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Ensaio sobre Girolamo
Savonarola

Mário , Crespo, Jornalista

Afacilidade irritada com que o


professor Augusto Santos Silva
recorreu ao insulto ao dr. Álvaro
Cunhal para contestar um protesto
político tem denotações sérias.
Deu-nos o sinal de que no
movimento político que ele
representa, há gente para quem
os ideais já passaram para um
segundo lugar e as ideologias
foram para ainda mais longe. Ao
meter Álvaro Cunhal no mesmo
saco que Mário Nogueira, Santos
Silva abjura tudo na génese do
partido em que milita e denota
que, para ele, não há diferença
entre as referências que são a
textura das nações e os percalços
do processo governativo que são
episódicos. Sem os princípios, que
são o sustento do argumento
sólido, ao ser contestado em
público teve uma birra. Tentou
afirmar-se maior, muito maior, do
que é. Acotovelou tudo e todos
para tentar caber na nuvem do
Olimpo ideológico nacional. Os
que lá estão devem tê-lo olhado
atónitos, tão surpreendidos como
Mário Nogueira da Fenprof que só
pode ter sorrido com o dislate
comparativo, desculpável no facto
de Santos Silva ter infligido o
mesmo cotejar absurdo a si
próprio pondo-se de braço dado
numa marcha virtual por purismo
ideológico ao lado de Sotto Mayor
Cardia, Salgado Zenha, Mário
Soares e Manuel Alegre.

Ele próprio deve ter visto que não


entrava e ficou ainda mais
zangado. E assim Santos Silva foi
o primeiro a tombar na suicidária
guarda avançada que o seu
Estado-maior mandou para calar o
protesto na rua. Que morte
inglória. 48 horas depois do mártir
se estilhaçar com seu cinto de
impropérios, o Estado-maior
mudou de estratégia. Como já
tinha acontecido na Ota, nas

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urgências e na terceira ponte, a


política das certezas deu lugar à
flexibilidade ternurenta e
pactuante das soluções
dialogadas, enquanto no campo
de batalha de todos os ridículos
ficou morto e a arrefecer o corpo
das comparações infelizes. A saga
do ministro dos Assuntos
Parlamentares não tem interesse
nenhum se for encarada como um
ataque ad hominem.

Só interessa registá-la como um


episódio que denota o risco de
mutações desviantes num partido
com os princípios, referências e
responsabilidades actuais do PS.
Há, de resto, sinais de que os
socialistas estão a atravessar um
sério processo de introspecção.
As vozes dos históricos têm tido
cada vez mais dificuldade em
justificar os apriorismos arrivistas
que frequentemente redundam em
disparate e não têm conseguido
encontrar nexo nos axiomas
neo-liberais transpostos para a
praxis governativa. E têm-no dito.
Dois dos nomes invocados na
litania de Santos Silva já se
manifestaram abertamente contra
atitudes e medidas do Executivo
de Sócrates.

Há muitas vozes eloquentes


dentro do partido que se têm
insurgido contra o
quero-posso-e-mando-porque-sim,
sobretudo no que ele se traduz em
fazer recuar o Estado para limites
da intervenção perigosamente
ténues em que se esboroa o
próprio tecido nacional.
Pronunciamentos críticos de
Manuel Alegre e Mário Soares
derrubaram o paradigma que
"quem não está connosco é
porque não nos entende" e
inverteram políticas que estavam
a ter efeitos calamitosos na
população. O doloroso argumento
que era invocado pelo núcleo duro
do Governo de que "ninguém nos
dá lições de democracia" esvai-se
nos episódios da DREN e na
actuação da PSP antes da
manifestação dos indignados.

O professor Santos Silva


denunciou-se em Chaves quando
denotou que o seu governo não
via as manifestações como ecos
legítimos do descontentamento,
mas apenas como obra de
manipulação política. O que ele
disse é que o grito na rua é
passado que não contribuiu para o
presente. O que ele disse é que o
Estado era ele com a sua
interpretação da realidade. Que
ser contra era sacrílego. Que ser
comunista era ser impuro. Que
devia haver bancos nos jardins

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para comunistas e
não-comunistas. Há um pormenor
mais; conheci Salgado Zenha e
Sotto Mayor Cardia. Conheço
Mário Soares e Manuel Alegre.
Não vejo nenhum deles a dizer
aquilo que Augusto Santos Silva
disse de Álvaro Cunhal.

Mário Crespo escreve no JN,


semanalmente, às
segundas-feiras

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