Você está na página 1de 16
O sujeito da diferenga e a multidao Joel Birman* |. Preambulo A finalidade deste ensaio & a de realizar a leitura das manifesta- «es piiblicas que, de maneira ampla, geral e irrestrta, marca- ram de forma indelével o espago paiblico brasileiro. Evidente- mente, como toda ¢ qualquer leitura, esta é permeada também por uma interpretagao, que delineia as linhas de forga que a rientam e definem os seus balizamentos fundamentais. Além disso, & preciso enunciar ainda que qualquer leitura tem a di- mensio eminentemente critica, nao se restringindo entio a ser uma mera descriedo dos eventos, para sublinhar uma outra con- dicdo tebrica e metodolégica deste ensaio. Assim, pode-se afirmar certamente que as manifestagdes de junho de 2013, no Brasil, relancaram a cena politica do pais num ‘outro limiar de complexidade e de possibilidade. Neste relanga- mento foram entio reconfiguradas as coordenadas constitutivas do espago social brasileiro, de maneira a redefini uma outra leitura sobre a politica na contemporaneidade, de forma decisi- vae eloquente ao mesmo tempo. Isso porque ndo apenas foram cenunciadas outras concepgdes sobre a politica, que passou a ser diferentemente ritualizada, como também outros atores passa- ram a se inscrever na cena politica, de maneira ativa e decisiva, Enfim, outras vozes foram entio inscritas no espago social No que concerne a isso, & preciso enfatizar devidamente que a juventude participou ativamente destas manifestagbes, de for- ma a transformé-las efetivamente num acontecimento propria- mente dito, com todo 0 sentido simbdlico, historico e politico que implica este conceito. Com efeito, nao obstante a partici- pagio de outras faixas etarias nestas manifestagies de maneira significativa, nao ha qualquer duivida de que foram os jovens os que deram o tom para a sinfonia solfejada nas ruas, orquestran- do entio 0 dito acontecimento, Enfim, outeas possibilidades de enunciagao se formalizaram, E preciso dizer ainda que 0 aconteci vento em pauta foi ca- sacterizado pela surpresa, na medida em que 0 que ocorreu foi efetivamente inesperado para todos, signo este que evidencia (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE Pscanliaa, membro do Espago Bea- siica de Extador Pscanabtcos edo space Anayigue, peoessor Teale do Insist de Psicologia da UFRJ, profes sor Adjunto do Tewitwo de Nena Socal da UERY, dete de Esados em Letra e Gitcis Humans, Universi de Pais Vl, psgusador ssociado do Latoratiro “Puicandlse Medicina © Sociedade”, da Universidade ars VIL Sz 26 seguramente que as manifestagies de junho tltimo foram um acontecimento. Com efeito, ninguém esperava que tais manifes- tagdes piiblicas fossem ocorrer e que assumissem as proporgdes sigantescas que tiveram, Nem tampouco que a juventude fosse 0 catalisador crucial destes eventos e seu agenciador fundamental Evidentemente, algumas questées fundamentais se impem para a reflexio, face ao que foi inesperado e surpreendente nes- tas manifestagies. Antes de mais nada, a categoria de massa deve ser colocada em pauta, no sentido que tem este conceito nos discursos da sociologia, da politica e da psica tanto, a pergunta que se impée inequivocamente é se podemos ainda denominar a forma que assumiu tais manifestagdes como uma experiéncia social de massa. Ou, ento, ndo seria 0 concei- to de multidao, no sentido que Negri e Hardt (2001; 2005) 0 formularam a partir da filosofia de Spinoza, o que evidenciaria dda melhor forma possivel © que delineou esta modalidade de agrupamento coletivo, no qual a singularidade dos agentes se manteve o tempo todo in E preciso considerar ainda, articulada intimamente com a questio anterios, o problema do lider nestas manifestagdes pi blicas. Isso porque a posigao do lider se transforma radicalmen- te se 0 que esti em pauta é a organizagio de massa ou a or- ganizagao da multidio, onde a polivaléncia das singularidades implicadas nesta itima relanga a figura do lider para um outeo lugar efetivamente. ‘Alem disso, a outea questo que também se impoe nesta lei- tura critica éa posigio estratégica do conceito de narcisismo das pequenas diferencas, tal como Freud enunciou em “Psicologia ddas massas e a andlise do eu” (Freud, 1921/1981), nesta moda- lidade de manifestagio social. A pergunta decisiva que se coloca aqui é como tal conceit se inscreve diferentemente nos registros dda massa e da multidao, je. Por- lume? Estes diferentes t6picos delineiam e balizam, enfim, o percur- so te6rico que pretendo realizar neste ensaio, Il, Poderes na berlinda Assim, as grandes manifestagbes piiblicas voltaram a ocorrer no Brasil, em junho de 2013, de forma surpreendente. Iniciadas em Sio Paulo, em decorréncia do aumento da tarifa dos transportes piiblicos, as ditas manifestagdes se espraiaram, logo em seguida, para as ruas do Rio de Janeiro, com a mesma proporgio de pes- soas. Se no comego as passeatas contavam com a participagio toe sho rau aie 25-40. sano ane de quatrocentas mil pessoas, nos dias subsequentes ocorreram manifestagdes com um milhao de participantes. Certamente, estes nao si0 0s niimeros oficiais divulgados pe- las prefeituras e pelos governos de So Paulo e Rio de Janeiro, {que procuraram subestimar o alto nivel de participagio dos ci dadios, em nome de seus interesses politicos imediatos e para cesvaziar assim as manifestagdes. Contudo, a avaliagbes oficiais foram fragorosamente desmentidas pelas midias corporativas ¢ as midias 10 corporativas, que divulgaram os acontecimentos « thes reconheceram a devida extensio. As imagens na televi- sao € na internet foram eloquentes sobre isso, pois mostraram efetivamente o mar de pessoas que percorriam € ocupavam as principais artérias dos centros das cidades em pauta. Porém, se tudo isso 4 foi inesperado por si mesmo, pelas proporgées assumidas pelas manifestagdes, a outra novidade também surpreendente destas manifestagdes coletivas foi a sua disseminagio imediata para outras cidades brasileiras, onde atingiu igualmente grandes propor é preciso dizer que a dita disseminacao no ficou restrita somen- res. No que concerne a isso, te as capitais dos demais estados do pais, mas se deslocou tam- bhém para as cidades de médio porte, onde uma grande afluéncia de pessoas foi para as ruas para protestar contra 0 aumento indevido das tarifas dos transportes coletivos, de acordo com a palavea de ordem do Movimento Passe Livre ‘Assim, se 0 que estava em pauta inicialmente era 0 aumento da tarifa dos teansportes coletivos, porque o indice deste aumen- to estava bem acima dos aumentos salariais da populagio e da inflagio, € preciso evocar ainda que a qualidade dos transportes coletivos também é péssima. No que tange a isso, ¢ preciso des- tacar no apenas a mé qualidade material dos veiculos coletivos, mas também a sua insuficiéncia, principalmente para os bairros mais pobres das cidades. Com efeito, existe uma distribuigio desigual de transportes coletivos nas regides pobres e ricas das ‘grandes cidades brasileiras. Além disso, é preciso sublinhar 4a o longo tempo que os usuirios perdem por dia para chegar « voltar de seus trabalhos, em torno de quatro horas por dia, 0 ‘que, convenhamos, é absurdo. A perda de tempo e de potencial de vida que isso representa é gigantesca. Enfim, as pessoas de- mandavam o seu direito & mobilidade urbana, Contudo, é preciso dizer ainda que o rastiho de pélvora ini- cial se espraiou rapidamente, se deslocando para outras deman- das fundamentais da populagio brasileira, alm do aumento da tarifa dos transportes piblicos. Desta maneira, as més condigdes (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE Lt 28 do ensino priblico, assim como as péssimas condigies do sistema piiblico de saside, jogaram mais fogo ainda na fogueira, promo- ‘vendo um espraiamento muito maior das manifestagdes piblicas. Vale dizes, as demandas urgentes que foram formuladas pe- os manifestantes se condensaram em torno de trés palavras de cordem basicas e que atingiam a grande maioria da populagio brasileira, pois o Estado nao as solucionava nos seus impasses face a estes problemas, quais sejam, 0 sistema de transporte co- letivo, 0 sistema piiblico de satide e o sistema de educagio pii- blica. O que estava ento em questo eram as politicas sociais do Estado brasileiro em torno destes trés t6picos. Isso porque a sociedade brasileira tem um dos maiores indices de impostos do mundo que 0s cidadios devem pagar ao Estado, sem que este oferega, em contrapartida, servigos puiblicos fundamentais para a sua populagio, ao contrario do que ocorte nos paises europeus ¢ nos Estados Unidos Como desdobramento imediato desta desproporgio entre os impostos pagos pelos cidadios e os servigos oferecidos efetiva- ‘mente pelo Estado, uma quarta tematica se impde também como fundamental nas manifestagdes coletivas, qual seja, a corrupgdo que estaria presente no Estado e na sociedade brasileiros. Com feito, se os cidadios pagam muito em impostos € no tém a oferta de servigos pablicos decentes, em contrapartida, 0 dinhei- ro arrecadado serviria para alimentar as redes de corrupgao, que estariam inseridas em diferentes niveis da sociedade politica seja © poder Executivo, 0 poder Legislative ou 0 poder Judicistio. E claro que a tematica da corrupgio 4 estava presente na do aumento das tarifas dos transportes coletivos, pois, como se sabe de longa data, a concessio de linhas de dnibus e do metré ‘no Brasil sempre passou por negociagdes inescrupulosas estabe- lecidas entre os empresitios, os diversos poderes da Repiiblica, 6s partidos politicos e os ocupantes de cargos piblicos, em dife- rentes niveis de complexidade e de hierarquia politicas. Porém, tudo isso foi certamente galvanizado pelo fato de que 0 Brasil sera 0 cendrio de grandes eventos internacionais, Copa do Mundo (2014) ¢ as Olimpiadas (2016). Vale dizer, 0 Estado brasileiro estaria gastando uma fortuna para construir instalagdes esportivas adequadas, aeroportos, metros e siste- ima de hotelaria para abrigar estes eventos globais, nos quais a corrupgio corre solta para mediar tais construgdes. Contudo, a contrapartida disso tudo é a diminuiga0 dos investimentos do Estado para promover as politicas sociais, nos sistemas de trans- porte coletivo, de satide publica e de educagio. toe sho rau aie 25-40. sano ane Em decorrés ia disso, a Copa das Confederagées, que se rea lizou em junho de 2013, foi indiscutivelmente o catalisador cru- cial imediato destas manifestagdes coletivas, na medida em que foi dramaticamente atualizado naquele contexto, o que estaria ‘em pauta na relagio entre o Estado e a populagio brasileira, isto 6 quanto o Estado estava investindo na construgio das grandes arenas esportivas e © quanto nao investia em servigos piiblicos de qualidade, sejam estes o sistema de transporte coletivo, o sis tema de satide ow o sistema de educagio publica. Desta maneira, a questio da corrupcao se tornou eloquente e patente, envol- vendo a relagio estabelecida entre o Estado brasileiro e as gran- des corporagées econdmicas internacionais. Por isso mesmo, ‘08 manifestantes exibiam cartazes com dizeres ir6nicos como ‘queremos “escola padrio FIFA”, assim como queremos sistema puiblico de satide e de transportes “padrao FIFA”, como as novas arenas de futebol e outros dispositivos de infraestrutura urbana, Pode-se afirmar, assim, que foram efetivamente estas ques- ties bbasicas que alinhavaram a plataforma politica das ditas manifestagies paiblicas, configurando entio 0 micleo fundamen tal das demandas sociais que foram colocadas na cena publica Portanto, foram as politicas sociais do Estado que foram colo- cadas na berlinda, que tiveram como seu contraponto a ques- tio da corrupeao, pois seria pela mediagio disso que a riqueza nacional seria desviada e privatizada, para alimentar as redes de corrupgio nos diversos niveis do poder. © efeito imediato das manifestagies piiblicas foi a queda de popularidade dos politicos que desempenharam fungdes execu- tivas, a comecar pela presidente do Brasil ¢ continuando pelos governadores dos estados. Aquela se pronunciou publicamente, algumas vezes, para contornar o impacto € os impasses cria- dos pela nova cena politica. Foram propostas diversas medidas institucionais, a comecar pela reforma politica. O Congresso Nacional sentiu logo 0 golpe ¢ o nao reconhecimento poli do poder Legislative pelos manifestantes. Com a pressio das ras comegam a votar questdes com rapidez, que estavam para- lisadas nos corredores e nas gavetas do Congresso Nacional ha muito tempo, pelas barganhas estabelecidas entre as bancadas ¢ 1s partidos politicos. Da mesma forma, as Assembleias Legislati- vas dos estados e a Camara dos Vereadores, nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro e Sio Paulo, foram questionadas como ilegitimas e acusadas de corrupeio. Portanto, o poder Legislativo também foi colocado na ber- linda pelas manifestagies piiblicas. Exigia-se assim dos partidos (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE 67 30 politicos e de seus representantes maior transparéncia na ges- to dos recursos puiblicos, para que estes nio fossem para 0 alo da corrupgio, na cumplicidade estabelecida entee os poli- ticos e os empresitios, I, Policia em questao Porém, isso ainda nao € tudo no que se refere is manifestagdes piiblicas de junho de 2013. O que assistimos também a0 vivo € a cores, pelas redes de televisio e pela internet, foi a exibigio da violéncia policial em larga escala. A truculéncia caracterizou as agdes policiais nos seus menores detalhes, que procuraram legi- timar e camuflar a sua violencia pela justificativa de que apenas se contrapunham a violéncia dos manifestantes, pois tinham que proteger os bens puiblicos e a propriedade privada, como as lojas € 0s bancos atacados por aqueles. Assim, os policiais queriam impedir o livre desenvolv € a disseminagio das manifestagdes pela violéncia direta, amea- «2s de prisio e a produgo do medo. Os seus instrumentos pre- ferenciais, além dos eassetetes tradicionais, foram 0 uso indis- criminado de jatos d'agua, do gas lacrimogénio e de spray de pimenta. Em contrapartida, a violéncia generalizada da policia incitou efetivamente ages violentas de manifestantes, com a emergéncia dos Black Blocs na cena politica Em decorréncia disso, algumas Assembleias Legislativas dos estados foram invadidas pelos manifestantes, tanto no Rio de Janeiro quanto em So Paulo. Em Brasilia, os manifestantes in- vadiram © Itamarati, que teve janelas quebradas. Além disso, agéncias bancérias foram efetivamente quebradas, indicando simbolicamente como o capital financeiro estaria no foco das :manifestagdes, em associagio direta com a generalizagio da cor- rupeao no Brasil. Enfim, diferentes pontos do comércio foram também atacados por alguns manifestantes. Nas semanas € meses subsequentes, estes enfrentamentos aumentaram bastante, com ineremento da truculéncia pol Isso porque na diminuigio dos participantes nas manifestagdes piiblicas, estas se centravam em alvos e reivindicagdes mais es- pecificas. Este foi 0 caso dos repetidos acampamentos em frente 8 casa do governador Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro, onde este era acusado de promogio da violéncia policial ede corrup- 4o, assim como da greve e manifestagées de professores da rede piiblica, também no Rio de Janeiro, que foram violentamente atacados pela policia militar. al. toe sho rau aie 25-40. sano ane © que se colocou entio na cena politica, no primeiro plano, foi a forma pela qual a pol manifestantes, pela impossibilidade de impedir e de conter as passeatas. A repressio direta, com violéncia, era a tinica forma utilizada pela forga paiblica para intimidar e machucar os mani- festantes. Desta maneiea, ficou evidente que a atual forca policial 6a herdeira legitima da policia dos tempos da ditaduca militas, ‘que usava também a forca de maneira indiscriminada e ilegal Além disso, € preciso dizer ainda que a atual policia militar & bem mais sofisticada do que na época da ditadura, pois dispoe hoje de novas tecnologias para o combate das manifestagdes. Dois desdobramentos importantes puderam entao emergir, fem larga escala, como consequéncia direta da violencia po- licial. © primeiro concerne & politica de produgio do medo, promovido pelo poder politico nas classes médias, de longa data. O segundo incide especificamente na midia corporativa, na forma pela qual esta forja as suas narrativas sobre as mani- festagies piiblicas em pauta, insinuando a ilegitimidade dessas € procurando eriminalizé-las. Assim, se até entdo as classes médias urbanas brasileiras acreditavam piamente no discurso do medo em relagio as clas- ses populares, alocadas que estavam estas em favelas e nas pe- riferias das grandes cidades, promovido pelas autoridades, que justificavam deste modo a legitimidade da ago repressiva da policia militar, pois aquelas seriam perigosas, este discurso co- megou a ser efetivamente desconsteuido. Isso porque as classes médias comecavam a perceber ea reconhecer as similaridades existentes entre os métodos violentos, nas favelas e no asfalto. Enfim, a policia no despertava mais qualquer ilusio nos ma- nifestantes ¢ isso teve também efeitos significativos nas classes médias, como representante maior da forca da ordem, pois se evidenciava nela a pura repressio, como marca que era dos anos de chumbo da ditadura militar. Foi por conta disso que o caso Amarildo, no Rio de Janei- ro, ganhou tanta notoriedade piiblica e midiatica, angariando a solidariedade ampla de diferentes segmentos sociais na cidade, ultrapassando em muito as fronteiras da favela. O pedreiro foi sequestrado e assassinado pelos policiais da Unidade de Pol Pacificadora, na Rocinha, e estes queriam acusar, contudo, os traficantes pelo assassinato. A popul So oficial e passou a exigir a apuragio dos fatos, assim como a responsabilizagao dos policiais na morte em questo. Diversas manifestagies foram organizadas em torno disso, inclusive em ia militar atacava diretamente os io nao acreditou na ver- (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE 1€ 32 frente da casa do governador Sérgio Cabral, que foram acom- panhadas a0 vivo pelas redes de televisio e pelas midias ndo corporativas. Os signos eloquentes da participagio direta dos policiais no assassinato acabaram por aparecer ¢ estes foram indiciados eriminalmente, nao obstante a recusa do governo do estado do Rio de Janeiro em reconhecer os desmandos da poli- cia neste episodio. [Além disso, as redes de televisio passaram também a ficar 1no foco dos manifestantes, principalmente a Rede Globo, pois respaldava a versio oficial dos acontecimentos. Assim, a versio policial de que os manifestantes eram violentos e que a p. apenas reagia legitimamente para impor a ordem piblica se dis- seminava pelos canais de televisio, de maneira que os manifes- tantes passaram a ser designados como “baderneiros” e como “vandalos”. Porém, tal versio dos acontecimentos nao se susten- tou, pois apareceram midias alternativas que flmavam ao vivo as :manifestagdes em tempo real. Com isso, a versio da midia cor- porativa foi sistematicamente desmascarada pelas midias alter- nativas, que mostraram a violéncia e a arbitrariedade da policia. Em decorréncia disso, a midia corporativa perdeu certa cre- dibilidade neste processo, confrontada que foi nos menores de- talhes pelas narrativas forjadas pelas midias alternativas. Além disso, pela inteenet era possivel acompanhar as manifestagbes a0 vivo, sem a edigio e a montagem realizadas pelos editores das imidias corporativas No entanto, esta perda relativa de credibilidade das midias cor- porativas acabou por comecar a disseminar um debate nacional sobre 0 monopélio midistico no Brasil, na medida em que aqui é possivel ter uma rede nacional de televisio conjugada com a rédio coma publicagao de um jornal também em nivel nacional, o que ‘no ocorre em nenhum pais europeu ou nos Estados Unidos. Esta discussio comegou a ecoar efetivamente na cena politica ¢ acaba- 14 por ter consequéncias no futuro, pois este monopolio midiatico existente no Brasil ndo é permitido em nenhum dos paises do primeiro mundo, Enfim, esta questio tera ainda desdobramentos ‘mediatos e imediatos no espago social, incidindo sobre a mani- pulagio exercida efetivamente pelas politica brasileira, a hé muito tempo na nossa hist6ria. ias corporativas na cena IV. Juventude alienada? E preciso destacar ainda que o que caracterizou estas amplas anifestagdes piiblicas foi a composigio social e etdria de seus toe sho rau aie 25-40. sano ane participantes. Assim, diferentes classes e segmentos sociais parti- ciparam efetivamente nestes protestos, nio obstante a maior pre- senga da classe média. Além disso, a composigio etdria incluiu jovens e adultos, sem conta, claro, com a participagio de crian- «gas ¢ idosos. Porém, é inegavel que os jovens foram os que mais se inscreveram ativamente neste processo, fazendo a diferenca, ‘Com efeito, a grande novidade destas manifestagbes piiblicas foi a ampla participagao de jovens que se inseriram finalmente na cena polit brasileira, coisa que no faziam desde o inicio dos anos 90 do século passado. A tiltima aparigio ostensiva da juventude no espaco social se deu com 0 movimento dos Caras Pintadas, para demandar o impeachment do entio presidente da repiblica, Fernando Collor de Melo, por corrupsio, © que se dizia sobre a juventude, pelo desaparecimento desta da cena politica brasileira, era que as novas geragées se dife- renciavam bastante daquelas dos anos 50, 60 e 70, nas quais © cengajamento politico era uma marca efetiva. Falava-se entio, & boca pequena e com desdém, que as novas geragées eram apol ticas e mesmo alienadas politicamente, s6 se voltando para ques- ties centradas nos seus interesses imediatos, principalmente os cde ordem profissional e de mercado de trabalho. Vale dizer, uma ruptura significativa teria ocorrido no Brasil, na comparagio en- tre a juventude atual ¢ as de décadas anteriores, na medida que 1 jovens teriam se voltado apenas para o seu proprio umbigo e nao se interessavam mais pelos grandes problemas do pais. Porém, o que deve efetivamente ser indagado na inscrigao atual da juventude na cena politica e seu desengajamento nos Ulkimos 20 anos é a critica realizada pelos jovens sobre os re- presentantes da sociedade politica, ainda pouco presentes nas geragdes anteriores, de forma que a oposigao entre a sociedade social ea sociedade politica deveria ser radicalizada. Além disso, a juventude talvez tenha desenvolvido ainda um certo ceticismo face aos politicos e aos partidos politicos, pelos seus interes- ses estritamente corporativos € em oposigio as questées fun- damentais da populagio brasileira. Com isso, na sua aparente alienagio face a politica, os jovens estariam dizendo para no contarem com eles para este cinico esprit du corps, presente e disseminado no campo politico brasileiro. Este desinteresse relativo da juventude pela politica, que tem também certo eco em outras faixas etérias da sociedade brasilei- +a, fem se manifestado nos tiltimos anos e de maneira progress va pelo crescimento ostensivo dos votos brancos e nulos nas eli es, nos pleitos de diferentes niveis de representagao politica (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE €€ 34 Assim, num pais como o Brasil, em que 0 voto € obrigatério, a critica & representacio politica existente se realiza desta ma- neira, enquanto que nos Estados Unidos e nos paises europeus, onde 0 voto nao € obrigatério, a c se realiza pela abstinéncia eleitoral, que tem crescido igual e sis- tematicamente nas iltimas décadas. Enfim, 0 que estaria entio fem pauta na suposta alienagao de jovens no campo politico & uma critica das modalidades de representagio politica vigentes no Brasil, pois estas nao representariam mais efetivamente os interesses da sociedade civil, critica que se enuncia tam! Europa e nos Estados Unidos. No entanto, € preciso destacar devidamente que a critica os- tensiva as formas tradicionais da prética politica se enunciava nas ditas manifestagGes de miitiplas formas, que é preciso que se coloque agora em evidéncia. «a representagio politica \V. Horizontalizagao, descentralizagao, dispersao Assim, ndo obstante a presenga da critica das politicas sociais do Estado brasileiro da disseminagio neste da corrupcio, como aquilo que delineou efetivamente as linhas de forgas das mani- festagies puiblicas em junho de 2013, 0s participantes evides ram a sua critica da corrupgio no exercicio da politica por meio de miiltiplos signos e gestos, que devemos evocar pela eloquén- cia com que se evidenciaram [Antes de mais nada, pelo repiidio a participagio dos partidos politicos nas manifestagies, mesmo aqueles identificados como de esquerda, pois fariam parte da sociedade politica existente € no representariam mais a sociedade civil. © que estaria em pauta aqui é a eritica do partido como forma efetiva de repre- sentagZo politica, em prol da énfase colocada nos movimentos sociais, como j ocorrera anteriormente nos paises europeus. Em seguida, € preciso destacar que as ditas manifestagoes, politicas se caracterizaram pela mutiplicidade das palavras de ‘ordem, além das que eu ja destaquei acima. Pode-se dizer assim que existia uma dissentinagao de palavras de ordem, o que pode- ra explicar inclusive a forma de organizagao das manifestagBes pablicas. Com efeito, estas se caracterizariam morfologicamente pela descentralizagao dos grupos e dos segmentos sociais que nnestas se inscreveram, de maneira a se expressar assim a disse- minagio ea dispersao das palavras de ordem. [As caracteristicas das ditas manifestagies se destacavam ain- da pela colocagéo em evidéncia da singularidade dos partici toe sho rau aie 25-40. sano ane pantes. Seria esta singularizagao efetiva dos participantes que se conjugaria com as marcas da multiplicidade, da disseminagio € da descentralizagao das palavras de ordem. A expresso mais, eloquente disso se colocava em evidéncia nos figurinos portados pelos manifestantes, nos quais estes se articulavam ainda com uma coreografia que pontuava e desenhava o desenvolvimento dos protestos. Vale dizer, existia efetivamente uma estética na forma de organizacio das referidas manifestagées que se articu- lava internamente com a marca da ética evidenciada na singula- ridade ritualizada pelos manifestantes. Nesta exuber cia estética miiltiplas cores caracterizavam ‘0s coxpos dos participantes e a coreografia das manifestagies, evidenciando assim a dimensio poética destas e a colocagio em cena da multiplicidade dos desejos, emanados pelos corpos ¢ cadenciados pelo conjunto dos movimentos em pauta. Existiria algo de sublime em tudo isso, enfim, que se inscreveria numa ‘outra concepeao da politica que estava sendo colocada em ato, de forma estridente, nestas manifestagdes paiblicas. Pode-se dizer assim que, por esta disseminagio e descentrali- zagio das palavras de ordem, a organizagao das manifestagSes se estabelece por lagos horizontais, nio existindo nestas entio a existéncia de lagos sociais verticais. Seria ento em decorséncia disso que a dispersio das palavras de ordem, numa espacialida- de horizontal, seria paradoxalmente a condigio de possibilida- de do que promoveria e do que catalisaria as manifestagdes em pauta. Além disso, seria a transversalidade o que daria a forma de constituigio das referidas manifestagdes. Foi por conta desta horizontalizagio e da transversalidade dos, lagos sociais, nesta modalidade de organizaco coletiva, queacon- vocagio € os comentiios permanentes sobre os acontecimentos se faziam de forma ripida e até mesmo instantanea pela internet, pelos telefones celulares e pelas reds sociais, atingindo milhares de pessoas a0 mesmo tempo. Data eficécia efetiva demonstrada nesta modalidade de convocagio, de forma discriminada e dis- persa ao mesmo tempo, incidindo lateralmente numa populagio imensa, que afluia de forma desejante as manifestagbes. Portanto, é a capilarizagdo dos lagos sociais 0 que delineia efetivamente © conjunto desta morfologia, presente nas mani- festagies paiblicas em questo, nas quais as linhas caminham em iiltiplas diregdes, que no sio necessariamente convergentes «© onde os espagos demarcados por tais linhas nao sio necessa- riamente superponiveis. Isso porque, com efeito, no existe um centro vertical absoluto que seria o organizador da disposigao (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE S€ das linhas, na medida em que a descentealizagio desenha uma especialidade disseminada e dispersa VI. Massa e multidao Assim, tudo isso nos indica que esta modalidade de organizagio coletiva, descentralizada e disseminada ao mesmo tempo, assim como a sua capilaridade, coloca em pauta a desconstrugio em ato da organizagao de massas, em diregio a constitu tidio propriamente dita, Retomo entio a formulagio de Negei, segundo a qual, se a organizagio de massa, que teve como cor- relato a existéncia da linha vertical na sua espacialidade e que se centrava na figura do lider carismatico, foi a marca da moderni- dade politica desde o final do século XVIII, a multido seria, em contrapartida, o que caracterizaria as aglomeragées piiblicas na contemporaneidade (Negri & Hardt, 2001; 2005). Nesta perspectiva, 0 que se evidenciou no Brasil desde ju- tnho de 2013 & similar, enquanto processo social e politico, a0 que ocorteu com os movimentos sociais na Europa e nos Es- tados Unidos, apés a crise econdmica internacional de 2008. Com efeito, tanto os Indignados na Espanha quanto o Occupy Wall Street nos Estados Unidos tiveram 0 mesmo quadro orga~ nizativo, caracterizado pela horizontalizagio dos lagos sociais acoplada 8 disseminagio e & dispersio de seus participantes, sem esquecer, é claro, da transversalidade que as caracterizava. Da ‘mesma forma a internet, os telefones celulares e as redes sociais foram os dispositivos tecnolégicos que catalisaram tais movi- ‘mentos sociais gigantescos, e foram também os jovens os que ‘ais se implicaram nestas manifestagdes piiblicas Da mesma forma, os movimentos sociais no mundo érabe, que promoveram a revolugio na Tunisia e no Egito, de maneira completamente inesperada, a0 derrubar ditaduras bastante con- solidadas ha muito tempo, pelas aliangas destes governos com as Forgas Armadas e respaldadas pelos Estados Unidos e paises eu- ‘opeus, foram também convocados pela internet, pelos celulares € pelas redes sociais. Além disso, tais revolugdes foram organiza- das de maneira horizontal e a disseminagao das suas demandas estavam voltadas para a queda da soberania absoluta do poder politico. Pode-se afirmar entio que nestas revolugdes no hou- vve uma organizagio de massa propriamente dita, figura carismatica do lider situada em posigio vertical sobre os demais manifestantes, mas o que as catalisou foi a presenga de uma multido dispersa e disseminada (Castells, 2013}. jo da mul- ntrada na toe sho rau aie 25-40. sano ane No que tange is revolugSes na Tunisia e no Egito, a marca da singularidade dos insurgentes estava também no primeiro plano 4a cena politica, onde a polivaléncia colorida dos figutinos e a coreografia das multidées delinearam teatralmente as experi cias revolucionsrias de maneira expressiva, polarizada que foi entre os registros do tnigico e da comédia. Contudo, foi certa- mente a coreografia da festa, com as suas conotagbes do viver ‘em conjunto e do solfejo da alegria, 0 que se colocou de maneira retumbante na cena politica, numa retérica poética. VIL. Narcisismo das pequenas diferencas Desta maneia, é preciso retomar criticamente a leitura psica- nalitica sobre a politica, enunciada pelo discusso freudiano em “Psicologia da massa e anslise do eu”, publicado em 1921. Se neste ensaio de Freud ha pressupostos teéricos e metodolégicos importantes, que se devem destacar, é preciso ainda, em contra- partida, sublinhar os limites te6ricos, para a leitura do campo da politica, formulados nesta obra Antes de mais nada, € preciso enfatizar devidamente que a formulagio teérica mais abrangente e fundamental de Freud, neste ensaio, é a afirmagao de que na psicanslise nao existiria qualquer oposigdo entre 0s registros do individuo e da cole- tividade, na medida em que 0 sujeito delineado pelo discusso psicanalitico teria ao mesmo tempo uma dimensio individual © outra que seria coletiva. Vale dizer, © sujeito concebido pela psicandlise seria narcisico, por um lado, ¢ alteritirio, por outro, pois estaria voltado para sie tecendo lagos sociais com os outros a0 mesmo tempo (Freud, 1921/1981). Portanto, o discurso freu- diano estaria superando a oposicao entre psicologia individual © psicologia coletiva, tal como Wundt a tinha estabelecido no final do século XIX, com a constituigio da psicologia cientifica Contudo, é preciso afirmar também que nesta obra Freud formulou a ideia ainda de que a categoria do individuo nao seria pertinente para a p mente a posigao estratégica do outro para a modelagio das pul- ses, de forma que 0 inconsciente, 0 eu, o superen e o ideal do ‘eu seriam disso resultantes (Freud, 1921/1981). Portanto, tanto no registro do inconsciente quanto no registro do super-eu e do ideal do eu a posigio do outro estaria estabelecida de maneira anilise, pois esta enfatizaria fundamental- alteritiria. Vale dizer, a psicologia coletiva nao seria mais conce- bida como um aglomerado de individuos, pois o registro coleti- vo se inscreveria no inconsciente, pelo viés da relagdo imantada (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE LE com o outro. Enfim, o registro do individuo seria representado no psiquismo apenas pela instancia do eu. Isso implica dizer que seria pela mediagio do outro, nos la- G08 sociais, que 0 sujeito se conjugaria com os outros sujeitos e © registro dos objetos. A demanda de reconhecimento eo desejo seriam entio 0s catalisadores dos lagos sociais com 0s outros € com 0s objetos, num campo social imantando pela transferén- cia. Nao é um acaso, portanto, que neste ensaio sobre o psicolo- gia coletiva Freud nos fale tanto sobre a transferéncia No entanto, é preciso dizer que a categoria de massa foi de- senvolvida neste ensaio de Freud a partir do real social entio existente historicamente, que foi construido na emergéncia da ‘modernidade, desde 0 século XIX, ¢ que permaneceu ainda pre- sente por décadas no século XX. Nesta construgio, a massa se- ria forjada pela homogeneizagao dos individuos, que perderiam assim as suas diferencas e especificidades face & figura onipo- tente do lider, institido verticalmente face & massa. Desta ma- neira, as individualidades indiferenciadas ficariam sempre numa posigdo de obediéncia face ao lider, que as fascinava de maneira permanente, enquanto a sua lideranca efetivamente se mantives- se (Freud, 1921/1981}, Ao lado disso, é preciso dizer ainda que ao centrar a sua leitu- 1a nas instituigoes religiosa e militar, isto €, Igreja e 0 exército, Freud analisou a constituigdo da massa na sua relagio fundamen- tal com a figura do lider, pelo viés daquilo que Foucault deno- minou de sociedade disciplinar (Foucault, 1974). Estas seriam, com efeito, as caracteristicas da modernidade, como algumas das formas de governabilidade nesta existente, em oposigio estrita & sociedade soberana, anteriormente existente na pré-modernidade. Porém, as instituigdes disciplinares modemnas, caracteriza~ das que foram pelo estabelecimento de muros ¢ de fronteiras them estabelecidas ~ a escola, o hospital, 0 asilo psiquidtrico ¢ a prisio ~, estariam em franco processo de desconstrugio na contemporaneidade, com a constituigo das multidies e das re- des sociais. Porque nestas, com efeito, no existiiam fronteiras centre territérios fechados, mas bordas méveis entre os sujeitos inscritos numa coletividade, de forma que a capilaridade mar- caria relagies sociais eas diferencas seriam reconhecidas, pois a beterogencidade entze 0s individuos e as singularidades seriam sempre afirmadas de forma eloquente (Negri & Hardt, 2005) Enfim, na contemporaneidade nos deslocariamos do registro da sociedade disciplinar para o registro da sociedade de controle, como nos disse Deleuze (1990). toe sho rau aie 25-40. sano ane No entanto, é preciso dizer que a hipdtese tedrica de Freud sobre a existéncia do narcisismo das pequenas diferencas (Freud, 1921/1981) se mantém ainda consistente, com seus ecos se di seminando na contemporaneidade. Para isso, contudo, é preciso fazer trabalhar este conceito numa dupla dirego, ampliando de- cisivamente a leitura que Freud realizou deste conceit. Assim, Freud enfatizou a existéncia do narcisismo das peque- nas diferengas para descrever metapsicologicamente ¢ enfatizar a dlificuldade psiquica presente em individuos, grupos, segmentos e classes sociais, para suportarem a diferenga dos outros, de forma a querer entio aniquili-los pela violéncia e pela crueldade, de modo insofismavel. Na descrigdo de Freud € evocado, contudo, © real social de seu tempo histérico, no qual ja se esbocavam as linhas de forga do fascismo e do nazismo na Europa, que se desenvolveram de forma estridente com a eclosio da segunda grande guerra. Enfim, 0 que Freud jé descrevia era a constituiga0 do que Reich (1972) denominou posteriormente de “Psicologia de massas do fascismo”, que se forjou progressivamente e se dis- seminou na Europa com o término da primeira grande guerra No entanto, o narcisismo das pequenas diferengas pode ser também concebido e enfatizado no sentido oposto, a0 se desta- car 0 estabelecimento dos lagos sociais entre individuos, geupos, segmentos e classes sociais com os outros, nas quais a marca do reconhecimento da diferenga destes seja efetivamente instituida. Foi nesta perspectiva que, ainda no ensaio sobre “Psicologia das massas e anilise do eu”, Freud pode enfatizar que o homem nao € um animal da massa, mas um animal da horda, isto é, 0 ho- mem no aceitaria ¢ resistiria sempre & homogeneizagio do seu ser e manteria a sua diferenga face ao outro como signo maior de sua condigio ética e politica (Freud, 1921/1981). Por isso mesmo, no ensaio “Andlise com fim e andlise sem fim”, publicado em 1937, Freud (1937/1985) formulou de ma- neira trégica a ideia de que a governabilidade seria impossivel, como, alids, também a educagio e a psicanélise, na medida em {que 0 sujeito seria um animal da horda e que resistiria qual- ‘quer tentativa do outro de homogeneizé-lo e de pretender apa- gar assim a marca da sua singularidade © que as manifestagdes sociais contemporiineas evidenciam no apenas no Brasil, mas também em nivel internacional, é que a dispersio, a disseminacio, e a descentraliza multido centrada na diferenga e na singularidade dos sujeitos, de forma que 0 sujeito da diferenca & a marca por exceléncia do sujeito na contemporaneidade. E claro que este imperativo (We SHO PALO. 26f) 25-40 JaNERDZOE 6¢ REFERENCIAS 40 resume | SUMMARY Pataveas-chave | KEYWORDS tomo i8-10308} convive, na contemporaneidade, com manifestagdes de massa, nas quais as mulheres, os negros e os gays ainda sio 0s objetos de violéncia e de crueldade homogeneizante de outros, permea- dos por preconceitos. Enfim, a constituigio e a disseminagio de ‘manifestagdes sociais fundadas na diferenca e organizadas como multidose confeontam permanente ¢ insistentemente com os fundamentalismos daqueles que temem a circulagao do desejo © reconhecimento efetivo da liberdade. . Castells, M. (2013). Redes de indignagdo e esperanga: movimen- tos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahas. Deleuze, G. (1990). Pourparlers. Paris: Minuit Foucault, M. (1974), Surveller et punir. Paris: Gallimard. Freud, S. (1981). Psychologie des foules et analyse du moi. In S. Freud. Essais de psychanalyse (pp. 117-217). Paris: Payot. (Trabalho original publicado em 1921). Freud, S. (1985). Analyse avec fin et analyse sans fin. In S. Freud. Résultats, idées, problémes (vol. 2, pp. 231-268). Paris: PUF, (Trabalho original publicado em 1937). Negri, A. & Hardt, M. (2001). lmpério. Rio de Janeiro: Record. Negri, A. 8 Hardt, M. (2005). Multidio, Rio de Janeiro: Record. Reich, W. (1972). The mass psychology of fascism. Londres: Condor © sujeito da diferenca e a multi de realizar a leituea das éltimas manifestagées piblicas no Bra- silyem 2013, para repensas os conceitos de sujet e de multidio. | Subject of difference and crowd The aiming of this paper is to accomplish the reading of the last public manifestations in Bra- 2il, at 2013, for rethinking the concepts of subject and crowd. Sujeito. Diferenga. Multidao. | Subject. Difference. Crowd. JOEL BIRMAN Rua Major Rubens Vaz, 426 2451-040 ~ Gavea ~ RJ tel: 21 2259-8413 joelbirman@uol.com toe sho rau aie 25-40. sano ane