra mensagem apareceu. Por que você não invade algum lugar? Você pode escolher:

O hospital. A companhia de gás. A padaria. — A padaria? — disse Simon, irônico. — Claro, todos os criminosos perigosos invadem a padaria... Escolheu a padaria assim mesmo, pois queria testar o jogo com a escolha menos óbvia. E, se por um lado não tinha nada contra o hospital (poderia ficar doente um dia) ou a companhia de gás (precisava se manter aquecido), o dono da padaria na rua Bruton era outra história. O sujeito vivia mal--humorado e parecia ter raiva de todos os jovens da cidade. Isso, pensou Simon, poderia ser interessante. Assim que fez sua opção, o personagem começou a correr pela cidade. — Ora, vamos! — protestou Simon. Imaginou que, ao escolher a padaria, o homem iria direto para lá, como se pulasse para outra cena. Mas a desvantagem desse jogo é que tudo parecia acontecer em tempo real, o que significava que percorrer uma distância um pouco maior parecia levar uma eternidade. Apertou o controle com força, mas o sujeito continuava correndo no mesmo ritmo. Simon já estava acostumado a controlar cada movimento do jogador, e era uma sensação estranha a de ficar ali parado, assistindo.

O homem entrou no shopping e o atravessou, parando do lado de fora da vitrine da padaria. E lá ficou, sem se mexer. Seus braços estavam pendurados nas laterais do corpo, e ficou observando pelo vidro as prateleiras de pães e bolos. Continuava de costas para Simon, e seu reflexo no vidro era escuro demais para que o menino pudesse identificar algum traço. — Olá? — disse Simon. — Olááá? Você vai a algum lugar? Mesmo assim, ele continuou parado, até Simon mexer experimentalmente no controle e o sujeito dar alguns passos. — Isso! — disse Simon com satisfação. O sujeito estava novamente sob controle. Simon o fez passear pela loja e olhou em volta. Havia prateleiras cheias de pães, bolos, salgados e biscoitos, além de um balcão de vidro com a caixa registradora em cima. Era exatamente igual à da vida real. — Incrível — murmurou Simon. Ele havia pensado que talvez os fabricantes do jogo tivessem obtido as imagens da cidade a partir de fotos de satélites, mas que satélite poderia entrar numa loja? O dono da padaria estava atrás do balcão. Era um homem de meia-idade, de cabelos escuros e expressão permanentemente mal-humorada. Assim

como o interior da padaria, o dono era exatamente igual ao verdadeiro. — Posso ajudá-lo? — perguntou o proprietário. As caixas de som de Simon tinham qualidade suficiente para que parecesse que o sujeito estava a seu lado. Até o tom de voz era o mesmo, sugerindo que só estivesse fingindo gostar do cliente. — Claro, vou destruir este lugar — disse Simon, contente, para a tela do computador. — Mas, antes disso, vou pegar todo o seu dinheiro, pois sou um criminoso perigoso. — Estudou todos os botões do controle. Será que havia algum comando que fizesse o homem falar? Aparentemente não. Presumiu que o sujeito não podia falar, então simplesmente fez com que ele caminhasse ao redor do balcão e se aproximasse da caixa registradora. — Ei! — O dono da padaria deu um passo à frente e empurrou o jogador. — Afaste-se! Simon ainda não havia feito o sujeito fazer nada além de correr. Como ele lutava? Num impulso, apertou o botão vermelho no controle — o botão que apertaria se esse fosse um jogo de guerra e ele quisesse bombardear alguma coisa. O homem na tela pôs a mão no peito do dono da padaria e o agrediu com força. O proprietário cambaleou e atingiu um pequeno armário de vidro atrás

de si. O som aflitivo do vidro quebrando se reproduziu com perfeição pelas caixas de som do computador de Simon. O homem agredido se encolheu sobre o chão cheio de estilhaços, encarando seu agressor com uma expressão apavorada. O agressor simplesmente ficou ali parado e o encarou de volta, porque Simon havia se esquecido de ordenar qualquer outro comando. Ele estava olhando para a tela do computador, incrédulo. — Uau! — sussurrou Simon. Estava acostumado a jogos de luta, jogos em que heróis super-humanos e completamente irreais podiam bater uns nos outros como se fossem almofadas. Mas havia alguma coisa real nesse jogo. A maneira como o homem se recolheu e a força de seu golpe pareciam genuínas, como se um verdadeiro ser humano, de carne e osso, tivesse acabado de atacar outro. Simon voltou a si e deu de ombros. Ora, acalme-se, disse a si mesmo. Por melhores que fossem as imagens, não passavam de dados gravados em um cartão de memória. Nada além disso. E ele tinha uma missão a cumprir. Simon fez o sujeito caminhar em direção à caixa registradora, que abriu com um golpe. Esvaziou a caixa e depositou todo o conteúdo em seus bolsos. Antes que

Simon pudesse virar o sujeito para deixar a loja, uma mensagem apareceu na tela. Quer causar mais estragos? Lembre-se: este é um CRIMINOSO PERIGOSO. Mais estragos? Por que não?, pensou Simon. Afinal, era só um jogo. Seu personagem estava próximo a algumas prateleiras. Simon apertou o botão vermelho novamente, e o sujeito agarrou as prateleiras e depois as sacudiu. Muitos alimentos caíram pelo chão, numa nuvem de farinha. Com mais alguns testes, Simon descobriu que apertar o botão vermelho bastava para ativar o módulo “destruição” no sujeito. Se estivesse próximo ao dono da padaria, bateria nele; se estivesse perto de algo quebrável, quebraria. Simon passeou pela loja, destruindo mais prateleiras, chutando o vidro do balcão, arrancando as luzes. Em seguida, notou uma porta atrás do balcão. Utilizando o controle, levou seu personagem até ela e a arrombou. Ela levava a uma sala de azulejos alinhados, iluminada por luzes fluorescentes. Em uma das paredes havia um enorme forno de aço inoxidável. A porta da frente era de metal e vidro, e uma fileira de mostradores e botões estava à mostra na parte de cima. Uma pequena mensagem surgiu no canto superior direito da tela.

Passe o cursor sobre os itens para obter valores. Simon arrastou o cursor sobre o forno. Forno. Seis meses de uso. Valor: 5.000 libras. Uau! Era quase tão caro quanto a TV de seu pai! Você pode causar um VERDADEIRO estrago aqui, Simon! Simon apertou o botão vermelho novamente, mas desta vez o homem ficou parado. Utilize a cadeira para aumentar o estrago. Cadeira? Simon fez o homem olhar ao redor do ambiente. Havia uma cadeira de aço no canto, então guiou o sujeito até ela. Mais testes comprovaram que o botão verde fazia o homem pegar os objetos. Depois, apertou o botão vermelho novamente. O criminoso ergueu a cadeira com as duas mãos e a atirou com força contra o forno. As caixas de som tremeram com uma explosão metálica ensurdecedora. Na tela do computador, os mostradores do forno iam sendo destruídos, e alguns botões caíam. Simon atacou o forno repetidas vezes, até que a cadeira não passasse de tubos dobrados e o forno estivesse aniquilado, como se tivesse sido atropelado por um trem.

Tremendo e ofegando como se ele mesmo, pessoalmente, estivesse causando a destruição, Simon comandou o homem para que se dirigisse a outra sala. O dono da padaria obviamente a utilizava como escritório. O criminoso passou para trás da mesa e chutou as gavetas de arquivos diversas vezes, deixando vigorosas marcas de sapato em cada gaveta. Na mesa havia um computador, que ele pegou e atirou ao chão. Depois, virou a mesa. Finalmente, arremessou a cadeira pela janela. Ao longe, Simon podia ouvir a sirene da polícia. Percebeu que o som vinha do computador. A polícia está a caminho. É melhor parar por aqui. Você: Pegou 788 libras. Causou um prejuízo de 7.093 libras em estragos. Sua pontuação é 7.881. Você quer: Gastar o dinheiro? Esconder o dinheiro? Simon refletiu. Em que poderia gastar 788 libras? Não muita coisa em comparação ao que já tinha em seu quarto. Não; economizaria e compraria alguma coisa incrível. Se houvesse alguma espécie de loja virtual nesse jogo, talvez pudesse comprar um colete à prova de balas ou uma arma para seu criminoso. Simon decidiu que esperaria. Então selecionou “esconder o dinheiro”.

Imediatamente, o sujeito voltou a correr para a saída dos fundos da loja. Parecia saber exatamente onde esconderia o dinheiro. Como antes, ele tinha um destino em mente, então Simon não conseguia controlá-lo. Só que Simon não conhecia esse destino. E se estivesse indo esconder seus ganhos em um lugar ruim? Não tinha como o sujeito conhecer a cidade melhor que Simon. O menino gritou, irritado, e apertou com força o controle. Mas o sujeito continuou correndo, e Simon só podia assistir, frustrado. Na tela do computador, o homem corria pela rua principal, para longe do centro da cidade. Simon imaginou para onde estaria indo. Será que tinha uma base secreta ou um esconderijo? Continuou correndo. Simon mexeu os polegares e compôs em sua mente a crítica que deixaria no site Mundo dos jogos melhores que a realidade: O trabalho gráfico era ótimo, a ação era incrivelmente real, mas o elemento “tempo real” era um SACO! O criminoso chegou à parte industrial, no limite da cidade, e não apresentava nenhum sinal de que fosse parar. Parecia que o idealizador do jogo tinha decidido que esconder o dinheiro significava abandonar a cidade. Na tela, a estrada na frente do sujeito começava a apresentar curvas e

subir. Simon conhecia muito bem aquele caminho. Era o percurso que fazia todos os dias para ir à escola e voltar. Se pudesse fazer o criminoso parar e girar, veria toda a cidade a seus pés. Mas o homem continuou, deixando a cidade cada vez mais para trás. Será que o mapa do jogo se estendia até o topo da colina? Será que havia uma mansão digitalizada no topo, com um pequeno Simon no quarto de cima, na frente de um computador menor ainda? Mas, depois dos campos, entre a cidade e o topo da colina, havia a floresta — depois que a floresta cobrira toda a colina. Agora havia apenas algumas árvores até o topo, uma barreira que separava a casa de Simon do resto da cidade. O homem entrou na floresta e pela primeira vez saiu da estrada. Simon teve mais uma chance de apreciar o trabalho gráfico do jogo, a maneira como o sol se punha e como os raios dourados iluminavam por entre os galhos. Cerca de cem metros floresta adentro, o criminoso parou em frente a um carvalho com iniciais marcadas no galho. Por um instante, Simon imaginou quem teriam sido JV e ZD. O homem se ajoelhou para abrir um buraco na folhagem entre duas raízes e escondeu o dinheiro ali. Depois, cobriu o

buraco outra vez e deixou uma pinha para marcar o local. Simon olhou para o relógio. Pulou da cadeira: eram oito e meia — ele estava jogando havia quatro horas! Boa parte, concluiu, havia passado assistindo ao criminoso caminhar em tempo real. Estava faminto — os empregados provavelmente o chamaram para jantar, mas ele não ouviu —, e seus olhos estavam secos e doendo. Olhou novamente para o jogo e mordeu o lábio. Não queria sair agora, quando estava começando a pegar o jeito. O problema é que, se mandasse o criminoso de volta para a cidade, teria de esperar uma hora enquanto o sujeito descia a colina. A tela estava escurecendo, para ficar compatível com o horário do dia. Simon apertou mais alguns botões para ver se existia algum artefato que possibilitasse a visão noturna. Aparentemente não. O jogo tomou a decisão por ele. O homem voltou para a estrada, e depois se dirigiu à colina, a fim de voltar para a cidade. Uma mensagem apareceu na tela. Por hoje é só, Simon. Espero que tenha saciado seu apetite. Até amanhã. A tela ficou branca e o disco se ejetou sozinho, com um ruído. — Uau! — impressionou-se Simon.

Removeu lentamente o disco da bandeja e o devolveu à sua caixa. Depois, desligou o computador. O jogo tinha alguns defeitos, mas ao mesmo tempo era a coisa mais legal que já havia visto. Em toda a sua vida. Alguém esbarrou em Simon, deixandoo sem fôlego. Ele cambaleou e colidiu contra a parede. — Ei, olha por onde anda, Down! A realidade voltou com tudo. Durante quase toda a manhã, Simon estivera distraído, pensando no jogo. Subitamente, foi trazido de volta a seu ambiente. Estava na escola, caminhando pelo corredor principal entre uma aula e outra. Era uma agitação de uniformes escolares e conversas barulhentas, no breve intervalo entre as aulas. Mas, mesmo com tantas pessoas andando em todas as direções, a maioria dos alunos conseguia se locomover sem esbarrar em ninguém. Exceto por Mat Frost — alto, bonito, de cabelos claros, um menino que Simon detestava. Geralmente ele era muito bom em procurar por Mat, mas hoje estava muito absorvido nos pensamentos que envolviam o jogo e no que faria logo mais, à noite. Os dois meninos se afastaram um do outro — Simon, lenta e cuidadosamente, e Mat, com desmazelo. Mat sorriu e encarou

Simon por um instante, o suficiente para que ele desviasse o olhar. Simon voltou-se para seu armário e procurou suas chaves, como se essa tivesse sido a sua intenção o tempo todo. Sabia, por experiência própria, que, se Mat Frost resolvesse implicar com ele, seu dia seria insuportável. No entanto, Mat se distraiu com um grito que veio do fundo do corredor. — Ei, Frost! Você vai ao shopping na hora do intervalo? — Era o melhor amigo de Mat, Tom Mansbridge. — Está brincando! — disse Mat. — Você não soube? A polícia está por todos os lados. — O quê? Simon ainda lutava contra sua chave, mas não pôde deixar de ouvir. Quase ninguém da escola pôde deixar de ouvir. Ele parou e prestou atenção. — Uma invasão e tanto na padaria ontem à noite! O dono apanhou muito — disse Mat. — Não é possível! — exclamou Tom. — Pois é, esvaziaram a caixa registradora e acabaram com o local; o dono precisou levar pontos... Um pequeno grupo estava se formando para discutir o ataque, e, para sua surpresa, Simon sentiu que seus pés o levavam para perto do grupo. Colocou-se atrás da multidão. Ninguém pareceu se importar.

Aproximou-se um pouco mais. Alguns alunos até abriram espaço para ele, sem desviar a atenção de Mat. Um dos meninos mais novos — um gordinho levemente destacável, o tipo de garoto com quem Mat implicaria — se manifestou. — Espero que peguem o culpado — disparou. — Isso não está certo. Mat simplesmente olhou para ele. Não fez nenhum comentário sarcástico e nenhuma piada desnecessária. — É verdade — concordou. — Não está certo. Foi o suficiente. Se aquele menino podia ser aceito, então Simon também poderia. Sabia que o problema com a padaria não passava de uma grande coincidência, mas todos achariam estranho se soubessem o que ele jogara na noite anterior. Simon riu um pouco alto demais, tentando fazer uma piada. — É, duvido que ele volte a me enrolar na hora do troco, agora! Foi como estourar uma bolha. O humor da rodinha mudou, e diversos olhares hostis se voltaram para Simon. Sua face começou a esquentar. Mat olhou para ele com desdém.

— Mais uma de suas fantasias, Down? — A maioria dos meninos começou a se afastar, e Mat voltou sua atenção de Simon para Tom. — Encontro você no lago depois da aula, tá? Vamos ver se conseguimos reunir alguns meninos. — Certo, Frosty. Boa idéia. Simon fez um último esforço. — Certo, vejo vocês lá — disse Simon. Mat voltou-se para ele novamente. — Sinto muito, Down. Mas o lago é proibido para nerds. — Ele e Tom riram enquanto caminhavam pelo corredor, deixando Simon sozinho, com os punhos cerrados. De algum jeito, Simon sobreviveu ao resto do dia. Mat Frost não saía de sua cabeça. Ele tinha chegado muito perto de pertencer ao grupo. Tinha uma coisa em casa que podia acabar com a popularidade de Mat. Se ao menos conseguisse descobrir um jeito de contar a todos, ele seria popular. As pessoas desejariam brincar com ele. Mat alto. Mat bonito. Mat popular. Mat que não seria nada sem o pai dele, dono de uma concessionária de automóveis. O sr. Frost tinha uma concessionária de carros de elite — carros esportivos muito caros que custavam o salário de um banqueiro ou mais. Mat sempre falava dos

novos modelos que seu pai testava, geralmente com ele no banco do passageiro. E para que servem carros modernos para alunos de colégio?, Simon pensava amargamente. Nenhum de nós pode dirigir! Mas todos podem jogar no computador, assistir a filmes — todas as coisas que podiam fazer com espadas se ficassem com Simon. O sinal do fim da aula naquela tarde de sexta-feira foi como a abertura dos portões de um presídio. O pátio estava lotado de crianças que passavam por ali, esperando o ônibus ou alguém que as buscasse, ou pegando suas bicicletas estacionadas no bicicletário. Como sempre, o carro de Simon já esperava por ele, em frente ao portão. Fechou a porta e se isolou de quase todo o barulho que vinha de fora; pegou seu GameBoy e o ligou. O carro se afastou. — O senhor teve um bom dia na escola, sr. Simon? — perguntou o motorista, sem olhar para trás. — Normal — resmungou Simon. Olhou para a pequena tela do GameBoy e franziu o nariz. Servia como passatempo, mas, comparado ao que o esperava em casa, não passava de uma brincadeira de criança. O carro se afastou da cidade. — Imagino que esteja chegando a época das provas, sr. Simon — disse o

motorista alegremente. — O senhor tem muitos deveres de casa? Simon se ajeitou ainda mais atrás nas almofadas e o ignorou. O GameBoy era melhor do que nada. Começou a jogar. Era um trajeto de quinze minutos para deixar a cidade e subir a colina em direção à sua casa. O resto da cidade foi ficando para trás, e a estrada subia pela colina, passando pelas árvores... As árvores! — Ei! — Simon sentou-se repentinamente, esquecendo completamente o GameBoy. — Pare! Pare aqui! O motorista olhou para trás. — Sr. Simon, o senhor sabe que o seu pai insiste para que eu o leve direto para casa... — Obedeça! — gritou Simon. — Ou... ou eu vou voltar para cá de qualquer jeito! — Estavam logo abaixo do bosque, próximo ao topo da colina. Ele não levaria tanto tempo se fosse de bicicleta. — Certo, acalme-se — disse o motorista serenamente. O carro desacelerou e encostou. Simon se retirou com o carro ainda em movimento, mas, por um instante, apenas ficou parado e olhou para as árvores. Não tinha certeza se queria ou não continuar.

Havia roubado a padaria e espancado o dono do estabelecimento — em um jogo. E, ao mesmo tempo, alguma coisa assustadoramente parecida acontecera na vida real. O que havia sido uma coincidência. Mas e se não tivesse sido? — O senhor quer que eu vá junto? — ofereceu o motorista, mas Simon mal escutou. Começou a andar. Podia ser uma coincidência que as coisas acontecessem em seu jogo e na vida real. Mas certamente o verdadeiro ladrão não teria escondido o dinheiro do roubo no mesmo lugar do criminoso do jogo de Simon. Seria coincidência demais. Então, ele olharia debaixo da árvore em que o homem do jogo de computador havia enterrado o dinheiro, descobriria que o dinheiro não estava ali e teria a certeza de que era apenas um jogo. Mas Simon tinha de admitir que parte dele esperava que, por mais impossível que parecesse, fosse verdade. Como seria legal! Ter um jogo que manipulasse a realidade! A floresta estava em silêncio; nada além do som do vento soprando entre as folhas. Simon percebeu que estava ofegante. Reconhecia a sensação. Era a mesma que sentia quando Mat Frost o chateava. Era medo.

Medo de que o dinheiro não estivesse lá ou medo de que estivesse? Ele não sabia ao certo. Seus passos quebravam as folhas secas no chão, e ele mantinha os olhos atentos para encontrar a árvore. Aquela que tinha as iniciais gravadas no tronco. E lá estava. A árvore. JV e ZD. Simon desacelerou repentinamente, relutante quanto a seguir em frente. Mas se forçou a continuar. Ajoelhou-se ao pé da árvore e quase gritou ao ver o que havia na base do tronco. Havia uma pinha marcando um local entre as raízes. Simon sentiu como se estivesse olhando para si mesmo de uma longa distância. Afastou as folhas secas e tocou uma nota úmida com seus dedos. O dinheiro não havia sido embrulhado e estava sujo por causa da noite que passara escondido ali. Simon já sabia quanto tinha, mas contou assim mesmo. Notas de dez, de vinte e de cinco misturadas, e algumas moedas. 788 libras. Simon sentou-se no chão. O dinheiro estava entre seus pés. — Meu Deus — disse Simon. — Meu Deus. Pensamentos se misturavam em sua cabeça. O jogo era real, e ele era um ladrão, mas era tão legal, e ele

controlava um criminoso violento, mas poderia se tornar extremamente popular se soubesse lidar com isso, e não precisava machucar ninguém, mas já tinha machucado, só que ele não sabia, e Mat Frost ficaria louco, e ele só precisava de um plano e... ...e, basicamente, podia fazer tudo. Simon recolheu o dinheiro e se levantou. Em seguida, caminhou de volta para o carro; primeiro lentamente, e mais rápido à medida que seus pensamentos e seu plano se definiam. Até chegar ao carro, o novo plano já estava pronto. — De volta à cidade — disse ao motorista. O maior monitor de tela plana que Simon podia comprar com 788 libras tinha uma tela de trinta e duas polegadas e acabamento em preto e prateado. Ocupava quase toda a sua escrivaninha, deixando espaço apenas para o teclado, o mouse e o controle. Ele conectou o último cabo e deu um passo para trás para admirar. Sim, estava ótimo. E, de algum jeito, era apropriado. Era como se estivesse agradecendo ao computador, que havia permitido que conseguisse o dinheiro. Uma brisa fria entrou pela janela aberta. Um leve som de música alcançou seus ouvidos, e Simon se aproximou da

janela para se colocar próximo às cortinas. Vinha do outro lado das árvores. Vinha do lago, onde Mat, Tom e seus amigos estavam se divertindo. Enquanto Simon estava ali, sozinho — como sempre. De repente, o novo monitor não parecia tão legal assim, mas ele afastou esse pensamento. Teria de dar continuidade ao plano que bolara na floresta. Parecia que estavam dando uma festa lá embaixo — o tipo de festa que deveria ser interrompida. — Simon? — disse uma voz atrás dele. Ele pulou. — Mãe! A sra. Down entrou no quarto. Ela abriu um sorriso, e Simon se forçou a retribuí-lo, tentando parecer calmo. Não ficou surpreso por ela não ter notado o novo monitor, mas não se importou. Foi a primeira vez em meses que ela fez mais do que olhar pela porta. — Oi, querido. Será que você pode me ajudar? — Ah, tudo bem! — disse Simon. Eram apenas seis e meia. Mat e os outros ficariam no lago por horas, e, se ajudar sua mãe agora significasse que ela não voltaria para perturbá-lo mais tarde, valeria a pena. Ele precisava de total privacidade para fazer o que tinha em mente.

A pilha de envelopes crescia lentamente a seu lado, e Simon já havia perdido a conta do número de cortes de papel que havia sofrido. Olhou amargamente para sua mãe, que estava do outro lado da mesa, enquanto pegava outro panfleto. Dobrar uma vez, dobrar outra vez e colocar no envelope. Mais um. Dobrar uma vez, dobrar outra vez... Por isso ela queria sua companhia. Não pela sua conversa. Não por ser seu filho. Só para que ele trabalhasse de graça. Sua mãe olhou para ele e sorriu. — Muito obrigada por isso, querido. Ajuda muito a instituição de caridade quando cuidamos da correspondência assim. — Tudo bem — sussurrou ele. Dobrar uma vez, dobrar outra. — Para que é isso tudo? — Você se lembra da bolsa-ave? — perguntou sua mãe. — Nós a reintroduzimos... — Lembro, lembro — resmungou Simon, interrompendo sua mãe. Só havia perguntado por educação e, sim, ele se lembrava da bolsa. A prefeitura encontrara uma espécie rara de ave nos arredores do lago, e, quando os pais de Simon eram crianças, a espécie quase se extinguiu. Há alguns anos, galinhas criadas em cativeiro foram libertadas em uma área protegida

perto da marina, e agora a pequena comunidade vivia em liberdade. A escola de Simon recolheu verbas para ajudar; o fato de a mãe de Simon ser a encarregada do projeto havia proporcionado mais munição do que nunca a Mat Frost. — Estamos quase acabando — ela disse. Pegou uma série de etiquetas impressas no computador. — Depois só precisaremos colocar uma etiqueta em cada um e... Simon se levantou. — Sinto muito, mãe, tenho dever de casa para fazer! — E correu para o andar de cima, saltando dois degraus de cada vez antes que sua mãe pudesse protestar. Seu quarto estava frio. Ele não havia fechado a janela. Deu uma última olhada na direção do lago, de onde podia ouvir ao longe o som da música. Em seguida, fechou a janela e voltou sua atenção para o computador. — Mas o quê...? A tela tinha um brilho fraco. Ele não se lembrava de ter ligado o computador antes de descer com sua mãe. O novo monitor continuava preto, mas letras vermelhas se formavam com clareza. Pronto para jogar? Simon sentou-se lentamente em frente à tela. O computador acertara em cheio; ele

estava pronto para jogar. Aliás, pensando bem, estava desesperado para jogar. Digitou “sim”. A tela clareou e mostrou o homem parado no meio do parque. Podemos ir: Ao cinema. Ao... Simon não esperou as opções. Ele sabia para onde queria ir. Digitou “LAGO” em letras maiúsculas e apertou “Enter”. Ok. O homem na tela começou a correr, e Simon pegou o controle. Ele se irritou ao se lembrar do principal defeito do jogo. Tudo acontecia em tempo real, e, para ir do parque até o lago, nos limites da cidade, levaria muito tempo. Mexeu no mouse e tentou fazer com que o computador mudasse de idéia, mas tudo parecia já estar programado. Simon resmungou e se ajeitou na cadeira. Não havia nada a fazer além de observar o homem correr. A luz do dia estava desaparecendo — lá fora, do outro lado da janela, e na tela do computador. As luzes da rua se acenderam, mas, quando o criminoso finalmente chegou ao lago, já estava quase completamente escuro. Ele caminhou pelo estacionamento vazio. O portão na cerca de ferro que circundava a marina estava trancado. O homem aproximou o rosto da cerca. As luzes da sede do clube estavam apagadas, e boias

flutuavam silenciosamente próximas à plataforma. Uma leve brisa soprava sobre a água, formando ondulações. Simon fez o personagem olhar em volta. Onde estavam todos? Ele não os machucaria — só queria participar da festa, de uma maneira que ninguém jamais esqueceria. Não adiantou nada. Mesmo com as caixas de som ligadas no volume máximo, só o que ouvia era o vento batendo nas árvores e, ocasionalmente, os carros que passavam a distância. O homem demorara tanto para chegar que a festa já havia acabado. Irritado, ele socou a mesa do computador, fazendo com que o monitor balançasse. Por que esse criminoso idiota desse jogo idiota não podia ter começado a partida na marina, antes que todos tivessem desaparecido? Eles estão se escondendo de você. Simon não sabia se havia vindo do computador ou se a mensagem simplesmente aparecera em sua mente, mas sentiu uma raiva muito grande dominálo. Estavam se escondendo? Dele? Como poderiam? Como ousavam? Comandou o jogador para que corresse ao longo da margem, olhando da esquerda para a direita, mas não havia nenhum sinal, ou barulho, de mais ninguém. Então, Simon

o fez caminhar de volta para a marina, o único lugar onde alguém poderia estar se escondendo. Havia luzes acesas no estacionamento, mas nada na marina; estava escuro e havia sombras por trás da grade. — Vamos! — gritou Simon. — Vá e pegue-os! — O homem escalou a grade em segundos e caiu do outro lado. Simon fixou os olhos na tela. Estava com o mesmo problema do final da última partida. Estava escuro lá fora, e ele mal conseguia enxergar. — Encontre-os! — sibilou para o homem. — Encontre-os! Mas o criminoso não fez nada, é claro, pois Simon não mexeu no controle. — Cansei desse jogo idiota! — gritou Simon para a tela. — Quando está começando a ficar bom, você faz isso. De que adianta? Como se estivesse respondendo, um texto escrito em branco surgiu contra o fundo da tela: O que você gostaria de fazer? Abandonar o jogo. Tomar um copo de leite, ganhar um beijinho da mamãe e ir dormir. Destruir. — Não banque o espertinho comigo — sussurrou Simon. — Destruir, certo? — Ele selecionou a última opção e clicou. A tela continuou preta; ele não conseguia ver o

homem na escuridão. Depois de uma pausa, ouviu, pelas caixas de som, um fraco som de vidro se quebrando. Depois, uma coisa dura se quebrando. Depois, alguma coisa... Mas ainda era noite, e ele continuava sem enxergar nada. Simon desligou o monitor com um clique furioso.

Simon estava em sua carteira na sala de aula, quase em transe, o sangue correndo agitado por suas orelhas. A professora falava, mas sua voz parecia abafada e distante. Reviveu em sua mente, mais de uma vez, a seqüência de eventos da noite anterior. Havia selecionado “destruir”. Mas estava escuro demais para que enxergasse alguma coisa, então desligou o monitor. Em seguida, já era de manhã, e ele estava saindo da cama (apesar de não se lembrar de ter ido deitar). Depois, ligou a TV e sintonizou no canal de notícias locais. O repórter estava na plataforma do lago. A câmera exibia pedaços de cascos destruídos, destroços de barcos boiando na água. Em tom grave e preocupado, o repórter descreveu o modo como alguém destruíra os botes na noite anterior. Todos

os barcos foram afundados, e as janelas do clube haviam sido despedaçadas. Mas não foi isso o que fez Simon procurar o botão “off” no controle remoto. Com um pedido de desculpas pelas imagens perturbadoras, o repórter apontou para uma área próxima. O remo de um dos botes estava ao lado de um ninho, sujo de penas e sangue. Toda a colônia de aves havia sido destruída, poucos meses após ter sido salva da extinção por Eleanor Down, explicou o repórter em tom sombrio. A câmera exibiu os corpos quebrados e indefesos dos pássaros até Simon apertar o botão “off” com tanta força que deixou uma marca em seu dedão. Então, ele percebeu que o computador estava ligado. A tela estava vazia, apenas com um texto em letra branca. Você fez isso. — Não fiz nada — disse Simon, ousado. — Foi ele. Mas não é você quem o controla? Simon deu um salto quase para o outro lado do quarto. — É claro que o controlo! Então, a culpa é sua. — Foi um acidente! — gritou Simon. — Eu não sabia o que “destruir” faria. Não vai acontecer de novo. A partir de agora, direi exatamente o que ele deverá fazer. Exatamente!

— Exatamente — Simon sussurrou para si mesmo agora, sentado na sala de aula. — Pois não, Simon? — perguntou a professora. Simon voltou assustado para a sala de aula, derrubando o estojo no chão. Canetas voaram por todos os lados. O resto da turma, mesmo pessoas que normalmente o deixavam em paz, começou a rir. Mas, nesse momento, essa era a menor das suas preocupações. Simon passou boa parte do dia tentando esquecer o ataque na marina e quase conseguiu. — Ei, Down! Simon rosnou. Frost o avistara quando já havia quase passado da porta, na hora da saída. Mat veio pelo corredor com um sorriso malicioso estampado no rosto. Estava com o seu grupo de sempre. — Sinto muito que não tenha podido ir ontem à noite, Downinho, mas estamos bem, obrigado por perguntar. Nos divertimos um bocado. — Que pena — resmungou Simon, antes de pensar no que estava dizendo. Mat fechou a cara. — Ei, Downinho, qual é o seu problema? Eu pensei que fosse ficar

contente por saber que não fomos atacados pelo maluco do machado. Simon sabia muito bem que eles não correram nenhum risco com o maluco do machado — todos foram embora antes de ele chegar. O fato de não poder contar isso a ninguém o corroía por dentro. A face de Mat se iluminou outra vez, como se uma grande idéia tivesse acabado de lhe ocorrer. — Obviamente, eram os passarinhos da mamãezinha, não eram? — exclamou Mat. — Oh, a mamãezinha chorou quando soube da notícia? Simon deu um passo em direção a Mat. — Retire o que disse — sibilou Simon. — Ou então... Mat deu um sorriso zombeteiro. — Ou então o quê, nerd? — Pôs a mão casualmente sobre o ombro de Simon e começou a andar para a frente. Simon tentou se livrar das garras de Mat, mas ele era maior e mais forte e simplesmente lançou Simon contra a parede. Simon olhou impotente para o círculo de admiradores de Mat ao fundo. Ninguém mandou Mat parar. Ninguém fez nada para ajudar. Alguns começaram a rir quando Simon tentou se livrar de Mat. Ele foi consumido pela raiva. Ele controlava o cidadão mais perigoso da cidade, e na escola riam dele.

Mat se inclinou para a frente até que seu rosto e o de Simon estivessem muito próximos. Não havia nenhum traço de humor em seus olhos frios. Simon se forçou a encontrar o olhar de seu inimigo e imaginou o criminoso esmagando a cara de Mat. Para sua própria surpresa, Simon sentiu um sorriso se formar em seu rosto. Os lábios de Mat se curvaram. — Você é realmente patético, Down — rosnou. Em seguida, sacudiu Simon e o soltou. E saiu andando. Simon sentiu gelo se formar em torno de seu coração ao caminhar em direção ao carro que o esperava. FROST MOTORS. A placa sobre a concessionária era idêntica à real. Uma fileira de carros impecáveis ocupava a parte da frente: alguns Porsches, uma Ferrari, um Maserati e um antigo Aston Martin. O machado do criminoso atingiu o teto da Ferrari. Ele o retirou do metal destruído e o lançou contra o parabrisa, que se quebrou em mil pedacinhos. O alarme do carro disparou enquanto o sujeito se dirigia à lateral do veículo para atacar os pneus. Cada movimento, Simon ficou feliz ao perceber, era feito de acordo com seus comandos no controle. O homem estava cumprindo suas ordens. Simon tinha controle absoluto.

— Ei! — disse uma voz pelas caixas de som. Mecânicos e vendedores surgiram da loja principal. Eles atacaram o criminoso e o afastaram do carro. Simon usou o controle para combatê-los. Certificou-se de que o criminoso utilizasse o taco de beisebol que trouxera consigo, e não o machado. Era uma arma poderosa, mas não letal. Os funcionários da concessionária se afastaram, horrorizados. Simon os ignorou e guiou o sujeito para o carro seguinte. Destruiu um dos vidros e esticou o braço para alcançar o freio de mão. Espere! — Simon não havia lhe dado o comando para isso! Apertou o controle furiosamente. — Não! Espere! O homem soltou o freio de mão, pôs o ombro na lateral do carro e o empurrou. Ele foi para a frente, primeiro devagar, depois ganhou velocidade enquanto saía da fileira em que estava estacionado e chegou à rua principal. O tráfego de automóveis enlouqueceu, com as buzinas tocando ensandecidas; os carros foram parando. — Ei, espere aí! O grito veio de fora da cena em exibição na tela de seu computador. O homem se virou lentamente para encarar o sr. Matthew Frost, pai de Mat, que saía de

seu escritório. O sr. Frost caminhou em direção ao criminoso e o empurrou. Na tela, o sujeito se sacudiu, mas logo recobrou o equilíbrio. — A polícia está a caminho — rosnou o sr. Frost —, e você vai direto para a cadeia... O homem levantou as mãos e as pôs em torno do pescoço do sr. Frost. — Não! — engasgou-se Simon. Destruir? Sim. Matar? Não! Agarrou o controle e sacudiu a mão novamente, como se tivesse sido transportado por uma corrente elétrica. Por um breve instante, teve a certeza de que ele, Simon, estava lá. Ele estava no estacionamento, admirando o que havia feito e o que estava prestes a fazer. Na tela do computador, o sr. Frost emitiu um grunhido e em seguida desfaleceu. Simon atacou o botão “desligar” do monitor com um grito de horror. De nada adiantou; a imagem continuava ali. Ele caiu de joelhos e foi para baixo da mesa, procurando o fio para tirá-lo da tomada. Seus dedos se fecharam em torno do fio, e Simon o puxou com toda a força. O computador ficou silencioso. Levantou-se novamente e bateu com a cabeça na mesa enquanto tentava se ajeitar.

Simon se sentou novamente em sua cadeira, tremendo. Não conseguia tirar os olhos do monitor, apavorado com a possibilidade de que ele ligasse outra vez — mesmo estando fora da tomada. Será que ele havia parado o jogo ou as coisas ainda estavam acontecendo em algum canto do mundo virtual? Será que o criminoso ainda estava matando o pai de Mat? — Mas não é esse o objetivo? — disse uma voz no fundo da mente de Simon. — É o homem que está matando o sr. Frost. Não foi você quem o mandou fazer isso. — Não — murmurou Simon. — Não mandei nada. — Ele não havia selecionado nenhuma opção de “assassinato” e não havia controlado as ações do criminoso. Só foi até a concessionária para destruir o local. Que culpa tinha ele se o sujeito havia começado a agir por conta própria? A exploração desse pensamento era um prazer culposo, como cutucar com a língua um dente dolorido. Encostar lentamente, sentir uma dorzinha, afastar a língua... e repetir a dose. Ficava cada vez mais fácil. É claro que Simon sentiu pena do sr. Frost. Mas, sinceramente, que espécie de idiota ataca um homem daquele jeito? Ele provocara a situação. Era como culpar um carro por atropelar alguém que se atirara

em sua frente. Algumas coisas são inevitáveis. De que outro jeito esse encontro poderia terminar? O sr. Frost deveria ter deixado o criminoso em paz. Fim de papo. E por acaso Simon havia estado na cena do crime? Não. Havia deixado alguma impressão digital ou amostra de DNA? É claro que não. Ele jamais poderia ser acusado de nada relacionado ao crime. E ele sabia de uma coisa que Mat Frost não sabia. Onde Mat estava agora? Assistindo à televisão, brincando com os amigos? Divertindo-se, como sempre, sem se importar com quem machucava pelo caminho. E ele, Simon, sabia o que havia acontecido com seu pai. A essa altura, a sensação de horror já havia passado e fora substituída por uma calma inesperada. Simon se ajoelhou para ligar novamente o computador, depois voltou para a cadeira a fim de esperar a máquina voltar à vida. Não se surpreendeu por não precisar recarregar o jogo. A tela foi logo para a frente da concessionária Frost Motors, para o corpo imóvel que jazia ali, e para os paramédicos que tentavam reanimá-lo. A visão estava mais difícil agora e um pouco prejudicada por um caminhão de entrega. O criminoso estava agachado do outro lado da rua, na calçada oposta à concessionária.

Simon imaginou que estivesse se escondendo da polícia. Calmamente, desligou o computador outra vez e foi fazer seu dever de casa. — O pai de Mat Frost foi assassinado ontem à noite. Nenhum som interrompeu o silêncio no auditório na manhã seguinte. O diretor transmitiu a notícia em tom solene e levemente trêmulo. Simon não tirou os olhos do rosto do diretor. — Ao que parece, um vândalo atacou a concessionária e matou o sr. Frost quando ele tentou se defender. Houve uma pausa enquanto o diretor tomava um gole de água e limpava a garganta. — Evidentemente, Mat não virá à escola hoje, mas o sr. Frost era um grande amigo, e faremos um minuto de silêncio em sua homenagem. Assim que o diretor terminou seu pronunciamento, os alunos voltaram a suas aulas. O falatório nos corredores foi reduzido. Os velhos hábitos de Simon faziam com que o menino olhasse para o lado cada vez que alguém se aproximava, mas não havia necessidade. Sem Mat, não havia ninguém para iniciar a perseguição costumeira. Nada de Mat! Simon podia caminhar pelo corredor, e Mat não estava lá para

disparar comentários maldosos. Poderia se concentrar nas aulas, pois Mat não estaria jogando papéis nele. Poderia levantar a mão para responder às perguntas sem que alguém sussurrasse a palavra nerd. A vida sem Mat tinha muitas vantagens. A cereja do bolo veio quando ele ouviu alguns meninos conversando sobre o assassinato durante um intervalo entre as aulas. Tom Mansbridge liderava o grupinho de sempre. — Primeiro o sujeito destrói os Porsches, depois... — A Ferrari — disse Simon sem pensar. — Ele atacou a Ferrari primeiro. — Todos os olhos se voltaram para ele. — É, e eu suponho que você tenha testemunhado tudo ao vivo — disparou Tom. Simon olhou nos olhos do menino. — Ele atacou o teto da Ferrari com um machado — disse Simon com a voz fria e quieta —, depois cortou os pneus... — É. Foi o que ouvi — comentou alguém. Foi o selo de aprovação que capturou a atenção de todos. Rostos ansiosos se voltaram para Simon, deixando Tom parado como uma pedra na praia enquanto as ondas batiam. — Então, o que mais aconteceu? — perguntou alguém.

E Simon simplesmente começou a descrever os eventos que testemunhara. Um canto de sua mente despertou e se alongou como um gato no sol. Se houvesse um contador digital em sua vida, ele pensou, contando o número de amigos que tinha, teria disparado de zero para mais de dez em questão de segundos. — Como você sabe disso tudo? — perguntou Tom, desconfiado, e a mentira saiu da boca de Simon com tanta facilidade que era como se fosse verdade. — Eu tenho acesso a um canal a cabo muito legal — ele disse. — Você recebe as notícias muito antes de os outros canais transmitirem. Eu também poderia contar sobre o que se passou na marina. — Sério? O que foi que aconteceu lá? — Você conseguiu descobrir quem fez aquilo? Tom cruzou os braços. — É. Conte o que aconteceu, Down. Simon imediatamente desejou ter ficado de boca fechada. Não havia visto nada do que se passara na marina; o ataque acontecera no escuro. — Bem, é... — ele começou. Tom sorriu, como uma cobra. — Então? — Bem, é, o cara... ele pegou... hum... — Simon pensou a respeito. Como o criminoso teria destruído os barcos? Os

pássaros haviam sido mortos por um remo, mas o que causara tanto estrago aos barcos? Em seguida, lembrou-se da arma escolhida pelo criminoso durante o ataque à Frost Motors. — Um machado, é claro! Ele pegou um machado e foi destruindo os barcos... — Os policiais no rádio disseram que foi um cano de ferro — disse Tom. — Eles encontraram o cano escondido nos arbustos. — O garoto encarava Simon furiosamente. — Eu, bem — gaguejou Simon —, foi o que eu quis dizer, um cano, mas isso não é importante... — Você viu o cano no seu canal a cabo? — Vi — mentiu Simon. — Era... — Qual era o tamanho? — Ei, fique quieto! — reclamou alguém com Tom. — Deixe ele nos contar. Simon posicionou as mãos com uma distância de mais ou menos um metro entre uma e outra. — Era mais ou menos deste tamanho, e depois... — Era de que cor? Simon revirou os olhos. — Cinza. — Então não era mesmo um machado? — Não! — gritou Simon.

— Ao que parece, era um machado — disse Tom com satisfação. — Era um machado enorme e vermelho do clube. Foi o que encontraram nos arbustos. Simon o encarou e sentiu o respeito da platéia desaparecer. — M-mas... o cano... — ele disse. — Eu inventei o cano — disse Tom. — Assim como você. Vamos, pessoal. Vamos deixá-lo no mundinho dele. Só fique longe do nosso, certo, Down? Tom se afastou sem olhar para trás, e, pouco a pouco, a multidão em torno de Simon se desfez. Alguns olharam para trás: uns, com hostilidade; outros, simplesmente ofendidos. — Não tem a menor graça, Simon — resmungou um deles. Outra pessoa esbarrou nele de propósito, como Mat fazia. Dez segundos depois, Simon estava sozinho outra vez, no meio do corredor, com o rosto em chamas. E o contador de amigos voltou à estaca zero. Seu rosto continuava em chamas enquanto o carro o levava para casa. Ele havia dito a verdade! Quanta ironia! Até o paspalho do Tom perguntar sobre a marina, ele estava descrevendo tudo da maneira como tinha acontecido. A injustiça da situação fez com que desejasse gritar. Estava dando o que queriam, e mesmo

assim o rejeitavam. Não o queriam se dissesse a verdade. Não o queriam se mentisse. Simplesmente não o queriam. Vamos deixá-lo no mundinho dele. Fora o que Tom dissera. Bem, eles poderiam fazer parte desse mundo se quisessem. Poderiam ser seus amigos. Ele teria permitido que participassem de sua vida se quisessem. Mas, em vez disso... Fique longe do nosso, certo, Down ? De jeito nenhum! Simon daria um recado ao mundo deles que não poderiam ignorar. Foi para o quarto, jogou a mochila na cama e ligou o computador, confiante. SENTI SAUDADES, diziam as letras no monitor. BEM-VINDO OUTRA VEZ. — Vamos jogar — disse Simon, sorrindo. O helicóptero caiu soltando fumaça do motor, o ruído estridente de suas peças destruídas saindo das caixas de som. Atingiu a lateral dos escritórios do conselho e explodiu em uma bola de fogo laranja. Um bum abafado entrou pela janela de Simon, misturado ao som de sirenes, que havia sido o som de fundo durante boa parte dos últimos dois dias. O homem estava no topo do prédio e baixou a arma. Simon sorriu. O helicóptero sobrevoava a cidade, irritantemen-te, zumbindo como um inseto gigante, metendo

o nariz onde não era chamado. Ele — Simon, o homem, eles eram praticamente a mesma coisa agora — tomou as rédeas da situação. Mesmo assim, Simon sentia como se devesse alguma coisa ao helicóptero. Só o que podia ver na tela do computador era o que o homem via. As últimas informações do helicóptero à estação local de rádio relatavam o que ele havia feito até agora. “O fim de semana em que a anarquia e a destruição invadiram a cidade”, segundo a descrição do repórter do noticiário. A prefeitura estava em chamas. Fumaça negra saía das janelas de uma loja de departamentos. A biblioteca parecia uma fornalha, com pedaços de papel queimado voando pelas janelas. A escola de Simon estava envolta em fumaça. Surpreendentemente, nem tudo era obra do criminoso. A violência estava se espalhando. Simon havia sido criativo. Ele iniciara uma confusão ao atacar um grupo de torcedores que saíam de um jogo de futebol e — um pouco antes de abater o helicóptero — libertara os prisioneiros da ala de segurança máxima do presídio. Tudo isso colaborou para que a situação saísse do controle. Os moradores da cidade perceberam a gravidade da situação, e todas as ruas estavam lotadas de veículos. Mas tentar

fugir não os ajudou em nada, pois o criminoso havia bloqueado as principais rotas com caminhões roubados. O computador não fazia mais sugestões. Tudo havia sido idéia de Simon. Parecia não importar mais que tipo de precaução as pessoas tomassem lá embaixo. Se as portas estivessem trancadas, o criminoso conseguiria abri-las. Se as pessoas se aproximassem, ele poderia combatê-las. Não havia nada capaz de parálo. Não havia nada capaz de parar Simon. Ah, sim, e ninguém se esqueceria disso tão cedo. Algo dizia a Simon que ele estava faminto, exausto e malcheiroso. Não havia comido, dormido nem tomado banho nos últimos dois dias. Passara todo o fim de semana em frente ao computador, orquestrando a onda de crimes. E, ao mesmo tempo em que uma parte de sua mente gritava apavorada com as coisas que fazia, o resto de sua consciência vibrava triunfante. De algum jeito, isso parecia certo. Parecia necessário. Ele sabia que o que estava fazendo fazia parte do coração e da essência de todo mundo. Só estava liberando. A porta de seu quarto se abriu pela primeira vez em dois dias. Geralmente, os

empregados batiam e desistiam quando não obtinham resposta. Alguns, mais corajosos, chegavam a abrir a porta e colocar a cabeça para dentro, mas desistiam ao ouvir um grito irritado de Simon. Mas desta vez... — Simon? — Ah. Oi, pai. O pai de Simon não avançou muito no quarto. Simon tinha uma vaga percepção da presença de uma figura alta em algum lugar atrás de si — que era só o que via de seu pai mesmo, na melhor das hipóteses. Não desgrudou os olhos do monitor, mas diminuiu o som das caixas. Estava transportando o homem da rua da igreja para o museu. Por que não havia pensado nisso antes? O museu estava cheio de coisas caras e importantes. Seu pai franziu o nariz. — Você pode abrir a janela? Estou sentindo um cheiro horrível aqui. — Faça o que quiser — respondeu Simon. O homem havia chegado às portas de vidro da frente do museu. O local estava fechado e as portas, trancadas. O criminoso pegou uma lata de lixo e a atirou contra elas. — Estão precisando de mim no banco. Alguém precisa acalmar os seguranças. Eles estão em pânico. Não se preocupe; ficaremos seguros...

Tá bom, tá bom, pensou Simon, mal ouvindo o que seu pai dizia. Vá logo. — O carro é blindado, e o motorista participou de um daqueles cursos preparatórios especiais... — Arrã. Ouviu um sussurro de mulher vindo do térreo, do lado de fora. — Ah, e e sua mãe vai comigo — disse seu pai. — Mas, como eu lhe disse, estaremos em segurança. E iremos depressa. Vamos em um pé e voltamos no outro, então não se preocupe. — Tudo bem — sussurrou Simon, sem desgrudar os olhos da tela. O sr. Down olhou sobre o ombro de Simon. — Meu Deus do céu, o que você está jogando? — Ele engoliu em seco. — Assim que isso tudo terminar, prometo que faremos mais coisas juntos. Certo? Pôs a mão no ombro de Simon. O menino fez um gesto de impaciência, afastando a mão do pai. Este suspirou. — Não gosto de ter que deixar você, mas vai ficar melhor aqui do que lá embaixo, na cidade. Até logo, Simon. Simon se inclinou para a frente a fim de aumentar o som novamente. Na tela do computador, o homem havia pegado uma pequena estátua de pedra da exposição de

arte romana e a utilizava como taco para quebrar outros objetos. Um segurança se aproximou dele e foi atacado com a estátua. O guarda caiu no chão, inerte. Em seguida, dirigiu-se à próxima galeria do museu: armas medievais. Você causou: 31.593.476 libras de prejuízo. Nada mau, pensou Simon. O homem desceu os degraus a passos largos, afastando-se do museu. Simon se ajeitou na cadeira e se alongou. Sentiu a coluna estalar. Entrelaçou os dedos e os estalou também. Ah, mas que sensação boa... Ei, Simon, e agora? Que tal bater onde vai realmente doer? Simon franziu o rosto. Era a primeira vez em horas que o computador fazia uma sugestão. O que ele queria dizer com “bater onde realmente vai doer”? Ele já não havia causado um prejuízo de mais de 30 milhões de libras? Isso certamente havia doído... Uma vaga memória começou a invadir sua mente. Seus pais não haviam vindo a seu quarto há pouquíssimo tempo? O que seu pai havia dito? Alguma coisa sobre... Alguma coisa sobre ir até a cidade. Alguma coisa sobre ir até o banco. Dã! Simon deu um tapa em sua própria testa. Como poderia ter sido tão lento? Destruir o banco: a razão de viver de seu

pai! Isso! Isso mostraria a seus pais que ele era mais importante do que imaginavam. E, se ele pegasse todo o dinheiro do banco, sua pontuação seria astronômica! — Certo — ele disse. — Vamos até o banco! Imediatamente, o homem na tela do computador passou a correr daquele jeito que Simon já conhecia. Ele já havia se acostumado. Quando tinha um destino em mente, o criminoso simplesmente corria até lá. Era um pouco chato, mas... Simon se ergueu, assustado. Não havia utilizado o controle para selecionar um destino. E não tinha nenhuma ferramenta de reconhecimento de voz; como o computador poderia ter reagido ao que dissera? Segurou o controle e tentou fazer com que o criminoso parasse, mas este continuou correndo. Um grupo de baderneiros que atacavam uma loja de eletrônicos abriu caminho para ele passar. Passou pela prefeitura em chamas, deu um salto para correr pelo teto dos carros presos no trânsito. Avançou em direção à praça, onde ficava o banco. De repente, o homem saiu de cima do carro e alcançou um veículo em movimento, do outro lado da rua. Ele o alcançou com facilidade. Abriu a porta do motorista e o empurrou para fora. O motorista começou a

reclamar, mas Simon deu um soco em sua barriga e outro em seu rosto, fazendo-o cair de joelhos. Em seguida, o criminoso entrou no veículo e pisou fundo no acelerador. Os pneus cantaram e o carro partiu. Agora era impossível controlar o sujeito com o joystick. Era como assistir a um filme — mas um filme que Simon sabia que era real... Pedestres apavorados saíam de seu caminho. Um deles se moveu muito lentamente e acabou sendo atropelado, lançado pelos ares. A visão na tela do computador agora era a do parabrisa do carro. Simon se agarrava às extremidades da mesa quando o veículo fazia curvas. O carro seguia pela contramão da estrada em direção à praça. Um enorme carro preto, uma limusine, entrou em seu campo de visão, logo à frente. Movia-se pela mão certa, o que significava que mal se mexia. Alguma coisa começou a cutucar a mente de Simon. A limusine parecia familiar. O carro roubado avançou em direção à limusine, acelerando cada vez mais. Simon gritou em sinal de alerta. Mas, evidentemente, ninguém podia ouvi-lo. O carro bateu diretamente na lateral da limusine, provocando o som agudo de metal destruído. O parabrisa do carro de Simon se

despedaçou, e Simon observou a cena, horrorizado. A porta da limusine se abriu, e uma figura apareceu. — Pai! — gritou Simon, olhando para a tela do computador. — Cuidado! O homem deu marcha à ré no carro e, em seguida, foi para a frente novamente. Simon gritou. — NÃO! Seu pai ficou preso entre a frente do carro roubado e a lateral da limusine. Uma tonelada de metal o esmagou. O homem recuou o carro novamente, e o corpo mole e desfigurado do sr. Down caiu no chão. Naquela fração de segundo, Simon voltou a ser um menino normal. Uma olhada no corpo sem vida de seu pai fez com que toda a raiva, toda a revolta, toda a frustração que movia o jogo desaparecessem; era como se nunca tivessem existido. Simon sentiu o estômago se embrulhar e teve de fechar a boca. Mas não conseguia afastar os olhos do monitor. No interior da limusine, ele podia ver uma sombra, sem ação, que mal se mexia; sabia que se tratava de sua mãe. O carro atacou a limusine outra vez, só que agora o criminoso manteve o pé no acelerador. A limusine começou a se mover lateralmente, passando pela rua, cada vez mais rápido,

até atingir um muro. Então uma faísca deve ter atingido o tanque de gasolina. Ele ouviu o barulho do combustível explodindo, e uma bola de fogo se ergueu do veículo destruído. Chamas alaranjadas dominaram a tela do computador. Simon se afastou do computador. — Não! — disse ele. — É só um jogo. TEM QUE SER! É só um jogo! — ele gritou. Ele verificaria o canal de notícias na televisão. Tinha de estar mostrando alguma coisa diferente. Então saberia que nada daquilo era real, e que em breve seus pais estariam de volta. Ligou a TV e utilizou o controle para passar pelos canais. E lá estava. Uma visão aérea da praça da cidade, com a limusine de seus pais amassada e em chamas em um dos cantos. O corpo de seu pai estava no chão; um paramédico o cobria com um pano nesse instante. Multidões horrorizadas se mobilizavam, abandonando seus carros, em pânico, tentando escapar. Não havia nenhum sinal do criminoso. Simon olhou para o monitor de seu computador. Viu exatamente a mesma cena. O homem na tela olhou para cima. O monitor mostrou outra visão. Mostrava o olhar do criminoso voltando-se para cima — passando pelos prédios ao redor da praça, e além. Até chegar à

mansão que ficava na colina acima da cidade. A casa de Simon. O sujeito começou a correr — daquele jeito que Simon já conhecia —, pegando a estrada que o levava para fora da cidade. — NÃO! — gritou Simon, apavorado. Ele atravessou o quarto e se jogou sobre sua cadeira. Abriu a bandeja da torre do computador e pegou o DVD. Bateu-o com força contra a mesa. Mas o disco não se quebrou. Colocou-o contra a ponta da mesa e se apoiou sobre o DVD, com todo o seu peso. O disco começou a se dobrar e, de repente, partiu-se em dois. Um pedaço de plástico quebrado cortou seu pulso. Simon se apoiou na mesa, ofegante, com os olhos fechados. Havia destruído a fonte do jogo. Era o fim. Tinha de ser. Mas ele continuava ouvindo as sirenes pelas caixas de som do computador. Abriu os olhos e gritou. O jogo continuava acontecendo. Simon tentou encerrar o jogo, mas seu computador o ignorou. Digitou Ctrl-Alt-Del, e nada aconteceu. Apertou o botão power com toda a força, mas o computador continuou ligado. Atirou-se ao chão, de joelhos, e procurou o fio. Desligou o plugue do computador e, só para garantir, desligou a

outra ponta do fio da tomada. O jogo continuou acontecendo. O homem estava perto agora. Simon gritou e correu para o andar térreo da casa. — Ele está vindo! — gritou Simon em direção ao hall. Templeton, que estava na extremidade da longa escadaria, piscou e olhou para o menino. — Quem está vindo, sr. Simon? — Ele... ele! Ele matou a mamãe e o papai! Está vindo para cá... O mordomo franziu o rosto. — O senhor está bem, sr. Simon? Então, alguma coisa atacou a porta da frente. — Mas o que foi isso? — Templeton foi até a porta. — Cuidado! — gritou Simon, recuando. — Ele não pode estar aqui... não tão depressa! — O sujeito nunca se mexia tão rápido no jogo! Ele correu de volta para o quarto. No monitor, viu a porta da frente de sua casa aberta. O rosto espantado do mordomo preenchia a tela do computador. — Quem é... O punho do criminoso atingiu o rosto de Templeton, e ele cambaleou para trás, com muito sangue escorrendo do nariz. O homem o perseguiu dentro da casa e esticou os braços. Segurou o pescoço do

mordomo e o apertou. Templeton segurou os braços do sujeito, tentando se libertar. Em seguida, seus olhos reviraram e seu corpo sucumbiu. O sujeito o largou. Houve um grito vindo de um dos lados. O homem se virou e viu que a empregada estava ali, com as mãos no rosto. Era rápido demais para ela; atacou-a antes que pudesse fugir. Pôs um braço em torno do pescoço dela e girou. Os gritos da mulher pararam subitamente. Simon chorou e correu para fechar a porta do quarto. Girou a chave e se trancou lá dentro. O computador, por mais impossível que fosse, continuava ligado. O jogo continuava. Simon se encostou na parede, apavorado, mas não conseguia afastar os olhos da tela do computador. Podia ver o homem subindo a escada em direção a seu quarto. O criminoso alcançou a maçaneta da porta, e Simon conseguia ouvir sua respiração pelas caixas de som. Olhou para a verdadeira porta. A maçaneta estava girando. De repente, parou, e houve uma pausa. Em seguida, a madeira sacudiu quando um peso pesado se lançou contra a porta. Outra vez.

A madeira começou a se quebrar. Lágrimas de horror embaçaram a visão de Simon, e a última coisa que viu na tela do computador antes de a porta se abrir foram as palavras... Game Over.

A outra irmã
A Acessórios Sparkle estava lotada com o público do verão. Um CD com os maiores sucessos de uma boy band fornecia o fundo musical enquanto Catherine Woollams cumprimentava cada cliente com um largo sorriso no rosto. Parecia tão falso quanto o ouro e a prata dos novos batons que passara a manhã ajeitando na vitrine. Um grupo de três meninas finalmente chegou ao primeiro lugar da fila. — Você tem alguma coisa azul? — perguntou uma delas. Remexiam uma pilha de prendedores de cabelo, que derrubaram no balcão. — O azul acabou — desculpou-se Catherine. Ela apontou as alternativas. — Temos vermelho, verde, amarelo, laranja... — Não... — pensou a menina. —Alguma coisa turquesa? — Não, na verdade só o que está aqui mesmo: vermelho, verde... — E azul-bebê? Ou safira! Ai, eu adoro safira... Um dos cantos da mente de Catherine já estava examinando tudo o que ainda teria de fazer: estocar as pulseiras do balcão, colocar os brincos mais próximos da porta —

Stella, a gerente, lera em uma revista que os clientes preferem ver primeiro os itens mais baratos, assim não se espantam —, arrumar as bolsas... — Não — respondeu. — Só vermelho, ou... A menina virou-se de costas e passou por suas amigas. — Deixa pra lá. Vamos, meninas. Este lugar é uma droga. Catherine já estava sorrindo para a próxima cliente enquanto em outro canto de sua mente reclamava de clientes que a faziam perder tempo. Mas não adiantava pensar muito sobre isso, ou passaria o dia inteiro incomodada. A Acessórios Sparkle tinha uma equipe de três pessoas, incluindo a gerente, e durante as férias ficava sempre lotada. Mas Catherine sabia o que fazer para que cada cliente achasse que estava concentrada exclusivamente nela. — Posso ajudá-la? — perguntou, alegremente. A mulher tinha no mínimo o dobro da idade da clientela costumeira, e Catherine imaginou se teria entrado na loja por engano. — Finalmente — exclamou a mulher. — Estou aqui há horas. — Em que posso ajudá-la, senhorita? — perguntou Catherine.

— Quer dizer, nem todos podem passar o dia em pé esperando, certo? — Certo — concordou Catherine; seu sorriso já começava a doer. — O que posso fazer por você? A mulher retirou um cachecol verde da bolsa. — É este cachecol — ela disse. — Comprei aqui há alguns dias... — Você tem cintos? — perguntou uma menina de mais ou menos doze anos, interrompendo a mulher. — Perto das luvas — respondeu Catherine automaticamente, apontando na direção dos cintos. — Ah, obrigada. — A menina correu, e Catherine voltou a atenção para a mulher. — Veja só esta costura — ela dizia, segurando o cachecol e apontando para o defeito. — Já está se desfazendo! Catherine ouviu a reclamação com um sorriso educado. Já fazia esse trabalho havia dois anos, desde os catorze, quando começou como vendedora aos sábados. Nesse verão trabalhava em tempo integral pela primeira vez, antes de iniciar o último ano da escola. As últimas quatro semanas tinham permitido que praticasse o sorriso educado mais vezes do que poderia imaginar, acenando com a cabeça nos momentos adequados e ignorando o que os

clientes diziam. A mulher continuou reclamando. — E, além do problema da costura, quando usei este cachecol durante o dia, percebi que a cor é verde-limão, e eu prefiro cor de jade. Catherine balançou a cabeça e sorriu. — E o jeito como se encaixa nos meus ombros não combina com meu corpo tão bem quanto poderia... Não combina com seu corpo? Você está na Acessórios Sparkle! Para MENINAS! Você está tentando usar um cachecol feito para alguém que tem a metade da sua idade! O que poderia querer? — Então, eu pensei, será que você tem alguma coisa... Quer dizer, o que você estava PENSANDO? — Está tudo bem, Catherine? O coração de Catherine disparou, mas o sorriso em seu rosto não se desfez. Stella, a gerente, havia saído da sala do estoque e entrou na conversa. Stella gostava de se vestir bem, com tailleurs escuros, salto alto e cabelo perfeito, sem esconder que gostaria de ser gerente de uma loja de departamentos algum dia. — Tudo bem, Stella — disse Catherine. — Esta senhorita estava apenas trocando um cachecol...

— Então acho que você deveria escolher entre as alternativas que podemos oferecer à senhorita. — Stella sorriu para a cliente, que fez que sim com a cabeça. — Alguma coisa que combine melhor com ela. Por exemplo, jade? A mulher sorriu, e Catherine pensou: “Você só está dizendo isso porque ouviu o que ELA disse”. — Pode deixar, Stella — disse, afastando-se do balcão. — E, quando acabar, gostaria que trocasse o lugar dos brincos... — Já está na minha lista de coisas para fazer, Stella. — Bem, para fazer não é feito, certo? — respondeu Stella, como se estivesse transmitindo uma pérola de sabedoria. Provavelmente, alguma frase de efeito lida em um livro qualquer sobre gerenciamento de lojas. Catherine sabia que não deveria responder, então simplesmente se dirigiu aos cachecóis para escolher alguma coisa remotamente verde. Escolheu uns três ou quatro e se voltou para o balcão, quase derrubando uma menina que estava logo atrás dela. A menina não a havia visto — estava girando lentamente um carrossel de bolsas brilhantes, observando a maneira como as luzes faziam com que as bijuterias

brilhassem. Catherine não tinha muito talento para adivinhar a idade de crianças, mas esta parecia pequena o suficiente para ter cerca de seis anos de idade, tinha cabelos louro-escuros e bagunçados, na altura dos ombros, e usava um casaco acolchoado com detalhes em vermelho e rosa; era um pouco estranho, mas bem estiloso, meio retro. Catherine imaginou qual seria a origem do casaco e se seria vendido em tamanho adulto. — Olá — disse. A menina olhou para ela por um instante, depois voltou sua atenção para o carrossel. Catherine parou por alguns segundos, pensativa. Stella não gostava de crianças desacompanhadas na loja — nunca tinham dinheiro para gastar, e algumas delas roubavam coisas. Mas essa menina parecia mais jovem do que os clientes que normalmente traziam problemas, e Catherine concluiu que pelo menos um dos pais deveria estar por perto. Então, passou adiante, formando seu sorriso outra vez, e voltou para o balcão. —Ah, eu não sei — disse a moça quando Catherine espalhou os cachecóis sobre o balcão. — Nenhum desses é jade, não é? Felizmente, Stella parecia determinada a concluir a venda por conta própria, então ela seria a responsável por convencer a

mulher de que um daqueles tons de verde combinava melhor com seus olhos. Catherine andava de um lado para o outro atrás delas, imaginando se Stella cuidaria do resto da fila e se ela poderia se ocupar dos brincos. Olhou em volta da loja para ver se a menininha ainda estava lá. Ela estava olhando as bolsas agora, passando o dedo em um exemplar de couro brilhante. Catherine a observou com curiosidade: aquela bolsa era um dos itens mais caros da loja, e ela duvidava que a menina tivesse qualquer intenção de comprá-la. Não queria que Stella se aproximasse e expulsasse a menina da loja, então ficou de olho na garota, com a esperança de que seus pais aparecessem. Após alguns instantes, tornou-se claro que a menina estava sozinha. Talvez seus pais estivessem em outra loja. Não dava a impressão de que traria encrenca. Catherine já havia tido problemas com crianças que pegavam algo de que gostavam e saíam correndo, fazendo o alarme disparar, rápidas demais para serem alcançadas. Mas essa menina parecia jovem demais, tímida e quieta demais para roubar alguma coisa e fugir em seguida. Finalmente, a cliente complicada partiu com um cachecol o mais próximo possível de seus olhos que a Acessórios Sparkle

podia oferecer. Stella desapareceu na sala de estoque, já que Beth, a outra vendedora, voltara de seu horário de almoço para cuidar do resto da fila. — Já venho ajudar você, Beth — prometeu Catherine, caminhando em direção à menininha. Ela estava em outra seção, observando luvas com as cores do arco-íris, admirando-as de longe, como se não ousasse tocá-las. Catherine formou seu melhor sorriso — um que quase parecia genuíno — e se pôs a seu lado. — Olá — disse. — Você está procurando alguma coisa? A menina olhou para ela. Sua expressão era fechada e tímida, mas parecia haver um sorriso lá, sob os olhos castanhos. Seus dedos esfregaram uma das luvas. — Eu gosto destas aqui — murmurou a menina, tão baixo que Catherine quase não ouviu. — Acho que essas são um pouco caras para você — disse Catherine gentilmente. A menina pareceu se entristecer. — Não tenho nenhum dinheiro. Mas... — ela se aproximou — ...acho que a minha irmã gostaria muito delas — disse a menina, como se estivesse compartilhando o maior segredo do mundo. Catherine respirou fundo para perguntar a respeito da irmã, se era

mais velha ou mais nova, se estava com a mamãe e o papai, mas logo ouviu Stella chamá-la do outro lado da loja. — Catherine! O que você está fazendo aí? Venha ajudar a Beth! Funcionários eficientes são funcionários ocupados! Catherine se ajeitou. — Já estou indo, Stella. Stella abriu a boca para dizer mais alguma coisa, e Catherine viu seus lábios pararem ao ver a garotinha. — Espero que você... — começou Stella, e Catherine sabia que ela estava a meio segundo de lembrá-la a respeito da política sobre crianças desacompanhadas na loja. — Sinto muito, são só para clientes — Catherine murmurou, tomando as luvas das mãos da garota. — Acho que você deveria procurar os seus pais. — Com o canto dos olhos, ela viu Stella fazer um sinal em tom de aprovação e virar-se de costas. A menina ficou parada por um instante, com os olhos escuros e inexpressivos, antes de passar por ela e correr para fora da loja. As luvas sacudiram levemente no cabide em que estavam penduradas, e Catherine sentiu-se como se tivesse um centímetro de altura. E o que mais eu poderia fazer?, pensou, irritada — irritada consigo mesma,

irritada com Stella e irritada até mesmo com a menina. Ela não podia ficar passeando por ali e obviamente não compraria nada; se tentasse fugir com alguma coisa, Stella a culparia por tudo. Suspirou, pensando se seria tarde demais para arrumar um emprego em que não precisasse lidar com o público, ou com gerentes excessivamente ambiciosos, e voltou para o balcão. Dois dias depois, Catherine passou correndo pelas portas automáticas para entrar no shopping. Estava mais cheio do que o normal para uma segunda-feira, lotado de pessoas que pareciam determinadas a caminhar dez vezes mais devagar do que ela gostaria. Havia perdido a hora, seu ônibus tinha ficado preso no trânsito do centro da cidade e faltavam três minutos para que estivesse oficialmente atrasada para o trabalho. — Com licença... desculpe... obrigada — sussurrava, ofegante, empurrando e se desviando das pessoas até a escada rolante que levava ao primeiro andar. — Com licença... — Tentou se espremer e passar pela pessoa que estava à sua frente na escada rolante, esperando conseguir correr até o andar de cima, e o sujeito olhou para ela por sobre os ombros. — Por que tanta pressa? Você sabe que estas escadas sobem automaticamente, não

sabe? — irritou-se o sujeito, que se voltou para a frente, impedindo teimosamente a passagem de Catherine. Ela rangeu os dentes por ser forçada a se mover no mesmo ritmo lento das outras pessoas. De repente, algo vermelho e rosa prendeu sua atenção. Alguma coisa parecida fez com que se lembrasse da menininha que vira no sábado. Catherine olhou em volta, colocando-se na ponta dos pés para enxergar melhor, e então a viu. A menina estava abaixo dela, no piso térreo do shopping, ao lado do chafariz ornamentado. Catherine se lembrou da maneira como se despediram — ela havia praticamente expulsado a menina da loja só para evitar a ira de Stella. Pensou se deveria descer e se desculpar, já que não gostou da maneira como agira. Não queria que a garotinha pensasse que a Acessórios Sparkle só tinha funcionários grosseiros. — Olá — gritou Catherine, enquanto a escada rolante a levava para trás de uma pilastra. Tentou descer um degrau, mas a escada estava cheia demais, e recebeu um olhar enfurecido da mulher que vinha atrás. Também não tinha como ir para a frente. Quando finalmente saiu de trás da pilastra, a garotinha havia sumido. Catherine correu para longe da escada e olhou para baixo, tentando enxergar a

menina no térreo. O casaco rosa não estava em lugar nenhum. Deu de ombros. Ela tinha a melhor das intenções, mas não adiantava mais se preocupar com isso. E, se não chegasse à loja em trinta segundos, estaria atrasada. A terça-feira pareceu longa, e a quarta, mais longa ainda. As férias escolares significavam muitas crianças com tempo livre, e Catherine podia jurar que todas elas vinham à Acessórios Sparkle passar seus dedos sujos de sorvete nos cachecóis e sujar as pulseiras que ficavam em exposição. No fim do dia, cada centímetro de seu corpo doía. Seus pés, por ficar em pé atrás do balcão; sua garganta, por passar o dia falando mais alto que a música de fundo e a conversa das meninas; sua cabeça, por sempre atender no mínimo três clientes simultaneamente, e também por precisar se certificar de que tudo o que deixasse a loja fosse pago, e por ter de deixar Stella satisfeita. Na hora de fechar o estabelecimento, ela ficava feliz por ligar o piloto automático e voltar para casa no ônibus lotado, junto com todas as outras pessoas do mundo. A saída do shopping dava para a rua principal. Às quartas--feiras as lojas ficavam abertas até mais tarde, então já estava escuro quando Catherine foi embora. O vidro

das portas automáticas parecia preto e brilhante e refletia perfeitamente o interior iluminado do shopping. Era como se houvesse duas Catherines caminhando uma em direção à outra, e ela deu uma olhada crítica em seu reflexo. Seus cabelos na altura dos ombros poderiam ser mais lisos, e ela não gostava da maneira como balançavam mais de um lado que do outro. Mostrou os dentes para ver se não estavam sujos de batom; em seguida, sorriu de verdade ao perceber que estava bem. O sorriso se desfez quando viu o brilho vermelho e rosa outra vez, no reflexo, logo atrás dela. A menina estava a alguns metros de distância, e seus olhares refletidos se encontraram por um instante. Catherine parou subitamente e se virou de costas, e a mulher que vinha atrás esbarrou nela. — Desculpe — engasgou-se Catherine, mas já balançava a cabeça de um lado para o outro, tentando enxergar a menina. — Eu só... bem... — Tudo bem — disse a mulher, em um tom que deixava claro que não estava; deu passagem e Catherine seguiu em frente. Catherine tentou regredir por um instante, ir contra o fluxo da multidão, mas não fazia idéia de qual direção deveria seguir.

A menina havia sido engolida pela onda de pessoas que saíam do shopping, e, apesar de Catherine estar na ponta dos pés e com o pescoço esticado, não conseguia enxergar a cabecinha loura da criança que vestia o casaco rosa e vermelho. — Acalme-se, Cath — sussurrou para si própria. Não fazia mal se a Acessórios Sparkle tivesse perdido uma cliente potencial. Voltou para as portas e permitiu que abrissem à sua frente, para deixar mais um dia para trás. Certo, pessoal! Hoje é sexta-feira! Aqui vai uma música para deixá-los em ritmo de festa... A estação de rádio local tocava alegremente no shopping quando Catherine entrou, e finalmente seu humor estava de acordo com a trilha sonora. Finalmente era sexta-feira! Tudo bem, era véspera do dia mais ocupado da semana, mas mesmo assim ela estava ansiosa pela chegada do fim de semana. A atmosfera era sempre melhor na loja, e ela tinha uma festa na casa de sua amiga Jenny no sábado à noite. E Jenny tinha um irmão mais velho muito simpático, chamado Chad, que certamente estaria lá... A primeira cliente do dia era uma mulher que parecia perdida, mais ou menos da idade da mãe de Catherine.

— As aulas começam em algumas semanas... — começou a mulher. E eu não sei?, pensou Catherine, sombriamente. — É uma pena! — respondeu, e a mulher sorriu. — ...e eu queria comprar um presente de aniversário para a minha filha que tenha a ver com a volta às aulas. Ela tem catorze anos, e não sei o que comprar... — O que ela leva para a escola normalmente? — perguntou Catherine. — Bem, a bolsa, é claro, mas já está ficando velha. — Então vamos começar por aí! — disse Catherine, levando a mulher até a seção de bolsas. Com o resto da loja praticamente vazio, era uma boa maneira de começar o dia. Catherine gostou de ajudar a mulher a escolher não só uma bolsa nova como também um porta-lápis, um prendedor de cabelo e um caderno de capa brilhante. — Ah, e algumas canetas também! — disse a mulher. — Ótima idéia! — Catherine se lembrou de que seu emprego não era tão ruim assim. A mulher pagou com cartão de crédito, agradeceu inúmeras vezes e saiu com suas sacolas. Por que Stella nunca estava

presente para testemunhar clientes satisfeitos?, imaginou Catherine. De repente, ela teve a estranha sensação de estar sendo observada. Virouse e viu a menininha de casaco vermelho e rosa atrás dela. — Oi! — disse Catherine. — Quanto tempo! — A intenção era fazer uma piada. A menina apenas olhou para ela. — Então... — Catherine pensou rapidamente no que poderia dizer. Não queria que a menina pensasse que ela seria grosseira outra vez. — O meu nome é Catherine. A menina olhou para o crachá de Catherine. — Eu tenho nove anos. Sei ler. Nove? Catherine ficou um pouco surpresa. Imaginou que a menina tivesse uns três anos a menos. Certamente era pequena para a idade. Mesmo assim, nove era um pouco jovem para fazer compras sozinha. Olhou em volta — no interior da loja, e para o shopping, através da janela —, tentando encontrar um adulto ao qual a garotinha parecesse pertencer. Não parecia haver ninguém. — Você está sozinha? — perguntou Catherine. — Sem a mamãe e o papai?

A menina pegou uma bolsa brilhante em forma de gato e passou a mão pelos bigodes de plástico. — Tudo bem; você não precisa se preocupar com eles. — Ela deu de ombros. — Ah, certo — disse Catherine, sem saber o que dizer. A menina olhou ao redor da loja. — Todas as coisas aqui são tão bonitas — disse. — Eu gostaria que eu e a minha irmã pudéssemos ter coisas bonitas assim. Mas a nossa mãe não deixa. — Hum... A sua irmã está por aqui? — perguntou Catherine. — Ei, Cath! Catherine deu um salto, com medo de levar uma bronca por estar desperdiçando tempo de trabalho. Mas não era Stella: eram Jenny e Helen, do colégio. — Lá está ela! — Da entrada, Helen viu Catherine, e as duas meninas correram em sua direção como mísseis de guerra. — Ah, Cath, precisamos tanto de sua ajuda! Temos que comprar alguma coisa para a minha festa — começou Jenny. Catherine olhou para a garotinha e se encolheu. O olhar amistoso da menina desapareceu e foi substituído por um que parecia de raiva. — O que elas querem? — perguntou.

— Ei, elas são minhas amigas — protestou Catherine. A garota olhou para cima com olhos frios e rígidos. — Neste caso, acho melhor você falar com elas — disse a menina, com a voz fria e fina. Devolvendo ao cabide a bolsa em forma de gato, ela se retirou da loja antes que Catherine pudesse dizer alguma coisa, passando pelas meninas que vinham em sua direção. — Quem era aquela menina estranha? — perguntou Helen, observando as costas da garotinha, que se afastava. — Ela não é estranha, Helen — disse Catherine, um pouco surpresa por estar defendendo a menina. Afinal, sua reação à presença de Jenny e Helen havia sido um pouco exagerada. — Acho que é um pouco solitária. Ela vive por aqui, e nunca vi os pais dela... — Ei, vocês duas, parem de fofocar! Isto é uma emergência! — disse Jenny. Mas Catherine viu uma cliente se aproximando do balcão. — Pessoal, tenho que atender aquela menina. Por que vocês não dão uma olhada para ver se encontram alguma coisa? — sugeriu. Deixou Jenny e Helen examinando os batons dourados e prateados e correu para o caixa.

— Quero trocar este prendedor de cabelo — explicou a cliente. Pegou um prendedor, lilás vivo, e o colocou no balcão. — Acho que algumas lantejoulas estão soltas. Catherine verificou; era difícil perceber, mas uma ou duas lantejoulas estavam mais soltas que as outras. — Desculpe — disse Catherine. — Se você quiser, pode trocar por outro. — Obrigada, se puder... — respondeu a menina. Para alívio de Catherine, ela não parecia tão incomodada. Eram sempre um mistério as coisas que podiam chatear os clientes. Foi uma troca rápida; a garota devolveu o prendedor velho, escolheu um novo e foi embora satisfeita. Do outro lado da loja, Helen e Jenny experimentavam chapéus e reagiam de acordo com a aparência no espelho. Catherine sabia que levaria horas até elas escolherem alguma coisa. Enquanto isso, girou o prendedor de cabelos defeituoso nas mãos e o analisou, pensativa. “Quando não estou com você...”, Catherine cantou com o rádio na manhã de segunda-feira. Ela se pôs na ponta dos pés em cima de uma escadinha, arrumando vidros de perfume e esmalte em uma prateleira da vitrine. “... não estou em lugar

nenhum, pois você é o único...”. A música ecoou em sua mente durante todo o fim de semana, e não só porque era a número um nas paradas de sucesso. Era a música que tocava quando o irmão de Jenny, Chad, olhou para ela, do outro lado da festa — tudo bem, ele foi encontrar os amigos antes que ela pudesse falar com ele, mas seus olhos se encontraram de um jeito significativo, e ela não tinha parado de pensar nele desde então. — Suas amigas estão aqui? Catherine deu um salto. A menina estava ao lado da escadinha, com o pescoço esticado para observar Catherine. Seus olhos estavam duros e frios, e a maneira como ela disse amigas fazia com que a palavra parecesse um insulto. — Não. Não, não estão. — Catherine desceu de onde estava, isso está começando a cair na categoria “estranho”, pensou, lembrando-se do que Helen dissera na sexta-feira. A menina parecia estar morrendo de ciúmes de Helen e Jenny. — Esse vidro não está alinhado — disse a menina, apontando. Catherine olhou para cima e notou que uma das embalagens de esmalte estava ligeiramente torta. — Obrigada — disse, subindo outra vez para ajeitar o vidro com a ponta dos dedos.

— Elas passaram horas aqui — continuou a menina. — Fiquei olhando pela janela. Vi a moça do prendedor de cabelo também. — Bem... que bom — disse Catherine. Ela tivera uma ótima idéia quanto ao que fazer com o prendedor de cabelo na sextafeira. Mas agora, com a menina sendo tão hostil, já não tinha tanta certeza. Por outro lado, podia ser que a garotinha tivesse pais estranhos — era evidente que não viam problema em deixá-la passear sozinha pelo shopping durante dias a fio. Catherine não precisaria de muito esforço para ser amigável. — Veja só — disse. Desceu da escadinha e foi para trás do balcão. Pegou o prendedor de cabelo lilás. — Eu guardei para você. — Ela sabia que o prendedor seria jogado fora de qualquer jeito. De repente, a expressão da menina se alterou. O gelo derreteu de seus olhos, e eles se tornaram profundos, leves e receptivos. Um sorriso radiante se formou em seu rosto. — Nossa! — exclamou a menina. Esticou o braço com cuidado, como se estivesse com medo de quebrar o prendedor, e lentamente o retirou da mão de Catherine. — Nossa! — disse outra vez. — É tão lindo! É mesmo para mim?

— Bem, claro... Hum, é, para você. — Catherine sentiu-se ligeiramente envergonhada, não só porque a menina estava tão agradecida, mas porque, de verdade, o presente não era lá essas coisas. Um prendedor de cabelo devolvido não era exatamente uma joia da coroa, mas a menina reagiu como se fosse. — É tão bonito! — disse a menina. — É o melhor presente que já ganhei na vida! — Olhou para Catherine com um olhar de adoração que a fez ficar vermelha. — Muito, muito obrigada! — Em seguida, baixou a cabeça. — Eu não tenho nada para dar a você. — Tudo bem — disse Catherine. — Você não precisa me dar nada — sentiu um aperto no coração. Será que ninguém nunca dera um presente para essa menina, simplesmente por dar? Será que ela sempre acreditou que houvesse alguma coisa por trás, que teria de dar alguma coisa em troca? Catherine se inclinou para a frente, como se fosse contar um segredo. A menina sorriu mais ainda e se aproximou. Catherine falou baixinho. — Preste atenção. A minha gerente vai voltar logo, e ela não gosta de crianças que ficam por aqui sem comprar nada. Mas você

pode aparecer por aqui sempre que ela não estiver. A menina sorriu novamente. — Certo. — Ela pôs o prendedor no cabelo e o ajeitou orgulhosa, com os cabelos atrás da orelha. — E eu vou usar este prendedor o tempo todo! Saiu da loja de cabeça erguida. Catherine se lembrou de uma coisa. — Eu ainda não sei o seu nome! — gritou. A menina olhou para trás. Por um instante, pareceu um pouco desconfiada, como se estivesse pensando no que dizer. — Susan — respondeu, desaparecendo no shopping. — Certo... certo... — Stella andava de um lado para o outro, feito barata tonta. Era como geralmente ficava antes de suas visitas ao banco. — Carta? Carta? Ai, meu Deus, onde foi que botei aquela carta...? — Ao lado do caixa — disse Catherine, sem tirar os olhos da caixa de presilhas que estava arrumando; as presilhas exigiam sua atenção. — Ah, sim. Eu vou me atrasar. Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa? Ah, obrigada, Beth... Certo; devo estar de volta mais ou menos às duas horas. Até logo... — disse Stella, ofegante, e correu para fora; seus saltos faziam muito barulho.

Beth e Catherine se entreolharam e, quando o som dos saltos de Stella diminuiu, respiraram aliviadas. — Ai, graças a Deus! — exclamou Beth. — Vou fazer um café. — Desapareceu na sala dos fundos, e Catherine continuou a fazer o que estava fazendo. — Beth — chamou ela —, você se importa em ficar sozinha aqui durante o almoço? — Sozinha? — Beth reapareceu na porta. — Você tem algum encontro secreto, Cath? — Em seguida, ela viu Catherine enrubescer e seus olhos se arregalarem. — Não acredito! Você tem! Quem é? Pode me contar tudo! — É... — Catherine deu de ombros, mas não queria dizer que não era nada, pois era alguma coisa. — A minha amiga Jenny me ligou ontem à noite e quer me encontrar na hora do almoço... — Tentou soar casual, mas podia ouvir a animação crescendo em sua voz. — O irmão dela vai vir junto, e ela tem certeza de que ele vai me convidar para sair! — Oh, Cath! — Beth abraçou a amiga. — Isso é ótimo! Claro, eu posso cobrir você. Mas você vai ter que me contar todos os detalhes quando voltar! Promete?

— Prometo. — Catherine sorriu, sentindo arrepios no estômago de tão nervosa. Meia hora depois, pegou seu casaco e sua bolsa e parou na porta para verificar o batom pela vigésima vez. — Boa sorte! — disse Beth, fazendo sinal de positivo. Catherine retribuiu o sorriso, agitada demais para conseguir falar. Estava prestes a abrir a porta quando notou que Susan a observava através do vidro. O prendedor estava na cabeça dela, uma linha violeta brilhante em seus cabelos louros. Então, Susan viu o casaco e a bolsa e seu sorriso se desfez, transformando-se em uma expressão de decepção. Catherine abriu a porta e Susan olhou para ela. Seu rosto agora era incompreensível. — Preciso muito falar com você — anunciou Susan. — Bem, na verdade... — começou Catherine, apertando as mãos em sua bolsa. Ela ia explicar que tinha um compromisso na hora do almoço. Susan deu de ombros e virou-se de costas. Sob o prendedor, seu cabelo parecia mais sujo do que nunca, e havia uma mancha de gordura no ombro de seu casaco. — Deixa pra lá — disse a menina.

Ela parecia tão desprovida de emoções, sem se importar nem um pouco, que Catherine imaginou que estivesse acostumada a decepções. Acostumada até demais. Jenny e Chad participariam de outros almoços, disse a si mesma. — Eu posso cancelar — disse com convicção, e, instantaneamente, o brilho nos olhos de Susan voltou. Catherine pegou seu celular. — Espere um instante. — Então, o que você quer?—perguntou Catherine, olhando para sua companhia. Estavam em uma lanchonete no térreo. Ela não foi ao restaurante do andar de cima de propósito, para não encontrar Jenny ou Chad. Catherine disse a eles que Stella havia dado ordem para que ela trabalhasse durante o almoço. Não podia deixar que soubessem que foram trocados por uma menina de nove anos. Nesse momento, todas as células do corpo de Catherine queriam estar no andar de cima, almoçando com Jenny e seu irmão. Mas Susan tinha ficado triste e dissera que precisava falar com Catherine, então alguma coisa importante deveria estar acontecendo. A menina parecia ter se recuperado. — Eu quero um milk-shake de chocolate — disse, com satisfação. — Dois milk-shakes de chocolate — disse Catherine à mulher atrás do balcão.

— Aqui estão — disse a mulher um instante mais tarde, entregando dois copos e um cookie para Susan. Entregou o troco a Catherine e sorriu. — Que prendedor bonito! Foi a sua irmã que deu? Catherine olhou para Susan. Seus olhares se encontraram, e elas começaram a rir. Foram para uma mesa sem corrigir o erro da balconista. — Eu sempre quis ter uma irmã como você — disse Susan enquanto se sentavam. — Obrigada. Espera aí, mas você não tem uma irmã? — perguntou Catherine, intrigada. Susan deu de ombros e começou a brincar com o cookie. — Susan — Catherine tentou novamente —, quem cuida de você? Onde está a sua mãe? Ou o seu pai? A menina deu um sorriso tímido e não tirou os olhos do cookie. Agora havia mais farelos do que biscoito, e ela começou a tirar as gotas de chocolate, alinhando-as no prato. — Eu sei me cuidar sozinha, sabia? — disse a menina. — Sim, mas... — disse Catherine. O canudo de Susan fez um ruído enquanto ela terminava seu milk-shake. Ela desceu do banco.

— Estava uma delícia — disse. — Podemos repetir amanhã? Catherine suspirou. Se havia algo difícil acontecendo na casa da menina — talvez até alguma coisa perfeitamente normal, como seus pais se divorciando —, ela certamente não estava pronta para falar a respeito. Talvez só precisasse de um amigo para se sentir querida. Mas, enquanto isso, ela tinha deixado de ter um encontro com Chad. — Podemos — disse Catherine, forçando-se a sorrir. — Apareça na loja neste mesmo horário. Geralmente a Stella já saiu. — Certo, estarei lá! — Susan lançou a Catherine um sorriso tímido antes de vestir seu casaco vermelho e rosa e desaparecer na multidão. — Ei! Alô! Aqui! — Catherine se desligou de seu sonho. A cliente era Toni Parker, uma menina da sala de Catherine com quem ela nunca se dera bem. Ela balançou as mãos na frente do rosto de Catherine para chamar sua atenção. — Desculpe, eu estava... — Esqueça o que você estava fazendo. Isto é muito importante — disse Toni. Catherine se surpreendeu e sentiu o sorriso derreter como um batom sob luz quente. — Olha só, esta bolsa não é adequada. E pequena demais para a minha carteira, pequena demais para meu celular, é...

— É uma bolsa de festa — destacou Catherine. — A função é puramente decorativa. — E onde eu guardo o meu celular? — reclamou Toni. — Preste atenção, quero uma bolsa maior, mas não vou pagar mais de jeito nenhum. A hora de almoço de Catherine estava praticamente no fim, e não houve sinal de Susan. Talvez alguma coisa ou alguém estivesse impedindo que ela aparecesse. Talvez um de seus pais finalmente tivesse desenvolvido algum senso de responsabilidade. Ou, talvez, simplesmente tivesse esquecido. Catherine tentou não se sentir magoada. Achava que tinha criado alguma espécie de vínculo com a menininha solitária, mas devia ter sido uma coisa de momento. Onde ela estaria? — Você não está ouvindo nada do que estou dizendo, está? — disse Toni. — Como você é inútil, Cath! Nesse instante, como se tivesse sido conjurada pelo mau atendimento aos clientes, Stella apareceu. — Ah, Catherine, está tudo bem? — Você é a gerente? — perguntou Toni. — Talvez você possa me ajudar. — Levou a bolsa até Stella. Catherine já havia agüentado demais. Estava morrendo de fome, e lhe ocorreu que

Susan talvez tivesse se confundido. Ela poderia ter achado que se encontrariam na lanchonete, como da outra vez, e não na loja. Poderia estar lá agora, esperando, imaginando onde Catherine estaria, pensando que talvez tivesse sido esquecida... — Estou saindo, Stella — disse Catherine, pegando sua bolsa atrás do balcão. Stella olhou para ela indignada. — Catherine, o seu horário de almoço é de meio-dia e meia até uma e meia, e agora são... — verificou seu relógio — ...uma e trinta e sete. Então, você não vai a lugar nenhum. — Mas Beth disse que cobriria para mim! — Catherine não teve coragem de contar a Beth o que acontecera no dia anterior, então contou que Chad havia cancelado na última hora, mas que queria encontrá-la hoje. Beth ficou feliz por substituí-la. Stella cruzou os braços, e Toni sorriu atrás dela. — Beth pode substituir você durante o horário de almoço — disse Stella, — mas não quando você bem entender. Quando eu bem entender! Catherine queria gritar. Eu trabalho como uma escrava

e nunca reclamo de nada, e agora você diz que quero sair quando bem entendo? — Olha, são só alguns minutos! — insistiu Catherine. — Eu trabalhei durante o horário de almoço, então tenho o direito de... — Bem, você deveria ter feito o seu horário de almoço. Não sou escravista, Catherine. Apenas tenho algumas expectativas. Agora, guarde seu casaco e volte ao trabalho. A loja vai ficar lotada quando as pessoas acabarem de almoçar. Catherine pensou um pouco e quase cedeu. Mas a possibilidade de Susan estar esperando, esperançosa, era forte demais. Ela provavelmente ficaria na lanchonete até a hora de fechar, convencida de que Catherine apareceria a qualquer instante. Estava claro que já havia se decepcionado muitas vezes na vida. Catherine não queria fazer a lista de decepções crescer ainda mais. — Dois minutos — disse Catherine. E foi em direção à porta. — Catherine! — A voz de Stella era afiada atrás dela. — Se sair agora, não terei outra escolha a não ser demitir você. Catherine hesitou, mas a imagem de Susan sozinha e decepcionada tomou conta de sua mente. Agarrou sua jaqueta e saiu da loja. Stella não a demitiria de verdade. Era

época de férias, a época de maior movimento na loja. Onde mais ela encontraria alguém disposto a aturá-la em tão pouco tempo? Quando Catherine chegou à lanchonete, não viu nenhum sinal de Susan. Resmungou baixinho e voltou à loja. E descobriu que Stella de fato a demitira. Oi, Cath!!! A Espanha é muito legal!!! Meninos por todos os cantos! O pai da Helen quer que a gente vá a um museu  mas hoje é noite de farra!!!!!! Com amor, Jen e Helen. — Elas estão se divertindo na Espanha? — perguntou a mãe de Catherine, enquanto limpava a mesa do café da manhã. Fazia uma semana desde a demissão. Normalmente, ela já estaria na loja há mais ou menos uma hora e já estaria pensando no primeiro intervalo para o café. — É difícil dizer — resmungou Catherine. Jogou o cartão-postal na mesa e tomou seu chá. Jenny e Helen a haviam convidado para a viagem no começo das férias, quando os pais de Helen alugaram a casa. Catherine recusou, pois havia acabado de conseguir o emprego na Acessórios Sparkle e achou que estaria trabalhando. — Bem, não adianta chorar o leite derramado, querida — disse sua mãe. —

Talvez você devesse arrumar outros amigos para sair. — Eu tenho outros amigos — irritou-se Catherine, mas não conseguia pensar em nenhum com quem quisesse sair. Talvez tivesse trabalhado demais na Acessórios Sparkle. A única pessoa que tinha visto ultimamente era... — Eu conheci uma menina chamada Susan — disse ela, com cuidado para não mencionar a idade da garota. — Que bom! Por que você não a convida para vir até aqui? — Bem... — Catherine não havia pensado nisso, principalmente porque não costumava convidar meninas de nove anos para sua casa. E, de qualquer forma, ainda não sabia onde Susan morava. — Não posso; não tenho o telefone dela. — Então não é tão sua amiga assim — respondeu sua mãe, limpando a mesa com um pano. Catherine enfiou um pedaço de torrada na boca e ficou quieta. Não queria entrar em detalhes sobre sua nova amiga. Nunca teve muito talento para mentir para seus pais e acabaria admitindo que passava seu horário de almoço na área de recreação do shopping. Resumindo, era melhor nem pensar em Susan. Ou em Stella. Ou em estar sem

dinheiro. Logo Catherine, Jenny e Helen voltariam às aulas e ela provavelmente nem se lembraria dessas férias deprimentes. — Você precisa sair mais — disse sua mãe, decidida. — Ainda não comprou seus livros da escola, comprou? Que tal ir até a livraria antes de todo mundo? Não se preocupe; eu empresto o dinheiro. Catherine devolveu a torrada semicomida ao prato e ajeitou sua cadeira. Por que não? Não tinha mesmo nada melhor para fazer. — Obrigada, mãe.

Parecia estranho achar que o shopping continuava o mesmo. Catherine teve de lembrar a si mesma que só fazia uma semana. Uniu-se à multidão na escada rolante — pelo menos uma vez na vida estava feliz por ficar parada e deixar a escada fazer todo o trabalho — e admitiu que tinha sido uma boa idéia a de sua mãe. A atmosfera animada e ocupada já estava fazendo se sentir melhor; era bom ser cliente e não funcionária. Olhou para a Acessórios Sparkle enquanto a escada rolante a levava até o segundo andar. Talvez ainda não fosse hora de voltar à loja. Por sorte a livraria ficava em

um piso superior, e tinha quase certeza de que não encontraria Stella lá. Os únicos livros que ela lia chegavam pelo correio e quase sempre se chamavam Seja um gerente de sucesso ou Gerência de lojas: cinco passos para vencer!. Catherine parou e examinou os livros em exposição na vitrine. Sua coleção favorita estava em promoção: “leve três, pague dois”. Ela calculava se o dinheiro que sua mãe havia lhe dado seria suficiente quando alguma coisa fez com que olhasse para cima. Lá estava ela outra vez — um flash vermelho e rosa na multidão refletido no vidro. Por um instante, Catherine viu Susan, não muito longe, observando-a silenciosamente. Ela enrijeceu; em seguida, fechou os olhos e rosnou. — Vá embora — sussurrou. — Vá embora. Você já me arrumou problemas demais. — Quando abriu os olhos, Susan não estava mais lá. Sorriu, tentando se convencer de que não estava exagerando. Talvez nem tivesse sido Susan. Aquele não precisava ser o único casaco vermelho e rosa no mundo. Ela estava com Susan na cabeça. — Catherine! Alguém agarrou sua mão, e Catherine por pouco não gritou. Como se a semana anterior não tivesse acontecido, Susan

estava segurando seu braço, tentando puxála. — Catherine, você precisa vir! — engasgou-se Susan antes que Catherine pudesse dizer alguma coisa. Sua voz estava aguda e o tom era de emergência. Os olhos da menina estavam vermelhos, como se ela tivesse chorado. Ela puxou o braço de Catherine mais uma vez, saltitando de impaciência. — Agora! — Susan, eu... — Catherine a seguiu, sem alternativa. — Onde você esteve? — Por favor! — implorou Susan. — Você precisa vir. Você precisa ajudar a Laura. — Laura? — exclamou Catherine. — Quem é Laura? — Alguma coisa na voz de Susan dizia que isso não era uma brincadeira de criança. E, agora que olhara melhor, Susan parecia mais malcuidada do que antes. O prendedor de cabelo lilás continuava intacto, mas o cabelo estava extremamente sujo e gorduroso. E, Catherine cerrou os olhos quando percebeu, havia uma casquinha vermelha na frente de seu casaco. Será que era sangue? — É a minha irmã! Por favor! Ela... Eu não consigo... Eu preciso... — O nervosismo estava fazendo com que tropeçasse nas palavras, até que desistiu, colocando as mãos no rosto.

Catherine se decidiu. Susan obviamente precisava de ajuda, e, fosse qual fosse o problema, era urgente. Sua mente se encheu de imagens de acidentes domésticos, do tipo que acontece com crianças não supervisionadas — panelas com água fervendo, coisas pesadas caindo... — Tudo bem — disse Catherine, afastando-se da livraria e pegando a mão de Susan. — Leve-me até o local. — Elas correram em direção à escada rolante. — Onde está Laura? — Ela está com sérios problemas — disse Susan. — Eu sei, mas onde... — Sérios problemas. Catherine desistiu. Susan estava perturbada demais para falar de forma sensata. Ela precisava de tempo, e Catherine tinha de mostrar que estava a seu lado, e assim descobriria tudo. Catherine abotoou seu casaco enquanto caminhavam e corriam ao mesmo tempo pelo estacionamento. Começou a sentir calor e, apesar de ser um dia frio de agosto, voltou a desabotoar o casaco. Ainda não sabia onde Susan morava, não fazia idéia de quanto tempo a jornada levaria, nem mesmo se correriam por todo o percurso.

— Senti sua falta — disse Susan. A voz dela estava trêmula. — Onde você estava? — Onde eu...? — Catherine ficou tão espantada que desacelerou por um instante. Acelerou outra vez quando Susan puxou sua mão. — Precisei parar de trabalhar na loja — respondeu. Susan não entenderia o que era demissão, e Catherine não queria que ela se sentisse culpada. Elas correram pelo centro da cidade, desviando-se dos pedestres lentos e voando pelas ruas, perigosamente perto dos carros em movimento. Catherine percebeu que estavam correndo para o outro lado da cidade. Haviam andado pelo menos um quilômetro e meio, mas Susan nem parecia perceber. Nem parecia estar ofegante. Ela deve estar muito preocupada com Laura, Catherine pensou. Depois de uns dez minutos, elas firmaram um ritmo e avançaram por uma estradinha que passava por baixo da plataforma de embarque do trem. — Quem são seus pais? — perguntou Catherine, ofegante, quando chegaram ao outro lado. — Eles sabem que a Laura está com problemas? — Estavam em uma rua que ela não conhecia, com fileiras de casas grudadas umas nas outras em ambos os lados.

— Eles nunca estão em casa... Bem, não mais — disse Susan. Por algum motivo, isso não surpreendeu Catherine. — Olhe — insistiu Catherine —, você ainda não me disse o que há de errado com a sua irmã... Os olhos de Susan se encheram de lágrimas outra vez. — Ela está com sérios problemas! — disse Susan. — Sim — disse Catherine, começando a se sentir frustrada —, mas... E eu também não sei nada sobre a sua mãe e o seu pai... Susan parou onde estava. — Chegamos — disse ela, com a voz surpreendentemente calma. Estavam numa esquina. Uma calçada estreita levava a uma casa de três andares, de tijolos relativamente decadentes, afastada da rua. O enorme jardim era cercado por arbustos e árvores, e o telhado era ornamentado e decorado de ambos os lados. — Uau! — exclamou Catherine, esquecendo-se por um instante do motivo que a trouxera até ali. — Você mora aqui? Susan já corria pela calçada, os pés esmagando as pedras. Ela olhou para trás. — Vamos! — Sua voz tremia, como se estivesse prestes a chorar. Mesmo assim, ela estava perfeitamente bem há poucos instantes. Catherine franziu o rosto. Susan

realmente tinha as emoções mais extremas que já havia visto, mesmo sendo apenas uma criança. Ela correu atrás da menina. Uma escadinha de pedra levava a uma porta de vidro. — Precisamos entrar pelos fundos — disse Susan, desaparecendo por uma trilha estreita que dobrava a esquina. Catherine olhou para a casa, um pouco nervosa, enquanto seguia o som dos passos acelerados da menina. Todas as janelas eram foscas, por isso ela não tinha idéia a respeito do que poderia haver do lado de dentro. O jardim parecia tão grande e negligenciado que era difícil acreditar que alguém morasse aqui, quanto mais os pais de Susan. Catherine sentiu o coração acelerar. Seria realmente ali que Susan morava? Não conseguia se livrar da impressão de que estava prestes a invadir uma casa sem ser convidada. A porta da cozinha, nos fundos da casa, era de madeira, pintada de verde. Já estava entreaberta, e Susan entrou sem olhar para trás. Catherine hesitou na entrada. Não podia simplesmente ir entrando. — Olá? — disse Catherine. — Estou com a Susan... — Pôs a mão na porta, abrindo-a. Respirou fundo. Pronto! Sou oficialmente uma intrusa. Em seguida,

respirou fundo novamente e entrou na casa. — Olá? — repetiu. Então, parou onde estava. — Oh... meu... A cozinha estava em estado de calamidade. Louças imundas entupiam a pia, cheias de restos de comida velha e semissubmersas em água cinzenta. O chão de madeira estava coberto por pegadas de lama, e havia um cheiro inconfundível de podridão no ar, como se alguém tivesse deixado a lata de lixo destampada. Uma pequena pilha de sanduíches de geleia apodrecidos encontrava-se num prato na mesa, ao lado de uma enorme faca de cozinha. Um dos sanduíches tinha marcas de mordida. — A casa toda é assim? — perguntou Catherine, horrorizada. Ela sabia que isso era um caso para assistentes sociais. Imaginou que os pais de Susan fossem profissionais ocupados demais para cuidar dela. Mas uma situação tão ruim assim? Tanta negligência? Não, por isso ela não esperava. — A Laura está por aqui — disse Susan. Ela estava perto de uma porta do outro lado e entrou. Catherine mordeu o lábio. Isso estava começando a ficar cada vez pior. E se um dos pais voltasse para casa? Será que poderia lidar com eles? Será que reagiriam com violência? Já podia imaginar as

manchetes dos jornais: a polícia procura a jovem Catherine Woollams, de dezesseis anos, que não é vista desde ontem... O lábio inferior de Susan começou a tremer. — Por favor, Catherine, depressa! Sentindo-se em uma situação irreal, como se estivesse em um filme, Catherine seguiu em frente. Passou por uma pilha de roupas em um cesto, imundas e cheirando a mofo. Susan a levou por uma passagem até o salão principal. A luz do dia brilhava através das grandes janelas de ambos os lados da porta da frente. Essa sala claramente já havia sido grandiosa; hoje, era muito malcuidada. Não era tão ruim quanto a cozinha, mas, quando Catherine passou o dedo na mesa, deixou um rastro na camada de poeira. O corredor era cheio de estátuas que faziam com que seus passos ecoassem pelo chão de madeira, tão alto quanto as batidas de um coração. Catherine sentia a casa se fechando em sua volta; os olhos da janela observavam todos os seus movimentos; as escadas eram como uma garganta pronta para engoli-la. Susan parou em frente a uma porta na parede sob a escada. Pôs a mão na madeira.

— A Laura está aqui — sussurrou, com os olhos arregalados. — Eles a trancaram aqui. — Embaixo da escada? — Catherine não podia acreditar. Ou, talvez, após ter visto aquela cozinha, pudesse, sim. — Esta porta leva até a adega — explicou Susan, como se isso de alguma maneira não fosse tão ruim quanto trancar alguém em um armário. Uma lágrima correu por sua bochecha. — A mamãe disse que a Laura é má e que não pode sair, pois se sair vai machucar os outros. — Má? — engasgou-se Catherine. Ela sentiu frio e calor ao mesmo tempo, e, de repente, a sensação de surrealismo desapareceu, e se tocou de que realmente estava ali, naquele momento. Cercada por um horror que não tinha nome, fazendo sua respiração parecer sufocada, e sua pele congelar... — A Laura é minha irmã gêmea. A mamãe e o papai a detestam porque ela não limpou direito o banheiro. — Susan começou a chorar; seu pequeno corpo tremia com seus soluços. — Mas ela não é má, e... e... eu tinha que ter limpado a cozinha, e não limpei, e eles vão dizer que eu também sou má, e eles vão voltar logo, e...

Havia algo ruim ali, isso era verdade. Ou pelo menos haveria algo ruim quando os pais voltassem para casa... — A mamãe escondeu a chave e eu não sei onde — resmungou Susan. — Tentei soltar a Laura, mas não consegui abrir a porta sozinha! — Tudo bem, tudo bem. — Catherine empurrou Susan gentilmente para o lado, em seguida pôs o rosto contra a madeira da porta da adega. Levantou a voz. — Olá! Laura! Você está me ouvindo? Fez-se um longo silêncio. Só o que Catherine ouvia era o sangue pulsando em sua própria cabeça. O casarão estava em silêncio — mas, de alguma forma vivo, e observando, esperando que ela fizesse alguma coisa. Catherine chamou novamente. Como antes, não obteve resposta, mas depois ouviu um arranhão distante. Será que alguém estava se mexendo? — Estou com a Susan aqui — disse —, e nós vamos abrir a porta, tudo bem? Deu um passo para trás e analisou a porta. Parecia sólida. A fechadura ficava abaixo da maçaneta; pareciam fazer parte de um mesmo mecanismo, construídas em uma placa de metal. A placa era pregada na porta.

— Susan, você sabe se existe alguma chave de fenda em algum lugar? — perguntou Catherine. Estava mais alerta agora, ao fazer alguma coisa. Era apenas uma casa vazia, não havia motivo para se assustar. Susan piscou para ela com os olhos vermelhos. — Acho que há uma na cozinha — respondeu. Ela conduziu Catherine pelo mesmo caminho por onde tinham vindo e abriu uma gaveta no móvel: Catherine avistou um martelo, alguns benjamins, alguns fusíveis, um vidro de geleia cheio de pregos e, sim, uma chave de fenda. Pegou a ferramenta. Voltaram ao hall, e Catherine se ajoelhou na frente da porta. Queria continuar falando com a garotinha trancada do outro lado, queria que soubesse que não estava sozinha, que logo estaria segura. — Muito bem, Laura — disse. — Estou desparafusando a fechadura agora. Os parafusos estavam nessa porta havia muito tempo e já tinham sido pintados. Catherine precisou raspar a tinta de cada uma das entradas dos parafusos para ter algum acesso. Suas mãos ficaram suadas, e ela largou a chave de fenda para secá-las na calça. Com o canto dos olhos,

podia ver Susan caminhado de um lado para o outro. Catherine tentou outra vez. A ponta da chave de fenda escorregou, deixando-a ofegante após provocar marcas de arranhão na madeira da porta. Ela cerrou os dentes e começou tudo outra vez. Dessa vez, a ponta ficou no lugar, e o parafuso se soltou. Catherine o retirou da porta e o deu para Susan segurar. Então, concentrou-se no próximo. Havia quatro parafusos ao todo. Susan observou silenciosamente enquanto ela removia cada um deles. Em seguida, colocou a chave de fenda entre a placa de metal e a madeira e fez força. A placa se afastou lentamente da porta e expôs o mecanismo de tranca. Catherine teve de soltar isso também, mas só levou um minuto. Conseguiu soltar tudo, e a placa caiu no chão, produzindo um som metálico. Catherine olhou para a porta e se forçou a respirar fundo. Laura podia estar a poucos centímetros de distância do outro lado. O que exatamente ela encontraria quando abrisse a porta? Ela realmente, realmente não queria continuar. Mas Susan precisava dela, sem falar em Laura, então Catherine deu um sorriso corajoso.

— Estamos quase lá. Vai ficar tudo bem. Empurrou a porta, que tinha as dobradiças excessivamente lubrificadas. Catherine se inclinou para a frente. Só conseguiu identificar os primeiros degraus em uma escadaria de madeira que levava à escuridão. — Olá? — chamou suavemente. — Laura? Não tenha medo. Sou amiga da Susan. Prendeu a respiração e esperou pelo barulhinho de arranhão que escutara antes. Continuou sem resposta, mas definitivamente havia barulho de alguém se mexendo por ali. — Ela não vai sair se você não for até ela — disse Susan, e Catherine deu um salto. A garotinha estava a seu lado, tão perto que podia sentir sua respiração em seu braço. — Ela acha que foi a nossa mãe quem mandou você vir até aqui. Catherine ergueu as sobrancelhas, desconfiada, mas Susan fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Eu sei porque sou irmã gêmea dela — explicou. Catherine olhou em volta, à procura de um interruptor, mas não encontrou nada. — Ela está lá embaixo — disse Susan.

— Ótimo — disse Catherine, olhando para a escuridão. Bem, já tinha ido até ali. Não podia desistir agora. — O.k., Laura, estou descendo — disse, começando a percorrer os velhos degraus de madeira. O ar cheirava a mofo e poeira. Os degraus estalavam sob seus pés, mas, quando parou, ela achou que estava ouvindo soluços, o que fez com que continuasse. Sentiu pedras duras sob seus sapatos, então soube que tinha chegado à base da escada. Apalpou a parede, procurando o interruptor, e seus dedos o encontraram, mas, quando o apertou, nada aconteceu. A luz que vinha do salão mostrava uma pequena caixa de fósforos e um toco de vela sobre uma prateleira próxima. Catherine conseguiu acender a vela na terceira tentativa, e um triângulo hesitante de luz amarela iluminou a adega. O lugar era simples e vazio, com paredes que já haviam sido pintadas de branco, mas que agora estavam cobertas de sujeira. Em um dos cantos, semicoberta pelas sombras, havia uma garotinha. Suas roupas eram velhas, seu cabelo, malcuidado e sujo, e seu rosto era idêntico ao de Susan. Ela fitava Susan horrorizada. — Olá, Laura. — Catherine carregou sua voz com todo o calor e a receptividade

que conseguiu. Deu um passo à frente em direção à outra irmã, e Laura imediatamente recuou. Catherine parou onde estava. — Tudo bem — tentou acalmá-la. — Sou amiga da Susan. Vim para soltar você. O tórax de Laura começou a tremer. Os lábios da menina se moviam, mas Catherine não conseguia identificar as palavras. Em seguida, um horror frio alcançou com dedos gelados a garganta de Catherine. Atrás de Laura, semiescondidas pelas sombras, no chão, havia duas silhuetas longas e curvilíneas. Pareciam adultos, dormindo... Catherine cerrou os olhos e tentou enxergar em meio à pouca luz. Disse a si mesma que não podiam ser duas pessoas dormindo. Ela havia feito barulho suficiente para acordar até mesmo os mortos... A menos que, obviamente, ela não tivesse feito tanto barulho assim. Porque barulho nenhum poderia acordar os mortos. Tinha de tirar Laura dali depressa. — Preste atenção — disse. — A Susan está nos esperando lá em cima. Podemos subir juntas e... Com os olhos tão arregalados que pareciam engolir todo o seu rosto, Laura lentamente ergueu uma das mãos. Catherine olhou horrorizada quando percebeu o que a menina segurava. Era uma

chave antiga. O tipo de chave que abriria a porta da adega. — Essa é a chave...? — começou Catherine. — Por que você deixou que ela entrasse? — gritou Laura, fazendo Catherine se encolher enquanto sua voz ecoava pela adega. — Achei que estivesse segura aqui embaixo! Catherine franziu o rosto. — O que você quer dizer com isso? — perguntou, mas Laura não ouvia; ela olhava para alguma coisa atrás de Catherine. Ela se virou para ver o que era. Susan estava no degrau logo acima. Sua face era uma máscara fria de puro ódio, e segurava a faca de cozinha que Catherine vira ao lado dos sanduíches. Da lâmina, pingavam gotas vermelhas. Susan levantou a faca; seus dedos brancos seguravam a lâmina com firmeza. — Obrigada por tudo, Catherine — sussurrou.

Tem alguém aí?
Pôsteres do menino desaparecido preenchiam uma fileira na parte de trás do palco. Luke Benton era bonito, louro e tinha algumas sardas. Tinha um sorriso tímido, como se não pudesse acreditar que estava sendo fotografado. A imagem utilizada nos pôsteres de Luke era sua última foto da escola, tirada no dia em que desapareceu. Ele trajava o blazer e a gravata da escola, e, apesar de não aparecerem na foto, estava com tênis pretos novos com uma faixa prateada. Toda a sua roupa havia sido imortalizada pela descrição nos pôsteres espalhados pela cidade, que diziam: “Na última vez em que foi visto estava vestindo...”. Alguém abriu a porta da sala, e os pôsteres balançaram com a brisa. Juliet Somerville anotou em sua mente que deveria colá-los nos quatro cantos após o ensaio. O funeral de Luke aconteceria dentro de dois dias, e os pôsteres sacudindo no fundo do palco seriam uma distração para todos no salão. Juliet concluiu que seria mais rápido executar esse trabalho sozinha do que mencioná-lo para a srta. Worth. A

representante de turma daquele ano tinha o dom de pegar as idéias mais simples possíveis e complicá-las. Já havia transformado o ensaio do funeral em um circo em três atos. Particularmente, Juliet achava tudo isso de muito mau gosto. Luke já não era visto havia mais de um ano. Seu telefone não tinha sido usado. E nenhum dinheiro fora retirado de sua conta. Só podia estar morto. Ele deveria ser lembrado em algum culto religioso ou coisa parecida, e não em uma performance em que as pessoas ficassem tímidas e preocupadas quanto à sua desenvoltura sob os holofotes. A srta. Worth bateu palmas para acalmar as conversas no salão até conquistar a atenção de todo mundo. — Agora, mesa de luz, mesa de luz! Obrigada... Mesa de som... Tudo pronto? Ótimo. Agora, será que todos os que vão ler o tributo a Luke podem formar uma fila do lado esquerdo do palco... Não, o lado esquerdo... Em ordem alfabética pelo primeiro nome... Ou seria melhor fazer em ordem de idade? Hum... Juliet cutucou sua melhor amiga, Christine. — Que tal por ordem de tamanho dos sapatos? — sussurrou. Mas Christine não estava com humor para piadas.

— Ju, eu acho que o Mark acabou de olhar pra mim! — sussurrou. Virou-se para o outro lado do salão. — Olha! Ele olhou de novo! Juliet seguiu seu olhar, tentando não aparentar uma expressão de dúvida. Mark Logan e seu melhor amigo, Daniel Gardner, estavam sentados juntos no fundo do salão. Mark era uma figura bonita e imponente; Daniel era mais alto e moreno, e tinha franja. Como a maioria dos meninos, eles estavam usando o uniforme do time de futebol. Todos os companheiros de time de Luke vestiriam seus uniformes para a solenidade, como parte do tributo. Se Mark estivera olhando para Christine, não estava mais. Ele e Dan tinham as cabeças baixas agora, debatendo algum assunto particular. — Eu queria saber sobre o que eles estão falando — sussurrou Christine. — Aposto que é sobre o Luke. O Mark é tão profundo. É tão intelectual. Ele vai compartilhar os pensamentos sobre como a perda e a dor devem fazer com que apreciemos as coisas boas da vida e nos aproximar no amor. Juliet lançou um rápido olhar à amiga para ver se ela estava falando sério. Infelizmente, estava.

— Certamente — concordou. — Ou então ele fez algum gol muito bonito no intervalo e está contando para o Daniel. Christine fez uma expressão de desdém. — Como você é cínica! Eles eram os melhores amigos do Luke. — Então, por que não se ofereceram para ler as homenagens? — perguntou Juliet. — Oh, Ju, não é assim que se mede a amizade! Pense bem. Quer dizer, perder seu melhor amigo da noite para o dia, sem nem sequer encontrar o corpo, simplesmente perdê-lo; como deve ser isso? É claro que não querem falar na frente de todo mundo. Provavelmente ainda nem começaram a aceitar o que aconteceu a Luke. — Eles poderiam ter procurado ajuda, sei lá, alguma espécie de terapia — ressaltou Juliet. Ela não sabia bem o porquê; talvez só estivesse sendo teimosa e quisesse corrigir a visão de Christine a respeito de Mark. Nas semanas que se seguiram ao desaparecimento de Luke, a escola foi tomada por profissionais bemintencionados que incentivavam os alunos a verbalizar suas emoções. — E por que deveriam? Por que deveriam falar com estranhos a respeito de seus sentimentos? — O tom de Christine se tornou mais acolhedor. — Eles precisam de

alguém que os conheça, que saiba exatamente o que estão passando. Em outras palavras, pensou Juliet, deveriam falar com você. Mas ela não disse isso. Seria cruel — e talvez Christine pudesse ajudar os meninos no final das contas. Enquanto o primeiro aniversário do desaparecimento de Luke se aproximava, Mark e Daniel ficavam cada vez mais absortos. Se alguém se aproximasse deles, se por acaso esbarrassem neles no corredor, ficavam irritados e grosseiros. Então, se Christine pudesse ajudar, bem, ótimo. Certamente, não poderia piorar. Juliet olhou para o pedaço de papel em suas mãos. Terminara de redigir seu tributo, depois de muitas rasuras e de muita revisão. Conheci Luke em nosso primeiro dia de aula, há quatro anos... Lágrimas se formaram em seus olhos, e ela dobrou o papel novamente. Teria de ensaiar muitas vezes antes de conseguir falar na frente de todo mundo sem perder o controle. Nem conhecia Luke tão bem assim, mas, do pouco que conheceu, gostava muito. Seu desaparecimento súbito foi muito perturbador. Será que estava realmente morto? Talvez tivesse apenas fugido! Mas todos pareciam acreditar que estava morto. Houve toda aquela conversa de “aceitação” — mas como poderia haver aceitação

quando ninguém sabia ao certo o que havia acontecido? Alguma coisa invadiu a mente de Juliet, alguma coisa sobre águas passando em sua mente, engolindo a pessoa, como se esta nunca tivesse existido. Foi o que aconteceu com Luke. Se não fossem os pôsteres, ela duvidava que alguém se lembraria dele. Nem mesmo Mark e Daniel, que pareciam mais afetados por seu desaparecimento, falavam sobre o amigo. Foi por isso que Juliet resolveu falar no tributo. Ela não verbalizaria suas dúvidas quanto à morte de Luke — isso chatearia a todos os presentes —, mas faria o possível para manter sua memória viva. Juliet se recompôs enquanto Christine e ela se retiravam do salão naquela noite fria e cinza de inverno. Era novembro, e as noites seguiam longas e geladas. Mas a conversa que sucedia ao fim das aulas não diminuiu enquanto meninos e meninas se organizavam para esperar os ônibus ou sua carona para casa. Outros partiam em suas bicicletas, os faróis vermelhos desaparecendo na escuridão. Juliet se encolheu dentro do casaco. Ela e Christine moravam em lados opostos da cidade, então partiam em direções diferentes quando chegavam ao portão da escola.

— Falo com você depois? — perguntou Juliet. — Claro, — Christine tremeu e ajeitou o cachecol para dentro de seu casaco. — Me liga. — Pode deixar. Até mais tarde. Elas partiram, andando depressa, as mãos abaixadas contra o vento que soprava. Juliet estudava naquela escola havia quatro anos, desde os onze, mas era a primeira vez que fazia essa caminhada no escuro. Sua família tinha se mudado durante o verão. Daniel Gardner era seu vizinho agora; a família de Luke morava a três ruas dela, em uma parte mais antiga do bairro. Ao entrar na rua principal, Juliet notou, com algum desconforto, quanta diferença a falta de luz fazia. Todas as referências do local — um poste de luz inclinado, o ponto de ônibus pichado — só se tornavam visíveis de perto. Tudo parecia demorar mais; todas as distâncias pareciam mais desgastantes. Era a mesma caminhada que Luke fazia todos os dias. Um dia ele partiu, assim como ela, pela escuridão — e nunca mais foi visto. — Ah, ótimo — resmungou Juliet. — Eu tinha que pensar nisso. Virou à direita em direção ao parque. Geralmente, passava direto por ali. No verão havia crianças jogando futebol ou espirrando água umas nas outras ao lado do chafariz.

Agora, Juliet percebeu que o parque não tinha nenhuma luz. A estrada que passava em volta dele era bem iluminada, mas os enormes espaços de arbustos e grama pareciam buracos negros. Juliet deu uma olhada e resolveu seguir pelo lado de fora. Só seriam dez minutos a mais de caminhada. Seus saltos faziam barulho quando tocavam a calçada, e carros passavam rápido pela rua, pequenas ilhas de calor no meio da noite. Talvez seja melhor começar a ir de bicicleta para a escola, pensou. Acender o farol, passar pelas ruas principais e, mesmo assim, chegar em casa na metade do tempo que levava andando. Veio para a rua do comércio, do outro lado do parque. Não passava de uma alameda mais estreita no lado oposto da entrada norte do parque, que levava à principal área comercial da cidade. Juliet observou, chateada, a alameda. Era a única maneira de passar por esse quarteirão sem aumentar sua travessia em vinte minutos. No outro extremo, ela podia ver a praça iluminada, ocupada por pessoas e ônibus. Não era longe; ficava a apenas um minuto de distância. Depois disso, ela estaria na rua principal, com luzes acesas até a porta de sua casa. Começou a caminhada.

A escuridão pareceu engoli-la em apenas alguns passos. Depois que seus olhos se acostumaram, ela pôde enxergar os detalhes das construções em ambos os lados. As paredes e as entradas eram claras, e as janelas pareciam vazios escuros. Quase todas as construções na rua já estavam desocupadas havia algum tempo. Juliet se aproximou do velho açougue e deu de ombros. Enormes portas de aço haviam sido pregadas na entrada para afugentar pessoas que pudessem querer ocupar o recinto, e um enorme aviso de “CONDENADO” foi posto sobre as portas. Ela só conseguia identificar a pintura vermelha e os sinais desgastados. As janelas estavam cobertas de sujeira e teias de aranha, e as sombras na calçada, do lado de fora, pareciam engrossá-las ainda mais. Para surpresa de Juliet, havia uma figura à frente, na ponta dos pés, para espiar através de uma das janelas. Apesar de a luz estar fraca, Juliet reconheceu a figura alta e esguia, o cabelo de capacete e a franja. Era Daniel. Então, ela chamou na escuridão. — Daniel? Sou eu, Juliet. Daniel virou-se, parecendo surpreso. — Eu estava... hã... verificando se não havia invasores — gaguejou. — Esta loja é do meu pai...

— Invasores? — Juliet não podia imaginar ninguém invadindo um lugar tão frio e não convidativo. — Parece que ninguém entrou, não é? Parece muito bem trancado. — É... bem... Por um instante, ela pensou que seus olhares pudessem ter se cruzado, mas era impossível ter certeza com tanta escuridão. Depois, ele passou por ela e foi na direção da qual ela vinha, rumo ao parque. Juliet ficou parada por um instante, observando a silhueta do rapaz correndo pelas luzes no final da rua. Quando o barulho de seus passos diminuiu, a rua se tornou silenciosa e fria outra vez, e o silêncio assentava como um nevoeiro que não era bem-vindo. De repente, Juliet se sentiu uma intrusa, um ser humano vivo e caloroso nesse lugar frio e morto. Enquanto caminhava em direção à praça, um barulho cortou o silêncio. Juliet deu um salto, depois sorriu, dizendo para si mesma que se deixara assustar pelas sombras. Remexeu na bolsa para encontrar seu celular enquanto caminhava depressa em direção à praça. A tela do aparelho acendeu com o desenho de um envelope e as palavras “1 mensagem recebida”.

Selecionou a opção “ler” e encarou a linha que mostrava o remetente. Não reconheceu o número. Me ajude. Tem alguém aí? Juliet apertou a seta para baixo, mas não havia mais nada escrito. Por que um estranho estaria pedindo sua ajuda? Me ajude... a fazer o quê? Juliet selecionou a opção “responder”. Quem é você? Qual o problema? Ela hesitou antes de selecionar “enviar”. Talvez fosse algum golpe publicitário. Se enviasse uma resposta a esse número, poderia ser bombardeada com mensagens sobre férias em lugares ensolarados ou montanhas de neve, ou golpes para enriquecer com facilidade. Ou, talvez, a mensagem viesse de alguém que realmente precisasse de ajuda. Então, ela selecionou a opção “enviar” no momento em que chegava à praça, cheia de gente e iluminada. A última parte da caminhada até sua casa era ladeira acima, onde as residências haviam sido construídas no que um dia foram campos dos quais se observava a cidade. O celular de Juliet tocou outra vez enquanto ela chegava à porta da frente de sua casa. A caminhada pela ladeira a aquecera um pouco, mas estava ansiosa

para entrar e deixar para trás a noite fria e úmida. Era outra mensagem de texto. Juliet virou o telefone meio sem jeito em suas mãos enluvadas. Assim que parou de se movimentar, um sopro de vento frio passou por ela, o que não ajudou em nada na melhora de seu humor. A mensagem tinha o mesmo remetente. Estou congelando. — É, você e eu também — sussurrou para si mesma. Claramente, alguém estava brincando com ela: algum idiota que conseguira seu número e resolvera se divertir. Colocou o telefone de volta no bolso e abriu a porta de casa. — Ei, não foi mais ou menos nesta época do ano passado que aquele menino desapareceu? — comentou o pai de Juliet enquanto a família acabava de jantar. Juliet suspirou. — Foi, pai — ela disse. Já perdera a conta de quantas vezes havia contado a seu pai sobre a homenagem que seria feita a Luke. Não valia a pena falar mais uma vez agora. — Deve ser muito difícil para os pais dele — ele disse, pegando o jornal.

Juliet revirou os olhos, mas sua mãe achou que fosse um bom momento para se intrometer na conversa. — Você lembra, Alan — disse ao pai de Juliet —, a escola vai fazer aquela homenagem em alguns dias. A Juliet vai fazer um discurso. — Uma leitura, mãe — corrigiu Juliet. — É mesmo? — Seu pai a olhou sobre o jornal. — Sobre o quê? — Sobre Luke — murmurou Juliet. — Luke? — O menino que desapareceu! —Juliet controlou seu humor enquanto comia a última colherada de seu cheesecake. — Talvez fosse uma boa idéia fazermos uma revisão sobre o que você vai ler — continuou seu pai. — Você costuma engolir as consoantes. — Pai, eu passei a tarde inteira ensaiando! Não preciso ler outra vez! Seu pai franziu os olhos em sua direção. — Não precisa gritar, mocinha. Todo mundo precisa praticar. — Deixe a menina em paz, Alan — intrometeu-se a mãe de Juliet. — Ela já está chateada com essa situação. — Isso não é desculpa para ser maleducada — ele disse. — Esse menino, Luke. Ele era seu namorado?

— Alan, acho que a Juliet teria nos contado! — exclamou sua mãe. Ela olhou de lado para a filha. — Não teria? Ele não era seu namorado, era? — Mãe, eu mal o conhecia — murmurou Juliet. — Certo, querida. Mas fiquei muito feliz de saber por Christine que vocês têm saído com Mark e Daniel. Será bom para todos vocês. — O quê? — perguntou Juliet. Era a primeira vez que ouvia isso! Ela esganaria Christine, e sorriria enquanto o fizesse. — Bem, falei com a Christine mais cedo e... oh, desculpe, não era para eu saber? — sua mãe deu uma piscadela. — Era segredo? Juliet pôs as mãos no rosto e saiu da mesa para subir assim que pudesse sem levar bronca por isso. — Ensaie o seu discurso! — disse seu pai. Mais tarde, Juliet estava deitada na cama com as luzes apagadas, olhando para o teto. Havia passado a noite inteira olhando para sua lição de matemática. Geralmente fazia sentido — aliás, matemática era uma de suas matérias favoritas —, mas hoje as equações não passavam de rabiscos no papel. Sua mente vagava por muitas direções para que ela pudesse pensar nos

valores de x e y. Luke, morte, seu pai sendo irritante... E, graças à sua melhor amiga, sua mãe estava convencida de que ela tinha um novo namorado. — Meu Deus, você é impossível, Chris — resmungou, na mesma hora em que seu telefone emitiu outro alerta de mensagem. Procurou na mesinha de cabeceira e a tela de seu celular acendeu, produzindo uma luz fantasmagórica no quarto. Era o mesmo número de antes. Não consigo sair. Juliet se irritou. Quem era o idiota? Ela parou por um instante. Supondo que alguém realmente precisasse de sua ajuda. Tudo bem; era alguém que mandava mensagens com intervalos de horas entre uma e outra, então não podia estar tão encrencado; fosse qual fosse o problema, estava demorando a se tornar crítico. Mas, mesmo assim... Sentou-se na cama. Telefonaria para esse idiota e descobriria tudo. Se realmente estivesse com problemas, ela veria o que poderia fazer a respeito. Se alguém estivesse brincando com ela, ele — ou ela — se arrependeria amargamente. Juliet selecionou a opção “ligar de volta” e pôs o celular no ouvido. Enquanto a ligação completava, não havia nada além do

som de seus próprios batimentos cardíacos ecoando pelo telefone e voltando para sua cabeça. De repente, três notas soaram em seu ouvido, e uma voz educada disse: — Sinto muito. O número que você digitou não foi reconhecido. Por favor, verifique e tente novamente. — Como assim? — disse Juliet em voz alta, apesar de saber que se tratava apenas de uma gravação. — Não é possível! Como o número pode não ser reconhecido? Ela não podia estar recebendo mensagens de um número inexistente! Ela sabia que isso poderia ser feito emails — endereços falsos que pareciam vir de algum conhecido. Mas nunca ouvira falar em falsificação de mensagens de texto. Se alguém estivesse fazendo isso de propósito, ao menos significava que a pessoa não estava em apuros. Fosse quem fosse, só estava agindo assim para enganála, e ela não lhe daria a satisfação de deixálo saber que tinha conseguido chamar a sua atenção. Apertou o botão “desligar” com o dedão e continuou apertando até que o telefone se apagasse.

Juliet acordou sentindo-se revigorada, apesar de ter sonhado com equações. As outras coisas que a incomodaram na noite anterior pareciam bem distantes. Apalpou a parede até encontrar o interruptor e esfregou os olhos antes de acendê-lo. Seu celular estava no mesmo lugar em que o havia deixado, na mesa de cabeceira, com a tela cinza e vazia virada para cima. Ela ligou o aparelho. Enquanto a tela mostrava o processo de inicialização, recolocou o telefone sobre a mesa e foi para o banheiro. O alerta de mensagem tocou antes que tivesse alcançado a porta. Juliet parou. Virou-se e olhou para o telefone. A incerteza se instalou no fundo de sua mente. Seria mais uma daquelas mensagens tolas? Recuou e atravessou o quarto em dois passos. Pegou o telefone e verificou a tela. Daria uma resposta tão... A mensagem era de Christine. Fora enviada na noite passada, depois que Juliet desligou o telefone. — Ah, Chris... — Juliet suspirou aliviada. Oi J! Quer fazer compras depois da aula? Fazer compras com Christine de repente pareceu a melhor coisa para fazê-la esquecer o idiota que ficava mandando mensagens. Juliet sorriu e respondeu:

Claro! Até mais tarde. O telefone soou novamente quase no mesmo instante, e ela sorriu enquanto olhava para a tela. Christine certamente precisava dessas compras! Então ela leu: Estou com medo. — Pai? — disse Juliet durante o café da manhã. — Hein? — respondeu ele, absorto, enfiando a faca na marmelada enquanto virava a página do jornal com a outra mão. Enquanto se vestia, Juliet pensou muito sobre contar a seu pai sobre as mensagens. Se achasse que não era motivo de preocupação, ele falaria. Mas, se ela estivesse sendo perseguida por algum maluco anônimo, ele certamente quereria saber. Então, arriscou dizer: — Tenho recebido umas mensagens de texto... — Que bom. Sua falta de atenção era irritante e fez com que Juliet tivesse mais coragem para falar. — Não, não é. São esquisitas. — Ela pegou o telefone e passou pelas mensagens. — São todas de alguém que eu não conheço. Olhe só. Me ajude. Estou congelando. Não consigo sair. Estou com medo. Pai, elas... bem, elas são estranhas.

— Certo, provavelmente... — Sua voz parou enquanto uma manchete prendia sua atenção. — Ai, por Deus. Será possível que não haja um dia em que as pessoas passem sem especular sobre os preços das propriedades? As pessoas não deveriam abusar de suas hipotecas; isso resolveria essa maluquice. — Pai! — protestou Juliet. — Desculpe, meu amor. — Mal levantou os olhos do jornal. — Certo, provavelmente é algum menino que gosta de você e está tentando chamar sua atenção. É só ignorar... Sinceramente! Subiu mais um por cento? — Eu vou para a escola — resmungou Juliet. Desceu a colina de mau humor. Ela agora tinha quatro mensagens de um número inexistente em seu telefone, e, fosse quem fosse que estivesse do outro lado da linha, ou tinha um péssimo senso de humor, ou realmente precisava de sua ajuda. O tempo não ajudou em nada. Estava mais quente do que ontem, mas uma chuva leve atrapalhava tudo. A água parecia ficar suspensa no ar, e você só percebia a chuva depois que já estava ensopado. Quando Juliet alcançou a base da colina, sabia que chegaria encharcada à escola.

Aos poucos, porém, alguma coisa cessou seu mau humor: a sensação de que não estava sozinha. Estava sendo seguida por um carro — um carro que a perseguia pela estrada, lentamente, e que andava no mesmo ritmo dela. Ela não estava com ânimo para nada disso. Decidiu que não seria seqüestrada em plena luz do dia; parou com as mãos nos quadris e olhou diretamente para o parabrisa. O carro era novinho. Era azul metálico, e gotinhas de chuva embaçavam suas janelas. A janela do motorista se abriu, e um jovem olhou para fora. — Ei,Ju! Juliet relaxou imediatamente. — Dave! — Ela olhou para a direita e para a esquerda e, finalmente, atravessou a rua. Dave era seu primo. Apenas alguns anos mais velho, e próximo o suficiente para ser como um irmão, principalmente porque ela era filha única. — Quer uma carona para a escola? — ofereceu Dave. Juliet sorriu. — Claro! Correu para a porta do passageiro e entrou. O interior do carro era quente e seco e tinha aquele tipo de cheiro plástico de carros novos.

— Muito bonito — disse, em tom de aprovação, enquanto examinava o interior impecável. — Há quanto tempo está com ele? — Peguei na sexta-feira — respondeu Dave, orgulhoso. — Vou receber um bônus e achei que deveria comemorar. — Que legal! — ela disse. — Devem gostar de você na delegacia. Dave era oficial da polícia. Estava usando parte de seu uniforme agora. Vestia sua própria jaqueta de couro, mas, por baixo dela, Juliet via que estava com uma camisa branca abotoada, gravata e calça azul. Talvez não devesse considerar inúteis todos os membros de minha família, Juliet pensou. — Dave? — começou ela, lentamente. — Posso lhe perguntar uma coisa? Dave escutou com atenção enquanto ela lhe contou sobre as mensagens de texto. Quando acabou de falar, a face dele estava rígida. — Ju, se você está sendo assediada, precisa denunciar! Avise a companhia telefônica. Eles podem cortar o acesso do cliente se for necessário. — Mas é um número inexistente — relembrou Juliet. — O número existe, senão não estariam ligando para você. É um golpe. É

perfeitamente possível disfarçar a identidade de um telefone celular. Basta entender um pouquinho a mais do assunto. Eu ficaria surpreso se a companhia telefônica não conseguisse descobrir quem é. Juliet fez uma pausa e virou o telefone nas mãos. Ela queria pedir um favor a Dave. — Será que você poderia rastrear? Quer dizer, se eu não fizesse uma reclamação oficial, você poderia rastrear, só entre nós? Dave a olhou por um instante; em seguida, voltou a atenção para a estrada. — Bem, eu poderia — disse. — Mas podemos nos encrencar bastante se utilizarmos recursos oficiais em benefício próprio. — Mas eu não quero denunciá-lo, seja quem for — disse Juliet. — É por isso que estou perguntando desse jeito. Se for algum maluco, então tudo bem, eu denuncio, mas, se for só alguém da escola fazendo gracinha, não vale a pena se estressar. E, se for alguém em apuros, bem, nesse caso eu gostaria de ajudá-lo. Mas não sei qual das alternativas é a verdadeira. E não vou descobrir se não souber de quem é o número. — Ela parou de falar, confusa. Chegaram ao portão da escola e Dave encostou.

— Posso ver essas mensagens, Ju? Ela lhe entregou o telefone e observou enquanto ele analisava os textos. Dave ergueu as sobrancelhas e leu baixinho uma das mensagens. De repente, Juliet se engasgou e se agarrou ao banco do carro. Teve uma visão, uma certeza absoluta sobre o estranho do outro lado da linha. Era uma pessoa sozinha, com frio e assustada. Estava no escuro. Um espaço pequeno, escuro e fechado. Ele mal conseguia respirar... Juliet mordeu o lábio. De onde vinham esses pensamentos? Ela não poderia saber isso tudo somente por meio de algumas mensagens. Era só alguém brincando, certo? Dave estava olhando para ela, preocupado. — Isso está realmente chateando você, não está? — perguntou. Ela fez que sim com a cabeça, sem conseguir falar. Ele suspirou e devolveu o telefone. — Anote o número — ele disse. — Vou ver o que posso fazer. Juliet se sentiu um pouco melhor enquanto caminhava para a escola. Talvez até o fim do dia Dave soubesse de onde vinham as mensagens, e ela poderia confrontar o responsável. Ela mal podia esperar para ver a cara de quem estava fazendo aquilo. Christine a encontrou logo na entrada do portão.

— Ju! Ju! Ouça só que legal! — Juliet se deixou ser arrastada para a entrada do parquinho. Os olhos de Christine brilhavam, e suas bochechas também reluziam. — Mark disse que sairia comigo! Comigo! Ele vai nos encontrar na rua principal hoje à tarde. — Nós duas? — questionou Juliet. — Claro, nós duas! Você disse que iria, não disse? Juliet se esquecera completamente do combinado de fazer compras com Christine. A conversa com Dave e suas preocupações afastaram de sua mente o programa com a amiga, apesar de ter gostado muito da idéia quando recebeu a mensagem. Mas Christine e Mark em clima de romance era a última coisa que ela queria. Imaginou se encontraria uma desculpa para escapar do programa até o final do dia — de repente, Dave telefonando para informar a identidade da pessoa que estava mandando as mensagens. — Claro — respondeu Juliet. O dia se arrastou, assim como o humor de Juliet. Durante o intervalo de almoço, o telefone tocou — mas, desta vez, era o toque de chamada. Alguém estava ligando, e não mandando mensagens, mas ela não se tranqüilizou quando olhou para o identificador de chamadas na tela e leu “número privado”.

— Ei, não vai atender o celular? — perguntou Christine, e Juliet percebeu que estava parada com o aparelho na mão, olhando para ele. — Ah, sim, claro — disse. Apertou o botão verde para receber a chamada e cuidadosamente levou o telefone ao ouvido. — Ah, alô? — Você parece completamente assustada — disse um homem do outro lado da linha. — Você está bem? Juliet respirou aliviada. — Oi, Dave. Hã, eu... — não sabia o que dizer. — Juliet, descobri alguns detalhes sobre aquilo que você me perguntou — disse Dave. O coração de Juliet acelerou, e seus dedos pareceram escorregadios segurando o telefone. — E? Dave suspirou. — Esse golpista é mais esperto do que imaginei. Está usando um número que já está desativado há um ano. Amanhã completará um ano que foi utilizado pela última vez. — Por quem? — Juliet quis saber. — Desculpe, Juliet, mas isso é informação confidencial, e não posso

divulgar. Você deve falar com a companhia telefônica. E a melhor coisa a fazer. Tchau. Juliet olhou frustrada para o telefone enquanto a ligação era desconectada. Parecia que Dave estava convencido de que era obra de algum brincalhão utilizando um telefone desativado. Mas qual poderia ser o objetivo dessa brincadeira? Se alguém estava tentando assustá-la, não seria melhor telefonar? Talvez respirar fundo e tentar fazer com que ela dissesse alguma coisa? Será que a pessoa não teria interesse em conhecer sua voz? — Certo — murmurou Juliet. Tiraria essa história a limpo. A melhor maneira de se assustar seria permitir se assustar com isso. Mas ela poderia reagir em vez de ficar com os braços cruzados. Confrontá-lo, fosse ele quem fosse. Ou ela. Abriu a última mensagem recebida, selecionou a opção “responder” e digitou: Não sei quem você é, mas não posso ajudar se não disser o que está acontecendo. O ícone do envelope apareceu no visor do celular com o letreiro “mensagem recebida”, e o telefone vibrou em sua mão. Juliet piscou os olhos, surpresa, e selecionou a nova mensagem. Sou seu amigo; preciso de você.

Juliet quase deixou o telefone cair. Impossível; impossível que alguém tivesse tido tempo de digitar uma resposta à sua mensagem. Impossível! Mas foi o que aconteceu. As lojas estavam cheias e iluminadas com luzes extravagantes. Era metade de novembro e já começavam a preparar a decoração de Natal, tocando músicas natalinas ao fundo. O shopping tinha três andares, e Juliet e Christine se dirigiram diretamente para o segundo, onde ficavam as melhores lojas de roupas. — Chris — chamou Juliet enquanto subiam pela escada rolante. Christine passava brilho labial. O cheiro artificial de morango fez com que Juliet se sentisse um pouco enjoada. — Hã? — O que você faria se fosse perseguida por alguém? Christine girou o brilho labial de volta no tubo e guardou-o na bolsa. — Não sei. Depende de quem estivesse me perseguindo, eu acho. — Suponha que você não soubesse quem era. Que a pessoa tivesse seu número de celular e ficasse mandando mensagens estranhas. Christine sorriu.

— Seria mais legal ainda! Eu poderia imaginar quem seria e jamais sairia decepcionada. Juliet desconfiou que Christine não era a melhor pessoa para se sensibilizar com isso, principalmente porque se sentia estranha contando para a amiga a respeito das mensagens. — Mas... — começou Juliet. — Olha! — exclamou Christine. Chegaram ao último andar de elevador. Christine agarrou os braços de Juliet, puxando-a pela porta, em direção à loja mais próxima. — Você tem que me ajudar! — insistiu. — Tem duas blusas muito legais, mas eu preciso saber de qual das duas Mark vai gostar mais... Espere aqui. Largou o braço de Juliet e desapareceu entre as prateleiras de roupas, deixando Juliet irritada. Amigas não deveriam conversar umas com as outras? Como isso seria possível se uma delas não escutasse quando a outra tinha um assunto importante? Pegou o celular e o ficou segurando, como se ele guardasse o segredo de seu mensageiro misterioso e tudo o que ela tivesse a fazer fosse olhar para o aparelho até a identidade secreta ser revelada. Passeou pelas mensagens até que a última apareceu na tela...

De repente, o telefone foi arrancado de sua mão. — Ju, sério! — Christine estava de volta. Há quanto tempo teria voltado? Segurava dois cabides, com uma blusa em cada um. — Preste atenção, por favor! Isto é muito mais importante que... — Ela olhou para a mensagem, e seus olhos se arregalaram. — Meu Deus! Meu Deus! — disse Christine. Por um instante, Juliet achou que sua amiga estava assustada com as mensagens estranhas — e, surpreendentemente, isso fez com que se sentisse melhor. Talvez não estivesse exagerando em sua reação. Mas, depois, Christine diminuiu o tom de voz e olhou de um lado para o outro, verificando se estavam sendo observadas. — Então era disso que você estava falando quando mencionou as mensagens de texto! Você está namorando] Por que não disse nada? Juliet pegou o telefone de volta. — Eu não estou namorando! — sibilou Juliet. — Não sei quem é. Alguém está me mandando essas mensagens anônimas e... Christine respirou fundo e levou as mãos à boca, borrando o brilho labial. — Juliet, eu sei quem é!

— Quem é? — Juliet estava pronta para ouvir qualquer teoria. — É o Daniel! Pense bem, faz todo o sentido. Somos grandes amigas, não somos? E Mark e Daniel são grandes amigos, então é claro que ele quer sair com você. Está tentando arranjar um encontro. — Me perseguindo anonimamente? — resmungou Juliet. Christine não estava prestando atenção. — Ah, Ju! Nós quatro juntos! Isso é fantástico! — Deu um abraço em Juliet. — Veja bem, vamos esquecer essas blusas. Vamos encontrar o Mark agora. Eu disse a ele que você estaria aqui comigo. Aposto o que você quiser que Daniel vai estar junto. Juliet duvidava, mas permitiu que Christine a arrastasse para fora da loja. Não se lembrava de Daniel já haver demonstrado qualquer interesse nela. Se ele estivesse tentando convidada para sair... Bem, ela tinha de admitir que a idéia dos quatro juntos soava bem. Daniel tinha um sorriso bonito, quando resolvia mostrá-lo. Um pouco tímido, sugerindo que houvesse algo mais a compartilhar. E se Daniel estivesse mandando as mensagens? Bem, isso seria mil vezes menos assustador, pois ela não teria dificuldades para confrontá-lo a respeito. Ela poderia fazer alguma piada e dizer que

havia maneiras melhores de chamar sua atenção, como ir ao cinema ou jogar videogame em uma tarde de sexta-feira. Mas Juliet não achava que era ele, e não só porque a lógica de Christine era baseada mais em esperança do que em fatos; o olhar de Daniel tinha passado diretamente por ela quando se encontraram no antigo açougue — aliás, ele não tinha corrido dela poucos minutos antes de a primeira mensagem chegar? Ele não havia demonstrado o menor interesse naquele instante, e não poderia ter enviado uma mensagem enquanto corria pelas ruas em direção ao parque. Não, Juliet não achava que era Daniel o remetente das mensagens. Quem quer que fosse, continuava por aí; mas onde? Uma das previsões de Christine se concretizou: Daniel estava com Mark quando eles se encontraram. Os meninos já estavam sentados a uma mesa em uma lanchonete. Mark se levantou sorrindo quando viu as meninas se aproximarem. — Oi, Chris — disse. Havia um calor que parecia corroborar as impressões de Juliet a seu respeito: quieto, reservado e impaciente com pessoas que não conhecia muito bem. Talvez ele realmente gostasse de Christine, e talvez ela realmente o estivesse ajudando a superar o

desaparecimento de Luke. Se fosse esse o caso, Juliet ficaria feliz. — Oi — respondeu Christine. Apertou o braço de Juliet por um instante. Juliet tentou não se contrair. Daniel seguiu os passos de Mark com alguma lentidão, a figura esguia se erguendo da cadeira. Olhou para Juliet, e ela teve quase certeza de que Christine estava errada quanto a seus sentimentos. A franja de Daniel escondia seus olhos, e era difícil dizer o que ele estava pensando, mas sua boca não demonstrava muito entusiasmo. — Oi, Juliet — ele disse secamente. — Oi — ela respondeu, de forma igualmente seca. Se ele fosse se manter tão desinteressado assim, ela concluiu que não ofereceria bebidas, e estava com sede. — Vocês querem alguma coisa? — perguntou. Ele deu de ombros. — Pode ser. Uma Coca. — É, boa idéia — acrescentou Mark. — O.k. — disse Christine. Ela parecia extremamente feliz em função do privilégio de comprar uma bebida para o seu namorado. — Quer gelo e limão? Limão? Naquele lugar? Só com muita sorte.

— Vamos, Chris, não temos o dia todo — resmungou Juliet, puxando a amiga na direção do balcão. A balconista parecia determinada a quebrar os recordes da vagareza em serviço. Levou quase o mesmo tempo que dois limoeiros levariam para crescer no quintal. Christine foi até a mesa com os dois primeiros copos de refrigerante, e Juliet teve de esperar um pouco mais pelos outros. Quando voltou para a mesa, seu coração acelerou ao ouvir a conversa de Christine. — ...um admirador secreto, mandando mensagens o tempo todo... Do jeito que Christine falava, e do jeito que olhava para Daniel com o rabo do olho, indicava exatamente quem achava que estava enviando as mensagens. Daniel parecia entediado. — Chris, não é nada de mais... — disse Juliet. — Nada de mais? — protestou Christine. —Até parece! Antes que Juliet pudesse reagir, Christine pegou o celular em sua bolsa, entrou no menu de mensagens e mostrou-as a Daniel. Juliet estava com as mãos ocupadas pelos refrigerantes e só conseguiu observar a cena. — Então, o que você acha, Daniel? — perguntou Christine. Daniel pegou o telefone e olhou para a tela.

Seu rosto empalideceu e ele jogou o telefone na mesa, como se o aparelho queimasse suas mãos. — Algum problema, Dan? — perguntou Mark. Ele pegou o telefone e olhou para a tela. — Ah, não é nada. Enviam coisas desse tipo o tempo todo e cobram fortunas por suas respostas. Esqueça, Juliet. Ouvi dizer que existem telefones que bloqueiam números que você não queira atender. Talvez você devesse trocar o seu por um desses. Não acha, Dan? — olhou para seu amigo, que enrubesceu. — Ah, é — ele disse. — Boa idéia. — É — murmurou Juliet. — Talvez. — Ela se lembrou que tinha pensado que poderia ser um golpe de marketing na primeira vez em que recebeu uma dessas mensagens. Mas, desde então, já havia conversado com Dave e descoberto que era um número antigo desativado. Uma empresa fazendo propaganda certamente utilizaria um número novo, não é mesmo? Daniel arregaçou a manga e olhou para o relógio. — Bem, eu, hã, preciso ir — disse. — Tenho... hã... uma coisa para fazer. — Afastou sua cadeira e esboçou um sorriso para Juliet. Mark franziu o rosto. — Achei que iríamos ao cinema.

— E, bem, sabe como é... — disse Daniel vagamente, já andando de costas. Assim que alcançou a porta da lanchonete, virou-se e desapareceu em meio à multidão de clientes. Christine voltou-se para Juliet com os olhos arregalados de espanto. — Ai, Ju, me desculpe! Não sabia que ele daria um bolo desses em você. Ele não passa de um idiota... — Te dar bolo? — estranhou Mark. — O Dan te convidou para sair ou algo assim? — Ora — disse Christine antes que Juliet pudesse responder. — Basta olhar para ele... — Não tem problema — disse Juliet. — De verdade, está tudo bem. — Bem, a tecnologia avançada sempre assustou o Gardner — disse Mark, balançando o celular de Juliet. — Isso deve tê-lo espantado. Dan vive na Idade da Pedra. Ele nem tem celular. — O quê? — Christine ficou mais chocada do que teria ficado se tivesse acabado de descobrir que Daniel morava em um caixote. — Ele não tem telefone celular? Juliet olhou para Mark, apoiando-se na ponta da mesa. — Tem certeza disso? Ele não tem telefone? — perguntou Juliet.

— Não, ele não suporta celulares — disse Mark em tom casual. Tomou um gole de sua Coca. — É um saco quando queremos marcar treinos do time. A mente de Juliet estava acelerada. Apesar de ter quase certeza de que não tinha sido Daniel, o fato de ele não possuir um celular comprovava que de fato não tinha sido ele. Mas ela não sabia o que achava disso. A idéia de um perseguidor realmente anônimo parecia ainda mais assustadora do que antes; ela queria sair daquela lanchonete lotada e encontrar um lugar mais calmo para pensar. — Pode devolver o meu telefone, Mark? — ela pediu. — Hein? — Mark percebeu que continuava segurando o celular de Juliet. — Ah, claro, desculpe. Ele devolveu o aparelho, e Juliet o guardou na bolsa. Em seguida, ajeitou sua cadeira e praticamente correu para fora da lanchonete, tentando não pensar no fato de que qualquer pessoa poderia estar enviando aquelas mensagens — talvez alguém naquele shopping, alguém que a estivesse vigiando nesse instante, esperando até ela ficar sozinha... O barulho do salão lotado ultrapassava as cortinas grossas do teatro da escola. A srta. Worth organizava tudo, os óculos

presos no cabelo enquanto dava instruções a Juliet e Christine, Mark e Daniel e todos os que fossem participar da homenagem. Hoje era o dia — exatamente 365 dias após o desaparecimento de Luke Benton. Juliet releu seu discurso mais uma vez. Christine lhe dissera que poderia ler em voz alta para ela, se quisesse praticar... mas, obviamente, Christine estava do outro lado do palco, com Mark, completamente deslocada entre os meninos do time de futebol. Num impulso, Juliet retirou seu telefone do bolso. Abriu uma nova mensagem e escreveu “Ei, você se lembra de mim?”. Selecionou o número de Christine e apertou “enviar”. O telefone vibrou em sua mão — a srta. Worth havia dito que todos deveriam desligar seus celulares, e Juliet resolvera deixá-lo no modo silencioso. Franziu o rosto ao olhar para a tela. O texto dizia: “A mensagem não pôde ser enviada” — e mostrou um envelope acendendo. Ela rosnou. Isso acontecia quando a caixa de entrada e a caixa de saída ficavam cheias de mensagens armazenadas. Significava que ela teria de passar por todas as mensagens antigas para decidir quais gostaria de guardar e quais apagaria. Sabia que poderia simplesmente selecionar a

opção “apagar todas”, mas algumas das mensagens antigas tinham valor sentimental, e ela queria guardá-las por mais tempo. A mensagem que Christine havia mandado para consolá-la depois que ela ficou em recuperação na escola, por exemplo, ou a mensagem do primo Dave anunciando seu noivado. Ainda faltavam alguns minutos para a homenagem da turma. Juliet baixou a cabeça e começou a deletar todas as mensagens de rotina — as combinações de encontros com Christine após a aula para fofocar, para conferir o dever de casa. Essa parte foi fácil. Mas depois vieram as cinco mensagens anônimas, e ela percebeu que não sabia se queria guardá-las ou não. Mexeu o cursor para cima e para baixo, analisando as palavras breves e quase insignificantes, as datas e os horários em que cada uma delas havia chegado. Em seguida, percebeu algo estranho. Ela sabia que a mensagem mais recente havia chegado ontem, e que a primeira chegara há dois dias. Mas todas as mensagens pareciam ter sido enviadas no mesmo dia. E a data era a de hoje. Por um instante, ela pensou se haveria alguma coisa errada com o cartão de seu telefone. Foi para uma mensagem diferente, a que Christine havia mandado convidando-

a para fazer compras. Não; esta estava com a data certa, há dois dias. Juliet voltou para as cinco mensagens anônimas. Havia algo errado com as datas. O dia e o mês eram os de hoje... mas o ano era diferente. As mensagens tinham a data do dia de hoje, exatamente um ano atrás. Hoje, o aniversário do desaparecimento de Luke Benton, também era o aniversário de envio dessas mensagens! Mais estranho ainda, agora que Juliet estava percebendo coisas, eram os horários em que as mensagens pareciam ter sido escritas. Foram enviadas para Juliet em ordem reversa; cada uma fora escrita poucos minutos antes da mensagem anterior. A última mensagem que recebera tinha sido a primeira a ser enviada. Se as colocasse na ordem certa, o texto seria: Sou seu amigo; preciso de você Estou com medo Não consigo sair Estou congelando Me ajude Juliet sentiu um arrepio percorrer sua espinha e tremeu, apesar de estar quente e abafado atrás das cortinas. Olhou para o pequeno visor, tentando entender melhor — tentando entender qualquer coisa — o que estava lendo e quase derrubou o celular quando outra mensagem chegou e vibrou

como um inseto em suas mãos. Verificou a tela e reprimiu uma reação de espanto. — Ai, não — sussurrou. — Não, por favor, vá embora. Era do mesmo remetente, e havia sido mandada antes de todas as outras. Este lugar está trancado. — Que lugar? — murmurou Juliet. Fechou os olhos, juntando todas as peças. Estava frio, estava trancado, ela teve mais uma vez aquele flash de um lugar frio, escuro e sem ventilação, tão difícil de respirar. Teve um calafrio e guardou o telefone de volta no bolso. De onde vinham essas coisas? Estava começando a ficar preocupada; isso estava começando a dominar seus pensamentos... Alguma coisa relacionada à última mensagem fez com que ela tivesse uma lembrança. Alguma coisa sobre estar trancado... Rua do comércio, ela pensou. Deu de ombros. Por um instante, foi como se tivesse voltado àquele momento frio e úmido, duas noites atrás. Na rua do comércio, do lado de fora do açougue vazio; Daniel olhando através da janela suja, supostamente procurando invasores. — Parece muito bem trancado — ela havia dito. Pouco depois disso, a primeira mensagem chegou. Juliet agarrou o telefone

em seu bolso. De alguma maneira, o açougue abandonado estava ligado a isso tudo. — Oi, Ju, aonde você vai? A voz de Christine foi abafada pela noite úmida, e Juliet fingiu não ouvi-la ao correr para fora dos portões da escola. Saiu do salão assim que a homenagem acabou e pôs as mãos no bolso, caminhando depressa pela rua. Por um momento, sentiu-se culpada por evitar Christine assim. Mas depois lembrou que Christine não entendia como Juliet estava assustada por essas mensagens, e que levaria muito tempo para explicar. Era algo que Juliet precisava fazer sozinha. Ela caminhava na escuridão. Um vento frio soprava pela rua do comércio, e a umidade naquela pista estreita só fez com que o frio parecesse maior; parecia até cena de um filme antigo, em preto-e-branco. O açougue não passara de uma pequena sombra negra da última vez que Juliet o avistara, e suas janelas pareciam buracos escuros no desconhecido. Agora que ela podia vê-lo com maior clareza, sob a luz do crepúsculo, o lugar tinha aparência mais ameaçadora. Era quadrado, feito de tijolos e feio. Sua pintura parecia deliberadamente estragada, como se nunca

tivesse sido bonita, mesmo quando fora pintada pela última vez. Juliet não pulou quando seu telefone interrompeu o silêncio com o alerta de mensagem. Já esperava por isso. Verificou o que havia chegado. Acho que foram para casa. Juliet deu de ombros. Quem quer que tivesse mandado isso, estava sozinho — como ela estava agora. — Eu gostaria de estar em casa também — sussurrou a menina. Ela encostou a cabeça na janela. O vidro refletia seu rosto, uma face pálida e rosada contra o cinza, e ela não enxergava nada além de algumas formas quadradas no lado de dentro. A base da janela tinha marcas de mãos, e ela imaginou se seriam de Daniel, do dia em que estivera ali espiando. Juliet se perguntou por que seu pai não havia arrumado seguranças de verdade se estava tão preocupado com invasores. Ela se afastou do açougue e observou sua fachada decadente. — O que estou fazendo aqui? — pensou em voz alta. Certamente, não passava de uma coincidência o fato de que recebera a primeira mensagem nesse lugar.

— Ah, deixa para lá — sussurrou. — Acalme-se, Ju. Virou-se para ir embora, e seu celular alertou para uma nova mensagem. Juliet parou onde estava. Quais eram as chances de Christine ter mandado uma mensagem dizendo que havia terminado com Mark? Muito remotas, ela sabia. Pegou o telefone. De fato, eram muito remotas. Não era Christine; era o número de um ano atrás. Eles me trancaram. Juliet perdeu o fôlego. Trancado! O pavor que sentira com a visão de antes duplicou. Se tivesse pensado a respeito, teria concluído que a pessoa havia ido parar na sala escura, fria e sem ventilação por acidente. Isso já seria ruim o bastante. A pessoa havia sido trancada de propósito? Juliet examinou os pedaços de metal pregados na frente do açougue. Não havia maçaneta. Olhou em volta e viu uma passagem escura e estreita que separava a construção do prédio vizinho. A porta da frente estava bloqueada, e deveria haver uma nos fundos. Não consigo sair... Juliet se dirigiu à passagem, virando de lado quando seus pés pisaram em alguma coisa que ela não teve coragem de inspecionar direito. Suas canelas bateram no

que parecia uma lata de lixo, e ela resmungou consigo mesma e, depois, mais alto, quando percebeu que ninguém poderia ouvi-la. Finalmente, as paredes da passagem desapareceram, e ela chegou ao quintal no fundo do açougue. Era cercado por um muro alto de tijolos, com arame farpado e cacos de vidro no topo. A julgar pelas pilhas de lixo jogadas pelos cantos, com sombras que pareciam aumentar, teve a impressão de que toda a rua jogava lixo ali. Mas havia uma porta nos fundos do açougue que não parecia ter sido lacrada. Juliet pôs a mão na maçaneta e a empurrou, depois sacudiu. Não havia sido trancada, mas estava lacrada com um cadeado logo acima da maçaneta. Ela também conseguia enxergar o buraco redondo da fechadura. Havia uma janela na parte superior da porta, com a cortina fechada pelo lado de dentro para esconder o interior do estabelecimento. A janela era coberta por uma grade de metal presa pelo lado de fora, avermelhada pela ferrugem e descolando da madeira em um dos cantos. Sou seu amigo; preciso de você. Juliet deu um passo para trás e seu pé esbarrou em alguma coisa que produziu um barulho metálico. Havia deslocado alguns canos de metal, empilhados ao lado de uma

pia cheia de louças. Ela se inclinou e pôs as mãos em volta de um cano frio e pesado. Segurou-o por uma das extremidades, colocou-o dentro do arco do cadeado e fez o máximo de força possível. Primeiro a alça dobrou; em seguida, abriu com um barulho. Agora só falta a tranca, pensou Juliet. Ela teria de quebrar a janela e tentar abrir pelo lado de dentro. Enfiou os dedos na grade e puxou. Sentiu alguma coisa levantar, mas depois a grade ficou firme. Pegou o cano novamente e o colocou entre a porta e a grade. A grade desgrudou da madeira, seus parafusos se soltando com um barulho horrível. A grade se libertou mais depressa do que Juliet esperava, e seus dedos bateram no muro de tijolos. Ela pôs a mão na boca para estancar o sangue. Agora só precisava quebrar a janela, e conseguiria entrar. Atacou a vidraça com o cano e tentou não sentir muita satisfação quando o vidro se espatifou. Pôs a mão no buraco da janela, com cuidado para não se cortar nos cacos de vidro que sobraram. Algo frio e úmido entrou em contato com seus dedos, e ela quase gritou, até perceber que se tratava apenas da cortina no lado de dentro da porta. Acho que foram para casa.

Seus dedos encontraram a lingueta da fechadura, apesar de precisar ficar em um ângulo complicado para conseguir alcançála. Segurou firme e girou. A lingueta produziu um barulho enferrujado. Ela apoiou seu ombro na porta e a empurrou. Lentamente, a porta se abriu. Tão lentamente quanto ela, Juliet entrou na sala fria e escura. Este lugar está trancado. O açougue cheirava a poeira e mofo. Primeiro, só o que ela pôde ver foram vagas formas quadradas e muitas sombras. Instintivamente, procurou um interruptor na parede e sufocou um grito quando esbarrou em diversas teias de aranha. Recolheu a mão e a limpou no casaco. A essa altura, seus olhos já estavam se acostumando à escuridão. Todos os móveis, mesas, e tudo o que pudesse dar alguma dica quanto ao que aquele lugar havia sido no passado tinha sido retirado. O chão era feito de azulejos cinza claro e escuro que talvez tivessem sido brancos um dia. Juliet deu um passo à frente. Pôde ouvir alguma coisa pequena se movendo perto de seu pé, alguma coisa viva e veloz. Deu um salto para trás e esbarrou na parede, liberando uma pequena nuvem de pedaços de grãos que caiu em seu cabelo. Passou as

mãos freneticamente pela cabeça enquanto a pequena forma escura — um camundongo? um rato? — correu pelo chão. Ele desapareceu em um buraco na parede à sua direita. Ela se forçou a respirar fundo e uniformemente até sentir seu ritmo cardíaco diminuir. Olhou em volta. Havia uma porta logo à frente que provavelmente levava à parte principal do açougue. Outra porta à direita estava semiaberta, e ela conseguia perceber uma escada do outro lado. Havia uma terceira porta no canto esquerdo da sala. Juliet levou um minuto para perceber que era uma porta, pois era mais alta e mais larga do que as outras. Primeiro pensou que se tratava de uma parte da parede com uma pintura diferente. Agora que seus olhos já estavam acostumados à escuridão, conseguia ver melhor. Era mais escura que a parede a seu redor e produzia um brilho metálico com a luz laranja que entrava pelas frestas das janelas da frente do açougue. A garota não sabia nada sobre a administração de um açougue, mas sabia que tinha de haver um lugar para guardar a carne. Algum lugar maior do que uma geladeira comum. Provavelmente ali seria o frigorífico. Estou congelando.

Ela caminhou cautelosamente até a porta e passou os dedos sobre a superfície de metal. Havia uma comprida maçaneta vertical na altura de sua cintura. Os botões do painel na parede ao lado provavelmente funcionaram como termostato no passado. Estavam todos desativados agora, é claro; a energia tinha sido cortada há muito tempo. Eles me trancaram. A porta era como a entrada de um cofre de banco. Se alguém estivesse trancado em algum lugar deste açougue, seria aqui. Em qualquer outro lugar, bastaria arrombar uma porta ou pular uma janela. Mas uma pessoa trancada aqui... que chance teria de escapar? E será que Juliet realmente queria ver o que havia do outro lado? Hesitou, mas agarrou a maçaneta com ambas as mãos. Já tinha chegado até ali. Precisava saber. Largou a maçaneta outra vez. Não queria saber. Queria ir para casa, agora. Eles me trancaram. Ela soluçou e ficou parada, tremendo. Estou com medo. Com um grito de raiva e medo, ela agarrou a maçaneta e a puxou. A porta nem sequer se mexeu. Ela a agarrou outra vez, firmou os pés no chão escorregadio e fez força, grunhindo em função do esforço. Será

que se mexera um pouco? Segurou a maçaneta outra vez e se lançou para trás, puxando-a com toda a força que conseguiu reunir. Alguma coisa estalou, e a porta se mexeu um pouco. Juliet ainda precisava das duas mãos para mexer a porta, mas lentamente ela se abriu. Um sopro de ar velho atingiu seu rosto, seguido por um cheiro tão ruim que fez com que Juliet engasgasse. Era cheiro de morte e de podridão. Era tudo o que não poderia ser. Eles me trancaram. Juliet recuou, com a manga sobre a boca. Devem ter deixado carne pendurada aqui. Era o pior cheiro que já havia sentido na vida. Prendeu a respiração e deu um passo à frente para espiar o frigorífico, mas o espaço, pelo que conseguia enxergar, poderia ser tão pequeno quanto uma cabine telefônica ou tão grande quanto um estádio de futebol. As sombras faziam com que parecesse mais escuro e espesso do que qualquer outro lugar, engolindo qualquer claridade que entrasse no recinto. Juliet esperou seu estômago se acalmar e, em seguida, abriu a porta o máximo possível, para que alguma luz pudesse entrar. Me ajude.

As sombras se moveram o suficiente para que Juliet pudesse ver que era uma sala cúbica quase toda de aço. As paredes eram curvilíneas e elegantes, e ganchos de aço pendiam do teto. Eles sustentaram bifes e bacon no passado, mas agora só balançavam um pouco com a leve brisa provocada por Juliet. E o chão... O chão era de bom gosto, feito de azulejos de cerâmica. A luz laranja e empoeirada penetrava enquanto a porta se abria, indicando um par de sapatos no canto. Tênis — pretos, com uma faixa prateada. Juliet abriu os últimos centímetros da porta. A luz entrou e revelou um par de pernas em calças escuras. Depois, o resto do corpo. E a cabeça. O corpo estava encostado na parede, como se estivesse sentado na hora em que morreu. Juliet reconheceu o blazer da escola, mas poderia ter adivinhado quem era de qualquer maneira. Havia encontrado Luke Benton. A pele das mãos havia encolhido; as linhas dos ossos estavam à mostra, como se estivessem prontas para saltar para fora do corpo. Juliet se inclinou e se forçou a olhar para o rosto. Os olhos de Luke haviam encolhido. Seus lábios, também, e os dentes

apareciam como num sorriso de desespero. Os ossos do rosto se destacavam. A imagem fez com que Juliet se lembrasse das múmias do Egito. Uma das mãos de Luke estava cruzada sobre seu colo, e a outra estava no chão, ao lado dele, com a palma para cima, os dedos em torno de um telefone celular. Juliet esticou o pescoço, tentando enxergar o visor do telefone sem precisar chegar muito perto do corpo de Luke. O ângulo era muito ruim. Ela não tinha outra escolha senão se esticar e puxar gentilmente o telefone de sua mão, utilizando apenas dois dedos, cuidando para não encostar no corpo sem vida. Os dedos do cadáver seguravam o telefone com mais força do que ela imaginara, e, por um instante, enquanto levantava o telefone, a mão de Luke subiu junto. Juliet cerrou os dentes com tanta força que seus olhos doeram. De repente, a garra morta cedeu, e a mão caiu de volta no chão. Juliet virou o telefone para a luz. Ela conhecia o modelo — era igual ao seu — e sabia como ligá-lo, mas nada aconteceu quando apertou o botão. A bateria tinha acabado há muito tempo. Mas havia uma coisa que podia fazer. Abriu a parte traseira do telefone, retirou seu chip e o colocou em seu próprio

aparelho. Ligou seu celular e a tela se acendeu, exibindo as últimas mensagens de Luke. Lá estavam, na caixa de saída. Todas elas, na ordem em que havia enviado — a ordem inversa à do recebimento. Eles me trancaram Acho que foram para casa... Nenhuma delas estava listada como “enviada”. Juliet analisou a última mensagem até chegar ao relatório de detalhes. Observou a data e a hora do envio até chegar à última linha: “Erro: a mensagem não pôde ser enviada”. — Oh, Luke — murmurou Juliet, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. — Vou tirá-lo daqui. Vou buscar ajuda... — Fique quieto! — Estou tentando! Juliet virou-se de costas. Mais alguém havia entrado no açougue pelos fundos: duas vozes; dois conjuntos de passos caminhando pelo chão. Juliet foi para o lado instintivamente, afastando-se do feixe de luz que entrava pela porta aberta. Ela se encostou na parede. Não conseguia ver quem estava ali, mas isso significava que também não podia ser vista. — Olhe, não sabemos se alguém esteve aqui...

— Aquela porta foi forçada! — O.k, Dan, O.k.... Dan! Juliet fechou os olhos e respirou aliviada. Reconhecia as vozes agora. Era apenas Daniel, ainda preocupado com os invasores na loja de seu pai, e trouxera Mark consigo para obter ajuda. Abriu os olhos e viu o feixe de luz diminuir no chão do açougue frio. Afastou-se da parede a tempo de ver a porta de metal se fechando. Juliet gritou e correu. A porta se fechou e a luz desapareceu na mesma hora em que ela colidiu contra o metal. — PAREM! Abram a porta! — gritou ela. Derrubou o telefone e mexeu aleatoriamente na superfície de aço. — Esperem! Abram a porta! Daniel! Mark! Por favor! Abram a porta! Estava tão escuro que ela nem sabia se seus olhos estavam abertos. Apoiou-se na porta, sem querer tirar as mãos dela, pois era seu único ponto de referência na escuridão. Se tirasse as mãos dali e virasse de costas, estaria vagando por uma imensidão escura. Será que Mark e Daniel não viram o corpo pela porta? Obviamente, não. Mas deviam tê-la ouvido gritar. Ela gritara antes de a porta se fechar. Agora que sabiam que

ela estava ali, abririam a porta imediatamente! Não abririam? Eles me trancaram... Ela levou um segundo para entender. Não foi “Eles sem querer fecharam a porta atrás de mim”; simplesmente “Eles me trancaram...”, e, depois, “Acho que foram para casa”. — Ai, não — sussurrou Juliet. — Mark e Daniel! — Ela se jogou no chão, com as costas contra a fria parede de aço. Estou com medo. Não consigo sair. Estou congelando. Juliet não sabia quanto tempo havia se passado antes que começasse a pensar direito novamente. Precisava sair, e Daniel e Mark claramente não voltariam para buscála. Ela havia derrubado seu telefone — bem, tinha de encontrá-lo. Juliet se ajoelhou e engatinhou para a frente, tateando pelo chão de cerâmica. Passou o tempo todo com medo de não encontrar o telefone e esbarrar em Luke. Sentiu sua mão esbarrar em alguma coisa pequena e dura. O objeto escorregou pelo chão, mas ela o agarrou antes que pudesse escapar para longe. Em seguida, conseguiu apertar o botão do menu. O visor e os números se acenderam com uma luz verde, e ela respirou aliviada.

Ela tinha luz. Tinha um meio de comunicação com o mundo. Sou seu amigo; preciso de você. O ar mofado e malcheiroso a pressionou. Juliet não sabia quanto oxigênio havia na cela de metal, mas, se mantivesse a calma, poderia durar por um tempo. O suficiente para que alguém viesse salvá-la. Acessou o menu de mensagens, escreveu as palavras “me ajude” e selecionou o número de Christine. O envelope giratório apareceu na tela, indicando que a mensagem estava sendo enviada. Juliet sentou-se, aliviada. O telefone apitou, e ela sorriu no escuro. Em seguida, verificou para ver o que Christine havia respondido. Não era de Christine, e, apesar de ter passado um bom tempo olhando para a tela, não conseguia assimilar as palavras. Erro: a mensagem não pôde ser enviada. Quando finalmente entendeu, teve certeza absoluta de que Luke tivera a mesma idéia há um ano, quando suas mensagens desesperadas não foram entregues. Ela estava presa em um caixão de aço. Nenhum sinal telefônico chegaria ali. Seu celular não tinha a menor chance. Juliet gritou.

Digitalização/Revisão: Yuna

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