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Especial

Ostentação no Facebook vira prova nos processos de pensão alimentícia
Prática de verificar se o padrão declarado em um processo de alimentos condiz com a situação financeira apresentada na rede virtual se torna um mecanismo de prova na frente do juiz
A REDE NO LITÍGIO
Vale do Taquari
O
tempo em
que cartas de
amantes e fo-
tografias comprovavam
o adultério em um pro-
cesso de separação aca-
bou. O casamento, que
não é mais indissolúvel
desde 1977, passa por
novas formas de uniões,
estáveis ou não; as se-
parações e o cálculo das
pensões alimentícias
também.
Hoje, uma conversa
pega em um bate-papo
virtual ou recados inde-
corosos em uma rede
social são argumentos
para a dissolução de
uma união. A mesma
rede que entrega o adul-
tério, por exemplo, é a
vitrina da vida particular
das pessoas. Compras,
viagens, presentes, tudo
vira notícia na internet.
É aí que começa o
problema. O juiz titu-
lar da Vara de Família
do Fórum da Comarca
de Lajedo, Luís Antônio
de Abreu Johnson, afir-
ma que a ostentação na
rede, em especial, no
Facebook, pode se trans-
formar em prova no au-
xílio a fazer o cálculo da
responsabilidade sobre
os filhos.
As informações nas
páginas pessoais têm
sido usadas em revisões
de pensão alimentícia.
Elas se transformam em
mecanismos de prova
nos processos de sepa-
ração, nos quais a res-
ponsabilidade de prover
recursos para os filhos é
discutida.
O magistrado diz que
as mensagens geradas
nas páginas do Facebook
são largamente utilizadas
como prova. “Contrarian-
do até o princípio de que
ninguém é obrigado a fa-
zer prova contra si mes-
mo, o Facebook faz”, ava-
lia o juiz.
Os casos mais frequen-
tes estão ligados à osten-
tação. “São ações em que
se discutem alimentos, a
capacidade da parte deve-
dora em pagar a pensão.
O padrão de vida apresen-
tado na rede não condiz
com aquilo que ela sus-
tenta no processo”, pon-
tua o diretor da Vara de
Família.
Rodrigo Nascimento
rodrigon@informativo.com.br
A prova se torna fato consumado
Para a advogada de Lajeado Adriana
Diemer, o risco de compartilhar infor-
mações em uma sociedade “interligada”
se torna evidente em decisões judiciais.
Para ela, as provas coletadas no Face-
book tornam-se “fatos consumados pelo
simples fato de o juiz Johnson aceitá-las
em um processo”.
Conforme a advogada, que atua na
área do Direito de Família, nos proces-
sos que ela moveu, o uso de provas digi-
tais não foi aplicado, mas não descarta a
utilização. “O maior problema é quando
a parte devedora é autônoma. É difícil
comprovar renda”, avalia.
Adriana diz que a utilização do Face-
book em processos mostra a evolução do
Direito. Segundo ela, a própria Receita
Federal, que utiliza informações do car-
tão de crédito, acena para a tecnologia
como ferramenta de trabalho. “Ficamos
felizes com essa modernidade e alerta-
mos para o risco que se corre. Tudo que
se publica, deve ser sustentado”, con-
clui.
reprodução Facebook
Pessoas mostram mais do que gostariam
Para o professor de Comunicação
Digital da Pontifícia Universidade Ca-
tólica do Rio Grande do Sul (PUC/RS)
Marcelo Träsel, a exposição da vida
pessoal nas redes sociais, em si, não
é um problema. Segundo ele, alguns
usuários desconhecem o uso correto
dos níveis de privacidade do sistema.
Na era digital, o professor reforça
um conselho bem analógico: pensar
duas vezes antes de falar. “O pro-
blema começa quando as pessoas
expõem mais do que gostariam, por
não tomarem o tempo de entender a
ferramenta e não refletirem sobre as
possíveis consequências de divulgar
uma informação”, avalia.
Professor alerta para o controle dos
níveis de privacidade no Facebook
Juiz Johnson diz que informações pessoais na internet são admitidas como prova em processos
Lajeado, grande contingente
Segundo o juiz Johnson, por ser a cidade-polo do Vale
do Taquari, Lajeado abriga muitos profissionais autônomos,
empresários e prestadores de serviços.
Diferentemente, por exemplo, dos casos de trabalhado-
res assalariados, em que a renda é fornecida pelas próprias
informações trabalhistas, quem trabalha por conta, nem
sempre declara tudo que ganha. “Aí temos um grande con-
tingente de pessoas que podem ter uma renda maior do
que a que foi declarada em um processo”, pondera.
Por razões éticas, o juiz não diz quantos casos examina
com o uso do Facebook como prova. Só confirma que o me-
canismo existe e é utilizado com frequência em todo o país.
Como fazer a conta
Quando a parte devedora da pensão trabalha com car-
teira assinada, em média, fixam-se 30% dos rendimentos
líquidos para fazer o cálculo de uma pensão alimentícia.
Por exemplo, quando descontadas as obrigações fiscais,
o salário que sobra na folha de pagamento é de R$ 2 mil, a
pensão fica na casa dos R$ 600. “Isso serve para o básico”,
frisa o juiz.
Nos casos de despesas extras, como médico, dentista,
tratamento psicoterápico, é preciso ponderar e avaliar as
responsabilidades de pai e mãe.
Já nas ações em que o próprio Facebook entra como
reforço no argumento da renda, o magistrado precisa ter
“sensibilidade, razoabilidade e bom senso.” Johnson expli-
ca que avalia os valores entre as ofertas da parte devedora
e o que quem cobra, pede. “Somam-se, então, as necessida-
des do filho e fixa-se um valor indexado ao salário mínimo,
para que haja correção”, justifica.
Frederico Sehn
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Ostentação no Facebook vira prova nos processos de pensão alimentícia
Prática de verificar se o padrão declarado em um processo de alimentos condiz com a situação financeira apresentada na rede virtual se torna um mecanismo de prova na frente do juiz
O que dizem os usuários do Facebook
A reportagem de O Infor-
mativo entrevistou usuários
do Facebook que seguem os
perfis do jornal na rede. No
que os teóricos chamam de
“reportagem assistida por
computador”, em uma maté-
ria sobre o efeito digital, seis
usuários foram convidados a
dizer o que pensam sobre a su-
perexposição no Facebook.
Todos os ouvidos admitem
usar a plataforma mais do que
uma vez por semana; muitos,
diariamente, para finalidades
diferentes.
Ricardo Comel, 26 anos, publicitário
mora em Lajeado
“Tento manter certa privacidade do que
faço. Só compartilho conteúdo raramente. Eu
tenho muito cuidado com o que publico. Uso o
Facebook para trabalho. Já tem gente que não
é nada sem ostentar. É ilusão querer parecer,
ter a necessidade de ser ou de mostrar o que se
tem. Eu não faço isso.”
Nair Schüssler Naia (57), assistente geriátrica
mora em Lajeado
“Uso o Facebook como terapia. Trabalho
como assistente em geriatria. Quanto tenho
uma folguinha, e a barra pesa, procuro curtir,
compartilhar e publicar o que sinto em rela-
ções ao carinho das pessoas idosas, os tratos e,
muitas vezes, os relatos, brincadeiras e o que é
proveitoso. Acho que na rede não se deve ‘jogar
todos os peixes’, só o que realmente seja pro-
dutivo. Não é tudo que se publica.”
Elisabete Weber (43), assistente administrativa
mora em Estrela
“Normalmente, eu compartilho mensagens
com um bom texto. Dou um bom dia a amigos e
familiares distantes e publico fotos dos eventos
do Rotary Club Estrela, do qual eu participo.
Não ostento bens no Facebook. Isso pode pare-
cer que sou convencida. Já entendo que as pes-
soas são livres, mostram o que bem entendem.
Cada um faz o que acha melhor para si.”
Paulo Rodrigues Pinto (58), acadêmico de Direito
mora em Arroio do Meio
“Não tenho nada que eu faça que não possa
publicar. Apenas a minha vida a dois eu preser-
vo. Eu publico bens que eu compro, não com
muita frequência, mas dentro do meu padrão
de vida. Tenho dois mil amigos e acho que eles
gostam do que escrevo.”
Alex Galas Kranz (34), projetista 3D e designer
mora em Estrela
“Eu uso o Facebook para o trabalho, qua-
se diariamente, de segunda a sexta-feira. Uso
para publicar meus trabalhos, e da minha vida
pessoal, poucas informações, apenas algumas
fotos de filho e família. Isso é válido para os
mais próximos, mas da mesma forma, eu evito
me expor demais. A exposição pública, em ge-
ral, é o que é um problema.”
O Facebook entrou
no Brasil em
2011.
Segundo dados da rede,
o país é o segundo maior em
número de usuários do sistema
de relacionamento pessoal.
INTERATIVIDADE INTERATIVIDADE
Juiz Johnson diz que informações pessoais na internet são admitidas como prova em processos
Menos de
2%
das ações na Vara de Família
aceitam recurso de
uma das partes
do processo.