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(P-063)
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(P-063) OS MICROTÉCNICOS Autor CLARK DARLTON Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização e Revisão ARLINDO_SAN

OS MICROTÉCNICOS

Autor

CLARK DARLTON

Tradução

RICHARD PAUL NETO

Digitalização e Revisão

ARLINDO_SAN

Os pepinos eram microtécnicos — e Gucky ficou encantado

Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos. Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984. Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais. No sistema solar, não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra. Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante A luta contra o invisível está por momentos suspensa Rhodan descobriu que o robô regente havia traído o acordo Drog, o saltador, está em Swoofon — planeta dos microtécnicos — a fim de que Markas construa um goniômetro de compensação, que capte as freqüências do compensador estrutural

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.

Reginald Bell — Amigo inseparável de Perry.

Jost Kulman — Mutante; micrótico.

Gucky — Rato-castor; mutante de três poderes.

Waff — Engenheiro swoon.

Markas — Cientista; também swoon.

Drog — Saltador que trabalha para Árcon.

Gucky estava furioso.

1

O fato de ter sido enganado por Muzel, um pseudo cão bassê, que na verdade era um espião robotizado do regente de Árcon, revoltava-o até os últimos recônditos de sua alma de rato-castor.

— O culpado foi você — repetiu Bell pela décima vez, reprimindo a custo o riso

zombeteiro, o que não lhe adiantava muito, já que Gucky, telepata, sabia ler seus pensamentos mais recônditos. — Eu o preveni muitas vezes. Ninguém pode confiar num bassê.

— Será que um bassê não é um cachorro? — perguntou Gucky em tom zangado, já

que tinha uma afeição toda especial por esses quadrúpedes do planeta Terra. — São as criaturas mais fiéis, adoráveis e encantadoras que

— Com exceção de Muzel! — interveio Bell.

Nunca deveria ter dito isso, pois além do mais o rato-castor era um telecineta, sem falar no dom da teleportação que a natureza lhe conferira. Antes que percebesse qualquer coisa, Bell perdeu o apoio dos pés e levantou-se do soalho metálico da Drusus. Aparentemente subtraído aos efeitos da gravidade, planou em direção à porta fechada do camarote. Uma mão invisível abriu-a, e Bell viu-se no

corredor. Agitou desesperada-mente os braços e as pernas, mas uma triste experiência já lhe ensinara que isso não adiantava nada. As energias telecinéticas de Gucky prendiam- no inexoravelmente.

— Eu lhe mostro uma coisa! — gritou o rato-castor em tom furioso. — Seu

hipócrita! Fica fingindo que está com pena de mim, enquanto por dentro quase estoura de alegria pelo que me aconteceu. Sua bolota de gordura de cabelos ruivos!

Para dizer a verdade, esta última observação era um tanto exagerada. Era bem verdade que Bell, amigo e representante de Rhodan, era baixo e robusto, mas dificilmente poderia ser chamado de gordo ou disforme. Era bem verdade que sua cabeça estava coberta de cabelos ruivos cortados à escovinha.

— Eu conto a Rhodan! — berrou Bell, mas Gucky limitou-se a rir.

— Conte se puder, seu gorducho!

Uma pessoa que não conhecesse as duas criaturas provavelmente sofreria um colapso caso se encontrasse com a estranha dupla. Bell voava, leve que nem uma pena, e

deslocava-se, desviando-se habilmente de todos os obstáculos que surgiam à sua frente. Embaixo dele o rato-castor, que não media mais de um metro, caminhava a passos bamboleantes, com as orelhas de pé. Os lábios se retraíram um pouco, deixando à mostra o dente roedor, que refletia as luzes embutidas nas paredes. A larga cauda de castor ajudava Gucky a manter o equilíbrio e ajudar as pernas curtas, não muito seguras. Felizmente não se encontraram com ninguém. O rato-castor assustou-se quando, no corredor, viu alguém que parou ao ver o homem voador. Colocou-o no chão de modo pouco suave. Por pouco Bell não cai, mas o homem aproximou-se e segurou-o pelo braço.

— Por quê? — limitou-se a perguntar.

Bell teve oportunidade de desabafar.

Lançou um olhar zombeteiro para Gucky, que já não sorria, mas parecia um tanto embaraçado, e principiou:

— Este bichinho nojento achou que estava na hora de dar uma demonstração de

força. Entrei em seu camarote sem pensar em nada e, quando dei conta de mim, estava no

teto e

— É verdade? — perguntou o homem, fitando o rato-castor com seus olhos frios e cinzentos. — Ou será que está mentindo? Gucky acenou vigorosamente com a cabeça.

— É claro que está mentindo, chefe. Você, que é telepata, deveria saber. Ele me ofendeu e não me deixava em paz. Perry Rhodan passou os olhos de um para outro.

— Então, Bell? Tem mais alguma coisa a dizer?

— A gente nem pode brincar com este sujeito — disse Bell em tom zangado,

ajeitando o uniforme. — Este perna mole nunca admitiu a menor brincadeira.

— Seu monte de gordura! — retrucou Gucky em tom agudo.

Rhodan levantou a mão.

— Se vocês não pararem de brigar, eu os deixarei em casa — disse. — Não preciso de colaboradores que vivem brigando.

Uma expressão que parecia um misto de tensão e curiosidade surgiu no rosto de Bell e nos olhos de Gucky.

— Algo está para acontecer? — perguntou Bell. Fez um esforço e colocou a mão no

ombro do rato-castor. — Nós não brigamos, não é verdade, Gucky?

— É claro que não — chilreou Gucky com um olhar de inocência, cruzando as patas

dianteiras sobre o peito; parecia a inocência personificada. — Só brincamos um pouco

— Está bem — disse Rhodan. — Então vocês estavam brincando; excelente. Quer dizer que as divergências chegaram ao fim?

— Sem dúvida — afirmou Bell. — Você não disse que tinha uma coisa importante para comunicar?

— Disse mesmo? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — O que será?

Bell soltou um suspiro.

— Está bem; desisto. Vamos embora, Gucky. Ainda não precisa de nós.

— Um momento! — disse Rhodan. — Antes que resolvam continuar com a

brincadeira, gostaria de comunicar-lhes que, dentro de meia hora, Jost Kulman prosseguirá em sua exposição. Ainda não teve tempo de oferecer um relato completo do que aconteceu em Swoofon.

— Daqui a meia hora? — perguntou Bell em tom animado. — Não deixarei de

comparecer. Onde será?

— No meu camarote. Resolvi ser mais cauteloso. Quem sabe se o regente não

introduziu mais alguns espiões a bordo? Rhodan afastou-se com um ligeiro cumprimento. Bell e Gucky seguiram-no com os olhos, até que desaparecesse atrás da primeira curva do corredor.

— Hum — fez o rato-castor e lançou um olhar pensativo para o teto.

Bell levou um susto.

— Vamos fazer as pazes — disse, acariciando a nuca de Gucky. — Não tive a

intenção de magoá-lo. O dente roedor de Gucky voltou a aparecer, o que numa situação como esta era um bom sinal.

— Está bem, gorducho. Vamos fazer as pazes. É bem verdade que você me priva do

prazer de levá-lo a um dos hangares e mostrar-lhe como se voa. Paciência; fica para outra

oportunidade.

— Vamos depressa! — disse Bell e enlaçou o corpo do rato-castor. — Já imaginou

a cara de Rhodan, quando descobrir que chegamos antes dele? Gucky sorriu. Concentrou-se sobre o pequeno salto e desmaterializou-se juntamente com Bell. Houve um tremeluzir no ar, e os dois desapareceram, para reaparecerem no mesmo instante em outro lugar da gigantesca nave esférica. Quando Rhodan entrou, já estavam sentados em seu sofá e o fitavam com os olhos mais inocentes deste mundo.

* * *

Jost Kulman pertencia ao destacamento especial de Rhodan, cujos membros eram conhecidos pela designação de agentes cósmicos. Esses agentes, que na maioria eram mutantes dotados de faculdades especiais, viviam nos mundos mais importantes do Império Arcônida e mantinham contato permanente pelo hiper-rádio com a central situada na Terra. Dessa forma, Rhodan era informado sobre qualquer acontecimento importante que se verificasse na Galáxia. Kulman era micrótico. Sabia modificar conscientemente a focalização dos globos oculares, o que lhe permitia enxergar objetos que para outras pessoas só se tornariam

perceptíveis por meio do microscópio. Graças a essa faculdade havia sido destacado para trabalhar em Swoofon.

É que em Swoofon viviam os swoons, que eram os melhores microtécnicos do

Universo. Sentado numa poltrona, Kulman enfrentou o olhar de Rhodan com um embaraço indisfarçável.

— Sei que tem toda razão de acusar-me — disse em tom constrito. — Afinal, fui eu

quem trouxe Muzel para bordo da Drusus. Por pouco esse cachorro robotizado não revela

ao regente a posição da Terra.

— O fato é que não revelou — disse Rhodan, dando a entender que para ele o caso

Muzel estava liquidado. — Você não teve culpa. Isso poderia ter acontecido a qualquer pessoa. Até mesmo o Exército de Mutantes se deixou enganar pela imitação de um bassê. Até Gucky!

O rato-castor estremeceu. Lançou um ligeiro olhar para Bell, que estava sentado a

seu lado, esboçou um sorriso embaraçado e ficou quieto. Ao que parecia, Jost Kulman não havia percebido o interlúdio.

— Expedi a mensagem pois a situação o exigia — disse, dando início à exposição que era aguardada com grande ansiedade. — Vieram buscar-me, conforme o combinado. Infelizmente esta exposição detalhada sofreu certo atraso porque Muzel Depois de um silêncio de embaraço prosseguiu:

— Os swoons receberam ordem de construir um goniômetro de compensação para

naves espaciais, cujas características fundamentais já são conhecidas. Rhodan inclinou-se para a frente e fitou o agente. O sorriso desapareceu de seu rosto, como se alguém o tivesse apagado.

— O que vem a ser isso?

Kulman respondeu em tom embaraçado.

— Fui eu que batizei o aparelho, e o nome que lhe dei dá uma idéia de sua

finalidade. Os mercadores expediram a ordem de construção e forneceram os respectivos planos. O goniômetro de compensação tornará impossível a realização de qualquer hipersalto secreto. Como vê, os fatos por mim observados são muito importantes

— Se são! — confirmou Rhodan, que não parecia muito satisfeito. — Descobriu

outros detalhes? Kulman resolveu apresentar um relato minucioso.

— Conforme já é do seu conhecimento, o compensador foi criado pelos saltadores.

Com o aparelho evita-se a localização de uma nave que entre em transição e volte a

materializar-se. Assim os rastreadores estruturais praticamente se tornaram inúteis. Mas, quando o goniômetro de compensação for produzido em série, não haverá mais segredos. Qualquer nave poderá ser localizada por meio da goniometria, quer utilize um compensador, quer deixe de utilizá-lo. Com isso, dentro em breve, a posição da Terra deixaria de ser um segredo.

— Isto é mau! — disse Bell, olhando para Crest, cuja figura magra se mantinha

imóvel na poltrona. — Ainda chegará o dia em que olharão para dentro das nossas panelas.

— Prossiga, Kulman — disse Rhodan. — Até que ponto chegaram os preparativos

para a construção do aparelho?

— Felizmente ainda não foi iniciado. Os planos chegaram há pouco tempo. Ainda

estão sendo examinados, mas a construção das respectivas fábricas já foi iniciada. Ao que

parece, o goniômetro será desde logo fabricado em série.

— Temos de evitar isso, custe o que custar — disse Rhodan em tom enérgico. — Tem alguma idéia sobre o funcionamento desse goniômetro?

— Sim senhor, tenho uma ligeira idéia. O goniômetro de compensação capta as

freqüências do compensador estrutural, mesmo que o abalo da estrutura espaço-temporal não possa ser detectado. Quer dizer que esse goniômetro localiza o compensador, assim

que seja ligado. Transmite ondas específicas, que podem ser captadas no espaço de cinco dimensões. Foi só o que consegui descobrir.

— Acho que basta — respondeu Rhodan. — Conhece a posição aproximada da

futura fábrica?

— Conheço. Não fizeram muito mistério em torno disso, embora o computador-

regente me tivesse reconhecido como agente, conforme prova a história de Muzel. Do

contrário não teria colocado um espião no meu encalço.

— É verdade — admitiu Rhodan. — Muzel provou outra coisa. Não acha, Crest?

O arcônida, ao qual Rhodan devia muita coisa, confirmou com um gesto.

— É verdade, Perry. Refere-se à sinceridade do regente. O incidente com Muzel

provou que o computador de Árcon nem pensa em agir honestamente conosco. Foi programado de maneira a sempre fazer o possível para alcançar a primazia sobre qualquer ser orgânico, até que os arcônidas recuperem um grau de agilidade mental que lhes permita assumir o controle do Império. A aliança com o homem só pode visar a esta finalidade específica, e nunca terá em vista uma verdadeira sociedade. “Ao que parece, os invisíveis que lançam seus ataques do nada e despovoam planetas inteiros são inimigos que o regente não pode enfrentar exclusivamente com as próprias forças. Por isso, fez uma aliança conosco, a fim de vencer o misterioso inimigo. Entretanto não conseguimos; os seres invisíveis podem espreitar-nos em qualquer lugar e a qualquer momento. Apesar disso, porém, o regente já nos traiu, procurando descobrir a

posição da Terra. Assim provou que tem a intenção de, uma vez destruído o inimigo invisível, romper a aliança com a Terra e subjugar nosso planeta.” Rhodan fez um gesto afirmativo.

— O senhor está exprimindo exatamente o que eu penso, Crest. Acontece que o

regente está enganado. Em Swoofon teremos oportunidade de matar dois coelhos de uma cajadada. Destruiremos os planos de construção do goniômetro de compensação e mostraremos ao regente que desmascaramos suas tramas. Se não modificar seu procedimento, cancelaremos o acordo. Nesse caso, terá de descobrir um meio de livrar-se dos invisíveis que ameaçam despovoar seu Império. Crest sacudiu ligeiramente a cabeça. — Na minha opinião não devemos destruir os planos, Perry. Não poderemos evitar a construção do aparelho; se não for produzido hoje, em Swoofon, poderá sê-lo amanhã,

em outro lugar. Ninguém consegue evitar o desenvolvimento da tecnologia. O senhor conhece a velha lei: Primeiro surge a arma de ataque, depois a de defesa. Após isso surge outra invenção que torna inútil esta última. O goniômetro deve ser construído! Apenas, devemos criar alguma coisa que o torne inútil assim que entre em uso. Para isso precisamos apenas dos planos de construção do aparelho. Se Kulman pudesse dizer-nos onde encontrá-los Rhodan voltou a sorrir. Parecia muito confiante.

— Obrigado, Crest. O senhor acaba de traçar as linhas gerais do plano que teremos

de executar. Kulman, prossiga na exposição. Conte como são as coisas em Swoofon, o que se anda fazendo por lá, como vivem seus habitantes e qual é sua atitude face ao Império. Qualquer detalhe pode ser importante, por mais insignificante que pareça. “O compensador estrutural”, pensou Rhodan enquanto Kulman principiava a falar,

é a arma de defesa mais importante que possuímos. Se for posto fora de ação, nossa situação se tornará crítica. Nosso ponto forte consiste justamente no fato de ninguém saber onde fica a Terra. Na imensidão do Universo, nosso planeta não passa de uma partícula de pó. E essa partícula de pó não será encontrada.” Depois voltou a dedicar sua atenção à exposição de Kulman.

habitantes são conhecidos como os swoons. Vivem exclusivamente no

segundo planeta do sol Swaft, a novecentos e noventa e dois anos-luz da Terra. O sistema tem três planetas, mas só o segundo deles é habitado. É um mundo de oxigênio, a superfície é desértica, não existe qualquer vegetação digna de nota, a gravitação corresponde a um quarto da terrana. A percentagem de oxigênio da atmosfera de Swoofon é bastante reduzida; mal e mal é suficiente para que um ser humano possa viver nesse planeta sem usar uma máscara de respiração.

— Por que os swoons são considerados os técnicos mais competentes do Universo? — perguntou Bell.

— São mecânicos de precisão! — disse Kulman em tom enfático. — Seus olhos são

semelhantes aos meus: enxergam coisas que qualquer outro ser só conseguiria ver através

de um microscópio. Além disso, suas mãos são extremamente hábeis. Sabem moldar um objeto do tamanho de um grão de areia sem necessitarem de qualquer instrumento ótico. Aliás, não são grandes; medem no máximo trinta centímetros.

— os

— O que tem trinta centímetros? — perguntou Bell. — As mãos deles?

— Os próprios swoons — explicou Kulman em tom condescendente. Lembrou-se

de que até então mal tivera tempo para falar a este respeito. — Os habitantes do planeta

Swoofon são muito pequenos. Têm trinta centímetros de altura, são muito “finos” e podem ser tudo, menos humanóides. Até parecem pepinos com dois pequenos pés. Na

parte superior do corpo têm quatro braços, nos quais se encontram as mãos extremamente hábeis. Bell sacudiu a cabeça.

— Não é possível! Não venha me dizer que existem pepinos que fabricam relógios!

— Eles fabricam muito mais que isso! — disse Kulman num tom que revelava certa reverência. — Quando conhecer os swoons, o senhor saberá admirá-los.

— Nunca gostei muito de pepino — disse Bell.

Lançou um olhar para Gucky. Ao que parecia, esperava receber o apoio do rato-

castor, mas teve uma amarga decepção.

— Acredito que os swoons poderão ser meus amigos — disse Gucky com a maior

tranqüilidade. — Os preconceitos que Bell costuma manter não são meu fraco. Rhodan fez um gesto afirmativo.

— Você tem razão, mas não acredito que Bell estivesse falando sério. Do contrário não poderia levá-lo para Swoofon.

— Quer dizer que vamos ?

Rhodan fitou Bell.

— Vamos, sim; e hoje mesmo.

— Viva! — gritou Gucky e levantou-se para caminhar em direção à porta. — Vou

cuidar da minha aparência. Vamos pousar no planeta em caráter oficial?

— Acredito que sim, Gucky. Por que está tão interessado em cuidar da aparência?

— Afinal, teremos férias na terra dos pepinos; é uma oportunidade toda especial, e

não quero fazer feio. Desapareceu sem abrir a porta. Bell fitou o lugar em que Gucky se encontrara há poucos segundos. — São seus instintos que estão levando a melhor — disse em tom de oráculo. — Tomara que não confunda esses técnicos pepinos com cenouras. As conseqüências seriam desastrosas. Kulman olhou-o como quem não entende nada, mas Bell achou que não seria necessário explicar ao agente que Gucky tinha uma predileção toda especial pelas cenouras frescas. Rhodan continuou sentado. — Kulman, acho que seria conveniente que você nos fornecesse mais alguns detalhes. Estou interessado em saber, por exemplo, onde fica a Embaixada de Árcon, quais são os contingentes de tropas de que pode dispor o administrador, qual é o sistema administrativo, etc. Kulman prosseguiu na exposição. Dali a dez minutos, Bell levantou-se cautelosamente e saiu do camarote. Não estava interessado naquilo. Havia outras coisas que lhe despertavam um interesse muito maior. Por exemplo, o Primeiro-Tenente Sikermann, que se encontrava na sala de comando. O imediato do couraçado espacial Drusus tornara-se seu amigo, fato que talvez tivesse sua origem numa certa afinidade de gênios. Baldur Sikermann, um homem baixo, robusto e de cabelos escuros, estava sentado

na poltrona do piloto, tendo à sua frente os controles da Drusus, uma nave esférica de mil e quinhentos metros de diâmetro. Como imediato, na ausência de Bell e Rhodan, cabia- lhe comandar a tripulação de dois mil homens, sem a qual a nave não poderia desenvolver integralmente o seu potencial.

— Olá, Sikermann — disse Bell ao entrar na sala de comando e perceber que tudo estava em perfeita ordem. — Está aborrecido?

Nas telas via-se uma profusão de estrelas desconhecidas. Encontravam-se num setor inexplorado de sua galáxia, a Via Láctea. Sikermann virou-se lentamente e fitou Bell como se nunca o tivesse visto.

— Até agora não tive tempo de aborrecer-me — disse com a voz tranqüila.

Bell lançou um ligeiro olhar para o Capitão Rodes Aurin, um homem grisalho que desempenhava as funções de oficial de armamentos da Drusus, mas este parecia estar tão ocupado com seus catálogos que nem ouvira a observação que acabara de ser feita.

— Seu tédio logo será espantado, Sikermann — profetizou. — Dentro de poucas horas, acontecerá alguma coisa. Já engraxou o motor estelar? Sikermann encolheu-se.

— O senhor usa cada expressão! — constatou, e voltou a dedicar sua atenção aos controles, para ligar as telas de localização.

— Estou falando sério: acho que a coisa vai começar — disse Bell.

— O que vai começar?

— O espetáculo com os swoons, os homens-pepino; não sei se o senhor

compreende. Os mecânicos de precisão.

— Não compreendo uma palavra do que está dizendo.

— Ora, não seja tão obtuso. Neste momento, Kulman está apresentando sua

exposição. Dirigir-nos-emos a Swoofon para fazer uma visita aos habitantes do planeta. Estão construindo um goniômetro de compensação capaz de localizar qualquer hiper- salto, mesmo que o compensador estrutural esteja ligado.

— Caramba! — disse Sikermann.

Bell sorriu.

— Não se preocupe; saberemos estragar a festa deles. É bem verdade que os homens-pepino são gente muito distinta; não lhes devemos fazer nada.

— O que vêm a ser os tais homens-pepino?

Bell explicou e acrescentou:

— Realmente estou curioso para vê-los. Pelo que diz Kulman, são realmente

encantadores, à sua maneira. Dizem que seus olhos lhes permitem remover uma verruga numa pulga.

— As verrugas? — perguntou Sikermann em tom de espanto. — Será que todo mundo ficou louco?

— Quem? As verrugas? — perguntou Bell.

Sikermann não respondeu. Parecia desejar esquecer a presença de Bell. Passou a

fitar as telas, nas quais não se via nada.

— Verrugas! Pepinos! — disse para si mesmo, sacudindo a cabeça. — Rosita Peres poderá cuidar deles. Rosita Peres era a cosmopsicóloga da Drusus.

Bell riu e foi caminhando em direção à porta que dava para a sala de rádio. Comprimiu um botão e abriu-a. David Stern, que estava de plantão, virou-se quando ouviu Bell entrar.

— Tudo em ordem — anunciou. — Não há localizações nem mensagens.

Bell agradeceu em tom indiferente e encostou-se ao armário de instrumentos.

— Procure descansar um pouco. Dentro em breve terá muito que fazer.

David Stern era tenente e um dos oficiais de rádio mais competentes da Drusus. Vinha de Israel, era de estatura mediana, tinha cabelos escuros e demonstrava a agilidade de um gato-selvagem.

— Alguma missão? — perguntou em tom discreto.

— E que missão! Será a guerra dos pepinos.

— Hem! — admirou-se David Stern, respirando com dificuldade. — O que foi que

o senhor disse? — Disse que será a guerra dos pepinos. É bom que saiba que os habitantes de

Swoofon são pepinos. Vamos tirar-lhes alguma coisa.

— Ah, sim — disse Stern, sem entender uma única palavra do que o outro dizia. —

Vamos tirar-lhes alguma coisa

— Não acredita nos pepinos? — perguntou Bell com um leve tom de ameaça na

voz. — O agente Kulman nunca mentiu. Não se atreveria a tanto.

Onde e quando?

— Acontece que foi ele quem trouxe Muzel para bordo — ponderou Stern.

Bell pôs-se a rir.

— Ah, sim; Muzel! Isso me dá uma idéia. Até logo mais, Stern; tenho que liquidar

um assunto. A bordo desta nave existe uma criatura que brincava durante horas a fio com esse cão robotizado, enquanto eu fiquei em disponibilidade.

— Será Gucky? — perguntou Stern quando Bell já se afastava apressadamente. — O pequeno rato-castor

Sim, é este mesmo. Quero fazer um pouco de gozação com ele.

E

foi assim que Bell ainda teve de tomar, a contragosto, uma aula de vôo. Os

oficiais e tripulantes que se encontravam presentes divertiram-se a valer quando o viram planar no grande hangar, junto ao teto alto. Deu alguns saltos, fez vários loopings, xingava a valer e pedia socorro. Por vezes ria ou se lamentava. Os espectadores ficaram tremendamente admirados. Desta vez Gucky, que conduzia Bell por meio de suas energias telecinéticas, mostrou-se implacável. Não fez por menos: Bell teve que voar durante uma hora.

* * *

Recorrendo aos compensadores estruturais, ainda eficazes, a Drusus deu dois saltos em direção ao sistema de Swaft. Depois os compensadores foram desligados. As duas

transições que se seguiram foram realizadas sem o menor disfarce. Qualquer rastreador estrutural dos arcônidas seria rapaz de localizar os dois saltos, mas não proporcionaria qualquer esclarecimento sobre o ponto de partida da nave.

O sol Swaft era aproximadamente do mesmo tamanho e irradiava calor idêntico ao

do sol terrano. No entanto, ninguém sabia explicar por que no planeta Swoofon não se havia desenvolvido praticamente nenhuma vegetação. Havia água, rochas e terra em boa quantidade. Além disso, existia areia de sobra. Mas quase não se via nenhuma planta. Aproximadamente metade dos swoons vivia nas cidadezinhas existentes na

superfície de Swoofon, enquanto a outra metade preferira abrigar-se sob a superfície. Kulman conseguira descobrir que existiam swoons que se haviam aliado aos saltadores, e estavam dispostos a construir o goniômetro de compensação para os mesmos. Eram principalmente os swoons que viviam no subsolo.

O pouso de uma nave não constituía nenhuma sensação nova para os swoons,

embora para eles estas deveriam ser enormes e possantes. Geralmente eram os saltadores

ou mercadores galácticos que visitavam Swoofon, trocavam suas mercadorias e traziam artigos de uso muito apreciados. Não chegavam a ser considerados amigos, mas eram negociantes bem-vindos.

Dessa forma, Swoofon pertencia ao Império Arcônida, e era nesse fato que se baseava o plano de Rhodan. No momento em que Swoofon surgiu nas telas da Drusus, e esta penetrava no sistema, desenvolvendo a velocidade da luz, Rhodan distribuiu os papéis.

— Tenente Rous, pegue a K-13 e voe à Terra com o compensador ligado. Vá buscar

a Titan e a General Pounder com a tripulação completa. Seria arriscado demais expedir

uma mensagem de rádio. Assim que as duas naves chegarem, faremos uma visita empolgante a Swoofon, isso por ordem do regente de Árcon.

— Hum — fez Crest em tom cético. — Será que isso não é muito arriscado?

— De forma alguma. Estou agindo oficialmente nos termos do acordo que fiz com

Árcon. Não haverá motivo para suspeitas. Comunicarei ao regente, se este o desejar, que Swoofon está prestes a ser invadido pelos invisíveis. Não temos necessidade de dizer-lhe como descobrimos isso. Sabemos, e basta! Estamos tomando as providências que estão ao nosso alcance. Quem poderá impedir-nos de agir assim? Ninguém respondeu. Mas Atlan, que se mantinha num ponto mais afastado, falou:

— Acho que não seria recomendável causarmos qualquer prejuízo aos swoons —

disse em tom objetivo. — Como antigo psicólogo de colonização do Império afirmo que não devemos usar violência e

— Não tenho a intenção de prejudicar os swoons — interrompeu-o Rhodan em tom

amável. — Apenas faremos um blefe com eles. A verdadeira finalidade da ação consistirá

em encobrir a atuação dos agentes. O que pretendemos fazer é o seguinte: Kulman irá, juntamente com os mutantes apropriados, para junto dos swoons que deverão construir o

goniômetro. Esse fato passará despercebido em meio à confusão geral causada por nossa aparição no planeta.

— Talvez seja o procedimento mais recomendável — disse Atlan, o imortal. O Tenente Marcel Rous adiantou-se.

— Quando devo decolar?

Rhodan lançou um olhar sobre o calendário de bordo. — Dez de novembro de 2.040, treze horas, tempo terrano. Se tudo correr normalmente, poderá estar de volta dentro de duas horas, em companhia dos dois

couraçados espaciais. Decole imediatamente e leve apenas metade da tripulação. Entendido?

— Entendido — disse Rous e saiu da sala de comando.

Rhodan lançou-lhe um olhar pensativo e fez um sinal para John Marshall, chefe do

Exército de Mutantes. — Compareça daqui a dez minutos ao meu camarote, para podermos discutir os detalhes de sua tarefa. Obrigado. Dirigindo-se a Bell, disse:

— Dê uma olhada na rouparia. O uniforme que usei para desempenhar o papel de inspetor arcônida ainda deve estar por lá. Talvez possa ser-nos útil.

— Logo saberemos — disse Bell e retirou-se.

Baldur Sikermann, que estava sentado na poltrona do piloto, sem tirar os olhos dos

controles, disse:

— Não me diga que pretende pousar no planeta com a Drusus.

— Pretendo pousar com as três naves — disse Rhodan em tom resoluto. — Os

pequeninos swoons ficarão impressionados ao verem simultaneamente três esferas espaciais de um quilômetro e meio de diâmetro. Quanto maior a excitação, melhor para nós. Mais alguma pergunta?

* * *

Exatamente às quinze horas, tempo terrano, as naves Titan e General Pounder materializaram-se a pequena distância da Drusus. Rhodan sabia perfeitamente que iria praticar um ato absurdo e até ridículo. Só poderiam achar que era louco ou covarde, se utilizasse as três naves desse tipo para ocupar um planeta como Swoofon. Acontece que Rhodan não se importava com o que os saltadores ou os arcônidas pensassem dele. Sabia perfeitamente o que estava fazendo. Prosseguiu em direção a Swoofon à velocidade da luz e transmitiu ininterruptamente a seguinte mensagem:

Atenção! Dirijo-me à população do planeta Swoofon. O sistema de Swaft será bloqueado por ordem do Império. Nenhuma nave poderá sair de Swoofon sem licença especial. A partir deste momento, vigora uma proibição terminante de pousar ou decolar para todas as naves que se encontrem no sistema. A população deverá manter a calma.

Rhodan preferiu não citar seu nome. O regente de Árcon logo seria comunicado, e

ficaria sem saber quais seriam as verdadeiras intenções de seu sócio do planeta Terra. E era bom que fosse assim. Um sorriso contrariado surgiu no rosto de Rhodan, quando Sikermann começou a desacelerar a Drusus, para que a mesma não penetrasse em velocidade muito elevada na atmosfera do planeta. A Titan e a General Pounder seguiram o exemplo.

De pé, ao lado de Rhodan, Kulman observava a manobra. Conhecia os swoons e

sabia como orientar-se no planeta.

— A capital é Swatran — disse, fitando a tela que refletia todos os detalhes da

superfície do planeta. — A maior parte da cidade fica na superfície, especialmente o espaçoporto. Já os centros de produção ficam muito abaixo do nível do solo. O acesso aos mesmos só é possível através de minúsculos portões. Receio que nenhum de nós consiga entrar lá.

— Aguardemos — disse Rhodan com a voz fria. — O senhor verá.

Kulman apontou para o ponto pouco nítido, situado uns duzentos quilômetros a leste

da capital.

— Foi aqui que eu fiquei. Em Swatran ninguém me conhece.

— Devem ter ouvido falar de sua atuação — comentou Rhodan. — Acho que não

precisará de uma apresentação formal. Naturalmente ficarão curiosos para saber como é

que o senhor veio parar em minha nave, e por que volta em nossa companhia. Mas acredito que dificilmente encontraremos inimigos entre os swoons, pois eles não têm muita simpatia pelos saltadores.

— Aguardemos — respondeu Kulman em tom seco. Rhodan calou-se.

O espaçoporto havia sido construído pelos saltadores, que mantinham um

intercâmbio comercial bastante intenso com os mecânicos de precisão da Galáxia. Os edifícios destinados a abrigar a colônia de saltadores radicada no planeta e o administrador de Árcon eram relativamente baixos, mas para os swoons deviam ser verdadeiros arranha-céus. Durante sua permanência no planeta, Kulman ocupara um

grande armazém dos swoons. Na verdade, não passava de um simples barraco. Sentira-se que nem Gulliver entre os anões. O tamanho minúsculo das casas causava uma impressão errônea quanto à distância. Examinando a superfície a olho nu, Rhodan calculou que a nave se encontrava a uns cem quilômetros de Swatran, mas o altímetro revelou que a distância não era superior a dez quilômetros.

As gigantescas naves pousaram. Quase no mesmo instante, uns cem girinos, que eram naves esféricas de sessenta metros de diâmetro, saíram das escotilhas de carga da Drusus, da Titan e da General Pounder. Estes veículos espaciais cuidariam do bloqueio do planeta. Feito isso, Rhodan suspirou aliviado e dirigiu-se à sala de rádio.

— Alguma notícia? — perguntou, dirigindo-se a David Stern.

— Apenas algumas indagações confusas que ninguém entende. Os saltadores

protestaram; afirmam que não existe nada contra eles.

— É o que sempre dizem — afirmou Rhodan. — Acontece que nunca estão com a

consciência tranqüila. Aposto que a esta hora já estão quebrando a cabeça para saber quais dos seus crimes conseguimos descobrir. Se foram os próprios saltadores que

tramaram essa história do goniômetro de compensação, a esta hora já estarão suando de medo. Bell seguira Rhodan sem que este o percebesse.

— Acontece que não estão inteirados que nós sabemos — disse.

— A incerteza não é um estado muito agradável — ponderou Rhodan e voltou a

dirigir-se a Stern: — Quero entrar em contato com o administrador de Swoofon. É

possível?

— Tentarei — prometeu Stern e pôs-se a trabalhar. — Não sei qual será a demora.

— Chame-me assim que tiver estabelecido a comunicação — disse Rhodan e

dirigiu-se à porta. — Enquanto isso conversarei com o enviado oficial do Império.

Bell seguiu-o com os olhos e voltou à sala de comando. Parou na porta. O tremendo silêncio deixou-o fascinado.

Os que se encontravam na sala de comando fitavam as enormes telas de visão global, nas quais se viam as áreas adjacentes à nave pousada, como se esta não tivesse paredes. Bell também observava. O campo de pouso não estava vazio. Entre as grandes naves dos saltadores enxameavam pequenos seres, que caminhavam a passos graves. Na verdade, pareciam pepinos maduros. Sua altura não ultrapassava trinta centímetros. Tinham pernas curtas, quatro braços, um rosto que quase chegava a ser ridículo, nariz achatado e uma boca pequeníssima. Não tinham pescoço. E os olhos salientes não contribuíam para tornar os swoons mais bonitos. Kulman havia contado a Bell que essas estranhas criaturas faziam questão de serem tratadas com o maior respeito e cortesia. Quem não lhes desse esse tratamento teria problemas. E Rhodan não estava interessado em criar problemas.

— Por todos os planetas! — exclamou Bell e acompanhou a marcha dos homens-

pepino, cuja cor amarela o deixou estupefato. Usavam um tipo de roupa, mas esta não encobria os contornos do corpo, que permaneciam nítidos.

— Realmente parecem pepinos. Sabem falar?

Kulman, que se encontrava a seu lado, fez um gesto afirmativo.

— Falam em voz aguda e estridente. Seu ouvido é extremamente sensível. Se alguém grita perto deles, contorcem-se de dor. O tradutor eletrônico permite uma

comunicação perfeita com eles. Ainda bem que temos uma quantidade suficiente desses aparelhos.

— Estou captando seus pensamentos — disse Gucky, em cujos olhos se exprimia o

espanto. — São pacatos e muito curiosos, mas não querem confessar essas qualidades.

Resolveram mostrar-se enérgicos e protestar contra a ocupação de Swoofon. Se não me engano, aquilo ali é uma espécie de delegação do Governo.

— Excelente! — disse uma voz vinda da porta.

Todos viraram-se abruptamente e assustaram-se ao reconhecerem o uniforme

colorido de inspetor arcônida. Mas logo viram que era Rhodan que o envergara e estava pronto para desempenhar seu papel.

— Você parece um papagaio — disse Bell em tom de inveja. — Tenho a impressão de que sou um simples pardal.

— Você não passa disso — exclamou Gucky com um sorriso de deboche.

Bell não lhe deu atenção.

— Pretende sair da nave para conferenciar com os swoons? Quem irá com você?

Rhodan olhou em torno.

— É preferível que por enquanto Kulman não saia da nave. Não é necessário que

saibam que veio conosco, ao menos agora. Você irá comigo, Bell. Gucky também irá,

para que possamos conhecer os pensamentos dos swoons. Sikermann e Crest cuidarão da sala de rádio e farão cumprir nossas ordens. Os girinos deterão qualquer nave que tente sair de Swoofon. Outros girinos pousarão nos demais espaçoportos existentes no planeta

e confiscarão todas as naves dos saltadores. O intercâmbio comercial será suspenso

imediatamente. São ordens de Árcon! Ao proferir a última frase, exibiu um sorriso frio. Bell riu. Crest e Atlan pareciam preocupados. Sikermann dava a impressão de estar zangado e resoluto. Por estranho que pudesse parecer, Gucky não fez e não disse nada.

Naquele momento as três naves, que haviam pousado longe uma da outra, estavam totalmente cercadas pelos swoons. O quadro, que se oferecia aos terranos, quase chegava

a ser medonho. A superfície plana do espaçoporto enxameava de minúsculas criaturas, movendo-se com tamanha dignidade e compenetração que até parecia que eram os verdadeiros donos do Universo. Podia ser que não possuíssem nada, mas ao menos tinham a consciência tranqüila. E uma calma inabalável.

— Vamos andando — disse Rhodan.

Bell e Gucky seguiram-no. Não levaram armas. Em compensação muniram-se de um tradutor eletrônico, sem o qual toda e qualquer comunicação se tornaria impossível. Bell carregou-o, com a

compenetração de um camareiro do rei, enquanto Gucky fitava com a necessária veneração a calça colorida de seu chefe Perry Rhodan, que caminhava à sua frente. Ninguém saberia dizer que recordações lhe passavam pela mente naquele instante. Não era a primeira vez que Rhodan usava uma calça desse tipo A escotilha abriu-se. A rampa inclinada saiu automaticamente, e Rhodan e seus companheiros desceram-na calmamente, em direção aos swoons que os esperavam.

— Não estão com medo de nós — cochichou Gucky. — Apenas estão curiosos.

— A curiosidade é a força motriz do Universo — retrucou Rhodan em voz baixa.

Dezenas de milhares de swoons se haviam reunido a fim de cumprimentar os seres que acreditavam serem arcônidas. Mesmo Rhodan, cuja capacidade telepática era menos

potente que a de Gucky, conseguiu ler os pensamentos dos que se encontravam mais próximos, embora não fosse fácil distinguir os impulsos confusos. Na verdade, só percebeu curiosidade, misturada com certa dose de alegria e satisfação. Era surpreendente, talvez mesmo estranho. Rhodan resolveu solucionar o enigma. Prosseguiu, até encontrar-se no meio dos swoons. Abaixou-se, ficando de cócoras.

Bell seguiu seu exemplo, o que não foi tão fácil assim, pois pesava alguns quilos a mais que Rhodan. Gucky não teve a menor dificuldade, já que sua altura não era superior a um metro. Um dos swoons começou a falar aos pios. Tratava-se de um indivíduo que era tratado com uma veneração toda especial pelos demais. Abriram alas quando se adiantou, e formaram um semicírculo à sua volta, a fim de protegê-lo.

— Bem-vindos em Swoofon — disse o swoon em tom agudo, fazendo um princípio

de mesura. — Sentimo-nos felizes em hospedá-los. Vêm por ordem do regente?

Era a primeira pergunta. Rhodan fez um gesto afirmativo e, falando para dentro do tradutor eletrônico, que reproduzira perfeitamente as palavras dos swoons, disse:

— O regente envia seus respeitosos cumprimentos aos digníssimos swoons. O

Império sente-se feliz em saber que os habitantes deste planeta se contam entre seus melhores amigos. Os swoons engoliram a bajulação com a naturalidade que lhes era peculiar em ocasiões como esta. O rosto de Rhodan irradiava satisfação.

— Se colocamos nossos valiosos serviços ao dispor da comunidade, apenas estamos cumprindo nosso dever — respondeu a pequena criatura num tom de orgulhosa

autoconfiança. — Talvez se o Império quiser confiar-nos alguma tarefa, esta será cumprida com a dedicação de sempre.

— A missão que nos trouxe para cá não é nada agradável — disse Rhodan. —

Estamos à procura de um inimigo do Império. Pelo que estamos informados, ele fugiu

para Swoofon. Além disso, este mundo encontra-se na iminência de uma invasão contra a qual não existe qualquer defesa, a não ser que consigamos criar uma nova arma. Desejo falar com o chefe de governo de Swoofon.

— Aqui existem muitos chefes de governo — foi a resposta surpreendente dada pela

pequena criatura. — Infelizmente nossas tribos e nações ainda não conseguiram chegar a um acordo e escolher a pessoa que tenha suficiente dignidade para falar em nome de todas. As tentativas de unificação Era a velha história. Os swoons ainda não conheciam a navegação espacial vista como um instrumento de expansão galáctica. Viviam para o trabalho, faziam seus negócios com os saltadores e outras raças do Império, ganhavam muito dinheiro e não demonstravam o menor interesse pela política espacial.

— Por isso temos que pedir-lhe que se contente em conferenciar com os

representantes de Swatran. Falamos em nome de dez milhões de swoons. Rhodan fez um gesto afirmativo.

— Pois bem; ouça minhas instruções. Todas as naves estacionadas no planeta estão

confiscadas. Não deverão decolar sem permissão dada por nós. Além disso, quero falar

com o administrador de Árcon. Parece que ele reside em Swatran, não?

— Até hoje residia — disse o pequeno swoon. — Infelizmente desapareceu no

momento em que o senhor surgiu inesperadamente. Pretendíamos perguntar-lhe o que

devíamos fazer, pois não sabíamos como explicar o aparecimento de uma frota dos arcônidas. Mas não o encontramos na sede da administração. Desapareceu. A novidade era muito interessante! O que estaria temendo o administrador de Árcon para fugir daquela maneira? Teria feito negócios escusos com os saltadores a fim de aumentar sua fortuna pessoal? Estaria receoso de ser descoberto por Rhodan? Bell sentara de vez. Alguns swoons caminhavam entre suas pernas, fitando-o com

uma expressão curiosa, mas sem demonstrar qualquer medo. Se quisesse podia varrê-los com um simples movimento da mão. Mas quando via seus rostinhos graciosos chegava a sentir uma espécie de ternura. Fitava com certa admiração os dedos finos, presos diretamente aos quatro braços. Aqueles seres realmente pareciam pepinos maduros aos quais tivesse sido insuflada vida. Bell teve a sensação de viver uma lenda, na qual desempenhava o papel do gigante bondoso. Com Gucky as coisas não foram diferentes. Também estava sentado no chão e “apalpava” o conteúdo da mente dos swoons. Despertava uma atenção toda especial, e uma elevada dose de simpatia dos swoons. Pelo que Gucky pôde constatar, acreditavam que fosse uma espécie de animal doméstico dos pretensos arcônidas. Não se zangou com isso, pois para Gucky os animais não eram menos respeitáveis e simpáticos que as criaturas humanas.

— Se é assim, falarei com os saltadores — disse Rhodan. — Mandarei alguns soldados procurá-los e prendê-los.

Rhodan teve a impressão de descobrir certa alegria no rosto do swoon que se encontrava à sua frente. E os pensamentos do pequeno ser confirmaram a suposição. Não gostava dos saltadores. E havia outras criaturas de que também não gostava

Eram

os outros swoons. Os swoons que colaboravam com os saltadores.

— Providencie para que todos os swoons sejam retirados do campo de pouso, a fim

de que nossa operação militar não seja perturbada — disse Rhodan. — Dou-lhes meia

hora.

— Estamos prontos para servi-lo com o máximo prazer — asseverou o swoon. —

Sem dúvida terá a bondade de avisar-nos o quanto antes sobre os resultados da operação. Se pudermos ajudar

— Oportunamente avisaremos — prometeu Rhodan e levantou-se. Bell e Gucky

seguiram seu exemplo, embora se percebesse que preferiam continuar sentados por mais

algum tempo. Talvez ainda teriam uma oportunidade de conversar com os homens- pepino. Rhodan desligou o tradutor eletrônico.

— Espere aqui juntamente com Gucky — disse, dirigindo-se a Bell. — Vou à

Drusus para trazer Marshall com quatro dos seus mutantes. Não deixem que ninguém os distraia. Voltarei logo. Afastou-se sem esperar resposta. Antes de chegar à rampa, comprimiu um botão do rádio de pulso. David Stern respondeu.

— Sim.

— Estabeleça contato com Árcon pelo hipercomunicador. Você conhece o código

do robô regente. Peça-lhe que envie a frota de Talamon a título de reforço. Entendido?

— Devo pedir a Árcon que envie Talamon?

Rhodan fez que sim.

— Se alguém se mostrar surpreso, diga que são ordens minhas. Sei o que estou fazendo. Entendido?

— Sim senhor. Entendido.

Rhodan não estava muito convencido de que Stern realmente tivesse entendido, mas

sabia que podia confiar nele. Gucky e Bell voltaram a sentar e iniciaram conversa com os poucos swoons que permaneciam no campo de pouso. Os outros caminharam tranquilamente de volta à cidade. Até parecia que estavam num piquenique. Gucky fitou-os cheio de espanto e com certa dose de ceticismo. Embora tivesse alguma simpatia pelos “pepinos pensantes”, estes também o amedrontavam um pouco.

* * *

Na sala de comando Crest, Atlan e Sikermann esperavam por Rhodan.

Pareciam bastante contrariados, especialmente Crest.

— Acho que forçou as coisas demais, Perry — disse a título de cumprimento. — A esta hora o regente já sabe o que está acontecendo aqui. Rhodan sacudiu a cabeça.

— Nada disso, Crest. Sua atenção foi desviada daquilo que realmente importa. O

robô regente nunca saberá quais foram realmente nossas intenções ao virmos para cá.

Enquanto procura encontrá-las, descobriremos os planos do goniômetro de compensação, e ainda saberemos se o regente fala sério quando alude à sua amizade conosco.

— Tomara que tenha razão — disse Crest em tom de dúvida.

Atlan manteve-se em silêncio. Embora fosse um arcônida, tal qual Crest, parecia

mais robusto. Nos olhos do imortal notava-se o conhecido brilho avermelhado da raça albina. Não hoje, mas um belo dia — Conseguiremos — disse Rhodan em tom confiante e transmitiu algumas instruções lacônicas pelo intercomunicador. Dali a alguns minutos, o chefe do Exército de Mutantes apareceu com quatro de seus homens. Dirigindo-se a Marshall, Perry disse:

— Venham comigo. Prenderemos os saltadores. Não acredito que haja resistência.

— Se houver, o azar é deles — observou Sikermann, lançando um olhar furioso

para os controles de armamentos. — Ainda temos alguns girinos a bordo. — Se necessário, solicitarei sua presença — prometeu Rhodan e saiu da sala de comando juntamente com os mutantes. — Manteremos contato pelo rádio. O campo de pouso estava vazio. Só vez por outra, via-se um ou outro swoon que tropeçava em tom majestático, sem demonstrar a menor pressa de chegar ao destino. Ainda estavam curiosos para saber o motivo de tamanho espalhafato. Bell e Gucky levantaram-se assim que Rhodan chegou com o grupo de cinco

homens. Dois ou três swoons afastaram-se em gestos compenetrados. Pelos seus movimentos tinha-se a impressão de que mal conseguiam carregar seus pequenos corpos.

— Não precisamos de qualquer veículo nem de trajes especiais — disse Rhodan ao

notar o olhar pensativo de Bell. — Basta darmos um salto para percorrermos dez metros e

pousarmos suavemente. Pelo que diz Kulman, é muito divertido passear em Swoofon.

— Que passeio! — disse Bell, olhando para os edifícios baixos, nos quais, segundo supunha, se encontravam os saltadores. — Tenho uma sensação esquisita

— No estômago? — perguntou Gucky em tom zombeteiro. — Deve ser fome.

— Tolice! Não estou com fome

— Ah! — exclamou Gucky em tom de triunfo, sorrindo para Rhodan. — Quer dizer

que está com medo. Só pode ser fome ou medo. Afirma que não está com fome. Logo

— Vamos embora — disse Rhodan, interrompendo-o. — Não temos tempo para

fazer piadas sem graça. Marshall, mantenha a arma preparada para disparar. Não acredito que os saltadores esbocem qualquer reação. Ao menos, não será a reação que Bell receia. Os três couraçados espaciais formavam um triângulo eqüilátero. Dentro do triângulo, e também fora dele, havia algumas naves cilíndricas dos saltadores. Nem pensavam em desobedecer às ordens que Rhodan mandara transmitir pelo rádio; mantinham-se calmas, em atitude de expectativa. Os swoons haviam desaparecido de vez, dando a entender que não tinham nada a ver com a operação de vasculhamento que se anunciava.

O teleportador Ras Tschubai, um gigantesco africano de rosto bonachão, mantinha-

se perto do hipno André Noir. Wuriu Sengu, o espia japonês, caminhava ao lado do

localizador Fellmer Lloyd. John Marshall ia na retaguarda. Rhodan, Gucky e Bell caminhavam à frente do grupo, em direção à periferia do campo de pouso, onde se

encontravam os edifícios da administração, que encobriam a cidade propriamente dita. Não se via ninguém. Vez por outra uma sombra se movia atrás das janelas fechadas, mas nada aconteceu. Fellmer Lloyd, que não lia propriamente os pensamentos, mas os analisava, disse:

— Entre os saltadores reina uma atmosfera de incerteza e tensão. Não sabem o que

significa nossa visita. Nem pensam em resistir. Têm um respeito tremendo pelo regente.

Até parece que alguém já lhes deu uma lição.

— Isso é muito bom para nós — disse Rhodan em tom de satisfação. — Assim as coisas serão mais fáceis. A lembrança os tornará cautelosos e dóceis.

Terei muito prazer em ajudá-los a recordarem-se, se necessário — disse Gucky.

se encontravam próximos ao maior dos edifícios, cuja altura era espantosamente

reduzida. Bastava subir dois ou três degraus para atingir a entrada principal, que estava

bem aberta. Rhodan olhou em torno.

— Tschubai, Noir, Sengu, Lloyd e Gucky, vocês esperarão aqui. Marshall, Bell e eu

iremos sozinhos. Se precisar de auxílio, Marshall enviará uma mensagem telepática.

Quando isso acontecer, vocês virão imediatamente. Prosseguiu sem aguardar resposta. Bell e Marshall, os únicos que traziam uma arma, seguiram-no.

O corredor largo e profusamente iluminado estava vazio. De ambos os lados havia

portas. Marshall não teve a menor dificuldade em descobrir a porta que procuravam.

— Os saltadores estão atrás desta — cochichou. — Não sabem onde estamos. Neste

momento, estão pensando nas desculpas que podem apresentar. Andam com a consciência bastante pesada, talvez até por causa desse assunto do goniômetro.

— Não demoraremos em saber — respondeu Rhodan em voz baixa. — Vamos fazer-lhes uma visita informal. Bell, abra-a.

Num gesto instintivo, Bell pôs a mão no lugar do cinto em que costumava ficar o radiador. Mas levantou o ombro num gesto de resignação e adiantou-se. Girou calmamente o botão embutido na porta e escancarou-a. Quando entrou, Rhodan e Marshall seguiram-no de perto.

— Bom dia, cavalheiros — disse em arcônida. — Permitem que lhes façamos uma

visita?

Seis ou sete homens fitaram os intrusos com os olhos arregalados. Todos eles usavam barba mais ou menos aparada, trajavam à paisana e traziam no cinto os

conhecidos radiadores portáteis. Estavam sentados em torno de uma mesa redonda mas, ao verem-se surpreendidos dessa maneira, levantaram-se de um salto.

— O que é isso? — perguntou um deles. — Como conseguiram encontrar-nos tão

depressa? Quanto ao mais, seguimos estritamente as ordens que recebemos. Nossas naves

estão paradas lá fora

— E daí? — disse Rhodan, deixando que Marshall lhe desse cobertura. — Alguém

afirmou o contrário? Será que é a voz da consciência pouco tranqüila que está falando por você? Um dos gigantes ruivos levantou-se lentamente e caminhou na direção de Rhodan. Parou à frente dele e mediu o pretenso inspetor com um olhar orgulhoso.

— Somos súditos do Império e não fazemos nada que não seja permitido. Não o

conheço e nunca o vi, mas se não resolver usar outro tom, talvez venhamos a conhecer-

nos muito bem.

— Para mim seria um prazer — disse Rhodan em tom amável, mas com um timbre duro na voz. — Permite que pergunte o que estão fazendo em Swoofon?

O ruivo emitiu um suspiro de desprezo.

— O que poderíamos fazer? Estamos negociando. Os swoons fabricam coisas

excelentes, que alcançam bom preço em todos os cantos da Galáxia. Será que é crime

comprar os produtos dos swoons e revendê-los em outro lugar?

Alguém afirmou que é? — perguntou Rhodan em tom de espanto.

O

saltador parecia confuso.

É claro que não, mas

Subitamente estacou, fitou Rhodan e prosseguiu:

Vamos mostrar as cartas. O que deseja de nós? Qual é o motivo de todo o

alarma? Quem está procurando?

— Ah! — disse Rhodan com um aceno da cabeça. — É assim que se fala. Acho que

deste jeito conseguiremos entender-nos logo. Já ouviu falar num certo Berenak?

— Nunca!

A resposta não surpreendeu Rhodan. Também este nunca ouvira o nome. Este lhe

surgira naquele instante.

— Quer dizer que não conhece Berenak? Este indivíduo vem de um planeta situado

nas proximidades de Árcon. É descendente dos arcônidas e dos saltadores, mas não se liga a ninguém. É um mestre na arte do embuste e um criminoso. E é a pessoa que estamos procurando.

— O que foi que ele fez?

— Seria muito demorado contarmos todas as patifarias que andou cometendo.

Sabemos que está em Swoofon. O regente pediu-nos que o prendêssemos. Qualquer dos

senhores pode ser Berenak. Não será fácil identificá-lo. É este o motivo das medidas que estamos tomando.

— Eu não sou Berenak! — exclamou o ruivo. — Sou o patriarca Gol, um honesto

mercador.

— É possível — respondeu Rhodan — mas resta provar sua afirmativa. Por isso não

tenho outra alternativa senão pedir-lhe que por enquanto não saia daqui e siga minhas

instruções. O senhor não poderá deixar de reconhecer que não terá a menor chance contra três couraçados espaciais do Império. Será que fui bastante claro?

— É claro que sim — disse Gol em tom amargurado e voltou a sentar. Ao que

parecia, não estava com vontade de prosseguir naquela discussão inútil.

Marshall estava sondando os pensamentos dos presentes. Não encontrou a menor indicação sobre a construção do goniômetro de compensação. Transmitiu a senha combinada a Rhodan.

— Não os trancafiarei — disse Rhodan, enquanto caminhava para a porta. — Mas

peço-lhes que se considerem presos. Ninguém poderá sair deste edifício. Qualquer pessoa que se opuser às ordens de Árcon, terá de arcar com as conseqüências. E, conforme as circunstâncias, essas conseqüências poderão ser bastante desagradáveis, Será que me fiz entendido, cavalheiros? Não esboçaram o menor movimento enquanto Rhodan, Marshall e Bell se retiravam. Havia uma expressão de cólera em seus olhos, mas por enquanto não tinham a menor intenção de desobedecer às ordens de Árcon. Assim que saíram ao corredor, Bell suspirou aliviado. — Não me senti muito bem enquanto estava lá dentro. Afinal, não sei ler pensamentos. Não compreendo por que deixam que se faça qualquer coisa com eles. Antigamente

— Os tempos estão mudados — explicou Rhodan. — Antigamente a ligação entre

os saltadores e Árcon não era tão estreita como hoje. Não se atreverão a entrar em conflito com o robô regente. Ainda acontece que realmente não têm a menor idéia do que viemos fazer aqui. Têm a consciência relativamente tranqüila. Evidente que andaram tapeando vergonhosamente os swoons, mas com isso nós não temos nada a ver. Revistaram o edifício, encontraram mais uns cinqüenta comandantes saltadores e comunicaram-lhes que não poderiam sair de Swoofon. Mas não acharam o menor vestígio dos saltadores que projetavam a construção do goniômetro. Parecia bruxaria. Quando Rhodan e seus companheiros saíram do edifício, os quatro mutantes pareciam aliviados. Gucky estava sentado no chão, deixando que os raios de sol atingissem sua barriga. Até parecia um turista que fazia questão de se deixar queimar pelo sol. Antes que Rhodan pudesse dizer qualquer coisa, ouviu-se um silvo agudo, que logo se transformou num rumorejar surdo. Por alguns segundos uma sombra passou pelo amplo campo de pouso. Finalmente a gigantesca esfera espacial pousou bem no centro do triângulo formado pelas naves de Rhodan. Talamon acabara de chegar. Com os recursos de que dispunha, Rhodan poderia conquistar metade da Via Láctea, quanto mais o inofensivo planeta de Swoofon. Era um absurdo que forçosamente deixaria o regente perplexo. Da Drusus, David Stern colocou Perry em comunicação com Talamon.

— Olá, Talamon! O senhor veio depressa.

— O regente mandou que me apressasse. Onde é que a coisa está pegando fogo?

— Desta vez é em Swoofon, Talamon.

— Será que por causa disso precisou chamar uma frota inteira? Não dispõe de três

couraçados invencíveis? O que é que está temendo, Rhodan? Não venha me dizer que são

os swoons! Rhodan continuava a sorrir, mas Talamon não podia vê-lo.

— Às vezes uma cautela excessiva não é medo, velho companheiro de lutas. De

qualquer maneira, quero transmitir-lhe as instruções que deverá seguir. O sistema de

Swaft será fechado hermeticamente. Nenhuma nave poderá entrar ou sair. Isso é muito importante. Swoofon deve ser isolado, a fim de que disponha do tempo necessário e

sossego para examinar um por um os saltadores que estão aqui. Nem mesmo um rato deve escapar. Acho que fui suficientemente claro, não fui, Talamon?

— É claro que foi. Será que poderia saber

?

— Estamos procurando alguém — disse Rhodan em tom lacônico, dando a entender

que não desejava dizer mais que isso. Talamon conhecia-o bastante bem para não insistir.

— Está bem, Rhodan. Você é o chefe. Oportunamente poderemos conversar sobre a

necessidade de certas medidas, desde que não tenha qualquer objeção. Na minha opinião sua cautela foi exagerada. Rhodan esperou mais um pouco, mas o minúsculo alto-falante permaneceu em silêncio. — Ninguém consegue cumprir ordens sem formular perguntas supérfluas — constatou. — Não fico zangado por Talamon ter agido dessa forma. Mas, dentro de pouco tempo, o robô regente de Árcon participará do seminário de perguntas. Quando isso acontecer, as coisas começarão a ficar críticas.

— Deixe este montão de lata por minha conta — sugeriu Gucky.

Rhodan lançou um olhar pensativo para a nave de Talamon; não respondeu à sugestão que Gucky acabara de formular. Começava a admirar-se por ter o regente — o maior computador positrônico da

Galáxia — enviado a frota por ele solicitada. Será que continuaria a cumprir o que haviam combinado? Estaria sendo sincero? Rhodan tinha suas dúvidas.

— Vamos andando — disse depois de algum tempo. — Precisamos iniciar nosso

trabalho. Quanto a você, Gucky, desta vez poderá dar vazão à sua ânsia de agir. Você,

Kulman e Sengu procurarão, e terão de encontrar as instalações subterrâneas em que deverá ser fabricado o goniômetro de compensação.

— Com muito prazer — disse Gucky com a indiferença de quem acaba de receber ordem para comprar cinco pãezinhos na padaria da esquina.

2

Swatran ficava quase exatamente no equador. O dia de Swoofon durava cerca de

dezoito horas terranas. Portanto, o sol brilhava durante nove horas, enquanto durante as nove horas restantes reinava uma escuridão completa. Era meia-noite. Gucky, Wuriu Sengu e Jost Kulman estavam de pé na praça principal da capital e tomaram cuidado para não tropeçarem nos automóveis estacionados. Não foi muito difícil, pois os homens-pepino fabricavam veículos que mediam até um metro de comprimento. Acontece que os haviam estacionado sem luzes, em plena praça, no lugar exato em que Gucky e os dois homens deveriam iniciar suas investigações.

— Aqui é muito quieto — disse o japonês com a voz insegura. — Será que os swoons não têm vida noturna? — Não — disse Kulman. — Os swoons gostam de dormir.

— Os que vivem no subsolo também? — perguntou Gucky.

— Também — confirmou Kulman, o agente que passara uma boa temporada em

Swoofon, por ordem do Império Solar. — Apreciam um estilo de vida simples e

tranqüilo.

— Fazem bem — disse Gucky em tom de admiração. — Estão satisfeitos com

aquilo que conseguiram, sentem-se bem, têm seu orgulho e sua ambição, mas não exageram. Quase chego a ter inveja deles.

— De certa forma a gente poderia invejá-los — concordou Kulman, olhando em

torno. Até mesmo seus olhos possantes mal conseguiram romper a escuridão. — Estão

vendo alguma coisa? Wuriu Sengu deu de ombros.

— Sou capaz de penetrar com minha visão em qualquer estrutura molecular e ver o

que está atrás dela, mas no escuro minha vista também falha. Vejo os swoons deitados em suas camas, mas a visão é pouco nítida. O que vamos fazer? Gucky segurou os dois homens pelos braços. — Para que servem os amigos? Vamos começar pela face diurna. Terei muito prazer em levar duas meias porções como vocês. Acontece que as meias porções eram homens adultos, que tinham ao menos o dobro do peso do rato-castor. Mas este conseguia carregar até dez vezes seu peso quando se tornasse necessário levar alguém num salto de teleportação. Houve um ligeiro tremeluzir, que não foi visto por ninguém. Logo após isso, a praça principal estava vazia, com exceção dos automóveis estacionados. Materializaram-se a milhares de quilômetros dali, no mesmo continente, um pouco ao norte do equador. Kulman já lhes havia contado que a vida se concentrava principalmente nas zonas contíguas à linha equatorial, visto que as outras zonas eram muito frias. Viram-se no centro de uma grande planície, limitada ao norte pelas montanhas e ao sul pelo oceano. Ao leste e ao oeste avistava-se um grupo de colinas onduladas, que parecia não ter fim. Não se via o menor sinal de cidade ou povoação.

— É uma região abandonada — disse Gucky, contemplando o céu azul, cuja cor

quase chegava ao violeta. — O que estamos fazendo aqui? — O lugar não é tão solitário — respondeu Kulman, apontando para o solo pedregoso. — Por aqui os swoons vivem embaixo da terra. Não sei qual é a profundidade

em que ficam suas cidades subterrâneas, mas acho que não demoraremos em descobrir. Se todas as fábricas são subterrâneas, aquela que se destina à fabricação do goniômetro também deve ser. Wuriu Sengu concentrou-se e recorreu às suas faculdades. Subitamente seus olhos adquiriram uma estranha rigidez, enquanto fitavam o solo. Depois de algum tempo um certo espanto desenhou-se em seu rosto. Começou a falar. Kulman e Gucky ouviram-no, muito ansiosos.

— Há uma cidade, sob nossos pés. Fica a uns cinqüenta metros de profundidade e

foi construída num só nível. Mais embaixo da rocha natural há outra cidade, situada vinte metros abaixo da primeira. Não; não é uma cidade, mas uma gigantesca fábrica. São gigantescos pavilhões cheios de máquinas nas quais trabalham milhares de swoons. Meu Deus, como são pequenos!

— Quem? — perguntou Gucky. — Os swoons?

— Não, os aparelhos que estão fabricando. Mal se consegue vê-los a olho nu.

— Eles sabem construir transmissores que podem ser guardados no buraco de uma

agulha — disse Kulman. — Vi verdadeiras maravilhas. Se fosse contar

— Um momento! — disse Sengu, que não permitia que sua atenção se dispersasse.

— As instalações que ficam embaixo de nós são gigantescas. Não consigo vê-las de uma

só vez. Se continuarmos a usar este método, a busca demorará alguns meses. Será que Rhodan pode esperar tanto?

— É claro que não — disse Gucky, fitando a rocha com uma expressão de inveja.

Tal qual Kulman, via a rocha e nada mais. Tudo que ficava abaixo da mesma era invisível

aos seus olhos. Wuriu Sengu, o espia japonês, continuou:

— Têm estradas de ferro que ligam os diversos bairros da cidade e transportam as mercadorias. Para onde, Kulman?

— Para as cidades situadas na superfície — informou o agente. — E para os

espaçoportos. É lá que são negociadas; em Swoofon praticamente não se produzem

alimentos. Ainda não consegui descobrir como viviam os swoons antes que fossem descobertos pelos saltadores. Até hoje ninguém me disse.

— Acredito — disse o japonês — que as ruas sejam bastante largas. E os edifícios também. Acho que deveríamos fazer uma visita à cidade. Parece que não teremos dificuldade em deslocar-nos.

— Acontece que as entradas para as cidades subterrâneas são muito estreitas — disse Kulman. — Já tentei.

— Vamos teleportar — disse Gucky com um súbito interesse. — Não haverá o

menor problema. Apenas, preciso conhecer a distância, pois do contrário poderemos materializar-nos em plena rocha. Mantiveram-se em silêncio, enquanto o rato-castor captava por via telepática os impulsos mentais dos seres que viviam embaixo da superfície, a fim de estabelecer a localização exata. Enquanto isso Sengu procurou um lugar em que pudessem aparecer sem enfrentar maiores riscos. O melhor local que encontrou foi uma praça central, na qual infelizmente o tráfego de veículos era muito intenso.

— Eles já sabem o que aconteceu — disse Gucky depois de algum tempo. — O

funcionamento de seu sistema de comunicação é excelente. Mas os fatos em nada

alteraram seu estilo de vida. Fazem de conta que não aconteceu nada.

— Daqui a pouco vão arregalar os olhos — anunciou Sengu, enquanto segurava o

braço do rato-castor. — Vamos, Kulman; o que está esperando? Gucky já pode saltar.

E Gucky saltou.

* * *

vulto do saltador Drog deslocava-se cautelosamente pelo túnel de dois metros de

altura que ligava os dois laboratórios. Pisou sem o menor cuidado sobre os minúsculos trilhos. Os grupos de reparos dos swoons teriam bastante trabalho.

O túnel estava bem iluminado, e o funcionamento do sistema de condicionamento

de ar era impecável. A brisa fresca não permitia que ninguém se sentisse sufocado no

subsolo. Drog praguejava baixinho. Tinha de mover-se com a máxima cautela, pois do

contrário a gravitação reduzida faria com que fosse atirado para cima. Bastava que suas pernas desenvolvessem um pouco de energia a mais, para que sua cabeça batesse no teto. Isso já lhe havia acontecido uma vez, por isso costumava andar com a maior cautela. Tinha uma tarefa a cumprir, e ele a cumpriria. Afinal, não permaneceria para sempre neste planeta maluco, habitado por estranhas criaturas de tamanho reduzido, conhecidas como os swoons, os melhores microtécnicos do cosmos.

O túnel descreveu uma curva e começou a subir levemente. O centro de projetos,

lugar em que deveria encontrar-se com Markas, não estava muito longe. Ainda hoje chegariam a uma decisão sobre se o projeto logo seria levado avante ou não. “Que diabo! Tenho de percorrer o trajeto a pé, porque os comboios são pequenos e frágeis demais para transportar-me”, pensou. Na superfície não havia maiores problemas, pois a gravitação reduzida favorecia a locomoção. Mas ali embaixo as coisas eram diferentes. Drog voltou a praguejar. A barba bem cuidada revelava que era um saltador, ao passo que o jaleco branco o identificava como médico ou cientista. Acontece que os únicos médicos eram os aras; logo, Drog era um técnico dos saltadores. Em seus olhos não se notava a costumeira impetuosidade dos mercadores galácticos. Além disso, os traços de astúcia e especulação estavam quase totalmente ausentes. Nos olhos de Drog brilhava apenas “um pouquinho de futuro”, como diria Bell. Aos pés de Drog, os trilhos voltaram a correr na vertical, e o túnel tornou-se mais largo. Havia vários desvios, conforme costuma acontecer junto às estações. O teto tornou-se mais elevado e as luzes mais numerosas. Drog conseguiu enxergar melhor. Não demoraria a chegar ao destino. Parou por alguns segundos para presenciar os trabalhos de carga de um trem que se encontrava junto a uma rampa. A locomotiva, que não tinha mais de um metro de comprimento e menos de cinqüenta centímetros de altura, puxava uns vinte vagões. Na cabine viam-se dois swoons, que não se perturbaram com a presença do saltador. Faziam o trem avançar a intervalos regulares, e paravam até que a fita condutora enchesse mais um vagão. Drog não pôde ver o que estava sendo transportado. Por certo seriam produtos da fábrica mais próxima. Talvez minúsculos aparelhos de televisão. Drog sabia que as telas desses aparelhos não eram maiores que a unha de um dedo

O

humano, isto sem falar nas câmaras, que poderiam ser montadas perfeitamente na pedra de um anel. Prosseguiu até chegar a uma área livre, cercada por edifícios baixos. Para os swoons eram construções respeitáveis. Mas Drog teve a impressão de tratar-se de simples barracos. Num dos edifícios haviam arrancado várias paredes e os tetos de alguns pavimentos,

para dar lugar a Drog. Ali o saltador podia andar livremente, sem recear a toda hora que sua cabeça pudesse bater em algo. Entrou na sala e com um suspiro de alívio sentou-se numa banqueta, que originariamente fora uma cama de casal dos swoons. A pequena mesa havia sido fabricada sob encomenda. Markas já se encontrava presente. Embaixo do solo, a cor amarela de sua pele parecia pálida e doentia, muito embora à luz do sol a cor dos swoons não fosse muito diferente dessa. A pequena criatura estava sentada sobre a mesa e estudava alguns papéis que eram maiores que ele. Parecia haver alguns pontos obscuros, que gostaria de ver esclarecidos. Drog levantou-se, foi a uma prateleira embutida na parede e pegou uma caixinha. Tratava-se do costumeiro tradutor eletrônico, indispensável a qualquer tipo de comunicação entre os swoons e os saltadores. Colocou-o sobre a mesa e voltou a sentar.

— Então, Markas, examinou os desenhos? O que acha?

— Antes de formar um juízo definitivo, gostaria de fazer uma pergunta, saltador. O aparelho se destina a finalidades bélicas? Drog sacudiu a cabeça; parecia indignado.

— De forma alguma, Markas! Apenas servirá para localizar nossas frotas mercantes. Já lhe expliquei que

— O senhor me disse que isto representava um progresso na navegação espacial —

confirmou o pequeno swoon sem abalar-se. — É claro que não posso formar um juízo sobre a veracidade de suas informações. Não me resta outra alternativa senão confiar na sua afirmativa. Conforme sabe, qualquer material de guerra só pode ser fabricado com licença expressa do regente. Não pretendo violar esta regra. Por dentro Drog fervia de raiva, mas nem pensou em demonstrá-la. Os swoons eram

criaturas difíceis, que se melindravam por qualquer coisa. Quem quisesse conquistar sua benevolência, teria de derramar-lhes bajulações. Não havia outra alternativa.

— Em toda a Galáxia não existe ninguém que seja capaz de construir este aparelho a

não ser vocês, Markas. Certas peças são tão pequenas que qualquer outra criatura só

poderia manipulá-las com um microscópio. Vocês não precisam de um microscópio para enxergá-las. Só vocês podem ajudar-nos. Saberemos recompensá-los condignamente.

— Não é só disso que se trata — asseverou o swoon em tom enérgico e com um

orgulho indisfarçável. — O senhor ainda não respondeu à minha pergunta relativa ao

robô regente.

— É claro que o regente não tem nenhuma objeção à construção deste aparelho, que

passará a ser produzido em série, caso se consagre na prática. Não sei o que poderia ter contra isso?!

— Hum — fez Markas e dirigiu seus olhos salientes sobre o saltador. — Será que o

senhor pode explicar por que o regente mandou isolar o sistema de Swaft e confiscou

todas as naves dos saltadores estacionadas em Swoofon? Drog empalideceu. A ponta da barba começou a tremer.

Não é

possível!

— Pois veja com seus próprios olhos — disse Markas e saltou da mesa. Desceu

devagar a apoiou-se sobre os seis membros. Saltitou em direção à parede, onde se via um

pequeno quadro de comando. Uma tela, que começava a meio metro do solo, cobria uma área de cerca de um metro quadrado. — Temos uma ligação direta para Swatran, a capital. A tela começou a iluminar-se. Drog teve de abaixar-se para enxergar melhor. — Aqui o senhor vê parte do espaçoporto — falou Markas. As imagens projetadas sobre a lâmina convexa adquiriram contornos nítidos,

oferecendo uma visão bastante real dos objetos. Só se via parte das gigantescas esferas espaciais dos arcônidas. Alguns dos robôs de combate haviam sido desembarcados e montavam guarda, com as armas energéticas levantadas, prontas para disparar. Fora disso, o campo de pouso parecia deserto. As câmeras giraram, abrangendo outro setor do espaçoporto.

— Como vê — prosseguiu Markas em tom indiferente — as peças de artilharia dos

couraçados espaciais estão apontadas para as naves dos saltadores, que por isso mesmo não têm a menor possibilidade de evadir-se. Árcon ordenou que nenhuma nave poderá decolar. Além disso, o inspetor Rhodan anunciou

— Como é mesmo o nome do inspetor? — exclamou Drog, estreitando os olhos. — Rhodan?

— O quê? — exclamou. — O que foi que o senhor disse? Então Árcon

— Isso mesmo. O senhor o conhece?

— O nome não me parece estranho — disse Drog, revirando desesperadamente a

memória. — Gostaria de saber onde já o ouvi. Refletiu por alguns segundos e sacudiu a cabeça.

— Se não estou enganado, o nome Rhodan está ligado a certos acontecimentos que

provocaram muita agitação. Mas isso já faz muito tempo. Bem, ainda hei de me lembrar — levantou os olhos. — Os arcônidas deram qualquer informação sobre o motivo das medidas por eles adotadas? O pequeno swoon atravessou a sala e pôs-se a lidar com os controles de um pequeno transmissor. Executou um estranho movimento com os quatro membros superiores, como se quisesse dizer: Por que dirige esta pergunta a mim?

— Pensei que o senhor soubesse — disse. — É bem possível que Árcon não concorde inteiramente com o aparelho que nos foi encomendado.

— Por que não haveria de concordar?

— Pois com ele, os inimigos de Árcon seriam

— começou o saltador num

momento de irreflexão, mas logo reconheceu seu erro. — O que quero dizer é que

— Obrigado — disse o swoon com uma ligeira satisfação na voz. — O senhor acaba

de trair-se. Sei perfeitamente que no íntimo seu povo nos despreza, e só nos trata de igual para igual porque precisa dos nossos préstimos. Os swoons são os melhores micromecânicos do

— Não há ninguém que não saiba apreciar este fato, e ninguém preza os swoons

tanto quanto nós — disse Drog em tom patético, mas sem muita convicção. — Os mal entendidos surgem em qualquer tipo de relacionamento, e um bom amigo sempre deve procurar esclarecê-los.

— É o que estou fazendo — respondeu Markas, girando os olhos, gesto que equivalia a um aceno de cabeça.

Voltou a manipular os controles. Depois de algum tempo, uma pequena tela iluminou-se, e nela surgiu o rosto de outro swoon. O tradutor eletrônico de Drog ainda estava em funcionamento, motivo por que pôde acompanhar a palestra.

Há alguma novidade, Habrog?

O

swoon que aparecia na tela fez um gesto afirmativo.

Há, sim, Markas. Árcon está à procura de um criminoso e tem motivo para supor

que ele se encontra em Swoofon. Dizem que é um saltador.

— Hum — fez Markas e lançou um olhar para Drog. — O que foi que esse saltador

fez?

— Sobre isso não temos nenhuma informação — respondeu Habrog. — Os decanos

de Swatran falaram com o inspetor de Árcon, mas a única coisa que conseguiram saber

foi que estão à procura de um criminoso. Deram-se por satisfeitos com isso. Não temos

nada a ver com o caso. — Ainda bem — disse Markas, encerrando a palestra e desligando o aparelho.

Lentamente virou o rosto em direção a Drog: — Não é impossível que se trate desse goniômetro, saltador. Enquanto não tiver certeza a este respeito — Acontece que já pagamos uma entrada, Markas — falou Drog, esticando as palavras. — O senhor não pode romper o contrato! Além disso, garanto-lhe que não temos nada a ver com o criminoso procurado. Markas hesitou um pouco. De repente disse:

— Está bem; acredito no que está dizendo. Tomarei todas as providências para que

o primeiro modelo seja construído e experimentado o quanto antes. Acho que

concordarão em colocar uma das suas naves à nossa disposição, para a realização da experiência. Basta montarmos o novo goniômetro na mesma, sairmos para o espaço e mandar saltar outra nave com o compensador ligado. É isto que o senhor quer?

— Exatamente — respondeu Drog em tom alegre e levantou-se. Já estava com as

costas doloridas. — Posso voltar à superfície e comunicar aos meus chefes que o senhor manifestou sua concordância definitiva?

— Perfeitamente — disse o swoon em tom compenetrado. — Pode fazer isso. Ao chegar à porta, Drog perguntou:

— Já tem alguma idéia sobre o lugar em que será fabricado o aparelho? Não seria conveniente concentrar a produção numa única instalação?

— Isso já foi previsto nos nossos planos, saltador.

O rosto de Drog iluminou-se.

— Suponho que seja aqui.

— Não, será duas horas de vôo ao norte. Depois de estudarmos os planos que o

senhor nos entregou, julgamos conveniente instalar a fábrica num local isolado. Todas as peças serão fabricadas lá. De resto, tudo que for necessário poderá ser trazido de outro lugar. Temos uma linha ferroviária subterrânea. Drog parecia um tanto decepcionado, mas nem pensou em dar vazão à sua contrariedade. — Muito bem. Nesse caso eu me instalarei por lá. Conforme já é do seu conhecimento, fui nomeado chefe de construção do projeto.

— Quem foi que o nomeou? — perguntou Markas em tom indiferente.

Não obteve resposta, pois apenas viu as costas largas de Drog desaparecerem pela porta, que ocupava dois pavimentos do edifício. Dali a dois segundos, as sereias de alarma soaram em seu setor.

3

Assim que se materializaram, uma força irresistível comprimiu-os contra o solo.

Gucky teve mais sorte, pois ainda conseguiu manter-se de pé no corredor baixo. Sengu e Kulman, porém, tiveram que abaixar-se e foram parar em posição agachada.

— Tivemos azar — disse Kulman, esfregando a nuca. — Viemos parar num canal

de transporte. Sinto os trilhos.

— Raramente erro nos cálculos — disse Gucky em tom indiferente. — Mas desta

vez aconteceu.

— É o que estamos vendo — disse o japonês em tom distraído, esforçando-se para

orientar-se. Fitou a parede abaulada do túnel, que foi atravessada por seus olhos. — Esta

área é muito interessante!

— Gostaria de saber o que existe de interessante por aqui?! — indagou Gucky

admirado. — Estamos embaixo da terra, e é só.

— Este túnel não é o único — objetou Sengu, sem diminuir a concentração. Sentado

e encostado à parede, fitava a rocha em frente. — Deve haver uma rede completa de túneis deste tipo, que liga as cidades e as fábricas. Se não tivesse estado na superfície, chegaria à conclusão de que os swoons vivem exclusivamente no subsolo.

— É o que acontece com algumas de suas nações — observou Kulman, que afinal

devia estar informado sobre isso. — São especialmente aquelas que vivem nas áreas mais afastadas do equador. Além disso, as fábricas costumam ser construídas sob a superfície. Muitas vezes tive a impressão de que os swoons procediam assim para eliminar qualquer possibilidade de espionagem.

— É um motivo bem plausível — disse Sengu, passando a concentrar-se em outro

setor daquele reino subterrâneo. — Dificilmente alguém poderia molestá-los por aqui.

Até nós tivemos dificuldade em chegar ao lugar em que nos encontramos. Os olhos de Gucky já se haviam acostumado à escuridão, que não chegava a ser

completa porque ao longe havia uma luz no teto. Parecia que essa iluminação era considerada suficiente para esse trecho dos trilhos. Provavelmente nem se contava com a possibilidade de que pessoas não autorizadas pudessem andar pelos túneis. De repente, Gucky teve a impressão de estar ouvindo um ruído. Aguçou o ouvido na direção da lâmpada, que ficava pelo menos a uns trezentos metros. Naquela direção, o túnel descrevia uma curva. Na verdade, ouviu um ligeiro sussurro e teve a impressão de que os trilhos tremiam sob seus pés.

— Um trem está chegando! — disse Sengu de repente, lançando os olhos pelo túnel.

— Está a uns dois quilômetros, mas desenvolve uma velocidade bastante elevada. Vamos embora, Gucky. Temos de saltar.

— Para onde? — perguntou Gucky com a voz tranqüila. — O trem chegará até aqui

antes que eu termine meus cálculos. E não vou arriscar-me a saltar para um cano de

esgoto ou para um alto-forno. Tivemos sorte em parar neste túnel.

— Mas o trem

— Ele não nos fará nada — prometeu o rato-castor. — Os swoons são indivíduos

pequenos e suas locomotivas não devem ser muito grandes. Se necessário, deterei o trem

com a mão esquerda. Mas isso não é necessário. Afinal, para que serve minha capacidade telecinética? Sengu, avise-me quando estiver na hora.

— Está na hora — disse Sengu, que viu a luz do teto apagar-se. — O trem aproxima-se numa velocidade considerável. A máquina de tração é grande; tem mais de um metro de comprimento. Será que você consegue detê-la? Gucky já havia segurado objetos muito maiores. Certa vez, fizera um caça espacial de propulsão atômica descrever acrobacias no ar, contra a vontade do piloto. “Esse Sengu sabe muito bem que consigo deter uma locomotiva de brinquedo ”, pensou o rato-castor.

* * *

Rulf-On, que há dez anos percorria regularmente o trecho entre as fábricas da área norte e a cidade de Gorla, abaixou devagar a chave, para que o trem desenvolvesse a velocidade máxima. Tinha diante de si mais de duzentos quilômetros. Evidentemente que as unidades de medida dos swoons eram outras, diferentes das dos terranos ou dos arcônidas, mas a extensão do trecho, devidamente convertida, corresponderia a essa distância. Havia mais uma curva, e depois dela haveria uma reta que chegava quase até o ponto de destino. Rulf-On lançou um olhar sobre o velocímetro e estacou. — Caramba, o que estaria havendo de errado? A esta hora, a velocidade deveria ser muito maior. Entretanto cai rápida e assustadoramente. Uma pane no interior desse túnel estreito seria um acontecimento nada agradável! — comentou admirado. Rulf-On puxou a alavanca do acelerador para trás e voltou a empurrá-la para a potência máxima. Nesse instante, a energia deveria fluir dentro da máquina e o trem daria um verdadeiro salto para a frente. Mas nada disso aconteceu! Pelo contrário. O trem parou e começou a andar para trás. Não ia com muita velocidade e parecia mover-se a contragosto. Foi por puro acaso que naquele instante Rulf-On olhou para a frente. Teve a impressão de, na luz forte da locomotiva, perceber uma sombra gigantesca deitada nos trilhos. Não, não era apenas uma sombra, mas várias. Talvez três. Pelo tamanho só poderiam ser dos saltadores ou mercadores galácticos. O que é que estes poderiam procurar aqui embaixo? E como vieram parar neste lugar? O túnel levava diretamente para Gorla. Será que os saltadores — se é que realmente eram seres desta raça — rastejaram até aqui? Por quê? Muitos deles podiam andar à vontade pelas fábricas subterrâneas. Por que estariam dando tamanha volta? É claro que Rulf-On não encontrou resposta a estas perguntas, ainda mais que se defrontava com outro problema, que evidentemente havia de interessá-lo muito mais: por que de repente o trem passou a andar em marcha à ré? Infelizmente não conseguiu resolver nem mesmo este problema, pois, dali a poucos minutos, chocou-se com um trem de carga que se deslocava na direção em que ele seguira antes. Felizmente o cargueiro mal começara a sair do lugar. De qualquer maneira, o choque foi tão violento que Rulf-On perdeu os sentidos e só os recuperou bem mais tarde, no hospital. Perguntaram-lhe por que andara em marcha à ré. Mas a mesma pergunta, ele já havia formulado em vão a si mesmo.

* * *

— Não sei se a melhor solução foi esta — disse Sengu.

— O que poderíamos fazer? — perguntou Gucky, um tanto sentido. — Vocês

deveriam ficar satisfeitos por não terem sido atropelados por este veículo dos “pepinos”.

Afinal, a única coisa que eu poderia fazer era mandá-lo de volta.

— Deste jeito nunca chegaremos ao ponto que queremos — interveio Kulman. —

Precisamos conversar com os cientistas dos swoons, para descobrir alguma coisa sobre o aparelho que pretendem fabricar. Podemos apresentar-nos como delegados do Império.

— Será que não somos? — indagou Gucky, que parecia estar indignado. — Estamos agindo por conta de Rhodan, um dos representantes do Império de Árcon.

— Está bem; vamos agir — disse Sengu. — A estação da qual partiu este comboio fica a três quilômetros daqui. Vamos rastejar para lá?

— Agradeço — disse Kulman sem fazer um movimento. Olhou para Gucky.

O rato-castor suspirou.

— Procurarei estabelecer a localização exata do ponto de destino; depois saltaremos. Não gosto de passeios prolongados, ainda mais nas circunstâncias em que nos encontramos. Dali a cinco minutos, materializaram-se em meio a uma imensa área de oficinas,

iluminada por fortes lâmpadas. Em todos os lugares viam-se edifícios, cujos telhados chegavam a tocar a rocha. Considerando o tamanho reduzido dos swoons, concluía-se que estas instalações subterrâneas representavam um projeto gigantesco. Havia verdadeiras estradas, onde veículos dos mais diversos tipos corriam velozmente de um lado para outro. As fitas transportadoras traziam os swoons aos locais de trabalho e levavam-nos para casa. Os numerosos entroncamentos mostravam que havia um tráfego intenso entre a estação, as cidades e as fábricas vizinhas. Tudo aquilo parecia um brinquedo superdimensionado, construído bem embaixo da superfície.

— Nunca estive aqui embaixo — disse Kulman. — Não quiseram mostrar-me o

caminho para suas fábricas.

— Isso é perfeitamente compreensível — disse Sengu. — Têm medo de que uns

gigantes como nós pisemos em suas instalações. Afinal, temos aproximadamente seis

vezes o tamanho deles, o que já é alguma coisa.

— Tenho apenas três vezes o tamanho deles — disse Gucky. Ao que parecia, sentia-

se um tanto contrariado. — Tomara que não se espantem quando me virem. Por enquanto só devem conhecer os arcônidas e os saltadores. Suas presenças já haviam sido notadas. Seria de supor que o aparecimento repentino daqueles três seres deveria provocar uma tremenda agitação, ainda mais que não havia qualquer ligação direta com a superfície. Entretanto os swoons mantiveram uma atitude relativamente calma. Alguns deles saltaram das fitas transportadoras e desapareceram nos edifícios mais próximos. Outros aproximaram-se e, muito curiosos, pararam a uma distância adequada, olhando-os como se nunca tivessem visto um ser humano. Nos seus rostos não se lia o pânico, mas apenas a sede do conhecimento. Via-se que gostariam de saber o que aqueles seres que, segundo acreditavam, eram saltadores, vieram fazer por ali. Um swoon um pouco maior — deveria ter seus trinta e cinco centímetros — adiantou-se e sinalizou com os quatro braços. Kulman pegou o tradutor eletrônico e abaixou-se. Levantou cuidadosamente o swoon, que parecia ocupar posição de destaque, pois seus semelhantes demonstravam certo respeito para com ele.

Assim que o swoon estava bem acomodado no braço de Kulman, este começou a

falar:

— Quero oferecer-lhe meus respeitosos cumprimentos. Peço perdão se os assustamos. Um motivo muito importante obrigou-nos a entrar aqui sem prévio aviso.

— Por onde entraram? — indagou o swoon. — O elevador está parado há várias horas, por falta de energia. Não podem ter vindo

— Descobrimos outro caminho — disse Kulman, esquivando-se a uma resposta

direta. — Quem procura um criminoso não pode desprezar nenhuma possibilidade.

Suponho que já esteja informado sobre a ação que o Império vem desenvolvendo neste planeta.

— Apenas ligeiramente — disse o swoon, demonstrando tristeza. — Só sei que

algumas naves pousaram no planeta e bloquearam-no. Não conheço os motivos.

— Estamos à procura de um homem — explicou Kulman. — Este sujeito só pode

encontrar-se em Swoofon. Ele é o motivo das medidas por nós adotadas. Assim que o

encontrarmos, tudo poderá seguir seu curso normal. Será que poderia apresentar-nos a um dos principais técnicos ou cientistas da cidade? Precisamos de algumas informações que o senhor talvez não possa nem queira dar. — Sou engenheiro de rádio; não ocupo nenhum posto dirigente. Talvez fosse preferível levá-los primeiro ao prefeito. Ele poderá providenciar o resto.

— E os elevadores de carga? — lembrou Kulman.

O swoon parecia sorrir.

— As comunicações na cidade continuam a funcionar. O defeito atingiu apenas os

elevadores que nos ligam à superfície. Peço-lhes que se dirijam para aqueles portões. Kulman e Sengu caminharam à frente. Na retaguarda, ia Gucky. Seguia

tranquilamente pela rua de um metro de largura, tendo sempre o cuidado de não entrar em contato direto com nenhum dos swoons que o fitavam com olhos curiosos. Gucky penetrou nos pensamentos dos swoons, mas não descobriu nada de novo. Eram inofensivos. Apenas estavam espantados e mostravam-se curiosos para saber o que aqueles enormes estranhos vieram fazer em seu reino subterrâneo. Lá na superfície as coisas eram diferentes. Mas esperavam que ao menos aqui embaixo esses gigantes fossem deixá-los em paz.

— Os elevadores ficam ali — disse o swoon que se encontrava nos braços de

Kulman, apontando em direção a uma parede. — Daqui a poucos minutos estaremos na cidade. Esta previsão se concretizou. Na cabine do elevador, cabia uma pessoa de cada vez. Gucky seguiu por último, juntamente com o swoon. O rato-castor leu os pensamentos de seu pequeno acompanhante e teve o desprazer de descobrir que acreditavam que fosse uma espécie de cão de fila. O swoon não concebia a idéia de que poderia tratar-se de um ser inteligente. Gucky ficou muito aborrecido. Resolveu que oportunamente preencheria de forma bastante enfática esta lacuna cultural dos swoons. Ao contrário do que acontecia na extensa área da fábrica, na cidade o tráfego era bastante intenso. As ruas relativamente estreitas estavam cheias de carros e pedestres. O swoon que acompanhava o grupo não teve outra alternativa senão alarmar a polícia, que bloqueou as ruas que conduziam à residência do prefeito. Os pedestres recolheram-se às casas. Os veículos estacionados retiraram-se às pressas.

— O caminho já está livre — disse o swoon, voltando ao braço de Kulman. Parecia

que gostava do lugar. — O prefeito já foi avisado. Caso estejam interessados em saber

meu nome, sou Waff, da equipe de engenharia.

— É muito longe, Waff? — perguntou Kulman.

— Levaremos apenas alguns minutos para chegar à casa do prefeito. Tomem cuidado para não danificar nada. Procurem caminhar no meio da rua. O prefeito está à espera de vocês no jardim.

— No jardim? — perguntou Sengu. — Aqui embaixo existem jardins?

— Não se esqueça — disse Kulman em tom indiferente — de que o tradutor eletrônico reproduz apenas o sentido literal das palavras. Os swoons não conhecem um

prefeito no sentido que nós atribuímos ao termo. E a palavra jardim talvez não seja a designação adequada para uma simples reprodução artificial do mundo existente na superfície. Provavelmente encontraremos apenas rochas nuas e um areal. De qualquer maneira, será uma recordação da natureza de Swoofon; e é tudo que se poderá desejar. Esta previsão confirmou-se. Atravessaram um “portão” de cerca de cinqüenta centímetros de largura e um metro de altura, e chegaram ao jardim do prefeito. Depararam-se com um céu azul estranho e verificaram que apenas se tratava de uma imitação fiel. Até o sol estava presente. Um pequeno regato descrevia curvas em meio a uma área arenosa entremeada de rochas “íngremes”. Aquela área livre era cercada pelos muros das casas vizinhas.

O prefeito, um swoon pequeno e franzino, já os esperava. Sentado num minúsculo

banco, fitava-os com os olhos curiosos.

A palestra que se seguiu foi conduzida principalmente por Kulman. Afinal, era ele

quem possuía mais experiência com os habitantes de Swoofon. Sengu acomodou-se numa rocha, que para o prefeito deveria ser uma espécie de elevação com visão panorâmica, enquanto Gucky se manteve bem quieto junto ao regato, sem tirar os olhos do swoon. Sua mente trabalhava intensamente. Sentiu-se dominado por uma simpatia inexplicável pelos graciosos swoons. Se dependesse dele, teria levado para a Drusus dois ou três desses seres. Naquele momento, nada indicava que os swoons se interessassem em sair de sua

cidade. Sentiam-se bem sob a superfície. Ali realizavam um trabalho que lhes proporcionava um certo conforto, uma relativa opulência e, principalmente, o respeito das outras inteligências do Império. Kulman também estava sentado numa pedra e conversava com o prefeito. Procurou explicar ao mesmo que estavam à procura de um homem impossível de ser descrito, porque mudava constantemente de aspecto. Às vezes se parecia com um arcônida ou um ara. Era um mestre exímio na arte de mascarar-se e modificava seu aspecto exterior à vontade. Seu objetivo, asseverou Kulman com o rosto mais sério deste mundo, consistia em dominar a Galáxia.

— Evidentemente terei muito prazer em ajudar, mas não sei o que este homem

estaria fazendo em Swoofon. De qualquer maneira, acho que os senhores não demorarão em concluir sua tarefa neste planeta, pois aqui existem muito poucos humanóides. Não levarão muito tempo para examiná-los.

— Somos da mesma opinião — disse Kulman e fez de conta que se sentia aliviado.

— Acontece que em Swoofon um fugitivo teria ótimas oportunidades para esconder-se nas cidades subterrâneas. Seria muito difícil visitar todas elas. Já tivemos de enfrentar um problema para chegar até aqui.

— Como conseguiram? — perguntou o swoon.

— Tivemos sorte — disse Kulman. — Peço-lhe que me diga como posso saber onde

existem saltadores nestas cidades e fábricas subterrâneas. O swoon entrou no assunto.

— Por aqui vive um único saltador. Trata-se de um técnico chamado Drog. Já está

aqui há muitos anos e por isso dificilmente poderia ser a pessoa que estão procurando. Não é verdade?

— Não há dúvida. Mas não queremos excluir nenhum saltador. Onde podemos

encontrar o tal do Drog? Talvez ele possa fornecer-nos alguma indicação.

— Geralmente encontra-se nas fábricas. Quem poderá ajudá-los neste ponto é Waff, que conhece Markas.

— Quem é Markas?

— É um dos nossos cientistas mais competentes na área da microeletrônica. Lida

diretamente com Drog e com os outros saltadores que negociam conosco. Acho que não

— hesitou

Outros saltadores

devem ter penetrado na cidade. Um dos nossos comboios sofreu um acidente bastante

estranho. Foi detido por algum processo de teledireção e enviado de volta à estação. Quase houve um desastre. O maquinista diz ter visto dois ou três saltadores no túnel. Lançou um olhar atento para Kulman, mas este soube dominar-se muito bem.

Talvez estejamos na pista correta — disse. — Perguntaremos a Markas se

conhece algum amigo do tal do Drog. Queira aceitar nossos respeitos, senhor prefeito. Ficaríamos satisfeitos se graças a seu auxílio conseguíssemos A despedida prolongou-se por dez minutos, durante os quais foram trocadas fórmulas de cortesia. Finalmente conseguiram retirar-se. O caminho de volta ao elevador

posso fazer mais nada pelos senhores. Por favor, acompanhem Waff. Aliás

um pouco. Um brilho estranho surgiu em seus olhos. — É estranho

— Hum

transformou-se numa verdadeira sensação para os habitantes da cidade, mas devido ao apoio eficiente da polícia os três visitantes e Waff não demoraram em chegar ao destino. Desceram pelo elevador. Na praça, da qual partiam as estradas que davam para as fábricas, Waff disse:

— Quero pedir-lhes que esperem aqui. Se me acompanharem, a confusão será

tremenda. Procurarei Markas e o trarei para cá. Gucky leu nos pensamentos do engenheiro e descobriu que estava dizendo a verdade. Fez um sinal quase imperceptível para Kulman.

— Esperaremos — disse Kulman e sentou-se numa pilha de chapas de plástico.

Seguiu Waff com os olhos e disse: — Não sei o que estamos fazendo por aqui. Procuramos uma pessoa que não existe. Gucky deitou no chão de concreto.

— Não. Buscamos alguma coisa que existe — retificou com a voz aguda e exaltada.

— Estamos catando o swoon e o saltador que lidam com o goniômetro de compensação.

Você descobriu a pista, Kulman. Procure não perdê-la.

— Todos os indícios apontam para esta cidade, Gucky — respondeu Kulman,

falando devagar. — Quando estive no planeta, falei com alguns técnicos que trabalhavam na superfície. Afirmaram-me que o “homem” que dá as ordens reside aqui e vai muitas vezes a Gorla. Talvez seja o tal do Drog, talvez seja outro. Os mesmos técnicos me disseram também que um conjunto de cavernas completamente novo, ao qual não têm

acesso, deverá abrigar as novas instalações. Não tenho a menor idéia sobre o andamento dos trabalhos.

— Não será difícil descobrir, Kulman. Sou telepata e os pensamentos de um saltador ou de um swoon não são nenhum segredo para mim.

O rato-castor olhou na direção do edifício em cujo interior Waff havia desaparecido.

— Estão chegando.

Sengu e Kulman viram Waff surgir na porta em companhia de um swoon franzino; para as condições reinantes no planeta a porta era muito alta. Um homem vinha atrás deles. Devia ser Drog. Gucky manteve-se imóvel, à espreita. Já estava captando os impulsos mentais dos indivíduos que se aproximavam. Fez um sinal quase imperceptível para Kulman.

— Ouvi dizer que os senhores estão atrás de um criminoso — disse Drog, assim que

se viu à frente do grupo. — Meu nome é Drog. Já me encontro em Swoofon há dez anos, por conta de meu clã. Não tenho nada a ver com a pessoa que estão procurando.

— Ninguém afirmou que tivesse — respondeu Kulman. — Não suspeitamos do

senhor. Acontece que fomos incumbidos de fazer uma investigação geral. Caso as

indicações que o senhor acaba de fornecer correspondam ao resultado das pesquisas a serem realizadas, o senhor evidentemente estará acima de quaisquer suspeitas. Kulman fez de conta que a palestra estava concluída. Mas o saltador sentiu-se tão aliviado que viu naquilo uma agradável quebra da monotonia. Sorriu.

— Já querem retirar-se? Contem o que há de novo no Império.

Kulman teve a impressão de que Drog queria evitar a todo custo que o swoon que

atendia pelo nome de Markas pudesse dizer alguma coisa.

— Por que Árcon mandou isolar e ocupar um mundo pacífico como este?

— Sinto muito, mas não posso informar os motivos. Por favor, volte para seu trabalho. O senhor devia estar ocupado, não é? Gucky não se movia. Em seus fiéis olhos surgiu um lampejo de satisfação.

— Não estava fazendo nada de importante — disse Drog com uma risada. Até

parecia que a idéia de que pudesse estar ocupado o divertia. — Uma pausa não faz mal a ninguém. Markas abriu caminho junto a Drog e dirigiu as atenções para sua pessoa. Falou alto em sua língua, e o tradutor eletrônico transmitiu sua mensagem em voz clara:

— Meu nome é Markas. Sou o cientista que dirige este setor. Tenho algumas

perguntas, e ficar-lhes-ei muito grato se quiserem responder. Trata-se de

Gucky interrompeu-o com a voz estridente:

— Não viemos para responder às suas perguntas, swoon — Kulman e Sengu

lançaram um olhar perplexo para o pequeno rato-castor. Por que resolvera intervir na palestra? Por que o swoon não deveria formular

perguntas? Mas quando notaram o olhar de Gucky, que parecia pedir que não se intrometessem, resolveram ficar calados.

— Estamos à procura de um criminoso e não temos nada a ver com os seus

problemas — prosseguiu o rato-castor. — Poderia ter a gentileza de mostrar o caminho

que conduz aos elevadores? Markas mostrava-se visivelmente decepcionado; já Drog estava contente, e mal

conseguiu disfarçar sua satisfação. Estava radiante, e lançou um olhar de triunfo para Markas. Seus olhos pareciam dizer: Viu como esses encarregados do Império são pessoas muito arrogantes?

— Como queira — soou a voz no tradutor eletrônico.

Além de decepcionado, Markas sentia-se muito ofendido. Os estranhos não demonstravam o necessário respeito por sua pessoa e, por isso mesmo, não havia motivo para perder tempo com eles.

— Queiram seguir-me — falou em tom indiferente.

Drog deu de ombros.

— Talvez tenham sorte e encontrem o criminoso, seja ele quem for. Peço licença para retirar-me.

— Pois não — disse Kulman, que já começava a desconfiar do motivo que levara

Gucky a intervir na palestra de forma tão afrontosa. O rato-castor certamente conseguira descobrir uma coisa importante e não queria que se falasse a este respeito na presença do saltador. — Fique à vontade — completou. Drog afastou-se, abaixou-se um pouco e desapareceu pela porta do edifício que ficava à sua frente. Podia ficar tranqüilo. Os enviados de Árcon eram arrogantes a ponto de não se interessarem pelo que um pequeno

swoon tinha a dizer. Markas acabara de levar um fora. E, pelo que ele, Drog, conhecia dos swoons, poderia afirmar que o cientista não faria outra tentativa de falar sobre o goniômetro de compensação. Markas, que caminhava à frente do grupo, disse aos seus acompanhantes:

— Não sei quando os elevadores que levam à superfície voltarão a funcionar. Até lá

poderão considerar-se hóspedes da cidade. Waff cuidará dos senhores — ao que parecia,

não tinha a menor vontade de perder seu precioso tempo com aqueles desconhecidos. — Acho que não temos mais nada a falar.

— Pois o senhor está muito enganado — disse Kulman. — Tenho certeza de que

este nosso companheiro — apontou para Gucky — gostaria de fazer-lhe algumas

perguntas. Não é verdade, Gucky? O rato-castor fez um gesto afirmativo e olhou em torno.

— Onde poderíamos conversar bem à vontade, Markas? — abaixou-se e levantou o

swoon. — Desculpe minha grosseria, mas a presença do saltador obrigou-me a cometê-la.

Explicarei tudo.

— Quem é você? — perguntou Markas. — Não é nenhum humanóide.

— Não sou mesmo. Até um cego vê isso — disse Gucky e apontou para a estação

ferroviária, na qual desembocavam inúmeros túneis. — Poderia ser lá? Andando bem abaixados, penetraram alguns metros do túnel. Kulman disse:

— O que pretende fazer, Gucky? Não venha me dizer que quer ir a Gorla a pé.

— Tenho o aspecto de quem gosta de caminhar? — perguntou o rato-castor em tom

irônico. — Não perderemos tempo; logo estaremos ao ar livre. Markas é o homem, bem,

o swoon, que procuramos. É o cientista responsável pelo projeto do goniômetro de compensação. Acredito que contará tudo que sabe a este respeito.

Waff e Markas fitaram-se com um ar de perplexidade, pois o tradutor eletrônico reproduzira fielmente o sentido das palavras de Gucky. Depois de algum tempo Markas gaguejou:

— Como foi que o senhor

como foi que você soube?

— Sou telepata — disse Gucky. — Vamos ver como devemos fazer para saltar à superfície.

Ao contrário da teleportação para as profundezas desconhecidas, o salto para a superfície foi uma brincadeira. Por isso, demorou menos de dois minutos até que os dois homens, os dois swoons e Gucky se vissem em pleno deserto, sob os raios do sol que já

se

aproximava da linha do horizonte. Logo após a rematerialização procuraram orientar-

se.

Nesse instante, o rádio de pulso de Sengu emitiu um zumbido. O fato de que o som cresceu e diminuiu três vezes significava que a mensagem era da maior importância.

4

O cargueiro interestelar Ramo VII era comandado por Alban, um arcônida do clã

dos Ozol. Fazia vários decênios que Alban conduzia sua nave cilíndrica pelas rotas mais

ou menos conhecidas, realizando a troca de mercadorias por ordem de Árcon. Desta vez

levara sua carga ao sistema de Swaft, onde deveria trocar a mesma por importantes peças microeletrônicas. Era a primeira vez que Alban estava em Swoofon. Mas o estranho planeta, com os habitantes ainda mais estranhos, já lhe era conhecido através dos catálogos arcônidas e

dos relatos dos saltadores. Não poderia deixar de confessar que se sentia curioso para ver pessoalmente os swoons. Tanto maior foi sua surpresa quando, no momento em que efetuava a transição que

o levaria do hiperespaço ao espaço normal, foi detido por uma nave esférica. Evidentemente conhecia o tipo, pois os girinos eram modelos arcônidas. De início, Alban nem pensou em obedecer à ordem que na sua opinião constituía um absurdo total. Afinal, seu cargueiro era uma nave do Império. Ninguém tinha o direito de detê-la. Mas quando viu um pálido feixe energético passar rente à proa de sua nave, decidiu outra coisa. Ligou os campos gravitacionais e desacelerou o suficiente para que o girino pudesse encostar. Imediatamente um comando subiu a bordo da Ramo VII e pediu que o levassem ao comandante. Alban aguardou os piratas, que foi como chamou aquelas pessoas, na sala de comando. Não se esquecera de colocar um radiador no cinto do uniforme. Isso reforçava sua autoconfiança. No primeiro instante, sentiu-se perplexo ao reconhecer dois saltadores e um arcônida, que foram conduzidos à sala de comando pelos tripulantes de sua nave. Já não compreendia mais nada.

— Qual é a finalidade de sua viagem ao sistema de Swaft? — perguntou o arcônida em tom áspero. — Qual é seu porto de matrícula? Alban teve de esforçar-se para não perder o autodomínio.

— Sou Alban, comandante da Ramo VII. Meu porto de matrícula é Árcon II. O que

lhe deu na cabeça para deter-me? Quem é o senhor?

— Quem faz perguntas somos nós, Alban. Limite-se a responder. Infelizmente não

podemos permitir que pouse em Swoofon. Ninguém poderá perturbar a ação que estamos

desenvolvendo nesse planeta. Swoofon está completamente bloqueado e é considerado área interditada.

— Posso saber o motivo?

— Infelizmente não, Alban. Apenas cumprimos um pedido do enviado do regente.

Nossa frota recebeu ordens para deslocar-se para este local. Também viemos de Árcon. Alban sacudiu a cabeça.

— Não compreendo. Também venho diretamente de Árcon, onde recebi ordens para

trocar certos produtos por outros fabricados pelos swoons. O negócio foi fechado há

muito tempo. E agora vêm os senhores e me dizem que não posso pousar! Há algo de errado nisso.

Os dois saltadores e o arcônida há tempo tinham a mesma impressão, mas evidentemente não iriam transmiti-la ao seu interlocutor. As ordens do regente não admitiam qualquer tipo de oposição.

— Não podemos decidir sobre isso, Alban. Apenas lhe pedimos que retorne. Se preferir, pode esperar fora do sistema.

— Não tenho tempo para isso! — disse Alban, sacudindo a cabeça num gesto

obstinado. — Voltarei a Árcon e solicitarei uma entrevista com o regente. Talvez ele me informe por que motivo uma ordem tão importante como a que me foi dada é anulada de uma hora para outra. Posso pedir-lhes que se retirem de minha nave? Aguardou pacientemente que os três homens saíssem de bordo. Depois mudou de rota e efetuou uma transição, em direção a Árcon. A raiva de que se sentia possuído era tamanha que esqueceu todas as etiquetas. Teria algumas perguntas a fazer ao gigantesco computador positrônico, que era o regente do Império. E não teria papas na língua.

* * *

Os conceitos do tempo e do espaço, ligados ao da distância, já pertenciam ao

passado. Cinco horas após ter sido detido perto de Swoofon, o arcônida já se encontrava na sala de recepção do regente de Árcon. Uma hora depois, o receptor de hiper-comunicação da Drusus emitiu um sinal c uma voz mecânica disse que desejava falar com Rhodan. O operador de rádio que estava de plantão recorreu ao intercomunica-dor, a fim de transferir a ligação para a sala de comando, e avisou o imediato, uma vez que Sikermann achava-se de folga. Rhodan também não se encontrava na sala de comando: estava dormindo. A curta noite de Swoofon estava chegando ao fim; o novo dia já ia raiando ao leste. No momento em que ouviu o sinal do telecomunicador, Rhodan teve um pressentimento de que teria de tomar uma grande decisão. Já aguardara por este momento, mas sentia-se grato ao destino por lhe ter concedido uma noite de descanso.

— Aqui fala Rhodan. O que houve, Major van Aafen?

— A sala de rádio anuncia uma mensagem de hipercomunicação. Vem de Árcon.

Quer que a ligação seja transferida para seu camarote?

— Irei até aí, major. Faça o favor de avisar Bell e Crest. Peça-lhes que compareçam

à sala de rádio. Diga-lhes que devem apressar-se. Vestiu ligeiro o uniforme, e saiu para o corredor mergulhado numa penumbra. O elevador antigravitacional mais próximo levou-o ao corredor circular. Dali a vinte segundos, entrou na sala de rádio. Teve de dar mais cinqüenta passos para colocar-se à frente da tela de

hipercomunicação, na qual se destacava, firme e nítida, a imagem do regente, uma gigantesca esfera metálica que descansava sobre uma superfície plana. Seria inútil formular conjecturas sobre as dimensões prováveis daquela figura.

— Pode fazer a ligação — disse Rhodan, dirigindo-se ao operador de rádio.

— Está feita.

Rhodan recuou um passo para que a câmera pudesse focalizá-lo. Sabia que o regente

podia vê-lo, tal qual ele o via.

— Deseja falar comigo, regente?

— Você me enganou. Solicitou o apoio de uma frota de guerra para assaltar um

sistema solar inofensivo. Eu supunha que se tratasse de uma ação dirigida contra nosso

inimigo invisível, que nos tem atingido, vindo de outro plano temporal. Mas, em vez disso, você está perturbando nosso comércio com um mundo pacífico. Não compreendo

por que solicitou o envio de uma frota de guerra, pois apenas a sua já bastava para solucionar problemas até mais difíceis. Acredito que queira envolver-me numa coisa pela qual não quer assumir a responsabilidade exclusiva.

— Fizemos um acordo, regente — respondeu Rhodan em tom frio e respirou

aliviado quando viu Crest e Bell entrarem na sala de rádio. Preferia que houvesse testemunhas enquanto falava com o computador-regente.

— Segundo esse tratado, posso dispor incondicionalmente de seu poderio, desde que

precise dele e lhe faça uma solicitação nesse sentido. Muito bem; você atendeu ao meu

pedido e enviou Talamon. E agora vem me dizer que eu violei o acordo. Como posso entender uma coisa dessas?

— Você entende perfeitamente, terrano. Nosso acordo referia-se apenas à luta

contra os invisíveis. Não o autorizava a interferir nos assuntos internos de Árcon. E é o

que está fazendo. Uma desconfiança começou a surgir na mente de Rhodan. Por que o regente estava

tão interessado em que Swoofon fosse deixado em paz? Será que sabia do projeto do goniômetro de compensação, que lhe permitiria descobrir a posição da Terra? Será que o aparelho estava sendo construído por ordem do regente?

— Nosso acordo não se restringiu à luta contra os invisíveis, regente. Teve em vista

uma colaboração em todos os setores. Se for violado sob qualquer aspecto, ficará sem efeito.

— Minha opinião é diferente, Rhodan. Devemos cumprir o acordo, tendo sempre

em vista o que diz respeito aos invisíveis. Por isso, peço-lhe que se retire de Swoofon e

não interfira nas nossas rotas vitais de comércio. Darei ordem a Talamon para que retorne imediatamente a Árcon. Os invisíveis poderão voltar a atacar a qualquer momento. E quando isso acontecer devemos estar preparados, Rhodan. “Você sabe perfeitamente que o perigo que ameaça a Via Láctea é extremamente grave. Um plano temporal diferente está penetrando no nosso. Em muitos pontos, já existe uma interseção entre as duas dimensões. Os invisíveis existem em outra dimensão temporal, vivem segundo seus padrões, que são muito mais lentos que os nossos. Se não conseguirmos expulsá-los, deixaremos de existir. Será que você já se esqueceu disso, terrano? Seu mundo também está ameaçado; pouco importa onde fique.” — Sei perfeitamente, regente — respondeu Rhodan, lançando um olhar tranqüilizador para Crest e Bell. — Estamos criando uma arma contra os seres da outra dimensão temporal. Conseguiremos penetrar em seu reino e estabelecer contato com eles. Não pense que ficamos inativos. A atuação que desenvolvemos em Swoofon é necessária. Do contrário não me teria lançado na mesma. Então; qual é sua decisão?

— Você já a conhece. Talamon voltará para Árcon, e você abandonará o sistema de

Swaft. Rhodan acenou lentamente com a cabeça.

— Está bem; mas antes tenho de resolver um assunto particular. Depois de

solucioná-lo, Swoofon será liberado e todas as naves. Voltarei a entrar em contato com você, regente. De qualquer maneira, nossos aparelhos levam à conclusão de que dentro em breve haverá outro ataque dos invisíveis. Espero que seja o último.

— Um assunto particular?

— Isso mesmo: Você entendeu o que eu disse — respondeu Rhodan e fez um sinal ao operador de rádio.

A imagem do regente desapareceu da tela, pois o contato foi interrompido de

repente. Bell suspirou e disse:

— Você não acha que está sendo muito duro com ele?

— Com o regente? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — Desde quando você

tem compaixão com um computador? Ainda me lembro do tempo em que

— Sim. Isso foi naquele tempo. Mas tive a impressão de que hoje o robô se mostrou

muito acessível. De qualquer maneira, já teve de conformar-se com uma grande perda de prestígio.

— Bell tem razão — interveio Crest. — Se um belo dia o regente perdesse a

paciência e renunciasse do acordo que celebrou conosco, seríamos prejudicados. Rhodan soltou uma estrondosa gargalhada.

— Ora, Crest! Você só pode estar brincando. Afinal, foi o regente que manifestou o

desejo de celebrar o acordo. Não terá pressa em renunciá-lo, enquanto existir o perigo invisível vindo de outra dimensão temporal. Pelo menos já sei que não está sendo muito

sincero conosco. Quer descobrir a posição da Terra e para isso recorre a tudo quanto é truque. Acredito que o maior truque que está usando seja Swoofon. Bem, vamos fazer-lhe a vontade. Vou deixá-lo fabricar o goniômetro de compensação.

— Não pretende destruir os planos, Perry? — perguntou Bell assim que se

recuperou da surpresa. Rhodan sacudiu a cabeça.

— Não. Um belo dia seriam elaborados outros planos. Ninguém consegue deter a

evolução; já falamos a este respeito. Pelo menos já sei que o regente sabe da existência

desse goniômetro. Teremos de ser mais espertos que o regente, os saltadores e os swoons reunidos. Venha comigo, Crest. Quero fazer-lhe algumas perguntas. Bell, procure entrar em contato com Gucky. Diga-lhe que deve voltar imediatamente com Sengu e Kulman, mesmo que não tenha conseguido nada de positivo.

— Sim senhor! — Bell fez uma continência exagerada e dirigiu-se ao operador de rádio. Rhodan e Crest dirigiram-se à sala de comando.

Dali a dez minutos, Gucky materializou-se no interior da Drusus, juntamente com dois swoons, e logo voltou a desaparecer sem qualquer explicação, para buscar Kulman e Sengu. Depois disse em tom de triunfo:

— O Tenente Gucky acaba de retornar de sua missão juntamente com os mutantes

Sengu e Kulman. Trouxe dois desertores do inimigo: o engenheiro Waff e Markas, chefe da equipe científica que trabalha com o projeto do goniômetro de compensação. Agachou-se sobre as patas traseiras e fitou Rhodan, Bell, Crest e os oficiais da Drusus. Encontrava-se entre os dois swoons que pareciam “pepinos maduros”; um sorriso cobria seus rostos esquisitos. Parecia realmente que haviam brotado no chão metálico da sala de comando e apenas esperavam que alguém os colhesse. Gucky assustou-se quando os homens soltaram uma estrondosa gargalhada, que não foi maliciosa, antes cordial e amistosa. Era claro que a gargalhada de Bell foi a mais forte e a mais demorada. Markas ofereceu o relato, e o quadro foi se completando. Como sempre, Crest mantinha-se em silêncio num dos cantos da sala. A seu lado estava Atlan, cujos olhos, que pareciam olhar para além do tempo, simbolizavam reflexão. Gucky acomodou-se no sofá e ficou com os olhos semicerrados. Waff, o pequeno swoon, estava sentado em seu braço e contemplou as pessoas ali reunidas com uma expressão de interesse.

Rhodan, Bell, Marshall e Kulman estavam sentados em torno de uma mesa sobre a qual estava sentado Markas, que respondia com a maior solicitude a todas as perguntas

que lhe eram dirigidas, falando para dentro do tradutor eletrônico. Não compreendia tudo que acontecia em torno dele, nem desconfiava das circunstâncias que causavam tamanha dor de cabeça a Rhodan. Limitou-se a dizer o que sabia.

forma que resolvemos utilizar um setor até então abandonado do enorme

recinto, para que oportunamente pudesse ser iniciada a fabricação em série do novo goniômetro. Os trabalhos de construção da fábrica estão em pleno andamento. Assim que o modelo experimental tenha sido testado, a produção poderá ter início.

— Em que região fica a fábrica? — Rhodan empurrou um mapa para o swoon. —

Aqui fica Swatran, a maior cidade do planeta. O senhor consegue orientar-se? O swoon olhou para o mapa; hesitou um pouco.

— Praticamente não conheço a superfície, porque tenho vivido principalmente no

subsolo, onde nasci. Mas acho que poderei orientar-me com base nas ferrovias subterrâneas registradas no mapa. Pelo que diz, Kulman obteve as respectivas informações durante sua permanência no planeta — passou o minúsculo braço com os

dedos supersensíveis pelo mapa. — Isto deve ser a cidade de Gorla. Esta é a linha que a liga à minha cidade. É mais ou menos aqui — seu braço escorregou para o norte — que fica o lugar em que está sendo instalada a fábrica de goniômetros.

— de

— Onde estão os planos de fabricação do aparelho? — perguntou Rhodan.

— Estão trancados num cofre, no meu escritório. Drog e eu somos as únicas pessoas

que têm a chave. Aliás, são duas chaves. Ele tem uma e eu tenho outra. O cofre só pode

ser aberto com as duas chaves. Rhodan acenou com a cabeça.

— Já conheço a história; um não confia no outro — ficou refletindo por algum tempo. — O senhor acredita que poderia ceder-me os planos por algum tempo?

O swoon hesitou. Não sabia exatamente qual era o papel que estava sendo desempenhado por Rhodan e seus amigos. Estariam realmente agindo por conta do Império? Se fosse assim, por que não se apresentavam abertamente? Gucky, que continuava no sofá, disse:

— Conte tudo, Rhodan. Markas só poderá ser nosso amigo se confiarmos nele.

Rhodan fez um gesto afirmativo.

— Está bem, Markas. Eu lhe contarei a verdade. O goniômetro de compensação terá

por fim descobrir a posição de meu mundo. Árcon quer localizar meu planeta e destruí-lo.

Quem está mais interessado nisso são os saltadores. Celebrei um acordo com Árcon, mas o regente não fez muita questão de cumpri-lo, embora um terrível perigo ameace toda a

vida da Via Láctea. Estou interessado em ver os planos de fabricação do goniômetro para informar-me sobre algumas das suas características. Mais que isso: tentarei construir um aparelho capaz de neutralizar o novo goniômetro. Quero que as raças inteligentes do Universo conservem ao menos um restinho de vida privada. Tudo depende do senhor, Markas. O senhor é o único que poderá ajudar-nos. Não podemos obrigá-lo a isso.

— Estou disposto a ajudar, pois os senhores são muito diferentes dos saltadores que,

embora precisem de nossos serviços, não sentem outra coisa senão desprezo por nós. Se Árcon estiver interessado no goniômetro para travar uma guerra, prefiro destruir os planos.

— Isso seria um erro — disse Rhodan. — Não há nenhum inconveniente em que o novo goniômetro seja fabricado, desde que tenhamos alguma certeza de que

conseguiremos criar um meio de defesa. Para isso precisamos dos planos, que logo depois serão recolocados no mesmo lugar.

— Como farei para trazê-los? — perguntou Markas, que a essa hora já estava totalmente convencido.

Rhodan sorriu.

— Meu amigo Gucky irá com o senhor. Como já deve ter percebido, as distâncias não representam nada para ele, já que é um teleportador.

— E Drog? O que posso fazer para que me dê sua chave?

— Nosso mutante André Noir irá com os senhores. Drog fará qualquer coisa que o senhor deseje. Acredita em mim? O swoon fez um gesto afirmativo. Estava com o rosto muito sério.

— O senhor tem amigos poderosos. Pode fazer muitas coisas de que os outros

humanóides não são capazes. Seu mundo deve ser um lugar fantástico e certamente dispõe de um poder extraordinário. Rhodan inclinou-se para a frente.

— Quer vê-lo?

Markas adiantou-se um pouco e fitou o terrano.

— Sim, estou interessado em conhecer seu mundo. É muito extenso? Será que

poderíamos viver lá? Será que se formos nunca mais poderemos voltar para Swoofon?

— É um risco que o senhor terá de assumir, Markas. Mas garanto-lhe que no planeta

Terra o senhor terá uma vida boa e segura. Cuidarei disso. Quem sabe se o quarto planeta do sistema solar não poderá vir a ser seu mundo? As condições reinantes ali são semelhantes às de Swoofon. Ainda falaremos a este respeito. Por enquanto devemos cuidar dos planos do goniômetro. Quando deseja ir buscá-los juntamente com Gucky e Noir?

— Agora — disse o swoon em tom decidido.

— Pois partam imediatamente — decidiu Rhodan.

* * *

Drog voltou a desligar o rádio. Ainda levou alguns minutos fitando a tela apagada, na qual há pouco vira o rosto enérgico de um poderoso saltador. As instruções eram inequívocas. Devia apressar-se. Não poderia perder um segundo que fosse. Ao que parecia, Perry Rhodan, o terra-no, estava desconfiando de alguma coisa. Provavelmente a história do criminoso foragido era apenas um pretexto para revistar Swoofon em busca dos planos do novo goniômetro. Todavia, isso não passava de suposição. No entanto, o surgimento da frota de guerra de Árcon parecia ser uma prova de que o regente concordava com os atos de Rhodan. De outro lado, Talamon já se retirara com seu couraçado espacial. Só Rhodan ficara para trás, com as três naves gigantescas e a frota de pequenas naves auxiliares. Drog sacudiu os ombros. Pouco importava o que o tal do Rhodan estivesse tramando; se quisesse obter os planos do novo goniômetro, sofreria uma amarga decepção. E quanto a Markas, que desaparecera de repente Drog não gostava dos swoons, mas não podia deixar reconhecer que eram os melhores técnicos da Via Láctea. Ninguém seria capaz de fabricar as peças minúsculas do

aparelho com tamanha rapidez e precisão. Precisavam dos swoons, quer gostassem deles, quer não. Claro que Drog conhecia a futura fábrica e sabia qual era sua posição. Utilizaria a única linha férrea para chegar lá e levaria os preciosos planos. Markas ficaria com cara de bobo se voltasse e não o encontrasse mais. De qualquer maneira, não poderia abrir o cofre. Mas ele, Drog, podia. Possuía uma duplicata da chave de Markas. Satisfeito por ter encontrado uma solução que seria do agrado de seus chefes, Drog realizou uma ligeira ronda de inspeção e entrou no escritório de Markas, onde passou a lidar com o cofre, que não era muito maior que uma caixa postal, mas fora feito de aço arcônida indestrutível. A porta abriu-se, deixando à mostra o interior do cofre. Os planos estavam guardados numa pasta marrom. Drog pegou a pasta, voltou a fechar o cofre e foi à estação, onde pediu ao coordenador do tráfego que preparasse o quanto antes um transporte para a nova fábrica de goniômetros. Dali a uma hora, estava confortavelmente deitado em dois vagões acoplados. A pasta marrom serviu-lhe de travesseiro. Sorriu satisfeito ao contemplar o teto de rocha do túnel, que parecia deslizar para trás a uma velocidade cada vez maior. Se necessário, cumpriria a tarefa sem o auxílio de Markas. Tomaria todas as providências para que o primeiro goniômetro pudesse ser testado ainda naquela semana.

5

Os elevadores de carga já estavam funcionando, motivo por que Gucky, Noir e Markas puderam voltar à cidade subterrânea pela via usual. Os três indivíduos ofereceriam uma visão estranha e assustadora para os habitantes

daquele mundo. Noir, o terrano, era o maior do grupo; usava o uniforme do Império Solar e estava armado com um radiador portátil. A ele seguiu-se Gucky, o rato-castor, que não usava qualquer roupa e tinha um metro de altura. E ainda havia Markas, uma pequena criatura com o aspecto de pepino. Embora o aspecto exterior dos três indivíduos fosse muito diferente, eles se igualavam em inteligência e senso de responsabilidade. Eram seres de origem totalmente diversa, não tinham nenhum parentesco, mas pareciam pertencer ao mesmo grupo. Não estavam ligados por um planeta, nem por um sistema solar, mas eram todos habitantes da Via Láctea, que achava-se ameaçada por um perigo terrível.

O elevador foi descendo. Oferecia lugar para os três, motivo por que chegaram

juntos aos arrabaldes de Gorla. Prosseguiram imediatamente e, dentro de poucos minutos, encontravam-se na estação ferroviária com a qual Gucky já estava familiarizado. Alguns swoons lançaram-lhes olhares curiosos, mas Markas mandou que prosseguissem com seu trabalho, dizendo-lhes algumas palavras tranqüilizadoras. Mesmo aqui embaixo os saltadores não eram nenhuma novidade. Apenas Gucky provocou alguma sensação, que em outra oportunidade certamente teria alegrado bastante o rato- castor. Mas, a essa hora, as atenções dos curiosos swoons começaram a incomodá-lo. Dirigindo-se a Markas, disse:

— Precisamos descobrir o quanto antes o tal do Drog. Noir lhe aplicará seu

tratamento. É um hipno, e saberá impor sua vontade ao saltador. Markas saltitou pela estrada que dava para a fábrica, esforçando-se para acompanhar Noir e Gucky que, por sua vez, “arrastavam-se”, a fim de deixá-lo satisfeito.

— Daqui a pouco estaremos lá. E no meu escritório descobriremos onde está Drog.

Noir não teve qualquer dificuldade em entrar no edifício de escritórios especialmente adaptado. Sentou na mesma banqueta que Drog costumava usar. Gucky olhou em torno. Seus olhos caíram no cofre embutido.

— É lá que estão os planos? — perguntou.

Markas disse que sim.

— Só precisamos de Drog. Pensei que estivesse aqui. Um momento.

Dirigiu-se à parede e manipulou os controles da instalação de rádio, que o ligavam a todos os pontos da fábrica e ao mundo exterior. Depois de poucos segundos, conseguiu estabelecer contato com a central.

— Queira informar onde se encontra o saltador Drog.

— Há duas horas o saltador saiu do setor NH/K/075, depois de ter ordenado a

formação de um comboio destinado a NH/K/078. Viajou nesse comboio. Quer que

procuremos entrar em contato com ele? Markas parecia indeciso; viu o olhar de Gucky.

— Obrigado; não é necessário.

Interrompeu a ligação e olhou para trás.

— E agora? — perguntou em tom de perplexidade. — O que poderia ter levado

Drog a antecipar para hoje sua viagem à fábrica de goniômetros? O que pretende fazer

lá?

— Estou mais interessado em saber como poderemos pôr as mãos nos planos — disse Noir. — Para abrir o cofre, precisamos da chave dele. — Nesse caso teremos de procurar Drog — murmurou Markas em tom de desânimo.

— Por quê? — perguntou Gucky. — Preste atenção, Markas. Como é o fecho do

cofre: eletrônico ou mecânico?

— O cofre tem uma fechadura eletrônica e uma fechadura mecânica — disse o

swoon. — Será impossível abri-lo sem a chave, se é a isso que está aludindo. Aqui se faz muita questão de que ninguém possa roubar os planos.

— Isso é perfeitamente compreensível — disse Gucky enquanto contemplava o

cofre com os olhos reluzentes. — Acho que poderia ser um excelente abridor de cofres.

Quer dizer que existe uma fechadura eletrônica? Acho que conseguirei, desde que consiga descobrir os contatos do relê. Assim que a corrente passar pelo mecanismo, o cofre se abrirá. O trinco mecânico será mais fácil de remover.

— Como? — perguntou Markas em tom de espanto.

Noir explicou:

— Já ouviu falar em telecinese, Markas? — disse. — Trata-se de fluxos de energias

transmitidos pelo cérebro de um mutante e que são capazes de mover porções de matéria situadas em outro lugar. Gucky é um telecineta.

O swoon fitou o rato-castor com uma veneração cada vez mais intensa.

— É telepata, teleportador e, além de tudo, ainda telecineta? Gucky é mesmo uma

criatura muito poderosa!

O rato-castor sentiu-se satisfeito com a admiração que lhe foi tributada, mas logo

voltou a dedicar-se àquilo que importava.

— Posso pedir silêncio absoluto? Tentarei abri-lo. Não deverá demorar mais que

alguns minutos Noir e Markas recuaram alguns passos, deixando Gucky só à frente do cofre. O rato- castor concentrou-se e suas ondas cerebrais foram penetrando cautelosamente na confusão de comandos eletrônicos que vedavam o acesso aos obstáculos mecânicos, e que teriam de ser removidos. Assim que escutou o primeiro estalido, o corpo de Gucky descontraiu-se, mas não fez nenhuma pausa. O único ruído que se ouvia era a respiração de Noir. Markas mantinha-se rígido e imóvel, como se realmente fosse um pepino incapaz de sair do lugar. Ouviu-se outro estalido. Gucky disse:

— Agora

A porta abriu-se.

Markas soltou um pio de alegria e admiração. Saltitou através da sala superdimensionada e colocou-se ao lado de Gucky. Ambos olharam para dentro do cofre.

— Então? — perguntou Noir, que também se aproximara. — Onde estão os planos? São de formato reduzido?

Markas adiantou-se mais um passo. Quase chegou a entrar no cofre. Ao virar-se, disse:

— Estavam aqui, mas desapareceram. Drog e eu somos as únicas pessoas que

possuem a chave, e o cofre só pode ser aberto com ambas as chaves. Não compreendo.

— Pois eu compreendo — disse Gucky com a voz zangada. — Drog possuía uma

duplicata de sua chave, Markas. Ele o enganou. Ou melhor, enganou a todos nós. E

agora?

O

swoon controlou-se com uma rapidez extraordinária. Lançou mais um olhar para

o cofre vazio e sugeriu:

— Se Drog furtou os planos, teremos de procurá-lo. Sabemos onde está. O que estamos esperando? Gucky olhou para Noir.

— Até parece que Markas pode ensinar-nos alguma coisa! — exclamou. — Tem

toda a razão. O que estamos esperando? Preferiram não utilizar um dos trens que trafegavam constantemente de um lugar para outro. Um salto de teleportação levou-os de volta à superfície, onde voltaram a orientar-se. Noir havia trazido o mapa, no qual Markas registrou cuidadosamente o ponto em que ficavam as instalações subterrâneas da fábrica de goniômetros. Depois Gucky não teve a menor dificuldade em atingir o local por meio de dois saltos de teleportação, um deles horizontal, pela superfície, e outro vertical, que os levou às profundezas. Materializaram-se num pavilhão quase vazio, cujo teto e soalho consistiam em rocha nua. Parecia muito alto para as condições reinantes em Swoofon, mas logo se lembraram que ali seriam construídos os aparelhos que um dia deveriam ser instalados nas imensas naves dos saltadores Além disso, era de esperar que, assim que fosse iniciada a produção, os saltadores mantivessem constantemente observadores no local.

* * *

Drog nem desconfiou do desastre que se aproximava, embora sentisse que alguma coisa não estava em ordem. Era bem verdade que seu nervosismo se tornara bem menor depois que conseguira apoderar-se dos preciosos planos. Sabia que eram os únicos exemplares, com exceção dos originais. E estes estavam muito bem guardados num pequeno planeta dos mercadores galácticos.

Já se convencera de que esse bloqueio ordenado por Rhodan, por conta de Árcon,

constituía um fato muito mais importante do que parecera de início. Ninguém isolaria todo um sistema para procurar um único homem. Além disso, o desaparecimento de Markas começava a preocupá-lo. Saiu do vagão, deu um berro para espantar alguns swoons e seguiu pela estrada

ainda em construção que levava aos pavilhões da fábrica. Um dia seu escritório ficaria ali. Poderia perfeitamente instalar-se desde já, da melhor forma possível. Os swoons, que vinham ao seu encontro, desviavam-se apressadamente assim que o viam. Não parecia que o saltador, que para eles era um verdadeiro gigante, tivesse a intenção de dispensar-lhes qualquer consideração. Já haviam sofrido experiências dolorosas com aquela raça. Drog não deu a menor atenção aos swoons. Ainda teria tempo de exprimir-lhes seu respeito, quando precisasse deles, e desde que fizessem questão disso. De qualquer maneira seria uma mentira.

À sua esquerda havia uma parede metálica, atrás da qual ficava um pavilhão da

fábrica. Deixando-se guiar por um impulso repentino, Drog saiu do caminho que vinha seguindo e, passando por um portão muito baixo, penetrou no pavilhão. Teve de abaixar- se para não bater com a cabeça.

— Oportunamente mandarei modificar isso — disse em tom furioso e estacou de

repente. Por pouco não deixa cair a pasta que trazia embaixo do braço. À sua frente — ou melhor, embaixo dele — estava Markas! Drog reconheceu-o imediatamente, embora não fosse fácil distinguir os swoons.

Infelizmente não havia a menor possibilidade de comunicação, pois não dispunha de um tradutor.

— Saia do meu caminho, verme nojento! — berrou Drog.

Apavorado, Markas tapou as orelhinhas. Confiava no rato-castor, que se mantinha

escondido nos fundos do pavilhão, juntamente com Noir. Embora não entendesse uma palavra daquilo que o gigante acabara de gritar, imaginava o significado. Mas parou obstinadamente. Numa das mãos — a rigor a extremidade dos braços com os dedos finíssimos não poderia merecer este nome — exibiu a chave do cofre ao saltador. Drog compreendeu imediatamente.

— Ah, é por causa dos planos? O azar é seu, meu caro; estão comigo. Aliás, o que é que você tem com os mesmos? Onde andou por tanto tempo? Lembrou-se de que o swoon não poderia compreendê-lo e aborreceu-se por estar perdendo tanto tempo. “Por que o anão não cuidou logo da construção do primeiro modelo do goniômetro, conforme haviam combinado?”, pensou e apontou para a saída.

— Venha comigo. Preciso falar com você.

O swoon não poderia deixar de entender o gesto, mas não saiu do lugar. Drog estendeu a mão para pegar Markas, mas estacou em meio ao movimento. Alguma coisa invisível exercia uma pressão súbita sobre seu cérebro, comprimia sua consciência e começou a eliminar sua vontade. Sentiu uma dor suave. O pavilhão começou a girar diante de seus olhos, mas não perdeu os sentidos. Percebeu perfeitamente o que lhe aconteceu nos minutos seguintes, mas não teve condições de resistir. Dos fundos do pavilhão vieram duas criaturas; uma delas tinha o tamanho dele,

enquanto a outra tinha apenas a metade desse tamanho. Já conhecia esse bicho esquisito. Gucky manifestou seu desagrado.

— Acha que sou um bicho — disse, dirigindo-se a André Noir e sacudindo a

cabeça. — Pensei que este mercador fosse mais inteligente. Ainda não conhece Gucky!

Noir não se deixou distrair. Suas vibrações cerebrais estenderam-se a plena potência em direção à consciência do saltador e eclipsaram-na. Sem que o outro soubesse, assumiu seu espírito e seu sistema nervoso, e com isso também seu corpo. Tratava-se de um tipo de hipnose, muito mais eficiente e duradoura que os outros procedimentos desse tipo. Os comandos eram transmitidos por via telepática e o destinatário os executava sem a menor vacilação.

— Dê-me a pasta com os planos — ordenou Noir.

Gucky já lhe havia dito o que continha a pasta.

Drog obedeceu.

— Venha conosco!

Nos minutos seguintes, encontraram-se com vários swoons, principalmente na rua, mas nenhum deles estranhou a presença do saltador que caminhava ao lado de Markas, chefe da equipe científica, além de um estranho ser peludo e de outro sujeito. Todos conheciam Drog, que agia de forma completamente diversa das outras vezes em que era dono de sua vontade. Markas parou à frente de uma porta.

— Aqui ficam os escritórios da administração. Um deles foi instalado especialmente para Drog. Acho que é o lugar mais adequado. Quanto tempo teremos de esperar?

— Acho que não demorará muito — respondeu Gucky. — Saberei encontrar

sozinho e depressa o caminho para a nave. Rhodan poderá examinar os planos e copiá-

los. Dentro de meia hora, estarei de volta. Até lá terão de cuidar de Drog; ainda é cedo para soltá-lo.

— Não há nenhum problema — disse Noir, que não desgrudava do saltador.

Quando puderam fechar a porta e se viram sós, suspiraram aliviados. Os olhares indagadores e curiosos dos inofensivos e bondosos swoons que andavam pela rua tinham se tornado quase insuportáveis. Embora não vissem nada de estranho no comportamento

de Drog, a presença do grupo dava o que pensar. E Noir não poderia erradicar a memória de todos, como fizera com Drog.

— Pode começar, Noir — disse Gucky e fez um sinal para que Markas se

aproximasse. — Veja só, baixinho, como este saltador vai contar tudo que desejamos saber. Noir conduziu Drog a um canto, depois de ter entregue a pasta a Gucky. O rato- castor examinou-a, a fim de verificar se os planos realmente estavam na mesma. Markas confirmou a autenticidade dos projetos.

Assim que Noir iniciou seu “tratamento”, os olhos de Drog adquiriram uma estranha rigidez e pareciam dirigir-se para longe. Manteve-se imóvel, como se estivesse paralisado.

— Quem mandou construir o goniômetro de compensação? — perguntou Noir. A resposta foi imediata:

— O regente de Árcon.

— Quem o inventou?

— Um dos nossos cientistas; não conheço o nome.

Não havia a menor dúvida de que estava dizendo a verdade.

— Qual será o montante da produção?

— O goniômetro de compensação deverá ser montado em todas as naves do

Império, a fim de que nenhum salto possa ser efetuado sem a devida localização. O

objetivo principal consiste em encontrar a Terra, planeta natal de Rhodan.

— É por isso que a fabricação será secreta?

— É principalmente por isso. Ainda acontece que o aparelho terá peças muito

pequenas e extremamente sensíveis, que só poderiam ser construídas pelos swoons. Mais

tarde, a fábrica será transferida para um dos planetas pertencentes aos saltadores. Noir lançou um ligeiro olhar para Markas e perguntou:

— Com a concordância dos swoons?

— Levaremos um grupo dos mesmos.

— Tudo isso será feito por ordem do regente? Drog respondeu sem a menor hesitação:

— Não; esta idéia é minha. O clã ao qual pertenço adquirirá o monopólio de fabricação. Oportunamente os planos serão destruídos.

— E o inventor? Os planos originais?

Drog sorriu como quem se deleita num belo sonho.

— Tomamos nossas providências para que a vida do inventor não seja muito longa.

Assim que o novo goniômetro tenha sido testado, o inventor, cujo nome não conheço, morrerá. Os planos também serão colocados em nossas mãos e destruídos. Ninguém poderá agir contra nós, pois nesse caso não haverá nenhum goniômetro de compensação.

Noir lançou um olhar para Gucky. O rato-castor soltou um suspiro.

— É um verdadeiro complô — constatou. — E um complô que atingiria até o

Império de Árcon. Estragaremos a festa deles, conforme costuma dizer Bell. Bem, o que sei já basta. Esperem aqui até que eu volte. Não demorarei. Noir e Markas confirmaram com um gesto. O swoon já se acostumara com o gesto afirmativo dos humanos. Aprendia com uma rapidez extraordinária.

O rato-castor desmaterializou-se e saltou para a superfície. Depois concentrou-se na sala de comando da Drusus e para sua surpresa foi parar justamente no colo de Bell, que estava sentado no sofá, ao lado de Sikermann.

— Pare de gritar! — pediu Gucky ao amigo, que estava muito assustado, e

escorregou para o chão, segurando firmemente a pasta. — Onde posso encontrar o chefe? Rhodan já ouvira Gucky. O rato-castor foi atingido por um impulso mental, antes que Bell tivesse tempo para responder.

— Não se preocupe, gorducho — disse Gucky em tom tranqüilizador e caminhou em direção à porta. — Rhodan já me espera. Logo desapareceu. Bell fitou a porta fechada e enxugou o suor que lhe corria pela testa.

— Ainda terei um ataque — disse em tom sombrio.

* * *

Na sala de combate da Drusus, Hubert Gorlat, um homem ruivo que ocupava o posto de capitão do serviço de segurança, pôs-se a trabalhar. Rhodan e Gucky mantiveram-se afastados e viram os planos serem abertos e copiados cuidadosamente. A

fim de não perturbar o trabalho de Gorlat, Gucky relatou a seu chefe por via telepática aquilo que soubera de Drog. Dali a uns cinco minutos, Rhodan perguntou em voz alta:

— Se eu o entendi corretamente, o tal do Drog pretende seqüestrar um grupo de

swoons altamente especializados a fim de fixá-los num mundo desconhecido, onde passariam a fabricar o goniômetro de compensação exclusivamente para ele.

— Sim; foi isso que Drog declarou depois de ter recebido o “tratamento” de Noir.

— Nesse caso, apenas disse a verdade — Rhodan fez uma pausa e acrescentou: —

Quando você for levar os planos e trouxer Noir, traga também o pequeno swoon. Se não me engano seu nome é Markas.

— Pois não, chefe. Você prometeu que o levaria à Terra juntamente com Waff. De repente Rhodan sorriu e lançou um olhar quase afetuoso para Gucky.

— Você gosta dos swoons, não gosta?

Gucky ficou radiante.

— Gosto muito deles, Rhodan. Além de pequenos e alegres, são muito inteligentes e

graciosos. Ficaria muito feliz se não me separasse de Waff e Markas. Acho que terão

muito prazer em ir conosco.

— Vou submeter-lhes uma proposta muito interessante, Gucky. Não se esforce em

vão; por enquanto não descobrirá nada. Traga Noir e Markas. Depois sua curiosidade será satisfeita. Olhou para Gorlat, que desligou a copiadora e dobrava os planos.

— Pronto, capitão? Quero examinar esses projetos juntamente com Crest e Atlan. Tive uma boa idéia.

Pegou os planos das mãos de Gorlat e dobrou-os cuidadosamente para que pudessem ser guardados. Entregou a pasta marrom a Gucky. Deu uma palmadinha no ombro do rato-castor.

— Ande depressa, Gucky. Espero-o no camarote de Crest. Não se esqueça de trazer

Markas. Um sorriso matreiro surgiu no rosto de Gucky, que exibiu o solitário dente roedor.

— Seria mais fácil eu esquecer minha cauda — asseverou. Depois concentrou-se e

saltou. A última coisa que Rhodan viu de Gucky foi o rabo coberto de pêlos marrons. Sabia que não o deixaria para trás, da mesma forma que não deixaria um pequeno swoon que atendia pelo nome de Markas.

* * *

Dali a pouco, Drog dirigia-se ao edifício da administração, segurando a preciosa pasta. Refletia sobre o que andara fazendo nas últimas duas horas. Enquanto isso uma conferência decisiva realizava-se no interior da Drusus. Crest desempenhava o papel de anfitrião. Estava sentado na cabeceira da mesa semicircular e, imóvel, ouvia as palavras de Atlan, o imortal, cujas mãos seguravam as cópias dos planos. Além de Rhodan, Bell e

Gucky, ainda participavam da reunião Gunter Forster, engenheiro-chefe, e o Dr. Ali el Jagat, chefe da equipe matemática.

— O princípio do goniômetro é fácil de compreender, desde que se conheçam os

princípios gerais que regem o funcionamento do compensador estrutural, pois o aparelho

foi criado com base no mesmo. E também será fácil criar o aparelho seguinte: o equipamento de absorção. Este engolirá os impulsos do compensador, para que o goniômetro não possa localizar nada. Com isso perderá todo valor. Rhodan lançou um olhar sério para Atlan. Sabia que poderia confiar integralmente

em seu novo aliado, mas era perfeitamente possível que o imortal superestimasse sua capacidade

— Atlan, você tem certeza absoluta de que será possível construir o equipamento de absorção? Atlan acenou com a cabeça e apontou para Jagat e Forster.

— Pergunte aos especialistas, Rhodan. Eles confirmarão o que acabo de dizer. É

bem verdade que não devemos esquecer que o goniômetro será construído em Swoofon, motivo por que terá peças microscópicas. E o aparelho de absorção deverá também ter peças do mesmo tamanho. Esta é a única lacuna vaga de minha linha de raciocínio. Rhodan sorriu.

— Obrigado, Atlan. Ainda falaremos sobre isto. Pelo que entendi, o fato de que

dentro de três ou quatro meses as naves de reconhecimento dos saltadores estarão

equipadas com o novo goniômetro não representará qualquer risco para nós, pois até lá conseguiremos, com o auxílio dos swoons, construir o aparelho de absorção. Não é isso?

— Teoricamente sim

— Está bem — Rhodan lançou um olhar para Gucky, que segurava os dois swoons

no colo e parecia ter esquecido o resto do mundo. — Quero pedir a Markas que responda a algumas perguntas. Sente-o na mesa, Gucky.

Markas andou de um lado para outro, um tanto inseguro, antes de encontrar a posição correta face ao tradutor eletrônico. Waff observava-o atentamente. Continuava sentado no colo de Gucky.

— Faça o favor de perguntar — pediu o swoon. — Farei o possível para deixá-lo

satisfeito. Rhodan inclinou-se para a frente e fitou os olhos claros do swoon. Leu nos mesmos uma simpatia sincera e sentiu uma onda de ternura pelos pequenos seres. Estas criaturas pequenas e esquisitas, um tanto ridículas por possuírem o formato de um pepino, possuíam um caráter tão bondoso e decente que raramente seria encontrado entre os humanos. Provavelmente a amizade desses seres seria perdida para sempre, se não

tivessem tido o cuidado de reconhecer neles grandes inteligências e dar-lhes o tratamento merecido. Rhodan começou a compreender a atitude de Gucky.

— Markas, o senhor manifestou o desejo de conhecer meu mundo. Poderei cumprir

esse desejo, mas antes disso quero fazer-lhe uma proposta, e peço-lhe que reflita sobre a

mesma. Se recusar, ninguém ficará zangado com o senhor; apenas lhe peço que não tome uma decisão apressada.

— Qual é a proposta?

— Gostaria que o senhor e Waff, juntamente com uns dez ou vinte mil swoons,

abandonassem o planeta e viessem comigo à Terra. Temos necessidade urgente de microtécnicos competentes como os senhores. Ofereço-lhes uma área e instalações que reúnam as condições desejadas pelos senhores. Ganharão o mesmo salário dos nossos especialistas mais competentes, além de certos prêmios. Serão obrigados a trabalhar por cinco anos. Quem quiser voltar a Swoofon depois desse prazo, será levado a seu planeta sem qualquer despesa. Apenas faço uma condição: para os swoons a viagem ao planeta Terra será um vôo “cego”. Isto é: não ficarão sabendo a posição galáctica de meu mundo. Todos ouviram ansiosos as palavras de Rhodan. Crest acenou lentamente com a

cabeça, como se esperasse algo semelhante. Atlan pôs-se a sorrir, e em seus olhos lia-se um elogio pela sabedoria de Rhodan. Gucky acariciava o pequeno Waff, que trazia no colo, e exibiu um sorriso que quase chegava a ser provocador. Bell notou o sorriso, mas não esboçou qualquer reação. Markas respondeu:

— No que me diz respeito, posso aceitar sua proposta. Tenho certeza de que Waff

também estará disposto a ir conosco. Deseja especialistas de alguma área especial radicados em nosso planeta?

— Sim, se for possível. Gostaria de ter alguns representantes de cada área de conhecimento, a fim de que a colônia de swoons da Terra possa produzir tudo que se fabrica em seu planeta natal. Compreende o que quero dizer?

— Perfeitamente — respondeu Markas. — De quanto tempo poderei dispor para

escolher as pessoas que irão conosco? Rhodan ergueu as sobrancelhas.

— Terá pouco tempo, pois pretendo decolar quanto antes. Não quero que o regente;

pense que intenciono instalar-me aqui. Além disso, a construção do aparelho de absorção

terá de ser iniciada com urgência. Traga alguns cientistas que sejam capazes disso. Markas lançou um olhar para Waff.

— Permita que Waff vá comigo; assim não demoraremos muito.

— Leve Waff — disse Rhodan. — Mas existe mais um detalhe a ser observado.

Ninguém deverá saber que um swoon que seja saiu do planeta. Quando perguntar a um

dos seus amigos se quer acompanhar-nos à Terra, deverá ter cem por cento de certeza de que a resposta será afirmativa. Compreende o que quero dizer?

— Naturalmente. Mas tudo isso não é tão difícil como o senhor poderia acreditar.

Ao leste de Gorla existe um centro experimental de tecnologia aplicada. Trata-se de uma

espécie de universidade prática, na qual são treinados os futuros especialistas. O corpo docente é formado por cientistas de primeira linha. Nas fábricas-escola estão todas as ferramentas especiais que existem e já existiram em Swoofon. Se conseguirmos transferir para a Terra tudo que se encontra nessa universidade, juntamente com os professores e alunos, não haverá nada que não possamos construir, desde os mini-transmissores de televisão até os hiperpropulsores em formato reduzido. Rhodan confirmou com um gesto. Seus olhos se iluminaram. — Obrigado, Markas. Acho que isso seria uma solução. Será que conseguirá convencer todos os habitantes do centro experimental a aceitar nossa proposta? O que acontecerá se não estiverem de acordo? Markas sorriu.

— Ninguém recusará. Deixe tudo por minha conta. Quando deverei partir?

Rhodan lançou um olhar para Gucky.

— Você acompanhará Markas e Waff, baixote. Quem você quer que o ajude quando

chegar a hora? Anne Sloane? Anne Sloane era telecineta. Gucky, que já compreendera o que Rhodan pretendia fazer, sacudiu a cabeça.

— Não quero ninguém, Rhodan. Nem a telecinese, nem a teleportação poderão, por

si só, resolver o problema. Sou o único mutante que reúne ambas as faculdades. Sabe do que quero dizer? Rhodan acenou lentamente com a cabeça. O rato-castor prosseguiu:

— Quando chegar a hora, farei a coisa sozinho — levantou-se, com Waff no braço.

Com a mão livre segurou cautelosamente Markas. — Avisarei quando estiver na hora. Passem bem. Dali a um instante, o ar tremeluzente era o único vestígio que restava dos swoons que se encontravam naquele lugar. Bell fitou o espaço vazio.

— Não compreendi nada — confessou a contragosto. — O que está havendo? Que

negócio é este de combinar a teleportação e a telecinese? Rhodan deu um sorriso para Crest e Atlan e respondeu:

— Pois bem, meu caro Bell, se você soubesse ler pensamentos, sua vida seria muito mais fácil, não é? Mas não quero torturá-lo. Preste atenção; vou explicar Bell prestou atenção.

Os

comandantes

dos

quarenta

6

girinos

ficaram

bastante

espantados

quando

receberam, dali a duas horas a seguinte mensagem da Drusus:

Chamando os comandantes de todas as naves K. Todas as unidades, com exceção da K-33, voltarão à Terra por suas próprias forças. Realizem vários saltos, sob a proteção dos compensadores. Tomem o máximo de cuidado. A unidade K-33 deverá apresentar-se imediatamente a mim. Fim. Rhodan.

Houve algumas consultas, mas Stern, que neste meio tempo voltara a assumir o serviço de rádio, removeu todas as dúvidas. Era isso mesmo. O bloqueio de Swoofon havia sido suspenso, e os girinos não deveriam voltar para bordo da Drusus. Os que pertenciam à Titan e à General Pounder receberam ordem para voltar às suas unidades, a fim de abandonarem imediatamente o sistema. Parecia uma retirada bem organizada. E realmente era uma retirada, se bem que um

estrategista talvez dissesse que se tratava de um lance do jogo. Mas ninguém deveria saber disso.

O comandante da nave girino K-33 era Mikel Tompetch, um americano corpulento,

de cabelos louros. Dez minutos depois de ter recebido a mensagem, entrou

cuidadosamente com sua nave na escotilha aberta da Drusus e pousou no hangar. Os recintos em que estavam estacionadas as naves auxiliares estendiam-se que nem um anel em torno da gigantesca esfera que era a Drusus. Podia abrigar um total de quarenta girinos, cada um dos quais tinha sessenta metros de diâmetro.

O Tenente Tompetch desceu a rampa e não demonstrou maior interesse pela

tripulação, que também saiu da K-33. Ao que parecia, não havia outra missão à vista. Os

homens retornariam aos lugares que ocupavam na Drusus, onde havia uma necessidade premente deles, face à ausência das tripulações das outras naves K.

Enquanto se dirigia ao elevador antigravitacional, encontrou-se com Reginald Bell. Dirigiu-se a ele e perguntou em tom exaltado:

— Será que o senhor poderia informar o que significa tudo isso? Será que alguém

pensa que eu não seria capaz de voar sozinho à Terra, já que os outros girinos podem

realizar este vôo, enquanto nós

— Calma! — disse Bell, e um sorriso largo cobria seu rosto. Apontava para a K-33. — Isto é um calhambeque que já está precisando de uma revisão geral, certo?

O espanto de Tompetch não durou mais que um segundo.

— Calhambeque? O que quer dizer com isso? Não é mais velha que as outras. É

bem verdade que aquela colisão com o asteróide não fez bem à K-33, mas as peças danificadas foram todas substituídas. De qualquer maneira, não teríamos o menor problema em voar à Terra. — Não é disso que se trata, tenente — disse Bell em tom enérgico. — Devo comunicar-lhe que o senhor nunca mais pilotará a K-33. Se ainda houver algum pertence

pessoal a bordo da unidade, vá tirá-lo imediatamente. A mesma ordem aplica-se aos tripulantes. A cara de Tompetch exprimia espanto e perplexidade.

— Nunca mais pilotarei a K-33? Por quê?

— O chefe explicará, tenente. Providencie para que tudo seja retirado da K-33.

Oportunamente avise ao chefe que a ordem foi cumprida. Aliás, destaquei alguns técnicos

que o ajudarão a retirar alguns instrumentos de maior valor. Até logo mais, tenente. Tompetch seguiu-o com os olhos com uma expressão de perplexidade, cocou a

cabeça loura e soltou um suspiro. Dirigiu-se ao hangar e ligou o intercomunicador, para chamar de volta os tripulantes de sua unidade. Depois pôs-se a trabalhar, a fim de cumprir as ordens de Bell, embora não compreendesse a finalidade das mesmas. Dali a duas horas, encontrava-se à frente de Rhodan para comunicar que as ordens foram cumpridas, e que a K-33 praticamente estava reduzida a um envoltório vazio com um hiperpropulsor. Esperava receber uma explicação, mas teve uma decepção cruel. Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça e disse:

— Ótimo, Tenente Tompetch. Apresente-se a Sikermann, que o destacará para outro

serviço. Afinal a K-33 está boa para sei jogada fora, não acha? E é o que pretendemos

fazer. Tompetch retirou-se. Ao chegar à porta que dava para o corredor, olhou para trás, mas apenas viu o rosto sorridente de Reginald Bell. No momento isso não lhe esclarecia nada! Assim que a porta se fechou, Bell disse:

— O sujeito está se desmanchando de curiosidade, Perry. Para dizer a verdade, tenho pena dele.

— Você deveria ter pena de si mesmo — disse Rhodan com um ligeiro sorriso. —

Você tem muito trabalho pela frente. Leve os homens de que precisa e comece a esvaziar e preparar todos os hangares. Quero decolar dentro de cinco horas. Bell dirigiu-se lentamente à porta.

— Se é que até lá Gucky conseguirá terminar seu trabalho!? — ponderou.

— Gucky estará pronto! — disse Rhodan em tom enfático, colocando o dedo no

pequeno rádio de pulso. Bell teve de reconhecer que sua situação não era muito diferente da de Tompetch. Resignou-se e deixou Rhodan a sós.

* * *

Enquanto existir vida haverá acidentes e catástrofes. Esta é uma lei implacável da natureza. Em Swoofon, também havia catástrofes, mas as mesmas eram relativamente raras e geralmente não assumiam maiores proporções. De qualquer maneira, Gucky deveria agir com muita cautela. Estudou o mapa e comentou:

— Existe apenas uma única linha férrea que liga a Universidade Técnica com a

superfície e com as outras cidades. Isto é uma circunstância bastante favorável! Waff, que estava sentado sobre a mesa, olhando por cima de seu braço, fez um gesto afirmativo. Gucky continuou:

— Por ela trafega só um comboio por dia, não é? Excelente. Este comboio partiu há

uma hora. Logo, não é de esperar que saia outro antes de amanhã. Onde está Markas?

— Está fazendo uma conferência para os micróticos — disse Waff. — Nenhum deles quer ficar.

— Já há muitos que não querem ir conosco?

— São apenas uns mil. O que faremos com eles?

Gucky deu de ombros. — O que poderíamos fazer? Eles se esquecerão da alocução de Markas. Noir

cuidará disso. Depois eu os levarei a Gorla, onde poderão quebrar a cabeça para descobrir como foram parar lá. É bem verdade que não poderei fazer o trabalho sozinho. Preciso chamar alguém que me ajude. Espere aqui mesmo. Não demorarei em voltar. Waff caminhou para o lado e saltou para o chão. Depois viu Gucky concentrar-se e desaparecer. Já se acostumara a ver o estranho fenômeno, motivo por que não se assustou. Dirigiu-se à janela. Dali se tinha uma boa visão sobre o conjunto de edifícios situado apenas vinte metros abaixo da superfície. O céu era substituído pela rocha lisa, interrompida a espaços regulares por lâmpadas embutidas. Aquele mundo subterrâneo era luminoso, quase tão luminoso como aquele mundo que ficava sob o verdadeiro céu. Além disso, era um pouco mais quente. Waff assustou-se quando Gucky reapareceu. Trouxe consigo André Noir e Ras Tschubai, um terrano negro e robusto, que possuía o dom da teleportação. Naquele instante, chegou Markas. Caminhou muito empertigado pela porta, que não tinha mais de cinqüenta centímetros de altura, e penetrou no recinto, que para Noir e Tschubai era uma sala de tamanho médio. De qualquer maneira, podiam mover-se ali sem baterem com a cabeça no teto.

— Todos os micróticos concordaram em sair de Swoofon a fim de servirem a Perry

Rhodan — anunciou em tom de triunfo e fitou os dois terranos. Gucky apresentou Ras Tschubai, com quem Markas ainda não havia travado conhecimento.

— Está na hora de interrompermos as comunicações com o mundo exterior — disse.

— Antes de tudo devemos cuidar da estrada de ferro. Mas as estações de rádio também

deverão entrar em pane. Quantas estações existem aqui, Markas? — Apenas uma. Waff sabe onde fica — Markas nem procurou disfarçar a

impaciência. — Preciso cuidar dos estudantes e professores. Aqueles que resolveram ficar se reunirão com suas bagagens na estação ferroviária.

— Excelente! — exclamou Gucky em tom alegre. — Noir e Ras cuidarão deles.

Foi o que aconteceu. Noir erradicou dos swoons toda lembrança do que tinham visto e ouvido, enquanto Ras, depois de realizar um ligeiro salto para orientar-se, levou-os para Gorla, carregando- os aos grupos. Para facilitar as coisas largou-os na superfície, perto dos elevadores. Nem um único dos swoons saberia explicar como viera parar em Gorla. Além disso, o detalhe não despertava maior interesse, pois havia outros problemas. Enquanto isso, Gucky caminhou a passos decididos para dentro do túnel da estrada de ferro e teleportou-se para um lugar que ficava a menos de cinco quilômetros da universidade. Com sua capacidade telecinética, não teve a menor dificuldade em deslocar algumas das rochas de apoio, fazendo-as cair com um terrível estrondo e soterrando os trilhos. Por enquanto nenhum trem passaria por aqui.

Saltou de volta e juntamente com Waff tomou as necessárias providências para que a estação de rádio não pudesse ser utilizada. Isso foi bastante fácil: bastava desligar o reator que fornecia a energia, enfiando uma placa isolante entre os elementos de carga. Para recuperar o reator a ponto de que este pudesse voltar a fornecer energia, seria necessário desmontá-lo. Isso demoraria pelo menos dez horas. E até lá As raras baterias atômicas existentes na área foram levadas à superfície por Gucky, que as depositou numa depressão entre as rochas. Seguiram-se algumas peças vitais do transmissor. Satisfeito com seu trabalho, regressou à sala, onde Tschubai e Noir, juntamente com Waff e Markas, já o esperavam.

— Tudo liquidado — disse Markas. — Os swoons que ainda estão aqui querem ir à

Terra. Como será feito o transporte? Os elevadores só podem transportar dez swoons de cada vez, pois foram construídos apenas para atender a casos de emergência

sim,

criaremos um canal de teleportação que ligue este lugar à Drusus, que pousará

diretamente em cima do local em que nos encontramos. Graças ao dom que possuímos, não haverá a menor dificuldade em teleportarmos os swoons. Utilizarei esse canal para levar também as instalações da universidade à nave. Como vê, Markas, o problema está praticamente resolvido. Assim que estiver pronto, poderei avisar Rhodan. Markas confirmou com um gesto.

— Não se preocupe, Markas. Ras Tschubai e eu

bem, como direi?

Vamos esperar, Gucky.

O

rato-castor preferiu não saltar para a superfície. Manipulou o pequeno rádio que

trazia pendurado ao braço esquerdo e esperou que Rhodan respondesse. Fez um ligeiro

relato da situação e pediu instruções.

A voz de Rhodan soou muito fraca no pequeno alto falante.

— Daqui a cinco minutos, a Drusus pousará bem em cima da universidade. Tome

todas as providências para que até então tudo esteja preparado. Voltarei a chamar.

Gucky fitou o aparelho de rádio quando o desligou.

— Markas, diga a todos os swoons para comparecerem dentro de vinte e cinco

minutos com seus pertences na grande praça que fica em frente do auditório. Ras Tschubai e eu começaremos a esvaziar os laboratórios e levaremos os instrumentos e aparelhos à superfície. Não podemos esquecer nada. Vamos ao trabalho. Noir, fique com Markas e Waff, para ajudá-los. Daqui a meia hora, encontrar-nos-emos no auditório. Afinal de contas, uma das finalidades do mesmo consiste justamente em fazer as despedidas dos estudantes que deixam a universidade. É o que acontecerá desta vez. Naquele instante, desapareceu juntamente com Ras Tschubai.

* * *

Cinco minutos depois do momento em que Gucky proferiu aquelas palavras, certo número de oficiais e tripulantes da Drusus tiveram oportunidade de presenciar um misterioso espetáculo.

A gigantesca espaçonave decolou em silêncio do campo de pouso de Swatran, isso

após Rhodan ter suspenso oficialmente o bloqueio, para o que emitiu uma mensagem de rádio. Os saltadores que haviam sido “internados” foram libertados, retornando aos locais de trabalho ou às naves a que pertenciam. A vida voltou ao normal em Swoofon Com exceção de alguns detalhes. As comunicações radiofônicas com a universidade, por exemplo, foram interrompidas. Era a única instituição daquele planeta dividido em várias nações que não

conhecia diferenças de raça ou nacionalidade. Era lá que vivia a elite dos swoons. Ou melhor, vivera lá até trinta minutos atrás, já que tudo correra conforme os planos.

É que nesse meio tempo teve início o magnífico espetáculo.

Na verdade, para os tripulantes da Drusus o espetáculo não tinha nada de misterioso;

quando muito seria espantoso. Gucky e Ras teleportaram com banquetas de trabalho, aparelhos e máquinas complicadas, geradores de todos os tamanhos, armários com

ferramentas especiais e fardos de mercadorias. Tudo isso foi empilhado junto às paredes do hangar, de onde seria retirado oportunamente. Mikel Tompetch, que estava de pé junto à K-33, já totalmente vazia, achava-se boquiaberto. Subitamente Gucky surgiu com um baú metálico de três metros de comprimento e um metro de largura, transportando-o para junto dos demais objetos que já estavam empilhados por ali. Ras Tschubai veio depois com um grande gerador, que continuava preso ao suporte. Gucky voltou a surgir, desta vez com um grande bloco residencial, que tinha uma parede transparente. No interior do bloco Tompetch viu uma completa instalação de cozinha.

O mundo dos swoons começou a reunir-se nos hangares da Drusus. Tompetch, que

não havia sido esclarecido sobre isso, compreendeu tais fatos, mas no que dizia respeito à K-33 ainda se encontrava no escuro. De forma alguma compreendeu o que deveria fazer com a K-33, quase totalmente vazia. Subitamente sentiu que a gravidade usual de 1 G diminuía. Via de regra os campos antigravitacionais da Drusus eram regulados de maneira tal que proporcionavam a gravidade terrana. Fosse qual fosse o lugar em que se encontrava a nave — no espaço livre ou em mundos estranhos — no interior dela não se sentia qualquer modificação da força gravitacional.

E agora a gravidade se alterava sem prévio aviso.

Alguns cadetes, que se encontravam na área fronteiriça do hangar vizinho, quiseram fazer seus gracejos por causa da gravitação de 0,25 G. Atiravam-se para o alto e executavam saltos malucos; com a gravitação normal certamente teriam fraturado alguns ossos. Em outras condições, Mikel Tompetch se teria divertido com o espetáculo, mas agora não via motivo para isso. Pelo menos enquanto ele mesmo tateava na incerteza. Mas este estado não duraria muito. De repente Ras e Gucky materializaram-se pouco acima do solo do hangar, com um verdadeiro “feixe de swoons”. Gucky utilizou a telecinese para fazê-los descer em câmara lenta. Os pequenos seres espalharam-se com uma rapidez espantosa. Embora fosse a primeira vez que se encontravam na Drusus, pareciam saber exatamente o que tinham a fazer e onde ficavam seus alojamentos. Era claro que tanto Tompetch como os outros tripulantes haviam sido informados sobre a vinda dos swoons, motivo por que não se mostraram surpresos. Os cadetes encerraram o “espetáculo desportivo” e foram cuidar dos swoons. Mas subitamente uma verdadeira torrente dos “pepinos” amarelos precipitou-se para o interior da Drusus, e os tripulantes tiveram de correr para conduzi-los aos respectivos lugares, pois do contrário o hangar “transbordaria”. — É a invasão dos pepinos! — disse uma voz junto à porta que dava para o corredor interno. Tompetch levantou os olhos. Constatou que aquelas palavras haviam sido proferidas por Reginald Bell. O lugar-tenente de Rhodan encontrava-se em lugar elevado, em

atitude firme e orgulhosa. Sacudia-se de tanto rir. Ninguém lhe levaria a mal, pois quem apenas olhasse ligeiramente chegaria à conclusão de que a Drusus estava recebendo uma “carga de pepinos”. Subitamente outra pessoa surgiu ao lado de Bell. Era Perry Rhodan.

— Se fosse você, não ria assim — disse em tom sério. — Acho que você está se divertindo com o aspecto dos swoons

— Não é tanto isso, Perry. Mas quando vêm aos montes e caem ao chão que nem

folhas o espetáculo se torna muito esquisito.

— De qualquer modo, sua alegria poderá provocar um incidente. É bem verdade que

tenho de confessar que também eu preciso esforçar-me para continuar sério. Acontece que os swoons são nossos amigos. Sem eles não poderemos fazer em dez anos um

progresso de um século no terreno da microtecnologia. Não se esqueça disso quando tiver vontade de zombar deles. Depois de ligeira pausa acrescentou:

— Aliás, os swoons também sentem vontade de rir quando vêem você. Apenas sua

sensibilidade inata impede-os de procederem assim, isto é, de não darem vazão aos seus sentimentos. Acenou ligeiramente com a cabeça e desapareceu. Bell seguiu-o com os olhos. Parecia perplexo. Quando viu o olhar curioso de Tompetch, preferiu retirar-se também.

* * *

Dali a quatro horas, a operação chegou ao fim. Vinte mil swoons encontravam-se a bordo da Drusus, juntamente com as ferramentas especiais e as melhores máquinas, a fim de procurarem um novo lar no sistema solar. A gigantesca caverna que ficava sob a superfície do planeta Swoofon

estava completamente vazia. A universidade deixara de existir. Rhodan tinha certeza de que dentro de cinco anos os swoons construiriam outra. Mas também tinha certeza de que um acontecimento iminente causaria um atraso de algumas semanas, ou mesmo meses, no início da construção do novo goniômetro. Este acontecimento tinha uma ligação estreita com o estado de incerteza em que se encontrava Mikel Tompetch. Neste meio tempo, essa incerteza já fora removida por Rhodan, que informou o tenente sobre as linhas gerais da operação projetada.

A Drusus decolou e, depois de emitir uma mensagem sem sentido, subiu à

estratosfera de Swoofon. Entrou em órbita depois de atingir a altitude de trezentos

quilômetros. Gucky, que já se encontrava a bordo da K-33, aguardava o momento de entrar em

ação. Desta vez estava só. Se falhasse, a responsabilidade seria exclusivamente sua. Mas não adiantava preocupar-se. O plano combinado com Rhodan havia de dar certo.

Na parte do hangar em que estava estacionada a K-33, não havia nenhum swoon. As

portas, que ligavam esse setor com aqueles em que estavam abrigados esses seres, foram

fechadas. Não havia necessidade de que testemunhassem o acontecimento que se aproximava. Com o corpo um tanto rígido, Gucky estava sentado junto aos controles do girino. Os instrumentos haviam sido quase todos retirados, já que os técnicos tinham

desmontado tudo que tivesse alguma importância. Só o propulsor continuava intacto, e por isso a nave poderia ser colocada numa rota prefixada, mesmo que os instrumentos de navegação estivessem ausentes. Só se poderia recorrer à pilotagem visual; em hipótese alguma seria possível exceder a velocidade da luz. E nem Gucky pretendia fazer isso. Olhando pelo dispositivo visual telescópico, viu a grande escotilha da Drusus abrir- se, deixando livre o caminho que levava ao espaço. O grande momento havia chegado. Ouviu-se um ligeiro estalo junto ao seu pulso. — Então, baixinho? — disse a voz de Bell, que comandava a ação na sala de comando da Drusus. — Está pronto?

— Já estou pronto há muito tempo, gorducho. Por mim podemos começar. Depois de uma ligeira pausa a voz voltou a ser ouvida:

— Decolagem dentro de dez segundos. Siga a rota combinada. Mantenha a aceleração constante de 1 G. Faltam cinco segundos

”, Gucky empurrou o acelerador

para a frente. O girino levantou-se do solo do hangar, passou entre os campos magnéticos

e saiu pela escotilha, precipitando-se espaço afora. Gucky olhou para a tela. A Drusus recuava rapidamente, mas depois de algum tempo descreveu uma curva elegante, como se quisesse alcançar o girino. Ao mesmo tempo, na sala de rádio, David Stern expediu a seguinte mensagem, que foi captada por todas as estações dos saltadores existentes em Swoofon:

No momento em que Bell disse “um segundo

Atenção! Criminoso foragido conseguiu fugir numa nave auxiliar de formato esférico! Advertimos todos para que não lhe prestem qualquer auxílio! A nave auxiliar está armada! Perry Rhodan.

Esta mensagem preencheu duas finalidades distintas. Em primeiro lugar, os habitantes de Swoofon haveriam de supor que a ação de Árcon, comandada por Rhodan,

fora bem sucedida. Este truque servia para distrair suas atenções. Além disso, encontrariam uma explicação para a catástrofe que se verificaria dali a pouco, sem refletir desnecessariamente sobre o motivo dos acontecimentos ou a finalidade de quem praticava o ato. Evidente que nem poderiam ver qualquer motivo ou finalidade naquilo. E, por fim, o desaparecimento de vinte mil swoons seria camuflado. Gucky sorriu ao captar a mensagem em seu pequenino rádio. Modificou ligeiramente a rota da nave que estava dirigindo, fez com que penetrasse nas camadas mais densas da atmosfera e reduziu a velocidade. A K-33 foi pouco atingida pela gravitação de Swoofon.

— Atenção! — disse a voz de Bell, vinda do rádio. — Falta metade do contorno do planeta para chegarmos ao destino. A Drusus mantinha-se menos de cinqüenta quilômetros atrás de Gucky. As

mensagens foram transmitidas com uma potência tão reduzida que só Gucky poderia captá-las. Não havia o menor perigo de que qualquer pessoa que não possuísse o tipo especial de receptor pudesse acompanhar a palestra.

— Descreva o objetivo; não tenho nenhum mapa.

— Não se preocupe, baixinho; cuidaremos disso. Mais alguns minutos passaram-se.

Gucky aproximava-se de Swoofon, na nave aparentemente descontrolada. O veículo espacial ia perdendo altura; parecia incapaz de voltar a subir. Alguns disparos energéticos da Drusus, que passaram rente ao girino, deram prova de que não havia a menor intenção de permitir que o criminoso escapasse. Bell transmitiu os últimos dados em tom indiferente:

— No horizonte estão surgindo algumas montanhas, Gucky. Antes delas existe uma

planície com algumas rochas pontudas esparsas. A do meio é a maior; à direita existem duas montanhas alongadas. Já viu?

— A rocha central está bem à minha frente — confirmou o rato-castor. — Qual é o lugar? Só disponho de 18 segundos.

— Antes da rocha há um vale arredondado. É fácil reconhecê-lo. Parece um lago — Dirija a K-33 para lá. Agora!

seco

— Reconheci o lugar.

Gucky fitou a tela. Aproximou-se vertiginosamente do vale redondo. O girino estava

seguindo um rumo de colisão. Aumentou a velocidade e desceu quase verticalmente sobre o vale, que nem um meteoro. Ainda se encontrava a vinte quilômetros de altura.

A Drusus mantinha-se lá em cima, e nem se deu ao trabalho de seguir a nave que

caía. Qualquer pessoa que observasse o espetáculo chegaria à conclusão de que os controles da pequena nave haviam sido bloqueados por meio de um dispositivo de teledireção, motivo por que teria de cair irremediavelmente. Faltavam dez quilômetros! Gucky começou a “transpirar”, mas prosseguiu obstinadamente. Já tirara as mãos dos controles. A rota era exata e não havia necessidade de corrigi-la. O que estaria

esperando? Se continuasse ali, fatalmente cairia ao chão juntamente com o girino e se desmancharia nos seus componentes atômicos.

A ponta da rocha encontrava-se na mesma altura da nave. Lá embaixo o vale se

abria, como se quisesse acolher a nave que caía. E era exatamente o que iria acontecer.

Gucky concentrou-se em Bell, que se encontrava na sala de comando da Drusus, fechou os olhos, sentiu um calafrio e saltou. Não poderia ter esperado nem mais um segundo.

O girino penetrou no solo rochoso como se fosse um meteoro, abriu um buraco de

vinte ou trinta metros e detonou. Surgiu um gigantesco buraco na superfície de Swoofon. Com uma lentidão apavorante formou-se uma muralha, empurrada pelo volume da nave; até parecia que a rocha se transformara numa massa viscosa. Dali a mais alguns segundos, houve a erupção, que atirou as rochas incandescentes e as pedras liquefeitas a vários quilômetros de altura. O cogumelo atômico começou a subir ao céu e espalhou-se ameaçadoramente. Bell, que não tirara os olhos do espetáculo horrendo, não deu a menor atenção a Gucky, que se materializou em seu colo e também acompanhava os acontecimentos. Rhodan encontrava-se perto dali; cerrara os lábios. Havia uma indagação que lhe passava pela mente: teria agido corretamente, como uma criatura responsável? Sob o ponto de vista do planeta Terra, a resposta só poderia ser afirmativa. E sob o ponto de vista do Império? Livrou-se das reflexões. A longo prazo, a ação desenvolvida em Swoofon reverteria em benefício comum da Terra e de Árcon. Sob uma perspectiva mais ampla, a missão representava um passo à frente. Para todos, não só para a Terra.

Crest estava ao lado de Rhodan. Também parecia pensativo, mas o bloqueio de sua mente impedia que qualquer pessoa lesse seus pensamentos. Como já acontecera tantas vezes, estes continuariam a ser um segredo. Com Atlan, as coisas foram diferentes. O imortal estava sentado numa poltrona e contemplava o cogumelo com um sorriso frio. Ele, que já vivera tanto, sabia perfeitamente que os grandes objetivos não podem ser atingidos exclusivamente por meio

de atos que à primeira vista parecem ser elogiáveis. Sabia que muitas vezes o justo deve recorrer ao mal a fim de alcançar a vitória do bem. E a essa hora já estava convencido de que Rhodan pretendia o bem, e não só o bem da Terra! Lá embaixo, a lava incandescente borbulhava no interior da cratera. Seu diâmetro quase chegava a um quilômetro, e a profundidade devia ser de cerca de cinqüenta metros. Qualquer swoon ou saltador teria certeza de que a universidade situada naquele lugar, embaixo da superfície, deixara de existir. A reação nuclear do hiper-propulsor destruíra tudo, já que a nave detonara com o acelerador ligado. Vinte mil swoons, que representavam a elite das várias nações dessa raça, haviam perecido na catástrofe, pela qual era responsável um criminoso desconhecido. Era só esta a conclusão a que poderiam chegar. Rhodan parecia despertar de um sonho. Dirigiu-se à sala de rádio. Seus movimentos quase chegavam a ser pesados. As mensagens captadas convenceram-no de que suas suposições foram corretas. Dali a dois minutos, fez um sinal para Stern.

— Desligue, Stern. Já podemos partir. Ligue a recepção do hipercomunicador. Voltou à sala de comando.

Crest aproximou-se e colocou a mão sobre seu ombro.

— Isto foi necessário, Perry. Não se esqueça de que ninguém saiu ferido. E nem um único swoon morreu.

— Acontece que lá embaixo acreditam que vinte mil pereceram. Qual é a diferença?

A população do planeta tem certeza de que sua elite morreu. Para eles os vinte mil indivíduos estão mortos.

— A diferença — disse Crest, falando pausadamente e em tom enfático — está nos

hangares, onde os swoons já começaram a montar as máquinas, sob a direção de Markas.

Rhodan fitou Crest. De repente, um sorriso se espalhou por seu rosto. As rugas de sua testa se desfizeram. — Enganamos não apenas os saltadores que se encontram em Swoofon. Até conseguimos tapear o robô regente que nos armou uma cilada. Enquanto estiver

convencido de que dispõe de um goniômetro que lhe permitirá descobrir a posição da Terra, nos deixará em paz. E precisamos de paz, pois a hora da decisão se aproxima. Acho que sabe o que quero dizer, Crest.

— Sei; são os invisíveis vindos de outra dimensão temporal. Saberemos lidar com

eles, Perry Rhodan. Mesmo que pareçam ser atemporais e eternos, em suas dimensões são tão mortais como os seres visíveis o são em nossa dimensão. Nunca devemos esquecer este detalhe. Rhodan fez um gesto afirmativo.

— Esta circunstância serve de base aos nossos planos, Crest.

Sikermann transmitiu suas instruções. O planeta Swoofon foi recuando e diminuiu rapidamente, quando a Drusus acelerou, aproximando-se do ponto de transição. A Terra não estava longe, pois o que contava não era a distância, mas o tempo. Gucky tirou os olhos da tela e saiu do colo de Bell.

Bell fitou-o com uma expressão de perplexidade.

— Como é? — perguntou em tom de espanto. — Você vive me jogando para o alto,

mas adora saltar para meu colo.

— Porque você é gordo e parece um colchão — disse o rato-castor em tom generoso

e dirigiu-se à porta. — Se alguém me procurar, estarei

— Já sei — disse Bell em tom de desprezo. — Você estará com os pepinos. Divirta-

se.

Ao que parecia sentiu-se ofendido porque deixara de desempenhar o papel principal na vida de Gucky. Este voltou-se na porta.

— Bell, sou seu amigo e por isso quero preveni-lo. Pedi a Markas que construísse

um vibrador. O mesmo tem um receptor de impulsos e não é maior que um grão de areia. Um dia você o engolirá com um pedaço de carne. E toda vez que você tiver um pensamento menos agradável em relação aos swoons, apertarei um botãozinho. Nem queira saber como serão “as dores de cabeça” que sentirá. Bell empalideceu, mas conseguiu controlar-se.

— E eu — anunciou em tom tranqüilo — tomarei um purgante, e com isso sua

tecnologia sofisticada — Você está aprendendo belas palavras — disse Gucky, sacudindo a cabeça e fechando a porta do lado de fora. Ouviram-no murmurar baixinho, enquanto se afastava apressadamente sobre os pés chatos. As palavras que Bell deixara de pronunciar, mas que conseguira captar por via telepática, deviam tê-lo abalado profundamente.

* * * * *

*

Terra continua

desconhecida. E, mais uma vez, o computador de

Árcon foi ludibriado!

próximo

volume, mais uma empresa arriscada será tentada

A

Em

posição

A

galáctica

do

da

Prisão

Tempo,

título

do