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El chupacabras

Quando o Sol desceu abaixo do monte vizinho, uma brisa


gélida cortou o sereno do entardecer e nuvens de mosquitos,
sedentos de sangue, abateram-se sobre tudo o que vivia e
respirava, tornando a vida no planalto num inferno de coceira e
de palavrões. O casal correu a abrigar-se na tenda, embora ainda
fosse cedo e desperdiçar aquele pôr-do-sol fosse um
desperdício, depois de tantas horas de avião, de camioneta, de
jipe, até de burro...
Lá dentro, a mulher ainda tentou trabalhar, mas o cansaço
da viagem começou a fazer-se sentir, agravado pela rarefacção
do ar. Pôs de lado o paper que andava a escrever – trabalho que
faz um sono terrível – e afundou-se no saco cama. Ao lado,
tapado até à cintura, o marido continuava a escrevinhar. Fosse
do cheiro da terra ou da nostalgia de outros tempos, o espírito da
investigadora recuou de uma assentada vinte e cinco anos atrás,
a uma outra viagem àquele mesmo lugar, também os dois a sós
no planalto ermo. Como então fora diferente! Cavalgadas diárias
– saltas tu em cima de mim ou eu de ti?, furor juvenil a fazer
esquecer a ânsia do trabalho: que se lixe a investigação, há-de
fazer-se, amanhã ou depois...
Olhou de soslaio para o impetuoso macho de outros
tempos, agora concentrado no trabalho da pesquisa...
Decididamente, avec le temps, tout s’en va, cantava Léo Ferré,
que, parece, nunca teve problemas destes, com mulher nova e
uma ranchada de filhos, já passava dos 70...
Que é feito desses homens de antanho? E as recordações
do passado já distante nesta terra vazia – morenos homens de
barba rija, a doce língua castelhana, no céu o condor, na terra o
amor, trouxe-lhe de volta sensações e desejos há tanto tempo
esquecidos: — David? Lembras-te...?
—Sim, querida?, resmungou distraído, sem levantar os
olhos dos rabiscos que espalhava pelos papéis, talvez a
dissertação de um dos seus pobres alunos.
(Lembras-te de que um saco cama chegava para os dois,
do fogo do Sol e da dureza do chão, da fraqueza do ar rarefeito
para acalmar corpos ofegantes? Lembras-te do suor nas noites
geladas e dos banhos ao natural na ribeira do lado? Lembras-te
de nós, quando trocávamos o cinzento quotidiano pela limpidez
desta terra?)
— David, sussurrou ela outra vez, gata tímida com cio.
— Sim, querida? Agora em tom inquisitivo, mais forte,
ligeiramente intrigado com a interrupção, olhava-a por cima dos
óculos. O seu garanhão de outrora não estava a ficar estúpido,
não. Apenas, ela bem o sabia, como gato capado, começava a
ignorar as preocupações carnais.
Disfarçou: — David, que achas da história do guia
afiançando que el chupacabras foi visto por aqui?
Embora no loiro da barba bem cuidada nem um pêlo
estremecesse, pareceu aliviado com o rumo da conversa: —
Superstições, querida. E mesmo que o não fossem, olha o que eu
comprei para os chupacabras. E tirou de debaixo do travesseiro
um verdadeiro canhão portátil: — Um Smith and Wesson 45.
Mata um urso. Fica descansada: não há nada, vivo ou morto, que
resista a um disparo disto. E agora vamos dormir, que amanhã
espera-nos um longo dia de trabalho.
Enquanto o sono não chegava, deu por si a imaginar um
verdadeiro urso – desses que nas planícies mexicanas cobrem as
suas mulheres e às vezes as dos vizinhos, barba por fazer,
tresandando a suor, álcool e mau tabaco, de virilidade
estimulada pelo alho, odor a condizer – atirando-se para cima de
si, rude, sem preliminares nem modos, montando-a como um
toiro de cobrição, indiferente a intelecto e diplomas, inundando
o seu interior de felicidade há tanto tempo desconhecida,
Sonhou que mãos calosas lhe apertavam as mamas com
força e paixão (onde fora David buscar esta energia súbita?) e a
boca sugava avidamente mamilos, descia pelo ventre e subia
pelo interior das coxas, desviando-se no último momento de
precipícios e ravinas... Oh, David, aí, aí mesmo, sonhava, e
empurrava-lhe a cabeça para onde a queria, para onde ardia um
fogo que não queria ser apagado. Quando esmoreceu, satisfeita e
exausta, ocorreu-lhe que agora sim, podia adormecer e
novamente sonhar com amor e juventude eternos naquele
planalto de brisa gelada, mosquitos e ar límpido, para acordar de
madrugada com o grito estridente do condor...
Porém, insidiosamente, a mesma língua recomeçou a sua
conversa muda, desta vez apelando directamente ao sentimento
e o sentimento não demorou a exteriorizar-se, face ao ataque do
mesmo problema por um outro ângulo: — David, aí não, aí não
que é... Oh sim, aí, em todo o lado, que se lixe, um dia não são
dias e dias destes – ou, melhor dizendo, noites destas – há tanto
tempo que as não tinha –, a barba por fazer como nos velhos
tempos, picando-lhe as nádegas...
Barba por fazer? Mas não havia tempo para pensamentos
profundos, que eram profundos os golpes impetuosos com que a
atacava por detrás, as mãos calejadas agarrando-se-lhe aos
flancos como bico de galo a pescoço de galinha...
Como é que David tinha calejado as mãos? E a barba por
fazer? Com o sofrimento de quem abandona paraíso
penosamente alcançado, deitou a mão à lanterna, debaixo do
travesseiro. Mal a acendeu, ele retirou bruscamente o que era
seu de dentro dela, espalhando pelo ar aquilo que ambos
desejavam arrumar bem no fundo de tudo, e num salto
desapareceu por rasgão da tenda, só um vulto vago fugindo ao
longe...
E David? Aflita, voltou a lanterna que para o lado onde o
marido se deitara. Não viu o saco cama empapado do sangue
ainda jorrando da garganta cortada. Não viu, porque o marido
dormia tranquilamente, indiferente a chupacabras e
assombrações deste ou do outro mundo, confiante no seu canhão
45, capaz de matar um urso ou qualquer outra coisa vivente ou
não vivente que surja sobre a face da Terra.
Por isso voltou a deitar-se, e adormeceu sonhando nova-
mente com homens brutos de barba rija, cobrindo tudo o que era
fêmea...

JCC

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