Você está na página 1de 4
TEORIA E PRATICA DOS DOMINGOS Porque séo os domingos tao compridos, Filomena? Nao tenho de estar as nove na Companhia, nao tens de estar no infantdrio 4s oito e meia, levantamo-nos mais tarde, tomamos o pequeno-almogo no café, compramos os jornais, alugamos dois filmes no clube video (um po- licial como eu gosto, um romantico como tu preferes), ninguém da ordens, ninguém nos exige nada, ninguém nos aborrece, e no entanto, porque sao os domingos tao compridos, Filomena, por que motivo é sempre a mes- ma hora no relégio, por que razéo me apetece tanto qualquer coisa que nem sei o que é em vez de ficar con- tigo? Eu que gosto de ti, palavra, gosto de ti, eu que de- via sentir-me bem e nao me sinto, nao é mal-estar, nao” é angtstia, é uma sensagdéo vaga, um desconforto, uma inquietagao que nao entendo, e todavia, nao me conce- bo sozinho, nao me concebo sem ti, gosto da tua cara, do teu corpo, casei contigo por amor, porque sao os do- mingos tao compridos, Filomena? Nao tem que ver com o bairro, o bairro agrada-me, nao tem que ver com o apartamento, trés assoalhadas chegam e sobejam e ainda temos a vista, Queluz, 0 rio, os barcos, se nos apetecer vamos a Sintra ou a Cas- cais, Se nos apetecer vamos ao cinema as Amoreiras, 52 vamos olhar as lojas, vamos ao Cacem jogar as cartas com o teu irmao e a mulher, o teu irmao espojado no sofa, de barba por fazer, de mao no queixo, aborreci- dissimo, a mudar constantemente de canal e a comer pipocas de um balde de cartéo, e a mulher na cozinha, a enxotar os filhos e a passar camisas a ferro. Para eles os domingos também sero compridos, Filomena? Tu enfias-te na cozinha a conversar, eu aceito pipocas e folheio os retratos do cruzeiro que fizeram em Agosto a Tanger (pessoas sorridentes a jantarem, de copo de vinho no ar, um baile a bordo, eles de chapéu esquisito na cabega, de brago dado com um arabe de bigode), e © teu irmo para mim, a apontar as fotografias ¢ a mudar para o desporto Chateei-me como um urso, Alfredo e tu, da cozinha: - Da aqui um pulo, amor para me mostrares 0 micro-ondas novo, para me mos- trares um aparelho eléctrico de moer nao sei o qué Em Novembro, com o subsidio de Natal, compra- vamos um assim, amor eo teu irmio 14 de dentro, de boca atulhada de pipo- Cas Estio a dar o ténis, Alfredo e o apartamento deles é metade do nosso, uma cave, diante de uma churrascaria, com os frangos no espeto a entrarem, pingando molho, pela janela da sala, os frangos que parecem senhoras gordas nuas de joelhos ho peito, e eu a pensar no comprimento dos domin- gos, Filomena, primeiro que passe das quatro horas da tarde é uma eternidade, é um martirio e nao entendo porqué dado que gosto de ti, dado que nem sequer sou infeliz, nado sou infeliz, palavra, é uma coisa estranha, um aperto, uma afli¢&o incomodada, nao percebo o que quero mas percebo que nao é isto que quero, este tinel de horas, esta poltrona éptima durante a semana e desconfortavel ao domingo onde nao consigo sen- tar-me, onde nao encontro posi¢do. E as sete para casa 33 dos teus pais em Massamé, a tua mae aborrecidissima a mudar de canal e a comer pipocas, a cadela quasi cega a ladrar-me aos tornozelos, e 0 teu pai, tremend de entusiasmo por cima da bengala que lhe serve d coluna vertebral desde que Ihe deu o ataque, o teu p de avental, radiante ~ Fui eu que fiz a sopinha, fui eu que fiz a sopinha As dez da noite, de Massam4 a Queluz é um instam te. Ha sempre lugar para arrumar o carro na esquin: logo a seguir ao talho, as 4rvores recomecam a fica bonitas com a segunda-feira a aproximar-se, os pontei ros do relégio principiam a girar, a ideia de volt para a Companhia, que me ha-de deprimir a partir di terga-feira, entusiasma-me, a sala tornou-se de re pente gira, os vasos de flores, os bambus, o quadro d. preta com a crianga as costas, torno a ter vontad de dar a mao, de te beijar, talvez te faca a surpres: de comprar o aparelho de moer para os teus anos A lavar os dentes, de pijama, com os pés descalg encolhidos por causa do frio dos azulejos, oico-te di cama — Alfredo € esquego-me dos domingos, esquego-me do come primento dos domingos, esquego-me do desconforto, da inquietagéo, do incémodo, deito-me ao teu lado © mais depressa que consigo, com a escova de den- tes na boca, o Julio Iglésias toca baixinho no radio do despertador, compreendo com muito mais forga que te amo, compreendo que te amo para sempre @ que pode ser que consigamos sobreviver as pipocas do Cacém, 4 sopinha de Massamé e aos relégios imé- veis, consigamos sobreviver as lojas das Amoreiras € aos cruzeiros a Tanger. Afinal de contas sé ha um domingo por semana, nao €? O que € preciso é meter na ideia que s6 ha um domingo por semana, s6 hé um domingo por semana, Filomena, a miséria de um domingo de nada por semana. Gosto da tua camisa de dormir de rendas, gosto daquilo a que cheira 0 54