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Darío Portela Núnez

Cristalizações

A Bettencourt Rodrigues, meu amigo.

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,


Vibra uma imensa claridade crua.
De cócaras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.
Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto Sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como um chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.
Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos, com parreiras.
Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.
Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros , baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos. Voam-lhe [sic] estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.
A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes
Que ferem lume sobre pederneiras.
E neste rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás...
Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente!
Carros de mão que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!
Negrejam os quintais; enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto que eu diria
Ter ante mim lágoas de brilhantes!
E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto,
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!
Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.
Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.
Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custisa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.
Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!
De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desmboca,
Toda abafada num casaco à russa.
Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite, na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.
E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!
Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!
Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na, sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinas de tacões agudos.
Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!
Lisboa, Inverno de 1878

No primeiro que devemos reparar e no título do poema e na metáfora que evoca. “Cristalizações”
são os quadros exatos do quotidiano que a voz poética nos vai mostrar. Estampas realistas que retem
no espaço-tempo do discurso para que as podamos contemplar. Sem dúvida os versos de Cesário
Verde constituem um sugestivo testemunho da sua época.

Este poema atopamo-lo em O livro de Cesáreo Verde inserido no apartado de “Naturais”. A divisão
da obra nesta secção e mais na de “Crise Romanesca” não responde, há que o deixar claro, à
vontade do próprio autor, senão que mais bem ao quefazer do seu colega e prefacista Silva Pinto
que, com a angueira de satisfazer a sua tese, procurara uma estruturação coerente. Disto dá-nos
conta António Capão na edição da obra realizada pela Livraria Estante em 1987.

A composição tem um marcado acento social. Há um desejo de refletir grupos humanos, as suas
ações. Mas, como demostra este poema, sobressai um preferente do quotidiano referido às vidas das
masas trabalhadoras e desfavorecidas. Contudo há um elemento que rompe com esta concatenação
de representações de indivíduos da vida diária a trabalhar. E uma rapariga que, majestática,
interpõe-se à vista dos operários para representar o seu “papel”.

D`escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,


Surge um perfil direito que se aguça:
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à rusa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento


E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

Para ajudar nesta situação de confronto, a voz poética semelha brincar com as ações da moça e
pinta-a como actriz “sobre as botinhas de tacões agudos” que no caminho há. Afinal, a burla é total
quando animaliza, e mesmo sataniza (segue a brincar), o caminhar da ostentosa rapariga.

Porém, desempenhando, o seu papel na peça,


Sem que inda o público passagem abra,
O demonico, arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com os seus pezinhos rápidos, de cabra!

O poema deixa ver desde o começo, supomos que para contextualizar e dotar de realismo, e faz
patente mesmo a situação climática e a sua mudabilidade (“Faz frio. Mas depois duns dias de
aguaceiros”, “Bom tempo...”), atreve-se a evocar a estação (“E nesse rude mês, que não consente as
flores”) quando não dá precisões sobre o próprio mês (“Neste dezembro enérgico, sucinto”). Assim
consegue, também, enfatizar a situação de dureza à que se tem de enfrontar o povo trabalhador. E
uma visão atroz, tal qual é, essa quotidianidade. Semelha que gosta de particularizar e definir, até as
últimas consequências, essa realidade. Isto é, não apenas se solidariza com estas descrições com os
párias (como também em poética da Galiza fazia Curros Enrríquez) senão que também os glorifica
e admira (“Eu julgo-me do Norte, ao frio – o grande gente! -”) e os retrata com sinuosa perfeição e
precisão tanto a eles próprios, os roupagens (“barretes”, “japonas”, “coletes”) ou os seus labores:
“A sua barba agreste”, “A lã do seus barretes!”, “Homens de carga! Assim as bestas vão
curvadas!”, “Cuja coluna nunca se endireita,”...

Damos com uma imagem muito impactante que é quando, não podendo passar os viandantes pelo
caminho estar em obras, os trabalhadores olham “duramente” as peripécias da rapariga que se
propõe passar por ali. Eles, no seu papel de machos, aqui também aparecem animalizados
(“bovinos”) fazendo ostentosidade mais uma vez, Cesáreo Verde, do seu recorrente humorismo.
Podemos dizer que estamos ante o momento clímax da composição pois a voz poética racha com o
descritivismo referido a quotidianidade dos desfavorecidos para contrapor dois jeitos de vê-lo
mundo. Representará a rapariga da “figura fina”, da “botinhas de tacões agudos” e do “casaco à
rusa” esse mundo urbano burguês que C.Verde acostuma confrontar com o rural dos
desfavorecidos? Esta altiveza da dama amossando-se mesmo distante com um ar aristocrático
atopamo-la noutras suas composições, refletindo outros quadros. É o caso da Milady que se nos
mostra inalcançável nos “Deslumbramentos”, o primeiro dos poemas da Crise Romanesca.

Mylady é perigoso contemplá-la


Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Tal vez a raiz desta inacessibilidade haja que a procurar na realidade biográfica do poeta. Sabe-se
que C. Verde não tinha sido feliz no amor. Em um determinado momento da sua vida apaixona-se
pela actriz Tomásia Veloso, mas não é correspondido. O amante da vedeta, Oliveira Grosso, um
atleta muito falado, sabedor e ciumento das pretensões de Cesário, que chega a desafiá-lo com
ostensiva provocação, desanca-o por duas vezes sem dó nem piedade. Poda que aqui atopemos á
resposta a essa demonização da actriz do poema, não tanto em tom vingativo senão tal vez também,
como perverso e atraente, como o é para os trabalhadores que “bovinos” a observam1

Insistir-ei nos quadros do quotidiano, e nas expressões sumamente realistas que lhes dão contorno a
estas cenas. Debuxa assim uma ambientação com muito movimento, necessário aqui para vencer o
frio (“Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,/Disseminada, gritam as peixeiras”,
“Atiram terra com largas pás”, “Partem penedos; cruzam-se estilhaços”). Leva-nos a uma visão
transfigurada da realidade para torna-la mais real, assunto este que nos explica muito bem Maria
Ema Tarracha Ferreira:

“[...] Pelo contrário, o autêntico Cesário, aquele que todos hoje recordamos, não fantasia, evoca raramente e, quando
imagina, recria a realidade, transfigurando-a para a tornar mais real; por outras palavras, a transfiguração da
realidade não é um pretexto para fugir ao concreto, mas o único processo de captar a essência da própria
representação do real. Por isso, Cesário, o poeta-pintor (<<pinto quadros por letras, sinais>>), aquele que foi
simultaneamente considerado um realista e um parnasiano, é também reivindicado pelos Surrealistas como seu
antecessor, como já se referiu, pois foi o primeiro a tentar deliberadamente traduzir nos seus versos <<certo espírito
secreto>>, corrigindo, assim, pela visão transfiguradora, a objectividade de naturalista, e reconstituindo, por meio de
imagens e de analogias audaciosas, que dão um sentido profundo ao mundo concreto, uma super-realidade.[...]” (M.
Ema Tacha Ferreira em Cesáreo Verde, 1999: 28)

1O livro de Cesário Verde: 1873-1886/ Posfácio e fixação por António Barahona. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
(pág.179)
O cromatismo cumpre, também, a sua função no poema já que como indica Capão (pág. XV) “a cor
está presente no poema nas poças de água, como chão vidrento que reflectem a molhada casaria;
em ferem lume, em as cores são sobrias, negrejam os quintai, os charcos são lagoas de brilhantes,
camisas com listrões de vinho”.

É um feito muito destacável o do som que traspassa, bem nítido, através do ritmo das estrofes e
perpetua-se na paisagem e no ar lavado que envolve.

E o ferro e a pedra – que união sonora!-


Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

A voz poética consegue mostrar-nos neste poema um Cesáreo Verde conhecedor das tarefas rurais
que as evoca agudizando os seus sentidos2 (“Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;/Sabe-me a
campo, a lenha, a agricultura.”). A expressividade e precisão que demostra só pode ter sido
alcançada por um homem que conheceu de visu e de fatu esse tipo de lavouras. Lembre-mos, nesse
mesmo sentido, que a família de Cesáreo Verde (e ele próprio) possuíam um estabelecimento
comercial de ferragens e alternavam estas atividades com os trabalhos agrícolas numa propriedade
que lhes pertencia em Linda-a-Pastora.

“[...] Cesário Verde debate-se entre dois mundos, num conflito absurdo que talvez explique a originalidade da sua
poesia. Marcado precocemente por uma irreprimível vocação poética, sonhador e imaginativo por índole, Cesário deve
ter sido compelido, desde criança, a refrear as suas tendências e aspirações, e a profissão fez dele um homem prático,
positivo, observador atento dos pormenores concretos do meio ambiente: <<A mim o que me rodeia é o que me
preocupa>>, confessa numa carta, acrescentando: <<Eu sou frio, pausado, calculista como todas as organizações
criadas neste meio comercial>>. [...]” (M. Ema Tacha Ferreira em Cesáreo Verde, 1999: 9)

Há construções descritivas que ficam muito bem evocadas. Referímo-nos, por exemplo, a estrofe
que se refere o conjunto de árvores sem folhagem e que semelham os mastros duma esquadra de
navios. Tudo para adubiar, neste caso, a cena onde se atopam os “valadores” trabalhando com as
pás.

Formalmente temos que dizer que o poema compõe-se de vinte estrofes de cinco versos cada uma,
com o esquema rimático Abaab, sendo o primeiro verso alexandrino e os outros quatro
decassilábicos. Esta introdução às quintilhas, transmite a toda a composição um ritmo especial que
ora se concilia com a situação no tempo e com as respectivas condições climáticas ora se quebra em
frases exclamativas que introduzem aspectos particulares dos trabalhadores do povo.3

Acabamos de ver uma peça da obra dum autor incompreendido na altura da sua vida nem tão se
quer, com plenitude, pelo seu amigo, autor do prefácio e editor, Silva Pinto. Não paga a pena
mencionar a fundo o desprezo ao que foi submetido, sendo tratado mesmo de imaturo, por
personagens consagrados do momento (T Braga) e mesmo a cair baixo a grra implacável duma das
Farpas de Ramalho Ortigão como nos põe sobre aviso António Capão. Por sorte o tempo, a crítica
madura e a historia da literatura dariam-lhe a razão e colocariam a Verde no lugar que lhe
corresponde: ao lado dos mais grandes dos sistema cultural português.

2“ Porém, a fixação das sensações do olfacto, do movimento, da vista, surgem com frequência noutros poemas e em
situações diferentes, em acções da vida real semelhantes àquelas a que podemos assistir todos os dias; mais do que
simples aguarelas, tais pinturas entram-nos pelos olhos dentro com a desenvoltura do relevo que uma adjectivação
maleável, dúctil, e comparações inusitadas tornam muito mis expresiva.” (“Considerações introdutórias à vida e à obra
de Cesáreo Verde”, A. Capão em O livro de Cesáreo verde,1987)
3 O livro de Cesário Verde/ Texto integral e estudo da obra [por António Capão). Aveiro: Livraria Estante, 1987.
(pág.XIV)
Para este exercício fomo-nos servir dos seguintes exemplares:

O livro de Cesário Verde/Texto integral e estudo da obra [por António Capão). Averio: Livraria
Estante, 1987.

O livro de Cesário Verde: 1873-1886/Posfácio e fixação por António Barahona. Lisboa: Assírio &
Alvim, 2004.

O livro de Cesário Verde/ Introdução por Maria Ema Tarracha Ferreira. Editora Ulisseia, 1999.

O livro de Cesário Verde. Lisboa: seguido de algumas poesias dispersas. Edição revista por Cabral
do Nascimento. Lisboa: Minerva.