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Uma Proposta de Interpretação para a Canção

“Melodia Sentimental”
de Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959).


Por Ricardo Tuttmann


I. Curtas notas históricas:

“Melodia Sentimental” faz parte do grupo de canções escritas sobre letra da
poetisa Dora Vasconcelos, companheira fiel do casal Villa-Lobos nos seus
últimos meses em Nova York.

Juntamente com três outras canções („Cair da Tarde‟, „Canção de Amor‟ e
„Veleiros‟), integra a trilha sonora do filme americano Green Mansions, rodado
na região amazônica, na década de 50 do século passado.

Interessante se faz notar que a música acabou não sendo usada na película,
de forma que as quatro canções foram estreadas por Bidu Sayão a 12 de julho
de 1959, no Palissades Interstate Park, de Nova York.

Como peça de concerto, a trilha sonora completa – incluindo-se aí as canções
– é conhecida pelo título de „A Floresta Amazônica‟, a qual, posteriormente, foi
coreografada e transformada em um balé.

II. O Texto:

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escuta,
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Que brilha
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tão bela e branca,
Derramando doçura,
Clara chama silente,
Ardendo o meu sonhar.

As asas da noite que surgem,
E correm no espaço profundo.
Ó doce amada desperta,
Vem dar teu calor ao luar.

Quisera saber-te minha,
Na hora serena e calma.
A sombra confia ao vento
O limite da espera.

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura!
Querida é linda e meiga,
Sentir meu amor é sonhar.

Obs.: Em alguma partituras, a última frase aparece como „Sentir meu amor e
sonhar‟ (com a conjunção „e‟ ao invés do verbo „ser‟).

III. Proposta interpretativa:

O primeiro aspecto a ser observado na execução desta peça é a indicação
agógica do próprio autor: poco moderato. Os intérpretes, especialmente o
pianista ou o maestro, devem resistir à tendência de utilização de tempos
lentos, afastados daquela indicação, uma vez que a canção apresenta uma
fluência intrínseca. Além disso, no c.19, com o rallentando, na preparação da

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Algumas versões trazem o verbo „fulge‟, ao invés de „brilha‟.
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fermata do c.20, qualquer exagero de lentidão pode descaracterizar a peça,
cuja natureza „palpitante‟ aparece nitidamente no acompanhamento.
Desta forma, há que se tomar cuidado para que a canção não se torne
monótona.
Outro fator que vai de encontro a um andamento muito lento é o fato de que as
dificuldades técnicas do canto, com frases muito longas e de grande extensão
vocal, cobrarão seu tributo sob a forma do comprometimento da qualidade da
voz.
Uma figura rítmica recorrente, que exige a atenção dos intérpretes, é a da
semibreve ligada à primeira semínima da tercina do primeiro tempo do
compasso seguinte. Ela ocorre nos c.5 e 6, c.9 e 10, c.13 e 14, c.21 e 22, c.25
e 26, c.29 e 30, assim como nos c.33 e 34. A dificuldade é do cantor se
„desprender‟ daquela nota e proporcionar o impulso para realizar o resto da
quiáltera, sem sacrificar o andamento da peça, o que exige atenção redobrada
do pianista/maestro para eventuais „flexibilizações emergenciais de
andamento‟.
Na execução da primeira frase, é importante que o cantor realize uma cesura
no c.6, entre o convite (acorda) e sua finalidade (vem ver a lua), separando as
orações sem interrupção da linha melódica.
A palavra ver , no c. 6, colocada sobre um agudo (sol4), deve ter sua dinâmica
controlada, de forma a se evitar uma colocação operística da voz, totalmente
despropositada na canção de câmara.
O mesmo se aplica mais adiante, no c.22, com a palavra noite, e, logo a seguir,
no c. 23, durante a execução do lá agudo sobre o verbo surgem. Outrossim, no
c. 27 com o sol agudo sobre o qual se canta a sílaba „fun‟ da palavra profundo.
Quando do „da capo’, temos no c.6 a sílaba „ber‟ do verbo saber-te, o c.22 com
a sílaba „o‟ do verbo olhar, o c.23, com a palavra lua, onde a sílaba „lu‟ é
executada sobre um lá4. No c. 27 aparece a palavra escura, passando sobre
um sol agudo.
Igualmente camerística devem ser o ataque e a execução do lá agudo final da
peça, com a interjeição Ah!
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A frase „Que dorme na noite escura‟ (c.8 – c.11) deve transmitir a serenidade e
a „doçura derramada‟ por alguém que dorme, „bela e branca‟.
A doce imagem da lua é ratificada nos c.28 – 31, onde o convite para o
despertar da amada deve ser traduzido, na voz, através de um sombreamento
tímbrico suave e delicado.
No início do „da capo‟, nos c.8 – 11, o clima tranqüilo volta a ser expresso „na
hora serena e calma‟. Aqui seria interessante o fá, da sílaba „re‟, no c. 10, ser
executado em piano, preparado através de um movimento de decrescendo a
partir da nota imediatamente anterior, o ré da sílaba „se‟. Um pequeno cedendo
sobre aquela nota mais aguda da frase contribuirá para um reforço do clima
contemplativo daquele momento.
Logo a seguir, nos c. 12 – 15, é importante para o cantor transmitir a idéia de
confidência, contida na frase „a sombra confia ao vento‟. Aqui sugiro que a voz
sublinhe, por meio de recurso tímbrico, o mistério da confidência já na palavra
„sombra‟.
Outra cesura se faz necessária no c.22, entre „acorda‟ e „vem olhar a lua‟.
Cuidado deve ser tomado pelo intérprete vocal, no sentido da emissão
controlada do lá4 sobre a palavra „lua‟, de forma a não se cometer qualquer
exagero operístico. Com relação a esta nota, o pianista deve estar atento para
eventuais dificuldades de fôlego do cantor, ajustando a execução dos c.37 –
39, de acordo com as condições do momento.
Quanto à prosódia, um pequeno problema precisa ser solucionado pelo
intérprete, a saber: o verbo „olhar‟, no c.22 do da capo.
Em anexo, encontra-se cópia da partitura.

Referências bibliográficas:

Enciclopédia da Música Brasileira: Popular, Erudita e Folclórica, 2
a
. Ed.,
São Paulo: Art Editora: Publifolha, 1998, 887p.

MARIZ, V., A Canção Brasileira de Câmara, Rio de Janeiro: Ed. Francisco
Alves, 2002, 350p.