Sagarana: a prima obra de Rosa

A leitura de João Guimarães Rosa continua e os escritos também. Depois de
escrever um breve texto que contém informações biogrficas do autor e a listagem de
todas as suas obras publicadas em vida! escrevo "o#e um pouco sobre a obra que n$s! do
%empre um &ivro! estamos lendo' Sagarana.
(omo "avia dito no texto anterior! a obra foi a primeira publicação de
Guimarães Rosa. %ua primeira edição saiu em )*+,! pela José -l.mpio /ditora. -ito
anos antes! uma primeira versão da obra! intitulada Contos e assinada por Guimarães
Rosa com o pseud0nimo de Viator! foi premiada no (oncurso 1umberto de (ampos
com o segundo lugar! perdendo para Maria Perigosa de &u2s Jardim.
Desta primeira versão para a versão definitiva de Sagarana algumas alterações
foram feitas' tr3s contos 45uestões de 6am2lia! 7ma 1ist$ria de Amor e 8ic"o 9au:
foram retirados e os nove remanescentes passaram por algumas revisões durante o ano
de )*+;.
-s vrios elogios feitos < Guimarães Rosa e suas obras no post anterior e os
elogios que fatalmente virão também nesse post! não são feitos sem prop$sito! pensando
apenas na figura "ist$rica de João=ito ou então na sua fama que o coloca entre os
>deuses? da &iteratura 8rasileira. @udo isso é sim muito vlido! no entanto! ao me
deparar com Sagarana o que encontrei foi uma escrita Anica! que poderia ser
desvinculada de qualquer r$tulo! dada toda sua originalidade e! por que não!
complexidade. 6alo isso em especial por dois motivos' o primeiro é o fato de muitos
leitores desavisados eBou superficiais rotularem a obra de Guimarães Rosa como uma
obra regionalista. /m um pequeno artigo falando sobre Sagarana! intitulado A Arte de
contar em Sagarana! Caulo R$nai nos alerta sobre esse perigo de! ao rotular a obra de
Guimarães Rosa! redu=iDla'
Cara muitos escritores fracos! o regionalismo é uma espécie de tbua de
salvação! pois t3m a ilusão E e com eles parte do pAblico E de que o
arma=enamento de costumes! tradições e superstições locais! o acAmulo de
palavras! modismos e construções dialetais! a abundFncia da documentação
folcl$rica e lingG2stica HsicI suprem as fal"as da capacidade criadora. Celo
contrrio! para os autores que tra=em uma mensagem "umana e o talento para
exprimiDla! o regionalismo envolve antes um obstculo e uma limitação do
que um recurso. 4RJKAL! MNN)! p. );:
Durante a leitura de Sagarana fica claro que Guimarães Rosa pertence ao grupo
dos autores mencionados na Altima frase da citação e que! com muita sensibilidade e
leve=a! consegue ultrapassar o >obstculo regionalista?.
Além disso! outro ponto que me incomoda quando o assunto é Guimarães Rosa é
a exaustiva >queda? das suas obras nos vestibulares. Ainda que este assunto não se#a
nosso principal ponto a ser discutido! acredito ser vlido um pequeno pargrafo paralelo
para explorDlo.
(ada ve= mais percebo que 4"o#e isso se torna até $bvio: a obra roseana requer
muita viv3ncia! experi3ncia e profundidade por parte do leitor para ser lida de uma
maneira intensa e impactante! como acredito que devem ser lidas todas as obras de
qualquer autor. Kão quero di=er! com isso! que uns são mel"ores leitores do que outros!
ou que os vestibulandos não possuem a viv3ncia necessria para ler Guimarães Rosa!
não! não é isso. - grande problema é que! ao terem de encarar a obra de Guimarães
Rosa por obrigação! para passar em uma prova ou concluir um curso qualquer! boa parte
dos leitores possivelmente não a ler de uma maneira intensa e impactante! buscando
qualquer tipo de sentido na obra. Dessa forma! toda a rique=a literria de Guimarães
Rosa corre o sério risco de ser #ogada fora por esses leitores! que! além de perderem
uma boa leitura para a adolesc3ncia ainda podem criar uma antipatia com a obra e
perderem uma $tima leitura para a vida toda. Guimarães Rosa pode até # ter se tornado
um clssico da &iteratura 8rasileira e figurar no >panteão? da mesma! no entanto! sua
obra não merece e nem deve ser colocada na estante dos clssicos fec"ados e obsoletos!
sin0nimo de c"atice e complexidade excessivas para potenciais novos leitores.
Respeito com a obra do hômi! que não é nenhuns-nada fracaO
(omo # disse! esses 4a rotulaçãoBredução da obra de Guimarães Rosa como
regionalista e a excessiva >queda? dessa mesma obra nos vestibulares: são dois pontos
que me incomodam em relação < obra roseana e que acredito serem de certa relevFncia
para a discussão do %empre um &ivro! no pr$ximo dia sete. Ko entanto! não pretendo
ficar aqui escrevendo pontos que me incomodam em relação a este belo livro que é
Sagarana. @en"o infinitos motivos para! ao invés disso! falar de pontos positivos da
obra! que ao invés de me incomodar! me animam e muito para continuar lendo e relendo
a mesma e também escrevendo e discutindo sobre. P! alis! o que passo a fa=er a partir
de agora.
Ko intuito de proporcionar uma breve introdução < discussão do pr$ximo
encontro! farei aqui um breve comentrio sobre cada um dos contos 4ou novelas: de
Sagarana! procurando encontrar poss2veis pontos de discussão eBou pontos que por si s$
me c"amaram a atenção e não necessariamente precisam ser discutidos.
A novela que abre a obra é >- 8urrin"o Cedr3s?. J de cara! Guimarães Rosa
nos coloca em um ambiente comum a todas as novelas da obra' o sertão mineiro. -
enredo! repleto de "ist$rias paralelas! o que tra= vrias personagens < baila! basicamente
conta a "ist$ria do carregamento de uma boiada do 9a#or %aulo e! posteriormente! do
afogamento do grupo de vaqueiros que carregava essa boiada. A figura do burrin"o
pedr3s! além de dar t2tulo < novela! é central dentro do enredo e nos fa= refletir sobre a
sabedoria adquirida com o tempo! com a experi3ncia. Karrada em terceira pessoa! a
novela # mostra a ironia fina do narrador onisciente! marca comum em todas as novelas
narradas em terceira pessoa e contidas na obra.
>A Qolta do 9arido Cr$digo?! segundo o pr$prio Guimarães Rosa é >a menos
RpensadaS das novelas do %agarana? 4R-%A! MNN)! p. M,:. Lsso talve= fique claro no
decorrer da novela pela maneira sem muita cerim0nia pela qual os >cap2tulos? vão se
desenrolando. A personagem mencionada no t2tulo da novela! o marido pr$digo! é
&alino %alãt"iel' um malandro sertane#o! contador de "ist$rias e causos! que vai embora
do sertão! mas decide voltar. 7m trec"o que talve= ilustre bem a decisão de &alino! de
voltar pra casa é esse' >- din"eiro se fora. Rareavam os biscates. Qeio uma espécie de
princ2pio de triste=a. / ele ficou entibiado e pegou a saudadear? 4R-%A! MNN)! p. ))T:.
Kão foi apenas para ilustrar a decisão de &alino voltar pra casa que fi= essa citação. -
Altimo verbo é criação exclusiva do autor! uma das muitas.
A novela >%arapal"a? é a mais curta dentre todas. / talve= também a mais
simples. Ko entanto! as figuras "umanas! dos dois primos 4Ribeiro e Argemiro: são
muito bem exploradas. - desfec"o e a novela como um todo nos proporcionam um tom
melanc$lico! mas de uma melancolia notadamente sertane#a. - forte contato do "omem
e do animal é mais uma ve= explorado! ainda que de maneira mais t2mida do que na
primeira novela da obra.
/m >Duelo?! nos deparamos com uma verdadeira caçada onde caça e caçador
não possuem estatutos definidos. %ão ambos "omens' @ur2bio @odo e (assiano Gomes.
Lnteressante notar as vrias refer3ncias <s sabedorias popular e religiosa e também o
desfec"o inesperado! mas muito bem pensado. Além de tudo! esta novela 4como quase
todas as outras! escol"i meio que aleatoriamente este detal"e para essa novela em
espec2fico:! nos proporciona cenas de um "umor fino! que flerta com a ironia e o
sarcasmo. (ito uma fala de (assiano Gomes! o ferren"o rival de @ur2bio @odo' >D Qoc3
con"ece o @ur2bio @odo! o seleiro! aquele meio papudoU... Cois é um... 4Aqui! supostas
condições de bastardia e desairosas refer3ncias < genitora.:? 4R-%A! MNN)! p. )T):.
>9in"a Gente?! uma das poucas novelas narradas em primeira pessoa 4<
exemplo de >%ão 9arcos? e >(orpo 6ec"ado?: é a "ist$ria de um "omem que vai <
fa=enda de seu @io /m2lio e se v3 envolvido em um ambiente que mistura figuras
ex$ticas do sertão! como o enxadrista %antana! seu @io /m2lio e a pol2tica e tudo o que
envolve este assunto em um ambiente sertane#o 4a pol2tica é explorada também em
outros contos! como! por exemplo! >A Qolta do 9arido Cr$digo?: e! enfim! a sua
relação com sua prima 9aria Lrma. A maneira pela qual Guimarães Rosa trata essa
relação amorosa é genialO 6a= uso disso! inclusive! para criar certo "umor ir0nico no
desfec"o da novela.
A novela >%ão 9arcos? é onde encontramos mais numerosas refer3ncias <
paisagem! ao ambiente! num exerc2cio literrio possivelmente muito rduo por parte de
Guimarães Rosa. - enredo! no entanto! não fica pra trs! é marcado pelo elemento
m2stico! mgico! também presente em outras novelas da obra.
/m >(orpo 6ec"ado?! temos registradas as impressões de um >doutor? que vai
viver em uma cidade=in"a do interior. Dentre tudo e todos! o que mais c"ama a atenção
do narrador é a figura de 9anuel 6ul0! uma das principais personagens de toda a obra!
acredito eu. (om muita sagacidade e irrever3ncia! 9anuel 6ul0 vai contando suas
"ist$rias e um desfec"o também relacionado ao elemento m2stico encerra a novela.
>(onversa de 8ois? é outra novela que contém uma das principais marcas de
Guimarães Rosa' os animais que falam e pensam. Lsso! no entanto! assim como o
regionalismo de Guimarães Rosa corre o risco de ser redu=ido. Guimarães Rosa não fa=
uso dessas figuras para exaltar os animais pura e simplesmente! parecer ser muito mais
um exerc2cio de se repensar a relação "omemDanimal e suas nuances.
A novela que fec"a a obra e que é uma das principais novelas de toda obra é >A
1ora e Qe= de Augusto 9atraga?. %egundo o pr$prio autor! esta novela é a >"ist$ria
mais séria! de certo modo s2ntese e c"ave de todas as outras! H...I? 4R-%A! MNN)! p. MT:.
Aqui! a personagem citada no t2tulo da novela! se mostra como uma das personagens
mais densas de toda a obra e as situações que a envolvem fa=em da novela em questão
um potencial ponto de discussão para as relações "umanas articuladas em especial
através de tr3s Fmbitos' o religioso! o psicol$gico e o antropol$gico.
Guimarães Rosa! ao falar sobre suas intenções acerca da obra! fala de um ideal'
>7m ideal' precisão! micromilimétrica? 4R-%A! MNN)! p. M+:. Carece até estran"o e
contradit$rio falar de precisão! ainda mais micromilimétrica! quando o assunto são as
relações "umanas! ou as relações "omemDanimal! alguns dos pontos tratados em
Sagarana. /ntrementes! Guimarães Rosa! ao revelar este ideal! nos d uma mostra de
toda sua ousadia enquanto escritor e enquanto observador do sertão e do mundo. Cara
uma >prima obra?! Sagarana se mostra com potencial para ser até obra prima.
Cra fec"ar esse post! que tin"a como ob#etivo principal fa=er breves comentrios
sobre a obra que est sendo lida durante o m3s de #un"o pelos integrantes do %empre um
&ivro! cito uma passagem da pr$pria obra! uma descrição de uma personagem
secundria! 8ento Corf2rio! mas que mostra como até mesmo nas personagens
secundrias e marginais! Guimarães Rosa d conta de colocar alguma coisa! alguma
coisa não s$ diferente e original! mas sim alguma coisa micromilimetricamente roseana'
8ento Corf2rio é um pescador diferente' conversa o tempo todo! sem medo de
assustar os peixes. Tagarela de caniço em punho, e talvez tenha para isso
poderosas razões. E tem mesmo. Está amando. Uma pai!o da brava,
isto ": da comum. 9as coisa muito séria! porque é uma mul"er casada! e
8ento Corf2rio também é casado! com outra! # se v3 4grifo meu: 4R-%A!
MNN)! p. MMT:.
Carafraseando João=ito! digo que estou fa=endo uma leitura de sua obra da
brava! isto é' da comum.
RE#ER$%&'(S
R-%A! João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro' Kova 6ronteira! MNN).

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