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Texto 3

Seguramente a linguagem, na medida em que falada, emprega-se para combinar "o que
queremos dizer". Mas isso a que chamamos "o que queremos dizer" ou "o que temos no
esprito" ou "o nosso pensamento" (seja como for que o designemos) um contedo de
pensamento, bem difcil de definir em si mesmo, a no ser por caractersticas de
intencionalidade, ou como estrutura psquica, etc. Esse contedo recebe forma quando
enunciado, e somente assim. Recebe forma da lngua e na lngua; que o molde de toda a
expresso possvel; no pode dissociar-se dela e no pode transcend-la. Ora, essa lngua
configura-se no seu conjunto e enquanto totalidade. , alm do mais, organizada como
combinao de "signos" distintos e distintivos, susceptveis, eles prprios, de decompor-se em
unidades inferiores ou de agrupar-se em unidades complexas. Essa grande estrutura, que
encerra estruturas menores e de muitos nveis, d a sua forma ao contedo ao pensamento.
Para tornar-se transmissvel, esse contedo deve ser distribudo entre morfemas de certas
classes, organizadas numa certa ordem, etc. Enfim, esse contedo deve passar pela lngua e
tomar-lhe os quadros. De outro modo o pensamento se reduz, se no a nada, pelo menos a
algo de to vago e de to indiferenciado que no temos nenhum meio de apreend-lo como
"contedo" distinto da forma que a lngua lhe confere. A forma lingustica , pois, no apenas
a condio de transmissibilidade mas primeiro a condio de realizao do pensamento. No
captamos o pensamento a no ser j adequado aos quadros da lngua. Fora isso, no h seno
obscura volio, impulso que se descarrega em gestos, mmica. Isso quer dizer que a questo
de saber se o pensamento pode dispensar a lngua ou contorn-la como um obstculo, por
menos que se analisem rigorosamente os dados em pauta, aparece destituda de sentido.

mile Benveniste, Problemas de lingustica geral