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Mamíferos em remanescentes florestais de uma fazenda de plantação

de Pinus sp.,Água Doce, Santa Catarina, Brasil
Osvaldo Onghero Jr., Anderson Guzzi, Máira A. Dalavéquia, Mario Arthur Favretto

RESUMO
Os efeitos da pressão antrópica e da fragmentação florestal sobre os animais são cada vez maiores. As
áreas desmatadas entre as “ilhas” de floresta interferem diretamente na migração de todos os animais
que estão em busca de alimentos e território,isso acaba não permitindo o fluxo genético entre os
indivíduos e todos estes fatores propiciam uma queda da biodiversidade. O objetivo deste estudo foi
avaliar a diversidade de mamíferos em uma área com fragmentos florestais nativos entremeados por
fragmentos de Pinus sp. Foram realizadas três expedições com a duração de 48 horas cada, durante o
mês de novembro de 2009 na fazenda Campo Alto, Água Doce, SC. Os métodos de transectos lineares,
quadros de areia e armadilhas fotográficas foram utilizados para inventariar a mastofauna de médio e
grande porte. Obteve-se o registro 15 espécies de mamíferos pertencentes a nove ordens e 11 famílias.
A análise das categorias de dieta predominantedas espécies levantadas demonstrou que 46% das
espécies são herbívoras, seguidas pelos carnívoros com 27% , os onívoros com 20% e os insetívoros
com7%. Oito espécies de mamíferos foram inventariadas na transição entre os remanescentes florestais
nativos e plantados. Nos remanescentes florestais nativos foram inventariadas sete espécies e nas áreas
plantadas de Pinus sp foram inventariadas seis espécies. O estudo indica previamente, que
provavelmente os mamíferos não habitem as florestas plantadas, mas somente as frequentem para se
alimentar ou se locomover entre os florestas nativas.
Palavras –chave: Fragmentação florestal, Remanescentes florestais nativos e Riqueza de espécies .

Introdução
Atualmente existem 4809 espécies de mamíferos descritas no mundo,desse
total, ocorrem no Brasil 13% ou cerca de 520 espécies de mamíferos, sendo 483
espécies terrestres (FONSECA et al., 1996). Na Mata Atlântica ocorrem 250 espécies
associadas aos diversos tipos de vegetação encontrados neste bioma (SABINO &
PRADO, 2000). Um desses tipos de vegetação é a chamada Floresta Ombrófila Mista ou
floresta com araucária, que abriga cerca de 76 espécies de mamíferos não voadores
(VIEIRA et al, 2004). Santa Catarina é um dos estados brasileiros menos conhecidos
quanto a sua mastofauna, particularmente para os mamíferos terrestres, sobre os
quais tem sido publicado trabalhos a respeito nos últimos 22 anos, poréma maioria

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destes trabalhos está restrito ao litoral do estado e incluem breves inventários em
municípios e ilhas (WALLAUER et al.,2000).
É perceptível uma grande carência de trabalhos mais específicos relativos à
ecologia de mamíferos em florestas de Pinus sp., assim como dados comparativos com
os de outras formações florestais. O estudo da comunidade de mamíferos neste tipo
de ambiente possibilita uma melhor compreensão da dinâmica de espécies e suas
respectivas funções em relação ao ecossistema. Tal estudo também oferece uma
valiosa contribuição para a avaliação dos impactos causados pelas constantes
alterações e simplificações dos ecossistemas naturais resultantes das atividades
humanas.
Esse estudo visa a contribuir para o conhecimento da composição da
mastofauna em remanescentes florestais de Floresta Ombrófila Mista Alto Montana
do oeste de Santa Catarina. Comparando também a riqueza e a frequência de
ocorrência dessa fauna entre as matas nativase áreas próximas reflorestadas com
Pinus sp. As questões enfocadassão quais espécies usam os hábitats perturbados e
qual parcela da biodiversidade que é mantida nesses hábitats em relação ao habitat
original.

Materiais e Métodos
O levantamento de mamíferos não-voadores de médio e grande porte foi
conduzido na fazenda Campo Alto, localizada no distrito de Herciliópolis, município de
Água

Doce/SC,

oeste

de

Santa

Catarina,

nas

seguintes

coordenadas

geográficas:26°39’31’’S e 51°27’50’’O, caracterizando-se pela presença daFloresta
Ombrófila Mista Alto Montana.
Na área de preservação permanente e reserva legal (mata nativa), da área de
estudo encontramos em sua totalidade vegetação secundária em estágio avançado de
regeneração, enquanto nas demais áreas de abrangência da área de estudo existem
plantações de espécies exóticas de madeira (Pinus sp.).
A área de estudo apresenta uma área total de 484 ha, dividida em: área de
preservação permanente com 107,27 ha; área de reserva legal com 96,80 ha; área de

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plantio de Pinus sp. com 181,12ha; estradas e aceiros com 10,43 ha; faxinais, rios e
banhados com 74,53 ha e área para usos diversos com 13,85 ha.
Foram realizadas três expedições a campo para realizar o levantamento das
espécies de mamíferos. Para o levantamento de mamíferos um dos métodos utilizados
é o encontro de pegadas e rastros (vestígios), porém em ambientes onde existe mata
fechada e o substrato de serapilheira, indica-se realizar a instalação de parcelas de
areia ou argila que popularmente são chamados de armadilhas para rastros, proposto
por Pardini (2003).
Outro método usado foram ostransectos lineares, o observador conduz um
censo ao longo de uma trilha pré-estabelecida a fim de observar os mamíferos ou
vestígios que indiquem sua presença. Em terra pode-se usar caminhadas, veículos
terrestres e cavalosa distância percorrida e a duração são anotadas (CULLEN-Jr et al.
2001). No presente estudo a maioria dos transectos foram realizados por caminhadas
e as observações ao longo deles tiveram uma duração média de quatro horas.
Armadilhas fotográficas automáticas também foram utilizadas. Duas
armadilhas fotográficas da marca Tigrinus foram instaladas nos acessos vicinais entre
as plantações de Pinus sp. e mata nativa e dentro da mata nativa. A máquina
fotográfica de cada armadilha foi equipada com um filme colorido e programada para
fotografar durante as 24 horas do dia, com intervalo mínimo de um minuto entre as
fotos.

Resultados e Discussões
Foram encontradas 15 espécies de mamíferos de médio e grande porte
pertencentes a nove ordens e 11 famílias, sendo que 11 espécies foram confirmadas
através do método de transecto linear (TL), cinco espécies foram confirmadas pelo
método de Parcelas de Areia ou Quadro de Areia (Q) e uma espécie foi confirmada
pelo método de Armadilha Fotográfica (Fot). Na expedição de campo I foram
levantadas 03 espécies. Na expedição de campo II foram levantadas 09 espécies. Na
expedição de campo III foram levantadas 11 espécies.

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As espécies que mais ocorreram (maior número de registros) na área
inventariada foram: Cerdocyon thous (onívoro), Mazama sp. (herbívoro
herbívoro), Sus scrofa
(herbívoro), Leopardus tigrinus (carnívoro)e Dasypus novemcinctus (insetívoro
insetívoro).

Tabela 01. Lista de Espécies Inventariadas na Área de Estudo.
Espécie

Exp. I

Exp. II

Cerdocyon thous

01 (TL)

Leopardus tigrinus

Dieta

01 (TL)

ONI

01 (TL)

01 (Q)

INS

02 (TL)

01 (Fot)/ 03 (TL)

ONI

01 (TL)

01 (Q)

CAR

Didelphis albiventris
Dasypus novencinctus

Exp. III

Leopardus pardalis

01 (TL)

CAR

Puma concolor

01 (TL)

CAR

01 (Q)

Lontra longicaudis

CAR
01 (TL)

Procyon cancrivorus

FP

FN

TF

Habitat
Escansorial

x
x
x

Terrestre

x

x

x

x

Terrestre

x

Terrestre

x

ONI

Fossorial
Terrestre

Semi-aquático
x

Terrestre

Mazama sp.

01 (TL)

01 (TL)

01 (Q)/ 02 (TL)

HER

x

Sus scrofa

01 (TL)

01 (Q)

01 (TL)

HER

x

HER

x

01 (TL)

HER

x

HER

x

Terrestre

01 (TL)

HER

x

Semi-aquático

Sylvilagus brasiliensis

01 (TL)

Lepus europeus
Cavia aperea

01 (TL)

Hidrochaeris hidrochoerus
Myocastor coypus

01 (TL)

HER

Terrestre
x

x

Terrestre

x

Terrestre
Terrestre

x

Semi-aquático

x

6

7

8

Legenda: Exp. – Expedição, FP – floresta de Pinus sp., FN – floresta nativa, TF – transição florestal,(Q)
florestal,
Quadros de
areia / (Fot) Armadilha fotográfica/ (TL) Transecto linear, HER – herbívoro, ONI – onívoro, CAR – carnívoro, INS –
insetívoro.

Gráfico 01- Percentual de espécies inventariadas pelos diferentes métodos aplicados

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Gráfico 02. Número de registro de cada espécie encontrada.

Deve-se
se destacar a presença de duas espécies exóticas no inventário, a de Sus
scrofa e Lepus europeus.. S.scrofa de origem asiática, vivem em varas de 20 a 40
indivíduos
ivíduos e se proliferam rapidamente, dominando habitats de espécies nativas
prejudicando a manutenção da biodiversidade nativa.
A presença de Lepus europeus que é de origem europeia e foi trazida por
imigrantes europeus durante a colonização com o objetivo
objetivo de ser utilizada em
esportes de caça e para ser consumida.
consumida. Esta espécie é solitária, porém
poré se prolifera
rapidamente causando pressão sobre as espécies nativas, principalmente pela
competição alimentar (brotos, sementes, frutos e cereais).
A análise das categorias
ategorias de dieta predominante 46% das espécies são
herbívoras seguidas pelos carnívoros com 27% , os onívoros com 20% e os insetívoros
com7% das espécies.

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Gráfico 03.Percentual
03.
da dieta das espécies inventariadas

Deve-se,
se, no entanto, destacar que o grupo dos carnívoros está representado
por quatro espécies, destas, uma têm hábitos semi-aquáticos
semi aquáticos e somente três
predadoras terrestre. As espécies de carnívoros registradas foram:: Puma concolor,
Leopardus pardalis, Leopardus
Leopar
tigrinus, Lontra longicaudis.
Por estarem no topo da pirâmide alimentar, os carnívoros têm uma grande
importância ecológica, pois podem regular a população de presas naturais e desta
forma, influenciar toda a dinâmica do ecossistema em que vivem. Na ausência de
predadores, suas presas naturais, como mamíferos herbívoros (veados), roedores
(capivaras, ratos), aves (pombas), répteis (cobras) e insetos (gafanhotos) tendem a se
multiplicar exponencialmente, podendo trazer sérios prejuízos à agricultura e
consideráveis
sideráveis perdas financeiras (PITMAN et al, 2002).
Portanto, a concepção de que os carnívoros são prejudiciais e que devem ser
mortos sempre que possível é completamente errônea. Os carnívoros têm um
importante papel na manutenção de ecossistemas estáveis e balanceados. Deve-se
destacar a ocorrência de rastros de Puma concolor na área de estudo (plantações de
Pinus sp.), a região de estudo possui uma altitude em torno de 1200 m e grandes áreas
com remanescentes florestais que são representados em forma de mosaico,
mo
o fato de
ocorrerem grandes área de plantação de maçã, Pinus sp.e Eucaliptus sp.
sp auxiliam para
estas formações antrópicas e exóticas formem corredores ecológicos entre os
fragmentos florestais, provavelmente auxiliando a vida destes carnívoros de grande
porte, já que os mesmos necessitam de grandes áreas para sobreviverem.

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A presença deste animal em uma determinada região serve como um
indicador de que o ecossistema se encontra relativamente saudável. No entanto,
quando o ambiente sofre pressões constantes, os recursos podem ficar escassos
fazendo com que estes animais se aproximem de moradias, tanto em áreas rurais
quanto em áreas urbanas.
O número de onívoros levantados no estudo foi baixo. Os onívoros são
oportunistas e generalistas, aproveitando o que existe de alimento disponível nos seus
atuais habitats (frutas, brotos, folhas, outros animais e carniças). As espécies de
onívoros inventariadas neste estudo foram: Didelphis albiventris, Procyon cancrivorus e
Cerdocyon thous.
Também foi constatado número adequado de insetívoros e herbívoros:
Dasypus novencinctus, Hydrochoerus hydrochaeris, Cavia aperea, Myocastor coypus,
Mazama sp., Sylvilagus brasiliensis, Lepus europaeus e Sus scrofa.
Na pesquisa foi constatada a presença constante da espécie exótica Sus
scrofa, a qual pode causar desequilíbrio ecológico, principalmente relacionado a
disponibilidade de alimentos dos remanescentes florestais da área de estudo, o que
pode ter atraído também a presença do Puma concolor e do Leopardus pardalis, pelo
fato de ocorrer grande disponibilidade de alimentos.As espécies exóticas concorrem
com as nativas ocupando seus habitats e podendo trazer a extinção local das espécies
nativas, causando stress ecológico e conservacionista para o habitat em que as
espécies nativas vivem.
Os onívoros e herbívoros se adaptam melhor a dietas e hábitats precários, os
mesmos utilizam alimentos cultivados pelo homem (milho, soja, trigo, restos de
alimentos e rações de animais domésticos) para manter sua prole. Conclui-se que a
pirâmide alimentar encontra-se com certo equilíbrio, sendo que os carnívoros de
grande porte podem ocorrer na área de estudo devido a ocorrência considerável de
herbívoros.
Já a presença considerável de herbívoros é atribuída a conservação dos
remanescentes

florestais

nativos,

que

possuem

grandes

pinheiros

(Araucariaangustifolia), brotos nativos e exóticos, frutos e demais sementes nativas e
exóticos das próprias cultivares de Pinus sp. e pela ocorrência de cultivares de cereais
encontrados no entorno.
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Com relação aos habitats preferenciais das espécies inventariadas as mesmas
pertencem a quatro categorias diferentes, sendo que 10 espécies exploram o hábitat

terrestre, três são semiaquáticas,
semiaquáti
uma é escansorial e uma é fossorial.
A predominância de espécies terrestres indica que a relação entre os
fragmentos florestais nativos e exóticos ocorre
ocorre de maneira que a interconexão
interconex dos
mesmos acabem por auxiliar na conservação das espécies terrestres existentes. A
ausência de espécies arborícolas como primatas, pode ser um indicativo que as
florestas plantadas da área de estudo, não são utilizadas como conectores desta biota
entre floresta nativa.

Gráfico 04. Hábitos
itos de vida dos mamíferos de médio
médio e grande porte confirmados.
confirmados

Considerações Finais

O maior número de registros de mamíferos foram na transição entre os
remanescentes florestais nativos e plantados, estas transições eram geralmente
caracterizadas por aceiros ou estradas secundárias de terra, onde os animais
costumam utilizar para transitar nos seus períodos
períodos de atividades. Nos remanescentes
florestais foram inventariadas sete espécies sendo o segundo o hábitat
bitat com maior
riqueza de registros
stros de espécies de mamíferos.
A presença de Cerdocyon thous em todos os habitats estudados pode ser
explicada pelo tipo de comportamento
mportamento oportunista que esta espécie possui.
possui Tendo um
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amplo espectro alimentar e de distribuição generalizada nos ambientes, destacando-se
como espécie assídua a ambientes originados pelo homem(NOWAK, 1999; CRESPO,
1982).
González et al., (1999) encontraram C. thous ocupando matas de Pinus sp.no
Uruguai. C.thous também apresenta um onívorísmo acentuado em suas dietas,
podendo igualmente frequentar uma grande diversidade de ambientes, os adultos se
deslocam bastante em suas áreas de vida, que são relativamente pequenas
(EISENBERG & REDFORD, 1999), o que deve explicar em partes, o destacado número
de registros nas florestas de Pinus sp.
Lima (1993) encontrou Dasypus sp. em áreas de reflorestamento
alimentando-se de formigas e outros insetos. Na área em estudo não foi constatada a
presença de Dasypus novemcinctus nas florestas de Pinus sp. Quanto a Mazama sp.,
esta espécie vive geralmente em bordas de remanescentes florestais, próximas a
cursos de água e em áreas de campos abertos. Nesse sentido, os plantios de Pinus sp.
não apresentam qualquer barreira para o deslocamento da espécie nesse ambiente,
pois completa ausência de sub-bosque torna a floresta bastante aberta em seu
interior.
Lepus europeus também habita ambientes abertos, como campos e áreas
cultivadas (SILVA, 1984). Na área em estudo, os resultados mostram que esta espécie
transitou entre as matas nativas e artificiais.
Estudando a distribuição de mamíferos em distintos hábitats de uma fazenda
composta por Floresta Ombrófila Mista e floresta de Pinus sp. Cerqueira et al. (1990)
encontraram maior riqueza de espécies no ambiente de mata nativa. A partir deste
fato os autores comentam que esse hábitat tem um papel importante na manutenção
da diversidade em relação ao mosaico de hábitats que a Mata Atlântica possui. A
maior similaridade de fauna foi verificada entre os fragmentos de remanescentes
florestais nativos e a faixa de transição entre as florestas nativas e plantadas. Isto
reforça a sugestão de serem mantidas as APPs, reserva legal e demais remanescentes
florestais nativos junto aos plantios comerciais para benefício da fauna (LIMA, 1993).

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