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LITERATURAPORTUGUESA

LITERATURAPORTUGUESA

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Coordenador Deocleciano Torrieri Guimarães

1a Edição

Expediente
Editor Editora Assistente Assistente Editorial Coordenador Revisão Projeto Gráfico Diagramação Capa Italo Amadio Katia F. Amadio Edna Emiko Nomura Deocleciano Torrieri Guimarães Elaine Ferrari de Almeida Jairo Souza Art Feita Design Gráfico Antonio Carlos Ventura

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Língua portuguesa: teoria e prática / coordenador Deocleciano Torrieri Guimarães. – São Paulo : Rideel, 2006. ISBN 85-339-0813-X 1. Português (Ensino médio) I. Guimarães, Deocleciano Torrieri. 06-0009 CDD-469.07 Índice para catálogo sistemático: 1. Português : Ensino médio 469.07

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Av. Casa Verde, 455 – Casa Verde Cep 02519-000 – São Paulo – SP e-mail: sac@rideel.com.br www.rideel.com.br

Proibida qualquer reprodução, seja mecânica ou eletrônica, total ou parcial, sem prévia permissão por escrito do editor. 2 4 6 8 9 7 5 3 1 0 1 0 6

APRESENTAÇÃO
Sendo a Língua um organismo vivo, em permanente mutação e recriação na voz do povo, preocupou-se esta Editora em mostrála, o mais possível, em seu estágio atual, já com os acréscimos introduzidos e aceitos, sem descurar, porém, do vocabulário básico. Assim, oferece-se ao estudante, e a todos que o consultem, um instrumento prático, objetivo, moderno de trabalho, em consonância com os padrões exigidos, e obrigatoriamente exigentes, para o uso de nosso idioma. A definição dos verbetes segue a orientação dos melhores dicionaristas, antigos e contemporâneos, de molde a informar de imediato ao consulente; em alguns casos, com definições mais extensas, procura-se motivá-lo a novas pesquisas em outras áreas de estudos, de acordo com a tendência atual de absorção de conhecimentos, matéria-prima essencial do mundo globalizado. Visou-se, ainda, à função estrita de um Dicionário – a consulta – quanto ao apoio que deve oferecer ao estudante, no entendimento do vocabulário de uso popular (gírias, brasileirismos, regionalismos, antigos ou recentes) quando com ele se depara ao compulsar livros indicados para leitura obrigatória. Assim, ao lado das imprescindíveis referências gramaticais e prosódicas, preocupou-se também esta Editora em colocar a divisão silábica dos verbetes, bem como oferecer, nos exíguos limites fixados, o máximo de informações, visando não só à necessidade da consulta momentânea, mas também ao enriquecimento do universo vocabular do estudante. Muitos termos correntes em Informática foram acrescentados, assim como de outros ramos de conhecimentos técnicos em processo de renovação. Ao seguir os padrões mais indicados para obras deste jaez, esta Editora espera ter contribuído com as autoridades do Ensino no sentido de facilitar o acesso ao nosso idioma e de valorizá-lo quanto à correção de seu uso. Afinal, o idioma é, e assim deve ser respeitado, um dos símbolos nacionais.

O Editor

A ARTE

Literária
Banco de Imagens Rideel

Literatura é recriação da realidade.

“A arte é (...) uma transformação simbólica do mundo. Quer dizer: o artista cria um outro — mais bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado — por cima da realidade imediata.”
Ferreira Gular

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A literatura é uma dentre as várias formas de expressão artística. Como as outras artes (pintura, arquitetura, música, dança, escultura*), sua característica principal é a recriação da realidade por meio de um processo de elaboração estética. Em outras palavras, o artista, por meio de seu modo pessoal de ver o mundo (resultado de suas experiências, conhecimentos, idéias, convicções) –, molda uma outra realidade carregada de significação própria, que produz sobre o público um efeito prático: modifica sua conduta e concepção do mundo, delimita setores de gosto, forma grupos, veicula padrões estéticos e morais. A sociedade assim atingida pela obra de arte, num movimento dialético, devolve essas influências para o artista, formando-se, então, um vasto sistema solidário de influências recíprocas. Esquematizando, podemos dizer que, sociologicamente, a arte pode ser definida como um sistema simbólico de comunicação inter-humana e, portanto, pressupõe a existência de: a) quem comunica: o artista que, mais que simplesmente transmitir conceitos e noções, vai exprimir as realidades nele profundamente radicadas; b) um comunicado: a obra que representa simbolicamente o mundo, a realidade; c) um comunicando: o público a quem a obra se dirige; d) o efeito: a ação da obra sobre a sociedade, efeito que se volta novamente para o artista. Por duas vezes, anteriormente, usamos o adjetivo simbólico. O que ele quer dizer? Que a arte trabalha com signos polivalentes: mais que transmitir noções, conceitos, mais que simplesmente reproduzir o real, eles produzem um outro real, criam novos significados inesperados, estranhos, pessoais. É por isso que cada
* muitos consideram o cinema como a sétima arte

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pessoa (dependendo do seu grau de informação estética, bagagem cultural e sensibilidade) vai sentir/“ler” de um modo único, singular, um poema de Manuel Bandeira, uma tela de Portinari, uma sonata de Beethoven, um jardim de Burle Marx, uma escultura de Rodin, uma apresentação do balé de Maurice Béjart (e, por que não?, um filme de Fellini).

Literatura
Como a literatura opera essa recriação? Por meio de um veículo próprio, específico: a palavra**. Como o poeta cria um mundo supra-real (que reflete a realidade, mas não é ela), costumase chamar sua produção de ficção (ato ou efeito de fingir, simulação, coisa imaginária). O poeta modernista português Fernando Pessoa, neste fragmento de texto, sintetizou de forma perfeita esse trabalho do escritor e seu efeito sobre o público: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. (...)

Texto Literário x Texto Não-literário
Até o século XIX, considerava-se literatura qualquer produção escrita, daí persistirem até hoje denominações como litera** o veículo de expressão da música é o som; da pintura, a cor e a forma; da coreografia, o movimento; da escultura, o volume; e da arquitetura, o espaço.

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tura médica, literatura jurídica, etc. Sabemos, no entanto, que o texto médico ou o jurídico, por exemplo, não são literatura, porque exploram somente a função utilitária do signo, o plano do conteúdo (o o quê), o valor denotativo das palavras. A linguagem, nesses textos, transmite unicamente informações. A literatura, ao contrário, superpõe ao plano do conteúdo o plano da expressão (o modo de dizer, o como): reforça-se o conteúdo na expressão, isto é, o escritor não só procura reproduzir o mundo, mas recriá-lo nas palavras. Assim, explora-se a função estética do signo, que procura associações novas entre as palavras, que procura a conotação. É útil fazermos a comparação entre dois textos, para entender melhor esses processos. Texto A: ..................................................... “A partir do séc. XVIII, a Europa passou por grandes transformações que lhe alteraram profundamente as feições. Os regimes absolutistas foram pouco a pouco superados e a febre do liberalismo não se satisfez em inspirar novas formas de governo. Chegou à economia, em que a palavra de ordem também era liberdade, ou seja, livre iniciativa. O capitalismo, que dera seus primeiros e inseguros passos no final da Idade Média, desenvolveu-se, amparado pelo Estado Moderno.”
LIMA, Sandra Lúcia Lopes. História & Comunicação.

A linguagem serviu, nesse texto, somente para veicular informações, portanto apenas o plano do conteúdo foi trabalhado. Ele é denotativo e a função de linguagem predominante é a referencial. Em resumo: texto objetivo, direto, imparcial, que nos
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oferece somente uma possibilidade de leitura, por isso monossignificativo. Como o objetivo da autora não era trabalhar a linguagem para que o leitor se detivesse no seu modo de expressar-se, a linguagem foi usada somente na sua função utilitária: reproduzir o real, veicular informações. Não é um texto literário. Texto B: ..................................................... O delegado proibiu bombas, foguetes, busca-pés Chamalotes checoslovacos enchem o chão de chamas rubras. Chagas de enxofre chinesas chiam, choram, cheiram, numa chuva de chispas, chispas de todos os tons, listas de todas as cores e no fim sempre um Tchi — bum!
LIMA, Jorge de. “Noite de São João”. Em Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar,1958, v.1, p.240.

Percebemos nesse texto um outro uso da linguagem: mais do que reproduzir a realidade, ele procura recriá-la em palavras, superpondo ao plano do conteúdo o da expressão (o modo de organização dos signos). Na sua seleção de palavras o poeta privilegiou as que sugerissem, pela sonoridade, o som da queima de fogos de artifício para recriar a atmosfera da festa junina. Isso, conjugado à disposição gráfica, nos permite classificá-lo como poético.
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Embora tenhamos escolhido um poema para exemplificação do texto literário, isso não quer dizer que este deva aparecer obrigatoriamente sob a forma de verso. Não é a forma técnica (prosa ou verso) que classifica o texto como literário, mas o modo como se organiza a mensagem. Esquematizando, teremos as seguintes características: Texto não-literário
• relevância

Texto literário
• superposição

do plano da conteúdo expressão ao do conteúdo • monossignificativo • plurissignificativo • reproduz o real • recria o real (ficção) • denotativo • conotativo • linguagem em função utilitária • linguagem em função estética

do plano do

Prosa e Poesia
Quando dizemos texto em prosa ou texto em verso, estamos nos referindo a dois aspectos técnicos, externos, concretos do texto: a sua disposição gráfica.No entanto, quando nossa distinção se faz entre prosa e poesia, estamos fazendo alusão a dois aspectos do conteúdo, da essência do texto, a duas maneiras de apreensão da realidade. A poesia nasce do amálgama da realidade interna (o eu do poeta) com a realidade externa:

RI

RE

Essa postura diante da realidade resulta num texto rico de sentimento e emoção que pode apresentar-se sob a forma de verso (isto é o mais comum, o poema lírico) ou sob a forma de prosa (a prosa poética).
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O texto prosaico identifica-se pelo fato de ser uma exposição mais impessoal e objetiva da realidade:

RI

RE

Também nessa “leitura” da realidade, o texto pode apresentar-se sob a forma de prosa (isto é o mais comum, a narrativa do conto, do romance, da novela, da crônica) ou sob a forma de verso (o poema épico, por exemplo).

Gêneros Literários
Se quanto à forma, a literatura pode manifestar-se em prosa ou verso, quanto ao conteúdo e à estrutura, as obras podem ser classificadas em gêneros literários. Na Grécia clássica, o filósofo Aristóteles ( 384-322 a.C.) adotou uma tripartição para os gêneros : lírico, épico e dramático. No entanto, como a epopéia (exposição narrativa) praticamente desapareceu desde o século XVIII, modernamente tem-se desmembrado do gênero épico o narrativo.

Gênero Lírico
A palavra lírico origina-se de lira, instrumento musical de corda com que os gregos acompanhavam os cantos. Nesse gênero predomina a função emotiva da linguagem: expressão do mundo subjetivo do poeta. Os temas líricos mais freqüentes são o amor, a saudade, a solidão e a morte. Como nesse gênero os temas são eternos e universais, eles não envelhecem, daí ter um soneto escrito por Camões no século XVI sido retomado por Renato Russo no século XX e parecer tão atual quanto o foi no momento da sua criação. A poesia, em geral, pertence a esse gênero. Algumas formas que se destacam são:
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a) soneto: composição poética de catorze versos distribuídos em 2 quartetos e dois ter- Soneto significa “pequeno som”. Foi cetos. Apresen- usado pela primeira vez por Jacob de tam versos de- Lentini, Escola Siciliana (séc. XIII), dicassílabos ou fundido por Petrarca no século XIV. alexandrinos e rima. b) hino: poema para glorificar a pátria ou louvar divindades; c) ode: poema entusiástico, de exaltação; d) elegia: poema em tom; Dez demônios, dez máquinas de guerra... Imediatamente ouviu-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos tendo à sua frente Aires Gomes saltaram por sua vez com a arma em punho, e começaram a talhar de alto a baixo a grandes golpes de espada. Não pareciam homens, e sim dez demônios, dez máquinas de guerra vomitando a morte de todos os lados; enquanto a sua mão direita imprimia à lâmina da espada mil voltas, que eram outros tantos golpes terríveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança admiráveis. O escudeiro e seus homens tinham feito um semicírculo em roda de Álvaro e de Peri e apresentavam uma barreira de ferro e fogo às ondas de inimigos que bramiam, recuavam, e lançavam-se de novo quebrando-se de encontro a esse dique.
ALENCAR, José de. O guarani.

Característica fundamental: • Narração de ações heróicas e dos grandes feitos do homem

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O “Cântico do Calvário”, do poeta brasileiro Fagundes Varela, é a mais famosa elegia brasileira, inspirada na morte prematura de seu filho. e) epitalâmio: poema feito em homenagem ao casamento de alguém; composição poética de 14 versos, foi a forma fixa que mais resistiu ao tempo; f) idílio: poema bucólico, de exaltação à natureza; g) égloga: poema bucólico com diálogos; h) sátira: poema que pretende censurar ou ridicularizar os defeitos ou vícios, para corrigi-los. Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida, descontente, Repousa lá no Céu eternamente E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer-te Alguma coisa a dor que me ficou Da mágoa, sem remédio, de perder-te, Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.
CAMÕES, Luis Vaz de. Poesia Lírica, Soneto no 48.

Características fundamentais do gênero lírico: • Musicalidade • Expressão dos sentimentos pessoais

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Gênero Épico
Caracteriza-se como uma poesia impessoal, objetiva, em que o narrador conta, em forma de verso, um feito heróico de um povo ou nação. As duas primeiras grandes epopéias da literatura ocidental são a Ilíada e a Odisséia de Homero ( século IX a.C.). Influenciado por ele, o poeta latino Virgílio (71-19 a.C.) escreveu a Eneida. Decalcadas nesses modelos clássicos, no Renascimento surgiram outras epopéias: Paraíso perdido, do inglês Milton (1533-1608); Orlando Furioso, do italiano Ariosto(1474-1533); Os Lusíadas, de Luís de Camões (1525-1580). Caramuru, de Santa Rita Durão; O Uraguai, de Basílio da Gama; e Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa, foram epopéias brasileiras escritas no século XVIII.

Gênero Narrativo
Desmembramento moderno do épico, este gênero dele difere por não apresentar a grandiosidade das narrativas épicas e por não trabalhar um mundo povoado de heróis e deuses. Suas semelhanças com o gênero épico são a presença de personagens, enredo, tempo/espaço e narrador. A esse gênero pertencem as seguintes modalidades de texto em prosa: a) conto: narrativa curta, com um número mínimo de personagens e ação limitada a um único núcleo; b) romance: narrativa longa e complexa, com muitos núcleos de ação, cenários variados e longa temporalidade; c) novela: narrativa mais curta que o romance, com diálogos breves e sucessão de conflitos vistos com superficialidade; d) crônica: narrativa curta e leve, que toma o cotidiano como ponto de partida para suas reflexões.
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Daí derivam as telenovelas, ou seja, novelas transmitidas pela televisão. Note que as telenovelas mantêm uma sucessão de conflitos e assim conseguem manter a atenção do telespectador por vários meses. Tantos os conflitos quanto os personagens são abordados de maneira superficial.

Gênero Dramático
Pertencem a esse gênero os textos em prosa ou poesia próprios para serem representados. Enquanto forem obra literária escrita, os textos dramáticos são somente verbais. Uma vez representados, a linguagem não-verbal (cenário, iluminação, entonação de voz, figurinos...) combina-se com a linguagem verbal, produzindo um texto híbrido em que autor-público-elenco desempenham papel fundamental. A palavra dramático vem de drama, que em grego significa ação. Nesse tipo de gênero não há narrador, os atores representam os personagens que ora dialogam, ora monologam. Nesse caso, a fala do narrador é substituída pela rubrica. O gênero dramático apresenta as seguintes modalidades: a) tragédia: representação de um fato trágico que desperta temor e piedade; b) comédia: representação de um fato inspirado na vida, de riso fácil e que pretende criticar a sociedade e o comportamento humano;
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c) tragicomédia: representação que mistura elementos trágicos e cômicos, com desfecho feliz; d) drama: modernização da tragicomédia; e) farsa: pequena peça teatral, surgida por volta do século XIV, que provoca o riso explorando O termo “farsa” baseia-se no lema situações engralatino Ridendo castigatmores, cujo çadas, grotescas significado é “Rindo, castigam-se e ridículas da vida os costumes”. cotidiana; f) auto: breve peça profana ou religiosa. Seu conteúdo é simbólico e os atores representam entidades abstratas: o pecado, a luxúria, a bondade etc. Boca de Ouro
Nélson Rodrigues

Boca de Ouro, banqueiro do bicho, em Madureira, é relativamente moço e transmite uma sensação de plenitude vital. Homem astuto, sensual e cruel. (...) Ao iniciar-se a peça, Boca de Ouro ainda não tem o seu nome legendário. Agora é que, com audácia e imaginação, começa a exterminar os seus adversários. Está sentado na cadeira do dentista.) BOCA DE OURO – Pronto? DENTISTA – Pode sair. BOCA DE OURO – Que tal doutor? DENTISTA – Meu amigo, está de parabéns! BOCA DE OURO – (abrindo o seu riso de cafajeste) – Acha? DENTISTA – Rapaz, te digo com sinceridade: nunca vi, em toda a minha vida – trabalho nisso há vinte anos –, e nunca vi, palavra de honra, uma boca tão perfeita! BOCA DE OURO – Batata?
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DENTISTA – Dentes de artista de cinema! Quer dizer, uma perfeição! (Sente-se em Boca de Ouro uma satisfação de criança grande) BOCA DE OURO – Sabe que quando eu vejo falar em dor de dentes, fico besta? Nunca tive esse troço! DENTISTA – Lógico. BOCA DE OURO – Pois é, doutor. Agora vou me sentar, outra vez, porque eu queria um servicinho seu, caprichado, doutor! DENTISTA – Na boca? BOCA DE OURO – Na boca. DENTISTA – Meu amigo, é um crime mexer na sua boca! BOCA DE OURO – Mas o senhor vai mexer, vai tirar tudo, Todo, doutor! DENTISTA (no seu assombro) – Tirar os dentes? BOCA DE OURO – Meus dentes. Os 32 – são 32? – pois é: os 32 dentes! DENTISTA – E o senhor quer que eu tire? BOCA DE OURO – Eu pago, doutor! Meu chapa, eu pago! DENTISTA – Nunca! BOCA DE OURO (sempre rindo) – O senhor vai tirar, sim, vai tirar, doutor! Vai arrancar tudo! Característica fundamental: • Narração de ações heróicas e dos grandes feitos do homem

O Auto da Compadecida, livro de Ariano Suassuna, foi adaptado para o cinema em 1999 e alcançou grande sucesso.
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Observe o quadro-síntese dos gêneros literários que, ainda hoje, é difícil esgotar, já que a mistura de gênero é cada vez mais acentuada.
LÍRICO FUNÇÃO DA LINGUAGEM PREDOMINANTE MODO DE ENUNCIAÇÃO Emotiva ÉPICO Referencial DRAMÁTICA Conativa

Enunciação do emissor

Enunciação do emissor e/ou das personagens O passado presentificado Passado – 3a pessoa Relato de ações heróicas

Enunciação das personagens

PERSPECTIVA TEMPORAL VERBOS E PESSOAS CONTEÚDO

O presente do artista Presente – 1a pessoa Expressão de sentimentos

Ações presentes

Presente e futuro – 1a e 2a pessoas Representação de ações nas quais se chocam forças oponentes Piedade Revolta Terror Diferentes tipos de peças de teatro, monólogos dramáticos

EFEITO

Emoção Simpatia Exaltação Soneto, ode, balada, elegia, canção, prosa, lírica

Admiração Surpresa Orgulho Epopéia e diferentes tipos de romances

FORMAS PRINCIPAIS

Movimentos Literários
Como já vimos, o que caracteriza um texto literário é o seu modo particular de organizar a linguagem, por meio da qual o artista representa a realidade. É comum na história da literatura, e da arte em geral, encontrarmos determinados traços estéticos
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e estilísticos que se repetem em autores de uma mesma época, como se fosse moda utilizar determinados recursos para expressar-se. Exemplo disso, entre tantos possíveis, são as cantigas de amor que obedeciam a um esquema rígido em que se destacavam a vassalagem amorosa, a presença da palavra senhor, a idealização da mulher (sempre inatingível). Ao agrupamento de obras que, num determinado espaço de tempo, se utilizam de recursos literários e temas semelhantes dá-se o nome de movimento ou estilo literário. Por convenção, a data de início de um movimento literário é, quase sempre, a publicação de uma obra inovadora. Mas, como a literatura acompanha de perto as mudanças socioeconômicas, político-administrativas e culturais, podem haver marcos de outra natureza, como fatos históricos (criação do cargo de cronista-mor do Reino), eventos culturais (Semana de Arte Moderna), polêmicas (Questão Coimbrã) etc. O importante, no entanto, não é decorar essas datas de início e término de um dado movimento (mesmo porque elas não indicam que até tal ano se escrevia de uma maneira e, a partir do ano seguinte, de outra), mas perceber quais formas de expressão predominaram num certo momento histórico e por quê. Em Portugal, acompanhando as grandes transformações vividas pela Europa, há três grandes eras literárias: Era Medieval, Era Clássica, Era Romântica ou Moderna, subdivididas em movimentos ou estilos literários. A Era Medieval, que se estende de 1189 (1198) a 1527, abrange o Trovadorismo e o Humanismo. A Era Clássica, de 1527 a 1825, divide-se em três movimentos: Classicismo, Barroco e Arcadismo ou Neoclassicismo. A Era Romântica ou Moderna, de 1825 até nossos dias, apresenta quatro períodos: Romantismo, Realismo, Simbolismo e Modernismo. Esquematizando, temos:
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Era Medieval 1189 (1198) 1434 1527

Era Clássica 1580 1756 1825

Era Romântica ou Moderna 1865 1890-1915

Romantismo

Trovadorismo

Questões de Vestibular
1 (UF-ES) “Mas que significam as palavras? Que significam, na verdade, as palavras? Que significa a palavra verdade, a palavra mentira ou a palavra amor?” LYRA, Bernadette. A panelinha de breu A afirmativa INCORRETA em relação ao conceito de literatura é: a) Literatura é a linguagem carregada de significado. b) No texto literário, as palavras possuem predominantemente sentido denotativo. c) Em literatura, cada palavra tem mil faces secretas sob a face neutra. d) O texto literário é plurissignificativo, passível de várias interpretações. e) A linguagem literária é predominantemente conotativa e metafórica. 2 (FUVEST-SP) Qual a diferença mais significativa entre a poesia lírica e a épica: o tipo de verso empregado ou o conteúdo? Justifique sua resposta. 3 (FUVEST-SP) Em que diferem essencialmente o teatro e o romance quanto à forma de composição, uma vez que o mesmo assunto pode ser utilizado por ambos?
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Modernismo

Classicismo

Humanismo

Realismo/ Naturalismo

Barroco

Arcadismo

Simbolismo

4 (UF-SC) Leia os textos a seguir, assinale as alternativas corretas e, depois, some os valores atribuídos: a) “Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto... Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto.” (Manuel Bandeira) b) “Recebi os trocados a que tinha direito e fiquei procurando um novo emprego, noutro ramo.” (Bento Silvério) c) “Um primeiro sobressalto de pânico apertou-lhe a garganta... – Padre Estevão! – falou, alto, pensando que talvez houvesse alguém ali, em alguma parte.” (Antônio Callado) (01) Os versos do fragmento apresentam característica líricas. (02) O fragmento b está escrito em prosa, que tem, como unidade de composição básica, o parágrafo. (04) O fragmento c está impregnado de características dramáticas. (08) A estrofe é a unidade de composição básica da prosa. (16) A prosa presta-se para a confissão amorosa, pessoal... e a poesia, para a criação de personagens e a estruturação de longas narrativas. Soma 5 (UF-ES) “Parece-me bastante possível sustentar que a função da literatura como força geratriz digna de prêmio consiste precisamente em incitar a humanidade a continuar a viver; em aliviar as tensões da mente, em nutri-la, e nutri-la, digo-o claramente, com a nutrição de impulsos.” POUND, Erza. A arte da poesia: ensaios escolhidos. O autor acima refere-se à seguinte função da literatura: a) Cognitiva d) Catártica b) Lúdica e) Social c) Sinfônica
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6 (UF-ES) É CORRETO afirmar que o discurso literário caracteriza-se por a) recorrer à clicherização, quebrando a rigidez dos usos lingüísticos. b) tender ao hermetismo absoluto para tornar-se mais expressivo. c) romper as relações sintáticas, sem estabelecer novas relações semânticas entre as palavras. d) visar à representação do simbólico e do imaginário por meio de múltiplas modalidades discursivas. e) instaurar novos procedimentos técnicos, evitando a imprevisibilidade das rupturas estéticas.

7 (UFRGS-RS) O soneto é uma das formas poéticas mais tradicionais e difundidas nas literaturas ocidentais e expressa, quase sempre, conteúdo: a) dramático b) satírico c) lírico d) épico e) cronístico

8 (UF-SC) Assinale as opções CORRETAS e some os valores correspondentes: (1) O gênero dramático mostra a representação de ações que se desenrolam diante dos espectadores, gerando conflitos e produzindo tensões, como nesta passagem de Macunaíma, de Mário de Andrade. “Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto era sempre as peraltagens de herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que ‘espinho que pinica, de pequeno já traz pronta’, e numa pagelança Rei Nagô fez um discurso e avisou que o herói era inteligente”.
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(2) Ao subjetivizar o mundo exterior para melhor exprimir as emoções do mundo interior, Cassiano Ricardo compôs, nesta “Serenata Sintética”, um poema lírico: rua torta lua morta tua porta (4) O seguinte trecho de poema de Maura de Senna Pereira evidencia algumas características simbolistas, como: alienação do real e fuga para um mundo ilusório, senso do mistério, gosto pelo noturno e retorno ao passado: Quero ajudar a construir o mundo futuro – o mundo sem opressão e sem miséria – luminoso, rasgado e justo. Quero permanecer alerta e colocar a minha pedra no lugar exato e na hora certa. (8) O poeta parnasiano, ao preocupar-se, acentuadamente, com a composição formal, com a técnica do poema, compara sua tarefa com a do ourives e do escultor, que também aprimoram a forma. É o que se percebe nesta estrofe do parnasiano Luis Delfino: Há, gentil criatura, um poeta que cinzela A frase como um velho ourives florentino, Que torce o ouro, e mistura a prata, e que martela, De um golpe, o vaso iriante, adamascado e fino. (16) Uma da características da poesia moderna é a valorização do cotidiano, registrando um “momento poético”, como o fez Manuel Bandeira em “A Realidade e a Imagem”: O arranha-céu sobe ao ar puro lavado pela chuva E desce refletido na poça de lama do pátio. Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa Quatro pombas passeiam.
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(32) Entre as tendências renovadoras da poesia moderna, figura o movimento da “poesia concreta”, que, abolindo o verso e a estrutura sintática, explora as palavras no seu poder sugestivo e na sua disposição visual, valorizando o espaço gráfico, como ocorre no poema “Ser”, de Alcides Buss, que segue: Ser
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Soma 9 (UF-BA) “Quando se atribui ao poeta a missão [...] de nomear as coisas não se está dizendo, na verdade, senão que ele, ao falar delas, revela-lhes a atualidade, a condição histórica: tira-as da sombra, do limbo, para mostrá-las, reais, concretas, aos homens.” Assinale a proposição ou proposições que equivalem ao conceito de poeta/poesia expresso no fragmento acima e, depois, some os valores:
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(01) “O poeta/com a sua lanterna/mágica está sempre/no começo das coisas./ É como a água, eterna-/mente matutina.” (02) “Não faças versos sobre acontecimentos./Não há criação nem morte perante a poesia./ Diante dela, a vida é um sol estático,/ não aquece nem ilumina.” (04) “Dos braços do poeta/Pende a ópera do mundo/(Tempo, cirurgião do mundo).” (08) “Poesia – deter a vida com palavras?/Não – libertá-la,/fazê-la voz e fogo em nossa voz. Pó-/esia – falar/o dia.” (16) “Quero fazer uma grande poesia./Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde/Se eu dormir pelo amor de Deus, me acordem/Não quero perder nada na vida.” (32) “Andei pelo mundo no meio dos homens!/uns compravam jóias, uns compravam pão/Não houve mercado nem mercadoria/que seduzisse a minha vaga mão.” 10 (UF-PR) A crônica, tradicionalmente considerada um gênero menor, nas últimas décadas passou a ocupar um lugar expressivo no panorama literário brasileiro. Concorreram para essa valorização cronistas como: (01) Fernando Sabino. (02) Paulo Mendes Campos (04) Jorge de Lima (08) José Lins do Rego (16) Rubem Braga (32) João Cabral de Melo Neto Coloque aqui a soma dos numerais correspondentes às opções corretas: Soma

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TROVADORISMO (1189/1198-1434)

Reprodução

Trovadores.

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TROVADORISMO: CONTEXTO HISTÓRICO:

séculos XII, XIII, XIV e XV Idade Média • Feudalismo: nobreza, clero e servos • Cruzadas • Teocentrismo • formação do Estado português

CARACTERÍSTICAS: PRODUÇÃO:

amor cortês vassalagem amorosa cantigas lírico-amorosas de amor de amigo cantigas satíricas de escárnio de maldizer novelas de cavalaria

PRINCIPAIS AUTORES:

Paio Soares de Taveirós D. Dinis Martim Codax João Garcia de Guilhade Fernando Esguio Pero da Ponte

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TROVADORISMO (1189/1198-1434)
Já vimos que a literatura não só é reflexo da história e da cultura, ou seja, do espaço/tempo em que é produzida, como também influencia esse momento. É preciso, pois, antes de partir para o estudo do Trovadorismo, situá-lo histórica e culturalmente e lembrar que esse estilo de época expressou-se numa língua razoavelmente diferente da atual: o galego-português.

Língua Portuguesa
Quando os romanos invadiram a Península Ibérica, em 190 a.C., impuseram o latim vulgar, o latim, falado pelos soldados, às regiões conquistadas, cujos habitantes já dispunham de línguas próprias. Estas últimas foram, no entanto, suplantadas pelo latim, não sem deixar nele suas marcas. Modificado por esses falares regionais, o latim deu origem a vários dialetos chamados romanços ou romances, que, por sua vez, sofreram influências (sobretudo na composição do léxico) das invasões bárbaras, no século V, e árabes, no século VIII. O galego-português foi um desses romanços. Era falado em toda a faixa ocidental da Península, na região atual da Galiza e de Portugal, entre os séculos XII e XIV. Essa é a língua em que foi escrita toda a produção literária do Trovadorismo. Com as lutas da Reconquista ( batalhas para recuperar o território, sobretudo do sul da Península, sob domínio dos árabes ), notam-se influências dos falares do sul e progressivas diferenças entre o galego e o português, surgindo, então, o português moderno. É interessante observar que, apesar de a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque ter motivações econômicas e políticas, havia também, ainda que em menor escala, o enfoque religioso.
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O Estado Português
A esse evoluir da língua correspondeu a formação do reino português. Em fins do século XI, cavaleiros cristãos vinham dos mais diferentes lugares da Europa para expulsar os árabes da Península Ibérica. O reino de Leão (mais tarde absorvido pelo de Castela ) recebeu ajuda de dois nobres da Borgonha: Raimundo e Henrique. D. Afonso VI, que governava o reino de Leão, tinha duas filhas —Urraca e Teresa—, que casou com esses nobres dando-lhes como dote dois feudos. Raimundo casou-se com Urraca e recebeu o governo da Galiza; Henrique, ao casar-se com Teresa, passou a governar o Condado Portucalense.

Mapa Península Ibérica

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Em 1139, o filho de Henrique e Teresa, D. Afonso Henriques, proclamou a independência do condado, elevando-o à condição de reino, o reino de Portugal, que cresceu em direção ao sul, separando-se geográfica e lingüísticamente da Galiza, mais tarde anexada pelo reino de Castela. Em toda a Europa, esse período foi marcado pelo feudalismo, pelas Cruzadas, que se empenhavam em expulsar os mouros instalados na Península Ibérica, e pelo poder espiritual da Igreja. Sistema político-econômico da Idade Média, o feudalismo sustentava-se sobre uma hierarquia rígida entre suseranos – proprietários de grandes extensões de terra – e vassalos – aqueles que recebiam não só os feudos dos suseranos, mas também proteção do senhor a quem deviam prestar irrestrita obediência, além de pagarlhe taxas e contribuições. Nessa sociedade tipicamente rural, em que o comércio era feito na base de trocas, as principais atividades eram a pesca e a agricultura, esta cultivada pelos servos, os pilares dessa sociedade agrária, que viviam miseravelmente e cujo único consolo era almejar a vida eterna prometida pela Igreja. A base da força militar dos senhores feudais estava na cavalaria à qual pertenciam os nobres. O cavaleiro devia servir a Deus, à Igreja e ao seu suserano; devia, também, proteger as donzelas e os fracos. Esses cavaleiros engajaram-se num dos mais importantes movimentos da Idade Média: as Cruzadas. Tratava-se de expedições armadas, alimentadas por espírito religioso, cujo objetivo era recuperar os lugares santos na Palestina, que estavam sob domínio dos muçulmanos. A religião, portanto, conduziu a Europa ao movimento cruzadista, atestando que a Igreja foi a instituição mais importante do período medieval. Ainda hoje, podemos acompanhar pelos noticiários a disputa entre israelenses e palestinos por lugares considerados santos.
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A religiosidade marcou profundamente a cultura medieval. Eram comuns as procissões e romarias, sobretudo a Santiago de Compostela, na Galiza. O teocentrismo (Deus visto como centro do universo, regendo o destino das pessoas) perpassa todo o pensamento da Idade Média. Isso só foi possível porque, numa época histórica tão caótica, o povo procurou na religião ajuda para as dificuldades neste mundo e salvação depois da morte. Nos mosteiros, centros culturais desse período, não só se conservaram textos e obras de arte greco-romanos, como também foi desenvolvido o trabalho dos copistas. Num momento em que a imprensa ainda não havia sido inventada, os monges foram os responsáveis pela reprodução escrita das obras, adornadas por enfeites coloridos chamados iluminuras e miniaturas.
Iluminuras.

Um livro interessante, que retrata a vida dos copistas nos mosteiros, é O Nome da Rosa, de Umberto Eco.

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Manifestações Artísticas
Dois estilos marcaram a Idade Média. A arte românica foi uma arte de peregrinos, viajantes e cruzados. Os castelos, mosteiros e igrejas — caracterizados pelo uso do arco redondo, grossas paredes de pedra, janelas pequenas e predomínio de linhas horizontais — foram construídos com mão-de-obra gratuita. Nessa arte predominou a arquitetura, em função da qual existiam a pintura e a escultura. A partir do século XII, começou a desenvolver-se um novo estilo, marcado pela construção de catedrais: o gótico. Elas contrastam com as românicas pela leveza expressa sobretudo por suas imensas janelas, seus vitrais coloridos e suas torres que se elevam para os céus como mãos em prece. A pintura e a escultura ganham maior autonomia e há uma crescente humanização das figuras. As catedrais góticas, produto do surgimento das cidades, eram construídas por artesãos e trabalhadores assalariados reunidos em corporações. Em qualquer um dos dois estilos, as catedrais eram livros

Igreja da arte românica – Notre Dame La Grande.

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Banco de Imagens Rideel

Duomo, em Milão.

escritos em pedra. Tanto os vitrais quanto as imagens do pórtico ensinavam ao homem a história do mundo desde a sua criação, dogmas da religião, exemplos dos santos e hierarquia das virtudes. Portugal já estava erigido em Estado, dispunha de rei, de território, de povo, de expressão lingüística (embora ainda mesclada com o galego). Só lhe faltava um documento artístico escrito para atestar sua
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Vitrais da catedral de Chartres.

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existência cultural. Assim, em 1189, segundo alguns; em 1198, segundo Carolina Michaelis, o trovador Paio Soares de Taveirós produziu o primeiro texto escrito da literatura portuguesa: a cantiga A Ribeirinha, inspirada em Maria Pais Ribeiro, a favorita do rei D. Sancho Primeiro. ..................................................... A RIBEIRINHA OU CANTIGA DE GUARVAIA No mundo non me sei parelha, mentre me for como me vai, ca já moiro por vós – e ai! mia senhor branca e vermelha, ro queredes que vos retraia quando vos eu vi en saia! Mau dia me levantei, que vos enton non vi fea! E, mia senhor, dês aquel dia’ai! ai! me foi a mi mui mal, e vós, filha de don Paai Moniz, e ben vos semelha d’haver eu por vós guarvaia, lux pois eu, mia senhor, d’alfaia nunca de vós houve nen hei valia d’ua correa. PARÁFRASE No mundo ninguém se assemelha a mim, enquanto minha vida continuar assim, porque morro por vós, e ai! minha senhora de pele alva e faces quereis que vos descreva quando vos vi sem manto! Maldito dia! me levantei, que não vos vi feia! E, minha senhora, desde aquele dia, Tudo me foi muito mal, e vós, filha de don Pai Moniz, e bem vos parece de ter eu por vós guarvaia, (roupa pois eu, minha senhora, como mimo de vós nunca recebi algo, mesmo que sem valor.
(Paio Soares de Taveirós. In S. Spina. Presença da Literatura Portuguesa – Era Medieval. 3ª ed. São Paulo, Difel, 1969) -

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Conheça alguns termos técnicos empregados na poética do período trovadoresco. Naquela época, a estrofe recebia o nome de cobra, cobla ou talho. O verso recebia o nome de palavra e, quando não havia rima, chamava-se palavra- perluda, bem exemplificado pelo segundo verso da segunda cobra. Veja: “me foi a mi mui mal” Designava-se vocábulo atafita o que hoje conhecemos como encadeamento ou “enjambement” entre dois versos, exemplificados pelo terceiro e quarto verso da primeira cobra: “queredes que vos retraia quando vos eu vi en saia!” Repare-se que a cantiga, formada de duas oitavas, não possui refrão ou estribilho: por isso, chama-se cantiga de maestria. A Cantiga da Ribeirinha está registrada em o Cancioneiro da Ajuda sob o número 38 e sua classificação é equivocada já que apresenta simultaneamente elementos lírico-amorosos e satíricos. A qualidade emocional do texto e a habilidade do poeta sugerem que devia haver uma atividade literária intensa anterior a essa cantiga, só que oral e, portanto, dela não se tem registro. No período que se estende do século XII ao XIV, cultivaram-se a poesia, a novela de cavalaria, os cronicões e os livros de linhagem, nessa ordem decrescente de importância.

Poesia Medieval Portuguesa
Os textos poéticos dessa época eram acompanhados por música e dança (por isso eram chamados de cantigas) e produziram o aparecimento de muitos artistas assim denominados: a) trovador: poeta, quase sempre um nobre, que compunha letra e música das canções, sem preocupação financeira. b) jogral, segrel, menestrel: de condição social inferior, cantavam as poesias dos trovadores, de castelo em castelo, entretendo a nobreza.
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c) soldadeira ou jogralesa: moça que cantava e tocava castanholas ou pandeiro enquanto dançava. A poesia trovadoresca divide-se em: poesia lírico-amorosa cantigas de amigo cantigas de amor cantigas de escárnio cantigas de maldizer

poesia satírica

Poesia Lírico-Amorosa
1. Cantiga de Amor
Um dos três grandes centros culturais da Idade Média, ao lado da Itália e da Espanha, foi a França e, nela, a Provença, que exportou trovadores para toda a Europa. A cantiga de amor revela influência provençal, mas os trovadores portugueses não se limitaram à imitação, imprimindo grande sinceridade e lirismo a suas composições. Assim se exprimiu D. Dinis, rei e trovador português: “Quer’eu en maneira de proençal fazer agora um cantar d’amor(...)” As principais características da cantiga de amor são: a) ambiente palaciano; b) eu-lírico masculino: é sempre o trovador que fala a sua senhor, sem jamais revelar-lhe o nome; c) amor cortês: o sistema feudal criou uma maneira feudal de pensar que se refletiu também na literatura; por isso, a mulher é a senhor a quem o trovador presta vassalagem amorosa: deve servi-la com fidelidade e reverenciá-la;
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O crítico português Alexandre Pinheiro Torres assim se manifestou sobre a sociedade medieval e o amor: “Em sociedade tão fechada, de estrutura medieval, o amor – o grande e eterno tema – vai ser uma manifestação de vassalagem feudal, já que as formas de vida e pensamento também são feudais. O que significa que o feudalismo engendra uma maneira de pensar feudal, como hoje o capitalismo engendra uma maneira de pensar capitalista”. d) idealização da mulher: a mulher é vista como um ser inatingível (ou é casada ou pertence a uma classe social superior à do trovador); por não ser correspondido, o poeta experimenta a coita d’amor (o sofrimento amoroso), João Guilhade diz: “Estes olhos nunca perderan senhor, gran coita, mentr’eu vivo for(...)” Esse sofrimento do trovador, que se contenta só com ver a amada, é tão intenso que a única saída do poeta é a morte, como canta Bernal de Bonaval:

A dona que eu am’e tenho por senhor amostrade-me-a* Deus, se vos en prazer for**, se non dade-me-a morte. A que tenh’eu por lume* destes olhos meus e por que choram sempre amostrade-me-a Deus, se non dade-me-a morte. Essa que Vós fizestes melhor parecer de quantas sei*, ai Deus, fazede-me-a veer, se non dade-me-a morte.
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* mostrai-a a mim ** se tiverdes prazer * luz

* a mais formosa de quantas existem

Ai Deus, que me-a fizestes mais ca* mim amar, mostrade-me-a u* possa com ela falar, se non dade-me-a morte.

* que a * onde

(Bernal de Bonaval. In J. J. Nunes. Cantigas d´amor. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1932)

2. Cantiga de Amigo
As cantigas de amigo têm origem na própria Península Ibérica. São, portanto, de origem popular. Suas principais características são: a) ambiente rural: a mulher é sempre uma camponesa; b) eu-lírico feminino: apesar de serem escritas por homens, as cantigas exprimem um sentimento feminino. É a mulher que sofre por estar separada do amigo (amante ou namorado). D. Sancho I escreveu: “Ai eu coitada, como vivo en gran cuidado por meu amigo que ei alongado!(...)”

c) presença de outros personagens com os quais a mulher dialoga (mãe, amigas, flores, ondas, etc.), como atesta Fernando Esguio:

“Vaiamos, irmã, vaiamos dormir nas ribas do lago, u eu andar vi a las aves meu amigo.(...)”

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A cantiga transcrita a seguir é do rei D. Dinis (1261-1325), protetor dos poetas, amante da cultura (fundador da primeira universidade do país, a de Lisboa, em 1290) e o poeta que mais escreveu cantigas: 138 composições, sendo 76 de amor, 52 de amigo e 10 de maldizer. Essa cantiga está registrada no Cancioneiro da Vaticana, sob o nº 97 e no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, sob o nº 459: CANTIGA Hun tal home sei eu, ai ben talhada, que por vós ten a sa morte chegada; vede quem é e seed’en nenbrada; eu, mia dona. Hun tal home sei eu que preto sente de si morte chegada certamente; vede quem é e venha-vos em mente; eu, mia dona. Hun tal home sei eu, aquest’oide: que por vós morr’ e vo-lo en partide, vede quem é e non xe vos obride; eu, mia dona.(*)
(J.J. Nunes. Cantigas d’Amor, Coimbra: Imprensa da Universidade, 1932, pp.93-94.)

Essa cantiga é denominada cantiga de refrão, visto repetirse o mesmo verso “eu, mia dona” no final de cada cobra. Observe que os versos da primeira cobra recorrem, com alterações formais, mas não de sentido, nas cobras seguintes; a esse recurso denomina-se “paralelismo”.

*bem talhada =formosa; seed’en nenbrada = lembrai-vos disso; preto = perto; venha-vos en mente = tende em mente; aquest’oide = ouvi isto; vo-lo en partide = afastai-o disso ( en = da morte); non xe vos obride = não vos olvideis.

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Cenário perfeito para uma barcarola.

O refrão e o paralelismo são recursos típicos da poesia popular. d) concepção mais humana do amor; e) trabalho formal mais apurado em relação às cantigas de amor: é comum a presença de paralelismo (construção
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que se repete com pequenas variações a cada estrofe), de refrão ou estribilho (versos que se repetem ao final de cada estrofe).

Vários compositores da MPB escrevem cantigas de amigo: Paulo Vanzolini (Ronda), Chico Buarque (Atrás da Porta, Tatuagem), Gonzaguinha, Gilberto Gil entre outros. Veja um fragmento de Caetano Veloso: “Ah! Esse cara tem me consumido a mim e a tudo que eu quis com seus olhinhos infantis com os olhos de um bandido (...)” Dependendo do cenário, as cantigas de amigo podem dividir-se em:
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albas: o tema relaciona-se com o amanhecer; bailias: o cenário é uma festa em que se dança; barcarolas: referem-se a rio, lago ou mar e falam do temor de que o amigo, que partiu em expedições marítimas, não volte mais; pastorelas: o cenário é o campo; romarias: falam sobre romarias ou peregrinações a santuários. Quanto à forma, essas cantigas dividem-se em: cantigas de mestria: sem estribilho ou refrão; cantigas de refrão: que têm estribilho ou refrão; paralelísticas: que apresentam paralelismo.

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• cantigas

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Observe, nesta barcarola de Martim Codax, em que a mulher conversa com as ondas, a presença de paralelismo e estribilho: Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo! e ai Deus, se verrá cedo*! Ondas do mar levado*, * agitado se vistes meu amado! e ai Deus, se verrá cedo! Se vistes meu amigo o por que eu sospiro! e ai Deus, se verrá cedo! Se vistes meu amado por que hei gran cuidado! e ai Deus, se verrá cedo!
(Martim Codax. In J. J. Nunes. Op. Cit.)

*ele voltará logo

Conheça uma outra cantiga de amigo. Airas Nunes – Essa cantiga é uma bailada de Airas Nunes, trovador galego da segunda metade do século XIII, coevo de Afonso X, o Sábio, e de D. Sancho IV, dos mais importantes de toda a lírica medieval. Consideramos essa cantiga sua obra-prima. A cantiga é conhecida por dois registros, no Cancioneiro da Vaticana, sob o nº 462, e no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, sob o nº 818: CANTIGA Bailemos nós já todas três, ai amigas, so aquestas avelaneiras frolidas, e quen for velida, como nós, velidas, se amig’amar, so aquestas avelaneiras frolidas verrá bailar.
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Bailemos nós já todas três, ai irmanas, so aqueste ramo destas avelanas, e quem for louçana, como nós, louçanas, se amig’amar, so aqueste ramo destas avelanas verrá bailar. Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos, so aqueste ramo frolido bailemos e quen ben parecer, como nós parecemos, se amig’amar, so aqueste ramo so lo que nós bailemos verrá bailar. *
(J. J. Nunes, Cantigas d’Amigo, 3 vols., Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926-1928, vol. II, p. 235.)

Observe que a cantiga, de conteúdo esvoaçante e alegre, relata o sentimento de três bailadeiras, pessoas do povo que são sensíveis, mas incultas. “Bailemos nós já todas três, amigas”, ocupando cada amiga uma cobra. Cada jovem atua em uma cobra e suas vozes se unem em couro nos versos menores que, assim, funcionam como verdadeiros estribilhos. Transcrevemos a seguir um dos raros exemplos de alba dentro da lírica trovadoresca. O autor é Nuno Fernandes Torneal. Nuno Fernandes Torneol – trovador da primeira metade do século XIII. Dos mais autênticos e inspirados poetas do tempo, escreveu 13 cantigas de amor, uma de escárnio e 8 de amigo, das quais se considera obra-prima a Alba ou alvorada que se segue, registrada no Cancioneiro da Vaticana, sob o nº 242, e no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, sob nº 604: *so = sob; aquestas = estas; velida = formosa; verrá = virá; louçana = formosa; mentr’al = mentre al = enquanto outra coisa; quen ben parecer = quem for bela

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CANTIGA Levad’, amigo, que dormides as manhãas frias; todalas aves do mundo d’amor dizian: leda m’and’eu! Levad’, amigo, que dormide’-las frias manhãas; todalas aves do mundo d’amor cantavan: leda m’and’eu! Todalas aves do mundo d’amor dizian; do meu amor e do voss’en ment’avian: leda m’and’eu! Todalas aves do mundo d’amor cantavas; do meu amor e dos voss’ i enmentavam: leda m’and’eu! Do meu amor e do voss’en ment’avian; vós lhi tolhestes os ramos en que siian: leda m’and’eu! Do meu amor e do voss’i enmentavan; vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam: leda m’and’eu! Vós lhi tolhestes os ramos en que siian e lhi secastes as fontes em que bevian: leda m’and’eu! Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam e lhi secastes as fontes u se banhavan: leda m’and’eu!*
(J. J. Nunes, Cantigas d’Amigo, vol. II, pp. 71-72.)

*levad = levantai; leda = contente; i = aí, nos cantos; em ment’avian = traziam na mente ( = referiam se a); enmentavan = equivalente a em ment’aviam; siian = pousavam.

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Essa cantiga é um monólogo da moça ao amanhecer, desperta pelo canto da passarada. O contentamento da moça parece-nos ser resultado das lembranças do afeto já vivido e, quem sabe, acabado, mais que da continuidade da relação de amar no dia que se inicia.

Poesia Satírica
As cantigas satíricas dividem-se entre as de escárnio e as de maldizer. Elas são importantes porque não se prenderam a convenções literárias, aproximando-se da vida e dos costumes, sendo, por isso, importante documento da sociedade medieval portuguesa. Elas também contribuíram para o aprimoramento da língua literária, uma vez que exploraram jogos de palavras e ambigüidades. Essas cantigas referiam-se à vida dos jograis, relatando vícios, escândalos, excessos de toda ordem e rivalidade profissional. Criticavam o burguês afidalgado, o nobre sovina, o clero e a fraqueza dos nobres portugueses contra os árabes. Cantadas nas tabernas, essas eram cantigas da vida boêmia. Hoje, o gênero satírico apresenta-se desdobrado em fábulas e comédias.

1) Cantigas de Escárnio
São sátiras veladas que não citam o nome da pessoa ridicularizada. Esta cantiga de João Garcia de Guilhade, trovador do século XIII que compôs 21 cantigas de amigo, 15 de maldizer e duas tenções, é um dos exemplos mais conhecidos desse tipo de cantiga:
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Ai, dona fea! fostes-vos queixar que vos nunca louv’en meu trobar* mais ora* quero fazer um cantar en que vos loarei toda via* e vedes como vos quero loar: dona fea, velha e sandia*! Ai dona fea! se Deus me perdon! e pois havedes tan gran coraçon que vos eu loe en esta razon, vos quero já toda via; e vedes qual será a loaçon*: dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei en meu trobar, pero muito trobei; mais ora já un bon cantar farei en que vos loarei toda via; e direi-vos como vos loarei: dona fea, velha e sandia!

* trovar

* vida

* louca

* louvação

(João Garcia de Guilhade. In S. Spina. Op. Cit.)

2) Cantigas de Maldizer
Essas cantigas utilizam o insulto direto e grosseiro, dando nome ao ofendido. Observe o que fez Pero da Ponte na página seguinte: “Quen a sa* filha quiser dar mester*, que sábia* guarir*, a Maria Doming’á-d’ir* deve ir que a saberá ben mostrar*, e direi-vos que lhi fará: ante dun mês* lh’amostrará como sábia mui ben ambrar*. (...)”
* sua * profissão * saiba * enriquecer * deve ir * ensinar, mostrar

* antes de um mês * requebrar ou ter relações sexuais

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Satiriza-se, na cantiga, uma certa Maria Dominga que ensinava as moças a requebrar para atrair homens. As cantigas lírico-amorosas e as satíricas chegaram até nós por meio de três Cancioneiros, compilações manuscritas da produção trovadoresca: * Cancioneiro da Ajuda: com 467 poesias, sem indicação de autor. Encontra-se na Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa; * Cancioneiro da Vaticana: composto de 1205 cantigas de 160 autores, está na Biblioteca do Vaticano; * Cancioneiro Colocci-Brancuti (ou Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa): contém mais de 1500 cantigas. Conheça uma outra cantiga que tão bem exemplifica a poesia trovadoresca. Trata-se do trovador galego da segunda metade do século XIII, Pêro Garcia Burgalês . Escreveu numerosas cantigas de amor, de amigo e de escárnio e maldizer. A cantiga seguinte, que tão bem representa seu talento, constitui, sem dúvida, um dos momentos mais altos a que subiu a sátira trovadoresca. Registram-na o Cancioneiro da Vaticana, sob o nº 998, e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, sob o nº 1331: CANTIGA Rui Queimado morreu com amor en seus cantares, par Sancta Maria, por úa dona que gran bem queria, e, por se meter por mais trobador, porque lh’ela non quis [o] bem fazer, fez-s’el en seus cantares morrer, mas ressurgiu depois ao tercer dia!
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Esto fez el por dia por úa as senhor que quer gran bem, e mais vos em diria: porque cuida que faz i mestria, e nos cantares que fez a sabor de morrer i e desi d’ar viver; esto faz el que x’o pode fazer, mas outr’omen per ren non [n] o faria. E non há já de sa morte pavor, senon as morte mais la temeria, mas sabe ben, per sa sabedoria, que viverá, dês quando morto for, e faz-[s’]en seu cantar morte prender, desi as viver: vede que poder que lhi Deus deu, mais que non cuidaria. E, se mi deus a mim desse poder, qual oi’ el há, pois morrer, de viver, jamais morte nunca temeria.
(J. J. Nunes, Crestomatia Arcaica, 3ª ed., Lisboa: Clássica, 1943, p. 400.)

Desaparecimento do Trovadorismo e a Prosa Medieval
A lenta passagem de uma estrutura feudal a uma economia mercantil, a criação das primeiras universidades, a valorização da vida cortês, a permanência do espírito guerreiro da Reconquista e a influência da Igreja selaram a decadência do Trovadorismo e prepararam o aparecimento da prosa em Portugal, nos séculos XIII e XIV. A produção desse período pode ser dividida em:

*par = por; en = disso; porque cuidda que faz i maestria = porque pensa que possui talento; sabor = gosto; i = aí; desi = depois; ar = re ( ar viver = reviver), de novo, outra vez; dês = desde; oi = hoje; pois morrer, de viver = viver depois de morrer.

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a) hagiografias: relatos sobre a vida dos santos; b) livros de linhagens ou nobiliários: relatos genealógicos das famílias nobres; c) cronicões: relatos romanceados de acontecimentos históricos e sociais; d) novelas de cavalaria: relatos de combates entre heróis e infiéis ou vilões. As novelas de cavalaA primeira acepção para o verria surgiram das canções de gesta, antigos poemas bete prosa que aparece no Diciode assuntos guerreiros, e nário Aurélio, século XXI, diz: “maformaram ciclos de acor- neira natural de falar ou escrever, do com o tema central. sem forma retórica ou métrica, por Veja: a) ciclo clássico: en- oposição ao verso”. volve os heróis da mitologia greco-romana; b) ciclo carolíngio: focaliza as aventuras de Carlos Magno e seus guerreiros; c) ciclo bretão ou arturiano: trata das façanhas do rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda. Este foi o ciclo que mais influenciou a Literatura Portuguesa. Duas novelas marcaram esse período: A Demanda do Santo Graal e Amadis de Gaula. Em A Demanda do Santo Graal, são relatadas as aventuras do rei Artur e seus cavaleiros, que saem à procura (demanda) do santo cálice (graal) em que José de Arimatéia recolheu o sangue de Cristo derramado quando estava na cruz. Nessa novela está evidente o ideal do cavaleiro cristão medieval, enfatizandose sua valentia e castidade. Em Amadis de Gaula, há também a encarnação do perfeito cavaleiro, combativo e generoso, que ama timidamente sua senhora. Amadis é pajem de Oriana, a quem serve fielmente: por ela arrisca-se a toda espécie de combate. Acusado de infidelidade por Oriana, Amadis torna-se ermitão. Mas novas aventuras ocorrem e ele precisa salvar Oriana, com quem fica a sós numa floresta. Aí a donzela deixa-se possuir. Mais tarde, depois de outras tantas aventuras, eles se casam.
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Os cavaleiros serviam ao Cristianismo, e à mulher amada e ao seu reino.

A DEMANDA DO SANTO GRAAL O episódio seguinte corresponde aos capítulos 250-253, intitula-se “A Barca Misteriosa – O Torneo Forte e Maravilhoso”: Quando Boorz se partiu da abadia, úa voz lhe disse que fosse ao mar, ca Perseval o atendia i. El se partiu ende, assi como o conto o há já devisado. E quando chegou aa riba do mar, a fremosa nave, coberta de um eixamete branco aportou, e Boorz desceu e encomendou-se a Nostro Senhor, e entrou dentro e leixou seu cavalo fora. E tanto que entrou dentro, viu que a nave se partiu tam toste da riba, como se voasse. E catou pela nave e nom viu rem, que a noite era muito escura; e acostou-se ao boordo e rogou a Nostro Senhor que o guiasse a tal lugar u sua
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alma podesse salvar. E, pois fez sa oraçom, deitou-se a dormir. E manhã, quando se espertou, viu na nave uú cavaleiro armado de loriga e de brafoneiras. E, pois o catou, conhecê-o e tolheu logo seu elmo e foi-o logo abraçar e fazer com ele maravilhosa ledice. E Persíval foi maravilhado, quando o viu vir contra si, ca nom podia entender quando entrara na nave. E pero, quando o conheceu, foi tam ledo, que nom poderia chus. E ergueu-se e abraçou-o e recebe-o como devia. E começou o uum ao outro a contar de sas aventuras, que lhes aveerom dês que entraram na demanda. Assi se acharom os amigos na barca que Deus lhes guisara, e atendiam i quais aventuras lhes el quisesse enviar. E Persíval disse que lhe nom falecia de sa promessa, fora Galaaz. Mais ora leixa o conto falar deles e torna a Galaaz, ca muito há gram que se calou dele. Conta a estória que, pois que o boõ cavaleiro se partiu de Persíval e que o livrara dos XX cavaleiros que o perseguiram póla donzela, entrou no grã caminho da e andou pois muitas jornadas, aas vezes aça, aas vezes alá, assi como a ventura o levava. E pois andou gram peça pelo reino de Logres em muitos logares u lhe diziam que havia aventuras de acabar, tornou-se contra o mar, assi como sa vontade lhe deu. Um dia lhe aveo que a ventura o levou per ante uú castelo, u havia uú torneo forte e maravilhoso; e havia i gram gente da uã parte e da outra, e dos da Mesa Redonda havia i muitos, uús que ajudavam os de dentro, e outros os de fora, e nom se conheciam, pólas armas que haviam cambadas. Mais aquela hora que veio i Galaaz, eram os de dentro tam desbaratados, que nom atendiam se morte nom. E Tristam, que a ventura adussera aaquel torneo e que ajudava os de dentro, sofrera já i tanto que tinha já mui grandes IIII chagas, ca todolos de fora estavam sobre ele pólo prenderem, porque viram que era melhor cavaleiro que nehuú dos outros; e nom havia i tal dos outros que lhe tanto mal fezesse como Galvam e Estor, que eram da outra parte, e nom no conheciam, e pero el se defendia tam vivamente, que todos os que o

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viam eram maravilhados. Galaaz estava já muito preto da porta, e viu ante si uú cavaleiro mal-ghagado, que saíra do torneo e ia fazendo tam gram doo, que nom vistes maior. E Galaaz se chegou a ele e perguntou-o porque fazia tam gram doo: — Por quê? disse el: polo milhor cavaleiro do mundo, que vejo morrer per grãmaa-ventura, ca todo o mundo é contra el, assi como veedes, e ainda nom quer leixar o torneo. — E qual é ? disse Galaaz E el lho mostrou. — Par Deus, disse Galaaz, verdadeiramente el é mui boõ cavaleiro. Assi Deus vos salve, dizede-me como há nome. — Senhor, disse el, há nome dom Tristam. — No nome de Deus, disse Galaaz, eu o conhosco mui bem. Ora me terriam por mau, se o nom fosse ajudar. Entom se leixou correr a eles e meteu Gilflet em terra; dês i, Estor; dês i, Sagranor; dês i, Lucan. E depois que lhe quebrou a lança, meteu mão aa espada, como aquel que se sabia bem dela ajudar, e meteu-se u era a maior pressa, e começou a derribar cavaleiros e cavalos, e fazer tam gram maravilha de armas, que quantos o viam se maravilhavam em. E Galvam disse a Estor e aos outros seus companheiros que já cavalgarom: — Por esta cabeça, esta é Galaaz, boo cavaleiro. Ora fol quem no mais atender, ca a seu golpe nom pode durar arma. E el isto dizendo, aveo que chegou Galaaz a ele, assi como a ventura o trazia, e deu-lhe ua cuitalada, que lhe talhou o elmo e o almofre e o coiro e a carne atee o texto, mais aveolhe bem que nom foi chaga mortal. E Galvam, que bem cuidou a seer morto, leixou-se cair em terra. E Galaaz, que nom poder ter seu golpe, alcaçou o cavalo pelo arçom de ante, assi que o talhou per meo das espáduas, e o cavalo caiu morto acabo seu senhor. Quando Estor viu este golpe, maravilhou-se e afastou-se afora, cabem entendeu que seria mal-sem e folia demais entender. Sagramor disse entom:

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— Per boa fé, ora posso bem dizer que este é o melhor cavaleiro que eu nunca vi. Nunca me creades de rem, se este é o melhor cavaleiro, aquel que há de dar cima aas aventuras do regno de Londres. — Sem falha, esse é, disse Estor. E eles em esto falando, Galaaz viu que os de fora começaram a fugir, e os do castelo iam empós eles, prendendo em eles a seu plazer. E quando Galaaz viu que os de fora eram já assi desbaratados, que nom podia já recobrar, partiu-se ende tam escundidamente, que guu no entendeu, fora Tristam. Aquel verdadeiramente o seguiu de longe, que aquel dia viu em el tam gran bondade de cavalaria, que disse que jamais nom seria ledo taa que nom soubesse que era. Assi se foram ambos escondidamente, que os da assumada nom poderam saber que fora deles. E Galvam, que foi tam coitado do golpe, que nom cuidou a escapar vivo, disse a Estor: — Par Deus, dom Estor, ora vejo eu que é verdade o que me disse Lançalot ante vós todos, em dia de Penticoste, que, se provocasse de tirar a espada do padrom, que me acharia eu mal, ante que o ano passasse, e que seria per aquela espada mesma. E, sem falha, esta é aquela espada com que el feriu. E esto vejo que assi me aveo como me foi adeviado. — E sodes mal-ferido? disse Estor. — Non som tam mal-ferido, disse el, que nom possa guarecer. Mais o pavor me fez peor que al. — Mais que podemos fazer? disse el. Semelha-me que já ficaremos, disse Estor. — Non ficaredes vós, disse el, mais eu ficarei taa que seja guarido. E eles em esto falando, chegarom-se os do castelo a eles. E quando souberom que era Galvam, muitos houve i a que pesou. E filharam-no e levaram-no ao castelo e desarmorom-no, e meterom-no em uã câmara escura e longe de gente, e fezerom58

lhe catar sua chaga a uú mui boõ mestre, que mui bem sabia de tal mestria, que os fez seguros, que o daria são a pouco tempo. Assi ficou Galvam no castelo, e Estor, que o nom quis leixar ataa que saasse. Os outros se foram, e quando se partiram do castelo, começaram a falar de Galaaz e disserom: — Que faremos? Aquel boõ cavaleiro nom é longe; vamos empós el, ataa que o achemos; e se Deus quer que o achemos, tenhamos-lhe companhia mentre podermos, ca, sem falha, maravilhas haveremos Del. A esto i se acordaram, e per u iam, iam demandando por Galaaz. Mais porque o nam acharam esta vez, se cala ora ende o conto e torna a Galvam.*
(A Demanda do Santo Graal, repr. Facs. e transcr. Crit. De Augusto Magne, Rio de Janeiro, INL, 1955, vol. I, pp. 375, 377, 379 e 381)

Este episódio divide-se em duas partes distintas, conforme o próprio título sugere. Na primeira, protagonizada por Boorz e Perseval, dois dos principais cavaleiros de Camaalot, observase, de um lado, a presença de ingredientes místicos que fazem da Demanda uma novela “ao divino”, isto é, cristã e transcendental; de outro, a magia, o maravilhoso pagão, representado pela barca que partiu “como se voasse”, que lembra a faceta fantástica e supersticiosa da Idade Média.

* ca=pois; atendia=esperava;ende=daí; eixamente=antigo veludo oriental, felpudo; leixou=deixou; toste=rápida, depressa; catou=olhou; rem=nada; u=onde; loriga=saiote de malha com lâminas de aço ou escamas de ferro; brafoneiras=peça que cobria a parte superior dos braços dos cavaleiros; ledice=alegria; contra=na direção de; pero=mas; chus=mais/que nom poderia chus=a mais não poder/; aveerom=aconteceram; dês=desde; guisara=preparara; gram peça= há muito tempo; froesta= floresta; se morte nom = senão a morte, apenas a morte; adussera = levara; preto = perto; dês i = depois; em = disso; fol = louco; cuitalada = cutilada; almorfe = elmo; texto = cabeça; a-cabo = junto de; dar cima = realizar; empós = atrás de; taa = até; assumada = ajuntada; padrom = padrão, pedra de mármore; seria = sararia; sem falha = sem dúvida; guarecer = curar; al = outra coisa; mestre = médico; saasse = sarasse.

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A segunda parte, encetada no segundo parágrafo, contém o recheio mais freqüente nesse tipo de narrativa épica: a “justa”, quando a troca de armas se realiza homem a homem, e o “torneio”, quando coletiva. Aqui, Tristão enfrenta sozinho, em torneio, vários adversários, pois “nom se conheciam, pólas armas que haviam cambadas”. Vale dizer: como o reconhecimento entre os cavaleiros se fazia por meio das inscrições que adornavam o escudo, estando este “cambado”, é natural que lutassem entre si julgando-se cavaleiros inimigos ou desconhecidos. Tal pormenor constitui lugar-comum na novela de cavalaria medieval. Observe-se também que Galaaz se coloca ao lado de Tristão, embora não o reconheça: bastava que o outro estivesse inferiorizado para que sentisse obrigação de ajudá-lo, mesmo que contra seus amigos, Estor e Galvam. Essa adesão fraternal, que contrabalança o ímpeto guerreiro motivado por desconhecimento; guarda um símbolo de extração cristã: o herói corre em socorro de Tristão porque este, batalhando contra numerosos cavaleiros, representa o Bem a se bater com o Mal. É que Galaaz, tanto quanto os demais companheiros de jornada, não só procurava aperfeiçoar-se física e moralmente na defesa de donzelas e cavalheiros desprotegidos ou injustiçados, como fazia disso sua própria razão de viver. Assim, por trás da interferência altruísta de Galaaz, percebe-se que o cavaleiro simbolizava Cristo em sua peregrinação entre os homens, a fim de pacificá-los e defender os pobres contra os ricos, os fracos contra os fortes etc. E por seu intermédio se patenteia o intuito do autor da Demanda: exortar os leitores à prática das virtudes cristãs e pregar a salvação do mundo pelo exemplo de Cristo e seus apóstolos, encarnados em Galaaz e irmãos de armas. Do ponto de vista estrutural, observe-se a expressão “ora leixa o conto”, ou “conta a estória”, ou “ora ende se cala o conto”, em que as palavras “estória” e “conto” encerram o mesmo significado que “narrativa”, e funcionam apenas como elementos de ligação entre as partes ou episódios da novela.

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Questões de Vestibular
1 (UF-PA) “Ai flores, ai flores do verde pino se sabedes novas do meu amigo? Ai, Deus, e u é?” O autor da poesia acima é: a) Gil Vicente c) Bocage e) Antônio Nobre b) Camões d) D. Dinis

2 (UF-PA) Amor, desamor e ciúme; freqüente inspiração na vida popular, bem como a exploração do eu feminino indicam cantigas de: a) amigo c) amor e) maldizer b) amor e amigo d) escárnio 3 (UF-PA) Soneto de Contrição “Eu te amo, Maria, te amo tanto Que o meu peito me dói como em doença E quanto mais me seja a dor intensa Mais cresce na minha alma teu encanto Como a criança que vagueia o canto Ante o mistério da amplidão suspensa Meu coração é um vago de acalanto Berçando versos de saudade imensa. Não é maior o coração que a alma Nem melhor a presença que a saudade Só te amar é divino, e sentir calma... E é uma calma tão feita de humildade Que tão mais te soubesse pertencida Menos seria eterno em tua vida” Este poema de Vinicius de Moraes situa a mulher num plano superior, deificado, e reserva ao sujeito poético masculino um papel submisso. Exatamente assim, no contexto poético medieval, surgia a mulher nas cantigas de:
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a) escárnio b) maldizer

c) amigo e amor d) amigo

e) amor

4) (Mackenzie-SP) “Ai dona fea! foste-vos queixar porque vos nunca louv’en meu trobar mais ora quero fazer um cantar em que vos loarei toda via e vedes como vos quero loar: dona fea, velha e sandia!” Assinale a informação correta a respeito do trecho de João Garcia de Guilhade: a) é cantiga satírica b) foi o primeiro documento escrito em língua portuguesa (1189) c) trata-se de cantiga de amigo d) foi escrita durante o Humanismo (1418-1527) e) faz parte do Auto da Feira 5) (FUVEST-SP) Com relação às seguintes estéticas literárias: Barroco, Arcadismo, Trovadorismo, Simbolismo e Romantismo: a) coloque-as em ordem cronológica; b) indique uma que ocorreu em Portugal e não no Brasil. 6) (FUVEST-SP) “Ai, flores, ai flores do verde ramo se sabedes novas do meu amado? Ai, Deus, e u é? (sabedes, ‘sabeis’; u, ‘onde’) Escreva as palavras que completam os claros. “Os versos acima pertencem a uma cantiga de (a), característica do (b). 0 português, estética literária dos séculos XII, XIII e XIV.” 7) (FUVEST-SP) Coube ao século XIX a descoberta surpreendente da nossa primeira época lírica. Em 1904, com a edição crítica e comentada do Cancioneiro da Ajuda, por Carolina Michaëlis de Vasconcelos, tivemos a primeira grande visão de conjunto do valiosíssimo espólio descoberto. (Costa Pimpão)
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a) Qual é essa “primeira época lírica” portuguesa? b) Que tipos de composições poéticas se cultivavam nessa época? 8) (UNESP) Leia e observe com atenção a composição seguinte: “Ay flores, ay flores do verde pinho, se sabedes novas do meu amigo! ay Deus, e hu é? Ay flores, ay flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado! ay Deus, e hu é? Se sabedes novas do meu amigo aquel que mentiu do que pôs comigo! ay Deus, e hu é? Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do que nh’ á iurado! ay Deus, e hu é? A composição anterior, parcialmente transcrita, pertence à lírica medieval da Península Ibérica. Ela tem autor conhecido, arte poética própria e características definidas do lirismo trovadoresco, podendo-se ainda descobrir o nome pelo qual composições idênticas são conhecidas. Em uma das alternativas indicadas acham-se todos os elementos que correspondem àquelas informações. a) O autor é Paio Soares de Taveirós. Destacam-se o paralelismo das estrofes, a alternância vocálica e o refrão. O poeta pergunta pelo seu amigo. b) O autor é Nuno Fernandes Torneol. Destaca-se o refrão como interpelação à natureza. Trata-se de uma cantiga de amigo. c) O autor é el-rei D. Dinis. Destacam-se o paralelismo das estrofes, a alternância vocálica e o refrão. O poeta canta na voz de uma mulher e pergunta pelo amado, porque é uma cantiga de amigo. d) O autor é Fernando Pessoa. Destaca-se alternância vocálica. Tratase da teoria do fingimento, que já existia no lirismo medieval. e) O autor é Martim Codax. Destaca-se o ambiente campestre. O poeta espera que os pinheiros respondam à sua pergunta.

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9) (UNESP) SEDIA LA FREMOSA SEU SIRGO TORCENDO
Estêvão Coelho

Sedia la fremosa seu sirgo torcendo As voz manselinha fremoso dizendo Cantigas d’amigo. Sedia la fremosa seu sirgo lavrando. As voz manselinha fremoso cantando Cantigas d’amigo – Par Deus de Cruz, dona, sey que avedes Amor muy coytado que tan bem dizedes Cantigas damigo. Par Deus de Cruz, dona, sey que andades D’amor muy coytada que tan bem contades Cantigas d’amigo. – Avuytor comestes, que adevinhades
(Cantiga nº 321 – Canc. da Vaticana) -

ESTAVA A FORMOSA SEU FIO TORCENDO
(paráfrase de Cleonice Berardinelli)

Estava a formosa seu fio torcendo, Sua voz harmoniosa, suave dizendo Cantigas de amigo. Estava a formosa sentada, bordando, Sua voz harmoniosa, suave cantando Cantigas de amigos. – Por Jesus, senhora, vejo que sofreis De amor infeliz, pois tão bem dizeis Cantigas de amigo.
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Por Jesus, senhora, eu vejo que andais Com penas de amor, pois tão bem cantais Cantigas de amigo. – Abutre comestes, pois que adivinhais.
in BERARDINELLI, Cleonice. Cantigas de Trovadores Medievais em português moderno. Rio de Janeiro, 1953, pp. 33-39.

O paralelismo é um dos recursos estilísticos mais comuns na poesia lírico amorosa trovadoresca. Consiste na ênfase de uma idéia central, às vezes repetindo expressões idênticas, palavra por palavra, em séries de estrófes paralelas. A partir destas observações, releia o texto de Estêvão Coelho e responda: a) O poema se estrutura em quantas séries de estrófes paralelas? Identifique-as. b) Que idéias centrais são enfatizadas em cada série paralelística? 10) (UNESP) Considerando-se que o último verso da cantiga caracteriza um diálogo entre personagens; considerando-se que a palavra abutre grafava-se avuytor, em português arcaico; e considerando-se que, de acordo com a tradição popular da época, era possível fazer previsões e descobrir o que está oculto, comendo carne de abutre, mediante estas três considerações: a) Identifique o personagem que se expressa em discurso direto, no último verso do poema; b) Interprete o significado do último verso, no contexto do poema. 11) (Mackenzie-SP) Maior poeta trovadoresco da escola provençal: a) Paio Soares de Taveirós c) D. Dinis b) D. Sancho d) Garcia de Resende 12) (Mackenzie-SP) Uma das afirmações é certa: a) as cantigas de amigo eram compostas por mulheres. b) cancioneiros eram intérpretes das cantigas. c) o intérprete era sempre o próprio compositor da cantiga. d) na cantiga de escárnio a crítica é encoberta.

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HUMANISMO (1434-1527)

As medidas do corpo humano, de Leonardo da Vinci.

As primeiras décadas de 1400 assistem a uma revolução feita com esquadro e compasso, que tem por objetivo conquistar o espaço onde vive o homem, que volta a ser o centro do universo. Leonardo da Vinci simbolizou a perfeição de todo o cosmos na harmonia do corpo humano inscrito nas figuras perfeitas do círculo e do quadrado.

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HUMANISMO: CONTEXTO HISTÓRICO:

séculos XV e XVI crise do feudalismo surgimento da burguesia teocentrismo e antropocentrismo início do estudo das obras greco-latinas Revolução de Avis reconhecimento dos valores humanos denúncia das classes dominantes historiografia — crônicas de Fernão Lopes prosa doutrinária — preocupação em educar os nobres para o convívio social e para a guerra poesia palaciana — Cancioneiro Geral de Garcia de Resende teatro popular — Gil Vicente

CARACTERÍSTICAS:

PRODUÇÃO LITERÁRIA:

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HUMANISMO (1434-1527)
O Humanismo representa, literariamente, uma transição entre o Trovadorismo e o Classicismo. Inicia-se em 1434, com a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo e encerra-se em 1527, com a volta do poeta Sá de Miranda da Itália, onde tomara contato com a nova estética clássica. Nesse período da literatura cultivaram-se a historiografia – cujo maior representante é Fernão Lopes –, a prosa didática, a poesia palaciana – compilada no Cancioneiro Geral – e o teatro popular de Gil Vicente.

Contexto Histórico
Guerras, rebeliões, problemas econômicos e religiosos e a peste negra, que reduziu drasticamente a população da Europa (só em Portugal exterminou quase um terço da população) – acarretando a falta de mão-de-obra nos campos – foram os responsáveis pela crise do Feudalismo. Restabelecido o comércio na Europa ocidental, a moeda reapareceu como instrumento de troca. A riqueza – que até então estava nas mãos da aristocracia e da Igreja – desviou-se para os bolsos dos mercadores habitantes dos burgos, os burgueses. O reaparecimento das cidades (burgos) e do comércio ocorreu num mundo feudalizado com o qual a nova classe – a burguesia – não demorou a entrar em conflito. A economia feudal de subsistência foi substituída por atividades comerciais. Como conseqüência, o processo de urbanização acelerou-se e o campo foi abandonado. A burguesia mercantil sentiu-se forte para disputar com a nobreza a direção política, pois seu dinheiro financiava projetos de soberanos que centralizavam o poder. Em Portugal, essa burguesia esteve presente na Revolução de Avis (1383-1385), que conduziu D. João I, o Mestre de Avis, ao trono, e foi sua riqueza que propiciou as grandes navegações e conquistas que se iniciaram com a tomada de Ceuta em 1415.
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Embora a Igreja nunca tenha perdido seu poder, a visão teocêntrica cedeu pouco a pouco lugar para a antropocêntrica – o homem como centro do universo. Esse deslocamento foi fruto, em parte, das Grandes Navegações, que mostraram ser o mundo maior do que cada feudo e que o homem podia ser senhor do seu destino.

Manifestações Culturais
Toda a produção artística do Humanismo, iniciado na Itália no século XIV, reflete a passagem do teocentrismo para o antropocentrismo. A pintura e a escultura enfatizam uma visão mais realista do mundo e adquirem autonomia, isto é, passam a ser manifestações independentes das obras arquitetônicas. As formas humanizam-se. A pintura não tem mais como tema único as cenas religiosas; agora são também retratados aspectos da vida leiga.
Um banqueiro e sua esposa, Quentin Metsys.

Literatura
Essa tendência à humanização refletiu-se também na produção literária da época: surgem textos mais aprimorados de autores que conhecem o latim clássico. Nesse período desenvolvem-se a prosa, a poesia e o teatro popular.

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Prosa
1) A Historiografia
Nomeado em 1434 guarda-mor da Torre do Tombo, Fernão Lopes é considerado o pai da História Portuguesa. Em suas crônicas ele contou a vida de seus reis, a Revolução de Avis (sustentada pela burguesia aliada às camadas populares), a expansão ultramarina. Apesar de ser chamado “o historiador da Revolução de Avis”, para ele a história era constituída não só pelas façanhas de reis, nobres e cavaleiros, mas também pelos movimentos populares (ele chamava o povo de “arraia-miúda” ou “barrigas ao sol”) e pelas forças econômicas. Podemos considerar Fernão Lopes um pioneiro por considerar os movimentos populares nas narrativas históricas. Fernão Lopes é o primeiro historiador português a desprezar o relato oral e, com objetividade, imparcialidade e rigor, basear-se em várias fontes documentais que compara com espírito crítico. Suas crônicas também apresentam qualidades literárias: prosa dinâmica, linguagem simples, estilo rico e movimentado. São de sua autoria: a) Crônica de El-Rei D. Pedro I b) Crônica de El-Rei D. Fernando c) Crônica de El-Rei D. João I (1ª e 2ª partes)
Crônica de El-Rei D. João I, de Fernão Lopes.

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Conheça agora a Crônica de El-Rei D. João. Neste pequeno trecho da Crônica de El-Rei D. Pedro I, temos a descrição tanto de suas qualidades quanto de seus defeitos:

“Este Rei D. Pedro era muito gago e foi sempre grande caçador e monteiro1, em sendo infante e depois que foi rei, trazendo grande casa2 de caçadores e moços de monte, e de aves, e de cães, de todas as maneiras que para tais jogos eram pertencentes3. Ele era muito viandeiro4, sem ser comedor mais que outro homem; que suas salas5 eram de praça6 em todos os lugares por onde andava, fartas de vianda, em grande abastança.”

Outros cronistas, Gomes Eanes de Zurara e Rui de Pina, sucederam Fernão Lopes no cargo de guarda-mor; no entanto, inferiores a ele, não tiveram sua visão de conjunto da história portuguesa. CRÔNICA DE D. JOÃO I D. João I, filho bastardo de D. Pedro I, que o elevou a Mestre de Avis com apenas sete anos, ascendeu ao trono por meio duma revolução popular, em 1383-5. Antes disso, reimava o seu meio-irmão, D. Fernando: casado com Leonor Teles, espanhola de nascimento, em pouco tempo a perigosa influência de Castela se fez notar, sobretudo por causa dos amores ilícitos entre a rainha e um seu compatriota, o Conde João Fernancaçador de monte / 2 quantidade / 3 próprios / apreciador de carnes / 5 banquetes / 6 abertos a todos
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des de Andeiro. Inconformado com a situação, o povo insurgese contra o trono, comandado pelo Mestre de Avis. Este, vitoriosa a sublevação, é aclamado rei (6-4-1385) e dá início à dinastia de Avis e a um reinado de profícuas realizações, acima de tudo culturais. O trecho selecionado corresponde a um dos momentos mais dramáticos da revolta, quando o Mestre Avis assassina o amante de Leonor Teles: Em outro dia pela manhã partiu o Mestre daquela aldeia u dormira, e começou a andar seu caminho, sem trigança alguma desacostumada; e no caminho dizem que descobriu o Mestre esta cousa a alguns seus, convém saber: ao Comendador de Jerumenha, e a Fernando Álvares, e a Lourenço Martins de Leiria, e a Vasco Lourenço que depois foi Meirinho, e a Lopo Vasques que depois foi Comendador mor, e a Rui Pereira que o foi receber. E disse a um deles. — I-vos diante quanto puderdes e dizei a Álvaro Paes que se faça prestes, ca eu vou por fazer aquilo que ele sabe. O escudeiro andou à pressa o recado e tornou-se pêra o Mestre onde vinha. E ele trazia uma cota vestida e até vente consigo com cotas e braçais e espadas cintas como homens caminheiros; e chegou ao Paço à hora de terça ou pouco mais, sem deter porém em outra parte. E quando descavalgou e começaram de subir acima, disseram uns aos outros mui manso: — Sede todos prestes, ca o Mestre quer matar o Conde João Fernandes. A Rainha estava em sua câmara e Donas algumas assentadas no estrado, e o Conde de Barcelos seu irmão, e o Conde Dom Álvaro Peres, e Fernando Afonso de Samora, e Vasco Peres de Camões e outros, estavam em um banco; e o Conde João Fernandes que dantes estava em cabeceira deles, estava então ante ela e começava de lhe falar passamente. E em lhe sendo assi falando, bateram à porta, e o Porteiro como entrou o Mestre, quis cerrar a porta por não entrar nenhum dos seus,

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e disse que o perguntaria à Rainha, não por deles haver nenhuma suspeita, mas porque a Rainha estava com dó, e não era costume de nenhum entrar, salvo esses senhores, sem lho primeiro fazer saber. E o Mestre respondeu ao Porteiro: — Que hás tu assi dizer? E em esto entrou de guisa, que entraram os seus todos com ele; e ele moveu passamente contra onde estava a Rainha; e ela se levantou, e todolos outros que eram presentes. E depois que o Mestre fez reverência à Rainha e mesura a todos, e eles a ele recebimento, disse a Rainha que se assentassem, e falou ao Mestre dizendo: — E pois, irmão que é isto a que tornastes de vosso caminho? — Tornei, Senhora, disse ele, porque me pareceu que não ia desembargado como cumpria. Vós me ordenastes que tivesse cargo da comarca de Entre Tejo e Odiana, se por ventura el-Rei de Castela quisesse vir ao reino e quebrar os trautos entre vós ele; e porque aquela frontaria é grossa de gentes e grandes senhores, assi como do Mestre de Santiago, e do Mestre de Alcântara e doutros e bons fidalgos; e aqueles que vós assinastes pera a guardarem comigo, me parecem poucos; por ende tornei pera me dardes mais vassalos, pera vos eu poder servir segundo cumpre a minha honra e vosso serviço. A Rainha disse que era mui bem, e mandou logo chamar João Gonçalves seu Escrivão da Puridade, que visse o livro dos vassalos daquela comarca, e que lhe desse quantos e quais o Mestre requeresse, e que fosse logo desembargado de todo. João Gonçalves foi chamado à pressa e foi-se assentar com seus escrivães a prover os livros pera desembargar o Mestre. Em esto começaram de o convidar os Condes cada um per si; e isso mesmo o Conde João Fernandes se aficava mais que

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comesse com ele que os outros. O Mestre não quis tomar convite de nenhum, escusando-se per suas palavras, dizendo que já tinha prestes de comer que mandara fazer ao seu Vedor; porém dizem que disse mui escusamente ao Conde de Barcelos que o não sentiu nenhum: — Conde, i-vos daqui, ca eu quero matar o Conde João Fernandes. E que ele respondeu que se não iria, mas estaria i com ele pera o ajudar. — Não sejais, disse o Mestre, mas rogo-vos todavia que vos vades daqui, e me aguardeis pera o jantar; ca eu Deus querendo tanto que isto for feito, logo irei comer convosco. A ventura por melhor azar a morte do Conde João Fernandes, começou de lhe fazer recear a vida do mestre; per tal guisa que lhe pôs em vontade, que mandasse a todolos seus que se fossem armar e se viessem pera ele; e de qualquer jeito que foi, partirom-se os seus todos do Paço, assim fidalgos que o acompanhavam como os outros, e foram-se armar pera se virem per ele; e esta foi a razão por que ele ficou só de todos eles, e nenhum estava i quando morreu. A Rainha isso mesmo pôs femença nos do Mestre; e vendoos assim todos armados, não lhe prougue em seu coração, e disse falando contra todos: — Santa Maria val! Como os Ingleses hão mui bom costume, que quando são no tempo da paz, não trazem armas, nem curam de andar armados, mas boas roupas e luvas nas mãos como donzelas; e quando são na guerra, então costumam as armas e usam delas como todo o mundo sabe. — Senhora, disse o Mestre, é mui grande verdade. Mas isso fazem eles porque hão mui amiúde guerras, e poucas vezes paz, e podem-no mui bem fazer; mas a nós é pólo contrário, ca havemos mui amiúde paz e poucas vezes guerra; e se no tempo
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da paz não usarmos as armas, quando viesse a guerra não as poderíamos suportar. E falando em isto e em outras cousas, chegavam-se as horas do comer, e despediu-se o Conde de Barcelos, e desi os outros, ca os mais deles dava a vontade aquilo que se depois fez. Ficando assim o Conde João Fernandes, gastava-lhe o coração, e tornou a dizer ao Mestre: — Senhor, vós todavia comereis comigo. — Não comerei, disse o Mestre, ca tenho feito de comer. — Sim, comereis; disse ele, e enquanto vós falais, irei eu mandar fazer prestes. — Não vades, disse o Mestre, ca vos hei de falar uma cous a antes que me vá, e logo me quero ir, que já é horas de comer. Então se despediu da Rainha, e tomou o Conde pela mão e saíram ambos da câmara a uma grande casa que era diante, e os do Mestre todos com ele, e Rui Pereira e Lourenço Martins mais acerca. E chegando-se o Mestre com o Conde acerca de uma fresta, sentiram os seus que o Mestre lhe começava de falar passo, e estiveram todos quedos. E as palavras foram entre eles tão poucas e tão baixo ditas, que nenhum por então entendeu quejendas eras; porém afirmam que foram desta guisa. — Conde, eu me maravilho muito de vós serdes homem a que eu bem queria, e trabalhardes vós de minha desonra e morte. — Eu, senhor! disse ele, quem vos tal cousa disse, mentiuvos mui grande mentira. O Mestre que mais vontade tinha de o matar que de estar com ele em razões, tirou logo um cutelo comprido, e enviou-lhe um golpe à cabeça; porém não foi a ferida tamanha que dela morrera, se mais não houvera. Os outros que estavam de arredor, quando viram isto, lançaram logo as espadas fora pera lhe dar, e ele movendo pera se colher à câmara da Rainha com aquela
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ferida, e Rui Pereira que era mais acerca, meteu um estoque de armas per ele de que logo caiu em terra morto. Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos, e nenhum foi ousado de lhe mais dar; e mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fossem cerrar as portas que não entrasse nenhum e dissessem ao seu Pajem que fosse à pressa pela vila brandando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim. E era o Mestre quando matou o Conde, em idade de vinte e cinco anos e andava em vinte e seis; e foi morto seis dias de dezembro, era já escrita de quatrocentos e vinte e um.*
(Crônica de D. João I, ed. Pref. Por Antônio Sérgio, 2 vols., Porto, Civilização, 1945, Vol. I, cap. IX, pp. 19-22.)

2) A Prosa Didática
A prosa didática ou doutrinária tinha por objetivo educar a nobreza para o convívio social e a guerra. O rei D. Duarte escreveu Ensinança de bem cavalgar toda sela e Leal Conselheiro; D. João I, O Livro da Montaria; e Pero Menino, o Livro da Falcoaria.
Reprodução

A ilustração mostra como prender um falcão.

*u = onde; trigança = pressa; que se faça prestes = que se prepare; ca = porque; passamente = vagarosamente; de guisa = de modo; trautos = tratos, tratados; assinastes = designastes; ende = isso; aficava = teimava; mandasse dizer; femença = atenção; contra todos = para todos; prougue = agradou; val = valha (como na expressão “Valha-me Deus”); desi = depois; vontade = pressentimento; todavia = sempre, completamente; acerca = próximo de; quejandas = quais; quedos = quietos; era já escrita de quatrocentos e vinte e um = 1383.

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Conheça um pouco sobre D. Duarte e sua prosa doutrinária: D. Duarte – Filho de D. João I, nasceu em 1391 e faleceu em 1438. Subiu ao trono em 1433. A ele se devem os atos que propiciaram a Fernão Lopes criar sua notável obra historiográfica. Escreveu o Leal Conselheiro e o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela. LEAL CONSELHEIRO Redigida entre 1437 e 1438, esta obra somente foi dada a público em 1842. Dividida em cento e três capítulos, consiste numa espécie de tratado moral para a edificação da aristocracia, girando em torno de temas fundamentais, como o entendimento, a memória, a vontade, o siso, a soberba, a vanglória, a inveja, a sanha, a avareza, a gula, a caridade, o amor, a prudência, etc. A doutrina moral de D. Duarte se resume em fazer a apologia das virtudes e a admoestação dos pecados. Dentre os vários tópicos de que se compõe a obra, escolheu-se o referente à saudade, que integra o capítulo XXV: E a saudade não descende de cada uma destas partes, mas é um sentido do coração que vem da sensualidade, e não da razão, e faz sentir às vezes os sentidos da tristeza e do nojo. E outros vêm daquelas cousas que a homem praz que sejam, e alguns com tal lembrança que traz prazer e não pena. E em casos certos se mistura com tão grande nojo, que faz ficar em tristeza. E pêra entender isto, não cumpre ler per outros livros, ca poucos acharão que dele falem, mas cada um vendo o que escrevo, consííre seu coração no que já per feitos desvairados tem sentido, e pudera ver e julgar se falo certo. Pera maior declaração ponho disto exemplos. Se alguma pessoa por meu serviço e mandado de mim se parte, e dela sinto saudade, certo é que de tal partida não hei sanha, nojo,

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pesar, desprazer nem aborrecimento, ca praz-me de ser, e pesar-me-ia se não fosse. E por se partir algumas vezes vem tal saudade, que faz chorar e suspirar, como se fosse de nojo. E porém me parece este nome da saudade tão próprio, que o Latim nem outra linguagem que eu saiba não é pera tal sentido semelhante. De se haver algumas vezes com prazer, e outras com nojo ou tristeza, isto se faz, segundo me parece, por quanta saudade propriamente he sentido que o coração filha por se achar partido da presença de alguma pessoa, ou pessoas que muito per afeição ama, ou o espera cedo de ser. E isso medes dos tempos e lugares em que per deleitação muito folgou. Digo afeito e deleitação, porque são sentimentos que ao coração pertencem, donde verdadeiramente nasce a saudade mais que da razão nem do siso. E quando nos vem alguma lembrança dalgum tempo em que muito folgamos, não geral, mas que traga rijo sentido, e por conhecermos o estado em que somos ser tantos melhor, não desejamos tornar a ele por leixar o que possuímos, tal lembramento nos faz prazer. E a míngua do desejo per juízo determinado da razão nos tira tanto aquele sentido, que faz a saudade, que mais sentimos a folgança por nos lembrar o que passamos, que a pena da míngua de tempo ou pessoa. E aquesta saudade é sentida com prazer mais que com nojo nem tristeza. Quando aquela lembrança faz sentir grande desejo, outorgado per toda maior parte da razão, de tornar a tal estado ou conversação, com esta saudade vem nojo ou tristeza mais que prazer. E porque sobre esta lembrança que traz saudade muitos encorrem em pecado, tristeza e desordenança da vontade, lembrando-lhes por vista de homens e mulheres casadas, cantidas, cheiros, ou per saltamento doutras falas e cuidados algumas pessoas com que houveram algumas folganças quais não deviam, ou puderam compridamente haver como desejavam, e o leixavam de fazer, e por ello lhes vem desejo de tornar a tal estado e conversação, não havendo reprendimento do mal que fizeram, mas
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hão desprazer do que não cumpriram, estes proveitosos avisamentos pensei declarar de boa maneira que devemos ter em tal caso.*
(Leal Conselheiro, ed. Crit. e anot. por Joseph M. Piel. Lisboa: Bertrand, 1942, pp. 94-96)

A Poesia Palaciana
Se, por mais ou menos um século, com a decadência do feudalismo a poesia enfrentou uma séria crise, quase desaparecendo, a partir de 1450 houve novas condições O mote, em geral, é obrigatório na para seu florescimento: poesia palaciana e constitui-se numa uma vida cultural mais estrofe de quatro ou cinco versos que intensa na corte, estímu- fornece o tema e funciona como um lo aos poetas e procura estímulo verbal, de sentido cortês, mode novas formas de ral ou satírico. passatempo. Dois fatos marcaram a poesia desse período: a) a poesia separa-se do canto e da dança. Por isso o poeta deve encontrar novos recursos para conseguir musicalidade por meio da própria linguagem. Em conseqüência, as poesias apresentam maior elaboração formal e linguagem mais rica que as cantigas trovadorescas; b) a partir de 1487, com a introdução da imprensa em Portugal, os poemas são impressos, podendo ser lidos (e não mais somente ouvidos) por um maior número de pessoas.
* sensualidade = sensibilidade, sensação; nojo = sofrimento; homem = a gente; casos certos = certos casos; ca = pois; consiire = considere; feitos desvairados = circunstâncias diversas; ca praz-me de ser = pois me agrada de haver-me separado; porém = por isso; espera cedo de ser = espera de cedo separar-se; medes= mesmo ( ou seja: a saudade viria do afastamento dos lugares e tempos em que a pessoa foi feliz); siso = juízo; não geral, mas que traga rijo sentido = não vaga, mas determinada; míngua = diminuição; desordenança = perturbação; saltamento = associação; ello = isso; reprendimento = arrependimento, remorso; proveitosos avisamentos = D Duarte tece, a seguir, considerações acerca de como vencer o apelo da saudade mórbida por meio do exercício da vontade.

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Grande parte dessa produção literária foi compilada e publicada em 1516 sob o nome de Cancioneiro Geral, por Garcia de Resende. Na temática, predomina o lirismo sentimental com influência do humanista italiano Petrarca(13041374); na forma, aparecem o verso de sete sílabas (redondilha maior) e o de cinco (redondilha menor). A mulher, que fora idealizada no Trovadorismo, transforma-se num ser mais concreto, mais humano. Observe este texto de João Ruiz de Castelo Branco: As redondilhas estão presentes em textos de todas as épocas posteriores ao Humanismo. No Brasil, são grandes representantes Gonçalves Dias, Oswald de Andrade e Chico Buarque de Holanda.

CANTIGA SUA PARTINDO-SE
Senhora, partem tão tristes meus olhos por vós, meu bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida, tão cansados, tão chorosos, da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida. Partem tão tristes os tristes, tão fora d’esperar bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém.
(João Ruiz de Castelo Branco. In Alexandre Pinheiro (org.) Antologia da Poesia Portuguesa. Porto: Lello e Irmão, 1977)

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Quanto à forma, o verso utilizado é a redondilha maior, que lhe confere o ritmo murmurante sublinhado pelas rimas e pela repetição. Pelo vocativo “senhora”, percebe-se a influência da cantiga de amor, mas a mulher já não é inatingível, observe o outro vocativo, “meu bem”. A relação amorosa está no nível das realidades concretas: individualizada, emocional. Pela exploração do tema da partida do ser amado, percebe-se a influência da cantiga de amigo. Mas o eulírico é masculino. É importante salientar que, tanto a prosa histórica de Fernão Lopes, que exalta o sentimento de coletividade e de nacionalismo, quanto o amor cantado na poesia palaciana prenunciam o aparecimento da grande epopéia portuguesa, Os Lusíadas, de Camões, que neles encontrou farto material. Conheça um belíssimo trabalho de Garcia de Resende em homenagem à morte de D. Inês de Castro:

TROVAS À MORTE DE D. INÊS DE CASTRO Senhoras, se algum senhor Vos quiser bem ou servir Quem tomar tal servidor Eu lhe quero descobrir O galardão do amor. Por Sua Mercê saber O que deve de fazer, Vej’o que fez esta dama, Que de si vos dará fama, Se estas trovas quereis ler.
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Fala de D. Inês Qual será o coração Tão cru e sem piedade Que lhe não cause paixão Uma tam grã crueldade? Triste de mim, inocente, Que por ter muito fervente Lealdade, fé, amor, O príncipe, meu senhor, Me mataram cruelmente!

A minha desaventura Não contente de acabar-me, Por me dar maior tristura Me foi pôr em tanta altura Para d’alto derribar-me; Que, se me matara alguém Antes de ter tanto bem, Em tais chamas não ardera, Pai, filhos, não conhecera, nem me chorara ninguém. Eu era moça, menina, Por nome dona Inês de Castro, e de tal doutrina e virtude, que era dina de meu mal ser ao revés. Vivia sem me lembrar Que paixão podia dar Nem dá-la ninguém a mim: Foi-me o príncipe olhar, por seu nojo e minha fim! Começou-me a desejar, Trabalhou por me servir, Fortuna foi ordenar Dous corações conformar ~ E ua vontade vir. Conheceu-me, conheci-o, Quis-me bem e eu a ele, Perdeu-me, também perdi-o, Nunca até à morte foi frio O bem que, triste, pus nele. Dei-lhe minha liberdade, Não senti perda de fama;

Pus nele minha verdade, Quis fazer sua vontade, Sendo mui fremosa dama. Por me estas obras pagar Nunca jamais quis casar; Pelo qual, aconselhado Foi el-Rei que era forçado, Pólo seu, de me matar. Estava mui acatada, Como princesa servida, Em meus paços mui honrada, De tudo mui abastada, De meu senhor mui querida. Estando mui de vagar, Bem fora de tal cuidar, Em Coimbra d’assossego, Pelos campos de Mondego Cavaleiros vi somar. Como as cousas que hão de ser Logo dão no coração, Comecei entristecer E comigo só dizer: “Estes homens d’onde irão?” e tanto que perguntei, soube logo que era el-Rei: quando o vi tão apressado, meu coração trespassado foi, que nunca mais falei. E quando vi que descia, Saí à porta da sala; Devinhando o que queria, Com grã choro e cortesia
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~ Lhe fiz ua triste fala. Meus filhos pus derredor De mim, com grã humildade; Mui cortada de temor, Lhe disse: “havei, Senhor, Desta triste piedade! Não possa mais a paixão Que o que devias fazer; Meteis nisso bem a mão, Que é de fraco coração Sem porquê matar mulher; Quanto mais a mim, que dão Culpa não sendo razão, Por ser mãe dos inocentes, Que ante vós estão presentes, Os quais vossos netos são. E têm tão pouca idade que, se não forem criados de mim, só com saudade e sua grã orfandade, morreram desamparados. Olhe bem quanta crueza Fará nisto Vossa Alteza, E também, Senhor, olhai, Pois do príncipe sois pai, Não lhe deis tanta tristeza! Lembre-vos o grande amor Que me vosso filho tem, E que sentirá grã dor Morrer-lhe tal servidor, Por lhe querer grande bem. Que, se algum erro fizera,
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Fora bem que padecera E que estes filhos ficaram Órfãos tristes, e buscaram Quem deles paixão houvera; Mas, pois eu nunca errei E sempre mereci mais, Deveis, poderoso rei, Não quebrantar vossa lei Que, se moiro, quebrantais. Usai mais de piedade Que de rigor nem vontade; Havei dó, Senhor, de mim, Não me deis tão triste fim Pois que nunca fiz maldade!” El-Rei, vendo como estava, Houve de mim compaixão E viu o que não olhava: Que eu a ele não errava Nem fizera traição. E vendo quão de verdade Tive amor e lealdade Ao príncipe, cuja sam, Pôde mais a piedade Que a determinação. Que, se m’ele defendera Que a seu filho não amasse, E lh’eu não obedecera, Então com razão pudera Dar-me a morte que ordenasse; ~ Mas, vendo que nenh u’hora, – dês que nasci até’gora – nunca nisso me falou,

quando se disto lembrou, foi-se póla porta afora, Com seu rosto lacrimoso, co propósito mudado, muito triste, mui cuidoso como rei mui piedoso, mui cristão e esforçado. Um daqueles que trazia Consigo na companhia, Cavaleiro desalmado, Detrás dele mui irado, Estas palavras dizia: — “Senhor, vossa piedade É dina de reprender, Pois que, sem necessidade, mudaram vossa vontade ~ Lágrimas d’ ua mulher. E quereis que abarregado, Com filhos, como casado, Este, Senhor, vosso filho? De vós mais me maravilho Que dele que é namorado! Se a logo não matais, Não serei nunca temido Nem farão o que mandais, Pois tão cedo vos mudais Do conselho que era havido. Olhai quão justa querela Tendes, pois por amor dela Vosso filho que estar Sem casar, e nos quer dar Muita guerra com Castela.

Com sua morte escussareis Muitas mortes, muitos danos Vós, Senhor, descansareis, E a vós e a nós dareis Paz para duzentos anos: O príncipe casará, Filhos de bênção terá, Será fora de pecado; Que agora seja anojado Amanhã lh’esquecerá!” E, ouvindo seu dizer, El-Rei ficou muito torvado, Por se em tais extremos ver E que havia de fazer Ou um ou outro, forçado. Desejava dar-me vida, Por não lhe ter merecida A morte nem nenhum mal: Sentia pena mortal Por ter feito tal partida. E vendo que se lhe dava A ele toda esta culpa, E que tanto o apertava, Disse àquele que bradava: — “Minha tenção me desculpa se o vós quereis fazer, fazei-o sem mo dizer, que eu nisso não mando nada, nem vejo essa coitada por que deva de morrer.” Fim
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Dous cavaleiros irosos, Que tais palavras lh’ouviram, Mui crus e não piedosos, Perversos, desamorosos, Contra mim rijo se viram; com as espadas na mão, Me atravessam o coração, A confissão me tolheram. Este é o galardão Que meus amores me deram.*

O tema Inês de Castro, estendendo-se do século XV até nossos dias, é enfocado por vários escritores: Rui de Pina, Garcia de Resende, Antonio Ferreira, Júlio de Castilho e muitos outros.

O Teatro
Até o Humanismo não se tinham produzido textos especialmente elaborados para a representação teatral. Na Idade Média só houve encenações religiosas para as festas de Páscoa e Natal. Foi Gil Vicente (1502?-1537?) que, em 1502, com o Monólogo do Vaqueiro (ou Auto da Visitação), escrito em castelhano, fundou o teatro português. Nesse auto, declamado nos aposentos da rainha, ele saúda o nascimento do futuro rei D. João III, filho de D. Manuel e de D. Maria.

Gil Vicente

* fama = notícia, exemplo; fervente = ardente; doutrina = educação; era dina / de meu ser o revés = era digna / de merecer sorte contrária; cru = cruel; crueza = crueldade; pólo seu = pela necessidade de preservar a sucessão do poder na pessoa de D. Pedro; de vagar = calma; somar = assomar; comigo só dizer = dizer a mim próprio; vontade = arrebatamento; e viu o que não olhava = percebeu o que não havia entendido antes; cuja sam = de quem sou, a quem pertenço; determinação = ordem, resolução (isto é, de assassinar Inês); ele me defendera / ca seu filho nam amasse = ele me proibira / de amar seu filho; dês = desde; necessidade = motivo justo; abarregado = amasiado; este = esteja; me maravilho = me espanto; querela = queixa; filhos de bênção = filhos legítimos; qu’agora seja anojado = ainda que agora possa sofrer; um ou outro = perdoar ou não; tal partido – ter partido para Coimbra.

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Reprodução

Sua produção, basicamente caracterizada pela sátira, consta de 44 peças (17 em português, 11 em castelhano e 16 bilíngües). Através de uma galeria de tipos – o fidalgo decadente, o escudeiro fanfarrão, o velho apaixonado, o usurário, o judeu, a alcoviteira, a mulher adúltera, a velha beata, o lavrador que abandona o campo em busca de riqueza na cidade, magistrados, bispos, reis – Gil Vicente passa em revista e satiriza a sociedade do seu tempo. Ele só poupa um tipo: o lavrador que dá o sustento a todos, mas é a vítima mais explorada de toda a estrutura social. Pode-se classificar suas peças em três fases: a) de 1502 a 1508 – início de sua produção, sob influência do castelhano Juan del Encina, fase composta de peças de conteúdo religioso: Auto da Visitação, Auto Pastoril Castelhano, Auto de São Martinho, Auto dos Reis Magos. b) de 1508 a 1516 – peças de sátira social. São dessa fase algumas de suas obras-primas: Quem tem Farelos? – escudeiro pobre quer namorar uma moça, mas é enxotado pela mãe dela. Auto da Índia – mulher engana o marido enquanto ele está fora. O velho da Horta – velho ridículo apaixona-se repentinamente por uma jovem. c) de 1516 a 1536 – fase de maturidade intelectual, além da crítica social, aparecem atitudes moralizantes medievais. São dessa fase: • Farsa de Inês Pereira – desenvolvimento do dito popular “Mais quero asno que me carregue, que cavalo que me derrube” – mulher que quer casar, depois de rejeitar o filho de um camponês, casa-se e sofre nas mãos de um escudeiro ciumento (o cavalo fogoso que a derrubou). Viúva, aceita de volta o primeiro pretendente, um tolo. Agora experiente, a moça começa a flertar com um ermitão

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e é o marido que a leva, sem saber, ao amante. Para chegar ao destino, eles devem atravessar um rio. A fim de que ela não se molhe, o marido a leva às costas (o asno que a carregou). • Auto da Lusitânia – uma fantasia alegórica que começa contando as preocupações de uma família judia e, na segunda parte, narra o casamento de Portugal com a princesa Lusitânia. • Trilogia das Barcas (Auto da Barca do Inferno, Auto da Barca do Purgatório, Auto da Barca da Glória) – as almas dos mortos estão à espera das embarcações que as levarão ao destino final. Este trecho do Auto da Barca do Inferno dá uma idéia da riqueza do teaIlustração de Auto da Barca tro de Gil Vicente: a alma de um fidalgo do Inferno, de Gil Vicente chega ao porto onde ocorre o juízo final, que determina em qual barca a alma deve seguir. Observe a crítica à nobreza, a perfeição formal (todos os versos são redondilhas maiores), o frescor da sátira ao fidalgo que pensa merecer o céu não por suas ações, mas porque deixou alguém rezando por ele na Terra.
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Reprodução

Diabo: Ó precioso Dom Anrique! Cá vindes vós? Que cousa é esta? Fidalgo: Esta barca onde vai ora, qu’assim está apercebida1? Diabo: Vai pera2 a Ilha perdida3, e há de partir logo essora4. Fidalgo: Pera lá vai a senhora5? Parece-me isso cortiço6.
aparelhada para 3 eufemismo para designar o inferno 4 esta hora
2 1

o Fidalgo, por cortesia, trata a barca de senhora

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Diabo: Senhor, a vosso serviço. Fidalgo:
muito leve, pouco aparelhado para viajar
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Diabo: Porque a vedes lá de fora. Fidalgo: Porém a que terra passais?

Diabo: Pera o Inferno, senhor. Fidalgo: Terra é bem sem sabor.
o Fidalgo fazia zombarias mesmo depois de morto
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Diabo: Que! E também cá zombais?7 Fidalgo: E passageiros achais pera tal habitação? Diabo: Vejo-vos eu em feição Pera ir ao nosso cais. Fidalgo: Parece-te a ti assi8.

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assim proteção, refúgio

Diabo: Em que esperas ter guarida9? Fidalgo: Que deixo na outra vida Quem reze sempre por mi10. Diabo: Quem reze sempre por ti? Hi hi hi hi hi hi hi. E tu viveste a teu prazer, Cuidando cá guarecer11, porque rezam lá por ti? Embarcai, hou, embarcai,

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mim

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salvar-se

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qu’haveis d’ir à derradeira12. Mandai meter a cadeira13, qu’assi passou vosso pai.14 Fidalgo: Que, que, que! E assi lhe

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de qualquer maneira

define a posição social da personagem 14 o pai do Fidalgo também tinha merecido o vai? inferno
15 16

Diabo: Vai ou vem, embarcai prestes15: Segundo lá16 escolhestes, assi cá vos contentai. Pois que já a morte passastes, Haveis de passar o rio. Fidalgo: Não há aqui outro navio?

com presteza, rapidez

o Diabo refere-se à Terra

Diabo: Não, senhor, qu’este fretastes,17 E já quando espirastes, Me tínheis dado sinal18. Fidalgo: Que sinal foi esse tal? Diabo: Do que vós vos contentastes.19

17

o Fidalgo tinha feito, em vida, tudo para merecer o inferno 18 pagamento adiantando. O demônio refere-se aos pecados do Fidalgo
19

os pecados que tanto deram prazer ao Fidalgo o Fidalgo refere-se à barca do Paraíso

Fidalgo: A est’outra barca20 me vou. Ou da barca! Pera onde is? Ah barqueiros, não m’ouvis? Respondei-me. Hou lá, hou! Por Deos, aviado21 estou: cant’a isto é já pior. Que gericocins22, salvanor23! Cuidam cá que sou eu grou24! Anjo: Que mandais?

20

21

apressado

22

jerico (asno) + rocim (cavalo pequeno e fraco) 23 com licença 24 indivíduo pertencente às camadas sociais mais baixas

Fidalgo: Que me digais, pois parti tão sem aviso,25 se a barca do Paraíso é esta em que navegais.
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morri subitamente

Anjo:

Esta é; que lhe buscais?
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Fidalgo: Que me leixeis26 embarcar: sou fidalgo de solar27, é bem que me recolhais. Anjo: Não se embarca tirania neste batel divinal.

deixeis fidalgo de nobre linhagem

Fidalgo: Não sei por que haveis por mal qu’entre minha senhoria. Anjo: Pera vossa fantesia28 mui pequena é esta barca.
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vaidade, presunção

Fidalgo: Pera senhor de tal marca Não há aqui mais cortesia? Venha a prancha e o atavio29; Levai-me desta ribeira. Anjo: Não vindes vós de maneira Pera entrar neste navio. Ess’outro vai mais vazio, a cadeira entrará, E o rabo30 caberá, e todo vosso senhorio. Ireis lá mais espaçoso, vós e vossa senhoria, contando da tirania, de que éreis tão curioso. E porque de generoso31 desprezastes os pequenos; achar-vos-eis tanto menos, quanto mais fostes fumoso32.

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enfeite, ornamento

30

manto de longa cauda que o Fidalgo usava

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sendo nobre

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vaidoso, presunçoso

(Obras completas de Gil Vicente. Lisboa: Sá da Costa, 1942)

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Transcrevemos a seguir fragmento da Farsa de Inês Pereira que apresenta o diálogo da primeira entrevista entre Inês e seu ingênuo pretendente: VEM PÊRO MARQUES E DIZ: Homem que vai aonde eu vou Não se deve de correr; Ria embora quem quiser, Que eu em meu siso estou. Não sei onde mora aqui: Olhai que me esquece a mi! Eu creio que nesta rua, E esta parreira é sua, Já conheço que é aqui. Chega a casa de Inês Pereira Digo que esteis muito embora, Folguei ora de vir cá, Eu vos escrevi de lá Uma cartinha senhora; E assim que de maneira... Mãe Inês Tomai aquela cadeira. Ó Jesus! Que João das bestas! Olhai aquela canseira!

Pêro E que val aqui uma destas?

Assentou-se com as costas para elas, e diz: Eu cuido que não estou bem: Mãe Como vos chamais amigo? Pêro Eu Pêro Marques me digo, Como meu pai que Deus tem: Faleceu perdoe-lhe Deus,
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Que fora bem escusado, E ficamos dous eréus Porém meu é o morgado. Mãe De morgado é vosso estado! Isso viria dos céus!

Pêro Mais gado tenho eu já quanto, E o maior de todo o gado, Digo maior algum tanto. E desejo ser casado, Proguesse ao Espírito Santo, Com Inês; que eu m’espanto Quem me fez seu namorado. Parece moça de bem, E eu de bem, er também, Ora vós er ide vendo Se lhe vem melhor ninguém, A segundo o que eu entendo. Cuido que lhe trago aqui Pêras da minha pereira Hão d’estar na derradeira. Tende ora, Inês, per hi. Inês Inês Hei isso de ter na mão? As perlas pera enfiar Três chocalhos e um novelo, E as peias no capelo: E as pêras onde estão? Pêro Deitai as peias no chão.

Pêro Nunca tal me aconteceu: Algum rapaz mas comeu; Que as meti no capelo, E ficou aqui o novelo, E o pente não se perdeu: Pois trazia-as de boa mente.
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Inês

Fresco vinha aí o presente Com folhinhas borrifadas!

Pêro Não que elas vinham chentadas Cá em fundo no mais quente. Vossa mãe foi-se? Ora bem! Só nos deixou ela assi? Cant’eu quero me ir daqui, Não diga algum demo alguém... Inês vós que me havíeis de fazer, Nem ninguém que há de dizer? O galante desejado!

Pêro Se eu fora já casado, Doutra arte havia de ser, Como homem de bom pecado. Inês Quão desviado este está! Todos andam por caçar Suas damas sem casar, E este, tomade-o lá!

Pêro Vossa mãe é lá no muro? Inês Minha mãe e vós seguro Que ela venha cá dormir.

Pêro Pois, senhora, eu quero me ir Antes que venha o escuro. Inês E não cureis mais de vir.

Pêro Virá cá Leonor Vaz, Veremos que lhe dizeis. Inês Homem, não aporfieis, Que não quero nem me praz; Ide casar a Cascais.

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Pêro Não vos anojarei mais, Ainda que saiba estalar; E prometo não casar Até que vós não queirais. Estas vos são elas a vós: Anda homem a gastar calçado, E quando cuida, que é, aviado, Escarnefucham de vós! Creio que lá fica a peia: Pardeus! Bom ia eu “a aldeia. Senhora, cá fica o fato. Inês Olhai se o levou o gato...

Pêro Inda não tendes candeia? Ponho per cajo que alguém Vem como eu vim agora, E vós a escuras a tal hora Parece-vos que será bem? Ficai-vos ora com Deus: Cerrai a porta sobre vós Com vossa candeiazinha; E siquais serei vós minha, Entonces veremos nós. *
(Obras Completas de Gil Vicente, 6 vols. Lisboa: Sá da Costa, 1942-1944, vol V, pp..232-236)

* João das Bestas = tolo; olhai aquela canseira = olhai que o homem enfadonho; eréus = herdeiros; e eu de quem, er também = e eu também sou homem de bem; er = isso; tende ora , Inês, per hi = Inês, segurai isto aí; peias = laços; chentadas = plantadas, assentes; cant’eu = quanto a mim; não diga algum demo alguém = não diga alguém alguma coisa; despejado = atrevido; anojarei = enfadarei; estalar = estourar; aviado = correspondido; escarnefucham = escarnecem; ponho per cajo = suponho por caso; siquais = se porventura.

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Questões de Vestibular
1 (UNESP) “Coração, já repousavas, já não tinhas sojução já vivias, já folgavas; pois por que te sojugavas outras vez, meu coração? Sofre, pois te não sofreste na vida que já vivias; sofre, pois te tu perdeste; sofre, pois não conheceste como t’outra vez perdias! Sofre, pois já livre estavas e quiseste sojeição; sofre, pois te não lembravas das dores de qu’escapavas; sofre, sofre, coração!” A literatura portuguesa é fértil em obras onde se reúnem composições poéticas de diversos autores, obras a que normalmente se dá o nome geral de cancioneiros. E é através deles que se pode ter uma idéia exata da evolução da poesia nos primeiros quatro séculos de literatura peninsular, nomeadamente da passagem da poesia trovadoresca, com seus cenários simples e seu universo rural, para a poesia palaciana, que nos mostra jogos verbais e conceptuais mais elaborados. A composição acima transcrita é de um cancioneiro famoso, publicado em 1516. Assinale, nas alternativas abaixo indicadas, o cancioneiro a que pertence. a) Cancioneiro popular; b) Cancioneiro alegre, de Camilo Castelo Branco; c) Cancioneiro da Vaticana; d) Cancioneiro de Luis Franco Correia; e) Cancioneiro geral de Garcia de Resende;
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2 (UNESP) “Então se despediu da Rainha, e tomou o conde pela mão, saíram ambos da câmara a uma grande casa que era diante, e os do Mestre todos com ele, e Rui Pereira e Lourenço Martins mais acerca. E chegando-se o Mestre com o Conde acerca duma fresta, sentiram os seus que o Mestre lhe começava a falar passo, e estiveram todos quedos. E as palavras foram entre eles tão poucas, e tão baixo ditas, que nenhum por então entendeu quejandas eram. Porém afirmam que foram desta guisa: – Conde, eu me maravilho muito de vós serdes homem a que eu bem queria, e trabalhardes-vos de minha desonra e morte! – Eu, Senhor? disse ele. Quem vos tal cousa disse, mentiu-vos mui grã mentira. O Mestre, que mais tinha vontade de o matar, que de estar com ele em razões, tirou logo um cutelo comprido e enviou-lhe um golpe à cabeça; porém não foi a ferida tamanha que dela morrera, se mais não houvera. Os outros todos, que estavam de arredor, quando viram isto, lançaram logo as espadas fora, para lhe dar; e ele movendo para se acolher à câmara da Rainha, com aquela ferida; e Rui Pereira, que era mais acerca, meteu um estoque de armas por ele, de que logo caiu em terra, morto. Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos, e nenhum foi ousado de lhe mais dar.” O texto transcrito acima é de Fernão Lopes e pertence à Crônica de D. João I. As crônicas de Fernão Lopes caracterizam-se por tentarem reproduzir a verdade histórica como se esta tivesse sido testemunhada. Por outro lado, é com Fernão Lopes que a língua portuguesa inicia o percurso da sua modernidade. Nestes termos, assinale, nas alternativas abaixo indicadas, a que melhor caracteriza o trecho transcrito da Crônica de D. João I.

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a) Narração realista e dinâmica que quase nos faz visualizar os acontecimentos. b) Fidelidade absoluta aos acontecimentos históricos. c) Utilização de uma linguagem elevada, de acordo com a reprodução dos fatos históricos. d) Preocupação em mencionar os nomes de todas as pessoas presentes à morte do Conde. e) Exaltação do feito heróico do Mestre ao matar o inimigo do Reino. 3 (F. Objetivo-SP) Seu teatro caracteriza-se, antes de tudo, por ser primitivo, rudimentar e popular, muito embora tenha surgido e se tenha desenvolvido no ambiente da Corte, para servir de entretenimento nos animados serões oferecidos pelo Rei. Entre suas obras destacam-se Monólogo do Vaqueiro, Floresta de Enganos, O velho da Horta, Quem tem Farelos?. Trata-se de: a) Martins Pena d) Artur Azevedo b) José de Alencar e) Sá de Miranda c) Gil Vicente 4 (FUVEST-SP) Aponte a alternativa correta em relação a Gil Vicente: a) Compôs peças de caráter sacro e satírico. b) Introduziu a lírica trovadoresca em Portugal. c) Escreveu a novela Amadis de Gaula. d) Só escreveu peças em português. e) Representa o melhor do teatro clássico português. 5 (UM-SP) Assinale a alternativa em que se encontra uma afirmação incorreta sobre a obra de Gil Vicente: a) Sofre influência de Juan del Encina, principalmente no teatro pastoril de sua primeira fase. b) Seus personagens representam tipos de uma vasta galeria de estratos da sociedade portuguesa da época. c) Por viver em pleno Renascimento, apega-se aos valores greco-romanos, desprezando os princípios da Idade Média.

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d) Um dos maiores valores de sua obra é ter contrabalançado uma sátira contundente com o pensamento cristão. e) Suas obras-primas, como a Farsa de Inês Pereira, são escritas na terceira fase de sua carreira, período de maturidade intelectual. 6 (FUVEST-SP) Caracteriza o teatro de Gil Vicente: a) a revolta contra o cristianismo; b) a obra escrita em prosa; c) a elaboração requintada dos quadros e cenários apresentados; d) a preocupação com o homem e com a religião; e) a busca dos conceitos universais. 7 (UNIP-SP) Seu teatro caracteriza-se, antes de tudo, por ser primitivo, rudimentar e popular, muito embora tenha surgido e se desenvolvido no ambiente da corte, para servir de entretenimento nos animados serões oferecidos pelo Rei. Entre suas obras destacam-se Monópolio do Vaqueiro, Floresta de Enganos, O Velho da Horta, Quem tem Farelos? Trata-se de: a) Martins Pena d) Artur Azevedo b) José de Alencar e) Sá de Miranda c) Gil Vicente 8 (FUVEST-SP) Texto para as questões A e B. Todo o Mundo – Folgo muito d’enganar e mentir nasceu comigo. Ninguém – Eu sempre verdade digo sem nunca me desviar
(Berzebu para Dinato)

Berzebu Dinato Berzebu

– Ora escreve lá, compadre, não sejas tu preguiçoso! – Quê? – Que Todo o Mundo é mentiroso e Ninguém diz a verdade.
(Auto da Lusitânia – Gil Vicente)

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A. No texto, Todo o Mundo e Ninguém constituem tipos: a) arcaicos b) alegóricos c) amorais B. O texto afirma que: a) Todo o Mundo é mentiroso. b) Ninguém é mentiroso. c) Todo o Mundo diz a verdade. d) Ninguém diz a verdade. e) Todo o Mundo é mentiroso. 9 (FUVEST-SP) Na Farsa de Inês Pereira, Gil Vicente: a) retoma a análise do amor do velho apaixonado, desenvolvida em O velho da horta. b) mostra a humilhação da jovem que não pode escolher seu marido, tema de várias peças desse autor. c) denuncia a revolta da jovem confinada aos serviços domésticos, o que confere atualidade à obra. d) conta a história de uma jovem que assassina o marido para se livrar dos maus-tratos. e) aponta, quando Lianor narra as ações do clérigo, uma solução religiosa para a decadência moral de seu tempo. 10 (UM-SP) Leia as três afirmações abaixo a respeito da Farsa de Inês Pereira. II – Pode ser colocada como representante do teatro de costumes vicentino. III – Encaixa-se na tradição da farsa medieval sobre o adultério feminino desenvolvida por Gil Vicente. III – Inês Pereira é uma moça que vive na vila e pretende subir de condição.
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d) políticos e) religiosos

a) Todas estão corretas. b) Todas estão incorretas. c) Apenas a I e a II estão corretas. d) Apenas a I e a III estão corretas. e) Apenas a II e a III estão corretas. 11 (UNESP) Vem o Anjo Custódio com a Alma e diz: Anjo Alma humana formada De nenhua cousa, feita Mui preciosa, De corrupção separada, E esmaltada Naquella frágoa perfeita Gloriosa; Planta neste valle posta Pera dar celestes flores Olorosas, E pera serdes tresposta Em a alta costa Onde se crião primores Mais que rosas; Planta sois e caminheira, Que ainda que estais, vos is Donde viestes. Vossa patria verdadeira He ser herdeira Da glória que conseguis: Andae prestes.” O texto acima transcrito pertence ao autor teatral de maior destaque na literatura portuguesa. Pelo próprio texto se pode identificar a época em que foi escrito. Assim, assinale, em uma das alternativas, a relação época-autor a que o texto pertence:
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a) teatro medieval – Gil Vicente b) teatro clássico – Luís de Camões c) teatro romântico – Almeida Garret d) teatro naturalista – Teixeira de Queirós e) teatro moderno – Almada-Negreiros “Entra Todo o Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que se lhe perdeu; e logo após ele um homem vestido como pobre. Este se chama Ninguém, e diz: Nin. Que andas tu aí buscando? Tod. Mil cousas ando a buscar: delas não posso achar, porém ando perfiando, por quão bom é perfiar. Nin. Como hás nome cavaleiro? Tod. Eu hei nome Todo o Mundo, e meu tempo todo inteiro sempre é buscar dinheiro, e sempre nisto me fundo. Nin. E eu hei nome Ninguém e busco a consciência.” 12 (CESCEA) O fragmento acima é de autoria de: a) Garrett d) Camões b) Sá de Miranda e) não sei c) Gil Vicente 13 (CESCEA) Uma das obras seguintes é de autoria de Fernão Lopes. Indique-a: a) Crônica d’el Rei D. Pedro d) Crônica de D. Duarte b) Crônica de D. João II e) não sei c) Crônica de D. Dinis
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14 (CESCEA) Fernão Lopes distinguiu-se, na Literatura Portuguesa, por: a) ter introduzido a “medida nova” na poesia quinhentista. b) ter sido o primeiro historiador da Língua. c) ter escrito crônicas acerca dos conflitos ultramarinos. d) ter sido o presuntivo autor do Amadis de Gaula. e) não sei. 15 (UM-SP) Assinale a alternativa incorreta a respeito da obra de Gil Vicente. a) Embora servisse para o entretenimento da Corte, seu teatro caracteriza-se por ser primitivo, rudimentar e popular. b) Algumas de suas peças têm caráter misto, de oscilante classificação como o Auto dos Quatro Tempos. c) Apresenta-se como traço de união entre a Idade Média e a Renascença. d) Ao lado da sátira, encontram-se elevados valores cristãos. e) Aprofunda-se nos valores clássicos, seguindo rigidamente os padrões do teatro grego. 16 (FUVEST-SP) Indique a afirmação correta sobre o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente: a) É intrincada a estruturação de suas cenas, que surpreendem o público com o inesperado de cada situação. b) O moralismo vicentino localiza os vícios não nas instituições, mas nos indivíduos que as fazem viciosas. c) É complexa a crítica aos costumes da época, já que o autor é o primeiro a relativizar a distinção entre o Bem e o Mal. d) A ênfase desta sátira recai sobre as personagens populares, as mais ridicularizadas e as mais severamente punidas. e) A sátira é aqui demolidora e indiscriminada, não fazendo referência a qualquer exemplo de valor positivo.

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CLASSICISMO (1527-1580)

A primavera, de Botticelli.

Inspirado na mitologia clássica, Sandro Botticelli representa a deusa Vênus grávida, simbolizando a fertilidade da natureza, e as três Graças vestidas de véus transparentes, que dançam diante de Mercúrio, o deus do comércio. As formas humanizadas e a referência mitológica serão características do Renascimento.

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Reprodução

CLASSICISMO:

século XVI

CONTEXTO HISTÓRICO: ascensão da burguesia
centralização do poder Reforma Protestante Grandes Navegações invenções e progresso científico

CARACTERÍSTICAS:

culto e imitação dos clássicos neoplatonismo mitologia greco-latina antropocentrismo racionalismo linguagem erudita dolce stil nuovo Camões Sá de Miranda Antônio Ferreira João de Barros Fernão Mendes Pinto Bernardim Ribeiro Samuel Usque Frei Heitor Pinto Frei Amadis Arrais

AUTORES:

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CLASSICISMO (1527-1580)
O Classicismo ou Quinhentismo inicia-se em 1527, quando Sá de Miranda regressa de sua viagem de seis anos à Itália, trazendo novidades estéticas. Termina em 1580, ano da morte de Camões, quando Portugal é dominado pela Espanha. Nesse movimento, que pregava a imitação dos modelos greco-romanos, desenvolveram-se a poesia (lírica e épica), a historiografia, a literatura de viagens, a novelística, a prosa doutrinária e o teatro.

Contexto Histórico
Dá-se o nome de Renascimento ao período de supervalorização da cultura clássica, compreendido entre os séculos XV e XVI e correspondente ao Classicismo em literatura. Resultado do triunfo do comércio baseado na moeda e no crédito sobre o antigo sistema medieval de tráfico por permuta, o Renascimento foi uma época de intensas transformações (políticas, econômicas e culturais), em cuja base estava a ascensão da burguesia, que representava o prestígio adquirido pelo próprio esforço e talento. Mas somente com um governo forte esse desenvolvimento econômico poderia efetivarse; adveio, daí, a centralização do poder na figura do rei. O Renascimento foi marcado pelas grandes navegações, pelas invenções (pólvora, imprensa, papel, mapa-múndi, relógio), por uma visão mais científica e racional do mundo, baseada na observação e na experimentação. Nicolau Copérnico, Galileu Galilei e Johann Kepler contribuíram para provocar uma ruptura na tradição da Idade Média, profundamente religiosa e teocêntrica. A Reforma Protestante (1517), movimento iniciado por Martinho Lutero, encontrou o apoio da burguesia, pois, por não considerar o comércio um pecado, justificava os lucros. Portugal não ficou fora desse contexto. A burguesia mercantil patrocinou as grandes navegações, por meio das quais a corte portuguesa conheceu uma prosperidade econômica única. Autores humanistas começaram a ser lidos (em 1487 a imprensa foi
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introduzida em Portugal), as letras desenvolveram-se e o palácio foi o principal foco de cultura. D. João III criou, em 1548, o Colégio das Artes e confiou a direção a humanistas de renome internacional. Sob seu reinado o estudo da gramática tornou-se obrigatório, sendo esse o momento em que a língua portuguesa atingiu sua maturidade.

Foi em 1570 que Martinho Lutero (monge e doutor em Teologia) divulgou folhetos que continham os primeiros princípios da Reforma. Foi excomungado pelo papa Leão X e, em 1523, apresentou a tradução do Novo Testamento. Durante todo o tempo em que se dedicou à causa da Reforma redigiu inúmeros panfletos polêmicos.

Manifestações Artísticas
A arte do Renascimento voltou-se para a Antigüidade clássica, considerada modelo de civilização e fonte inspiradora. A imitação dos modelos greco-latinos foi o traço principal da produção artística do período. Imitação não como mera cópia, mas como criação de obras de arte segundo regras preestabelecidas. Os artistas buscavam na figura humana as proporções ideais. Tanto a pintura quanto a escultura interessaram-se pelo nu.
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Adão e Eva, de Raphael. Na arte do Renascimento há interessse em retratar o nu.

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Em Portugal, vigora o estilo manuelino, que apresenta decorações vigorosas nas paredes, rendilhados e portais com objetos de navegação, frutos do mar, pilares torcidos, abóbadas de conformações elaboradas e incrustações.
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O etnomusiológico, radialista e pesquisador musical português José Moças organizou 12 CDs da coleção A viagem dos Sonhos que documentam a combinação da música portuguesa com as músicas locais, quando, no século XV, os portugueses em busca de terras e riquezas levaram para o mundo sua língua e sua música.
Túmulo de Luís de Camões no Mosteiro dos Jerônimos, Lisboa.:

Literatura
O Renascimento, em literatura, recebeu o nome de Classicismo ou Quinhentismo e, como as outras manifestações artísticas, procurou seguir os modelos clássicos: busca da perfeição formal, universalismo, racionalismo. Procurou, enfim, a objetividade e o equilíbrio. Nesse período desenvolveram-se: a) a poesia lírica: Sá de Miranda, Antônio Ferreira, Camões; b) a poesia épica: Camões; c) o teatro: Antônio Ferreira e Camões; d) a novelística: Bernardim Ribeiro; e) a historiografia: João de Barros e Damião Góis; f) os roteiros de viagens: Fernão Mendes Pinto; g) a prosa doutrinária: Samuel Usque e Frei Heitor Pinto;
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Sá de Miranda (1481-1558)
Francisco Sá de Miranda, durante sua viagem à Itália, teve contato com os maiores escritores renascentistas vivos. Quando voltou, em 1527, introduziu em Portugal o dolce stil nuovo (doce estilo novo): o verso decassílabo, a medida nova (até então usava-se a redondilha maior ou menor, chamada de medida velha) e novas formas poéticas: o soneto, a ode, a elegia,a égloga,a epístola, a sextina, o epitalâmio. Sá de Miranda escreveu poemas e peças de teatro tanto na medida velha quanto na nova. Leia este seu texto:
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TROVA Comigo me desavim, sou posto em todo perigo; não posso viver comigo nem posso fugir de mim. Com dor, da gente fugia, antes que esta assi crescesse; agora já fugiria de mim, se de mim pudesse. Que meio espero ou que fim do vão trabalho que sigo, pois que trago a mim comigo, tamanho imigo* de mim?

Sá de Miranda

*inimigo

(Obras Completas. Lisboa: Sá da Costa, 1942)

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O poema “Trova” foi escrito na medida velha (à maneira medieval, em redondilha maior). Um dos primeiros na literatura portuguesa a tematizar o problema do homem dividido, Sá de Miranda revela, aqui, uma profunda análise da personalidade humana numa linguagem castiça, porém viva. Outros poetas:

O termo “indivíduo” foi introduzido na língua portuguesa no século XVI, oriunda do latim individuus (indivisível)

Diogo Bernardes (1540-1605), chamado “o poeta do Lima”, porque era da região banhada por esse rio, situado no extremo norte de Portugal (o Lima nasce na Galiza e deságua no Atlântico, em Viana do Castelo). Em sua obra, dividida em três volumes, é nota permanente o rio Lima: Várias Rimas ao Bom Jesus (1594), Rimas Várias – Flores do Lima (1596) e O Lima (1596). Cultivou a “medida velha” e a “medida nova”, em sonetos, cartas, canções e églogas. A poesia bucólica e ribeirinha é o seu forte. Dotado de talento para a composição do soneto, faz lembrar em alguns passos a maestria camoniana. Cristóvão Falcão (desconhecem-se-lhe as datas de nascimento e morte), presuntivo autor da égloga Crisfal (1554), graças ao fato de o seu título ser formado das primeiras sílabas do nome e o sobrenome do poeta. Atribuível ainda a Bernardim Ribeiro, ou meramente de autor desconhecido, Crisfal é das mais bem realizadas composições do gênero durante o século XVI, sobretudo pelo caráter anticonvencional em matéria de lirismo pastoril. Bernardim Ribeiro (nada se conhece de sua vida) vale mais por sua novela, Menina e Moça (ou Saudades), estudada mais adiante, do que por sua poesia (cinco églogas e colaboração no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende; as primeiras, publicadas em 1554, como apêndice à novela, constituem as primeiras manifestações do bucolismo em Portugal).
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Luís de Camões (1524? - 1580)
Camões viveu e estudou alguns anos em Coimbra. Além de ter lido os clássicos e os humanistas italianos (Virgílio, Homero, Horácio, Ovídio, Petrarca), sua instrução abrangeu todos os ramos do conhecimento, como era comum aos humanistas. Teve muitos amores na corte que o levaram ao desterro. Depois seguiu carreira militar e em Ceuta (norte da África), com- Luís de Camões batendo os mouros, perdeu o olho direito. Em 1552, na procissão de Corpus Christi, fere a Gonçalo Borges, servidor do Paço. Preso, logo mais é liberto sob a condição de engajar-se no serviço militar ultramarino. Com efeito, em fins de 1553, chega à Índia. Em 1556, dá baixa, e é nomeado “provedor mor dos bens de defuntos e ausentes”, em Macau. Ali, teria escrito parte dOs Lusíadas. Acusado de prevaricação, vai a Goa defender-se, mas naufraga na foz do rio Mecon: salva-se a nado, levando Os Lusíadas, como quer a lenda, e perdendo sua companheira, Dinamene. Finalmente, chega a Goa, é encarcerado e solto pouco depois. Está-se em 1563. Quatro anos depois, em Moçambique, dá outra vez com os costados na cadeia por causa de dívidas. Posto em liberdade, arrasta uma vida miserável, até que Diogo do Couto o encontra e se empenha em recambiá-lo para a Pátria, aonde chega a 23 de abril de 1569. em 1572, publica Os Lusíadas e recebe como recompensa uma pensão anual de 15.000 réis, que, porém, não o tira da miséria em que vive até o fim. Morre pobre e abandonado, a 10 de junho de 1580.
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Escreveu teatro ao modo vicentino (Auto de Filodemo e ElRei Seleuco) e ao clássico (Anfitriões), mas sem alcançar maior nível, relativamente à sua poesia e aos comediógrafos do tempo. Sua correspondência encerra valor biográfico ou históricoliterário. Poeta de seu tempo, Camões soube harmonizar tradição e inovação, saber letrado e experiência de vida, mitologia e cristianismo. Escreveu poesia lírica, uma epopéia e peças de teatro. Veja:

1) Poesia Lírica
Na lírica camoniana coexistem poemas escritos na medida velha, sob influência da tradição popular da Península Ibérica, herança das cantigas trovadorescas e composições escritas na medida nova. No primeiro dos textos selecionados, escrito em redondilha maior, é tratado o mesmo tema do poema de Sá de Miranda: OUTRO De que me serve fugir De morte, dor e perigo, Se me eu levo comigo? VOLTAS Tenho-me persuadido, Por razão conveniente, Que não posso ser contente, Pois que pude ser nascido. Anda sempre tão unido O meu tormento comigo, Que eu mesmo sou meu perigo. E se de mi me livrasse, Nenhum gosto me seria: Quem, senão eu, não teria Mal, que esse bem me tirasse? Força é logo que assi passe, Ou com desgosto comigo, Ou sem desgosto e sem perigo.
(Obras Completas. Lisboa, Sá da Costa, 1962)

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Neste segundo texto, já estão presentes características formais clássicas (soneto, verso decassílabo); o tema é o mesmo do poema anterior. Em ambos percebem-se as emoções controladas pela razão, uma das características fundamentais do Classicismo. Que poderei do mundo já querer que naquilo em que pus tamanho amor, não vi senão desgosto e desamor, e morte, enfim, que mais não pode ser! Pois vida me não farta de viver, pois já sei que não mata grande dor, se cousa há que mágoa dê maior, eu a verei: que tudo posso ver. A morte, a meu pesar, me assegurou de quanto mal me vinha; já perdi o que perder o medo me ensinou. Na vida, desamor somente vi, na morte, a grande dor que me ficou, parece que pera isso só nasci!
(Obras completas. Op. cit.)

As características predominantes da lírica camoniana (todas elas interdependentes e complementares) são: a) racionalismo: o amor é mais pensado que sentido. A razão controla a emoção dentro dos limites do equilíbrio e da harmonia: Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada.

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b) idealização: a procura do equilíbrio e da harmonia levam à procura do absoluto, do ideal: interessa ao poeta mais a Mulher (conceito) do que a mulher (matéria), o Amor (ideal) que o amor (individual, carnal): Uma coisa, senhora, por certo assele Que nunca amor se afina, nem se apura, Enquanto está presente a causa dele. ou Pede o desejo, Dama, que vos veja. Não sabe o que pede; está enganado. É este amor tão fino e tão delgado, Que quem o tem não sabe o que deseja. c) neoplatonismo: essa idealização remete-nos a Platão, cujas idéias influenciaram toda a produção artística do Classicismo. Segundo Platão, havia dois mundos: o inteligível, morada das idéias puras, das essências, cujo reflexo imperfeito é o mundo sensível, onde vivemos, lugar das realidades concretas. Observe estes versos de “Sobolos rios que vão”: Quem do vil contentamento Cá deste mundo visibil, Quanto ao homem for possibil, Passar logo entendimento Para o mundo inteligibil; Ali achará alegria Em tudo perfeita, e cheia De tão suave harmonia, Que nem por pouca recreia, Nem por sobeja enfastia.

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Na década de 1990, Renato Russo mesclou trechos da poesia camoniana com uma epístola biblica e os musicou, com o título Monte Castelo. d) desconcerto do mundo: a conscientização da desarmonia do mundo leva ao sofrimento: Ao desconcerto do mundo Os bons vi sempre passar No mundo graves tormentos; E para mais m”espantar, Os maus vi sempre nadar Em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assi O bem tão mal ordenado, Fui mau; mas fui castigado. Assi, que só para mi Anda o mundo concertado.
(Luís de Camões, Obras Completas. Op. cit.)

2) Poesia Épica
Portugal atingira, no século XVI, o apogeu, o máximo de glória pelas conquistas ultramarinas. Precisava, naquele momento, de alguém que cantasse em linguagem solene seus feitos heróicos, que cantasse o domínio do homem sobre a natureza. Seguindo os modelos clássicos de Homero (Ilíada e Odisséia) e de Virgílio (Eneida), Camões, em Os Lusíadas, conta a história de Portugal, tendo como assunto central a viagem de Vasco da Gama às Índias. A frota portuguesa partiu em 8 de julho de 1497 e chegou a Calicute a 24 de maio de 1498.
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Estruturalmente o poema divide-se em dez cantos compostos de 1102 estrofes de oito versos decassílabos cada (oitava rima), cujo esquema rímico é ABABABCC. Os dez cantos são divididos em cinco partes, como toda epopéia clássica: • Proposição: formada pelas três primeiras estrofes, traz o assunto do poema, ou seja, o elogio do heróis portugueses que fundaram a nacionalidade e a ampliaram com as navegações. • Invocação: nas quarta e quinta estrofes, o poeta pede inspiração às Tágides, ninfas do rio Tejo, para compor o poema. A epopéia é um poe• Dedicatória: inicia-se na sexma narrativo em que preta estrofe e termina na 18ª , valece o maravilhoso: a o poeta oferece seu poema mistura de fatos reais ao rei D.Sebastião a mitos, heróis e deuses. Seu herói representa um • Narração: estende-se da 19ª povo e vive em aventuestrofe do Canto I até a esras que envolvem grantrofe 144 do Canto X. Aqui des viagens. Camões conta toda a viagem de Vasco da Gama e a história de Portugal. Começa pelo fato capital da História de Portugal, os descobrimentos. Tudo centrado na viagem de Vasco da Gama, que constitui a espinha dorsal do poema. É em torno dela que o poeta agrupa os fatos históricos, ou tidos como tais, que se deram antes de Vasco da Gama e os que se seguiram. Desse modo, a História de Portugal é contada. No rastro das epopéias clássicas, ele não se livrou do padrão greco-romano – numa época eivada de cristianismo – e manteve o maravilhoso mitológico em sua narrativa. Mistura então, no seu texto, o cristão e o pagão, colocando lado a lado
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Vênus, Marte, Júpiter com a Divina Providência, Deus, religiosos em procissão solene, Cristo e outras entidades do Cristianismo. São os versos mais interessantes de ler em toda a epopéia. Entre eles citamos episódios como: • O velho do Restelo: quando as naus partem, um velho fala aos marinheiros sobre os perigos futuros e censura-lhes a ambição e a cobiça. Estudaremos esse trecho no final desta lição. • Inês de Castro: a amante do príncipe D. Pedro é assassinada a mando do rei, na ausência do filho. De volta, D. Pedro manda exumar o cadáver de Inês, “a que depois de morta foi rainha”. • O gigante Adamastor: uma tempestade é descrita como o aparecimento de um monstro a defender a região marítima que Vasco da Gama estava atravessando. • A ilha dos amores: um lugar privilegiado que Vênus oferece aos marinheiros. • Epílogo: estrofes 145 a 156 do Canto X. O tom é de desilusão e Camões parece prenunciar a derrocada de Portugal. Quando a ação do poema começa (estância 19), as naus estão navegando em pleno Oceano Índico, a meio da viagem. Enquanto isso, no Olimpio se reúnem os deuses em concílio, a deliberar acerca dos navegantes. Júpiter é-lhes favorável, Baco opõe-se-lhes; com a adesão de Vênus e Marte, o concílio desfaz-se a bem dos portugueses. Chegam a Moçambique; Vasco da Gama desce à terra; Baco prepara-lhe uma cilada, mas o comandante da frota triunfa e segue viagem. Chegada a Mombaça; não atraca, graças à ajuda de Vênus, que percebera outra armadilha de Baco, Indignada, reclama a Júpiter maior proteção aos portugueses, e consegue-a. Chegada a Melinde, onde são magnificamente recebidos. O Rei de Melinde vem a bordo e pede ao Gama que lhe conte a
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história de Portugal. O Gama descreve a Europa e inicia o relato desde Luso, fundador da Lusitânia, passa por D. Henrique de Borgonha, e prossegue com uma série de episódios históricos: o de Egas Moniz, Inês de Castro, a batalha de Ourique, a batalha do Salado, a batalha de Aljubarrota, a tomada de Ceuta, o sonho profético de D. Manuel, os aprestos da viagem, a fala do Velho do Restelo e a largada; a seguir, o Gama conta a primeira parte da viagem, cujas peripécias mais importantes são o fogo de Santelmo, a tromba marinha, a aventura de Veloso, o Gigante Adamastor, chegada a Melinde. Partida. Baco desce ao fundo do mar para incitar os deuses marinhos contra a frota. Éolo, deus dos ventos, decide soltá-los. Enquanto dura a calmaria, conta-se o caso dos “doze da Inglaterra”. Desata pavorosa tempestade, mas Vênus envia as ninfas amorosas para abrandar o furor dos ventos. Cessada a tormenta, chegam a Calicut. O Gama desembarca e é recepcionado pelo Samorim. Enquanto isso, Paulo da Gama recebe a bordo da nau capitânia o Catual, a quem comunica o Significado das figuras desenhadas nas bandeiras; uma última tentativa de Baco é desfeita. Regresso à Pátria. Chegada à Ilha dos Amores, onde os navegantes são favorecidos pelas ninfas em recompensa do heróico feito. Depois do banquete, Tethys conduz Vasco da Gama ao ponto mais alto da ilha e desvenda-lhe a “máquina do mundo” e o futuro dos portugueses. Partida. Chegada a Portugal. Vejamos um resumo da obra por meio de seus cantos: CANTO I: contém a introdução, a invocação e a dedicatória. A narração tem início com os portugueses já no oceano Índico, quando surgem as primeiras dificuldades. No Olimpo, os deuses reúnem-se num concílio para decidir o destino dos navegadores: Vênus e Marte protegem os portugueses e Baco e Netuno são contra eles. Júpiter decide permitir a continuidade da viagem. Chegada a Mombaça.
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Leia a proposição do poema, constituída das seis primeiras estrofes: 1. As armas e os Barões assinalados* Que, da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca dantes navegados, Passaram ainda além da Taprobana* Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2. E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas* De África e Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando: Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3. Cessem do sábio Grego* e do Troiano* As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Netuno* e Marte* obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta.
* célebres

* atual Sri Lanka, ilha a sudeste da Índia

*terras da África e da Ásia

* Ulisses * Enéias

* deus dos mares * deus da guerra

4. E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde, celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto, e sublimado, Um estilo grandiloco e corrente,
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Porque de vossas águas Febo ordene, Que não tenham inveja às de Hipocrene. 5. Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Genta vossa, que a Marte tanto ajuda, Que se espalhe e se cante no Universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6. E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antiga liberdade. E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade, Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande Pera do mundo a Deus dar parte grande;

Além da riqueza de informações históricas de seu tempo e da Antigüidade clássica, estão presentes nesse trecho as referências mitológicas e a imitação da sintaxe latina: as duas primeiras estrofes constituem um só período, cuja oração principal – espalharei por toda parte — encontra-se no final da segunda estrofe. CANTO II: Baco tenta destruir a frota, salva por Vênus. Chegada a Melinde, onde o rei hospeda Vasco da Gama e pede-lhe que conte a história de Portugal.
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CANTO III: Vasco da Gama conta-lhe a história desde a formação de Portugal até o reinado de D. Fernando. Pertence a este canto o primeiro episódio lírico da obra: o assassinato de Inês de Castro1. 118. Passada esta tão próspera vitória, Tornado Afonso à lusitana terra, * gozar A se lograr* da paz com tanta glória Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste e digno da memória, Que do sepulcro os homens desenterra, * infeliz e indefesa Aconteceu da mísera e mesquinha* Que depois de ser morta foi rainha. 119. Tu, só tú, puro Amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga, É porque queres, áspero e tirano, Tuas aras banhar em sangue humano.
No Mosteiro de Santa Maria, em Alcobaça, está o túmulo de D. Pedro e Inês de Castro.
A castelhana Inês de Castro era dama de companhia de D. Constança, casada com D. Pedro, filho do rei D. Afonso IV. Pedro apaixonou-se por Inês e quis casar-se com ela após a morte de Constança, para regularizar a situação de seus filhos bastardos. O rei e a nobreza não queriam o casamento, pois tinham medo de que Castela pudesse interferir na política do reino. Assim, D. Afonso ordenou, em 1355, que degolassem Inês. Diz a lenda que D. Pedro mandou vestir de noiva o cadáver, sentou-o no trono e fez os nobres lhe beijarem a mão. Por isso se diz que Inês foi “rainha depois de morta”. No entanto, a verdade é que, em 1361, quando já era rei, D. Pedro mandou transladar os restos mortais de Inês de Castro, com pompas de rainha. Esse episódio, desde o século XV, tem inspirado poetas ao longo de toda a literatura portuguesa.
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120. Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruito, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a fortuna* não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuito, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.

* destino

121. Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus fermosos se apartavam; De noite, em doces sonhos, que mentiam, De dia em pensamentos que voavam; E quando, enfim, cuidava, e quando via, Eram tudo memórias de alegria. 122. De outras belas senhoras e princesas Os desejados tálamos enjeita, Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas Quando um gesto suave te sujeita. Vendo estas namoradas estranhezas O velho pai sisudo, que respeita O murmurar do povo e a fantasia Do filho, que casar-se não queria. 123. Tirar Inês ao mundo determina, Por lhe tirar o filho que tem preso, Crendo co’o sangue só da morte indina Matar do firme amor o fogo aceso. Que furor consentiu que a espada fina Que pôde sustentar o grande peso Do furor Mauro, fosse alevantada Contra uma fraca dama delicada?
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124. Traziam-na os horríficos algozes Ante o Rei, já movido a piedade: Mas o povo, com falsas e ferozes Razões, à morte crua o persuade, Ela, com tristes e piedosas vozes, Saídas só da mágoa, e saudade Do seu Príncipe, e filhos, que deixava, Que mais que a própria morte a mogoava.

Canto IV: continua a narrar a história até a saída da frota de Portugal, sob o governo de D. Manuel. Quando os portugueses vão iniciar a viagem, na praia do Restelo, surge um velho que critica duramente as navegações e amaldiçoa os que partem, acusando os portugueses de ambição e vaidade excessivas. Restelo era um bairro ao lado do porto. Lá ficava a capela onde a armada rezou antes da partida. O ancião que toma a palavra na epopéia não era ninguém especialmente conhecido. Talvez seja apenas um recurso de que Camões se serviu para dizer o que ele próprio julgava de tudo aquilo: é um conselho à tripulação contra a ambição, o desejo de glória e a cobiça dos que detêm o poder. Levados por esses sentimentos é que os poderosos ordenam viagens tão arriscadas. O velho do Restelo vem alertar a todos sobre o perigo desta vaidade a quem chamamos Fama.

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O VELHO DO RESTELO 93. Nós outros, sem a vista alevantarmos Nem a mãe, nem a esposa, neste estado, Por nos não magoarmos, ou mudarmos Do propósito firme começado, Determinei de assi nos embarcarmos Sem o despedimento costumado, Que, posto que é de amor usança boa, A quem se aparta ou fica, mais magoa. 94. Mas um velho de aspecto venerando, Que ficava nas praias, entre a gente, Postos em nós os olhos, meneando Três vezes a cabeça, descontente, A voz pesada um pouco alevantando, Que nós no mar ouvimos claramente, C’um saber só de experiências feito, Tais palavras tirou do experto peito: 95. -“Ó glória de mandar! Ó vã cobiça Desta vaidade a quem chamamos Fama! Ó fraudulento gosto que se atiça Cua aura popular* que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles exp’rimentas!

* em nome da honra do povo

96. “Dura inquietação d’alma e da vida Fonte de desemparos e adultérios, Sagaz consumidora conhecida De fazendas, de reinos e de impérios! Chamam-te ilustre, chamam-te subida, * Insultos, injúrias Sendo digna de infames vitupérios*; Chamam-te Fama e Glória soberana, * ignorante Nomes com quem se o povo néscio* engana!

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97. “A que novos desastres determinas De levar estes reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhe destinas Debaixo dalgum nome preminente*? Que promessas de reinos e de minas De ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? Que histórias? Que triunfos? Que palmas? Que vitórias? 98. “Mas ó tu, geração daquele insano, Cujo pecado e desobediência Não somente do Reino soberano Te pôs neste desterro* e triste ausência, Mas inda doutro estado mais que humano, Da quieta e da simples inocência, Da idade de ouro, tanto te privou, Que na de ferro e de armas te deitou: 99. “Já que nesta gostosa vaidade Tanto enlevas* a leve fantasia, Já que à bruta crueza e feridade* Puseste nome esforço e valentia, Já que prezas em tanta quantidade O desprezo da vida, que devia De ser sempre estimada, pois que já Temeu tanto perdê-la quem a dá, 100. “Não tens junto contigo o Ismaelita, Com quem sempre terás guerras sobejas? Não segue ele do Arábio a lei maldita, Se tu pela de Cristo só pelejas? Não tem cidades mil, terra infinita, Se terras e riqueza mais desejas? Não é ele por armas esforçado, Se queres por vitórias ser louvado?
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* preeminente: superior, nobre

* solidão

* encantas, deleitas * perversidade

101. “Deixas criar às portas o inimigo Por ires buscar outro de tão longe, Por quem se despovoe o Reino antigo, Se enfraqueça e se vá deitando a longe! Buscas o incerto e incógnito perigo, Por que a fama te exalte e te lisonje*, Chamando-te senhor, com larga cópia, Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia! 102. “Oh! Maldito o primeiro que no mundo Nas ondas vela pôs em seco lenho! Digno da eterna pena do Profundo Se é justa a justa lei que sigo e tenho! Nunca juízo algum, alto e profundo, Nem cítara* sonora ou vivo engenho Te dê por isso fama nem memória, Mas contigo se acabe o nome e glória! 103. “Trouxe o filho de Jápeto do céu O fogo que ajuntou ao peito humano, Fogo que o mundo em armas acendeu, Em mortes, em desonras – grande engano! Quanto melhor nos fora, Prometeu, E quando para o mundo menos dano, Que a tua estátua ilustre não tivera Fogo de altos desejos que a movera! 104. “Não cometera o moço miserando O carro alto do pai, nem o ar vazio O grande arquitector co’o filho, dando Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio. Nenhum cometimento alto e nefando*, Por fogo, ferro, água, calma e frio, Deixa intentado* a humana geração! Mísera sorte! Estranha condição!”

* agrade

* instrumento de cordas

* indigno

* projetado

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Canto V Estas sentenças tais o velho honrado Vociferando estava, quando abrimos As asas ao sereno e sossegado Vento, e do porto amado nos partimos; E, como é já no mar costume usado, A vela desfraldando, o céu ferimos, Dizendo: – “Boa viagem!”. Logo o vento Nos troncos fez o usado movimento.

Canto V: Gama, ainda em Melinde, conta a viagem pela costa africana, pontuada de vários obstáculos, o maior dos quais é a passagem pelo Cabo das Tormentas, personificado na figura do Gigante Adamastor. 37. Porém, já cinco sóis eram passados Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca de outrem navegados, Prosperamente os ventos assoprando, Quando uma noite, estando descuidados Na cortadora proa vigiando, Uma nuvem que os ares escurece, Sobre nossas cabeças aparece. 38. Tão temerosa vinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo; Bramindo, o negro mar de longe brada Como se desse em vão nalgum rochedo. Ó Potestade, disse, sublimada: Que ameaço divino ou que segredo Este clima e este mar nos apresenta, Que mor cousa parece que tormenta?
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39. Não acabava, quando uma figura Se nos mostra no ar, robusta e válida De disforme e grandíssima estatura; O rosto carregado, a barba esquálida, Os olhos encovados, e a postura Medonha e má e a cor terrena e pálida Cheios de terra e crespos os cabelos, A boca negra, os dentes amarelos. Canto VI: partida de Melinde para Calicute. Baco e Netuno convencem Éolo, rei dos ventos, a armar uma tempestade. Vênus e as ninfas surgem diante dos ventos, seus apaixonados, e a tempestade cessa. Chegam às Índias.
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Vasco da Gama em sua viagem às Índias.

Canto VII: descrição das Índias e os primeiros contatos com os mouros. Canto VIII: problemas com os mouros, pois adivinhos dizem que os portugueses vêm para escravizar os indianos. Prisão de Vasco da Gama, que é libertado a troco de mercadorias.
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Canto IX: começa a viagem de volta a Portugal. Segue-se o episódio lírico da Ilha dos Amores: Vênus e Cupido preparam uma recepção para os portugueses a fim de compensar seus sofrimentos. Os marinheiros recebem o carinho das ninfas e Vasco da Gama ama a deusa Tétis. Canto X: descrição do banquete oferecido por Tétis, que conduz Gama a um monte de onde lhe mostra um globo transparente que representa o mundo. Regresso a Lisboa. No epílogo, Camões queixa-se da decadência de Portugal e da indiferença pelas letras. 145. No “mais, Musa, no” mais, que a lira tenho Destemperada* e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho, Não no dá a Pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Duma austera, apagada e vil tristeza.

* desafinada

A Viagem de Vasco da Gama e os Cantos de Os Lusíadas.
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Canto I: portugueses enfrentam cilada no canal de Moçambique Canto II: viagem de Mombaça a Melinde. Canto III e IV: Vasco da Gama conta ao rei de Melinde a história de Portugal (episódios de Inês de Castro e do Velho do Restelo). Canto V: Vasco da Gama conta ao rei a viagem de Lisboa até Melinde (episódio do gigante Adamastor). Canto VI: Viagem de Melinde a Calicute. Cantos VII, VIII e IX: portugueses na Índia. Cantos IX e X: viagem de regresso.

3) Teatro
O teatro de Camões é inferior à sua lírica e à sua épica. Ele deixou três autos: Auto de Filodemo e El-Rei Seleuco, com características vicentinas, e Anfitriões, uma composição à moda clássica. Antônio Ferreira (1528-1569) Defensor da cultura clássica, é doutrinador do Classicismo em Portugal. Sua obra mais notável é a tragédia Castro, em que narra, assim como Camões, a história de Inês de Castro.
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Fernão Mendes Pinto (1510?-1583) É o autor mais importante do gênero literatura de viagens. Escreveu Peregrinação, fruto de suas experiências pessoais, em que descreve hábitos dos povos orientais e critica a ação portuguesa no Oriente.
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João de Barros (1496-1570) Escreveu ficção (Crônica do Imperador Clarimundo), filosofia (Rópica Pnefma), gramática (Gramática da Língua Portuguesa) e historiografia (Décadas).

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Bernardim Ribeiro (1482-1552) Escreveu Menina e Moça, novela em que apresenta a psicologia amorosa feminina como principal foco da narrativa.

4) Prosa Doutrinária
Esse gênero revela o espírito cristão que resistiu ao paganismo desse período. O judeu-português Samuel Usque escreveu Tribulações de Israel; Frei Heitor Pinto, Imagens da Vida Cristã e Frei Amador Arrais, Diálogos.

Questões de Vestibular
1 (FUVEST-SP) Camões: a) nasceu no dia 10 de junho de 1580. b) escreveu uma epopéia publicada no ano de 1572. c) tomou a Divina Comédia como modelo de seu poema. d) foi amigo de Gil Vicente, com quem conviveu na corte. e) esteve na Itália, de onde levou para Portugal os princípios da estética clássica. 2 (FUVEST-SP): “Amor é um fogo que arde sem se ver, É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente, É dor que desatina sem doer.” De poeta muito conhecido, esta é a primeira estrofe de um poema que parece comprazer-se com o paradoxo, enfeixando sensações contraditórias do sentimento humano, se examinadas sob o prisma da razão. Indique, na relação abaixo, o nome do autor. a) Bocage. d) Luís de Camões. b) Camilo Pessanha. e) Manuel Bandeira. c) Gil Vicente.
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3 (Mackenzie-SP): O digno representante do povo português, herói de Os Lusíadas, foi: a) Alexandre, o Grande. b) Trajano. c) Vasco da Gama. 4 (VUNESP) “Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto, um desconcerto; da alma um fogo me sai, da vista um rio; agora espero, agora desconfio, agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao céu voando, num’hora acho mil anos, e é de jeito que em mil anos não posso achar um’hora. Se me pergunta alguém por que assi ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora.” O soneto acima transcrito é de Luís de Camões. Nele se acha uma característica da poesia clássica renascentista. Assinale essa característica, em uma das alternativas: a) A suspeita de amor que o poeta declara na conclusão. b) O jogo de contradições e perplexidades que atormentam o poeta. c) O fato de todos perguntarem ao poeta porque assim anda. d) O fato de o poeta não saber responder a quem o interroga. e) A utilização de um soneto para relato das suas amarguras.

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Texto para as questões 5 e 6: “Busque Amor novas artes, novo engenho para matar-me, e novas esquivanças; que não pode tirar-me as esperanças que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! vede que perigosas seguranças: que não temo contrastes nem mudanças andando em bravo mar perdido o lenho. Mas, conquanto não pode haver desgosto onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê; que dias há que na alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde vem não sei como e dói não sei porquê.” 5 (FGV-SP) Neste poema é possível reconhecer que uma dialética amorosa trabalha a oposição entre: a) o bem e o mal d) a razão e o sentimento b) a proximidade e a distância e) o mistério e a realidade c) o desejo e a idealização 6 (FGV-SP) Uma imagem de forte expressividade deixa implícita uma comparação com o arriscado jogo do amor. Assinalar a alternativa que contém essa imagem: a) o engenho do amor d) mar tempestuoso b) o perigo da segurança e) um não sei quê c) naufrágio em bravo mar 7 (FUVEST-SP) Na Lírica de Camões: a) o metro usado para a composição dos sonetos é a redondilha maior. b) encontram-se sonetos, odes, sátiras e autos. c) cantar a Pátria é o centro das preocupações.
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d) encontra-se uma fonte de inspiração de muitos poetas brasileiros do século XX. e) a mulher é vista em seus aspectos físicos, despojada de espiritualidade. 8 (FUVEST-SP) Camões escreveu obra épica ou lírica? Justifique sua resposta, exemplificando com obras do autor. 9 (UM-SP) Sobre a lírica camoniana, é incorreto afirmar que: a) boa parte de sua realização se encontra na poesia de inspiração clássica. b) sua temática é variada, encontrando-se desde temas abstratos até tradicionais. c) no aspecto formal, é toda construída em versos decassílabos em oitava rima. d) sonda o sombrio mundo do “eu”, da mulher, da pátria e de Deus. e) muitas vezes, o poeta procura conceituar o amor, lançando mão de antíteses e paradoxos. 10 (FESL-SP) Em Os Lusíadas, Camões: a) narra a viagem de Vasco da Gama às Índias. b) tem por objetivo criticar a ambição dos navegantes portugueses que abandonam a pátria à mercê dos inimigos para buscar ouro e glória em terras distantes. c) afasta-se dos modelos clássicos, criando a epopéia lusitana, um gênero inteiramente original na época. d) lamenta que, apesar de ter dominado os mares e descoberto novas terras, Portugal acabe subjugado pela Espanha. e) tem como objetivo elogiar a bravura dos portugueses e o faz através da narração dos episódios mais valorosos da colonização brasileira. 11 (VUNESP) “Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito (Se de humano é matar uma donzela, Fraca e sem força, só por ter sujeito
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O coração a quem soube vencê-la). A estas criancinhas tem respeito, Pois o não tens à morte escura dela; Mova-te a piedade sua e minha, Pois te não move a culpa que não tinha.” A estância acima transcrita pertence a Os Lusíadas de Luís de Camões, e faz parte de um dos mais conhecidos “episódios” daquela obra. Indique-o nas alternativas abaixo assinaladas: a) Episódio da Ilha dos Amores. b) Episódio do Gigante Adamastor. c) Episódio de Inês de Castro. d) Episódio dos Doze de Inglaterra. e) Episódio da Batalha de Aljubarrota. 12 (FUVEST-SP) “Destarte, enfim, conformes já as fermosas Ninfas cos seus amados navegantes, Os ornam de capelas deleitosas De louro e de ouro e flores abundantes. As mãos alvas lhe davam como esposas; Com palavras formais e estipulantes Se prometem eterna companhia, Em vida e morte, de honra e alegria.” Quem escreveu a estrofe acima? a) Luís de Camões d) Fernando Pessoa b) Almeida Garrett e) Antero de Quental c) Gil Vicente 13 (FUVEST-SP) “No mar, tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida; Na terra, tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade aborrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano,

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Onde terá segura a curta vida, Que não se arme e se indigne o céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?” Nessa estrofe, Camões a) exalta a coragem dos homens que enfrentam os perigos do mar e da terra. b) considera quanto deve o homem confiar na providência divina que o ampara nos riscos e adversidades. c) lamenta a condição humana ante os perigos, sofrimentos e incertezas da vida. d) propõe uma explicação a respeito do destino do homem. e) classifica o homem como um bicho da terra, dada a sua agressividade. 14 (FUVEST-SP) “Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza De uma austera, apagada e vil tristeza.” Os versos acima pertencem a que parte de Os Lusíadas? a) Proposição d) Narração b) Invocação e) Epílogo c) Dedicatória As duas questões a seguir referem-se ao fragmento “Converte-se-me a carne em terra dura; Em penedos os ossos se fizeram; Estes membros que vês e esta figura Por estas longas águas se estenderam, Enfim, minha grandíssima estatura

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Neste remoto cabo converteram Os deuses; e, por mais dobradas mágoas, Me anda Tétis cercando destas águas.” 15 (ESAN-SP) Tem-se a figura do Gigante Adamastor criada pelo poeta: a) português, Luís de Camões, em Os Lusíadas b) brasileiro, Basílio da Gama, em O Uruguai c) português, Pe. Antônio Veira, em Sermão da Sexagésima d) brasileiro, Mário de Andrade, em Macunaíma e) n.d.a. 16 (ESAN-SP) A figura da retórica que compõe o texto é: a) metáfora: “consiste na transferência do nome de um elemento para outro, em vista de uma relação de semelhança entre ambos”. b) prosopopéia: “atribui vida, ou qualidades humanas, a seres inanimados, irracionais, espécie de animismo”. c) paronomásia: vocábulos semelhantes na forma, mas opostos ou aparentados no sentido. d) metonímia: emprego de um vocábulo por outro, com o qual estabelece uma constante e lógica relação de contigüidade. e) sinédoque: designa-se o mais restrito pelo mais extenso, ou seja, a espécie pelo gênero, a parte pelo todo. 17 (F.C. Chagas) “Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos, quando a mais temerosa desdita pesou sobre nós. Por uma bela noite dos idos de maio do ano translato, perdíamos a muiraquitã; que outrem grafara muraquitã, e alguns doutos, ciosos de etimologias esdrúxulas, ortografam muyrakitan e até mesmo muraquéitã, não sorriais!” Neste fragmento da “Carta pràs Icamiabas”, em Macunaíma, de Mário de Andrade, encontramos: a) uma paródia do estilo clássico lusitano. b) um elogio à eloqüência dos parnasianos. c) a valorização da linguagem utilizada pela estética do século XVIII. d) uma apologia do estilo pretensioso e da oratória vazia de conteúdo. e) uma sátira aos romances indianistas do século XIX.
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18 (Sta. Casa-SP) Os versos pertencem a Os Lusíadas, poema épico que imortalizou o “ilustre peito lusitano”. Assinale a alternativa certa: Tu só, tu, puro amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga, Se dizem, fero amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga... a) A Tromba Marítima (Tromba D’Água). b) Episódio Inês de Castro. c) A Tempestade. d) O Gigante Adamastor. e) Descrição da Ilha dos Amores. 19 (CESCEA) A Época Quinhentista da Literatura Portuguesa caracterizou-se: a) pela revalorização da cultura greco-latina. b) pela reação contra o movimento humanista iniciado no século anterior. c) pelo culto da subjetividade. d) pelo aparecimento dos primeiros grandes romancistas da Língua. e) não sei. 20 (CESCEA) Camões celebrizou-se, na Literatura Portuguesa, por: a) suas peças teatrais. b) sua vida aventuresca e galante. c) sua poesia jocosa. d) seus sonetos. e) não sei. . 21 (UF-PA) Pode-se afirmar que o Velho do Restelo é: a) personagem central de Os Lusíadas. b) o mais fervoroso defensor da viagem do Gama. c) símbolo dos que valorizam a cobiça e a ambição.

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d) símbolo das forças contrárias às investidas marítimas lusas. e) a figura que incentiva a ideologia expansionista. As questões 22 e 23 tomam por base o seguinte texto: “Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandre e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta.” 22 (VUNESP-SP) A oitava acima constitui a terceira estrofe de Os Lusíadas, de Luís de Camões, poema épico publicado em 1572, obra máxima do Classicismo português. O tipo de verso que Camões empregou é de origem italiana e fora introduzido na literatura portuguesa algumas décadas antes, por Sá de Miranda. Quanto ao conteúdo, o poema Os Lusíadas toma como ponto de referência um episódio da história de Portugal. Baseado nestes comentários e em seus próprios conhecimentos, releia a estrofe citada e indique: a) O tipo de verso utilizado (pode mencionar simplesmente o número de sílabas métricas). b) O episódio da história de Portugal que serve de núcleo narrativo ao poema. 23 (VUNESP) Uma leitura atenta da estrofe citada revela que o conteúdo dos primeiros seis versos é retomado e sintetizado nos últimos dois versos. Interprete a estrofe de acordo com esta observação.

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BARROCO (1580-1756)
Reprodução

O Êxtase de Santa Teresa, de Bernini, é um exemplo da tentativa barroca de conciliar o erótico e o místico, o celestial e o terreno.

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BARROCO:

final do século XVI, séc. XVII e metade do séc. XVIII

CONTEXTO HISTÓRICO: estados absolutistas
Contra-Reforma: Companhia de Jesus e Concílio de Trento desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer-Quibir domínio espanhol sobre Portugal

CARACTERÍSTICAS:

rebuscamento da forma (gongorismo) rebuscamento do conteúdo (conceptismo) tentativa de conciliação de opostos Padre Antônio Vieira D. Francisco Manuel de Melo Padre Manuel Bernardes Antônio José da Silva, “o Judeu” Sóror Mariana Alcoforado Frei Luís de Sousa

AUTORES:

Classicismo
• • •

Barroco
• • •

equilíbrio racionalismo estaticidade e sobriedade clássicas

rebuscamento formal tensão: racionalidade/ emotividade preferência por aspectos dinâmicos, dramáticos

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BARROCO (1580-1756)
O Barroco ou Seiscentismo tem início em 1580, ano que, além de registrar a morte de Camões, marca a passagem de Portugal para o domínio espanhol, e termina em 1756, quando é fundada a Arcádia Lusitana. Nesse movimento, que vai caracterizar-se pela tensão e tentativa de fusão de opostos, desenvolveram-se a oratória, a prosa doutrinária, a poesia, a historiografia, a epistolografia e o teatro.

Contexto Histórico
O século XVII assistiu a profundas alterações no quadro político, econômico, social, religioso e artístico da Europa em função de vários fatores: 1) formação de estados absolutistas: o poder político foi fortemente centralizado na figura do rei (que se confundia com o próprio Estado). Esse sistema respondia às necessidades da burguesia, que precisava de um poder centralizador para garantir as condições de mercado. Era a derrocada final do feudalismo. 2) revolução comercial: o mercantilismo exigia a ampliação de mercados fornecedores e consumidores. A circulação de mercadorias era a principal fonte de acumulação de capitais, representada na Espanha pela exploração de metais preciosos das colônias. 3) ascensão econômica da burguesia: no século XVII, embora economicamente dominante, a burguesia, ainda, era politicamente submetida. 4) Contra-Reforma: conseqüência da Reforma Protestante (1517), ela foi a reação da Igreja católica para conter a expansão do protestantismo. A Contra-Reforma propunha a volta ao teocentrismo (fé irrestrita na autoridade da Igreja), abolindo o individualismo religioso do Renas143

cimento. A Companhia de Jesus, criada pelo espanhol Inácio de Loiola em 1540, foi a arma usada pela Igreja para manter e recuperar fiéis. Os jesuítas monopolizaram a educação para difundir a ideologia católica. O Concílio de Trento (1545-1563) fortaleceu o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, que não só reprimiu todas as tentativas de manifestações científicas, culturais e religiosas contrárias à Igreja católica, como também controlou a produção literária por meio da censura.

Também o panorama brasileiro do séc. XVII se caracteriza por profundas reformas, principalmente as ocorridas no Nordeste em conseqüência das invasões holandesas, pela presença cada vez maior dos comerciantes e pelo apogeu e decadência da atividade açucareira. A Península Ibérica, berço da Contra-Reforma, esteve afastada de toda a efervescência cultural dos países onde a Reforma se consolidara e onde se desenvolveram a ciência mecânica e o racionalismo moderno (Newton, Descartes, Galileu, Copérnico, Kepler). Depois do desaparecimento de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, Portugal, em 1580, caiu sob o domínio espanhol*. Muitos escritores portugueses foram para a Espanha (onde viviam Gôngora, Cervantes, Lope de Vega, Calderón); outros passaram a escrever em castelhano. Só em 1640, com a Restauração (movimento português de independência financiado pela burguesia e pelos cristãos-novos), a cultura portuguesa romperia o isolamento e seria influenciada, principalmente, pela literatura francesa.
*Esses dois fatos criam o mito do Sebastianismo, segundo o qual D. Sebastião voltaria e tornaria Portugal o Quinto Império do Mundo.

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O sebastianismo se difundiu também no Brasil, onde inspirou manifestações messiânicas nos séculos XVI, XVII e XIX, aí se incluindo, segundo alguns, o movimento de Canudos em que Antônio Conselheiro anunciava a vinda de D. Sebastião. A Guerra de Canudos é tema do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Fernando Pessoa, em seu livro Mensagem (1934), retoma o mito sebastianista.

Manifestações Artísticas
O homem desse período foi marcado pela tensão da dualidade: de um lado a afirmação do racionalismo renascentista antropocêntrico e, de outro, o retorno aos valores espirituais da teocêntrica Idade Média. A arte foi uma das armas mais eficazes da Contra-Reforma para provocar e influenciar as emoções. Havia na obra dos jesuítas — que se empenhavam em recuperar hereges e consolidar a fé dos cristãos— o desejo contínuo de impressionar e dominar a todo custo. O Barroco caracteriza-se pelo movimento, pela tentativa de sugerir o infinito, pelos contrastes, pela audaciosa mistura da arquitetura, pintura e escultura. Ele é exuberante na riqueza de detalhes, teatral e dramático, pois escolhe os momentos de dor ou comoção para impressionar os sentidos.

Em Apolo e Dafne, Bernini captou o momento em que Dafne, ao ser agarrada por Apolo, transforma-se numa árvore.

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Reprodução

Andrea Pozzo foi o responsável pela pintura do teto da igreja de Santo Inácio, em Roma. Aqui estão presentes quase todas as características barrocas: grandiosidade, movimento, ilusão de infinito.

No Santuário de Wies, na Alemanha, vê-se a mistura de arquitetura, escultura e pintura.

Literatura
A literatura também refletiu esse momento de tensão vivido pelo homem do período Barroco. Como as outras artes, empregou uma linguagem adequada à monumentalidade e à ostentação, exagerando no rebuscamento formal ao abusar de antíteses (que refletem a contradição do homem barroco, seu dualismo), de metáforas (que enfatizam a apreensão da realidade pelos sentidos) e de hipérboles (que traduzem a pompa, a grandiosidade do Barroco).
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Fotos: Reprodução

Há duas correntes barrocas em literatura: • o cultismo, que consiste na supervalorização da forma: emprego de linguagem rebuscada, culta, extravagante, que abusa de trocadilhos. É também chamado de gongorismo, porque nele é clara a influência do poeta espanhol Luís de Gôngora (1561-1627). Observe o jogo de palavras nesta estrofe de Francisco Rodrigues Lobo: Fermoso Tejo meu, quão diferente Te vejo e vi me vês agora e viste: Turvo te vejo a ti, tu a mim triste, Claro te vi eu já, tu a mim contente. • o conceptismo, que ocorre sobretudo na prosa e torna a literatura um jogo retórico de idéias, de conceitos, por meio do raciocínio e da lógica. Neste trecho do Sermão da Sexagésima, Vieira, por meio de idéias logicamente estruturadas, discute a sutil diferença entre o substantivo (nome) e a ação — a única que pode transformar, converter o mundo: Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos, eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? – Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo, no Evangelho, não comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é o nome; o que semeia e o que prega é
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ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? – É o conceito que de sua vida têm os ouvintes.
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Padre Antônio Vieira (1608- 1697)

Vieira nasceu em Lisboa. Com sete anos veio para o Brasil, onde Padre Antônio entrou para a Companhia de JeVieira sus. Após a Restauração (1640), voltou a Portugal, tornou-se confessor do rei D. João IV e foi nomeado para várias embaixadas diplomáticas no estrangeiro. Foi um pregador eloqüente, no entanto, sua crença sebastianista e a defesa dos cristãos-novos, do capitalismo judaico e dos indígenas custaram-lhe uma condenação pela Inquisição e a proibição de pregar durante alguns anos. Voltou ao Brasil em 1681 e dedicou seus últimos anos à compilação de seus sermões. Sua obra divide-se em: a) profecias (que encerram um patriotismo exacerbado): História do Futuro, Esperanças de Portugal e Clavis Prophetarum, em que profetiza para Portugal o destino de Quinto Império do Mundo, previsto, segundo ele, na Bíblia, no Livro de Daniel. b) cartas: cerca de 500 em que trata de questões políticas importantes, como o tratamento dado pela Inquisição aos cristãos-novos e o relacionamento entre Portugal e Holanda, entre outras.
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c) sermões: são cerca de 200 sermões conceptistas, entre os quais se destacam: • Sermão de Santo Antônio aos Peixes (proferido no Maranhão em 1654). Nele, critica a escravidão dos indígenas; • Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda (proferido na Bahia em 1640), em que faz pregação contra os holandeses, que ameaçam invadir Salvador; • Sermão do Mandato (proferido na Capela Real de Lisboa em 1645), em que desenvolve o tema do amor místico; • Sermão da Sexagésima (proferido na Capela Real de Lisboa em 1653), nele apresenta uma teoria da arte de pregar na qual critica o gongorismo dos padres dominicanos. Leia este trecho do Sermão do Mandato e perceba como Vieira parte de um exemplo da realidade próxima dos fiéis (o amor humano) e, por meio de um raciocínio sutil, demonstra a supremacia do amor de Cristo: Outra vicissitude do tempo é a ingratidão. Esfriar o amor a ausência é sem razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão “quase” o aprova, o persuade e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? A ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. Se ponderarmos os efeitos de cada um destes contrários, acharemos que a ingratidão é o mais forte. A ausência tira ao amor a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo, por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado; se o deixamos de amar não é culpa sua, é injustiça nossa. Porém, se foi ingrato, ficou indigno de amor. Finalmente a ausência combate o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade; e ferido o amor no cérebro e ferido no coração, como pode viver? “Assim o ensina a experiência no amor humano.”
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É a ingratidão com o amor, como o vento com o fogo: se o fogo é pequeno, apaga-o o vento; se é grande, acende mais. “E tal foi o amor de Cristo.” Quantas ingratidões usaram com ele os homens! Mas nenhuma, nem todas juntas foram bastantes para lhe remitirem 1 um ponto o amor, nem vivo, nem morto: Cum dilexisset suos qui erant in mundo, in finem dilexit eos2. Dizem que um amor com outro se paga; o mais certo é que um amor com outro se apaga. Ora grande coisa deve de ser o amor: pois, sendo assim que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores. Daqui vem que se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto. É o amor entre os afetos, como a luz entre as qualidades. “Uma luz apaga-se por outra maior; e assim vemos que em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas. O mesmo sucede ao amor, por grande e extremado que seja. Em aparecendo maior e melhor objeto, logo se desamou o menor.

Foi um dos escritores que mais se destacaram na formação do estilo barroco na Península. Quase todos seus textos são em castelhano, demonstrando a influência de Gôngora. Em Corte na Aldeia faz uma espécie de teoria literária do Barroco.
Francisco Rodrigues Lobo
1. enfraquecerem, diminuírem; 2. “Como amasse aos seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.”

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Francisco Rodrigues Lobo (1580-1621)

Talvez cristão-novo, nasceu em Leiria, por volta de 1580, e faleceu afogado no Tejo em fins de 1622. Cultivou a poesia (Romanceiro/Primeira e Segunda Parte dos Romances, 1596; Églogas, 1605, o poema épico O Condestabre, 1610; Jornada... que Dom Filipe hizo a Portugal, 1623), a novela pastoril (A Primavera, 1601; O Pastor Peregrino, 1608 e o Desenganado, 1614), a prosa doutrinária (Corte na Aldeia e Noites de Inverno, 1619). SONETOS 1 Que amor sigo? Que busco? Que desejo? Que enleio é este vão da fantasia? Que tive? Que perdi? Quem me diria? Quem me faz guerra? Contra quem pelejo? Foi por encantamento o meu desejo E por sombra passou minha alegria; Mostrou-me Amor, dormindo, o que não via, E eu ceguei do que vi, pois já não vejo. Fez à sua medida o pensamento Aquela estranha e nova fermosura E aquele parecer quase divino; Ou imaginação, sombra, ou figura, É certo e verdadeiro meu tormento: Eu morro do que vi, do que imagino. 2 Fermosos olhos, quem ver-vos pretende A vista dera em preço, se vos vira, Que inda que por perder-vos a sentira, A perda de não ver-vos não se entende;
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A graça dessa luz não na compreende Quem, qual ao Sol, a vós seus olhos vira, Que o cego Amor, que cego deles tira, Com vossos próprios raios a defende. Não pode a vista humana conhecer Qual seja a vossa cor, que a luz forçosa Não consente mostrar tanta beleza; Se eu, que em vendo-a ceguei, pude ainda ver, Uma cor vi, porém, cor tão fermosa Que me não pareceu da natureza.
(Poesias, sel.,pref. e notas de Afonso Lopes Vieira. Lisboa: Sá da Costa, 1940, pp., 77 e 78)

Sua obra compreende poesia, historiografia, teatro, biografia, literatura moralista e epistolografia. Sua poesia é D. Francisco Manuel de Melo gongórica, mas revela influências clássicas de Camões e Sá de Miranda. Como historiador, relatou fatos fatos que viveu (teve uma vida bastante agitada e variada a que não faltaram crime passional, degredo, carreira diplomática). Sua intenção é oferecer ensinamentos práticos para militares e diplomatas. Seguindo a linha do teatro vicentino, escreveu a comédia Auto do Fidalgo Aprendiz, em que retrata o burguês que quer afidalgar-se. As cartas, de tom conservador, têm um caráter moralista e doutrinário. Destacam-se Cartas Familiares e Carta de Guia dos Casados.
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D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)

Padre Manuel Bernardes (1644-1710)

Nova Floresta é sua obra mais conhecida. Nela, Bernardes recorre a um processo didático de organizar alfabeticamente virtudes e pecados e contar um caso ou dar um exemplo para ser compreendido pelo leitor.

Padre Manuel Bernardes

Antônio José da Silva, “o Judeu” (1705-1739)
Depois de Gil Vicente, o teatro entrou em decadência em Portugal. Foi preciso esperar até o Barroco para que Antônio José da Silva alterasse esse quadro. Brasileiro, de uma família de cristãos-novos, aos oito anos foi para Lisboa. Acusando-o de judaísmo, a Inquisição o condena a morrer degolado e queimado. Suas comédias, nas quais utilizava bonecos (títeres ou marionetes), eram por ele chamadas de óperas, pois se faziam acompanhar de música e canto. Ele sofreu influência de Gil Vicente, da comédia clássica e do teatro francês, italiano e espanhol da época. A grande inovação foi ter escrito suas peças em prosa. Guerras do Alecrim e Manjerona é sua obra mais conhecida. A vida desse poeta foi tema da peça de Gonçalves de Magalhães, que inaugurou o teatro brasileiro. Antônio José ou O Poeta e a Inquisição.
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Sóror Mariana Alcoforado (1640-1723)
Religiosa portuguesa apaixonada por um general francês que serviu em Portugal, Sóror Mariana revela em suas Cartas Portuguesas a bipolaridade barroca: o aspecto racional (que lhe diz para esquecer o amante) e a súplica sentimental para que ele volte. Constate essa afirmação no seguinte trecho: Tua injustiça e ingratidão são demais. Mas ficava desesperada se disso te proviesse qualquer dano, pois antes quero que não recebas castigos, do que ver-me eu vingada. Resisto a todas as mostras que em demasia me convencem de que me não estimas já, e sinto mais vontade de entregar-me cegamente à paixão do que às razões que me dás de me lembrar do teu pouco caso.
(Sóror Mariana, Alcoforado. In: Mariana Alcaforado – Cartas. Rio de Janeiro: Agir, 1962)

Cartas Portuguesas virou peça de teatro no início da década de 1990. Uma das atrizes que participou da peça foi Carla Camurati, que alguns anos mais tarde dirigiu o filme Carlota Joaquina, sátira da vida da corte portuguesa no Brasil

Frei Luís de Sousa (1555- 1632)
Sua obra mais importante é Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires. Ficou famoso, no entanto, pelos lances trágicos de sua vida que deram material ao romântico Almeida Garrett para a peça Frei Luís de Sousa.
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Manuel de Sousa Coutinho (seu nome de batismo) casou-se com D. Madalena Vilhena, viúva de D. João de Portugal, supostamente morto na batalha de Alcácer-Quibir. Tiveram uma filha. No entanto, D. João não morrera e, ao retornar a Portugal, a filha do casal morre. Esse fato é visto como castigo pelo casamento adúltero. Madalena e Manuel decidem, então, entrar para o convento. No Barroco português destacam-se ainda: 1) Arte de Furtar: obra anônima publicada em 1652. Trata-se de uma sátira social da época de D. João IV. Denuncia a corrupção geral no alto funcionalismo e na burguesia financeira. 2) Fênix Renascida: importante antologia da poesia seiscentista portuguesa. Em cinco volumes, reúne poesias de autores cultistas e conceptistas. Os Anais de D. João III foram publicados em 1844 de forma incompleta já que foi obra póstuma. Seu manuscrito foi considerado perdido durante muito tempo, até que Alexandre Herculano o localizou e o fez publicar, em 1844. Da obra, selecionou-se um trecho de um capítulo da primeira parte, intitulado “Guerra da África. Capitães: em Tanger D. Duarte de Menezes; em Arzila Antônio da Silveira”: É caso digno de ficar em lembrança o que em um dia destes sucedeu a D. Jorge de Noronha com o valente Amelix. Estava D. Jorge doente de sezões: não consentiu o conde que cavalgasse, por muito que o desejou, por se lhe não agravar o mal. Saiu o conde deixando-o na cama, e ficando acompanhado do médico; mas ele disse ao médico que se houvesse repique não haveria febre nem frio que lhe tolhesse acudir ao campo. O que sendo ouvido pelo médico, lhe aconselhou que, pois assim o determinava, seria melhor irem-se ambos passeando devagar até o facho, que não depois que repicassem, correndo. Pareceu bem a D. Jorge a razão; mandou-lhe dar um dos seus cavalos e foram-se ambos devagar, caminho do facho.

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Não chegavam bem às tranqueiras quando o facheiro, gritando quando podia, deixou cair o facho, e vindo-se pera a vila, disse a D. Jorge que as atalaias do Corvo vinham com pressa demandar o vale; porque sete ou oito mouros os vinham atalhando. Apertou D. Jorge as pernas ao cavalo e foi-se correndo pera onde o facheiro dizia, senão quando, chegado à tranqueira de baixo, viu um mouro abraçado com o atalaia, que ao parecer trabalhava como um luta polo cativar e tomar vivo, e ele forcejava por se defender conquanto estava cercado de outros sete ou oito mouros. Saiu D. Jorge fora da tranqueira e bradou-lhe dizendo: – Larga! Larga! E pondo a lança em um dos mouros que o veio receber deu com ele em terra e foi-se aos que estavam abraçados; e não por ofender ao cristão largou a lança e levando da espada deu uma boa ferida póla cabeça ao mouro, que foi causa que, sentiuse ferido, largou o que quisera cativar; e com um golpe de treçado lhe cortou meia mão e juntamente lhe fez uma grande ferida na cabeça. Porém assim ferido teve lugar de se salvar e recolher à tranqueira, ficando D. Jorge e o doutor e outros dois cavaleiros que lhe acudiram pelejando com os mouros até que o conde os veio recolher, sentido de ver D. Jorge, que deixara ardendo em febre, misturado com os mouros. E como ainda não sabia a boa sorte que tinha feito, lhe disse com aspereza: – Pera fazerdes desmancho ficastes na vila. E passando por ele disse pera Antônio da Silveira: – Alcançai-me, senhor, todo homem que virdes sair trás mim, que vou por este doudo. Dizia-o por D. João de Sande que, invejoso de D. Jorge, se ia metendo nos mouros desalembradamente no melhor cavalo que havia em África. E o conde ia tão raivoso que nenhum homem achou diante de si que não fizesse debruçar sobre o pescoço do cavalo às contoadas.*
(Anais de S. João III, pref. e notas de M. Rodrigues Lapa, 2 vols., Lisboa: Sá da Costa, 1938, vol. I, liv. III, Cap. V., pp. 211-212)

* facho = facho de luz, farol; levando da espada = levantando a espada; desmancho = desordem, indisciplina; contoadas = pancadas com o “conto”, cabo da lança.

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Questões de Vestibular
1 (Centec-BA) Não é característica do Barroco a: a) preferência pelos aspectos científicos da vida. b) tentativa de reunir, num todo, realidades contraditórias. c) angústia diante da transitoriedade da vida. d) preferência pelos aspectos cruéis, dolorosos e sangrentos do mundo, numa tentativa de mostrar ao homem a sua miséria. e) intenção de exprimir intensamente o sentido da existência, expressa no abuso da hipérbole. 2 (FCMSC-SP) A preocupação com a brevidade da vida induz o poeta barroco a assumir uma atitude que: a) descrê da misericórdia divina e contesta os valores da religião. b) desiste de lutar contra o tempo, menosprezando a mocidade e a beleza. c) se deixa subjugar pelo desânimo e pela apatia dos céticos. d) se revolta contra os insondáveis desígnios de Deus. e) quer gozar ao máximo seus dias, enquanto a mocidade dure. 3 (Positivo-PR) O estilo rebuscado que retrata os dilemas entre os apelos de ordem espiritual e os atrativos de ordem material, mais o exagero no emprego dos recursos estilísticos, são características da escola: a) barroca b) arcádica c) romântica d) realista e) modernista 4 (Sta. Casa-SP) “Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negra.” 5 (Positivo-PR) Preencha as lacunas com a alternativa que completa adequadamente o texto:
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“O ..., formalismo que se distingue pelo jogo de palavras, de construções e de imagens; e o ... em que a temática se torna sutil pelo jogo das idéias e dos conceitos dão origem ao chamado ... . a) universalismo – individualismo – classicismo b) cultismo – conceptismo – barroco c) subjetivismo – sentimentalismo – romantismo d) objetivismo – universalismo – realismo e) idealismo – pragmatismo – simbolismo 6 (F. C. Chagas-BA) Assinale o texto que, pela linguagem e pelas idéias, pode ser considerado como representante da corrente barroca. a) “Brando e meigo sorriso se deslizava em seus lábios; os negros caracóis de suas belas madeixas brincavam, mercê do zéfiro, sobre suas faces... e ela também suspirava.” b) “Estiadas amáveis iluminavam instantes de céus sobre ruas molhadas de pipilos nos arbustos dos squares. Mas a abóbada de garoa desabava os quarteirões.” c) “Os sinos repicavam numa impaciência alegre. Padre Antônio continuou a caminhar lentamente, pensando que cem vezes estivera a cair, cedendo à fatalidade da herança e à influência do meio que o arrastavam para o pecado.” d) “De súbito, porém, as lancinantes incertezas, as brumosas noites pesadas de tanta agonia, de tanto pavor de morte, desfaziam-se, desapareciam completamente como os tênues vapores de um letargo...” e) “Ah! Peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! A vossa bruteza é melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras: eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória: eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento: eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade.” 7 (FUVEST-SP) A respeito do Padre Antônio Vieira, pode-se afirmar: a) Embora vivesse no Brasil, por sua formação lusitana não se ocupou de problemas locais. b) Procurava adequar os textos bíblicos às realidades de que tratava.
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c) Dada sua espiritualidade, demonstrava desinteresse por assuntos mundanos. d) Em função de seu zelo para com Deus, utilizava-O para justificar todos os acontecimentos políticos e sociais. e) Mostrou-se tímido diante dos interesses dos poderosos. 8 (UFMS) “Célebre como orador, epistológrafo e prosador em geral, conciliou muito bem os fundamentos de sua formação jesuítica com o estilo da época. Atingiu o máximo de virtuosidade nos sermões, carregados de alegorias e antíteses.” O autor e o estilo a que se refere o texto acima são: a) Pero Vaz de Caminha – classicista b) Pe. Antônio Vieira – Barroco c) Gregório de Matos – Barroco d) Pe. Antônio Vieira – Arcádico e) Gregório de Matos – Arcádico 9 (FUVEST) Texto para as questões A, B e C. “A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande... Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer.” a. Reescreva a frase grifada no texto, pondo no plural grande escândalo e fazendo as adaptações necessárias. b. Explique a diferença semântica entre as duas ocorrências da palavra mesma, grifadas no texto. c. Qual o autor do texto? Em que época ele viveu?
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10 (PUC-SP) “Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários, e depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar.” (Padre Antônio Vieira) Este trecho do Sermão da Sexagésima, de autoria do Padre Antônio Vieira, aponta as partes que compõem o discurso argumentativo e ilustra o Barroco, em seu estilo conceptista. – Em que consiste este estilo? Exemplifique-o com o texto anterior. 11 (UM-SP) Aponte a alternativa incorreta sobre o Sermão da Sexagésima: a) O autor desenvolve dialeticamente a seguinte tese: “A semente é a palavra de Deus”. b) O estilo é Barroco e privilegia a corrente conceptista de composição. c) O orador discute no sermão cinco causas possíveis que não permitiriam a entrada da palavra de Deus no coração dos homens. d) Vieira baseia-se em parábolas bíblicas, e sua linguagem se vale de estruturas retóricas clássicas. e) Pela sua capacidade de argumentação, Vieira consegue, neste sermão, convencer os indígenas a se converterem. 12 (FUVEST-SP) “Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair são os que se contentam com pregar na pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagarlhes-ão a semeadura: aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes
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de medir a semeadura, e hão-lhes de contar os passos. Ah! dia do juízo! Ah! pregadores! Os de cá, achar-vos-ei com mais paço; os de lá, com mais passos...” A passagem acima é representativa de uma das tendências estéticas típicas da prosa seiscentista, a saber: a) O Sebastianismo, isto é, a celebração do mito da volta de D. Sebastião, rei de Portugal, morto na batalha de Alcácer-Quibir. b) A busca do exotismo e da aventura ultramarina, presentes nas crônicas e narrativas de viagem. c) A exaltação do heróico e do épico, por meio das metáforas grandiloqüentes da epopéia. d) O lirismo trovadoresco, caracterizado por figuras de estilo passionais e místicas. e) O Conceptismo, caracterizado pela utilização constante dos recursos da dialética. 13 (FUVEST-SP) A respeito do Padre Antônio Vieira, pode-se afirmar: a) Embora vivesse no Brasil, por sua formação lusitana não se ocupou de problemas locais. b) Procurava adequar os textos bíblicos às realidades de que tratava. c) Dada sua espiritualidade, demonstrava desinteresse por assuntos mundanos. d) Em função de seu zelo para com Deus, utilizava-O para justificar todos os acontecimentos políticos e sociais. e) Mostrou-se tímido diante dos interesses dos poderosos. 14 (FEBA-SP) “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres... O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas que levam, de que eu trato, são os outros – ladrões de maior calibre e de mais alta esfera... Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de
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seu risco, estes, sem temor nem perigo; os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.” (Sermão do Bom Ladrão – Vieira) Em relação ao estilo empregado por Vieira neste trecho, pode-se afirmar: a) O autor recorre ao Cultismo da linguagem com o intuito de convencer o ouvinte e por isto cria um jogo de imagens. b) Vieira recorre ao preciosismo da linguagem, isto é, através de fatos corriqueiros, cotidianos, procura converter o ouvinte. c) Padre Vieira emprega, principalmente, o Conceptismo, ou seja, o predomínio das idéias, da lógica, do raciocínio. d) O pregador procura ensinar preceitos religiosos ao ouvinte, o que era prática comum entre os escritores gongóricos. 15 (FUVEST-SP) Sobre o estilo de Coelho Neto: “Pode-se mesmo dizer... que o seu maior compromisso é com a linguagem, presa à tradição de prosadores seiscentistas, donde o excessivo aportuguesamento do estilo.” (Antônio Cândido e J. Aderaldo Castello) É obra representativa da prosa seiscentista: a) Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente. b) Os Lusíadas, de Camões. c) Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano. d) Nova Floresta, de Manuel Bernardes. e) Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. 16 (VUNE-SP) “Ecce exiit qui seminat, seminare”. Diz Cristo, que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas faz também caso de sair. “Exiit”, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura, e hão-nos de contar os passos. O mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que despendeis, nem vos paga o que andais, Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é
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semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho, há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear, são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão: os que semeiam sem sair são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura: aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura, e hão-lhes de contar os passos. Ah dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-ei com mais paço; os de lá, com mais passos: “Exiit seminare”. O trecho acima transcrito pertence ao mais famoso sermão do Padre Antônio Vieira, o Sermão da Sexagésima. Os sermões de Vieira, além de obedecerem às regras próprias da arte sermonária, pertencem igualmente à literatura. Justamente a prosa de Vieira é um dos mais belos exemplos da literatura da época, que se caracterizava, de um lado, pela utilização de imagens sonoras e coloridas, metáforas audaciosas, em suma, por um luxo verbal dirigido aos sentidos; tudo isso tem o nome de cultismo. Por outro lado, a literatura empenhava-se em produzir um jogo de conceitos, analogias, trocadilhos, armadilhas semânticas que punham à prova a inteligência do leitor; a isso se dá o nome de conceptismo. Apesar das poucas linhas do texto transcrito, é possível identificar a época literária a que ele pertence e a que estética obedece, dentro das características acima indicadas. Assinale a alternativa que tem a resposta correta: a) Literatura medieval. Conceptismo. b) Literatura barroca. Conceptismo. c) Literatura romântica. Cultismo. d) Literatura romântica. Conceptismo. e) Literatura moderna. Conceptismo. 17 (CESCEA) Qual a escola característica da literatura portuguesa, ao tempo em que viveu o Padre Antônio Vieira:
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a) provençal b) dos poetas palacianos c) arcádica d) romântica e) gongórica 18 (CESCEA) A Época Seiscentista da Literatura Portuguesa caracterizou-se: a) pelo culto da antiguidade clássica. b) pelo desenvolvimento havido no teatro popular. c) por não ter existido nenhum grande orador ou grande historiador. d) pelo Gongorismo, isto é, pelo culto da forma retorcida e obscura. e) não sei. 19 (UF-RO) No fim do século XVI, as renovações culturais trazidas pelo Renascimento na Península Ibérica começaram a sofrer uma evolução, que deu origem a um novo estilo literário. Assinale a alternativa correspondente ao estilo literário originado em conseqüência do fato acima expresso: a) Realismo b) Arcadismo c) Barroco d) Romantismo e) Modernismo 20 (FUVEST-SP) O bifrontismo do homem, santo e pecador; o impulso pessoal prevalecendo sobre normas ditadas por modelos; o culto do contraste; a riqueza de pormenores – são traços constantes da: a) composição poética parnasiana b) poesia simbolista c) produção poética arcádica de inspiração bucólica d) poesia barroca e) poesia condoreira
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As questões de números 21 e 22 baseiam-se no seguinte texto: “Tão inteiramente conhecia Cristo a Judas, como a Pedro e aos demais; mas notou o Evangelista com especialidade a ciência do Senhor, em respeito de Judas, porque em Judas mais que em nenhum dos outros campeou a fineza do seu amor. Ora vede: Definindo S. Bernardo o amor fino, diz assim: Amor non quaerit causam, nec fructum: “O amor fino não busca causa nem fruto.” Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e amor fino não há de ter por quê, nem para quê. Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, amo, ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino. E tal foi a fineza de Cristo, em respeito de Judas, fundada na ciência que tinha dele e dos demais discípulos.” (Pe Antônio Vieira. In: Vieira, Sermões. 4. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1966, p. 64.) 21 (VUNESP-SP) O Padre Antônio Vieira (1608-1697), em cuja prosa oratória coexistem os princípios barrocos do cultismo e do conceptismo, é considerado um dos maiores oradores de todos os tempos, em língua portuguesa. Em seus sermões, se serve freqüentemente do simbolismo das Sagradas Escrituras para desenvolver argumentos de raciocínio complexo, mas sempre de modo claro e preciso. No fragmento acima transcrito, Vieira aborda fundamentalmente o tema do amor. Releia o texto dado e, a seguir, responda: Quantas e quais são as espécies de amor, segundo Vieira? 22) (VUNESP-SP) Verifique no texto as menções feitas por Vieira ao amor de Cristo pelos apóstolos e, a seguir, justifique como se dá o amor de Cristo a Judas, de acordo com a argumentação de Vieira.

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ARCADISMO (1756-1825)
Reprodução

Equilíbrio, clareza e racionalidade. Este edifício, construído em 1792, em Washington, Estados Unidos, revela a retomada desses valores clássicos.

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ARCADISMO, NEOCLASSICISMO OU SETECENTISMO:

século XVIII

CONTEXTO HISTÓRICO: Iluminismo
independência dos Estados Unidos Revolução Francesa Primeira Revolução Industrial liberalismo econômico ascensão política da burguesia expulsão dos jesuítas de Portugal

CARACTERÍSTICAS:

fundação de arcádias novo interesse pelos clássicos novo predomínio da razão restabelecimento do equilíbrio simplicidade desprezo dos exageros barrocos inutilia truncat aurea mediocritas fugere urbem Bocage Antônio Dinis da Cruz e Silva Nicolau Tolentino Filinto Elísio Marquesa de Alorna

AUTORES:

Barroco
• • •

Arcadismo
• • •

rebuscamento formal exagero, contrastes tensão: racionalidade/ emotividade

culto da simplicidade (intilia truncat) equilíbrio, harmonia racionalismo

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ARCADISMO (1756-1825)
Arcadismo, Neoclassicismo ou Setecentismo foi um movimento literário iniciado em 1756, com a fundação da Arcádia Lusitana, e encerrado em 1825, com a publicação do poema Camões, de Almeida Garrett. Surgido numa época de modificações políticoeconômico-sociais radicais, o Arcadismo insurgiu-se contra os exageros barrocos e propôs uma volta aos ideais clássicos de arte e vida. Em Portugal foi um período marcado por intensa atividade crítica e doutrinária em prosa e no qual, literariamente, floresceu tãosomente a poesia.
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Arcádia Lusitana (símbolo).

A Arcádia é uma região montanhosa do Peloponeso, Grécia. Um dos seus montes, o Mênalo, era celebrado pelos poetas por ser consagrado a Apolo, deus da inspiração e condutor das musas. A Arcádia era também uma região de pastores.

Contexto Histórico
Na Europa, sobretudo na França – onde as academias se mutiplicaram –, toda a segunda metade do século XVIII foi marcada pelo espírito científico, baseado na razão, na observação e na experimentação. Os resultados da revolução técnica
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iniciada no Renascimento apareceram nesse momento, quando a burguesia, finalmente, se afirmou como força não só econômica, mas também politicamente dominante. O homem voltou a acreditar na sua capacidade de modificar a natureza, agora, pela técnica: o uso da energia a vapor na indústria têxtil inglesa, invento fundamental da Primeira Revolução Industrial, definiu o papel da máquina na produção. Ao lado desse progresso técnico, a física de Newton, o empirismo de Locke e as idéias filosóficas dos enciclopedistas* propiciaram o desenvolvimento do Iluminismo europeu, que acreditava no poder da ciência e na razão que havia de penetrar as trevas da superstição e fazer ver a desordem do mundo, para que a sociedade, enfim, se reestruturasse segundo critérios racionais. Os autores que mais influenciaram o período foram: • Montesquieu: no seu livro, O espírito das leis, propõe a divisão do governo em três poderes — executivo, legislativo e judiciário; • Rousseau: autor de Discurso sobre a origem da desigualdade dos homens, O contrato social, Emílio, ele defende a teoria do “bom selvagem”, segundo a qual o homem nasce bom e a sociedade o corrompe, portanto, só a volta à natureza pura é garantia de felicidade (essa teoria será a base da literatura indianista brasileira); • Voltaire: um dos ideólogos do despotismo esclarecido.

* Principal expressão do pensamento iluminista, a Enciclopédia, coordenada por d´Alembert, Diderot e Voltaire e publicada entre 1750 e 1780, traduzia a nova concepção de organização social e política baseada no culto à razão, ao progresso, às ciências.

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O compositor brasileiro Paulinho da Viola canta um samba intitulado “Chico Brito”, de Wilson Batista e Afonso Teixeira, que incorpora o pensamento rousseauniano: “Quando menino esteve na escola era aplicado, tinha religião quando jogava bola era escolhido para capitão mas a vida tem os seus reveses diz sempre, Chico, defendendo teses se o homem nasceu bom e bom não se conservou a culpa é da sociedade que o transformou.” A burguesia dominava o comércio ultramarino e estabelecimentos bancários e lutava contra a decadente aristocracia hereditária e fundiária. Os déspotas esclarecidos, soberanos educados dentro dessa nova mentalidade, protegiam os interesses da burguesia e foram agentes do Iluminismo. Toda essa efervescência preparou o campo não só para a independência dos Estados Unidos (1776) e de vários outros países latino-americanos, como também para a Revolução Francesa (1789). Em Portugal, no reinado de D. João V (1707 a 1750), os contatos com os outros países da Europa intensificaram-se pela ação do grupo de pensadores afugentados pela Inquisição. Luís Antônio Verney propôs, em seu livro Verdadeiro método de estudar, a reforma do ensino superior, segundo os princípios iluministas. No reinado do déspota esclarecido D. José I (1750 a 1777), sob a condução de seu primeiro-ministro – o marquês de Pombal –, cessou a perseguição aos cristãos-novos; em 1755, depois do terremoto, Lisboa foi reconstruída segundo arrojadas linhas arquitetônicas; em 1759, os jesuítas foram expulsos de Portugal e o ensino tornouse leigo; em 1779, foi fundada a Academia de Ciências de Lisboa.
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Manifestações ArtÍsticas
A preocupação em recuperar a arte clássica, recém-revelada pelas escavações de Herculano e Pompéia, reflete-se na arquitetura e na escultura: simetria, simplicidade, equilíbrio e sobriedade, qualidades que se opunham frontalmente ao Barroco. A estátua Ebe, do escultor Canova, ilustra esse retorno à Antiguidade clássica. Embora a pintura não imite os clássicos (mesmo porque não havia muitas referências da Antigüidade), todo tema deveria inspirar-se na história e na mitologia clássicas. O Juramento dos Horácios, de David, inaugura o Neoclassicismo. Observe a imobilidade escultórica das figuras, o retorno à sobriedade e à severidade clássicas.
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Ebe, de Canova.

O juramento dos Horácios, de David.

Literatura
Em 1756, Antônio Dinis da Cruz e Silva fundou a Arcádia Lusitana ou Ulissiponense, que definiu o Arcadismo como escola literária. Os sócios da Arcádia deviam adotar pseudônimos pastoris e tinham por divisa o dístico Inutilia truncat (corta o inútil), isto é, os exageros, o rebuscamento e a extravagância barrocos deveriam ser cortados para a literatura voltar ao equilíbrio dos clássicos. Inspirados em Horácio, procuravam nas suas poesias seguir alguns princípios:
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• fugere urbem (fugir da cidade): influenciados pela teoria do “bom selvagem” de Rousseau, os árcades voltavamse para a natureza, vista como lugar de perfeição, para aí levar uma vida simples, bucólica, pastoril; • carpe diem (aproveita o dia): postura comum no Arcadismo, que consiste em aproveitar ao máximo o momento presente; • aurea mediocritas (áurea mediocridade): exaltação da simplicidade, do equilíbrio conseguido em contato com a natureza. Observe como se manifestam esses princípios neste soneto em que Bocage enaltece a simplicidade da vida no campo: Doçura da vida campestre Nos campos o vilão* sem sustos passa, * vilão: habitante da vila, do campo Inquieto na corte o nobre mora; O que é ser infeliz aquele ignora, Este encontra nas pompas a desgraça; Aquele canta e ri, não se embaraça Com essas cousas vãs que o mundo adora; Este (oh! cega ambição!) mil vezes chora, Porque não acha bem que o satisfaça. Aquele dorme em paz no chão deitado; Este no ebúrneo leito precioso Nutre, exaspera velador cuidado. Triste, sai do palácio majestoso: Se hás de ser cortesão, mas desgraçado, Antes sê camponês e venturoso.
(Bocage. Poesias. Lisboa: Sá da Costa, 1943)

As características fundamentais do Arcadismo são: 1) volta aos modelos clássicos, com a retomada da mitologia como elemento estético;
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2) simplicidade como forma de reação aos exageros da linguagem barroca; 3) poesia bucólica, pastoril; 4) fingimento poético: uso de pseudônimos pastoris. Veja como todas elas estão presentes neste outro soneto de Bocage, cuja linguagem é simples e sóbria: Convite a Marília* XVI Já se afastou de nós o Inverno agreste Envolto nos seus úmidos vapores; A fértil Primavera, a mãe das flores O prado ameno* de boninas veste: Varrendo os ares o sutil nordeste Os torna azuis; as aves de mil cores Adejam entre Zéfiros*, e Amores, E toma o fresco Tejo a cor celeste: Vem, ó Marília, vem lograr comigo Destes alegres campos a beleza, Destas copadas árvores o abrigo: Deixa louvar da corte a vã grandeza: Quanto me agrada mais estar contigo Notando as perfeições da Natureza!
(Bocage. Poesias. Op. cit.) * pseudônimo pastoril

* paisagem bucólica

* referências mitológicas

Os sonetos de Bocage que transpõem poeticamente a experiência do autor na região colonial de Goa apresentam alguns traços semelhantes aos dos poemas em que, anteriormente, Gregório de Mattos enfocara a sociedade colonial da Bahia. Assim, a presunção da superioridade, crítica da vaidade e preconceito de cor são traços comuns a ambos os poetas.

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Bocage (1765- 1805)

Principal autor do Arcadismo, Manuel Maria Barbosa du Bocage participou da Nova Arcádia com o Bocage pseudônimo árcade de Elmano Sadino (Elmano é o anagrama quase perfeito de Manuel e Sadino refere-se ao rio Sado, que passa pela sua cidade natal). Bocage levou uma vida agitada, boêmia e infeliz, muito semelhante à de Camões, que considerava seu mestre. Existem dois Bocages: o satírico e o lírico. Sua Muitos autores tomam os rios obra satírica, às vezes da terra natal como tema poétigrosseiramente obscena e co. Camões celebrou os rios Monerótica, critica a nobreza dego e Tejo; Bocage cantou o Tejo decadente, o clero e seus e o Sado, rio que passa por sua contemporâneos, mas é a terra natal: Setúbal. parte menos importante de sua produção. A mais importante é a lírica, em que se percebem duas fases: 1) a árcade: nela Bocage segue as convenções neoclássicas: bucolismo, postura pastoril, apuro formal; 2) a pré-romântica (novidade para a época): aqui o poeta oscila entre a razão e o sentimento, imprime um tom confessional a seus poemas, valoriza o sentimentalismo, experimenta o gosto pela noite e encara a morte como solução para seus problemas, antecipando, assim, a geração ultra-romântica. Perceba essas características neste soneto:
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Ó retrato da morte, ó Noite amiga Por cuja escuridão suspiro há tanto! Calada testemunha de meu pranto, De meus desgostos secretária antiga! Pois manda Amor, que a ti somente os diga, Dá-lhes pio* agasalho no teu manto; Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto Dorme a cruel, que a delirar me obriga: E vós, ó cortesãos da escuridade, Fantasmas vagos, mochos piadores, Inimigos, como eu, da claridade! Em bandos acudi aos meus clamores; Quero a vossa medonha sociedade, Quero fartar meu coração de horrores.
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* piedoso

Antônio Dinis da Cruz e Silva (1731-1799)
Fundador da Arcádia Lusitana, adotou o pseudônimo de Elpino Nonacriense. De sua obra destaca-se o poema herói-cômico O hissope, em que ridiculariza a mentalidade escolástica, o verso gongórico e a sociedade nobre e clerical.
Antônio Dinis da Cruz e Silva

Famoso por sua obra satírica, Tolentino analisa com humor fino a sociedade burguesa de seu tempo. Seu humor, no entanto, não tem uma intenção moralista, apenas constata o ridículo das situações e das pessoas que nelas atuam.
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Nicolau Tolentino

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Nicolau Tolentino (1740- 1811)

Os sonetos seguintes exemplificam a veia satírica de Nicolau Tolentino. A UM LEIGO ARRÁBIDO* VESGO DESPEDIDO DA MESA DE S. C. P. SILVA, POR TOMAR A MELHOR PÊRA DA MESA. O vesgo monstro que côa gente ralha E de manhã a todos atravessa, A cuja hirsuta sórdida cabeça Nunca chegou juízo, nem navalha; Que os gázeos olhos pela mesa espalha Por ver se há mais comer que tire, ou peça, Entrando nele com tal fome e pressa Qual faminto frisão em branda palha; Por crimes de alta gula e pouco siso, De mesa bem servida, mas severa, Foi um dia lançado de improviso. Hoje chorando o seu perdão espera: Perderam dois glutões o paraíso, O antigo por maçã, este por pêra.

O COLCHÃO DENTRO DO TOUCADO Chaves na mão, melena desgrenha, Batendo o pé na casa, a mãe ordena, Que o furtado colchão, fofo, e de pena, A filha o ponha ali, ou a criada: A filha, moça esbelta, e aparaltada, Lhe diz côa doce voz, que o ar serena: “Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena; Olhe não fique a casa arruinada:”
* arrábido = frade do convento da Serra da Arrábida (Setúbal).

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“Tu respondes assim? Tu zombas disto? Tu cuidas que por ter pai embarcado, Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto, Arremete-lhe à cara e ao penteado; Eis senão quando (caso nunca visto!) Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

DEITANDO UM CAVALO À MARGEM Vai, mísero cavalo lazarento, Pastar longas Campinas livremente; Não percas tempo, enquanto to consente De tão magros cães faminto ajuntamento: Esta sela, teu único ornamento, Para sinal de minha dor veemente, De torto prego ficará pendente, Despojo inútil do inconstante vento: Morre em paz; que em havendo algum dinheiro, Hei de mandar, em honra de teu nome, Abrir em negra pedra este letreiro: “Aqui, piedoso entulho os ossos come Do mais fiel, mais rápido sendeiro, Que fora eterno a não morrer de fome.”
(Obras Completas, ens. biografia-crit. por José de Torres. Lisboa: Castro, Irmão & Cia., 1861, pp. 26, 39 e 51.)

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Seu pseudônimo arcádico era Filinto Elísio. Seguiu à risca os postulados neoclássicos e refletiu claramente a influência do Iluminismo quando fez a divulgação da física Padre José Agostinho de Newton. Em seu poema épico “O Orien- de Macedo te”, pretendeu corrigir Camões, parafraseando Os Lusíadas, mas sem usar a mitologia.

Por suas viagens pela França, Alemanha, Áustria e Inglaterra, Leonor de Almeida, a marquesa de Alorna, foi uma das divulgadoras do Romantismo em Portugal. Sob o pseudônimo de Alcipe, escreveu poemas cuja temática (a morte, a noite, o sofrimento) antecipa esse movimento literário.

Marquesa de Alorna

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Marquesa de Alorna (1750-1839)

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Padre José Agostinho de Macedo (1734- 1819)

Questões de Vestibular
1 (Positivo-PR) “Magnífica idéia de banir da poesia o inútil adorno das palavras empoladas, conceitos estudados, freqüentes antíteses, metáforas exorbitantes e hipérboles sem modo, introduzindo em nossos versos o delicioso e apetecido ar de simplicidade.” Este excerto pode muito bem representar um resumo das intenções do: a) Modernismo d) Arcadismo b) Barroco e) Romantismo c) Simbolismo 2 (Mackenzie-SP) Aponte a alternativa cujo conteúdo não se aplica ao Arcadismo: a) Desenvolvimento do gênero épico, registrando o início da corrente indianista na poesia brasileira. b) Presença da mitologia grega na poesia de alguns poetas desse período. c) Propagação do gênero lírico, em que os poetas assumem a postura de pastores e transformam a realidade num quadro idealizado. d) Circulação de manuscritos anônimos de teor satírico e conteúdo político. e) Penetração da tendência mística e religiosa, vinculada à expressão de ter ou não ter fé. 3 (ABC-SP) “...”, um dos termos usuais para caracterizar o estilo da época se prende, por um lado, à tendência a imitar os clássicos franceses, comum na Europa de setecentos, e, no que se refere à literatura portuguesa e brasileira, identificaria a preocupação de combater o Cultismo, imitar gregos e romanos, como Virgílio, Horácio, Teócrito e Anacreonte, tomar como modelo as atitudes literárias do século XVI. A lacuna seria corretamente preenchida por: a) Barroco d) Parnasianismo b) Neoclassicismo e) Simbolismo c) Romantismo
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4 (FUVEST-SP) “Por fim, acentua o polimorfismo cultural dessa época o fato de se desenrolarem acontecimentos historicamente relevantes, como a Inconfidência Mineira e a transladação da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro.” (Massaud Moisés) A época histórica a que se refere o crítico é a do: a) Simbolismo d) Realismo b) Arcadismo e) Romantismo c) Parnasianismo 5 (CESESP-PE) I. “O momento ideológico, na literatura do Setecentos, traduz a crítica da burguesia culta aos abusos da nobreza e do clero.” II. “O momento poético, na literatura do Setecentos, nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza e os afetos comuns do homem.” III. “Façamos, sim, façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos” A característica que está presente nestes versos é o carpe diem (gozar a vida). a) Só a proposição I é correta. b) Só a proposição II é correta. c) Só a proposição III é correta. d) São corretas as proposições I e II. e) Todas as proposições são corretas. 6 (F. Objetivo-SP) Ele é considerado um dos três maiores sonetistas da língua portuguesa, ao lado de Camões e de Antero de Quental. Sua poesia lírica, extremamente pessoal, é marcada por um rebelde libertarismo emocional, às vezes violento, às vezes calmo. Sua vasta obra poética apresenta dois aspectos fundamentais: o satírico e o lírico; mas é no lírico que o poeta se realiza plenamente e fica famoso. Foi, sem dúvida, o maior poeta do século XVIII português. Seu pseudônimo arcádico é Elmano Sadino. Trata-se de:
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a) Cruz e Silva b) Domingos Caldas Barbosa c) Filinto Elíseo

d) Almeida Garrett e) Bocage

7 (FUVEST-SP) “...tem no temperamento a exaltação que há de caracterizar os românticos, e foge, mais de uma vez, aos temas literários da Arcádia, mas obedece aos princípios da estética expressional do Neoclassicismo setecentista...” (Hernâni Cidade) a) Camilo Pessanha d) João de Deus b) Antero de Quental e) Barbosa du Bocage c) Bernardim Ribeiro 8 (FUVEST-SP) “E em arte aos de Minerva se não rendem Teus alvos, curtos dedos melindrosos.” Indique a característica presente nos versos acima, de autoria de Bocage: a) uso de pseudônimos d) predominância de subjetivismo b) rompimento com os clássicos e) tema pastoril c) recurso à mitologia greco-romana 9 (FUVEST-SP) “Razão feroz, o coração me indagas, De meus erros a sombra esclarecendo, E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo De agudas ânsias venenosas chagas:” O Pré-romantismo é uma fase de transição do Arcadismo para o Romantismo. Aponte no fragmento deste soneto de Bocage uma característica árcade e outra romântica. 10 (UM-SP) “Olha, Marília, as flautas dos pastores Que bem que soam, como estão cadentes! Olha o Tejo, a sorrir-se! Olha, não sentes Os Zéfiros brincar por entre as flores?

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Vê como ali beijando-se os Amores Incitam nossos ósculos ardentes! Ei-las de planta em planta as inocentes, As vagas borboletas de mil cores!” Observando as características arcádicas que se apresentam nos quartetos acima, pode-se afirmar corretamente que são da autoria de: a) Cláudio Manuel da Costa b) Basílio da Gama c) Camões d) Tomás Antônio Gonzaga e) Bocage 11 (CESCEM) Movimento estético preocupado com a articulação da cultura e das virtudes civis, situa a natureza como pedra de toque da harmonia do mundo e faz, do racionalismo e do combate a excessos sentimentais, pólos de seu ideário. Trata-se do: a) Barroco d) Simbolismo b) Arcadismo e) Modernismo c) Romantismo 12 (CESCEM) Movimento estético que gravita em torno de três geratrizes. Natureza, Verdade e Razão, buscando fazer da literatura a “expressão racional da natureza para, assim, manifestar a verdade”. Trata-se do: a) Barroco d) Neoclassicismo b) Romantismo e) Modernismo c) Simbolismo 13 (UF-RO) Os árcades tiveram suas inspirações na sobriedade dos poetas clássicos, daí o nome Neoclassicismo. Onde passaram a valorizar: a) o bucolismo, a prosa e o subjetivismo burguês. b) a razão, a simplicidade e a disciplina. c) o bucolismo, o teocentrismo e a razão. d) A prosa, a linguagem rebuscada e o subjetivismo burguês. e) Antítese, a razão e a simplicidade.
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14 (OSEC) A ordem arcádica “Inutilia truncat” ‘é de inspiração: a) horaciana c) platônica b) aristotélica d) socrática 15 (UF-PA) Texto 1 “Queres que fuja de Marília Bela, Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo É carpir, delirar, morrer por ela” Texto 2 “Musa, não cantes bárbara proeza De um braço audaz, de um coração tirano: Não celebres o undívago troiano, Pérfido à tíria, mísera princesa” O lirismo dos dois trechos acima se orienta pelo academicismo do século XVIII. Seu autor é a) Antônio Nobre d) Luís de Camões b) Almeida Garrett e) Gregório de Matos Guerra c) Barbosa du Bocage 16 (UF-PA) “Outro Aretino fui... A santidade Manchei... Oh!, se me creste, gente ímpia, Rasga meus versos, crê na eternidade” O autor destes versos é um dos maiores sonetistas da língua portuguesa, criador de textos marcados por subjetividade, confessionalismo, autolamentação, pastorialismo e ardente admiração a Luís de Camões. Pode-se compreender esse escritor integrado aos períodos: a) Barroco e Árcade d) Romântico e Parnasiano b) Árcade e Pré-romântico e) Parnasiano e Simbolista c) Pré-romântico e Romântico

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ROMANTISMO (1825-1865)

A liberdade conduzindo o povo, de Delacroix

A palavra de ordem do Romantismo é liberdade: do eu, dos povos, da arte.

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ROMANTISMO:

século XIX

CONTEXTO HISTÓRICO: triunfo da burguesia
popularização das artes liberalismo econômico Napoleão invade Portugal vinda da Família Real para o Brasil

CARACTERÍSTICAS:

individualismo subjetivismo fuga da realidade através do sonho da loucura da morte da natureza do tempo (retorno à Idade Média) 1o momento (influência neoclássica): Almeida Garrett Alexandre Herculano Antônio Feliciano de Castilho 2o momento (ultra-romantismo): Camilo Castelo Branco Soares de Passos 3o momento (transição para o Realismo): João de Deus Júlio Dinis

AUTORES:

Arcadismo
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Romantismo
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literatura de elite universalismo linguagem erudita mitologia pagã predomínio da razão regras e convenções

literatura aproxima-se do povo nacionalismo (folclore) linguagem popular religiosidade cristã domínio do sentimento liberdade de criação

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ROMANTISMO (1825-1865)
O Romantismo, em Portugal, inicia-se com a publicação do poema “Camões”, de Almeida Garrett, em 1825, e termina, em 1865, com a “Questão Coimbrã”, que deu início à estética realista. Durante os 40 anos de vigência, o Romantismo apresentou três fases: a primeira, cuja produção ainda refletia alguns valores neoclássicos; a segunda, em que as características românticas são levadas ao exagero; e a terceira, que representa uma transição para o Realismo.

Contexto Histórico
O século XIX assistiu a modificações radicais, conseqüência da Revolução Industrial, que provocou o aparecimento do proletariado concentrado nas grandes cidades, e da Revolução Francesa, que, com seu ideal de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, subverteu as relações sociais. O absolutismo deu lugar ao liberalismo. Como resultado, economicamente, instalou-se a livre concorrência e, politicamente, reforçou-se a liberdade individual. A burguesia triunfava. Capitalista e liberal, ela suscitou uma civilização materialista, desenvolveu o capitalismo comercial, controlou a política. O dinheiro era rei, por isso a geração jovem desenvolveu um desejo de evasão ou revolta contra esse materialismo que desembocou no Romantismo. Portugal viveu também esse clima, agravado pela invasão de Napoleão, que obrigou a Família Real, em 1808, a vir para o Brasil. Os portugueses viveram um moDom Pedro IV, de Portugal, é o mento caótico: foram mesmo D. Pedro I, do Brasil. Aqui era governados pelos in- um conservador; lá, um liberal que asgleses, que lá comba- sume a luta contra os conservadores, teram as tropas napo- liderados por seu irmão, Dom Miguel. leônicas; o Brasil tor187

nou-se independente; D. Miguel e D. Pedro IV (I do Brasil) lutaram pelo trono. Após a vitória de D. Miguel, houve uma violenta onda de emigração de intelectuais liberais. Esse fato propiciou o aparecimento de uma elite atualizada, pois achava-se em sintonia com as novidades européias.

Manifestações Artísticas
O Romantismo representou uma verdadeira revolução na concepção de vida e, por conseqüência, na arte. Rompeu com a tradição clássica e o culto da Antigüidade, com o racionalismo, com as convenções. A liberdade de criação, o individualismo, a emotividade, o exotismo e o nacionalismo foram a tônica na pintura e na música. Observe o fascínio romântico pelo exotismo presente neste quadro de Delacroix:
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Mulheres argelinas em seus aposentos, de Delacroix.

Na música, o aproveitamento de canções populares de seus países para óperas em miniatura manifestou-se nas obras de
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Schumann e Schubert. O polonês Frédéric Chopin buscou inspiração nas danças populares de sua terra para expressar suas paixões. Os noturnos de Chopin representam outra característica romântica em música: a sentimental atração pela noite. A arquitetura e a escultura, no entanto, sofreram pouca influência da nova estética, atendo-se ainda aos padrões neoclássicos.

Literatura
As origens do Romantismo remontam a dois países: 1) Alemanha: em fins do século XVIII, o movimento Sturm und Drang (tempestade e ímpeto) é responsável por uma onda européia de emotividade levada ao extremo. O sentimentalismo do Werther, romance de Goethe que conta os sofrimentos de um jovem que se mata por causa de um amor impossível, tornou moda na Europa o suicídio. 2) Inglaterra: Sir Walter Scott, autor de Ivanhoé, escrevendo romances históricos, iniciou a corrente de superstições e fantasmas. Lord Byron mostrou que a vida do artista confundia-se com a própria obra, ele é a expressão do ideal romântico: além de escrever poesia ultra-romântica, cheia de pessimismo, participou das lutas pela independência da Grécia. À França coube a tarefa de divulgar essas novas idéias. O surgimento de um público consumidor – sem educação literária, que ignorava os valores clássicos, as referências mitológicas, que preferia a linguagem mais simples e direta, os enredos romanescos, o sentimentalismo – determinou a profissionalização do escritor, que ganhou consciência do seu papel junto às massas, chegando a sentir-se algumas vezes um profeta, um condutor dos povos.

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Reagindo aos clássicos, os românticos revoltaram-se contra as regras, os modelos, defendendo a liberdade de criação. Quanto à forma, foi comum a utilização do verso livre (sem métrica nem estrofação) e do verso branco (sem rima). Quanto ao conteúdo, alguns temas, francamente opostos aos do Arcadismo, lhe são característicos: 1) sentimentalismo: o “eu” torna-se o centro do universo (egocentrismo). As razões do coração opõem-se ao racionalismo clássico; 2) supervalorização do amor (conseqüência do sentimentalismo): o amor foi encarado como o valor mais importante da vida em oposição àquele mais cultivado pela burguesia: o dinheiro. 3) mal-do-século: o poeta sentimental, que supervalorizava o amor, sentia-se frustrado e desajustado diante da realidade, o que gerava uma sensação de angústia, tédio, insatisfação, melancolia. 4) evasão: tentando encontrar saídas para esse estado de angústia, o romântico desenvolveu mecanismos de fuga da realidade: a) evasão no tempo: o romântico procurou as raízes da nacionalidade na Idade Média cavaleiresca e cristã e criou heróis nacionais; b) evasão no espaço: o romântico exalta a natureza, concebida como extensão do próprio “eu” — se o poeta é triste, o cenário natural também o é, com uma predileção pelas paisagens noturnas; c) a morte: essa foi a fuga mais radical, a solução definitiva de todos os conflitos. O Romantismo português apresentou três momentos: • primeiro momento: escritores ainda presos a alguns princípios neoclássicos, mas responsáveis pela introdução do
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Romantismo em Portugal: Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho. • segundo momento: superados os laços arcádicos, seguiuse o pleno domínio da estética romântica. São representantes de ultra-romantismo (romantismo levado ao exagero): Camilo Castelo Branco e Soares de Passos. • terceiro momento: caracterizou-se por um romantismo mais contido que anuncia a transição para o Realismo: João de Deus e Júlio Dinis.

Primeiro Momento
Almeida Garrett (1799-1854)
Na poesia de Garrett, introdutor do Romantismo em Portugal, existem três fases: a) a primeira, totalmente ligada ao Arcadismo, a que pertencem os textos da Lírica de Almeida Garret João Mínimo; b) a segunda, ainda não totalmente romântica, em que se encontram dois poemas narrativos. Em “Camões”, marco inicial do Romantismo, o poeta explorou os aspectos sentimentais, a vida pessoal do autor de Os Lusíadas. Em “D. Branca”, Garrett resgatou a história medieval portuguesa. c) a terceira revela um autor tipicamente romântico. Em Flores sem fruto e Folhas caídas misturam-se dor, angústia, sentimentalismo e sensualidade. Observe como, neste poema, seu lirismo fundamenta-se no desejo de excitar a sensualidade:
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Não te amo Não te amo, quero-te: o amar vem d´alma. E eu n´alma – tenho a calma, A calma – do jazigo. Ai! Não te amo, não. Não te amo, quero-te: o amor é vida E a vida – nem sentida A trago eu já comigo. Ai! Não te amo, não! Ai! Não te amo, não; e só te quero De um querer bruto e fero Que o sangue me devora, Não chega ao coração. Não te amo, és bela; e eu não te amo, ó bela. Quem ama a aziaga estrela Que lhe luz na má hora Da sua perdição? E quero-te, e não te amo, que é forçado, De mau feitiço azado Este indigno furor. Mas oh! Não te amo, não. E infame sou, porque te quero; Que de mim tenho espanto, De ti medo e terror... Mas amar!... não te amo, não.
(Obras. Porto: Lello & Irmão, 1963)

Além de poeta, Garrett foi o fundador do teatro nacional português. O nacionalismo está presente em duas peças que se baseiam no passado histórico:
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1) Um Auto de Gil Vicente é uma homenagem ao iniciador do teatro em Portugal; 2) Frei Luís de Sousa, ambientada no século XVII, conta o destino trágico (romântico!) desse autor barroco (ver o capítulo 5), além de referir-se ao mito de D. Sebastião e à batalha de Alcácer-Quibir. FREI LUÍS DE SOUZA Composta em três atos em prosa, e representada pela primeira vez em 1843 e publicada no ano seguinte, a tragédia Frei Luís de Souza gravita em torno da vida do prosador cujo nome lhe empresta o titulo. Como se sabe, Madalena de Vilhena e Manuel de Souza Coutinho haviam contraído núpcias certos de que D. João de Portugal, marido da primeira, desaparecera em Alcácer-Quibir em companhia de D. Sebastião. Entretanto, ele estava vivo e de regresso à casa, oculto sob os andrajos de um romeiro. Aterrados pela surpresa, colhidos em pecado, os cônjuges buscam ilibar-se do involuntário delito tomando hábito: durante a cerimônia, Maria de Noronha, única filha do casal, morre a seus pés. O fragmento que se vai ler corresponde a parte da cena XIV e à cena XV do ato II. JORGE (cortando a conversação) Bom velho, dissestes trazer um recado a esta dama: dai-lho já, que havereis mister de ir descansar. . . ROMEIRO (sorrindo amargamente) Quereis lembrar-me que estou abusando da paciência com que me tem ouvido? Fizestes bem, padre; eu ia-me esquecendo. . . estou tão velho e mudado do que fui! MADALENA Deixai, deixai, não importa; eu folgo de vos ouvir; dir-me-eis vosso recado quando quiserdes... logo, amanhã...
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ROMEIRO Hoje há de ser. Há três dias que não durmo nem descanso, nem pousei esta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado... e morrer depois... ainda que morreste depois; porque jurei... faz hoje um ano... quando me libertaram, dei juramento sobre a pedra do Sepulcro de Cristo... MADALENA Pois éreis cativo em Jerusalém? ROMEIRO Era: não vos disse que vivi lá vinte anos? MADALENA Sim, mas... ROMEIRO Mas o juramento que dei foi que, antes de um ano cumprido, estaria diante de vós e vos diria da parte de quem me mandou... MADALENA E quem vos mandou, homem? ROMEIRO Um homem foi, e um honrado homem... a quem unicamente devi a liberdade... a ninguém mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim. MADALENA Como se chama? ROMEIRO O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguém no cativeiro. MADALENA Mas enfim, dizei vós...
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Em seus romances, a importância do nacionalismo não foi menor. Ele incorporou o gosto pela tradição popular em O Arco de Sant´Anna, inspirado na Crônica de D. Pedro I, de Fernão Lopes. Em Viagens na Minha Terra, Garrett entremeia as peripécias da história de amor de Joaninha, Carlos e Georgina ao relato de uma viagem (que realmente fez) a Santarém. As viagens na minha terra estão para a prosa portuguesa assim como as Folhas Caídas estão para a poesia. Ambas denotam simplicidade, naturalidade e espontaneidade, características até então ausentes na literatura portuguesa. Almeida Garret, Eça de Queirós e Machado de Assis foram mestres de românticos e realistas na arte de substituir o empertigamento e a preconcepção estilística tradicional.

Alexandre Herculano (1810-1877)
Herculano foi o consolidador do romance histórico na literatura portuguesa. Em O Bobo retrata a época de emancipação do Condado Portucalense (século XII). Sob o título de Monásticon, reúnem-se dois romances: O Alexandre Herculano Monge de Cister, cuja ação se passa durante o reinado de D. João I, o Mestre de Avis, e Eurico, o Presbítero, O celibato clerical foi objeto de ampla discussão entre os autores portugueses e, também, entre os brasileiros. No Romantismo, Alexandre Herculano explora o tema em Eurico, o Presbítero e em O Monge de Cister. No Brasil, essas obras encontram eco no romance O seminarista, de Bernardo Guimarães.

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sua obra-prima, ambientada na época das lutas da Reconquista. Nesta obra, Herculano discute o celibato clerical. Leia o trecho final desse romance, quando é narrada a morte de Eurico, o cavaleiro misterioso, e o enlouquecimento de Hermengarda: duas soluções de conflito tipicamente românticas: Um contra três! – Era um combate calado e temeroso. O cavaleiro da Cruz parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dois Godos. Primeiro o velho Opas, depois Juliano caíram. Então, recuando, o cavaleiro cristão exclamou: “Meu Deus! Meu Deus! – Possa o sangue do mártir remir o crime do presbítero!” E, largando o franquisque, levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o para longe de si. Mugueiz, cego de cólera, vibrava a espada: o crânio do seu adversário rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do Sarraceno. Como tomba o abeto solitário da encosta ao passar do furacão, assim o guerreiro misterioso do Críssus caía para não mais se erguer!... Nessa noite, quando Pelágio voltou à caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a tranqüila, o mancebo adormeceu, também, perto dela, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhã, acordou ao som de canto suavíssimo. Era sua irmã que cantava um dos hinos sagrados que muitas vezes ele ouvira entoar na catedral de Tárraco. Dizia-se que seu autor fora um presbítero da diocese de Híspalis, chamado Eurico. Quando Hermengarda acabou de cantar, ficou um momento pensando. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem eriçar os cabelos, tão tristes, soturnas e dolorosas
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são elas: tão completamente exprimem irremediável alienação do espírito. A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.
(Eurico, o Presbítero. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1a- ed., 1907)

Essa preocupação em retratar a Idade Média já estava presente em Lendas e Narrativas, obra que contém contos e novelas. Em Harpa do Crente, cujo poema mais famoso é “A cruz mutilada”, encontra-se o melhor de sua produção lírica.

A cultura atual cultua o herói misterioso como o cavaleiro de Eurico. Zorro, cavaleiro negro que luta pela justiça, é exemplo no cinema, na tevê e nos quadrinhos. Batman troca o cavalo negro pelo Batmóvel e, em vez dos árabes, combate as tramas de seus rivais Pingüim e Coringa e da Mulher-Gato.

Conhecido por provocar a “Questão Coimbrã” (que deu início ao Realismo em Portugal), Castilho nunca se libertou da influência neoclássica. Seu valor reside tão-somente no apuro e elegância lingüísticos.

Antônio Feliciano de Castilho

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Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875)

Segundo Momento
Camilo Castelo Branco (1825-1890)

Sua vida afetiva foi um romance de folhetim. Órfão desde os 10 anos, Camilo Castelo Branco casou-se aos 15. Raptou uma outra moça (sua prima), com quem passou a viver; acusado de bigamia, foi preso. Sua primeira esposa e sua filha morreram. Camilo abandonou a prima. Apaixonou-se por uma poetisa e por uma freira. Conheceu Ana Plácido (casada com um rico comerciante). Ingressa num seminário. Saiu e passou a viver com Ana; ambos, acusados de adultério, foram presos (na prisão escreveu Amor de Perdição). Absolvidos, tiveram dois filhos com problemas de saúde. Casaram-se e passaram por dificuldades financeiras. Ana morreu. Cego, por causa da sífilis, Camilo suicidou-se. Camilo Castelo Branco foi o escritor mais fértil de Portugal: escreveu perto de 300 obras entre teatro, historiografia, poesia, epistolografia, polêmica e, sobretudo, prosa de ficção. Como soube interpretar o gosto do público, escreveu novelas passionais de fácil consumo, grande parte delas publicadas em folhetins dos jornais da época. Uma narrativa

A palavra novela vem do italiano novella, ou seja, pequenas histórias, como as de Boccaccio em seu Decameron. Em espanhol, o romance é chamado de novela; a nossa novela é chamada de novela corta; e o conto de cuento. Em inglês, novel é o termo usado para designar romance; short story para conto e long story para novela.

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linear, mas densa e objetiva, com poucas descrições e excesso de peripécias e sentimentalismo, abordando o conflito entre as razões do coração e as convenções sociais foram o segredo do seu sucesso. Em sua novela mais famosa, Amor de Perdição, Camilo conta o namoro de Teresa Albuquerque e Simão Botelho, cujas famílias, separadas por antigos motivos, não querem o namoro. Ela vai para o convento e Simão para o exílio. Ela e Simão morrem. Nesse trecho final da novela, Mariana, que era apaixonada por Simão (e fora, juntamente com uma mendiga, portadora das cartas dos amantes), atira-se com o cadáver do amado ao mar e morre. Conheça um trecho dessa novela: Viram-na um momento bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O comandante olhou para o sítio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no cordame o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que os marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondência de Teresa e Simão. Da família de Simão Botelho vive ainda em Vila-real de Trásos-Montes a senhora Dona Rita Emília da Veiga Castelo Branco, a irmã predileta dele. A última pessoa falecida, há 26 anos foi Manuel Botelho, pai do autor deste livro.”
(Amor de Perdição. São Paulo: Saraiva, Coleção Jabuti)

A QUEDA DUM ANJO Publicada primeiramente em folhetim, de 30 de abril a 12 de agosto de 1865, A Queda dum Anjo apareceu em volume em fins de dezembro do mesmo ano. Seu enredo consiste no seguinte: Calisto Elói, um fidalgo transmontano, quarentão e conversador, elege-se deputado e abandona sua aldeia por Lisboa. Ali, vestido de modo anacrônico e defendendo idéias retrógradas, é posto em ridículo. Em breve, porém, vai impondo o seu
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feitio pessoal ao mesmo tempo que vai cedendo às tentações da cidade grande, que culminam quando se apaixona perdidamente por sua prima Ifigênia. Resultado: moderniza-se no falar e no trajar, entrega-se ao luxo, viaja pelo estrangeiro e termina por bandearse para a política dominante, esquecido de sua filiação às hostes oposicionistas. Em compensação, sente-se feliz e realizado. Quanto à sua mulher, Teodora, que ficara vegetando na província, ligase a um primo apenas interessado em suas posses. Baixa o pano.

Soares de Passos (1826-1860)
De temperamento sentimentalista, foi um dos mais autênticos poetas ultra-românticos portugueses. Morreu tuberculoso aos 33 anos. Neste trecho da balada «O noivado do sepulcro», aspectos mórbidos, tipicamente românticos, estão presentes: O NOIVADO DO SEPULCRO Balada Vai alta a lua! Na mansão da morte Já meia-noite com vagar soou Que paz tranqüila; dos vaivéns da sorte Só tem descanso quem ali baixou Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe Funérea campa com fragor rangeu; Branco fantasma semelhante a um monge, Dentre os sepulcros a cabeça ergueu (...) “Mulher formosa, que adorei na vida, “E que na tumba não cessei de amar, “Por que atraiçoas, desleal, mentida, “O amor eterno que te ouvi jurar?

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“Amor! Engano que na campa finda, “Que a morte despe da ilusão falaz: “Quem dentre os vivos se lembrara ainda “Do pobre morto que na terra jaz? “Abandonado neste chão repousa “Há já três dias, e não vens aqui . . . “Ai, quão pesada me tem sido a lousa “Sobre este peito que bateu por ti!
(Poesias. Porto: Chardon, 1925)

Leia o comentário do crítico José Augusto França sobre a popularidade da balada “O noivado do sepulcro” ainda hoje cantada nas ruas de Portugal: “. . . ainda hoje é o poema mais popular do romantismo nacional: recitava-se nos salões da burguesia, tanto no Porto como em Lisboa, com acompanhamento de piano, e o povo cantava-o nas ruas, ao luar, alterando as palavras eruditas”.

Terceiro Momento
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João de Deus (1830-1896)
Em Flores do Campo e Campo de Flores, João de Deus versa sobre os temas prediletos do Romantismo: mulher amada, saudade, amor, destino, religiosidade, numa linguagem que retoma o ritmo das cantigas populares. João de Deus Observe o ritmo conferido a este texto pela utilização da redondilha menor:
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Amores, amores Não sou eu tão tola, Que caia em casar; Mulher não é rola, Que tenha um só par: Eu quero um moreno, Tenho um de outra cor, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior. Que mal faz um beijo, Se apenas o dou, Desfaz-me o pejo, E o gosto ficou? Um d’eles por graça Deu-me um, e depois Gostei da chalaça, Paguei-lhe com dois. Abraços, abraços, Que mal nos farão? Se Deus me deu braços, Foi essa razão: Um dia que o alto Me vinha abraçar, Fiquei-lhe de um salto Suspensa no ar. Vivendo e gozando, Que a morte é fatal, E a rosa em murchando Não vale um real: Eu sou muito amada, E há muito que sei Que Deus não fez nada Sem ser para quê.
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Amores, amores, Deixai-os dizer; Se Deus me deu flores, Foi para as colher: Eu tenho um moreno, Tenho um de outra cor, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior.
(João de Deus. In Torres, Alexandre Pinheiro de. Op. cit.)

Júlio Dinis era o pseudônimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Ao contrário de Camilo Castelo Branco, em seus romances não há tragédia nem fatalismo, mas uma visão otimista do mundo e sempre um epílogo feliz que culmina no Júlio Dinis casamento. Sua linguagem é simples e, embora os temas tratados sejam os mesmos de outros românticos — amor e casamento —, ele detém-se na análise psicológica e no perfil moral de seus personagens, e sobretudo no contexto socioeconômico em que se movimentam. Com exceção de Uma Família Inglesa, cuja ação se passa no Porto, os outros romances — As Pupilas do Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais e Os Fidalgos da Casa Mourisca —são ambientados no campo.

As Pupilas do Senhor Reitor foi adaptada para a televisão e fez muito sucesso no início da década de 1990.
Conheça o enredo e um fragmento de A morgadinha dos canaviais.
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Júlio Dinis (1839-1871)

A MORGADINHA DOS CANAVIAIS A Morgadinha dos Canaviais foi publicada pela primeira vez em folhetim no Diário do Porto, em 1868, e nesse mesmo ano em volume. Seu enredo resume-se no seguinte: Henrique de Souselas, moço rico e galante, abandona Lisboa e vai procurar numa aldeia do Minho, em casa da tia Dorotéia, cura para o seu tédio. Em pouco tempo recompõe-se e enamora-se de Madalena, morgadinha da quinta do Mosteiro, mas esta o trata ironicamente. Acontece que Cristina, prima de Madalena, se apaixona por Henrique, o qual percebe, despeitado, a morgadinha corresponder ao afeto que lhe dedica Augusto, um simples mestre-escola rural. Ambos, rivalizados, se antagonizam. Enquanto isso dois acontecimentos precipitam o desenlace: a construção de uma estrada de ferro e proibição de enterramentos de mortos na igrejas. Das arruaças que cercam as duas novidades do progresso, sai ferido Henrique; tratado por Cristina, descobre que a ama. Tudo termina com o casamento de Henrique e Cristina e de Augusto e Madalena. O trecho que se vai ler foi extraído do capitulo III, e contém a narração dos primeiros contactos revigorantes de Henrique com o clima aldeão: Ao romper da manhã, quando a consciência principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpor de um sono profundo, Henrique de Souselas sonhava-se comodamente sentado em uma cadeira de S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma ópera favorita. Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncelos e contra-baixos; sopravam, a plena boca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os ares, e contudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta
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riqueza de instrumentação, mais do que uma nota única, arrastada, contínua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formular uma só frase musical. Era de desesperar um diletante como ele; torcia-se na cadeira, inclinava convenientemente a cabeça. Fazia das mãos cornetas acústicas, e sempre o mesmo resultado! Este violento estado de atenção, este esforço do sensório, principiou nele a obra do despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cedo se transmitiu a todos os outros órgãos. Antes de dar a si próprio conta do que era aquele som, e quase esquecido ainda do lugar em que estava, Henrique abriu os olhos. A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janelas e espelhava no aposento uma tênue claridade. Veio então a Henrique a consciência do lugar em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou o coração. O leitor, se ainda não padeceu de insônias, de pesadelos, ou de sonos febris, não avalia por certo o contentamento íntimo que se apossa das desgraçadas vítimas desses demônios noturnos, quando por exceção eles as deixam em paz, e lhes respeitam o sono de uma noite completa. Acordar só aos raios da aurora é um dos mais inefáveis prazeres a que eles aspiram na vida.

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Questões de Vestibulares
1 (Positivo-PR) O período literário dominado pelo espírito liberal e nacionalista, em que houve predomínio da emotividade, do individualismo, mais o indianismo, a identificação com a natureza e a exaltação dos ideais patrióticos foi o: a) Parnasianismo d) Simbolismo b) Romantismo e) Pré-modernismo c) Barroco 2 (Santa Casa-SP) A renovação das formas, a liberdade de expressão e a tentativa de incorporar à literatura nossas coisas mais típicas – como peculiaridades regionais e termos indígenas – são marcas freqüentes no: a) Barroco d) Realismo b) Arcadismo e) Pré-Modernismo c) Romantismo 3 (UFPR) “Dá grande ênfase à vida sentimental, tornando-se intimista e egocêntrico, enquanto o coração é a medida mais exata da sua existência. Cultiva o amor e a confidência, ou se dispõe à renúncia e ao isolamento, e por aí procura uma identificação essencial com a natureza. Também alimenta o sentimento religioso, vibra com a pátria e se irmana com a humanidade. Pula assim do círculo fechado de sua fantasia interior, da sua realidade alimentada de idealizações e de fugas, luminosa ou sombria, entre o bem e o mal, para as cogitações morais e espirituais, para a defesa das grandes causas sociais e da realidade.” O texto se refere a um dos seguintes movimentos literários: a) Arcadismo b) Barroco c) Romantismo d) Parnasianismo e) Simbolismo
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4 (UFPR) Assinale a(s) alternativa(s) que caracteriza(m) a produção romântica: (01) – Atitude subjetivista marcada por intenso sentimentalismo. (02) – Decadência do romance entre os gêneros narrativos. (04) – Crença no papel do poeta como gênio portador de verdades, cumpridor de missões. (08) – Presença da natureza com função expressiva, significando e relevando. (16) – culto do mito da nação, num momento de grande afirmação cultural. (32) – Idealização do herói, visto como ser extraordinário, poderoso, justiceiro e bom. (64) – Conservação dos gêneros poéticos herdados da Renascença. Soma 5 (FMU/FIAM-SP) O homem de todas as épocas se preocupa com a natureza. Cada período a vê de um modo particular. No Romantismo, a natureza aparece como: a) um cenário cientificamente estudado pelo homem; a natureza é mais importante que o elemento humano. b) um cenário estático, indiferente; só o homem se projeta em busca de sua realização. c) um cenário sem importância nenhuma; é apenas pano de fundo para as emoções humanas. d) confidente do poeta, que compartilha com a paisagem os seus sentimentos; a natureza se modifica, de acordo com o estado emocional do poeta. e) um cenário idealizado onde todos são felizes e os poetas são pastores. 6 (UFV-MG) Assinale a alternativa falsa. a) O Romantismo, como estilo, não é modelado pela individualidade do autor; a forma predomina sempre sobre o conteúdo. b) O Romantismo é um movimento de expressão universal, inspirado nos modelos medievais e unificado pela prevalência de características comuns a todos os escritores da época.
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c) O Romantismo, como Estilo de Época, consistiu basicamente num fenômeno estético-literário, desenvolvido em oposição ao intelectualismo e à tradição racionalista e clássica do século XVIII. d) O Romantismo, ou melhor, o espírito romântico, pode ser sintetizado numa única qualidade: a imaginação. Pode-se creditar à imaginação a capacidade extraordinária dos românticos de criarem mundos imaginários. e) O Romantismo caracterizou-se por um complexo de características como o subjetivismo, o ilogismo, o senso de mistério, o exagero, o culto da natureza e o escapismo. 7 (FUVEST-SP) a) Dentre as obras – Camões; Eurico, o Presbítero; Flores sem Fruto – qual a iniciadora do movimento romântico em Portugal? b) Qual o seu autor? 8 (FUVEST-SP) O medievalismo, a valorização do passado pátrio, a recriação de lendas tradicionais ibéricas constituíram um aspecto importante dos programas estéticos de: a) Almeida Garrett e Alexandre Herculano b) Guerra Junqueiro e Júlio Dinis c) Barbosa du Bocage e Antônio Vieira d) Eça de Queirós e João de Deus e) Antero de Quental e Cesário Verde 9 (FUVEST-SP) O autor de Lendas e Narrativas pertenceu ao movimento romântico. a) Quem foi ele? b) Em que época se passam as Lendas e Narrativas? (FUVEST-SP) Texto para as questões 10 e 11: “O pacto feito por ele com os árabes não tardou a ser por mil modos violado, e o ilustre guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde,
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por haver deposto a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela liberdade. Fora isto o que Pelágio preferira, e a vitória coroou o seu confiar no esforço dos verdadeiros godos e na piedade de Deus.” 10 Qual das características abaixo está presente no texto? a) Retomada dos valores medievais b) Denúncia de males sociais c) Despreocupação formal d) Análise psicopatológica e) Aproveitamento da mitologia clássica 11 O autor do texto é: a) Eça de Queirós b) Camilo Castelo Branco c) Padre Antônio Vieira d) Fernando Namora e) Alexandre Herculano 12 (UNESP) “Mas, quando, ao primeiro alvor da manhã, Pelágio se encaminhava com o seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os árabes rompiam por ela e começavam a espraiar-se, como ribeira que, saindo do leito apertado, se dilata pela campina. Os cristãos recuaram, e os infiéis, atribuindo ao temor esta fuga simulada, precipitaram-se após eles. Pouco a pouco, o duque de Cantábria atraiu-os para a entrada da gruta de Covadonga. Chegado ali, pondo a boca à sua buzina, tirou um som prolongado. Imediatamente os cimos dos rochedos, que pareciam inacessíveis, cobriram-se de fundibulários e frecheiros, e uma nuvem de tiros choveu de toda a parte sobre os africanos e sobre os renegados godos. (...) Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exército dos árabes alguns milhares de valeiros fugiam desalentados diante dos foragidos das Astúrias, que os perseguiam além de Cangas de Onis.
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(...) Nessa noite, quando Pelágio voltou à caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendoa tranqüila, o mancebo adormeceu também perto dela, sobre o duro pavimento da gruta.” O texto acima transcrito é de autoria de um dos introdutores do Romantismo em Portugal. O autor e a obra estão assinalados em uma das alternativas: a) Almeida Garrett – O Alfageme de Santarém b) Júlio Dinis – A Morgadinha dos Canaviais c) Camilo Castelo Branco – Agostinho de Ceuta d) Oliveira Martins – A Vida de Nun’Álvares e) Alexandre Herculano – Eurico, o presbítero 13 (FUVEST-SP) Qual o autor considerado o mestre da novela passional portuguesa? Indique o século e o movimento literário em que se situa sua obra. (UNESP) Texto para as questões de 14 a 16: “Simão, meu esposo. Sei tudo... Está conosco a morte. Olha que te escrevo sem lágrimas. A minha agonia começou há sete meses. Deus é bom, que me poupou ao crime. Ouvi a notícia da tua próxima morte, e então compreendi por que estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão!.. Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade, e eu te dizia os meus!... Por que não merecemos nós o que tanta gente tem!.. Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crê-lo! A eternidade apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz que me guiava de ti para a fé. Mas não pode findar assim o nosso destino. Vê se pode segurar o último fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-emos num outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu rezo, suplico, mas desfaleço na fé, quando me lembram as últimas agonias do teu martírio.”
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O texto acima transcrito pertence a uma carta que Teresa de Albuquerque escreve a Simão Botelho, numa novela considerada como o melhor exemplo da novelística romântica em Portugal. O texto é, portanto, característico do estilo romântico e evidencia elementos que permitem identificar a novela a que pertence e o nome do seu autor. Assim sendo, responda às seguintes questões: 14 Qual o nome do autor e o título da novela a que o texto pertence? 15 Indique alguns segmentos (frases ou palavras) que, no texto, são característicos da escola romântica. 16 Que outros romancistas e poetas românticos você conhece na literatura portuguesa? 17 (UM-SP) Assinale a alternativa onde se encontra um traço não pertinente a Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. a) Diálogos geralmente marcados por retórica sentimental. b) Narração densa e rápida das ações decisivas. c) Comprometimento com propostas realistas de Eça de Queirós. d) Grandeza trágica de paixões e situações. e) Mostragem de alguns personagens extraídos do meio popular. 18 (FUVEST-SP) Autor de novelas satíricas, escreveu também novelas passionais, cujas personagens se entregam aos extremos do amor e que, por isso mesmo, são levadas à destruição. a) Eça de Queirós d) Camilo Castelo Branco b) Alexandre Herculano e) Júlio Dinis c) Almeida Garrett 19 (UNESP) “Desde que saímos da igreja até a entrada de casa, caminhamos sempre debaixo de nuvens de flores. O estrondo dos bacamartes era atroador, e os dos sinos da freguesia repicaram desde que saímos do templo até ao anoitecer desse dia.
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Meia hora depois que chegamos, entrei no quarto de minha mulher, e encontrei-a de joelhos diante duma imagem de S. João dos Bem Casados. Ergue-se ela, benzendo-se, e esperou que eu a beijasse pela segunda vez. Penso que o público me releva a confissão de que, ao dar-lhe este segundo beijo, encontrei os lábios. Era o instinto das sensações agradáveis, mas honestas, que ensinou a minha mulher o segredo do máximo prazer de um beijo. Estava o almoço na mesa.” O texto que você acabou de ler pertence a uma novela de Camilo Castelo Branco que é considerada como um bom exemplo da sátira camiliana. A leitura atenta do texto permitirá identificar o título da novela, em uma das alternativas abaixo indicadas: a) Coração, Cabeça e Estômago b) O Romance dum Homem rico c) A Mulher Fatal d) Amor de Salvação e) A Queda dum Anjo 20 (FUVEST-SP) Na novela Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco: a) Simão ficou indeciso entre o amor de Mariana e o de Teresa. b) Simão rejeitou a oportunidade que lhe foi oferecida para livrar-se do desterro. c) a apresentação do pai e de suas origens justifica o orgulho que a família de Simão ostenta. d) o autor revela grande respeito pelas instituições religiosas de seu tempo. e) Ritinha, irmã mais nova de Simão, abandonou a família para apoiálo em suas dificuldades. 21 (UM-SP) Assinale a alternativa incorreta sobre a obra de Camilo Castelo Branco.
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a) A pequena burguesia do Porto é enfoque comum em sua novelística. b) Apega-se exclusivamente ao real, sem se transportar para o domínio imaginário. c) Em Amor de Perdição, os sentimentos se submetem aos preconceitos e se põem em luta com as convenções sociais. d) A queda dum Anjo é uma narrativa de caráter satírico e humorístico. e) É uma das obras mais férteis da literatura portuguesa, pois nela encontramos poesia, teatro, crítica literária, ensaios, memórias, novelas e romances. 22 (CESCEA) Aponte as três expressões máximas do Romantismo português: a) Garrett, Herculano e Castilho. b) Garrett, Herculano e Antero de Quental. c) Herculano, Eça de Queirós e Camilo. d) Camões, Herculano e Castilho. e) Camões, Alexandre, Herculano e Eça de Queirós. 23 (Sta. Casa-SP) Nas alternativas abaixo estão cinco autores e cinco obras conhecidas da literatura portuguesa. Assinale a alternativa em que autor e obra não se correspondem: a) Antônio Nobre – Só b) Fernando Pessoa – Mensagem c) Júlio Dantas – As Pupilas do Senhor Reitor d) Guerra Junqueiro – A Velhice do Padre Eterno e) Almeida Garrett – Camões 24 (CESCEA) Uma das três figuras máximas do Romantismo português. Apaixonado pela história, dignificou-a, orientando-se pelo princípio diretor de que o historiador não pode arredar-se das verdadeiras fontes da História – os documentos. Dessa convicção nasceu um trabalho, fruto de erudição e pesquisa em bibliotecas e arquivos, públicos e particulares – Portugaliae Monumenta Historica (Monumentos Históricos de Portugal). Autor de Lendas e Narrativas, Eurico, o Presbítero,
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O Monge de Cister e O Bobo. Seu nome: a) Antônio Feliciano de Castilho b) Almeida Garrett c) Alexandre Herculano d) Camilo Castelo Branco e) Eça de Queirós 25 (CESCEA) “Aos vinte e quatro anos descobriu sua verdadeira vocação quando publicou Anátema – o seu primeiro romance. As obras anteriores são como tentativas hesitantes à busca de um gênero que se afinasse com o seu temperamento. “A partir de então, os lucros se multiplicam, vem a consagração, mas continuam, mais ou menos ininterruptas, as cenas dramáticas em sua vida: Prisão, crises íntimas, polêmicas rumorosas, e, em 1890, a catástrofe: – Num acesso de nervos, em conseqüência do excesso de trabalho e da cegueira que se aproximava, um tiro pôs-lhe um ponto final na existência” (Antonio Sales Campos, Português Colegial). De quem se trata? a) Machado de Assis d) Eça de Queirós b) Raul Pompéia e) Camilo Castelo Branco c) Ramalho Urtigão 26 (CESCEA) Das obras de Camilo Castelo Branco, abaixo arroladas, qual pertence ao gênero “teatro”? a) O Condenado d) Doze Casamentos Felizes b) Eusébio Macário e) Maria da Fonte c) Agulha em Palheiro 27 (CESCEA) O poema “Camões”, escrito à margem do Sena, conta, em dez cantos e versos soltos, a história romanceada do maior épico português. Esse poema inaugura em Portugal: a) A Poesia épica d) O Modernismo b) O Trovadorismo e) O Romantismo c) O Realismo
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28 (Mackenzie-SP) Individualismo, subjetivismo, liberdade criadora, valorização da Idade Média, religiosidade cristã são algumas das características do movimento: a) Arcádico c) Parnasiano b) Romântico d) Simbolista 29 (Sta. Casa-SP) “A natureza é como um espelho no qual se refletem as dilacerações e sofrimentos do autor; as paisagens distantes, o gosto pelos cenários exóticos, pelas civilizações longínquas, são outras formas de escapismo. Representam formas de deslocações no espaço, outro lugar, que substitui a sociedade do século XIX.” O que se escreveu, expõe resumidamente o programa literário dos: a) Arcadistas d) Realistas b) Românticos e) Simbolistas c) Naturalistas 30 (UF-PI) Em Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, o relacionamento entre Teresa e Simão se mantém por meio das cartas. Estas correspondências chegam ao destinatário por intermédio das personagens: a) Baltasar e Mendiga b) Rita e Mariana c) Mendiga e Manuel d) Mariana e Mendiga e) Luiza e João da Cruz 31 (UF-PI) Em Amor de Perdição, a personagem Simão, de volta a Viseu, durante três meses, apaixona-se por Teresa e este amor o transforma num sujeito: a) agressivo e passional b) irreverente e teimoso c) desordenado e temível d) recolhido e pensativo e) passivo e medroso
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32 (UCP-PR) “O público gostava de obras que lhe permitissem auto-identificar-se com as personagens, que lhe fornecessem meios de esquecer, com a leitura, a monotonia da vida regulada pelos estreitos horizontes burgueses.” O texto acima faz referência à estética: a) Barroca b) Simbolista c) Modernista d) Romântica e) Parnasiana 33 (UNIP-SP) Assinale a característica não aplicável à poesia romântica. a) O artista goza de liberdade na metrificação e na distribuição rítmica. b) O importante é o culto da forma, a arte pela arte. c) A poesia é primordialmente pessoal, intimista e amorosa. d) Enfatiza-se a auto-expressão, o subjetivismo, o individualismo. e) A linguagem do poeta é a mesma do povo: simples, espontânea. 34 (Unicamp-SP) No final do segundo ato de Frei Luis de Sousa, de Almeida Garrett, desenrola-se uma cena entre Frei Jorge e o Romeiro. O que está em questão é a identidade desse Romeiro, que sabemos ser D. João de Portugal: Jorge: Romeiro, romeiro! Quem és tu? Romeiro (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal): Ninguém. a) Por que D. João se apresenta disfarçado de romeiro? b) Explique, com base na obra, por que D. João diz ser ninguém.

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REALISMO (1865-1890)
Reprodução

Mulheres peneirando trigo, de Gustave Coubert

O Realismo quis criar uma arte que representasse objetivamente a realidade, que se ocupasse do homem e de seus problemas.

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REALISMO:

século XIX

CONTEXTO HISTÓRICO: segunda Revolução Industrial
cientificismo - socialismo científico positivismo evolucionismo determinismo

CARACTERÍSTICAS:

objetividade predomínio da razão observação, análise e denúncia dos males sociais criação do romance de análise aceitação dos determinismos científicos (Naturalismo) Antero de Quental Gomes Leal Guerra Junqueiro Cesário Verde Gonçalves Crespo Eça de Queirós

AUTORES:

Romantismo
• • • • •

Realismo
• • • • •

subjetivismo sentimentalismo fantasia/imaginação volta ao passado/Idade Média verdade individual

objetivismo materialismo/racionalismo observação da realidade comprometimento com o momento presente verdade universal

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REALISMO (1865-1890)
O Realismo surgiu como reação ao sentimentalismo exacerbado dos ultra-românticos e propunha a observação e análise rigorosa da realidade, a fim de retratá-la fiel e objetivamente. Iniciou-se em 1865 com a “Questão Coimbrã”, em que se confrontaram as velhas idéias dos românticos com as da nova geração realista, e terminou em 1890 com a publicação de Oaristos, de Eugênio de Castro. Esse período produziu poesia, prosa de ficção, jornalismo doutrinário, historiografia, crítica e historiografia literária.

Contexto Histórico
Na segunda metade do século XIX, a burguesia consolidou seu poder político. No entanto, o crescimento do capitalismo e a acelerada industrialização (Europa e América vivem a segunda fase da Revolução Industrial) determinaram o aparecimento do proletariado, constituído por miseráveis trabalhadores assalariados sem direito a nenhuma vantagem trazida pelo avanço industrial e científico do período. Os novos inventos (telefone, telégrafo, locomotiva a vapor), a utilização de novas fontes de energia (petróleo, eletricidade) e as novas descobertas científicas ajudaram o homem a explicar racionalmente fenômenos até então inexplicáveis, determinando uma nova postura diante do mundo. Com a vitória do cientificismo, o homem passou a basear-se na observação e na experimentação e a criticar o misticismo, a religião e o subjetivismo. Foram determinantes para essa situação: • o positivismo: filosofia de Augusto Comte que defendia a explicação de todos os fenômenos pela ciência. Só importava o que podia ser medido e provado; • o socialismo científico: Karl Marx e Engels denunciaram a exploração do operariado;
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• o evolucionismo: Charles Darwin expôs sua teoria sobre a evolução das espécies pelo processo da seleção natural. Essa teoria foi combatida por todos que acreditavam na origem divina do homem, defendida pela Igreja; • o determinismo: teoria de Taine que explicava a obra de arte como conseqüência de três fatores: raça (hereditariedade), meio e momento histórico. Segundo ele, o homem era produto do meio em que vivia; • a medicina experimental: o médico Claude Bernard deu bases científicas à medicina. Apoiado na observação e investigação dos fenômenos biológicos, demonstrou a importância da Fisiologia no comportamento humano. Em Portugal, enquanto crescia um forte sentimento anticlerical e antimonárquico, uma rica burguesia instalava-se no Porto e em Coimbra. Em 1864, uma estrada de ferro passou a ligar esta última cidade a Paris, intensificando a chegada de novas idéias. O ano de 1871 assistiu às primeiras greves operárias. Nesse contexto, surge o Realismo, cujas tendências, levadas ao extremo, desembocaram no Naturalismo.

Manifestações Artísticas
O primeiro quadro realista foi o Enterro em Ornans, do pintor francês Courbet. Socialista convicto, filho de camponeses, ele era antiburguês e queria pintar o mundo visível tal qual era sem o sentimentalismo romântico, por isso deu espaço em seus quadros aos homens no trabalho.

As catadoras de espigas, de Millet

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Procurando renovar o material e as técnicas, tanto a arquitetura quanto a escultura insurgem-se contra o academicismo.
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Estufa no parque de Londres, dos arquitetos Burton e Turner

Literatura
As origens do Realismo remontam à França, quando, em 1857, Flaubert publicou o romance Madame Bovary, que conta a história do adultério de uma romântica jovem burguesa que termina em suicídio. A filosofia e a ciência da época incitam os escritores realistas a reproduzir integralmente o real. Para tanto, opuseram ao excessivo sentimenAmplie seus conhecimentos talismo romântico o masobre a literatura realista conheterialismo e o racionacendo os seguintes vídeos: lismo; ao subjetivismo, o objetivismo; à fantasia e A sedutora Madame Bovary, de à imaginação, a observaVincent Minnelli; Germinal de ção; ao retorno à Idade Claude Berri; Os companheiros, de Média, o compromeMario Monicelli; Tempos Modertimento com o momento nos, de Charles Chaplin; Brás Cupresente; ao nacionalisbas , de Júlio Bressane; O primo mo, o universalismo. Basílio, de Daniel Filho; O cortiço, de Francisco Ramalho Júnior.

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Os realistas — em sua maioria republicanos e até socialistas — eram antimonárquicos, antiburgueses e anticlericais, traços presentes em suas obras. Em Portugal, jovens estudantes da Universidade de Coimbra, desde os anos 60, já se empolgavam com as novas idéias surgidas no resto da Europa. Em 1864, com a inauguração da estrada de ferro que ligava Coimbra a Paris, o intercâmbio cultural entre as duas cidades intensificou-se, distanciando cada vez mais os conservadores (românticos de Lisboa) dos estudantes e intelectuais de Coimbra, partidários da função social da literatura, comprometidos com seu momento histórico (a futura geração realista). A “Questão Coimbrã”, de 1865, que marcou o início do Realismo, representou a primeira reação pública contra o Romantismo. Ela originou-se de uma carta-posfácio de Antônio Feliciano de Castilho ao livro Poema da mocidade, do também romântico Pinheiro Chagas. Nesse texto, Castilho elogiava o livro de Pinheiro e criticava a nova poesia dos moços de Coimbra, sobretudo Teófilo Braga (que publicara Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras) e Antero de Quental (que publicara Odes Modernas). Antero respondeu com uma carta aberta intitulada Bom senso e bom gosto em que acusava Castilho (seu velho professor de francês) de obscurantismo, ao mesmo tempo que defendia a liberdade de pensamento e a independência dos jovens escritores. Iniciada a polêmica, formaram-se dois partidos que publicaram algumas dezenas de pequenas obras defendendo ou criticando cada um dos lados. A vitória foi do grupo dos jovens de Coimbra, que, em 1871, organizou o ciclo de Conferências Democráticas no Cassino Lisbonense. Das dez conferências, só cinco foram realizadas, pois um decreto real fechou o Cassino e proibiu as conferências, sob a alegação de que atacavam a religião e o Estado. No entanto, a semente do Realismo fora lançada.
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Produção Literária Poesia
Antero de Quental (1842-1891)
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Ele foi o líder intelectual da geração de 1870 e divulgador das idéias socialistas em Portugal. Embora filho de ricos proprietários, logo após a “Questão Coimbrã” trabalhou como operário em Paris. Em 1873, com a morte do pai, assumiu o comando das propriedades, Antero de Quental vivendo em constante conflito. Suicidouse em 1891. Sua obra pode ser assim dividida: a) Raios de Extinta Luz e Primaveras Românticas: são obras anteriores à “Questão Coimbrã” e apresentam características românticas, em que o lirismo é realçado; b) Odes Modernas: obra revolucionária contra os ultra-românticos, que provocou escândalo nos meios literários; c) Sonetos: essa obra marca um período de introversão, com uma poesia autobiográfica, marcadamente filosófica, em que predominam as desilusões. Ao lado de Camões e Bocage, Antero de Quental forma a trinca dos mais perfeitos sonetistas portugueses. Leia o soneto abaixo e perceba como Antero classifica o poeta romântico como o amante do lúgubre, alienado do seu momento presente, que deve acordar, ver a luz e produzir uma poesia engajada:
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A UM POETA Tu que dormes, espírito sereno, Posto à sombra dos cedros seculares, Como um levita à sombra dos altares, Longe da luta e do fragor terreno, Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno, Afugentou as larvas tumulares... Para surgir do seio desses mares, Um mundo novo espera só um aceno... Escuta! é a grande voz das multidões! São teus irmãos, que se erguem! são canções... Mas de guerra... e são vozes de rebate! Ergue-te, pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz do sonho puro, Sonhador, faze espada de combate!
(Sonetos, 6a ed., Lisboa: Sá da Costa, 1979)

Ainda representaram a poesia realista quatro autores, assim agrupados, segundo suas tendências: 1) obras de caráter revolucionário, reformista e panfletário
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Gomes Leal (1848-1921)
Sua obra divide-se em três fases. Na primeira, sua poesia oscila entre o Romantismo e o Realismo, Claridades do Sul é o livro mais importante. Na segunda fase, em O Anticristo, aceita o credo positivista e socialista. Seu terceiro momento caracteriza-se por uma postura mais simbolista, expressa em O fim dum Mundo.
Gomes Leal

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Guerra Junqueiro (1850-1923)
Principal poeta panfletário do Realismo, criticou severamente a mentalidade burguesa. Em sua primeira fase lembra a poesia social de Victor Hugo: em A Morte de D. João retrata a corrupção da sociedade da época, em A Velhice do Pa- Guerra Junqueiro dre Eterno critica a luxúria do clero. Na segunda fase, substitui o cientificismo pela poesia lírica a serviço da salvação do homem. É desse período Os Simples.

A VELHICE DO PADRE ETERNO A Velhice do Padre Eterno, publicada em 1885, correspondia à segunda parte de uma trilogia poética iniciada por A Morte de D. João (1874), e que teria seqüência com o Prometeu Libertado, que ficou incompleto. Na primeira parte, Guerra Junqueiro satiriza o vício romântico, representado na figura de D. João; na segunda, ataca o clero corrupto e venal; na terceira, como declara na nota final de A Velhice do Padre Eterno, cantaria a liberdade de Prometeu, pois “significa o desaparecimento de todas as tiranias e a ressurreição de Jesus, a morte de todos os dogmas”. A Velhice do Padre Eterno, que primitivamente se intitulava A Morte de Jeová, consta de uma série de quadros líricos em torno de alguns dos principais aspectos da história do Catolicismo, ao ver de Guerra Junqueiro: o poema de abertura, “Aos simples”, contém um hino de louvor aos humildes e sofredores para quem não soou ainda a hora da justiça, precisamente por causa dos males que, no entender do poeta, infestavam a Pátria, dentre os quais avultavam a hipocrisia dos
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sentimentos (retratada em A Morte de D. João) e a hipocrisia da crença religiosa (tema de A Velhice do Padre Eterno). Seguem-se os quadros, como “A Vinha do Senhor”, “A Caridade e a Justiça”, “Parasitas”, “O Papão” etc. O trecho que se vai ler, pertence a “A Sesta do Sr. Abade”: Caminhavam por fim, ronceiros, devagar, Os grandes carroções da Côngrua e Pé de Altar, Puxados a duas mil parelhas de jumentos, Zurrando esta epopéia heróica aos quatro ventos”: Senhor Pároco, toda a freguesia, Uns quatro mil ônagros Muito magros Vem trazer isto a Vossa Senhora. Desculpe, Senhor Pároco, a ousadia . . . A oferta é bem mesquinha, é desgraçada, Uns oitocentos moios simplesmente De milho, de feijão, trigo e cevada. E nós sabemos que um tão mau presente Para o seu dente Não chega a nada! Não chega a nada! Mas é boa a intenção; Nós reservamos para si o pão, E para nós a palha unicamente. Dar ao senhor Prior Miséria assim, é vergonhoso até . . . Mas aceite este mimo sem valor . . . Senhor Pároco, aceito-o, por quem é! . . . E, agora, Senhor Pároco, a sua benção, Porque os ônagros pensam Que ela salva das chamas infernais;

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2) poesia do cotidiano, inspirada no prosaico dia-a-dia, sem caráter revolucionário nem social
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Cesário Verde (1855-1866)
Sua poesia (que se preocupa com o apuro formal), ao mesmo tempo que transita entre o Romantismo e o Realismo, é uma ponte para atitudes que estariam em moda no Simbolismo e no Modernismo. Ele retratou de forma exata a realidade cotidiana das ruas de Lisboa.

Cesário Verde

“Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. O céu parece baixo e de neblina, O gás extravasado enjoa-me, perturba; E os edifícios, com as chaminés, e a turba Toldam-se duma cor monótona e londrina. Batem os carros de aluguer, ao fundo, Levando à via férrea os que se vão. Felizes! Ocorrem-me em revista exposições, países: Madri, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações somente emadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.”
(Obra completa. Lisboa:0 Portugália, 1964)

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Gonçalves Crespo (1846-1883)
Ele também se filia à linha da poesia do cotidiano e destaca-se, sobretudo, pelo culto da forma, uma das principais características do Parnasianismo, que não vingou em Portugal, ao contrário da França e do Brasil.
Gonçalves Crespo

Prosa
A prosa de Ficção
Durante o apogeu de Realismo em Portugal, cultivaram-se o romance e o conto. O primeiro, que podia ser realista ou naturalista, conforme o grau de cientificismo empregado e o modo de enfocar a sociedade coetânea, entra em cheio na Literatura Portuguesa (não esquecer que antes predominava a novela); o segundo, que vinha sendo cultivado desde o século XVI (com Gonçalo Fernandes Trancoso) nessa altura atinge maioridade e níveis de primeira grandeza. Dentre os ficcionistas do tempo, destaca-se Eça de Queirós seguido de Fialho de Almeida, Abel Botelho, Teixeira de Queirós, Conde Arnoso, Júlio Lourenço Pinto, Trindade Coelho, e outros.
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Eça de Queirós (1845-1900)
Eça de Queirós, o melhor prosador do Realismo português, não participou da “Questão Coimbrã”, mantendo-se somente como espectador. No entanto, em 1871, nas Conferências Democráticas, apresenEça de Queirós

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tou o trabalho O Realismo como expressão da arte. No mesmo ano fundou com Ramalho Ortigão o jornal As Farpas, em que criticava o Romantismo e satirizava a sociedade portuguesa.

O filme Amor & Cia, 1998, do diretor de cinema brasileiro Helvécio Ratton, foi baseado na novela Alves & Cia (1883), de Eça de Queirós. Amor & Cia narra a história dos amores extraconjugais de Ludovina, que trai o marido com o sócio deste, bem ao estilo de Madame Bovary, de Flaubert. Sua produção literária pode ser agrupada em três fases: a) primeira fase, de 1866 a 1875: em que sofreu a influência de românticos de inspiração germânica (Michelet, Gerard Nerval, Heine e Baudelaire). É dessa fase, a menos importante de sua carreira, o romance Mistério da Estrada de Sintra, em parceria com Ramalho Ortigão e Prosas Bárbaras. b) segunda fase, de 1875 a 1888: inicia-se com a publicação de O Crime do Padre Amaro, que inaugura o romance realista português. Nessa fase defende os princípios do Realismo, atacando a burguesia, o clero e a monarquia. Eça denomina de Cenas Portuguesas a trilogia de romances desse período: • O Crime do Padre Amaro, cujo subtítulo irônico é Cenas da Vida Devota. Anticlerical, Eça analisa aqui o celibato religioso e denuncia a depravação de costumes numa estreita sociedade provinciana. A cena passa-se na pequena vila de Leiria, onde um jovem padre, Amaro (“impelido para o sacerdócio como um boi para o curral!”), apaixona-se pela ingênua e sonhadora Amélia. Ela engravida, morre, e seu filho também. Amaro muda-se de cidade e continua sua vida de padre.
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O Primo Basílio foi exibido como seriado na televisão brasileira no final da década de 1980.

• O Primo Basílio, com o subtítulo de Episódio da Vida Doméstica. Sua crítica agora se volta para a hipocrisia das relações familiares da pequena-burguesia de Lisboa e o inevitável adultério. O romance conta a história de Luísa, uma lisboeta fútil, casada com Jorge, um engenheiro que se ausenta a negócios. Visita-a um ex-namorado, seu primo Basílio, e instaura-se o triângulo amoroso, descoberto pela criada Juliana. De posse das cartas amorosas de Luísa, a criada começa a chantageá-la. Luísa consegue, com a ajuda de um amigo da família, reaver as cartas, mas adoece. O marido volta, sabe de tudo e perdoa. Ela, no entanto, morre. Basílio, quando sabe de sua morte, cinicamente lamenta apenas o fato de não ter trazido uma amante de Paris para entretê-lo em Lisboa.

Os Maias foi adaptado para a televisão. Pelo seu sucesso e também de O Primo Basílio, podemos perceber como obras clássicas são temporais, pois tratam de questões comuns a todos os homens de qualquer época.
• Os Maias ou Episódios da Vida Romântica retrata o amor carnal entre dois irmãos, tendo como fundo a alta burguesia e a aristocracia de Lisboa com seus vícios e intrigas. c) terceira fase, de 1888 até sua morte. Seus romances afastam-se dos postulados realistas e apresentam uma con230

cepção mais humana e otimista da realidade. Eça de Queirós volta-se para a defesa da vida do campo, da política colonialista e do nacionalismo. Pertencem a essa fase, também chamada de nacionalista ou social-nacionalista, estes dois romances: • A Ilustre Casa de Ramires, que conta a história de Gonçalo Mendes de Ramires, fidalgo de família tradicional, que tem pretensões literárias e políticas, mas só conhece fracassos e decepções. Cínico, não hesita em colaborar no adultério da irmã para conseguir cargos políticos. Quando se muda para a África, torna-se rico e feliz. É assim que volta a Portugal, ao qual Gonçalo é comparado ao fim do romance. • A Cidade e as Serras: aqui, por meio de Jacinto, Eça defende a idéia de que o homem só é verdadeiramente feliz longe da civilização, do progresso e da máquina. Ficou fora dessa tripartição o romance A Tragédia da Rua das Flores, que, embora escrito em 1877, só foi publicado em 1980. Nele, o autor narra um incesto involuntário. Leia, agora, um fragmento de O Primo Basílio. Observe como Luísa tem seu caráter deformado por leituras românticas que a levam a imaginar/fantasiar a realidade, que logo depois se mostra objetivamente. Sinta a força da descrição, seu apelo sensorial. Ia encontrar Basílio no Paraíso pela primeira vez. E estava muito nervosa; não pudera dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que lhe fizera pôr um véu muito espesso, e bater o coração ao encontrar Sebastião. Mas, ao mesmo tempo, uma curiosidade intensa, múltipla, impelia-a com um estremecimentozinho de prazer. – Ia, enfim, ter ela própria aquela aventura que lera tantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que ia experimentar, sensações excepcionais! Havia tudo – a casinha misteriosa, o segredo ilegítimo, todas as palpitações do perigo! Porque o aparato impressionava-a mais que o senti231

mento; e a casa em si interessava-a, atraía-a mais que Basílio! Como seria? Era para os lados de Arroios, adiante do largo de Santa Bárbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma correnteza de casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, numa Quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam então, com as mãos enlaçadas, num silêncio poético; e depois o som da água que cai nas bacias de pedra daria um ritmo lânguido aos sonos amorosos... mas era num terceiro andar – quem sabe como seria dentro? (...) (...) A carruagem parou ao pé de uma casa amarelada, com uma portinha pequena. Logo à entrada um cheiro mole e salobro enojou-a. A escada, de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a cal caía, e a umidade fizera nódoas. No patamar da sobreloja, uma janela com um gradeadozinho de arame, parda do pó acumulado, coberta de teias de aranha, coava a luz suja do saguão. E por trás de uma portinha, ao lado, sentia-se o ranger de um berço, o chorar doloroso de uma criança.
(O Primo Basílio. 14a ed., São Paulo, Ática, 1993)

Neste trecho, Eça de Queirós faz uma crítica ao Romantismo, pois acreditava que os romances iludiam os leitores com suas histórias açucaradas. Essa crítica, atualmente, é feita às telenovelas, que ditam comportamento e linguajar de muitas pessoas.
Agora conheça um fragmento de A cidade e as serras: Ora nesse tempo Jacinto concebera uma idéia... Este Príncipe concebera a Idéia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. E por homem civili-

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zado o meu camarada entendia aquele que, robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde Aristóteles, e multiplicando a potência corporal dos seus órgãos com todos os mecânicos inventados desde Terâmenes, criador da roda, se torna um magnífico Adão, que onipotente, quase omnisciente, e apto portanto a recolher dentro duma sociedade e nos limites do Progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacinto formulava copiosamente a sua Idéia, quando conversávamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no Boulevard Saint-Michel. Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenáculo, que, tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a Espingarda-de-agulha que vencera em Sadova e fora o Mestre-de-escola quem vencera em Sedan, estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da Mecânica e da Erudição. Um desses moços mesmo, o nosso inventivo Jorge Carlande, reduzia a teoria de Jacinto, para lhe facilitar a circulação a lhe condensar o brilho, a uma forma algébrica: Suma ciência X Suma potência

E durante dias, do Odeon à Sorbona, foi louvada pela mocidade positiva a Equação Metafísica de Jacinto. Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente metafísico e lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa: – mas constituia uma regra, toda de realidade e
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14243

} Suma felicidade

de utilidade, determinando a conduta, modalizando a vida. E já a esse tempo, em concordância com o seu preceito – ele se surtira da Pequena Enciclopédia dos Conhecimentos Universais em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados do 202, num mirante envidraçado, um telescópio. Justamente com esse telescópio me tornou ele palpável a sua idéia, numa noite de agosto, de mole e dormente calor. Nos céus remotos lampejavam relâmpagos lânguidos. Pela Avenida dos Campos Elísios, os fiacres rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos claros.

Questões de Vestibulares
1 (VUNESP) A mais famosa polêmica da história da literatura portuguesa ficou conhecida como “Questão Coimbrã” ou “Questão do Bom Senso e Bom Gosto”, e foi iniciada por Antero de Quental com uma carta-resposta a um posfácio de Antônio Feliciano de Castilho, incluído no livro Poema da Mocidade, de Manuel Pinheiro Chagas. Nessa polêmica, que começou em 1865 e terminou um ano depois, amadureceram conceitos que, mais tarde, norteariam a chamada “Geração de 70”. Dos escritores ou simples intervenientes na polêmica abaixo mencionados, um único não participou dela, sendo todavia o seu mais brilhante produto. Indique a alternativa na qual se encontra esse escritor: a) Camilo Castelo Branco, Teixeira de Vasconcelos. b) Ramalho Ortigão, Teófilo Braga. c) Júlio de Castilho, Eça de Queirós. d) Rui de Porto-Carrero, Manuel Roussado. e) Augusto Malheiro Dias, Luciano Cordeiro.
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2 (UM-SP) Assinale a alternativa incorreta a respeito do Realismo em Portugal. a) Seus seguidores reagiram violentamente contra tudo que se identificava com o Romantismo. b) No plano político, o posicionamento dos autores é monarquista e conservador. c) Um de seus principais aspectos é o racionalismo. d) Seus personagens são escolhidos nas várias camadas e grupos sociais de seu tempo. e) Apresenta vários pontos comuns em relação ao Naturalismo. 3 (F. C. Chagas-BA) Assinale a alternativa onde estão indicados os textos que analisam corretamente alguns aspectos do romance realista. I) As personagens independem do julgamento do narrador, reagindo cada uma de acordo com sua própria vontade e temperamento. II) A linguagem é poeticamente elaborada nos diálogos, mas procura alcançar um tom coloquial, com traços de oralidade, nas partes narrativas e descritivas. III) Observa-se o predomínio da razão e da observação sobre o sentimento e a imaginação. a) I, II, III d) I e III b) I e II e) II c) II e III 4 (FUVEST-SP) “Sabe-se que o folheto ‘Bom Senso e Bom Gosto’ provocou uma polêmica das mais ruidosas (...)” (Antônio Sérgio) Explique, em breves linhas, o que foi e o que significou essa polêmica. 5 (FUVEST-SP) “A sala esteirada, alegrava, com o seu teto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda.” (O Primo Basílio, Eça de Queirós)

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Indique: a) o movimento literário a que pertence O Primo Basílio; b) uma característica do movimento presente no trecho acima. 6 (FUVEST-SP) Podemos afirmar que a obra de Eça de Queirós está voltada prioritariamente para a defesa dos pobres e oprimidos? Justifique sua resposta. 7 (FUVEST-SP) Empenhado em diagnosticar problemas da sociedade, o romance realista-naturalista os toma como peças de demonstração de tese. Com O Primo Basílio, Eça de Queirós trata o adultério na sociedade lisboeta, buscando as causas que teriam levado Luísa, a personagem principal, a cometê-lo. Escolha dentre as alternativas seguintes a que mais se aproxima das causas que abriram a Luísa o caminho do adultério. a) Personalidade forte, Luísa conduz a ação de acordo com suas ambições pessoais. b) Frívola e em disponibilidade, ela fica à mercê de circunstâncias propícias. c) Doentiamente apaixonada pelo primo, deixa-se conduzir sem opor resistência. d) Insatisfeita com o marido, burguês insensível, busca na aventura sua satisfação. e) Conhecedora dos casos extraconjugais do marido, procura uma forma de vingança. 8 (FUVEST-SP) “Luísa sabia-o. Porque o conselheiro, o Conselheiro Acácio, nunca vinha aos chás de D. Luísa, como ele dizia, sem ter ido na véspera ao ministério de obras públicas procurar Jorge...” Na passagem acima aparece uma personagem que se tornou célebre como símbolo de: a) vacuidade e convencionalismo d) espontaneidade e franqueza b) probidade e originalidade e) sagacidade e espírito crítico c) generosidade e simpatia
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9 (FUVEST-SP) Sobre a obra de Coelho Neto, observa Alfredo Bosi: “Em 1893, saiu seu primeiro romance: A Capital Federal. A simples conferência das datas afasta a hipótese de tomar como fontes A Cidade e as Serras ou A capital...” A Cidade e as Serras e A Capital foram escritos: a) por Alexandre Herculano. b) respectivamente por Artur de Azevedo e Almeida Garrett. c) por Eça de Queirós. d) respectivamente por Eça de Queirós e Karl Marx. e) respectivamente por Camilo Castelo Branco e Antero de Quental. 10 (FUVEST-SP) O romance O Primo Basílio investe contra a família burguesa. Desse modo, na classificação da obra de seu autor, á apontado como pertencente à mesma fase literária de: a) A Ilustre Casa de Ramires e Os Maias b) A Ilustre Casa de Ramires e O Crime do Padre Amaro c) Os Maias e A Correspondência de Fradique Mendes d) O Crime do Padre Amaro e A Cidade e as Serras e) O Crime do Padre Amaro e Os Maias. 11 (VUNESP) Leia com atenção: “Ele soube, com efeito, continuando e metodizando o trabalho de Garrett, reaproveitar a linguagem corrente, orientar-se no sentido dos seus ritmos e da sua sintaxe, tirar partido do seu vocabulário habitual, torná-la apta a exprimir uma intencionalidade ideológica e estética mais rica do que aquela em que anteriormente fora utilizada.” (Óscar Lopes e A. José Saraiva). A apreciação anterior diz respeito ao maior prosador realista da literatura portuguesa. A alternativa que o indica é: a) Alexandre Herculano d) Eça de Queirós b) Camilo Castelo Branco e) Fialho de Almeida c) Antero de Quental
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12 (FMABC-SP) Aponte a alternativa correta: a) Eça de Queirós é um dos maiores prosadores românticos de Portugal. b) Camões, além de poeta épico, é notável como lírico. c) Toda a poesia de Bocage se enquadra no Arcadismo. d) Vieira representa o melhor da poesia barroca. e) Camilo Castelo Branco é sobretudo lembrado pelo romance histórico. Questões 13 a 15 De tarde “Naquele ‘pic-nic’ de burguesas, Houve uma coisa simplesmente bela, E que, sem ter história nem grandezas, Em todo o caso dava uma aquarela. Foi quando tu, descendo do burrico, Foste colher, sem imposturas tolas, A um granzoal azul de grão-de-bico Um ramalhete rubro da papoulas. Pouco depois, em cima duns penhascos, Nós acampamos, inda o Sol se via; E houve talhadas de melão, damascos, E pão-de-ló molhado em malvasia. Mas, todo púrpuro a sair da renda Dos teus dois seios como duas rolas, Era o supremo encanto da merenda O ramalhete rubro das papoulas!” O poema acima transcrito é de autoria de Cesário Verde, poeta português cuja obra oscila entre o parnasianismo e o realismo. Responda às seguintes questões: 13 (VUNESP) Se tivesse de caracterizar o poema como parnasiano ou realista, por qual das nomenclaturas optaria?

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14 (VUNESP) Ainda que se possa, de fato, optar por uma, e só uma, das nomenclaturas, existem no poema características nitidamente parnasianas e segmentos que pertencem à técnica da poesia realista. Indique sucintamente quais são as características parnasianas e os elementos da poesia realista que o poema apresenta. 15 (VUNESP) Que outros autores portugueses parnasianos e realistas conhece? 16 (FUVEST-SP) Guerra Junqueiro pode ser enquadrado no movimento estético realista porque: a) voltou-se para a análise das camadas profundas do inconsciente. b) escreveu poemas de combate social. c) desenvolveu, em seus romances, a crítica social. d) buscou revitalizar a musicalidade do verso. e) procurou as raízes históricas da nação. 17 (FUVEST-SP) Na Literatura Portuguesa, ao lado de Camões e Bocage, considera-se grande sonetista: a) Diogo Bernardes d) Guerra Junqueiro b) Sá de Miranda e) Antero de Quental c) Almeida Garrett 18 (VUNESP) “Lá! Mas onde é lá? – Espera, Coração indomado! O Céu, que anseia A alma fiel, o Céu, o Céu da Idéia, Em vão o buscas nessa imensa esfera! O espaço é mudo: a imensidade austera Debalde noite e dia se incendeia... Em nenhum astro, em nenhum sol, se alteia A rosa ideal da eterna Primavera! O Paraíso e o templo da Verdade, Ó mundos, astros, sóis, constelações!

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Nenhum de vós o tem na imensidade... A Idéia, o sumo bem, o Verbo, e a Essência, Só se revela aos homens e às nações No céu incorruptível da Consciência!” O soneto acima transcrito é da autoria de um dos mais importantes intervenientes na Questão Coimbrã, e destacado mentor da Geração de 70. Assinale a alternativa correta. a) Antônio Feliciano de Castilho d) Antero de Quental b) Camilo Castelo Branco e) Eça de Queirós c) Guerra Junqueiro 19 (Sta. Casa-SP) Numere a 2a coluna de acordo com a 1a e responda, observando as seguintes instruções: 1. Almeida Garrett ( ) Odes Modernas 2. Antero de Quental ( ) O Crime do Pe. Amaro 3. Eça de Queirós ( ) D. Branca ( ) Mistérios da Estrada de Sintra ( ) Raios da Extinta Luz a) 3 – 2 – 2 – 1 – 3 d) 2 – 3 – 3 – 1 – 2 b) 2 – 3 – 1 – 3 – 2 e) 2 – 2 – 3 – 3 – 1 c) 1 – 3 – 2 – 3 – 2 20 (CESCEA) Qual o título da obra em que o Conselheiro Acácio figura como personagem: a) A Capital d) O Primo Basílio b) Alves e Cia e) Não sei c) O Conde d’Abranhos 21 (Sta. Casa-SP) Assinale a alternativa em que se encontra o autor cujas características fogem ao Romantismo: a) Alexandre Herculano d) Camilo Castelo Branco b) Eça de Queirós e) Antônio Feliciano de Castilho c) Almeida Garrett
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22 (UM-SP) Assinale a alternativa incorreta a respeito do Realismo em Portugal. a) Seus seguidores reagiram violentamente contra tudo que se identificava com o Romantismo. b) No plano político, o posicionamento dos autores é monarquista e conservador. c) Um de seus principais aspectos é o racionalismo. d) Suas personagens são escolhidas nas várias camadas e grupos sociais de seu tempo. e) Apresenta vários pontos comuns em relação ao Naturalismo. 23 (UF-PI) Um traço estético presente em O Primo Basílio, de Eça de Queirós, é: a) linguagem fortemente descritiva b) linguagem contida, sem detalhes c) emprego de recursos gráficos d) linguagem introspectiva e) linguagem cinematográfica 24 (UF-PI) São temas de O Primo Basílio, exceto: a) a ociosidade burguesa b) uma intensa idealização amorosa c) uma visão pessimista da sociedade portuguesa d) o adultério e) o erotismo

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SIMBOLISMO (1890-1910)

Les Nymphéas, de Monet

Os pintores impressionistas saem ao ar livre para captar os efeitos da luz sobre os objetos. Pintam paisagens em que o movimento, o instante e a sugestão são mais importantes que as formas nítidas.

Reprodução

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SIMBOLISMO:

século XIX

CONTEXTO HISTÓRICO: neocolonialismo
Ultimato Inglês

CARACTERÍSTICAS:

musicalidade sinestesia sugestão Eugênio de Castro Antônio Nobre Camilo Pessanha

AUTORES:

Realismo
• • • •

Simbolismo
• • • •

positivismo/materialismo/ cientificismo racionalismo representação objetiva e nítida da realidade objetividade*

idealismo/misticismo/ metafísica valorização da intuição sugestão, evocação da realidade mergulho no inconsciente

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SIMBOLISMO (1890- 1910)
O Simbolismo surge com reação ao positivismo, ao materialismo, ao cientificismo. Iniciou-se em Portugal em 1890 com a publicação do livro de poemas Oaristos, de Eugênio de Castro, e terminou em 1910, com a instauração da república em Portugal. Foi um período em que se produziu, sobretudo, poesia.

Contexto Histórico
O final do século XIX foi marcado por uma industrialização acelerada, que levou as grandes potências a se expandirem pelo mundo, buscando matérias-primas para a indústria e mercados consumidores para os produtos industrializados. Esse processo, chamado de imperialismo ou neocolonialismo, gerou um clima internacional de rivalidades e provocou uma acirrada competição entre as nações para dominar regiões da África e da Ásia. A rica burguesia industrial obtinha lucros com esse imperialismo, mas as desigualdades sociais cresciam e a classe média entrava em colapso. Portugal vivia uma crise monárquica em conseqüência das greves operárias, das idéias republicanas e da crise econômica. Agravando esse quadro, o Ultimato Inglês de 1890 levou ao extremo a insatisfação popular: cedendo aos ingleses, Portugal retirou as tropas que ocupavam os territórios entre suas colônias de Angola e Moçambique, pois os britânicos ameaçavam tomálas pela força. Em toda a Europa o materialismo começou a ser questionado, renovando-se, então, as tendências idealistas como reação ao pessimismo dominante. O homem voltou-se para o misticismo, a metafísica, a religião, a fé, a análise do inconsciente. É nítida a influência de Henri Bergson, cuja filosofia defendia a idéia de que a intuição permite captar a realidade de modo mais completo do que a razão.
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Manifestações Artísticas
O Impressionismo, na pintura e na música, foi o movimento correspondente ao Simbolismo. Os pintores pretendiam captar a natureza, em contínua transformação, com rápidas pinceladas, preocupando-se mais com o efeito geral do que com as formas nítidas, os detalhes. Isso porque, mais do que a representação, interessava-lhes a sugestão. Observe esse poder de sugestão no delicado quadro de Degas. Procure conhecer as obras dos pintores impressionistas e pós-impressionistas: Manet, Renoir, Monet, Cèzanne, Van Gogh, Gauguin, ToulouseLautrec e Klimt, e dos pintores simbolistas Moreau, Odilon Redón e Gauguin. A música, que se inspira no exotismo do extremo oriente, afasta-se da temática épica do Romantismo. Seu maior representante é Claude Debussy.

A dançarina no palco, de Degas

Literatura
O Simbolismo opôs ao racionalismo, ao cientificismo, ao materialismo do período anterior, a valorização da intuição, das manifestações espirituais e metafísicas. Os simbolistas, a exemplo dos românticos, voltaram-se para dentro deles mesmos. Mas esse novo egocentrismo foi além: à procura de zonas mais profundas do “eu”, mergulhou no caos do inconsciente e do subconsciente, dos estados d´alma. No entanto, essas zonas mais profundas são inefáveis, isto é, indizíveis, não se deixam exprimir por palavras, por isso os
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simbolistas diziam que as palavras deveriam sugerir, evocar e não definir nem descrever. Para isso usaram o símbolo como recurso expressivo. O símbolo é uma metáfora polivalente que tenta apreender todo o conteúdo difuso e multifacetado do interior do artista: o poema reveste-se de mistério e vaguidão mais facilmente evocáveis pela música. Paul Verlaine, simbolista francês, afirmava que a poesia deveria ser “música antes de qualquer coisa” (de la musique avant toute chose), por isso a musicalidade — conseguida pelo eco, pela rima e, sobretudo, pela aliteração — foi tão perseguida peOs simbolistas franceses los simbolistas. E como tudo era Verlaine e Rimbaud vivem sugestão, os símbolos criavam um intenso relacionamenrelações entre os cinco sentidos, to afetivo e poético no filapelando para a totalidade de me O eclipse de uma painossa percepção: as cores tixão (1997), dirigido por nham cheiros; os aromas, textuAgnieszka Holland ras; as texturas, cheiros — a isso se chama sinestesia.

Produção Literária
Reprodução

Eugênio De Castro (1869-1944)
Embora seja o introdutor do Simbolismo em Portugal com sua obra Oaristos, de 1890, seu simbolismo é forçado e superficial. No entanto, neste pequeno trecho de Oaristos, percebe-se a preocupação com a musicalidade — conseguida pelas rimas internas, pelas alitera-

Eugênio de Castro

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ções, pela alternância de metros. A atmosfera do poema é rarefeita, própria do caos onírico retratado e reforçada pela escolha de palavras raras: (...) Na messe1, que enlourece,estremece a quermesse... O sol, o celestial girassol, esmorece... E as cantilenas2 de serenos sons amenos Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos... As estrelas com seus halos3 Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas4 e crotalos5, Cítolas6, cítaras, sistros7, Soam suaves, sonolentos, Sonolentos e suaves, Em suaves, Suaves, lentos lamentos De acentos Graves Suaves...
(Eugênio de Castro. In: Torres, Alexandre Pinheiro (org.). Op.cit.)

Oaristo, termo grego, significa “diálogo íntimo” ou “diálogo entre esposos ou amantes”. As inovações no livro de poemas Oaristos pautam-se principalmente no plano formal: exploração do verso alexandrino com cesuras diferentes, rimas originais e aliterações.
1. plantação em época de colheita 2. cantiga suave 3. discos luminosos que envolvem alguns astros 4. gaitas de foles 5. antigos instrumentos musicais, semelhantes a castanholas 6. o mesmo que cítaras, instrumentos musicais de corda 7. antigos instrumentos de percussão

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Poeta saudosista, seus temas preferidos são o sofrimento, a saudade e o tédio. Coexistem em sua obra um vocabulário cotidiano, coloquial, e o vocabulário requintado do Simbolismo. Em 1892, publicou seu livro de poesias Só.
Antônio Nobre

VIAGENS NA MINHA TERRA Às vezes, passo horas inteiras Olhos fitos nestas braseiras, Sonhando o tempo que lá vai; E jornadeio em fantasia Essas jornadas que eu fazia Ao velho Douro, mais meu Pai. Que pitoresca era a jornada! Logo, ao subir da madrugada, Prontos os dois para partir: – Adeus! adeus! é curta a ausência, Adeus! – rodava a diligência Com campainhas a tinir! (...)
(Só, 10a ed., Porto, Tavares Martins, 1955)

Este fragmento de texto remete-nos ao Romantismo (de que o Simbolismo é um prolongamento) e, nele, a Almeida Garrett. Nobre foi um poeta de sensibilidade romântica, a qual soube expressar de forma simbolista e moderna.
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Antônio Nobre (1867-1900)

Pessanha viveu a maior parte de sua vida em Macau (colônia portuguesa na China), onde se viciou em ópio. Maior representante do Simbolismo português, é o único poeta que se enquadra nas características fundamentais da estética simbolista: musicalidade, sugestão, imagens Camilo Pessanha fragmentadas, desarticuladas e uso do símbolo. É o poeta da dor, da ilusão, da nostalgia. Publicou, em 1920, Clepsidra, seu único livro.

Clepsidra é um relógio que marca a passagem do tempo através do fluir da água. Klepsydra = Klepto (furto, roubo) + hydro (água) Portanto, o relógio rouba a água, isto é, o tempo, assim como a vida nos é roubada.

No texto seguinte, à moda de Verlaine, a preocupação com a sonoridade é patente. As imagens são “impressões” que se juntam desarticuladamente num mosaico sensorial: Chorai, arcadas Do violoncelo! Convulsionadas, Pontes aladas De pesadelo...
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Camilo Pessanha (1867-1926)

De que esvoaçam, brancos, os arcos... Por baixo passam, Se despedaçam, No rio, os barcos. Fundas, soluçam Caudais de choro... Que ruínas, (ouçam)! Se se debruçam, Que sorvedouro!... Trêmulos astros... Soidões lacustres... – Lemes e mastros... E os alabastros Dos balaústres! Urnas quebradas! Blocos de gelo... – Chorai, arcadas, Despedaçadas, Do violoncelo.
(Clepsidra, “Violoncelo”. Lisboa: Ática,1945)

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Questões de Vestibulares
1 (FUVEST) O Simbolismo se iniciou em Portugal em 1890, graças a Eugênio de Castro. a) Indique o título da obra publicada nessa data. b) Cite outro autor simbolista português. 2 (Mackenzie-SP) Assinale a alternativa incorreta. a) A poesia lírico-amorosa de Camões apresenta uma meditação acerca do amor. b) Camilo Pessanha, através de seus sonetos neoclássicos, aproxima-se da temática camoniana. c) A poesia de Bocage divide-se em duas partes: satírica e lírica. d) Enquanto ficcionista, Camilo Castelo Branco cultivou a novela passional. e) Eça de Queirós tanto escreveu romances como contos realistas. 3 (FUVEST-SP) Encontre a alternativa em que há erro na correlação estética/característica. a) Romantismo – sentimentalismo b) Naturalismo – determinismo c) Parnasianismo – descritivismo d) Simbolismo – materialismo e) Modernismo – nacionalismo 4 (F. Objetivo-SP) A negação do Positivismo, do Materialismo e das estéticas neles fundamentadas; a criação poética como fruto do inconsciente, da intuição, da sugestão, da associação de imagens e idéias; o tom vago, impreciso, nebuloso; o uso acentuado de sinestesias e intensa musicalidade são características do: a) Realismo b) Simbolismo c) Naturalismo d) Romantismo e) Parnasianismo
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5 (FUVEST-SP) Só e Clepsidra são obras de um mesmo movimento literário. Indique: a) O movimento. b) O autor de cada obra. 6 (FUVEST-SP) a) Qual a estética que mais explorou as sonoridades da língua, procurando aproximar a poesia da música? b) Cite dois representantes dessa estética. 7 (FUVEST-SP) a) Em que século e em que movimento literário se situa a obra de Camilo Pessanha? b) Dê razões que permitam situar sua obra nesse movimento. 8 (VUNESP) Assinale a alternativa em que se caracteriza a estética simbolista. a) Culto do contraste, que opõe elementos como amor e sofrimento, vida e morte, razão e fé, numa tentativa de conciliar pólos antagônicos. b) Busca do equilíbrio e da simplicidade dos modelos greco-romanos, através, sobretudo, de uma linguagem simples, porém nobre. c) Culto do sentimento nativista, que faz do homem primitivo e sua civilização um símbolo de independência espiritual, política, social e literária. d) Exploração de ecos, assonâncias, aliterações, numa tentativa de valorizar a sonoridade da linguagem, aproximando-a da música. e) Preocupação com ‘a perfeição formal, sobretudo com o vocabulário carregado de termos científicos, o que revela a objetividade do poeta. 9 (UFV-MG) Assinale a alternativa em que todas as características de estilo são do Simbolismo. a) Impassibilidade, vida descrita objetivamente, ecletismo. b) Hermetismo intencional, alquimia verbal, musicalidade.

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c) Favor da forma, expressões ousadas, fidelidade nas observações. d) Atmosfera de imprecisão, realismo cru, religiosidade. e) Complexidade, ressurreição dos valores humanos, materialismo pornográfico. 10 (FCMSC-SP) Disse o grande professor de Literatura: “O trecho que acabo de ler é objetivo, comedido, as descrições são minuciosas e são freqüentes as evocações de figuras mitológicas. É elaborado; tem formas eruditas. É freqüente o hipérbato.” Com mais probabilidade, o trecho que o professor acabara de ler: a) é de um romance do Romantismo brasileiro (1" fase). b) é de um poema do Indianismo brasileiro. c) é de uma obra realista ou naturalista (conto ou romance). d) é um poema parnasiano. e) é de algum autor simbolista, mas, sem dúvida, em prosa. 11 (FUVEST-SP) “Só, incessante, um som de flauta chora, Viúva, grácil, na escuridão tranqüila, – Perdida voz que de entre as mais se exila, – Festões de som dissimulando a hora.” Os versos acima são marcados pela presença ............ e pela predominância de imagens auditivas, o que nos sugere a sua inclusão na estética ............ . Assinale a alternativa que completa os espaços. a) da comparação – romântica b) da aliteração – simbolista c) do paralelismo – trovadoresca d) da antítese – barroca e) do polissíndeto – modernista 12 (UNIFICADO-RS) “Nasce a manhã, a luz tem cheiro... Ei-la que assoma Pelo ar sutil... Tem cheiro a luz, a manhã nasce... Oh sonora audição colorida do aroma!”
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A linguagem poética, em todas as épocas, foi e é simbólica; o Simbolismo recebeu esse nome por levar essa tendência ao paroxismo. Os versos acima atestam essa exuberância, pela fusão de imagens auditivas, olfativas e visuais, construindo rico exemplo de: a) eufemismo b) sinestesia c) antítese d) polissíndeto e) paradoxo 13 (CESESP-PE) “O .......... está para o Parnasianismo, assim como a ......... está para o Simbolismo.” A alternativa que não preenche as lacunas é: a) verso de ouro – dimensão mística b) artesanato da palavra – liturgia c) culto da forma – musicalidade d) lirismo exacerbado – realidade chá e) perfeccionismo métrico – flexibilidade 14 (FUVEST-SP) “Só, incessante, um som de flauta chora, Viúva, grácil, na escuridão tranqüila.” Esses versos de Camilo Pessanha, além de se referirem a um instrumento musical, exploram, acentuadamente, o aspecto sonoro das palavras. Portanto, o poeta filia-se ao: a) Romantismo b) Arcadismo c) Modernismo d) Barroco e) Simbolismo
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Com base no texto, responda às questões de 15 a 17 O visionário ou Som e cor A Eça de Queirós III “ ‘O vermelho deve ser como o som de uma trombeta...’ (Um cego) Alucina-me a Cor! – a rosa é como a Lira, A Lira pelo tempo há muito engrinaldada, E é já velha a união, a núpcia sagrada, Entre a cor que nos prende e a nota que suspira. Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira, A teatral camélia, a branca enfastiada, Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada Como a perdida cor de alguma flor que expira... Há plantas ideais de um cântico divino, Irmãs do oboé, gêmeas do violino, Há gemidos no azul, gritos no carmesim... A magnólia é uma harpa etérea e perfumada. E o cacto, a larga flor, vermelha, ensangüentada, – Tem notas marciais, soa como um clarim.” O Soneto transcrito é de autoria de Gomes Leal, poeta português com uma longa vida literária, pois, tendo publicado seu primeiro livro em 1875, esteve em plena atividade poética praticamente até 1921. Por essa razão, sua obra acusa diversas influências, desde a impassibilidade parnasiana, o satanismo à maneira de Baudelaire, até os mecanismos da imagem e da metáfora do Simbolismo francês. Sendo injustamente um poeta menos estudado, dele já se disse que foi “o mais estranho gênio poético e vital depois de Camões”.
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15 (UNESP) Que mecanismo poético do Simbolismo é mais evidente no soneto? 16 (UNESP) Explique esse mecanismo e dê exemplos retirados do soneto. 17 (UNESP) Que outros poetas portugueses parnasianos e/ou simbolistas você conhece? 18 (Fund. Santo Andr-SP) “Os ......... voltam-se para o seu mundo interior em busca dos estratos mais recônditos: ultrapassam o nível do consciente, mergulham no subconsciente e inconsciente, e atingem o “eu” profundo. Dispõem-se a criar uma gramática psicológica e um léxico original, cunhando neologismos e regenerando arcaísmos desusados, e recorrem a expedientes gráficos (as maiúsculas, o y pelo i, etc ...). Criam o verso livre, capaz de abraçar as modulações do mar interior, no encalço do mito da “poesia pura”, um dos seus mais caros ideais”. (M. Moisés, Dicionário de Termos Literários) A lacuna da citação será corretamente preenchida por: a) barrocos b) árcades c) românticos d) parnasianos e) simbolistas As questões 19 e 20 devem ser respondidas com base no poema. “Ó virgem que passais, ao sol-poente, Pelas estradas ermas, a cantar! Eu quero ouvir uma canção ardente, Que me transporte ao meu perdido lar Cantai-me, nessa voz onipotente, O sol que tomba, aureolando o Mar, A fartura da seara reluzente, O vinho, a Graça, a formosura, o luar!
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Cantai! Cantai as límpidas cantigas! Das ruínas do meu Lar desaterrai Todas aquelas ilusões antigas Que eu vi morrer num sonho, como um ai... Ò suaves e frescas raparigas, Adormecei-me nessa voz... Cantai! 19 (UF-PA) Ressai do poema dolente saudade de um tempo passado, bem como a musicalidade dos versos que expressam tristeza, desalento, desilusão. Tudo isso e o jogo de imagens sutis possibilitam vincular este texto à estética a) árcade b) simbolista c) romântica d) parnasiana e) modernista 20 (UF-PA) O autor do texto é a) Álvaro de Campos b) Fernando Pessoa c) Antônio Nobre d) Almeida Garrett e) Barbosa du Bocage 21 (UF-PA) “Ainda e sempre, música! Que teu verso seja a coisa volátil que se sente fugir de uma alma em vôo para outros céus e para outras paixões.” (Paul Verlaine)

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MODERNISMO (1915)

Reprodução

Guernica, de Pablo Picasso.

A arte do século XX decretou o fim da forma tradicional de representação renascentista. Guernica constitui o protesto de Pablo Picasso contra o bombardeio a essa cidade basca pelos alemães.

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MODERNISMO:

século XX

CONTEXTO HISTÓRICO: Primeira Guerra Mundial
Revolução Russa ascensão dos Estados Unidos à potência mundial totalitarismo (Nazismo, Fascismo, Salazarismo, Franquismo) Segunda Guerra Mundial Guerra Fria conquista espacial Terceira Revolução Industrial transformações do Leste europeu: dissolução da União Soviética

CARACTERÍSTICAS:

rejeição da tradição liberdade de criação vanguarda européia (Futurismo, Expressionismo, Cubismo, Dadaísmo Surrealismo)

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MOMENTOS E AUTORES:
Primeiro momento: geração da revista Orpheu (1915-1927) – introdução de novos padrões artísticos, predomínio da poesia: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Aquilino Ribeiro. Segundo momento: geração da revista Presença (1927-1940) – continuação das idéias da geração anterior, acrescidas de introspecção e análise interior: José Régio, Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro. Terceiro momento: Neo-Realismo (1940-1947) – literatura de denúncia social: Alves Redol, Fernando Namora, Vergílio Ferreira. Quarto momento: Surrealismo (1947-1960) – valorização do inconsciente e do sonho, ruptura com a ordenação lógica de idéias: Mário Cesariny de Vasconcelos e José-Augusto França. Atualidade: (1960-) – poesia: ecletismo e influências pessoanas; prosa: permanência do Neo-Realismo e prosa intimista. Herberto Helder, Antônio Gedeão, David Mourão-Ferreira, Sophia de Melo Breyner Andresen, Eugênio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, José Saramago.

MODERNISMO (1915-)
O Modernismo em Portugal iniciou-se em 1915, com o lançamento da revista Orpheu, e estende-se até as produções mais recentes. Didaticamente, pode ser assim dividido: a) primeiro momento: geração da revista Orpheu (1915); b) segundo momento: geração da revista Presença (1927); c) terceiro momento. Neo-Realismo (1940); d) quarto momento: Surrealismo (1947); e) atualidade(1960).
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Contexto Histórico
O progresso industrial e os avanços técnico-científicos de final do século XIX e início do XX — invenção do telégrafo, do telefone, do cinema, do avião, da lâmpada, do automóvel — abrem novas perspectivas para a comunicação e produzem na sociedade um estado de intensa euforia. O burguês quer viver, bem e confortavelmente, o momento presente. Este é o período da belle époque. No entanto, esse clima de euforia termina com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Essa guerra assistiu ao surgimento de uma nova era: a contemporaneidade, que se caracterizou pela industrialização (com base na eletricidade, no petróleo e no aço); pelo aparecimento de uma nova potência internacional — os Estados Unidos da América —; pelo acirramento das rivalidades internacionais. Com a Revolução Russa, de 1917, a classe operária, que sempre fora marginalizada, tomou o poder. Começaram então a delinear-se, na década de 20, dois regimes antagônicos: o comunismo e o capitalismo. A Europa, esfacelada, enfrentava uma séria crise, com algumas monarquias chegando ao fim e com o aparecimento de governos totalitários e anticomunistas na Alemanha (Hitler), na Itália (Mussolini), na Espanha (General Franco) e em Portugal (Salazar). Enquanto isso os Estados Unidos viviam uma fase de otimismo só interrompida pelo crack (quebra) da Bolsa de Nova York, em 1929, que gerou uma gigantesca onda de desemprego em todo o mundo. A partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), houve uma reorganização geopolítica mundial. Os Estados Unidos e a URSS firmaram-se como superpotências rivais e instalou-se a Guerra Fria, um confronto entre o bloco socialista e o capitalista sem guerra declarada. Essa guerra terminou quando Mikhail Gorbatchov é eleito presidente da União Soviética, em 1988. Sacudida por conflitos separatistas, em 1991, a URSS deixa de existir, sendo substituída pela Comunidade dos Estados Independentes (CEI).
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O século XX foi, também, o da conquista espacial e da Terceira Revolução Industrial, caracterizada pelos grandes complexos industriais, empresas multinacionais e pelos avanços da informática.

Portugal
Nas três primeiras décadas deste século, Portugal também passou por mudanças radicais. Em 1908, o rei D. Carlos e seu filho foram assassinados. Assumiu D. Manuel II, de apenas 18 anos, que não resistiu ao clima de descontentamento com a monarquia: em 1910, foi proclamada a República, que sofreu contínua oposição dos integralistas, os contra-revolucionários de extrema-direita. Um golpe militar, em 1926, colocou-os no poder. Em 1932, Antônio de Oliveira Salazar iniciou uma ditadura, inspirada no fascismo italiano, que manteve o país não só neutro durante a Segunda Guerra, mas também bastante isolado do resto da Europa. Ela só iria terminar em 25 de abril de 1974, com a Revolução dos Cravos. Em 1975, as colônias africanas, mantidas sob um regime de atraso e espoliação durante o governo de Salazar, tornam-se independentes. Em 1986, Portugal ingressou na Comunidade Econômica Européia (CEE), transformada, em 1991, em União Européia (UE)— bloco econômico formado pela maioria dos países europeus.

Vanguarda Européia
O início do século XX reuniu todas as condições para o aparecimento de várias tendências artístico-culturais, as quais se deu o nome de vanguarda européia: Futurismo, Expressionismo, Cubismo, Dadaísmo e Surrealismo. Conheça-as.

1) Futurismo
Movimento estético lançado por Marinetti em 1909, o Futurismo valorizava o futuro, exaltava a vida moderna, cultuava a má263

quina e a velocidade e pregava a destruição do passado. Agressivo, encarava a guerra como uma forma de higienizar o mundo e identificava-se com o fascismo nascente. Literariamente defendia a liberdade de expressão e a destruição da sintaxe, dos conectivos e da pontuação, substituindo-a por símbolos matemáticos e musicais. Exigia, também, o compromisso da literatura com a nova civilização técnica. Esta foi a estética que mais influenciou o primeiro momento do Modernismo português.

2) Expressionismo
Contemporâneo do Futurismo e do Cubismo, o Expressionismo foi um movimento iniciado na Alemanha e inspirado em Van Gogh, que se caracterizou pela expressão patética de intensas emoções da vida interior (medo, terror, sobressalto, solidão). Suas principais características são: distanciamento da pintura acadêmica, resgate da arte primitiva, uso aleatório de cores intensas. Observe esses traços no quadro O grito, do pintor norueguês Edvard Munch:
O grito de Edvard Munch.
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3) Cubismo
O Cubismo, resultado de experiências do espanhol Pablo Picasso e do francês Georges Braque em pintura, surgiu em Paris em 1907. Rompendo com a perspectiva, os artistas eliminaram a noção tridimensional e mostraram, monocromaticamente, vários ângulos da figura ao mesmo tempo. Retrataram sempre figuras geométricas que estruturavam todos os objetos representados.
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Nu sentado, de Picasso.

No Brasil, a poesia concreta desenvolve-se na década de 1950 e, dentre seus representantes, destacou-se os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Arnaldo Antunes, conhecido compositor/cantor brasileiro, também trabalhou o concretismo na década de 1980.
Em literatura, o expoente foi o francês Apollinaire, que reproduziu na poesia os mesmos aspectos das telas de Braque e Picasso: rompeu com o verso tradicional e trabalhou com o espaço branco da folha, prenunciando o Concretismo.
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Reprodução

V OI LA

CI

MAISON NAISSENT
É LES DIVINITÉS

?

LES TOI ET LES

(Apollinaire, Paysage, Calligrammes, Éditions Gallimard, 1966)

4) Dadaísmo
O Dadaísmo, fundado na Suíça em 1916 por Tristan Tzara, foi o mais radical movimento da vanguarda. Anarquista, pretendeu destruir todas as formas de arte institucionalizada. Os dadaístas consideravam o processo de criação, guiado pela casualidade e pelo automatismo psíquico, mais importante do que a obra de arte final. Em literatura, aboliram a lógica e a coerência, afirmando que “a melhor técnica é a ausência de técnica”. Confira esses traços no texto de Tristan Tzara:
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Trabalho de Kurt Schwitters, dadaísta.

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Paysage

Para fazer um poema dadaísta Pegue um jornal. Pegue a tesoura. Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao seu poema. Recorte o artigo. Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco. Agite suavemente. Tire em seguida cada pedaço um após o outro. Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco. O poema se parecerá com você. E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

5) Surrealismo
Este é o último movimento da vanguarda européia. Em 1924, André Breton lançou o Manifesto Surrealista em Paris, no entanto, só em 1947, o Surrealismo produziu frutos em Portugal. Influenciado pelas teorias de Freud, o Surrealismo enfatizava o papel do inconsciente na atividade artística. Suas características são: liberação do inconsciente, sondagem do mundo interior, valorização do sonho, busca do homem primitivo, ainda não corrompido pela sociedade. Na tentativa de descoberta desse homem, muitas vezes recorriam à magia, ao ocultismo, à alquimia medieval. Observe esses elementos em A tentação de Santo Antônio, de Salvador Dali, um dos mais importantes representantes do Surrealismo.
A tentação de Santo Antônio, de Salvador Dali.

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Modernismo
Portugal não esteve alheio a essas tendências da vanguarda. A atividade artística dos republicanos iniciou um período de resgate da cultura portuguesa orientado para a modernidade. Em 1910, ano também da proclamação da República, Teixeira de Pascoaes fundou A Águia. Essa revista mensal de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social, órgão da sociedade Renascença Portuguesa, tinha como programa o revigoramento da cultura portuguesa, em moldes modernos. Ela foi a precursora de outra revista, a Orpheu, que deu início, em 1915, ao Modernismo.

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Esse era o pseudônimo de Joaquim Teixeira de Vasconcelos, poeta que estabeleceu as bases de uma filosofia autenticamente lusitana, o Saudosismo, Teixeira de Pascoaes com a qual começou, a rigor, o Modernismo português. Nacionalismo arraigado e visionário e esperança messiânica são a tônica de sua poesia, em que se fazem sentir as influências de Antero e João de Deus. Deixou obra numerosa entre prosa e poesia. Marânus constitui um vasto poema em dezenove cantos, composto em decassílabos brancos e rimados. Marânus, figura mítica entre visionário e iluminado, trava contínuos diálogos com símbolos ou seres sobrenaturais, como Eleonor, a Saudade, a Primavera, O Apolo, O Bruxo, D. Quixote etc. Leia os primeiros versos do poema em que se dá o encontro entre Marânus e Eleonor:
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MARÂNUS E ELEONOR Marânus era o ser que divagava, Condigo, pelo mundo solitário. A sua própria alma o alimentava E dava-lhe a beber das suas lágrimas. Empeceralhe a noite. E, desde então, Rodeado de espantos e de assombros, Vive numa perpétua inquietação. Falho de ânimo e pobre de esperança Apenas o salvou da negra morte Esta misteriosa simpatia, Que, semelhante à tua lira, Orfeu, As feras enternece e a luz di dua! Atrai as selvas virgens que murmuram, Os inertes penedos taciturnos E as estrelas do céu que nos procuram, Com seus olhos de eterna claridade. Por isso, ele ia andando, neste doce Enlevo da paisagem, neste encanto, Que paira, magoado, sobre as cousas, Onde, em silêncio, jaz divino canto . . . Conheça os momentos da literatura modernista de Portugal:

Primeiro Momento (1915–1927)
A revista Orpheu (lançada em 1915 e que só teve dois números) reunia poetas e artistas, influenciados sobretudo pelo Futurismo, que se propunham criar uma poesia alucinada, chocante, irritante e irreverente para chocar o burguês (épater le bourgeois). Com ela inaugurou-se o Modernismo, já prenunciado por A Águia. Em 1927, a publicação da revista Presença iniciou a segunda fase desse movimento.
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Mário de Sá-Carneiro, ao lado de Fernando Pessoa e Almada Negreiros, entre outros, fundou a revista Orpheu. Ele financiou seus dois únicos números. Nele vida e obra confundem-se. Em Mário de Sá-Carneiro ambas há o sentimento de inadaptação ao mundo, que se revela pela desintegração do eu. Leia estes versos do poema Dispersão: Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto, E hoje, quando me sinto, É com saudades de mim. (...) Perdi a morte e a vida, E, louco, não enlouqueço... A hora foge vivida Eu sigo-a, mas permaneço... (...)
(Poesias. Lisboa: Ática, 1946)

Em prosa, Sá-Carneiro escreveu Princípio, Céu em fogo, A confissão de Lúcio; em poesia, Dispersão e Indícios de Ouro. O poeta suicidou-se em Paris em 26 de abril de 1916 quando regressou de Lisboa, em decorrência de uma profunda crise financeira e moral. Além de poesias, escreveu um livro de contos (1912) e teatro (1912 – Amizade, em colaboração com Tomás Cabreia Jr). O homem do século XX não é menos individualista, nem é menor sua ruptura com o mundo e consigo mesmo que no individualismo iniciado no século XVI e na expressão intensa no Romantismo do século XIX. Releia o poema Dispersão.
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a) Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

Quando da publicação da revista Orpheu em 1915, os artistas, influenciados pelo Futurismo de Marinetti, conseguiram criar o clima de escândalo que pretendiam. As críticas mais violentas referem-se ao poema “Ode Triunfal” de Fernando Pessoa (publicado sob o heterônimo Álvaro de Campos, e “Manucure”, de Mário de Sá-Carneiro. Conheça um fragmento desse longo poema: – Ó beleza futurista das mercadorias! – Serapilheira dos fardos, Como eu quisera togar-me de Ti! – Madeira dos Caixotes, Como eu ansiara cravar os dentes em Ti! E os pregos, as cordas, os aros... – Mas, acima de tudo, como bailam faiscantes A meus olhos audazes de beleza, As inscrições de todos esses fardos – Negras, vermelhas, azuis ou verdes – Gritos de atual e Comércio & Indústria Em trânsito cosmopolita: (...)
(SÁ-CARNEIRO, Mário de. In: MORNA, Fátima Freitas. A poesia de Orpheu. Lisboa: Editorial Comunicação, 1982. p.156.)
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b) Fernando Pessoa (1888-1935)

Órfão aos cinco anos, Fernando Pessoa foi levado pela mãe e pelo padrasto para a África do Sul, onde estudou até 1905, quando retornou a Portugal. Colaborou na revista A Águia, fundou e foi diretor da Orpheu. Só uma de

Fernando Pessoa

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suas obras, em português, foi publicada em vida: Mensagem, ganhadora do segundo prêmio num concurso oficial de poesia, em 1934. Fernando Pessoa é a figura mais importante do Modernismo em função da obra, peculiaríssima, na qual se desdobra em três heterônimos* principais: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, além de escrever como Fernando Pessoa ele-mesmo. Já se disse que sua obra corresponde a uma literatura inteira, pois cada um dos heterônimos tem um estilo e uma atitude que os distinguem. Mensagem apresenta três partes: Brasão, Mar Portuguez e O Encoberto. Cada uma destas partes sugere uma parte da História de Portugal, além de permitir, pela riqueza de sua simbologia, uma série de significações. Nessa obra, o poeta alterna palavras em português moderno com outras do português arcaico. Em Brasão, o poeta fala da nação portuguesa, das origens até pouco antes dos grandes descobrimentos; em Mar Portuguez, composta de doze poemas, sem subdivisões, conta o período das Grandes Navegações, o auge da história lusitana, quando Portugal estava livre de obstáculos e desejoso de dominar os mares; a terceira parte O Encoberto está subdividida em três seções em que há expressão do sentimento de decadência que se seguiu ao apogeu lusitano.. De enfoque sebastianista, essa parte fixa-se na figura do rei D. Sebastião e na crença no Quinto Império. Conheça algumas estrofes do poema Hora Absurda contidas em seu livro Poesias, 1942.
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* Heterônimo: nome que um escritor dá a um autor criado por ele, com biografia e obra distintas da sua. No caso de Fernando Pessoa, essa criação é um meio de conhecer a plenitude cósmica, tarefa impossível para uma só pessoa.

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HORA ABSURDA O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas . . . Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso . . . E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas Com que me findo mais alto e ao pé de qualquer paraíso . . . Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte . . . O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, a um canto . . . Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia . . ., e entanto Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte . . . Abre todas as portas e que o vento varra a idéia Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões Minha alma é uma caverna enchida p’la maré cheia, E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões . . . Chove ouro baço, mas não no lá-fora . . . É em mim . . . Sou a Hora, E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela . . . Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora . . . No meu céu interior nunca houve uma única estrela . . . (...)

Conforme o próprio Fernando Pessoa, os heterônimos representam diferentes visões de mundo e diferentes personalidades poéticas: “Multipliquei-me, para me sentir, Para me sentir, precisei sentir tudo, Transbordei-me, não fez senão extravasar-me”

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Conheça esse belo poema de Fernando Pessoa “ele mesmo”.

EM BUSCA DA BELEZA O sono – Oh, ilusão! – o sono? quem Logrará esse vácuo ao qual aspira A alma que de aspirar em vão delira E já nem força para querer tem? Que sono apetecemos? O d’alguém Adormecido na feliz mentira Da sonolência vaga que nos tira Todo o sentir no qual a dor nos vem? Ilusão tudo! Querer um sono eterno, Um descanso, uma paz, não é senão O último anseio desesperado e vão. Perdido, resta o derradeiro inferno Do tédio intérmino, esse de já não Nem aspirar a ter aspiração.

Alberto Caeiro
Heterônimo considerado mestre de todos os outros, Caeiro “nasceu” a 16 de março de 1889, “morreu” em 1915 e só teve instrução primária. Poeta que busca o campo e a vida ingênua e simples, para ele o mundo é só o real-sensível, o que percebemos pelos sentidos, por isso “pensar é estar doente dos olhos”, diz. Leia esta “autobiografia”:
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Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus. Sou fácil de definir. Vivi como um danado. Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
(Caeiro, Alberto, het. [Pessoa, Fernando]. In Fernando Pessoa — Obra Poética. 3a ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1969)

A obra poética de Alberto Caieiro compõe-se de O Guardador de Rebanhos, conjunto de 49 poemas que nos revela a visão de mundo do “mestre dos heterônimos”; O pastor amoroso, pequeno conjunto de seis poemas, e os Poemas Inconjuntos. Leia um trecho de um poema extraído de “O guardador de rebanhos” Sou um guardador de rebanhos O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos
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E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto. E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei a verdade e sou feliz.

Ricardo Reis

“Nasceu” a 19 de setembro de 1887. Formou-se em medicina e exilou-se no Brasil porque, como era monarquista, não concordava com a República. Ricardo Reis é o poeta pagão, estudioso da cultura clássica. Em suas odes manifesta a tranqüilidade horaciana e o correspondente epicurismo: como a vida é breve seus momentos devem ser prazerosamente desfrutados (carpe diem). Reconheça essas características nesta ode: Bocas roxas de vinho, Testas brancas sob rosas, Nus, brancos antebraços Deixados sobre a mesa;
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Tal seja, Lídia, o quadro Em que fiquemos, mudos, Eternamente inscritos Na consciência dos deuses. Antes isto que a vida Como os homens a vivem, Cheia da negra poeira Que erguem das estradas. Só os deuses socorrem Com seu exemplo aqueles Que nada mais pretendem Que ir no rio das coisas.
(Reis, Ricardo, het. [Pessoa, Fernando]. In: op.cit.)

Álvaro de Campos
“Nasceu” a 15 de outubro de 1890. Era engenheiro naval formado na Escócia. Poeta modernista, Álvaro de Campos é o heterônimo que mais se aproxima da vanguarda, sobretudo do Futurismo, por isso cultua a máquina e a velocidade. Álvaro de Campos é o habitante da cidade grande, agressivo, moderno, voltado para seu tempo. Dois longos poemas e bem conhecidos revelam esse futurismo; “Ode Triunfal” e “Ode Marítima”. Conheça um fragmento de Ode Triunfal. ODE TRIUNFAL À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
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Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! (...)
(Campos, Álvaro de, het. /Pessoa, Fernando/.In: op. cit.)

Inadaptado, vivendo sempre à margem, Álvaro de Campos é pessimista, descrente e angustiado, mas, antes de tudo, lúcido: Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este pode ser que..., Isto. Um internado num manicômio é, ao menos, alguém, Eu sou um internado num manicômio sem manicômio. Estou doido a frio, Estou lúcido e louco, Estou alheio a tudo e igual a todos:
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Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura Porque não são sonhos. Estou assim... (...)
(Campos, Álvaro de, het. [Pessoa, Fernando]. In: op.cit.)

Fernando Pessoa ele-mesmo
Fernando Pessoa ortônimo é um poeta que retoma a tradição lírica portuguesa tanto na ingenuidade de Quadras ao gosto popular quanto no desencanto de Cancioneiro. Observe, nestas duas quadras, o ritmo conseguido pelo uso da redondilha maior e a graça simples do conteúdo: Cantigas de portugueses São como barcos no mar— Vão de uma alma para outra Com riscos de naufragar. Vesti-me toda de novo E calcei sapato baixo Para passar entre o povo E procurar quem não acho.
(Pessoa, Fernando. In: op. cit.)

Lendo este outro poema, perceba toda a melancolia e introversão que faziam com que Caeiro dissesse que Fernando Pessoa era um “novelo embrulhado para o lado de dentro”: Nada sou, nada posso, nada sigo. Trago, por ilusão, meu ser comigo. Não compreendo compreender, nem sei Se hei de ser, sendo nada, o que serei.
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Fora disto, que é nada, sob o azul Do lato céu um vento vão do sul Acorda-me e estremece no verdor. Ter razão, ter vitória, ter amor Murcharam na haste morta da ilusão. Sonhar é nada e não saber é vão. Dorme na sombra, incerto coração.
(Pessoa, Fernando. In: op. cit.)

O Saudosismo de Teixeira de Pascoaes, seu projeto de revigorar a cultura portuguesa, resgatando o passado glorioso da pátria, aparece em Mensagem, um conjunto de poemas de inspiração teosófica, sebastianista (o sonho do Quinto Império português) e épica. Neste poema, Pessoa refere-se à época das Grandes Navegações e, por isso, grafou algumas palavras em português arcaico: MAR PORTUGUEZ Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão resaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador* Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, Mas nelle é que espelhou o céu.

* cabo da costa africana. Era até onde se conhecia a África na época das Grandes Navegações.

(Pessoa, Fernando. In: op.cit.)

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Os versos iniciais de “Mar portuguez” dialoga com os dois últimos versos da estrofe 92 de Os Lusíadas: “A branca areia as lágrimas banhavam, Que em multidão com elas se igualavam” Dois autores ainda merecem destaque neste primeiro momento, embora não tenham feito parte da geração da Orpheu: 1. Florbela Espanca (1894-1930) é considerada a mais importante poetisa do Modernismo. Sua poesia revela uma delicada trabalhadora do verso e uma sensualista, pelo erotismo, pela exaltação dos sentimentos e dos prazeres, pelo mergulho na paixão. Suas obras principais são: Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade, Charneca em flor; Conheça o belo soneto Eu. Eu sou a que no mundo anda perdida Eu sou a que na vida não tem morte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada . . . a dolorida . . . Sombra de névoa tênue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte Impede brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida! . . . Sou aquela que passa e ninguém vê . . . Sou a que chamam triste sem ver . . . Sou a que chora sem saber por quê . . . Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou!
ESPANCA, Florbela. Apud:MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1980, p. 470.

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2. Aquilino Ribeiro (1885-1963) destaca-se pela pesquisa estilística. Nele, as palavras servem menos para significar do que para impressionar. O melhor de sua obra está na novela “O Malhadinhas”, que faz parte do livro Estrada de Santiago. Em seus romances defendeu o homem rústico sempre oprimido, por isso abriu caminho para o Neo-Realismo que se iniciaria em 1940. Conheça um fragmento de sua novela O malhadinhas. Esse entretrecho gira em torno do Malhadinhas de Barrelas, almocreve de muitas andanças, que no fim da vida se põe a contá-las “perante escrivães da vida e manatas”:

Danado aquele Malhadinhas de Barrelas, homem sobre o meanho, reles de figura, voz tão untosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por uma nonada, crivar à naifa o abdômen dum cristão. Desciam-lhe umas farripas ralas, em guisa de suíças, à borda das orelhas pequeninas e carnudas como cascas de noz; trajava jaleca curta de montanhaque; sapato de tromba erguida; faixa preta de seis voltas a aparar as volutas dobradas da corrente de muita prata – e Aveiro vai, Aveio vem, no ofício de almocreve, os olhos sempre frios mas sem malícia, apenas as mandíbulas de dogue a atraiçoar o bom-serás, as suas façanhas deixaram eco por toda aquela corda de povos que anos e anos recorreu. Na velhice, o negócio tilintado através de gerações, as andanças de recoveiro, o ver e aturar mundo, tinham-no provido de lábia muito pitoresca, levemente impregnada dum egoísmo pândego e glorioso. Nas tardes de freira, sentado na banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, desbocava-se a desfiar a sua crônica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.

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Segundo Momento (1927-1940)
Este segundo momento iniciou-se com o lançamento da revista Presença, em 1927, e prolongou-se até seu último número, em 1940. A geração presencista continuou as idéias órficas, acrescentando-lhes a análise interior e a introspecção. Atacando o passado e o academicismo, defendeu o predomínio da “literatura viva” sobre a “literatura livresca”.
Reprodução

José Régio (1901-1940)
Esse é o pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, um dos fundadores da revista Presença. O centro de sua obra, sobretudo a poética, é o conflito entre o bem e o mal, Deus e o Diabo, o relativo e o absoluto. Em O José Régio Jogo da Cabra-Cega, seu romance mais importante, a audácia de suas cenas erótico-sacrílegas fez com que o livro fosse retirado de circulação em sua primeira edição. Conheça fragmentos do poema Cântico Negro, do livro Poema de Deus lê do Diabo (1925)

CÂNTICO NEGRO “Vem por aqui” - dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui”! Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) E nunca vou por ali . . .
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A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. – Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre a minha Mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos . . . Se ao que busco saber nenhum de vós responde, Por que me repetis: vem por aqui”? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí . . . Ainda destacaram-se os presencistas Miguel Torga, autor que procura, em sua terra natal, entre vales e montanhas, as respostas para o enigma da existência; e o poeta, ensaísta e professor Adolfo Casais Monteiro.

Terceiro Momento – O Neo-Realismo (1940-1947)
Insurgindo-se contra o “psicologismo” da geração presencista, os neo-realistas fizeram uma literatura voltada para o exterior, para a denúncia social. A Guerra Civil espanhola, o advento do nazismo, a crise econômica mundial e a repressão portuguesa ao sindicalismo contribuíram para o engajamento dos escritores neo-realistas. Eles foram influenciados pela literatura norte-americana da época e pelos escritores regionalistas brasileiros (José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queirós). A obra introdutora da nova tendência foi o romance Gaibéus, de Alves Redol. No entanto, os romances A Selva e Emigrantes, de Ferreira de Castro, ambientados na selva amazônica, onde o autor trabalhara como seringueiro, já haviam prenunciado, na década de 30, o Neo-Realismo.

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Três autores destacaram-se, neste momento: a) Antônio Alves Redol (1911-1969) introduziu o Neo-Realismo com um romance que conta a vida injustiçada e sofrida dos gaibéus, modestos camponeses do Ribatejo; O trecho que se vai ler corresponde aos parágrafos iniciais do capítulo intitulado “Mensagem da Nuvem Negra”, um dos tantos episódios da biografia sempre igual dos gaibéus anônimos: Pareciam cercados no trabalho pelo braseiro de um fogo que alastrasse na Lezíria Grande. Como se da Ponta de Erva ao Vau a leiva se consumisse nas labaredas de um incêndio que irrompesse ao mesmo tempo por toda a parte. O ar escaldava; lambia-lhes de febre os rostos corridos pelo suor e vincados por esgares que o esforço da ceifa provocava. O Sol desaparecera há muito, envolvido pela massa cinzenta das nuvens cerradas. Os ceifeiros não o sentiam penetrar-lhes a carne abalada pela fadiga. Lento, mas persistente, parecia ter-se dissolvido no ar que respiravam, pastoso e espesso. Trabalhavam à porta de uma fornalha que lhes alimentava os pulmões com metal em fusão. Quase exaustos, os peitos arfavam num ritmo de máquinas velhas saturadas de movimento. A ceifa, porém, não parava, e ainda bem – a ceifa levava o seu tempo marcado. Se chovesse, o patrão apanharia um boléu de aleijar, diziam os rabezanos na sua linguagem taurina. Eles próprios não a desejavam; se as foices não cortassem arroz, as jornas acabariam também. E se ao sábado o apontador não enchesse a folha, as fateiras não trariam pão e conduto da vila. b) Fernando Namora (1919-1989) também fez crítica social, mas tendeu para um realismo psicológico, para a análise comportamental das personagens. Seu romance mais im-

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portante é O Homem Disfarçado publicado pela primeira vez em 1957. O dinheiro é fator importante na vida do personagem João Eduardo e no mundo ficcional de Fernando Namora. Para o personagem, é tudo, a ponto de levá-lo ao naufrágio interior. Para o romancista, serve como denúncia de uma situação social: a alimentação da burguesia ascendente e, por tabela, das classes dominantes. c) Vergílio Ferreira (1916-) mesclou, em sua obra, Neo-Realismo com preocupações metafísicas. Escreveu Manhã Submersa e Aparição, entre outras obras.

Quarto Momento – O Surrealismo (1947-1960)
Em 1947, apareceram grupos que se insurgiram contra os neorealistas e recolocaram o eu-profundo do artista em primeiro plano: os surrealistas. Eles produziram poesia que revelava, através da linguagem automática, um mundo inconsciente e onírico. Em 1949, realizou-se em Lisboa a Exposição Surrealista, que reuniu pintores, poetas e intelectuais (influenciados pelas teorias de André Breton, líder do Surrealismo francês) e que escandalizou a sensibilidade burguesa. São seus representantes mais destacados: a) Mário Cesariny de Vasconcelos – a personalidade mais forte do movimento e b) José-Augusto França – o teórico do Surrealismo. Entre outras obras de Mário Cesariny de Vasconcelos destaca-se o poema Parada inserido em sua obra Poesia, 1961. PARADA Com um grande termômetro no chapéu e um certo ar marcial de gênero eqüidistante todos saíram hoje das suas casas na duna para a rua a soprar o vento que vem de longe
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a certeza que há de vir de longe a formiga que vem de muito longe Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros nas montras nos passeios por baixo dos bancos passam os pontos escuros para o outro lado sem esquecer o espelho sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino para fazer a surpresa sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte de cor do sol o pescoço da nossa felicidade
(Poesia. Lisboa: Delfos [1963], pp.146, 147.)

Nesse poema, o poeta estabelece analogias e aproximações insólitas “Com um grande termômetro no chapéu”, etc.), dum tal modo que o mundo se lhe afigura imerso num formidável pesadelo ou ele houvesse aberto as comportas que preservam o subconsciente de vir à luz. Percebe-se, contudo, que o caos do poema é aparecer: no fundo, guarda uma ordem, ordem poética decerto, como se a realidade estivesse sendo vista de cabeça para baixo. Ao mesmo tempo, uma brisa de emoção varre o poema todo, denotando um poeta autêntico que do real cotidiano extrai cargas, para todos insuspeitas, de lirismo Imanente. Da melhor poesia surrealista, sem dúvida alguma.

Atualidade (1960)
Na poesia, predomina o ecletismo (poesia experimental e poesia de caráter social) ao lado de influências pessoanas. Destacam-se Herberto Helder, Antônio Gedeão, David Mourão-Ferreira, Sophia de Melo Breyner Andresen e Eugênio de Andrade. Na prosa, a permanência do Neo-Realismo alterna-se com a prosa intimista. Nela sobressaem:
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a) Agustina Bessa-Luís: após a publicação de A Sibila, tem sido considerada o segundo milagre do século XX depois de Fernando Pessoa, tal a contribuição original que deu à prosa portuguesa. Em seus romances, as personagens reduzem-se a símbolos mitológicos e tempos e espaços interseccionam-se. A Sibila foi Agustina Bessa-Luís publicado em 1953. Conta a história de uma família provinciana, de Maria e Francisco. Estina, Quina e três rapazes são os filhos do casal; Quina é a sibila do título. Conheça um trecho desse romance: Quina não era bonita. Tinha de seu pai a estatura, que era pequena, e as falas um tanto capciosas, o gênio profundamente equilibrado. Possuía a virtude de ser frívola apenas com as coisas frívolas, e, o que era mais, compreender exatamente onde havia, de fato, frivolidade. Todos os seus defeitos eram um por um, os de tia Balbina, sua madrinha. Era, como ela, mentirosa e chicaneira, gostava de grandes relações e não tolerava tudo quanto não conseguia obter. O apuro de educação com que fora criada Estina faltou-lhe a ela, e Quina empenhava-se em demonstrar que superaria sempre essa ou qualquer educação. A mãe habituarase a vê-la acudir a todas as lidas, presente nas sachas, nas lavouras, nas regas. E na casa, vacilante já, faziam falta braços ativos e o feitio esfogueteado da moça. Mas às vezes pensava que Quina estava feita mulher, chamando já as falas dos casadoiros, e que não fazia honra especial à casa da Vessada, cujas raparigas primavam pelos dons de

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Virginia Drummond/Folha Imagem

tecedeiras, com bom conhecimento de caligrafia para tecer “saudade”, ”felicidade”, ”lembrança”, nas barras das toalhas com efeitos de puxados muito artísticos. Ora, Quina não era, pela instrução, mais do que qualquer moça que se aluga por salário anual, com os “usos”, isto é, determinadas mudas de roupa de estamenha e de linho. Augustina Bessa-Luís, ao lado do brasileiro Guimarães Rosa, foi tida como a contribuição mais original da prosa para a literatura mundial. b) José Saramago: Nasceu na aldeia de Azinhaga, província de Ribatejo, no ano de 1922. Fez o curso técnico secundário. Foi serralheiro mecânico e exerceu diversas outras profissões: desenhista, funcionário da Saúde e da Previdência Social. Trabalhou em vários jornais. Publicou o seu primeiro livro em 1947. A partir de 1976 José Saramago passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário. Fixou-se definitivamente na ilha de Lanzarote, arquipélago das Canárias. Em 1980 publicou o livro que marca o estilo saramaguiano: Levantando do chão. Escreveu romances históricos fantásticorealistas em que, num tom oral, usa a paródia, um fraseado continuamente irônico e pontuação personalíssima. A intertextualidade está presente quando dialoga com outros textos da literatura ou personagens de outras obras. Algumas de suas obras são Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa.
Carlos Murauskas/Folha Imagem

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A ficção de Saramago versa sob a ótica dos fracos, dos marginalizados e humilhados. Conheça sua explicação sobre o que o levou a escrever Memorial do Convento: “A construção do convento de Mafra foi uma demonstração, entre outras, da megalomania de João V, graças à exploração do ouro e de diamantes do Brasil. Ali foi enterrada uma fortuna incalculável. Mas é impossível apurar quanto, porque todos os documentos foram destruídos. Pois bem, sendo eu um homem de esquerda, com um pensamento marxista, não poderia deixar de me impressionar com o fato de 40 mil homens terem construído aquela obra”. José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1999, é o responsável pelo real reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Memorial do Convento estrutura-se em duas linhas narrativas: a arquitetura do palácio-convento de Mafra; e a construção da passarola, uma máquina-voadora. O ambiente da corte portuguesa no reinado de D. João V, no século XVIII, é retratado na primeira narrativa; na segunda, há uma história de amor entre Baltasar Mateus, ex-soldado mutilado de guerra e Blimunda de Jesus, cristã nova e vidente. A seguir será transcrito um trecho, parte da segunda narrativa. Observe que Saramago opta por parágrafos extensos, utilizando vírgulas no lugar dos travessões nos diálogos. “Baltasar e o padre Bartolomeu Lourenço olharam-se perplexos, e depois para fora. Blimunda estava ali, com um cesto cheio de cerejas, e respondia, Há um tempo para construir e um tempo para destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deixarão abaixo, e todas as paredes, se for preciso. Esta é que é Blimunda, disse o padre, Sete-Luas, acrescentou o músico. Ela tinha brincos de cerejas nas orelhas, trazia-as

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assim para se mostrar a Baltasar, e por isso foi para ele, sorrindo e oferecendo o cesto, É Vénus e Vulcano, pensou o músico, perdoemos-lhe a óbvia comparação clássica, sabe ele lá como é o corpo de Blimunda debaixo das roupas grosseiras que veste, e Baltasar não é apenas o tição negro que parece, além de não ser coxo como foi Vulcano, maneta sim, mas isso também Deus é. Sem falar que a Vênus cantariam todos os galos do mundo se tivesse os olhos que Blimunda tem, veria facilmente nos corações amantes, em algumas coisas há de um simples mortal prevalecer sobre as divindades. E sem contar que sobre Vulcano também Baltasar ganha, porque se o deus perdeu a deusa, este homem perderá a mulher. Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, sem outro resguardar de conveniências que não atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltasar, cascosa como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre Bartolomeu Lourenço, a mão exacta de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei que aqui estivesse faria o mesmo, é por pequenas coisas assim que se vê serem os homens realmente iguais. As cerejas são grossas, carnudas, algumas já vêm bicadas pelos pássaros, que cerejal haverá no céu para que também lá possa ir alimentar-se, chegando a hora, este outro pássaro que ainda não tem cabeça, porém, se vier a ser de gaivota ou falcão podem os anjos e os santos confiar que comerão as cerejas intactas, pois, como se sabe, aquelas são aves que desprezam o vegetal. Disse o padre Bartolomeu Lourenço, Não irei revelar o segredo último do vôo, mas, tal como escrevi na petição e memória, toda a máquina se moverá por obra de uma virtude atractiva contrária à queda dos graves, se eu largar este caroço de cereja, ele cai

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para o chão, ora, a dificuldade está em encontrar o que o faça subir, E encontrou, O segredo descobri-o eu, quanto a encontrar, colher e reunir é trabalho de nós três, É uma trindade terrestre, o pai, o filho e o espírito santo, Eu e Baltasar temos a mesma idade, trinta e cinco anos, não poderíamos ser pai e filho naturais, isto é, segundo a natureza, mais facilmente irmãos, mas, sendoo gémeos teríamos de ser, ora ele nasceu em Mafra, eu no Brasil, e as parecenças são nenhumas, Quanto ao espírito, Esse seria Blimunda, talvez seja ela a que mais perto estaria de ser parte numa trindade não terrenal, Trinta e cinco anos é também a minha idade, mas nasci em Nápoles, não poderíamos ser uma trindade de gêmeos, e Blimunda, que idade tem, Tenho vinte e oito, e sem irmão ou irmã, e isto dizendo levantou Blimunda os olhos, quase brancos na meia penumbra da abegoaria, e Domenico Scarlatti ouviu ressoar dentro de si a corda mais grave de uma harpa. Ostensivamente Baltasar levantou o cesto quase vazio com o seu gancho, e disse, Acabou a merenda, vamos trabalhar.
SARAMAGO, José. Memorial do Convento. 14 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, pp. 168-70.

Vocabulário: cepo: toro ou pedaço de toro cortado transversalmente sachar: escavar com o sacho (pequena enxada) abegoaria: lugar onde se recolhe gado e/ou guardam utensílios de lavoura.

Poemas do livro Mensagem foram musicados por André Luiz de Oliveira, CD do selo Eldorado. Alguns poemas de Fernando Pessoa são declamados por Maria Bethânia, no show Rosa-dos-Ventos, gravado pela Philips. Jean Villaret declama poemas de Fernando Pessoa em um disco. Ouça-os.

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Questões de Vestibulares
1 (CESCEA) Fernando Pessoa distingue-se, na literatura portuguesa, dentre outras razões: a) Por ter sido, na altura de 1890, o introdutor do Simbolismo, em Portugal. b) Por ter escrito uma das obras mais lidas do Simbolismo português, o Só. c) Por ter sido um dos iniciadores do movimento modernista português. d) Por ter sido, em seu país, o mais popular dos poetas, dada a simplicidade de sua expressão lingüística e o caráter tradicional de seus temas. e) Não sei. 2 (FAAP) Fernando Pessoa adotou vários nomes, cada heterônimo abrangendo uma personalidade, com um fim poético certo. Assim: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são respectivamente: a) o poeta desembaraçado e o homem simples; o poeta que se aproxima do humanismo clássico e o homem filósofo e o poeta ultramoderno de técnica futurista e o homem identificado com o “seu” tempo. b) o poeta lírico e polêmico e o homem complexo; o poeta romântico e o homem simples e o ensaísta lírico e o homem identificado com o futuro. c) o poeta simples e o homem complexo; o poeta romântico e o homem lírico e o poeta polêmico e o homem modernista. d) n.d.a 3 (FUVEST) O movimento estético que inaugura o Modernismo em Portugal, e cujos poetas buscaram viver a “aventura do espírito”, foi o: a) Saudosismo b) Surrealismo c) Presencismo d) Orfismo e) Neo-Realismo
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4 (UM-SP) A respeito de Fernando Pessoa, é incorreto afirmar que: a) não só assimilou o passado lírico de seu povo, como refletiu em si as grandes inquietações humanas do começo do século. b) os heterônimos são meios de conhecer a complexidade cósmica impossível para uma só pessoa. c) Ricardo Reis simboliza uma forma humanística de ver o mundo através do espírito da Antigüidade Clássica. d) Junto com Mário de Sá Carneiro, dirige a publicação do segundo número de Orpheu, em 1916. e) “Tabacaria”, de Alberto Caeiro, mostra seu desejo de deixar o grande centro em busca da simplicidade do campo. 5 (FUVEST-SP) Participaram da primeira geração do movimento modernista português: a) Eugênio de Castro, Mário de Sá Carneiro, João de Deus b) Camilo Pessanha, Antônio Nobre, Guerra Junqueiro c) Antero de Quental, Fernando Pessoa, Cesário Verde d) Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e) Almada Negreiros, Eugênio de Castro, Fernando Pessoa 6 (FUVEST-SP) Do programa estético da Geração de Orpheu constava a: a) restauração dos temas clássicos b) vinculação da obra de arte ao quadro social c) instalação das vanguardas futuristas d) originalidade em Arte e) implantação do movimento surrealista 7 (FUVEST-SP) O movimento estético que inaugura o Modernismo em Portugal, e cujos poetas buscaram viver a “aventura do espírito”, foi o: a) Saudosismo b) Surrealismo c) Presencismo d) Orfismo e) Neo-realismo
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8 (FMABC-SP) A alternativa que apresenta erro na correlação autor/obra/ época é: a) Fernando Pessoa / Clepsidra / séc. XX b) Eça de Queirós / Os Maias / séc. XIX c) Bocage / Sonetos / séc. XVIII d) Vieira / Sermões / séc. XVII e) Camões / Os Lusíadas / séc. XVI 9 (FUVEST-SP) a) Situe Fernando Pessoa no tempo e no espaço. b) O que, fundamentalmente, lhe caracteriza o processo criativo? 10 (FUVEST-SP) 1. O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. 2. Sonho que sou um cavaleiro andante Por desertos, por sóis, por noite escura, Paladino do amor, busco anelante O palácio encantado da Ventura! As estrofes acima são, respectivamente, dos poetas: a) Fernando Pessoa e Barbosa du Bocage. b) Cesário Verde e Luís de Camões. c) Guerra Junqueiro e Antero de Quental. d) Sá-Carneiro e Luís de Camões. e) Fernando Pessoa e Antero de Quental. 11 Há um poeta em mim que Deus me disse ... A Primavera esquece nos barrancos As grinaldas que trouxe dos arrancos Da sua efêmera e espectral ledice ... Pelo prado orvalhado a meninice
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Faz soar a alegria os seus tamancos ... Pobre de anseios teu ficar nos bancos Olhando a hora como quem sorrisse ... Florir do dia a capitéis de Luz ... Violinos do silêncio enternecidos ... Tédio onde o só ter tédio nos seduz ... Minha alma beija o quadro que pintou ... Sento-me ao pé dos séculos perdidos E cismo o seu perfil de inércia e vôo ... (CESCEA) Poema de: a) Fernando Pessoa (ele próprio) b) Alberto Caeiro c) Ricardo Reis d) Álvaro de Campos e) Não sei 12 (VUNESP) O texto a seguir pode ser tomado como exemplo ilustrativo do estilo de um dos heterônimos de Fernando Pessoa: “Negue-me tudo a sorte, menos vê-la, Que eu, stóico sem dureza, Na sentença gravada do Destino Quero gozar as letras.” O heterônimo em questão é: a) Alberto Caeiro b) Ricardo Reis c) Bernardo Soares d) Álvaro de Campos e) Antônio Mora 13 (UM-SP) “O mistério das coisas, onde está ele? Onde está ele que não aparece
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Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, Rio como um regato que soa fresco numa pedra. Porque o único sentido oculto das cousas É elas não terem sentido oculto nenhum, É mais estranho do que todas as estranhezas E do que os sonhos de todos os poetas E os pensamentos de todos os filósofos, Que as cousas sejam realmente o que parecem ser E não haja nada que compreender. Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: — As cousas não têm significação: têm existência. As cousas são o único sentido oculto das cousas. A. O texto, extraído de O Guardador de Rebanhos, mostra a forma simples e natural de sentir e dizer do seu autor, heterônimo de Fernando Pessoa, voltado para a natureza e para as coisas puras. A leitura do texto permite que se conheça o poeta a quem tais versos são creditados. Assinale a alternativa em que se encontra seu nome. a) Fernando Pessoa ele-mesmo d) Alberto Caeiro b) Álvaro de Campos e) Camilo Pessanha c) Ricardo Reis B. O autor do texto é considerado um dos maiores fenômenos da literatura portuguesa, tendo sido representante e porta-voz de um grande movimento literário. Assinale a alternativa em que se encontra o nome de tal movimento. a) Modernismo d) Romantismo b) Arcadismo e) Humanismo c) Simbolismo
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Texto para as questões 14, 15 e 16 Leia com atenção: “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! Fraternidade com todas as dinâmicas! Promíscua fúria de ser parte-agente Do rodar férreo e cosmopolita Dos comboios estrêmuos. Da faina transportadora-de-cargas dos navios. Do giro lúbrico e lento dos guindastes. Do tumulto disciplinado das fábricas, E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!” O texto acima transcrito pertence ao poema de Álvaro de Campos “Ode triunfal”. Álvaro de Campos, como se sabe, é um heterônimo de Fernando Pessoa, e a “Ode triunfal” constitui um dos poucos textos do efêmero futurismo na literatura portuguesa. No entanto, a “Ode triunfal” torna-se muito importante, na medida em que nela se reflete o Manifesto do Futurismo, de Marinetti. Assim sendo, responda às seguintes questões: 14 (VUNESP) Quais os segmentos do trecho transcrito da “Ode triunfal” que justificam chamarmos-lhe um poema futurista? 15 (VUNESP) O que significa ser um heterônimo de Fernando Pessoa? 16 (VUNESP) Que outros heterônimos de Fernando Pessoa você conhece?
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17 (UM-SP) “Incultas produções da mocidade Exponho a vossos olhos, – leitores: Vede-as com mágoa, vede-as com piedade, Que elas buscam piedade, e não louvores: Ponderei da Fortuna a variedade Nos meus suspiros, lágrimas e amores; Notai dos males seus a imensidade, A curta duração dos seus favores. E, se entre versos mil de sentimento Encontrardes alguns, cuja aparência Indique festival contentamento, Crede, ó mortais, que foram com violência Escritos pela mão do Fingimento, Cantados pela voz da Dependência.” Através da estrutura e do conteúdo do soneto acima, é correto afirmar que fazem parte da obra de: a) Camões b) Ricardo Reis c) Camilo Pessanha d) Bocage e) Alberto Caeiro 18 (UM-SP) “Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada. Mas esta linda e pura semidéia,
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Que, como um acidente em seu sujeito, Assim coa alma minha se conforma, Está no pensamento como idéia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma.” Através da leitura dos versos acima, pode-se concluir que: a) constituem uma redondilha em que Camões divaga sobre o amor. b) pertencem à parte lírica da obra de Bocage, pois se volta ao modelo clássico. c) formam um típico soneto camoniano, pela estrutura formal apresentada. d) foram escritos por Ricardo Reis, o heterônimo de Fernando Pessoa que mais se ligou aos moldes clássicos. e) sua proposta neoclássica permite que os situemos na obra de Camilo Pessanha. 19 (FUVEST-SP) “O poeta é um fingidor.” (Fernando Pessoa) Qual a relação entre o verso acima e Poesias de Álvaro de Campos, Poemas de Alberto Caieiro e Odes de Ricardo Reis? 20 (MACKENZIE-SP) Sebastião, Rei de Portugal Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a sorte não dá. Não soube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?
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Os versos acima encaixam-se na obra de: a) Alberto Caeiro b) Ricardo Reis c) Fernando Pessoa d) Camões e) Bocage 21 (UF-PA) “Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, – mar!” Este poema de Fernando Pessoa retorna, no século XX, a temática da expansão ultramarina também utilizada por a) Gil Vicente em seus autos b) D. Dinis em seus poemas de amor c) D. Dinis em seus poemas de amigo d) Camões em sua épica e) Bocage em seus sonetos 22 (MEDICINA-ABC) As questões de A a E baseiam-se no seguinte texto: 1. “Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro, 5. Dizendo-me Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
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10. Mas se Deus é as flores e as árvores E os montes e sol e o luar, Então acredito nele, Então acredito nele a toda a hora, E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 15. E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol, Para que lhe chamo eu Deus? Chamo-lhe flores e árvores e montes, 20. Se ele me aparece como sendo árvores e montes E luar e sol e flores, É que ele quer que eu o conheça Como árvores e montes e flores e luar e sol.” (Do poema V de O Guardador de Rebanhos. Alberto Caeiro) A. É lícito afirmar que Caeiro nega a existência de Deus? Por quê? B. Em suas palavras, resumidamente, dê o sentido do trecho entre parênteses (2ª estrofe). C. É válido garantir que Caeiro identifica Deus com a Natureza? Por quê? D. Reescreva o trecho “Se ele quisesse que eu acreditasse nele”, substituindo o verbo querer por convir (lhe) e acreditar por crer. E. Reescreva “o modo de falar que reparar para elas ensina”, substituindo o verbo reparar por observar, fazendo as alterações que se fizerem necessárias. 23 (UM-SP) Assinale a alternativa correta a respeito das três afirmações abaixo. I) Os heterônimos de Fernando Pessoa nascem de um múltiplo desdobramento de sua personalidade. II) Alberto Caeiro é o poeta que se volta para o campo, procurando viver em simplicidade. III) Ricardo Reis é um poeta moderno, que do desespero extrai a própria razão de ser.
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a) Apenas a I e a II estão corretas. b) Todas estão corretas. c) Apenas a I e a III estão corretas. d) Nenhuma está correta. e) Apenas a II e a III estão corretas. Texto para as questões 24 e 25 “Aquela senhora tem um piano Que é agradável mas não é o correr dos rios Nem o murmúrio que as árvores fazem... Por que é preciso ter um piano? O melhor é ter ouvidos. E amar a Natureza.” 24 (FUVEST-SP) a) Qual a opinião do poeta em relação ao piano? b) Que simboliza o piano no poema? 25 (FUVEST-SP) Verifique se há no poema: a) alguma característica que permita situá-lo em determinada estética literária; b) algum elemento que evidencie ser o autor português ou brasileiro. Em caso afirmativo, justifique sua resposta. 26 (MEDICINA-ABC) Aponte a alternativa em que aparece um escritor cuja obra não está filiada a nenhuma das correntes do Modernismo em Portugal: a) Camilo Pessanha b) Mário de Sá-Carneiro c) Fernando Pessoa d) José Régio e) Fernando Namora
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27 (VUNESP) “Contemplo o lago mudo Que uma brisa estremece. Não sei se penso em tudo Ou se tudo me esquece. O lago nada me diz, Não sinto a brisa mexê-lo. Não sei se sou feliz. Nem se desejo sê-lo. Trêmulos vincos risonhos Na água adormecida. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida?” O poema acima transcrito é de Fernando Pessoa, e pode ser considerado como um dos melhores exemplos do processo poético de seu autor. Qual das alternativas abaixo indicadas corresponde a esse processo utilizado no poema? a) A descrição perfeita dos vincos na água adormecida do lago. b) A relação entre o ver, o sentir e o pensar. c) A certeza de que a vida é feita de sonhos. d) O colorido das imagens e a riqueza das metáforas. e) A animização do lago com motivação 28 (UF-PA) É incorreto dizer-se de Fernando Pessoa que: a) “Inventando os seus heterônimos – ou deixando-se invadir por esses outros – ele não foi nem deixou de ser sincero” b) criou indivíduos poéticos que são simples pseudônimos c) produz uma poesia em que associa reflexão filosófica e teorização poética d) criou um heterônimo vinculado à estética futurista e) foi um dos responsáveis pela introdução do modernismo em Portugal.
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29 (UF-PA) Texto 1 “Que noite de Inverno! Que frio, que frio! Gelou meu carvão: Mas boto-o à lareira, tal qual pelo Estio, Faz sol de Verão. Texto 2 Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda Essa coisa é que é linda Texto 3 “Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?” Os três fragmentos acima foram escritos respectivamente por a) Bocage / Fernando Pessoa-ortônimo / Camões b) Garrett / Álvaro de Campos / Antônio Nobre c) Antônio Nobre / Bocage / Álvaro de Campos d) Antônio Nobre / Fernando Pessoa-ortônimo / Álvaro de Campos e) Álvaro de Campos / Antônio Nobre / Álvaro de Campos 30 (UNICAMP-SP) Leia com atenção os fragmentos de poemas transcritos abaixo: Fragmento 1: Trova à maneira antiga (Francisco de Sá Miranda, 1595) “Comigo me desavim, sou posto em todo perigo; não posso viver comigo nem posso fugir de mim. (...) Que meio espero ou que fim Do vão trabalho que sigo,
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Pois que trago a mim comigo, Tamanho imigo de mim?” (imigo = inimigo) Fragmento 2: Dispersão (Mário de Sá-Carneiro, 1913) “Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto E hoje, quando me sinto, É com saudades de mim. (...) E sinto que a minha morte – Minha dispersão total – Existe lá longe, ao norte, Numa grande capital.” Ambos os poemas tratam do tema das relações do eu consigo mesmo, mas desenvolvem-no de maneira diferente. Exponha em que consiste esse desenvolvimento diferenciado do tema, em cada poema. 31 (STA CASA) José Régio – pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira – traz à literatura a problemática religiosa que é comparada a: a) Antero de Quental e Guerra Junqueiro b) Antero de Quental e Fernando Pessoa c) João de Deus e Guerra Junqueiro d) Antero de Quental e João de Deus e) João de Deus e Fernando Pessoa 32 (FUVEST-SP) “Já vai andando a récua dos homens de Arganil, acompanham-nos até fora da vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, Ó doce e amado esposo; e outra protestando, Ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha; não se acabavam as lamentações, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade (...)” (J. Saramago. Memorial do Convento)
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Em muitas passagens do texto transcrito, o narrador cita textualmente palavras de um episódio de Os Lusíadas, visando criticar o mesmo aspecto da vida de Portugal que Camões, nesse episódio, já criticava. O episódio camoniano citado e o aspecto criticado são, respectivamente: a) O Velho do Restelo; a posição subalterna da mulher na sociedade tradicional portuguesa. b) Aljubarrota; a sangria populacional provocada pelos empreendimentos coloniais portugueses. c) Aljubarrota; o abandono dos idosos decorrente dos empreendimentos bélicos, marítimos e suntuários. d) O Velho do Restelo; o sofrimento popular decorrente dos empreendimentos dos nobres. e) Inês de Castro; o sofrimento feminino causado pelas perseguições da Inquisição. 33 (UNICAMP-SP) “Mas um velho, de aspecto venerando. (...) A voz pesada um pouco alevantando. (...) Tais palavras tirou do experto* peito: Ó glória de mandar, ó vá cobiça Desta vaidade a quem chamamos Fama Ó Fraudulento gosto, que se atiça Cua aura popular, que honra se chama.” (Camões, Os Lusíadas, canto IV) “... e então uma grande voz se levanta, é um labrego** de tanta idade já que o não quiseram, e grita subido a um valado***, que á púlpito dos rústicos, Ó glória de mandar, ó vá cobiça, – rei infame, – pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe o quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o deixou por morto.” (José Saramago, Memorial do Convento, p. 293)
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*experto – que tem experiência **labrego – indivíduo grosseiro, rude, tosco (...) ***valado – elevação de terra que limita propriedade rústica (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa) Confrontando os fragmentos acima, percebe-se que Memorial do Convento dialoga com os clássicos. O episódio do Velho do Restelo, do Canto IV de Os Lusíadas, refere-se ao engajamento voluntário dos portugueses na grande empresa que foi a descoberta de novos mundos. Já no Memorial do Convento, entretanto, o recrutamento para Mafra deu-se, em geral, à força. a) Cite ao menos uma razão que levou “o rei infame” de Memorial do Convento a tornar obrigatório o engajamento de todos os operários do reino, quaisquer que fossem suas profissões. b) Quem era esse “rei infame” a que se refere o trecho citado e em que século essa ação do romance se passa? c) Aponte, no trecho, ao menos uma passagem que indique a irreverência de Saramago em relação ao texto de Luis de Camões.

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Respostas das Questões de Vestibular
Capítulo 1 - A arte literária
1- b 2- O conteúdo. Na poesia lírica, predomina o eu, o subjetivismo; já a poesia épica é objetiva e busca narrar um fato grandioso. 3- O texto teatral é escrito para ser representado; o romance é uma narração. 4- 07 5- d 6- d 7- c 8- 58 9- 29 10- 19

Capítulo 2 - Trovadorismo
123456789d a e a a) Trovadorismo-Barroco- Arcadismo- Romantismo-Simbolismo. b) Trovadorismo. a) amigo; b) Trovadorismo; a) Trovadorismo; b) cantigas. c a) As quatro estrofes ( mais o fecho) do poema se distribuem em duas séries de estrofes paralelas: a primeira série corresponde às estrofes 1 e 2; a segunda, às estrofes 3 e 4. b) A primeira série apresenta o quadro da moça que fia e canta; a segunda série corresponde à intervenção de alguém, que comenta o canto e a emoção que ele exprimiu.

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Portanto, nas duas primeiras estrofes, enfatiza-se o canto: uma cantiga amorosa (de amigo); na 3ª e 4ª, fala-se da desilusão amorosa que motivou a excelência do canto. 10- a) Quem se exprime no último verso é a moça, a “formosa” que canta cantigas de amigo. b) O último verso indica que o interlocutor da moça concluiu adequadamente que o canto exprimia uma realidade vivida pela cantora. 11- c 12- d

Capítulo 3 - Humanismo
e e c a c d c a) b b) e 9- e 10- a 11- a 12- c 13- a 14- b 15- e 16- b 12345678-

Capítulo 4 - Classicismo
12345b d c b d

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6- c 7- d 8- Escreveu obra lírica e épica. Os lusíadas é sua epopéia, composições do livro Rimas são exemplo de obra lírica. 9- c 10- a 11- c 12- a 13- c 14- e 15- a 16- b 17- a 18- b 19- a 20- d 21- b 22- a) versos decassílabos; b) viagem de Vasco da Gama às Índias, em 1498. 23- Nos seis primeiros versos, Camões coloca em segundo plano a literatura clássica (sábio Grego é Ulisses, herói da Odisséia; Troiano é Enéias, personagem da Eneida) e os grandes impérios antigos (Alexandre é o imperador da Macedônia e Trajano, um imperador romano). Isso é devido ao fato de que agora Camões vai cantar as glórias de Portugal. Essas considerações são sintetizadas nos dois últimos versos: um valor superior aos antigos — os portugueses— vai ser louvado.

Capítulo 5 - Barroco
123456a e a a b e

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7- b 8- b 9- a) Grandes escândalos são esses, mas a circunstância os faz ainda maiores. b) mesma natureza = própria natureza // mesma pátria = pátria comum a todos cidadãos. c) Pe. Antônio Vieira. Século XVII. 10- O conceptismo revela-se através da retórica apurada com forte argumentação e exemplificação. É a arte de persuadir. 11- e 12- e 13- b 14- c 15- d 16- b 17- e 18- d 19- c 20- d 21- Três espécies: 1) o amor que tem causa (amo porque me amam); 2) o amor que tem frutos (amo para que me amem); 3) o amor fino, sem causa nem efeito (amo, simplesmente). 22- O amor de Cristo por Judas é o amor desinteressado. Cristo conhecia os demais apóstolos e amava-os porque era amado por eles e para que eles o amassem. Cristo conhecia Judas e, apesar de sua traição, amou-o: era esse um amor sem causa e sem efeito, ou seja, a realização plena do amor.

Capítulo 6 - Arcadismo
12345d e b b e

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e e c Árcade: invocação da razão; romântica: subjetivismo e sofrimento. e b d b a c b

Capítulo 7 - Romantismo
123456789101112131415161718b c c 53 d a a) Camões; b) Almeida Garrett. a a) Alexandre Herculano; b) Idade Média. a e e Camilo Castelo Branco, século XIX, 2o momento. Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição. Amor, morte, sofrimento, sonhos de felicidade, religiosidade. Alexandre Herculano, Almeida Garrett, João de Deus, Soares de Passos. c d

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a b b a c c e c e b b d d d b a) D. João volta a casa, após mais de vinte anos de seu desaparecimento em Alcácer-Quibir, disfarçado de romeiro, para sondar a receptividade que seu possível retorno teria e constatar se o recado que ele daria (D. João estava vivo) provocaria alteração emocional em sua esposa, Madalena de Vilhena, agora casada com D. Manuel de Sousa Coutinho. O disfarce é um recurso que tenta alterar o desfecho trágico. b) D. João tornou-se prisioneiro após a derrota portuguesa em Alcácer-Quibir, tendo ficado vinte anos em cativeiro. Sua esposa, considerando-se viúva, casa-se com Manuel de Sousa Coutinho, nascendo dessa união Maria de Noronha. Como D. João perdeu a família, a pátria, a dignidade e a identidade psicológica, diz que é ninguém.

Capítulo 8 - Realismo
1234c b d A «Questão Coimbrã» foi uma polêmica entre o romântico Antônio

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Feliciano de Castilho e Antero de Quental, defensor da poesia realista. Ela marca o início do Realismo em Portugal. a) Realismo; b) descrição objetiva do ambiente. Não. Ele critica a sociedade burguesa. b a c e d b Realista, porque o importante é a temática. Formalmente o soneto é parnasiano; tematicamente, realista. Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Gonçalves Crespo. b e d b d b b a b

Capítulo 9 - Simbolismo
1- a) Oaristos; b) Antônio Nobre e Camilo Pessanha. 2- b 3- d 4- b 5- a) Simbolismo; b) Antônio Nobre e Camilo Pessanha. 6- a) Simbolismo; b) Camilo Pessanha, Antônio Nobre, Eugênio de Castro.

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7- a) final do século XIX, Simbolismo; b) musicalidade, valorização do inconsciente, manifestações de estados d´alma, o vago, o diáfano. 8- d 9- b 10- d 11- b 12- b 13- d 14- e 15- sinestesia. 16- Sinestesia é o entrecruzar de sensações. Gemidos no azul, gritos no carmesim// harpa etérea e perfumada. 17- Gonçalves Crespo, Camilo Pessanha, Antônio Nobre, Eugênio de Castro. 18- e 19- b 20- c 21- d

Capítulo 10 - Modernismo
123456789c a d e d c d a a) Foi o poeta mais importante do Modernismo português) primeira metade do século XX), nasceu e morreu em Lisboa, viveu a infância e estudou na África do Sul. b) a criação de heterônimos com estilo e emoções peculiares. 10- e 11- a

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12- b 13- a) d b) a 14- Frases em que há destaque para a exaltação da máquina, do motor, das fábricas, isto é, exaltação ao século XX. 15- As diferentes visões de mundo das personagens criadas por Fernando Pessoa. 16- Ricardo Reis, Alberto Caeiro. 17- d 18- c 19- Realçar o processo de produção dos heterônimos. 20- c 21- d 22- a) Não. Para ele Deus é um ser real, projetado nas coisas da natureza. b) é preciso saber olhar e compreender o universo das coisas para compreender quem fala delas. c) Sim. Basta observar os versos de 20 a 23. d) Se lhe conviesse que eu cresse nele. e) O modo de falar que observá-las ensina. 23- a 24- a) Apesar do som agradável do piano, o poeta prefere o som da natureza. b) A cultura que se opõe à natureza. 25- a) Os versos livres e a aproximação com a prosa permitem encaixá-lo no Modernismo; b) não. 26- a 27- b 28- b 29- d 30- Sá de Miranda: o conflito, a luta, se estabelece na relação do eu consigo mesmo. Sá-Carneiro: preocupa-se em entender a despersonalização do eu, sua dispersão.

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31- a 32- e 33- a) O Rei D. João V queria que a sagração da basílica de Mafra fosse feita, custasse o que custasse, no dia 22 de outubro de 1730. O rei tinha receio de que pudesse morrer sem ter completado a obra, por isso exigiu o trabalho obrigatório de seus súditos, antecipando a sagração da basílica, que estava inicialmente prevista para 1740, data em que o rei teria 51 anos. b) D. João V é o rei infame. A ação de Memorial do Convento ocorre na primeira metade do século XVIII. c) Camões refere-se a “um velho de aspecto venerando”; Saramago, irreverentemente, fala em “labrego”. O velho, em Camões, é qualificado por sua experiência (“experto”); em Saramago, sua velhice não indica sabedoria, mas incapacidade para o trabalho (“de tanta idade que já não o quiseram”).

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BIBLIOGRAFIA
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