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6º Congresso SOPCOM

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O Cinema Expandido de Peter Greenaway: uma análise do projecto
The Tulse Luper Suitcases
Gabriela Borges
CIAC / FCHS – Universidade do Algarve

Resumo
Esta comunicação tem o intuito de discutir, num primeiro momento, o conceito de
cinema expandido que vem sendo debatido por teóricos e artistas desde os anos 1960 e,
num segundo momento, analisar o projecto multimédia Tulse Luper Suitcase do
realizador britânico Peter Greenaway. Este projecto foi elaborado para ser apresentado
nos mais variados media e nas mais diversas formas de expressão, tais como cinema de
alta definição, DVD, exposições em galerias e museus, romance, livro de contos, guião,
peça de teatro, site, jogo on-line e também um avatar no Second Life. Ou seja, como
uma proposta de cinema expandido em que os recursos técnico-expressivos digitais são
usados no sentido de ampliar as possibilidades de produção de sentido da obra na sua
relação intersemiótica entre estes diversos media. Além disso, este projecto multimédia
fornece elementos para uma reflexão a respeito do processo de criação artística de Peter
Greenaway, uma vez que tal proposta é delineada a partir de elementos estéticos e
traços de estilo que encontramos ao longo de toda sua obra.
Sendo assim, propõe-se a análise, por um lado, das relações intersemióticas entre as
várias formas de expressão artística e, por outro lado, a discussão das novas e diversas
potencialidades de uma poética audiovisual que questiona não apenas as limitações do
cinema tradicional e o poder da narrativa, mas também as novas experiências propostas
para o espectador na sua relação.


We should not want a cinema of appropriation, of mimesis, or reproduction of the
known world, not even a cinema of virtual reality, but a cinema of virtual unreality”.
Greenaway

Esta comunicação tem o intuito de discutir, num primeiro momento, o conceito
de cinema expandido que vem sendo debatido por teóricos e artistas desde os anos 1960
e, num segundo momento, analisar o projecto multimédia The Tulse Luper Suitcases do
realizador britânico Peter Greenaway. Este projecto foi elaborado como uma proposta
de cinema expandido em que os recursos técnico-expressivos digitais são usados no
sentido de ampliar as possibilidades de produção de sentido da obra na sua relação
intersemiótica entre diversos media. Além disso, fornece elementos para uma reflexão a
respeito do processo de criação artística de Peter Greenaway, uma vez que tal proposta é
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delineada a partir de elementos estéticos e intersemióticos que encontramos ao longo de
toda sua obra.
Sendo assim, propõe-se a análise, por um lado, das relações intersemióticas entre
as várias formas de expressão artística e, por outro lado, a discussão das novas e
diversas potencialidades de uma poética audiovisual que questiona não apenas as
limitações do cinema tradicional e o poder da narrativa, mas também as novas
experiências propostas para o espectador na sua relação com o espaço e o tempo.

A Intersemiose no Processo Criativo de Peter Greenaway
Peter Greenaway é um cineasta que desde os anos 60 do século passado tem
criado filmes e projectos inovadores que primam pelo excesso e constróem uma malha
intersemiótica que explora aspectos estéticos tais como a saturação de elementos num só
plano, a coleção de objectos, a contagem numérica, além de enfatizar a materialidade do
corpo, principalmente feminino. A imagem e o som dialogam em seus filmes que, por
sua vez, dialogam com outras formas de expressão, tais como a pintura, o teatro, a
instalação, a ópera, entre outras.
O projecto The Tulse Luper Suitcases trabalha com a ideia de coleção seguindo o
mesmo processo criativo de outros trabalhos em que a classificação alfabética, numérica
ou taxonômica aparece, como por exemplo na ópera-prop 100 objectos para
representar o mundo, nos filmes A walk through H (1978), The Falls (1980) e
Drowning by numbers (Afogando em Números, 1988), assim como trabalha com a
relação imagética entre diversos planos dentro do plano cinematográfico, como nos
filmes Prospero’s Book (1991) e The Pillow Book (1996), e no programa de televisão
TV Dante (1989)
2
.
A ópera-prop 100 objectos para representar o mundo surgiu em 1997 como uma
reflexão de fim de milênio inspirada nas duas naves espaciais Voyager que foram
lançadas ao espaço em 1977 e que continham materiais que podiam representar a vida
na terra em caso de um contacto com inteligências extraterrestres. Este espectáculo

2
Apesar de toda a obra do autor explorar elementos como os enunciados acima, este artigo refere apenas
alguns deles que estão mais intimamente relacionados ao projecto The Tulse Luper Suitcases.
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surgiu na sequência da exposição no Palácio de Hofburg e no Semper Depot em Viena,
onde em 1992 foi apresentado um avião acidentado e 100 armaduras, um bebê vivo e o
carro funerário de Francisco J osé, uma mosca gigante, uma mulher profundamente
adormecida e um carregador levando 100 malas do ponto A ao ponto B. A exposição foi
visitada por 60.000 pessoas, que concordaram ou discordaram da lista proposta pelo
autor. A seguir, Peter Greenaway usou a mesma lista de 100 objectos e os apresentou de
outra forma, já não num museu com muitos corredores, salas e escadarias, mas num
teatro, no sentido de “trazer os objectos para platéia, em vez de levar a platéia aos
objectos” (Greenaway, 1998). Com o intuito de explorar o potencial estético da
linguagem cinematográfica e teatral, os objectos foram mostrados por meio de luz, voz
e música, numa ópera moderna intitulada ópera-prop, uma ópera de objectos
significativos que podiam representar o mundo.
Apesar de objectos serem inanimados, os objectos da ópera-prop foram
apresentados num “misto de exposição de ideias numa loja de brinquedos celestial
maquiavélica e numa sala fantástica faustiana” (Greenaway, 1998). O cenário foi
construído como uma instalação em que o público podia contemplar de perto uma
narrativa sequencial apresentada por Thorpe, o misantropo, que mostra a Adão e Eva o
que os habitantes da terra realizaram no último milênio. Adão e Eva são representados
por dois actores nus e mudos que inicialmente actuam como mediadores ou coro
silencioso.
A Walk through H apresenta a viagem imaginária de um personagem-narrador
através de 92 mapas, os quais foram pintados por Peter Greenaway e dados ao
personagem por Tulse Luper. Esta viagem tem um percurso de 1.418 milhas e termina
com um plano da capa do livro Some Migratory Birds of the Northern Hemisphere cujo
subtítulo é It contains 92 maps and 1.418 birds in colour, de autoria de Tulse Luper. Os
mapas elaborados por Greenaway aludem aos sistemas arbitrários de representação que
estão presentes em outros de seus filmes e são, de facto, uma referência à uma obra de
J ohn Cage em que este se propunha a desenvolver 90 narrativas condensadas que
durassem 60 segundos. Sobrinho (2006: 107) salienta que desde então o número 92
assumiu uma grande importância na narrativa fílmica de outros filmes como The Falls,
assim como do projecto The Tulse Luper Suitcases.
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The Falls apresenta 92 biografias de personagens cujos apelidos se iniciam com
as letras F, A e L e que foram vítimas de um evento tratado como VUE (Violent
Unknown Event). Em função disso, os personagens deformam-se e começam a falar
línguas estranhas, que foram criadas a propósito do filme. O autor cria uma espécie de
enciclopédia de material relacionado com a ornitologia e noções de vôo, porque na
opinião de Peter Greenaway o maior desejo humano é o de voar
3
.
Em Afogando em Números, três mulheres de mesmo nome, Cissie Colpits (J oan
Plowright, J uliet Stevenson, J oely Richardson)
4
, afogam os seus parceiros, sendo que
um amigo apaixonado por elas declara que os afogamentos foram acidentes. Os
números são descobertos durante o filme e encontram-se dissimulados nos diálogos ou
na cenografia. O espectador percorre a tela como se percorre um quadro, a encontrar os
números e a desvendar a trama dos afogados.
Os filmes Prospero’s Book, The Pillow Book e o programa TV Dante exploram
as relações entre os diversos planos dentro de um plano no sentido em que o espaço on e
off screen ganham uma nova dimensão e interpretação. Se na teoria cinematográfica o
plano recorta o espaço a fim de desenvolver a narrativa, dialogando com o espaço off
screen, nestes filmes de Greenaway são adicionados e sobrepostos outros planos ao
plano cinematográfico, subvertendo as convenções do cinema clássico e proporcionando
outras interpretações não-lineares da narrativa. A montagem não é realizada apenas na
justaposição de planos encadeados de modo linear, mas também dentro dos próprios
planos, o que gera um outro entendimento narrativo.

Tulse Luper - O Personagem
5


3
 Informação disponível no site <http://petergreenaway.org.uk/tulse.htm>. Acesso 
em: 10/03/2009.  
4
 Esta personagem também está presente no projecto The Tulse Luper Suitcases. 
5
 Outras referências sobre o personagem podem ser encontradas em 
<http://petergreenaway.org.uk/tulseluper.htm>. Acesso em: 10/03/2009. 
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Greenaway
6
afirma que a primeira aparição de Tulse Luper foi num livro
ilustrado infantil intitulado Tulse Luper and the Centre Walk, que era uma colagem de
referências sobre assuntos que eventualmente entraram no filme The Falls
7
. Tulse Luper
foi logo rodeado por outras figuras mitológicas. Ele era predominantemente poliglota,
um polígrafo que expunha sempre a sua opinião, tinha várias teorias extravagantes e que
representava, para o autor, vários dos seus heróis literários e pintores prediletos, tais
como Borges, Calvino, R.B Kitaj e Buckminster Fuller. Como ele precisava de uma
esposa, foi inventada uma mulher chamada Cissie Colpitts, que apareceu três vezes em
Drowning by Numbers e depois novamente em The Tulse Luper Suticases. Ele tinha
muitos contactos, os quais eram seus inimigos em potencial, tal como um homem
chamado Van Hoyten que apareceu em A Zed & Two Noughts e também outros
personagens secundários, como por exemplo um homem chamado Gang Lion e outro
chamado Lephrenic.
Sobrinho (2006:108) aponta uma das primeiras aparições de Tulse Luper na década de
70, numa série de colagens intitulada Vertical Features Remake – the research (1978),
que integrava o projecto do filme For a new physical world. Este filme tinha como ideia
central elaborar uma narrativa baseada na descoberta do material de arquivo do cientista
fictício Markus Pike, o qual deu origem ao filme Vertical Features Remake. Neste filme
Tulse Luper é representado por uma imagem fotográfica, encontrada numa feira de
antiguidades, cujos traços remetem ao dramaturgo Samuel Beckett
8
. Este filme trata-se
do remake, por um grupo de académicos, de um filme incompleto alegadamente feito
por Tulse Luper, o filme é denominado Vertical Lists ou Vertical Features, no qual se
mostram objectos verticais tais como postes, traves, troncos de árvores em paisagens
modificados pela acção humana. Afinal foram realizados três remakes, cada um deles

6
 http://petergreenaway.org.uk/tulse.htm 
7
Em The Falls Peter Greenaway criou o personagem Tulse Luper, a palavra Tulse rima com Pulse, uma
verdura que serve de alimento para o gado; Luper é uma tradução vaga do latim para a palavra lobo.
Porém, era uma espécie de alter ego de Peter Greenaway, um rapaz tímido que achava muito difícil dizer
o que pensava e culpava todas as suas extravagâncias, obsessões e interesses neste homem chamado Tulse
Luper. Disponível em <http://petergreenaway.org.uk/tulse.htm>. Acesso em: 10/03/2009.
8
  Referências  à  obra  de  Samuel  Beckett  também  podem  ser  encontradas  no  filme 
The Tulse Luper Suitcases, Part 1: The Moab Story (2003).  
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usa uma estrutura de contagem e uma técnica musical para contar os 121 (11x11)
objectos verticais que Tulse Luper alegadamente planeou para o projecto.
Greenaway criou cerca de trinta filmes antes do aclamado The Draughtsman’s Contract
(1982), e muitos dos personagens que tinham uma espécie de vida fílmica, circulavam
ao redor de Tulse Luper.

O Projecto The Tulse Luper Suitcases
O projecto The Tulse Luper Suitcases foi elaborado para ser apresentado nos
mais variados media e nas mais diversas formas de expressão, tais como cinema de alta
definição, DVD, site, blog, exposições em galerias e museus
9
, performances VJ ,
romance, livro de contos, guião, peça de teatro, jogo multi-player on-line
10
e também
um avatar no metaverso Second Life.
Este projecto reconstrói a vida de Tulse Henry Purcell Luper, um escritor profissional e
project-maker que nasceu em 1911 em Newport, ao sul do País de Gales na Inglaterra, e
a última vez que ouviram falar dele foi em 1989. A sua existência é reconstruída através
de 92 malas encontradas ao redor do mundo, sendo que 92 é o número atómico do
elemento urânio. Tulse Luper viveu uma vida de aventuras que o levava sempre a
meter-se em confusão e por isso esteve preso em dezasseis prisões em diversos países.
A trilogia do projecto é composta pelos filmes The Tulse Luper Suitcases, Part
1: The Moab Story (2003), The Tulse Luper Suitcases, Part 2: Vaux to the Sea (2004) e
The Tulse Luper Suitcases, Part 3: From Sark to the Finish (2003). O primeiro filme é
dividido em três episódios, Luper aparece como criança na I Guerra Mundial, como um
explorador no deserto de Moab em Utah, nos Estados Unidos, e como um escritor na
Bélgica tomada pelos nazistas. No segundo filme Tulse Luper trabalha num cinema e
entra em contacto com todos os aparatos artísticos e personagens conhecidos do século

9
 A primeira exposição Tulse Luper Suitases foi realizada em Compton Verney, 
Reino Unido. Informações disponíveis em 
<http://petergreenaway.org.uk/tulsecv.htm>. Acesso em 10/03/2009. 
10
 Disponível em <http://www.tulseluperjourney.com/>. Acesso em 10/03/2009. 
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XX. O terceiro filme apresenta a prisão auto-imposta de Tulse na ilha de Sark, onde é
entregue aos alemães por um trio de irmãs ciumentas, assim como as suas viagens por
capitais européias como Barcelona, Turim e Veneza. Por outro lado, o filme The Tulse
Luper Suitcases: Antwerp foi realizado entre a primeira e a segunda parte da trilogia e
decorre em Antuérpia, destacando-se de forma independente mas sem deixar de compor
o projecto.
No site
11
, a narrativa é reconstruída a partir dos filmes The Tulse Luper
Suitcases, Part 1: The Moab Story (2003) e The Tulse Luper Suitcases, Part 2: Vaux to
the Sea (2004), adicionando uma série de informações ao projecto. O site é composto
por três partes, Introduction, que apresenta o projecto, Stills, que mostra um série de
fotogramas dos filmes e Archives, que se divide em seis entradas, são elas: timeline,
location, category, characteristics, stories e manual. O texto da Introduction apresenta
a ideia do projecto, que pretende construir um extenso arquivo online das aventuras de
Tulse Luper, englobando as suas viagens, as pessoas que conheceu, as prisões em que
esteve preso, os projectos que desenvolveu, os objectos encontrados nas 92 malas e
alguns dos eventos da história do século XX.
A vida de Tulse Luper é apresentada tendo como pano de fundo a história do
urânio no século XX, cobrindo 60 anos desde 1928 com a descoberta do urânio no
Colorado, até 1989 com a queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, que pode
ser vista como o fim do primeiro capítulo da história do urânio, da fusão nuclear e da
bomba atómica. Na opinião de Peter Greenaway, estes anos podem ser chamados os
anos do urânio, devido ao poder real e metafórico da palavra que assombrou a Segunda
Guerra Mundial e a subseqüente Guerra Fria.
Na hiperligação Stills pode-se aceder a cerca de 100 fotogramas, porque alguns
dos fotogramas encontram-se em negro, que também podem ser ampliados. Há duas
páginas com imagens, uma que indica MOAB e outra que indica VAUX. Estas
indicações estão relacionadas com os fotogramas dos filmes The Tulse Luper Suitcases,

11
 Disponível em <http://www.tulselupernetwork.com/basis.html>. Acesso em: 
12/03/2009. 
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Part 1: The Moab Story (2003) e The Tulse Luper Suitcases, Part 2: Vaux to the Sea
(2004). Há também a opção de se ouvir música enquanto se vê as imagens.
As entradas da hiperligação Archives permitemaceder às seguintes informações:
timeline (linha do tempo), que conta os episódios da vida de Tulse Luper no período
1911 até 1946, as suas viagens, malas e os objectos que estas contêm, os amigos e
conhecidos de Luper, assim como indica os eventos importantes relacionados com a
descoberta do urânio e o desenvolvimento da bomba atómica até o fim da Segunda
Guerra Mundial em 1945. Em Location (localização) encontra-se a descrição e a
localização das 16 prisões nas quais Tulse Luper esteve preso, assim como dos
personagens com os quais ele interagiu. As cidades pelas quais passou, entre outras,
foram: Newport, Moab, Antuérpia, Oslo, Ventimiglia, Moscou e Hong Kong.
A secção Category (categoria) está relacionada aos objectos presentes nas malas
de Tulse Luper, as prisões, os mapas, um livro de receita Tulse Luper, a tabela periódica
dos elementos químicos, etc. São 23 categorias, cada uma delas contém 92 conteúdos e
descrições. A primeira delas é dedicada, obviamente, às malas. É de destacar a categoria
contest, que contém trabalhos de autores que se propuseram a criar conteúdos para uma
mala. Nas hiperligações é possível aceder aos links para os trabalhos destes artistas.
Em Characteristics (características) encontram-se as 92 características narrativas
que cada um dos 92 personagens recebeu, perfazendo um total de 8.464 ítens narrativos.
Considerando que o projecto segue a máxima de que não há história, apenas
historiadores e de que a história é apenas uma história contada por alguém, todas estas
características constróem a história de Tulse Luper. A secção Stories (estórias) contém
os arquivos das 92 estórias e mais uma intitulada The Odor escrita por Isabella Messina.
O Manual é um blog
12
escrito pelo arquivista Daniel Capelletti, Head of
Research of the Global Connected Researcher Union, que reconstitui a vida de Tulse
Luper a partir de uma viagem pelos locais onde o personagem esteve e também pelo
contacto com aqueles que o conheceram. Começa a ser escrito em Novembro de 2007 e
o último post é de Março de 2008. O arquivista está responsável por manter um registo
e actualizar o manual. O blog permite também que as pessoas deixem comentários,

12
 Disponível em <http://blog.tulselupernetwork.com/>. Acesso em 13/03/2009. 
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portanto os seguidores da recolha de informações sobre a vida de Tulse Luper podem
interagir com o arquivista ao longo de sua viagem e das suas descobertas.
Como é possível perceber pela descrição, o site tem um carácter enciclopédico e
contém uma grande quantidade de informação que está a ser paulatinamente
disponibilizada, contando ainda com a colaboração de artistas e designers que se
interessaram e se envolveram no projecto e cujas criações encontram-se disponíveis
enriquecendo o trabalho.
Desde 2005 o projecto acrescenta uma nova componente estética, que é a
performance de Peter Greenaway como VJ acompanhada pelo renomado DJ Radar.
Depois de percorrer alguns países como Holanda, Bélgica, Alemanha, Itália, Suíça,
Espanha, Polônia e Reino Unido, no ano de 2007 o Projecto The Tulse Luper Suitcases
foi apresentado no 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica Videobrasil em São
Paulo e contou com uma performance VJ de 50 minutos, a qual abriu o festival, uma
exposição com as 92 maletas e a exibição dos três filmes. A performance VJ foi
apresentada nas paredes do Sesc Avenida Paulista no coração da metrópole. Foi ainda
construído um blog
13
em português e em inglês que indicava o conteúdo contido nas 92
maletas por meio de textos e imagens. Em entrevista publicada no catálogo
14
do festival,
o cineasta afirma que seu interesse nesta performance é discutir o futuro possível para a
ideia de Tela Emancipada. Na performance VJ o autor escolhe em tempo real, a partir
de um ecrã desenvolvido especialmente para o efeito, as imagens dos filmes que vão
compondo uma narrativa não-linear que conta sempre com a imersão do público no
ambiente visual e sonoro.
Moran (2006) define a imersão na performance VJ como
a entrada numa zona de instabilidade de preceitos estritamente racionalistas. Zona de
sensorialidade, de sinestesia, região de trânsito capaz de proporcionar insigths e
propiciar a construção de descobertas. Mais, ou menos, dirigida em função do evento
no qual é promovida, a imersão é experiência de relações multifacetadas. Um ambiente
físico ou intelectual envolve a pessoa de tal modo que ela mergulha em outra realidade,
produz outra poética, sem abrir mão por completo de suas referências mais concretas.

13
Disponível em <http://blogdovideobrasil.blog.uol.com.br/>. Acesso em 13/03/2009.
14
Pág. 44.
<http://www.sescsp.org.br/sesc/videobrasil/up/arquivos/200803/20080312_143023_Catalogo_16ºVB_P.p
df>
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Reflexões sobre o Cinema Expandido de Greenaway
O conceito de cinema expandido é elaborado nos anos 70 com a publicação do
livro Expanded Cinema de Gene Youngblood. Entretanto, a definição surge em
decorrência das práticas correntes no cinema underground e da vanguarda popular dos
anos 50. O cinema expandido indica uma expansão da linguagem cinematográfica para
além dos seus códigos, expandindo o seu território de acção, ampliando a percepção e a
relação entre tempo e espaço, assim como coloca em diálogo as especificidades próprias
de diferentes meios. Explora as potencialidades das diferentes linguagens por meio da
experimentação e da incorporação de novas referências e materialidades, as quais
possibilitam um outro saber fazer da técnica e um diálogo entre a arte e a tecnologia.
Desde então muitos artistas experimentaram seja com a materialidade da
película cinematográfica, com os projectores ou com as projecções múltiplas alterando
as relações entre o espaço e o tempo da narrativa. Em um artigo elucidativo, Peter
Weibel (2003: 333-4) aponta as várias experiências realizadas pelos artistas a fim de
experimentarem com os parâmetros técnicos e materiais do cinema. Entre elas, pode-se
mencionar o filme Zen for Film (1962) de Nam J une Paik, Mothlight (1963) de Stan
Brakage, Exploding Plastic Inevitable (1966) de Andy Warhol e J ud Yalkut e Chelsea
Girls (1967), de Andy Warhol.
É de destacar que a extensão de uma “projecção única para projecções múltiplas
não representou apenas uma expansão de horizontes visuais, mas também uma nova
abordagem da narração” (Weibel, 2003: 336). Os ambientes de projecções múltiplas
buscavam uma nova tecnologia de produção de imagens capaz de articular uma nova
percepção do mundo que não estava vinculada ao olhar perspectivista embutido na
construção do aparato cinematográfico. Em 1965, Stan VanDerBeek publicou um
manifesto em que justificava os ambientes de projecções múltiplas em tempo real nos
quais a própria projecção tornou-se o tema principal da performance. Neste mesmo ano
o grupo Usco criou o espectáculo We are all one, com quatro projectores de 16mm, dois
projectores de 8 mm e quatro projectores em carrossel; Francis Thompson apresentou a
sua obra de seis telas We are Young na Expo 1967; J ohn Cage, Lejaren Hiller e Ronald
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Nameth apresentaram o evento intermídia HPSCHD com cinco horas de duração, 8 mil
slides e cem filmes que foram projectados em 48 janelas da Universidade de Illinois em
1969.
A distorção e o deslocamento das convenções cinematográficas do espaço e do
tempo tinham como objectivo a expansão da consciência, mas também a
experimentação com a composição e a forma em termos imagéticos e sonoros. Neste
sentido, é possível destacar as obras Empire State Building de Andy Warhol e Wrist
Trick de Paul Sharits.
A década de 70 também testemunhou o surgimento da videoarte
15
, que
incorporou elementos do cinema expandido tanto em termos do trabalho com a
materialidade do aparato e da fita cassete quanto das formas de projecção em
instalações de circuitos fechados em museus e galerias. Estas instalações precederam as
instalações computadorizadas interativas e as instalações com tempo retardado que
deram continuidade às experimentações do cinema expandido. Neste sentido, o
desenvolvimento da tecnologia digital trouxe novas possibilidades de experimentação
com a imagem e o som que complexificaram a própria relação entre o espaço e o tempo
narrativo, assim como as formas de recepção e interacção do público com a linguagem
cinematográfica. A linearidade e a cronologia fundantes da narrativa clássica são
subvertidas por uma perspectiva múltipla projectada em telas múltiplas. A narrativa
torna-se não-linear, não cronológica, assincrônica, aparentemente ilógica, paralela e
aleatória. Inclusive, muitos autores argumentaram que a arte computadorizada
interactiva da década de 80 desenvolveu ideias já contidas na arte da década de 60, tais
como os happenings, performances e as instalações. Entre estas ideias Dinkla (apud
Manovich, 2003: 47) destaca “a participação activa do público, a obra de arte antes
como processo temporal do que como objecto fixo, a obra de arte como sistema aberto”.
O projecto The Tulse Luper Suitcases, ao ser apresentado nos mais variados
media de uma forma aberta e em construção, permite que o cinema saia do ecrã e da

15
Weibel (2003: 340) ressalta que, nos anos 80, o ressurgimento da pintura figurativa colocou um fim
abrupto a estas novas formas de cinema expandido, que por sua vez foram retomadas pelos videoastas da
década de 90.
 
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sala de projecção. A proposta da performance VJ resgata o modo de criação artística da
década de 60 e o trabalho de artistas como J effrew Shaw em obras como EVE, retirando
o cinema da sala de projecção e permitindo que o público tenha uma relação sinestésica
com a obra, uma vez que este imerge nas imagens e nos sons que estão a ser articulados
de forma arbitrária e não-narrativa.
Para Peter Greenaway o cinema está morto, pelo menos o cinema narrativo das
salas de projecção. O cinema morreu em 31 de Setembro de 1983 quando o controlo
remoto foi introduzido na sala de jantar e precisa, actualmente, ser interactivo, uma arte
multimédia. Além do facto de que actualmente poucas pessoas frequentam as salas de
cinemas, as novas potencialidades advindas do desenvolvimento da tecnologia digital
permitem que sejam produzidos e exibidos filmes de outras formas.
Na opinião de Peter Greenaway o cinema precisa de ser reinventado. Na palestra
Cinema Militans Lecture. Toward a re-invention of cinema proferida na Holanda em
2003 o autor afirma:
after 108 years of activity, we have a cinema that is dull, familiar, predictable,
hopelessly weighed down by old conventions and outworn verities, an archaic and
heavily restricted system of distribution, and an out-of-date and cumbersome
technology
16
.

O autor que sempre questionou o poder de representação do cinema, dialogando
com outros meios como a pintura e o teatro, e da própria narrativa cinematográfica, que
explora a partir da relação intersemiótica entre planos sobre planos, propõe o fim da
tirania do texto, do plano, do actor e da câmara no cinema.
No que diz respeito ao plano o projecto The Tulse Luper Suitcases utiliza e
desenvolve uma linguagem multi-ecrãs das várias formas que Abel Gance já tinha
antecipado em 1927, quando desenvolveu uma projecção com três ecrãs. Os vários ecrãs
possibilitam a expansão da potencialidade expressiva da obra, além de permitir a
imersão do espectador, tanto no espectáculo VJ como na interacção via computador
(jogo online, Second life, blog, site) ou DVD. Greenaway afirma que a sua intenção é

16
Disponível em  <http://petergreenaway.org.uk/essay3.htm>, Acesso em: 
14/03/2009. 
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amplificar a experiência do cinema ao retirá-lo da sala de projecção e dissolver a sua
linearidade e cronologia.
Before, during, after; past present future; fast, slow, slowest, repetitions, reprises, across
screen devices of innumerable continuities, developing a language that equates more
with human experience in its interactions between reality, memory and imagination
17
.

The Tulse Luper Suitcases nega a dominância do actor ortodoxo. É um projecto
que explora o facto de qualquer história ser sempre subjectiva, isto é, ser contada a
partir de um determinado ponto de vista, mostrando assim que qualquer personagem,
qualquer diálogo, qualquer evento pode ser interpretado de diversas maneiras, dando
assim alternativas ao público e mostrando que não há uma verdade singular. Estas
interpretações são dadas muitas vezes simultaneamente, ou juntamente com outras,
através de técnicas de edição digital e de sobreposição de imagens.
Greenaway ressalta que:
every possibility of communication by visual image is used. Drama elaborated,
Chekovian, kitchen-sink, vaudeville, pantomime, cinema-verite, surveillance, operatic,
melodrama, soap-opera, stripped down to a black box, worked up to a David Lean
exuberance, pastiche amateur theatricals, talking heads, stand-up comic. And such uses
of the actor's trade are interspliced and elaborated with animated maps and diagrams,
cartoon simplicities and cartoon complexities, static and animated texts, multiple
typographies and multiple calligraphies. This is an anti-Dogme film. It exuberates and
celebrates new cinema language”
18
.

The Tulse Luper Suitcases não esconde as suas origens, apresentando tantas
narrativas possíveis que a narrativa acaba sendo negada por excesso, sendo
constantemente interrompida e fragmentada por barras laterais, listas e sub-narrativas a
fim de problematizar a continuidade da narrativa convencional.
Além disso, o carácter rizomático da Internet, e das obras artísticas criadas para
serem veiculadas e acessadas por este meio, permitem aos usuários/interactores uma
nova relação com a narrativa, que perde a sua linearidade e se compõe a partir das
decisões do próprio usuário/interactor. Esta possibilidade de uso e interacção com a

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Disponível em <http://petergreenaway.org.uk/essay3.htm>, Acesso em: 14/03/2009.
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Disponível em <http://petergreenaway.org.uk/tulse.htm>. Acesso em: 14/03/2009.
 
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obra favorece o desenvolvimento do projecto estético de Peter Greenaway que vem
sendo criado, há muitos anos, a partir da articulação e da inter-relação entre
personagens, imagens, histórias e objectos. A insistência do autor nos sistemas
classificatórios, numéricos, alfabéticos e/ou taxonômicos levou a que a sua obra fosse
construída como uma grande enciclopédia em que estes ítens estão disponíveis para
serem acessados a qualquer momento. Numa análise mais detalhada de Tulse Luper,
percebe-se que o personagem tem uma vida de ficção há pelo menos trinta anos, cuja
história vem sendo tecida e ainda não está completa. A proposta do projecto de criar
este grande banco de dados, que é o site da Internet e as suas ramificações nos mais
diversos media, permite evidenciar anos de trabalho criativo do autor e ainda abre a
possibilidade de que esta criação continue a ser realizada com a ajuda de outros artistas
e do público. Neste sentido, pode-se afirmar que, por um lado a tecnologia digital
permitiu que o cinema de Peter Greenaway fosse expandido do ecrã cinematográfico e,
por outro, potencializou os modos de expressão do seu projecto artístico criando uma
teia intersemiótica em que os vários media dialogam e complexificam a narrativa.

Bibliografia
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mundo. São Paulo: Sesc Vila Mariana.
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Lúcia (org.) (2003) O chip e o caleidoscópio. Reflexões sobre as novas mídias. São
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5 e 6. Disponível em
<http://www.intermidias.com/txt/ed56/Arte_VJ %20em%20cena_Patricia%20Moran.pdf
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through History’, in Image & Narrative, Vol. 12. Disponível em <
http://www.imageandnarrative.be/tulseluper/peeters_art.htm>Acesso em 07/03/2009.
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in Leão, Lúcia (org.) (2003) O chip e o caleidoscópio. Reflexões sobre as novas mídias.
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São Carlos, J oão e Pedro Editores/CECH-UFSCar, pp. 97-114.
Weibel, Peter (2003) ‘Teoria narrada: projeção múltipla e narração múltipla (passado e
futuro)’ in Leão, Lúcia (org.) (2003) O chip e o caleidoscópio. Reflexões sobre as novas
mídias. São Paulo, Ed. Senac, pp. 331-352.