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Caco Barcellos - Abusado

Caco Barcellos - Abusado

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Tem um AR-15, outro de 12 na mão.
Tem mais um de pistola e outro com dois-oitão.
Um vai de Uru na frente,escoltando o camburão,
tem mais dois na retaguarda, mas tão de Glock na mão.
Amigos, eu não esqueço, nem deixo pra depois,
lá vem dois irmãozinho de 762.
Dando tiro pro alto, só pra fazer teste.
(Funk proibido)

Os homens que podiam mudar a vida miserável dos moradores da
Santa Marta naquele ano de 1987 eram seus vizinhos mais próximos. Os
muros do Palácio da Cidade faziam divisa com a favela. Os barracos de
alvenaria e madeira, que cobriam o morro de cima a baixo, eram a única
vista do gabinete do prefeito, que podia vê-los a toda hora, mas que pa-
recia nunca lembrar de trabalhar por eles. Ao lado da Prefeitura estavam
as duas ruas de acesso ao morro pelo bairro de Botafogo. Os servidores
poderiam levar a pé ou de carro algum benefício aos favelados. Mas o
morro sempre pareceu longe demais para os homens e as máquinas do
município.

Escondidos no coração da região mais rica da cidade, a zona sul, os
moradores da Santa Marta viviam há 53 anos sem uma única escola ou
hospital e sem ter nenhum dos 84 becos pavimentado pela Prefeitura.
Toda a cobertura de concreto dos becos era obra dos mutirões. Desde
1935, início da ocupação, o esgoto corria em grandes valas a céu aberto e
não havia coleta de lixo eficaz. O trabalho de varredura era feito por dez
garis, selecionados pela Associação de Moradores. Mas no ano de 1987
eles não davam conta da limpeza porque mais de 70 por cento das famí-
lias de 1.560 barracos jogavam o lixo em qualquer área livre ou dentro
dos valões, formando dezenas de pontos de acúmulo de sujeira na favela.
Os outros acumulavam o lixo na frente de suas casas em latões descober-
tos, fonte de insetos. A circulação do ar nos labirintos era difícil, e gerava
um fedor permanente que vinha da mistura letal nas valas de esgoto, lixo

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e água das chuvas.

Por isso, as chuvas eram desejadas e indesejadas ao mesmo tempo,
pois de um lado empurravam a sujeira para baixo, mas, de outro, espalha-
vam a contaminação do solo.
Sem qualquer tipo de combate, ratos e baratas conduziam mais sujei-
ra, mais doença. Por causa da falta de higiene, os idosos tinham diarréia
crônica e as crianças sofriam das mesmas doenças dos vira-latas: eram
atacadas por piolhos e pela epidemia de sarna. A mortalidade infantil era
duas vezes maior que a vergonhosa média nacional. Morte de bebês sub-
nutridos parecia não preocupar quem não morava no morro. As crianças
da Santa Marta, como Carlinha do Rodo, precisaram mostrar que podiam
matar para atrair a atenção da cidade.
A cena de Carlinha do Rodo, uma menina de 14 anos, franzina, um
metro e meio de altura, com uma pistola automática na mão, teve grande
destaque na imprensa e causou espanto no país em 1987. Karla Rose Mi-
lor Satyro deixara a casa da mãe, costureira, e do pai, motorista desem-
pregado, em Santa Teresa, havia pouco mais de um ano, quando ainda
brincava de boneca e falava que um dia iria entrar para a Marinha, como
uma de suas quatro irmãs. Ela foi levada para o morro quando conheceu
um irmão de Cabeludo numa transação de maconha. A família, quando
soube do envolvimento dela com os traficantes, procurou ajuda de tera-
peutas, mas não adiantou.
Na favela, a exposição da foto de Carlinha nos jornais revoltou Cabe-
ludo. O jornal, com a foto na primeira página, chegou a suas mãos no dia
seguinte ao ataque contra o esconderijo de Zaca, que levou à morte seu
antigo parceiro de assalto, Ronaldo Maldição. Cabeludo estava especial-
mente bravo porque o corpo do amigo tinha desaparecido. Ele mandou
comprar um jornal lá na banca do asfalto, para saber se o Instituto Mé-
dico Legal já havia tirado o cadáver do morro. Não encontrou nenhuma
informação, a morte sequer havia sido noticiada. O destaque era para as
fotografias de homens com armas de guerra. Afinal, nunca os jornalistas
haviam visto arsenal tão poderoso nas mãos de criminosos comuns, de
um lugar tão pobre e esquecido. Ao ver a imagem de Carlinha da Rodo
em destaque no jornal, Cabeludo achou que tinha sido traído.
- Quero sabê quem deixô fotografá a Carlinha aqui?

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- Ninguém deixô, Cabeludo. Nenhum repórter chegou aqui perto -
respondeu Juliano, que continuava de plantão no Bar do Guerreiro.
- Como não? E esta foto aqui, pistola e o caralho!
- Os viados tão usando umas lentes enormes. É um canhão. Parece
um binóculo aquela porra.
- Ah, é? Então vou mostrá pra esses putos que canhão é o caralho!

Manda lá. Paulista.

Paulista, que descansava sentado no banco do bar, não entendeu que a
ordem era disparar a AR-15 em direção aos repórteres. O chefe teve que
insistir para ele apontar o fuzil. Mesmo assim Paulista mudou o alvo na
hora de acionar o gatilho. Levantou a arma e atirou para o alto. Todos os
jornalistas se jogaram ao chão, enquanto Cabeludo gritava, revoltado.
- Canhão é o caralho!
A chegada da irmã de Juliano, esbaforida, desviou a atenção de Ca-
beludo dos jornalistas. Zuleika veio contar que sabia onde estava o corpo
de Maldição, mas teve medo de dar a notícia na frente de todo mundo.
Preferiu falar reservadamente com o irmão, sobretudo porque a história
era mais grave do que eles imaginavam.
- Tem dois corpos lá pra cima da Pedra. Um é o do Maldição...
- E o outro?
- O outro é o do Paulo Henrique...
- Que Paulo Henrique?
- O Henrique do Seu João, aleijado da perna, a mãe lava roupa pra

fora, lembra?

- Sei, sei, cego de um olho. E o Maldição?
- Ele foi baleado perto da Mina... A turma do Zaca barbarizou. Fura-
ram o corpo com faca. Arrancaram um olho dele e jogaram lá dentro do
chiqueiro.
- O quê?
- Os porcos estão comendo o corpo dele.
- Meu Deus! Como o Cabeludo vai dá essa notícia pra família?
Juliano levou a informação ao pessoal da Turma da Xuxa e pediu
conselhos a sua confidente Luz, que também estava ali no Bar do Guer-
reiro.

- O que fazê, Luz? O Cabeludo tá doidão de pó, dá pra dá uma notícia

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dessa não, aí! - disse Julíano.
- Claro que não. Porcos, é demais! E o cara nem teve tempo de curti
o Miura! - disse Luz.
- Porra, é mesmo! Carrão zero, eu vi.
Dois dias depois da morte o corpo foi levado para o Instituto Médico
Legal. Só na manhã do dia seguinte a família tiraria o Miura da garagem
para acompanhar os funerais de Maldição. Júlio, Paulo Henrique, Ro-
naldo Maldição, todos os mortos da primeira semana de guerra eram do
exército de Cabeludo. Os correspondentes de guerra mostravam que a
violência era brutal sem explicar direito de que lado estavam os mortos,
nem qual das duas quadrilhas levava vantagem nos combates. Para os
moradores do morro, sobretudo os envolvidos com o tráfico, a impressão
era a de que os jornalistas simpatizavam com Zaca. Raramente os seus
homens eram filmados ou criticados por usar armas de grande porte. Na
verdade, os repórteres registravam a ação de quem estava mais próximo
deles. Salvo exceções, eles conseguiam chegar no máximo até o final do
pavimento das duas ruas de Botafogo que levam à favela. A Escadaria era
o limite. Por isso, como dominavam a parte baixa do morro, os homens
de Cabeludo ficavam mais expostos às câmeras e apareciam nos noticiá-
rios da TV e dos jornais.
Preocupado com a imagem negativa de seu grupo, Cabeludo tirou
um homem do combate e o transformou em assessor de imprensa, em
porta-voz.

- Aí! O chefe qué tirá uma chinfra, mandá uma letra manera!
A voz não era das mais potentes, mas ele compensava com o assovio
agudo para anunciar a hora da entrevista. Os repórteres de TV reclama-
vam que o visual não era dos mais adequados. Francisco de Paula Moura,
o Chico Boca Mole, tinha apenas dois dentes inteiros na arcada superior.
Usava um pequeno chapéu branco de uma escola de samba. Adotara a
Santa Marta para viver, mas não era “cria” da favela. Foragido da polícia,
viera do Turano e tinha um abrigo provisório na casa do velho Pedro
Ribeiro, onde convivia com Paulista e fez amizade com ele e seus três
filhos. No morro e fora dele, junto com Paulista, fazia parte do grupo de
confiança pessoal de Cabeludo. E dividia com os dois o consumo exage-
rado de pó. Os efeitos da droga dificultaram o seu papel como porta-voz

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do chefe na guerra. Chico Boca Mole gesticulava muito. Rangia os den-
tes o tempo todo. Na hora das gravações, como nunca largava a pistola
das mãos, os cinegrafistas precisavam recuar a câmera para que ele não
batesse com a arma na lente. O mais difícil era ouvir uma frase de Chico
Boca Mole sem palavrão.
- Manda aí na manchete: Zaca é um chifrudo arrombado!
Os repórteres tinham que implorar para que ele gravasse pelo menos
algumas palavras do linguajar comum.
- Tá bem, nova manchete: retira o chifrudo arrombado. Coloca aí:
Zaca, tu vai morrê, mané!
Dum! Dum! Dom!...Dum! Dom!... Dom!
Os disparos do AR-15 de Paulista anunciaram a primeira entrevista
“coletiva” de Cabeludo. Ao lado dele, na frente do Bar do Guerreiro,
Chica Boca Mole gesticulava e assobiava para o grupo de repórteres,
que estava a cem metros dali. Muitos viram os sinais do porta-voz con-
vidando para subir, mas por causa dos tiros todos acharam prudente não
se aproximar. Era um dia tenso por causa da chegada da Policia Militar,
que ocupou alguns pontos estratégicos na parte baixa do morro. Alguns
soldados reagiram e houve grande correria. Minutos depois do fim do
tiroteio, Chico Boca Mole reapareceu gesticulando com o chapéu branco
na mão.

- Eu vou ver o que esse maluco está querendo! - disse um repórter

aos colegas.

Radialista veterano, Ivo Leite saiu do meio do grupo com os dois
braços erguidos e o gravador em uma das mãos. Avançou devagar, passo
a passo, favela adentro, sob o olhar apreensivo de colegas repórteres,
policiais, traficantes. Dos dois lados, homens apontavam as armas na di-
reção de Ivo Leite, que encontrou Chico Boca Mole ao pé da Escada-
ria. Dali ele viu o aceno de Cabeludo, que estava no Bar do Guerreiro,
naquela hora cheio de homens armados, jovens sem armas, mulheres,
algumas crianças, todas em volta do chefe. A experiência em coberturas
de violência ajudou Ivo a conquistar a confiança de Cabeludo, embora
ele declarasse sua antipatia pela imprensa. Convidado a conhecer o QG,
Ivo ficou impressionado com a precariedade. No botequim de um único
cômodo havia um balcão refrigerador, uma pequena mesa de bilhar e três

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prateleiras com algumas latas de atum em conserva, uns dez pacotes de
biscoito, uma panela com restos de macarrão, alguns sacolés de cocaína
e cartuchos dos projéteis de guerra. Na parede sem pintura, a frase: “O
lado certo da vida errada!”
- Gostei de ver, Cabeça Branca. Tu é fera. Tu podia levá bala da poli-
cia, cara. Olha só lá embaixo. Tá infestado de mané! E os teus colegas?
- perguntou Cabeludo.
- Ficaram lá, a barra está pesada - respondeu Ivo Leite.
- Que nada. Tudo carniceiro de favela. Eles só sobem aqui para vê
sangue, morto, carniça.
- Não exagere.
- Já que você é bicho homem, tô a sua disposição.
- Vamos gravar uma entrevista com você para o rádio?
- Que programa?
- Amarelinho de Ouro, só de notícias quentes, manja?
- Aí o cara, ó! Manda aí, manda aí!
Antes da gravação, Cabeludo cheirou uma fileira de pó e reclamou
de Chico Boca Mole, que prometera reunir todos os repórteres para uma
entrevista coletiva.

- Coletiva é o caralho! Cadê os microfone? Cadê as câmera? Se não
fosse o Cabeça Branca vir até aqui...
A entrevista começou objetiva:
- O Zaca diz que você é estuprador. Que você atacou a sobrinha dele,
por isso começou a guerra. É verdade? - perguntou Ivo.
- Estupradô? As mulheres é que querem dá pra mim. Tu faria o quê,
Cabeça Branca? Tu comia ou não comia? - respondeu Cabeludo.
- Por que a guerra, então? - perguntou o repórter.
- Ganância do Zaca. Qué o morro inteiro pra ele. Por que não faz uma
pesquisa, Cabeça Branca? O povo me adora.
- E a guerra vai até quando?
- Até quando eu matá o Zaca. Ou até quando ele me matá!
A entrevista de Cabeludo obrigou Zaca a também ter um porta-voz.
O encarregado de levar seus recados aos repórteres era um jovem fran-
zino, que quase morreu na infância por causa da subnutrição. Da doença
de criança, que provocava sangramento pelo ânus, ficou o apelido, Caga

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Sangue. Para evitar o palavrão, a maioria da imprensa não citava o nome
do porta-voz de Zaca. Alguns repórteres inventaram um outro apelido
para ele, Cospe Sangue.
De todos os guerreiros de Zaca, Caga Sangue era o que mais desejava
vingar-se. Quina, a sobrinha do chefe, que teria sido violentada por Ca-
beludo, era sua namorada. O caso teve grande repercussão no morro. Na
casa de Juliano, levou a uma briga entre as duas irmãs, que chegaram à
agressão física. É que Caga Sangue era muito próximo da família devido
à amizade com Zulá desde a infância.
- Estuprar uma menina de 13 anos. Isso é coisa de monstro! - acusou

Zulá.

- Bem feito! O Caga Sangue merece. Ele também gosta de estuprar
garotas novinhas. Você lembra muito bem o que ele tentou fazer comigo!
- respondeu Zuleika.

Quando tinha 12 anos, Zuleika foi atacada por Caga Sangue. Zulá
estava em casa, mas nada fez quando ouviu a irmã se debater e gritar. Era
uma forma de se vingar. Zuleika também já tinha sido omissa quando
Zulá sofrera uma agressão parecida. As duas irmãs de Juliano temiam ser
violentadas. Eram morenas bonitas, faziam sucesso com os jovens, mas
desde o início da adolescência muitas vezes precisaram da ação de Julia-
no e dos amigos dele para se proteger dos assédios indesejados como o
de Caga Sangue. Zuleika foi pega nos fundos do barraco onde morava e
empurrada para dentro de casa. Por sorte os gritos dela atraíram a aten-
ção de um jovem assaltante que passava pela viela e resolveu socorrê-la.
O jovem era Cabeludo. Ele deu uma surra em Caga Sangue e por muito
pouco não o matou.

Quatro anos depois, um episódio da guerra alimentou ainda mais a
antiga inimizade entre os dois. Episódio que iria representar a recupera-
ção do exército de Cabeludo. Os homens de Cabeludo estavam no meio
do fogo cruzado. Por cima, enfrentavam os ataques dos traficantes inimi-
gos. Do lado oposto, os tiros vinham das armas da polícia, que ameaçava
invadir a morro a qualquer momento. Mas por ordem do chefe evitaram
trocar tiros com a polícia.
- Se tu mata cinco, surgem dez. Se tu atira em duzentos, mandam cha-
mar outros duzentos, trezentos. É jogar munição fora - disse Cabeludo ao

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pessoal mais afoito. Juliano seguia rigorosamente todos os conselhos de
Cabeludo, sobretudo durante a movimentação noturna. Para não se con-
fundirem na escuridão, os diversos bondes adotavam uma mesma senha
de identificação, que mudava todo dia. Na madrugada do sétimo dia de
combate, a tática começou a dar resultado. Ao perceber a aproximação de
um vulto, um homem gritou.
- Madureira!
Se o vulto fosse de amigo a resposta deveria ser: Salgueiro.
- Portela!
O vulto acabou iluminado pelas luzes dos projéteis de fuzis e metra-
lhadoras disparados simultaneamente. Era um homem bem conhecido de
todos, Pedro Paulo dos Santos Olímpio, o Porquinho, de 33 anos.
- Matamos o irmão do Caga Sangue!
Pela manhã, o desejo de vingança fez Zaca sair da defensiva. Mas,
no ataque, a situação de seu exército piorou ainda mais em conseqüência
da perda de dois homens num único tiroteio. Como ninguém se arriscava
a sair às ruas durante os combates, poucas ficaram sabendo das derrotas
de Zaca. Para esconder o fracasso, pagou uma propina extra aos poli-
ciais para que eles dessem um sumiço nos corpos dos dois mortos do
seu bando. Os cadáveres foram levados ensacados morro abaixo e depois
deixados dentro do porta-malas de um carro abandonado numa rua de
Botafogo.

As mortes e os tiroteios diários provocaram muitas críticas da im-
prensa à polícia, que se limitava a acompanhar a guerra fora dos limites
da favela. Depois de uma semana, as imagens dos combates já estavam
no noticiário das televisões européias e americanas. A agência Reuters,
da Europa, deslocou um enviado especial ao Rio de Janeiro, o repórter
inglês Stephen Power, de 40 anos, que no morro ganhou o apelido de
Maifrendi.

Embora tarimbado em coberturas de guerras, era a primeira vez que
Power cobria um conflito entre moradores de uma mesma comunidade.
Na tentativa de descobrir a causa, ele procurou ouvir os dois lados. Zaca
não quis saber de conversa. Ao contrário de Cabeludo, que mandou Chi-
co Boca Mole oferecer uma entrevista exclusiva.
- Aí, Maifrendi, o chefe quer mandá uma sinistra para os gringos -

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disse Chico Boca Mole ao repórter inglês.
Cabeludo afastou-se meia hora da guerra para dar entrevista. E o re-
pórter, que falava apenas algumas palavras em português, perdeu horas
tentando traduzir as gírias e palavrões, com a ajuda do “assessor” Chico
Boca Mole. Eram muitas as dúvidas em cada frase:
- Caga Sangue é Vacilão? Whar means? Que significa? - perguntou o

repórter.

- Vacilão ou bundão, ou mané, ou otário, o que tem que morrê! - res-
pondeu Chico Boca Mole.
- Oh, Yes. The one who must die. Tem que morrer! And Caga? And

Sangue?

- É o nome do cara, Maifrendi.
- Oh yes, rheguy.
- Isso aí, viado, cuzão.
- E o que significa o Paulista deu uns tecos?
- Aí tu já está querendo demais. Vai estudar, Maifrendi.
No dia em que a polícia do Rio de Janeiro resolveu fazer uma gran-
de operação na Santa Marta para calar as críticas da opinião pública, o
repórter inglês estava no morro no meio do batalhão de jornalistas que
acompanharam todas as cenas, algumas delas absurdas.
A operação da Polícia Militar fracassou antes de começar. Fora pla-
nejada durante 48 horas para ser executada ao amanhecer do oitavo dia
de combate. Mas seus eternos rivais - os policiais civis - estragaram tudo.
Marcaram outra operação para o mesmo dia e, por esperteza, quase na
mesma hora, sem avisar os colegas da PM. Eles entraram na favela duas
horas antes do amanhecer, acompanhados por um grupo seleto de jorna-
listas de confiança deles, avisados do plano na noite anterior.
Ainda estava escuro quando as luzes da imprensa iluminaram os be-
cos tomados por mais de cem delegados e inspetores das duas delega-
cias de Botafogo, além de policiais da DRE, a Delegacia de Repressão
a Entorpecentes, da DRF, Delegacia de Roubos e Furtos, e da DVSul, a
Divisão de Capturas da região sul da cidade. Havia também um bando de
policiais voluntários, policiais que queriam vingar o assassinato do cole-
ga Chuvisco, acontecido havia menos de um mês. Policiais desonestos,
interessados na apreensão para si das melhores armas dos traficantes,

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completavam a operação. A ordem de uma operação conjunta partira do
governador do Estado, que considerava prioritária a missão de prender
Zaca e Cabeludo. Os rivais sabiam que também havia entre os policiais
um objetivo não assumido publicamente: a apreensão das armas de guer-
ra, cotadas a peso de ouro no mercado negro. Os primeiros moradores
suspeitos, detidos para averiguação, descobriram nos interrogatórios que
o mais caçado não era nenhum dos dois chefões rivais.
- Eu quero o Paulista, porra! Me dá o barraco dele - gritou o delegado

Hélio Vigio.

No morro, os assaltantes mais experientes, como Cabeludo, diziam
que Hélio Vigio era violento com os malandros e criminosos de baixa
renda, mas generoso com os corruptos e grandes contraventores. Na épo-
ca fora acusado de liderar um grupo de policiais que dava pouca impor-
tância às ações de segurança de interesse coletivo para privilegiar as ações
repressivas encomendadas pelos ricos vítimas de assaltantes e ladrões.
No ano de 1987, todos os dias dez pessoas eram assassinadas e mais
de vinte sofriam assaltos na cidade do Rio de Janeiro. Quando soube que
Vigio estava na operação, Cabeludo alertou o seu grupo.
- Cuidado. Esse Vigio é puxa-saco de rico.
Mas a maior motivação de Vigio para se empenhar nessa operação era
a possibilidade de ganhar prestígio com a possível prisão de Cabeludo.
Ele adorava ver o seu nome envolvido em notícias de destaque na im-
prensa, mesmo se a sua ação resultasse na morte de alguém. Outro fator
era a chance de conquistar para a polícia o então cobiçado fuzil AR- 15
usado pelos traficantes.
Dias antes da operação, Vígio fora informado pelo diretor de uma
agência de publicidade que Cabeludo era o assaltante metido a Robin
Hood que invadira sua casa e roubara uma pequena fortuna em jóias e
dólares. No assalto, como sempre fazia, Cabeludo disse aos empregados
que não tirava nada dos trabalhadores e tentou convencê-las a facilitar o
roubo contra o patrão. No depoimento sobre o assalto, eles contaram em
detalhes o que ouviram de Cabeludo:
- Aí, fica frio. Só roubo de bacana. Mas se não colaborá o bicho pega,
hein! Vamo aí. Vamo pegá as jóia do patrão. Onde tão os dólar? - teria
dito Cabeludo.

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Boné escuro com a aba virada para trás, jeans e jaqueta de couro pre-
ta, com a marca John Player escrito em amarelo nas costas, metralhadora
pendurada no ombro, sempre à frente de um grupo de dez policiais, Vigio
passou a manhã espalhando o terror nos barracos que invadia. Assustado
com a busca “pente fino” do delegado, o principal aliado de Cabeludo,
Orlando Jogador, conseguiu se embrenhar na floresta e fugir com o seu
AK-762. Os outros esconderam suas armas pessoais e enterraram o esto-
que de trezentos gramas de cocaína e o AR-15 de Paulista nos fundos da
capela, no beco da Paz.
Inventaram um novo apelido para o portador da arma. Paulista passou
a ser chamado de Índio.
- Tô ferrado, os homi só perguntam por mim!
A perseguição se intensificou com a chegada simultânea dos solda-
dos do Núcleo de Operações Especiais e de dois Batalhões da PM, o
Décimo Terceiro de Bonsucesso e o da área vizinha à favela, o Segundo
de Botafogo, onde trabalhavam pelo menos vinte soldados acusados de
receber propinas semanais de Zaca. Eles invadiram o morro pela parte
baixa dominada por Cabeludo dando tiros para cima, provocando grande
correria, acompanhados a distância por dois helicópteros e bem de perto
pelos repórteres. Ao meio-dia, havia seis policiais para cada homem dos
dois grupos. O número exagerado gerou grandes confusões.
- Vamo entregá o AR-15 e livrá nossa cara - sugeriu Juliano a Paulista
quando viu o grupo do temido Hélio Vigio se aproximando do barraco do
pedreiro Zé do Bem, onde os dois estavam escondidos.
- Eu virei Índio, lembra? Segura aí, cochichou Paulista instantes antes
de estar sob a mira da arma de Vigio, que quebrou a porta da cozinha com
um pontapé.

- Eu sabia, eu sabia! Te achei, coisa ruim!
- Aqui é casa de trabalhadô - defendeu-se o pedreiro Zé do Bem.
- Trabalhador? O que três vagabundos fazem em casa a essa hora?
- A favela está em guerra, dotô. Não dá pra descê pro trabalho. O Ju-
liano é menor, tá indo pro quartel. E o Índio...
- Índio? Índio sarará? Cabelo ruim! - gritou Vigio, já puxando Paulis-
ta pelos cabelos para derrubá-lo no chão.
Caído de costas, com o pé do delegado o pressionando contra o chão,

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Paulista manteve-se calado, enquanto os outros policiais ameaçavam e
exigiam que ele falasse onde escondera o AR-15.
- Entrega logo esse fuzil! - ameaçava Vigio.
- Por amor de Deus, dotô, eu sou o Índio. O Paulista saiu de pinote!
- Pinote,isso é gíria de bandido.Tá pensando que eu sou mané, rapá?
Enquanto Paulista e Juliano eram conduzidos presos para o pé do
morro, os policiais militares gritavam nervosamente pelos walkie-talkie
que um repórter tinha sido ferido.
- Atenção, atenção todas as equipes. Acionar socorro. Repórter ferido
aqui perto da creche. Atenção todas as equipes...
- Aqui base do morro, câmbio. É tiro de fuzil ou de revólver? Precisa

de reforço, câmbio?

Como nenhuma ambulância conseguiria entrar nas vielas da Santa
Marta, o repórter Álvaro Miranda, do jornal O Dia, foi enrolado em um
lençol e levado pelos soldados, viela abaixo, até a Escadaria. Grande
quantidade de sangue escorria do rosto, ferido logo abaixo do olho di-
reito.

- Foi o Zaca ou o Cabeludo? - perguntou um PM.
- Não é nada disso. Fui agredido por um colega, um fotógrafo - expli-
cou Miranda, tentando estancar o sangue com uma das mãos.
Uma discussão por um motivo banal. Desentenderam-se por causa
da escolha do melhor ângulo para fotografar os detidos sendo algema-
dos pelos policiais. Miranda tentou aproximar-se para entrevistar um dos
menores, sentados sobre um pequena monte de terra, vigiados por três
PMs armados. O fotógrafo Aníbal Philot, de O Globo, logo atrás, tentava
registrar a cena e reclamou da interferência de Miranda.
- Você estragou. Era a foto! Se cuida, seja profissional, porra!
- Quer me ensinar a trabalhar? Vá se fuder. Cuide da sua, que eu cui-

do da minha.

Durante a discussão Miranda empurrou Philot, que viera falar bem
perto dele e devolveu o empurrão com uma pancada no rosto do repórter,
usando a máquina fotográfica como arma. A agressão abriu um corte
de 10 centímetros abaixo do olho direito. O sangue, que cobriu o rosto
inteiro, assustou colegas e policiais, que acreditaram que fosse ferimento
de bala. Três ambulâncias foram enviadas de bairros diferentes para so-

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corrê-lo assim que chegasse ao pé do morro.
Miranda foi o único ferido nas primeiras dez horas de operação. No
final do dia, os policiais lamentavam o fracasso - todas as detenções eram
de pessoas sem importância na estrutura do tráfico.
Dos sete presos - Paulista, Juliano e outros cinco homens do exército
de Cabeludo -, apenas um tinha importância estratégica na guerra por
causado AR-15. Mesmo descoberto pelo delegado Hélio Vigio, Paulista
não entregou o esconderijo do fuzil. Como ninguém conseguiu identifi-
cálo, o escrivão que registrou a prisão escreveu o nome dele assim: José
Carlos Pereira, vulgo Índio.
Na carteira de identidade de Paulista, que ficara escondida na casa do
velho Pedro Ribeiro, o nome era bem diferente, Luis Carlos Trindade,
mas igualmente falso. Desde a sua chegada ao Rio, Paulista não revelara
a ninguém o seu verdadeiro nome.
Paulista ficou preso vários dias, mas juliano foi liberado horas depois.
Aproveitou a trégua na guerra - devido à presença da polícia no morro
- para voltar para a casa da mãe. Os civis já tinham ido embora, mas os
policiais militares mantiveram o cerco com barreiras em todos os aces-
sos. Não perceberam a passagem de Juliano, que estava acompanhado de
Betinha e da irmã, Zuleika.
Alguns amigos da Turma da Xuxa, que haviam se afastado dele no
início dos combates mas continuavam morando em seus barracos, foram
ao encontro de Juliano na casa de Betinha. Todos estavam preocupados
com o futuro, já que a vitória sobre Zaca parecia cada dia mais distante.
Outra preocupação era o destino de Cabeludo, que estava escondido
numa caixa-d’água desde o início da ocupação policial.
No dia seguinte o morro continuava ocupado pela polícia, o que levou
muita gente a sair às ruas para acompanhar as diligências. Os primeiros
jornais que chegaram à favela destacavam o fracasso do primeiro dia de
operação e as informações sobre o ferido e os presos. Um jornal popular
omitiu na lista dos detidos o nome de Juliano. Escreveu apenas as iniciais
e a idade: J. M. F., 17 anos. Quem descobriu a notícia foi Mentiroso, que
aproveitou a oportunidade para debochar de Juliano.
- J.M.F., 17, tá vendo? Você é quase nada, Juliano.
- Melhor se não tivessem escrito nada. Isso pode queimá o filme com

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todo mundo.

- Se preocupa não, VP. Um dia tu ainda vai sê famoso. Tua mãe vai
ligá a TV na sala e vai dizê pro pessoal: venham vê, o meu filho virô
artista!

- Artista eu vô sê mesmo. Tá com inveja, Mentiroso?
Mentiroso continuou com a brincadeira.
- Aí, dona Betinha vai percebê um detalhe na imagem, uma pulserona
prateada nos punho do filhão sendo levado pelos homi de preto.
- Qual que é, Mentiroso?
- Do jeito que eu te vi, na guerra... Um dia você chega lá, chefão!
- Chega de brincadeira, temo que ajudá Cabeludo e o Chico Boca
Mole a vazá do morro antes que seja tarde.
A tática para garantir a fuga de Chico Boca Mole era atrair a atenção
dos policiais com o objeto que todos cobiçavam: o AR-15. Na hora da
pausa para o almoço, os guerreiros aproveitaram para desenterrá-lo. Dali
mesmo, do beco da Paz, apertaram o gatilho na posição intermitente:
Dum. Dum. Dum. Dum. Dum. Dom. Dum. Dum. Dom.
A correria dos policiais em direção ao beco da Paz deixou a Escadaria
aparentemente sem nenhuma barreira para a fuga de Chico Boca Mole,
que estava escondido a duzentos metros, na casa de dona Marlene, mãe
de Du.

Para disfarçar, ele tirou o chapéu branco, escondeu a pistola sob a
camisa e desceu os degraus devagar, cumprimentando naturalmente as
pessoas. Pretendia seguir direto em direção à rua Francisco de Moura.
Poucos metros à frente, percebeu que o QG de Cabeludo tinha sido ocu-
pado pela polícia.

Pelo menos um soldado estava lá dentro do Bar do Guerreiro, e perce-
beu a fuga por um detalhe inconfundível: Chico Boca Mole tinha o hábi-
to de andar com o ombro direito rebaixado, mania herdada de assaltantes
da velha-guarda.

- Onde tu pensa que vai, malandragem? - gritou o soldado, já saindo
do bar com a metralhadora na posição de tiro.
- A casa caiu, Chico Boca Mole! Chama a imprensa agora, chama!
- disse outro soldado que chegava ali com mais um suspeito preso.
Sob protesto, Chico Boca Mole foi algemado com as mãos para trás

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e imediatamente colocado no “chiqueirinho”, o compartimento de presos
de uma Veraneio da PM. Ficou parte da tarde dentro da viatura, aguar-
dando para ser levado àdelegacia, período em que deu várias entrevistas
através das frestas de ventilação da porta traseira.
- Cana dura só do nosso lado, qual que é, rapá? Põe na manchete: e o
cuzão do Zaca, vai sê preso não? Aí, governador! Explica essa!
Aos poucos os repórteres foram perdendo o interesse nas declarações
de Chico Boca Mole, que não parava de falar.
Os soldados que voltavam da busca ao AR-15 trouxeram vários sus-
peitos presos. Algemados uns aos outros, eles foram postos em fila india-
na em frente ao Bar do Guerreiro. A Escadaria virou ponto de concentra-
ção de curiosos e de namoradas, amigos, mães que chegavam até ali para
pedir informação sobre algum parente detido.
A maioria das mulheres que se queixava das prisões era amiga de uma
morena, que chorava muito sem se queixar de ninguém. Chamavam-na
de Olga. Ela usava um vestido verde-escuro justo, um lenço azul-mari-
nho na cabeça e um sapato preto, salto baixo, mais confortável para quem
planejara andar muito. Quando uma das amigas, a pretexto de consolá-
la, saiu de braços dados com a morena morro abaixo, nenhum policial
percebeu a encenação. No Camburão, Chico Boca Mole ainda ofendia o
governador do estado enquanto Cabeludo fugia travestído de Olga.

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