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Sinais de fogo, Jorge de Sena (teste)

Sinais de fogo, Jorge de Sena (teste)

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I Lê atentamente o excerto transcrito. (…) Outra grande novidade da faculdade era que tinha alunas.

Naquele tempo, não eram numerosas; e não havia, entre nós e elas, camaradagem nenhuma. Quando eu entrara para o liceu, ainda havia no último ano algumas, que eram entidades míticas de quem se diziam horrores, e os últimos remanescentes de o liceu ter sido misto. Entretanto, para a separação dos sexos, e para atender-se a uma população estudantil feminina, haviam sido criados em Lisboa dois liceus femininos. E, para nos espantarmos com a concentração de raparigas que estudavam (estudariam?) o mesmo que nós, muitas vezes tínhamos faltado, em grupos, às aulas, e tínhamos ido em excursão até um deles. Elas fugiam em grupos também, e não voltáramos lá, desde que, às esquinas, estavam polícias encarregados de enxotar-nos. Agora, na faculdade, lá estavam elas. E nós dificilmente concebíamos como colegas os membros de uma espécie humana que, sem sexo, eram mães, tias ou irmãs, com algum sexo eram pessoas conhecidas, e com o sexo todo eram tudo isso, mas para os outros. As irmãs de um colega nosso haviam sido célebres por essa ambiguidade, que era aliás partilhada pelas primas de nós todos. Umas festas que havia em casa dele – que era um palacete nas avenidas, dentro de um jardim – acabavam sempre por elas e as amigas delas nos levarem para os cantos escusos da casa, para umas actividades meramente exteriores em que eram peritas. (…) As nossas colegas de faculdade eram, porém, animais estranhos. Pouco a pouco, dividiram-se em três categorias que constituíam, na verdade, o “status” de que gozavam, segundo as regras existentes e que fomos aprendendo. Umas, muito poucas (e eram mais as vozes que as nozes), passavam por ser mulheres muito acessíveis que, todavia, adquiriam, nos corredores e nas conversas, uma respeitabilidade discreta que nos intimidava e era, contraditoriamente, partilhada por outra categoria: a das muito feias e

sem graça, que ninguém se lembrava de considerar femininas, apesar dos esforços desesperados delas ou de algumas delas. Uma terceira categoria, de muito poucas também, difundia sobre as outras duas o manto de uma altura que as aparentava às damas medievais das cortes de amor. Não seriam bonitas todas, nem ninguém lhes fazia poemas ou era seu “chevalier-servant”; mas, em círculo respeitoso, ouviam-se os seus decretos sobre a forma de resolver os problemas, e obtinham-se informações sobre as aulas a que não tínhamos assistido. E, às vezes, lanchava-se com elas (e com algumas da primeira categoria citada) no “General” que era o nome tradicional de uma pastelaria que havia defronte da escola e que pertencia ao folclore familiar de toda a gente, através das recordações de pais e tios. Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Col. Mil Folhas, Ed. Público (texto com supressões)

1. Chevalier-servant: aquele que presta vassalagem à sua dama, servindo-a de maneiras várias, nomeadamente através da poesia (no contexto da poesia trovadoresca, mais especificamente das cantigas de amor). O romance Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, tem como pano de fundo o eclodir da Guerra Civil espanhola em 1936, mostrando-nos também os primeiros tempos da ditadura fascista que se imporia em Portugal durante décadas. Foi publicado postumamente, sendo possível encontrar no protagonista elementos biográficos que remetem para o próprio autor.

1. Resume sucintamente, num parágrafo, o conteúdo deste excerto. 1.1. Atribui-lhe um título, explicitando as relações de sentido que estabeleceste.

2. Explica por que motivo podemos afirmar que existe uma distância temporal entre o “eu” narrador e o “eu” personagem. 2.1. Caracteriza o “eu” personagem. 2.2. Faz o levantamento das marcas do sujeito adulto que recorda e escreve. 3. A dinâmica da relação entre os jovens de ambos os sexos descrita é bastante diversa da que hoje conhecemos. 3.1. Caracteriza essa relação, durante o período pré-universitário, no Portugal de finais da década de 30. 3.2. Descreve, por palavras tuas, as categorias em que as universitárias eram organizadas de acordo com o olhar masculino. 3.3. Partindo das expressões “entidades míticas” (l. 3) e “animais estranhos” (l. 15), e de outras que consideres relevantes, caracteriza o modo como este olhar masculino encara a figura feminina. 4. Refere as características autobiográficas do texto. 4.1. Explica por que razão poderemos afirmar que este excerto apresenta algumas características de texto memorialístico. II 1. Atenta na frase seguinte: “Quando eu entrara para o liceu, ainda havia (…) algumas [alunas], que eram entidades míticas” (ll. 2-3) 1.1. Classifica morfologicamente os vocábulos sublinhados. 1.2. Refere a função sintáctica desempenhada na frase pela expressão “que eram entidades míticas”. 1.3. Transforma a frase de modo que a mesma expressão desempenhe uma outra função sintáctica. 2. Atenta no excerto seguinte: “Quando eu entrara para o liceu, ainda havia no último ano algumas [alunas], que eram entidades míticas (…), e os últimos remanescentes de o liceu ter sido misto.” (ll. 2-4)

2.1. Atendendo aos elementos sublinhados, identifica os processos que neste excerto asseguram a coesão textual ao nível lexical. III 1. Recorda factos da tua infância que a marcaram negativa ou positivamente. Pode ser uma pessoa, um animal, uma situação, um objecto, etc. 1.1. Respeitando as características dos textos autobiográficos, elabora um texto, com cerca de duzentas e cinquenta a trezentas palavras, em que relates como viveste esse facto na altura, bem como as reacções que essa recordação te provoca hoje.

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