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O Twitter como ferramenta de comunicação da Cibercultura

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Monografia de Maurílio Luiz Hoffmann da Silva, apresentada ao curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal do Tocantins.
Monografia de Maurílio Luiz Hoffmann da Silva, apresentada ao curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal do Tocantins.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE PALMAS COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO

MAURÍLIO LUIZ HOFFMANN DA SILVA

O TWITTER COMO FERRAMENTA DE COMUNICAÇÃO DA CIBERCULTURA

PALMAS, TOCANTINS 2009

MAURÍLIO LUIZ HOFFMANN DA SILVA

O TWITTER COMO FERRAMENTA DE COMUNICAÇÃO DA CIBERCULTURA

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Tocantins, como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo.

Profª. Drª. Liana Vidigal Rocha Orientadora

PALMAS, TOCANTINS 2009

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca da Universidade Federal do Tocantins Campus Universitário de Palmas S586t Silva, Maurílio Luiz Hoffmann da O Twitter como ferramenta de comunicação da cibercultura. / Maurílio Luiz Hoffmann da Silva. - Palmas, 2009. 111 f. Monografia (Bacharelado) – Universidade Federal do Tocantins, Curso de Comunicação Social – Jornalismo, 2009. Orientadora: Profª. Dra. Liana Vidigal Rocha 1. Comunicação. 2. Cibercultura. 3.Blog. 4. Microblog. 5. Twitter. I. Título.

CDD 070 Bibliotecário: Paulo Roberto Moreira de Almeida CRB-2 / 1118 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS –A reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio deste documento é autorizado desde que citada a fonte. A violação dos direitos do autor (Lei nº 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.

MAURÍLIO LUIZ HOFFMANN DA SILVA

O TWITTER COMO FERRAMENTA DE COMUNICAÇÃO DA CIBERCULTURA

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Tocantins, como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo.

BANCA EXAMINADORA

Profa. Dra. Liana Vidigal Rocha – UFT Orientadora

Profa. Dra. Edna de Mello Silva – UFT Examinadora

Prof. MSc. Sérgio Ricardo Soares Farias Silva – UFT Examinador

Palmas – TO, 18 de novembro de 2009

Aos que me seguem...

AGRADECIMENTOS Aos meus pais, pela vida e pela educação concedida a mim, por me ensinarem a lutar pelos meus sonhos e por sempre terem me apoiado. Aos meus irmãos, por lhes terem ajudado na minha criação e por me mostrarem o quanto é difícil a vida de irmão caçula. Aos meus amigos, a família que eu escolhi, por serem justamente isso: mais do que simplesmente amigos. Aos meus eternos professores por tudo que me ensinaram. E em especial à Adriana Omena, Mary Stela Müller e Frederico Salomé, exemplos que levarei para o resto da minha vida. À Liana Vidigal Rocha por cumprir com excelência o papel de orientadora e por todos os conselhos ministrados. À Edna de Mello Silva por me emprestar seus livros. Ao Thiago Pio da Silva por suas sempre valiosas correções. À Mariana Reis Valente pela grande ajuda na finalização do trabalho. Ao Vicente Hercílio Andrade pela dica para a elaboração das referências. A todos os que souberam entender a minha ausência em momentos de convívio social. E, da mesma forma, àqueles que não atrapalharam a realização deste trabalho.

“Eu tenho me interessado bastante pelo Twitter, porque é tecnicamente muito simples, mas social e intelectualmente muito complexo.” Pierre Lévy em entrevista para Leopoldo Godoy do portal G1.

SILVA, Maurílio Luiz Hoffmann da. O Twitter como ferramenta de comunicação da cibercultura. 2009. 111 f.. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo) – Universidade Federal do Tocantins, Palmas, 2009.

RESUMO

Busca caracterizar o Twitter como uma ferramenta de comunicação típica da cibercultura. Faz uma revisão bibliográfica acerca da sociedade e da cultura contemporânea, bem como sobre o ciberespaço, os blogs e os microblogs. Analisa 14 perfis dos Twitter e das últimas 20 publicações neles contidas, totalizando 280, chega à conclusão de que ele é usado primordialmente para publicações livres, assim como ocorre nos blogs. Mostra, também, o uso como ferramenta de comunicação direta, como difusão de informações, por meio de republicações e, ainda, como divulgação automática de textos prontos. Tendo como base os conceitos depreendidos da revisão bibliográfica mostra que o Twitter reúne características inerentes à cibercultura e à sociedade contemporânea. Conclui que a hipótese de que o Twitter reúne características que fazem dele uma ferramenta de comunicação típica da cibercultura está correta e aponta outras possibilidades de investigação envolvendo-o.

Palavras-chave: Comunicação. Cibercultura. Blog. Microblog. Twitter.

SILVA, Maurílio Luiz Hoffmann da. The Twitter as a communication tool of cyberculture. 2009. 111 f.. Sênior Research Project (Major: Social Communication– Jornalism) – Universidade Federal do Tocantins, Palmas, 2009.

ABSTRACT

It tries to describe as a communication tool typical of the cyberculture. It reviews the bibliography about society and contemporary culture as well as the cyberspace, blogs and microblogs. It analyses 14 Twitter profiles and their last 20 publications, totalizing 280, gets to the conclusion that Twitter is mostly used for free publications, like occurs in blogs. It also shows its use as a tool for direct communication, as a mean to spread information, through republications, and still as an automatic publicizing way for ready texts. Based on the contexts reminisced on the review it shows that Twitter gathers characteristics belonged to the cyberculture and to the contemporary society. It concludes that the hypothesis that Twitter gathers characteristics which make it a typical communication tool of the cyberculture is correct and points to other possibilities of researches involving it.

Keywords: Communication. Cyberculture. Blog. Microblog. Twitter

LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Mapa Mental da Cibercultura.................................................................................. 30 Figura 2 – Página do Adocu ..................................................................................................... 47 Figura 3 – Página inicial do Gozub .......................................................................................... 47 Figura 4 – Página do Plurk ....................................................................................................... 48 Figura 5 – Página do Jaiku ....................................................................................................... 48 Figura 6 – Página inicial antiga ................................................................................................ 56 Figura 7 – Nova página inicial ................................................................................................. 57 Figura 8 – Página inicial do usuário autor deste trabalho......................................................... 58 Figura 9 – Uso do sinal "#" e do RT......................................................................................... 59 Figura 10 – Início de página pública ........................................................................................ 60 Figura 11 – Final de página pública ......................................................................................... 61 Figura 12 – Perfil bloqueado .................................................................................................... 61

LISTA DE EXEMPLOS Exemplo 1 – Uso de mecanismo automático de feeds RSS ..................................................... 76 Exemplo 2 – Post sem usar mecanismo de RSS....................................................................... 76 Exemplo 3 – Tweet com resposta para clientes........................................................................ 76 Exemplo 4 – Divulgação no perfil do Naturatins ..................................................................... 77 Exemplo 5 – Resposta do Ministério da Saúde ........................................................................ 77 Exemplo 6 – Referência de Mano Menezes ao perfil @brunodaniel0..................................... 77 Exemplo 7 – RT de Alex Primo ............................................................................................... 78 Exemplo 8 – Publicação direta de André Lemos ..................................................................... 78 Exemplo 9 – Resposta de Alex Primo...................................................................................... 78 Exemplo 10 – Uma das referências de José Serra .................................................................... 78 Exemplo 11 – Única referência de Aloizio Mercadante........................................................... 79 Exemplo 12 – Posts de Fernanda Silveira ................................................................................ 79 Exemplo 13 – Follow Friday .................................................................................................... 82 Exemplo 14 – Promoção no Twitter......................................................................................... 82 Exemplo 15 – Atualização pelo celular.................................................................................... 83 Exemplo 16 – Tweet feito pelo perfil da Prefeitura de São Paulo ........................................... 84 Exemplo 17 – Tweet com a hashtag #ForaSarney ................................................................... 84 Exemplo 18 – Post com microlink ........................................................................................... 85

LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Categorias dos perfis ............................................................................................. 52 Quadro 2 – Ações realizadas e resultados obtidos ................................................................... 55 Quadro 3 – Categorias e endereços dos perfis escolhidos........................................................ 63 Quadro 4 – Dados do perfil da Folha de S. Paulo .................................................................... 64 Quadro 5 – Dados do perfil da Veja ......................................................................................... 64 Quadro 6 – Dados do perfil do Submarino............................................................................... 64 Quadro 7 – Dados do perfil do Camiseteria ............................................................................. 65 Quadro 8 – Dados do perfil do Naturatins................................................................................ 65 Quadro 9 – Dados do perfil do Ministério da Saúde ................................................................ 65 Quadro 10 – Dados do perfil de Luciano Huck........................................................................ 66 Quadro 11 – Dados do perfil de Mano Menezes ...................................................................... 66 Quadro 12 – Dados do perfil de André Lemos......................................................................... 66 Quadro 13 – Dados do perfil de Alex Primo ............................................................................ 66 Quadro 14 – Dados do perfil de José Serra .............................................................................. 67 Quadro 15 – Dados do perfil de Aloizio Mercadante............................................................... 67 Quadro 16 – Dados do perfil de Fernanda A. Silveira ............................................................. 67 Quadro 17 – Dados do perfil de Luis Paulo Fraga ................................................................... 67 Quadro 18 – Endereços eletrônicos por perfil .......................................................................... 68 Quadro 19 – Quantidade de atualizações por perfil ................................................................. 69 Quadro 20 – Seguindo X seguidores por perfil empresarial .................................................... 71 Quadro 21 – Perfis mais seguidos ............................................................................................ 71 Quadro 22 – Seguidores X Atualizações.................................................................................. 72 Quadro 23 – Seguindo X Seguidores por perfil ....................................................................... 73

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS API ARPA CMS DM DNS ENIAC GJOL GPL HTML HTTP IM IP NTICs P2P PDA RSS RT SMS TCP TT URL Application Programming Interface Advanced Research Projects Agency Content Management System Direct Message Domain Name System Electrical Numerical Integrator and Calculator Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online General Public License Hypertext Markup Language Hypertext Transport Protocol Instant Messenger Internet Protocol Novas Tecnologias de Informação e Comunicação Peer to Peer Personal Digital Assistants Really Simple Syndication Retuite Short Message Service Transmission Control Protocol Trending Topics Uniform Resource Locator

WYSIWYG What You See Is What You Got

SUMÁRIO 1 2 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 13 A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS ........... 16

2.1 Do Moderno ao Pós-moderno............................................................................................. 16 2.2 Sociedade Informacional .................................................................................................... 21 2.3 Cibercultura: Uma Breve Visão ......................................................................................... 25 3 O CIBERESPAÇO E SEU USO COMO FERRAMENTA DE COMUNICAÇÃO ......... 33

3.1 Do Chip ao Ciberespaço ..................................................................................................... 33 3.2 Blogs e a Composição da Blogosfera ................................................................................. 37 3.3 Os Microblogs .................................................................................................................... 43 4 5 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ....................................................................... 49 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DO TWITTER....................................................................... 56

5.1 Descrição do Twitter .......................................................................................................... 56 5.2 O Twitter como Ferramenta de Comunicação.................................................................... 63 5.3 A Relação entre o Twitter e a Cibercultura ........................................................................ 81 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................. 86

REFERÊNCIAS........................................................................................................................ 89 GLOSSÁRIO ............................................................................................................................ 94 ANEXOS .................................................................................................................................. 97 ANEXO A – Perfil da Folha de S. Paulo.................................................................................. 98 ANEXO B – Perfil da Veja....................................................................................................... 99 ANEXO C – Perfil do Submarino .......................................................................................... 100 ANEXO D – Perfil do Camiseteria......................................................................................... 101 ANEXO E – Perfil do Naturatins ........................................................................................... 102 ANEXO F – Perfil do Ministério da Saúde ............................................................................ 103 ANEXO G – Perfil de Luciano Huck ..................................................................................... 104 ANEXO I – Perfil de André Lemos........................................................................................ 106 ANEXO J – Perfil de Alex Primo........................................................................................... 107 ANEXO K – Perfil de José Serra............................................................................................ 108 ANEXO L – Perfil de Aloizio Mercadante ............................................................................ 109 ANEXO M – Perfil de Fernanda Silveira............................................................................... 110 ANEXO N – Perfil de Luis Paulo Fraga................................................................................. 111

13 1 INTRODUÇÃO

Desde os primórdios de sua existência o ser humano vem inventando ferramentas que o auxiliem em suas atividades. Cada “nova tecnologia” concebida representa um passo rumo à evolução. Assim foi com o controle do fogo, a agricultura, e a eletricidade, por exemplo. Essa evolução se deu também, é claro, na comunicação. Desde as gravuras pintadas em cavernas, foram muitas as criações para diminuir distâncias e proporcionar acesso mais fácil às informações: o telégrafo, o telefone, a prensa de tipos móveis, o rádio, a televisão e mais recentemente a Internet. Um dos principais produtos resultantes da revolução da tecnologia da informação foi o computador. A Internet é conhecida hoje como a rede que integra os computadores do mundo todo. Consequentemente1, ela conecta as pessoas, quebrando barreiras tanto geográficas quanto temporais, fazendo com que todos caibam no mesmo lugar, na mesma rede e ao mesmo tempo. Das transformações causadas pela revolução informacional, o surgimento da Internet foi um marco nessa nova sociedade, dita pós-moderna, abrindo um espaço novo e repleto de possibilidades para a relação interpessoal e a comunicação, modificando a estrutura e a lógica social e alterando conceitos, como o de cultura, que passa, agora, a ser chamado de cibercultura. Nesse âmbito de inovações tecnológicas, surgem cada vez mais novidades que são facilmente apropriadas pela sociedade. Esse é o caso do e-mail, do aparelho celular, do site de relacionamentos Orkut, das redes de compartilhamentos P2P (Peer to Peer – pessoa para pessoa), e é o caso também dos blogs2. Os blogs são comumente conhecidos como espaços para que as pessoas possam publicar o que bem entenderem sem nenhum tipo de censura. Por isso, também, são tidos como uma das principais formas de se fazer comunicação fora da lógica de mercado que envolve os grandes conglomerados midiáticos.
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Este trabalho foi redigido levando-se em consideração as mudanças introduzidas na ortografia da língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em dezembro de 1990, o qual foi aprovado, no Brasil, pelo Decreto Legislativo nº 54, em 18 de abril de 1995. Entretanto, na ocorrência de citações diretas, conservou-se o texto original, procedendo-se a transcrição textual da obra consultada, conforme ensina a Norma 10520:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas. O desenvolvimento da tecnologia causa mudanças também no vocabulário, por isso, pode ser encontrado, no final do trabalho, um Glossário que reúne alguns termos pouco usais utilizados no decorrer do texto.

14 Com o crescimento dos blogs foram surgindo variações da estrutura básica inicial: fotologs (para postagem de fotos), videologs (vlogs) (para vídeos), audiologs (para colocar arquivos de som, ou podcasts), moblogs (blogs que permitem atualizações por dispositivos móveis), e finalmente os microblogs. Os microblogs podem ser entendidos como uma variação dos blogs que sofre alguma limitação, geralmente com relação ao tamanho das postagens. Das ferramentas de microblog existentes, hoje, o Twitter é a que mais se destaca. Criado em 2006 pela empresa Obvious, o site possui cerca de 45 milhões de usuários cadastrados, oito milhões deles no Brasil, sendo que cerca de cinco milhões destes entraram no serviço nos últimos quatro meses3. Sua motivação inicial era que o usuário escrevesse o que estivesse fazendo (“What are you doing?” era a pergunta presente na página inicial), entretanto, as formas de uso também foram aumentando, assim como o número de usuários, que passaram a postar muito mais que isso. Nesse contexto, o objetivo deste trabalho visa caracterizar o Twitter como uma ferramenta de comunicação da cibercultura, contextualizando-o na sociedade atual. Parte-se da hipótese de que ele reúna características que fazem dele uma ferramenta de comunicação típica da cibercultura. Dessa forma, o trabalho se divide em quatro seções seguidas pelas Considerações Finais. Na primeira faz-se uma revisão da literatura sobre a sociedade contemporânea. Tal revisão se baseia na obra de Santos (2008), Featherstone (1995), Santos (2003), Castells (1999), Lemos (2003; 2004; 2006a; 2006b; 2007), e Primo (2007c). A segunda seção tem como tema o ciberespaço, os blogs e os microblogs. Para a elaboração desta revisão bibliográfica os principais autores utilizados, além dos já citados, foram: Castells (2003); Pinho (2003); Lévy (1999); Orihuela (2007a); Lemos (2002); Silva (2003); Primo e Smaniotto (2006); Recuero (2003b); Amaral, Recuero e Montardo (2009); e Zago (2008; 2009). Passa-se, em seguida, a apresentação dos Procedimentos Metodológicos do trabalho, elencando seus objetivos, problema e hipótese. Os autores que fundamentam a apresentação da Metodologia são: Santaella (2001); Palacios (2007); Marconi e Lakatos (2004; 2006); e

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Cf.: RIBEIRO, 2009.

15 Raupp e Beuren (2006). Por fim, na quarta seção, realiza-se a descrição do Twitter, a análise dos catorze perfis selecionados, bem como dos 280 posts neles contidos, e, finalmente, uma descrição do Twitter levando-se em conta os conceitos depreendidos da revisão bibliográfica.

16 2 A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS

A humanidade tem passado por mudanças na estrutura social que acarretam em transformações na economia, na educação e na cultural em geral. Muitas dessas mudanças têm despertado interesse de estudiosos, os quais foram criando conceitos para descrever as modificações ocorridas. Alguns desses termos serão apresentados nesta seção. O primeiro tópico a ser abordado tem como tema o moderno e o pós-moderno e mostrará como se deu a transição de um para o outro, apontando as principais características de cada período. Em seguida, será abordada a sociedade informacional, a qual teve seu desenvolvimento a partir da revolução da tecnologia da informação. Por último, será mostrada uma breve visão acerca da cibercultura e seus desdobramentos na sociedade contemporânea. Estes tópicos são importantes para que se compreenda a sociedade atual e a lógica sob a qual ela vive, relacionada com o desenvolvimento tecnológico, o que acarretará no desenvolvimento e apropriação do ciberespaço, assunto que será tema da seção 3.

2.1 Do Moderno ao Pós-moderno

Um dos principais fatores para que se compreenda a sociedade contemporânea é entender como se deu a passagem da era chamada Moderna, para a Pós-moderna. Dessa forma, esta seção apresentará tal transição a fim de criar subsídios para descrição mais detalhada da cultura nesta sociedade. Segundo Featherstone (1995) o conceito de moderno surge em oposição à Antiguidade, no período do Renascimento, implicando em mudanças de ordem econômica e social que resultaram na formação do Estado capitalista-industrial. Para o autor:
As características básicas do modernismo podem ser resumidas como: reflexividade e autoconsciência estética; rejeição da estrutura narrativa em favor da simultaneidade e da montagem; exploração da natureza paradoxal, ambígua e indeterminada da realidade e rejeição da noção de uma personalidade integrada, em favor da ênfase no sujeito desestruturado e desumanizado (FEATHERSTONE, 1995, p.24-25).

É neste período que surge o que Santos (2008, p. 22) denominou de “Projeto Iluminista da modernidade”, caracterizado pelo desenvolvimento material e moral do homem através do conhecimento. Para Foucault (apud FEATHERSTONE, 1995, p. 21): “o homem moderno é o

17 homem que tenta constantemente inventar a si próprio”. Featherstone (1995) destaca outros dois conceitos variantes do “moderno”: “modernité” e “modernização”. O autor explica que o uso francês do termo modernité indica uma “experiência de modernidade”, cuja expressão é vista como uma “qualidade da vida moderna, induzindo um sentido da descontinuidade do tempo, de rompimento com a tradição, o sentimento de novidade e sensibilidade para com a natureza contingente, efêmera e fugaz do presente” (FEATHERSTONE, 1995, p. 21). Enquanto isso, “modernização” é o termo usado pela sociologia do desenvolvimento para indicar os efeitos sofridos pelas estruturas sociais e pelos valores tradicionais mediante o desenvolvimento econômico. Ele salienta que:
A teoria da modernização é usada ainda para designar as etapas de desenvolvimento social baseadas na industrialização, a expansão da ciência e da tecnologia, o Estado-nação moderno, o mercado capitalista mundial, a urbanização e outros elementos infra-estruturais (FEATHERSTONE, 1995, p.23).

A modernidade, e, consequentemente, a sociedade moderna, dessa forma, estão diretamente ligadas à industrialização, ao crescimento econômico, ao sistema capitalista, à massa industrial, ao indivíduo “desumanizado” e “solitário na multidão das grandes cidades” (SANTOS, 2008, p. 23). Santos (2008, p. 22) lembra que foi graças à modernidade que ocorreu o progresso das grandes fábricas. Tal progresso resultou na produção de automóveis e aviões; no telégrafo, no telefone, no rádio e na televisão; no petróleo e eletricidade; no crédito ao consumidor e na publicidade; na burguesia e, da mesma forma, no proletariado. Com o passar do tempo, a solidez intrínseca na sociedade moderna, mecanicista e baseada na racionalidade foi deixando de satisfazer o homem. Os valores modernos foram perdendo importância e a humanidade passou a caminhar, assim, rumo a pós-modernidade. Santos (2008) conceitua o pós-modernismo como o “nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se encerra o modernismo (1900-1950)”. Featherstone (1995) observa o sentido de época inerente ao termo e, citando Lyotard, afirma que:
‘Pós-moderno’ é provavelmente um termo muito ruim porque transmite a idéia de uma ‘periodização’ histórica. Todavia ‘periodizar’ ainda é um ideal ‘clássico’ ou ‘moderno’. ‘Pós-moderno’ indica simplesmente uma disposição de espírito, ou melhor, um estado da mente (LYOTARD apud FEATHERSTONE, 1995, p. 20).

18 Entretanto, Santos (2008) expõe duas acepções para o surgimento da pós-modernidade – uma simbólica e outra histórica. Segundo o autor, simbolicamente, o pós-modernismo nasceu no dia 6 de agosto de 1945, dia da explosão da bomba atômica em Hiroxima. A modernidade encerra seu capítulo na história quando o “poder destruidor” supera a “força criadora” (SANTOS, 2008, p. 20). Historicamente, o pós-modernismo começou em 1955 e tomou corpo nos anos 60. “Nesse período, realizações decisivas irromperam na arte, na ciência e na sociedade” (SANTOS, 2008, p. 20). As mudanças nas artes começam em 1955 quando “arquitetos italianos abrem as baterias contra o internacionalismo na arquitetura moderna, propondo uma revalorização do passado e da cor local” (SANTOS, 2008, p. 21). A onda revolucionária passa, então, dos italianos para os americanos e ingleses. Contra a concepção do estilo modernista, eles se voltam para o passado, pesquisam materiais e estudam o ambiente com o objetivo de realizar uma arquitetura relacionada com a linguagem cultural das pessoas que vão usá-la. Na pintura e na escultura, as transformações pós-modernistas se destacam, principalmente, no movimento denominado Pop Art. Nele, os artistas começam a usar produtos do consumo cotidiano e referências aos meios de comunicação de massa para se expressarem. Um dos artistas que mais se destacaram neste meio foi Andy Warhol que ficou conhecido por suas obras que envolviam repetições em série de latas de sopa Campbell, de garrafas de Coca-cola e retratos de Marilyn Monroe. Santos (2008) expõe outros movimentos artísticos originados na vertente pósmodernista: o “hiper-realismo” caracterizado pela reprodução minuciosa de fotografias em tinta; a “minimal art” na qual os objetos artísticos são reduzidos às suas estruturas primárias; e a “arte conceitual” que convida o público a usar a imaginação para interpretar as proposições do artista. As principais características associadas ao pós-modernismo nas artes são apontadas por Featherstone (1995, p. 25) como sendo:
[...] a abolição da fronteira entre arte e vida cotidiana; a derrocada da distinção hierárquica entre alta-cultura e cultura de massa/popular; uma promiscuidade estilística, favorecendo o ecletismo e a mistura de códigos; paródia, pastiche, ironia, diversão e a celebração da ‘ausência de profundidade’ da cultura; o declínio da originalidade/genialidade do produtor artístico e a suposição de que a arte pode ser somente repetição.

No universo literário, Santos (2008, p. 57) exemplifica as ocorrências de intenções pós-

19 modernas na obra O Nome da Rosa de Umberto Eco. Nela é possível encontrar pontos antimodernos como: a volta ao passado (Itália Medieval), uso de um gênero de massa (romance policial), a intertextualidade (envolvendo a Poética de Aristóteles), o ecletismo (mistura do sério com o divertimento), a paródia (pastiche do romance histórico), e, principalmente, a progressiva desordem presente no mosteiro que termina em sua destruição. O autor destaca neste último ponto a similaridade com a situação atual da sociedade, na qual a decadência de valores, a não existência de sentido para a vida e para a História e a ameaça de destruição atômica fazem parte do cotidiano. Santos (2008, p. 58) destaca ainda a ideia de entropia, que está no coração da pós-modernidade e que se faz presente tanto na metaficção americana quanto no nouveau roman francês.
Entropia significa a perda crescente de energia pelo Universo (um sistema isolado, pois além dele só há o nada e ele não tem, assim, como receber energia de fora), até sua desagregação no caos, na máxima desordem. Essa idéia migrou da física e foi pousar na sociologia. Nas sociedades atuais tudo parece rolar para a confusão, sem valores sólidos, sem ordem que segure a barra (SANTOS, 2008, p. 58).

É justamente a ausência de valores um dos pontos mais relevantes a se destacar na sociedade quando se trata da transição do modernismo para o pós-modernismo. A sociedade passa, então, a viver numa lógica fluida, “líquida” (BAUMAN, 2007), buscando prazeres imediatos e estabelecendo relações vagas e passageiras, dependendo sempre do papel que o indivíduo esteja vivendo. Hall (2006) chama atenção para essa fragmentação da identidade. O sujeito pósmoderno possui agora não apenas uma, mas várias identidades, algumas vezes opostas ou não resolvidas. Essa fragmentação também é abordada como homem “multifacetado” ou “multidimensional”. Essas palavras são empregadas no sentido de se apontar que hoje se é, simultaneamente, funcionário, chefe, político, eleitor, motorista, passageiro, pedestre, pai, marido, cliente, professor, aluno, difusor e receptor de informações. Hall (2006, p. 13) afirma que à medida que os sistemas de significação e representação se multiplicam, mais são as identidades possíveis com as quais o indivíduo pode se identificar. Isso, somado ao fato de que “ligações frouxas e compromissos revogáveis” (BAUMAN, 2007, p.11) são os preceitos que orientam tudo ao que os indivíduos pósmodernos se apegam e se engajam, resultam no que Maffesoli (2006) denominou de neotribalismo.

20 O neotribalismo pode ser entendido como a tendência dos indivíduos de formarem grupos de interesses em comum. Maffesoli (2006, p. 130) afirma que o neotribalismo “sob as mais diversas formas, recusa-se a reconhecer-se em qualquer projeto político, não se inscreve em nenhuma finalidade e tem como única razão ser a preocupação com um presente vivido coletivamente”. Um dos papéis mais observados entre os estudiosos do pós-modernismo é o sujeito consumidor. Santos (2008, p.9) fala de um consumo personalizado que tenta levar o indivíduo isolado para a moral hedonista. O autor trata do shopping como o “altar da pós-modernidade”, mas hoje, nota-se também a transposição das lojas para o e-commerce, o comércio virtual. Dentre as seis características da pós-modernidade apontadas por Santos (2003, p. 117121), o consumismo está presente ao lado do hedonismo. Para o autor, o consumo é uma forma de diferenciação usada pelos indivíduos para se destacarem em meio a massificação imposta pela sociedade e pelos meios de comunicação. Bauman (2007, p. 17) mostra que o consumismo está imbricado no que ele chama de “vida líquida”. O autor afirma que ela:
Projeta o mundo e todos os seus fragmentos animados e inanimados como objetos de consumo, ou seja, que perdem a utilidade (e portanto o viço, a atração, o poder de sedução e o valor) enquanto são usados. Molda o julgamento e a avaliação de todos os fragmentos animados e inanimados do mundo segundo o padrão dos objetos de consumo.

A compulsão pelo consumo leva ao fenômeno do hedonismo, calcado no prazer de usar bens e serviços (SANTOS, 2008, p. 10). Flocker (2007) afirma que o hedonismo é uma doutrina voltada ao prazer e à felicidade, um estilo de vida de iluminação e gozo. Como visto, o hedonismo pode ser entendido como a busca do prazer e da felicidade utilizando para isso o consumo de bens e serviços tendo como consequência um estilo de vida que difere o indivíduo da massa. Essa busca pela felicidade sem preocupações ou embasamentos sólidos aponta para outra característica do pós-modernismo: o niilismo. Santos (2003, p. 119) pondera sobre o niilismo como consequência do esgotamento da expectativa. “Não se espera mais nenhuma criação original, pois já se esgotaram todas as possibilidades teóricas, estéticas e ideológicas”. A origem do termo é exposta por Santos (2008, p. 71): “Niilismo – da palavra latina nihil = nada – quer dizer desejo de nada, morte em vida, falta de valores para agir, descrença em um sentido para a existência”.

21 Essa descrença em um sentido para a existência somada à falta e expectativa e ao fato de que a realidade não supre mais os desejos do indivíduo resulta no simulacro, outra característica apontada por Santos (2003, p.120). O simulacro, para Santos (2003), corresponde ao mundo falso, representação da realidade, produzida de maneira cada vez mais sofisticada, que passa a atrair mais o indivíduo do que a própria realidade. Santos (2008, p. 12) indica que a sociedade pós-moderna prefere o simulacro à realidade porque “desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do ‘simulacro’ perfeito da realidade”. Dessa forma, pode-se entender o simulacro como uma representação do mundo real criada pelos meios de comunicação e principalmente pela Internet, na qual a fantasia e a realidade se confundem. No campo das ciências, as mudanças que mais se sobressaem são as relacionadas com a informática e o tratamento da informação4. Santos (2003, p. 118) destaca a “alta-tecnologia” como primeira característica da pós-modernidade. Segundo o autor, as inovações criadas possibilitam divulgar, armazenar, copiar, captar e produzir um elevado número de informação. Para ele, o pós-modernismo começou invadindo o cotidiano com a “tecnologia eletrônica de massa individual, visando à sua saturação com informações, diversões e serviços”. Ele afirma ainda que a tecnologia está programando cada vez mais o cotidiano das pessoas. As interferências causadas pelo avanço da tecnologia na sociedade são objeto de vários estudos que resultaram em conceitos como o de Sociedade Informacional (CASTELLS, 1999) e de Cibercultura (LÉVY, 1999; LEMOS 2004), os quais, devido a sua importância, serão analisados de forma mais detalhada.

2.2 Sociedade Informacional

Para que se compreenda como se deu o envolvimento da tecnologia na sociedade contemporânea é interessante que se faça um apanhado histórico desta relação.

4

Não estão sendo negligenciados aqui os avanços ocorridos nas ciências, como a codificação do DNA, por exemplo. Tais apontamentos apenas não aparecerão por não possuírem relação direta com os objetivos deste trabalho.

22 Considerada como a primeira revolução ocorrida na sociedade, a Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra, no século XVIII. Esta teve, como consequência, a substituição das grandes oficinas artesanais por indústrias e ferramentas manuais por máquinas a vapor. Lemos (2004, p. 46) afirma que:
O que chamamos de Revolução Industrial (RI) é o fenômeno observado na Inglaterra no meio do século XVIII: aquele que ocorre em torno de 1780 com a indústria têxtil (entre 1760-1780), a invenção da máquina a vapor (1969) e as primeiras aplicações industriais com a produção de ferro de boa qualidade (1780).

A segunda revolução deve sua existência principalmente ao uso da eletricidade, do motor a explosão, do petróleo e das indústrias de síntese química. Castells (1999, p. 71) afirma que esta segunda revolução acontecida cem anos depois da primeira se destaca pelo desenvolvimento da eletricidade, do motor de combustão interna, de produtos químicos com base científica, da fundição eficiente de aço e pelo início das tecnologias de comunicação, com a difusão do telégrafo e a invenção do telefone. “O uso difundido da eletricidade a partir de 1870 mudou os transportes, telégrafos, iluminação e, não menos importante, o trabalho nas fábricas mediante a difusão de energia na forma de motores elétricos” (CASTELLS, 1999, p. 75). A terceira revolução, por sua vez, é denominada Revolução da Tecnologia da Informação, ou simplesmente, Revolução Informacional. Essa revolução altera a lógica social, que passa a se basear em um novo paradigma, caracterizado pela difusão da informação em rede. Cabe aqui usar os ensinamentos de Castells para definir a tecnologia da informação:
Como tecnologia, entendo, em linha direta com Harvey Brooks e Daniel Bell, ‘o uso de conhecimentos científicos para especificar as vias de se fazerem as coisas de uma maneira reproduzível’. Entre as tecnologias da informação, incluo, como todos, o conjunto convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware), telecomunicações/radiodifusão, e optoeletrônica5 (CASTELLS, 1999, p. 67, grifos do autor)6.

Santos (2006) lembra que diversos observadores e teóricos, entre eles Rosnay (apud SANTOS, 2006) e Lojkine (apud SANTOS, 2006), afirmam que hoje se presencia a chamada revolução informacional, que partindo da retroalimentação e da sinergia de uma série de tecnologias, constitui o que Castells (1999) chama de “era da informação e do conhecimento”.
5 6

Transmissão de dados por fibra ótica e laser. O autor considera, ainda, como tecnologia da informação a engenharia genética e seu crescente conjunto de desenvolvimentos e aplicações (CASTELLS, 1999, p. 67).

23 Castells (1999) faz uma importante distinção analítica das noções de “sociedade da informação” e “sociedade informacional”. Para o autor o termo sociedade da informação dá ênfase ao papel da informação na sociedade, que em sentido amplo seria, por exemplo, a comunicação de conhecimento, o que é crucial para qualquer sociedade. Por outro lado, o termo sociedade informacional indica:
[...] um atributo de uma forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas surgidas nesse período histórico (CASTELLS, 1999, p. 65).

A intenção do autor é fazer um paralelo entre a distinção de indústria e industrial. Ele ressalta que uma sociedade industrial não é apenas uma sociedade que tem indústrias, mas uma sociedade na qual as formas sociais e tecnológicas de informação afetam todas as esferas das atividades sociais. Lemos e Costa (2007) afirmam que o termo “sociedade da informação”, apesar de ser impreciso e de caráter ideológico, tem como objetivo descrever as novas configurações socioculturais impulsionadas pela convergência tecnológica, iniciadas na década de 1970 e consolidadas nos anos 90, entre a informática, as telecomunicações e os diversos setores produtivos. Segundo eles, o que está em jogo nessa sociedade é “a emergência de tecnologias de base digital e o surgimento de redes telemáticas em interface com a cultura contemporânea” (LEMOS; COSTA, 2007, p. 36). Como resume Gontijo (2004) essa revolução tornou o saber, antes disponível no universo dos átomos e moléculas, acessível e difundido no universo dos dígitos. “O que antes era papel, tinta, vinil, acetato e celulóide, atualmente, no mundo virtual, tem a mesma natureza: a ‘salada’ ou ‘farofa’ de zeros e uns” (GONTIJO, 2004, p. 433) 7. Para explicar esse novo paradigma, sob o qual vive a sociedade informacional, Castells (1999) aponta cinco características inerentes a ele. A primeira delas é que a informação é sua matéria-prima. São tecnologias para agir sobre a informação, e não simplesmente informação para agir sobre a tecnologia, como aconteceu nas revoluções tecnológicas anteriores. O segundo ponto alude sobre a penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias. Como a informação é integrante de toda atividade humana, todos os processos da existência individual e coletiva são diretamente moldados pelo novo meio tecnológico.
7

O desenvolvimento desta revolução será abordado sobre uma visão mais técnica no item 3.1, no qual será mostrada a evolução do chip, do computador e da Internet.

24 O terceiro aspecto refere-se à lógica em redes em qualquer sistema ou conjunto de relações que use essas novas tecnologias da informação. A topologia em rede está adaptada à complexidade dos modelos de interação. Essa configuração pode ser, agora, implementada em todos os tipos de processos e organizações devido às recentes tecnologias da informação. Como ressalta Kelly (apud CASTELLS, 1999, p. 118): “[...] uma pluralidade de componentes realmente divergentes só pode manter-se coerente em uma rede. Nenhum outro esquema – cadeia, pirâmide, árvore, círculo, eixo – consegue conter uma diversidade funcionando como um todo”. A quarta característica, apesar de referir-se ao sistema de rede, diz que o paradigma tecnológico da informação é baseado na flexibilidade. Os processos são reversíveis e as organizações podem ser modificadas. “O que distingue a configuração do novo paradigma tecnológico é sua capacidade de reconfiguração, um aspecto decisivo em uma sociedade caracterizada por constante mudança e fluidez organizacional” (CASTELLS, 1999, p. 109). A quinta característica apontada por Castells (1999) é a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, na qual trajetórias tecnológicas antigas ficam impossíveis de se distinguir em separado. “Assim, a microeletrônica, as telecomunicações, a optoeletrônica e os computadores são todos integrados nos sistemas de informação” (CASTELLS, 1999, p. 109). Essa convergência tecnológica é apontada por Dizard Júnior (2000) como responsável por uma alteração do sistema convencional de mídia de massa (jornais, revistas, rádio e televisão) passando para uma lógica de produção, armazenamento e distribuição de informação e entretenimento estruturada em computadores e, consequentemente, em redes. Neste contexto de convergência tecnológica, surgem discussões no campo das ciências humanas e sociais a respeito do que é chamado de determinismo tecnológico. Como afirma Lima (2001), essa é atualmente a teoria mais popular sobre a relação entre tecnologia e sociedade. “Ela tenta explicar os fenômenos sociais de acordo com um fator principal, no caso a tecnologia” (LIMA, 2001, p. 4). Segundo essa teoria, os avanços em tecnologias determinariam os avanços da sociedade. Sobre o assunto, Castells (1999, p. 43) afirma que:
É claro que a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervêm no processo de descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma

25
que o resultado final depende de um complexo padrão interativo. Na verdade, o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia ‘é’ a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.

Entende-se, dessa forma, que a tecnologia não é boa, nem ruim e nem neutra. Apesar de não necessariamente determinar a sociedade, ela traz consigo diversas mudanças nas várias esferas sociais. O avanço tecnológico contemporâneo está transformando costumes e modos de vida, diluindo fronteiras de tempo e espaço, alterando a sociedade e, consequentemente, a cultura que passa a ser denominada por alguns autores como cibercultura.

2.3 Cibercultura: Uma Breve Visão

Como visto, o desenvolvimento da tecnologia a partir da década de 1970 e sua posterior apropriação por parte da sociedade está alterando os preceitos modernos e a lógica social, a qual passa a basear-se em um novo paradigma centrado no uso dessas novas tecnologias. Para Lemos (2004, p. 52), o desenvolvimento tecnológico sempre esteve imerso no imaginário social. Ao fazer uma contextualização histórica, o autor afirma que a história do desenvolvimento tecnológico pode ser pensada em três grandes fases. A primeira delas é a fase da indiferença, que durou até a Idade Média e é caracterizada pela mistura de arte, religião, ciência e mito, na qual a sociedade vivia um todo coerente em torno de um universo sagrado. Depois, veio a fase do conforto, localizada no início da modernidade. Nela, a ciência substitui a religião no monopólio da verdade, a razão se torna a norma que dirige o progresso, e a ideologia atua como promessa de transformação e controle da vida social. A última fase é a fase da ubiquidade, também chamada de fase da comunicação e da informação digital. É o fim da fase do conforto. O surgimento da tecnologia digital permite a quebra de barreiras de tempo e de espaço. Além de poluição, caos urbano, desigualdades sociais, drogas e outras mazelas há espaço também para a telepresença, os mundos virtuais (simulacro), e, como visto anteriormente, para o consumismo, o hedonismo e o neotribalismo. É essa, portanto, a fase da cibercultura. A cibercultura pode ser conceituada como a “forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que

26 surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 70” (LEMOS, 2003, p. 11). Vive-se hoje a cibercultura. São muitos os exemplos dessa reconfiguração sociocultural eminente depois dos anos de 1970, tais como: Internet banking, voto eletrônico, netbooks, celular e tecnologia 3G (os maiores exemplos de convergência entre microinformática e telecomunicações). As gerações de hoje se adaptam facilmente as novidades tecnológicas, mas o princípio dessa evolução se deu há algumas décadas atrás. Segundo Lemos (2007), o desenvolvimento tecnológico deve muito de sua existência a cultura cyberpunk. Ela cria a microinformática com os punks da informática alimentados pelas noções de despesa, de apropriação e desvio. O movimento punk surge na Inglaterra, explodindo em 1977, mesmo ano do Jubileu de prata da rainha Elisabeth II, tendo como mote principal o “faça você mesmo”, e ganha expressões na música, na literatura e na moda (BIVAR, 2006).
A cultura eletrônica contemporânea, a cibercultura, herda essa atitude em diversas formas de suas expressões atuais como blogs, hacking, softwares livres, games, redes p2p... Na cibercultura, a máxima é ‘a informação quer ser livre’, ‘distribua, reutilize, misture conteúdo’, ‘crie, edite e divulgue informações’ (LEMOS, 2007, p.2, grifos do autor).

Os desdobramentos da atitude cyberpunk transformam a sociedade no sentido que essa passa a viver, o tempo todo, uma sensação de tempo real. Para Lemos (2003, p. 13), essa sensação é consequência da ubiquidade e da instantaneidade decorrentes da conectividade generalizada8. Nesse sentido, ele afirma que: “cada transformação midiática altera nossa percepção espaço temporal, chegando na contemporaneidade a vivenciarmos uma sensação de tempo real, imediato, ‘live’, e de abolição do espaço físico-geográfico”. Uma das consequências da cibercultura na sociedade é o que vem se chamando de cibercidades. Os projetos de cibercidades têm como objetivo principal usar o potencial das novas tecnologias de informação e comunicação (NTICs) para reaquecer e recuperar o interesse pelo espaço público, criar novas formas de relações comunitárias, ajudar a população na apropriação dessas novas tecnologias e dinamizar a participação política (LEMOS, 2003, p. 18). As mudanças no campo da política se dão, pelo menos, de duas formas distintas. A primeira se evidencia pelo controle exercido sobre os cidadãos no mundo digital. Câmeras de
8

A conexão generalizada está presente na segunda lei da cibercultura, a qual será apresentada ainda nesta seção.

27 vigilância, spams, monitoração de acesso a páginas na web, manutenção de banco de dados com informações pessoais, são alguns dos exemplos elencados por André Lemos (2003, p. 17) que instauram “um verdadeiro panopticom eletrônico”. A segunda forma se dá no uso das ferramentas de comunicação como a Internet, por exemplo, para se organizar movimentos políticos. Pessoas que realizam esse tipo de atividade estão sendo chamadas de ciberativistas. Para Gomes (2005, p. 5), “a democracia digital se apresenta como uma alternativa de uma nova experiência democrática fundada numa nova noção de democracia”. Alguns exemplos atuais que podem ser destacados é a campanha Ficha Limpa organizada pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral9 e a petição online contra a aprovação do projeto conhecido como “Lei Azeredo” ou “lei dos cibercrimes” 10. Da mesma forma que a pós-modernidade, a cibercultura também afetou o campo das artes. Os artistas agora se utilizam das novas tecnologias para criar uma arte aberta, rizomática e interativa (Lemos, 2003). Essas mudanças ocorridas na sociedade e na cultura encontram embasamento no que Lemos (2006b) chama de “as três leis da cibercultura” 11. A primeira delas é a liberação do pólo de emissão, cujo preceito está ligado às manifestações socioculturais contemporâneas, mostrando que o excesso de informação em circulação deve-se a possibilidade de expressão de vozes reprimidas pelos meios de comunicação de massa. “[...] Aqui a máxima é ‘tem tudo na internet’, ‘pode tudo na internet’” (LEMOS, 2006a, p.54). A segunda lei fala sobre o princípio em rede. Aqui o lema é “a rede está em todo lugar”. Essa segunda lei também é conhecida como princípio da conexão generalizada. Segundo Lemos (2006a), ela tem início com a transformação do computador pessoal (1970) em computador coletivo (com o surgimento e popularização da Internet nas décadas de 1980 e 1990) e no atual computador coletivo móvel (surgido na era da ubiquidade12 e da computação pervasiva13 do início do século XXI, com a exploração dos celulares e das redes Wi-Fi). “Tudo comunica e tudo está em rede: pessoas, máquinas, objetos, monumentos, cidades” (LEMOS, 2006a).

9

Cf. <http://www.mcce.org.br/>. Cf. <http://www.petitiononline.com/veto2008/petition.html>. 11 No original: Les trois lois de la cybercuture (LEMOS, 2006b). 12 O termo ubiquidade pode ser entendido como a capacidade de estar em vários locais ao mesmo tempo. 13 Computação pervasiva prevê a transparência na interação entre homem e máquina.
10

28 A terceira lei está relacionada com a reconfiguração cultural. A máxima desta lei é “tudo muda, mas nem tanto”. Deve-se evitar a lógica da substituição ou da destruição nas diversas formas de expressão da cibercultura. O que acontece é a reconfiguração de práticas e modelos midiáticos sem necessariamente substituí-los. Lemos (2006a, p. 55) afirma que:
O que chamamos aqui de reconfiguração encontra eco na idéia de “remediação” (remediation) de Bolter e Grusin (2002). A idéia de reconfiguração vai, entretanto, além da remediação de um meio sobre o outro (por exemplo o cinema nos jogos eletrônicos e vice-versa). Por reconfiguração compreendemos a idéia de remediação, mas também a de modificação das estruturas sociais, das instituições e das práticas comunicacionais.

Seguindo os preceitos dessas três leis, outra forma de expressão que se desenvolve é a cultura do copyleft. Ela surge em oposição aos princípios capitalistas de noção de autor e obra sobre bens tangíveis e intangíveis. Segundo Lemos (2006a), a lógica do copyright permanece estável até meados do século XX, quando os artistas passam a usar referências a trabalhos de outros artistas no processo de criação (o que remete a ideia de pastiche vista anteriormente). Manifestações dessa filosofia podem ser encontradas nas licenças GPL (General Public License - Licença Pública Geral) dos programas de código aberto. Outra forma é o uso da licença Creative Commons14, na qual o autor da obra define, antes de divulgá-la, quais os usos que poderão ser feitos dela. Exemplificando: um autor de um livro, ao escrevê-lo, decide que ele poderá ser copiado e distribuído livremente, desde que se façam os devidos créditos autorais. A Creative Commons pode prever também o desenvolvimento da obra por parte do público ao qual ela se destina15. Podem-se notar ainda mudanças ocorridas nas práticas comunicacionais bem como nas relações sociais. Dentre as novidades na comunicação, uma das ferramentas que mais se destacaram foi o e-mail, ou correio eletrônico, o qual, levando-se em conta a terceira lei exposta anteriormente, alterou a lógica dos correios e conectou todo o globo em uma forma de comunicação instantânea e, na maioria das vezes, gratuita. Além do e-mail, outras novas formas de comunicação são as salas de bate-papo, os fóruns e grupos de discussão, e os comunicadores instantâneos, também conhecidos como Instant Messenger (IM).

14 15

Cf. <http://creativecommons.org/>. A ideia da licença Creative Commons pode ser entendida assistindo-se ao vídeo Get Criative disponível no endereço eletrônico: <http://creativecommons.org/videos/get-creative>.

29 A cibercultura ampliou também as formas tradicionais de comunicação: o jornalismo online, as rádios e televisões web, as revistas eletrônicas e sites de informação, são os exemplos ressaltados por Lemos (2003, p. 5) aos quais poderia ser adicionando o que vem se chamando de jornalismo participativo ou jornalismo cidadão e o advento das versões digitais de livros, os e-books. Sobre este assunto Lemos (2003, p.5) argumenta que:
Trata-se aqui da migração dos formatos, da lógica da reconfiguração e não do aniquilamento de formas anteriores. Não é transposição e não é aniquilação. Estamos mais uma vez diante da liberação do pólo da emissão, do surgimento de uma comunicação bidirecional sem controle de conteúdo. E novos instrumentos surgem a cada dia…

Com relação às novas práticas de relações sociais, Lemos (2003) ressalta que a cibercultura está recheada de possibilidades de se relacionar com o outro e com o mundo, mas que, assim como as formas de comunicação citadas acima, não se trata aqui de substituição das formas de relação social já estabelecidas, como o face a face, telefone, correio, espaço público. Primo (2007c) criou um mapa mental da cibercultura que resume os principais tópicos relacionados ao assunto (ver Figura 1). O autor propõe a divisão da cibercultura em cinco grandes ramificações. A primeira delas, denominada “condições tecno-sociais”, já teve os tópicos mais relevantes para este trabalho apresentados anteriormente (fases do desenvolvimento tecnológico; sujeito fragmentado; tribalismo; hedonismo). O mesmo se aplica a segunda ramificação: “fundamentos” (copyright, copyleft, creative commons; ciberpunk). O próximo ponto ele denominou de “problemas”. O primeiro problema proposto por Primo é a dependência. Segundo Rocha et al. (2003), a informática está se tornando tão presente na vida das pessoas que elas nem percebem o quanto estão dependentes e, da mesma forma, expostas. Hoje em dia a vida cívica/social de um indivíduo começa fazendo-se o registro de nascimento, passa pela carteira de identidade (RG), cadastro de pessoa física (CPF), carteira de motorista (CNH), além do registro junto às forças armadas e as declarações de imposto de renda (ROCHA et al., 2003). Apesar dos autores destacarem apenas os registros oficiais, é importante lembrar os registros em lojas virtuais, sites de relacionamento, grupos de discussão, blogs, entre outros.

30

Fonte: PRIMO, 2007c.

Figura 1 – Mapa Mental da Cibercultura Tais apontamentos remetem a outros problemas como dominação e controle destas informações por parte de quem as detém e exploração e vigilância por parte de quem as deseja, para qualquer que seja o fim. Além disso, a dominação/controle também pode ocorrer quando existem relações de poder (como visto anteriormente com relação à política na cibercultura): quando o pai decide dar um celular pré-pago ao filho, está exercendo controle e dominação sobre as ligações; quando uma empresa proíbe o acesso a determinados sites, está também exercendo controle e dominação de seus empregados. Ainda com relação à dependência, há a chamada dependência de Internet, que se manifesta como uma inabilidade do indivíduo em controlar o uso e o envolvimento crescente com a Internet e com os assuntos afins, que por sua vez conduzem a uma perda progressiva de controle e aumento do desconforto emocional 16. Com relação às informações duvidosas Primo (2007a, 2007b) lembra que não é só na Internet que ocorre divulgação de conteúdo errôneo. A mídia tradicional também comete deslizes na publicação. Entretanto, o autor ressalta que na Internet o que conta muito é a reputação, mais do que a credibilidade. A página (ou o blog, alvo da discussão de Primo) deve
16

Cf.: <http://www.dependenciadeinternet.com.br>. Acesso em: 29 ago. 2009.

31 manter-se fiel ao seu fundamento. Ele argumenta que não se pode cobrar credibilidade de um blog humorístico, por exemplo, no entanto, ele precisa ter reputação junto à sua audiência, por menor que ela seja. Quanto ao isolamento e a sobrecarga cognitiva, Wolton (2007, p. 104) faz uma crítica ao que ele denominou de “solidões interativas”. O autor observa que exímios internautas e também estudantes de informática e computação se dão muito bem com computadores, mas que por outro lado não se relacionam bem com pessoas. Wolton critica também as pessoas que têm obsessão (ou dependência) por conexão:
Milhares de indivíduos saem assim, celular à mão, correio eletrônico conectado e a secretária eletrônica ligada como última medida de segurança! Como se tudo fosse urgente e importante, como se fosse morrer caso não pudesse ser encontrado a qualquer instante.

Com relação a esses problemas, Lemos (2003, p. 16) ressalta que é preciso analisar com cuidado as relações online, pois estas guardam similitudes com as relações de proximidade tipo face a face. Segundo o autor, essas aproximações se dão por que:
[...] desempenhamos todos papéis diferentes em diferentes situações sociais e, nesse sentido, a relação com o outro é sempre complexa e problemática, na rede e fora dela. No fundo, todo o conflito está na contradição entre sermos em função do outro (‘Je est un autre’17 - Rimbaud) e delegar ao outro nossa (sic) mazelas e problemas (‘L’enfer c’est l’autre’18 - Sartre).

Neste sentido, pode-se afirmar que é necessário estar atento à potência da Internet, haja vista que o maior uso da rede hoje é para a busca efetiva de conexão social (e-mail, listas, fóruns, blogs, entre outros). A quarta ramificação proposta por Primo (2007c) é denominada “redes sociais”. Segundo Recuero (2009, p. 24), uma rede social pode ser definida como um conjunto de dois elementos: atores e suas conexões. Os atores são os nós da rede, as pessoas, instituições ou grupos. As conexões são as interações e os laços sociais existentes entre os atores. Como afirma a autora, a rede é uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo, a partir das conexões estabelecidas entre os atores deste grupo. “A abordagem de rede tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões”. Dentre as subdivisões propostas por Primo para esta ramificação destaca-se, além da
17 18

Em vernáculo: Eu é outro. Em vernáculo: O inferno é o outro.

32 ideia de sociedade em rede tratada na subseção anterior, a evolução da web 1.0 para a web 2.0. A principal diferença entre as duas é que a primeira tem um caráter de publicação, ou seja, o conteúdo está ali apenas para ser lido. Já com a passagem para web 2.0, o foco voltouse a participação do leitor/internauta na produção de conteúdo. Os blogs e suas variações são o tópico relacionado à web 2.0 mais relevante para este trabalho, no entanto, antes de se tratar deste assunto, faz-se necessária uma observação na última ramificação proposta por Primo (2007c): o “ciberespaço”, da qual a Internet e sua interface são as subdivisões mais importantes.

33 3 O CIBERESPAÇO E SEU USO COMO FERRAMENTA DE COMUNICAÇÃO

Depois de apresentadas as características inerentes à sociedade contemporânea, e ainda com base no mapa mental proposto por Primo (2007c), buscar-se-á, nesta seção, primeiramente, apresentar de forma resumida o ciberespaço e sua contextualização histórica. Em seguida, será dado enfoque ao uso do ciberespaço como ferramenta de comunicação. A forma de comunicação escolhida foi o blog, principalmente, por possuir um número cada vez maior de adeptos, inclusive empresas, órgãos públicos e veículos de comunicação. Por último, será descrita a variação de blog denominada microblog, caracterizada pela restrição no tamanho das atualizações. Esta seção trará informações importantes para que se compreenda o Twitter, o objeto de estudo deste trabalho, um exemplo de microblog.

3.1 Do Chip ao Ciberespaço

A Internet, como é conhecida hoje, só se tornou possível graças a uma série de evoluções que vieram acontecendo desde os anos de 1940. Como lembra Castells (1999, p. 76), foi durante a Segunda Guerra Mundial e no período seguinte que ocorreram as principais descobertas tecnológicas no campo da eletrônica. No entanto, o autor defende que: “de fato, só na década de 1970 as novas tecnologias da informação difundiram-se amplamente, acelerando seu desenvolvimento sinérgico e convergindo em um novo paradigma”. Pode-se dizer que o passo inicial desta sequência evolutiva aconteceu com a invenção do transistor, em 1947. Porém, o passo mais importante da microeletrônica foi dado em 1957 com a invenção do circuito integrado (CI). Já no campo da informática a história começa em 1946 com o ENIAC (Electrical Numerical Integrator and Calculator), o primeiro computador para uso geral. “Os historiadores lembram que o primeiro computador eletrônico pesava 30 toneladas, foi construído sobre estruturas metálicas com 2,75 m de altura, tinha 70 mil resistores e 18 mil válvulas a vácuo e ocupava a área de um ginásio esportivo” (CASTELLS, 1999, p. 78-79).

34 Nesse contexto de desenvolvimento, Castells (1999, p. 79) ressalta que a microeletrônica acarretou uma revolução dentro da revolução, causada pela invenção do microprocessador, em 1971. Logo em 1975 foi criado o Altair, o primeiro microcomputador, que serviu de inspiração para a criação do Apple I, o primeiro microcomputador pessoal e, posteriormente, o Apple II o primeiro sucesso comercial. Lemos (2004) lembra que a contracultura americana na década de 1970 teve grande importância para o desenvolvimento tecnológico, e que ela ocorreu em grande parte nas garagens dos estudantes universitários da Califórnia, como foi o caso da empresa Apple. Resumindo o início da microinformática, Lemos (2004, p. 101-102) afirma que sua formação deve-se ao desenvolvimento de domínios científicos a partir dos anos de 1940:
a cibernética (1948), a inteligência artificial (1956), a teoria da autoorganização e de sistemas (dos anos 60), a tecnologia da comunicação de massa (rádio, televisão e telefone) e a telemática (de 1950). Os primeiros passos no tratamento automático da informação foram dados entre 1940 e 1960. Aqui os princípios essenciais e as inovações estratégicas são influenciadas fortemente pela cibernética. O segundo, de 1960 a 1970, caracteriza-se por sistemas centralizados ligados às universidades e à pesquisa militar (os minicomputadores) e o terceiro, de 1970 aos nossos dias, com o surgimento dos microcomputadores e das redes telemáticas.

Sobre esse ritmo acelerado de evolução cabe expor o conceito da Lei de Moore, o qual, segundo Silveira (2003, p. 24), quando ainda era presidente da Intel, “sentenciou que a cada 18 meses os microchips dobram seu desempenho pelo mesmo preço”. Importante lembrar que, apesar do grande destaque dado ao hardware pela literatura sobre a evolução tecnológica, tal evolução é consequência de softwares mais desenvolvidos e robustos, os quais necessitam de capacidade de processamento cada vez maior. Apesar de ter se desenvolvido nas universidades americanas, o projeto de se criar uma rede interligando vários pontos do país só foi possível graças ao financiamento militar. Segundo Castells (2003, p. 13), as origens da Internet podem ser encontradas na Arpanet, “uma rede de computadores montada pela Advanced Research Projects Agency (ARPA) em setembro de 1969”. Ainda segundo o autor, essa agência foi criada em 1958 para financiar pesquisas com o objetivo de alcançar a superioridade tecnológica militar em relação à União Soviética, na esteira do lançamento do primeiro Sputnik, em 1957. O projeto que começou modesto, ligando apenas quatro computadores, em dois anos já contava com quinze computadores interconectados. Em 1983, o Departamento de Defesa separou a Milnet da Arpa-Internet. A

35 primeira com fins militares e a segunda voltada à pesquisa. Segundo Pinho (2003), os criadores da Arpanet tinham preocupação com ataques nucleares e por isso desenvolveram a rede levando-se em conta duas características principais. A comunicação não-hierárquica, a qual descentralizava as informações do Pentágono e a comutação por pacotes, que previa a comunicação entre todos os nós da rede sem uma rota específica. Com o intuito de padronizar a comunicação entre os dispositivos ligados à rede, foram inventados os protocolos TCP/IP (Transmission Control Protocol / Internet Protocol), padrões que continuam operando até hoje. “Ao TCP cabia dividir mensagens em pacotes de um lado e recompô-los do outro. Ao IP cabia descobrir o caminho adequado entre o remetente e o destinatário e enviar os pacotes” (PINHO, 2003, p. 27). Pinho (2003, p. 28) lembra que, em 1983, para se conectar à rede era preciso ter conhecimento prévio do endereço de rede que se iria usar, mas como o TCP/IP permitia quatro bilhões de combinações, era praticamente impossível controlar tantos endereços. Tal problema foi resolvido com a criação de um servidor DNS (Domain Name System), que passou a controlar os endereços IP e os respectivos nomes das máquinas relacionadas a eles. Com relação ao Brasil, Pinho (2003, p. 30) afirma que em 1988 foram formados alguns embriões independentes de rede que interligavam universidades e centros de pesquisa do Rio de Janeiro, São Paulo e do Rio Grande do Sul aos Estados Unidos. A invenção que possibilitou a entrada e a apropriação em massa da Internet foi a World Wide Web, a WWW, ou simplesmente web, em 1990. Pinho (2003) e Castells (2003) descrevem a web como um sistema de organização e compartilhamento da informação contida na rede. Segundo Pinho (2003, p. 33), o funcionamento deste sistema está baseado no modelo cliente-servidor e “tem como principais padrões o protocolo de comunicação HTTP, a linguagem de descrição de páginas HTML e o método de identificação de recursos URL”. Resumindo, o HTML (Hypertext Markup Language) é a linguagem padrão para escrita de documentos na Web. Eles podem conter vários tipos de arquivo como texto, fotos, sons e vídeos. O HTTP (Hypertext Transport Protocol) é o protocolo que define como se dá a interação entre cliente e servidor e como a informação será transportada. O URL (Uniform Resource Locator) é o método de localização que permite que um cliente encontre o host onde está o serviço que ele procura. A união destes três protocolos se dá nos navegadores, ou browsers. O primeiro

36 navegador para web foi lançado em agosto de 1991 (CASTELLS, 2003, p. 18). O primeiro navegador comercial foi Netscape Navigator, que logo encontrou concorrência com o Internet Explorer, da Microsoft, a qual em uma excelente jogada comercial, passou a vender o sistema operacional Windows já com o navegador incluso. A briga comercial, no entanto, está perdendo força, em parte pela lógica do copyleft vista anteriormente. Hoje, existem muitos navegadores gratuitos, como o Google Chrome e o Mozilla Firefox. A web se desenvolveu tão rapidamente que hoje ela é “provavelmente a parte mais importante da Internet e, para muitas pessoas, a única parte que elas usam, um sinônimo mesmo de Internet” (PINHO, 2003, p. 33). Como visto anteriormente, Primo (2007c) separa em seu mapa mental a Internet de sua interface (a web). Ambas, Internet e web, mais a realidade virtual, a telepresença e os agentes de inteligência artificial vão formar o ciberespaço. O conceito de ciberespaço parece ser mais abstrato do que a tecnicidade inerente ao termo Internet. Segundo Braga (2005, p. 125), “o ciberespaço pode ser caracterizado por três de suas principais propriedades: a interface, a interatividade e a rede de informações”. Lemos (2004, p. 123) define o ciberespaço como “um hipertexto mundial interativo onde cada um pode adicionar, retirar e modificar partes dessa estrutura telemática, como um texto vivo, um organismo auto-organizante, um cybionte em curso de concretização”. Já Lévy (1999, p. 92) afirma que o ciberespaço é um “espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial de computadores e das memórias dos computadores” (grifos do autor). Lévy (1999) enumera algumas mudanças com relação às técnicas de comunicação proporcionadas pelo ciberespaço, dos quais se pode destacar o acesso à distância à informação contida nos bancos de dados, a transferência de arquivos entre computadores e o correio eletrônico. Ao contrário de Lévy (1999), DeFleur e Ball-Rokeach (1993) não veem vantagens do ciberespaço mediante a telefonia convencional. Para os autores:
[...] Sob muitos aspectos, ter pessoas batucando mensagens umas para as outras através de computadores domésticos apresentaria poucas vantagens sobre a rede telefônica que já dispomos. [...] para o usuário eventual, que redige mensagens para saudar parentes, tagarelar, marcar um encontro, ou indagar acerca do preço da borracha, uma rede imensa pareceria ter poucas vantagens com relação à telefônica já existente (DEFLEUR; BALLROKEACH, 1993, p. 356).

37 Os apontamentos feitos por DeFleur e Ball-Rokeach (1993) parecem ter sido ultrapassados pelo grande número de usuários da Internet. Lévy (1999, p. 93), no entanto, apresenta uma afirmação mais real do uso da rede: “[...] a perspectiva da digitalização geral das informações provavelmente tornará o ciberespaço o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade a partir do início do próximo século”. Lévy (1999, p. 167) afirmou ainda acreditar que o ciberespaço se tornaria “o principal equipamento coletivo internacional de memória, pensamento e comunicação”. Previsões que parecerem estar corretas considerando que:
Uma das características da sociedade contemporânea diz respeito ao fato de que as organizações sociais e instituições de todos os tipos (comerciais, educacionais, jurídicas, financeiras, políticas, etc.) têm, agora, extensões no ciberespaço (LEMOS; RIGITANO; COSTA, 2007, p. 16).

O ciberespaço é também um local para a divulgação livre de informação (primeira lei da cibercultura) e o principal fenômeno desta atividade hoje são os blogs que, juntos, formam o que vem se chamando de blogosfera.

3.2 Blogs e a Composição da Blogosfera

A blogosfera é o espaço conceitual, porém não geográfico, no qual os blogueiros se relacionam e onde se localizam os blogs e toda a informação relativa a eles, como comentários, blogroll e trackback, termos que serão explorados mais adiante. Para Orihuela (2007a, p. 8), a blogosfera “é um sistema complexo, auto-regulado, extraordinariamente dinâmico e especialmente perceptível a informação que produz os meios tradicionais”. Como visto na subseção 3.1, a World Wide Web começou a operar em 1990. Logo depois começa a história dos blogs. Alguns autores (ORIHUELA, 2007a; ZAGO, 2008; AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009) afirmam que o blog foi a primeira estrutura de website, baseados no fato de o primeiro site criado na web ter sido justamente um portal que reunia links para as páginas recém-criadas19. Foi dessa forma, então, que surgiu a ideia inicial dos blogs, que é a de reunir links para outros sites, geralmente com algum texto orientando o leitor. Recuero (2003b) ressalta que os
19

Este site era mantido por Tim Berners-Lee, criador da web, e pode ser visto no endereço: <http://www.w3.org/History/19921103-hypertext/hypertext/WWW/News/9201.html>.

38 blogs no início funcionavam como filtros de conteúdo e que eram basicamente compostos por links e dicas de websites pouco conhecidos. A ideia de blogs como diários íntimos (LEMOS, 2002; CARVALHO, 2001) só veio surgir depois, mas mesmo assim com muita intensidade. “Esses blogs eram utilizados como espaços de expressão pessoal, publicação de relatos, experiências e pensamentos do autor” (AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009, p. 29). “Ciberdiários, webdiários ou weblogs são práticas contemporâneas de escrita online, onde usuários comuns escrevem sobre suas vidas privadas, sobre suas áreas de interesse pessoais ou sobre outros aspectos da cultura contemporânea” (LEMOS, 2002, p. 3). Segundo Carvalho (2001, p. 234), em 1994, um grupo de usuários iniciava um ritual que passou a ficar cada vez mais constante: “construir uma home page pessoal e nela, diariamente, depositar o diário ou jornal íntimo on-line” (grifo do autor). Orihuela (2007a) ressalta que, em 1999, o site The Page of only weblogs identificava apenas 23 blogs. Número que cresceu devido o advento dos Content Management System (sistema de gerenciamento de conteúdo), também conhecidos pela sigla CMS. Como lembra Antúnez (2007), antes de os CMS surgirem, só existiam sistemas complexos voltados para pessoas com conhecimento em programação, principalmente em linguagem HTML. No entanto, em 1999, surgiram os primeiros serviços para blogs que uniam CMS e hospedagem gratuita. “É o fim dos blogs administrados artesanalmente com editores ‘What You See Is What You Got’ (WYSIWYG), como Dreamweaver e FrontPage”. (ANTÚNEZ, 2007, p. 22) Antúnez (2007) separa os CMS em dois grupos. No primeiro, considerados os pioneiros, estão o LiveJournal20, o Pitas21 e o Blogger22. Os que ele chamou de segunda geração, por serem mais bem apresentados e sofisticados que os anteriores, são: Movable Type23, o Typepad24, o WordPress25 e do lado hispânico o Blogia26 e o Bitacorae27. Conforme o número de adeptos dessa atividade foi aumentando esses usuários, também
20 21

Cf. <http://www.livejournal.com/>. Cf. <http://www.pitas.com/>. 22 Cf. <https://www.blogger.com/start>. 23 Cf. <http://www.movabletype.org/>. 24 Cf. <http://www.typepad.com/>. 25 Cf. <http://pt-br.wordpress.com/>. 26 Cf. <http://www.blogia.com/>. 27 Segundo Antúnez (2007) o serviço Bitacorae foi descontinuado e já se encontrava fora do ar em novembro de 2006.

39 chamado blogueiros, começar a interagir entre si. Eles passaram a citar links para páginas já conhecidas e foram assim criando círculos relacionais ou webrings como propõe Recuero (2003a). O termo weblog foi cunhado por Jorn Barger em dezembro de 1997 em sua página pessoal. Para Barger (apud LEMOS, 2002, p. 3), weblog é uma página na qual o blogueiro (weblogger) registra páginas que ache interessante. Segundo o autor, o formato é frequentemente apresentado em ordem cronológica, com as entradas mais recentes no topo da página. Os blogs possuem certas características que os distinguem de outras formas de publicação na web. A que mais se sobressai são as entradas de conteúdo em ordem cronológica inversa, na qual os posts mais recentes se sobrepõem aos mais antigos. O blogroll, outro elemento presente, é uma lista para outros sites, geralmente outros blogs, que o autor mantém como indicação para seus leitores/comentaristas. O blogroll ajuda também na constituição do webring, visto anteriormente. Junto com o blogroll, outra ferramenta que ajuda a manter este círculo relacional é o trackback, o qual funciona indicando ao autor quantos e quem utilizou links para seus posts. A interatividade é outra característica marcante nos blogs proporcionada, em grande parte pela caixa de comentários. Primo (2008, p. 132) afirma que, com a incorporação desta ferramenta, os blogs se transformaram em locais para discussão dos mais diversos assuntos. Segundo ele, “nessas janelas que se abrem para a discussão, não se responde apenas ao responsável pela página. Um verdadeiro debate de fato passa a ocorrer entre os visitantes diários.” O autor ressalta ainda que, antes do uso da caixa de comentários, os blogs permitiam aos usuários apenas uma interação reativa, na qual havia certa previsibilidade dos conteúdos, tendo em vista que apenas uma pessoa era a fonte da informação, e que hoje eles são locais onde acontecem interações mútuas, caracterizadas pela possibilidade de construção do debate. Orihuela (2007a, p. 6) afirma que, além da interatividade, outras características que configuram o potencial comunicativo da Internet e que estão sendo apropriados pelos blogs são a hipertextualidade e a multimidialidade. Com base em Palacios et al. (2002) a hipertextualidade pode ser compreendida como a escrita apontando para outros textos explicativos ou complementares como fotos, vídeos, sons ou animações. A multimidialidade, por sua vez, tem como principal característica a união dos formatos midiáticos tradicionais

40 (texto, som e imagem estática ou em movimento) em uma plataforma convergente. Para Zago (2008), outra característica dos blogs é a informalidade, decorrente do fato de os blogs serem escritos de forma livre por um, ou um grupo restrito de autores. A autora destaca ainda o microconteúdo que está relacionado com o tipo de conteúdo produzido para a Internet, obedecendo às particularidades do meio. “Uma dessas particularidades é o fato de que essas porções de conteúdo podem ser acessadas na web fora de seu contexto original, o que torna importante se pensar em dados como título, links e tags que acompanham uma determinada informação” (ZAGO, 2008, p. 19-20, grifo do autor). Como última característica dos blogs, pode-se destacar a atualização frequente que, como lembra Zago (2008), é decorrente da entrada dos conteúdos em ordem cronológica inversa. Essas porções de conteúdo atualizado de tempos em tempos geralmente são acessíveis por um endereço fixo, também denominado permalink, ou link permanente. Pouco mais de uma década depois de Barger ter proposto o termo weblog, ainda são diversas as definições e conceitos classificatórios ligados a eles. Silva (2003) classifica os blogs entre individuais ou coletivos e temáticos ou livres. Primo e Smaniotto (2006) usam as terminologias blog/texto, blog/programa e blog/espaço. Recuero (2003b) classifica-os em diários, publicações, literários, clippings e mistos. Amaral, Recuero e Montardo (2009) propõem as definições: estrutural, funcional e artefatos culturais. Para Silva (2003), no blog individual somente o criador pode postar conteúdos. Desta forma, o blog representa uma parte da identidade de seu autor. O ponto principal aqui é que ele tem em mãos uma ferramenta para se expressar livremente, da forma que desejar. O blog coletivo, ao contrário, é mantido por um grupo de pessoas. O administrador controla quem pode ou não postar, e o conteúdo, em geral, gira em torno de um tema específico. Blogs com um tema específico são o que Silva (2003) denomina de blogs temáticos. Nesta categoria se enquadram os blogs jornalísticos, os corporativos, os blogs sobre política, ou sobre culinária, os blogs de celebridades e os blogs de base de conhecimento (knowledge blogs, ou klogs). Já os blogs livres, como o próprio nome já diz, são blogs sem a preocupação de se manter um tema. É o clássico espaço para que o autor coloque o que quiser: criações literárias, fotos, vídeos, fofocas, anotações, resenhas, enfim, qualquer conteúdo que desejar. Seguindo a classificação proposta por Primo e Smaniotto (2006), um blog/programa é a ferramenta usada para a publicação. O blog/espaço é o local no qual os blogueiros e

41 leitores/comentaristas interagem. O blog/texto é o conteúdo produzido no blog/espaço utilizando um blog/programa. Os autores propõem os seguintes exemplos para clarear as três acepções de blog: “a) como programa: ‘Parei de usar o Blogger. Instalei o Movable Type’; b) como espaço: ‘Não encontrei teu blog no Google. Qual o endereço dele?’; c) como texto: ‘Li ontem teu blog’” (PRIMO; SMANIOTTO, 2006, p. 231). Recuero (2003b) classifica os blogs em: a) weblogs diários: são como um diário pessoal no qual o autor expõe conteúdos principalmente relacionados à sua vida pessoal; b) weblogs publicações: destinam-se a informações geralmente de caráter opinativo. Buscam sempre o debate e a discussão, seja sobre um tema específico, seja sobre generalidades; c) weblogs literários: são blogs voltados a construir uma história ficcional, ou reunir crônicas, ou poesias, sempre com ambições literárias; d) weblogs clippings: são os filtros. Destinam-se a reunir links para conteúdos já publicados em outros locais; e) weblogs mistos: os blogs que misturam conteúdo pessoal com posts informativos, notícias, dicas, e comentários de acordo com a vontade do autor.

Amaral, Recuero e Montardo (2009) fazem uma revisão da literatura relacionada aos blogs e constatam que as definições dadas pelos autores podem ser classificadas em três grupos principais: os que definem blogs de uma forma estrutural, como sendo uma ferramenta com formato específico, facilmente distinguível de outras formas de publicação; os que indicam uma classificação funcional, levando em consideração que os blogs são ferramentas de comunicação; e os que veem os blogs com um olhar antropológico e etnográfico, considerando-os como artefatos culturais. Dessa forma, pode-se chegar ao conceito de blog como sendo uma ferramenta de comunicação online de fácil distinção e de autoria individual ou coletiva na qual o autor (ou autores) tem como principal vantagem a liberdade de construí-la de forma livre, limitando-se ou não a um tema ou atividade específica. Como visto, muitos são os usos e apropriações feitas dos blogs. Hoje, os blogs não se resumem à díade filtros e diários íntimos. Conforme a blogosfera se expande, mais maneiras diferentes de usá-los vão surgindo. Eles são espaços para criação literária, divulgação

42 audiovisual, discussões sobre política e inclusive para prática de jornalismo. Outro ponto que está em evolução são os formatos dos blogs que estão cada vez mais específicos. Os formatos dos blogs, apesar de poderem sofrer alteração ou redução das características vistas, mantêm sempre a entrada de conteúdo em ordem cronológica inversa. Segundo Zago (2008), o formato de um blog pode ser definido de acordo com a sua temática principal, com o tipo de texto predominante (escrito, som, foto ou vídeo) ou ainda pelo tipo de dispositivo usado para criá-lo. Quanto à temática, a autora assinala alguns exemplos, como os blogs sobre política, sobre viagens ou sobre tecnologia. Há ainda os blogs que tratam de assuntos como legislação (blawgs), os blogs de celebridades (celeblogs), os blogs sobre guerra (warblogs), blogs educativos ou de compartilhamento de conhecimento (klogs) e os spam blogs (splogs) “blogs criados com a finalidade de utilizar-se de conteúdo alheio produzido em outros blogs para adicionar anúncios publicitários e lucrar com a produção alheia” (ZAGO, 2008, p. 24). Com relação ao tipo de texto predominante existem os fotologs (flogs), usados para postagem de imagens e fotos; os audiologs nos quais predominam arquivos de áudio e os videologs (vlogs), voltados para a publicação de vídeos. Já os tumblelogs (tlogs), segundo Zago (2008, p. 25), são uma variação dos blogs que permitem cruzar diferentes tipos de mídia em um único espaço, em posts predominantemente curtos e com formatação predeterminada. Sobre essas variações, cabe destacar que Bruns (apud ZAGO, 2008, p. 24) alerta que não se deve confundir as variações no tipo de ferramenta com o conteúdo publicado:
Foto-, áudio, e videoblogging, assim como moblogging, são meramente variações no tema do blog que utilizam diferentes tecnologias, mas elas próprias não necessariamente levam a gêneros de conteúdo diferentes dos blogs – há a mesma chance para um moblog de assumir a forma de um diário pessoal como de ser usado para comentários aprofundados sobre notícias.

Os moblogs citados por Bruns são blogs adaptados para serem atualizados por dispositivos portáteis como PDA e celular, por exemplo. Essas atualizações podem ser feitas usando o serviço de envio de mensagem de texto (SMS) ou mesmo estabelecendo-se conexão com a Internet. Silva (2009) caracteriza o microblog como uma variação do moblog. Esse tipo de blog tem como fator predominante a limitação dos posts. Essa limitação é geralmente atrelada à

43 quantidade de caracteres, mas há outras formas como o micrografías28, destacado por Silva (2009, p. 270), um blog jornalístico do jornal El País no qual “[...] as imagens são postadas sem tratamento, sem edição e os internautas podem fazer comentários”. Outras características e usos dos microblogs serão examinados na próxima seção.

3.3 Os Microblogs

Como visto, os microblogs são uma variação dos blogs onde existe algum tipo de limitação do conteúdo seja do tamanho dos arquivos ou na quantidade de caracteres. Orihuela (2007b) vê os microblogs como uma mescla de blog com rede social e comunicador instantâneo29. É blog porque se encaixa nas características vistas na subseção anterior. Possui espaço para comentário, lista de blogroll, e principalmente atualizações frequentes e entrada de conteúdo na ordem cronológica inversa. Já o conceito de rede social se aplica porque os usuários possuem um espaço próprio, bem como uma lista de contatos (atores), com os quais podem interagir (conexões). A ideia de comunicador ou mensageiro instantâneo advém das mensagens curtas e diretas (também com a possibilidade de serem direcionadas a uma pessoa) como acontece nas ferramentas de comunicação instantânea como Google Talk e MSN Messenger. Zago (2008, p. 26) afirma que microblogging é a ação de se postar pequenos textos em um blog pessoal, geralmente, usando-se comunicadores instantâneos ou o celular. Para a autora:
Um microblog parte da idéia de um blog (atualizações em ordem cronológica inversa, possibilidade de comentários e trackbacks, RSS, blogroll), mas apresenta como singularidade o fato de que é adaptado para postagens de tamanho reduzido. A idéia é que haja uma maior facilidade de integração com outras ferramentas digitais, como celular e outros dispositivos móveis.

A autora lembra, com base em Orihuela (2007b), que devido à brevidade e rapidez das atualizações, os microblogs estão sendo considerados “a mais recente e popular manifestação

28 29

Cf. <http://blogs.elpais.com/micrografias>. No original: “[...] una mezcla de blogging con red social y mensajería instantánea” (ORIHUELA, 2007, online)

44 da ‘cultura snack’ que privilegia a brevidade dos textos, a mobilidade dos usuários e as redes virtuais como entorno social emergente” (Orihuela, 2007b, online, tradução nossa)
30

. “E

nesse contexto de publicação rápida, muitas vezes os microblogs acabam sendo mais ágeis que os próprios blogs na divulgação de fatos e de acontecimentos” (ZAGO, 2008, p. 26). O site Word Spy31, mantido por Paul McFedries, tem como finalidade a reunião de termos e palavras recém inventadas e palavras de uso moderno. Segundo o portal, o termo microblogging, para se referir a postagens curtas, foi usado pela primeira vez em 17 de julho de 2002, por Natalie Solent em seu blog32. Apesar de fazer mais dois posts no mesmo dia o fragmento que alude ao termo é o seguinte:
Apenas micro-blogging hoje. É Dia do Esporte. Oh, posso marcar um encontro com todos vocês mais ou menos nesta época do ano em 2012? Até lá meus descendentes estarão, eu acredito, todos crescidos, cheios de atividades e equipados com níveis estratosféricos de auto-estima. Eu me sentirei então livre para contar algumas histórias muito engraçadas sobre a corrida com o ovo e a colher de 2002 (SOLENT, 2002, online, grifo do autor, tradução nossa) 33.

Da mesma forma que os blogs, os microblogs também possuem certas características, porém pode-se dizer que elas se apresentam de forma reduzida ou transformada. Zago (2009, p. 10) salienta que: “cada ferramenta tem suas especificidades, mas em geral as mesmas funcionalidades de um blog são apresentadas, mas de forma simplificada”. A autora destaca pontos como a conversação, por exemplo, que nos blogs acontece geralmente na caixa de comentários e nos microblogs ocorrem diretamente no conteúdo dos posts. Segundo Zago (2009), decorre daí a relação que se faz entre microblogs e comunicadores instantâneos. Ela ressalta, no entanto, que a comunicação existente nos microblogs, ao contrário dos instant messengers, é assíncrona, ou seja, ela serve para uma pessoa acompanhar a outra a distância e não para bate papo (SPYER apud ZAGO, 2009, p. 11). Já o blogroll nos microblogs manifesta-se na lista de pessoas que o usuário observa (ou segue). O trackback, por sua vez, tem sua adaptação nas notificações de respostas e republicações das atualizações realizadas.
30

No original: “[...] la más reciente y popular manifestación de la "cultura snack" que privilegia la brevedad de los textos, la movilidad de los usuarios y las redes virtuales como entorno social emergente” 31 Cf. <http://www.wordspy.com/>. 32 Cf. <http://nataliesolent.blogspot.com/2002_07_14_nataliesolent_archive.html>. 33 No original: “Only micro-blogging today. It's Sports Day. Oh, can I make a date with you all for about this time in the year 2012? By that time my offspring will be, I trust, all grown up, loaded with achievements and equipped with stratospheric levels of self-esteem. I will then feel free to tell some very funny stories about the egg and spoon race back in 2002.”.

45 Zago (2008) apresenta outras duas características dos microblogs: a arquitetura aberta de informações e a relação com a mobilidade. Segundo a autora, as ferramentas de microblogging, percebendo o potencial colaborativo da web 2.0, permitem o acesso a suas bases de dados através de uma Interface de Programação de Aplicativo (API - Application Programming Interface). A abertura através da API permite o compartilhamento e o uso das informações contidas em um ou mais sites para a construção de programas que utilizem essas informações para outros fins que não os do contexto habitual do site do qual se originam as informações. Um programa que combine e utilize duas ou mais bases de dados se chama mashup. A criação de um mashup se dá quando “um programador mixa pelo menos dois serviços ou aplicativos de diferentes sites para criar algo novo e que, muitas vezes, é melhor do que a soma das suas partes” (TAPSCOTT; WILLIAMS apud ZAGO, 2008, p. 36). Zago (2008) lembra que o exemplo mais comum da criação de mashups se dá com o cruzamento entre dados provenientes do Google Maps com alguma informação publicada na web. Unindo, por exemplo, a conteúdo de um post em um microblog a um mapa, indicando a localidade de onde este post foi enviado. Com relação à mobilidade, cabe aqui relembrar a segunda lei da cibercultura proposta por Lemos (2006a; 2006b) que se refere ao princípio da conexão generalizada. Na época da cibercultura, a ubiquidade e a computação pervasiva se realizam através de dispositivos portáteis. A relação da mobilidade com os microblogs está presente na capacidade de algumas ferramentas permitirem aos seus usuários atualizar o perfil direto do celular ou outro dispositivo móvel como PDA. Há ainda aquelas que possuem uma versão da página especialmente programada para ser exibida nas telas destes dispositivos. Para Maçan (2009, p. 1) um microblog dispõe de um espaço delimitado para a “exposição”, o qual geralmente possui o tamanho de uma mensagem SMS. Deve permitir também que os usuários recebam as atualizações de quem escolher, organizando-as numa linha do tempo. Por último, um microblog precisa permitir a pesquisa nos registros dos usuários. Zago (2008) afirma que pelas próprias características dos microblogs, eles são passíveis de serem utilizados para os mais diversos fins, assim como os blogs. E da mesma forma que seus predecessores, os microblogs estão conquistando, aos poucos, seu espaço. Com base em Java et al., a autora propõe uma taxonomia dos tipos de atualizações que podem ser

46 encontradas nos microblogs: a) trivialidades cotidianas, que consiste em dizer coisas banais ou atividades no decorrer do dia, o que remete a ideia dos blogs como diários pessoais; b) conversações. A interação em forma de conversa entre os usuários do microblog; c) compartilhamento de informações e URLs pode ser entendido como sugestões de leituras, geralmente através de links para outras páginas; d) difusão de notícia. O uso de ferramentas de microblog para a atividade jornalística está crescendo cada vez mais. Essas ferramentas colaboram para a difusão rápida das notícias, visto que os posts são praticamente instantâneos e a republicação deles, por alguém que tenha lido, pode ser imediata.

Algumas ferramentas de microblogs listas por Zago (2008, p. 154) são: Pownce e Frazr, serviços que se encontram fora do ar34; Adocu, ainda em versão beta35 (ver Figura 2); Gozub, um serviço brasileiro36 (ver Figura 3); Plurk37, uma rede social de microblog (ver Figura 4); Jaiku, o microblog do Google38 (ver Figura 5); e o Twitter o maior e mais usado destes, objeto de pesquisa da autora39. O microblog Twitter, objeto de estudo deste trabalho, será analisado detalhadamente na seção 5, logo após a apresentação dos Procedimentos Metodológicos (seção 4).

34

Respectivamente <http://www.pownce.com> e <http://www.frazr.fr>. Os dois serviços estavam indisponíveis em: 15 de agosto de 2009. 35 Disponível em: <http://www.adocu.com>. Acesso em: 15 de agosto de 2009. 36 Disponível em: <http://www.gozub.com.br>. Acesso em: 15 de agosto de 2009. 37 Disponível em: <http://www.plurk.com>. Acesso em: 15 de agosto de 2009. 38 Disponível em: <http://www.jaiku.com>. Acesso em: 15 de agosto de 2009. 39 Disponível em: <http://www.twitter.com>. Acesso em: 15 de agosto de 2009.

47

Fonte: <http://www.adocu.com/catepol>. Acesso em: 15 ago. 2009.

Figura 2 – Página do Adocu

Fonte: <http://www.gozub.com.br>. Acesso em: 15 ago. 2009.

Figura 3 – Página inicial do Gozub

48

Fonte: <http://www.plurk.com/starcitizen>. Acesso em: 15 ago. 2009.

Figura 4 – Página do Plurk

Fonte: <http://termie.jaiku.com/>. Acesso em: 15 ago. 2009.

Figura 5 – Página do Jaiku

49 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Dada a importância dos procedimentos metodológicos para qualquer pesquisa científica, pretende-se nesta seção mostrar os passos realizados para produção deste trabalho, desde a concepção do projeto de pesquisa até a sua execução. Sobre a escolha do tema da pesquisa, Santaella (2001) afirma que em ambiente universitário, a maioria das pesquisas nasce da livre escolha do pesquisador. A autora afirma ainda que o tema, em geral, tem a ver com a história intelectual do pesquisador. Levando em consideração tais apontamentos, se deu a escolha da comunicação na cibercultura como tema norteador deste trabalho. Como objeto de estudo, foi escolhido o serviço de microblogging Twitter, principalmente, por ser uma forma de produção de conteúdo inovadora, cuja abordagem em publicações de cunho científico é considerada recente, visto que este começou a operar em 2006. Outro fator que motivou a escolha deste objeto foi o número cada vez maior de adeptos, desde pessoas comuns, passando por artistas e até empresas comerciais e, principalmente empresas de comunicação. Entende-se, com base em Santaella (2001), que o problema de pesquisa é uma interrogação, uma dificuldade que se pretende resolver. Sabendo-se que o problema de pesquisa precisa ser resolvido e que ser capaz de produzir conhecimento para tratar de questões a ele relacionadas, propõe-se aqui o seguinte problema: o microblog Twitter pode ser caracterizado como uma ferramenta de comunicação da Cibercultura? Esse problema parte da hipótese de que o Twitter possui características que fazem dele uma ferramenta de comunicação típica da Cibercultura. Para respondê-lo foi necessária a realização de alguns passos que serão descritos ainda nesta seção. Sobre os objetivos da pesquisa, Santaella (2001, p. 175) afirma que eles também decorrem do problema e são como o alvo que se pretende atingir. Ainda segundo a autora, os objetivos se classificam em geral, “que dizem respeito a uma visão global e abrangente do problema”, e em específicos, os quais “têm uma função intermediária e instrumental de modo a permitir que o objetivo geral seja atingido [...]”. Dessa forma, o objetivo geral deste trabalho é caracterizar o Twitter como uma ferramenta de comunicação da Cibercultura, contextualizando-o na sociedade atual. Para

50 atingir tal objetivo, propõem-se os seguintes objetivos específicos: a) descrever a sociedade atual e as características da Cibercultura; b) classificar o Twitter como uma ferramenta de Comunicação; c) estabelecer uma relação entre a sociedade e a cultura contemporânea e o Twitter.

Para cada um dos objetivos específicos enumerados seguiu-se a realização de uma ação, as quais podem ser vistas como pesquisas complementares que juntas e sinergicamente ajudam na realização do objetivo geral do trabalho. A primeira ação realizada foi uma pesquisa bibliográfica sobre a sociedade e a cultura contemporânea. Segundo Raupp e Beuren (2006), esta pesquisa por ser classificada, do ponto de vista de seus objetivos, como uma pesquisa descritiva, pois visa trazer uma visão geral de um fenômeno. Tal pesquisa pode ser classificada, como de abordagem qualitativa, pois, além de não requerer uso de métodos e técnicas estatísticas, “preocupa-se em analisar e interpretar aspectos mais profundos, descrevendo a complexidade do comportamento humano” (MARCONI; LAKATOS, 2004, p. 269). Raupp e Beuren (2006, p. 86) afirmam que a pesquisa bibliográfica constitui parte da pesquisa descritiva ou experimental, e que, “por ser de natureza teórica, a pesquisa bibliográfica é parte obrigatória, da mesma forma como em outros tipos de pesquisa, haja vista que é por meio dela que tomamos conhecimento sobre a produção científica existente”. Para se fazer a pesquisa bibliográfica, antes é necessária a elaboração do quadro teórico de referência que “consiste no corpo teórico no qual a pesquisa encontrará seus fundamentos” (SANTAELLA, 2001, p. 184). As obras fundamentais para esta pesquisa são: O que é pósmoderno (2008) de Jair Ferreira dos Santos; Cultura de consumo e pós-modernismo (1995) de Mike Featherstone; A sociedade em rede (1999) de Manuel Castells; Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea (2004) de André Lemos; e Cibercultura (1999) de Pierre Lévy. Evidentemente, tais obras serviram como referência, mas, para a composição desde trabalho, foram usados outros textos, inclusive artigos de periódicos e apresentados em congressos. Um exemplo de um artigo importante é o de Palacios (2007) o qual serviu para orientar os procedimentos metodológicos adotados na segunda ação desenvolvida a fim de se concretizar o segundo objetivo específico relacionado anteriormente. Neste artigo, o autor

51 relata experiências sobre os procedimentos metodológicos adotados no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online (GJOL). Segundo Palacios (2007), o GJOL adota uma metodologia híbrida, com procedimentos de pesquisa quantitativa e qualitativa. O autor afirma que antes da realização da pesquisa é preciso que seja feita uma revisão bibliográfica sobre o assunto. Palacios (2007) afirma, ainda, que sempre que possível os pesquisadores do GJOL fazem a revisão bibliográfica já testando as hipóteses relacionadas ao objeto. Neste trabalho, no entanto, optou-se por separar a segunda ação em duas fases distintas, acreditando que dessa forma fique mais fácil a compreensão dos passos executados na pesquisa. A primeira fase desta segunda ação consiste, portanto, na pesquisa bibliográfica a fim de reunir conhecimento para que se possa descrever o Twitter. Essa fase da segunda ação pode ser classificada, da mesma forma que a pesquisa bibliográfica relatada anteriormente, como, descritiva e de abordagem qualitativa. As duas pesquisas bibliográficas juntas formam a revisão de literatura deste trabalho. O quatro teórico de referência para esta pesquisa se baseia nas seguintes obras: A galáxia da Internet (2003) de Manuel Castells; Jornalismo na Internet (2003) de José Benedito Pinho; Blogs: Revolucionando os meios de comunicação (2007) de Octavio I. Rojas Orduña et al.; e o trabalho de conclusão de curso de Gabriela da Silva Zago (2008) intitulado Jornalismo em microblogs: um estudo das apropriações jornalísticas do Twitter. Palacios (2007) ressalta que as pesquisas no GJOL têm sempre uma vertente quantitativa a fim de mensurar a comprovação das hipóteses. Dessa forma, será executada na segunda fase uma pesquisa quantitativa com o objetivo de ver o como se dá o uso do Twitter enquanto ferramenta de comunicação. Essa pesquisa será feita analisando perfis selecionados intencionalmente e os últimos vinte posts de cada um deles. A escolha dos últimos vinte posts se deu por ser esse o número que aparece por padrão ao se visitar um perfil no Twitter. Foram escolhidos 14 perfis do Brasil, sendo dois de cada uma das categorias listadas no Quadro 1. Essas categorias foram criadas a partir das leituras relacionadas ao Twitter feitas na pesquisa bibliográfica da primeira fase. Busca-se dessa forma representar os grupos mais recorrentes nas publicações relacionadas ao tema desta pesquisa.

52
Empresas de comunicação Lojas de comércio eletrônico Órgãos públicos Celebridades Pesquisadores Políticos Pessoas comuns

Quadro 1 – Categorias dos perfis Os perfis de empresas de comunicação selecionados foram o do jornal Folha de S. Paulo e da Revista Veja por serem, respectivamente, o jornal e a revista com maior tiragem no país. Tal escolha se deu por se entender que as novas formas de produção da notícia proporcionadas pela Internet estão causando mudanças nos meios tradicionais impressos. Dessa forma, eles tentam se aliar à Internet como forma de conseguir manter sua existência. As empresas de comércio eletrônico escolhidas foram: Submarino e Camiseteria. Esta categoria foi escolhida devido ao fato das empresas não possuírem lojas físicas, operando apenas na web. Acredita-se que no caso delas a Internet, assim como o Twitter, pode ser usada para estreitar laços com seus parceiros e, principalmente, com seus clientes. Como representantes dos órgãos públicos foram selecionados o Naturatins, por ser um dos primeiros da categoria a serem criados no Estado do Tocantins e o Ministério da Saúde, por ser um perfil que possui um elevado número de seguidores (5.184 em 14 de outubro de 2009). Acredita-se que boa parte desses seguidores passou a seguir o perfil devido a Influenza A (H1N1). Dentre as muitas celebridades que usam o Twitter, duas delas se destacam por possuírem o maior número de seguidores de todo o Brasil. Luciano Huck, apresentador do programa Caldeirão do Huck transmitido nas tardes de sábado pela Rede Globo, possui 1.171.605. Enquanto isso, o técnico do Corinthians, time que tem a segunda maior torcida do país, Mano Menezes, é seguido por 1.070.315 de usuários40. Outra categoria recorrente no Twitter são os pesquisadores acadêmicos. Dentre eles destacam-se os perfis do professor da Universidade Federal da Bahia, André Lemos e do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Alex Primo, principalmente por serem pesquisadores da cibercultura e fazerem parte das referências aqui utilizadas. Os políticos também estão começando a usar o Twitter, principalmente depois do

40

Todos os dados dos perfis selecionados para análise referem-se as coletas feitas no dia 14 de outubro de 2009.

53 sucesso obtido pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em sua campanha presidencial. Dessa forma, os políticos escolhidos foram: Aloizio Mercadante, líder da bancada do Partido dos Trabalhadores no Senado Federal; e o governador do Estado de São Paulo, José Serra, famoso por escrever ele mesmo seus posts. Depois de elencadas as categorias acima, nota-se a necessidade de serem representadas também pessoas comuns, que não se encaixassem em tais grupos. Dessa forma, procedeu-se uma navegação aleatória no microblog chegado aos perfis de Fernanda A. Silveira e Luis Paulo Fraga. Tal classificação, no entanto, não pode ser considerada absoluta e estanque, visto que os perfis do Twitter podem se encaixar em mais de uma ou em nenhuma delas. É o caso, por exemplo, das celebridades, dos pesquisadores e dos políticos, que não deixam de ser pessoas comuns, por estarem nessas categorias. Além disso, por se tratar de uma amostra intencional, não é possível se fazer a generalização dos resultados, os quais, segundo Marconi e Lakatos (2006, p. 52), só têm validade dentro de um contexto específico. Portanto, todas as afirmações e conclusões apresentadas no decorrer do trabalho refletem apenas a realidade estudada a partir dos 14 perfis selecionados para análise e dos exemplos elencados a título de ilustração. A coleta dos dados procedeu-se usando o aplicativo WebShot41, versão 1.7.1.1. Este programa recebe como parâmetros o endereço eletrônico a se capturar, neste caso o endereço dos perfis selecionados, e o diretório mais o nome que se deseja dar ao arquivo resultado da captura. Passados os dois parâmetros o software acessa a Internet, percorre toda a página web e salva um arquivo de imagem com extensão .jpg. Todas as imagens geradas foram salvas no disco rígido do computador pessoal do autor deste trabalho. Os perfis selecionados foram coletados usando tal procedimento no dia 14 de outubro de 2009 entre as 13h03 e 13h10. As imagens resultantes dessa coleta estão presentes nos Anexos do trabalho, ordenadas de A a N. A descrição desses perfis será realizada na subseção 5.2, na qual se procederá, também, a análise dos posts neles contidos. A segunda fase desta ação pode ser considerada, portanto, de abordagem quantitativa, pois traduz números em informações, através de instrumentos estatísticos (RAUPP; BEUREN 2006, p. 92), para posterior análise, e, do ponto de vista dos objetivos, como uma pesquisa
41

Disponível para download no endereço: <http://www.websitescreenshots.com/webshot.exe>. Acesso em: 12 out. 2009.

54 exploratória, pois, busca “conhecer com maior profundidade o assunto, de modo a torná-lo mais claro ou construir questões importantes para a condução da pesquisa” (RAUPP; BEUREN 2006, p. 80). Dessa forma, a segunda ação desenvolvida no trabalho, assim como as pesquisas desenvolvidas no GJOL, relatadas por Palacios (2007), pode ser considerada como sendo de abordagem quali-quantitativa. Na segunda ação utiliza-se, portanto, três métodos de pesquisa: a pesquisa bibliográfica, já descrita, o estudo de caso e a análise de conteúdo. Para Yin (apud Duarte, 2005, p. 216), o estudo de caso é “uma inquirição empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real, quando a fronteira entre o fenômeno e o contexto não é claramente evidente e onde múltiplas fontes de evidência são utilizadas”. Já a análise de conteúdo, para Fonseca Júnior (2005, p. 280), “em concepção ampla, se refere a um método das ciências humanas e sociais destinado à investigação de fenômenos simbólicos por meio de várias técnicas de pesquisa”. Visando atender o terceiro objetivo específico – estabelecer uma relação entre a cultura contemporânea e a ferramenta de comunicação Twitter – a terceira ação desenvolvida consiste em descrever o Twitter, relembrando os conceitos depreendidos nas pesquisas bibliográficas realizadas anteriormente. A fim de comprovação e ilustração das afirmações contidas nesta descrição buscaram-se no Twitter alguns exemplos. Os exemplos foram obtidos navegando-se aleatoriamente no site e através do mecanismo de busca do próprio Twitter42. Por não constarem nos Anexos, cada exemplo é apresentado junto com o endereço no qual pode ser visualizado. A pesquisa deste trabalho se divide, portanto, em três ações, uma para cada objetivo específico, cada uma trazendo um resultado diferente, mas co-relacionados, os quais, juntos buscarão alcançar o objetivo geral, que é: caracterizar o Twitter como uma ferramenta de comunicação da Cibercultura, contextualizando-o na sociedade atual. O Quadro 2 ilustra cada uma das ações, o objetivo a elas relacionado, uma breve descrição e seus respectivos resultados no trabalho.

42

Cf.: <http://search.twitter.com/>.

55
Ação Ação 1 Ação 2 – Fase 1 Ação 2 – Fase 2 Objetivo Descrever a sociedade atual e as características da Cibercultura. Classificar o Twitter como uma ferramenta de Comunicação. Estabelecer uma relação entre a cultura contemporânea e a ferramenta de comunicação Twitter. Descrição Pesquisa bibliográfica sobre a sociedade e a cultura contemporânea. Pesquisa bibliográfica sobre o Twitter. Descrição dos perfis e análise de conteúdo. Descrição do Twitter a partir das pesquisas bibliográficas feitas anteriormente. Resultado Seção 2 e subseções. Seção 3 e subseções. Subseção 5.1. Subseção 5.2. Descrição e Análise do Objeto Revisão de Literatura

Ação 3

Subseção 5.3.

Quadro 2 – Ações realizadas e resultados obtidos Algumas limitações foram encontradas na realização do trabalho. Elas estão relacionadas, principalmente, com curto espaço de tempo para desenvolvê-lo. Em decorrência disso, houve também a impossibilidade de análise de mais perfis dessas ou de outras categorias. Alguns problemas encontrados com relação à análise dos perfis foram: a impossibilidade de identificação da idade do autor do perfil; o fato de o Twitter não mostrar a dada de criação dos perfis; a falta de um campo onde o autor pudesse adicionar um endereço de e-mail para possível contato; e, principalmente, a impossibilidade de checagem das informações constantes nos perfis. Dessa forma, optou-se por escolher para análise perfis já citados em outras publicações relacionadas ao Twitter, regra que não se aplica apenas aos perfis da categoria pessoas comuns por terem sido escolhidas de forma aleatória navegando-se pelos perfis, e ao perfil do Naturatins, órgão do governo tocantinense. Portanto, ficaram excluídos, propositalmente, da análise os perfis identificados pelo autor como falsos (fakes) e os perfis voltados ao spam e a pornografia.

56 5 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DO TWITTER

Realizada a revisão de literatura e apresentados os procedimentos metodológicos, serão desenvolvidas nesta seção: uma descrição do Twitter, mostrando seu funcionamento; uma análise dos perfis selecionados e dos posts neles contidos; e uma descrição do Twitter, com o objetivo de relacioná-lo com o exposto na revisão da literatura.

5.1 Descrição do Twitter

Já é considerável o número de publicações relacionadas ao Twitter, desde guias de uso (CARMONA, 2009; DICAS INFO, 2009; SPYER, 2009) até trabalhos acadêmicos (CAMARGO, 2008; ZAGO 2008; ZAGO 2009). Apesar de se usar grande parte deste material como base na construção desta seção, não se pretende fazer aqui uma descrição exaustiva do Twitter, no entanto, se buscará apresentar as principais características do serviço. O Twitter é um serviço de microblogging, disponível apenas em inglês e japonês, criado em 2006 pela empresa Obvious. A proposta inicial do serviço era que as pessoas postassem o que estavam fazendo, “What are you doing?” era a pergunta da página inicial (ver Figura 6).

Fonte: <http://twitter.com>. Acesso em: 25 jul. 2009.

Figura 6 – Página inicial antiga

57 Como visto na subseção 3.3, os microblogs começaram a ser usados para as mais diversas finalidades, desde trivialidades até difusão de notícias. Da mesma forma, o Twitter também passou a ser usado para atividades que vão além de responder a pergunta inicialmente proposta. Percebendo isso, no dia 29 de julho de 2009, a empresa mudou o layout, a página inicial e o seu mote, o qual passou a ser: “compartilhar e descobrir o que está acontecendo agora mesmo, em qualquer lugar do mundo” 43 (ver Figura 7). O novo layout da página inicial passou a ter, além dos botões para entrar e se cadastrar, uma relação dos tópicos mais populares separados em minuto, dia e semana.

Fonte: <http://twitter.com>. Acesso em: 01 out. 2009.

Figura 7 – Nova página inicial Uma das características mais marcantes do Twitter é o fato das suas atualizações (posts, também chamadas de tweets) possuírem a limitação de 140 caracteres (ou toques). Apesar disso, ele permite que as mensagens sejam enviadas da própria página do Twitter, de plugins criados a partir da sua API, de comunicadores instantâneos (IM), e de celulares – via web ou via mensagem de texto (SMS). Além disso, todos os posts são indexados na base de dados em tempo real. Isso permite que as pesquisas sejam feitas considerando-se conteúdos adicionados no momento da sua realização. Ao criar uma conta no Twitter é possível adicionar uma foto (avatar), um endereço
43

No original: Share and discover what’s happening right now, anywhere in the world.

58 eletrônico e uma pequena biografia. Essas informações, mais o nome da pessoa e o nome de usuário (username), são os dados informados por padrão pelo Twitter. Os usuários possuem, ainda, a opção de proteger suas atualizações (tweets). Dessa forma, ao invés de serem publicados livremente na web, seus tweets ficam restritos às pessoas que o usuário autorizar, os seus seguidores. No Twitter a relação dos atores (usuários) acontece baseada na lógica do “siga-me” (follow). Se o usuário A decidir seguir o usuário B, ele receberá em sua home os tweets de B. Dessa forma, quanto mais pessoas A seguir, mais conteúdo ele receberá em sua página inicial. Da mesma forma que A segue as pessoas que escolher (following), ele também pode ter pessoas que o sigam (followers), uma delas pode ser ou não B.

Fonte: <http://twitter.com/home>. Acesso em: 01 out de 2009.

Figura 8 – Página inicial do usuário autor deste trabalho A Figura 8 é um recorte da página inicial do perfil de usuário criado pelo autor deste trabalho, nela é possível ver, na parte branca, abaixo da palavra “Home” os tweets dos perfis seguidos e do próprio perfil. Além disso, é possível visualizar o número de perfis seguidos (59 following), a quantidade de seguidores (57 followers) e o número de atualizações realizadas até o momento (337 tweets).

59 Na Figura 8, é possível visualizar também a expressão “Direct Messages” que informa quantas mensagens diretas (DM) o usuário tem (0). As mensagens diretas são privadas apenas aos dois atores envolvidos (emissor e receptor), e para que se possa enviar uma mensagem direta é necessário que ambos se sigam. Além das “DMs”, existem outras expressões que foram convencionadas pelos usuários do Twitter para padronizar suas conversas. O uso de uma @ (arroba) seguida do nome de um usuário indica uma resposta ou uma referência a esse outro usuário. A @ é usada pelos usuários para se manter conversas curtas, visto que para conversas mais longas existem ferramentas mais eficientes como os Instant Messengers (IM). Para manter uma coerência nas conversas, passou-se a usar o sinal # para indicar o tema do post. Dessa forma, os usuários sabem, de maneira mais fácil, do que trata o texto da atualização. A união do sinal # e uma expressão recebe o nome de hashtag. A Figura 9 ilustra bem o uso de hashtags. A primeira, “#Rio2016”, refere-se à escolha do Brasil para sediar as olimpíadas de 2016. Já a “#ForaSarney”, remete ao movimento criado na web para que o presidente do Senado, José Sarney, renunciasse ao cargo.

Fonte: <http://twitter.com/jasper/status/4560945714>. Acesso em: 02 out. 2009.

Figura 9 – Uso do sinal "#" e do RT Na Figura 9 está presente também outra prática bastante comum no Twitter: a citação

60 por meio da expressão “RT”, que significa “retuitar” indicando-se sempre o autor. Alguns posts possuem links para páginas externas e como a inserção deles usa o limite de caracteres, é comum usar ferramentas de compactação de URLs45 par economizar espaço. Essas URLs compactadas recebem o nome de microlinks. Na Figura 8 é possível notar, ainda, a presença do “Trending Topics” (TT), um ranking que lista os assuntos mais “tuitados” naquele momento. Na Figura 7, esses mesmos tópicos estão disponíveis para quem entrar na página inicial. Nela é possível perceber a presença do sinal # em “#shelooksgoodbut”, #helooksgoodbut e “#googlewave”. A Figura 8 mostra parte da home do usuário logado no sistema. Já a Figura 10 mostra o início da página de outro usuário, como ela aparece estando logado no sistema. Lembrando que se a pessoa proteger seus tweets, eles não serão exibidos, a não ser para seus seguidores. A Figura 11 mostra o fim da mesma página pública e a Figura 12 mostra como aparece uma página cujo conteúdo foi protegido pelo proprietário do perfil.
44

, ou seja, republicar um post,

Fonte: <http://twitter.com/andrelemos>. Acesso em: 02 out. 2009.

Figura 10 – Início de página pública

44

Em algumas publicações específicas sobre o Twitter, tais como Carmona (2009), o uso dos verbos tuitar e retuitar é considerado comum. Entretanto, por se tratar de uma publicação científica, neste trabalho esses verbos serão grafados entre aspas, por não serem de palavras de uso comum na língua portuguesa. 45 Cf. <http://migre.me/>.

61

Fonte: <http://twitter.com/andrelemos>. Acesso em: 02 out. 2009.

Figura 11 – Final de página pública

Fonte: <http://twitter.com/joaophillipe >. Acesso em: 02 out. 2009.

Figura 12 – Perfil bloqueado A principal diferença entre a página inicial de um usuário logado no sistema e uma página pública que ele esteja visitando é que no lugar do Trending Topics (TT) aparecem algumas imagens de exibição (avatares) dos outros perfis que o perfil visitado segue.

62 Existem também alguns links na parte superior da Figura 10 e na parte inferior da Figura 11, são eles: a) home: leva o usuário a sua página inicial (como a mostrada na Figura 8); b) profile: mostra ao usuário como é a visualização de seu perfil pessoal por outras pessoas; c) find people: ferramenta para localização de pessoas. A busca pode ser realizada pelo nome da pessoa, ou ainda nos contatos de e-mail do GMail, Yahoo! e AOL; d) settings: aponta para o local onde são feitas as configurações do perfil, como imagem de exibição, a biografia, proteção de tweets, entre outras; e) help: aponta para a página de suporte e ajuda do Twitter; f) sign out: link para solicitar a saída do sistema (logout); g) about us: aponta para uma página com informações referentes ao Twitter; h) contact: remete à página com e-mails e endereço para entrar em contato com a empresa; i) blog: leva o usuário ao blog oficial do Twitter; j) status: aponta para uma página com informações sobre a estabilidade ou instabilidade do sistema; k) goodies: mostra alguns dos plugins desenvolvidos para operar o Twitter; l) API: aponta para página voltada aos desenvolvedores que desejam usar os dados do Twitter para construir algum programa, plugin ou mashup. m) business: página voltada ao uso do Twitter para os negócios; n) help: aponta para a página de suporte e ajuda do Twitter (igual a alínea e); o) jobs: página voltada aos interessados em trabalhar no Twitter; p) terms: página que reúne os termos de uso do serviço; q) privacy: página que reúne informações sobre privacidade no Twitter.

Como última característica marcante do Twitter, pode-se destacar o fato de o serviço permitir o acesso a sua base de dados por meio da abertura de uma Interface de Programação

63 de Aplicativo (API). Essa abertura proporciona a criação de softwares e aplicativos (plugins e mashups) voltados para facilitar a operação do serviço, ou mesmo para outros fins. Como visto, o Twitter oferece várias possibilidades de uso. Entretanto, é preciso que seja feita uma análise quantitativa a fim de investigar como se dão estes usos. Tal investigação será realizada no próximo tópico.

5.2 O Twitter como Ferramenta de Comunicação

Descrito o Twitter, o próximo passo é investigar o seu uso como ferramenta de comunicação. Dessa forma, serão apresentados os perfis selecionados seguidos de uma análise destes e dos seus últimos vinte posts. A escolha das vinte últimas atualizações se deu porque este é o número de posts que aparece por padrão no Twitter, quando uma página é visitada. Como a justificativa para escolha dos perfis já foi apresentada na seção 4, destinada aos procedimentos metodológicos, é preciso agora apresentar os perfis, classificar os posts e fazer as análises. O Quadro 3 mostra a divisão das categorias e os perfis escolhidos para serem analisados em cada uma delas e seus respectivos endereços no Twitter. Uma cópia de cada perfil selecionado para análise está presente nos Anexos deste trabalho, portanto, todas as informações relacionadas a tais perfis foram extraídas de lá.

Categoria Empresas de comunicação Lojas de comércio eletrônico Órgãos públicos Celebridades Pesquisadores Políticos Pessoas Comuns

Nome Folha de S. Paulo Veja Submarino Camiseteria Naturatins Ministério da Saúde Luciano Huck Mano Menezes André Lemos Alex Primo José Serra Aloizio Mercadante Fernanda A. Silveira Luis Paulo Fraga

Endereço no Twitter (twitter.com/...) /folhadesp /veja /novo_submarino /camiseteria /naturatins /minsaude /huckluciano /manomenezes /andrelemos /alexprimo /joseserra_ /mercadante /fernandapsi /lpfraga

ANEXO ANEXO A ANEXO B ANEXO C ANEXO D ANEXO E ANEXO F ANEXO G ANEXO H ANEXO I ANEXO J ANEXO K ANEXO L ANEXO M ANEXO N

Quadro 3 – Categorias e endereços dos perfis escolhidos

64 O primeiro perfil da categoria empresas de comunicação escolhido foi o do jornal Folha de S. Paulo (Anexo A). Os dados referentes ao perfil estão apresentados no Quadro 4. Já o Quadro 5 apresenta dos dados do perfil da revista Veja, o segundo perfil escolhido na categoria (Anexo B).

Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações:

Folha de S. Paulo Brasil http://www.folha.com.br Jornal Folha de S. Paulo 50 33.458 11.635

Quadro 4 – Dados do perfil da Folha de S. Paulo

Nome: Local: Website: Bio:

Seguindo: Seguido por: Atualizações:

VEJA.com Brazil http://veja.abril.com.br VEJA.com: Site da Revista VEJA - Notícias, Reportagens exclusivas, Blogs, Vídeos e Acervo Digital 33.874 80.578 5.428

Quadro 5 – Dados do perfil da Veja Da categoria lojas de comércio eletrônico foram escolhidos o perfil do site de compras Submarino (Anexo C), cujos dados constam no Quadro 6, e da loja Camiseteria (Anexo D), cujos dados estão no Quadro 7.

Nome: Local: Website: Bio:

Seguindo: Seguido por: Atualizações:

novo_submarino Brasil http://www.submarino.com.br Twitter oficial do Submarino. Siga o @novo_submarino e fique por dentro de todas as novidades do site em 1ª mão! 21 36.089 952

Quadro 6 – Dados do perfil do Submarino

65
Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações: Camiseteria.com Brasil http://camiseteria.com Somo apaixonados por camisetas. 22.082 22.539 3.879

Quadro 7 – Dados do perfil do Camiseteria Os órgãos públicos estão representados no Quadro 8, no qual estão os dados referentes ao perfil do Naturatins (Anexo E) e no Quadro 9, no qual estão os dados do perfil do Ministério da Saúde (Anexo F).

Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações:

Naturatins Palmas – Tocantins http://www.naturatins.to.gov.br Naturatins - Instituto Natureza do Tocantins Assessoria de Comunicação 25 70 198

Quadro 8 – Dados do perfil do Naturatins
Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações: Ministério da Saúde Brazil http://www.saude.gov.br Perfil oficial do Ministério da Saúde do Brasil 1.131 5.184 818

Quadro 9 – Dados do perfil do Ministério da Saúde Das celebridades escolhidas, o perfil do apresentador Luciano Huck (Anexo G) tem seus dados resumidos no Quadro 10, e o do técnico do Corinthians Mano Menezes (Anexo H) no Quadro 11. Os perfis dos pesquisadores selecionados foram: do professor André Lemos (Anexo I), cujos dados estão discriminados no Quadro 12, e do professor Alex Primo (Anexo J), o qual tem os dados representados no Quadro 13.

66
Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações: Luciano Huck Brasil http://www.globo.com/huck apresentador de TV 61 1.171.605 848

Quadro 10 – Dados do perfil de Luciano Huck
Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações: Mano Menezes São Paulo http://www.manomenezes.com.br 0 1.070.315 342

Quadro 11 – Dados do perfil de Mano Menezes

Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações:

André Lemos iPhone: -12.976023,-38.461353 http://andrelemos.info Associate Professor, Facom/UFBA 116 2.382 1.939

Quadro 12 – Dados do perfil de André Lemos
Nome: Local: Website: Bio: Alexprimo Porto Alegre http://alexprimo.com Pesquisador de Cibercultura, professor e blogueiro. Autor do livro Interação Mediada por Computador. Escrevo sobre os aspectos sociais da tecnologia. 3.378 7.385 1.571

Seguindo: Seguido por: Atualizações:

Quadro 13 – Dados do perfil de Alex Primo Os políticos escolhidos foram o governador de São Paulo, José Serra (Anexo K), que tem os dados de seu perfil representados no Quadro 14, e do líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (Anexo L), cujo perfil está representado no Quadro 15.

67
Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações: José Serra Brasil http://www.serraescreve.blogspot.com Perfil de José Serra 4.808 113.571 670

Quadro 14 – Dados do perfil de José Serra
Nome: Atualizações: Bio: Local: Seguido por: Seguindo: Website: Aloizio Mercadante 509 São Paulo 27.964 46 http://www.mercadante.com.br

Quadro 15 – Dados do perfil de Aloizio Mercadante Os perfis que representam as pessoas comuns são o de Fernanda A. Silveira (Anexo M), cujos dados estão representados no Quadro 16, e de Luis Paulo Fraga (Anexo N), cujos dados constam no Quadro 17.

Nome: Local: Website: Bio:

Seguindo: Seguido por: Atualizações:

Fernanda A. Silveira Florianópolis-SC-Brazil http://massageandoocerebro.wordpress.com/ Fã da Madonna e Beatles, fã de FRIENDS, cantora e dançarina, amante da música, de cinema, animais (especialmente gatos), livros, fotos, moda, línguas, viagens 1.227 1.160 13.209

Quadro 16 – Dados do perfil de Fernanda A. Silveira
Nome: Local: Website: Bio: Seguindo: Seguido por: Atualizações: Luis Paulo Fraga Rio de Janeiro, Brasil http://www.folha.com.br Jornalista desde 2007. Advogado a partir de 2012. Carioca desde 1984. 93 41 166

Quadro 17 – Dados do perfil de Luis Paulo Fraga Depois de apresentados os perfis, é possível perceber algumas características importantes como as listadas a seguir.

68 O Quadro 18 mostra que, dos catorze perfis, apenas o perfil de Luis Paulo Fraga não possui um endereço de site externo.

Perfil Folha de S. Paulo Veja Submarino Camiseteria Naturatins Ministério da Saúde Luciano Huck Mano Menezes André Lemos Alex Primo José Serra Aloizio Mercadante Fernanda Silveira Luis Paulo Fraga

Endereço Eletrônico (Website) http://www.folha.com.br http://veja.abril.com.br http://www.submarino.com.br http://camiseteria.com http://www.naturatins.to.gov.br http://www.saude.gov.br http://www.globo.com/huck http://www.manomenezes.com.br http://andrelemos.info http://alexprimo.com http://www.serraescreve.blogspot.com http://www.mercadante.com.br http://massageandoocerebro.wordpress.com/ -

Quadro 18 – Endereços eletrônicos por perfil Como pode ser percebido, a maior parte dos perfis possui domínio próprio e dois deles são hospedados em ferramentas de blog, ou blog/programa, (José Serra e Fernanda Silveira). Enquanto os domínios próprios são pagos, geralmente a uma empresa gestora de registros web, a maioria dos blogs é gratuita. Quanto ao final dos endereços, o domínio .info é voltado para sites informativos; .com é um domínio usado para fins comerciais, hierarquicamente acima daqueles que possuem continuação como os .com.br, que são comerciais no Brasil. Um domínio .com.pt, por exemplo, remete a sites comerciais de Portugal. Já os domínios .gov são para órgãos do governo. Dessa forma, os domínios .gov.br são para órgãos do governo brasileiro e .to.gov.br para órgãos do governo do estado do Tocantins. Já o uso das iniciais www é comumente omitido pelos sites devido a evolução dos browsers e o aumento da capacidade dos servidores DNS, os quais, como visto na subseção 3.1, são os responsáveis por controlar os nomes dos computadores numa rede. Com relação a quantidade de atualizações (tweets), o Quadro 19 aponta que, depois do

69 perfil de Fernanda Silveira, os que mais fizeram atualizações foram os das empresas de comunicação.

Perfil Folha de S. Paulo Veja Submarino Camiseteria Naturatins Ministério da Saúde Luciano Huck Mano Menezes André Lemos Alex Primo José Serra Aloizio Mercadante Fernanda Silveira Luis Paulo Fraga

Quantidade de Atualizações (Tweets) 11.635 5.428 952 3.879 198 818 848 342 1.939 1.571 670 509 13.209 166

Quadro 19 – Quantidade de atualizações por perfil O Twitter não informa desde quando um perfil existe, portanto não foi possível calcular uma média de atualizações por dia. No entanto, pode-se perceber que apenas quatro perfis possuem mais de duas mil atualizações, e que oito deles não postaram sequer mil tweets, o que mostra que o uso do Twitter ainda é incipiente, mesmo para Mano Menezes, o segundo perfil mais seguido que possui apenas 342 atualizações. Se comparados em suas próprias categorias, os perfis possuem uma grande divergência na quantidade de atualizações. Sem levar em consideração a data da criação, apenas o número total de tweets, percebe-se que a categoria dos pesquisadores é na qual o número de atualizações mais se aproxima. A diferença entre as empresas de comunicação pode ser explicada levando-se em consideração que a Folha de S. Paulo, por ser uma publicação diária, produz mais conteúdo do que a revista Veja, que é semanal. Já entre as empresas de comércio eletrônico, esperava-se que o perfil do submarino possuísse mais atualizações do que o do Camiseteria, por ser uma empresa bem maior e mais

70 conhecida. Entretanto, é preciso observar que enquanto o segundo usa o Twitter para intermediar o contato com seus clientes, o primeiro possui outros canais de comunicação, como o atendimento online, por e-mail e por contato telefônico, deixando o Twitter para divulgação. Entre os órgãos governamentais, o que explica a variação entre os números de tweets é o tamanho e a abrangência deles. O Naturatins é um órgão do governo estadual do Tocantins e o Ministério da Saúde do Governo Federal. Além disso, é preciso considerar os casos da Influenza A (H1N1) que, como apresentado na seção 4, podem ter fomentado a divulgação de posts informativos aos brasileiros por parte dos órgãos governamentais, principalmente os ligados à saúde pública. Dentre as celebridades, o perfil do apresentador Luciano Huck apresenta mais atualizações do que do técnico do Corinthians, Mano Menezes. Pode ser que tal diferença se dê porque o apresentador divulga seu Twitter em seu programa na Rede Globo, convidando seus telespectadores para seguirem-no e sorteando brindes entre seus seguidores. Mano Menezes, no entanto, tem o perfil atualizado por sua filha e assessora de imprensa Camilla Menezes que disse em entrevista46 que conversa com o pai e ele diz o que quer falar no Twitter. Entre os perfis da categoria políticos, José Serra possui mais atualizações que Aloizio Mercadante, dado que pode ser explicado levando-se em consideração que o governador de São Paulo possui um blog e o divulga em seu perfil no Twitter. É natural, portanto, que um blogueiro tenha mais tweets que alguém que não seja. Já na categoria dos que representam as pessoas comuns, Fernanda Silveira possui um número muito maior de tweets que Luis Paulo Fraga (13.209 contra 166). Tal diferença só pode ser explicada por dois fatores: o primeiro é o fato de ela, assim como José Serra, ser blogueira; segundo devido ao tempo de existência do perfil, informação esta que não pode ser comprovada através do Twitter. Importante considerar que, nos tweets coletados para análise, da mesma forma que ela publicou onze textos no dia nove de outubro, ele publicou onze no dia da coleta, 14 de outubro (ver Anexos M e N), o que demonstra que ambos fazem uso do Twitter com praticamente a mesma frequência. O Quadro 20 relaciona as empresas selecionadas, tanto de comunicação quanto de
46

Cf.: LEAL, 2009.

71 comércio eletrônico. Nele é possível notar que o perfil do Camiseteria é o que apresenta uma quantidade mais equilibrada entre seguidos e seguidores.

Perfil Folha de S. Paulo Veja Submarino Camiseteria

Seguindo (Following) 50 33.874 21 22.082

Seguidores (Followers) 33.458 80.578 36.089 22.539

Quadro 20 – Seguindo X seguidores por perfil empresarial O perfil da Folha de S. Paulo segue, em sua maioria, empresa de comunicação. O da revista Veja segue pessoas comuns, entretanto, considerando-se que ela é a revista com maior número de assinantes do país, entende-se que tal número (33.874) deveria ser maior. O Submarino segue apenas 21 perfis, geralmente de empresas. O perfil do Camiseteria, ao contrário dos demais, segue, na maioria, pessoas comuns, clientes em potencial. Tal observação demonstra que o Camiseteria é a empresa que mais preza pela comunicação direta via Twitter, pois, como visto na subseção 5.1, as mensagens diretas (DMs) só podem acontecer quando ambos, emissor e receptor, se seguem. O Quadro 21 mostra os perfis que acumulam mais seguidores. O que possui maior número de seguidores é o do apresentador Luciano Huck (1.171.605), seguido do perfil de Mano Menezes que tem 1.070.315 seguidores. Contudo, apesar de terem os perfil mais seguidos, Luciano Huck segue apenas 61 perfis, enquanto Mano Menezes não segue nenhum. Isso mostra que seguir muitos perfis não é um pressuposto para ter vários seguidores. Mostra, também, que nem todos no Twitter retribuem o follow47.

Perfil Luciano Huck Mano Menezes

Seguindo (Following) 61 0

Seguidores (Followers) 1.171.605 1.070.315

Quadro 21 – Perfis mais seguidos A relação entre número de seguidores e quantidade de atualizações está representada no
47

Em geral, nas redes sociais, as pessoas se relacionam entre si (webrings), portanto, é comum um usuário passar a seguir seus seguidores, assim como acontece com os amigos do Orkut e os DJs do Blip.fm.

72 Quadro 22. Ele mostra que, assim como seguir muitos perfis não é um pressuposto para aumentar o número de seguidores, fazer várias atualizações também não é. Pelo contrário, um elevado número de atualizações diárias pode fazer com que os seguidores parem de seguir dada a grande quantidade de informação que chega. Um exemplo que ilustra essa afirmação é que enquanto José Serra fez 670 atualizações e possui 113.571 seguidores, Fernanda Silveira fez 13.209 atualizações e tem 1.160 seguidores. O mesmo pode ser percebido entre os perfis dos pesquisadores: Alex Primo fez 1.571 atualizações e tem 7.385 seguidores, enquanto André Lemos postou 1.939 vezes e possui 2.382 seguidores. Pode ser isso, também, que explique o fato de o perfil da Veja, com 5.428 tweets, possuir mais seguidores (80.578) do que o da Folha de S. Paulo (33.458) que fez 11.635 atualizações.

Perfil Folha de S. Paulo Veja Submarino Camiseteria Naturatins Ministério da Saúde Luciano Huck Mano Menezes André Lemos Alex Primo José Serra Aloizio Mercadante Fernanda Silveira Luis Paulo Fraga

Seguidores (Followers) 33.458 80.578 36.089 22.539 70 5.184 1.171.605 1.170.315 2.382 7.385 113.571 27.964 1.160 41

Atualizações (Tweets) 11.635 5.428 952 3.879 198 818 848 342 1.939 1.571 670 509 13.209 166

Quadro 22 – Seguidores X Atualizações A relação entre seguindo e seguidores é bastante variável na maioria dos perfis (ver Quadro 23). Apenas as pessoas comuns seguem mais perfis do que são seguidas, o que reforça a classificação dos mesmos como pessoas comuns e não celebridades, ao passo que todos os outros perfis possuem mais seguidores do que o número de seguindo. Em alguns a diferença

73 não é tão grande como o do Camiseteria onde a diferença é de pouco mais de 2%. Ao contrário de outros como os da categoria celebridades, onde a média dos dois perfis é de 1.170.960 de seguidores para cada 30,5 perfis seguidos. Importante ressaltar que enquanto o perfil do técnico Mano Menezes não segue nenhum outro perfil, o do apresentador Luciano Huck segue, principalmente, outros famosos como o piloto Rubens Barrichello48, o apresentador e blogueiro Marcelo Tas49 e sua esposa, a apresentadora Angélica Huck50.

Perfil Folha de S. Paulo Veja Submarino Camiseteria Naturatins Ministério da Saúde Luciano Huck Mano Menezes André Lemos Alex Primo José Serra Aloizio Mercadante Fernanda Silveira Luis Paulo Fraga

Seguindo (Following) 50 33.874 21 22.082 25 1.131 61 0 116 3.378 4.808 46 1.227 93

Seguidores (Followers) 33.458 80.578 36.089 22.539 70 5.184 1.171.605 1.170.315 2.382 7.385 113.571 27.964 1.160 41

Quadro 23 – Seguindo X Seguidores por perfil Em suma, a análise dos perfis mostrou que: a) a maioria deles possui um site externo, geralmente um domínio próprio; b) depois do perfil de Fernanda A. Silveira, os perfis das empresas de comunicação são os que possuem maior número de tweets; c) se comparados em suas categorias os perfis mostram um número muito diferente de tweets;

48 49

Cf.: <http://twitter.com/rubarrichello>. Cf.: <http://twitter.com/marcelotas>. 50 Cf.: <http://twitter.com/angelicaksy>.

74 d) dentre as empresas, tanto de comunicação quanto de e-commerce, o perfil do Camiseteria é o que apresenta maior proximidade entre o número de followers e following, o que mostra a preocupação da empresa em manter contato com seus possíveis clientes; e) apesar de terem os perfis mais seguidos, as celebridades seguem poucos perfis, o que demonstra que não é preciso seguir muitos perfis para ter muitos seguidores; f) fazer muitas atualizações não trazem necessariamente muitos seguidores; g) a relação entre followers e following é bastante variável, o que deixa claro que nem todos no Twitter retribuem e follow.

Apresentados os perfis e realizados os apontamentos com base em tal apresentação, o próximo passo é a análise dos posts com o objetivo de verificar como acontece a comunicação nesses perfis. Todas as atualizações estão relacionadas nos Anexos de A a N. Eles foram coletadas no dia 14 de outubro de 2009 e classificadas da seguinte maneira: a) texto original: para as publicações de textos livres, como nos blogs, não direcionados e nem fazendo referência a nenhum perfil. As atualizações feitas por mecanismos automáticos de publicação de RSS serão consideradas em outra categoria; b) resposta ou referência: O uso da arroba (@) seguida de um nome de usuário significa uma reposta a este usuário ou uma referência a ele. Essa classificação é importante para se medir o nível de comunicação direta existente no Twitter, excluindo-se aqui as DMs por serem privadas; c) RT: a prática de “retuitar” um post é exercida quando um usuário recebe uma mensagem que julga importante e republica para que seus seguidores também a leiam. O índice de republicação de posts pode, dessa forma, mostrar quanto uma mensagem se espalha no Twitter; d) feed: entram aqui as atualizações feitas por mecanismos automáticos de publicação de RSS excluídos na primeira classificação.

A Tabela 1 apresenta o resumo da classificação dos posts.

75

Tabela 1 – Resumo da tabulação dos posts Perfis Texto original Resposta ou Referência Folha de S. Paulo Veja Submarino Camiseteria Naturatins Ministério da Saúde Luciano Huck Mano Menezes André Lemos Alex Primo José Serra Aloizio Mercadante Fernanda Silveira Luis Paulo Fraga Totais 0 0 19 6 20 15 13 16 17 11 15 19 10 16 177 0 1 0 12 0 5 7 4 0 4 5 1 9 4 52

RT

Feed

Total

0 0 1 2 0 0 0 0 3 5 0 0 1 0 12

20 19 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 39

20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 20 280

Analisando a Tabela 1 é possível perceber que 177 dos 280 do total de tweets (63,21%) se classificam como texto original, o que remete o Twitter a sua classificação como microblog, uma variação dos blogs, que como visto na subseção 3.2, são espaços livres para publicação. Outro dado importante se evidencia com relação às empresas. Enquanto as de comunicação publicaram 39 dos 40 posts (97,5%) através de mecanismos automáticos de divulgação de RSS (ver Exemplo 1), as empresas de comércio eletrônico não usaram tais mecanismos (ver Exemplo 2). Isso demonstra que as empresas e-commerce usam mais o Twitter que as empresas de comunicação, de onde se pode induzir que aquelas estão mais preparadas para práticas de comunicação online do que estas.

76

Exemplo 1 – Uso de mecanismo automático de feeds RSS

Exemplo 2 – Post sem usar mecanismo de RSS

Além disso, 60% dos posts do Camiseteria foram classificados como repostas ou referências (ver Exemplo 3), o que demonstra que a loja está sempre em contato com seus seguidores, possivelmente clientes e fornecedores.

Exemplo 3 – Tweet com resposta para clientes Todas as atualizações feitas no perfil do Naturatins foram classificadas como diretas (ver Exemplo 4), enquanto o Ministério da Saúde teve cinco respostas ou referências (ver Exemplo 5). Pode-se perceber, portanto, que o órgão do governo federal se comunica com

77 seus seguidores com mais frequência do que o primeiro, que faz apenas divulgação de conteúdo. O Exemplo 5 mostra uma resposta do Ministério da Saúde para o perfil @CintiaDR.

Exemplo 4 – Divulgação no perfil do Naturatins

Exemplo 5 – Resposta do Ministério da Saúde Apesar de possuírem os mais elevados números de seguidores, as atualizações dos perfis de Luciano Huck e de Mano Menezes classificadas como resposta ou referência representam apenas 35% e 20% do total de cada um, respectivamente (ver Exemplo 6).

Exemplo 6 – Referência de Mano Menezes ao perfil @brunodaniel0 Dentre as doze atualizações classificadas como RTs, oito foram feitas pelos pesquisadores, o que mostra que eles são os que republicam mais posts, divulgando, dessa forma, informações que julguem interessantes ou importantes. O Exemplo 7 traz um “retuite” de Alex Primo feito a partir de uma atualização do perfil @blogdavanessa.

78

Exemplo 7 – RT de Alex Primo Dos vinte tweets de André Lemos nenhum foi uma resposta ou referência a outro perfil (ver Exemplo 8 e Anexo I). Já Alex Primo, ao contrário, contabilizou quatro atualizações desse tipo, como mostra o Exemplo 9. Pode-se perceber, portanto, que o segundo pesquisador se comunica publicamente mais com seus seguidores do que o primeiro.

Exemplo 8 – Publicação direta de André Lemos

Exemplo 9 – Resposta de Alex Primo Essa mesma conclusão pode ser tomada com relação aos políticos, visto que enquanto o perfil de José Serra traz cinco respostas ou referências como a ilustrada pelo Exemplo 10, o perfil de Aloizio Mercadante traz apenas uma que pode ser vista no Exemplo 11.

Exemplo 10 – Uma das referências de José Serra

79

Exemplo 11 – Única referência de Aloizio Mercadante Essa diferença é ainda mais perceptível na categoria das pessoas comuns, na qual Luis Paulo Fraga teve apenas quatro (20%), enquanto Fernanda Silveira teve nove respostas ou referências (45% dos 20 posts), inclusive uma sequência de posts com @ ilustrada no Exemplo 12.

Exemplo 12 – Posts de Fernanda Silveira A análise dos tweets trouxe como principais constatações: a) 63,21% dos posts foram classificados como publicações livres; b) 39 dos 40 tweets das empresas de comunicação foram classificados como feeds; c) as empresas de e-commerce usam mais o Twitter que as empresas de comunicação;

80 d) o perfil da loja Camiseteria teve 60% dos seus posts classificados como resposta ou referência a outros perfis; e) dentre os órgãos públicos, o Ministério da Saúde contabilizou 5 respostas, enquanto o Naturatins não contabilizou nenhuma; f) apesar de possuírem um grande número de seguidores, as celebridades trocam poucas mensagens; g) dos 12 posts classificados com RT, oito foram dos pesquisadores; h) entre os pesquisadores, Alex Primo teve quatro tweets classificados como respostas ou referências, enquanto André Lemos não teve nenhum; i) entre os políticos, cinco do 20 posts de José Serra foram classificados como resposta ou referência, enquanto apenas um de Aloizio Mercadante recebeu tal classificação; j) a diferença mais notória entre o número de tweets classificados como respostas ou referências está na categoria das pessoas comuns, na qual Fernanda Silveira teve nove e Luis Paulo Fraga apenas quatro.

Como visto, o Twitter é mais comumente usado como espaço para publicação de textos livres, não direcionados a alguém em específico. Entretanto é possível notar alguns desvios que mostram outros tipos de uso, como no caso das empresas de comunicação usá-lo como ferramenta de divulgação de feeds, e dos pesquisadores que o utilizam também para republicar informações que julguem interessantes. O Twitter se apresenta também como espaço para as celebridades afirmarem sua fama; para as empresas manterem contato com seus clientes e fornecedores; para os políticos conversarem com seus eleitores; para os órgãos públicos publicarem informações aos cidadãos e para as pessoas comuns se manterem em contato com todo esse universo de informação. Dessa forma, o Twitter pode ser caracterizado, não só como uma ferramenta de publicação de pequenos textos, mas como uma ferramenta de comunicação direta e indireta. Entretanto, como o objetivo deste trabalho caracterizá-lo como uma ferramenta de comunicação da cibercultura, é preciso traçar uma relação entre o referido objeto e a teoria em questão.

81

5.3 A Relação entre o Twitter e a Cibercultura

Depois de realizada a descrição do Twitter e sua definição como uma ferramenta de comunicação, é possível cumprir outro objetivo do trabalho, qual seja, estabelecer uma relação entre o microblog e a cibercultura. Para tanto será traçada aqui uma descrição do Twitter, levando-se em consideração conceitos apresentados na revisão bibliográfica. Pode-se observar o Twitter como uma representação atual da alta tecnologia, tendo em vista que o serviço é relativamente novo (2006) e sofreu adequações recentes (julho de 2009). Ele pode ser também percebido como um componente que ajuda na criação do simulacro, primeiro por fazer parte do ciberespaço, depois porque seus usuários constroem seus perfis da maneira que desejam ser vistos. Por proporcionar a busca de conteúdo por assunto (usando-se ou não o sinal #) em tempo real, o Twitter facilita a existência de manifestações do neotribalismo. Um usuário pode, ao fazer uma busca sobre um tema que o interesse, encontrar pessoas que também se interessam por aquele tema e passar a segui-las. Como as uniões neotribais são efêmeras, é comum que este usuário deixe de seguir pessoas com as quais não tenha mais afinidades. Outra expressão do neotribalismo está relacionada com a hashtag #FollowFriday, a qual é usada às sextas-feiras para indicar pessoas a serem seguidas. No Exemplo 13, o post de Marie Curran indica outros dez perfis para seus seguidores também seguirem. No Twitter, também há espaço para empresas e lojas de e-commerce. Uma prática comum entre elas é oferecer descontos aos seus seguidores, estimulando dessa forma o consumismo e fomentando práticas hedonistas. O Exemplo 14 mostra uma promoção do site Camiseteria que, no dia das crianças, ofereceu desconto de 10% mais frete grátis. Tendo em mente o novo paradigma sob o qual se desenvolve sociedade informacional, pode-se destacar que a informação é a matéria-prima no Twitter, além disso, ela é integrante de toda a atividade possível de se realizar no microblog (post, resposta, mensagem direta, RT). O microblog obedece, ainda, a lógica em rede manifestada na criação de círculos de seguidores (formando webrings) e no próprio suporte do serviço, a web. Até na quinta característica do novo paradigma o Twitter encontra ligação: a convergência tecnológica se manifesta no serviço ao unir tecnologias como informática

82 (web) e telecomunicações (SMS).

Fonte: <http://twitter.com/MarieCurran/statuses/5271370634>. Acesso em: 29 out. 2009.

Exemplo 13 – Follow Friday

Fonte: <http://twitter.com/Camiseteria/status/4808682822>. Acesso em: 29 out. 2009.

Exemplo 14 – Promoção no Twitter Para classificar o Twitter na cibercultura, basta perceber que ele reúne características da terceira fase de desenvolvimento apontada por Lemos (2004), tanto com relação à

83 comunicação e à informação digitais, quanto à ubiquidade manifestada mais uma vez pela capacidade de realizar atualizações de qualquer lugar, inclusive de fora da web (SMS). O Exemplo 15 traz um post feito pelo celular através de mensagem SMS usando o serviço SMS2Blog51.

Fonte: <http://twitter.com/gaabimonteiro/statuses/5270891440>. Acesso em: 29 out. 2009.

Exemplo 15 – Atualização pelo celular Com relação ao conceito de cibercidades, pode-se destacar a apropriação do Twitter por parte dos órgãos públicos, inclusive algumas prefeituras, como a Prefeitura de São Paulo52 (ver Exemplo 16). A abertura de uma conta no Twitter representando uma organização pública pode servir tanto para divulgação de material informativo (assessoria de comunicação), como também para estimular a participação pública, fomentando, assim, o debate. Quanto às manifestações da política na cibercultura, apesar da impossibilidade de controle e perseguição, ainda assim é possível que haja o monitoramento dos posts por algum indivíduo mal intencionado, afinal as pessoas podem escrever o que quiser e algumas publicam intimidades sobre sua vida particular. O ciberativismo também não está excluso do Twitter. Para cada movimento, em geral, é atribuída uma hashtag, presente em todos os posts relacionados ao movimento. Foi assim no caso do movimento relacionado às eleições no Irã (#iranelections53) e também no movimento

51 52

Cf.: <sms.blog.br>. Cf. <http://twitter.com/prefeituraSP>. 53 Cf. <http://search.twitter.com/search?q=%23iranelection>.

84 #ForaSarney54. O Exemplo 17 traz um tweet referente ao movimento #ForaSarney.

Fonte: <http://twitter.com/prefeituraSP/status/5271790113>. Acesso em: 29 out. 2009.

Exemplo 16 – Tweet feito pelo perfil da Prefeitura de São Paulo

Fonte: <http://twitter.com/renan_heineken/statuses/5271258439>. Acesso em: 29 out. 2009.

Exemplo 17 – Tweet com a hashtag #ForaSarney Seguindo a tendência do copyleft e da creative commons, o Twitter é um serviço gratuito. Entretanto, a principal contribuição para a possibilidade de disseminação do serviço está no fato de a empresa abrir sua base de dados através da Interface de Programação de
54

Cf. <http://search.twitter.com/search?q=%23forasarney>.

85 Aplicativo (API). Alguns problemas podem ser encontrados no Twitter, como a dependência, e a vigilância. Mas dois são os mais recorrentes: a sobrecarga cognitiva e as informações duvidosas. A sobrecarga pode acontecer ao se seguir um número muito grande de pessoas, despendendo-se assim muito tempo para ler todas as atualizações. As informações duvidosas estão presentes, principalmente porque não há como saber para onde aponta um microlink postado. O Exemplo 18 mostra um desses microlinks.

Fonte: <http://twitter.com/raquelrecuero/status/5270417571>. Acesso em: 29 out. 2009.

Exemplo 18 – Post com microlink Relembrando as três leis da cibercultura, pode-se notar a liberação do pólo de emissão nos blogs em geral e, consequentemente, no Twitter. O princípio em rede e a conexão generalizada exprimem-se na hospedagem do serviço na web e na possibilidade de fazer atualizações de qualquer lugar, via aplicativos móveis e mensagens de texto (SMS). Já a reconfiguração cultural pode ser notada no número de adeptos ao microblog e a presença de empresas e organizações públicas e, principalmente, na apropriação do serviço por parte das empresas de comunicação. O Twitter pode ser, portanto, considerado uma ferramenta típica da cibercultura, visto que reúne em um único serviço várias características inerentes à cultura contemporânea.

86 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da presente evolução tecnológica, na qual a humanidade passa a viver sob um novo paradigma, pode-se notar que as novas criações estão cada vez mais presentes no cotidiano das pessoas, modificando a sociedade não só no aspecto econômico, mas também no científico, educacional e, principalmente, cultural. A cultura, nessa “nova” sociedade passa a ser denominada cibercultura. A cibercultura nasce da evolução da informática e das telecomunicações a partir da década de 1970 e é resumida em suas três leis: a liberação do pólo de emissão; o princípio da conexão generalizada; e a reconfiguração cultural. Um dos resultados dessa evolução é a Internet. Dela surgem várias outras invenções que causam impactos na lógica da sociedade. Como o caso das lojas de comércio eletrônico, que modificaram o comércio, ou ainda do e-mail, ferramenta que causou grandes mudanças, principalmente no uso dos correios. Outra novidade causadora de mudanças, dessa vez no campo da comunicação, são os blogs. Eles são, em suma, espaços para se publicar o que quiser, e, por isso, acabaram também afetando as empresas de comunicação. Os microblogs são uma variação “limitada” dos blogs e dentre eles o mais usado atualmente é o Twitter, objeto de estudo deste trabalho. O Twitter foi criado em 2006 e tem como principal característica a limitação de 140 caracteres por post (tweet). O serviço vem sendo atualizado e melhorado, principalmente em 2009, ano no qual ele sofreu alterações no layout e adicionou a opção de idioma em espanhol, além de inglês e japonês que já estavam disponíveis. A relação dos usuários do Twitter acontece seguindo a lógica do siga-me. Um usuário que deseja saber o que outro escreve começa a segui-lo e recebe as mensagens dele em sua página inicial. No Twitter não há a obrigatoriedade de seguir de volta seus seguidores. A proposta inicial do Twitter era que os usuários escrevessem o que estavam fazendo, dessa forma, seus seguidores saberiam essas informações sem precisar telefonar ou mandar emails uns para os outros. Entretanto, as pessoas começaram a publicar muito mais do isso. Tweets contendo dicas de leitura, serviços (previsão do tempo e tráfego), noticias, são cada vez mais comuns. Com a intenção de investigar o Twitter e as formas de publicação nele existentes, surge

87 o problema norteador deste trabalho: “o microblog Twitter pode ser caracterizado como uma ferramenta de comunicação da Cibercultura?”. Dessa forma, tem-se o objetivo deste trabalho que é: caracterizar o Twitter como uma ferramenta de comunicação da Cibercultura, contextualizando-o na sociedade atual. Para alcançar tal objetivo procedeu-se a realização de algumas ações. Primeiramente foi realizada uma pesquisa bibliográfica a fim de descrever a sociedade atual. O resultado dessa pesquisa começa mostrando a transição do modernismo para o pós-modernismo; passa para a descrição da sociedade informacional; e termina com uma breve visão sobre a cibercultura. Em seguida, outra pesquisa bibliográfica ajudou a reunir conhecimento para a descrição do Twitter e posterior análise de perfis e posts selecionados. Nessa pesquisa foram tratados temas como o ciberespaço, os blogs e os microblogs. Passou-se então para apresentação dos procedimentos metodológicos utilizados na realização do trabalho. A última seção foi dividida em três partes. Na primeira delas realizou-se uma descrição do Twitter. Na segunda procedeu-se a análise de 14 perfis escolhidos intencionalmente e dos últimos 20 posts neles contidos. Por último, foi realizada uma descrição do Twitter tendo como base os conceitos depreendidos da revisão bibliográfica. Dos resultados obtidos na análise dos posts, destaca-se o fato do Twitter ser usado, primordialmente, como espaço de publicação de texto livre, assim como ocorre nos blogs. Entretanto, há também o uso como ferramenta de comunicação direta entre perfis, e a republicação de informações (RTs). Destaca-se, também, que as empresas de comunicação selecionadas para análise usam o Twitter mais como forma de divulgação de feeds de RSS do que para publicação de textos originais, ou contato com clientes, como acontece com as empresas de comércio eletrônico. Na relação entre o Twitter e a Cibercultura, percebeu-se que o microblog possui várias características inerentes não só a sociedade atual, mas, principalmente, a cultura nela presente. Não só o hedonismo e consumismo, mas também a ubiquidade, o ciberativismo e, da mesma, forma, os problemas são algumas características da sociedade e da cultura contemporânea no Twitter. Dessa forma, pode-se afirmar que a hipótese inicial, de que o Twitter reúne características que fazem dele uma ferramenta de comunicação típica da Cibercultura, foi

88 confirmada. O trabalho, no entanto, não se esgota em tal constatação. No decorrer da pesquisa, outras possibilidades de investigação envolvendo o Twitter surgiram. Uma delas é o estudo da concepção do Twitter como novo espaço público, ou ainda como se dará a utilização dele por parte dos políticos nas próximas eleições. No campo da Comunicação Organizacional, podese explorar o uso do Twitter para a promoção da imagem institucional. Outro estudo pode ser elaborado sobre a difusão de informações pelo Twitter através dos “retuites”. Espera-se, portanto, que este trabalho possa servir de base para outros estudos mais aprofundados, fomentando, dessa forma, a produção científica.

89 REFERÊNCIAS

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94 GLOSSÁRIO

API – Sigla em inglês para Application Programming Interface (Interface de Programação de Aplicativos). Conjunto de ferramentas e padrões estabelecidos para se ter acesso as funcionalidades de um software. Audioblog – Formato de blog no qual predominam posts em forma de áudio. Ver Podcast. Blawg – Blog cujo tema se baseia em Direito, legislação e leis (law, em inglês). Blip.fm – Rede social musical onde os atores interagem e escolhem músicas para ouvirem e divulgarem entre seus contatos, como se fossem DJs. Blog – Formato caracterizado pela publicação de conteúdo livre postagem, geralmente, dispostas em ordem cronológica inversa. Blogosfera – Termo que engloba todos os blogs, blogueiros e suas respectivas interconexões. Blogroll – Lista de blogs recomendados pelo autor de um determinado blog. Blogueiro – Indivíduo que possui e mantém um blog. Browser – Software para navegar na Web. Celeblog – Blog voltado às celebridades. Copyleft – Termo cunhado para fazer oposição ao Copyright. Essa tendência vai contra as práticas capitalistas e pagamento de royalties. Creative Commons – Sistema construído para possibilitar o compartilhamento de obras. Para mais informações visitar o site <http://www.creativecommons.org.br>. DNS – Sigla em inglês para Domain Name System (Servidor de Nomes de Domínios). Sistema que gerencia e resolve nomes em endereços de rede. e-book – Formato de publicação de documento eletrônico, geralmente livros. Feed – Arquivo que “alimenta” (feed, em inglês) leitores de RSS. Flogs – Ver Fotolog. Fotolog – Formato de blog em que predominam posts na forma de imagens ou fotografias. GPL – Sigla em inglês para General Public License (Licença Pública Geral). Designação das licenças utilizadas em softwares livres. Hacking – Técnicas e ferramentas utilizadas por indivíduos (hackers) para explorar e modificar conteúdo de software e hardware. Hashtag – Tag do Twitter. Precedida pelo símbolo # (hash, em inglês).

95 HTML – Sigla em inglês para HyperText Markup Language (Linguagem de Marcação de Hipertexto). Linguagem padrão utilizada para escrever páginas para a web. HTTP – Sigla em inglês para HyperText Transfer Protocol (Protocolo de Transferência de Hipertexto). Protocolo padrão que permite a troca de informações entre servidores e browsers. IM – Sigla em inglês para Instant Messenger. Software utilizado para se manter conversas através da Internet, como o MSN Messenger e o GTalk, por exemplo. Klog – Abreviação de Knowledge-log. Nome dado aos blogs utilizados para o compartilhamento de conhecimento (knowledge, em inglês). Layout – Distribuição de elementos gráficos, imagens e texto, em um determinado espaço. No contexto deste trabalho, em uma página web. Mashup – Software criado a partir de conteúdos provenientes de diferentes bases de dados. Microblog – Formato simplificado de blog. Microlink – Endereço URL compactado para economizar espaço. Moblog – Formato de blog adaptado para atualização e leitura através de dispositivos portáteis. Netbook – Computador com dimensões pequenas e peso leve. Usado, geralmente, para conexão com a web. Optoeletrônica – Transmissão de dados usando fibra ótica e laser. Orkut – Site de relacionamento de grande sucesso no Brasil. Ver <http://www.orkut.com>. P2P – Ver Peer-to-peer. PDA – Sigla em inglês para Personal Digital Assistant (Assistente Pessoal Digital). Computador portátil que possui recursos para organização pessoal e para comunicação móvel. Peer-to-peer – Também conhecido como P2P. Sistema de compartilhamento de arquivos ou informações em rede no qual vários usuários se conectam e podem trocar dados entre si de forma descentralizada. Permalink – Link permanente para um determinado post de um blog, que permite acessá-lo diretamente, mesmo que esse post já tenha saído da página inicial do blog. Podcast – Transmissão de áudio pela Internet. Post – Atualização feita em um blog. Retuitar – Prática de republicar uma mensagem no Twitter. RSS – Sigla em inglês para Really Simple Syndication. Sistema que agrega conteúdo e permite que a indexação das alterações ocorridas em um determinado site seja divulgada. Várias páginas diferentes que disponibilizem seus conteúdos em RSS podem ser reunidas em um programa agregador de RSS, o qual é alimentado pelos feeds provenientes destas páginas.

96 RT – ver Retuitar. SMS – Sigla em inglês para Short Message Service (Serviço de Mensagens Curtas). Tecnologia utilizada na transmissão de mensagens de texto entre telefones celulares. SPAM – Mensagem eletrônica não solicitada. Splog – Blogs criados a partir de conteúdos alheios com o objetivo de promover um determinado endereço ou gerar receita em publicidade. Tag – Palavra-chave que facilita a indexação de conteúdo na web. TCP/IP – Do inglês Transmission Control Protocol e Iternet Protocol (Protocolo de Controle de Transmissão e Protocolo de Interconexão). Conjunto de protocolos que permitem a comunicação entre computadores. Tlog – Ver Tumblelog. Trackback – Notificação enviada por um blog/programa avisando sobre a realização de uma postagem em um blog que cita um post de outro blog. Tuitar – Ação de publicar conteúdo no Twitter. Tumblelog – Formato de blog caracterizado pela facilitação de publicação de diferentes formatos de conteúdo, adaptado para postagens a partir de dispositivos móveis. Tweet – Nome dado ao post no Twitter. URL – Sigla em inglês para Uniform Resource Location (Localizador de Recursos Universal). É o endereço de um recurso disponível em uma rede. Videolog – Formato de blog no qual predominam vídeos. Vlog – Ver Videolog. Warblog – Formato de blogs cuja temática gira em torno de Guerras (war, em inglês). Web – World Wide Web (WWW). A parte gráfica da Internet. Web 1.0 – Primeira geração da web. Ter caráter de publicação, ou seja, o conteúdo está disponível apenas para leitura. Web 2.0 – Segunda geração web, caracterizada pela participação do leitor e interação entre internautas. Webring – Círculo relacional criado entre atores, geralmente blogueiros, na Internet. Wi-fi – Tecnologia de rede sem fio.

97 ANEXOS

98 ANEXO A – Perfil da Folha de S. Paulo

99 ANEXO B – Perfil da Veja

100 ANEXO C – Perfil do Submarino

101 ANEXO D – Perfil do Camiseteria

102 ANEXO E – Perfil do Naturatins

103 ANEXO F – Perfil do Ministério da Saúde

104 ANEXO G – Perfil de Luciano Huck

105 ANEXO H – Perfil de Mano Menezes

106 ANEXO I – Perfil de André Lemos

107 ANEXO J – Perfil de Alex Primo

108 ANEXO K – Perfil de José Serra

109 ANEXO L – Perfil de Aloizio Mercadante

110 ANEXO M – Perfil de Fernanda Silveira

111 ANEXO N – Perfil de Luis Paulo Fraga

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