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Janela da Alma: Hipnose e psicoterapia, etiologia e práxis 2007

APRESENTAÇÃO E INTRODUÇÃO

003

CAPÍTULO I - HIPNOSE: FILOSOFIA, CIÊNCIA, RELIGIÃO

015

Noção de physis e casualidade

018

O

Arché e o kosmos

019

O

Logos e o Crítico

023

Filósofos Eclesiásticos

025

A

ciência Experimental

029

Método Cartesiano-Newtoniano

032

Ciência Sistêmica ou Holística

036

Hipnoterapia e Ciência

040

Mito, Rito e Religião

050

Transe e religiosidade

052

Vegetais hipnóticos

054

Religiões ayahuasqueiras

057

Transe e sincretismo

064

Padres hipnotistas

066

Hipnose e reencarnacionismo

074

CAPÍTULO II - HISTORIA DA HIPNOSE E DA HIPNOTERAPIA

080

Magnetismo e mesmerismo

083

Mesmerismo e sonambulismo

096

Magnetismo e kadercismo

100

Mesmerismo e psiquiatria

106

Mesmerismo e anestesia

108

Mesmerismo e sugestão

110

Brandismo

111

Hipnodontia

115

Hipnoterapia

117

Sugestão pós-hipnótica

118

Hipno-análise

119

Hipnose e histeria

125

Hipnose e psicanálise

132

Hipnose e fisiologismo

153

Auto-hipnose

159

CAPÍTULO III - ETIOLOGIA DA HIPNOSE

164

Hipnose é projeção

165

Hipnose é sugestão

166

Sugestão é prestigio

167

Hipnose é sono

167

Entrega amorosa

169

Mamadeira hipnótica

170

Gênero dramático

171

Hipnose como dissociação

173

Estado normal

174

Exclusão psíquica relativa

175

CAPÍTULO IV - PRÁXIS DA HIPNOSE

177

Técnicas de indução

177

Métodos de indução

179

Método de Bernheim

182

Método de Moss

183

Método de Kuehner

184

Método de Erickson e Wolberg

186

Método de autovisualização

197

Método da estrela

188

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Testes de suscetibilidade

190

Hipnose de palco

198

Hipnose, hiperestesia e clarividência

202

Regressão hipnótica

203

Hipnose acordada

207

CAPÍTULO V - A PESQUISA DE CAMPO

209

Sintomatologia do transe

212

O

transe hipnótico

218

Testes de eficácia

220

Saída do transe

221

Suscetibilidade à indução

222

Formulação da sugestão

224

O ambiente das sessões

225

A ética e a legalidade da hipnose

226

Categorias de hipnotistas

229

O

poder do hipnotista

230

Janela da Alma

232

CAPÍTULO VI - APLICAÇÕES ESPECIAIS DA HIPNOSE

237

Hipnose e Comunicação

237

Propaganda subliminar

238

Merchandising

243

Sugestão desejada e indesejada

244

Hipnose contra vontade

245

Hipnose cotidiana

246

Hipnose no Direito

251

Hipnose e psicopedagogia

255

Psicologismo na Educação

261

Psicologia da gestalt

264

Teoria topológica

265

Fenomenologia existencial

266

Epistemologia genética

266

Teoria Histórico-social

268

Educação humanista

272

Educação como prática política

273

CAPÍTULO VII - HIPNOTERAPIA E OUTRAS PSICOTERAPIAS

275

Gestalt-terapia

275

Terapia centrada na pessoa e topológica

276

Teoria de Vygotsky

277

Teoria de Reich

278

Teoria organísmica

279

Filosofia fenomenológica

280

Filosofias orientais

281

Outras concepções

283

CAPÍTULO VIII - AUTO-HIPNOTERAPIA

285

Prática da auto-hipnose

292

O

relaxamento

295

Testes e Métodos para a auto-hipnose

298

Tipos de matrizes

303

Saúde e estética do corpo

307

Ativadora da memória

307

Solução da gagueira

309

Supressão e alívio da dor

310

CONSIDERAÇÕES FINAIS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

315

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APRESENTAÇÃO

Esta publicação é mais do que um livro, representa um ideal de vida, signi- fica o desejo de informar, discutir, refletir e produzir conhecimento. Por isso, passa longe de qualquer interesse, como reconhecimento pessoal ou retorno pecuniário. Trata-se de uma dissertação, seu conteúdo resulta de uma investi- gação rigorosamente cientifica. A pesquisa foi produzida de forma sistemática e metodológica, para conceituar o significado do hipnotismo, conhecer o processo de produção do transe hipnótico e identificar, classificar e esclarecer sua sinto- matologia e efeitos. O levantamento bibliográfico e a construção referencial teórico foram favo- recidos pela intensa dedicação do autor, no decorrer de mais de trinta anos, pe-

lo tema, pela leitura teórica e pela prática da hipnose. Isso em muito contribuiu

para traçar uma metodologia que conduzisse aos resultados esperados, para a definição e clareza dos objetivos, das técnicas e dos métodos de investigação

que foram utilizados.

Este trabalho foi escrito para quem pretende conhecer ou praticar hipnose

e auto-hipnose, principalmente com finalidade terapêutica. Apresenta uma rede

de temas transversais, esclarece dúvidas, desfaz mitos, elimina ou atenua pre-

conceitos. É fonte imprescindível de permanente consulta sobre as tradicionais psicoterapias, tanto ortodoxas como contemporâneas, e suas associações com

a hipnose. O autor comprova durante toda a leitura que a hipnose abrange um campo muito vasto e que sempre aparecem ramificações do seu efeito na maior parte das atividades humanas. A amplitude e a profundidade de como trata o

assunto são explicitas na extensa lista de títulos bibliográficos utilizados que, somada ao conhecimento prático do autor, transformam esta obra em uma grandiosa fonte de pesquisa para esta complexa área do saber. Revela o que é

a hipnose a partir da evolução histórica de diversas teorias quando faz

referências a mais de cento e cinqüenta autores, por isso, torna-se de interesse particular para o meio acadêmico que não dispõe com facilidade de uma bibliografia que trate dessa temática de forma tão abrangente. Esta leitura elucida noções equivocadas acerca do tema do hipnotismo e apresenta um conjunto de dados que, de alguma forma, envolve a interdepen- dência do transe hipnótico com várias manifestações humanas que são anali- sadas através da intricada rede de causas intermediárias entre a emoção e a razão (inconsciente e consciente). Esclarece conceitos e confronta opiniões, demonstra como as controvérsias e coincidências das diferentes escolas atuais têm raízes históricas. Explora idéias e teorias que são necessárias, cooperati- vas e seqüenciais para facilitar, a cada passo, a reflexão de conceitos e consi- derações apresentadas ao longo da leitura. O autor relata os procedimentos metodológicos utilizados, como aplicou o rigor cientifico e efetuou a análise qualiquantitativa dos dados coletados na fase da investigação, efetuada na cidade de Salvador, na Bahia, entre 1997 e 2002,

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com um universo de 400 sessões, para uma população de 1.984 participantes. Descreve as conclusões a que chegou através de uma série de observações diretas e da análise das respostas de 500 questionários, aplicados para quem durante o transe apresentou sintomatologia mais completa, além de 100 entrevistas para esclarecer questões não amplamente respondidas pelos questionários. Para melhor descrever o transe hipnótico em suas diferentes formas de produção, ocorreu ligeira ampliação da área temática e do campo empírico da pesquisa. Foram realizadas algumas incursões teóricas e observações in loco em associações declaradas religiosas, todas reconhecidas e legalizadas. Isto permitiu ao autor, motivado pelo senso de investigação, ser submetido a algu- mas práticas de rituais. Para fundamentar uma descrição precisa dos aconteci- mentos, procedimentos e sensações, em alguns casos o autor foi além da ob- servação e participou ativamente das experiências, inclusive ingerindo o chá ayahuasca e o vinho de jurema, ambos considerados como desencadeadores de transe. Através dos dados empíricos e teóricos levantados, a leitura confronta es- colas e correntes de pensadores, aponta controvérsias e coincidências, separa fatos de opiniões, tendo como principal objetivo facilitar o leitor refletir e se defi- nir pela sua própria descoberta. O autor primou por manter a postura de investi- gador absolutamente cientifico, tanto na fase da pesquisa como na redação da comunicação final dos resultados. Procurando demonstrar sempre neutralidade axiológica, em nenhum momento teve a pretensão de ser doutrinário ou dogmá- tico, contestar ou validar credos, religiões, filosofias, idéias ou teorias. Outra preocupação do autor foi não limitar a informação e, ao mesmo tempo, facilitar a compreensão do texto. Para isso, optou por uma redação que apresenta aspectos pedagógicos essenciais; foi escrito de modo claro, didático e bem fundamentado. Descreve de forma precisa e justifica com profundidade teórica as técnicas, métodos e procedimentos específicos. Assim, acredita que incentiva a leitura até o final e gera o desejo por mais conhecimentos, o que pode transformar o leitor não apenas um hipnotista hábil, mas um amplo conhe- cedor do assunto. No decorrer da dissertação, algumas questões são polêmicas por haver fatos no hipnotismo sobre os quais ainda não se chegou a uma conclusão clara. Por isso, seu estudo envolve uma reflexão antropológica e evolutiva do conhe- cimento e expõe os paralelos paradigmáticos da ciência. Demonstra o conflito entre a percepção mecanicista-reducionista e a sistêmica e propõe uma revisão dos pressupostos conceituais conhecidos. Reflete sobre as exigências de uma abordagem multidimensional do ser humano para entendê-lo de forma menos fragmentária. Considerando que a base semiológica não é suficiente para esclarecer to- dos os pontos sobre a prática da hipnose e das principais psicoterapias, o autor busca sustentação em teorias subjacentes quando recorre à leitura da evolução

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do pensamento filosófico, cientifico e religioso. Neste aspecto, apresenta uma revisão literária que tem como objetivo apontar a gênese do misticismo que ain- da persistem nos tempos modernos. Ao concluir, descreve a auto-hipnoterapia como sendo uma ferramenta poderosa na solução de muitos conflitos, não deixa dúvidas de que a hipnose é uma forma válida para superação de certos problemas que afligem o corpo e a mente humana. E, mais uma vez, desmistifica o poder atribuído às coisas ex- ternas ou sobrenaturais para solucionar conflitos humanos que prejudicam, em muito, a qualidade de vida, sem ao menos se buscar antes soluções naturais e em si mesmo. A estruturação do conteúdo de estudo é dividida em oito capítulos:

O primeiro capítulo faz parte do campo teórico da pesquisa e é prope- dêutico, apresenta breve análise da evolução do pensamento, do mítico ao filosófico e científico, como base para o estudo da história da hipnose e seu envolvimento com rituais religiosos e místicos.

O segundo desenvolve o campo teórico específico, apresenta um desfile histórico-cronológico dos autores clássicos do hipnotismo. As principais obras citadas neste capítulo são de domínio público, estão disponíveis gratuitamente no site (http://gallica.bnf.fr/) da Biblioteca Nacional da França.

O terceiro capítulo complementa o referencial teórico e trata da etiologia da hipnose. Analisa através das diferentes correntes de pensadores e ci- entistas como se desenvolve o transe hipnótico, apresenta as técnicas e os métodos de indução e seus efeitos práticos.

O quarto capítulo é dedicado à práxis, é um preâmbulo para a interpreta- ção da pesquisa de campo realizada pelo autor. Seu principal objetivo é conhecer, passo a passo, como de fato se prática a hipnose e como ela se apresenta e descreve situações que permitem desencadear sua ocor- rência.

O quinto versa sobre a pesquisa de campo, descreve as observações di- retas do autor, a metodologia utilizada, como procedeu ao tratamento dos dados, a análise e os resultados à que chegou para fundamentar o que considera como sintomatologia do transe e os diferentes níveis de aprofundamento. Finaliza descrevendo o que entende como explicação conceitual da hipnose e denomina como sendo uma “Janela da Alma”, um momento em que o ser humano entra em contato com sua essencia- lidade.

O sexto capítulo é um desdobramento de toda a pesquisa realizada. En- volve o estudo do hipnotismo em situações naturais do cotidiano e sua aplicação em áreas específicas, como na Mídia, no Direito e na Educa- ção. Inclui neste último aspecto a hipnose como possível parte da psico- pedagogia.

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O sétimo capítulo reforça a tese de que a hipnose pode ser validada co- mo um procedimento terapêutico. Compara a hipnoterapia com moder- nas teorias e práticas das principais psicoterapias conhecidas, demons- trando semelhanças e diferencias.

O oitavo e último capítulo descreve o que considera o autor como mais um aporte da pesquisa. É dedicado à auto-hipnoterapia, representa na prática a soma dos conhecimentos estudados nos capítulos anteriores. Este aspecto é de grande importância para o leitor que busca soluções para problemas existenciais, principalmente problemas de caráter psico- terapêutico. No geral, após a leitura e rápidos exercícios, o livro esclarece o que é e como funciona a hipnose e a auto-hipnose, como sua execução é bem simples e como os bons resultados são surpreendentes. Porém, bem mais importante talvez seja o fato de reafirmar e exemplificar, o tempo todo, que cada ser hu- mano traz dentro de si o dom da autocura e é capaz de viver bem e ser feliz, mesmo na adversidade. É um livro que deve ser relido várias vezes, cada nova leitura sempre apresenta surpresas e induz novas descobertas. Por fim, recomenda o autor que, para obter melhor domínio sobre o tema e evitar conclusões precipitadas, é aconselhável uma leitura seqüencial e que as reflexões ocorram na medida em que seja vencido cada capítulo. Também aconselha que este livro deva ser lido sem preconceito, mas com espírito crítico, separando os fatos das opiniões. Lembra ainda que a proposta desta obra não é passar informação, mas conhecimento e, isso, depende muito mais do leitor do que do autor.

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INTRODUÇÃO

Embora faça parte do cotidiano dos indivíduos de várias formas e em diferentes situações, o hipnotismo ainda é desacreditado por alguns, equivocado na opinião de outros, temido ou pouco conhecido para a maioria. As explicações sobre o transe hipnótico e seus efeitos, por conta de sua vinculação com práticas religiosas e crenças no sobrenatural, é cercada de mitos, magias e preconceitos. Mesmo entre pessoas com alto nível de escolaridade, o desconhecimento sobre este tema é bastante generalizado e, no conceito popular, a descrença de que os efeitos hipnóticos existam ou possam ser provocados é geralmente substituído por um temor supersticioso. Na literatura é fácil perceber que todas as culturas, de todas as épocas, conheceram, procuraram e desenvolveram métodos para estabelecer o transe hipnótico. Esse antigo estado da mente foi perseguido por muitas formas; desde o uso de ervas, drogas e aplicações de equipamentos especiais até rituais dos mais diversos. Na maior parte das vezes, o transe foi e é produzido por métodos simples que vão da dança selvagem, passando pelo ritual religioso, pela prática de uma tranqüila e intensa meditação até uso de técnicas hipnóticas clássicas. Qualquer que seja sua origem, o transe sempre implica em uma função normal do cérebro humano, embora algumas pessoas sejam mais propensas ao seu alcance e aprofundamento. Transe hipnótico é o estado mental que resulta em alterações na neurofi- siologia e decorre de várias situações, pode ser produzido por simples estímu- los sensoriais normais; auditivos, visuais, táteis e olfativos, além de estados mentais de grande expectativa com violenta carga emocional, sono intenso sem possibilidade de dormir, jejum nutricional, isolamento social, abstinência sexual prolongada, meditação, relaxamento físico e mental ou atitude contemplativa, em geral de fundo religioso ou místico. Pode também ser provocado por inges- tão de substâncias químicas. Efeitos da hipnose sempre aconteceram na história da humanidade. Em atos religiosos têm presença marcante, quanto mais solene ocorre um ritual associado a forças incompreensíveis, místicas ou mágicas, maior é o efeito hipnótico. Porém, não é apenas relacionado a situações que se prendem ao misticismo; ao longo da história foi produzido ou observado também pela perspectiva do materialismo científico ou simultaneamente por ambos. Definida com vários termos e diferentes sentidos, a hipnose é patrimônio da filosofia e da medicina ocidental e oriental, tanto a antiga quanto a contemporânea. No oriente os efeitos hipnóticos, geralmente com objetivos de cura, fazem parte de culturas milenares e se mantiveram quase que inalterados através dos séculos. No ocidente foram se adequando ao imaginário dominante, se ajustando á representação de cada nova realidade cultural, se identificando com diferentes correntes do pensamento, valores, fantasias e mistérios que surgiam com as migrações e miscigenações étnicas. A maior e mais rápida

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diversificação de procedimentos hipnóticos ocorreram na Europa, devido à fusão étnica cultural do seu povo através de suas ações colonizadoras. Esse viés antropológico do hipnotismo constitui a principal abordagem histórico- lógica e teórica dedutiva deste livro. Embora sugestão não seja sinônimo de hipnose, é certo que toda e qualquer hipnose começa pela aceitação, consciente ou inconsciente, da sugestão que pode até desencadear o transe hipnótico, caracterizado como o momento em que a sugestão atinge o ponto mais alto da sua ação. A execução desse processo é bem simples e os resultados se aproximam de fatos extremamente compensadores, podendo em alguns casos proporcionar efeitos terapêuticos inexplicáveis e até mesmo inacreditáveis. Nem sempre uma sugestão representa a possibilidade de desencadear o transe hipnótico, mas é, no mínimo, o preâmbulo imprescindível para que isso ocorra. É comum o uso de um nome como se fosse o outro, às vezes chama-se sugestão de hipnose e, hipnose de sugestão. No entanto, deve ser chamada de sugestão hipnótica aquela que se perfaz no transe hipnótico ou que permeia a aplicação de métodos e técnicas com o objetivo de atingir os efeitos da hipnose. Através da sugestão o pensamento se concentra numa idéia cujo resultado ou tendência é provocar determinado efeito, impele muitas ações humanas, tanto construtivas como destrutivas. A maior parte do resultado da vida das pessoas é conseqüência da sugestão; desde o desfrutar de sentimentos de alegria, paz e prazer, até situações negativas como doenças físicas e morais. Mas, situações negativas podem ser reversíveis pelo mesmo processo que se instalam, isto é, o que a sugestão faz, a sugestão desfaz. Da sugestão podem resultar ações inconscientes, compulsivas ou hipnóticas, que podem decidir o curso da vida das pessoas. E, a melhor maneira de fazer as sugestões produzir bons efeitos é através da hetero- hipnose e da auto-hipnose. No primeiro caso um hipnotista funciona como um guia que influencia através de sugestões as ações inconscientes de alguém. No segundo caso é o próprio hipnotizado quem o faz. Um indivíduo razoavelmente instruído poderá conduzir e controlar as ações do seu próprio inconsciente, em seu próprio benefício. Do início do século XIX até hoje termos como hipnose inconsciente e sugestão caminham juntos, um tentando explicar o outro. No início de suas pesquisas, Freud se valia do hipnotismo como procedimento de acesso ao inconsciente que o conceituou como sendo uma espécie de porão onde fica guardado o que não se quer mostrar. Fatos e sentimentos que o indivíduo não tem coragem de contar nem para si próprio e, por isso, guardou no inconsciente e esqueceu. No entanto, pesquisas modernas revelam um conceito de inconsciente bem diferente desse estabelecido há cem anos.

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A explicação mais aceita hoje é a de que o inconsciente, longe de

significar uma parte física localizada em uma determinada região do cérebro, é uma espécie de programa operacional capaz de processar, ao mesmo tempo, milhares de informações paralelas. Enquanto o consciente executa suas tarefas de forma serial, uma atrás da outra. Fornecendo informações ao consciente sob forma de intuição, o inconsciente é hoje compreendido como uma ferramenta de trabalho mental que executa tarefas fundamentais e pode determinar, em certas circunstâncias, atitudes que uma pessoa deve tomar. Modernamente o inconsciente é considerado como uma forma de inteligência, diferente da inteligência convencional. É hábil também em executar tarefas sem que o consciente perceba; relaciona e toma decisões, determinando o que uma pessoa deve ou não fazer. As pessoas agem em determinadas situações, compelidas pelas sugestões ou informações que foram instaladas em seu inconsciente. Conscientemente, não sabem o que estão fazendo, mas fazem. Entender esse mecanismo é se aproximar de como funciona os efeitos hipnóticos.

O inconsciente tem um mecanismo de realimentação de sugestões; o que

é depositado nele é retro-alimentado para o consciente e vice-versa. Toda pessoa, a menos que possua uma patologia psiquiátrica séria, é sugestionável e, um meio eficaz de fazer a sugestão funcionar é a sua repetição; com isso, imprime-se no inconsciente uma idéia que realimentará o consciente. É comum na infância se ouvir dos adultos algumas palavras ou frases repetidas, até que o inconsciente da criança aceite a idéia do que isso representa e depois a execute. Disso pode resultar situações que definirão, de forma positiva ou negativa, uma vida inteira. Na atualidade os efeitos da sugestão, agindo com força hipnótica extraordinária, são observados em diferentes veículos de comunicação, através de mensagens explicitas ou subliminares embutidas na informação principal. Esse tipo de comunicação pode determinar tendências no comportamento de massa e, existem organizações que são responsáveis pela difusão de sugestões sistematizadas e repetidas que agem modelando o comportamento social. Por isso alguns efeitos hipnóticos devem ser entendidos como fato social normal que não se restringe só a momentos especiais.

Embora os seres humanos vivam como se estivessem sob efeito hipnótico é, ironicamente, por não perceber essa possibilidade que podem ser manipulados ou modelados por idéias alheias à sua própria vontade. Na comunicação de massa, cada vez mais, esse recurso tem sido instituído e serve como instrumento a serviço da mídia na propaganda política, comercial e ou religiosa. Efeitos hipnóticos estão presentes em diversos setores da comunicação, mas sem dúvida, é a propaganda que mais aplica este recurso. Utilizando-se da sugestão subliminar como estratégia para atingir seus objetivos, a chamada hipnose de massa é bastante evidente nos modernos processos publicitários,

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isso tem evoluído muito nos últimos tempos porque hipnotizar é antes de tudo convencer e a propaganda tem este mesmo propósito. Já existem sistemas de publicidade, sobretudo na chamada publicidade indireta, capazes de criar no ânimo dos consumidores o desejo, quase sempre irresistível, para fazer ou deixar de fazer alguma coisa; como adquirir determinado produto, preferir marca ou modelo e alimentar o consumo desnecessário, deixando-os num estado que se assemelha à hipnose clássica. Assim, identificar esses processos é uma forma de defender-se quando for preciso. A mídia é capaz, de uma só vez, de modificar conceitos e comportamentos de grande parte da sociedade através da repetição da informação que, às vezes, são equivocadas ou ideologicamente construídas pelos interesses da dominação. Tem a mídia, através da sugestão, o poder de influenciar e convencer os coletivos sociais estabelecendo conceitos e preconceitos, alterando costumes, modificando hábitos, gerando consumo e formando opiniões.

O recurso da sugestão hipnótica é também fortemente utilizado quando a

religião determina o comportamento das pessoas com base na idéia de céu e de inferno, virtude e pecado, santos e demônios. Uma vez sugestionado o indivíduo pode ampliar ao máximo, por si só, o poder da sugestão que recebeu. O resultado desse processo depende de como foi, direta ou indiretamente, sugestionada a agir e, agindo, reforça a sugestão que recebeu em uma realimentação constante, aumentando cada vez mais o seu grau de convencimento em torno do objetivo induzido.

O ritual religioso quando associado ao transe hipnótico, produz efeitos

que ultrapassam a compreensão pela racionalidade; através de linguagens simbólicas promove o aumento da percepção e curas inexplicáveis acontecem. Algumas religiões milenares que se desdobram em várias outras, chegam à contemporaneidade como no passado, produzindo bem a associação de transe e cura. Nem sempre o transe é produzido apenas através de estímulos dos sentidos normais, pode ser desencadeado por ingestão de substâncias que agem no organismo com este propósito. Em algumas sociedades primitivas substâncias hipnotizadoras encontradas na natureza, geralmente em vegetais, foram incorporadas às liturgias e são usadas até hoje com surpreendentes efeitos. Entre os grandes clássicos do hipnotismo europeu, é comum a referencia inicial ao Padre Gassner que praticava na Alemanha, por volta de 1770, métodos e aplicações de técnicas hipnóticas, associadas à crença católica, com objetivo de curar enfermidades. Para ele as doenças e os demônios estavam quase sempre juntos e uma pessoa doente poderia ser alguém possuída. Aquele que se sentia com o diabo no corpo, e por conseqüência doente, vinha ou era trazido ao Padre para que ele o expulsasse e, assim, promovesse a cura.

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Franz Anton Mesmer assistiu várias apresentações de Gassner e não se conformando com a explicação do Padre, deu uma versão não menos fantástica para as curas através do hipnotismo, em lugar de responsabilizar demônios pelas enfermidades, responsabiliza os Astros. Para ele a doença resulta da freqüência irregular dos fluidos astrais e a cura depende de sua adequada regulagem. Acreditava que certas pessoas teriam o poder de controlar esses fluidos, podendo comunicá-los a outrem, direta ou indiretamente, por intermédio de objetos magnetizados pelo seu contato. Os efeitos hipnóticos saíam da explicação religiosa indo para a explicação da influência astral, tese segundo a qual os fluidos magnéticos invisíveis regulam a vida das pessoas e, por volta de 1780, o mesmerismo se espalhou pela Europa; Mesmer dizia que o crucifixo de metal usado por Gassner era responsável por concentrar e transmitir para os enfermos um fluido magnético curativo. Cria assim a doutrina do Magnetismo Animal, que foi logo bem recebida por legiões de adeptos. Foi ele um dos maiores mistificadores do que mais tarde seria conhecido como hipnose.

O magnetismo animal prossegue com o Marquês de Puységur, um dos

discípulos de Mesmer. O Marquês, casualmente, enquanto magnetizava um camponês com objetivo de curá-lo de enfermidade, percebeu que o paciente caía em um estado de sonambulismo, como se mantivesse em sono profundo, com movimentos respiratórios tranqüilos. Nada havia das clássicas agitações provocadas pelo Mesmerismo. Puységur percebeu, com surpresa, que o camponês podia falar sem sair do sono hipnótico e com lucidez maior que a habitual, indicou sua própria doença como sendo uma infecção pulmonar e para sua própria cura indicou remédios precisos. Puységur chamou isso de sonambulismo artificial, e descobriu o estágio mais profundo do transe hipnótico

que até hoje é chamado de sonambúlico.

O magnetismo tomou outro rumo através do médico e filósofo, Denizard

Hippolyte Léon Rivail. Em 1850 o mesmerismo atraiu a sua atenção, passando a integrar o grupo dirigido pelo Barão Du Potet, dirigente da Sociedade Magnética de Paris. Inicialmente Rival freqüentou sessões de magnetismo em busca de solução para os casos de enfermidades de pacientes a ele confiados e tornou-se mais tarde o codificador da doutrina espírita. Em 1859, com o pseudônimo de Allan Kardec, publica o Livro dos Espíritos e cria outra versão para o magnetismo, a de que a força curativa era atribuída aos espíritos. A estruturação de sua doutrina tem por base o pensamento de Pitágoras sobre a existência da alma e sua evolução defendida por Platão, herda diretamente as teorias do magnetismo e os rituais mesmeristas, se desenvolve absorvendo, incorporando e reinterpretando seus efeitos. O espiritismo segue sua própria escola e o mesmerismo acaba sendo substituído pelo hipnotismo. Vários foram os homens famosos que desenvolveram e aplicaram as idéias de Mesmer. Mas foi James Braid, médico escocês que usou pela

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primeira vez, por volta de 1841, a palavra hipnotismo. Deve-se sua iniciação nos estudos da hipnose ao famoso mesmerista suíço Lafontaine, discípulo de Puységur. Em 1843 Braid publica seu livro sobre o assunto; dizia que a fixação do olhar era o processo para o efeito mesmerista. Batizando esses efeitos como hypnos, nome do deus grego do sono, anexado ao vocábulo ismo, que significa estudo, cria a expressão hipnotismo e, disso derivando outros nomes como hipnose, hipnótico, hipnólogo, hipnotizador, hipnotista e hipnotizado. Hipnotista é quem induz o transe hipnótico de forma metódica, técnica e sistemática, é teórico e prático na área da hipnose. Hipnotizador é quem casualmente hipnotiza sem possuir conhecimento teórico, às vezes não sabe o significado da hipnose ou até mesmo como provoca seus efeitos. Hipnólogo é o teórico, estudioso do assunto, conhecedor das técnicas hipnóticas, mas nem sempre hábil na prática de hipnotizar. Hipnotizado é quem está sob a ação do hipnotismo e é também chamado de paciente quando a hipnose é produzida para tratamento médico. Liébaut foi quem acrescentou a sugestão verbal à fixação do olhar desenvolvido no método de Braid. Sua técnica tranqüila e discreta baseava-se nas palavras e no tom de voz. Em 1864, lendo um exemplar da obra de Braid, fez-lhe renascer o interesse pelo assunto que não mais deixaria por toda a sua vida. Seus clientes eram pessoas humildes e camponesas e a eles Liébaut dizia: “Se quiser tratamentos com drogas, terá que pagar a consulta, mas se permitir que faça o tratamento pelo hipnotismo, não terá de pagar nada”. Por volta de 1880, Bernheim foi o primeiro a perceber que o estado hipnótico era normal em todas as pessoas e, principalmente, foi quem definiu os efeitos pós-hipnóticos da sugestão como elemento provocador de ações inconscientes compulsivas, e propôs aplicar isso como terapia. Nesta mesma época, Charcot achava que a hipnose era uma forma de histeria, descobriu que podia induzir sintomas histéricos através de sugestões hipnóticas. Não concordando, Bernheim apontou a Charcot os seus erros, mostrando-lhe que as características histéricas não eram critérios para o transe hipnótico e que os sintomas da histeria podiam ser provocados artificialmente por mera sugestão. Nasceu daí a histórica controvérsia entre as duas escolas francesas de hipnotismo, uma no hospital La Salpêtrière em Paris e, a outra na Cidade de Nancy. Salpêtrière e Nancy foram escolas que serviram de base para Freud e, as investigações com o uso da hipnose, forneceram muitas pistas que lhe permitiu os primeiros passos para o desenvolvimento da teoria e da técnica da psicanálise. Mas, não é apenas a psicanálise que tem forte envolvimento com o hipnotismo e, principalmente com a hipnoterapia; também pode ser identificado, de algum modo, semelhanças com outras teorias que fundamentam várias psicoterapias, filosofias de vida e concepções de mundo, produzidas nas mais diferentes culturas, tanto orientais como ocidentais. Mesmo que tentem seus idealizadores e seguidores se afastarem do tema, sempre aparecem laços que

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vinculam suas teorias ou idéias aos processos sugestivos ou efeitos terapêuticos próximos aos produzidos pelo hipnotismo. Das duas clássicas escolas de hipnotismo, Salpêtrière e Nancy, resultaram muitos outros pesquisadores; cada um tentando compreender e difundir a hipnose pelo mundo, como Krafft-Ebing na Áustria, Forel na Suíça, Wetterstrand na Suécia, Bramwell na Inglaterra, Heidnhain na Alemanha, Felkin na Escócia, Pavlov na Rússia, McDougall e Phineas Puimby nos Estados Unidos. Com tanta gente estudando e teorizando, a hipnose ganha impulso na aplicação terapêutica e cresce através de demonstrações recreativas. Donato e Hansen, ambos no fim do século XIX, destacaram-se por arre- batarem multidões para demonstrações de grandes espetáculos de hipnose re- creativa. Violentas controvérsias explodiram pela impressa, acerca da natureza destes espetáculos, cada qual procurou interpretar a seu modo este fatos es- tranhos, que tão vivamente incitavam a curiosidade pública. Os homens de ci- ências, solicitados, foram obrigados ao exame deste tema e muitos médicos, professores e cientistas se interessavam pelo assunto. Nas platéias, cada vez mais, estavam presentes importantes personalidades e, a partir daí, davam no- vos impulsos à hipnose. Assim, por meio do palco, o hipnotismo alcançou mais intensamente o debate nas academias. Os estudos acadêmicos ortodoxos quando se aproximaram da hipnose foi com receio e cautela. Das tentativas para explicar o hipnotismo cientificamente, muito se deve ao cientista russo Pavlov, quando analisou o fenômeno baseando seu estudo nos reflexos condicionados. Suas hipóteses para enquadrar as explicações nos princípios do paradigma mecanicista não prosperam; as tentativas da ciência neste campo foram vagas e os resultados obtidos nas pesquisas foram sempre imprecisos. Para as neurociências ainda é um desafio desvendar como o processo hipnótico acontece. Mas, com o avanço dos novos recursos tecnológicos aplicados como instrumentos de pesquisa, grandes revelações já ocorrem em laboratórios do mundo científico. Somando-se a isso o fato da ciência estar caminhando por um novo paradigma, a hipnose sairá, em breve, do conceito de pseudociência, ganhará a respeitabilidade da comunidade científica, deixando de ser privilégio de alguns para ser conhecida pelo grande público. Na atualidade estudos sistematizados já despontam em grandes centros de pesquisa acadêmica, como na Universidade de Harvard, juntamente com a Universidade Stanford. Embora vagos os conhecimentos científicos disponíveis para explicar a hipnose, muito antes de ser descartada, está sendo cada vez mais utilizada. Nos dias atuais o hipnotismo é apontado como uma arma eficiente de que dispõe a humanidade em sua incessante luta contra alguns males. O domínio da auto-hipnose pode ajudar na eliminação das doenças psicossomáticas ou eliminar efeitos psicológicos que agravam doenças orgânicas.

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A hipnose quando processada pelo próprio interessado, pode representar um caminho para que seja atingida a melhoria da qualidade de vida, requisito indispensável para a solução de muitos problemas e conflitos. Sua prática permite a descoberta da autoconfiança, promovendo o desenvolvimento da auto-estima e da compreensão de si mesmo, sem que para isso seja preciso, necessariamente, crer ou seguir doutrinas ou ser convencido a colaborar de forma econômica para pessoas ou organizações. O uso da sugestão hipnótica em benefício próprio dá lugar ao conceito conhecido como auto-sugestão ou auto-hipnose, muito difundida na Europa e que entrou em moda nos Estados Unidos na metade do século XX. Charles Baudouin e Pierce, entre outros, escreveram sobre o assunto, mas se deve a Emile Coué a sistematização desse processo. Foi ele quem formulou vários princípios e leis que fundamentam a aplicação da auto-sugestão e desenvolveu o célebre método que chamou de “Domínio de si mesmo pela auto-sugestão consciente”. Suas idéias e frases estão, invariavelmente, escritas nos livros de auto-ajuda. Mesmo que convivam com ela, normalmente as pessoas não acreditam na hipnose; a maioria só acredita quando presenciam demonstrações práticas que não devem ser simples espetáculos de curiosidade. É através de cursos e apresentações que os participantes podem analisar os efeitos hipnóticos a que estão sujeitos no cotidiano e, mais ainda, que podem desmistificar desvendando como é processada a sugestão ou a auto-sugestão e conhecer seus efeitos. As discussões acadêmicas representam o melhor caminho para difundir e desmistificar a hipnose e a Faculdade é o fórum ideal para esse trabalho; neste espaço as apresentações fogem àquele sentido superficial e comum de espetáculo. Seu estudo deve ser claro e baseado, ao máximo, na verdade e nos princípios éticos, morais e científicos, portanto válido pelo sentido útil que se traduz na apropriação do conhecimento teórico e prático revelado nas demonstrações. Nessa oportunidade não se tem um mero espetáculo de curiosidade; tem-se uma exposição de fatos que são reproduzidos para efeito de aprendizagem. A prática é muito importante para quem deseja aprender além da capacidade teórica; a habilidade e a competência nesta área não se adquirem através de simples leitura. Nas páginas seguintes, os aspectos abordados nesta introdução são tratados com detalhes e fidelidade com as fontes pesquisadas. O principal objetivo, não é tomar partido por essa ou aquela opinião, é sim apresentar idéias, conceitos, teorias e métodos que foram desenvolvidos ao longo da história, envolvendo de alguma maneira a hipnose, para comparar com as modernas teorias e práticas das principais psicoterapias.

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CAPÍTULO I – HIPNOSE: FILOSOFIA, CIÊNCIA E RELIGIÃO

Entender melhor as explicações sobre algumas terapias, incluído a psico- terapia e, especificamente, a hipnoterapia, depende da forma como suas práti- cas foram introduzidas nos múltiplos e diferentes domínios culturais. Assim, tor- na-se indispensável uma reflexão histórica, filosófica e científica, mesmo que resumida, para melhor compreender os autores que, no decorrer dos séculos, trataram desse tema. Neste retrospecto, é fácil observar como algumas “verda- des” desaparecem e são esquecidas para novamente reaparecerem, talvez mais aperfeiçoadas ou distorcidas. Considerando que a evolução de qualquer ramo do conhecimento jamais ocorreu por meio de atos isolados de um único pensador ou cientista, mesmo que uma descoberta seja atribuída a uma única pessoa, esta, certamente, está embasada em idéias anteriores. É fácil a percepção de como traços culturais de civilizações, sistemas filosóficos, crenças, religiões e modo de se fazer ciência vão, voltam e se vão novamente, é a eterna ciranda do pensamento. Por isso, quando se deseja conhecer a explicação sobre um fato social qualquer, é im- portante lembrar parte da história do desenvolvimento do conhecimento que o- rientou teorias sobre a natureza dos homens, das coisas e do Universo. Para melhor refletir sobre a hipnose e a hipnoterapia é importante conhe- cer as diferentes fases da evolução das idéias que, embora muitas vezes con- traditórias entre si, preservam heranças culturais e desenvolvem, a cada mo- mento sobreposto, uma crescente babel conceitual e pré-conceitual chegando à contemporaneidade como sofismas atormentadores. Isso talvez explique, em parte, o porquê e a gênese de algumas práticas curativas que, de formas anta- gônicas, se apresentam ora centrada na filosofia ou na perspectiva da ciência cartesiana, ora radicalizada no mito, na magia ou na religião. Procurar compreender e explicar a realidade faz parte da natureza huma- na e, na busca de respostas sobre o mundo, a humanidade desenvolveu dife- rentes formas de pensar, construídas não apenas pelo senso comum, mas tam- bém através do conhecimento dominante, àquele que tem origem no mundo acadêmico. Enquanto o senso comum revelava-se pela cultura acumulada, o conhecimento dominante sempre foi agregado a paradigmas, compreendidos como um conjunto de valores, crenças e convenções que determinam as ver- dades ou respostas aos problemas humanos. Para o ser humano viver no mundo necessita se sentir seguro, esta segu- rança é conquistada a partir dos conceitos que ele formula e o conjunto de con- ceitos forma um paradigma. Enquanto prevalecer um paradigma o estado de segurança é permanente, pois um conceito só é derrubado através do surgi- mento de um novo conceito que o substitua. Cada paradigma representa um longo período, nos quais se destacam diferentes orientações para o pensamen- to e considera suas revelações como o ápice do conhecimento. No entanto, a próxima fase considera as idéias anteriores como absurdo, mas, mesmo assim,

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permanecem impregnadas na cultura popular e, mesclando-se ao novo conhe- cimento, criam contradições, crenças e superstições baseadas em conclusões equivocadas a partir da observação dos fatos ou da experiência vivenciada. Is- so exerce influência direta ou indireta sobre o indivíduo e a sociedade, configu- rando a forma pela qual o humano pode compreender o mundo em que vive e se ajustar nele. Entre os povos primitivos o mito é um paradigma, é forma do humano se situar no mundo, de encontrar o seu lugar entre os demais seres da natureza. O mito não depende de reflexão ou crítica para estabelecer algumas verdades que explicam parte dos fenômenos naturais ou mesmo a construção cultural. É intuitivo e não necessita de provas para ser aceito. É, portanto, uma intuição sobre o mundo, cuja função principal é acomodar o homem na natureza. Mas, o mito não é exclusividade de povos primitivos, existe em todos os tempos e cul- turas como componente indissociável da maneira de compreender a realidade. Cada povo, com base em seus mitos, tem uma visão própria da natureza e ma- neiras diferenciadas de explicar os fenômenos e os processos naturais. O mito não é lenda, ficção ou fabulação, é uma organização da realidade a partir da in- tuição sobre a experiência vivenciada. Para o povo antigo o mito era extremamente precioso por seu caráter e- xemplar, dogmático e sagrado, sempre verdadeiro, confirmado na vida social, portanto, inquestionável. A sua aceitação não é racional, tem de ser através da

fé e da crença, isto é, construído pela afetividade e pela imaginação. Até o sé-

culo V a.C. o mito era a forma de revelação do conhecimento e significava ori- entações para a conduta, representava modelos explicativos para as funções e as atividades humanas praticados em diferentes civilizações como os gregos, romanos, assírios, babilônios, chineses, indianos, egípcios, persas e hebreus,

além de sociedades primitivas.

O pensamento mítico pertence ao campo do pensamento simbólico e da

linguagem simbólica, se caracteriza como uma das formas pela qual um povo explica aspectos essenciais da realidade em que vive; a origem do mundo, o

funcionamento da natureza e os processos naturais, além da origem e o destino das pessoas e seus valores básicos. O povo grego antigo tinha essa percepção

e o termo grego mythos significa um tipo bastante especial de discurso que

pressupõe adesão e aceitação dos indivíduos para a explicação mágica de sua

experiência do real.

O mito não se justifica e não se fundamenta, nem se presta ao questio-

namento, à crítica ou à correção, não obedece à lógica nem da verdade empíri- ca, nem da verdade científica. É verdadeiro para quem vive, é a verdade cons- truída pela afetividade e pela imaginação, não necessita de provas para ser a- ceita. É, portanto, uma intuição compreensiva da realidade, uma forma espon-

tânea do ser humano situar-se no mundo. A forma de explicar a realidade apelando para o sobrenatural, para o mis- tério e o sagrado é através do pensamento mítico. Assim, as causas dos fenô-

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menos naturais, ou seja, aquilo que acontece aos seres humanos é entendido como que governadas por realidades superiores, misteriosas, divinas. São exte- riores ao mundo natural, forças universais e invisíveis provindas dos deuses,

dos espíritos, dos Astros e das Estrelas do céu, aceitas como capazes de influir

e

governar a natureza e o destino dos homens.

O

mito pretende dar uma explicação da realidade, mas recorre ao mistério

e

ao sobrenatural, ou seja, àquilo que não pode ser explicado, que não pode

ser compreendido por estar fora do plano da compreensão humana. A explica- ção dada pelo pensamento mítico termina na impossibilidade da explicação do que se deseja conhecer. Ao responder, o mito cria outro problema irrespondível,

por isso, a resposta tem de ser definitiva, misteriosa e dogmática.

Como proposta para o homem tentar entender o mundo sem recorrer ao misterioso e dogmático surge, no século VI a.C. na Grécia, o pensamento filo- sófico. Os primeiros filósofos da escola jônica iniciam com o objetivo de buscar uma explicação do mundo natural, na física (physis), baseada essencialmente em causas naturais. A chave da explicação do mundo e da experiência humana estaria então, para esses pensadores, no próprio mundo e não fora dele. Mas, isso não significa o desaparecimento do mito como forma explicativa, muitos dos seus elementos sobrevivem, chega às sociedades contemporâneas e são manifestados pelo imaginário coletivo, criando ou modificando crenças, supers- tições e fantasias.

O pensamento mítico fez parte de uma sociedade baseada em uma mo-

narquia divina em que a classe sacerdotal tinha grande influência e o poder po- lítico era hereditário, sustentado por uma aristocracia militar e mantida por uma economia agrária. A partir da invasão da Grécia pelas tribos dóricas, vindas pro- vavelmente da Ásia central, em torno de 900 a 750 anos a.C. começam a surgir cidades-Estado. Ocorre uma participação política mais ativa dos cidadãos e a religião vai tendo seu papel reduzido, paralelamente surge uma nova ordem e- conômica, baseada em atividades comerciais e mercantis. Este novo cenário al- tera o conjunto de conceitos e inicia um novo paradigma, o pensamento filosófi- co.

Com seu apelo ao sobrenatural e aos mistérios, o pensamento mítico vai deixando de satisfazer às necessidades da nova organização social, mais preo- cupada com a realidade concreta, com a atividade política mais intensa e com as trocas comerciais. É nesse contexto que a filosofia encontrará condições fa- voráveis para o seu nascimento. Mas, a influência do pensamento mítico per- manece por muito tempo ativo também nas escolas de pensamento filosófico, como no pitagorismo e na obra de Platão. A perda do poder explicativo baseado no mito resulta de um longo período de transição e de transformação da socie- dade, que torna possível uma nova forma de pensar e alimenta as primeiras es- colas do pensamento filosófico no século VI a.C.

O pensamento filosófico surgiu não nas cidades do continente grego co-

mo Atenas, Esparta, Tebas ou Micenas, mas nas antigas colônias gregas do

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Mediterrâneo oriental, no mar Jônico, na península da Anatólia, território que hoje faz parte da Turquia. Essas colônias, dentre as quais se destacaram Mileto e Éfeso, eram importantes portos e entrepostos comerciais, locais de encontro das caravanas provenientes da Mesopotâmia, Pérsia, talvez também da Índia e China. Para lá eram levadas mercadorias que eram embarcadas e transporta- das para outros pontos que os navegadores gregos aportavam com suas em- barcações. Nas cidades gregas do Mediterrâneo oriental conviviam em harmonia dife- rentes culturas, pois o interesse comercial fazia com que os povos que ali se encontravam, sobretudo os gregos fundadores das cidades, fossem bastante tolerantes. As colônias do mar Jônico eram então cidades cosmopolitas imersas no pluralismo cultural, com a presença de diversas línguas, costumes, cultos e mitos. Considerando o fato de que cada povo tem sua forma de ver o mundo, seus costumes e valores, é possível que o confronto entre as diferentes tradi- ções tenha contribuído para enfraquecer o poder do mito, de dar explicações absolutas e verdadeiras sobre os questionamentos humanos. Nas sociedades gregas, dedicadas às práticas comerciais e aos interes- ses pragmáticos, as tradições míticas e religiosas vão perdendo progressiva- mente sua importância e surge o tipo de pensamento inaugurado, na Escola de Mileto, por Tales (625-547 a.C.) que pode ser considerado como o primeiro filó- sofo a buscar respostas além daquelas obtidas pelo pensamento mítico. Algu- mas das características centrais desse novo tipo de pensamento exercem influ- ências entre o século VI e V a.C. em quase todos os pensadores pré-socráticos. É uma nova forma de analisar e ver a realidade porque propõe o uso da razão, mas não significa que a filosofia rompe radicalmente com o mito, apenas susci- ta o uso da razão no seu esclarecimento, sobretudo aos que se referem à ori- gem do mundo.

A principal contribuição da Escola de Mileto ao desenvolvimento do pen-

samento filosófico e pode-se dizer também científico, foi construir um conjunto de noções para tentar explicar a realidade, a partir de alguns conceitos básicos

que rompem com a narrativa do mito. O pensamento das primeiras escolas de filosofia toma por base:

A noção de physis (natureza) e de causalidade.

O conceito de arché ou elemento primordial.

A concepção de kosmos como o Universo racional e ordenado.

O lógos como explicação racional.

O caráter crítico, a discussão e não dogmatismo. Noção de physis e causalidade

O objeto de investigação dos primeiros filósofos-cientistas é o mundo na-

tural, suas teorias buscam dar uma explicação causal aos processos e aos fe- nômenos da natureza, a partir de causas puramente naturais, isto é, encontrá- veis no mundo concreto, e não em um mundo sobrenatural ou divino como nas

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explicações míticas. Segundo esse tipo de visão, a compreensão da realidade natural encontra-se nesta própria realidade e não fora dela. Aristóteles (384-324 a.C.) chama os primeiros filósofos de physiólogos, ou seja, estudiosos ou teóri- cos da natureza (phvsis) e dedicou as primeiras páginas de Metafísica a um breve resumo sobre os pensadores que o precedeu.

A causalidade é a característica central da explicação da natureza pelos

primeiros filósofos, a natureza das coisas é interpretada em termos puramente naturais e o estabelecimento de uma conexão causal entre determinados fenô- menos naturais constitui a forma básica da explicação filosófica e científica. Ex- plicar passa a ser relacionar um efeito a uma causa que o antecede e o deter- mina; é reconstruir o nexo causal existente entre os fenômenos da natureza; é tomar um fenômeno como efeito de uma causa. A existência desse nexo torna a realidade inteligível e permite considerá-la como tal, mas é importante, entre-

tanto, que o nexo causal se dê apenas entre fenômenos naturais, considerando que o pensamento mítico também estabelece explicações causais entre fenô- menos naturais e sobrenaturais.

A explicação de causa e efeito entre fenômenos naturais e sobrenaturais

é bem explícita na narrativa da guerra de Tróia na Ilíada de Homero, um entre os maiores poemas épicos da Grécia antiga, composto no século VIII a.C. e que teve profunda influência sobre a literatura ocidental. No texto pode ser lido quando os deuses tomam partido dos gregos e dos troianos e influenciam os acontecimentos em favor de um ou de outro. Portanto, fenômenos humanos e naturais têm, nesse caso, causas sobrenaturais. Trata-se de uma explicação

causal, porém dada através da referência a causas sobrenaturais. A proposta dos primeiros filósofos é romper com essa possibilidade, o nexo tem de ser a- penas entre fenômenos naturais.

A explicação causal entre os fenômenos naturais possui um caráter re-

gressivo, explica sempre uma coisa por outra. É a possibilidade de buscar uma causa anterior, mais básica, até o infinito. Cada fenômeno poderia ser tomado como efeito de uma nova causa, que, por sua vez, seria efeito de uma causa anterior, e assim sucessivamente, num processo sem fim. Isso invalida o pró- prio sentido da explicação, pois, mais uma vez, a exposição levaria ao inexpli- cável, a um mistério tal como no pensamento mítico. Para evitar a regressão ao infinito da explicação causal surge a necessidade de se estabelecer uma causa primeira, um princípio, ou um conjunto de princípios, que possa servir de ponto de partida para o processo racional. Neste ponto nasce a noção de arché (ele- mento primordial).

O Arché e o kosmos Os filósofos começam postular a existência de um ponto de partida para todo o processo do pensamento. O primeiro a formular essa noção é justamen-

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1 ARISTÓTELES, Metafísica (trad. Leonel Valandro), Porto Alegre, Ed. Globo, Biblioteca dos Sé- culos, 1969.

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te Tales de Mileto, quando afirma que a Terra flutua como um disco boiando sobre a água, no oceano, e que a água está presente em quase tudo que existe na natureza, em seus três estados físicos; líquido, sólido e gasoso. Para ele, a água (hydro) é o princípio e o fim de tudo. Tales escolheu esse elemento como primordial influenciado, provavelmente, por antigos mitos do Egito e da Mesopo- tâmia; regiões onde a água teve um papel crucial para o desenvolvimento de ci- vilizações, principalmente em locais fluviomarinhos como a margens de rios, la- gos e mares. Segundo Tales, a água ao se resfriar torna-se densa e dá origem à terra e ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A hipótese de Tales pode ser resumida nas proposições de que a terra flutua sobre a água; a água é a causa material de todas as coisas e, em suas diferentes formas, é cheia de deuses e poderes divinos. Foi também um dos primeiros pensadores a afirmar que o ímã possui vida, pois atrai o ferro, tendo assim inaugurado a doutrina magnética, básica para o desenvolvimento da “medicina magnética” que se desdobra no mesmerismo, no kardecismo e, por fim, no hipnotismo. A busca por um elemento real que dá unidade à natureza é a contribuição mais importante de Tales, elegendo a água enquanto princípio para a explica- ção do mundo, inaugura o pensamento filosófico. Para ele a água não era sim- plesmente a substância encontrada em rios, mares, lagos e simbolizava um e- lemento real, o mais básico, o mais primordial; presente em todas as coisas em maior ou menor grau. No imaginário coletivo a água vai se tornando também re- ferencia indispensável para a explicação de todas as coisas questionáveis, se transforma em um elemento mágico capaz de promover a cura para o corpo e a purificação para a alma humana. Passa a ser a fonte de explicação para o que não se pode compreender.

Os discípulos de Tales elegem outros elementos como sendo primordial para a explicação do mundo, como exemplo, Anaximandro de Mileto (611-547 a.C.), discordando do mestre, identifica o arché não mais como um elemento natural, mas no apeíron, termo grego que indica o ilimitado, o infinito, uma reali- dade sem limites e sem fronteiras, um princípio abstrato significando algo de i- limitado, indefinido, subjacente à própria natureza. Anaximandro dizia que a ori- gem de tudo está no movimento eterno que resulta na separação dos contrá- rios; como o quente e o frio, o seco e o úmido. Neste sentido, como forma expli- cativa da vida, do mundo e do Universo, o pensamento teológico, impõe tam- bém contrários como o bem e o mal, a virtude e o pecado, o sagrado e o profa- no, o céu e o inferno, anjos e demônios, Deus e o diabo.

Anaximandro é contraditado por Anaxímenes de Mileto (588-524 a.C.) quando afirma ser o ar o princípio e o fim de tudo, dizia que esse elemento se diferenciava nas substâncias por refração e condensação; atenuado torna-se fogo; condensado, vento; ao crescer a condensação, transforma-se em água e

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depois em terra, pedras e tudo mais na natureza. Mas, os gregos também pas- sam a compreender o ar pela expressão pnêuma, ou seja, o vento quente e ra- refeito, de natureza mais espiritual do que material, presente em cada ser vivo e que se exala do corpo como no último suspiro. O ar de Anaxímenes passa a ser entendido como o princípio da vida, algo que entra e sai do corpo, entre o nas- cimento e a morte, por isso passa a significar mais do que uma substancia natu- ral. Dessa idéia mais tarde deriva a concepção de alma e sua imortalidade. A- romatizar o ar passa a ser entendido como forma de melhor sentir sua presença capaz de promover benefícios mágicos para o ser humano. Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.) recebeu o cognome de "pai da dialética", problematiza a questão do devir (mudança) e dizia ser o fogo o princípio expli- cativo para tudo que fosse questionável, para ele tudo muda e tudo flui. Dizia que todas as coisas podem ser transformadas em fogo e que o fogo pode se transformar em todas as coisas. Mas, o pensamento de Heráclito parece ser metafórico, compara a ação do fogo com a ação da moeda pela capacidade que ambos têm de transformar as coisas. Dizia que do mesmo modo como se troca o ouro, no sentido de moeda, por todas as coisas, tudo pode ser trocado por ouro. 2 Suas idéias sobre o fogo, como elemento primordial ou metáfora ex- plicativa, no conceito popular ganha relevância. Além do seu poder de exercer fascinação, o fogo já não se limita apenas à iluminação ou outros serviços; pas- sa a representar mais uma facilidade na relação do humano com o divino. Pa- radoxalmente a filosofia que surge em substituição ao pensamento mítico, a ca- da passo o fortalece.

Empédocles de Agrigento (490-435 a.C.), natural da colônia dórica de A- grigento, na Sicília, realizou uma síntese filosófica e propôs uma explicação ge- ral do mundo, considerando todas as coisas como resultantes da fusão do que considerou os quatro princípios eternos e indestrutíveis; a terra, o fogo, o ar e a água. Acreditava que esses elementos são misturados ou separados pela ação do amor ou pelo ódio. Tese retomada por Platão (428-347 a.C.) e difundida em toda a Antigüidade, chegando até o período moderno nas especulações da al- quimia no Renascimento até o surgimento da química moderna no século XVIII, quando em 1789, Antoine-Laurent Lavoisier publicou a primeira lista de elemen- tos químicos. Depois de Empédocles, Demócrito de Abdera acrescenta mais um elemento, o átomo, acreditava que tudo era composto por átomos e vazio.

O atomismo de Demócrito passa a ser a medida explicativa de tudo.

Pitágoras (570-500 a.C.) identificou o arché no número, afirmando que cada figura geométrica e, portanto, cada corpo existente, pode ser pensado como quantidade finita de elementos-base unitários. Com a certeza de que tudo

é número e tudo pode ser quantificado em números, Pitágoras construiu a pri-

meira matemática e elaborou uma metafísica, um ideal de ordem, racionalidade

e harmonia universal. Para ele o número não era um ente abstrato, mas algo

2 NICOLAS, Ubaldo. Antologia ilustrada de filosofia: das origens à idade moderna (trad. Maria Marghrita De Luca), São Paulo, Ed. Globo, 2005.

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concreto e real com uma dimensão espacial; os números são figuras como e- xemplo o quadrado, o triângulo e o circulo que se apresentam como um ente in- termediário entre a aritmética e a geometria e é capaz de explicar o mundo. Daí se desenvolve a numerologia. No que se refere à magia, Pitágoras também se revela como crédulo das culturas curativas arcaicas baseadas no pensamento mítico. Isso é demonstra- do pela lista de estranhas regras de purificação da alma que impôs aos seus discípulos. Algumas ações eram absolutamente proibidas por motivos religio- sos, como exemplo, não comer favas; não recolher o que caiu; não tocar em um galo branco; não partir o pão para comer; não saltar sobre traves; não atiçar o

fogo com ferro; não morder um pão inteiro; não partir as guirlandas; não se sen- tar sobre um jarro; não comer coração; não se olhar em um espelho perto do fogo; alisar a marca do corpo ao levantar-se na cama. Outra idéia de Pitágoras

é a de que os Astros produzem no seu movimento uma música perfeita e divina,

literalmente celestial, a música das estrelas não é percebida pelos homens por não serem estes perfeitos ou refinados do ponto de vista da suprema purifica-

ção da alma. Pitágoras foi o primeiro filosofo acidental a sustentar a existência da alma

e sua transmigração de um copo para outro no momento da morte. Para ele,

devido à culpa anterior, a alma é obrigada a reencarnar sucessivamente, nem sempre em corpos humanos, mas também em animais, em um ciclo que só é interronpido após a purificação. Esta teoria conhecida como metempsicose, pro- fessada no oriente pelas religiões hinduísta e budista, chegou à Grécia com a seita misteriosa dos Órficos, cresceu com os ensinamentos de Pitágoras e de- pois foi assumida por Platão como explicação da anamnese ou reminiscências. Anamnese, em grego, significa recordação, reminiscências. O termo indi- ca a teoria de origem mítico-filosofica com que Platão tenta explicar o problema do conceito e do conhecimento em geral. Segundo sua hipótese a alma, no sentido da mente humana, não adquire conhecimento a partir do exterior, mas recorda no seu interior, aquilo que outrora adquiriu e depois esqueceu. Reto- mando a teoria da metempsicose de Pitágoras, Platão também acha que as al- mas transmigram de um corpo para outro, mas antes de ocupar um novo corpo têm a possibilidade de contemplar as idéias, o modelo perfeito das coisas. Este conhecimento, perdido no esforço do nascimento, é posteriormente despertado pela observação das coisas. Assim, a percepção do mundo externo não fornece nenhum conhecimento, somente o estimulo à recordação. O conhecimento dá- se por meio de uma visão intelectual, quando o ser humano consegue reconhe- cer na complexidade do mundo real as formas essenciais e prototípicas, ou se- ja, as idéias.

Para os filósofos compreender o mundo era necessário outro princípio, o Kosmos. O significado do termo para os gregos liga-se diretamente às idéias de ordem, harmonia, circularidade e serenidade representada pelos Astros e pelo espaço celeste. O belo resulta da harmonia das formas vistas no Cosmo; daí a

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origem do termo “cosmético” como símbolo de beleza. A visão do Cosmo dis- tinguia a natureza celeste da natureza terrestre, o mundo supralunar e o mundo sublunar que se opunham, um como perfeito e o outro imperfeito. O imperfeito corruptível e perecível se opõe ao perfeito que é eterno e imutável. As coisas terrestres eram imperfeitas, mas ao contrário da Terra, os As- tros celestes eram vistos como perfeitos pela sua forma circular, de movimentos uniformes, sem começo nem fim, sempre girando em torno de um ponto central do qual não se afasta nem se aproxima, habitação dos seres perfeitos e eter- nos. O Cosmo, entendido como ordem, se opõe ao caos que seria precisamen- te a falta de ordem. Passa a ser contemplado pelos pensadores como o mundo real, natural e ordenado de acordo com certos princípios racionais, em que cer- tos elementos são mais básicos e se constitui de forma determinada, tendo a causalidade como lei principal. A astrologia é envolvida pelo pensamento mítico com a idéia de um Cos- mo finito, esférico, fechado sobre si mesmo, inteiramente contido na esfera dos céus, a Terra imóvel em seu centro e fora do qual, como diz Aristóteles, nada existe, nem lugar, nem tempo. Os Astros celestes, principalmente os noturnos como a Lua e as Estrelas, passam a representar o modelo para a vida humana, espelham a virtude, representam a idéia de perfeição que deveria influenciar o humano, suas atitudes e sua existência. Dessa filosofia deriva a convicção da influência dos Astros na vida e no destino das pessoas, é como se a vida de cada um estivesse escrita nas estrelas. Há na concepção grega o pressuposto de correspondência entre a razão humana e a racionalidade do real para a compreensão do Cosmo. É a raciona- lidade do mundo que o torna compreensível ao entendimento humano, a ordem do Cosmo é vista como uma ordem racional, uma realidade possível de ser compreendida. É porque este real pode ser compreendido que se pode fazer ciência, isto é, tentar explicá-lo teoricamente. Daí se origina o termo “cosmolo- gia”, como explicação dos processos e fenômenos naturais e como teoria geral sobre a natureza e o funcionamento do Universo. O Lógos e o Crítico Para o grego compreender o mundo faltava mais um princípio, a argu- mentação da realidade, o discurso, o lógos. O termo significa literalmente dis- curso e é com tal acepção que é explicitado, por exemplo, em Heráclito de Efé- so. O lógos enquanto discurso difere fundamentalmente do mythos, narrativa de caráter poético que recorre aos deuses e ao mistério na descrição do real. É uma explicação em que razões são dadas no discurso dos primeiros filósofos, explicando o real por meio de causas naturais. Lógos são razões argumentativas, frutos não de uma inspiração ou de uma revelação, mas simplesmente do pensamento humano aplicado ao enten- dimento da natureza. É, portanto, o discurso racional em que as explicações são justificadas e estão sujeitas a critica e à discussão (disso deriva o termo “lógica”). Heráclito caracteriza a realidade como tendo um lógos, ou seja, uma

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racionalidade que seria captada pela razão humana. Um dos pressupostos bá- sicos da visão dos primeiros filósofos é a correspondência entre a razão huma- na e a racionalidade do real, o que tornaria possível um discurso racional sobre o real.

Para construir o lógos era necessário o crítico, um dos aspectos mais fun- damentais do saber que fundamenta as primeiras escolas de pensamento, so- bretudo na escola jônica. O caráter crítico impedia que as teorias formuladas fossem dogmáticas, apresentadas como verdades absolutas e definitivas, mas como teorias passíveis de serem discutidas, de suscitarem divergências e dis- cordâncias, de permitirem formulações e propostas alternativas. Como se trata de construções do pensamento humano, de idéias de um filósofo, e não de ver- dades reveladas de caráter divino ou sobrenatural, estão sempre abertas à dis- cussão, à reformulação, a correções. Isso aconteceu na escola de Mileto com os dois principais seguidores de Tales, Anaxímenes e Anaximandro, quando não aceitaram a idéia do mestre de que a água seria o elemento primordial e postulam outros elementos como tendo esta função. Nas escolas filosóficas o debate, a divergência e a formulação de novas hipóteses eram estimulados, a única exigência era que as propostas divergen- tes pudessem ser justificadas, explicadas e fundamentadas por seus autores e submetidas à crítica. O que é acrescentado de novo na filosofia grega, não é a substituição dos mitos por algo mais “científico”, mas sim uma nova atitude em relação aos mitos, a atitude crítica. Em lugar de uma transmissão dogmática da doutrina, na qual todo o interesse consiste em preservar a tradição autêntica, encontra-se uma tradição crítica da doutrina. Outros pensadores começam a fazer perguntas a respeito do mito, duvi- dam de sua veracidade, a dúvida e a crítica tornam-se agora parte da tradição da filosofia. Uma tradição superior que substitui a preservação tradicional do dogma e, em lugar da teoria tradicional, do mito, encontra-se a tradição das teo- rias que criticam a si mesmas e, no decorrer dessa discussão crítica, a obser- vação é adotada como testemunha dos fatos. Não foi por mero acaso que Ana- ximandro, discípulo de Tales desenvolveu uma teoria que divergia explícita e conscientemente de seu mestre, e que Anaxímenes, discípulo de Anaximandro, tenha também divergido. A explicação parece ser que o próprio fundador da es- cola tenha desafiado seus discípulos a criticarem sua teoria, e que eles tenham transformado, com esta atitude de fazer crítica, a tradição da escola, trocando o dogma pela reflexão do pensamento. O Cosmo passa a ser entendido pela astrologia, existe agora uma forma de conhecimento racional sobre os Astros, e surgem os pensadores astrôno- mos. Mas, até o século XVI e o início do XVII o pensamento ainda estava im- pregnado do ocultismo e da magia. A Igreja incorpora e defende o pensamento filosófico; passa a impor a idéia de que o mundo acima da Lua era reservado à habitação das substâncias mais puras, mais perfeitas e divinas, superiores so- bre o mundo imperfeito das coisas terrestres. A filosofia e a Igreja caminham

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juntas e, sob os ditames divinos, reforça que o mundo cósmico é capaz de e- xercer influência sobre as formas de vida existente na Terra. Tinham como pressuposto básico a existência de um mundo perfeito supralunar, habitado por seres perfeitos do qual os humanos, por serem mortais, são apenas cópias im- perfeitas. No século V, a invasão dos bárbaros irrompendo de todos os lados, des- truindo no Ocidente a civilização romana, inicia a Idade Média, provocando no- vas condições políticas e sociais, adversas à conservação e ao desenvolvimen- to da cultura intelectual. É um período de estagnação intelectual em que não houve filosofia propriamente dita, mas houve a preocupação de salvar os res- tos da cultura que estava sendo arruinada com as invasões de povos nômades como os visigodos, suevos, ostrogodos, francos e principalmente os vândalos. O grande trabalho dos intelectuais dos primeiros séculos medievais, não foi criar, mas compilar. E se deve principalmente aos monges, que recolheram em seus conventos muitos manuscritos antigos, que revelavam as sabedorias dos séculos anteriores. Aos poucos, porém, os bárbaros, vencedores, acomo- daram-se à nova situação política e passaram a aceitar os usos e costumes dos povos vencidos, convertendo-se ainda ao Cristianismo. Com isso houve um ressurgimento da cultura e gradativamente as manifestações intelectuais apareceram como doutrinas teológico-filosóficas, que passam a dominar na I- dade Média. Entre o século IX e o XVII o pensamento filosófico se caracteriza pelo problema da relação entre a fé e a razão, associando a filosofia greco- romana à teologia cristã. Apoiada na crescente influência religiosa, a Igreja passou a exercer impor- tante papel político na sociedade medieval. Desempenhou, por exemplo, a fun- ção de órgão supranacional, conciliador das elites dominantes, contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feu- dal. Conquistou, também, vasta riqueza material tornando-se proprietária de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental, numa época em que a terra era a principal base de riqueza. Assim, pôde estender seu poder hegemônico sobre diferentes regiões européias e impor-se como de- tentora da revelação divina, se anunciado como a única fonte de verdade. Filósofos eclesiásticos Desde que surgiu o cristianismo, tornou-se necessário explicar seus ensi- namentos às autoridades romanas e ao povo em geral. A Igreja católica sabia que seus preceitos não podiam simplesmente serem impostos, tinham de ser apresentados de maneira convincente. Foi assim que os primeiros Padres se empenharam na elaboração de textos sobre a fé e a revelação divina. O con- junto desses textos, inspirada na filosofia greco-romana, tentou munir a fé de argumentos racionais e ficou conhecido como patrística, por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja. No plano cultural, a Igreja pas- sa a exercer amplo domínio, trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana.

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A Igreja Católica concedia, através de decreto do Papa, o título de Douctor

Ecclesice (Doutor da Igreja) para àqueles Padres que mais escreviam sobre a doutrina católica, ou que, com maior profundidade, zelo e eloqüência a defen- diam. Muitos foram os escritores eclesiásticos que receberam esse titulo por defender a fé associada com a razão. Entre outros, destacam-se Orígenes, Clemente de Alexandria, Gregório de Nazianzo, Cirilo de Alexandria, Santo Ambrósio e Santo Agostinho.

À medida que a Igreja se tornava a instituição mais poderosa do Ocidente,

a filosofia de Santo Agostinho definia a cultura da época. Educação e cateque-

se praticamente se equivaliam; as escolas eram orientadas para a formação de membros do clero, ficando em segundo plano a transmissão dos conteúdos tra- dicionais. O conhecimento tinha lugar central na filosofia de Santo Agostinho, mas ele se confundia com a fé "Compreender para crer, crer para compreen- der", era uma filosofia condicionada à fé religiosa e, especificamente, à ética

cristã.

A educação conhecida como patrística, termo que se refere aos padres

Magister Ecclesice (Mestres da Igreja), ensinava, instruía e doutrinava estimu-

lando acima de tudo a obediência incontestável ao clero e sua rígida hierarquia.

A disciplina rigorosa era a forma de praticar a resignação e a humildade diante

do desconhecido. A subordinação era a forma de treinar o controle das paixões para merecer a salvação numa suposta vida após a morte. Para a Igreja o conhecimento tinha por base a crença irrestrita ou na ade- são incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. Verdades ex- pressas na Bíblia e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. De acordo com a doutrina católica, a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas, especialmente aquelas essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. Neste sentido, afirmava Santo Ambrósio (340-397) “Toda verdade, dita por quem quer que seja, é do Espírito Santo”. Assim, toda investigação filosófica ou científica não poderia, de modo algum, contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. Segundo essa orientação, os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade, pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. Restava-lhes, apenas, demonstrar racionalmente as verdades da fé. Embora tenha vivido nos últimos anos da Idade Antiga, que se encerrou com a queda do Império Romano, no ano de 476, Santo Agostinho (354-430) foi o mais influente pensador ocidental dos primeiros séculos da Idade Média. A ele se deve a criação de uma filosofia que, pela primeira vez, deu suporte ra- cional ao cristianismo; numa época em que a cultura helenística (baseada no pensamento grego) havia entrado em decadência e a nova religião conquistava cada vez mais seguidores, embora se fundamentasse quase que exclusiva- mente na fé e na difusão espontânea. Outros pensadores já haviam se dedicado à revisão da cultura clássica (greco-romana) para adaptá-la aos novos tempos. Era uma forma de mostrar

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aos indecisos que a conversão ao cristianismo não seria incompatível com ma- neiras de viver e de pensar a que estavam acostumados. Entre os pensadores gregos, o que mais se prestava à construção de uma filosofia cristã era Platão

e a escola de pensamento, nos primeiros séculos da Idade Média, ficou conhe-

cida como neoplatonismo. No século VIII Carlos Magno, convertido ao catolicismo, resolveu organi- zar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições ca- tólicas. A cultura greco-romana, guardada nos mosteiros até então, voltou a ser divulgada, passando a ter uma influência mais marcante nas reflexões da épo- ca. Na educação romana, começaram a ser ensinadas as matérias: gramática, retórica e dialética (o trivium) geometria, aritmética, astronomia e música (o quadrivium). Todas elas estavam, no entanto, submetidas à teologia. A funda- ção dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosófico-teológica denominada escolástica (de escola).

A queda do império romano aconteceu com a deposição do último monar-

ca pelos germânicos. Os quase mil anos seguintes seriam englobados pelos historiadores no período da Idade Média, que tem entre suas características principais o domínio da Igreja Católica sobre quase todas as atividades huma- nas. A filosofia de Santo Agostinho domina a primeira fase da Idade Média (mais ou menos até o século XI), marcada por guerras constantes, decadência

das cidades, pulverização do poder político e internacionalização da cultura por meio da Igreja. É uma época em que a educação é eminentemente religiosa e

a ciência avança pouco e se difunde menos ainda.

A partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pen-

samento escolástico, marcando-o definitivamente. Isso se deveu à descoberta

de muitas obras de Aristóteles, não descobertas até então, e à tradução para o latim de algumas delas, diretamente do grego. A busca da harmonização entre

a fé cristã e a razão manteve-se, no entanto, como problema básico de especu-

lação filosófica. Nesse sentido, o período escolástico pode ser dividido em três

fases:

Fase um (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão.

Fase dois (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos, merecendo desta- ques nas obras de Tomás de Aquino. Nesta fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida.

Fase três (do século XIV até o século XVI): decadência da escolás- tica, caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais en- tre fé e razão.

escolástica chega ao seu ápice com Santo Tomás de Aquino (1225-

1274), é quem que proporciona ao pensamento cristão uma filosofia que con- verge não apenas o pensamento patrístico e escolástico, mas também o pen- samento helênico, enriquecido com a filosofia aristotélica. Considera também a

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filosofia como absolutamente distinta da teologia, - não oposta - visto ser o con- teúdo da teologia arcano e revelado, o da filosofia evidente e racional. Inaugura a fase do Tomismo, adotada oficialmente pela Igreja Católica, que considera como a solução definitiva do problema das relações entre a razão e a fé. O Tomismo se caracteriza pela tentativa de conciliar o aristotelismo com o cristia- nismo, rompendo com todas as doutrinas que não se harmonizavam com os princípios da filosofia aristotélica.

Tomás de Aquino trata de duas formas o conhecimento: a filosofia e a teologia; a primeira funda-se no exercício da razão humana; a segunda, na re- velação divina. São independentes, mas apresentam às vezes o objeto material comum, como exemplo, a existência de Deus, a essência da alma, a revelação intuitiva. A distinção entre essas formas de conhecimento deriva mais do objeto formal, pois a teologia estuda o dogma pelo método da autoridade ou revela- ção, ao passo que a filosofia o considera por demonstração científica ou pela razão.

A doutrina tomista admite que a alma, princípio espiritual, se junta ao cor- po, princípio material, constituindo um composto substancial. Assim, as plantas têm uma alma, é a "alma vegetativa", com as funções de alimentação e repro- dução; nos animais, é a "alma sensitiva", com as funções anteriores, mais a sensação e mobilidade; finalmente, o homem com todas as funções anteriores, mais a racional. No concernente às propriedades da alma humana, admite o li- vre-arbítrio, que é estudado sob todos os seus aspectos e todos os problemas dele derivados são resolvidos com firmeza e profundidade. Tomás de Aquino considera ainda a inteligência como a faculdade mais perfeita de nossa alma.

Sustentado pela filosofia, o pensamento teológico do século XVI e XVII ainda defendia que os Astros, perfeitamente lisos e esféricos, eram o oposto ao mundo imperfeito do dia a dia dos homens. A concepção da Terra não perfeita, não lisa como os Astros do céu, induzia a crença de que as montanhas existem em virtude do pecado de quem habitava esse mundo fechado, no topo do qual estava seu “teto”; o céu habitado por Deus, lugar para onde se dirigiam os ho- mens bons depois da morte. Essa forma de pensar confirma as idéias de Pitá- goras e depois Platão quando justificam a condição de mortal do ser humano, separando o corpo da alma, dando-lhe eternidade, após a morte, para viver no mundo perfeito como recompensa por ter tido uma vida terrena de virtudes. A Igreja católica parece incorporar definitivamente em seus rituais, repre- sentações, valores e idéias dos primeiros filósofos. A noção de physis e casua- lidade, o arché, o kosmos, o crítico e o logos, relacionados por Aristóteles, es- tão presentes na filosofia teológica, independentemente das diferentes interpre- tações dadas pelos filósofos eclesiásticos. A prática religiosa conserva os ele- mentares como a água e o sal no batismo, o ar no incenso, o fogo nas lampari- nas e velas, o ouro, a prata e outros minerais na construção e decoração dos templos e nos instrumentos litúrgicos. Os Astros compondo o mundo celestial como idéia de perfeição, pureza e beleza divina.

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A ciência experimental Ainda na Grécia antiga aparecem pensadores que, fazendo especulações sobre os Astros celestes, iniciam a quebra do mito filosófico incorporado ao dogmatismo da igreja. Aristóteles de Estagira explicou que as fases da Lua de- pendem de quanto da parte de sua face é iluminada pelo sol e está voltada para a Terra e, ainda, explicou como ocorre um eclipse. Heraclides de Pontus propôs que a Terra gira diariamente sobre seu próprio eixo e que Vênus e Mercúrio gi- ram em órbita do Sol. Aristarco de Samos foi o primeiro a propor que a Terra se movia em volta do sol, antecipando as idéias de Copérnico em quase dois mil anos. Eratóstenes de Cirênia (240-194 a.C.), foi diretor da biblioteca Alexandri- na e o primeiro a medir o diâmetro da Terra. Hiparco de Nicéia, considerado o maior astrônomo da era pré-cristã, construiu um observatório na ilha de Rodes, onde fez observações durante o período de 160 a 127 anos a.C. O último as- trônomo importante da antiguidade foi Ptolomeu que, afirmando ser a Terra o centro do Universo, cria o modelo geocêntrico. Quanto mais se especulava sobre o mundo Cósmico, mais o homem de- sejava voar ou, de algum modo, conquistar esse privilégio. Esse desejo funda- menta-se em uma ambição muito antiga; a mitologia, a arte e a literatura de to- das as épocas e culturas estão repletas de imagens de homens-pássaros e do anseio humano de alcançar os céus. Uma das figuras mais célebres da mitolo-

grega é Ícaro, filho do arquiteto Dédalo de Creta. Para que Ícaro fugisse da

gia

ilha onde estava aprisionado, seu pai construiu-lhe asas de cera. Ícaro conse- guiu escapar, mas sua ambição o levou a um vôo tão alto que o Sol acabou por

derreter a cera. Ícaro caiu no mar e morreu.

Entre a Baixa Idade Média (século XI ao XV) até a Idade Moderna (século

XV ao XVIII), para a Igreja as estrelas e os planetas estavam todos fixos na a-

bóbada celeste e a Terra era o centro do Universo. Mas, nessa mesma época, tem inicio outra forma de pensamento, a ciência experimental, que vai transfor- mar gradativamente a reflexão filosófica em algo mais objetivo, direto, concreto, portanto, experimentável. Com essa nova visão de mundo, a observação dos Astros celestes continua encantando muitos pensadores, entre eles Nicolau Copérnico que estabeleceu o Modelo Heliocêntrico (O Sol como centro do Uni- verso) e criou conceitos importantes. Observou que a Terra é um dos seis pla-

netas, então conhecidos, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, gi- rando em torno do Sol. Deduziu que quanto mais perto do Sol está o planeta maior é sua velocidade orbital. Baseado em Copérnico, Kepler cria a Lei das

Órbitas Elípticas, afirma que a distância do Sol ao planeta varia ao longo de sua órbita. Cria também a Lei das Áreas, afirmando que a reta unindo o planeta ao

Sol varre áreas iguais em tempos iguais e finaliza com a Lei Harmônica, estabe-

lecendo que planetas com órbitas maiores se movem mais lentamente em torno do Sol. Até o século XVI e no início do XVII, mesmo com o avanço do conheci- mento sobre o Universo, a Igreja ainda conservava o pensamento dos antigos

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filósofos, impregnado do ocultismo, travando o desenvolvimento da ciência.

Mas, pouco a pouco foi perdendo a autoridade para impor sua “revelação” e o fosso entre a religião e a Ciência tornou-se intransponível. Francis Bacon con- testa afirmando que o papel da Igreja deveria ser o de apenas responder ques- tões sobre Deus e não explicar a natureza. Dizia ser competência humana in- vestigar, através da observação e da experimentação dos fenômenos, para que

a natureza revelasse seus segredos. Bacon inaugura uma nova forma de pen-

samento, tendo como principal edificador Galileu Galilei (1564-1642). Embora a tradição filosófica do saber aristotélico, incorporada à teologia católica sustentada pela Igreja e ensinada nas escolas, viesse sendo cautelo- samente criticada, Galileu foi quem mais frontalmente se opôs, embora outros os tenham antecedido como Giordano Bruno, Copérnico, Bacon; além dos seus contemporâneos, Descartes, Campanella e Johann Kepler. Mas foi Galileu o primeiro a formular o método experimental para se chegar à resposta. Foi o pri- meiro a formular o problema crítico do conhecimento.

Entre todos os astrônomos, da Idade Média até a Moderna, Galileu Gali- lei, italiano nascido em 1564, nas proximidades de Pizza, foi o mais brilhante. Inventa a luneta e, com esse instrumento, transcende o limite da visão e dos conhecimentos da época. Galileu viu o mundo celeste como ninguém antes de-

le tinha visto; as montanhas da Lua, os satélites de Júpiter e o anel de Saturno,

a constituição da Via Láctea e de várias nebulosas. Essa nova visão do Cosmo

consolidou o modelo heliocêntrico, embora a Igreja ainda impusesse o modelo geocêntrico, Galileu sustentou a nova verdade contrária ao dogma da igreja.

Do ponto de vista da historia do conhecimento, Galileu foi o primeiro a es- tabelecer uma linguagem adequada para interrogar a natureza, através do mé- todo teórico experimental estabeleceu passos como a observação dos fenôme- nos, a análise dos elementos constitutivos desse fenômeno, a indução e con- firmação das hipóteses e a generalização dos resultados. Cria a teoria das ex- periências coincidentes e estabelece o principio de Causa e Efeito para explicar os fenômenos. Com isso inaugura o processo de pensamento no qual a respos-

ta se revela por dedução a partir dos fatos observados.

Galileu rompe definitivamente com a filosofia tradicional e cria seu método científico baseado nas observações, nas vinculações do que via com as de- monstrações quantitativas (matemáticas) dos fatos. Cria assim dois princípios inseparáveis para a construção da pesquisa; a observação e a dedução. Da ex- periência sensível dos fatos, da dedução necessária, seria inferida a solução do problema investigado. Seu método pode ser resumido em quatro momentos:

A observação imediata do fenômeno na sua complexidade.

Resolução da complexidade nos elementos simples traduzíveis em re- lações quantitativas, ou em linguagem matemática.

Formulação de uma hipótese explicativa (momento teórico).

A experimentação; verificação da hipótese com cálculo e experimento.

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Galileu passa dos fatos à idéia da sua conexão racional, e desta, volta aos fatos, mas com a dedução de questionamentos. Suas observações se transformam em provas e documentação contrária a tradição aristotélica medie- val e a Igreja. Descobre que Copérnico tinha razão, o Sol estava no centro do Universo e a Terra gira em torno dele. Com essas descobertas o homem perde

a certeza de sua saúde baseada na serenidade dos Astros e a certeza do Céu

como local de destino depois da morte. Tudo conta contra os dogmas da Igreja

e Galileu é, por isso, condenado pela Inquisição em 1633 e, para escapar da

fogueira, é obrigado a renegar suas afirmações. Morreu em 1642, aos 78 anos de idade, completamente cego, sendo que sua cegueira foi atribuída pelo clero como castigo divino. Na investigação científica do Universo merece destaque também o astrô- nomo alemão Johann Kepler (1571-1630), nascido em Weil der Stadt, na Swa- bia, na Alemanha Sul-Ocidental. Adoentado desde o nascimento prematuro, Kepler ainda criança sofreu de varíola e várias outras enfermidades. Em 1584 entrou no seminário protestante em Adelberg, e em 1589 na universidade pro- testante de Tubingen, onde estudou principalmente teologia e filosofia, mas também matemática e astronomia. Seu professor de matemática, embora proi- bido pela Santa Inquisição de ensinar a teoria heliocêntrica de Copérnico, acre- ditava nela e a transmitia discretamente aos alunos, apesar de oficialmente en- sinar o sistema geocêntrico de Ptolomeu. Com menos de 25 anos de idade Ke- pler tornou-se professor de Ciências na Universidade de Graz, na Áustria. Foi ele quem primeiro suspeitou que os planetas apresentassem órbitas elípticas e não circulares, como acreditava Copérnico. Logo depois de ordenar-se pastor protestante, Kepler recebeu a oferta pa- ra ser professor de astronomia em Graz, na província austríaca de Styria, desis- tindo da carreira de sacerdote seguiu para Graz em 1594. Um de seus deveres como professor era fazer predições astrológicas, previu corretamente um inver- no rigoroso e, após isso, sua reputação aumentou. Absorvido na busca de um modelo geométrico para o sistema de Copérnico chegou a uma teoria sem fun- damento, a idéia de que um mundo perfeito seguiria as leis da geometria e as órbitas dos 6 planetas então conhecidos deveriam circunscrever os cinco sóli- dos regulares possíveis; a órbita da terra, a medida para as demais órbitas, cir- cunscreveria um dodecaedro. Os resultados coincidiram com a maior parte das precárias observações baseadas nas idéias de Pitágoras, e Kepler, satisfeito, publicou sua teoria em Mysterium Cosmographicum (O mistério do Universo). As idéias de Kepler impressionaram a Tycho Brahe, o famoso astrônomo

e matemático da corte do imperador em Praga que o convidou para integrar sua equipe de astrônomos e incumbiu-o de calcular a órbita de Marte. A astronomia aristotélica em vigor partia da pressuposição de que os corpos celestes descre- viam órbitas circulares uniformes, eram homogêneos e perfeitos. O movimento dos Astros era "natural", não tinha agente externo, pertencia ao corpo. Ignora- va-se a gravidade.

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Com o falecimento de Tycho Brahe, Kepler assumiu o posto de matemáti- co da corte e chefe do observatório. Dispondo agora de todas as informações de que necessitava, compreendeu que as órbitas dos planetas eram em função da atração solar e apenas das elipses. Concluiu que os planetas se movem se- gundo a elipse e a velocidade dos planetas ao redor do sol variava na propor- ção que se distanciavam para o extremo oposto da elipse ou se aproximam do foco solar (perihélio). Quando o imperador Rodolfo inesperadamente abdicou em 1611, Kepler decidiu abandonar Praga conseguindo um emprego de profes- sor em uma pequena escola em Linz, na Áustria, em 1612. Onde publicou, em 1618, Epitome Astronomiae Copernicanae.

Durante certo tempo, Kepler manteve correspondência com Galileu, que chegou a enviar-lhe um dos telescópios que construiu. Com esse instrumento, confirmou a existência das "luas" de Júpiter, de cuja existência duvidava até en- tão. Para designar esse tipo de corpo celeste, foi o primeiro a usar o termo "sa- télite" que em latim significa: servente ou acompanhante. Ele também projetou um telescópio e um microscópio, aperfeiçoando os que existiam até então, e fez experimentos com a reflexão e a refração da luz. Escreveu também a obra Somnium, em que narra a viagem que um homem realiza, em sonhos, até a Lua e que contém descrições das superfícies desse satélite. Do ponto de vista mítico, a descoberta de Kepler fez o povo acreditar mais ainda na influencia dos Astros sobre a vida e a sorte, afinal estava com- provada à idéia da existência de uma força universal e invisível que determina- va o movimento dos Astros. O futuro também vai tornar realidade a sua narrati- va do sonho de um homem a uma viagem a Lua. Quanto mais se conhecia os segredos do Universo mais o homem tentava construir máquinas de voar. Leonardo da Vinci, no início do século XVI, dese- nhou esquemas de aparelhos muito parecidos com os atuais helicópteros. Para isso, estudou a anatomia dos pássaros e seus movimentos de vôo, mas, apesar de avançadas, suas concepções não saíram do papel porque faltava o conhe- cimento das leis fundamentais da aerodinâmica que seriam formuladas posteri- ormente por Isaac Newton.

À medida que a ciência se desenvolvia tornava-se mais viável o sonho de

voar e crescia o interesse da literatura pelo assunto. Nos séculos XVIII e XIX, grandes escritores tentaram captar a força dos sentimentos quase mágicos pro- vocados pela chamada "conquista do espaço". Em 1865, o romancista francês Jules Verne, um dos pioneiros da ficção científica, lançou o livro com o título Da Terra à Lua, contando a história de um homem enviado ao espaço dentro de

uma cápsula, impulsionada por uma espécie de canhão gigante. Método Cartesiano-Newtoniano

O desenvolvimento das navegações, do comércio, da manufatura, as no-

vas terras que são incorporadas ao circuito comercial europeu, a afirmação da burguesia mercantil por trás de quase todos os grandes empreendimentos, es-

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pecialmente nas cidades portuárias, origem do sistema capitalista, modifica a maneira de viver e afeta o plano das idéias. Os intelectuais ligados diretamente à Igreja começam a ser substituídos por outros não comprometidos com dog- mas religiosos. No plano do conhecimento, quanto à racionalidade do sentido da vida, também ocorrem mudanças e, entre os séculos XIV e XV, reaparece o huma- nismo, doutrina que tem como princípio a idéia de que o homem é a medida de todas as coisas, elaborada por Pitágoras. O século XVI retoma esse pensamen- to, ou seja, o conhecimento do homem pelo homem, é a idéia de que o homem se faz por si mesmo. Trata-se agora não do ser humano contemplar a natureza, mas intervir nela, atuar sobre ela. O humanismo ressurge como movimento nas artes, na literatura e na filo- sofia durante o pré-renascimento italiano, que considera a volta à cultura e aos ideais da antiguidade greco-romana como única maneira de restaurar e valori- zar a dignidade do espírito humano. É uma reação contra a escolástica, o con- junto das doutrinas oficiais da Igreja católica que tenta conciliar razão e fé e, nesse sentido, opõe-se potencialmente às religiões reveladas, como o cristia- nismo. Na primeira metade do século XVII, René Descartes (1596-1650), seu nome em latim era Cartesius, daí a expresão cartesiano, foi um filósofo e ma- temático francês que ainda jovem tinha como ambição desenvolver um método universal e cientifico de raciocínio que, aplicado a qualquer tipo de dado, produ- zisse conclusões prontamente verificáveis. Repensou a filosofia da sua época, desenvolvendo um corpo doutrinário segundo a imagem da “árvore do conhe- cimento”, cujas raízes são a metafísica, o tronco a física, e os ramos as ciências derivadas, de modo especial a medicina, a mecânica e a moral. Descartes afasta-se dos processos indutivos de Galileu e propõe o méto- do racionalista-dedutivo, afirmando ser o único meio científico para se chegar à certeza. Seu método (cartesiano) é executado quando se pesa, mede e quanti- fica, é totalmente fundamentado nas leis da física e instrumentalizado, sobretu- do com o uso da Matemática e postula quatro regras básicas para se chegar á verdade científica:

Regra da evidência – Não acolher jamais como verdadeira uma coisa que não reconheça como tal.

Regra da Análise – Divide cada dificuldade em tantas partes quanto necessárias para resolvê-la (reducionismo).

Regra da Síntese – Conduzir ordenadamente os pensamentos, ou seja, ordenando através de complexidade crescente.

Regra da Enumeração – Realizar enumeração cuidadosa para ter cer- teza de não haver omissões. Descartes utilizava a dúvida metódica como instrumento básico de ra- ciocínio contra o dogmatismo vigente na época. O seu método é analítico e im-

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plica na decomposição do objeto em seus componentes básicos “penso, logo existo”. Na sua visão toda a natureza divide-se em domínios distintos e inde- pendentes; o da mente (res cogitans) e o da matéria (res extensa); “coisa pen- sante” e “coisa extensa”, alma e corpo, sendo ambas determinadas por uma terceira, eterna e infinita substância, Deus. Sob sua orientação intelectual, sur- giu a concepção mecanicista; o homem-máquina habita o grandioso Universo- máquina, regido por leis matemáticas perfeitas. Descartes tornou-se o pai do conhecimento moderno (o conhecimento cartesiano) e profeta do racionalismo moderno. Cria o método da investigação científica, da organização sistemática, e faz surgir a metodologia da pesquisa dando uniformidade ao pensamento. A certeza agora vem através da razão e a verdade se revela a partir da: a) Observação do fenômeno b) Análise dos ele- mentos constitutivos desse fenômeno c) Indução de hipóteses d) Verificação das hipóteses e) Generalização dos resultados f) Confirmação das hipóteses. O método de Descartes é fundamentado em quatro princípios básicos: 1) Jamais aceitar alguma coisa como verdadeira sem ter certeza de que esta o é, ou seja, evitando a precipitação e a prevenção (dúvida sistemática); 2) Dividir os conceitos complexos em conceitos cada vez mais simples, facilitando o seu entendimento e análise (reducionismo); 3) Ordenar os pensamentos de forma a começar pelos mais simples avançando até os mais complexos, de maneira a assegurar uma melhor compreensão dos mesmos; 4) Fazer o máximo de pos- sibilidades para poder escolher a mais genérica e fazer o máximo de revisões possíveis, para ter certeza de não esquecer de nada. Utilizando os princípios dedutivo e indutivo e as regras de Descartes, no início do século XVIII, Isaac Newton (1642-1727) matemático, físico, astrônomo

e teólogo inglês, publica como obra exponencial Os Princípios Matemáticos da

Filosofia Natural, que constitui a mais ampla e acabada sistematização da física clássica, expondo os princípios e a metodologia da moderna pesquisa científica da natureza. Graças a ele, estabeleceu-se a visão do mundo como uma espe- tacular e perfeita máquina, movida por leis causais. Inicia o novo paradigma que estuda as partes para se chegar ao todo e, nesta perspectiva, tudo é visto como uma máquina e deve se entender cada peça para entender o que é o todo (a máquina), reduzindo-se a sua menor parte, melhor será o entendimento pela simplificação do problema. A verdade científica tem explicação mecânica (indu- tiva) e não inferitiva. Esse novo método em busca de respostas passa a ser co- nhecido como paradigma Cartesiano-Newtoniano. Uma referência a Descartes

e a Newton. Isaac Newton é o fundador da Mecânica Clássica, foi quem estabeleceu,

a lei gravitacional defendida no seu livro Principia (1713), obtida a partir da ob-

servação dos fatos particulares, chega-se por indução ao estabelecimento da lei geral e, a partir desta, por dedução, outros fatos particulares são também inferi- dos. Superando o método empírico-indutivo de Bacon e Galileu e o racional-

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dedutivo de Descartes, o seu sistema de pensamento científico unificou a me- todologia da experiência e da matematização. Foi Newton quem deu a explicação completa ao movimento e à forma como as forças atuam criando a Lei da Inércia, Lei da Força, Lei da Ação e Re- ação e estabeleceu os grupos de conceitos que conformam o substrato concei- tual da ciência moderna; os conceitos de espaço e tempo absolutos e o de par- tículas materiais, que se movimentam e interagem mecanicamente no espaço tridimensional. Estabeleceu os conceitos de forças fundamentais distintas da matéria e a descrição dos fenômenos em termos de relações quantitativas, e o conceito de rigoroso determinismo e da possibilidade de uma descrição objetiva dos fenômenos naturais.

O paradigma cartesiano-newtoniano consolidou-se no século XVIII, influ- enciando o chamado Iluminismo, sendo um dos principais mentores desse mo- vimento John Locke (1632-1704), filósofo inglês que, influenciado por Hobbes (1588-1679), advogava o empirismo filosófico reduzindo o conhecimento ao seu aspecto psicológico. Criticava a teoria do inatismo defendida por Platão (idéias inatas existentes no espírito humano) e considerava não existir nenhuma ver- dade autônoma, a mente era como um tipo de papel em branco, onde todo o conhecimento seria gravado a partir da experiência sensível e da reflexão. Foi a ciência cartesiano-newtoniana que concretizou o sonho do homem voar e dominar os céus e, neste sentido, foi dado um grande salto em 1901, ano em que o brasileiro Alberto Santos-Dumont fez um pequeno vôo em torno da Torre Eiffel, em Paris, a bordo de um balão de hidrogênio equipado com um pequeno motor a gasolina. Mas seu grande êxito seria em outubro de 1906, com o histórico vôo do 14-Bis. Pela primeira vez um aparelho mais pesado que

o ar foi capaz de levantar vôo por meios mecânicos próprios. Começava ali uma

nova fase na história da humanidade. Em outubro de 1957, os russos puseram em órbita o primeiro satélite da Terra fabricado pelo homem, o Sputnik. Em abril de 1961, o russo Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem a viajar em órbita em torno do planeta. Oito anos depois o astronauta americano Neil Armstrong, entrava para a história como o primeiro homem a pisar na Lua e avistar a Terra de lá.

Finalmente "Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para

a humanidade", com essa frase Neil Armstrong registrou o momento em que pi-

sava o solo da Lua, em companhia do piloto Edwin Aldrin. O terceiro astronauta,

Michael Collins, permaneceu a bordo da nave Apollo XI. Em 20 de julho de 1969, a Terra inteira acompanhou pela TV uma das mais fascinantes experiên- cias vividas pelo homem. Até hoje sondas continuam pesquisando planetas, es- trelas e fenômenos em distâncias remotas, numa tentativa de satisfazer a curio- sidade humana, provavelmente infinita como o Universo. Em termos de compreensão do mundo, a percepção humana deu um e- norme salto. Mas, no curso do desenvolvimento científico e tecnológico apare- ceu uma série de problemas globais que prejudicam a vida humana de manei-

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Antonio Almeida Carreiro, Dr. Sc.

ras tão alarmantes que logo podem se tornar irreversíveis. Ao lado das grandes conquistas espaciais, os cientistas criaram tecnologias e sistemas armamentis- tas que ameaçam varrer a vida do Planeta. Serviu ao poder e a acumulação de riquezas para poucos em detrimento do empobrecimento de muitos seres hu- manos. O progresso da ciência também contaminou o meio ambiente e degra- dou biosfera. Com todo avanço do conhecimento muito pouco se viu no sentido de pre- servar a vida coletiva e harmônica entre os seres e a natureza. Embora muito se tenha conquistado no sentido de descobrir a imensidão do Universo, pouco avanço ocorreu para desvendar a mente humana e o sentido da vida. Enfim, é

hora de iniciar uma nova forma de pensar que desenvolva o espírito crítico para

a autopreservação da vida de forma integrada e sistêmica. É hora de avançar

na conquista do espaço interior, na exploração do potencial da mente humana.

Ciência Sistêmica ou Holística No final do século XIX, a física clássica encontrava-se em pleno apogeu,

com seus grandes pilares: a Mecânica, a Termodinâmica e a Eletricidade, mas

o paradigma mecanicista começou a ser abalado seriamente, nas primeiras dé-

cadas do século XX, pelas pesquisas dos fenômenos elétrico-magnéticos e a natureza subatômica da matéria. Começava a surgir uma nova Física, facilitan-

do o surgimento de um novo paradigma, a noção cartesiano-newtoniana do

mundo como uma máquina torna-se, por fim, obsoleta e insustentável, encontra oposição com um conjunto de conceitos que inicia uma nova forma de pensar.

É

ência holística. Albert Einstein (1879-1955) investigado a natureza subatômica da maté-

ria, questiona o mecanicismo perguntando como se explica, de forma mecânica,

a transmissão da luz e das ondas eletromagnéticas através de espaços com

ausência de matéria. Cria a teoria da relatividade, afirmando que todo conheci- mento é relativo, a compreensão dos espaços vazios entre os elementos do á-

tomo de uma matéria sólida passa a negar as concepções da física ortodoxa. A partir dele, pode-se dizer, inicia o paradigma Holístico ou Sistêmico como uma nova tendência do pensamento. O holismo substitui o mecanicismo, que vê o Universo como uma máqui- na determinística, sem negar as características mecânicas que se apresentam na natureza, percebe o Universo como uma rede de inter-relações dinâmicas e orgânicas. Essa nova visão muito se deve a Karl Ludwig von Bertalanffy (1901- 1972), austríaco nascido em Viena, que desenvolveu a maior parte do seu tra- balho nos Estados Unidos da América. Foi o fundador da Teoria Geral dos Sis- temas, fez seus estudos em biologia e interessou-se desde cedo pelos orga- nismos e pelos problemas do crescimento. 3

o início do novo paradigma; o nascimento da chamada visão sistêmica ou ci-

3 BERTALANFFY, Ludwig von. Teoría general de los sistemas, (trad. Juan Almela), Madrid, 2ª. Fondo de Cultura Econômica, 1981.

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Bertalanffy, não concordando com a visão cartesiana do universo, colocou uma abordagem orgânica da biologia e tentou fazer aceitar a idéia de que o organismo é um todo maior que a soma das suas partes. Criticou a visão de que o mundo é dividido em diferentes áreas, como física, química, biologia, psicologia, etc. Ao contrário, sugere o estudo dos sistemas globais, de forma a envolver todas as suas interdependências, pois cada uma das partes, ao serem reunidas para constituir uma unidade funcional maior, desenvolve qualidades que não se encontram em seus componentes isolados.

A linguagem de bloco, base para a análise dos sistemas, foi elaborada

por Bertallanfly e, a partir daí, facilitou investigar o objeto da pesquisa como um

subsistema que faz parte de sistemas maiores. A linguagem mostra o grande bloco, no qual se enquadra o objeto de estudo e o todo composto de subsiste- mas auto-organizados e interdependentes que isolados possui características, elementos e padrões que se alteram no conjunto. Isso quer dizer que a parte se transforma e, para se entender a parte, é preciso conhecer o todo.

A teoria da biologia sistêmica elaborada por Bertallanfly, associada às

contribuições de outros pesquisadores modernos, evolui para a Teoria Sistêmi- ca da Vida; nada vive isoladamente. A nova visão da ciência nega o reducio- nismo quando afirma que do todo se pode entender a parte e não da parte se pode entender o todo. Considera que cada parte, quando analisada isolada- mente, apresenta características que no todo se modificam. Na ciência moderna o conceito do mundo é de um todo unificado e inse- parável, é uma complexa teia de relações onde todos os fenômenos são deter- minados por suas conexões com a totalidade. Essas conexões podem ser lo- cais e não-locais, instantâneas e imprevisíveis, conduzindo a uma nova noção de causalidade estatística, que supera e transcende a concepção clássica e li- near de causa e efeito. Nesta perspectiva a realidade apresenta-se essencial- mente dinâmica, não há inércia, passividade ou imutabilidade; tudo vibra e se renova perpetuamente e o único que permanece é a mudança. Essa filosofia abandona a idéia de constituintes fundamentais da matéria, não aceitando ne- nhuma constante, lei ou equação fundamental. O Universo é descrito como uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados, cuja estrutura é determinada pela coerência total de todas as suas inter-relações.

A idéia cientifica moderna cria uma visão inacessível à mentalidade carte-

siano-newtoniana. Surge uma realidade onde só há espaço, sem nenhuma divi- são, onde toda fronteira é criação da mente humana. Não há lugar para teorias definitivas diante do conceito de não-separatividade, de correlação, de teia de interconexão, onde cada elemento de um campo é um evento refletindo e con- tendo todas as dimensões desse campo. É uma visão do todo e cada uma de suas partes, estreitamente ligadas, em interações constantes e paradoxais.

Nesta visão o todo é maior que a soma de suas partes, sendo que cada parte contém o todo, mas o todo não contém a parte. Se uma parte for dissecada e

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Antonio Almeida Carreiro, Dr. Sc.

conhecida, no conjunto passa a ser desconhecida porque vai apresentar outras propriedades que isoladamente não se revelam.

O paradigma holístico desenvolveu-se a partir de uma concepção sistêmi-

ca, nele subjacente, essa abordagem consiste na consideração de que todos os fenômenos ou eventos se interligam e se inter-relacionam de uma forma global; tudo é interdependente. A Natureza transcende a toda e qualquer noção de en- tidade ou elemento, o Universo é uma teia dinâmica de eventos interconecta- dos, onde cada partícula, de certo modo, consiste em todas as demais partícu- las. Então, a abordagem holística pode ser assim sintetizada: a) Integra e ultra-

passa a dualidade e a dialética. b) Estimula a integração transdisciplinar. c) Transcende e amplia as metas preestabelecidas. d) Estimula e encoraja a pes- quisa de novos caminhos.

A maneira pela qual o pensamento se estruturou para produzir o conhe-

cimento mudou muito no decorrer dos séculos, mas, a cada mudança, reflete fragmentos dos modos de produção e reprodução anteriores. É por isso que, de certa forma, o conhecimento atual volta aos pré-socráticos, que não distinguiam filosofia e mística, ciência de poesia e arte. Aristóteles denominou de física à fi- losofia e esta abrangia a lógica, a ética, a estética e fenômenos da natureza e,

a partir daí, os filósofos tinham uma compreensão total da realidade.

Na nova visão de ciência é preciso um tipo de pesquisador; diferente da- quele que rejeita tudo que não se enquadra na síntese dos dados científicos. Este pesquisador deve ser, ao mesmo tempo, racional e intuitivo para buscar além do raciocínio crítico, respostas para as questões do homem e da natureza. Como alguém que encara os acontecimentos não como ocorrências separadas, mas como elos num sistema. Na fase atual da pesquisa acadêmica todos os ramos do conhecimento devem ser abrangidos pela transdisciplinaridade. Sem negar a especialidade, a transversalidade dos temas entre si é que induz o questionamento do real, numa abordagem aberta e evolutiva.

A verdade é que o pensamento científico, metódico, sistemático, respon-

sável pelo grande salto da humanidade, tem pouco mais de três séculos e o pa- radigma científico do século XXI, apenas começando, já aponta respostas antes imaginável. Na dedicação da conquista do Cosmo pouco avanço ocorreu para o conhecimento de algo bem mais próximo, que ultrapassa os limites da lógica e da razão, que mesmo perto está muito além dos limites dos olhares, além do Céu e das Estrelas; a consciência do Universo Interior e sua auto-sustenção. Assim, a ciência moderna reforça uma tese antiga e recomenda também que nunca é demais relembrar a inscrição no Templo de Delfos, “homem, conhece- te a ti mesmo e conhecerás o Universo”.

No estágio atual a humanidade crê tudo dominar e controlar, acredita que nada possa escapar ou ultrapassar seus conhecimentos científicos, mas, por não ter a ciência todas às respostas, o ser humano ainda recorre aos precon- ceitos e mitos para explicar o que não pode compreender. No debate filosófico da eterna busca do conhecimento, está amadurecendo teorias afirmando que a

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sociedade humana caminhará para a evolução da consciência sobre as coisas

e não no domínio e controle das coisas. É uma nova forma de responder e compreender questões sobre si mesmo e sobre a natureza do mundo.

O desenvolvimento da consciência envolve um conjunto de práticas que

requerem novos pensamentos, novos valores e novas atitudes com relação ao

mundo. Nesta nova era do pensamento, o homem não atribui à natureza um va- lor apenas instrumental ou de uso excessivo, justificado pela competição e a- cumulação de riqueza a qualquer custo. Embora aponte para o desejo de mu- dar a forma de pensar e de agir, parece que o ser humano ainda não percebeu completamente sua relação com a natureza. Mas, a nova visão de ciência já vê

o mundo como uma teia de fenômenos essencialmente inter-relacionados e in- terdependentes.

O ser humano é um ser em evolução biológica e mental, na fase atual não

está no princípio, mas também está longe do fim do seu potencial evolutivo. Ex- perimenta ainda um raquitismo psíquico que se traduz pelo prazer em ferir, não apenas fisicamente, matando seres vivos para sua própria satisfação pessoal, mas também no plano ético e moral, nesse processo subdesenvolvido encontra prazer na ofensa, denegrindo e humilhando seu semelhante. Vive num ambien-

te de egoísmo, ambição, cobiça e orgulho que nutre o sentimento de vingança e

competição. No futuro o ser humano saberá que sua própria ciência o tornou presun- çoso; o fez pensar que a natureza está a seu serviço e não se viu como parte interdependente dela. Ainda se imagina como sendo algo essencialmente sepa- rado dos outros seres os quais considera como inferiores. Mas, o holismo reco- nhece que todos os seres, inclusive o humano, estão inseridos nos processos cíclicos da natureza e são dependentes deles. Quando essa percepção tornar- se parte da consciência cotidiana, o apego a bens materiais cederá espaço pa- ra um bem muito maior, a descoberta do potencial humano e seu desenvolvi- mento mental, com base no extremo sentimento de benevolência, generosida- de, caridade, justiça e fraternidade. Embora a ciência tenha produzido grandes conquistas, pouco se sabe sobre a essência humana; ainda não foi possível responder com precisão como ocorrem os efeitos hipnóticos ou explicar os chamados transes e êxtases que sempre ocorreram, desde o início da história das sociedades humanas até os dias atuais, sem recorrer ao olhar mítico ou religioso. Mas um dia, no futuro, pa- ra aliviar seus sofrimentos as pessoas vão saber buscar as soluções de seus conflitos na sua força inata, sem recorrer ao misterioso, aos dogmas e mitos. Isso depende apenas de uma nova consciência sobre si mesmo. Pela nova visão da ciência, talvez o futuro próximo possa explicar o po- tencial e o mecanismo inato que cada ser tem de promover sua própria cura e bem-estar, além da compreensão de como “cada um carrega em si o dom de ser feliz”, mesmo na adversidade. Se o novo paradigma do pensamento for re-

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almente a solução para a descoberta da verdadeira sabedoria, envolvendo uma nova consciência sobre a condição humana, só o tempo dirá. A lógica econômica que sustenta as sociedades humanas no inicio do sé- culo XXI parece falida, existe uma indicação clara de caos social que requer ur- gentemente alterações de valores morais e éticos em todos os seguimentos. Ocorre excessivo controle de proteção aos interesses corporativistas de peque- nos grupos que prejudicam a qualidade de vida coletiva. No mundo inteiro é assustador a degradação ambiental; pesquisas cientí- ficas apontam que, nos últimos vinte e cinco anos, todas as formas de vida no planeta estão em declínio, soma-se a isso a falta de horizonte para o futuro; da expectativa de vida melhor para a população jovem, descrença e desolação pa- ra a população idosa, falta também confiança nas instituições públicas, trabalho digno e produção sustentável. No plano individual, nunca antes houve tanta queixa de pânico, ansiedade, instabilidade do humor e outras formas de crises emocionais e, como forma de superação, alívio ou fuga, nunca se recorreu tan- to às psicoterapias ou ao consolo religioso. Para vencer o caos social é necessário o despertar de uma nova consci- ência, para isso, talvez seja imprescindível que o ser humano ajuste o pensa- mento e o sentimento, mesclando a ação racional com a emoção, se afastar da turbulência das competições egoísticas, do jogo de interesse, da aparência e da arrogância. É preciso transcender o imediatismo da acumulação individual de bens materiais para viver bem coletivamente, cultivando vínculos de confiança, de fraternidade e de justiça plena. Talvez um bom começo para a reconstrução de uma sociedade mais jus- ta, seja aprender como respeitar as diferenças e valorizar o potencial que cada um tem em si para desenvolver o dom de praticar o bem e estar pronto para desencadear o bem coletivo. É necessário que todos reconheçam o seu direito de ser feliz e ajudar o próximo a ser feliz, respeitar o direito à vida de todos os seres e saber que o humano pertence à natureza e não é a natureza que lhe pertence. Alguém que evolui nesse sentido, pensa e age como quem busca no ideal de servir, a razão e o sentido da vida. Hipnoterapia e Ciência Processos e efeitos hipnóticos envolvendo rituais religiosos e procedimen- tos de cura são características humanas, manifestadas em diferentes fases do desenvolvimento da percepção e do pensamento, no decorrer da evolução das civilizações. Por isso, explicações sobre o hipnotismo passam por caminhos de muitos vieses, incorporam conceitos e pré-conceitos centrados no pensamento mítico, mesmo quando se aproximam da ciência contemporânea, o hipnotismo, equivocadamente, é quase sempre visto com algo mágico, distante da raciona- lidade. Trazer a hipnose para o conhecimento científico nasce quando, de acordo com os padrões de ciência do século XIX, a noção de verdade depende, neces-

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sariamente, de contar com o aval da ciência. E o conhecimento científico passa, então, a ser aquele produzido em laboratórios, com o uso de instrumentos de observação e medição. Com o surgimento do Positivismo, sistema filosófico i- dealizado por Augusto Comte (1798-1857), filósofo francês do século XIX, que postulava a necessidade de um maior rigor científico na construção dos conhe- cimentos nas ciências humanas e recomendava a explicação teórica para as observações práticas, a própria filosofia adapta-se aos novos tempos. Neste sentido, justifica o austríaco Fritjof Capra, físico, cientista e ambientalista, atu- almente vivendo em Berkeley, na Califórnia:

O aspecto mecanicista-reducionista que se apresenta na ciência atual foi

consolidado definitivamente com os extraordinários sucessos da física clássica do século XVIII e, ficou ainda mais forte com o desenvolvimento

da teoria atômica da matéria. Com o exemplo dado pela física, e o reconhecimento que esta ciência obteve nos meios intelectuais, a biologia

e a medicina enveredaram pelo mesmo caminho. Obtendo grandiosos

sucessos em revelar as bases moleculares da vida, tendo como um dos pontos altos a descoberta dos componentes e das estruturas dos organismos vivos, por exemplo, o DNA (Fritjof Capra). 4

Desta forma, para se conhecer o psiquismo humano, passa a ser necessário compreender o mecanismo e o funcionamento da máquina de pensar do homem - seu cérebro. Assim, partindo das premissas científicas, a explicação para a hipnose começa a trilhar os caminhos da Fisiologia, Neuroanatomia e Neurofisiologia. Se, antes, a hipnose estava subordinada à filosofia, à teologia e até a própria arte e a magia, a partir de Pavlov é vista pela perspectiva de ligar-se à ciência; suas hipóteses tentaram se enquadrar no paradigma científico baseado no mecanicismo reducionista Newton-cartesiano, mas, por não lhe ter dado todas as respostas, a hipnose não se liberta o suficiente para abandonar os padrões anteriores. Dentro da visão puramente científica mecanicista reducionista, o corpo humano ainda é visto como uma máquina e, nestas condições, fica complicado e, até contraditório, se considerar o ser humano como um ser bio-psico-social, que de fato é. Visto assim, a ciência atual não é o único caminho para respostas sobre o ser humano e, por isso, até hoje os métodos terapêuticos convencionais não eliminaram os métodos de curas alternativas que, embora deles se duvidem, funcionam. Dentro desta concepção afirma Capra:

quando os cientistas reduzem um todo a seus constituintes fundamentais, sejam eles células, genes ou partículas elementares, e tentam explicar todos os fenômenos em função desses elementos, eles perdem a capacidade de entender as atividades coordenadoras do

sistema como um todo

(CAPRA).

A ciência mecanicista reducionista não responde as questões de vários temas humanos; como consciência, desejo, virtude e a emoção manifestada na

4 CAPRA, Fritjof. A Teia da vida: uma nova compreensão científica dos seres vivos, S. Paulo, Ed. CULTRIX, 2000.

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paixão, no amor ou no ódio, na alegria ou na tristeza ou qualquer outro estado emocional, além do próprio pensamento que, embora existam, não podem ser medidos nem pesados, por isso, não são possíveis comprovações científicas. Fritjof Capra, referindo-se aos possíveis equívocos dos cientistas na formulação de determinados conceitos, afirma que o erro fundamental reside no fato de a ciência não levar realmente em conta que um conjunto pode muito bem apresentar propriedades que não se encontram nos seus componentes individuais. Aponta como erro básico do paradigma científico mecanicista reducionista e subjacente ao modelo biomédico, o fato de que se confunde a vida com os seus elementos constituintes. A distinção fundamental entre uma perspectiva reducionista e uma outra de conjunto, ou sistêmica, é representada por duas abordagens paradigmáticas distintas. Dentro destas duas concepções a investigação científica caminha em sentido oposto. Mas, o reducionismo ainda é a ênfase na pesquisa científica atual e, assim pretende-se ter uma visão compreensiva e aprofundada do que seja a vida. Para os pensadores holísticos, quanto mais se aprofunda no conhecimento das estruturas microscópicas, mais se perde a visão de relação macro-sistêmica ou a visão do conjunto da vida em suas manifestações dinâmicas. Quanto mais se analisa um fato em seus mínimos detalhes, mais facilmente se perde a visão de conjunto sobre tal fato. Quando se refere à terapia, o conflito entre o paradigma mecanicista e o holístico remete para as exigências de uma abordagem multidimensional do ser humano e uma revisão dos pressupostos antropológicos dos atuais métodos de cura. A visão mecanicista, ainda convencional, é fragmentária e sectária, o médico dependente sempre de instrumentos para medir e controlar a saúde a

partir do fisiológico e, se o quadro se agrava, a tecnologia requerida é cada vez maior. Falando sobre a demasiada importância devotada a sofisticada

tecnologia médico-instrumental moderna, Medeiros

5 sugere uma perspectiva

holística tanto para o diagnóstico como para o tratamento, afirmando que conhecer o homem significa mais do que compreender seu mecanismo fisiológico, é preciso penetrar nos seus sentimentos:

Conhecer este ser vivo chamado homem é não apenas conhecer o mecanismo fisiológico e bioquímico dos diversos aparelhos e sistemas, mas também penetrar nos sentimentos, na alma de pessoas, que muitas vezes não estão doentes, apenas “se sentem doentes” e até mesmo “querem ficar doentes” (MEDEIROS).

Uma característica da medicina moderna é, na busca da cura, procurar tratar as doenças de forma multidisciplinar, o que ajuda diminuir as conseqüências adversas, às vezes provocadas pelo estresse decorrente do

5 ‘MEDEIROS, Damião Nobre de. A vitória da máquina. In: Medicina, Conselho Federal. Brasília DF, rev. nº 98, outubro, p. 28, 1998.

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próprio quadro. Cada paciente deve ser abordado de forma individual, isso implica na melhor relação médico-paciente. Um passo importante nesta relação é explicar, na medida do possível e com linguagem clara, o conceito da presumível doença, sua ação e expectativas, suas limitações de êxito ou fracasso. Se a solução não aparecer após as primeiras intervenções, a conversa pode diminuir a frustração e a desconfiança do paciente e, isso, servirá de base sólida para o sucesso da ação terapêutica. Além da interpretação etiológica, o médico deve ouvir o doente para avaliar se suas queixas não estão associadas a distúrbios psicossomáticos como estresse e depressão. A cura também depende de sua influencia pessoal, de seu prestígio, dos conselhos consoladores que sabe dar. Sua presença deve restaurar a tranqüilidade e influenciar a vontade e a imaginação do paciente, condição favorável para a cura. Se o médico é um hipnotista poderá sugestionar nesse sentido em grau máximo. A ação da sugestão verbal aliada a influencia do prestígio pessoal foi refe- rida por Platão com forma de tratamento para as mais diferentes moléstias do homem. Essas idéias são expostas em seus escritos como em Cármides, 6 e em Fédro, 7 quando expõe acerca da terapia pela palavra; pelo poder da su- gestão verbal transformado em elemento de cura. Afirma que as palavras são phármakon, no duplo sentido grego do termo; tanto pode ser um veneno como um remédio, depende da dose ou da forma como se aplica; as palavras quando usadas pelo filósofo é um remédio; podem se constituir em um profícuo bálsa- mo, mas quando usadas por um sofista é um tóxico mortal. Considerando que hipnose e seus efeitos não são questões ainda bem resolvidas do ponto de vista científico, a prática do hipnotismo na área de saúde representa alguns casos isolados. Falta um estudo sistematizado sobre esse tema nas faculdades que, geralmente, praticam o ensino no domínio do conhecimento sobre o organismo e seu fisiologismo concreto, em bases bem cartesianas, afastando-se da área conceitual abstrata. Na concepção epistemológica são difíceis respostas para questões que não são facilmente mensuráveis. Por isso, mesmo se tratando da saúde humana, não é prioridade o estudo de conceitos que a ciência cartesiana não pode explicar; como pensamentos, sonhos, entropia e informação que não envolvem objetos ou corpos definidos. É isso que afirma o físico Paul Davies autor de Deus e a nova física, 8 quando diz que ninguém pode negar que um organismo é uma coleção de átomos, moléculas e tecidos, mas alerta para o erro de se supor que ele é nada mais que isso. Lembra Davies, o fato de um conceito ser abstrato em vez de concreto ou substancial não o torna, por isso, irreal ou ilusório, como exemplo, o pensamento de uma pessoa não pode ser

6 Platão. Cármides. Coimbra, I.N.I.C.; 1988.

7 Platão. Fédro. Porto Alegre, Editora Globo, 1950.

8 DAVIES, Paul. Deus e a Nova Física. Lisboa, Coleção Universo da Ciência. Edições 70.

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pesado ou medido, nem ocupa nenhum lugar no espaço, contudo, é parte integrante do que ela é. Cientificamente conceitos como alma, sensibilidade e sentimentos, entre outros, os quais por sua natureza não podem ser medidos ou observados, são totalmente inadmissíveis. O mesmo acontece com os processos hipnóticos e seus efeitos; em sua complexidade não pode ser totalmente compreendido pela ciência reducionista. Mas, mesmo distante do método mecanicista, estudos científicos sobre o hipnotismo têm sido realizados. Mas, quando a ciência estuda aquilo que não está integralmente na área científica, isto é, aquilo que não pode ser compreendido pelo reducionismo, passa a determinar valores científicos e a formular sobre o objeto da pesquisa características de pseudociência. Isto é fetichização científica, é o abandono do pensamento da contradição, da dialética, para explicar-se àquilo que é contraditório e dialético; na ciência a contradição não existe, até porque não faz parte de sua dimensão de estudos, por isso mesmo é que ela é cartesiana. Segundo o princípio estabelecido na obra Crítica a razão pura (1781) do alemão Immanuel Kant (1724–1804), se é ampliada a dimensão do objeto de estudo a contradição surge e, por ser contradição, deixa de ser científico. A extrema cientificação da humanidade só se tornou possível com as previsões dos comportamentos humanos numa visão behaviorista, tudo aquilo fora destes padrões fica difícil para a linguagem da ciência. No livro Critica da razão prática (1788), Kant afirma que a razão prática aplicada no campo da ação humana permite que o homem tome suas decisões baseado em princípios. Seria a possibilidade de estabelecer a adequação entre

a coerência lógica explicativa e a realidade empírica ou observada, mas as

verdades da ciência subordinadas à racionalidade do método cartesiano não admite o principio do contraditório. Para a ciência, tudo o que é contraditório é impensável, é confuso e sinônimo de irracional, portanto não científico. Com base nestes fatores, a ciência, dentro do paradigma atual, não pode apresentar

explicações concludentes sobre os contraditórios fenômenos hipnóticos. Na maioria das explicações sobre hipnose, entre as diversas concepções

teóricas, é muito observado o princípio do contraditório, logo, foge aos padrões da verdade única da ciência como ainda é praticada. Usando o paradigma cartesiano, a ciência resolve apenas os problemas para os quais seus métodos

e conceitos são adequados. Sendo o objeto do estudo científico fora deste

padrão o resultado é fetichização científica. Uma maneira de minimizar as diferenças entre o paradigma reducionista cartesiano, atualmente dominante, e o paradigma holístico, hoje emergente, talvez possa ser por meio da associação da ciência e da filosofia para o entendimento do problema. Isso pode permitir diferentes modos de percepção e de compreensão dialética da realidade do ser humano (abordagem fenomenológica). Partindo deste princípio haverá de surgir novas explicações para o hipnotismo diferentes das obtidas e não convincentes até aqui, porque

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foram isoladamente produzidas pelo reducionismo mecanicista ou pelo devaneio fantasioso da imaginação tentando explicar a realidade concreta sob a ótica puramente especulativa. A hipnose enquanto filosofia está relacionada à alma humana, descende da escola de Nancy e, por mais paradoxal que possa parecer, encontra amparo teórico quando se aproxima das teses que sustentam as idéias psicanalíticas. Na visão puramente científica, a hipnose está baseada no critério da observa- ção de dados que possam ser medidos e comprovados, de forma incipiente isto aconteceu no hospital La Salpêtrière e ganhou impulso com as idéias pavlovia- na, que tenta enquadrá-la na estrutura físico-orgânico-cerebral. Mas, a pesqui- sa cientifica sobre o nexo causal entre a ocorrência da hipnose e seus efeitos, têm sido produzidas para soluções de problemas quase que exclusivamente especulativos, portanto, não científicos. Na fase atual, as pesquisas científicas sobre o tema do hipnotismo, baseadas no reducionismo mecanicista, ainda encontram sérios problemas metodológicos. Contudo, com a ciência caminhando para a visão holística, a hipnose poderá sair do conceito de pseudociência e obter explicações mais sustentáveis. O importante nesta questão é que a ciência se aproximou da hipnose e, se ainda não explica, pelo menos a reconhece como verdadeira, portanto, já conta com o aval do reconhecimento científico. Pesquisadores passam então a trabalhar o tema com investigações em laboratórios, utilizando instrumentos de observação, medição e controle das variáveis. Ainda assim, não se descobriu com precisão o porquê, nem como ocorre a hipnose, mas, com certeza, já se sabe, é verdadeira.

A hipnose funciona no campo das emoções humanas, é o plano dos

desejos e das paixões inconscientes e compulsivas do ser humano. Enquanto o consciente é racional, o inconsciente é emocional e a emoção é responsável por vários efeitos psicossomáticos que tanto podem ocasionar doenças como podem promover sua cura. Embora reconheça a relação de causa e efeito entre o psiquismo e o orgânico fisiológico, os neurocientistas ainda não são capazes de explicar como o processo de autocura acontece. Uma explicação bem aceita é de que o inconsciente é capaz de processar informações paralelamente, ao mesmo tempo, enquanto o consciente executa suas tarefas de uma forma serial, uma atrás da outra. Enquanto os cientistas buscam as causas de tamanha eficiência, o inconsciente continua incansável em sua missão de revelar soluções para problemas diários e isso ocorre principalmente quando alguém está agindo pela intuição, vivenciando efeitos hipnóticos deflagrado pelo relaxamento da atividade mental consciente ou vivenciando as emoções do estado de transe.

A pesquisa científica já admite o impacto das emoções sobre a saúde

orgânica, a essa conclusão chegou o fisiologista americano Walter Cannon (1871-1945), professor da Universidade Harvard, o primeiro a demonstrar, em

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animais, como o stress pode agir sobre o organismo. Ele classificou uma série de eventos psicossomáticos como um conjunto de reações disparadas pelo organismo em situação de perigo ou pressão psicológica. Ao estudar estímulos físicos e psicológicos Walter Cannon elaborou, em 1914, o conceito de "reação de emergência". Essa reação é imediata à percepção de ameaça, teria a função de preparar o organismo para luta ou a fuga e, a isso, denominou como sendo a “síndrome da fuga e luta”. 9

O fisiologista austríaco Hans Seyle (1907-1982) estabeleceu pela primeira vez os efeitos psicossomáticos agindo no ser humano. Em seu trabalho The S-

Seyle foi o primeiro pesquisador que, por meio de expe-

rimentos com animais de laboratório, desenvolveu o conceito de SAG - Síndro- me de Adaptação Geral e deu origem à idéia de que situações que geram es- tresse podem provocar doenças diversas, inclusive mentais.

Na atualidade, cientistas americanos, na tentativa de explicações neurológicas para a hipnose, utilizaram equipamentos modernos, e conseguiram imagens do cérebro funcionando durante o transe. Uma experiência realizada na Universidade de Harvard, juntamente com professores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, relata que dezesseis voluntários observavam imagens em cores pintadas em uma tela e depois de hipnotizados, eles foram sugestionados a acreditar que a mesma figura colorida, vista outra vez, era toda cinza. Neste instante os cientistas observaram através de instrumentos computadorizados, como o PET - Positron-Emisson Tomography (Tomografia por Emissão de Pósitrons), que o cérebro hipnotizado ativou uma região que inibe a visão das cores e passou a ver em preto e branco. Mais tarde os mesmos voluntários foram induzidos a ver cores em imagens onde elas não existiam e os resultados negam as possibilidades de farsa, confirmando que o cérebro estava mesmo vendo colorido. 11 Desde 1996, o PET mostra com precisão quais regiões cerebrais estão sendo ativadas a cada momento, passou a ser usado também para a investigação sobre a hipnose. Este instrumento substitui o EEG (Eletro Encefalograma) usado em experiências anteriores que podem até mostrar a região da visão sendo ativada, mas não informaria se o indivíduo hipnotizado estaria mesmo enxergando aquilo que foi apenas sugerido. O PET é uma ferramenta importante para explorar o funcionamento do cérebro. Quando os neurônios disparam, o fluxo de sangue para a região au- menta, e, embora o aumento seja pequeno, ele é mensurável por imagens ele-

tress of Life, de 1956,

10

9 CANNON, Walter B. The Wisdom of the Body, N. York, 2ª ed, W. Norton, 1939.

10 SELYE, H. O stress da vida, N. York, McGraw-Monte, 1976.

11 SUPER Interessante. Visão hipnótica, S. Paulo, revista mensal, Ed. Abril, maio/98, p. 40-45.

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trônicas. Esse tipo de imagens a partir de dados eletrônicos é chamado tomo- grafia. 12 Profissionais da saúde, atualizados com informações de pesquisas credenciadas por publicações científicas recentes, já admitem o poder da cura pela hipnose como fato e acreditam que é possível constatar seu uso como ferramenta para vencer os efeitos do stress no organismo e no psiquismo humano. Pelo menos, alguns já afirmam que ninguém sabe como, mas que a hipnose cura, não se discute, cura. Na década de 1990 cresce o interesse do mundo acadêmico pelo assunto. Wolberg 13 não aceitando nenhuma das explicações teóricas dadas até então sobre o transe hipnótico e seus efeitos, reconheceu que o hipnotismo não se justifica apenas pela hipótese da verdade científica positivista. Referindo-se a isso, ele disse:

Meu trabalho pessoal com a hipnose convenceu-me de que o estado de transe não pode ser explicado quer em bases psicológicas, quer em base fisiológica exclusiva. Ela é, antes, uma reação psicossomática complexa que abrange os elementos psicológicos e fisiológicos (WOLBERG).

As conclusões de Wolberg sobre a teoria do hipnotismo podem ser acrescentados os motivos que justificam as possibilidades das explicações fluírem pela lógica filosófica. Para a realização do processo de indução hipnótica são necessários critérios como confiança, crença, fé e uma série de valores que transcendem o psicológico convencional e o orgânico fisiológico conhecido. O simples fato de existirem tantas explicações para o hipnotismo é uma prova de que não há nenhuma na qual se possa qualificar de certa ou verdadeira. Na busca da interpretação do que pode ser a hipnose e, principalmente, seu envolvimento com práticas terapêuticas, a hermenêutica ganha relevância. É aconselhável analisar suas múltiplas faces e, é uma perspectiva obrigatória ter como ponto de partida a reflexão dialética, com base na diversidade e trans- versalidade dos saberes até então acumulados. Nessa busca deve ser valori- zado o diálogo e a integração de diferentes áreas para descobrir, dentro da compreensão multidisciplinar, as bases axiológicas do hipnotismo que só po- dem ser reveladas a partir da diversidade explicativa. A explicação para a hipnoterapia, assim como para as principais psicoterapias, surgiu a partir de dois ambientes: o clínico e o de laboratório. No primeiro caso, seu desenvolvimento tem por base a busca da cura para algum problema que perturba alguém, através de entrevistas e do convívio diário com pacientes. No segundo caso a pesquisa é feita no ambiente laboratorial, com análises e experimentações formais, utiliza ferramenta da estatística para

12 PET - Positron-Emisson Tomography. In: The Sciences: Na Integratwd Approach. N. York, John Wilei & Sons, p. 307, 1995. 13 WOLBERG, L. R. Hypnoanalysis, N. York, Grune & Stratton, 1945.

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chegar a uma conclusão, seguindo o que se chama na ciência de método cartesiano de investigação. No reconhecimento científico de algumas curas por ações psicológicas, tem de ser considerado o fato de que partes do psíquico, como o inconsciente e o consciente, não são áreas fisicamente delimitadas e mapeadas do cérebro humano, mas se constituem de estados psíquicos. Não são interpretados como órgão ou lugar definido do cérebro e, modernamente, são compreendidos como métodos de trabalho mental, ou tipos de programas operacionais do pensamento. Assim como a psicanálise, a hipnoterapia também é um processo que se vincula ao conceito de inconsciente e seu estudo não está limitado ao ambiente laboratorial, isto é, não compreendidos por imposição da lógica, espaço e tempo, por isso, não pode ser visto como parte de uma máquina. O próprio Freud já afirmava que “o consciente, é um estado eminentemente transitório”. Mas, para ele isso não deixa de ser objeto de investigação científica:

A diferenciação do psíquico em consciente e inconsciente é a premissa fundamental da psicanálise. Permite-lhe, com efeito, chegar à compreensão dos processos patológicos da vida anímica, tão freqüentes como importantes, e subordiná-los à investigação científica. Ou, dito de outro modo: a psicanálise não vê na consciência a essência do psíquico, mas somente uma qualidade do psíquico que pode ser somada a outras ou faltar em absoluto (FREUD).

Existem dezenas de explicações, outras dezenas ainda vão surgir, de quando, por que e como ocorre a hipnose e seus feitos terapêuticos, mas não existe uma abrangente e definitiva que evite a evidente discórdia entre as diferentes teorias explicativas. Mas, não pode ser negada a importância prática das diversas hipóteses conhecidas, embora nenhuma delas isoladamente satisfaça; cada uma contém parcela maior ou menor da verdade e, aproveitadas em conjunto, contribuem decididamente para aprimorar o conhecimento sobre a natureza humana, além de permitir a convicção imprescindível para a interpretação do significado dos processos de transes e êxtases. Sarbin 14 vê na hipnose uma das manifestações mais generalizáveis do comportamento social, e declara que as variantes interpessoais inerentes ao fenômeno hipnótico são tão complexas, que nem sequer podemos determinar- lhes as medidas, transcendem em sua complexidade os limites das próprias explicações que conhecemos. É um fenômeno permeado pela emoção e pela intuição, duas variáveis que vão além do paradigma da razão e da verdade científica atual.

14 SARBIN, T. R. Contribution to roll-taking theory. In: hypnotic behaviour, Psychol. rev. 57-255,

1950.

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Pelas diferentes interpretações considera-se a indefinição teórica científi- ca da hipnose como um fato. O que se pode concluir é que ela se divide em du- as grandes correntes explicativas; uma com base na essência e outra na exis- tência do ser humano. A primeira, ora centrada na psicanálise, ora no desco- nhecido ou em conceitos religiosos, alinha os autores que usam em suas expli- cações terminologias próximas, como sugestão, consciência ou inconsciência, transferência, alma, destino, energia vital, astral ou divina, etc. A segunda cen- trada no fisiologismo, representada originalmente pela escola russa e funda- mentada na teoria dos reflexos condicionados e várias teorias neurais, atribui à hipnose razões puramente fisiológicas. Em alguns pontos, quando estas duas correntes se encontram, aparecem hipóteses explicativas diferentes, represen- tam a derivação da somatória das correntes originais que misturam, em grau maior ou menor, o mito, a filosofia, a ciência e a religião.

É certo que depois de Freud e Pavlov, os pesquisadores que lidam com o

tratamento dos distúrbios da mente, estavam divididos em dois grupos. Um gru- po investindo na criação de psicoterapias mais sofisticadas, pelo menos do ponto de vista explicativo, a maior parte delas derivadas da psicanálise ou do refino no uso da hipnose, associada ao conceito de auto-ajuda ou de filosofias que resultassem em soluções dos problemas existenciais humanos. O outro grupo praticando a pesquisa cientifica com maior rigor metodológico, com base na neurofisiologia, investindo na psicofarmacologia, trabalhando no aperfeiço- amento de remédios como a única forma de solução para os problemas men- tais. Os dois grupos se olhavam reciprocamente com desconfiança e extrema

rivalidade.

A herança deixada por Freud e Pavlov, ao longo do século XX, permitiu

que o tratamento das doenças psicossomáticas caminhasse por duas perspec- tivas. Uma representada pela medicina convencional, concentrando a pesquisa

para explicar o cérebro. Outra representada pelas psicoterapias, concentrando estudos para explicar a alma humana. Mas, o equilíbrio do conceito de alma e de cérebro parece próximo no início do século XXI, parece que os estudiosos concordam que as melhores terapêuticas são aquelas que combinam remédios

e psicoterapias. O predomínio de um ou outro recurso de cura varia de caso pa- ra caso. Na década de 1990, período conhecido nos meios médicos como “a dé- cada do cérebro”, cientistas de várias especialidades estudaram a mente hu- mana numa intensidade inédita. Neurologistas esquadrejaram o cérebro usando as mais modernas técnicas de ressonância magnética, geneticistas mapearam

a transmissão dos transtornos mentais por meio do DNA e biólogos detalharam

a química dos neurônios. O resultado é que hoje se conta com um alto nível de

conhecimento para tratar os problemas da mente. A ciência encontrou muitas respostas, mas surgiu também um grande número de novas questões. Por mais que a farmacologia tenha se beneficiado de novas descobertas, a criação de medicamentos que curem definitivamente todos os sofrimentos da mente, inclu-

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indo principalmente a questão da somatização, é no mínimo um horizonte muito distante. Utilizado a técnica de obtenção de imagens do cérebro através da tomo- grafia por emissão de pósitrons (PET), o sueco Tomas Frmark trabalhou uma

pesquisa, tipo grupo controle, e analisou o encéfalo de pacientes com fobia. Um grupo havia se tratado unicamente com terapias psicológicas, e outro grupo ha- via recorrido a remédios convencionais. O resultado de seus estudos mostrou que a terapia altera o funcionamento cerebral tanto quanto a química dos medi-

camentos.

Comentando esse estudo, o alemão Klaus Grawe, pesquisador da

Universidade de Berna, destacou o fato de que experiências de vida alteram o cérebro tanto quanto remédios. Dito assim, é possível imaginar as possibilida- des de alterações quando o paciente passa por terapias envolvendo a hipnose.

Mito, Rito e Religião

O pensamento crítico e reflexivo que teve início com os primeiros filóso-

fos, na Grécia, e o desenvolvimento do pensamento científico a partir de Gali- leu, rejeitou o modo mítico de compreensão do mundo. Para Augusto Comte essa evolução do pensamento explica a própria evolução da espécie humana que inicia no mítico (teológico), passando para o filosófico (metafísico) e finaliza com o científico moderno e pós-moderno. Para os positivistas este último está-

gio é o coroamento do desenvolvimento humano, que não só é superior aos ou- tros, como é o único considerado válido para se chegar à verdade.

O positivismo de Comte não considera o mito uma das forças fundamen-

tais da existência humana como, de fato, o é. O mito durante a história da hu- manidade é a forma de dar significado ao mundo com base no desejo de segu- rança ou de uma vida melhor, representa a imaginação humana criando histó- rias para tranqüilizar e guiar bem a vida no dia a dia e pela existência inteira. Essa função de criar soluções mágicas é de natureza inconsciente e primitiva, é a sustentação central das religiões e subsiste na arte popular de qualquer épo- ca, permeia possíveis soluções para problemas da vida diária de qualquer pes-

soa, independe de desenvolvimento intelectual ou do meio social ao qual per- tença.

Como o ser humano não é só razão, é também afetividade e emoção, nas sociedades onde predomina a ciência, o interesse pelo sobrenatural, a crença em soluções mágicas e a credibilidade do conhecimento teológico não desapa- recem. Ao contrário, a prática da religião em suas mais variadas formas é um fenômeno crescente e global, representa uma forte característica da sociedade pós-moderna. Por essa ótica se explica à dimensão religiosa presente em toda cultura, por exemplo, na arte, na literatura e na arquitetura moderna, que se de- senvolveram, para a forma como se apresentam, com profunda influência das tradições religiosas.

15

15 Revista VEJA. O equilíbrio do cérebro e da Alma. S. Paulo, Editora Abril, ano 37, n. 48, p. 116 – 122, dez/2004.

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A palavra religião, do latim "religione", possivelmente se prende ao verbo

"religare", ação de ligar. Assim, pode ser definida como o conjunto das atitudes e atos que liga o homem ao divino ou manifesta sua dependência em relação a

seres invisíveis tidos como sobrenaturais. Tomando-se o vocábulo num sentido mais estrito, pode-se dizer que a religião é a reatualização e a ritualização do mito.

Referindo-se a diferenças e semelhanças entre o mito e a religião, Cassi- rer 16 afirma que, enquanto o mito “explica” suas crenças de uma forma emo- cional, a religião utiliza o logos e explica sua crença com base em argumentos racionais. No que se refere à religião, mesmo aquilo que é inexplicável passa a ser argumentado e, nesse argumento, se justifica até por que é inexplicável. Em todo o curso da história a religião permanece ligada a elementos míti- cos e impregnada deles, pode-se dizer que desde o início o mito é religião em potencial, o que leva a transformação de um no outro é o lógos, o mito não se justifica, a religião sim. Embora haja elementos comuns entre o mito e a religi- ão, é a forma como a religião argumenta, explicando esses elementos, que ca- racteriza seu distanciamento gradativo e, por fim, radical em relação ao pensa- mento mítico.

Segundo Cassirer, 17 o culto aos ancestrais pode ser considerado como a primeira fonte, a origem da religião. Essa é uma prática comum em diferentes culturas, seja na Roma antiga ou na China ou mesmo nas tribos indígenas. É uma característica universal, irredutível e essencial da religiosidade primitiva.

O pensamento mítico está muito ligado à magia, ao desejo de querer que

as coisas aconteçam de um determinado modo. É a partir disso que se desen- volvem rituais como meios de propiciar os acontecimentos desejados. Por defi- nição rito é uma sucessão de emoções, palavras, gestos e atos que repetidamente compõe uma cerimônia, geralmente religiosa, com o objetivo de proporcionar um poder misterioso que facilite o estabelecimento de laços entre os humanos e forças misteriosas. Quando praticado, o rito relembra, fortalece e atualiza, alimenta e mantém viva a religião. Assim, o ritual pode ser entendido como o mito transformado em ação, é a repetição dos atos que, acredita-se, foram executados no passado e que devem ser imitados e repetidos para que as forças do bem e do mal se mantenham sob controle. Desse modo, o ritual torna o mito atual e reafirma a convicção em um acontecimento sagrado. Através do rito o ser humano se in- corpora ao mito e pratica sua fé; o rito é a práxis do mito, é o mito em ação.

Rituais, cultos e sacrifícios religiosos, cercados de transes, praticados nas sociedades humanas de qualquer etnia, em qualquer época, são formas de se

16 CASSIRER, Ernst. Filosofia de las Formas Simbólicas II: el pensamiento mitico. (Trad. Ar- mando Morones). México: Fondo de Cultura Económica, 1998.

17 CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o Homem: introdução a uma filosofia da cultura humana. (Trad. Tomas Rosa Bueno), S. Paulo, Ed. Martins Fontes, 1994.

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tentar a cura para as enfermidades ou alcançar favores divinos, são formas de se agradecer esses favores ou de se aplacar a ira dos deuses. Assim também acontecia na Grécia antiga, como exemplo, na religião do orfismo e nos misté- rios de Elêusis, cujas influências se estendem à escola filosófica de Pitágoras e ao pitagorismo, chegando à atualidade com a mesma força do passado, inde- pendentemente das transformações na forma de pensar ao longo dos séculos. Desde a antiguidade se acreditou que apenas sacerdotes e magos eram capazes de interpretar os mitos e os mistérios do mundo. Eles tinham o poder da explicação porque serviam como pontes ou intermediários entre o mundo humano e o mundo divino, através dos rituais praticados nos oráculos e nas so- ciedades secretas. Mas, isso não invalida a dimensão individual entre cada su- jeito e seu mistério, entre cada humano e sua fé. Assim o rito não é apenas um ato que se processa no coletivo da sociedade, se fortalece também através do simbolismo inconsciente de cada pessoa, é o meio pelo qual ela pode visualizar soluções mágicas para seus anseios, frustrações, desejos e necessidades. Transe e religiosidade Fatos e procedimentos identificados como hipnóticos sempre ocorreram associados com práticas religiosas e ou curativas. Constituíam parte do conhe- cimento mítico posto em prática através de rituais, foram largamente praticados na Índia, Caldeia, Egito e Grécia antiga por uma casta privilegiada que, ao mesmo tempo, exercia as funções de sacerdotes, magistrados e médicos. Não importa a forma como se justifica ou o grupo social no qual se apresenta, a hip- nose manteve, no decorrer dos séculos, identidade dos princípios que desen- cadeiam seu processo, causas, efeitos e finalidades. Sua manifestação geral- mente expressa a aliança entre o ideário do sagrado e do humano, construído com base na cultura e na história de cada sociedade. Na maioria das vezes, o hipnotismo é envolvido em uma atmosfera de mistérios, de transes inexplicáveis cercado de superstições e crenças; seus praticantes se dizem, freqüentemente, simples instrumentos da vontade misteriosa de forças sobrenaturais. Sua prática foi se metamorfoseando à época, local e circunstâncias particulares de cada povo, criando diferentes crenças para justificar seus efeitos, principalmente quando relacionados à cura.

O hipnotismo presente nos rituais de cura sempre envolveu junto ou

separadamente crenças, rezas, cantos, gestos, músicas, danças, cores, esculturas, adornos, pinturas e máscaras, elementos culturais de alto valor simbólico que emanam força hipnótica incontestável e induz ao transe, incluindo o êxtase que se manifesta no estado profundo do transe hipnótico. O êxtase que dizer “posição fora”, isto é, um estado de consciência além da

consciência habitual.

O mais antigo relato do que podem ter sido sessões de hipnotismo foi

registrado nos Papiros de Ebers, por volta do século XVI a.C. e apontava fatos a respeito da teoria e da prática da medicina egípcia. Descreve procedimentos

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de médicos que, colocando suas mãos sobre as cabeças de pacientes, afirmavam possuírem poderes sobre-humanos, enquanto recitavam estranhos mantras que sugeriam curas. O termo mantra vem do sânscrito, antigo idioma da Índia, é a composição das sílabas “man”, que significa mente ou pensamento, e “tra”, que pode ser en- tendida como entrega ou proteção. De modo geral, a palavra é traduzida como “proteção da mente”. No sentido cultural significa silaba, palavra ou frase pro- nunciada segundo prescrições ritualísticas e musicais, tendo a finalidade de a- tingir um estado mental contemplativo. Os primeiros mantras foram retirados dos Vedas, livros sagrados dos hindus, três mil anos a.C., e são hipnóticos pela repetição e monotonia, sonoridade e ritualidade. Algumas vertentes da yoga, filosofia indiana milenar que combina exercí- cios físicos, técnicas de respiração e meditação, utilizam mantras em seu dia a dia e acreditam que para ser mais efetivo deve ser dado, por um guru, para a pessoa que irá vocalizá-lo. Neste caso o mantra não pode ser revelado para mais ninguém. Na tradição hindu, os mantras são considerados sons sagrados que ajuda o ser humano a entrar em estado de meditação, interrompendo o flu- xo de pensamentos intermitentes. Essas técnicas, que geram atmosferas mági- cas relacionadas com o divino, são próprias do hipnotismo. Antigas civilizações sempre tiveram um deus ligado a um mantra; os gre- gos Apolo; os egípcios Osíris; os hindus Brahma, o mesmo acontece com rela- ção à Krisna, Buda, Mahavita e Rama entre outros. Seus seguidores acreditam em tais sons funcionam como uma espécie de oração que, vocalizados e repe- tidos várias vezes, ajuda a manter a mente quieta e pacifica, trazendo paz e a- brindo o canal de comunicação com o divino. Durante a vocalização, pode-se usar ou não um objeto que facilite a contagem, como um rosário. Nesse pro- cesso, conhecido como japa, para que produzam os melhores efeitos hipnóti- cos, os sons podem ser repetidos até centenas de vezes em ambiente silencio- so, mantendo o corpo totalmente imóvel, usando a técnica da respiração lenta e profunda. Segundo Delcourt, 18 os gregos realizavam peregrinações ao templo de Esculápio ou Asciénio, deus da medicina e filho do deus-profeta Apolo. Seu templo mais famoso foi o de Epidauro em Argólia na Grécia, descoberto nas escavações ocorridas em 1850. A descoberta revelou inscrições datadas do século IV a.C. explicando como peregrinos eram submetidos à hipnose pelos sacerdotes, quando invocavam a presença de uma divindade para indicar os possíveis expedientes de cura. Os sacerdotes de Caem recorriam à hipnose para abrandar descontentamentos coletivos e as sacerdotisas de Ísis, postas em transe, manifestavam o dom da clarividência; hipnotizadas, revelavam ao Faraó fatos distantes ou ainda por ocorrer. Acontecimento semelhante ocorria nos oráculos;

18 DELCOURT, Marrie. Les grands sanctuaires de la Grèce, Paris, 1947.

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quando as sibilas prediziam o futuro; articulavam suas profecias depois que entravam em convulsões sob o efeito do transe auto-hipnótico.

Pela auto-hipnose se explica a anestesia dos mártires, que se submetiam às maiores torturas sem dar o menor sinal de sofrimento físico. Na Índia, o faquir produz o transe auto-hipnótico para suportar, sem aparentar sentir dor, práticas de torturas. Dentre os hindus, mongóis, persas, chineses e tibetanos, a hipnose vem sendo exercida há milênios em meio a rituais religiosos e, é fácil observar que assim ainda prosseguem na atualidade. A hipnose e a religião estão sempre próximas, quando não juntas nos ritos religiosos e, atualmente, está sendo largamente utilizada e institucionalizada com este fim.

A hipnose provavelmente também teve um papel importante nas práticas

religiosas e nas artes curativas dos Druidas, sacerdotes de religião pré-cristã da Gália e da Bretanha que depois se espalharam por toda a Europa Ocidental. Eles prediziam o futuro, realizavam curas com o uso de ervas, cânticos e magia, alguns eram considerados intermediários entre os deuses e os homens; seus rituais, cercados de mistérios, aconteciam nas florestas. Na Gália foram considerados bruxos, combatidos e dizimados pelos romanos e mais tarde pelos cristãos, na Irlanda, sob sigilo, alguns sobreviveram em sua prática

religiosa.

Nas ilhas britânicas o chefe religioso dos Druidas punha seus fiéis recostados e, induzindo-os a um sono artificial, aliviava suas dores e curava doenças. Inúmeras gravuras daquela época mostram sacerdotes-médicos colocando presumíveis pacientes em transe hipnótico. Semelhantes fatos já ocorriam na velha civilização babilônica, na Grécia, na Roma antiga e no Egito, onde existiam os Templos dos Sonhos que eram locais apropriados para se aplicar nos pacientes sugestões terapêuticas enquanto dormiam. Também há indícios de que nas civilizações Asteca e Maia era utilizada a prática da hipnose para tratar dos doentes. Vegetais hipnóticos

A busca do transe hipnótico por ingestão de meios químicos é o método

mais direto, embora menos comum, para o ser humano entrar temporariamente em mundos fascinantes do seu inconsciente. Diversos vegetais com proprieda-

des hipnóticas têm sido utilizados com esta finalidade, desde as antigas civiliza- ções, apresentando um papel importante em ritos religiosos. Segundo Schultes

o uso destas plantas permitia ao curandeiro realizar cura, fazer

& Hofmann,

adivinhações e orientar a tribo nas estratégias de guerra. A explicação é que, entre seus efeitos, podem transportar a mente humana para o autoconhecimen-

to, para o contato com divindades e outras forças do mundo espiritual.

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19 SCHULTES, R.E. & Hofmann, A. Plantas de los Dioses. Orígenes del uso de los alucinóge- nos, Fondo de Cultura Económica. México, 1982.

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Segundo Labate 20 na natureza existem cerca de 100 vegetais que podem desencadear o processo hipnótico, alguns são classificados como alucinóge- nos, como a Iboga utilizada por aproximadamente um milhão de pessoas na Á- frica; o Peiote, um cacto amplamente consumido no México e nos EUA cuja substância ativa é a mescalina; os Cogumelos, que já apareciam em registros hindus da antiguidade. Aldous Huxley, romancista e filosofo britânico, testou pessoalmente os e- feitos da mescalina, derivada de um cacto, e registrou suas observações em um ensaio publicado em 1954, As Portas da Percepção: Céu e Inferno. 21 Huxley fala de um transe com sensações prazerosas, tais como “uma dança lenta de luzes douradas”, descreve os lampejos de “diversidade transcendental” que diz ter experimentado enquanto dirigia um automóvel por um subúrbio de Los An- geles sob o efeito da droga. O incrível fluxo de informação sensorial liberado pela mescalina levou Hu- xley à hipótese explicativa do que sentiu, afirmando que a principal função do cérebro e do sistema nervoso é servir como uma válvula redutora para restringir o influxo de realidade a um nível administrável. Supôs que há tantos dados cap- tados através dos sentidos que, se fossem processados, a mente submergia, fi- cando incapaz de lidar com os problemas da vida cotidiana. Acreditava Huxley que a mescalina desligava a função de filtrar informa- ções no cérebro, permitindo que a mente fosse inundada por eventos mentais que costumam ser excluídos por não terem qualquer valor de sobrevivência. Diz que tais informações são “biologicamente inúteis, mas estéticas e às vezes es- piritualmente valiosas” Também sugere que este estado da mente pode ser es- timulado por outros catalisadores além das drogas, tais como doenças, fadigas, jejum ou um completo retiro sensorial, através da meditação em algum lugar escuro e silencioso. E, por que não, pelos métodos hipnóticos convencionais. Na Brasil alguns vegetais são utilizados por tribos indígenas, no decorrer de ritos religiosos, como meio de produzir transes, como a Jurema e o Yopo. A Jurema é consumida na forma de chá, enquanto as sementes do Yopo são ma- ceradas e seu pó é consumido pela via intranasal (cheirado). Em diversas regi- ões da América do Sul, entre as bebidas com propriedades hipnóticas produzi- das por vegetais, o chá ayahuasca é a mais conhecida. Elementos e efeitos hipnóticos estão também presentes nas religiões das tribos indígenas da África, das Américas e da Oceania, assim como dos primitivos habitantes da Europa e da Ásia. O xamantismo é uma antiga religião da Ásia que existe até hoje. É caracterizada por um conjunto de práticas realizadas pelo xamã, uma categoria especial de médico-pajé que entra em transe e, segundo a crença indígena, sua alma vai para longe do corpo,

20 LABATE, Beatriz Caiuby e Wladimyr Sena Araújo (org.). O Uso Ritual da Ayahuasca, Campi- nas, 2ª ed, Mercado de Letras/Fapesp, 2004.

21 HUXLEY, Aldous. As Portas da Percepção: Céu e Inferno, RJ, Editora Globo, 2002.

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percorre lugares distantes, enquanto um espírito estranho encarna para realizar trabalhos de cura e adivinhação.

Entre algumas nações indígenas o xamã é um homem ou mulher que, no final da infância, passou por uma experiência de sentir sua sexualidade transfigurada, a partir daí leva a vida voltada inteiramente para dentro de si. É iniciado através de rituais, permanece por vários dias em estado de êxtase, depois disso consegue facilmente entrar em transe para servir de intermediário entre os homens e os espíritos xaporis, entidades que indica procedimentos de cura. Descrições dessas experiências podem ser encontradas ao longo de todo o caminho que vai da Sibéria às Américas. Em contato com diferentes povos, os rituais dos xamãs se popularizaram e se transferiram para fora das aldeias, incorporaram parte de outras culturas e crenças. Essa mescla, às vezes muito distanciada das explicações originais, é que se observa nos centros urbanos.

A prática do ritual de cura dos indígenas e outras medicinas alternativas

lidam principalmente com a fé. Mas isso não quer dizer que várias das ervas nativas, indicadas pelos pajés e xamãs, não tenham princípios químicos ativos que, inclusive, vêm sendo objeto de pesquisa científica e que já compõem vários remédios produzidos pelos laboratórios farmacêuticos. Independente do uso de vegetais, no ritual de cura dos indígenas ocorre sons produzidos pela

voz humana e ou instrumental, extremamente monótono e repetitivo, podendo também acontecer danças com movimentos corporais lentos, síncronos e repetidos. Tudo isso revela condições hipnotizadoras que, mesmo sem a ingestão de qualquer substância, podem levar pessoas ao transe hipnótico.

Há relatos do uso do chá ayahuasca em toda a Amazônia, chegando à costa do Pacífico no Peru, Colômbia e Equador, bem como na costa do Pana- má. Foi reconhecida nesta região em pelo menos setenta e duas tribos indíge- nas, com quarenta nomes diferentes. Entre as diversas tribos da bacia Amazô- nica é percebida como uma poção mágica, de origem divina, geralmente usada em ritual religioso com propósitos de cura ou para fornecer visões que são im- portantes no planejamento de caçadas, prevenção contra espíritos malévolos, bem como contra ataques de feras da floresta. Essas visões, guiadas e manipu- ladas pelos xamãs e fundamentada no ideário de crença do grupo, podem se repetir de forma coletiva.

É evidente o poder hipnótico do chá ayahuasca, bebida de cor marrom

claro e de gosto amargo, fabricada em diversas regiões da América do Sul a partir do cozimento concomitante de talos socados do cipó jagube ou mariri (Banisteriopsis caapi) e da folhas do arbusto chacrona (Psycho- tria viridis). Na mistura para a sua produção pode ou não ser acrescentado mais de trinta outras espécies de vegetais, como a folha de outro cipó conheci-

do na Colômbia como chagro panga (Diplopterys cabrerana). O método de preparo do chá ayahuasca varia conforme o grupo que o usa. Geralmente o cipó é cortado em pedaços de 20 centímetros e amassado, juntado dois terços de cipó para um de folha e posto na água fervente, deixando

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que ferva no fogo baixo por mais de 4 horas, repondo certa quantidade de água na medida de sua evaporação. O mais comum é a junção de, aproximadamente 1,5 quilogramas de cipó jagube e 0,5 da folha chacrona para cada litro de água. O cipó é colhido, limpo e socado pelos homens e cabem as mulheres colher e limpar lavando as folhas. Depois de esfriado, o chá é coado e armazenado em recipientes. Uma produção pode durar anos e ser usado em vários rituais. Também podem ser amassados, juntos cipó e folha, na água fria e deixando em descanso por, aproximadamente, vinte e quatro horas. Por qualquer método seu preparo é um longo processo, leva quase um dia. Originariamente o chá ayahuasca era apenas usado nos rituais indígenas que, segundo suas crenças, entre os efeitos produzidos "facilita o desprendi- mento da alma de seu confinamento corpóreo, voltando ao mesmo conforme a vontade, carregada de conhecimentos sagrados" (Schultes & Hofmann). Os ín- dios Jivaro, do Equador, acreditam que a experiência com ayahuasca é a vida real, ao passo que a realidade cotidiana é apenas uma ilusão.

A palavra ayahuwaska pertence à língua quíchua, falada no antigo

Imperio Inca pelos quíchuas. Hoje ainda é uma importante língua indígena da América do Sul, considerada no Peru e na Bolivia como oficial junto com a língua Aimará. Na etnologia lingüística aya quer dizer corda ou cipó dos espíri- tos ancestrais e huwaska significa chá ou vinho. A transliteração para a língua portuguesa resultou na simplificação do nome para ayahuasca ou mais simples como Hoasca. No Brasil o chá é conhecido como Auasca, Uasca, Santo Daime ou Vegetal e, em diferentes culturas, ainda é reconhecido por outros nomes como Yajé, Mariri, Caapi, Natema, Pindé, Kahi, Mihi, Dápa, Bejuco de Oro, Vi- nho de Deus ou Vinho dos Espíritos entre outros. Onde se cultua esse chá é recorrente a expressão “o cipó dá a força e a folha, luz”

No Brasil o consumo do chá ayahuasca por não indígenas surge do con- tato entre seringueiros e xamãs da região amazônica, no auge da exploração da borracha, no fim do século XIX. Os desdobramentos sócio-histórico-culturais ocorridos nesta região, nas primeiras décadas do século XX, propiciaram a sua expansão para outros contextos distintos de suas origens e dá início às religi- ões ayahuasqueiras que se espalham rapidamente para os centros urbanos. Religiões ayahuasqueiras As religiões criadas no século XX que fazem uso do chá ayahuasca são consideradas, do ponto de vista antropológico, como formas de neoxamanismo; recriam rituais xamãnicos agregando novos elementos culturais e religiosos. Tem início com os mestiços da região amazônica, migram para zonas urbanas e grandes centros como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Daí avançando para todos os Estados da federação brasileira e também para a América do Norte e Europa, colocando a etnia branca e urbana em contato com, pelo me- nos, fragmentos de tradições religiosas indígenas milenares.

As novas religiões que fazem uso do chá ayahuasca associam ações eso-

téricas do mundo indígena com tradições de outras crenças religiosas. Bastan-

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tes sincréticas combinam, em doses diferentes, desde o xamanismo indígena até o kardecismo, passando pelo catolicismo popular, pelo candomblé e pela re- ligião umbandista. Em todas elas os efeitos decorrentes da ingestão do chá são atribuídos ao processo de purificação da alma e tem como objetivo transmitir aos homens "uma prática ordenada pela força superior no sentido de ensiná-los

a se conduzir sobre a terra" (Callaway). 22 Várias comunidades na Amazônia passam a cultuar o chá ayahuasca e, em seu ritual, envolvem santos da Igreja católica e orixás do candomblé, reve- renciam a mata, a floresta, a paz e a alegria. Ao lado de cânticos que geralmen- te têm inspiração ecológica, a cerimônia envolve uma dança coletiva de passos repetidos, síncronos e monótonos, dois para um lado, dois para outro. Ás vezes essa dança dura uma noite inteira. Algumas dessas comunidades se transfor- mam em religiões bem conhecidas e, por dissidência ou conflito de liderança, se multiplicam a cada dia. Por volta de 1930, Raimundo Irineu Serra fundou a vertente religiosa ayahuasqueira na cidade de Rio Branco, no Estado do Acre, conhecida como “Santo Daime” ou “Alto Santo” e, posteriormente como CICLU - Centro de Iluminação Cristã Luz Universal. Mestre Irineu, que morreu em 1971, era um negro seringueiro de dois metros de altura que, em 1930, após uma intensa iniciação com a ayahuasca, através de um xamã na floresta amazônica, resolveu chamar o chá de “Santo Daime” e, com esse nome, iniciou uma religião. Foi tomando essa bebida que o mestre Irineu teve a visão (miração) de Nossa Senhora da Conceição e, segundo afirma, foi quando recebeu os fundamentos inspiradores da crença que acabaria por inaugurar. O nome “Daime” vem do próprio verbo "dar", no sentido Daí-me Luz! Daí-me Amor! Daí- me Força!

Na década de 1970 apareceu outra ramificação do Santo Daime, o Ceflu- ris – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra, funda- mentada em crenças xamânica, esotérica e cristã, liderada por Sebastião Mota de Melo (Padrinho Sebastião) que morreu em 1990. Sebastião foi um trabalha- dor seringueiro e construtor de canoas, natural de Eurinepé, Amazonas, discí- pulo do mestre Irineu que resolveu fundar sua própria religião, embora sem a- presentar, no início, divergências significativas na prática ou na crença do Mes- tre. Esta vertente evolui mais rapidamente para outros contextos sociais. O Cefluris nos anos 90 realiza ajustes e correções na sua estrutura de credo e de administração, expande-se pelos centros urbanos brasileiros e para

o exterior. Trinta anos depois de sua fundação conta com núcleos na Holanda,

na França, na Itália, no Japão e nos Estados Unidos, entre outros paises. Uma boa característica dessa organização é o fato de ser a mais aberta à comunida- de externa, divulgando de forma explicita seus objetivos e prática religiosa. Sua

22 CALLAWAY, J.C. et al. Quantitation of N, N-dimethyltrytamine and harmala alkaloids in hu- man plasma after oral dosing with Ayahuwasca, J Anal Toxico, l 20(6): 492-7, 1996.

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estrutura, horizontal e democrática, permite que os diversos segmentos utilizem bem os meios de comunicação como revistas especializadas e Internet. Sua di- vulgação rápida aponta para o crescimento acelerado no Brasil e no mundo.

É curioso como surgiu outra religião ayahuasqueira denominada “Barqui-

nha”, nome que corresponde a uma festa do folclore popular, trazida para o Brasil pelos portugueses e guardada na memória do povo através de gerações. Representa a cultura de gente simples, suas brincadeiras e seu lirismo lúdico que não se perderam no tempo. Cultuam feitos históricos dos navegantes, en- volve a representação de marinheiros e sua religiosidade. Porém, aos poucos foi se afastando das origens, se modificando, se adaptando e readaptando a

novos contextos culturais.

A festa folclórica da Barquinha é comemorada em pequenas cidades e vi-

larejos em todo o país, principalmente no Norte e Nordeste do Brasil. Acontece nos meses de junho a dezembro, dependendo da região, mas na sua maioria ocorre quando se comemora Santo Antonio, São João e São Pedro. Caracteri- za-se como um bailado popular, é um entretenimento dançado por homens e mulheres coletivamente, representando a chegada da barca que trazia mari- nheiros e oficiais das naus para porto. Seguido do desfile até a Igreja para co- memorar feitos náuticos e a conversão do pagão à religião católica-romana, daí prosseguindo com os festejos aos santos padroeiros locais. O grupo é compos- to por pessoas simples que, trajadas de marujos, são capitaneadas geralmente pelo mais antigo, entoam hinos e glosas populares, ao som de instrumentos musicais rústicos. Além do exibicionismo dos personagens, envolve a platéia em seus folguedos, brincadeiras e bailados. Embora aponte vínculos de religio- sidade é uma festa popular profana.

Em 1945, Daniel Pereira de Mattos, maranhense que bem conhecia e par- ticipava de festas da Barquinha em sua terra natal, onde também freqüentou a escola de aprendiz de marinheiro, se mudou para o Acre e conheceu a ayahu- asca pelas mãos de Raimundo Irineu Serra, quando se tratava de uma enfermi- dade (Araújo) 23 . Acrescentando ao folclore junino o consumo do chá, transfor- mou a festa em religião. Mais tarde, fundando uma sede, o grupo da Barquinha passou a ser denominado de Centro Espírita e Culto Oração Casa de Jesus Fonte de Luz, mas não perdeu o nome original. Entre as religiões que conso- mem o chá, a Barquinha é a menos espalhada pelo Brasil, concentrada na regi- ão amazônica e fundamenta-se na crença cristã, mas admite a incorporação do "Preto Velho", típico dos rituais de influência africana. Na região amazônica, os adeptos da Barquinha com roupas de marinheiro tomam o chá ayahuasca que, segundo a crença, conecta o homem com o divi- no. Todos cantam os salmos; músicas que teriam sido inspiradas por guias es- pirituais invisíveis. No templo a imagem de São Francisco das Chagas, é o co- mandante que pilota a Barquinha, com outros seres divinos. A bebida provoca o

23 ARAÚJO, W. S. (org). O uso ritual da ayahuasca. S. Paulo: Mercado das Letras, 2002.

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transe, e assim começa a viagem, cuja missão seria resgatar almas dos mortos que sofrem no mundo espiritual e levá-las, pelo mar sagrado do Santo Daime, até os pés de Jesus Cristo, onde está a salvação.

A festa da Barquinha é transformada por Daniel Pereira de Mattos em

uma mescla do folclore popular com a crença cristã e o ritual indígena, além de associar também crenças do candomblé e da umbanda. Nessa religião, santos da Igreja católica se misturam com entidades espirituais conhecidas como Ca- boclos, Preto Velho e Boiadeiro entre outros, que supostamente se manifestam para afastar forças negativas, promover curas ou ajudar alguém de algum mo-

do. Após a ingestão do chá, o ritual tem duração média de quatro horas. Entre outros grupos religiosos que se desprenderam da Barquinha e se espalharam pela Amazônia, existe um situado às margens do Rio Acre, é o Centro Espírita Luz, Amor e Caridade, conduzido pelo mestre Juarez que, com mais de oitenta anos de idade, ainda comandava o Centro. No dia 29 de junho, começa a celebração da Noite de São Pedro e, dentro da igreja, orações e sal- mos são entoados. Após beber o chá, todos saem para o terreiro de umbanda, onde são feitas as chamadas "obras de caridade". Mestre Juarez assovia, cha- mando a força do Daime, ele estaria incorporando um encantado, uma entidade poderosa no mundo da Barquinha, o Príncipe Dragão do Mar. Acredita-se que várias entidades do além descem ao terreiro para expulsar espíritos malignos. Na década de 1960 formou-se em Porto Velho, no Estado de Rondônia, a UDV - Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, através de José Gabriel da Costa, um baiano que foi para a região amazônica trabalhar nos seringais. Atualmente figura como uma das maiores entre as religiões que fazem uso do chá ayahuasca. Seu ritual é discreto e sem os bailados, é mais fechada à comunidade externa e sua estrutura vertical é bem hierarquizada.

Por orientação do mestre Gabriel, a UDV adota a fundamentação cristã e reencarnacionista e o transe é conhecido como borracheira que, se- gundo seu fundador, significa uma “força estranha, a presença da força e da luz do Vegetal na consciência daquele que bebeu o chá”. Segundo seus dirigentes, a bebida é um veículo de concentração mental, seu efeito amplia a percepção e permite melhor compreensão dos fundamentos da espiritualidade.

A UDV indica para os associados seguirem regras disciplinares rígidas,

como o não consumo de álcool e de fumo, preservação da instituição familiar, além de postura socialmente ética sobre todos os aspetos. O chá ayahuasca é conhecido nesta associação por três sinônimos: Hoasca, Mari- ri ou Vegetal. É contra o uso do chá fora do contexto religioso, além de conside- rar inadequado o uso indiscriminado por pessoas não-iniciadas e sem a orien- tação de um dirigente (mestre). O novato para ser iniciado é indicado por um

associado e aprovado pelo líder da organização. Na UDV ocorrem sessões regulares (de escala) duas vezes ao mês e sessões extras convocadas pelo mestre, além de sessões de iniciação. Durante

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o ritual, os participantes permanecem sentados e em absoluto silêncio, o mestre preside a sessão e dosa a quantidade do chá ayahuasca para o consumo de cada um em particular. Todos, sem exceção, simultaneamente bebem e ficam

esperando a "borracheira" como é conhecido o transe. Para sair do recinto, principalmente em função das reações do chá que iniciam após trinta a quaren- ta minutos e vai até três ou quatro horas, é preciso permissão do mestre. O no- vato ao sair é seguido por um ou dois associados que o vigia em tempo integral. Isso vale para prevenir vertigens e outras situações imprevistas durante o tran- se. No ritual, a circulação das pessoas no salão se faz no sentido anti-horário que, segundo mestre Gabriel, “é o sentido da força”. A prática da circulação an- ti-horária também acontecia nas sessões mesmeristas até o fim do século XIX,

e em sessões kardecistas até a primeira metade do século XX. Na UDV, cerca de uma hora e meia após a ingestão do chá, como forma de certificar os efeitos, o mestre vai de um em um e pergunta “Como vamos? Tem luz? Tem borracheira?” No início do transe coletivo são entoados cânticos (chamadas), que tem como proposta transmitir ensinamentos. Decorrido cerca de três horas, quando todos estão em plena "borracheira", ouvem gravações de MPB. A autoridade é amplamente ostensiva, tudo é controlado rigorosamente seguindo a hierarquia, Mestre, Conselheiro, Associado e diferencia-se um dos outros por fardamento, função e tarefa. A Borracheira é alusão do mestre Ga- briel ao termo conhecido nos seringais como o período decorrido entre o fim e o início da extração do látex, quando ocorre embriedade ou bebedeira dos traba- lhadores. Segundo a crença da UDV, foi um importante personagem bíblico, o Rei Salomão, quem descobriu como produzir o chá e passou esse conhecimento a um homem chamado Caiano. Séculos depois, Caiano teria nascido de novo na Bahia, com o nome de José Gabriel da Costa. Torna-se mestre Gabriel após conhecer a ayahuasca nos seringais de Rondônia e fundar a União do Vegetal. Andrade 24 conta à trajetória de vida de José Gabriel com detalhes, relata seu envolvimento com o catolicismo popular, ainda no interior da Bahia onde nasceu, como freqüentou sessões espíritas kardecistas e terreiros de candom- blé em Salvador e seu trabalho na extração da borracha no Estado de Rondô- nia. Conta como, em Porto Velho, Gabriel passa a atender pessoas, em sua ca- sa, jogando búzios e relata com detalhes como, quando e por que se torna Ogã

e Pai do Terreiro de Mãe Chica Macaxeira. Por fim, define como ocorreu seu re-

torno ao seringal onde abre seu próprio terreiro, no qual “recebia” o caboclo Sul- tão das Matas com o objetivo de curar pessoas, dar conselhos e orientar as ca-

çadas. Ao abrir seu próprio terreiro, José Gabriel passa a dirigir um rito sincrético, uma forma de xamanismo assemelhado à pajelança amazônica que associa, na

24 ANDRADE, Afrânio P. de. O fenômeno do chá e a religiosidade cabocla. Um estudo centrado na União do Vegetal. Dissertação de Mestrado, Instituto Metodista de Ensino Superior. S. Bernardo do Campo, 1995.

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prática, elementos religiosos afro-indígena, kardecista e do catolicismo popular. Em abril de 1959, no seringal Guarapari, na região da fronteira boliviana, Gabri- el recebeu pela primeira vez o chá ayahuasca de um seringueiro chamado Chi- co Lourenço, que representava uma tradição indígena-mestiça de uso xamânico do chá. Segundo Andrade, em 1961, José Gabriel reuniu as pessoas e disse: “Eu quero falar pra vocês que tudo que o Sultão das Matas faz eu sei; Sultão das Matas sou eu”. Este momento foi considerado como de grande iluminação. Ao postular para si mesmo o poder antes atribuído à entidade Sultão das Matas, mestre Gabriel nega a incorporação dos cultos de caboclo. A partir daí, o transe deixa de ser entendido como mediúnico, não há incorporações nas sessões. Mestre Gabriel reconhece um novo tipo de transe e o denomina de borracheira, em vez de incorporação agora ocorre iluminação. Este momento é justificado como sendo a percepção do mestre, reconhecendo uma força desconhecida que age dentro de cada um. Como se diz na UDV, “no decorrer da borracheira há uma potencialização dos sentimentos, das percepções e da consciência”. Essa descrição é perfeita para caracterizar o que pode ocorrer em um transe hipnótico quando bem conduzido. É certo que sugestões de melhorias, curas e superações de vicissitudes, instaladas na mente humana durante um transe, funciona de forma poderosa. No transe produzido pelo chá ayahuasca, as sugestões são elaboradas, ampli- adas, ajustadas e adaptadas, de forma consciente ou não, por cada pessoa, pe- lo mestre e o ambiente onde ocorre a sessão, pelo ritual e dogmas praticados e ensinados que induzem princípios universais da ética e da moral. A ordem reli- giosa estabelecida lembra e introduz na mente de cada um a idéia do mereci- mento a uma vida digna, ao direito da pessoa ser feliz e de fazer o próximo fe- liz. Condições indispensáveis para elevação da auto-estima, superações de ad- versidades e curas. 98% das pessoas que experimentam o chá ayahuasca entram em transe. 80%, incluindo aí o mestre, apresentam sintomatologia do transe leve, o que permite entrar ou sair do estado hipnótico, dependendo da necessidade e de sua vontade. 30% ficam em nível intermediário e cinco a dez 5% apresentam sintomatologia idêntica aos níveis sonambúlicos e plenos do transe hipnótico, exceto pelo efeito aversivo provocado pela ingestão do chá. Os efeitos provocados pela ingestão do chá ayahuasca iniciam após, a- proximadamente, trinta minutos e prolonga-se por até quatro horas, variando na intensidade a depender da quantidade consumida e da propensão de cada pes- soa ao transe. O efeito aversivo é caracterizado por uma série de reações como náuseas, vômitos intensos, diarréias, palpitação, taquicardia, tremores, midría- se, suor excessivo, perda da discriminação espaço-temporal, ilusões sinestési- cas, perda ou diminuição de controle psicomotor e vertigens. Não obstante a essas situações adversas, no período de duas a quatro horas pode ocorrer o

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aumento de bem-estar do indivíduo, criando fortes sensações de felicidade e contentamento. Após o transe aqueles que experimentam efeitos mais profundos de bem- estar, relatam sensações de vôo pelos ares, idas a lugares distantes, visões envolvendo locais e pessoas (miração), relatam ainda a sensação de comuni- cação com divindades. As narrativas são variadas e, de certo modo, se ajustam à cultura, à crença e ao ideário de cada um. Devido a esses efeitos a mistura dos dois vegetais para a composição do chá ayahuasca, foi e continua sendo utilizada com finalidade mística em ritual religioso, geralmente com objetivo de cura.

Nos anos 90 a União do Vegetal começa a se expandir pelos centros ur- banos brasileiros e para o exterior, entrando na América do Norte e na Espa- nha. Em 2006 a Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos deu autoriza- ção, por votação unânime, para prática do culto em território americano. O tri- bunal recusou os argumentos do governo americano de que uma das substân- cias contidas na bebida ayahuasca está na lista de entorpecentes proibidos pe- la legislação em vigor. Na decisão o tribunal levou em conta a permissão dos membros da Igreja Nativa Americana, na grande maioria indígena, usarem em seus rituais um chá composto por peiote. Os índios norte-americanos possuem o Ato de Liberdade de Religião Indígena, aprovado em 1994, que especifica au- torização para o uso do cacto Peiote para fins religiosos e, por analogia, o con- sumo do chá foi autorizado. O DMT, substância presente na folha do arbusto que compõe o chá aya- huasca, é proibido pela Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas da ONU - Organização das Nações Unidas, firmada em Viena em 1971, da qual o Brasil é signatário. Por conta desta restrição, o DMT foi incluído na lista das substâncias psicoativas proscritas da Divisão de Medicamentos do Ministério da Saúde bra- sileira durante os anos de 1985 a 1987. Enquanto neste mesmo período, uma comissão multidisciplinar estudou as formas de consumo do psicoativo proibido e, como resultado deste estudo, o (extinto) Conselho Federal de Entorpecentes elaborou parecer retirando a substância da ilegalidade. Em 1992, houve nova tentativa de proibição do consumo do DMT no Bra- sil, tendo sido organizada uma segunda comitiva, que reafirmou a decisão da anterior, de liberalização do uso para fins religiosos. Hoje predomina o entendi- mento fundamentado no Direito Constitucional de liberdade de culto e religião (CFR de 1988, artigo 5º, inciso VI). Também foi considerado o fato que de nada consta na legislação penal brasileira sobre os componentes ativos contido nos vegetais que compõem o chá ayahuasca, portanto, seu uso é facultado (Lei de entorpecentes, 6.368/76). Do ponto de vista internacional, existe uma ação pro- cessual em curso na ONU para regularizar a situação, no âmbito de sua con- venção, no sentido de reconsiderar o uso do chá ayahuasca como facultado em ritos religiosos no Brasil.

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É relativamente grande a discussão acadêmica quanto aos efeitos do chá ayahuasca, mas a literatura científica sobre o tema é controversa, ora considera como alucinógeno e de uso não recomendado, ora considera como inofensivo à saúde e indicado como terapia. A ciência ainda caminha no sentido de esclare- cer completamente como os elementos contidos na bebida agem no organismo humano. Já se sabe que a folha do arbusto chacrona (Psychotria viridis) con- tém um princípio ativo, a DMT (N, N, Dimetiltriptamina), que tem semelhança estrutural com a serotonina, um importante neurotransmissor do sistema nervo- so central. Quando administrada por via oral, a DMT é decomposta pela mono- aminoxidase (MAO), tornando-se inativa. O cipó jagube ou mariri (Banisteri- opsis caapi) contém alcalóides beta-carbolinas: a Harmina, a Tetrahidroharmi- na e a Harmalina. Esses alcalóides inibem a atuação da enzima MAO, o que e- vita que esta torne inativa a ação da DMT contida na folha. Assim, a interação entre esses alcalóides e a DMT permite que a bebida produza alterações no corpo e no psiquismo. Dentro da perspectiva sistêmica fica complicado saber como as proprie- dades do chá ayahuasca, isoladamente identificadas a partir de pesquisas re- ducionistas, agem no organismo humano, o quê de fato acontece quando é in- gerido, como são ou não mantidas suas propriedades originais quando interage com tantos outros elementos do metabolismo e do psiquismo. Para a ciência atual essas respostas são difíceis, como também é difícil explicar como aconte- ce a produção do transe hipnótico, com sintomatologia e efeitos iguais, que são induzidos sem a ingestão de quaisquer substâncias, através de meras suges- tões verbais ou visuais e que podem até ser praticados por auto-sugestão. Co- nhecer a sintomatologia do transe hipnótico, suas diferentes formas de produ- ção e efeitos, talvez possa contribui para interpretar o efeito do chá ayahuasca. Na Colômbia, Bolívia, Peru, Venezuela e Equador o consumo e a admi- nistração do chá ayahuasca sem envolvimento religioso é tradição. Sua aplica- ção é feita por uma espécie de médico naturalista ”ou curandeiros pelas plan- tas” que se referem a si mesmos como vegetalistas ou herboristas e ajudam as pessoas das áreas rurais e as populações pobres de áreas suburbanas que, doentes, não têm condições de ser assistidas pela medicina convencional. No Peru o chá ayahuasca é conhecido também como la purga, devido às suas características de provocar diarréias que são entendidas como processo de desintoxicação e, em certas regiões da Colômbia, com essa mesma finalida- de o chá é denominado de el remedio. Sem envolver religião, estudiosos levan- tam hipóteses de que o chá ayahuasca contenha propriedades antimicrobianas, o que o tornaria efetivo no combate a vermes ascarídeos e protozoários. É só Brasil que tem início o uso do chá, associado ao sincretismo religioso, por popu- lações não indígenas. Transe e sincretismo

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A história do sincretismo religioso no Brasil inicia com os jesuítas incumbidos de doutrinar os índios e depois os negros, proibindo seus cultos sagrados. Os negros escravos, por não terem alternativa, construíam altares com imagens e gravuras dos santos do catolicismo e associava essas imagens aos orixás, como a única forma de continuarem com suas crenças de origem. Formou-se assim a associação entre o orixá do candomblé e o santo da Igreja católica, em rituais com elementos simbólicos riquíssimos, utilizando muitas cores, sons e ritmos, realizados nos terreiros das senzalas. Com o passar do tempo, alguns terreiros começaram a misturar os rituais do Candomblé com os da Pajelança, dando origem a outros cultos. O Candomblé tem vários ritos e diferentes ênfases culturais, mas sempre neles ocorrem transes. As culturas africanas, fontes para as atuais vertentes do candomblé praticado no Brasil, vieram da área cultural banto; onde hoje estão os territórios da Angola, Congo, Gabão, Zaire e Moçambique e da região sudanesa do Golfo da Guiné, circunscrita à Nigéria e Benin, que contribuíram para a formação cultural dos iorubás e os ewê-fons. Estas origens se interpenetram tanto no Brasil como na África. Os rituais africanos associados aos rituais indígenas, principalmente da Região litorânea do Nordeste brasileiro, deram origem ao Candomblé de Caboclo e, neste caso, a força curativa é atribuída aos espíritos de índios e negros. Essa mistura de cultos cria ramificações como os Conjuros, Canjerê, Catimbó, Macumba, Quimbanda e Jurema ou Juremeiros. Os Juremeiros consomem uma bebida, originaria dos rituais indígenas, de nome jurema. É produzida com a casca do caule e da raiz da planta jurema (Mimosa Hostilis Benth), natural da região nordeste do Brasil, acrescida de mel e outra bebida fermentada de teor alcoólico. Os índios também fumavam, por meio de cachimbo, um preparado com a raiz desta planta e, tanto o hábito de fumar como de ingerir a bebida foi incorporado aos rituais de origem e influência africana. No culto afro-brasileiro a composição da bebida jurema, antes apenas in- dígena, passou a ser conhecida como vinho da jurema e, outros ingredientes fo- ram acrescentados além da cachaça e o mel; o vinho tinto, o pó de guaraná, a rapadura, canela, cravo-da-índia, gengibre e dandá, também conhecido como ti- ririca ou junca, apontando no meio acadêmico como sendo a espécie Fuirena umbellata Rotbb. Em alguns terreiros de nação Angola, antes de se beber jure- ma, põe-se uma pitada de dandá na boca. O vinho e o dandá são também ser- vidos à assistência e, acredita-se, a pessoa que bebe, sendo susceptível ao transe e envolvido com a crença no culto, manifesta imediatamente a incorpo- ração do espírito de um caboclo. Enquanto a bebida é servida, cantam-se hinos em homenagens às divindades cultuadas e, juntos, o dandá e a jurema acele- ram o processo do transe.

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Zanini & Oga 25 afirma que o vinho da Jurema produz efeitos semelhantes aos do LSD 25 e de outras drogas desse grupo, porém reconhece que seu uso não causa dependência física ou psíquica e seu abandono não causa síndrome de abstinência. Logo não é tão semelhante assim. Há uma tendência acadêmi- ca de se classificar qualquer tipo de transe, produzido por ou com a ajuda de elementos químicos, mesmo que naturais, como sendo mera ação de uma substância alucinógena.

No transe hipnótico produzido em diferentes rituais, com uso de substân-

cia química ou não, inclusive aqueles provocados apenas por estímulo dos sen- tidos normais como a visão, a audição e o tato, entre seus efeitos podem ser observados a ocorrência de alterações do humor, com euforia e depressão, an- siedade, distorção de percepção de tempo e espaço, forma e cores e alucina- ções visuais. A esses sintomas, algumas vezes, são acrescidas idéias deliran- tes de grandeza ou perseguição, despersonalização, midríase, hipertermia no

tórax e cabeça associado à hipo-termia nas extremidades das mãos e pés.

Em rituais religiosos, quando provocam transes, pode ser observado além das alterações de senso-percepção, delírios e visões que correspondem à crença praticada. A descrição desses efeitos, narrados pelos participantes, são induzidos e desenvolvidos pelas sugestões prévias embutidas na cultura religi- osa. Por isso, freqüentemente, esses efeitos são entendidos como experiências místicas, visões e êxtases.

O Candomblé de Caboclo associado ao Kadercismo cria também a

Umbanda, que admite a manifestação de espíritos de pessoas mortas. Os cânticos para os orixás, atabaques e jogos de búzios, naturais do rito africano, são substituídos por práticas desenvolvidas na Europa como sessões de passe com a imposição das mãos e consulta aos espíritos através de médiuns. A Umbanda mistura tradições religiosas africanas, indígenas e católicas, além dos orixás, cultuam o caboclo, o preto-velho e espíritos dos antepassados que servem de guias ou conselheiros aos fiéis. As rezas e as bênçãos, praticadas pelas rezadeiras e benzedores, também podem exercer efeitos hipnóticos, ou pelo menos são de grande poder sugestivo. O benzimento é uma forma antiga no tratamento de várias doenças, utilizado desde a idade média na Europa. No Brasil, além da reza tradicional, alguns benzedores indicam para reforçar o efeito de cura o uso de plantas como amuletos protetores, ou preparam e receitam chás, garrafadas, banhos e ungüentos, dando assim origem ao termo raizeiro ou curandeiro, conhecido também como feiticeiro ou milagreiro. Estes são proscritos pela medicina oficial e amaldiçoados pela religião dominante, além de mantidos à margem da lei. Parece que quanto mais uma civilização evolui e a ciência oficial se desenvolve, mais a figura do curandeiro se faz presente e mais numerosos e populares são os adivinhos, os videntes, as cartomantes e todas as

25 ZANINI, A C. & Oga, S. Farmacologia aplicada, pesquisa USP, S. Paulo, Atheneu Ed. 1979.

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metamorfoses e alterações semânticas, envolvendo antigos e novos mitos e suas associações com o transe hipnótico. Padres hipnotistas Na Europa, por volta de 1770, um Padre católico de nome Johann Joseph Gassner (1727-1779) que viveu em Klosters, no sul da Alemanha, atribuía às doenças a possessão demoníaca. Se hoje as doenças são, para grande parte da humanidade, atribuídas às forças malignas, isso era pensamento padrão no século XVIII. Nessa época os doentes eram simplesmente entendidos como possuídos pelos demônios e Gassner divulga a crença de que podia curar os enfermos. Em milhares de pessoas, por sugestão hipnótica induzia curas espetaculares e, para assegurar-se da aprovação da igreja, aplicava seu método de tratamento como se fosse processo de exorcismo, obtendo o consentimento para suas ações através da afirmação de que Deus estava agindo através dele. 26 Gassner aparecia de forma teatral à sua clientela vestido todo de preto, de braços estendidos, segurando um grande crucifixo de ouro cravejado de diamantes; usava ambiente solene, decorações lúgubres e falava em latim com voz cava e não fazia segredos de seus métodos. Freqüentemente permitia que médicos observassem sua prática, os quais se apresentavam para observá-lo em ação e eram conduzidos na Igreja a uma sala parecida com um pequeno teatro onde se acomodavam. Então o doente era posicionado numa espécie de palco para esperar o Padre. Com o objetivo de melhorar ainda mais o espetáculo, no timing de sua entrada, Gassner caminhava até a plataforma através de um longo promontório negro, segurando o crucifixo com a mão estendida ao alto. Ao ser tocado pelo crucifixo o doente entrava em estado cataléptico. Isto era o primeiro passo para expelir todas as formas de mal existentes em quem se sentia possuído. A catalepsia é um estado que envolve a súbita suspensão da sensação e da volição, bem como a paralização parcial das funções vitais. Ocorre, ao mesmo tempo, queda acentuada da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, resfriamento das mãos e dos pés, além de profunda palidez, o corpo se torna rígido, ficando com a aparência que pode ser confundida com uma pessoa morta. O estado cataléptico é provocado por emoções fortes decorrente de grande expectativa prolongada por horas seguidas, um susto ou um medo violento. Dependendo da técnica de indução e do nível de suscetibilidade ao transe, algumas pessoas hipnotizadas alcançam rapidamente este estado. Todos eram instruídos a “morrer” quando tocados pelo Padre e, enquanto “jaziam” prostrados ao chão, Gassner expulsaria os demônios de seus corpos devolvendo-lhes a vida normal. Depois que algum médico examinava o paciente, não sentindo pulso, não ouvindo batidas do coração declarava-o

26 Manifestações de possessões demoníacas e procedimentos exorcistas, a Igreja Católica ad- mitiu em determinadas épocas, em outras não. Paulo VI eliminou a figura do exorcista, que foi recuperada, no entanto, por João Paulo II (N. do A.).

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como morto, então o Padre ordenava que o demônio partisse e, logo após, o paciente “ressuscitava” e levantava-se completamente curado. Quando o doente era trazido, antes de empregar o exorcismo, Gassner fazia um teste para certificar-se de que a doença era atribuída ao demônio; a prova, na verdade um teste de suscetibilidade hipnótica, consistia essencialmente numa fórmula de conjuração que ele fazia acompanhar do sinal da cruz. Se o demônio não respondesse através de crises convulsivas a três invocações seguidas, concluía ele que a doença era de origem natural e deixava para os médicos curar, caso afirmativo iniciava a sua própria sessão de cura. Karl Weissmann 27 descreve uma dessas sessões, realizada por volta de 1774, na qual foi hipnotizada uma jovem de nome Emilie, e relata o método utilizado:

Entrando de maneira dramática no aposento, o Padre Gassner tocou a jovem com o crucifixo, e essa, como que fulminada, caiu ao chão em estado de desmaio. Falando-lhe em latim, a paciente reagiu instantaneamente. À ordem - Agitatur bracium sinistrum - o braço esquerdo da jovem começou a mover-se numa crescente velocidade. E ao comando - Cesset - o braço se imobilizara, voltando à posição anterior. Ato contínuo, o Padre lhe sugere que está louca e a jovem com o rosto horrivelmente desfigurado, corre furiosamente pela sala, manifestando todos os sintomas característicos da loucura. Bastou a ordem enérgica - Pacet - para que ela se aquietasse como se nada houvesse ocorrido de anormal. O Padre Gassner nesta altura lhe ordena falar em latim, e a jovem pronuncia o idioma, que normalmente lhe é desconhecido. Finalmente, ordena à moça uma redução nas batidas do coração. E o médico presente constata uma diminuição na pulsação. Ao comando contrário, o pulso se acelera, chegando a 120 pulsações por minuto. Em seguida, a jovem, estendida no chão, recebe a sugestão de que suas pulsações se iriam reduzir cada vez mais, até cessarem completamente. Seus músculos seriam relaxados totalmente e morreria, ainda que apenas temporariamente. E o médico, espantado, não percebendo sequer vestígios de pulso ou de respiração, declara a jovem morta. O Padre Gassner sorri confiantemente. Bastou a ordem sua para que a jovem retornasse gradativamente à vida. E com o demônio devidamente expulso de seu corpo, a moça, sentindo-se como nascida de novo, desperta e agradece sorridente ao Padre o milagre de sua cura (WEISSMANN).

27 WEISSMANN, Karl. O hipnotismo. História, Teoria e Prática da Hipnose. RJ, Ed. Prado, 1958. Karl Weissmann (1911 a 1981), austríaco naturalizado brasileiro, escreveu apenas um livro e se tornou muito conhecido e citado no Brasil quando o tema é Hipnotismo. Desde a primeira edição, em 1958, o livro é reimpresso com títulos ligeiramente diferentes, porém sem alterações no seu conteúdo. Em sua autobiografia Weissmann diz que foi hipnotista de palco e de gabinete e que trabalhou, na década de 50, como psicólogo na Penitenciária de Neves, no Estado de Minas Gerais (N. do A.).

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Lorenzer 28 descreve também, passo a passo, a sessão com Emilie. Gassner começava advertindo que ela podia depor sua confiança em Deus e em Cristo, cujo poder supera a força do demônio e a isso seria atribuída a sua cura. Emilie senta-se numa cadeira em frente ao Padre e ele pronuncia as seguintes palavras em latim (para este autor, Emilie entendia latim):

Praecipio tibi in nomine Jesu, ut minister Christi et ecclesiae, veniat agitatio brachiorum quam antecedenter habuist - Nisso as mãos de Emilie começaram a tremer. Gitentur brachia tali paroxysmo qualem antecedenter habuisti - Ela afundou na cadeira para trás e estendeu com inteira impotência os dois braços. Cessat paroxysmu - Levantou-se de repente de seu lugar e parecia saudável e serenamente alegre. Paroxysmus veniat interum vehementius, ut ante fuit et quidem per totum corpus - A crise começou de novo. As pernas se levantaram até a altura da mesa, dedos e braços ficaram rígidos e dois homens fortes não puderam dobrar seus braços, além dos.olhos que ficaram abertos, mas estavam revirados. Tremat ista creatura in toto corpore - Tremor no corpo todo. Hebeat augustia circa cor - Emilie levantou os ombros, abriu os braços, virou os olhos de maneira assustadora, desfigurou a fisionomia e seu pescoço entumesceu. Sis quase mortua - Sua fisionomia ficou com palidez mortal, sua boca abriu-se amplamente, os olhos perderam aquela expressão, o pulso ficou tão fraco que o cirurgião presente dificilmente pode senti-lo. Sai irata omnibus praesentibus - Ela ficou encolerizada contra todos os presentes (cerca de vinte pessoas). Surgat de sella et aufugiat - Depois de um momento levantou-se de sua cadeira e foi para a porta. Sit melancholica, tristissima, fleat - Ela começou a soluçar e lágrimas desceram pela face. Apertis oculis nihil videat - Daí em diante passou a responder perguntas. De olhos abertos, dizendo nada ver, e assim por diante (LORENZER).

Finalmente Gassner procedeu ao exorcismo e, depois disso, deu algumas instruções a Emilie de como ela própria poderia proteger-se da enfermidade, afirmando que possuía o dom de transmitir esta aptidão às pessoas que tratava. Ao deixá-la explicou aos presentes que tudo o que havia ocorrido só acontecera através da graça de Deus e só devia servir ao reforço e glorificação do evangelho. Não só através da utilização de métodos e aplicações de técnicas hipnóticas as pessoas eram induzidas a admitir estarem possuídas pelos demônios, para isso também contribuía a própria crença que associava as doenças aos “maus espíritos”. Aqueles que se sentiam com o “diabo no corpo” vinham ou eram trazidos ao Padre para que ele o expulsasse. E com o demônio devidamente expulso a pessoa agradecia, na igreja, o milagre de sua cura. Não resta dúvida de que Gassner era um perito hipnotista e que hoje, já passados quase três séculos, o seu método, ligeiramente modificado, ainda surte efeitos em muita gente.

28 LORENZER, Alfred. Arqueologia da psicanálise: Intimidade e infortúnio social (Trad. Wilson de Lyra Chebabi), RJ, Zahar, 1987.

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Gassner deu início à sistematização de induções ao estado de transe hipnótico associando a idéia do exorcismo. Primeiro era expressamente induzido por sugestões o estado possesso para depois ser, também por sugestão, exorcismado. O método de indução era reforçado pela solenidade do ambiente, na fé, na crença ao sobrenatural, e na expectativa em torno do acontecimento; tudo isso junto criava uma atmosfera propícia para o transe imediato. As técnicas utilizadas eram bem próximas das atuais; o retorno do transe, disfarçado como exorcismo, era previamente anunciado de forma lenta

e enfática. Acreditando ter se livrado do demônio, os pacientes ou fiéis também acreditavam na sugestão subjetiva pós-hipnótica e comportavam-se como quem se livrou, por assim dizer, da doença. Sem dúvida, nestes casos a cura, para grande maioria dos males, realmente acontecia. Algumas sessões de hipnose realizadas por Gassner eram coletivas, tinha como objetivo o exorcismo de pequenos demônios, os quais, embora freqüentemente instalados nas pessoas, não resistiam à expulsão em bloco. A técnica consistia em formar uma fila e, após a explicação do que deveria ocorrer, sobre a cabeça da primeira até a última pessoa, rapidamente passava um pequeno e espesso manto preto e, como que fulminados todos caíam para trás. Ato contínuo o Padre retirava do transe aqueles que permaneciam mais profundo sob alegação que seriam libertados do mal.

M. Lecron 29 lembra que a hipnose de massa geralmente ocorre de forma indireta ou dissimulada e que sua utilização é possível, entre outras oportunidades, em alguns cultos e ritos de caráter religioso conforme sinaliza:

“Em muitas cerimônias religiosas, especialmente se houver música e ritual, muitos dos presentes ficarão em estado de hipnose espontânea”. Em alguns casos, podem os líderes ou dirigentes apresentar-se com perfil de comportamento assemelhado ao do Padre Gassner e a aplicação do método hipnótico varia apenas no grau de intensidade e no vocabulário que é adaptado

à época e ao ato religioso. A pesquisa identificou através de observações in loco algumas situações equivocadas ou dissimuladas e, por isso, consideradas como manifestações de espíritos ou demônios. Todos os casos analisados foram interpretados como apenas induzidas por sugestão e, para se chegar a essa conclusão, foi constatada a presença da hipnose nas “manifestações”. Os transes foram produzidos através de métodos hipnóticos e técnicas de induções, mesmo que ligeiramente adaptado. Foi identificado como sendo uma das técnicas mais utilizadas o procedimento do hipnotizador (condutor do ritual). Como exemplo, o fato de colocar uma das mãos na testa e a outra na nuca ou no alto posterior da cabeça do hipnotizado (adepto à religião), efetuando pequenos e enérgicos movimentos circulares, enquanto induziam verbalmente a sugestão direta do

29 LeCRON Leslie M. Auto-hipnose. ed. Record, 2. Ed., RJ, 1979.

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comportamento que espera. O veículo para a aplicação do método hipnótico reside na fé dos participantes que, no decorrer do processo, representam sintomas e comportamentos induzidos através de sugestões durante o transe, ou posterior, através de sugestões pós-hipnóticas. Entre as sugestões pós-hipnóticas observadas estão aquelas que induzem o hipnotizado à dependência de continuar participando e colaborando com o processo desenvolvido nas reuniões ou sessões; afirmam efusivamente que para ele ficar livre definitivamente do problema que o atormenta deve voltar, com regularidade de freqüência, a prática que acabara de experimentar e ou alertam para o dever de colaborar com a continuidade da organização ou da obra religiosa onde a tal prática foi realizada. Essas sugestões pós- hipnóticas geralmente se transformam em ações compulsivas e, portanto, inconscientemente cumpridas. Para melhor análise da produção do transe hipnótico em meio de um ritual de cura religiosa, pode ser interpretado como transcorre uma reunião ou sessão com estas características. Geralmente inicia com um dirigente que fala com emocionada oratória, voz cava, vocabulário repetitivo e monótono (técnica de

Liébaut), dirigindo-se às pessoas que ficam de pé e com os braços levantados. Após a introdução inicial, os mais suscetíveis começam a balançar o corpo de forma oscilatória, o que indica alto grau de suscetibilidade hipnótica. Nesta fase, alguns auxiliares identificam quem mais oscila e, imediatamente, entram em cena dando início à indução hipnótica direta e individual, falando mais ou

menos assim: “Sai demônio

é primeiro induzido para depois ser exorcizado e, tudo não passa de sugestão hipnótica. Os mais suscetíveis entram em rigidez cataléptica, ficando com os dedos contorcidos e sem movimentos, não propensos a falar, apenas respondem resumidamente o que lhes for perguntado, às vezes se contorcendo ou tremendo o corpo e, se o nível de transe hipnótico for profundo, os olhos ficam brancos; tudo isso são características clássicas do transe. Nesta fase é possível observar a sintomatologia dos diferentes graus de aprofundamento da hipnose. E, desta forma, o dirigente da sessão daria continuidade ao processo, aplicando as sugestões hipnóticas e pós-hipnóticas que garantam os objetivos esperados. Um Padre católico famoso por produzir transes hipnóticos foi Francis MacNutt. 30 Empenhado no processo da renovação carismática da Igreja católica, ele e uma equipe de dez Padres, além de vários auxiliares, empreenderam, por volta de 1970, curas através de orações e imposição das mãos, sobre os doentes, nos quatro cantos do mundo. Principalmente nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Colômbia, no México e várias nações africanas.

O demônio

Manifeste

Apareça

Não resista

”.

30 MACNUTT, Francis O. P. O Poder de Curar, (titulo original: “The power to heal”, (Trad. C. F. de Andrade) S. Paulo, Edições Loyola, 1980.

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Pelas descrições de MacNutt fica evidente que ele desencadeava transes hipnóticos coletivos. Antes do início das sessões, se dirigia ao público explicando como aconteceria o milagre da cura. Falava que o poder curador de Jesus penetraria em cada célula do corpo de cada um e que a força do Espírito Santo vinha promover a cura assim que ocorresse, durante a prece, a imposição das mãos. Diz que o contato dele com a pessoa doente era uma espécie de reforço para a prece, que tinha poder em si mesmo; e que os toques com as mãos falavam mais forte do que as palavras. Fato é que em média de 40% das pessoas, minutos após a pregação, eram tacadas e caíam no chão permanecendo como mortas. Quando retornavam ao estado normal, diziam-se curados de suas doenças. Descrevendo o que acontecia nas sessões, MacNutt diz que “o poder do Espírito Santo, enchia de tal forma a pessoa com uma consciência íntima elevada e, por isso, a energia do corpo desfalecia a ponto da pessoa não poder ficar em pé”. Na história da Igreja católica são comuns relatos sobre o transe hipnótico usando a expressão “arrebatado em êxtase”. A palavra êxtase vem do grego (ekstasis) e se refere ao espírito que é “levado para fora do corpo”, expressão sinônima de “morrer no espírito”. Os Padres católicos, Charles e Frances Hunter, companheiros da equipe de MacNutt, empregavam para definir o transe a expressão “cair sob poder”. Mas, MacNutt trata de se afastar destas expressões, passando aceitar “ser dominado pelo espírito” como correto para definir o processo hipnótico que deflagrava.

Já que a maioria das pessoas que sente esse fenômeno narra que estão mais vivos do que nunca interiormente, prefiro não falar dele como “morrer no Espírito” que só se refere à parte externa do corpo que cai no chão. É exatamente o contrário de ser “morto”; assemelha-se mais a um excesso de vida tal que o corpo não agüenta. Por isso estou evitando a palavra “morto”, que conota violência. Com estas questões na cabeça, Padre Michel Scanlan e eu discutimos o nome melhor para dar a esse fenômeno. Chegamos à conclusão de que iríamos nos referir a ele como “ser dominado pelo Espírito”. Este termo designa de modo mais adequado o que realmente acontece (MACNUTT).

MacNutt não se conforma totalmente com a expressão “ser dominado pelo Espírito” e, no verão de 1975 quando esse fenômeno começou a se produzir numa assembléia católica na Inglaterra, Monsenhor Jon O’Connor sugeriu que os ingleses iriam entender e aceitar o fenômeno, se o chamassem de “um toque de dominação”. E, essa expressão ficou. Tentando justificar os acontecimentos e o significado do transe, MacNutt cita como uma santa da Igreja católica o descreveu, diz que “existe maravilhosa descrição do repouso no espírito, empregando exatamente estas palavras, de Santa Brígida da Noruega”. Faz referencia a Santa, atribuindo como sendo suas as palavras:

Oh! Suavíssimo Deus, qual estranho o que me fizeste! Porque Tu puseste a dormir meu corpo e acordastes minha alma para ver, ouvir e sentir as

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coisas do espírito. Quanto Te apraz, Tu ordenas a meu corpo que durma, não com um sono corporal, mas com o repouso do espírito, e minha alma Tu a acordas como de um transe para ver, ouvir e sentir com as forças do espírito (Santa BRÍGIDA da Noruega apud MACNUTT).

MacNutt escreve uma espécie de receituário para produzir curas, através de preces e imposição das mãos, durante a liturgia católica ou fora dela. Insiste sobre a importância da repetição da prece por várias vezes até a saturação, afirmando que a imposição das mãos e os toques são fundamentais para que o fenômeno ocorra e produza cura. Descreve, com detalhes, centenas de casos nos quais eram produzidos transes hipnóticos e seus resultados curativos, obviamente para ele “obra e graça do Espírito Santo”. Sem dúvidas, ele muito contribuiu para as práticas hipnóticas nas novas igrejas que se organizam e se espalham pelo mundo a partir de 1980. Nas sessões de hipnotismo com se fossem apenas rituais religiosos, curas podem ser induzidas e apresentam resultados satisfatórios, disso não se duvida, mas é contestável a explicação sobre o procedimento e sobre a forma como foi produzido o transe. Essas explicações são propositadamente distorcidas ou, no mínimo, equivocadas como foram nas sessões realizadas por Gassner, MacNutt e seus seguidores. Mas, seja qual for a justificativa, curas podem ocorrer pelo fato de as pessoas suscetíveis serem mais propensas às doenças psicossomáticas; assim como as adquirem por sugestão, com a própria sugestão se curam. A técnica curativa através da imposição das mãos é muito antiga e provavelmente sempre foram de natureza hipnótica. Era conhecida e empregada como meio de cura pelos magos da Caldéia e se propagou das Margens do Eufrates ao Egito e à Índia. Depois dos sacerdotes de Isis, os padres do Deus dos Judeus foram seus depositários e os cristãos o herdaram deles. Da Grécia passou a Roma, e de Roma para Gálias de onde migraram para o mundo (A. Tesle 1845, apud Alphonse Bué, Magnetismo Curador, 1919). No século XVIII Mesmer, não só pratica esta técnica como também teoriza, inova e espalha por toda a Europa com uma nova justificativa. Posteriormente sua fórmula foi amplamente apropriada e adaptada por outras crenças que também praticam a cura pela fé. A prática da imposição das mãos também é muito praticada no oriente de onde migra para o ocidente com o nome de reiki. Foi redescoberta no final do século XIX por Mikao Usui num livro budista tibetano de 2.500 anos, em Kioto, no Japão. Reiki significa Energia Vital Universal, seus adeptos a definem como uma energia dourada, sagrada e curativa que passa através das mãos do doador para o receptor. Quem pratica Reiki acredita que o receptor suga a quantidade de energia que lhe falta, mas quem dá não está passando a própria energia e sim servindo de canal da energia universal. Segundo a crença, a prática do Reiki amplia a consciência, relaxa, ameniza o estresse, fortalece corpo e mente, promove o

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crescimento espiritual, aumenta o poder de observação, a auto-estima, a autoconfiança, o espírito de caridade, diminui e anula dores e aumenta a criatividade. Nas igrejas messiânicas também se pratica a imposição das mãos como meio de cura e, é conhecida como Jorei. O transe hipnótico aparece camuflado, mesclado ou associado com diferentes ou tradicionais liturgias. O transe foi e é produzido associado com idéias de demônios, anjos, arcanjos, espíritos desencarnados, santos ou deuses. Essas idéias não desapareceram, pelo contrário, está presente em algumas práticas que ganham popularidade a cada dia. Os primeiros registros de hipnose associado à idéia de anjos ocorreram por volta de 1840, na Alemanha. Sob a orientação de seu hipnotizador Alphonse Cahaganet, a sonâmbula Adèle Marginot em transe descrevia estar vendo e ouvindo anjos, narrava o que acreditava como sendo conselhos do além para o bem da humanidade. Cahaganet, com base em Adèle, editou, em 1847, o livro Os Arcanjos da vida futura revelada. Notáveis também foram os transes do sonâmbulo de Prevost, cidade alemã onde viveu Frédérique Hauffer. Seu hipnotizador Justinus Kerner publica, em 1829, como transcorriam as sessões e como Hauffer em transe descrevia situações envolvendo anjos, arcanjos, conselhos e adivinhações de vida futura. Em 1847 nos Estados Unidos da América, a família Fox, representa a transição entre a fase de anjos e demônios para a fase dos espíritos desencarnados, seja nas sessões de sonambulismo ou no meio de rituais religiosos. O fato, que passou a ser entendido como uma comunicação com espíritos de pessoas mortas, serviu de base para, em 1850, desenvolver experiências com “mesas girantes” e, por conseqüência, o Kadercismo que surge afirmando uma nova concepção de cura. Hipnose e reencarnacionismo A observação participativa revelou também outra forma de terapia que uti- liza a hipnose associada ao conceito reencarnacionista, é a que utiliza a estra- tégia da regressão a vidas passadas. A possibilidade de vida e morte serem mais do que processos biológicos, a existência da alma e a idéia de viver várias vezes são temas que agitam discussões filosóficas e religiosas desde tempos remotos. O problema é que não existem provas contundentes negando ou afir- mando tais conceitos, isso leva os pesquisadores para o campo das divaga- ções, ao andar sem rumo por um percurso com voltas e sinuosidades que con- duzem ao raciocínio caótico ou a conclusões dogmáticas. Algumas pessoas hipnotizadas, em sessões envolvendo regressão de i- dade, descrevem situações como se estivessem vivendo em outra época ou em outra vida e, de fato, após o transe ocorrem melhorias e até curas, a isso se convencionou chamar de TVP - Terapia por vidas passadas. Este processo po- de ser analisado pela hipótese da fantasia do inconsciente ou da reencarnação.

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Embora essa última possa ser descartada quando o caso apresenta exagero ou incoerência ou é de propósito mistificado. Para hipnotizar é necessário convencer, mas convencer não significa mis- tificar enganosamente, é bom sempre lembrar que se argumentos sérios não estão ao alcance, algumas pessoas podem convencer outras através do dog- ma, do mistério, do mito e da magia. A sociedade, na sua maioria, mesmo quando se observa bom nível de escolaridade, está mais apta a ser convencida com argumentação excêntrica e rodeada de ocultismo do que com explicações sérias e lógicas. Assim, mistificar é o caminho mais fácil, embora não ético, pa- ra personagens que vendem milagres ou, de alguma forma, exploram a fé pú- blica. Aí entram algumas técnicas hipnóticas, que podem até ter função tera- pêutica, mas mistificadas como se fossem curas realizadas por forças ocultas; vidas passadas, espíritos, santos, anjos, etc. As práticas de TVP geralmente ocorrem em ambiente solene, os participantes são convidados para uma sessão de “ocultismo”, onde se processará “regressões para outras vidas”, portanto, chegam pré- sugestionadas. Algumas dessas apresentações podem ser descritas através dos procedimentos padrões como em um ambiente de pouca luz e invariavelmente música suave, onde nota-se a presença de um palestrante, que é um hipnotista, sempre acompanhado de mais um ou dois parceiros. Inicia a sessão apresentando seus “currículos”, recheados de cursos e experiências espirituais, fala de força, luz e energia, quando não dizem logo que são envolvidos com situações extraterrestres. Após se elogiarem mutuamente estabelece na platéia a expectativa e a fé, dois passos decisivos para a indução hipnótica, e anunciam suas “convicções”. Afirmam que na memória de cada um dos presentes estão arquivadas todas as lembranças de outras vidas, que podem ser localizadas e revividas, e se propõem a por em pratica sua teoria. De forma proposital o transe hipnótico pode ser mascarado como se fosse regressão a uma vida passada e não se dá oportunidade do inconsciente do hipnotizado criar suas próprias fantasias, essas são induzidas de forma incisiva pelas sugestões proferidas pelo hipnotista. Para realizar a sessão de TVP, após alguns testes de suscetibilidade, pede-se que todos fechem os olhos, respirem fundo e se preparem para as “lembranças” (técnicas hipnóticas). Pede-se ainda que um dos seus parceiros fale em uma língua estranha e supostamente antiga que aprendera em uma de suas “experiências”. Aí se ouve uma série de sons, pronunciados como se fosse um idioma desconhecido. O tom da voz é cava, suave e repetitivo (o método). O hipnotista pergunta o que aconteceu enquanto decorreu a experiência; quem experimentou alguma emoção mais forte como arrepios, calor, alegria ou tristeza. Para aqueles que respondem positivo a esse último teste, será concentrado o processo de indução, pois esses são decididamente suscetíveis. Pede-se que novamente fechem os olhos e é repetida a fala como se com ele

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estivesse conversando o suscetível e, após alguns segundos, estes iniciam a falar também sons parecidos com os produzidos pelo seu indutor.

A fala se transforma em cântico e, o hipnotista, inicia movimentos de

dança (sugestão indireta) e é imediatamente seguido por imitação. Os idiomas são atribuídos às civilizações extintas e desconhecidos, quando não é de outro planeta, porque se induz também nessas sessões a presença de seres de outro mundo! O pseudo-idioma facilita porque não seria o indutor, nem o induzido, obrigado a conhecer outra língua. O orador anuncia a consumação da

regressão a uma época remota cujo dialeto não se conhece.

Nas sessões de TVP a saída do transe é feita da forma convencional, efetuando-se a técnica da contagem de um a três ou cinco, com sugestões pós- hipnóticas de bem-estar, cura, paz, felicidade etc. Não se pode deixar de reconhecer que, mesmo nestes casos, os efeitos da sugestão pós-hipnótica são eficientes, isto é, o ”regredido” retornará feliz do transe, quando não curado de um mal psicossomático, através das sugestões pós-hipnóticas que lhe são aplicadas. Os que passam pela experiência de assumir outras personalidades ficam fascinados quando sabem que revelaram ter vivido como alguém bem diferente, longe de seus hábitos e da sua própria história de vida. Com esse processo, a maioria resolve problemas psicológicos ou de saúde que a medicina ou a terapia convencional não deram conta de sanar. Mesmo que idéias reencarnacionistas não façam parte da crença religiosa ou filosófica de quem pratica TVP, a eficácia da terapia estará garantida. Mesmo que as imagens, sensações e sentimentos despertados durante o processo não sejam lembranças reais, e sim formas simbólicas representativas do inconsciente, elas cumprem a função de trazer à tona problemas mal resolvidos e traumas reprimidos. Para efeito terapêutico não faz diferença se as memórias reveladas são verídicas ou não passam de elaboração mental.

A mente cria dramas que ajudam a enfrentar diferentes situações. Nesta

linguagem inconsciente os problemas são tratados metaforicamente, e não de forma direta. Para criar essas metáforas, a mente recorre a todos os seus re- cursos disponíveis, lembranças praticamente perdidas, imagens de filmes, tre- chos de conversas conscientemente esquecidas e até situações traumáticas apagadas da consciência.

A maioria das doenças tratadas com sucesso pela “regressão”, faz parte

das que se manifestam a partir de “gatilhos emocionais”. São psicossomáticas e, de uma maneira ou de outra, reagem, a determinadas situações emocionais e, é a “regressão” um potente veículo que o inconsciente encontra para mani-

festar emoções e produzir cura. Vários livros que tratam de TVP relatam casos que são, em síntese, um preâmbulo de indução e finalizam descrevendo um método indiscutivelmente hipnótico. Geralmente quem lê esse tipo de livro, que bem podem ser

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nomeados de Hipnoterapia por Regressão, sendo suscetível a hipnose revela- se um sucesso nas sessões de regressões, pois já chegam pré-hipnotizados, podendo por isso até espontaneamente entrar em transe, o que para acontecer só depende da atmosfera gerada na sessão e pelo ritual criado para que isso se estabeleça. Por mais que pareça não existirem elementos suficientes para negar, algumas situações aceitas como reencarnações espíritas não passam de simples transe hipnótico. É preciso que não se descarte as possibilidades explicativas normais, evitando a tendência imediata de acreditar na transcendência do ser humano que, parece, na sua essência ir além do corpo físico. A análise dessas ocorrências deve ser com neutralidade de valores, mas as respostas, em sua maioria, ficam comprometidas aos dogmas religiosos e a convicção pessoal de quem analisa. Para muitos não cabe explicação e sim aceitação, porque tem por base revelação doutrinária ou intuitiva e, isso pertence a cada indivíduo em particular. Algumas situações despertam mais questionamentos, mas geralmente quando a regressão antecede o nascimento, a análise e observação indicam que, de certa maneira, os fatos descritos foram acontecidos na própria vida do hipnotizado e podem ser percebidos, de forma subjetiva ou sutil, pelo hipnotista. Parece que na representação da TVP, o hipnotizado inconscientemente revela o seu próprio desejo, problemas ou conflitos, através de um ideário simbólico e fantasmagórico elaborado pelo seu inconsciente e ou induzido pelo hipnotista. O inconsciente é um perfeito gravador, ao qual nada escapa, em qualquer fase da vida, registra tudo e nada esquece. Essa afirmação é antiga, Swedenborg (1688-1772) já apontava o que hoje é incontestável. Tudo aquilo que o homem ouve, vê e sente de qualquer modo, fica alojado como idéias ou sensações e afins em sua memória, ás vezes sem que se tenha conhecimento disso; e tudo aí se conserva sem nada se perder, ainda que as lembranças fiquem obliteradas em sua memória. Nela também se acham inscritos todos os fatos particulares e íntimos que em qualquer tempo pensou, falou ou fez. Alguns desses fatos aparecem na lembrança como uma sombra e, não importa se ocorreram na sua primeira infância ou na sua extrema velhice. Em transe as lembranças, mesmo àquelas obliteradas, afloram com detalhes, às vezes claras, às vezes envoltas em fantasias. Por esta ótica pode ser entendido o que acontece quando alguém afirma sentir a sensação de já conhecer algo que se vê pela primeira vez. Esse fato conhecido como déja-vu (Já visto) ocorre inclusive em sonhos repetidos, mas em ambos os casos as imagens podem ser informações contidas no inconsciente sem a lembrança consciente. É freqüente o caso de pessoas que, chegando a determinado lugar, declaram que já o conhece sem nunca terem estado lá. Na linguagem da parapsicologia isto é conhecido como Pantomnésia. Em princípio, os casos de regressões obtidos com hipnose não revelam verdadeiramente vidas passadas, trata-se da imaginação fantasiosa do

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inconsciente do hipnotizado, é como um déja-vu. “Nada é eliminado no inconsciente, nada é superado ou esquecido” (Freud, A interpretação dos sonhos), as lembranças despertadas e permitidas pela hipnose podem aparecer às vezes atreladas a fantasias que funcionam como mecanismo de atenuação da intensidade dos traumas psíquicos. São revelações simbólicas dos conteúdos reprimidos. Este mecanismo inconsciente é também conhecido como deliriogênia, situação capaz de transformar fantasias latentes em bem elaborados delírios de auto-referência. Na regressão a vidas passadas obtida por indução hipnótica deve ser questionado o mérito, isto é, se realmente é uma manifestação de vida passada, ou é uma fantasia do inconsciente em torno de um fato real da vida do hipnotizado. Para isso é importante saber qual a relação entre as situações manifestadas durante o transe e as sugestões induzidas pelo hipnotista e, quando é evidente o uso da hipnose como condição para a indução, a explicação do fato não deve ser apenas vista sob a ótica religiosa ou mística. Algumas pessoas evitam se posicionar quanto à questão da presença da hipnose em curas religiosas, com afirmações de que o importante não é a explicação e sim a cura. Estes procedimentos parecem significar o desejo de manter alguém em equívoco, assim como não é justificável o argumento daqueles que não se pronunciam sobre o assunto sob alegação de que têm de respeitar a crença alheia. Devem sim, respeitar a crença alheia e também a sua própria crença, a omissão pode revelar um comportamento enganoso quando não oportunista. Neste tipo de sessão o próprio hipnotista não se revela como tal, prefere fugir do termo e tudo mais que possa identificar o processo como hipnótico. São vários os casos de regressão hipnótica que poderiam ser confundidos como regressão para vidas passadas. Se a regressão corresponde ao período de vida do hipnotizado e, no transe, este apresentar sinais de tristeza ou depressão, choroso, como se algo extremamente reprimido estivesse a incomodá-lo, porém sem declarar o que incomoda, a terapia pode ser sua regressão. É sugerido ao hipnotizado que ele vive em uma época antes do seu próprio nascimento, de modo que seu inconsciente aceite a idéia. Quando regredido, certamente vai dizer possuir outro nome e falar como se tivesse em outra vida, mas finalmente confessa o conteúdo de sua repressão, mesmo que através de linguagem simbólica, revela o fato que incomoda ou perturba sua existência. 31

31 Repressão, segundo a psicanálise, é o mecanismo de defesa através do qual um impulso ou outro conteúdo psíquico desagradável ou inaceitável é suprimido da parte consciente da men- te. É a retirada de idéias, afeto ou desejos perturbadores da consciência, pressionando para o inconsciente. Encontra-se na origem das neuroses e psicoses, mas, em certa medida é inevi- tável como na repressão dos impulsos sexuais e de agressão, quando reprimidos permitem a existência civilizada da sociedade humana (N. do A.).

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É plausível concluir que as estórias contadas pelo hipnotizado, falando

como se estivesse em outras vidas, foram apenas mecanismos fantasiosos encontrados pela sua inconsciência para liberar suas repressões. É como se outra pessoa, e não ela própria estivesse falando sobre os problemas, sem culpa ou vergonha imposta a ele pela moralidade, ao revelar-se, livra-se dos sintomas que atormentam seu dia-a-dia. E, em muitas situações, os sintomas podem desaparecer apenas com lembranças da própria infância, sem que para isso seja preciso uma regressão à “vidas passadas”. Nestes casos a intensidade do trauma psicológico é pequena, a pessoa hipnotizada pode relembrar com facilidade e superar o problema que a incomoda.

A nova tendência da terapia por regressão hipnótica é a de que não é

necessário, após a indução ao estado de transe médio ou profundo, nada se dizer, perguntar ou sugerir ao hipnotizado. Este ficará imóvel, algumas vezes apresentando rigidez e contratura muscular nas mãos, braços, pernas ou até generalizada, outras vezes com ligeiros tremores, ou ainda, em crises de choro ou risos. Neste estado ocorre o processo automático de curas porque assim o hipnotizado estará se libertando de suas repressões, refazendo seus valores e

revendo sua vida.

Como pressuposto básico da cura está a pré-sugestão de que, ao submeter-se ao processo, o hipnotizável deseja curar-se de alguns sintomas. O principal efeito da terapia decorre do fato de que, em transe, ele por si só entra contato com o seu inconsciente e enfrenta os traumas conseqüentes de situações que de alguma forma vivenciou. Nada de induzir regressões, nada de sugestões, apenas o transe hipnótico, curiosamente era isso que acontecia nas sessões de Mesmer, a famosa convulsão terapêutica parece que agora retorna como se fosse novidade para a cura através da hipnose.

A leitura até aqui realizada talvez se ajuste e se esclareça, na proporção

que outros conceitos e reflexões forem surgindo, se somando ou divergindo. O próximo capítulo apresenta os principais personagens e suas idéias, conceitos, teorias e práticas curativas que envolvem aplicação da hipnose e como aconteceu sua adaptação e readaptação diante das mudanças, na forma de

pensar e praticar o hipnotismo, no decorrer dos séculos.

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CAPÍTULO II – HISTORIA DA HIPNOSE E DA PSICOTERAPIA

Do ponto de vista das terapias, influenciados pelas idéias filosóficas sobre os elementos primordiais da natureza, o grego antigo (século III a.C.) infere as mais fantasiosas idéias que, certamente, fortaleciam as possibilidades de curas por sugestão. O elemento primordial terra é decomposto e os minerais, princi- palmente os metais magnéticos, as pedras e os cristais de rocha, lisos, simétri- cos e brilhantes como os Astros celestes, passam a representarem poderes mágicos e utilizados para finalidades terapêuticas, prática hoje conhecida como litoterapia ou gemoterapia.

A aplicação de pedras e cristais na terapia ocorre nas mais variadas for-

mas, como elixir, infusões ou amuletos. Seu uso no decorrer da história é adap-

tado a diferentes culturas, crenças e filosofias. Da terra principalmente se extrai

a argila e sua aplicação passa a ser considerada como incontestável contra vá-

rias doenças. Entre os minérios o ímã era o que mais encantava. Tales de Mile- to acreditava que o ímã possuía vida e ao exercer atração ao ferro dava-lhe vi- da também.

O filósofo grego Aristóteles também registra o que acreditou serem pro-

priedades terapêuticas dos ímãs naturais. O médico e escritor grego Claudius Galeno (129-216), no século II, acreditava que ao aplicar ímãs naturais em par- tes do corpo, a dor ocasionada por numerosas enfermidades poderia ser alivia- da e prescrevia o uso de metais magnéticos como remédio contra várias doen- ças. Na Idade Média os farmacólicos transformaram minerais magnéticos em pó e utilizaram como elixir nas aplicações tópicas. Há relatos que a magnetita e

hematita foram aplicadas contra enfermidades da Rainha Isabel I da Inglaterra por seu médico, William Gilbert de Colchester.

Galeno foi o precursor de uma doutrina médica que prevaleceu por apro- ximadamente mil e quinhentos anos. Defendia a teoria de que as paixões, como

a tristeza, a raiva, a luxúria e o medo, constituem doenças e deveriam ser trata-

da como tais. O método de cura era baseado na aplicação dos metais magnéti- cos e no uso de procedimentos contrários. Classificava as doenças e os agen- tes medicinais em fria, quente, úmida e seca, o objetivo era facilitar a prescri- ção; para uma doença dita quente era utilizado um tratamento dito frio. Esse an- tagonismo de forças (quente/frio; úmido/seco), encontrado na filosofia grega pré-socrática, se fundamentava no pensamento de Heráclito. Essa visão tera- pêutica vai até o século XVI e foi ensinada na grande maioria das faculdades de medicina. Nesse período epidemias assolavam a Europa e a população tinha uma pequena expectativa de vida. A utilização de técnicas terapêuticas como sanguessugas, sangrias, administração de vomitivos, purgativos e suadores, dentre outros, era largamente aceita e empregada com base em critérios muito

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frágeis. Além disso, alguns médicos não diferenciavam o método de tratamento, acreditando que a maioria das doenças poderia ser tratada do mesmo modo 32 . Dentre os grandes homens sábios, filósofos e líderes religiosos que se dedicaram ao hipnotismo, é destaque o médico e filosofo árabe Ibn Sina (980- 1037), que no ocidente ficaria conhecido como Avicena, nascido nas proximidades de Bukhara morreu perto de Hamadã (atual Irã). Influenciado pelas idéias das primeiras escolas filosóficas sobre a importância do Cosmo na doença e na saúde, elaborou uma série de técnicas de indução de melhorias da saúde do ser humano através de sugestões. Avicena é considerado um dos maiores sábios do Islã, sendo reconhecido principalmente por seu trabalho filosófico (síntese crítica das obras de Platão, Aristóteles e Plotino). Já aos 16 anos, era bastante conceituado por seu talento como médico, tendo sido um dos grandes difusores da obra de Galeno, reforçando os efeitos dos metais magnéticos como elemento de cura. No campo da hipnose Avicena já afirmava, no século X, ser possível atuar fisiologicamente através da imaginação, da palavra, da vontade e da persuasão. Dizia também que a imaginação humana tinha poderes e força, através dela se poderia agir sobre o corpo humano curando os padecimentos. Neste sentido, afirmava que a cura é proporcional à crença e a fé. Mas, também exerceu notável influência na medicina moderna; foi quem primeiro descreveu a anatomia do olho humano e o funcionamento das válvulas do coração, analisou uma série de doenças como a varíola, o sarampo e o diabetes, formulou hipóteses de que certas moléstias eram causadas por pequenos organismos presentes na água e na atmosfera e elaborou vários procedimentos de diagnósticos. Sua obra Cânom foi leitura obrigatória no ensino de medicina na Europa por muitos séculos. Mais forte do que a crença no poder curativo do ímã era a crença no ele- mento primordial hydro e a água passa a fazer milagres, benzida, fluidificada ou magnetizada é entendida como um elo entre o humano e o divino. A crença prestigia também o ar como mais um elemento poderoso na promoção da saú- de e aromatizar o ambiente passa a ser a forma mais prática de sentir sua força e presença; o uso de incensos se faz necessário para evidenciar o ar como meio de invocação do sobrenatural e garantir a virtude e a saúde humana. O respaldo da Igreja ao pensamento filosófico implica na certeza da in- fluencia dos Astros na vida, saúde e sorte das pessoas, isso fez surgir a medi- cina astrológica, objeto de grande interesse científico na Europa. Tycho Brahe, estudioso da medicina da época, chega mesmo a elaborar uma lista de equiva- lência entre os Astros e a saúde; ao Sol equivalia o coração, o estômago, o cé- rebro, os nervos e o olho direito; à Lua, o braço, a cabeça, o ventre e o estôma- go da mulher; a Vênus, o fígado, o umbigo, e assim por diante.

32 DANCIGER E: Homeopatia: da alquimia a medicina. 1 a ed. RJ, Ed. Xenon, 1992.

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Na primeira metade do século XVI o médico, filósofo e alquimista suíço Aureolus Theophrastus ou Philippus Theophrastus Bombast von Hohenheim (1493-1541), adota o pseudônimo de Paracelso que recebeu de seu próprio pai, ainda jovem, o qual fazia alusão que seu filho era "superior a Celso" (Aulo Cor- nélio Celso, famoso médico enciclopedista romano do século I), com o seu temperamento místico, confiava mais na intuição do que nos resultados de es- tudos clínicos até então conhecidos e associava o poder do magnetismo com idéia do mundo perfeito supralunar para estabelecer novos conceitos sobre an- tigas crenças curativas.

Paracelso admitia a existência de um sistema que relacionava os seres humanos aos Astros e que forças magnéticas, em particular aquelas que pro- vêm das estrelas, eram capazes de agirem sobre as pessoas através de ondas invisíveis. Elabora todo um estudo das doenças causadas por influências cós- mico-climatológicas, apontando o poder dos Astros na saúde e na doença dos seres humanos, afirmando que cada parte do corpo humano estava sujeita a um Astro. A partir do conceito de macro visão sobre a vida e a natureza, herda- da de antigos filósofos, considerava o ser humano como um todo integrado e harmônico, constituído de mente e corpo. A doença e a saúde dependem da harmonia do microcosmo do corpo humano com a Natureza do macrocosmo. Por volta do ano de 1519, Paracelso foi discípulo de Tritheme, considera- do um bruxo, pois se acreditava que ele tinha o poder de penetrar nos mistérios da Natureza e do mundo espiritual. Sob a orientação do mestre e com o propó- sito de fazer o bem à humanidade, Paracelso se lançou nas investigações e ex- periências da magia, buscando a produção de essências para empregá-las na cura de doenças. Empregou também metais magnéticos como elementos cura- tivos e foi o precursor do magnetismo de Mesmer. Paracelso também defendia a teoria da transmutação dos metais em substâncias diversas, suas principais investigações ocuparam-se das proprie- dades curativas dos metais que passa a ser conhecida, principalmente no sécu- lo XIX, como Metaloterapia e, com isso, foi o precursor de Charcot. Suas inves- tigações culminaram na teoria das três substâncias, afirmando que todos os corpos são formados por três princípios básicos, que ele identificou como Enxo- fre, Mercúrio e Sal ou tria prima. O enxofre como carga energética, significa o fogo; o mercúrio é o princípio úmido (líquido) e representa a água; o e sal como a parte mais sólida, representa a terra ou ainda a volatilidade, fluidez ou solidez. A força vital consiste na união dos três princípios em tríplice ação; a ação da purificação por meio do sal, dissolução e consumação pelo enxofre e a elimina- ção pelo mercúrio, o qual absorve o que o sal e o enxofre repelem. Paracelso considerava como premissa que a matéria constitutiva de todos os corpos é dividida em Alma, Corpo e Espírito. Em sua obra Arquidoxo Mágico, trata de amuletos e talismãs, e expõe seus conhecimentos sobre o que conside- rou como sendo a imensa força do magnetismo, combinando metais sob deter- minadas influências planetárias com o objetivo de curar doenças. Entre os me-

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tais utilizados destacava o ouro, prata, cobre, ferro, estanho, chumbo e mercú- rio associados aos signos celestes e caracteres cabalísticos. No livro de Paracelso, As Profecias, publicado pela primeira vez na língua alemã por volta do ano de 1530, estavam 32 gravuras simbólicas que tinham

sido

encontradas no monastério de Darthauser em Nurenberg; cada gravura es-

tava

acompanhada de uma legenda escrita em um estilo obscuro e enigmático,

com

textos de difícil interpretação; neles estariam guardados os acontecimentos

do futuro em uma espécie de filme, cujo desenrolar seria independente da se-

qüência cronológica. Em seu livro Tratado das Doenças Invisíveis, diz que se alguém quiser buscar a Deus, deve buscá-lo dentro de si mesmo, pois fora ja-

mais o encontrará. O Reino de Deus, dizia ele, contém uma relação intima com

nossa vida de Fé e de Amor. Paracelso defendia também que a fé e a imaginação pudessem curar do- enças do mesmo modo como poderiam causá-las e, com objetivo de curar pes-

soas, comandava sessões de hipnose individuais e coletivas através de danças, cantos, orações, rituais e palavras. Desenvolveu ainda uma teoria segundo a

qual o corpo humano teria as características de um verdadeiro ímã, sendo o pó-

lo

norte constituído pelos pés e o pólo sul pela genitália. Para fortalecer o corpo

e

promover curas, empregava ímãs metálicos sobre os pacientes e, esse pro-

cedimento, transforma-se na base de uma nova escola médica.

Segundo Alphonse Bué (Magnetismo Curador, 1919), no início do século

XVII Van-Helmont dedica quarenta anos de sua vida trabalhando e meditando

sobre a cura magnética de Paracelso. Por volta de 1670, esse tipo cura tam-

bém foi praticado pelo médico escocês William Maxwell que, em 1676, publica

um tratado sobre o tema com o titulo de “Medicina Magnética”. Essas idéias fo- ram aproveitadas cem anos depois por Mesmer que, por volta do ano de 1770, desenvolve nova teoria criando a tese do magnetismo animal. Até o fim do sé-

culo XIX, mesmo sendo uma época de grande progresso da ciência, as idéias

de Mesmer incentivam muitas outras hipóteses de curas, inclusive as defendi- das por Charcot e outros médicos ilustres de Paris. A “medicina magnética” é largamente praticada no hospital La Salpêtrière até o inicio do século XX. Mes-

mo hoje ainda tem quem acredite nela.

Outro destaque da medicina antiga foi Jan Bastista von Helmont, nascido em 1577 em uma família nobre, estudou e praticou medicina fascinado pelas possibilidades ilimitadas da aplicação da química ao tratamento das doenças. Durante a maior parte de sua vida, se retirou para seu castelo perto de Bruxelas e dedicou-se à pesquisa e a experimentação, apenas saia de sua casa- fortaleza para atender seus pacientes sem jamais aceitar pagamento em troca. Quando morreu, em 1644, era famoso em toda a Europa por suas boas obras e por seus escritos sobre cura de várias enfermidades. As descobertas de Helmont contribuíram para a ciência médica moderna, foi ele o primeiro anatomista a reconhecer as funções fisiológicas do estômago

e a entender o processo digestivo, descobriu também o bióxido de carbono. Es-

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sas descobertas pertencem hoje ao domínio da ciência, mas foram feitas em nome da alquimia. Helmont reverenciava os três maiores objetivos dos alqui- mistas, jamais procurou fazer segredo de sua crença no fenômeno da transmu- tação, no elixir da vida e na pedra filosofal.

A busca de Helmont pelo constituinte primário da vida, outra antiguíssima

preocupação dos alquimistas, combinava uma rigorosa pesquisa prática com saltos místicos de fé. Ele reijeitava o tria prima paracelsiano, mercúrio, enxofre e sal, e não estava muito convencido com a explicação terra-ar-fogo-água des- crito por Aristóteles. No lugar desses princípios, adotou um ensinamento mais

antigo ainda, segundo o qual todas as coisas derivam da água. Como filósofo Helmont estava comprometido com a noção das causas u- niversais, e isso levou precipitar-se em inferências quanto à natureza e o signi- ficado da água. Justificava a presença de substâncias químicas nas águas das estações termais e como os minérios chegam até os veios que marcam a cros- ta da terra. Atribuiu os depósitos minerais ao que chamou de “suco petrífico”de correntes líquidas com grande poder curativo. Assim, a água retoma sua impor- tância na arte de curar e Mesmer aproveita muito essa idéia.

Magnetismo e Mesmerismo

Franz Anton Mesmer (1734–1815) nasceu em Iznang, Swabia, uma aldeia na margem do lago Badensee perto de Konstranz na Alemanha. Teve suas primeiras instruções em uma escola religiosa e, aos 15 anos, ingressou num colégio de jesuítas onde obteve elevado conhecimento em filosofia, portanto percebia o Cosmo como os filósofos gregos antigos receitavam, ponto de partida para compreender a natureza das coisas e dos homens.

A percepção do Cosmo ligado às idéias de ordem, harmonia, serenidade,

circularidade e beleza, associado à importância dos elementos primordiais da natureza (terra, água, fogo e ar), concepções sustentadoras do núcleo central do início do pensamento filosófico, embora decadente no século XVIII, muito in- fluenciou as idéias de Mesmer. Interessando-se também pela física, matemáti- ca e biologia, desistiu da carreira religiosa para seguir o estudo da medicina. E, com base na idéia da existência de um fluido astral que influencia a vida na ter- ra, associado ao poder dos metais magnéticos, elabora a teoria do “magnetis- mo animal”, marco teórico inicial nas principais publicações que trata dos efei- tos e da prática da hipnoterapia.

Aos 32 anos Mesmer obteve o título de médico e, para isso, apresentou na escola de medicina de Ingolstadt, na cidade de Ulena, em Viena, a Dissertação físico-médica sobre a influência dos planetas (De Planetarium Inflexu), publicada em 1766. A base teórica para o desenvolvimento da sua pesquisa foi fundamentada no conhecimento filosófico, ainda influente nos séculos XVI e XVII, somadas às idéias de Paracelso, Helmont, William Maxwell, todos praticantes da alquimia como forma mágica e oculta da arte de curar. Sua teoria ganha o mundo através de seus discípulos e seguidores.

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O Padre Maximilian Hell, um jesuíta que foi diretor do observatório e professor de astronomia da Universidade de Viena, com base na hipótese do magnetismo metálico de Paracelso, em 1770 resolveu também intentar curas reorganizando os “pólos magnéticos humanos” através de aplicações de ímãs naturais. Mesmer influenciado pelos êxitos de Hell também aplica ímãs naturais em seus pacientes. Disso resultou a notícia de curas espetaculares em doentes desenganados. Em 1773 Mesmer montou em Viena sua clínica de magnetismo e aplica ímãs naturais pela primeira vez em uma jovem de 28 anos, Franziska Osterlin, pessoa envolvida na alta sociedade vienense que sofria com convulsões, febre, vômitos, delírios, crises de rigidez, cegueira, sufocação e paralisia. É do próprio Mesmer a descrição de como foi, em 28 de abril de 1774, realizado uma das sessões do tratamento de Osterlin:

Há dois anos ela apresentava crises convulsivas acompanhadas de febre, vômitos, delírio melancólico e maníaco, crises de rigidez, cegueira, sufocação e paralisia. Percebendo a periodicidade das crises, às quais atribuí um caráter astronômico, procurei modificar seu curso. Eu planejei estabelecer em seu corpo uma espécie de maré artificial com a ajuda do ímã e de forma a reproduzir artificialmente as revoluções periódicas do fluxo e do refluxo da corrente magnética (MESMER). 33

Mesmer conta que, após ter medicado Osterlin com infusões à base de ferro, por ser esse metal bom condutor do magnetismo, prendeu um ímã em cada pé da paciente e um outro, em forma de coração, sobre o peito. Imediatamente Osterlin experimentou uma dor abrasadora e dilacerante que percorreu todo o seu corpo, seguindo os eixos das peças imantadas. Os que assistiam a esse tratamento horrorizavam-se com os gritos. Apesar da reação da assistência, Mesmer não hesitou em acrescentar mais dois outros ímãs aos pés da paciente e, conta que após isso Osterlin sentiu descer com impetuosidade as dores que tinham atormentado as partes superiores de seu corpo e, pouco a pouco, os sintomas desapareciam. Quanto aos efeitos positivos sobre a cura de Osterlin, Mesmer tratou de conceituar como impossíveis de serem provocados somente pelo uso dos magnetos naturais e sim por um “outro agente essencial”. Dizia que as correntes magnéticas foram provocadas pela paciente através de um fluido que se havia acumulado em sua própria pessoa; era a ação do seu próprio magnetismo, um magnetismo animal. O magneto natural utilizado funcionou apenas como um acessório, como um reforço. Referindo-se ao que conceitua como magnetismo animal e seus efeitos, afirma:

Há uma ação e reação recíproca entre os planetas, a Terra e a Natureza, por intermédio de um constante fluido universal, sujeito a leis mecânicas

33 MESMER A. F. Los fundamentos del magnetismo animal. Aforismo de Mesmer y comentarios del Dr. Caullet de Veaumoreu. Tradução para o espanhol e prólogo de Edmundo Gonzáles Blanco, B. Aires, Kier, 1954.

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ainda desconhecidas. O corpo animal é diretamente afetado pela insinuação deste agente na substância dos nervos. Dito agente causa em corpos humanos, propriedades análogas às do ímã, motivo por que é chamado “magnetismo animal”. Este magnetismo pode ser transmitido a outros corpos, pode ser aumentado e refletido por espelhos, comunicado, propagado, e acumulado pelo som. Pode ser acumulado, concentrado e transportado. As mesmas regras se aplicam à propriedade contrária. O ímã é suscetível de magnetismo e de propriedade oposta. O ímã e a eletricidade artificial têm, com referência à moléstia, propriedades comuns a uma multidão de outros agentes que a natureza nos apresenta, e se o uso destes for seguido de resultados úteis, são devido ao magnetismo animal (MESMER).

Mesmer inova a hipótese até então existente; não era o magneto natural que provocava curas, como anunciado por Paracelso e pelo Padre Hell, era a ação do magnetismo próprio do ser humano. Defendia a tese de que não era preciso o ímã metálico; bastaria impor as mãos sobre o doente para que este recebesse a transferência dos fluidos magnéticos. O magnetismo animal poderia passar das mãos do magnetizador para os pacientes, podendo também ser armazenado em árvores ou transportado por varinhas, espelhos, vasilhas contendo água, cristais e outros instrumentos. Respaldando seu estudo em hipóteses antecedentes Mesmer encontrou justificativa suficiente para estabelecer a idéia da existência de um fluido, invisível e miraculoso, que agia sobre os seres vivos, através da influência dos Astros e dos Planetas. Responsabilizava esse fluido como causa de doenças ou como força curativa. Admitia como princípio a existência de uma corrente universal que em tudo penetra e abraça, num movimento alternativo e perpétuo assemelhando-se ao fluxo e refluxo do mar e, a esse movimento provocado por influências astrais, agindo de forma mútua entre todos os corpos da natureza, uns sobre os outros, ele atribuía a saúde e a doença. Antes de Mesmer a idéia de fluidos invisíveis já fazia parte do imaginário de muitos homens cultos. Paracelso acreditava que forças magnéticas, em particular aquelas que provêm das estrelas, influíam sobre as pessoas através de ondas invisíveis. Isaac Newton, em sua publicação Principia (1713), já explicitava o que acreditava ser “a presença do espírito extremamente sutil que permeia e se oculta em todos os corpos densos”. O cientista sueco Carlos Lineu (1707-1778) dizia que na vida dos vegetais ocorria a presença de um “fluxo magnético sutil” camuflado sob os mais variados nomes, entre os quais gravidade, gases, energia e força vital. No ano de 1785 Mesmer publica em Paris uma série de vinte e sete aforismos, 34 descrevendo os princípios de sustentação da tese do magnetismo animal e como seus seguidores poderiam por em prática essa complicada

34 Título original, Les aphorismes de Mesmer dicté a l’assemblé de ses élèvem, publicado em 1785 por Caullet de Veaumoreu. Traduzido para vários idiomas, impresso e publicado em muitos países (N. do. A.).

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teoria. Na Europa o mesmerismo foi um dos assuntos mais divulgados entre 1779 e 1789 e, com isso, viveu Mesmer glória e fracasso, principalmente em Paris. Na segunda metade do século XVIII a sociedade européia, em particular na França, viveu uma época de grandes transformações para a humanidade. Livros como O Espírito das Leis, de Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu (1748); O Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau (1762); Cartas Filosóficas, de François-Marie Arount, conhecido como Voltaire (1773); A Ordem Natural das Sociedades Políticas, de La Riviére (1767), induziam o povo a pensar ampliando seus conhecimentos e a percepção de si mesmo como cidadão capaz e merecedor de melhorias, era a fase da ação do humanismo. Estava também o mundo vivendo as grandes descobertas da ciência cartesiana, na área da matemática e da física, a eletricidade e seus efeitos eram objetos de estudos intensos, a descoberta do eletromagnetismo e do pára-raios fascinava a todos. O mundo vivia o que se chamava na Europa Le bélle epoque; uma fase de efervescência de novas idéias filosóficas sobre o sentido da vida e de explicações científicas para esclarecer os fenômenos físicos, era época de revelações, idéias e explicações e o povo acreditava que havia resposta para tudo. As formulações científicas na área da física, as idéias de ação e reação, atração dos corpos, o eletromagnetismo, tudo isso foi considerado como revolucionário e extremamente racional. Neste cenário o homem acreditava que, aliando o conhecimento com a tecnologia e a ciência, não seria jamais limitado, por nada nem ninguém. Esse otimismo incentivava a criação de uma imensa gama de teorias, inclusive as que explicassem o ser humano e sua complexidade. É nesta fase que Mesmer, fazendo analogia com a física e com as aplicações terapêuticas dos metais magnéticos, divulgado por seus antecessores, imagina sua teoria. No conceito popular, o poder da ciência podia explicar tudo e o grande público demonstrava interesse cada vez maior pela explicação científica dos fenômenos presentes na natureza humana. É nesta atmosfera que Mesmer propaga sua teoria que ganharia o mundo através de seus discípulos e seguidores. O mesmerismo ou o magnetismo animal faziam parte do imaginário cosmológico desta época de transição na história do pensamento filosófico, cuja tendência era a de misturar pesquisa experimental com pensamento especulativo e místico, sobretudo numa fascinação pelos fenômenos de natureza magnética e elétrica. Satisfazendo a expectativa da sociedade, Mesmer dá a sua explicação para o fenômeno que desencadeava, tentando no máximo se aproximar da ciência dominante, embora suas idéias fossem baseadas na cosmologia e princípios filosóficos antigos. Defendia a existência de uma influência mútua entre os corpos celestes e, como justificativa, apresentava as fases da Lua agindo sobre as marés, a força do Sol atraindo a Terra para mover-se em sua

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volta. Dizia que essa força invisível era semelhante à força do ímã que atrai o ferro, igual à força magnética que, embora ninguém possa ver, existe. Acreditava que os cristais, superfícies espelhadas, alguns metais e principalmente a água, poderiam acumular grande quantidade dessa força invisível. Sustentava Mesmer que a força invisível que existe entre os Astros e a Terra, possui uma influência capaz de controlar a saúde dos seres animados que aqui habitam. Dizia que tal influência se manifestava através de um fluido, universalmente difundido, que agia nos seres vivos, sendo recebidos dos Astros através da cabeça e da Terra através dos pés; no corpo humano sadio circulava num fluxo contínuo e impedir este fluxo traria como conseqüência uma enfermidade. A cura dependeria da retirada ou destruição do obstáculo para que o fluido pudesse voltar a circular normalmente. Pensando o corpo humano como um grande ímã, composto por vários ímãs pequenos, Mesmer sustentava que massageando os pólos magnéticos do corpo se efetuaria a superação do obstáculo que impedia a circulação do fluido universal e, assim, estabelecia a cura das doenças. Inventou alguns aparelhos que reforçavam sua tese, como um instrumento de cerâmica em forma de cone que encerado, molhado e acionado por um pedal, era posto a rodar. Neste instrumento deixava escorregar os dedos das mãos até que a fricção produzisse um som que ele interpretava como sendo gerado pela acumulação do seu magnetismo animal. Também com o mesmo objetivo, friccionava com as mãos tecidos de seda, plumas e outros objetos macios, associando essa prática com a produção e efeitos da eletricidade estática, para logo em seguida magnetizar seus pacientes que entravam numa espécie de convulsão e promovia cura. Em Viena, utilizando o novo método, várias pessoas foram tratadas por Mesmer, entre elas destaca-se Maria Theresa Paradis, pianista, 21 anos de idade, vítima de seu próprio pai numa relação incestuosa forçada. Além de cegueira histérica, sofria com freqüentes crises e sintomas severos como vertigens, dores de cabeça, insônia entre outros. Atendida por muitos médicos, entre eles o influente vienense Doutor Stoerk, não obteve cura. Encarregado do tratamento, além dos passes magnéticos, Mesmer lhe devotava carinho, atenção e amor até que a paciente recuperou a visão. Sua fama alastrou-se pela Europa. Mesmer teve origem pobre, filho de um ”guarda-caça”, função semelhante a guarda-florestal, encarregado de zelar e preservar certos locais e espécies de animais e servir a nobreza no esporte da caça. Talvez por isso, dois anos depois de sua graduação em medicina, casou-se, em 10 de janeiro de 1768, com a rica viúva de um Tenente-Coronel do exército, de nome Marie Anna Von Posch. Sua mulher, 20 anos mais velha do que ele, é quem lhe proporcionava recursos necessários para realizar seus estudos e promovia seu acesso à classe dominante, mas movida pelo ciúme alia-se ao pai de Theresa Paradis e

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ao Doutor Stoerk que contestava a tese do magnetismo animal. Os três insuflam os médicos de Viena e iniciam forte campanha difamatória contra Mesmer; disso resultou sua expulsão da cidade em 1776. Em 1778 Mesmer já estava estabelecido em Paris onde encontrou definitivamente um campo propício para difundir suas idéias, o mesmerismo tornou-se moda na aristocracia francesa, era o assunto de todos os salões. Embora em Viena fosse tentado tratar pelo método do magnetismo qualquer tipo de doença, logo após a mudança para Paris, Mesmer descartou o tratamento das enfermidades repulsivas como deformidades físicas permanentes ou congênitas, chagas, portadores de loucura agressiva e casos de idiotia. Esses casos na verdade nunca apresentaram resultados positivos com o tratamento mesmerista. A princípio, como fazia em Viena, no ritual de cura os pacientes de Mesmer eram tocados com uma vara de metal para provocar as convulsões terapêuticas. Mais tarde ele passou a acreditar que há no corpo humano, vários pólos magnéticos e que, a maior parte deles, muda constantemente de lugar provocando doenças e, por isso, tinham que ser arrumados através de passes com a imposição das mãos; assim produzia as mesmas convulsões, iguais às obtidas com o processo anterior. Dizia, ainda, que alguns pólos magnéticos do corpo humano são estáveis como os dos dedos e do nariz. Mesmer cria os passes magnéticos, sustentando a hipótese que, com a imposição das mãos, fluidos magnéticos, saindo pelos dedos, eram transmitidos de uma pessoa para outra, em analogia com a teoria da eletricidade que afirma “os elétrons fluem de um corpo para outro pelas extremidades”. Este enunciado (lei das pontas) fundamentou B. Franklin na invenção do pára-raios. Com essa fundamentação teórica Mesmer passou a magnetizar e a produzir convulsões em seus pacientes quando, segurando-lhes as mãos, fitava-lhes os olhos durante alguns minutos; depois, iniciava os passes apontando os dedos em direção da cabeça, ia descendo vagarosamente quase sem tocar no corpo, parava um pouco nos olhos exercendo com os dedos indicadores uma ligeira pressão na base do nariz do paciente. Prosseguia descendo as mãos, parando à altura do tórax onde fazia uma leve pressão, depois no estômago, o itinerário seguia pressionando levemente as coxas até chegar aos joelhos. Dali retornava, experimentando as mesmas estações intermediárias até alcançar novamente a cabeça. Expediente este que no decorrer da história foi aproveitado e adaptado, sendo até hoje, com ligeiras modificações, usado de várias formas e em larga escala, com o objetivo de produzir curas durante rituais religiosos ou filosóficos. As sessões de curas magnéticas foram evoluindo e já não podendo atender individualmente à numerosa clientela, Mesmer recorreu à magnetização indireta, dispensando seu toque pessoal no cliente. Estes, em número de vinte a trinta, assentavam-se em volta de uma tina contendo água, da qual saiam várias varas metálicas. Estabelecendo contato com essas varas,

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num recinto meio escurecido por cortinas e ao som de músicas suaves, os participantes em busca da cura eram acometidos das convulsões terapêuticas. Um método engenhoso de hipnotizar por sugestão indireta e promover curas coletivas que conquista proporções espetaculares. Medeiros e Albuquerque 35 descreve o sucesso do mesmerismo em Paris:

Aí o sucesso foi indescritível. O número de clientes chegou a extremo nunca visto até então. O médico não bastava. Adestrou um criado nas práticas necessárias para ajudá-lo, mas nem assim pôde satisfazer à clientela, cada vez mais numerosa (MEDEIROS E ALBUQUERQUE).

Na versão mais avançada, em torno da tina de Mesmer cabiam cento e trinta pessoas que se renovavam varias vezes por dia. O aparelho é descrito como sendo uma caixa redonda de madeira de carvalho, medindo aproximadamente um metro e oitenta centímetros de diâmetro por setenta centímetros de profundidade. No seu interior, para melhor atrair o magnetismo, tinha um lastro de limalha de ferro e, de vez em quando, era adicionado vidro em pó e, por cima do lastro, havia uma lamina de água para ser magnetizada. Tudo era feito para manter semelhança de um acumulador de fluido, como uma pilha elétrica que acumula eletricidade, a explicação do funcionamento tinha que ser “científica”. Da parte superior da caixa saíam varas de ferro, com extremidades externas curvas e móveis, ligadas por fios de seda a uma haste metálica central. Garrafas cheias de água, com hastes metálicas que saíam através das rolhas, eram colocadas dentro da tina para que quando transportadas para outros locais pudessem produzir os mesmos efeitos. O argumento era que a garrafa contendo água acumulava o fluido, assim como o capacitor eletrolítico acumulava a eletricidade. Em Paris, os doentes, em busca da cura, sentados ao redor da tina aplicavam sobre suas partes enfermas as varas de ferro. Uma corda de seda, que Mesmer afirmava ser o fio condutor do magnetismo, era amarrada na vara central e comprida o suficiente para que os participantes a colocassem frouxamente em torno de seus membros, às vezes passavam a corda na cintura, e de mãos dadas reforçavam a ação do fluido magnético. François Deleuze, 36 um bibliotecário que, na época, assistia os trabalhos de magnetizações, publica um livro sobre o assunto e descreve uma dessas cenas:

Num dos compartimentos, sob a influência das varetas, que saíam de garrafas contendo água magnetizada, aplicada às diversas partes do corpo, ocorriam diariamente cenas extraordinárias. Gargalhadas satânicas, gemidos e crises de pranto se alternavam. Indivíduos atirando-se para trás

35 Medeiros e Albuquerque. Hipnotismo. 6 ª ed., RJ, Ed. Conquista, 1956. O autor foi membro da Academia Brasileira; da Academia de Ciências de Lisboa e da Societé de Psychologie de Paris. O livro é prefaciado pelos psiquiatras: Miguel Couto e Juliano Moreira além de Franco da Rocha (N. do A.). 36 DEULEZE, J. P. F. Histoire critique du magnestisme animal. [Reprin], vol. 4, Paris, Hipolyte Bailliére, (1819), 1956.

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contorcendo-se em convulsões espasmódicas. Respirações semelhantes às de moribundos e outros sintomas horríveis se viam por toda parte. Subitamente esses estranhos atores atiravam-se, uns aos braços dos outros ou então se repeliam com expressões de horror. Enquanto isso, num outro compartimento, com as paredes devidamente forradas, apresentava-se outro espetáculo. Ali mulheres batiam com as mãos contra as paredes ou rolavam sobre o assoalho coberto de almofadas, com acessos de sufocação. No meio dessa multidão ofegante e agitada, Mesmer, envergando um casaco de seda lilás, movia-se soberanamente, parando, de vez em quando, diante de uma das pacientes mais excitadas. Fitando-lhe firmemente os olhos, enquanto lhe segurava ambas as mãos, estabelecia contato imediato por meio de seu dedo indicador. Também operava fortes correntes, abrindo as mãos e esticando os dedos, enquanto com movimentos ultra-rápidos cruzava e descruzava os braços, para executar os passes finais (DELEUZE).

A compreensão da ligação do mesmerismo com o hipnotismo atual inicia por analisar o interior da clínica, onde tudo era disposto de forma a provocar uma forte indução sugestiva no paciente. Tapetes espessos, misteriosas decorações astrológicas nas paredes e cortinas cerradas, compunham o ambiente onde se realizavam as sessões. Além disso, existia uma sala de crises forrada de colchões, destinada aos pacientes com ataques convulsivos violentos e a celebre tina de madeira, um aparelho de tanta eficácia que dispensava até a presença de Mesmer nos rituais. Nas sessões, Mesmer esforçava-se, verbalizando sua teoria, para provocar nos pacientes o máximo possível de tensão emocional e, eles passavam a reagirem de formas inexplicáveis, uns sentindo convulsões, outros entravam em transe e gritavam, choravam ou gargalhavam. Tudo isso era responsável pela criação de uma atmosfera propícia aos devaneios da imaginação dos homens do século XVIII, uma imaginação ainda povoada pelo maravilhoso, por monstros, demônios e encantamentos. Mas, o certo é que curas espetaculares aconteciam. No início da sessão de mesmerismo era mantido um silêncio absoluto. A atmosfera geral possuía um clima de harmonia que só era interrompido, vez por outra, por gritos ou soluços convulsivos de alguns pacientes, o que provavelmente provocava uma indução ainda maior nas pessoas que se encontravam no salão e, sem dúvida, era esta a intenção. Todo esse impacto sofrido pelo suscetível colocava-o numa situação ainda maior de suscetibilidade, facilitando a ocorrência e o aprofundamento do transe. Na fase mais avançada de sua carreira, Mesmer induzia os pacientes para formarem uma corrente, sendo colocados uns ao lado dos outros, alternando-se homens e mulheres (análogo à polaridade elétrica, positivo negativo), comprimindo as coxas entre eles. Em pouco tempo as pessoas começavam a sofrer convulsões, caindo no chão e, o argumento explicativo baseava-se em que a força do magnetismo era ativada pelas mãos e facilmente conduzida

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pelas coxas. Para garantir a formulação do sofisma que mais convencesse tudo era associado a um fato científico, como a corrente elétrica. Durante as sessões, havia assistentes para retirarem os que fossem afetados de modo mais violento, em transe convulsivo ou cataléptico, os de choro alto e risos histéricos que eram conduzidos à sala de crise. Essa ruidosa sala ficou conhecida como a Câmara das Crises ou o Inferno das Convulsões. Mas, conta à história, Mesmer efetivamente acreditava no que afirmava, era convicto das suas “verdades científicas”. O sucesso de Mesmer em Paris foi muito rápido, chegando a alugar um palácio Place Vendôme e faz da sala principal seu novo consultório, capaz de receber cento e trinta pacientes por sessão. Neste ambiente atendeu a rainha Maria Antonieta, o legislador Montesquieu, o iluminista La Fayette entre outros nomes da nobreza e da intelectualidade parisiense. Na fase de gloria atendia a mais de mil pessoas por dia e, como não podia atender a todos, chegou a magnetizar uma árvore em frente do salão para que nela, quem não mais cabia do lado de dentro, tocasse em busca de curas. Assim como aconteceu em Viena acontece também em Paris; a classe médica enciumada lhe moveu mais um processo de perseguição. Em 12 de março de 1784, o rei Luís XVI, instigado pelos médicos, nomeou uma comissão de sábios para investigar a natureza do fenômeno mesmerista. As críticas mais contundentes contra o mesmerismo vieram da Faculdade de Medicina, da Academia de Ciências e da Sociedade Real de Medicina. As duas primeiras trataram de instituir a comissão de investigação oficial composta por: a) Benjamin Franklin, na ocasião embaixador americano em Paris e inventor do pára-raios; b) o químico Antoine-Laurent Lavoisier, cientista conhecido como o pai da química moderna; c) Jean-Sylvain Bailly, astrônomo conhecido pelos cálculos da órbita do cometa Halley e pelos estudos sobre os quatros satélites de Júpiter, estadista e Prefeito de Paris; d) o médico Joseph- Ignace Guillotin, o mesmo que oito anos depois inventaria a guilhotina; e) Antoine Laurent de Jussieu, médico pela Universidade de Montpellier, Diretor do Jardim Real e membro da Academia de Ciências de Paris. Todos encarregados de investigar a legitimidade do fluido magnético e das curas anunciadas.

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A prática de Mesmer começou a enfrentar críticas de acadêmicos i- lustres ligados à Faculdade de Me- dicina, à Academia de Ciências e à Sociedade Real de Medicina da França, que iniciaram forte campa- nha contra a prática do mesmeris- mo. Não obstante milhares de curas re- alizadas, tudo era explicado como sendo fruto de fraude e farsa. Uma sátira ao magnetismo animal foi publicada, em 1780, em jornais e panfletos que circulavam por toda Paris, com caricaturas de um corpo de homem com cabeça e rabo de cavalo e uma mulher sendo mag- netizada. Era o início de uma gran- diosa contestação que impôs o fim da carreira de Mesmer.

a c a r r e i r a d e M e s m e

Caricatura contra o mesmerismo (1780)

Uma petição dirigida por Mesmer à Academia Francesa, em data anterior à nomeação da comissão, requerendo a investigação científica para seu método de cura sequer foi indeferida, foi ignorada. Indignado, posteriormente quando procurado pela comissão oficial, recusou-se por à prova suas verdades e não ofereceu resistência às acusações, deixando sua defesa a cargo dos fatos e de seus discípulos. Mesmer era acusado, preliminarmente, de ser o detentor e criador de uma doutrina secreta, que só se dispunha revelar aos membros subscritos da “Sociedade da Harmonia”, criada por ele para formar novos magnetizadores ou mesmeristas. Sob promessa de sigilo, os sócios aprendiam, com base na harmonia entre os Astros celestes e os seres humanos, a concentrar os fluidos magnéticos e a comunicar para outras pessoas. Com a ajuda de Luis XVI e Maria Antonieta, instalou também o “Instituto Magnético”, local onde os mesmeristas atendiam pacientes em busca de cura. Diante da negativa de Mesmer de provar sua teoria, a comissão tratou de investigar as práticas mesmeristas realizadas pelo seu discípulo Charles D`Eslon, médico respeitado e professor da Faculdade de Medicina de Paris, que se prontificou com os investigadores a compartilhar a totalidade do seu saber e da sua experiência. Assim, o que estava sendo julgado era a prática do magnetismo animal e, durante a fase de investigação, a comissão limitou-se a presenciar demonstrações realizadas por D`Eslon. Os cientistas enfiaram as mãos na tina do banho magnético, o que não lhes provocou os efeitos

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esperados, nada de crises ou de convulsões, nada de fluido ou coisas semelhantes foi registrado. Afirma Chertok 37 que D`Eslon se comprometeu com os comissários para:

1) constatar a existência do magnetismo animal 2) comunicar seus conhecimentos sobre essa descoberta 3) provar a utilidade do magnetismo animal no tratamento das enfermidades. Entretanto, não deveria ter assumido tal compromisso desde quando fora iniciado na Sociedade da Harmonia, portanto fez votos de sigilo e devia fidelidade a Mesmer; mesmo assim assumiu com intenção de provar que a teoria era verdadeira, mas ficou surpreso com os resultados e como os membros da comissão procederam, com exceção de Jussieu. Para D`Eslon a condenação do mesmerismo não era pertinente. Após cinco anos de estudos, a comissão apresentou volumoso relatório condenando o mesmerismo, afirmava que não havia efeitos benéficos e que os tratamentos eram à base de excitação da imaginação e de pura imitação mecânica; “a imaginação separada do magnetismo produz convulsões, e o

magnetismo sem imaginação nada produz

Complementa a acusação o fato de que a

magnetização não ocorria se o indivíduo não soubesse que estava sendo submetido a tal prática. A conclusão do relatório é integralmente contra a prática do mesmerismo, afirmava que a predisposição do sujeito enfermo era condição para atingir a cura. Mas, Jussieu recusou-se a assinar e contestou o relatório; por entender que somente a imaginação não explicava muitos aspectos que por ele fora observado na fase de investigação, apresentando um contra-relatório á Corte Francesa e á Academia de Ciências, defendendo o mesmerismo, principalmente a veracidade das curas que presenciou. 38 Com base na condenação do magnetismo animal, a Sociedade Real de Medicina resolveu processar Mesmer. Agora era ele quem deveria ser julgado na sua conduta médica. Indignado, D`Eslon assumiu a defesa e, referindo-se ao primeiro julgamento, dizia ter ouvido inúmeras vezes o argumento de que todas as curas comprovadas foram provocadas pela imaginação do próprio paciente. Questionava D`Eslon no segundo julgamento; “E se for verdade? Se o segredo do Doutor Mesmer é manipular a imaginação para fazê-la operar em pró da harmonia física e mental do paciente? Isso não seria, só por isso, um grande avanço para a medicina?”. Insistia em que a prova fosse buscada nos efeitos curativos do fluido hipotético, mas a argumentação da defesa de nada

nada há que prove a existência do

fluido magnético animal

”.

37 CHERTOK, Léon e STENGERS, Isabelle. O Coração e a Razão: A hipnose de Lavoisier a Lacan. (Titulo original: Lê coeur et la raison – L’ hypnose em question, de Lavoisier à Lacan. Trad. Vera Ribeiro) RJ, ed. Zahar, 1990. 38 JUSSIEU, Laurent de. Rapport de l’um des commissaires, [Reprin] Paris (1784), 1952.

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valeu. Mesmer foi condenado como charlatão, considerado impedido de praticar a medicina. 39

considerado impedido de praticar a medicina. 3 9 Caricatura do século XVIII - B. Franklin apresentando

Caricatura do século XVIII - B. Franklin apresentando o relatório contra o Mesmerismo

A partir do resultado do segundo julgamento, a Faculdade de Medicina de Paris proibia qualquer médico declarar-se partidário do Magnetismo Animal, sob pena de ser excluído do seu quadro. Paralelo a essa proibição surge um movimento de grupos de ilustres personalidades da sociedade de Paris. Favoráveis às idéias de Mesmer, iniciam a criação das Sociedades Magnéticas, derivadas da Sociedade da Harmonia, que mais tarde se transformam nas “Sociedades Mesmeristas” e se espalham pela Europa com objetivo de promover tratamento das enfermidades. Oficialmente desacreditado e sofrendo grande pressão da crítica, vilipendiado pela classe médica, Mesmer abandonou Paris no ano de 1794

39 Em 1994 foi produzido por Wiland Schulz-Keil e Lance Reynolds, dirigido por Roger Spottis Woode, um filme com o título de Dr. Mesmer o feiticeiro. Retrata o trabalho de MESMER em Viena e em Paris e a rejeição da comunidade médica do seu tempo às suas idéias. Retrata o julgamento da Sociedade Real de Medicina de Paris que condena MESMER como charlatão (N. do A.).

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seguindo para a Bélgica onde não obteve boa recepção; foi para a Alemanha onde concluiu a redação do seu livro mais completo, 40 publicado em 1814, detalhando o entendimento teórico e as práticas que desenvolvera durante sua vida, mas seu conteúdo foi considerado pela crítica da época como informações sem crédito. Enfrentando mais um processo promovido pela Academia de Ciência de Berlim, Mesmer foi intimado a prestar esclarecimentos sobre sua teoria e sua prática. Sofrendo grandes perseguições na Alemanha, fugiu para Inglaterra onde viveu por pouco tempo sob nome suposto, tendo depois voltado para Iznang na Áustria onde morreu aos 81 anos de idade, em completo esquecimento, na cidade de Weiler, em 05 de março de 1815. É incontestável que o ritual, não importa qual seja a justificativa, se religiosa, mística ou mágica, quanto mais solene mais eficaz será para produzir o transe. Mesmer, sem reconhecer essa relação, usa como processo de indução o ritual dos passes e da tina, associando à teoria do magnetismo animal. Para ele o transe e seus efeitos eram produzidos por uma força emanada por via astral que, agindo através da pessoa magnetizadora, era capaz de aliviar ou eliminar sofrimentos humanos. Mesmo sendo a maior parte das suas conclusões equivocadas, a partir de suas idéias foi possível uma série de descobertas que deram origem a novos conceitos. Na fase final de suas pesquisas, sem abandonar as idéias iniciais Mesmer acrescenta outras, as quais se aproximam muito das explicações modernas. Em suas ultimas conclusões relacionava os sintomas dos pacientes às violentas emoções por eles vivenciadas, acreditava que sua técnica era uma forma de superação ou cura dos sofrimentos conseqüentes da própria historia de vida de cada um. Entre 1790 e 1820 o magnetismo animal foi relegado à categoria de “acontecimento sem importância”, mas o mesmerismo continuou ativo depois da morte de seu fundador. Decorridos mais de dois séculos, muitos autores escreveram sobre o assunto, uns a favor outros contra, novas interpretações aconteceram. Na década de 1880, as conclusões de Mesmer incentivaram os estudos de um neurologista francês, o famoso Charcot, que associou a terapêutica do seu antecessor ao estudo da histeria e lhe deu novo impulso. Tudo isso contribuiu para Freud, no início do século XX, apontar sua versão para o significado terapêutico das práticas mesmeristas. Na atualidade, novas hipóteses surgem e são modificadas a cada dia por novos autores, inovando e discutindo o tema do hipnotismo, envolvendo, em maior ou menor dose, a filosofia, a religião ou ciência.

40 Título original do livro de MESMER publicado por Herausgegeben von Wolfart, em Berlim, A- lemanha, em 1814, System der Wechselwirkungen. Theorie und Anwendung des Thierischen Magnetismus als die allgemeine Heilkunde zur Erhaltung des Menschen “Sistema de ação e reação: Teoria e prática do magnetismo animal como meio geral de cura e manutenção da in- tegridade humana” (Trad. do A.).

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Adeptos de Mesmer mantiveram funcionando as Sociedades da Harmonia, no início secretamente e depois a tornaram pública com o nome de Sociedades Magnéticas. Em 1831, os membros dessas sociedades elaboram um minucioso relatório e o encaminha à Faculdade de Medicina de Paris solicitando a reabertura do processo que condenara o mesmerismo, obtendo a revisão do julgamento. A comissão de revisão finaliza a redação da nova sentença afirmando que considerava o magnetismo como agente de fenômenos fisiológicos e como elemento terapêutico, por isso era favorável que seu estudo deveria entrar no quadro do ensino da medicina e fosse empregado por médicos ou, sob sua orientação, por especialistas comprovados. Em 1837, porém, a comissão retrata-se da decisão anterior negando a existência dos fluidos, principal argumento do mesmerismo e, por conseqüência, anula qualquer referencia positiva ao uso do magnetismo. O mesmerismo, embora desacreditado pela classe acadêmica, desde o tempo do seu surgimento, serviu de base para várias idéias e sua importância para o desenvolvimento de algumas crenças é incontestável; a hipótese da influência dos Astros nas vidas das pessoas para muita gente é válida até hoje e, acreditando nisso, muitos ainda recorrem a consultas astrológicas e a mapas astrais para obterem respostas sobre a vida, sorte e saúde. A crença de Mesmer na força que podia ser acumulada na água, nos cristais e nos espelhos, também ainda encanta muita gente. Na linguagem moderna do hipnotismo, o mesmerismo é reconhecido como a escola magnética ou mesmerista e, ainda, é muito seguida. Sua prática é acontece principalmente em alguns ambientes religiosos. No sentido religioso a influência do mesmerismo é evidente, os passes magnéticos e recipientes com água das práticas mesmeristas foram mais tarde utilizados como elementos facilitadores da cooperação entre o espírito e o médium. Assim como Mesmer fazia quando invocava os fluidos astrais, freqüentemente os dirigentes de rituais religiosos, em busca da cura, também invocam ou recorrem a uma espécie de poder sobrenatural do qual se dizem condutores ou instrumentos.

Mesmerismo e sonambulismo Dentre os discípulos de Mesmer que fizeram reviver o mesmerismo, figura também uma personalidade influente, o Marquês Armand-Marie-Jacques Chas- tenet du Puységur (1751-1825), um oficial de artilharia que se distinguiu no cer- co de Gilbraltar. Viveu dividindo seu tempo entre a vida militar e seu castelo, uma gigantesca propriedade que possuía por herança de seus antepassados, localizada no sul da França, na aldeia de Bezancy região da Soissons.

Puységur continuava empregando o método mesmerista, até o dia quando magnetizando com passes um jovem camponês de 18 anos, de nome Vietor Race, que sofria de uma afecção pulmonar, por mera casualidade verificou que o expediente magnético podia produzir um estado de sono e repouso em lugar das clássicas crises de convulsões. Vietor não se detinha no sono; dormindo,

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movia com suavidade os lábios e sua fala parecia reproduzir pensamentos alheios, muito superiores à sua cultura rudimentar, usava uma linguagem mais inteligente do que quando em estado normal, chegando mesmo a indicar um tratamento para a sua própria enfermidade, com o qual obteve pleno êxito. No mais, o paciente se conduzia como um sonâmbulo. Puységur estava diante de um fenômeno, que não hesitou em rotular de sonambulismo artificial e percebendo um novo aspecto do fenômeno hipnótico, que ainda era conhecido como magnético, passou a explorá-lo sistematicamente.

Enquanto os mesmeristas provocavam crises nervosas, convulsões histéricas, prantos e desmaios, Puységur agia em sentido contrário, sugerindo aos mesmerizados paz, repouso, cura e ausência de dor. Embora continuasse a usar passes conjuntamente com a sugestão para indução ao transe, deu um impulso decisivo ao hipnotismo moderno; a ele se devem os primeiros critérios corretos para a análise da hipnose e da suscetibilidade hipnótica, além de observar como decorrente da hipnose fenômenos hiperestésicos e clarividentes. Já no ano de 1784, descobrira que, com um dos seus pacientes, ele não tinha necessidade de falar para dar as sugestões.

Entre outros, o fenômeno da clarividência, premonição e transmissão de pensamento, podem ocorrer com algumas pessoas em estado hipnótico.

esclarece o que ele denomina de “Incitação do Inconsciente pela

Hipnose” e apresenta casos nos quais afirma que a hipnose favoreceu a ocorrência desses e de outros fenômenos. Descreve o conteúdo de uma carta escrita pelo próprio Marquês, datada de oito de março de 1784 e citada por Dominique de Sé, no seu livro Animal magnetism, publicado em Londres em

1874, que relata o acontecido quando mesmerizava um dos seus pacientes:

Eu pensava simplesmente na presença dele e ele me compreendia e me

Quando ele se mostrava disposto a dizer mais do que eu

julgava prudente deixar entender, eu, só com o pensamento, interrompia imediatamente suas idéias, cortando as frases no meio de uma palavra e modificava completamente seu curso (DOMINIQUE, apud QUEVEDO).

Em 1787, Jacques Henri Désiré Petétin (1744 - 1808), de Lyon, também descobriu como levar um paciente ao transe sonambúlico. Em sua obra, Electricité Animal (1808), comunica ter observado que nas experiências com o sonambulismo, algumas pessoas manifestavam fenômenos estranhos. Alguns pareciam surdos quando a voz era dirigida aos seus ouvidos, entretanto, ouviam perfeitamente se as palavras lhes eram sussurradas ao nível do estômago. O mesmo fato ocorria com relação à visão; o sujeito mostrava-se capaz de “ver” com a região correspondente ao estômago. Outras vezes observava que os sentidos sofriam uma transposição diferente, como exemplo, para a ponta dos dedos da mão ou dos pés.

Quevedo

41

respondia

41 QUEVEDO, O. Gonzáles. A face oculta da mente, S. Paulo, ed. Loyola, 1971.

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É relativamente comum a observação de fenômenos de transposição dos sentidos em sessões de hipnotismo, onde o hipnotizado, de olhos vendados e de costas para o hipnotizador, reproduz os seus movimentos; se o hipnotista levanta o braço, o hipnotizado também levantará, sem que para isso se diga uma palavra; se o hipnotista apenas afasta as mãos, ele cairá com o corpo no mesmo sentido. Mas, esse fato revelado por Puységur, até hoje é posto em dúvida embora seja verdadeiro e até fácil de ocorrer. Foi o Marquês, o criador do termo sonambúlico para representa o estágio mais profundo da hipnose. Seu método, no qual o próprio doente indicava o seu remédio, fez com que Puységur enveredasse para a pesquisa do maravilhoso. Seus pacientes postos em contatos com outra pessoa doente viam e descreviam seus órgãos internos como raios-X e, hipnotizados, também faziam observações do que se passava à distância. Assim, Puységur introduziu na hipnose uma experiência curiosa que consiste em aprofundar no transe uma pessoa bastante suscetível, sugerindo-se em seguida que ela terá sua visão aumentada e condições de enxergar internamente a pessoa que está à sua frente. Ambas de frente uma para outra, com os braços apoiados sobre os joelhos, em contato pelas mãos. Feito isso, era dito:

Agora você já pode observar todo o funcionamento dos órgãos internos

Vá observando

Vá observando o

desta pessoa com que você está em contato

vagarosamente, bem calma, bem tranqüila

funcionamento de todos os órgãos internos dela

Observe

bem

Descreva seu funcionamento O hipnotizado logo dizia que estava enxergando tudo; surpreendentemente, com detalhes descrevia o funcionamento dos órgãos, mesmo sem ter grandes conhecimentos de anatomia. Para Puységur, com essas experiências podiam ser obtidos diagnósticos perfeitos e com grande precisão. Sugeria que, além de ver, o hipnotizado tinha condições de sentir as reações do outro e descrever suas dores. O retorno dessa prática consistia também de sugestões especificas. Como exemplo:

Você está livre de qualquer interferência, está livre

Está totalmente se desligando da pessoa

Ao soltar suas mãos, estará livre de seus

Agora está tudo bem

de qualquer dor ou mal-estar que segura pelas mãos

problemas Solte as mãos

Um

Vou contar até três para você acordar

Dois

Três

Baseado nas experiências de Mesmer, Puységur acreditava que podia magnetizar árvores e, com isso, desenvolveu outra técnica utilizada em tratamento coletivo, que eram executados na presença de espectadores curiosos e entusiasmados pelo novo método. Segundo Alphonse Bué (1919), Puységur chegava a reunir até 130 pessoas, ao mesmo tempo, em torno das famosas árvores de Bezancy, de Beaubourg e de Bayonna, de que os anais magnéticos assinalam numerosas curas.

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No centro da praça da pequena aldeia de Bezancy, cercada de palhoças, próximo ao castelo do Marquês, podia ser vista uma grande árvore, um olmo antigo em cujo pé brotava uma fonte de água clara; os camponeses se sentavam ou eram amarrados nos principais ramos em torno do tronco. O procedimento de cura começava com a formação de uma corrente de pessoas que se seguravam pelos polegares em volta da árvore e descreviam sentir, na medida mais intensa ou débil, um fluido que corria através deles. Depois de um tempo o mestre mandava que cada um dissolvesse a corrente se soltando dos polegares do outro para posteriormente cada um esfregar as próprias mãos. Escolhia então alguns deles e, com o toque de seu bastão de ferro, levava-os ao nível de transe sonambúlico. Essas pessoas, agora chamadas de “médicos”, diagnosticavam enfermidades dos outros e indicavam tratamentos. Para acordá-las de seu sono magnético Puységur mandava beijar a árvore. Com isto acordavam e não se lembravam de nada. Chamando a atenção dos cientistas para a nova forma de curar, Puységur comunicou esse novo rumo dado à hipnose à Academia de Medicina, que se recusava a aceitar no que parecia ser um absurdo e nomeou comissões para estudarem os casos descritos pelo Marquês. Uns relatórios foram a favor e outros contra, em 1837 instituiu-se a ultima comissão que, para por fim a dúvida, estabeleceu uma recompensa de alto valor em dinheiro para quem apresentasse um sonâmbulo capaz de enxergar através de obstáculos opacos. Ao contrário do que se esperava a prova não envolvia qualquer demonstração de cura pela hipnose, seria recompensado o hipnotizador que respondesse positivamente ao desafio e acreditava-se que jamais qualquer pessoa passaria na prova. Contrariando as expectativas, apareceu uma garota de nome Pigaire, de 12 anos, cuja clarividência havia sido comprovada por Puységur. Apresentada á comissão, de olhos totalmente vendados pelos experimentadores, mostrou que podia ver perfeitamente objetos. Pois bem, o veredicto dos doutos acadêmicos foi contrário, chegaram à conclusão de que embora com os seus olhos rigorosamente blindados, a sua faculdade da visão não podia ser descartada por ter ela uma vista fisiológica normal; não era cega, logo podia enxergar.

Questão encerrada

Embora em média apenas 10% dos suscetíveis atingem o nível sonambúlico e desse universo apenas duas têm possibilidades de apresentar efeitos extra-sensoriais, a prática de Puységur abriu caminho para uma nova perspectiva do transe hipnótico. Vários homens importantes na sociedade européia seguem seus passos, entre eles o Barão Du Potet (1796-1881) que em 1852 publicou o Tratado completo sobre magnetismo animal e Charles Lafontaine (1802-1892) que se torna um dos maiores divulgador das práticas do sonambulismo. A partir deles, algumas sessões de magnetismo passam a incorporar sonâmbulos com efeitos espetaculares, ocorrem manifestações de hiperestesias por toda a Europa.

Processo arquivado.

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O Barão Du Potet foi um entre outros que muito contribuiu para o desenvolvimento das sessões mesmeristas envolvendo sonâmbulos, mais tarde transformados em (médium) espíritas. Abriu em Paris uma escola prática de magnetismo onde o público podia instruir-se dos processos e verificar os fenômenos e, nesta escola, foi iniciado Allan Kardec, a quem coube o desenvolvimento e a codificação da doutrina espírita que, a partir dele, passa a ser conhecida como kadercismo. Magnetismo e kardecismo O magnetismo em sua trajetória histórica envolve o sonambulismo euro- peu com algumas manifestações ocorridas na América. Desse envolvimento decorreu sua conversão para a doutrina espírita através do médico, filósofo e professor de francês, Denizard Hippolyte Léon Rivail (1804 – 1860), nascido na França, na cidade de Lyon. No início de sua carreira Rivail foi Guarda-livros no jornal O Universo, se formou em Letras e em Medicina, publicou em 1824 a Gramática Francesa Clássica e um ensaio sobre o aperfeiçoamento do ensino no seu país. Com intenção de trabalhar como professor, sua principal atividade profissional, fundou o Instituto Rivail, fechado em 1835 por dificuldades finan- ceiras, passando então a ensinar em sua casa filosofia, química, anatomia, as- tronomia e física, além de, eventualmente, clinicar como médico. Rivail interessou-se pelo magnetismo de Paracelso e, no ano de 1850, o mesmerismo atraiu mais ainda a sua atenção, passando a integrar o grupo dirigido pelo Barão Du Potet, fundador do Jornal du Magnétisme e dirigente da Sociedade Magnética de Paris. Embora se considerasse modesto magnetizador, Rivail freqüentou sessões de mesmerismo em busca de solução para casos de enfermidades de pacientes a ele confiados e tornou-se mais tarde, com o pseudônimo de Allan Kardec, o codificador da doutrina espírita. Antes da doutrina de Kardec, entre 1835 e 1845, na Alemanha são notáveis as sonâmbulas Adèle Marginot e Gottlieben Dittus, ambas nas sessões de magnetismo realizavam curas e atribuíam aos espíritos. Na Escócia, na mesma época, o pastor presbiteriano Edward Irving pregava curas enquanto falava em sua Igreja em língua estranha, fato comum durante transes hipnóticos. Na Inglaterra ocorreram situações semelhantes e migra para a América através dos shakers, grupo de religiosos místicos ingleses que, no início século XIX, chegaram aos Estados Unidos como colonos. No fim da década de 1840, só em Nova Orleans, cidade americana de fortes raízes francesa, funcionavam mais de cinqüenta centros dedicados à prática do espiritismo. Embora nestas sessões a comunicação direta com espíritos não era cogitada, admitia-se sua existência e a crença de que eles agiam influenciando de alguma forma na vida das pessoas. Foi nos Estados Unidos em 1848, numa granja em Hydesville em Nova York, que aconteceu o fato envolvendo a família Fox, que ficou conhecido como a primeira ocorrência de comunicação direta de pessoas vivas com espíritos desencarnados. A família era composta por John, sua esposa Margareth e três

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filhas, Margareth, Katharine e Ana Lrah de quinze, doze e nove anos, respecti- vamente. Em dezembro de 1847, os Fox foram residir numa casa de madeira que tinha fama de mal-assombrada, apesar de sempre ouvirem pequenos ruídos, como se fossem batidas nas paredes, a família já estava se acostumando com a casa, mas certa noite os ruídos se intensificaram. As duas filhas mais velhas logo perceberam que o som respondia a seus estalos de dedos e batidas das palmas, como se alguém invisível estivesse querendo se comunicar. Margareth, a mais velha, levando na brincadeira e cantando em ritmo de raps, dizia: “Se- nhor pé rachado, faça o que eu faço”. 42 Seguiu-se o mesmo número de raps ao das palmas batidas por Margareth. Em seguida, replicou: “Agora faça exata- mente como eu. Conte um, dois, três, quatro”. E, bateu palmas, sendo imitada nos sons pelo que acreditou ser um espírito. Outras perguntas foram feitas pela mãe das meninas, como qual a idade de cada uma, e para espanto da família, as pancadas responderam acertadamente. A casa dos Fox virou um lugar onde afluíram várias pessoas para presen- ciar os fatos estranhos e, por causa disso, a família resolveu mudar-se dali e os fenômenos pararam. As duas irmãs mais velhas eram sonâmbulas, portanto ti- nham possibilidades de manifestar certos efeitos parapsicológicos. A notícia espalhou-se pela região e, rapidamente, para o resto do país e para o outro la- do do Atlântico. Chega à França e transforma-se em reuniões em torno de me- sas girantes e de escritas automáticas, inicialmente como curiosidade e passa- tempo de salão, depois se associa ao mesmerismo para mais tarde transfor- mar-se em prática da doutrina kardecista. O fato ocorrido com a família Fox passou a ser entendido como uma co- municação com um espírito. O fenômeno das batidas como resposta às provo- cações das meninas prosseguiu à vista de outras pessoas que trataram de di- vulgar a história pelo mundo. Em 1850, na Europa, estas notícias serviram de base para o inicio das experiências com “mesas girantes”, contando sempre com a presença de sonâmbulas no decorrer das sessões de magnetismo, as- sociadas com práticas mesmeristas. Foi em 1850 que surgiram na Europa as mesas girantes; várias pessoas em torno de uma mesa colocavam as mãos sobre o móvel que começava a girar ou levantar os pés. Essa prática foi incorporada às sessões de mesmerismo nas sociedades magnéticas e todos passaram a acreditar que os fluidos magnéticos de uma ou mais pessoas do grupo proporcionavam as condições para que isso acontecesse. Quando o efeito começava, geralmente se ouvia um pequeno estalido na mesa, isso era o prelúdio do movimento. Essa prática virou mania nas casas e salões e logo, o que apenas era diversão, passou a ser entendido como se fosse comunicação com espíritos. Cada

42 O termo “pé rachado” deve-se à maneira que os nortes-americanos se referiam ao demônio ou “cabra” (N. do A.).

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pancada do pé da mesa no chão passou a ser entendida como confirmação de uma letra, proferida por alguém do grupo e, a junção das letras, formava resposta para determinada pergunta. Isto evoluiu para o que veio a se chamar escrita automática; uma cesta com 15 a 20 centímetros de diâmetro, na qual se amarava um lápis com a ponta para baixo. Mantida em equilíbrio sobre uma folha de papel, o sonâmbulo encostava o seu dedo na cesta e ela se deslocava escrevendo. O movimento da mesa girante, assim como da escrita automática, independente da vontade consciente de quem está com as mãos sobre a mesa ou com o dedo sobre a cesta, pode acontecer quando nas sessões participam pessoas suscetíveis e atingem proporções espetaculares quando essas pessoas são sonâmbulas. O próprio ambiente e a ritualidade das sessões provoca nas sonâmbulas um transe hipnótico profundo e tem inicio o movimento da mesa e da escrita automática. Como ninguém, conscientemente, provocou os movimentos, acredita-se que o efeito ocorre por uma ação inconsciente e, o que pode ser entendido como uma prática simples envolvendo hipnotismo, para alguns passou a ser observado como se fosse obra de espíritos comunicando-se com os vivos. A iniciação de Allan Kardec no espiritismo ocorreu após reencontrar com um amigo, de nome Victorien Sardou, que discorreu acerca do que acreditava ser a intervenção dos espíritos em uma sessão de magnetismo e o convidou para assistir. Em maio de 1855, foi à casa de uma sonâmbula, a Senhora Roger e conheceu o seu magnetizador, o Sr. Fortier, além de outros membros do novo grupo. Foi quando, pela primeira vez, presenciou a prática das mesas girantes que saltavam e corriam, viu também alguns ensaios de escrita automática. Interessou-se pelas explicações transmitidas pelo magnetizador quando dizia "parece que já não é somente a pessoa que pode magnetizar". A partir das mesas girantes e escritas automáticas, ocorreu para alguns mesmeristas a suspeita de que existia algo além do fluido e do magnetismo agindo nas sessões de sonambulismo e o sonâmbulo passa a ser conhecido como médium. Nome advindo do latim que significa “meio”, definindo aqueles sonâmbulos que entravam em transe com o propósito de “intermediar” a comunicação entre os vivos e os mortos. Em 1857, Allan Kardec acredita ter tido contato, através de um médium, com um espírito de nome Zéfiro que lhe diz, entre outras coisas, tê-lo conhecido em uma precedente existência, quando, ao tempo dos druidas, viviam juntos na Gália e ele se chamava, então, Allan Kardec. Zéfiro prometeu orientá-lo na tare- fa de escrever a nova doutrina e, Kardec, em 1859 publica com esse pseudô- nimo o Livro dos Espíritos criando outra versão para o magnetismo, a de que a força curativa era atribuída aos espíritos (Obras Póstumas de Allan Kardec). 43

43 KARDEC, Allan. Obras Póstumas, 12. Edição, R. J. Federação Espírita Brasileira (Departa- mento Editorial), 1992.

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A premissa de Kardec, fundamentada na filosofia antiga que a tudo respondia com base na reflexão do pensamento mítico, herda as teorias do magnetismo e se desenvolve absorvendo as práticas mesmeristas. A estruturação de sua doutrina tem base no pensamento dos pitagóricos, reforçada por Platão, e deriva do magnetismo desenvolvido por Paracelso, praticado por William Maxwell, Maximilian Hell, Mesmer e Puységur. Platão, como os pitagóricos e outras linhagens de pensadores filosóficos,

acreditava que a alma existia antes do corpo, continuava a existir após a morte

e posteriormente entrava em novo corpo prestes a nascer. Em estado puro, era

a alma capaz de contemplar sem obstáculos o mundo no qual vivemos; ao

adentrar um novo corpo, porém, ocorria um choque e produzia-se o esquecimento. Mas, traços dessa contemplação permaneciam no espírito e podiam ser eventualmente reativados. Essa visão, através do pensamento mítico, é presente nas escolas filosóficas, na origem da própria filosofia para

explicar o humano e seu mundo.

Para Platão 44 a alma é uma substância independente do corpo; é eterna, unindo-se a ele de forma temporária e acidental. Quando morre um corpo, a

alma transmigra para outro.

condicionada pelos atos praticados na vida anterior. Assim, o novo corpo em que reencarnam pertence a uma pessoa com um estatuto social mais elevado que o anterior, mas a união da alma com um corpo, não faz desaparecer traços da vida antes incorporada. Pelo contrário, estes traços vão sendo substituídos à medida que as experiências e a educação despertam na nova vida formas mais evoluídas. O sucesso e bem-estar social, como Platão relata em A Repú- blica, 46 seria conseqüências dessa evolução.

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A viagem e a transmigração estão, contudo,

Conhecendo bem filosofia e vivenciando as práticas do magnetismo mesmerista, Kardec inicia uma nova concepção de cura. Em 1858, funda e dirige a Sociedade Parisiense dos Estudos Espíritas e cria a Revista Espírita, onde populariza sua teoria. Ao escrever a primeira edição da Revista Espírita, em março de 1858, destaca que o magnetismo preparou o caminho do espiritismo. Afirma que dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo e do êxtase, derivou as manifestações espíritas, e diz que sua conexão é tal que é impossível falar de um sem falar de outro. E conclui seu artigo homenageando os praticantes do mesmerismo como sendo seus legítimos antecessores:

Devíamos aos nossos leitores esta profissão de fé, que terminamos com uma justa homenagem aos homens de convicção que, enfrentando o ridículo, o sarcasmo e os dissabores, dedicaram-se corajosamente à defesa de uma causa tão humanitária (KARDEC, Revista Espírita, 1858).

44 PLATÃO.