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A BRINQUEDOTECA NA ESCOLA_POR QUE AS CRIANÇAS ESTÃO PERDENDO TODOS OS REFERENCIAIS DE ANTIGAMENTE

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A BRINQUEDOTECA NA ESCOLA: POSSIBILIDADE DO RESGATE DO LÚDICO OU RECURSO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA Edna Mara Gonzaga Rodrigues Puga1[1] Léa Stahlschmidt

Pinto Silva2[2] Passos iniciais de um caminho percorrido A nossa inserção no trabalho com Educação Infantil reportou-nos a interesses passados, vividos durante o tempo de graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Viçosa - MG. Ao participarmos como estagiária na organização de uma Ludoteca dentro do Campus da referida Universidade, no ano de 1996, começamos a nos interessar pelo tema e a perceber a importância desde espaço para a vida das crianças e para a sociedade. O brincar se faz urgente em nossas vidas, em especial na das crianças. Os interesses hegemônicos, considerados produtivos, da nossa sociedade estão nos transformando em adultos indiferentes quanto ao significado do brincar. De acordo com MACHADO (1994, p.21), “O brincar é nossa primeira forma de cultura” e é nas brincadeiras que a criança que se expressa, vive sua cultura e a reproduz. Brincar significa estar criativamente no mundo, estar em diálogo com o outro, com a natureza, com o social. Pois, experimentando a atividade lúdica a criança representa, cria, recria e se envolve nas complexas relações sociais de sua cultura. A infância é parte fundamental da sociedade e a criança é um cidadão ao brincar, pois está cumprindo seu papel social. Cada dia que se passa a criança vai perdendo seu espaço social e físico para brincar. Existem ainda locais apropriados para uma criança exercer a prática do lúdico? Vivemos atualmente uma cultura na qual impera o individualismo, não dando espaço para que o lúdico se faça presente. Sendo assim, se vivemos em sistemas cada vez mais excludentes, é preciso buscarmos alternativas para que as crianças experienciem o brincar e vivam melhor. Desta forma, algumas questões nos instigaram e conduziram à busca de uma compreensão do que representaria a brinquedoteca para os profissionais da educação e para a sociedade: Por que a ausência de brinquedotecas em instituições escolares? O que os diretores dessas instituições dizem sobre a brinquedoteca? Como o brincar é visto pelos educadores? Estas questões, inquietaram-nos e motivaram a desenvolver um trabalho de pesquisa para assim, compreender qual é a importância dada pelos educadores a este espaço lúdico tão próprio para o brincar. Baseando-nos nestas reflexões foi que o objetivo deste trabalho de monografia nasceu, de investigar junto aos diretores de quatro escolas, públicas e privadas, do município de Juiz de Fora MG, o que dizem sobre o funcionamento de brinquedotecas dentro do espaço escolar. Foram estas as questões que nos orientaram ao longo do trabalho de investigação: - Por que um espaço lúdico dentro da escola? - Qual a concepção dos profissionais da educação da presença de brinquedotecas no espaço escolar?
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Como foi o percurso... Com o intuito de conhecermos o que os educadores dizem sobre as brinquedotecas no âmbito do contexto escolar, optamos por utilizar como metodologia de trabalho a investigação qualitativa. Quanto à estratégia usada para a coleta de dados, utilizamos a técnica das entrevistas semi-estruturadas com diretores das instituições previamente selecionadas. No decorrer da pesquisa foram entrevistadas quatro profissionais que gerenciam instituições escolares: uma diretora de uma Cooperativa Educacional, que trabalha com alunos da educação infantil e do ensino fundamental e três diretoras de escolas públicas, sendo duas de escolas municipais e uma de escola estadual. Uma das escolas municipais e a estadual trabalham exclusivamente com a educação infantil. A outra escola do município atende além das crianças da educação infantil também alunos do ensino fundamental. Os sujeitos foram escolhidos sem critérios previamente estabelecidos, sendo definido como requisito apenas que estivessem atuando em escolas. Buscamos através de uma entrevista semi-estruturada com cada um dos sujeitos, estabelecer um diálogo para conhecer o que elas entendem e dizem sobre as brinquedotecas e seu funcionamento. Além disso, procuramos compreender as suas concepções acerca do brincar. As seguintes questões nos orientaram: Como o brincar é visto pelos educadores? O que os diretores das escolas entendem sobre o papel da brinquedoteca? O que dizem estes profissionais sobre o funcionamento de uma brinquedoteca dentro do espaço escolar? Após a realização das entrevistas, fizemos registros nos diários de campo, na busca de uma compreensão prévia do que foi discutido no decurso da entrevista entre o investigador e o investigado. Os diários de campo contribuem na medida em que, assim que finalizada a entrevista, ainda no calor das falas, o entrevistador relata com autoria as suas impressões, sentimentos e opiniões acerca do que se constituiu diálogo entre ele e o entrevistado. Para o desenvolvimento desta pesquisa nos fundamentamos na teoria dos seguintes autores: Philippe Ariés, Lev. S. Vygotsky, Donald W. Winnicott, Tisuko Morchida Kishimoto, entre outros estudiosos que vêm pesquisando no Brasil, temas relativos à infância, à criança, ao brincar e à brinquedoteca.

NO CAMINHO, O DIÁLOGO COM ALGUNS TEÓRICOS A criança e o brincar... alguns séculos de história Para compreendermos a criança na contemporaneidade é necessário conhecermos sua história ao longo dos séculos e principalmente a sua história social construída no decorrer das últimas décadas, período em que a infância foi alvo de muitos estudos e pesquisas. Estamos vivendo nos dias de hoje a passagem para um novo milênio e, como coadjuvantes deste fato histórico, somos convidados à mudança de pensamento e de paradigma. Portanto, reconhecer socialmente a criança e valorizar suas especificidades é uma das grandes responsabilidades dos tempos atuais, visto que a criança de hoje apesar de referendada em lei como um sujeito de direito no interior da sociedade, em alguns aspectos ainda continua à margem nas relações sociais, principalmente no que diz respeito ao seu direito de estar na sociedade como um cidadão.Temos o Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei 8069/90, que aponta como principal objetivo a garantia dos seus direitos pessoais e sociais e a LDB - 9.394, que assegura o direito da criança à educação e referenda, o direito da criança de 0 a 6 anos à educação infantil.As crianças estão engendradas nas relações familiares, culturais, políticas e educacionais da sociedade, apropriam-se dos valores e comportamentos do seu tempo e lugar e fazem parte da história. O educador KUHLMANN (1998), preocupado com as questões da infância, fala deste aspecto com muita clareza: É preciso considerar a infância como uma condição da criança. O conjunto das
experiências vividas por elas em diferentes lugares históricos, geográficos e sociais é muito mais do que uma representação dos adultos sobre esta fase da vida. É preciso conhecer as representações de infância e considerar as crianças concretas, localizálas nas relações sociais, etc, reconhecê-las como produtoras da história. (p. 31)

Voltando alguns séculos no tempo, tomando como referência estudos históricos, vimos que apenas a partir do século XVII a criança passou a ser reconhecida pela sociedade; nos séculos anteriores elas não saiam do anonimato. Fatos como: o infanticídio, a venda de crianças, o abuso sexual, a barbárie e as altas taxas de mortalidade, exemplificam o descaso para com a criança e para com a sua efetiva permanência na sociedade. A morte de uma criança, por exemplo, era vista sem muita tristeza, sendo percebida pelos pais como fato natural e até mesmo necessário. Caso sobrevivesse ao período de risco de morte, a criança começava a fazer parte do mundo dos adultos. ARIÉS (1981), historiador francês, em sua obra A Historia social da criança e da família, nos chama a atenção para a condição social da criança na época da antiguidade e idade média: “Assim que a criança superava esse período de alto risco de mortalidade, em que sua sobrevivência era improvável, ela se confundia ao mundo dos adultos.” (p.157) Apenas a partir do século XVII, inicia-se uma tomada de consciência em torno das particularidades da criança, o que Ariès (1981) chama de Sentimento de Infância: “O sentimento de infância não significa o mesmo que afeição pela criança: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem.” (p. 57) Este sentimento referido pelo autor, nasce dentro da família numa época em que a criança por sua ingenuidade e graciosidade passa a ser um objeto de distração e relaxamento para o adulto. Inicia-se aí o que Ariès chamou de paparicação e posteriormente, um novo sentimento, contraditório ao primeiro começa a aparecer, o de moralização da criança, que passa a ser vista como um ser frágil e inocente que, de

engraçadinha e motivo de entretenimento para os adultos precisa ser educada e disciplinada, para não ser corrompida pelo mundo adulto. É a partir desta época, final do século XVII, início do século XVIII, que começam as primeiras preocupações com a higiene, saúde e educação das crianças, esta última por interesse dos padres Jesuítas, que empenhados na moralização do infante3[3], fundamentam sua pedagogia à luz dos conhecimentos da psicologia e de seus métodos para educação. Até então não havia, uma educação destinada às crianças em especial, elas eram misturadas aos adultos, sem qualquer distinção de ordem física e ou psicológica, o que não é de difícil compreensão para aquela época, em que apenas naquele momento histórico começava a haver uma preocupação com a educação das crianças. De acordo com Ariès (1981), este é um traço característico da visão social da época: “Assim que ingressava na escola, a criança entrava no mundo dos adultos. Essa confusão tão inocente que passava despercebida, era um dos traços mais característicos da antiga sociedade.” (p.168) A infância não era pensada de forma específica na sociedade, pelo contrário, educar a criança foi necessário para ela poder ser enfim, moralizada e assim transformar-se em um adulto em condições de participar da vida social. Caso contrário, poderia continuar sendo, provavelmente, um estorvo para a sociedade, já que era vista como um ser despreparado e mal educado: “A criança não era divertida nem agradável: só o tempo pode curar o homem da infância e da juventude, idades da imperfeição sob todos os aspectos”. (ARIÈS, 1981 p. 162) Cabe nesta reflexão histórica uma questão: a criança, sujeito sem importância para a sociedade antiga, tinha o direito de brincar? Ou o brincar não fazia parte de sua vida? Na antiguidade, as brincadeiras e os jogos das crianças eram os mesmos dos adultos: “No início do século XII não existia uma separação tão rigorosa como hoje entre as brincadeiras e os jogos reservados às crianças e as brincadeiras e jogos dos adultos. Os mesmos jogos eram comuns a ambos”. (ARIÈS, 1981, p. 88). Da mesma forma que a criança não tinha seu espaço na sociedade, também a prática do brincar dependia dos adultos. Na sociedade antiga, os jogos e as brincadeiras eram muito comuns entre os adultos, constituíam uma das formas mais utilizadas de estreitamento dos laços entre as pessoas, e as crianças também participavam juntamente com eles deste valor social. Não havia as brincadeiras destinadas às crianças, elas não tinham um tempo e um espaço físico e social para brincar, para criar ou para adquirir brinquedos. Os brinquedos mais utilizados pelas crianças, nas suas brincadeiras eram miniaturas de objetos do universo dos adultos, como o cavalo de pau, o arco de penas, o pássaro e a boneca. Muitas dessas miniaturas de objetos, eram também depositadas nos túmulos das famílias e possuíam uma significação religiosa. No caso das bonecas, é interessante observar, que elas serviam de presentes e enfeites para as mulheres, e até início do século XIX faziam o papel de manequins para elas. Elas eram também brinquedos, tanto das meninas quanto dos meninos. Mas é necessário considerarmos ao analisar estas questões, que a infância e o brincar possuíam significados diferentes, de acordo com as determinações culturais daquela época. O tratamento dispensado às crianças condizia com os valores econômicos, sociais e culturais do período histórico em questão. Cabe a nós perguntarmos: e na contemporaneidade, a forma que nossas crianças são consideradas condiz com os nossos valores culturais? Que valores são esses, que permitem que as crianças trabalhem ao invés de brincar ou estudar; que vivam nas ruas e passem fome? Ao nos depararmos com a história da criança ao longo dos tempos ficamos muitas
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vezes assustados com tanta indiferença, por isso a necessidade de considerarmos a escala social de valores de cada época e relacionarmos aos fatos contemporâneos. Não é verdade que vivenciamos atualmente situações chocantes nessa época de tantos avanços, em que a ciência e a tecnologia tudo podem? Brincar ... e ser criança ... coisas sérias!
Brincar, essencialmente satisfaz.
(WINNICOTT, 1975)

Após transitar por alguns séculos de história sobre a infância, vimos de que maneira o brincar acompanha a humanidade. O que é brincar? Atividade tão “simples”, e ao mesmo tempo tão séria, que diz tanto por si mesma. Assim como a infância, o brincar precisa ser pensado, compreendido e cuidado. Necessita ser cultuado para que não seja desvirtuado: um brincar em que se faça presente, a criatividade, o prazer, o faz de conta, o brinquedo, a imaginação, a construção, e o sonho, porque é extremamente importante para a criança a experiência da atividade lúdica para que ela poder ser e acontecer. Também para que através da brincadeira apreenda o mundo à sua volta e compreenda as relações que nele estão presentes. O brincar, como atividade essencialmente da criança, acompanha como ela o caminhar das sociedades. E para que ele não seja desvalorizado com as mudanças de valores que ocorrem nas mesmas, precisa ser levado a sério, precisa ser praticado e experienciado principalmente pelas crianças, que trazem como marco de suas primeiras e principais atividades o brincar livre. A criança constrói sua identidade brincando, e ao brincar atua sobre a realidade, representando-a, vivendo-a e transformando-a, num processo que é imaginário e ao mesmo tempo real. Por exemplo, em uma situação de faz de conta, na qual a criança brinca de mamãe e filhinha. Ela utiliza das regras que vivencia no seu cotidiano de filha para que sua brincadeira seja legítima, caso contrário, não seria possível a situação de faz de conta. Mesmo sendo uma atividade imaginária, ela é calcada no real. No campo da psicologia, destaca-se a obra de VYGOTSKY (1998), que afirma:
Sempre que há uma situação imaginária no brinquedo, há regras - não as regras previamente formuladas e que mudam durante o jogo, mas aquelas que tem sua origem na própria situação imaginária. Portanto, a noção de que uma criança pode se comportar em uma situação imaginária sem regras é simplesmente incorreta. Se a criança está representando o papel de mãe, então ela obedece as regras do comportamento maternal. O papel que a criança representa e a relação dela com um objeto (se o objeto tem seu significado modificado) originar-se-ão sempre das regras. (p. 125)

WINNICOTT (1975), terapeuta especializado no trabalho com crianças pequenas, também nos fala da importância do brincar para o desenvolvimento da criança e de sua ponte com a realidade:
A criança traz para dentro dessa área da brincadeira objetos ou fenômenos oriundos da realidade externa, usando-os a serviço de alguma amostra derivada da realidade interna ou pessoal. Sem alucinar, a criança põe para fora uma amostra do potencial onírico e vive com essa amostra num ambiente escolhido de fragmentos oriundos da realidade externa.(..) No brincar, a criança manipula fenômenos externos escolhidos com significados e sentimentos oníricos. (p.76)

Mesmo sendo o brincar uma atividade também para a vida adulta, é na infância que ele se inaugura, e é na infância que ele promove a realização dos fenômenos mais

significativos para o indivíduo na busca do seu eu. A prática de brincadeiras proporciona à criança um confronto e um diálogo do mundo externo com o mundo interno, criando uma área própria para o brincar, a qual leva a pessoa ao encontro do seu eu e consequentemente à construção da sua subjetividade. WINNICOTT (1975), mostra que esta área própria do brincar “não é a realidade psíquica interna. Está fora do indivíduo, mas não é o mundo externo”. (p.76) O brinquedo é a forma de comunicação da criança com a realidade desde a mais tenra idade, e principalmente nela, pois o brincar ajuda a criança a superar suas necessidades mais primitivas e imediatas. O brinquedo funciona também como um atendimento às necessidades não realizáveis imediatamente para a criança, pois ao brincar ela se envolve num mundo imaginário onde satisfaz seus desejos. O bebê não suporta não ser atendido prontamente, ele precisa de uma ação que o satisfaça naquele momento determinado, e esta satisfação vem no ato de brincar. De acordo com VYGOTSKY (1998), “Para resolver esta tensão, a criança (...) envolve-se num mundo ilusório e imaginário onde os desejos não realizáveis podem ser realizados, esse mundo é o que chamamos de brinquedo.” (p.122) Portanto, o papel do brincar no desenvolvimento da criança é fundamental, pois é através dele que a criança elabora o seu estar no mundo, dialogando à sua maneira com a realidade concreta e com o outro. É importante ressaltar que a criança ao nascer, ainda está profundamente ligada à mãe. Neste período de total dependência, o bebê vive suas primeiras experiências com o brincar, como a troca de sorrisos com a mãe, o toque no corpo dela e no seu, a brincadeira de esconde-esconde sob o cobertor. Estas brincadeiras podem ser consideradas uma conquista da relação de confiança estabelecida na díade mãe-bebê. O brincar é uma linguagem, e o primeiro parceiro nas brincadeiras para a criança é a mãe, que além de proporcionar uma comunicação direta entre o bebê e ela, permite a ele uma comunicação com o mundo, iniciando assim o seu viver criativo. De acordo com WINNICOTT (1975), no decorrer das suas experiências e ao dar início à divisão entre o eu e o não-eu, o bebê passa a substituir o seio por um objeto transicional que o represente. Este objeto pode ser um ursinho, a ponta de um cobertor, ou algum outro objeto eleito pelo próprio bebê. O objeto transicional, pode não ser necessariamente um objeto real, podendo ser uma palavra ou uma música. Os fenômenos transicionais se tornam muito importantes para o bebê na hora de dormir, ou como de defesa em situações de ansiedade, ajudando-o a superar as frustrações necessárias ao seu desenvolvimento e conduzindo-o ao uso da ilusão e dos símbolos. Estes fenômenos são chamados de “transicionais”, pelo fato de que eles “incidem numa área da experiência que não pertence nem à pura subjetividade e nem à pura objetividade, mas a meio caminho entre uma e outra”. (ROSA, 1998, p.29). Esta terceira área, a da experiência, também denominada por WINNICOTT (1975) como “espaço potencial” é o lugar onde se encontra o brincar e posteriormente a experiência cultural. Se buscamos compreender a criança e o seu desenvolvimento, devemos compreender também suas brincadeiras, pois o brincar é uma das atividades mais significativas realizadas por elas. O brincar é o meio que a criança encontra para se comunicar com o mundo ao seu redor. Quando bebê, a realidade externa é para a criança estranha e desordenada, e a atividade lúdica, como um simples sorriso, acontece de maneira prazerosa e criativa fazendo com que ela se reconheça e conheça o mundo a sua volta, construindo assim, as suas primeiras interações sociais. Para WINNICOTT (1975), é o brincar que promove o estar criativo do ser humano no mundo, e é sendo criativo que ele constrói sua subjetividade:

É no brincar somente no brincar que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu. (...) Ligado a isso, temos o fato de que somente no brincar é possível a comunicação, exceto a comunicação direta. (p.80)

Desta forma, mais uma vez, podemos afirmar o valor da atividade lúdica para o desenvolvimento integral da criança e a necessidade que ela tem de viver a experiência do brincar, da verdadeira brincadeira espontânea, na qual ela faz as suas próprias descobertas, constrói seus próprios conhecimentos e busca à sua maneira o seu estar criativo no mundo. Só assim, sendo a criança sujeito de suas brincadeiras é que ela encontrará o seu eu e construirá sua identidade. Portanto, mais que reconhecermos a importância do brincar, é preciso dar oportunidade e espaço tanto físico quanto social, para que a criança viva o que lhe é de direito, o brincar livre e criativo. A importância do resgate do lúdico Depois de refletir sobre a infância e o brincar, buscaremos compreender o espaço que as atividades lúdicas ocupam na vida das crianças. Para isso, algumas questões são importantes apontar: è permitido às crianças exercerem seu direito de brincar espontaneamente? Conhecemos os brinquedos e as brincadeiras com as quais as crianças vivenciam situações lúdicas? Podemos considerar o brincar como um fato universal, pois sua linguagem abrange todas as crianças do mundo independente da idade, sexo, raça ou classe social. Mas, podemos considerar como universal que todas as crianças brincam? Procurando refletir sobre as questões apontadas acima, vimos que nas últimas décadas, o avanço tecnológico e científico ocorreu de maneira extremamente acelerada, e com isto várias transformações aconteceram no interior da sociedade. Em relação ao desenvolvimento da criança e ao brincar podemos considerar como avanços, os estudos e pesquisas desenvolvidos acerca desta temática, a conscientização por parte de educadores da importância do brincar para o desenvolvimento integral das crianças e uma preocupação maior em relação à segurança na fabricação dos brinquedos. (FRIEDMANN, 1998). Como retrocessos podemos apontar que as condições sociais e tecnológicas da modernidade comprometeram, de certa forma o espaço, o tempo, e os objetos de brincar. As crianças perderam o espaço e a segurança das ruas e calçadas, com isso perderam também parte da liberdade na escolha das suas brincadeiras e companheiros. As grandes cidades, os pequenos apartamentos não permitem mais as interações sociais. Com a modernidade as crianças não têm tempo para “perder” com brincadeiras, pois têm uma série de responsabilidades que são consideradas mais importantes, como cursos de informática, línguas, danças, esportes, etc. As instituições escolares são também fotografias destas mudanças de valores, as brincadeiras foram deixadas de lado em detrimento das atividades pedagógicas, que são mais produtivas. Em relação à experiência do brincar é necessário que aconteça uma busca coletiva dos valores ficados para trás, dos brinquedos tradicionais, autênticos, construídos a base de materiais simples, mas com infinitas possibilidades de brincar e sonhar; como as bolinhas de gude, as pipas de papel de seda, o cavalinho de pau, a boneca de pano, os carrinhos de madeira, as latinhas reaproveitadas que serviam para a construção de uma infinidade de objetos para brincar. Precisa-se também, que haja um resgate das brincadeiras da nossa cultura popular, as brincadeiras alegres, cheias de energia e companheirismo, como: o pique-esconde, a amarelinha, o soltar pipa, o

brincar de casinha, o passar anel, o futebol de rua, as brincadeiras de roda; experiências gostosas e saudáveis, nas quais as crianças corriam, pulavam, rolavam, brigavam e aprendiam. São estas brincadeiras que deixam saudades e que marcam a vida das pessoas, pois são significativas e acontecem profundamente na experiência de ser criança. ABRAMOVICH (1983), desenvolveu um trabalho de pesquisa com objetivo da saber se as crianças de hoje ainda brincam e com o que brincam e foi conversar diretamente com elas. Baseada nos depoimentos das crianças, chegou às seguintes considerações:
Vejam só, as crianças não estão vendo muita graça nestes brinquedos passivos, que só pedem que se olhem e que se lidem com eles cumprindo ordens, no melhor estilo escolar e no pior enfoque lúdico... E tem mais: não gostam não de brincar sozinhas e não estão vendo muito charme nessas propostas segregacionistas e isoladas... Querem companhia pra brincar! (...) E se ainda preferem os brinquedos de sempre, aqueles que são eternos, como o carrinho e a boneca, se estes continuam a grande paixão (com todas as razões), estão perdendo todos os referenciais de antigamente por que os pais não estão lhes passando as magias e fascínios de suas próprias infâncias... (p. 152-53)

A televisão, inserida em um universo de mudanças e de novos valores na sociedade, além de instrumento eficiente na divulgação de brinquedos modernos passou a concorrer fortemente com as brincadeiras livres e tradicionais das crianças, trazendo novas concepções acerca do que seja entretenimento. As crianças por uma série de motivos como: falta de companhia para brincar, escassez de tempo dos pais para acompanhá-la nas diversões, falta de brinquedo e de espaço físico, passam horas diante da imagem sedutora da TV. O computador, grande símbolo da modernidade, se tornou mais um instrumento no rol dos brinquedos das crianças. Juntamente com a internet, ambos contemporâneos à televisão, fazem parte também de um novo paradigma acerca do que seja o lúdico, paradigma este que vem sendo construído paralelamente aos avanços científicos e tecnológicos da nossa sociedade. Contudo, mesmo variando as formas e/ou as concepções, as crianças continuam a brincar, desde a criança dos centros das cidades, das periferias, ou do campo; desde a criança carente até a com melhores condições econômicas, até a criança de rua ou a institucionalizada, fato é, que todas elas procuram maneiras e espaços para se descobrirem e descobrir o mundo através de suas brincadeiras. Nas últimas décadas temos conhecimento de algumas iniciativas que buscam resgatar os brinquedos e o brincar no seu sentido amplo, que são as Brinquedotecas, estrutura física e social que têm como principal objetivo a promoção do "desenvolvimento de atividades lúdicas e o empréstimo de brinquedos e materiais de jogo". (KISHIMOTO, 1998).

Então... as brinquedotecas

Como surgiram as brinquedotecas...
A primeira iniciativa de brinquedoteca surgiu em 1934, em Los Angeles, nos Estados Unidos, quando o dono de uma loja de brinquedos percebeu que estava sendo roubado por crianças e reclamou com o diretor de uma escola municipal sobre a situação. O diretor chegou a conclusão de que as crianças estavam praticando furtos de brinquedos por que não tinham com o que brincar. Então, com recursos da comunidade local iniciou um serviço de empréstimo de brinquedos. O serviço deu certo, existe até hoje e é chamado de Los Angeles Toy Loan. (CUNHA4[4], 1998). Em 1963, em Estocolmo, na Suécia, a idéia de emprestar brinquedos começou a ficar mais consistente, sendo expandida quando duas mães de crianças excepcionais fundaram a primeira Lekotek (brinquedoteca em sueco), com o objetivo de orientar as famílias de excepcionais como poderiam brincar com seus filhos para estimulá-los melhor. Em 1967, na Inglaterra, surgiram as Toy Libraries, (“biblioteca” de brinquedos), a quais emprestam brinquedos para as crianças levarem para casa. E assim a concepção de brinquedoteca foi sendo construída, e vem crescendo a cada ano em número e diversidade de objetivos. No Brasil as brinquedotecas apareceram na década de 80, e nasceu do desejo daqueles que preocupados com a criança e seu desenvolvimento viam no brinquedo um excelente companheiro e auxiliar no trabalho para com elas. Em 1984, foi fundada por Nylse Helena da Silva Cunha a Associação Brasileira de Brinquedoteca (ABB), com o objetivo de fornecer assessoria para novos projetos e promover o intercâmbio entre as brinquedotecas já existentes, tendo como principal canal de comunicação o noticiário O Brinquedista. Em 1985, foi inaugurada a brinquedoteca da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, pioneira no Brasil enquanto brinquedoteca em universidades, que além de propiciar às crianças o empréstimo de brinquedos, funciona também como laboratório de observação e pesquisa para estudantes de pedagogia, psicologia e áreas afins. A brinquedoteca convida a uma mudança de pensamento e uma nova postura diante dos atuais valores que imperam em nossa sociedade. Sua proposta é abrangente a tal ponto que não se destina apenas às crianças, o convite é para todos aqueles que buscam uma sociedade realmente de direito para todos. Para tanto, o início da mudança precisa ser sentido através das crianças, é dando a elas o direito à infância que se principia a conquista da liberdade, pois sendo a criança livre hoje, ela será amanhã um adulto capaz de amar e de participar conscientemente do mundo ao seu redor.

Afinal o que é uma Brinquedoteca?
A brinquedoteca é um espaço privilegiado que nos permite na contemporaneidade superarmos a falta que a vivência do lúdico vem fazendo na vida das pessoas, em especial, na vida das crianças. Ela é, por excelência um lugar para o brincar, ofertado às crianças de qualquer idade, condição social ou econômica. O seu propósito maior é o de resgatar na vida das crianças o espaço fundamental para o desenvolvimento das brincadeiras espontâneas, espaço que vem sendo sensivelmente perdido ao longo das últimas décadas na sociedade, devido aos interesses sócioeconômicos, que acarretaram o comprometimento do bem estar da infância e da família.

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Uma brinquedoteca traz em si uma diversidade de propostas e objetivos que não se limitam a si mesmos, podendo eles ser flexíveis, de acordo com o interesse e a realidade de cada brinquedoteca. Apresentamos abaixo alguns deles:   Oferecer às crianças um espaço especialmente para o brincar.   Emprestar brinquedos.   Estimular o desenvolvimento emocional, intelectual e social das crianças.   Possibilitar às crianças situações que promovam o faz-de-conta.   Possibilitar às crianças carentes o acesso aos brinquedos.   Possibilitar às crianças interações sociais.   Oportunizar às crianças relacionarem com adultos de forma agradável e espontânea, livre do formalismo decorrente das situações estruturadas em instituições. (CUNHA, 1998) Ao falarmos em brinquedoteca estamos falando em uma oportunidade de experimentar o lúdico em sua totalidade, de um espaço repleto de liberdade e gratuidade, onde o ser humano pode dialogar com a sua essência, o seu eu, promovendo assim, de maneira autônoma a construção de sua subjetividade e a sua visão de mundo. Desta forma, comungando com as idéias de SANTOS (1997), complementamos: “Um espaço assim não é comum: sem cobranças nem exigência de produtos. Este espaço tão pleno, tão cheio de oportunidade pode ser a terra fértil apropriada para a germinação de um novo homem capaz de construir uma nova humanidade.” (p. 22)

Quem é o profissional que trabalha na Brinquedoteca...
De acordo com NEGRINE (1997), o profissional envolvido com a brinquedoteca, seja ele denominado de brinquedista ou ludotecário, deve estar preparado não apenas para atuar como animador, mas também como observador e investigador das relações e acontecimentos que ocorrem no âmbito da brinquedoteca. Para uma tarefa desta dimensão social, o indivíduo necessita de uma formação sólida, fundamentada em três pilares: formação teórica, formação pedagógica e formação pessoal. A formação teórica deve possuir embasamento nas teorias que trabalham com o desenvolvimento, a aprendizagem, o jogo, a recreação e o brinquedo. A formação pedagógica, deve proporcionar a vivência no interior do ambiente lúdico, não apenas no âmbito da infância, mas em diferentes contextos, seja com crianças, adolescente, adultos ou com a terceira idade, complementando desta forma, a formação teórica, a qual se constrói pela vivência e não apenas pela consciência. A formação pessoal aparece, segundo ele, como uma vertente totalmente inovadora, pois deve oportunizar ao educador em formação a vivência do lúdico, ou seja, uma prática mais preocupada com a experiência do que com técnica puramente simples.

Por quê uma Brinquedoteca na escola...
Vários são os tipos de brinquedoteca, encontramo-las atualmente nos mais diversos contextos e nos mais diferentes lugares, como: hospitais, igrejas, creches, escolas, favelas, bairros, universidades, clínicas psicológicas, museus, bibliotecas, brinquedotecas para crianças portadoras de deficiências físicas e mentais, brinquedotecas circulantes, além daquelas criadas para testes de brinquedos e as de caráter temporário. Cada uma destas brinquedotecas tem o seu valor e a sua razão de existir, todas possuem um objetivo específico, porém todas possuem um objetivo comum, que é o de resgatar a cultura lúdica e proporcionar experiência do brincar na vida das crianças.

As brinquedotecas em escolas possuem objetivos, que extrapolam o âmbito da infância, atingindo os pais e os profissionais da educação. A brinquedoteca na escola funciona também como um espaço de educação para os pais, que, ao apreciarem as brincadeiras de seus filhos, passam a compreendê-los melhor. Os pais e professores têm muito que aprender com as crianças, e, através das brincadeiras e dos jogos infantis elas dão o seu recado à sociedade, apresentando o que gostam, o que podem e o que precisam para se desenvolverem de maneira integral. Podemos apresentar como função de uma brinquedoteca escolar os seguintes objetivos: resgatar para o âmbito da escola o caráter lúdico das atividades pedagógicas; oferecer para a criança no seu espaço escolar uma variedade de brinquedos; estimular a interação entre pais e filhos por meio dos jogos; valorizar o ato de brincar, respeitando a liberdade, a criatividade e a autonomia, possibilitando assim a formação do auto-conceito positivo da criança (PAZ, 1997); e mais, passar para os professores e pais o conhecimento sobre a importância do brinquedo para a criança e o significado que ele tem para o seu desenvolvimento afetivo, social, cognitivo e físico. SANTOS (1997), ao discorrer sobre sua concepção de brinquedoteca nos chama a atenção para a seguinte afirmação: “A brinquedoteca tem uma mensagem a dar para a escola porque pode ajudar as crianças a formarem um bom conceito de mundo onde a afetividade é acolhida, a criatividade estimulada e os direitos da criança respeitados.” (p.22) KISHIMOTO (1997), estudiosa sobre jogos e brinquedos e sobre a educação infantil, contribui de maneira especial para a concepção das brinquedotecas e nos aponta as seguintes considerações a respeito de brinquedotecas em escolas infantis:
Se a função da brinquedoteca é emprestar brinquedos e oferecer espaço de animação cultural, podemos compreender que o uso corrente, em muitas instituições infantis, distancia-se desta prática. Substituir a falta de brinquedos e materiais para desenvolver atividades com pré-escolares introduzindo brinquedotecas aparece mais uma vez como forma de escamotear os objetivos desse nível de ensino. Adotar uma instituição da “moda”, que valoriza o lúdico como um apêndice, sem questionar as funções da brincadeira enquanto proposta educativa é outro exemplo que mascara a inconsistência de um projeto educativo baseado no brincar. (p. 35)

Assim, pudemos perceber o quanto é especial um projeto social como o da brinquedoteca, elas vêm para resgatar a brincadeira na vida das pessoas e para salvaguardar a infância. Desejamos um mundo melhor, e é permitindo às crianças o brincar livre e dando a elas um limite para se expressarem, que estaremos abrindo espaço para a experiência de um novo paradigma, mais condizente com os nossos desejos de liberdade e de construção de uma nova humanidade. Conversando sobre as brinquedotecas na escola Tendo como ponto central desta pesquisa conhecer o que dizem as diretoras de quatro escolas sobre o funcionamento de brinquedotecas dentro do espaço escolar, selecionamos duas categorias para análise: - A brinquedoteca escolar como possibilidade de resgatar o lúdico versus a concepção de brincar dos educadores Ao dialogar com os diretores de escolas públicas e particulares, vimos em suas falas o quanto o brincar encontra-se distante das atividades da infância. As crianças enfrentam uma série de dificuldades para se encontrarem de forma livre e saudável com o brincar, seja pela falta de tempo dos pais, pela divulgação insistente dos programas de televisão e dos videogames, seja pelos pequenos apartamentos com suas limitações de espaço físico; pela crescente desvalorização dos brinquedos tradicionais

ou pelo incentivo da sociedade na direção de uma adolescência precoce. Encontramos nos depoimentos das profissionais um saudosismo em relação aos seus tempos de criança, às lembranças das brincadeiras de boneca, da liberdade das ruas e praças, das brincadeiras tradicionais repassadas através das gerações. Percebemos também uma preocupação ao constatarem que nos tempos atuais as crianças não estão brincando como antes. Entretanto, o que tem sido feito na escola para que o brincar se faça presente? Se a escola é um espaço, por excelência da criança, não caberá a ela o papel de possibilitar no seu âmbito o brincar espontâneo? Vejamos as falas das diretoras:
Porque as crianças são criadas em apartamento, pelo pequeno espaço primeiro, hoje não tem o espaço que a criança tinha antigamente, que nós tínhamos antigamente, subir em árvore, de brincar na rua, de brincar de pique, de brincar de maré, a falta de espaço faz com que a criança brinque menos sim. (Luiza, 12/04/00) A gente sabe que a nossa sociedade hoje tem uma série de cobranças que faz com que o lúdico vá se perdendo muito rapidamente e cada dia as crianças brincam menos, cada dia a adolescência começa mais cedo, eu me lembro, eu brinquei de boneca até os 15/16 anos de idade. (Carmem, 24/03/00)

Em contrapartida, percebemos uma demasiada preocupação com o processo de ensino aprendizagem, embora exista paralelamente o reconhecimento da importância do brincar. Ao mesmo tempo em que considera a necessidade da criança desenvolver a imaginação, e a importância do simbolismo na idade pré-escolar, predomina a valorização dos brinquedos destinados ao desenvolvimento cognitivo, como os blocos lógicos, os jogos de encaixes, as letras e os números, em detrimento de materiais lúdicos destinados à representação simbólica. Verificamos assim, uma concepção de brincar que valoriza atividades lúdicas objetivadas, supervisionadas e direcionadas para as diversas áreas do conhecimento sistematizado:
Brinquedos bons são brinquedos de encaixe né, têm brinquedos, jogos de terceiro período, específico de terceiro período, trabalha com letrinhas, quebra-cabeça, tem aquela cruzadinha, jogos de madeira, tem muito brinquedo, pedagógico mesmo, que faz parte mesmo dentro do planejamento de 1º, 2º e 3º período, dentro do referencial que a gente consegue colocar esses brinquedos, adaptando ao planejamento da professora.(...).O brinquedo... é ideal que ele tenha, o caráter pedagógico, mas o brinquedo na forma lúdica,(...) por que através do brinquedo, uma historinha ela faz dramatização, mesmo com fantoche, com bonequinhos, então isso aí, eu acho que aguça mais a ação da criança, o brinquedo em si para a criança de 4, 5, 6 anos, não é só brinquedo pedagógico, mas o brinquedo em si é muito importante.(...)É por que a idade, a faixa etária também, a criança, trabalha muito com a parte lúdica da criança, é muito importante por que a criança imagine muito nesta faixa etária, então a brincadeira é muito importante, mas uma brincadeira direcionada, também para outras áreas, pra área de português, matemática, as cores, o encaixe, a forma, tá, numerais e também a brincadeira em si para aguçar a imaginação da criança. (Luiza, 12/04/00)

Nas palavras de KISHIMOTO (1999), “Seria necessário informar os professores da importância de brincadeiras livres para o desenvolvimento da linguagem, imaginação e iniciativa da criança” (p.33). É notório no registro em referência, a ênfase na necessidade de se preparar a criança da pré-escola para as séries seguintes, e que um bom resultado deste trabalho será obtido através do uso das brincadeiras e dos brinquedos pedagógicos. Nas entrelinhas dessas falas, há uma visão contraditória do brincar e uma concepção da infância que percebe a criança como um

vir a ser, como uma preparação para... comunicando assim, que o mais importante não é a criança, em seus aspectos globais, e o brincar pelo prazer em si. Na nossa compreensão, pudemos observar no relato a seguir, que existe um reconhecimento da necessidade de se resgatar o brincar no espaço escolar. Entretanto, fica registrado um paradoxo ao transformá-lo em instrumento de apoio para o trabalho didático-pedagógico na escola. Em outras palavras, há ciência da necessidade de se resgatar a atividade lúdica, mas por outro lado reside a insistência em didatizá-la e conduzi-la para os interesses predeterminados e conteudistas da escola. Observamos contradições na fala abaixo transcrita:
É, livremente as crianças de pré-escola já brincam, por que tem o horário de recreio dela, que é dirigido, que brincam também que utilizam brinquedos, tem o pátio da escola também, que tem maré, tem linhas, curvas abertas, fechadas, então, esse trabalho paralelo com a matemática, com esse tipo de atividade, a maré para os meninos tem número, então eles estão adquirindo a noção de algarismo ali, né, então independente disso na pré-escola a gente já faz um trabalho voltado para o resgate da brincadeira da criança(...). Aqui, o que o referencial nos diz, a gente não tem obrigatoriedade para a alfabetização, então eu acho que essas coisas de brincadeiras, essa coordenação motora fina, fazem parte da pré-escola, porque depois a criança vai para o ensino fundamental a criança não sabe recortar, não tem relação de espaço, porque não foi trabalhado este tipo de coisa, brincadeiras e brinquedos da coordenação motora fina na pré-escola. (Luiza, 12/04/00)

KISHIMOTO (1997), tece uma crítica às escolas que determinam as atividades com brinquedos: “Muitas escolas preparam atividades dirigidas pelos professores selecionando brinquedos educativos ou delimitando o tipo de brinquedo que pode ser utilizado pela criança. O brincar enquanto recurso para desenvolver a autonomia da criança deixa de ser contemplado neste tipo de utilização”. (p.35) Na afirmação que segue, desponta a limitada liberdade de escolha da criança em relação ao material lúdico e como eles são valorizados para a construção de conceitos sistematizados.
Por exemplo o professor, ele tem que dar opções de mais de um, dois, três materiais diferenciados, então, oferece estes materiais para a criança e ela vai manipulá-los, ela vai descobrir de acordo com o material que você tem, ela vai construir o que ela quer naquele momento e após essa construção o professor media dentro da proposta dele, por exemplo se é um material de fração, eu vou ter blocos inteiros, divididos ao meio, dividido em quatro, então sempre divididos em partes iguais, então eu vou ter um material variado, mas que vai dar margem a esta criança de uni-los, de ver sempre que, as várias opções para chegar a uma construção, a um conceito de fração, você vê, automaticamente ela chega por que é um material adequado pra isso, então não precisa direcionar, olha isso é um inteiro...ela mesma vai chegar, esse inteiro está dividido em tantas partes, onde o professor vai intervir, dando a nomenclatura correta para o aluno. (Márcia, 11/04/00)

Desta forma, cabe então buscar respostas para algumas questões: que significado tem para a criança este brincar escolarizado? Qual a importância atribuída aos brinquedos e brincadeiras pelos profissionais da escola? Qual o significado do brincar para os professores? A fala abaixo, confirma que o espaço construído para acondicionamento dos brinquedos, foi exclusivamente elaborado para dar suporte ao processo de ensinoaprendizagem:

Construímos essa sala justamente para dar suporte ao processo ensinoaprendizagem, onde a criança vai construir o seu saber através do lúdico. (Márcia, 11/04/00)

A brinquedoteca seria então um espaço a mais para contribuir com os percalços do processo pedagógico:
Enriqueceria muito a escola, seria um espaço que a criança poderia utilizar e a professora também, para atingir certos percursos que não atinge sem essa sala. (Luiza, 12/04/00)

Nas entrevistas realizadas, observamos que a visão de duas diretoras encontrase indefinida quanto ao profissional que deve atuar nas brinquedotecas. Em razão disso, uma outra categoria de análise foi estabelecida:

- O Brinquedista e seu trabalho na brinquedoteca O brinquedista é um profissional que tem uma formação e um papel específico. De acordo com NEGRINE (1997), a formação do brinquedista se fundamente em três pilares: formação teórica, pedagógica e pessoal. No fragmento de entrevista abaixo, parece não estar muito claro a quem cabe o papel de coordenar o trabalho na brinquedoteca:
Não, não acho que o professor, a gente reunindo com o professor, o professor tendo a consciência do que está acontecendo, o que vai acontecer lá dentro, o professor pode levar muito bem a sua parte sem ter um profissional específico pra ficar ali, pode ter o supervisor, pra orientar pra sentar com os professores pra orientar nesta parte, voltar na brinquedoteca, organizar, seria o supervisor pra poder ajudar, mas essa pessoa consegue.(...) Ter o espaço, os brinquedos específicos, organizados, catalogados e o professor conscientizado do que significa a brinquedoteca, não tem... o professor poderia cuidar desta parte. (Luiza, 12/04/00)

O diretor, os supervisores, os professores e demais profissionais da escola precisam estar inteirados do projeto da brinquedoteca escolar, ela é parte da escola. Contudo, é um setor que possui suas especificidades e, como tal, necessita de um profissional qualificado para administrar o seu funcionamento. Ao ser concebida a idéia da brinquedoteca escolar, deve-se pensar no brinquedista com especial atenção, para que depois de construída ela possa contar com um profissional preparado e à disposição para gerenciar o seu funcionamento. Para ser brinquedista é preciso ter conhecimentos acerca do desenvolvimento da criança e compreender o brincar nas suas várias dimensões. No caso desta escola, o cargo de brinquedista foi destinado a uma pessoa que estava para se aposentar:
Ela está de férias, é uma pessoa que está se aposentando, que não está podendo ficar na regência, então a brinquedoteca, o cargo de brinquedista foi criado aqui para ela, porque ela não pode ficar em sala de aula. (...) Da criação deste cargo para a pessoa, eu penso que seria muito mais rico se fosse alguém que viesse com essa função e não é se deslocar um profissional que já está em fim de carreira, que não está em condição de ficar em sala de aula. (Luciana, 14/04/00)

No enunciado que se segue, além de o brinquedista ser uma pessoa sem capacitação para a função, a escola não reconhece o projeto na sua dimensão social e educacional:
A maioria dos professores, quando a professora de brinquedoteca não está aqui, quase ninguém leva. Por que? Porque não foi... como essa situação foi criada para alguém que não tem como dar aula mais, eu acho que não se colocou a importância real da brinquedoteca, tá? Então, porque que eu vou sair da minha sala e levar meus alunos pra lá? Para brincar? Era mais ou menos este o questionamento. (Luciana, 14/04/00)

A criança vai à brinquedoteca para brincar. Este é o papel da brinquedoteca, possibilitar o brincar livre. Ao brinquedista cabe a função de observar, buscando compreender o fazer lúdico da criança e atendê-la de acordo com suas solicitações, para que sua intervenção seja oportuna. De acordo com ANDRADE, o brinquedista deve “criar uma situação de presença-ausência: as crianças querem sentir a proximidade do adulto e, ao mesmo tempo, esquecê-lo” (1998. p.93). O brinquedista no seu papel é um interlocutor privilegiado:
Eu acho que tem que ser uma pessoa que goste de brincar, que faça despertar na criança que hoje, eu acho, não estão brincando tanto quanto há uns anos atrás, há muitos, mostrar para as crianças o interesse pelo brincar.(...) Eu acho que tem que ser alguém que esteja envolvido e que acredite nisso, não pode ser, há eu estou cansada de dar aula e vou para a brinquedoteca, eu não acredito nisso.(...) Tem que ser uma pessoa capacitada, uma pessoa que não olhe para o brinquedo com o olho de qualquer pessoa leiga, eu acho que você tem que olhar para o brinquedo e enxergar todas as possibilidades que ele pode dar. (Luciana5[5], 14/04/00)

Desta forma, vimos que o brinquedista é um profissional que precisa ser dinâmico e bem formado, pois a proposta de uma brinquedoteca abrange uma diversidade de propósitos que vão além do que hoje está posto na escola e na sociedade de forma hegemônica.

Alguns passos dados... muitos ainda são necessários... A escola, como um espaço privilegiado da criança, precisa enxergar a sua pedagogia através do olhar da criança, dialogar de acordo com sua linguagem, e o brincar é a linguagem da criança. Ao chegar na escola, a criança precisa desta forma de comunicação. Assim, após alguns passos dados e tendo iniciado um novo caminhar, refletimos: Por que não o brincar no espaço escolar? Por que não uma brinquedoteca na escola? Consideramos, após analisar os diálogos mantidos nas entrevistas, que existe uma necessidade de se conhecer na escola a proposta e os objetivos de uma brinquedoteca de maneira mais aprofundada. Além disso, faz-se necessário o conhecimento e a compreensão do desenvolvimento infantil e da atividade lúdica. Só assim, a escola irá compreender a dimensão da proposta das brinquedotecas. Nas entrevistas está traduzida a concepção de brincar que possuem os educadores, os pais e a escola como um todo. É uma concepção que valoriza um brincar predeterminado e
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direcionado a objetivos que não fazem parte dos interesses e necessidades da criança; uma concepção que não possibilita o brincar livre. Podemos dizer que desta forma há uma desconsideração da criança como sujeito de direitos. A escola que se espera para o novo milênio é uma escola que fale a linguagem da criança. Mas para isso é preciso que ela perca o formalismo e autoritarismo nas salas de aula, a pedagogia de caráter obrigatório e conteudista, além da visão adultocêntrica sobre a criança. Considerando as reflexões que este trabalho nos proporcionou, recomendamos que a escola reveja a sua prática com relação ao papel dos brinquedos e brincadeiras na escola e, em especial, a respeito da implementação de uma brinquedoteca escolar no seu espaço físico, em razão desta última ser o tema privilegiado por esta monografia.

“FORTALECENDO OS PAIS: DESAFIOS DE EDUCAR, HOJE.”
Marina S. Rodrigues Almeida Psicóloga, Pedagoga e Psicopedagoga marina@iron.com.br Diz o ditado que durante a vida o homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Mas um desses objetivos jamais pode ser alcançado sozinho: O FILHO.

Ele nunca é um projeto pessoal, vai ser sempre uma produção do casal. A criança não nasce pronta, dentro dela vai se formando um casal de pais que são espelhados pelos pais reais que cuidam dela. Já na gravidez sem que percebêssemos criamos um lugar para aquele bebê que chegará, este lugar vai determinar qual o papel que esta criança terá nesta família. Podemos citar: o filho que veio porque foi desejado, o filho que veio para salvar o casamento, o filho que não foi desejado, o filho que veio para separar, etc... Sendo pai ou mãe nos possibilita entendermos melhor nossos próprios pais, ou não, e quando isto acontece realmente não conseguimos nem parar para refletir o que estamos fazendo conosco e o que dirá com nossos filhos. É lamentável quando isto acontece, e quantas vezes resolvemos nem pensar sobre o assunto que incomoda? Então o caminho mais fácil é sentirmos indiferentes a tudo, as nossas dificuldades, as nossas decepções, aos nossos ressentimentos que acreditamos não ter perdão, aos nossos sentimentos de culpa e assim por diante. Mas o que não sabemos é que esta indiferença que criamos para nos defender da dor, é a mesma que nos paralisa em vida. A idéia de “o que vier é lucro” não passa de uma boa desculpa para disfarçarmos que sentimos pena de nós mesmos, por não conseguirmos ir para frente e olhar para a vida de forma diferente. Esta idéia também é boa para tirar de nossos ombros a responsabilidade do dia-a-dia e de como estamos educando nossos filhos. Outro jeito que costumamos usar é atribuir as desgraças e infelicidades da vida a alguém ou a algum fato, por exemplo: Deus quis assim, só acontece comigo porque não tem jeito , foi por causa do fulano que estou assim, se eu tivesse dinheiro às coisas seriam bem diferente, me falta saúde para enfrentar tudo isto, etc.. Realmente quem ouve isto parece que as coisas não têm jeito mesmo, só algo muito poderoso poderá modificar a vida desta pessoa, e é claro não será ela . Quem não se pegou pensando assim? É assim quando estamos nos sentindo muito frágeis e impotentes frente a uma situação ou problema, deixamos de considerar as saídas ou tentar aguardar um pouco até que as coisas possam se encaixar novamente. Portanto estou falando de esperança, sem isto morremos em vida e a vida é para ser vivida e compartilhada com alguém. Por quê isto acontece? Ora, voltamos no começo, e nossos pais? Digo os pais que moram dentro de nós, estão cuidando bem da gente? ! Chegou a hora de refletirmos sobre isto então... Hoje os pais mudaram, temos vivido principalmente a partir do meio do século, profundas, contínuas e velozes transformações sociais, políticas e culturais. Em especial atenção para a tecnologia. Entretanto, por mais que essas mudanças tenham sido promovidas e desejadas por nós para propiciar uma vida mais confortável, estamos vivendo resultados indesejáveis. Destaco três aspectos dessas mudanças: Em primeiro lugar, a necessidade de atualização e adaptação a esse “novo mundo” globalizado, por conseqüência o aumento do índice de analfabetos tecnológicos e funcionais, sejam porque não

acompanham o ritmo dos avanços tecnológicos ou porque não estão conseguindo perceber o que acontece; outro dado é o alto índice de desemprego em todo mundo pela substituição tecnológica mais eficiente e barata, sendo que estes fatores de uma forma ou de outra atingem todos nós. Em segundo lugar, o desejo de termos uma vida mais livre, prazerosa, quase perfeita, alimenta a idéia de que o ser humano pode dominar e alterar a natureza humana, física e psíquica, citamos o projeto Genoma, clonagem, fertilizações em vitro, etc. Por outro lado, com todo o progresso científico, continuamos lutando contra a fome e a miséria, as pessoas continuam adoecendo física e mentalmente apesar de todos os confortos e “remédios de última geração”. Em terceiro lugar, o questionamento de todas as formas de autoridade, seja no âmbito político, empresarial, médico, educacional, familiar , etc. É muito difícil nos guiarmos pelas próprias pernas, assumirmos as conseqüências do caminho escolhido, modificarmos nossa atitude reconhecendo muitas vezes que erramos,quer seja em casa, no trabalho, com os amigos, no nosso voto. Portanto depois disto tudo, os adultos estão se sentindo muito confusos, desorientados e atarefados com tantas mudanças e conflitos para resolverem. Se nós adultos estamos assim, o que dizer das crianças e adolescentes ? Afinal, não somos o que eles irão ser amanhã ? O que você vai ser quando crescer? Uma pergunta muito comum antigamente, mas hoje caiu em desuso, porque as crianças e adolescentes não estão querendo crescer. Crescer para quê? Para virar um adulto aflito, sem tempo, que só trabalha (quando tem trabalho senão é um bico aqui ou ali), anda nervoso, de mau humor, adulto é alguém desencantado da vida, é um chato, quando não é alguém,que não se deve confiar porque é perigoso. Infelizmente é assim que muitas crianças e adolescentes estão vendo os adultos. Apesar de todas as transformações deste século, o homem continua nascendo como um animal mais frágil e vulnerável do planeta. Não pode contar unicamente com seus instintos para viver, ele continua sendo dependente de outro ser humano que cuide dele, que dê afeto, proteção, segurança, o eduque para a vida, transformando-o em um ser humano digno deste nome. E como as crianças e os adolescentes estão sendo cuidados? As crianças e os adolescentes estão sendo gerados e criados por adultos que estão com dificuldades de serem bons modelos de espelhos.Não estão conseguindo transmitir a idéia de que a vida vale a pena a ser vivida, que vale a pena investir no trabalho honesto, digno, nos nossos sentimentos e sonhos, ter esperança no amanhã. Em função disso, há uma crise generalizada de auto-estima nos adultos, que são expressas das mais diversas formas. Há aqueles que se entorpecem com álcool, com o trabalho, com o futebol, com a maconha, com a fofoca da vizinhança, com a saúde que nunca vai bem, com o bingo, com a violência. A lista pode ser enorme, porque de alguma forma estão tentando escapar da realidade a ser enfrentada. Enquanto isto, as crianças e as adolescentes vão à escola e os professores verificam o tamanho da catástrofe. Além, obviamente de estarem passando pelo mesmo processo. As crianças estão chegando à escola, infelizmente, sem a estruturação necessária básica, que deveriam ter. Os adolescentes então se rebelam enfrentando e agredindo qualquer forma de autoridade, desrespeitam regras e leis, sem falar da agressão ao ambiente escolar.

Porém para dar afeto, atenção, cuidados, proteção, delicada firmeza, modelo de autoridade que uma criança ou adolescente precisa, é necessário que o adulto tenha razoável estoque destes conteúdos dentro de si, ou seja amor próprio suficiente, segurança emocional , confiança nos seus valores, compreensão suficiente do mundo ao redor para dividir com os filhos. Não são exatamente estes conflitos que a escola está vivendo? Estes conteúdos emocionais que os pais não estão conseguindo passar para os filhos são atribuídos para a escola, ou melhor para o professor . São atribuídas as falhas das figuras parentais, e não só a este profissional de educação mas a profissionais de saúde, da igreja, etc., papéis que são deles, mas sentem-se incapazes de exercê-lo. E o que fazer com isto? Uma primeira idéia é que todos nós estamos no mesmo barco, e se não nos unirmos não chegaremos à praia, afundaremos no mar. Portanto o medo , a insegurança, o cansaço, a falta de afeto está em todos nós. Quantos de vocês já tinham parado para pensar sobre estas mudanças do mundo e que estivessem atingindo a todos? E sobre os nossos medos, as nossas carências, sobre nossa brutalidade e violência com nossos filhos, pois é mais fácil bater, castigar uma criança, do que refletir que estamos com raiva do chefe que chamou nossa atenção ou que estou revoltado porque ganho pouco e queria comprar uma porção de coisas e não pode ser agora!. Em nome da minha frustração, impaciência etc, uso e abuso da minha autoridade ou da minha irresponsabilidade de pai ou mãe deixando de cuidar dignamente dos meus filhos, já que são meus faço o que quero. Também não é mais bem assim, temos leis e órgãos públicos que protegem as crianças e adolescentes e exigem dos pais isto.Podemos citar o Estatuto da Criança e Adolescente, os Conselhos Tutelares, a Promotoria da Infância e da Juventude, etc. Nós enquanto pais precisamos sentir orgulho pelos nossos filhos, por nossa capacidade de trabalhar honestamente, por dar pequenos confortos com dignidade, por não saber muitas vezes uma porção de coisas e poder perguntar ou dizer que não sabemos ou que vai procurar saber com alguém ou que o próprio filho pode ensinar. Também costumamos dizer que não temos tempo, que estamos cansados, que não temos jeito para dar abraço e beijo. Porém quem disse que é só assim que se demonstra carinho, cuidado e atenção ? Podemos pedir para os nossos filhos brincarem por perto, podemos ver suas lições, podemos admirar seus progressos, seu crescimento... Outro fato que acontece muito é aquela frase: eu não sei conversar com meus filhos. Os pais podem contar a história da família, mostrar fotos dos parentes. Isto é muito útil para as crianças e adolescentes, para nós adultos também, temos a possibilidade de rever muitas coisas boas da nossa infância e dar novo significado as coisas amargas da vida. Os pais que se orgulham e sentem carinho por sua infância são muito valorizados pelas crianças, além de estarem conhecendo sua origem, seus antepassados, tendo um contato com os pais. Falar sobre a tradição da família, dos parentes o que faziam, o que gostavam, que comida comiam, seus costumes é um dos referenciais mais poderosos do ser humano. Estes dados ajudam a família a se fortalecer, sentir-se unida, perceber as gerações de antepassados e fazer comparações, também estimula os sentimentos de continuidade, crescimento e desafio para vislumbrar o futuro.

O que os pais precisam saber é que todos nós temos nosso valor, por mais insignificante que isto possa parecer, porque estou falando de nossa auto-estima e nosso autoconceito que anda muito desvalorizado pela rapidez dos acontecimentos. Notamos esta onda de violência em todas as camadas sociais, a imoralidade, a falta de ética, os programas de TV usando abusivamente de cenas de sexo, sensacionalismo, notícias tendenciosas para beneficiar alguns, comerciais que induzem ao consumo de determinados produtos, etc. Isto leva todos nos a um sentimento de enfraquecimento e impotência frente aos acontecimentos. Sempre nos ensinaram que temos que acertar, o que não contaram é que para acertar precisamos aprender com o erro e não ter medo de errar. Parece fácil? Pois então vamos pensar um pouco sobre essas questões : Quantos de nós pedimos desculpas quando cometemos um erro? Quem de nós reconhece que ofendeu, xingou ou falou demais na hora que estava muito bravo, irritado, perdeu a cabeça e fez bobagem? Quem de nós acha que se nosso filho apanhou do amigo na escola ou na rua deve resolver o problema dando outro tapa? E se alguém de nós achasse uma carteira com dinheiro, um objeto devolveria ? Procuraria achar o dono? Quem de nós acha que sempre é bom dar um jeitinho de levar vantagem em tudo? Qual seria o nosso preço para realizar algo ilícito? Qual é o nosso limite de tolerância com nossos filhos ? Quantas vezes nós escolhemos atender uma necessidade nossa negligenciando a dos nossos filhos? Quantas vezes atendemos as necessidades dos nossos filhos e quase nunca a nossa? Quantas vezes nós assistimos a um programa de TV , por exemplo “Ratinho” perto dos nossos filhos e eles , quando são mais corajosos, fazem perguntas e nós deixamos nossos filhos sem resposta porque também não sabemos a resposta? Quantos de nós nos queixamos dos nossos filhos que não nos respeitam, que se vestem de um jeito impróprio, que não nos ouvem? E nós não estamos fazendo isto com eles? Quantos de nós ficamos preocupados com nossos filhos de se contaminarem com a AIDS? E a gravidez precoce? Temos conversado sobre estes assuntos com nossos filhos, ou irão aprender na rua, se tiver sorte na escola? E sobre drogas, nós estamos conversamos sobre isto? Hoje temos vários tipos de substâncias que viciam, desde xaropes infantis, como bebidas energéticas, que são compradas facilmente! Seguiriam outras questões , mas vamos parar por aqui , porque acredito que foi suficiente para refletirmos vários valores e posturas que temos constantemente. Pois bem, a saída é começarmos a questionar tudo isto, um exemplo disto é o que estamos fazendo agora, pensando sobre estes assuntos.Todos notaram que não é nada fácil parar para pensar sobre estas perguntas que provocam em nós muita angústia e ainda exige de nós respostas apropriadas a cada situação. O que podemos concluir e aprender com isto? Precisamos nos unir com alguém para discutirmos tanta coisa. E é aí que entra o papel da escola . Precisamos transformá-la em nossa aliada e não num depósito dos nossos problemas. Por exemplo, podemos solicitar que a escola crie cursos, oficinas, palestras com profissionais,que as reuniões de pais sirvam também para discutirmos temas polêmicos ou novidades da ciência , e não só o desempenho dos nossos filhos, ouvir reclamações, pedir a colaboração para APM, etc., não desqualifico estes avisos, mas acredito que podemos conviver com as duas propostas e com certeza a carga de problemas e conflitos escolares diminuirá. O que mais ouvimos hoje em dia é a falta de limites dos pais com os filhos e por conseqüência a agressividade, a violência, o que está acontecendo? Se considerarmos que os pais sentem-se muito culpados por estarem fora de casa por muitas horas e que a vida que levam não é uma maravilha, já é um bom começo. Normalmente agimos por compensação de nossos sentimentos, precisamos

reconhecer que o mínimo que ficamos com os filhos deverá ser para cuidar e educar mesmo que isto pareça firmeza demais, pois só parece porque é necessário. A violência está sendo gerada por vários fatores sociais, econômicos, culturais e emocionais sem dúvida, mas se perdermos a noção do que é ser tratado bem, com respeito, com diálogo, com humor, com amor, com ética, realmente só nos resta agir pela impulsividade, pela crueldade, pela vantagem, pela vingança ... A ordem neste momento é o diálogo, é permitir que nossos filhos brinquem de bandido-moçinho, polícia-ladrão, que possam elaborar regras e leis, quem é do bem e do mal, através das brincadeiras tudo isto é possível sem machucar ninguém . O ser humano é o único animal que precisa aprender a canalizar sua agressividade de forma adequada e criativa. Os adolescentes questionam isto o tempo todo, porque estão carentes por seus pais reconhecerem , que vale a pena ser honesto, digno, ter respeito,etc...No momento a sociedade oferece poucos modelos identificatórios bons, poderia citar Sandy e Jr... O que sabemos em Psicologia é que o ser humano guarda sempre dentro de si a emoção mais forte, portanto temos que ter cuidado ao repreendermos nossos filhos com castigos, gritos, ameaças, chantagens, surras, comparações, humilhações, etc...Se isto estiver acontecendo conosco, indica que algo vai mal na educação de nossos filhos. A grossura deseduca porque fica a dor. Temos sempre que começarmos por nós mesmos questionando porque estamos agindo assim, porque estamos perdendo a autoridade, porque estou cedendo tanto, geralmente encontramos as respostas em nós mesmos, às vezes temos filhos difíceis, porém “é o maior que cuida do menor”. Qualquer um sempre tem algo para dividir, ensinar, compartilhar, precisamos aprender a conviver com a diversidade de valores, crenças, raças, e estamos aprendendo isto agora, esta é uma das vantagens do progresso, à necessidade de nos unirmos, de nos conscientizar que somos agentes de mudança e não mero espectador dos acontecimentos. A felicidade dos nossos filhos geralmente inclui também a alegria dos pais. Portanto a melhor saída é caminhar próximo dos filhos, pois só assim todos vão chegar ao mesmo objetivo.

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