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Educação ao avesso: violência !

Dra. Fabiana Arenhart Lattuada
Juíza da Segunda Vara Judicial da Comarca de Torres/ RS
Dra. elena !eatriz !ier" #lbra/Torres
$sic%loga/$sicanalista
&menta' ( declínio do (utro en)uanto inst*ncia simb%lica normatizadora + o
cam,o -+rtil ,ara banalização do mal. . ,ossí/el ,romo/er a inclus0o social1
$arece ser ,onto ,ací-ico nos dias atuais" )ue a cultura ocidental est2 se
trans-ormando" seguindo ,or caminhos im,ens2/eis at+ a ,rimeira metade do s+culo
33. Cientistas" intelectuais" ,olíticos" acad4micos" entre outros" discutem sobre as
causas" e-eitos e im,lica56es )ue essas mudan5as geram no su7eito" o modo como o
a-etam e o constituem.
Se ,or um lado o ,rogresso cientí-ico caminha a ,assos largos no sentido de
o-erecer alternati/a e solu56es 8s /2rias -ormas de so-rimento humano" tais como o
desen/ol/imento de ,es)uisas de c+lulas tronco" /acinas" ,es)uisas gen+ticas" mudan5as
na rela50o do homem com o meio ambiente" ,or outro" + ineg2/el o aumento do
so-rimento ,sí)uico e social" e9,resso entre outros modos" ,ela /iol4ncia nas rela56es
humanas.
A mundializa50o da economia a,oiada no ideal liberal )ue ,ro,6e o
enri)uecimento recí,roco" liberando ,or+m as trocas de toda re-er4ncia reguladora" de
)ual)uer men50o ao outro" ,arece ser o terreno -+rtil ,ara essa situa50o" )ue alguns
autores n0o e9itam em denominar como banalização do mal. &ste ,ode ser entendido"
segundo De7ours :;<<=>" como o processo graças ao qual um comportamento
excepcional, habitualmente reprimido pela ação e o comportamento da maioria, pode
erigir-se em norma de conduta ou mesmo em valor.
(s meios de comunica50o estam,am diariamente cenas de /iol4ncia" dor e
so-rimento" as )uais n0o ,arecem mobilizar mais a sociedade. De,aramo?nos com uma
,ostura generalizada de resigna50o" como se a /iol4ncia -osse a,enas um -en@meno
sist4mico" decorrente de escolhas ,olítico?econ@micas e sobre o )ual n0o se ,oderia
e9ercer nenhuma in-lu4ncia. A ades0o 8 causa economicista" uma das tantas -aces do
discurso ca,italista" )ue se,ara a ad/ersidade da in7usti5a" n0o resulta como se costuma
crer" da mera indigna50o ou im,ot4ncia diante de um ,rocesso )ue nos transcende" mas
-unciona tamb+m como uma de-esa contra a ,r%,ria aliena50o" e9imindo o su7eito de
sua res,onsabilidade ante o so-rimento do outro. Aeste sentido" cada situa50o + uma
situa50o Bnica e singular n0o im,licando aos demais.
Cuinet :;<<D>" diz )ue /i/emos em uma es,+cie de e/id4ncia do consumo e
da abund*ncia criada ,ela multi,lica50o de ob7etos" na )ual os homens da o,ul4ncia se
cercam" n0o mais de outros homens" mas de ob7etos como com,utadores" celulares" -a9"
DVD" etc. Suas rela56es sociais est0o centradas" n0o mais em la5os com os outros
homens" mas sim na rece,50o e na mani,ula50o de bens e mensagens. ( discurso
ca,italista n0o ,romo/e as rela56es entre os homens" mas ,ro,6e ao su7eito rela50o com
um gadget" ob7eto de consumo curto e r2,ido.
$ode?se dizer )ue o discurso ca,italista ,romo/e a ilus0o de com,letude"
n0o mais com a constitui50o de um ,ar" mas sim" com um ,arceiro conect2/el e
desconect2/el ao alcance da m0o. A sociedade regida ,or esse discurso nutre?se da
-abrica50o da -alta de gozo" ,roduzindo ob7etos descart2/eis ,ara su7eitos insaci2/eis"
,romo/endo assim" uma no/a economia libidinal. ( discurso ca,italista trans-ormou o
su7eito em consumidor" transmutando seus dese7os em ob7etos de dese7os" )ue s0o
com,ulsi/amente ad)uiridos e consumidos num ,rocesso contínuo de es/aziamento
libidinal :e econ@mico>.
$ara Cuinet :;<<D>" ao se tornar dominante" o discurso ca,italista
/isa sobre,or o mercado 8 sociedade. $ara este" n0o e9iste mais sociedade" s%
mercado cu7as leis" 72 dizia Adam Smith" s0o in/isí/eis. A m0o in/isí/el )ue
regula o mercado n0o tem regula50o ,ossí/el" ,ois" no discurso ca,italista" n0o
h2 lei" s% im,erati/o' consumaE
&sta trans-orma50o radical dos ,rocessos sociais" ,olíticos e econ@micos tem
gerado ,ro-undas mudan5as na sub7eti/idade do su7eito" constituindo ,ara Felman
:;<<=> uma no/a econ@mica ,sí)uica. Aeste no/o cen2rio n0o h2 mais distin50o entre o
,Bblico e o ,ri/ado" o indi/idual e o coleti/o" o sagrado e o ,ro-ano" o legal e o ilícito" o
saber e a /erdade. &ste [ Admirável] undo !ovo" a,ro9ima?se muito da)uele descrito
na literatura -iccional em obras como "ahrenheit #$%" de RaG !radburG :DHI=>" &rave
!e' (orld" de Aldous u9leG :DH=;>" e %)*#, de Jeorge (rKell :DHLH>. Aeles" a
re,resenta50o? constru50o simb%lica ,or e9cel4ncia?" + substituída ,ela ,resenta50o" a
coisa em si ao alcance da m0o" ou se7a" /i/emos uma mutação cultural que marca o
apagamento do lugar de esconderi+o pr,prio a abrigar o sagrado" o enigma. De acordo
com Freud" a rela50o do su7eito com o mundo n0o se d2 de -orma imediata" direta e
sim,les com os ob7etos como no mundo animal" no )ual basta se dei9ar guiar ,elos
instintos. $elo contr2rio" ela + mediatizada ,ela linguagem" ,ois + ela )ue cria os
interditos" constituindo a ,r%,ria realidade" )ue + antes de tudo simb%lica. Antes de mais
nada" somos seres -alantes e Mn0o naturais.N Osto signi-ica dizer )ue o humano s% se
constitui como tal pela linguagem e na linguagem. Como diz !aPthin" somente um
Ad0o mítico teria dito ,ala/ras originais. Daí ,or)ue" estamos sem,re -adados a dizer as
,ala/ras de outro. $ara !albo :;<<L>" + a l-ngua que nos causa, pois s, .alamos por
ouvi-lo da boca do /utro, outro esse )ue + nosso semelhante" assim como tamb+m s0o
do /utro a)uelas /eiculadas ,ela cultura em torno do :nosso> ber5o.
(ra" este + 7ustamente o n% gordio )ue se im,6e 8)ueles )ue se ,ro,6e a re-letir
sobre )uest6es da nossa contem,oraneidade. . ,or)ue su,omos a e9ist4ncia de um
(utro" ancestral a n%s" de,osit2rio da con-ian5a" constituinte da língua )ue nos
engendra" situada ao lado dos totens" dos mitos" dos ancestrais" dos ,ais mortos e tabus"
recalcados e simb%licos" mais do )ue do lado dos ,ais e m0es bem /i/os e das línguas
)ue eles -alam cotidianamente" mas )ue na ,%s modernidade encontra?se cada dia mais
es/aziado" de uto,ias" cren5as" ,romessas" ,ala/ras" autoridades" re-er4ncias" de
,rescri56es" na )ual os indi/íduos t4m )ue se determinar ,or eles mesmos" singular e
coleti/amente.
De acordo com De7ours :;<<=>" ho7e todos ,artilham um sentimento de medo ?
,or si" ,elos ,r%9imos" ,elos amigos ou ,elos -ilhos ? diante da amea5a de e9clus0o.
$ara muitos h2 uma cli/agem entre so-rimento e in7usti5a.
&sta cli/agem + gra/e. $ara os )ue nela incorrem"
o so-rimento + uma ad/ersidade" + claro" mas essa
ad/ersidade n0o reclama necessariamente rea50o
,olítica. $ode 7usti-icar com,ai90o" ,iedade ou
caridade. A0o ,ro/oca necessariamente indigna50o"
c%lera ou a,elo 8 a50o coleti/a. ( so-rimento
somente suscita um mo/imento de solidariedade e
de ,rotesto )uando se estabelece uma associa50o
entre a ,erce,50o do so-rimento alheio e a
con/ic50o de )ue esse so-rimento resulta de uma
in7usti5a. &/identemente" )uando n0o se ,ercebe o
so-rimento alheio" n0o se le/anta a )uest0o da
mobiliza50o numa a50o ,olítica" tam,ouco a )uest0o
de 7usti5a e in7usti5a :gri-os nossos" ,.DH>.
&is ent0o a )uest0o central destas re-le96es' a cada dia )ue ,assa constatamos
com mais e/id4ncia a -ragilidade desta su,osi50o -undante do humano" de )ue e9iste
(utro. . . ,or )ue ele e9iste )ue eu ,osso" a ,artir da)uilo )ue me -oi -alado" /ir?a?ser
su7eito de dese7o e de direitos. . ,elo enunciado de meu semelhante" do )ual +
articulado alguma signi-ica50o" )ue a)uilo )ue -oi escutado no (utro ganha
consist4ncia. &ste (utro ,or+m" e9iste en)uanto inst*ncia simb%lica" ,ois -unda?se
essencialmente sobre a im,ossibilidade de )ue o real ,ossa ser a,reendido en)uanto tal"
e )ue toda re,resenta50o sem,re ser2 atra/essada ,elo im,ossí/el" ,ois tudo n0o ,ode
ser dito.
Certamente n0o estaríamos e9tra,olando em nossas ,ro,osi56es" su,or )ue +
7ustamente ,or)ue -alta o (utro )ue a /iol4ncia tem emergido de maneira brutal em
nosso ,aís. A morte do menino Jo0o +lio a,onta n0o s% ,ara a -alta do (utro" )uer se7a
,elo /i+s do &stado" este n0o garante se)uer a /ida de seus cidad0os" ,elo /i+s da
-amília dos in-ratores" o pai de 0 não acreditava que seu .ilho pudesse ser um bandido.
0le 1o .ilho2 não precisava disso. 0stava estudando e ganhava dinheiro lavando carros,
a.irma. 0u sabia que meu .ilho andava com más companhias, mas nunca imaginei que
pudesse .azer uma coisa dessa :re/ista Ve7a" DL/<;/;<<Q" ,.I<>" )uer ,ela ,r%,ria
im,rensa" )uando diz..../ mais desalentador 3 constatar que o pequeno 4oão 53lio
chegou ao supl-cio em vão. !ada vai acontecer com os criminosos que o
desmembraram em p6blico e logo eles e outros estarão nas ruas predando os meninos-
4oão. /s explicadores continuarão suas ladainhas, seus seminários, suas viagens para
conhecer cidades que venceram o crime, suas re.ormas para dar resultado daqui a um
s3culo, suas vis7es id-licas de que .avelas são soluç7es. [...] a decisão de quem vive e
quem morre, in.elizmente está nas mãos dos bandidos :idem" ,.LR>.
$ensamos )ue o horror deste crime escancare a ,r%,ria -ragilidade social" a
)ual diante da angBstia n0o hesita em lan5ar m0o de mecanismos de de-esa como o
encarceramento de adolescentes" o recrudescimento do sistema ,enal" ,articularmente
no )ue tange as restri56es de ,rogress0o de regime" como se a transgress0o -osse uma
)uest0o e9terna ao su7eito" e n0o uma ,ossibilidade do humano. A0o ,odemos es)uecer
)ue a cultura ocidental -unda?se sobre um ato de /iol4ncia" a morte do ,ai e o interdito
do incesto. A Lei surge e9atamente como ordenadora das rela56es e ,unidora das
transgress6es. Logo" ela se sustenta na -alta do ,ai. $or)ue h2 -alta" h2 Lei. Lei )ue
remete sem,re ao (utro.
Disto decorre )ue a /iol4ncia emerge 7ustamente onde -alta Lei :,or isto o
e9cesso de normatiza50o 7urídica>" com,reendendo por viol8ncia o ato, a palavra, a
situação, etc., em que um ser humano é tratado como um objeto, sendo
negados seus direitos e sua dignidade de ser humano, de membro de uma
sociedade, de sujeito insubstituível. Assim definida, a violência é o exato
contrário da educação, que ajuda a advir o ser humano, o membro da
sociedade, o sujeito singular ( Abramovay, M. in Cotidiano das Escolas: entre
violências. Brasília : UNESCO, Observatrio de !iolência, Minist"rio da Ed#ca$%o, &''(.)
Aeste momento de trans-orma50o em )ue /i/emos" ,or+m" a -alta :at+ ent0o
constituinte>" tornou?se um de-eito a ser su,erado. ( )ue im,orta + a garantia de )ue a
satis-a50o ser2 alcan5ada" se7a no *mbito social" ,olítico ou econ@mico. Atra/+s do
acesso 8s coisas" criamos a ilus0o de )ue a -alta ,ode ser su,erada. ( a,elo insistente ao
6ltimo modelo -eito ,ela mídia nos remete a uma corrida sem regras e sem limite" sendo
a drogadi50o um dos sintomas mais característicos da contem,oraneidade. A droga
re,resenta n0o s% o acesso ao gru,o" mas ao dinheiro" ao status" ao ,oder" e ao gozo
mortí-ero. (s ,ais se recusam a -azer di-eren5a" em,urrando ,ara escola as -un56es )ue
lhe ,ertenciam" essa im,otente assiste a e/as0o e a re/olta dos alunos.
Aas escolas assistimos a descontru50o do ,rocesso de ensino?a,rendizagem. (s
dados recorrentemente a,ontados ,elo SA&! :;<<Q> reiteram o )uadro de dram2tica
insu-ici4ncia no desem,enho dos alunos regularmente matriculados nas redes de &nsino
Fundamental e F+dio. (s resultados re/elam ,ro-undas desigualdades regionais )ue se
mani-estam nas condi56es de o-erta educacional" tanto em termos de in-ra?estrutura
escolar como dos resultados de rendimento. Tamb+m se /eri-ica o car2ter negati/o da
distor50o idade/s+rie no desem,enho do aluno' o desem,enho dos alunos diminui 8
medida )ue a/an5a a de-asagem da idade em rela50o 8 s+rie cursada. Alunos da )uarta
s+rie -undamental a,resentaram melhor desem,enho do )ue os de RS s+rie. Osto signi-ica
a-irmar )ue a ,erman4ncia n0o escola n0o + acom,anhada do desen/ol/imento das
habilidades e com,et4ncias necess2rias" mas muito ,elo contr2rio. 2 um declínio das
condi56es.
&m geral" )uando se aborda a )uest0o da a,rendizagem imediatamente
associamos 8 escola e aos ,rocessos ,edag%gicos -ormais. (s dados ,es)uisados" as
estatísticas o-iciais dis,oní/eis dizem res,eito )uase )ue e9clusi/amente 8 2rea escolar.
(s crit+rios de re,eti50o e e/as0o a,arecem com am,lo desta)ue como res,ons2/eis"
em ,arte" ,elo -racasso da a,rendizagem. Contudo" sabemos )ue os ,rocessos de
a,rendizagem e suas /icissitudes n0o ,odem ser reduzidos a,enas ao *mbito do
conhecimento ,edag%gico necessitando ,or isso da interlocu50o com as demais 2reas do
conhecimento. A ,r%,ria ,roblem2tica da re,eti50o e e/as0o escolar encerram /ari2/eis
)ue /0o muito al+m da inade)ua50o metodol%gica" des,re,aro ,ro-issional" -alta de
in-ra?estrutura da rede escolar ,Bblica" bai9a Mauto?estimaN do cor,o docente e discente.
A escola" tal )ual a -amília" re-lete a muta50o em )ue /i/emos. Jru,os mal
articulados sem saber )uais s0o as suas -un56es" logo" im,ossibilitados de transmitir
/alores e e9,eri4ncias" tornam?se a,enas agentes de cuidados buscando a ,r%,ria
sobre/i/4ncia. $or mais ,arado9al )ue ,are5a a ,rimeira /ista" -re)uentemente as m0es
de crian5as /ítimas de ass+dio ou abuso se9ual acabam ,rotegendo a)uele )ue in-ligiu
dano ao seu -ilho/-ilha" na maioria das /ezes" seu ,r%,rio ,arceiro.
$ara Roudinesco :;<<;>" na -amília Mcontem,or*nea ou ,%s?modernaN? surgida
na d+cada de DHT< ? a transmissão da autoridade vai se tornando problemática 9
medida que os div,rcios, separaç7es e recomposiç7es con+ugais aumentam. A .am-lia
de ho+e encontra-se mutilada, .eita de .eridas -ntimas, viol8ncias silenciosas, de
lembranças recalcadas. Com e-eito" assistimos ho7e a decad4ncia n0o s% do ,atriarcado"
mas -undamentalmente do /alor simb%lico do ,ai" o nau-r2gio da autoridade" o
a,agamento de toda di-eren5a e a irru,50o de um ,oder ilimitado do materno in/adindo
o cor,o social" no mesmo momento em )ue a clonagem ,arece amea5ar o homem com
uma ,erda de identidade. De acordo com a autora
sem ordem ,aterna" sem lei simb%lica" a -amília
mutilada das sociedades ,%s?industriais seria" dizem"
,er/ertida em sua ,r%,ria -un50o de c+lula de base da
sociedade. &la se entregaria ao hedonismo" 8 ideologia
do Msem tabuN. Fono,arental" homo,arental"
recom,osta" desconstruída" clonada" gerada
arti-icialmente" atacada do interior ,or ,retensos
negadores da di-eren5a entre os se9os" ela n0o seria
mais ca,az de transmitir seus ,r%,rios /alores . Como
conse)U4ncia" o (cidente 7udaico?crist0o e" ,ior
ainda" a democracia re,ublicana estariam amea5ados
de decom,osi50o. Daí a ,ermanente e/oca50o de
cat2stro-es ,resentes e /indouras' os ,ro-essores
a,unhalados" as crian5as estu,radas e estu,radoras" os
carros incendiados" as ,eri-erias entregues ao crime e
8 aus4ncia de )ual)uer autoridade : ,. D<>.
S(!R& ( S&RVOV( D& $SOC(L(JOA DA VARA DA OAFWACOA &
J#V&AT#D&" AA C(FARCA D& T(RR&S.
( Ser/i5o de $sicologia da Vara da On-*ncia e Ju/entude da Comarca de
Torres" surgiu em ;<<L a ,artir do interesse de acad4micas do Curso de $sicologia da
#lbra/Torres. A in/estiga50o centra/a?se sobre a ,ossibilidade de interlocu50o entre
$sican2lise e Direito a ,artir dos casos de ,erícia 7udicial. As res,ostas obtidas nos
mostraram )ue n0o a,enas era ,ossí/el" mas como tamb+m necess2ria. ( des/elamento
do su7eito do inconsciente ao su7eito de direitos ,ossibilita uma outra recon-igura50o
de sua demanda" ,ermitindo )ue ele se res,onsabilize ,or a)uilo )ue lhe -az causa. Ao
mesmo tem,o em )ue descortina ao $oder Judici2rio/ Finist+rio $Bblico" no/os
elementos )ue ,oder0o ser agregados a seus ,osicionamentos" ser/indo muitas /ezes de
-undamento a decis6es 7udicializadas.
&ste Ser/i5o iniciou com uma estagi2ria e uma ,ro-essora su,er/isora. As
demandas crescentes" tanto da comunidade" )uanto do $oder Judici2rio" assim como as
da e)ui,e en/ol/ida ? na +,oca 72 cont2/amos com o au9ílio de tr4s acad4micas
estagi2rias X -izeram com )ue o Ser/i5o de $sicologia se constituísse -ormalmente"
/indo a ser inaugurado em no/embro de ;<<I. A e)ui,e era constituída" ent0o" ,or
cinco acad4micos estagi2rios e tr4s ,sic%logas" todos /olunt2rios. Atualmente a e)ui,e
+ com,osta ,or H acad4micos estagi2rios" e tr4s ,sic%logas.
( ob7eti/o do Ser/i5o de $sicologia + ,romo/er a interlocu50o entre o curso de
$sicologia da #L!RA/ T(RR&S" o $oder Judici2rio" o Finist+rio $Bblico" assim como
demais institui56es /oltadas aos interesses da in-*ncia e 7u/entude" /isando desen/ol/er
,es)uisas" estrat+gias" inter/en56es e ca,acita50o de recursos humanos" )ue ,ossam
contribuir ,ara o -omento de ,olíticas ,Bblicas norteadas ,elo ,rincí,io da ,rote50o e
aten50o integral 8s crian5as" adolescentes e suas -amílias" ,ossibilitando" ao mesmo
tem,o" )ue acad4micos e ,ro-issionais ,ossam colaborar ,ara solu50o de )uest6es
essenciais da comunidade.
&ste trabalho + realizado em )uatro *mbitos'
&scuta Clínica' realiza50o de a/alia56es ,sicol%gicas ,ericiais" acom,anhamentos"
entre/istas clínicas de triagem" a/alia50o ,sicol%gica de ,retendentes 8 ado50o"
atendimento ,sicol%gico 8 beb4s com indicadores de risco de so-rimento ,sí)uico
im,ortante"
&nsino' semanalmente s0o realizadas reuni6es de su,er/is0o" com discuss0o de
casos. $eriodicamente s0o realizados semin2rios com ,ro-issionais de di/ersas 2reas do
conhecimento" /isando n0o s% o enri)uecimento da ,r29is coleti/a e indi/idual" como
tamb+m" o trabalho dentro de um cam,o multidisci,linar.
$es)uisa' s0o realizados n0o s% le/antamentos estatísticos sobre a realidade da
comarca de Torres" como tamb+m s0o ,roduzidos trabalhos de in/estiga50o te%rica
,rocurando re-letir sobre a ,roblem2tica encontrada. Foram realizadas" at+ agora" )uatro
Trabalhos de Conclus0o de Curso :TCC>" sendo dois concluídos e dois em andamento"
uma ,es)uisa" e um ,ro7eto comunit2rio multidisci,linar.
&9tens0o' realiza50o de cursos" 7ornadas" inter/en50o ,sicol%gica em escola e
creche" cam,anha sobre ado50o" ,alestra ,ara ,ro-issionais da rede munici,al de
educa50o e saBde sobre a ado50o" ,alestra 7unto a Vara de &9ecu56es Criminais sobre as
im,lica56es ,sicossociais da drogadi50o" ,artici,a50o na ,ro,osta de constitui50o do
Conselho Comunit2rio de $re/en50o 8 Viol4ncia e $romo50o da Onclus0o Social.
A ,artir da e9,eri4ncia do Ser/i5o de $sicologia 7unto ao Juizado da On-*ncia e
Ju/entude" -oi se tornando e/idente )ue a )uest0o da /iol4ncia n0o ,ode mais ser
considerada dentro do *mbito de a,enas um ou outro cam,o do conhecimento" mas
,recisa ser re-letido dentro de uma am,la rede de conhecimentos. $ara tanto" torna?se
indis,ens2/el a ,resen5a n0o s% de ,ro-issionais )ue lidam diretamente com essa
,roblem2tica" mas tamb+m da comunidade e das institui56es )ue se ,reocu,am com
esta )uest0o.
Ao trabalho )ue realizamos 7unto a uma escola estadual localizada em um bairro
,eri-+rico de Torres" de,aramo?nos com adolescentes de DD?D; anos )ue discutiam
abertamente sobre o /alor de uma ,edra de crac:, tendo como re-er4ncia o ,re5o
cobrado ,or seus -amiliares. (utro insistia em dizer )ue na ;ocinha s, tinha bandido,
que aqui era a ;ocinha e que ele era bandido. Osto era a-irmado com orgulho e
des,rezo. (u se7a" o adolescente identi-ica/a?se com a -or5a dos criminosos e ao mesmo
tem,o com a)ueles )ue eram des,rezados ,ela ,r%,ria sociedade. Dizia )ue a escola
era lugar de vacas, maconheiros, tra.icantes, alunos, pro.essores e tarados. 0sta escola
era uma reunião de vagabundos, tra.icantes, recebendo os ruins das outras escolas....
<ue havia pro.essores alcoolistas, tarados... Alunos contando sobre /izinhos e
conhecidos" com I anos de idade" -umando crac:, entregando drogas ,ara seus ,ais.
&sta triste realidade" ,or+m" n0o est2 circunscrita a,enas a esta escola" mas -az ,arte
de grande nBmero de escolas deste ,aís. &studos realizados ,ela #A&SC( e seus
,arceiros : &SC(LA A!&RTA $ARA CODADAAOA. Relat%rio de A/alia50o. S&C/RS?
#A&SC(" ;<<T>" em todo ,aís" e/idenciam )ue os índices de /itimiza50o 7u/enil
aumentam signi-icati/amente nos -inais de semana" muito em -un50o da aus4ncia de
o,56es culturais" es,orti/as e de lazer ,ara os 7o/ens das classes menos -a/orecidas. A
-alta de acesso a esses bens e ser/i5os -a/orece o en/ol/imento dos 7o/ens em situa50o
de /iol4ncia" tanto atra/+s da criminalidade" como do uso de drogas e entor,ecentes.
De acordo com as ,es)uisas realizadas ,elo (bser/at%rio de Viol4ncia nas
&scolas" de acordo com o Relat%rio de A/alia50o S&C/RS? #A&SC(";<<T " em cinco
ca,itais brasileiras" entre elas $orto Alegre" com ,ro-essores" alunos e cor,o t+cnico
,edag%gico das escolas ,Bblicas das redes munici,al e estadual" L<Y dos alunos
gaBchos a-irmam 72 ter /istos armas em suas escolas" o )ue con-ere a nossa ca,ital a
maior ,orcentagem obtida entre as outras cinco ca,itais ,es)uisadas. Desses" DQ";Y 72
/iram re/%l/eresZ ;Q Y 72 /iram cani/etes" DQY 72 se de,araram com -acas e R";Y 72
/iram ,unhais nos es,a5os escolares. Al+m disto" TR"RY do alunado dizem )ue suas
escolas 72 -oram in/adidas ,or gangues" ,or ,essoas ligadas ao tr2-ico de drogas ou
sim,lesmente estranhos.
. di-ícil acreditar )ue institui56es de ensino ,ercebidas deste modo ,elos seus
cor,o docente e discente ,ossam cum,rir com seu ob7eti/o. A0o h2" nos discursos dos
alunos" nenhuma credibilidade em rela50o 8 institui50o escolar. Logo" a sua
,erman4ncia nela n0o est2 atrelada a nenhum ,ro7eto de constru50o ,essoal ou social"
mas sim ao de su,ortar ou re,roduzir a /iol4ncia em )ue /i/e. A0o + de estranhar )ue os
alunos n0o tenham 49ito na a,rendizagem -ormal" como demonstram as estatísticas
go/ernamentais.
Contudo" no trabalho )ue desen/ol/emos 7unto a escola ,Bblica" )uando -oi
o-erecido aos alunos a o,ortunidade de realizar ati/idade e9tra?classe" en/ol/endo a
criati/idade" leitura e escrita eles logo ,ediram ,ara ,artici,ar. Foram criados L gru,os"
en/ol/endo em torno de =< alunos. Desses" a,ro9imadamente ;< ,artici,aram dos D<
encontros ,ro,ostos. A tem2tica destes encontros era o cotidiano dos adolescentes" sua
realidade -amiliar" escolar" seu bairro" seus amigos" suas di-iculdades e ,ro7etos
,essoais.
&ram adolescentes di/ididos entre a)uilo )ue suas -amílias lhe demanda/am" como
cuidado com a casa" do irm0o menor" di/idir a res,onsabilidade sobre o sustento da casa
com a m0e" e os sonhos rom*nticos de ter namorado/a" ,asseios" um lugar melhor ,ara
/i/er" os con-litos de gangues e o descr+dito nas institui56es. Ao cotidiano do Ser/i5o
de $sicologia encontramos crian5as e adolescentes so-rendo com o desam,aro -amiliar"
escolas )ue n0o conseguem lhes escutar" ,ro-essores )ue amea5am em /ez de ,roteger"
amigos )ue os utilizam como distribuidores de drogas. ( go/erno diante disto tem
sem,re o mesmo discurso' n0o h2 dinheiroE $arece?nos )ue reduzir toda esta com,le9a
situa50o a uma mera )uest0o -inanceira" + estimular a banalização do mal a )ual
interessa tanto aos go/ernantes como os go/ernados" ,ois assim a res,onsabilidade de
cada um diante da /iol4ncia + e9cluída.
$ensamos )ue a minimiza50o do &stado" da -amília" da escola" e o conse)Uente
aumento da /iol4ncia nada mais + do )ue sintoma da -ragiliza50o do (utro. (s
o,eradores simb%licos da cultura est0o sendo sucessi/amente destituídos n0o o,erando
mais como ordenadores. Aeste sentido" a -alta de limites" )uei9a comum em nossa
sociedade" denuncia o ,r%,rio ilimitado das coisas. A ,ala/ra n0o encontra mais
sustenta50o nem simb%lica nem legal. $ro/a disto s0o os ordenamentos 7urídicos -eitos
ao arre,io da lei maior" /isando a satis-a50o ilus%ria do eleitor :e do eleito>. A0o +
encarcerando adolescentes ou discriminando as mulheres X sob o /+u da ,rote50o ? )ue
a /iol4ncia e a e9clus0o social diminuir0o. &n)uanto o su7eito n0o -or res,ons2/el" tanto
,elos seus direitos como dese7os" ele -icar2 a merc4 dos discursos totalit2rios" )uer
ideol%gicos" cientí-icos ou religiosos.
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