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O CNO – eixo fundamental da educação de adultos

O recente alargamento da rede de Centros de Reconhecimento, Validação e


Certificação de Competências (CRVCC), de 64 para 269, quase quadruplicando a
dimensão da rede existente, trouxe uma nova realidade: quase todos os concelhos do
país passaram a contar com, pelo menos, um CRVCC, agora designado Centro Novas
Oportunidades (CNO), tornando muito mais acessível ao público a frequência desta
oferta formativa e conferindo ao processo de RVCC uma visibilidade social que ele até
então não possuía.
Por outro lado, se até 2006 o número de escolas públicas na rede de CRVCC era
residual, actualmente, no conjunto dos novos centros, o seu número assume um
significado muito importante. Esta situação vem colocar novos desafios à escola pública
particularmente ao nível de públicos e das equipas pedagógicas.
Ao nível dos públicos, verificamos que a procura tem crescido de modo
exponencial, criando problemas ao sistema que não consegue responder com eficácia às
expectativas dos adultos. Para além das campanhas publicitárias e da oferta de um
computador portátil em condições vantajosas, acreditamos que o maior vector de
dinamização da procura terá sido o dos próprios adultos em processo que, nos seus
lugares de trabalho, nas suas famílias, nos espaços de sociabilidade, dão testemunho dos
seus progressos em termos de aprendizagem e dos resultados que alcançaram em termos
de certificação. Este aumento da auto-estima e a valorização dos processos formativos é,
sem dúvida, a maior conquista do processo de RVCC. Acresce ainda que estes adultos
que regressam à escola são, em grande parte dos casos, os encarregados de educação das
crianças e jovens que frequentam o nosso sistema de ensino. Ganhar estes pais para a
causa da educação será certamente decisivo para o futuro escolar dos seus filhos e
nossos alunos.
Quanto às equipas pedagógicas, é manifesto que as escolas não dispunham nos
seus quadros de técnicos especializados no acompanhamento dos adultos, os
profissionais de RVCC, nem sequer de professores identificados com os processos de
educação de adultos. Os centros de formação têm aqui um papel importante a
desempenhar, apoiando as escolas e promovendo formação específica na área da
educação de adultos, nomeadamente da metodologia do balanço de competências e na
exploração e aplicação dos referenciais de competências-chave. É um campo de
trabalho novo que se abre, mas ao qual urge dar resposta dada a dimensão que as ofertas
na área da educação de adultos assumiram actualmente no nosso sistema de ensino.
Uma outra preocupação que nos assalta é a harmonização de critérios e
procedimentos entre os vários CNO. Um sistema que teve um crescimento abrupto tem
de saber desenvolver mecanismos de avaliação e de controlo da qualidade, sem os
quais, pode por em risco o reconhecimento social deste processo.
O RVCC assenta no princípio de que ao longo da sua vida os indivíduos vão
realizando, para além da aprendizagem formal, um conjunto de aprendizagens informais
e não-formais, que lhes permitem desenvolver competências em vários domínios. Estas
aprendizagens, se reconhecidas, poderão possibilitar-lhes uma certificação de nível
básico ou secundário.
Este ponto de partida assume que o indivíduo que pretende participar num
processo de RVCC tem um percurso de vida (profissional, social, familiar) muito
significativo, que lhe possibilitou a aquisição de um elevado número de competências.
Assim, o processo de RVCC não pode ser aplicado indistintamente a qualquer
indivíduo, devendo existir um conjunto de ofertas diversificadas que se adeqúem
àqueles que, pela sua idade ou percurso de vida, não tiveram oportunidade de
desenvolver competências que lhe garantam o acesso a uma certificação através do
processo de RVCC.
A clarificação do perfil do adulto que pode ter acesso ao processo de RVCC é
uma tarefa essencial da equipa técnica do CNO e a pedra de toque da credibilidade de
todo o sistema. Nos últimos tempos têm-se dado passos no sentido de uma
harmonização de procedimentos, dos quais o Sistema Integrado de Gestão das Ofertas
(SIGO) e a Carta de Qualidade dos CNO são um exemplo. Estas orientações têm
conduzido a uma série de estratégias que passam por uma apresentação ao candidato do
processo de RVCC, pela análise dos referenciais de competências-chave, pela realização
de inquéritos e entrevistas individuais, reunindo os elementos que permitem à equipa do
CNO negociar com o adulto uma proposta de encaminhamento.
Neste sentido, consideramos que a alteração da designação de Centros de
Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC) para Centros
Novas Oportunidades (CNO), não foi, no nosso entender, um simples “ajustamento
cosmético” à badalada iniciativa do nosso governo. Corresponde, sim, a uma nova
perspectiva sobre a organização da formação de adultos, centralizando numa única
entidade a inscrição e encaminhamento dos formandos que pretendem iniciar um
percurso de educação. Esta nova perspectiva só funcionará em pleno se o CNO se
constituir como uma verdadeira plataforma de formação, disponibilizando um conjunto
de ofertas integradas que respondam às necessidades dos adultos, particularmente
acções de curta duração e cursos de educação e formação de adultos.
Estas ofertas não têm que ser necessariamente promovidas pelo CNO. Este deve
dinamizar uma rede colaborativa composta por todos os parceiros envolvidos na
educação de adultos, sejam elas instituições formadoras ou não, articulando uma
diversidade de respostas formativas no território em que actuam.
Nesta perspectiva o CNO deverá ser a porta de entrada de todos os adultos que
procuram a formação, pois é aqui que com o apoio especializado dos profissionais de
RVCC, podem construir um Plano Pessoal de Qualificação que possibilite um
encaminhamento adequado às suas necessidades, prosseguindo posteriormente a sua
formação na instituição que reúne as melhores condições para responder aos seus
objectivos.
Terminando esta pequena reflexão, gostaria de recordar que para lá de todos os
problemas e necessidades que as nossas organizações têm de enfrentar quando assumem
estes projectos, está a nossa missão junto dos adultos, dos que nos procuram e de todos
os outros que temos de chamar até nós. É por eles e para eles que existem os CNO e o
desafio da sua qualificação e da sua valorização enquanto pessoas e cidadãos tem de ser
a nossa motivação.

Antero Ferreira
Director do CNO da Escola Secundária de Caldas de Vizela
Director do Centro de Formação Bráulio Caldas (Vizela)
anterof@gmail.com

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