Capítulo 2 – Surpresas à parte.

Era uma típica terça-feira, o céu ainda estava escuro quando minha mãe bateu na
porta do quarto me acordando para que me levantasse e me arrumasse para o
primeiro dia no colégio novo. Remexi-me na cama e olhei para o relógio que
marcava seis e meia da manhã.

—Filha? – coloquei o travesseiro sobre a cabeça. - Vicktoria?

Dormir até mais tarde. Era pedir muito?

—Já acordei. - disse me dando por vencida, sabia que ela não iria embora enquanto
não tivesse certeza absoluta de que eu estava acordada.
—Se apresse querida, temos uma surpresa. - ela respondeu empolgada.

Não me contive de curiosidade e logo já estava vasculhando as emoções da minha
mãe, pude sentir uma expectativa estranha e um pouco de curiosidade. O que ela
estava tramando?

Levantei da cama me espreguiçando e colocando os pés no chão gelado sentindo
um arrepio por todo o corpo, segui me arrastando até o banheiro com os olhos
ainda fechados, tomei um banho na água gelada para ver se despertava, mas não
funcionou muito bem, escovei os dentes e soltei meu cabelo levemente
despenteado, que me deixava com um ar de desleixada, o que não era mentira,
pouco me importava minha aparência - ainda hoje não me importo muito. Vesti
uma calça jeans desfiada, uma blusa preta manga longa justa, um coturno e por
ultimo uma jaqueta jeans de lavagem clara. Ao terminar peguei minha mochila e
desci as escadas, andei até a cozinha analisando a decoração da casa até ver a linda
mesa de café da manhã que Chales havia feito, já havia mencionado o fato de que
ele era um ótimo cozinheiro?

—É por se vestir assim que nunca teve namorado. - Erick disse passando por mim
correndo e se sentando à mesa, bem no lugar em que pretendia me sentar.
—Não começa. – levantei o punho fechado. - Você sabe que não ganha muito me
irritando. - sorri.
—Bom dia! - Chales sentou-se à mesa também.
—Bom dia. - Mamãe, Erick e eu respondemos em uníssono.

Me dirigi até o outro lado da mesa e me sentei na única cadeira vaga, apoiei meus
cotovelos e fiquei encarando minha marca de nascença. Muitos poderiam dizer que
era uma tatuagem, pois essa marca era exatamente no formato de uma rosa
branca, as pétalas e o caule com seus espinhos tomavam conta de boa parte do meu
pulso, mas não, eu realmente nasci com ela, admito, sou com certeza muito
esquisita e era muito estranho o fato de nos últimos dias a região onde a rosa
ficava estar queimando.

—Não vai comer querida? - mamãe indagou.

A palavra "comer" instantaneamente me levou de volta ao lote vago do outro lado
da rua. Aquele garoto, será que ele estava bem? E se estava, como havia se
recuperado tão rapidamente? Será que morava por perto?

Quando percebi mamãe, Erick e Charles estavam esperando uma resposta minha.

—Estou sem fome. – meu estômago embrulhou, não era maldade, Chales cozinhava
muito bem, eu sempre adorei o cardápio variado que ele servia durante a semana,
mas naquele momento eu não sentia a mínima vontade de comer “comida
humana”. - Você disse que tinha uma surpresa para mim? – sorri tomando um
pouco de suco para disfarçar.

Nesse momento Chales e mamãe se encararam e sorriram, eu pude sentir sem
fazer nenhum esforço a expectativa dos dois, naquele momento desejei tanto que
tivesse a capacidade de ler mentes, odiava surpresas, era curiosa demais, minha
ansiedade acabava comigo – isso não mudou muito até hoje.

—Bom, fala você querido. - mamãe olhou para Chales não escondendo sua alegria.
—Vick, você sabe que eu te considero como minha filha e não faço diferença entre
você e seu irmão. - ele se levantou. - Mesmo seu aniversário sendo semana que
vem, decidimos dar seu presente adiantado.
—Presente? - um sorriso enorme surgiu em meu rosto.

Se existe uma coisa que me deixa mais feliz do que a sensação liberdade são
presentes.

Mamãe se levantou e veio caminhando até mim saltitante tampou os meus olhos e
me guiou até a garagem, não entendi o porquê de tanto suspense, se ela estava me
levando para garagem era óbvio que só poderia haver uma coisa lá.

—Parabéns querida! – ela retirou as mãos dos meus olhos liberando minha visão.

Um modelo antigo, porém bem conservado de um Honda Accord preto estava
estacionado na garagem, não era o carro mais bonito e desejado do mundo, mas
era meu, meu carro. Lembro muito bem de que nesse momento belisquei meu
braço para ver se estava sonhando, não me contive e quando percebi já havia me
lançado nos braços da minha mãe e do meu padrasto.

—Um carro? - cantarolei. - É meu? – não conseguia esconder minha empolgação.
—Eu disse que esse meu novo emprego não era de se recusar. - Chales sorriu.
—Quer estrear o novo carro? - mamãe perguntou. - Pode ir para escola com ele.
—Mãe eu não tenho nem idade, nem carteira de motorista ainda. – me senti
desapontada.
—Querida, aqui é uma cidade calma de interior, não tem problema, a escola não é
muito longe, já programamos o GPS no painel do carro.
—Se você está dizendo! - dei de ombros. - Onde está a chave?

Nesse momento Chales jogou um objeto prateado em minha direção que no reflexo
o peguei no ar constatando que era a chave do carro. Rapidamente dei a volta no
mesmo, desativei o alarme e entrei, o cheiro de couro dos bancos me deixou mais
calma, não demorou muito ouvi a porta do carona se abrindo e mamãe se sentou
ao meu lado.

—Nossa, eu nem acredito! - liguei a ignição e pisei levemente no acelerador para
ouvir o motor do carro.
—Eu que não acredito que você pulou pela sacada em plenas duas da manhã. – ela
respondeu sorrindo para disfarçar já que Chales estava do lado de fora nos
observando. - Disse para não fazer nada do que pudesse se arrepender, nós
acabamos de nos mudar, achei que tinha parado com isso.

Mas nesse ponto ela estava enganada, eu não estava tão arrependida assim, talvez
só um pouco, mas não do jeito que ela estava pensando, porém não era hora de
corrigi-la.

—Não pode me culpar por isso, você sabe o que eu sou, sexta é meu aniversário de
dezesseis anos, o que acha que vai acontecer? – perguntei fingindo que estava
olhando alguma coisa no porta-luvas.
—Sei que sua transformação completa vai acontecer e sei que é da sua natureza
querida, mas quando te vi pulando pela janela atrás daqueles garotos... - ela
abaixou a cabeça. - Me lembrei do seu pai, não quero que acabe como ele.
—Mãe, eu não vou morrer. - sorri. - Sou esperta. - a cutuquei com o cotovelo. - E
tenho um carro. - gargalhei.
—Não é engraçado Vicktoria. - ela não evitou rir também. - E é bom não exagerar
na velocidade.
—Vou tentar conter meu instinto nato de corredora de fórmula 1. - sorri colocando
meus óculos escuros e olhando no retrovisor central.
—Ok. - suspirou. - Depois nós conversamos sobre isso, vá logo para escola ou irá
chegar atrasada. – ela passou a mão no meu cabelo. - Ahh, pode deixar seu irmão
no colégio dele? Tá no GPS também. - sorriu.

Estava empolgada e encrencada demais para recusar um pedido da minha mãe,
então aceitei sem discutir, a emoção de poder dirigir sem aquele barulho de
trânsito infernal, buzinas, pessoas gritando, movimento para todos os lados era
ótima, sempre gostei de dirigir, mas era raro já que Nova York era muito
movimentada e não havia como treinar.

—Fiquei com medo de você atacar meu pai ontem. - Erick disse quebrando o
silêncio dentro do carro. - Foi muito estranha aquela cena toda, será que não seria
melhor contar logo para ele o que você é?
—É parece uma boa, ai no outro dia ele aparece morto com a boca cheia de
formigas, porque sabia demais. - olhei para ele e sorri irônica - Erick é proibido
humanos saberem sobre nós, você só sabe por que cresceu comigo e descobriu.
—Ok, entendi, má ideia. - ele disse levantando as mãos em forma de rendição. - O
que vai acontecer quando se transformar completamente? Não vai poder sair
durante o dia?
—Não. - freei o carro, havia chegado à porta do colégio que constava o endereço no
GPS. - É por isso que preciso encontrar um feiticeiro disposto a fazer um feitiço de
selamento para mim.
—Feitiço de selamento? – repetiu confuso.
—É, selar a luz do sol, assim ela não teria efeito em mim. – senti uma leve dor de
cabeça ao me lembrar desse fato. – Chegamos, tire esses seus tênis imundos de
dentro do meu carro novo.
—Está se achando só porque ganhou um carro. - ele disse fechando a porta do
passageiro - Vai me buscar na volta?
—Estarei muito ocupada me achando com meu carro novo. - disse pela janela já
pisando no acelerador.

Segui dirigindo pelas ruas calmas e quase sem movimento nenhum, a escola não
ficava muito longe do colégio do Erick, assim que cheguei estacionei em uma vaga,
todos me olhavam, na hora eu não sabia se era por causa do carro ou pelo jeito que
estava vestida, qualquer um que me olhasse imaginaria que eu era uma perdida
sem salvação. Mas presumi que era por causa do carro, ao lado do meu havia um
Camaro preto e uma Maserati cinza, e outros carros muito bonitos que eu não
conhecia, meu forte nunca foi carros, mas pareciam ser bem caros, apesar de ser
uma cidade de interior era considerada de classe média alta para cima. Desci do
meu humilde carro novo jogando a mochila nas costas, ignorando todos os olhares
curiosos que estavam sendo lançados sobre mim e segui escola adentro, até
encontrar a secretaria.

—Presumo que seja a sra. Mason. - uma mulher loira e magra, na faixa dos
quarenta anos disse atrás de uma mesa cheia de papéis e um telefone que não
parava de tocar, retirou os óculos de grau e sorriu azeda.
—Sim, sou eu. – afirmei positivamente com a cabeça.
—Estava a sua espera, entre. - apontou para uma cadeira a frente de sua mesa -
Sou a diretora desse colégio, pode me chamar de sra. Kate.
—Oi, sou Vick. - joguei minha mochila no chão e me sentei na cadeira, comecei a
girar de um lado para o outro, sempre gostei de cadeiras giratórias. - Onde é minha
sala de aula? - ela me olhou como se eu fosse um macaco de circo.
—Poderia parar com isso, por favor? - parei imediatamente e levantei meus óculos
para encará-la.
—Claro. - sorri sarcástica. - Que falta de educação a minha, desculpe meus maus
modos, sra. Kate. - pisquei duas vezes e cruzei minhas pernas. - Deve ser difícil
administrar uma escola dessa categoria com a sua idade não é mesmo?
—Desculpe, mas quantos anos acha que tenho? - ela pareceu se ofender.

Ótimo.

—Mas então, ouvi o sinal tocando a quinze minutos, não seria melhor me levar
para minha sala? Ou me dizer onde é, porque talvez você esteja muito cansada para
me levar até lá. - sorri. - Não quero atrapalhar você.

Ela respirou fundo e encarou o telefone que havia começado a tocar mais uma vez.

—Primeiro tem que saber que nossas aulas já começaram a pouco mais de uma
semana, então terá que pedir os conteúdos perdidos á um de seus colegas.

Me esforcei para não ser rude com ela - não mais do que já estava sendo - pessoas
me tratarem como se eu fosse uma criança me irritava profundamente. Depois de a
diretora dar todos os recados possíveis e totalmente desnecessários, decidiu me
acompanhar até minha turma.

—Bom, Vicktoria, essa é sua turma, segundo ano “B”. - ela apontou para a sala de
aula. - Deixe-me te apresentar.
—Cuidado com o degrau. - sorri apontando para a pequena elevação na entrada.
—Eu já havia visto. - ela arrumou a gola da camisa social que usava para disfarçar,
e não, ela não tinha visto.

A diretora entrou na sala com uma das mãos no meu ombro, o professor estava
fazendo a chamada.

—Com licença professor, eu gostaria de apresentar uma nova aluna.
—Fique a vontade. - o professor respondeu.
—Bom turma, essa é Vicktoria Manson que veio transferida de Nova York, espero
que possam colaborar com a nova colega a ajudando nos conteúdos perdidos...

Enquanto a diretora falava a única coisa que consegui prestar atenção era no
garoto sentado no fundo da sala, seu cabelo loiro despenteado, seus olhos verdes e
a expressão cansada, mas não foi o fato de ele ser extremamente bonito que me
chamou atenção, na verdade eu olhava fixamente para o pescoço dele, havia duas
marcas de presas ali, as minhas presas, esse era o garoto que eu havia atacado
durante a madrugada, ele estava bem, não parecia ter sido atacado por um
vampiro, mas como? Isso é humanamente impossível. Não sei bem se foi o choque
de tê-lo visto ali, ou pelo fato de que ele percebeu que eu estava olhando fixamente
para ele, mas naquele instante eu travei.

—Vicktoria! - a diretora estralou os dedos na frente do meu rosto chamando minha
atenção. - Alguma coisa a acrescentar?
—Prefiro que me chamem de Vick. – sorri tentando retomar meu estado normal.
—Garota esquisita. - ouvi uma garota loira sussurrar com as amigas provocando
risos.
—Essa é só uma das minhas qualidades. – sussurrei somente para ela ouvir.

O único lugar vago em toda a sala de aula era atrás do garoto loiro, só podia ser
castigo. Andei até lá tentando demonstrar indiferença ao reparar mais uma vez nas
marcas em seu pescoço. Ele estava visivelmente cansado, mas levando em conta o
fato de que eu havia tomado uma boa quantidade de seu sangue àquilo era o
esperado, ele ficaria indisposto por alguns dias, só que vindo desse garoto ele
parecia poder se recuperar em algumas poucas horas.

Meu coração disparou quando ele se virou para trás, aproveitando que o professor
conversava algo com a diretora e sorriu.

—É serio que você veio de Nova York?
—É. – sorri. – Por quê? – de alguma maneira eu estava sempre na defensiva, é um
probleminha que até hoje venho tentando melhorar.
—Sempre quis conhecer. – ele deu de ombros.
—Não está perdendo muita coisa, muito barulho, muito movimento.
—Hum, meu nome é David. - ele sorriu, e eu pensei como havia tido a capacidade
fazer uma coisa tão horrível com esse garoto.
—Como a diretora disse me chamo Vicktoria, mas pode me chamar de Vick.
—Realmente Vick é muito melhor que Vicktoria.
—Mal me conhece e já está fazendo piadas com meu nome? – sorri.
—Desculpe, mas eu tenho a sensação de já te conhecer.

Ops.

—Acho que não. – olhei para o lado. – Deve ser porque eu tenho uma fisionomia
muito comum.
—Não, é algo diferente, como se de alguma maneira eu já te conhecesse.

Naquele momento senti que precisava mudar de assunto rapidamente.

—Desculpe a intromissão, mas o que é isso no seu pescoço? – apontei, precisava
saber se ele realmente não se lembrava de nada.
—Não foi obra de nenhuma garota se é o que você está pensando. – ele sorriu. – Eu
não sou esse tipo de cara.

É claro que foi obra de uma garota, eu sou uma garota e eu havia deixado aquelas
marcas ali. Isso só queria dizer que ele não se lembrava de nada, meu coração
voltou a bater normalmente.

—Sei. – sorri. – Vou te dar um tempo para inventar uma história.
—Não, não pense isso de mim. – ele olhou para trás e conferiu que o professor
ainda conversava com a diretora. – Pode parecer mentira, mas não faço a mínima
ideia de como essa marca surgiu aqui. Olhando bem realmente parece uma
mordida, mas eu acordei no meio deu um lote vago e esta marca estava aqui. –ele
passou a mão no local. - Será que fui atacado por alguma criatura?
—Criatura? - arqueei a sobrancelha e sorri, ele estava me chamando de criatura? -
Você deve ter batido forte com a cabeça, isso sim.
—Tudo bem eu confesso que extrapolei um pouco em uma festa ontem anoite. –
ele gargalhou. - Mas não sou muito disso.

Obrigada por trazer de volta o peso na minha consciência David.

—Então você faz o tipo certinho? - perguntei.
—Depende do seu ponto de vista. - ele aproximou sua mão do meu rosto e colocou
minha franja que estava tampando metade do meu rosto atrás da orelha, em
momento algum desviou seu olhar do meu - Assim fica melhor para te ver.

O que foi isso? Ele realmente estava flertando comigo ou algo do tipo, porque isso é
muito estranho. Garotos não costumam dar em cima de mim, na verdade eles
tentam se manter o mais longe possível, apenas fingi que não havia entendido nada
- o que não era mentira- e sorri.

—Ainda acho que te conheço de algum lugar. - continuou. - Tem certeza que já não
nos esbarramos por aí? Seus olhos, eles não me são estranhos.

Fitei a marca em seu pescoço e me lembrei do gosto de seu sangue e na maneira
que eu havia sido pouco gentil o deixando jogado no chão. Minha garganta
começou a queimar.

—Já disse que tenho uma fisionomia comum, deve ser isso. - respirei fundo, o
cheiro dele quase me enlouqueceu, eu queria mordê-lo novamente, isso não podia
estar acontecendo.
—Você está bem? Ficou pálida de repente.

Olhei por cima do ombro de David e pude ver a garota loira se aproximando. Logo
senti um sentimento feroz tomando conta de todo o ambiente, ciúmes, e não era
pouco, não sei como ela ainda não havia avançado em cima de mim, porque
emanava aquilo com tamanha intensidade que cheguei a arrepiar, mas aquilo
serviu para me distrair e minha sede passou.

—Conhecendo a garota nova, David? –ela perguntou passando a mão nos cabelos
dele.
—A garota nova tem nome, é Vick. – ele respondeu.
—É mesmo, mas tanto faz. – ela desdenhou.
—Sua namorada? – me vi obrigada a perguntar, só isso justificaria a atitude dela.
—Não, Lucy é apenas uma amiga.
—É. – ela sorriu de canto e pude sentir a tamanha decepção em sua voz.

—Então podemos continuar turma? Lucy, por favor, volte para seu lugar. – o
professor disse caminhando pela sala. – Como estávamos vendo aula passada,
equações de segundo grau não é um bicho de sete cabeças... – depois disso não
consegui ouvir mais nada, meus pensamentos começaram a voar cada vez mais
longe, como sempre acontece.

Fiquei imaginando como seria minha transformação e como seria minha vida a
partir desse dia, como é que eu iria encontrar um feiticeiro disposto a fazer um
feitiço de selamento para mim, já que vovô havia sumido no mundo com os
poderes da minha mãe que seria a pessoa mais indicada para fazer isso para mim.

As aulas se passaram entediantes e eu já estava ficando cansada de me apresentar
para todo professor que entrava na sala de aula, todos os alunos reviravam os
olhos a cada vez que eu tinha que repetir o meu nome, minha idade e de onde
vinha, eu até entendi muito bem essa reação, eu também morreria de tédio no
lugar deles. Mas enfim deu o horário do intervalo, suspirei aliviada, não aguentaria
mais ficar ali sentada sendo alvo de olhares investigativos por parte dos outros
alunos.

Coloquei meu óculos escuro e comecei a andar pelo colégio para tentar conhecer
melhor o ambiente, que era imenso, se não fosse pelo meu senso de direção bem
apurado teria me perdido. Caminhei pelo pátio observando alguns alunos
distribuídos sentados em alguns bancos que ficavam por ali tentando tomar um
pouco do fraco sol da manhã, segui adiante passando por um gramado florido e
chegando até o ginásio do colégio.

O time de futebol feminino estava praticando algumas jogadas, resolvi me sentar
na pequena arquibancada que havia ali, confesso que me surpreendi ao ver que no
meio daquelas garotas estava ninguém menos que Lucy, que garota contraditória,
andava produzida como uma boneca, mas jogava futebol, não dá para entender.

Ouvi um pequeno barulho atrás de mim e me virei para olhar o que era, alguns
garotos desciam a rampa de acesso à arquibancada do ginásio de skate, percebi
logo que um deles era da minha sala, ele se sentava na primeira carteira, mas não
aparentava ser um aluno aplicado.

Alguém se aproveitou de que eu estava de costas para a quadra e lançou algo em
minha direção, meus sentidos me alertaram é claro, me virei imediatamente e
segurei uma bola de futebol a centímetros do meu rosto, ao olhar por cima da bola
constatei que quem havia a chutado em minha direção havia sido a Lucy, ela ficou
no mínimo desapontada ao ver que não havia conseguido me atingir, deu para ver
em seu olhar.

—Joga a bola de volta! – ela gritou de semblante fechado.
Sorri. – Mas é claro. – joguei a bola para ela com bastante força atingindo em cheio
seu estômago.

Ela fez uma careta e se contraiu levando a mão diretamente ao local onde havia
sido atingida.

É talvez eu tenha exagerado um pouco, mas não me culpem, é da minha natureza
agir assim, os vampiros são divididos em sete classes: Ira, gula, luxuria, prazer,
vingança, posse e cobiça. Eu pertenço à classe ira, sou provocada muito facilmente,
e Lucy estava assinando seu nome no topo da minha lista negra.

—Lucy, você está bem? - uma garota se aproximou dela vendo que estava com
dificuldade para respirar.
—Não consigo respirar direito. - ela respondeu se sentando no chão, estava ficando
levemente avermelhada.

Puro drama!
Levantei-me calmamente e caminhei até o centro da quadra onde ela estava.

—Porque não tenta corrigir sua postura? – me abaixei atrás dela pressionando
bem no centro de suas costas fazendo com que sua postura ficasse ereta. - Abaixe a
cabeça. - abaixei a cabeça dela - Agora respire fundo. – minha voz era serena e
calma, estava me divertindo muito com aquela situação.

Percebi que aos poucos ela foi regularizando sua respiração até a cor avermelhada
de seu rosto dar lugar ao tom rosado e natural de sua pele. Ela se acalmou
enchendo os pulmões de ar e me lançou um olhar confuso.

—Como sabia o que fazer? - perguntou estranhando.
—Vamos dizer que eu sei muito bem cuidar... Assim como sei machucar. - respondi
sorrindo. – Então sugiro que tome mais cuidado da próxima vez que for chutar
uma bola na minha direção, eu posso devolver bem mais forte que isso. – dei dois
tapinhas no ombro dela, que por sua vez apenas me fitou um olhar vazio e confuso.

Pude sentir claramente certo receio no ar, sim ela estava com medo de mim, esse
sentimento libera um cheiro doce que sinceramente me deixa extremamente
entusiasmada.

Levantei novamente e a deixei sob os cuidados das outras garotas, sai do ginásio de
volta ao gramado florido quando esbarrei em uma garota, ela era tão pálida quanto
eu, alta, cabelos negros e bem cortados, olhos verdes e um ar de superioridade,
roupa impecável, uma aparência de causar inveja a qualquer garota, mas não a
mim.

—Preste mais atenção. – ela disse com ar de superioridade.

Mas não relevei a arrogância com as quais aquelas palavras saíram de sua boca, eu
estava muito ocupada tentando processar o que havia acontecido. Um vampiro
sempre sente o outro, eles se reconhecem quando fazem contato corporal, eu senti
a energia ruim que aquela garota emanava quando ela esbarrou em mim, ela
evidentemente era uma vampira e não era das boazinhas.

—Você é vampira como eu? – finalmente consegui falar.
—Garota o que mais tem nesse colégio é vampiro, e eu não sou como você, sou
mais forte. Você é a pior mistura, uma humana vampira, que piada. – sorriu
sarcástica.
—Mas como sabe disso? – não consegui evitar a surpresa em minha voz.

Ela sorriu novamente e eu tive vontade de quebrar aqueles dentes brancos e
perfeitamente alinhados que ela possuía.

—Assim como você, sou hibrida de duas espécies. Sou uma feiticeira vampira,
tenho sentidos muito apurados, percebo muitas coisas e quase sempre minhas
intuições estão certas, e algo me disse que você é meio humana. - ela continuou
andando em cima de seu salto alto. - Ahh e cuidado com os lobos.
—Lobos? – repeti.
—É eles mordem! – ela gargalhou.

Desde que me entendo por vampira sei da existência dos lobos, mas nunca cheguei
a conhecer um, sempre me alertaram que eles são os inimigos naturais dos
vampiros e que entre as duas raças existe uma enorme rivalidade. Então como
poderiam conviver vampiros e lobos no mesmo colégio?

-Fim-




 Capítulo por: Alynne Milhomem
 Dama da Noite “A Rosa”
 Tumblr: damadanoite-w.tumblr.com

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